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Title: Pero da Covilhan - Episodio Romantico do Seculo XV
Author: Brandão, Zeferino Norberto Gonçalves
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Pero da Covilhan - Episodio Romantico do Seculo XV" ***

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    Notas de transcrição:

    O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
    em 1897.

    Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a
    leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário
    assinalá-los.



                              Pero da Covilhan


      QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARITIMO DA INDIA

                              PERO DA COVILHAN

                      (EPISODIO ROMANTICO DO SECULO XV)

                                    POR

                             ZEPHYRINO BRANDÃO

                 DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
       DA REAL ACADEMIA HESPANHOLA DE MADRID, DO INSTITUTO DE COIMBRA
                               E DA S. G. L.



                     ANTIGA CASA BERTRAND--JOSÉ BASTOS
                              LIVREIRO-EDITOR
                      _LISBOA--73, Rua Garrett, 75_

                                   1897



Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa



CONVERSA PREAMBULAR


Eu não sei bem o que venho aqui fazer.

Não venho, de certo, apresentar Zeferino Brandão, pois eu proprio lhe
fui apresentado, noviço em lettras, quando elle já era, na egreja
litteraria, officiante de pontifical, bemquisto e bem acolhido dos
sacerdotes maximos, com alguns dos quaes privava, de irmão a irmão.

Com effeito,--e sem que saiba dizer de positivo ha quantos annos, não
devendo comtudo andar muito longe dos trinta,--foi na primeira casa que
João de Deus habitou em Lisboa, na rua dos Douradores, e no proprio
quarto do poeta, que Zeferino Brandão e eu nos avistámos a vez
primeira. Era elle alferes ou segundo tenente d'artilheria, eu,
cadete de lanceiros.

Vêrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um
momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo,
e que um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do café, na mesa
dos hospedes, com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo,
conquistando-me uma ovação no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e
deixando-me a mim proprio deslumbrado de taes versos serem meus.
Coitados! Por onde andarão elles!

Zeferino Brandão, já a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender
de então, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu,
que, sempre que se encontravam, tinham tão bons abraços a trocar, tão
bellas coisas a relembrar e a dizer. Eram o João de Deus, que estava
ali; o Arriaga, que vinha todos os dias; o Anthero, que apparecia de
quando em quando; o Simões Dias, o Candido de Figueiredo, o Guimarães
Fonseca, o João Penha, a todo o momento falados, porém ausentes.

Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brandão se lembrou de fazer
annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrança foi tida como
disparate de marca maior, e como antecedente de pessimos effeitos. E
tanto que João de Deus lhe disparou, logo ali, á queima roupa:

    Com que então, cahiu na asneira
    De fazer na quinta feira,
    Vinte e seis annos! Que tolo!
    Ainda se os desfizesse...
    Mas fazel-os, não parece
    De quem tem muito miolo!

Averiguou-se, porém, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no
anno anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no
immediato. E por isso João de Deus accrescentava:

    Não sei quem foi que me disse,
    Que fez a mesma tolice
    Aqui o anno passado...
    Agora o que vem, apósto,
    Como lhe tomou o gosto,
    Que faz o mesmo? Coitado!

    Não faça tal; porque os annos
    Que nos trazem? Desenganos
    Que fazem a gente velho.
    Faça outra coisa; que em summa
    Não fazer coisa nenhuma,
    Tambem lhe não aconselho.

Zeferino Brandão tinha boa vontade de seguir á risca a advertencia do
poeta; não poude no emtanto satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez
outras coisas, livros excellentes, por exemplo; mas accumulou, e foi
tambem fazendo annos, com a maior moderação, o mais devagar que lhe foi
possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os. Era o que João de
Deus lhe tinha dito:

    Mas annos, não caia n'essa!
    Olhe que a gente começa
    Ás vezes por brincadeira,
    Mas depois, se se habitua,
    Já não tem vontade sua,
    E fal-os, queira ou não queira.

Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brandão vinha já, não direi
da noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e
alegre convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nóvos de
então, e sabe-se quanto é ciosa e aristocrata a superioridade
intellectual, que não desce nunca a nivelar-se com os mediocres, e que
só anda hombro a hombro com os seus pares.

Depois, tive occasião de lhe definir melhor as referencias no espaço e
no tempo, com respeito ás gerações academicas, que elle frequentou,
áquellas de que foi continuador, e ás que o continuaram a elle proprio.

Mas, em todo o caso, nunca poderei esquecer que, nas lettras, fui seu
_caloiro_.

Portanto, toda e qualquer ideia de apresentação, ou de recommendação
seria absurda.

Mas Zeferino Brandão exigiu-me que o acompanhasse n'esta sua quarta
excursão pelo mundo aventuroso da publicidade, não por medo d'ella, que
o seu animo é seguro, e o seu lucido espirito affeito de ha muito a
ponderar quanto valem baldões e glorias litterarias; mas verdadeiramente
tão só, pois outra explicação lhe não posso dar, por mero capricho de
artista.

Dêmos, por conseguinte, o braço e vamos ambos de companhia, uma vez que
esta lhe é agradavel, e que eu encontro n'ella prazer e honra.

Do muito que na mocidade poetou, fez Zeferino Brandão apuramento selecto
em um volume, a que deu por titulo _Paginas Intimas_, do qual depois fez
segunda edição, mais aprimorada ainda, e tambem difficil já de encontrar
nas livrarias. Não é vulgar que este caso succeda, e não é pequena
honra, nem pequena satisfação para um auctor, e sobretudo para um poeta,
poder referil-o.

Os taes annos, que a gente se habitúa a fazer, e que depois cada qual
faz, queira ou não queira, foram arredando o poeta das tentações da
rima, sem comtudo o desviarem da verdadeira poesia, que elle
continuou procurando sempre, quer nos panoramas da natureza, observada
em longas viagens artisticas, e descripta posteriormente em paginas
coloridas e illuminadas, quer na evocação ideal dos tempos volvidos,
trazendo á tela do presente, memorias, personagens e feitos do passado.

D'estas duas predilecções da sua mente, a um tempo assimiladora e
imaginosa, são documento bastante os dois livros de valor, com que a sua
bagagem litteraria se enriquece. Um d'elles, _Monumentos e lendas de
Santarem_, é um verdadeiro padrão de sentimento, erguido ás recordações
gloriosas d'essa forte e vetusta cidade medievica; o outro, primeiro de
uma collecção de _Viagens_, que está reclamando, a brados, os seus
successores, é uma soberba descripção da _Belgica_ moderna.

Avulsos, e dispersos pelos jornaes, andam capitulos e fragmentos
descriptivos de uma excursão pela Italia, cuja leitura fugaz, ao tempo
da publicação, nos deixou no espirito uma grata lembrança.

Compraz-se o escriptor, como se vê, e n'isto mesmo affirma intensamente
o seu culto pelo bello poetico, em frequentar, tanto na vida de relação
com o seu tempo, como na vida sonhadora a que o attraem os livros de
outr'ora, os dominios artisticos, onde a sua phantasia de meridional
mais á larga se expande.

Ali, os monumentos de mais de uma raça, livros de pedra abertos á
meditação dos videntes, e as lendas populares tenazmente conservadas na
memoria dos povos que se sobrepuzeram; aqui, ainda o passado, como
centro de attracção maior; depois, primacialmente, as soberanias e
magnificencias da arte, legados inestimaveis que as gerações foram
transmittindo, e nos quaes vae encontrar as mais altas suggestões
artisticas, e os mais profundos ensinamentos criticos, o gosto moderno.

Assumptos dignos de bem equilibrados e cultos engenhos, os quaes,
tambem, só por si, dão medida do bom equilibrio e da alta cultura de
quem os escolhe e professa.

Não são diversos os predicados do novo livro, que me encontro
prefaciando. O auctor impressionou-se com a bella e romantica figura de
Pero da Covilhã, a qual apparece na historia, um pouco esbatida, tão
sómente pela exuberancia de luz com que se illuminam os quadros dos
descobrimentos e conquistas subsequentes, que elle em tamanha parte
preparou.

Essa figura, porém, tem contornos bem definidos, e Pero da Covilhã
é, na epopêa dos Gamas e dos Albuquerques, um intelligente, um sagaz, um
inolvidavel predecessor.

Envolve-o o escriptor n'uma intriga romantica, apenas a indispensavel
para o seu proposito; mas de tal fórma se cinge ás linhas da realidade,
que a figura se destaca viva, deante de nós, como realmente foi, e o
leitor mal póde discernir onde começa e acaba a ficção, e onde prevalece
o rigor historico.

Assim devia ser, e assim o comprehendeu Zeferino Brandão, uma vez que a
vida aventurosa do seu personagem dá que farte para todas as exigencias
da concepção romantica, sem precisar dos acrescentamentos da imaginação.

O scenario em que elle expande a sua actividade, tão ousada e tão
original, mesmo n'um tempo em que as mais famosas heroicidades não eram
de extranheza, apparece-nos restabelecido, por tão singular poder de
evocação, que nos sentimos viver n'elle, com os olhos cheios de encanto
e a alma cheia de interesse, como se nós mesmos pertencessemos á época
em que toda a acção do livro, muito mais historia do que romance,
amplamente se desenrola.

Vêmos, logo no começo, a Sevilha do seculo decimo quinto, e o
viver luxuoso das grandes casas de Hespanha, onde em muitas das quaes a
cadeira senhorial ousava defrontar-se em orgulhos e pretenções com os
thronos dos reis; e no solar magestoso dos Medina-Sidonia, vamos
encontrar o pagem galanteador e diserto que, trazido d'ali a terras de
Portugal, por cá se deixou ficar a pedido de Affonso V, servindo com o
seu coração, que já era de portuguez, a patria de seus paes, assim
restituida a elle proprio.

Esse pagem, depois escudeiro e cavalleiro, é acompanhado pelo auctor e
pelo leitor, primeiro na sua missão e officio de personagem da côrte e
do séquito real, durante o ultimo quartel de vida, tão agitado e tão
pouco feliz, do rei, que em Portugal o havia detido e que sempre lhe
dispensou o seu favor; depois, em toda a sua peregrinação ao Oriente, na
demanda das terras do Preste, até dar fundo na Abyssinia, onde para
sempre o detiveram; esmagando-lhe a alma n'um captiveiro perpetuo, que
não deixou de ser profundamente tyrannico, embora lh'o houvessem tecido
com laços de sympathia, doirado com o lustre das riquezas e das honras,
agasalhado no ambiente da familia, e engrinaldado com as rosas do amor.

O idyllio amoroso, que constitue a trama romantica fundamental,
d'onde veiu por fim a ser gerada esta successão esplendida de quadros
historicos, passa-se na intimidade dos corações e das consciencias
d'aquelles a quem um vivo affecto prendeu para sempre, mas para os quaes
a mais viva aspiração da alma foi um sonho que jámais se realisou. Não
se póde conduzir fio mais tenue, com mais delicadeza e mais pericia,
atravez do labyrintho de rudes acontecimentos, onde as energias physicas
do homem são postas a toda a prova, sem nunca se lhe embotar a
agudissima sensibilidade do coração.

Parece-nos até, que a verdadeira e mais bella originalidade d'este livro
reside no contraste a que damos relêvo agora. Os que tenham pensado
encontrar n'elle uma obra de completa ficção, podem talvez ficar
desapontados ante o predominio que ali assumem a exactidão, a
abundancia, a veracidade historica. Mas a conducção do fio ideal e
subtilissimo, de uma pura e platonica paixão amorosa, accendida nos
mysterios de duas almas amantes, e alimentada em todo o decurso da vida
com os oleos da religião e da cavallaria, com os incitamentos do dever e
da honra, a habil e engenhosissima conducção d'esse fio, repetimos, com
a qual o auctor parece nada se preoccupar sem que todavia um momento
a descure, é uma das maiores provas que Zeferino Brandão nos podia dar,
de quão delicado é o seu temperamento artistico, de quão profundo é o
seu sentimento poetico, de quão esmerado é o seu fino gosto.

E aqui me deixaria longamente a palestrar com os leitores sobre os
meritos da obra, que deante dos seus olhos vae deslisar, se não
reparasse em qual deve ser já a sua impaciencia, e em como é tempo de os
deixar a sós com o dono da casa, do qual sabem já que teem a esperar uma
recepção de primôr.

     26 de fevereiro de 1897.

                                                        FERNANDES COSTA.



_ADVERTENCIA_


O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um
pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma
e pura, como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de
lodaçaes, d'essas miserias, que são a mais viva chaga social de todos os
tempos, o terrivel problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.

Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por
impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no
incidente da successão á corôa de Castella.

Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.

A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na
formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para
descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira
lamentavel em ambos os casos.

No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio,
houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios.
D'estes não cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca
estiveram, os meus dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido
eterno da palavra, antes de o serem no sentido historico.

--E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou
tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á
qual subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha
phantasia?

Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto
hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,
porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar as tintas modernas,
e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.

Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do
descobrimento do caminho maritimo da India.

                                                    _Zephyrino Brandão_



I

_DESPEDIDA_


O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam
por lá os nossos visinhos, que _não vio maravilha_.

Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem
crêr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do
Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e
em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades
modernas.

O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um
dia calmoso do estio.

Abrasa tanto calor!...

Em breve zombaremos d'elle.

Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os
de jardins e fontes, no intuito de refrescar as regiões ardentes, que
povoavam, e até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos
refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de
seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas,
poupar-nos-hemos a insolações.

Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa
planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.

Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com
elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas,
que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob
esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa
nomeada, não só por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam
os mares, senão por facilitar assim as relações commerciaes, e animar a
florescente industria fabril dos sevilhanos;--o que torna riquissima de
população e haveres a formosa metropole andaluza.

Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina
do Ouro.

Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a
estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se
vulgarmente a _grande_, como á de Toledo a _rica_, á de Salamanca a
_forte_ e á de Leão a _bella_.

Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de
rosa, que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores
dimensões com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito.
Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na
peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Géber, a
quem se attribuio, sem fundamento, a invenção da algebra.

--Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não
existe ainda o _Giraldillo_, e por isso a torre não é conhecida pelo
nome de _Giralda_.

Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo
com palacios realengos.

As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com
graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar
ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de
encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos por
tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a
reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.

O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha,
que não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão
que é patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama
patrioticamente:

    «Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas
    Para el Cielo crió tantos tesoros,
    Cuantas el ancho mar esconde arenas,
    Cuantas estrellas los celestes coros!»

Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem
algo peccadora...

A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que
abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos,
que põe ao seu serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias
ambições e prosapias.

Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças
centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes
fartos legados em seus testamentos.

Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha,
como tambem o tratam.

Entremos no seu palacio.

Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior
uma riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a
influencia exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde
considerar-se uma vivenda semi-oriental, como todas as do estylo
_mudejar_, a que pertence, para a construcção das quaes as duas artes,
christã e mahometana, se dão as mãos com tal engenho, que se harmonisam
perfeitamente os dois elementos de manifestações tão diversas.

--Como sabido anda, os arabes que ficaram com os christãos, depois de
certos tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas
leis, religião e costumes, chamavam-se _mudejares_, e nas edificações,
em que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que
os da sua raça haviam conquistado, especialmente da Persia.

Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o
estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das
quaes demoram as habitações.

A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes
d'ella recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus
desenhos primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento
acha-se coberto com uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No
tecto, o elemento decorativo predominante são estalactites e laçarias,
tudo realçado com applicação de côres e douraduras.

Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa
imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás
suas tradições gloriosas.

Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e
estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia.
Uma riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés
d'esta cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum
extrangeiro de distincção, que o visita, e a quem elle offerece esse
lugar de honra.

Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,
representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos,
batalhas, torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos,
imitando persas, guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de
mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e pintados, com imitações mais
ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos, alcatifados.

Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua
escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da
pintura sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes
fundára a sua escola. As paredes e tectos da ante-camara, armados e
toldados de riquissimos lambeis. Os móveis, de páu-santo, primorosamente
entalhados e forrados de brocado e ouro.

Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero
manda executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a
perfeita intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma
credencia com tres compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim
e rendas de Flandres, repousam varios objectos de uso senhoril, uns de
ouro, outros de prata e crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano,
coberto com um bancal de velludo, tendo ao meio bordadas as armas da
duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados
de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e
castiçaes de ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas
proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de
onyx exhalam a sua fragancia suavissima.

As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes,
despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas,
adargas, onde se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em
fórma de meia lua, espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.

Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem
completamente as estreitas portas de alerse.

O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar
coroado por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla,
titulo da familia Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas
cadeiras ainda, lavradas com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e
umas e outras com escabellos fixos ou moveis; almofadas de seda,
sobrepostas duas a duas, e servindo de assento na sala de recepção da
duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, bancos longos e de
espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de thezoura,
bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de escrever,
todas de madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze;
relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro.
Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias orientaes, que lhe
dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus bordados
caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de
um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre
que se vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas,
outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.

Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D.
Juan de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.

Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as
dez donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão
um rosario e um livro de missa.

Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.
Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com
que na volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.

Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas
moças da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por
aquella pequena côrte.

Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de
suas donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de
cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores,
passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se
aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.

Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora.
Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos
muitos, que tão justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de _mãe
dos pobres_.

E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo
principal do palacio.

É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de
ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de
columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é
ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro
de um tanque largo que a circumda; e os canteiros são separados uns dos
outros por lousas de marmore branco.

Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza.
O sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um
grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim,
perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:

--Estais a despedir-vos das flores, Perico?...

--Quem sabe, se tornarei a vê-las!...--respondeo o pagem com
pronunciado acento de tristeza.

--Pois porque não haveis de voltar?...

--Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...

--Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir
atormentando com presagios pelo caminho...

As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua
companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta
pergunta á sua interlocutora:

--Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo,
na certeza de que ficaria bem guardado?

--De mim!--exclamam todas a um tempo.

--Como elle não póde repartir-se,--ponderou o pagem--entrega-lo-hia a
Beatriz.

--Sois mui gentil, Perico!--tornou esta. Graças pela preferencia...

--Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...

--Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...

--Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora
ao som d'elle:

    _Con dos cuidados guerreo_
    _que me dan pena y sospiro;_
    _el uno quando no os veo,_
    _el otro quando vos miro._[1]

--Bellissimo, Perico!...--bradaram as donzellas com viva demonstração de
alegria.

--Que gracioso sois!--accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque
esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do
corpulento alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?

--Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...--observou o pagem.

--Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o
arcipreste descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual,
quando regressardes, recitai-os, Perico!...

--Careceis dos nossos rogos?...--atalharam as outras donzellas.

Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de
Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso
são poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques,
marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se
no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á
côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia perdido completamente o
favor popular o romance brioso e sentido.

Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados
na lingua arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas.
Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os
romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de Hespanha,
anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella côrte
sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de
Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos
é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes
esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a
espada na mão do cavalleiro.»

N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a
familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.

Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de
gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam
chispas de luz e de graça, e exclama:

--Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...

Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao
animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da
galeria inferior.

O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em
virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram
tambem logo da galeria.

Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de
olhar scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu
orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem
feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora
narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A
famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar
ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos
Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos
estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.

São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão,
que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena,
recebida momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte
com dois mil cavallos».

Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do
palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de
Portugal D. Juan de Guzman.

Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o
qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto
pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos
mais disértos trovadores da sua côrte.

Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente
ajaezadas e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns
romeiros, encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha
ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam
alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui
passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar
os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.

As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a
ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não
logravam distinguir um só d'elles.

--Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?...
Talvez. Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar
esse desejo.

--E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de
Beatriz?... Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?...
Ou a lembrança de entrar no seu paiz, que, desde muito creança não
tornára a vêr, e em cuja côrte teria ensejo de exhibir as singulares
prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias
de Sevilha?...

Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas,
feitas com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.

Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes,
dos costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da
Andaluzia, não auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se
apresenta.

--Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os
gabos de experimentados escudeiros?

--É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro
que monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus
ditos joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.

Ditosa mocidade!...

Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a
exercer o galante ministerio de _juiza_ em alguma _côrte de amor_.

E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som
da sanfona:

    «Rosa fresca, rosa fresca,
    tan garrida y con amor;
    quando vos tuve em mis braços,
    no vos supe servir, no,
    y agora que os serviria
    no vos puedo aver no.[2]
    ............................
    ............................



II

_CONSPIRAÇÃO_


Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde
poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos
condensa-la, para melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.

Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de
Portugal D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu
á luz uma menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes
demonstrações de regosijo, pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso
Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel, irmã do rei, e padrinho,
por procuração, Luiz XI de França. Pouco depois, reunidas côrtes em
Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a recem-nascida, a que se
havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra o juramento.

Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de
pagem da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido
igualmente agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este
mui solicito no serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as
ordens do monarcha, de cujo favor e privança gozava com inveja e
despeito de muitos, que não queriam reconhecer-lhe meritos para tanto.

Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;--o
verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e
divertindo-se.

D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de
Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a
este, por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon,
que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.

Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do
rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.

O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e,
como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a
Saragoça tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.

No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de
Toledo e seus sequazes, para uma reunião secreta, que se realizou em
um valle proximo de Alcalá de Henares.

Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:

--É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.

--Não se me afigura empresa difficil...--acudio em tom pausado e sisudo
o arcebispo de Toledo.

--Convenho;--replicou Vilhena--mas ainda é numerosa a parcialidade do
rei, e tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...

--E a nós,--atalhou, recachando-se, o prelado toledano--embóra
inferiores na quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na
perseverança com que luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo
de Sevilha...

--Sim, esse...--condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja
execução de ninguem confiava.--Lembrai, pois, um plano, e contai com o
rei de Aragão.

--Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em
poucas palavras: invistamos contra a honra da rainha!

Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da
edade media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro,
do que para menear o cajado pacifico do apostolo.

O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu
interlocutor, e, occultando cautelosamente o assombro, que lhe
produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:

--Como?...

--Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la
Cueva--respondeo serenamente o arcebispo.

--E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis,
o facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde
explicar-se com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito.
Álem d'isso a todos é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha,
que, batendo com um chapim na sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a
ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, sem evitar, que a sua rival esteja
vivendo hoje tão entonada, por ser amante do rei, e dispensadora de
mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações perante tal mulher, a
conquista-las ás lançadas aos mouros...

--E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de
ninguem acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho
offendido. Álem de que o vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as
accusações feitas aos potentados, e até as avulta enormemente...
Accresce, que para o genero d'esta não ha defensa possivel, e, dado o
escandalo, já o monarcha se não attreve a mostrar-se em publico, sem
correr o risco de ser apupado...

--N'essas circumstancias deixará a infanta de ser a herdeira
presumptiva da corôa...--contestou pausadamente o marquez.

--Sem duvida!--atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no
marquez de Vilhena certo ar de indecisão.

--Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...

--Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter
começado!--exclamou o arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o
aspecto, de seu natural severo, accrescentou: e quem hade impedir-nos de
o realizar?...

--Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei
de Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo
nosso com a côrte aragoneza...

--É habil esse lance!...--ponderou o arcebispo--Comtudo não vos
esqueçais do arcebispo de Sevilha...

--Seguramente...

--Vejo, que nos comprehendemos...

--Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de
restaurar...

--O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e
apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...--concluio o arcebispo, sorrindo
ironicamente.

--É uma creança que substitue outra...--observou Vilhena.

--É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança, e D. Affonso hade
obedecer ás nossas inspirações...

Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores
não confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era
insolente e audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas
palacianas, fazia consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e
sabia-lhe melhor ganhar a victoria por meio de traças ardilosas, e
palavras melicas. Não pretendia álem d'isso desaggravos tão cruentos,
como o arcebispo; mas teve de concordar com elle, e com os outros
conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de uma corôa,
para a tornar ludibrio do mundo!

O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão
mostrando elles para gloria sua.

Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de
Aragão, assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece,
porém, ter-lhe servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar,
mais do que nunca a sua intimidade com o conde de Ledesma.

Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em
bocca o nome de _Beltraneja_, posto por elles á innocente infanta, e
perfida injuria disparada ao pundonor de sua mãe.

Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na
baixeza, de propalar em tamanha infamia aquelles, que se diziam
_grandes de Castella_!

Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por
saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo,
para lhe propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio
n'isto o timido monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O
marquez avisou do rescripto a sua victima, que passou logo para o bando
dos descontentes!

Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e
apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a
tentativa. Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi;
compraram a camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e
pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.

De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe
diziam, com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma
a fazer jurar por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem
o ser; pois que não era sua filha bem o sabiam elle e o conde!

O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os
perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e
accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago,
por que tanto suspirava o marquez de Vilhena.

Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma
vez que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu
turno, entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago,
não por se considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em
tudo servir D. Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.

Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo
ergueram em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um
cadafalso, sobre o qual collocaram uma cadeira, em que assentaram um
manequim, figurando D. Henrique de sceptro na mão e corôa na cabeça.
Leram muitas queixas contra o rei, e em seguida o arcebispo de Toledo
tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o sceptro; o conde de
Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de Benavente e o de
Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a pontapés,
do cadafalso abaixo o vulto desataviado!

O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe
beijaram a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.

Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!

Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria
abalado profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e
covardia de Henrique IV, que era o desespero dos bravos, a parte
sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os conjurados.

Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um
grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção
enthusiastica, feita á princeza D. Joanna em Saragoça.

Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas,
mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de
Toledo lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a
ponto de receber o sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu
testamenteiro, e pedir-lhe, que fosse patrono de seus filhos. Deixou
assim de arrogar-se, em seu entender, a responsabilidade de certos
actos, e preparou novas alicantinas.

O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das
muralhas da velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D.
Opas;--o que significava compara-lo com o typo mais repugnante dos
homens conhecidos por traidores.

Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos
negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que
se ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar,
que Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma
suspensão de armas por cinco mezes, dando azo a despedir-se das duas
parcialidades gente, que foi infestar as povoações, a ponto de provocar
a fundação das _Hermandades_, para perseguir os malfeitores.

Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente
comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de
potentados, cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.

O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã,
casasse com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D.
Beatriz Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando,
filho do rei de Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou
por se oppôr tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.

A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem
fazer esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.

O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e
senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real,
deixando de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de
Toledo, principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do
interdicto, dizendo, que appellariam para um concilio. E mandaram logo a
Paulo II uma embaixada, participando-lhe, que tinham acclamado o
infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em
vez de attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle
os castigos eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava
todas as classes á desobediencia.

D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os
conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou,
por não poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique
vivesse... Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em
competencia com D. Joanna, a quem chamou _supposta_ filha do monarcha.

Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua
irmã não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria
honra e a da rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os
interesses da innocente infanta, sua filha.

Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo
legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra
tudo quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque
havia recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe
impossivel desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.

Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido
para D. Isabel.

O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu
neto D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de
Vilhena oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para
olhar pelo engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto
antes o enlace d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda
mal apagadas umas discordias, surgiam logo outras.

Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a
corôa sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades,
buscavam em tudo elementos de perturbação, e a auctoridade real era
incessantemente um joguete em suas mãos.

Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de
previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada
d'isso, porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia
de um povo illustre uma pagina indecorosa.

O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma
nova campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os
grandes de Castella.

Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia,
afim de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio
arbitrio; e depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não
casaria, fosse com quem fosse, antes de elle regressar. A infanta,
porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e
intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei
de Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante
certas condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella
encarregára a negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do
principe as consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo
o matrimonio realisou-se. Correo logo que não estava valido, por se ter
celebrado sem a dispensa pontificia, tão reclamada pelo proximo
parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos, nem
difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á
verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o
breve indispensavel.

Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma
exposição, na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as
condições, em que se effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de
solicitar o perdão do seu rei, por haverem, sem seu beneplacito,
preparado e conseguido tão auspiciosa união. Ao mesmo tempo Isabel
dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em que lhe communicava a
sua mudança de estado.

Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!

O desforço de Henrique IV consistio em reunir um simulacro de côrtes
no valle de Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar
solemnemente, que era irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros
de Guisando, a infanta D. Isabel por herdeira do throno, em virtude de
concessão feita por elle monarcha, pois lhe fôra esta arrancada á força,
e offendia os direitos de sua legitima filha. Assistiram a essa
assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por procuração o
casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades, que
se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu
assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra,
que por meio de poderes especiaes havia empenhado.

Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D.
Affonso V, a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em
dote os reinos de Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais
receoso dos artificios de Vilhena do que das difficuldades do assumpto,
deo largas ao negocio, e Henrique IV entretanto tentou ainda procurar
para genro o infante D. Henrique de Aragão, filho de outro, que,
cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de Castella.

Começou o anno de 1474.

Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de
Cabrera, teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no
alcaçar com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural bonhomia,
recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para
apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto
IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que
desejasse, por isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o
irmão a ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao
marido uma prova publica de affecto, indo á missa com elles, e voltando
com grande comitiva ao alcaçar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado
almoço. O rei comeo com sua irmã e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se
tão mal, que foi mister leva-lo em braços para o palacio. Em quanto
esteve de cama não cessaram as deligencias, para que declarasse sua irmã
por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O marquez de
Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D.
Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a
sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo
contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia
um pêso, de que não podia alliviar-se.

Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que
falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois
mezes antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu
filho D. Diogo, que assistio com o cardeal Mendoza, o conde de
Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo, aos ultimos
momentos do rei em Madrid.

Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha
moribundo, perguntou a este o cardeal:

--V. A. deixa testamento?

--Deixo--respondeo Henrique IV.--O meu secretario Juan de Oviedo o
apresentará.

--E quem são os vossos testamenteiros?--continuou o cardeal.

--Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o
conde de Plasencia.

--E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?--insistio ainda Mendoza.

--A minha filha D. Joanna--replicou o monarcha serena e firmemente.

Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora
tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta
das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!

Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se
acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um
solemne _Te-Deum_, como se acabasse de alcançar o maior triumpho.
Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes
em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se junto
d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o
alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D.
Henrique.

Parece um sarcasmo!

Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a
successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a
legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de
que lançaram mão os rebeldes.

Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.

Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu
criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a
verdade, que é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem
a escreve.

O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido
desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a
nodoa, com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.

Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de
Castella; saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D.
Affonso V, que no conceito de Camões,

    _Fôra por certo invicto cavalleiro,_
    _Se não quizera ir ver a terra Iberica._



III

_NOVO ESCUDEIRO_


Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de
D. Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de
Aragão principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia
afinal decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em
circumstancias mui diversas.

Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna
era uma creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem
a necessaria energia para collocar-se á frente do movimento, que se
operava a favor da justa causa da princeza de Castella.

Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das
hostilidades, de sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe,
ficou inteiramente á mercê da versatilidade caracteristica de seus
parciaes. Estes, mais por acudir á vingança de seus odios particulares,
e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por zelo do bem
publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso V, para
lhes saciar a cobiça.

Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o
testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D.
Joanna sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão,
pedindo outrosim a D. Affonso V, que acceitasse a governança d'elles e
casasse com a sobrinha.

Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos
grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo
respeito ás praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer
conselho, que contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber não
só quantos e quaes eram os magnates castelhanos legitimistas, como de
certificar-se da valia d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque,
seu camareiro-mór, depois conde de Penamacor.

A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido
pelo monarcha.

Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito
com ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente
pediam a lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato
grandes e pequenos.

Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o
apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto
entre ambos ficasse assentado.

Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:

--Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O
reino sem direcção, nem governo, combatido por todos os principios de
dissolução, caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de
voss'alteza está o poder evita-la.

--São esses os meus desejos;--replicou D. Affonso--mas, como sabeis, a
empresa não é facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que
se propõem pugnar pela justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.

--Da parte de meu irmão--tornou Guzman--venho eu prestar homenagem a
voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar,
tomar e reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se
desposar com a senhora D. Joanna, e fôr sem demora tomar posse do
governo de Castella.

--O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como
procede, offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.

--Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a
gratidão do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.

--Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!

D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados
ademanes de cavalleiro:

--Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que
desde já põe ao serviço de voss'alteza.

--É contingente valioso esse--observou D. Affonso.

A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser
definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.

--Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da
resposta de meu irmão.

--Porquê?

--Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D.
Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois
desejava enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que
poderiamos entrar em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.

--E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?

--Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este
numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella,
pois muitos dos cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão
immediatamente.

D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de
ter já por si em Castella tão importantes forças; e com a sua
habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:

--Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais
briosos certamente.

--Mercê por elles, meu Senhor.

--Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito
gostará de conversar comvosco.

É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra,
sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe
acceitar o papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.

D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o
tempo sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o
pagem, que viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo
sevilhano, o qual, mais talvez por alardear philaucias de familia, do
que por enaltecer as qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu
em resumo: que da Covilhan costumava ir a Sevilha o páe do pagem
commerciar e conquistára grandes creditos. Tendo afinal estabelecido a
sua residencia n'aquella cidade, onde era geralmente estimado, accedeu
ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia, de deixar-lhe educar o
filho, então muito creança ainda, mas dotado já de singular viveza. Como
fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o pagem
inteiramente confiado ao amparo do duque. Possuia prendas muito
estimaveis, poderia em breve ser um excellente cavalleiro, e chamava-se
Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.

Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite
de terem o pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia
reconhecido isso na maneira como lhe fallavam d'elle.

Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan:

--Quereis ser pagem do rei de Portugal?

--Tudo quanto sou--respondeu Pero--devo ao senhor duque, por isso não
tenho animo de separar-me d'elle.

--Esperava essa resposta;--volveu Guzman--mas se eu vos pedir, que fiqueis?

--Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.

--Meu bom Perico!--exclamou affectuosamente Guzman.--Muito me custa
deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de
Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem
servir; por isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão
assentirá ao meu proposito.

No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V
dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já
escudeiro, servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado
ainda vinte annos.

O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para
Luiz XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por
esposa a princesa D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande
exercito, pois a isso o estava convidando a maior parte da grandeza
castelhana. E sob o pretexto de recear, que na jornada sobreviesse ao
seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o retardasse, escreveu de
novo ao rei de França, insistindo agora principalmente em demonstrar os
legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna. Ponderava
habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de ambos
os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a
ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para
França.

Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz
XI, que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um
principe capaz de manter e conservar as antigas confederações e
allianças d'esse reino com a França; mas contra todos em geral e sem
excepção.

N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da
Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal
ficasse comprehendido no tractado a celebrar com Castella.

De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de
Luiz XI; o que determinou este a promulgar uma carta patente sobre o
soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire d'Albret commandante de
um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.

Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o
seu parecer--que foi archivado a seu pedido, para constar no
futuro--ácerca da entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso,
antes d'este se pôr em marcha, conversou ainda particularmente com o
duque a respeito do assumpto.

--Insistis na vossa opinião?--perguntou o monarcha ao duque de Bragança.

--Certamente, meu Senhor--respondeu o duque.

--Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que
por Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?

--Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses
mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa
sobrinha, são os que atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural,
depondo-o do governo do reino.

--Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que
assiste a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus
anteriores desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim
grandes mercês?

--O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende
unicamente da sua ambição, e vem acompanhada de mais interesse, do
que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas começar a
ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonarão a vossa bandeira.

--Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora
descabida. Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a
grandes perigos, offerecendo-me espontaneamente seus serviços, se
duvidassem do seu e meu triumpho?!

--De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis.
Mas superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e
prudentes, tendo ao seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel
por sua rainha. E uma acclamação, como esta, é vantagem muito grande no
começo dos reinados, servindo até de justificar as pretensões mais
duvidosas.

--Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto
não só com os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com
outros tantos castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade
engrossarão o meu exercito.

--E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como
em armas, navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha
decerto; e até a Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da
Secilia, o rei de Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.

--Sim, estão os meus adversarios bem aparentados; mas não os temo
apesar d'isso, e eu tambem _não nasci das pedras_.[3] Conto
igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, _que é
mais fiel que todos os parentes e amigos_, e tenho sobretudo a Deus em
meu auxilio.

--Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti,
porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal,
filha de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a
felicidade e a paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes
de Castella. Não olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu
cunhado, não queria ouvir fallar do casamento de voss'alteza com sua
sobrinha, e que, acceitando-o agora, obriga o mundo, sempre prompto a
desacreditar as acções dos principes, a murmurar e attribuir esta guerra
a algum odio reservado...

--Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.

--Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença,
para ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real
pessoa de voss'alteza e a minha, se necessario for.

A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio
de Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada
por D. Isabel, proxima parenta do duque; suspeita essa, que dominou
sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão fatal á casa de Bragança.

D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido
de que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V
aproveitasse o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os
dominios da corôa, e unificar os reinos da peninsula. Era vivamente
applaudido por alguns fidalgos portuguezes, que observavam o invariavel
preceito, de não soffrerem os principes contrariedade a seus gostos.
Preferiam por isso ser aduladores, especie de péste endemica das côrtes,
para a qual se não descobriu ainda remedio.

O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e
os successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a
prudencia, do que lisonjear um principe.

Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu
filho primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em
suas grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e
dinheiro, sem que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia
o seu legitimo rei, consideração alguma pelo parentesco, que tão
estreitamente o ligava aos principes do partido contrario.

Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade,
sendo alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos,
alguns dos quaes consumiam seus patrimonios e forças em guerras
civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o influxo
civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal,
havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais
acendraram a fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de
que era singularmente dotado.

A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela
Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano,
iniciados pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle
continuaria a obra do solitario de Sagres, uma vez que não fosse
impellido pela generosa idéa de reparar uma affronta, feita a sua irmã,
e de soccorrer uma orphã innocente e desamparada?

E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?

Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os
codices da preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca
Nacional de Lisboa, em um d'elles encontraria a seguinte lembrança muito
instructiva:

«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento
delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com
a Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a
Castella o Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje he
Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e está em corte de Roma
privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e asi
outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o
mesmo caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de
Cecilia e Principe d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que
primeiro foi Rei de Navarra, o qual casamento fez por mão do Arcebispo
de Tolledo dom Affonso Carillo, e do Almirante avoo do dito Rei da parte
de sua mãi, e fique em memoria que o fez porque o dito Senhor Rei Dom
Affonso _a não quiz, querendo ella muito_, e depois elle a quisera e
ella como as molheres naturalmente sam vingativas o não quiz quando elle
quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar, como na verdade
foi, _ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com o titolo de
sua sobrinha_, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á Rainha Dona
Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada sobcederão
fique do Coronista ao carguo.»

Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como
vimos, a mão de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que o
principe D. João casasse com a princeza de Castella, D. Joanna.
D. Affonso dilatou a sua resolução, e sómente quando muito
instado por seu cunhado, pelo principe seu filho, e pelas diligencias do
marquez de Vilhena, mandou uma embaixada pedir a infanta. Os
embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e
afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios
brandos de reduzir a infanta a obedecer a seu irmão. O arcebispo de
Toledo cuidou immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo
em relêvo a dilação descortêz de D. Affonso, aconselhou-a, a que
preferisse Fernando de Aragão, e entendeu, que, para frustrar as idéas
dos adversarios, devia fazer secretamente os preparativos, precipitar os
tramites do negocio, e de um modo ou outro verificar o matrimonio, para
que, realizado e consumado, não désse lugar ao _arrependimento da
princeza_. E maior préssa se deu ainda, quando soube, que de Roma havia
sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23 de junho de 1469,
concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou então um breve
apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio
II, pois se oppunha á execução do desposorio com Fernando o impedimento
da consanguinidade dos nubentes, e não havia outro meio de velar o
sigillo e realizar o negocio com promptidão.

O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e
commetter torpezas.



IV

_JORNADA INFELIZ_


Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde
mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o
_Regimento de Guerra_, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham
de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a
hoste assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a
bandeira real mettida na funda.

Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475,
D. Affonso V

    ...................«tocado de ambição
    E gloria de mandar amara e bella,
    Sai cometter Fernando de Aragão,
    Sobre o potente reino de Castella.»[4]

Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva,
Ruy Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram
a Piedra Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e
seiscentos cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V,
que tomou então o supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o
marechal, o ouvidor da hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos,
cavalleiros e capitães, a quem recommendou obediencia em tudo aos quatro
primeiros; verificou o numero da gente que havia, e deu as necessarias
providencias no tocante á ordenança, que as tropas deviam conservar
durante a marcha.

Na frente saíu o _adail-mór_ com um troço de ginetes, formando a guarda
avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do
arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da
vanguarda real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a,
o condestavel, cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava
as alas a fina flor da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a
rectaguarda não mediava mais de um tiro de bésta, a fim de poderem
mutuamente soccorrer-se.

Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na
vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa
dignidade estavam repartidas por D. João, marquez de Montemór, filho
do duque de Bragança D. Fernando I, e por seu irmão o duque de Guimarães.

A cavallaria compunha-se de _cavalleiros_ e _escudeiros_ de geração
nobre; de _lanças_, que os senhores de terras tinham obrigação de dar,
acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de
_cavalleiros_ da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a
contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes
sómente eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou
rezenha das praças, que constituiam os corpos chamados bésteria,
denominando-se _bésteiros do conto_ tanto os de cavallo, como os de pé.

Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou _á gineta_. Na primeira,
o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda, os
cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos
curtos no apparelho do cavallo.

A infanteria constava de _bésteiros_, _espingardeiros_ e _piqueiros de pé_.

Na bésteria differençavam-se os chamados de _polé_, por trazerem bésta,
que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os _bésteiros da camara_,
que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino; _bésteiros de
garrucha_, mais abastados e considerados, que os de polé, armados com
bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e solhas
para arremessar virotões; _bésteiros_ _de fraldilha_, por levarem
uma fralda de couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do
inimigo; e _bésteiros do monte_ ou caçadores.

Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais,
á medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi
acolhida, durante muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria,
que considerava cobardes similhantes armas, com especialidade as
portateis. No reinado de D. João II apparece já o cargo de _anadél-mór_
dos espingardeiros, concedido a Payo de Freitas, cavalleiro da casa
real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua vez de extinguir em 1498
os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da camara, todos os
cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando unicamente os
bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e Algarve,
com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como
consta da carta de 29 de maio de 1499.

A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a
quem pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os
alojamentos; executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do
condestavel; e julgar as causas civeis e crimes das gentes de guerra,
levando um ouvidor comsigo para esse fim.

O _alféres-mór_ levava a _signa_ ou _bandeira_, a qual não estendia ou
desenrolava sem especial determinação do rei, quando estivessem á
vista do inimigo, e costumava ter um _alferes pequeno_, que o
substituia. As bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e
estender-se, sem que o fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre
estendidos os balsões ou insignias. No guião do rei via-se a divisa que
Affonso V tomára por sua mulher D. Isabel, e consistia em um rodizio de
moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na legenda _Jámais_.
Com oito ou dez pendões pequenos era balizado e divisado o lugar
escolhido para acampar.

Havia um _aposentador-mór_, que de ante-mão preparava os quarteis das
tropas, quando estas se mobilisavam. O _capitão de ginetes_ era o
general de cavallaria; o _adail-mór_, o capitão dos bésteiros; e o
_coudel-mór_ commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam
a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por _coudeis_.

Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou
escudeiros, commandados por um _guarda-mór_. Eram escolhidos, e andavam
armados de cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz
assistiam no paço junto da real camara. Algumas vezes o soberano
encarregava tambem da sua guarda o capitão de ginetes, sendo então de
duzentos o numero de cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como
os da camara real.

Segundo prescrevia o _Regimento_, os soldados ou gente de guerra deviam
trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e
tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As
trombetas eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou
chamadas; mas affirma Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o
nosso exercito usou tambem dos atabales.

O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente
conduzido. Estava a cargo de um _védor-mór_, aprompta-lo e pô-lo em marcha.

Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um _regimento_
proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. Requisitava
ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que julgassse
indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem
como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que
houvesse necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava
conforme os seus merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de
gastadores, para abrir caminho.

O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui
regressou a Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o
norte, indo fazer alto em Plasencia.

D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de
D. Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar
o seu reconhecimento como rei de Castella, e, conforme os desejos do
rei de França, renovar os antigos tractados, que existiam entre as duas
monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de Salamanca uma carta
sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e Leão, e
mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem
fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de
Aragão.

Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava
acompanhada dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates,
e foi publica e solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de
intitular-se rei de Castella, Leão e Portugal.

Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis
de Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e
outros contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união
áquelle que mais afortunado fosse.

D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas
se formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das
diligencias de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o
favor de muitas povoações, visto serem mui versateis e caros os
magnates. Em quanto o seu antagonista se divertia, conquistava ella as
sympathias da classe burgueza. Percorria os seus estados. Procurava e
enviava soccorros ao exercito, que seu marido commandava, para
conter o progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de
Leão. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a
importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na
depravada e cupida aristocracia. Lançava finalmente mão do thezouro de
Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de Contrera, a quem mais
tarde brindou com o Marquezado de Moya.

Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de
Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro
estrategico; pois, segundo Zurita, «foi de grande remedio para a
conservação do estado do rei da Secilia, e seria de grande prejuizo, se
a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo
este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se fórte em
Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou
descontente por não ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar
do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim
procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a
maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os
corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e
determinou-o a propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua
mulher.

Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se a miude as
incursões de nossos visinhos. Até o primogenito do duque de Medina
Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais audacioso do que prudente, fez
uma entrada em Portugal, como se fosse em terras de mouros.

Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco
depois da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D.
Isabel, que lhe prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com
o marquez de Cadiz.

E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella
jornada de D. Juan de Guzman?

--O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um
espião.

Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o
principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz,
escoltados de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos
lugares suspeitos, para avisarem das partidas do inimigo; cortar as
estradas das serras com patrulhas, a fim de embaraçarem os castelhanos,
que de ordinario se emboscavam por entre os arvoredos e quebradas do
terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males, cuidando ao
mesmo tempo da conservação e defesa do reino.

Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para
premio de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de
Penamacor, saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a
quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou por
Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca
do movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era
chamado e levado para soccorrer.

O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia,
n'esta empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não
podemos denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos
afortunadas, de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha
campal, digna d'esse nome, e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.

Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no
perigo, em que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus
quarteis de inverno em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o
arcebispo de Toledo, o qual sempre inconsequente e inconstante, sendo
convidado por Isabel a auxilia-la com os seus homens de armas, respondeu
com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz: _que a tinha livrado
de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na roca_.

De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse
vê-lo, pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se
tinha posto a caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas
torres, que defendiam a ponte sobre o Douro, á entrada de Zamora, se
tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou matar D. João na
sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V a seu
filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do
qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da
guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio
a nado, para se furtar á vigilancia do inimigo.

Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o
poude conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se
permanecesse com a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais
temor, que confiança, os habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro,
onde tanto elle como a rainha foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.

Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario,
em quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu
empenho principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro,
tendo tomado á força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta
dos defensores d'ella, para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima
dos muros de Toro riram-se d'essa façanha, e cobriram de motejos o
auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas desafiar D.
Affonso V, que não tornou á requesta. Então Fernando foi sitiar o
castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia,
onde não havia esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu
de Toro em som de guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor.
Fez alto em frente da fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas
horas, retirava já para Toro, por lhe parecer que Fernando saía a
pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da cidade, aguardou-o no campo
outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida varias cartas, em que
blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até fugira. Tendo o
nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma carta de
Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta
denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma
costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.

Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso
V e D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a
rainha Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou,
allegando haver grande desigualdade no penhor.

D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que
já tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se
levantava; sendo certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes
condições, fazendo questão de igualdade das pessoas, era confessar que
não queria o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a sua
mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude
conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.

Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o
principe D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil
infantes e dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia
de engrossar o seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos
magnates, á medida que a sua causa se tornara cada vez mais duvidosa,
permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de Toledo.

Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio
portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no
coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.

A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista,
depois da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as
torres e conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas
não seria necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas
na difficuldade!

D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.

--Para que?

Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde
tremulava ainda a bandeira portugueza, pois tinha de permeio o rio,
invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma
batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma
superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e
tendo cobertas todas as communicações importantes.

Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte
de Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde
de Villa Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu
bastante, approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto
e assentou o arraial.

Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno
alcance das bôcas de fogo, mas preceito do _Regimento de guerra_, para
fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte
estava enfiada pela nossa artilheria.

Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o
damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena
trégoa para concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir
meio conciliador, de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores
d'ella. A sêde de sangue causada pela febre guerreira, em que uns e
outros ardiam, tornava-se cada vez mais insaciavel. E comtudo nenhum dos
exercitos podia invejar ao outro a sua situação. O nosso, além de
luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz
extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo
que as chuvas e neves o iam já desimando, começava a falta de viveres a
fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.

Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de
que Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita
do Douro. D. Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o
passo ao inimigo, e foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade,
onde mandou recolher o parque e a peonagem. Soube o principe durante a
marcha, que Fernando não havia saido de Zamora, mas tinha para o bater,
em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de seiscentas lanças, commandadas
pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de Fernando. D. João
obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que tomára seu páe,
e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.

Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que
começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos
nossos, a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a
nossa rectaguarda com algumas cargas ligeiras de cavallaria.

Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda;
mas D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde
lhe deram a nova, pois tão apertado era, marchou para a planicie, e
ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais despejadamente.

D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de
formar as suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição
d'ellas fosse, quanto possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as
em duas grandes fracções. Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao
principe o da outra, em que ficou a flor da cavallaria portugueza.

Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita
capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, _vindo na reserva_ Fernando de
Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o
cardeal Mendoza.

Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a
rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças,
pois que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de
dispôrem finalmente de infanteria mais numerosa.

Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma
de infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e
uniformidade de seus movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á
cavallaria, olvidando-se a maxima dos antigos, prudentemente restaurada
pela illustração militar dos nossos tempos, de que a infanteria é o
agente principal do combate, ou, como poeticamente dizem alguns, a
rainha das batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de
nobreza valente e déstra, mas pouco subordinada, bem como dos
contingentes tumultuarios das cidades, era incompativel com a disciplina
e outros requisitos essenciaes da sua organisação. N'este encontro de
Toro, comtudo, os castelhanos empregaram com proveito a sua infanteria
ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora aguerrido, não soube
mostrar-se disciplinado.

Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois
exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol
têr-se posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva
miuda e persistente.

Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o
convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do
adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado
pelas trombetas, fosse o primeiro a romper.

Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, _por S. Jorge e S. Christovão_,
invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza,
clamando com os seus por _S. Thiago e S. Lazaro_.

Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas
obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo
d'Evora D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o
inimigo, a nossa cavallaria, como se fôra uma forte muralha de
lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, irresistivel,
sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram
quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos,
com o principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais
completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á
carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o
effeito moral d'esse choque violentissimo, que percutiu até a reserva do
inimigo. E por isso Fernando de Aragão--um moço de vinte e seis
annos!--que, para não expor a vida á contingencia de um golpe do seu
adversario, se collocára a respeitosa distancia, mal viu approximar-se a
hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas de cavallo para Zamora, sem
tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a pista, e salvando-o a sua
boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos cavalleiros, que
correram sobre elle.

Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do
rei da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o
animo tê-la embainhada, e lança-se no combate.

Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da
cavallaria; rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças
arremessadas com furia; retingem-se de sangue as espadas nos crébros
golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do
peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; resoam,
similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de
dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e
servindo antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida,
desesperada, horrivel a refréga. Não cessa do ardor, com que começou de
accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se á parte da
multidão, ou á do esforço.

Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de
Toledo em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a
cavallo--o que para a nossa hoste era uma novidade--dão uma descarga,
que fez hesitar um momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o
adversario empregado aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o
momento decisivo, logo recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.

Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no
ultimo choque.

D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado
expôr ás contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava.
Era pois a morte ou a gloria o escopo unico d'aquelle

    «Que a suberba do barbaro fronteiro
    Tornou em baixa, e humillima miseria.»

Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias, mas os
cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam,
percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e,
fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com
que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais
fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na
bainha.

Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos
nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se
a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante:
acertada resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não
era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto
planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do
ultimo conflicto.

Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das
cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa
quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua
visinhança tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis
relações com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em
que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um
homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É claro, que nem pela
cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse derrotado, tal
era a confiança que depositava no valor de seu filho e no dos
companheiros, que lhe deu.

Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um
porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega.
Ficou victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os
feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste,
tio de Fernando de Aragão.

Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque
estava fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para
entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua
temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro
inimigo não victimáram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram
outros, mais prudentes, unir-se ao principe, e entre esses o escudeiro
Gonçalo Pires, levando a bandeira real, que por instantes tremulára na
mão de um castelhano.

Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade,
que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe
arrebataram depois de uma lucta titanica.

Singulares contrastes!

Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria,
onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para
immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o
appellido de _Bandeira_; a outra, o cognome de _Decepado_ a Duarte
de Almeida.

    «Cercado por toda a parte
    Sua espada se partiu.
    Por guardar seu estandarte,
    D'arma o estandarte serviu:
    A dextra mão jaz por terra,
    O seu guante a não guardou;
    O pendão na sextra aferra,
    E a mão perdida vingou:
    Outro golpe lhe sepára
    A sextra mão que segura
    A bandeira, que jurára
    Conservar intacta e pura:
    Nem assim perde a bandeira,
    N'hastea dura os dentes crava,
    Quando lança traiçoeira
    Seu ginete lhe prostava:
    Cahe no chão o cavalleiro
    Sem vida, quasi expirando,
    E ficou prisioneiro
    D'illustre rey Dom Fernando.
    Mas a bandeira regada
    Pelo sangue portuguez,
    Por Goncal'Pires livrada
    Breve foi, logo outra vez.»

Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de
Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma
era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o
honrado cavalleiro resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a
Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue tão generoso, e
sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.

A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois _per força e
como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a
levava_ (a bandeira), _e o prendeo sobre sua menagem_,[5]
abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que já iam
correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.

Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres
dias, ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso
mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.

O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma
deliberação.

Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem
mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre
umas pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.

--Cães de portuguezes!--grunhia um.--Por causa d'elles fizeram de nós
morcêgos!...

--Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de
Malaga!--tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava,
levando o cavallo á mão.

--Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar--observou o
outro, sem nenhuma curiosidade de saber, quem era o seu
interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.

--Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles
malditos!--exclamou o cavalleiro.--Mas, Virgem Santissima! o que
estaremos nós aqui a fazer?--perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa
estivesse a verrumar-lhe o entendimento.

--Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...

--Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.

--Fugiu, não direi... Retirou...

--Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do
campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da
_Beltraneja_, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois
tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na
direcção, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.

--Sim, é o mais certo;--replicou em tom indifferente o cavalleiro.

Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os
biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a
cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.

Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se
concentravam no acampamento sem apparencia de receosos, valeu-se do
silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.

D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres
dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo
de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a
bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem
mostrar préssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.

Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o
interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do
que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de
Pelayo Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio
de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de
Guimarães, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.

--Não merece--exclamou alto e bom som--o nome de cavalleiro, quem
abandona o seu rei, e o não segue na vida ou na morte!

E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:

--O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?

Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João,
appareceu Pero da Covilhan, e disse ao principe:

--El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são
está, por isso sejais tranquillo.

--E onde está el-rei, nosso senhor?!...--perguntou com alvoroço o
principe real.

--Em Castro Nunho.

--Quem nos trouxe tão bom recado?

--El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.

A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de
trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de
alegria, feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o
principe sair para Castro Nunho uma guarda de honra composta de
numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D. Affonso V a Toro.

Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do
rei, pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do
principe, havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa
refrega, em que conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.

Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:

--Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?

--Facilmente, meu senhor--respondeu Pero da Covilhan com a maior
naturalidade.--Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr,
que em nosso campo não havia de el-rei novas, nem mandados. Ancioso
de buscar sua alteza, era dominado por um triste presentimento. As
trévas da noite, e a confusão que reinava no campo contrario, poderiam
talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de
que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os dialectos de Hespanha,
e fui á ventura.

--Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a
vida--atalhou o principe.

--Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que
imperava unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a
voss'alteza.--A poucos passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando
caminhava na direcção da margem do rio, ouvi fallar uns biscainhos.
Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do inimigo, que estavam em descanço.
Quasi não repararam em mim. Tomaram-me naturalmente por seu convisinho,
e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles affirmou ter el-rei
retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo a verificar
isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já voss'alteza.
Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do acampamento sem
licença de voss'alteza.

--Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se
alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que
pelejastes a meu lado.

--Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...

Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da
Covilhan, como veremos.

O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da
desgraçada guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho,
regressou a Portugal; e o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem
pensar que o revéz de Toro fôra o occaso de sua gloria guerreira.
Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho de Medina, ter-lhe-iam
caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão prodiga, não fosse para o
seu competidor tão adversa.

Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca
temera a morte.

Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para
ser instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da
expiação. Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar
vingança eterna do sangue derramado em Alfarrobeira.

Justiça da Providencia!



V

_ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA_


Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha
nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua
temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o
Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua
missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores,
por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua
boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os
principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus
interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima: _quem não
sabe dissimular, não sabe reinar_; e que, por elle ser assás astucioso e
perfido, lhe chamavam _a raposa_.

Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro de 1475, o
tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar
Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a
confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre
estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da
outra por D. Affonso V, rei de Castella.

O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as
estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da
Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e
negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro
da paz com o duque de Borgonha.

Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho,
pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a
ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus
desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de
arriscar mais uma vez a sua reputação.

Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para
França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em
uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos
homens.

A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo
foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os
cumprimentos, que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa,
com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os
navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que
fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do
conflicto de Toro.

Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e
teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao
requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.

De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de
notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde
deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D.
Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a
estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde
lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso
cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI
déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante.
Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo,
fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o
entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre
outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de
benidictinos. Era o _Lancelote do Lago_, romance de cavallaria escripto
em latim, na leitura do qual os paladinos dos seculos XII e XIII
aprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros da
_Tavola Redonda_. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D.
Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus
agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por
isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.

Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as
chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos
dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o
seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.

Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de
Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede.
Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos
ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois
principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial
da entrevista.

A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França
«vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e
duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á
cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos
pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma béca de
chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e
suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.

«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os
joelhos muito baixos.

«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os
olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S.
Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta
mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que
elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém
elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu,
porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de
Portugal.

«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre
quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados
debates.»[6]

Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal
apresentar-se humilde até á repugnancia!

Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours
para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os
monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder
casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.

Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no
coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque
de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com
quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois
soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu
proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos
resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a
fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna,
e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o
bom exito da empreza de Castella.

O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe
apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era
homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o
aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a
soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar
o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de
Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.

Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á
concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e
assim fez.

Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu
inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a
presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo
sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha
propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha
agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o
preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios,
mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao
territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os
passos de seus agentes.

Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de
Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha
diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de
Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a
curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal;
mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em
melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a
questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente
a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez
supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando
implicitamente insinuado aos reis da Secilia, que tratassem com essa
potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma
condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que
era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.

A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com
elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso
no encontro dos dois monarchas em Arras.

Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de
Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma
abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e
recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica
tortuosa de Luiz XI.

Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos
para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de
embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios
para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi
todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de
preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em
escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um
cofre, cuja chave trazia comsigo.

Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:

--Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas
tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér
tambem.

Ao que Pero da Covilhan respondeu:

--Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever
meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado
ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal,
sem que vá com o meu rei e Senhor.

--Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa,
dando-me algum allivio o desabafo.--Quando enviuvei, prometti deixar o
mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho,
estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a
empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua
vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi,
como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta
nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por
sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo
infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus
negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava
de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os
principes, que vivem e morrem na regencia de seus estados, com
difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução
de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois
de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não
deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco
honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados
juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa,
e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e
passarei o resto de meus dias em uma clausura.

Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!

--Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade
tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não
quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e
muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os
infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto
porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de
voss'alteza e da nossa patria querida?!...

D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito
impressionado:

--Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os
destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o
barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua espada. Vós lá
sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos
plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande
estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem
elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a
buscar-me a Castro Nunho.

Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan,
que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.

Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua
peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava
com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de
grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço
escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.

Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o
rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara
e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o
fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde
effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos
moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus
escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva
estivesse presente.

Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI
acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava
em regressar do seu passeio.

Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente,
que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse
pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral
inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.

Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram
encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na
qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os
portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o
determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D.
João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com
paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar
immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e
determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e
verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual
nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.

Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo
ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se
tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha vindo a França tratar
de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi
D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco
em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.

Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que
trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que
levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por
toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual
fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir
graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e
acompanhavam o seu soberano.

Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um
cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia
da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para
melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro
fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação,
e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a
Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét,
participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com
acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.

O conde de Penamacor, que era o primeiro camarista de D. Affonso V,
e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo
junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu
proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e
pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim
D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito
consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em
Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de
Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França,
onde se sentia sobre brasas.

Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de
Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a
tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat,
cognominado _o Grego_.

O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações
de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o
trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no
coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente
logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria
a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe
esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e
alliado...

D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos
que cultivavam as lettras; por isso, durante a viagem, algumas
vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras
composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito
folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel;
e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes
descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos
lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de
Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.

Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios
aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do
que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira,
pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que
seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.

Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi
surgir a Oeiras.

No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que
mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por
obediencia havia empunhado.

A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna.
O arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a
sua graça. O proprio Beltran de La Cueva recebia mercês d'estes
principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e
Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de
Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano,
rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este,
enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes
condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.

Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de
1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer
confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com
Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de
Castella.

Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns
magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas
estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a
guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulação dos
castelhanos não passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e
receio; por isso não cessavam as hostilidades tanto por parte de
Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas nações.
A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim
as partes interessadas.

Para entabolar as negociações, avistaram-se na villa de Alcantara,
em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do
infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem
ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479,
celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e
os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o
principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por
palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D.
Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os
rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o
principe a concordar n'este casamento, a princeza não só seria
indemnizada, mas ficaria livre para poder dispôr de si.

Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de
Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.

Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em
terçaria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não
querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de
Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era
obrigada a optar pela profissão ou pela terçaria.

No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do
principe D. João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse
com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,
devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria nas mãos da infanta
D. Beatriz.

Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de
ambos os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam,
originada de conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a
especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.

Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes
successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi
victima a innocente princeza D. Joanna:

«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua
liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e
com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de
rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas
que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe
da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e
cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior
seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e
vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro
mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.
E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim
o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D.
Affonso seu páe de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se
escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a
cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e
sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo
contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e
temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do
casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma
esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú
algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a
tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos
innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que
tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira
crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o
principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora,
viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a
quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os
de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de
terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza
sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do
verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas
delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo
vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental
proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua
conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos
de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos
esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas
e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr
aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar
estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso
juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento
d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e
mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que
se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles
viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo
pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e
juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida,
filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum
d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta
esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente
que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes
mais chegados».

Depois da profissão da _Excellente Senhora_--tratamento dado a D. Joanna
tanto que vestiu o habito de clarista--D. Affonso V quiz abdicar e
recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a
morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de
1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde
se ouvira o seu primeiro vagido.

A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a
sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos
de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.

Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com
Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou,
rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro
lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um
momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com
nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe,
preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com
sessenta annos de edade.

Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a
quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E,
como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá
desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas
da pobre princeza.

Malfadada condição a sua!

Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e
ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da
peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a
reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro
quartel do seculo VIII pela batalha de Guadalete.

Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era
patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de
que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a
estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.

O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as
leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a
macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.

Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de
Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade
hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos
elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.

Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o
poder da realeza.



VI

_PESQUIZAS_


Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II
para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de
Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos
serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do
novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.

Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros
particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade
contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes
qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade
e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de
contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de
armas em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor,
cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu
sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
_vassallos d'el-rei_, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas
em Evora a 12 de setembro de 1481.

Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da
sua guarda.

Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em
Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava
grande prazer de achar-se rodeado de cortezãos dotados de boas prendas,
e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença
das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da
rainha D. Leonor.

Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de
vêr dançar com primor a _retorta mourisca_ pelas damas trajando ao uso
arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro
emfim a lembrar os desafios poeticos, as _côrtes de amôr_, o _jogo dos
naipes_, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante,
de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.

Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha
educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do
real _jardim de formosura_, como depois Gil Vicente chamou ao
estrado das damas de D. Leonor.

Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em
verso. Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros,
torturando assim os apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de
desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem
repellidos. Não logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas
casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva, tão reservada,
quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade; em
aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na
linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo
reprezenta o _Cancioneiro Geral_, de Garcia de Rezende.

Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:

--Amo-vos!...

Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude
articular uma palavra.

Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse
comsigo mesma:

--Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas
traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a
sua galanteria por elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...

Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava
desculpa alguma para o seu silencio. Até pelo seu espirito passou o
receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de
que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é
sempre facil de responder.

Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas
retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que
elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração,
cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é
que salta a faisca sagrada.

Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não
fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se
comprehenderem. Os olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o
sentirmos, todos os segredos, que lá guardamos.

Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal
soube a novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando
elle surgiu, disse-lhe:

--Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura
tivesseis... Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da
rainha, minha Senhora?...

--Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me
tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o
levasse a bem...--respondeu Pero da Covilhan, ainda mal refeito do
sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que
para o tranquillizar lhe affirmou:

--Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha
real ama...

--Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
supplicando.

--Porquê?!...--perguntou Thereza meio admirada.

--Porque não vos mereço ainda...

--Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...

--Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que
espereis...

--Esperarei.

--Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre,
virei offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha
felicidade... Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...

--Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia
D. João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde
provêem os melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se
fizeram as casas de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina
Sidonia, e tantas outras...

--Assim é; mas...

--Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo...
Não tendes a nobreza por herança e patrimonio? Haveis de merece-la
e ganha-la!... É crença minha.

--Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso
peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...

--Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos
avós envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de
que não é nas raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo...
Ora dizei-me!... Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos
escudeiros sabemos todos, que muitos lá ficaram...

--Morreram no seu posto...

--Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume
foi sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo
dos nobres... Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que
sobreviveram!... A vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não
vo'-lo provou já, enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á
Barberia, a fazer pazes com o rei de Tremecem?...

--Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não
mereço... Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao
lado de sua alteza ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos
discorrer d'ess'arte!... Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me
sinto orgulhoso de vos amar!...

--E eu de ser por vós amada!...

--Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha
de elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...

--Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...

--Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós
sois já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...

--Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu
saiba corresponder ás vossas esperanças!

--Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe
de Deus, Thereza!...

--Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha,
minha Senhora. Adeus.

Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos,
apenas soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:

--Encantadora!...

E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração
virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos
primeiros raios do sol em alegre manhã de primavera. A sua alma
desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma
aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, invocava não sabia bem o
quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que geralmente o
interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos
servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o
coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das
suas riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os
seus galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma,
como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração,
como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois
thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna
ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua privação irreparavel.

A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para
o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados
com a sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e
moral do seu espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da
imaginação, nem lhe roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára.
Dando á imaginação o que justamente lhe pertencia, purificando-a e
dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia
forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um coração que soubesse
querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe deixassem trilhar
sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da honra.

Que mãe de familia com taes dotes!

Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua
paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como
quem prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo
passo encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico,
dizendo-lhe, que sem ella não pode haver vida de familia, como sem
templo não existe religião, que se avigóre.

Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua
pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós
como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar
consagrado pelas alegrias e pelos pezáres communs da familia.

Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza
promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e
risonha, velando tudo, tomando o maior quinhão nos dissabores do
trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforços, aconselhando-o,
inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por
isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais duras
inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma
reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas,
o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar
de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e
deliciava-se ao imagina-lo.

Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos,
desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os
primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento
deixou de ser uma paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma
virtude, que havia de eleva-lo.

O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma
aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João
II para premiar, tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam
as habituaes murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral,
occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e
aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar
trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e
noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.

Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria
de Pero da Covilhan.

Desinteressado amor!

A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a
burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e
da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama,
e segunda mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão.
Exultava por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia
para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada o
distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade
maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre
inflammado o coração.

Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer
a Maria Thereza:

--De novo passo á Barberia.

--Deus vos guie!--respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.--Comvosco
vae tambem o meu coração, que é vosso.

Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria
Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza
pelo apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente
eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da
saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.

D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava
insaciavel e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava
seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual
tivera por doação real a governança, quando principe ainda. Para ser
miudamente informado ácerca do que se passava n'esses lugares, enviou lá
Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com
Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a ossada de D.
Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva
da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque
de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem
Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com
particular interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto
tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais tarde rei.

Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.

Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já
outro encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a
realisação do plano politico de D. João II.

Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos
dos mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.

--Bem o fizestes--disse-lhe o rei--; e agora--muito secretamente--espéro
de vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor,
mui ditoso em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o
cansaço da viagem, de sair já de nossos reinos?

--Préstes estou, meu Senhor e rei--respondeu Pero da Covilhan.--Peza-me,
porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir
voss'alteza...

--Embóra, ireis, que Deus vos guardará.--A descobrir e saber do Preste
João, e onde se acham a canella e as outras especiarias, que das
terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um homem da casa de
Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui
fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia
entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais.
Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso
valor e discernimento muito mais confio...

--Mercê a voss'alteza, meu Senhor...

--O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da
Guiné podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se
tambem por lá, se a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.

--Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê,
por que beijo a mão de voss'alteza.

--Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que
vos dou para auxiliar-vos.

Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já
sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o
mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião
e á patria bons serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa
viagem, mas não resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de
amor:

--Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...

--A Virgem vos ouça!--exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e
radiante.--A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu
ficar-vos-hei esperando... de outro jámais serei!...

E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé
revigóra.

Nem um uma lagrima derramaram!

As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se
prova, com as que se deixam de chorar.

Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a
dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle,
porém, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta
ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas,
que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino,
com que mutuamente se queriam.

No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a
seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se
apresentou já com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa
de Pedro d'Alcaçova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o _Calçadilha_,
depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés,
os quaes tomavam com o primeiro parte na _junta dos cosmographos_.
N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do
Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.

Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das
despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes
Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a
fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma
carta de credito, dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para
que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim
portador de cartas em arabico para o Préste, nas quaes D. João II
significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle
relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela
costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras
era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem
communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.

E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.



VII

_EM RHODES_


Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona,
passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se
logo á casa commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi
dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica
dito.

Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de
Rhodes uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes.
Proseguiram n'ella, pois.

Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu,
tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por
uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas
tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia
pungindo a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a náu,
que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde
o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para
ficar com Thereza.

Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez
mais da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que
desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela
impressão viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o
coração.

A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas
pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e,
proejando para Rhodes, surge n'este porto.

Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.

Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de
Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha
propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do
Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e
insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam
aquelles mares, vexando os christãos, roubando e fazendo captivos muitos
d'elles.

Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras,
com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não
só davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que
visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos e furias dos
mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até ao
coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir
ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o
não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.

Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta
e frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e
brilhante defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em
1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era,
receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A
breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiança e lhaneza de
trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não só se conserva
intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais
o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.

Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do
assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este;
reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem
situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao
inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio dos
rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado; aos intrepidos
viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais
florescentes cidades da Asia.

Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o
fazia, foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações.
Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau,
que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre
alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.

Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que
d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe
não entrassem soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a
bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da
Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e não poude
occultar a commoção de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas
á galhardia dos nossos.

Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da
guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então
os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do
Omnipotente, do que ao esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr.
Fernão de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para
a derrota dos turcos.

--Depois de assalto á cidade fugiram para ella grande numero de
turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido
ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam
pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. João Baptista,
alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo instante viram
os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da côr de
ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos
vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um
homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e
logo um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas,
correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta
visão--diziam os desertores--ficaram os turcos tão assustados e
attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, não se atreveram passar
adeante; e os que já estavam interessados na lucta, conceberam tanto
medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embaraço
se mataram uns aos outros.

--Vencemos!--concluiu frei Fernão--. Mas sem aquelle celeste auxilio não
podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas
forças dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com
grande gloria dos christãos e a mór affronta dos infieis!... E a
proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. João II, sendo tão
catholico, tenha a sua attenção distrahida para Africa, e não nos
auxilie em nossa empreza!...

--Estou certo--retorquiu Pero da Covilhan--de que el-rei, meu Senhor,
admira os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento
da sagrada milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias
do reino, não podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais
porventura, que sua alteza deve consentir á sua porta, a vexar a
christandade, o agareno insolito e maldito?...

--Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem
duvida obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se
tivessemos seguro o nosso dominio na Asia...

--Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta
podésse ir á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica
n'essas regiões remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...

--Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um
tal proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...

--Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O
que vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos
aventureiros por indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma
barreira constante, posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar;
por isso natural é, que estejamos sempre anciosos de vencer esse
obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia
os primeiros navegadores do mundo?!...

--Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas...
Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em
Alexandria fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos
mares, sem que ninguem póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura
ella sonhasse, que por mar se podia ir á India, já lá tinha surgido a
sua grande fróta...

--Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...

--Assim é...

--Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no
movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do
Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do
ouro. Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir
mais além, uns retrocederam, outros ficaram...

--Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é
acredita-lo--interrompeu fr. Fernão.

--Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia
sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento
não se transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu
coração?...

--Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio
aventureiro razão sobeja me dá.

--Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará
ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o
Sol!...

--Prouvéra a Deus, que assim fosse!...--exclamou com enthusiasmo fr.
Fernão.

--Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva,
é procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me
informações, que me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem,
muito ganharia a nossa religião santa, se com elle el-rei contraisse
alliança...

--Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias
d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal
fundadas.

--Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?

--Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais
de um seculo, e até hoje--que eu saiba!--não tem constado cá, haver-se
descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.

--Informação de pêso é essa...

--Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome
commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do
Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar aos imperadores
romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa ottomana. Esse
nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em
Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão
da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E
esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de
Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem
na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha
muito que desappareceu.

--E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de
mysterios o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu
a Portugal não volto, sem colher informação segura, para a levar a
el-rei, meu Senhor.

--Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.

O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi
tornar-se-lhe cada vez mais problematica a residencia, senão a
existencia, do Préste João das Indias. Não soffreu com isso a menor
contrariedade o seu animo imperturbavel; serviu antes de maior estimulo
á sua diligencia.

De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar,
atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em
mercadores.



VIII

_BOAS NOVAS_


Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro
ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno
do costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e
fazendo parecer, que o mar se transformára em um grande lago azul e
tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da
velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo
antigo, e laço de união da Europa com o Oriente.

Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua
bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus
monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade
gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no VII seculo.

De todas essas preciosidades historicas restavam unicamente: a
columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois
obeliscos, impropriamente chamados _Agulhas de Cleopatra_, e as catacumbas.

A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo _Serapeion_,
ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do
saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de
Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu,
testemunha sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte
genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do
governador Diocleciano, _genio tutelar da cidade_, para lhe demonstrar a
sua gratidão pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era
lavrada em syenito, com o sócco quadrado, em que assentava, e o capitel
corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.

As _Agulhas_ consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em
parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois
monumentos: um, o _Sebasteion_, em honra de Tiberio; o outro, á gloria
de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor,
e, por consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno,
em que assentava a velha aldeia de Rakotis.

No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome
d'aquelle Pharaó.

Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus
do Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis
mais especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os
removeram para Rakotis.

Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á
terra firme por meio de um mólhe de cantaria, denominado _Heptastadion_,
campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das
maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do
Egypto grego.

Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de
Cheops, e que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a
revestir de marmore branco por Sostrato de Knido. Este architecto
celebre gravou o proprio nome sobre o marmore, cobrindo a inscripção de
encaustica brilhante, em que traçou o do soberano. O tempo
encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a descoberto o nome
do vaidoso e desleal artista.

Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra
igual Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da
dynastia dos Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas
a morte surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.

Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes, e pouco mais,
pois que uma fébre maligna os prostou.

Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por
haver successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e
fazendo a ultima parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta
região por entre alegres povoações mui visinhas umas das outras, e
corria a pequena distancia da capital do Egypto, a qual demorava na
margem direita.

Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio,
encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden.
Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de
Tór. D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda
do golpho de Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco
para Suaquem, riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar
Vermelho, e d'ahi para Aden.

Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído
de Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada
vez mais conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo
consciencioso do commercio das especiarias.

Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que
a sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis
mais lhe arraigava no coração as suas crenças. O seu melhor
companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os
passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme.
Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamação nem um
gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que não
fosse mercador ismaelita.

Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da
Arabia produziu-lhe viva impressão, que passou completamente
despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.

Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias
quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la
assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui
similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida
peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de léste
espelhava-se a muralha da cidade.

Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a
banda do mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos
por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha
cortada a pique, do outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte
rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um
ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava um castello, subia
do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas portas, ambas
juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do
lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres
portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.

Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo
do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes
detraz da serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva
em enormes tanques abertos na rocha.

O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que
sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os
productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as
exportações da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia
menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior
parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de entrar
as portas do mar Vermelho.

Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um
grande rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias,
convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no
da India, aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar
ambos em determinada época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das
novas, que alcançassem.

Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na
costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu
mourisca a cidade de Calicut.

Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o
Oceano Indico.

A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só
mastro sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da
véla, que os ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas
governava com gualdrópes para a borda, alados por um e outro bordo.
Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas
exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao
cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas quaes
em vez de quilha havia fundo largo.

A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho
da amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á
náu navegar em melhor linha de bolina.

Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear
para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma
especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.

Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito
estanque, betumando as costuras do taboado com _quil_, e untando-as com
azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim vedavam
tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes
cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as
paredes escoradas interna e externamente.

O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam
da India para o mar Vermelho.

Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
particularidades de construcção, esta náu differia muito das
portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis,
levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da
chuva por folhas sêccas de palmeira, postas em fórma de telhado de duas
aguas.

Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e
passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo
quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes
casos recolhiam-se em uma especie de choupana de óla, encostada ao
mastro, ou armada a ré, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam
a carga.

O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de
madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que
serviam de trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os
principaes manjares da quotidiana alimentação.

E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia
a navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo
depois varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.

Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que,
sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta
travessia em similhantes condições, e nem um momento sentisse
desfallecer-lhe o animo!

Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua
peregrinação arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a
Thereza, por quem tudo soffria resignado!

A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que
permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados,
corriam por elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que
sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com
cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e
profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas
collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui
e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos,
como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os tôpos
d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si,
formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes
iracundas. A náu, sem governo, vogava de capa, e não era senão
joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um
dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia
depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se
escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lençól
de espuma.

Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca,
mas horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.

Salvou-se!

Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a
Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.

A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e,
por ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de
terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.

Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido
no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a
opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia,
que lhe pintára com as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India,
não o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era
superior ainda ao que a sua imaginação havia sonhado.

Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos
arbitrariamente traçados, estava disseminada a casaria da cidade,
sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas
dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. Junto
da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as
dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que
resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações
nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a
grandissima distancia da praia.

A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas
espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos
e frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a
fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de
serem suas victimas.

Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes
traziam a tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos
quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma
especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de
linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.

Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho,
dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado
ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do
sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares
chamavam _boi_.

Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se
approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o
trabalhador encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas
ordens a uma certa distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar
de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto esta differença de castas,
que um poleá nunca podia remir o peccado original do nascimento. Nascia
villão, havia de morrer villão.

Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de
Pero da Covilhan.

O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações
eram por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.

Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia
fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias
tirando d'ellas todo o proveito.

Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio;
Ormuz, o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da
Africa meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro
das minas de Monomotapa.

Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava,
que lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia
com o cuidado de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia
aprazado com o seu companheiro, soube alli, que este fallecera.

Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com
os vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do
Préste, não se animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não
saciaria com tão pouco os vehementes desejos de D. João II, n'aquelle
ponto.

--De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me
incumbira...--pensava Pero da Covilhan.

Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais
conviria ao serviço de seu real amo.

N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus
portuguezes, que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de
Amron, na opulenta rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso
d'essa Babel, em tão embaraçosas situações se viram, que tiveram por
vezes perdida a esperança de encontra-lo.

Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o
outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.

--Á procura de vós andavamos!--exclamou o rabbi, ao dar casualmente com
Pero da Covilhan.

Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo,
experimentou um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:

--Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com
portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...

Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia,
de D. João II, disse-lhe:

--Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por
essas cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.

--E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...--perguntou
Pero da Covilhan.

--Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão
esquerda...--respondeu Abraham, apontando para ella.

--Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei
meu senhor!...--replicou Pero da Covilhan, sorrindo.

--Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa
physionomia, que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo
crescida.

Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que
fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda
bem instruido de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do
que sabia, não devendo voltar ao reino sem ter visto o Préste João.

Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá
fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da
India ás cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram,
fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra
protecção, para emprehender esta nova viagem, que concertára com o rabbi.

--De tudo estou inteirado--disse Pero da Covilhan.--A vós, Joseph, vou
immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor;
e--voltando-se para Abraham--comvosco tornarei a vêr Ormuz.

N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego,
fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes
portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára,
que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em
Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza
a pósse, garantida por tratado com o sultão do Egypto.

A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as
especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico,
attrahido áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e
opulentos mouros do Malabar.

Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel
valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.

A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas
de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de
Pegu, as espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.

Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande,
assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar
eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da
Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informação: «Navegando-se
pela costa da Guiné adeante, chega-se ao termo do continente:
persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano
indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os
mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E
addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que
dos máres da Guiné se póde navegar para a India».

Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva,
communicava tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor
ouvira fallar no Préste João, affirmando os mouros, «que este rei
christão estava tão longe mettido nas suas terras, que não sabia, que
cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E,
posto que os mouros não déssem a esse rei o nome de Préste, como já no
Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas
cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem
seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que
não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que
houvesse, tendo tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia».
Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi
Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.

Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as
cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e
d'este porto sahiram para Ormuz.

Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de
conversar largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da
côrte portugueza!...

O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...

Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria
realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.

--Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a
el-rei qual é o caminho da India pelo mar!...--repetiam os echos da sua
alma radiante e apaixonada.

E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar
d'Oman.



IX

_CONSTANCIA_


Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao
espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os
primeiros nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço
eram exhibição permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de
motejos deliciosos.

Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma
repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando
apparecia, era unicamente por obediencia.

Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade
fidalga nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em
geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos
e attestada de egoismo, a tudo estão attentos, reparavam, que a
Maria Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu ar de
interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem
sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.

Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás
suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de
transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não
tornar intratavel.

Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que
terá Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando
maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com
riso franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em
animar-se?!...

--E o mais estranho--observou Pedro de Barcellos--é, que não occulta o
seu mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...

--Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se
insiste...--accrescentou Jorge da Silveira.

--De experimentados fallais ambos!...--atalhou D. João de Menezes

--Quem não hade gostar de Thereza!...--tornou Pedro de Barcellos.

--Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza
diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa
menina!...--exclamou Gonçalo da Fonseca.

Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a
convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura,
chamavam-lhe Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser
affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão
propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vêr.

Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na
presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança,
senão por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro
da Silva: «se vós vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».

Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos
duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte
Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.

Voltemos, porém, ao ponto.

A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes,
ácerca dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que,
apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio ao _jogo dos naipes_.

Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a
alma, os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam
mais desagradaveis ainda, havia chegado a uma janella aberta sobre
um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer
parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava
fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que
lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar
que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar
sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella
exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada
pela rainha.

Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a
dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento
passou rapidamente a seguinte exclamação:--infeliz lembrança!... E tenho
de attender com fingido agrado este importuno!...

Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de
duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se
debatia em ancias de tranzido amor.

O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder
dizer-lhe:--como sois bella!... que expressão de pensamento profundo!...
que physionomia angelica!...--e tantas outras phrases de admiração e
amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.

Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não
logrando evitar, que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a
fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos
cumprimentos, com esta interrogação banal:

--Não vos interessa o _jogo dos naipes_?

--É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz
tomar hoje parte n'essa diversão--respondeu Maria Thereza.

--Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á
que mereceis...

--Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...

--Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...--retorquiu com
certa intimativa Pedro de Barcellos.

--Eu!?... Grande poder me confiais!...

--E não o quereis?...

--Para quê?...

--Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...

--Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...

--É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...

--Devaneais, primo!

--Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?--instou
Pedro de Barcellos com forçado sorriso.

--Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas, e leva a palma
aos mais vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus
merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que
tendes a consciencia d'elles...--redarguiu com reflexiva gravidade Maria
Thereza.

--Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa;
prefiro, porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso
coração. Se me não julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor
que vos offereço?...

--Porque nunca poderia corresponder-lhe.

--Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...

--Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.

Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João
II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos
replicou a Maria Thereza:

--Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa,
de que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:

    «Por mais mal que me façais
    nunca mudar me fareis
    até que não me acabeis.

    Minha fé, minha firmeza
    Em vosso poder está;
    soffrerei minha tristeza,
    pois vossa mercê m'a dá.

    E meu bem nunca fará
    mudança, nem a vereis,
    até que não me acabeis.»[7]

--Bello villancete, primo!...

--Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me
lembrei de recita-lo...

--E não tendes prezente composição alguma vossa?...

--Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...

--Não vos disse já, que vos estimo?...

Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos,
depois de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel
a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal
por causa d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro
desejo mais ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse
anjo de graça e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe
fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:

--Porque me não concedeis a vossa mão?...

--Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...--respondeu
Maria Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz
o maximo respeito a Pedro de Barcellos.

Este, reconhecendo que seria importuna e pouco delicada qualquer
instancia, disse a Maria Thereza:

--Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem
mais saberá, senão vós.

E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte
villancete:

    Aqui, onde vou deixar-vos,
    esse vosso doce olhar
    nunca me verá tornar.

    Para o mar vou sem ventura,
    sendo mais vosso cativo!
    Serei morto, sendo vivo,
    sem ver vossa formosura,
    pois que a minha sorte dura
    de vós me quér apartar
    para nunca mais tornar.

    E se bem, que me confórte,
    esperar me não é dado,
    melhor é ditosa morte,
    que viver desesperado.
    Acabe assim o cuidado
    de sómente em vós cuidar,
    e no vosso doce olhar!...

--É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não
o divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado
espirito... Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á
ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeiçoada...

Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já
demasiado longo.

Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela
extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como
precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e
isto melhor a explica, do que a mais completa das descripções. A sua
orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de
que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual
muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um
dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no coração diamantino da
sua filha adoptiva.

D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa
primazia.

Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com
a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se
irresistivelmente ao respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a
mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se
d'ella, triumpha e domina.

Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio
aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que
se reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia
passado á ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos
primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.

Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario
d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro
muito nóbre da cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se
fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem
entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da
sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou
á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor João
Machado, descendente legitimo da casa dos _Ricos-homens_ de _Entre Homem
e Cavado_, e por consequencia tambem _rico-homem_.--No principio da
monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a
possuiam, não só o rei lhes chamava _primos_, senão tambem estavam
cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano
deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o
conselho d'elles.

Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes
da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o
primeiro varão, que nasceu na Terceira.

Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado
de sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D.
Manoel, ou, com mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por
sobrenome o nome proprio de seu páe: assim João, filho de Fernando,
chamava-se João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando
Annes ou Joannes.

Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado,
primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente
pretexto de visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus
parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o
proposito firme de apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era
o seu sonho aureo.

Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João
II, a quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o
intuito de descobrir novas terras.

Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo
vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços
de madeira lavrada, as canôas e até os cadaveres de homens de
physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago
açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então pittoresco Minho, para
ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não era proprio do
seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel ás
provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle
muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito
sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do
sólo.

Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II,
animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.

Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela
sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento,
que já lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto
que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A
nobre attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no
coração os seus brios de homem digno.

Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo
recebido com particular carinho no solar de _Entre Homem e Cavado_, e
tornou logo para a Terceira.

Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e
tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher,
largou da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua
viagem em 1495, depois de ter descoberto a costa do Labrador.

Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em
3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do
que elle a uma região do _Novo Mundo_. E assim succedeu, com effeito. O
facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria
perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em
nada o torna superior ao nosso Pedr'Alvares Cabral, a quem a patria
não fez ainda a devida justiça.

Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos
longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar
seus serviços tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do
fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta
passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em
Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de
fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de armas a tres
descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e
privilegios de nobres e fidalgos, por procederem da geração e linhagem
dos Machados, por parte de sua mãe e avós.

Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de
Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no
desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia
continuar nos preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam
entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.

Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de
suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização
das suas maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar
á India as caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria
de resolver esses dois problemas.

Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos;
Bartholomeu Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da _Bôa
Esperança_, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do
Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mão mysteriosa do
destino. É que muito embóra dois navegadores portuguezes houvessem
podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios
insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D. João II estava
sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.

Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da
Covilhan, em Santarem?

Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum
interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do
Estado?

Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o
successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao
visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e
ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado
intento concedeu D. João II a D. Manoel uma esphera por empreza, cuja
_alma_ era: _Spera in Deo_? Não parece ser um presentimento muito
singular?...



X

_TENTANDO AS AZAS..._


Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan.
Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que
sómente podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma
anciosa do monarcha.

Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:

--Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...

Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar
a nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente
se dá credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em
bôca, e foi tão bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na
Europa, acclamaram por Préste João da India o imperador da Ethiopia.

Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações d'esse tempo--o
apparecimento d'aquelle personagem legendario; e ninguem pensava em ir á
India pelo mar, excepto D. João II e Colombo; este, porém, navegando
pelo Occidente.

Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A
esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe
agora mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.

Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis
catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a
celebração d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas,
servindo-lhe de modelo as de seu tio o duque de Borgonha, em Lille.

A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.

No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para
banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento
de S. Francisco dava para tudo.

Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus
estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a
pedir grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por
essa parcella da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.

Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão
largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.

Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para
se fabricar a sala dos banquetes--aquella sala de madeira,

    «que ficara por memoria.
    Real em tanta maneira,
    de perfeição tão inteira,
    de tanta mundana gloria».[8]

Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada
do seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento,
exclamou um dia em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que
isto deram a S. Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora
vão fazer-se festas, que se hão de tornar em pranto!...»

E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:--«Quem viver
verá!...»

A verdade é, que se não enganou.

Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr
côbro ás regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do
espoliado cenóbio eborense. D. João II nunca fôra attreito a
sensibilisar-se com lamentações de frades.

A construcção da _sala de madeira_ foi dirigida por Andrea Contucci, a
quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços.

Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu
nascimento, fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D.
João II pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.

Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já
revelado o seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira,
iniciada depois de ter chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que
tão merecida e distinctamente occupa na historia da Arte.

Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns
trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença,
não o impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha
a mais pronunciada vocação.

O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de
Domenico Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo,
ainda ignorado na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo.
Vê-se bem, qual foi, pois o móvel do crime.

O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na
pintura do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis,
seu patrono, cuja protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo
fundiu a bella medalha commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual
Lourenço o _Magnifico_ se salvou milagrosamente.

O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua poderosa influencia o
triumpho simultaneo do Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo,
na maioria dos productos da intelligencia humana; e, sem embargo de
have-lo proclamado grande protector das lettras a universidade de Pisa,
por elle fundada, o seu consulado fórma um periodo tristemente memoravel
para a historia dos costumes, das artes e das proprias lettras.

É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de
Pollaiolo determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer
o empenho de D. João II.

Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho
do seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da
familia real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.

D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de
Evora, as recordações do periodo medieval.

Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao
extrangeiro, para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as
pedras preciosas, um sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo,
mandou publicar, que tinham entrada livre de direitos em Portugal até ao
termo dos festejos, todas as mercadorias de importação. Os fidalgos da
côrte foram vestidos á custa do real thezouro; recebendo além d'isso, os
que tomavam parte nas justas, armas e cavallo; e os que entravam
nos mômos e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado
vestido e dinheiro aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais
galantes raparigas e foliantes mocetões do Alemtejo, que vieram com suas
danças, toques e descantes concorrer todos para o luzimento e alegria
das festas.

O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na _sala de madeira_,
appareceu-lhe invencionado no phantastico _cavalleiro do cysne_, o
poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou
ler, e depois entregar á princeza, sua nora, um _bréve_, em que propunha
a tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas
conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para
justar com seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem
combater.

Singular caracter o d'este monarcha!

Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os
preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico
filho; comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo
a sua alma enlevada e contemplativa--a fundação da misericordia de Lisboa.

Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei
Miguel de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.

De visita ao seu mosteiro de Santarem havia chegado a Evora o douto
e humilde trino, e veiu encontrar a sua augusta penitente, lendo o
Evangelho de S. Matheus, cuja doutrina era um orvalho celeste, que
penetrava no coração da devota rainha, para o purificar e tornar fecundo.

--Embóra vindes, fr. Miguel!...--disse a rainha ao receber o trinitario,
que com profunda reverencia lhe beijou a mão.--Sentae-vos que muito
desejo ouvir-vos ácerca da _vossa_ Misericordia...

--Da de voss'alteza: quereis dizer...--ponderou Contreiras.

--Pois seja de ambos nós--tornou D. Leonor,--ou melhor: de Deus será
esse arbusto, que vamos plantar, e que se fará--assim o espero da
protecção divina--arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...

--Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em
que váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o
Senhor confia-la de melhores mãos...

--Mãos de peccadora...

--Purificadas nas boas obras...--atalhou Contreiras.

--Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás
miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque
não hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do
Divino Mestre?...

--Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo
interesse nas acções boas que praticamos. «Bemaventurados os
misericordiosos, porque elles alcançarão misericordia».

--Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do
Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...

--E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente
traçado pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a
misericordia...

--Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á
santa instituição, que projectamos...

--Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...

--Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que
em nome da caridade christã vamos congregar...

--Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois
de concluido, á censura e approvação de voss'alteza...

--Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava
ser traça vossa...

--Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande
mercê me fazeis...

A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de
Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a
rainha, dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.

Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas correu Maria Thereza
para sua ama, foi ajoelhar junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e
affectuoso:

--Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...

--Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...--volveu
carinhosamente a rainha.

--Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e
o cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante
algum tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade...
Mas... agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda
mesmo para tal fim?...

A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e
disse-lhe para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:

--Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das
festas do casamento.

Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha;
mas, não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:

--E se eu fosse já?...

--Que trigança é essa?...

--Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...

--Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o
pé!... Olha, que não é bom, ser-se impaciente...

--Se eu não agastasse a vossa'alteza!...

--O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...

--Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto...
e, todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe,
qualquer segredo da minha alma... Eu, minha Senhora...

Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda
mais os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.

D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:

--Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...

Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os,
respondeu:

--Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...

--Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...--perguntou a
rainha, accentuando com grande admiração as suas palavras.

--Sim, minha Senhora--replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e
parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.

--Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na
differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu
casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...

--O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar
um passo, que não seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que
Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu coração o que consagro a
voss'alteza, como do coração da esposa nunca se apaga--creio--o amor da
filha. Até este mais santifica e robustece o outro...

--Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas
tu as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu
prásme?...

--Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se
elle não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito
tantas honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do
Oriente, por onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude
os gaba, e não esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando
elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor,
não lhe faltará o cuidado, que sua alteza sóe haver com aquelles que bem
o servem...

--Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores--affirmou
gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as
palavras, que docemente proferia, continuou:--pois bem... mandarei dizer
a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que
desejas fugir ás festas... e faço-te a vontade...

Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente Maria
Thereza, que, não podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e
lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito
scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a
fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem tanto
amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:

--Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por
algum tempo a companhia de voss'alteza!...

--Pobre creança!...--interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa.
Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente
pela cara:

--Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando
voltáres, não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de
mim...



XI

_PEREGRINAÇÃO_


Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi
desembarcar em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e
profundamente catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz
dirigiu-se a Mecca, incorporando-se em uma numerosa caravana de
peregrinos, e, affectando o recolhimento de um crente da religião de
Mafoma, sem mostrar, todavia, como os musulmanos seus companheiros, o
semblante macerado e consumido pelo ardor fanatico.

Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se
considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico;
realisa-la, porém, mórmente no seculo XV, embóra se tivesse envergado o
_ihram_ do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.

Os raros europeus, que no seculo actual lográram vêr Mecca, dão
testemunho do perigo, a que se expõem os christãos, que se afoitam a
violar a lei que lhes prohibe, com pena de morte, o seu ingresso no
velho santuario arabe.

Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o
Oceano indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e
costumes, nada havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um
dever, a cujo cumprimento sacrificava a propria vida.

É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos
labores improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e,
no seu resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e
robustecia cada vez mais a confiança, que em si proprio depositava.

Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.

O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia,
tem importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela
influencia, que recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A
sua aridez, quasi geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha.
Cortam a immensa solidão das suas planicies arenosas, que se extendem
para a margem do mar Vermelho, pouquissimos valles cultivados e
montanhas cobertas de rochedos, que se vão tornando cada vez mais
abruptas á medida que os viandantes se internam no paiz. As
estradas são regueiras enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se
transformam em rios caudalosos. Caminha-se por esses _uâdis_, e na falta
d'elles seguem-se as direcções rigorosamente determinadas pela situação
de póços e cisternas, sem cuja agua a vida seria impossivel no deserto.

Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que
percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o
_simoun_.

Para combater o primeiro, iam os açacaes--_sakka_--encarregados de
conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam
novas provisões da dos depositos, que encontravam.

Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em
armas. Os nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes,
pois que taes bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma
caravana, como um general europeu de ter bombardeado e conquistado uma
praça de guerra; e, se não erguiam uma estatua ao scheick, por elles
muito venerado, e que os conduzia á victoria, é porque na Arabia, a
ninguem se fazia essa consagração.

O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.

Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois
todo o Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então
um aspecto sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia
finissima, arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar
embravecido, era preciso fugir a toda a pressa!

Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!

O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais
turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos
sangrentos, os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos,
esses pacientes _navios do deserto_, desarvoravam, partiam á desfilada,
zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo
instincto de conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo
das areias movediças.

Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia
abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com
segurança a calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e
ficasse entregue á mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a
sua energia, toda a esperança de sobreviver os abandonava!

Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope,
desfalleciam, caíam inanimes n'aquelle oceano de areia, que logo lhes
servia de mortalha e tumulo, até que novo temporal viesse descobrir as
ossádas d'essas victimas numerosissimas do implacavel e deshumano
simoun!

De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle
proprio fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.

Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a
distancia, que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé
de um dos montes, que cercavam a _mãe das cidades_, a Om-el-Kora dos
arabes.

A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada
pelo _propheta_ a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca,
para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.

Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar
Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se
extendia á roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado
Beled-el-Haram.

N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que
corre de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus
cachos de tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas,
como sendo o caracteristico predominante das paizagens orientaes, os
homens da caravana fizeram uma ablução geral, chamada _ghort_,
substituiram os seus trajos de viagem pelo _ihram_, o calçado pelas
chinelas--_besmak_--, e perfumaram-se. As musulmanas tambem purificadas,
cobriram-se com o seu grande véo, branco como o _ihram_, e denominado
_yaschmak_.

Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de _hadji_, depois
d'ella era tratado pelo de _mohrim_; e as suas vestes ficavam
santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta,
cuidadosamente guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.

A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo
caminho--os homens em voz alta e as mulheres em voz baixa--muitas
orações, terminando pelo _Tebiya_ ou _Lebbeika_.

Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita,
continuando as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e
depois de deixarem atraz de si uma espessa floresta de columnas, que
sustentavam arcadas numerosas, pronunciaram o _tekbir_ e o _tehlil_,
que consistem em dizer: _Allah Akbar_--Deus é grande; _Lá lla illá
lla_--não ha outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos
pregoeiros--_almuadens_ ou _muezzinos_, voltado para a _kaaba: observai,
observai a casa de Deus, a prohibida!_ E logo irromperam descalços,
foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, approximaram-se
da _pedra-negra_--_Hadjar elaswad_, para fazer o _touaf_, isto é, para
dar sete giros em volta da _kaaba_, offerecendo sempre o lado esquerdo a
este santuario, que se elevava no meio do atrio, e, conforme a crença
arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.

A mesquita--_mesgid_, _guma'a_, lugar de reunião, e tambem _Beïttallah_,
casa de Deus, reduzia-se a um claustro--_sakhn-el-gama_, ou pateo
aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de
porticos levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de
granito outras de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas,
destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua
construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta
inteira.

As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam,
eram cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se
elevavam sete minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do
edificio, e tres de um modo irregular no comprimento das galerias
formadas pelas arcadas.

A fórma e architectura da notabilissima _kaaba_ não desmentiam, com
effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de
altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada
para o Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a
cima do sólo. Este templo apenas estava patente ao publico na
sexta-feira de cada semana, dia guardado pelo muslim, ou de
reunião--_iom el guma'a_, e tambem quando se celebrava o
anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos anciãos, ou
_xaibins_, pertencia abrir a porta. Para isto subia a uma especie de
pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que terminavam os seus pés
de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, chamada _Albarcá_,
especie de véo de purpura, que se extendia sobre a porta, e esta era,
como a soleira, forrada de laminas de prata.

O povo, ao invadir a _kaaba_, rompia, de braços abertos e mãos erguidas
ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua
misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»

O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois
pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e
pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo
por ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um
tom negro bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a
illuminação. O exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta,
chamado _Kesoua_, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante
os primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma
de grinalda por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da
altura de todo o véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga
fita igualmente preta, nas quaes se liam inscripções piedosas e
textos do Corão.

Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas
dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das
azas dos anjos, que voavam em torno da _kaaba_, e que levarão um dia o
sagrado véo deante do throno de Allah.

A _pedra-negra_ era o unico ponto da _kaaba_, permanentemente offerecido
á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para nórdéste,
achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em
chapas de prata.

Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de
Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as
tribus arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos
anjos, e collocada junto de Abraham, para servir-lhe de escabello,
quando o velho _páe dos crentes_ estava construindo a _kaaba_. A Pero da
Covilhan, porém, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma
substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular
de um vermelho carregado, que podia passar por negro.

Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no
momento, em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais
brilhante e de mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos
de tantos homens maculados de iniquidades de toda a especie a
tinham assim metamorphoseado.

No páteo da mesquita, e pérto da _kaaba_, elevava-se outra construcção
quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que o
santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e
afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia
a tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e
denominado pôço de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta
com suave murmurio. A sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida
de marmore branco, e de todos os lados recebia ar e luz por oito
janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte, d'onde se tirava a agua
santa para a purificação.

Junto da _pedra-negra_ começavam e terminavam os giros, durante os quaes
os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a
pedra, se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois
no caso contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios.
Seguia-se beijar o nobre _Alcamamo_ ou _maquam d'Ibrahim_, o qual
consistia em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e,
por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.

Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina
d'este nome, voltavam-se para a _kaaba_ e recomeçavam as suas orações.
Desciam depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre
aquella collina e a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada
_saï_, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados
para a _kaaba_: «Ó meu Deus, sê misericordioso; perdôa os meus peccados,
ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes direcções, para
recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.

Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a
festa, com que terminava a peregrinação.

Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença
de Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as
orações quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e
chamava-se _Sabah Namazy_; a segunda, _Oilah Namazy_, ao meio-dia; a
terceira, _Akindy Namazy_, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta,
_Acham Namazy_, ao sol posto; e a quinta _Yatzu Namazy_, ao serrar da
noite.

Precedia sempre as orações uma ablução parcial--_woudou'_, que consistia
em lavar a cara, as mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o
artelho. Antes de começar a reza, o crente extendia no chão o seu tapete
quadrado, collocava-se de pé sobre elle, voltava-se para a _kaaba_,
estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a _quebla_
estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de perdão--_istigfar_,
elevava depois as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e quasi
em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar
chamada _tekbir_. Passava ao _fatihah_, e pronunciava ao menos tres
versiculos, ou _ayat_, d'esta oração, que é a primeira sura do Corão,
collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda,
e cravando os olhos no chão. Declamava o _tesbihk_, inclinando o corpo e
a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a
posição do _fatihah_, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma
prosternação--_soudjoud_, durante a qual repetia o _tekbir_ e tres vezes
o _tesbihk_, tendo a face voltada para a terra, os dedos das mãos e pés
muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava um
momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos,
e repetia o _tekbir_. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a
direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a
oração, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.

A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um _rick'ah_.

Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em
frente do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um
combate contra o espirito das trevas.

No mez de _schewal_, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro dos
mezes da peregrinação, accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as
velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se
igualmente o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova.
Na manhã seguinte celebrava-se a oração da paschoa, pois que no mez
anterior, o _ramadhan_, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano
comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr do sol até o
romper d'alva.

Chegado o primeiro dia do mez de _doulkaadah_, que era o undecimo,
tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do
abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até
ao dia da subida a Arafat. No setimo dia o _iman_ pronunciava do alto do
mimbar na mesquita a _khotbat-el-hadjï_, isto é, uma allocução, em que
explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam
celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao
valle de Miná. Este dia chamava-se de reflexão--_Ianm terwia_, alludindo
á incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de
immolar seu filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se
uma suggestão diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia
immediato, depois da oração matutina, a caravana subia á montanha de
Arafat, onde existia uma capella--_turben_, a qual santificava o sitio,
em que pelo anjo Gabriel fôra ensinada ao páe commum dos homens a
primeira invocação. Conforme o ritual, os crentes, depois de uma
oração feita na propria _kubba_, armada no acampamento, iam esperar o
pôr do sol, e entretanto o _iman_ erguia os braços ao Céo, para invocar
a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de
vózes unisonas; _Lebeïk Allahouma Lebeïk!_ Nós estamos ás tuas ordens, ó
Deus!

Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer
a _Djebel Farkh_, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma
catarata de espuma!

No segundo dia punha-se em marcha, atravessava _Elmeschar-el-haram_--o
lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em confusão enorme, o apertado
valle _Onadi-monhassar_--o valle maldito, e chegava de novo a Miná.
Atiravam todos para traz das costas, junto do _Djamrat-el-Agabé_, sete
pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo
demonio, e gritando antes do arremesso: _Bismillah!_--Em nome de Deus!

Os sete seixinhos, que tomavam o nome de _Hassiato-Aljemar_, eram
expressamente apanhados em Monzdelifat.

Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a
victima, que trouxesse.

A caravana regressava a Mecca para visitar a _kaaba_, fazia nova romaria
a Miná, e tratava logo de sair da cidade _santa_, antes de commetter
algum peccado; mas não partia, sem voltar pela terceira e ultima
vez á _kaaba_, a fim de celebrar os _Thonaf-wida_--procissões da
despedida; ao pôço de Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma,
como piedosa recordação; e retirava-se finalmente pela porta do
adeus--_Bab-el-wida_.

Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado
de um _uâdi_, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde
raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes
inundações, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.

As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro,
lembravam sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam
confiados, por singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli
procurar os sectarios do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral
as das outras cidades arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e
traçadas com certa regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de
granito vulgar dos montes suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto
monotono.

Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos
tanques, cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á
bella sultana Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso
califa Harun-al-Raschid.

Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio
muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que
em seus bazares accumulavam-se as producções de todos os paizes sujeitos
á lei do propheta, e faziam-se negocios importantes.

No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes
e carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos,
que, mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas
_foluzes_, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
duas alcôfas de differente tamanho, chamadas _Magtalá_, as compras
feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.

O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem
fermento, e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal
cosidos e molles, como pasta, a que chamavam _hops_.

De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que
verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.

Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós
aromaticos, mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa
d'esse facto, e soube, que por costume andavam os meccanos sempre
perfumados; mas nos mezes da peregrinação chegavam a fazer tão
extraordinario uso dos perfumes, que muitas mulheres se privavam até de
parte do seu alimento para compra-los, e, quando ellas vistosamente
ornadas íam girar ao redor da _kaaba_, o aroma expirado por seus
vestidos predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que
muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio
fragrantissimo.

Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam.
A muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por
isso os tingiam, velhas e moças, com o _kohl_, que do mesmo modo
empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só
ennegreciam, mas ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma
tintura, applicada ás palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem
embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o _kohl_ um verdadeiro
collyrio, e um remedio soberano contra as ophtalmias tão frequentes
n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e nas mãos com um certo
pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha despolida de ferro
ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada, servindo-se
para isso de uma erva denominada _elhene_.

As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as
classes um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como
que uma pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.

Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa,
do Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas
uma grande similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica
e capa--o que sómente bastaria, á falta de outras provas, para
demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.

As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos,
são o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos
alternativos do seu gosto.

O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas,
compunha-se geralmente de uma larga tunica--_farmla_, atada na cintura
com o _samla_ ou _foutah_, e um véo--_tarbah_, que cobria a cabeça e
quasi todo o semblante.

Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem
de espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não
sacrificava o pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo,
por exemplo, as quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente
e nos hombros desempenados, as deusas da Grecia antiga.

Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras
sómente um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por
isso pareciam verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia
formosas musulmanas, que, muito embóra usassem a capa até aos pés,
deixavam ás vezes cair artificiosamente o véo, regalando os olhos de
quem as via.

Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia
esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam
sequér desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.

Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da
mesquita, gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a
oração deve ser preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu
tapete, sobre o qual ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os
olhos, fitava os da sua alma na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua
fé catholica. Mas não havia preceito do Corão, que elle ignorasse e não
cumprisse publicamente.

Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam
as cinzas de Mahomet. Os mercadores--_gellabys_, carregaram de provisões
os seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os
seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o _kyrba_, ou gancho
indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por
impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o
caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de
sobejo e não lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas
essas necessidades occorriam as esmólas dos ricos. Sobre o dorso de
muitos animaes viam-se grandes caldeirões de cobre, chamados
_arraçuato_, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes eram
illuminados por lanternas immensas, que serviam igualmente para as
marchas, durante a noite. Em varios _meharas_ enfeitados com collares de
sêda, e o _henné_ ou apparelho coberto com magnificos brocados,
sobresaíam os _attatouch_, ou palanquins, para commodamente se
recostarem as mulheres opulentas.

O alfange, o punhal--_khamtscher_, a faca,--_bitschak_, a lança, a
alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.

A cidade do propheta _Medinet-el-Nebi_, distava de Mecca onze dias de
jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e
extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E
a toda essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas
Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado,
_houdoud-el-haram_.

Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada
a sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o
monumento funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se
á grandiosa mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e
constantemente illuminada por trezentas lampadas.

O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas
tambem os de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se
El-Hdjra. Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até
dois terços da altura por uma grade de ferro com intervallos
estreitissimos.

O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro,
sob um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de
laminas de prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e
ouro, elevava-se sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a
uma balaustrada de prata, em cima da qual ardiam continuamente perfumes
em vasos do mesmo metal. Uma lua de prata, em quarto crescente,
artisticamente lavrada e cravejada de pedras preciosas, encimava emfim o
sepulchro do fundador do islamismo.

Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual
paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da
face do enviado.

Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os
islamitas tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na
mesquita junto do tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o
pulpito. No primeiro dia, em que subiu a este, inclinou-se o tronco para
o novo lugar occupado pelo propheta, e com tal affecto, que podia
comparar-se ao amor da camêla para o seu filhinho. Então Mahomet abraçou
o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, suspiraria inconsolavel até
ao dia de juizo!»

O pulpito era feito de tamargueira.

Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe
faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao
sudoeste d'ella, no mar Vermelho.

Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha
do propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da
cratéra de Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos
musulmanos, ser transportada um dia para o paraizo, como theatro, que
foi, da victoria alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e
a oeste elevavam-se tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra,
onde o propheta esteve préstes a morrer de sêde, e que será precipitado
no inferno, conforme a crença. Ao sul prolongava-se a planicie a perder
de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de póços, cujas
aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em longe a
monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as argilas alternavam com as
areias e a greda.

Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde,
embarcando em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que
percorreu, e, voltando a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.

Chegou emfim ás portas da Abyssinia.



XII

_NA ABYSSINIA_


Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava
finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste
João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas
regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe
mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao
passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota,
que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem
levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da
Abyssinia.

Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade
credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo
christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia
contra o islamismo.

Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?--Ninguem sabia responder;
pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido,
talvez por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.

Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto,
elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao
Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão
africano oriental, a Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas
distinctas: a inferior, ou o _Kolla_, em que a temperatura varia de 20 a
40° centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical,
a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o
solo sem cultura; a media, ou o _Onaïna Déga_, com a temperatura de 15 a
30°, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a
superior, ou o _Déga_, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo
de zero nas mais altas montanhas.

As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece
formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O
numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens
condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a
quem as vê, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em
que não haja necessidade impreterivel de as collear e transpôr; por
isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem
abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios caminhos,
voltassem para traz.

Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe
afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para
escalar o Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com
agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os
diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. Lá do cume as
torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos
valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que
serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.

Então o Tacazé ou _Nilo negro_, que na bacia hydrographica septentrional
recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem banha, vae,
sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado impeto.
E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande
lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou _Nilo azul_,
atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo
extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume,
que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se
igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.

Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.

Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos
purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se
fôra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o
sussurro das florestas proximas é um fundo de concerto, que faz
sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura é o fundo da côr,
sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.

Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido,
aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto
varía, determinada pelas grandes differenças de nivel!

A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune
todas as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar,
terrenos contrarios no mesmo solo.

O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil
apanhar insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo
vê massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie,
para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante
observar a formação das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se
acima d'ellas.

Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua
accusa as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.

Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma
extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções
extraordinarias, bem como o _teff_, coberto de flôres purpurinas, e cujo
grão oblongo dá uma farinha saborosa.

O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do
Sudão, devastam as ceáras, o _enséte_, que é uma especie de bananeira,
cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não
esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.

Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero
infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos,
obrigam a vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua
invasão unicamente de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.

O agigantado _baobah_, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira
excelsa, o _kuara_ com as suas bellas flôres coralinas, a _mimosa_, o
_cusco_, o _wansey_, cujas flôres alvissimas abrem todas a um tempo, o
_daro_, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os
sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente
frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massiços de
folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais singulares
e formosos cambiantes.

No mesmo solo humedecido, e alcatifado de flôres odoriferas,
crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó
flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraçam ao tronco
das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo até se
suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.

E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu
retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos
passos do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico
quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle,
vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela
frescura de suas pennas, graça de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia
de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas fórmas. O
esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são apagados
ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente
da do _sonis-manga_, ou _cynnirus splendidus_, conforme a denominação
scientifica moderna.

Nas regiões mais aridas, o _cactus_, a especie de euphorbio, denominada
_kolquall_, a palmeira anã, o _kautuffa_ coberto de espinhos, dão signal
de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das
perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e
outros antilopes, como o _beni-israil_, igualmente elegantes, que logram
escapar, por causa da ligeireza dos movimentos e rapidez da
carreira, a esses crueis inimigos.

Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem
de asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos
girátacácheus, a todos esses monstros ferozes, de que é como que patria
o continente negro.

Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto,
garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas
hastes elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do
rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os
crocodilos infestam os rios, em cujas margens vôam innumeras aves
aquaticas.

No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes
musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e
muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam
deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas
maiores altitudes sobresáem o _Kousso-Brayera anthelmintica_, e o
_Gibarra_--Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.

Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira
de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique
entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim,
apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste
João.

Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era
amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe
edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas
armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E
convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas
abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.

Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa
distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e
separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga
rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos
quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e
rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos,
russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça,
com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito
leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas
fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro
d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes
colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens
com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se
agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma
grande tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos
milhares de outras, todas brancas.

Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan,
surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a
mais desusada sensação no ajuntamento.

Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que
vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João
II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico--já
n'esse tempo a lingua da côrte--que fôra encarregado pelo rei de
Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua
alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso
ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta
mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da
Covilhan.

Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas,
sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se
pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o
imperador, rodeado da sua côrte.

Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até
ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe
fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois,
ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as
quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o levantar, fez-lhe
algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de
D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse
descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.

Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os
grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto
das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a
sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a
magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna
de visitar.

A côrte compunha-se do _Bellátimoche goytá_, mordomo-mór; do _Tecácase
Bellátimoche-goytá_, pequeno mordomo-mór; dos dois _Betendet_, os
validos do imperador; do _Titaurári_, que fazia o officio de marechal; e
outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava
diariamente a tenda imperial o _Abima_, que quer dizer páe, e era o
metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da
Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas
tinha grande auctoridade, o _étch'égé_, prelado do numeroso clero
regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa,
fundado pelo _abima_ Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do
_abima_, havia o _Labeata_, padre de nomeação imperial. Junto do
soberano funccionavam os _Azages_ e _Umbares_, dezembargadores e
ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem
verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas
demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as
papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.

O livro da lei, _Fitha Negoust_, compunha-se de textos mal traduzidos do
codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de
serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar
juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas.
A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos
dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a
presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o
trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos
diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja
queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua
vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os
bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que
jurava: amen.

O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o
juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da
excommunhão, que sobre tudo temia.

As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias
festivos e para as grandes recepções, eram brancas e cercadas por
umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam
como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.

Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de
bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com
gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente
quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis
homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de
modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o
antecediam.

Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com
a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte
estalido, que fazia afastar a gente.

Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros
de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado
por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros
uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo
engastada muita pedraria falsa.

O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados
por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.

O _Titaurári_ escolhia o lugar do arraial, assignalando com uma
lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas
imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um
tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas
e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por
pagens, e tudo debaixo de um pallio.

Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente
d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da
côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se
mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero
superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não
faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.

As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o
poente.

As pessoas pobres dormiam sobre o seu _Neté_, que era um coiro de boi,
extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como
cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou
simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.

Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava
voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por
haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do
juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar
á sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa,
reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso,
puniam-n'o sem julgamento prévio.

Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre
as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de
seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada
_bercutá_, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas
o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito
enfeitados.

Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais
sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma
redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás _ápas_,
espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a do _teraux_ e a do
_cousio_, e que tambem lhes servia de alimento.

Sobre as _ápas_ collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo
estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas
de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina,
chamadas _escambiás_.

Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca,
embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam _berindó_ a este amargo
manjar, um dos mais delicados da sua mesa.

Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições,
o hydromel; que constava de cinco ou seis partes de agua, uma de
mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura,
lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado _sardó_, que em
cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.

Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das
mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma,
tapadas com barro e selladas, e denominavam-se _gombos_. Os portadores
d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.

Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com
que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente
se serviam da canna para alimento.

Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte
alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes
conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.

Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria
a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas,
os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas
do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da
mesma côr e feição das nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos;
outras, corpulentas como gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as
restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas sómente na côr
pardacenta dos bicos e pés.

Appareciam tambem coelhos e lebres.

Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de
cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral
abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam
fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com
perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.

Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de
refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o
nome de _gueddam_ e seus governadores o de _alikas_.

A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes
de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as
paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com
açoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por
terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto
ser de aguieiros de cedro tão unidos, que serviam de forro,
effectuando-se essa união por meio de cordões de varias côres, que
produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra ensôssa
até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito
bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres
muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda
muito aprazivel dos senhores.

Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os
orientaes lhes chamam _hobesch_. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de
rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente
guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou
menos aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes
nas veias sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato
d'esta palavra, do _foulah_ ou _peulh_--raça vermelha, do arabe e do
africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as
regiões, os typos secundarios mais proximos, _bedjas_, _somali_, _galla_
e o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito,
encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém,
exangue e sem graça.

Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e
curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que
se não occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam
de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção
leve, e pouco largo, de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno
enrolada á cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre
ella uma pelle de panthéra negra ou de leão. Calçavam alparcatas, e
andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal cobria estas até ao
joelho.

Em geral a plebe não usava calçado, e o seu vestuario reduzia-se a
umas bragas de algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo
panno tambem de algodão.

Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao
artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para
baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya,
faziam-n'os de teada. Os calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás
pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas até á cinta, eram
abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas
estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás de
Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a
camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos
por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou
de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino
da terra ou de bofetá.

Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste,
emquanto andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os
hombros, _ainda não estava na graça do Senhor_; mas logo que fallasse
com o Préste, e saisse da sua tenda vestido, _já estava na graça do
Senhor_.

Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados
caprichosos. As mulheres encaracolavam algum, com o qual
emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe
cahia fartamente sobre os hombros.

O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo;
dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros,
outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado,
denominadas _bolotás_; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso;
e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros
com zargunchos estreitos, como se foram dardos.

Os mais nobres cingiam espada--de que raras vezes se serviam--com
empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda.
Alguns traziam tambem adaga.

Os cavalleiros com sáia de malha--que poucos eram--não se curavam de
rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.

Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no
primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.

Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas,
grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como
não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços
mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.

Além da gente de armas, era muita mais a que seguia o arraial e a
bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas
mulheres, para fazerem as _ápas_ e o hydromel. Muitos não levavam
matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles
mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam
estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.

Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras
effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados _amalé_,
cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.

Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e
estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e
aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas
regueiras com a corrente das aguas.

A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da
metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal
gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para
trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não
sentiam falta da moeda.

A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em
Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais
adeantada.

Junto de um immenso _daro_ elevava-se o templo christão, que era de
formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas
abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e
denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.

Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam
hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro
faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.

N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a
christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem
os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira
a prophecia de David.

Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros
da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente
impregnada de judaismo, com traços de budhismo.

Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia
numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.

Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de
harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de
copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a
fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes.
Reconhecia-se facilmente, que não deixaram discipulos os artistas,
que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares,
sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.

Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para
dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo,
limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem
de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo
era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir
missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que
todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber,
senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a
lingua lithurgica.

O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser
admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do
ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não
como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De
sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz
alçada, como erradamente se affirmava.

Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos
conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.

O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o
contrahia com o tacito ou expresso consentimento de se poderem
apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim
evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso,
das causas de divorcio.

As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam
indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo
a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas
de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias,
enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a
celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes
camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não
usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades
celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada,
deixando, porém, crescer as barbas.

Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a
cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a
montar, quando iam já distantes.

A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para
ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso
o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.

E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:
arcyprestes--_komosats_; conegos--_debterats_; curas--_kasis_;
vigarios--_nefk-kasis_; diaconos--_diakons_; e
sub-diaconos--_nefk-diakons_.

Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do
nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver,
tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se
succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador
Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II;
mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita
honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não
podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da
Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas,
cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso
emfim.

A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o
soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande
senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.

Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se
obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los.
Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a
importante administração da sua casa.

Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se perder na
obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do
espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...

Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um
povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande
cidade tambem distante!...

E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do
rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos
reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida
ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados
companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria
Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...

Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...

A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via
a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos,
tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.

Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em
gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem
desenho quasi e sem perspectiva.

Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o
alfabeto ethiopico do das inscripções himyariticas, ás quaes os
missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para
indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á
intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda,
ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a
direcção da grega, da esquerda para a direita.

O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e
o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande
parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a
grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.

Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos
litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas
não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos
pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a
sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis
e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia
no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam
conhecer e servir o _novo senhor_. O seu procedimento, porém, tão
regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados
concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um
dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou
filha, que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a
Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se
retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em
nós um amigo.»

Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu
profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:
«Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa
presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á
vossa amisade.»

Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse
passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava,
tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que
havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens
seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e
d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II
umas cartas, que lhes entregou.

Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o
queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada
Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do
imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de
cavallos.

Helena considerava-se a mais ditosa filha da Ethiopia. Sentada ao
lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia,
disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que
suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre
ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os corações no amor de
Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que eu já quero
á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do _daro_,
que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que vou
viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o
buscava!... Amo-te muito!... muito!...»

Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face
duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...

Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...

--E porque chorava?!...

Pobre coração humano!...



XIII

_REMATE_


O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D.
Leonor de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria
a realizar-se. Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de
timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na
Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber não
apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração, amortece-la-ia
ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no
conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.

Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo
do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não
tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o esperava Maria Thereza,
e tinha para isso fundamento.

D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança
tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas
devoções, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa
rainha era dotada de um espirito não só eminentemente religioso e
caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os
primores de educação, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo
nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma
docilidade encantadora!

Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares
qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a
fazia já sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca
do seu vasto plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o
qual havia traçado com o fim de collaborar, no desenvolvimento da
prosperidade nacional, e na exaltação da fé catholica.

No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha
não olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a
si propria impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve
sempre em vista eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os
recursos intellectuaes, para associa-la na execução das obras
meritorias, que projectava.

Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto
d'elle uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua
memoria da sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento
do necessario para a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia
Borgia, o papa Alexandre VI, indulgencia plenaria para os enfermos, que
lá fallecessem, muito embóra não houvessem contemplado o hospital em
seus testamentos.

Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos
que fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.

Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para
Lisboa, antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,[9]
a qual occupava as casas, de que lhe havia feito doação o
infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé, contra o muro
velho da cidade.

O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes,
conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem
suppunha fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza
do seu pórte, era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas
Geraes. As raparigas do sitio sabiam já a hora, a que _elle_ passava
para as aulas, ou saía a passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e,
ao vê-lo, iam-se-lhe os olhos no galante _moço_. Maria Thereza
ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava a
despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de
acompanhar a sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez
sorria-se maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.

Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam
a Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no
saber, e até na graça da palestra.

Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no
acto para licenciado, causou assombro aos mestres.

Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito
canonico.

Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo
docente foi logo convida-la, para reger a cadeira,[10] que
ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o convite, respondeu: «Sem
approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não pósso acceitar
encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de que a
não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
se façam».

Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e
Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com
que, durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade,
saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas,
onde residia então sua real ama.

D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da
Abyssinia por creados seus;[11] como, porém, estivesse em
preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus
padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua saída,
as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.

Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á
rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.

Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua
doença, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se
cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo
tempo tenção de communicar a este, que em testamento o declarava por só
e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo
seu, D. Jorge de Alencastro--que era o filho D. João II e de D. Anna de
Mendoça.

Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver
assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para
Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal, d'aqui atravessaria
por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e
pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para
si traçára o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda
convalescente da grave doença, que a pozéra ás portas da morte.

Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou
D. João II, ou _morreu o homem_, como sentenciosamente disse Isabel, a
Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque,
nova certa do fallecimento.

Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade
de vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos
a crêr, que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal
era a paixão, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado
principe D. Affonso--quem sabe se nas festas de Evora!...

No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e
satisfez uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que
D. João II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu
cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Préste João,
conforme as informações e documentos, que deixára e houvera d'aquellas
partes o Principe Perfeito.

Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem
duvida os de maior transcendencia, que seu irmão praticou no começo
do seu reinado.

Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da
importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega
d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso
explorador, mas apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma
embaixada, que o acreditasse junto do Préste, confirmando as cartas, que
lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.

Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo,
nem gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal
sem novas nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por
fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso
predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relações com o
abexim, e até este as buscaria.

A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a
conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan,
porque já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não
perdia o ensejo, agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio
uma grande idéa de Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que
o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma
solemne embaixada.

Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e
experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre
VI, do imperador Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma
qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o
mandamento, por haver fallecido na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.

Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis
mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.

Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham
baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag
Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso,
durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.

As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só
pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre
as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os
turcos, que sustentados por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos
tudo, desde as cumiadas do Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua
frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao
imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah,
Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições de
janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses
paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus
effeitos rapidos.

Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão
terrivel vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu
povo, a protecção de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto
exaltava, e de cujas victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas
contra os mahometanos, já se ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada
sempre, como todos os da sua raça, tratou de procurar pessoa, que
podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas
que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.

Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por
fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais
proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com
effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com
cartas da imperatriz em nome do Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz,
como signal da fé professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei
D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever demorar o delegado da
imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes
de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando
conduzisse Matheus á ilha de Massuah.

A esquadra, composta de dez náus, largou do porto de Lisboa no dia
27 de março de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á
Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as
pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero
contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do rei.

Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao
Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a
embaixada portugueza.

Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu
Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao
seu destino, depois de longas e arduas jornadas.

Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que
exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao
lembrar-se da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que
tinha tomado.

Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de
muito lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e
honradamente sacrificou a vida pelo seu paiz.

Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo
de Lima, dizia:

«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára,
até ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a
elle, e sabe como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito
desejo».

Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar
Massuah e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o
desbaratariam e aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que
necessario fôsse emfim, lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar
Zeila, porque d'este porto iriam as mercadorias para Aden, Djiddah e
toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.

Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...

Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo XVI, sem comtudo irmos
mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.

Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a
seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:

                                                      _Maria Thereza_

Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e
comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu
desejava, ou--porque não direi?--como nós ambos desejavamos.

Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha
Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei
meu Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez,
para de longe conversar comvosco, condemnado, como estou a não mais
vos vêr, nem ouvir.

A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro,
ao lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação
precisa, e a minha alma se fortaleça com tão duras provações!...

De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje,
tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me
unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre,
em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.

Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando,
estudei o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os
principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia
vir de Portugal á India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão
Cairo para aquella cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras
indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas náus com grande
trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus
proprios olhos o centro d'este mercado.

Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o
rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca
no mar Vermelho.

Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir
visitar a _cidade santa_, como elles fanaticamente chamavam a Mecca,
encorporei-me na sua caravana.

Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella,
senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual
decerto moveram mais as vossas orações do que as minhas.

Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar
pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.

Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os
seus lugares santos...

Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que
tive de tomar parte--perdôe-me Deus!--na terra natal de Mohammed.
Sómente vos direi, que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira
humana!

É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais
variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam
nos bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do
_propheta_, e fazem-se negocios importantes.

De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do _sancarrão_. Atravessei
igualmente uma região immensa, adusta e maninha.

Terminada a peregrinação, retirei para Yambo, que é no mar Vermelho
o porto, que abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no
qual me dirigi a Tor.

Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé.
O Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por
onde vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até
entrarem na Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés
dictou a lei aos hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez
brotar um jôrro de agua com o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na
caverna do monte Horeb, onde o propheta Elias se escondeu, para escapar
á vingança da rainha Jesabel. Percorri emfim toda essa região pedragosa
e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz biblico, um dos mais
celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de Petrea, que
fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, bem
como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os
aromas, recebendo em troca os productos da Phenicia.

Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui
desembarcar em Zeila.

Tinha chegado ás portas da Abyssinia.

A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e
situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.

Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma
altissima serra, como se fôra inexpugnavel fortaleza. Por cima
d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual no espaço de um tiro de
bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens a cavallo, indo
emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á qual
conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se
alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo
com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e
perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis
despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte
e da outra umas como portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que
por lá passam com tamanho risco de suas vidas.

Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E
sabeis vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?

--Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar
por fiador, me mandaria a Portugal!

Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!

A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.

Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas
perder-se-ia tudo quanto tenho feito. Se eu me retirasse, esta
gente sempre desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me
na conta de um embusteiro; no que não perigava a minha consciencia, mas
o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim tomariam por
grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome de meu
Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se
com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere,
respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não
resolver o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.

De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio
a natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria
comsigo muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder
conquistar e conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que
ficaria este sem as necessarias para a sua conservação. Prefere decerto
Sua Alteza crear e manter as mais pacificas relações de amisade com o
Préste.

Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como
El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.

Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de
lisonjear-lhes a vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque
depois será menos difficil admittirem o meu conselho. Como prouve a
Deus, que eu viesse acabar meus dias a este exilio, empregal-os-ei
todos no serviço d'El-Rei, e da patria.

Fui constrangido a constituir familia, e todavia--crêde-me,
Thereza!--vivo em uma solidão immensa!...

Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas
as suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o
verdadeiro lugar do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente
o meu coração. E, emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas
orações e os nossos votos juntar-se-hão no caminho do céo...

Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não
ser visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de
abatimento, que repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta
separação nos não custe, experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu
amar-vos menos...

Não nos é dado realizar o impossivel!

O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára,
acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...

Adeus.

                                                  _Pero da Covilhan._

Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a
candida cecem das matutinas lagrimas rociada»; mas tinha ao pé de
si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as
entrecortavam.

Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e
exclamou:

--Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as
coisas d'esta vida!...

--Tambem as ha certas--interrompeu D. Leonor com muito carinho--e uma
d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...

--Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza
me permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da
Covilhan: «de outro jámais serei!»

--Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes--tornou a
rainha--; mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em
galanteios!... Emfim é necessario, que penses no teu futuro...

--Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a
vêr Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle
voltasse já não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.

--Não póde haver união mais santa--retorquiu com jubilo a rainha--; mas
sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...

--Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu
proposito; anima-me, pelo contrario, a esperança, de que, servindo
melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan,
orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha fraqueza de o
não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois corações...

--Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o
teu coração de ouro!...

Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos,
regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa
cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...

Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do
mesmo affecto finissimo.

Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta
patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que
passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros
d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa
regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir
esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é
infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e
profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime
virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.

Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da
Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna,
sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois
á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa
typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.

Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso
mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D.
Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades
artisticas possuia.

N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte
as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a
que se votou.

Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás
mãos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito,
portador o P. Francisco Alvarez:

                                                     _Pero da Covilhan_

Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos
sacrificios.

Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus,
fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na
minha clausura, onde espéro servir melhor a Deus, do que se ficára
no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o Eterno
Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção
pura, com que lh'as dirijo.

Elle vos acompanhe sempre!

     Adeus.

                                                     _Maria Thereza._

Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em
Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do
mosteiro, á porta da casa do capitulo, foram cobertos seus
venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;

                     AQUI ESTÁ A RAINHA D. LEONOR.

Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua
vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!

As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre
testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do
glorificado.

O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal,
que tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das
Misericordias.

As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se
definitivamente no seculo XVI, e conservaram-se até o seculo seguinte.

Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande
pensamento de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do
Nilo, para a banda do mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre
aquelle rio e o Atharah, abrindo um novo leito, e entulhando aquelle
pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo esterelizaria os campos
egypcios, que eram os principaes graneis do sultão ottomano.

E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de
Massuah a 9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado
pelo scheick de Zeila.

D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o
primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade
acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o
sentir.»

Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes
portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a
morte do seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.

Aureos tempos!...

Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras
em latim,[12] e sendo por isso aurora brilhantissima da
renascença das lettras em Portugal.

Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá
contemplava o Tejo...

Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se
com ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...

E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar
sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior
recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!...



NOTAS


A

PAG. 3.--«... _de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos
olhos_». Como referimos no Cap. XI, o _tarbah_ das musulmanas serve-lhes
de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão um
dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este
costume.


B

PAG. 26.--«..._a ponto de provocar a formação das Hermandades_». Estas
confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por
essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a
segurança publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos
fóros e liberdade dos povos e communidades que as formavam. Eram uma
força importantissima, que os reis catholicos habilmente aproveitaram
depois, fazendo depender do governo do Estado a disciplina e
constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais tropas da
_Hermandad_, aquelles principes lográram ter um corpo permanente de
exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi um
ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito
contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia
da mais incommoda e turbulenta oligarchia.

Muito antes de conflicto do Toro já existia a «_santa hermandad_», e não
foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se
limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como
erradamente affirma o Sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_.


C

PAG. 33.--«_Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
historia_». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas
ácerca do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em
assumpto de tanta monta, como a successão á corôa de Castella por morte
de Henrique IV, diz: «o fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira
e veridica do succedido podia offender a pessoas auctorisadas e
poderosas».

É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.


D

PAG. 47.--«... _o principe D. João casasse com a princesa de Castella,
D. Joanna_». Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro
de Toro, e tão affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II,
sendo principe, muito desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas
«condemnou depois o máu conselho d'elle, em não haver acceitado os
primeiros casamentos d'aquelle reino: que era casar el-rei com a Infante
D. Isabel, e elle com a princeza D. Joanna». Zurita, Anales de Aragon,
tom. IV, liv. XIX, cap. XVIII.

Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis
D. Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de
Clemencin, Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. VII.


E

PAG. 69.--«... _a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de
um castelhano_». O sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_ mostra,
não dar crédito ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito,
recobrado o estandarte real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o
tomou. Ignorava de certo, que existe em Torre d'Eita, povoação pouco
distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente
o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de
Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico
feito de Toro.

É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada
visse passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o
estandarte real portuguez a varrer as ruas.


F

PAG. 90.--«_D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção
pelos que cultivavam as lettras_». O sr. Oliveira Martins amesquinha com
tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um _genio
incoherente e curto no alcance_, concede-lhe a primasia em organisar uma
bibliotheca no paço, mas... unicamente _por seguir a móda_; e occulta o
facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o primeiro rei, que
tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia portugueza.

Singular criterio!


G

PAG. 100.--«..._cortezãos dotados de bôas prendas_». Talvez o leitor
compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no
seculo XV, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de Frederico III,
imperador da Allemanha.

Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou
nos ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de
insensatos tanto nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em
geral, incapazes de bons costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os
olhos negros e furiosos.

Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que
foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.


H

PAG. 154.--«..._depois de ter descoberto a costa do Labrador_». Quem
primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito
michaelense, sr. Ernesto do Canto, no _Archivo dos Açores_, vol. XII,
pag. 529; e confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo _Quem
deu o nome á Terra do Labrador_.

Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que
foi extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo
indefesso investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito
Rebello.


I

PAG. 155.--«... _a quem a patria não fez ainda a devida justiça_». Em
a _Noticia Preliminar_, que precede o _Esmeraldo de situ Orbis_,
publicação dirigida pelo douto academico sr. Raphael Basto, para a
commemoração do quarto centenario do descobrimento da America, mostra o
sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e do Roteiro
de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o
descobrimento da terra de _Vera Cruz_. Como temos, ha muito, esta
opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a
cujas investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a
historia portugueza.


J

PAG. 155.--«... _da geração e linhagem dos Machados_». É digno de reparo
que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha
materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que
seus maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente
gravadas no seu escudo.

A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só
pela sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são
accórdes todos os nossos genealogistas.

Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos,
os Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com
os Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos,
os Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de
modo que se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o
sangue das duas familias.

A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem
estes mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos os parentes
d'aquelles procurariam contribuir, para perpetuar o nome, que muito os
distinguia aos olhos de seus conterraneos. E tanto os Barcellos iam
n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a honrosissima carta, com
que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os serviços do navegador
Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o valor particular
d'essa mercê.

D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e
aquelles a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei
pesaria a circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a
uma familia, que tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto
podia ser informado o monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.

De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II,
que Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D.
Affonso, primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar
direito civil e canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor _in
utroque_. Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande
entendimento, summa prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das
lettras, e as suas muitas virtudes e qualidades o fizeram conciliar os
affectos de todos os principes do seu tempo.

Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de
Bragança se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão
imparcial e recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando
regente, o chamou para seu lado.

Seu páe, Estevam Annes, _o Môço_, fôra educado na casa do condestavel D.
Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em
todas as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos
Atoleiros.

Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro
Pinheiro de Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o
denomina a carta de D. Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista
Machado, que, renunciando o morgado e casa de seus páes, entrou na
Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em 22 de maio de 1617.

O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o
antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt.
D'este e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel
Borges do Canto, era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto
Bettencourt do Carvalhal Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a
uma intelligencia e a uma illustração sãs, que se lhe serviram de
ornamento proprio, tambem contribuiram, para honrar mais ainda a sua
estirpe nobilissima.--Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de
meus filhos.

Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte
de D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza
lhe deu, não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os
enthusiasmos.



ERRATA

PAG. LIN. ONDE SE LÊ LEIA-SE

3 27 pessue possue

51 14 _couto_ _conto_

100 4 _vasallos_ _vassallos_

103 2 ineperada inesperada

113 9 Torentino Florentino

121 30 pratimonio patrimonio

Nas pag. . Tóro Toro

    [1] Canc. Gen.

    [2] Canc. Gen.

    [3] Hist.

    [4] Camões.

    [5] Ruy de Pina.

    [6] Ruy de Pina.

    [7] Canc. ger.

    [8] Misc., Garcia de Rezende.

    [9] Historico.

    [10] Historico.

    [11] Historico.

    [12] Historico.



Notas de transcrição:

O livro impresso continha no seu final, uma errata à impressão. Os erros
apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas durante a
transcrição, e que não afectam o significado do texto, foram corrigidos
nesta edição electrónica. Não foram deixadas marcas das correcções
aplicadas.





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