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Title: Nas Cinzas
Author: Borys, Gontran, 1828-1872
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Nas Cinzas" ***

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        Notas de transcrição:

        Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo-se
        actualizado a grafia para a variante europeia da língua
        portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).

        Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.



                               NAS CINZAS

                                   POR

                              GONTRAN BORYS

                               TRADUÇÃO DE

                                 L. C. M.


                                  C & C


                                  LISBOA
                      EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª
                        RUA LARGA DE S. ROQUE, 100



                               NAS CINZAS

                                   POR

                              GONTRAN BORYS



                        Imprensa nacional--1875



                               NAS CINZAS

                                   POR

                              GONTRAN BORYS

                               TRADUÇÃO DE

                                 L. C. M.



                                  LISBOA
                      EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª
                        RUA LARGA DE S. ROQUE, 100



I


Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove
delas achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em
soltar uma gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria
nacional: entretanto ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão
celebre agora.

Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao
cimo da rua dos Mártires, um _rez-de-chaussée_, tão próprio pela
humidade a criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A
habitação do jovem pintor limitava-se a uma só casa, que acumulava as
funções de sala, quarto de cama, _atelier_ e refeitório. E nem por isso
ele passava pior do que se residisse em sumptuoso palácio.

André era um rapaz vigoroso, com músculos de aço, esbelto como um
vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode castanho
e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo,
assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que não
causaria estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a
blusa rafada, que trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante,
como um gibão do melhor veludo.

Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um
_Faust au sabbat_: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu
quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio.
Através das vidraças do seu quarto descobria-se parte de uma casa
esplendidamente iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o
constante pesadelo do pintor. Segundo os caprichos da atmosfera, ora
reflectia execrável claridade no _atelier_, ora lhe interceptava
completamente a luz. André lançava-lhe pela milésima vez a sua maldição,
quando de repente viu abrir-se uma janela, e aos ouvidos do mancebo
chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por voz fresca e
harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça de
mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um
grito de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a
imediatamente.

Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40
francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com
a risonha expansão da inocência a iluminar-lhe o rosto. A boca é uma
cereja: deseja-se colhe-la com os lábios. A brisa de maio brinca
travessa com os bastos anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos
negros, de extraordinária viveza, crepita a jovialidade. É a primavera,
é a alegria, é a mocidade em flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto
encantador, emoldurado pela janela que se abrira fronteira ao _atelier_
de Sauvain, era o original daquela miniatura, feita havia mais de cem anos.

A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e
voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto
antes eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de
monstros, de demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro,
entrevia amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada.
Estava triste como a morte. Porém a gentil visão dispersara os
fantasmas, como um facho luminoso dissipa as trevas. André sentiu o
coração bater-lhe com força desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e
baixou os olhos, enquanto o ardente sangue dos seus vinte e cinco anos
fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em grande orquestra, a arrebatadora
sinfonia da esperança.

Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E
André, querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam
os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa
com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite
veio surpreende-lo assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto
fantástico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave
perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longínquo
de uma cançoneta; olhou para o seu quadro, e só viu nele um turbilhão de
cabeças louras, iluminadas por grandes olhos pretos.

E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e
dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das
telas esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo
de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros.

--Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se
o pulso. Depois, levantou-se aterrado:

--Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!



II


Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que
fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a _sua
propriedade_ não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um
franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia;
uma ruína musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa.
Mesmo assim, André podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais
horrível miséria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele
pardieiro pelas raízes profundas, a que chamam recordações; tinha lá
nascido e lá morrera sua mãe.

Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua
pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera
ter começado por dizer: nem um soldo! O resto depreendia-se por
simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal alimento, que
o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno,
levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da
escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia
extenuado de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite,
e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a
circulação do sangue e entretinham-lhe a actividade do cérebro. De
noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes
artérias, onde circulam sem cessar correntes humanas, estão saturadas de
fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores
invisíveis...

Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André.
Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros
divertimentos, que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro
abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de
plateia lhe cerceava dois dias de subsistência.

Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um
_terno_[1] à loteria; consistia ela em reunir alguns centos
de francos, não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda
para cobrir com modesta lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do
pequeno cemitério da aldeia.

Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu _atelier_, onde perigosas
imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O
amor e o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»

Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha
sobre a cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação
corria à desfilada, e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em
três garfadas e com três suspiros, segundo o uso imemorial dos
namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o
aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca
rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a canção alegre a
prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.

Era véspera de Natal. Em toda a linha dos _boulevards_ humildes barracas
de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre as
suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de
doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de
ociosos passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da
multidão buliçosa e festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra.
Voltou a si, como um dormente que desperta em sobressalto, e, poucos
minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava,
surpreendia-lhe o olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a
atenção, uma fisionomia na verdade singular.



III


Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma
multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.

No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa
estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.

A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se
bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao
passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava
coberta de manchas lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus
abaixo de zero, cobria-lhe a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e
cansadas já não tinham cor apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase
erma de botões, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da
temperatura, e os braços mergulhavam até aos cotovelos nas
algibeiras de umas velhas calças de ganga.

Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob
grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das
órbitas para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos:
perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões
enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno,
cujos lombos prateados vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e
as suas ventas dilatadas aspiravam com força as emanações culinárias que
saíam pelos ventiladores.

De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o
desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram
sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva
concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço
tímido. Passou a mão curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados,
mais ainda pela atracção dos comestíveis do que pelas luzes. Depois
estudou, uma a uma, com angustiosa atenção as figuras que o rodeavam
inclinadas para a vidraça. Por fim franziram-se-lhe os lábios num amargo
sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapéu, e
soltando um suspiro, enxugou o crânio calvo, onde brilhavam grossas
bagas de suor. Foi então que descobriu André Sauvain, o qual, parado
a pouca distância, o observava com crescente interesse. Vendo-se
espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe
coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irónico,
tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e balanceando-se à moda dos
marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade:

--Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me
empalhado?

Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais
notável ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.

--Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive
intenção de o ofender.

--Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?

--É a primeira vez que o vejo!

--Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes
examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures...
ou ao senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho
eu... ou em Calcutá... talvez na Filadélfia?...

--Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.

--E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei.
Mas então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?

--Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua
fisionomia interessou-me.

--Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de
Sócrates... ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso
extinguiu-se-lhe logo numa contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e
segurou-se, para não cair, ao ombro do moço pintor.

--Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem
deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou
para o fundo.

André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se
ao pé dele.

--Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...

Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns
minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão
uma das pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu
olhar manhoso e ousado, disse-lhe bruscamente:

--Não receia comprometer-se, senhor?

--Como?...

--Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.

André encolheu os ombros.

--Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo
conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não
estou muito mais bem vestido do que o senhor...

--Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que
me convém!

--O que lhe convém!... Que quer dizer?

--Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol,
procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e
irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso
ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é...
nauseabundo. Nem todos o entenderiam.

--Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...

--Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.

André sentiu um calafrio no coração.

--Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim,
mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que
não como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado
defronte dessa exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar
assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer água na boca até a
um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma
noite em que o tinido dos garfos e o _glu-glu_ das garrafas se fazia
ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o
pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se
à mesa; seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao
incomodo de articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua
fisionomia inspirou-me confiança... parece-se com... com quem diabo se
parece das pessoas que tenho conhecido?... Não importa, falei... o pior
está passado!

André remexia já nas algibeiras.

--Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me
dinheiro... e partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado.
Chamo-me Pedro Toucard; é um nome, que não rima com mendigo, nem com
tratante. Preste-me um serviço.

--Qual?

--Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto,
aqui onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...

--Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a
minha bolsa, partilhemos.

E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua
fortuna.

As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou aquele metal, como um
amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e adorada.

--Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!...
eu que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não...
não... exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!

--Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.

E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco
francos na mão calosa do desconhecido.

Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa
inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível
luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um
pardo esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.

--É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca,
retendo a mão de André nas suas e apertando-a com energia.

Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos,
exclamou:

--Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna
corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André
respondeu apenas com um grito abafado.

Pálido, com o coração palpitante, seguia com os olhos uma mulher,
cujo vestido roçara por ele ao passar.

Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros
sob um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.

--Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.

Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se
desesperadamente atrás da sua visão.

Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a
sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:

--Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com
quem diabo se parece ele?...



IV


André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do
chapéu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a
Deus, e ousou enfim encarar... uma decepção!

Não era ela!

--Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa.
Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que
fazer círculos na água com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou
não o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criança loura.

Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as
brasas da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a
senhora Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos
sopeiros, invadiu o _atelier_ no desempenho do seu oficio de servente,
achou André empoleirado sobre três cadeiras, espreitando, através do
seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas
cerradas.

--E esta! exclamou ela com voz masculina.

--Quem mora ali? perguntou o pintor.

A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o
dedo do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura
com gesto feroz.

--Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!

André sentiu-se assomado de violenta indignação.

Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de
cadeiras, pediu à porteira que continuasse.

--Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma
mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo
a luz... Eis-aí está!

--E ela? interrogou André.

--Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um
velho avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um
soldo, e que nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!

--E ela? repetiu André.

--Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela...
Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores,
e não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a própria
Vénus!

André empalideceu.

--Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.

--Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada.
Pois há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá
de cima o interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...

--Mas quem é ela? exclamou André impaciente.

--Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura
de um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso,
que tenha a consciência carregada de assassínios.

--Que ideia!

--É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés
na rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze
anos! Que pensa daquilo?

--Será.

--Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo
de ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do
tamanho do _Constitucional_ desdobrado... e isso porque o proprietário
lho permite de graça... Até causa dó!...

--E ela? insistiu André.

--A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e
remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa
alguma desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco
esse velho papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a
sete pés; se batem à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só
se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma
carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se é possível que um
cristão honrado tenha semelhantes sustos?

--E ela?

--Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha,
desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um
pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar
disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o
pai Germinal apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se
não fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida.

--Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...

--Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a
porteira.

--É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos
namorados?...

--Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua
podia... vadiar o seu bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias,
mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu trabalho,
volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do
pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum
remorso tivesse a pesar-lhe no estômago!

--Que espécie de gente costuma receber?

--Gente?... em casa dele!

--Sim.

--Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato
conhece no mundo inteiro!

--E... os vizinhos?

--Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.

--Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem
misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!

--Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha
dirigido uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo
que toca a sair do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...

Uma pancada, discretamente batida na porta do _atelier_, interrompeu a
senhora Poussignol.

--Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.

A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela
abertura.

--Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.

Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu
ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar
assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou,
articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da
laringe por um saca-rolhas invisível:

--Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na
qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...

André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor
Germinal, aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.

--E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...



V


Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma
humana, escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha
diante de si.

O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante
seis meses em sitio húmido.

Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio
de caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu
fato cheio de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos,
nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças
sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedaço de crânio
amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos
orlados de um círculo desbotado como os dos peixes cozidos, os
lábios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que
nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era também a sua voz, e
até se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.

Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor
Germinal não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um
homem tímido, humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma
trepidação nervosa inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a
atenção alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo
verdadeiramente fenomenal para o seu carácter, parecia obrar sob a
pressão de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonâmbulo
recalcitrante, que o magnetizador dirige.

E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido,
lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain
dispensou ao pai da sua... quimera loura.

--Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que
amável surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como
agradecer-lhe...

Pouco faltou para que André ajoelhasse.

O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam
a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos,
esfregou lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse:

--É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável
verdade, André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.

--Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!

--Muito grande.

--Felizmente o tempo está bom.

--Muito bom.

--Ainda que bastante frio.

--Muito frio.

Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André
contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma
das mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O
senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela
esfregou a outra.

--Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade,
poderíamos permitir-nos... um leve extraordinário...

--É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a
conclusão a que queria chegar o seu interlocutor.

--Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu
vizinho...

O coração de André cessou de bater.

--Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço,
sim... tomo a liberdade... de o convidar...

--Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.

--Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um
tal... Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...

--Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço
cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe
unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas
às oito e dez minutos... para passar o serão... modestamente... em família.

--Em família! repetiu André extasiado.

--Então... aceita?

--Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!

O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia
consternado.

--Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.

--Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o
ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.

Este último encaminhou-se para a porta.

--Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma
garrafa de cidra.

--Adoro a cidra!

O senhor Germinal abriu a porta.

--E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.

--Sou doido por castanhas!

A porta fechou-se.

André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a
Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do _atelier_,
executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra
igual não há memoria!

Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir:
«Ora essa!»

Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso
sobre a caixa das tintas, derramando algumas.



VI


Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por
que prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara
fora de casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus
semelhantes, vinha agora convidar um desconhecido para festejar com ele
o aniversario do Natal!

O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.

Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que
correspondia à campainha do seu amável vizinho.

André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira
roupa lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para
ele, fez-se tão branco como a própria camisa, e pela primeira vez
deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o
que fizesse.

Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto
tornou-se da cor do seu nome.

O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido
de magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau
hóspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que
ali reinava, fazia alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à
custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido,
espanado e lustroso, como convém a um troféu doméstico.

A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para
André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o
pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a
embriaguez da alma, o delírio da imaginação... são esses a que me refiro.

Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para
certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em
quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros
a suave música da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o
_fru-fru_ do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora,
ruborizar-se por ser admirada, e sorrir de prazer corando; como,
enfim, quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos
doirados os anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil,
sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina
de puríssimo marfim, André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.

O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de _écarté_ ao seu jovem
vizinho... que nem deu por isso!

O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu
parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao
fechar longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a
escada rangia sob a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio
sobre a mesa, que André não repararia em tal!

Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só
tivesse aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe
tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe
dilatava até ao infinito, e que dentro dele se abrigava o céu inteiro,
límpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cândida
plumagem.

Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus
braços nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces
enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:

«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»

E, feito isto, voou para o ninho.

O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que
ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de
açúcar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo
quarto, até que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura,
fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precauções, arredou
o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama,
levantou uma tábua, deixando a descoberto uma profunda escavação, meteu
por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.

Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham
o selo do banco de França. Eram notas de mil francos.

O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e
depois, acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.

Eram noventa e dois.

O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e
valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.

E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito
restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e
disse em voz baixa:

«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio,
a minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»



VII


Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do
pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários
talhões, de modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na
renda, gozava de uma pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a
seu bel-prazer.

André Sauvain não participava dessa regalia.

Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos
rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar
amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço
pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.

Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres,
André se tornara indispensável ao misterioso velhote; contava-se com
ele, agora, como com um génio do lar.

O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação
daquela flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera.
Uma manhã estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio
de sol, escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul,
deixara-se cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as
novas vergônteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo
de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o
zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que
tinham aberto as suas corolas durante a noite.

«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam
copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali
passeio... em sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco
estremeceria sob o seu invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre
mostrar-se à fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada
para acorrer jubilosa, que a água do tanque se agitaria de contente, que
a parreira enlaçaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria
com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem vindo!... Pobre André! já
não és a criança que nós encantávamos; já não tens as faces rosadas, a
fronte límpida, a franca alegria, a gargalhada espontânea de então!
Agora... és um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos
teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o camponês, que te trouxe
às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos humildes como somos,
conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor parte das tuas
recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco carunchoso,
onde tua mãe te embalava cantando.»

Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.

--Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim.
Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura;
dir-se-ia que reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem
daqueles companheiros da sua infância.

--É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que
na minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a
esperança transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á
acaso que não descobrisse ainda?...

Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!

Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça
e esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas
foi perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava por
cima dos dois jovens.

--Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe
confiou, a última vez que o viu.

O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.

--Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por
áspera brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as
folhas em redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...

Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras
e inquietas.

--Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então
treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma
carta, que beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente,
meu querido filho, e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois,
partia eu... a pé, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o
meu pão enquanto caminhava, matando a sede na água lodosa dos fossos da
estrada, repelindo o sono, que me fechava as pálpebras... Cheguei enfim!
A porta estava aberta... entrei chamando minha mãe... vi-a imóvel,
branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado
dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos no meio do quarto... sem
gritos, sem lágrimas, sem ideias... Minha mãe estava morta!

O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela
comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.

--Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo
terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha
casa deserta... menos deserta que a minha alma!

Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os
olhos.

--Parece-se com sua mãe, André?

--Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num
naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais
possuía, neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera
triste e solitária; éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de
dedicação para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua
consolação... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser
rico, respeitado, celebre... Minha mãe morreu!

Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma
pérola líquida cair-lhe sobre a fronte.

--Como eu a teria amado! suspirou a jovem.

André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.

--Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada
preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém,
Rosa, acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se,
pouco a pouco, uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza.
Ao princípio, era apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara
no meu caminho, mas... o gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em
planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canções, de murmúrios
e de perfumes!...

André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela
sorria através das lágrimas.

--E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de
minha mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me
terias amado! Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu
espírito encantador tem mil delicadezas; porque me substituíste nos
sonhos de meu filho; porque és a luz dos seus olhos, a flor da sua
esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peço-to eu! ama meu
filho, que te ama tanto!»

Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.

--Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?

Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a donzela, cujas faces
se encenderam em pudico rubor.

Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à
porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado,
mais ferrugento do que nunca.

--Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o
casamento?



VIII


Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a
furtar maçãs.

--Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra,
que é a primeira vez que...

--Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu
o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de
si, ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.

Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...

Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o
lobo no aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?

--Será possível!... exclamou Sauvain

--Tudo é possível, meu caro. E possível que, à força de deitar o nariz
fora da janela, esta criança reparasse em certo vizinho; é possível que
o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; é
possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma rapariga
de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por
cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe
se vê mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.

André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos
apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos
lábios a alva mão da donzela.

--Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida!
repita diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o
coração!

--Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.

--Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.

--E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?

--Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas
levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!

André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de artifício, o coração
tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda regimental.

--Escute-me, disse o velho.

--Sou todo ouvidos!...

--Não se vive só de ar: não lhe parece?

--É verdade, infelizmente!...

--Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?

André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem
encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no
caminho.

--Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha
perseverança e... a minha fé no futuro.

--Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a
teu marido?

--A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.

--Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o
mesmo capital, que eu possuía quando casei.

--E foi feliz, afirmou Rosa.

--Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se
apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que
o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa
orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto
custa ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem
desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo,
estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável
vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras
avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um
pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é
ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso
de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes,
escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo,
para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua
inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é
sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever
próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que
será desta criança, quando eu lhe faltar?»

Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que
desafiavam a adversidade.

--Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei
por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de
miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha
filha a um homem pobre.

André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.

--A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.

Os dois jovens ficaram aterrados.

--Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.

--Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um
gracejo... é bem cruel!

Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um
raspador colossal.

--Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?

--Oh!... o senhor está abusando...

--Responda-me por favor: quantos são hoje?

--Não sei!... 8 de maio, creio eu.

--Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha
possui um dote.

--Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.

--Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...

--Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu
que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.

Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o
senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2].

Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço
de notas de banco, folheou-o perante os olhares atónitos dos dois
namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois mil
francos!» Tome lá, meu genro!



IX


Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do
senhor Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de
natureza a inspirar suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.

--Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?

--Pertence-te a ti; pois que to dou.

--E de onde lhe veio tanta riqueza?

A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito
desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu
constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.

--De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?

--Certamente!...

--Das minhas economias.

--Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando
não era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!

--Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.

--Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de
remédios e de dinheiro para os comprar!

--Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.

--Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto
de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?

--Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os
pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos,
e os francos em notas do banco.

--Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos
que meu pai não põe os pés fora de casa!

--Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor
de palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze
anos que tive uma herança...

--Agora diz que o herdou!...

--Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.

--Ao que parece...

--Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à
míngua do necessário!...

--Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me
tomem por um ladrão?

--Meu pai!...

--Vizinho!...

--Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim?
julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta
de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos
mais em tal!

--Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo
grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...

--Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um
motivo grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!

O senhor Germinal estava extremamente agitado.

--Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais
honrados deste mundo...

--Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.

--Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais
livremente.

E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de
ternura, e beijou-a na testa.

--Criança má!... murmurou ele, estás com muita pressa de abandonar o
teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?

--E quinze, porque não? resmoneou André.

--Nós não te deixaremos, papá!

O senhor Germinal abanou a cabeça.

--É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste
arganaz desengonçado!

--Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.

--E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!

--Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!

--Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E
foi mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...

Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do
usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:

--Vamos! abracem-se diante de mim!

O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.

--E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A
riqueza de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.

--Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um
dote igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!

--Então vá para o seu _atelier_, e volte depois para jantar connosco. À
sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia!

Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram
a soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.

Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol,
discutiam calorosamente:

--Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.

--A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios!
respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.

--Qual inquilino?

--De certo o menos tolo.

--Isso não basta... Como se chama ele?

--Não sei.

--Ora essa!...

O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.

--Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?...
Vamo-nos embora, não digam que estou em casa!

Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os
queixos batiam um no outro a seu pesar.

--Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa
alguma!...

--Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.

--Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.

--Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um
desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e
sossegue-o.

André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora
Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de
pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas.

--Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem
_barrado_, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da guarda!»

--Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por
quem me toma, você?

--Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu
grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?

Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido
fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento
achar-se em frente de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da
sebe de buxo.

--Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E, caminhando direito ao
pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:

--Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo
encontrar!

Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e
cumprimentou-os com galantaria.

--Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua
conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem
amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo...

--Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?

--Que diabo!... pois não me reconhece?

--Confesso que não.

--Ora olhe bem para mim, com a breca!

André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um
nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco
sórdido, umas botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto,
iluminado por dois olhos buliçosos, brilhantes e cheios de malícia,
despertou-lhe pouco a pouco a memoria...

--Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.

--Ora espere!...

--Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...

--Ah!... sim!...

--Defronte da vidraça...

--De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!

Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da
visita lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor.
Esfregava lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa
contemplava Pedro Toucard.

--É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta
noite lhe contarei como o adquiri.

E despediu-se do pai e da filha.

--Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a
honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil
amarras! observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...



X


Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas
tivessem todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain
desejara, nesse momento, que o género humano tivesse um só peito, para
poder estreita-lo amigavelmente nos braços.

Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido,
cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.

--Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio,
pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e
Meca por sua causa.

--Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?

--Nem o nome, nem a morada... No momento em que lhe perguntava uma e
outra coisa, zás! partiu como uma bala!

--Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...

--Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e
queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.

--Ora... uma bagatela!

--Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem
à noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a
rua dos Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas
as minhas pernas já não são setas, e cheguei justamente a tempo de
receber com a sua porta na cara. Não eram horas para visitas. Tomei o
numero da casa, e eis-me aqui!

--Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no _atelier_.

Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo
com afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o
pintor da módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à
vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma
familiaridade cada vez maior.

Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um
trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a
examinar vários esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com
ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e
descobriu sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher...
sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.

--Bravo! exclamou ele.

--Que temos? interrogou André descontente.

--A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo...
porque naturalmente é correspondido!

--Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada
sem-cerimónia, estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não
sou já preciso...

--Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com
mil bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito.
Além de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se
corrige nesta idade, com todos os diabos!

--Tanto pior! observou-lhe André.

--Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou
habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.

André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.

--Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.

--Para quê?

--Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja
reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco
aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me
prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um
homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.

--Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se
encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a
boa intenção, meu bravo!

--Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz,
porque vai desposar a sua bela das tranças doiradas!

--Como o sabe?

--Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver
ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos
de memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa
afeição, aguda ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os
trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!

E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado
com bambinelas de seu lavor.

--Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus?
perguntou André, rindo.

--Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando
melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal
necessário... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o
futuro; ainda hei de _trepar_, creia! É a minha sina! E, quem sabe?...
talvez que eu algum dia lhe compre quadros.

André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na
idade em que geralmente só se pensa no repouso.

--Nada o faz desanimar! disse o pintor.

--E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na
minha historia?

--Venha ela!

O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em
seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.

--Pode a gente fumar em sua casa?

--De certo!

Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca,
escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua
longa barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.



XI


Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe
a bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o
diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que
obrigou Pedro, ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam
confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na
sua opinião, o gérmen de uma casa de comércio. Mas Pedro foi agarrado;
Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeçou as suas
operações em mais larga escala.

Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o
seu carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente
insuportável. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indústria,
pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro
quis ser marujo. Aos doze anos embarcou como grumete, com a cabeça
recheada de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo
um pacote de peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera
barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos
rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.

Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão.
Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha
as pernas muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete
léguas, e lançou-se a galope atrás da fortuna.

Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só
à sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses
spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar
maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de
locomoção conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco
anos a pé, a cavalo, em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a
nado, em diligência, pela posta, em patacho... traficando, vendendo,
comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em peliças, em
azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S.
Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Génova,
expositor em Londres, mestre de dança em S. Petersburgo, caçador em
Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em Madrid, livreiro em
Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu cem
profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.

Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem
mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais
depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em
zero... E sempre assim, durante meio século!

O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um
colegial com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no
fundo de um poço. Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas,
que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligência. Tão ardente
no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existência faustosa nos seus
dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro às mãos cheias, e
saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma côdea
de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando de servir de criado
àqueles mesmos que recebera à sua mesa.

Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções
corrosivas da perda e do ganho.

Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza, e dissera consigo:
«Não irás além!» Queria dois milhões. Por varias vezes conseguiu o seu
fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, uma revolução, um
cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma
caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras
preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias,
e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua
última tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes
ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus
servos estrangulados. E Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente
a sua teia despedaçada.

Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu
chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas,
opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da
pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os
seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima
ou duodécima vez.

Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma
tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma
sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde
sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um
tétano, dirigiu-se para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou
andrajoso e faminto.

--E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que
escutara esta narrativa com crescente interesse.

--Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu
dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos,
serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados,
escritor público, contratador de bilhetes de teatro, professor de
esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo
já alguns centos de francos, que me produzirão avultados lucros. Vou
alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando
tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.

--Com que fundos?

--Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na
testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!...
Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês
teria ganho o quádruplo!

--Ou ficaria sem nada...

--Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo...
Aposto que ainda me verá milionário!

--Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter
confiança em si!

--Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante
preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto
de mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma
palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma
tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma
ideia... Eis porque eu tenho confiança!...

Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de
tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.

--Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços,
leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me
depara... este, por exemplo, e zás! uma ideia me...

Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel,
que lhe estava servindo para demonstração...

--Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.

--Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se
amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou
no pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:

--Que numero é o desta casa?

--Oitenta e sete.

--Rua dos Mártires?

--Sem dúvida.

--Há cá alguém que se chame Germinal?

--Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.

--Aonde mora?

--Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...

--Com mil raios! bradou Pedro.

E, num salto de jaguar, atravessou o _atelier_, abriu a porta, correu
para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e
desnorteado.

Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.

--É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro
Toucard.

O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu
apenas com o seu eterno raspadouro.

--Sim senhor, disse Rosa.

--Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e
sou...

Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito
abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar
com os braços, e caiu pesadamente sobre o banco.

--Meu pai!... exclamou Rosa assustada.

--Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.

--Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz
estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho!
Separem-se... pois nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se
bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade,
disse-lhe:

--Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas,
seguido pelo provençal, não menos agitado do que ele.

Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao
pé deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do
seu amado André.

--Separar-nos!... murmurou ela.

--Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.

--Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação,
meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois,
abatido, deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu
por terra o pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.

Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos
de anúncios.

O pintor leu o que se segue:

«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de
maio de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam
a M. Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»



XII


É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns
anos atrás.

Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então
empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da
margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.

Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através
da espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem
vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de
trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes
perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a
ponta da raspadeira, árvores, campanários, carneiros e choupanas. Tantas
distracções num empregado-modelo, atraiçoavam algum projecto,
amorosamente acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse
taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia
no próximo domingo a Viroflay.

Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e
havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à
mesma hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas
de lustrina, em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo
ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e três francos e
trinta e três cêntimos.

O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas,
por um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de
inteira probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas,
ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e
alinhadas, como uma tábua de Pitágoras. Quando à noite se deitava,
exausto de fadiga, com os dedos inteiriçados de segurar a pena, e o
espírito baralhado de algarismos, não pensava sequer em meter-se nas
questões sublimes da politica, religião, moral ou filosofia, que fazem
divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que fazer.
Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida
mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho
no dia seguinte; depois, o sono envolvia-o nas suas pesadas dobras e
levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma
dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o agitava sequer
por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.

Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o
extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva
de uma digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele
classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava,
respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas
vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer próximo de beijar sua
filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por intuição própria,
os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor, durante os
dezoito meses, em que deixara de a ver.

O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para
desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza
humilde e tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina
para resistir ao sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe
uma filha, com as suas feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa,
em memoria dela.

A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor
Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,
que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, e prometeu
restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com
efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a
de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais
tempo em casa da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a
despesa das viagens abria sensível brecha no seu modesto orçamento.

Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se
sentia ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de
ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de
raspador, produzido pelo esfregar das suas mãos, confundia-se com os
silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem;
ele porém acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria
talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse
veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de lentidão, e vinte
vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraça, se
afastava dele.

Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se
recordava de semelhante celeridade.

As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a
estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e
desapareciam antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a
rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos
exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão
extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga
à que reflectiria uma onda violentamente agitada...

Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror;
entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos
uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.

E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...

Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento
durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as
consciências, e pensou nos entes queridos que o prendiam à vida...
Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!...
Eram 8 de maio de 1842.

Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde
recordar-se.

À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do
animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria
através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas
recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os
socorros, que de todos os lados acorriam.

Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.

Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar,
desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando
estas palavras:

--Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria
mão a... Eu chamo-me...

Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no
_wagon_, que começava a ser invadido pelo fogo.



XIII


No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é
acrescentar que foi de carruagem.

Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a
reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O
seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o
corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o
espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado;
e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo
separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.

A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu
as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um
objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.

Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no
couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.

Continha noventa e dois mil francos.

Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos
do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos;
eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o
qual barricou a porta.

Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.

Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que
pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco,
só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias
despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.

O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que
os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se
confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a
carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do
travesseiro, e deitou-se.

Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da
janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se
ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.

O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em
pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a
perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.

Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma
tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz
engenhoso.

Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria,
e fazer valer os seus direitos à aposentação.

À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em
desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora
responsabilidade, em proveito dela.

Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais
próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio
de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como
ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria
aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia
aquela voz agonizante a dizer-lhe:

--Entregue-o pela sua própria mão a...

Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem
fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o
bastante para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade
expressa do moribundo.

Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair
quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite,
estafado, moído e de mau humor. Interrogou o _Almanaque do comercio_,
gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da
prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das
legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles
e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte
alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.

Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco
aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a
pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de
sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não
podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas
correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que
enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para
sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar
um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...

À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais
frenético, mais nervoso, mais pusilânime. Os noventa e dois mil
francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos.
Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as
faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs
as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário.
Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição
expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois,
contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu
reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se
dentro de casa e entrou de sentinela.

Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença
singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e
sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou
porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele
predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza.
Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de
voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a
amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio
_fru-fru_... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito,
fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.

Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a
enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a
sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...

Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a
loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não
tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas
inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as
promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam
cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha
a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar,
mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a
estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas;
empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.

À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a
desejar-lhe o impossível... isto é, _dinheiro_. Os seus vagos, instintos
de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde
que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que,
contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera
consigo:

--Se o não reclamassem!...

Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se
como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e
dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo
simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se
desculpava para com a sua consciência, murmurando:

--É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera
mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de
júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho;
cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no
almanaque, como um perigo de menos a evitar.

Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor
Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já
para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de
Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua
enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique
sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse
dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou
dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.

Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso, austero até ao
superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte
raciocínio:

«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de
Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que
não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia
compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me
utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»

Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma
casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim
dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade.
Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas,
empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia
cometer um roubo.

«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma
criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco
de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão!
Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»

Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre
pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor
por André Sauvain.

Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas
hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a
parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio
satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois
mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.

Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência
oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos
aos dois jovens.

Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro
Desmancha-prazeres.



XIV


Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento,
estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do
outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.

Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.

Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de
quase lhe arrancar os cabelos.

--Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo
Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se
dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão
existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»

O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade
que lhe prometera e que ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda
negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se
é honrado impunemente!

--Sim, senhor, respondeu com voz sumida.

Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e
aproximou a cadeira.

--Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.

--É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando
tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.

--Em que grau era parente de Onésimo Toucard?

Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal;
abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior.
Contudo, após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual
desembaraço e respondeu:

--Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da
família, hoje extinta.

--Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?

--A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e
apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim,
ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.

--De que modo?

--Por um dos seus anúncios.

--Há cinco anos que os não publico!...

--É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa
época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?

--Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.

--Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa
comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros,
que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em
8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...

--Foi em Paris que se efectuou a partilha?

--Não, em Liverpool.

--Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou
cinco dias apenas?

--Um ou dois, se tanto.

--E o senhor?

--Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para
Calcutá, sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em
Versailles.

--Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?

--Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...

O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.

--Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos
que possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua
identidade...

--Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre
comigo os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura
segura...

E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e
reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.

Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente
convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo
namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres,
outrora dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.

--Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o
provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas
cartas de Onésimo... Conhece-lhe a letra?

--Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.

Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de
Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu
querido irmão...»

O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e
comparou a letra dos apontamentos com a das cartas. Não podia
conservar a sombra de uma dúvida.

--Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam
todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança,
reconheço-o por irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...

--Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a
pois... meu bravo!

--Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão
pereceu.

Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!

--Entretanto...

--Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que
morreu; agora vamos às contas...

--Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e
porquê, ele me confiou as suas últimas vontades.

--Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!

O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu
interlocutor.

--Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um
grande traste!

Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração
fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:

--Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre
algum tratante... Mas tratemos agora...

--Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.

E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e
depô-las sobre a mesa, uma por uma.

A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco
mais.

--Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria.
Viva a França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado
comigo, lá na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois
milhões, consinto em que me enforquem!

O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância
de júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...

Pedro bateu-lhe no ombro.

--Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma
recompensa...

O senhor Germinal abanou a cabeça.

--Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital
devem ter produzido uma continha menos má...

--Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso?
Estes valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de
minha casa!

--Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações,
em terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez
render de alguma forma?

--Não, senhor.

--E guardou-os doze anos, assim... num buraco?

--Certamente!...

--Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de
catorze anos?

--Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de
outrem?

--Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.

--Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso
eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.

--Isso é verdade... respondeu Toucard.

E, olhando em torno de si, acrescentou:

--E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a
virtude é uma bela coisa!

E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:

--Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...

O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.

--O que é? perguntou este último.

--É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios,
aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e
cinquenta cêntimos.

--Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário!
exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui
tem o maço, tire o que quiser.

O senhor Germinal endireitou-se com altivez.

--Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.

Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com
firmeza. Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por
ver-se dali para fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil
quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mãos do velho,
disse-lhe:

--Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto
de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como
um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não
ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.

Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou
as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os
olhos a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu
a escada cantarolando.

O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez
tranquilo... e quase alegre também!

Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.



XV


À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses,
distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.

Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da
tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as
últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.

Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da
esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido,
tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:--Amemo-nos,
apesar de tudo!

Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal,
envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.

--Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos,
meu amigo!...

O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se
severo, bradou:

--Rosa!

--Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.

--Vá já para casa.

Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de
seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e
de amargura.

--Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso
de falar com André.

Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.

--E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...

Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se
tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o
senhor Germinal pela gola do casaco:

--Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um
momento.

--O do senhor Sauvain.

--E quem é que se chama assim?

--Este mancebo.

O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de
André, que mediu com olhar inflamado.

--Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?

--Certamente!...

--Nasceu perto de Granville?

--É exacto.

--E seu pai era marinheiro?

--Era.

--A bordo da _Ariana_, que se perdeu com a carga e tripulação... há
vinte anos?

--Sim, mas porque acaso?...

--Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard,
tornando-se carmesim.

E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o
chapéu.

--E sua mãe? continuou ele ofegante.

--Minha mãe...

--Não receberia ela?...

--O quê?

--Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?

--Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?

--Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.

--Entretanto...

--Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!

--Então teve relações com meu pai?

Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.

--Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem
reparar; tenho de fazer fortuna... c'os diabos! Mais tarde não digo
que... mas presentemente...

Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada
provavelmente à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes,
o seu crânio calvo, que ficou vermelho e fumegante.

Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e
sentou-se num banco para tomar alento.

O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.

--Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim
assim? Que disse eu, que tanto os espante?

--Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...

--A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um
marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que
morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou.
Demais... sou propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o
sangue à cabeça! Mas não façam caso... já passou.

O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando
noutra coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.

Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.

André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.

--Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui,
quero dar-lhe duas palavras.

O pintor seguiu-o, assaz intrigado.

--Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O
senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo
quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis
nesta ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!

E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.

André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.

--A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.

--A título de amigo.

--Vimos-nos apenas duas vezes!...

--A título... de antigo amigo de seu pai.

--Conhecia-o de leve, segundo disse.

--Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava...
É a minha vez agora. Que diabo!...

--Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.

--Porquê?

--Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado pobre para
aceitar qualquer empréstimo, não sabendo quando poderei pagá-lo.

--Ora? que importa isso?...

--Importa-me muitíssimo!

--Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se
recusa aceitar o que tantos outros...

Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.

--Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar
faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho!
Vais aventurar-te sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de
imbecis que lhe és superior no artigo _inteligência_.

--Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...

--Coisa nenhuma, neste momento!...

--Aonde vai a correr?

Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com
gesto majestoso, e partiu exclamando:

--A casa do meu banqueiro!

E desapareceu.



XVI


--É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações
com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um
homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como
corre!... É um furacão!

--Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço
pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos _castelos no ar_!
Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os
punhos de raiva.

Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em
indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.

Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de
rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de
peixe cozido, e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis
vezes, com intervalos.

Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância
fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e
deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.

O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com
Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más
tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus
desalentos.

Quando acabou, André disse-lhe friamente:

--Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em
repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que
nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos
sem hesitação ao seu legítimo proprietário.

--Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um
mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho
em chamar-lhe meu filho...

André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.

--Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversêmos um pouco sobre coisas
mais importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...

--Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.

--Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.

O senhor Germinal levantou-se bruscamente.

--Não me entendeu, pelo que vejo?

--Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e
que o restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o
facto, muito mais importante, de que dependerá o nosso futuro?

--Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou
asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade
material de minha filha...

--Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a
podiam reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?

--Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por
aquela obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à
sua a sorte de Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela
viver neste cacifo? Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os
expedientes, as dívidas, os cuidados, a doença... a morte!

--Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora
o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se
este consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses,
procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque
incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

--Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

--E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?

--Ignoro-o, mas não casará consigo.

--Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas,
extinguir-se-ia o sol.

--Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar
mais nisso.

--Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se
aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas
artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a
primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse
pedir-me que esqueça Rosa!

--Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la
miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não
casará com minha filha!

--Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do
luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no
peito o gérmen de uma doença mortal? E com que direito aquilata
pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense,
acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta,
embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço,
corajoso, inteligente e forte?

--Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que,
quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos.
Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.

--Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!

--Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido
por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de
honra de que não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe
acalentar ilusões inúteis. Com essa condição...

--Nunca!

--Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.

--É a sua terminante decisão?

--É.

--Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e
eu esperaremos...

--A minha morte?

--Não, senhor; a maioridade de sua filha.

--Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu
lhe feche a minha porta, e terá a bondade de renunciar à
conversação de minha filha.

--Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela;
mesmo contra sua vontade!

--Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do _atelier_.

Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua
arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de
súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um
enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz
como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André
voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero;
depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns
vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das
ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse
para onde fosse!...

André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um
tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a
quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha,
primeiro timidamente, depois com mais força.

Nenhuma resposta.

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou
o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um
vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de
policia.

Depois disto, André desceu ao _atelier_, atirou consigo para cima do
canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.

Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria
prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono
febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez
minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não
surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com
queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e,
com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.

Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens
escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio
pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso.
Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa,
hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.

O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a
deitar-se, vestido como estava, dizendo consigo... que ninguém já
sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que
ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e
finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões,
adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na
sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.

--E esta!

Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os
olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o
bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus
sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.

--Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...

--De quê?

--De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...

--Que gente?

--A família Germinal.

André sentou-se de súbito no canapé.

--Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.

--Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha
primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.

--Ainda a mesma tolice!

--Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.

--Do senhor Germinal?... Você endoideceu!

--Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...

--O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.

--Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos
vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.--Sou eu, Germinal,
responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que,
durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem
mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me,
acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo
de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia
um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por
inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que
vejo a cor--sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não
sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque
brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a
chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a
de repelão. Puxei a corda e... boas noites!

André parecia uma estátua.

--Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!

--A prova é que tenho aqui a chave da casa.

O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou
pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.

O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama
não fora desfeita.

André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou
nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele
mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas,
que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça
sobre o peito e perdeu os sentidos.



XVII


Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um
cão que perdera seu dono.

Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os
cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho,
correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e
logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado
mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.

Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo
dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou
escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um
acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se
agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação!
Interrogou, suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o
infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou
ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.

Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um
ebanista do _faubourg_ Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do
senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma
longa viagem.

Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de
Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.

Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém
opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até
à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.

Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o
dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam
gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este
estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu
rapidamente o declive que conduz ao cemitério.

Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de
leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o
pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à custa do moral:
André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem
se atira a um poço.

Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia
nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente,
menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante
afã.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo.
A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a
arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da
sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria
de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que
não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito
tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente,
não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a
fama e o dinheiro correram atrás dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de
quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas
telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e
aumentou-os de seu moto próprio.

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava
já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o
oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a
doença, e voltou à sua lida obstinada.

O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os
créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros,
era logo vendido. O seu _Faust au sabbat_ tornou-se propriedade de um
capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o
anónimo.

Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora
era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida
para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer
lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»

Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar
o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um _atelier_ mais cómodo e
decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali.
Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo
pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na
flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela
lhe fizera a primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde
se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão
venturosas?...

Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo
na fadiga.

Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e
virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a
coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível;
como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o;
pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem
forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.

Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as
suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo
mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.

Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os
seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma
transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação
temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e
busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.

E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor
de si um conforto, uma dedicação, uma simpatia... Mas... debalde:
nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente
ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em
tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...

Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito
entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da
criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à
superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da
sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha
mãe!»

Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação
sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste
quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os
mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa
encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!

Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela
teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o
embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do
vocabulário dos anjos!...

Ai dele! sua mãe era morta!

Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada por amor de uma
ingrata, André corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma
campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as
ruínas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessário possuía-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta
esperava.

--Coragem! exclamou André. A caminho!...

E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando
sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga
satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para
cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no
tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não
tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de
entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar,
uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda
da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde
concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo
voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante
frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado,
com olhos negros e cabelos louros...

Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos
almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos
matizados de amarelo e púrpura.

Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o
entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os
efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os
seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente,
quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma
dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.

Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última
aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das
suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas
mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando
a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com
os pés embranquecidos da poeira.

Uma hora depois, André avistava o seu casebre.



XVIII


Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O
vento da Costa não o derrubara de todo.

Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com
o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim.
Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das
janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam
tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.

Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano.
Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da
superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual
gigantesco sudário.

André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e
entrou em casa. Um odor indefinível se exalava daquele recinto,
onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do
dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com
os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira,
o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da
pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por
acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.

André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham
bordado.

Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí,
mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na
lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.

O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor
estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe
estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e
que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...

Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo,
que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz
no outro mundo.

O pintor não confessara tudo a Rosa.

Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos
arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da
costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se
dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam,
e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho
recém-nascido.

Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo
da _Ariana_, e da perda daquele navio com toda a tripulação.

Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava
seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as
brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um
culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.

Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e
abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho
uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego
que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si
enfim...

Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação
incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer
as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um
escultor, passando por ali, o encontrou, e apreciando a sua
inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas
de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.

Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas
chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.

Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de
surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas
apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um
grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o
rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um
prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho;
deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não
podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro
sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.

Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o
sinistro enigma?

Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas
paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua
imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas
impetuosas do vento, abalando o tecto, sucediam-se, como
gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...

Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre
filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim
às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira
contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.

Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.

Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O
pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro,
resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e
limpou-o ao forro da blusa.

Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular.
Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um
indispensável de mulher.

André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele
género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que
começou a crepitar.

O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar
o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave
intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que,
entre aquela chave e o mistério que procurava desvendar, havia
talvez íntima relação...

De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver
brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas
multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.

Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou
na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava
o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?

André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações,
descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da
arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que
estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.

A caixa abriu-se; continha apenas um papel.

Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta
inglesa, indicava a procedência de Liverpool.

Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em
frente daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de
sua mãe.

Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou
primeiramente a assinatura. Ao vê-la, escapou-se-lhe dos lábios um
grito de surpresa.

No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços
vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!

Depois, André leu o que se segue:

«Liverpool, 4 de Maio de 1842.--Minha senhora: O meu nome, embora lhe
seja desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero
interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever,
informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.

«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém
Onésimo Sauvain não morreu.

«Quando a _Ariana_ naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio,
do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação,
tivemos a boa fortuna de escapar.

«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados,
igualmente desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu
marido é um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas
empresas, e, navegando de conserva, levámos a cabo não poucas
especulações lucrativas.

«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de
passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e de
Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo Toucard. Ora eu, que
não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. Confessou-me que
deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que não
tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil;
disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto
persegui-o com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua
morte, que me prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que
tivesse adquirido meios suficientes para viverem cómoda e honradamente.

«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má
fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A
parte de Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade
dissolveu-se; ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em
paz da sua modesta abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão
exíguo capital, reembarco para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo
tentar fortuna.

«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal;
mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas
cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais,
inclino-me a crer que ele roerá a palavra a este seu criado, continuando
a deixar a esposa em viuvez, e que dissipará em orgias o capital,
que pertence legitimamente a seu filho.

«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar
convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis
na sua idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.

«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou
tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às
ordens que me dita a consciência.

«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a
Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo
que adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não
me parece difícil que consiga descobri-lo.

«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito
de==_Pedro Toucard_.»

Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta,
estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter
produzido em sua mãe.

Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte
civil à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico,
e não lhe importava sequer se seu filho tinha pão!...

Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas ilusões
violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe
tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que tivera.

Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em
vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada
dos acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias
complicações.

Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!

Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas
mãos de um estranho, pertenciam-lhe!

Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara
encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!

Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera,
era André quem enriquecia a mulher que amava!

Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares
coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para
apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter
para os seus legítimos donos!

André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o
nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda
não estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos, não pudera
vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de
traficar mais uma vez.

Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e
de André!

«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei
restituir o dinheiro!»

E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito.
Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios
enérgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso não
teria então mais nenhum obstáculo, que opor ao seu casamento com Rosa.

Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois,
prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e
teve um pesadelo.

Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras
preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata
maciça, galopava, ao longo dos _boulevards_, numa carruagem puxada por
doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria
gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor
som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a
multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de
Sauvain...



XIX


Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em
face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo
as névoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a
imensidade líquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro;
assim, no coração de André, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo
se evaporara ao sol da esperança.

Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa
era:

1.º--Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a
excentricidade da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair
sobre si.

2.º--Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.

3.º--Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor
Germinal; ir ter com ele, ainda que estivesse na Gronelândia,
agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.

Nada mais simples!

André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os
perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de
azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da
aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper
do sol.

Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel
recordação, ante um montículo invadido por ervas parasitas e por
parietárias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada
entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braços dessa
cruz, já não se distinguia.

André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando
rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se
tranquilo, mas em profundo recolhimento.

No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e
entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do
velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque
decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.

Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou
a pôr na arca a caixa de conchinhas, confiou a chave da casa ao
empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para
Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não
tinha tempo a perder.

No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu _atelier_,
escovando o chapéu para correr em busca do provençal.

--Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais
facilmente encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele
transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir
apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos.

Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André,
petrificado de espanto, recuou três passos.

Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!

--O senhor!... exclamou Sauvain.

--Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons
dias, caro amigo!...

E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força,
estreitando-a nas suas.

Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:

--Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco
mudado... um tanto pálido... mais magro... mas bem disposto e
animado, o que me causa imenso prazer.

--É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.

--Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual
inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...

--E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto
chegava semelhante impudência.

--Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a
minha última visita data de há quatro meses?

--Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.

--Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco
difícil, para fazer-lhe.

--Uma confidência!

--Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem
suas razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...

--Realmente?

--É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem
andado opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...

Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André
esvaiu-se quase de súbito.

--Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos;
e visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo
o arrependimento, misericórdia!...

--Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.

O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.

--Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria
trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...

--Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil,
porque eu sei tudo.

--Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!

--Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?

--Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem
diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...

--Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.

--Eu!...

--Ora leia.

E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.

Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.

--Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais nova do que eu...
doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao seu destino!

--Enganava-se.

--Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este
dinheiro...

--O meu dinheiro, quer dizer?

--Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?

--Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.

E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar,
desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de
tantos mistérios!

--É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a
cabeça. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que
cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o
primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!

--Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a
falta!

--Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável!
Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição
de Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e
fui eu... eu!...

--Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.

Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta
surpresa.

--Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!

--Porquê?

--Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças
de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete,
conversa tranquilamente com ele!...

--A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse
encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos.
Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez
mal... sim... visto estar pronto a restituir...

--Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...

André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.

--Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...

--Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o
meu exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei
ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil
francos?

Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes
ares.

Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam
oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos
buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.

O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da
miséria. Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.

--Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele;
agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de
água. Feridas de dinheiro não são mortais.

--Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?

--O quê?

--O que eu suponho...

--Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e
depois... veio a baixa.

--Portanto está tudo perdido!

--Fundido, destruído, evaporado!

--Não resta coisa alguma?

--Restam-me... dívidas.

--E a herança de meu pai?

--Foi para casa de seiscentos diabos.

--Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha
sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.

O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas
algibeiras das calças despedaçadas, e poderia mesmo jurar-se que um
vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.

--Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me,
mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com
que me enforcarem!...

André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.

Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo
desespero, caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:

«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»

Pedro pareceu sinceramente comovido.

--Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de
cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava
com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido,
velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!

E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um
rosário de pragas.

Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com
o rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis
para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.

--Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda,
coice! O enguiço triunfa hoje, de acordo! mas eu sou um
espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e
reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma
obrigação de cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?

André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em
pranto.

--Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação
com as suas covardes zombarias!... Saia!

--Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...

--Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.

--Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente
seria vê-lo rico e satisfeito.

--E por isso me roubou o meu património, não é assim?

--Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu
bolso, agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti,
que Onésimo nos ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!...
Leva-nos, Pedro, e quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André,
Rosa, toda a família será feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com
a breca, levei-as!... Se esta explicação lhe não basta, pegue numa
pistola, e abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me
ao banco dos réus, para que me condenem às galés.

André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.

--Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não
me esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me
vingarei, senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!

Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.

Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba,
reflectiu, e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:

--Senhor Sauvain...

--Ainda aqui! exclamou o pintor.

--Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de
consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais
miserável, senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão
pouco lhe aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna
mendigar, vou direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!

--Espere!... disse Sauvain.

E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.

--Leve isso.

--Eu!...

--Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha
mãe, a quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.

Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos
lampejavam humedecidos.

--De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não
recobro o sono, que me foge?

O pintor encolheu os ombros.

--O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a
minha raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam
uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!

O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do
_atelier_. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o
semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado
insensível ao mundo exterior.

--Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com
singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca,
com mil bombardas!

E saiu.



XX


Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne
ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os
ouvidos só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o
corpo inerte, despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a
viver, mas não o bastante para conseguir morrer.

Assim estava André Sauvain.

Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar,
sem acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e
das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.

Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.

Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos de Rosa, que
pintara na época da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta
de si, nas condições de luz mais favoráveis; depois, fechou à chave a
porta do _atelier_ e desprendeu da parede uma pistola, que
cuidadosamente carregou.

Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.

Davam onze horas num relógio próximo.

--Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei
saltar os miolos.

Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não
podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos
recursos!...

Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro
retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves,
aquelas pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência,
André recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios
murmuravam palavras ininteligíveis.

Deu meio dia.

André pegou na pistola.

--Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.

--Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!

Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu a porta, pegou na
carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.

Não era de Rosa!

A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando
algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.

André ficou aterrado.

Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela
agora, mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.

Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!

O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.

--Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!...
Ganhemos, com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!

E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de
quadros, e pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.

O industrial anuiu de bom grado.

--Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora
uma ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.

--Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.

--Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores
de Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível.
Pediu-me que o relacionasse com um pintor de talento, e eu
falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a
fresco; convém-lhe?

--Convém.

--Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês
habita na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e
inteligente. O senhor entender-se-á perfeitamente com ele.

--Como se chama?

--Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É
no vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso,
e creio que o senhor não terá razão de queixa.

--Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain
desembarcou em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que
lhe indicassem a casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele
nome, o qual decerto era novo no país; mas, após diferentes
investigações, descobriu, a dois tiros de espingarda da vila, um pequeno
castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca colina.

--Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente
trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os
jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda,
tapetada de verde relva, que se estendia em suave declive até à
entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois
pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam
destinados, um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro.
Este individuo destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e
olhando para as moscas.

Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço
descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes
brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.

--Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.

A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de
saliva negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da
face direita passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.

--Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?

--Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?

O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de
fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o
abdómen e retinir os brincos.

--Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o
senhor também entra...

--Se entro!... em quê?

--Na farsa.

--Qual farsa?

--A que vai representar-se.

--A quem?

--Ao senhor Nuavias, já se vê!

--Não entendo.

--Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que
eu nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que
ignoro tudo...

E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de
vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.

--Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.

--Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não
veio. Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.

--Eu!... Está enganado.

--Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde...
Regozijo-me de antemão, palavra de Jacinto!

--Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do
senhor Nuavias posso ver a casa?

--Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto
eu enfio um casaco e vou buscar as chaves. Não me demoro cinco minutos.

André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua
arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro
fatigado, mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o
espírito.

Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas
árvores, povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num
círculo encantado. O sol do outono, já declinando para o horizonte,
derramava sobre tudo aquilo ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o
dia extinguia-se lentamente; nuvens de opala flutuavam na atmosfera,
orlando o céu azul.

Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama
tão tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se
ouvia; nem um som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus
próprios passos sobre a areia. André sentiu percorrer-lhe as veias
delicioso frescor; a brisa da tarde, morna, pura, embalsamada de mil
perfumes, transformou a sua agitação nervosa numa languidez
fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe estendia aos
pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse daquele
sossegado Éden.

Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro! Que delicia lhes
seria vaguearem a sós, silenciosos, com os braços enlaçados, por aquelas
alamedas misteriosas! ele... a rever-se em dois olhos pretos
radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa complacente
traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia, ainda,
contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do
parque!...

A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações.

O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e
munido de nova dose de tabaco.

--Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.

André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao
exterior. Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição,
faltava talvez um certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a
presença de uma mulher.

--O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.

--Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote.
Deveras... o senhor não está na confidencia?

--Nem pouco, nem muito!

--Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se
prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.

--E essa surpresa em que consiste?

--Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu
já começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente
mistificada.

--Ela é bonita?

--Encantadora, segundo dizem.

--Nova?

--Muito nova.

--E ele?

--Também é moço.

--Amam-se?

--Apaixonadamente!

André suspirou.

Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.

--É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir,
silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em
movimento as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.

--Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas
não se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.

E saiu, apertando as ilhargas.

André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava;
espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem,
as flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.

André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação,
aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre
reunir, tudo enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava
no coração, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o
inconsolável!... àquele retiro festivo? Que figura faria, se o
envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos?

Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde.
Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a
cabeça, mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o
pintor através de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma
vasta sala, já invadida pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.

Ao principio, Sauvain julgou-se só.

Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam
livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu,
dentro em pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os
contornos indecisos de uma mulher sentada.

--Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.

Um grito vibrou, como uma nota de cristal.

--André... É André!...

E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último raio de sol, que
borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.

Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como
uma lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.

--Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...

Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo
flexível e palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos
pequeninas, mas bem vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro
hálito de Rosa, que lhe deslizou nos lábios!

E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se
na contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto
comovido, radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...

Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do
terraço. Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma
sombra estreita e alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em
volta dela, como um lençol cor de ferrugem dependurado num pau.

A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se
respeita; porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a
sombra estava raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois
jovens despertaram do seu êxtase, e André, chorando e rindo ao
mesmo tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas
de Champanhe, atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:

--Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido
sogro!

A sombra debateu-se violentamente.

--O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?

--Ora essa!... Abraço-o.

--Quer dizer... que abraçava minha filha?

--Não o nego, meu sogro.

--E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...

--Ora!...

--Não há _ora_, nem _meia ora_... Vamos! largue-me!...

--Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...

--Largue-me, com trezentos demónios!...

--Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve
prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!

--O senhor zomba de mim?

--Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar,
quando a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este
terreno neutro, onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...

--Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara
impudência!... Pretende acaso dizer...

--Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o
melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...

--Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à
sua indigna acção!

--Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção
indigna fala?

--Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui
enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que
triunfaria por uma cilada?

--Eu!...

--Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá
minha filha!

--Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado
vinte anos da minha vida para descobrir...

--Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas
cartas?... acrescentou ela em voz baixa.

--As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?

--De muitas, que lhe enviei às escondidas?

--Pois escreveu-me?... a mim...

--Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!

--Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as
aqui no bolso.

--Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...

--Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a
correspondência amorosa, não te parece?

--Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha
parte era impossível!...

--Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?

--Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!

--E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu
continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas
considerável.

--O senhor Nuavias?

--Sim.

--Quem lho inculcou?

--A modista, para quem trabalho. E André?

--O meu comprador de quadros.

--Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.

--O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou antes Providência,
que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil vezes bendita!...

--Senhor, disse Germinal, delira certamente!...

--Creio que sim, meu sogro... e muito!

--Já fez fortuna?

--Oh, muito pouca!

--E ainda ama minha filha?

--Apaixonadamente!

--Contudo renuncia à sua mão?

--Isso de modo nenhum!...

--Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!

--Porém...

--Não lhe dou minha filha!

--Entretanto...

--Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com
minha filha! Já disse.

O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos
pulmões, e por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu
adversário, bramindo:

--Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!

Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e,
sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar
Rosa, unindo-a docemente ao coração.

Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos
de lince.

--Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu
chapéu... Partamos imediatamente!

--Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.

E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.

No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma
serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem
baixo, de espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de
branco, vestido de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o
recinto a dez passos de distância. Avançou majestosamente, com os
polegares suspensos nas algibeiras do seu faustoso colete, e fazendo
ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.

O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se
confusos.

--Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil
amarras!...

--Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida...
Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...

Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça,
curta, bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um
espelho: ter-se-iam mirado nele as andorinhas em pleno dia. Uma
cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso
abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes
anéis; as algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de
napoleões.

Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal,
desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus
calções curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de
dimensões enormes. Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das
tenazes e atiçou o lume.

Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos
dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio
sobrado, e sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.

--Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do
fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...

Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de
Pedro, o perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a
boca aberta do senhor Germinal.

Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo
escanhoado, continuou:

--Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com
um homem, que os reuniu... contra vento e maré!

--Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram
as, mãos do aventureiro.

--Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso.

--Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as
suas culpas!

--Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?

--De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...

--Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é
assim? E a menina Rosa não me recompensará também?

--Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios
encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não
posso...

--Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro,
entre dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me
rejuvenescido!

--Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não
sou aqui ninguém?... Com a breca!...

--O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor
Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa.
Mas... acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que
vejo eu ali?

--Onde?

--Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.

--É uma chave! exclamou ela.

--Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz
recordar...

--Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.

E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado
rosto.

--Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele
cofre, que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...

André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que
deixara em Granville, na sua arca de nogueira.

--Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum
cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da
minha vida: estas caixas são de bom agouro!

E dirigindo-se a Rosa:

--Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da
chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou
cair? Reviste sempre, Rosinha!...

--Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de
confiança!... Que dirá o senhor Nuavias?

--Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...

A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o
génio benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para
um desenredo agradável.

Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.

--Notas do banco!... exclamou ela.

--Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor
Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível
dar-lhes melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas.
Tome-as lá, compadre...

--A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?...
com que direito?... o que significa?...

--Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a
buscar, minha filha...

Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa,
deslumbrada.

--Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor
Nuavias... Procure mais...

--Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o
senhor, ou é o diabo?...

--Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?

--Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.

--Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias,
que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse
afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...

--É... quem?

--André.

--Eu!...

--Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.

--Porém, esta casa...

--Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa,
senhora noiva...

Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados,
com selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães.
Continham um acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a
propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise).

--Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não
posso aceitar...

Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se
grave e sisuda.

--Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate,
a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais
cedo... Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se me
apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não
tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu
património. Dessa experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer
ter-me-ia morto, porém o senhor... coração nobilíssimo!... para o homem,
que lhe despedaçara a vida, teve ainda uma última e sublime esmola!...
Pois bem! seja generoso até ao fim... não recuse os meus dons... não me
deixe remorsos...

--Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis
encantador... com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o
houver atraiçoado.

--Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da
febre de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal
ensinar-me-á o gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.

--Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se
trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e
património?... Que significa todo esse aranzel?...

--Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas
virtudes raras, e tão raras que me converteram...

--E quais são essas virtudes?...

--O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a
inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.

Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.

--Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa,
que pude coligir, foi que o senhor está milionário!...

--É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito
sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é,
arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou
portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando
penso nisso, sobe-me o coração à garganta, e sinto-me tremer como...
como o seu _Faust au sabbat_, André!... um quadro admirável! que, entre
parêntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram
já o seu peso em oiro?

--De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na
conspiração?... Traidor!...

--Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os
criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu
elevei à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de
recomendar à sua benevolência.

--Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível que tentassem
inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu!

--Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor
Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu
genro!

--Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a
garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza,
gloria e felicidade, tudo encontraria...

--NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard.

FIM

    [1] Reunião de três números, cuja extracção simultânea era uma sorte
    feliz.

    [2] Hospital de alienados.



OBRAS PUBLICADAS

PELA

EMPRESA EDITORA CARVALHO & C.ª


TEATRO

Os sabichões--Comédia original em 4 actos, por E. Biester, 250

Ao calçar das luvas--Comédia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100

O afilhado de Pompignac--Comédia (tradução) em 4 actos, por L. C. M., 200

Um homem político--Comédia (imitação) em 3 actos por Aristides
Abranches, 200

O fidalguinho--Comédia original em 3 actos, por Ferreira de Mesquita, 200

Abençoado progresso--Comédia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100

As campainhas--Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100

João o britador--Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M., 250

As três rocas de cristal--Mágica em 3 actos e 17 quadros, por Aristides
Abranches, 300

A família--Drama original em 5 actos, por J. R. Cordeiro, 300

Quem desdenha--Comédia original em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100

Caso de consciência--Comédia (tradução) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100

Luís XI e o poeta--Comédia (tradução) em 1 acto Ferreira de Mesquita, 160

A mosca branca--Comédia (imitação) em 3 actos, por Duarte Santos, 200

A cruz de prata--Drama (tradução) em 5 actos, por L. C. M., 300

N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40 por cento de
abatimento.


ROMANCES

As duas flores de sangue--Original, por Pinheiro Chagas (1 volume), 500

As doze espadas do diabo--Tradução de Guilherme Celestino (2 volumes), 800

Cláudio--Original, por Júlio César Machado (1 volume), 500

Nas cinzas--Tradução por L. C. M. (1 volume), 300


NO PRELO

Uma noite em Florença--Tradução de Guilherme Celestino (1 volume), 400

Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importância em
estampilhas ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100,
1.º andar.


Imprensa Nacional--1875





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