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Title: Claridades do sul
Author: Leal, António Duarte Gomes, 1848-1921
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Claridades do sul" ***

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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



CLARIDADES DO SUL



GOMES LEAL


CLARIDADES DO SUL


LISBOA
BRAZ PINHEIRO--EDITOR
Praça d'Alegria 73
1875



PRIMEIRA PARTE

INSPIRAÇÕES DO SOL



HYMNO AO SOL

     Vous prêtres! qui murmurez, vous portez ses signes sur tout votre
     corps: «votre tonsure» est le disque du «soleil,» votre «étole» est
     son zodiaque, vos «chapelets» sont l'embléme des astres et des
     planétes.

     VOLNEY (LES RUINES)


Eu te saudo ó Sol, bello astro amigo!
(Tão pontual ha tantos centos d'annos)
Mais reluzente que um broquel antigo,
Mais dourado que sceptros de tyranos;
Avé, heroica luz! viva e sonora,
Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas,
As florestas extensas dão gemidos,
            E o duro mar se chora!

Eu te saudo, ó astro das batalhas!...
Por que atravez das cruas dissenções,
Douras o pó que se ergue das mortalhas.
E levantas os nossos corações!
E por isso, ainda hoje, e eternamente,
Os romanticos te hão de a ti saudar,
--E os tristes sempre irão, á luz poente,
            Ver-te morrer no mar!

Tu és a Voz; a Côr; as _Harmonias_
Accordam com as tuas claridades;
És quem benze as aldeias e as cidades,
E quem fases cantar as cotovias;
És quem inspira extranhas theorias,
És forte, são, consolador e bom!
Tem a lua silencios e elegias;
            --Mas tu a _Côr_ e o _Som_!

Eu te saudo, ó astro dos guerreiros!...
Eterno confessôr de madrigaes,
Que desgellas os densos nevoeiros,
Que alegras as sonoras capitaes;
Que dás valor nos campos marciaes,
E força e amor aos aldeões trigueiros,
E que incitas os tigres carniceiros
            A beber nos caudaes!

Desde a Chaldea ás tristes solidões,
Tens tido cultos, templos levantados,
E velhos ritos barbaros sagrados,
E alegres, sensuaes religiões!...
Tu foste _Mithras_, nome cabalistico,
_Baal_, _Agni_, _Apollo_ (invocações)
--E hoje _Christo_--teu nome occulto e mystico--
            Fere inda os corações!

Quem contará, ó luz, tuas bondades?...
E o amor no qual o coração abrasas,
E as tuas funeraes solemnidades
Á ideal palpitação das azas?...
Quem nos livra das flexas do pecado?
Quem faz na intima terra o diamante?
Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado,
            E a idea extravagante?

Ave! pois, asto caro dos valentes...
Da Força, Vida, Gloria, da Paixão,
A flexa d'ouro aos corações ardentes,
Astro amigo das lutas e da Acção!
Ave! e em dias crús d'expiação
Vae, e beija--nas hervas relusentes--
Os que morrem, vencidos combatentes,
            --A espada inda na mão!



*Á JANELLA DO OCCIDENTE*

     O mundo oscilla
     (Luthero)


Os deuses ou são mortos ou caídos,
Quaes duros aldeões dormindo as sestas,
Ou andam pelos astros perseguidos
Chorando os velhos tempos das florestas,

Os reis ressonam nas devassas festas:
Já os fructos do Mal estão crescidos:
Ó Sol, ha muito que tu já nos crestas!
E aos nossos ais o Ceu não tem ouvidos!

Ha muito já que o Olympo está vazio,
E no seio d'um astro immenso e frio
É morto o Deus do Testamento Velho.

Apenas sobre o mundo eterno e afflicto,
Procura Fausto o _x_ do infinito,
E Satan dorme em cima do Evangelho.



*OS SANTOS*

     Les saints arrachaient leurs auréoles.
     (Dubois)


Viam-nos caminhar, exilados da luz,
As grandes povoações, as rochas, as paisagens.
E os corvos, os fieis amantes das carnagens,
Estos magros heroes, paladins de Jesus.

Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús.
Finavam-se a rezar ante as santas imagens,
E ouviam-nos bradar no meio das folhagens:
--Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!

Onde estaes hoje vós? nas grutas dos planetas,
Inda hoje rezaes, ó pallidos ascetas,
Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?

Na terra não; que ha muito a Materia nos nutre,
E nem no Ceu talvez;--no entanto o negro abutre
Tem saudades de vós nas cristas dos calvarios!



*D. QUICHOTE*

A Luciano Cordeiro


     O que é isto?


Nos tempos medivaes dos campeões andantes,
E das balladas como a do bom rei de Thule,
Andava D. Quichote em busca de gigantes,
Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.

Batalhador juiz da Virtude e do Crime,
Defendendo o opprimido, a mulher, o ancião,
Corria o mundo assim, ridiculo e sublime,
Em seu magro corcel, sob arnez de cartão.

Cheio de tradições, o velho mundo absorto,
Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel,
E como insectos vis sobre um cavallo morto,
Riam as multidões do ultimo fiel.

Ia triste a scismar, com a alma abatida,
Nos caminhos do mal rasgando as illusões,
Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida,
Cheio de apupos vis, d'escarneos e irrisões.

Vinha de batalhar espancado e abatido,
Cheio de contusões e lodos d'atoleiros,
E ao pé montando um burro, e o escudo já partido,
Sancho Pança a Materia, e o rei dos escudeiros!

Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue,
Emmagrecido e caalmo em meio dos estorvos,
--Vinham ladrar-lhe os cães, e pressentindo sangue,
Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.

Sancho Pança fiel, vasculhava a escarcella,
E ascultava a borracha emmudecida emfim;
Em quanto o Heroe scismava, inclinado na sella,
Na conquista ideal do escudo de Membrin.

Paravam aldeões, lavradores crestados;
Vinham á porta as mães, fiando o linho fino;
E os magros charlatães viam passar, pasmados,
Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.

Dançavam os truões; as sujas enxurradas
Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto?--
Satan n'um corucheu, dizia ás gargalhadas:
--Ó campeão do Bem! ó victima do Christo!



*O PUBLICANO*

     Ils erraient sales et immonds, et avaient des dévotions hypocrites
     (Dubois)


Um graõ doutor da Lei dizia ao publicano,
Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea,
Tambem tu vens orar, publicano sereia,
A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?

Jejuas tu agora e resas todo o anno,
Tu que levas o pobre e o orphão á cadeia,
Que tiras á viuvez o pão, o leito, e a teia,
Tu que és avaro e vil, pagão como um Romano?!

Que não resas como eu, que nunca vi desfeito
Dos compridos jejuns, nem macerar o peito;
E que hospedas Satan, como o antigo Saul!

Não vês como estou sempre erguendo ao Ceu os braços?
--O publicano então, disse, olhando os espaços:
«Tambem os poços são voltados para o Azul!»



*A LYRA DE NERO*


Nos seus jardins pagãos, entre archotes humanos,
Na lyra de marfim sobre as cordas douradas,
Nero vinha cantar ás noutes estrelladas,
Elegias d'amor e canticos thebanos.

Essa lyra do Mal que ouviram os romanos,
Que cantou entre o fogo, as casas abrazadas,
E os lutos, os truões, as ceias depravadas,
Que mysterios não viu, medonhos e profanos!

E, no emtanto, apesar da sua historia triste,
Se os tempos tem corrido, a Lyra ainda existe
Do devasso real, do lyrico histrião...

Seu canto inda nos prende e ouvimol-o sem susto,
E, ó Terror! ó Terror! eu que amo o Forte e o Justo,
--Ouço-o ás vezes tambem, dentro do coração!



*MYSTICISMO HUMANO*

     Sunt lacrimae rerum...
     (Virgilio)


A alma é como a noute escura, immensa e azul,
Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul,
Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras
Que cantam ao luar, á noute pelas eiras...
Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita,
E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita...
E como a folha morta em lagos somnolentos
As nossas illusões vão-se nos desalentos!

Tem um poder immenso as Cousas na tristeza!
Homem! conheces tu o que é a natureza?...
--É tudo o que nos cerca--é o azul, o escuro,
É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro,
A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos,
É a floresta espessa esguedelhada aos ventos;
Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos,
Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!...

--E os que viram passar serenos os seus dias...
E curvados se vão, ás longas ventanias,
Cheio o peito de sol, atravez das florestas,
Á calma do meio dia... e dormiam as sestas,
Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas...
Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas,
Outra vez sob o Sol--a sua eterna crença!--
Em fructos resurgir á natureza immensa,
E, aos beijos do luar, descansarem felizes,
Da bem amada ao pé, no meio das raizes!

Morrer é livramento! oh deve saber bem
Sentir-se dilatar na Natureza mãe!
Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra,
A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra!
Estremecer na encosta ás nocturnas geadas,
E recortar o azul das noutes constelladas!

Oh pelo claro azul d'essas noites serenas,
Que o segador trigueiro entôa as cantilenas,
Tristes como a lua e o espinho dos martyrios,
E que atravez do azul parecem cair lyrios!...
Quando a brisa levanta as folhas indiscretas,
Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas...
E a Natureza tem como um sabor de beijos,
Que obriga a soluçar a alma de desejos!...

Que segredos dirão nas brisas mensageiras,
Á doçura da lua, a flor das larangeiras,
O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes,
Que foram já, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes,
Conversam sobre o amor e os gosos ideaes
Do tempo, que a fallar corriam breve as horas,
Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras,
E debaixo do Ceu teciam longas danças,
Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!...

No lago somnolento a flor do nenuphar
Talvez é um coração que abre para chorar!
O lyrio um seio bom,--e as violetas curvadas
São os olhos talvez das doces bem amadas!...

Feliz o semeador que vive entre os arados,
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros,
E quando á noute finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos,
Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola,
E descanta chorando á noute na viola!...

E os que andam pelo mar, alegres e contentes,
Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus,
Hombro a hombro o abysmo,--abysmo sempre aos pés,
Que dormem á poesia, á lua das marés,
E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos,
Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!

Eu por mim não terei um astro bom nos Ceus,
Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus,
E que inda a fronte mal me obscureça a magoa,
Como espelhos d'amor já sejam rasos d'agua!...
Sósinho passarei, e não irei jámais,
Pelas murtas com ella ás tardes outomnaes;
De inverno não terei os consollos do lar,
Nem do estio a doçura immensa do luar;
Meus filhos não irão jámais colher os ninhos;
Ninguem virá á tarde esperar-me nos caminhos!



*OS MONGES DE ZURBARAN*

(IMITADO DE TH. GAUTIER)


Monges de Zurbaran! ó magros solitarios,
Que ao longo deslisaes dos grandes claustros frios,
Correndo eternamente as contas dos rosarios!

Dos remorsos sentis os santos desvarios?
Que mal vos fez a Carne, algozes de tonsura?
Espectros monacaes cavados e sombrios?

Essa materia vil--que é divina esculptura,
E que o Justo vestiu nas santas tradições,
Com que lei e razão é que bradaes--Impura?

Ó santos! eu entendo as allucinações!
Os chumbos em fusão, as abrasadas lenhas,
As grelhas, a polé, e as fauces dos leões!...

As rodas infernaes que rasgam as entranhas,
Tudo o que Roma ideou;--mas o que eu não entendo
É o suicidio e a fé sob essas estamenhas!

Por que pois, sempre assim, um suicidio horrendo?
E toda a noute a carne, entre as vis disciplinas,
Dilacerar até o sangue ver correndo?

Não são só as crueis macerações mofinas,
E o continuo bater nos peitos angulosos,
Que em tuas letras só, ó Christo! nos ensinas!

Julgais que Deus só quer aos grandes ulcerosos!
E que essa morte lenta, esse ar austero e grave,
Vos faça abrir mais cedo os ceus gloriosos?

Julgais que tal suicidio os grandes crimes lave?
--Largae das magras mãos, unidas, as caveiras,
Vossas covas, mortaes, deixai que um outro as cave!

O espirito immortal ergue-se entre as fogueiras;
Mas continuo insultar a Carne com desdem,
É rebaixar-te, ó Deus, a charlatão de feiras!

E comtudo que força e que energia teem,
Esses monges de Deus, em vivo amortalhados,
A viver sem mulher, sem paes, e sem ninguem!

Tão moços! e, assim já, tão velhos e cavados!
Por horisonte um claustro e um muro,--indifferentes,
Sósinhos a resar ante os Crucificados!

Teus frades, Lesueur, são d'estes differentes!
O triste Zurbaran soube exprimir melhor
Os extases do olhar e as cabeças doentes!

E a vertigem do ceu, o tedio, o desamor
Da Carne, que lhes dá aureolas febris,--
E esse aspecto que faz gelar-nos de pavor!

Como o duro pincel lhes pinta a flor de liz
Dos cilicios! e a luz dos olhos mortecidos,
E essas rugas que os faz magros, sublimes, vis!

Como as pregas alonga aos habitos compridos!
Como ás faces lhes cava a pallidez da terra,
Como se fossem já uns mortos estendidos!

Quando as vizões do Ceu nos extases descerra,
Ao Crucifixo os pés beijando soluçantes,
E açoutando-se qual o mar açouta a serra!...

Ou quando passeaes pelos claustros gigantes,
Nem mesmo a propria sombra atraz deixando ao muro,
--Sempre, ó monges! vos pinta eguaes e semelhantes!

Com duas tintas só--claro livido, e escuro,
Só duas posições--a recta e a que inclina,
Pintou a vossa historia e o vosso viver duro!

A forma, o raio, a côr, a luz que nos fascina,
Nada são para vós, magros indifferentes,
Por que o Ceu vos desvaira e a Cruz vos allucina!

E assim mudos passaes nas Biblias reverentes...
Julgando sempre ouvir nos ceus que se descobrem,
Trovejar de repente as trombetas dos crentes.

Ó monges! ó fieis! não entendeis o homem!
Talvez a herva cresça, agora, em vossos peitos,
Pois bem, que dizeis hoje aos vermes que vos comem?

Que sonhos maus fazeis n'esses extremos leitos?
Choraes o ter gastado o tempo que nos foge,
Entre essas solidões e esses muros estreitos?!...

Monges, o que haveis feito, inda o farieis hoje?!



*A BELLA FLOR AZUL*

     Quem saberá «signora» d'onde terá nascido esse bello lyrio branco?
     (Velha Comedia Italiana)


Eu não sou o fatal e triste Baudelaire;
Mas analyso o Sol e decomponho as rosas,
As rijas e crueis dahlias gloriosas,
--E o lyrio que parece o seio da mulher.--

Tudo que existe ou foi, morre para nascer;
Na campa dão-se bem as plantas graciosas,
E, um dia, na floresta harmonica das Cousas,
Quem sabe o que serei quando deixar de ser!

A Morte sae da Vida--a Vida que é um sonho!
A flor da podridão, o Bello do medonho
E a todos cubrirá o mystico cypreste!...

E, ó minha Sphinge, a flor pallida e azul no meio,
Que hontem tinhas no baile, e que trouxeste ao seio
Levantei-a d'um chão onde passára a Peste.



*HORA DO MEIO DIA*

     J'étois inquiet distrait, réveur; jé dèsirois un bonheur dont je
     n'avois pas l'ideé.
     (Confessions de J.J. Rousseau)


--Sosinho no meu quarto retirado,--
Certas horas do dia calorosas,
Quando as flexas do Sol queimam as rosas,
Eu scismo no seu corpo esbelto e amado!

As curvas do seu collo assetinado,
Mais fino que o das rollas amorosas,
Dar-me-hiam as noutes voluptuosas
De que fallam os doutos do Peccado.

Mas, no emtanto, lá fora o sol adusto
Queima as campinas e o aldeão robusto;
Vôam abelhas a colher o mel.

E eu cheio de tristeza e d'anciedade,
Continuo a scismar--como um abbade--
Na Virgindade olympica e cruel.



*CANTIGA DO CAMPO*

     Como eu adoro as tuas «simplicidades!»
     (Heine)


Por que andas tu mal commigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vaes cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noutes claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a violla tua,
Que, ás vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E fallam com tristes vozes
Do teu amor singular
Áquella casa onde cozes,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar comtigo, ó meu pomo,
Exposto ás chuvas e aos soes!
E uma noute morrer como
Se morrem os rouxinoes!

Morrer chorando, n'um choro
Que mais as magoas consolla,
Levando só o thesouro
Da nossa triste violla!

Por que andas tu mal commigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!



*A AGUIA*


No tempo em que era a grande deusa viva
Os deuzes, os heroes e as Musas bellas,
Dizia uma aguia velha e pensativa,
Que fizera a viagem das estrellas:

--Vão-se indo as tradições! e hão-de ir com ellas
Apollo, Jove, Vichnou e Siva!
Um astro é grão de luz; o mar saliva
De ti ó grande Pan!... Só Pan tu vellas!...

Mas quando assim fallava a aguia, eis quando
Se ouviu aquella voz triste bradando
Na Sicilia: _Morreu o grande Pan_!

Epheso estremeceu, carpiu Eleusis;--
Mas a aguia velha gargalhou:--Ó deuses!
_Qual será o deus novo de ámanhã_!



*ACCUSAÇÃO Á CRUZ*

    Ainsi lirat-il les artiques vérités, les tristes vérités, les
    grandes, les terribles vèrités.
    (De Quincey)


Ha muito, ó lenho triste e consagrado!
Desfeita podridão, velho madeiro!
Que tens avassalado o mundo inteiro,
Como um pendão de luto levantado.

Se o que foi nos teus braços cravejado
Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro,
Elle está mais ferido que um guerreiro
Para livrar das flexas do Peccado.

Ha muito já que espalhas a tristeza,
Que lutas contra a alegre Natureza,
E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, symbolo tremendo!
Queremos Vida e Acção--Fica-te sendo
Um emblema de morte e sepultura!



*LUTHERO*

     Ah, és tu diabo?...
     (Lenda mouacal)


Luthero, o frade austero e macilento,
Encontrou a Satan dormindo um dia,
N'uma rua d'Erfurt, á ventania,
Envelhecido, calvo e vinolento.

Dorme! gritou-lhe o frade... a teu contento,
Guloso Pae da Indigistão, da Orgia!
Renunciaste as lições de theologia,
Ó velho corvo mau do Firmamento?!

O mundo como tu é calvo e velho;
A Egreja é o lupanar do Evangelho;
E tu ó ébrio, gulotão, descanças!?...

Satan, olhando o azul, disse:--As estrellas
Vão pelo Ceu tão baças, amarellas,
Deus já deixou enferrujar as lanças!



*A TERRA*

     Fecundarás a terra com o suor do teu rosto.


Cavae, eternamente, a velha terra!
Soffrei, suae, gemei na dura enxada,
Fecundae-a na paz ou pela guerra,
Quer seja pelo arado ou pella Espada,

Ó Homem! trabalhar é tua herança
Até que a Morte, emfim, grite--descança!

É a Arvore a tua companheira
O lar, a tenda, a sombra de teus passos,
Da tua amante a perfumada esteira,
Como bençãos t'estende os longos braços!

E ou seja em teu inverno, ou teu estio,
E teu berço, teu leito, e teu navio!

É preciso que as lagrimas que correm
Façam crescer dos cardos os trigaes,
E por cima dos corpos dos que morrem
Se ergam verdes loureiros triumphaes!

É preciso que em paz ou pela Guerra,
Com pranto, ou sangue se fecunde a Terra!

É preciso caval-a!--nos teus braços
Luza a enxada ou o gladio de destroços!
A vida é curta--e breves nossos passos,
E as flores vivem, crescem sobre os ossos!

E o berço não é mais, ó creatura!
Que a linha d'união á sepultura!

É preciso que a Morte, a dôr e os lutos
Se transformem em vinhas ostentosas,
Nossos prantos convertam-se nos fructos,
Do sangue dos heroes tinjam-se as rosas!

Soffrei, lutae, morrei, ó infelizes!
--O vosso sangue é util ás raizes!



*O OURO*

A Theophilo Braga


Dizia o ouro á pedra;--Ente mesquinho!
Que profundo scismar sempre te préga
Á beira d'uma estrada, ou d'um caminho,
Pasmada, mas sem ver, eterna cega?!

Em vão o orvalho a ti te lava e rega!
Em ti não cresce nunca pão, nem vinho,
Dura e inutil--o lodo é teu visinho,
E o homem só, por te pisar, t'emprega!

Em ti só medra e cresce o cardo os lixos!
Tu serves só d'abrigo ao lodo e aos bixos,
E ensanguentas os pés descalços, nus!

Ó pedra! quanto a mim, sou a Riqueza!
--A cega disse, então, com singeleza:
--Eu, tambem, guardo no meu seio a Luz!



*O BUDA*

(De Catullo Mendés)


O Budha scisma, as mãos sobre os artelhos.

Aquelle então que ouvira os seus conselhos
Diz:--Mestre! os que não foram resgatados
Do Mal, são como uns ceus anuviados!
Aos povos que d'aqui moram distantes,
Para que a Lei não errem, ignorantes,
Consente que affrontando os soes e os frios,
Montes, rochas, passando a nado os rios,
Teu grande dogma, ó Mestre, eu vá prégando!...

--Mas se elles, corta o Budha venerando,
Te insultarem, eleito! que dirás?

--Direi só:--estas gentes não são más,
Pois vindo-lhes prégar de terra alheia,
Não me atiram aos olhos com areia,
Nem me espancam e ferem com pedradas!

--Mas se as gentes, acaso, allucinadas
Te espancarem, causando graves damnos?

--Estes povos, direi, são muito humanos,
E ha doçura n'aquelles corações;
Pois quando erguiam pedras e bastões
Contra uma creatura tão mesquinha,
Não tiraram a espada da bainha.

--Se o ferro te ferir?

      --São bons, de sorte
Que me ferem, sem querer-me dar a Morte!

--Se morreres?

      --A morte é grande esmolla!

--Vae pois, o Budha diz, salva e consolla!



*NO CALVARIO*


Maria com seus olhos magoados,
Ceus espirituaes, lavava em pranto
As largas chagas de Jesus, emquanto
Ria ao pé um dos tres crucificados.

Semblantes de mulher mortificados
Escondiam a dôr no casto manto;
Uma mulher d'Hennon chorava a um canto,
Jogavam sobre a tunica os soldados.

Martha, os pingos de sangue, alva açucena,
Dir-se-hia no bom seio recolhel-os;
Alguns riam brutaes d'aquella pena!...

Salomé tinha um mar nos olhos bellos;
João fitava a Cruz... Mas Magdalena,
Limpava a Christo os pés com seus cabellos!



*HÉLI! HÉLI!*


Quando elle, emfim, morrendo, elle o cordeiro,
Pomba mansa no ar pesado e immundo,
Pendeu-se como um lyrio moribundo,
Sobre a haste do tragico madeiro.

E lançando o espirito prufundo
Ao reino bello, grande, e verdadeiro,
Finou-se, emfim, chagado e justiceiro,
Ainda, ainda, perdoando ao mundo.

Um soldado romano vendo-o exposto,
E já morto na Cruz, com um desgosto,
Com a lança enristada o trespassou...

Saiu d'aquella chaga sangue e agoa...
--Ah sangue que não deu a tanta mágoa!
--Lagrimas, sim, talvez que não chorou!



*AS ALDEIAS*


Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas--
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas _visionarias_
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras--como eu gosto
Sentir a sua vida activa e sã!
Vel-as na luz dolente do sol posto,
E nas suaves tintas da manhã!

As creanças do campo, ao amoroso
Calor do dia, folgam seminuas;
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solidão das suas ruas!

Alegram as paysagens as creanças,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos ás cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos cães distantes
Com o canto metallico dos gallos...



*BENEFICIOS E PHILOSOPHIA DO SOL*


Tem sido até agora--o scintillante
E antigo Sol, amigo da Harmonia,
Que me tem ensinado, cada dia,
A desprezar a Morte escura e errante!

As densas nuvens do porvir distante
Desdenha-as a sua epica alegria,
E a sua heroica e sã philosophia
Nada, até hoje, eguala e é semelhante.

Decerto, é grato ao soffrimento insano
Dos tristes, quando surge o _rosto humano_
_Da lua_, abrandecer o Ceu com ais;

Mas, quando é que jámais dobrou á Sorte,
A alma do _fakir_, paciente e forte,
Mais sereno que as plantas e os metaes?!



*DISPUTA*


Voltaire dando com o pé n'uma caveira, ria
Com certo riso mau, sinistro e mofador;
--A velha companheira, então, da Theologia
Dos santos e da Cruz bradou ao pensador:

--És tu impio Voltaire, ó verme roedor
Das folhas do Evangelho! ó Satan da ironia!
Cujos risos crueis fazem chorar Maria,
E despregam do lenho a ensanguentada flor!?

Tu tens lançado o cuspo aos astros lancinantes;
Abalado da Cruz os cravos vacillantes;
E ladrado de Deus que julgas a dormir!...

Mas olha em cima é o Ceu, dos astros sementeira!...
--Voltaire disse-lhe então: Pois se assim é, caveira,
Por que te encontram, sempre, ao pé da cruz a rir?



*AS CATHEDRAES*


Como vos amo ver ó cathedraes sosinhas,
A recortar o azul das noutes constelladas!
Erguidos corucheus, mysticas andorinhas,
--Ó grandes cathedraes do sol ensanguentadas!

Como vos amo ver, pombas alvoroçadas!
Ogivas ideaes, anjos de puras linhas,
E ó criptas sem luz, aonde embalsamadas
Dormem de mãos em cruz as santas e as rainhas!

Em vão olhaes o Ceu sagradas epopeias!
Flores de renda e luz, d'incenso e aromas cheias,
Aves celestiaes banhadas da manhã!

Em vão santos e reis, ó monges dos desertos!
Em vão, em vão resais, sobre os livros abertos,
--O Ceu por que chorais é uma ficção christã!



*LYCANTHROPIA*

     L'auteur á remarqué que que la mort de ceux qui nous sont chers, et
     géneralment la contemplation de la mort, affecte biem plus notre
     âme pendaut l'été que dans les autres saisons de l'anineé.
     (Paradis artificiels)


Nuvens da tarde, azul fundo e sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Para mim não valeis seu riso ameno,
E aquellas _lindas_, languidas olheiras!

Nunca mais... eu bem sei que nunca mais...
Ouvir-lhe-hei seus ais no ar calado,
Junto á janella á tarde no bordado,
E entre as murtas do outono... Nunca mais!

..........................................

Quando á tarde, no occaso, os penetrantes
Cheiros das plantas nadam pelos ares,
E que as vermelhas nuvens singulares
Tomam formas de sonhos fluctuantes,

Quando ha no azul a mystica elegia
Que nos lança nas lugubres chimeras,
Eu scismo então--ó rutilas espheras!
N'aquella que já come a terra fria!

E então n'aquella vaga somnolencia--
Somnolencia em que a terra desparece!
Mais immortal seu vulto me parece;
Mais cruel e sem fim _aquella auzencia_!

Nuvens da tarde, azul fundo e sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Nunca mais me dareis seu riso ameno
E aquellas _lindas_, languidas olheiras.

Quando é que, ó grande e santa Natureza!
Me poderás um dia consollar
--D'aquella que já mais eu pude amar!--
Inacreditavel, lugubre crueza!

D'aquella que talvez, alegre e louca,
Eu de certo amaria;--amara, é certo!--
Mas que era pobre e só, e cuja boca
Tinha a vermelha côr d'um cravo aberto!

Cuja voz era doce como um favo,
Voz que tocava as cordas mais secretas!
Que nos fazia o coração escravo,
Cujos olhos... leaes tulipas pretas!...

Nuvens d'Agosto, azul fundo e, sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Nunca mais me dareis seu riso ameno
E aquellas _lindas_, languidas olheiras!

Nunca mais... Ah! mas não; Virá um dia,
--Dia livre de vis _conveniencias_!--
Que a ella me una em fim na terra fria,
E te ache ó paz! nas santas florescencias!



*O PECCADO*

     Nunca cessamos de peccar
     (Imitação de Christo)


I

*Ubique doemon*


Bem sei... e mais que o sei, claro luar!
Que segundo a severa theologia,
Pelas noutes sonoras de poesia
O aroma dos lyrios faz peccar!

Quem vos diría!... madresilvas, mar,
Lilazes, claros rios, cotovia!
Que ao dizer da tirannica theoria,
Vós farieis a Carne triumphar!

Ah! Natureza, pois, se és criminosa,
E nos levam ao mal urnas da rosa,
Bom coração de Christo imaculado!...

Quantos não vês morrer, do ceu prufundo,
Cheios de sangue, como heroes no mundo,
--Exhautos dos mil golpes do Peccado!?--


II

*O Peccado*


Elle é antigo, tragico e venal,
Amando a Carne, o Crime e os assassinos,
E como a folha acerba d'um punhal,
--É quem golpeia os seios femeninos!--

É complicado, mystico, mortal,
Com sombrios escrupulos divinos,
E é quem faz estorcer os braços finos,
E escorregar a lagrima final.

No entanto, grato e funebre Peccado!
Atrahente, gostoso e desejado,
Negro nome de vicio e perdição!...

A Egreja vê em tudo as tuas chagas;
E ha muito tempo já que o mundo esmagas,
E te embriaga o sangue da Paixão!


III

*A Cidade*


Em vão busco na velha e hostil Cidade,
Beata amante, de gangrenas cheia,
As dispersas raizes da Verdade,
--Como uma flor n'um pateo de cadeia.

Quando, alta noute, D. _Juan_ passeia,
Ella põe-lhe em leilão a mocidade,
Tratada com a mystica anciedade
Com que um sabio cultiva a flor da Idea.

Mas, comtudo ninguem receia tanto
O aspero Deus, e o lenho sacrosanto
Da dorida tragedia do Calvario!

E, ó _D. Juan_, ás luzes das estrellas,
Tu bem sabes se encontras nas viellas
Mais de uma vez, perdido algum rosario!...


IV

*O Inimigo*

     Á genoux! Je suis Pan!
     (Victor Hugo)


Ha muito que é chamado o Aborrecido,
O rebelde, o leproso, o descontente,
E eterno tentador sempre vencido,
Que habita o Ar, a Terra, e o Fogo ardente.

Elle é a hydra, a Carne, o incontinente,
O orgulho nos abysmos submergido,
O que anda sempre em _nós_, o cão batido,
O espirito da Duvida, a Serpente,

Mas, mau grado, ó Egreja, a tua ira,
Elle não é nem Vicio, nem Mentira,
Nem synonimo de Mal e de Impureza!...

E eu bem sei, negro symbolo apupado,
Velho satyro, vil, calumniado,
Diabo! que te chamas «Natureza!»


V

*Em toda a parte*


_Elles_ tem dito e escripto que o Peccado
Anda disperso e roe o mundo inteiro,
Que habita o duro coração guerreiro,
E o peito femenino e delicado.

Que anda no ar, em nós, da flor no cheiro,
Das pugnas no ruido desolado,
No vinho, na paz doce do mosteiro,
--No corpo da mulher perfeito e amado!--

É portanto, homem timido e sujeito,
Quer te encostes, ou não, ao vão Direito,
O teu funebre gozo e teu tormento!

Habitua-te a tel-o na Desgraça,
No ar, no chão, na flor, no som que passa,
--E até, serpente vil, no Pensamento!


VI

*Á Janella*


Altas horas da noute, quando a rua
É deserta da onda crapulosa,
No seu caminho em meio, vagarosa,
--Abro a minha janella a ver a lua.

Como uma branca divindade nua
Ella avança celeste, e, á luz ditosa,
Qual copo de cristal que enche uma rosa,
O goivo do Peccado em luz fluctua.

Fluctua, e é nestas horas recolhidas
Que me ergo então ás cupulas subidas
D'onde se avista o mystico ideal...

E rio, e admiro o vulgo obsecado
Que cuida ver, nas beiras d'um telhado,
Abrir-se n'um _craveiro_ a flor do Mal!


VII

*Ella*


Quando _ella_ emfim morrer, verão os vivos
Cortando o ar uns ais de sentimento,
Como os lugubres córos dos captivos
N'um triumpho, ou n'um grande saímento.

Ouvir-se-hão soluços pelo vento,
Elogios, ais fundos, fugitivos,
Que dirão:--«Lá se vão meus lenitivos!
Morreu a Espada, a Lei, Guia e Sustento!»

O seu tumulo terá goivos e rosas,
E vãs estatuas lividas, chorosas,
E epitaphios em lugubre latim.

Terá palmas mais verdes que a Esperança;
--Mas a alma, em cima, escreverá:--Descança!
Serpente, irmã de Judas e Cain!



*SONETO D'UM POETA MORTO*

Achado nos seus papeis


Bem sei que hei de morrer cedo e cansado,
Alguma cousa triste em mim o diz,
E vagarei no mundo desterrado,
Como Dante chorando a Beatriz.

Pelos reinos, irei talvez curvado,
Como um proscripto princepe infeliz,
Ou como o indio pallido e exilado
Chorando o vivo azul do seu payz.

Mas no entanto, ah! ninguem ao Sol divino
Abrasou mais as azas, derretidas
Ante as duras, ferozes multidões!

E ninguem teve a torre d'ouro fino,
Aonde, quaes princezas perseguidas,
Morreram minhas doudas illusões!



*A UMA JUDIA*

(SAUDAÇÃO)


     Avé Regina!
     (Hymno Catolico)

     Podem apagar o Sol e as estrelas, bastam-me os olhos da minha
     amada!
     (Idyllio persa)

     Le second soleil! Le second soleil.
     (Phan taisies scientifiques de Sam)


Ó filha d'Israel, ó vestal impolluta!
--Serena como a côr diaphana do azul--
O rebelde da Luz vencêra Deus na lucta
Se armara contra os ceus teus cabellos do Sul.

Filha de Cham e Loth, tu és o ideal vivo!
(Ó ouro, incenso e myrra, ó licor nunca visto!)
Quando nos queima a luz do teu olhar esquivo,
Teus olhos ferem mais do que os cravos do Christo!

São dous cravos de luz, dous limpidos espelhos,
--A luminosa cruz onde me ensanguentei!--
N'elles soletro claro os grandes Evangelhos,
E n'elles leio mais que nas taboas da Lei!

Quando passas por mim, toda a minha alma anceia!
E os meus olhares vão cobrindo-te de beijos,
--E tu passas--archanjo em corpo de Phrynea,
E biblia encadernada em lubricos desejos.

Ah! teus olhos crueis, limpidos, negros, baixos,
Se um dia o sol morrendo, enoutecesse os ceus,
Ser-me-hiam, mulher! como dois grandes fachos,
Á luz dos quaes iria a ver se achava Deus!



*A VISITA*


Hontem dormia á noute--e, eis que desperto
Sacudido d'um vento agudo e forte,
Como um homem tocado pela Morte,
Ou varrido d'um vento do deserto.

Accordei--era Deus, que de mim perto,
Me dizia: Alma sceptica e sem norte!
É preciso que creias e te importe
Adorar o Deus Uno, Eterno, e Certo!

É preciso que a fé cresça em tua alma
Como no inutil saibro a verde palma,
Verme! filho da Duvida--Eis-me aqui!

Eu sou a Espada o Antigo, o Omnipotente!
Crê barro vil!--Mas eu, descortezmente,
Voltei-me do outro lado e adormeci.



*PALACIOS ANTIGOS*

A Anthero do Quental.


Bons castellos leaes nas rochas construidos,
Ás contorções do vento, á chuva ennegrecidos,
Que vamos admirar na angustia dos poentes;
Grandes sallas feudaes com tellas de parentes,
O que fazeis de pé, como entre os nevoeiros,
Os antigos heroes e as sombras dos guerreiros?!

Uma grande tristeza enorme vos habita!
No entanto a alma antiga ainda em vós palpita,
Evocando a emoção das chronicas guerreiras;
E mau grado o destroço, a herva, e as trepadeiras,
--Como um desejo bom nas almas devastadas--
Cresce, ao vento, uma flor no peito das sacadas!

A parasita hera avassalou os muros!
Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros,
Tudo dorme na paz das cousas silenciosas;
E nos velhos jardins aonde não ha rosas,
--Só resistindo ainda aos seculos injustos--
Uma Venus de pedra espera entre os arbustos!

Paira em tudo o silencio e o lugubre abandono
Das cousas que já estão dormindo o grande somno,
Evocando ainda em nós os velhos cavalleiros,
--E ás lufadas do vento, os grandes reposteiros,
Entre as nossas visões das epocas sublimes,
Agitam-se ao luar vermelhos como crimes.

Mas no entanto o poeta entende aquellas dores,
E as mudas solidões, os largos corredôres,
As boas castellãs as gothicas janellas,
Abertas toda a noute a olhar para as estrellas;
Só elle sabe os ais e os gemidos das portas,
--E inveja ás vezes ser o pó das cousas mortas!



*CAIN*


Cain no mundo errante, desterrado,
Fugindo á sua dôr cruenta e dura,
Morria sobre um valle, abandonado,
No sollo primitivo da Escriptura.--

O remorso--esse mal que não tem cura--
Não abatia o peito allucinado
Do que nasceu no seio do Peccado
Que herdou depois a géração futura.

Do Ceu sem mendigar luz nem consollo
Conservava inda erguido e altivo o collo;--
Mas nessa hora fatal que a todos vem...

Cain velho rebelde,--e atheu primeiro--
Nosso pae, nosso irmão, como um guerreiro.
Bradou, caindo--Ó Terra! ó Minha Mãe!



*A PRIMAVERA*

     De Julio Forni


Hãode dizer-me--Insensatos!
Que tenha novos amores,
Que brilham já outros soes,
De novo se abrem as flores
E é o tempo dos rouxinoes.

E dirão inda depois:
Que a primavera começa,
E andam aromas no ar,
Que nos sobem á cabeça,
Como um vinho singular.

E eu dir-lhes-hei: Que m'importa!
Faz frio, fechem-me a porta!
--Ella, o meu bem, meu abrigo,
Levou, desde que está morta,
A Primavera comsigo!



SEGUNDA PARTE

REALIDADES



*ACCUSAÇÃO A CHRISTO*

(A Theophilo Braga)


Bradava um dia ao Christo, ao Redemptor,
Satan, cançado d'insultar os astros:
--Eis-te pendido ahi qual velha flor,
Propheta escarnecido nos teus rastros!...

Vê como a Egreja vae! baixel sem mastros!
Navio roto em mares do Equador!
E os seus padres tem ouros e alabastros,
E folga, Messalina sem pudor!

Tem lançado teu corpo aos cães e aos corvos!
Falsificado a Lei, cheia d'estorvos,
E fogueiras erguido, ó Christo! ó Cruz!...

Satan dizia mais... mas lenta e lenta,
Uma lagrima viu sanguinolenta
Escorregar na face de Jesus!



*DE NOUTE*

A João de Deus


Elle vinha da neve, dos trabalhos
Violentos, custosos, da enxada;
Cantando a meia voz pelos atalhos.

A mulher loura, infeliz, resignada,
Cosia junto á luz. O rijo vento
Batia contra a porta mal fechada.

Ao pé havia um Christo, um ramo bento,
E uma estampa da Virgem, colorida,
Cheia de magoa olhando o firmamento.

Uma banca de pinho, mal sustida,
Vacillante nos pés, um candieiro;
Companheiros d'aquella negra vida.

O homem alto, pallido, trigueiro,
Entrou; tinha as feições queimadas, duras
Dos que andam com a enxada o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras
Do seu rosto contavam já tristezas
De grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas
D'aquella vida assim! Talvez sonhado
Um dia, com palacios e riquezas!

Elle deitou-se a um canto; fatigado
D'erguer-se alta manhã, todos os dias,
Mal voavam as pombas no telhado.

Lá fora, nuvens grossas e sombrias
No pesado horisonte; elle assim esteve;
--As noites eram asperas e frias.--

Ella cobriu-o d'uma manta leve
Esburacada, velha;--no telhado
Ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ella, então, meditou no seu passado;
No seu primeiro beijo; nas lembranças
Talvez, do seu vestido de noivado.

E nas tardes das eiras; e das danças
Ás estrellas, e aquella vez primeira
Que a rosa lhe furtou das longas tranças!

E aquella tarde junto da amoreira,
Que trocaram as mãos; e na janella;
E quando olhavam, juntos, a ribeira.

E quando era timida e singella...
..........................................
Lá fóra, dava o vento nos caixilhos;
Não brilhava no ceu nem uma estrella.

E, áquella hora da noite, por que trilhos
Andariam no mundo--ella scismava--
Nas miserias, talvez, sem rumo, os filhos!

Elle na manta velha resonava.



*AQUELLE SABIO*


N'aquellas altas janellas
Que deitam para o telhado;
Eu vejo-o sempre encostado,
A namorar as estrellas.

Tem assim ares d'empyrico
Mui lido em philosophástros;
É um pobre poeta lyrico,
Que escreve cartas aos astros.

Traz luto nos seus vestidos
Por uma Ophelia de menos,
Tem uns cabellos compridos,
E uns olhos tristes, serenos.

Parece um Jove proscripto,
E já descrente das Ledas,
Conhece o hebraico, o sanscrito
E os livros santos dos Vedas.

Espelha na luz do olhar
Não sei que visões amenas;
Anda sempre a imaginar
Idylios ás açucenas.

E aquella mulher vaidosa
--Que elle chama a sua Egeria--
Ri d'aquella alma anciosa,
E aquella triste miseria...

..........................................
..........................................
..........................................

Mais de tres dias ou quatro
Que lhe falta o necessario;
Estava hontem no theatro
Com luvas côr de canario.



*NA TABERNA*

A João de Deus


       Vejo apontar o hynverno...
    os crepitantes frios
    Me açoutam as vidraças...
    (Francisco Manoel)


Alguns dormem nas mezas, debruçados,
Junto aos restos de um vinho já bebido;
--Outros contam seus casos desgraçados.--

Um d'elles alto, magro, mal vestido,
Conta historias d'amor, lançando fumo
D'um cachimbo de gesso ennegrecido.

Um tenta levantar um outro a prumo
Sobre os hombros, e um calvo, e já vermelho
Faz das suas miserias um resumo.

Depois conta que o pae ethico e velho
Lhe está para morrer; lastima a vida;
E sobre as vinhas pede um bom conselho.

A casa é escura, velha, ennegrecida
Do fumo. Noute velha, ouve-se o vento
Bater na antiga porta carcomida.

O frio, a neve, a fome, o mau sustento
Tem quebrantado muito aquellas frontes,
E em muitos esmagado o pensamento.

N'alguns extinguido, mesmo, as fontes
Da justiça e do bem; e feito errar
No mundo, como os lobos pelos montes.

E o egoismo dos filhos e do Lar
Banido o dó das lastimas estranhas;
E tornado-os mais frios do que o mar.

Alguns vivem nas neves, nas montanhas,
Outros o rio tem por seu visinho;
E com a Fome travam más campanhas.

E--todos--tem o ar triste e mesquinho,
Dos que vão sem prazer, habituados,
Como a um somno que tira maus cuidados,

Beber as suas lagrimas com vinho.



*OS LOBOS*

     La neige batait les vitres...
     (Gustavo Droz)


Cae lentamente a neve em cima dos telhados.

Tres longos dias crus, terriveis são passados,
Que o rude lavrador anda por fóra ao vento,
Á neve, ao frio, ao sol, em busca de alimento,
E ainda não voltou. Um dos tres filhos chora;
Rija e sonoramente, a chuva cae lá fóra.

Quem sabe se virá? Já tem corrido os dias:
Ella pobre mulher, viuva d'alegrias,
Magra, branca, doente, aspecto macerado,
Ha muito que presente um caso desgraçado,
O assassinio talvez!... Ha horas malfadadas,
A miseria é sinistra e extensas as estradas!

Talvez pelo caminho, entre atalhos perdidos,
Na dura escuridão matassem-n'o os bandidos;
A fome magra e escura a tudo obriga e atreve!
Talvez de sangue esteja, ainda, tinta a neve!

Elle era bom;--talvez um pouco rude e duro!
Mas é que a vida é triste e o seu trabalho escuro
Á chuva, ao frio, aos soes, e entre o luar gelado
Faziam-o cruel; e ás noutes embriagado
Talvez para esquecer, tinha--sinistro o vinho;
Mas, no entanto era o sol d'aquelle estreito ninho,
A Alegria, a Força; e a fome macerada
Tinha-a espancado sempre a sua forte enxada!

Então cheia de dôr, pallida de receio,
Quiz il-o procurar, pegou n'um filho ao seio,
O mais novo, e accendeu tremendo uma lanterna.
Vinha, ás vezes, no vento uns risos de taberna;
A noute era cruel, a chuva rija e fria;
Riam-se os pinheiraes, a solidão gemia;
Corriam tradições de mortes e de roubos;
E ouvia-se, na neve, uivar de fome os lobos.

Se saisse talvez não encontrasse abrigo!

Os filhos, a chorar, pediam ir comsigo.
Um esfregava o rosto em prantos e cabellos,
Perto d'um gato esguio envolto entre novellos,
E outro roto e magro edefinhado, em pranto,
Soluçava e tossia ao mesmo tempo a um canto.

Ambos elles sem côr, doentes, encovados,
Dormiam pelo chão, nos asperos sobrados,
Magros, cheios de febre, em farrapos, sombrios,
Sordidos, semi-nús e lividos dos frios,
E a manta esburacada e cheia de rasgões;
De vez emquando, ao longe, ouviam-se os trovões,
Caia fina a neve, a chuva terminára,
E como um grande alvor o meigo azul limpára!--
Ella saiu então; na capa esburacada
Embrulhou bem o filho e foi-se pela estrada;
Mas, elles, a chorar, quizeram ir com ella,
E como o escuro azul tinha uma clara estrella
Deixou-os ir tambem--que um d'elles se o levava
Era por ser aquelle a quem o pae beijava,
E affagava, sorrindo, e enchendo de carinhos,
Quando o ia, aguardar á noute, nos caminhos!

A miseria é fatal! dorida farça escura
Que termina o christão latim da sepultura!

E assim pensava só, vestida de tristeza
A nervosa mulher, n'aquella natureza
Sombria, dura, má; por entre aquelles gelos,
E aquelle vento cru rasgando-lhe os cabellos:

«Ella nascera só para a dôr!--da Desgraça
Ha muito havia já que lhe amargára a taça!
Não conhecera nunca os risos e agasalhos;
--Os miseraveis Deus só faz para os trabalhos!

E, áquella hora, talvez, felizes e contentes,
Cheios do bom calor os ricos indolentes
Comeriam, á luz das vélas perfumadas,
Nas mesas sensuaes; e em quanto nas estradas
Pelos atalhos máus e as veredas sombrias,
Ella ia a tiritar por entre as nevoas frías.
Sem pão, sem luz, sem Deus--alegres satisfeitos,
Elles riam, talvez, da chuva nos seus leitos!

O sol d'elles é bom!--Nos duros ceus serenos
Parece que não ha um Deus para os pequenos!»

E continuava a errar por campos, por florestas;
Era o inverno cruel, tinham-se ido as giestas;
Iam sangrando os pés nos asperos espinhos;
A neve amortalhava os lividos caminhos.

«Ah como os ricos são serenos e felizes!
--Elles sordidos, vis, podem comer raizes,
Não ter lume nem pão, andarem macilentos
Ás nevoas e aos soes e aos gelos dos relentos;
São os parias, os Jobs, os vis--e rejeitados
Como os mortos que traz o mar esverdeados!

E as mães se não serão leaes, boas, contentes!
Sempre os filhos com pão, os filhos sempre quentes,
Cheios d'amor e sol, vestidos de cuidados
De beijos, d'affeições, d'arminhos, de bordados,
Amados seraphins, olympicos amores,
E áquella hora talvez em leitos como em flores;»
--Em quanto os seus, da fome encovados, immundos,
Tremendo d'ella ao pé sublimes e profundos,
«Sem pão, talvez sem pae, sem leito brando e leve,
Choravam semi-nús, descalços pela neve!»

Em toda a parte a neve amortalhava o sollo!

Por fim cada vez mais chorava o filho ao collo;
Não rompia o luar, não tremia uma estrella;
Nem mesmo o proprio ceu se amerciava d'ella;
Lembrou-lhe as lendas más de mortos e de roubos;
E ouviu-se já mais perto uivar de fome os lobos.

Cada vez, cada vez, se approximavam mais;

Ella poz-se a correr por selvas, por pinhaes;
Mas caiu-lhe a lanterna,--os filhos aturdidos
Açoutavam o ar de choros, de gemidos,
Já tinha em sangue os pés dos rijos matagaes;
Os lobos cada vez se aproximavam mais!

Na sombra, então, ouviu-se um grito lacerante,
Tinham levado um!...

                  Terrivel, n'este instante,
Voltou-se para traz, como hyena ferida,
Desvairada, feroz, tragica, enfebrecida,
Desejando rasgar, rugir, lutar tambem;
Mas logo na sua dôr, lembrou-se que era mãe,
E que ia a expôr os mais aos dentes aguçados
Dos animaes crueis.--Elles, os desgraçados,
Eram filhos tambem!--tambem seu coração!
--Fraca e vencida emfim poz-se a chorar então.

«Ella vivêra sempre entregue á dura sorte,
Tão avara, cruel, que era mais doce a morte;
Sempre a escrava fiel da Familia, do Lar,
Das duras afflicções; sabia só chorar;--
Não invejára nunca as pompas nem os brilhos;
E até nem mesmo o Ceu lhe concedia os filhos!»

Dir-se-hia a noute eterna, a noute desolada;
Começou a correr nos campos desvairada;
Depois voltou atraz... ouviu-se um ai profundo;
Uivavam outra vez--Levaram-lhe o segundo.

Então o medo escuro apederou-se d'ella!...
Não se via no ceu tremer nem uma estrella,
A solidão profunda, a nevoa fria, intensa,
E em toda a parte só chovendo a neve immensa.

Proseguiu a correr, louca, feroz, sem tino,
Quasi o filho a esmagar d'encontro ao seio fino,
Na dura escuridão, chamando em altos brados
Os nomes immortaes, os symbolos sagrados;
Pedindo compaixão, miseravel, vencida,
Fraca, chorando já aquella negra vida,
Convulsa de terror;--mas, longe, lentamente,
Começaram a uivar os lobos, novamente.

De novo retomou a barbara carreira
Desalentada já; até que quasi á beira
D'um fosso aberto ali n'uma vereda escura,
Como um cadaver cae em uma sepultura,
Por fim, quebrada, hostil, olhando os negros ceus
Caiu cheia de dôr, injuriando Deus.

No ceu surgia a lua--e já se ouvia agora,
Mais perto, elles uivar na solidão sonora;--
Ali, ella aguardou que fossem devoral-a.
..........................................
Serena ergueu-se a lua, a lua côr d'opala!...



*MISERIA OCCULTA*


Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noute escura;
E o pobre astro que ali móra,
Não abandona a costura!

Para uns a vida é d'abrolhos!
Para outros mouta de lyrios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martyrios!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o velludo
D'aquelles olhos honestos!...

Ninguem seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas...
E aquellas formas tão puras,
E aquellas mãos elegantes!

Sempre á costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer á rua
Aquella loura encantada!

Aquelle lyrio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei!--não tem calçado!
E é muito usado o vestido!

Por isso não tem porvir
Morrerá virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova...
Que eu bem a ouço tossir!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida
Tão nova e ainda em botão!
Como teve estreita a vida,
Terá estreito o caixão!



*LISBOA*

     Cette ville est au bord de l'eau; on dit qu'elle este batie en
     marbre...
     (Baudelaire)


De certo, capital alguma n'este mundo
Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo,
Mais collinas azues, rio d'aguas mais mansas,
Mais tristes procissões, mais pallidas creanças,
Mais graves cathedraes--e ruas, onde a esteira
Seja em tardes d'estio a flor de larangeira!

A Cidade é formosa e esbelta de manhã!--
É mais alegre então, mais limpida, mais sã;
Com certo ar virginal ostenta suas graças,
Ha vida, confusão, murmurios pelas praças;
--E, ás vezes, em roupão, uma violeta bella
Vem regar o _craveiro_ e assoma na janella.

A Cidade é beata--e, ás lucidas estrellas,
O Vicio á noute sae ás ruas e ás viellas,
Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros;
E á triste e dubia luz dos baços candieiros,
--Em bairos sepulchraes, onde se dão facadas--
Corre ás vezes o sangue e o vinho nas calçadas!

As mulheres são vãs; mas altas e morenas,
D'olhos cheios de luz, nervosas e serenas,
Ebrias de devoções, relendo as suas _Horas_;
--Outras fortes, crueis, os olhos côr d'amoras,
Os labios sensuaes, cabellos bons, compridos...
--E ás vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burguezes banaes são gordos, chãos, contentes,
Amantes de Cupido, avaros, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas e nos lutos,
Bastante sensuaes, bastante dissolutos;
Mas humildes crhistãos!--e, em lugubres momentos,
Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

E assim ella se apraz n'um somno vegetal,
Contraria ao Pensamento e hostil ao Ideal!--
--Mas mau grado assim ser cruel, avara, dura,
Como Nero tambem dá concertos á lua,
E, em noutes de verão quando o luar consolla,
Põe ao peito a guitarra e a lyrica violla.

No entanto a sua vida é quasi intermitente,
Afunda-se na inação, feliz, gorda, contente;
Adora inda as acções dos seus navegadores
Velhos heroes do mar; detesta os pensadores;
Faz guerra a Vida, á Acção, ao Ideal--e ao cabo
É talvez a melhor amiga do Diabo!



*A SESTA DO SENHOR GLORIA*


É no fim do jantar. Deram tres horas
No bom relogio antigo dos avós,
E o senhor Gloria pega n'uma noz
Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada
E o estuque cheio d'aves, de paysagens,
De nymphas, prados, d'aguas, de boscagens,
Tem uma forma antiga e recatada.

D'involta com seus goles de Madeira
A senhora digere o seu café;
E ao lado, um filho rubido de pé
Parece um pregador sobre a cadeira.

No collo da matrona dorme um gato
No melhor somno commodo do mundo,
Em quanto em baixo um cão grave e profundo,
Contempla uns restos que inda estão n'um prato.

O senhor Gloria falla, chocarreiro,
Do seu cunhado Aleixo de Miranda;
Lá fóra, um papagaio n'um poleiro
Diz cousas aos burguezes, da varanda.

Com um ar meio comico e boçal
Um sisudo creado atraz, de pé,
De vez em quando falla menos mal;
--O senhor Gloria aspira o seu café

Muito tempo assim ficam n'esse estado
De santa somnolencia e beatitude,
Mais que assás conhecido da Virtude
Quando tem digerido e bem jantado.

No entanto o senhor Gloria, olhos dormentes,
Contempla na parede os bons pastores,
Confidentes fieis dos seus amores,
--Que outrora hão já sorrido aos seus parentes

Duas pastoras fallam com poesia
N'uma vereda d'alamos annosos,--
E isto accorda-lhe os tempos virtuosos
Que a hora do jantar era ao meio dia!

Bellos tempos--pensa elle--de virtude!
De gloria, amor, coragem, fé ardente,
De longas procissões, e de saude,
De singelesa e paz--vida contente!

E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro
Deita a cabeça, de pensar prostrado;
--O papagaio ri no seu poleiro,
--E a senhora sorri para o criado.



*FARÇA TRISTE*

     Je suis son pére.
     (Flaubert)


Ninguem diria ao certo a edade que teria!
Era um velho devasso e histrião--bom guia
Para mostrar de noute, aos baços candieiros,
As casas de bordeis aos velhos estrangeiros.

Encontravam-o sempre a errar, imbecilmente;
Era alto, magro, hostil, e dava-se á aguardente--

Tinha um certo tremor em todo o corpo--o vinho
Dava-lhe um rir constante; tinha o sorrir mesquinho
E dubio que nos faz arrepiar mau grado;--
Fôra mendigo e actor, ladrão, bobo e soldado.

Tinha os habitos vis e as _farças_ de caserna,
Ninguem sabia mais os casos de taberna;
Como era magro, esguio, e alto como um cypreste
Dobrava para o chão; o sopro do nordeste
Fazia-o tiritar; tinha os labios fendidos,
E uns oculos azues e linho nos ouvidos.

No entanto segue o Mal varios e negros trilhos!
O livido truão tinha mulher e filhos
Esfomeados, nus, amados com paixão;
Por elles fôra tudo:--actor, bobo e ladrão.

Quando voltava á noute, as lividas creanças
Rotas, velhas da fome, _ella_ soltas as tranças,
Desfeita, emmagrecida, esqualida, doente,
Faziam-o chorar a vida e a aguardente.

Injuriava Deus. Elle é sublime e augusto,
Bello celeste, bom; dizem-o grande e justo,
E habita são, feliz, de soes agasalhado,
Em quanto os _mais_ tem fome, e que elle acabrunhado

Era velho e ladrão! Tinha accessos, delirios,
E apostraphava o Ceu hermetico aos martyrios,
Abraçava a mulher e os filhos, e de novo
Saia;--d'esta vez, voltava com um roubo!

Quando voltava então, os prantos da alegria
Tornavam-os boçaes,--e o pão era uma orgia!

A mulher tinha um rir alegre e natural,
E elle magro e faminto, exhausto, machinal,
Chorava como um pae; tinha olvidado o inferno,
A misería, a desgraça; era boçal e terno;
Tinha um ar virtuoso e angelico; os pequenos
Cansados de soffrer a fome, o frio, ao menos
Sabiam comer bem! Eram emfim felizes!
Não rojavam na terra a devorar raizes!
Comiam-lhe o seu pão! Custara-lhe trabalho!
Coitados! sempre assim, sem pão nem agasalho!
Era uma vida atroz, ingrata vil, escura!
Não tinham de comer, não tinham cobertura!
Tossiam tanto á noute!--Ah! Deus era um ingrato!

E os prantos em roldão cahíam-lhe no prato.



*MADRIGAL DA RUA*


Ó irmã das açucenas!
Meu coração é um horto,
Semeado de mais penas
Que as chagas d'um Christo morto.

Tanto é ver-te o meu desejo!
Tanto em mim poder conservas!
Que eu creio se não te vejo
Já ser debaixo das hervas!

..........................................

Debaixo d'essas janellas
Sempre crueis e fechadas,
Hontem á noute, ás estrellas,
Deram-me quatro facadas!

Mas nenhuma fez no peito
O mal,--que por minha cruz!
Os teus olhos me tem feito
Dando facadas de luz!



TERCEIRA PARTE

CARTEIRA DE UM PHANTHASISTA



*ANTES DE ABRIR A CARTEIRA*


Aqui leitor socegado!
Velho burguez d'outras eras!
Depõe o livro de lado;
--Não leias estas chimeras!

Não corras esta carteira
Meu velho amigo sem dentes!
Em quanto geme a chaleira
Sonha em teus mortos parentes!

Mas vós amigos dos sonhos
Doces mysticas violetas,
Castos selvagens tristonhos,
E solitarios poetas!...

Que amais as tristes paysaygens
E as cousas mysteriosas,
A longa chuva, as viagens,
E as melodias nervosas.

Nas longas noutes d'outono
Que o vento varre a poeira,
E a chuva bate--sem somno!--
Folheae esta carteira!



*A NOUTE DO NOIVADO*


O primeiro conviva, em punho a taça,
Ergueu-se lentamente, e com voz rouca,
Bradou: Amigos! consenti que faça
Uma saude á Morte--a velha louca!

A minha historia é triste e muito pouca!
Eu como vós, sou filho da desgraça,
Amei uma só vez. Que mimo e graça!
Oh que pé andaluz! que olhar, que boca!

Na noute do noivado--ouvi, devassos!
Beijei-a doudamente entre meus braços,
E atirei-a no mar, tremula e nua!

Ninguem não mais a gosará um dia!
Repousa ali a minha noiva fria,
Guardada pelo olhar frio da lua!



*A TORTURA DAS CHIMERAS*

     Les édifices eloquentes...
     Balzac


Quantas vezes, nas noutes pluviosas,
Ou nas limpidas noutes estrelladas,
Como espectros de espinhos e de rosas--
Erguem-se em nós as cousas apagadas!

Que vezes, n'esta vida positiva,
--N'esta comedia lugubre moderna--
Se eleva a outra esphera nobre e viva
Nossa alma mais poetica, mais terna!

Os contornos das cousas despresadas,
Um fundo triste, um muro, umas ruinas
Um mosteiro, um luar--nas almas finas
São como umas celestes madrugadas.

Quem não terá jamais sentido um dia
As gostosas torturas do _mysterio_
Surgindo, ao fundo, a mystica elegia
D'um nevado luar n'um cemiterio!

Sim, nestes climas lucidos do Sul,
Tão propenso ás visões sentimentaes
E ás chimeras--quem não terá jámais
Tido a cruel _melancholia_ azul?

Sim, quantas vezes n'uma tarde bella,
Á dorida eloquencia d'um castello,
D'um muro, não pensei nos Ceus, _n'aquella_
Que eu podia partir como um cabello!

Nuvens distantes, rubras, singulares,
Formas vagas... neblinas pardacentas,
Velhos musgos... azul... _cousas_ nevoentas
Sois causas de phantasticos pesares!

Quem não terá scismado em suas magoas
E amado as cousas mysticas, celestes,
Por um luar calado sobre as aguas
E um choroso sol posto entre os cyprestes!

No entanto sonhos vãos que nos prendeis
Qual prendem velho muro as verdes heras...
--É tempo brancas pombas que deixeis
Os laranjaes e as ruas das chimeras!

E é tempo que as torturas assassinas
Que nos rasgam melhor do que um punhal,
--Bem o sabeis mãos brancas, pequeninas!
Vos não junteis _miserias_ do Ideal!



*TARDE DE VERÃO*


Trepam-lhe pelas janellas
Jasmins, cheirosas serpentes,
E soltam-se as bambinellas
Em pregas indifferentes.

Os lyrios que são uns ais
Suspiram melancholias;
Riem quadros sensuaes
Nas largas tapeçarias.

Satyro ri nas florestas
Niobe soluça magoas,
E escuta-se entre as giestas
A voz rythmica das agoas.

E á luz dubia dos occasos
Ensanguentados do Sul
As camelias dos seus vasos
Olham voltadas o azul.

Lá dentro das gelosias
Volteiam como desejos,
Perfumes, melancholias,
Como saudades de beijos.

Jaz ao pé do seu bordado
Um cofre de filigrana,
E um mandarim espantado
Com olhos de procelana.

Uma violeta esfolhada
Chora um amor n'um jardim.
Uma vareta quebrada
Ri n'um leque de marfim.

Nadam no quarto perfumes
D'oleos, pomadas cheirosas,
Um collar mostra os seus lumes;
Voam aves gloriosas

N'um album perto olvidado
Ha uns idyllios d'amores,
E ao pé d'um Christo chagado
Morrem nas jarras flores.

Mas, pasmada alheia a tudo
Junto d'um missal já velho,
Uma masc'ra de velludo
Olha idiota no espelho.

Olhos vasios d'espanto,
Olha, olha, nada vê,
Ri-se uma Venus a um canto,
E um cravo murcha-lhe ao pé.

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................

Assim eu sou moço velho,
E em minha alma, ó minha amada!
Como a masc'ra no espelho
Eu olho e não vejo... nada!



*NA CABECEIRA D'UM LEITO*


Quando as tuas mãos inermes
Forem em cruz sobre o peito,
E que te roam os vermes
Ó corpo branco e perfeito!

E sejas cheia de terra
Boca cheia de risadas,
Chora este amor que me aterra...
Pelas noutes estrelladas!...



*MADRIGAL EXCENTRICO*


Tu que não temes a Morte,
Nem a sombra dos cyprestes,
Escuta, Lyrio do Norte,
Os meus canticos agrestes:

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................

Tu ignoras os desgostos
D'um coração torturado,
Mais tristes do que os soes postos,
Ou de que um bobo espancado!

Eu bem sei, ó Musa louca
Que não conheces a magoa...
E tens um riso na boca
Como um cravo aberto n'agua...

Eu bem sei... bem sei que ris
Dos meus madrigaes modernos.
Sem cuidar, ó flor de liz!
Que hão de chegar-te os invernos!

Que nos corre a Mocidade,
Qual folha verde do val,
E ha de vir-te a tempestade,
Ó branco lyrio real!

Que has de ser como a açucena
Varrida pelo nordeste...
E os prantos da minha pena
Que hão de regar teu cypreste!

Que ha de a terra agreste e dura
Servir-te de ultimo leito...
E a pedra da sepultura
Quebrar teu corpo perfeito!

E has de, emfim, ser devorada
Na fria noute, entre os bichos...
Ó tu que andas adorada,
Como as santas sobre os nichos!...

--Eu bem sei que te não does
Do meu coração ralado,
E fazes aos rouxinoes
Parodias sobre o teclado.

Que amas ver--como n'um drama,
O meu coração ferido,
Como um gladiador de fama,
Sobre um theatro vencido.

--Ah! mas eu que já estou velho...
Carcomido como a Cruz...
Digo adeus ao ceu vermelho...
E ás boas tardes de luz!

..........................................
..........................................

Adeus, adeus, ó Amor!
Sinistra farça divina,
Mais sonoro que o tambor
De bohemia bailarina!

Adeus, adeus, ó outomno!
Vão-se as folhas amarellas!...
Sinto-me cair de somno,
Olhando para as estrellas!

Sigam todos os meus rastros!...
Andei errado o caminho!
E sinto-me ebrio dos astros
Como um bebado de vinho!

Adeus, adeus rola amada!
Não chores a minha viagem...
Vou hospedar-me no Nada,
Como na boa estalagem!

Adeus, adeus, Mocidade!
Já chega o inverno do Mal!...
Vae despir-te a Tempestade
Nevado lyrio real!

Chegou a noite fechada!
Adeus tardes das janellas!
--Pintai-me agora no Nada
Sobre as tristes aquarellas!



*AQUELLA ORGIA*


Nós eramos uns dez ou onze convidados,
--Todos buscando o gozo e achando o abatimento,
E todos afinal vencidos e quebrados
No combate da Vida inutil e incruento.

Tocava o termo a ceia--e ia surgindo o alvor
Da madrugada vaga, etherea e crystallina,
A alguns trazendo a vida, e enchendo outros de horor,
Branca como uma flor de prata florentina.

Todos riam sem causa.--A estolida batalha
Da Materia e da Luz travara-se afinal,
E eram já côr de vinho os risos e a toalha,
--E arrojavam-se ao ar os copos de crystal.

Crusavam-se no ar ditos como facadas;
Escandalos de amor, historias sensuaes...
--Rolavam nos divans caindo, ás gargalhadas,
Sujos como truões, torpes como animaes.

Um agitando o ar com risos desmanchados,
Recitava canções, farças, Hamlet e Ophelia;
--Outro perdido o olhar, e os braços encruzados,
De bruços, n'um divan, roia uma camelia!

Outros fingindo a dôr, fallavam dos ausentes,
Das amantes, dos paes, com gritos d'afflicção,
--Um brandia um punhal, com ditos incoherentes;
--Outro sobre um sophá ladrava como um cão.

Era um delirio atroz de risos pelos ares!
--Ah! mas eu, que só quero a paz dos vegetaes,
Feliz! então feliz! matava os meus pesares
N'aquelle ocio imbecil da pedra e dos metaes!

Havia extinto em mim as ultimas scentelhas;--
Julgava achar-me só n'aquelle phrenesim,
Não sentia pungir as minhas magoas velhas,
Feliz! muito feliz!--ah! descansava emfim!

Repousava a final da pallida batalha,
Espalhava-se em mim o grande esquecimento;
Cuidava achar-me emfim cingido da mortalha,
Ou minhas cinzas já dispersas pelo vento.

Quando um d'elles então--n'uma ironia rude,
E erguendo-se de pé, na vasta confusão,
Com um rir bestial ergueu uma saude
--_Áquella_ que tornou-me em cinza o coração!...

..........................................

--Ah! seu nome cruel, de subito lembrado,
De novo reabriu todas as minhas magoas!
E desfeito, de pé, senti-me transmudado,
Como um morto trazido á praia pelas aguas!

E como o morto errante ás luas silenciosas,
Ao vento, aos temporaes, ás algas das marés,
Trazendo inda a visão das noutes tempestuosas,
--Todos calou o horror da minha pallidez.

E em lagrimas bradei, então:--Ó Infelizes!
Imbecis! histriões! heroes do Soffrimento!
Como haveis de fechar as vossas cicatrizes,
--Se nem aqui deixaes matar o pensamento?!



*O VISIONARIO ou Som e Côr*

(A Eça De Queiroz)


     Eu tenho ouvido as simphonias das plantas.


Eu sou um visionario, um sabio apedrejado,
Passo a vida a fazer e a desfazer chymeras,
Em quanto o mar produz o monstro azulejado
E Deus em cima faz as verdes primaveras.

Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homem d'outras eras,
Talvez por um contacto ironico lavrado
Que fiz e já não sei talvez, n'outras espheras.

A espada da Theoria, o austero Pensamento,
Não matou ainda em mim o antigo sentimento,
Embriagam-me o Sol e os canticos do dia...

E obedecendo ainda a meus velhos amores,
Procuro em toda a parte a musica das côres,
--E nas tintas da flôr achei a Melodia!


II

       J'ai vu les Espréces et les Formes,
    j'ai vu l'Esprit des Choses.
    (Balzac Seraphita)


Bem sei que a planta engana e a Natureza mente,
E que a flexa do Sol nos pode assassinar,
Que a Peste torna o azul sereno e resplendente,
E que a pérola sae das infecções do Mar!

Tudo é Materia e Força e lei omnipotente!
E em quanto o lyrio incensa e azula-se o luar,
Impassivel talvez, em baixo, surdamente,
A terra cria a flôr que me hade envenenar.

Bem sei! mas, na floresta immensa das Theorias,
Eu amo divagar ouvindo as melodias
Que as plantas musicaes dão aos astros e aos Ceus.

Ah! eu vejo Jesus no coração das rosas!
Só eu, ouço as leaes flores melodiosas!
E o lyrio é para mim a hostia onde está Deus!


III

     O vermelho deve ser como o som d'uma trombeta....
     (Um cego)


Allucina-me a Côr! A Rosa é como a Lyra,
A Lyra pelo tempo ha muito engrinaldada,
E é já velha a união, a nupcia sagrada,
Entre a côr que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, ás vezes, brota a flôr que não inspira,
A trivial camelia, a branca enfastiada,
Muitas vezes no ar perpassa a nota alada
Como a perdida côr d'alguma flor que expira!

Ha plantas ideaes d'um cantico divino
Irmãas do oboé, gemeas do violino;
Ha gemidos no azul, gritos no carmezim!

A magnolia é uma harpa etherea e perfumada!...
E o cacto a larga flor, vermelha e ensanguentada,
Tem notas marciaes, sôa como um clarim!


IV


Mas aquella que adoro, a hieratica duqueza,
Nobre como as reaes senhoras de Brabante,
Como a hei de pintar egual e semelhante,
Se não ha Som nem Côr em toda a Natureza!

Seu collo tem do lyrio a rigida firmeza,
Seu amor é um ceu catholico e distante;
Mas a luz do olhar sonoro e radiante
Eleva como a Côr, sôa como a Belleza!

Nunca lhe ousei fallar, nem sei, se amor lhe inspiro;
Mas quando emfim morrer, então como um suspiro
Meu seio florirá, em vez do meu amor...

N'uma flor que porá talvez sobre a janella--
Uma flor rubra e negra, em forma d'uma estrella,
--Como uma symphonia obscura de terror!



*MADRIGAL FUNEBRE*

     Na mortalha alheia não temos mais que fazer
     Bernardim Ribeiro.

     To die to sleep.
     (Shakspeare)


A ti que os meus ais resumes
Estas quadras dolorosas,
Corpo inundado em perfumes,
E de pomadas cheirosas:

..........................................
..........................................

A mim custa-me a morrer,
--Não por que esta vida valha;
Mas porque sei que heide ter
Teu coração por mortalha.

E, depois d'estes abrolhos,
Hei de ter a valla escura
Do teu peito, e esses teus olhos
Coveiros da sepultura.

Não terei pompas de pasmos,
Nem a estatua que lastíma;
E hão de mandar pôr-me em cima
Uma cruz dos teus sarcasmos!

E para que a morte atteste
Epitaphio de bocejos,
--E ao pé erguido um cypreste,
Nascido dos meus dezejos.

E ao ouvires as enxadas
No que morreu sem confortos,
Serão tuas gargalhadas
As ladainhas dos mortos.

E então ali que me rôa
O verme dos teus olvidos,
E não tenha uma corôa
E os teus cabellos fingidos.

..........................................
..........................................
..........................................

Ó filha vã de Magdala!
Quanto cadaver desfeito
Não tens lançado na valla
Voraz e fria do peito!?

Quantas crenças enterradas!
E que mortos, sem capellas,
Sem pombas, nas madrugadas,
Nem os prantos das estrellas!



*DEBAIXO D'UMA JANELLA*

A Batalha Reis

FAUSTO E MEPHISTOPHELES


FAUSTO

Nas noutes brancas de lua
É que se abrem as janellas!
Vem vêr meus olhos escuros
A sementeira d'estrellas!

Quem me dera a mim que fosse
Para te poder fallar,
O teu peito uma janella
E o meu amor o luar!


Uma voz (_cantando dentro_)

As estrellas mais brilhantes,
Entre as outras as primeiras,
São os prantos de Maria
E o suor das Oliveiras.


MEPHISTOPHELES (_cantando n'uma guitarra_)

O nosso bom arcebispo
Perdeu a sobrepeliz,
Uma vez em casa de...
São cousas que o povo diz.


FAUSTO

Eu era um rei poderoso,
Sem legiões, nem castellos,
Tendo a corôa de teus braços,
E o manto de teus cabellos!

Meu amor, são os teus olhos,
Mais negros que a noute escura,
Dous trigueiros assassinos
Cavando-me a sepultura!


A voz (_cantando_)

Os rubins são umas pedras
Feitas de pingos de luz,
Foram as gotas de sangue
Dos roxos pés de Jesus.


MEPHISTOPHELES

Escrevi o meu amor
No muro do coração,
N'uma noute de relento,
Com teus olhos de carvão!


FAUSTO

Por que estaes, soes, encobertos,
Ó tristes olhos amenos!
Receias ó minha esquiva!
Não te crestem os serenos?


A voz (_cantando já ao longe_)

Quando subiu ao Ceu Christo
Depois da paixão da Cruz,
Subiu por vós, ó estrellas!
Que sois escadas de luz!


MEPHISTOPHELES

Eu deixarei, ó trigueira,
D'amar tuas tranças negras,
Quando mandarem os sapos
Sonetos ás toutinegras.


FAUSTO

Fecharam-se as violetas
E dormem as andorinhas;
A mim ha muito que o somno
Desertou das noutes minhas!

Ó bem amada das almas,
Tão avara de carinhos!
Acaso nos teus canteiros
Sómente crescem espinhos!

(_affastam-se e vão de braço dado_,)


MEPHISTOPHELES (_ao longe_)

O nosso bom arcebispo
Perdeu a sobrepeliz
Uma vez em casa de...
São cousas que o povo diz!



*A SELVAGEM*


Ás vezes, como os grandes _phantasistas_,
Sinto o desejo intenso das viagens...
E ir sosinho habitar entre os selvagens,
Como n'um ermo os asperos trapistas.

As grandes, vastas, limpidas paysagens,
Que sabem vêr os immortaes artistas...
Teriam novos tons, novas imagens,
Longe do mondo avaro e as suas vistas!

Com uma virgem--flor d'essas montanhas--
Entre os mil sons das arvores extranhas,
Dos coqueiros, bambus... fôra feliz!...

Dormiria em seus braços nus, lustrosos;--
E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,
Tintinar-lhe as argollas do nariz!



*A LANTERNA*


O sabio antigo andou pelas ruas d'Athenas,
Com a lanterna accesa, errante, á luz do dia,
Buscando o varão forte e justo da Utopia,
Privado de paixões e d'emoções terrenas.

Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas
E que mais alto puz a sã Philosophia,
Ha muito busco em vão--ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concepções serenas.

Tenho buscado em balde, e em vão por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a dôr!...

De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim só, n'um tedio indignado,
E apaguei a lanterna--É só um sonho o Amor!



*ULTIMA PHASE DA VIDA DE D. JUAN*

(AMOR DE COSINHA)


     Afinal D. Juan vinha, hoje, a morrer d'uma indigestão.
     (Palavras d'um grande realista)


Cançado de vãos fogos de Bengalla,
Como Pansa odeei o Pensamento,
E abandonei os ideaes de salla
--Pelo amor da cosinha succulento!

E os meus fortes desejos sensuaes,
--Desejos que hão de dar na morte escura!--
Soluçam só--ó deuses immortaes!
Só pela ama d'um florído cura.

Ella é o forte e esplendido ideal!
Seu cabello é mais fino do que o ouro,
E a sua voz mais bella que o metal,
E os cantos catholicos do côro.

Os seus labios vermelhos e discretos
Lembram romãs das cercas clericaes,
E os seus olhos sombrios são mais pretos
Do que o latim escuro dos missaes!

Se, acaso, o mundo nota-lhe alguns erros,
Compensa-os para mim com bons presuntos;
Os olhos d'ella fazem mais defuntos,
Dos que o padre acompanha nos enterros!

Fugiu de mim a vã melancholia!...
Ella é franca e alegre como a vinha...
E em quanto o padre está na sachristia
Eu devoro-lhe as aves na cosinha.

--Mas, hontem, que gosando o seu amor
Dormia, santamente, entre seus braços,
Bateu, tragicamente, o bom prior,
E a escada rangeu sob os seus passos...

O coração pulsou-me acelerado;
Ella estacou trémula e suspensa....
Mas levou-me a um sitio agasalhado,
--E dormi toda a noute na dispensa.



*A ULTIMA CEIA DE FALSTAFF*


Nunca mais me permitte a sorte crua
Que ande ás portas batendo tresnoutado,
Vae morrer em beco, abandonado,
O maior bebedor que olhou a lua!

Dos braços da creada seminua
Nunca mais rolarei sobre o telhado;
E, ao relento, encherei, com passo errado,
De lettras cabalisticas a rua.

Vae morrer, morrer sim, por seus castigos,
O estomago que foi mais forte e cheio,
Que na Paschoa ceiou com Satanaz...

Cae o rival dos bebados antigos!
Ó toneis immortaes abri-lhe o seio!
--São-me fataes as ceias de _goraz_!--



*FALSTAFF MODERNO*

     In vino veritas


Quando eu morrer, ninguem lerá no craneo
      Se eu fui mouro ou judeu,
Se presava o _cognac_ ou o _Madeira_,
      Que soffrer foi o meu!

Ninguem dirá se era trigueiro ou louro,
      Se eu fui Pope ou Camões,
E os sabios não dirão, coçando a calva,
      A côr dos meus calções.

Não saberão dizer se foi a pipa
      O hotel em que vivi,
E se fazia sol ou aguaceiros
      No dia em que nasci.

Se, apoz a douda orgia, o meu enterro
      Pela manhã, sair,
Tu virás á janella bocejando,
      E em coifa de dormir.

E não conseguirás verter um pranto
      Do terno teu setim,
Em quanto os gordos padres irão lentos,
      Ressonando em latim!

Os annos jogarão com os mais craneos
      E o meu magro esqueleto
Uma especie de jogo das caveiras
      Dos coveiros d'Hamleto!

Ninguem, mulher, dirá que _funda magoa_
      Minou meu coração!
E eu mandarei pôr, por epitaphio!
      --Maldita indigestão!--

Mas que ideas tão negras! O que importa
      Rôa a terra mais um!
Depois da morte! o nada. Ó minhas lagrimas
      Não me estragueis o _rhum_!



*NA RUA*


Veijo-a sempre passar séria, constante,
--Ás vezes, inclinada na janella,--
Tranquilla, fria, e pallido o semblante,
Como uma santa triste de capella.

Seu riso sem callor como o brilhante
No nosso labio o proprio riso gella,
E ella nasceu para chorar diante
D'um Christo n'uma estreita e escura cella.

Seu olhar virginal como as crianças
Jamais disse do amor as cousas mansas;
Jamais vergou da Força ao choque rude.

Abrasa-a um fogo divinal secreto!--
eu sinto, mal a avisto, ao seu aspecto,
O brio intenso e negro da Virtude.



*PHANTASIAS DA LUA*

     Terret, lustrat, agit proserpiua, Luna, Diana, Ima, supernas,
     feras, sceptro, fulgore, sagitta.
     (Distico de Hieronim)


Hontem fui atravez dos arvoredos,
--Os bons carvalhos épicos rugosos!--
Com _ella_, como dous novos esposos,
--E a lua então contou-nos mil segredos!--

Ella vinha estreitada contra mim--
E atravez das veredas seculares,
Dava a lua umas sombras singulares
Á sua alva botinha de setim!...

Não haviam estatuas nas veredas,
--As estatuas crueis entre as ramagens!--
E ouvia-se o ranger das suas sedas
Sobre as folhas,--segindo-a como uns pagens.

Tremia todo unido contra o meu,
Como uma ave, seu braço palpitante;
E era vago, qual musica distante,
O azul nocturno mistico do Ceu.

De vez em quando unia contra a minha
A sua mão mais branca que um cyrio,
E como um casto amante uma rainha
Seguia atraz do seu vestido um lyrio.

As fontes tinham agoas de brilhantes;
E em quanto a sua voz vibrava em mim,
Eu fitava seus olhos avidos, amantes,
Na sua alva botinha de setim.

Ella é fragil e timida. Ama as rosas,
Crê nos sonhos, _visões_, nos malmequeres,--
E chora com as musicas nervosas
Como as debeis e mysticas mulheres.

No entanto mais ninguem do que eu receia
Seus pobres, frageis nervos delicados!
Ninguem mais me seduz do que a sereia,
Correndo a mão fransina nos teclados!

Iamos assim fallando d'escudeiros,
Paladins, lendas, dramas, toda a escura
Edade media, em quanto na espessura,
Os rouxinoes cantavam nos loureiros.

Mas eis que pára... e diz-me de repente,
Cravando-me o olhar tragico sublime,
--Mata-me um dia!--E eu li, perfeitamente,
--Em seus olhos _azues_ o _amor_ do Crime!--

Mata-me tu! cruel! disse-lhe eu rindo,
E em quanto o seu olhar errava em mim,--
E enterra-me depois n'um sitio lindo,
--N'um loureiro que cresce em teu jardim!

Minha alma ali será perto da tua,
Como as almas irmãs, branca sereia,
E tremerei nas folhas, pela lua,
Ao sentir teus pésinhos sobre a areia!

Manda pôr o meu corpo em sitio lindo,
Debaixo d'um loureiro, em teu jardim;
Meu bem! Mata-me tu! disse-lhe rindo:--
Ensanguenta as botinhas de setim!

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................

E eis aqui como em noutes amorosas
Nestes bons climas callidos do Sul,
Produz sonhos, _chymeras_ monstruosas,
A triforme immortal--a lua azul!



*O SELVAGEM*

A Silva Qinto


Eu não amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
--Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N'um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram á lua...



*O AMOR DO VERMELHO*

(Nevrose d'um Lord.)


A idéa de teu corpo branco amado,
Belleza esculptural e triumphante,
Persegue-me, mulher, a todo o instante,
--Como o assassino o sangue derramado!

Quando teu corpo pallido, e brijado,
Abandonas ao leito--palpitante,
Quem jámais comtemplou em noute amante,
Tentação mais cruel, tom mais nevado?!

No emtanto--duro, excentrico desejo!
--Quisera as vezes que a dormir te vejo
Tranquilla, branca, inerme, unida a mim....

Que o teu sangue corresse de repente,
Fascinação da Côr!--e extranhamente,
Te colorisse pallido marfim!



*A UM CORPO PERFEITO*


Nenhum corpo mais lacteo e sem defeito
Mais roseo, esculptural e femenino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Immovel, nù, sobre o comprido leito!--

Nada te eguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matal-a, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D'aquelle corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida;--
E o goso sensual de a vêr vencida
Ha de ser forte, extranho e singular...

Como o das cousas dignas de castigo;
--Ou d'um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d'um altar.



*CARTA AO MAR*

     Ó ondas fugitivas!...
     (Camões)


Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lyrico, choroso,
E terno visionario, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vae ter comtigo,
--Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu,--vasto e humido jazigo!

Nada é mais _triste_, tragico e profundo!
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!...
Mas tambem, quem te poude consollar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia!--
E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia;
--A Musica é mais triste inda que o Mar!



*A LENDA DAS ROSAS*


No principio eram mais doces os olhares
      Socegados de Deus!
Era mais verde o manto destes mares
      E mais azues os ceus!

Não tinha nuvens este sol na rota,
      Nem tormentas o Sul,
Nem era, como o olhar d'um idiota,
      Impassivel o azul!

Não choravam no val escuros casos,
      Á noute, os tristes ventos!
Nem eram como hoje, nos occasos,
      Os ceus sanguinolentos!

Deus não tinha vibrado ainda o açoute
      A gerações inteiras,
Nem o Christo suára a longa noute
      No Jardim d'Oliveiras.

Não andavam os tristes miseraveis
      Torcendo os braços nùs!
Nem erravam na treva, inconsolaveis,
      Os expulsos da Luz.

E não haviam sangue ainda chorado
      Os santos nos desertos,
Nem no craneo do morto esverdeado
      Inda lyrios abertos!

Não pisava inda um pé selvas umbrosas
      E florestas bastas,
Os mares eram mansos!--sempre as rosas
    Eram brancas e castas!

Não era côr de sangue assim vestida
      Inda a rosa vermelha,--
Nem o ceu tinha a côr desvanecida
      D'uma tunica velha.

..........................................

Toda uma noute, a Mãe primeira errante
      E todo um dia andou!
Da noute a branca luz de diamante
      Os passos lhe guiou.

E abandonavam seus pombaes as pombas
      Seguindo-a pela estrada!...
E o mar dizia ao vento: Por que zombas?
      Pobre mãe desgraçada!

E as montanhas choravam;--pois poderam
      Prantos de mãe fendel-as!
E toda a noute pelo ceu correram
      Mais tristes as estrellas!

E o mar tinha uma voz dorida, como
      Na noute do Salem,
E quando o sol nasceu em rubro assomo
      Arrastava-se a Mãe!

E perguntava ao vento: Onde está elle?
      --Quem o meu filho viu?
E o vento respondeu:--Não sei d'Abel!
      E o mar, ao fim, carpiu!

E arrastava-se assim no fim do dia--
      Já quando toda exangue,
--Uma roseira avista que tingia
      A côr rubra do sangue:

Então dorida estatua,--hirtos os passos,
      Ai de mim! ai de mim!
Gritou, convulsa a Mãe, torcendo os braços,
      «Aqui passou Cain!»

No principio eram mais doces os olhares
      Socegados de Deus!
Era mais verde o manto destes mares
      E mais azues os ceus!

E a Rosa era só _branca_, pura, exangue;
      --Pois que como hoje assim
Não corrêra sobre ella ainda o sangue
      Que derramou Cain!



*NO ENTERRO D'UM CORAÇÃO*

(A Betencourt Rodrigues)


Vaes a enterrar nas hervas verde-escuras,
Na fria terra, ó santa, que devias
Não ter roçado estas paixões impuras,
E estas lepras,--irmã das cotovias!

Vaes a enterrar sob as folhagens frias,
--Vóz alegre, rir cheio de doçuras!
Ó lindo coração! que só te abrias
Para a dôr das alheias amarguras!...

Vão-te levar á terra, ó casto e amado!--
Mas olha!--os vegetaes tem mais cuidado
Dos seios virginaes do que a paixão!...

Adeus, triste!... Adeus peito amante e ardente!
--Quem me déra comtigo, juntamente,
Ir tambem a enterrar, ó Coração!



*A JOVEN MISS*

     Tocar que impio se atreve!..
     (Flores do Campo)


Ella é tão loura, lyrica, franzina,
Tão mimosa, quieta, e virginal,
Como uma bella virgem d'um missal
Toda dourada, e preciosa e fina!

Não ha graça mais casta e femenina
Do que a d'ella! Seu riso angelical
Cria em nós todo um mundo de moral,
Melhor que tudo o que Platão ensina!

Por isso; e pela sua castidade,
Deve ser goso intenso, na verdade,
Sentir fundir-se em nós seus olhos regios!..

E o goso de a beijar trémula, amante,
Deve ser quasi extranho!--e semelhante
Ao de fazer terriveis sacrilegios.



*O DOENTE ROMANTICO*


Eu sei que morrerei, discreta amante,
Antes do inverno vir; mas, lentamente,
Quero morrer á tua luz radiante,
Como os tisicos á luz do sol poente!

Sou romantico assim! O tempo ardente
Das chimeras vae longe! Vão, constante,
Morrerei crendo em ti... e o azul distante
Olhando como um sabio ou um doente!...

--Mas, eu não preso a tarde ensanguentada...
Nem o rumor do Sol!--quero a calada
Noute brumosa junto do Oceano...

E assim, sem ai nem dôr, entre a neblina,
Morrer-me, como morre a balsamina,
--E ouvindo, em sonho, os ais do teu piano.



*QUADRA D'UM DESCONHECIDO*


Eu morrerei, ó languida trigueira!
Sem sentir teus cabellos sobre mim,
Coroado dos lumes da poncheira,
Sobre o chão immoral d'um botequim!



*EM VIAGEM*


Ia o vapôr singrando velozmente
O verde mar antígo e caprixoso,
Á rude voz do capitão _Contente_,--
Um rubro homem do mar silencioso.

Demandava a Madeira,--a ilha bella,
A patria excelsa e celebre do vinho,
A viagem foi curta; e no caminho
Intentei relações com _Arabella_.

Arabella era a lyrica ingleza,
Loura, pallida e fragil como um vime,
Que traz sempre a sua alma meiga presa
D'algum amor profundo, mas sublime.

O londrino, o Antony d'esses amores,
Era um rubro e excentrico burguez,
Mais amigo do bife que das flores,
--A extravagancia de chapeu inglez,

Seu olhar dubio, incerto e traiçoeiro
Tinha visões de sangue derramado
Em toda a parte; ao todo um ex-banqueiro,
--Um calvo, velho amigo do Peccado!

Nunca o olhar fitava em sitio certo;--
Vogava ás vezes só no tombadilho,
Com um comprido e merencorio filho,
E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.

Punha, ás vezes, no mar o olhar sombrio;
E ao vento, a fita branca do chapeu
Dir-se-hia a vella triste d'um navio
De naufragos, n'um lugubre escarceu!

--Mas comtudo, a ingleza, a triste amante
Com seus longos e louros caracoes,
Fitava ás vezes no azul distante,
Seus olhos divinaes como dous soes.

E, mau grado andar languida, doente,
Ser branca, loura, e fragil como um vime...
--Um sabio lêra-lhe a attracção ardente
Pelas virís fascinações do crime.



*NOUTES DE CHUVA*


Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!
Se tu amas no Outomno--já sem rosas!--
A longa e lenta chuva nas vidraças,
E as noutes glaciaes e pluviosas!

N'essas noutes sem luz, que--visionarios--
Temos chymeras misticas, celestes,
E scismamos nos pobres solitarios
Que tiritam debaixo dos cyprestes!

Que evocamos os liricos passados,
As chymeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados,--
E os mortos corações sob as raizes!

N'essas noutes, meu bem! em que desfeito
Cae o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas calçadas!

N'essas noutes, electricas, nervosas,
Todas cheias d'aromas outonaes,
Que a tristeza tem formas monstruosas
Como n'um sonho os porticos claustraes.

Noutes só em que o sabio acha prazeres,
--Tão ignorados dos crueis profanos!--
E em que as nervosas, mysticas mulheres,
Desfallecem chorando nos pianos.

N'essas noutes, meu bem! é que os poetas
Tem ás vezes seus sonhos mais brilhantes,
Folheam suas obras predilectas...
--E evocam rostos... e visões distantes!



*IDYLIO MERIDIONAL*


Sem ti, vejo o meu futuro
Um horto cheio d'abrolhos!--
Ah não me deixem teus olhos
Por este caminho escuro!

No inverno, as candidas aves
Abandonam os pombaes,
Meu bem, teus olhos suaves
Não me desterrem jámais!

Quando á tarde o ceu flameja,
Junto de ti encostado,
Que vezes, não tenho inveja
Da agulha do teu bordado!

Eu quizera a toda a hora
Cantar-te, ó sol os meus dias!
Como os sonetos que á Aurora
Enviam as cotovias.

Ó labios que pedem beijos!
Ó brancas mãos delicadas!
Voam a vós meus desejos
Quaes pombas ensanguentadas!..

Ó rival das açucenas!
Nenhum punhal faz no peito
As chagas que me tem feito
Essas tuas mãos pequenas!

E, comtudo o amor só dura
Entre as lagrimas da magoa,
--Como uma violeta escura
Que se morre á mingoa de agoa!

Um horto todo d'abrolhos
Sem ti será meu futuro!--
Ah! não me larguem teus olhos
Por este caminho escuro!



*DUAS QUADRAS DE DIOGENES NO ALBUM DE LAIS*


Quando no meu o teu olhar se esquece,
A minha alma, mulher! é como um urso
Que dança pelas feiras, e obdece
Ao magro saltimbanco e ao seu discurso.

E os meus velhos desejos violentos
Soluçam--hystriões esfomeados!--
Como os gatos noturnos, friorentos,
Que miam lamentosos nos telhados.



*A CAMELIA NEGRA*

    Por isso vos espera
    O dia da vingança!
    (Souza Caldas)


Como as urnas das rosas mal fechadas,
Cujos aromas boiam no poente,
Quando passas nossa alma aspira e sente
As sensações das ilhas ignoradas.

E o teu cabello, ó lubrica serpente!
Rescende todo a unguentos e a pomadas,
Como as mumias que habitam no Oriente,
Debaixo das pyramides sagradas.

Mas que te serve e val tanta fadiga,
Ó pó doirado e vão? e o mundo diga:--
Meu leito, meu pomar de sensações!!

Se o vento que hoje o teu sorrir perfuma
Na tua cruz soluçará:--Mais uma
Dos monstros maternaes das gérações!



*A ULTIMA SERENADA DO DIABO*


No tempo em que elle, nas lendas,
Era amante e cortezão,
Jogava, e tinha contendas,
Cantava assim em Milão:

..........................................
..........................................
..........................................

Ó flores meigas, ó Bellas!
Para prender os toucados,
Eu dar-vos-hia as estrellas:
--Os alfinetes dourados!

Só pelo amor quebro lanças!--
A Rainha de Navarra
Enleou um dia as tranças
No braço d'esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!...
Mas inda ha luz nos meus rastros;
A lança que me ha ferido
Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia, ó bem amadas!
Eu tornaria ás alturas...
Subindo pelas escadas
Das vossas tranças escuras!

O amor que em meu peito cabe
Não conta diques, ó bellas!
Só minha guitarra o sabe,
E aquellas velhas estrellas!

Ó batalhas amorosas!
--Era d'aventuras cheia!
Ó brancas noutes saudosas
Que eu andei pela Judea!

Ó flores apetecidas!
Livros escriptos com beijos!
Ó brancas aves fugidas
Dos jardins dos meus desejos!

Não me deixeis no abandono
Ó tristes olhos leaes!
Como as pombas, no outomno,
Que abandonam os pombaes!

Que fosse eu crucificado
N'alguma bem alta Cruz!...
--E vos tivesse a meu lado,
Como vos teve Jezus!...

Esses olhos me consomem!...
Mas, Mulher, da lucta ao cabo,
Se perdeste o antigo Homem...
--Tu matarás o _Diabo_!



*A MUSA VERDE*[1]


     Il apellait l'absynthe sa «muse verte»
     (Les derniers bohémes)

     Io vidi gia al cominciar del giorno
     La parte oriental del ciel tutta rosata.
     (Dante. Purg.)


Infelizes!--os sujos, verdes limos,
Que vezes não tem visto os afogados!...
Corações tantas vezes sobre os cimos
Do Ideal! e que o Vicio tem marcados!

Quem os leva por esses vis atalhos
Do Desespero, Fome e Suicidio,
E ao verde absintho e aos sordidos baralhos!
--Elles que leram Dante, Homero e Ovidio?

Quem os conduz?--A vil fatalidade
É quem os leva ás perfidas ciladas?--
E é tal secreta e livida deidade
Quem lhes esmaga os craneos nas calçadas?

Quem pois os empurrou, um dia--e disse:
--Aquece o Alcool... mais que o Paraizo!--
E nas cavadas faces da velhice
Gelou-lhes sempre, imbecilmente, o riso?

--Quem foi? Quem é que arrasta, eternamente,
A velha e a nova geração que perde
O seu calor, seu sangue, febrilmente--
Aos braços infernaes da _Musa Verde_!?

A Miseria--a irmã velha do Peccado,
--E o Luxo, o Mal!--tão negros conselheiros!
São quem os faz, no asphalto abandonado,
Ver apagar, com dia, os candieiros?...

Ou será, tambem,--goso triste insano
Da alma escura!--e nova podridão
Do homem de hoje, _blazé_ como um tyrano:
--De se sentir boiar na perdição?!



*IDYLIO D'ALDEIA*

    Oh! que harmonia!
      Cadente s'esvoaça pela fresta
      D'um visinho postigo!
    (Hostia d'ouro)


Não sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!...
É mais branca a tua pelle,
Do que o linho de fiar!

É tua boca um botão,
E o teu riso a lua nova;--
Quem me dera ter na cova
Os _ais_ do teu coração!

Mal podes saber o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!

Desde esse dia, andorinha!
Desde essa tarde infeliz,
Fiquei preso da _covinha_
Que fazes quando te ris!

Não sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!...
É mais branca a tua pelle
Do que o linho de fiar!

A minha alma não descança;--
Morra o sol, ou surja a aurora,
Só tu me lembras _creança_
De cabellos côr d'amora!

A tua doce ignorancia
Tão cheia de _singelesas_...
Faz todas as almas presas
Como as perguntas da infancia!

Tu és como um pomo d'ouro,
E o vivo sol que me alegras;
--Amo mais teu rir sonoro
Do que a voz das toutinegras!...

Quando eu fôr a enterrar,
N'algum dia, ao pôr do Sol,
Quero levar por lençol
Só a luz do teu olhar!

..........................................

--Mas tu só vives cantando!--
E ao vir da fonte com agoa,
Mais sentes que estou penando,
Mais te ris da minha magoa!

Ah! nunca eu tivesse o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!



*CARTA ÁS ESTRELLAS*


Ninguem soletra mais vossos mysterios
Grandes letras da Noute! sem cessar...
Ó tecidos de luz! rios ethereos,
Olhos _azues_ que amolleceis o Mar!...

O que fazeis dispersas pelo ar?!...
E ha que tempos ha já, fogos siderios,
Que ides assim como uns brandões funereos
Que levaes o Deus Padre a sepultar?!

Ha que tempos, dizei!--Ha muitos annos?...
E, com tudo, astros santos, deshumanos,
A vossa luz é sempre clara e egual!

Ha muito, que sois bons, castos, brilhantes!...
--Mas, tambem... ó crueis! sempre distantes...
Como dos nossos braços o Ideal!



*NA FOLHA D'UM LIVRO*


Uma é a forma ideal do triste anjo vencido,
--A outra, a doce luz diaphana da manhã!
E entre ellas chora e diz meu coração perdido:
--Em mim vencerá Deus, ou ganhará Satan!?



*OS BRILHANTES*


Não ha mulher mais pallida e mais fria,
E o seu olhar azul vago e sereno
Faz como o effeito d'um luar ameno
Na sua tez que é morbida e macia.

Como _Levana_... esta mulher sombria
Traz a Morte cruel ao seu aceno,
O Suicidio e a Dôr!... Lembra do Rheno
Um conto, á luz crepuscular do dia.

Por isso eu nunca invejo os seus amantes!
--E em quanto hontem, gabavam seus brilhantes,
No theatro, com vistas fascinadas...

Tortura das visões... incomprehensiveis!
Em vez d'elles, cri ver brilhar--horriveis
E verdadeiras lagrimas geladas!



*O ASTROLOGO*

     Quem tem ouvidos que ouça.


Quem tem ouvidos que ouça, e o velho mundo
Que o aprenda de cór, pois que o que digo
È fructo d'um estudo egregio e fundo
Como a sciencia d'um Chaldeu antigo!

A Terra ha muito que é um charco immundo,
Vencida eternamente do Inimigo,
E ha muito lhe prevejo um fim profundo,
E um terrivel e tragico castigo!

Ora, hontem á noute, fui a um monte
Muito alto--e eis que avisto no horisonte
Dez signos, como em longa proscissão...

E esses signos, a mim que sou vidente,
Tinham formas de lettras, claramente,
--E n'essas lettras li DESTRUIÇÃO.



QUARTA PARTE

MYSTICISMO



*DEDICATORIA*


Este livro é dos poetas
E mais de vós--pombas minhas!
--Podeis-me ler, violetas!
--Podeis-me ler, andorinhas!



*OS DEUSES MORTOS*

(Á memoria de J. M. Fernandes)


     Parce diis


Eu nunca os insultei!... Se estão emfim vencidos
Silencio! Cubra luto a natureza inteira!
Nuvens dillacerae os pallidos vestidos!
Verte gotas de sangue, ó flor da larangeira!

Onde estaes, onde estaes!--Extactica palmeira,
Viste acaso passar os grandes foragidos?
Onde estão Zeus Jesus?! Velhos cedros erguidos!
Nuvens, ventos e mar, guardae sua poeira!

Deixae-os descansar!--Luzentes mariposas,
Cuidado! não piqueis o coração das rosas!
Lavrador cava a Terra, a Terra, devagar!...

Silencio! Orpheu, Jesus, dormem no seu mysterio!
--A Natureza é toda um vasto cemiterio!
Eu nunca os insultei!--Deixae-os repousar!



*DEBAIXO DAS HERVAS*


Podesse ir eu comtigo que m'encantas
Como um vinho, no pó da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braços das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova
Sentir os nossos pallidos abraços,
De noite, quando branca nos espaços,
Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram
Os meus olhos nos teus, adormecidos,
Dizel-as outra vez, já confundidos
Na poeira d'aquelles que morreram.

Sentir, meu bem, de novo, as tuas tranças,
Com que tu tantas vezes me vestiste,
Enlaçarem-me ainda, á hora triste,
Em que os astros reluzem como lanças.

E entre as hervas da terra, e os acres cheiros
Dos cyprestes, dizer as cousas mil
Que diziamos, ó triste! quando abril
Fazia colorir os teus canteiros.

E debruçada estavas á janella
Nas horas religiosas do Poente,
Como a mãe que anciosa e docemente,
Espreita no horisonte a amada vella.

E quando íamos depois as nossas magoas
Contarmos, pelo espesso das folhagens,
Cabellos desmanchados nas aragens,
E entre as vozes das folhas e das aguas.

E todas essas cousas que me dizes,
Quando estás debruçada na costura,
E que inda nunca ouviu a terra dura,
E que chorar fariam as raizes!

E eu quizera que o lenho do cypreste,
--Marco escuro da terra que nos come!
Enlaçado tivesse o nosso nome,
Como um lenço bordado que me déste!

..........................................
..........................................
..........................................

Podesse ir eu comtigo, que m'encantas
Como um vinho, no pó da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braços das hervas e das plantas!



*A UMA VOZ CELESTE*

A. C. de Carvalho


Na noute que passou
O Christo no Calvario,
Um rouxinol cantou
Sobre a Cruz, solitario.

Os trigueiros soldados,
E os lyrios de Salem
Perguntavam pasmados
--Que voz canta tão bem?

Como sentindo os males
Das suas proprias penas
Vergavam-se nos calix
Chorando as açucenas.

Choravam os caminhos,
Os dados, os cilicios,
A grinalda d'espinhos,
E a esponja dos supplicios.

Choravam os sem luz,
E os rijos peitos bravos,
--Começavam na cruz
A vacillar os cravos.

Pelo tranquillo espaço
Paravam as estrellas,
E o vagaroso passo
As mudas sentinellas.

E os peitos deshumanos
Resentiam mudanças;
--Deixavam os Romanos
Escorregar as lanças.

E a noute ali ficou...
Assim lembrando o Ceu!
--Quando Jesus morreu,
Do lenho emfim voou.

Ora eu mulher! que creio.
Que a Vida sae das lousas,
Eu que nos astros leio
E adoro a alma das rosas!

Que sei que o que hoje existe
Foi nuvem, flor, cypreste...
E escuto essa voz triste
A tua voz celeste!

Eterno visionario,
E adorador do Sol...
Creio que no Calvario
--Cantaste, rouxinol!



*Á POMBA QUE VOOU*


Foste-te, ó luz das solidões amenas!
Ó grandes olhos tristes, ideaes!
--Partiste, casta pomba d'alvas pennas,
Em procura dos lucidos pombaes!

..........................................

Tu estás hoje entre as hervas e as poeiras,
Ou cheia de celestes claridades!
Ó doce irmã das rolas companheiras!
Por ti ouço chorar as larangeiras!
E de luto vestirem as saudades!

Ah! quantas vezes, n'este mar d'escolhos,
Comtemplando o azul duro e sem fim...
E os pés ensanguentados nos abrolhos,
Eu nas estrellas creio vêr teus olhos
Que estão chorando lagrimas por mim!

Teu corpo está talvez, dilacerado
Entre as plantas escuras e as raizes!..
E, ah! que vezes talvez, n'um _ai_ cortado
Não me terá teu seio immaculado
Entre as hervas bradado--_Não me pizes_!

Por isso vou curvado para o chão
Com medo de pizar-vos, tranças bellas!
--E ah! quantos, como eu, tambem irão,
Correndo o mundo atraz d'uma illusão,
Ou soletrando as mysticas estrellas!

..........................................

Foste-te luz das solidões amenas!
Ó grandes olhos trístes divinaes!...
--Partiste, casta pomba d'alvas pennas
Em procura dos lucidos pombaes!



*TRISTISSIMA*


N'um paiz longe, secreto,
Lendaria ilha affastada,
Jaz todo o dia sentada
N'um throno de marmor preto.

No seu palacio esculpido
Não entram constellações;
Os tectos dos seus sallões
São todos d'ouro polido!

Nas largas escadarias
Sobem vassallos ao cento,
De noute suluça o vento
N'aquellas tapeçarias.

E pelas largas janellas
Fechadas, sempre corridas,
Ha flores desconhecidas
Que não olham as estrellas.

Na dextra segura um calix,
--Calix da Dôr e da Magoa!
Onde está contida a agoa
E o sangue dos nossos males!

Pelas florestas sosinhas
Escuras, sem rouxinoes,
Erram chorando os Heroes,
E as desgraçadas Rainhas.

Seguida, á noute, de servas,
Caminha, em cortejo mudo,
Rojando o negro velludo
De seu cabello nas hervas.

Sómente ao vel-a passar
Ficam as almas surprezas;
--Ha todo um mar de tristezas
No abismo do seu olhar!



*IDYLLIO TRISTE*

     (A Léon de La vega)


Olha! sinto-me exhausto
Pomba da minha vida!
Eu serei o teu Fausto,
Sê minha Margarida!

Deixa que o alegre ria
Alma que me estremeces!
Que ruja fóra a orgia
Os prantos, as _kermesses_!

Vamos a colher rosas,
Rola dos meus carinhos!
Pelos brancos caminhos
Nas noutes luminosas!

Sob esta curva azul
Amemos, bem amada!
Na torre levantada
Que gema o rei de Thule!

Que o mundo chore e gema
Em quanto o Tempo dura!
Da nossa noute escura
Façamos um poema!

Deixa na roca os linhos
Pomba dos meus amores!
E aos sabios e aos doutores
Os livros e os cadinhos!

E aos tristes, aos ascetas
As grutas, os cilicios,
E a esponja dos supplicios
Aos labios dos poetas!

Nas noutes estrelladas,
Amemos solitarios!
Deixemos as estradas
Que levam aos Calvarios!

Olha! sinto-me exhausto
Pomba da minha vida!
Eu serei o teu Fausto,
Sê minha Margarida!



*A UM LYRIO*

(A. A.)


Conta como é que existe
A tua vida á luz,
Lyrio mais casto e triste
Que os olhos de Jesus!

Quando nasceste, flor?
Quem te arrancou do chão?
Gérou-te occulto amor
De morto coração?

Ó lyrio delicado!
Ó lyrio branco e fino!
Talvez fosses creado
N'um seio femenino!

Escuta ó lyrio amado!
A flor confunde os sabios...
Talvez fosses os labios
D'aquella que hei amado!...

Talvez fosses seus dedos!
Seus olhos innocentes...
--Conta-me os grãos segredos...
Profundos das sementes!...

O morto que se enterra
Leva as paixões secretas?...
Dize, se sob a terra,
Se amam as violetas!

Ouviste aves chorosas,
E o mar nos seus delirios?
--Quem é que pinta as rosas?
--Quem é que veste os lyrios?

Já viste alguma estrella?
Viste uma lua nova!
--Abriste n'uma cella?
--Floriste n'uma cova?

O que é que mais desejas
De tudo quanto existe?
O amor?--O que é que invejas
Bom lyrio branco e triste?!

Ó vil sorte mesquinha!
E eterno desejar!
--Invejas a andorinha
Que vôa pelo ar!?



*A UMA ANDORINHA*


Nas brisas da tardinha
Pára teu vôo um pouco;
Ouve um poeta, um louco,
--Escuta-me andorinha!

Um pouco deixa os ninhos;
Attende as vãs loucuras,
--Tambem nas sepulturas
Vôam os passarinhos!

Nem sempre o azul ethereo
Quaes flexas vão cortando,
--Tambem riem, voando,
No chão do cemiterio!

Lavam os pés rosados
Nas urnas funeraes;
--Tu, mesmo, nos telhados
Moras das cathedraes!

Não fujas d'um poeta,
Que ha nuvens mais sombrias!
--Tu já moraste uns dias
No nicho d'um propheta!

Por tanto, tu que adoras
A primavera e o Sul,
Dize-me,--no alto azul,
Quem faz sempre as Auroras!

Quem dá tintas vermelhas
Ao Sol poente que arde?
--Quem coze as nuvens velhas,
E accende o astro da tarde?

Os campos dão renovos
Tambem, n'outras espheras?
--Quem faz as primaveras?
--Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor?
Quem tinge o temporal?
--Quem faz a pomba, côr
Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas,
E rios, campos, vinhas?
--Dize, se nos planetas?...
Tambem ha andorinhas...

E tu que mais almejas?
Tens sol, astros e ninhos--
Tens tudo o que desejas...
--Luz, grãos, pelos caminhos!

Ó triste ambicionar!
Ó santo e vão delirio!
--Talvez, ó filha do Ar
Quizesses ser um lyrio!



*ENTRE OS ARVOREDOS*

     Calma silentia lunae.
     (Virgilio)


Recordas-te essa noute, ó bella desgostosa!
Que nós andámos sós e tristes divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clarões da lua silenciosa?!...

Callados e atravez da grande sombra escura
Dos cerrados pinhaes e augustos castanheiros,
Como as almas leaes e antigos companheiros,
Unidos a gemer a mesma desventura!

E eu sentia-te, ó grande e triste Abandonada!
Em meu seio verter as tuas fundas maguas,
Ao rythmo trivial e nitido das aguas,
E á alva e fina luz da hostia levantada!

E andámos a gemer a nossa dôr intensa,
E abrindo os corações, os langidos segredos,
Aos ais soltos no ar dos grandes arvoredos,
E ás vastas afflições da natureza immensa!

Que dôr assim será?--Que dôr será egual!
Á quella immensa dôr? ó pallida vencida!
N'aquella natureza augusta e condoida,
E áquella branca luz, mais fria que um punhal!...

..........................................

Ah! nunca mais virá, ó branca desgostosa!
Aquella vez que nós andámos divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clarões da lua silenciosa!...



*CONFISSÃO A UMA VIOLETA*


Eu confesso-me a ti, doce flor delicada!
Recolhida, modesta, e sol da singeleza,
Das vezes que atravez da verde natureza
Fiz soar com orgulho a bulha do meu nada!

Em vez de amar a vida humilde, chã, callada,
Do sabio estoico e são, exemplo d'inteireza,
Quantas vezes cuspi no Justo e na Belleza;
E cri-me o Fogo e a Luz da géração creada!

Orgulho! orgulho vão! Vaidade e mais vaidade!
Como disse o rei sabio e justo á claridade
Dos astros da Judea e ao gyro dos planetas!...

Feliz de quem como eu ri das Academias!
E estuda as novas leis e as grandes Theorias
Nas folhas femenis e meigas das violetas!



*A SUA CAMARA*[2]


No ar calado e bom da camara fechada,
Como um ninho d'amor, casto e silencioso,
Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso,
N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle;
Algumas flores vão morrer nas jarras finas,
--Elle sereno vê, nas rendas das cortinas,
Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao pé, só elle altivo é bello,
No seu vaso de jaspe, entre as demais existe,
--Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal,
Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua!
--Mysteriosa flor!--que caprixosa magoa
O virá a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol--a luz vermelha viva?
O sol que vae morrer--o bello agonisante!
Talvez que chore a lua--a lua pensativa!
Que lhe venha lavar a alvura soluçante!

Quem foi a branca mão--olympica, divina,
A mão macia, ideal--traidora--que o colheu?
Que o foi roubar á terra, um dia, e que o prendeu
Na fria solidão d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, ás folhagens,
Á bondade da luz--ás noutes meigas bellas,
Exilado do sol, e orphão das paisagens,
O cravo virginal--viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa
A ninguem o dirá seu calix pensativo,
E a morrer--morrerá, calado, firme, altivo,
E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

..........................................
..........................................
..........................................

Lá fora morre o sol, como um desgosto humano,
Voam aromas bons no ar quente e calado;
Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado,
Vê-se um jasmin morrer em cima d'um piano.

Nas paredes estão, nas preciosas telas,
Pintados menestreis, pastoras e guitarras,
Debruçam-se os jasmins nas grades das janellas,
E os lyrios, como uns _ais_, morrem nas finas jarras.

Tudo agonisa ao pé, n'aquella solidão!...
--Solidão de mulher distincta e perfumada!
Cuja pelle é talvez mais fina que a pomada,
E as farinhas d'Italia e as sedas do Industão!...

..........................................
..........................................

Tudo agonisa ao pé,--só elle altivo e bello,
No seu vaso de jaspe entre as demais existe,
Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com um ar virginal e com um modo triste!

E no entanto talvez a mystica amorosa,
--A _noiva_ a dona d'elle, occulta uma outra magua
No morto coração, mais morto que uma rosa,
E do que elle amanhã na sua jarra d'agua!



*HORA MYSTICA*

     Hour of love
     (Byron. Parisina.)


Do pôr do Sol áquella luz sagrada,
Eu perdia-me... ó hora doce e breve!
Meu peito junto ao seu collo de neve,--
--N'uma contemplação vaga e elevada!

Nossas almas s'erguiam, como deve
Erguer-se uma alma á Luz afortunada;
Do mar se ouvia a grande voz chorada;
--Palpitavam as pombas no ar leve!

Eu então perguntei-lhe, baixo e brando:--
Em que mundos de luz é que caminhas?...
Que torre está tua alma architetando?...

--Ella travando as suas mãos das minhas,
Me disse, ingenua, então:--Estou scismando
No que dirão, no ar, as andorinhas?!



*JUNTO DO MAR*


Que vezes viajando no Passado,!
--Nas horas das torturas das Chimeras--
--Meu bem!--scismo nas limpidas espheras,--
Junto do verde mar lento e chorado!

N'esses astros talvez já habitámos,
--N'outros tempos mais santos e felizes!
E, ó nuvens! bem sabeis se entre as raizes
Dos mortos, para os soes nos elevámos!

Talvez que ali tambem fomos romeiros
Sedentos do Ideal--sem o encontrar!
--Melhor vós o sabeis, castos luzeiros!
Ó chorosa e sonora alma do Mar!

Talvez ali tambem--riste, amorosa...
Cantando entre as torturas assassinas!...
Como as rosas que tapam d'uma lousa
As vãas escuras inscripções latinas!

Talvez tam bem choraste nos caminhos...
E alegre riste, ás virações contrarias,
Como, ó meu bem, ao sol, os passarinhos
Riem dentro das urnas funerarias!

Talvez! quiçá! Talvez!--Ó Mar eterno!
Tu que és sonoro e minas os rochedos,
Duro sombrio, esguedelhado e terno...
Como a rabeca cheia de segredos!...

Tu que sabes d'antigas desventuras,
E que sabes chorar!... que és musical!...
Dize se encontras mais amargo sal
Do que os prantos das nossas amarguras!

E comtudo que és tu... mar lastimoso!
Guardando como o avaro um vão thesouro!...
Sempre vago, cruel, mysterioso...
--Senão d'um mundo extinto um longo choro!

E o que são essas vozes laceradas,
E, ó gigante! essas vastas convulsões,
Senão... senão... mortaes lamentações
De cidades e egrejas sepultadas!

Que blasphemías! que choro vem do fundo
Do teu peito tão largo e descontente!
--São talvez das galés do Novo Mundo,
Ou dos ricos navios do Oriente!

Quem tem na voz suspiros mais convulsos,
E mais duros e lugubres lamentos
Do que á tormenta, e aos desgrenhados ventos...
--O mar cheio de medos e soluços?!...

E quem como elle assim nos dá confortos...
Ou balsamos leaes, desconhecidos,
Alento e amor aos corações vencidos,
--E quem mais e melhor falla dos _mortos_!

..........................................
..........................................

Por isso eu irei _só_--ó Mar eterno!
Triste e _só_, escutar-te entre os rochedos...
Duro, sombrio, esguedelhado e terno,
--Como a Harmonia cheia de segredos!...



*DOENTE*


Podesse eu junto a mim--eternamente!--
Sentir roçar, meu bem! o teu vestido
E ó ventura! o teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!

Caia do monte o cedro! a grande molle!
Que feneça a _herva prata_ lá no val--
Que me importa!--e qual é meu grande mal
Que morra o cedro, e a planta s'estiole!...

Mas tu, meu bem! mais bella que a _herva prata_
Banhada pelo orvalho transparente...
Não quero que te vás de mim, ingrata,
--Nem teu olhar, nem teu sorrir doente!

Mais depressa em mim vôe ave agoureira...
E que o sepulcro avaro me abra os braços,
Não veja herva crescer apoz meus passos,
--E me maldiga a flor da larangeira!

Mais depressa em meu leito morra o somno,
Não brilhem mais no ceu constellações,
Que as folhagens me lancem maldições,
--Nem hajam fructos para mim no outomno!...

Mais depressa que a vinha que conforta
Me negue a sua sombra!--Noute e dia
Não luza para mim luz de Alegria,
--E que a Tristeza durma á minha porta!...

Por que tu, se te vaes--no teu lençol
Levarás, doce riso dolorido!...
Como uns fios pegados n'um vestido,
Todos os raios d'ouro do meu Sol!

E, em tudo, julgarei vêr teu vestido,
No mar, na estrella azul, nos ceus; em tudo;
--E quando, acaso, a fronte erguer do estudo
Faltar-me-ha o teu riso dolorido!

Por que tu tens disperso em meu caminho
O teu sorriso triste... ah! triste, e puro...
--E abrigarei depois... um odio escuro,
Mais rude do que um cardo, ou que um espinho!

E não mais, nada me ha de consolar!...
Nem a Estrella da tarde mensageira,
Nem o Amor, nem a flor da larangeira,
--Nem a sombria musica do Mar!...

..........................................
..........................................

Ah! podesse eu, meu bem! o teu vestido
Sentir roçar por mim--eternamente!
E, ó ventura! teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!...



*N'UM CEMITERIO*

     Surgite mortui.
     (Apocalypso)

     Invideo quia requiescunt.
     (Palavras de Luthero no cemiterio de Wormo)


Mortos! eu vos invejo!--As frias lagens
Cobrem-vos, hoje, os corações desfeitos!...
As brancas pombas vôam n'esses leitos...
E as meigas aves gemem nas folhagens!

A Natureza enflora os vis defeitos...
Ri nas estatuas, urnas, nas imagens!..
E, ahi emfim, contentes, satisfeitos,
Vós descansais das lugubres viagens!...

Mas comtudo, no inverno, á triste Morte,
Talvez seja mais duro o vento norte!...
E vos gele inda mais os ossos nús!...

Em quanto nós--ingratos! descuidados!--
Vos deixamos chorar, abandonados,
A poeira dos mortos feita luz!



*DESPEDIDA AO SOL*


Adeus, adeus, ó Sol! grão moribundo
Tão amado dos mysticos amantes!
Vae dourando inda os ninhos e os mirantes
E os sinceiraes, o Mar, o velho mundo!

Vae! vae! ó astro lyrico! no fundo
Das aguas apagar-te!... Os teus instantes
São curtos, coração largo e profundo!
Mas da minha amargura semelhantes!
E, no entanto, astro de fogo, astro tyrano!
Se a tua chaga é funda, no Oceano
Todo o teu sangue ali podes lavar!...

Mas eu recalco, ó Sol! meu mal no seío...
Peja-me o pranto e a magoa!... e até receio
Que os ais da minha dôr vibrem no ar!



QUINTA PARTE

HUMORISMO



*ARANHA*


N'um sonoro theatro antigo da Alemanha,
D'um violino aos ais, banhada de luz viva,
Surgia d'um covil uma grotesca aranha,
Dos banquetes do Som habitual conviva.

O ser sombrio e obscuro, ó meu amor! não priva
Da adoração do Bello, a adoração extranha!
E assim se embriagava a escura pensativa
Da lyrica emoção que nossa alma banha!

Mataram-a uma vez. Não mais a pobre amante
Da Musica, surgiu áquella luz brilhante;
Foi-lhe o velho theatro a sua sepultura...

Assim preso tambem pela attracção que choro,
--Não te rias cruel! Ó idolo que imploro!...
Tu és o Violino e eu sou a aranha escura!...



*NOVA BALLADA DO REI DE THULE*


N'um paiz nada visinho...
Em Thule até mui distante,
Houve outr'ora um rei farçante,
Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel
Mimosa e cheia de graça,
Morreu, deixou-lhe uma taça
Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza
Da taça que nada iguala!
--Ficava sempre ao esgotal-a,
El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco,
De noute, até horas mortas,
Folgava, as pernas já tortas,
Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.

A sua amisade céga
Legava a todos dinheiro,
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo... e a adega.

Da sua amisade em prova
A todos dava uma graça,
Só aquella enorme taça
Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos barões,
Fez juntar para uma orgia,
N'uma sala, onde dormia
As suas indigestões.

E ali, depois de libar...
Passados curtos momentos,
Começou a vêr, aos ventos,
Os seus castellos dançar.

Assoma, trocando o pé,
De taça em punho, á janella,
Mas n'isto, tropeça... e ella
Vae levada da maré...

E afunda-se... mas tal revéz
Tomba o rei morto de magoa!
--Era esta a primeira vez
Que a taça se enchia d'agua!



*PHANTAZIA D'UM ABORRECIDO*


Eu vivo só das multidões distante,
E tenho um tom solemne grave e emphatico,
Amo Flaubert, Gostavo Droz e Dante,
Sou mysanthropo, hysterico e limphatico.

Sou phantastico, altivo, e caprixoso,
E tenho uns paradoxos meus protervos...
E entre elles conto um livro volumoso...
Em que explico o Remorso pelos nervos.

..........................................
..........................................

Ás vezes vou pensando, ó tranças negras!
Quebrados, sensuaes olhos celestes!
Que has de ainda, entre as plantas verde-negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

E n'esses braços lisos, indolentes,
Hão de os vermes travar a escura guerra,
Hão de infundir pavor, inda, esses dentes,
E de beijos fartar-te a immunda terra!

Teu rir sem labios meterá assombros
--Ó tu que fazes rastejar as lyras!
E serão ossos nús teus lisos hombros,
Costumados ás leves cachemiras.

Que vezes scismo, assim quando tu passas,
E eu estou fumando ás portas dos cafés,
E que insultas as lepras e as desgraças,
Coberta de velludos e _plaquets_!

E eu penso ó corpo esculptural, perfeito!
Ó corpo de Phryné cheio de graça!
Que has de ainda ser putrido e desfeito,
E tomar-te azotato de potassa!

E não terás então, ó minha impura!
Serenadas debaixo das janellas,
E escondida no pó da sepultura
Terás medo dos olhos das estrellas!

Hontem, rojando estofos ruidosos,
Inclinada e indolente sobre o braço,
Comtemplavas com olhos cubiçosos,
As contorsões e saltos d'um palhaço.

E eu suffocando dentro os meus anhelos,
Soluçava d'amor, ó crua filha,
E exaltava-me o olor dos teus cabellos,
Onde escorrem perfumes de Manilha.

Mas eu heide vingar-me, ó tranças negras!
Ó cansados, mortaes olhos celestes!
Quando fores, nas plantas verde negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

Quando morreres, meu botão d'um dia!
Açucena que puz no peito o abrir!
Farei da tua tez fina e macia
Um prosaico barrete de dormir!

Farei da tua trança azevichada
Um _cachenez_, por causa dos catarros
E será no teu craneo, ó minha amada!
Que eu deitarei as pontas dos cigarros!

D'essa carne farei abertas rosas
Que enganarão as brancas borboletas!
E teus olhos, em jarras preciosas,
Olharão, como duas violetas.

Farei da boca um cravo, que no fraque
Porei sempre que saia de passeio...
E mandarei fazer um almanak
Na pelle encadernado do teu seio!

Forrarei as paredes do meu quarto
Com tuas longas cartas de namoro...
E ali passearei de illusões farto,
Como o avaro no meio do seu ouro!

E então tu serás _minha_, ó tranças negras!
Quebrados, sensuaes olhos celestes!
Quando fores, nas plantas verdes negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!



*EL DESDICHADO*


Ninguem póde dizer que soffro ou tenho;
Eu não amo a princeza da Golconda,
Nem da prisão livral-a é meu empenho,
Qual paladim da Tavola Redonda.

E sinto-me ir minando; um mal extranho
Que ninguem sabe, e vista alguma sonda,
Me mata lentamente, como um lenho
Que vae levando, mar em fóra, a onda.

Todas as tardes fujo ao sol poente;
Recolho cedo a casa, e durmo quente,
E a Medecina já me desengana...

E o meu mal é d'amor, e a minha amada...
Uma Chineza ideal, que vi pintada
N'uma taça de chá de porcelana!



*A VALENTINA DE LUCENA*


Eu tambem já em tempos não distantes,
Fiz versos sensuaes e namorados,
Aos occasos de luz ensanguentados,
E á meiga e boa lua dos amantes.

E escrevi pelos albuns elegantes
Idyllios em papeis assetinados,
E, como a luz dos ponches inflammados,
Fiz odes ideaes e extravagantes.

Mas hoje emfim mudei, e inda ha bem pouco,
A diva por quem choro e vivo louco,
--A flor, a flor ideal das maravilhas...

A minha deusa de cabello preto...
Pediu-me, rindo, a graça d'um soneto,
--E eu mandei-lhe uma caixa de pastilhas!



*PHANTASIAS*


Tenho, ás vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lyrio amado!
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos paizes phantasticos, distantes.

Á India, China ou o Iran, e os meus instantes
Passal-os a teus pés, grave e encrusado,
N'um tapete chinez, avelludado,
Com flores ideaes e extravagantes.

Nossa vida seria, ó pomba minha!
Mais leve do que a aza da andorinha...
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeriamos os dois arroz cosido...
Emballados n'um junco de bambu!



*A BIOGRAPHIA DE SATAN*

Fragmento


Eu vou contar a grande lenda escura
Do fulminado tragico da Luz!
Seu antigo esplendor e sorte dura
Quando andava entre os povos da Escriptura,
E comprava os juizes de Jesus.

Elle é o Velho Mal, o Orgulho, o Enfado,
E sómente Satan é um pseudonymo;
É o auctor do Remorso e do Peccado,
O morcego da Biblia, e o cão damnado
Que espancava de noute S. Jeronymo.

No tempo em que era bello, grande e forte,
Fez a guerra dos astros contra Deus;
Tem-lhe sido incostante e varia a sorte!
--Andava roto e pobre por Francfort
Nos bairos tortuosos dos Judeus.

Ó anjo expulso, triste e escarnecido,
Que foste mais fulgente do que o dia!
Deus adorado em Delphos e em Gnido!
Ah quem mais do que tu terá soffrido,
E teve essa ideal melancolia!

Já Vier contra ti perdendo o tino,
Fez dos seus crús pamphletos um açoute;
Fez-te sonetos, lubricos o Aretino,
E S. Thomaz contou o teu destino,
E as aventuras célebres da noute.

Quem dirá os espinhos que cingiste!
Quem pesará teu calix de agonias!
E quantos longos seculos carpiste
Aquella luz que cae maguada e triste,
Ó grão crucificado d'ironias!

Eu sei que hoje estás morto ou retirado,
Ó corvo escuro e mau do firmamento!
E que andavas no mundo envergonhado,
Já doentio e calvo, e desdentado,
E que era o teu catarrho a voz do vento!

Tu foste sabio, confessor e medico
Nos tempos, legendarios, medivaes...
Tu eras visionario, vão, prophetico...
E o mocho que adejava escuro e tétrico
Nos conventos, egrejas, cathedraes...

Eu sei que foste tu que, um dia, impuro,
Tentaste a castidade de Rachel!
Em Delphos desvendavas o futuro...
E cheio d'um pavor tragico e escuro,
Deixaste envenenar-te Daniel.

Em Sodoma, na noute derradeira,
Tentas as filhas sensuaes de Loth!
Fazes de Roma toda uma fogueira!...
E és tu mesmo que escolhes a figueira
A Judas, natural d'Iscarioth.

Foi _elle_ que abrasou na carne, um dia,
A tribu sensual de Benjamin!
Prégou na cathedral d'Alexandria;
Era pae d'um senhor de Normandia...
Foi amigo de Nero e de Cain.

Ia tentar o asceta á sua cella
Nos claustros escuros do Occidente;--
Aos Magos escondeu nos céus a Estrella...
E andava disfarçado em sentinella
Guardando o Justo, o Bom, e o Resplendente.

Ao homem tinha uns odios velhos, tragicos...
E era elle, o que andava entre as pelejas!...
Corrompeu os conselhos areopágicos;
E fazia roubar pelos seus magicos
As hostias consagradas nas egrejas.

Fazia distrair a S. Clemente
Com a bulha invisivel de corceis;
E era elle, nas horas do poente,
Quem apagava as luzes, de repente,
Quando oravam nos templos os fieis.

Tomava, ás vezes ordens e a tonsura...
E benzia as prostradas povoações;--
Fazia a voz então austera e dura,
Explicava os segredos da Escriptura,
E cantava entre as lentas procissões...

Dava n'um tom dogmatico uma idéa,
E vinha discutir com S. Thomaz;
Iniciava os sábios da Chaldêa,
E nos biblicos tempos da Judea
Andava a intrigar Christo com Caiphaz.

Tem no rosto o descor d'um fulminado;
--Era mulher nas lendas monacaes;
Outras vezes gigante e corcovado,
E vagava no mundo disfarçado,
Como os deuses nas formas d'animaes.

Nas regiões serenas, luminosas,
Encontram-se inda os seus lucidos rastros?...
Ó constellações felizes, piedosas...
Inda, ás noites, choraes silenciosas
A grande lucta biblica dos astros?...

Nasceu nas doces, puras regiões?...
--Ah quem onde dirá nasceu Satan?!...
--Nasceu entre as demais constellações?
--Commandava as flammantes legiões?...
E seria seu pae Leviathan?...

N'esse tempo do exilio as penas mestas
Jupiter não soffrera inda proscrito;
Apis não inventára suas festas...
Não errava inda Pan pelas florestas,
E não ladrava Anubis no Egypto.

Pára aqui, n'este ponto, a humana vista!...
--Quem sabe se do velho Cahos nasceu?...
Só quando contra Deus a lança enrista,
É que segundo, o eleito, o Evangelista...
Não se acha mais o seu lugar no Ceu?...



*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*

(A Fernandes Costa)


Eu moro altivo é só n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia á soalheira...
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castellãs nos seus balcões,
E gothicas varandas recostadas...
--Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...

Professo o culto só do _far niente_
Deitado, todo o dia, num colchão...
Na posição immovel d'um vidente...
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquillos modos d'um sultão.

Ó filhas do _spleen_ malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
_Ó sebentas_ do estudo empoeiradas,
E tristes quaes sultanas despresadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...

E vós teias d'aranhas inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!...
Ó Musas que inspiraes os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos!
Que vos creou ao seu _fiat lux_!?

Sois vós que me escondeis, qual caracol,
E servís de cortina e bambinellas...
Quando eu declamo involto n'um lençol,
E as visinhas que estão tomando o Sol
A espreitar-me se põe entre as janellas!...

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felicia...
E onde puz um retrato de Trajano,
Dentro d'um casacão diluviano,
Soffrendo como Cesar de calvicia!

Nas paredes estão phrases symbolicas,
E aqui e ali borrados a carvão:
Uma Venus com ar de grandes colicas,
Um santo d'umas barbas apostolicas,
E dous frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Biblia mui velha onde no fim...
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro...
Tendo n'um grande pé chinello mouro,
E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que puz uns bigodes com cortiça...
E d'um truão a loura cabelleira...
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda á missa!

Ao lado mora-me um visinho manco
Que faz dos sinos unico regallo...
E gosa da união d'um saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira,
Doce lyrio que treme a um vento vario...
Que canta a manhã toda e a tarde inteira...
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canario!...

Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indescretos...
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só n'uma trapeira...
Onde as pennas das pombas deixam rastros...
Exposta todo o dia á soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!



*BILHETE D'UM ESTUDANTE*


D'aquelle esguio telhado
--Onde tu sabes que eu moro,
Eu acho os astros d'um ouro
Já bastante mareado!

Nenhum d'elles val a trança
Dos teus cabellos compridos!
Por isso meu peito lança
Ao teu telhado gemidos!

Se eu fosse Deus, minha amada!
--Dar-te-hia Satan m'esfólle!--
Uma cartinha fechada,
Servindo de lacre o Sol.

Mas sou um predio em ruinas,
--Não tenho nada commigo,
Sou um deus feito mendigo,
Que tomo o sol ás esquinas.

Divago roto e contente!...
--Odeio um lente--e o Philyntho!
E sob este azul clemente,
Triumpho alegre e faminto!

Meus deuses são Vico e Dante!--
E gosto, no meu caminho,
Encontrar Minerva amante,
E as Musas cheias de vinho.

Como um barco sem amarra,
Navego, turgidas vellas,
E desafio as estrellas,
Á noute, sobre a guitarra!

E a cabello louro ou preto--
--Fragillidades do barro!
Envio sempre um soneto
Na mortalha d'um cigarro!

Erro sem norte e sem tino!
--Ninguem m'estende o seu braço!
Quer-me por força o destino
Comendador ou palhaço!


*Postscriptum.*

Desculpa-me, flor amada!
--Ó minha Musa divina!
Não fui hontem á escada,
Por que empenhei a batina!...



*A LADY*


Aquella que me tem agora, presa
Minha alma, meus sentidos, meus cuidados,
E me faz sonhar sonhos desmanchados,
É uma altiva, uma olympica ingleza.

Nunca typo ideal de mais pureza
Vi nos gothicos quadros mais presados,
Seus dôces olhos castos e velados
Tem um ar, infinito, de tristeza.

Tem uns gestos de deusa que caminha,
Fronte grega, e um ar grande de Rainha;
E umas mãos, como as ladys de Van Dick.

Segue-a sempre um lacaio, e tristemente,
É por ella que eu morro, lentamente...
E ponho no bigode _cósmétique_.



*DEDICATORIA D'UM LIVRO*


A Ti, a quem, eu, sempre, em meus idyllios,
    Sublimo, em phrases ternas...
Te dedico, eu, vergonha dos Virgilios!
    Estas rimas _modernas_.

Para que, minha fama, inda hoje escura,
    A tua boca espalhe,
Ao lel-as, no intervallo da leitura
    Das obras de _Terrail_.

E as guardes na gaveta, onde costumas
    Guardar os teus velinos...
Entre os frascos, essencias, mais as plumas,
    E os novos figurinos.

Que possam occupar teus pensamentos
    Meus lyricos ensaios!...
E, ó meu bem! lhes concedas os momentos
    Que dás aos teus lacaios

E vejas quanto em mim é aviltante
    O amor das fórmas tuas...
Que me faz baixo, vil e semelhante
    Aos histriões das ruas.

A Ti, que com teu rir sempre me animas
    A sagrar-te em meus motes,
Dedico eu estas modernas rimas
    Para os teus... _papelotes_.



*HUMORISMO MYSTICO*

(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)


Quando eu morrer, se acaso inda presares
Aquellas nossas digressões antigas
Ao verde campo, e as joviaes cantigas
Da aldeia inda apagar os teus pezares...

Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grande muro branco...
Te lembram... e te vaes sentar no banco
Ás tardes... junto ás tilias do caminho!...

Se, acaso, aquelle nome solitario
Que eu fui gravar um dia no pinheiro,
Vinha descendo o sol... como um guerreiro
Cheio de sangue... atraz do campanhário...

Se, acaso, aquelle nome o tronco duro
Inda o guardou fiel!... e a larangeira!...
E eu não passei por este val escuro
Como uma ave lugubre e estrangeira!...

Se acaso inda te lembra d'esse, a quem
Tanta vez tu vestiste com as tranças!...
E á cova em que eu jazer vier _alguem_...
Sem ser as meigas pombas e as creanças!...

Se acaso aquelle fogo em que te abrasas
Inda não se apagou!... nem o encanto!...
--Mais que a ideal palpitação das azas,
Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!

E n'essa cova então bella e dourada,
--Como a nossa união antiga e calma!
Colhe tu uma flor branca e raiada...
--Que n'essa flor te enviarei minha alma!

Toma cuidado n'ella... Ali se encerra
O que amaste!... e, ah! não vás como as mulheres
Curiosas d'amor, lançando á terra
As folhas virginaes dos _malmequeres_!...

Planta-a dentro d'um vaso predilecto...
Entre os outros, á luz... sobre a sacada...
E eu gosarei como um praser secreto,
Sentindo a tua mão pequena e amada!...

Será esse o meu goso derradeiro!...
O meu sol, meu azul, o meu espaço!...
E ao sentir-me regar pelo teu braço...
Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro...

Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grade muro branco...
--E quando iamos fallar no velho banco,
Ás tardes... junto ás tilias do caminho!



*O CANNIBAL*

(A C. Verde)


Tenho, defronte, uma visinha loura
Cuja carne alva, fina e setinosa,
Faz lembrar, quando á tarde o sol descóra,
A côr humana pallida da rosa.--

Não é fragil, nem debil, vaporosa,
Como as virgens mortaes que a luz não doura,
Antes é forte, esbelta e a voz sonora,
--Tranquilla e altivamente magestosa!

Nasceu formada assim para os amores;
E o modo com que rega as suas flores,
Na varanda, a sorrir, não tem rival!...

Ao vel-a os D. Juans baixam a falla!...
--Mas quanto a mim... quisera _devoral-a_...
Com a fome imbecil d'um cannibal!



*ROMANTISMO*


Quando ergue o transparente da janella,
Ou que o seu quarto se innundou de luz,
Eu amo vel-a seductora e bella
--Longos cabellos sobre os hombros nus!

Oh como é bella! e como fico a olhar
Dos seus cabellos desatando a fita!...
Lembram-me as virgens que do austero ermita
Vinham as noutes d'orações tentar!

Oh como é bella! Tem na luz do olhar
Quaes violetas quando as fecha o somno,
Não sei que doce ou languido abandono,
Não sei que triste que nos faz scismar!

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seu gestos vários...
N'aquelle quarto, aquelle ninho cheio
Da doce voz dos joviaes canarios!...

Como eu quisera ser nos sonhos d'ella
Um rei das lendas, o fatal _D. Juan_,
Pirata mouro em galeões á vella,
Com minaretes sob o ceu do Iran!

Como eu quizera--e que vontade intensa!--
Só pelo brilho d'essa longa trança!
Ser cavalleiro d'invencivel lança,
Ou rei normando d'uma ilha immensa!

Como eu quizera, no seu pensamento,
Ser o rei bardo no rochedo duro,
E ambos fugindo, recortar o vento,
Sobre a garupa d'um cavallo escuro!

Se me morresse, que comprido choro!...
Como vergára sob a cruz da Malta!
Como eu deitara a minha taça d'ouro
Por causa d'ella d'uma torre alta!...

..........................................

E assim por ella fico preso, em quanto
O sol s'esconde no occidente triste,
Um cravo murcha n'uma jarra, a um canto,
--E as aves vôam debicando o alpiste!



*AVENTURAS*


Tenho bem fundo, ainda, a sua imagem
Gravada na minha alma. Era alta e bella;
Tomei _cognac_ muita vez com ella,
E aos circos a levei de carruagem.

Era nervosa e lyrica. De pagem
Não faltavam _Destins_ áquella Estrella,
Lembra-me ainda a scena da janella,
E aquella em que morria na estalagem.

Depois viajou muito. Foi a Hespanha,
A França; Italia; Londres; a Allemanha;
Teve um naufragio, junto de Delhi.

Um corsario vendeu-a na Turquia;
--E hoje, ahi, vive, emfim, e leva o dia
A enxotar as moscas d'um _kadi_.



*O INCONVENIENTE DE MATAR A MULHER*

(A Alexandre Dumas Filho)[3]


Matei-a!... Sobre o leito desmanchado
Morreu!... Mas o remorso me povôa!
E, agora, vago solitario e á tôa,
N'uma tristeza immensa despenhado!

Quando o punhal no arminho immaculado
Enterrei... Sempre a mágoa me corrôa!
Ella chorou, gritando-me... _Perdôa_!
_Morro_!... e morreu!... Ó lyrio ensanguentado!

E agora aonde irei! Horror! Tortura!...
O ceo é o seu olhar! A noute escura
Lembra-me sempre o seu cabello preto!...

E, ó supplicio dos crimes verdadeiros!
--Ouço, em chusma, gritarem-me os livreiros:
_Quando é que sae agora o seu folheto_?...



*UM BLASÉ*

(A S. Nazareth)


Olhando o mundo assim com ar d'enfado,
Casaco abotoado e de luneta,
Caminha com ar grave no Chiado,
Com ar de quem achou algum planeta.

Dizem que nutre uma paixão secreta
Este Musset dos homens ignorado,
E pulsa um coração esphacelado,
Ali debaixo da casaca preta.

A todos diz ha muito andar _blasé_...
E falla em vasar copos d'absyntho,
Como quem bebe orchata ou capilé!...

Mas, Bacho! ó ceus! perdoem-me se minto!
Referem que uma noute, n'um café,
Acharam-o a libar do... _vinho tinto_!



*O VELHO*


D'entre os males crueis da Humanidade,
A que os vis animaes estão sujeitos,
Nenhum mais triste e cheio de defeitos...
Do que a dura e imbecil senilidade!

N'esta quadra de prantos e saudade,
Ha velhos d'alvas barbas sobre os peitos,
Que nos fazem lembrar, pelos seus geitos,
Orang-otangos de provecta edade.

E eu vi um velho assim!... Seus fortes braços...
Tinham como a rijesa dos bons aços...
E os seus gestos seriam d'um guerreiro...

Se não fossem seus labios já sem dentes,
Fazendo uns gestos comicos, ridentes...
--Como um macaco em cima d'um coqueiro!...



SEXTA PARTE

RUINAS



*FARRAPOS*

(A Oliveira Martins)


A ALMA

  Estou lassa de ti, mundo em ruinas!--
  Velho mundo cruel! nada m'ensinas!
      De grande ao coração!
  Acaso estás tão gasto e gangrenado?!


A CARNE

  --Ah como é bom, sob este azul arcado,
      Fazer a digestão!


A ALMA

  Prefiro antes cerrar-me solitaria
  A sós e o ideal--ó visionaria
      Grande ambição do bem!
  Como é que o vicio affronta as violetas?!...


A CARNE

  Que olhos tão sensuaes! que tranças pretas
      Que a quella mulher tem?--


A ALMA

  Cansada de soffrer, em vão anceio
  O Justo, o Bello!--Ó terra, abre-me o seio!
      Bastante, emfim soffri!
  Estou lassa do Vicio, e da Impostura!


A CARNE

  Dizem que a terra é fria, a cova escura,
      E tudo acaba ahi!


A ALMA

  Estes tempos são vis, e sem virtude!
  Os corpos sem valor e sem saude,
      Os peitos sem amor!


A CARNE

  Mas ha _corpos_ mui brancos e perfeitos!
  Olhos cheios de luz--formosos peitos,
      Tranças de negra côr!...

  Ha noutes de prazer pelo caminho!
  E abunda muito velho e forte vinho
      Sem ser falsificado!

  Nem tudo é luto e dôr!--Ha muito riso!
  --E é mais quente que o antigo Paraiso
      O seio do Peccado!


A ALMA

  A Morte, a Morte, é o termo das tristezas!
  É ali que emfim livres das torpezas!
      Se pode ser feliz!


A CARNE

  Mas, mau grado essas nobres _theorias_,
  --O que passar por mim, findos dous dias,
      Tapará o nariz!


A ALMA

  O que importa!--Melhor é que pereças!...
  Antes na terra ali tu apodreças...
      Do que eu, n'estas paixões!...


A CARNE

  Assim será talvez! Santas doutrinas!
  Mas as pernas gentis das dançarinas
      Teem grandes tentações!


A ALMA

  Calculos vãos! Contemplações pequenas!
  --Seculo vil d'aspirações terrenas,
      Cain do Pensamento!
  Matas as creanças e bons sonhos puros!


A CARNE

  Vou vêr se ponho um capital a juros,
      Que dê _cento_ por cento!


A ALMA

  Hontem, foram levar á sepultura
  Uma santa mulher formosa e pura,
      Celeste, livre d'erros!...
  Tão virginal!... Ninguem lhe orou na cova!


A CARNE

  Mandei fazer uma casaca nova
      Para os grandes enterros!--


A ALMA

  Nada é mais triumphante que o Egoismo,
  A ambição de brilhar, o vil cynismo,
      --E, n'este carnaval...
Custa a encontrar um peito bom, sincero!..


A CARNE

  Foram-se os castellões, o negro clero!
      --Saude ao _Capital_!...


A ALMA

  O Capital, bem sei!--A eterna historia
  Do assassinio das honras e da gloria,
      Do talento e da Idea!...
  Vil raça de tyranos e bandidos!...


A CARNE

  Silencio! que as paredes tem ouvidos!...
      --Cuidado na Cadeia!


A ALMA

  Tem quebrantado as almas, as mais fortes!
  --Tyrano algum já mais fez tantas mortes,
      Nem mais vis proscripções!


A CARNE

  Talvez! Talvez! Mas fez, na Sociedade,
  Guardar a Lei... firmou a _Propriedade_,
      _O juro_ e as _inscripções_!


A ALMA

  É elle o protector dos seus _direitos_!
  --Ó nobres corações, sem fel nos peitos,
      Simples castos e bons!
  Deixae-vos fuzillar por essas ruas...
    Que vos afoguem as creanças nuas,
      Sem sangue e sem _coupons_!

  Deixae que o _senhor_ goze--Ó Natureza!
  Curvae-vos, passa agora Sua Altesa
      Que o mundo assim dispôz!
  Callae-vos rouxinoes melodiosos!...


A CARNE

  Não sei por que!--São muito saborosos
      Cosidos com arroz!


A ALMA

  Velho bezerro d'ouro sobe ao throno!
  --Ó alma escura, ó terra, ó abandono!...
      A vil devassidão...
  Roe-vos mais que o bolor, mundo em farrapos!...


A CARNE

  Se as meigas andorinhas mais os sapos
      Fizeram união!


A ALMA

  É isso! O Capital faz maravilhas!
  Elle bem sabe ás Mães comprar as filhas,
      Dal-as ao lupanar!
  Roubar as crenças, honras e a saude!...


A CARNE

  Não fazem mais, amantes da Virtude,
      Que dar-lhes de jantar!


A ALMA

  Quantas tristes que a tysica asphixia...
  Sem pão, sem ar, cosendo noute e dia,
      Vão nas garras do açôr...
  Cair cheias d'opprobrios e martyrios!...


A CARNE

  --Obedecem os sapos mais os lyrios
      Á lei do eterno amor!


A ALMA

  Isto está desabando!... Homens cruentos!
  Lançae ao mundo novos fundamentos!...
      Venha o Direito e a Lei!
  Venha armada, a Justiça vingadora,
  E que na grande ceifa... a espiga loura...


A CARNE

      Que horror!... bem sei! bem sei!...


A ALMA

  Visões, visões talvez! Mas preso e adoro
  Estes sonhos vermelhos e côr do ouro
      De luta, vida e Acção...
  Se não fosse inda a crença santa e ardente!...


A CARNE

  --Deixa-me louca em paz--e emfim consente
      Que faça a digestão!...



*AOS VENCIDOS*


Quando é que emfim virá o claro dia,
--O dia glorioso e suspirado!--
Que não corra mais sangue, esperdiçado
Á luz do Sol que os mundos alumia?!--

Que os _vencidos_ não vejam a agonia
Do seu tecto de colmo incendiado,
E se ouça retumbar o monte e o prado,
Ao tropel da velloz cavallaria?!

Quando é que isto será?--Quando na vida,
Virá ella, a doce hora promettida,
Hora cheia d'amor, e desejada!...

Em que fataes Cains, fartos da guerra,
Nosso sangue não beba mais a terra...
--E nem mesmo a Justiça use d'Espada?!



*O MUNDO VELHO*


Nas crises d'este tempo desgraçado,
Quando nos pomos tristes a espalhar
Os olhos pela historia do passado...
Quem não verá, contente ou consternado,
--Mundo velho que estás a desabar--?!...

Sim tu estás a morrer, vil socio antigo...
E Pae de nossos vicios e paixões!
Camarada dos crimes, torpe amigo...
--Morre, emfim, correrá no teu jazigo,
Em vez de vinho, o sangue das nações!

Deves morrer, provecto criminoso!
Tens vivido de mais, vil sensual!
Tu estás velho, cansado e desgostoso,
E, como um velho principe gotoso,
Ris, cruelmente, ás sensações do mal.

--Que é feito do teu Deus, do teu Direito?
--Onde estão as visões dos teus prophetas?
--Quem te deu esse orgulho satisfeito?
Muribundo Caiphaz, junto ao teu leito,
Morrem, debalde, os gritos dos poetas!

No tempo em que eras forte, foi teu braço
Que apunhalou os grandes ideaes!...
Hoje estás gordo, sensural, devasso,
E andas, torpe a rir, como um palhaço,
N'um circulo lusente de punhaes.

Tu tens vendido os justos no mercado!
Crucificado o nobre, o bello e o bom!
Vaes cahir templo pôdre e abandonado,
Não á voz de Jesus ensanguentado,
--Mas ao verbo sinistro de Proudhon.

É elle que te arrasta ao teu jasigo,
Andas vergado á sua maldição!
Cambalêas ao funebre castigo,
E passas corcovado como o antigo,
Escravo, sob o lenho da paixão!

O seu grande clarão inda t'innunda,
Fulminou-te, morcêgo, á sua luz!
Marcou-te a consciençia rôta e immunda,
E a chaga que te abriu é mais profunda
Que a do lado direito de Jesus!

Nenhum deus, já ninguem póde cural-a!
Has-de morrer, caido amphytrião;
É essa a dôr eterna que te rala,
--Manda erguer o caixão na tua salla,
Prepara o funerario cantochão!

Tu tens quebrado os peitos mais robustos,
Tens dado aos santos o vinagre e o fel...
--Bom conviva de Nero e dos Procustos,
Andas ebrio do sangue de mil justos,
De mil sabios... de Christo e de Rossel!

Tens talhado a teu modo a Sociedade!
E por isso o infeliz que te condemne;
Ensanguentaste as mãos da Mocidade,
Nunca amaste o Direito ou a Equidade,
Matas Vallès...... Deixas viver Bazaine.

Tu viveste contente e agasalhado
Entre os brilhantes, e as visões do gaz!
--Bem te importava a neve... e o ar gelado,
O Frio e a Fome... É tepido o Peccado!
Calvo amigo!... Venceu-te Satanaz!

Tornaste o Templo casa de penhores,
--Mas ninguem ora a Deus nas cathedraes!
E já cheios de lastimas e dôres,
Nós lemos mais nas petalas das flores
Do que em todas as folhas dos missaes!

Morre, morre, venal, sem um gemido!
--Nem podes, levantar as mãos aos ceus!
Ha muito que ris d'isso, aborrecido?
Em nada crêste, em nada!--Adeus vencido!
Morre ahi como um cão!--Vencido, adeus!

Morre, morre, na lucta, pois, soldado!
Corpo cheio de tedio e de bolor!
--Adeus, velho navio destroçado!
--Morre! antigo conviva do peccado!
--Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!



*AOS VENCEDORES*


Visto que tudo passa e as épicas memorias
Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes
Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!

Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
E não façaes jámais pastar vossos cavallos
Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jámais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lugubres cortejos!
--E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fusilados!

Sim!--se venceste emfim, folgae todas as horas,
Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,
Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!--
--E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regámos já demais a terra--ó gloriosos
Vencedores! talvez,--_vencidos d'amanhã_!



*A CANALHA*


Eu vejo-a vir ao longe perseguida,
Como d'um vento livido varrida,
Cheia de febre, rota... muito além...
--Pelos caminhos asperos da Historia--
Emquanto os Reis e os Deuses entre a gloria
      Não ouvem a ninguem!

Ella vem triste, só, silenciosa,
Tinta de sangue... pallida, orgulhosa,
Em farrapos, na fria escuridão...
Buscando o grande dia da batalha,
--É ella! É ella! A livida Canalha!
      --Cain, é vosso irmão!

Elles lá vem famintos e sombrios,
Rotos, selvagens, abanando aos frios,
Sem leito e pão, descalços, semi-nus...
--Nada, jámais, sua carreira abranda!
Fizeram Roma, a Inglaterra e a Hollanda,
      E andaram cum Jesus!

São os tristes, os vis, os opprimidos,
--Em Roma são marcados e batidos,
Passam cheios de vastas afflicções!...
Nem das mesas lhes deitam as migalhas!
Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas,
      E andam nas sedições.

Veem varridos do lugubre destino!
Em Roma e a velha Grecia erram, sem tino,
Nos tumultos, enterros, bachanaes...
Nas praças e nos porticos profundos...
E disputam, famintos e immundos,
      O lixo aos animaes!

São os parias, os servos, os _illotas_,
Vivem nas covas humidas, ignotas,
Sem luz e ar; arrancam-lhes as mães,
--Passam curvados nas manhãs geladas,
E, depois de já mortos, nas calçadas,
      Devoram-os os cães.

Elles veem de mui longe... veem da Historia,
Frios, sinistros, maus, como a memoria,
Dos pesadellos tragicos e maus...
--Eu oiço os reis cantando em suas festas!
E _elles_, _elles_--maiores do que as florestas--
      Chorarem nos degraus!

É uma antiga e lugubre legenda!
--Vão, sempre, sempre sós, na sua senda,
Sublimes, quasi heroicos, rotos, vis...
Cheios de fome, ás luzes das lanternas,
Cantando sujas farças, nas tabernas,
      Chorando nos covis.

Alguns dormem em covas quaes serpentes!
Viveram, entre os povos, e entre as gentes,
Vergados d'um remorso solitario...
--Sabem, de cór, os reinos desvastados!
E, vieram, talvez, ensanguentados
      Da noite do Calvario!

Teem trabalhado, occultos, noite e dia,
Ó reis! ó reis! as luzes d'esta orgia,
De subito, que vento apagará!
--Corre no ar um echo subitaneo...
E escuta-se, feroz, no subterraneo,
      O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!
Ó legionarios! desertae as tendas,
Já demolem os porticos reaes...
Os que teem esgotado a negra taça,
--Cantam, ao vento, os psalmos da _Desgraça_,
      E a historia dos punhaes!

Vão, ha muito, na sombra, foragidos,
Pelas neves, curvados e transidos,
Em quanto Deus se aquece nos seus Ceus!
Vem do Sul uma lugubre toada,
E escuta-se Rousseau, na agua furtada,
      Gritar--_Que me quer Deus_!?

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,--
Assoma lá ao longe um mar de lanças,
Resoam sobre os thronos os machados...
E a Europa vê passar, cheia de assombros,
Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,
      --Seus reis esguedelhados.

Á voz das legiões rotas, sombrias,
Desabam pelo mundo as monarchias...
Tremem os graves bispos... e depois...
Que mais farão? perguntam, desolados,
--Vão ser, inda, depois, crucificados
    Os deuses e os heroes!

..........................................
........................................
......................................

Vae prolongada a vil, barbara orgia!...
No silencio da noite intensa e fria,
Vem uns echos perdidos de batalha...
Como uns ventos do norte impetuosos,
--São uns passos, nas trevas, vagarosos,
      Os passos da _Canalha_!

Elles veem de mui longe... mui distantes
Como sonoros bathalhões gigantes,
Como ondas negras d'um sinistro mar...
N'uma viagem tragica e sem gloria,
--Ha muito, pela noite da Historia,
      Que os oiço caminhar!

Quem sabe se virão... é longa a estrada,
D'esta comprida e aspera jornada
Quem sabe quando, emfim, descançarão?
As pedras atapetem-lhes com flores!...
Lá veem queimados, rotos, vencedores,
      Altivos e sem pão!

Não raiou inda o dia da Justiça!...
Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa,
E a Liberdade emfim junte os seus filhos...
Vão talvez vir os tempos desejados!
--E, então, por vossa vez, ó reis sagrados!
      --_Saude aos maltrapilhos_!



*O NOVO LIVRO*[4]


Vou cantar novos casos dolorosos...
E navegar n'outro épico Oceano,
Novas vellas soltar!--O ouvido humano,
Que se preste a meus cantos vigorosos!

Por que eu fulminarei os crapulosos,
O fanatico, o Escriba, o Publicano,
E arrastarei á luz--como um tyranno,
O santo d'olhos doces e amorosos.

E, por tanto, homens cheios de vaidades!...
Preparai-vos a ouvir rubras verdades
Que vos hão de queimar como carvões...

E se não receaes ver morto o Erro,
--Vinde á janella a ver o grande Enterro...
E o desfilar das lividas visões!



*ALGUMAS PALAVRAS*


Achámos sempre de supremo mau gosto ver o auctor, na sua propria obra,
demorar-se complacentemente n'um prologo, como que fabricando uma
auréola.

Por isso, isto não é a demorada profissão de fé d'um poeta novo, nem a
rhetorica pomposa e esteril de quem intenta dar realce a um livro.--É
apenas uma explicação.

Este livro, producto d'uma inspiração meridional e algumas verdades
heroicas, não se filia, exclusivamente, em nenhuma escola conhecida.

É uma obra na qual influiram muitas e varias correntes do espirito
humano, e muitas impressões, muitas nobres ideas do seu tempo.

No entanto, o auctor conhece que fez uma obra sua, com horisontes
particulares e pontos de vista seus, e não apenas uma synthese das ideas
dominantes de qualquer escola aplaudida.

Na mysteriosa, singular, e complicada elaboração intelectual do espirito
humano, qual será o auctor assás sincero que possa sempre assí*gnalar
com segurança a origem d'uma idea, ainda que essa idea seja tão luminosa
como a rotação da terra, a descoberta da alavanca, ou a creação de João
Valjean?

Quem poderá dizer á borboleta, ao lyrio, ao monstro marinho, e áquellas
aves singulares da America que teem todo um arco celeste de tintas nas
plumas, a parte que elles devem na vida, nas côres, no aroma, nas
plumagens, ao Sol, ás nuvens, aos ventos--e a todas as forças chimicas
da Natureza?

Do mesmo modo tambem as grandes sementes que espalharam os espiritos que
nos precederam, ou as d'aquelles que ainda hoje arroteiam o campo, fasem
desabrochar uma infinidade de pomos intellectuaes na grande planicie dos
seculos, por aquelle mesmo trabalho lento e maravilhoso, pelo qual o Sol
vae preparar ao mais fundo da terra o diamante.

E assim é facil, por um contraste notavel, n'um dado espirito poderem
ter operado as influencias da leitura de Proudhon, de Cicero, de Vico,
de Dante, de Baudelaire, de Renan, Voltaire e de S. Agostinho, e d'ahi
depois crear-se uma entidade tão diversa d'estas entidades em
particular, que nenhum d'elles o teria por discipulo.

Quem poderá assignalar a S. Jeronymo, o grave doutor da Egreja, o aspero
e cavado ermita do mosteiro de Betlem, a influencia que tiveram nos seus
escríptos o estylo delicado de Cicero, Horacio, e os licenciosos poetas
pagãos? Nenhuma influencia se operou talvez visivel; mas talvez muitas
secretas e particulares.

É por isso que compete ao escriptor trabalhar a sua idea, lapidal-a,
polil-a, desenvolvel-a, facetal-a, de maneira que ella seja como que um
grande elo em que se vão encatenar um rosario luminoso d'outas novas, e
que ella saia transformada d'esse vasto laboratorio intellectual, por um
processo mysterioso semelhante ao do que faz a Natureza transformando da
lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.

O escriptor é um producto litterario do seu tempo, das suas leituras, do
seu temperamento, do seu estudo--e obedece mais que tudo ainda á sua
consciencia, e a influencia do Sol sob que nasceu.

O poeta que não obedece a nada d'isto--não é um poeta na grande accepção
da palavra: É um plagiario, um parasita que vive da imitação servil dos
outros, e que é tão digno de se agremiar a elles como o sapo de fazer
união com as borboletas.

É por isso, pois, que este primeiro livro é d'um meridional; mas d'um
meridional moderno, que celebra o Sol por que desperta o homem para a
Acção para a Vida e para o Trabalho, e que achou curioso,--no seu
tempo--fazer um livro de vida, d'imaginação, de ironia, de sol, e de
liberdade--o mais heroico dos ideaes.

Mau grado algumas affeições litterarias dos começos do auctor--entre as
duas escolas modernas de que tanto se tem discutido, o _satanismo_ e o
_realismo_, não preferiu nem uma nem outra.

O _satanismo_ por que tem uma philosophia absurda que consiste em querer
ao eterno equilibrio do Bem e do Mal, em que se baseia a harmonia da
Natureza que assombrava Rousseau e que lhe valeu de Voltaire a sangrenta
satyra do doutor _Pangloss_--antepor, pertinazmente, o predominio do
Mal.

E o _realismo_, reduzido ás condições de escola--isto é de
convenção--por que debaixo d'uma vã, rhectorica, apparencia d'analyse,
de critica e de experiencia, revela o sordido e o obsceno, ou cae como o
_satanismo_ na preoccupação do Mal em tudo, e a descrevel-o--o que é
mais desagradavel ainda.

Na pintura o _realismo_, com processos exagerados e abusando das
minuciosidades tem procurado impôr pela verdade, ora procurando o _feio_
com um furor, como nunca a Arte Antiga se lançou no Bello, ora abusando
dos pormenores, como se a pintura podesse retratar a Natureza, e se o
fim da Arte não fosse servir-se d'ella como meio.

Alguns pintores inglezes da escóla realista chegaram a fazer quadros
curiosissimos de serem analysados a microscopio; tal era a fidelidade e
o rigor das _menores_ cousas.

E, comtudo este exagero não póde nunca dar senão a consciencia ou a
medida d'um talento d'um artista, e não a vastidão d'um genio, que não
póde nunca restringir-se a pequenos effeitos visuaes, ou á fidelidade.

Alem d'isso, se a simples fidelidade fosse a maior aspiração da Arte, o
microscopio d'um observador inglez teria direito quasi a procurar n'um
copo d'agua os animalculos que a povôam.

Todas as extravagangias da escola bolonheza, de Paulo Veronezo e seus
seguidores, ostentando em todos os quadros as magnificencias da
architectura, d'entre os quaes um d'elles ficou mui celebre, as _Bodas
do Caná_, não teem nada d'exagerado em relação ao furor, e á preocupação
quasi comica do _feio_, que domina Courbet e os seus neóphitos.

Os poetas realistas, esses mais declamadores do que profundos, mais
horrivelmente minuciosos do que verdadeiros, teem feito um mundo de
mulheres perdidas, de Manfedos de crapula, de trufas, de velludos, e de
lepras, e teem-se posto n'uma tal gamma d'inspiração, simulando a
sciencia, e affectando chamarem ao diamante _vil carvão_, que teem
tirado a poesia a tudo,--á arvore, á flor, ao diamante, e até ao carvão.

Estes são os exageros em que ultimamente tem caido esta escóla, e dos
quaes já agora morrerá,--descrevendo ainda uma pustula.

Entre pois estas hesitações e absurdos d'escólas, o auctor achou melhor
não preferir nenhuma, reservando todas as suas affeições para uma poesia
mais sadia, forte e verdadeira, e que não desprese nem o amor, nem a
imaginação, nem a liberdade.

Esta poesia nova, que procura o seu caminho tão gloriosamente no meio
d'estes tempos tão turbados, já certa de triumphos verdadeiros, e a que
alguns teem chamado Humanismo, é a que comprehendendo o homem com todas
as suas paixões e as suas virtudes, nem deprimindo-o scepticamente, nem
fazendo-o perder chimericamente nos astros, ha de estebelecer o
verdadeiro equilibrio entre o _ideal_ e o _real_, e mirando como a
philosophia a melhorar a humanidade e a alargar o ideal humano, ser
digna da nobre missão que n'estes tempos lhe está confiada.

Mau grado as vãs declamações ultimas contra o _lyrismo_, por alguns
pregoeiros d'uma theoria de que não ouviram senão a primeira palavra, o
auctor está convencido de que a verdade, a pureza e o sentimento são e
foram sempre os distinctivos d'um verdadeiro artista, e que aquelle
poeta que jámais cantou a Mulher e o Amor, é um ente tão duhio na
Sociedade, como um sacerdote da deusa _Tani_ em Carthago.

Alem d'isso recorda-se e recorda aos declamadores levianos que Lucrecio
no mais bello e admiravel poema philosophico sobre a Natureza, que se
tem escrito no mundo, _De natura rerum_, começou por uma elevada
invocação a Venus--que é a mulher na Antiguidade feita deusa.

Hoje um poeta moderno que tem um ideal da mulher muito mais nobre, mais
puro, mais casto, devido á philosophia christã, por que não ha de tratar
de a engrandecer, de a elevar e distinguir, dando-lhe--como Philosophia
e como Arte--o papel que ella tem direito a representar na
sociedade--banindo dos seus livros a poesia da cortezã?!

O auctor no seu livro apenas duas ou tres vezes alludiu a ellas, e foi
para as lamentar, e, talvez, injustamente, para as condemnar.

Injustamente; porque a bondade é tambem uma justiça superior; e uma das
grandes missões do poeta é a d'alem de ser justo, ser bom.

E em nenhuns tempos a missão do poeta foi tão grande de cumprir como
hoje.

Uma pretenciosa e depravadora lepra lavra na sociedade; uma enorme
corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalísmo, a parte mais
deficiente da litteratura portugueza, toma sobre a desgraçada ignorancia
geral um ascendente que seria comico se não fosse para lamentar, e
invade como uma grande corrente, sem dique, a opinião publica, reduzindo
a Economia, a Arte, a Politica e a Philosophia a questões de visinhas
despeitadas.

A Mocidade, de quem ha tanto a esperar, explora avidamente o _bel
esprit_ que tanta indignação causava a Rousseau, todo forjado segundo os
moldes mais deploraveis do espirito sem ideal francez, e que está para a
verdadeira ironia austera e demolidora, como Proudhon está para uma
_cocotte_ e o sentimento de Chénier está para o sentimentalismo de salla
de Feuillet.

Tendo-se o auctor feito conhecer por algumas poesias liberaes, muitos
perguntarão talvez a rasão por que não deu no seu livro mais latitude á
ultima parte.

Essa razão foi unicamente a de não querer fazer um livro exclusivamente
didactico, e por que as poesias que publicou e que entravam no plano do
seu livro lhes restringiram o espaço.

Alem d'isso porque tambem, as luctas religiosas da Allemanha, os eternos
combates entre a Egreja e o Estado lhe haviam feito conceber o plano do
_Antichristo_, onde mais latamente poderia desenvolver algumas theorias
e tratar questões do mundo politico e religioso.

Quanto a esta obra, seja qual fôr o logar que a Critica lhe faça
occupar, ella não é mais do que a primeira pedra d'um edificio que
existe todo construido na imaginação do auctor.

Mas por muito insignificante que ella seja, elle recorda a todos que se
teem visto n'uma sociedade esterelisadora, em lucta continua com um
ideal novo e grande, como Jacob toda a noute com o anjo, que o seu
desejo constante foi sempre fugir do _exagero_ e do _mau gosto_.

Se nem sempre o conseguiu, ainda assim os justos, e os fortes, pela sua
vontade, o saberão apreciar.



*ERRATAS NECESSARIAS*[5]


O leitor curioso póde, para mais facilidade na leitura, fazer estas
emendas na margem do livro.

Na poesia _Lisboa_, 5.^a estrophe, 3.^o verso, leia-se em vez de
_prisões_, _procissões_.

_N'aquelle Sabio_, 2.^a estrophe, 1.^o verso, leia-se: _Tem assim ares
d'empyrico_.

Na _Joven Miss_, 2.^a quadra, 2.^o verso, leia-se: _Cria em nós todo um
mundo de moral_; e A _Uma voz celeste_, 9.^a quadra, 3.^o verso: _Eu que
nos astros leio_.

Em _Junto do Mar_ dever-se-ha lêr: _O mar cheio de medos e soluços_,
9.^a quadra 4.^o verso; _O sangue dos nossos males_, em _Tristissima_,
5.^a quadra, 4.^o verso.

Não citamos aqui suppressões de lettras e virgulas, que o leitor póde
corrigir facilmente.



INDICE


*INSPIRAÇÕES DO SOL*

Hymno ao Sol
Á Janella do Occidente
Os Santos
D. Quixote
O Publicano
A Lyra de Nero
Mysticismo Humano
Monges de Zurbaran
A Bella Flor Azul
Hora do meio dia
Cantiga do Campo
A Aguia
Accusação á Cruz
Luthero
A Terra
O Ouro
O Budha
No Calvario
Héli! Héli!
As Aldeias
Beneficios e Philosophia do Sol
Disputa
As Cathedraes
Lycanthropia
O Peccado
Soneto d'um poeta morto
A uma Judia
A Visita
Palacios antigos
Cain
A Primavera


*REALIDADES*

Accusação a Christo
De noute
Aquelle sabio
Na Taberna
Os Lobos
Miseria occulta
Lisboa
A sesta do senhor Gloria
Farça triste
Madrigal da rua


*CARTEIRA D'UM PHANTASISTA*

Antes d'abrir a carteira
A noute de noivado
A tortura das chimeras
Tarde de verão
Na cabeceira d'um leito
Madrigal excentrico
Aquella orgia
O Visionario ou Som e Côr
Madrigal funebre
Debaixo d'uma janella
A Selvagem
A Lanterna
Ultima phase da vida de D. Juan
Ultima ceia de Falstaff
Falstaff moderno
Na rua
Phantasias da lua
O Selvagem
O amor do vermelho
A um corpo perfeito
Carta ao Mar
A lenda das rosas
No enterro d'um coração
A Joven Miss
O doente romantico
Quadra d'um desconhecido
Em viagem
Noutes de chuva
Idylio meridional
Duas quadras de Diogenes no album de Lais
A Camelia negra
A ultima serenada do Diabo
A Musa verde
Idyllio d'aldeia
Carta ás estrellas
Na folha d'um livro
Os Brilhantes
O Astrologo


*MYSTICISMO*

Dedicatoria
Os deuses mortos
Debaixo das hervas
A uma voz celeste
Á pomba que voou
Tristissima
Idyllio triste
A um lyrio
A uma andorinha
Entre os arvoredos
Confissão a uma violeta
A sua camara
Hora mystica
Junto do Mar
Doente
N'um cemiterio
Despedida ao Sol


*HUMORISMO*

A Aranha
Nova ballada do rei de Thule
Phantasias d'um aborrecido
El Desdichado
A Valentina de Lucena
Phantasias
A Biographia de Satan
Agua furtada d'um Original
Bilhete d'um estudante
A lady
Dedicatoria d'um livro
Humorismo mystico
O Cannibal
Romantismo
Aventuras
O inconveniente de matar a mulher
Um Blasé
O Velho


*RUINAS*

Farrapos
Aos vencidos
O Mundo velho
Aos vencedores
A Canalha
O Novo Livro
Algumas palavras



Notas:

[1] Esta poesia só tem referencia ao estrangeiro; Hespanha, Italia, e
principalmente França. Em Portugal o absynto não faz estragos.

[2] Esta poesia já foi publicada sob um pseudonymo.

[3] Este soneto foi dedicado a Dumas filho, pela occasião da celebre
questão do Homen-Mulher, que deu origem a um diluvio de folhetos e
publicações.

[4] O Antichristo.

[5] Nota de pós-processador do DP: todos os erros apontados foram
corrigidos.





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