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Title: Os Filhos do Padre Anselmo
Author: Albergaria, António José da Costa Couto Sá de, 1850-1921
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Os Filhos do Padre Anselmo" ***

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     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Fev. 2008)



SÁ D'ALBERGARIA


OS FILHOS DO PADRE ANSELMO

ROMANCE


PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE
*Lello & Irmão, Editores*

1904



Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica

178, rua de D. Pedro, 184



OS FILHOS DO PADRE ANSELMO



I

Os irmãos da mão negra


O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze
badaladas da meia noite.

O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes
rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos
casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.

Era em fins do outono.

As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima,
despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e
sussurrante protesto de espoliadas.

Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria,
encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça
do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella
noite agreste e frigidissima.

Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio
da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da
illuminação publica, consultou o seu relogio.

--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou.

E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.

Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um
rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não
obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem
encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.

Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do
lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em
frente d'elle.

--És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz.

--Sou.

--Entra depressa, que a noite está agreste!

E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a
entrada.

O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola
fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da
Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.

Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.

Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28
a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu
joven companheiro:

--Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a
maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de
consentir que te vende os olhos.

--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?

--De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu
não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.

--Pois bem, seja!

O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e
vendou com elle os olhos do companheiro.

--Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda
sem que para isso recebas ordem...

--Dou. Mas se o fizesse?

--Poderia isso custar-te a vida, meu caro.

--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes!

--Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos
ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos
a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.

--É justo.

--Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar
e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por
isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas
não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.

--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro.

--Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a
gente...

--Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de
Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar
são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?

--Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á
risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as
prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as
differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos
somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.

--Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da
mulher que amo?

--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos
poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto
é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher
que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que
toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus
irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a
força, o poderio, a importancia.

O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo,
entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.

--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação
vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais
competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo,
poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a
venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...

--Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu
caracter!--protestou o mancebo.

O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta
quinta murada.

Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.

--Chegámos!--disse elle.

Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que
se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.

--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção?

--É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro.

--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um
serviço bem montado!

Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de
ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram
seguindo em silencio.

--Já estamos em casa!--disse Paulo.

--Porque?--perguntou o outro.

--Sinto-o pela differença de temperatura.

--Ainda não... Vamos entrar agora...

E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e
prolongado.

Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um
pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.

--Pódes tirar a venda--disse Jorge.

O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se
sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta
de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.

Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre
quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um
passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que
seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um
olhar de glacial indifferença para a caveira.

--É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte!

Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa
resoar na sala:

--Medita!--disse aquella voz.

O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.

Não viu pessoa alguma.

Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não
descobriu a porta por onde tinha entrado.

Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o
poderia fazer, por não encontrar sahida.

Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.

--Medita!--tornou a voz a repetir.

Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre
o peito e ficou encarando fito a caveira.

N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.

Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da
_Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel
força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham
de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado.
Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores
perigos com animo sereno e tranquillo.

--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz
de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança
é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.

E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no
funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:

--Detem-te! O que ias fazer?

--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.

--Com que fim?

--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.

--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?

--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...

--E depois?

--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.

--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e
impuros?

--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.

--Materialmente, disseste?

--Disse.

--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que
tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo
do Nada?

--Não.

--Explica-te.

--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de
toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.

--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?

--De um meu irmão.

--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante?
Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será
d'um plebeu?

--Ignoro.

--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?

--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito
dos vivos.

--Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no
mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?

--Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a
quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um
litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te
recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus
livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou
na humanidade emfim.

--Tens religião?

--Tenho.

--Qual?

--A do Bem.

--A que vieste?

--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.

--Sabes o sacrificio a que isso obriga?

--A todos os sacrificios me sujeito.

--Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva
ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição
para seres admittido entre nós.

--Acceito-a.

--Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais
irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa
Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado.

--Obedecerei.

--É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço.
O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso
derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma
vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?

--Sem a menor hesitação.

--Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser
quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr
a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um
logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por
toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus
passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás
aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes
reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um
escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti;
o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de
emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes,
da nossa Associação. Terás força para tanto?

--Terei--respondeu firmemente o mancebo.

--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena
conta a propria vida.

--Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.

--A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é
iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e
apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever
de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu
coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas
terás que obedecer.

--Experimentem.

--Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil,
outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te
sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a
vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde
vieste.

--Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam.
Quero ser dos vossos.

--Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á
_prova_!--ordenou a voz.

Paulo estendeu a mão sobre a caveira:

--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou
prompto a submetter-me á prova que me for imposta!

Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no
hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente
vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
aguazis do Santo Officio.

Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em
seguida disse:

--_Á prova!_

Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em
frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.

--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir.

--Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo.

--D'onde vindes?

--Da Ala negra.

--Que trazeis?

--Um novo braço.

--Que busca elle?

--A mão.

--Quem vos guia?

--S. Miguel.

A porta abriu-se.

--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o
rosto coberto pelo capuz.

Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de
paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro
por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto.

Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma
immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente
occulto sob o capuz do habito.

Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando
punhaes e espadas, em panoplia.

Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno,
assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes.
Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma
figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e
immovel.

O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo
pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito,
movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e
ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa.

--Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que
era sem duvida o chefe da seita.

--Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que
pretende entrar na _ala_ como combatente.

--Fiaes d'elle?

--D'elle fio, senhor!

--S. Miguel vos proteja!

--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á
parede, em fila com os seus companheiros.

Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.

--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe.

--Combater.

--Que armas trazeis?

--A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo.

--Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do
Bem e da Justiça. Que vos falta?

--A força da _Mão-negra_.

--A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe
sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem
os timidos nem os cobardes.

--Não o sou.

--Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova?

--Estou prompto!

--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides
emprehender.

--A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util.

--É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a
vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração,
o objectivo da existencia.

--Tudo sacrificarei aos meus irmãos.

--É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer
antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil
precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer.
Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é
impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma
força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.

--Irei e hei-de chegar.

--Pois bem, vinde!

Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da
parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:

--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao
fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as
feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que
S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem.

O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma
escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha
ousadia.

A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés.

Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o
subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente,
erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle
em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme
represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia
inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.

O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas,
nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo,
disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.

Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente,
tornando mais densa a treva do corredor.

Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma
enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que
obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso
subterraneo transformado n'um lago.

A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas
pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas
vinham açoitar o rosto de Paulo.

Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem
perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na
abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.

Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer,
avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande
assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
com ella o ruido pavoroso da corrente.

A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito,
quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e
vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.

Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava
debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo.

Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um
segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse
a menor contusão.

Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções
soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido
terrivel lhe despertou a attenção.

Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois
enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma
ameaça a guella hiante.

Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.

Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo
pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou,
avançando para as féras:

--Antes morrer que recuar!

Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta,
levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra.

A porta abriu-se.

--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo,
recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.

Paulo entrou.

--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal.
N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é
preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração.

Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou
espantado, soltando um grito terrivel:

--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente.

É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil
figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos
amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do
que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o
pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_!

--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na
voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por
nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se
recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás
restituido á liberdade.

No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em
desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não
desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que
tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude,
todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como
nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir
aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar!

E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal
sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia,
tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada!

Era horrivel!

--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os
mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua
cobardia!

Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo
apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso
interlocutor, disse, rangendo os dentes:

--Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para
resgatar a vida d'aquella mulher?

--Nada!

--Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle
pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais
horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas
libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu
bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo
alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco!

--Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá
libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes
retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?

--Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera
terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que
lucta!

--Vence-o!

--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas
vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu
vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para
isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos
sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de
um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me
mandaes anniquilar com aquella existencia!

--Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas?

--Pois bem, fico!... para partir com ella!

Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao
pôtro, parecia cahida em profundo lethargo.

--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a
mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!

Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou
do peito da victima, que não soltou um gemido.

O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse
serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que
se conservavam mudos e immoveis:

--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo
como se mata e como se morre!

E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço
e cravou o punhal no coração.

A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o
ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma
homicida.

Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e
desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a
apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de
encontro ao corpo.

--Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem
comprehender.--Estamos nós representando uma farça?

--Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a
prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós
todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto
valor!

Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_
de Paulo, continuou:

--Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a
sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.

O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a
acreditar o que ouvia.

--Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da
acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da
_Mão-negra_...

--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo.

--É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem
de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um
crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam
indignos de pertencerem á nossa Associação.

--Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum
dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo.

--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu
caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e
auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a
tua admissão. Queres prestar juramento?

--Sim!

--Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto!

Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do
mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.

--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso
animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins
reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora
representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos
irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos
como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_.

Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé
e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram
silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo.

--Irmão Golias!--disse o chefe.

--Eis-me, senhor!

--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?

--Do fundo da minha alma.

--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.

O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo
na mão uma salva de prata coberta por um crepe.

O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena
deveras surprehendente.

De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com
embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures
em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se,
transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que
assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.

Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_,
e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam
luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que
apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.

Ao mesmo tempo uma voz resoou:

--Está aberto o templo!

Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira
multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e
na dextra um punhal.

Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_,
abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como
já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
desembainhados.

Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o
ruido dos passos.

Então o chefe, erguendo a voz, disse:

--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão
negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação?
Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da
tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os
sentimentos do teu coração?

Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:

--Juro!

Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na
mão, voltou-se para o neophyto, dizendo:

--Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de
_Mão-negra_!

Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam,
deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz.

--Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos
vossos olhos!

O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o
estranho quadro que se apresentava á sua vista.

Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os
rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os
florêtes apontados ao novo irmão.

Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou
surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si.

O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno.

O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na
testa.

--Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle.

A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha.

Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do
throno, dizendo:

--Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno
d'elles.

Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um
abraçál-o e beijál-o na testa.

--Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime
capitulo. Está encerrado o _templo_.

As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes
portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse
dizer que caminho levavam.



II

Amôr e esperança


Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os
havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se
apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de
iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.

Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo
Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem
que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua
proxima da de Cedofeita.

Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra,
pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.

O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa
apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim
gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.

Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da
perdiz.

Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas
do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz
feminina disse, tremula e quasi sumida:

--Como vens tarde, meu amigo!

--Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que
depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada.
Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de
estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a
procurar-te, Beatriz.

--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh!
se soubesses como estou afflicta!

--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...

--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da
grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus!

--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o
moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu
choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?

Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento,
occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços.

--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me!

O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta
pancada no peito.

--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem?

--Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres
vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais
intimos amigos de meu pae...

--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço.

--Eugenio de Mello--soluçou Beatriz.

--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente
estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.

--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa,
apresentado por um amigo de meu pae...

--Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle?
Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem
entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever
occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram
indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia
subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração
não repelliria um semelhante enlace.

--Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que
pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra
dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa
sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós
quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que
me surprehende!

--É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento
em que tu nem sequer tinhas pensado?

--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha
obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são
ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua
vontade é a unica que predomina...

--Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de
sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.

--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido
de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu
destino ao de um homem que elle julga digno de mim.

--E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma
voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.

--Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar
outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao
peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de
me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é
feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas
palavras! Não te mereço isso...

As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um
rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como
é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.

--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez
de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas
desculpal-o?

--Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa.

--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o
que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que
respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção?

Beatriz pareceu hesitar na resposta.

--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que
devo fazer...

--Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que
compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle
que te responda e te diga a resolução que deves tomar...

--Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu
desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te
amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por
mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és...

--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe
a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de
indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?

--Oh! não, não, Paulo!

--N'esse caso, o que receias?

--É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a
cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma
distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a...

--Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar,
submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...

Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de
18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito,
não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações
offensivas da mulher que adorava.

--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens
em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua
piedade!

--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra
coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de
torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações
nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve
ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?

--Eu...

--Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste
e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós...

--Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi
como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro
pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo
fazer...

--O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz;
tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre.
Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar
comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu
pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido
revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar
no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo,
porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se
apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da
firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me
resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de
homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho.
Paciencia!

--Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de
uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu
amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.

E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo:

--Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues
sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o
conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do
seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis
tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a
sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me
escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei
de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e
conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O
que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo;
que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver
e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto
quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o
nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que
o meu amôr me dá direito...

--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se
sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de
todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se,
soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos
inspirou tão fervoroso culto!

--Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem
sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração
e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias
que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu
não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade?

--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso
quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção.

--É que tu não conheces meu pae!

--Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma
violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um
pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por
simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr.

--Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero
d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr,
jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua
Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.

--Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na
lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos,
contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como
_irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos.
Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda
desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os
brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco
n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do
teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança
em mim, que havemos de vencer».

O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras
pareceu transmittir novo alento á joven.

--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas
palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada
mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na
constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este
sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de
uma sorte cruel e adversa!

Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim,
despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.

O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte
romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.

Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das
heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança
ao lance ingenuamente sentimental.

Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não
tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens
com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do
nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter.

Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de
um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e
ingenua leitora das novellas de Camillo?

Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir
na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a
declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza
e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em
assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que,
como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas
soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras
balbuciações do seu amoroso coração de creança.

Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras,
correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta
linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella
exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.

Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa
saber ao leitor inimigo de divagações.

Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a
grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que
foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que
retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em
grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta.

O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e
matriculara-se no primeiro anno da Academia.

O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de
lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.

Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma
familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a
exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas
quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã.

Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o
hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno
interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram
com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão
saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula,
que tinha no seu coração o primeiro logar.

Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo
não pôde dormir.

Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto
escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu
mysterioso que encobria o seu nascimento.

No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e
sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa:

--Diga-me, padre: quem é meu pae?

O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no
mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por
alguns momentos.

--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim.

--Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber
d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir...
respondeu o mancebo com firmeza.

O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a
olhal-o fixamente.

--Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir
no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem
deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados
pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim:
serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou
ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino
que lhe está traçado.

--Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito,
creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus
progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida
que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições
da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu
pae?

--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do
sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso
não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te
apresentas.

--Mas não tinha nome esse homem?

--Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.

--Nem o nome de minha mãe?

--Nem o nome de tua mãe.

--Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?

--Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te
chamasses.

--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda
vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram,
porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?

--A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de
seus paes.

--Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas
pergunto.

--Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se
fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que
por emquanto deves ignorar?

O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:

--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha
as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem
reflectir na minha estranha situação...

--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a
não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
confiança.

--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo
estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou
se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são
filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com
saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha
familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são
entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a
menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse
mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção
que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e
alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a
esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos,
reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero
respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço
bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais
tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que
póde fazer falta a outro desgraçado como eu!

--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito
novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem
permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos
meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.

--É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu
devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o
mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.

--Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a
quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de
applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que
mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a
enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me
deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande
desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na
sociedade.

Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e
doçura, impressionaram-n'o profundamente.

--Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda
a vida o nome de meus paes?

--E de que te valeria o sabel-o?

--De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me
interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar
envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me
admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus
paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação
de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil
e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso!

Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda
amoravel e observou-lhe:

--Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu
Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos
seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma
arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos
seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus
avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações
da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha
muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se
desmoronou...

--Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o
mancebo.

--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado,
Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das
faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com
que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso
dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados
avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois,
por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te
preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças
para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.

O mancebo guardou silencio por alguns instantes.

--É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que
direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam
a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo
receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?

--Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a
palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos
que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos
meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que
recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma
divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo
dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te
um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto,
meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre
Filippe--tens ido visitar madre Paula?

--Ha mais de quinze dias que a não vejo.

--És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua
visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas
provas de carinhoso affecto te tem dado?

--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer
nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim
desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir
tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não
sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella
existencia para mim tão cara!

--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo?
Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de
estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o
teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á
tua confiança... Ou não?

--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que
lhe parecerão talvez pueris...

--Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os
primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos!
quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote.

--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz,
e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
do Dante.

--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva
uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_...

--Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na
historia dos soffrimentos humanos...

O padre encarou-o gravemente.

--Fallas serio, Paulo?

--Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a
historia do meu nascimento.

--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do
enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres
são curiosas por indole...

--Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a
menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo
saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.

--Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada?

--Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com
direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a
alliança de um homem de origem... desconhecida.

--Foi essa menina quem t'o disse?

--Disse-m'o a minha propria razão.

--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe.

--Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e
justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que
lhe devo.

--Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca
antes de tudo fazer-te digno do seu amor.

--Já o sou.

--Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social
alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando
souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para
proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem
direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de
que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na
sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E
comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma
certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um
palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil
juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas
cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...

O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe,
que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.

--Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma
coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na
tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a
ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não
és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te
não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.

--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo,
dando largas ao desespero que lhe ia na alma.

--O pae d'essa menina sabe que ella te ama?

--Não sabe.

--É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de
qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece
vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o
seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o
coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma
distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes,
recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que
para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia
pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por
ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e
com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de
vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás
nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja
contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e
inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz...
Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas
suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que
precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no
accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o
padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais
auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia
do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós
outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo,
escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.

--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá
aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem
as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu
espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso
engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que
amo!

--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras,
Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu
bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente
nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante.
D'isso pódes estar certo.

--Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de
vossa reverendissima--que são tambem os meus.

--E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas
nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição
distincta na sociedade quem não quer.

Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe
incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca
resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das
nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.



III

Pae e filha


Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de
realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor
acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o
sombrio progenitor da encantadora menina.

Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as
relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e
entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter
de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos
olhos.

Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária
do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe
são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo
cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga
cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a
palavra--Hypothecas.

--Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão
direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e
franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para
facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas
pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente
apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas
bem estão... O peor são as outras...

Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de
mau humor.

--Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os
papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno
um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão
para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as
propriedades pelo preço da louvação...

Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de
Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar
em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por
ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma
comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á
physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais
remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.

Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si,
dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e
sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe
ensombrava o barbudo rosto.

Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo
contentamento e exclamou:

--Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!

--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo
porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho
outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e
não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar,
amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.

--É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o
juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as
escripturas que tinha diante de si.

--Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia
tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?

--Você o dirá, amigo Belchior.

--O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!

--Sim?

--Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos
a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.

--Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu
mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna,
e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que
elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa
vir a compromettel-os?

--Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido
estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem
finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas
não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda
hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de
feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto
melhor...

--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus,
indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um
dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a
ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!

--O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha
dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca;
mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com
emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha
mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é
dos meus constituintes...

--Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá
que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas
desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo
se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de
costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e
loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra
cá!

--É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da
lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!

--Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que
elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito
melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.

--É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador,
formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra
o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais
pessoas de familia.

O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.

--O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.

--Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva
tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres
da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao
marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega
a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de
requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso,
poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle
continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?

--Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou
enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor?

O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:

--Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que
fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião
de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á
porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se
lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.

--Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella
acceitasse por marido este rapaz...

--E ella, o que respondeu?

--Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem
pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.

--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?

--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja
consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...

--Bem! Mas supponha que ella recusa...?

--Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que
este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura,
capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?

--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador.

--Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha
casa, alguem tenha vontade differente da minha.

--Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o
meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas
n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...

--Por que?

--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado,
não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...

--O que quer dizer com isso, amigo Belchior?

--Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça
andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o
fazer que ella obedeça á sua vontade...

--Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa
n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o
sobr'olho.--Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea
solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu
admittia lá que uma filha minha tivesse namoro!

--As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas...--commentou
o outro.

--As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam
respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso...

--E se se desse?

--Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?

--Se se desse, é o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um
sorriso mysterioso.

--Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga
n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á
egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus,
assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em
divida.--Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco!

--Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e
que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas
levam-se com prudencia...

--Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha
filha...

--Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo.

--Você falla serio?

--Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua
filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a
rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza.

Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.

--Você não me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me
áquella desavergonhada e racho-a!

--Mau! assim não fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que
convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo
que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve
possivel...

--Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?

--É um estudantito... um rapaselho.

--Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos.

O procurador soltou uma gargalhada.

--Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos
pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando
apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a
deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro
tão cedo...

O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar
attenção ás palavras do procurador.

--Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar!--blasphemava
elle--Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das
sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma
innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que
eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
os menores movimentos, tenha dado por isso!

--Amigo Custodio--obtemperou o procurador--não vale a pena affligir...
Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa
para saber como ha de proceder...

--Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a
de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a
cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de
servir, que seja criada de servir em tudo!

--Homem, eu desconheço-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na
conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices
e disparates que não lembram a ninguem!

--É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres!--explicou o
Custodio--Esta filha veio para meu castigo!

--Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para
ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por
bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr
a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio.
Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E
depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso;
já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da
herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é
melhor...

--Tem razão!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que é para um homem
arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que
eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento--Eu
fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma
bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em
quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou,
levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era
um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na
terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me
deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa,
e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se
matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas
gazetas...

--Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso...

--Foi ha dezoito annos...

--Sim... ha de haver esse tempo, ha de...

--Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas
letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João
Ignacio...

--Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com
tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado
por um padre...

--Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de
santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a
mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos
contos!

--Vamos lá!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe não
levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes
muito avultados.

--Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para
cá--explicou o Custodio.

--Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher,
ainda caiu em casar segunda vez.

--Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei,
como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira.
Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá
arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...

--Ah! então Beatriz...

--Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e
ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada
enganou-me!

--Enganou-o... quem?

--A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta
contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco
passava de vinte!

--Está feito!

--Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado
como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte--que ella vinha
arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir
de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e
agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a
quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a
minha herdeira.

--Por esse lado, tem o meu amigo razão--concordou o procurador--mas
tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça,
pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde
levar...

--Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem
quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado.

--As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta
pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso
desdenhoso.--Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em
casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar
com o Eugenio de Mello...

--Fortuna... para ella!

--E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo
sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não
lhe vem a administração do casal parar ás unhas?

--Isso ainda está em _vêl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo...

--Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira...

--Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer?--perguntou o
Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.

--Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E
os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem
se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se
habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma
garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella,
bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi
sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer
portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer
um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo
de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa
pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o
golpe de misericordia... Percebe-me agora?

O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle
a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase
pittorêsca do procurador.

--Você--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior--é dos de
estrella e bêta e pé calçado!

--Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no
mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem
fino...

--Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes...
Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não
me tinha deixado roubar!

--Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle
nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o
procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu
atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã
mas vão tosquiados!

O Custodio suspirou:

--Aquelle ladrão!--exclamou n'um surdo rancôr--roubou-me por eu o não
conhecer a você!

--Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem
remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de
arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça
quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder...

--A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão
obedecer-me e fazer o que eu disser!

--Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de
custar-lhe a resolvêl-a...

--Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem...

O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos
produzidos pelos dedos maioral e pollegar.

--Se convem!--disse elle--É uma pechincha! É um negocio de costa acima!
Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão!

--Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de
a domesticar...

--Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor...--aconselhou o
procurador.

--Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos...
Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho...

--E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de
alferes...

--Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam...

--Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á
espera.

Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio.

--Mas você apparece por cá?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo
na mão os dedos do Belchior.

--Sim, amanhã...

E dirigiu-se para a porta.

--Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein?

--Não tem duvida... Disponha você a pequena.

Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou
a filha.

Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e
submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de
dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se
deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos
castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma
distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave
perfume de innocencia e bondade que respirava.

Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o
coração lhe presagiasse a tortura que a esperava.

--Aqui estou, meu pae--disse ella.

O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o
semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a
sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:

--Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?

--Já, meu pae... já pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida.

--E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim?

--Não, meu pae...

--Não?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando
rapidamente d'aspecto.--E porque?

--Porque não me sinto ainda com disposição para casar...

--Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está
á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
disposição vem depois...

--Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse
a menor sympathia...

--Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu
desespero.--Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as
sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os
vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma
grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado--e
ainda que o fosse, não se perdia nada--porque é que elle não te hade ser
sympathico?

--Será para outras, mulheres, não para mim...--atreveu-se a dizer
Beatriz.

Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr.
Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos
annos contra as mulheres.

--Que pouca vergonha é essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a
filha, rubro de colera--Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?

A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e
incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o
horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.

--Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as
mãos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não
posso!

--Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de
ira--Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade!

Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:

--Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este
casamento que o meu coração não póde acceitar!

--Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é
aqui chamado!

A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto
pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos,
fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.

--Minha mãe--disse ella em voz calma e firme--não me responderia assim,
se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.

Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.

--Cale-se!--não me falte ao respeito!

--Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa.

Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra
educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo
a historia do seu nascimento.

Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande
severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no
coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma
filha obediente e submissa, como ella era.

Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que
a mãe se lhe finara.

A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade,
sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva,
porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.

Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que
era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões
grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava.

Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o
destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um
parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
mundo e da propria victima.

A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha,
tornara-se desde este momento odiosa.

Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no
fundo do coração e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela
memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo.

O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe
dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a
revolta começa o respeito acaba.

Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a
mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o
grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma
de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o
coração.

--Já disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este
casamento ha de fazer-se por vontade ou por força.

--Viva não me levarão á egreja!--respondeu firmemente a pequena.

--Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou
seu pae?

--Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como
escrava.

--Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem
fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que
póde dar-lhe respeito na sociedade?

--O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem
quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.

--Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto?

--A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.

O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria
estrangulal-a. Mas conteve-se.

--Isso são frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina não sabe o
que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe
ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei
para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.

--Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não
necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por
marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso
recusar-me-hei.

--Veremos!

O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.

-- Que tal está a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se vê
que não é minha filha!

Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a
suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um
violento desespero.

--E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com
prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacête até
o diabo dizer _basta_! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia
casar com quem eu quizesse...

De repente parou como ferido por ideia subita.

--E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado...
Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o
nosso fim.

Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.

A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:

--O pae deseja alguma coisa?

--Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes
com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço...

O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não
respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si,
fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:

--Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu
amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés
na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito
longe.

--Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?

--Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...

--Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos
postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração
não póde acceitar... É isto desobediencia?

--Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio,
afflicto, simulando uma enorme contrariedade.

--Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu
pae?!

--Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento,
filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença
de morte contra mim!

Beatriz empallideceu.

--Não o comprehendo, meu pae--balbuciou ella.

--Eu te explico, minha filha...

E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o
lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e
proseguiu:

--Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui
mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do
muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz,
mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha
horrorosa situação...

Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam
estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na
attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe
interessa.

--Ouves, Beatriz?

--Ouço, meu pae.

--Da minha horrorosa situação!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um
suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar,
exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas,
ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto!

Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr
ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:

--Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se
afflige?

--Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços
e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz--estou pobre...
estou arruinado e só tu me pódes salvar!

--Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?

--Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus
negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos
importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este
Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo...--não o posso negar,
é meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me
importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos
creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico,
possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha...
Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu
consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á
miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está
n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para
o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui.

E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder,
o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:

--Então, Beatriz, o que dizes?

A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:

--Digo que é uma grande desgraça, meu pae...

--Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos
o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.

--Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem
nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...

--Não te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres
dizer?

--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma
grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria
mais...

--Porque, minha filha?

--Porque eu não o amo.

--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo
tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um
marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os
mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.

--Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz.

--Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...

--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a
nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares,
e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade,
viveremos remediados e livres de maiores privações...

--Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel
de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente
petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê
que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!

--O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que
preço fôr...

--Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!

--Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um
affecto que eu não posso sentir por elle!

--Historias! Affecto não é coisa que se coma!

E recahindo nas lamentações primitivas:

--Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima
miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a
minha desgraça!

Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.

Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um
homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel,
afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo
d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como
que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.

O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se
lamuriava, dizia comsigo:

--Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!

Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:

--E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae
não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?

--Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores
e ficarmos sem nada!

--Mas haviamos de viver...

--Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente.

--Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...

D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão
habitual.

--Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua
pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram
miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento
nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a
abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com
isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso
de teres causado a morte de teu pae!

Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a
pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não
sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido
e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe
que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.

--Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero
que lhe ia na alma--mato-me, porque não tenho animo para soffrer os
horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de
mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa
traz comsigo!

--Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir
aos golpes da adversidade.

--Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me
terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho
pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os
credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti!
Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!

Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel,
perguntou:

--O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de
teu pae!...

A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e
supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar
abertamente.

--Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir até amanhã.

O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar
a victoria.

--Amanhã será tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao
Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por
aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um
casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao
teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a
acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por
ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não
sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o
sei!...

Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não
chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:

--Paciencia! Tinha de ser assim... seja!

E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:

--Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!

--Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela
commoção--Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem
que eu falle primeiro com esse rapaz!

--Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.

--Com esse... sr. Eugenio.

--Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim,
filha!

--Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a
declaração de que me quer por mulher.

--E casarás?

--Casarei, se não houver outro remedio.

O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.

--Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae!
Vou mandar avisar o Belchior.

E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.



IV

Dois patifes


O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira,
conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente
vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que
frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No
rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou
vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a
mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida
tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar.

Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila
constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e
petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma
expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado,
mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança.

Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz.

Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos
conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.

--O velhote está enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha,
além de uma linda mulher, uma bôa maquia--uma maquia de se lhe tirar o
chapéo!

--Pois é o que se quer--responde o outro--o que se quer é _massa_.
Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar?

--Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso...
Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem.
Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve
ter para mais de setenta contos.

--Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso está
ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer
estes dez annnos mais chegados...

--E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da
mãe?--accudiu o procurador.--Esses é que lhe passam já para as unhas
assim que o casamento se fizer...

--Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commissões, o que é que me
fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.

--Sim, que você agora tem mais!--contraveio o procurador
sarcasticamente.--Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem
mais querem!

--Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas
são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você...

--É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe
encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?

--Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...

--Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.

--Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos.
Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte
contos, não é isso?

--Perfeitamente.

--Você quanto leva de commissão?

--Trinta por cento, por sermos amigos.

--Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre
vinte contos, são seis contos de réis...

--Muito justos.

--E venho eu a ficar só com quatorze!...

--E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens,
parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é
dinheiro...

--Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos
encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e
de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me
para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer?

O procurador fez uma carêta.

--Você está a fazer-se de manto de sêda!--disse elle descontente.--Se
acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue.

--O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer
acreditar...

--Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do
velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me
lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir
a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? Não que o meu tempo
é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo!

--Bem sei--tornou o Mello--mas eu é que tambem não estou para perder a
minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á
perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar,
logo que saibam que tenho por onde pague...

--Mas você póde arranjar uma coisa.

--O que é?

--Faça uma concordata com elles antes de casar...

--Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são
privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o
estroina.

--Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos
depois se elles lhe pedem alguma coisa.

O Mello pareceu meditar.

--Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse
com dois, a coisa ainda não iria muito longe...

--Menos a mim!--protestou o procurador--a mim é que você me ha-de pagar
tudo por inteiro.

--Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu
hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para
liquidar de prompto antes de casar?.

--Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá
arranjarei isso da melhor maneira...

--Abona você o dinheiro?

--Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e
depois nós cá nos entenderemos.

--Pois bem, arranje lá isso.

--Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questão a decidir...

--Diga lá.

--O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe
essa _caraminhola_ em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava
a filha...

--Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...

--A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse
que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza
immensa?

--Disse e ha.

--Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão
das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado...

--Para que?

--Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um
importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque
não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.

O bohemio soltou uma gargalhada.

--Você é o diabo, Belchior!--disse elle.

--E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de
reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos
e de muito credito...

--Como?

--Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que
se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia.
Comprehende?

--Não comprehendo muito bem...

--Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e
você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer
_provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por
mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier
recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que você tem igualmente de
me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?

--Agora, percebo!

--Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando
nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos
nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em
que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?

--Em Borba.

--Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá
está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a
certidão.

--Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao
Custodio?

--Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o
deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois
fallaremos...

--E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do
que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio.

--Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...

--E escolhem sempre o peor...

--É a unica probabilidade que você tem a seu favor!--exclamou o
procurador rindo--Porque peor do que você, com franqueza, não conheço!

--Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!

Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.

--Ora agora--disse por fim o Mello--não se esqueça de que estou a
precisar de dinheiro.

--Já?

--Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de
provincia, tem sorvedouros terriveis!

--Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.

--E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil
réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...

--Mas você, que diabo! está hospedado no _Francfort_, um hotel de
primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer
fóra...

--Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas
não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não
sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.

--Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres
da noiva estão espatifados...

--Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?

--Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de
defuncto...

--Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos
convier...

--Você seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso
indescriptivel de cynismo.

--Nós somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando
intencionalmente a palavra _nós_.

--Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou
sem dinheiro...

--Pois sem _massas_ não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico
proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em
tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com
os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo,
mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_
teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além
d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que não
ficam baratos...

--Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior,
indignado.

--Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da
grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de
_povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de
cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico
proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_
que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa,
e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a
gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos,
nem sequer bolota para comer como elles...

--Você tem razão!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos.

--Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que
você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu
amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este
negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o
socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as _massas_,
porque eu preciso de mostrar quem sou.

--Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!--clamou o
procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico.

O Mello riu com vontade.

--Você nasceu para mim, e eu nasci para você!--disse
elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá
buscar o dinheiro.

O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do
escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com
um livro na mão.

--Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro--disse.

--Quanto?

--Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu?

--Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!

--É isso. Os cincoenta mil réis são de juros.

--Ladrão! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura.

--E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não
fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou
eu!

--Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as
industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.

--O que me anima é que o gado ruim não tem perigo--disse Belchior
gracejando.

O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o
dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.

--Você ande-me com o velho!--disse elle.--Não o deixe resfolegar, e elle
que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo.

--Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!

--Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo,
quando lhe parece, faz das suas...

--Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!

--Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não
é tamanha como parece...

Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior,
rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.

--Isto é que é um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--Não ha
dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de
acabar mal este patife!



V

Madre Paula


Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella
espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irmã Dorothêa_
certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não
conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.

Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de
velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha
não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.

A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do
seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom
humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e
constante director espiritual.

Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona,
escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece,
traz novidades importantes a communicar-lhe.

A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter
familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois
corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis
da mais solida confiança.

--Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a
beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do
filho da irmã Dorothêa...

--Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e
conta-me: como está elle?

--Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _á bóla_, o rapaz tem-n'a
um pouco transtornada...

--O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel
interesse--Notaste n'elle qualquer alteração?

--Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos
e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem
é meu pae?!»

--Elle fez-te essa pergunta?

--E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que
razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.

--Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante
coisa?

--Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre
que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos
suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo
quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os
paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos
inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes
que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o
fez.

--E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa
creança?

--Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de
me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu
nascimento; e foi isso o que fiz.

--Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?

--Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o
quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario
n'aquella alma juvenil...

--E indagaste?

--Indaguei e soube.

--O que é, pois?

--O nosso Paulo ama!

--Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!

--Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a
considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os
prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...

--Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves
prejuizos de futuro ao nosso protegido...

--Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma
d'ellas...

--Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve
censura.--Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma
affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as
attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa
paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir
perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o
segredo do seu nascimento...

--Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã--replicou o padre
Filippe--Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de
Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber
quem são ou quem fôram seus paes...

Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.

--Creio que fizemos mal--disse ella--em dar a esse rapaz a educação
livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos
imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a
aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe
indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel
desvario de Paulo.

--Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas
amarguras para as grandes luctas da vida--retorquiu o padre Filippe.--A
educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito,
e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o
caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de
uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir
individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo
assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o
producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu
espirito. Não é mais um homem são--bom ou mau--é um hypocrita; isto é,
um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra,
tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a
disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz
ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela
liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons
fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de
extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz.

--Elle é filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a
indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com
certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que
arrecear-se.

--É tambem filho da irmã Dorothêa--atalhou o padre Filippe--e é possível
que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram
cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais
tornámos a vêr!

--É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito
d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que até
hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã
Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!

--Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregações
jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo
adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos
compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois,
de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da
Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a
irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de
que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas
grandezas...

--Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a
estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma
amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!

--Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor
inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o
padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe
impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...

--Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse
homem, que tão profundamente detestava agora!

--Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o
joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no
convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?

--Ella propria m'o confessou.

--Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e
a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e
resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na
santa vinha do Senhor.

--Se tudo se passou como suppões--ponderou madre Paula--se realmente o
padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou
comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas
horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella
cruelmente engeitou...

--Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem
podemos obtel-as d'ella...

--Mas é ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu
de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial
e inconstante nos meus affectos?

--Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz
justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era
ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar
penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça,
succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala
commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes
com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...

--Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!

--Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.

--E agora?

--Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os
mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes
prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha
velhice. Bemdita sejas!

E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo
extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.

Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com
os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:

--Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o
meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me
faltasses, morria!

--Se o amôr é a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se é a grande lei
universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos
novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós,
minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo
do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?

--Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir
esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos
abysmos da desgraça irremediavel.

--O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia,
talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir
no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da
experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A
ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar
pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz,
ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.

--Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e
ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle
ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma
d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias
sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos
meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.

O padre Filippe sorriu.

--Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!--acquiesceu
elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os
segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão
séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na
adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e
conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.

--Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe--disse ainda madre Paula--Não
posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande
desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas
apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu,
talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse
processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a
intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz
poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma
violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida,
immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.

--Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa
situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o
coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos
da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos
males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos
nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a
nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o
bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os
dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade
acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.

Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.

A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.

--É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo!--murmurou
ella.--Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este
homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da
hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr
e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!



VI

Á hora da morte


Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram
violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.

O padre Filippe não se tinha ainda deitado.

Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula
passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer
annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da
nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais
persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a
violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel,
o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em
que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta
estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar
do frio cortante da noite.

--É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias
missa aos Grillos?--perguntou ella.

--É aqui. O que deseja?

--É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre
de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer
confessar; e eu venho cá vêr se v. s.^a faz a esmola de a ouvir de
confissão...

--Onde móra essa mulher?

--Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois
passos, e se v. s.^a fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um
instante!...

--Espere ahi, que eu desço já.

Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto,
pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.

--Vamos lá!--disse elle.

Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta
distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar
o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a
tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.

--Seja pelas almas!--lamuriava ella.--Está a pobresinha a appellidar por
um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem
se confessar, e não havia uma alma de Christo que se _arresolvesse_ a
vir chamar v. s.^a ou oitro qualquer que lhe deitasse a _assolvição_!

--Não tem familia essa mulhersinha?--inquiriu o sacerdote.

--Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem
filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou
por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a
gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter
quem lhe chegasse uma sêde _d'auga_!

--Coitada!--lamentou o padre Filippe.

--Mas que!--tornou a mulher--a gente _támem sêmos probes_... _támem_
temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem
nol-o vem trazer... De sorte que a _probesinha_ tem passado muita
necessidade...

--Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?

--No _isprital_, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não
curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe _dezia_: «Ó
sr.^a Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a
_arrecolhiam_ no _Azylio_ das velhas?» Mas ella: «que não, e que não»,
nem queria que lhe fallassem n'isso!

Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da
rua escancarada.

A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando
ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares
superiores, gritou:

--Ó sr.^a Izabelinha, _alumeie_, que vae aqui o sr. padre!

No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a
arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz
d'uma candeia de petroleo.

--É vocemecê, sr.^a _Barbora_?--perguntou uma voz lá do alto.

--Sou eu, sou, alminha do Senhor! _Alumeie_, que não vá este senhor
cahir...

A sr.^a Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava
familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.

E voltando-se para o padre Filippe:

--É melhor v. s.^a agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e
partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais _facel_
do que aleijar-se...

O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua
cuidadosa guia lhe aconselhava.

Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada,
e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de
coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima
ascenção.

Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de
cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula
parou offegante e cançado.

--É cá muito em cima!--disse elle.

--E as escadas são ruins _d'assobir_, meu senhor!--accrescentou a
velha.--Eu _támem_, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico
que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!

--Onde está a doente?--interrogou por fim o padre Filippe.

--Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a _espedir_,
coitadinha! Já desde _honte_ que não lhe foi nada á bocca, e não faz
senão pedir _auga_... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O
que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o
confessor!

--E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?

--Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.^a ha de conhecer, mas
como a gente _semos probes_, fez á de conta que não era pressa e inda
_inté_ agora cá não appareceu...

--É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma
pessoa em artigos de morte...--desculpou o padre Filippe.--Ora vamos
lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...

A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e
suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo
encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino
representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de
todas as miserias.

Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de
honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o
orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos,
hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se
presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades.
Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade
de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da
civilisação do seu paiz!

Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria,
sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma
ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e
honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se
fazer respeitar!

Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal,
percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas
de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das
fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!

E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas
e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua--e o rio
Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem
tanta!--e dez reis de sabão bastavam!

É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias,
uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á
imprensa periodica dos nossos dias.

Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas
salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por
elles se guiam e norteiam,--quando se não desnorteiam--não poderiam, com
um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a
propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base
primaria de toda a hygiene social e moral?

Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha
acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e
profundo auctor de originaes opusculos?

Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro
remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal
cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao
humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma
mumia, enterrada sob um montão de farrapos.

É a sr.^a Maria do Carmo.

Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em
que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi
extincta:

--Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.^a me ouça de confissão!

O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia
de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e
magro da pobre creatura.

--Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?

--Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e
eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de...
peccados que não sei se Deus m'os perdorá!--balbuciou a enferma, com voz
entrecortada e de cada vez mais debil.

--Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso--aquietou o
padre Filippe--e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e
contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o
divino perdão!

Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e,
fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a
sós com a enferma, continuou:

--Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde
ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se
accusa?

A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do
inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:

--Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa
e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque
desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e
havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha
pobreza...

--Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino
amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e
confiança...

--Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria
conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus
amigos...

--É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...

--Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E
até quando via certas beatas fingidas--Deus me perdôe!--a fazerem da
casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na
consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse
commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para
ellas terem vergonha!

O padre Filippe sorriu indulgente:

--E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos
olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus?
Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do
Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não
façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa
da reputação d'aquelles que peccaram...

--Não é d'isso que eu me accuso, meu padre!--accudiu a velha reanimada
um pouco pelo prazer da confissão--Isso até os meus santos padres
confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse
de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser
enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...

O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e
perguntou:

--De que é então que se accusa, minha irmã?

--Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que
fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa
religião...

--Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus
semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do
Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão
impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada
tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no
tribunal divino com a alma limpa de macula.

Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir,
quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com
indizivel accento de pavôr:

--Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me!
Ouça-me que eu quero... confessar-me!...

--Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura
de Deus?

--Como v. s.^a ainda me não perguntou nada...

--Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua
consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta
commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome
de quem eu a estou escutando...

A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:

--É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era
filha... de um padre e d'uma mulher casada...

--E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher
casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?

--Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a
elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um
santo...

--Só Deus sabe quem é santo!--murmurou o padre Filippe, surprehendido ao
ouvir fallar no padre Anselmo.

--E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu
tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe
devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o
sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...

--Que nome tinha essa creança?--perguntou o padre Filippe, agora
interessado na estranha narrativa da velha.

--Chamava-se Hilario, meu senhor...

--Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico--disse o padre Filippe.

--V. s.^a conhece-o? Sabe d'elle? Onde está?--perguntou a velha.

--Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas,
na Covilhã...

--É esse mesmo! É esse mesmo!--bradou a velha--E onde está agora?

--Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que
talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa
religiosa do estrangeiro...

--Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!

--Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse
obscuro sacerdote?...

--O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...

E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:

--Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario,
coitadinho!

E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.

--Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum
attentado como suppõe--disse o padre Filippe--A morte de um sacerdote
não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte
é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do
fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que
leio todos os dias.

--Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!--murmurou
afflictivamente Maria do Carmo.

--Vive decerto--affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a
doente.

--Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei
com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...

--Julgará que vocemecê já não é viva...

--Não... não!--tornou a velha--Mataram-n'o para o roubar!...

O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha
beata, perguntou:

--Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha
pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...

--Foi... foi...

--Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?

--Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...

--Quem?

--O padre Anselmo!

--O padre Anselmo!--disse o padre Filippe com espanto.

--Foi em Lisboa...--continuou a velha enferma--D. Carlota, a mãe do meu
Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito
testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles
ao filho...

--E entregou-os?

A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.

--Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a
um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou
tudo, tudo!

O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da
velha.

--Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho
d'elle?

--Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo
a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos
juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D.
Carlota e... envenenou-a!

Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela
recordação d'aquelle crime.

--Como o soube?--interrogou o padre Filippe.

--Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do
chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto...
Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que
a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio
a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo
tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do
marido...

--E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?

--Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...

--Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?

--Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia
ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu
digo que elle o foi matar!...

A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:

--Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da
justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.^a D. Carlota... Acho eu
que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...

--E quem era esse João Ignacio?

--Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...

--Sabe se elle ainda vive?

--Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos...
Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...

--Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta
da creança?

--Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre
Anselmo a _trouve_ p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa
enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era
muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao
pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só
depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse
que era filho d'ella...

--E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?

--Essa carta...--fez a velha--tenho-a aqui... guardada... como ella m'a
deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude
entregar...

Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.

--É por isso...--proseguiu a velha--que eu me queria confessar a quem
contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu
Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...

Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do
travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das
mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz
estrangulada pelo esforço:

--Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das
esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse...
Tome v. s.^a conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se
elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...

--Não tem filhos, vocemecê?--perguntou o padre Filippe, acceitando com
repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.

--Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de
mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu
Hilario... coitadinho!

--Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o
padre Hilario talvez não precise?

--Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a
vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha
alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna!
São tres centos de libras... Tres centos!

--Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida--aquietou o padre
Filippe.

--Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a
sua absolvição... para que Deus me perdôe!

O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.

--E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não
lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas
envenenou-lhe a mãe... para o roubar!...--murmurou ainda a velha,
deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia
ultima.

O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos
labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do
lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.

Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o
aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.

--Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me
parte, porque o enterro fica por minha conta.

--Sim, meu senhor!--disse a velha--Não seria bom dar-lhe ao menos a
Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?

--É tarde--respondeu o padre Filippe--Quando cá chegasse esse ultimo
soccorro espiritual, encontraria um cadaver.

--Seja pelas almas!--lamuriou a velha--Não _sêmos_ nada n'este mundo!

--Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!--concordou
philosophicamente o sacerdote--Vocemecê faria uma obra de caridade, indo
assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...

--Sim, meu senhor... eu vou--concedeu a velha.

Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem
viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:

--E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até
ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?

--Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?

E tirando da mão da outra a candeia:

--Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu _alumeio_ ó
sr. padre...

A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:

--Estes _carólas_ do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura,
põem-se logo a _avoar_ e dizem aos oitros que se _aguantem_ co'as
massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se
ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto
ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no _quente_ e
tanto se lhe dá que a _probesinha_ de Christo vá p'ró céo como que vá
p'ró inferno!

O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da
terrivel escada com as costellas direitas.

--V. s.^a quer que o vá acompanhar _inté_ casa?--offereceu a mulher.

--Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir
nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre
creatura. Boa noute!

--Vá v. s.^a na graça de Deus, meu senhor!



VII

Tres miseraveis


Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu
a procurar o seu amigo Belchior.

O agiota ia radiante de satisfação.

--Beatriz--disse elle ao procurador--está no caminho!

--No caminho de quê?

--No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.

--Sério?

--Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me
fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas
depois...

--Conseguiu intimidal-a?

--Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com
as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de
me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á
egreja dizer o _sim_!...

--É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as
mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um
lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!

--Mas consegui eu que ella voltasse...

--Como?

--Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas
eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que
se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella,
porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não
chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou
casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar
com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!

--E afinal?

--Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não,
poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o
noivo...

--Com o Eugenio de Mello?

--Pois então com quem? Quem é o noivo?

--O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...

--Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.

--Que diabo lhe quererá ella?--commentou o procurador.

--Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor,
que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa
senão com o momento ditoso, _et coetera_... coisas que todas as
raparigas gostam de ouvir aos namorados.

O Belchior pôz-se a rir.

--Vá lá a gente fiar-se em mulheres!--disse elle.--Muito amor ao outro,
capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe
cheirou a que o negocio era de _cobres_ e que sem elles não teria mais
vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,--venha de lá o _homem da
massa_ e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres,
mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...

--Pois por eu saber isso--retorquiu o Custodio--por ter a experiencia de
que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me
lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora
elle que lhe _cante_ umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle
d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam,
e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!

--Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?

--O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...

--Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...

--Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca
piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe
finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá
remedio senão dizer que sim.

--Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo,
porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar
um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos
rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o
que tem de seu e anda sempre a _pillar_ por dinheiro!

--Afinal--considerou o Custodio de Jesus--este casamento até é uma
providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella,
por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...

O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.

--Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos
haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico
em peores lençoes...

--Porque?

--Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe
moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra
mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de
proposito para lhe apanharem a fortuna...

--E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma
acção bôa... que importa lá que elle grite?

--Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me
metter em _alhadas_ sem interesse, e que se elle, por fim, como é
maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este
casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...

--Que negocio?--interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.

--Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma
acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será
fóra de razão que a pratique bôa para mim...

--Mas o que é então que você quer dizer com isso?--tornou o Custodio
desconfiado.

--Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para
cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso
uma pequena commissão...

--Uma commissão! Mas que commissão quer você?

O Belchior sorriu:

--Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os
outros só a espinha... Ahi uns _dezitos_ por cento sobre a fortuna do
rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...

--Dez por cento! Você está doido!--exclamou o Custodio de Jesus, fazendo
uma careta terrivel--Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para
nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!

--É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que
está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis,
o que é? É barro!

--Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade!--barafustou o
Custodio.

O Belchior teve um sorriso desdenhoso.

--Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não
casará senão com quem muito bem quizer--replicou por fim.--Mas o nosso
caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da
pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o
noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no
negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros...
Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o
principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de
noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo
que se pague...

--Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho
de graça!--prorompeu o Custodio.--Mas é preciso ter consciencia... é
preciso que você não queira a melhor parte para si...

--A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?

--Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a
choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer
entrar na ordem, acha você que não é nada!

--E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que
é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me
lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa
nada, não?!

--Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de
casa, fica-lhe barato...

--Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem
m'as tira!--berrou o procurador.--Homem, é preciso que você veja que
isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem
ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas...
não me serve!

E n'um repellão:

--Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a
pequena com quem quizer.

O Custodio amaciou um pouco.

--Ora venha cá...--disse elle.--Você sempre tem um demonio d'um genio!

--Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio!--contestou o
Belchior.--Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a
fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro
n'isto por ser seu amigo...

--Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é
que eu esperava que você fosse mais rasoavel...

O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.

--Mais rasoavel!--exclamou elle.--Póde-se ser mais rasoavel do que isto?
Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro
noventa contos de reis comprados a troco de nove?!

--Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e
elle é que continua sendo senhor d'elle...

--Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas
se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a
pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para
a pequena.

Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O
Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já
posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.

--Homem!--disse elle--a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você
quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica
a coisa reduzida a seis por cento...

--Sete tenho eu quem me dê!--volveu o procurador.--E é porque eu não
quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim
aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de
ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um
passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma
viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se
valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...

--Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu
amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.

--Ora até que, emfim, chegou-se á razão!--disse o procurador, como quem
se alliviava d'um grande peso--Eu bem sabia que você não deixava fugir o
bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não
gosto d'abusar com os amigos...

--Vamos lá!--suspirou o Custodio.--Para amigos, você carregou um
bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto
com a palavra atrás.

--Sim, senhor!--tornou o Belchior.--Ora agora temos a regular a forma do
contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos
noivos irem para a egreja...

--O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?!--exclamou o
Custodio de Jesus muito admirado.

--Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua
casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na
meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu
ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como
queria você?

--Isso não podia ser depois do casamento realisado?

--Póde, acceitando-me você letras...

--Você sabe-a toda!--fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de
effectuar um bello negocio.--Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o
dinheiro e está a conta arrumada.

--Antes dos noivos partirem para a egreja...

--Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.

--Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não
faltar.

O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao _Francfort_ a prevenir
Eugenio.

N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro
da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda
do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre
acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo
mesmo pensamento de interesse commum.

O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D.
Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas
que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar
o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado
n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma
visita.

O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D.
Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,--a D.
Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.

Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta,
detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e
despesas.

Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as
filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as
pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está
bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.

Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas,
preparou-se para as receber.

A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha
conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria
desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se
ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante
que veio á sala.

Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito
correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares
superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e
attencioso em extremo para com as damas.

Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que
preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem;
emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos
acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de
Portugal.

Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:

--Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.^a D. Rufininha, dê-nos
um bocadinho de piano.

Rufininha era a filha mais velha do general.

--É verdade! apoiou Custodio--e a sr.^a D. Therezinha canta aquella
canção

    _Murmura, rio, murmura!_

que é tão bonita.

A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar,
começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se
sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.

Mas o Belchior e o Custodio insistiram,--que cantasse, que eram
desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia
ser tão avara do seu thesouro.

E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do
piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.

Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a
pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção
dos circumstantes.

Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do
Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este
dialogo:

--Dá-me licença, sr.^a D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?

--Queira v. ex.^a dizer, sr. Eugenio de Mello--respondeu Beatriz, sem
poder reprimir um movimento de terror instinctivo.

--Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo...
Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu
rosto?

--Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?

--Perdão, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar,
interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez
póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo
ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver
feliz da sua felicidade...

Beatriz baixou os olhos.

--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de
que já ouvi fallar meu pae...

--Não me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu coração, e
dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no
peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e
obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse
interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a.
Fiz mal?

--No logar de v. ex.^a, eu não teria procedido assim...

--Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da
minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o
proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a
não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos
consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do
auctor dos seus dias?

--V. ex.^a esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no
emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu...

--Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da
bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo
que eu, infeliz, morro por v. ex.^a.

--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto
que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr.
Eugenio de Mello.

--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo
julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu
coração?

--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e
franqueza que devo a v. ex.^a e á minha dignidade de mulher. Se depois
de me escutar, ainda persistir no seu proposito...

--Consentirá em ser minha esposa?

--É possivel.

--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio
pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do
meu amôr!

--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente
Beatriz--é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão
que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas
que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu
exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe
que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a
necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em
questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente
auctorisada por elle.

--Virei então ámanhã--disse Eugenio.--Mas, por Deus, não me roube a
esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo
sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.

Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.

--Amanhã!--disse ella.

Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e
Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D.
Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.

Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da
retirada.

A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.

Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:

--E então?

--Então... nada!

--Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão
por ella?

--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para
outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me
quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a
dizer-me...

--Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as
lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de
amar até á morte...

--Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer...
Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim...
Que quererá dizer-me?

--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim
que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar
da ponte abaixo--disse rindo o procurador.

--Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella
quer...

--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da
sua quinta--porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a
dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!

--Não parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho
outra coisa...

--O que?

--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente
confessar-m'a antes de casar...

--Pois você suppõe?...

--Não sei... Mulheres são mulheres...

--Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...--preveniu o
procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.

--Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer
cá são os vinte contos...

--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_
completa!--accrescentou o Belchior.

--Nem mais nem menos!

Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do
Custodio.

O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de
negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.

Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o
mancebo.

--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente,
indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por
alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de
mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá
guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...

--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem
essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as
suas palavras como um inestimavel thesouro!

--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e
lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o
desejo de me tomar para sua esposa...

--De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor
do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v.
ex.^a... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor
abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha,
que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão
generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração
apaixonado! Se errei, v. ex.^a saberá perdoar-me o inconsiderando passo
com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me
moveram.

--É v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e
avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara,
franca e leal da minha situação...

--Dos labios de v. ex.^a está dependente a minha sorte, o meu futuro, a
minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais
ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!

--Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre--disse
Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas
irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...

Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.

--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da
joven--não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o
santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que
haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua
belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil
figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita
o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar
constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe
dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha
existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é
livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera
expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz,
passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar,
de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de
simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na
mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!

--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me
prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos
sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no
outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente
sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa
existencia, o nosso destino...

--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa
declaração de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me
pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me
transmittiu ácerca do nosso enlace...

--É justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com
altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões
de v. ex.^a á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de
declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae
insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito
de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma
sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com
a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou
nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com
franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise
é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento
para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a
sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança
de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os
miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter
causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus
desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com
v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe:
Quererá v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a
outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a
vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor,
acceitando o enlace que v. ex.^a lhe propõe?

Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada
pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada
dignidade dos seus sentimentos.

--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo
com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.

--Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma
união em taes circumstancias.

--N'esse caso, o que é que v. ex.^a exige de mim?

--Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando
absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule
reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.

--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria
eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só
uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra
de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura
na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na
reputação de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?!
Repare v. ex.^a que isso é exigir-me mais que a propria vida!

--Pois bem; não diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas
pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto
para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços
emprevistos, uma viagem longa, demorada...

--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar,
de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos
logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a
respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada
eloquencia--E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha
retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor
sem esperança, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse
feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor
correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não
lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!

Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura
tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido
demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.

--Peço perdão--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio
de que v. ex.^a, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja
sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre
banido da sua lembrança...

--Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o
ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o
bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para
querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e
perfeições que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo,
agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu
coração a amal-a doidamente! V. ex.^a está pobre. Eu sou rico. Do meu
casamento com v. ex.^a depende não só o seu futuro tranquillo e feliz,
mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me
prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu
coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem
esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á
pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo
que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um
homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja
perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem
póde dar!

A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por
uma commoção indescriptivel.

--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de
indignação--o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz
com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos
temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V.
ex.^a persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo
outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia
consentir em conceder-lhe a mão de esposa?

--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e
de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a!

--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma só vez na
vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.

Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.

--V. ex.^a é livre, minha senhora--replicou elle--Póde impunemente matar
seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não
conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu
acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto
amor que lhe consagro.

Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma
d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre
dois sêres.

--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de
meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae
o informará da minha resolução.

Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da
sala com altiva serenidade.

--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas
que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mãos, eu
te porei macia que nem velludo!...

No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem
o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.

Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes
cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.

--Então?--perguntaram ao mesmo tempo.

--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.

--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio.

--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em
cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o
meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o
casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a
querer para esposa...

--Mas você nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de
tudo.

--Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você
amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...

--E ella?--interrogou o Custodio.

--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria
resposta definitiva...

--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do
usurario--o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a
representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena
d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...

--Não tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz
foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar,
a fingir que me mato... E ella ha de ir!...



VIII

Entre irmãos


Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mão-Negra_, não obstante
saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a
esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe
permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.

Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um
mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em
terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe
perguntasse o nome de seus paes.

O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto,
buscando para a filha uma alliança _limpa_, e o sigillo que o padre
Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem
devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que
não podia responder.

Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que,
se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse
homem não era seu pae.

O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos
do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse
dever dar-lhe.

Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do
seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre
Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.

Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o
mesmo que o iniciára nos mysterios da _Mão-Negra_.

--Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?--perguntou-lhe
elle.

--Como se fallasses a um irmão--replicou o outro--Desde hontem que nos
achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta
em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como
verdadeiros irmãos.

--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal
prestarás attenção ao que vou dizer-te.

--Falla.

--Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o
meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!

--Já m'o disseste.

--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento
affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario
que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e
que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu,
simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a
mão da filha...

--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de
haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?

--A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz
com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.

--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena?

--Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega
mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace
e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio
comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe
inffligir...

--Não estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se
chama esse _amavel_ progenitor?

--Custodio de Jesus....

--Mora?

--Na rua do Principe.

--E o outro?

--Qual outro?

--O teu pretendido rival?

--Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.

--Eugenio de de Mello... É do Porto?

--Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.

--Já _entrado_ na edade, não?

--Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.

--Os homens ricos são sempre _rapazes_ em questão de casamento... A
mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...

--Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.

Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.

--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios
com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos
depois o que convem fazer...

--Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...

--Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz
não será maltratada pelo pae...

--Obrigado, meu amigo, meu irmão!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos
braços.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre nós
não deve haver segredos...

--Falla, meu irmão!

Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.

--Chamas-me _irmão_--e comtudo eu creio que não posso ser irmão de
ninguem.

--Porque?

--Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou,
ignoro quem sou!

Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o
segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula
como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias
se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a
protecção e amparo.

--Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me
encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um
momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu
fazel-o não sabendo o nome de meus paes?

--Os irmãos da _Mão-Negra_--disse Jorge gravemente--são todos filhos do
mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma
mãe--a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com
semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se
sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica
princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um
rico burguez chamado Custodio de Jesus!

--Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas,
pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não
constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da
origem honesta do nosso nascimento...

--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, não póde ser jamais
responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir.
Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria
em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou
filho de um rei, elle é sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles só
póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes
inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.

--Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens
a comprehendessem assim!

--Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de
luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos
seculos, contra a _rotina_--que é a famosa trincheira erguida a impedir
a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse
lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a
conquista.

Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o
mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.

Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta
apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...

É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se
confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado
nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos
Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.

Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada.
Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.

Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de
Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a
impellisse.

Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa,
penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das
escadas até ao primeiro andar.

Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o
lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:

--_Licet?_

--Entrae!--disse de dentro uma voz.

Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma
ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava
sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba
grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca
biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se
encontrava na sua presença.

Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras
e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o
soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia
para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de
estudo, sabedor e profundo.

Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de
livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não
pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.

--É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins--disse
elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a
sciencia, Mestre!

O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e
respondeu grave e pausado:

--Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé
inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a
Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé
que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca
que vá pouzar-lhe no pára-raios.

Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao
recem-chegado:

--Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa
demora...

--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de
que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.

--Um caso novo! O que temos, pois?

--Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende
fazer victima um dos irmãos da _Mão-Negra_.

--A _Mão Negra_ tem já força e poder bastante para desviar de sobre a
cabeça de seus _irmãos_ a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito
alto que elles estejam collocados. De que se trata?

--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...

--Ah! O que lhe succede?

--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O
pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um
herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.

--E sabe elle dos amores da filha com Paulo?

--Não o deve saber, pois que este nosso _irmão_, movido de honestos e
nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os
sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma
posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.

--O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que
precisa?

--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente
o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a
sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.

--Está na mão d'ella. Que recuse.

--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o
que Paulo pretende evitar.

--Pois bem. A _Mão-Negra_ cumprirá o seu dever. Como se chama o pae
d'essa menina?

--Custodio de Jesus?

--E o pretendido noivo?

--Eugenio de Mello.

--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens;
conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram
a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.

--Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o
contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.

--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos
os _irmãos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas
as informações, procederemos como fôr de justiça.

Jorge inclinou-se.

--Temos ainda mais--disse elle.

--O quê?

--Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu
nascimento...

--Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram,
que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?

--Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do
pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia
correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma
freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as
despezas da sua educação scientifica.

--Conhece elle esses protectores?

--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!

--N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus
proprios paes?

--Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa
o appellido Noronha...

--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos
verdes com um leve tremôr na voz.

--Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.

O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os
braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso
em profunda reflexão.

Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham
despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e
reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o
tremor da voz:

--Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira
origem d'esse rapaz.

Depois accrescentou:

--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes
mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu
amigo.

Jorge levantou-se.

--Amanhã--disse elle--deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á
hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido
obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de
Eugenio de Mello.

--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos
deliberar em capitulo o que convirá fazer.

Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado
para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.

Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa,
encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em
profundo scismar.

--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque
extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia
d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irmã Dorothêa_?

Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por
fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.

Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume
encadernado a preto, que abriu e começou folheando.

As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o
mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe
os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
pensamento negro.

Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha
uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um
tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém,
que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente;
retomando o papel a sua brancura immaculada.

É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.

Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os
guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as
perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina
superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle
occulta no seio?



IX

Amores faceis


Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de
Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando
o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.

O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio
parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em
que se notava decencia e bom gosto.

Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a
porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao
corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever
chamar a attenção do dono ou dona da casa.

Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor
abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher,
trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.

--És tu, Eugenio?

--Sou eu, minha querida!

O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava,
acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o
fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
longamente nos labios.

--Demorei-me, não é verdade?--perguntou elle, lançando-lhe um braço á
roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella
havia surgido.

--Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na
maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!

--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te
quer, que tanto te adora?!

--Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas
talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz
quando te vê, quando te tem a seu lado!

A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre
um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e
lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos
labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e
voluptuoso que o primeiro.

--Mas tu não estiveste com outra, não?--disse n'um gemido em que havia
receio e esperança, supplica e perdão.

--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...

--É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te
perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com
outra para nunca mais!

Eugenio ria.

--Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou
tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras
me estime senão tu?

--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama
loura.--Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de
affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as
necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não
faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus
desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!

--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu
seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...

E interrompeu-se suspirando.

--Se quê? Anda, acaba!

--Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não
consentir que outro partilhasse os teus affectos...

--Mas eu não o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o não amo,
Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle
me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu
amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o
meu despreso por elle!

--Ah! se eu fôsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o
correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu
quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a
cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas,
puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!

Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma
attitude de heroe de melodrama.

Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas,
em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:

--Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes
que elle é velho... não póde durar muito... E como promette
contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...

--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir
de novo sobre o estofo do sofá.--Antes d'isso hei-de eu morrer de
desespero!

--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--Não me
falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e
receias que um velho dure mais que tu?!

--Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um
vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte...
Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel
n'este mundo só existe na paz da sepultura!

--Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!

--O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia,
que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro,
habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que
minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso...
o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas
minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que
nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.

--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse.

--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar?
Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não
fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!

--Não, não! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente.

Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo
suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:

--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o
dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos,
todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem
limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses
falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses
miseraveis!

O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes
violentas uns amigos que nunca teve.

--Vamos! Não te afflijas!--aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua
Leonor.

--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz,
nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil
reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como
empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se
não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz
e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter
commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe
valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro,
porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como
a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz,
lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.

--Generoso coração!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar
ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa
veneração.

O bohemio continuou:

--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que
nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes
depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena
d'elle!

--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais
por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.

--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, é
claro que não pode pagar...

--Não deixou nada?

--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria
obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu
detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de
casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o _menino bonito_ da
familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre
mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais
enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...

--Cruel pae!

--Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem
sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste
espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...

--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!

--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas
amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de
quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e
que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais
que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe
que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta
occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que
não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel
solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu
não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de
opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em
consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para
amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa
tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a
guela ignobil!

Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias
todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a
levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.

--E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um
homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e
depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!

--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--não penses em
fazer tolices...

--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter
soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que
injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr
offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os
trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi
tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que
tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»

--E assim lhe dirás, meu amigo!--exclamou fremente de indignação a
apaixonada loura.--Não será por trezentos mil reis que esse canalha,
quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos
mil reis tel-os-has amanhã.

--Oh! mas eu não posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos
fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim...
Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo
consentir em que te sacrifiques mais...

--Cala-te, não sejas creança!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina
mão na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha
maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e
feliz!

--Como és boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a
ardentemente nos braços com amoroso impulso.

Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que
esta scena extraordinaria requer.

Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e
sujos amores.

Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho
commendador--o sr. commendador Garcia--encontrára um bello dia á sahida
da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos,
a preço de tres tostões por dia.

O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga,
começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu
envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se
ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua
mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel
matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.

Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em
varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se
abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do
generoso commendador.

Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal
com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza
da sua figura gentilissima.

O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que
passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do
berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre
origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava
nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.

Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido
pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura
em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.

Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á
roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de
reis em uma das nossas praias mais concorridas.

O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e
intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital
e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até--oh
supremo instincto de imitação!--o apparente despreso pelo dinheiro que
os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle
raras vezes possuia, porque era pobre.

Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são
tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro
adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que
maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo
recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.

Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além
d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo
que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como
as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara
desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão
diminuir-lh'os.

Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia
apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez
horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.

Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo,
futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida
externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae
protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer
sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma
prima com quem pretendiam casal-o.

Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço
que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma
prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu
coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das
despezas a que occorria o amante numero um.

Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite,
depois das dez. De dia, a toda a hora.

Eugenio, porém, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era
prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas,
não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.

Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria
os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo
indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem
sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um
coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.

--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e
orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo,
porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não
ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos
dois. E de minha prima... vê tu lá!--ainda que viesse de rastos
lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha
vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o
inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!

--É porque não a amas...

--É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder
para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!

--Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica
para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor
figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!

--Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje
desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de
pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de
trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e
então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á
Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que
se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?

--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem
estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do
mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!

--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a
com enthusiasmo.--Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...

E suspirando com tristeza:

--Para isso bastava só que morresse meu pae!

--Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.

--Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás
vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!

O velhaco tinha razão.

Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde
abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo,
botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas
immediações da travessa dos Fieis de Deus.

Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para
o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.

Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho
pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que
desde criança se habituára a pensar que o não tivera.

No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos
mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas
para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não
só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e
abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.

O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem
notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se
repetiam.

No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio
n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor
objecção.

Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu
_anjo mau_ o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.

--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e
lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!

--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora
tão ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante
de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.

Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu
destino.

Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.

--Olhe lá--disse elle--esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova
estopada?

--Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado
de tecer os pausinhos...

--O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me
entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a
tomar andadura regular.

--Isso, depois, é lá comsigo e com ella--respondeu rindo o
procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem,
emquanto o Custodio não esticar o pernil...

--Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta
difficuldade?

--Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é
preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.

--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para
uma ceia?

--Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?

--Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu _desmancha prazeres_,
amigo Belchior!

--Para seu bem.

--E para seu...

--Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para
mim.

O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio
de Jesus.

--E então?--interrogaram os dois.

--Então, sabem o que ella me disse?

--O que foi?

--Adivinhem!

--Não somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com
seiscentos diabos! Sim ou não?

--Pois bem--não!

--Hein?!--fizeram os dois espantados.

--É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.

--E você não voltou á historia do tiro na cabeça?--observou o
procurador.

--Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me
declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez
mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas
dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se
encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos
puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...

--E você o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior.

--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim,
porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia
dizer que ia dar um tiro na cabeça...

--Mas o que pensa então fazer?--interrogou Eugenio.

--Esperar, a ver o que sae d'aqui...

--D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz,
e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas
ainda pôr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior
furioso.--Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse
modo que nós conseguiremos nada.

--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia.

--Que ideia é?

--Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao
tal rapaselho que a namora...

--Você viu?

--Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu
desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que
disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e
elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades
financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...

--Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa
temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis,
quanto mais uns poucos de contos.

--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus
crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu
torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.

--Mas isso então quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr.
Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer
ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas
meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...

--Eu é porque devéras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente
apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os
sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.
Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar
generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir
a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?

--O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo:
pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento
para a pequena casar.

--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa é de
mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...

--Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter
questões por causa da partilha...

Os tres desataram a rir.

--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graça
se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque
d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!

--Amigo Belchior--expôz o Custodio--parece-me que andei bem em não
apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma
relação dos crédores e apresental-a á rapariga...

--Qual relação de crédores!--protestou o procurador.--Você não tem senão
um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle
que venha entender-se comigo...

--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de
que o tal menino dispõe...

--Está dito!--decidiu o Custodio.--É claro que cincoenta contos não se
arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça
fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então
ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro
na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.

--Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé,
a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer
que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe--opinou o
procurador.

--Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim,
e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento,
que está para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.

--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para cá, que eu me
encarregarei de resolver a questão.

O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que
sahisse.

O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava
irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos
dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.

Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da
escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de
Borba; apresentou-lh'a, dizendo:

--Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o
nariz!

O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de
Mello á Fazenda Nacional.

--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos
de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!

--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos
quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?

--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resolução--ainda que
saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não
deixo perder.

--Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.

--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você
verá como a coisa se arranja...

Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar
a conta do seu debito para apresentar á filha.



X

Para os grandes males...


Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices
em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o
pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de
as solver.

Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre
Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de
esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma
noite fallar com Beatriz.

A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as
instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio,
pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das
suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de
recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso
salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.

Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para
retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma
entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e
franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de
inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.

--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo.

--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais
apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de
que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe
impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.

--E tu?...

--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no
meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com
que me ameaçou.

--E se não encontrares esse meio?

--Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro
homem que não sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza.

O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas
palavras.

--Ouve, Beatriz--disse elle.--É possivel que sejamos victimas de uma
d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á
ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace
de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o
nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos
de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre,
não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella
pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer
de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho
amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para
remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso
sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não
estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae
uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da
responsabilidade d'ellas.

--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida,
quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.

--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa
quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e
conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha
unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que
asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu,
um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás
aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não
prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.

--Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno
do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella.

Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de
uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava
terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.

O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de
pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em
remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na
usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos
seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha,
em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos
os seus actos.

Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o
que perdera em dinheiro e não em honra--porque essa nunca elle a
tivera--achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim,
apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.

O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do
procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o
dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o
casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a
grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz,
desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a
acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.

Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta
corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a
favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do
crédor e com vencimento em curto praso.

Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o
casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e
a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e
deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma,
exigindo immediato embolso.

Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e,
apresentando-lhe o papel, disse:

--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por
elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio
unico da nossa salvação!

--Não fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a
vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos,
conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.

--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr.
Custodio--Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento
com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama
loucamente...

--Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu
consentisse em me vender a elle por dinheiro...

--Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da
egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.

--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma
venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o
repudia...

--O coração!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de
hombros--O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago
não está mal...

--Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...

--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as
comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta
de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a
miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita
festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.

O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria
gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a
horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o
espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como
unico recurso que se lhe offerecia.

Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe
relancear a vista.

--Eu verei isto--disse ella--e póde ser que Deus me inspire alguma ideia
salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr.
Eugenio de Mello.

--Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...

E depois de um curto instante de silencio:

--Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos.
Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior,
coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá
embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não
acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas
malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil
arrazaram-me!--suspirou por fim.

--E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz.

--Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual
sente o seu mal...

--E Deus o de todos.

--Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o
remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente
nada...

--Será o que Deus quizer.

O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis
esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.

Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da
vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:

--Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem
fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá
da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer
um tal desgosto...

--Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...

N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos,
conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com
Paulo.

Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu
conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da
janella gradeada com o mancebo.

--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de
ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de
contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais
rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.

E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.

D'ahi a pouco, ressonava.


Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:

--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do
homem que ha-de ser teu sogro.

--Então?--interrogou o mancebo.

--Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um
usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de
deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras
implacaveis.

Paulo encarou o amigo:

--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou.

--Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a
vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga
das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim
que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem
contos de reis.

--Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador
Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?

--Esse procurador Belchior--disse Jorge--é tambem um refinado patife.
Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa
série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio
de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para
se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio
entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre
humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão
combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a
quem pretendem casar com a tua namorada.

--E elle quem é?

--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos
sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se
sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas
suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o
seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.

--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos...

--Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o
casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe
offerece.

--Eu já tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o
que precisamos agora é provas d'essa infamia.

--Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a
certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro
d'elle--que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder
apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde
recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não
pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle
houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...

--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da
filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...

--E nós cá estamos!

--Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a
violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...

Jorge poz-se a rir.

--Desde que a _Mão-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o
procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu
procedimento, se não fôr correcto.

Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações
obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se
encontrava o sr. Custodio de Jesus.

--Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o
mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de
um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...

--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada.

--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de
reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois,
receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.

--Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce
sobre meu pae um tal ascendente?

--São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?

--Foi o Belchior.

--Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia
Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu
pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a
pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae
emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes
casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto,
qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado
da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse
material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar
invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças
de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo.
Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes
por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe
apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e
ouve o que elle te diz.

--É extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio
rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de
descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade
paternal!

--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e
não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei
de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as
circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto,
e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te
admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de
teu pae?...

--Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos
commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns
carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta
casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de
negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha
mão e eu recusei...

--Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro
de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente
representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições,
teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao
procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.

--O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu
não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe
abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...

Paulo reflectiu por alguns instantes.

--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no
que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos
achaes...

--No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...

--Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que
se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te
apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de
estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.

--Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...

--Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta
definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae
a mudar de resolução.

--Oxalá que assim seja!

O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha,
ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado
problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz
viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no
dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre
menina, perguntou-lhe com fingido carinho:

--Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?

--Já, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos.

--E o que resolves?

--Por emquanto, nada.

--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois é
possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta
questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao
que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te
apresentei?

Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:

--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.

--O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta
contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.

--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia.

--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr
a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na
escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar
a vida...

--Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.

--Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com
palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns
poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.

--Alguma coisa temos já adiantado...

--O que?

--A resolução em que estou de salvar meu pae...

--Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha
filha?

--Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.

--Pois olha que não tens outro recurso, crê!

--Veremos.

--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?

--Talvez.

--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das
pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os
amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes
fallamos em dinheiro,--emigram!

Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e
serena:

--Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no
peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela
pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos
lances mais desesperados da nossa vida...

--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo--é
bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo
e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A
Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para
esposa...

--Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento
que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe
pensar reflectidamente sobre o caso...

--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor,
comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que
estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que
é, como sabes, nosso crêdor...

--Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir
maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...

--Sim, isso é justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no
teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam
logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!

--Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale
que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento
me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de
me decidir...

--Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a
questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia...
Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria
morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu
que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver
determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade...
Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu
não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!

--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheço
quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas
não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus
ha de valer-nos...

--Tens essa fé, Beatriz?

--Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio
não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?

--Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E
has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente
apaixonado por ti.

--É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...

--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de
vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de
difficuldades: casar e deixar de tolices...

Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o
seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado
casamento que sonhava para a filha.

--Naturalmente--ia dizendo comsigo--lá o tal franganito mostrou-se
desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão
de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se
resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se
quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes
dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria
que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!

E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.

Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!



XI

João Lazaro


Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar café, depois
de jantar.

Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava,
ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para
matar tempo.

N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes,
porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis
nas folhas em branco.

Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no
hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:

--Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?

Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.

--És tu, João!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços
para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui!

Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.

--Ora o meu João Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao
Porto!

--É verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e
tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho á
casa torna...

--E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...

--Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de
esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.

--Quando chegaste?

--Hoje de manhã.

--Que tempo te demoras?

--Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante,
e não posso calcular o tempo que isso me levará...

--Não tencionas fixar residencia no Porto?

--Não. Isto é pequeno demais para mim...

--Bravo, seu João! Você está crescido!--disse Jorge galhofeiramente.

--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no
Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como
não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com
ella...

Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do
charuto caro, com affectação, e exclamou:

--Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha
receber as ordens?...

Jorge bateu as palmas, chamando o criado.

--O que tomas?--perguntou ao amigo.

--Vou tomar cerveja.

--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara.

Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de
João Lazaro, e perguntou:

--Ingleza?

--Ingleza, sim!--respondeu o João Lazaro.

E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a
ordem:

--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!

--Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...

--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o João Lazaro com olhar
torvo.

--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o
amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és
brazileiro...

--Mas portuguez pelo coração!--respondeu o outro com emphase.

E accrescentou:

--Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha
mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão
pequeno como este?...

--Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão
pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu
seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua
patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal
politico?

--Já te disse: sou portuguez pelo coração...

--E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão
_negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...

A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio
de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle
familiarmente:

--Ó João--preveniu o bohemio--não te compromettas para amanhã á noite,
porque temos ceia de rapazes em tua honra...

--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para
amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e
não sei se de dia ficarão concluidos...

--Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é
uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento
feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar
de ser gentil para com as damas.

--Está bem: irei.

E voltando-so para Jorge:

--Não se conhecem?

--Não tenho essa honra--disse Jorge.

João Lazaro então apresentou:

--O meu amigo Eugenio do Mello...

E para este:

--O meu amigo Jorge de Gusmão.

Os dois cortejaram-se.

--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um.

--Igualmente--disse o outro.

E apertaram-se as mãos.

--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João--disse
Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que é tambem amigo
d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da
noite.

--Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto,
associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de
tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e
inaddiaveis--respondeu Jorge.

--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer
em o vêr lá...

Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.

O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:

--Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui
encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal
perante a rapaziada.

Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o
rival de Paulo, perguntou:

--Quem é este rapaz?

O outro sorriu desdenhosamente.

--Um aventureiro!--respondeu.

--A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...

--De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico
tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar
com a gente da mais baixa especie.

--Mas este rapaz é...?

--É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na
confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não
podemos fazer.

--E vive d'isso?

--Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.

--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e
passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...

--Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte
que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo,
gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa
de uma loura, que é a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia...
Conheces?

--Conheço o commendador Garcia perfeitamente.

--E a loura?

--Poderei tel-a visto, mas não estou certo.

--Não sabes nada!--volveu o João Lazaro desdenhoso.

--Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo
isso?

--Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas.
Conta-me tudo.

--Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma
rica herdeira...

--Elle!?

--Elle, sim!

--Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?

--Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva
suppõe-n'o um rapaz riquissimo...

--É boa! E não me disse nada! Que grande patife!

--Pois é verdade.

--Tens bem a certeza?

--Conheço a noiva...

--Ella quem é?

--É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...

--Não conheço.

--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves
conhecer...

--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do
tempo em que vivi no Porto.

--Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que
ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações
podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me
que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois
combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...

--É bonita essa pequena?

--Creio que sim.

--Crês?

--Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella
informações que a dão como uma belleza indiscutivel.

--É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um
_escroc_... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais
capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de
Mello?

--Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.

--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da
cilada em que o querem fazer cahir.

--Eu!--replicou Jorge--Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz.
Póde ser que a fortuna o regenere.

--A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está
bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de
varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo
caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro
levando vida do principe e bellamente relacionado...

--E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se
diz, está para breve...

--Os jornaes já deram noticia?

--Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle
não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os
planos...

--É curioso!--tornou o João Lazaro--Como as mulheres são estupidas nos
seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir.
Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com
o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente...
Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para
isso lá estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu
estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella
couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu
caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de
quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem
espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!

--É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial
para escolherem o peor.

--Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada
que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te
afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza
de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna
estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser
distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para
ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela
materia contra o espirito!

O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo
da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos
de suprema elegancia n'um salão aristocratico.

Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:

--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...

--Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do
carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas
essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque
se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar
sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela
aristocracia.

--Sacrificas o amor á politica...

--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde
affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...

--Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar
a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o
que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez
reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos
obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder
especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem
criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito
disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal...
Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado,
cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem
porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido
valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso,
seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.

--Não é tanto assim, meu caro--protestou o João Lazaro frouxamente.

--Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento
para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio
de Mello é um especulador amorôso... Vives dos _kalenderes do ideal_
como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de
receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.

--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!

--Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos,
porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço
cabalmente.

--Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade
para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça
n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei
misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão
proseguir no caminho mau em que me lancei?

--Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das
velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com
papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada,
porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um
verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de
principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria
a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes
sustentar o prestigio da causa...

--Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres!
Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque
quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais
fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil
reis!

--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu
caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.

--Eu?

--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não
custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos
tambem ás vezes ganham juizo...

--Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se
deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu
nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...

--E o que vens tu fazer ao Porto?

--Venho arranjar dinheiro...

--Para quem?

--Para mim.

--E suppões que t'o dêem?

--Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...

--Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?

--Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...

--Bem; anda lá!

João Lazaro levantou-se.

--E tu, sempre o mesmo?

--O mesmo sempre.

--És um homem singular!

--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente
o livro mais curioso e mais difficil de lêr.

--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua
fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos
vencem.

--Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!

João Lazaro consultou o relogio.

--Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?

--Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma
hora da tarde.

--Irei dizer-te adeus.

--Pois sim.

Apertaram-se as mãos e despediram-se.

João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de
despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.

Já na rua, ia murmurando:

--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um
capitalista!

Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao
cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.

--Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo
cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por
entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo
consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em
fortuna e em posição social.

João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco,
minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor
profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por
esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de
posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.

A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um
capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro
dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de
maio, prenhe de trovões, e como a propria _parda_ brazileira de quem era
filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos,
nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no
cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.

De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de
preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e
chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão
ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.

Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de
apreciar melhor em capitulos subsequentes.

Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo
que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações
com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica
historia.



XII

Velhos conhecimentos


Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da
casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irmã Dorothea_ já
conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,--_casa nobre_, como lá
se diz,--mas de severo e melancholico aspecto.

Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as
suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria
e de festa.

É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado
e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de
cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver
tornava ainda mais profunda.

Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha
criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas
quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta
propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.

Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes
que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da
casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava
com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do
santo sacrificio.

O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na
_Irmã Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como
amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca
de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação
brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.

Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na
capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do
esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as
no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.

Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como
tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam,
reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e
alli se demorava de junho a setembro.

Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e já contava
nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e á
tristeza succediam o ruido e a alegria.

Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias,
havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na
casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
campo.

E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto,
acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.

--Aurelia--dizia-lhe o irmão--se vivesses um anno em Lisboa, verias como
isso te fazia bem.

--Não, Gustavo, não--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi
feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na
saudade dos que me fôram queridos.

--Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não
é verdade?

--Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a
unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes
que perdi.

No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital,
sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao
silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um
linitivo ás amarguras do seu espirito.

Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós
vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.

Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao
saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.

Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e
sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a
gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas
composições mais em voga.

A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites
claras do estio.

Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias,
apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel
concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro
pôde ainda devassar.

Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães,
attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas
continuando as conversações em que estavam entretidos.

--É verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o
palacete que foi de Norberto de Noronha.

--Vende?--respondeu o advogado--Então o Pinho, o brazileiro para onde
vae?

--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á
Mathilde, á minha criada de quarto.

--É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande
fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.

--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra
substituir o Negrão, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta,
prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem
economico... tem dispendido.

--Pois parece que não deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com
uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões
para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse
no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!

--Pois é verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo,
o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em
dez annos.

Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.

--Não póde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de
Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a
reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se
limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado
bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe
attribue.

--Pois ahi é que está a desgraça!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e
não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde
que chegou...

--A todo o mundo!?

--É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do
Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um
painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que
faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que
tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que
não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma
contos de reis...

--Isso é verdade!--concordaram alguns do grupo.

--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!--contestou
ainda Gustavo.

--Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem
protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios,
tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda
a gente e d'onde se tira e não se põe...

--Bem sei! Em todo o caso...

--Em todo o caso--concluiu o doutor--se não fossem os ultimos revezes
soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda
aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle
não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente
sem nada.

--Pobre homem! Tenho pena.

--O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr
pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá
conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A
ultima não lhe ficou por menos de dez contos...

--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!

--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo
estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou
de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a
offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser
titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para
elle...

--Que miseria!--disse Gustavo enojado.

--E até foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem
dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem:
um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...

--Deve ser horrivel!

--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...

--E quanto quer elle agora pela casa?

--Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas
as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam
o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem
feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se
apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...

N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da
casa de Gustavo.

--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo
claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.

--Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio
até cá para se distrahir um pouco?

Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando
Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:

--Senhor doutor, saberá v. ex.^a que está lá em baixo um senhor que diz
que deseja fallar ao sr. doutor....

--A qual de nós?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de
doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da
jurisprudencia, esse estranho recemchegado?

--Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.

--Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?

--Não quiz _dezer_... É um senhor de barbas...

--Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.

E voltando-se para os hospedes:

--Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum
amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me
procure... Eu volto já.

Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido
visitante.

Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos,
estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios
brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma
vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo
escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres
claras.

Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma
expansão de velha amizade, dizendo:

--Já me não conheces, não é assim, Gustavo?

--Julio! Pois és tu?

--Sou eu, meu amigo!

E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos
braços o seu amigo e companheiro de infancia.

--Mas o que é feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos não
tenho tido noticias tuas!

--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...

--Singularissima ausencia!

--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções
do imprevisto, porque precisava de esquecer...

--E esqueceste, afinal? Ainda bem!

--Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda
agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e
d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo
de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e
onde tudo me hade ainda fallar d'ella!

Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a
suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam
desgraçadamente transtornadas.

Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:

--Julgas-me doido, não é verdade?

--Não, não julgo...--replicou o irmão de Aurelia de
Magalhães--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens
e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.

--Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida,
uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar,
é porque sinceramente não a amou.

--Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?

--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para
Pariz, transferida para uma casa de _irmãs Dorotheias_ e pedindo-me que
a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas.
Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra
que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma
esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...

--E como pudeste esperar tanto tempo?

--Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi,
pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os
jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as
egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os
collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que
talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de
se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha,
percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam
permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com
toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui
á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a,
e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela
familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado,
velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal,
convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irmã
Dorotheia_, já não existe!

--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda
compaixão--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua
existencia!

--Bem pensado, não foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas
tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra
mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me
sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que
doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que
se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.

--Comprar a casa de Norberto de Noronha!

--Sim.

--Com que fim? O que pretendes fazer?

--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...

--Mas vens só, não tens familia?

--Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram,
constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas
recordações!

--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como
sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia
emquanto me demorar por estes sitios.

--Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua
interferencia n'este negocio.

--Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus
amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta
triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos,
que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha
irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr,
porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella
com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua
ingratidão... Vem!

Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com
grande curiosidade.

A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos
circumstantes.

Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o
elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga
e Guimarães--pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres
da educação.

Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a
relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva,
scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o
secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.

--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos
condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que
regressa á casa de seus paes!

--É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que
desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa
velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um
canto onde possa morrer descançado.

--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens
ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida
inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que
reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam
a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer
homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha
experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem
ter cumprido a minha missão...

--É justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te
faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os
filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de
affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos,
das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a
velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos
no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu,
abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que
tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão
a morte redemptora dos grandes desgraçados?

--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom
de convicta auctoridade.--Olha que não ha como o casamento para fazer um
homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas
estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém,
cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que
pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a
aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso
ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu
estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...»
Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um
genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado
muito bem... Não é assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na
esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco,
toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma
mulher que passa dos quarenta.

--É assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido
os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma
paixão confessada.

--Não temos tido filhos--tornou o commendador, muito roliço, muito
gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas não é por falta de
amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era
um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês!
Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que
casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!

E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete,
e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca
das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o
rotundo abdomen.

Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo
commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em
casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.

--Ora agora o que é preciso--propôz o juiz de direito, um velhote de
oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades
nervosas--é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do
regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua
provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela
sua prolongada ausencia!

E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:

--Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho,
pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se
celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu
não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de
quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e
gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!

Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo
alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido
viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do
mundo, como o _infante D. Pedro_.

O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão
que havia de proceder aos festejos.

Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de
mais um dia de grossa pandega.

--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que
conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria
me mortifica!

--Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que
só aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má
lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser
clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte,
agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!

--Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a
fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e
eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de
tristezas!

--Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te
esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que
ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde
occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias
do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo
que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra
d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma
d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles
não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...

No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio,
dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos
no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão
preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.

Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no
horisonte um vago olhar de tristeza.

Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e
n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e
quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia,
era outra vez obrigado a expatriar-se.

Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:

--Bons dias!

O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:

--Muito bons dias!

--É o proprietario d'esta casa?

--Um seu criado!

--Li que ella se vende. Posso vêl-a?.

--Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...

E chamando pelo criado:

--Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou.

O _Manéca_, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em
fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio
escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e
obedecer.

Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este
dialogo:

--V. s.^a vende esta propriedade, não é assim?

--Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra
tornar no Brazil...

--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui
morreu, o sr. Norberto de Noronha...

--Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas
informações que dão-me d'elle, hein!

--Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa?

--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que
lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a
queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella,
já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto,
dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender
este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a
comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas
como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por
lá...

--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa
senhora que comprou esta casa?

--O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava
ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal
João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei
só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras
propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a
familia de Norberto, já vejo...

--Conheci. A casa soffreu modificações?

--Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e
pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo
jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...

O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de
que era uma vivenda _muito bôa ella_ e que se conservava quasi no mesmo
estado em que o fidalgo a deixára.

Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a
Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos,
commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a
filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem
morria.

Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de
explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar.
Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira
a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de
Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara,
achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.

--Isto áqui me tem sérvido para arrumações--explicou o brazileiro.--Aqui
encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr
ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?

--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio.

--Com mobilia ou sem ella?

--Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...

--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e
concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.^a me quizer comprar
ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?

--Não, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos
lhe darei por ella.

O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria
regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e
reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois
contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria
embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a
somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.

--Quer assim?--interrogou Julio.

--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho
vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle
ágora...

--Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em
o adquirir por menos do seu justo valor.

--Mas então a casa é de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda
cortezia.

--V. s.^a não me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador á validade
d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho.
Quando quizer, faremos a escriptura!

--O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.^a é
hospede d'elle, já vejo...

--Sou. V. s.^a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo
dar-lhe de signal.

--Signal!--protestou o brazileiro--não é priciso elle... Os homens se
conhecem pelas palavras, já viu?

--Como queira.

--Me dê v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no
tabellião fazer a escriptura, hein!

--Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de
vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.

--Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não
ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre
elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellião...

Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.

--Já comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que
chegou.

--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar
um negocio d'essa ordem?

--Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a
compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha
uma realisação legal.

--Por quanto a compraste?

--Por doze contos, tal como está.

--Podias tel-a adquirido por oito ou nove!

Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario
da casa que pertencera a Noberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a
sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa
alheia.

Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio
comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos
proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos
para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova
propriedade.

Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente
guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo
de Gustavo de Magalhães.

--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os
absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto
tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o
emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada,
presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do
espirito humano.

--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de
faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento
systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob
a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de
diversos e oppostos costumes...

--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal
succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos.

--Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o _spleen_ dos inglezes--opinou o
juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos
amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado.
Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de
sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação
dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos
grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e
dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs,
prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz
aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que
seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres
faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de
regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que
este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como
é o de uma esposa por seu marido?...

--Pelo menos, quando não seja isso--disse o commendador--o casar devia
fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na
vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa
alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a
convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da
esposa!

Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam
acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro,
com a D. Graciana.

--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulação--com bem o
diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios
maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e
faço ideia do petisco que ha-de ser...

--Nós tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua
voz de assobio.

--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem
tomar parte n'ella--não se cancem em conjecturas sobre os motivos que
pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida
d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos
que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só
agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos
a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força
fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata
e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas
risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a
nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um
homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha
soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle
distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande
prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por
caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta,
achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma
verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?

--Isso é verdade!--accudiu o commendador--eu já tive uma epocha na minha
vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a
um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas,
sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que
sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o
caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão
simples...

--Não tanto!--replicou o juiz--Quem não tem que fazer caça môscas, diz o
vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se
distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue
ao divertimento...

--Agora não!--tornou o commendador.

--Por falta de pisco?--perguntou o medico.

--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente...
Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com
passaros em casa.

A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta
ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as
attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.

A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães
e travava-se entre os dois este dialogo:

--Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de
Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a já comprou a casa de
Norberto de Noronha.

--A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.

--Na intenção de a habitar?

--Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da
minha vida.

--É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia
de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão
retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe
n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...

--É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...

--A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem
recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos
felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui
passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi
desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de
Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem
luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...

--E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente
desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um
prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais
soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais
lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que
hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito
annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na
mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos
fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla
dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então
proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle
infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o
meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho
soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me
julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos
dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de
felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...

--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse
tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave
candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira
de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os
primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei
como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura.
Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes,
antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma
religiosa pontualidade!

--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella?

--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu
a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria
ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.

--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um
taberneiro da Serra do Carvalho...

--É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de
que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio,
suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado
em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia
anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um
sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no
processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e
condemnado a galés por toda a vida.

--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o
agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle
esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha
muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser
até que já tenha morrido...

--Não sei, não conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por
aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de
Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.

--Se o _Tomba_ esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o
assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não
foi estranho o raptor de Helena...

--O padre Anselmo?

--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome?

--Pois não sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi
com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que
conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
casa paterna?

--E v. ex.^a era sabedora das intenções de Helena?

--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a
d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu
lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que
cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me
preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios,
breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me!
O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um
momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a
accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque,
apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão
Gustavo, julgo-a irresponsavel.

--É esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha?

--É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso
assegurar a v. ex.^a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e
cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé
e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.

--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...

--Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.

--E Helena amava o primo?

--Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas
vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse
indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até
que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella
me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com
elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não
succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum
rapaz a quem quizesse mais...»

--Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a
abraçar a vida religiosa....

--Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha
para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse.
Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e
seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa,
fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.

Os dois calaram-se por instantes.

--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido
immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?

--É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava...

--Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que
experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse
conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me
eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que
sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi
esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu,
onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me
hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma
recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para
logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um
meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!

--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma
paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido
apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!

--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...

--Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais
ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?

--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o
permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento
para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é
porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.

Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas
entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella
a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir
para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias
d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos
mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel
ouvir sequer fallar d'ella.

--Conclue portanto que Helena...

--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...

--Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida
religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu
pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia
de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra
vontade que não fosse a sua.

--Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a
parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais
achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me
leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua
evasão.

--Seria possivel?

--Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.

--Mas não sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a
professar?

--Sei muito bem.

--Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as
exigissem?

--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do
destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem
tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez
dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era
uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos
os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima
hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo...
Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a
morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve
tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para
sempre á familia e á sociedade.

--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu!

--Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha
creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e
a desgraça comsigo.

--E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem
conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que
eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!

--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D.
Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce
lenitivo de me fallar de Helena...

--A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas
n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e
soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer
que hoje vivo, como v. ex.^a, só de tristes recordações...--replicou D.
Aurelia com um fundo suspiro.

A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do
commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das
festas em honra de Julio.

Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois
entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:

--Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?

--Póde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia está ainda muito
fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para
se distrahir.

Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou
nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.

Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.



XIII

Denuncia


João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os
amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.

O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta
demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos
lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto
o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma
honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:

--Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para
terem a honra de se sentarem ao meu lado!

--Não será bem isso--replicou o outro delicadamente, para não o
ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus
talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a
vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és
alvo...

--Communhão de ideias!--tornou o João Lazaro desdenhoso--Que communhão
de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos
incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja
arroz cosido em vez de miolos?

--Talvez tenhas razão, talvez...

--Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se
não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura
do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a
generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os.
Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de
immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro,
querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu,
quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com
admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se
aproximarem de mim.

O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se
que não dissesse:

--Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são
elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com
franqueza?

--Dize lá.

--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o
idiota és tu!

João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo
com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:

--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na
apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e
animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente,
vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito
para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos.
Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os
amigos me darem de cear...

--Para que então?

--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação
publica...

--Já lhes expuzeste o teu plano?

--O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para
se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que
tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de
duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu
digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra
grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A
gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha,
é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o
plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa
de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para
me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me
sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de
grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas
vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão
de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora
ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para
quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e,
sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
rodeiam!...

--Bom! Mas, a final, o que queres tu?

--Dinheiro!

--Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente
o que todos querem...

--Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes
volverei cem por um!--exclamou o João Lazaro, convicto.--Não me falta
mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de
dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a
face do paiz.

--Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...

--Quaes circumstancias?

--Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma
somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...

--Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que
depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes,
ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se
pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.

--Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do
teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o
realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em
acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento
não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...

--Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é
só para mim, o bem é para todos.

--Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as
sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos
amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...

--Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.

--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o
impõe, o que havemos de fazer?

--Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha
dinheiro!--exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.

--Eu não sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto são apenas
considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me
revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como
queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas?
Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá
difficuldade em a conseguir.

--Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?

--Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma
força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um
casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.

João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.

--E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale
bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos
os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que
não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente
que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens
capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de
egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de
soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do
_Deve_ e _Haver_! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a
pedir João Branco e Pita Beserra!

Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os
cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos
quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que não lhe davam
o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João
Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.

--Bem!--disse elle--tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é
d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...

E consultando o relogio:

--São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não
estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia,
porque á noite talvez retire para Lisboa.

--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?

--Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...

--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde
ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...

--Não, que eu não peço!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu
proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o
meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o
favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui
estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso
para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos
abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem
consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por
mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!

Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.

--Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?--perguntou o outro
despedindo-se.

--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido
que me não merece.

--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde
arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...

--Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas,
se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se,
porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples
devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses
bilhostres.

Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu
a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.

--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro.

Pelo caminho, ia monologando:

--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que
vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim,
á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes
apanhar dinheiro para ir até Hespanha.

E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica
reminiscencia da tanga:

--Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!

Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com
Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.

--Cuidei que não vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto
para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas
damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te
conhecer.

O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e,
respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:

--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a
esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma
reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia,
insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não
protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder
aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os
velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os
acompanham.

Seguiram-se as apresentações:

--Senhorita Lola...

--Senhorita Dolores...

--Senhorita Consuelo...

O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a
cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.

Abancaram á mesa e principiou o festim.

A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que
havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa
espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de
recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois
de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.

A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.

--Um moço de fretes com esta carta para a menina...

A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador,
usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se
achava a sós com Leonor.

--Dê cá!--disse a loura, pegando na carta e examinando o
sobrescripto.--Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma
declaração?

--O portador não esperou _reposta_.

--Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que
entregou a carta.

E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.

--É singular! O papel não vem perfumado--disse ella, mostrando o papel
vulgar em que a missiva vinha escripta.

--É de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios
d'amôr.--Os _cheiros_ são para os pelintras que só querem agradar com
bugigangas e a respeito de _louça_... nem um pires!... Homem sério,
homem de _massas_, não está lá com essas coisas... Confia no seu
dinheiro e é bastante...

Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma
agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente
pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:

--Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!

--O que é, menina?--perguntou a velha serviçal, n'um movimento de
curiosidade.

--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoção--que Eugenio
vae casar.

--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos
de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha
que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal
cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a _avoar_!

Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha
comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:

«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser
agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir
em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito
breve.

«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado,
discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o
procedimento de Eugenio.

«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que
já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma
menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da
sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio,
receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro,
escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda
pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria
provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a
receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do
commendador Garcia.

«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente
atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto,
afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente
enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.

«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da
veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará
amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do
meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa
_Leonor_, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa
apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.

«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»

Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha
confidente, exclamando:

--Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!

--Crédo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso são tentações do
demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir
pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _bô_! Homens ha muitos,
tão _bôs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma
carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, não achava homem que lhe
désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns
soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse
attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero
dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... Só eu é que sei!

--Que e o que você tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da
curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de
Eugenio.

--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a
menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr.
Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!

--E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse
outro namoro?

--Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como
isto!

E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.

--Mas será verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na
sala--Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto
o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?

--O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora
p'ró oitro, menina...

--Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma
tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar
assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando
um golpe de morte ao meu coração!

E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.

A velha apaziguava:

--Ás vezes _támem_ se diz mais do que é,..

--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não
póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me
esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma
coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus!
que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!--exclamou por fim,
rompendo em soluços.

--Desgraçado é o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto
sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja
tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração
ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Gracía_
dar por ella e não tornar cá... _Antão_ sim, _antão_ é que a menina se
devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se
arranja nada...

--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de
desespero--Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem
se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a
perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a
gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu
alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo
unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar
todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha
posição--o proprio amor do homem que me sustenta--ás suas necessidades,
aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando
casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu
socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos
seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam
capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a
ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta
affronta!

No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um
peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade
irritada, o odio, o ciume, emfim.

A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de
prudencia ou de banal consolação.

De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a
suspirar, murmurando em voz lamurienta:

--Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do
Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!

Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla,
pareceu tomar uma resolução.

--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma
palavra ao sr. Eugenio.

--Ó menina! Crédo!--protestou a velha--a minha bôcca não se abre para
nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu _tàmem_ faço de conta que
nada _assucedeu_... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e
começar-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia...

--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem
que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...

--Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina
fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle
se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, já fica sabendo quem
tem...

--É justamente isso o que eu quero.

--Porque ás vezes--commentou a velha--_támem_ são _malquerencias_...
Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma
coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra
amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _támem_ hão
muitas _invejidades_!...

--Pois é por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar...
Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra
o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a
primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...

--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle não
desconfiar...

--É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?

--Ora essa! A'gora esqueço!...

--Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...

--Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa,
não tem senão chamar...

Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a
alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar
as horas com a rapidez de minutos.

Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro
horas da manhã, no quarto da amante.

Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da
ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes,
recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.

Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer,
tranquilla.

--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia
prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui,
anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!

Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:

--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada...
Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...

--Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?

--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres
de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...

--Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te
agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr
quando eu chegava, e deu-te esse resultado!

--Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais
tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...

--Mas estás melhor, não é verdade?

--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena
de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...

--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu
sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria
immediatamente.

--Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto
passa.

A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor
occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.

O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da
formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte
lhe notou nas feições.

Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais
ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio
teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um
transporte de ternura infinita que lhe disse:

--Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a
companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente,
sinto-me melhor...

--Não, eu venho cêdo...

--A que hora?

--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé,
filhinha...

--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres,
servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...

--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho
á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?

--Pois sim.

Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.

Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia,
Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao
piano e começou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo
correspondente lhe havia indicado.

Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe
escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais
que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia
e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no
espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel
desejo de conhecer toda a verdade.

Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da
rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma
ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um
chapéo de feltro.

A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada
ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella,
para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.

Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o
denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa
curiosidade.

O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e,
parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e
disse, inclinando-se em garboso cumprimento:

--Não esperava que fosse eu, não é verdade?

--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições
de João Lazaro.

--Eu mesmo, é verdade!--replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio
galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido
d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma
vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e
acrisolou com a ausencia.

--Mas, perdão!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de
impaciencia--creio que não foi para insistir nos seus protestos de
estima que aqui veio...

--Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de
Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe
quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem
recebeu...

--Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os
factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses
factos para explicar o seu procedimento...

--Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas
perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem
censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em
favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira,
porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente;
e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora
com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe
declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e
quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma...
Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a
mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e
mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui
preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel
para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora
Leonor sabêl-o...

--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!

--É então certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso
ironico.

Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel
desespêro:

--Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se
chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa
Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me
haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de
intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são
gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu
coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem
subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...

--Aliás?--interrogou João Lazaro, sorrindo.

--Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.

E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os
labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um
pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.

--É justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel
galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não
mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que
a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a
mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?

--O que quer dizer?

--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto,
mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é
preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato
coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!

Leonor encarou-o com altiva dignidade:

--É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?

--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que
sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me
tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro
do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da
negra perfidia de Eugenio!

Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente,
como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim,
respondeu:

--O meu coração, por emquanto, não está livre.

--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como
merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado
recanto do seu peito, Leonor?

--Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e
estima sincera.

--Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova
mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!

A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe
ficava proximo.

--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicações que me
prometteu.

--Perdão, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo
amavelmente--Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a
nada obrigam...

--O que deseja então?

--Que me prometta, que me jure duas coisas...

--Dirá.

--A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás
minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da
infidelidade de Eugenio.

--Prometto.

--A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza
completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de
felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
que, n'esta casa, occupava Eugenio...

A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que
mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração
de mulher ciumenta.

--E se eu recusar essa ultima condição?--perguntou.

--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que
póde ficar sabendo desde já.

--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!

--Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais
leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...

--É de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para
se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a
brincadeira!

--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso
cynico.--Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade,
submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas
estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados
e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue
frio, para procedermos com acerto e prudencia.

--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é
apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me
vae fazer.

--Ora muito bem!--principiou o João Lazaro.--Disse-lhe na minha carta
que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a
verdade.

--Como se chama essa menina?

--Beatriz.

--Onde mora?

--Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.

--Diz então que o casamento está projectado para breve?

--Digo.

--N'esse caso, essa menina ama-o?

--Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a
recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a
ama, pois que pediu a sua mão.

--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?

--Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o
seu segredo...

--Como o soube então?

--Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!

--Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se
divertir á custa alheia?

--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais
particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio
pedir-me informações a seu respeito.

--O que lhe disse?

--O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que
Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.

--Mas é forçoso impedir esse casamento!

--Talvez não seja impossivel.

--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?

--De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço
amigos intimos seus. O que deseja d'elle?

--Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender
que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...

--Está doida! E o commendador Garcia?

--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não
case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se
achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação
indescriptivel.

--Venha cá, socegue!--disse João Lazaro, tomando-lhe a
mão.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso
que cumpra o que prometteu.

--Pois sim... Diga então o que devo fazer...

--Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.

--Como?

--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...

--Merece...

--Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de
Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do
que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este
mundo.

--E obtida a certeza?

--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar.
Faz isto?

--Faço.

--Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.

--Não suspeitará.

--E eu voltarei a informál-a.

--Quando?

--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.

--E até lá nada devo dizer nem fazer?

--Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do
Custodio de Jesus.

--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com
o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma
informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente!
Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...

--As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.

--As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás
circumstancias?

--Todas. No seu caso, todas--replicou João Lazaro com reflexiva
gravidade.

E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:

--Ora venha cá!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os
seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha
transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto.
E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo
na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu
lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e
a attender-me...

--Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os
meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio,
remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os
seus torpes intentos!

--Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um
escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á
senhora...

--Só a mim, diz?

--Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em
casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do
commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino»,
essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante
para impedir o casamento?

Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:

--O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de
Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada
affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade;
pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que
sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
toma a sério.

A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe
de colera, n'uma indignação suprema.

--Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E
porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso
sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada
a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a
felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o
direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o
terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus
juramentos?

João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só
instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe
brincava nos labios.

--Tem razão--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A
sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está
precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe
rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela
qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu
favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a
razão, que ninguem attende.

--Ha de pelo menos attendel-a elle!

João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.

--Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se
ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle
esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se.
Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe
assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem sério_ por meio de uma
alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de
uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.

--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que
é!--bradou Leonor completamente dementada.

--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de
impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca
poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo
cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e
a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher
despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim,
minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este
escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por
muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos
impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê,
Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o
commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este
seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de
prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem
n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está
fallando.

--Mas o que devo então fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura,
estorcendo as mãos em desespero.

--Ter prudencia e esperar.

--Ter prudencia! Esperar... o que e como?

--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois
tenha prudencia e vingue-se, Leonor...

--Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu
hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?

--Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com
provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar.
Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma
alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu
ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha
a...

--A que?

--A realisar grandes emprezas que premedito...

Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.

--E que emprezas são essas?

--Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos
auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos.
Posso contar com a senhora?

A loura hesitou. Por fim respondeu:

--Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou,
pelo menos, a vingar-me d'elle.

--Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.

--Está bem!--disse a loura estendendo-lhe a mão--póde contar comigo.

João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e
dispoz-se a sahir.

--Ámanhã voltarei á mesma hora--disse elle á sahida.--E o signal
convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.

--Espere!--reflectiu a loura--Se ás vezes, por qualquer motivo, não me
fôr possivel recebel-o...

--Claro está que não dá o signal.

--Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...

--Toque então a marcha da _Cadiz_.

--Está bem.

--Ainda mais--tornou o Lazaro--se quizer prevenir-me de que não venha no
dia seguinte, substitua. a marcha da _Cadiz_ pela _Cavallaria
Rusticana_. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias
depois.

--Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...

--Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.

--Até amanhã.

O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um
beijo, e sahiu.



XIV

Miseravel!


João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge.
Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo
de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o
serviço domestico.

--Venho fazer-te a promettida visita--disse João Lazaro ao amigo que
estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho.

--Bem vindo sejas, meu caro!--volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta
e indicando-lhe uma cadeira.

--Sempre a trabalhar!--disse João Lazaro com um sorriso de
curiosidade.--Em que diabo te occupas agora?

--Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é
a minha paixão...

--Bonito entretenimento para quem não tem que fazer...

--Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...

--Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?

--Eu!

--Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade.
Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um
trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias
brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?

--Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os
da tua côr.

--Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me
fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a
collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não
impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias
politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me
por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se
perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me
secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não
comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau
a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom!

--Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear
publico...--disse Jorge rindo.--Mas não, meu caro, eu não estou
resolvido a collaborar em jornaes...

--Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a
sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer.

--Mas eu não pretendo amedrontar ninguem--tornou Jorge impassivel.--Não
tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por
nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu
gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta
violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida,
actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica.
Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?

--Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos...

--Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste
bom acolhimento por parte dos teus amigos...

João Lazaro fez uma carêta de despeito.

--Uns pulhas, os taes meus amigos!

--O que! Acaso não estás contente com elles?

--Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és
meu amigo...

--Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias
que me fazes.

--Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por
um partido de verdadeiros bilhostres!

--Ai, já?!

--Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um
escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas,
acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas,
fazia-o sem a mais leve hesitação.

--Não pódes... isso com certeza não pódes--tornou Jorge.

--Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes
imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem,
e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!

--Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto?

--São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada...
Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas
enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome,
unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas...

--És modesto, João!--interrompeu Jorge rindo.

--Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias.
A verdade é esta...

--Tens razão. _Inter amicus non est gerigonça_, dizia-se no meu tempo.
Continua.

--Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de
um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me
livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados
de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos
amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque
elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro
está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o
triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para
lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?

--Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...--disse Jorge com sarcasmo.

--É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o _sangue_ pela
patria?

--É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu...

--Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio
de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria,
porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o
salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto!

--Mas, afinal, de que tens tu vivido?

--D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres,
persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples
vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas
agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes
sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento
do seu partido!

--O mundo está cheio de ingratos, meu caro!

--Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á
ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em
vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e
perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou
um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas?

--Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro
João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que
não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a
sangrias repetidas...

--É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças...
Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é
justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...

--Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os
factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro
auxiliado és tu...

--Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu
quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não
teria difficuldades...

Jorge sorriu.

--Isso tambem eu creio--disse elle.

--E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á
sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido...

--Queres dizer, se não continuarem a corresponder...

--Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os
interesses d'elles do que os meus...

Houve um silencio de alguns minutos.

--É verdade, ainda te dás com o Avioso?--perguntou o Lazaro.

--Continuamos a ser amigos como sempre fomos.

--Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e
intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.

--É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de
ser politico.

--Talvez me convenha aproximar-me d'elle...

--Quando quizeres, estou ao teu dispôr.

--Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr
preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade...

--Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...

--Bem; havemos de fallar.

N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do
aventureiro, e disse comsigo:

--Temos o chefe mudado em espião...

João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma
fumaça:

--A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores...
Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no _Suisso_, o
Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!

--É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?

--Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio,
nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles.

--É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace...

--Mas tu disseste-me que sim...

--Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro.
Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam
de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae
adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu...

--Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar!

--Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa
particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem
difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo
ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.

--O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do
Eugenio?

--Não sei... talvez indagasse.

--Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por
força grande embrulhada.

--Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que,
não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de
rapaz rico...

--Á custa do commendador Garcia...

--Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher
n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica...

--Não é, mas o commendador dispende muito com ella.

--Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha
dissipação...

--Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.

--O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de
receita, tu bem o sabes...

--Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão...

--Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive,
dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do
procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...

--A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o
capitalista...--aventurou João Lazaro.

--Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.

--Hei de averiguar!--tornou o João Lazaro.

--Que interesse tens tu em o saber?

--O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu
semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece
rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e
que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de
posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
amigo e offerece ceias?...

--E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que
ficas conhecendo...

--Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não
tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje,
para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino...

--Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me
lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua
canalhice...

--Nada, nada, menino!--protestou João Lazaro--Quem o inimigo poupa nas
mãos lhe morre...

--Elle, porém, não é teu inimigo...

--Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o
homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos...

--Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como
procederás com aquelles a quem odeias?...

--Queres ver? Olha!

João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.

--Tenho aqui--disse elle--uma relação dos meus inimigos--a quem hei-de
um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que
só estão os nomes dos individuos _premiados_... Vê!

Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos.

--Para que é isto?--perguntou Jorge.

--Para que? São _crédores_ meus a quem tenciono _pagar_ um dia... Ha-de
ser uma _liquidação_ completa!

E fez um gesto de quem aperta um laço.

--Serias capaz d'isso, João?--disse Jorge n'um tom sombrio.

--Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr...
Hei-de dar-te o espectaculo duma _illuminação_ como nunca viste.

--Não darás...

--Porque?

--Porque se a _festa_ se preparar, eu já sei que, para evitar o
espectaculo de uma semelhante _illuminação_, tenho de te procurar e
metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada.

--Tu!

--Eu.

--Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo.

--Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar
sempre prevenido...

João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge.

--Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da
tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...

--E a gracejar confeccionaste esta lista...

--Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de
vingança--aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!...

Jorge sorriu com despreso:

--Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não
tencionas realisar...--disse elle.

--Ao menos sobresalto-lhes as noites...--replicou o João Lazaro.

--Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus
dias... Queres um conselho, João?

--Dize lá?...

--Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes
dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a
leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.

--Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de
mera brincadeira da minha parte!--disse João Lazaro, verdadeiramente
compromettido.

--É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam
d'uma invenção absurda e idiota.

Fez-se um silencio constrangido entre os dois.

--A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de
realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes
figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em
que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil..

Jorge encarou-o.

--Vaes então mudar de campo de acção politica?--perguntou.

--Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me
entendo com semelhante canalha!

--Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a
realisação do teu decantado plano, o que farás?

--Ao dinheiro? Gasto-o.

--E ao plano?

--O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique
e mais elle...

Jorge riu-se.

--É então ainda uma mystificação que projectas?

--Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os
principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei
que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que
é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro
que me derem...

--E se não conseguires que te dêem coisa alguma?

--Terei que pedir emprestado aos adversarios--que, mais avisados, não me
recusarão o que os meus correligionarios me negam...

--Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em
boas relações com o Avioso?

--Foi.

--Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar.

--E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?

--Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do
Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não.

--Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade...

--Dize lá!

--Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar
suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires.
Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo.
Acceitas?

--Está combinado. Acceito.

--Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil...

--Já sei. Quanto?

--Por uma vez só?

--Não. Por mez.

--Diabo! Eu não sou um espião vulgar...

--O que é bom paga-se bem. Quanto?

--Duzentos mil reis será muito?

--Não sou eu que hei-de dizel-o...

--Pois quem?

--Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço...

--Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei
serviço que valerá muito mais.

--Têl-os-has.

--Mas--observou João Lazaro com uma certa hesitação--ha ainda uma
coisa...

--Dize.

--Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso
protelar por mais tempo.

--Bem sei, precisas de um adiantamento...

--É isso.

--Quanto calculas que te seja preciso?

--N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande
auxilio.

--Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem
sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo...

--Comprehendo.

--Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a
maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.

--Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas
reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto?

--Basta.

--Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não
forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso.

--Está bem.

--Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?

--Fallo.

--Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não
transpire por modo algum.

--A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que,
inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.

--É precisamente isso.

--Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem
guardar.

João Lazaro accendeu outro charuto.

--Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto!

Jorge sorriu.

--A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...

--É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não
acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso.

--E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande
desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem
não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro.
A proposito: sempre partes breve para Lisboa?

--Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para
Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.

--Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de
relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?

--Estou resolvido a tratar d'isso.

--Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis,
occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão
representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?

--Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta
como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta
casar-se.

--Sabe? Quem lh'o disse?

--Eu. Tu não me pediste segredo.

--Nem me interessa que ella o não saiba.

--Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores
com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e
chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está
ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as
minhas ordens.

--Eu já sabia isso.

João Lazaro encarou o amigo com espanto.

--Já?!--perguntou.

--Já.

--Como o soubeste?

--Eu sei tudo.

--Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares
espionar.

--Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber
a tua conducta.

--Ah! sim...--fez João Lazaro reflectindo.--Mas esta visita que eu fiz
não tinha caracter politico--e não acho correcto que me espionem e me
sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me
perseguem quando eu conspiro...

--Vamos a saber--disse Jorge.--Tens interesse em que Eugenio de Mello
não realise o casamento com a filha do capitalista?

João Lazaro fez uma carêta.

--Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só
castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia
ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo
que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me
e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada.

--Se Eugenio casar...

--Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o
amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas
relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior
amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...

--E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser
admittido ao logar vago...

--Justo!

--É curiosa essa aventura!

--É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.

--Será, mas entendo que deves proceder com cautela...

--Porque?

--Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel
n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?

--Dize.

--Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me
consultares primeiro. Valeu?

--Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente
precisado de dinheiro...

--Não me esqueço.

O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.

--Adeus--disse elle--Amanhã procuro-te.

--Pois sim. Adeus.

Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle
transpôr a porta da sala, murmurou:

--Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!



XV

Conluio infame


No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da
casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.

--A coisa é esta:--dizia o procurador--com pannos quentes não se faz
nada.

--Ai, já? Você já é da minha opinião?--replicou o Custodio,
triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de
pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha
auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não
deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e
agora é tarde para tomar outro caminho...

--Qual outro caminho?

--O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da
auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido
até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a
crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu
hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a
façam entrar na ordem?

--Mas não é preciso nada d'isso, homem!

--Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja
nada e acha que não é preciso empregar a força?

--Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae
cruel...

--Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de
gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua.
Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!

--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar
muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...

--Mas que força é essa então?

--É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força
das circumstancias?

--Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as
nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim
consegui convencêl-a.

--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho.

--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender.

--Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a
largal-a a ella...

--Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite
quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de
tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a
obriguem a acceitar este casamento...

--Ninguem falla em empregar esses meios violentos...

--Não?

--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o
caso é outro...

--Mas então diga lá.

O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:

--A questão é você querer...

--Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!

--O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...

--Se dá resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Então como é
isso?

--É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...

--Hein! O que? Rapta-se?

--É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas
de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...

--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu não
percebi bem?...

--Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você
com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por
lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais
longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...

--Sim... E depois?

--Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá,
agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o
galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é
tarde--não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...

--O resto... Mas qual resto?

--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o
casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio
senão acceitar por marido o homem que a raptou...

--Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...

--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com
esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que
não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...

--E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?

--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella
desacreditada, só se elle não tiver vergonha.

--Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não...
isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa
o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e
andar fallado nas bôccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D.
Carlota.

--Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma _planta-fórma_ para
obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada,
uma vez que o raptor a receba por mulher?

O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que
ruminando o plano do seu amigo Belchior.

--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso
era um escandalo de seiscentos diabos!

--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que
convinha...

--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio
escandalisado--Então você quer que eu, como pae--porque afinal ella não
tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em
escandalos?

--Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era
escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a
cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que
convinha...

--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio.

--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois
d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem,
senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em
alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora,
não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella
desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da
_praça_ abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?

--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e
estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher,
senão debaixo de certas condições?

--Quaes condições?

--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que
se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a
coberto...

--O Eugenio não é capaz d'isso!--protestou o Belchior.

--Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga
perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle
impuzer... Nada, isso não é bom plano.

--Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não
vejo outro meio...

--Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com
ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao
namoro, isso desse bom resultado.

--Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com
quem se não póde tratar nada a sério...

--O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar--volveu o Custodio
coçando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle
ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que
eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...

--Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você
conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus
interesses como se fossem meus...

--Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se
fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos
fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que
promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...

--Não é outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter
comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado,
cumpre com toda a certeza.

--E se não cumprir?

--Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao
contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir
por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a
justiça...

--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso
velhaco.

--O que lucrava?

--Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres
pela maroteira feita a mim?

--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o
caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?

--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso.

--Então, se comprehende, que mais quer?

--E você compromette-se a fazel-o cumprir?

--Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle
e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo
que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso
salvar as apparencias...

--Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.

--Justissimo! É isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereço-me a
proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que
ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja
encontrado com ella.

--Justo!--disse o Custodio.

--Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que
elle terá de se haver... Está bem assim?

--Está optimo!--apoiou o Custodio radiante.

--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada...

--Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se
faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.



XVI

O rapto


Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz,
que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as
acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada
por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo
prazer.

O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito
cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança
de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez
lhe puzesse a saude em risco.

--Ora a minha desgraça!--clamava elle--Não basta ter tanta coisa que me
afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo
campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!

--Mas se o papá não quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que está doente
e não vamos...

--Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...

--Mas se é um caso de força maior...

--Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem
supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto
custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...

A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam
açodadamente, gritando:

--Então vamos?

--Vamos lá... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena
tambem já está preparada, acho eu...

A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz
n'uma grande alegria:

--Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?

--Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas
coisas que mandei preparar...

--O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que
chega para um regimento!...

--Por demais não perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que são
horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...

Entraram no carro, um _char-á-bancs_ enorme, e seguiram as duas familias
aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.

A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações
de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.

A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.

Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos
caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo,
dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro
pelos dois homens.

O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu
o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para
a cidade.

--Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha,
amigo Custodio?

--A distancia, realmente, não é grande...

--Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres
desce-se bem...

--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de
Belchior.

--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é
muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos
cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...

Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia
para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que
não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.

O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o
assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador,
esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras
familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore
frondosissima, começaram a cabecear com somno.

Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.

Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um
aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.

Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse
possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão
horroroso.

Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas
noites que não apparecia a fallar-lhe.

Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o
deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse
ella, porque elle voltaria com boas novas.

--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o
mancebo intentava.

--Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e
tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu
procedimento.

Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios,
quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não
communicasse, impressionou-a.

E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem
amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais
aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas
intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o
soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe
pelo menos antipathicas.

Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma
grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com
grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um
ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia
que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.

A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio
pela fresca.

--São horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de
Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.

--É verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de braço de
Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava
interessado.

E voltando-se para as senhoras:

--Andem lá adiante...

Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.

As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e
muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns
numeros mais populares de uma revista em voga.

--Ah! que dia tão bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--Não
ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao
campo!

--E a noite está linda!--accudiu a mulher do Belchior--dá mesmo gosto
passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?

--Não desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de
ignoto receio.

O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia,
paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo
argumentos sem tom nem som.

Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que
queriam encontrar-se no momento do assalto.

--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe
estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva
á pequena.

Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram
de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.

Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas
levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois
homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve
resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do
carro, que partiu em carreira desabrida.

--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e
perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir
o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande
afflicção.

Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito
açodados, perguntando:

--O que é? O que aconteceu?

--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram
com ella dentro d'aquelle trem!

E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.

--E ella não gritou?--disse o procurador.

--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a
pobresinha não se tornou a ouvir!

--Talvez a amordaçassem...--aventurou o Belchior.

--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher.

O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos
á cabeça, não fazia senão gritar:

--Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a
minha filha!

--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de
noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia
e apresentemos-lhe a queixa...

--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio.

--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?

-- Sim... foi elle...

--Está visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella não
queria... raptou-a!

E em tom mais baixo:

--Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente,
que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja
outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.

--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto
não é coisa que se faça a um pae!

--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a
maior consternação.--Ainda não estou em mim!

--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo nós nos
mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a
mim!

--Á senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso
escarninho.

--E então?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira,
e elles eram dois...

--Ahi está a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram só
uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que
lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com
o regedor para perseguir os fugitivos!

Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao
largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois
das nove horas da noite.

Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e
contaram-lhe o succedido.

--E para onde fôram elles?--perguntou o funccionario.

--Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e
afinal perdemol-os de vista...

--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?

--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer,
deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no
Porto e que se chama Eugenio de Mello.

--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr
se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração.
Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.

E preparando-se para tomar nota n'um papel:

--Os seus nomes, fazem favor?

O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e
cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.

--Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse
o regedor--a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr.
administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias
precisas...

--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha
roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio.

--E demais a mais, menor!--declamou o procurador--É crime de casamento
ou penitenciaria!

--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor.

--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando á cidade, vamos
direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...

--Está visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os
fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos,
póde muito bem fazel-os capturar...

--O que vale é que nós conhecemos o raptor...

--Sim, isso é meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem
photographias, ainda melhor...

--A verdadeira photographia é o nome--accudiu o procurador--Elle é
conhecido.

--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas
não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr.
administrador dará as ordens.

Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de
empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu
sahir.

--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior já na rua.

Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.

--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na
policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...

--Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!

--E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro
remedio senão casar com o Eugenio...

--Sim... isso é verdade.

--Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os
jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos
convinha...

--Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque
já hoje não vão á policia...

--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar
arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de
casar, quer queira, quer não!

Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi
feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia
dos dois mascarados que a raptaram.

Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz
quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e
atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a
commoção que soffreu, que perdeu os sentidos.

Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos
mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada
de ternura, pegando-lhe na mão:

--Beatriz!

Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.

--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e
delicada.

O mesmo silencio e a mesma immobilidade.

Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto,
poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a
filha do Custodio não respirava.

--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido.

--É natural--replicou o companheiro.--Compleição franzina e delicada,
assustou-se e desmaiou.

--E agora?--perguntou o que primeiro fallara.

--Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae
em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.

E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e
afflicto:

--Não te assustes--tranquillisou.--Isso passa. É um ligeiro deliquio,
que até nos favorece o bom exito da empreza.

--Parece-me que não somos seguidos.--tornou o outro, inquieto.

--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e
tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos
foram os proprios que nos auxiliaram?...

--É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras
adiante...

--Já esperavam o lance, os patifes!

--Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem
que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam
assignalado...

--Era para Villar do Paraiso, pois não era?

--Era.

O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do
taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.

--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos.

--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.

Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que
alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até
que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um
largo portão de ferro.

--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores.

E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo,
seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de
uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos
campos que a circumdavam.

Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz,
ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.

Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um
reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez
aspirar a Beatriz um frasco de saes.

Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e
retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em
Beatriz, sem preferir palavra.

Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e
circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.

--Paulo! És tu?--disse ella.

--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe
na mão e beijou-lh'a com transporte.

--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que é
isto? Como me encontro eu aqui?

--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de
um enorme perigo...

--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu
Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.--Mas
como pudeste tu saber?

--Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o
procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te
estava armada e em que te queriam fazer cahir...

--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada.

--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da
desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os
raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.

--Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram
dentro do carro...

--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que
foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se
realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a
esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr,
estás ao lado do escolhido do teu coração!...

Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto
d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.

--E esta senhora--disse ella--quem é?

Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á
pergunta:

--É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha
filha.

--É minha mãe!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á
religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.

Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:

--Este louco--disse ella--teima em querer impôr-me um titulo que me não
pertence e a que de forma alguma tenho direito...

--Não diga isso, minha mãe!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na
infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem
tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de
uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar
junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?

--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida.

--Meu filho! vês?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz
que não é minha mãe e chama-me seu filho!

Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:

--«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para
comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no
meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á
funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...

--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja não a
conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem
a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão
pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e
soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por
ella indifferença.

--Paulo, não digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me
mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre
incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos
paes?

--Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem
os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas
as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como
quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de
respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me
abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração,
minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida
que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo
tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a
protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois,
minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a
estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus
paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me
abandonaram?

E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta
scena:

--Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da
crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento
te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o
mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens
fallado com tão viva saudade?

Beatriz corou e disse:

--Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao
mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel
compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem
uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce
affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e
bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me
dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora,
nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia...
inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem
que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos,
gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um
escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse
mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar
que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para
meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não
buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava
no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal,
este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade
de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia
n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus
a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao
receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque
é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e
o meu coração ficava frio e indifferente.

Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de
sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.

--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de não
sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não
sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...

--Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu
genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu
não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E
ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua
velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por
elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os
sentimentos do meu coração.

E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.

--E todavia--observou Paulo--esse homem não tem o minimo direito á
obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de
consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o
homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um
pae!

--Paulo! Paulo... então!--supplicou Beatriz.

Madre Paula interveio:

--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas
a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as
proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.

E dirigindo-se a Beatriz:

--Minha menina--accrescentou--agradeça ao céo o havel-a protegido e
amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem
praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se
liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do
seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui
se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder
livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao
escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia
segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?

--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente
agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!

--Paulo virá vêl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na
minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e
correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois,
que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e
ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a
honra e a reputação dos meus queridos filhos.

Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil
abbadessa.

Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal,
disse para Beatriz, levantando-a nos braços:

--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve
refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.

E dirigindo-se a Paulo:

--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a
estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.



XVII

Quem semeia ventos...


O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao
commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de
Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.

O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos
declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.

A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio,
esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos
acontecimentos.

--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu á medida
dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a
fazer-se...

--Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da
quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem
em bôa occasião.

--Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao
fundo...

Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.

Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um
bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o
procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para,
saber que novidade tinha havido.

--É bôa!--disse o procurador á mulher--Este maluco rapta a rapariga e
quer que eu lhe diga a novidade que houve!

--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete?

--Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o
por algum portador de confiança, depois do rapto.

--Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...

--É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella
para Villar do Paraiso como haviamos combinado?

--Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...

--Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta
e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido...
Nada, aqui houve tolice do rapaz...

Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o
Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que
levava o negocio do casamento a bom caminho.

No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio
entrou:

--Então?--disse-lhe o procurador.--Você já aqui, em vez de estar a
convencer a pequena!

--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender.

--Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?

--O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...

--Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a
Beatriz?

--Eu?!

--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!

--Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...

--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava
gracejando.--Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas
brincadeiras!

--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me
um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia
effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois
d'isto, fosse raptar a pequena?

--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Você,
quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!

E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira
grossa:

--Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar...
Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se
deixe enganar!

O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio
zombeteiro, meio ameaçador:

--Você está doido, amigo Belchior?

--Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É
preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de
cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!

--O que quer você dizer com isso, Belchior?

--Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei,
com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos
combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o
Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a
chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De
você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde
cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere
mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer
fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o
compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso
muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você
lhe pareça o contrario!...

O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio
comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.

--Homem, não se zangue e fallemos sério--disse elle, procurando serenar
o Belchior.--Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a
dizer...

--Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o
fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que
o aventureiro o queria enganar.--É preciso que se lembre de que eu
estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á
pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não
se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o
contrario, que eu não o acredito.

--Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!--protestou Eugenio,
verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.

--Não foi! Então quem foi?

--Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não
entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a
dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...

--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?

--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde,
conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem,
que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha
a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o
passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe
explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:--«Onde está o sr.
Belchior?»--«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não
regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria
você que eu fosse raptar a pequena?

O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.

Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos
de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do
bohemio.

--Sim... tudo isso está muito bem--disse elle.-- Mas o peor é que a
rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada
viram, e ninguem podia ter sido senão você...

--Mas você não está gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez
o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada?

--Essa agora! Então não sabe que o foi?

--Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você
indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...

--Dos prejuizos... Que prejuizos?

O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:

--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois,
entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me
arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união
mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a
soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...

--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Então já o
ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e
negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu
não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe
dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E
de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli,
e o preto no branco falla como gente!

E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.

--É verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no
branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente
que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!

--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o
procurador n'um gesto de ameaça.

--Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu
malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.

--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se lá fóra!
ponha-se lá fóra!

O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido
de medo, foi recuando até á parede.

Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa
sobre o hombro, disse:

--Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu
não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe
digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar
a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha
empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso
perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe
mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os
tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena.
Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque
não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não
sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!

O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se
apressado a casa de Custodio.

Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face
de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae
de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos
haviam combinado dar-lhe.

--É incrivel--murmurava elle--a desfaçatez com que aquelle maroto nega
uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o
que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise...
Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!

Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no
momento mesmo em que este se preparava para sahir.

--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota.

--Sim? Então o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera
tempo de serenar e recobrar o sangue frio.

--Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos
de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que
fizemos hontem ao regedor e á policia...

--Pois está claro que sim!--tornou o procurador--Agora é carregar-lhe
com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo
que elle não possa negar ainda que queira...

--Você julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto.

--Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o
diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso
que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.

--Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio
desconfiado.

--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de
duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava
por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar.
Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...

--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga você como quer que puxe...

O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda
nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado
com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame
negocio.

--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vêr se faz jus a mais
dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está
enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder
tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!

E voltando-se para o Custodio de Jesus:

--É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci,
porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha
mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de
dizer comnosco... não nos póde contradizer...

--Ágora contradigo! N'essa não caio eu...

--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou
casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...

--Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o
Custodio de cada vez mais apprehensivo.

--A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro
morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...

--Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.

Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram
para Villa Nova.



XVIII

Revelação


O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos
ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras
e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro
da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o
estranho legado.

Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas
vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame
do mysterioso manuscripto.

A confissão da velha, porém, impressionara-o.

Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera
madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo.
O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe
revelára nos ultimos momentos.

Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o
padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção
que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo.
Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o
abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a
differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães
no coração do padre Anselmo.

Todavia, madre Paula suppunha a _Irmã Dorothêa_ vivendo em paiz
estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado
ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a
principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo,
deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais
não quizeram saber?

Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu,
reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez
viesse fazer luz em tão escuro labyrinto.

Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela
conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre
Paula, na casa das Sereias.

--Sabes, minha amiga--disse o padre Filippe, entrando na cella da
abbadessa--que tive noticias do padre Anselmo?

--Sim?--perguntou madre Paula com curiosidade.

--É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para
mim e creio que tambem para ti...

--Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É
ainda vivo?

--Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não
soube dizer-me se elle ainda vivia.

--Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?

--Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...

--Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes
procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.

--Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de
confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer
revelações importantes.

Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de
que ella o fizera depositario.

--E o manuscripto o que diz?

--O manuscripto--replicou o padre--é uma sentida e commovente narrativa
feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu
nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova
ainda, a ligaram ao padre Anselmo...

--É singular!

--Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o
filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo
arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua
educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do
nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões
do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de
Jesus...

--Custodio de Jesus!--repetiu madre Paula, sobresaltada.

--Sim, Custodio de Jesus--tornou o padre Filippe--Porque te sobresalta
esse nome?

--É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a
namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira
primitivamente em Braga.

--É extraordinario!--exclamou o padre Pilippe--Dar-se-ha caso que
Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?

--Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja...
irmã de Paulo.

--Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor
suspeita do que se trata.

Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.

--Chamava-se D. Carlota--disse--a mãe do padre Hilario?

--Chamava.

--É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no
manuscripto que te veio ás mãos?

--É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o
padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes
passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia
para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica
aspiração.

--De modo que--tornou ainda madre Paula--se Beatriz é filha de D.
Carlota...

--Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento
d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do
impedimento dirimente.

--E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?

--Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos
os outros meios ao nosso alcance.

--Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual
vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima
arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão
fundas raizes.

--Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de
suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a
vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho
extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente,
devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde
muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos,
se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.

--Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.

--O que não convem--recommendou o padre Filipe--é que Paulo tenha
conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter
do mais intimo segredo...

--Descança, meu amigo. Paulo nada saberá.

N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias
do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era
Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu
estado, e como se chamava a mãe de Beatriz.

--Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel--disse
madre Paula.

--Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma
alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da
vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr...

--Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...

--Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui
tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é
lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas
igrejas...

--Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha
muito tempo.

--Sim, minha senhora.

--Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama
Beatriz, tem o nome de D. Carlota...

--Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...

Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.

--Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!--disse lépida a
cuscuvilheira.

--Então, o que soube?

--O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto
ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre _hybotécas_ e pelos modos leva
coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro...

--E a familia?

--A familia é só elle e mais a filha e mais a creada--uma _focinho de
cão_ que primeiro que se lhe _arrinque_ uma palavra do bucho é um dia de
juizo!

--E a mulher? Elle não é casado?

--Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava
em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda
chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e
fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...

--E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?

--Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...

--Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.^a D.
Anna?...

--É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito...
E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não
a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar
carregada de peccados!

--Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da
segunda mulher do Custodio de Jesus?

--Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella
santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que
estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque
quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu
_préscurador_ chamado o _snr. Mélchior_, que é lá todo da casa do
Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas
coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque
agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do
namorico--Credo! Santo nome de Jesus!--que a pequena traz com um
estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com
oitro, que diz que é pôdre de rico.

--Está bem!--disse madre Paula.

--Veja lá a senhora as _desgracias_ que vão por esse mundo, tudo causado
pela falta de religião e temor de Deus!...

--Está bem!--repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.--Vá na
graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este
serviço...

Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:

--Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da
D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo
matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que
o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes...

O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:

--As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude
obter...

--Ah! tambem indagaste?

--Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar...

--Qual é?

--É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo
padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo
menos uma idade que regula por esse tempo...

--D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?

--Morreu.

--Como o sabes?

--Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.

--De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho?

--Não.

--E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem
foi sua mãe?

--Decerto.

--Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!--disse ainda
horrorisada a bella abbadessa.

--O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos
outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso
e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á
sua desmedida ambição...

--Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?

--Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua
carreira de crimes...

--Não terias meio de indagar se ella ainda vive?

--Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como
poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada.
Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos
sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como
se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos
que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o
ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer
ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos
que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a
pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que
Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se
livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e
que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre.

O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade,
sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre
Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de
alegria.

--Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre
coração!--disse ella commovida.

--Esse Custodio de Jesus--continuou o padre Filippe retomando a sua
attitude grave--é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um
casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este
proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que
vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças.

--Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu
consentimento...

--Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos
amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um
homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo
que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez
mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...

Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz
de Paulo:

--Dá licença, minha mãe?

--Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!--exclamou a abbadessa correndo ao
seu encontro.

O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe
dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria:

--Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de
os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!

--Tu dirás, meu amigo, o que desejas--disse, bondoso, o padre Filippe--e
se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr
de nós...

Paulo principiou dizendo:

--O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de
que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha
felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu
filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no
coração logar para outro affecto igual...

--Falla, falla, meu Paulo!--animou com doçura a bondosa abbadessa.

--O caso é este--continuou o mancebo--Beatriz, de quem lhes tenho
fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a
cumplicidade de seu proprio pae!

--O que! O que dizes tu, meu filho?--interrogou madre Paula.

--A verdade, minha mãe!

O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o
com attenção.

--Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel
para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior
censura, quando se não tem a certeza do que se affirma...

--Mas eu tenho a certeza!--protestou Paulo--E porque a tenho é que venho
pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.

--Falla!--disse o padre Filippe.

O mancebo prosegniu:

--Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente
envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal
Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu,
de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem
sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria
filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que
se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide
recebel-a por esposa.

--Isso é impossivel, Paulo!--bradou madre Paula, indignada--Não ha um
pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força
victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja
vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas
a acceitar invenções de tal ordem!

--Não, minha mãe!--volveu Paulo--O que lhe digo é absolutamente certo e
vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de
Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura
foi quem o declarou diante de mim.

--É o que eu digo! gracejo de rapazes.

--Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes
circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto
está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo
que as duas familias--a do Belchior e a de Beatriz--teem preparado.

--E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?

--Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.

--O que tencionas então fazer?--perguntou o padre Filippe.

--Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha
n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle
preparadas, para lh'a raptar eu.

--Tu?!

--E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher,
heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira
impossivel de transpor--a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e
tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae
passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu
logar. Falta-me apenas uma coisa.

--O que é?--interrogou madre Paula.

--A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de
Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita,
antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.

O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.

Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem
devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no
pensamento dos dois:

--«Não parece filho do padre Anselmo!»

--Desejas então...?--interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.

--Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne
receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella
seja forçada a conservar-se occulta...

--Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito
grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa
casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por
qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais,
não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção?

--É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não
duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja
deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a...

O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto
silencio, resolveu-se afinal a intervir.

--Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem--disse elle. Paulo
deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto
justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva,
porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a
julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula
deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira
caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é
o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se
a trouxer para aqui...

--É justamente esse o inconveniente que já apontei--interrompeu a
abbadessa.

O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:

--Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse
inconveniente...

--Qual?

--Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi,
madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e
conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de
Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre
Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e
resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam
legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha
amiga?--concluiu interrogando a abbadessa.

--As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis
indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.

Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe.

--Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos
olhos.

--Vamos, vamos!--replicou o padre Filippe commovido, procurando
furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz--Trata de
procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe
adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados--concluiu--Sou um
pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso
dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está
á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.

--Oh, meu pae!

--Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que
certamente esta habituada...

--Eu tenho amigos, meu pae!--affirmou Jorge.

--Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o
direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem
os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres.
Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.

--Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na
aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem
mais familia e onde nada falta.

--Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves
acceitar.

--Já acceitei, meu pae!

O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu
com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do
aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior,
por maneira tão original como inesperada.

Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce
convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e
os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se
empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu
verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e
interessantes episodios se estão dando.



XIX

Um velho amigo


Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a
casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova
propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que
se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.

Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de
Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e
poesias, como estava combinado muito tempo antes.

O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou
como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a
_glorificação_, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual
tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias
affectuosas.

No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva
em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem
servir n'um banquete de cerimonia.

O caso, porém, não era esse.

Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os
risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de
tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr.

Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza,
o lucto eterno do seu coração.

Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em
que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus
desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.

Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não
se offenderam.

--É um excentrico--dizia o juiz--Não ha que vêr, é um excentrico...

--É um paranoico com a tendencia romantica!--affirmava o
medico.--Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã.
E talvez esteja ahi a sua salvação.

--Não é nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem é um
de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro
atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis.
O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande
tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.

Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias
ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de
amigos.

Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma
taciturnidade de espirito aterradora.

Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez
fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em
recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa
entrevista.

Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua
disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado
agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a
monologar as suas recordações e os seus desgostos.

Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a
estrada.

Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de
Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos
felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido
para as suas meditações ao ar livre.

De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de
Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.

Viu um pobre mendigo, um _ermitão_, de longas barbas brancas, vestindo
um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito,
pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a
imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.

--O que deseja?--interrogou Julio.

--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o
pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.

Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou
estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.

Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua
vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma
pergunta.

--Você é d'estes sitios?

--Não, meu senhor... Eu sou de Braga.

--De Braga?!

--Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...

--Vem então de muito longe?

--Venho, meu senhor!

--Espere ahi.

Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.

--Entre!--disse elle.

O pobre entrou.

--Você é de Braga?--tornou a perguntar Julio.

--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre.

--Ha que tempo sahiu da sua terra?

--Ha muitos annos, meu senhor...

--Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado _Tomba_?

--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo...
E eu _támem_ era muito amigo d'elle!

--Ah! você então era amigo do _Tomba_?

--Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle
eramos como a unha e a carne...

--E o que foi feito d'elle? Não sabe?

--Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...

Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.

--Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou
Julio a meia voz.

O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como
se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:

--Ora espera! Vossa _incellencia_ é o sr. Julinho de Montarroyo, pois
não é?

--Sou.

--Cá me queria a mim parecer!

E batendo na testa desesperado:

--Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão
a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoará, mas eu estava
agora bem longe de o _topar_ aqui! Antão _cumpassou_?--perguntou o
_Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ está féro! Está
que é uma bisarria!

--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho!

--Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que,
graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda
as pernas me levam p'r'a onde eu quero.

Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia
talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer
minuciosamente, conduziu o _Tomba_ através do jardim, até ao interior da
habitação.

--Venha cá, _Tomba_, venha cá, homem, que temos que fallar...

--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre
de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve
inté_ aqui, por sua infinita _mesericordia_!

Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e
disse-lhe:

--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer...

--Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...

--Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.

Julio ordenou que dessem de almoçar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume,
honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.

Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado
aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da
casa.

--Já matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem
vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fôr preciso!

--Conte-me cá, mestre _Tomba_, o que é feito de você? O que foi feito de
D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de
Noronha?

--Pois vossa _incellencia_ não sabe?--disse o sapateiro admirado.

--Nada! Não sei nada.

--Pois já tudo isso lá vae!

--Tudo?

--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Inté_ é de _inorar_ o sr. Julinho não saber
as _desgracias_ todas que se déram logo assim que o sr. Julinho
_arretirou_ p'ra Braga.

--Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do
Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.

--Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e
não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! lá
deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--lá teceu
taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido
falsa com o sr. Julinho...

--Comigo!--exclamou Julio admirado.

--Pois _antão_ não sabia?

--Eu não sabia de nada...

--Bem digo eu! _Antão_ já vejo que não sabe nem da missa a metade!...
Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto nós estavamos no Porto a ver
se lhe deitavamos a luva, _vêo_ a Braga dizer ó _Custoido_ que a sr.^a
D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo...
E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe
desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras,
_assubiu-lhe_ a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra
casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...

--Isso é extraordinario!--disse Julio.

--E lá em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como
o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi
verdade, porque quem se _cia alhos come_...

--Mestre _Tomba_, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você
está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!

--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou
n'aquelle tempo...

--E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os
calumniadores?

--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que
vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos
diabos tinham-me a jejum de pão e _auga_, que eu cuidei que não tornava
mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam
mais para os queixos do _Tomba_!

E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento
do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira
escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira
que o guardava quasi á vista.

--Eu só queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi
uma trépa co'as correias, que _inté_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio
da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a
saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr.
Alvarinho--Deus lhe perdôe!--lá tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle...
Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o
enterrei!

--Ah! você foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre?

--Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr.
Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da
sr.^a D. Carlota--Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra
nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_
estava lá mettida com vossa _incellencia_...

--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais
espantado.

--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se
_acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lêr a carta e _escorda-me_ como se
fosse hoje tudo quanto ella dezia...

--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo
convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta,
pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!

--Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe
queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes,
começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e
esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão
n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá
e aquelle ladrão do _Perneta_ e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe
tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada!
Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me
passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _atão_ é que
eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do _Perneta_ que
deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...»
Fui-me á Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas
como foram e como não foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas
não confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, não teve mão em
si, começou a _entoar_ e _dixe_ tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o
levou seicentos diabos!

Julio ouvia espantado estas revelações do _Tomba_.

--Mas como é--disse elle--que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas
a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de
Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o
padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?

--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?

--Diga lá, mestre.

--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota não escreveu
carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou
escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz!
Vossa _incellencia_ não se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes
que o patife do padre _Inxelmo inté_ uma vez escreveu uma carta muito
bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer ó pae d'ella que
estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de
contas vae-se a vêr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_!

Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras
do _Tomba_ é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma
infame mystificação.

--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois
que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta
escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?

--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver
verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso _támem_ era capaz
de fazer a outra...

Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava
recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o
solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára
aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo
o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e
suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao
mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?

Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a
procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a
deixara.

--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo?
Tornou a ter noticias d'elle?

--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a
pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se
como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!

--Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?

--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras
a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em
nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o
patife do padre... Vae _óspois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em
Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi
o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou
a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras
e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava
_escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle
ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que
ninguem soube mais d'elle!

Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e
procurava o fio mysterioso que devia explical-os.

--É singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu?

--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _bô casorio_... Foi co'uma
brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha
um _rôr_ de annos e que _vêo_ de lá rica que não sabia o que tinha de
seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella
p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_
a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!

--De modo que--tornou Julio--você, mestre, não voltou mais a saber de
Helena de Noronha?

--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr.
Julinho _támem_ não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a
minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem
dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a
oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da
_farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do
diabo, que _inté_ co'a tripeça me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me
tornar a estabelecer, eu já não tinha _farramenta_ nem freguezia...
estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _inté_ Villaverde, á tia do sr.
Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dôr de mim e deu-me
uma libra d'esmola!

--E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a
Helena de Noronha?

--Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta
de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo
Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual
como o meu compadre _Longuinhos_ que _támem_ se arranjou muito bem
co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de
Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho
tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...

--Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma
incumbencia que eu desejo fazer-lhe?

--Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa _incellencia_ que lhe eu não faça?!

--Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou
no _Sardão_, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre
Paula...

--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este
nome.--Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o
_Sardão_ que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na
freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer
tijolo!

--Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de
perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o
pessoas que nunca lhe fallaram?...

--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas não levo o santo, porque se a
policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no
_Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos
ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...

--Pois não leve o santo...

--Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o
não estraguem, que é o meu ganha-pão...

--Vá descançado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem
cá lhe bulirá n'elle...

--_Atão_ quando quer o sr. Julinho que eu vá?

--O mais depressa que possa...

--Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o
que quer que lhe diga?

--Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.

--E se lá não estiver?

--Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.

--Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o
_Tomba_ radiante.

E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.



XX

Alma negra


Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia,
apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas
mãos de João Lazaro.

O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito
desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava á
endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição
insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de
histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns
accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do
encarquilhado protector.

Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico,
consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse _sangue alvoroçado_,
que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo,
porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem
posse do corpo é que custam mais a debellar.

Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella
não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por
algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a
fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o
com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar
com aquella vida que não podia continuar assim.

--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te
alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha
filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os
teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu
sem ti não podia viver...

E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente,
a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a
sua vida, senão a de ser commendador.

A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de
luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era
o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a
inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado
quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe
batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:

--Ah! maganão, você é que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ está de cada
vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer
desfazer, endosse-me a letra...

Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada
dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia
prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que
mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com
outro.

Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella
mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais
dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao
amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais
depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e
extraordinaria mulher.

E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e
constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices
que nenhuma outra saberia fazer-lhe.

Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a
negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido
amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente
do infeliz commendador.

E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do _seu peccado_!

Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a.
Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do
medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.

N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a
suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava
doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.

A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir,
deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe
fallar em medicos.

Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe
prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.

Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com
impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.

Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no
tapete, pôz se a mordiscar as unhas.

--O João Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me
revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me
dizer?

Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de
Eugenio?

N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e
appareceu a figura de João Lazaro.

Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em
que vinha embuçado.

--Tardei, não é verdade?--disse elle.

--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se
para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio?

--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o
auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...

--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que
era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não
tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.

João Lazaro sorriu.

--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem
todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a
cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que
arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é
concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu.
N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não
poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se
homisiar...

--Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o
que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que
partiu...

--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.

--Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...

--E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...

--O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura
irritada.

--Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas
como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime
de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber
que elle diligenciava casar-se com Beatriz...

--A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte
de Eugenio...

--Porque?

--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse
enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um
pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a
necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão
açodado em perseguição do raptor da filha.

João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.

--É bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica. É pena que o raciocinio
esteja muito longe da verdade...

--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com
impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o
que hei-de pensar!

--Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que
venho fazer.

Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com
abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o
dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o
accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos
n'elle:

--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o
casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e
isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio
a conhecer que eu a informára da verdade.

--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou
Leonor.

--Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias,
porque eu ainda não me esqueci...

E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:

--Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque
tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém,
influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de
agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha
a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe
disseram as suas informações?

--É.

--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se
recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si
jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia
nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o
recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance
era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto
que se effectuou como se havia projectado...

--Por Eugenio?

--Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se
combinou comigo.

--Mas é isso o que Eugenio nega...

--Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que
não admitte duvidas.

--Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o
que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais
depressa realisaria o casamento?

--É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A
rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue
mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as
dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas
enormes á conta d'este casamento...

--Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a
Eugenio?...

--Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos
de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario
do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de
terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem
dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os
charutos...

--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto.

--Minha querida amiga--tornou João Lazaro com modo affavel--não é isto
desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio
lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil
desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis
nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo
esse dinheiro...

--Tanto, não...

--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que
devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia
combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida
e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do
rapto...

--Mas para quê! meu Deus! para quê?--exclamou a loura de cada vez mais
aturdida.

--Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a
augmentar o dote da filha...

--Mas isso é uma infamia!

--Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a
senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil
raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o
dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais
mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...

--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?--interrogou Leonor
com os olhos chammejantes de colera.

--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado
em confidencia pelo proprio Belchior.

--Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão
ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde
elle se encontra...

--Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e
está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende
ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao
pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o
reembolsar logo depois do casamento.

--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada.

--Verdade, verdade--observou João Lazaro, rindo--a partida foi bem
pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura
e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada,
emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu
natural desenlance na egreja da freguezia.

--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes
d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame
perfidia!

--O que quer fazer?--perguntou João Lazaro fleugmaticamente.

--O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.

--E depois?

--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.

João Lazaro soltou uma gargalhada.

--A escolha está feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem
duvidas?

Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.

--Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?--perguntou.

--Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em
casar?

--Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...

--E casa-se com ella por amor.

--Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o
casamento...

--Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje
o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da
formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo,
pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle
impuzer.

Leonor bateu o pé furiosa.

--O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á
gente!--disse ella.

--Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa
é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu
conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto
de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.

Houve uns momentos de silencio.

--Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa
rapariga?--perguntou por fim.

--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em
expedientes para se esquivar á perseguição da policia...

--Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?

--Que juizo fórma de mim?--perguntou João Lazaro encarando-a com
desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero,
julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?

--Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor
indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo...

--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa,
senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade
de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...

--Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente
prevenida...

--Elle ainda não casou...

--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe
mil protestos, mil juras de amor!

--Tudo isso, porém, não é casar--tornou João Lazaro com placidez.

--Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!--gritou Leonor n'um
despedaçamento do coração.

--Bem! E o que quer a senhora?

Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de
colera:

--Pois ainda não comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me!

--Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de
Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um
momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que
ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de
vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de
desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...

--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro,
que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar--Essa não é a vingança
que me satisfaz, a vingança que eu sonho!

João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:

--Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?

A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em
cheio uma bofetada na face.

--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula
de colera.

--Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um
insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se
encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia
á vingança ruidosa contra Eugenio...

--Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á _qualidade_
da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de
tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!

--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos
seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de
uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas
palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio
de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como
poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o
casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do
commendador Garcia?

--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir
quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?

--Punir, disse?

--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria
mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou
com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se
Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de
outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo
cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu,
ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras
da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não!
Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o
por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que
se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto
de ficar viuva...

João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e
calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de
uma ameaça realisavel.

--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de
excitação nada podemos fazer...

--Mas se eu já não quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero
unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...

--Venha cá, Leonor!--exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e
obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e
conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por
coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe
desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?

--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um
estremecimento nervoso.

--Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?

--A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!

--Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves
responsabilidades perante a justiça--ponderou João Lazaro.

--E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me
ludibriou, porque me trahiu!»

--A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo
o rigor da lei...

--Embora! Mas eu ficarei vingada.

--Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua
sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras
criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão
avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e
aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz
supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua
partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros
condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e
ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o
miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e
nos affectos do seu coração?

--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a
rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á
mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me
humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a
prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo
e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!

--Mas, minha amiga--tornou João Lazaro com a voz mais doce e
persuasiva--não é isso tambem o que lhe estou dizendo...

--O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça
em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!

--Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma
publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem
por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e é punida
rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem
provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem,
chama-se _desastre_, _doença_, _fatalidade_, e a justiça não tem alçada
para a punir.

--Não entendo!--disse Leonor.

--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de
modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria
assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á
justiça?

--De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no
peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o
_amor que mata_.

--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança
que deseja?

--Como poderia eu recompensal-o?

--Amar-me-hia?

--O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material
cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz
amar-me comprehende assim o amôr?

--Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está
dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada,
pertencer-me-hia?

--Em espirito, não. Materialmente, sim.

--É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados
que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o
corpo...

--Imponho uma condição, porém--objectou Leonor.

--Diga.

--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro
permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a
minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem
quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia
ás minhas complacentes attenções...

--Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de
chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.

--É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o
senhor onde está Eugenio?

--Talvez...

--Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um
assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha
tranquillidade...

--Diga antes--de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...

--Seja! Onde está Eugenio?

--N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero
bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...

--Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?

--Nunca é tarde para a vingança.

--Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar
vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!

--Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a
pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.

--Como o sabe?

--Disse-m'o elle.

--Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...



XXI

Tal vida, tal fim


Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio
iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a
fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.

No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o
aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave,
traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar
as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e
de que tudo lá dentro estava em silencio.

Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução,
encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas,
voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo
afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar
d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros,
na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando
com rancôr profundo:

--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima,
roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a
trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então
quanto custa ludibriar uma mulher como eu!

E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em
desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.

Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre
escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme
excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da
aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições
transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel.
Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os
affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a
tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança
seria terrivel!

Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.

Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer
as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os
arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.

Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto
de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.

Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:

--Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e
recommendou que a não acordassem.

--Essa ordem não pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do
modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.

--Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me
esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.

Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho
atrevimento, a que não estava habituado.

--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se
tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?

--O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo
na mesma.

--Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra.
Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a
precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?

--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta
inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não
póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se
embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim
como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi
dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz
muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!

--Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta
da rua e se fechou no quarto, por dentro?

--Olhe, senhor, eu não sei!--rematou a velha.--Ella não me dá contas nem
_estifações_ do que manda fazer... Ella é que dá as _ordes_, é a
senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.

O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e
aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:

--Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?

--Quem ha de estar? Está a senhora...

--Só?

--Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. _encommendador_,
não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais
ninguem....

--Parece-lhe? Não tem a certeza...

--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á
hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi
embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Então ella, coitadinha,
que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam
aqui estas rodilhices...

--Rodilhices de quem?

--Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu
respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera!
Outra qualquer faria o mesmo.

Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra
noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes
diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso
tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.

--Leonor tem-se então affligido muito?--perguntou elle.

--Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda
ruim que não ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho
de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é
uma coisa por demais!

O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio
comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a
gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.

--É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse
elle--principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de
pêtas.

--São pêtas, são pêtas--retorquiu a velha com um sorriso de
incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá
ella deitar a mão...

E depois n'um tom de reprehensão amigavel:

--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a
senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as
outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha!
Quem se fia n'elles está perdida.

--Pois você tambem acredita, Marianna?

--Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito
e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando
alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.

--O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?

--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade...
O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que
ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra
amor de quem agora andam estas _questães_...

E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de
prudencia:

--P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é
capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver
mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes
co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é
uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não
lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei...
E dinheiro _támem_ não lhe havia de faltar, que se não fosse o
_encommendadôr_, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella
querer.

--Está bem, Marianna, acabe com o sermão!--ordenou o bohemio, de mau
humor.--Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.

E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.

Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura
appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.

Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um
amplexo carinhoso.

A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:

--Tu por cá! Que novidade é essa?

--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio
com artificial commoção.

Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando
a Eugenio que a imitasse.

--O que é então que desejas?--perguntou.

--A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente--principiou
dizendo o bohemio--de modo que não só me é impossivel continuar a viver
no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...

--E d'ahi?

--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o
pensamento de te deixar...

A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.

--Faço ideia!--disse ella friamente.

O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante,
proseguiu:

--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes
não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para
que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti!
Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim
provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia
que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o
custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!

--Foi talvez feitiçaria que te fizeram!--disse a amante com um
aggressivo sorriso de sarcasmo.

O bohemio encarou-a espantado.

--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?--lamuriou
elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.

--Eu? Que lembrança!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso lá
escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que
affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por
força a mulher que por bem não quiz amal-o?!

Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e
de odio mal reprimido.

Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume,
e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece
querido:

--Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido
sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que
não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na
injustiça que me fazes...

--Injustiça?!

--Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a
gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo,
que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da
partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura
escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho!

Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez
mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro,
continuou:

--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha.
Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de
um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua
honra e do seu bom nome...

--Como é então que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um
olhar que o gelou.

--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio,
desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as
invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira
como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E
eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem
o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a
esta hora sabedor das nossas relações?

--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de
salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me
illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de
calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua
causa, não lh'o consinto!

--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem
feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!

E encolhendo os hombros com desprezo.

--Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de
direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe
tirou.

Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o
capote.

Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o
effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.

--Adeus!--disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.

Leonor avançou para elle:

--Foi para isso que o senhor cá veio?--rugiu indignada--Foi unicamente
para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem
sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça
lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo
para essas distracções...

O bohemio retrocedeu.

--Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não
viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é
sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam
e atraiçôam os que dizem que amam...

--O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça
favor!

--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso
unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o
coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim
importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o
prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas
para as horas negras da desgraça.

Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o
para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.

--Venha cá!--disse ella.--A accusação que o senhor acaba de fazer é mais
uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?

--Vinha despedir-me da mulher que amava e...

--E...?

--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas
isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...

--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio
cá? Vamos! explique-se! O que desejava?

O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os
conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto,
sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.

--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?

--Talvez se engane... talvez ainda não acabasse _tudo_ como o senhor
suppõe...

Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor,
tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.

--Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de
affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me
lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?--bradou
elle.

--O que desejas de mim? Dize!

--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro,
está tudo na tua mão!

--Como? O que posso eu fazer?

--Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na
cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha
e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não
posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer,
emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome...
Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me
recusam...

Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da
perfidia do amante.

João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração,
arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.

Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura
sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da
vingança.

--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--Não é isso o que
precisas?

--Sim, é isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente
sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita--Quinhentos mil reis é quanto
eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...

Leonor sorriu e disse:

--E se eu fosse comtigo?

O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.

--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid?

--E porque não?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.

Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura
ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia
para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr
das suas joias e pouco mais.

Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador
Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda
ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um
encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.

Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz
onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o
genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande
exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.

Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal
passo, respondeu:

--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia
n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu
egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a
romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os
primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois
de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por
mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro
e do teu bem estar o que um tal passo importa!

O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é
que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao
desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe
fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.

--Eu já esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem
sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque,
indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me
trocaste, vil!

--Leonor!

--Não tentes negar! Sei tudo, canalha!

--Leonor! Juro-te...

--Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda
expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de
mulheres!...

E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado
a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á
fronte direita e disparou.

O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.

Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada,
a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando
por soccorro em brados afflictivos.

A primeira que acudiu foi a velha Marianna.

--Meu Deus! o que foi, senhora?

--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá
depressa!

E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura
debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro
lancinantissimo.

O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da
sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que
iam passando.

Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu
tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações,
participando o caso para o commissariado.



XXII

Mysterio


Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula,
passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e
verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os
personagens d'esta singela narrativa.

Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural
desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos
passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem
ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia
das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.

D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um
ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua
criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de
Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha
sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia
algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do
rendimento de sua casa.

Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar
pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa
do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa
mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial
contrahido entre os dois.

Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de
Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que
une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes
desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel
fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.

Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando
podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena
de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia
menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a
comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o
marido e com o filho, prematuramente mortos.

Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_
e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a
existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a
_irmã Dorotheia_.

--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia
elle--não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa
sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida,
pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que
com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo
assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do
estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da
sua passagem?

--As congregações religiosas--observou sensatamente Aurelia de
Magalhães--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar
frequentemente o nome das _irmãs_; de modo que a que aqui se chama irmã
Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e
assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a
identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não
terá succedido o mesmo?

--Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse,
Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer
das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações.
Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á
custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores
e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e
auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.

D. Aurelia sorriu tristemente.

--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o
senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade
absolutamente conhecida?

--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do
meu segredo?

--Isto é apenas uma supposição que eu faço--apressou-se a dizer D.
Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia
na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que
elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr.
Julio para encontrar Helena...

--Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias
d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmará, estou
certo, esta minha funesta previsão...

--E se, pelo contrario, Helena viver ainda?

Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.

--Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de
sacrificar os ultimos dias da minha vida!

Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã
de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de
seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das
pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho
da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de
Norberto de Noronha.

Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e
affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra
de consolação para todas as amarguras.

Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando
Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os
tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre
os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo
n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.

D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava
na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a
noticiar.

--Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu
eterno sorriso bondoso--mas não foi culpa minha...

--Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse
amavelmente D. Aurelia.

--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho
de Thayde contando-me um caso extraordinario...

--Sim?

--É verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se vê todas as noites
na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no
chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as
longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres
do dia, some-se e ninguem mais a vê!

--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos
invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo--É lá
crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta
d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o
caminho que toma e o destino que leva?

--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se
atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida
e que já vae formando lenda.

--Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse
Julio.

--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com
um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta
de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra
de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se
supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a
precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias
volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda
até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.

--Mas o que julgam elles que seja?

--As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de
Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que
eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto
apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas
para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em
corpo e alma para o inferno...

--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio.

--Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos
olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural,
então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na
solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas
culpas.

Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande
curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que
aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel,
como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas
noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação
intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças
perdidas.

--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a oração, por tal
modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma
alanceada de remorsos?

--Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de
afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento
volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os
cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo
em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma
força humana póde dar-nos.

--Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente
viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na
oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não
pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a
existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e
apavora a propria creatura que os commetteu...

--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que,
a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma
desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de
suas culpas...

--Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido
muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante
modo.

--Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça
dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos
em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa
compaixão...

Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do
sacerdote.

--Ás vezes--concluiu por fim--a imaginação exagera em nós a gravidade de
erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de
crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa
pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de
sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não
commetteram...

--Tudo póde ser--tornou o sacerdote--Na minha opinião, toda a penitencia
significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de
uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo
diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no
crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo
ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a
solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo
contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos,
em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir...
derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera
de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a
mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde,
creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da
aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta.

--O que é estranho--ponderou Julio--é que ninguem até agora se lembrasse
de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo
isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não
irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse
sentido?

--Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a
recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso...
Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros,
morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para
lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do
outro mundo..

--O que me parece--opinou D. Aurelia--é que tudo isso não passa de uma
grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo
depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre
Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta
gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa,
aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias...

--Sim, é certo--concordou o padre Manoel--e creio bem que a sr.^a D.
Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita--Deus lhe
perdôe!--era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...

--Devemos perdoar aos mortos--tornou D. Aurelia n'um tom de suave
recriminação--pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura
para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e
que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence
julgar...

--Eu tambem concordo, minha senhora--replicou o padre Manoel--que
devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do
sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez
impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não
seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador,
qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da
morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo...

--Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas
injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas
pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro?--interrompeu Julio--O
sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os
peores aquelles que o povo aponta como maus...

--_Vox populi, vox Dei_... A voz do povo é a voz de Deus--argumentou o
padre Manoel, repetindo o proloquio latino.

--Mas tambem _vox populi, vox diaboli_...--retrucou Julio--E mais vezes
é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa
reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com
apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e
repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma
de castigo infligido aos mortos!

O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder:

--Isto já vem assim do principio do mundo...

--E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me
parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que
vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever
e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em
Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um
exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto
investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição.

--Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora
do Porto!--observou D. Aurelia, espantada.

--E porque não?--respondeu Julio--Conheço o caminho e o meu cavallo é
seguro. Dentro de uma hora, estarei lá.

--É uma imprudencia!--reprovou o padre Manoel--V. ex.^a sabe que as
nossas estradas são mal frequentadas de noite...

--Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz
muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo
do Papa Assucar...

--A mysteriosa apparição--tornou o padre Manoel--póde mesmo não ser mais
do que o pretexto para uma cilada.

--Uma cilada, a mim!--exclamou Julio--Não ha nada menos provavel... Quem
poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse
com o que se passa de noite na Senhora do Porto?

--Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.^a.
Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para
outros--aconselhou prudentemente o padre.

Julio sorriu desdenhoso.

--Seja como fôr--decidiu elle--irei certificar-me do que se trata. Se é
um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror
no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á
vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo
com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz,
uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio
para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da
piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer.

E consultando o relogio d'algibeira:

--São 10 horas--disse elle--Vou partir. Se antes da meia noite não
estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em
minha casa a narração fiel do que tiver acontecido.

--Repare, meu amigo--tentou impedir D. Aurelia--que a noite está
tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada.

--A minha existencia--replicou Julio com amargura--ha muito que decorre
batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a
quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas
desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para
tudo.

E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia.



XXIII

Allucinação


No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da
extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura
de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o
interrogarem.

O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em
febre.

Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para
elles, exclamando:

--É horrivel, meus amigos, é horrivel!

--Como assim! Viu alguma coisa?--interrogou o padre com espanto.

--Vi... vi!...

--E então?

--Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi...

--Malfeitores por certo...--aventurou D. Aurelia--teve de bater-se com
elles...

--Não... não!--contradisse o doente com vehemencia--Não se trata de
malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente
desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e
phantastico, impossivel de reconhecer...

Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem
significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da
integridade mental do seu interlocutor.

Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma
grande agitação, proseguiu:

--Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei
Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal
desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu
fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no
extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o
cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver
engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte
onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal
poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de
mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não
illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo
deserto...

--Não viu, portanto, pessoa alguma?--interrogou o padre Manoel.

--Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse
retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã,
para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de
Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma
phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes
invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta
principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.

--Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!--não pôde
deixar de exclamar a irmã de Gustavo.--Se não estava ninguem no local,
como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um
temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe
a saude?

--Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não
sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um
mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu
dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora
passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva
da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me
encostava.

--Então sempre era certo!--exclamou o abbade triumphante.

--Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a
semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e
n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto!

--A morte!--exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.

--A morte, sim!--confirmou Julio--Era uma voz de mulher, lamentosa e
dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha
ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta
do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no
degrau da egreja:--«Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha
supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti
esta miseravel creatura!»--

Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...

--É singular!--disse D. Aurelia.

--E extraordinario!--accrescentou o padre Manoel.

--Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do
sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo
dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel
como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu
coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella
dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz
creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe
como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que
fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que
devia ser aquella mesma: «Helena!»--bradei-lhe--«Helena!»--e
desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome,
a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida
e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a
incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se.
Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu
nome, porém tudo foi baldado!

--Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente?--aventurou-se
a dizer D. Aurelia.

--Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração
reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga
herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa
Senhora do Porto!

--Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria
ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a
tratava era por força uma pessoa amiga?--retorquiu D. Aurelia.

--De noite todos os gatos são pardos--philosophou plebeiamente o padre
Manoel--Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da
estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava
para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar.
Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante
que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou
com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era
rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver
e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe
mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho--pum! pum!
pum!--e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti
esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito
admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na
estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito
disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro...
Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que
o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo
que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu
tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada,
cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas
extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de
dia, á luz do sol...

--Sr. padre Manoel--protestou Julio, agitado pela febre e deveras
irritado pela incredulidade insultuosa do padre--faça-me a fineza de
acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito
o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim
a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.^a o está agora
e tinha o entendimento tão claro como v. s.^a o póde ter--logo de manhã,
em jejum, quando vae para o altar dizer missa.

O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso
e apressou-se a dizer:

--Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr.
Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.^a visse e ouvisse tudo o que
diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite
favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra
pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão
podia dar-se...

Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre.

--Tambem não affirmo que fosse ella--disse--mas tenho a convicção
intima, profunda, de que não é outra.

--E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?--perguntou D. Aurelia.

--Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em
todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar
com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se
escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa
caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar
muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.

--Mas--observou D. Aurelia--se a mysteriosa penitente, surprehendida por
v. ex.^a, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a
sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá
com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.^a
acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...

--Sim, é certo..--concordou Julio--mas eu tenho de cumprir o meu dever
que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto
possivel para pôr termo áquelle soffrimento.

--Tenciona, pois, voltar lá esta noite?

--Tenciono.

--Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.

--Porque?

--Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não
quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto
do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe
chamou pelo nome...

--O que devo fazer então?

--Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e
tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o
paradeiro.

--É o que se me afigura mais prudente e mais acertado--approvou o padre
Manoel.--Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de
excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde
alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.^a quer, de
mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá...

--Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem
afugental-a d'aquelle sitio.

--A recommendação é inutil. Descance v. ex.^a que tambem eu e a sr.^a D.
Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa
creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr
a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a
penitente voltou ao templo.

Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente,
recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a
informal-o do que tivesse occorrido.

Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia:

--E que lhe parece a v. ex.^a este caso extraordinario que acabamos de
ouvir?

--Parece-me--respondeu a irmã de Gustavo--que o nosso pobre amigo tem
razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.

--E v. ex.^a acredita que elle visse lá alguem?

--Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a
confirmação dos boatos de que v. s.^a se fez echo?

--Oh, minha senhora! mas repare v. ex.^a que: eu apenas contei como
extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre
elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a
alma da D. Rita de Briteiros.

--Mas v. s.^a não crê nas almas do outro mundo; e certamente não
recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de
verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em
corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem
dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração
e á penitencia!...

--Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e
pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em
semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma
allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v.
ex.^a que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre?
Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais
acertado parecia-me chamar o medico...

--Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel
que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito
capaz de não o receber e de se offender comnosco...

--Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou
e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da
doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de
beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico
das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que
não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre
homem, se já tinha _falha_ antes d'este caso, agora, com a mania de que
viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de
todo...

D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve
bastante força em si para responder apenas:

--Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda
não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez
de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se
agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim
succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que
devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha
penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre
Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo
não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo
medico.

--O que quer então v. ex.^a que se faça?

--Que v. s.^a cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua
confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente
Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem...

O padre Manoel encolheu os hombros:

--Pois v. ex.^a julga...?

--Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como
creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas
que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem
affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer
quanto possivel este mysterio.

--Está bem! Se v. ex.^a assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que
é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a
Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até
não restar duvida de que não apparece lá viva alma...

--Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella,
para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa
penitente se afaste d'estes sitios.

--Fique v. ex.^a descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e
tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal
creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e
estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará
muito tempo que não saibamos tudo.

O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites
seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar
que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos
que corriam entre os aldeãos de Thayde.

O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os
baldados esforços empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente
e dizia:

--São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei
o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um
gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até
que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu
sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha
qualquer propensão para visionario...

D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.

--É certo--dizia ella--que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma
paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não
creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as
faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria
a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um
allucinado...

--Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece
as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v.
ex.^a paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi
os milagres de Santo Antonio...

--Mas acredita n'elles!...

--Acredito, que é o meu dever...

--Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo
sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam...
Note v. s.^a que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o
ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar
Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta
simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um
templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto
não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...

--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio
de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo
reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos
casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha
senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me
contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é
nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa
que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na
Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem
ter visto?

--É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real
o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração
pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada
e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...

--Póde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo.

--No emtanto, e seja como fôr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a
mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo
trabalho que lhe está incumbido.

--Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como
estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples
razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que
se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de
o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se
vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das
lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...



XXIV

Estranho encontro


D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando
nas palavras do sacerdote.

--Será realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo
affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma
allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez
uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel
Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até
que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.

Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.

Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser
senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que
facilitava a chamada.

--Batem ao portão--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que vá
vêr quem é...

D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:

--Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a
urgencia.

--Que qualidade de homem é?

--Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.

--Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?

--O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo,
mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que
deseja dar só uma palavrinha á senhora.

--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum
mal intencionado.

--Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para
pedir abrigo por esta noite...

--Bem; vejamos o que elle quer.

Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre _Tomba_.

D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o
logo.

--Ah! é vocemecê, mestre _Tomba_?

--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoará eu vir _trupar_ á porta a
esta hora, mas ha um _causo_ que não póde deixar de ser...

--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e
gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraça?

--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ não
acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo está aqui, está a dar
o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o
_assucedido_.., Mas lá _dixeram-me_ que elle _támem_ estava de
_catrambias e atão_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta
obra de caridade...

--Mas de que se trata, mestre? Falle.

--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei
alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!

--Uma mulher!?

--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a
força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e
estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _támen_ já trazia
uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo
estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa
viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de
cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e
alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ não mexia com
pé nem com mão... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o á cara, e era uma
mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a _probe_
de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de
pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem
grande e eu _támem_ já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que
deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que
mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está
doente...

D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que
o sapateiro terminasse.

Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.

--Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola
e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por
casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se
demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!

Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos
decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada, á frente do grupo, em
soccorro da infeliz creatura.

Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia,
conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o
sapateiro encontrára abandonada no caminho.

A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão,
acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam,
deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma
cama preparada.

A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento,
julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da
propria D. Aurelia.

--Então, quem temos por cá doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--Já
vejo que não é v. ex.^a. E antes assim.

--Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros.
Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo,
na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.

--Onde está ella?

--Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.

--Vamos vêl-a.

E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.

A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.

Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos
rotos e sujos da terra da estrada.

Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas
brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa
que está habituada á limpeza--que é o primeiro indicio de uma boa
educação.

O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.

Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os
vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.

Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa
similhava um cadaver.

Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o
rosto triste.

D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de
ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á
porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe
assimilhasse.

--Esta pobre mulher--disse ella--não deve ser d'estes sitios.

--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, não é d'estas aldeias
proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.

--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava
de auscultar a doente.

--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma
careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria
esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a não
amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o
tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos
grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará
apenas recorrer á cosinha...

--Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia.

--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a
criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a
doente.

--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...

--Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma
fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos
restituir-lhe os sentidos.

D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a
infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.

Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha
voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa
alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e
que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.

O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D.
Aurelia voltar no dia seguinte.

--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanhã veremos o tratamento a
que temos de submettel-a.

--Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?

--De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande
esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas
limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar
mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem
necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa
noite.

--Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que
não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a
minha casa...

--Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave
sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.

--Coitadita!--murmurou compungidamente a irmã de Gustavo--E pensarmos
que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!

--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os
hombros--o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha
gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.

E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um _cache-nez_
enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.

--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da
noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de
o acompanhar no trajecto até casa--Este _barbeirinho_ é o tal das
pneumonias!

No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas
apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.

A febre consummia-a. Delirava.

Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma
confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.

O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante,
prohibindo que dessem de comer á enferma.

--Então, doutor?--interrogou D. Aurelia.

--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de
gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que
o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.

--É então grave o estado d'essa infeliz?

--Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de
nos vêr a contas com uma pneumonia...

--Pobre mulher!

--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella
ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.

--Oh! isso não!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor não terá
recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?

--Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a
soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente
evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre
acarretam...

--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha
casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.

--Faça-se a sua vontade, minha senhora.

D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a
enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.

--Que não falte nada a essa infeliz--disse a irmã de Gustavo--Não lhe
façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e
façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam
pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.

Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo
diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.

--Está salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos é ter
muito cuidado com a alimentação.

--Tel-o-hemos.

Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que,
oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.

Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o
João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.

--É escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso
Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre
homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a
caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que
dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado
foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos
de dias...

--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...

--É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve
hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é
que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito
melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.

--Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.

--O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do _Tomba_ com elle. Um
homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa
d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!

--Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem
direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem
qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...

--Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que
v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e até hoje nunca
vistas e apreciadas em remendão portuguez.

--Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho
natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do
povo, e nada mais.

O padre fez uma carêta significativa.

--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a é uma santa, acha tudo muito
natural porque não conhece o mundo... O _Tomba_ é bom homem, não digo
que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o
acolhimento de que este se póde gabar...

--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em
minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da
estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os
recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...

--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem
beira... Ha tantas por esse mundo!

--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que,
em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.

A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.

--Minha senhora--disse ella--a nossa doente...

--O que tem? Peorou?

--Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me
onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...

--O que lhe respondeu?

--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas
amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas
ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu
disse-lh'o.

--E então?

--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...

--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou já
vêl-a...

E voltando-se para o padre Manoel:

--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que
lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o
seu soccorro espiritual...

--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre
Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz
que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem
confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida
quer fazer-lhe revelações intimas...

--Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão
escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser...

--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae
confiar-lhe.

--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...

--N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua
confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v.
ex.^a lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais
auctorisado mestre de casos...

--O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D.
Aurelia sorrindo.--Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa.
Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa
do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.

--V. ex.^a é inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo.

D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida
fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.

A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe
permittia analysar as feições da enferma.

--Então, como está?--perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e
carinhosa.

--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente
com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa.
Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não
era estranho.

Voltou-se para a criada e disse-lhe:

--Deixe-nos sós--ordenou.

--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu.

--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os
olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa?

--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco
aquella janella e attentar no meu rosto...

D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder
reconhecel-a.

--Não me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre
lagrimas.--Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me
reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!

E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e
abafado.

Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem
levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel
alvoroço de espanto:

--Helena de Noronha! serás tu?!

--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem
receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!

Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que
estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de
beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.

--Vamos! não chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus
que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade
sincera de sempre.

--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peço-te apenas que
me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a
miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar
bemdito, da tua santa caridade!...

--Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é
tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e
os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão
digna.

--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te...
Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não
desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos
crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...

D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu
carinho.

--O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é
muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento
far-se-ha breve e por completo.

Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.

--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso
que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este
misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o
reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que
alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das
minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima
de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.

--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D.
Aurelia.

--Era! Como soubeste que eu estava alli?

--Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que
não possuia a intima certeza...

--Esse alguem era...?

--Julio de Montarroyo...

A enferma soltou um grito.

--Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma
allucinação dos meus sentidos?

--Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na
Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que
ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente
eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou
antes, adivinhou-te nas trevas da noite...

--Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e
quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa
prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito
tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a
d'elle...

--Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.

--Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde
não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?

--Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado
de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e
desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi
feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos
sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella,
mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi
toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É
impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes não pense com
saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e
feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de
que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia
que os separa».

Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o
coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.

D. Aurelia proseguiu:

--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu
pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo
lentamente, ralado de dôr e de saudade...

--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha
angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.

--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo
confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que
fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a
encontrar-te.

--Ah! não! não!--bradou Helena de Noronha, pondo as mãos
supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este
mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me
encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me
morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!

A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de
lagrimas.

--Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que
a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de
Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas
conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto,
sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por
febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda
encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem
á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao
sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia
regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que
o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão
nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar
tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a
felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria
os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de
fazer?

--Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga!
Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um
genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a
parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de
crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha
ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e
nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem
que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das
minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam
uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O
maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com
o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal...
corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na
sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca
espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em
mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh!
salva-me! salva-me!

E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se
convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem
sentidos...

Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico,
a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe
dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em
deliquio.

O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de
extrema fraqueza.

--Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo--disse elle.

Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra
violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.

A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na
mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se
das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança,
matava-a.

A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que
havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante
e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.

Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua
desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe
implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro
e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?

Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle
coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava
de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza
jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando
já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua
corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado
por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a
parte?

Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher,
leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de
sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e
deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua
innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um
jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que
as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada
sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara
aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.

Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão
n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia
manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado
pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo.
Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o
dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do
criminoso.

Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de
tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este
mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse
seguida da condemnação eterna para a sua alma.

As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas
e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava
havia já dezeseis annos.

Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.

--Aurelia--disse-lhe ella--tu não sabes a grande desgraçada que acolhes
em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a
esmola da tua compaixão.

--Helena!--volveu-lhe a irmã de Gustavo--peço-te que não voltes a
atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua
companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a
consolação de te poder chamar minha irmã.

--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua
bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal
evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o
arrependimento de tantos crimes...

--Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que
ha de ainda conceder-te dias venturosos.

--Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?

--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.

--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do
Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre
Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...

--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe.

--Como o sabes?--interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.

--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto
informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou
desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.

--E esse homem viu-a, fallou-lhe?

--Fallou.

--Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?

--Porque não!?

Fez-se um instante de silencio.

--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?

--Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.

--Não o digas a ninguem, por ora.

--Socega. Cumprirei a tua vontade.

Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que
fechou em seguida n'um _enveloppe_.

--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D.
Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva.

O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto.



XXV

Pobre Helena!


Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o
acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu
estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do
quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas
conversas com quem quer que fosse.

Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula
era viva e podia ser encontrada no Porto.

--Fallou-lhe, mestre _Tomba_?

--Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás
Sereias _préscural-a_ e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei,
que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem
parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com _auga
benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro.

--Fallou-lhe de Helena de Noronha?

--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia
e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa
_incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde...

--Ah!

--Ella ficou toda _estifeita_ e tratou-me com muito bô agrado, mas a
respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu támem não
precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, não era o
filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me
armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que
me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella
tivesse um migalho de cortezia commigo...

Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do
sapateiro escandalizado.

--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão
abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem--murmurou.

--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?

--Sim... unicamente para fallar com ella...

--Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu
levo-lh'a?

--O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...

--Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem
notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...

--Não, não... É preciso ir eu...

O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:

--O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer
_minga_. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa
_incellencia_ lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as
paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo
e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...

--Vá, vá, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que
póde ser-me preciso de um momento para o outro...

--Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás _incasiões_...

E sahindo dos aposentos do doente:

--Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia,
está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre _Inxelmo_ que o pôz
assim!...

De repente bateu na testa, exclamando:

--Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!

Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:

--Dá licença, snr. Julinho?

--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se
achava sentado.

--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, é
raça de patife de que ninguem me soube dar relações...

--Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no
Porto--volveu Julio com um fundo suspiro.

--Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de
_santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que
eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a corôa de meio a
meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da _seve de
pedreiro_ é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.

--É natural--respondeu Julio.

O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á
descoberta.

--Parece que já não se importa muito com o padre...--resmungou--_Támem_,
n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas
_galhetas_, não podia...

Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorára em conferencia com o
doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse
obedecido.

É que notára no enfermo um novo accesso de febre.

Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.

--Era um favor--dizia elle--deixar que a doença acabasse com isto!...

Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidiço, não podendo
ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D.
Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o
incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não
pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.

--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou.

--Porque? Vae fallar com ella?

--Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D.
Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava
qualquer recado para Madre Paula.

Julio ficou pensativo.

--Não... não quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar
com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me.
Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a
dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um
serviço a prestar-lhe...

E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a
cabeça sobre o peito.

O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua
natural expansibilidade, exclamou:

--_Ameno_, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao
oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer
ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho _acaijo_ carro e meio d'annos,
e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...

E concluindo:

--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a
vir por ahi arriba, assim como coisa minha?

--Como é que você havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu
Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do
sapateiro.

--Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como
coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se
sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de
grande inducação... Eu sou p'rá aqui um _probe_ sapateiro, fazem á de
conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.

--Não, não, mestre _Tomba_, não pense n'isso, que é uma coisa que não
pode fazer-se...

--Está bô! Vossa _incellencia_ que o diz, lá sabe a _rezão_ porquê...

O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os
esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.

--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe
a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que
ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do
pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha
está muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque não póde
escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem
umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a
vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra
Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me
enganei no caminho e passe por lá muito bem...

E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua
lembrança não produzisse resultado.

--Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de
coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula,
senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá
trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que
elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette
em cabeça hade ficar assim em _augas_ de bacalhau!

Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta
da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.

A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares;
e que não era esperada ainda por aquelles dias...

Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a
madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:

--Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está
aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.

O criado foi e voltou pouco depois.

Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O
sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande
profusão de zumbaias.

--Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou?
Passou bem?

--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante.

--Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de
Villaverde manda muitas _bugitas_ á senhora madre e mais esta
cartinha...

E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com
grande surpresa leu:


                                              «_Minha querida Paula_:


«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada _irmã Dorothêa_ que no seculo se
chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da
tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa,
antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te
e que só tu poderás receber.

Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens
immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da

                                                                 Tua
                                                            _Helena_.»


--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta
os olhos turvos de lagrimas.

E voltando-se para o sapateiro:

--Onde está ella?--perguntou.

--Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli
adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prática o
seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.--Ella deu-me essa
carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi
p'ra lá tratar de uma _probe_ senhora que está lá a morrer... E
_díxe-me_ de bôcca: «Diga á madre Paula--e senhora na _presencia_--que
lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo,
que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra cá e p'ra lá,
que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa
religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá...
Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe
dixe:--_Esteje_ descançada, menina, não se _affleija_, que a snr.^a
madre Paula não tem _caratle_ de dezer que não a uma coisa d'essas...»

--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas
temos comboio?

--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora
madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui _dereito_
a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando
forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...

--Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...

--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que
não vae nada, seja pelo que fôr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao
lembrar-se da cilada do Sardão.

--Porque? Vocemecê jantou?

--Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não
tenho... já estou desafeito...

--O que! está desafeito de comer!?

--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma _promessia_ que fiz de
jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...

Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de
receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro
recusando a refeição que se lhe offerecia.

--Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de
esperar que eu me aprompte para a partida...

--Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá
amor d'isso, não seja a duvida.

--Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.

Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava
o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge
de Gusmão.

--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de
me conceder alguns minutos de attenção em particular?

--Pois não, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente.

Paulo e Jorge levantaram-se.

--Dêem-me licença, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube
por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.

E dirigindo-se a Paulo:

--Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás
desculpa da minha impertinencia...

Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe,
exclamou:

--Helena de Noronha, a _irmã Dorotheia_, vive ainda!

--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido.

--Lê!

E apresentou-lhe a carta de Helena.

O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:

--É a letra d'ella!

--É, não ha duvida... Minha pobre Helena!

--E o que tencionas fazer?

--O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero
pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...

O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural,
respondeu sem hesitar:

--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres
partir?

--Hoje mesmo.

--Porém, Beatriz?...

--Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é,
como sabes, austera e de são conselho.

--Pois sim.

--Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto,
a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como
ella propria o diz...

--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de
vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...

Madre Paula sorriu.

--E porque não ha de vir?

--É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e
não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...

--Dizes bem.

--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu
até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?



XXVI

Um amigo dos diabos


Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente
disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_,
tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães,
por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de
Campo.

O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a
superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o
conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua
astucia.

A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em
quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém,
em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do
secerdote.

--Este parece que é vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o
sapateiro--Mas _támem_ se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o,
porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer
fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe
metter juizo á força na cachola...

Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador.
Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações
pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades
e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _bô_ sujeito; aquelle
_támem_ não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das
partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de
tudo dava relação exacta e minuciosa.

Quando chegaram a Guimarães, o _Tomba_ perguntou se queriam descançar um
pouco no _hotle_ ou se queriam seguir logo para S. Martinho.

--É muito longe d'aqui lá?--? perguntou o padre Filippe.

--É alli logo _adiente_ das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos
lá em tres horas.

--Então é melhor que partamos já.

O _Tomba_, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com
recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.

Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.

O _Tomba_, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o
seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle
menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus
companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.

O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala,
pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi
sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas,
entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:

--Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas _incasiões_, e o _Tomba_,
com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no
inferno! Cá está ella!

--Ella, quem?--interrogou Julio de Montarroyo.

--A madre Paula, com seiscentos livros de missa!

Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle
tivesse endoidecido.

--Mas está onde, mestre?--perguntou.

--Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um
padréca, mas não tem _duveda_... Quer que os mande entrar p'ra aqui?

--Você falla serio, mestre Tomba?

--Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa _incellencia_ me diga a
mim na minha cara!--exclamou o sapateiro escandalisado--Pois eu ando por
lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,--que suei e tornei a suar
primeiro que a _arresolvesse_--e o snr. Julinho, chego aqui, e não me
quer _acuarditar_?! Eu serei capaz de lhe _dezer_ uma coisa por oitra,
sr. Julinho?

--Está bem, mestre...--tornou Julio--Não vale a pena zangar. Eu vou
immediatamente cumprimentar essa senhora...

--Olhe lá, ó sr. Julinho--observou o sapateiro detendo-o quando elle ia
já a transpôr a porta do quarto--eu enganei-a!

--Enganou-a?

--Disse-lhe que estava cá a _irmã Dorotheia_, muito doente e que lhe
mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje
lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...

--Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se
Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?

--Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou
_honte_ á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão
ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...

--Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.

E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e
o seu companheiro.

Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com
curiosidade.

--V. ex.^a certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito
annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais
austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?--disse
Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que
saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.

--Está v. ex.^a enganado, sr. Julio de Montarroyo--replicou madre Paula
recobrando a serenidade--Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira
satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar
aqui.

--A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do
vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.^a, não podia esperar a subida
honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque
visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de
caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa
excellencia sabem comprehender e praticar.

Madre Paula escutava-o sem o comprehender.

Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.

--Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua
visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias.
Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia
que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.

No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da
subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o
primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que
ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta,
outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.^a, a _irmã
Dorotheia_, conhecida no seculo por Helena de Noronha.

--Helena!--bradou madre Paula--Onde está ella? Peço-lhe que me conduza
sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri
immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de
fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...

Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.

--V. ex.^a não sabe onde está Helena de Noronha?--perguntou elle.

--Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde
me disseram que estava.

--D'onde lhe escreveu, diz v. ex.^a?

--Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos
conduziu.

E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de
que o _Tomba_ fôra portador.

--É a lettra de Helena!--exclamou Julio n'um brado de alegria
extrema--Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está
ella?--perguntou por sua vez tambem.

--Pois deveras Helena de Noronha não está aqui?--interrogou ainda madre
Paula, tomada de estranha surpreza.

--Não, minha senhora--volveu Julio--e até eu ignoro como e de que
maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho
noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.^a, compadecida do meu
estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de
encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer
indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de
morrer.

E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe
succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já
lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.

--Agora--concluiu--alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o
meu empenho era procurar v. ex.^a e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama
no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo
procural-a no mundo dos espiritos...

--O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle
portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a
escreveu...--explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e
surprehendida.

--Tem v. ex.^a rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle
explicará...

Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu
á porta da sala:

--Diga ao mestre _Tomba_ que venha cá.

Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem
está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira
responsabilidade dos seus actos.

--O sr. Julinho, chamou?

--Chamei, mestre. Venha cá...

--Prompto!

E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar
firme.

--Então como é isto?--ia Julio a dizer.

Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.

--Então como hade ser? Fui eu que armei esta _trempe_, p'ra fazer que
aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre
viessem á _presencia_ do sr. Julinho... Vossa _incellencia_ estava todos
os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e
que morria sem _estifazer_ o seu desejo... Vae eu _atão_ disse comigo:
«Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima
madre que é a sr.^a D. _Helenia de Laronha_ que está a dar a alma a
Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é
um ar que lhe dá... Ponto é que ella me _acuardite_... Vamos a vêr se as
bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr.
Julinho diga o que tem a _dezer_, e se eu fico por mentiroso, é o
mesmo... Se quer ó menos, _intrujei_, mas foi p'ra _estifazer_ a ultima
vontade a vossa _incellencia_... Agora já póde morrer descançado.

--Mas venha cá, _Tomba_, como arranjou você a carta de Helena de
Noronha?

O sapateiro arregalou os olhos:

--A carta da sr.^a D. _Helenia_? A carta não é d'ella!

--Como não é d'ella?

--Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a
todos, se eu vi a sr.^a D. _Helenia_ ou sequer alguem me boquejou a
respeito d'ella!

--Mas esta carta--disse madre Paula--foi-me entregue por vocemecê...

--Isso é oitra coisa...--tornou o sapateiro--Mas as cartas são papeis...
Essa carta não é da sr.^a _D. Helenia_.

--Não é!--exclamou Julio--Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como
arranjou você esta carta?

--São d'ella!?--disse por sua vez o _Tomba_ muito admirado.

--Se esta carta não é escripta por Helena--tornou Julio de
Montarroyo--então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre
dirá quem foi...

--E a carta o que diz, ó sr. Julinho?--interrogou o sapateiro com grande
interesse.

--Pois você não o sabe, mestre?

--Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá
dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a
minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri
para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?

Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais
surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta,
resolveu-se a esclarecel-o.

--Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre
Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...

--Ella diz que está doente?

--Diz que está a morrer...

O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:

--Quer vossa _incellencia_ vêr que é ella!?--exclamou--Pois não é oitra
coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem
o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!

--Ella quem?--interrogou anciosamente Julio.

--A doente que está em casa da sr.^a D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui
eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por
albarda...

E depois, n'um movimento de duvida:

--Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?

--Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede
a madre Paula que venha vêl-a...

--Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para
me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a
trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo
que me carregue e mais a minha esperteza!

--Mas venha cá, mestre _Tomba_... explique-nos que doente é essa de que
está fallando... Eu não sei nada!

--Pois se vossa _incellencia_ tem estado ás portas da morte, vae hoje,
vae amanhã, e todos me _deziam_ que não lhe dissesse nada nem lhe
_trouvesse_ novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela
cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir
contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a _tramoia_...
Antão lá vae!

O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando
regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que
fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se
encontrava.

--E atão agora está tudo explicado.--concluiu--A snr.^a D. Aurelia foi
que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.^a madre, mas sem
me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi
escrevida pela snr.^a D. _Helenia_, _atão_ a coisa está bem clara: a
doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!

Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.

--Ah! meu Deus!--exclamou--até que emfim a encontro!

E voltando-se para madre Paula:

--Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á
casa onde ella se encontra.

Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo,
acompanhados por mestre _Tomba_, entravam em casa de D. Aurelia.

A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco
surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:

--Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa
superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de
Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.^a...

E indicando o padre Fillipe:

--E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que
teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua
amiga.

D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura
ao _Tomba_ que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que
tinha feito asneira.

--É verdade--disse por fim D. Aurelia--que tenho em minha casa Helena de
Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr.
Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a
primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de
vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem
fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio
de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial
recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse
causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua
existencia.

--Oh!--protestou Julio--pois se toda a minha doença era não ter noticias
de Helena!

--Helena, cuja vida continua ainda em perigo--proseguiu D.
Aurelia--pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta
que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...

--Essa, carta, minha senhora--disse madre Paula--eil-a aqui. Por ella
verá v. ex.^a que Helena reclama a minha presença...

E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um
gesto.

--Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra...
Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.^a do melindroso estado de
saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta
póde matal-a...

--Mas se Helena espera a visita de madre Paula--objectou Julio.

--Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v.
ex.^a...--retorquio D. Aurelia.--Era justamente essa surpreza que me
parecia bem poupar-lhe por emquanto...

--Decerto!--atalhou madre Paula.--Nem eu creio que o snr. Julio de
Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a
enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...

Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:

--A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os
miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!

--Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse
extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em
pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção
que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.^a não imagina o estado em que
a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a
reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se
tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella
fosse.

--Pobre Helena!--exclamou madre Paula.

--Parece-me, pois, tornou D. Aurelia--que seria bom dispôr a nossa
doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera,
convem prevenil-a com cuidado...

--Sim... sim!...--concordou madre Paula.

D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:

--Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu
coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro
d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.^a
mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de
apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.

E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em
silencio, proseguiu:

--Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr
para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso
dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem
dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.

Fez uma ligeira mesura e sahiu.

D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a
indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.



XXVII

Duas amigas


No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite
socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma
senhora que devia vir do Porto.

--Não sei, minha senhora--respondeu a creada que estava já
prevenida--mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao
portão...

--Oh! vá saber sem demora--pediu Helena--e se fôr a pessoa que eu
espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais
depressa possivel...

A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona
da casa.

--Veio?--perguntou-lhe Helena.

--Dá-me alviçaras, minha amiga--disse D. Aurelia alegremente--porque,
contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa!

Helena levantou-se a meio no leito.

--Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já!

Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto
no aposento, dizendo:

--Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga
está aqui!

--Paula!--exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço
de indizivel contentamento.

Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio
apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas.

D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na
mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se.

Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:

--Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que
attendeste o meu pedido!

--Minha pobre Helena!--respondeu madre Paula--quantas vezes me tens
lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil
modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de
ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...

--Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia
terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou
emprehender...

--O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra
vez?--perguntou madre Paula admirada.

--Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou
emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que
viesses...

--Morrer!--exclamou a abbadessa--que extranha fraqueza é essa? A vida
chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma
mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente
bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos,
oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua
vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.

Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na
approximação do seu fim.

--Tu é que estás ainda a mesma, minha querida!--disse ella.--Não parece
que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos...

--Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste
impunemente á acção do tempo--replicou madre Paula--mas, comquanto um
pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte...

D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas
amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar,
interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que
ordenar serviços domesticos da maior urgencia.

--Espera!--replicou Helena--deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem
tu és...

--Não é preciso--accudiu D. Aurelia com meiguice--já nos conhecemos
desde hontem á noite...

--Sim--confirmou madre Paula--já devo a esta senhora a mais amavel e
gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu
convento...

--Pois tu já cá estás desde hontem?--perguntou Helena admirada.

--Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre
Filipe, de quem certamente ainda te recordas...

--Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo
d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem?

--Temos tempo, minha querida--disse madre Paula--Uma das principaes
virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como
acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude
como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar...

Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e
perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:

--E o padre Anselmo?

--Matei-o!

--O que!--disse a religiosa empallidecendo--Mataste-o... quando?

--Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa
conventual da Covilhã...

--É extraordinario! E como pudeste...?

--O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de
toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher
que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se
inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o
castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...

--E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?

--Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo
do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida
Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que
abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente
condemnei á morte!

Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao
recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao
jesuita que a perdera.

Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo
acreditar no que ouvia.

Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de
pensamentos.

--Sim...--disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que
lhe dirigia a sua amiga--o padre Hilario foi, por assim dizer, o
executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era
preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa...

--Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel?

--Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a
verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão.
Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou
no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava
á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa
hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi
justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a
maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!

E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no
convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar
aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal
prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como,
acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando
elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido
surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez
cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra...
Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde,
todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de
sangue, que teve a sua acção no medonho _in-pace_ da Covilhã.

Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a
suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse
phantasiando uma vingança que não realisára.

--E o padre Hilario?--perguntou por fim.

--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu
foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.

--Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o
torturava?

--Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração
o odio por mim...

A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de
Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:

--Trahiste o teu novo amante?...

--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o
instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o
para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario
amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca
n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha
vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...

--Como?

--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não
levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente
caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.

Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e
mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não
pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso
crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela
paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu
por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a
vêr...

--De modo que...

--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter
sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.

Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não
atinava com palavras que dissesse.

Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella
recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade
perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de
tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais
poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.

--O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida
Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro!
Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a
acredital-o...

--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois
acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a
ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da
minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e
perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao
maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e
sobre os meus?

--Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...

--O que é que te surprehende, pois?

--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o
teu plano...

--Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria
Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para
junto de mim...

--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a
Companhia.

--Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não
sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes
dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo
mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo,
minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de
meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos
do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á
dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura,
minha amiga!...

--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque não amaste... Se
tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...

--Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia
ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame
instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre
Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.

--E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres
sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e
que pelo teu amor se fez parricida?

--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos...
Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..

--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em
nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é
honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...

--Fallas de...?

--De teu filho, Helena de Noronha!

--Elle vive ainda?

--Vive e é um bello e gentil rapaz...

--Padre tambem?

--Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a
si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o
padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes,
longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos
victimou.

--Não te conhece então?

--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz
honra aos nobres sentimentos da sua alma.

--Sabe esse rapaz quem foram seus paes?

--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de
Noronha.

--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.

--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim
de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.

--Oh! nunca... nunca!

--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende
ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna
á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos,
jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo,
esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao
amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E
quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde
caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho
innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença
e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha
amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres
qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo,
reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso
homem que foi teu pae.

--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? Não tem
na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?

--Queres vêl-o?--perguntou madre Paula.

--Não, não!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de
pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso
amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos
negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga,
no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...

Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:

--E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe
confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de
seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe
não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana...
Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que
tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo
para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não...
não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada
com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!

--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te
proponho não é bem isso que tu suppões...

--O que me propões então?

--Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas
certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse
encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do
padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado
as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma
tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande
consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e
feliz da minha maternidade.

--E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de
monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?

--Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho
que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu
leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...

--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser
dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe
legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...

--Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o
sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher--o sentimento
do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce,
tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um
coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos!
não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos
secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de
dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e
fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.

Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e
não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias...
Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho,
Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça
viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre
pae.

Helena guardou silencio.

--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos...
e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse
rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo
tencionas demorar-te aqui, minha amiga?

--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...

Helena teve um sorriso estranho.

--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra
significação não escapou a madre Paula.

A freira atalhou:

--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que,
conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos
prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no
isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo
de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua
existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de
teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte,
justamente porque a vida te offereceria encantos.

--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de
primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que,
sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta,
minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas
illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha
mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e
socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola
da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma
ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de
que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de
minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de
miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do
corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo,
conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o
infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel
de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me
abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo
bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no
teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos
teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...

--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu
sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de
aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi
nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava...
Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei
pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta
eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração
deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que
tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não
amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para
aquelle que te perdeu...

--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a
mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse
já indigna da estima de um homem de bem.

--Fallas de Julio de Montarroyo?

--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e
fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!

--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?

--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo
e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente
insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de
Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha
nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras...
Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu,
minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha
de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...

Calou-se offegante e exhausta.

--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter
trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a
trouxe...

--Uma grande riqueza, dizes?

--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma
noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa
alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no
cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu
correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar
para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa
justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao
_in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de
rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito
tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive
a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E
essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o
amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho
parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas
que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas
porque o seu thesouro ninguem o descobriria...

Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de
Helena...

--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos
momentos...--disse ella.

--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou
bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o
olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais
sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli...
manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o
producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o
inferno confunda!

--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do
pae?

--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado
pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não
fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida...
Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas
horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca
mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso...
Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve
ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de
lá...

--E viverá ainda?

--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o
remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura,
mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas
tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes
pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.

--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez
mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e
fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.

Disse e saiu deixando a doente em repouso.



XXVIII

Coração morto


Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia,
consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.

O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia,
foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.

Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.

O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a
amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam
gozar na plenitude da ventura que sonharam.

No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles.
Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e
andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara
exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no
convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de
incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas
companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os
olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do
louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na
sua retina de allucinada.

E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos
dezoito annos decorridos.

Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha
destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles
rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia
crudelissima.

Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se
encararam, quasi sem se reconhecerem.

Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda
que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a
reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.

--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?

--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a
vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria
dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa...
Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está
presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é
assim?

Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e,
levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:

--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua
imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração
unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a
encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que
lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua
procura.

--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos
olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal
que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia,
Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais
amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me
e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro
gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu
pobre coração de mulher...

--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a
chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu
pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!

--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em
semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam
ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora
em rosto a minha recusa!

--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em
dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...

--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o
luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.

Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos
labios respeitosamente exclamando:

--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos
tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para
a felicidade...

--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e
misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse
viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta
confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo...
amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á
beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a
sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...

--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu
pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem
as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas
em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por
Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e
da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha
desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!

--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em
Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não
tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em
Paris.

--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e
convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse
noticias suas?

--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.

--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura
a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não
foi realmente para Paris?

--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me
perdeu!

--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como
verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!

--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!

--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações,
aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa
fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas
religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia,
á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce
as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da
sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a
encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto
a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava
presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante
pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem
resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não
podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos
cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de
seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a
minha unica aspiração n'este mundo.

Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes
de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.

--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz
Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu
pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de
affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de
mais ventura! .......................................................
.......................................................

Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que
mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a
narrativa de Julio.

Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por
aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da
loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio
arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:

--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em
expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me
concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!

E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:

--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em
que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá
nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque
Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria
monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um
martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento
absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não
póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho
de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que
eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê,
recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga,
comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu
crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um
ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu
assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca
de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de
outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na
condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e
resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de
uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e
os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha
duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!

Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo
violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.

Julio de Montarroyo tentou socegal-a.

--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que
esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu
lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não
desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que
virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão
tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que
Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na
ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na
companhia d'aquelles a quem mais queremos?

Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a
estas palavras.

Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma
um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.

--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha,
quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a
encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua
casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de
ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só
que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu
sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no
mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois
no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...

--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu
amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo
abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar
no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...

--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo
pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a
vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.

--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a
nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a
confiou?

--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo
que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me
condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que
me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!

--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui,
deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o
calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a
vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...

Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e,
extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas
lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.



XXIX

Confidencias


Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós
ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já
uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre
Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de
Paulo dava o tractamento de _Mestre_.

O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca
de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece
ser o seu discipulo querido.

--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão?

--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de
Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do
desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro,
persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella
recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha,
inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento
que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.

--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a
suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.

--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a
sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu
indicio compromettedor.

--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?

--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico
bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças
que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente
preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar
este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria
jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.

--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada
com a eliminação d'aquella existencia...

--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo,
partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre
Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a
pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.

--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos
occulos, frazindo o sobr'olho.

--Partiu.

--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula
n'esse logar?

--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que
tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos
annos, e que se encontrava perigosamente enferma...

O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma
explicação para este facto.

--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é
extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe
fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva
importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...

--Tambem me quiz parecer isso.

--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho
chamamento ha de saber-se...

--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...

--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de
si madre Paula.

--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda
a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre
bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber
com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a
prodigiosa importancia que conquistou.

O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os
olhos no seu interlocutor e disse:

--Jorge, a _Mão Negra_ póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um
instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr
alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa
mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a
vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder
de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou
destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se
exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os
seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser
observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra,
e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar
conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria
divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a _Mão Negra_
dispõe».

--É certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, senão o do Mestre,
poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de
modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses
communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um
espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a
cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.

O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um
tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:

--Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está
reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é
realmente grandiosa.

--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para
tamanha empreza.

--Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes,
eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa
Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo
depois da minha morte.

--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido.

--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo
tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem
d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que
eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na
vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia
deixar de pensar em ti como meu continuador...

--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido.

--És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o
unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és,
portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e
brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da _Mão
Negra_. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo
poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.

--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo,
essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo
pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?

O Mestre sorriu.

--Quando eu faltar--disse elle--virás a esta casa, encerrar-te-has
n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e
consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha
aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir
desassombradamente o caminho que encetei.

Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a
preto e com fechos de metal.

--Este livro--disse elle, abrindo-o--está em branco. Quando eu morrer,
basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro,
aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e
te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este
homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces.
Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem
toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu
filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de
compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos
nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal
feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.

Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente
commovido.

--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de
ternura--afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a
perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver
morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico
Mestre.

Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns
instantes.

Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz
áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que,
consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar,
dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e
terriveis associações secretas dos nossos dias.

--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era
indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de
partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas
como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á
ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever
é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações
precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito,
assume a direcção suprema da _Mão negra_, e o meu espirito será comtigo.



XXX

Mãe


Madre Paula enviára o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto
de si o filho da _Irmã Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua
companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o
aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto
ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.

No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de
Helena e disse-lhe sorrindo:

--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da
tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?

--O que queres dizer?

--Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te
abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua
mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...

--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de
terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da
minha deshonra?

--Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu
sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão
perto de sua mãe...

--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa
angustia!

--Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua
vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror
experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E
comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te
restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada
te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença
te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de
ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e
apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como
uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...

Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma
acquiescencia.

As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a
doente nada tinha a oppôr-lhes.

--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem
mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...

--E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?--tornou a
religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos
impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse
de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua
infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...

--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforço.

Paulo foi introduzido no quarto da doente.

O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se
do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação
tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito
de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os
esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.

--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a
Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e
santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a
vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque,
em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados
direitos... de filho.

--Não é minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e
estudando-lhe demoradamente as feições.--Quando escrevi á minha amiga
Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr
que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...

--Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas
palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto é mero gracejo da minha parte e
tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.^a se me affigura em via
de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o
meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á
saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um
louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a
encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação
se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz
bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria
minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um
pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita
vida... Antes assim!

--É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...

--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a
hesitação de Helena.

--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--não pôde Helena impedir-se de
perguntar.

--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem
porquê...

--Naturalmente, appellido de seus paes...

--Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram
Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou
podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me
alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...

--Sua mãe!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o
sobresalto--Conhece-a?

Paulo indicou rindo madre Paula:

--Pois eu não disse ainda a v. ex.^a que minha mãe é esta santa senhora
que v. ex.^a tem por amiga?

Madre Paula interveio:

--Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _mãe_, não
obstante saber que não é a mim que deve a existencia...

--Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que
carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e
santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se
para a superiora,--É bem certo--creio-o e não discuto--que devo a
existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão
independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se
julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não
envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com
aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros
paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.

--Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...--balbuciou
Helena com os olhos fitos nos do filho.

--Não os odeio, minha senhora, lamento-os.

--Por natural instincto do coração talvez...

--Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte
de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram
no crime ou na cobardia.

--É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde
saber se elles fôram cobardes ou criminosos?

--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no
mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me
negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me
não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu
nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção
reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem
de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua
situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me
_filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida
resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois
desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser
para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser
dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e
ao cumprimento dos seus deveres.

--Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito
que teem á sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de
cada vez mais sumida.

--Não, minha senhora--replicou Paulo serenamente--não os repudiaria, que
não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas
se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se
tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a
minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram
paes adoptivos na infancia--a madre Paula e ao padre Filippe.

Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção
facil de explicar.

--Tem razão--murmurou ella--No entanto, talvez que motivos ponderosos
forçassem sua mãe a...

--A não ser minha mãe?--atalhou Paulo--Perfeitamente de accordo. A mim
cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento
conhecer. Mas v. ex.^a comprehende muito bem que, se minha mãe teve
motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e
compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que
justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella.
De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe
de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia
apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.

--Quem sabe?--observou madre Paula--Não admittiste ha pouco a hypothese
de que possam soffrer ou arrepender-se?

--No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque
tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos
com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a
mim? O facto é, minha senhora--proseguiu elle, voltando-se para
Helena--que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou
feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias.

--Deve muito á Providencia, visto isso!--disse Helena suspirando,--ha
tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...

--É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a
mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...

--Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?--atalhou,
docemente reprehensiva, madre Paula--É muito avançar, quando nada sabes
a esse respeito, Paulo!

O mancebo sorriu.

--Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente
d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica
que me illucide ácerca do meu nascimento.

E voltando-se para Helena:

--Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos
carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela
grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros,
nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem,
tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de
penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que
amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o
nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os
conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á
sua benevolente e humanitaria tutella, como um _legado_, no espolio de
um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o
segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias,
quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o
abandono não póde ser mais evidente nem mais completo. Não é v. ex.^a
d'esta opinião, minha senhora?

--De certo--murmurou Helena com voz tremula.

--Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem
quando emprego esta palavra _abandono_ lhe ligo o menor sentimento de
revolta e indignação que ella póde inspirar. Nada d'isso. Elles
procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder.
D'esses motivos, porém, não fui eu o culpado, e isso me basta pensar
para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se
forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou
completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a
estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama
que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e que, por um
extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por
apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos!

Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella
alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero.

Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude
despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feições e nos
gestos os modos e as feições de Norberto de Noronha, sentiu-se
extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de
compassivo perdão para o criminoso abandono a que ella o votara.

--O senhor--disse ella--possue uma alma nobilissima e um coração dotado
de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que já o é, busque
nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixão, mesmo para
com aquelles que o offenderam ou aggravaram...

O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas não escapou a
madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que
se passava na alma da sua amiga.

--Paulo é um bello caracter--interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um
olhar de maternal ternura--e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a
sua educadora... Eu e o padre Filippe--emendou logo--porque é justo não
esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo
todos os extremos e disvellos de um pae.

O mancebo começou então recordando alegremente passagens esquecidas da
sua infancia, travessuras de creança, brincadeiras, affagos e
reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas
horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de
todo familiarisada com o filho.

Quando Paulo, pretextando não querer com a sua conversação fatigar o
espírito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a
sós com Helena, perguntou-lhe:

--E então?

--Então, minha querida Paula--exclamou a enferma--é bem meu filho, é bem
o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli está!

--Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moço, reflectindo
na figura varonil e cheia de nobreza as feições de teu pae? Dize-me, não
será elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques
ainda viver? Não seria doce e consolador para ti vêr-te, depois de
tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te
rodeiam?

Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de
felicidade.

--Sim... sim!...--disse ella--seria feliz ainda, se pudesse viver na
companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me
conhecem... Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, depois
que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada!

--Porque?

--Porque... tu comprehendes... na minha alma começam a despertar agora
todos os sentimentos do amor maternal, e não posso dizer a meu filho:
«Sou tua mãe!»



XXXI

O homem dos oculos verdes


Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre mãe e filho, na
casa de D. Aurelia.

Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo accôrdo no empenho de
salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de
modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes
reunidos á volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laços
de sangue que ligavam aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, á
infeliz victima do padre Anselmo.

A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mágoas e infortunios,
sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel
cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão attribulada
de dôres physicas e moraes.

Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma lesão
cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver
ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias.

Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para si, limitando-se a
recommendar que não expuzessem a enferma a sobresaltos e commoções
fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias.

O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era
amada por todos que a cercavam, não quiz destruir no coração dos que
tanto lhe queriam a dôce esperança de a verem completamente salva.

Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento proximo,
quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo
para fallar á dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza
pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras.

Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha.

Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, que quasi lhe descia aos
calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma
sotaina. Na cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que,
ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado á sua figura.

Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto agil, parecia fatigado da
longa jornada.

D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu á sala de visitas a
recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vêr diante de si
aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo.

--Minha senhora--disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa
suavidade--peço desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a
fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas
a importancia da minha missão é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v.
ex.^a não me recusará o auxilio de que careço para bem a cumprir.

--Não conheço a pessoa a quem estou fallando--respondeu D. Aurelia, com
simplicidade--mas se é o meu concurso para uma obra boa que vem pedir,
rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.

O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia:

--Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser
assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que só
deve ser revelado a sua prima, a sr.^a D. Helena de Noronha, actualmente
n'esta casa...

D. Aurelia fitou-o perplexa.

--E como sabe v. ex.^a que a minha amiga Helena está aqui, quando toda a
gente ignora...

O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza.

--Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos.
Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia
que elle me confiou com esse fim, e não me tenho poupado a esforços para
bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.^a D. Helena
permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.^a
certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mórmente
achando-me no fim da vida quasi, e não querendo levar commigo para a
sepultura um segredo que me não pertence...

--Quer v. ex.^a, pois, fallar com Helena de Noronha?

--É esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.^a, e para isso
ouso supplicar-lhe o favor da sua intervenção.

--A minha amiga, não sei se sabe, tem estado muito doente...

--Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras.

--O medico recommendou que lhe evitassemos commoções violentas...

--Estou persuadido de que a minha presença não poderá causar-lhe a menor
commoção, pois que me não conhece, como eu tambem pessoalmente a não
conheço a ella.

--Mas o objecto da sua visita...

--Não póde ser-lhe de modo algum desagradavel--atalhou o
desconhecido--porque o que tenho a dizer-lhe é a coisa mais simples e
mais natural d'este mundo.

--Quem devo, pois, annunciar á minha amiga?

--Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será sempre desconhecido. Se
v. ex.^a tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro
pretende fazer-lhe uma communicação importante e do mais alto interesse
para ella.

D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava
conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos já conhecidos e
convivendo n'aquella intimidade tão facil e tão peculiar á gente da
provincia.

Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos
physicos, inspirava a todos uma grande esperança de a verem em breve
completamente restabelecida.

Chegara mesmo, em conversação intima com madre Paula, a fazer projectos
de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que
elles fossem casados.

--Elle não saberá nunca que sou sua mãe--dizia ella--e eu poderei vêl-o
e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae,
quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que
elle me dirija, será para mim como que um signal de perdão enviado,
d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito,
que tanto fiz soffrer!

Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena
estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar á vida.

--Na tua mão está, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por
melhorar. Que o amor por teu filho te dê a força e a energia
indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o
futuro, relativamente feliz, será teu.

D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença das pessoas que a
rodeavam, da inesperada visita do desconhecido.

Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, approximando-se do leito,
disse-lhe sorrindo:

--Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita...

--Quem?--interrogou Helena.

--Um desconhecido que pretende fallar-te...

--Um desconhecido!--repetiu Helena com instinctivo sobresalto.

--Sim. Um desconhecido para mim e para ti.

--O que quer elle?

--Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia...

--A mim?!

--A ti.

--Que segredo de familia póde revelar-me uma pessoa que eu não conheço?

--Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na
vespera de ser assassinado e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o
incumbiu de te fazer uma revelação importante, se algum dia te
encontrasse ou tivesse noticias tuas...

--Meu primo Alvaro!--balbuciou Helena estremecendo.

--Sim... da parte do teu primo Alvaro é que elle vem.

--Como sabe esse homem que eu estou aqui?

--Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforços
para te encontrar. Sabendo que está doente n'esta casa uma antiga amiga
minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito.
Como se trata de um assumpto que póde ser de interesse e de utilidade
para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade...

--Queres, pois, que o receba?

--Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir...

--Pois bem; faça-se a tua vontade...

--A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir és
tu...

--Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer
revelações!...

--A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem
segredos que só em determinados momentos julgam opportuno transmittir
aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para
ser teu noivo... É, pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo
em que se encontrava teu pae e perdida a esperança de tornar a vêr-te,
encarregasse a um amigo a missão de um dia te esclarecer... E quem nos
diz a nós que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a
fortuna, quando tu menos a esperas?

Helena sorriu incredula.

--Não creio--disse ella--mas seja o que fôr, desde que se trata de um
segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem.

D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem
dos oculos.

Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o fito e não o
reconheceu.

O desconhecido inclinou a cabeça n'uma saudação, e pareceu esperar que
D. Aurelia se retirasse.

--Fica!--pôde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para
a sua amiga.

--Perdão!--obtemperou o desconhecido.--O que tenho a dizer a v. ex.^a é
tão importante segredo, que não póde ser ouvido por mais alguem.

--Não tenho segredos para a minha amiga...

--Todas as pessoas teem segredos--insistiu o homem dos oculos--e se a
ninguem é licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que
nos não pertencem. V. ex.^a não tem o direito de tornar publico um
segredo que lhe não pertence, que não é só seu, porque é tambem de sua
familia...

Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos
tremula e confundida.

--Este cavalheiro tem razão--disse D. Aurelia--Eu aguardarei na sala
proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor.

E sahiu.

Então o desconhecido, avançando alguns passos no quarto, fitou Helena e
disse-lhe em voz soturna:

--Não me conheces, Irmã Dorothêa, abadessa da Covilhã? Sou eu, o teu
cumplice!

Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no
homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato
do padre Anselmo.

--Não venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da
paixão ardentissima que a tua presença accendeu na minha alma, e menos
ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te
baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim.
Era justo que ao crime succedesse a expiação, e não haveria decerto
Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um
assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo
isso te perdôo. Sabes, porém, o que não te posso perdoar? É que ames
outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de Montarroyo
não será mais venturoso comtigo do que eu.

--Julio de Montarroyo!--balbuciou Helena aterrada--Quem lhe ensinou esse
nome?

--Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua existencia, filha de
Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha.
Sei tudo, que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos,
rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti,
quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posição, o
meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por
saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperança, e na
tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te
que chegou a hora de partirmos. Jurei que não pertencerias a outro, que
não amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes
áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto
a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou
preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará
alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime; é bem que o sejamos
na expiação. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para
morrer.

--Mate-me! mate-me!--soluçou Helena, pondo as mãos.

Então o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que
abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse:

--Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas terá cumprido
o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este
beneficio me deves, porque não quero que a morte te seja dolorosa.
Vamos! aqui tens a morte.

E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitação, acceitou
o veneno das mãos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade.

--Pago-te assim a minha divida--disse ella--Estamos quites. Se para me
ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida
em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o meu amor... e esse
eu não podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!

--Mas se eu te amo ainda!--exclamou o padre Hilario debruçando-se no
leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos!--Amo-te e morro
feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do
tumulo!

Depois, com voz tremula em que havia toda a expressão de um infinito
amor:

--Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que me pertencesses n'esta
vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas
eternas! Lá nos havemos de encontrar.

Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem
deixar transparecer na face impassivel a commoção que lhe agitava a
alma.

Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as
pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente,
como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.

Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou
suspeitar-lhe a verdadeira causa.

Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver
e acompanhou-o á sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver
tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu
um gemido, ao vêr desapparecer para sempre no pó da sepultura a face da
mulher que tanto amara!



Conclusão


Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe,
regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilhã, mandaram
chamar Paulo de Noronha.

--Meu filho--disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de
ferro quadrado--eu e madre Paula temos até hoje sido depositarios de uma
fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que
hajas attingido a maioridade e possas por lei dispôr do que é teu. Estão
n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o
teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do
nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular
com o pae da tua futura esposa as condições do teu enlace.

Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, encarava ora o padre
Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra.

--Oitocentos contos!--balbuciou por fim.--E d'onde vem tanto dinheiro?

--De teus paes--respondeu madre Paula.

--Meus paes! E quem eram elles?--perguntou o mancebo, na esperança de
que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado.

--Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram não traz nome.
Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicação nobre e
justa.

Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a
Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou:

--Como Deus é misericordioso e é justo! Esta fortuna, accumulada á custa
de crimes nas mãos do padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz
que é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno.

--Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os
crimes do pae!--replicou madre Paula.

No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr.
Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a
noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura
da _Irmã Dorothea_, legando uma parte dos seus haveres ao _mestre Tomba_
e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade.

E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador
Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor,
que tanto se salientára no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira
para Lisboa em companhia de João Lazaro.

Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da _Mão Negra_, nunca mais
Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na
direcção da famosa sociedade secreta, que é hoje a mais florescente e
poderosa de todas as suas irmãs.

FIM



INDICE


                               PAG.

I--Os irmãos da mão negra      5

II--Amor e esperança      23

III--Pae e filha      43

IV--Dois patifes      69

V--Madre Paula      78

VI--Á hora da morte      87

VII--Tres miseraveis      103

VIII--Entre irmãos      124

IX--Amores faceis      135

X--Para os grandes males      153

XI--João Lazaro      168

XII--Velhos conhecimentos      181

XIII--Denuncia      211

XIV--Miseravel!      239

XV--Conluio infame      255

XVI--O rapto      262

XVII--Quem semeia ventos      280

XVIII--Revelação      289

XIX--Um velho amigo      304

XX--Alma negra      317

XXI--Tal vida, tal fim      333

XXII--Mysterio      346

XXIII--Allucinação      357

XXIV--Extranho encontro      369

XXV--Pobre Helena      389

XXVI--Um amigo dos diabos      399

XXVII--Duas amigas      411

XXVIII--Coração morto      427

XXIX--Confidencias      436

XXX--Mãe      442

XXXI--O homem dos oculos verdes      452

Conclusão      461



Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pág.    8| ter fôr             | te for               |
  |#pág.   17| a aquella           | aquella              |
  |#pág.   18| danda-nos           | dando-nos            |
  |#pág.   23| algum temdo         | algum tempo          |
  |#pág.   24| pancado             | pancada              |
  |#pág.   25| com                 | como                 |
  |#pág.   35| Na primeiro         | No primeiro          |
  |#pág.   43| pupilllo            | pupillo              |
  |#pág.   70| mefica              | me fica              |
  |#pág.   98| ella                | elle                 |
  |#pág.   99| pabre               | padre                |
  |#pág.  109| palava              | palavra              |
  |#pág.  111| famila              | familia              |
  |#pág.  112| devo ou             | devo eu              |
  |#pág.  127| circumstancios      | circumstancias       |
  |#pág.  140| continou            | continuou            |
  |#pág.  162| aprsentou           | apresentou           |
  |#pág.  164| auctoridado         | auctoridade          |
  |#pág.  169| importaacia         | importancia          |
  |#pág.  190| as as minhas        | as minhas            |
  |#pág.  194| muduram             | mudaram              |
  |#pág.  201| tembem              | tambem               |
  |#pág.  202| risonha             | risonhas             |
  |#pág.  223| dinheiro            | o dinheiro           |
  |#pág.  226| trasnporte          | transporte           |
  |#pág.  235| respendeu           | respondeu            |
  |#pág.  258| dm                  | em                   |
  |#pág.  260| mutio               | muito                |
  |#pág.  263| prepada             | preparada            |
  |#pág.  263| seguiramos          | seguiram os          |
  |#pág.  267| pergunou            | perguntou            |
  |#pág.  271| as sentidos         | os sentidos          |
  |#pág.  288| ciosa               | coisa                |
  |#pág.  310| o gente             | a gente              |
  |#pág.  311| semelhanle          | semelhante           |
  |#pág.  311| qne                 | que                  |
  |#pág.  315| esssas              | essas                |
  |#pág.  317| a molestias         | as molestias         |
  |#pág.  333| pelo colera         | pela colera          |
  |#pág.  344| Lenor               | Leonor               |
  |#pág.  350| desconhcida         | desconhecida         |
  |#pág.  357| horrrivel           | horrivel             |
  |#pág.  357| algnma              | alguma               |
  |#pág.  365| pssou               | passou               |
  |#pág.  366| ssforços            | esforços             |
  |#pág.  430| Juliod e            | Julio de             |
  |#pág.  442| fiho                | filho                |
  |#pág.  450| setas               | estas                |
  |#pág.  450| o reprimendas       | e reprimendas        |
  +----------+---------------------+----------------------+


Ao longo do texto original encontramos "..", num espaço onde caberiam
reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro tipográfico,
substituindo os dois pontos horizontais por três.

Noberto e Norberto são variações constantes da mesma palavra, a manter
de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e
Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem.

Os números dos capítulos foram alterados a partir do capítulo XIII (no
original capítulo XIV da página 211), uma vez que houve um erro
confirmado com a ordem correcta do índice.

Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas não existiam e onde
faziam falta, por terem sido iniciadas e não terminadas.

Foram acrescentados travessões quando se mostraram necessários e
vice-versa.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Os Filhos do Padre Anselmo" ***

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