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Title: Os Lusíadas
Author: Camões, Luís Vaz de, 1524-1580
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Os Lusíadas" ***

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Nacional Digital_ (http://purl.pt/1/1/).



OS
LVSIADAS
de Luis de Ca-
moẽs.

COM PRIVILEGIO
REAL.

Impreſſos em Lisboa, com licença da
ſancta Inquiſição, & do Ordinario:
em caſa de Antonio
Gõçaluez Impreſſor.
1572.



Eu el Rey faço ſaber aos que eſte Aluara virem
que eu ey por bem & me praz dar licença
a Luis de Camoẽs pera que poſſa fazer imprimir
neſta cidade de Lisboa, hũa obra em
Octaua rima chamada Os Luſiadas, que contem
dez cantos perfeitos, na qual por ordem
poetica em verſos ſe declarão os principaes feitos
dos Portugueſes nas partes da India depois que ſe deſcobrio a
nauegação pera ellas por mãdado del Rey dom Manoel meu viſauo
que ſancta gloria aja, & iſto com priuilegio pera que em tempo
de dez anos que ſe começarão do dia que ſe a dita obra acabar
de empremir em diãte, ſe não poſſa imprimir nẽ vender em meus
reinos & ſenhorios nem trazer a elles de fora, nem leuar aas ditas
partes da India pera ſe vender ſem licẽça do dito Luis de Camoẽs
ou da peſſoa que pera iſſo ſeu poder tiuer, ſob pena de quẽ o contrario
fizer pagar cinquoenta cruzados & perder os volmes que
imprimir, ou vender, a metade pera o dito Luis de Camoẽs, & a
outra metade pera quem os acuſar.  E antes de ſe a dita obra vender
lhe ſera poſto o preço na meſa do deſpacho dos meus Deſembargadores
do paço, o qual ſe declarará & porá impreſſo na primeira
folha da dita obra pera ſer a todos notorio, & antes de ſe imprimir
ſera viſta & examinada na meſa do conſelho geral do ſanto
officio da Inquiſição pera cõ ſua licença ſe auer de imprimir, &
ſe o dito Luis de Camões tiuer acrecentados mais algũs Cantos,
tambem ſe imprimirão auendo pera iſſo licença do ſancto officio,
como acima he dito.  E eſte meu Aluara ſe imprimirà outroſi no
principio da dita obra, o qual ey por bem que valha & tenha força
& vigor, como ſe foſſe carta feita em meu nome por mim aſſinada
& paſſada por minha Chancellaria ſem embargo da Ordenação
do ſegundo liuro, tit. xx. que diz que as couſas cujo effeito
ouuer de durar mais que hum ano paſſem per cartas, & paſſando
por aluaras não valhão.  Gaſpar de Seixas o fiz em Lisboa, a .xxiiij:
de Setembro, de M.D.LXXI.  Iorge da Coſta o fiz eſcreuer.



❧ OS LVSIADAS
DE LVIS DE
CAMÕES.

Canto primeiro.

As armas, & os ba-
rões aſsinalados,
Que da Occidental praya Luſi-
tana,
Por mares nunca de antes na-
uegados,
Paſſaram, ainda alem da Taprobana,
Em perigos, & guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana.
E entre gente remota edificarão
Nouo Reino, que tanto ſublimarão.

E tambem as memorias glorioſas
Daquelles Reis, que forão dilatando
A Fee, o Imperio, & as terras vicioſas
De Affrica, & de Aſia, andarão deuaſtando,
E aquelles que por obras valeroſas
Se vão da ley da Morte libertando.
Cantando eſpalharey por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho & arte.

Ceſſem do ſabio Grego, & do Troyano,
As nauegações grandes que fizerão:
Calleſe de Alexandro, & de Trajano,
A fama das victorias que tiuerão,
Que eu canto o peyto illuſtre Luſitano,
A quem Neptuno, & Marte obedeçerão:
Ceſſe tudo o que a Muſa antigua canta,
Que outro valor mais alto ſe aleuanta.

E vos Tagides minhas, pois criado
Tendes em my hum nouo engenho ardente.
Se ſempre em verſo humilde, celebrado
Foy de my voſſo rio alegremente,
Daime agora hum ſom alto, & ſublimado,
Hum estillo grandiloco, & corrente,
Porque de voſſas agoas Phebo ordene,
Que não tenhão enueja aas de Hypocrene.

Daime hũa furia grande & ſonoroſa,
E não de agreſte a vena, ou frauta ruda:
Mas de tuba canora & belicoſa,
Que o peito acende, & a cor ao geſto muda:
Daime igoal canto aos feitos da famoſa
Gente voſſa, que a Marte tanto ajuda:
Que ſe eſpalhe & ſe conte no vniuerſo,
Se tam ſublime preço cabe em verſo.

E vos ò bem naſcida ſegurança
Da Luſitana antigua liberdade,
E não menos certiſsima eſperança,
De aumento da pequena Chriſtandade:
Vos o nouo temor da Maura lança,
Marauilha fatal da noſſa idade:
Dada ao mundo por Deos q̃ todo o mande,
Pera do mundo a Deos dar parte grande.

Vos tenrro, & nouo ramo florecente,
De hũa aruore de Christo mais amada
Que nenhũa naſcida no Occidente,
Ceſarea, ou Christianiſsima chamada:
Vedeo no voſſo eſcudo, que preſente
Vos amostra a victoria ja paſſada.
Na qual vos deu por armas, & deixou
As que elle pera ſi na Cruz tomou.

Vos poderoſo Rei, cujo alto Imperio,
O Sol logo em naſcendo ve primeiro:
Veo tambem no meio do Hemiſpherio,
E quando dece o deixa derradeiro.
Vos que eſperamos jugo & vituperio,
Do torpe Ismaelita caualleiro:
Do Turco Oriental, & do Gentio,
Que inda bebe o licor do ſancto Rio.

Inclinay por hum pouco a magestade,
Que neſſe tenrro gesto vos contemplo,
Que ja ſe mostra, qual na inteira idade,
Quando ſobindo yreis ao eterno templo,
Os olhos a real benignidade
Ponde no chão: vereis hum nouo exemplo,
De amor, dos patrios feitos valeroſos,
Em verſos deuulgado numeroſos.

Vereis amor da patria, não mouido
De premio vil: mas alto, & quaſi eterno
Que nam he premio vil, ſer conhecido
Por hum pregão do ninho meu paterno.
Ouui vereis o nome engrandecido
Daquelles de quem ſois ſenhor ſuperno.
E julgareis qual he mais excelente,
Se ſer do mundo Rei, ſe de tal gente:

Ouui, que não vereis com vãs façanhas
Fantaſticas, fingidas, mentiroſas,
Louuar os voſſos, como nas eſtranhas
Muſas, de engrandecerſe deſejoſas,
As verdadeiras voſſas ſam tamanhas,
Que excedem as ſonhadas fabuloſas:
Que excedem Rodamonte, & o vão Rugeiro,
E Orlando, inda quefora verdadeiro.

Por eſtes vos darey hum Nuno fero,
Que fez ao Rei, & ao Reino tal ſeruiço,
Hum Egas, & hũ dom Fuas, q̃ de Homero
A Citara parelles ſo cobiço:
Pois polos doze pares daruos quero,
Os doze de Inglaterra, & o ſeu Magriço.
Douuos tambem aquelle illustre Gama,
Que para ſi de Eneas toma a fama.

Pois ſe a troco de Carlos Rei de França,
Ou de Ceſar, quereis iqual memoria:
Vede o primeiro Afonſo, cuja lança
Eſcura faz qualquer eſtranha gloria:
E aquelle que a ſeu Reino a ſegurança
Deixou, com a grande & proſpera victoria.
Outro Ioane, inuicto caualleiro,
O quarto, & quinto Afonſos, & o terceiro.

Nem deixarão meus verſos eſquecidos,
Aquelles que nos Reinos la da Aurora,
Se fizerão por armas tam ſubidos,
Voſſa bandeira ſempre vencedora.
Hum Pacheco fortiſsimo, & os temidos
Almeidas, por quem ſempre o Tejo chora.
Albuquerque terribil, Caſtro forte,
E outros em quem poder não teue a morte.

E em quanto eu eſtes canto, & a vos nam poſſo
Sublime Rei, que nam me atreuo a tanto,
Tomay as redeas vos do Reino voſſo,
Dareis materia a nunca ouuido canto:
Comecem a ſentir o peſo groſſo,
(Que polo mundo todo faça eſpanto,)
De exercitos, & feitos ſingulares,
De affricas as terras, & do Oriente os mares.

Em vos os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vè ſeu exicio afigurado,
So com vos ver o barbaro Gentio,
Moſtra o peſcoço ao jugo ja inclinado:
Thetis todo o ceruleo ſenhorio,
Tem pera vos por dote aparelhado:
Que affeiçoada ao geſto bello, & tenro,
Deſeja de compraruos pera genro.

Em vos ſe vem da Olimpica morada,
Dos ous auôs, as almas ca famoſas,
Hũa na paz Angelica dourada,
Outra polas batalhas ſanguinoſas:
Em vos eſperão, verſe renouada,
Sua memoria, & obras valeroſas.
E la vos tem lugar no fim da idade,
No templo da ſuprema eternidade.

Mas em quanto eſte tempo paſſa lento,
De regerdes os pouos, que o deſejão:
Day vos fauor ao nouo atreuimento,
Pera que estes meus verſos voſſos ſejão:
E vereis ir cortando o ſalſo argento:
Os voſſos Argonautas, por que vejão,
Que ſam vistos de vos no mar yrado,
E costumaiuos ja a ſer inuocado.

Ia no largo Occeano nauegauão,
As inquietas ondas apartando,
Os ventos brandamente reſpirauão,
Das naos as vellas concauas inchando:
Da branca eſcuma, os mares ſe moſtrauão
Cubertos, onde as proas vão cortando.
As maritimas agoas conſagradas,
Que do gado de Proteo ſam cortadas.

Quando os Deuſes no Olimpo luminoſo,
Onde o gouerno esta, da humana gente,
Se ajuntão em conſilio glorioſo,
Sobre as couſas futuras do Oriente:
Piſando o criſtalino Ceo fermoſo,
Vem pela via Lactea, juntamente
Conuocados da parte do Tonante,
Pelo Neto gentil do velho Atlante.

Deixão dos ſete Ceos o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que ſo co penſamento
Governa o Ceo, a Terra, & o Mar yrado:
Ali ſe acharão juntos num momento,
Os que habitão o Arcturo congelado.
E os que o Auſtro tem, & as partes onde
A Aurora naſce, & o claro Sol ſe eſconde.

Eſtava o Padre ali ſublime & dino,
Que vibra os feros rayos de Vulcano,
Num aſſento de estrellas criſtalino,
Com geſto alto, ſevero, & ſoberano,
Do roſto reſpiraua hum ar diuino,
Que diuino tornàra hum corpo humano:
Com hũa coroa, & ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.

Em luzentes aſſentos, marchetados
De ouro, & de perlas, mais abaixo estavão
Os outros Deuſes todos aſſentados,
Como a Razão, & a Ordem concertauão.
Precedem os antiguos mais honrrados,
Mais abaixo os menores ſe aſſentauão:
Quando Iupiter alto, aſſy dizendo,
Cum tom de voz começa, graue & horrendo.

Eternos moradores do luzente
Eſtelifero polo & claro aſſento,
Se do grande valor da forte gente,
De Luſo, não perdeis o penſamento,
Deueis de ter ſabido claramente
Como he dos fados grandes certo intento
Que por ella ſeſqueção os humanos,
De Aſsirios, Perſas, Gregos & Romanos.

Ia lhe foy (bem o vistes) concedido
Cum poder tam ſingelo & tam pequeno
Tomar ao Mouro forte & guarnecido,
Toda a terra que rega o Tejo ameno:
Pois contra o Caſtelhano tam temido
Sempre alcançou fauor do Ceo ſereno.
Aſsi que ſempre em fim com fama & gloria,
Teue os tropheos pendentes da victoria.

Deixo Deoſes atras a fama antigua,
Que co a gente de Romulo alcançarão,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra Romana tanto ſe affamarão.
Tambem deixo a memoria, que os obriga
A grande nome, quando aleuantarão
Hum, por ſeu capitão, que peregrino
Fingio na Cerua eſpirito diuino.

Agora vedes bem, que cometendo,
O diuidoſo mar, num lenho leue,
Por vias nunca vſadas, não temendo
De Affrico & Noto a força a mais ſatreue:
Que auendo tanto ja que as partes vendo,
Onde o dia he comprido, & onde breue.
Inclinão ſeu propoſito, & perfia
A ver os berços, onde naſce o dia

Prometido lhe eſtà do fado eterno,
Cuja alta ley nam pode ſer quebrada,
Que tenhão longos tempos o gouerno
Do mar, que vé do Sol a roxa entrada.
Nas agoas tem paſſado o duro Inuerno,
A gente vem perdida & trabalhada.
Ia parece bem feito, que lhe ſeja
Mostrada a noua terra que deſeja.

E porque, como viſtes, tem paſſados
Na viagem, tam aſperos perigos,
Tantos Climas & Ceos experimentados,
Tanto furor de ventos inimigos
Que ſejam, de termino, agaſalhados
Neſta coſta affricana como amigos.
E tendo guarnecida a laſſa frota,
Tornarão a ſeguir ſua longa rata.

Eſtas palauras Iupiter dezia,
Quando os Deoſes por ordem reſpondendo,
Na ſentença hum do outro difiria,
Razões diuerſas dando & recebendo.
O padre Baco, ali nam conſentia
No que Iupiter diſſe, conhecendo
Que eſquecerão ſeus feitos no Oriente,
Se la paſſar a Luſitana gente.

Ouuido tinha aos Fados que viria
Hũa gente fortiſsimo de Heſpanha,
Pelo mar alto, a qual ſojeitaria
Da India, tudo quanto Doris banha:
E com nouas victorias venceria,
A fama antiga, ou ſua, ou foſſe eſtranha.
Altamente lhe doe perder a gloria,
De que Niſa celebra inda a memoria.

Ve que ja teue o Indo ſojugado,
E nunca lhe tirou Fortuna, ou caſo,
Por vencedor da India ſer cantado,
De quantos bebem a agoa de Parnaſo.
Teme agora que ſeja ſepultado,
Seu tam celebre nome, em negro vaſo,
Dagoa do eſquecimento, ſe la chegão
Os fortes Portugueſes, que nauegão,

Suſtentaua contra elle Venus bella,
Affeiçoada aa gente Luſitana,
Por quantas qualidades via nella,
Da antiga tam amada ſua Romana,
Nos fortes corações, na grande estrella,
Que mostrarão na terra Tingitana:
E na lingoa, na qual, quando imagina,
Com pouca corrupção cre que he a Latina.

Eſtas cauſas mouião Cyterea,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que ha de ſer celebrada a clara Dea,
Onde a gente beligera ſe eſtende.
Aſsi que hum pela infamia que arrecea,
E o outro polas honras que pretende,
Debatem, & na perfia permanecem,
A qualquer ſeus amigos fauorecem:

Qual Auſtro fero, ou Boreas na eſpeſſura,
De ſilueſtre aruoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata eſcura,
Com impito & braueza deſmedida.
Brama toda montanha, o ſom murmura,
Rompenſe as folhas, ferue a ſerra erguida.
Tal andaua o tumulto leuantado,
Entre os Deoſes no Olimpo conſagrado.

Mas Marte que da Deoſa ſuſtentaua,
Entre todos as partes em porfia,
Ou por que o amor antiguo o obrigaua,
Ou porque a gente forte o merecia,
De entre os Deoſes em pee ſe leuantaua,
Merencorio no gesto parecia:
O forte eſcudo ao collo pendurado,
Deitando para tràs medonho e irado.

A viſeira do elmo de Diamante,
Aleuantando hum pouco, muy ſeguro,
Por dar ſeu parecer ſe pos diante
De Iupiter, armado, forte & duro:
E dando hũa pancada penetrante,
Co conto do baſtão, no ſolio puro:
O ceo tremeo, & Apolo de toruado,
Hum pouco a luz perdeo, como infiado.

E diſſe aſsi, ò padre a cujo imperio,
Tudo aquillo obedece, que criaſte,
Se eſta gente que buſca outro Emiſpherio,
Cuja valia, & obras tanto amaſte:
Não queres que padeção vituperio,
Como ha ja tanto tempo que ordenaste
Não ouças mais, pois es juyz direito,
Razões de quem parece que he ſoſpeito.

Que ſe aqui a razão ſe não mostraſſe
Vencida do temor demaſiado,
Bem fora que aqui Baco os ſoſtentaſſe,
Pois que de Luſo vem, ſeu tam priuado:
Mas eſta tenção ſua, agora paſſe,
Porque em fim vem de eſtamago danado.
Que nunca tirarà alhea enueja,
O bem que outrem mereçe, & o ceo deſeja.

E tu padre de grande fortaleza,
Da determinaçam que tẽs tomada,
Nam tornes por detras pois he fraqueza
Deſistir ſe da couſa começada.
Mercurio pois excede em ligeireza
Ao vento leue, & aa ſeta bem talhada,
Lhe va mostrar a terra, onde ſe informe
Da India, & onde a gente ſe reforme.

Como iſto diſſe o Padre poderoſo,
A cabeça inclinando, conſentio
No que diſſe Mauorte valeroſo,
E Nectar ſobre todos eſparzio:
Pelo caminho Lacteo glorioſo,
Logo cada hum dos Deoſes ſe partio.
Fazendo ſeus reaes acatamentos,
Pera os determinados apouſentos.

Em quanto iſto ſe paſſa, na fermoſa
Caſa eterea do Olimpo omnipotente
Cortaua o mar a gente belicoſa:
Ia la da banda do Auſtro, & do Oriente,
Entre a coſta Ethiopica, & a famoſa
Ilha de ſam Lourenço, & o Sol ardente
Queimaua entam os Deoſes, que Tifeô
Co temor grande em pexes conuerteô.

Tam brandamente os ventos os leuauão,
Como quem o ceo tinha por amigo:
Sereno o ar, & os tempos ſe mostrauão
Sem nuuẽs, ſem receio de perigo:
O promontorio praſſo ja paſſauão
Na coſta de Ethiopia, nome antiguo.
Quando o mar deſcobrindo lhe moſtraua,
Nouas ilhas que em torno cerca, & laua.

Vaſco da gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empreſas ſe offerece,
De ſoberbo, & de altiuo coração,
A quem fortuna ſempre fauorece
Pera ſe aqui deter, não ve razão,
Que inhabitada a terra lhe parece:
Por diante paſſar determinaua:
Mas nam lhe ſoccedeo como cuydaua.

Eis aparecem logo em companhia,
Hũs pequenos bateis, que vem daquella
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vella:
A gente ſe aluoroça, & de alegria
Não ſabe mais que olhar a cauſa della.
Que gente ſera eſta, em ſi dezião,
Que costumes, que ley, que Rei terião?

As embarcações erão, na maneira
Muy veloces, eſtreitas, & compridas,
As vellas com que vem erão de eſteira,
Dũas folhas de Palma bem tecidas:
A gente da cor era verdadeira,
Que Phaeton, nas terras acendidas
Ao mundo deu, de ouſado, & não prudente,
O Pado o ſabe, & Lampetuſa o ſente.

De panos de algodão vinhão veſtidos,
De varias cores, brancos, & liſtrados,
Hũs trazem derredor de ſi cingidos,
Outros em modo ayroſo ſobraçados,
Das cintas pera cima vem deſpidos:
Por armas tem adagas, & tarçados.
Com toucas na cabeça, & nauegando,
Anafis ſonoroſos vão tocando.

Cos panos, & cos braços açenauão,
Aas gentes Luſitanas, que eſperaſſem:
Mas ja as proas ligeiras, ſe inclinauão,
Pera que junto aas Ilhas amainaſſem.
A gente, & marinheiros trabalhauão,
Como ſe aqui os trabalhos ſacabaſſem:
Tomão vellas, amainaſe a verga alta,
Da ancora o mar ferido, encima ſalta.

Não erão ancorados, quando a gente
Eſtranha, polas cordas ja ſubia,
No geſto ledos vem, & humanamente,
O Capitão ſublime os recebia.
As meſas manda por em continente,
Do licor que Lieo prantado auia:
Enchem vaſos de vidro, & do que deitão,
Os de Phaeton queimados nada engeitão.

Comendo alegremente perguntauão,
Pela Arabica lingoa, donde vinhão,
Quem erão, de que terra, que buſcauão,
Ou que partes do mar corrido tinhão?
Os fortes Luſitanos lhe tornauão,
As diſcretas repostas que conuinhão.
Os Portugueſes ſomos do Occidente,
Himos buſcando as terras do Oriente.

Do mar temos corrido, & nauegado
Toda a parte do Antartico, & Caliſto,
Toda a coſta Affricana rodeado,
Diuerſos Ceos, & Terras temos viſto:
Dum Rei potente ſomos, tam amado,
Tam querido de todos, & bem quisto:
Que nam no largo Mar, com leda fronte:
Mas no lago entraremos de Acheronte.

E por mandado ſeu, buſcando andamos
A terra Oriental, que o Indo rega,
Por elle o Mar remoto nauegamos,
Que ſo dos feos Focas ſe nauega:
Mas ja razão parece que ſaibamos,
Se entre vos a verdade não ſe nega.
Quem ſois, que terra he eſta que abitais?
Ou ſe tendes da India algũs ſinais?

Somos, hum dos das Ilhas lhe tornou,
Eſtrangeiros na terra, Lei, & nação
Que os proprios, ſam aquelles que criou
A Natura ſem Lei, & ſem Razão:
Nos temos a Lei certa que inſinou,
O claro deſcendente de Abrahão:
Que agora tem do Mundo o ſenhorio,
A mãy Hebrea teue, & o pai Gentio.

Esta Ilha pequena que habitamos,
He em toda eſta terra certa eſcala,
De todos os que as Ondas nauegamos,
De Quiloa, de Mombaça, & de Sofala:
E por ſer neceſſaria, procuramos,
Como proprios da terra, de habitala.
E porque tudo em fim vos notifique,
Chamaſe a pequena Ilha Moçambique.

E ja que de tam longe nauegais,
Buſcando o Indo Idaſpe, & terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem ſejais
Guiados pelas ondas ſabiamente.
Tambem ſera bemfeito que tenhais,
Da terra algum refreſco, & que o Regente
Que esta terra gouerna, que vos veja,
E do mais neceſſario vos proueja.

Iſto dizendo, o Mouro ſe tornou
A ſeus bateis com toda a companhia,
Do Capitão & gente ſe apartou,
Com mostras de deuida corteſia:
Niſto Febo nas agoas encerrou,
Co carro de Christal, o claro dia:
Dando cargo aa Irmaã, que alumiaſſe,
O largo Mundo, em quanto repouſaſſe.

A noyte ſe paſſou na laſſa frota,
Com eſtranha alegria, & não cuydada,
Por acharem da terra tão remota,
Noua de tanto tempo deſejada:
Qualquer então conſigo cuyda, & nota
Na gente, & na maneira deſuſada.
E como os que na errada Seita crérão,
Tanto por todo o mundo ſe eſtendérão.

Da Lũa os claros rayos rutilauão,
Polas argenteas ondas Neptuninas,
As Estrellas os Ceos acompanhauão.
Qual campo reueſtido de boninas,
Os furioſos ventos repouſauão,
Polas couas eſcuras peregrinas.
Porem da armada a gente vigiaua,
Como por longo tempo coſtumaua.

Mas aſſy como a Aurora marchetada,
Os fermoſos cabellos eſpalhou,
No Ceo ſereno, abrindo a roxa entrada,
Ao claro Hiperionio que acordou,
Começa a embandeirarſe toda a armada,
E de todos alegres ſe adornou:
Por receber com festas, & alegria,
O Regedor das Ilhas que partia.

Partia alegremente nauegando,
A ver as naos ligeiras Luſitanas,
Com refreſco da terra, em ſi cuidando,
Que ſam aquellas gentes inhumanas:
Que os apouſentos Caſpios habitando,
A conquiſtar as terras Aſianas
Vierão: & por ordem do deſtino,
O Imperio tomarão a Coſtantino.

Recebe o Capitão alegremente,
O Mouro, & toda ſua companhia,
Dalhe de ricas peças hum preſente,
Que ſo pera eſte effeito ja trazia:
Dalhe conſerua doçe, & dalhe o ardente
Não vſado licor que dâ alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe,
E muito mais contente come, & bebe.

Eſtà a gente maritima de Luſo,
Subida pela exarcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo, & vſo,
E a lingoagem tam barbara & enleada.
Tambem o Mouro astuto eſtà confuſo,
Olhando a cor, o trajo, & a forte armada.
E perguntando tudo lhe dezia,
Se porventura vinhão de Turquia.

E mais lhe diz tambem, que ver deſeja
Os liuros de ſua ley, preceito, ou fé,
Pera ver ſe conforme à ſua ſeja,
Ou ſe ſam dos de Christo, como crè:
E porque tudo note, & tudo veja,
Ao Capitão pedia, que lhe dé,
Mostra das fortes armas de que vſauão,
Quando cos inimigos pelejauão.

Responde o valeroſo Capitão,
Por hum que a lingoa eſcura bem ſabia:
Darte ey Senhor illuſtre relação
De my, da ley, das armas que trazia:
Nem ſou da terra, nem da geraçam,
Das gentes enojoſas de Turquia:
Mas ſou da forte Europa belicoſa,
Buſco as terras da India tam famoſa?

A ley tenho daquelle, a cujo imperio
Obedece o viſibil, & inuiſibil,
Aquelle que criou todo o Emispherio,
Tudo o que ſente, & todo o inſenſibil
Que padeceo deshonra, & vituperio,
Sofrendo morte injuſta, & inſufribil:
E que do ceo aa terra em fim deceo,
Por ſubir os mortais da terra ao ceo.

Deste Deos homem, alto, & infinito,
Os Liuros que tu pedes, nam trazia,
Que bem poſſo eſcuſar trazer eſcripto
Em papel, o que na alma andar deuia.
Se as armas queres ver, como tẽs dito,
Comprido eſſe deſejo te ſeria:
Como amigo as veras, porque eu me obrigo,
Que nunca as queiras ver como inimigo.

Iſto dizendo, manda os diligentes
Miniſtros, amoſtrar as armaduras,
Vem arneſes, & peitos reluzentes,
Malhas finas, & laminas ſeguras,
Eſcudos de pinturas differentes,
Pilouros, eſpingardas de aço puras,
Arcos, & ſagittiferas aljauas,
Partaſanas agudas, chuças brauas.

As bombas vem de fogo, & juntamente
As panellas ſulfureas, tam danoſas,
Porem aos de Vulcano nam conſente
Que dem fogo aas bombardas temeroſas:
Porque o generoſo animo, & valente,
Entre gentes tam poucas, & medroſas,
Não mostra quanto pode, & com razão,
Que he fraqueza entre ouelhas ſer lião.

Porem diſto que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que vio, com olho atento,
Hum odio certo na alma lhe ficou,
Hũa vontade mà de penſamento.
Nas moſlras, & no gesto o não moſtrou:
Mas com riſonho, & ledo fingimento,
Tratalos brandamente determina,
Ate que moſtrar poſſa o que imagina.

Pilotos lhe pedia o Capitão,
Por quem podeſſe aa India ſer leuado,
Dizlhe, que o largo premio leuarão,
Do trabalho que niſſo for tomado.
Prometelhos o Mouro, com tenção
De peito venenoſo, & tão danado:
Que a morte ſe podeſſe neste dia,
Em lugar de Pilotos lhe daria.

Tamanho o odio foy, & a mà vontade,
Que aos eſtrangeiros ſupito tomou,
Sabendo ſer ſequaces da verdade,
Que o filho de Dauid nos enſinou,
Os ſegredos daquella Eternidade
A quem juyzo algum não alcançou.
Que nunca falte hum perfido inimigo,
A aqueles de quem foſte tanto amigo?

Partioſe nisto em fim co a companhia,
Das naos o falſo Mouro despedido,
Com enganoſa & grande corteſia,
Com geſto ledo a todos, & fingido:
cortárão os bateis a curta via
Das agoas de Neptuno, & recebido
Na terra do obſequente ajuntamento,
Se foy o Mouro ao cognito apouſento:

Do claro aſſento Etereo, o grão Tebano,
Que da paternal coxa foy naſcido
Olhando o ajuntamento Luſitano,
Ao Mouro ſer moleſto, & auorrecido:
No penſamento cuyda hum falſo engano
Com que ſeja de todo deſtruydo.
E em quanto iſto ſo na alma imaginaua
Configo eſtas palauras praticaua.

Eſtà do fado ja determinado,
Que tamanhas victorias tam famoſas,
Ajão os Portugueſes alcançado,
Das Indianas gentes belicoſas.
E eu ſo filho do Padre ſublimado,
Com tantas qualidades generoſas:
Ey de ſofrer que o Fado fauoreça
Outrem, por quem meu nome ſe eſcureça?

Ia quiſeram os Deoſes que tiueſſe,
O filho de Filipo neſta parte,
Tanto poder, que tudo ſometeſſe
Debaixo do ſeu jugo, o fero Marte:
Mas aſſe de ſoffrer que o Fado deſſe,
A tam poucos tamanho esforço, & arte
Queu co gram Macedonio, & Romano,
Demos lugar ao nome Luſitan?

Não ſera aſſy, porque antes que chegado
Seja eſte Capitão, astutamente
Lhe ſera tanto engano fabricado,
Que nunca veja as partes do Oriente:
Eu decerey aa terra, & o indignado
Peito, reuoluerey da Maura gente,
Porque ſempre por via yra dereita,
Quem do oportuno tempo ſe aproueita.

Iſto dizendo yrado, & quaſi inſano,
Sobre a terra Affricana deſcendeo,
Onde vestindo a forma & geſto humano,
Pera o Praſſo ſabido ſe moueo.
E por milhor tecer o aſtuto engano,
No geſto natural ſe conuerteo,
Dum Mouro, em Moçambique conhecido,
Velho, ſabio, & co Xeque muy valido.

E entrando aſſy a falarlhe, a tempo & horas,
A ſua falſidade acomodadas,
Lhe diz como erão gentes roubadoras,
Eſtas que ora de nouo ſam chegadas:
Que das nações na coſta moradoras,
Correndo a fama veio, que roubadas,
Forão por estes homẽs que paſſauão,
Que com pactos de paz ſempre ancorauão.

E ſabe mais, lhe diz, como entendido
Tenho destes Christãos ſanguinolentos,
Que quaſi todo o mar tem destruido,
Com roubos, com incendios violentos:
E trazem ja de longe engano vrdido,
Contra nos, & que todos ſeus intentos
Sam pera nos matarem, & roubarem,
E molheres & filhos captiuarem.

E tambem ſey que tem determinado,
De vir por agoa a terra muito cedo,
O Capitão dos ſeus acomponhado,
Que da tençam danada naſce o medo:
Tu deues de yr tambem cos teus armado
Eſperallo em cilada, occulto & quedo:
Por que ſaindo a gente deſcuydada,
Cairão facilmente na cilada.

E ſe inda não ficarem deste geito,
Destruydos, ou mortos totalmente,
Eu tenho imaginada no conceito,
Outra manha & ardil que te contente:
Mandalhe dar Piloto, que de geito
Seja aſtuto no engano, & tam prudente,
Que os leue aonde ſejão deſtruydos,
Desbaratados mortos, ou perdidos.

Tanto que eſtas palauras acabou,
O Mauro nos tais caſos, ſabio & velho
Os braços pelo collo lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conſelho:
E logo neſſe inſtante concertou,
Pera a guerra o beligero aparelho:
Pera que ao Portugues ſe lhe tornaſſe,
Em roxo ſangue a agoa que buſcaſſe.

E buſca mais pera o cuydado engano,
Mouro que por Piloto aa nao lhe mande,
Sagaz, aſtuto, & ſabio em todo o dano
De quem fiar ſe poſſa hum feito grande,
Dizlhe que acompanhando o Luſitano,
Por tais coſtas, & mares co elle ande:
Que ſe daqui eſcapar, que la diante
Va cair onde nunca ſe aleuante.

Ia o rayo Apolina viſitaua,
Os Montes Nabatheos acendido,
Quando Gama cos ſeus determinaua,
De vir por agoa a terra apercebido:
A gente nos bateis ſe concertaua,
Como ſe foſſe o engano ja ſabido:
Mas pode ſoſpeitarſe facilmente,
Que o coração preſago nunca mente.

E mais tambem mandado tinha a terra,
De antes pelo Piloto neceſſario:
E foilhe reſpondido em ſom de guerra,
Caſo do que cuydaua muy contrario:
Por iſto, & porque ſabe quanto erra,
Quem ſe cre de ſeu perfido aduerſario,
Apercebido vay como podia,
Em tres bateis ſomente que trazia:

Mas os Mouros que andauão pela praya,
Por lhe defender a agoa deſejada,
Hum de eſcudo embarcado, & de azagaya,
Outro de arco encuruado, & ſeta eruada:
Eſperão que a guerreira gente ſaya,
Outros muytos ja poſtos em cillada.
E porque o caſo leue ſe lhe faça,
Poem hũs poucos diante por negaça.

Andão pela ribeira alua arenoſa,
Os belicoſos Mouros acenando,
Com a adarga, & co a aſtea perigoſa,
Os fortes Portugueſes incitando:
Nam ſoſfre muito a gente generoſa,
Andarlhe os cães os dentes amoſtrando.
Qualquer em terra ſalta, tam ligeiro,
Que nenhum dizer pode que he primeiro.

Qual no corro ſanguino, o ledo amante,
Vendo a fermoſa dama deſejada,
O Touro buſca, & pondo ſe diante,
Salta, corre, ſibila, acena, & brada:
Mas o animal atroçe neſſe instante,
Com a fronte cornigera inclinada,
Bramando duro corre, & os olhos cerra,
Derriba, fere, & mata & poem por terra.

Eis nos bateis o fogo ſe leuanta,
Na furioſa & dura artilheria,
A plumbea pela mata, o brado eſpanta:
Ferido o ar retumba, & aſſouia:
O coraçam dos Mouros ſe quebranta,
O temor grande o ſangue lhe resfria.
Ia foge o eſcondido de medroſo,
E morre o deſcuberto auenturoſo.

Não ſe contenta a gente Portugueſa:
Mas ſeguindo a victoria eſtrue, & mata
A pouoação ſem muro, & ſem defeſa,
Esbombardea, acende, & desbarata.
Da caualgada ao Mouro ja lhe peſa,
Que bem cuidou comprala mais barata:
Ia blasfema da guerra, & maldizia,
O velho inerte, & a mãy que o filho cria.

Fugindo, a ſeta o Mouro vay tirando,
Sem força, de couarde, & de apreſſado,
A pedra, o pao, & o canto arremeſſando,
Dalhe armas o furor deſatinado:
Ia a Ilha, & todo o mais, deſemparando,
Aa terra firme foge amedrontado.
Paſſa, & corta do mar o eſtreito braço,
Que a Ilha em torno cerca, em pouco eſpaço.

Hũs vão nas almádías carregadas,
Hum corta o mar a nado diligente,
Quem ſe affoga nas ondas encuruadas,
Quem bebe o mar, & o deita juntamente:
Arrombão as meudas bombardadas
Os Pangaios ſotis da bruta gente.
Desta arte o Portugues em fim caſtiga,
A vil malicia, perfida, inimiga.

Tornão victorioſos pera a armada,
Co deſpojo da guerra, & rica preſa,
E vão a ſeu prazer fazer agoada,
Sem achar reſiſtencia, nem defeſa
Ficaua a Maura gente magoada,
No odio antigo, mais que nunca aceſa.
E vendo ſem vingança tanto dano,
Somente estriba no ſegundo engano.

Pazes cometer manda arrependido,
O Regedor daquella inica terra,
Sem ſer dos Luſitanos entendido,
Que em figura de paz lhe manda guerra:
Porque o Piloto falſo prometido,
Que toda a mà tenção no peito encerra.
Pera os guiar aa morte lhe mandaua,
Como em ſinal das pazes que trataua.

O Capitão, que ja lhe entam conuinha,
Tornar a ſeu caminho acoſtumado,
Que tempo concertado, & ventos tinha,
Pera yr buſcar o Indo deſejado.
Recebendo o Piloto que lhe vinha,
Foy delle alegremente agaſalhado:
E reſpondendo ao menſageiro, a tento
Aas vellas manda dar ao largo vento.

Desta arte deſpedida a forte armada,
As ondas de Anfitrite diuidia,
Das filhas de Nerêo acompanhada,
Fiel, alegre, & doçe companhia.
O Capitão, que não cahia em nada,
Do enganoſo ardil que o Mouro vrdia:
Delle muy largamente ſe informaua,
Da India toda, & coſtas que paſſaua:

Mas o Mouro inſtruido nos enganos,
Que o maléuolo Baco lhe enſinára
De morte, ou captiueiro nouos danos,
Antes que aa India chegue lhe prepara,
Dando razão dos portos Indianos,
Tambem tudo o que pede lhe declara.
Que auendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente ſe temia.

E diz lhe mais co falſo penſamento,
Com que Synon os Phrigios enganou,
Que perto eſtà hũa Ilha, cujo aſſento,
Pouo antigo Chriſtão ſempre abitou:
O Capitão que a tudo eſtaua a tento,
Tanto co estas nouas ſe alegrou,
Que com dadiuas grandes lhe rogaua,
Que o leue aa terra onde eſta gente eſtaua.

Ho mesmo o falſo Mouro determina,
Que o ſeguro Chriſtão lhe manda & pede,
Que a Ilha he poſſuida da malina
Gente, que ſegue o torpe Mahamede:
Aqui o engano & morte lhe imagina,
Porque em poder & forças muito excede
Aa Moçambique, eſta Ilha que ſe chama
Quîloa, muy conhecida pola fama.

Pera là ſe inclinaua a leda frota:
Mas a Deoſa em Cythere celebrada,
Vendo como deixaua a certa rota,
Por yr buſcar a morte não cuidada,
Não conſente que em terra tão remota
Se perca a gente della tanto amada.
E com ventos contrairos a deſuia,
Donde o Piloto falſo a leua, & guia.

Mas o maluado Mouro nam podendo,
Tal determinação leuar auante,
Outra maldade inica cometendo,
Ainda em ſeu propoſito constante,
Lhe diz, que pois as agoas diſcorrendo,
Os leuàrão por força por diante,
Que outra Ilha tem perto, cuja gente,
Erão Chriſtãos com Mouros juntamente.

Tambem nestas palauras lhe mentia,
Como por regimento em fim leuaua,
Que aqui gente de Chriſto não auia:
Mas a que a Mahamede celeebraua.
O Capitão que em tudo o mouro cria,
Virando as vellas, a Ilha demandaua:
Mas nam querendo a Deoſa guardadora,
Nam entra pela barra, & ſurge fora.

Eſtaua a Ilha aa terra tam chegada,
Que hum eſtreito pequeno a diuidia,
Hũa cidade nella ſituada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edificios fabricada,
Como por fora, ao longe deſcobria,
Regida por hum Rei de antigua idade,
Mombaça he o nome da Ilha, & da Cidade.

E ſendo a ella o Capitão chegado,
Eſtranhamente ledo, porque eſpera
De poder ver o pouo baptizado,
Como o falſo Piloto lhe diſſera:
Eis vem bateis da terra com recado
Do Rei, que ja ſabia a gente que era,
Que Baco muito de antes o auiſara,
Na forma doutro Mouro que tomàra.

O recado que trazem he de amigos:
Mas debaxo o veneno vem cuberto,
Que os penſamentos erão de inimigos,
Segundo foy o engano deſcuberto.
O grandes & grauiſsimo perigos,
O caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente poem ſua eſperança,
Tenha a vida tam pouca ſegurança.

No mar tanta tormenta, & tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida,
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta neceſsidade auorrecida:
Onde pode acolherſe hum fraco humano,
Onde terà ſegura a curta vida?
Que não ſe arme, & ſe indigne o Ceo ſereno.
Contra hum bicho da terra tam pequeno.

Fim.



❧ Canto Segundo.

Ia neſte tempo o
lucido Planeta,
Que as horas vay do dia diſtin-
guindo,
Chegaua aa deſejada, & lenta Meta,
A luz Celeſte aas gentes encobrindo:
E da caſa maritima ſecreta,
Lhe eſtaua o Deos Nocturno a porta abrĩdo:
Quando as infidas gentes ſe chegárão
Aas naos, que pouco auia que ancorarão

Dantre elles hum que traz encomendado,
O mortifero engano, aſsi dezia.
Capitão valeroſo, que cortado
Tens de Neptuno o reyno, & ſalſa via,
O Rei que manda eſta Ilha, aluoraçado
Da vinda tua tem tanta alegria,
Que nam deſeja mais que agaſalharte,
Verte, & do neceſſario reformarte.

E porque eſtà em eſtremo deſejoſo
De te ver, como couſa nomeada,
Te roga que de nada receoſo,
Entres a barra, tu com toda armada:
E porque do caminho trabalhoſo,
Traras a gente debil, & canſada,
Diz que na terra podes reformala,
Que a natureza obriga a deſejada,

E ſe buſcando vas mercadoria,
Que produze o aurifero Leuante,
Canella, Crauo, ardente eſpeciaria,
Ou Droga ſalutifera, & preſtante:
Ou ſe queres luzente pedraria,
O Rubí fino, o rigido Diamante:
Daqui leuaras tudo tam ſobejo.
Com que faças o fim a teu deſejo:

Ao menſageiro o Capitão reſponde,
As palauras do Rei agradecendo,
E diz que porque o Sol no mar ſe eſconde,
Não entra pera dentro obedecendo,
Porem que como a luz mostrar por onde
Va ſem perigo, a frota não temendo,
Comprirà ſem receio ſeu mandado,
Que a mais por tal ſenhor eſtà obrigado.

Perguntalhe deſpois, ſe estão na terra
Chriſtãos, como o Piloto lhe dezia,
O menſageiro aſtuto que não erra,
Lhe diz, que a mais da gẽte em Chriſto cria:
Deſta ſorte do peito lhe desterra
Toda a ſoſpeita, & cauta fantaſia:
Por onde o Capitão ſeguramente,
Se fia da infiel, & falſa gente.

E de algũs que trazia condenados,
Por culpas, & por feitos vergonhoſos
Porque podeſſem ſer auenturados,
Em caſos deſta ſorte duuidoſos.
Manda dous mais ſagazes, enſaiados,
Porque notem dos Mouros enganoſos,
A Cidade, & poder, & porque vejão,
Os que Chriſtãos, que ſo tanto ver deſejão.

E por eſtes ao Rei preſentes manda,
Porque a boa vontade que moſtraua,
Tenha firme, ſegura, limpa, & branda,
A qual bem ao contrario em tudo eſtaua.
Ia a companhia perfida, enefanda
Das naos ſe deſpedia, & o mar cortaua,
Foram com geſtos ledos, & fingidos,
Os dous da frota em terra recebidos.

E deſpois que ao Rei apreſentàrão,
Co recado os preſentes que trazião,
A Cidade correrão, & notarão
Muito menos daquillo que querião,
Que os Mouros cauteloſos ſe guardarão
De lhe moſtrarem tudo o que pedião.
Que onde reina a malicia, eſtà o receio
Que a faz imaginar no peito alheio.

Mas aquelle que ſempre a mocidode
Tem no roſto perpetua, & foy naſcido
De duas mãis: que vrdia a falſidade,
Por ver o nauegante deſtruydo:
Eſtaua nũa caſa da Cidade,
Com roſto humano, & habito fingido
Moſtrandoſe Chriſtão, & fabricaua
Hum altar ſumptuoſo que adoraua.

Ali tinha em retrato affigurada
Do alto & Sancto ſpirito a pintura,
A candida Pombinha debuxada,
Sobre a vnica Fenix virgem pura,
A companhia ſancta eſtà pintada,
Dos doze tam toruados na figura,
Como os que, ſo das lingoas que cayrão,
De fogo, varias lingoas referirão.

Aqui os dous companheiros conduzidos,
Onde com este engano Baco estaua
Poem em terra os giolhos, & os ſentidos
Naquelle Deos, que o mundo gouernaua
Os cheiros excellentes produzidos,
Na Panchaia odorifera queimaua
O Thioneû, & aſsi por derradeiro
O falſo Deos adora o verdadeiro.

Aqui forão denoite agaſalhados,
Com todo o bom, & honeſto tratamento
Os dous Chriſtãos, nam vendo que enganado
Os tinha o falſo, & ſancto fingimento:
Mas aſsi como os rayos eſpalhados
Do Sol forão no mundo, & num momento
Apareceo no rubido Orizonte,
Na moça de Titão a roxa ſronte.

Tornão da terra os Mouros co recado
Do Rei, pera que entraſſem, & conſigo
Os dous que o Capitão tinha mandado,
A quem ſe o Rei moſtrou ſincêro amigo:
E ſendo o Portugues certificado,
De não auer receio de perigo.
E que gente de Chriſto em terra auia,
Dentro no ſalſorio entrar queria

Dizem lhe os que mandou, que em terra vîrão,
Sacras aras, & ſacerdote ſancto,
Que ali ſe agaſalhàrão, & dormirão,
Em quanto a luz cubrio o eſcuro manto:
E que no Rei, & gentes não ſentirão
Senão contentamento, & gosto tanto:
Que não podia certo auer ſoſpeita,
Nũa mostra tão clara, & tão perfeita.

Co iſto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que ſubião,
Que leuemente hum animo ſe fia,
De mostras que tão certas parecião:
A nao da gente perfida ſe enchia,
Deixando a bordo os barcos que trazião:
Alegres vinhão todos, porque crem
Que a preſa deſejada certa tem.

Na terra cautamente aparelhauão,
Armas, & monições, que como viſſem
Que no Rio os nauios ancorauão,
Nelles ouſadamente ſe ſubiſſem:
E neſta treição determinauão,
Que os de Luſo de todo deſtruiſſem:
E que incautos pagaſſem deste geito
O mal que em Moçambique tinhão feito.

As ancoras tenaces vão leuando,
Com a nautica grita coſtumada,
Da proa as vellas ſos ao vento dando,
Inclinão pera a barra abaliſada:
Mas a linda Ericina, que guardando
Andaua ſempre a gente aſsinalada:
Vendo a cilada grande, & tam ſecreta,
Voa do Ceo ao Mar como hũa ſeta.

Conuoca as aluas filhas de Nerêo,
Com toda a mais cerulea companhia,
Que porque no ſalgado Mar naſceo,
Das agoas o poder lhe obedecia.
E propondo lhe a cauſa a que deceo,
Com todos juntamente ſe partia:
Pera eſtoruar que a armada não chegaſſe
Aonde pera ſempre ſe acabaſſe.

Ia na agoa erguendo vão com grande preſſa,
Com as argenteas caudas branca eſcuma,
Cloto co peito corta, & atraueſſa
Com mais furor o Mar do que coſtuma.
Salta Niſe, Nerine ſe arremeſſa,
Por cima da agoa creſpa, em força ſuma:
Abrem caminho as ondas encuruadas,
De temor das Nereidas apreſſadas.

Nos hombros de hum Tritão com geſto aceſo,
Vay a linda Dione furioſa,
Não ſente quem a leua o doçe peſo,
De ſoberbo, com carga tam fermoſa:
Ia chegão perto donde o vento teſo,
Enche as vellas da frota belicoſa.
Repartenſe, & rodeão neſſe inſtante
As naos ligeiras que hião por diante.

Poem ſe a Deoſa com outras em dereito
Da proa capitaina, & ali fechando,
O caminho da barra estão de geito,
Que em vão aſſopra o vento, a vella inchãdo:
Poem no madeiro duro o brando peito,
Pera detras a forte nao forçando.
Outras em derredor leuandoa eſtauão,
E da barra inimiga a deſuiauão.

Quaes pera a coua as pròuidas formigas,
Leuando o peſogrande acomodado,
As forças exercitão, de inimigas,
Do inimigo Inuerno congelado:
Ali ſam ſeus trabalhos, & fadigas,
Ali mostrão vigor nunca eſperado.
Tais andauão as Nimphas eſtoruando
Aa gente Portugueſa o fim nefando.

Torna pera detras a Nao forçada,
A peſar dos que leua, que gritando,
Mareão vellas, ferue a gente yrada,
O leme a hum bordo, & a outro atraueſſando
O Meſtre aſtuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estaua hum maritimo penedo,
Que de quebrarlhe a Nao lhe mete medo:

A celeuma medonha ſe aleuanta,
No rudo Marinheiro que trabalha,
O grande eſtrondo, a Maura gente eſpanta,
Como ſe viſſem horrida batalha:
Nam ſabem a razão de furia tanta,
Nam ſabem neſta preſſa quem lhe valha,
Cuydão que ſeus enganos ſam ſabidos,
E que ande ſer por iſſo aqui punidos.

Eilos ſubitamente ſe lançauão,
A ſeus bateis veloces que trazião,
Outros encima o mar aleuantauão,
Saltando nagoa a nado ſe acolhião:
De hum bordo & doutro ſubito ſaltauão,
Que o medo os compelia do que vião.
Que antes querem ao mar auenturarſe,
Que nas mãos inimigas entregarſe.

Aſsi como em ſeluatica alagoa,
As rãs no tempo antigo Lycia gente,
Se ſentem por ventura vir peſſoa,
Estando fora da agoa incautamente,
Daqui, & dali ſaltando, o charco ſoa,
Por fogir do perigo que ſe ſente,
E acolhendo ſe ao couto que conhecem,
Sos as cabeças na agoa lhe aparecem.

Aſsi fogem os Mouros, & o Piloto,
Que ao perigo grande as naos guiâra,
Crendo que ſeu engano eſtaua noto,
Tambem foge ſaltando na agoa amara:
Mas por nam darem no penedo immoto,
Onde percão a vida doçe, & cara:
A ancora ſolta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto della amaina.

Vendo o Gama, atentado a eſtranheza
Dos Mouros não cuidada, & juntamente,
O Piloto fugir lhe com preſteza,
Entende o que ordenaua a bruta gente,
E vendo ſem contraste, & ſem braueza
Dos ventos, ou das, agoas ſem corrente,
Que a Nao paſſar auante não podia,
Auendo o por milagre aſsi dezia.

O caſo grande, eſtranho, & não cuydado,
O milagre clariſsimo, & euidente,
O deſcuberto engano inopinado,
O perfida inimiga, & ſalſa gente,
Quem poderà do mal aparelhado
Liurarſe ſem perigo ſabiamente.
Se la de cima a guarda ſoberana,
Não acudir aa fraca força humana?

Bem nos moſtra a diuina prouidencia,
Destes portos, a pouca ſegurança,
Bem claro temos viſto na aparencia,
Que era enganada a noſſa confiança
Mas pois ſaber humano, nem prudencia
Enganos tam fingidos nam alcança:
O tu guarda diuina, tem cuidado
De quem ſem ti nam pode ſer guardado.

E ſe te moue tanto a piedade,
Deſta miſera gente peregrina,
Que ſo por tua altiſsima bondade,
Da gente a ſaluas, perfida & malina,
Nalgum porto ſeguro de verdade:
Conduzirmos ja agora determina,
Ou nos amostra a terra que buſcamos,
Pois ſo por teu ſeruiço nauegamos.

Ouuiolhe eſtas palauras piadoſas,
A fermoſa Dione, & comouida,
Dantre as Nimphas ſe vay, que ſaudoſas
Ficarão deſta ſubita partida:
Ia penetra as Eſtrellas luminoſas,
Ia na terceyra Eſphera recebida
Auante paſſa, & la no ſexto Ceo
Pera onde eſtaua o Padre ſe moueo.

E como hia afrontada do caminho
Tão fermoſa no geſto ſe moſtraua,
Queas Eſtrellas, & o Ceo, & o Ar vizinho,
E tudo quanto a via namoraua
Dos olhos, onde faz ſeu filho o ninho
Hũs eſpiritos viuos inspiraua,
Com que os Polos gelados acendia,
E tornaua do Fogo a eſphera fria.

E por mais namorar o ſoberano
Padre, de quem foy ſempre amada, & cara
Se lhapreſenta aſsi como ao Troyano,
Na ſelua Idea ja ſe apreſentàra:
Se a vira o caçador, que o vulto humano
Perdeo, vendo Diana na agoa clara:
Nunca os famintos galgos o matàrão,
Que primeiro deſejos o acabárão.

Os creſpos fios douro ſe eſparzião
Pelo colo, que a neue eſcurecia,
Andando as lacteas tetas lhe tremião,
Com quem Amor brincaua, & não ſe via.
Da alua petrina flamas lhe ſaião,
Onde o minino as almas acendia.
Polas liſas colũnas lhe trepauão,
Deſejos, que como Era ſe enrolauão.

Cum delgado cendal as partes cobre,
De quem vergonha he natural reparo,
Porem nem tudo eſconde, nem deſcobre
O veo dos roxos lirios pouco auaro:
Mas pera que o deſejo acenda, & dobre,
Lhe poem diante aquelle objecto raro.
Ia ſe ſentem no Ceo, por toda a parte,
Ciumes em Vulcano, Amor em Marte:

E mostrando no angelico ſembrante,
Co riſo hũa tristeza miſturada,
Como dama que foi do incauto amante,
Em brincos amoroſos mal tratada,
Que ſe aqueixa, & ſe ri, num meſmo inſtãte,
E ſe torna entre alegre maogada.
Deſta arte a Deoſa, a quem nenhũa iguala,
Mais mimoſa que triſte ao Padre fala.

Sempre eu cuidey, ô Padre poderoſo,
Que pera as couſas, que eu do peito amaſſe
Te achaſſe brando, affabil, & amoroſo,
Poſto que a algum contrairo lhe peſaſſe:
Mas pois que contra my te vejo yroſo,
Sem que to mereceſſe, nem te erraſſe.
Façaſe como Baco determina,
Aſſentarey em fim que fuy mofina.

Eſte pouo que he meu, por quem derramo,
As lagrimas que em vão caidos vejo,
Que aſſaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu deſejo:
Por elle a ti rogando choro, & bramo,
E contra minha dita em fim pelejo.
Ora pois porque o amo he mal tratado,
Quero lhe querer mal, ſera guardado.

Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes,
Que pois eu fuy: & niſto de mimoſa
O rosto banha, em lagrimas ardentes,
Como co orualho fica a freſca roſa.
Calada hum pouco, como ſe entre os dentes
Lhe impedira a falla piedoſa.
Torna a ſeguila, & indo por diante,
Llhe atalha o poderoſo, & grão Tonante.

E deſtas brandas moſtras comouido,
Que mouerão de hum Tigre o ptito duro,
Co vulto alegre, qual do Ceo ſubido,
Torna ſereno & claro o ar eſcuro.
As lagrimas lhe alimpa, & acendido
Na façe a beija, & abraça o colo puro.
De modo que dali, ſe ſo ſe achara,
Outro nouo Cupido ſe gerara.

E co ſeu apertando o roſto amado,
Que os ſaluços, & lagrimas aumenta,
Como minino da ama castigado,
Que quem no aſſago o choro lhe acrecenta,
Por lhe por em ſoſſego o peito yrado,
Muitos caſos futuros lhe apreſenta.
Dos fados as entranhas reuoluendo,
Deſta maneira em fim lhe eſtà dizendo.

Fermoſa filha minha não temais
Perigo algum, nos voſſos Luſitanos,
Nem que ninguem comigo poſſa mais,
Que eſſes choroſos olhos ſoberanos:
Que eu vos prometo filha que vejais
Eſquecerenſe Gregos & Romanos.
Pelos illuſtres feitos que esta gente,
Ha de fazer nas partes do Oriente.

Que ſe o facundo Vliſſes eſcapou,
De ſer na Ogigia Ilha, eterno eſcrauo:
E ſe Antenor os ſeios penetrou,
Iliricos, & a fonte de Timauo.
E ſe o piadoſo Eneas nauegou,
De Scila, & de Caribdis o Mar brauo.
Os voſſos môres couſas atentando,
Nouos mundos ao mundo yrão moſtrando.

Fortalezas, Cidades, & altos muros,
Por elles vereis filha edificados:
Os Turcos belaciſsimos & duros,
Delles ſempre vereis desbaratados.
Os Reis da India liures, & ſeguros,
Vereis ao Rei potente ſojugados.
E por elles de tudo em fim ſenhores,
Serão dadas na terra leis milhores.

Vereis eſte, que agora preſuroſo,
Por tantos medos o Indo vay buſcando,
Tremer delle Neptuno de medroſo,
Sem vento ſuas agoas encreſpando.
O caſo nunca viſto, & milagroſo
Que trema, & ferua o Mar em calma eſtãdo?
O gente forte, & de altos penſamentos,
Que tambem della hão medo os Elementos.

Vereis a terra que a agoa lhe tolhia,
Que inda ha de ſer hum porto muy decente,
Em que vão deſcanſar da longa via,
As naos que nauegarem do Occidente.
Toda eſta coſta em fim, que agora vrdia,
O mortifero engano, obediente,
Lhe pagarà tributos, conhecendo,
Não poder reſistir ao Luſo horrendo:

E vereis o Mar roxo tam famoſo,
Tornar ſelhe amarello de infiado:
Vereis de Ormuz o Reino poderoſo,
Duas vezes tomado, & ſojugado.
Ali vereis o Mouro furioſo,
De ſuas meſmas ſetas traſpaſſado.
Que quem vay contra os voſſos, claro veja,
Que ſe reſiſte, contra ſi peleja.

Vereis a inexpugnabil Dio fortes,
Que dous cercos terà, dos voſſos ſendo:
Ali ſe mostrarà ſeu preço, & ſorte,
Feitos de armas grandiſsimos fazendo.
Enuejoſo vereis o grão Mauorte,
Do peito Luſitano, fero & horrendo.
Do Mouro ali verão que a voz extrema,
Do falſo Mahamede ao Ceo blasfema.

Goa vereis aos Mouros ſer tomada,
A qual virá deſpois a ſer ſenhora,
De todo o Oriente, & ſublimada
Cos triumphos da gente vencedora.
Ali ſoberba altiua, & exalçada,
Ao Gentio que os Idolos adora.
Duro ſreo porà, & a toda a terra,
Que cuidar de fazer aos voſſos guerra.

Vereis a fortaleza ſuſtentarſe,
De Cananor, com pouca força & gente:
E vereis Calecu desbaratarſe,
Cidade populoſa, & tam potente.
E vereis em Cochim aſsinalarſe,
Tanto hum peito ſoberbo, & inſolente,
Que Cîtara ja mais cantou victoria,
Que aſsi mereça eterno nome, & gloria.

Nunca com Marte, inſtructo & furioſo,
Se vio feruer Leucate, quando Auguſto
Nas ciuîs Actias guerras animoſo,
O Capitão venceo Romano injuſto,
Que dos pouos de Aurora, & do famoſo
Nilo, & do Bactra Scitico, & robusto,
A victoria trazia, & preſa rica,
Preſo da Egipcia linda & não pudica.

Como vereis o mar feruendo aceſo,
Cos incendios dos voſſos pelejando,
Leuando o Idololatra, & o Mouro preſo,
De nações differentes triumphando.
E ſogeita a rica Aurea Cherſoneſo,
Ate o longico China nauegando.
E as Ilhas mais remotas do Oriente,
Serlhe a todo o Occeano obediente.

De modo filha minha, que de geito,
Amoſtrarão esforço mais que humano,
Que nunca ſe vera tam forte peito,
Do Gangetico mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas, ao Eſtreito,
Que moſtrou o agrauado Luſitano:
Poſto que em todo o mundo, de affrontados
Reſucitaſſem todos os paſſados.

Como isto diſſe, manda o conſagrado
Filho de Maia aa terra, porque tenha,
Hum pacifico porto, & ſoſſegado,
Pera onde ſem receyo a frota venha:
E pera que em Mombaça, auenturado
O forte Capitão ſe não detenha,
Lhe mãda mais, que em ſonhos lhe moſtraſſe
A terra, onde quieto repouſaſſe.

Ia pelo ar o Cylenêo voaua,
Com as aſas nos pês aa terra deçe,
Sua vara fatal na mão leuaua,
Com que os olhos canſados adormece:
Com eſta, as triſtes almas reuocaua,
Do Inferno, & o vento lhe obedeçe.
Na cabeça o galêro coſtumado,
E deſta arte a Melinde foy chegado.

Conſigo a Fama leua, porque diga,
Do Luſitano, o preço grande, & raro,
Que o nome illuſtre a hũ certo amor obriga,
E faz a quem o tem, amado & caro.
Deſta arte vay fazendo a gente amiga,
Co rumor famoſiſsimo, & perclaro.
Ia Melinde em deſejos arde todo,
De ver da gente forte o gesto, & modo.

Dali pera Mombaça logo parte,
Aonde as naos eſtauão temeroſas,
Pera que aa gente mando que ſe aparte
Da barra imiga, & terras ſoſpeitoſas:
Porque muy pouco val esforço, & arte,
Contra infernais vontades enganoſas:
Pouco val coração, aſtucia , & ſiſo,
Se la dos Ceos nam vem celeſte auiſo.

Meyo caminho a noite tinha andado,
E as Eſtrellas no Ceo co a luz alheia,
Tinhão o largo Mundo alumiado,
E ſo co ſono a gente ſe recreia.
O Capitão illuſtre, ja canſado,
De vigiar a noite, que arreceia,
Breue repouſo antam aos olhos daua,
A outra gente a quartos vigiaua.

Quando Mercurio em ſonhos lhe apareçe,
Dizendo, fuge, fuge Luſitano,
Da cilada que o Rei malicado teçe,
Por te trazer ao fim, & extremo dano,
Fuge, que o Vento, & o Ceo te fauoreçe,
Sereno o tempo tẽs, & o Occeano,
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes ſeguro agaſalharte.

Não tens aqui ſe não aparelhado,
O hoſpicio que o cru Diomedes daua,
Fazendo ſer manjar acostumado,
De cauallos a gente que hoſpedaua:
As aras do Buſiris infamado,
Onde os hoſpedes tristes imolaua
Teràs certas aqui ſe muito eſperas,
Fuge das gentes perfidas & feras.

Vaite ao longo da coſta diſcorrendo,
E outra terra acharàs de mais verdade
La quaſi junto donde o Sol ardendo,
Iguala o dia, & noite em quantidade:
Ali tua frota alegre recebendo
Hum Rei, com muitas obras de amizade,
Gaſalhado ſeguro te daria,
E pera a India certa & ſabia guia.

Isto Mercurio diſſe, & o ſono leua
Ao Capitão, que com muy grande eſpanto
Acorda, & ve ferida a eſcura treua,
De hũa ſubita luz, & rayo ſancto:
E vendo claro quanto lhe releua,
Não ſe deter na terra iniqua tanto.
Com nouo ſprito ao Mestre ſeu mandaua,
Que as vellas deſſe ao vento que aſſopraua.

Day vellas, diſſe, day ao largo vento,
Que o Ceo nos fauoreçe, & Deos o manda,
Que hum menſageiro vi do claro aſſento
Que ſo em fauor de noſſos paſſos ando:
Aleuantaſe niſto o mouimento,
Dos marinheiros, de hũa & de outra banda,
Leuão gritando as ancoras acima,
Moſtrando a ruda força, que ſe estima.

Neſte tempo, que as ancoras leuauão,
Na ſombra eſcura os Mouros eſcondidos,
Manſamente as amarras lhe cortauão,
Por ſerem, dando aa coſta, deſtruydos:
Mas com viſta de Linces vigiauão,
Os Portuegueſes ſempre apercebidos.
Elles como acordados os ſentirão,
Voando, & não remando lhe fogirão.

Mas ja as agudas proas apartando,
Hião as vias humidas de argento,
Aſſopralhe galerno o vento, & brando,
Com ſuaue & ſeguro mouimento,
Nos perigos paſſados vão falando,
Que mal ſe perderão do penſamento,
Os caſos grandes, donde em tanto aperto
A vida em ſaluo eſcapa por acerto.

Tinha hũa volta dado o Sol ardente,
E noutra começaua, quando virão
Ao longe dous nauios, brandamente
Cos ventos nauegando, que reſpirão,
Porque auião de ſer da Maura gente,
Pera elles arribando, as vellas virão.
Hum de temor do mal que arreceaua,
Por ſe ſaluar a gente aa costa daua.

Não he o outro que fica tão manhoſo:
Mas nas mãos vay cair do Luſitano,
Sem o rigor de Marte furioſo,
E ſem a furia horrenda de Vulcano,
Que como foſſe debil & medroſo,
Da pouca gente o fraco peito humano:
Não teue reſiſtencia, & ſe a tiuêra,
Mais dãno reſiſtindo recebêra.

E como o Gama muito deſejaſſe,
Piloto pera a India que buſcaua,
Cuidou que entre eſtes Mouros o tomaſſe:
Mas não lhe ſoccedeo como cuidaua,
Que nenhum delles ha que lhe inſinaſſe
A que parte dos Ceos a India eſtaua.
Porem dezem lhe todos, que tem perto,
Melinde onde achàrão Piloto certo.

Louuão do Rei os Mouros a bondade,
Condiçam liberal, ſincero peito,
Mognificencia grande, & humanidade,
Com partes de grandiſsimo reſpeito.
O Capitão o aſſella por verdade,
Porque ja lho diſſera deſte geito,
O Cydenêo em ſonhos, & partia,
Pera onde o ſonho, & o Mouro lhe dizia.

Era no tempo alegre quando entraua,
No roubador de Europa a luz Febea,
Quando hum, & o outro corno lhe aquentaua
E Flora derramaua o de Amalthea:
A memoria do dia renouaua,
O preſuroſo Sol, que o Ceo rodea.
Em que aquelle, a quem tudo eſtà ſogeito,
O ſello pos a quanto tinha feito.

Quando chegaua a frota aaquella parte,
Onde o Reino Melinde ja ſe via,
De toldos adornada, & leda de arte
Que bem moſtra eſtimar o Sancto dia:
Treme a Bandeira, voa o Eſtandarte,
A cor porpurea ao longe aparecia.
Soão os atambores & pandeiros,
E aſsi entrauão ledos & guerreiros.

Enche ſe toda a praya Molindana,
Da gente que vem ver a leda armada,
Gente mais verdadeira, & mais humana
Que toda a doutra terra atras deixada.
Surge diante a frota Luſitana,
Pega no findo a ancora peſada.
Mandão fora hum dos Mouros q̃ tomàrão,
Por quem ſua vinda ao Rei manifeſtàrão.

O Rei que ja ſabia da nobreza
que tanto os Portugueſes engrandece,
Tomarem o ſeu porto tanto preza,
Quanto a gente fortiſsima merece:
E com verdadeiro animo, & pureza,
Que os peitos generoſos ennobrece.
Lhe manda rogar muyto que ſaiſſem,
Pera que de ſeus Reinos ſe ſeruiſſem:

Sam offerecimentos verdadeiros,
E palauras ſinceras, não dobradas,
As que o Rei manda aos nobres caualleiros,
Que tanto mar & terras tem paſſadas:
Mandalhe mais lanigeros carneiros,
E galinhas domeſticas çeuadas,
Com as fructas que antam na terra auia,
E a vontade aa dadiua excedia.

Recebe o Capitão alegremente
O menſageiro ledo, & ſeu recado,
E logo manda ao Rei outro preſente,
Que de longe trazia aparelhado:
Eſcarlata purpurea, cor ardente,
O ramoſo coral fino, & prezado.
Que debaxo das agoas mole creçe,
E como he fora dellas ſe endureçe.

Manda mais hum na pratica elegante,
Que co Rei nobre as pazes concertaſſe,
E que de não ſair naquelle inſtante,
De ſuas naos em terra o deſculpaſſe.
Partido aſsi o embaixador preſtante,
Como na terra ao Rei ſe apreſentaſſe:
Com eſtillo que Palas lhe enſinaua,
Estas palauras tais fallando oraua.

Sublime Rei, a quem do Olimpo puro,
Foy da ſuma Iustiça concedido,
Refrear o ſoberbo pouo duro,
Não menos delle amado, que temido,
Como porto muy forte, & muy ſeguro,
De todo o Oriente conhecido:
Te vimos a buſcar, pera que achemos
Em ti o remedio certo que queremos.

Não ſomos roubadores, que paſſando
Pelas fracas cidades deſcuidadas,
A ferro, & a fogo, as gentes vão matando
Por roubarlhe as fazendas cubiçadas:
Mas da ſoberba Europa nauegando,
Himos buſcando as terras apartadas
Da India grande, & rica, por mandado
De hum Rei que temos, alto, & ſublimado.

Que geração tam dura ahi de gente?
Que barbaro costume, & vſança fea,
Que não vedem os pertos, tam ſomente:
Mas inda o hospicio da deſerta area?
Que ma tençam? que peito em nos ſe ſente?
Que de tam pouca gente ſe arrecea.
Que com laços armados tam fingidos,
Nos ordenaſſem vernos deſtruydos?

Mas tu, em quem muy certo confiamos
Acharſe mais verdade, o Rei benigno,
E aquella certa ajuda em ti eſperamos,
Que teue o perdido Itaco em Alcino:
A teu porto ſeguros nauegamos,
Conduzidos do interprete diuino.
Que pois a ti nos manda, eſtà muy claro,
Que es de peito ſincêro, humano, & raro.

E não cuydes, ô Rei, que não ſaiſſe.
O noſſo Capitão eſclarecido
A verte, ou a ſeruirte, porque viſſe
Ou ſoſpeitaſſe em ti peito fingido:
Mas ſaberas que o fez porque compriſſe,
O regimento em tudo obedecido,
De ſeu Rei, que lhe manda que nam ſaia,
Deixando a frota, em nenhũ porto, ou praia.

E porque he de vaſſalos, o exercicio,
Que os membros tem regidos da cabeça
Não quereras, pois tẽs de Rei o officio,
Que ninguem a ſèu Rei deſobedeça:
Mas as merçes, & o grande beneficio,
Que ora acha em ti, promete que conheça
Em tudo aquillo que elle & os ſeus poderem,
Em quanto os rios pera o mar correrem.

Aſsi dizia, & todos juntamente,
Hũs com outros em pratica fallando,
Louuauão muito o eſtamago da gente,
Que tantos Ceos & mares vai paſſando,
E o Rei illuſtre, o peito obediente,
Dos Portugueſes, na alma imaginando.
Tinha por valor grande, & muy ſubido,
O do Rei que he tam longe obedecido.

E com riſonha viſta, & ledo aſpeito,
Responde ao Embaixador, que tanto estima
Toda a ſoſpeita mà tiray do peito,
Nenhum frio temor em vos ſe imprima:
Que voſſo preço, & obras ſam de geito,
Pera vos ter o mundo em muyta eſtima.
E quem vos fez mollesto tratamento,
Não pode ter ſobido penſamento.

De não ſair em terra toda a gente,
Por obſeruar a vſado preminencia,
Ainda que me peſe eſtranhamente,
Em muito tenho a muita obediencia:
Mas ſe lho o regimento não conſente,
Nem eu conſentirey que a excelencia,
De peitos tão leais em ſi desfaça,
So perque a meu deſejo ſatisfaça.

Porem como a luz crastina chegada,
Ao mundo for, em minhas almàdîas,
Eu irey viſitar a forte armada,
Que ver tanto deſejo, ha tantos dias.
E ſe vier do mar desbaratada,
Do furioſo vento, & longas vias:
Aqui tera, de limpos penſamentos
Piloto, munições, & mantimentos.

Isto diſſe, & nas agoas ſe eſcondia,
O filho de Latona, & o menſageiro
Co a embaixada alegre ſe partia
Pera a frota, no ſeu batel ligeiro:
Enchem ſe os peitos todos de alegria,
Por terem o remedio verdadeiro,
Pera acharem a terra que buſcauão,
E aſsi ledos a noite feſtejauão.

Não faltão ali os rayos de arteficio,
Os tremulos Cometas imitando,
Fazem os Bombardeiros ſeu officio:
O ceo, a terra, & as ondas atroando.
Moſtraſe dos Cyclopas o exercicio,
Nas bombas que de fogo estão queimando,
Outros com vozes, com que o Ceo ferião.
Inſtrumentos altiſſonos tangião.

Respondem lhe da terra juntamente,
Co rayo volteando, com zonido,
Anda em giros no ar a roda ardente,
Estoura o po ſulfureo eſcondido:
A grita ſe aleuanta ao Ceo, da gente,
O Mar ſe via em fogos acendido:
E não menos a terra, & aſsi feſteja
Hum ao outro a maneira de peleja.

Mas ja o Ceo inquieto reuoluendo,
As gentes incitaua a ſeu trabalho,
E ja a mãy de Menon a luz trazendo,
Ao ſono longo punha certo atalho:
Hião ſe as ſombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra, em frio orualho,
Quando o Rei Milindano ſe embarcaua
A ver a frota que no mar estaua.

Vião ſe em derredor feruer as prayas
Da gente, que a ver ſo concorre leda,
Luzem da fina purpura as cabaias,
Lustrão os panos da tecida ſeda:
Em lugar de guerreiras a zagaias
E do arco, que os cornos arremeda
Da Lũa, trazem ramos de Palmeira,
Dos que vencem coroa verdadeira.

Hum batel grande & largo, que toldado
Venha de ſedas de diuerſas cores,
Traz o Rei de Melinde, acompanhado
De nobres de ſeu Reino, & de ſenhores:
Vem de ricos veſtidos adornado,
Segundo ſeus costumes, & primores.
Na cabeça hũa fota guarnecida,
De ouro, & de ſeda, & de algodão tecida.

Cabaya de Damaſco rico, & dino,
Da Tiria cor, entre elles eſtimada,
Hum colar ao peſcoço de ouro fino,
Onde a materia da obra he ſuperada,
Cum reſplandor reluze Adamantino,
Na cinta, a rica adaga bem laurada.
Nas alparcas dos pês, em fim de tudo,
Cobrem, ouro & aljofar ao veludo.

Com hum redondo emparo alto de ſeda,
Nũa alta & dourada astea enxerido,
Hum miniſtro aa ſolar quentura veda,
Que não offenda & queime o Rei ſubido:
Muſica traz na proa, eſtranha & leda,
De aſpero ſom, horriſsimo ao ouuido:
De trombetas arcadas em redondo,
Que ſem concerto fazem rudo estrondo.

Não menos guarnecido o Luſitano,
Nos ſeus bateis da frota ſe partia,
A receber no mar o Melindano,
Com luſtroſa & honrada companhia:
Vestido o Gama vem ao modo Hispano:
Mas Franceſa era a roupa que veſtia,
De cetim da Adriatica Veneza,
Carmeſi, cor que a gente tanto preza.

De botões douro as mangas vem tomadas,
Onde o Sol reluzindo a viſta cega:
As calças ſoldadeſcas recamadas,
Do metal que Fortuna a tantos nega,
E com pontas do meſmo delicadas,
Os golpes do gibão ajunta, & achega:
Ao Italico modo a aurea eſpada,
Pruma na gorra, hum pouco diclinada.

Nos de ſua companhia ſe moſtraua,
Da tinta que dà o Mûrice excelente,
A varia cor, que os olhos alegraua,
E a maneira do trajo diferente:
Tal o fermoſo eſmalte ſe notaua,
Dos veſtidos olhados juntamente:
Qual aparece o arco rutilante,
Da bella Nimpha filha de Thaumante.

Sonoroſas trombetas incitauão,
Os animos alegres reſoando,
Dos Mouros os bateis o Mar co lhauão,
Os toldos pelas agoas arrojando:
As bombardas horriſſonas bramando,
Com as nuuẽs de fumo o Sol tomando,
Ameudam ſe os brados acendidos,
Tapão com as mãos os Mouros os ouuidos.

Ia no batel entrou do Capitão
O Rei, que nos ſeus braços o leuaua,
Elle coa corteſia, que a razão
(Por ſer Rei) requeria, lhe fallaua.
Cũas moſtras de eſpanto, & admiração,
O Mouro o geſto, & o modo lhe notoua,
Como quem em muy grande estima tinha,
Gente que de tam longe à India vinha.

E com grandes palauras lhe offereçe,
Tudo o que de ſeus Reinos lhe compriſſe,
E que ſe mantimento lhe falleçe,
Como ſe proprio foſſe lho pediſſe:
Diz lhe mais, que por fama bem conheçe
A gente Luſitana, ſem que a viſſe.
Que ja ouuio dizer, que noutra terra
Com gente de ſua ley tiueſſe guerra.

E como por toda Affrica ſe ſoa,
Lhe diz, os grandes feitos que fizerão,
Quando nella ganharão a coroa
Do Reino, onde as Hesperidas viuerão:
E com muitas palauras apregoa,
O menos que os de Luſo merecerão:
E o mais que pela fama o Rei ſabia:
Mas deſta ſorte o Gama reſpondia.

O tu que ſo tiueste piedade,
Rei benigno, da gente Luſitana,
Que com tanta miſeria, & aduerſidade,
Doe mares experimenta a furia inſana.
Aquella alta, & diuina eternidade,
Que o Ceo reuolue, & rege a gente humana:
Pois que de ti tais obras reçebemos,
Te pague o que nos outros não pedemos.

Tu ſo de todos quantos queima Apolo,
Nos recebes em paz do Mar profundo
Em ti, dos ventos horridos de Eolo,
Refugio achamos bom, fido, & jocundo.
Em quanto apacentar o largo Polo,
As Eſtrellas, & o Sol der lume ao Mundo,
Onde quer que eu viuer, com fama & gloria,
Viuirão teus louuores em memoria.

Isto dizendo, os barcos vão remando,
Pera a frota, que o Mouro ver deſeja,,
Vão as naos, hũa & hũa rodeando,
Porque de todas tudo note, & veja:
Mas pera o Ceo Vulcano fuzilando,
A frota co as bombardas o feſteja,
E as trombetas canoras lhe tangião,
Cos anafis os Mouros reſpondião.

Mas deſpois de ſer tudo ja notado,
Do generoſo Mouro, que paſmaua,
Ouuindo o inſtrumento inuſitado,
Que tamanho terror em ſi moſtraua,
Mandaua estar quieto, & ancorado,
Nagoa o batel ligeiro que as leuaua,
Por fallar de vagar co forte Gama,
Nas couſas de que tem noticla, & fama.

Em praticas o Mouro diferentes,
Se deleitaua, perguntando agora,
Pelas guerras famoſas & excelentes,
Co pouo áuidas, que a Mafoma adora:
Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hispheria vltima, onde mora:
Agora pelos pouos ſeus vezinhos,
Agora pelos humidos caminhos.

Mas antes valeroſo Capitão,
Nos conta, lhe dezia, diligente,
Da terra tua o clima, & região
Do Mundo onde morais diſtintamente,
E aſsi de voſſa antiga geração,
E o principio do Reino tam potente:
Cos ſucceſſos das guerras do começo,
Que ſem ſabellas, ſey que ſam de preço.

E aſsi tambem nos conta dos rodeios
Longos, em que te traz o Mar yrado,
Vendo os coſtumes barbaros alheios,
Que a noſſa Affrica ruda tem criado
Conta: que agora vem cos aureos freios,
Os cauallos que o carro marchetado,
Do nouo Sol, da fria Aurora trazem,
O Vento dorme, o Mar & as ondas jazem.

E não menos co tempo ſe pareçe,
O deſejo de ouuirte o que contares,
Que quem ha, que por fama não conheçe
As obras Portugueſas ſingulares:
Não tanto deſuiado reſplandeçe,
De nos o claro Sol, pera julgares.
Que os Melindanos tem tam rudo peito,
Que não eſtimem muito hum grande feito.

Cometerão ſoberbos os Gigantes,
Com guerra vão, o olimpo claro, & puro,
Tentou Peritho, & Theſeu, de ignorantes,
O Reino de Plutão horrendo & eſcuro,
Se ouue feitos no mundo tam poſſantes,
Não menos he trabalho illuſtre, & duro,
Quanto foi cometer Inferno, & Ceo,
Que outrem cometa a furia de Nereo.

Queimou o ſagrado templo de Diana,
Do ſutil Teſifonio fabricado,
Horoſtrato, por ſer da gente humana
Conhecido no mundo, & nomeado:
Se tambem com tais obras nos engana,
O deſejo de hum nome auentajado.
Mais razão ha que queira eterna gloria
Quem faz obras tam dignas de memoria.
Fim.



❧ Canto Terceiro.

Agora tu Caliope
me enſina,
O que contou ao Rei, o illustre
Gama:
Inſpira immortal canto, & voz diuina,
Neſte peito mortal, que tanto te ama.
Aſsi o claro inuentor da Medicina,
De quem Orpheo pariſte, o linda Dama:
Nunca por Daphne, Clicie, ou Leucothôe
Te negue o Amor diuido, como ſoe.

Poem tu Nimfa em effeito meu deſejo,
Como mereçe a gente Luſitana,
Que veja & ſaiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre & mana,
Deixa as flores de Pindo, que ja vejo
Banharme Apolo na agoa ſoberana.
Senão direy, que tẽs algum receio,
Que ſe eſcureça o teu querido Orpheio.

Promptos eſtauão todos eſcuitando,
O que o ſublime Gama contaria
Quando, deſpois de hum pouco eſtar cuidãdo,
Aleuantando o roſto, aſsi dizia:
Mandas me, o Rei, que conte declarando,
De minha gente a grão geanaloſia:
Não me manda contar eſtranha hiſtoria:
Mas mandas me louuar dos meus a gloria.

Que outrem poſſa louuar esforço alheio,
Couſa he que ſe coſtuma, & ſe deſeja:
Mas louuar os meus proprios, arreceio,
Que louuor tão ſospeito mal me esteja,
E pera dizer tudo, temo & creio,
Que qualquer longo tempo curto ſeja:
Mas pois o mandas, tudo ſe te deue,
Irey contra o que deuo, & ſerey breue.

Alem diſſo, o que a tudo em fim me obriga,
He não poder mentir no que diſſer,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me ha de ficar inda por dizer:
Mas perque nisto a ordem leue & ſiga,
Segundo o que deſejas de ſaber.
Primeiro tratarey da larga terra,
Deſpois direy da ſanguinoſa guerra.

Entre a Zona que o Cancro ſenhorea,
Meta Septentrional do Sol luzente,
E aquella, que por fria ſe arrecea
Tanto, como a do meyo por ardente,
Iaz a ſoberba Europa, a quem rodea,
Pela parte do Arcturo, & do Occidente:
Com ſuas ſalſas ondas o Occeano,
E pela Auſtral, o Mar Mediterrano.

Da parte donde o dia vem naſcendo,
Com Aſia ſe auizinha: mas o Rio
Que dos montes Rifeios vay correndo,
Na alagoa Meotis, curuo & frio
As diuide: & o Mar, que fero & horrendo
Vio dos Gregos o yrado ſenhorio:
Onde agora de Troia triumfante,
Não vê mais que a memoria o nauegante.

La onde mais debaxo està do Polo,
Os montes Hyperboreos aparecem,
E aquelles onde ſempre ſopra Eolo,
E co nome do ſopros, ſe ennobrecem,
Aqui tam pouca força tem de Apolo,
Os rayos que no mundo reſplandecem.
Que a neue eſtà contino pelos montes,
Gelado o mar, geladas ſempre as fontes.

Aqui dos Cytas, grande quantidade
Viuem, que antigamente grande guerra
Tiuerão, ſobre a humana antiguidade,
Cos que tinhão antão a Egipcia terra:
Mas quem tão fera estaua da verdade,
(Ia que o juyzo humano tanto erra:)
Pera que do mais certo ſe informàra,
Ao campo Damaſceno o perguntàra.

Agora neſtas partes ſe nomea,
A Lapia fria, a inculta Noruega,
Eſcandinauia Ilha, que ſe arrea,
Das victorias que Italia não lhe nega
Aqui, em quanto as agoas não refrea,
O congelado Inuerno, ſe nauega.
Hum braço do Sarmatico Occeoano,
Pelo Bruſio, Suecio, & frio Dano.

Entre eſte Mar, & o Tanais viue eſtranha
Gente, Ruthenos, Moſcos, & Liuonios,
Sarmatas outro tempo, & na montanha
Hircinia, os Marcomanos ſam Polonios
Sugeitos ao Imperio de Alemanha,
Sam Saxones, Boemios, & Panonios,
E outras varias nações, que o Reno frio
Laua, & o Danubio, Amaſis, & Albis Rio.

Entre o remoto Iſtro, & o claro eſtreito,
Aonde Hele deixou, co nome, a vida,
Estão os Traces de robuſto peito,
Do fero Marte, patria tam querida,
Onde co Hemo, o Rodope ſugeito
Ao Otomano està, que ſometida,
Bizancio tem a ſeu ſeruiço indino,
Boa injuria do grande Coſtantino.

Logo de Macedonia eſtão as gentes,
A quem laua do Axio a agoa fria:
E vos tamhem, o terras excelentes,
Nos coſtumes, engenhos, & ouſadia,
Que criaſtes os peitos eloquentes,
E os juizos de alta fantaſia:
Com quem tu clara Grecia o Ceo penetras,
E não menos por armas, que por letras.

Logo os Dalmatas viuem, & no ſeio,
Onde Antenor ja muros leuantou,
A ſoberba Veneza eſtâ no meio
Das agoas, que tam baxa começou
Da terra, hum braço vem ao mar, que cheio
De esforço, nações varias ſogeitou,
Braço forte, de gente ſublimada,
Não menos nos engenhos que na eſpada.

Em torno o cerca o Reino Neptunino,
Cos muros naturais, por outra parte,
Pela meyo o diuide o Apinino,
Que tam illuſtre fez o patrio Marte:
Mas deſpois que o porteiro tem diuino,
Perdendo o esforço veio, & bellica arte:
Pobre eſtà ja de antiga poteſtade,
Tanto Deos ſe contenta de humildade.

Galia ali ſe verà, que nomeada,
Cos Ceſareos Triumfos foy no mundo,
Que do Sequana, & Rôdano he regada,
E do Garuna frio, & Reno fundo:
Logo os montes da Nimpha ſepultada
Pyrene ſe aleuantão, que ſegundo
Antiguidades contão, quando arderão,
Rios de ouro, & de prata antão corrèrão.

Eis aqui ſe deſcobre a nobre Eſpanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo ſenhorio & gloria eſtranha,
Muitas voltas tem dado a fatal roda:
Mas nunca poderà, com força, ou manha,
A fortuna inquieta porlhe noda:
Que lha não tire o esforço & ouſadia,
Dos belicoſos peitos, que em ſi cria.

Com Tingitania enteſta, & ali parece
Que quer fechar o mar Mediterrano,
Onde o ſabido estreito ſe ennobrece,
Co extremo trabalho do Thebano:
Com nações differentes ſe engrandece,
Cercadas com as ondas do Occeano.
Todas de tal nobreza, & tal valor,
Que qualquer dellas cuida que he milhor.

Tem o Tarragones, que ſe fez claro,
Sujeitando Partênope inquieta,
O Nauarro, as Aſturias, que reparo
Ia forão, contra a gente Mohometa,
Tem o Galego cauto, & o grande & raro
Caſtelhano, a quem fez o ſeu Planeta,
Restituidor de Eſpanha, & ſenhor della,
Bethis, Lião, Granada, com Castella.

Eis aqui quaſi cume da cabeça,
De Europa toda, o Reino Luſitano,
Onde a Terra ſe acaba, & o Mar começa,
E onde Febo repouſa no Occeano:
Eſte quis o Ceo juſto, que ſloreça
Nas armas, contra o torpe Mauritano,
Deitando o de ſi fora, & la na ardente
Affrica eſtar quieto o nam conſente.

Eſta he a ditoſa patria minha amada,
Aa qual ſe o Ceo me da, que eu ſem perigo
Torne, com eſta empreſa ja acabada,
Acabeſe eſta luz ali comigo.
Eſta foy Luſitania diriuada,
De Luſo, ou Lyſa: que de Bacho antigo,
Filhos forão pareçe, ou companheiros,
E nella antam os Incolas primeiros.

Desta o Paſtor naſceo, que no ſeu nome
Se ve, que de homem forte os feitos teue,
Cuja fama, ninguem virà que dome,
Pois a grande de Roma não ſe atreue:
Eſta, o velho que os filhos proprios come,
Por decreto do, Ceo ligeiro, & leue,
Veo a fazer no mundo tanta parte,
Criando a Reino illuſtre, & foi deſta arte.

Hum Rei, por nome Affonſo, foy na Eſpanha,
Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
Que por armas ſanguinas, força & manha
A muitos fez perder a vida, & a terra:
Voando deſte Rei a fama eſtranha,
Do Herculano Calpe aa Caſpia ſerra,
Muitos, pera na guerra eſclarecerſe,
Vinhão a elle, & aa morte offerecerſe.

E com hum amor intrinſeco acendidos
Da Fè, mais que das honras populares,
Erão de varias terras conduzidos,
Deixando a patria amada, & proprios lares
Deſpois que em feitos altos & ſubidos.
Se moſtrarão nas armas ſingulares.
Quis o famoſo Affonſo, que obras tais,
Leuaſſem premio digno, & dões agoais.

Deſtes Anrique dizem que ſegundo,
Filho de hum Rei de Vngria exprimentado,
Portugal ouue em ſorte, que no Mundo
Entam não era illuſtre, nem prezado:
E pera mais ſinal damor profundo,
Quis o Rei Caſtelhano, que caſado,
Com Tereſa ſua filha o Conde foſſe,
E com ella das terras tomou poſſe.

Eſte deſpois que contra os deſcendentes,
Da eſcraua Agar, victorias grandes teue,
Ganhando muitas terras adjacentes,
Fazendo o que a ſeu forte peito deue.
Em premio destes feitos excellentes,
Deulhe o ſupremo Deos, em tempo breue,
Hum filho, que illuſtraſſe o nome vfano
Do belicoſo Reino Luſitano.

Ia tinha vindo Anrique da conquista,
Da cidade Hyeroſolima ſagrada,
E do Iordão a area tinha vista,
Que vio de Deos a carne em ſi lauada,
Que não tendo Gotfredo a quem reſiſta,
Depois de ter Iudea ſojugada.
Muitos que nestas guerras o ajudárão,
Pera ſeus ſenhorios ſe tornàrão.

Quando chegado ao fim de ſua idade,
O forte & famoſo Vngaro estremado,
Forçado da fatal neceſsidade,
O ſpirito deu, a quem lho tinha dado:
Ficaua o filho em tenra mocidade,
Em quem o pay deixaua ſeu traſlado:
Que do Mundo os mais fortes igualaua,
Que de tal pay tal filho ſe eſperaua.

Mas o velho rumor, não ſey ſe errado,
Que em tanta antiguidade não ha certeza,
Conta que a mãy tomando todo o eſtado
Do ſegundo Hymeneo, não ſe despreza:
O filho orfão deixaua deſerdado,
Dizendo que nas terras, a grandeza
Do ſenhorio todo, ſo ſua era,
Porque pera caſar ſeu pay lhas dera.

Mas o Principe Affonſo, que deſta arte
Se chamaua, do Auô tomando o nome,
Vendoſe em ſuas terras não ter parte,
Que a mãy com ſeu marido as mãda & come,
Feruendo lhe no peito o duro Marte,
Imagina conſigo como as tome.
Reuoluidas as cauſas no conceito,
Ao propoſito firme ſegue o effeito.

De Guimarães o campo ſe tingia,
Co ſangue proprio da intestina guerra,
Onde a mãy que tam pouco o perecia,
A ſeu filho negaua o amor, & a terra,
Co elle posta em campo ja ſe via,
E não ve a ſoberba, o muito que erra.
Contra Deos, contra o maternal amor:
Mas nella o ſenſual era maior.

O Progne crua, o magica Medea,
Se em voſſos proprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,
Olhay que inda Tereſa peca mais:
Incontinencia ma, cubiça fea,
São as cauſas deste erro principais.
Scilla por hũa mata o velho pay,
Eſta por ambas, contra o filho vay.

Mas ja o Principe claro, o vencimento,
Do padrasto & da inica mãy leuaua,
Ia lhe obedece a terra num momento,
Que primeiro contra elle pelejaua.
Porem vencido de Ira o entendimento,
A mãy em ferros aſperos ataua:
Mas de Deos foi vingada em tempo breue,
Tanta veneração aos pais ſe deue.

Eis ſe ajunta o ſoberbo Castelhano,
Pera vingar a injuria de Tereja,
Contra o tam raro em gente Luſitano,
A quem nenhum trabalho agraua, ou peſa:
Em batalha cruel, o peito humano,
Ajudado da Angelica defeſa.
Não ſo contra tal furia ſe ſuſtenta:
Mas o inimigo aſperrimo affugenta.

Não paſſa muito tempo, quando o forte
Principe, em Guimarães eſta cercado,
De infinito poder, que deſta ſorte,
Foy refazerſe o immigo magoado:
Mas com ſe offerecer aa dura morte,
O fiel Egas amo, foy liurado.
Que de outra arte podêra ſer perdido,
Segundo estaua mal aperçebido.

Mas o leal vaſſallo conhecendo,
Que ſeu ſenhor não tinha reſiſtencia,
Se vay ao Caſtelhano, prometendo,
Que elle faria darlhe obediencia.
Leuanta o inimigo o cerco horrendo,
Fiado na promeſſa, & conſciencia
De Egas moniz mas não conſente o peito
Do moço illuſlre, a outrem ſer ſogeito.

Chegado tinha o prazo prometido,
Em que o Rei Castelhano ja agoardaua,
Que o Principe a ſeu mando ſometido,
Lhe deſſe a obediencia que eſperaua.
Vendo Egas, que ficaua fementido,
O que delle Caſtella não cuydaua,
Determina de dar a doçe vida,
A troco da palaura mal comprida.

E com ſeus filhos & molher ſe parte,
A aleuantar co elles a fiança,
Deſcalços, & deſpidos, de tal arte,
Que mais moue a piedade que a vingança.
Se pretendes Rei alto de vingarte,
De minha temeraria confiança,
Dizia, eis aqui venho offerecido,
A te pagar co a vida o prometido.

Ves aqui trago as vidas inocentes,
Dos filhos ſem peccado, & da conſorte,
Se a peitos generoſos, & excellentes,
Dos fracos ſatisfaz a fera morte.
Ves aqui as mãos, & a lingoa delinquentes,
Nellas ſos exprimenta, toda ſorte
De tormentos, de mortes, pelo eſtillo
De Scinis, & do touro de Perillo.

Qual diante do algoz o condenado,
Que ja na vido a morte tem bebido,
Poem no çepo a garganta: & ja entregado,
Eſpera pelo golpe tam temido:
Tal diante do Principe indinado,
Egas eſtaua a tudo offerecido:
Mas o Rei vendo a eſtranha lealdade,
Mais pode em fim que a Ira a Piedade.

O grão fidelidade Portugueſa,
De vaſſallo, que a tanto ſe obrigaua,
Que mais o Perſa fez naquella empreſa,
Onde roſto & narizes ſe cortaua,
Do que ao grande Dario tanto peſa,
Que mil vezes dizendo ſuspiraua.
Que mais o ſeu Zopiro ſão prezâra,
Que vinte Babilonias que tomàra

Mas ja o Principe Affonſo aparelhaua,
O Luſitano exercito ditoſo,
Contra o Mouro que as terras habitaua,
Dalem do claro Tejo deleitoſo:
Ia no campo de Ourique ſe aſſentaua,
O arraial ſoberbo, & belicoſo:
Defronte do inimigo Sarraceno,
Poſto que em força, & gente tam pequeno.

Em nenhũa outra couſa confiado,
Senão no ſummo Deos, que o Ceo regia,
Que tam pouco era o pouo bautizado,
Que pera hum ſo cem Mouros aueria.
Iulga qualquer juyzo ſoſſegado,
Por mais temeridade que ouſadia,
Cometer hum tamanho ajuntamento,
Que pera hum caualleiro ouueſſe cento.

Cinco Reis Mouros ſam os inimigos,
Dos quaes o principal Ismar ſe chama,
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde ſe alcança a illuſtre fama:
Seguem guerreiras Damas ſeus amigos,
Imitando a fermoſa & forte Dama,
De quem tanto os Troyanos ſe ajudârão,
E as que o Termodonte ja goſtârão.

A matutina luz ſerena, & fria,
As Estrellas do Pollo ja apartaua,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amoſtrando ſe a Affonſo o animaua:
Elle adorando quem lhe aparecia,
Na Fê todo inflamado aſsi gritaua.
Aos infieis Senhor, aos infieis,
E não a my que creio o que podeis.

Com tal milagre, os animos da gente
Portugueſa, inflamados leuantauão,
Por ſeu Rei natural, eſte excelente
Principe, que do peito tanto amauão:
E diante do exercito potente,
Dos imigos, gritando o ceo tocauão:
Dizendo em alta voz, real, real,
Por Affonſo alto Rei de Portugal.

Qoal cos gritos & vozes incitado,
Pola montanha o rabido Moloſo,
Contra o Touro remete, que fiado
Na força eſtà do corno temeroſo:
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo mais ligeiro que forçoſo,
Ate que em fim rompendolhe a garganta,
Do brauo a força horrenda ſe quebranta.

Tal do Rei nouo, o eſtamago acendido,
Por Deos & polo pouo juntamente,
O barbaro comete apercebido,
Co animoſo exercito rompente:
Leuantão nisto os perros o alarido
Dos gritos, tocam a arma, ſerue a gente,
As lanças & arcos tomão, tubas ſoão,
Inſtromentos de guerra tudo atroão.

Bem como quando a flama que ateada,
Foi nos aridos campos (aſoprando
O ſibilante Boreas) animada
Co vento, o ſeco mato vay queimando:
A paſtoral companha, que deitada,
Co doçe ſono estaua, deſpertando,
Ao eſtridor do fogo que ſe atea,
Recolhe o fato, & ſoge pera a aldea.

Deſta arte o Mouro atonito & toruado,
Toma ſem tento as armas muy depreſſa,
Não foge: mas eſpera confiado,
E o ginete belligero arremeſſa:
O Portugues o encontra denodado,
Pelos peitos as lanças lhe atraueſſa.
Hũs caem meios mortos, & outros vão
A ajuda conuocando do Alcorão.

Ali ſe vem encontros temeroſos,
Pera ſe desfazer hũa alta ſerra,
E os animais correndo furioſos,
Que Neptuno amoſtrou ferindo a terra:
Golpes ſe dão medonhos, & forçoſos,
Por toda a parte andaua aceſa a guerra:
Mas o de Luſo, arnes, couraça & malha,
Rompe, corta, desfaz, a bola & talha.

Cabeças pelo campo vão ſaltando,
Braços, pernas, ſem dono & ſem ſentido,
E doutros as entranhas palpitando,
Palida a cor, o geſto amortecido:
Ia perde o campo o exercito nefando,
Correm rios do ſangue deſparzido
Com que tambem do campo a cor ſe perde
Tornado Carmeſi de branco & verde.

Ia fica vencedor o Luſitano
Recolhendo os trofeos & preſa rica,
Desbaratado & roto o Mauro Hispano,
Tres dias o gram Rei no campo fica:
Aqui pinta no branco eſcudo vfano,
Que agora esta victoria certifica:
Cinco escudos azues eſclarecidos,
Em ſinal destes cinco Reis vencidos.

E neſtes cinco eſcudos pinta os trinta
Dinheiros, porque Deos fora vendido,
Eſcreuendo a memoria em varia tinta,
Daquelle de quem foy fauorecido,
Em cada hum dos cinco, cinco pinta,
Porque aſsi fica o numero comprido:
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azues que em Cruz pintando veio.

Paſſado ja algum tempo, que paſſada
Era esta grão victoria, o Rei ſubido
A tomar vay Leiria, que tomada
Fora muy pouco auia, do vencido:
Com eſta a forte Arronches ſojugada
Foy juntamente: & o ſempre ennobrecido
Scabelicaſtro, cujo campo ameno,
Tu claro Tejo regas tam ſereno.

A eſtas nobres villas ſometidas,
Ajunta tambem Mafra, em pouco eſpaço,
E nas ſerras da Lua conhecidas,
Sojuga a ſria Sintra, o duro braço,
Sintra onde as Naiades eſcondidas
Nas fontes, vão fugindo ao doçe laço:
Onde Amor as enreda brandameme,
Nas agoas acendendo fogo ardente.

E tu nobre Lisboa, que no Mundo,
Facilmente das outras es princeſa,
Que edificada foſte do facundo,
Por cujo engano foy Dardania aceſa:
Tu a quem obedece o Mar profundo,
Obedeceste aa força Portugueſa.
Ajudada tambem da forte armada,
Que das Boreais partes foy mandada.

La do Germanico Albis, & do Reno,
E da fria Bretanha conduzidos,
A destruir o pouo Sarraceno,
Muitos com tenção ſancta erão partidos,
Entrando a bocaja, do Tejo ameno,
Co arrayal do grande Affonſo vnidos.
Cuja alta fama antão ſubia aos ceos,
Foy posto cerco aos muros Vliſſeos.

Cinco vezes a Lũa ſe eſcondêra,
E outras tantas moſtrâra cheio o rosto,
Quando a Cidade entrada ſe rendêra,
Ao duro cerco, que lhe eſtaua poſto.
Foy a batalha tam ſanguina & fera,
Quanto obrigaua o firme proſupoſto:
De vencedores aſperos, & ouſados,
E de vencidos, ja deſesperados.

Deſta arte em fim tomada ſe rendeo,
Aquella que nos tempos ja paſſados
Aa grande força nunca obedeceo,
Dos frios pouos Sciticos ouſados:
Cujo poder a tanto ſe estendeo,
Que o Ibero o vio, & o Tejo amedrontados.
E em fim co Betis tanto algum podêrão,
Que aa terra do Vandalia nome dèrão.

Que cidade tam forte, por ventura
Auera que reſiſta, ſe Lisboa
Não pede reſistir aa força dura
Da gente, cuja fama tanto voa.
Ia lhe obedece toda a Eſtremadura,
Obidos, Alanquer, por onde ſoa
O tom das freſcas agoas, entre as pedras,
Que murmurando laua, & Torres vedras.

E vos tambem, o terras transtaganas,
Affamadas co dom da flaua Ceres,
Obedeceis aas forças mais que humanas,
Entregando lhe os muros, & os poderes.
E tu laurador Mouro, que te enganas,
Se ſustentar a fertil terra queres.
Que Eluas, & Moura, & Serpa conhecidas,
E Alcaçare do ſal, eſtão rendidas.

Eis a nobre Cidade, certo aſſento,
Do rebelde Sertorio antigamente,
Onde ora as agoas nitidas de argento,
Vem ſuſtentar de longo a terra, & a gente,
Pelos arcos reaes, que cento & cento
Nos ares ſe aleuantão nobremente.
Obedeceo, por meio & ouſadia
De Giraldo, que medos não temia.

Ia na cidade Beja vay tomar,
Vingança de Trancoſo deſtruida,
Affonſo que não ſabe ſoſegar,
Por eſtender co a fama a curta vida:
Não ſe lhe pede muito ſustentar
A Cidade: mas ſendo ja rendida,
Em toda a couſa viua, a gente yrada,
Prouando os fios vay da dura eſpada.

Com eſtas ſojugada foy Palmella,
E a piſcoſa Cizimbra, & juntamente,
Sendo ajudado mais de ſua eſtrella,
Desbarata hum exercito potente:
Sentio o a Villa, & vio o a ſerra della,
Que a ſocorrella vinha deligente.
Pela fralda da ſerra deſcuydodo,
Do temeroſo encontro inopinado.

O Rei de Badajoz era alto Mouro,
Com quatro mil cauallos furioſos,
Innumeros piões, darmas & de curo
Guarnecidos, guerreiros & luſtroſos:
Mas qual no mes de Maio o brauo Touro
Cos ciumes da vaca, arreceoſos,
Sentindo gente o bruto, & cego amante
Saltea o deſcuidado caminhante.

Deſta arte Affonſo ſubito moſtrado,
Na gente da, que paſſa bem ſegura,
Fere, mata, derriba denodado,
Foge o Rei Mouro, & ſo da vida cura,
Dum Panico terror todo aſombrado,
So de ſeguillo o exercito procura.
Sendo eſtes que fizerão tanto aballo,
Nomais que ſo ſeſenta de cauallo.

Logo ſegue a victoria ſem tardança,
O grão Rei incanſabil, ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja vſança
Era andar ſempre terras conquiſtando,
Cercar vay Badajoz, & logo alcança
O fim de ſeu deſejo, pelejando
Com tanto esforço & arte, & valentia,
Que a fez fazer aas outras companhia.

Mas o alto Deos, que pera longe guarda,
O caſtigo daquelle que o mereçe,
Ou pera que ſe emmende aas vezes tarda,
Ou por ſegredos que homem não conheçe,
Se ate qui ſempre o forte Rei reſguarda,
Dos perigos a que elle ſe offereçe.
Agora lhe não deixa ter defeſa,
Da maldição da mãy que estaua preſa.

Que eſtando na cidade que cercâra,
Cercado nella foy dos Lioneſes,
Porque a conquiſta della lhe tomâra,
De Lião ſendo, & não dos Portugueſes.
A pertinacia aqui lhe custa cara,
Aſsi como acontece muytas vezes,
Que em ferros quebra as pernas, indo aceſo
Aa batalha onde foy vencido & preſo.

O famoſo Pompeyo não te pene,
De teus feitos illuſtres a ruyna,
Nem ver que a juſta Nemeſis ordene,
Ter teu ſogro de ti victoria dina,
Poſto que o frio Faſis, ou Syene
Que pera nenhum cabo a ſombra inclina:
O Bootes gellado, & a linha ardente,
Temeſſem o teu nome geralmente.

Poſto que a rica Arabia, & que os feroces
Eniocos, & Colcos, cuja fama
O Veo dourado eſtende: & os Capadoçes,
E Iudea, que hum Deos adora & ama,
E que o molles Sofenos, & os Atroces,
Silicios, com a Armenia, que derrama,
As agoas dos dous Rios, cuja fonte
Estâ noutro mais alto & ſancto Monte.

E poſto em fim que deſdo mar de Atlante,
Ate o Scitico Tauro, monte erguido
Ia vencedor te viſſem, não te eſpante
Se o campo Emathio ſo te vio vencido,
Porque Affonſo veras ſoberbo & ouante,
Tudo render, & ſer deſpois rendido.
Aſsi o quis o conſelho alto celeſte,
Que vença o ſogro a ti, & o genro a este.

Tornado o Rei ſublime finalmente,
Do diuino juyzo caſtigado,
Deſpois que em Santarem ſoberbamente,
Em vão dos Sarracenos foy cercado.
E deſpois que do martyre Vicente,
O ſanctiſsimo corpo venerado.
Do ſacro promontorio conhecido,
Aa cidade Vliſſea foy trazido.

Porque leuaſſe auante ſeu deſejo,
Ao forte filho manda o laſſo velho,
Que aas terras ſe paſſaſſe dalentejo,
Com gente, & co beligero aparelho:
Sancho, desforço & danimo ſobejo,
Auante paſſa, & faz correr vermelho,
O rio que Seuilha vay regando,
Co ſangue mauro, barbaro & nefando.

E com eſta victoria cobiçoſo,
Ia não deſcanſa o moço ate que veja,
Outro eſtrago como este, temeroſo
No barbaro que tem cercado Beja.
Não tarda muito o Principe ditoſo,
Sem ver o fim daquillo que deſeja.
Aſsi eſtragado o Mouro, na vingança
De tantas perdas poem ſua eſperança.

Ia ſe ajuntão do monte, a quem Meduſa
O corpo fez perder, que teue o Ceo:
Ia vem do promontorio de Ampeluſa,
E do Tinge que aſſento foy de Anteo.
O morador de Abila não ſe eſcuſa,
Que tambem com ſuas armas ſe moueo:
Ao ſom da Mauritana & ronca tuba,
Todo o Reino que foy do nobre Iuba.

Entraua com toda esta companhia,
O Miralmomini em Portugal
Treze Reis mouros leua de valia,
Entre os quaes tem o ceptro Imperial:
E aſsi fazendo quanto mal podia,
O que em partes podia fazer mal.
Dom Sancho vay cercar em Santarem,
Porem não lhe ſocede muito bem.

Dalhe combates aſperos,fazendo
Ardis de guerra mil, o Mouro yroſo,
Não lhe aproueita ja trabuco horrendo,
Mina ſecreta, Ariete forçoſo:
Porque o filho de Affonſo, não perdendo
Nada do esforço, & acordo generoſo,
Tudo prouê com animo & prudencia,
Que em toda a parte ha esforço & reſiſtencia

Mas o velho a quem tinhão ja obrigado
Os trabalhoſos annos, ao ſoſego,
Eſtando na Cidade, cujo prado
Enuerdecem as agoas do Mondego:
Sabendo como o filho està cercado,
Em Santarem, do Mauro pouo cego,
Se parte diligente da Cidade,
Que não perde a preſteza co a idade.

E co a famoſa gente â guerra vſada,
vay ſocorrer o filho, & aſsi ajuntados,
A Portugueſa furia coſtumada,
Em breue os Mouros tem desbaratados:
A campina que toda eſtà qualhada
De marlotas, capuzes variados,
De cauallos, jaezes, preſa rica,
De ſeus ſenhores mortos chea fica.

Logo todo o reſtante ſe partio
De Luſitania, poſtos em fugida,
O Miralmomini ſo não fogio,
Por que antes de fogir lhe foge a vida,
A quem lhe eſta victoria permitio,
Dão louuores & graças ſem medida:
Que em caſos tão eſtranhos claramente,
Mais peleja o fauor de Deos que a gente.

De tamanhas victorias triumfaua,
O velho Affonſo, Principe ſubido,
Quando quem tudo em fim vencendo andaua,
Da larga, & muita idade foi vencido,
A palida doença lhe tocaua,
Com fria mão o corpo enfraquecido:
E pagàrão ſeus annos deste geito,
Aa triſte Libitina ſeu dereito

Os altos promontorios o chorarão,
E do rios as agoas ſaudoſas,
Os ſemeados campos alagarão,.
Com lagrimas correndo piadoſas:
Mas tanto pelo mundo ſe alargarão
Com fama ſuas obras valeroſas,
Que ſempre no ſeu Reino chamarão,
Affonſo, Affonſo os eccos, mas em vão.

Sancho forte mancebo, que ficàra
Imitando ſeu pay na valentia,
E que em ſua vida ja ſe exprimentâra,
Quando o Betis de ſangue ſe tingia,
E o barbaro poder desbaratâra,
Do Iſmaelita Rei de Andaluzia.
E mais quando os que Beja em vão cercârão.
Os golpes de ſeu braço em ſi prouârão.

Deſpois que foy por Rei aleuantado,
Auendo poucos annos que reinaua,
A cidade de Silues tem cercado,
Cujos campos o barbaro lauraua:
Foy das valentes gentes ajudado,
Da Germanica armada, que paſſaua.
De armas fortes & gente apercebida,
A recobrar Iudea ja perdida.

Paſſauão a ajudar na ſancta empreſa,
O roxo Federico, que moueo
O pederoſo exercito, em defeſa
Da cidade onde Christo padeceo,
Quando Guido co a gente em ſede aceſa,
Ao grande Saladino ſe rendeo:
No lugar onde aos Mouros ſobejauão,
As agoas que os de guido deſejauão.

Mas a fermoſa armada, que viera
Por contraste de vento, aaquella parte
Sancho quis ajudar na guerra fera,
Ia que em ſeruiço vay, do ſancto Marte
Aſsi como a ſeu pay acontecèra,
Quando tomou Lisboa, da meſma arte,
Do Germano ajudado Silues toma,
E o brauo morador deſtrue & doma.

E ſe tantos tropheos do Mahometa,
Aleuantando vay tambem do forte
Liones, não conſente eſtar quieta
A terra vſada aos caſos de Mauorte:
Ate que na ceruiz ſeu jugo meta
Da ſoberba Tui, que a mesma ſorte,
Veo ter a muitas villas ſuas vizinhas,
Que por armas tu Sancho humildes tinhas.

Mas entre tantas palmas ſalteado
Da temeroſa morte, fica erdeiro,
Hum filho ſeu de todos estimado,
Que foy ſegundo Affonſo, & Rei terceiro
No tempo deſte, aos Mauros foi tomado
Alcaçere do ſal por derradeiro:
Por que dantes os Mouros o tomarão,
Mas agora eſtruidos o pagarão.

Morto despois Affonſo lhe ſucede
Sancho ſegundo, manſo & deſcuidado,
Que tanto em ſeus deſcuidos ſe deſmede,
Que de outrem quẽ mandaua era mandado,
De gouernar o Reino que outro pede,
Por cauſa dos priuados foi priuado,
Porque como por elles ſe regia,
Em todos os ſeus vicios conſentia.

Não era Sancho não tam deſoneſto,
Como Nero, que hum moço recebia
Por molher, & deſpois horrendo incesto,
Com a mãy Agripina cometia:
Nem tam cruel aas gentes & moleſto,
Que a cidade queimaſſe onde viuia,
Nem tam mao como foi Hedio gabàlo,
Nem como o mole Rei Sardanapâlo.

Nem era o pouo ſeu tiranizado,
Como Sicilia foy de ſeus tiranos,
Nem tinha como Phalaris achado,
Genero de tormentos inhumanos:
Mas o Reino de altiuo, & coſtumado
A ſenhores em tudo ſoberanos.
A Rei não obedece, nem conſente,
Que não for mais que todos excellente.

Por eſta cauſa o Reino gouernou,
O Conde Bolonhes, deſpois alçado
Por Rei, quando da vida ſe apartou,
Seu yrmão Sancho, ſempre ao ocio dado
Eſte que Affonſo o brauo ſe chamou,
Despois de ter o Reino ſegurado:
Em dilatalo cuida, que em terreno
Não cabe o altiuo peito tam pequeno.

Da terra dos Algarues, que lhe fora
Em caſamento dada, grande parte,
Recupêra co braço, & deita fora
O Mouro mal querido ja de Marte:
Este de todofez liure & ſenhora
Luſitania,com força & bellica arte:
E acabou de oprimir a nação forte,
Na terra que aos de Luſo coube em ſorte.

Eis deſpois vem Dinis, que bem pareçe,
Do brauo Affonſo eſtirpe nobre & dina,
Com quem a fama grande ſe eſcureçe,
Da liberalidade Alexandrina.
Co este o Reino proſpero floreçe,
(Alcançada ja a paz aurea diuina)
Em constituições, leis & costumes,
Na terra ja tranquila claros lumes.

Fez primeiro em Coimbra exercitarſe,
O valeroſo officio de Minerua,
E de Helicona as Muſas fez paſſarſe,
A piſar de Mondego a fertil erua:
Quanto pode de Athenas deſejarſe,
Tudo o ſoberbo Apolo aqui reſerua.
Aqui as capellas da tecidas de ouro,
Do Bacaro, & do ſempre verde louro.

Nobres villas de nouo edificou,
Fortalezas, caſtellos muy ſeguros,
E quaſi o Reino todo reformou,
Com edificios grandes, & altos muros:
Mas deſpois que a dura Atropos cortou,
O fio de ſeus dias ja maduros:
Ficoulhe o filho pouco obediente,
Quarto Affonſo: mas forte & excelẽte:

Eſte ſempre as ſoberbas Caſtelhanas,
Co peito deſprezou firme & ſereno,
Porque não he das ſorças Luſitanas,
Temer poder maior, por mais pequeno
Mas porem quando as gentes Mauritanas,
A poſſuir o Eſperico terreno.,
Entrarão pelas terras de Caſtella,
Foy o ſoberbo Affonſo a ſocorrella.

Nunca com Semirâmis, gente tanta
Veio ôs campos Ydaſpicos enchendo,
Nem Atila, que Italia toda eſpanta,
Chamandoſe de Deos açoute horrendo.
Gottica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno barbaro eſtupendo,
Co poder exceſsiuo de Granada,
Foy nos campos Tarteſios ajuntada.

E vendo o Rei ſublime Caſtelhano,
A forca inexpugnabil, grande & forte,
Temendo mais o fim do pouo Hispano,
Ia perdido hũa vez, que a propria morte
Pedindo ajuda ao forte Luſitano,
Lhe mandaua a cariſsima conſorte,
Molher de quem a manda, & filha amada
Daquelle a cujo Reino foi mandada.

Entraua a fermoſiſsima Maria,
Polos paternais paços ſublimados,
Lindo o geſto: mas fora de alegria,
E ſeus olhos em lagrimas banhados,
Os cabellos Angelicos trazia,
Pelos eburneos hombros eſpalhados:
Diante do Pay ledo, que a agaſalha,
Estas palauras tais chorando eſpalha.

Quantos pouos a terra produzio
De Africa toda gente fera & estranha,
O grão Rei de Marrocos conduzio
Pera vir poſſuir a nobre Eſpanha:
Poder tamanho junto não ſe vio,
Despois que o ſalſo Mar a terra banha.
Trazem ferocidade, & furor tanto,
Que a viuos medo, & a mortos faz eſpanto.

Aquelle que me deſte por marido,
Por defender ſua terra amedrontada,
Co pequeno poder, offerecido
Ao duro golpe eſtà, da Maura eſpada,
E ſe não for contigo ſocorrido,
Verme as delle & do Reino ſer priuada,
Viuua & triſte, & posta em vida eſcura,
Sem marido, ſem Reino, & ſem ventura.

Por tanto, ô Rei, de quem com puro medo,
O corrente Muluca ſe congella,
Rompe toda a tardança, acude cedo,
Aa miſeranda gente de Caſtella.
Se eſſe gesto que moſtras claro & ledo,
De pay o verdadeiro amor aſſella:
Acude & corre pay, que ſe não corres,
Pode ſer que não aches quem ſocorres.

Não de outra ſorte a timida Maria
Falando eſtá, que a triſte Venus, quando
A Iupiter ſeu pay fauor pedia,
Pera Eneas ſeu filho, nauegando,
Que a tanta piedade o comouia,
Que caido das mãos o rayo infando.
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Peſandolhe do pouco que lhe pede.

Mas ja cos eſquadrões da gente armada,
Os Eborenſes campos vão qualhados,
Luſtra co Sol o arnes, a lança, a eſpada,
Vão rinchando os cauallos jaezados:
A canora trombeta embandeirada
Os corações aa paz acoſtumados:
Vay às fulgentes armas incitando
Polas concauidades retumbando.

Entre todos no meio ſe ſublima,
Das inſignias Reais acompanhado,
O vaſeroſo Affonſo, que por cima
De todos, leua o collo aleuantado,
E ſomente co geſto esforça & anima,
A qualquer coração amedrontado.
Aſsi entra nas terras de Castella,
Com a filha gentil Rainha della.

Iuntos os dous Affonſos finalmente,
Nos campos de Tarifa, eſtão defronte
Da grande multidão da cega gente,
Pera quem ſam pequenos campo & monte.
Não ha peito tão alto & tam potente,
Que de deſconfiança não ſe afronte,
Em quanto não conheça, & claro veja,
Que co braço dos ſeus Chriſto peleja.

Eſtão do Agar os netos caſi rindo,
Do poder dos Chrisſtãos fraco & pequeno,
As terras como ſuas repartindo,
Ante mão, entre o exercito Agareno:
Que com titulo falſo poſſuindo
Eſtà o famoſo nome Sarraceno.
Aſsi tambem com falſa conta & nua,
Aa nobre terra alhea chamão ſua.

Qual o membrudo & barbaro Gigante,
Do Rei Saul, com cauſa tam temido,
Vendo o Paſtor inorme eſtar diante,
So de pedras & esforço apercebido,
Com palauras ſoberbas o arrogante,
Despreza o fraco moço mal veſtido:
Que rodeando a funda o deſengana,
Quanto mais pode a Fê que a força humana.

Desta arte o Mouro perfido deſpreza,
O poder dos Christãos, & não entende,
Que eſtà ajudado da alta fortaleza,
A quem o Inferno horrifico ſe rende.
Co ella o Castelhano, & com deſtreza,
De Marrocos o Rei comete & offende.
O Portugues que tudo eſtima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.

Eis as lanças & eſpadas retenião,
Por cima dos arneſes, brauo eſtrago,
Chamão (ſegundo as leis que ali ſeguião,)
Hũs Mafamede, & os outros Sanctiago,
Os feridos com grita o Ceo ferião,
Fazendo de ſeu ſangue bruto lago,
Onde outros meios mortos ſe afogauão,
Quando do ferro as vidas eſcapauão.

Com esforço tamanho eſtrue & mata,
O Luſo ao Granadil, que em pouco eſpaço,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defeſa, ou peito de aço:
De alcançar tal victoria tam barata,
Inda não bem contente o forte braço,
Vay ajudar ao brauo Caſtelhano,
Que pelejando eſtà co Mauritano.

Ia ſe hia o Sol ardente recolhendo,
Pera a caſa de Thetis, & inclinado,
Pera o Ponente o veſpero trazendo,
Estaua o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro grande & horẽdo
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortindade, que a memoria,
Nunca no mundo vio tam gram victoria.

Não matou a quarta parte o forte Mario,
Dos que morrerão neſte vencimento,
Quando as agoas co ſangue do aduerſario,
Fez beber ao exercito ſedento,
Nem o Peno aſperiſsimo contrario,
Do Romano poder de naſcimento:
Quando tantos matou da illustre Roma,
Que alqueires tres de aneis dos mortos toma.

E ſe tu tantas almas ſo podeſte,
Mandor ao Reino eſcuro de Cocito,
Quando a ſancta Cidade desfizeſte
Do pouo pertinaz no antigo rito:
Permiſſam & vingança foy celeſte,
E não força de braço, o nobre Tito,
Que aſsi dos Vates foy profetizado,
E despois por I E S V certificado.

Paſſada eſta tão prospera victoria,
Tornado Affonſo aa Luſitana terra,
A ſe lograr da paz com tanta gloria,
Quanta ſoube ganhar na dura guerra,
O caſo triste & dino da memoria,
Que do ſepulchro os homẽs deſenterra,
Aconteceo da miſera, & mezquinha
Que deſpois de ſer morta foy Rainha.

Tu ſo, tu puro Amor com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deſte cauſa aa moleſta morte ſua,
Como ſe fora perfida inimiga:
Se dizem fero Amor que a ſede tua,
Nem com lagrimas triſtes ſe mitiga:
E porque queres aſpero & tirano
Tuas aras banhar em ſangue humano.

Eſtauas linda Ines poſta em ſoſego
De teus annos, colhendo doçe fructo,
Naquelle engano da alma, ledo & cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos ſaudoſos campos do Mondego,
De teus fermoſos olhos nunca enxuto,
Aos montes inſinando, & âs eruinhas
O nome que no peito eſcripto tinhas.

Do teu Principe ali te reſpondião,
As lembranças que na alma lhe morauão,
Que ſempre ante ſeus olhos te trazião,
Quando dos teus fermoſos ſe apartauão
De noite em doçes ſonhos, que mentião,
De dia em penſamentos que voauão.
E quanto em fim cuidaua, & quanto via,
Eram tudo memorias de alegria.

De outras bellas ſenhoras, & Princeſas,
Os deſejados tâlamos engeita,
Que tudo em fim, tu puro amor desprezas,
Quando hum gesto ſuaue te ſogeita:
Vendo estas namoradas eſtranhezas,
O velho pay ſeſudo, que reſpeita
O murmurar do pouo, & a fantaſia
Do filho, que caſarſe não queria.

Tirar Ines ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preſo,
Crendo co ſangue ſô da morte indina,
Matar do firme amor o fogo aceſo:
Que furor conſentio, que a eſpada fina,
Que pode ſustentar o grande peſo
Do furor Mauro, foſſe aleuantada,
Contra hũa fraca dama delicada?

Trazião a os horrificos algozes,
Ante o Rei, ja mouido a piedade:
Mas o pouo com falſas, & ferozes
Razões, aa morte crua o perſuade:
Ella com tristes & piedoſas vozes,
Saidas ſô da magoa, & ſaudade
Do ſeu Principe, & filhos que deixaua,
Que mais que a propria morte a magoaua.

Pera o Ceo criſtalino aleuantando,
Com lagrimas os olhos piedoſos,
Os olhos, porque as mãos lhe eſtaua atando,
Hum dos duros miniſtros riguroſos.
E deſpois nos mininos atentando,
Que tam queridos tinha, & tam mimoſos,
Cuja orfindade como mãy temia,
Pera o auô cruel aſsi dizia.

Se ja nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de naſcimento,
E nas aues agreſtes, que ſomente
Nas rapinas aerias tem o intento,
Com pequenas crianças vio a gente,
Terem tam piadoſo ſentimento,
Como co a mãy de Nino ja moſtrârão,
E cos yrmãos que Roma edificàrão.

O tu que tẽs de humano o geſto & o peito
(Se de humano he, matar hũa donzella
Fraca & ſem força, ſo por ter ſubjeito
O coração, a quem ſoube vencella)
A eſtas criançinhas tem reſpeito,
Pois o não tẽs aa morte eſcura della,
Mouate a piedade ſua & minha,
Pois te não moue a culpa que não tinha.

E ſe vencendo a Maura reſiſtencia,
A morte ſabes dar com fogo & ferro,
Sabe tambem dar vida com clemencia,
A quem pera perdela não fez erro:
Mas ſe to aſsi merece eſta inocencia,
Poem me em perpetuo & miſero deſterro,
Na Scitia fria, ou la na Lybia ardente,
Onde em lagrimas viua eternamente.

Poem me onde ſe vſe toda a feridade,
Entre Liões, & Tigres, & verey
Se nelles achar poſſo a piedade
Que entre peitos humanos não achey:
Ali co amor intrinſeco & vontade,
Naquelle por quem mouro, criarey
Eſtas reliquias ſuas que aqui viſte,
Que refrigerio ſejão da mãy triste.

Queria perdoarlhe o Rei benigno,
Mouido das palauras que o magoão:
Mas o pertinaz pouo, & ſeu deſtino
(Que deſta ſorte o quis) lhe não perdoão,
Arrancão das eſpadas de aço fino,
Os que por bom tal feito ali apregoão,
Contra hũa dama, ô peitos carniceiros
Feros vos amoſtrais, & caualleiros?

Qual contra a linda moça Policena,
Conſolação extrema da mãy velha,
Porque a ſombra de Achiles a condena,
Co ferro o duro Pirro ſe aparelha:
Mas ella os olhos com que o ar ſerena,
(Bem como paciente, & manſa ouelha)
Na miſera mãy postos, que endoudeçe
Ao duro ſacrificio ſe offereçe.

Tais contra Inès os brutos matadores,
No colo de alabaſtro, que ſoſtinha
As obras com que amor matou de amores
Aquelle que despois a fez Rainha:
As eſpadas banhando, & as brancas ſlores,
Que ella dos olhos ſeus regadas tinha,
Se encarniçauão, feruidos & yroſos,
No foturo castigo não cuidoſos.

Bem podêras, ô Sol, da viſta deſtes
Teus rayos apartar aquelle dia,
Como da ſeua meſa de Tyeſtes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Vos, ô concauos vales que podeſtes,
A voz extrema ouuir da boca fria,
O nome do ſeu Pedro que lhe ouuistes,
Por muito grande eſpaço repetistes.

Aſsi como a bonina que cortada,
Antes do tempo foy, candida & bella,
Sendo das mãos laciuas mal tratada,
Da minina que a trouxe na capella:
O cheiro traz perdido, & a cor murchada:
Tal eſtà morta a palida donzella,
Secas do roſto as roſas, & perdida
A branca & viua cor, co a doçe vida.

As filhas do Mondego, a morte eſcura
Longo tempo chorando memorarão,
E por memoria eterna em fonte pura
As lagrimas choradas transformarão:
O nome lhe poderão, que inda dura,
Dos amores de Ines que ali paſſarão.
Vede que freſca fonte rega as flores,
Que lagrimas ſam a agoa, & o nome amores

Não correo muito tempo que a vingança
Não viſſe Pedro das mortais feridas,
Que em tomando do Reino a gouernança,
A tomou dos fugidos humicidas:
Do outro Pedro cruiſsimo os alcança,
Que ambos immigos das humanas vidas,
O concerto fizerão duro & injuſto,
Que com Lepido, & Antonio fez Auguſto.

Este castigador foy reguroſo,
De latrocinios, mortes & adulterios,
Fazer nos maos cruezas, fero & yroſo,
Erão os ſeus mais certos refrigerios:
As cidades guardando juſtiçoſo,
De todos os ſoberbos vituperios,
Mais ladrões caſtigando aa morte deu,
Que o vagabundo Alcides, ou Theſeu.

Do juſto & duro Pedro naſce o brando
(Vede da natureza o deſconcerto)
Remiſſo, & ſem cuidado algum Fernando,
Que todo o Reino pos em muito aperto,
Que vindo o Caſtelhano deuastando
As terras ſem defeſa, eſteue perto
De deſtruirſe o Reino totalmente,
Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente.

Ou foy caſtigo claro do peccado,
De tirar Lianor a ſeu marido,
E caſar ſe co ella de enleuado,
Num falſo parecer mal entendido:
Ou foy que o coração ſogeito, & dado
Ao vicio vil, de quem ſe vio rendido,
Molle ſe fez, & fraco, & bem parece
Que hum baxo amor os fortes enfraquece.

Do peccado tiuerão ſempre a pena
Muitos, que Deos o quis, & permitio:
Os que forão roubar a bella Elena,
E com Apio tambem Tarquino o vio:
Pois por quem Dauid Sancto ſe condena?
Ou quem o Tribo illuftre deſtruio
De Benjamim? bem claro nolo inſina,
Por Sarra Faraô, Sychem por Dina.

E pois ſe os peitos fortes enfraqueçe,
Hum inconceſſo amor deſatinado,
Bem no filho de Almena ſe pareçe,
Quando em Omfale andaua transformado,
De Marco Antonio a fama ſe eſcureçe,
Com ſer tanto a Cleopatra affeiçoado:
Tu tambem Peno proſpero o ſentiſte,
Deſpois que hũa moça vil na Apulia viste.

Mas quem pode liurarſe por ventura,
Dos laços que amor arma brandamente
Entre as roſas & a neue humana pura,
O ouro, & o alabaſtro transparente
Quem de hũa peregrina fermoſura
De hum vulto de Meduſa propriamente
Que o coração conuerte que tem preſo,
Em pedra não: mas em deſejo aceſo.

Quem vio hum olhar ſeguro, hum geſto brando,
Hũa ſuaue & Angelica excelencia,
Que em ſi eſtâ ſempre as almas trãformãdo
Que tiueſſe contra ella reſiſtencia:
Deſculpado por certo estâ Fernando,
Pera quem tem de amor experencia:
Mas antes tendo liure a fantaſia,
Por muyto mais culpado o julgaria.
Fim.



❧ Canto Quarto.

Deſpois de procello
ſa tempestade,
Nocturna ſombra, & ſibilante
vento,
Traz a manhaã ſerena claridade,
Eſperança de porto, & ſaluamento:
Aparta o Sol a negra eſcuridade,
Remouendo o temor ao penſamento:
Aſsi no Reino forte aconteceo,
Deſpois que o Rei Fernando ſalleçeo.

Porque ſe muito os noſſos deſejarão,
Quem os danos & offenſas va vingando,
Naquelles que tãbem ſe aproueitârão,
Do deſcuido remiſſo de Fernando,
Deſpois de pouco tempo o alcançârão,
Ioanne ſempre illuſtre aleuantando
Por Rei, como de Pedro vnico erdeiro
(Ainda que bastardo) verdadeiro.

Ser iſto ordenação dos ceos diuina,
Por ſinais muito claros ſe moſtrou
Quando em Euora a voz de hũa minina,
Ante tempo falando o nomeou:
E como couſa em fim que o Ceo destina,
No berço o corpo, & a voz aleuantou,
Portugal, Portugal, alçando a mão
Diſſe, polo Rei nouo Dom Ioão.

Alteradas então do Reino as gentes,
Co odio que occupado os peitos tinha,
Abſolutas cruezas, & euidentes
Faz do pouo o furor por onde vinha,
Matando vão amigos & parentes,
Do adultero Conde, & da Rainha,
Com quem ſua incontinencia deſoneſta
Mais (despois de viuua) manifeſta.

Mas elle em fim com cauſa deſonrado,
Diante della a ferro frio morre,
De outros muitos na morte acompanhado
Que tudo o fogo erguido queima & corre:
Quem como Astianas precipitado
(Sem lhe valerem ordẽs) de alta torre
A quem ordẽs, nem aras, nem reſpeito,
Quem nu por ruas & em pedaços feito.

Podẽſe por em longo eſquecimento,
As cruezas mortais que Roma vio
Feitas do feroz Mario, & do cruento
Syla, quando o contrario lhe fogio:
Por iſſo Lianor, que o ſentimento
Do morto Conde ao mundo deſcobrio,
Faz contra Luſitania vir Caſtella,
Dizendo ſer ſua filha herdeira della.

Beatriz era a filha, que caſada
Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede,
Por filha de Fernando reputada,
Se a corrompida fama lho concede.
Com esta voz Caſtella aleuantada,
Dizendo que eſta filha ao pay ſucede:
Suas forças ajunta pera as guerras
De varias regiões & varias terras.

Vem de toda a prouincia que de hum Brigo,
(Se foy) ja teue o nome diriuado
Das terras que Fernando, & que Rodrigo
Ganharão do tirano & Mauro eſtado:
Não eſtimão das armas o perigo,
Os que cortando vão co duro arado
Os campos Lioneſes, cuja gente,
Cos Mouros foi nas armas excellente.

Os Vandalos, na antiga valentia
Ainda confiados,ſe ajuntauão
Da cabeça de toda Andaluzia,
Que do Goadalquibir as agoas lauão,
A nobre Ilha tambem ſe apercebia,
Que antigamente os Tirios habitauão:
Trazendo por inſignias verdadeiras
As Herculeas colunas nas bandeiras.

Tambem vem la do Reino de Toledo,
Cidade nobre & antiga, a quem cercando
O Tejo em torno vay ſuaue & ledo,
Que das ſerras de Conca vem manando:
A vos outros tambem não tolhe o medo,
O ſordidos Galegos, duro bando,
Que pera reſistirdes, vos armastes,
Aaquelles, cujos golpes ja prouastes.

Tambem mouem da guerra as negrasfurias,
A gente Bizcainha, que careçe
De polidas razões, & que as injurias
Muito mal dos estranhos compadeçe:
A terra de Guipuſcua, & das Aſturias
Que com minas de ferro ſe ennobreçe,
Armou delle, os ſoberbos matadores,
Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores.

Ioane, a quem do peito o eforço creçe,
Como a Sariſam Hebreo da guedelha,
Poſto que tudo pouco lhe pareçe
Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha,
E não porque conſelho lhe faleçe,
Cos principaes ſenhores ſe aconſelha:
Mas ſo por ver das gentes as ſentenças,
Que ſempre ouue entre muitos diferenças.

Não falta com razões quem deſconcerte,
Da opinião de todos, na vontade,
Em quem o esforço antigo ſe conuerte,
Em deſuſada & ma deſlealdade,
Podendo o temor mais, gelado, inerte
Que a propria & natural fidelidade,
Negão o Rei & a patria, & ſe conuem
Negarão (como Pedro) o Deos que tem.

Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe,
No forte dom Nuno aluerez: mas antes
Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe,
Reprouando as vontades incoſtantes:
A aquellas duuidoſas gentes diſſe,
Com palauras mais duras que elegantes,
A mão na eſpada irado, & não facundo,
Ameaçando a terra, o mar, & o mundo.

Como da gente illuſtre Portugueſa,
Ha de auer quem refuſe o patrio Marte?
Como, deſta prouincia que princeſa
Foy das gentes na guerra em toda parte,
Ha de ſair quem negue ter defeſa,
Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte
De Portugues, & por nenhum reſpeito
O proprio Reino queira ver ſogeito?

Como, não ſois vos inda os deſcendentes
Daquelles, que debaixo da bandeira,
Do grande Enriquez, feros & valentes
Venceſtes eſta gente tam guerreira?
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Poſeram em fugida, de maneira,
Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão
Preſos, afora a preſa que tiuerão?

Com quem forão contino ſopeados
Estes, de quem o eſtais agora vos,
Por Dinis & ſeu filho, ſublimados
Se não cos voſſos fortes pais & auôs?
Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados,
Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos,
Torne vos voſſas forças o Rei nouo,
Se he certo que co Rei ſe muda o pouo.

Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes
Igual ao Rei que agora aleuantaſtes,
Desbaratareis tudo o que quiſerdes,
Quanto mais a quem ja desbarataſtes:
E ſe com iſto em fim vos não mouerdes,
Do penetrante medo que tomastes,
Atay as mãos a voſſo vão receio,
Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio.

Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta,
(E dizendo isto arranca mea eſpada)
Defenderey da força dura, & infeſta
A terra nunca de outrem ſojugada,
Em virtude do Rei, da patria meſta,
Da lealdade ja por vos negada,
Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:)
Mas quantos a meu Rei forem contrarios.

Bem como entre os mançebos recolhidos,
Em Camiſio, reliquias ſos de Canas,
Ia pera ſe entregar quaſi mouidos
A fortuna das forças Affricanas:
Cornelio moço os faz, que compelidos
Da ſua eſpada jurem, que as Romanas
Armas, nam deixarão em quanto a vida
Os nam deixar, ou nellas for perdida.

Deſtarte a gente força, & e força Nuno,
Que com lhe ouuir as vltimas razões
Remouem o temor frio importuno,
Que gelados lhe tinha os corações:
Nos animais caualgão de Neptuno,
Brandindo, & volteando arremeſſoẽs,
Vão correndo & gritando a boca aberta,
Viua o famoſo Rei que nos liberta.

Das gentes populares, hũs aprouão
A guerra com que a patria ſe ſoſtinha,
Hũs as armas alimpão & renouão,
Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha:
Capaçetes eſtofam, peitos prouão,
Armaſe cada hum como conuinha.
Outros fazem vestidos de mil cores,
Com letras & tenções de ſeus amores.

Com toda esta lustroſa companhia,
Ioanne forte ſae da freſca Abrantes,
Abrantes, que tambem da fonte fria
Do Tejo logra as agoas abundantes:
Os primeiros armigeros regia,
Quem pera reger era os muy poſſantes,
Orientais exercitos, ſem conto,
Com que paſſaua Xerxes o Helesponto.

Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro
Açoute de ſoberbos Caſtelhanos,
Como ja o fero Huno o foy primeiro
Pera Eranceſes, pera Italianos,
Outro tambem famoſo caualleiro,
Que a ala dereita tem dos Luſitanos,
Apto pera mandalos, & regelos,
Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos.

E da outra ala que a eſta correſponde,
Antão vazquez de Almada he Capitão,
Que deſpois foy de Abranches nobre Conde,
Das gentes vay regendo a ſestra mão,
Logo não retagoarda não ſe eſconde,
Das quinas & caſtellos o pendão,
Com Ioanne Rey forte em toda parte,
Que eſcurecendo o preço vay de Marte.

Eſtauão pelos muros temeroſas,
E de hum alegre medo quaſi frias,
Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas
Prometendo jejũs, & romarias:
Ia chegão as eſquadras bellicoſas,
Defronte das imigas companhias,
Que com grita grandiſsima os recebem,
E todas grande duuida concebem.

Respondem as trombetas menſageiras,
Pifaros ſibilantes, & atambores,
Alferezes volteão as bandeiras,
Que variadas ſam de muitas cores:
Era no ſeco tempo, que nas eiras
Ceres o fructo deixa aos lauradores,
Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto,
Baco das vuas tira o doçe moſto.

Deu ſinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente, & temeroſo,
Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana,
A tras tornou as ondas de medroſo:
Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana,
Correo ao mar o Tejo duuidoſo:
E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão,
Aos peitos os filhinhos apertârão.

Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor,
Que ao coração acode o ſangue amigo,
Que nos perigos grandes, o temor,
He mayor muitas vezes que o perigo,
E ſe o não he, pareçeo, que o furor
De offender, ou vencer o duro immigo,
Faz não ſentir, que he perda grande & rara
Dos membros corporais da vida cara.

Começaſe a trauar a incerta guerra,
De ambas partes ſe moue a primeira ala,
Hũs leua a defenſam da propria terra,
Outros as eſperanças de ganhala:
Logo o grande Pereira em quem ſe encerra
Todo o valor, primeiro ſe aſsinala
Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea
Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea.

Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes
Farpões, ſetas, & varios tiros voão,
Debaxo dos pês duros dos ardentes
Cauallos, treme a terra, os vales ſoão:
Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes
Quedas, co as duras armas tudo atroão.
Recreçem os immigos ſobre a pouca
Gente, do fero Nuno que os apouca.

Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão,
(Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta,
Que menos he querer matar o yrmão,
Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta:
Destes arrenegados muitos ſam,
No primeiro eſquadrão, que ſe adianta,
Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho)
Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno.

O tu Sertorio, o nobre Cariolano
Catilina, & vos outros dos antigos,
Que contra voſſas patrias, com profano
Coração, vos fizestes inimigos:
Se lâ no reino eſcuro de Sumano
Receberdes grauiſsimos castigos
Dizeilhe que tambem dos Portugueſes
Algũs tredores ouue algũas vezes.

Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros,
Tantos dos inimigos a elles vão:
Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros
De Ceita estâ o fortiſsimo lião
Que cercado ſe ve dos caualleiros
Que os campos vão correr de Tutuão,
Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo
Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo.

Com torua vista os vê, mas a natura
Ferina, & a yra não lhe compadecem
Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura
Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem:
Tal eſtà o caualeiro que a verdura
Tinge co ſangue alheyo, ali perecem
Algũs dos ſeus, que o animo valente
Perde a virtude contra tanta gente.

Sentio Ioane a afronta que paſſaua
Nuno, que como ſabio capitão,
Tudo corria, & via, & a todos daua
Com preſença & palauras coração:
Qual parida Lioa fera & braua
Que os filhos que no ninho ſôs eſtão
Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara,
O paſtor de Maſsilia lhos furtara.

Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos
Os montes ſete Irmãos atroa & abala,
Tal Ioane com outros eſcolhidos
Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala:
O fortes companheiros, o ſubidos
Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala,
Defendey voſſas terras que a eſperança
Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.

Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro
Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes
Dos inimigos corro, & vou primeiro
Pelejay verdadeiros Portugueſes.
Iſto diſſe o magnanimo guerreyro
E ſopeſando a lança quatro vezes,
Com força tira & deſte vnico tiro
Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro,

Porque eis os ſeus aceſos nouamente
Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo
Sobre qual mais com animo valente,
Perigos vencerâ, do Marcio jogo
Porfião: tingeo ferro o fogo ardente
Rompem malhas primeiro, & peitos logo
Aſsi recebem junto & dão feridas
Como a quem ja não doe perder as vidas.

A muitos mandão ver o Eſtigio lago
Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua
O Meſtre morre ali de Sanctiago
Que fortiſsimamente pelejaua
Morre tambem, fazendo grande eſtrago
Outro Meſtre cruel de Calatraua
Os Pereiras tambem arrenegados
Morrem, arrenegando o Ceo & os fados.

Muitos tambem do vulgo vil ſem nome
Vão, & tambem dos nobres ao profundo
Onde o Trifauce Cão perpetua fome
Tem, das almas que paſſão deſte mundo
E porque mais aqui ſe amanſe & dome
A ſoberba do imigo furibundo,
A ſublime bandeira Caſtelhana
Foy derribada os pês da Luſitana.

Aqui a fera batalha ſe encruece
Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas
A multidão da gente que perece
Tem as flores da propria cor mudadas:
Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece
O furor, & ſobejão as lançadas,
Ia de Caſtella o Rey desbaratado
Se vee, & de ſeu propoſito mudado.

O campo vay deixando ao vencedor
Contente de lhe não deixar a vida
Seguẽ no os que ficarão, & o temor
Lhe da não pês, mas aſas aa fugida:
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda deſpendida,
Da magoa, da deſonra, & triste nojo
De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo.

Algũs vão maldizendo & blasfemando
Do primeyro que guerra fez no mundo
Outros a ſede dura vão culpando
Do peito cobiçoſo & ſitibundo:
Que por tomar o alheo, o miſerando
Pouo auentura aas penas do profundo
Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas
Sem filhos, ſem maridos deſditoſas.

O vencedor Ioanne eſteue os dias
Coſtumados no campo, em grande gloria
Com offertas deſpois, & romarias
As graças deu a quem lhe deu victoria:
Mas Nuno que não quer por outras vias,
Entre as gentes deixar de ſi memoria
Se não por armas ſempre ſoberanas
Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas.

Ajudao ſeu destino de maneira
Que fez igoal o effeito ao penſamento,
Porque a terra dos Vandalos fronteira
Lhe concede o deſpojo & o vencimento
Ia de Siuilha a Betica bandeira
E de varios ſenhores nũ momento
Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa
Obrigados da força Portugueſa.

Deſtas & outras victorias longamente
Erão os Caſtelhanos opprimidos
Quando a paz deſejada ja da gente
Derão os vencedores aos vencidos:
Deſpois que quis o Padre omnipotente
Dar os Reis inimigos por maridos
Aas duas lllustriſsimas Ingleſas
Gentis, fermoſas, inclitas princeſas.

Não ſofre o peito forte vſado aa guerra
Não ter imigo ja a quem faça dano,
E aſsi não tendo a quem vencer na terra
Vay cometer as ondas do Occeano:
Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra
Da patria, por fazer que o Afrinano,
Conheça pollas armas, quanto excede
A ley de Christo aa ley de Mafamede.

Eis mil nadantes aues pello argento
Da furioſa Tetis inquieta,
Abrindo as pandas aſas vão ao vento
Pera onde Alcides pos a extrema meta:
O monte Abila, & o nobre fundamento
De Ceita toma, & o torpe Mahometa
Deita fora, & ſegura toda Eſpanha
Da Iuliana, mã, & desleal manha.

Não conſentio a morte tantos annos
Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe
Portugal, mas os coros ſoberanos
Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe:
Mas pera defenſam dos Luſitanos
Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe,
E aumentaſſe a terra mais que dantes
Inclita gêração, altos Infantes.

Não foy do Rey Duarte tão ditoſo
O tempo que ficou na ſumma alteza,
Que aſsi vay alternando o tempo iroſo
O bem co mal, o goſto co a tristeza:
Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo?
Ou quem vio em fortuna auer firmeza?
Pois inda neſte Reino, & neſte Rey
Não vſou ella tanto deſta ley.

Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando
Que a tão altas empreſas aſpiraua
Que por ſaluar o pouo miſerando
Cercado, ao Sarraceno ſentregaua:
Sô por amor da patria eſtâ paſſando
A vida de ſenhora feyta eſcraua,
Por não ſe dar por elle ha forte Ceita
Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita.

Cadro porque o inimigo não venceſſe,
Deixou antes vencer da morte a vida,
Regulo porque a patria não perdeſſe,
Quis mais a liberdade ver perdida:
Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe
A captiueiro eterno ſe conuida:
Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto
Nemos Decios leais fizerão tanto.

Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro,
Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia,
Que a ſoberba do barbaro fronteiro,
Tornou em baxa & humilima miſeria,
Fora por certo inuicto caualleiro,
Se não quiſera yr ver a terra Iberia:
Mas Affrica dira ſer impoſsibil,
Poder ninguem vencer o Rei terribil.

Eſte pode colher as maçãs de ouro,
Que ſamente o Terintio colher pode,
Do jugo que lhe pos o brauo Mouro,
A ceruiz inda agora nam ſacode:
Na fronte a palma leua, & o verde louro,
Das victorias do barbaro, que acode
A defender Alcaçer forte villa,
Tangere populoſo, & a dura Arzilla.

Porem ellas em fim por força entradas,
Os muros abaxarão de Diamante,
Aas Portugueſas forças coſtumadas,
A derribarem quanto achão diante,
Marauilhas em armas eſtremadas,
E de eſcriptura dinas elegante,
Fizerão caualleiros nesta empreſa
Mais, affinando a fama Portugueſa.

Porem deſpois tocado de ambição,
E gloria de mandar amara & bella,
Vay cometer Fernando de Aragão,
Sobre o potente Reino de Caſtella,
Ajuntaſe a inimiga multidão,
Das ſoberbas & varias gentes della,
Deſde Caliz ao alto Perineo,
Que tudo ao Rei Fernando obedeceo.

Não quis ficar nos Reinos occioſo,
O mancebo Ioanne, & logo ordena
De ir ajudar o pay ambicioſo,
Que então lhe foy ajuda não pequena,
Saioſe em fim do trançe perigoſo,
Com fronte não toruada, mas ſerena
Desbaratado o pay ſanguinolento:
Mas ficou duuidoſo o vencimento.

Porque o filho ſublime & ſoberano,
Gentil, forte, animoſo caualleiro,
Nos contrarios fazendo imenſo dano,
Todo hum dia ficou no campo inteiro:
Desta arte foy vencido Octauiano,
E Antonio vencedor ſeu companheiro,
Quando daquelles que Ceſar matârão
Nos Philipicos campos ſe vingârão.

Porem deſpois que a eſcura noite eterna,
Affonſo apouſentou no Ceo ſereno,
O Principe que o Reino então gouerna,
Foy Ioanne ſegundo, & Rei terzeno:
Eſte por auer fama ſempiterna,
Mais do que tentar pode homem terreno
Tentou, que foy buſcar da roxa Aurora
Os terminos, que eu vou buſcando agora.

Manda ſeus menſageiros que paſſarão
Eſpanha, França, Italia celebrada,
E la no illuſtre porto ſe embarcârão,
Onde ja foy Partenope enterrada,
Napoles onde os fados ſe moſtrârão,
Fazendoa a varias gentes ſubjugada,
Pola illuſtrar no fim de tantos annos,
Co ſenhorio de inclitos Hispanos.

Polo mar alto Siculo nauegão,
Vão ſe aas praias de Rodes arenoſas,
E dali aas ribeiras altas chegão,
Que com morte de Magno ſam famoſas:
Vão a Menfis, & aas terras que ſe regão,
Das enchentes Niloticas vndoſas,
Sobem aa Ethiopia, ſobre Egipto,
Que de Christo la guarda o ſancto rito.

Paſſam tambem as ondas Eritreas,
Que o pouo de Iſrael ſem Nao paſſou,
Ficão lhe a tras as ſerras Nabateas,
Que o filho de Ismael co nome ornou:
As coſtas odoriferas Sabeas,
Que a mãy do bello Adonis tanto honrou,
Cercão, com toda a Arabia deſcuberta
Feliz, deixando a Petrea, & a Deſerta.

Entrão no estreito Perſico, onde dura
Da confuſa Babel, inda a memoria,
Ali co Tigre o Eufrates ſe meſtura,
Que as fontes onde naſcem tem por gloria:
Dali vão em demanda da agoa pura,
Que cauſa inda ſera de larga hiſtoria
Do Indo, pellas ondas do Occeano,
Onde nam ſe atreueo paſſar Trajano.

Virão gentes incognitas, & eſtranhas
Da India, da Carmania, & Gedroſia,
Vendo varios costumes, varias manhas
Que cada Região produze & cria:
Mas de vias tão aſperas, tamanhas
Tornarſe facilmente não podia,
La morrerão em fim, & la ficârão.
Que aa deſejada patria não tornârão.

Pareſce que guardaua o claro Ceo
A Monoel, & ſeus merecimentos,
Eſta empreſa tão ardua, que o moueo
A ſubidos & illuſtres mouimentos:
(Manoel, que a Ioane ſocedeo
No reino, & nos altiuos penſamentos)
Logo como tomou do reino cargo
Tomou mais a conquiſta do mar largo.

O qual, como de nobre penſamento
Daquella obrigação, que lhe ficâra
De ſeus antepaſſados, (cujo intento,
Foy ſempre acrecentar a terra chara)
Não deixaſſe de ſer hum ſo momento
Conquiſtado: No tempo que a luz clara
Foge, & as eſtrellas nitidas que ſaem
A repouſo conuidão, quando caem.

Eſtando ja deitado no aureo leito
Onde ymaginações mais certas ſam,
Reuoluendo contino no conceito
De ſeu officio, & ſangue a obrigação,
Os olhos lhe occupou o ſonno acceito
Sem lhe deſoccupar o coração,
Porque tanto que laſſo ſe adormece
Morfeo en varias formas lhe aparece.

Aqui ſe lhe apreſenta que ſubia
Tão alto que tocaua aa prima Eſphera,
Donde diante varios mundos via
Nações de muita gente eſtranha, & fera:
E laa bem junto donde nace o dia
Deſpois que os olhos longos estendera,
Vio de antiguos longinquos & altos montes
Nacerem duas claras & altas fontes.

Aues agrestes, feras & alimarias
Pello monte ſeluatico habitauão,
Mil aruores ſylueſtres & eruas varias
O paſſo & o trato aas gentes atalhauão:
Eſtas duras montanhas aduerſarias
De mais conuerſação, por ſi moſtrauão
Que deſque Adão peccou aos noſſos annos
Não as romperão nunca pês humanos.

Das agoas ſe lhe antolha que ſaião
Por elle os largos paſſos inclinando,
Dous homẽs, que muy velhos parecião
De aſpeito, inda que agreſte, venerando:
Das pontas dos cabellos lhe ſaião
Gotas, que o corpo todo vão banhando,
A cor da pelle baça & denegrida
A barba hirſuta, intonſa, mas comprida.

Dambos de dous a fronte coroada
Ramos não conhecidos & eruas tinha,
Hum delles a preſença traz canſada
Como quem de mais longe ali caminha,
E aſsi a agoa com impito alterada
Parecia que doutra parte vinha,
Bem como Alfeo de Arcadia em Syracuſa
Vay buſcar os abraços de Aretuſa.

Eſte que era o mais graue na peſſoa
Destarte pera o Rey de longe brada,
O tu a cujos reinos & coroa
Grande parte do mundo eſta guardada,
Nos outros, cuja fama tanto voa
Cuja ceruiz bem nunca foy domada,
Te auiſamos que he tempo que ja mandes
A receber de nos tributos grandes.

Eu ſou o illuſtre Ganges, que na terra
Celeſte, tenho o berço verdadeiro,
Estoutro he o Indo Rey,  que nesta ſerra
Que vês, ſeu nacimento tem primeiro:
Cuſtartemos com tudo dura guerra,
Mas inſiſtindo tu por derradeiro,
Com não viſtas victorias, ſem receyo
A quantas gentes vês poras o freyo:

Não diſſe mais o rio Illuſtre & ſancto,
Mas ambos deſparecem num momento,
Acorda Emanuel cum nouo eſpanto
E grande alteração de penſamento:
Eſtendeo niſto Febo o claro manto
Pello eſcuro Emiſperio ſomnolento:
Veyo a menham no ceo pintando as côres
De pudibunda roſa & roxas flores.

Chama o Rei os ſenhores a conſelho
E propoẽ lhe as figuras da viſam,
As palauras lhe diz do ſancto velho,
Que a todos forão grande admiração:
Determinão o nautico aparelho
Pera que com ſublime coração
Vaa a gente que mandar cortando os mares
A buſcar nouos climas, nouos ares.

Eu que bem mal cuidaua que em effeito
Se poſeſſe o que o peito me pedia,
Que ſempre grandes couſas deste geito
Preſago o coração me prometia:
Não ſey porque razão, porque reſpeito,
Ou porque bom ſinal que em mi ſe via,
Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue
Deſte cometimento grande, & graue.

E com rogo & palauras amoroſas
Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga,
Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas
Se alcanção com trabalho & com fadiga:
Faz as peſſoas altas & famoſas
A vida que ſe perde & que periga,
Que quando ao medo infame não ſe rende
Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende.

Eu vos tenho entre todos eſcolhido
Para hũa empreſa qual a vos ſe deue,
Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido,
O que eu ſey que por mi vos ſera leue:
Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido,
Auenturarme a ferro, a fogo, a neue,
He tão pouco por vos que mais me pena
Ser eſta vida couſa tão pequena.

Imaginay tamanhas auenturas
Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua,
O lião Cleonêo, Arpias duras
O porco de Erimanto, a Ydra braua:
Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras
Onde os campos de Dite a Eſtige laua,
Porque a mayor perigo, a môr affronta
Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta.

Com merces ſumptuoſas me agardece
E com razoẽs me louua eſta vontade,
Que a virtude louuada viue & crece,
E o louuor altos caſos perſuade:
A acompanharme logo ſe offerece
Obrigado damor & damizade,
Não menos cobiçoſo de honra & fama,
O charo meu Irmão Paulo da Gama.

Mais ſe me ajunta Nicolao Coello
De trabalhos muy grande ſoffredor,
Ambos ſam de valia & de conſelho
Dexperiencia em armas & furor:
Ia de manceba gente me aparelho
Em que crece o deſejo do valer,
Todos de grande esforço, & aſsi parece
Quem a tamanhas couſas ſe offerece.

Forão de Emanoel remunerados,
Porque com mais amor ſe apercebeſſem,
E com palauras altas animados
Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem:
Aſsi forão o Mynias ajuntados
Pera que o veo dourado combateſſem,
Na Fatidiça nao, que ouſou primeira
Tentar o mar Euxinio, auentureira.

E ja no porto da inclita Vliſſea
Cum aluoroço nobre, & cum deſejo,
(Onde o licor meſtura & branca area
Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:)
As naos preſtes eſtão, & não refrea
Temor nenhum o iuuenil deſpejo,
Porque a gente maritima & a de Marte
Eſtão pera ſeguirme a toda parte.

Pellas prayas vestidos os ſoldados
De varias cores vem, & varias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Pera buſcar do mundo nouas partes:
Nas fortes naos os ventos ſoſſegados
Ondeão os aerios estandartes,
Ellas prometem vendo os mares largos
De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos.

Deſpois de aparelhados deſta ſorte
De quanto tal viagem pede & manda,
Aparelhamos a alma pera a morte
Que ſempre aos nautas ante os olhos anda:
Pera o ſumo poder que a Etherea corte
Soſtenta ſo coa vista veneranda,
Imploramos fauor que nos guiaſſe
E que noſſos começos aſpiraſſe.

Partimonos aſsi do ſancto templo
Que nas Prais do mar eſtâ aſſentado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Donde Deos foy em carne ao mundo dado:
Certifico te, o Rey, que ſe contemplo
Como fuy deſtas prayas apartado,
Cheyo dentro de duuida & receyo
Que apenas nos meus olhos ponho o freyo.

A gente da cidade aquelle dia
(Hũs por amigos, outros por parentes,
Outros por ver ſomente) concorria
Saudoſos na viſta & deſcontentes:
E nos coa virtuoſa companhia
De mil religioſos diligentes,
Em prociſſam ſolene a Deos orando
Pera os bateis viemos caminhando.

Em tão longo caminho & duuidoſo
Por perdidos as gentes nos julgauão,
As molheres cum choro piadoſo,
Os homẽs com ſuſpiros que arrancauão:
Mãis, Eſpoſas, Irmãs, que o temeroſo
Amor mais deſconfia, acrecentauão
A deſeſperação, & frio medo
De ja nos não tornar a ver tão cedo.

Qual vay dizendo: O filho a quem eu tinha
So pera refrigerio, & doce emparo
Desta canſada ja velhice minha,
Que em choro acabarâ, penoſo & amaro:
Porque me deixas, miſera & mezquinha?
Porque de mi te vas, o filho charo
A fazer o funereo enterramento
Onde ſejas de pexes mantimento?

Qual em cabello: O doce & amado eſpoſo
Sem quem não quis amor que viuer poſſa,
Porque is auenturar ao mar iroſo
Eſſa vida que he minha, & não he voſſa?
Como por hum caminho duuidoſo
Vos eſquece a afeição tão doce noſſa?
Noſſo amor, noſſo vão contentamento
Quereis que com as vellas leue o vento.

Neſtas & outras palauras que dizião
De amor, & de piadoſa humanidade,
Os velhos & os mininos os ſeguião
Em quem menos esforço poẽ a ydade:
Os montes de mais perto reſpondião
Quaſi mouidos de alta piedade,
A branca area as lagrimas banhauão
Que em multidão co ellas ſe ygoalauão.

Nos outros ſem a vista aleuantarmos
Nem a Mãy, nem a Eſpoſa, neſte eſtado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do prepoſito firme começado:
Determiney de aſsi nos embarcarmos
Sem o deſpedimento custumado,
Que poſto que he de amor vſança boa
Aquem ſe aparta, on fica, mais magoa.

Mas hum velho daſpeito venerando,
Que ficaua nas prayas, entre a gente,
Poſtos em nos os olhos, meneando
Tres vezes a cabeça, deſcontente,
A voz peſada hum pouco aleuantando,
Que nos no mar ouuimos claramente,
Cum ſaber ſo dexperiencias feyto
Tais palauras tirou do experto peito.

O gloria de mandar, o vaã cubiça
Deſta vaidade, a quem chamamos Fama,
O fraudolento goſto, que ſe atiça
Cũa aura popular, que honra ſe chama:
Que caſtigo tamanho & que juſtiça
fazes no peito vão que muito te ama,
Que mortes, que perigos, que tormentas
Que crueldades nelles eſprimentas.

Dura inquietação dalma & da vida
Fonte de deſemparos & adulterios,
Sagaz conſumidora conhecida
De fazendas, de reinos, & de imperios:
Chamante illuſtre, chamante ſubida,
Sendo dina de infames vituperios,
Chamante Fama, & Gloria ſoberana,
Nomes com quem ſe o pouo neſcio engana.

A que nouos deſaſtres determinas
De leuar estes reynos & eſta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promeſſas de reynos, & de minas
Douro, que lhe faras tão facilmente?
Que famas lhe prometeras, que hiſtorias?
Que triumphos, que palmas, que victorias?

Mas ô tu geração daquelle inſano
Cujo peccado & deſobediencia,
Não ſomente do reino ſoberano
Te pos neſte deſterro & triſte auuſencia:
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta & da ſimpres innocencia,
Idade douro, tanto te priuou
Que na de ferro & darmas te deitou.

Ia que nesta goſtoſa vaidade
Tanto enleuas a leue fantaſia,
Ia que aa bruta crueza & feridade
Poſeste nome esforço & valentia,
Ia que prezas em tanta quantidade
O deſprezo da vida, que deuia
De ſer ſempre eſtimada, pois que ja
Temeo tanto perdella quem a dâ.

Não tens junto com tigo o Iſmaelita
Com quem ſempre teras guerras ſobejas?
Não ſegue elle do Arabio a ley maldita,
Se tu polla de Chriſto ſo pellejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras & riqueza mais deſejas?
Não he elle por armas esforçado
Se queres por victorias ſer louuado?

Deixas criar aas portas o inimigo
Por yres buſcar outro de tão longe,
Por quem ſe deſpouoe o reino antigo
Se enfraqueça & ſe vaa deitando a longe:
Buſcas o incerto & incognito perigo
Porque a fama te exalte & te liſonge,
Chamando te ſenhor com larga copia
Da India, Perſia, Arabia, & de Ethiopia.

O maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vella pôs en ſeco lenho,
Dino da eterna pena do profundo
Se he juſta a juſta ley que ſigo & tenho:
Nunca juyzo algum alto & profundo,
Nem cythara ſonora, ou viuo engenho,
Te dê por iſſo fama, nem memoria,
Mas comtigo ſe acabe o nome & gloria.

Trouxe o filho de Iapeto do Ceo
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas accendeo
Em mortes, em deſonras (grande engano)
Quanto milhor nos fora Prometeo,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua eſtatua Illuſtre não tiuera
Fogo de altos deſejos, que a mouera.

Não cometera o moço miſerando
O carro alto do pay, nem o âr vazio
O grande Achitector co filho, dando
Hum, nome ao mar, & o outro, fama ao rio:
Nenhum cometimento alto & nefando
Por fogo, ferro, agoa, calma & frio,
Deixa intentado a humana geração:
Miſera ſorte, eſtranha Condição!
F I M.



❧ Canto Quinto.
Eſtas ſentenças tais
o velho honrado
Vociferando eſtaua, quando a-
brimos
As aſas ao ſereno & ſoſſegado
Vento, & do porto amado nos partimos:
E como he ja no mar cuſtume vſado
A vella desfraldando o ceo ferimos,
Dizendo Boa viagem, logo o vento
Nos troncos fez o vſado mouimento.

Entruaa neste tempo o eterno lume,
No animal Nemeyo truculento,
E o mundo que com tempo ſe conſume
Na ſeiſta idade andaua enfermo & lento:
Nella ve, como tinha por coſtume
Curſos do Sol quatorze vezes cento,
Com mais nouenta & ſete, em que corria
quando no mar a armada ſe estendia.

Ia a vista pouco & pouco ſe desterra
Daquelles patrios montes que ficauão,
Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra
De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão:
Ficauanos tambem na amada terra
O coração, que as magoas lâ diyxauão,
E ja deſpois que toda ſe eſcondeo
Não vimos mais em fim que mar & ceo.

Aſsi fomos abrindo aquelles mares
Que geração algũa não abrio,
As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares,
Que o generoſo Enrique deſcobrio:
De Mauritania os montes & lugares
Terra que Anteo num tempo poſſuyo,
Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita
Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita.

Paſſamos a grande Ilha da madeira
Que do muito aruoredo aſsi ſe chama,
Das que nos pouoamos, a primeira,
Mais celebre por nome, que por fama:
Mas nem por ſer do mundo a derradeira
Se lhe auentajão quantas Venus ama,
Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera
De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra.

Deixamos de Maſsilia a eſteril costa
Onde ſeu gado os Azenegues pastão,
Gente que as freſcas agoas nunca goſta
Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão:
A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta,
Onde as aues no ventre o ferro gastão,
Padecendo de tudo extrema inopia
Que aparta a Barbarîa de Etiopia.

Paſſamos o lemite aonde chega
O Sol, que pera o Norte os carros guia,
Onde jazem os pouos, a quem nega
O filho de Climêne a cor do dia:
Aqui gentes eſtranhas laua & rega
Do negro Sanagâ a corrente fria,
Onde o Cabo Arſinario o nome perde
Chamando ſe dos noſſos Cabo verde.

Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas
Que tiuerão por nome Fortunadas,
Entramos nauegando pollas filhas
Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas
Terras por onde nouas marauilhas
Andarão vendo jaa noſſas armadas,
Ali tomamos porto com bom vento
Por tomarmos da terra mantimento.

A aquella ilha aportamos, que tomou
O nome do guerreiro Sanctiago,
Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou
A fazerem nos Mouros brauo eſtrago:
Daqui tanto que Boreas nos ventou
Tornamos a cortar o immenſo lago,
Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos
A terra onde o refreſco doce achamos.

Por aqui rodeando a larga parte
De Africa, que ficaua ao Oriente,
A prouincia lalofo, que reparte
Por diuerſas naçoẽs a negra gente:
A muy grande Mandinga, por cuja arte,
Logramos o metal rico & luzente,
Que do curuo Gambea as agoas bebe
As quaes o largo Atlantico recebe.

As Dorcadas paſſamos, pouoadas
Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião,
Que de vista total ſendo priuadas
Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião:
Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas
Neptuno la nas agoas acendião,
Torna la ja de todas a mais fea
De biuoras encheſte a ardente area.

Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa
No grandiſsimo golfão nos metemos,
Deixando a ſerra aſperrima Lyoa
Co Cabo a quem das Palmas nome demos:
O grande rio, onde batendo ſoa
O mar nas prayas notas, que ali temos,
Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou
O nome dhum que o lado a Deos tocou.

Ali o muy grande reyno eſtâ de Congo
Por nos ja conuertido â fee de Christo,
Por onde o Zaire paſſa claro & longo
Rio pellos antigos nuca viſto:
Por eſte largo mar em fim me alongo
Do conhecido pollo de Caliſto,
Tendo o termino ardente ja paſſado
Onde o meyo do mundo he limitado.

Ia deſcuberto tinhamos diante
La no nouo Hemiſperio noua estrela
Não viſta deoutra gente, que ignorante
Algũs tempos eſteue incerta della:
Vemos a parte menos rutilante
E por falta destrellas menos bella,
Do Polo fixo, onde inda ſe não ſabe
Que outra terra comece, ou mar acabe:

Aſsi paſſando aquellas regioẽs
Por onde duas vezes paſſa Apolo,
Dous inuernos fazendo & dous veroẽs
Em quanto corre dhum ao outro Polo:
Por calmas, por tormentas & opreſſoẽs
Queſempre faz no mar o yrado Eolo,
Vimos as Vrſas a peſar de Iuno
Banharemſe nas agoas de Neptuno.

Contarte longamente as perigoſas
Couſas do mar, que os homẽs não entendem,
Subitas trouoadas temeroſas,
Relampados que o ar em fogo acendem:
Negros chuueiros, noites tenebroſas,
Bramidos de trouoẽs que o mundo fendem,
Não menos he trabalho, que grande erro
Ainda que tiuiſſe a voz de ferro.

Os caſos vi que os rudos marinheiros
Que tem por meſtra a longa experiencia,
Contão por certos ſempre & verdadeiros
Iulgando as couſas ſo polla aparencia.
E que os que tem juizos mais inteiros
Que ſo por puro engenho & por ciencia,
Vem do mundo, os ſegredos eſcondidos
Iulgão por falſos, ou mal entendidos.

Vi claramente viſto o lume viuo
Que a maritima gente tem por ſanto,
Em tempo de tormenta & vento eſquiuo
De tempeſtade eſcura & triste pranto:
Não menos foy a todos ecceſsiuo
Milagre, & couſa certo de alto eſpanto,
Ver as nuuẽs do mar com largo cano
Soruer as altas agoas do Occeano.

Eu o vi certamente (& não preſumo
Que a viſta me enganaua) leuantar ſe,
No ar hum vaporzinho & ſutil fumo
E do vento trazido, rodearſe:
De aqui leuado hum cano ao Polo ſumo
Se via, tão delgado que enxergarſe
Dos olhos facilmente não podia,
Da materia das nuuẽs parecia.

Hiaſe pouco & pouco acrecentando
E mais que hum largo maſto ſe engroſſaua,
Aqui ſe eſtreita, aqui ſe alargaquando
Os golpes grandes de agoa em ſi chupaua:
Eſtauaſe co as ondas ondeando,
Encima delle hũa nuuem ſe eſpeſſaua,
Fazendoſe mayor mais carregada
Co cargo grande dagoa em ſi tomada.

Qual roxa Sangueſuga ſe veria
Nos beiços da alimaria (que imprudente,
Bebendo a recolheo na fonte fria)
Fartar co ſangue alheyo a ſede ardente:
Chupando mais & mais ſe engroſſa & cria
Ali ſe enche & ſe alarga grandemente,
Tal a grande coluna, enchendo aumenta
A ſi, & a nuuem negra que ſuſtenta.

Mas deſpois que de todo ſe fartou
O pê que tem no mar a ſi recolhe,
E pello ceo chouendo em fim voou
Porque coa agoa a jacente agoa molhe:
Aas ondas torna as ondas que tomou:
Mas o ſabor do ſal lhe tira, & tolhe,
Vejão agora os ſabios na eſcriptura
Que ſegredos ſam estes de Natura.

Se os antigos Philoſophos, que andarão
Tantas terras, por ver ſegredos dellas,
As marauilhas que eu paſſei, paſſarão
A tão diuerſos ventos dando as vellas:
Que grandes eſcripturas que deixarão
Que influição de ſinos & de eſtrellas,
Que eſtranhezas, que grandes qualidades,
E tudo ſem mentir, puras verdades.

Mas ja o Planeta qne no ceo primeiro
Habita, cinco vezes apreſſada,
Agora meyo rosto, agora inteiro
Mostrara, em quãto o mar cortaua a armada:
Quando da Eterea gauea hum marinheiro
Prompto coa viſta, terra, terra, brada,
Salta no bordo aluoroçada a gente
Cos olhos no Orizonte do Oriente.

A maneira de nuuẽs ſe começão
A deſcubrir os montes que enxergamos,
As ancoras peſadas ſe adereção,
As vellas ja chegados amainamos:
E pera que mais certas ſe conheção
As partes tão remotas onde eſtamos,
Pello nouo inſtrumento do Astrolabio
Inuenção de ſutil juizo & ſabio.

Deſembarcamos logo na eſpaçoſa
Parte, por onde a gente ſe eſpalhou,
De ver couſas eſtranhas deſejoſa
Da terra que outro pouo não piſou:
Porem eu cos pilotos na arenoſa
Praya, por vermos em que parte eſtou,
Me detenho, em tomar do ſol a altura
E compaſſar a vniuerſal pintura.

Achamos ter de todo ja paſſado
Do Semicapro pexe a grande meta,
Eſtando entre elle & o circulo gelado
Auſtral, parte do mundo mais ſecreta:
Eis de meus companheiros rcdeado
Vejo hum eſtranho vir de pelle preta,
Que tomarão per força, em quanto apanha
De mel os doces fauos na montanha.

Toruado vem na viſta, como aquelle
Que não ſe vira nunca em tal eſtremo,
Nem elle entende a nos, nem nos a elle,
Seluagem mais que o bruto Polifemo:
Começolhe a mostrar da rica pelle
De Colcos o gentil metal ſupremo,
A prata fina, a quente eſpeciaria:
A nada disto o bruto ſe mouia.

Mando moſtrarlhe peças mais ſomenos
Contas de Chriſtalmo tranſparente,
Alguns ſoantes caſcaueis pequenos,
Hum barrete vermelho, cor contente:
Vi logo por ſinais & por acenos
Que com iſto ſe alegra grandemente,
Mando o ſoltar com tudo, & aſsi caminha
Pera a pouoação, que perto tinha.

Mas logo ao outro dia ſeus parceiros
Todos nús, & da cor da eſcura treua,
Decendo pellos aſperos outeiros
As peças vem buſcar que eſtoutro leua:
Domeſticos ja tanto & companheiros
Se nos moſtrão, que fazem que ſe atreua,
Fernão Velloſo a yr ver da terra o trato
E partirſe co elles pello mato.

He Velloſo no braço confiado
E de arrogante cre que vay ſeguro,
Mas, ſendo hum grande eſpaço ja paſſado,
Em que algum bom ſinal ſaber procuro:
Eſtando, a viſta alçada, co cuidado
No auentureyro, eis pello monte duro
Aparece, & ſegundo ao mar caminha
Mais apreſſado do que fora vinha.

O batel de Coelho foy depreſſa
Pollo tomar, mas antes que chegaſſe,
Hum Etiope ouſado ſe arremeſſa
A elle porque não ſe lhe eſcapaſſe:
Outro & outro lhe ſaem veſſe em preſſa
Velloſo, ſem que alguem lhe ali ajudaſſe,
Acudo eu logo, & em quanto o remo aperto
Se mostra hum bando negro deſcuberto.

Da eſpeſſa nuuem ſêtas & pedradas
Chouem ſobre nos outros ſem medida,
E não forão ao vento em vão deitadas
Que esta perna trouxe eu dali ferida:
Mas nos como peſſoas magoadas
A repoſta lhe demos tão tecida,
Que em mais que nos barretes ſe ſoſpeita
Que a cor vermelha leuão deſta feita.

E ſendo ja Velloſo em ſaluamento
Logo nos recolhemos pera a armada,
Vendo a malicia fea & rudo intento
Da gente beſtial, bruta & maluada:
De quem nenhum milhor conhecimento
Podemos ter da India deſejada,
Que eſtarmos inda muyto longe della
E aſsi torney a dar ao vento a vella.

Diſſe então a Velloſo hum companheiro
(Começando ſe todos a ſorrir)
Oula Vedolo amigo, aquelle outeiro
He milhor de decer que de ſubir:
Si he, reſponde o ouſado auentureiro
Mas quando eu pera ca vi tantos vir,
Daquelles caẽs, de preſſa hum pouco vim
Por me lembrar que estaueis ca ſem mim.

Contou então que tanto que paſſarão
Aquelle monte, os negros de quem fallo,
Auante mais paſſar o não deixarão,
Querendo, ſe não torna, ali matallo:
E tornando ſe, logo ſe emboſcarão
Porque ſaindo nos pera tomallo,
Nos podeſſem mandar ao reino eſcuro
Por nos roubar em mais a ſeu ſeguro.

Porem ja cinco Soes erão paſſados
Que dali nos partiramos, cortando
Os mares nunca doutrem nauegados,
Proſperamente os ventos aſſoprando:
Quando hũa noite estando deſcuidados
Na cortadora proa vigiando,
Hũa nuuem que os ares eſcurece
Sobre noſſas cabeças aparece.

Tão temeroſa vinha & carregada,
Que pos nos coraçoẽs hum grande medo,
Bramindo o negro mar, de longe brada
Como ſe deſſe em vão nalgum rochedo:
O poteſtade, diſſe, ſublimada
Que ameaço diuino, ou que ſegredo,
Eſte clima, & eſte mar nos apreſenta,
Que môr couſa parece que tormenta?

Não acabaua, quando hũa figura
Se nos mostra no ar, robuſta & valida,
De disforme & grandiſsima eſtatura,
O roſto carregado, a barba eſqualida:
Os olhos encouados, & a poſtura
Medonha & maa, & a cor terrena & palida,
Cheos de terra & creſpos os cabellos,
A boca negra, os dentes amarellos.

Tão grande era de membros, que bem poſſo
Certificarte, que este era o ſegundo
De Rodes estranhiſsimo Coloſſo,
Que hum dos ſete milagres foy do mundo:
Cum tom de voz nos falla horrendo & groſſo
Que pareceo ſair do mar profundo,
Arrepião ſe as carnes & o cabello
A mi, & a todos, ſoo de ouuillo & vello.

E diſſe: O gente ouſada mais que quantas
No mundo cometerão grandes couſas,
Tu que por guerras cruas, taes & tantas
E por trabalhos vãos munca repouſas:
Pois os vedados terminos quebrantas
E nauegar meus longos mares ouſas,
Que eu tãto tempo ha ja que guardo, & tenho
Nunca arados deſtranho, ou proprio lenho.

Pois vens ver os ſegredos eſcondidos
Da natureza, & do humido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre, ou de immortal merecimento:
Ouue os danos de mi, que apercebidos
Eſtão, a teu ſobejo atreuimento,
Por todo o largo mar & polla terra
Que inda has de ſojugar com dura guerra.

Sabe que quantas naos eſta viagem
Que tu fazes, fizerem de atreuidas
Inimiga terão esta paragem
Com ventos & tormentas deſmedidas:
E da primeira armada que paſſagem
Fizer por eſtas ondas inſuffridas,
Eu farey dimprouiſo tal caſtigo
Que ſeja môr o dano que o perigo.

Aqui eſpero tomar ſe não me engano
De quem me deſcobrio ſuma vingança,
E não ſe acabarâ ſo nisto o dano
De voſſa pertinace confiança:
Antes em voſſas naos vereys cada anno
Se he verdade o que meu juyzo alcança,
Naufragios, perdiçoẽs de toda ſorte,
Que o menor mal de todos ſeja a morte.

E do primeiro Illuſtre, que a ventura
Com fama alta fizer tocar os Ceos,
Serey eterna & noua ſepoltura
Por juizos incognitos de Deos:
Aqui porà da Turca armada dura
Os ſoberbos & proſperos tropheos,
Comigo de ſeus danos o ameaça
A destruida Quiloa com Mombaça.

Outro tambem virâ de honrada fama
Liberal, caualeiro, enamorado,
E conſigo trarâ a fermoſa dama
Que Amor por gram merce lhe terâ dado:
Triſte ventura, & negro fado os chama
Neste terreno meu, que duro & yrado,
Os deixarâ dhum crú naufragio viuos
Pera verem trabalhos ecceſtiuos.

Verão morrer com fome os filhos charos
Em tanto amor gêrados & nacidos,
Verão os Cafres aſperos & auaros
Tirar aa linda dama ſeus veſtidos:
Os cristalinos membros & perclaros
Aa calma, ao frio, no ar verão deſpidos,
Deſpois de ter piſada longamente
Cos delicados pês a area ardente.

E verão mais osolhos que eſcaparem
De tanto mal, de tanta deſuentura,
Os dous amantes miſeros ficarem
Na ſeruida & implacabil eſpeſſura:
Ali deſpois que as pedras abrandarem
Com lagrimas de dôr, de magoa pura,
Abraçados as almas ſoltaram
Da fermoſa & miſerrima priſam.

Mais hia por diante o monstro horrendo
Dizendo noſſos fados, quando alçado
Lhe diſſe eu: Quem es tu? que eſſe estupendo
Corpo, certo me tem marauilhado
A boca & os olhos negros retorcendo,
E dando hum eſpantoſo & grande brado,
Me reſpondeo, com voz peſada & amara
Como quem da pregunta lhe peſara.

Eu ſou aquelle occulto & grande Cabo
A quem chamais vos outros Tormentorio,
Que nunca a Ptolomeu, Pomponio, Eſtrabo,
Plinio, & quantos paſſarão fuy notorio:
Aqui toda a Africana coſta acabo
Neſte meu nunca viſto Promontorio,
Que pera o Polo Antariuo ſe eſtende
A quem voſſa ouſadia tanto offende.

Fuy dos filhos aſperrimos da terra
Qual Encelado, Egeo, & o Centimano,
Chameime Adamaſtor,& fuy na guerra
Contra o que vibra os rayos de Vulcano:
Não que poſeſſe ſerra ſobre ſerra
Mas conquiſtando as ondas do Occeano,
Fuy capitão domar, par onde andaua
A armada de Neptuno, que eu buſcaua.

Amores da alta eſpoſa de Peleo
Me fizerão tomar tamanha empreſa,
Todas as Deoſas deſprezey do ceo
So par amar das agoas a Princeſa:
Hum dia a vi coas filhas de Nereo
Sayr nua na praya, & logo preſa,
A vontade ſinti, de tal maneira
Que inda não ſinto couſa que mais queira.

Como foſſe impoſsibil alcançalla
Polla grandeza fea de meu geſto,
Determiney por armas de tomalla
E a Doris eſte caſo manifeſto:
De medo a Deoſa então por mi lhe falla:
Mas ella cum fermoſo riſo honesto,
Reſpondeo: Qual ſera o amor baſtante
De Nimpha que ſuſtente o dhum Gigante.

Com tudo por liurarmos o Occeano
De tanta guerra, eu buſcarey maneira,
Com que com minha honra eſcuſe o dano.
Tal reſpoſta me torna a menſageira:
Eu que cair não pude neste engano,
(Que he grande dos amantes a cigueira)
Encherãome com grandes abondanças
O peito de deſejos & eſperanças.

Ia neſcio, ja da guerra deſiſtindo
Hũa noite de Doris prometida,
Me aparece de longe o geſto lindo
Da branca Thetis vnica deſpida:
Como doudo corri de longe, abrindo
Os braços, pera aquella que era vida
Deſte corpo, & começo os olhos bellos
A lhe beijar, as faces & os cabellos.

O que não ſey de nojo como o conte
Que crendo ter nos braços quem amaua,
Abraçado me achey cum duro monte
De aſpero mato, & de eſpeſſura braua:
Eſtando cum penedo fronte a fronte
Queu pollo roſto angelico apartaua,
Não fiquey homem não, mas mudo & quedo
E junto dhum penedo outro panedo

O Nimpha a mais fermoſa do Oceano
Ia que minha preſença não te agrada,
Que te cuſtaua terme neſte engano,
Ou foſſe monte, nuuem, ſonho, ou nada:
Daqui me parto irado, & quaſi inſano
Da magoa & da deſonra ali paſſada,
A buſcar outro mundo, onde não viſſe
Quem de meu pranto, & de meu mal ſe riſſe.

Erão ja neſte tempo meus Irmãos
Vencidos & em miſeria estrema poſtos,
E por mais ſegurarſe os Deoſes vãos
Algũs a varios montes ſottopostos:
E como contra o Ceo não valem mãos,
Eu que chorando andaua meus deſgoſtos,
Comecey a ſentir do fado imigo
Por meus atreuimentos o caſtigo.

Conuerteſeme a carne em terra dura,
Em penedos os oſſos ſe fizerão,
Eſtes membros que ves & esta figura
Por eſtas longas agoas ſe estenderão:
Em fim minha grandiſsima eſtatura
Neſte remoto cabo conuerterão
Os Deoſes, & por mais dobradas magoas
Me anda Thetis cercando deſtas agoas.

Aſsi contaua & cum medonho choro
Subito dante os olhos ſe apartou,
Desfez ſe a nuuem negra, & cum ſonoro
Bramido, muito longe o mar ſoou:
Eu, leuantando as mãos ao ſancto coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deos pedi que remoueſſe os duros
Caſos, que Adamaſtor contou futuros.

Ia Phlegon, & Pyrois vinhão tirando
Cos outros dous o carro radiante,
Quando a terra alta ſe nos foy mostrando
Em que foy conuertido o grão gigante:
Ao longo desta costa, começando
Ia de cortar as ondas do Leuante,
Por ella abaixo hum pouco nauegamos
Onde ſegunda vez terra tomamos.

A gente que eſta terra poſſuya
Poſto que todos Etiopes erão,
Mais humana no trato parecia
Que os outros, que tão mal nos receberão:
Com bailos & com feſtas de alegria
Pella praya arenoſa a nos vierão,
As molheres conſigo & o manſo gado
Que apacentauão, gordo & bem criado.

As molheres queimadas vem encima
Dos vagaroſos bois, ali ſentadas
Animais que elles tem em mais eſtima
Que todo o outro gado das manadas:
Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima,
Na ſua lingua cantão concertadas,
Co doce ſom das rusticas auenas
Imitando de Titiro as Camenas.

Eſtes como na viſta prazenteiros
Foſſem, humanamente nos tratarão,
Trazendonos galinhas & carneiros
A troco doutras peças que leuarão:
Mas como nunca em fim meus companheiros
Palaura ſua algũa lhe alcançarão
Que deſſe algun ſinal do que buſcamos:
As vellas dando, as ancoras leuamos.

Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo
Aa coſta negra de Africa, & tornaua
A proa a demandar o ardente meyo
Do Ceo, & o polo Antartico ficaua:
Aquelle ilheo deixamos, onde veyo
Outra armada primeira, que buſcaua
O tormentorio Cabo, & deſcuberto,
Naquelle ilheo fez ſeu limite certo.

Daqui fomos cortando muitos dias
Entre tormentas tristes & bonanças,
No largo mar fazendo nouas vias
So conduzidos de arduas eſperanças:
Co mar hum tempo andamos em porfias
Que como tudo nelle ſam mudanças,
Corrente nelle achamos tão poſſante
Que paſſar não deixaua por diante.

Era mayor a força em demaſia
Segundo pera tras nos obrigaua,
Do mar, que cantro nos ali corria
Que por nos a do vento que aſſopraua:
Injuriado Noto da porfia
Em que co mar (parece) tanto eſtaua
Os aſſopros esforça iradamente
Com que nos fez vencer a grão corrente.

Trazia o Sol o dia celebrado
Em que tres Reis das partes do Oriente,
Forão buſcar hum Rey de pouco nado
No qual Rey outros tres ha juntamente:
Neſte dia outro porto foy tomado
Por nos, da meſma ja contada gente,
Num largo rio, ao qual o nome demos
Do dia em que por elle nos metemos.

Deſta gente refreſco algum tomamos,
E do rio freſca agoa, mas com tudo
Nenhum ſinal aqui da India achamos
No pouo com nos outros caſi mudo:
Ora vê Rey quamanha terra andamos
Sem ſair nunca deſte pouo rudo,
Sem vermos nunca noua, nem ſinal,
Da deſejada parte Oriental.

Ora imagina agora quam coitados
Andariamos todos, quam pardidos,
De fomes, de tormentas quebrantados
Por climas & por mares não ſabidos:
E do eſperar comprido tão canſados
Quanto a deſeſperar ja compellidos,
Por ceos não naturais, de qualidade
Inimiga de noſſa humanidade.

Corrupto ja & danado o mantimento
Danoſo & mão ao fraco corpo humano,
E alem diſſo nenhum contentamento
Que ſequer da eſperança foſſe engano:
Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento
De ſoldados, não fora Luſitano,
Que durara elle tanto obediente
Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente?

Cres tu que ja não forão leuantados
Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira,
Fazendo ſe Piratas, obrigados
De deſeſperação, de fome, de ira?
Grandemente, porcerto eſtão prouados
Pois que nenhum trabalho grande os tira
Daquella Portugueſa alta eccellencia
De lealdade firme, & obediencia.

Deixando o porto em fim do doce rio
E tornando a cortar a agoa ſalgada,
Fizemos deſta costa algum deſuio
Deitando pera o pego toda a armada:
Porque ventando Noto manſo & frio
Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada,
Que a coſta faz ali daquella banda
Donde a rica Sofala o ouro manda.

Eſta paſſada, logo o leue leme
Encomendado ao ſacro Nicolao,
Pera onde o mar na coſta brada & geme
A proa inclina dhũa & doutra nao.
Quando indo o coração que eſpera & teme
E que tanto fiou dhum fraco pao,
Do que eſparaua ja deſeſperado
Foy dhũa nouidade aluoroçado.

E foy, que eſtando ja da costa perto
Onde as prayas & valles bem ſe vião,
Num rio, que ali ſae ao mar aberto
Bateis aa vela entrauão & ſayão:
Alegria muy grande foy porcerto
Acharmos ja peſſoas que ſabião
Neuegar, porque entrellas eſperamos
De achar nouas algũas, como achamos.

Ethiopes ſam todos, mas parece
Que com gente milhor comunicauão,
Palaura algũa Arabia ſe conhece
Entre a lingoagem ſua que falauão.
E com pano delgado que ſe tece
De algodão, as cabeças apertauãa,
Com otro que de tinta azul ſe tinge
Cadahum as vergonhoſas partes cinge.

Pella Arabica lingoa que mal falão,
E que Fernão martinz muy bem entende
Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão
As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende.
Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão
Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende
E do Sul pera o Sol, terra onde auia
Gente aſsi como nos da cor do dia.

Muy grandemente aqui nos alegramos
Coa gente, & com as nouas muito mais.
Pellos ſinais que neſte rio achamos
O nome lhe ficou dos bons ſinais:
Hum padrão neſta terra aleuantamos
Que pera aſinalar lugares tais
Trazia alguns, o nome tem do bello
Guiador de Tobias a Gabello.

Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos,
Nojoſa criação das agoas fundas,
Alimpamos as naos, que dos caminos
Longos do mar, vem ſordidas & immundas:
Dos oſpedes que tinhamos vizinhos
Com moſtras apraziueis & jocundas,
Ouuemos ſempre o vſado mantimento
Limpas de todo o falſo penſamento.

Mas não foy, da eſperança grande & immenſa
Que neſta terra ouuemos, limpa & pura
A alegria: mas logo a recompenſa
A Ramnuſia com noua deſuentura:
Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa,
Coesta condição peſada & dura
Nacemos, o peſar terâ firmeza,
Mas o bem logo muda a natureza.

E foy que de doença crua & feya
A mais que eu nunca vi, deſempararão
Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia
Os oſſos pera ſempre ſepultarão:
Quem auerâ que ſem o ver o creya
Que tão disformemente ali lhe incharão,
As gingiuas na boca, que crecia
A carne, & juntamente apodrecia.

Apodrecia cum fetido & bruto
Cheiro, que o âr vizinho inficionaua,
Não tinhamos ali medico aſtuto,
Sururgião ſutil menos ſe achaua:
Mas qualquer neste officio pouco inſtructo
Pella carne ja podre aſsi cortaua,
Como ſe fora morta, & bem conuinha
Pois que morto ficaua quem a tinha.

Em fim que neſta incognita eſpeſſura
Deixamos pera ſempre os companheiros,
Que em tal caminho & em tanta deſuentura
Forão ſempre com noſco auentureiros:
Quam facil he ao corpo a ſepultura
Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros,
Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos,
Receberão de todo o illuſtre os oſſos.

Aſsi que deſte porto nos partimos
Com mayor eſperança & mòr triſteza,
E pella coſta abaixo o mar abrimos
Buſcando algum ſinal de mais firmeza:
Na dura Moçambique em fim ſurgimos,
De cuja falſidade & mâ vileza
Ia ſeras ſabedor, & dos enganos
Dos pouos de Mombaça pouco humanos.

Ate que aqui no teu ſeguro porto,
Cuja brandura & doce tratamento,
Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto,
Nos trouxe a piedade do alto aſſento:
Aqui repouſou, aqui doce conforto,
Noua aquietação do penſamento
Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte,
Te contey tudo quanto me pediste.

Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo
Gentes que tais caminhos cometeſſem?
Crês tu que tanto Eneas & o facundo
Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem?
Ouſou algum a ver do mar profundo
Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem,
Do que eu vi, a poder desforço & de arte,
E do que inda ei de ver, a oitaua parte?

Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia
Sobre quem tem contenda peregrina,
Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia,
Atenas, Yos, Argo, & Salamina:
E ſoutro que eſclarece toda Auſonia,
A cuja voz altiſona & diuina
Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece,
Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece.

Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos
Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção,
Fingindo Magas Circes, Polifemos,
Syrenas que co canto os adormeção:
Dem lhe mais nauegar â vella & remos
Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem
Os companheiros em goſtando o Loto,
Dem lhe perder nas agoas o Piloto.

Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem
Dos odres, & Calipſos namoradas,
Harpias, que o manjar lhe contaminem
Decer aas ſombras nuas ja paſſadas:
Que por muito & por muito que ſe afinem
Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas,
A verdade que eu conto nua & pura
Vence toda grandiloca eſcriptura.

Da boca do facundo capitão
Pendendo eſtauão todos embibidos,
Quando deu fim aa longa narração
Dos altos feitos grandes & ſubidos:
Louua o Rey o ſublime coração
Dos Reis em tantas guerras conhecidos,
Da gente louua a antiga fortaleza,
A lealdade danimo & nobreza.

Vay recontando o pouo que ſe admira
O caſo cada qual que mais notou,
Nenhum delles da gente os olhos tira
Que tão longos caminhos rodeou:
Mas ja o mancebo Delio as redeas vira
Que o irmão de Lampecia mal guiou,
Por vir a deſcanſar nos Thetios braços
E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços.

Quam doce he o louuor & a juſta gloria
Dos proprios feitos, quando ſam ſoados,
Qualquer nobre trabalha que em memoria
Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados:
As enuejas da illustre & alhea hiſtoria
Fazem mil vezes feitos ſublimados,
Quem valeroſas obras exercita
Louuor alheo muito o eſperta & incita.

Não tinha em tanto os feitos glorioſos
De Achiles, Alexandro na pelleja,
Quanto de quem o canta, os numeroſos
Verſos, iſſo ſo louua, iſſo deſeja:
Os tropheos de Melciades famoſos
Temiſtocles deſpertão ſo de enueja,
E diz, que nada tanto o deleitaua
Como a vez que ſeus feitos celebraua.

Trabalha par moſtrar Vaſco da Gama
Que eſſas nauegaçoẽs que o mundo canta,
Não merecem tamanha gloria & fama:
Como a ſua, que o ceo & a terra eſpanta:
Si mas aquelle Heroe que eſtima & ama
Com doẽs, merces, fauores, & honra tanta
A lira Mantuana faz que ſoe
Eneas, & a Romana gloria voe.

Dâ a terra Luſitana Scipioẽs
Ceſares, Alexandros, & da Auguſtos,
Mas não lhe dâ com tudo aquelles doẽs
Cuja falta os faz duros & robustos
Octauio, entre as mayores opreſſoẽs
Compunha verſos doutos & venuſtos,
Não dirâ Fuluia certo que he mentira
Quando a deixaua Antonio por Glafira.

Vay Ceſar ſojugando toda França
E as armas não lhe empedem a ſciencia,
Mas nũa mão a pena, & noutra a lança
Igoalaua de Cicero a eloquencia:
O que de Scipião ſe ſabe & alcança
He nas comedias grande experiencia,
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que ſempre ſe lhe ſabe aa cabeceira.

Em fim não ouue forte capitão
Que não foſſe tambem douto & ſciente,
Da Lacia, Grega, ou Barbara nação
Se não da Portugueſa tão ſomente:
Sem vergonha o não digo, que a rezão
Dalgum não ſer por verſos excelente,
He não ſe ver prezado o verſo & rima,
Porque quem não ſabe arte não na eſtima.

Por iſſo & não por falta de Natura
Não ha tambem Virgilios nem Homeros,
Nem auerâ ſe eſte coſtume dura
Pios Eneas, nem Achiles feros:
Mas o pior de tudo he que a ventura
Tão aſperos os fez, & tão Austeros,
Tão rudos, & de ingenho tão remiſſo
Que a muitos lhe dâ pouco, ou nada diſſo.

Aas Muſas agardeça o noſſo Gama
O muito amor da patria, que as obriga
A dar aos ſeus na lira nome & fama
De toda a illuſtre & bellica fadiga:
Que elle, nem quem na eſtirpa ſeu ſe chama,
Caliope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixaſſem
As tellas douro fino, & que o cantaſſem.

Porque o amor fraterno & puro gosto
De dar a todo o Luſitano feito
Seu louuor, he ſomente o proſuposto
Das Tagides gentis, & ſeu reſpeito:
Porem não deixe em fim de ter deſpoſto
Ninguem a grandes obras ſempre o peito,
Que por eſta, ou por outra qualquer via
Não perdera ſeu preço & ſua valia.

F I M.



❧ Canto Seiſto.

Nam ſabia em que
modo festejaſſe
O Rey Pagão os fortes nauegan
tes,
Pera que as amizades alcançaſſe
Do Rey Chriſtão, das gentes tão poſſantes:
Peſalhe que tão longe o apouſentaſſe
Das Europeas terras abundantes,
A ventura, que namno fez vizinho
Donde Hercules ao mar abrio o caminho.

Com jogos, danças, & outras alegrias
A ſegundo a policia Melindana,
Com vſadas & ledas peſcarias
Com que a Lageia Antonio alegra & engana:
Eſte famoſo Rey todos os dias
Feſteja a companhia Luſitana,
Com banquetes, manjares deſuſados
Com frutas, aues, carnes, & peſcados.

Mas vendo o Capitão que ſe detinha
Ia mais do que deuia, & o freſco vento
O conuida que parta & tome aſinha,
Os Pilotos da terra & mantimento,
Não ſe quer mais deter, que ainda tinha
Muito pera cortar do ſalſo argento,
Ia do Pagão benigno ſe deſpede
Que a todos amizade longa pede.

Pedelhe mais, que aquelle porto ſeja
Sempre com ſuas Frotas viſitado,
Que nenhum outro bem mayor deſeja
Que dar a tais baroẽs ſeu reino & estado:
E que em quanto ſeu corpo o ſprito reja
Eſtarâ de contino aparelhado,
A pôr a vida & reino totalmente
Por tão bom Rey, por tão ſublime gente.

Outras palauras tais lhe reſpondia
O Capitão, & logo as vellas dando,
Pera as terras da Aurora ſe partia,
Que tanto tempo ha ja que vay buſcando:
No Piloto que leua não auia
Falſidade, mas antes vay moſtrando
A nauegação certa, & aſsi caminha
Ia mais ſeguro do que dantes vinha.

As ondas nauegauão do Oriente
Ia nos mares da India, & enxergauão
Os talamos do Sol, que nace ardente,
Ia quaſi ſeus deſejos ſe acabauão:
Mas o mao de Tioneo, que na alma ſente
As venturas, que então ſe aparelhauão
Aa gente Luſitana dellas dina,
Arde, morre, blasfema & deſatina.

Via eſtar todo o Ceo determinado
De fazer de Lisboa noua Roma,
Não no pode eſtoruar, que deſtinado
Eſtâ doutro poder que tudo doma,
Do Olimpo dece em fim deſeſperado,
Nouo remedio em terra buſca, & toma,
Entra no humido reino, & vaiſe aa corte
Daquelle, a quem o mar cayo em ſorte.

No mais interno fundo das profundas
Cauernas altas, onde o mar ſe eſconde,
La donde as ondas ſaem furibundas,
Quando aas iras do vento o mar reſponde,
Neptuno mora, & morão as jocundas
Nereidas, & outros Deoſes do mar, onde
As agoas campa deixão aas cidades,
Que habitão eſtas humidas deidades.

Deſcobre o fundo nunca deſcuberto
As areas ali de prata fina,
Torres altas ſe vem no campo aberto
Da tranſparente maſſa criſtalina,
Quanto ſe chegão mais os olhos perto,
Tanto menos a vista determina
Se he criſtal o que vê, ſe diamante,
Que aſsi ſe moſtra claro & radiante.

As portas douro fino, & marchetadas
Do rico aljofar que nas conchas nace,
De eſculptura fermoſa estão lauradas,
Na qual do irado Baco a viſta pace:
E vê primeiro em cores variadas
Do velho Chaos a tão confuſa face,
Vemſe os quatro elementos traſladados
Em diuerſos officios occupados.

Ali ſublime o Fogo eſtaua encima,
Que em nenhũa materia ſe ſuſtinha,
Daqui as couſas viuas ſempre anima,
Deſpois que Prometeo furtado o tinha:
Logo a pos elle leue ſe ſublima
O inuiſibil Ar, que mais aſinha
Tomou lugar, & nem por quente, ou frio,
Algum deixa no mundo eſtar vazio

Eſtaua a terra em montes reuestida
De verdes eruas & aruores floridas,
Dando pasto diuerſo & dando vida
Aas alimarias nella produzidas:
A clara forma ali estaua eſculpida
Das agoas entre a terra deſparzidas,
De peſcados criando varios modos,
Com ſeu humor mantendo os corpos todos.

Noutra parte eſculpida eſtaua a guerra
Que tiuerão os Deoſes cos Gigantes,
Esta Tiſeo debaixo da alta ſerra
De Etna, que as flamas lança crepitantes:
Eſculpido ſe vê ferindo a terra
Neptuno, quando as gentes ignorantes.
Delle o cauallo ouuerão, & a primeira
De Minerua pacifica Ouliueira.

Pouca tardança faz Lyeo irado
Ne viſta deſtas couſas, mas entrando
Nos paços de Neptuno, que auiſado
Da vinda ſua, o eſtaua ja aguardando:
Aas portas o recebe, acompanhado
Das Nimphas, que ſe eſtão marauilhando,
De ver que cometendo tal caminho,
Entre no reino dagoa o Rey do vinho.

O Neptuno, lhe diſſe, não te eſpantes.
De Baco nos teus reinos receberes,
Porque tambem cos grandes & poſſantes
Mostra a Fortuna injuſta ſeus poderes:
Manda chamar os Deoſes do mar, antes
Que fale mais, ſe ouuirme o mais quiſeres,
Verão da deſuentura grandes modos,
Oução todos o mal que toca a todos.

Iulgando ja Neptuno que ſeria
Eſtranho caſo aquelle, logo manda
Tritão, que chame os Deoſes da agoa fria,
Que o mar habitão dhũa & doutro banda,
Tritão, que de ſer filho ſe gloria
Do Rey, & de Salacia veneranda,
Era mancebo grande, negro & feyo
Trombeta de ſeu pay, & ſeu Correyo.

Os cabellos da barba, & os que decem
Da cabeça nos ombros, todos erão,
Hũs limos prenhes dagoa, & bem parecem
Que nunca brando pentem conhecerão:
Nas pontas pendurados não falecem
Os negros Miſilhoẽs, que ali ſe gerão,
Na cabeça por gorra tinha poſta
Hũa muy grande caſca de Lagoſta.

O corpa nú, & os membros genitais
Por não ter ao nadar impedimento,
Mas porem de pequenos animais
Do mar, todos cubertos cento & cento:
Camaroẽs, & Cangrejos, & outros mais
Que recebem de Phebe crecimento,
Oſtras, & Camaroẽs do muſco çujos,
As coſtas coa caſca os Caramujos.

Na mão a grande Concha retorcida
Que trazia, com força ja tocaua,
A voz grande canora foy ouuida
Por todo o mar, que longe retumbaua:
Ia toda a companhia apercebida
Dos Deoſes, para os paços caminhaua
Do Deos, que fez os muros de Dardania,
Deſtroidos deſpois da Grega inſania.

Venha o padre Oceano acompanhado
Dos filhos & das filhas que gerara,
Vem Nereo, que com Doris foy caſado,
Que todo o mar de Nimphas pouoara:
O Propheta Proteo, deixando o gado
Maritimo pacer pella agoa amara,
Ali veyo tambem, mas ja ſabia
O que o padre Lyeo no mar queria.

Vinha por outra parte a linda eſpoſa
De Neptuno, de Celo & Veſta filha,
Graue & leda no gesto, & tão fermoſa
Que ſe amanſaua o mar de marauilha:
Veſtida hũa camiſa precioſa
Trazia de delgada beatilha,
Que o corpo cristalino dexa verſe,
Que tanto bem não he para eſconderſe.

Anfitrite fermoſa como as ſlores,
Neſte caſo não quis que faleceſſe,
O Delfim traz conſigo, que aos amores
Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe:
Cos olhos que de tudo ſam ſenhores
Qualquer parecera que o Sol venceſſe,
Ambas vem pella mão, ygoal partido
Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido.

Aquella que das furias de Atamante
Fugindo, veyo a ter diuino eſtado,
Conſigo traz o filho, belli Infante,
No numero dos Deoſes relatado.
Pella praya brincando vem diante
Com as lindas conchinhas, que o ſalgado
Mar ſempre cria, & aas vezes pella area
No colo o toma a bella Panopea.

E o Deos que foy num tempo corpo humano,
E por virtude da erua poderoſa
Foy conuertido em pexe, & deſte dano
Lhe reſultou deidade glorioſa,
Inda vinha chorando o feio engano,
Que Circes tinha vſado coa fermoſa
Scylla, que elle ama, desta ſendo amado
Que a mais obriga amor mal empregado.

Ia finalmente todos aſſentados
Na grande ſala nobre & diuinal,
As Deoſas em riquiſsimos eſtrados,
Os Deoſes em cadeiras de cristal:
Forão todos do Padre agaſalhados,
Que co Thebano tinha aſſento ygoal:
De fumos enche a caſa a rica maſſa
Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa.

Eſtando ſoſſegado ja o tumulto
Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos,
Começa a deſcubrir do peito occulto,
A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos:
Hum pouco carregando ſe no vulto,
Dando moſtra de grandes ſentimentos,
So por dar aos de Luſo triſte morte
Co ferro alheyo, fala deſta ſorte.

Princepe que de juro ſenhoreas
Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado,
Tu que as gentes da terra toda enfreas,
Que não paſſem o termo limitado:
E tu padre Oceano, que rodeas
O mundo vniuerſal, & o tens cercado:
E com juſto decreto aſsi parmites,
Que dentro viuão ſo de ſeus limites.

E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis
Injuria algũa em voſſo reino grande,
Que com castigo ygoal vos não vingueis,
De quemquer que por elle corra, & ande:
Que deſcuido foy este em que viueis?
Quem pode ſer que tanto vos abrande,
Os peitos, con razão endurecidos
Contra os humanos fracos & atreuidos?

Vistes que com grandiſsima ouſadia
Forão ja cometer o Ceo ſupremo,
Vistes aquella inſana fantaſia
De tentarem o mar com vella & remo:
Vistes, & ainda vemos cada dia,
Soberbas & inſolencias tais, que temo
Que do mar & do Ceo em poucos anos,
Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos.

Vedes agora a fraca geracão
Que dhum vaſſallo meu o nome toma,
Com ſoberbo, & altiuo coração,
A vos, & a mi, & o mundo todo doma:
Vedes o voſſo mar cortando vão,
Mais do que fez a gente alta de Roma,
Vedes o voſſo reino deuaſſando
Os voſſos eſtatutos vão quebrando.

Eu vi que contra os Mynias, que primeiro
No voſſo reino este caminho abrirão,
Boreas injuriado, & o companheiro
Aquilo, & os outros todos reſiſtirão:
Pois ſe do ajuntamento auentureiro
Os ventos eſta injuria aſsi ſentirão,
Vos a quem mais compete eſta vingança,
Que eſperais, porque a pondes em tardança?

E não conſinto Deoſes que cuideis
Que por amor de vos do ceo deci,
Nem da magoa da injuria que ſofreis,
Mas da que ſeme faz tombem a mi:
Que aquellas grandes honras, queſabeis
Que no mundo ganhey, quando venci
As terras Indianas do Oriente,
Todas vejo abatidas desta gente.

Que o gran Senhor & fados que destinão,
Como lhe bem parece, o baxo mundo,
Famas mores que nunca determinão
De dar a eſtes baroẽs no mar profundo:
Aqui vereis o Deoſes como inſinão
O mal tambem a Deoſes. que a ſegundo
Se ve, ninguem ja tem menos valia
Que quem com mais razão valer deuia.

E por iſſo do Olimpo ja fugi,
Buſcando algum remedio a meus peſares,
Por ver o preço, que no Ceo perdi,
Se por dita acharey nos voſſos mares:
Mais quis dizer, & não paſſou daqui,
Porque as lagrimas ja correndo a pares
Lhe ſaltarão dos olhos, com que logo
Se acendem as Deidades dagoa em fogo.

A Ira com que ſubito alterado
O coração dos Deoſes foy num ponto,
Não ſoffreo mais conſelho bem cuidado,
Nem dilação, nem outro algum deſconto:
Ao grande Eolo mandão ja recado
Da parte de Neptuno, que ſem conto
Solte as furias dos ventos repugnantes,
Que não aja no mar mais nauegantes.

Bem quiſera primeiro ali Protheo
Dizer neste negocio o que ſentia,
E ſegundo o que a todos pareceo,
Era algũa profunda prophecia:
Porem tanto o tumulto ſe moueo
Subito na diuina companhia,
Que Thetis indinada lhe bradou,
Neptuno ſabe bem o que mandou.

Ia la o ſoberbo Hypotades ſoltaua
Do carcere fechado os furioſos
Ventos, que com palauras animaua,
Contra os varoẽs audaces & animoſos:
Subito o ceo ſereno ſe obumbraua,
Que os ventos mais que nunca impetuoſos
Começão nouas forças a yr tomando,
Torres, montes & caſas derribando.

Em quanto este conſelho ſe fazia
No fundo aquoſo, a leda laſſa Frota
Com vento ſoſſegado proſeguia
Pello tranquilo mar, a longa rota:
Era no tempo quando a luz do dia.
Do Eoo Emiſperio estâ remota,
Os do quarto da prima ſe deitauão
Pera o ſegundo os outros deſpertauão.

Vencidos vem do ſono, & mal deſpertos
Bocijando a miudo ſe encoſtauão,
Pellas antenas, todos mal cubertos,
Contra os agudos ares que aſſoprauão:
Os olhos contra ſeu querer abertos
Mas estregando os membros estirauão,
Remedios contra o ſonno buſcar querem,
Hiſtorias contão, caſos mil referem.

Com que milhor podemos, hum dizia,
Eſte tempo paſſar, que he tão peſado,
Se não com algum conto de alegria
Com que nos deixe o ſono carregado?
Reſponde Lionardo, que trazia
Penſamentos de firme namorado,
Que contos paderemos ter milhores
Pera paſſar o tempo, que de amores?

Não he, diſſe Veloſo, couſa juſta
Tratar branduras em tanta aſpereza,
Que o trabalho do mar, que tanto cuſta,
Não ſoffre amores, nem delicadeza:
Antes de guerra ſeruida & robuſta
A noſſa hiſtoria ſeja, pois dureza
Noſſa vida ha de ſer, ſegundo entendo
Que o trabalho por vir mo eſta dizendo.

Conſentem niſto todos, & encomendão
A Veloſo que conte iſto que aproua,
Contarei diſſe, ſem que me reprendão
De contar couſa fabuloſa, ou noua:
E porque os que me ouuirem daqui aprendão
A fazer feitos grandes de alta proua,
Dos nacidos direy na noſſa terra,
E eſtes ſejão os doze de Inglaterra.

No tempo que do reino a redea leue
Ioão filho de Pedro moderaua,
Deſpois que ſoſſegado & liure o teue
Do vizinho poder que o moleſtaua:
La na grande Inglaterra, que da neue
Boreal ſempre abunda, ſemeaua
A fera Erinis dura & mâ cizania
Que luſtre foſſea noſſa Luſitania.

Entre as damas gentis da corte Ingleſa,
E nobres corteſaõs, a caſo hum dia
Se leuantou diſcordia em ira aceſa,
Ou foy opinião, ou foy porfia:
Os Corteſaõs a quem tam pouco peſa
Soltar palauras graues de ouſadia
Dizem que prouarão, que honras & famas
Em tais damas não ha, pera ſer damas.

E que ſe ouuer alguem com lança & eſpada
Que queira ſustentar a parte ſua,
Que elles em campo raſo, ou estacada,
Lhe darão fea infamia, ou morte crua:
A femenil fraqueza pouco vſada
Ou nunca a oprobrios tais, vendo ſe nua
De forças naturais conuenientes,
Socorro pede a amigos & parentes.

Mas como foſſem grandes & poſſantes
No reino os inimigos, não ſe atreuem
Nem parentes, nem feruidos amantes
A ſuſtentar as damas, como deuem:
Com lagrimas fermoſas & bastantes
A fazer que em ſocorro os Deoſos leuem
De todo o Ceo, por roſtos de alabaſtro
Se vão todas ao duque de Alencastro.

Era eſte Ingres potente, & militara
Cos Portugueſes ja contra Castella,
Onde as forças magnanimas prouara
Dos companheiros, & benigna eſtrella?
Não menos neſta terra eſprimentara
Namorados affeitos, quando nella
A filha vio, que tanto o peito doma
Do forte Rey, que por molher a toma.

Eſte que ſocorrer lhe não queria,
Por não cauſar diſcordias inteſtinas
Lhe diz, quando o direito pretendia
Do reino la das terras Iberinas,
Nos Luſitanos vi tanta ouſadia,
Tanto primor, & partes tão diuinas,
Que elles ſos poderião, ſe não erro
Suſtentar voſſa parte a fogo & ferro.

E ſe agrauadas damas ſois ſeruidas,
Por vos lhe mandarei embaixadores,
Que por cartas diſcretas & polidas,
De voſſo agrauo os fação ſabedores:
Tambem por voſſa parte encarecidas
Com palauras dafagos & damores,
Lhe ſejão voſſas lagrimas, que eu creyo
Que ali terees ſocorro & forte eſteyo.

Destarte as aconſelha o Duque experto,
E logo lhe nomea doze fortes,
E porque cada dama hum tenha certo,
Lhe manda que ſobrelles lancem ſortes,
Que ellas ſo doze ſam: & deſcuberto
Qual a qual tem caida das conſortes,
Cadhũa eſcreue ao ſeu por varios modos,
E todas a ſeu Rey, & o Duque a todos.

Ia chega a Portugal o menſageiro,
Toda a corte aluoroça a nouidade,
Quiſera o Rey ſublime ſer primeiro,
Mas não lho ſoffre a Regia Mageſtade:
Qualquer dos corteſaõs auentureiro
Deſeja ſer, com feruida vontade,
E ſo fica por bemauenturado,
Quem ja vem pello Duque nomeado.

La na leal cidade, donde teue
Origem (como he fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leue
Manda o que tem o leme do gouerno:
Apercebem ſe os doze em tempo breue
Darmas, & roupas de vſo mais moderno,
De elmos, cimeras, letras, & primores
Caualos, & Concertos de mil cores.

Ia do ſeu Rey tomado tem licença
Pera partir do Douro celebrado,
Aqueles, que eſcolhidos por ſentença
Forão do Duque Ingles eſprimentado:
Não ha na companhia differença
De caualeiro, destro, ou esforçado:
Mas hum ſo, que Magriço ſe dizia
Deſtarte fala aa forte companhia,

Fortiſsimos conſocios, eu deſejo
A muito ja de andar terras estranhas,
Por ver mais agoas, que as do Douro & Tejo,
Varias gentes, & leis, & varias manhas:
Agora que aparelho certo vejo,
(Pois que do mundo as couſas ſam tamanhas)
Quero ſe me deixais, ir ſò por terra,
Porque eu ſerey conuoſco em Inglaterra.

E quando caſo for, que eu impedido
Por quem das couſas he vltima linha,
Não for com voſco ao prazo instituido,
Pouca falta vos faz a falta minha:
Todos por mi fareis o que he diuido:
Mas ſe a verdade o ſprito me adiuinha,
Rios, montes, fortuna, ou ſua enueja,
Não farão que eu com voſco la não ſeja.

Aſsi diz & abraçados os amigos,
E tomada licença, em fim ſe parte,
Paſſa Lião, Caſtella vendo antigos
Lugares, que ganhara o patrio Marte:
Neuarra, cos altiſsimos perigos
Do Perineo, que Eſpanha & Galia parte:
Vistas em fim de França as couſas grandes,
No grande emperio foy parar de Frandes.

Ali chegado, ou foſſe caſo, ou manha,
Sem paſſar ſe deteue muitos dias,
Mas dos onze a illuſtriſsima companha
Cortão do mar do Norte as ondas frias:
Chegados de Inglaterra aa coſta eſtranha,
Pera Londres ja fazem todos vias,
Do Duque ſam com feſta agaſalhados,
E das damas ſeruidos, & amimados.

Chegaſſe o prazo, & dia aſinalado,
De entrar em campo ja cos doze Ingleſes,
Que pello Rey ja tinhão ſegurado,
Armanſe delmos, greuas, & de arneſes:
Ia as damas tem por ſi fulgente & armado
O Mauorte feroz dos Portugueſes,
Vestem ſe ellas de cores & de ſedas
De ouro, & de joyas mil, ricas, & ledas.

Mas aquella, a quem fora em ſorte dado
Magriço, que não vinha, com triſteza
Se veſte, por não ter quem nomeado
Seja ſeu caualeiro, nesta empreſa:
Bem que os onze apregoão, que acabado
Sera o negocio aſsi na corte Ingleſa,
Que as damas vencedoras ſe conheção
Poſto que dous & tres dos ſeus falleção.

Ia num ſublime & pubrico theatro
Se aſſenta o Rey Ingles com toda a corte,
Eſtauão tres & tres, & quatro & quatro,
Bem como a cada qual coubera em ſorte:
Não ſam vistos do Sol do Tejo ao Batro,
De força, esforço, & danimo mais forte,
Outros doze ſayr como os Ingleſes
No campo, contra os onze Portugueſes.

Maſtigão os caualos escumando
Os aureos freos, com feroz ſembrante,
Estaua o Sol nas armas rutilando,
Como em criſtal, ou rigido diamante:
Mas enxergaſe num & noutro bando
Partido deſigoal & diſſonante
Dos onze contra os doze: quando a gente
Começa a aluoroçar ſe geralmente.

Verão todos o rosto aonde auia
A cauſa principal do rebuliço,
Eis entra hum caualeiro, que trazia
Armas, caualo, ao bellico ſeruiço.
Ao Rey & aas damas fala, & logo ſe hia
Pera os onze, que eſte era o gram Magriço,
Abraça os companheiros como amigos,
A quem não fata certo nos perigos.

A dama como ouuio, que este era aquelle,
Que vinha a defender ſeu nome, & fama,
Se alegra, & veſte ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que vertude ama:
Ia dão ſinal, & o ſom da tuba impelle
Os belicoſos animos, que inflama,
Picão deſporas, largão redeas logo
Abaxão lanças, fere a terra fogo.

Dos caualos o estrepito parece
Que faz, que o chão debaixo todo treme,
O coração no peito, que estremece
De quem os olha, ſe aluoroça, & teme:
Qual do caualo voa, que não dece,
Qual co caualo em terra dando, geme,
Qual vermelhas as armas faz de brancas,
Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.

Algum dali tomou perpetuo ſono,
E fez da vida ao fim breue interualo,
Correndo algum cauallo vay ſem dono,
E noutra parte o dono ſem caualo:
Cae a ſoberba Ingleſa de ſeu trono,
Que dous ou tres ja fora vão do valo,
Os que de eſpada vem fazer batalha,
Mais achão ja que arnes, eſcudo, & malha.

Gastar palauras em contar eſtremos
De golpes feros, cruas eſtocadas,
He deſſes gaſtadores, que ſabemos
Maos do tempo, com fabulas ſonhadas:
Baſta por fim do caſo, que entendemos
Que com finezas altas & affamadas,
Cos noſſos fica a palma da victoria,
E as damas vencedoras, & com gloria.

Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos ſeus paços, com feſtas & alegria,
Cozinheiros occupa, & caçadores
Das damas a fermoſa companhia,
Que querem dar aos ſeus libertadores
Banquetes mil, cada hora, & cada dia,
Em quanto ſe detem em Inglaterra,
Ate tornar aa doce & chara terra.

Mas dizem que com tudo o gram Magriço
Deſejoſo de ver as couſas grandes,
La ſe deixou ficar, onde hum ſeruiço
Notauel aa condeſſa fez de Frandes:
E como quem não era ja nouiço
Em todo trance, onde tu Marte mandes,
Hum Frances mata em campo, que o deſtino
La teue de Torcato & de Coruino.

Outro tambem dos doze em Alemanha
Se lança, & teue hum fero deſafio
Cum Germano enganoſo, que com manha
Não diuida o quis pòr no eſtremo fio:
Contando aſsi Veloſo, ja a companha
Lhe pede, que não faça tal deſuio
Do caſo de Magriço, & vencimento
Nem deixe o de Alemanha em eſquecimento.

Mas neste paſſo aſsi promptos eſtando,
Eis o meſtre, que olhando os ares anda,
O apito toca, acordão deſpertando
Os marinheiros dhũa & doutra banda:
E porque o vento vinha refreſcando,
Os traquetes das gaueas tomar manda,
Alerta, diſſe, estay, que o vento crece
Daquella nuuem negra que aparece.

Não erão os traquetes bem tomados,
Quando dà a grande & ſubita procella,
Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados
Amaina, diſſe, amaina a grande vella,
Não eſperão os ventos indinados
Que amainaſſem, mas juntos dando nella,
Em pedaços a fazem, cum ruido
Que o mundo pareceo ſer deſtruydo.

O ceo fere com gritos niſto a gente,
Cum ſubito temor, & deſacordo,
Que no romper da vela a Nao pendente
Toma gram ſuma dagoa pello bordo,
Alija, diſſe o meſtre, rijamente,
Alija tudo ao mar, não falte acordo,
Vão outros dar a bomba não ceſſando,
Aa bomba que nos imos alagando.

Correm logo os ſoldados animoſos
A dar aa bomba, & tanto que chegarão,
Os balanços, que os mares temeroſos
Derão aa Nao, num bordo os derribarão:
Tres marinheiros duros, & forçoſos,
A menear o leme não baſtarão,
Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte
Se aproueitar dos homens força & arte.

Os ventos erão tais, que não poderão
Moſtrar mais força dimpeto cruel,
Se pera derribar então vierão
A fortiſsima torre de Babel:
Nos altiſsimos mares, que crecerão,
A pequena grandura dhum batel,
Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto
Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto.

A nao grande, em que vay Paulo da Gama,
Quebrada leua o maſto pello meyo,
Quaſi toda alagada: a gente chama
Aquelle que a ſaluar o mundo veyo:
Não menos gritos vãos ao ar derrama
Toda a Nao de Coelho, com receyo,
Com quanto teue o meſtre tanto tento
Que primeiro amainou que deſſe o vento:

Agora ſobre as nuuens os ſubião
As ondas de Neptuno furibundo,
Agora a ver parece que decião
As intimas entranhas do profundo.
Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião
Arruinar a machina do mundo,
A noite negra & feya ſe alumia,
Cos rayos, em que o Polo todo ardia.

As Alcioneas aues triste canto
Iunto da costa braua leuantarão,
Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto,
Que as furioſas agoas lhe cauſarão:
Os Delfins namorados entre tanto
La nas couas maritimas entrarão,
Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros
Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros

Nunca tam viuos rayos fabricou
Contra a fera ſoberba dos Gigantes,
O gram ferreiro ſordido, que obrou
Do enteado as armas radiantes:
Nem tanto o gram Tonante arremeſſou
Relampados ao mundo fulminantes,
No gram diluuio, donde ſos viuerão
Os dous que em gente as pedras conuerterão.

Quantos montes então, que derribarão
As ondas que batião denodadas,
Quantas aruores velhas arrancarão
Do vento brauo as furias indinadas:
As forçoſas raizes não cuidarão
Que nunca pera o ceo foſſem viradas,
Nem as fundas arêas que podeſſem
Tanto os mares que encima as reuolueſſem.

Vendo Vaſco da Gama que tam perto
Do fim de ſeu deſejo ſe perdia,
Vendo ora o mar ate o inferno aberto,
Ora com noua furia ao ceo ſubia,
Confuſo de temor, da vida incerto,
Onde nenhum remedio lhe valia,
Chama aquelle remedio ſancto & forte
Que o impoſsibil pode, desta ſorte.

Diuina guarda, angelica, celeſte,
Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds,
Tu que a todo iſrael refugio deſte
Por metade das agoas Eritreas:
Tu que liuraſte Paulo & defendeſte
Das Syrtes arenoſas & ondas feas,
E guardaste cos filhos o ſegundo
Pouoador do alagado & vacuo mundo.

Se tenho nouos medos perigoſos
Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados,
Outras Syrtes, & baxos arenoſos,
Outros Acroceraunios infamados,
No fim de tantos caſos trabalhoſos,
Por que ſomos de ti deſemparados,
Se eſte noſſo trabalho não te offende,
Mas antes teu ſeruiço ſo pretende?

O ditoſos aquelles que puderão
Entre as agudas lanças Affricanas
Morrer, em quanto fortes ſostiuerão
A ſancta Fe, nas terras Mauritanas:
De quem feitos illuſtres ſe ſouberão,
De quem ſicão memorias ſoberanas,
De quem ſe ganha a vida com perdella,
Doce fazendo a morte as honras della.

Aſsi dizendo os ventos que lutauão,
Como touros indomitos bramando,
Mais & mais a tormenta acrecentauão,
Pella miuda enxarcia aſſuuiando.
Relampados medonhos não ceſſauão,
Feros trouoẽs que vem repreſentando
Cair o ceo dos exos ſobre a terra,
Cenſigo os elementos terem guerra.

Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua
Diante do Sol claro, no Orizonte
Menſageira do dia, & viſitaua
A terra, & o largo mar, com leda fronte:
A deoſa que nos ceos a gouernaua,
De quem foge o enſiſero Orionte,
Tanto que o mar, & a chara armada vira,
Tocada junto foy de medo, & de ira.

Estas obras de Baco ſam por certo,
Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue
Tão danada tenção, que deſcuberto
Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue,
Iſto dizendo, dece ao mar aberto,
No caminho gaſtando eſpaço breue,
Em quanto manda as nimphas amoroſas
Grinaldas nas cabeças por de roſas.

Grinaldas manda por de varias cores
Sobre cabellos louros a porfia,
Quem não dirâ, que nacem roxas flores
Sobre ouro natural, que amor infia:
Abrandar determina por amores
Dos ventos a nojoſa companhia,
Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas,
Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas.

Aſsi foy, porque tanto que chegarão
A viſta dellas, logo lhe falecem
As forças com que dantes pellejarão,
E ja como rendidos lhe obedecem.
Os pês & mãos, parece, que lhe atarão
Os cabellos que os rayos eſcurecem,
A Boreas, que do peito mais queria,
Aſsi diſſe a belliſsima Oritia.

Não creas, fero Boreas, que te creyo
Que me tiueſte nunca amor constante,
Que brandura he de amor mais certo arreyo,
E não conuem furor a firme amante:
Se ja não poẽs a tanta inſania freyo,
Não eſperes de mi daqui em diante,
Que poſſa mais amarte, mas temerte,
Que amor contigo, em medo ſe conuerte.

Aſsi meſmo a fermoſa Galatea
Dizia ao fero Noto, que bem ſabe
Que dias ha que em vella ſe recrea,
E bem crê que com elle tudo acabe,
Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea,
Que o coração no peito lhe não cabe,
De contente de ver que a dama o manda,
Pouco cuida que faz ſe logo abranda.

Deſta maneira as outras amanſauão
Subitamente os outros amadores,
E logo aa linda Venus ſe entregauão,
Amanſadas as iras & os furores,
Ella lhe prometeo vendo que amauão.
Sempiterno fauor em ſeus amores,
Nas bellas mãos tomandelhe omenagem
De lhe ſerem leais eſta viagem.

Ia a menham clara daua nos outeiros,
Por onde o Ganges murmurando ſoa,
Quando da celſa gauea os marinheiros
Enxergarão terra alta pella proa,
Ia fora de tormenta, & dos primeiros
Mares, o temor vão do peito voa,
Diſſe alegre o Piloto Melindano,
Teria he de Calccu, ſe não me engano.

Eſta he por certo a terra que buſcais
Da verdadeira India, que aparece
E ſe do mundo mais não deſejais,
Voſſo trabalho longo aqui fenece:
Soſſrer aqui não pode o Gama mais,
De ledo em ver que a terra ſe conhece,
Os geolhos no chão, as mãos ao ceo
A merce grande a Deos agardeceo.

As graças a Deos daua, & razão tinha
Que não ſomente a terra lhe moſtraua,
Que com tanto temor buſcando vinha
Por quem tanto trabalho eſprimentaua,
Mas via ſe liurado tão aſinha
Da morte, que no mar lhe aparelhaua
O vento duro, feruido, & medonho,
Como quem deſpertou de horrendo ſonho.

Por meyo deſtes horridos parigos
Deſtes trabalhos graues & temores,
Alcanção os que ſam de fama amigos
As honras immortais, & graos mayores:
Não encoſtados ſempre nos antigos
Troncos nobres de ſeus anteceſſores,
Não nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moſcouia Zebellinos.

Não cos manjares nouos & exquiſitos,
Não cos paſſeos molles & oucioſos,
Não cos varios deleites & infinitos
Que afeminão os peitos generoſos:
Não cos nunca vencidos apetitos
Que a Fortuna tem ſempre tão mimoſos,
Que não ſoffre a nenhum que o paſſo mude
Pera algũa obra heroica de virtude.

Mas com buſcar co ſeu forçoſo braço
As honras, que elle chame proprias ſuas,
Vigiando, & veſtindo o forjado aço
Soffrendo tempeſtades & ondas cruas:
Vencendo os torpes frios no regaço
Do Sul, & regioẽs de abrigo nuas,
Engulindo o corrupto mantimento
Temperado com hum arduo ſofrimento.

E com forçar o rosto que ſe enfia,
A parecer ſeguro, ledo, inteiro,
Pera o pilouro ardente, que aſſouia
E leua a perna, ou braço ao companheiro:
Destarte o peito hum calo honroſo cria
Deſprezador das honras, & dinheiro,
Das honras, & dinheiro, que a venntura
Forjou, & não vertude juſta, & dura.

Deſtarte ſe eſclarece o entendimento,
Que experiencias fazem repouſado,
E fica vendo, como de alto aſſento,
O baxo tracto humano embaraçado,
Eſte onde tiuer força o regimento
Direito, & nam de affeitos occupado,
Subirà (como deue) a illuſtre mando,
Contra vontade ſua, & não rogando.

FIM.



❧ Canto Septimo.

Ia ſe viã chegados
junto aa terra,
Que deſejada ja de tantos fora,
Que entre as correntes Indicas ſe
encerra,
E o Ganges, que no çeo terreno mora:
Ora ſus gente forte que na guerra
Quereis leuar a palma vencedora,
Ia ſois chegados, ja tendes diante
A terra de riquezas abundante.

A vos, ô geraçam de Luſo digo,
Que tam pequena parte ſois no mundo:
Não digo inda no mundo, mas no amigo
Curral de quem gouerna o çeo rotundo:
Vos, a quem não ſomente algum perigo
Eſtorua conquiſtar o pouo inmundo:
Mas nem cobiça, ou pouca obediencia
Da Madre, que nos çeos eſtâ em eſſencia.

Vos Portugueſes poucos, quanto fortes,
Que o fraco poder voſſo não peſais,
Vos que aa cuſta de voſſas varias mortes
A lei da vida eterna dilatais:
Aſsi do çeo deitadas ſam as ſortes,
Que vos por muito poucos que ſejais,
Muito façais na ſancta Chriſtandade:
Que tanto, ô Chriſto exaltas a humildade.

Vedelos Alemães, ſoberbo gado,
Que por tam largos campos ſe apacenta,
Do ſucceſſor de Pedro rebelado,
Nouo paſtor, & noua ceita inuenta:
Vedelo em feas guerras occupado,
Que inda co cego error ſe nam contenta,
Não contra o ſuperbiſsimo Otomano:
Mas por ſair do jugo ſoberano.

Vedelo duro Ingles, que ſe nomea
Rei da velha & ſanctiſsima cidade,
Que o torpe Iſmaelita ſenhorea,
(Quem via honra tam longe da verdade)
Entre as Boreais neues ſe recrea,
Noua maneira faz de Chriſtandade,
Pera os de Christo tem a eſpada nua,
Nem por tomar a terra que era ſua.

Guardalhe por entanto hum falſo Rei,
A cidade Hieroſolima terreste,
Em quanto elle não guarda a ſancta lei,
Da cidade Hieroſolima celeſte:
Pois de ti Gallo indigno que direy?
Que o nome Christianiſsimo quiſeste,
Nem pera defendelo, nem guardalo,
Mas para ſer contra elle, & derribalo.

Achas que tẽs direito em ſenhorios
De Chriſtãos, ſendo o teu tam largo & tãto.
E nam contra o Cynifio & Nilo rios
Inimigos do antigo nome ſancto,
Ali ſe ande prouar da eſpada os fios,
Em quem quer reprouar da Ygreja o canto,
De Carlos, de Luis, o nome & a terra
Erdaſte, & as cauſas nam da justa guerra?

Pois que direy daquelles que em delicias,
Que o vil ocio no mundo traz conſigo,
Gastão as vidas, logrão as diuicias,
Eſquecidos de ſeu valor antigo:
Naſcem da tyrania inimicicias,
Que o pouo forte tem de ſi inimigo,
Contigo Italia fallo, ja ſumerſa
Em vicios mil, & de ti meſma aduerſa.

O miſeros Chriſtãos, pola ventura
Sois os dentes de Cadmo deſparzidos,
Que hũs aos outros ſe dão aa morte dura,
Sendo todos de hum ventre produzidos?
Nem vedes a diuina ſepultura
Poſſuida de cães, que ſempre vnidos
Vos vem tomar a voſſa antiga terra,
Fazendo ſe famoſas pela guerra?

Vedes que tem por vſo & por decreto,
Do qual ſam tão inteiros obſeruantes,
Ajuntarem o exercito inquieto,
Contra os pouos, que ſam de Chriſto amantes.
Entre vos nunca deixa a fera Aleto
De ſamear cizanias repugnantes,
Olhay ſeſtais ſeguros de perigos,
Que elles & vos, ſois voſſos inimigos.

Se cobiça de grandes ſenhorios
Vos faz yr conquiſtar terras alheas,
Nam vedes que Pactolo & Hermo rios,
Ambos voluem auriferas areas,
Em Lidia, Aſsiria laurão de ouro os fios,
Affrica eſconde em ſi luzentes veas,
Mouauos ja ſe quer riqueza tanta,
Pois mouer vos não pode a caſa Sancta.

Aquellas inuenções feras & nouas,
De instrumentos mortais da artelharia,
Ia deuem de fazeras duras prouas,
Nos muros de Bizancio, & de Turquia:
Fazei que torne la aas ſilueſtres couas,
Dos Caspios montes, & da Citia fria,
A Turca geração, que multiplica
Na policia da voſſa Europa rica.

Gregos, Traces, Armenios, Georgianos
Bradando vos eſtão, que o pouo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do alcorão (duro tributo)
Em caſtigar.os feitos inhumanos
Vos gloriay de peito forte, & aſtuto,
E não queirais louuores arrogantes,
De ſerdes contra os voſſos muy poſſantes.

Mas em tanto que cegos, & ſedentos
Andais de voſſo ſangue, o gente inſana,
Não faltarão Christãos atreuimentos,
Neſta pequena caſa Luſitana
De Affrica tem maritimos aſſentos,
He na Aſia mais que todas ſoberana,
Na quarta parte noua os campos ara,
E ſe mais mundo ouuera la chegâra.

E vejamos em tanto que aconteçe
Aaquelles tam famoſos nauegantes,
Deſpois que a branda Venus enfraqueçe
O furor vão dos ventos repugnantes:
Deſpois que a larga terra lhe apareçe,
Fim de ſuas perfias tam conſtantes,
Onde vẽ ſamear de Christo a ley,
E dar nouo coſtume, & nouo Rei.

Tanto que aa noua terra ſe chegârão,
Leues embarcações de peſcadores
Acharão, que o caminho lhe moſtrârão
De Calecu onde eram moradores:
Pera la logo as proas ſe inclinarão,
Porque esta era a cidade das milhores
Do Malabar milhor, onde viuia
O Rei que a terra toda poſſuia.

Alem do Indo jaz, & âquem do Gange,
Hum terreno muy grande, & aſſaz famoſo
Que pela parte Auſtralo mar abrange,
E pera o Norte o Emodio cauernoſo.
Iugo de Reis diuerſos o conſtrange
A varias leis: algũs o vicioſo
Mahoma, algũs os Idolos adorão,
Algũs os animais, que entre elles morão.

La bem no grande monte, que cortando
Tam larga terra, toda Aſia diſcorre,
Que nomes tam diuerſos vai tomando,
Segundo as regiões por onde corre,
As fontes ſaem, donde vem manando
Os rios, cuja gram corrente morre
No mar Indico, & cercão todo o peſo
Do terreno, fazendo o Cherſoneſo.

Entre hum & o outro rio, em grande eſpaço
Say da larga terra hũa longa ponta
Quaſi piramidal , que no regaço
Do mar com Ceilão inſula confronta,
E junto donde naſce o largo braço
Gangetico, o rumor antigo conta.
Que os vizinhos da terra moradores
Do cheiro ſe mantem das finas flores.

Mas agora de nomes, & de vſança,
Nouos & varios ſam os habitantes:
Os Delijs, os Patanes, que em poſſança
De terra, & gente, ſam mais abundantes,
Decanis, Oriâs, que a eſperança
Tem de ſua ſaluação nas reſonantes
Agoas do Gange, & a terra de Bengala
Fertil de ſorte que outra não lhe igoala.

O Reino de Cambaia bellicoſo
(Dizem que foy de Poro Rei potente)
O Reino de Narſinga poderoſo,
Mais de ouro & pedras, que de forte gente:
Aqui ſe enxerga la do mar vndoſo
Hum monte alto, que corre longamente,
Seruindo ao Malabar de forte muro,
Com que do Canarâ viue ſeguro.

Da terra os naturais lhe chamão Gate,
Do pê do qual pequena quantidade
Se eſtende hũa ſralda eſtreita, que combate
Do mar a natural ferocidade:
Aqui de outras cidades ſem debate,
Calecu tem a illuſtre dignidade,
De cabeça de Imperio rica, & bella,
Samorim ſe intitula o ſenhor della.

Chegada a frota ao rico ſenhorio,
Hum Portugues mandado logo parte,
A fazer ſabedar o Rei gentio
Da vinda ſua a tam remota parte:
Entrando o menſageiro pelo Rio,
Que ali nas ondas entra, a não viſta arte
A cor, o geſto estranho, o trajo nouo
Fez concorrer a vello todo o pouo.

Entre a gente que a vello concorria,
Se chega hum Mahometa, que naſcido
Fora na região da Berberia,
La onde fora Anteo obedecido.
Ou pela vezinhança ja teria
O Reino Luſitano conhecido,
Ou foy ja aſsinalado de ſeu ferro,
Fortuna o trouxe a tam longo desterro.

Em vendo o menſageiro com jocundo
Roſto, como quem ſabe a lingoa Hiſpana
Lhe diſſe, quem te trouxe a eſtoutro mundo,
Tam longe da tua patria Luſitana?
Abrindo lhe reſponde o mar profundo,
Por onde nunca veio gente humana,
Vimos buſcar do Indo o grão corrente,
Por onde a Lei diuina ſe acrecente.

Eſpantado ficou da gram viajem,
O mouro qne Monçaide ſe chamaua,
Ouuindo as opreſſoẽs que na paſſajem
Do mar, o Luſitano lhe contaua,
Mas vendo em fim, que a força da menſajem
So pera o Rei da terra releuaua,
Lhe diz que eſtaua fora da cidade.
Mas de caminho pauca quantidade.

E que em tanto que a noua lhe chegeſſe
De ſua estranha vinda, ſe queria
Na ſua pobre caſa repouſaſſe,
E do manjar da terra comeria:
E deſpois que ſe hum pouco recreaſſe,
Coelle pera a armada tornaria,
Que alegria não pode ſer tamanha,
Que achar gente vezinha em terra eſtranha.

O Portuegues aceita de vontade
O que o ledo Monçaide lhe offerece
Como ſe longa fora ja a amizade,
Coelle come & bebe, & lhe obedeçe:
Ambos ſe tornão logo da cidade,
Pera a frota, que o Mouro bem conheçe,
Sobem aa Capitaina, & toda a gente
Monçaide recebeo benignamente.

O Capitão o abraça em cabo ledo,
Ouuindo clara a lingoa de Caſtella,
Iunto de ſi o aſſenta, & prompto & quedo
Pela terra pergunta, & couſas della:
Qual ſe ajuntaua em Rodope o aruoredo,
So por ouuir o amante da donzella
Euridiçe, tocando a lira de ouro,
Tal a gente ſe ajunta a ouuir o Mouro.

Elle começa, o gente que a natura
Vizinha fez de meu paterno ninho,
Que deſtino tam grande, ou que ventura
Vos trouxe a cometerdes tal caminho:
Nam he ſem cauſa não occulta, & eſcura
Vir do longinco Tejo, & ignoto Minho,
Por mares nunca doutro lenho arados,
A Reinos tam remotos & apartados.

Deos por certo vos traz, porque pretende
Algum ſeruiço ſeu por vos obrado:
Por iſſo ſo vos guia, & vos defende
Dos imigos do mar, do vento yrado:
Sabey que estais na India, onde ſe estende
Diuerſo pouo, rico & proſperado,
De ouro luzente, & fina pedraria,
Cheiro ſuaue, ardente eſpeciaria.

Eſta prouincia, cujo porto agora
Tomado tendes, Malabar ſe chama,
Do culto antigo os Ydolos adora,
Que ca por estas partes ſe derrama:
De diuerſos Reis he, mas dum ſo fora
Noutro tempo, ſegundo a antiga fama,
Saramâ Perimal foy derradeiro
Rei, que este Reino teue vnido & inteiro.

Porem como a eſta terra entam vieſſem,
De la do ſeyo Arabico outras gentes,
Que o culto Mahometico trouxeſſem,
No qual me inſtituirão meus parentes,
Succedeo que pregando conuerteſſem
O Perimal, de ſabios & elloquentes,
Fazem lhe a ley tomar com feruor tanto,
Que proſupos de nella morrer ſancto.

Naos arma, & nellas mete curioſo
Mercadoria que offereça rica,
Pera yr nellas a ſer religioſo,
Onde o prepheta jaz, que a ley pubrica:
Antes que parta, o Reino poderoſo
Cos ſeus reparte, porque não lhe fica
Erdeiro proprio, faz os mais aceitos,
Ricos de pobres, liures de ſojeitos.

A hum Cochim, & a outro Cananor,
A qual Chale, a qual a ilha da pimenta,
A qual Coulão, a qual dâ Cranganor
E os mais, a quem o mais ſerue & contenta
Hum ſo moço, a quem tinha muito amor,
Deſpois que tudo deu, ſe lhe apreſenta,
Pera este Calecu ſomente fica,
Cidade ja por tracto nobre & rica.

Eſta lhe dâ co titulo excellente
De Emperador, que ſobre os outros mande,
Iſto feito ſe parte diligente,
Pera onde em ſancta vida acabe, & ande,
E daqui fica o nome de potente
Camorî, mais que todos digno, & grande
Ao moço & deſcendentes, donde vem
Eſte, que agora o Imperio manda & tem.

A ley da gente toda rica & pobre,
De fabulas compoſta ſe imagina:
Andão nûs, & ſomente hum pano cobre
As partes, que a cubrir natura inſina:
Dous modos ha de gente, porque a nobre
Naires chamados ſam, & a menos digna
Poleâs tem por nome, a quem obriga
A ley não mesturar a casta antiga

Porque os q̃vſaram ſempre hum mesmo officio,
De outro nam podẽ receber conſorte,
Nem os filhos teram outro exercicio,
Senão o de ſeus paſſados ate morte,
Pera os Neires he certo grande viçio
Deſtes ſerem tocados de tal ſorte,
Que quando algum ſe toca por ventura,
Com ceremonias mil ſe alimpa & apura.

Deſta ſorte o Iudaico pouo antigo
Nem tocaua na gente de Samaria,
Mais eſtranhezas inda das que digo
Neſta terra vereis de vſança varia,
Os Naires ſos ſam dados ao perigo
Das armas, ſos defendem da contraria
Banda o ſeu Rei, trazendo ſempre vſada
Na ezquerda a adarga, e na dereita a eſpada:

Bramenes ſam os ſeus religioſos,
Nome antigo, & de grande preminencia,
Obſeruão os preceitos tam famoſos
Dhum, que primeiro pos nome aa ciencia:
Nem matão couſa viua, & temeroſos
Das carnes tem grandiſsima abstinencia,
Somente no venereo ajuntamento
Tem mais licença, & menos regimento.

Gerais ſam as molheres: mas ſomente
Pera os da geração de ſeus maridos:
Ditoſa condiçam, ditoſa gente,
Que nam ſam de ciumes offendidos.
Eſtes & outros costumes variamente
Sam pelos Malabares admitidos,
A terra he groſſa em trato, em tudo aquilo
Que as ondas podem dar da China ao Nilo.

Aſsi contaua o Mouro: mas vagando
Andaua a fama ja pela cidade,
Da vinda deſta gente estranha, guando
O Rei ſaber mandaua da verdade,
Ia vinham pelas ruas caminhando,
Rodeados de todo ſexo, & idade,
Os principaes que o Rei buſcar mandâra,
O Capitão da armada que chegâra.

Mas elle, que do Rei ja tem licença
Pera deſembarcar, acompanhado
Dos nobres Portugueſes ſem detença
Parte de ricos panos adornado:
Das cores a fermoſa diferença
A viſta alegra ao pouo aluoroçado,
O remo compaſſado fere frio
Agora o mar, despois o freſco rio.

Na praia hum regedor do Reino eſtaua,
Que na ſua lingoa Catual ſe chama,
Rodeado de Naires, que eſperaua
Com deſuſada feſta o nobre Gama:
Ia na terra nos braços o leuaua,
E num partatil leito hũa rica cama
Lhe offereçe em que va, costume vſado,
Que nos hombros dos homẽs he leuado.

Desta arte o Malabar, deſtarte o Luſo,
Caminhão la pera onde o Rei o eſpera:
Os outros Portagueſes vão ao vſo
Que infantaria ſegne eſquadra fera:
O pouo que concorre vay confuſo
De ver a gente estranha, & bem quiſera
Perguntar: mas no tempo ja paſſado
Na torre de Babel lhe foi vedado.

O Gama, & o Catual hião fallando
Nas couſas que lhe o tempo offerecia,
Monçaide entrelles vay interpretando
As palauras que de ambos entendia:
Aſsi pela cidade caminhando,
Onde hũa rica fabrica ſe erguia
De hum ſumptuoſo templo ja chegauão,
Pelas portas do qual juntos entrauão.

Ali estam das deidades as figuras
Eſculpidas em pao, & em pedra fria,
Varias degeſtos, varias de pinturas,
A ſegundo o Demonio lhe fingia.
Vem ſe as abominaueis eſculturas,
Qual a Chimêra em membros ſe varia,
Os Chriſtãos olhos a ver Deos vſados
Em forma humana eſtam marauilhados.

Hum na cabeça cornos eſculpidos,
Qual Iupiter Amon em Lybia estaua,
Outro num corpo roſtos tinha vnidos,
Bem como o antigo Iano ſe pintaua:
Outro com muitos braços diuididos
A Briareo pareçe que imitaua:
Outro fronte Canina tem de fora,
Qual Anubis Menfitico ſe adora.

Aqui feita do barbaro gentio
A ſupersticioſa adoração,
Direitos vão ſem outro algum deſuio,
Pera onde eſtaua o Rei do pouo vão:
Engroſſando ſe vay da gente o fio,
Cos que vem ver o eſtranho Capitão,
Eſtão pelos telhados & janellas
Velhos & moços, donas & donzellas.

Ia chegão perto, & não paſſos lentos,
Dos jardins odoriferos fermoſos,
Que em ſi eſcondem os regios apouſentos,
Altos de torres não, mas ſumptuoſos,
Edificão ſe os nobres ſeus aſſentos,
Por entre os aruoredos deleitoſos,
Aſsi viuem os Reis daquella gente,
No campo & na cidade juntamente.

Pelos partais da cerca a ſutileza
Se enxerga da Dedalea facultade,
Em figuras mostrando por nobreza
Da India a mais remota antiguidade:
Affiguradas vão com tal viueza
As hiſtorias daquella antiga idade,
Que quem dellas tiuer noticia inteira,
Pela ſombra conheçe a verdadeira.

Eſtaua hum grande exercito que piſa
A terra Oriental, que o Idaſpe laua,
Rege o hum capitam de fronte liſa,
Que com frondentes Tirſos palejaua,
Por elle edificada eſtaua Niſa
Nas ribeiras do rio, que manaua,
Tão proprio, que ſe ali estiuer Semelle,
Dirâ por certo, que he ſeu filho aquelle.

Mais auante bebendo ſeca o rio,
Mui grande multidão da Aſsiria gente,
Sujeita a feminino ſenhorio,
De hũa tam bella, como incontinente:
Ali tem junto ao lado nunca frio,
Eſculpido o feroz ginete ardente,
Com quem teria o filho competencia,
Amor nefando, bruta incontinencia.

Daqui mais apartadas tremolauão
As bandeiras de Grecia glorioſas,
Terceira Monarchia, & ſojugauão,
Ate as agoas Gargeticas vndoſas:
Dum capitão mancebo ſe guiauão
De palmas rodeado valeroſas,
Que ja não de Filipo, mas ſem falta
De progenie de Iupiter ſe exalta.

Os Portugueſes vendo eſtas memorias,
Dizia o Catual ao Capitão,
Tempo cedo virà que outras victorias,
Estas que agora olhais abaterão:
Aqui ſe eſcreuerão nouas hiſtorias,
Por gentes eſtrangeiras que virão
Que os noſſos ſabios magos o alcançârão,
Quando o tempo futuro eſpeculârão.

E dizlhe mais a magica ſciencia,
Que pera ſe euitar força tamanha,
Não valerâ dos homẽs reſiſtencia,
Que contra o Ceo não val da gente manha:
Mas tambem diz que a bellica excellencia
Nas armas, & na paz, da gente eſtranha
Sera tal, que ſera no mundo ouuido
O vencedor, por gloria do vencido.

Aſsi fallando entrauão ja na ſala,
Onde aquelle potente Emperador
Nũa camilha jaz, que nam ſe igoala
De outra algũa no preço & no lauor:
No recoſtado geſto ſe aſsinala
Hum venerando & prospero ſenhor,
Hum pano de ouro cinge, & na cabeça
De precioſas gemas ſe adereça.

Bem junto delle hum velho reuerente,
Cos giolhos no chão, de quando em quando
Lhe daua a verde folha da erua ardente
Que a ſeu coſtume eſtaua ruminando:
Hum Bramene, peſſoa preminente,
Pera o Gama vem com paſſo brando,
Pera que ao grande Principe o apreſente,
Que diante lhe acena que ſe aſſente.

Sentado o Gama junto ao rico leito,
Os ſeus mais afaſtados, prompto em viſta
Estaua o Samori no trajo & geito
Da gente, nunca de antes delle viſta:
Lançando a graue voz do ſabio peito,
Que grande authoridade logo aquiſta
Na opinião do Rei, & do pouo todo
O Capitão lhe falla deſte modo.

Hum grande Rei, de la das partes, onde
O ceo volubil com perpetua roda
Da terra a luz ſolar coa terra eſconde,
Tingindo a que deixou de eſcura noda,
Ouuindo do rumor que la responde
O eco, como em ti da India toda
O principado eſtâ, & a mageſtade,
Vinculo quer contigo de amizade.

E por longos rodeos a ti manda,
Por te fazer ſaber que tudo aquillo
Que ſobre o mar, que ſobre as terras anda
De riquezas, de lâ do Tejo ao Nilo:
E desda fria plaga de Gelanda,
Ate bem donde o Sol nam muda o eſtilo
Nos dias, ſobre a gente de Ethiopia,
Tudo tem no ſeu Reino em grande copia.

E ſe queres com pactos, & lianças
De paz, & de amizade ſacra, & nua,
Comerçio conſentir das abundanças
Das fazendas da terra ſua, & tua,
Porque creção as rendas, & abaſtanças,
Por quem a gente mais trabalha & ſua,
De voſſos Reinos, ſera certamente
De ti proueito, & delle gloria ingente.

E ſendo aſsi que o nô deſta amizade,
Entre vos firmemente permaneça,
Estara prompto a toda aduerſidade,
Que por guerra a teu Reino ſe offereça:
Com gente, armas, & naos de qualidade
Que por yrmão te tenha, & te conheça,
E da vontade em ti ſobriſto poſta
Me des a my certiſsima reposta.

Tal embaxada daua o Capitão,
A quem o Rei gentio reſpondia,
Que em ver embaxadores de nação
Tam remota, gram gloria recebia:
Mas neſte caſo a vltima tençam
Com os de ſeu conſelho tomaria,
Informando ſe certo de quem era
O Rei, & a gente, & terra que diſſera.

E que em tanto podia do trabalho
Paſſado yr repouſar, & em tempo breue
Daria a ſeu deſpacho hum juſto talho,
Com que a ſeu Rei repoſta alegre leue:
Ia niſto punha a noite o vſado atalho
Aas humanas canſeiras, porque ceue
De doçe ſono os membros trabalhados,
Os olhos ocupando ao ocio dados.

Agaſalhados foram juntamente,
O Gama, & Portugueſes no apouſento
Do nobre Regedor da Indica gente,
Com festas & geral contentamento:
O Catual no cargo diligente
De ſeu Rei, tinha ja por regimento
Saber da gente eſtranha donde vinha
Que costumes, que lei, que terra tinha.

Tanto que os igneos carros do fermoſo
Mancebo Delio vio, que a luz renoua,
Manda chamar Monçaide, deſejoſo
De poder ſe informar da gente noua:
Ia lhe pergunta prompto & curioſo,
Se tem noticia inteira, & certa proua,
Dos eſtranhos quem ſam, que ouuido tinha
Que he gente de ſua patria muy vizinha.

Que particularmente ali lhe deſſe
Informação muy larga, pois fazia
Niſſo ſeruiço ao Rei, porque ſoubeſſe
O que neste negocio ſe faria:
Mançaide torna, poſto que eu quiſeſſe
Dizerte disto mais nam ſaberia,
Somente ſey que he gente la de Hespanha
Onde o meu ninho, & o Sol no mar ſe banha.

Tem a ley dum Propheta, que gerado
Foi ſem fazer na carne detrimento
Da mãy, tal que por bafo estâ aprouado
Do Deos, que tem do mundo o regimento:
O que entre meus antigos he julgado
Delles, he que o valor ſanguinolento
Das armas, no ſeu braço reſplandeçe,
O que em noſſos paſſados ſe pareçe.

Porque elles com virtude ſobre humana,
Os deitarão dos campos abundoſos
Do rico Tejo, & freſca Goadiana,
Com feitos memoraueis, & famoſos:
E não contentes inda, & na Affricana
Parte, cortando os mares proceloſos
Nos não querem deixar viuer ſeguros,
Tomando nos cidades, & altos muros.

Nam menos tem moſtrado esforço, & manha,
Em quaesquer outras guerras que acõteção,
Ou das gentes beligeras da Eſpanha,
Ou la dalgũs que do Pirene deção.
Aſsi que nunca em fim com lança eſtranha
Se tem, que por vencidos ſe conheção,
Nem ſe ſabe inda não, te afirmo & aſſello
Pera estes Anibais nenhum Marcello.

E ſeſta informação nam for inteira
Tanto quanto conuem, delles pretende
Informarte, que he gente verdadeira,
A quem mais falſidade enoja & offende:
Vay verlhe a frota, as armas, & a maneira
Do fundido metal, que tudo rende,
E folgaras de veres a policia
Portugueſa na paz, & na milicia.

Ia com deſejos o Idolatra ardia,
De ver iſto, que o Mouro lhe contaua,
Manda eſquipar bateis, que yr ver queria
Os lenhos em que o Gama nauegaua.
Ambos partem da praia, a quem ſeguia
A Naira geraçam, que o mar coalhaua,
Aa Capitaina ſobem forte & bella,
Onde Paulo os recebe a bordo della.

Purpureos ſam os toldos, & as bandeiras
Do rico fio ſam, que o bicho gera,
Nellas eſtam pintadas as guerreiras
Obras, que o forte braço ja fizera:
Batalhas tem campais auentureiras,
Deſafios crueis, pintura fera,
Que tanto que ao Gentio ſe apreſenta,
A tento nella os ollos apacenta.

Pelo que ve pergunta: mas o Gama
Lhe pedia primeiro que ſe aſſente,
E que aquelle deleite que tanto ama
A ceita Epicurea, eſperimente:
Dos eſpumantes vaſos ſe derrama
O licor, que Noe mostrâra aa gente:
Mas comer o Gentio nam pretende,
Que a ceita que ſeguia lho defende.

A trombeta que em paz no penſamento,
Imagem faz de guerra, rompe os ares,
Co ſogo o diabolico instrumento,
Se faz ouuir no fundo la dos mares:
Tudo o Gentio nota: mas o intento
Moſtraua ſempre ternos ſingulares
Feitos dos homẽs, que em retrato breue
A muda poeſia ali deſcreue.

Alçaſe em pê, co elle os Gamas junto
Coelho de outra parte, & o Mauritano
Os olhos poem no bellico trafunto
De hum velho branco, aſpeito venerando,
Cujo nome nam pode ſer defuncto
Em quanto ouuer no mundo trato humano,
No trajo a Grega vſança eſtâ perfeita,
Hum ramo por inſignia na dereita.

Hum ramo na mão tinha: mas o cego
Eu que cometo inſano, & temerario,
Sem vos Nimphas do Tejo, & do Mondego,
Por caminho tam arduo, longo, & vario:
Voſſo fauor inuoco, que nauego
Por alto mar, com vento tam contrario,
Que ſe nam me ajudais, ei grande medo,
Que o meu fraco batel ſe alague cedo.

Olhay que ha tanto tempo, que cantando
O voſſo Tejo, & os voſſos Luſitanos,
A fortuna me traz peregrinando,
Nouos trabalhos vendo, & nouos danos:
Agora o mar, agora eſprimentando
Os perigos Mauorcios inhumanos,
Qual Canace que â morte ſe condena,
Nũ mão ſempre a eſpada, & noutra a pena:

Agora com pobreza auorrecida,
Por hoſpicios alheios degradado,
Agora da eſperança ja adquirida,
De nouo mais que nunca derribado:
Agora aas costas eſcapando a vida,
Que dum fio pendia tam delgado,
Que não menos milagre foi ſaluarſe,
Que pera o Rei Iudaico acrecentarſe.

E ainda Nimphas minhas não baſtaua,
Que tamanhas miſerias me cercaſſem:
Senão que aquelles que eu cantando andaua,
Tal premio de meus verſos me tornaſſem
A troco dos deſcanſos que eſparaua,
Das capellas de louro que me honraſſem,
Trabalhos nunca vſados me inuentârão,
Com que em tam duro eſtado me deitârão.

Vede Nimphas que engenhos de ſenhores
O voſſo Tejo cria valeroſos,
Que aſsi ſabem prezas com tais fauores
A quem os faz cantando glorioſos:
Que exemplos a futuros eſcriptores,
Pera eſpertar engenhos curioſos,
Pera porem as couſas em memoria,
Que merecerem ter eterna gloria.

Pois logo em tantos males he forçado,
Que ſo voſſo fauor me não falleça,
Principalmente aqui, que ſou chegado
Onde feitos diuerſos engrandeça:
Daimo vos ſos, que eu tenho ja jurado
Que não no empregue em quem o não mereça
Nem por liſonja louue algum ſubido,
Sob pena de não ſer agradecido.

Nem creais Nimphas nam que fama deſſe
A quem ao bem comum, & do ſeu Rei
Antepoſer ſeu proprio intereſſe:
Imigo da diuina & humana ley,
Nenhum ambicioſo, que quiſeſſe
Subir a grandes cargos, cantarey,
So por poder com torpes exercicios
Vſar mais largamente de ſeus vicios.

Nenhum que vſe de ſeu poder bastante
Pera ſeruir a ſeu deſejo feio,
E que por comprazer ao vulgo errante
Se muda em mais figuras que Proteio,
Nem Camenas tambem cuideis que cante
Quem com habito honeſto & graue veio,
Por contentar o Rei no officio nouo,
A deſpir & roubar o pobre pouo.

Nem quem acha que he justo & que he dereito
Guardaſe a ley do Rei ſeueramente,
E não acha que he juſto & bom reſpeito,
Que ſe pague o ſuor da ſeruil gente.
Nem quem ſempre com pouco experto peito
Razões aprende, & cuida que he prudente,
Pera taxar com mão rapace & eſcaſſa,
Os trabalhos alheios, que nam paſſa.

Aquelles ſos direy que auenturârão
Por ſeu Deos, por ſeu Rei, a amada vida
Onde perdendoa, em fama a dilatârão,
Tambem de ſuas obras merecida
Apolo, & as Muſas que me acompanharão,
Me dobraram a furia concedida
Em quanto eu tomo alento deſcanſado,
Por tornar ao trabalho mais folgado.

F I M.



❧ Canto Octauo.

Na primeira figura
ſe detinha
O Catual, que vira estar pinta-
da.
Que por diuiſa hum ramo na mão tinha,
A barba branca, longa, & penteada:
Quem era, & porque cauſa lhe conuinha
A diuiſa que tem na mão tomada,
Paulo reſponde, cuja voz diſcreta
O Mauritano ſabio lhe interpreta.

Eſtas figuras todas que aparecem,
Brauos em viſta, & feros nos aſpeitos,
Mais brauos, & mais feros ſe conhecem
Pela fama, nas obras, & nos feitos
Antigos ſam, mas inda reſplandecem
Co nome, entre os engenhos mais perfeitos,
Eſte que ves he Luſo, donde a fama
O noſſo Reino Luſitania chama.

Foy filho & companheiro do Thebano,
Que tam diuerſas partes conquiſtou
Parece vindo ter ao ninho Hispano,
Seruindo as armas que contino vſou,
Do Douro, Guadiana o campo vfano,
Ia dito Eliſio, tanto o contentou
Que ali quis dar, aos ja canſados oſſos
Eterna ſepultura, & nome aos noſſos.

O ramo que lhe ves pera diuiſa,
O verde Tyrſo foi de Baco vſado,
O qual aa noſſa idade amoſtra & auiſa
Que foi ſeu companheiro & filho amado:
Ves outro, que do Tejo a terra piſa,
Deſpois de ter tam longo mar arado,
Onde muros perpetuos edefica,
E templo a Palas, que em memoria fica

Vliſſes he o que faz a ſancta caſa
Aa Deoſa, que lhe dâ lingoa facunda,
Que ſe lâ na Aſia Troia inſigne abraſa,
Ca na Europa Lisboa ingente funda:
Quem ſera eſtoutro ca que o campo arraſa
De mortos, com preſença furibunda?
Grandes batalhas tem desbaratadas,
Que as Agueas nas bandeiras tem pintadas.

Aſsi o Gentio diz, reſponde o Gama,
Eſte que ves paſtor ja foi de gado,
Viriato ſabemos que ſe chama,
Destro na lança mais que no cajado:
Injuriada tem de Roma a fama,
Vencedor inuencibil afamado,
Nem tem coelle não, nem ter puderão
O primor que com Pirro ja tiuerão.

Com força não: com manha vergonhoſa,
A vida lhe tirarão que os eſpanta,
Que o grande aperto em gente, inda q̃ honroſa
Aas vezes leis magnanimas quebranta:
Outro eſtâ aqui que contra a patria yroſa
Degradado com noſco ſe aleuanta,
Eſcolheo bem com quem ſe aleuantaſſe
Pera que eternamente ſe illuſtraſſe.

Vês com noſco tambem vence as bandeiras
Deſſas aues de Iupiter validas,
Que ja naquelle tempo as mais guerreiras
Gentes de nos ſouberam ſer vencidas:
Olha tam ſotis artes & maneiras,
Pera adquerir os pouos tam fingidas
A fatidica Cerua que o auiſa,
Elle he Sertorio, & ella a ſua diuiſa.

Olha eſtoutra bandeira & ve pintado,
O gram progenitor dos Reis primeiros,
Nos Vngaro o fazemos, porem nado
Crem ſer em Lotharingia os eſtrangeiros:
Deſpois de ter cos Mouros ſuperado
Galegos, & Leoneſes caualleiros,
Aa caſa Sancta paſſa o ſancto Enrique,
Porque o tronco dos Reis ſe ſanctifique.

Quem he me dize estoutro que me eſpanta,
Pergunta o Malabar marauilhado,
Que tantos eſquadrões, que gente tanta,
Com tam pouca, tem roto & deſtroçado:
Tantos muros aſperrimos quebranta,
Tantas batalhas da nunca canſado,
Tantas coroas tem por tantas partes,
A ſeus pês derribadas, & eſtandartes?

Eſte he o primeiro Afonſo, diſſe o Gama,
Que todo Portugal aos Mouros toma,
Por quem no Estigio lago jura a fama,
De mais não celebrar nenhum de Roma:
Eſte he aquelle zeloſo a quem Deos ama,
Com cujo braço o Mouro imigo doma,
Pera quem de ſeu Reino abaxa os muros,
Nada deixando ja pera os futuros.

Se Ceſar, ſe Alexandre Rei tiuerão,
Tam pequeno poder, tam pouca gente,
Contra tantos inimigos quantos erão,
Os que desbarataua eſte excelente,
Nam creas que ſeus nomes ſe eſtenderão
Com glorias imortais tam largamente:
Mas deixa os feitos ſeus inexplicaueis,
Ve que os de ſeus vaſſalos ſam notaueis.

Eſte que ves olhar com geſto yrado,
Pera o rompido Alumno mal ſofrido,
Dizendo lhe que o exercito eſpalhado,
Recolha, & torne ao campo defendido:
Torna o moço do velho acompanhado,
Que vencedor o torna de vencido,
Egas moniz ſe chama o forte velho
Pera leais vaſſalos claro eſpelho.

Vello ca vai cos filhos a entregarſe,
Acorda ao colo, nu de ſeda & pano,
Porque nam quis o moço ſogeitarſe,
Como elle prometera ao Castelhano:
Fez com ſiſo & promeſſas leuantarſe
O cerco que ja eſtaua ſoberano,
Os filhos & molher obriga aa pena,
Pera que o ſenhor ſalue, a ſi condena.

Nem fez o Conſul tanto que cercado
Foi nas forcas Caudinas de ignorante
Quando a paſſar por baxo foi forçado
Do Samnitico jugo triumphante:
Este pelo ſeu pouo injuriado,
Aſsi ſe entrega ſo firme & conſtante,
Eſtoutro aſsi, & os filhos naturais,
E a conſorte ſem culpa, que doe mais

Ves eſte que ſaindo da cilada,
Dâ ſobre o Rei que cerca a villa forte,
Ia o Rei tem preſo, & a villa deſcercada
Illustre feito digno de Mauorte,
Velo ca vay pintado neſta armada
No mar tambem aos Mouros dando a morte,
Tomando lhe as galès, leuando a gloria,
Da primeira maritima victoria.

E dom Fuas Roupinho que na terra,
E no mar reſplandece juntamente,
Co fogo que acendeo junto da ſerra
De Abila, nas gales da Maura gente
Olha como então juſta & ſancta guerra
De acabar pelejando està contente:
Dar mãos dos Mouros entra a felice alma
Triunfando nos ceos com juſta Palma.

Nam ves hum ajuntamento de estrangeiro
Trajo, ſair da grande armada noua,
Que ajuda a combater o Rei primeiro
Lisboa, de ſi dando ſancta proua:
Olha Enrique famoſo caualleiro,
A Palma que lhe naſce junto aa coua,
Por elles moſtra Deos milagre visto,
Germanos ſam os Martyris de Christo.

Hum Sacerdote vê brandindo a eſpada,
Contra Arronches que toma, por vingança
De Leiria, que de antes foi tomada,
Por quem porMaphamede enreſta a lança:
He Teotonio Prior: mas vê cercada
Sanctarem, & veras a ſegurança
Da figura nos muros, que primeira
Subindo ergueo das Quinas a bandeira:

Vello ca donde Sancho desbarata
Os Mouros de Vandalia em fera guerra,
Os imigos rompendo, o Alferez mata,
E Hispalico pendão derriba em terra,
Mem Moniz he, que em ſi o valor retrata,
Que o ſepulchro do pay cos oſſos cerra,
Digno deſtas bandeiras, pois ſem falta
A contraria derriba, & a ſua exalta.

Olha aquelle que deçe pela lança,
Com as duas cabeças dos vigias,
Onde a çilada eſconde, com que alcança
A cidade por manhas & ouſadias:
Ella por armas toma a ſemelhança
Do caualleiro, que as cabeças frias
Na mão leuaua, feito nunca feito,
Giraldo ſem pauor he o forte peito.

Nem vês hum Caſtelhano, que agrauado,
De Affonſo nono Rei, pelo odio antigo
Dos de Lara cos Mouros he deitado,
De Portugal fazendoſe inimigo?
Abrantes villa toma acompanhado
Dos duros infieis que traz conſigo:
Mas vê que hum Portugues com pouca gente
O desbarata & o prende ouſadamente.

Martim Lopez ſe chama o caualleiro,
Que destes leuar pode a palma, & o louro:
Mas olha hum Eccleſiastico guerreiro,
Que em lança de aço torna o Bago de ouro:
Vêllo entre os duuidoſos tam inteiro,
Em não negar batalha ao brauo Mouro,
Olha o ſinal no çeo que lhe apareçe,
Com que nos poucos ſeus o esforço creçe.

Vês vão os Reis de Cordoua & Seuilha,
Rotos, cos outros dous, & não de eſpaço,
Rotos? mas antes mortos, marauilha
Feita de Deos, que não de humano braço:
Vês ja a villa de Alcaçare ſe humilha,
Sem lhe valer defeſa, ou muro de aço,
A dom Matheus o Biſpo de Lisboa,
Que a coroa de palma ali coroa.

Olha hum Meſtre que deçe de Caſtella,
Portugues de nação, como conquiſta
A terra dos Algarues, & ja nella
Nem acha que por armas lhe reſiſta,
Com manha, esforço, & com benigna estrella
Villas, castellos toma a eſcalla vista:
Ves Tauila tomada aos moradores,
Em vingança dos ſete caçadores.

Vês com belica aſtucia ao Mouro ganha
Silues, que elle ganhou com força ingente,
He dom Paio Correa, cuja manha
E grande esforço faz enueja aa gente:
Mas não paſſes os tres q̃ ẽ Frãça & Eſpanha
Se fazem conhecer perpetuamente,
Em deſafios, juſtas & torneos,
Nellas deixando publicos trofeos.

Vellos co nome vem de auentureiros,
A Castella, onde o preço ſos leuârão
Dos jogos de Belona verdadeiros,
Que com dano de algũs ſe exercitârão,
Vê mortos os ſoberbos caualleiros,
Que o principal dos tres deſafiarão,
Que Gonçalo Ribeiro ſe nomea,
Que pode não temer a ley Letea.

Atenta num que a fama tanto eſtende,
Que de nenhum paſſado ſe contenta,
Que a patria que de hum fraco fio pende
Sobre ſeus duros hombros a ſuſtenta,
Não no ves tinto de yra, que reprende
A vil deſconfiança inerte & lenta
Do pouo, & faz que tome o doçe freyo,
De Rei ſeu natural, & nam de alheyo.

Olha por ſeu conſelho & ouſadia,
De Deos guiada ſo, & de ſancta Eſtrella
So pode o que impoſsibil parecia,
Vencer o pouo ingente de Castella:
Ves par induſtria, esforço, & valentia
Outro eſtrago & victoria clara & bella
Na gente, aſsi feroz como infinita,
Que entre o Tarteſo, & Goadiana habita.

Mas não ves quaſi ja desbaratado,
O poder Luſitano, pela auſencia
Do Capitão deuoto, que apartado
Orando inuoca a ſuma & trina eſſencia:
Vello com preſſa ja dos ſeus achado,
Que lhe dizem que falta reſiſtencia
Contra poder tamanho, & que vieſſe,
Porque conſigo esforço aos fracos deſſe.

Mas olha com que ſancta confiança,
Que inda não era tempo reſpondia,
Como quem tinha em Deos a ſegurança
Da victoria, que logo lhe daria:
Aſsi Pompilio, ouuindo que a poſſança
Dos imigos a terra lhe corria,
A quem lhe a dura noua eſtaua dando,
Pois eu, reſponde, eſtou ſacrificando.

Se quem com tanto esforço em Deos ſe atreue,
Ouuir quiſeres como ſe nomea,
Portugues Cipião chamar ſe deue:
Mas mais de dom Nuno Aluarez ſe arrea,
Ditoſa patria que tal filho teue:
Mas antes pai, que em quanto o Sol rodea
Eſte globo de Ceres & Neptuno,
Sempre ſuſpirarâ por tal aluno.

Na meſma guerra vê que preſas ganha,
Estoutro Capitão de pouca gente,
Comendadores vence, & o gado apanha,
Que leuão roubado ouſadamente:
Outra vez vê que a lança em ſangue banha
Destes, ſo por liurar com amor ardente
O preſo amigo, preſo por leal,
Pero Rodriguez he do Landroal.

Olha eſte deſleal o como paga
O perjurio que fez & vil engano,
Gil Fernandez he de Eluas quem o eſtraga,
E faz vir a paſſar o vltimo dano:
De Xerez rouba o campo, & quaſi alaga
Co ſangue de ſeus donos Castelhano:
Mas olha Rui Pireira que co roſto
Faz eſcudo aas gales, diante poſto.

Olha que dezeſete Luſitanos,
Neſte outeiro fabulas ſe defendem,
Fortes de quatrocentos Castelhanos,
Que em derredor pelos tomar ſe eſtendem,
Porem logo ſentiram com ſeus danos,
Que nam ſo ſe defendem, mas effendem,
Digno feito de ſer no mundo eterno,
Grande no tempo antigo & no moderno.

Sabeſe antigamente que trezentos
Ia contra mil Romanos pelejarão,
No tempo que os virîs atreuimentos
De Viriato tanto ſe illuſtrarão,
E delles alcançando vencimentos
Memoraueis, de erança nos deixarão,
Que os muitos por ſer poucos nam temamos
O que deſpois mil vezes amoſtramos.

Olha ca dous Infantes Pedro & Henrique,
Progenie generoſa de Ioane,
Aquelle faz que fama illuſtre fique
Delle em Germania, com que a morte engane:
Eſte, que ella nos mares o pubrique,
Por ſeu deſcobridor, & deſengane
De Ceita a Maura tumida vaidade,
Primeiro entrando as portas da cidades.

Vês o Conde dom Pedro que ſustenta
Dous cercos contra toda a Barbaria,
Vês outro Conde eſtà que repreſenta
Em terra Marte, em forças & ouſadia,
De poder defender ſe nam contenta
Alcaçere da ingente companhia:
Mas do ſeu Rei defende a cara vida,
Pondo por muro a ſua, ali perdida.

Outros muitos verias que os pintores
Aqui tambem por certo pintarião:
Mas faltalhe pinçel, faltão lhe cores,
Honra, premio, fauor que as artes crião,
Culpa dos vicioſos ſucceſſores,
Que degenerão certo, & ſe deſuião
Do luſtre, & do valor dos ſeus paſſados,
Em goſtos & vaidades atolados.

Aquelles pais illuſtres que ja derão
Principio aa geraçam que delles pende,
Pela virtude muyto antão fizerão,
E por deixar a caſa que deſcende,
Cegos, que dos trabalhos que tiuerão,
Se alta fama & rumor delles ſe eſtende,
Eſcuros deixão ſempre ſeus menores,
Com lhe deixar deſcanſos corrutores.

Outros tambem ha grandes & abaſtados,
Sem nenhum tronco illuſtre donde venhão,
Culpa de Reis, que aas vezes a priuados
Dão mais que a mil, q̃ esforço & ſaber tenhã
Eſtes os ſeus nam querem ver pintados,
Crendo que cores vãs lhe não conuenhão,
E como a ſeu contrairo natural,
Aa pintura que falla querem mal.

Não nego que â com tudo deſcendentes
Do generoſo tronco, & caſa rica
Que com custumes altos & excellentes
Suſtentão a nobreza que lhe fica:
E ſe ha luz dos antigos ſeus parentes
Nelles mais o valor não clarifica,
Nam ſalta ao menos, nem ſe faz eſcura:
Mas destes acha poucos a pintura.

Aſsi eſtâ declarando os grandes feitos,
O Gama que ali moſtra a varia tinta,
Que a douta mão tam claros, tam perfeitos
Do ſingular artifice ali pinta:
Os olhos tinha promptos & dereitos,
O Catual na historia bem daſtinta,
Mil vezes perguntaua, & mil ouuia,
As goſtoſas batalhas que ali via.

Mas ja a luz ſe moſtraua duuidoſa,
Porque a alampada grande ſe eſcondia
Debaxo do Orizonte & luminoſa
Leuaua aos Antipodas o dia,
Quando o Gentio, & a gente generoſa,
Dos Naires, da nao forte ſe partia
A buſcar o repouſo que deſcanſa,
Os laſſos animais, na noite manſa.

Entre tanto os Aruſpices famoſos
Na falſa opinião, que em ſacrificios
Anteuem ſempre os caſos duuidoſos,
Por ſinais diabolicos, & indicios
Mandados do Rei proprio, eſtudioſos
Exercitauão a arte & ſeus officios,
Sobre esta vinda desta gente eſtranha,
Que aas ſuas terras vem da ignota Eſpanha.

Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
De como a noua gente lhe ſeria
Iugo perpetuo, eterno catiueiro,
Deſtruiçam de gente, & de valia:
Vaiſe eſpantado o atonito agoureiro
Dizer ao Rei (ſegundo o que entendia)
Os ſinais temeroſos que alcançâra
Nas entranhas das victimas que oulhara:

A iſto mais ſe ajunta que hum deuoto
Sacerdote da ley de Maphamede,
Dos odios concebidos nam remoto,
Contra a diuina Fe, que tudo excede,
Em forma do Propheta falſo & noto,
Que do filho da eſcraua Agar procede,
Baco odioſo em ſonhos lhe aparece,
Que de ſeus odios inda ſe nam deçe.

E diz lhe aſsi, guardaiuos gente minha,
Do mal que ſe aparelha pelo imigo
Que pelas agoas humidas caminha,
Antes que eſteis mais perto do perigo:
Isto dizendo acorda o Mouro aſinha,
Eſpantado do ſonho: mas conſigo
Cuida que não he mais que ſonho vſado
Torna a dormir quieto & ſoſegado.

Torna Bacho dizendo, nam conheces
O gram legiſlador que a teus paſſados
Tem moſtrado o preceito a que obedeces
Sem o qual foreis muitos baptizados?
Eu parti rudo vello, & tu adormeces?
Pois ſaberas que aquelles que chegados
De nouo ſam, ſeram muy grande dano
Da lei que eu dei ao neſcio pouo humano.

Em quanto he fraca a força deſta gente,
Ordena como em tudo ſe reſista,
Porque quando o Sol ſae facilmente
Se pode nelle por a aguda viſta:
Porem deſpois que ſobe claro & ardente,
Se agudeza dos olhos o conquiſta,
Tam cega fica, quanto ficareis
Se raizes criar lhe nam tolheis.

Isto dito, elle & o ſono ſe deſpede,
Tremendo fica o atonito Agareno
Salta da cama, lume aos ſeruos pede
Laurando nelle oo feruido veneno:
Tanto que a noua luz que ao Sol precede
Mostrara roſto Angelico & ſereno,
Conuoca os principais da torpa ceita,
Aos quais do que ſonhou dâ conta estreita.

Diuerſos pareceres & contrarios
Ali ſe dão ſegundo o que entendião,
Astutas traições, enganos varios,
Perfidias inuentauam & tecião:
Mas deixando conſelhos temerarios,
Deſtruiçam da gente pretendião,
Por manhas mais ſotis & ardis milhores,
Com peitas adquerindo os regedores,

Com peitas, ouro, & dadiuas ſecretas
Concilião da terra os principais,
E com razões notaueis & diſcretas
Moſtram ſer perdiçam dos naturais,
Dizendo que ſam gentes inquietas,
Que os mares discorrendo Occidentais,
Viuem ſo de piraticas rapinas,
Sem Rei, ſem leis humanas ou diuinas.

O quanto deue o Rei que bem gouerna,
De olhar que os conſelheiros, ou priuados,
De conſciencia, & de virtude interna,
E de ſincero amor ſejam dotados:
Porque como estè paſto na ſuperna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negocios, ter noticia mais inteira,
Do que lhe der a lingoa conſelheira.

Nem tam pouco direy que tome tanto
Em groſſo, a conſciencia limpa & certa
Que ſe enleue num pobre & humilde manto,
Onde ambição a caſo ande encuberta,
E quando hũ bom em tudo he juſto & ſancto
E em negocios do mundo pouco acerta,
Que mal coelles poderâ ter conta,
A quieta inocencia, em ſo Deos pronta.

Mas aquelles auaros Catuais,
Que o Gentilico pouo gouernauão,
Induzidos das gentes infernais,
O Portugues deſpacho dilatauão:
Mas o Gama, que não pretende mais,
De tudo quanto os Mouros ordenauão,
Que leuar a ſeu Rei hum ſinal certo
Do mundo, que deixa deſcuberto.

Nisto trabalha ſo, quem bem ſabia
Que deſpois que leuaſſe esta certeza,
Armas, & naos, & gentes mandaria
Manoel, que exercita a ſumma alteza,
Com que a ſeu jugo & ley ſometeria
Das terras, & do mar a redondeza,
Que elle não era mais que hum diligente
Deſcobridor das terras do Oriente.

Fallar ao Rei Gentio determina,
Porque com ſeu deſpacho ſe tornaſſe,
Que ja ſentia em tudo da malina
Gente impedirſe quanto delejaſſe:
O Rei que da noticia falſa, & indina
Nam era deſpantar ſe ſespantaſſe,
Que tam credulo era em ſeus agouros,
E mais ſendo affirmados pelos Mouros.

Eſte temor lhe esfria o baixo peito:
Por outra parte a força da cobiça,
A quem por natureza eſtâ ſugeito,
Hum deſejo immortal lhe acende, & atiça:
Que bem vê que grandiſsimo proueito
Farâ ſe com verdade, & com juſtiça
O contrato fizer por longos annos,
Que lhe comete o Rei dos Luſitanos.

Sobre iſto nos conſelhos que tomaua,
Achaua muy contrarios pareceres,
Que naquelles, com quem ſe aconſelhaua,
Executa o dinheiro ſeus poderes:
O grande Capitão chamar mandaua,
A quem chegado diſſe, ſe quiſeres
Confeſſarme a verdade limpa, & nua,
Perdão alcançaras da culpa tua.

Eu ſou bem informado, que a embaxada
Que de teu Rei me deste, que he fingida:
Porque nem tu tẽs Rei, nem patria amada,
Mas vagabundo vas paſſando a vida:
Que quem da Hiſperia vltima alongada
Rei, ou ſenhor de inſania deſmedida,
Ha de vir cometer com naos, & frotas
Tam incertas viagẽs, & remotas?

E ſe de grandes Reinos poderoſos,
O teu Rei tem a regia majestade,
Que preſentes me trazes valeroſos,
Sinais de tua incognita verdade:
Com peças & dões altos ſumptuoſos
Se lia dos Reis altos a amizade:
Que ſinal nem penhor não he baſtante,
A palauras dum vago nauegante.

Se por ventura vindes deſterrados,
Como ja foram homẽs dalta ſorte,
Em meu Reino ſereis agaſalhados,
Que toda a terra he patria pera o forte:
Ou ſe piratas ſois ao mar vſados,
Dizeimo ſem temor de infamia, ou morte:
Que por ſe ſustentar em toda idade,
Tudo faz a vital neceſsidade.

Iſto aſsi dito, o Gama que ja tinha
Suspeitas das inſidias que ordenaua
O Mahometico odio, donde vinha
Aquillo que tam mal o Rei cuidaua:
Cũa alta confianca, que conuinha,
Com que ſeguro credito alcançaua,
Que Venus Acidalia lhe influia,
Tais palauras do ſabio peito abria.

Se os antigos delitos, que a malicia
Humana cometeo na priſca idade,
Nam cauſaram, que o vaſo da niquicia,
Açoute tão cruel da Chriſtandade,
Viera por perpetua inimicicia
Na geraçam de Adão, co a falſidade
O poderoſo Rei da torpe ſeita,
Nam conceberas tu tam mâ ſoſpeita.

Mas porque nenhumb grande bem ſe alcança
Sem grandes opreſsões, & em todo o feyto
Segue o temor os paſſos da eſperança,
Que em ſuor viue ſempre de ſeu peyto,
Me moſtras tu tão pouca confiança
Deſta minha verdade: ſem reſpeyto
Das razões em contrario que acharias
Senão creſſes a quem não crer deuias.

Porque ſe eu de rapinas ſo viueſſe
Vndiuago, ou da patria desterrado,
Como cres que tão longe me vieſſe,
Buſcar aſſento incognito & apartado?
Porque eſperanças, ou porque intereſſe,
Viria eſprimentando o mar yrado,
Os Antarticos frios, & os ardores
Que ſofrem do Carneyro os moradores?

Se com grandes preſentes dalta eſtima
O credito me pedes do que digo,
Eu não vim mais q̃ a achar o estranho Clima
Onde a natura pos teu Reyno antigo:
Mas ſe a Fortuna tanto me ſublima,
Que eu torne à minha patria, & Reino amigo
Então verâs o dom ſoberbo & rico
Com que minha tornada certifico.

Se te pareçe inopinado feito,
Que Rei da vltima Hisperia ati me mande,
O coraçam ſublime, o regio peito,
Nenhum caſo poſsibil tem por grande.
Bem pareçe que o nobre & gram conceito
Do Luſitano eſpirito demande
Maior credito, & fe de mais alteza,
Que crea delle tanta fortaleza.

Sabe que ha muitos annos, que os antigos
Reis noſſos firmemente propuſerão
De vencer os trabathos, & perigos,
Que ſempre âs grandes couſas ſe opuſerão
E deſcobrindo os mares inimigos
Do quieto deſcanſo, pretenderão
De ſaber que fim tinhão, & onde estauão
As derradeiras praias que lauauão.

Conceito digno foi do ramo claro
Do venturoſo Rei, que arou primeiro
O mar, por yr deitar do ninho caro
O morador de Abila derradeiro:
Eſte por ſua induſtria, & engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Deſcobrir pode a parte, que faz clara
De Argos, da Ydra a luz, da Lebre, e da Ara.

Creſcendo cos ſucceſſos bons primeyros
No peyto as ouſadias, deſcobrirão
Pouco & pouco caminhos eſtrangeyros,
Que hũs ſuccedendo aos outros proſeguirão:
De Affrica os moradores derradeyros
Austrais, que nunca as ſete flammas virão,
Forão viſtos de nos, atras deyxando
Quantos eſtão os Tropicos queymando.

Aſsi com firme peyto, & com tamanho
Propoſito vencemos à Fortuna,
Ate que nos no teu terreno eſtranho
Viemos pôr a vltima coluna:
Rompendo a força do liquido Eſtanho
Da tempeſtade horrifica, & importuna
Ati chegamos, de quem ſo queremos
ſinal, que ao noſſo Rey de ti leuemos.

Eſta he a verdade Rey, que não faria
Por tão incerto bem, tão fraco premio
Qual, não ſendo isto aſsi, eſperar podia,
Tão lango tão fingido, & vão proemio:
Mas antes deſcanſar me deyxaria
No nunca deſcanſado & fero gremio
Da madre Thetis, qual pirata inico
Dos trabalhos alheyos feyto rico.

Aſsi que ô Rey, ſe minha grão verdade
Tẽs por qual he, ſincera, & não dobrada,
Ajuntame ao deſpacho breuidade,
Não me impidas o goſto da tornada:
E ſe inda te parece falſidade,
Cuyda bem na razão que eſta prouada,
Que com claro juyzo pode verſe,
Que facil he a verdade dentenderſe.

A tento eſtaua o Rey na ſegurança,
Com que prouaua o Gama o que dezia,
Concebe delle certa confiança,
Credito firme, em quanto proferia,
Pondera, das palauras ha abastança,
Iulga na autoridade grão valia,
Começa de julgar por enganados
Os Catuais currutos, mal julgados.

Iuntamente a cobiça do proueyto,
Que eſpera do contrato Luſitano,
O faz obedecer, & ter reſpeyto,
Co Capitão, & não co Mauro engano:
Enfim ao Gama manda, que direyto
Aas naos ſe vâ, & ſeguro dalgum dano
Poſſa a terra mandar qualquer fazenda,
Que pela eſpeciaria troque, & venda.

Que manda da fazenda enfim lhe manda,
Que nos Reynos Gangeticos faleça,
Salgũa traz idonea la da banda
Donde a terra ſe acaba, & o mar começa.
Iâ da Real preſença veneranda
Se parte o Capitão, pera onde peça
Ao Catual, que delle tinha cargo
Embarcação, que a ſua eſta de largo.

Embarcação que o leue aas naos lbe pede:
Mas o mao Regedor, que nouos laços
Lhe machinaua, nada lhe concede,
Interponda tardanças & embaraços:
Coelle parte ao caes, porque o arrede
Longe quanto poder dos regios paços,
Onde, ſem que ſeu Rei tenha noticia,
Faça o que lhe inſinar ſua malicia.

La bem longe lhe diz, que lhe daria
Embarcaçam bastante, em que partiſſe,
Ou que pera a luz craſtina do dia
Futuro, ſua partida diffiriſſe:
Ia com tantas tardanças entendia
O Gama, que o Gentio conſentiſſe
Na ma tençam dos Mouros, torpe & fera,
O que delle ate li nam entendêra:

Era este Catual, hum dos que estauão
Corrutos pela Maumetana gente,
O principal por quem ſe gouernauão
As cidades do Samorim potente:
Delle ſomente os Mouros eſperauão
Efeyto a ſeus enganos torpemente,
Elle, que no concerto vil conſpira
De ſuas eſperanças nam delira.

O Gama com inſtancia lhe requere
Que o mande por nas naos, & não lhe val,
E que aſsi lho mandàra, lhe refere,
O nobre ſucceſſor de Perimal:
Porque razão lhe empede & lhe difere
A fazenda trazer de Portugal,
Pois aquillo que os Reis ja tem mandado
Nam pode ſer por outrem derrogado?

Pouco obedece o Catual corruto
A tais palauras, antes reuoluendo
Na fantaſia algum ſutil, & aſtuto
Engano diabolico, & eſtupendo,
Ou como banhar poſſa o ferro bruto
No ſangue auorrecido, eſtaua vendo,
Ou como as naos em fogo lhe abraſaſſe,
Porque nenhũa aa patria mais tornaſſe.

Que nenhum torne aa patria ſo pretende
O conſelho infernal dos Maumetanos,
Porque nam ſaiba nunca onde ſe eſtende
Aterra Eoa o Rei dos Luſitanos:
Não parte o Gama em fim, que lho defende
O Regedor dos barbaros profanos,
Nem ſem licença ſua yrſe podia,
Que as almâdias todas lhe tolhia.

Aos brados & razões do Capitão,
Responde o Idolatra, que mandaſſe
Chegar aa terra as naos, que longe eſtão,
Porque milhor dali foſſe, & tornaſſe:
Sinal he de inimigo, & de ladrão,
Que la tam longe a frota ſe alargaſſe,
Lhe diz, porque do certo & fido amigo
He nam temer do ſeu nenhum perigo.

Nestas palauras o diſcreto Gama
Enxerga bem, que as naos deſeja perto
O Catual, porque com ferro, & flama
Lhas aſſalte, por odio deſcuberto:
Em varios penſamentos ſe derrama:
Fantaſiando eſtâ remedio certo,
Que deſſe a quanto mal ſe lhe ordenaua
Tudo temia, tudo em fim cuidaua.

Qual o reflexo lume do polido
Eſpelho de aço, ou de cristal fermoſo,
Que do rayo ſolar ſendo ferido,
Vai ferir noutra parte luminoſo,
E ſendo da oucioſa mão mouido
Pela caſa do moço curioſo,
Anda pelas paredes, & telhado,
Tremulo, aqui & ali, & deſſoſſegado.

Tal o vago juyzo fluctuaua
Do Gama preſo, quando lhe lembrara
Coelho, ſe por caſo o eſparaua
Na praia cos bateis, como ordenara:
Logo ſecretamente lhe mandaua,
Que ſe tornaſſe aa frota, que deixâra,
Nam foſſe ſalteado dos enganos,
Que eſperaua, dos feros Maumetanos.

Tal ha de ſer, quem quer co dom de Marte
Imitar os illuſtres, & igoalalos.
Voar co penſamento a toda parte,
Adiuinhar pirigos, & euitallos:
Com militar engenho, & ſutil arte
Entender os imigos, & enganalos,
Crer tudo em fim, que nunca louuarey
O Capitão que diga, não cuidey.

Inſiste o Malabar em telo preſo,
Senão manda chegar a terra a armada,
Elle conſtante, & de yra nobre aceſo,
Os ameaços ſeus nam teme nada:
Que antes quer ſobre ſi tomar o peſo,
De quanto mal a vil malicia ouſada
Lhe andar armando, que por em ventura
A frota de ſeu Rei, que tem ſegura.

Aquella noite eſteue ali detido,
E parte do outro dia, quando ordena
De ſe tornar ao Rei. mas impedido
Foi da guarda que tinha não pequena:
Comete lhe o Gentio outro partido,
Temendo de ſeu Rei castigo, ou pena,
Se ſabe esta malicia, a qual aſinha
Saberâ, ſe mais tempo ali o detinha.

Diz lhe que mande vir toda á fazenda
Vendibil, que trazia, pera a terra,
Pera que de vagar ſe troque, & venda,
Que quem nam quer comercio, buſca guerra:
Posto que os maos prepoſitos entenda
O Gama, que o danado peito encerra,
Conſente, porque ſabe por verdade,
Que compra co a fazenda a liberdade.

Concertã ſe que o negro mande dar,
Embarcações idoneas com que venha,
Que os ſeus bateis não quer auenturar,
Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha:
Partem as almàdias a buſcar
Mercadoria Hispana, que conuenha,
Eſcreue a ſeu yrmão, que lhe mandaſſe
A fazenda, com que ſe reſgataſſe.

Vem a fazenda a terra, aonde logo
A agaſalhou o iffame Catual:
Coella ficam Aluaro & Diogo,
Que a podeſſem vender pelo que val,
Se mais que obrigação, que mando & rogo
No peito vil o premio pode, & val,
Bem o moſtra o Gentio a quem o entenda,
Pois o Gama ſoltou pela fazenda.

Por ella o ſolta, crendo que ali tinha
Penhor baſtante, donde recebeſſe
Intereſſe maior do que lhe vinha,
Se o Capitão mais tempo detiueſſe:
Elle vendo que ja lhe nam conuinha
Tornar a terra, porque nam podeſſe
Ser mais retido, ſendo aas naos chegado
Nellas eſtar ſe deixa deſcanſado.

Nas naos estar ſe deyxa vagaroſo,
Atê ver o que o tempo lhe deſcobre,
Que não ſe fia ja do cobiçoſo
Regedor corrompido, & poauco nobre.
Veja agora o juyzo curioſo
Quanto no rico, aſsi como no pobre
Pode o vil intereſſe & ſede imiga
Do dinheyro, que a tudo nos obriga.

A Polidoro mata o Rey Treicio,
Sò por ficar ſenhor do grão teſouro:
Entra, pelo fortiſsimo edificio,
Com a filha de Acriſo a chuua douro:
Pode tanto em Tarpeia auaro vicio,
Que a troco do metal luzente, & louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quaſi afogada empago morre.

Eſte rende munidas fortalezas,
Faz tredoros, & falſos os amigos,
Eſte a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos:
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra, ou fama algũs perigos,
Eſte depraua as vezes âs ciencias,
Os juyzos cegando, & as conſciencias.

Eſte interpreta mais que ſutilmente
Os textos. eſte faz & desfaz leis:
Eſte cauſa os perjurios entre a gente:
E mil vezes tirânos torna os Reis.
A te os que ſo a Deos omnipotente
Se dedicão, mil vezes ouuireis,
Que corrompe eſte encantador, & illude:
Mas não ſem cor com tudo de virtude.

F I M.



❧ Canto Nono.

Tiuerão longamen-
te na cidade
Sem vender ſe a fazenda os do-
us feitores,
Que os infieis por manha, & falſidade
Fazem, que nam lha comprem mercadores,
Que todo ſeu propoſito, & vontade
Era, deter ali os deſcubridores
Da India, tanto tempo que vieſſem
De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem.

La no ſeio Eritreo, onde fundada
Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo,
Do nome da irmã ſua aſsi chamada,
Que deſpois em Suez ſe conuerteo,
Não longe, o porto jaz da nomeada
Cidade Meca, que ſe engrandeceo
Com a ſuperstiçam falſa, & profana,
Da relegioſa agoa Maumetana.

Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato
De todo o roxo mar mais florecia,
De que tinha proueito grande, & grato
O Soldão que eſſe Reino poſſuia:
Daqui aos Malabares, por contrato
Dos infieis, fermoſa companhia
De grandes naos, pelo Indico Oceano,
Eſpeciaria vem buſcar cada anno.

Por eſtas naos os Mouros eſperauão,
Que como foſſem grandes & poſſantes
Aquellas, que o comerçio lhe tomauão,
Com flamas abraſaſſem crepitantes:
Neſte ſocorro tanto confiauão,
Que ja nam querem mais dos nauegantes,
Se nam que tanto tempo ali tardaſſem,
Que da famoſa Meca as naos chegaſſem.

Mas o Gouernador dos ceos, & gentes,
Que pera quanto tem determinado,
De longe os meios dâ conuenientes,
Por onde vem a effeito o fim fadado,
Influio piadoſos accidentes
De affeiçam em Monçaide, que guardado
Estaua pera dar ao Gama auiſo,
E merecer por iſſo o Paraiſo.

Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão,
Por ſer Mouro como elles, antes era
Participante em quanto machinauão,
A tençam lhe deſcobre torpe, & fera:
Muitas vezes as naos que longe eſtauão
Viſita, & com piedade conſidera
O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena,
Pela maligna gente Sarracena.

Informa o cauto Gama das armadas,
Que de Arabica Meca vem cadano,
Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas,
Pera ſer inſtrumento deſte dano:
Diz lhe que vem de gente carregadas,
E dos trouões horrendos de Vulcano,
E que pode ſer dellas opremido,
Segundo eſtaua mal apercebido.

O Gama que tambem conſideraua
O tempo, que pera a partida o chama,
E que deſpacho ja não eſparaua
Milhor do Rei, que os Maumetanos ama:
Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua
Que ſe tornem aas naos: & porque a fama
Deſta ſubita vinda os não impida,
Lhe manda que a fizeſſem eſcondida.

Porem não tardou muito, que voando
Hum rumor nam ſoaſſe com verdade,
Que forão preſos os feitores, quando
Foram ſentidos virſe da cidade:
Eſta fama as orelhas penetrando
Do ſabio capitão, com breuidade
Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão,
A vender pedraria que trouxerão.

Eram eſtes antigos mercadores
Ricos em Calecu, & conhecidos
Da falta delles, logo entre os milhores
Sentido foi, que eſtão no mar retidos:
Mas ja nas naos os bõs trabalhadores,
Voluem o cabrestante, & repartidos
Pelo trabalho, hũs puxão pela amarra,
Outros quebrão co peito duro a barra.

Outros pendem da verga, & ja deſatão
A vella, que com grita ſe ſoltaua,
Quando com maior grita ao Rei relatão
A preſſa, com que a armada ſe leuaua:
As molheres & filhos, que ſe matão
Daquelles que vão preſos, onde eſtaua
O Samorim, ſe aqueixão que perdidos
Hũs tem os pais, as outras os maridos.

Manda logo os feitores Luſitanos
Com toda ſua fazenda liuremente,
A peſar dos imigos Maumetanos,
Porque lhe torne a ſua preſa gente:
Deſculpas manda o Rei de ſeus enganos,
Recebe o Capitão de melhormente
Os preſos, que as deſculpas, & tornando
Algũs negros, ſe parte as vellas dando.

Parteſe coſta abaxo, porque entende
Que em vão co Rei gentio trabalhaua,
Em querer delle paz, a qual pretende
Por firmar o comercio que trataua:
Mas como aquella terra que ſe estende
Pela Aurora, ſabida ja deixaua,
Com eſtas nouas torna aa patria cara,
Certos ſinais leuando do que achara.

Leua algũs Malabares, que tomou
Per força, dos que o Samorim mandâra,
Quando os preſos feitores lhe tornou:
Leua pimenta ardente que compràra:
A ſeca flor de Banda não ficou,
A Noz, & o negro crauo, que faz clara
A noua ilha Maluco, coa canella,
Com que Ceilão he rica illustre & bella.

Isto tudo lhe ouuera a deligencia
De Monçaide fiel, que tambem leua,
Que inſpirado de Angelica influencia,
Quer no liuro de Chriſto que ſe eſcreua,
O ditoſo .Affricano, que a clemencia
Diuina aſsi tirou deſcura treua,
E tam longe da patria achou maneira,
Pera ſubir aa patria verdadeira.

Apartadas aſsi da ardente costa,
As venturoſas naos, leuando a proa
Pera onde a natureza tinha poſta
A Meta Austrina da eſparança boa,
Leuando alegres nouas & repoſta,
Da parte Oriental pera Lisboa,
Outra vez cometendo os duros medos
Do mar incerto, temidos & ledos.

O prazer de chegar aa patria cara,
A ſeus penates caros & parentes,
Pera contar a peregrina, & rara
Nauegaçam, os varios çeos, & gentes,
Vir a lograr o premio, que ganhàra
Por tão longos trabalhos, & accidentes,
Cada hum, tem por goſto tam perfeito,
Que o coração para elle he vaſo eſtreito.

Porem a Deoſa Cipria, que ordenada
Era pera fauor dos Luſitanos
Do Padre eterno, & por bom genio dada
Que ſempre os guia ja de longos annos.
A gloria por trabalhos alcançada,
Satisfação de bem ſofridos danos,
Lhe andaua ja ordenando, & pretendia
Darlhe nos mares tristes alegria.

Deſpois de ter hum pouco reuoluido
Na mente, o largo mar que nauegârão,
Os trabalhos, que pelo Deos naſcido,
Nas Amphioneas Thebas, ſe cauſarão,
Ia trazia de longe no ſentido,
Pera premio de quanto mal paſſarão,
Buſcarlhe algum deleite, algum deſcanſo
No Reino de criſtal liquida, & manſo.

Algum repouſo em fim, com que podeſſe
Refucilar a laſſa humanidade
Dos nauegantes ſeus, como intereſſe
Do trabalho, que incurta a breue idade:
Parecelhe razão que conta deſſe
A ſeu filho, por cuja poteſtade
Os Deoſes faz decer ao vil terreno,
E os humanos ſubir ao ceo ſereno.

Iſto bem reuoluido, determina
De terlhe aparelhada la no meio
Das agoas, algũa inſula diuina,
Ornada deſmaltado & verde arreio:
Que muitas tem no reino, que confina
Da primeira co terreno ſeio,
Afora as que paſſue ſoberanas,
Pera dentro das portas Herculanas.

Ali quer que as aquaticas donzellas,
Eſperem os fortiſsimos barões,
Todas as que tem titolo de bellas,
Gloria dos olhos, dor dos corações,
Com danças, & coreas, porque nellas
Influirâ ſecretas affeições,
Pera com mais vontade trabalharem
De contentar a quem ſe affeiçoarem.

Tal manha buſcou ja, pera que aquelle
Que de Achiſes pario, bem recebido
Foſſe no campo que a bouina pelle
Tomou de eſpaço, por ſutil partido:
Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle
Tem todo ſeu poder, fero Cupido,
Que aſsi como naquella empreſa antiga
A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga.

No carro ajunta as aues, que na vida
Vão da morte as exequias celebrando,
E aquellas em que ja foi conuertida
Peristera, as boninas apanhando:
Em derredor da Deoſa ja partida,
No ar laſciuos beijos ſe vão dando,
Ella por onde paſſa o ar, & o vento
Sereno faz, com brando mouimento.

Ia ſobre os Idalios montes pende,
Onde o filho frecheiro eſtaua então,
Ajuntando outros muitos, que pretende
Fazer hũa famoſa expedição
Contra o mundo reuelde, porque emende
Erros grandes, que ha dias nelle eſtão,
Amando couſas que nos ſorão dadas,
Nam pera ſer amadas, mas vſadas.

Via Acteon na caça, tam auſtero,
De cego na alegria bruta, inſana,
Que por ſeguir hum feo animal fero,
Foge da gente, & bella forma humana:
E por caſtigo quer doçe, & ſeuero,
Maſtra lhe a fermoſura de Diana,
E guarde ſe nam ſeja inda comido
Deſſes cães que agora ama, & conſumido.

E vè do mundo todo os principais,
Que nenhum no bem pubrico imagina,
Vê nelles, que não tem amor a mais
Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina
Vê que eſſes que frequentão os reais
Paços, por verdadeira & ſaã doctrina
Vendem adulação, que mal conſente
Mandarſe o nouo trigo florecente.

Vê que aquelles que deuem aa pobreza
Amor diuino, & ao pouo charidade,
Amão ſomente mandos, & riqueza,
Simulãdo juſtiça, & integridade:
Da fea tyrania & de aſpereza
Fazem direito, & vaã ſeueridade:
Leis em fauor do Rei ſe estabelecem,
As em fauor do pouo ſo perecem.

Vê em fim que ninguem ama o que deue,
Se não o que ſomente mal deſeja,
Não quer que tanto tempo ſe releue,
O castigo que duro, & justo ſeja:
Seus miniſtros ajunta, porque leue
Exercitos conformes aa peleja,
Que eſpera ter coa mal regida gente,
Que lhe não for agora obediente.

Muitos deſtes mininos voadores,
Eſtão em varias obras trabalhando,
Hũs amolando ferros paſſadores,
Outros aſteas de ſetas delgaçando,
Trabalhando cantando estão de amores,
Varios caſos em verſo modulando,
Melodia ſonora, & concertada,
Suaue a letra, angelica a ſoada.

Nas fragras immortais, onde forjauão,
Pera as ſetas as pontas penetrantes,
Por lenha, corações ardendo eſtauão,
Viuas entranhas inda palpitantes:
As agoas onde os ferros temperauão,
Lagrimas ſam de miſeros amantes,
A viua flama, o nunca morto lume,
Deſejo he ſo que queima, & não conſume.

Algũs exercitando a mão andauão,
Nos duros corações da plebe ruda,
Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão,
Dos que feridos vão, da ſeta aguda,
Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão
As chagas recebidas, cuja ajuda
Não ſomente dâ vida aos mal feridos:
Mas poem em vida os inda não naſcidos.

Fermoſas ſam algũas, & outras feas,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno eſpalhado pelas veas,
Curão no aas vezes aſperas triagas
Algũs ficão ligados em cadeas,
Por palauras ſutis de ſabias Magas,
Iſto acontece aas vezes quando as ſetas
Acertão de leuar eruas ſecretas.

Deſtes tiros aſsi deſordenados,
Que estes moços mal deſtros vão tirando,
Naſcem amores mil desconcertados,
Entre o pouo ferido miſerando,
E tambem nos heroes de altos eſtados,
Exemplos mil ſe vem de amor nefando,
Qual o das moças, Bibli, & Cynirea
Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea.

E vos ô poderoſo por paſtoras
Muytas vezes ferido o peyto vedes,
E por bayxos, & rudos vos ſenhoras
Tambem vos tomão nas Vulcanias redes,
Hũs eſperando andais nocturnas horas,
Outros ſubis telhados & paredes,
Mas eu creyo que deſte amor indino,
He mais culpa a da mãy, que a da minino.

Mas ja no verde prado o carro leue,
Punhão os brancos Ciſnes manſamente,
E Dione, que as roſas entre a neue
No rosto traz, decia diligente:
O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue,
A recebella vem, ledo, & contente,
Vem todos os cupidos ſeruidores,
Beijar a mão aa Deoſa dos amores.

Ella porque não gaſte o tempo em vão,
Nos braços tendo o filho, confiada
Lhe diz, amado filho, em cuja mão
Toda minha potencia eſtà fundada:
Filho em quem minhas forças ſempre eſtão,
Tu que as armas Tifeas tẽs em nada,
A ſocorrer me a tua poteſtade,
Me traz eſpecial neceſsidade.

Bem ves as Luſitanicas fadigas,
Que eu ja de muito longe fauoreço,
Porque das Parcas ſey minhas amigas,
Que me ande venerar & ter em preço,
E porque tanto imitão as antigas
Obras de meus Romanos, me offereço
A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo,
A quanto ſe estender o poder noſſo.

E porque das inſidias do odioſo
Baco foram na India moleſtados,
E das injurias ſos do mar vndoſo,
Poderão mais ſer mortos, que canſados:
No mesmo mar, que ſempre temeroſo
Lhe foi, quero que ſejão repouſados,
Tomando aquelle premio, & doçe gloria
Do trabalho que faz clara a memoria.

E pera iſſo queria que feridas
As filhas de Nereo, no ponto fundo,
Da mor dos Luſitanos encendidas,
Que vem de deſcobrir o nouo mundo,
Todas nũa ilha juntas & ſubidas,
Ilha que nas entranhas do profundo
Oceano, terei aparelhada,
De dões de Flora, & Zefiro adornada.

Ali com mil refreſcos & manjares,
Com vinhos odoriferos, & roſas,
Em criſtalinos paços ſingulares,
Fermoſos leitos, & ellas mais fermoſas:
Em fim com mil deleites não vulgares,
Os eſperem as Nimphas amoroſas,
Damor feridas, pera lhe entregarem
Quanto dellas os olhos cobiçarem.

Quero que aja no reino Neptunino
Onde eu naſci, progenie forte & bella,
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potencia ſe reuela,
Porque entendão que muro Adamantino,
Nem triste hypocreſia val contra ella:
Mal auerâ na terra quem ſe guarde,
Se teu fogo imortal nas agoas arde.

Aſsi Venus propos, & o filho inico
Pera lhe obedecer ja ſe apercebe,
Manda trazer o arco eburneo rico,
Onde as ſetas de ponta de ouro embebe:
Com geſto ledo a Cipria, & impudico,
Dentro no carro o filho ſeu recebe,
Ha redea larga aas aues, cujo canto
Ha Phaetontea morte chorou tanto.

Mas diz Cupido, que era neceſſaria
Hũa famoſa, & celebre terceyra,
Que poſto que mil vezes lhe he contraria,
Outras muytas ha tem por companheyra:
A Deoſa Gigantea temeraria,
Iactante, mintiroſa, & verdadeyra,
Que com cem olhos ve, & por onde voa
O que vè com mil bocas apregoa.

Vão a buſcar, & mandam a diante,
Que celebrando va com tuba clara,
Os louuores da gente nauegante,
Mais do que nunca os doutrem celebrara
Ia murmurando a fama penetrante
Pelas fundas cauernas ſe eſpalhàra,
Fala verdade, a vida por verdade,
Que junto a Deoſa traz Credulidade.

O louuor grande, o rumor excellente
No coração dos Deoſes, que indinados
Forão por Baco contra a illuſtre gente,
Mudando os fez hum pouco afeyçoados:
O peyto feminil, que leuemente
Muda quaeſquer propafitos tomados,
Ia julga por mao zelo, & por crueza
Deſejar mal a tanta fortaleza.

Deſpede niſto o fero moço as ſetas
Hũa apos outra, geme o mar cos tiros,
Dereitas pelas ondas inquietas,
Algũas vão, & algũas fazem giros:
Caem as Nimphas, lançam das ſecretas
Entranhas ardentiſsimos ſoſpiros,
Cae qualquer, ſem ver o vulto que ama,
Que tanto como a vista pode a fama.

Os cornos ajuntou da eburnea Lũa,
Com força o moço indomito exceſsiua,
Que Thetis quer ferir mais que nenhũa,
Porque mais que nenhũa lhe era eſquiua:
Ia não fica na aljaua ſeta algũa,
Nem nos equoreos campos Nimpha viua,
E ſe feridas inda eſtão viuendo,
Sera pera ſentir que vão morrendo.

Day lugar altas & ceruleas ondas,
Que vedes Venus traz a medicina,
Moſtrando as brancas vellas, & redondas,
Que vem por cima da agoa Neptunina:
Pera que tu reciproco reſpondas
Ardente Amor aa flama feminina,
He forçado que a pudicicia honesta
Faça quanto lhe Venus amoeſta.

Ia todo o bello coro ſe aparelha
Das Nereidas, & junto caminhaua
Em coreas gentis, vſança velha,
Pera a ilha, a que Venus as guiaua:
Ali a fermoſa Deoſa lhe aconſelha
O que ella fez mil vezes, quando amaua,
Ellas que vão do doçe amor vencidas,
Eſtão a ſeu conſelho offerecidas.

Cortando vão as naos a larga via
Do mar ingente, pera a patria amada,
Deſejando prouerſe de agoa fria,
Pera a grande viajem prolongada:
Quando juntas com ſubita alegria,
Ouuerão vista da ilha namorada,
Rompendo pelo çeo a mãi fermoſa
De Menonio, ſuaue & deleitoſa.

De longe a Ilha virão freſca, & bella,
Que Venus pelas ondas lha leuaua
(Bem como o vento leua branca vella)
Pera onde a forte armada ſe enxergaua,
Que porque não paſſaſſem, ſem que nella
Tomaſſem porto, como deſejaua,
Pera onde as naos nauegão a mouia
A Accidalia, que tudo em fim podia.

Mas firme a fez & imobil, como vio
Que era dos Nautas viſta, & demandada,
Qual ficou Delos, tanto que pario
Latona Phebo, & a Deoſa aa caça vſada
Pera la logo a proa o mar abrio,
Onde a coſta fazia hũa enſeada
Curua, & quieta, cuja branca area
Pintou de ruiuas conchas Cyterea.

Tres fermoſos outeiros ſe moſtrauão,
Erguidos com ſoberba gracioſa,
Que de gramineo eſmalte ſe adornauão,
Na fermoſa ilha alegre, & deleitoſa:
Claras fontes & limpidas manauão
Do cume, que a verdura tem viçoſa,
Por entre pedras aluas ſe diriua,
A ſonoroſa Limpha fugitiua.

Num valle ameno, que os outeiros fende,
Vinhão as claras agoas ajuntarſe,
Onde hũa meſa fazem, que ſe estende
Tam bella, quanto pode imaginarſe:
Aruoredo gentil ſobre ella pende,
Como que prompto estâ pera afeitarſe,
Vendoſe no cristal reſplandecente,
Que em ſi o eſtâ pintando propriamente:

Mil aruores eſtão ao çeo ſubindo,
Com pomos odoriferos & bellos,
A Laranjeira tem no fruito lindo
A cor, que tinha Daphne nos cabellos.
Encoſtaſe no chão, que eſtà caindo
A Cidreira cos peſos amarellos,
Os fermoſos limoẽs ali cheirando
Eſtam virgineas tetas imitando.

As aruores agreſtes, que os outeiros
Tem com frondente coma emnobrecidos
Alemos ſam de Alcides, & os Loureiros
Do louro Deos amados, & queridos:
Mirtos de Cyterea, cos Pinheiros
De Cybele por outro amor vencidos,
Estâ apontando o agudo Cipariſo
Pera onde he poſto o Etereo paraiſo.

Os dões que dâ Pomona, ali natura
Produze diferentes nos ſabores,
Sem ter neceſsidade de cultura,
Que ſem ella ſe dão muito milhores.
As Cereijas porpureas na pintura,
As Amoras, que o nome tem de amores,
O pomo, que da patria Perſia veio,
Milhor tornado no terreno alheio.

Abre a Romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu Rubi teu preço perdes:
Entre os braços do Vlmeiro eſtâ a jocunda
Vide, cũs cachos roxos, & outros verdes:
E vos ſe na voſſa aruore fecunda
Peras pyramidais viuer quiſerdes,
Entregaiuos ao dano, que cos bicos,
Em vos fazem os paſſaros inicos.

Pois a tapeçaria bella & fina,
Com que ſe cobre a ruſtico terreno,
Faz ſer a de Achemenia menos dina:
Mas o ſombrio valle mais ameno:
Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina,
Sobollo tanque lucido & ſereno,
Floreçe o filho & neto de Cyniras,
Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras.

Pera julgar dificil couſa fora,
No çeo vendo, & na terra as meſmas cores,
Se daua aas flores cor a bella Aurora,
Ou ſe lha dam a ella as bellas flores:
Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora
As violas da cor dos amadores,
O Lirio roxo, a freſca Roſa bella,
Qual reluze nas faces da donzella.

A candida Cecêm das Matutinas
Lagrimas ruciada, & a Manjarona,
Venſe as letras nas flores Hyacintinas,
Vem queridas do filho de Latona:
Bem ſe enxerga nos pomos & boninas,
Que competia Cloris com Pomona:
Pois ſe as aues no ar cantando voão,
Alegres animais o chão pouoão.

A longo da agoa o niueo Ciſne canta,
Responde lhe do ramo Philomela,
Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta
Acteon nagoa criſtalina & bella:
Aqui a fugace Lebre ſe leuanta
Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella,
Ali no bico traz ao caro ninho,
O mantimento ô leue paſſarinho.

Neſta freſcura tal deſembarcauão
Ia das naos os ſegundos Argonautas,
Onde pela floresta ſe deixauão
Andar as bellas Deoſas como incautas,
Algũas doçes Cytaras tocauão,
Algũas arpas, & ſonoras frautas,
Outras cos arcos de ouro ſe fingião
Seguir os animais, que nam ſeguião.

Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta,
Que andaſſem pelos campos eſpalhadas,
Que vista dos barões a preſa incerta,
Se fizeſſem primeyro deſejadas
Algũas, que na forma deſcuberta
Do bello corpo eſtauão confiadas,
Poſta a artificioſa fermoſura,
nuas lauarſe deyxão na agoa pura.

Mas os fortes mancebos, que na praya
Punhão os pes de terra cubiçoſos,
Que não ha nenhum delles, que não ſaya
De acharem caça agreſte deſejoſos:
Não cuydão que ſem laço, ou redes caya
Caça naquelles montes deleytoſos
Tão ſuaue, domeſtica, & benina,
Qual ferida lha tinha ja Ericina.

Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas
Pera ferir os Ceruos ſe fiauão,
Pelos ſombrios matos, & floreſtas
Determinadamente ſe lançauão:
Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas
Defendem a verdura, paſſeauão
Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda
Por aluas pedras corre aa praya leda.

Começão de enxergar ſubitamente
Por entre verdes ramos varias cores,
Cores de quem a viſta julga, & ſente,
Que não erão das roſas, ou das flores,
Mas da lam fina, & ſeda diferente
Que mais incîta a força dos amores,
De que ſe vestem as humanas roſas,
Fazendoſe por arte mais fermoſas.

Da Veloſo eſpantado hum grande grito,
Senhores caça eſtranha diſſe he eſta,
Se inda durão o Gentio antigo rito,
A Deoſas he ſagrada esta floresta:
Mais deſcobrimos do que humano eſprito
Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta
Que ſam grandes as couſas, & excellentes
Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes.

Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos,
Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras,
Isto dito velloces mais que Gamos,
Selançam a correr pelas ribeiras:
Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos,
Mas mais induſtrioſas que ligeiras,
Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando,
Se deixão yr dos Galgos alcançando.

De hũa os cabellos de ouro o vento leua
Correndo, & da outra as fraldas delicadas,
Acendeſe o deſejo que ſe ceua
Nas aluas carnes ſubito moſtradas,
Hũa de industria cae, & ja releua
Com moſtras mais maſias, que indinadas,
Que ſobre ella empecendo tambem caia
Quem a ſeguio pela arenoſa praia.

Outros por outra parte vão topar,
Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão,
Ellas começam ſubito a gritar,
Como que aſſalto tal nam eſperauão,
Hũas fingindo menos eſtimar
A vergonha, que a força, ſe lançauão
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que aas mãos cobiçoſas vão negando.

Outra como acudindo mais de preſſa,
Aa vergonha da Deoſa caçadora,
Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa
Por tomar os veſtidos, que tem fora:
Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa
Veſtido aſsi & calçado (que co a mora
Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde)
A matar na agoa o fogo que nelle arde.

Qual tão de caçador ſagaz, & ardido,
Vſado a tomar na agoa a aue ferida,
Vendo roſto o ferreo cano erguido,
Pera a Garcenha, ou Pata conhecida,
Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido
Salta nagoa, & da preſa nam duuîda,
Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo
Remete ha que nam era yrmaã de Phebo.

Lionardo ſoldado bem deſpoſto,
Manhoſo, caualleiro, & namorado,
A quem amor não dera hum ſo deſgoſto,
Mas ſempre fora delle mal tratado:
E tinha ja por firme proſuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porem não que perdeſſe a eſperança,
De inda poder ſeu fado ter mudança.

Quis aqui ſua ventura, que corria
Apos Efire, exemplo de belleza,
Que mais caro que as outras dar queria,
O que deu para darſe a natureza,
Ia canſado correndo lhe dizia.
O fermoſura indigna de aſpereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Eſpera hum corpo de quem leuas a alma.

Todas de correr canſam, Nimpha pura,
Rendendo ſe aa vontade do inimigo,
Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura?
Quem te diſſe que eu era o que te ſigo?
Se to tem dito ja aquella ventura,
Que em toda a parte ſempre anda comigo,
O nam na creas, porque eu quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

Nam canſes, que me canſas: & ſe queres
Fujirme, porque nam poſſa tocarte,
Minha ventura he tal, que inda que eſperes
Ella farâ que nam poſſa alcançarte:
Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres,
Que ſutil modo buſca de eſcaparte,
E notarâs no fim deſte ſucceſſo,
Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.

O não me fujas, aſsi nunca o breue
Tempo fuja de tua fermoſura,
Que ſo com refrear o paſſo leue,
Vencerâs da fortuna a força dura:
Que Emperador, que exercito ſe atreue.
A quebrantar a furia da ventura,
Que em quanto deſejey me vai ſeguindo,
O que tu ſo faras nam me fugindo?

Põeste da parte da desdita minha?
Fraqueza he dar ajuda ao mais potente:
Leuas me hum coração, que liure tinha?
Solta mo, & corroras mais leuemente.
Não te carrega eſſa alma tam mezquinha,
Que neſſes fios de ouro reluzente
Atada leuas? ou deſpois de preſa
Lhe mudaſte a ventura, & menos peſa?

Neſta eſperança ſo te vou ſeguindo,
Que ou tu nam ſofrerâs o peſo della,
Ou na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarâs a triste & dura eſtrella.
E ſe ſe lhe mudar, nam vas fugindo,
Que Amor te ferirà, gentil donzella,
E tu me eſperarâs, ſe Amor te fere,
E ſe me eſperas, não ha mais que eſpere.

Ia nam fugia a bella Nimpha, tanto
Por ſe dar cara ao triste que a ſeguia,
Como por yr ouuindo o doçe canto,
As namoradas magoas que dizia:
Voluendo o roſto ja ſereno & ſancto,
Toda banhada em riſo, & alegria,
Cair ſe deixa aos pês do vencedor,
Que todo ſe desfaz em puro amor.

O que famintos beijos na floreſta,
E que mimoſo choro que ſoaua,
Que afagos tam ſuaues, que yra honeſta
Que em riſinhos alegres ſe tornaua:
O que mais paſſam na menhã, & na ſesta
Que Venus com prazeres inflamaua,
Milhor he eſprimentalo que julgalo,
Mas julgue o quem nam pode eſprimentalo.

Deſta arte em fim conformes ja as fermoſas
Nimphas, cos ſeus amados nauegantes,
Os ornão de capellas deleitoſas,
De louro, & de ouro, & flores abundantes:
As mãos aluas lhe dauão como eſpoſas
Com palauras formais, & eſtipulantes,
Se prometem eterna companhia
Em vida & morte, de honra & alegria.

Hũa dellas maior, a quem ſe humilha
Todo o coro das Nimphas, & obedece,
Que dizem ſer de Celo & Vesta filha,
O que no geſto bello ſe parece,
Enchendo a terra, & o mar de marauilha,
O Capitão illustre que o mereçe,
Recebe ali com pompa honeſta, & rêgia,
Moſtrando ſe ſenhora grande, & egregia.

Que deſpois de lhe ter dito quem era,
Cum alto exordio de alta graça ornado,
Dando lhe a entender, que ali viera
Por alta influiçam do imobil fado,
Pera lhe deſcobrir da vnida eſphera,
Da terra immenſa, & mar não nauegado
Os ſegredos, por alta prophecia,
O que eſta ſua naçam ſo merecia:

Tomando o pela mão a leua, & guia
Pera o cume dum monte alto, & diuino,
No qual hũa rica fabrica ſe erguia
De criſtal toda, & de ouro puro, & fino:
A maior parte aqui paſſam do dia
Em doçes jogos, & em prazer contino,
Ella nos paços logra ſeus amores,
As outras pelas ſombras entre as flores.

Aſsi a fermofa, & a forte companhia,
O dia quaſi todo eſtão paſſando,
Nãa alma, doçe, incognita alegria,
O trabalhos tam longos compenſando:
Porque dos feitos grandes, da ouſadia
Forte & famoſa, o mundo està guardando
O premio la no fim bem merecido,
Com fama grande, & nome alto & ſubido.

Que as Nimphas do Occeano tam fermoſas,
Thetis & a Ilha angelica pintada,
Outra couſa nam he, que as deleitoſas
Honras, que a vida fazem ſublimada:
Aquellas preminencias glorioſas,
Os triumphos, a fronte coroada
De Palma, & Louro, a gloria & marauilha
Estes ſam os deleites desta Ilha.

Que as immortalidades que fingia
A antiguidade, que os illuſtres ama,
La no estellante Olimpo a quem ſubia,
Sobre as aſas inclitas da fama,
Por obras valeroſas, que fazia,
Pelo trabalho immenſo, que ſe chama
Caminho da virtude alto & fragoſo:
Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo.

Nam erão ſenão premios, que reparte
Por feitos imortais & ſoberanos,
O mundo, cos varões, que esforço & arte
Diuinos os fizerão, ſendo humanos:
Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte
Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos
Ceres, Palas, & Iuno, com Diana
Todos forão de fraca carne humana.

Mas a fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos
De Deoſes, Semideoſes immortais
Indigetes, Eroicos, & de Magnos
Por iſſo, o vos que as famas estimais,
Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos,
Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo,
Que o animo de liure faz eſcrauo.

E ponde na cobiça hum freio duro,
E na ambiçam tambem, que indignamente
Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro
Vicio da tirania infame, & vrgente:
Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro
Verdadeiro valor nam dão aa gente,
Milhor he merecellos, ſem os ter
Que poſſuilos ſem os mereçer.

Ou day na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dem o dos pequenos,
Ou vos veſti nas armas rutilantes,
Contra a ley dos imigos Sarracenos,
Fareis os Reinos grandes, & poſſantes
E todos tereis mais, & nenhum menos
Poſſuireis riquezas merecidas,
Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas.

E fareis claro o Rei, que tanto amais,
Agora cos conſelhos bem cuidados,
Agora co as eſpadas, que immortais
Vos farão, como os voſſos ja paſſados:
Impoſsibilidades não façais,
Que quem quis ſempre pode: & numerados
Sereis entre os Heroes eſclarecidos,
E neſta ilha de Venus recebidos.

F I M.



❧ Canto Decimo
& vltimo.

Mas ja o claro ama-
dor da Lariſſea
Adultera, inclinaua os animais,
La para o grande lago, que rodea
Temiſtitão, nos fins Occidentais:
O grande ardor do Sol Fauonio enfrea,
Co ſopro, que nos tanques naturais
Encreſpa a agoa ſerena, & deſpertaua
Os Lirios, & Iazmins que a calma agraua.

Quando as fermoſas Ninfas cos amantes
Pella mão ja conformes & contentes,
Subião pera os paços radiantes,
E de metais ornados reluzentes:
Mandados da Rainha, que abundantes
Meſas, daltos manjares, excelentes,
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
Reſtaurem da canſada natureza.

Ali em cadeiras ricas criſtalinas,
Se aſſentão, dous & dous, amante & dama,
Noutras aa cabeceira douro finas,
Eſtà coa bella Deoſa o claro Gama:
De ygoarias ſuaues & diuinas
A quem não chega a Egipcia antiga fama,
Se acumulão os pratos de fuluo ouro,
Trazidos la do Atlantico teſouro.

Os vinhos odoriferos, que acima
Eſtão não ſo do Italico Falerno,
Mas da Ambroſia, que Ioue tanto eſtima,
Com todo o ajuntamento ſempiterno:
Nos vaſos, onde em vão trabalha a lima
Creſpas eſcumas erguem, que no interno
Coração mouem ſubita alegria,
Saltando coa miſtura dagoa fria.

Mil praticas alegres ſe tocauão,
Rîſos doces, ſutis, & argutos ditos,
Que entre hũ & outro mãjar ſe aleuantauão
Deſpertando os alegres apatitos:
Muſicos instrumentos não faltauão,
Quais no profundo reyno, os nus eſpritos
Fizerão deſcanſar da eterna pena,
Cũa voz dhũa angelica Syrena.

Cantaua a bella Ninfa, & cos acentos
Que pellos altos paços vão ſoando,
Em conſonancia ygoal, os inſtromentos
Suaues vem a hum tempo conformando:
Hum ſubito ſilencio enfrea os ventos,
E faz hir docemente murmurando
As agoas, & nas caſas naturais
Adormecer os brutos animais.

Com doce voz eſtâ ſubindo ao cco
Altos varões, que estão por vir ao mundo,
Cujas claras Ideas via Protheo,
Num globo vão, diafano, rotundo,
Que Iupiter em dom lho concedeo
Em ſonhos, & deſpois no reino fundo
Vaticinando o diſſe, & na memoria
Recolheo logo a Ninfa a clara hiſtoria.

Materia he de Coturno, & não de Soco
A que a Nimpha aprendeo no immenſo lago:
Qual Yopas não ſoube, ou Demodoco,
Entre os Pheaces hum, outro em Carthago.
Aqui minha Caliope te inuoco
Neste trabalho extremo, porque em pago,
Me tornes, do q̃ eſcreuo, & em vão pretendo,
O goſto de eſcreuer, que vou perdendo.

Vão os annos decendo, & ja do Eſtio
Ha pouco que paſſar ate o Otono,
A fortuna me faz o engenho frio,
Do qual ja não me jacto, nem me abono:
Os deſgoſtos me vão leuando ao rio
Do negro eſquecimento, & eterno ſono,
Mas tu me dâ que cumpra, ò grão Rainha
Das Muſas, cô que quero aa nação minha.

Cantaua a bella Deoſa, que virião
Do Tejo, pello mar que o Gama abrîra,
Armadas que as ribeiras vencerião,
Por onde o Oceano Indico ſoſpira:
E que os Gentios Reis, que não darião
A ceruiz ſua ao jugo, o ferro & yra
Prouarião do braço duro & forte,
Ate renderſe a elle, ou logo aa morte.

Cantaua dhum que tem nos Malabares
Do ſumo ſacerdocio a dignidade,
Que ſo por não quebrar cos ſingulares
Baroẽs, os nos que dera damizade,
Sofrerâ ſuas cidades & lugares,
Com ferro, incendios, ira & crueldade
Ver deſtruir do Samorim potente:
Que tais odios terâ coa noua gente.

E canta como la ſe embarcaria
Em Bellem o remedio deste dano,
Sem ſaber o que em ſi ao mar traria
O grão Pacheco, Achiles Luſitano:
O peſo ſentirão, quando entraria,
O curuo lenho, & o ſeruido Oceano,
Quando mais nagoa os troncos, que gemerem,
Contra ſua natureza ſe meterem.

Mas ja chegado aos fins Orientais,
E deixado em ajuda do gentio
Rey de Cochim,com poucos naturais,
Nos braços do ſalgado & curuo rio,
Desbaratarâ os Naires infernais
No paſſo Cambalão, tornando frio
Deſpanto o ardos immenſo do Oriente
Que verâ tanto obrar tão pouca gente.

Chamarâ o Samorim mais gente noua:
Virão Reis Bipur, & de Tânôr,
Das ſerras de Narſinga, que alta proua
Eſtarão prometendo a ſeu ſenhor:
Faràque todo o Naire em fim ſe moua,
Que entre Calicû jaz, & Cananor,
Dambas as leis immigas, pera a guerra,
Mouros por mar, Gentios polla terra.

E todos outra vez desbaratando,
Por terra, & mar, o grão Pacheco ouſado,
A grande multidão que yrâ matando,
A todo o Malabar terâ admirado:
Cometerâ outra vez não dilatando
O Gentio os combates apreſſado,
Injuriando os ſeus, fazendo votos
Em vão aos Deoſes vãos, ſurdos, & immotos

Ia não defenderâ ſomente os paſſos,
Mas queimar lhe ha lugares, templos, caſas:
Aceſo de yra o Cão, não vendo laſſos
Aquelles que as cidades fazem raſas:
Farà que os ſeus de vida pouco eſcaſſos,
Cometão o Pacheco que tem aſas
Por dous paſſos num tempo, mas voando
Dhum outro, tudo yrâ desbaratando.

Virâ ali o Samorim, porque em peſſoa
Veja a batalha, & os ſeus esforce, & anime,
Mas hum tiro, que com zonido voa,
De ſangue o tingirâ no andor ſublime:
Ia não verâ remedio, ou manha boa,
Nem força, que o Pacheco muito eſtime,
Inuentara traiçoẽs, & vãos venenos,
Mas ſempre (o ceo querendo) farâ menos.

Que tornarâ a vez ſeptima, cantaua,
Pellejar co inuicto & forte Luſo,
A quem nenhum trabalho peſa, & agraua,
Mas com tudo eſte ſo o farâ confuſo:
Trarâ pera a batalha horrenda, & braua,
Machinas de madeiros fora de vſo,
Pera lhe abalroar as Carauellas,
Que ateli vão lhe fora cometellas.

Pella agoa leuarâ ſerras de fogo
Pera a braſarlhe quanta armada tenha,
Mas a militar arte, & engenho, logo
Farâ ſer vaã a braueza com que venha:
Nenhum claro barão no Martio jogo,
Que nas aſas da fama ſe ſostenha,
Chega a este, que a palma a todos toma,
E perdoeme a illuſtre Grecia, ou Roma.

Porque tantas batalhas ſoſtentadas
Com muito pouco mais de cem ſoldados,
Com tantas manhas, & artes inuentadas
Tantos Cães não imbelles profligados:
Ou parecerão fabulas ſonhadas,
Ou que os celeſtes Coros inuocados
Decerão a ajudallo, & lhe darão
Esforço, força, ardil, & coração.

Aquelle que nos Campos Maratonios
O grão poder de Dario eſtrue, & rende,
Ou quem com quatro mil Lacedemonios
O paſſo de Termopilas defende,
Nem o mancebo Cocles dos Auſonios,
Que com todo o poder Tuſco contende
Em defenſa da ponte, ou Quinto Fabio
Foy como este na guerra forte & ſabio.

Mas neste paſſo a Nimpha o ſom canoro
Abaxando, fez ronco, & entriſtecido,
Cantando em baxa voz enuolta em choro
O grande esforço mal agardecido:
O Beliſario, diſſe, que no coro
Das Muſas ſeras ſempre engrandecido,
Se em ti viſte abatido o brauo Marte,
Aqui tens com quem podes conſolarte.

Aqui tens companheiro aſsi nos feitos
Como no galardão injusto & duro,
Em ti & nelle veremos altos peitos,
A baxo eſtado vir humilde, & eſcuro:
Morrer nos hoſpitais em pobres leitos,
Os que ao Rey, & aa ley ſeruem de muro,
Iſto fazem os Reys, cuja vontade
Manda mais que a juſtiça & que a verdade.

Iſto fazem os Reis, quando embebidos
Nũa aparencia branda que os contenta,
Dão os premios de Aiace merecidos,
Aa lingoa vaã de Vliſſes fraudulenta:
Mas vingome que os bens mal repartidos
Por quem ſo doces ſombras apreſenta,
Se não os dão a ſabios caualeiros,
Dãos os logo a auarentos liſongeiros.

Mas tu de quem ficou tão mal pagado
Hum tal vaſſalo, o Rey ſo nisto inico,
Se não es para darlhe honroſo eſtado,
He elle pera darte hum reino rico:
Em quanto for o mundo rodeado
Dos Apolineos rayos, eu te fico
Que elle ſeja entre a gente illuſtre & claro
E tu niſto culpado por auaro.

Mas eis outro, cantaua, intitulado
Vem com nome real, & traz conſigo
O filho, que no mar ſerâ illustrado
Tanto como qualquer Romano antigo:
Ambos darão com braço forte, armado,
A Quiloa fertil aſpero caſtigo,
Fazendo nella Rey leal, & humano,
Deitado fora o perfido Tirano.

Tambem farão Mombaça, que ſe arrea
De caſas ſumptuoſas, & edificios,
Co ferro, & fogo ſeu, queimada, & fea,
Em pago dos paſſados maleficios:
Deſpois na coſta da India, andando chea
De lenhos inimigos, & arteficios,
Contra os Luſos: com vellas, & com remos
O mancebo Lourenço farà eſtremos.

Das grandes naos, do Samorim potente,
Que encherão todo o mar, coa ferrea pela,
Que ſae com trouão do cobre ardente,
Farà pedaços leme, masto, vela,
Deſpois lançando arpeos ouſadamente
Na capitania inimiga: dentro nela
Saltando, a farâ ſo com lança & eſpada
De quatrocentos Mouros deſpejada.

Mas de Deos a eſcondida prouidencia,
Que ella ſo ſabe o bem de que ſe ſerue,
O porâ onde esforço, nem prudencia
Poderâ auer, que a vida lhe reſerue:
Em Chaul, onde em ſangue & reſistencia
O mar todo com fogo & ferro ferue,
Lhe farão, que com vida ſe não ſaya
As armadas de Egipto & de Cambaya.

Ali o poder de muitos inimigos
Que o grande esforço, ſo com força rende,
Os ventos que faltârão, & os perigos
Domar, que ſobejârão, tudo o ofende:
Aqui reſurjão todos os antigos,
A ver o nobre ardor, que aqui ſe aprende,
Outro Sceua verão, que eſpedaçado
Não ſabe ſer rendido, nem domado.

Com toda hũa coxa fora, que em pedaços
Lhe leua hum cego tiro, que paſſara,
Se ſerue inda dos animoſos braços,
E do grão coração, que lhe ficâra:
Ate que outro pilouro quebra os laços,
Com que co alma o corpo ſe liâra,
Ella ſolta voou da priſam fora,
Onde ſubito ſe acha vencedora.

Vâyte alma em paz da guerra turbulenta,
Na qual tu mereceſte paz ſerena,
Que o corpo que em pedaços ſe apreſenta,
Quem o gerou vingança ja lhe ordena:
Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
Que vem ja dar a dura, & eterna pena,
De Eſperas, Baſiliſcos, & Trabucos,
A Cambalcos crueis, & Mamelucos.

Eis vem o pay com animo eſtupendo,
Trazendo furia & magoa por antolhos,
Com que o paterno amor lhe estâ mouendo
Fogo no coração, agoa nos olhos:
A nobre yra lhe vinha prometendo,
Que o ſangue farâ dar pellos giolhos
Nas inimigas naos ſentilo ha o Nilo,
Podelo ha o Indo ver, & o Gange ouiulo.

Qual o Touro cioſo, que ſe enſaya
Pera a crua pelleja, os cornos tenta
No tronco dhum Carualho, ou alta Faya
E o âr ferindo, as forças eſprimenta:
Tal, antes que no ſeyo de Cambaya
Entre Franciſco irado na opulenta
Cidade de Dabul, a eſpada afia,
Abaxandolhe a tumida ouſadia.

E logo entrando fero na enſeada
De Dio, illuſtre em cercos & batalhas,
Farâ eſpalhar a fraca & grande armada,
De Calecu, que remos tem por malhas:
A de Melique Yaz acautelada,
Cos pelouros que tu Vulcano eſpalhas,
Farâ yr ver o frio & fundo aſſento,
Secreto leito do humido elemento.

Mas a de Mir Hocem, que abalroando
A furia eſpararà dos vingadores,
Verâ braços & pernas yr nadando,
Sem corpos, pello mar, de ſeus ſenhores,
Rayos de fogo yrão repreſentando,
No cego ardor, os brauos domadores,
Quanto ali ſentirão olhos, & ouuidos,
E fumo, ferro, flamas & alaridos.

Mas ah, que desta proſpera vitoria,
Com que deſpois virâ ao patrio Tejo,
Quaſi lhe roubarâ a famoſa gloria
Hum ſucceſſo que triste & negro vejo,
O Cabo Tormentorio, que a memoria
Cos oſſos guardarâ: não terâ pejo
De tirar deſte mundo aquelle eſprito,
Que não tirarão toda a India, & Egito.

Ali Cafres ſeluagens poderão,
O que destros immigos não podêrão,
E rudos paos tostados ſos farão,
O que arcos & pelouros não fizerão,
Occultos os juizos de Deos ſam,
As gentes vaãs que não nos entenderão,
Chamãolhe fado mao, fortuna eſcura,
Sendo ſo prouidencia de Deos pura.

Mas ô que luz tamanha, que abrir ſinto,
Dizia a Ninfa, & a voz aleuantaua,
La no mar de Molinde em ſangue tinto
Das cidades de Lamo, de Oja, & Braua:
Pello Cunha tambem, que nunca extinto
Serâ ſeu nome, em todo o mar que laua
As ilhas do Auſtro, & praias, que ſe chamão
De ſam Lourẽço, & em todo o Sul ſe afamão.

Eſta luz he do fogo, & das luzentes
Armas, com que Albuquerque yra amãſand
De Ormuz os Parſeos, por ſeu mal valentes,
Que refuſam o jugo honroſo & brando:
Ali verão as ſetas estridentes
Reciprocarſe, a ponta no ar virando,
Contra quem as tirou, que Deos paleja
Por quem eſtende a fe da madre Igreja.

Ali do ſal os montes não defendem
De corrupção os corpos no combate,
Que mortos pella praya, & mar ſe eſtendem
De Gerum, de Mozcate, & Calayate:
Ate que a força ſo de braço aprendem
A abaxar a ceruiz, onde ſe lhe ate
Obrigação de dar o reyno inico
Das perlas de Barem tributo rico.

Que glorioſas palmas tecer vejo,
Com que victoria a fronte lhe coroa,
Quando ſem ſombra vaã de medo, ou pejo
Toma a ilha illuſtriſsima de Goa:
Deſpois, obedecendo ao duro enſejo
A deixa, & ocaſião eſpera boa,
Com que a torne a tomar, que esforço & arte
Vencerão a fortuna, & o proprio Marte.

Eis ja ſobrella torna & vây rompendo
Por muros, fogo, lanças, & pilouros,
Abrindo cõ a eſpada o eſpeſſo, & horrendo
Eſquadrão de Gentios, & de Mouros:
Irão ſoldados inclitos fazendo
Mais que Liões famelicos, & Touros,
Na luz que ſempre celebrada & dina
Sera da Egipcia ſancta Caterina.

Nem tu menos fugir poderas deſte,
Poſto que rica, & posto que aſſentada
La no gremio da Aurora, onde naceſte,
Opulenta Malaca nomeada:
As ſetas venenoſas que fizeste,
Os Criſes com que ja te vejo armada,
Malaios namorados, Iaos valentes
Todos faras ao Luſo obedientes.

Mais eſtanças cantâra esta Syrena
Em louuor do illuſtriſsimo Albuquerque,
Mas alembroulhe hũa yra que o condena,
Poſto que a fama ſua o mundo cerque:
O grande capitão, que o fado ordena
Que com trabalhos gloria eterna merque,
Mais ha de ſer hum brando companheiro
Pera os ſeus, que juiz cruel & inteiro.

Mas em tempo que fomes, & aſperezas
Doenças, frechas, & trouoẽs ardentes,
A ſazão, & o lugar fazem cruezas
Nos ſoldados a todo obedientes:
Parece de ſeluaticas brutezas,
De peitos inhumanos & inſolentes,
Dar extremo ſuplicio pella culpa
Que a fraca humanidade & Amor deſculpa.

Não ſerâ a culpa abominoſo inceſto,
Nem violento estupro em virgem pura,
Nem menos adulterio deſoneſto,
Mas cũa eſcraua vil laſciua & eſcura:
Se o peito ou de cioſo, ou de modeſto,
Ou de vſado a crueza fera & dura,
Cos ſeus hũa ira inſana não refrea,
Poẽ na fama alua noda negra & fea.

Vio Alexandre Apeles namorado
Da ſua Campaſpe, & deulha alegremente,
Não ſendo ſeu ſoldado eſprimentado,
Nem vendoſe num cerco duro & vrgente:
Sentia Ciro que andaua ja abraſado
Araſpas, de Pantea em fogo ardente,
Que elle tomara em guarda, & prometia
Que nenhum mao deſejo o venceria.

Mas vendo o Illuſtre Perſa, que vencido
Fora de amor, que em fim não tem defenſa,
Leuemente o perdoa, & foy ſeruido
Delle num caſo grande em recompenſa.
Per força de Iudita foy marido
O ferreo Balduuino, mas diſpenſa
Carlos pay della, poſto em couſas grandes,
Que viua, & pauoador ſeja de Frandes.

Mas proſeguindo a Nimpha o longo canto,
De Soarez cantaua, que as bandeiras
Faria tremolar, & por eſpanto,
Pellas roxas Arabicas ribeiras:
Madina abominabil teme tanto,
Quanto Meca, & Gidâ, coas derradeiras
Prayas de Abaſia: Barborâ ſe teme,
Do mal de que o Emporio Zeila geme.

A nobre ilha tambem de Taprobana,
Ia pello nome antigo tão famoſa,
Quanto agora ſoberba, & ſoberana,
Pella Cortiça calida, cheiroſa,
Della dar â tributo aa Luſitana
Bandeira, quando excelſa, & glorioſa
Vencendo ſe erguerâ na torre erguida,
Em Columbo, dos proprios tam temida.

Tambem Sequeira as ondas Eritreas
Diuidindo, abrirâ nouo caminho,
Pera ti grande Imperio que te arreas
De ſeres de Candace, & Sabâ ninho:
Maçuà com Ciſternas de agoa cheas
Verâ, & o porto Arquico ali vizinho,
E fara deſcobrir remotas ilhas,
Que dão ao mundo nouas marauilhas.

Virâ deſpois Meneſes, cujo ferro
Mais na Africa, que câ terâ prouado:
Caſtigarâ de Ormuz Soberba o erro,
Com lhe fazer tributo dar dobrado:
Tambem tu Gama, em pago do deſterro
Em que eſtâs, & ſerâs inda tornado,
Cos titolos de Conde, & dhonras nobres,
Virâs mandar a terra que deſcobres.

Mas aquella fatal neceſsidade,
De quem ninguems ſe exime dos humanos,
Illuſtrado coa Regia dignidade,
Te tirarâ do mundo & ſeus enganos:
Outro Meneſes logo, cuja ydade
He mayor na prudencia, que nos anos,
Gouernarâ, & farà o ditoſo Henrique,
Que perpetua memoria delle fique.

Não vencerâ ſomente os Malabares,
Deſtruindo Panane, com Coulete,
Cometendo as Bombardas, que nos ares
Se vingão ſo do peito que as comete:
Mas com virtudes certo ſingulares,
Vence os immigos dalma todos ſete,
De cubiça triumpha, & incontinencia,
Que em tal idade he ſuma de excellencia.

Mas deſpois que as estrellas o chamarem,
Socederâs ô forte Mozcarenhas,
E ſe injustos o mando te tomarem,
Prometote que fama eterna tenhas:
Pera teus inimigos confeſſarem
Teu valor alto, o fado quer que venhas
A mandar, mais de palmas coroado,
Que de fortuna juſta acompanhado.

No reino de Bintão, que tantos danos
Terâ a Malaca muito tempo feitos,
Num ſo dia as injurias de mil anos
Vingarâs, co valor de illuſtres peitos,
Trabalhos & perigos inhumanos,
Abrolhos ferreos mil, paſſos estreitos,
Tranqueiras, Baluartes, lanças, Setas,
Tudo fico que rompas & ſometas.

Mas na India cubiça & ambição,
Que claramente poem aberto o rosto
Contra Deos, & Iustiça, te farão
Vituperio nenhum, mas ſo deſgoſto:
Quem faz injuria vil, & ſem rezão
Com forças & poder, em que estâ poſto,
Não vence, que a vitoria verdadeira,
He ſaber ter juſtiça nua, & inteira.

Mas com tudo não nego que Sampayo
Serâ no esforço illuſtre, & aſinalado,
Mostrando ſe no mar hum fero rayo,
Que de inimigos mil verâ qualhado:
Em Bacanôr farâ cruel enſayo
No Malabar, pera que amedrontado
Deſpois a ſer vencido delle venha
Cutiâle, com quanta armada tenha.

E não menos de Dio a fera frota
Que Chaul temerâ de grande & ouſada,
Farâ coa viſta ſo perdida & rota,
Por Heitor da Silueira, & destroçada:
Por Heitor Portugues, de quem ſe nota,
Que na Coſta Cambaica ſempre armada,
Serâ aos Guzarates tanto dano,
Quanto ja foy aos Gregos o Troyano.

A Sampayo feroz ſocederà
Cunha, que longo tempo tem o leme,
De Chale as torres altas erguerâ,
Em quanto Dio illustre delle treme,
O forte Baçaîm ſe lhe darâ,
Não ſem ſangue porem, que nelle geme
Melique, porque a força ſo de eſpada
A tranqueira ſoberba ve tomada.

Tras eſte vem Noronha, cujo Auſpicio
De Dio os Rumes feros afugenta,
Dio que o peito & bellico exercicio
De Antonio da ſilueira bem ſuſtenta:
Farâ em Noronha a morte o vſado officio,
Quando hum teu ramo, ô Gama, ſe eſprimẽta
No gouerno do Imperio, cujo zelo
Com medo o roxo mar farâ amarelo,

Das mãos do teu Eſteuão vem tomar
As redeas hum, que ja ſera illuſtrado
No Braſil, com vencer & caſtigar
O Pirata Frances ao mar vſado:
Deſpois Capitão mor do Indico mar,
O muro de Dâmão ſoberbo & armado,
Eſcala, & primeiro entra a porta aberta
Que fogo & frechas mil terão cuberta.

A eſte o Rey Cambaico ſoberbiſsimo
Fortaleza darà na rica Dio,
Porque contra o Mogor poderoſiſsimo
Lhe ajude a defender o ſenhorio:
Deſpois yrà com peito esforçadiſsimo
A tolher que não paſſe o Rey Gentio,
De Calecu, que aſsi com quantos veyo
O farâ retirar de ſangue cheyo

Deſtroirâ a cidade Repelim,
Pondo o ſeu Rey com muitos em fugida:
E deſpois junto ao Cabo Comorim
Hũa façanha faz eſclarecida,
A frota principal da Samorim,
Que destroir o mundo não duuida,
Vencerâ co furor do ferro & fogo,
Em ſi verâ Beadâla o Morcio jogo.

Tendo aſsi limpa a India dos immigos,
Virâ deſpois com cetro a gouernala,
Sem que ache reſiſtencia, nem parigos,
Que todos tremem delle, & nenhum fala:
So quis prouar os aſperos caſtigos
Baticalâ, que virâ ja Beadala,
De ſangue & corpos mortos ficou chea,
E de fogo & trouoẽs desfeita & fea.

Eſte ſera Martinho, que de Marte
O nome tem coas obras diriuado,
Tanto em armas illuſtre em toda parte,
Quanto em conſelho ſabio & bem cuidado:
Socederlhe ha ali Castro, que o estandarte
Portugues terâ ſempre leuantado,
Conforme ſucceſſor ao ſuccedido
Que hum ergue Dio, outro o defende erguido.

Perſas feroces, Abaſsis & Rumes
Que trazido de Roma o nome tem,
Varios de geſtos, varios de custumes
Que mil naçoẽs ao cerco feras vem
Farão dos ceos ao mundo vãos queixumes
Porque hũs poucos a terra lhe detem,
Em ſangue Portugues juram deſcridos
De banhar os bigodes retorcidos.

Baſiliſcos medonhos & Liões,
Trabucos feros, minas encubertas,
Suſtenta Mozcarenhas cos barões,
Que tam ledos as mortes tem por certas:
Ate que nas mayores opreſſoẽs
Caſtro libertador, fazendo offertas
Das vidas de ſeus filhos, quer que fiquem
Com fama eterna, & a Deos ſe ſacrifiquem.

Fernando hum delles, ramo da alta pranta,
Onde o violento fogo com ruido,
Em pedaços os muros no ar leuanta,
Serâ ali arrebatado, & ao ceo ſubido:
Aluaro quando o inuerno o mundo eſpanta,
E tem o caminho humido impedido,
Abrindoo, vence as ondas, & os perigos,
Os ventos, & deſpois os inimigos.

Eis vem deſpois, o pay, que as ondas corta
Co reſtante da gente Luſitana
E com força & ſaber, que mais importa,
Batalha da felice & ſoberana:
Hũs paredes ſubindo eſcuſam porta,
Outros a abrem, na fera eſquadra inſana,
Feitos farão tão dinos de memoria,
Que não caibão em vêrſo, ou larga hiſtoria.

Este deſpois em campo ſe apreſenta
Vencedor forte & intrepido, ao poſſante
Rey de Cambaya, & a viſta lhe amedrenta
Da fera multidão pradrupedante:
Não menos ſuas terras mal ſuſtenta
O Hydalcham do braço triumphante
Que caſtigando vay Dâbul na coſta
Nem lhe eſcapou Pondâ no ſertão posta.

Estes & outros Baroẽs por varias partes,
Dinos todos de fama & marauilha,
Fazendoſe na terra brauos Martes,
Virão lograr os gostos deſta Ilha:
Varrendo triumphantes eſtandartes
Pellas ondas, que corta a aguda quilha,
E acharão eſtas Nimphas & eſtas meſas,
Que glorias & hõras ſam de arduas empreſas

Aſsi cantaua a Nimpha & as outras todas
Com ſonoroſo aplauſo vozes dauão,
Com que feſtejão as alegres vodas,
Que com tanto prazer ſe celebrauão:
Por mais que da Fortuna andem as rodas
Nũa conſona voz todas ſoauão,
Não vos hão de faltar gente famoſa,
Honra, valor, & fama glorioſa.

Deſpois que a corporal neceſsidade
Se ſatisfez do mantimento nobre,
E na armonia & doce ſuauidade,
Virão os altos feitos, que deſcobre,
Thetis de graça ornada, & grauidade,
Pera que com mais alta gloria dobre,
As festas deſte alegre & claro dia,
Pera o felice Gama aſsi dizia.

Faz te merce barão a Sapiencia
Suprema, de cos olhos corporais
Veres, o que não pode a vã ciencia
Dos errados & miſeros mortais:
Sigueme firme, & forte, com prudencia
Por este monte eſpeſſo, tu cos mais.
Aſsi lhe diz, & o guia por hum mato
Arduo, difficil, duro a humano trato.

Não andão muito que no erguido cume
Se acharão, onde hum campo ſe eſmaltaua,
De Eſmeraldas, Rubis, tais que preſume
A vista, que diuino chão piſaua:
Aqui hum globo vem no ar, que o lume
Clariſsimo por elle penetraua,
De modo que o ſeu centro eſta euidente,
Como a ſua ſuperficia, claramente.

Qual a materia ſeja não ſe enxerga,
Mas enxergaſſe bem que estâ composto
De varios orbes, que a diuina verga
Compos, & hum centro a todos ſo tem poſto:
Voluendo, ora ſe abaxe, agora ſe erga,
Nũca ſergue, ou ſe abaxa, & hũ meſmo roſto
Por toda a parte tem, & em toda a parte
Começa & acaba, em fim por diuina arte.

Vniforme, perſeito, em ſi ſoſtido,
Qual em fim o Archetipo, que o criou:
Vendo o Gama este globo, comouido
De eſpanto & de deſejo ali ficou,
Dizlhe a Deoſa, O traſunto reduzido
Em pequeno volume aqui te dou,
Do mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vas, & yrâs, & o que deſejas.

Ves aqui a grande machina do mundo,
Eterea, & elemental, que fabricada
Aſsi foy do ſaber alto, & profundo,
Que he ſem principio, & meta limitada,
Quem cerca em derredor eſte rotundo
Globo, & ſua ſuperficia tão limada,
He Deos, mas o q̃ he Deos ninguẽ o entende,
Que a tanto o engenho humano não ſe eſtẽde.

Eſte orbe que primeiro vay cercando
Os outros mais pequenos, que em ſi tem,
Que eſtâ com luz tão clara radiando,
Que a vista cega, & a mente vil tambem,
Empireo ſe nomea, onde logrando
Puras ahnas estão de aquelle bem,
Tamanho, que elle ſo ſe entende & alcança,
De quem não ha no mundo ſemelhança.

Aqui ſo verdadeiros glorioſos
Diuos eſtão, porque eu, Saturno & Iano,
Iupiter, Iuno, fomos fabuloſos
Fingidos de mortal & cego engano:
So pera fazer verſos dedeitoſos
Seruimos, & ſe mais o trato humano
Nos pode dar, he ſo que o nome noſſo
Neſtas eſtrellas pos o engenho voſſo.

E tambem porque a ſanta prouidencia,
Que em Iupiter aqui ſe repreſenta,
Por eſpiritos mil, que tem prudencia,
Gouerna o mundo todo, que ſuſtenta:
Inſinalo a prephetica ſciencia,
Em muitos das exemplos, que apreſenta,
Os que ſam bõs, guiando fauorecem,
Os maos, em quanto podem, nos ompecem.

Quer logo aqui a pintura que varîa,
Agora deleitando, ora inſinando,
Darlhe nomes, que a antiga Poeſia
A ſeus Deoſes ja dera, fabulando:
Que os Anjos de celeſte companhia
Deoſes o ſacro verſo eſtâ chamando,
Nem nega que eſſe nome preminente,
Tambem aos maos ſe dà, mas falſamente.

Em fim que o ſumo Deos, que por ſegundas
Cauſas obra no mundo, tudo manda:
E tornando a contarte das profundas
Obras da mão diuina veneranda,
Debaxo deſte circulo onde as mundas
Almas diuinas gozão, que não anda,
Outro corre tam leue & tam ligeiro,
Que não ſe enxerga, he o Mobile primeiro.

Com eſte rapto, & grande mouimento,
Vão todos os que dentro tem no ſeyo,
Por obra deſte, o Sol andando atento
O dia & noite faz, com curſo alheyo:
Debaxo deſte leue anda outro lento,
Tam lento, & ſojugado a duro freyo,
Que em quanto Phebo, de luz nunca eſcaſſo,
Dozentos curſos faz, dâ elle hum paſſo.

Olha estoutro debaxo, que eſmaltado
De corpos liſos anda, & radiantes,
Que tambem nelle tem curſo ordenado,
E nos ſeus axes correm ſcintilantes:
Bem ves como ſe veſte, & faz ornado
Co largo cinto douro, que estellantes
Animais doze traz afigurados,
Apoſentos de Phebo limitados.

Olha por outras partes a pintura,
Que as eſtrellas fulgentes vão fazendo.
Olha a carreta, atenta a Cinoſura,
Andromeda, & ſeu pay, & o drago horrẽdo:
Vê de Caſsiopea a fermoſura,
E do Orionte o geſto turbulento,
Olha o Ciſne morrendo que ſoſpira,
A Lebre, & os Cães, a Nao, & a doce Lira.

Debaxo deſte grande firmamento,
Ves o ceo de Saturno Deos antigo,
Iupiter logo faz o mouimento,
E Marte abaxo bellico inimigo,
O claro olho do ceo no quarto aſſento,
E Venus, que os amores traz conſigo,
Mercurio de eloquencia ſoberana,
Com tres roſtos debaxo vay Diana.

Em todos eſtes orbes, differente
Curſo veras, nũs graue, & noutros leue:
Ora fogem do centro longamente,
Ora da terra eſtão caminho breue,
Bem como quis o padre omnipotente
Que o fogo fez, & o ar, o vento, & neue,
Os quaes veras que jazem mais a dentro,
E tem co mar a terra por ſeu centro.

Neſte centro pouſada dos humanos,
Que não ſomente ouſados ſe contentão
De ſoffrerem da terra firme os danos
Mas inda o mar inſtabil eſprimentão,
Virâs as varias partes, que os inſanos
Mares diuidem, onde ſe apouſentão
Varias nações, que mandão varios Reis,
Varios costumes ſeus, & varias leis.

Ves Europa Chriſtaã mais alta & clara
Que as outras em policia, & fortaleza:
Ves Africa dos bens do mundo auara,
Inculta, & toda chea de bruteza,
Co Cabo que ate qui ſe vos negâra,
Que aſſentou para o Auſtro a natureza:
Olha eſſa terra toda, que ſe habita
Deſſa gente ſem ley, quaſi infinita.

Vé do Benomotapa o grande imperio,
De ſeluatica gente, negra & nua:
Onde Gonçalo morte & vituperio
Padecerâ, polla ſe ſancta ſua:
Nace por aste incognito Hemiſperio
O metâl, por que mais a gente ſua,
Ve que do lago, donde ſe derrama
O Nilo, tambem vindo eſtâ Cuama.

Olha as caſas dos negros, como estão
Sem portas, confiados em ſeus ninhos
Na justiça real, & defenſam,
E na fidelidade dos vizinhos:
Olha delles a bruta multidão
Qual bando eſpeſſo & negro de Estorninhos,
Combaterà em Sofala a fortaleza,
Que defenderâ Nhaya com destreza.

Olha la as alagoas, donde o Nilo
Nace, que não ſouberão os antigos,
velo rega, gerando o Crocodilo,
Os pouos Abaſsis de Chriſto amigos,
Olha como ſem muros (nouo eſtilo)
Se defendem milhor dos inimigos,
Ve Meroe, que ilha foy de antiga fama
Que ora dos naturais Nobâ ſe chama.

Neſta remota terra, hum filho teu
Nas armas coutra os Turcos ſerâ claro,
Ha de ſer dom Chriſtouão o nome ſeu,
Mas contra o fim fatal não ha reparo:
Ve ca a Coſta do mar, onde te deu
Melinde hoſpicio gaſalhoſo & caro
O Rapto rio nota, que o romance
Da terra chama Obî, entra em Quilmance.

O Cabo ve ja Aromâta chamado,
E agora Goardofû dos moradores,
Onde começa a toca do afamado
Mar roxo, que do fundo toma as cores
Este como limite eſta lançado
Que diuide Aſia de Africa, & as milhores
Pouoaçoẽs, que a parte Africa tem
Maçuâ ſam, Arquico, & Suamquem.

Ves o extremo Suez, que antigamente
Dizem que foy dos Heroas a cidade,
Outros dizem qne Arſinoe, & ao preſente
Tem das frotas do Egipto a poteſtade:
Olha as agoas, nas quaes abrio patente
Eſtrada o gram Mouſes na antiga ydade
Aſia começa aqui, que ſe apreſenta
Em terrás grande, em reinos opulenta.

Olha o monte Sinay, que ſe ennobrece
Co ſepulchro de ſancta Caterina,
Olha Toro, & Gidâ, que lhe falece
Agoa das fontes doce, & criſtalina:
Olha as portas do estreito, que fenece
No reyno da ſeca Adem, que confina
Com a ſerra Darzira, pedra viua,
Onde chuua dos Ceos ſe não deriua.

Olha as Arabias tres, que tanta terra
Tomão, todas da gente vaga, & baça,
Donde vem os caualos pera a guerra
Ligeiros, & feroces, de alta raça:
Olha a coſta que corre ate que cerra
Outro eſtreito de Perſia, & faz a traça
O Cabo, que co nome ſe apellida,
Da cidade Fartaque ali ſabida,

Olha Dofar inſigne, porque manda
O mais cheiroſo encenço pera as aras:
Mas atenta ja ca deſtroutra banda
De Roçalgate, & prayas ſempre auaras,
Começa o reyno Ormuz, que todo ſe anda
Pellas ribeiras, que inda ſerão claras
Quando as gales do Turco, & fera armada
Virem de Castel branco nua a eſpada.

Olha o Cabo Aſaboro, que chamado
Agora he Moçandão dos nauegantes.
Por aqui entra o lago, que he fechado
De Arabia, & Perſias terras abundantes.
Atenta a ilha Barem, que o fundo ornado
Tem das ſuas perlas ricas, & imitantes
Aa cor da Aurora: & ve na agoa ſalgada
Ter o Tigris & Eufrates hũa entrada.

Olha da grande Perſia o imperio nobre
Sempre posto no campo, & nos caualos,
Que ſe injuria de vſar fundido cobre,
E de não ter das armas ſempre os calos:
Mas ve a ilha Gerum, como deſcobre
O que fazem do tempo os interualos,
Que da cidade Armuza, que ali eſteue
Ella o nome deſpois, & a gloria teue.

Aqui de dom Felipe de Meneſes
Se mostrarâ a virtude em armas clara,
Quando com muito poucos Portugueſes
Os muitos Parſeos vencerâ de Lara:
Virão prouar os golpes & reueſes
De dom Pedro de Souſa, que prouâra
Ia ſeu braço em Ampaza, que deixada
Terâ por terra a força ſo de eſpada.

Mas deixemos o eſtreito, & o conhecido
Cabo de Iaſque dito ja Carpella,
Com todo o ſeu terreno mal querido
Da natura, & dos dões vſados della,
Carmania teue ja por apelido:
Mas ves o fermoſo Indo, que daquella
Altura nace junto aa qual tambem
Doutra altura correndo o Gange vem.

Olha a terra de Vlcinde fertiliſsima,
E de Iaquete a intima enſeada,
Do mar a enchente ſubita grandiſsima,
E a vazante que foge apreſſurada:
A terra de cambaya ve ríquiſsima,
Onde do mar o ſeo fazmentrada,
Cidades outras mil, que vou paſſando,
A voſoutros aqui ſe estão guardando.

Ves corre a coſta cèlebre Indiana
Pera o Sul, ate o Cabo Comori
Ia chamado Cori, que Taprobana
(Que ora he Ceilão) de fronte tem de ſi:
Por este mar a gente Luſitana
Qua com armas virâ deſpois de ti,
Terâ vitorias terras, & cidades
Nas quaes ham de viuer muitas ydades,

As prouincias, que entre hum & o outro rio
Ves com varias nações, ſam infinitas:
Hum reyno Mahometa, outro Gentio,
A quem tem o Demonio leis eſcriptas:
Olha que de Narſinga o ſenhorio
Tem as reliquias ſanctas & benditas,
Do corpo de Thome, barão ſagrado,
Qut a Ieſu Chriſto teue a mão no lado.

Aqui a cidade foy, que ſe chamaua
Meliapor, fermoſa, grande, & rica:
Os Idolos antigos adoraua:
Como inda agora faz a gente inica:
Longe do mar naquelle tempo eſtaua:
Quando a fe, que no mundo ſe pubrica,
Thome vinha prègando, & ja paſſàra
Prouincias mil do mundo, que inſinàra.

Chegado aqui prègando, & junto dando
A doentes ſaude, a mortos vida
A caſo traz hum dia o mar vagando,
Hum lenho de grandeza deſmedida:
Deſeja o Rey, que andaua edificando,
Fazer delle madeira, & não duuida
Poder tiralo a terra compoſſantes
Forças dhomẽs, de engenhos de Aliphantes.

Era tão grande o peſo do madeiro
Que ſo pera abalarſe, nada abaſta,
Mas o nuncio de Christo verdadeiro,
Menos trabalho em tal negocio gaſta:
Ata o cordão que traz por derradeiro
No tronco, & facilmente o leua & arraſta
Pera onde faça hum ſumptuoſo templo,
Que ficaſſe aos futuros por exemplo.

Sabia bem que ſe com fe formada
Mandar a hum monte ſurdo, que ſe moua,
Que obedecerà logo aa voz ſagrada,
Que aſsi lho inſinou Chriſto, & elle o proua:
A gente ficon diſto aluoroçada,
Os Bramenes o tem por couſa noua,
Vendo os milagres, vendo a ſantidade,
Hão medo de perder autoridade.

Sam estes ſacerdotes dos Gentios,
Em quem mais penetrado tinha enueja,
Buſcão maneiras mil, buſcão deſuios
Com que Thome não ſe ouça, ou morto ſeja:
O principal, que ao peito traz os fios,
Hum caſo horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não ha tão dura, & fera,
Como a virtude falſa da ſincera.

Hum filho proprio mata, & logo acuſa
De homecidio Thome, que era innocente
Dâ falſas teſtemunhas, como ſe vſa
Condenarã no a morte breuemente:
O Santo que não vè milhor eſcuſo,
Que apellar pera o Padre omnipotente,
Quer diante do Rey, & dos ſenhores,
Que ſe faça hum milagre dos mayores.

O corpo morto manda ſer trazido
Que reſucite, & ſeja perguntado,
Quem foy ſeu matador, & ſerâ crido
Por teſtemunho o ſeu mais aprouado:
Viram todos o moço viuo erguido
Em nome de Ieſu crucificado,
Dâ graças a Thome, que lhe deu vida
E deſcobre ſeu pay ſer homicida.

Este milagre fez tamanho eſpanto,
Que o Rey ſe banha logo na ago ſanta,
E muitos apos elle, hum beija o manto
Outro lauuor do Deos de Thome canta:
Os Bramenes ſe encherão de odio tanto,
Com ſeu veneno os morde enueja tanta,
Que perſuadindo a iſſo o pouo rudo,
Determinão matalo em fim de tudo.

Hum dia que prègando ao pouo estaua,
Fingirão entre a gente hum arroido,
Ia Christo neſte tempo lhe ordenaua,
Que padecendo foſſe ao Ceo ſubido:
A multidão das pedras, que voaua,
No Santo dâ ja a tudo offerecido,
Hum dos maos por fartarſe mais de preſſa,
Com crua lança o peito lhe atraueſſa.

Chorarão te Thome, o Gange & o Indo,
Choroute toda a terra que piſaſte,
Mais te chorão as almas, que veſtindo
Se yão da ſancta Fe, que lhe inſinaſte:
Mas os Anjos do ceo cantando, & rindo,
Te recebem na gloria que ganhaſte,
Pedimos te, que a Deos ajuda peças,
Com que os teus Luſitanos fauoreças.

E voſoutros que os nomes vſurpais
De mandados de Deos, como Thome,
Dizey ſe ſois mandados, como estais
Sem yrdes a pregar a ſancta fe?
Olhay que ſe ſois Sal, & vos danais
na patria, onde Propheta ninguem he,
Com que ſe ſalgarão em noſſos dias
(Infieis deixo) tantas Hereſias?

Mas paſſo esta materia perigoſa,
E tornemos aa coſta debuxada,
Ia com eſta cidade tão famoſa,
Se faz curua a Gangetica enſeada,
Corre Narſinga rica, & poderoſa,
Corre Orixa de roupas abaſtada,
No fundo da enſeada o illustre rio
Ganges vem ao ſalgado ſenhorio.

Ganges, no qual os ſeus habitadores
Morrem banhados, tendo por certeza,
Que inda que ſejão grandes peccadores,
Eſta agoa ſancta os laua, & da pureza:
Ve Chatigão cidade das milhores
De Bengala prouincia, que ſe preza
De abundante, mas olha que eſtâ poſta
Pera o Auſtro daqui virada a coſta.

Olha o reyno Arracão, olha o aſſento
De Pegu, que ja mõſtros pouoarão,
Mõſtros filhos do feo ajuntamento
Dhũa molher & hum cão, que ſos ſe acharão:
Aqui ſoante Arame no inſtromento
Da geração cuſtumão, o que vſarão
Por manha da Raynha, que inuentando
Tal vſo, deitou fora o error nefando.

Olha Tauay cidade, onde começa
De Sião largo o imperio tão comprido,
Tenaſſarâ, Quedâ, que he ſo cabeça
Das que Pimenta ali tem produzido:
Mais auante fareis que ſe conheça
Malaca, por Emperio ennobrecido,
Onde toda a prouincia do mar grande,
Suas mercadorias ricas mande.

Dizem que deſta terra coas poſſantes
Ondas o mar entrando diuidio,
A nobre Ilha Samatra, que ja dantes
Iuntas ambas a gente antiga vio:
Cherſoneſo foy dita, & das prestantes
Veas douro, que a terra produzio,
Aurea por epitheto lhe ajuntarão,
Alguns que foſſe Ophir ymaginarão.

Mas na ponta da terra Cingapura
Veras, onde o caminho aas naos ſe eſtreita,
Daqui tornando a Costa aa Cynoſura
Se encurua, & pera a Aurora ſe endereita:
Ves Pam, Patane, reinos, & a longura
De Syão que eſtes & outros mais ſugeita
Olha o rio Menão, que ſe derrama
Do grande lago que Chiamay ſe chama.

Ves neſte grão terreno os differentes
Nomes de mil nações nunca ſabidas,
Os Laos em terra & numero potentes,
Auâs, Bramàs, por ſerras tão compridas:
Ve nos remotos montes outras gentes
Que Gueos ſe chamão de ſeluages vidas,
Humana carne comem, mas a ſua
Pintão com ferro ardente, vſança crua:

Ves paſſa por Camboja Mecom Rio,
Que capitão das agoas ſe interpreta,
Tantas recebe doutro ſo no eſtio,
Que alaga os campos largos, & inquieta,
Tem as enchentes quaes o Nilo frio,
A gente delle crè como indiſcreta,
Que pena & gloria tem deſpois de morte
Os brutos animais de toda ſorte.

Eſte receberâ placido & brando,
No ſeu regaço os Cantos, que molhados
Vem do naufragio triſte, & miſerando,
Dos proceloſos baxos eſcapados:
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Serâ o injuſto mando executado
Naquelle, cuja Lira ſonoroſa,
Será mais affamada que ditoſa.

Ves corre a coſta que Champà ſe chama,
Cuja mata he do pao cheiroſo ornada,
Ves Cauchichina eſtâ de eſcura fama,
E de Ainão ve a incognita enſeada,
Aqui o ſoberbo imperio, que ſe afama
Com terras, & riqueza não cuidada,
Da China corre, & ocupa o ſenhorio
Deſdo Tropico ardente ao Cinto frio.

Olha o muro, & edificio nunca crido,
Que entre hum imperio & o outro ſe edifica,
Certiſsimo ſinal, & conhecido,
Da potencia real, ſoberba, & rica:
Eſtes o Rey que tem não foy nacido
Princepe, nem dos pais aos filhos fica
Mas elegem aquelle que he famoſo
Por caualeiro ſabio & virtuoſo.

Inda outra muita terra ſe te eſconde,
Ate que venha o tempo de moſtrar ſe,
Mas não deixes no mar as Ilhas, onde
A natureza quis mais affamarſe:
Eſta mea eſcondida que reſponde
De longe aa China donde vem buſcarſe,
He Iapão, onde nace a prata fina,
Que illustrada ſerà coa Ley diuina.

Olha ca pellos mares do Oriente
As infinitas Ilhas eſpalhadas
Ve Tidore, & Tarnate, co feruente
Cume, que lança as flamas ondeadas
As aruores verâs do Crauo ardente,
Co ſangue Portugues inda compradas,
Aqui ha as aureas aues, que não decem
Nunca a terra, & ſo mortas aparecem.

Olha de Banda as Ilhas, que ſe eſinaltão
Da varia cor, que pinta o roxo fruto,
As aues variadas, que ali faltão,
Da verde Noz tomando ſeu tributo:
Olha tambem Bornèo, onde não faltão
Lagrimas, no licor qualhado, & enxuto,
Das aruores, que Cânfora he chamado,
Com que da Ilha o nome he celebrado.

Ali tambem Timor, que o lenho manda
Sàndalo ſalutifero, & cheiroſo,
Olha a Sunda tão larga, que hũa banda
Eſconde pera o Sul difficultoſo:
A gente do Sertão, que as terras anda,
Hum rio diz que tem miraculoſo,
Que por onde elle ſo ſem outro vae,
Conuerte em pedra o pao que nelle cae:

Ve naquella que o tempo tornou Ilha,
Que tambem flamas tremulas vapôra,
A fonte que oleo mana, & a marauilha
Do cheiroſo licor, que o tronco chora,
Cheiroſo mais que quanto eſtila a filha
De Cyniras, na Arabia onde ella mora,
E ve que tendo quanto as outras tem,
Branda ſeda & fino ouro dà tambem.

Olha em Ceilão, que o monte ſe aleuanta
Tanto, que as nuuẽs paſſa, ou a viſta engana,
Os naturaes o tem por couſa ſancta,
Polla pedra onde eſtâ a pègada humana:
Nas ilhas de Maldiua nace a prama
No profundo das agoas ſoberana,
Cujo pomo contra o veneno vrgente
He tido por Antidoto excelente.

Verâs de fronte eſtar do roxo eſtreito
Socotorâ co amaro Aloe famoſa,
Outras ilhas no mar tambem ſogeito
A vos, na coſta de Affrica arenoſa,
Onde ſae do cheiro mais perfeito
A maſſa ao mundo occulta, & precioſa,
De ſam Lourenço ve a Ilha afamada,
Que Madagaſcar he dalguũs chamada.

Eis aqui as nouas partes do Oriente,
Que voſoutros agora ao mundo dais,
Abrindo a porta ao vaſto mar patente,
Que com tão forte peito nauegais:
Mas he tambem razão, que no Ponente
Dhum Luſitano hum feito inda vejais,
Que de ſeu Rey moſtrando ſe agrauado
Caminho ha de fazer nunca cuidado.

Vedes a grande terra que contina
Vay de Caliſto ao ſeu contrario polo,
Que ſoberba a farâ a luzente mina
Do metal, que a cor tem do louro Apolo,
Caſtella voſſa amiga ſerà dina
De lançarlhe o colar ao rudo colo,
Varias prouincias tem de varias gentes
Em ritos & cuſtumes differentes.

Mas ca onde mais ſe alarga, ali tereis
Parte tambem co pao vermelho nota,
De Sancta Cruz o nome lhe poreis,
Deſcobrila ha a primeira voſſa frota:
Ao longo deſta coſta que tereis
Yrâ buſcando a parte mais remota
O Magalhães, no feito com verdade
Portugues, porem não na lealdade.

Deſque paſſar a via mais que mea,
Que ao Antartico polo vay da linha,
Dhũa eſtatura quaſi Gigantea
Homẽs verâ, da terra ali vizinha:
E mais auante o eſtreito, que ſe arrea
Co nome delle agora, o qual caminha
Pera outro mar, & terra que fica onde
Com ſuas frias aſas o Auſtro a eſconde.

Ate qui, Portugueſes, concedido
Vos he ſaberdes os futuros feitos,
Que pello mar, que ja deixais ſabido,
Virão fazer barões de fortes peitos:
Agora, pois que tendes aprendido
Trabalhos, que vos fação ſer aceitos
Aas eternas eſpoſas, & fermoſas,
Que coroas vos tecem glorioſas.

Podeis vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo pera a patria amada:
Aſsi lhe diſſe, & logo mouimento
Fazem da Ilha alegre, & namorada:
Leuão refreſco, & nobre mantimento,
Leuão a companhia deſejada,
Das Nimphas que ham de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.

Aſsi forão cortando o mar ſereno,
Com vento ſempre manſo, & nunca yrado,
Ate que ouuerão viſta do terreno
Em que nacerão, ſempre deſejado:
Entrarão pella foz do Tejo ameno,
E a ſua patria, & Rey temido & amado,
O premio & gloria dão, porque mandou
E com titolos nouos ſe illuſtrou.

No mais Muſa, no mais, que a Lira tenho
Deſtemparada, & a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente ſurda, & endurecida:
O fauor com que mais ſe acende o engenho,
Não no dâ a patria não, que esta metida,
No goſto da cubiça, & na rudeza
Dhũa auſtera, apagada, & vil triſteza.

E não ſey porque influxo de deſtino
Não tem hum ledo orgulho, & geral gosto,
Que os animos leuanta de contino,
A ter pera trabalhos ledo o roſto:
Por iſſo vos ò Rey, que por diuino
Conſelho eſtais no regio ſolio poſto,
Olhay que ſois (& vede as outras gentes)
Senhor ſo de vaſſallos excellentes.

Olhay que ledos vão, por carias vias,
Quaes rompentes liões, & brauos touros,
Dando os corpos a fomes, & vigias,
A ferro, a fogo, a ſetas, & pilouros:
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes da Idolatras, & de Mouros,
A perigos incognitos domundo,
A naufragios, a pexes, ao profnndo:

Por vos ſeruir a tudo aparelhados,
De vos tam longe ſempre obedientes,
A quaeſquer voſſos aſperos mandados,
Sem dar reposta promptos & contentes,
So com ſaber que ſam de vos olhados,
Demonios infernais, negros & ardentes,
Cometerão conuoſco, & não duuido
Que vencedor vos fação, não vencido.

Fauoreceyos logo, & alegrayos
Com a preſença, & leda humanidade,
De riguroſas leis deſaliuayos,
Que aſsi ſe abre o caminho aa ſanctidade:
Os mais eſprimentados leuantayos,
Se com a eſperiencia tem bondade,
Pera voſſo concelho, pois que ſabem
O como, o quando, & onde as couſas cabem.

Todos fauorecei em ſeus officios,
Segundo tem das vidas o talento,
Tenhão Religioſos exercicios
De rogarem por voſſo regimento,
Com jejuns, deſciplina, pellos vicios
Comuns, toda ambição terão por vento,
Que o bom Religioſo verdadeiro,
Gloria vaã não pretende nem dinheiro.

Os Caualeiros tende em muita eſtima,
Pois com ſeu ſangue intrepido & feruente,
Eſtendem não ſomente a ley de cima,
Mas inda voſſo imperio preeminente:
Pois aquelles que a tão remoto clima
Vos vão ſeruir com paſſo diligente,
Dous inimigos vencem, hũs os viuos,
(E o que he mais) os trabalhos exceſsiuos.

Fazey ſenhor que nunca os admirados
Alemães, Galos, Italos, & lngleſes
Poſſam dizer que ſam pera mandados,
Mais que pera mandar os Portugueſes:
Tomay conſelho ſo deſprimentados,
Que virão largos anos, largos meſes,
Que poſto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto ſabe.

De Phormião Philoſopho elegante
Vereis como Anibal eſcarnecia,
Quando das artes bellicas diante
Delle com larga voz trataua & lia:
A diſciplina militar preſtante
Não ſe aprende ſenhor na fantaſia
Sonhando, imaginando, ou eſtudando,
Se não vendo, tratando, & pelejando.

Mas eu que falo humilde, baxo, & rudo
De vos não conhecido, nem ſonhado?
Da boca dos pequenos ſey com tudo,
Que o lauuor ſae as vezes acabado,
Nem me falta na vida honesto eſtudo
Com longa eſperiencia misturado,
Nem engenho, que aqui vereis preſente,
Couſas que juntas ſe achão raramente.

Pera ſeruiruos braço aas armas feito,
Pera cantaruos mente aas Muſas dada,
So me falece ſer a vos aceito,
De quem virtude deue ſer prezada:
Se me iſto o ceo concede, & o voſſo peito
Dina empreſa tomar de ſer cantada,
Como a preſaga mente vaticina,
Olhando a voſſa inclinação diuina.

Ou fazendo que mais que a de Meduſa,
A viſta voſſa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos da Ampeluſa
Os muros de Marrocos & Trudante,
A minha ja eſtimada & leda muſa,
Fico, que em todo o mundo de vos cante,
De ſorte que Alexandro em vos ſe veja,
Sem aa dita de Achiles ter enueja.

F I M.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Os Lusíadas" ***

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