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Title: Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)
Author: Pina, Rui de, 1440-1521
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)" ***

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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

PROPRIETARIO E FUNDADOR

_MELLO D'AZEVEDO_



Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo


CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO V

POR

_Ruy de Pina_

VOL. II


_ESCRIPTORIO_
147--Rua dos Retrozeiros--147
LISBOA


1902



CAPITULO LXXX

     _D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de
     Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que
     houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da
     Rainha_


E o Infante D. Pedro se foi com El-Rei á cidada do Porto, onde tornaram
a elle sobre o mesmo caso da Rainha quatro embaixadores, dois em nome
d'El-Rei de Castella, e dois em nome do seu povo; porque a Rainha D.
Lianor, quando viu os primeiros embaixadores tornar com resposta á sua
esperança e desejo tão contraira, começou claramente de conhecer os
enganos em que caira, e lastimando-se d'isso aos Infantes seus irmãos,
elles por em alguma maneira cumprirem com ella, fizeram com El-Rei que
os procurados dos povos de seus reinos em côrtes ouvissem, como ouviram
suas querellas e agravos contra o Regente, e com tal graveza se
propozeram, que foi accordado enviar-se já por final aquella embaixada,
em nome d'El-Rei e do povo com temerosas protestações, dizendo que
quando aos requerimentos d'ella não se satisfizesse, poderiam então
mover guerra, sem parecer que por sua parte as pazes se quebrantavam.
Sobre a qual o Regente teve conselho, e enviou avisos aos Infantes e
pessoas principaes do reino, e foi determinado que o Infante não desse
determinada resposta aos embaixadores, e que por dilatar a remettesse, á
que El-Rei seu Senhor enviaria, para que offereceria a El-Rei de
Castella todo o que por contemplação sua e de seu povo á Rainha n'estes
reinos se devia e podia fazer.

E com isto despediu os embaixadores, e se foi com El-Rei á villa de
Tentuguel, que é no Campo Mondego. Onde accordou de enviar, como enviou
por embaixadores a Castella, como ficara, a Lionel de Lima, que depois
foi primeiro bisconde de Villa Nova de Caminha, e o doutor Ruy Gomes
d'Alvarenga. Os quaes bem instructos e avisados do que haviam de dizer,
se foram a El-Rei de Castella, com quem falaram em apartado as cousas de
sua embaixada, em que sustancialmente concludiram que a Rainha por
muitas causas, razões e impedimentos que apontaram, não devia vir a
estes reinos, nem menos ter a governança d'elles, nem a criação d'El-Rei
e seu irmão que requeria, e que o reino todo havia por tamanho
inconviniente para o bem e assessego d'elle, que para o não consentir se
despoeriam ante a todo trabalho e perigo; mas ainda que por direito não
houvesse para isso obrigação, que por ser madre d'El-Rei seu Senhor, e
por elle Rei o requerer, lhe dariam onde ella quizesse fóra de Portugal,
seu dote e arras, e todas as cousas suas que n'este reino se achassem,
que não fossem da Corôa, e mais dez mil dobras d'ouro para satisfação
dos que a serviram. E com isto outras muitas razões, com exemplos de
merecimentos passados, porque El-Rei devia amar muito mais El-Rei seu
Senhor e ao Regente, que a Rainha D. Lianor nem a seus irmãos.

El-Rei de Castella depois de os ouvir, ante de lhe responder teve com os
grandes do seu reino sobr'isso conselho, em que eram os Infantes
d'Aragão e a Rainha, onde para a paz e para guerra houve votos e
sentenças contrairas; e finalmente o conde de Faram, e um Bispo da Avila
que eram presentes, com fundamentos e razões mui justas concludiram que
por este negocio da Rainha, ainda que fosse irmã, nem filha d'El-Rei,
que pelas pazes que com Portugal tinha feitas e juradas, não lhe podia
nem devia fazer guerra, e que a mór ajuda que á Rainha podiam dar, assi
era de rogos sómente; com os quaes dois senhores muitos outros se foram.
E o conde de Faram aderençou sua falla para a Rainha, e lhe disse:

«Senhora, bem creiu em caso que o voto que dei seja contrairo a vosso
desejo que não leixará vossa mercê de crêr que eu amo muito vosso
serviço, e dos Senhores Infantes vossos irmãos, por cuja honra e estado
eu trabalhei e padeci o que elles sabem, cá por isso o dei e o disse, e
por isso vos quero bem conselhar. Soes primeiramente muito enganada em
procurardes entrar em Portugal por guerra, e contra vontade do Regente e
dos Infantes seus irmãos; pois sabeis que todo o reino por natureza os
ama, e por obrigação e vontade os hão-de servir, e das mostranças que
alguns lá fizeram de vos recolher e servir, já deveis de ser
desenganada, e a concordia do conde de Barcellos e do Marechal com o
Infante D. Pedro vos é para isso claro exemplo, e que vos pareça que a
necessidade do tempo lh'o fez assi fazer, ainda não creaes, vendo elles
as cousas revoltas que não sostenham a parte de seu Rei natural antes
que a do estranho, e mais eu não sei que segurança tereis do amor do
povo que guerreardes por fogo e sangue, que tal caso se não pode
escusar, antes para vossa vida conseguireis odio, desamor e perigo, que
por todas razões não deveis querer; não fallo já no grande trabalho e
muita perda que estes reinos de Castella receberam com esperança de tão
duvidosa victoria. Aquelle reino não é pequeno, e é mui forte e de gente
leal e mui esforçada, e será mui máo de sogigar por força. E para melhor
verdes esta impossibilidade, sabeis bem que um cavalleiro de duas
fortalezas tem n'estes reinos coração de se levantar contra a obediencia
e serviço d'El-Rei nosso Senhor; e quero dizer se o devo dizer, que não
é poderoso de o cercar nem tomar, quanto mais que os Infantes vossos
irmãos que aqui estão, de necessidade conviria terem n'estes reinos
outra gente d'armas, e não pouca contra o Condestabre e o Mestre
d'Alcantara seus imigos, e que seria impossivel ou com abatimento de
suas honras e estados se sogigarem a elles, que seria grande vituperio
em sangue real, que Deus nunca consinta, cá não haveis de duvidar que
estes dois homens pela grande imizade que comvosco e com elles tem e
pelas boas obras que do Regente em suas necessidades e affrontas tem
recebidas, o hão sempre de servir e ajudar, por mais enfraquentar vosso
poder, cá de todo são desconfiados de vossa concordia, e fazendo ainda
esta empreza tão leve, que sem muita pena cobrassemos o reino de
Portugal, não creaes que o dessemos a El-Rei vosso filho, nem a vós o
Regimento d'elle; porque para cobrar novos reinos não ha fé nem verdade,
cá é aos mortaes cobiça sobre todas, e sobre tudo com reverença e
acatamento d'El-Rei nosso Senhor que aqui está, vos digo que sua
Senhoria tem com gram razão grande amor ao Regente. E crêde que por só
importunação de que por vós e vossos irmãos foi vencido, tem feito
contra elle o que fez, n'estas embaixadas que enviou, cá não ha por sua
vontade de proseguir cousa que em sua honra e estado muito desfaça, pelo
qual Senhora, meu conselho é que pelo que a vosso habito, consciencia, e
assessego pertence, acceiteis qualquer razoado partido que de Portugal
vos fizerem, cá do contrairo sede certa, que cada vez recebereis mais
dano, e mór paixão.

Este desengano do conde de Faram foi muito louvado, e muitos do conselho
o seguiram, e El-Rei o approvou, pelo qual por parte da Rainha logo se
apontaram alguns meios, em que para ella requereram uma grande somma de
dobrões. E para alguns seus, casamentos assignados, e para outros
satisfações de dinheiro, pago em certo modo e tempo, com outras cousas
que tambem requereram, segundo que por escripto o apontaram, e com estes
meios vieram os embaixadores a Portugal, com fundamento de logo tornarem
com a concordia; e porque o Regente sem todo o reino e principaes d'elle
não quiz n'elles tomar certo assento, seguiu-se no ajuntamento para isso
tanta dilação, que n'estes reinos, e nos de Castella principalmente
sobrevieram em tanto cousas de taes afrontas e necessidades, que as da
Rainha ficaram de todo por acabar, até que com ellas acabou também sua
vida, como se dirá.



CAPITULO LXXXI

     _De como o Infante D. João falleceu, e que filhos d'elle ficaram_


No fim do mez de Outubro d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e
dois, o Infante D. João em a villa d'Alcacere do Sal acabou sua vida de
febre, d'onde levaram seu corpo ao mosteiro da Batalha, onde tem sua
sepultura, dentro da capella d'El-Rei D. João seu padre, e foi sua morte
com dôr e tristeza de muitos muito sentida; porque era Principe de
grande casa, e em que havia muitas bondades e virtudes sem algum vicio
que as minguassem, em especial era muito amigo do bem commum d'estes
reinos, que por elle mostraram claros signaes da perda que n'elle
perderam.

E o que de sua morte e privação mostrou sobre todos ser mais triste e
anojado, foi o Infante D. Pedro que era em Coimbra, onde como soube de
seu fallecimento, cahiu de verdadeiro nojo em cama á morte, não havendo
em sua enfermidade outra causa, e não era sem razão; porque eram irmãos
que sem cautella e mui verdadeiramenta se amaram, e foram sempre em todo
mui conformes, e o amor que o Infante D. Pedro lhe tinha não ficou sem
experiencia de ser mui conhecido; porque não sómente na vida, mas depois
da morte muito mais claro em todas suas cousas lh'o mostrou; porque do
Infante D. João ficaram tres filhas e um filho. O filho houve nome D.
Diogo, a que o Regente logo em nome d'El-Rei fez Condestabre, e deu o
Mestrado de Santiago com todalas rendas e cousas que o Infante seu padre
tinha, e falleceu logo muito moço, e a filha maior a que chamavam D.
Isabel, que de virtudes da alma e perfeições do corpo foi em todo
cumprida, casou com El-Rei D. João de Castella, que sendo elle de edade
de quarenta annos a houve por segunda sua mulher, de que nasceu real
geração e sobre todas mui excellente. E a segunda filha do Infante D.
João houve nome D. Breatiz, esta casou o Infante D. Pedro com o Infante
D. Fernando, irmão d'El-Rei D. Affonso, de que houveram por filhos, a
sobre todas mui virtuosa a Rainha D. Lianor, mulher que foi d'El-Rei D.
João o segundo d'estes reinos de Portugal, e El-Rei D. Manoel nosso
Senhor, que por fallecimento d'outro legitimo herdeiro, directa e
ligitimamente os sobcedeu. E a terceira filha do Infante D. João se
chamou D. Filippa, que sem casar, casando e fazendo muito bem a seus
criados e criadas, acabou virtuosamente sua vida.

N'este anno estando o Regente com El-Rei na cidade d'Evora, falleceu sem
herdeiros um D. Duarte, que foi senhor de Bragança, e tinha o castello
d'Outeiro de Miranda; veiu logo á côrte o conde de Barcellos, e pediu
este senhorio e castello ao Regente, o qual se escusou d'elle por o ter
já promettido ao conde d'Ourem seu filho, que no requerimento se
antecipara primeiro, e porém logo entre o pae e o filho houve n'isso tal
concordia, que o conde d'Ourem por ser filho maior esperando todo
sobceder, juntamente desistiu da promessa e por prazer do Regente a
passou ao conde de Barcellos, que logo pelo dito Infante D. Pedro foi
feito e intitulado duque de Bragança. Mas não se seguiu assi, porque o
filho que era moço, falleceu primeiro que o pae que era já mui velho,
como se dirá.



CAPITULO LXXXII

     _De como falleceu o filho do Infante D. João que era Condestabre, e
     como o filho maior do Infante D. Pedro foi d'aquella dinidade
     provido, que foi causa e fundamento da morte do dito Infante D.
     Pedro_


E no começo do anno seguinte de mil e quatrocentos e quarenta e tres,
falleceu de febre continua D. Diogo, filho do Infante D. João, cuja
herança e casa passou logo a D. Isabel sua irmã maior, e depois porque
casou com El-Rei de Castella, passou por contrato á filha segunda D.
Briatiz, casada com o Infante D. Fernando, como disse.

E o Infante D. Pedro, porque do Infante D. João não ficara outro
herdeiro barão, fez com El-Rei que proveu logo do Oficio de Condestabre
a D. Pedro seu filho maior, e o conde d'Ourem fundando-se em razões que
não provou, enviou pedir a mesma denidade ao Infante D. Pedro seu tio,
dizendo-lhe, «que o seu avô o conde Nuno Alvares Pereira houvera este
Oficio, para si e para todolos que d'elle decendessem. E que por quanto
d'elle não ficara filho barão que o herdasse o houvera o Infante D.
João, não como filho de Rei, mas como quem casou com sua neta, e que
como quer que a elle conde d'Ourem mais que a outrem de razão
pertencesse, por ser neto barão e maior do Condestabre; porém que o
leixara então de requerer, porque para se haver não fizera diferença
entre o Infante D. João e si mesmo; mas agora que por sobcessão de barão
ficava distinto, e a elle pertencia como a principal ramo que do tronco
do Condestabre ficava, lhe pedia que o provesse d'elle».

E o Regente lhe respondeu «que El-Rei seu Senhor tinha já d'elle feito
mercê a D. Pedro seu filho, para quem elle o pedira, para em algum cargo
de honra ter mais razão de o servir; porém que se hi houvesse doação ou
cousa assi autentica por que parecesse este Oficio de direito lhe
pertencer, que lh'a mandasse mostrar e que por alguma maneira lh'o não
tiraria. Alegando-lhe mais para sua satisfação e contentamento a mercê
de Bragança e de Castello d'Outeiro, que poucos dias havia que recebera,
ainda que de sua vontade a trespassara em seu padre, o que elle assi
consentira por ter razão de o mais cedo fazer duque depois da morte de
seu padre, que por curso de natureza, segundo sua muita edade não podia
já muito tardar, e que por hi elle ficaria duque, e tres vezes conde com
outros senhorios e terras, de que para a estreiteza de Portugal se devia
haver por muito acrecentado, honrado e contente. E que portanto lhe
rogava, que por amor d'elle não se descontentasse em seu filho haver
este Officio, em que bem cabia por muitos respeitos, e isto porém fosse
quando não houvesse tal firmeza, porque de direito lhe pertencesse;
porque se a houvesse fosse certo que seu filho lh'o leixaria».

E em fim o conde d'Ourem não mostrou o que por ventura não tinha; porém
tamanho descontentamento e agravo mostrou que do Infante por isso
recebia, que nunca depois quiz vir á sua casa, e menos á côrte d'El-Rei
emquanto elle regeu, e este odio do conde d'Ourem foi a causa principal
da morte e destruição do Infante D. Pedro, como se dirá.



CAPITULO LXXXIII

     _De como foi a morte do Infante D. Fernando que era captivo em Fez_


E n'este anno outrosi de mil e quatrocentos e quarenta e tres, veiu
certidão da morte do Infante D. Fernando, que era posto por arefens em
Fez, e segundo o testemunho que de sua vida e morte deram os christãos
que com elle ficaram, homens fidalgos e pessoas de muito credito, certo
de crêr é piadosamente que morreu santamente, e com esperança de ser
santo e bem aventurado. E porque Deus por sua piadade e em galardão de
seus merecimentos, segundo fé de muitos fez evidentes milagres, e a
morte antecipou os naturaes dias de sua vida com a aspereza do trato e
máo captiveiro que padeceu por mandado de Lazarac Marym, crú e máo
tirano de Fez, que por ser vil e de nenhum sangue real, com muita sede e
grande fome o fazia servir em oficios baixos e vis, e com tal
estreiteza, que em uma masmorra e prisão mui escura acabou n'este mundo
a vida, para nosso Senhor lhe dar no outro outra melhor e mais viva, que
em sua gloria durará para sempre.

A morte d'este Infante por sua calidade e desamparo foi muito sentida e
pranteada n'este reino, e principalmente dos Infantes seus irmãos, que
lhe mandaram fazer mui honradas e solemnes exequias e saimento, e seu
corpo metido em um ataude, esteve muitos tempos pendurado por cadêas
sobre uma porta da cidade de Fez, e depois por convenção que se fez,
foram seus ossos trazidos a estes reinos em tempo d'este Rei D. Affonso,
no anno de mil quatrocentos e LXXIII, e depois da tomada de Arzilla; os
quaes de Lisboa foram levados com grande honra e solemnidade ao mosteiro
da Batalha, em que tem sua sepultura especial e honrada na capella
d'El-Rei D. João seu padre. Onde por signal que acabou como catholico e
mui fiel christão, ha grande credito que nosso Senhor fez, e faz por
elle muitos milagres.

Por morte d'este Infante D. Fernando ficou vago o Mestrado d'Avis, de
cuja governança e administração, D. Pedro, filho do Regente, foi a
suplicação d'El-Rei por auctoridade Apostolica provido.



CAPITULO LXXXIV

     _De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando já para
     se tornar a Portugal_


No anno de mil e quatrocentos e quarenta e quatro, vendo-se El-Rei de
Castella em poder dos Infantes d'Aragão seus cunhados, roubado da
liberdade e senhorio que a sua dinidade real pertencia, tinha a elles
grande odio e desamor, e para se em alguma maneira d'elles isentar,
ordenou por conselhos e modos do Condestabre D. Alvaro de Luna de mandar
como mandou por visorei á comarca de Andaluzia ao Infante D. Anrique,
provendo-o para isso de poderes fingidos com fundamentos falsos,
dando-lhe a entender que assi cumpria para sua mais honra e mór
segurança, onde por engenho do dito Condestabre e mestres de Alcantara e
Calatrava seus contrairos, e com gente de Sevilha e outra muita que o
Infante D. Pedro d'estes reinos lá mandou, foi em todo desobedecido, e
em desbaratos que houve mui mal tratado, e d'esta vez se tomou Carmona,
e em tanto se conformou o Condestabre com outros grandes senhores
d'aquelle reino que para isso se ajuntaram por força d'armas, e tiraram
El-Rei do poder e sobgeição d'El-Rei de Navarra, que segundo o que se
via não o tratava, nem acatava como a rei superior se devia.

E d'estas voltas de fortuna que a Rainha D. Lianor viu padecer aos
Infantes seus irmãos, foi da esperança que n'elles tinha desesperada de
todo, e vendo-se já mal olhada d'El-Rei e da Rainha sua irmã, e com
pouca sua ajuda, foi-se da côrte para a cidade de Toledo, d'onde
constrangida já de grandes minguas que a apertavam, soltou quasi toda a
gente que tinha, encommendando os filhamentos e vivendas de seus criados
a aquelles senhores de Castella com que cada um mostrava ter mais
contentamento de viver.

Alli veiu a Rainha a tanta necessidade e pobreza, que para seu
suportamento lhe conveiu receber ajudas em pão e dinheiro d'alguns
Prelados e donas viuvas d'aquelle reino, em especial de uma D. Maria da
Silva de Toledo, senhora de nobre sangue e muita fazenda. E n'este reino
e em Ceuta sendo de suas necessidades sabedor D. Fernando de Noronha,
primeiro conde de Villa Real, e segundo capitão da dita cidade; porque
era de real sangue e mui nobre coração; principalmente porque El-Rei D.
Duarte o criara e acrecentara com muito amor, e asi por elle ter com a
Rainha divido mui conjuncto, a mandou visitar e ajudar com uma boa somma
d'ouro amoedado, de que por sua nobreza e bom conhecimento foi de todos
cá e lá mui louvado. Pelo qual a Rainha sentindo-se já envergonhada de
requerer, e cansada de esperar, vendo os caminhos e remedios de sua
esperança, com as mudanças de seus irmãos de todo cerrados, houve-se de
todo por mal aventurada, e sobretudo por enganos mal aconselhada, e
suspirando já por Portugal, ao menos para lhe sua terra comer o corpo,
fallou com Mossem Gabriel de Lourenço, seu capellão mór, e com suas
crenças, instrucção e poder, o enviou a Albuquerque, d'onde por meio do
conde d'Arrayollos tratasse alguma concordia com o Infante D. Pedro, ao
qual Infante a Rainha com palavras e cousas assaz piadosas, enviava já
pedir, ao mais consentimento e lugar para vir a estes reinos, e n'elles
morrer, não como Rainha, mas como sua irmã menor que se queria poer em
suas mãos, de que se contentaria receber o que elle quizesse, e lhe
parecesse razão.

O conde d'Arroyollos, como era homem virtuoso e de justa tenção,
acceitou com boa vontade o negocio, e o Regente a que o dito conde por
Vasco Gil, seu secretario, o notificou, o ouviu e recebeu com muito
melhor mostrança, e andando já em apontamentos com esperança de bôa
conclusão, chegou recado certo ao Regente, como a Rainha D. Lianor
fallecera na mesma cidade de Toledo, sexta-feira XIX dias de Fevereiro
de mil quatrocentos e quarenta e cinco.

Foi sua morte arrebatada, sem ter uma hora de accordo para o que á sua
alma e á sua fazenda cumpria, em que houve violenta presumpção que fôra
de peçonha; porque em lhe lançando uma ajuda, que por ser um pouco
achacada requerera, logo sem entrevalo nem repouso deu alma a Deus. E a
opinião dos mais foi que esta morte lhe ordenara, não o Infante D.
Pedro, como muitos maliciosos quizeram falsamente dizer, mas o
Condestabre D. Alvaro de Luna, por meio de uma mulher da villa de
Ilhescas, que em casa da Rainha tinha grande entrada e muita
familiaridade. Receoso que, se a Rainha vivesse, estando em a cidade de
Toledo, ordenaria como o Infante D. Anrique seu irmão, tornasse a ella,
de que fôra já lançado. Porque foi avisado que ella o procurava e
concertava já com Pero Lopez d'Ayala, que na cidade era alcayde mór, e
cavalleiro mais principal, crendo que se o Infante fosse senhor de tal
cidade, o Condestabre o havia por cousa muito contraira a seu desejo e
proposito, que era destrui lo e desterra-lo do reino com seus irmãos, e
por argumento d'isto, outro tanto se presumio do mesmo Condestabre, que
ordenara á Rainha D. Maria, mulher d'El-Rei D. João, que após sua irmã
não durou com vida mais de XV dias.

E esta Rainha D. Maria jaz sepultada na capella mór do mosteiro
d'Aguadallupe.

O Regente como soubesse do fallecimento da Rainha, enviou logo pela
Infante D. Joana, que ficara e estava em Toledo em grande desamparo, e a
foi ao extremo receber, e trouxe mui honradamente para Lisboa, onde a
poz em companhia da Infante D. Catharina sua irmã, em poder de Violante
Nogueira, e tomou para El-Rei todolos criados que ficaram da Rainha,
tirando alguns em que tinha suspeita e descontentamento.



CAPITULO LXXXV

     _Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a
     Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra
     os Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar_


Pela morte d'estas duas Rainhas o partido dos Infantes d'Aragão ficou em
Castella mui fraco e abatido, e o Condestabre porque viu tempo que lh'o
assi aconselhava, ordenou de os fazer lançar e desterrar fóra do reino,
e acabou com El-Rei que escreveu ao Regente com as razões e causas com
que sentio que o mais obrigaria, pedindo-lhe para isso ajuda de gente
d'armas por seu messegeiro, o qual Infante teve sobre o caso bom
conselho em Tentuguel, onde elle foi de sua vontade movido para ir em
pessoa; e porque foi em contrairo aconselhado, determinou-se que
enviasse o senhor D. Pedro seu filho que era Condestabre, em edade de XV
annos, e a mais formosa nem melhor proporcionada creatura que se podia
vêr de seu tempo, ao qual foram ordenados dois mil homens de cavallo, e
quatro mil de pé, e com elle estes fidalgos principaes: D. Alvaro de
Castro que depois foi conde de Monsanto, e Lopo d'Almeida que depois foi
conde d'Abrantes, e D. Duarte de Menezes que depois foi conde de Viana,
e Diogo Soarez d'Albergaria, e Fernão Coutinho, e João de Gouvêa, e
outros muitos fidalgos e cavalleiros da côrte, em que ia a frol d'ella.

E porque o sr. D. Pedro não era cavalleiro, quiz o Infante seu padre que
o fosse da mão do Infante D. Anrique seu tio, que era em Lagos, e foi
para isso chamado a Coimbra, onde logo veiu e este ajuntamento se fez, e
sobre qual dos Infantes devia fazer aquelle auto de Cavallaria, houve
entre elles uma perciosa, mas mui honrada e maravilhosa contenda. Porque
cada um parecia que minguava em seus merecimentos, por acrecentar nos do
outro, e cada um se alegrava ser n'elles do outro vencido para que o
fizesse, e em fim o cargo ficou ao Infante D. Anrique e não sem
merecimento; porque em seu tempo muitos Principes foram de mais terras,
gentes, e rendas, mas não houve em seus dias algum ante quem elle em
perfeição de virtudes, e bondade d'armas, e esforço do coração se
devesse contar por segundo, o qual com novas cerimonias e grandes
festas, armou Cavalleiro o Condestabre seu sobrinho, no mosteiro de S.
Jorge, que é junto com a cidade sobre o Mondego. D'onde logo partio com
mais gentes de sua ordenança; porque alguma que falleceu, se refez toda
com elle em Cidad Rodrigo, primeiro lugar de Castella por onde entrou. E
certo d'armas, cavallos, livré e arreios, foi gente mui luzida e mui
aparelhada para fazer um bom serviço.

El-Rei D. João de Castella, para execução do que desejava, tinha já
cercados na villa de Olmedo a El-Rei de Navarra, e ao Infante D. Anrique
seus cunhados, com muitos e grandes senhores de Castella. Os quaes
esforçados na muita gente que comsigo tinham e confiados que pela antiga
criação e conhecimento que tinham d'aquelle reino, e assi pelo desamor
que geralmente tinham ao Condestrabre, que as gentes d'El-Rei quando os
vissem em rompimento e perigo os ajudariam, e temendo outrosi a gente de
Portugal, que tambem ia sobr'elles, e vendo que por isso o cerco por
muitos inconvenientes lhe não cumpria, determinaram poer seus feitos em
ventura, e dar, como deram, batalha a El-Rei, em que foram de todo
vencidos, d'onde o Infante D. Anrique sahiu ferido em um braço, de que a
poucos dias falleceu em Aragão. E El-Rei de Navarra se acolheu fugido a
seu reino sem mais vir a Castella; ainda que o depois muito procurasse.

D'este caso assi como passara foi o senhor D. Pedro em Cidad Rodrigo
avisado. Sobre o qual os do conselho d'El-Rei, que com elle eram,
praticaram o que fariam. E acordaram que deviam todavia proseguir sua
viagem como fizeram, e que do caso acontecido avisassem logo El-Rei seu
Senhor, e a El-Rei de Castella notificassem sua ida. E com isto feito
foram fazendo suas jornadas, até chegarem á cidade de Touro, onde o
Condestabre D. Pedro houve resposta d'El-Rei de Castella, em que lhe
rogava, que assi como vinha o fosse vêr, como foi, á villa de Maiorca,
onde já com toda sua côrte estava, e em seu recebimento lhe foi feita
honra mui assinada; porque El-Rei com toda sua côrte sahiu ao receber,
mui contentes de vêr um Principe em todo tão proporcionado, em que muito
acrecentava a graça das ricas armas em que ia vestido. E depois de
passarem alguns dias, em que d'El-Rei e dos grandes de seu reino, foi
com muitas honras e festas tratado, El-Rei com os aguardecimentes que em
sua ida cabiam, lhe disse: «Que pois seu serviço lhe não era necessario,
que se poderia tornar para Portugal. E como quer que o Condestabre muito
insistisse para ficar e o servir; como d'El-Rei seu Senhor, e do Infante
seu padre trazia ordenado, El-Rei não quiz, posto que lhe requereu e
desejou que com a gente sómente que para o servir fosse necessaria
ficasse aforrado em sua côrte. Mas aos fidalgos que com elle iam não
pareceu razão leixa-lo assi, sem prazer do Regente. Pelo qual El-Rei o
despediu com dadivas de joias e cavallos, e mullas e outras cousas de
grande preço, e não falleceram outros muitos grandes senhores d'aquelle
reino que lhe offereceram seus presentes, de cousas que sua idade e
tempo requeriam. Mas para d'outrem algum não receber nada, salvo
d'El-Rei, teve as mãos tão castigadas, como as fez soltas em dar e fazer
grandes mercês a aquelles que semelhantes cousas lhe apresentavam, ainda
que com ellas se tornassem, e d'esto se escusava com tanta humildade e
cortezia, que bem parecia que não era por algum vicio de presumpção que
n'elle coubesse.

E assi com sua gente na ordenança em que fôra, e com bandeiras tendidas
se tornou a Portugal e entrou por Bragança, e na villa d'Aveiro achou
El-Rei e com elle o Infante seu padre, d'onde despediram os fidalgos e a
gente que com elle fôra, dando pelo serviço que fizeram muitos
aguardecimentos com as mercês que cada um por sua confissão merecia, e
isto passou no anno de mil e quatrocentos e quarenta e cinco.



CAPITULO LXXXVI

     _De como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a El-Rei a
     primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como
     El-Rei lh'o tornou a dar_


E consirando o Regente, como para o Janeiro do anno que logo entrava de
mil e quatrocentos e quarenta e seis, El-Rei D. Affonso cumpria idade de
XIV annos, em que, segundo fôro d'Espanha, qualquer Principe Real deve
haver inteira posse e administração de seu reino e senhorio, e
lembrando-se isso mesmo da obrigação em que por sua fé e juramento
ficara de a este tempo livremente lhe entregar o reino, querendo
inteiramente assi cumprir, fez para isso côrtes geraes e solemnes em
Lisboa, e na salla grande dos paços, sendo El-Rei com os Infantes e
senhores, e seus officiaes e procuradores, em sua costumada e antiga
ordenança, o doutor Diogo Affonso Mangancha, em nome do Infante D.
Pedro, fez uma louvada oração, cuja sustancia se concludio em quatro
cousas.

«A primeira, apresentar e entregar alli El-Rei em tal disposição de sua
pessoa, siso e entender, manhas e virtudes, como de sua edade não cria
que no mundo outro tal houvesse; porque dava e dessem todos muitas
graças a Deus. A segunda, que no regimento do reino que todos lhe deram,
como quer que para o bem fazer, elle com todas suas forças, entender, e
diligencia fizera muito a além do que podera; porém que pelo grande
trabalho, que em nome d'outrem era reger, especialmente em tempos de
tantos desvairos e balanços como no seu se seguiram, elle confessava
tel-o feito muito áquem do que devia, de que pedia perdão. A terceira,
em dar aguardecimentos áquelles, que no tal caso bem e lealmente
serviram e ajudaram, guardando nas palavras o acatamento, mais e menos,
segundo cabia nas calidades das pessoas e estados do reino que eram
presentes. A quarta conclusão foi, que em caso que não fôra direito nem
costume aos Principes de tão pequena edade, como eram a quatorze annos
dar-se livre poder de per si regerem reinos e senhorios, que a El-Rei
seu Senhor vista em todo sua perfeição, por graça especial lhe devia ser
dado, como a outro que fosse de muitos mais dias. E que para isso lhe
entregava alli mui livremente, e sem cautella, seu Regimento.»
Metendo-lhe logo com rostro mui alegre a vara da justiça nas mãos, que
em giolhos e com muito acatamento lhe beijou.

E depois d'El-Rei ser recolhido á sua camara, onde era o Infante D.
Fernando, seu irmão, e o Infante D. Anrique, seu tio, com outros muitos
senhores, o Infante D. Pedro, praticando com elle a maneira que d'hi em
diante teria em reger, El-Rei depois de bem ouvir, lhe pediu que até vêr
o que n'isso poderia fazer, elle inteiramente mandasse e fizesse em seu
nome o que d'antes fazia; porque receava de per si só sem sua ajuda ou
d'outrem não poder com tamanho cargo.

E de hi a tres dias se fez na ordenança passada outro ajuntamento, em
que o mesmo doutor Diogo Affonso em nome d'El-Rei fez outra falla,
porque sustancialmente se declarou «que havia por recebido em si do
Infante D. Pedro seu tio e padre o inteiro regimento de seu reino,
dando-lhe, por isso com largo recontamento de seus muitos serviços e
merecimentos, grandes agardecimentos com muitos seus louvores,
outorgando-lhe não sómente auctorisadas quitações de todo o tempo de sua
governança; mas ainda por maior sua honra, que ficasse em registo por
verdadeiro e claro testemunho, da obrigação em que por isso ficava a
elle e a seus filhos, com todolos que d'elles descendessem; porque
conhecia e declarava que nunca algum Principe fôra no mundo com tanto
amor e em tanta perfeição criado, nem em manhas e costumes reaes tão bem
ensinado, nem com tanta lealdade e obediencia servido e tratado, como
elle sempre fôra do Infante D. Pedro seu tio e padre; porém porque elle
ainda não tinha idade para per si só reger sem perigo de si mesmo e das
cousas que regesse, nem tivera a pratica e esperiencia d'ellas como para
Rei cumpria, e era por isso necessario tomar alguma pessoa que no
regimento o insinasse e ajudasse, e por todos respeitos, causas e
razões, não havia em todos seus reinos outro para isso mais pertencente
que o mesmo Infante D. Pedro, que elle de seu proprio moto, sem
lembrança nem requerimento d'alguem o escolhia para isso, e havia por
seu serviço e por bem de seus reinos que elle Infante tornasse com elle
a reger e governar seus reinos, assi como d'antes fazia, até elle se
sentir em desposição para per si só o poder fazer, mandando que a
obediencia que em regendo sempre lhe guardaram, essa d'hi em diante lhe
guardassem muito mais inteiramente.»

E aos grandes e povos de seus reinos que eram presentes, em sua presença
mandou muito agardecer por lhe requererem e darem por mulher a filha do
Infante D. Pedro seu tio e padre, de que sobre todalas cousas do mundo,
por muitas razões era mais contente; mas porque este seu casamento
quando primeiramente foi em Obidos celebrado, por ventura por se fazer
ante de haver idade cumprida e necessaria, para isso sem sua aprovação
pareceria defeituoso, elle que então a tinha já para isso de todo
perfeita, o aprovava e consentia, como se n'aquella hora de seu prazer,
e com sua inteira liberdade novamente o fizesse.



CAPITULO LXXXVII

     _De como as filhas do Infante D. João foram casadas_


E no começo do anno de mil e quatrocentos e quarenta e sete, o Infante
D. Pedro se partiu com El-Rei da cidade d'Evora, para o lugar das
Alcaçovas, onde por concerto veiu a Infante D. Isabel, mulher do Infante
D. João, e trouxe comsigo duas suas filhas, que alli ambas juntamente
casaram; D. Isabel que era maior com El-Rei de Castella, por Garcia
Sanchez de Toledo, que como seu procurador e embaixador a recebeu, e D.
Briatiz com o Infante D. Fernando, por elle mesmo. E do casamento que
prometeu a El-Rei de Castella, que foi cem mil florins d'Aragão, se
seguiu a este reino pouca despesa; porque os recebeu El-Rei de Castella
em desconto do soldo que era obrigado pagar á gente do soccorro, e da
ajuda que El-Rei de Portugal lhe enviou com o Condestabre seu primo,
como atrás já disse.

E no Maio d'este anno, que era o tempo da entrega da Rainha, em que se
concertaram El-Rei e o Infante seu irmão, com todolos senhores e pessoas
principaes do reino, fizeram em Lisboa por honra da Rainha umas grandes
festas, acabadas as quaes, o Infante D. Pedro, acompanhado grandemente,
levou a Rainha a Coimbra, onde foi festejada, e d'hi á villa de Pinhel
que é em Portugal, onde era concordado que El-Rei de Castella havia de
vir em pessoa, para lhe ser alli entregue e a levar, e elle não veiu, de
que com palavras honestas e de receber, se enviou escusar por certos
senhores e grandes de seu reino, a que a Rainha com seu poder e
auctoridade foi entregue, e lh'a levaram.



CAPITULO LXXXVIII

     _Como El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem pediu
     ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o leixou_


O duque de Bragança, e conde d'Ourem, e o Arcebispo de Lisboa com outros
de sua valia, não ficaram sem grande paixão de ser o Regimento do reino
outra vez tornado ao Infante D. Pedro, e o duque publicamente por
Gonçalo Pereira, que se dizia das armas, o contrariou nas côrtes por uns
apontamentos que a ellas enviou. Mas não foi então ouvido; porque o
coração d'El-Rei ainda não era de falsos testemunhos corrompido, nem
cheio das erradas suspeitas contra o Infante, como ao diante foi. Mas em
fim taes rodeios tiveram, principalmente o duque e conde d'Ourem, e taes
incitadores buscaram e meteram secretamente ás orelhas d'El-Rei, que o
comoveram para o que quizeram, que foi requerer, como requereu ao
Infante D. Pedro que lhe leixasse livremente o regimento, porque só sem
outrem queria reger.

E o Infante bem conheceu que tal movimento, e a tempo tão antecipado não
nascera na propria vontade d'El-Rei, mas que fôra n'ella semeado por
engenho de seus imigos. E porém lhe disse que elle era d'isso mais ledo
e mais contente, do que por ventura lhe fariam crêr que o elle seria;
porque quando elle nas côrtes que então foram, se escusava aceitar outra
vez o regimento para que o forçava, bem via que lhe dera Deus tal siso e
tal disposição, que per si sem outra ajuda poderia reger estes seus
reinos e outros maiores; porém pois assi era sua vontade, que lhe pedia
por mercê que com o regimento juntamente quizesse tambem tomar sua
mulher, pois era em edade para isso; porque assim faria mais por sua
honra e estado. No que El-Rei então consentiu; e ficou logo entre elles
tempo assignado para isso, no qual o Infante se percebeu dos
corregimentos e cousas que para a pessoa d'El-Rei e da Rainha, e assi
para sua casa e camara cumpria; mas El-Rei por induzimentos d'alguns, e
do Arcebispo de Lisboa principalmente, que de noite lhe ia falar, não
esteve pela concordia em que ficara; porque antecipou o tempo, e tornou
requerer o Infante, que logo leixasse o regimento; porque antes de casar
elle inteiramente queria reger, cá em outra maneira não seria sua honra
nem convinha a seu estado, ao que o Infante por não dar causa a mais
danamento, logo satisfez e desistiu em todo do mandado e governança que
tinha, em tanto que as cartas e provisões que d'antes foram por elle
desembargadas, e eram feitas para se de seu nome assignarem, não as quiz
mais assignar, nem entender em cousa que a regimento pertencesse.

E porém El-Rei no mez de Maio de mil e quatrocentos e quarenta e sete,
em Santarem, tomou sua casa e sua mulher juntamente, com as benções e
cerimonias pela Santa Igreja em taes casos ordenadas, e com alguma
mostrança de festas, mas não foram n'aquella perfeição e cumprimento que
o Infante quizera e tinha ordenado. Porque como leixou o regimento, logo
todalas cousas ainda que fosse sem culpa sua, para seu desfavor lhe
volveram as costas.



CAPITULO LXXXIX

     _Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante
     D. Pedro depois que soube que já não regia, e para lançarem o
     Infante fóra da côrte_


O duque de Bragança como soube que o Infante desistira do regimento, e
que já El-Rei absolutamente regia, por imprimir e confirmar no povo a
suspeita de desleal que contra o Infante tinha já com El-Rei
principiada, partiu da Villa de Chaves, e com estrondo de gente armada
se foi á cidade do Porto, e a Guimarães e Ponte de Lima, e a outros
logares d'aquella comarca, onde aos criados do Infante tirou os officios
que tinham d'El-Rei, e a todos com infamia de tredores lançou fóra, e
com nome de receio do Infante mandou velar e roldar as villas e
castellos, como se El-Rei e o Infante foram imigos e houvera já entre
elles pregoada guerra, com outras oniões d'esta calidade, que no reino
contra elle individamente se faziam.

Estas falsas novidades vinham logo ás orelhas do Infante, que feriam sua
alma com muita dôr e tristeza, especialmente porque o remedio que
n'ellas cabia e elle procurava, via que com desprezos lh'o denegavam.

Na côrte d'El-Rei andava a este tempo um Berredo, proto-notairo, filho
de Gonçalo Pereira, de Riba de Vizela, mancebo avisado, que por estar já
em côrte do Santo Padre tinha boa pratica, e por algumas letras que
aprendera havia solta audacia de dizer. Este por astucia e conselho do
duque e do conde d'Ourem, veiu á côrte bem avisado d'elles, do que
secretamente diria a El-Rei para o fim que desejavam, que era meter
El-Rei em odio com o Infante D. Pedro e tira-lo do regimento, e com
achaque de despedir suas cousas para Roma, fallava com elle muitas vezes
em apartado, por cujo malicioso meio e falsa informação que
astuciosamente dava a El-Rei, se seguiu principalmente o maior damno que
o Infante e suas cousas receberam. Porque com isto fazia-se grande
servidor e muito familiar do Infante, a cuja casa, camara e mesa ia
continuamente. D'onde maliciosamente trazia novidades e suspeitas a
El-Rei, com que umas horas lhe fazia crêr que andava subgeito, e contra
o que a seu estado cumpria, e outras que sentia do Infante que queria
reinar e fazer seus filhos grandes, acautelando-se sempre que o que
dizia a El-Rei, não era como imigo nem desservidor do Infante, de quem
recebia honra e mercê; mas porque era portuguez leal a El-Rei a quem
mais devia.

E assi o sabia entoar, que todo o que queria imprimia á sua vontade na
molle e nova edade d'El-Rei, e por aviamento d'este se foi El-Rei vêr
com o conde d'Ourem a Torres Novas. Onde com muitas razões, que para o
caso com seus aderentes tinha compilladas, fez crêr a El-Rei camanho
abatimento e quão grande sobgeição sua era andar mais o Infante na
côrte, que cedo por isso não obedeceriam a El-Rei, e era razão que o
fizesse; porque andando o regimento assi misturado, sempre seria de crêr
que o Infante mandava e regia, o que a todos seus vassallos fazia grande
escandalo, e que por isto e por outras causas muitas que alegavam,
El-Rei com alguma mostrança de bem o devia despedir de si e de sua
governança, e que para isso seria melhor, e com menos pejo seu não
tornar mais a Santarem, e mandar por outrem dizer ao Infante sua tenção
e vontade, por se escusarem quebras e descontentamentos d'entre ambos em
pessoa.

El-Rei levemente consentiu no despedimento do Infante, mas disse «que
não havia com tal engano despedir seu tio; porque seria sem duvida
declarar de todo sua fraqueza e algum desconhecimento; mas que em pessoa
o despediria como era razão».

E para em caso que o Infante a isso não obedecesse e refusasse sua
partida, disseram que era bem que El-Rei levasse comsigo armados, como
levou, os vassallos da comarca. E que por força em tal caso, como a
revel o lançasse fóra da côrte, com aquella mais pena que por isso
merecesse. Mas o Infante a que tudo isto se logo descobrio, quiz da
força alheia fazer sua livre vontade, e como El-Rei tornou a Santarem
foi-lhe logo falar, e encobrindo com uma falsa alegria de seu rostro uma
verdadeira tristeza do coração que tinha; depois d'algumas praticas
extraordinarias, publicamente lhe disse.

«Senhor, dez annos ha que n'este cargo, que vós e vosso reino me destes,
vos servi como melhor pude e soube, nos quaes minhas terras por minha
ausencia receberam de mim pequeno repairo, como todos sabem, e minha
fazenda padeceu grande perda; porém tudo hei por bem empregado, pois
tudo redundou em vossa perfeita creação e mui inteiro serviço. Agora
pois vos Deos chegou a tal idade, e deu tal siso, entender e disposição
para sem outra ajuda regerdes por vós vossos reinos ainda que fossem
maiores, peço-vos por mercê que me deis licença para ir prover o meu,
que de mim já tem grande necessidade, e quando nas cousas graves e
pesadas, que em vosso reino e a vosso serviço occorrerem minha presença
fôr necessaria, mandae-me chamar, e prazendo a Deos vós n'isso e em todo
conhecereis que sobre todos vossos vassalos e servidores, eu vos amo e
vos sou o mais obdiente e mais leal».

D'este cometimento do Infante ficou El-Rei descarregado e mui ledo;
porque com elle se viu alivado do grande peso e cuidado que para isso
trazia, e por sua humana e mui real condição, com tudo lhe pesava
grandemente partir-se d'elle o Infante agravado nem descontente, e porém
com palavras que pareciam de muito agardecimento e amor lhe outorgou a
licença, e mais lhe mandou dar uma solemne quitação de todo o tempo que
por elle regera seus reinos, com aprovação de todo o que em seu nome até
então dera e fizera. O que alguns quizeram depois contrariar, dizendo
que devia antes ser revogação que aprovação; mas por então sua
contradição não aproveitou, por que todavia passou com toda solemnidade
e perfeição.

O Infante como teve licença d'El-Rei e aviou as outras cousas que lhe
cumpriam, se partiu de Santarem para Coimbra no fim do mez de Julho; e
porque se receiou de gente que o conde em Ourem tinha junta, quiz
n'aquella travessa segurar sua pessoa com outra gente sua que mandou
perceber, com que até Thomar foi mui honradamente acompanhado, e d'alli
a despediu e levou sómente comsigo os de sua casa, e dois seus filhos,
D. Pedro o maior, e D. James que depois foi Cardeal.

E como o Infante leixou a côrte, logo o conde de Ourem, e o Arcebispo de
Lisboa, e o conde D. Sancho com outros de sua opinião se foram a ella,
onde todo seu cuidado foi inventar com El-Rei novidades e determinações
que fossem em nojo e abatimento do Infante. E entre outras ordenaram que
El-Rei para segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda
tirasse, como logo tirou todolos officios que os criados de seu tio na
côrte tinham de qualquer calidade que fossem, poendo suspeições e
testemunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que
roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a El-Rei, segundo a
cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam
provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou
com esperança de galardão que lhe promettiam, á sua vontade o
testemunhavam. Ajuntavam-se a isto os criados da Rainha D. Lianor, que
para mais agravarem suas querellas diziam contra o Infante por conselho
de seus imigos muitas cousas á verdade mui contrairas. E o fundamento
d'estes era semear contra o Infante e contra os seus estas desleaes
suspeitas; porque o amor e affeição que por seus beneficios e
merecimentos El-Rei e o povo de Portugal lhe tinham, e era razão que
tivessem, o convertessem em odio e desamor, com que celeradamente e sem
se poder remedear lhe causassem a morte como fizeram; porque sabiam que
sua vida se muito durasse, não sómente impediria o effeito das cobiçosas
esperanças em que para seus maiores acrecentamentos andavam, mas ainda
suas vidas ao diante não seriam isentas de perigo, por saberem que além
da grandeza do Infante e grande saber, a que seria mui deficil resistir,
tinha muitos no reino que por criação e por graças recebidas lhe tinham
grande amor, e des-hi que tinha filhos que seriam grandes senhores, e
sobre tudo a Rainha sua filha, de cujo amor e fruito de geração, se
El-Rei fosse ao diante vencido, como de sua edade e por suas virtudes e
perfeições se esperava, teriam para si mui duros contrairos. E por tanto
trabalhavam de poer El-Rei por qualquer maneira que podessem, no
derradeiro gráo de odio e imizade contra o Infante.



CAPITULO XC

     _Como o Infante D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro
     para seu favor, e assi o conde d'Abranches_


Partiu-se El-Rei de Santarem para Lisboa, onde o Infante D. Anrique que
era no Algarve lhe veiu fallar, e porque sentiu que a vida e honra do
Infante seu irmão com maneiras falsas de seus imigos era maltratada, e
se despunha a destruição e perigo, atalhou a isso algum tanto, mas não
com aquella fortaleza e escarmento, que elle a seu irmão devia e o mundo
esperava, o que lhe fôra bem possivel se quizera; porque achou contra o
Infante artigos formados em que se afirmava que com cobiça de reinar
matara El-Rei D. Duarte seu irmão, e em Castella dera ordem á morte da
Rainha D. Lianor, e assi á do Infante D. João. Com outras muitas
abominações de que se tiravam inquirições, em que por seu sobornamento
lhe não falleciam testemunhas falsas com que parecia que o provavam. Mas
o Arcebispo e o conde d'Ourem com outros de sua parcealidade, receiosos
se o Infante D. Anrique segundo era no reino poderoso e de grande
auctoridade pendesse á banda do Infante D. Pedro, que suas maginações
ficariam com damno d'elles muito áquem de seu proposito, trabalharam de
fazer a El-Rei suspeitosas suas muitas virtudes e segura lealdade,
afirmando-lhe que nas desculpas do Infante D. Pedro o não devia crêr.
Porque na culpa do engano e desterro da Rainha sua madre, e em outros
desmandos que por morte d'El-Rei D. Duarte no reino se fizeram foram
ambos causadores e participantes, mas como isto era falso, não damnava
na limpeza do Infante D. Anrique.



CAPITULO XCI

     _Vinda do conde d'Abranches ás côrtes_


A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta, o conde
d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do
Infante D. Pedro, e publico amigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não
foi então d'El-Rei e de sua côrte assi agasalhado e honrado, como seus
serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde assi
como era de nobre sangue, assi não fallecia n'elle uma graciosa soltura
de dizer, com mui esforçado coração e singular aguardecimento, com que
ante El-Rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia muito a
honra e estado do Infante D. Pedro, com claros exemplos e vivas razões
de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os
movimentos e maldades que seus imigos tão sem causa contra elle moviam.

E como quer que El-Rei fosse induzido, que não ouvisse o conde e o
mandasse ir fóra de sua côrte, poendo-lhe que em todas as culpas do
Infante elle era muito culpado, porém porque El-Rei era de alto coração,
aceso no ardor de autos cavalleirosos, suspirando para grandes emprezas,
folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si muita parte e
acolhimento, especialmente porque o Infante D. Anrique ante El-Rei
muites vezes por cousas muito assinadas em que o vira, dizia por elle,
que não sómente Portugal, mas Espanha toda se devia de haver por honrada
criar tal cavalleiro. E porque os imigos do Infante viram que a vontade
d'El-Rei ácerca do conde não terçava por elles como desejavam,
lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de credito que com
resguardo de grande segredo o aconselhassem que se fosse fóra da côrte,
e não entrasse em um conselho publico que se então fazia, avisando-o
manhosamente que n'elle por cousas do Infante D. Pedro o haviam de
prender. Mas o conde com a cara cheia d'esforçada segurança lhe disse:

«Amigos, certamente pelos muitos e grandes serviços que tenho feitos a
esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais villas e castellos com que me
acrecente, que prisões nem cadeias em que sem causa me ponha, e por
tanto com todo o que me dizeis, sabei que não hei-de fugir do conselho e
serviço d'El-Rei nosso Senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o
segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se move contra mim, sabei
certo que em defender minha honra, e limpeza d'aquelle Senhor, eu me
mostrarei hoje dino de ser confrade da Santa Garrotea que recebi, e
espero em Deus que sem ociosidade de minhas mãos, os que me quizerem
visitar antes seja na sepultura, que nos carceres nem cadeias, e por
isso não hajaes dó nem compaixão de minha vida porque minha morte
honrada a fará com louvor viver mui viva, e muito mais honrada nas
memorias dos homens para sempre.»

Pelo qual o conde depois de com esta determinação despedir estes
manhosos e dobrados conselheiros; porque a hora do conselho se chegava a
que determinou ir, se vestiu de panos finos mui bem, e muito melhor
d'armas secretas, com que entrou no paço, onde seus imigos vendo a
segurança de sua pessoa, foram claramente certificados do esforço e
bondade de seu coração.

E estando El-Rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores
presentes e os principaes imigos do Infante, o conde com cara que mais
parecia que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fôra
revelada, e assi lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas
cousas do Infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos,
e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar;
concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que
fossem, que do contrairo tinham informado a El-Rei, eram com reverença e
acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máos e
tredores, e que com licença e consentimento de sua Senhoria os
combateria por armas, e em campo a tres d'elles os melhores juntamente.

A resposta d'El-Rei para o conde foi então graciosa e branda, e com
mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o máo fundamento dos que
tratavam a morte do Infante foram mui tristes sinaes, e por arredarem
El-Rei do Infante D. Anrique e do conde, que começavam ser causa que de
todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado.



CAPITULO XCII

     _De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D.
     Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se
     seguiram_


E o Infante e o conde d'Abranches vendo tempo para isso, foram vêr a
Coimbra o Infante D. Pedro, que com tal vesitação pela estima e
reputação em que o Infante D. Anrique era havido, elle e os seus
mostraram receber muita alegria e grande favor.

Alli se juntaram os Infantes com alguns principaes seus adeptos que hi
eram, e fallaram algumas vezes nas sem razões e agravos que o Infante D.
Pedro tinha nas cousas passadas recebidos, e assi no remedio que se
teria nos que se aparelhavam e estavam por vir, para acrecentamento dos
quaes foram alli certificados que El-Rei como foi em Cintra logo por
engenho do conde d'Ourem e dos outros ordenara em desfavor e quebra do
Infante estas cousas. Uma foi que escreveu a todolos fidalgos e a
cavalleiros do reino em que sentio que havia boa vontade para o Infante,
que sob pena de caso maior por qualquer maneira o não fossem vêr. A
outra que mandou poer e publicar editos por todo o reino, que todolos
criados que foram da Rainha D. Lianor, que de suas fazendas e cousas por
seu caso fossem privados, viessem requerer suas restituições, para que
foi dado por juiz Lopo d'Almeida, que como quer que em todalas outras
cousas fosse havido por homem justo e de são entender, n'esta a juizo de
bons (por ventura, porque o tempo assi o queria) não guardou a ordem
direita que devera; porque todo o que os damnificados por simples
petição pediam lhe era sem exame nem resguardado de justiça julgado, e
logo executado, em que ajuntavam muitas cousas fóra d'esta querella e
d'esta calidade, de que a muitos se seguiu sem causa muito damno. A
outra foi que El-Rei notificou ao Infante D. Pedro que o havia por
degradado de sua côrte, e lhe mandava e defendia que sob pena de caso
maior sem seu especial mandado não fosse a ella nem sahisse de suas
terras.

E isto ordenaram assi os contrairos do Infante, porque se receiaram que
elle com a vista e confiança do Infante D. Anrique tomaria por ventura
atrevimento de se vir com elle á côrte, onde era certo que em pessoa
alimparia ante El-Rei sua honra, o que a elles para seu desejo fôra
mortal inconveniente.

Os Infantes descontentes e maravilhados da sem razão d'estas cousas
acordaram de enviar sobr'ellas a El-Rei, como enviaram Gonçalo Gomez de
Valladares, commendador da Ordem de Christo. O qual como quer que pelas
cartas e instrução dos Infantes que levava em todo cumprisse seu
officio; porém porque o juizo d'El-Rei por sua não madura edade, e pelas
falsas opiniões em que o criavam andava de todo emnevoado, turnou-se aos
Infantes sem alguma determinada resposta nem conclusão. Dilatando-a para
outra pessoa que El-Rei disse que lhes enviaria, o que se não fez.

Partiu-se o Infante D. Anrique para a villa de Soure, e o Infante D.
Pedro para Monte Mór-o-Velho, que são lugares d'onde cada dia se podiam
vêr e avisar, e o mais certo e mais são remedio que n'estas alterações o
Infante D. Anrique achou para seu irmão, em se d'elle despedindo lh'o
leixou e encommendou, que foi sofrimento e paciencia que havia por armas
mais seguras para n'este caso elle sempre vencer.



CAPITULO XCIII

     _De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o
     Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra
     o dito Infante se seguiram_


E para mais acrecentarem cuidado e paixão ao Infante, vieram a elle logo
D. Fernando, que por alcunha do povo se chamava Cagonho, e com elle Ruy
Galvão, secretario d'El-Rei, pessoas que descubertamente em todo
desserviam e desamavam ao Infante, estes trouxeram em escripto com
signal e sêllo d'El-Rei uma fórma de concordia e amizade com corados
fundamentos de bem, que sem saber nem consentimento do Infante, El-Rei
fez entre elle e o duque de Bragança, requerendo estes messegeiros ao
Infante que á mão direita do signal d'El-Rei pozesse n'elle seu signal,
e tambem seu sêllo. Porque outro tanto era ordenado que o duque havia de
fazer da outra banda; porque o d'El-Rei ficasse por marco de paz e
segurança d'entre ambos. Mas o Infante pela fórma das palavras, que com
pouca honra sua e muito abatimento vinham na concordia, e pela condição
dos messegeiros que a traziam, claramente viu que eram tentações que
seus imigos ordenavam para mais em breve indinarem El-Rei para sua
destruição, e porém sem esperança que a concordia fosse verdadeira,
assignou n'ella e a mandou assellar assi como lhe fôra requerido e
ordenado. Porque o parecer e crença do conde d'Ourem, que isto inventou,
foi que o Infante D. Pedro por sua forte e altiva condição não
obedeceria em assignar tal concerto, e que sua desobediencia daria
corada causa para El-Rei com mais razão ir sobr'elle e o destruir e
castigar como a desleal; porque ao tempo que esta concordia se formava
na côrte, se fizeram juntamente cartas de geraes percebimentos de
guerra, para todalas cidades e villas e pessoas principaes do reino,
salvo para o Infante e para seu filho o Condestabre, com o fundamento
que se a isso não satisfizesse de irem logo sobr'elle; mas esta amizade
assi como sem vontade de todos nunca entr'elles se guardou.

E porque isto por esta via não succedeu á vontade dos imigos do Infante,
tentaram o negocio por outra, em que fizeram que El-Rei enviasse, como
enviou ao Infante, Diogo da Silveira, que depois foi escrivão da
puridade, o qual sem merecimento algum o reprendeu em nome d'El-Rei de
cousas em que o Infante nunca tivera culpa, em especial lhe estranhou
muito o açalmamento d'armas e mantimentos que se dizia que contra
serviço d'El-Rei em seus castellos fazia, mas o Infante confiando em sua
innocencia, depois de verdadeiramente se escusar das outras falsidades
que lhe assacavam, mandou alli logo em continente mostrar-lhe todo o
castello de Monte Mór, e assi o de Coimbra, que eram os principaes que
tinha, em cujo despercebimento claramente viu a informação que se a
El-Rei fizera ser em todo falsa e maliciosa.

E porém como Diogo da Silveira tornou á côrte, logo El-Rei ou por não
ser por elle verdadeiramente informado, ou por outro algum respeito,
tirou ao conde d'Abranches o castello de Lisboa, e a Aires Gomez da
Silva o Officio de Regedor da justiça na casa do Civel, e a Luiz
d'Azevedo o Officio de Vedor da Fazenda, sómente por serem amigos e
servidores do Infante, tendo-lh'os já confirmados por suas cartas. E a
D. Pedro seu filho pediu o conde d'Ourem o Officio de Condestabre,
dizendo que era d'elle roubado, e lhe pertencia de direito. Mas por não
lhe fazerem uma concessão tão fea, sendo seu imigo, El-Rei o deu ao
Infante D. Fernando seu irmão.



CAPITULO XCIV

     _De como El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas,
     que tinha em Coimbra_


Após estas que para o Infante eram mortaes perseguições, lhe ordenaram
seus imigos outra maior, que foi enviar-lhe El-Rei com muita estreiteza
requerer entrega das armas do seu almazem, que o Infante tinha em
Coimbra, onde ficaram ao tempo que o Condestabre seu filho volveu de
Castella, quando foi em ajuda d'El-Rei D. João contra os Infantes
d'Aragão, que tinha em Olmedo cercados, como atrás já fica dito.

E do fundamento d'este requerimento se seguia uma das duas conclusões
sem outro meio, ambas ao Infante e a sua honra mui perjudiciaes, cá se
obedecendo entregasse as armas, ficava de todo com suas mãos e forças
atadas sem alguma sua defensa, e se denegasse a entrega, cairia em caso
de rebelião e desobediencia, contra quem a indinação d'El-Rei em tal
caso pareceria justa e de mais razão. Mas o Infante a que estes
movimentos de seus imigos não ficavam por entender, como quer que com
receio d'elles se enviasse algumas vezes, e com muita razão e
honestidade escusar, El-Rei não lhe conheceu de suas escusas, antes
insistio em seu proposito e cada vez com mais graveza. A que o Infante
finalmente respondeu:

«Que as armas em tal tempo não lh'as devia nem podia dar, pois em seu
reino e com seus vassallos não tinha d'ellas necessidade, e muito menos
com os estranhos, com quem elle tanta paz lhe procurara, pedindo-lhe por
mercê pois as armas de sua innocencia, que eram as mais fortes, com a
contrariadade de seus imigos ante elle o não defendiam, que estas
materiaes e de ferro lhe leixasse por algum tempo para detensão de sua
vida e honra, e que não somente d'estas mas d'outras mais, visto seu
caso com seus merecimentos lhe devia fazer mercên; porque em seu poder e
para seu serviço as teria sempre mais limpas e mais certas que no seu
almazem, e que se sua nobreza e real condição começasse de embicar
n'elle em tão pequena contia, sendo a outros em outras muito maiores mui
liberal, que de duas cousas uma houvesse por bem, ou lhe desse tempo
conveniente em que lhe fizesse trazer de fóra outras tantas e melhores,
ou mandasse receber o preço d'ellas em dinheiro para o almoxarife de seu
almazem mandar comprar e trazer outras á sua vontade.»

Mas El-Rei d'algum d'estes não mostrou ser contente nem satisfeito.



CAPITULO XCV

     _Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante
     com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se
     damnavam mais_


O conde d'Arrayolos a este tempo depois da morte do conde D. Fernando
era capitão e governador da cidade de Ceuta, onde por ser muito amigo do
Infante D. Pedro, sendo certificado do engano e malicia que n'estes
feitos andavam, desejando o serviço d'El-Rei e doendo-se do Infante,
para cuja perdição todalas cousas se inclinavam, se veiu d'Africa á
côrte como homem virtuoso e de justa tenção, e como quer que seu pai e
seu irmão tivesse por contrairos, começou de entender com muita
diligencia na concordia entre El-Rei e o Infante. Mas o duque seu padre,
e o conde d'Ourem seu irmão anojados muito de seu proposito, não o
podendo d'elle desviar faziam com El-Rei que em muitas cousas o
desfavorecesse. Especialmente não o ouvindo as vezes que o conde
requeria e desejava.

E vendo elles com tudo que sua bondade não cansava, e que sem embargo
das fortes contrariadades que recebia tomava por fundamento trazer á
côrte o Infante para que per si mostrasse a limpeza de suas culpas,
fizeram novas fingidas, e com côres e signaes que pareciam de certeza,
que os mouros vinham poderosamente cercar, ou tinham cercado Ceuta, com
que o fizeram volver sem alguma conclusão em Africa, d'onde não
retornou, salvo depois da morte do Infante. Porque então leixou
livremente a capitania a El-Rei, que a deu ao conde D. Sancho.

E não foi o conde d'Arrayolos só a que esta enganosa quebra d'El-Rei com
o Infante parecesse assi mal como era razão. Porque muitos outros bons
ás vezes publica, e as mais secretamente, quizeram com El-Rei em sua
concordia entender, mas os imigos do Infante punham ao coração d'El-Rei
com informações erradas taes defensivos, que a lembrança de seus
merecimentos para seu galardão e limpeza nunca na memoria d'El-Rei
podesse entrar. Pelo qual o Infante apressado em sua alma d'estes
continos padecimentos, suspirando pelo conhecimento da verdade, que
havia por mais principal remedio de sua salvação, escreveu a El-Rei por
seus confessores, e por outras pessoas religiosas muitas vezes,
pedindo-lhe em todas por mercê, com palavras de muita piedade e com
grande acatamento e obedencia «que por testemunhos e induzimentos de
seus imigos o não quizesse julgar nem tão maltratar, e houvesse por bem
arreda-los de seus ouvidos, e assim manda-los sair de sua côrte, como a
elle por menos causas fizera; porque sendo fóra, elle não haveria seus
mandados e determinações contra si por tão graves nem tão suspeitas como
então lhe pareciam, e as cumpriria sem agravo nem escandalo, e lhe
obedeceria com muito amor e lealdade, e que lhe lembrasse a grande
perfeição e amor em que o criara, e a muita verdade e acatamento com que
o sempre servira, e ao pouco que durando seu regimento em sua fazenda e
estado tinha acrecentado.» E principalmente por confirmação de sua boa
vontade lhe pedia «que não se esquecesse que o casara com sua filha que
tanto amava, e não fôra com fundamento e desejo de apagar, mas perpetuar
sua vida e real geração.»

E com estas cousas que traziam fundamento de razão e verdade, e por a
condição natural d'El-Rei ser inclinada a todo razoado bem, muitas vezes
se despunha a lhe pesar dos procedimentos e agravos que contra seu tio
fazia, e certo parecia que as cousas de seu damno e abatimento em que
consentia eram confrangidamente e sem sua vontade. Porque algumas
pessoas dinas de fé e autoridade afirmaram, que uma das causas
principaes porque estes feitos entre El-Rei e o Infante mais se
damnaram, foi por entrevirem n'elles cartas falsas; porque umas davam a
El-Rei em nome do Infante, que o Infante nunca mandara, e outras recebia
o Infante com signaes d'El-Rei, em que El-Rei nunca assignara, fazendo
os contrairos do Infante poer n'ellas as sustancias com que os corações
de uma parte e da outra mais se damnassem.

E por certo presumir-se assi não era sem caso; porque cotejadas as
cartas que n'este tempo se acharam escriptas da mão d'El-Rei para o
Infante com outras muitas feitas por escrivães que lhe mandavam, bem
parecia que as da mão d'El-Rei eram proprias, e de filho para pae, e as
dos escrivães muito alheias; porque mostravam ser de Rei imigo para
vassallo desleal, e em tanta contradição de cartas de uma só pessoa para
outra, e em um tempo e sobre uma mesma sustancia, claro se podia
conhecer que aquellas em que parecesse a boa vontade eram proprias e
verdadeiras d'El-Rei, e as outras eram acidentaes e postiças, ou o mais
certo constrangidas.



CAPITULO XCVI

     _De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como
     o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não
     leixaria-o passar for sua terra_


El-Rei se partiu de Cintra no começo d'Outubro de mil e quatrocentos e
quarenta e sete para Lisboa, d'onde por suas cartas mandou vir á sua
côrte o duque de Bragança, de que o conde d'Ourem seu filho mostrou a
El-Rei para seu conselho e serviço grande necessidade, e o aviso secreto
que o duque de seu filho houve, foi que viesse mais em auto de guerra
que de paz; porque já tinham commovido El-Rei para ir logo sobre o
Infante D. Pedro. O qual pelas espias que com todos trazia foi logo
certificado dos percebimentos de gentes e armas que o duque para isso
fazia, e como fazia fundamento de vir e passar em tal auto, e sem prazer
do Infante por suas terras, e sobre o que o Infante n'isso faria, de
resistir com força sua passagem, ou a dessimular com paciencia, teve com
os seus conselhos, em que houve votos desacordados, e finalmente o
Infante seguindo a opinião do conde d'Abranches e d'alguns outros que
com a sua conformaram, determinou com armas lhe resistir, mostrando que
recebia de Deus muita mercê despoer-lhe assim de uma pessoa a elle tão
damnosa, vingança tão bem aparelhada e tanto desejada, pelo qual de
Coimbra se foi á sua villa de Penella, d'onde as novas de seu fundamento
correram logo á côrte d'El-Rei que era em Santarem, e com todo o
desfavor do Infante alguns fidalgos seus amigos e servidores que eram na
côrte, sentindo que em tal tempo teria d'elles necessidade, se vieram
logo para elle, assim como Aires Gomez da Silva com Fernão Tellez, e
João da Silva seus filhos, e Luiz d'Azevedo, e Martim de Tavora, e
Gonçalo d'Atayde, e outros muitos de menos condição, e n'este caso
Alvaro Gonçalves da Tayde conde da Atouguia e seus filhos, sendo criados
e feitura do Infante, pelo não irem servir n'esta jornada, foram como
ingratos á sua criação e bemfeitoria geralmente bem reprendidos,
especialmente que para sua encuberta usaram de praticas, e fazendo-se
manhosamente e por suas astucias prender e impedir, para não irem
acompanhar e servir o Infante, fazendo-o já desleal e contrairo ao
serviço e obediencia d'El-Rei.

O Infante D. Pedro, porque a este tempo ainda tinha no Infante D.
Anrique sobre todos grande esforço e muita confiança, mandou logo a elle
que era em Thomar, João Pirez Diogo, seu cavalleiro, e por elle lhe
enviou notificar e trazer por extenso á memoria os muitos agravos e
desfavores que d'El-Rei por seus imigos tinha recebidos, e como lhe
parecia que estas cousas, segundo as via guiadas do odio e viradas
contra toda razão e justiça, que apertavam muito para sua destruição,
avisando-o mesmo por mais claro argumento d'isso, da maneira em que o
duque vinha, e como a seu despeito queria passar por sua terra e com que
fundamento, pedindo-lhe que em tanta e tão injusta pressa e angustia
como esta em que estava, elle por sua bondade e com seu valor e
auctoridade, pois era em sua mão, lhe quizesse valer, afirmando se,
porém, «que seu proposito e determinação era impedir por força e sem
escusa a passagem do duque, pois vindo em sombra de poderoso e tendo
outro caminho por que sem escandalo poderia ir á côrte, determinava vir
pela Louzã, que era sua villa, sem lh'o primeiro fazer saber».

E o Infante D. Anrique por então lhe respondeu, «que do que então em seu
caso, e em tal tempo melhor lhe parecesse, lh'o enviaria logo dizer».
Como enviou uma vez por Fernão Lopes d'Azevedo, Comendador Mór de
Christus, e outra por Martim Lourenço, tambem Cavalleiro da Ordem, cuja
conclusão foi: «que o Infante D. Pedro não fizesse de si alguma mudança,
até elle Infante D. Anrique não ser com elle em pessoa, para que dizia
que se aparelhava».



CAPITULO XCVII

     _Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em
     caminho_


O Infante D. Pedro como era prudente, e por não poer em seu proposito
trabalhos escusados, e não fazer despezas baldadas e não necessarias,
antes de o duque passar o Mondego, para saber a tenção com que vinha,
enviou a elle primeiro Vasco de Sousa, fidalgo de sua casa, e por
virtude de uma carta de crença que levava, em presença dos que com elle
vinham publicamente lhe disse:

«Senhor, o Infante, meu Senhor, soube de vossa vinda, e d'este auto de
guerra em que com tantas gentes vindes, e é certificado, que quereis
assi, sem seu prazer, passar por sua terra, de que é muito maravilhado,
assi por esta novidade de gentes armadas, que sem necessidade d'El-Rei,
seu Senhor, nem do reino levaes, como por lh'o não fazerdes primeiro
saber, que pois assi o determinaveis, que quer saber de vós em que
maneira vos ha de receber, e que se houver de ser como irmão e amigo,
como elle deseja, que queria que vos vades chã e pacificamente, como
sempre fostes, e que d'elle e em suas terras recebereis aquella honra,
prazer e gasalhado, que sempre recebestes, e que se com este
desacostumado estrondo d'armas quizerdes assi passar, que por quanto
pela quebra e rompimento em que com elle estaes, a elle seria fraqueza e
abatimento consenti-lo, saibaes que vos hade receber no campo como
imigo, mas que n'este caso por escusardes os males e damnos que se
d'esta viagem podem seguir, deveis tomar outro caminho porque vades,
pois sem seu abatimento nem muito trabalho vosso o podeis bem fazer.»

E com isto Vasco de Sousa se despediu, e tornou ao Infante.



CAPITULO XCVIII

     _Da resposta do duque ao Infante D. Pedro_


Após o qual o duque enviou logo a resposta ao Infante, que ainda era em
Penella, por Martim Affonso de Sousa, fidalgo de sua casa, que em
presença de todos lhe disse:

«Senhor, o duque meu Senhor vos notifica por mim em resposta do que lhe
ora enviastes dizer, que depois que nascestes, sempre vos teve por irmão
e amigo, a que desejou fazer prazer e serviço, e que agora por este vos
tem, e não com menos desejo e vontade, e que por cumprir o que El-Rei
lhe mandou, vae a sua côrte por esta estrada publica, e que a gente que
traz não é d'ajuntamentos nem d'alvoroço como vos fizeram crêr, mas é a
que o soe de acompanhar, e que de vir em acertamento seguido para a
côrte caminho direito, haver de tocar vossa terra, que não sabe como
seja caso d'agravo nem escandalo vosso; porque n'ella não ha de
consentir que se faça damno, força, nem tomadia, sómente pedirem alguns
mantimentos se forem necessarios, por seus dinheiros, como vós podereis
fazer em suas terras quando por ellas de vontade, ou por necessidade
quizesseis passar, e que por tanto elle determina todavia seguir assi
seu caminho sem outro desvio, que vos pede que o hajaes assi por bem.»

E o Infante sorrindo-se fingidamente e com cara cheia de verdadeira
sanha, lhe respondeu:

«Martim Affonso, dizei ao duque, que não sou tão nescio nem elle tão
avisado, que com suas dissimulações haja de enganar minha pessoa, nem
abater minha honra; muitos dias ha que nos conhecemos, e muitas vezes
passou já por minha casa e por minhas terras; e me lembra bem a gente
que trazia e a que tem, e agora sei que traz mil e seiscentos de cavallo
armados, com outra muita gente de pé que para esta vinda ajuntou sua e
alheia, o que não responde aos tempos passados nem menos á paz e amizade
que comigo quer ter. E não lhe declarando mais o fim porque assim vem,
pois elle o sabe, nem o abatimento que n'isso recebo pois o deve
entender. Finalmente lhe dizei, que se elle não toma algum outro modo de
vir, porque a todos pareça e seja notorio que elle por minhas terras vem
pacificamente e como irmão e amigo, saiba que vivo lh'o não hei de
consentir.»

E com isto Martim Affonso sem outro mais repouso se despedio.



CAPITULO XCIX

     _Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não
     leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao
     Infante D. Pedro enviou_


E o Infante D. Pedro vendo já por estas premissas passadas que o
recontro e peleja com o duque em conclusão se não podia escusar, fez
para isso aquelles percebimentos de gentes, armas, artelharias,
mantimentos e cousas que sentio serem necessarias, e com aquella
trigança e diligencia que o caso requeria. Das quaes cousas todas como
passavam o conde d'Ourem foi logo na côrte avisado, e por favorecer a
parte do duque seu padre não sendo bem seguro e confiado de muitos que
n'aquella viagem o acompanhavam, temendo que na maior affronta o
leixariam, fez crêr ao Infante D. Fernando, irmão de El-Rei, que por ser
casado com a neta do duque, filha do Infante D. João, este caso era
proprio seu. Pedindo-lhe que aos que com o duque vinham quizesse
escrever e encommendar sua honra para que em tempo d'alguma affronta e
necessidade se sobreviesse, como fracos o não leixassem.

E de ter o conde este receio e desconfiança não era sem causa; porque os
mais dos fidalgos da companhia do duque com que refizera tanta somma de
gente, não eram de sua casa mas vinham acostados a elle por aquella
jornada sómente, e não com fundamento de tomarem por elle armas contra o
Infante D. Pedro, mas pelo terem na côrte em sua ajuda e favor para seus
negocios e requerimentos que esperavam fazer. E o claro conhecimento que
o duque na vespera da affronta d'isto tomou, lhe fez não esperar o dia
que para ella se aparelhava, como ao diante se dirá.

E porém o Infante D. Fernando como era de mui pequena idade em que o
sangue fervia, não sómente satisfez ao conde com cartas que ordenou á
sua vontade, mas ainda se offereceu ir em pessoa em ajuda do duque, e
assi lh'o escreveu logo e aos seus, por Alvaro de Faria, que depois foi
Commendador do Casal, cuja ida por então não houve effeito; porque as
guardas que o Infante nos caminhos trazia o tomaram, e foi a elle
trazido, e tomou-lhe as cartas e as leu, e o fez tornar para Santarem, e
posto que do Infante nem dos seus não fosse em nenhuma outra cousa
maltratado, elle depois de ser na côrte o não apresentou assi, antes no
desbarato e destroço da sua pessoa e de seu cavallo, que de industria
fingio, se mostrou ser de todo por mandado do Infante despojado,
affirmando que dissera sobre tudo algumas palavras mui contrairás ás
verdadeiras, e não do reprender com o despedio de si, com que poz os
feitos contra o Infante em maior alvoroço e perseguição; porque El-Rei
mandou logo riscar de seus livros o assentamento e todalas tenças que o
Infante d'elle tinha, e deffendeu aos almoxarifes que d'hi em diante
mais lh'os não pagassem. E assi escreveu ao Infante por João Rodrigues
Carvalho, escudeiro de sua casa, defendendo-lhe com grande estranhamento
«que não tivesse ao duque o caminho, e o leixasse passar livremente,
pois o ia servir.» Do qual recado foi o Infante mui triste, e mostrou
grande sentimento, e sobre a sem razão de seus agravos e perseguições
fallou algumas cousas ao messageiro que pareciam de aspereza, mas não
tão feias nem assi malditas, que se não podessem dizer de um agravado
servidor a um Senhor mal informado. Mas João Rodrigues como tornou á
côrte, ou de sua não boa vontade, ou por ser dos contrairos do Infante
assi induzido, afirmou que o Infante publicamente dizia «que não era
vassallo d'El-Rei de Portugal, mas subdito e servidor d'El-Rei de
Castella, e que assi como podera desterrar d'estes reinos a rainha D.
Lianor, que outro tanto saberia fazer aos filhos». Com outras enormes
palavras mui contrairas ás que o Infante com elle fallou, com o teor das
quaes se fizeram logo autos, e tomaram publicos estromentos, que para
mais indinarem o povo contra o Infante, logo foram pelo reino enviados.

Após João Rodrigues, veio ao Infante D. Pedro de mandado do Infante D.
Anrique, o Bispo de Ceuta D. João, que com quanto tinha afeição ao conde
de Ourem por ser da criação do Condestabre, era porém homem de grande
prudencia e de sã e justa tenção. E como quer que apontasse ao Infante
muitas causas e razões, porque catolicamente, e segundo a obediencia em
que a El-Rei era obrigado não devia impedir a passagem do duque. Em fim
não o pôde mover da sua determinação, aprovando-a o Infante com outras
razões de honra e cavallaria, e porém taes que não desfaziam nada de sua
lealdade a El-Rei, afirmando-se «que se o duque quizesse vir em fórma de
pacifico e amigo como sempre viera, que elle o receberia e lhe faria
honra e acolhimento como a irmão e amigo, segundo sempre fizera, e que
d'outra maneira lh'o não havia de consentir, como por Martim Affonso lhe
mandara dizer.»

E estando as cousas n'este ponto, e esperando ainda o Infante D. Pedro
em Penella pelo Infante D. Anrique, como lhe tinha enviado dizer, soube
que elle sem lh'o fazer saber se partira para Santarem onde era El-Rei e
sua côrte, de que o Infante D. Pedro recebeu muita torvação. E não sei
como esta virtude de piedade falleceu n'este Principe para seu irmão,
pois em seu coração todalas outras parecia que sobejavam, de que alguns
disseram que El-Rei por enfraquentar a parte do Infante D. Pedro, o
mandara chamar sabendo que o queria ajudar, e outros afirmaram que elle
fingira tal chamamento por não ser com seu irmão, vendo já sua
determinação de ir contra a defesa d'El-Rei, e por força d'armas
resistir á vinda do duque.

E no começo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta
e nove, veiu ao Infante em Penela Fernão Gonçalves de Miranda com uma
grande instrução d'El-Rei, cuja conclusão foi estranhar-lhe muito
algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o
duque, mandando-lhe em conclusão «que se tornasse a Coimbra, d'onde sem
seu mandado não saisse, e leixasse o duque sem contradição passar assi
como vinha. E que se o não fizesse, que fosse certo que logo procederia
contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia
merecia.»

A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com
largas razões seu proposito, concluindo «que pois sua Mercê o mandava
contra sua honra e estado tornar atráz, que outro tanto devia mandar ao
duque que primeiro começara, e que posto que na priminencia das pessoas
de um e do outro havia em tudo tanta diferença, como ao mundo era
notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos
o que defendia a um, não consentisse ao outro. E que pois sua Mercê por
então não tinha de gente d'armas tão eminente necessidade, mandasse que
o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua
casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmão e amigo, e
lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre
fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa não o
havia por seu serviço, pela grande parte e razão que com seu real sangue
tinha» e com esta resposta o despediu.



CAPITULO C

     _De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque,
     e se percebeu e partiu para isso_


E porque o Infante D. Pedro foi avisado que o duque não leixava de
proseguir o caminho que começara, deu logo grande trigança á sua
partida, e teve conselho onde e como o esperaria, e alguns lhe
aconselhavam, que para sua justificação o leixasse primeiro entrar em
sua terra, mas o Infante disse que a todo seu poder o duque por aquella
vez não trilharia nenhuma pequena parte da herança que possuia, e que
fóra d'ella o queria esperar. Pelo qual de Penela moveu logo com sua
gente e carriagem, e se foi á Lousã, e d'hi logo a uma aldêa sua que se
diz Villarinho, onde soube que o duque era em Cója, couto e lugar do
Bispo de Coimbra, alli concertou e proveu o Infante sua gente, e ordenou
com muita destreza suas batalhas, dando a avanguarda a D. James seu
filho e com elle o conde d'Abranches, e tomou a reguarda em que havia de
ficar.

Alli foi ao Infante dada secretamente uma carta com letra mudada e sem
signal, em que o aconselhavam que logo movesse contra o duque porque o
não havia d'esperar, mas o Infante publicamente disse «que aquillo era
em favor do duque assi lançado, e para elle manifesto engano com que o
queriam fazer algum tal desmando, de que esperando victoria ficasse
vencido; porque bem cria que o duque que tantos annos se intitulara de
filho de tal Rei, e que de tanta e tão honrada gente, para qualquer
pesado feito vinha tão bem acompanhado, antes conhecidamente receberia
morte, que tornar atrás nem consentir em tal fraqueza, á sua honra e
estado tanto contraria.»



CAPITULO CI

     _De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a
     cavallo_


Alli fez o Infante aos seus estando todos a cavallo uma comprida falla,
em que pareceu pela muita prudencia e gravidade com que a disse, que já
havia dias que a tinha cuidada.

Foi sua sustancia alegrar-se primeiramente no esforço, despejo, e
segurança que em todos para sua honra claramente via e conhecia, e que
não era sem causa; porque todolos que entre si via, poderia contar no
amor por seus filhos e netos, pois todos eram seus criados e filhos de
seus criados, e assi disse mui particularmente todolos agravos e
perseguições, e desfavores, que d'El-Rei por induzimento do duque e do
conde seu filho, e dos de sua valia tinha recebidos, com os quaes
justificou as causas de sua querella, para cuja emenda e vingança ali
eram vindos, e que não cressem que n'isto entrava odio nem escandalo que
tivesse d'El-Rei D. Affonso seu Senhor; porque elle como mui leal seu
vassallo e servidor, o reconhecia algum não, porque Deus sabia que elle
o amava e era razão que amasse sobre todalas cousas do mundo. E que na
criação que em sua real pessoa fizera, e na governança, paz e
conservação de seus reinos, que dez annos por elle regera e defendera,
quem sem paixão o quizesse consirar, acharia d'isso prova mui
autorisada, e que o agravo que tinha não era da natural inclinação
d'El-Rei, mas da pouca edade sua, com que madura e perfeitamente não
podia conhecer os enganos em que contra si seus imigos o traziam, e que
a principal causa da inimizade que seus imigos contra elle tinham, não
fôra por lhes dar pouco; porque do patrimonio real com honras e titulos
muito lhes tinha dado; mas porque lhe não dera todo, especialmente por
não dar ao duque a cidade do Porto e a villa de Guimarães, que muitas
vezes com outras cousas da corôa mui cegamente lhe pedira, e que o
acrescentamento que em si e em seus filhos fizera, fôra sómente de muito
amor e grande lealdade, e com mui verdadeiro desejo de servir, em que ao
mais leal do mundo não conheceria avantagem; porque da herança da corôa
de Portugal, não falando na que El-Rei D. João seu padre lhe dera, ainda
a primeira mercê e acrescentamento seu estava por receber, e porque seus
contrairos sentiram, que sua bondade e seu livre conselho acerca
d'El-Rei, seriam para suas cobiças e acrescentamentos cousas mui
suspeitas e perjudiciaes, trabalharam de o apartar d'El-Rei e a El-Rei
do amor que lhe devia ter, e credito que lhe devia dar, e que a vinda do
duque por sua terra, e na maneira em que vinha, não era com verdadeira
necessidade de serviço d'El-Rei, mas sómente pelo abater, ou por dar
causa com que El Rei mais se indinasse para sua destruição; porque se o
assi leixasse passar sem resistencia, seria publicar fraqueza de coração
com seu vituperio e abatimento, o que a elle seria grave pena e ao duque
muita gloria, se lhe resistisse indo á côrte, que lh'o reputariam a
desobediencia e deslealdade contra El-Rei, para o mais asinha moverem
para o que tanto desejavam. E porém que por ser quem era, e decender de
quem decendia, finalmente o não havia de consentir, e que tanto esforço
teria de morrer sobr'isso vencido com um só page, como então tinha
esperança de viver e vencer, vendo-se acompanhado de tantos e tão bons
amigos e criados, e que por isso era escusado esforça-los para a
vingança de suas injurias com exemplos de feitos passados, pois os via
para isso tão esforçados, antes se o caso viesse a rompimento como
esperava, lhes encomendava a todos mais piedade que crueza, e com os
olhos alevantados ao ceo cheios de muitas lagrimas pedio perdão a Deus
com palavras de muita devoção, e se encomendou a elle, e á Virgem Maria
sua Madre, e feito isto mandou que se armasem e percebessem todos.



CAPITULO CII

     _De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra
     o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu_


O duque de Bragança não leixou de continuar sua viagem até duas legoas
da Louzã, crendo que o Infante D. Pedro com todas suas ameaças não
ousaria de lhe resistir, nem se moveria de Penella, assi por não quebrar
o mandado e defesa d'El-Rei que para isso tinha, como pela pouca gente
de que se percebera. E porém como pelas espias que trazia, soube que o
Infante estava já em Serpiz, que era d'elle pouco mais de uma legoa, e
vinha com determinação de peleja, foi posto em muito cuidado, e mandou
alojar sua gente com aquelle resguardo e seguridade que para o tempo e
caso cumpria, e ajuntou logo os fidalgos e pessoas principaes de sua
companhia para ter conselho sobre o que faria, ante os quaes disse:

«Nós somos aqui tão acerca do Infante como sabeis, e já devemos crêr que
vem com determinação de por força nos resistir, vêde qual será melhor,
ou o esperarmos aqui, ou irmos adiante busca-lo, ou por evitarmos as
mortes e danos que d'este recontro se podem recrecer nos tornarmos atrás
e seguirmos outro caminho, porque aqui por agora não é dar outros
meios.»

Sobre o qual houve entre elles votos desvairados, e em fim Alvaro Pires
de Tavora, disse:

«Senhor, a mim parece que para quem soes, e para a determinação com que
partistes, e para a gente que levaes, seria cousa mui vergonhosa, e para
vossa honra de grande vituperio, tornarde-vos atrás nem uma só passada;
porque em caso que para Deos fosse razoada encoberta, dizerdes que por
escusardes mortes e outros danos o fazeis, o mundo com que agora vivemos
vo-lo não ha de levar n'essa conta, mas estimarvo-lo-ha como é razão,
por grande fraqueza e assinada judaria; soes grande imigo do Infante e
elle vosso, e as mais palavras e dissimulações são escusadas. Porque a
amizade que El-Rei entre vós ambos assentou, bem sabemos que foi uma
fórma falsa de palavras de que nunca soubestes parte, e assi nunca a
guardastes; porque depois sempre em vossas cousas vos tratastes como
imigos, e vós o sabeis, e que digaes que El-Rei vos manda chamar, não é
o Infante tão privado do entender, consiradas as cousas passadas e o
auto em que his, que não entenda que é sem fundamento de seu mal, e de o
resistir e contrariar em sua terra, sabei que como Principe e como
Cavalleiro tem razão e faz o que deve, e por tanto meu conselho é, que o
que elle quer fazer vós o façaes primeiro, que será irmo-lo buscar, e
nos desponhamos á ventura que nos vier».

E este conselho aprovou o duque por melhor, e determinou então de o
seguir. Pelo qual porque soube que o Infante o havia d'esperar no
estremo e confins de sua terra, a que já estava mui chegado, foi alli
com esses principaes vêr o lugar de melhor disposição para a peleja, e
assi partir e escolher o campo para elles mais seguro. E des-hi volveu a
seu alojamento, e fez ajuntar todolos seus, e com quanto era de pouca
fala, com a contenença grave e segura lhe fez um razoamento n'esta
maneira.



CAPITULO CIII

     _D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou
     não leixar o seu caminho_


Honrados criados e amigos, eu sou aqui vindo por mandado d'El-Rei meu
Senhor, como vos disse, e por estas suas cartas o vereis; levo comvosco
este publico caminho sem danificar nem agravar alguem como sabeis, e ora
sou certificado que o Infante D. Pedro contra defesa e mandado do dito
Senhor, vem por elle com proposito de por força m'o impedir, e porque eu
por muitas causas que todos entendereis, sou em determinação de todavia
seguir ávante, eu vos rogo e encomendo, que para qualquer trabalho e
afronta que sobrevier, por serviço d'El-Rei meu Senhor e minha honra
esforceis os corações, e desenvolvaes as mãos como de vós e de vossas
bondades espero. E sabei certo prazendo a Deos, que a victoria é nossa
sem algum vosso perigo; porque a gente do Infante é pouca para a nossa,
e vem constrangida e cortada toda de temor; porque além de conhecerem o
dano a que se despõem, sabem o erro e deslealdade que cometem, vindo
contra a obediencia e mandado de seu Rei e Senhor. E por isso assi por
sem duvida, que todos estes na sombra do medo, vendo-nos logo o
leixarão. E por isso eu vos encomendo que no sangue d'estes não solteis
vossas mãos e ferro a toda a crueza, pois em fim são christãos e
vassallos de El-Rei meu Senhor, e á verdade innocentes, ainda que tenho
grande receio á vinda do Infante D. Fernando, e do conde d'Ourem meu
filho que vem detraz, e na hora do nosso ajuntamento serão comnosco, que
por ventura nas mortes e danos d'estes não quererão ter esse resguardo,
mas Deos o perdoe, ou acoime ao Infante D. Pedro, pois é causa d'isso, e
este trabalho que por mim tomaes, eu sempre vo-lo conhecerei, e El-Rei
meu Senhor tambem vo-lo deve e por meus requerimentos e intercessão
vo-lo satisfará com honras e mercês, como a bons e leaes vassallos que
soes; e com isto se recolheu a seu alojamento.



CAPITULO CIV

     _De como o conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que
     desse no duque_


O Infante D. Pedro que era já no lugar de Serpiz, soube logo como o
duque viera vêr e repartir o campo, e assi da falla que aos seus fizera,
e porque de um a outro não havia já mais de meia legoa, o conde
d'Abranches assi armado como chegou, sem mandado do Infante se apartou
com alguns, e foi vêr o arraial do duque; porque da gente e assento
d'elle se informasse para o que esperava, e em tornando lhe perguntou o
Infante com mostrança de lhe pesar d'onde vinha, e o conde lhe
respondeu:

«Senhor, venho de vêr vossos imigos, de que prazendo a Deus e ao
bemaventurado S. Jorge vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingança,
e peco-vos por mercê que a não dilateis para mais, e hi logo dar
n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos
signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes
tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não
alongueis a vida a quem se lh'a hoje daes, sabei que a encurtará mui
cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e
afortaleza não quer vir ávante, e ou se tornará para trás como veiu, ou
escondido se salvará por outro caminho.»

E o Infante lhe respondeu: «Conde, não creaes que o duque por filho de
quem é, e acompanhado e aconselhado de tão bons fidalgos como com elle
vem, especialmente que é assaz entendido, tome nenhum d'esses sestros
que abata sua honra; antes pois já determinou de vir, elle virá, e ambos
como Deus ordenar esperimentaremos nossas fortunas, e por hoje é bem que
repousemos e provejamos no que nos cumpre, e a elles demos lugar que
para taes vistas se percebam á sua vontade. Ao menos porque com a culpa
de nosso salteamento e trigança, não se encubram e escusem da fraqueza e
leve resistencia, que prazendo a Deus n'elles acharemos. E praza a Deus
que ou se tornem, ou desviem por alguma maneira como dizeis; porque com
guarda de minha honra eu os não veja, e elles possam salvar suas vidas,
cá em fim patrimonio são d'El-Rei meu Senhor, em que me sempre pesará
minguar e fazer estrago.»



CAPITULO CV

     _De como o duque não quiz esperar o Infante, e se salvou
     atravessando secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante
     sobr'isso disse e fez_


O duque n'aquelle dia que era sexta-feira ante do domingo de Ramos;
porque soube que corredores do Infante vieram vêr seu arraial, tambem
mostrou que se provia e aparelhava, como quem determinava não desistir
de seu proposito, e menos negar a peleja, e segundo o pulso que á sua
gente tomou, não achou em todos aquella fortaleza e esforço, que para
tal afronta se requeria; porque como atrás disse muitos d'elles não eram
proprios seus, e vieram sómente com elle pelo acompanhar pacificamente
atè á côrte, sem esperança nem aviso de tal recontro, especialmente
contra o Infante D. Pedro, a que muitos d'aquelles tinham afeição
secreta, e desejavam servir.

Pelo qual, o duque vendo a fraqueza d'estes, com que não convinha meter
sua vida e honra a um tão certo e tão chegado perigo, ou por ventura
aconselhado do pouco esforço de seu coração, em que por então foi mui
culpado, determinou em si mesmo de não seguir adiante nem cometer o
Infante, nem menos o esperar. E ordenou poer-se secretamente em salvo
como fez, e não se quiz tornar atráz como viera; porque foi falsamente
certificado, que as pontes e barcas do Mondego porque passara, eram por
mandado do Infante já todas quebradas e tomadas, o que não foi. Para o
qual a mesma sexta-feira ante do domingo de Ramos d'este anno de mil e
quatrocentos e quarenta e nove, o duque apartou alguns seus a que
revellou o modo de sua partida, e por se escusar rumor nem algum
sentimento d'ella, lhes mandou que um e um dessimuladamente se saissem
do arraial, e elle com duas sós guias que tomou, em se cerrando a noite
se sahiu a cavallo, e se foi com elles ajuntar, que com mui grande
perigo e trabalho dos corpos e cavallos atrevessaram a Serra d'Estrella,
que lhes jazia á mão esquerda; porque os montes eram grandes e frios, e
a serra estava ainda com neves dobradas, de que o duque por ser já mui
velho recebeu tão grande padecimento que foi em ponto de morte, e porém
da grande frialdade que padeceu ainda lhe ficou d'alli o pescoço e a
cabeça baixa em quanto viveu.

E os seus que leixou, como souberam de sua partida, que foi sendo já
grande parte da noite passada, foram postos em grande desmaio, e cada um
como melhor pôde se apressou de o seguir não sem grande desmando e
nenhum acordo, e com perda de muitas cousas que leixavam, crendo que o
Infante ou sua gente os seguiria. E assi passaram a serra do Baçó até
descerem a outra banda de meio dia contra Covilhã, em que pela grande
aspereza dos caminhos e as muitas neves e regelos que n'elle jaziam, os
homens suportaram frios e trabalhos incomportaveis, e assi morreram e
atereceram muitos cavallos e azemolas, de que muitas ficavam. E se
perdeu muita fardagem que os da montanha vieram recolher. E no cimo da
serra onde dizem Albergaria, acharam mortas de frio algumas pessoas a
que não houve remedio.

As escuitas que o Infante sobre a gente do duque sempre trazia, não
houveram sentimento de sua partida, salvo depois que o geral rumor de
todos todo lh'o certificou, que foi a tempo em que o duque já teria
andadas quatro ou cinco leguas. E por se mais verdadeiramente afirmarem
do caminho que levara, não trouxeram ao Infante certo recado se não em
amanhecendo, da qual cousa sendo o Infante certificado, mostrou receber
por isso tanta gloria e alegria, como pareceu que os seus houveram de
pena e tristeza, por o duque se ir assi livrememente e sem contenda, e
alguns requereram ao Infante licença para ainda lhes irem seguir o
encalço, mas o Infante o não consentio, antes lh'o defendeo, dizendo
«que os leixassem ir embora, e que de assi ser, dava por isso muitas
graças a Deus.»

E porém a opinião dos mais foi que o Infante errara muito, tendo o duque
tão acerca e em tão boa disposição para o cometer, não dar n'elle e o
matar se podera; porque quanto alongou sua vida, como o conde
d'Abranches lhe disse, tanto antecipou a morte de si mesmo como depois
se seguio.

E feito isto, o Infante porque a gente que tinha já lhe não era
necessaria por então, fez ajuntar todalas pessoas principaes que hi
eram, e com aquellas palavras que mereciam, os que para tal serviço com
tão boas vontades se offereceram e disposeram, lhes deu a todos grandes
agardecimentos, e os despedio com sinaes de muito amor e obrigação,
leixando sómente os continos de sua casa, com que passado o dia de Ramos
se tornou a Coimbra.



CAPITULO CVI

     _Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez
     contra, o Infante_


E o duque como da banda de Covilhã acabou de recolher a gente que o
seguio, fez logo seu caminho para Santarem. Onde por aviamento do conde
seu filho, foi de toda a côrte assi grandemente, e com tanto triunfo
recebido, como se o merecera por batalhas campaes, que contra imigos
vencera.

E isto foi por seus aderentes assi ordenado, porque com esta face de
fingida honra encobrissem ao mundo o envés do verdadeiro abatimento que
o duque em sua vinda tinha recebido. Porque para o proposito com que de
suas terras o duque partira, e para a muita gente que comsigo trazia,
sempre os seus na côrte afirmaram que o Infante D. Pedro por sua pouca
força não ousaria de o cometer, nem lhe defender o caminho. Dando a
entender que as mostranças de resistencia que o Infante fazia, eram tudo
rebolarias do conde d'Abranches, porque n'estes feitos se governava. E
porém assi emprimiram todo o que quizeram no novo e molle entendimento
d'El-Rei, que a injuria d'este caso lhe faziam crêr que não era do
duque, mas propria de sua pessoa real.

E porque no conselho em que ante El-Rei esto se praticava, o Infante D.
Anrique terçou um pouco em favor do Infante seu irmão, afirmando que não
consentiria dizer-se, que nenhum filho d'El-Rei D. João faria injuria a
seu Rei e Senhor, fez no que contra o Infante D. Pedro então se requeria
mui grande contrariedade, com que muitos do conselho se foram, e
folgaram de o ajudar, crendo que o Infante D. Anrique clara e
descubertamente a seu irmão queria já valer, e alegravam-se, desejando
aproveitar ao Infante D. Pedro terem-no para isso por cabeceira, sem o
qual consirada bem a disposição do tempo, e pelos contrairos serem de
grande condição não ousavam. D'onde segundo a opinião dos prudentes e
pessoas d'autoridade, que d'estes feitos tiveram conhecimento, se creu
que o Infante D. Anrique n'estes dias falleceu ao Infante D. Pedro com
aquelle verdadeiro amor, favor, e ajuda que como a irmão e amigo lhe
devia; porque com muito seu louvor, e sem mingoamento de sua muita
lealdade lhe podera valer, por maneira com que a El-Rei, e a sua corôa
fizera muito serviço, e ao Infante seu irmão desviara morte tão crua e
tão abatida como recebeu, e sua tão honrada casa não cahira de todo como
cahiu, segundo adiante se dirá, e porque o Infante D. Anrique sobre suas
muitas virtudes era assaz prudente e discreto, bem é de crêr que esta
piedosa bondade para seu irmão, muitas vezes lhe tocaria e espertaria a
memoria, e para o não fazer, o mais honesto e seguro seria leixar a
determinação em duvida, salvo se a causa d'isso attribuissemos a algum
oculto Juizo Divino.

E por tanto, porque a boa vontade do Infante D. Anrique não perseverou
no favor do Infante seu irmão como logo então atentou, foi a querella do
duque ouvida d'El-Rei, e posta e crida no mais alto encarecimento de
fealdade, que contra seu serviço e estado se podia cometer. Pelo qual
logo El-rei começou publicamente declarar a irosa vontade e grande
indinação que contra o Infante D. Pedro tinha, a que por aviamento de
seus imigos tambem ajuntava o desterro e morte da Rainha D. Lianor, sua
madre. E porque no recontamento de suas afeições, desamparo e pobreza,
que até morrer passara, o caso contra o Infante mais s'agravasse, faziam
com as Infantes irmãs d'El-Rei, que eram meninas, e com os criados da
Rainha, que de todas as partes faziam vir, que com lamentações e
forçosos choros as apresentassem ante El-Rei muitas vezes, pedindo-lhe
por isso do Infante D. Pedro justiça e vingança, como de culpas e crimes
já claros e manifestos.



CAPITULO CVII

     _De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer
     geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle_


Enviou logo El-Rei cartas de percebimentos de guerra por todo o reino,
com declaração de querer por desobediencia e deslealdade do Infante D.
Pedro ir contra elle, e assim mandou poer outras cartas publicas de
perdão geral para todolos humiziados, que por quaesquer casos andassem
fóra do reino, se n'esta ida contra o Infante o viessem servir, e assim
se fizeram outras de editos porque mandava a todalas pessoas que eram
com o Infante de qualquer estado e condicção que fossem, que a certas
horas sob pena do caso maior se partissem logo d'elle, e d'estas algumas
se pozeram nas praças publicas de Santarem, e outras haviam de ser por
notarios publicadas em Coimbra onde o Infante era, e os primeiros que
para isso foram ordenados cometeram o caminho, mas com receio não o
seguiram e se tornaram, em cujo lugar foi logo ordenado por El-Rei e
enveado a Coimbra Lourenço Abril, seu escrivão da camara, homem mancebo
e de bom entender, e como quer que no caminho fosse das guardas do
Infante impedido, houve porém de chegar a elle com sua licença e prazer,
e tanta pressa se deu para a destruição do Infante, que o duque
desapareceu de seu arraial em Coja, bespora de Ramos como atrás fica, e
estes editos chegaram ao Infante em Coimbra bespora de Pascoa. O qual
depois que foi e viu as cartas que Lourenço Abril sobr'isso levou, lhe
disse:

«Lourenço Abril, dizei a El-Rei meu Senhor, que eu só tomo e retenho em
mim esta sua provisão, e que não hei por seu serviço e minha honra
publicar-se em tal tempo. Não por não querer que em seus reinos e fóra
d'elles se cumpram e obedeçam inteiramente seus mandados; porque saiba
que eu sou um dos braços mais fortes que tem para lhe ajudar a manter e
cumprir sua vontade e justiça. Mas porque estes procedimentos são de sua
ira contra mim, eu apello d'elle contra mim agora mal informado, para
elle mesmo de mim verdadeiramente e como deve depois bem informado».

E com esta resposta, e com outras palavras a estas conformes se tornou
Lourenço Abril a El-Rei, que logo começou de fazer mercê a quem lh'a
pedia dos bens e officios dos que eram com o Infante.



CAPITULO CVIII

     _Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre
     o Tejo e Odiana_


Estes dias com todalas torvações e necessidades do tempo, o Condestabre
filho do Infante D. Pedro nunca lhe acodiu, e não seria assi sem seu
mandado, antes sempre esteve na comarca d'entre Tejo e Odiana, onde
tinha o Mestrado d'Avis com suas fortalezas, e mais os castellos das
villas d'Elvas e de Marvão, contra o qual fizeram tambem a El-Rei
suspeita, e que se devia segurar d'elle. Especialmente que pela liança e
amizade que o Infante seu padre com o Condestabre e Mestre d'Alcantara
de Castella tinha feita, podia com entrada de gentes estranhas fazer a
este reino muito dano, pelo qual acordou El-Rei de enviar sobr'elle, que
estava então na Villa de Fronteira, D. Sancho, conde de Odemira como
fronteiro mór.

E davam fama pelo reino para mais indinação do povo, que o Infante D.
Pedro tinha ordenado com ajuda de Castella prender El-Rei e se senhorear
do reino, e assi lançar n'elle grandes pedidos, e outras muitas
opressões se o mais tempo regera.

E sendo o Condestabre d'esto certificado, vendo que Fronteira não tinha
força nem disposição para n'ella manter cerco nem esperar afronta,
aconselhado sobr'isso com bons cavalleiros e pessoas d'autoridade que
comsigo tinha, se passou a Marvão, onde confiando na bondade e segurança
da fortaleza esteve alguns dias. E porque o conde D. Sancho todavia se
fazia prestes para o ir cercar, esses cavalleiros que com o Condestabre
eram vendo-o com alguma fantesia de resistencia, a que a nobreza e
esforço de seu coração o inclinava, consirando que não sómente á sua
honra não cumpria faze-lo, mas que nos feitos do Infante seu padre podia
muito danar, lhe disseram:

«Senhor, estas maginações de defensão em que vos vemos, ou de esperardes
no campo esta gente que vem, são por agora escusadas; porque a defesa
d'armas e homens que tendes é nada em comparação dos que vem sobre vós,
se cuidaes dar-lhe praça, e tambem para quem soes, e para o sangue de
que descendeis, sabei que seria grande abatimento vosso esperardes
cerco, quanto mais tão desesperado de socorro como sabeis que este
seria, principalmente cercando-vos pessoa de menos condição que vós e
com tanto poder a que não podesseis resistir, em especial vindo com nome
d'El-Rei nosso Senhor, a que seria feio desobedecer, e mais se o assim
fizesseis seria em todo desacatar ao Infante vosso padre, e não cumprir
sua vontade nem mandado, pois vos deve lembrar que a voz e nome, e o
serviço d'El-Rei nosso Senhor, sobre tudo vos encommendou e encommenda
cada dia, pelo qual nosso conselho é, que logo vos passeis aqui a
Valença, que é do Mestre d'Alcantara, em que ha esperança d'achardes
melhor acolhimento, e leixae em vossas fortalezas vossos alcaides com a
gente que as guardem e tenham por vós, com mandado vosso, que se El-Rei
lh'as pedir ou enviar pedir, que descarregando-os de vosso preito e
menagem, lh'as entreguem. As quaes levemente tornareis a cobrar se Deus
pozer os feitos do Infante vosso padre em bem e assesego, como a elle
praza que seja».

Ao qual conselho o Condestabre obedeceu e o cumpriu, e leixou em Marvão
por alcaide um Arthur Gonçalvez, que por mandado d'El-Rei entregou a
fortaleza. E o Condestabre se passou a Valença, onde por principio de
suas fortunas começou logo d'espremenmentar as grande malicias e sobeja
ingratidão do Mestre d'Alcantara, que em tudo contrariou, e com nada lhe
respondeu á muita honra e mercê, favôr e amparo, que em suas grandes
necessidades passadas do Infante D. Pedro poucos dias havia que
recebera, como atrás fica.



CAPITULO CIX

     _De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre,
     sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou
     destruição, e do conselho e determinação que o Infante sobr'ella
     teve_


Evolvendo o processo ao Infante D. Pedro, estando elle em Coimbra não
sem mortaes padecimentos, pela incertidão que tinha do fim que sua vida
e feitos haveriam, foi-lhe dada uma carta da Rainha sua filha, por
Vicente Martins seu secretario, porque lhe notificava, «que em um
conselho que sobre seus feitos então se tivera, fôra contra elle
determinado que El-Rei o fosse cercar, e que dando-se ou tomando-se por
força, houvesse por pena de suas culpas uma de tres cousas. Ou morto, ou
carcere perpetuo, ou desterro para sempre fóra do reino, para execução
do qual El-Rei partiria contra elle aos cinco dias de Maio». E bem é de
crêr que a Rainha lhe não enviaria esta carta sem espresso consentimento
e mandado d'El-Rei, cujo bem e amor ella teve sempre em tanta estima,
que pelo conservar e não perder nem minguar como mui virtuosa que era,
nunca nos feitos do Infante seu padre contra o gosto e contentamento
d'El-Rei se quiz entremeter. Esta carta foi dada publicamente ao
Infante, que depois de sem alguma mudança nem torvação a lêr, com quanto
n'ella viu que a morte começava já de bater ás portas de sua vida, elle
a cerrou em sua mão e com a cara segura, e mais alegre que triste,
esteve um pedaço perguntando ao messegeiro por novas da saude e bôa
disposição d'El-Rei seu Senhor, e por as cousas em que se desenfadava, e
porque as respostas redundavam todas em louvores e perfeições d'El-Rei,
o Infante mostrava por isso tomar muita gloria sem alguma mestura da
mortal pena que já recebera e tinha. E com este despejo se assentou a
comer, e depois de acabar se recolheu a sua camara, onde fez logo vir
esses principaes que com elle eram, perante os quaes mandou lêr a carta
que tinha, e como a sustancia d'ella era já espantoso pregão da ira
d'El-Rei, ficaram todos mui torvados, mais e menos segundo a bondade e
esforço do coração que cada um tinha. E o Infante não dissimulando já
sua infinda paixão e tristeza, com as mãos e braços abertos alevantou os
olhos ao ceo cheios d'agoa; porque nos taes casos quando fallava assi o
tinha por condição natural. E disse logo:

«D'estes agravos e perseguições em que justiça, razão, nem humanidade
não consente, eu primeiramente me queixo a Deos como a só e principal
Senhor de todalas cousas, e depois á Real casa de Portugal em que nasci
e me criei, e a que até agora bem e lealmente sempre servi. E assim á
casa d'Inglaterra em que de sangue tanta parte tenho, e finalmente me
agravo a vós meus criados, amigos e servidores como a participadores
d'esta minha desaventurada fortuna, aos quaes como a companheiros de
meus conselhos e perigos, direi em breve n'este caso minha tenção, que é
tomar por melhor, mais honra e mais descanço para mim a derradeira parte
d'esta determinação que é a morte; porque das outras de que uma é ser
desterrado, Deos nunca queira que eu filho ligitimo d'El-Rei D. João,
que com tanta honra uma vez sahi de seus reinos, fazendo a muitos em
muitas provincias e senhorios estranhos grandes graças e mercês, haja
d'andar sobre minha velhice por reinos e terras alheias, pedindo esmolas
com muito trabalho e grande deshonra minha. Pois da outra que é ser
preso, e que sobre cincoente e sete annos que hei haja de consentir
ferros de justiça em minha carne, não sei a quem não pareça ser muito
menos mal morrer, e este por mais bem e maior honra escolho para mim,
como disse. Mas porque até agora em todas minhas cousas e alheias que
tratei sempre, me prouve ser bem aconselhado, n'esta que me parece ser a
derradeira, o devo e queria ser melhor. E por isso vos rogo e encomendo,
que esguardadas bem todalas circumstancias d'esta fortuna, e a callidade
e priminencia da minha pessoa, queiraes sobre tudo consirar, e cada um
de manhã me dizer seu parecer, lembrando-lhe que meus imigos segundo
esta nova determinação devem logo vir sobre mim, e partir de lá a cinco
dias de Maio. E que diga meus imigos, nunca por amor de mim, e por
segurança de minha limpeza entendaes que o digo por El-Rei meu Senhor,
nem que o meto n'esse conto. Porque em caso que sua mercê venha com
mostrança de ira sobre mim, sempre crerei que seu corpo virá com enganos
de meus imigos forçado, a que sua nova edade não sabe nem póde resistir,
mas que sua vontade sempre para mim e minha honra ficará livre e sã,
como se espera de Principe bom e agardecido como elle é. E porém meu
primeiro movimento é n'esse mesmo dia partir d'aqui, e os ir buscar e
esperar no campo, e pedir a Deos e a El-Rei meu Senhor justiça e
vingança d'elles, como de qnem tão sem razão tanto damno e perda me tem
feito. E quando se por meus peccados assi não seguir, contentar-me hei
acabar como cavalleiro. E porém d'agora para em todo tempo e sempre
protesto, que seja com verdadeiro nome de bom e leal vassalo, e servidor
d'El-Rei meu Senhor.»



CAPITULO CX

     _Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição
     foram dados_


Ao outro dia foram todos juntos, e leixando alguns apontamentos que
alguns n'este caso fizeram, finalmente no conselho houve tres conclusões
sustanciaes e em si desvairadas, e para cada uma não falleceram estas
vozes. A primeira foi do doutor Alvaro Affonso, homem assaz prudente e
bom jurista, em que depois de muitas palavras sumariamente concludio
«que o Infante como cavalleiro, e principalmente como catholico e bom
christão que era, não devia por si ir buscar a morte, mas antes
espera-la, em que havia muitas esperanças de vida, e quando sem razão
lh'a quizessem dar, que com grande fortaleza d'animo devia de defender
sua vida e honra, para que allegou muitos direitos e trouxe mui
autorizados exemplos, e que elle por mór resguardo de sua lealdade e
mais segurança de sua pessoa, se devia fortalezar em Coimbra, e bastecer
e prover d'armas e gentes os castellos de Monte Mór o Velho e de
Penella, e aguardar El-Rei, ainda que com todo seu poder o quizesse
cercar, e que sendo a cidade tão forte, e tendo elle tanta e tão boa
gente comsigo, El-Rei por força o não poderia logo tomar, e que para lhe
poer cerco prolongado, ou leixar sobre elle fronteiros, não havia
disposição nem possibilidade para isso, e que com Monte Mór teria tambem
a Foz de Buarcos, que em suas afrontas se sobreviessem, sempre seriam
portas abertas para sua salvação, e que por esta maneira não encurtaria
como desesperado sua vida, e como prudente alongaria o tempo, que emfim
por sua condição tudo com honra remediaria, especialmente que El-Rei
assi como crescesse nos dias, assi iria crescendo e esforçando seu
juizo, com que entenderia os enganos em que o traziam, a que sua nova
idade por então não alcançava, quanto mais que a Rainha sua filha estava
em esperança de emprenhar, e com a geração que Deus lhe daria, El-Rei se
acharia mais obrigado para o amar e honrar, e ella teria mór atrevimento
de em seus feitos o requerer. E que o povo que com malicias alheias
andava emnevoado, cansaria e amansaria de seus alvoroços, e que em fim
por partido sempre lhe fariam o que elle quizesse, pois com isso
claramente parecia elle com medo da ira de El-Rei, e por necessidade se
defender, e não com vontade de o desservir nem desobedecer, pois todos
sabiam que elle o tinha e amava por seu verdadeiro Rei e Senhor.»

E com este voto e parecer se foram D. Fadrique, Martim de Tavora, Aires
Gomes da Silva, João Corrêa, João de Lisboa, secretario, e Diogo
Affonso, e Pedro de Tayde, Dayão de Coimbra, que eram todos pessoas de
bom entender, esforço, e autoridade.

Eram outrosi com o Infante n'estes conselhos Luiz d'Azevedo, e Lopo
d'Azevedo, irmãos, e Martim Coelho, e Pero Coelho, tambem irmãos, os
quaes por serem entre si por casamentos liados seguiram todos outro
acordo, dizendo «que o Infante por maneira alguma não devia esperar
cerco, cá não era honra, ao menos por respeito da Garrotea que tinha,
nem proveito nem segurança, mas que leixasse suas villas e fortalezas em
bom recado, e que com a outra sua gente se saisse de Coimbra, e passasse
o Douro, onde n'aquellas comarcas teria a gente das terras de Lopo
d'Azevedo, e de Martim Coelho, e Ruy da Cunha, e d'Aires Gomez, e
d'outros muitos, com que seguraria sua pessoa e d'aquelles que o
seguissem, e que d'alli poderia tornar á Beira, e passar-se a riba do
Diana, e andar pelas terras do Condestabre seu filho; porque El-Rei o
não podia tanto seguir, que não andasse sempre diante, ou desviado a seu
salvo, aconselhando com isto que não sómente trouxessem a voz e nome
d'El-Rei seu Senhor, mas muito mais as vontades para o bem e lealmente
servir, e com a necessidade e fadiga que os do reino todo por isso
receberiam, conhecendo a sem razão de suas perseguições, ousariam dizer
a El-Rei a verdade e as falsidades com que seus imigos o moviam contra
elle, de que se seguiria que ou o leixariam livremente, ou lhe fariam
tal partido de que fosse contente.»

E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que
o cerco por sua condição trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e
avorrecer.

O conde d'Abranches tomou só outra conclusão, ás dos outros que apontei
em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas
causas, razões e exemplos de Principes passados, porque não devia
esperar cerco, e outras tantas para não dever andar pelo reino,
especialmente com tão pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos
passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio
com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio
com a tenção do Infante que foi «antes morrer grande e honrado, que
viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de
suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e
que se fossem caminho de Santarem, não como gente sem regra desesperada
nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governança e
mando de um tal Principe e tal capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre
todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei
pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus imigos, que lhe tão
sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de
suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se
conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas não
houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que então
defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados
cavalleiros.



CAPITULO CXI

     _De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que
     foi morrer_


E o Infante depois de todos ouvir com muito tento e repouso, e lhes dar
por seus conselhos muito louvor e grandes aguardecimentos, finalmente se
teve com o conde d'Abranches, que seguiu sua primeira deliberação, e
determinou quando melhor não podesse ser, de morrer no campo, requerendo
e bradando a El-Rei por sua justiça. E para ella se começou logo de
perceber, e tanta foi a fortaleza e segurança do Infante, que n'estes
dias com quanto de cousas tão arduas, e tão chegadas á morte se tratava,
nunca por isso leixou de ir á caça e ao monte, e ter seraus e festas com
sua mulher e donzellas, assi como no tempo de mais assessego e de maior
prosperidade que nunca tivera.



CAPITULO CXII

     _Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de
     morrer um quando o outro morresse_


E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante não se
esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde
d'Abranches, e lhe disse:

«Conde, sabei que eu sinto já minha alma avorrecida de viver n'este
corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e
consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia
recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais,
certo se as cousas n'esta viagem me não sobcedem como eu desejo, e seria
razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e
como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas
bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós
sobre todos tomei esta confiança, assi pela irmandade que comigo
merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos
confrades, como por criação que vos fiz, e principalmente pela certidão
que de vossa bondade e esforço tenho ha muito conhecido, e por tanto
quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis
tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos
primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e
servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa,
depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos
d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados.»

«Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi
sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras
nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê
escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa
companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que
d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a
vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das
outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa.»

E para mór confirmação d'este proposito o Infante mandou logo chamar o
doutor Alvaro Affonso, que era clerigo de missa, perante quem relatou a
concordia em que elle e o conde estavam, sobre a qual disse que lhe
desse logo o santo sacramento, e o doutor depois de lhe fazer seus
requerimentos e protestações para o não receberem (como a elle por
sacerdote e por letrado em tal caso cumpria) elle lh'o deu, e elles o
receberam com sinaes de muita devoção e contrição, afirmando ambos e
cada um «que como fieis christãos a Deus, e leaes vassallos a El-Rei o
recebiam, e por taes protestavam morrer quando morressem, e que seu
fundamento não era offender, mas defender com razão e justiça a pessoa e
honra do Infante.» O qual derribando-se no chão sobre seu peito, com os
olhos cheios de lagrimas e com grande fervor de contrição se feria e
acusava de seus pecados, e sobre a comunhão tornaram a firmar
solenemente seus prometimentos, cujo segredo o Infante encomendou muito
ao doutor, de quem depois se houve esta certidão.



CAPITULO CXIII

     _Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre se
     elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa porque não
     houve effeito_


Vendo e ouvindo a Rainha em Santarem tantos alardos e ajuntamentos de
gentes com tantos alvoroços e percebimentos para destruição e morte do
Infante seu padre; porque n'ella se encerravam em grande perfeição
todalas outras virtudes, esta de amor e piedade para elle tambem lhe não
falleceu, e assi porque esta natural divida de sangue sempre a espertava
por seu remedio, com vivas lembranças de muita dôr e grande compaixão,
como tambem porque de sua innocencia d'elle era mui certificada, se pôs
um dia ante El-Rei em giolhos, e com perseveradas lagrimas lhe disse:

«Senhor, _cesset jam nanus tua_, e pois minha desaventura quer que na
destruição do Infante meu senhor e padre damnem as falsas culpas mais,
do que aproveitam seus merecimentos, nem o grande e verdadeiro amor que
vos tenho, peco-vos por mercê, que ao menos como Principe agardecido,
vos lembre as obrigações em que por sua tão alta criação, e por outros
muitos seus serviços lhe soes, cuja paga devia ser outra, e não esta
morte e destruição tão deshonrada, e com isso para alguma mais
temperança de tamanha ira tambem vos não esqueça que vos pode nosso
Senhor dar de mim filhos que serão vossos ramos, cujas raizes para sua
mais honra e louvor deveis desejar e procurar que sejam antes limpas e
sãs, que magoadas e sujas como ordenaes.

E El-Rei como era de mui perfeita humanidade, allevantando-a do chão com
grande acatamento, lhe respondeu:

«Senhora, de todo o que me dizeis eu sou em mui inteiro conhecimento,
mas como quereis que nas cousas do Infante vosso padre eu me faça
brando, sendo elle em sua contumacia e para minha obediencia tão duro,
de que se não quer conhecer nem arrepender, antes cada vez o mais
continuar. Mandei lhe muitas vezes requerer minhas armas, não m'as quiz
entregar, outras tantas lhe encomendei e mandei que não impedisse o
duque, que por meu mandado vinha a meu serviço, e por me desservir e
anojar foi-lhe ter o caminho com outras muitas desobediencias, de que eu
a elle nem ao Infante meu irmão não relevaria sem justo castigo. Porém
pelo vosso amor principalmente, e porque n'isso sintaes o bem que vos
quero, se o Infante vosso padre como quem errou me quizer mandar pedir
perdão, eu me haverei com elle por outra melhor maneira de que sejaes
contente».

A Rainha lh'o teve muito em mercê, e d'El-Rei houve logo licença para o
assi escrever como escreveo ao Infante, o qual vendo a carta, porque
acerca d'ella não deliberasse nada sem conselho, depois de aquelles
principaes com que suas cousas consultava serem juntos e verem a carta,
todos sem contradição concordaram ser bem e honesto que o Infante
satisfizesse com o perdão a El-Rei na fórma que elle queria, pois em
nada lhe perjudicava, cá parecia deseja-lo assi El-Rei para defesa sua,
contra aquelles que para o contrairo o indinavam. E porém o Infante
lastimando-se muito dos agravos e desfavores d'El Rei, e confiando muito
em sua innocencia recusava muito de o fazer, afirmando-se «que tão novo
meio, segundo as cousas estavam não era com fundamento de seu bem, mas
que El-Rei com astucia de seus imigos lhe lançava esta cilada de mal,
para que n'ella o tomassem como perdão, nascido e causado da confissão
de suas culpas e crimes que elle não tinha, com que ao mundo
justificassem depois os males passados que lhe ordenaram, e corassem os
que ao diante lhe queriam fazer. E que por isso antes queria morrer em
que receberia muitos beneficios; porque acabaria inteiro Infante duque
de Coimbra, e em sua vida não veria a outrem possuir nada do seu, nem
elle como desaventurado seria constrangido andar por terras estranhas
pedindo o alheio. E que em fim não lhe tirariam, que a todolos bons que
pelos tempos fossem não pesassem de sua morte, a qual segundo sua vida
era trabalhosa, esperava que fosse grande descanso já para si mesmo, e
certa segurança da vida da Rainha sua filha.» Com outras muitas e boas
razões com que se escusava; e em fim vencido d'outras tantas e melhores,
com que seus conselheiros como a cavaleiro e christão o aconselharam e
requereram, prouve-lhe pedir como pediu a El-Rei o perdão por escripto,
na fórma que a todos bem pareceu, e com que El-Rei se devesse
satisfazer, e tambem respondeu á Rainha, apontando-lhe largamente
algumas cousas com que sua segurança devia ser acautelada.

E tendo já El-Rei recebido sua carta, mostrou se com ella suspenso como
arrependido do que tinha outorgado, e porque na carta da Rainha que lhe
ella mostrou, entre outras eram umas palavras do Infante que diziam «e
isto Senhora faço eu mais por vos comprazer e fazer mandado, que por me
parecer razão que o eu assi faça», El-Rei tomou d'ellas achaque para o
não cumprir, e rompeu logo a carta do perdão que o Infante lhe mandara,
dizendo que pois aquelle arrependimento era fingido e não de vontade,
que não queria desistir do que contra elle tinha começado, e assi o fez,
do que o Infante foi logo avisado. Porém o que d'esta mudança e nova
sanha d'El-Rei, verdadeiramente se pôde entender, foi se a vontade
d'El-Rei estivera de todo firme e sã para o Infante, que as palavras da
carta da Rainha na forma em que vinham lh'a não revolveram nem danaram
contra elle, mas El-Rei tinha já um odio calejado ao Infante, e mais
pejou-se por moço em que o espirito da honra já se levantava, de parecer
o que lhe já diziam, que se sobjugava á Rainha mais do que era razão e
ao Estado de um tamanho Principe cumpria, e para não cumprir o que
prometera, tomou aquelle que foi mais achaque que causa verdadeira.



CAPITULO CXIV

     _Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que
     amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher_


Porque os contrairos do Infante, vendo que a Rainha era já para elle a
só esperança e remedio de sua salvação, e que por suas perfeições
corporaes e muitas bondades, El-Rei lhe tinha e teria cada vez mór
afeição, com que a ella e a sua vontade se daria mais, trabalhavam por
todalas maneiras de o apartarem d'ella, conselhando-lhe que fosse muitas
vezes á caça e montes, dizendo-lhe que a conversação continua de sua
mulher em tal idade, não sómente era mui contraira á sua saude, mas
ainda mingoa e grande quebra das forças do corpo e do entendimento, e
que ficaria afiminado e não dino nem poderoso para soster o peso do
Regimento e defensão de seus reinos. E na capella e guarda roupa não
falleciam incitadores e ministros d'esta opinião, convocando para isso
mesmo fysicos, que para seu proposito tinham bem ensaiados, que com
livros e autoridades logo assi o provavam.

E taes conselheiros havia d'estes, que reprovavam o ajuntamento do santo
e legitimo matrimonio d'El-Rei com a Rainha, que eram publicos adulteros
e deshonestos concubinarios, jazendo como infernaes em mui continuo e
reprovado coito.

E porque este caminho não sobcedia de todo á sua vontade, cometeram
outro mui errado e muito para reprender; porque fizeram n'estes dias
prender D. Alvaro de Castro, camareiro mór d'El-Rei, que depois foi
conde de Monsanto, assacando-lhe falsamente que dizia amores á Rainha,
por tal que da pena de morte ou desterro que elle por tal caso merecia
nascesse infamia á Rainha com que a El-Rei de todo avorrecesse. Mas o
imigo da perdição que n'estes feitos andava por medianeiro, não pôde
tanto danar, que mais não remedeasse o verdadeiro conhecimento que
El-Rei tinha das muitas e limpas bondades da Rainha, e da grande
lealdade do conde, com que o logo soltou e depois muito honrou e
acrescentou.



CAPITULO CXV

     _De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia
     por meio de religiosos fez com El Rei_


E o Infante D. Pedro por muitas esmolas e bemfeitorias que aos mosteiros
e casas d'oração sempre fazia, era dos religiosos d'ellas sempre em suas
orações e devoções muito encommendado a Deos, em especial n'este tempo
de sua tanta afflição, os quaes sabendo a determinação errada e perigosa
em que o Infante estava de partir, recorreram muitos a elle, e como
officiaes da alma o amoestavam, e lhe requeriam da parte de Deos
aquellas cousas de que sua maior segurança e salvação se podia seguir, e
principalmente que não partisse nem fizesse de si alguma mudança, e
antes esperasse a fortuna, que acometer.

E ao Infante crendo que o conselho dos taes poderia vir da vontade de
Deos, prouve obedecer-lhe, e quiz finalmente poer seus feitos em suas
mãos, e d'elles apartou um Frei Antão, prior do mosteiro de Aveiro, e
outro Frei Dinis que depois foi confessor d'El-Rei, pessoas de grande
doutrina e mui santa vida, aos quaes disse os fundamentos que o moviam a
sua partida, e as razões que lhe contrariavam esperar cerco, e menos
andar como fugido pelo reino, e assi as injurias e sem razões que
d'El-Rei por induzimento de seus imigos tinha por extenso recebidas.
Porém que lhes parecesse que isto podiam remediar, que elle sobreseria
em sua partida, e por maior cumprimento com El-Rei e mais sua limpeza
faria o que elles ordenassem, e que para firme segurança de manter
sempre o que prometia, e que se fizesse d'elle justiça se a merecesse,
que ante de ser ouvido lhe prazia mais que todos seus filhos fossem
entregues em poder d'El-Rei.

Estes religiosos vendo tanta justificação, esforçaram-se acabar esta
concordia, crendo que não podia ser homem tão sem juizo, e tão fóra de
humanidade que a denegasse, e acordaram que com isto Frei Antão por mais
secreto fosse só a El-Rei, o qual partiu logo com inteira crença e
instrução do Infante, dando graças a Deos por elle se someter a tanta
razão, com a qual esperava tudo acabar a serviço de Deos, e d'El-Rei, e
bem de seus reinos e vassallos, mas este padre por muito que apressou
sua ida, já diante achou o imigo da razão e os contrairos do Infante,
com que não pôde nem ousou dar a El-Rei as cartas do Infante, e muito
menos lhe falar; porque os imigos do Infante de que El-Rei em todolos
lugares e todalas horas era cercado, como sentiram que um religioso de
tanta autoridade, que em tal tempo ia de mandado do Infante, não podia
se não levar cousas de muita concordia e conclusão, de que lhes muito
pesava, não sómente o impediram e ameaçaram para mais alli não estar,
mas ainda lhe defenderam que não tornasse com a resposta ao Infante,
pelo qual se foi triste e mui espantado para o mosteiro de Bemfica,
d'onde avisou de todo o Infante.



CAPITULO CXVI

     _Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como
     proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua
     morte_


El-Rei não sabendo da determinação do Infante, que era partir de
Coimbra, fazia fundamento cerca-lo n'ella, o que pela muita gente que
cresceu e pelos mantimentos, e assi outras provisões que se não podiam
haver; e menos tantas bestas, bois, e carros para as armas, artilherias
e carriagem, que para tal certo eram necessarios, parecia mui
dificultoso ou impossivel faze-lo. Pelo qual muitos entendidos se
afirmaram, consirado o pouco provimento que El-Rei tinha, e o muito que
para tal empreza lhe era necessario que não podera haver, se o Infante
não sahira de Coimbra, que El-Rei por aquelle anno não podera cerca-lo,
e que o mais de dano que lhe podera fazer fôra comete-lo de passagem, o
que ao Infante segundo estava percebido, trouxera mais honra que dano
nem perigo.

Porém foi logo El-Rei certificado por um Lourenço Affonso, procurador de
Coimbra, que o Infante se despunha a partir, e queria vir a Santarem,
afeando o mais que pôde sua tenção, de que o duque e o conde seu filho,
como principaes da empresa foram mui alegres; porque viram chegar-se o
effeito de sua esperança e desejo, que era a morte do Infante, cuja
dilação a elles poderia trazer perda e perigo. Pelo qual El-Rei acordou
de sobre ser até saber da certa determição do Infante, e então mandou
poer fronteiros nos castellos d'arredor de Coimbra, receando que o
Infante queria por ventura guerrear o reino, e andar por elle como lhe
fôra aconselhado, e foi Diogo da Cunha a Thomar, e D. Duarte de Menezes
a Pombal, e o proto-notario Berredo a Leiria, e assi outros a outros
lugares.

O Infante dava grande pressa á sua partida, porque não passasse de cinco
dias de Maio que tinha posto; porque n'esse dia fôra certificado que
El-Rei movia contra elle como se disse, e porém de dinheiro por suas
muitas despesas tinha grande necessidade, de que por emprestimos dos
seus criados e servidores se proveu em alguma maneira. E porque a moeda
fallecia e não se podia haver, era conselhado para trato e serviço da
gente, que da prata lavrada que tinha se fizessem uns quadrantes, da lei
e peso de leaes que era então moeda do reino, e que sem mais outra letra
nem figura valessem o preço d'elles. O que o Infante não quiz consentir,
antes o defendeu estreitamente, e d'isto o reprenderam depois que se
intitulara de Rei, e mandara fazer moeda e justiça, o que foi assacado
mas não verdadeiro.



CAPITULO CXVII

     _Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu
     caminho até Rio Maior, e do conselho que hi teve_


Sendo o Infante prestes para cumprir sua opinião, fez a um domingo que
eram cinco dias de Maio partir diante com sua gente ordenada D. James
seu filho, que foi dormir no campo logo acerca de Coimbra, e essa noite
ficou o Infante na cidade em que com grande mostrança de muita alegria
mandou dançar, e fazer festas como sohia. E depois de ter suas cousas
providas se foi á Sé, e a Santa Cruz, e a Santa Clara por serem casas em
que tinha singular devoção, e alli com sinaes de bom christão se
encomendou a Deus, e com a cara alegre e mui descarregada se despediu de
sua mulher, e dos que com ella ficaram, e foi com toda sua gente dormir
ao lugar da Egua, que é cabeça da comenda mór de Christus, onde seriam
com elle até mil homens de cavallo, e cinco mil de pé, com muita
carriagem de bois e bestas.

Com o Infante além d'outros muitos e bons cavalleiros e escudeiros, eram
estas pessoas principaes: D. James seu filho, o conde d'Abranches, Aires
Gomez da Silva, e seus filhos João da Silva e Fernão Tellez, Ruy da
Cunha, Gonçallo d'Ataide, Pero de Lemos, Luiz d'Azevedo, e Lopo
d'Azevedo irmãos, e Martim Coelho, e Pedro Coelho irmãos, e Pero de
d'Atayde, e João Corrêa, e Fernão Corrêa, Fernão d'Alvarez da Maya, João
Peixoto, e Lopo Peixoto irmãos.

E no arrayal do Infante se levantaram duas bandeiras, uma sua, e outra
de seu filho, e em ambas iam de uma parte umas letras que diziam
_Lealdade_, e da outra _Justiça e Vingança_.

E ao outro dia ante que o Infante abalasse, fez ajuntar sua gente, que
repartiu em capitanias, e a todos fez uma fala, cuja sustancia foi
saniar a boa tenção e limpeza de sua vida «que sómente era como leal
servidor d'El-Rei seu Senhor, ir pedir e conseguir ante elle justiça.» E
assi em defender com razões de leal português, que se não fizessem males
nem roubos, e que pagassem bem os mantimentos e cousas que tomassem. E
sobre tudo encomendou aos capitães o castigo, pás, e assessego de sua
gente, e principalmente que se não escandalizassem nem alevantassem por
cousas que ouvissem, em caso que parecessem contradizer a suas bondades
e muita lealdade.

E assi foi o Infante fazendo com muito resguardo suas jornadas até o
mosteiro da Batalha, onde o vedor da obra d'elle que fôra sollergião
d'El-Rei D. João seu padre quiz com armas e artelharias poer o mosteiro
em resistencia e defesa contra elle, mas os frades lh'o não consentiram,
e abrindo as portas mandaram dizer ao Infante que o receberiam na fórma
e com as cerimonias que elle ordenasse, mas o Infante não quiz que fosse
salvo como sempre fôra, encomendando-lhe que na procissão com que a elle
viessem, como de costume tinham, cantassem devotamente por elle o salmo
que começa.

_Qui habitat in adjutorio altissimi in protectione Dei celi
commorabitur_--que se podia bem aplicar á sua viagem.

E alli ouviu missa e mandou dizer outras muitas pelas almas d'El-Rei e
da Rainha seus padres, e se despediu de seus ossos, que cedo havia de
vir acompanhar, e esteve olhando com muita tristeza a sepultura ainda
vasia, que em sua capella lhe fôra ordenada, sobre que disse muitas
cousas que pareciam já revelações d'alma, e sentimento da carne que a
cedo havia de povoar, como foi, e n'esta ordenança chegou a Alcobaça, e
assi foi dos frades recebido e encomendado a Deus.

E como El-Rei soube que o Infante passava Leiria, logo mandou sobr'elle
corredores, e outra gente de cavallo, para que sua gente com menos
licença se soltasse fazer dano.

E porém o Infante chegou a Rio Maior, de que ha cinco legoas a Santarem,
onde teve conselho se iria adiante como vinha, ou se enviaria seus
messegeiros a El-Rei para que lhe pedisse seguridade com que em alguma
bôa fórma, acerca das culpas que lhe falsamente davam fosse ouvido com
justiça. E os que verdadeiramente o amavam, posposta toda outra fantesia
e paixão lhe davam mui são conselho, que elle não seguiu; porque lhe
disseram «que para uma parte nem para a outra não devia ir mais adiante,
e que assi como viera se tornasse para Coimbra; porque assaz tinha
cumprido por sua honra chegar alli e estar tres dias acerca de seus
contrairos, que tendo já então muita mais gente e poder que elle, nunca
lhe ousavam vir ter o passo, nem fazer uma leve resistencia,
contrariando muito todo outro fundamento, e muito mais enviar-se
embaixada a El-Rei, de cuja pouca idade diziam, que já o Infante
emquanto as cousas assi andassem não devia fiar sua vida, em caso que
com sinaes e sêllos lh'a segurassem; pois por induzimentos de sens
contrairos, tantas vezes e em tantas cousas lh'os tinham quebrados, e
que muito mais lh'o fariam fazer n'esta em que todo seu desejo se
cumpria, e álem d'isso se punha a outra perigosa ventura, que era
seguindo mais adiante, e chamando-o El-Rei como a vasallo, e não indo
nem obedecendo logo despejadamente como a leal servidor cumpre, cahiria
em rebellião e desobediencia clara, de que os achaques passados contra
elle ficariam certas culpas, com causas verdadeiras para sua mais
justificada perseguição, quanto mais que metendo seu arraial adiante nos
olivaes de Santarem, segundo a grande espessura d'elles, e derribando-se
pelos caminhos atrás, ficava de todo atalhado sem lhe ficar sómente uma
possibilidade de salvação nem desposição de peleja, e que quando se
quizesse salvar, já seria ao menos com perda da gente de pé e de toda
sua carriagem, com que ficava de todo perdido e desbaratado, e que se
por ventura quizesse seguir contra Lisboa com fundamento de se lançar e
segurar n'ella, que era maginação errada e certo perigo seu; porque a
cidade segundo tudo andava revolto, já não era a madre que o criara
segundo elle dizia e confiava, mas que a havia d'achar mui irada, bem
guardada madrasta contra si, por onde não ficava poderoso de adiante nem
atráz se salvar, se El-Rei com seus imigos lhe saisse nas costas como
era de crêr, e que em tanta angustia lhe seria forçado, ou pedir
misericordia duvidosa, ou receber morte certa e desesperada de vingança,
ao que sem extrema necessidade se não devia arriscar, ao menos por
resguardo e segurança de tantos innocentes, quantos com elle sem causa
morreriam.»

Aos quaes conselhos o Infante disse: «Bem sinto já que estar aqui não é
necessario, e muito menos ir adiante contra Santarem, assi pelas causas
e razões que bem apontastes, como principalmente porque hei por grande
graveza para mim, parecer que levamos as pontas de nossas armas contra o
lugar onde está a Real pessoa d'El-Rei meu Senhor, a que eu sobre todos
desejo melhor obedecer e mais acatar e servir. Porém minha determinação
é por nenhuma maneira tornar atraz, mas quero-me ir por este caminho
contra Lisboa, não com esperança de me a ella acolher, porque n'ella não
tenho trato nem segurança, mas não póde ser que meus imigos sabendo que
vou assi com muito menos gente e poder do que agora tem, não saiam a mim
com suas valias; porque terão possibilidade e tempo de cumprir o que
tanto desejam, e mais escusarão trabalho, que a El-Rei meu Senhor por
todos respeitos não é conveniente nem necessario, e esta só mercê peço a
Deus que seja assi, porque é a maior que d'elle posso receber; e se não
vierem a mi então chegaremos á ponte de Loures, e d'ali faremos volta
por Torres Vedras e Obidos até Coimbra, onde esperamos a ventura que
vier, e espero que a Rainha minha filha, e o Infante D. Anrique meu
irmão remedeiem em tanto meus feitos, como a minha honra e estado
cumpre.

Mas esta esperança que o Infante publicava de seu irmão, era para com
ella favorecer e animar sua gente; porque em seu coração já tinha certa
desesperação, o que acabou de confirmar quando por tres dias que em Rio
Maior esteve, não viu em seu favor recado de seu irmão nem da Rainha, em
que até então muito confiava. E o que os prudentes poderam conceber de
tão errado conselho e tenção, como o Infante em tal tempo e caso seguiu,
não foi salvo que desejando de morrer com algum mais cumprimento de sua
honra, e com maior descargo de sua conciencia, quiz antes ser cometido
d'El-Rei, que parecer cometedor, e que por isso lhe deu as costas, de
que mostrou alguma prova e experiencia o lugar em que ao diante foi
morto em que se alojou, onde por tres ou quatro dias repousou,
podendo-se n'elle livremente salvar.



CAPITULO CXVIII

     _Como o Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as
     pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa porque_


E porém o Infante moveu de Rio Maior contra Lisboa, e a opinião e rumor
geral era, que por trato que com alguns d'ella tinha, se queria n'ella
acolher e remedear; e com quanto esta fama era fingida e não verdadeira,
não leixou de causar morte crúa a dois mancebos de Lisboa, que por haver
n'elles suspeita de trato por serem criados do Infante, foram publica e
innocentemente feitos em quartos, e postos pelos mais publicos lugares
da cídade.

Seguiu o Infante seu caminho em sua ordenança, e a uma sexta feira XVI
dias de Maio chegou ao lugar d'Alcoentre, em que dos ginetes e
corredores d'El-Rei foi sempre seguido e perseguido, dizendo em altas
vozes contra elle que os ouvia, palavras torpes e mui feas, chamando-lhe
traidor tirano, e falso hypocrita roubador do povo, com outras vilezas e
fealdades a estas conformes, das quaes o Infante sempre encomendava aos
seus que se não anojassem nem lhes respondessem, e porém elle em as
ouvir recebia em si muita dôr e grande sentimento, especialmente porque
as bocas d'aquelles, porque tantas torpezas contra elle sahiam, já lhe
muitas vezes beijaram as mãos por honras e mercês que d'elle receberam,
e como alojou alli seu arraial, coube a guarda da herva e lenha a Aires
Gomes da Silva, sobre que vieram logo corredores da gente d'El-Rei
travando com elles, e procurando escaramuça com desejo da gente do
Infante se desmandar por algum seu dano, e com esses rebates que na
guarda se faziam, veiu nova ao arraial que Aires Gomes com sua gente era
dos d'El-Rei cercado e posto em grande affronta, a que o conde
d'Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do
arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita
desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com
muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados,
querendo-se salvar cahiram em um grande tremedal e lagoa, de que não
poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os
vivos levaram logo ante o Infante, entre os quaes o principal era um
Pero de Castro, fidalgo e criado do Infante D. Anrique, a que o Infante
D. Pedro disse:

«Ó máo ingrato e traidor, assi como por tua boca sahiram hoje tantas
vilezas, com que tão falsa e desavergonhadamente magoavas minha pessoa e
estado, como tambem não entraram em tua memoria as muitas honras e
mercês, que de mim tão poucos dias ha recebestes, para as leixares de
dizer, e contentares-te de me fazer mal com tuas mãos, cá pareceram por
tua escusa que eram forçadas d'outro mando e senhorio maior, e não com a
lingoa com que cuidavas que me escandalisavas os ouvidos, e tu
feriste-me no coração, certamente a morte com que logo acabasses, ainda
seria áquem da culpa que tens, e pena que mereces.»

E então com um páo que tinha na mão lhe deu por cima da cabeça, e sobre
esta pancada houve logo dos que eram presentes tantas feridas, de que
logo morreu, e dos outros uns mandou o Infante logo degolar, e outros
enforcar, segundo a condição das pessoas que eram.

Aquelle dia escapou por grande ventura Gonçalo Rodrigues de Sousa, que
era capitão dos ginetes. E assi alguns outros a que valeu a bondade de
seus cavallos; porque até o logar de Pontevel lhe seguiu o conde o
encalço, e d'alli temendo alguma volta de gente fresca e mais poderosa,
se tornou para o Infante.

Com a morte d'estes homens não foi menos a torvação e desmaio no arraial
do Infante, do que foi alvoroço e indinação contra elle em toda a côrte
d'El-Rei, a que as novas chegaram logo de noite; porque a mais da gente
do Infante vendo tamanha crueza, julgaram-na por claro rompimento contra
El-Rei, e temendo a pena da culpa em que por isso encorriam, pungidos da
lealdade que não podiam encobrir, mostravam em suas caras uma publica
tristeza, que de seus corações dava mui certos sinaes de fraqueza, com
que muita gente, especialmente de pé, logo aquella noite fugiram do
arraial, e por serras e veredas como melhor podiam se tornaram a suas
casas, a que o doutor Alvaro Affonso com uma publica fala que a todos
sobr'isso fez, quizera remedear mas não aproveitava.



CAPITULO CXIX

     _Como El-Rei proveu e segurou a cidade de Lisboa para o Infante se
     não recolher a ella_


Como El-Rei foi certificado da ida do Infante a Lisboa, receoso de ser
com fundamento d'algum trato que n'ella tivesse, mandou logo por mar e
por terra muitos fidalgos e outra gente, que a guardaram e seguraram a
seu serviço. E moveu logo de Santarem contra o Infante com muita e mui
formosa gente, que segundo a sentença dos que o melhor deviam saber,
entre de cavallo e de pé, seriam numero de trinta mil homens de peleja,
que segundo as memorias dos que a viam, foi a mór somma de gente d'armas
que até então n'este reino se ajuntou.

Foi El-Rei conselhado que não apressasse suas jornadas, assi por melhor
trato e alojamento de suas gentes, como porque tendo a cidade segura,
quanto o Infante mais a ella se chegasse, tanto se despunha a maior
perigo, pelo damno que dos moradores d'ella, álem dos que d'El-Rei podia
receber.



CAPITULO CXX

     _Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro
     d'Alfarrobeira_


E o Infante sendo no campo junto com o lugar da Castanheira, foi avisado
que El-Rei era já de Santarem contra elle partido; e porque o lugar em
que estava era campo devasso e sem disposição de se poder defender, e
muito menos de resistir, principalmente porque a gente não leixava cada
dia de lhe fugir, leixando já alguma parte de sua fardagem, partiu um
domingo com voz de se ir a Lisboa, em que n'aquelle dia queria entrar.
Mas isto se fingio assi por tal, que a gente na esperança de se salvar
fosse com elle e não lhe fugisse mais, e ante do meio dia se alojou logo
a além d'Alverca, em um ribeiro que se diz d'Alfarrobeira.

E o assento de seu arraial na maneira em que estava, foi d'aquelles que
nas cousas da guerra tinham bom conhecimento muito louvado; porque havia
n'elle disposição natural e artificial para poucos se defenderem a
muitos, e alli houve o Infante por melhor esperar sua ventura e não
seguir ávante, assi porque foi logo avisado da guarda de Lisboa, que de
todo estava irada contra elle, como porque tinha ainda esperança que
quando El-Rei sobre elle chegasse e o visse, que teria lembrança de
quanto serviço lhe fizera, e não se esqueceria d'outros muitos seus
merecimentos, com que lhe fizesse algum bom e seguro partido, e que para
outros lh'o lembrarem e fazerem fazer não acabava de desconfiar do
Infante D. Anrique, e d'outros muitos a que já fizera honra e mercê. E
quando isto assi não sobcedesse, e o rompimento não se escusasse, que ao
menos tinha escolhido lugar onde como Principe acabaria, e não sem
alguma vingança.

E alli esperou El-Rei, que logo á terça-feira, vinte dias de Maio, pela
manhã, chegou sobre elle, e mandou assentar seu arraial, de que o
Infante ficou de todo cercado. E em vindo El-Rei com suas batalhas para
chegar ao Infante, o conde d'Abranches sahiu e foi vêr sua gente, de
cuja somma, gentilleza e percebimento foi muito maravilhado, e em
volvendo como quer que de praça para esforço dos seus mostrasse e
dissesse o contrairo, porém ao Infante não encobriu a verdade, a quem
desenganou da pouca esperança que em sua resistencia e forças devia ter,
e alguns disseram que o conde pedira e requerera ao Infante, vista a
desegual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e
salvasse, e o leixasse com sua gente alli, onde folgaria acabar por seu
serviço, e que o Infante não quizera. Mas, o que mais verdadeiramente
ácerca d'isto se deve crêr, é que o conde pela certa sabedoria que tinha
do proposito do Infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos
por isso tinham feito, não lhe cometteria nem ousaria cometer tal cousa,
em que ao menos ficava o Infante por fé perjuro e fraco.



CAPITULO CXXI

     _Como El-Rei chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como por
     caso e sem deliberação se seguiu sua morte_


El-Rei trazia já determinado por aquelle dia em que sobre o Infante
chegou não o cometer, nem lhe dar combate algum, e dizem que com algum
fundamento de bem para o Infante, e porém por seus trombetas e Reis
d'armas e arautos mandou em torno do arraial do Infante dar espantosos
pregões, mandando a todalas pessoas que com elle eram, que logo sob
grandes penas com suas armas o leixassem, e se viessem a El-Rei. Ao que
nenhum dos do Infante obedeceu, antes do arraial d'El-Rei se lançaram
com o Infante pelo amor que lhe tinham, Fernão da Fonseca, seu criado,
alcaide de Lisboa, que por este caso sahiu depois de seu siso, e assi
acabou; e João Vogado, que depois foi escrivão da fazenda d'El-Rei, e
estes escaparam, e Rodrigo d'Anellos, bom cavalleiro, e um Gonçallo
Fernandes, que fôra corregedor da côrte, que ambos logo ali morreram.

E no travamento que n'este dia sem mandado d'El-Rei nem de seus capitães
houve de uma gente com a outra, de que se seguiu a morte do Infante e do
conde d'Abranches, houve muitas opiniões, porém aquella que os de mór
auctoridade afirmaram é esta:

Andando as gentes de uma parte e da outra provendo suas necessidades,
buscando os cercados do Infante maneiras para se defender, e os mais
d'El-Rei para ofender, aconteceu que certos besteiros da gente d'El-Rei
tomaram uma encuberta, e se meteram escondidos em um arvoredo que sobre
a agua hi estava, d'onde sem serem vistos faziam tiros aos do arraial do
Infante, de que alguns desavisadamente cahiam mortos e feridos. E Alvaro
de Brito Pestana, que tinha então carrego dos espingardeiros d'El-Rei,
lhes mandou outrosi, que de um cabeço em que estavam tirassem aos do
Infante, em que se fez algum dano, e o Infante vendo começos de tanto
mal, pelo em alguma maneira desviar, mandou poer fogo a algumas
bombardas que trazia encarretadas, e que tirassem aos do cabeço, de que
cria que o dano recebido procedia, d'onde por máo tento e pouco
resguardo d'algum bombardeiro dos do Infante sahiu a pedra de uma
bombarda que foi dar junto com a tenda d'El-Rei, sobre que muita e nobre
gente logo acudiu, cuidando que na pessoa d'El-Rei fizera algum dano
como publicamente se disse, o que não fez.

E porém foi por isto tanto o alvoroço na gente de El-Rei, e com tamanha
indinação contra o Infante e os seus, que logo sem outro mandado nem
repartida ordenança de peleja como se esperava, guiados sómente de sua
sanha, deram mui fortemente no arraial do Infante, e romperam e entraram
por muitas partes, cuja gente, e pela maior parte de pé, não podendo
sofrer tanta força, com tamanho medo e perigo esquecidos do amparo e
defesa do Infante, o leixaram e começaram de tomar a fugida por sua
salvação, e o Infante vendo tamanha afronta, andando a cavallo se poz
logo a pé com leves armas, socorrendo aos lugares de mór necessidade e
fraqueza com grande esforço, o qual por armas defensivas trazia sómente
vestida uma cota de malha, e em cima uma jorne de veludo cremesin, e na
cabeça uma servilheira. E vendo elle que sobre a parte de sua estancia
que era já rota recrecia a mór afronta de peleja, acudiu ali com muita
trigança e ousadia; porque em caso que a vil gente lhe fugisse, não
falleceram outros muito bons que com esforçados corações oferecendo já
suas vidas á morte sostinham e defendiam sua querella, tanto quanto e
suas forças era possivel. E como quer que o Infante d'alguns cavalleiros
de sua guarda fosse requerido que se retraisse, aconselhados da força e
multidão da gente que viam contraira, a que não podia já resistir, elle
o não quiz fazer, antes com sua cara esperta e segura, posposto todo o
medo e perigo, rompendo por sua gente em que já via muitos mortos e
feridos, seguiu adiante, e não com ociosidade do seu braço direito, com
que segundo testemunho dos que o viram, álem d'outros que feria
bravamente, dez escudeiros de seu ferro ficaram alli mortos, e andando o
Infante assi revolto n'esta peleja foi nos peitos ferido de uma seta que
lhe atravessou o coração, de que a poucos passos e menos horas cahiu
logo morto, sem antes nem depois receber outra ferida, e o bésteiro que
o ferio bem foi conhecido e havido por assaz destro em seu oficio, o
qual com outros de seu mester segundo fama, foram em especial pelos
imigos do Infante escolhidos e ordenados contra elle, para mais cedo
abreviarem sua morte, a qual elle recebeu com sinaes de verdadeira
contrição e grande arrependimento de seus pecados, que deu piedosa
esperança da salvação de sua alma, pelos quaes sinaes o Bispo de
Coimbra, que sobre elle logo acudio, o assolveu em lhe a alma saindo da
carne; porque não houve tempo de confissão, que elle nas derradeiras
palavras de sua vida afincada e devotadamente pediu; e porém elle no
mesmo dia fôra confessado e absolto, e fizera em seu testamento que
leixou algumas adições, porque claro pareceu que acabou como sempre
viveu, catolico e bom christão, e leal vasallo e servidor d'El-Rei, em
edade de cincoenta e sete annos.



CAPITULO CXXII

     _Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou como
     esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha_


O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial,
provendo e resistindo em sua estancia como bom e ardido cavalleiro, a
muitas afrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe
disse:

«Senhor conde que fazeis; porque o Infante D. Pedro é morto». E o conde
com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação
desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado
disse ao moço «calla-te e aqui o não digas a ninguem». E com isto ferio
rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamento, onde
sem alguma torvação pedio pão e vinho, de que por esforçar mais seu
esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas
honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e sahio a pé
pelo arraial, que de todalas partes era já entrado e vencido, e como foi
conhecido logo os d'El-Rei uns sobre os outros carregaram sobr'elle
cometendo-o de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança
que cortaram, e depois com sua espada os feria e escarmentava de
maneira, que os que a primeira vez o cometiam, de mortos ou feridos não
volviam a elle a segunda, e assi pelejou um grande pedaço como mui
valente e acordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam
trazendo as mãos e todas suas armas cheias não de seu sangue mas de
muito alheio que espargeo, porque emquanto andou em pé e se pôde
revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E em fim vencido
já de muito trabalho e longo cansaço, disse em altas vozes;--_Ó corpo,
já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas_--e com isto se
leixou cair tendido no chão, e uns dizem que disse,--_ora fartar
rapazes_ e outros _ora vingar villanagem_. Cujo corpo que já não
resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despedio a alma
de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido, e alli
um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com
que a El-Rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco
ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz
d'Almada seu irmão bastardo, que era vedor d'El-Rei, houve logo
enterramento no campo, e depois sepultura honrada.

E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o Infante, vendo tão
claro seu destroço, cada um desamparou a defesa das estancias que lhe
foram encomendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o
coração e acordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á
aventura que se lhes oferecesse, e em fim de mortos, feridos, ou presos
não escapou algum.

E dos principaes da gente do Infante morreram ali: João Mascarenhas,
alferes do Infante, e Luiz Gomez da Grã, que levava a bandeira de D.
James, e um seu irmão, e Diogo Peixoto, e Rodrigo d'Anellos, e outros
cavalleiros e escudeiros de boa sorte, e foram muitos feridos; e da
parte d'El-Rei morreram principaes Ruy Mendez Cerveira, aposentador-mór
d'El-Rei, e Fernão de Sá, alcaide-mór do Porto, e João Rodriguez
Toscano, e assi alguns bons com outra gente de baixa condição, que
fariam numero de até XXV.



CAPITULO CXXIII

     _Da maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como foi
     vilmente tratado e soterrado_


O corpo do Infante jouve todo aquelle dia sem alma descuberto no campo á
vista de todos, e sob a noite o lançaram homens vis sobre um pavés, e o
metteram hi logo em uma pobre casa, onde entre corpos já vazios d'almas
e fedorentos, jouve tres dias sem candea, nem cobertura nem oração, que
por sua alma publica se dissesse nem ousasse de dizer, o que foi grande
prasmo e vituperio da casa real; porque a honra e acatamento que ali se
devia, já não era do Infante morto sem sentido, mas era propria dos
vivos que lhe fizessem, e da principal culpa de se isso assi fazer,
El-Rei por sua mocidade e poucas experiencias passadas foi justamente
então relevado, mas foi attribuida aos velhos e principaes da côrte,
imigos do Infante, porque El-Rei n'aquelle tempo em tudo se governava;
porque como lisongeiros e bafejados da fortuna, lhe faziam crêr que esta
fôra batalha perigosa e campal, e de grande honra sua, em que por sinaes
de victoria e triunfo, e por enxalçamento maior de seu estado, e por
cerimonia acostumada convinha jazerem assi os corpos no campo da rota,
das vidas e sepulturas privados, aniquilando em comparação d'esta a
famosa batalha de Farsallia, em que Julio Cesar venceu Pompeo, e a de
Canas, em que os romanos foram d'Anibal com tanto estrago vencidos. E
isto não se fazia por honra nem estado d'El-Rei, pois claramente era
magoa de sua corôa, e publico abatimento de seu sangue, mas ordenavam-no
assi seus imigos por acrescentar no cume da desordenada vingança.



CAPITULO CXXIV

     _Exclamação á morte do Infante D. Pedro_


Ó inconstante fortuna, quão secreto segredo é o de tua variavel condição
e semelhança de grande poder! Quem se fiará de ti, quem não haverá medo
de ti, pois aquelles que com moderados giros allevantas no mais alto
gráo da honra e da gloria, esses com apressadas voltas trocas e derribas
em profunda pena, em deshonra mortal: os que hoje por tua ordenança
fazes ricos, estimados, e grandes senhores, de manhã por tua desordem os
tornas logo pobres abatidos em semelhança de servos, para cuja prova
para que são outros passados e mais antigos exemplos senão este
presente, lembrando-vos quem foi este excellente Infante D. Pedro, e
agora vermo-lo jazer onde jaz; porque sendo Principe de tamanho estado,
virtudes e grandeza, herdado de tantas terras e senhorio, e dotado de
muitas mais bondades e virtudes, e sendo filho legitimo d'El-Rei D.
João, Rei no mundo tão glorioso vencedor e nunca vencido, que por seu
braço e esforço defendeu e acrescentou estes reinos, e parecia que tu,
fortuna, por isso o servias e acatavas, e agora já não sómente vimos que
o desconheces, mas ainda na propria patria em que nasceu e que honrou
lhe denegas uma pouca de terra em que o metam, e um pedaço de panno
grosseiro com que o cubram; hontem sendo vivo o serviam e honravam com
razão grandes senhores, e hoje não acha quem morto o enterre, se não
servos e pessoas mui vis.

Ó enganosa fortuna ou alguma outra força oculta; porque a este descreto
e mui prudente Infante cegastes seu tão claro entendimento e limpo
juizo, com que não entendeu o perigo de sua honra, e vida, e fazenda em
que se meteo, e vós Infante D. Pedro como não apartastes com vosso siso,
devoção, prudencia e lealdade de nevoas de tanta contradição, e a vossa
vida e limpeza tão suspeitosas e contrairas; porque não tomastes a
longura do tempo por cura de vossas paixões, e seguro remedio de vossos
feitos, pois estava em vosso poder, e se havieis que recebieis evidentes
agravos e injustas perseguições, causadas contra vós do odio de vossos
imigos, que vos faziam n'estes derradeiros dias avorrecer a vida, e por
maior honra e descanso vosso desejar a morte como dizeis; porque vos não
lembrava para a escusardes, que com ella havieis de necessidade matar e
desterrar e destruir vossa mulher e filhos, e os nobres mui honrados
amigos, criados e servidores que tinheis, e vos haviam de seguir,
despensareis com vossa morte paixões e trabalhos por dardes a estes
vida, segurança e descanso, pois o penhor e remedio d'isto era sómente
viverdes, e vossa morte havia de ser o contrairo.

E tu fortuna imiga da razão e piedade com tua crueza assi o executaste;
porque logo se viu o triste Infante sahir-se em Coimbra dos paços em que
vivia, e sem algum resguardo de sua honra e estado, com medo da morte
duvidosa, anda-la procurando certa pelas casas pobres e alheias, de
maneira que fugindo crueza, parecia que a pedia avorrecendo piedade;
vimos de seus filhos, D. James logo preso aparelhado para o cutello, e
D. Pedro o maior fugido e desterrado em Castella, pedindo esmollas a
quem já fizera mercê, e outros por escapar suas vidas vimos ir
escondidos e mudados por terras estranhas, encobrindo com habitos e
sinaes de pobreza suas mui nobres pessoas, que o real e mui alto sangue
de que descendiam, em honra, abastanças e estado criara; vimos logo seus
amigos, criados e servidores, uns mortos e outros presos e desterrados,
e todos de suas honras, favores, officios, beneficios, rendas e
patrimonios sem alguma misericordia de todo privados.

Ó mui excellente Rei D. Affonso, onde estava vossa piedosa humanidade,
onde se escondeu n'este passo vosso singular agardecimento, grande
prudencia, e mui alto saber! Ó Divina Providencia! Ó Virtudes
Celestiaes, pois com mãos não avaras os XVII annos d'este glorioso e
mancebo Rei, n'este tempo dotastes de mais perfeições e bondades d'alma
do que a outros Principes de muitos mais annos fizestes; porque tambem
lhe não allumiastes seu mui angelico entendimento, com que perfeitamente
conhecesse os falsos erros e claros enganos em que seus apassionados
servidores e conselheiros n'estes feitos o traziam emlheado e cego por
tal, que do conhecimento d'esta verdade e limpeza, que nunca foi
conhecida, se evitara a morte e perda de um tão perfeito e innocente
Principe, que a elle mesmo Rei sobre todos era proveitoso e mais
necessario, pois não é de duvidar que sua vida fôra sempre um forte
freio e certa conservação da corôa e patrimonio real de seus reinos, e
sua morte havia de ser o que foi redea solta de sua desolução e
encurtamento! Ó duque de Bragança e conde d'Ourem vosso filho; porque
contra o Infante D. Pedro quizestes ser, e fostes principaes movedores e
sós capitães d'esta feia e dorosa empresa!

Não foi certamente por hereje nem máo christão; porque suas obras o
aprovavam por mui catholico e amigo de Deus. Nem seria por injusto nem
incorrecto nas cousas da justiça, pois n'ella sua balança sem odio nem
affeição foi sempre mui egual e direita. Nem prodigo e destruidor do
thesouro e fazenda real, pois aproveitou e governou sempre com singular
provisão e muita temperança. E se alguma cousa da corôa real tomou e
emlheou para ser culpado, não foi para si nem seus filhos, mas foi
sómente a que a vós e cousas vossas deu, nem seria por ser de fraco
coração e não desposto para defensão dos reinos que regeu, pois sabeis
com quanto esforço, deligencia e ousadia sempre os defendeu,
procurando-lhe sempre paz e justiça, e nunca guerra nem torvação, pois
certamente menos devera ser por desleal, ou por se sentir n'elle como
tyranno alguma vituperada cobiça e danado desejo para reinar, segundo ao
novo rei e a seu povo, para sua maior indinação fizestes entender, pois
a todos foi notorio que não sómente se não achou contra elle culpa,
porque verdadeiramente assi parecesse, nem se podesse bem conjecturar,
mas ainda está claro, que durar a vida d'El-Rei tanto tempo em seu
poder, e procura-la sempre com tanto amor e cuidado juntamente com sua
mui real e perfeita creação o relevam contra si de semelhantes
maginações, e de todo o alimpam d'esta errada suspeita, cá por suas
muitas virtudes e grande lealdade teve como era razão a vida, saude e
estado d'El-Rei em tanta veneração e resguardo, que álém de se conhecer
que sobre todalas cousas o amava, ainda parecia que o adorava, e se em
seu coração entrara proposito tão reprovado, elle ou secreta ou
artificialmente o privara da vida, para que teve largo tempo e boa
disposição, ou o fizera criar e criara em tanta torpeza e danados
costumes, com que não podendo os máos leixar nem dos bons aprender, se
fizera para si mais dino de privação que da governança e regimento de
nenhum reino, cujo defeito e indisposição causara requerer-se n'estes
outro novo regedor ou rei como já outras vezes se fez, mas não se póde
negar que El-Rei assi para Deus e para o mundo, como para si mesmo e
para seus reinos e vassallos, foi tão altamente criado e ensinado tão
perfeitamente, que a certidão d'isso que em sua real pessoa e mui nobre
coração por evidencia de obras claramente se mostrava, fazia que nos
reinos estranhos por sua louvada fama fosse desejado por seu proprio
Principe, e nos seus proprios servido e adorado por Rei; e porque o
Infante D. Pedro tal o criou, bem se viu que por tal o amou e serviu sem
alguma sua quebra nem defeito, usando seu officio de regente com tanta
perfeição e cumprimento, que mais pareceu que acceitara tal cargo para
sua pena e trabalho, mais que para sua gloria nem descanço, cujo
galardão devera ser outro e não este que lhe procurastes, cá vos
leixaste guiar d'odio, inveja e cobiça, com que lhe causaste a morte tão
vituperada com tamanhas maguas em sua limpeza; mas porque com isto a
bondade e justiça de Deus foi claramente offendida, elle como justo e
poderoso que é, não permittiu que tamanha culpa ficasse sem grave pena e
justa vingança, pelo qual sua severa justiça e profundo saber, a que
nada s'esconde ainda que fosse por tempos e passos tão vagarosos, quiz
por castigo d'este e por enxemplo d'outros, que qual de vós irmãos
infante e duque, em tantos males, mortes e desaventuras um ao outro
tivesse a culpa, o neto do innocente, no neto do culpado com deshonrada
e mortal pena de sangue egualmente a vingasse e justificasse depois, e
assi se fez, como d'esta triste e espantosa execução depois de muitos
annos passados a praça d'Evora foi publica testemunha, segundo em seus
tempos e logares está mais declarado.

E acabados os tres dias o corpo do Infante por homens de prema, e com
consentimento d'El-Rei foi levado em uma escada á egreja d'Alverca, onde
porentão foi vilmente e com grande desacatamento soterrado; porque
depois houve outras sepulturas, e com grandes cerimonias e solemnidades,
como ao diante se dirá.



CAPITULO CXXV

     _Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro_


O Infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor
entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve,
homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de
poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco
moles, os cabellos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos
como inglez; seu andar a pé era vagaroso e com grande repouso, suas
palavras eram graciosas, com doce orgão de dizer, e nas sentenças mui
graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui
temerosa, e porém não lhe durava muito, cá por siso ou condição natural,
logo se lembrava de mansidão e temperança; foi algum tanto culpado em
credeiro e vingativo, ainda que o desejo da vingança pareceu que não foi
n'elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em
sua mão, que para sua vida fôra mui segura e necessaria.

Suas roupas e trajos e maneira de viver, foram sempre de homem honesto,
prudente e grande autoridade, e de moço até idade de LVII annos, em que
acabou, sempre foi muito catholico temente a Deus, e de grande oração, e
fez muitas esmolas. Honrou muito as pessoas ecclesiasticas a que sempre
se escusou dar suas mãos a beijar, nem consentio estararem em giolhos
ante elle.

Foi mui temperado em todolos autos da carne. Nunca se soube ter com
alguma outra mulher carnal affeição, salvo com a sua propria, que
legitimanente recebeu, com que ainda usava de grande temperança, cá como
devoto e mui continente se apartava d'ella em todolos dias de jejuns, e
dias outros solemnes da Egreja. E nas quaresmas com as roupas que de dia
trazia, com essas de noite se lançava sempre vestido sobre palha, sem
outra roupa nem cama ordenada; cada dia por sua devoção rezava as Oras
Canonicas segundo custume romão, com outras muitas orações em que tinha
devoção. Foi muito devoto do Arcanjo S. Miguel, por cuja devoção touxe
por divisa as balanças; porque em sendo moço em uma doença que teve, foi
de todos julgado por morto, e por um Martim Gonçalvez, capellão d'El-Rei
seu padre foi assi levado ao altar da capela de S. Miguel, que está nos
paços de Lisboa, a que foi devotamente encomenda-lo, d'onde
milagrosamente logo retornou com vida e saude, em cuja memoria e por sua
singular gratificação, com suas despesas proprias mandou fazer nos dias
que viveu casas e obras muitas piedosas, assi como a egreja da cerca de
Penella, e S. Miguel d'Aveiro, e o mosteiro de Santa Maria da
Misericordia, que deu á ordem de S. Domingos, e a egreja de Tentugal com
outras.

Fez sempre uma mui louvada profissão do tempo, que nunca em seus dias
lhe passou sem beneficio ou louvor; teve para todalas cousas horas
certas e limitadas que nunca traspassou; deu a casa de Santo Eloy de
Lisboa, em que jaz o Bispo D. Domingos Jardo, aos clerigos da ordem e
regra de S. João Evangelista.

Foi Principe de grande conselho, prudente, e de viva memoria, e foi bem
latinado e assaz mistico em sciencias e doutrinas de letras, e dado
muito ao estudo; elle tirou de latim em linguagem o regimento de
Principes, que Frei Gil Correado compoz, e assi tirou o livro dos
Officios de Tullio, e _Vegecio de Re Militari_, e compoz o livro que se
diz da _Virtuosa Bemfeitoria_ com uma confissão a qualquer christão mui
proveitosa. E foi mui justo, de que lhe veiu sempre avorrecer os máos, e
fazer bem aos bons.

Foi muito verdadeiro e mui constante, e de mui claro entendimento; foi
liberal com medida, e assi caçador e monteiro com temperança; porque o
estudo em que se mais deleitava o privava de semelhantes prazeres; fez
primeiramente usar que os Reis e Principes n'estes reinos comessem em
publico, e fossem em suas mesas acompanhados, o que d'antes não faziam,
cá pela mór parte sempre comiam retraidos; dizendo elle que suas mesas
deviam ser escollas de sua côrte, para que costumava mandar lêr
proveitosos livros, e ter praticas e disputa, de que se tomava muito
ensino e doutrina.

Tirou as aposentadorias de Lisboa, e ordenou os estaos que deu causa a
grande ennobrecimento da cidade, e assi fez outras muitas obras boas, e
proveitosas ordenanças para o reino.

Porque sua alma recebera de Deus o galardão, pois em sua vida este mundo
lhe foi tão ingrato.



CAPITULO CXXVI

     _Do que a Rainha fez com a nova da morte do Infante seu padre_


A Rainha D. Isabel mulher d'El-Rei e filha do Infante D. Pedro ficara em
Santarem, onde em breve lhe foi dada a triste certidão da morte de seu
padre, que ella com publicos sinaes de mortal dôr muito sentio e chorou,
e não como alheia mas como sua propria morte, e não era sem causa;
porque em caso que não houvesse n'ella tantos dias nem tão madura edade,
de que se esperasse perfeito conhecimento nas cousas, era porém
naturalmente abastada de muita discrição e prudencia com que sentiu bem,
que álém da grande perda que na privação de seu padre, não sendo vivo
recebia, ainda sua vida com morte antecipada se dispunha a claro perigo
como foi, e sobre tudo lhe dava mór tormento parecer-lhe que os imigos
do Infante seu padre teriam com sua morte mais coradas causas a
aprivarem e apartarem El-Rei seu Senhor d'ella, pois ante d'isto e sem
alguma razão com grande instancia já o procuravam, como atraz fica.



CAPITULO CXXVII

     _Como a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e do
     que se fez de seus filhos_


A Infante mulher do Infante D. Pedro era em Coimbra, onde sendo salteada
com a nova triste de sua morte e da prisão de D. James seu filho,
desejando achar quem logo a matasse, andava sem algum acordo de mosteiro
em mosteiro, e por casas alheias, não por escapar sua vida que já
avorrecia, mas por escusar á morte e prisão d'outros seus filhos que
comsigo trazia, e não sem muitas lamentações e grandes prantos seus, e
de muitas pessoas que a seguiam e acompanhavam.

Ficaram do Infante estes filhos, a Rainha D. Izabel mulher d'El-Rei, e
D. Fellipa, que ella já trazia em sua casa em edade de sete annos, a
qual não foi casada, e sem obrigação de religião, viveu e acabou mui
honesta e santamente no mosteiro d'Odivellas, onde jaz, e o Senhor D.
Pedro seu filho maior, que depois sem casar morreu em Barcellona,
intitulado Rei d'Aragão, e D. James que depois foi Arcebispo de Lisboa e
cardeal em Roma, e jaz mui honradamente sepultado em Florença, e D. João
que morreu casado intitulado Rei de Chipre, e D. Briatiz que foi
honradamente casada em Borgonha pela duqueza sua tia com Monseor de
Cleves, de que nasceu o Filipe Monseor que foi lá Gram Senhor.

N'esta peleja foi preso D. James filho do Infante, e com elle muitos
fidalgos e outra nobre gente do Infante, com que El-Rei acerca de suas
solturas se houve com aquella nobreza e piedade que de tal Rei sobre
victoria se esperava. E pelos ditos e testemunhos dos presos, foram logo
tiradas inquirições sobre as culpas de desleal em que culpavam o
Infante, e mais buscados para isso os cofres de suas escrituras, que no
arraial foram tomados, e finalmente contra elle não se achou outra
cousa, que com razão magoasse sua limpeza e bondade, salvo represando
errado juizo por não obedecer ao conselho de se não mover de Coimbra e
seguir opinião tão errada, como foi partir-se d'ella, onde se esperava
era de crêr, que seus feitos andando o tempo tiveram bom remedio, e sua
vida e honra receberam segura salvação.



CAPITULO CXXVIII

     _Como os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da
     Rainha, e quão virtuosamente El-Rei o fez com ella_


El-Rei cumpriu alli no campo os tres dias, que para cerimonia do
vencimento da batalha lhe fizeram crêr que eram necessarios, acabados os
quaes despediu alguma gente do seu arraial, e com os Infantes, duque, e
condes e prelados, e com outra muita e mui nobre gente, partiu para a
cidade de Lisboa, onde foi mui altamente e com grande triumfo recebido,
e alli por causa ainda do Infante se fez justiça crua d'alguns e mui
innocentes.

E os imigos do Infante D. Pedro consirando no muito amor e grande
affeição que El-Rei tinha á Rainha sua mulher, e no muito maior que ao
diante com razão lhe poderia ter, com que o provocaria sempre para
vingança e destruição sua, logo como viram a morte do Infante, lhe
conselharam e requereram, que para segurança de sua vida, bem e
assessego de seus reinos e vassallos se quitasse d'ella como de imiga, e
já suspeita á sua real pessoa, e houvesse outra mulher, cá para Deos e
para o mundo o podia e devia fazer. Allegando-lhe para isso muitas
causas e razões que pareciam boas e necessarias, para cuja aprovação não
falleciam autoridades e direitos, nem menos theologos e letrados
induzidos que o confirmavam. Mas El-Rei em que havia bondades reaes e
mui sã consciencia, e que nas virtudes e amor da Rainha tinha mui gram
confiança, não deu a isso consentimento, antes para magoa e desfavor dos
que tamanho erro lhe aconselhavam, o que elle muito estranhou, a mandou
logo visitar e aconsolar a Santarem, e escusar-se com palavras de muito
amor de a não ir vêr, e pedir-lhe que ella por si mesma o fizesse.

E com esta visitação de que a Rainha estava desesperada foi em sua
paixão e tristeza mui satisfeita, e sem muito trespasso, sendo d'El-Rei
primeiro certificada do modo em que a elle pelo mais contentar iria, deu
logo ordem á sua partida; e ella com suas damas e casa, por accordo
d'El-Rei, se vestiu com uma honesta temperança de dó. El-Rei sahiu a
recebe-la, e d'elle e de toda sua côrte foi com tanto acatamento e tão
grandes cerimonias recebida, como até seu tempo nunca o foi outra
Rainha, e na vista e fala que ambos logo houveram, pareceram mostranças
de tanto prazer e contentamento, como se nunca entrevieram as
desaventuras passadas.



CAPITULO CXXIX

     _Como El-Rei fez aos Reis e Principes christãos uma geral
     notificação da morte do Infante, e das respostas que houve, e da
     embaixada do duque e duquesa de Borgonha, que sobre a morte do dito
     Infante e sua desculpa foi principal_


E porque esta morte do Infante nos reinos e terras estranhas parecesse
justa, hi logo em Lisboa firmaram os imigos do Infante uma instrucção
contra elle, assaz feia e mui difamatoria, que El-Rei por escusa e
justificação de sua morte enviou por seus messegeiros ao Papa e alguns
Principes christãos, cujas respostas não vieram conformes a sua tenção,
antes todos sem exceição, com apontamentos de muitos louvores e grandes
merecimentos do Infante, enviaram acerca de sua morte muito reprender
El-Rei, avisando principalmente as paixões particulares e enganos dos de
seu conselho, e escusando em alguma maneira sua pouca e não madura
idade, pois tinha razão de se reger e governar por elles.

E porém El-Rei deu logo Guimarães ao duque de Bragança, que sempre
requerera e lhe fôra denegado pelo Infante D. Pedro, e quizera haver a
cidade do Porto, a que se seus cidadãos não resistiram, já a vontade de
El-Rei era inclinada, e por esta maneira deu a villa de Portalegre ao
conde D. Sancho, a que valeu a resistencia e leal porfia dos moradores.

E porém a principal embaixada que a El-Rei sobr'este caso do Infante
veiu, foi uma do duque Felipe de Borgonha e da duqueza D. Isabel sua
mulher, irmã do Infante D. Pedro, em que veiu por embaixador o Daião de
Vergi, que com muitas causas e razões fundadas em razão e direito, o
enviaram escusar e aprovar sua innocencia e limpeza e pedir para seu
corpo a sepultura que lhe El-Rei D. João, seu padre, em sua real capella
ordenara, e assi que se não negasse para sua mulher e filhos e criados
amparo e piedade, a que pedio que fossem restituidas suas honras e
fazendas.

E como quer que o effeito d'este requerimento, por contemplação do duque
e de seu filho foi algum tempo suspenso, porém não tardou muito que por
elle D. James se soltou, e se foi a casa da dita duquesa sua tia, e de
sua mão enviado a Roma, onde pelo Papa Callisto foi feito Cardeal do
titulo de Santo Estaço, e após elle foi D. Briatiz sua irmã, que a
duquesa com muita honra lá casou, como atrás já brevemente fica tocado.

E porque na primeira denegação que El-Rei fez á sepultura do Infante o
dito embaixador requereu que lhe mandasse dar seus ossos para os levar a
Borgonha, onde a duquesa sua irmã lhe daria sepultura honrada e
merecida, receoso El-Rei de os furtarem da egreja d'Alverca, onde
devassamente jaziam, os mandou tirar e levar ao castello d'Abrantes,
cuja guarda e segurança encomendou a Lopo d'Almeida, que depois foi
primeiro conde d'Abrantes.



CAPITULO CXXX

     _De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque_


E no fim d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, certos
moços christãos por travessura fizeram algum mal, ou sem razões a alguns
judeus que andavam na ribeira de Lisboa, sobre que se agravaram á
justiça e ao doutor João d'Alpoem, que era corregedor, o qual provendo
sobr'isso, mandou publicamente açoutar alguns d'elles, de que algum povo
meudo e a voltas d'elle outras gentes que eram na cidade, assi se
escandalizaram dos judeus, que sem mais outro acordo nem conselho, antes
com grande onião e alvoroço, dizendo _matalos e roubalos_, cometeram a
judaria pela porta que vem ao poço de Fotea, e a roubaram toda até o
Poio, em que dos judeus que supunham em resistencia houve alguns mortos,
ao qual insulto logo acudiram com muita força os officiaes da justiça, e
principalmente D. Alvaro conde de Monsanto, que com suas forças
atalharam o mais roubo e dano que se determinava fazer.

Foi El-Rei d'isto logo avisado por Pero Gaçalvez seu secretario, estando
já com a Rainha na cidade d'Evora. E pedido com grande instancia, que a
esta necessidade em pessoa quizesse prover, porque os rumores e
alvoroços eram já taes na cidade, a que sem sua pessoa não se esperava
resistir, á qual cousa El-Rei veiu em pessoa, e de muitos que pelo mesmo
caso achou presos, mandou fazer publicas justiças, de que contra sua
real pessoa se alevantavam oniões tão irosas, que houve por bem cessar
de fazer mais cruas execuções; porque prendiam e puniam principalmente
as pessoas, em cujas mãos as cousas do roubo por qualquer maneira se
achavam; porque muitos que as não roubaram innocentemente padeciam.



CAPITULO CXXXI

     _De como foi o casamento da Inperatriz D. Lianor irmã d'El-Rei com
     o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram_


Tornou-se El-Rei a Evora, e na entrada do anno de mil e quatrocentos e
cincoenta, houve cartas do Imperador d'Allemanha Frederico, que então se
chamava Rei dos romãos, porque lhe prazia casar com a Infante D. Lianor
sua irmã, segundo que fôra já apontado e requerido por El-Rei D. Affonso
Rei de Napoles e d'Aragão seu tio d'ella, sobre a qual cousa El-Rei veiu
ter côrtes geraes em Santarem, em que foi acordado que o dito casamento
se fizesse, para cujo dote o reino com pedidos satisfaria o que fosse
razão e se concordassem.

Foi logo para isso ordenado por embaixador o doutor João Fernandez da
Silveira, homem fidalgo prudente e grão letrado, que depois foi o
primeiro barão d'Alvito. O qual no mez de Junho do dito anno se partiu e
foi á côrte do dito Rei de Napoles, onde com os embaixadores e
procuradores do Imperador, que para o caso eram hi vindos, o dito doutor
por meio do dito Rei a que tudo ia cometido, concertaram o dito
casamento, de que fizeram autenticos contratos, e assinaram tempo certo
a que o dito Imperador enviaria sua embaixada com seu suficiente
procurador, para em seu nome receber por mulher a dita Infante, que
havia de ser na entrada do anno que vinha de mil quatrocentos e
cincoenta e nove, e logo levada a Allemanha. Da qual cousa sendo El-Rei
logo avisado, se foi com sua côrte a Lisboa, onde entrou a uma quarta
feira XXIII de Junho, que por acertamento foi bespora do Corpo de Deos e
de S. João juntamente, onde quiz que o dito recebimento e entrega se
fizesse com grandes e reaes festas, para que fez grandes provimentos e
deu muita pressa.

E os embaixadores do Imperador que eram dois, tardavam já mais tempo do
que fôra concordado, e a causa d'isso foi, porque em Castella no caminho
de Santiago, a que vieram em romaria, foram roubados e deteudos, os
quaes topou em seu destroço em Portugal, na Arrifana de Santa Maria,
Afonso Nogueira, Bispo de Coimbra, que d'hi a pouco tempo logo foi
Arcebispo de Lisboa, os quaes ambos eram homens de ordens sacras e
letrados, um se dizia confessor do Imperador e outro seu capellão, e
vendo Affonso Nogueira sua necessidade, e que não vinham em auto e
habitos como cumpria a embaixadores de tamanho Senhor e que tão alto
casamento haviam de fazer, determinou indo á mesma romaria de Santiago
se volver com elles, a que com suas despezas, prata e cama e servidores,
mandou servir e prover com muita nobreza e em grande cumprimento, e em
Coimbra fez comprar muitos pannos finos, de que a elles e aos seus
mandou fazer de vestir, segundo ás pessoas de cada um pertencia. E com
elles leixou hi todo provimento com que de seu vagar se fossem a Lisboa,
para onde elle se adiantou; porque avizasse El-Rei do que lhe cumpria, e
logo ao caminho se tornou aos ditos embaixadores, com que foi por Villa
Franca, onde o Infante D. Anrique os recebeu com festas e mui
manificamente, e foram dormir ao Lumiar quinta feira trinta dias do mez
de Julho do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e um, e ao outro
dia foram recebidos de toda a côrte e cidade com muita e mui nobre
gente, e de caminho foram decer aos paços d'Alcaçova. Em que El-Rei na
sala grande, que para isso estava em grande perfeição aparelhada, os
recebeu assentado em sua cadeira triunfante, posta em seu estrado real,
acompanhado de muitos senhores e fidalgos como o auto requeria, e
aquella hora não foi mais que d'encomendas e visitações, com as quaes
feitas se despediram e foram aposentados nos estaos do Rocio onde lhe
foram aparelhadas as casas necessarias como a taes pessoas cumpria. E
assi lhe foram ordenados mantimentos e provisões, e outras cousas de
graça em muita abastança.

E os ditos embaixadores repousaram alguns dias, dentro dos quaes depois
de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assi os poderes
que traziam para o fazer, o recebimento entre a Imperatriz e o
procurador do Imperador se ordenou de fazer, e fez solemnemente por
palavras de presenente nos paços do duque, que são junto com S.
Cristovão, a um domingo IX dias de Agosto de mil e quatrocentos
cincoenta e um, ao qual foram El-Rei, e o Infante D. Fernando seu irmão,
e o Infante D. Anrique seu tio, e condes e perlados e muitos nobres
senhores, e assi foi a Rainha com a Infante D. Joana, e com muitas
outras donas e donzellas de grande condição.

E por honra e memoria d'aquelle dia depois do casamento acabado, a
requerimento da Imperatriz e dos embaixadores, outorgou El-Rei dificeis
perdões de mui rigorosos casos, e fez quita de grandes dividas, que para
outras pessoas particulares lhe foram requeridas. E houve aquelle dia
convite real de vinhos e fruitas em uma notavel perfeição, e assi muitas
danças e festas em toda a noite. E depois em todolos dias que a
Imperatriz esteve na cidade ante de sua partida houve sempre mui
suntuosos banquetes, em que d'El-Rei e da Rainha foi muitas vezes
convidada, e assi os embaixadores e Infantes, como em ricos momos que o
Infante D. Fernando por si fez, e outros de muito mór riqueza e singular
invenção, que o Infante D. Anrique mandou fazer, com outros de muitos
senhores e fidalgos, e sobre todos o d'El-Rei, em que desafiou os
cavalleiros para as justas reaes, que manteve na rua Nova, com condições
mui excellentes e de grande gentilleza, e assi propostos grados e
empresas mui ricas para quem mais galante viesse á tea e assim melhor
justasse. A que o Infante D. Fernando veiu com seus ventureiros vestidos
de guedelhas de seda fina como selvagens, em cima de bons cavallos
envestidos e cubertos de figuras e côres d'alimarias conhecidas, e
outras diformes, e todas mui naturaes, e o Infante D. Fernando por
melhor justador venceu então o grado, que foi uma rica copa de que fez
logo mercê a Diogo de Mello. E assi vieram outros seis ventureiros do
Infante D. Anrique ricos e em bôa ordenança, e após elles outros muitos,
que no primeiro dia e em outros quatro que El-Rei manteve justaram, em
que se fizeram notaveis e maravilhosos encontros. E depois das justas
houve touros, e canas e mais momos e banquetes e muitos entremezes de
grandes invensões, e com muita custa.



CAPITULO CXXXII

     _Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com
     ella foram_


E finalmente sendo já todalas pessoas ordenadas, e navios e cousas
prestes para a partida da Imperatriz, uma segunda feira XXV dias
d'outubro ante de embarcar e se meter no mar, ordenou El-Rei que fossem
todos ouvir missa á Sé, para onde El-Rei foi diante com a Imperatriz, e
após elles a Rainha, e com ella o Infante D. Fernando, e logo a Infante
D. Caterina que levava o Infante D. Anrique, e após ella a Infante D.
Joanna com que ia o marquez d'Ourem, e estas pessoas reaes foram todas a
cavallo, e a outra gente que era muita e mui nobre, assi homens como
mulheres foram todos a pé.

E como entraram na Sé a Imperatriz se foi á cortina d'El-Rei, e com ella
as Infantes suas irmãs, El-Rei se foi para a da Rainha, que por ser
prenhe e ter na emprenhidão fortes accidentes se retraiu a uma capella
da charolla em que ouviu missa.

Foi a principal missa dita em Pontifical e mui solemne, e com pregação á
partida e auto consoante, acabada a qual, e dada a benção pelo Bispo de
Ceuta com muita solemnidade e devoção á Imperatriz, abalaram todos até á
porta da Sé, d'onde a Imperatriz com muitas lagrimas se despedio da
Rainha que não pôde mais ir, e de hi El-Rei com todolos outros senhores
e senhoras se foi com a Imperatriz a pé, até o cais da Ribeira, em que
era feita uma ponte de toneis, porque entraram em uma carraca que para
ella se armou e concertou em grande perfeição.

E á primeira era ordenado que com ella fosse o Infante D. Fernando, e
elle o desejou e procurou assi pela acompanhar mui honradamente, segundo
a pessoa que era, como por ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio
que muito desejava. E em fim El-Rei o não houve por bem, e foram com
ella o conde de Ourem, que então fôra feito novamente marquez de Valença
de Minho, e a condessa de Villa Real a Velha com muitas donas e
donzellas, e o Bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho, e Lopo d'Almeida, e
Pero Vaz de Mello, regedor da casa do civel de Lisboa, e Alvaro de
Sousa, mordomo mór, e Affonso de Miranda, e Gomez de Miranda, e Gomez
Freire, e João Freire, e D. Diogo de Castello o Velho, e Fernão da
Silveira, e Martim Mendez de Berredo, e outros muitos cavalleiros a que
então foram ordenadas quinhentas e oitenta emcavalgaduras, e para sua
embarcação levaram duas carracas e seis náos, e duas caravellas; e
porque depois da Imperatriz ser embarcada sobrevieram ventos contrairos,
ella sem sair da carraca esteve no porto sobre ancora muitos dias; e
porém como Deos deu vento de viagem, partiram de Lisboa e foram a Ceuta
a cinco dias de Dezembro.

E a Imperatriz com todos sahiu em terra, e foi de pé em romaria a Santa
Maria d'Africa. Era então capitão de Ceuta o conde D. Sancho, que com as
festas que pôde lhe fez muito honrado recebimento, e deu banquetes na
terra, e assi muito refresco para o mar. E d'hi fizeram vella, e
passaram ao mar grandes e perigosas tromentas, e em fim aportaram a
salvamento em porto Liorne, junto com Pisa, bespora de Santa Maria
Candelaram, primeiro dia de Fevereiro.



CAPITULO CXXXIII

     _Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida, e
     assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma_


E dos moradores da cidade de Pisa em que entrou foi altamente recebida,
e foi a tempo que o Imperador esperando já por ella estava em Italia na
cidade de Sena; d'onde logo enviou a ella o duque de Saxim e dois condes
e quatro barões, e algumas outras senhoras d'Allemanha, e tambem Eneas
Silvio, que então era bispo da dita cidade de Sena, e depois foi
Cardeal, e tambem Papa chamado Pio segundo, com que de Pisa veiu com
grande honra até a dita cidade de Sena, em que entrou a primeira quinta
feira da quaresma. D'onde sahiu logo fóra o duque Alberto, irmão do
Imperador, e depois El-Rei d'Ungria, moço acompanhado de rica e mui
nobre gente, e o Imperador a esperou á porta da cidade da parte de
dentro, acompanhado de dois Cardeaes, todos a pé, e a Imperatriz se
deceu, e lhe quizera beijar a mão, e elle não quiz.

E depois de suas falas e arengas publicas, que por oradores alli se
fizeram, se foram ás pousadas, onde por memoria d'esta primeira vista no
proprio logar em que se primeiro viram está uma coluna de marmore mui
alta com o escudo Real de Portugal, que o dito doutor João Fernandez da
Silveira, embaixador, que era presente, mandou fazer.

E depois de se alli em Sena fazerem muitas festas e prazeres por alguns
dias, o Imperador e Imperatriz partiram para Roma, onde tinha o Sumo
Pontificado o Papa Nicoláo quinto, que depois de o Imperador fazer
certos juramentos e solenidades, a que os Imperadores de Roma são
obrigados, os mandou receber com o Collegio dos Cardeaes, e com toda a
côrte romana, que é a mór honra que se póde fazer. Entraram a nove dias
de Março do anno seguinte de mil e quatrocentos e cincoenta e dois. E da
porta da cidade onde os veiu receber uma solemne procissão, foram logo
decer á Igreja de S. Pedro, onde o Papa nos degráos da porta principal
os veio receber, e depois de lhe beijarem o pé, e fazerem o divido
acatamento, o Papa com grande alegria e muita honra os levou dentro ao
altar de S. Pedro, onde depois de fazerem oração se tornou com elles ás
portas, d'onde por aquelle dia se despediram para as pousadas.

E aos quinze dias houve missa papal em S. Pedro muito solene, a que o
Imperador e Imperatriz estiveram, e alli o Papa lhes fez as benções que
a Santa Egreja aos novos casamentos ordena; porque sem isso houveram por
bem que o matrimonio entre elles se não consumasse nem consumou, salvo
em Napoles depois da quaresma toda passada; porque assi o tomaram por
devoção.

E aos vintoito dias do dito mez no fim da outra missa do Papa, elle com
grandes solemnidades e maravilhosas cerimonias, por suas mãos em S.
Pedro os ungio e coroou, e hi com grandes triunfos foram sem o Papa
levados a S. João de Latrão, e ao passar da ponte de Santangello, indo
de caminho fez o Imperador cavalleiros o duque Alberto seu irmão, e
El-Rei d'Ungria seu sobrinho, que vinham com elle. E assi outras muitas
pessoas de grande valor. E ao outro dia tornou a fazer outros em S.
Pedro ao pé da veronica, em que foi o dito embaixador João Fernandez,
que depois foi o primeiro barão d'Alvito como já disse. Acabadas as
quaes cousas o Imperador e a Imperatriz ante de se irem para o imperio,
a XXVII dias de Março partiram para Napoles vêr El-Rei D. Affonso, que
em bespora de Pascoa lhe fez tão ricos e suntuosos recebimentos e
festas, que com razão por sua grandeza, nobreza, e manificencia apagaram
a memoria de todolos excellentes, que até seu tempo se fizeram, e d'alli
tornaram outra vez junto com Roma, e de hi fizeram seu caminho para
Allemanha, e d'este Imperador e Imperetriz nasceu Maximiliano, que
depois da morte de seu pae foi Rei dos romãos.



CAPITULO CXXXIV

     _Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando
     secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles_


A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e
pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. João, e em menino
logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se
chamou Princesa até o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e
cinco, em que o Principe D. João nasceo, e depois se chamou Infante, e
falleceu honestamente sem casar nem obrigação de religião dentro no
mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de
mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos
cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu
irmão, segundo alguma opinião, teve com elle alguns requerimentos a que
El-Rei, segundo sua vontade não satisfez. Pelo qual o Infante, ou
descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra
d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vêr El-Rei D.
Affonso de Napoles seu tio, que por não ter filho herdeiro legitimo,
tinha esperança que o dotaria por filho para sua sobcessão, determinou
ir-se escondidamente d'estes reinos sem licença d'El-Rei, sendo já
casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez
Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigança
e dissimulação aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi
avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos
Innocentes, que é a terceira Oitava do Natal, e com elle sómente Nuno da
Cunha seu camareiro mór, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moços da
camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.

Não foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi
muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes,
avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o
Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, pôs o rostro em
Moura com mostrança d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado,
partiu logo para Mourão e d'hi porque não achou certo recado, partio
pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso até que chegou a Crasto Marim
onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.

E ante que da mudança do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse,
chegaram a ella por mandado d'El-Rei, João de Mello alcaide mór de
Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capitão de Ceuta
notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram
deligencia e trigança mandasse guardar o estreito, para que se o Infante
passasse como se presumia, em toda maneira até o avisar o detivesse.

Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas,
e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando,
estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram
uma gallé e uma caravela ambas juntas, e a galé era de um Peroso,
cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella
vinha o Infante após quem o cosairo vinha, já avisado de quem era, e
para o deter e não o leixar passar, se por ventura desviara a prôa de
Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi
em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com
João de Sousa sómente entrou na caravella e lhe beijou as mãos, e o
Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a
apousentar, e o conde fez quanto pôde pelo agasalhar e servir em todo
cumprimento e perfeição, e lhe entregou a vara da governança e capitania
da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mão e esforço por bem
empregada, não lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso,
depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que
foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de
concertar o assessego do Infante na gallé do cosairo, avisado bem de
tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D.
Anrique e toda sua côrte crendo que vinha alli o Infante, foram postos
em grande alvoroço, e os vieram receber á ribeira, e depois de o conde
lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razões evidentes,
e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por
escusado satisfazer á tenção do Infante, que era estar como fronteiro em
Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram
seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e após elles outros
muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe
dar fé, e o moverem logo para sua tornada.

E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por força uma
caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras
muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo
ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante
ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui
perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na
cidade morriam muito de pestenença, houve por bem faze-lo, sendo já
diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. João seus filhos,
que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns
dias.

E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava
anojado por uma sua filha já mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D.
Pedro seu irmão, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos então
falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o
Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o dó, e o conde para o fazer
lhe metteu por condição que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera,
de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com
elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e
fidalgos, e passaram logo á ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da
costa do mar até Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e
honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos
que lh'o pediam muitas mercês e esmolas.

E de Callez se foi a Crasto Marim, onde chegou quarta feira sete dias de
Fevereiro do anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, onde estava o
Infante D. Anrique, que no rostro e alegres mostranças com que logo
recebeu o Infante seu sobrinho e filho, e nas festas e avondanças com
que o tratou e os que com elle vinham, pareceu mui claro o grande e
verdadeiro amor que lhe tinha, e alli esteve o Infante D. Fernando oito
dias, nos quaes mandou fazer de vestir asi e a todolos senhores e
fidalgos que com elle vinham, de muitos pannos de sêda e de lã que em
Callez para isso mandou comprar.

E depois de se despedir do Infante seu tio se foi a Mertola, e d'hi a
Beja onde El-Rei o esperava, que foi aos XVII dias de Fevereiro, que era
a primeira sexta feira da quaresma.

Sahiu El-Rei tres legoas ao receber, em cuja vista elle e toda a côrte
receberam muita alegria. E assi foram fallando até á villa, d'onde por
mandado d'El-Rei sahiu muita gente a receber o Infante com muitas festas
e prazeres.

E d'hi a poucos dias El-Rei por satisfazer ao descontentamento do
Infante de que mais sua partida pareceu que procedera, lhe fez doação
das villas de Beja e Serpa e Moura.



CAPITULO CXXXV

     _Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa
     publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou_


E no Maio d'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, o Gram
Turco chamado Mafamede tomou por cerco a nobre cidade de Constantinopola
em Grecia, cabeça do imperio no Oriente, e a cidade de Pera com muitos
outros reinos e provincias de christãos de Europa e Asia, sendo Papa na
Santa Egreja de Roma Nicolau sexto, que de muito velho e anojado do caso
a que quizera prover, logo falleceu e sobcedeu em seu lugar o Papa
Calisto terceiro, de nação valenceano, em virtudes, saber, e esforço
homem mui singular, e com a dôr da perdição d'aquellas cidades e terras,
e aceso em um santo ardor de as cobrar, convocou e encitou para isso por
seus breves e messegeiros todolos Reis e Principes christãos. Entre os
quaes foi El-Rei D. Affonso, que como era Principe mui catholico e de
grande coração, e em que o real sangue para mais honra servia, sendo
ainda a Rainha viva, acceitou a empreza com promessa de servir a Deus
n'aquella guerra com doze mil homens por um anno á sua custa, para
execução do qual, em fazimento de navios e compras d'armas, e em outras
cousas a tal e tão longa viagem necessarias, fez grandissimas despezas,
não sem grandes lamentações do reino, e em fim El-Rei por então desistiu
d'aquella ida, assi porque lhe falleceu para isso muito dinheiro, como
porque o Papa Calisto falleceu, que deu causa aos outros Principes
christãos tambem desistirem. E assi juntamente porque foi certificado
que El-Rei de Fez sabendo de sua partida fóra de seus reinos se
aparelhava vir como veio sobre Ceuta; mas porque então achou a cidade
com mais força e maior segurança do que fez fundamento, alevantou o
cerco com proposito de logo tornar sobr'ella com mais artilharias,
engenhos, e poder.

E tendo El-Rei muita frota e gente prestes, para a empregar como dizia,
occorreram-lhe tres emprezas juntamente, a primeira era a necessidade
que tinha de prover e remedear aos males e roubos que n'este tempo os
francezes faziam no mar aos naturaes d'estes reinos, de que se os
mercadores a El-Rei muito querelavam. A segunda cumprir sua promessa
ácerca da guerra dos turcos, que já tinha publicada, e para que tinha
feito muitos percebimentos. A terceira a ida d'Africa, com fundamento de
tomar aos mouros algum lugar, com que de cercos e affrontas affrouxassem
Ceuta, e sobre todas tres teve conselho.

E a primeira de tamanha frota andar pelo mar á ventura, houveram que era
cousa duvidosa e não certa, e ainda com despeza e perigo. E a segunda de
seguir a empreza do turco não menos por escusada, pois El-Rei ficava
n'ella só, em que pela desegual comparação de poder que d'elle ao
contrairo turco havia, sem duvida se perderia.

E porém o marquez de Valença e alguns que o seguiram aconselhavam El-Rei
que esta sobre todas era razão que seguissem, pois o promettera e se
esperava por isso em toda a christandade, tendo ainda por mór e mais
forte contradicção, que devia ir por terra e não por mar, em cujo voto
foi de todos confundido, e alguns tiveram que a tenção do marquez em dar
e soster conselho de tantas contrariedades, não fôra se não por arredar
El-Rei da affeição da Rainha, de que se muito receava por causa da morte
do Infante D. Pedro seu padre, em que elle fôra o principal movedor. E
finalmente a terceira de passar em Africa se houve por melhor,
especialmente que presuppunha que El-Rei de Fez magoado de chagas novas,
que com sua passagem tomando algum lugar receberia, viria sobre El-Rei
que lhe daria batalha, e com ajuda de Deus o venceria, e porém as cousas
sobcederam logo no reino de maneira, que este desejo e determinação se
não pôde assi cumprir.



CAPITULO CXXXVI

     _De como a Rainha pariu o Principe D. João e d'outras cousas a que
     El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha
     D. Joanna com El-Rei D. Anrique de Castella_


E no mez d'Agosto do anno de mil e quatrocentos cincoenta e quatro,
estando a Rainha em Almeirim emprenhou do Principe D. João, e segundo El
Rei D. Affonso affirmou, á hora de seu concebimento a Rainha trazia em
um annel uma rica esmeralda, que por sua virtude especifica de guardar
castidade lhe quebrou no dedo, e ella lastimando-se da pedra, El-Rei a
confortou com esperança de cobrar por ella um filho, e assi foi.

E no anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco annos El-Rei se foi a
Lisboa, onde a Rainha acabou com elle, assi por intercessão do Papa e
d'outros Reis e Principes que sobr'isso tinham a El-Rei aficadamente
requerido, como principalmente por seu amor d'ella, que com devidas
exequias e cerimonias se désse ao Infante D. Pedro a sepultura que na
capela d'El-Rei D. João seu padre lhe fôra apropriada, e que seus ossos
fossem a ella trasladados com aquella honra e solemnidade que sem a
desaventura de sua morte merecia. Para o qual da egreja d'Alverca onde
seu corpo foi logo soterrado e d'onde seus ossos foram por Lopo
d'Almeida levados ao Castello de Abrantes, foi ordenado que d'ali ao
tempo da trasladação fossem solemnemente levados a Lisboa, e d'hi á
Batalha, como adiante direi.

E aos tres dias de Maio d'este dito anno de mil e quatrocentos cincoenta
e cinco, em Lisboa pario a Rainha o Principe D. João, que aos oito dias
logo seguintes na Sé da dita cidade foi bautizado pelo Bispo de Ceuta D.
João, que depois foi Bispo da Guarda, e foi levado á pia nos braços do
Infante D. Fernando, irmão d'El-Rei, e acompanhado do Infante D.
Anrique, e das Infantes e senhores e senhoras do reino; foram padrinhos
o duque de Bragança, e D. Vasco de Tayde, prior do Crato, e madrinha D.
Briatiz de Vilhena, mulher de Diogo Soarez.

E d'ahi a um mez foi por todolos tres Estados do Reino solemnemente
jurado por Principe ligitimo herdeiro, e D. Joana sua irmã até então se
chamou Princesa, e d'hi em diante Infante.

E as festas e prazeres que no nascimento do Principe, seu bautismo e
juramento em Lisboa principalmente, e assi em todo o reino se fizeram,
foram grandes e com muitas deversidades d'alegrias, que duraram por
muitos dias, e em grande perfeição.

E n'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, El-Rei D. Anrique
o quarto de Castella, se quitou da filha d'El-Rei D. João de Navarra seu
tio que tinha por mulher, e se concertou com El-Rei D. Affonso de
Portugal, que lhe deu por mulher a Infante D. Joana sua irmã, que sem
dote e com os sós corregimentos de sua pessoa, casa e camara, que foram
muito reaes e de gram cumprimento, a recebeu por mulher em idade de XVII
annos, e foi muito honradamente levada ao extremo d'estes reinos, e d'hi
levada a Castella por a condessa D. Guiomar, e por o conde da Atouguia
D. Martinho seu filho, que a entregaram a El-Rei, e além das festas que
em Lisboa se fizeram mui grandes, houve tambem outras e honradas justas
na Landeira; porque a Rainha entrou por Elvas.



CAPITULO CXXXVII

     _Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D.
     Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da
     Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha_


E além do grande amor e affeição que entre elle e a Rainha havia, ainda
pelo nascimento do Principe se dobrou muito mais, com que a Rainha já
mais confiada requereu e pediu a El-Rei, que os ossos do Infante seu
Padre como lhe tinha prometido não andassem provando tantas e tão vis
sepulturas, e quizesse que fossem trazidos a Lisboa, e d'ali os levassem
ao mosteiro da Batalha; porque alli faria por mais sua honra e mór seu
estado.

E como quer que isto fosse pelo duque de Bragança e por seu filho o
marquez muito contrariado, El-Rei posposto tudo o concedeo. Não querendo
porém que o senhor D. Pedro Irmão da Rainha, que depois da morte de seu
padre andava em Castella desterrado, viesse a suas exequias e saimento,
nem a este reino; porque o tinha por seu alvará assi prometido ao dito
duque. E tinha dado ao Infante D. Anrique o Mestrado d'Avis, que tinha
D. Pedro filho do Infante D. Pedro. Mas o Papa nunca lh'o quiz conceder,
dizendo que se não podia confiscar nem elle o perder como as outras
cousas seculares. Pelo qual os ossos do Infante com assaz honra foram
logo trazidos ao mosteiro da Trindade de Lisboa, e d'hi ao mosteiro de
Santo Eloy, onde foram em grande triumfo e muita veneração postos em
tumba e estrado á vista de todos.

E concertado o dia em que os haviam de levar á Batalha, El-Rei e a
Rainha se foram diante para os esperar no mosteiro da Batalha, a que
foram chamados e vieram todolos senhores e senhoras principaes do reino,
salvo o Infante D. Fernando, e o marquez de Valença, que tomaram outra
opinião contraira ao prazer e contentamento da Rainha.

E o cargo principal da treladação e acompanhamento da dita ossada ficou
ao Infante D. Anrique, o qual vestido não de dó preto, mas d'aluz
escuro, e assi muitos senhores que eram com elle fez com muita pompa e
grande cerimonia tirar a dita ossada do dito mosteiro de Santo Eloy, e
com solemne procissão de Bispos e cabido, e muitas ordens e clerezia,
que para isso foi junta, e com grande numero de tochas acesas a levarem
á Sé. E d'hi pela rua Nova, acompanhada do Infante e de muita gente com
que chegaram á Porta da Mouraria, e de hi se tornaram, e foi com ella o
Infante D. Anrique com muitos senhores, que com grande honra e com
muitas orações, que de continuo iam pela alma do Infante rezando, a
levaram ao dito mosteiro da Batalha, d'onde El-Rei e a Rainha com
solemne procissão acompanhada de muitos prelados, abades e clerizia e de
muita e nobre gente sahiu a recebe-la.

E as senhoras e mulheres que alli foram, levaram algum sinal de dó que
não foi de veos pretos, mas tintos como allionado escuro. Fez-se o dito
saimento com essa, e com toda outra perfeição e solemnidade que se podia
e devia fazer a um tal Principe natural, sem alguma magoa fallecido.
Acabado o qual, entrando já o inverno, El-Rei e a Rainha se foram para a
cidade d'Evora, onde a Rainha adoeceo logo de fruxo de sangue, de que
nos paços de S. Francisco onde pousava, a dois de Dezembro do dito anno
de mil e quatrocentos cincoenta e cinco logo falleceu, cuja morte foi
d'El-Rei muito chorada e sentida, e assi de todos, em especial dos
criados e servidores do Infante seu padre.

A causa de sua morte segundo foi accidental e arrebatada, por maginação
dos mais foi attribuida a peçonha que dos imigos de seu padre por sua
segurança disseram que lhe fôra ordenada, e como quer que para isso
houve muitas conjecturas e presunções, porém da certa verdade Deus é o
sabedor.

Foi seu corpo levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz soterrado per si
em uma capella do cruzeiro. E d'hi a um mez que foi no Janeiro seguinte
de mil e quatrocentos cincoenta e seis, El-Rei lhe fez o mais honrado e
solemne saimento que até então por Rainha d'estes reinos se fizera. A
que vieram ao dito mosteiro todolos senhores e senhoras, e Prelado,
abades e priores de todo o reino, e toda outra gente de sorte sem
excepção.

N'este anno logo depois da morte da Rainha, El-Rei enviou pela ossada da
Rainha D. Lianor sua madre, que jazia em Toledo onde falleceu como atrás
fica, a qual com grande honra, e com muita e nobre gente foi trazida a
Elvas, onde El-Rei com todolos grandes e Prelados de seu reino a foi
receber, e a levou ao mosteiro da Batalha, em que com a devida
solemnidade e cerimonia, que em tal auto e a tão alta Rainha se
requeria, foi lançada com El-Rei D. Duarte seu marido.



CAPITULO CXXXVIII

     _Como El-Rei outra vez acceitou a crusada contra os turcos quando
     fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou em
     Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere_


E no anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos, veiu a estes
reinos por delegado do Papa Calisto, um Bispo de Silves português, homem
de bom saber e grande autoridade, que a El-Rei trouxe a Cruzada contra
os turcos, com grandes e piedosas graças e perdões da Sé Apostolica,
assi como sobre o caso foram outros a outros reinos e provincias de
christãos.

E El-Rei porque de sua real condição era para honrosos feitos mui
inclinado, consirando a obrigação em que estava pela offerta e aparelho
que para isso já fizera que não cumprira, vendo-se em melhor disposição
e com menos pejos, por razão d'estar sem mulher, e que para segurança de
sua direita sobcessão tinha filhos ligitimos, elle com grande alegria e
muita devoção, e com todalas pessoas principaes do reino acceitou a dita
Cruzada. Na qual se offereceu servir com os ditos doze mil homens por um
anno á sua custa, como d'antes prometera, para que tinha d'ajuda muitas
armas que comprara, e navios que mandara fazer, e assi outras muitas
cousas para tal perseguimento mui necessarias e proveitosas.

E fazendo fundamento, e crendo que todolos outros Reis e Principes
christãos com suas pessoas, gentes e forças ajudariam como elle n'este
santo proposito, mandou logo Martim Mendez Berredo, fidalgo de sua casa,
e a elle mui acceito, a El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, para
d'elle saber e se enformar muitas cousas que por seu aviso lhe cumpriam,
e assi lhe requerer e trazer mandados e provisões suas, com que em seus
reinos e terras, e principalmento em Secilia e na Pulha lhe desse por
seu dinheiro bitualhas e mantimentos, onde El-Rei era aconselhado que
com mais seu proveito e menos trabalho se podia fornecer, mas o dito
Berredo não achou em Napoles nem Italia, aquelle percebimento nem desejo
que para tal empresa cumpria, nem como El-Rei cuidava, de que logo
avisou El-Rei.

N'este tempo e no fervor d'esta Cruzada, andava ainda desterrado em
Castella o senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, que com muita
paciencia de grandes necessidades e desaventuras, que em seu desterro
soportava, e com uma louvada temperança, que em suas fallas e obras para
El-Rei e para o reino sempre teve, obrigou e comoveu El-Rei para o
retornar em seus reinos e lhe fazer aquella honra e mercê que elle por
muitas causas merecia, especialmente porque o duque de Bragança, como
viu a morte da Rainha, não o contradisse com tanta instancia nem com
tanto receio, como em sua vida d'ella fazia; porque tinha uma promessa
d'El Rei, que o dito D. Pedro em vida do duque sem seu prazer não viesse
a estes reinos, da qual desistio. E El-Rei por isso lhe alevantou o
desterro, e o convidou para a Cruzada, com fundamento de o levar
comsigo, a que elle obedeceu, e veio a estes reinos bem acompanhado, e
logo para a mesma Cruzada invencionado com muita gentilleza foi d'El-Rei
e da côrte com muita honra e gasalhado recebido, e El-Rei lhe leixou o
mestrado d'Avis, de que ante de seu desterro e por morte do Infante D.
Fernando fôra provido, e deu-lhe mais seu honrado assentamento, com que
sempre serviu mui leal e honradamente, até que de Ceuta se foi para
Barcelona como se dirá.

E com o grande desejo e louvado alvoroço que El-Rei tinha para esta
santa viagem, mandou novamente lavrar d'ouro fino sobido em toda
perfeição, a moeda dos cruzados, em cujo peso e não preço mandou sobre
todolos ducados da christandade acrescentar dois grãos, por tal que por
terras tão alongadas e nações tão diversas como as porque esperava de
passar corressem e se tomassem sem alguma duvida; porque em seu tempo e
d'El-Rei D. Duarte seu padre, de ouro não se lavrou outra moeda, salvo
escudos d'ouro baixo, que em reinos estranhos se tomavam com grande
quebra e muito pejo.

E tendo El-Rei com seu animo não menos catholico que esforçado, com
innumeraveis despesas, feitas e aparelhadas todalas cousas e provimentos
que cumpriam, o notificou assi á mór parte de todolos Reis e Principes e
provincias de christãos. E finalmente nunca d'algum por verdadeira obra,
nem sómente fingida mostrança, pôde entender que em seu piedoso trabalho
e perigo tão conhecido, o teria por parceiro nem ajudador, antes
claramente foi conhecido que se El-Rei por abatimento de todos tal
movimento fizera, que por vingança da injuria e quebra que n'isso
recebiam lhe ordenaram coisas com tal cautella, com que por força
desistira da empresa, com muita despesa e pouca sua honra.

Pelo qual tudo bem visto e examinado em seu conselho que teve, ajuntando
tambem outras muitas contrariedades e inconvenienentes que no reino e
fóra d'elle em muitas cousas e de grande perigo podiam recrescer, foi
El-Rei finalmente e sem contradição aconselhado que na empresa da
Cruzada se não entremetesse, e que repousasse, regendo em paz e justiça
seus reinos e vassallos, até que a visse tomar e proseguir a outros
Principes, e que então obraria n'isso como o tempo e a razão o
aconselhassem, ou se quizesse por exercicio de sua devoção, e por elle
parecer verdadeiro ramo dos excellentes e reaes troncos de que procedia,
podia passar em Africa, e tomar aos infieis algum lugar em que Deus
fosse servido, e sua fé mais acrescentada, pois era guerra da mesma
calidade, e que a elle com mais honra e mór segurança d'Espanha mais
pertencia. E este acceitou El-Rei por meio mais de sua inclinação e
contentamento, e no conselho que logo sobr'isso teve foi acordado que
fosse á cidade de Tangere, sobre que acordou de levar vinte cinco mil
homens de combate, afóra a outra gente do mar e serviço, para que fez
seus percebimentos, e ordenava passar logo n'este anno de mil e
quatrocentos e cincoenta e sete. Ao que deu total impedimento sobrevir
crua pestenença á cidade de Lisboa, onde da embarcação principal se
fazia fundamento. Pelo qual El-Rei foi conselhado que sobrestevesse e
leixasse por então a guerra dos mouros pela não tomar com a ira de Deus
e contra sua vontade.

E sobre esta determinação, que para seu desejo foi de mortal tristeza se
passou á comarca d'entre Tejo e Odiana, e estando em Estremoz, por
certidão que houve dos danos e roubos que dos franceses os seus vassalos
no mar recebiam, acordava de mandar em guarda da costa o almirante Ruy
de Mello com vinte náos grossas e outros navios, e com muita gente, em
especial a mais limpa de sua côrte. E estando já tudo ordenado e
provido, e a frota com as vergas altas para partir, vieram a El-Rei
cartas do conde d'Odemira, que era capitão de Ceuta, como por avisos
certos que tinha, El Rei de Fez vinha sobr'ella para a cercar,
pedindo-lhe provisão e ajuda e soccorro quando cumprisse. Da qual cousa
sendo tambem avisado o Infante D. Fernando, veiu logo a El-Rei pedir-lhe
licença para ir ao socorro, e assi o fez o marquez de Villa Viçosa, de
que El-Rei se escusou; porque lhe descobriu que sua determinada vontade
era passar em pessoa, e trabalhar por tomar algum bom lugar, com desejo
de vir em sua defesa e cobramento El-Rei de Fez, para lhe dar batalha e
acabar com elle estes rebates, e elles assi o aprovaram.

E para socorro de Ceuta enviaram diante alguns senhores, com fundamento
d'El-Rei ir após elles, mas não foi, porque El-Rei de Fez como deu vista
a Ceuta logo se volveu. Porque esta determinação d'El-Rei ir sobre
Tangere foi ao conde D. Sancho revelada, El-Rei por seu conselho a
mudou, e converteu em Alcacer Ceguer com fundamento e razões que a bem
de conquista e a necessidades do reino cumpriam, a que por sua evidencia
que apontou, se deu inteira auctoridade. Pelo qual El-Rei acordou, que
por razão da má disposição de Lisboa que ainda não cessava, sua
embarcação fosse em Setuvel, e o marquez de Valença fizesse a outra no
Porto, e o Infante D. Anrique a do Algarve.

E tudo se aparelhou e fez prestes com muita brevidade e trigança, para
que foram ajuda e aviamento os percebimentos passados.

El-Rei, d'Estremoz se foi a Evora, e hi leixou seus filhos, e com elles
D. Briatiz, e Diogo Soarez d'Albergaria seu marido, que por sua
fidalguia, bondades, e grande saber foi dado ao Principe por aio, e até
sua morte sempre o foi.

Veiu-se El-Rei a Setuvel para logo embarcar, em que sobreveiu alguma
torvação pela grande doença de febre em que achou o Infante D. Fernando
seu irmão, de que Deus em breve o livrou, tendo elle já mandado que por
não ficar o levassem, e assi doente em um leito o metessem no mar.

E um sabado, derradeiro dia de Setembro, do anno do nascimento de Nosso
Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e cincoenta e sete, depois
d'El-Rei ouvir sua missa solemne e prégação mui devota, foi em procissão
armado, e não de todas armas, até os bateis, acompanhado de sua guarda e
de muita e mui luzida gente, e n'elles bem remados e ricamente toldados
se foi á sua náo, que se chamava Santo Antonio, e com elle o Infante D.
Fernando, e o senhor D. Pedro, que alli veiu com gentes e concertos que
muito louvaram, e o marquez de Villa Viçosa com D. Fernando, e D. João,
seus filhos, e D. Alvaro de Castro, e Pero Vaz de Mello, e outros muitos
senhores e fidalgos, com que El-Rei do dito porto partio com noventa
vellas.

E á terça-feira seguinte, tres dias d'Outubro, pela manhã, dobraram o
cabo de S. Vicente, e chegaram á villa de Sagres, onde o já esperava o
Infante D. Anrique, que a El-Rei e a todos os que sairam em terra fez
falla em grande perfeição e abastança; era já hi o conde d'Odemira, que
viera de Ceuta com quatro fustas e um barinel, e á quarta-feira foi
El-Rei a Lagos, e á quinta-feira sahiu em terra e pousou no castello,
onde esteve oito dias esperando as frotas do Porto e do Mondego e
d'outros lugares, que alli todos chegaram.

El-Rei á terça-feira, que eram dez dias d'Outubro, se recolheu á sua náo
porque todos se recolhessem, e á quarta-feira tornou logo a sair armado,
com sua guarda diante, e todo o mais com maravilhoso e rico estado e
grande gentileza, foi ouvir missa, e com elle todolos senhores que eram
na frota. Acabada a qual El-Rei posto em meio de todos, com graciosa e
alegre contenença, e com palavras cheias de devoção e grandeza, esforço
e perfeita eloquencia, e com cautelas e fundamentos de bom e prudente
guerreiro declarou sua ida sobre a villa d'Alcacere, louvando e
agardecendo a todos com muita humanidade a diligencia e amor com que o
tão honradamente vinham servir, offerecendo-se a lh'o conhecer com as
honras e mercês, e acrescentamento que a cada um coubesse e merecesse. E
em fim de sua falla, o Infante D. Fernando como pessoa mais principal
lhe respondeu por todos, assaz bem e como cumpria. E em fim de suas
palavras, com os giolhos no chão lhe beijou as mãos, e assi todos os
principaes que hi eram, e á quinta feira XVII dias d'Outubro El-Rei
partiu de Lagos com toda sua frota, em que por todas haveria duzentas e
vinte vellas, e ao sabado porque o vento não terçou para tomar o porto
d'Alcacere, foi El-Rei surgir pela manhã sobre a barra de Tangere, onde
esteve aquelle dia e ao domingo, por recolher a outra frota que não
chegava.

E n'estes dias andando El-Rei pelo mar, viu e contemplou bem a cidade,
sobre que desejou que sua ida se mudasse, e acerca d'isso teve conselho
bem aperfiado; porque a grandeza de seu coração não requeria menos
empresa, e em fim se concordaram no primeiro proposito com que logo
partiu, e á segunda-feira ao meio dia chegou a Alcacere, e com elle os
navios mais pequenos que se podiam ter ás correntes do estreito.

Mandou El-Rei aparelhar e perceber, para logo tomar terra, e porque
ambos os navios em que iam os Infantes não poderam ancorar com elle, e
com forçadas correntes foram d'elle surgir duas legoas, e assi bem
outras quarenta vellas, El-Rei os mandou a grã pressa chamar, e quando
vieram já o acharam armado entre muitos bateis armados postos em sua
ordenança para tomar terra, esperando pelo Infante D. Anrique que já
tardava, e como o viu fez com muita viveza vogar rijamente os bateis á
praia, que com muito esforço e acordo a tomaram todos juntamente, em que
se não soube bem determinar quaes foram primeiros nem segundos.

Eram na praia até quinhentos mouros de cavallo d'aquella comarca, e
muitos mais de pé, de que na resistencia que cometeram para defender a
desembarcação morreram logo alguns, e elles tambem dos christãos feriam
outros, e mataram ao sair, um Ruy Barreto, comendador da Ordem de
Christus. Mas com tal pressa foram os mouros apertados, que uns para a
villa, e outros para as serras d'onde vieram, todos se acolheram, e no
encalço d'elles seguiu João Fernandez da Arca, fidalgo de bom esforço, e
nas cousas do paço de seu tempo gracioso e mui ensinado. E tanto se
chegou ao muro por vingar a morte que logo recebeo, que de uma pedra de
cima do muro foi logo ao pé d'elle morto, de que por sua bondade e
criação em toda a côrte houve grande sentimento.

E sobre a tarde depois de se repartirem os combates, e n'elles se
assentarem as bombardas e ordenarem as mantas, e bancos, e escadas, que
com muita presteza se tiraram da frota, El-Rei posto em um cavalo
sezeliano, armado e acobertado com sua espada nua na mão, mandou cometer
a villa com alguma mostrança de combate, para vêr sómente a maneira de
fortaleza e defeza em que se os mouros punham, que n'elles foi assaz boa
e com grande recado e esforço; porque com tiros de fogo e bestas que
tinham, e pedras que não falleciam, faziam muito dano. Mas os christãos
emprenderam tão de verdade, e com tanta força o combate, que El-Rei nem
os Infantes os poderam recolher nem afastar d'elle, em que logo
derribaram um grande lanço da barreira, e os cavalleiros e gente do
Infante D. Anrique, com muito esforço e ardideza romperam e entraram por
as portas da mesma barreira, e foram com muita ousadia cometer com
engenhos as portas da villa, que por sua grande fortaleza não poderam
quebrar; porque eram mui fortes, e forradas de mui grossas pastas de
ferro. E sendo já de noite vendo o Infante D. Anrique o desejo e a
determinação dos seus, socorreo alli com sua bandeira despregada, e com
palavras de Principe tão prudente e ardido como elle era, os avivou
muito mais para o combate, que á sua vista e com sua ajuda o fizeram sem
alguma covardice. E El-Rei e o Infante D. Fernando seu irmão sentindo na
gente do arraial o mesmo fervor e orgulho, que de victoria lhes davam
mui grande esperança, mandaram ás trombetas fazer sinal de combate, que
por todas partes se deu tão rijamente, e com tanta competencia de honra,
que o que menos trabalhava, parecia que toda a empresa tomava sobre si,
a que ajudava muito e não favorecia pouco a presença d'El-Rei, que a
todalas afrontas acudia, e com palavras de tanto acordo e esforço, de
que todos eram maravilhados e mui contentes.

O Infante D. Anrique que n'aquelle officio era velho artificial, mandou
á meia noite poer fogo a uma bombarda grossa, que no seu combate era
assentada, com que aos mouros começou de fazer não menos dano que
espanto, pelo qual desesperados já d'achar remedio de salvação em suas
armas, nem defesa, a vieram buscar e procurar na piedade do Infante. O
qual lhe respondeu que por quanto El-Rei seu Senhor era alli vindo por
serviço de Deos sómente, e não por cobiça de seus resgates nem fazendas,
que ao dito Senhor aprazia que elles se saissem com suas mulheres e
filhos, e cousas, e leixassem a villa com todolos christãos captivos que
n'ella estivessem, os quaes vendo tão determinada resposta, vencidos já
de condições tão piedosas, lhe pediram que por aquella noite mandasse
sobreser no combate, do que ao Infante não prouve, antes o mandou mais
avivar, e pediram após isso uma hora de sobresimento para haverem seu
acordo, e o Infante muito menos lh'a deu, antes os desenganou que se
fossem entrados por força, que todos sem resguardo nem privilegio de
idade, com ferro haviam d'acabar suas vidas. Os quaes meios e concertos
o Infante mandou logo notificar a El-Rei, e ao Infante D. Fernando, que
de todalas partes esforçaram o combate, que era esforçado e não
enfraquecia, pelo qual os mouros se remedearam, e deram nas primeiras
seguranças e condições do Infante D. Anrique, e para aprovação de seu
rendimento enviaram logo suas seguras arrefens, que foram levadas á
tenda d'El-Rei com que o combate logo cessou. E ao outro dia
quarta-feira pela manhã, os mouros sairam todos com suas mulheres,
filhos, e fazendas sem algum receber nojo, dano, nem alguma outra
semrazão, de que os mouros vendo tanta e tão segura verdade nos
christãos, tomaram em seu mal muito conforto. Porque o Infante D.
Fernando teve na saida d'elles cargo de sua segurança, e como acabaram
de sair, que foi depois de meio dia, entrou El-Rei na villa a pé em
procissão com os Infantes e senhores e outra nobre gente, e se foi á
misquita, que foi logo tornada em egreja de Santa Maria da Misericordia,
onde já estava posto um altar em que El-Rei fez oração, e elle e todos
com muita devoção por tão segura victoria deram graças e louvores a
Deos, porque segundo o lugar era de torres e muros mui forte, e tão
provido de gente, bem pareceu tomando-se tão levemente como se tomou,
que com a mão e graça de Deos se tomara, mais que com força nem poder
dos homens.



CAPITULO CXXXIX

     _Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por
     El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde socorrer, e desafiou
     El-Rei de Fez_


Esteve El-Rei em Alcacere até o domingo, em que de muitos e mui
principaes homens foi requerido sobre a capitania da villa, mas El-Rei a
deu e empregou bem em D. Duarte de Menezes, com que ainda não satisfez
ás grandes promessas que em cousas d'aquella calidade lhe tinha por seus
assinados prometidas, e El-Rei quando lhe deu a dita capitania e
governança, publicamente assi lh'o disse com palavras de muita sua honra
e louvor.

E depois d'El-Rei prover a villa dos mantimentos, armas, e gente que
pareceu necessaria, e armar muitos cavalleiros que o bem mereceram, á
segunda feira por mar se foi a Ceuta, onde ainda não fôra. Ao qual
senhorio acrescentou d'hi em diante em seu titulo, o d'Alcacere em
Africa, dizendo, _D. Affonso por graça de Deus Rei de Portugal e do
Algarve, Senhor de Ceuta e d'Alcacere em Africa_.

E certamente quando El-Rei viu e contemplou na realeza de Ceuta, e em
sua grandeza, maravilhoso e forte assento, que seu avô com outra
semelhante passagem ganhara, e se lembrou d'Alcacere, e de seu sobrenome
Ceguer, ficou triste e pensoso; porque a parecer dos que as viram, tão
pequena cousa não encheu a grandeza e bondade de seu coração, e
suspirava por outra maior.

El-Rei de Fez como soube que a villa era cercada, partiu com muita
pressa e grande poder pela socorrer, e quando soube que já era tomada,
com muita ira e tristeza sua e dos seus se veiu logo á cidade de
Tangere, para d'alli ajuntar suas gentes e a vir cercar, e trabalhar
pela recobrar, da qual cousa D. Duarte foi logo certificado por um mouro
d'autoridade, que na face d'Alcacere em uma escaramuça que houveram fôra
com outros tomado e captivo, o qual logo mandou a El-Rei que ainda era
em Ceuta, e sobre a certa informação que do mouro houve teve conselho,
em que depois de ser acordado sem diferença, que Alcacere sobre o
provimento d'armas e mantimentos que tinha lhe devia ser dado outro
maior, quanto ao mais, que tocava á ida d'El-Rei para o reino, ou
esperar alli o fim do cerco ou lhe socorrer houve votos diferentes.
Porque uns diziam que dado o dito provimento se devia vir a seus reinos
e não esperar lá mais, outros tiveram que em tal tempo estando El-Rei de
Fez tão acerca, e partindo-se pareceria fraqueza, e que com seu medo o
fazia, e que para isso por tirar suspeitas e fazer um grande
cometimento, que á sua honra e estado cumpria, que o devia mandar
desafiar em campo, e que se acceitasse o desafio, que ainda estava
poderoso para lhe dar batalha e esperar victoria, e quando de tal reto
se escusasse, que então sem pejo poderia para seus reinos partir sem
algum prasmo nem reprensão dos seus nem estranhos, que o já remocavam.

E a este parecer se inclinou mais El-Rei, que com as palavras e razões
que bem cabiam, formou para o dito Rei de Fez um desafio, que lhe enviou
por Martim de Tavora, e Lopo d'Almeida, que embarcados em um navio
aparelhado d'armas, e Reis d'armas e trombetas, e de suas pessoas em grã
cumprimento foram sobre Tangere. Mas El-Rei de Fez avisado do recado com
que iam, mandou que lhe tirassem ás bombardas, e não os quiz ouvir, e
tornaram-se Lopo de Almeida a Ceuta, e Martim de Tavora a Alcacere, onde
tambem com desejo de honra se lançaram muitos fidalgos, que sem duvida
no cerco que defenderam a mereceram e ganharam, tão bem e melhor que na
tomada da villa.

E aos XIII dias de Novembro El-Rei de Fez com trinta mil de cavallo, e
gente de pé sem conto veiu sobre a dita villa, que já d'antes com oito
Alcaides seus era cercada, e logo com bombardas grossas e muitos tiros
outros de fogo, e com muitos besteiros de Grada que trazia, combateu a
villa muitas vezes e com muita força, mas nas infindas mortes e feridas,
e outros danos que sempre dos christãos receberam, bem conheceram logo
que não tinham d'elles a victoria tão leve e tão certa como esperavam.

E sendo El-Rei certificado do cerco da villa e da estreiteza em que os
mouros a punham, logo aos sete dias do cerco veiu d'avante d'ella, com
vontade de a socorrer, ou ao menos de a bastecer. Porque quando a tomou,
sómente lhe ficou mantimento para a gente ordenada para tres mezes, o
que houvera de ser causa de a villa e gente ao diante de necessidade se
perder, se Deus por sua piedade o não remedeara.

E porém, El-Rei pela muita gente contraira dos mouros que achou, que por
mar e por terra impedio sem remedio seu socorro e bastecimento, depois
de enviar a D. Duarte e aos cercados muitos confortos e dar grande
esperança da sua breve tornada, se partiu para Farão no Algarve, onde
desembarcou, e d'hi se foi a Evora para dar ordem a tornar a socorrer a
dita villa, para que depois de tudo bem consirado e provido, achou que
para isso todalas cousas falleciam.



CAPITULO CXL

     _Das cousas que passaram n'este cerco, até que de todo se
     alevantou_


E n'estes tempos foi a villa d'Alcacere pelos mouros com bombardas e
trons e outras armas, e com uma irosa porfia muitas vezes combatida e
afrontada, e com a graça de Deus não faziam dentro o dano de que elles
tomavam de fóra muita vã gloria, e porém a verdadeira pena elles a
recebiam com muitas mortes e feridas, que dos christãos de noite e de
dia sempre padeciam.

E porque viram que com os mui apressados e furiosos tiros que faziam, os
muros da villa não caiam como maginavam, ordenaram trazer uma bombarda
grossa, das que no tempo do palanque ficaram aos christãos em Tangere,
em que já tinham a sua só confiança, a qual lançava pedra de quatro
quintaes de peso, e logo foi armada e ensarada e fez alguns tiros, de
que os mouros vendo ficar as paredes mui sãs, e os christãos sobr'ellas
com muito prazer e alegria, ficaram mui tristes e desesperados, e por
isso vendo que sua empresa não sobdecia como esperavam, elles a risco
das graves penas que por sua fugida lhes eram postas, de dia e de noite
não leixavam de fugir, de que D. Duarte por elches e mouros que se na
villa lançavam, era logo avisado.

E no tempo da maior afronta chegou á vista d'Alcacere Luiz Alvarez de
Sousa, vedor da fazenda do Porto, que El-Rei mandou aos cercados com
esperanças e confortos, que enviava do mar com escriptos em virotões. E
D. Duarte fez um aviso a El-Rei, e por mór cautella escripto em francês,
notificando-lhe a extrema necessidade em que estavam, e sómente por
mingoa de mantimentos e polvora, e pedindo remedio com as palavras que
em tal affronta cabiam. O qual escripto enviado a Luis Alvarez com outro
virotão, cahiu no arraial dos mouros, entre quem não falleceu quem lh'o
logo leu e interpretou inteiramente, de que elles ficaram mui alegres, e
tendo sobr'isso seu conselho, acordaram ser bem d'El-Rei de Fez, por seu
Marim requerer a D. Duarte que se desse e lhe entregasse a villa, para
que lhe mandou uma carta, e dentro della a outra que tomaram, e dizia
n'estas maneira:

«Porque eu já sei tua puridade, mais por modo de compaixão que de
necessidade que tenha, conhecendo de ti que és bom christão e esforçado
cavalleiro, filho do outro bom velho de Ceuta, defenda-te Deus e te
mostre o caminho da verdade por melhor e mais direito, se te quizeres
poer em nossas mãos com algum honesto trato farás cousa a ti proveitosa,
e a esses que hi tens mais que a nós; porque a ti e a elles guardaremos
de mal, e vos faremos o que o vosso Rei fez aos nossos mouros, que
estavam n'essas casas em que tu agora estás. Conselhe-te Deus de
conselho são, e se tu isto não quizeres, sabe que Deus é grande e
justiçoso, e quererá dar ás mãos de seus servos as casas em que
nasceram, e as herdades que seus padres e avós fizeram e prantaram, e
manda logo a resposta com toda tua vontade».

D. Duarte recebeu a carta que era do Marim, e a fez lêr para si só
secretamente, e perguntado dos fidalgos pela sustancia d'ella lhes
encobrio a verdade, e disse que lhe cometiam trato de paz como mouros
fracos que eram, e que estavam já de todo perdidos, para segurarem a
terra de mais dano, com fundamento de se quererem alevantar, mas que lhe
responderia, como respondeo de si mesmo ao Marim n'esta maneira:

«Tu sabe que El-Rei meu Senhor não leixou a mim e a estes seus fidalgos
e a outra nobre gente n'esta sua villa para t'a entregarmos como cuidas,
mas para a defendermos como defenderemos a ti e ao teu rei, e com elle a
todolos Reis mouros do mundo quando sobre nós viessem, e crê que nossa
determinada vontade pela defender é sofrer não sómente o trabalho que
nos dás, que por tua covardice é assaz pequeno, mas outros muitos
maiores, até sobr'isso morrermos. E para conheceres se estas palavras
saem da boca ou do coração, chega-te melhor aos combates do que fazes e
ve-lo-has, e porque me dizem que o teu Rei manda fazer escadas para
subir aos muros e nos combater e entrar, dize-lhe que eu o escusarei
d'esse trabalho; porque se n'elle e em ti ha coração para isso, eu entre
torre e torre lhe mandarei poer muitas que El-Rei meu Senhor aqui trouxe
para tomar a villa, e manda subir aos teus por ellas, e verás que força
põem em nós o serviço do nosso Rei e o enxalçamento de nossa fé, e a
estima de nossas honras, e d'esta graça se a de nós quizeres receber não
queremos de vós outros outra paga, se não que não sejaes tão covardes e
tão fracos como até qui mostrastes, cá não é honra nem gloria
vencer-vos».

Esta resposta foi lida na tenda d'El-Rei, perante elle e seus merins e
alcaides, de que ficaram mui maravilhados, atribuindo tudo á soberba,
como fôra a do cerco outro de Tangere, que apontaram. Mas Xarate,
alcaide de Tangere que hi era, disse:

«Sabei vós que esses em que fallaes que d'essa vez vieram a Tangere, se
dentro de taes paredes se acharam, e de mantimentos tiveram razoado
soportamento, podera ser segundo o que vi, que mais caro nos custaram. E
porém na continua alegria d'estes christãos sentireis bem sua fortaleza,
e que n'aquelle escripto confessassem ao seu Rei suas mingoas e
trabalhos, são maneiras que os cercados sempre tem para obrigarem com
mais piedade e mór trigança a seu socorro, mas não é de crêr que
tomando-se hontem a villa, e estando aqui o seu Rei com muitos navios,
que a não leixassem açalmada para muito mais tempo do que nós podemos
aqui estar».

E porém o Marim tornou a replicar a D. Duarte, que ao messegeiro mandou
tirar ás bestas e não lhe quiz vêr a carta; porque receou tendo tão
pouca esperança de socorro, parecerem a alguns bem suas palavras e
cometimentos, e enfraquentarem-se por isso na defesa da villa e
esforçarem-se para o dar d'ella.

Aos mouros porque o tempo era de grandes frios, morriam e atereciam os
cavalos, e assi os camelos e bestas de sua carriagem, e tambem elles
padeciam asperezas incomportaveis. E com isto eram tão cansados e
tristes, como os christãos pelo contrairo; porque no testemunho e prova
de seus alegres rostos e esforçados corações, em especial na segurança e
valentia de seu capitão, tomavam todos esperança de sua honra,
resistencia e desejada defesa.

Os mouros porque as cousas em nada sobcediam a seu proposito, eram
postos em grande cuidado, fazendo entre si grandes lamentações pela
triste e deshonrada memoria que d'elles ficaria, não acabando feito de
tão pequena estima para a presunção e confiança com que vieram, e sendo
já minguados de polvora e muito mais da esperança que tinham de lhe já
aproveitar, determinaram dar por todalas partes e a uma só hora um
grande combate á villa, e assi o fizeram. Mas o capitão D. Duarte,
porque logo nos aparelhos e alvoroço dos mouros que viu, sentiu bem o
que queriam fazer, assi se percebeu e os recebeu, que d'alli por diante
assi pelo grande estrago e mortindade que n'elles fez, como porque a
gente sem o poderem resistir lhe fugia, e principalmente porque a
polvora lhe falleceu e seus tiros e artilharias não jugaram mais, não
houve mais rebates nem cometimentos porque ficaram de todo cortados.

E até então se lançaram na villa por todas, oitocentas e dez pedras
grossas, XXXII de bombarda grande, e as outras das outras meãs, de que
foram muitos christãos feridos, e alguns poucos mortos. E porque o
mantimento fallecia já muito, e não sabiam da detença que os mouros no
cerco fariam, depois de pedir socorro ao capitão de Ceuta, que lh'o não
deu e podera dar, praticou D. Duarte com esses fidalgos que seria bem
matarem os cavallos; porque não lhe comeriam trigo nem cevada, que tanto
haviam mester, e mais salgados lhes poderiam em sua extrema necessidade
muito socorrer, e mais que não dessem de comer á gente mais de uma só
vez no dia, e ainda esta com temperança que cada um com os seus tivesse,
com outras prudentes cautelas e provimentos que concordaram e tudo
pareceo bem, salvo o matar dos cavallos, a que acordaram que sómente por
mantimento se desse palha, e que porém antes de os meterem n'esta
provisão, determinaram dar primeiro com elles uma escaramuça e rebate
aos mouros; porque elles tinham já por muito certo que eram mortos e com
fome comidos.

Deu D. Duarte cargo da capitania d'elles, que eram pouco mais de XXX, a
D. Anrique seu filho maior. E em dia de Santo Estevão primeiro dia das
Oitavas de Natal sahiu D. Duarte fóra a pé, com certos homens todos
fidalgos, com mostrança de recolher o almazem que na praia jazia; porque
tivessem os mouros razão sahir do arraial, como sairam para lh'o
defender, e com isto os offenderam. E como D. Duarte viu tempo, fez o
signal que com D. Anrique seu filho tinha concertado, e elle com todolos
cavalos enjaezados, e os cavalleiros bem armados e vestidos de livrés e
gentileza, sahiu da barreira em que jazia em cillada, e com o nome de
Santiago, deram rijamente nos mouros, que feriram com tanta força e
ardideza, que certo o testemunho d'aquelle só dia, além d'outros muitos,
deu clara prova de que capitães aquelle novo capitão por avoengas
decendia, e que capitão se n'elle criava.

Foi a peleja d'este dia sobre todalas outras do cerco de mais dura e
melhor pelejada; porque os que n'ella eram foram todos como disse
fidalgos escolhidos, os quaes o capitão já não podia recolher, em que os
mouros receberam muito dano e maior desmaio, vendo vivos os cavallos que
cuidavam ser mortos, estimando-os por dez tantos com formosura e penso
dobrado, o que deu muita causa aos mouros desesperarem da victoria do
cerco, e proposeram de o mais não manter.

N'esta peleja usou Martim de Tavora de uma clara e verdadeira fidalguia;
porque vendo n'ella entre os mouros Gonçallo Vaz Coutinho seu imigo
capital, e sem alguma esperança de vida, só lhe foi socorrer, e com
muito esforço e mais bondade, e com grande risco de sua pessoa como a um
irmão o livrou e tirou de poder dos mouros, e d'hi em diante ficaram em
sua imizade mortal.

N'estes danos e males que os mouros contra sua primeira maginação cada
dia recebiam, e com esperança de os receber ao diante maiores, não os
podendo soffrer, nem esperando de os poder mais contrariar, se queixaram
e levantaram a um seu Cade, que entre elles é sacerdote maior, havido
dos seus Reis e Marins em grande veneração como Papa, o qual com a
grande congregação de cacizes falou a El-Rei e a seus Marins e alcaides,
apontando com palavras prudentes as maldições e vituperios que os mouros
e casa de Fez principalmente por tamanha fraqueza recebiam, e que porém
ou determinasse não leixar de combater a villa de noite e de dia até que
a tomasse e todos morressem, ou por não terem mais mortes e padecimentos
se alevantasse do cerco d'ella.

E depois d'El-Rei e o Marim terem seu conselho, acordaram por muitas
razões boas que apontaram, que o cerco por então se alevantasse, com
voto de o tornar a poer dobrado para o verão que logo vinha, como
fizeram e se dirá.

E ao derradeiro dia de Dezembro começou a gente de se levantar e partir,
e a dois de Janeiro do anno que logo vinha de mil e quatrocentos
cincoenta e nove annos, El-Rei de Fez com todo seu arraial partiu de
todo do cerco, que durou cincoenta e tres dias, no qual dos mouros
segundo a certidão maior morreriam até mil e duzentos, e dos christãos
muito poucos. E da causa porque El-Rei de Fez se partira, e assi da
determinação que levava, logo D. Duarte por alguns mouros e elches que
do arraial na villa se lançaram, foi de todo avisado. Do que elle e
todolos christãos não ficaram menos ledos e descarregados, do que
ficaram honrados e louvados por toda a christandade. Da qual cousa D.
Duarte avisou logo El-Rei, que do descerco era já por castelhanos
d'Andaluzia avisado; porque com esperança das alviçaras que d'elle por
isso recebiam, uns após outros não leixavam de correr este pario de
cobiça. E porém o messegeiro de D. Duarte as recebeu dobradas, com
honra, proveito e acrescentamento.

E por isso mandou em todo o reino fazer geraes procissões, em que se
deram muitas graças a Deus, e assi ordenou esmolas a todolos mosteiros e
casas piedosas. E respondeu a D. Duarte; e assi a todolos principaes
fidalgos e cavalleiros que mantiveram o cerco, dando-lhe por estes
cincoenta e tres dias que durou o cerco, tantos agardecimentos com
esperança de mercês, como se foram outros tantos annos de mui assinados
serviços. E mandou logo de dinheiro e mantimentos prover a villa. E que
os fronteiros que n'ella fôra da ordenança estavam, se tornassem ao
reino. E ante de se virem fizeram muitas entradas, e trouxeram á villa
grandes cavalgadas e muitos mantimentos das aldêas dos mouros.


FIM DO II VOLUME





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)" ***

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