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Title: O Bispo: Nova «Heresia», em verso
Author: Braga, Guilherme, José Pereira de Sampaio (Bruno)
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Bispo: Nova «Heresia», em verso" ***

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                             Guilherme Braga


                                 O BISPO

                         NOVA «HERESIA», EM VERSO

                ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.
                Il faut donc la sonder a toute profondeur,
                Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.

                                                ÉMILE DESCHAMPS.



                       Segunda edição com o retrato
           e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por
                       J. PEREIRA SAMPAIO (_Bruno_)



                                  PORTO
                   LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS
                        136, Rua das Flores, 138
                               M DCCC XCV



                                 O BISPO



                                  PORTO
                          TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
                            Rua da Fabrica, 80
                                  1895



                       [Retrato de Guilherme Braga]



                             Guilherme Braga


                                 O BISPO

                         NOVA «HERESIA», EM VERSO

                ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.
                Il faut donc la sonder a toute profondeur,
                Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.

                                                ÉMILE DESCHAMPS.


                       Segunda edição com o retrato
           e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por
                        J. PEREIRA SAMPAIO (Bruno)



                                  PORTO
                   LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS
                        136, Rua das Flores, 138
                               M DCCC XCV



AOS

LIBERAES

PORTUGUEZES E BRAZILEIROS

DAS TERRAS DE SANTA CRUZ;

A TODOS AQUELLES QUE N'ESSAS REGIÕES
ESMAGARAM DENODADAMENTE AS VIBORAS JESUITICAS



                                 _Offerece_

                este humilimo testemunho d'adhesão ás suas ideas
                         e de sympathia pelo seu esforço

                             _Guilherme Braga,
                 o condemnado auctor dos «Falsos Apostolos». _



_ADVERTENCIA_

AO

Bispo do Pará

    Embora sobre mim peze
    O teu anathema, ahi,
    Eu, bispo d'outra diocése,
    Tambem te excommungo a ti!



Antes de lêr


Propõe-se um editor novel, mas que benemerentemente para as lettras
patrias inicia a sua carreira, salvar do esquecimento, a que a raridade
dos exemplares d'uma edição limitada parecia indefectivelmente votal-o,
o pamphleto poetico a que estas linhas servem de preambulo explicativo.

As apparentemente pretenciosas palavras ultimas foram muito de caso
pensado escriptas; e em curtos dizeres ellas poderão ser interpretadas
segundo a modestia real das suas proporções.

É claro que, no restricto acanhamento das algumas paginas que, mercê do
plano proprio da pouco custosa publicação, lhe são concedidas, o
redactor d'estas linhas, ainda que lhe sobrasse em meritos o que em
competencia lhe escasseia, não poderia abalançar-se á critica d'uma
individualidade litteraria tão viva, espontaneamente accentuada como a
de Guilherme Braga, auctor do opusculo em reimpressão.

Repetir, pela centesima vez, que o vate portuense pertence, nas suas
mais altas culminancias, á categoria esthetica que o critico parisiense
Laurent-Pichat marcou e definiu para os, por elle, primeiro, chamados
_Poetas de combate_--ociosa banalidade seria, que não primava sequer
pelo exacto rigor do asserto, visto como Guilherme Braga foi
simultaneamente um poeta lyrico notabilissimo, d'uma sincera
emotividade, admiravel n'essa sublime elegia _Cadaveres_, que é uma das
raras paginas supremas, definitivas, em nossa moderna litteratura.

Bosquejar uma resenha biographica do prematuro morto, tambem não parece
tentamen, ahi, onde choram as pessoaes recordações de Pedro de Lima,
melancholicamente penetrantes pela saudade amiga que as embebe,
trespassa de lagrimas. E, se chronica critica se deseja, destacam
abundantes de factos, acertadamente dispostos, e opulentas de sisudas
apreciações as laudas que á gloria de Guilherme Braga consagrou o dr.
Rodrigues Cordeiro.

Assim, entendeu-se que melhor caberia, e, em certa maneira, seria até
cumprimento de quasi obliterado dever, o explanar aqui um rapido
historico da composição que reapparece perante um publico novo,
differente na moral idyosincrasia d'aquelle que se agitava ao tempo da
elaboração poetica.

Na verdade, o _Bispo_, de Guilherme Braga, sem que o precedam, em sua
leitura, algumas notas que o reintegrem nas condições peculiares da sua
primitiva producção, poderá, talvez, a espiritos prevenidos ou
scepticos, (pois que os extremos se toquem), poderá a esses espiritos,
indifferentes ou hostis, parecer a aberração d'uma phantasia, forte e
alta, mas desproporcional, e afflictivamente torcionada pela perseguição
d'um delirio.

É, pois, de saber o que determinou esta obra; e a busca das suas origens
torna-se indispensavel desde que a actual geração está já bem longe da
flagrancia dos episodios que occorreram e tambem, infelizmente, da
vivacidade sentimental que elles despertavam em gentes menos addictas ao
aspero egoismo que hoje é norma e criterio, lemma e regra, principio e
conclusão, alpha e omega de todas as coisas e sentimento resolutivo de
quaesquer crises subjectivas.

Isto, já se vê, pela rama e deslisando sobre a superficie d'uma evolução
que vinha de longe, pois que, completa, tarefa esta seria para um estudo
amplo que, com a paciencia do leitor, largo levava. Visto como tudo se
prende na vida collectiva, e os factos, que mais locaes, mesmo pessoaes,
se perfiguram, derivam, aliaz, de motivos genericos, remotos, multiplos
e complexos.

Quando Guilherme Braga, erguendo os olhos de sobre o frenesi
apocalyptico do genio de Victor Hugo, por então em vulcanicas erupções
consecutivas, atropellantes, os circummandou em tôrno do seu paiz,
d'esta viagem moral elles regressaram desmoralisados, desfolhados, da
desesperadora desillusão, tão deprimente se lhes antolhara o espectaculo
observado.

Com effeito, entre nós, como, de resto, em todos os povos continentaes,
o constitucionalismo gorára. Os seus theoristas ou tinham morrido,
anonymamente, como Mousinho da Silveira; ou, consoante Herculano, haviam
mergulhado na atonia d'um desespero quieto e môrno. Os que quedaram na
brecha, aos poucos, foram sendo envolvidos na vaga da corrupção politica
dimanada das altas regiões; ou, ainda, cansados de tantos, tantos annos
de batalhas, incapazes, de resto, de grandes idéas de conjuncto,
almejavam pelo repouso nos episodios de detalhe, como José Estevão com
os interesses da sua terra natal, como Sá da Bandeira, nobre,
ingenuamente occupado com o problema da civica honra collectiva, no caso
da escravidão colonial.

A convenção de Gramido assignara o reconhecimento da transitoria
impotencia. Capitulara-se incondicionalmente, sem as honras da campanha,
á fé e mercê do facil, incombatido vencedor. Tanto amolleceram as
consciencias que a causa proxima da vasta catastrophe publica, Costa
Cabral, veio a ter de se affastar da politica e do paiz, menos pelo
irrisorio conluio da Regeneração do que porisso que, doutrinario
fiel aos seus chimericos principios de crear uma nacionalidade,
progressiva e forte, pelo influxo descendente do factor da auctoridade,
elle já não tinha presa sobre a nação. Não havia mais nem amigos firmes
nem inimigos estimulantes.

A éra dos homens de convicção, logicos n'um concebido plano renovante,
sobranceiros ás miserias do dia e, nas tortuosidades e nas brutalidades
do concreto momento successivo, ideologos, como os sinceros liberaes,
visando a um stadio moralistamente caracterisado, passára.

A hora batera para a comedia dos interesses cynicos, para as
contemporisações, para os sophismas grossos, para as communs, as
triviaes patuscadas, para as opposições fingidas, para os votos comprados.

Um duro, um sectario, um fanatico, um convicto, um tyranno, exaltado e
nobre, sombrio, franco, triste, brutal, violento, sincero, como Costa
Cabral, era uma figura demasiado pesada sobre uma esboroante terra de
chatins, escravos ventrudos e satisfeitos. Não luziam já as estrellas,
claras e ardentes, para os grandes felinos; nas meias sombras d'um ceu
pardo, era o instante dos chacaes, das hyenas, dos lobos, das raposas.
Logicamente, entrou em scena Rodrigo da Fonseca Magalhães.

Tudo mudou; o ouro correu; a imprensa, por suas mesmas mãos, poz a
mordaça das conveniencias; a tribuna papagueou o taramellar
radotante das argucias que amam conservar o embuste do tom independente;
cada cidadão encellulou-se no seu personalismo, absolvendo-se pela
sentença, volvida regra da conducta, de que _tão bons são uns como os
outros_; o paiz negociou, tripotou, enriqueceu-se, empobreceu-se,
estonteado pela febre dos melhoramentos materiaes, avido de lucros, sem
a educação dos negocios, cabeceando de crise agricola em crise bancaria,
mineira, fabril; emfim, as amplas reclamações doutrinaes cessaram, e o
silencio, o bem-amado, o suspirado silencio fez-se.

Entretanto (eis aqui o modulo transcendente, pois que a França seja a
promotora), entretanto, por assim dizer, de parceria, um terrivel
successo consagrara-se definitivamente na Europa.

A 2 de dezembro de 1851, o ex-prisioneiro de Ham resolveu-se, emfim, a
romper do moroso torpôr onde ruminara Machiavelo. Seu adulterino irmão,
o duque de Morny, pudera assegurar, alegremente, á curiosa dama que o
interrogava, na Opera, sobre a plausibilidade do golpe-de-Estado, que,
em qualquer hypothese, _dado que vassourada houvesse, elle se poria do
lado do cabo da vassoura_.

Um ingurgitante refluxo de retrogradação se produziu nos destinos da
humanidade, e uma reacção theocratica, cynicamente mystica da banda de
antigos carbonarios, voltairianos e livres-pensadores, havia, natural e
logicamente, de tatear o desfecho nos medos supersticiosos, _ad usum
Delphini_ procurados na propaganda jesuitica.

Este movimento espontaneo foi accelerado ainda pelo idyllico casamento
do imperador com uma hespanhola fanatica. Assim, sobre a expedição de
Roma, as ulteriores violencias contra os patriotas garibaldinos,
esmagados em Mentana, onde os _chassepots fizeram maravilhas_, não
revestiram um caracter sporadico. Tudo é concordante no mundo; ellas
representaram o estado moral de todo o conjuncto das instituições a de
lá dos Pyrineus.

Solidariamente, repercutiva, messianicamente, a de lá e a de cá.

A influencia do recente condicionalismo beato da cultura franceza fez-se
sentir entre nós, logo desde o primeiro instante; e seria curioso,
n'este ponto de vista, explicar a vehemencia argumentativa com que a
incredulidade lunatica de Pedro d'Amorim Vianna, mathematico e
idealista, procurava dissipar os echos lusitanos das retumbosas
conferencias do padre Ventura de Raulica em Nôtre-Dame.

Subira ao throno portuguez um principe intelligente, honesto, erudito,
povoado de boas, vagas intenções, convergindo a realisar entre nós o
typo d'esses reis philosophos, a uma final degenerescencia, pelo veneno
do virus dynastico, indeclinavelmente propellidos, conforme o amostrou a
investigação, historica e fria, do emphatico Pelletan.

Naturalmente melancholico, impulsivo mas retrahido, não pondo ao
serviço das suas aspirações mais do que a mediania d'um talento
inconsistente, D. Pedro V pertencia á especie corrente d'esses
incomprehendidos romanescos que, como José II, d'Austria, fluctuam entre
os indistinctos desejos de renovamentos, parcellarmente entrevistos, e
as reticencias e as revertencias finaes a uma ordem consuetudinaria que
lhes acalma o desastre de faculdades sobresaltadas mas fundamentalmente
improliferas.

De volta da costumada viagem de educação emprehendida pelos herdeiros ao
estrangeiro, o novo rei trouxera para o paiz o deslumbramento das
facticias pompas com que despontara o 2.º imperio; e o seu anhelo de
imitação d'um modelo, levianamente reputado perfeito, descera mesmo aos
insignificantes pormenores, como na introducção do uso do _képi_.

Debil, activo e impressionavel, o joven monarcha ferira as nossas
imaginações promptas, pelo interesse proclamado pela causa publica, pela
irritada tristeza que lhe causavam os abusos, pela altiva,
inconstitucional protecção votada aos humildes, para cujo serviço
instituirá, na famosa _caixa verde_, um meio, facil e seguro, de sempre
communicarem com as altas regiões. A affeição com que vestia as suas
relações pessoaes, buscando occultar sob doces familiaridades a
supremacia da sua situação excepcional, como no baile celebre da Sala do
Risco para com o duque de Loulé, abria-lhe uma immensa zona de
sympathias. Na verdade, tal é a monstruosa educação secular do
preconceito da realeza que, d'entre os proprios homens cultos, nem mesmo
os inimigos, pelas franquias parlamentares dispondo das condições
politicas idóneas á extirpação das dynastias, se furtam a este effeito,
atavico, segundo o qual um rei se affigura um ser inteira e
transcendentemente fóra da humanidade.

A lenidade, a doçura do temperamento, a candidez de coração succedera ao
irritavel e irritante caracter, ciumento das suas prerogativas,
intractando no seu orgulho, espessa e epilepticamente incivil, da rainha
impopularisavel, a favor de quem a habil espada liberal fizera desalojar
o bruto tio, toureiro e forçudo, tão sympathico á plebe pelo seu bestial
feitio genuinamente portuguez.

Comprehende-se, pois, a facilidade com que explodiu o enthusiasmo em
torno do moço monarcha e como este, no esfumado dos seus vastos sonhos,
se encontrou, sem attritos contaveis, nos termos de poder levar a
effeito quaesquer idéas positivas, se porventura elle podesse emergir da
nevoa dos semi-pensamentos, em que se esfarrapava, dissolvia a sua alma
chimerica.

O monarcha herdara dos talentos ancestraes; recebera, do finado
imperador, com o typo physico, a similhança mental. De sorte que a
utopia que latejara no cérebro do avô revivia a dentro do craneo do
neto: ideologos, um e outro, as mesmas fórmas da chimera, como no
sonho iberico, reproduziam-se, por descendencia.

Era-lhes analoga a feição moral; egualmente possessos d'um identico,
insaciavel desejo de saber, de vêr tudo, de conhecer tudo, de alterar
tudo, de remecher em tudo, o modo moralista, peculiar da sua funcção de
reformadores, a um e a outro, os dispunha a desdenhar dos problemas
concretos da vida progressiva dos povos, a pôr todo o empenho nos
remodelamentos das concepções abstractas que regulam a existencia moral
das nações.

Assim, o neto do principe que, primeiro, ousou, na lettra da
constituição do seu paiz, introduzir a nova noção da realeza, referida
ao poder moderadôr por Benjamin Constant, assignalava-se, aos olhos do
embaixadôr hespanhol Pastor Diaz, por uma especie de monomania
metaphysica, que lhe tomava as attenções para os mais abstrusos,
estereis pontos da philosophia transcendental. N'este pendôr, não é de
estranhar a pretensão, que começou a patentear-se no monarcha, a rehaver
um mando, supremo e incondicional, nem será absurdo o suppôr que o pobre
idealista coroado pensasse, sob a meia sombra d'uma consciencia
silenciosa, em modificar por completo um reino arruinado. O modo
particular das naturezas moraes como a de El-Rei é, com effeito, o da
innovação, da intervenção, da substituição, o afan era refazer um povo
por meio de decretos. O que longos annos d'um desenvolvimento
continuo e previdente mal bastariam a consummar terminal-o n'um reinado,
e substituir-se a immediata vontade autocratica á vontade tardia da
historia; utilisar aos homens, mas como se creanças fossem, incapazes de
formular racionalmente um voto para a melhoria das suas condições, gente
a servir, como Louis Blanc o discriminou nos accidentes do abortado
austriaco, sem que se receie, sem que se ame, tractando-a como cartas
adscriptas ás combinações do jogadôr.

Que idéas governativas, de conjuncto ou de detalhe, possuia, porém, o
rei? Que planos amadurecêra pela reflexão e pelo estudo? A que alvo
visavam os seus esforços?

Tudo nos indica hoje que nenhuma idéa, nitida, clara, precisa, o
monarcha se formava da sua situação e da do paiz, e que lhe seria
impossivel redigir n'um programma de doutrina ou n'um projecto de actos
as apparencias de pensamento que eram a miragem do seu coração, enganado
de si-mesmo.

D. Pedro V havia nascido com uma alma bem superior ao seu genio. O seu
poder foi grande; pois que, nas affeições creadas, o enthusiasmo
meridional, excessivo nos louvores como indiscreto nas invectivas, não
conheceu limites ao seu impeto. Assim, os homens de entendimento que com
elle conviveram, que accenderam no seu o cigarro d'esses devaneios
philosophantes os quaes, no propicio silencio da noite, se lançam, a
todo o vapor, no phantasmagorico mundo das previsões do futuro,
acabaram por se gerarem uma especie de fanatismo pelo monarcha,
fanatismo tanto mais perigoso quanto elle se não isolava do sentimento
publico, que manifestara a sua fé nas virtudes reaes por meio d'esses
inacreditaveis cartazes pregados nas esquinas das ruas das cidades,
bradando: _Viva D. Pedro V, rei absoluto._ Theophilo Braga ainda os viu,
amarellecidos das chuvas, nas paredes de Coimbra.

Que importou isso? Esse poder era pequeno para uma vontade, nulla no
vasio onde se agitava. Desorientado, o espirito real contentava-se com
phraseologias symbolicas, como as lançadas á mocidade universitaria que
o saudava:--_Tanto vale a alma quanto a intelligencia_, profissão de fé
dos egoismos intellectivamente orgulhosos. E não se humilhava de fazer
publica confissão de ignorancia nos pontos mais triviaes do ensino
positivo, consoante nas curtas inquirições, ao engenheiro Mousinho de
Albuquerque propostas no Porto. O rei era um metaphysico, um doutrinario
retardado, e assim se explica o seu desdem pelo problema das grandes
linhas ferreas, esteado nos pobres aphorismos d'uma economia infantil.

A gloria, fogo fatuo que illude tantas naturezas, aliaz, a certos
aspectos, curiosamente dotadas, não cessou, attrahindo-o, de o
ludibriar. Esse foi o triste destino do lastimoso rapaz, que, no seu
ardor em se crear uma fé, não encontrou em torno de si senão o
desanimo que, na bocca do que escolhera para mentor, Herculano, se
penitencia por se encontrar maior do que o do rei.

Abandonado a si proprio, desamparado até nas suas acanhadas iniciativas,
oriundas d'uma primeira educação, humanista e litteraria, como lhe
succedeu no tentamen do _Curso superior de lettras_, o monarcha acabou
por derivar no plano inclinado que leva á traição da liberdade. As suas
usurpações constitucionaes foram successivamente accumulando os
aggravos, ao ponto de prenunciarem vindoiras e mais crueis hostilidades
dos serventuarios do principio dynastico.

Demonstram-o as primeiras arremettidas da prolongada allegoria do _Rei
de Sião_.

Arquejando no difficil caminho dos bons propositos, a sua violencia para
um confuso porvir foi de molde a correr o risco de se lhe escapar o
presente. Tudo o que pretendia tentar para o bem dos seus subditos tão
atrophiadas raizes embebia no resistente terreno da dura razão que,
celebre pela philanthropia, ás escondidas assignava ignoradas sentenças
de morte, para os longes coloniaes, como a do rebelde indiano. De modo
que, quando a vida se lhe extinguiu, cheio de aspirações cerce
amputadas, inconsolavel do seu sonho esparso, dissolto; quando,
acabrunhado, partido, não tendo havido n'elle de sublime senão o desejo,
finalmente fechou os olhos, poderia reputar-se no unico momento feliz do
seu transcurso terrestre. A sua duração mais larga assignalar-se-hia,
porventura, de terriveis catastrophes, visto como a ignorancia publica,
que o idealisara, tendia a oppôl-o, symbolo de reacção, aos restos da
iniciativa civica das classes liberaes e cultas.

Com effeito, no desalento collectivo, no abortamento dos partidos, na
resignada quietação dos grupos intermedios que, junto aos poderes
publicos, servem a multidão, o povo começava a formar, em volta do nome
do seu rei, a legenda piedosa que fundamenta e alicerça os despotismos.

A historia inicia-nos na psychologia das multidões; nada é menos
democrata, no fundo, do que a massa inculta. O rudimento das suas idéas
condul-a sempre á auctoridade d'um só, facto moral naturalissimo desde
que se pense em que, apontando-lhe o seu bom-senso a sua ignorancia, a
tendencia será para se entregar nas mãos da competencia, tanto mais
comprehensivel e tanto mais responsavel quanto mais centralisadamente
reduzida. Ora, no paiz, tradiccionalmente monarchico e catholico, a
solução estava encontrada desde que o seu rei se inspirasse,
representativamente, dos sentimentos da população, trabalhada no momento
por uma recrudescencia espantosa do religiosismo missionario. O monarcha
chegara á crise e, pela tremenda peste que assolou Lisboa, o espirito
soffrera, com a morte prematura d'uma esposa adorada, esse golpe em que
Buckle buscou o coefficiente da exaltação mystica dos povos
peninsulares.

Voltou-se para Deus; procurou nos hospitaes dos cholericos o repouso,
pela abnegação; decididamente, acompanhou o movimento do retrogradamento
francez, pela introducção dos lazaristas, das irmãs de caridade no
reino; mergulhou nas leituras symptomaticas, como as que lhe deu o
conhecimento do Dante, conforme se revela da sua bella carta posthuma ao
conselheiro Viale.

A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido,
porém, tão longe que nem os alarmes que sobre os progressos do
ultramontanismo procurou, n'um collectivo manifesto eloquente,
communicar ao paiz Alexandre Herculano, nem a rude, a furiosa campanha
de José Estevão, que, leão dormente, um instante restituiu ao parlamento
essa interessada vehemencia que tanto surprehendera o principe de
Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara multidão. Tão certo é o
erro dos que não querem reconhecer que a monarchia é o producto, directo
e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das massas,
degeneram estas logo em suas escravas.

Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear
o seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como
elle se não conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos,
haviam-o envenenado, ao misero!

O novo reinado começou, pois, desconsoladamente; a lembrança do
bem-amado estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos
olhos humanos. O principe successor feria pelos modos bruscos de homem
do mar, repentinamente avocado a um meio que, por completo, desconhecia.
Se, em sua estupidez, as calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um
ultimo sopro de recto bom-senso, envergonhado da infame torpeza, o certo
é que as tristes apprehensões ficavam, escorias no fundo do cadinho. O
que seria? O que viria?

E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, tão em contraste com a
docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos,
como n'essa primeira, gelada recepção da segunda cidade do paiz. Os
politicos temiam pelo futuro; os cortezãos debalde explicavam a conducta
de seu amo; e os poetas, inconscientes interpretes do sentimento
popular, atravez os subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia
respeitadora das conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto,
debruçar-se da beira dourada dos camarotes dos theatros, a apontar ao
principe, pallido da audacia, o espectro arsenicado de seu irmão,
gritando-lhe n'um terror:

    _Imita-o, imita-o bem!_

Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente
colleando, seguiu de rastos, ao cantochão ultramontano, até á beira
do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra lutulenta, os homens
de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia tomou para zona
da sua revista de forças, para terreno das insolentes paradas o mesmo
palacio de civilisação que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do
espirito que o fundou diz: _Progredior_, eu avanço.

Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello
adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a
mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr,
de colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme.

A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade,
intrepida como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica
apotheose um derradeiro, simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:

    _La gloire au front te baise, oh toi si jeune encore!_

Na sua faina concordante, o bispo do Pará (contra cuja obra nefasta
começava a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha
Marinho, recem-fallecido) não conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho
publico do joven poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que
vé agora as honras, tardias, da reimpressão.

Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta
hora triste, de nova reacção jesuitica, o seu actual editor, sobre se
fazer benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da
respeitosa sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia.

                                                                BRUNO.



O BISPO


I

*Na cathedral.--Revelações d'um satyro*

    No claro azul d'um frio céu d'inverno,
    Sobre a collina onde a cidade dorme,
    Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme
              D'antiga cathedral;
    Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,
    --Velho epigramma ao lugubre edificio,
    --Largo covil doirado, aberto ao vicio,--
              O paço episcopal...

    Bate o luar nos porticos escuros,
    Abrigo á noite de sinistras aves;
    Lá dentro, as altas, magestosas naves
              Envolve a solidão.
    Sobem, crescem mil sombras pelos muros,
    D'um bronzeo lampadario á luz distante,
    Sob as curvas da abobada ondulante
    Que estampa os arcos no marmoreo chão.

    O côro é largo e bello. Ali se abriga,
    D'um capitel nos rendilhados folhos,
    Um satyro, que ri, piscando os olhos,
              Lascivo como Pan.
    Dizer parece á cathedral antiga:
    «Porque me tens aqui, mostras-te ufana?
    Pobre igreja catholica-romana!
              Pobre igreja christã!»

    Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:
    «Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,
    Ao vêr-te assim crucificado e morto,
              Ó déspota dos meus!
    Não desejo ser Deus... se Deus é isto:
    --Um cadaver perpetuo exposto ao frio--
    E, velho fauno desdentado, eu rio,
    Eu rio-me de ti!--de ti, que és Deus!

    Vês alem, por detraz do lampadario,
    Um satanaz assoberbando um globo?
    Deitado aos pés de Deus, parece um bobo
              Deitado aos pés d'um rei.
    Ao vê-lo assim, tristonho e solitario,
    Tive dó d'aquell'alma taciturna,
    E, na mudez da escuridão nocturna,
              Com elle me liguei.

    Vago rumor de vozes mal distinctas
    Nos guiou para os porticos do paço:
    Eu, sabendo que o bispo era um devasso,
              Previa a bacchanal...
    Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas
    Chammejante de pejo o rosto frio,
    Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,
    No infame lupanar sacerdotal:


II

*A humildade do bispo*

              Era um bello aposento,
    Que Faublas prezaria sem desdouro...
    --Ninho d'abutres, perfumado e fôfo,
    A que dava um revérbero sangrento,
    Á froixa luz d'um candelabro d'ouro,
    A adamascada purpura do estôfo.--

    Molles coxins, em largas ottomanas,
    Convidavam a languidas posturas
    As Aspasias catholicas-romanas,
              As lúbricas sultanas
    D'aquelle _harem_ christão, meio ás escuras!

    Mil fragrancias subtis no morno ambiente;
    Ao centro a meza,--o impuro altar da orgia;--
    Sobre a meza a baixella resplendente...
    A baixella roubada á sacristia:
    Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,
    Todo esse lustre a espaços reflectido,
    Da luz da orgia á froixa claridade...

    Satanaz debruçou-se ao meu ouvido
    Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos
    Aconselham ao bispo esta humildade!»


III

*Dolores*

    Sentado á meza, o principe da Igreja
    Inclina a calva fronte aos seios tumidos
    D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,
              E em cujos labios humidos,
    Rindo, o prazer de beijos s'enebria!

              Ao vêr-te assim, myrrada
    Pelos impuros halitos da orgia;
    Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada
    Dos canteiros nataes a impura alcôva,
              Quem ha que se commova,
    Pobre flôr dos jardins da Andaluzia?

              Tem por nome _Dolores_...
    Por officio, vender a quem lh'os paga,
    Como não tem amor, os seus amores.

              É soberba e formosa!
    Brilhante e seductora!--imagem vaga
              D'Eva... já criminosa,
    Escondendo a nudez por entre as flores!

    Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo,
    D'éden occulto e precipicio aberto,
    Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata!
    Para quem dorme, em extasis, coberto
    Pelas ondas gentis do seu cabello,
              É como no deserto
    A mancenilha, que adormenta e mata!

    Os braços nus da joven messallina
    Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla
    A carne branca, avelludada e fina,
    Que lhe é dado gosar... mesmo sem _bula_.

              Collam-se, em longo beijo,
    As duas bocas ávidas, famintas...

    Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas
    O rosto frio a chammejar de pejo!


IV

*Supplicas e promessas.--Caracter
evangelico do bispo*

    DOLORES

    Prende-me ás tranças formosas,
    Se tu és o meu amante,
    As joias mais preciosas
    Da tua mitra brilhante!

    Fulgirão co'as pedras tuas,
    Cheias de raios inquietos,
    Meus soltos cabellos pretos
    Nas alvas espaduas nuas!

    Haja depois quem se affoite
    A julgar outras mais bellas...
    São tranças da côr da noite,
    Precisam d'essas estrellas!


    O BISPO

    Rainha das feiticeiras!
    Venus, que sahes d'este mar!
    Pede tudo o que tu queiras,
    Tudo o que eu te possa dar.

    Louca, aos meus beijos entrega
    Teus hombros, teus seios nus!...
    Dou-te a igreja, o paço, a adega,
    O báculo, o annel, a cruz;

    As altas seges vermelhas
    Que tem cem annos, ou mais,
    E as gordas, rijas parelhas
    Das mulas episcopaes...

    Toda a riqueza que brilha
    No pomposo altar de Deus,
    E um dos meus cónegos, filha,
    Por cada beijo dos teus!...


    DOLORES

    Eu gosto de sentir nos braços froixos
    O enorme pezo do teu corpo exangue,
    Mas, se te collo a boca aos labios roixos
    Acho em teus labios um sabor a sangue!...

    Amas o sangue?


    O BISPO

                             Adoraria a gloria
    De ter sentido, eu só, n'esta existencia,
    Todo o sangue dos martyres da historia
    Cair-me, gota a gota, na consciencia!

    Quizera ter colhido o goso ardente
    De vêr no circo, em Roma, as feras brutas;
    Nero a rir-se feroz, ébrio e contente,
    Nos braços nús das ébrias prostitutas!

    Os pallidos christãos,--torpes escravos,--
    Expirando entre as garras das pantheras,
    E a turba inquieta prerompendo em bravos...
    Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras!

    Quizera, quando as sombras da heresia,
    Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,
    Rasgava, escurecendo a luz do dia,
    Do Santo Officio o pavoroso facho.

    Quizera dar a humanidade inteira
    Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos,
    E, dos pôtros no horror, e na fogueira,
    Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!

    Mil peçonhentas viboras no seio
    A infame contra nós, sem medo, abriga.
    Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,
    A humanidade, a nossa escrava antiga!

    Podesse eu ter, ó pallida Dolores,
    Do sangue d'ella trasbordando o calix!...
    Era um rebanho vil; nós, os pastores,
    E a Realeza era o _canis pastoralis_...

    Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,
    Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora!
    Quebrou, raivando, as solidas algemas,
    E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora!

    Mas que aurora, mulher! que vasto incendio
    Nos sombrios dominios do passado!
    Que opprobrio para nós! que vilipendio!
    Que roubo infame ao _senhorio herdado_!

    E assim ficamos nós, sem que lavasse
    De sangue um rio a nodoa!...--escura ideia!
    E assim trazêmos na orgulhosa face
    Perpetua a marca vil da mão plebeia!»


V

Movimentos de fera.--Risos longinquos

    Ergueu-se, febril, d'um salto,
    Como um tigre nos juncaes;
    Seus olhos chispavam lume
    Como os dos lobos cervaes;
    Crispava as mãos como garras;
    Tinha rugidos na voz!
    --Satanaz tremia, ao vêr-lhe
    O rude aspecto feroz.

    Correu á larga janella
    E, abrindo-a de par em par,
    D'um anáthema ruidoso
    Fez os espaços vibrar...
    --Ouvia-se, ao longe, ao longe,
    O rir convulso do mar.


VI

*O anáthema, fragmento do «Syllabus».--
Angustias d'uma alma piedosa*

    «Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade!
    Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime;
    Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade;
    Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!

    Vêde: por toda a parte as hydras do peccado
    Erguem altivo o collo, iradas contra nós,
    E o nosso bom cutello esconde-se embotado
    Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!

    Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos
    Como as feras no matto, os reis d'origem pura;
    Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...
    E assim chamaes aurora á noite escura... escura!

    Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;
    Rebrame o vendaval no espaço onde rugis,
    --Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,
    E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!

    Erguendo para os céus a pavorosa fronte
    O anjo da Assolação atraz de vós caminha;
    Quando o incendio alumia a extrema do horisonte
    Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!

    E para que desmaie o fogo da heresia,
    O fogo a que se aquenta a sordida relé,
    Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria,
    Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!

    Ó pavidos heroes da lugubre tragedia
    Que a historia do passado aos seculos ensina!
    Ó despotas feudaes da torva idade-media!
    Ó soffregos irmãos das aves de rapina!

    Padres, em cuja mão fulgia a núa espada
    Co'as mil scintillações d'um raio abrazador,
    E em cujo ferreo peito a veste consagrada
    Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!

    Monges de frio aspecto e d'animo impassivel
    Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;
    Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel,
    Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!

    Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga,
    Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,
    Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga,
    O clero envilecido, os infamados reis?

    No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,
    --A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,
    E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,
    Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.

    Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada,
    Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,
    E do eterno Voltaire a eterna gargalhada
    Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!

    Fervem inda no espaço os odios implacaveis
    De que innundára a terra uma sinistra ideia,
    --A ideia que do lodo exalta os miseraveis
    E inspira «Oitenta e nove»,--a tragica epopeia!

    Para que espante os céus, para que o mundo aterre,
    Quantos éccos talvez de novo accordará,
    Fria como uma espada, a voz de Robespierre,
    Ardente como um raio, o grito de Marat?!

    Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços,
    A ignobil multidão, potente em seu reinado,
    Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,
    Onde expia a Realeza as glorias do passado;

    Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!
    Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção,
    Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve,
    Passando sobre a terra, a terra assolarão!

    Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha
    Que peza sobre nós, de tanto horror transidos;
    Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha
    Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!

    Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte:
    Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,
    E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,
    Das barbaras legiões a marcha triumphal!

    Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,
    Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,
    Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada
    Nos braços varonis dos povos da Germania...

    Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas
    Co'a sussurrante voz das santas orações:
    Os servos do Senhor descem ás catacumbas;
    Acolhem-se do _nada_ ás frias solidões!

    Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,
    Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia?
    «É tarde!» disse alguem.--Não! inda não é tarde!
    Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!

    Os que são contra nós inspiram medo e asco,
    --Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal...
    Ah! podesse eu punir,--punir, como o carrasco!
    Ah! podesse eu vencer,--vencer, como o chacal!

    Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,
    Approveitando o amor, o lubrico pretexto,
    Encher pelos festins as taças de veneno!
    Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»


VII

*Remeniscencias da canção dum proscripto*

    Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,
    Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos,
    Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza,
    Vibrarem mil clarins ao som da _Marselheza_,
    E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!»

                   Loucuras da hespanhola,
    Que uma vez, n'um café da Andaluzia,
    Tinha ouvido soltar-se aquelle grito
    Dos labios d'um francez, moço e proscripto,
    Que depois de cantar pedia esmola...


VIII

*Orgia.--Amor e vinho.--
Ainda o caracter evangelico do bispo.--
Mane, Thezel, Phares!*

    Eil-os de novo no calor da orgia:


    O BISPO

              O symbolo da Fé,
              O largo calix d'oiro
              Do velho altar da Sé,
    Enche-o de vinho transparente e loiro!

    Bebamos! Quem bebe acalma
    Todas as máguas que tem.
    Cá dentro, ás vezes, noss'alma
    Parece beber tambem.

    Não sabes como eu abranjo
    Os mundos que tu não vês?
    Colla aos teus hombros d'archanjo
    As azas da Embriaguez!

    Ai! verás como te elevas
    Nos sonhos que ella produz...
    Passarás da luz ás trevas!
    Irás das trevas á luz!

    Ha de abrazar-te em desejos
    Que ella mesma apagará;
    Has de sentir muitos beijos
    Sem nunca vêr quem t'os dá!

    Ora, a nudez, que enthusiasma,
    Pelo abysmo encobrirás,
    Fugindo como um phantasma
    Aos braços de Satanaz;

    Ora, ante os olhos do Eterno,
    Rolarás sem um só véu,
    Tentando, em nome do inferno,
    A castidade do céu!

    Ai! bebe, flôr do serralho,
    Como a rosa, a tua irmã,
    Bebe as perolas do orvalho
    De que se enfeita a manhã!

    Molha os labios á vontade
    No santo vinho hespanhol:
    As gôtas d'essa humidade
    Hei de eu seccar, como o sol!

    Quanto prazer se resume
    Nem tu calculas, talvez,
    No suavissimo perfume
    Do _Madeira_ e do _Gerez_!

    É justo que me acompanhe
    Tua alegria sem par:
    Venha o _Champanhe_! o _Champanhe_!
    Saltem as rolhas ao ar!

    Canta, ó deusa, que me abraças
    Cheia d'indomito ardor!
    D'entre o tinido das taças
    Solte-se um canto d'amor!

    Qu'importa o grito da plebe
    Que a miseria escravisou?
    Eu folgo; tu canta e bebe!
    És quem és: eu sou quem sou!

    Dizem que por essas ruas
    Andam vagando, ao desdem,
    Descalças e quasi nuas,
    Umas crianças sem mãe;

    Que, onde a miseria rebrame
    Contra a nossa ostentação,
    Avulta uma cousa infame
    Chamada prostituição;

    Que a sombra é vasta e profunda
    Nos desherdados casaes,
    Que a espaços a chuva innunda
    E abalam os temporaes;

    Que, entre a noite escura e triste,
    Por terem fome, uns atheus
    Perguntam se Deus existe,
    E, se existe, onde está Deus?;

    Que uns velhos, a quem se deve
    Profiqua gloria sem fim,
    Dormem, cobertos de neve,
    Ás portas do meu jardim;

    Que, sem tecto onde se acoite,
    Um bando de paes e mães
    Inveja, durante a noite,
    A casota dos meus cães;

    Que a Justiça, em vis calvarios
    Onde é vergonha morrer,
    Crucifica os operarios
    Que já não tem que fazer!

    Será, póde ser verdade...
    Mas, tão distante do céu,
    O archanjo da caridade
    Decerto que não sou eu!

    Canta! Bebamos! Scintille
    Noss'alma d'amor jovial!
    Haja um quarto do _Mabile_
    No palacio episcopal!

    Quando, nas lagens marmóreas
    D'igrejas, ditas christãs,
    Já se exaltaram as glorias
    E o nome das certezas,(1)

    Qu'importa que n'estes paços,
    Longe do olhar de Jesus,
    Morra, na cruz de teus braços,
    Um sacerdote da Cruz?

    Canta, como as filomelas!
    Canta, como os roixinoes,
    Á flôr, ao lago, ás estrellas
    Dos teus jardins hespanhoes!

    Mas não cedes ao meu rôgo?
    Filha, em que estás a scismar?

    DOLORES

    Scismo nas letras de fogo
    Dos muros de Balthazar...


IX

*Pejo do satyro.--Satanaz e Deus.--
A immobilidade de Jesus.*

    Não posso dizer mais... não sei... não quero!
    Satanaz, a tremer, tomou-me o braço,
    E ambos, deixando o tenebroso paço,
              Voltamos para aqui:

    Rudes convivas dos festins de Nero!
    Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia!
    Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!
              Vós sabeis o que eu vi!

    Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto
    Do eterno tentador... N'aquella orgia,
    Se lá coubesse Deus, Deus rolaria
              Aos pés de Satanaz!...»

    Calou-se de repente e, meio occulto
    Do capitel nos rendilhados folhos,
    Ria cada vez mais, piscando os olhos,
              O fauno,--o hereje audaz.

    Jesus, no entanto, immovel, silencioso,
    A fronte morta para o chão pendia,
    Na terrivel postura da agonia
              A que o forçára a cruz...

    E ha quem espere um grito doloroso
    D'aquell'alma sublime? Ha quem espere
    Vêr passar o sorriso de Voltaire
              Nos labios de Jesus!


X

*Na immensidade*

    Longe, ao longe, na abobada do espaço
    Calma, impassivel, luminosa e fria,
    Pairava ancioso, vigiando o paço,
    Das orgias o archanjo,--a Apoplexia...



AO POVO INGENUO


    Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!
    Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,
    Ir, de joelhos, á capella ardente
    Beijar os santos pés ao bispo morto...

    No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,
    Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...
    Tu, que poisas na mão que te despoja
    Mil ósculos d'amor crente e sincero!

    Se elle houvesse o «direito do mais forte»
    Arrastarias vergonhosa algema;
    Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!
    Derradeira abjecção! baixesa extrema!

    Quando has de tu deixar as vis doutrinas,
    As vis superstições dos tempos velhos,
    E fazer cathedraes das officinas,
    E procurar na Sciencia os Evangelhos?

    Quando has de tu surgir calcando arminhos,
    Nos salões onde, altivos do seu _nada_,
    Ri a mitra da c'roa dos espinhos,
    E o sceptro inutil da prestante enxada?

    Quando has de tu entrar na grande liça,
    E, saccudindo o teu grilhão desfeito,
    Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»
    Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?

    Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;
    As armas do trabalho á carabina!
    Onde estava a prisão surja uma eschola,
    E um theatro onde estava a guilhotina!

    Da liberdade atalayando o asylo,
    Sê magestoso e bom, sê grande e puro;
    Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,
    A sagrada bandeira do futuro!

    É já longo o caminho do Calvario
    Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...
    Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!
    Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!

          Porto, 12 de novembro de 1873.



NOTA


        (1) Quando nas lagens marmoreas
            D'igrejas, ditas christãs,
            Já se exaltaram as glorias
            E o nome das cortezãs...

        «... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara
    (Roma), o tumulo da afamada cortezã Imperia, tão celebre no tempo de
    Leão X. Haviam-lhe gravado no marmore a seguinte inscripção,
    exaltadora da formosura d'aquella mulher:

        _«Imperia cortisana romana, quæ digna tanto nomine raræ inter
    homines formæ specimen dedit, vixit annos XXVI, diis XII, obiit
    1511, die 15 Augusti.»_

        A ninguem causava espanto vêr este preito de admiração tributado
    á memoria d'uma mulher que viveu na devassidão e na crápula!

            EUGÈNE BRIFFAULT--_Le secret de Rome au XIX.me siècle._



          EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA

                Á doce e affavel companheira dos meus actuaes
            dias de soffrimento,
                á companheira affectuosa de oito annos, até
            19 do corrente, e dos muitos outros que decorrerão
            mais felizes, numa modestissima existencia--se o
            Destino quizer--
                Offerece
                    para guardar como segredo
                            GUILHERME.


    _Sabes que o meu amôr é teu por toda a vida,
    E inda não tens um_ Bispo? _Ha mezes!... que preguiça!
    São cousas da cabeça, um tanto distrahida,
    Pois quanto ao coração fazes-lhe tu justiça!_

        _23--maio, de 1874._





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Bispo: Nova «Heresia», em verso" ***

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