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Title: O Condemnado/Como os anjos se vingam
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Condemnado/Como os anjos se vingam" ***

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                              O CONDEMNADO

                      *      *      *      *      *



                              O CONDEMNADO

                                  DRAMA

                      EM TRES ACTOS E QUATRO QUADROS

                        SEGUIDO DO DRAMA EM UM ACTO

                          COMO OS ANJOS SE VINGAM

                                   POR

                          CAMILLO CASTELLO BRANCO



                                  PORTO
                           VIUVA MORÉ--EDITORA
                            PRAÇA DE D. PEDRO
                                  1870

                      *      *      *      *      *


                           IMPRENSA PORTUGUEZA
                          Rua do Bomjardim, 181.

                      *      *      *      *      *



A JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO


Se ainda tens lagrimas, se ainda as tens no coração, meu infeliz amigo,
permitta Deus que possas verter alguma na pagina onde encontrares uma
palavra, um grito de lacerante angustia, como tantos que has de ter
abafado.

N'este livro, não pude bem assignalar um leve traço do teu enorme
infortunio. Não pude, porque a tua desgraça não tem nome.

Figura-se-me que tu, Vieira de Castro, na tua cerrada noite de seis
mezes, ainda não pudeste vêr ao sol de Deus os sulcos por onde desceu de
teus olhos o sangue, a seiva toda de tua mocidade.

Entre o teu passado e este dia de hoje--cujas horas vão já batendo na
eternidade de uma tristeza irremediavel--estás tu empedrado de assombro
a encarar no abysmo onde te resvalou a mão que beijavas e ungias de
lagrimas de felicidade.

No fundo d'essa voragem vês as tuas corôas de gloria a seccarem-se, a
desfazerem-se, a pulverisarem-se--o desabar deploravel d'uma esplendida
vida que foi a tua, ó grande espirito!

Levanta d'ahi os olhos, alma atormentada, antes que vejas em lodo o pó
das tuas grinaldas, sobre as quaes vão cuspindo homens tão escassos de
misericordia, como de dignidade.

Deus que te veja chorar, e te envie o doce trago da morte, que receberás
sorrindo como todo o homem que expira vergado ao pêso de sua cruz, mas
não á ignominia d'ella.

Falta-te morrer, Vieira de Castro, para que em tua sepultura se
respeitem as cinzas d'um grande coração extremado na honra e na desgraça.

                                                CAMILLO CASTELLO BRANCO.



PERSONAGENS

    D. Eugenia de Vasconcellos (ou D. Leonor)           28 annos

    Viscondessa de Pimentel                             50   »

    Visconde de Vasconcellos                            55   »

    Rodrigo de Vasconcellos                             28   »

    Pedro Gavião Aranha                                 27   »

    Jorge de Mendanha ou Jacome da Silveira             51   »

    José de Sá                                          50   »

    Joaquim, criado.

    João, criado.

    Outros criados e pessoas que não fallam.

          *      *      *      *      *

    A scena corre no Porto em 1857.



O CONDEMNADO



ACTO PRIMEIRO

Sala pomposamente trastejada, mas em desordem. Portas ao fundo e
lateraes. Dois criados estão espanando a mobilia.

N. B. _O criado João, mais montezinho que os outros, denota a estupidez
velhaca do aldeão._


SCENA I

JOAQUIM E JOÃO

Joaquim _(refestelando-se em um sophá)_

Ó João, toca a descansar; senta-te, mas com geito, se não afundas.

João _(apalpando o estofo)_

Isto foi amanhado com bexigas cheias de vento? Queres tu vêr que eu vou
rebentar o fole? _(Deixa-se cair e levantar pelo elasterio das molas)_
Ih! cuidei que dava co' costado no solho! Um homem regala o cadaver
n'estas enxergas!

Joaquim

Isto sempre é melhor que andar a guardar ovelhas na Samardan, eim?

João

O quê? pois não fostes? Tomára-me eu lá com as minhas ovelhas. Assim que
m'alembram os nossos montes, começo a esbaguar e átrigar-me aqui dentro
do coração _(pondo a mão na barriga)_.

Joaquim

O coração não é ahi, bruto! Ahi são as reins.

João

Onde é então?

Joaquim

Aqui. _(Pondo a mão perto do sovaco do braço direito)_.

João _(com espanto)_

Aqui?! Credo!

Joaquim

Ahi mesmo. Aqui foi sempre o coração; e o bucho está aqui, salvo tal
logar _(apontando o umbigo)_.

João

O bucho aqui? aqui é a espinhela; o bucho é onde cáe a trincadeira.

Joaquim _(rindo-se com ar de ironica piedade)_

João, tu chegaste da Samardan ha quinze dias, e eu tenho palmilhado
todas as capitaes do reino de Portugal. Olha se me ensinas onde está o
bucho, a mim, que tenho sido criado de conselheiros, de conegos, de
barões, e mesmamente de ministros de estado! O bucho desde que o mundo é
mundo, foi sempre aqui _(insiste na demarcação)_. Faz-te esperto, rapaz!
O patrão já me disse hontem: «Ó Joaquim, este teu primo é um burro.»

João

Eu bem ouvi. Não foi assim que te disse o patrão. O que elle disse foi:
«Ó Joaquim, este teu primo é tão burro como tu.»

Joaquim

Não disse isso.

João

Na minha salvação, disse; e cá a mim, se o patrão me torna a chamar
burro, vou-me p'ra a terra. Eu não sou burro, sou christão baptisado.
Alcunhas não nas quero. Cá no Porto é costume essa chalaça.

Joaquim

Que chalaça?

João

Todos são bichos.

Joaquim

Todos são bichos? Más maleitas me tolham, se eu te percebo!

João

Lembras-te quando eu fui p'ra porta da rua saber quem vinha cá? Pois
olha, ao primeiro veio um fidalgo que se chamava _Lobo_; depois um
_Raposo_; depois um _Leão_; depois um _Coelho_ e um _Lebre_, e outro
senhor chamado _Camello_, e outro _Pato_, e um _Rola_. Olha que
bicharia! Eu estava a vêr quando chegava um Urso e um Boi. Lá na
Samardan toda a gente aveza nomes de gente, pois não aveza?

Joaquim

Homem, tu nunca viste nada. Faz minga correr todas as capitaes do reino
de Portugal como eu. Olha que os fidalgos quasi todos tem bichos...

João _(atalhando)_

Tem bichos? Arrenego-os eu!

Joaquim

Não me falles á mão; quasi todos teem bichos no nome é o que eu queria
declarar na minha proposta. Tu não inzaminaste as armas reaes que o
patrão tem nas quintas lá de riba?

João

Olha que já estive a malucar que na porta da quinta do Corgo estão as
armas do rei com dois largatos e um lacrau. Os largatos, salvo seja,
teem assim as unhas _(recurvando os dedos)_. E o lacrau tem a lingua á
dependura _(figurando)_. Mas cá o patrão não se chama largato nem
lacrau, que eu saiba.

Joaquim

O animal que viste não é lacrau. O bicho que bota a lingua de fóra
chama-se leopardo.

João

Isso é nome de christão... Leonardo!

Joaquim

Leopardo, asno!

João

Tu não me chames asno, primo! Não me desfeiteies. Quem não sabe,
aprende. Então por que tem o patrão o leopardo nas armas reaes?

Joaquim

É historia antiga lá da familia.

João

Então esse bruto era da familia do patrão? Tu tamen não és pequeno
alimal, Joaquim! Estás um bom fistor! Olha se me engrampas a mim.
Olha... _(Arregaça o olho esquerdo)_.

Joaquim _(alvoroçado)_

Espana, que ahi vem gente...


SCENA II

OS MESMOS E O VISCONDE DE VASCONCELLOS

Joaquim

Tenha vossa excellencia muito bons dias, senhor visconde.

Visconde

Adeus. Meu filho saiu?

Joaquim

Saiu ás nove horas e mais a senhora. Acho que foram comprar arranjos
para o baile.

Visconde

Quando é o baile?

Joaquim

Ámanhan, senhor visconde.

João

É ámanhan, mas saberá vossa excellencia que só começa de noite.

Joaquim _(acotovelando-o)_

Cala-te ahi!

Visconde

Vão; e assim que meu filho entrar digam-lhe que estou aqui. _(Os criados
sáem)_.


SCENA III

Visconde de Vasconcellos

Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera não saber
que meu filho dá bailes!... Deixasse-me eu ficar na solidão do meu
desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no
coração viçoso e feliz de meu filho, para que a desgraça o não assalte
em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha
cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma
alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e
chorados ao pé d'uma sepultura!... isto é uma iniquidade! Os experientes
da vida, os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam
comsigo um fantasma funesto. Na sua presença, aos descuidados do futuro
desmaia-se a côr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados
irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos não
desculpam o velho, que sáe ao encontro da mocidade e lhe diz: «Envelhece
antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te não colha ainda
na primavera, e te não abra no rosto o sulco das lagrimas. _(Ouve-se o
rodar de sege)_. Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e
oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios,
esperando-o nos salões, d'onde a noite de ámanhan fugirá de pressa como
fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da
vida as lagrimas não podem desfazer... Para que hei de entristecel-o?
Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraça porvir
isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a
boca do abysmo. Deixal-o ser moço até que a primeira nortada do
infortunio lhe bata no rosto. _(Suspenso e recolhido)_. Não posso, não
posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouçam gemer no
parcel onde naufraguei.


SCENA IV

VISCONDE E RODRIGO DE VASCONCELLOS

Rodrigo _(beijando-lhe a mão)_

Esperou muito tempo, meu pae?

Visconde

Não esperei. Onde está tua mulher?

Rodrigo

Eugenia vem já. Foi largar a capa e o chapéo, e naturalmente matar
saudades do filho. Eu tencionava ir logo pedir-lhe a sua vinda ao baile
de ámanhan.

Visconde

Ias convidar-me para um baile, Rodrigo?! A mim?! já me viste em bailes?

Rodrigo

Certamente não. Nas quintas, onde vossa excellencia costuma viver, seria
rara a tentação dos bailes _(sorrindo)_; e meu pae, que deixou ha tantos
annos as salas de Lisboa, de certo não succumbiria á tentação em Lamego
ou Amarante. Eu sei no entanto que meu pae frequentou os bailes da
capital, e se distinguiu entre os mais notaveis moços, alguns dos quaes
ainda hoje reflorescem alegres primaveras, a julgal-os pela côr das
barbas. Ainda hontem uma dama da alta sociedade de Lisboa, prima dos
condes de Travaços, me perguntou se o pae ainda conservava memorias do
gentil rapaz que havia sido. Recorda-se de uma senhora viscondessa de
Pimentel?

Visconde

Muito bem.

Rodrigo

Póde vêl-a aqui ámanhan.

Visconde

Essa dama ainda folga em bailes?

Rodrigo

Porque não? Representa uns trinta e cinco annos.

Visconde _(sorrindo)_

É mais nova do que eu uns cinco annos. Eu tenho cincoenta e seis.
Lembro-me perfeitamente da Francisquinha Almeida, que depois casou com
um Pimentel, que a fez viscondessa. Era mulher de talento satyrico,
pouco exemplar nos costumes, e... _(Mudando de tom)._ Deve ter branco o
formoso cabello loiro que tinha...

Rodrigo

Agora é negro.

Visconde

Sim? Ahi tens, meu filho, uma das proeminencias ridiculas do teu baile:
essa dama tingida, pintada, galhardeando-se, e talvez polkando
garbosamente como quem sacode dos hombros o pêso de meio seculo. Mas o
ridiculo dos bailes não é o mau; o mau, o péssimo é o que é triste, é o
que não póde ser visto senão por olhos que choraram muito...

Rodrigo _(interrompendo-o)_

Vai o pae entristecer-se... e começou tão bom, tão ironico...

Visconde

As minhas ironias, Rodrigo, são sempre amargas; mas o fel que ellas tem,
todo contra mim reverte. Ahi vem Eugenia; mudemos de conversação.


SCENA V

OS MESMOS E D. EUGENIA

D. Eugenia _(beijando a mão do Visconde)_

Como está, meu pae?

Visconde

Bom. Vejo que está excellente a minha filha. Ainda não perdeu as boas
côres que trouxe da provincia.

D. Eugenia

Quem me lá dera outra vez!

Visconde

Na aldeia? n'aquella casa melancolica, cercada de montanhas, onde nunca
chegaram os ecos das musicas de um baile? Queria-se outra vez na aldeia
a minha Eugenia?

D. Eugenia

A primavera ainda vem tão longe...

Visconde

E depois que lá estiver, a menina ha de ter saudades do baile de ha
quinze dias, do baile de ámanhan, e dos bailes que...

D. Eugenia _(interrompendo-o)_

Não, senhor. O que eu vejo e sinto agradavel nos bailes é o
contentamento de Rodrigo. Elle está acostumado a estes recreios, e acha
n'elles o prazer que eu provavelmente acharia tambem, se não tivesse
sido creada e educada em um recolhimento. Por mais que a gente queira
habituar-se á vida cá de fóra, o geito e o acanhamento da clausura não
se perde.

Visconde

A minha filha, portanto, sacrifica-se aos usos e costumes da sociedade
elegante...

D. Eugenia

Aos costumes da sociedade elegante, não, senhor; ao contentamento de
Rodrigo, sim.

Visconde

Pois, Eugenia, encarecidamente lhe peço que empenhe todo o valor do seu
coração em persuadir a meu filho que ha contentamentos mais solidos e
ineffaveis que os bailes. Insinue-lhe com as suas phrases singelas e
amoraveis que as serenas delicias da vida intima fogem assustadas das
folias estrondosas das salas. E diga-lhe que, no fim de uma noite de
baile, apparecem nos tapetes umas flores sem viço, que muitas vezes
symbolisam corações sem innocencia. Corações e flores perderam a candura
e aroma na mesma hora, queimados pelo calor da mesma respiração.

Rodrigo _(sorrindo)_

Ahi vem o pae com as suas theorias pessimistas. Ainda ninguem viu os
vicios da sociedade por vidros de tamanho augmento!

Visconde

Eugenia, deve ter muito em que lidar. Quem dá um baile precisa
mortificar-se oito dias antes, e fazer holocausto das suas canceiras ao
Bom-Tom, idolo creado pelo paganismo moderno. A civilisação tem
apostolos e martyres. Ora vá.

D. Eugenia

Janta comnosco, sim?

Visconde

Póde ser.

D. Eugenia

Até logo, _(apertando-lhe a mão--Sáe)_.


SCENA VI

VISCONDE E RODRIGO

Visconde _(com gravidade)_

Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e
ficas avisado para, na presença de tua mulher, nunca me desafiar a
discutir comtigo em assumptos de corrupção social. Agradece tu ao acaso
a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. Não a
illustremos; ouviste, Rodrigo? Não a illustremos... Bem vejo que estás
no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes
damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado;
queres que elle refulja á luz dos bailes. Vaes entrando com ella por
estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana
se assoalha; onde os corações como que andam á vista nos seios
descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras...

Rodrigo

Jesus! que imaginação! Meu pae está illudido com a sociedade.

Visconde

Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?!

Rodrigo

Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezão, um modelo de
fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo lá
não achou as demazias de desmoralisação que se lhe figuram na sociedade
de hoje. Suppondo que nos salões de ha vinte e tantos annos, meu pae
encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe não depararam
virtuosas e optimas? Se eu lá procuro exemplo de bons costumes em moço
rico e considerado, não encontro meu pae?

Visconde

Não. Quem te disse a ti que eu não fui um... um villão?

Rodrigo

Se meu pae houvesse sido um villão, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o
que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra
de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens,
apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia. É isto que eu
conjecturo do seu passado.

Visconde

Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou
incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de
velho e de pae. _(Pausa)_. Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae
confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao açoute com
que a Providencia o fere. A força da alma, a probidade, a indole
generosa que se me formou na educação, perdi-as, e foi nos salões que as
perdi. Não me foi necessario immergir na lama das orgias para de lá
sahir libertino. Nunca ahi desci. Foi nas salas que o meu coração se
encheu da peçonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os
mais vulgares sentimentos da honra, não salvando sequer a coragem, esse
derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara
aos assassinos em duello. Dos bailes é que eu sahi infamado e infame aos
meus proprios olhos. Imaginas tu o que é isto de sentir-se um homem
infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da
pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espaço de
vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braços quando eras menino, e
dizer-te muitas vezes: «Ó filho, ó creatura innocentinha, pede á
misericordia divina que se dê por contente com o immenso calix de
amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de
lagrimas de sangue.» _(Soluça)_.

Rodrigo

Meu querido pae, que extraordinaria dôr é essa!? O seu espirito sombrio
está exagerando culpas ignoradas. Nunca me fallou alguem nos seus
crimes. Se elles fossem enormes, ou sequer sabidos, não teriam esquecido...

Visconde

A sociedade esquece tudo. Esquece victimas e algozes. Mas não esqueças
tu que viste chorar teu pae. Se poder ser, vê sempre estas lagrimas
através das alegrias dos teus bailes, e escuta-me lá algumas vezes como
se eu te estivesse pedindo que fujas d'elles com tua mulher; e, se não
pódes defender-te d'estes prazeres traiçoeiros, meu filho, consente que
tua mulher se não aparte das arvores onde a chamam as saudades; deixa
que ella se fique na quietação da aldeia, e vem tu para as cidades. Tu
voltarás mais tarde cansado e dilacerado; e, quando cuidares que vaes
sem coração, encontral-o-has no seio puro de tua mulher e no sorriso de
teus filhos. Perde-te; mas poupa a alma de Eugenia, para que te não
falte o ultimo refugio. Olha que uma esposa sem macula, um amor de
mulher sem remorso de crime, nem receio de que lh'o descubram, é luz que
nos vai procurar a todas as voragens. Abysma-te; mas não a desvies do
berço de teu filho; não quebres o sagrado laço, que Deus formou entre a
alma que se está formando, e a alma de mãe, onde é preciso que arda um
grande amor, santificado por consciencia de grandes virtudes.


SCENA VII

OS MESMOS E JOÃO

João

Fidalgo, está alli um senhor que se chama...

Rodrigo

Como se chama?

João

Elle, a fallar a verdade, disse como se chama; mas barreu-se-me de todo;
e mais tenho-o debaixo da lingua, como lá diz o outro. _(Recorda)_ Elle
tem dous nomes de bichos.

Rodrigo

De bichos?!

João

Sim, senhor fidalgo; mas não é dos que vem cá a casa.

Rodrigo

Dos que vem quê?

João

D'aquelles fidalgos, que se chamam Leões, Lobos e Camellos.

Rodrigo

Burro!

João

Tambem não é burro... Ah! _(sacudindo a mão direita)_ Parece-me que me
lembra. Um é assim, um nome de passarôlo grande, que se chama.... Ora o
diabo.... que se chama.... Não é corvo, nem pato, nem milhafre, nem...
ah! é Gavião.

Rodrigo

Gavião?

João

Saberá vossa excellencia que sim; mas elle ainda tem outro nome de alimal.

Rodrigo _(ao pae)_

Eu foi muito amigo d'um rapaz que viaja ha annos, chamado Gavião Aranha.

João

Aranha! é isso mesmo. É Aranha.

Rodrigo

Vai de pressa; que entre. _(João sáe)_.


SCENA VIII

O VISCONDE, RODRIGO E DEPOIS PEDRO GAVIÃO ARANHA

Rodrigo

Foi um dos meus amigos mais constantes. Ha quasi dous annos que não sei
d'elle.

Visconde

Vou sahir. Até logo.

Rodrigo

Permitta que eu lhe apresente o Aranha. É um excellente rapaz, o melhor
coração de cátavento que ha no mundo. Eil-o ahi está! _(Vem entrando
Pedro: Rodrigo vai recebel-o nos braços)_ Não ha que duvidar. É o Pedro
Aranha. Como estás tu, rapaz? Bello, gentil, com uma cara
espirituosamente franceza.

Pedro

Americano-ingleza, se dás licença. Estas barbas procedem de Nelson, e
dão-me o grave tom plastico de um negociante de queijos londrinos.

Rodrigo

Meu pae, apresento o meu intimo amigo de collegio e dos salões de
Lisboa. As nossas alegrias e tristezas da mocidade eram communs. Pedro,
aperta a mão ao melhor dos paes.

Pedro

Respeitosamente aperto a mão ao senhor visconde de Vasconcellos. Ha dous
mezes me perguntaram em New-York se eu conhecia vossa excellencia.
Respondi que tinha a honra de ser amigo muito particular d'um filho do
senhor visconde.

Visconde

Quem se lembrará de mim na America Ingleza?

Pedro

Um portuguez que disse chamar-se Jorge de Mendanha.

Visconde _(recordando-se)_

Jorge de Mendanha! Não tenho a mais leve lembrança de tal nome! D'onde é
elle?

Pedro

Provinciano, não sei de qual provincia.

Visconde

Deve ser velho.

Pedro

Entre cincoenta e cincoenta e cinco annos, penso eu. A cara é de
maritimo torrada do sol, um bronzeado de africano; mas a linguagem tem
certo relevo litterario, e as maneiras são aristocraticas, sem pretenção.

Visconde

E disse que me conheceu?

Pedro

Não, senhor visconde; apenas me perguntou se eu conhecia a vossa
excellencia.

Visconde

Provavelmente é algum dos muitos rapazes da minha criação no collegio
dos nobres. Esqueci todos, excepto um ou dous que já são mortos. Jorge
de Mendanha!... não me posso lembrar. Senhor Gavião Aranha, conversem,
que hão de ter muito que recordar. Eu folgo de conhecer vossa
excellencia. Demora-se no Porto? Creio que não é daqui...

Pedro

Sou algarvio. Quando cheguei a Lisboa e soube que Rodrigo estava no
Porto, e casado, parti sem demora a vêr se conseguia ainda usurpar á
esposa alguma da muita amizade que elle me deu.

Visconde

Meu filho sabe apreciar os verdadeiros amigos. _(Aperta-lhe a mão, e sáe)_.


SCENA IX

PEDRO E RODRIGO.

Pedro

Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu vossê a
minha ultima carta?

Rodrigo

Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo.

Pedro

Não recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me pela Asia dentro, e
voltei á America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa.

Rodrigo

Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de
descripções romanticas, não ousou profanar o esconderijo onde me foragi
com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher.

Pedro

Venha cá vossê. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia
do seu casamento. Todos os pormenores são pontos essenciaes d'esse
solemnissimo desmentido ás tuas grandes theses de celibatario defendidas
nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto
do coração.

Rodrigo

Esqueleto do coração!... Ó ignorante, aprende que o coração é musculo.

Pedro

É musculo ôco; eu tambem já sabia isso, mestre; tambem fiz do peito
amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres
meio delidas na superficie rugosa do coração, encontrei o musculo, de
que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste?

Rodrigo

Isso.

Pedro

Isso quê?

Rodrigo

O vacuo do coração; mas a plenitude da alma, que é outra casta de entranha.

Pedro

Entranha! a alma é entranha! Collocas a essencia immortal na categoria
do figado e do baço! Deixemos essa questão á Academia real das
sciencias, e vamos á historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma
historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a
vulgaridade do matrimonio. Vamos ás peripecias. _(Em tom emphatico de
narrador)_ Era uma formosa tarde de estio....

Rodrigo

Não tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento.

Pedro

Não?!

Rodrigo

Vê lá se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja,
mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas
parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a
nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a
Evora, perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram
fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas,
muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio!

Pedro

Sim: temos já duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor
pelo cemiterio!

Rodrigo

Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar.
Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroço
e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica
nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe désse
alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um
pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua
Eugenia, um anjo que Deus lhe mandára, como compensação, que em poucos
annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que
poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me então a sua amiga.
Não trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza
reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e
mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que
pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um
scismar e concentrar-se sem affectação, sem sequer attender á presença
de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei
a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte
minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de
nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia.
Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se
para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.

Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia.
Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade de Evora com uma
menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com
poucos meios, e morreu não deixando alguns, quando Eugenia contava
dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e
repartiu com ella a sua pensão. N'este sereno affecto encontrei as duas
orphans.

As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse
filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza
de que não é filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a
supposição de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a
procedencia de algum desgraçado amor, obrigava talvez a curiosidade a
não devassar o mysterio de que minha prima não tinha a menor elucidação.

Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha,
expirou nos braços da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom
supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados
dias.... Vê lá se te estou estafando com a historia.

Pedro

Homem, não vês o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados
dias...

Rodrigo _(proseguindo)_

Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe não lisongeava a
alma, que eu ainda mal conhecia.--Se amas Eugenia, casa, disse elle.

Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certidões necessarias ao
casamento. Nada obtive; apenas um antigo capellão do recolhimento me
disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de
Eugenia, entrára no convento em 1837 e morrêra em 1849 sem ter escripto
nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria
um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D.
Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No
pensar do capellão esta dama era fidalga, porque o padre que a
confessava uma vez dissera que a secular tinha tão nobre sangue como
espirito. Este padre confessor era já fallecido quando o procurei em
Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis
indagações. Obtive dispensa das mais urgentes certidões, e casei com
Eugenia... Por esta occasião meu pae perfilhou-me.

Pedro

Tu eras filho natural? Eu não sabia.

Rodrigo

Não? Nem eu. Só depois que sahi do collegio dos nobres e fui á
provincia, é que os criados me contaram que minha mãe era uma formosa e
pobre moça que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae
perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para
si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens.

Pedro

E dizias que não tinhas romance!...

Rodrigo

Romance não é; é o que os romancistas não sabem pintar: a felicidade
perfeita. Eugenia é boa como todas as mães extremosas. Tenho um filho de
seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente
e doce alma da mãe. Eu não tinha direito a tanto contentamento sem
intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus,
e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo.

Pedro

Que linguagem! que transformação! Deixei-te sceptico a respeito de
mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a
respeito dos meninos. Acho-te um coração cheio dos tres e unicos
elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a
religião que recebe os bens e os males da vida como favores da
Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo.
Depois d'isto o que eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um
supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando não tinha
esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu á
proporção dos capitaes, não é verdade?

Rodrigo

Sim; vivo bem, e desassombrado de credores.

Pedro

Ah! tu já não tens credores?! _(baixo)_ Transgrediste o solemne
juramento que fizemos em Lisboa de não pagar a uzurario que abuzasse da
nossa innocencia do juro da lei?!

Rodrigo

Meu pae mandou pagar tudo e a todos.

Pedro

E não te amaldiçoou?

Rodrigo

Não.

Pedro

Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu!

Rodrigo

Disse-me isto sómente: «Se houvesses contrahido dividas no valor do que
possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por óra és rico; mas,
se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinará o caminho da infamia.»

Pedro

Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve
passar para a nova edição do _Thesouro de meninos_!

Rodrigo

E tu não pagaste áquelle dos oculos verdes?

Pedro

A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham
oculos verdes. Eu não paguei a nenhum. Sou equitativo, e não distingo
credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei
não pagar.

Rodrigo

Teu pae provavelmente pagou...

Pedro

As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e
Roma, se meu pae pagava as minhas dividas não pagando as d'elle! Os meus
credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia não
ha avô que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raça insoluvel
desde meu vigesimo quarto avô D. Ordonho, principe gothico, até mim, que
tambem não pago porque me não chamem gothico, como éra meu vigesimo
quarto avô D. Ordonho.


SCENA X

OS MESMOS E D. EUGENIA

_D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz menção de retroceder
vendo um estranho_

Rodrigo

Entra, Eugenia. _(Ella entra com uma carta aberta.)_ Quero apresentar-te
ao meu amigo Pedro Gavião Aranha.

Pedro

Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante
das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de
auzencia.

D. Eugenia

O Rodrigo já me tinha fallado de V. Ex.ª com muita estima; e eu tenho
muito prazer em vêl-o n'esta casa. _(Voltando-se a Rodrigo)_ Chegou
agora esta carta da condessa de Travaços. Vê.

Rodrigo _(depois de a lêr mentalmente)_

Pede um convite para o baile... _(reflectindo)_ Ó Pedro Aranha, como se
chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae?

Pedro

Jorge de Mendanha.

Rodrigo

Ora ouve lá: _(lê)_. «Minha querida, senhora. Peço-lhe que obtenha do
Rodrigo de Vasconcellos um cartão de convite para um sugeito de fóra que
foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha.

Da sua prima e amiga etc.»

Pedro

Oh! cá está o homem! E é singular coisa! Quando sahi da America estive
com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vão V. Ex.as vêr um
homem de romance.

D. Eugenia _(com simplicidade)_

Então quem é esse homem?

Rodrigo _(risonho)_

Essa pergunta assusta-me! Alvoroça-te a prespectiva d'um homem romantico?

D. Eugenia _(sorrindo ingenuamente)_

Nunca vi nenhum...

Rodrigo

Nem á mim? Então que sou eu? Não sou... sequer romantico!

D. Eugenia

Não; tu, Rodrigo, és bom... Eu li alguns romances no convento; e não
encontrei n'elles a semelhança do teu genio; e nós lá quando diziamos
que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, não lhes faziamos
elogio algum. Por isso é que eu desejava saber em que opinião se deve
ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que é de romance.

Pedro

E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha é o
mysterio; é um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares
que impõe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moços. É
eloquente; mas falla á moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo
e cathedratico. Emfim, minha snr.ª, estimo grandemente o novo encontro
com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos
acotovellam nos bailes, nos cafés, nas ruas, em todo este Portugal que é
uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para
meninos do côro.

Rodrigo _(sorrindo)_

Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do côro creado nos viveiros
de Portugal. _(Indica Pedro)_.

Pedro

Pois bem; eu não inculco a minha sufficiencia para corista; mas é que eu
fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes são por
tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisação
anglo-americana é uma especie de depillatorio que descabella os ursos de
todas as nações.

Rodrigo

Tudo portanto que não foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma
tosquia, é urso. Obrigado, snr. Gavião Aranha. Dá alvará de urso aos
seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios
annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na
sua pessoa.

Pedro

O que?


SCENA XI

OS MESMOS E JOÃO

João

Está lá em baixo uma fidalga n'um carrão.

Rodrigo

N'um carrão?

Pedro

Hade ser carroção. Pois ainda ha no Porto fidalgas que se fazem mover
por bois?

Rodrigo _(a João)_

É carroção ou carroagem?

João

É sim senhor.

Rodrigo

O quê?

João

É uma d'estas chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante.

Rodrigo

_Chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante._ Entendeste, ó
Pedro?

Pedro

Tu deves ter diccionario particular para entender o sujeito. A linguagem
tem certo pittoresco, e um sabor classico.

D. Eugenia _(rindo)_

Falla á moda de Traz-os-montes.

Rodrigo

Essa coisa é puxada por bois ou cavallos?

João

São eguas, fidalgo.

Rodrigo _(a Pedro que ri)_

Este é o creado que te annunciou com dois bichos. _(Para João)_ Quem é a
senhora?

João

Um dos moxillas disse que é a snr.ª D. Viscondessa de Pimentel.

Rodrigo _(com as mãos na cabeça, comicamente)_

Ai! ai! ai!

Pedro

Pois está no Porto a viscondessa de Pimentel?

Rodrigo

Eu vou recebel-a á portinhola; mas tu depois dispensa-me, Eugenia.
Deixas-me fugir, sim, meu amor?

D. Eugenia _(sorrindo)_

Pois sim. _(Rodrigo e João sahem)_.


SCENA XII

D. EUGENIA E PEDRO

Pedro

A viscondessa de Pimentel! como atura V. Ex.ª esta arara de conserva?

D. Eugenia

Conheço-a ha poucos dias. Encontrei-a em casa da condessa de Travaços, e
fui visital-a depois ao hotel de Francfort... É a primeira vez que vem cá.

Pedro

Mas ridicula até á commiseração, não é verdade?

D. Eugenia

Não... Faz-me dó! Tenho muitissima pena das senhoras que se não resignam
com a velhice. No convento, onde eu fui creada, muitas senhoras, sendo
em tudo exemplares, esqueciam-se de se fazer venerar pela idade; e eu
tinha muita compaixão quando se riam d'ellas.

Pedro

Ella ahi está explendida de antiguidade como uma cathedral!


SCENA XIII

OS MESMOS, RODRIGO E A VISCONDESSA DE PIMENTEL

_A viscondessa é uma senhora de 50 annos, trajando no requinte da moda,
e dissimulando a idade com o caio no rosto e cabellos postiços. Nos
trejeitos e meneios exagera um desembaraço ridiculo, com o intento de
affectar o garbo e desenvoltura de rapariga. Entretanto convem que se
não desmanche dos modos verdadeiramente palacianos e proprios de
esmerada educação e pratica da melhor sociedade._

D. Eugenia _(indo ao encontro da Viscondessa)_

Senhora viscondessa, como está V. Ex.ª?

Viscondessa

Muito nervosa. E V. Ex.ª? Hontem no theatro deu-me grande cuidado a sua
sahida no intervalo do 2.º acto. Pedi ao primo Travaços que soubesse se
algum motivo extraordinario alem do _spleen_... oh! o _spleen_!.. é uma
calamitosa enfermidade esta, não acha?.. depois soube felizmente que o
snr. Rodrigo de Vasconcellos dera uma gentil e formosissima razão da sua
sahida...

D. Eugenia

Ah! sim... Eu sahi porque... _(sustendo-se)_.

Rodrigo _(a Pedro)_

Porque teve saudades do filho, Pedro Aranha.

Viscondessa _(com alvoroço)_

Pedro Aranha! Pois está aqui o snr. Pedro Aranha... Bem me parecia
conhecer... mas por mais que concentrasse as minhas reminiscencias...

Pedro _(apertando a mão da viscondessa)_

Eu esperava ensejo de poder comprimentax V. Ex.ª

Viscondessa

Vem de Pariz?

Pedro

Da Suissa, minha senhora.

Viscondessa

Da Suissa? paiz das montanhas colossaes, com muitas bellezas selvagens,
e a poesia magestosa e imponente do extraordinario, não é assim?

Pedro

Sim, minha senhora; ha muita poesia grandiosa na Suissa.

Viscondessa

Eu amo as soberbas descripções d'esse paiz! Já pedi ao visconde que me
mostrasse a Suissa; mas o egoista respondeu que detesta as viagens em
nações montanhosas. Ha certos espiritos que querem as nações chatas como
elles. Quem me dera beber o ar que sacode os cabellos nos pincaros das
serranias! É desejo que me devora desde menina. O visconde diz com a
mais desgraciosa semsaboria que suba ás agulhas do Marão ou da serra da
Estrella onde ha muito ár puro. Vejam que curteza de alentos! Para
certas almas o ar é ar em toda a parte. Vêr o mar do rochedo de Santa
Helena ou da Trafaria é igual. Tudo é agua: não é assim, snr. Aranha?

Pedro _(ironico)_

Sempre espirituosa, sempre admiravel de critica, e inexoravel com o seu
bom senso em castigar os espiritos canhestros...

Viscondessa

Pois não é assim?

Pedro

Irrefutavelmente é assim, senhora viscondessa. Eu recebo as ordens de V.
Ex.ª _(a D. Eugenia. Rodrigo pega no chapeu.)_

D. Eugenia

Vão sahir? Vem fazer companhia ao Rodrigo e ao pae? A gente espera o
snr. Aranha.

Pedro

Não me dispenso da honra e do prazer, minha senhora.

Rodrigo _(á viscondessa)_

Senhora viscondessa. Eugenia, até logo. _(beija-a. A viscondessa aperta
a mão dos dois que sahem)_.


SCENA XIV

D. EUGENIA E A VISCONDESSA

Viscondessa

Teve carta da prima condessa?

D. Eugenia

Sim, minha snr.ª

Viscondessa

Jantou hontem comnosco um homem sobremaneira excentrico. É esse Jorge de
Mendanha de quem lhe falla a prima. É portuguez, e vem de Inglaterra
recommendado ao conde--coisa singular!--por um lord de tal que o primo
conheceu em Londres. Disse que estivera em Lisboa ha bastantes annos, e
fallou de familias da primeira ordem como quem as conhecia muito.
Perguntei-lhe, quando se tomava o café, se tinha conhecido, nos bailes
do marquez de Vianna, Francisca de Almeida, que sou eu. Fitou-me com um
sorriso indescriptivel, e disse: «conheci». E se a visse hoje,
conhecel-a-hia?--perguntei eu «Graças á solidez da sua belleza, (disse
elle) a viscondessa de Pimentel é ainda a depositaria da insigne
formosura de Francisca d'Almeida». Não podia dizer uma amabilidade com
tanto e tão delicado espirito, pois não? Ha não sei que de puro
parisiense n'isto, _un beau trait d'esprit_ não vulgar em portuguezes,
acha?

D. Eugenia

Sim... Este amigo do Rodrigo conheceu-o na America ingleza, e diz que
elle é velho, mas muito romantico... _(sorrindo)_.

Viscondessa

Velho?! não, minha snr.ª.. _(Vê-se ao fundo o visconde)_. É homem de
quarenta e poucos mais; mas V. Ex.ª ha de vêr um gentleman, um
_distingué_, _un homme à bonnes fortunes_ como lá se diz.


SCENA XV

AS MESMAS E O VISCONDE

Visconde _(com mal reprimido azedume)_

A mulher de meu filho não sabe francez, snr.ª viscondessa.

D. Eugenia

Ah! o pae!.. Estava ahi!

Viscondessa

Com effeito! é possivel que eu tenha o tão desejado jubilo de vêr o snr.
visconde!? Ha que infinitos annos o não vi! Que doce surpresa!.. mas, ao
mesmo tempo, _(com a mão na fronte, pensativa)_ que turbilhão de
recordações melancolicas! Vê? não posso vencer a commoção! _(Leva o
lenço aos olhos)_ .

Visconde _(sorrindo)_

São os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha
snr.ª? Ainda bem que V. Ex.ª me não sensibilisa com o espectaculo
pungente da decadencia, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Pois creia que padeço infinitamente, visconde. Fóra de Lisboa, recobro
forças e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta
d'isto; Lisboa está estupida; a vida d'esta sociedade é a proza chilra
das sociedades gastas, sem feição, toda safada em relevos, um _cancan_,
uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa
do nosso tempo...

Visconde _(com intenção ironica)_

A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr.ª...

Viscondessa _(sem attender á interrupção)_

Resolvi sahir instada pelo primo Travaços. Vim, e sinto-me melhor. Acho
certa novidade nos costumes, nas maneiras, no _ensemble_ da vida
portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr.ª
como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me
dessem occasião de vêr a V. Ex.ª

Visconde

Muito grato ao obsequio...

Viscondessa

Não me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? Não quer saber de alguem?

Visconde

Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dirá V. Ex.ª? Umas
morreram, outras envelheceram. Não me parece aprazivel o passearmos em
um cemiterio a lêr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V.
Ex.ª folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte
espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade.

Viscondessa

Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex.ª abafa o seu antigo espirito com o
pezo dos crepes! Aqui está o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no
campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me ás experiencias
agricolas. Ao fim de oito dias, snr.ª D. Eugenia, as minhas ideias eram
pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde,
trate de viver, e deixe á morte o cuidado de o apanhar, quando estiver
distrahido. V. Ex.ª acha sensato estar-se a gente a vêr morrer todos os
dias? Eu não. É uma doidice que não abre as portas de Rilhafoles, nem as
da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades
contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo da sua
especie dá cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas visões.

Visconde _(ironico)_

Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex.ª ideias funeraes, e usurpava
á sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de
ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vêr assim. Minha
querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae.
Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe
dizer. Remoce este animo arido, e não o deixe voltar á aldeia. E adeus,
visconde. Até amanhã. Conversaremos muito... Ah! é verdade! Ó visconde,
olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que lá
me conheceu ha vinte e tantos annos...

Visconde

Eu já hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na
America ingleza.

Viscondessa

Está no Porto.

Visconde

No Porto?!

Viscondessa

E vem ámanhã ao baile.

Visconde

Tenho certa curiosidade de o vêr.

Viscondessa

É extraordinario!

Visconde

Que singularidade são as do homem, viscondessa?

Viscondessa

É o _incompris_!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance.
_(O visconde solta um frouxo de riso)_ De que se ri, visconde?

Visconde

De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar...

Viscondessa

Espantar-se! de quê?

Visconde

Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex.ª pinta o homem, que, se nos
conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel.

Viscondessa

Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!..

Visconde

E, se elle é maior de 50 annos, e finge o _incompris_, o incognito, o
romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser
ridiculissimo. Não me tente, minha presada snr.ª, que eu sou capaz de
vir ao baile para não morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com
uma aureola de mysterio.

Viscondessa _(dando-lhe com a luneta no hombro)_

Maganão! Cuida que toda a gente lhe ha de _fazer cauda_ na via dolorosa
da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o
pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos não affoguemos em
diluvio de lagrimas. _(Com intenção.)_

Visconde _(pensativo e abatido)_

Eu é que não posso rir-me; mas sei que ha corações que não soffrem o
pezo das consciencias que nada pezam.

Viscondessa

Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que não me esqueça
furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando
vinha subindo.

D. Eugenia

Sim, minha snr.ª, vamos colher quantas V. Ex.ª quizer.

Viscondessa

Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da
providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. _Sahem._--_(O
visconde senta-se alquebrado)_.


SCENA XV

O VISCONDE E DEPOIS JOÃO

Visconde

_Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da
consciencia_, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha...
Estas allusões moraes e penetrantes resaltam ás vezes das consciencias
mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado...

João _(entrando com o «Commercio do Porto»; e, como não vê o visconde,
que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)_

Não enxergo ninguem. _(Começa a lêr, e vae sentar-se n'outra poltrona,
que tem as costas voltadas para a do visconde)_ Deixa-me vêr se ainda
leio por cima. Acho que é inglez, isto. Será? Não me parece. Quem sabe
lêr n'estes _coisos_ é cá o meu primo Joaquim que já foi entregador ou
redactor ou não sei quê d'uma trapalhada d'estas. _(Lendo no alto da
primeira pagina) Po, lí, po, lí tí, ca, in, ter, na. Politega eterna._
Isto acho que é a respeito da religião, ou lá da eternidade do outro
mundo. Vamos vêr o que diz dos governos: _(Lendo na quarta pagina)
Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando)_ Não é aqui. Ha-de
ser mais abaixo, _(lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro._ Linguas
de bacalhau! Isto é chalaça aos deputados... _(O visconde tosse. João
levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e sáe da sala
derreando-se para não ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia
por outra porta)_.


SCENA XVI

VISCONDE E D. EUGENIA

D. Eugenia _(aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)_

Como está triste! que tem, meu pae?

Visconde _(erguendo-se)_

Grande pezar de já ter sido alguma hora alegre, minha filha.

D. Eugenia

Parece qué a visita da viscondessa o contrariou.

Visconde _(pegando do «Commercio», e lendo mentalmente ao mesmo tempo
que conversa)_

O conhecimento d'esta senhora não lhe convem, Eugenia. Estas mulheres,
emancipadas da opinião publica aos vinte annos, não costumam ser as mais
uteis amigas na velhice.

D. Eugenia

Amiga! Eu apenas a conheço, e não sinto a menor inclinação para ser
amiga de tal senhora.

Visconde _(lendo sempre. Declamação vagarosa)_

Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve
saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa
de as saber. Esteja de prevenção. Eugenia, acautele-se das mulheres que
não tem outra virtude sabida senão a de murmurar dos vicios alheios. A
viscondessa creio eu que não murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas
conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido
possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos
de Lisboa. Além d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas
contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas
amigas. O seu industrioso plano é dar a perceber que o vicio está por
tal forma naturalisado que já não ha razão para espantos nem sequer para
censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim sómente
que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral
são assim todas pouco mais ou menos. _(Suspende-se subitamente.
Vivamente agitado, fixa attentamente o que está lendo, emquanto Eugenia
se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se
com grande exforço e disfarce. Depõe o jornal, e toma o chapeu. D.
Eugenia tem reparado na commoção do visconde)_. Até já, Eugenia.

D. Eugenia

O pae está tão pallido!

Visconde

Pallido! Não sei o que seja!..

D. Eugenia

Sente-se doente?

Visconde

Não, minha filha... Isto são accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao
jardim. Volto já. _(Sáe)_.


SCENA XVII

D. Eugenia, _(só)_

Elle ía tão mudado e sobresaltado! E estava a lêr com tanta inquietação!
Que seria? que viu elle n'este jornal?! _(Pega do jornal e corre os
olhos pela primeira pagina)._ Que é isto? _(estremecendo)_ Este nome...
Jacome da Silveira! _(Faz menção de lêr agitadamente, e lê alto): Cego
pela paixão feroz do ciume matou..._ Pois elle vive, meu Deus! Que
commoção tão funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me
traga desventuras! _(Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de
Villasboas!_ São estes os nomes!.. O desgraçado vive!.. Ainda o verei? E
poderia amal-o, se o visse? Oh! não... Eu vejo sempre o cadaver
d'ella... _(Senta-se a soluçar)._


SCENA XVIII

D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS

_(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)_

Rodrigo _(reparando)_

Estavas chorando, filha?

D. Eugenia

Estava.

Rodrigo

Porque? São as primeiras lagrimas que te vejo.

D. Eugenia

É verdade...

Rodrigo

Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal...

D. Eugenia

Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste.

Rodrigo _(procurando no fundo do jornal)_

No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creança?

D. Eugenia

Não é romance; é aqui. _(Indicando-lhe o alto da primeira columna)._

Rodrigo

Aqui na Correspondencia de Pariz? _(Ella faz um gesto affirmativo)_ Pois
que é? _(Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis
palavras, e depois lê):_ «Contar-lhe-hei um successo digno de attenção,
e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia.» É
aqui?

D. Eugenia

É.

Rodrigo _(lendo)_

«Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no _Bois de Bologne_, me
mostrou um sujeito que ia passando sósinho, triste e vagaroso. E depois
me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se
cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco
mais ou menos, um homem de consideração, residente em Lisboa, de nome
Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada
Martha de Villasboas, cego pela paixão feroz do ciume, matou a espoza.
Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que
matára sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que
não tinha obrigação, vontade, ou necessidade de declarar o crime da
senhora morta, porquanto já estava castigada, e a memoria d'ella não
esperava da sociedade estigma nem rehabilitação. Perguntado como é que
se apresentava, respondeu: «Como homem que matou». Na qualidade pois de
homicida voluntario com premeditação foi Jacome da Silveira encarcerado,
julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em attenção
não sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o
jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D.
Martha de Villas-boas morrêra criminosa. O cumplice da adultera éra
conhecido. Constava que o réo encontrára superabundantes provas do
crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante
delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em não
declarar o crime de sua mulher, a condemnação éra inevitavel, a não
estar o jury, como não estava, á altura da tão infeliz quanto generosa
alma do réo. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se
transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com
que armar navio que o transportasse á Europa ou America do norte, a não
querer antes levantar-se com o senhorio de Angola e proclamar-se rei
d'áquem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do
nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentença;
completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvará de soltura, passou ao
coração da Europa, e nomeadamente ao _Bois de Bologne_, onde hontem o
vi. Tanto quanto de relance o pude vêr, deixou-me uma impressão
melancolica. «N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a
pagina que escreveram lagrimas choradas por espaço de 24 annos. Na
historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem não lhe sei
dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e
esteja lendo com olhos enxutos esta noticia». _(Declama):_ Mais nada.
Saibamos agora porque choraste, Eugenia?

D. Eugenia

Porque chorei!? não foi tão infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!

Rodrigo

Triste? decerto foi; mas não era justo que fosse alegre. Esta mulher
deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um coração honrado; elle
matou um corrupto. Não ha comparação racional entre os dous delictos. Se
tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a
condemnação a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam
revelar a piedade abraçada á justiça; mas chorar pela criminosa que...

D. Eugenia _(atalhando-o)_

Tens razão... Perdôa ás minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste
comprehender a desgraça d'esse infeliz.

Rodrigo _(pausadamente)_

Pois não é assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no coração;
depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo;
depois o horrendo trance da morte com as angustias infernaes que deviam
lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentença; depois vinte annos
sem patria; e finalmente...


SCENA XIX

OS MESMOS E O VISCONDE

Visconde

Que estavas tu dizendo tão commovido, Rodrigo?

Rodrigo

Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. _(Mostra-lh'a no
Jornal)._

Visconde

Já vi.

D. Eugenia

Parece-me que o pae tambem a leu com amargura.

Visconde

Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a.

D. Eugenia

Sim? eu vou. _(Sáe)._


SCENA ULTIMA

RODRIGO E O VISCONDE

Visconde

Pungiu-te essa noticia, Rodrigo?

Rodrigo

Eugenia é que estava chorando de compaixão da mulher que o marido matou.

Visconde

Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa
espoza como Eugenia.

Rodrigo

Então morreu innocente?

Visconde

Não.

Rodrigo

N'esse caso, o confronto não lisongêa minha mulher...

Visconde

Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando
sahiu, sentia a febre da paixão que antecede a morte do brio e do
pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. Lê as
ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde começa: _Na historia ha
duas victimas e..._

Rodrigo _(lendo)_

«Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem não lhe sei
dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e
esteja lendo com olhos enxutos esta noticia.»

Visconde _(commovido até ás lagrimas)_

Vês os meus olhos enxutos? Repára, filho, que eu estou chorando...

Rodrigo

Está; mas que querem dizer as suas lagrimas?!

Visconde

Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, é... teu pae.
_(Rodrigo estremece. Corre o panno)._


FIM DO PRIMEIRO ACTO.



ACTO SEGUNDO.

A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde
se dança. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano.


SCENA I

VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOSÉ DE SÁ

Viscondessa

Surpreza assim! José de Sá n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze
dias no Chiado, e não me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa,
com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu
companheiro d'hotel, sem eu saber! Há quantos annos o não encontro em
bailes, conselheiro? Deixe-me vêr se me lembro... Foi, foi, foi ha...

José de Sá

Ha 22 annos, minha senhora.

Viscondessa

Mas que maravilhosa conversão foi esta? como é que V. Ex.ª depois de
duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a
estes pedaços modernos da Babilonia antiga?

José de Sá _(sorrindo)_

Milagres d'amôr, snr.ª viscondessa, acho eu. Ha amôres que rebentam no
inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como não
achem coração onde se hospedem dignamente, recolhem-se á cabeça, e
tamanhos estragos lá fazem que não é raro vêr em bailes muitos doudos
que trazem nos miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de
cabeça de preto.

Viscondessa

Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!

José de Sá

Pois está claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, são
tudo sequeiros e conservas... O coração, como eu o sinto, é
verdadeiramente uma betarraba já curtida...

Viscondessa

Pois sim mas não zombe do amor, que não perdôa sarcasmos... Olhe que a
occasião é de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas...
_(apontando para as senhoras que vão passando)_.

José de Sá _(mirando-as com a luneta)_

É verdade. Bem vejo. Ó minha querida snr.ª viscondessa, defenda-me com o
seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.

Viscondessa

De todas.

José de Sá

De todas? pois tambem V. Ex.ª terá a crueldade de não poupar uma antiga
victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado
d'el-rei nosso senhor Dom João V.

Viscondessa _(ironica)_

E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fóra dos bailes!

José de Sá _(rapido)_

Para o não perder, minha snr.ª.

Viscondessa

Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que sáe bronca
dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito,
e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vêr. Entre por essas
salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental.
Espirito! Foi tempo. Não ha hoje em dia quem saiba conversar cinco
minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bôcca.

José de Sá

Espirito de papoulas, não, minha snr.ª? Excellente coisa! Eu durmo ha
muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse
adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez
dos anjos pelo sal dos politicos.

Viscondessa

Ai! politicos! não me falle em politica que me estorce os nervos! Pois
não sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez
ir a Setubal dirigir as eleições contra o governo?

José de Sá

V. Ex.ª fez as eleições em Setubal? Isso tem graça; acho-lhe um sal,
mais sal do que Setubal exporta! V. Ex.ª fez eleições?

Viscondessa

Fiz.

José de Sá

E venceu?

Viscondessa

Venci.

José de Sá

Está claro. Venceu. O amôr vence tudo, inclusive as eleições. Um ou dois
raios d'amor despedido por olhos ardentes sobre a urna, fariam o
prodigio de converter em ministerial o deputado opposicionista. Mas, ó
querida viscondessa, V. Ex.ª não receou que os irritados manes de Bocage
a satyrizassem em Setubal?

Viscondessa

Satyrizar-me, porquê?

José de Sá

Pois uma snr.ª toda poesia, toda flôres, toda céo, a combinar com as
facções o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da
satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e côr de rosa,
affeitos a volver as paginas do livro do coração, a profanarem-se na
entrega das listas de costaneira! Ó muito illustre e muito presada minha
amiga, posto que V. Ex.ª qual outra Judith venceu o Holofernes
administrativo de Setubal, não posso deixar de lhe dizer que se V. Ex.ª
e as suas correligionarias começam a fazer politica, eu e os meus
correligionarios teremos de fazer meia. Este paiz é muito pequeno, e a
custo dará politica para o sexo feio.

Viscondessa

Já vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma
incapacidade para os actos do espirito.

José de Sá

Não minha snr.ª Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras
intelligentissimas e com grande capacidade.

Viscondessa

Mas com intelligencia sómente honorifica. Concedem-nos a honra da
intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creação,
obrigadissimas... _(Reparando)_ Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece?

José de Sá _(intencionalmente)_

Não conheço Jorge de Mendanha.

Viscondessa

E não se lembra de ter conhecido este nome?

José de Sá

Não conheci.

Viscondessa

Eu apresento-o!

José de Sá _(áparte)_

Tem graça a apresentação...


SCENA II

VISCONDESSA, JOSÉ DE SA, D. EUGENIA, JORGE DE MENDANHA

Viscondessa _(a Jorge)_

Apresento o snr. conselheiro José de Sá, cavalheiro pertencente á mais
selecta sociedade de Lisboa. Talvez conhecesse V. Ex.ª _(Indicando
Jorge)_ O snr. Jorge de Mendanha. É natural que já se hajam visto...
_(Os apresentados apertam-se as mãos, fixando-se de um modo que deixa
entrever disfarce)_.

José de Sá

Certamente.

Viscondessa

Em Lisboa? _(Signal de começar-se uma polka. Rodrigo offerece o braço á
viscondessa, e Aranha a D. Eugenia. Movimento de pares que atravessam
rapidamente)_.

Rodrigo _(offerecendo o braço)_

É a terceira polka, minha snr.ª

Viscondessa

Ah! sim? vamos...

D. Eugenia _(com distracção a Pedro Aranha)_

Sou seu par, snr. Aranha?

Aranha

Sim, minha snr.ª; mas, se V. Ex.ª...

D. Eugenia _(desprendendo-se do braço de Jorge)_

Desculpe, cuidei que... _(Sáem os dois pares)._


SCENA III

JORGE E JOSÉ DE SA

José de Sã

Que vieste, afinal, fazer aqui?

Jorge

Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a
sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justiça
do céo. Agora, vim vêr como a justiça do céo sentenciou. Quero vêr, face
a face, e sem que me conheçam, o homem que matou a alma da mulher que a
sociedade disse que morreu ás minhas mãos. Morta estava ella. Matou-a
quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar
n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentença de desterro
á suprema alçada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora,
o que presenceamos, meu amigo, faz-me desconfiar que a justiça celestial
não desce a sujar as suas balanças n'este lamaçal da terra. _(sorrindo)_
Suspeito que o meu recurso de revista foi lá em cima julgado por
desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de cá.
_(Triste e concentrado)_ Ainda o não vi; mas sei que estou nas suas
opulentas salas. Aqui de certo não mora a desgraça. Os infelizes não
accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou
Martha, e atirou ás mãos da minha vingança esse cadaver, Heitor de
Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma corôa de visconde, saborea-se
nas dôces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem
um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danças. _(Ouve-se
a orchestra, por um breve espaço, durante o qual Jorge medita
concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota
acompanhando a declamação)_ E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de
minha casa, leveio-o ao intimo do meu lár, puz na sua mão a de uma
mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da
minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no coração o
despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi
dos trez o desgraçado? E ella jaz onde a infamia lhe não peza. Eu venho
de arrastar meia existencia debaixo de um céo maldito. Heitor de
Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes
tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade
respeita-o. Nos seus salões estão os sabios, os virtuosos, os ricos, e
tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas
sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra
que amava mais, lavei o sangue de minhas mãos com lagrimas em vinte
mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vêr o que
a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas á
sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz.
Respondi, José de Sá. Não me perguntes mais o que vim aqui fazer.


SCENA IV

OS MESMOS E A VISCONDESSA PELO BRAÇO DE RODRIGO

Viscondessa _(descendo para o proscenio)_

Mas o visconde não vem, snr. Vasconcellos?

Rodrigo

Meu pae prometteu vir, se bem que ainda ao anoitecer estava na cama
bastante incommodado, e com tenções de ir esta madrugada para a provincia.

Viscondessa

Incommodado de que? Ainda hontem o vi com bastante animação; mas, em
verdade, muitissimo abatido de espirito está elle! O snr. conselheiro,
não viu ha muito o visconde de Vasconcellos?

José de Sá

Ha vinte e trez annos, minha snr.ª

Viscondessa

Então não o reconhece, sem que lh'o mostrem.

Rodrigo _(á viscondessa)_

V. Ex.ª quer aqui ficar? _(sorrindo)_ Eu não posso deixar de ir ser
testemunha das incommodidades que V. Ex.as soffrem n'esta casa. Snr.
Jorge de Mendanha, eu folgaria que um baile no Porto não intédiasse
antes da meia noute o cavalheiro que vem dos salões de Pariz.

Jorge

Dos areaes da Africa, snr. Vasconcellos.

Rodrigo

Mas tambem viajou na Europa...

Jorge

Na volta d'Africa, passei por algumas cidades da Europa: mas não
frequentei bailes; e, quando os visse, quer-me parecer que as salas de
V. Ex.ª não poderiam temer-se da confrontação.

Rodrigo

Ó snr. Mendanha... _(Rodrigo fica gesticulando com Jorge)._

Viscondessa _(que tem estado a conversar com José de Sá)_

Nada, polkas não quero mais. Bate-me o coração espantosamente. Olhe este
pulso, snr. Sá.

José de Sá _(apalpando-lhe o pulso)_

Valentissimo! É o palpitar dos 18 annos, é vida, é sangue que pula, que
polka n'um coração ainda rijo. Eu iria jurar que V. Ex.ª tem um
aneurisma...

Viscondessa

O quê?

José de Sá

Um aneurisma d'amor, não se assuste. A viscondessa já sabe que não se
morre de taes aneurismas.

Viscondessa

Acha? Este Sá é o contraste de seu pae, snr. Rodrigo. O visconde é a
elegia, este é o madrigal. Olhe o que faz viver no Chiado em Lisboa ou
nas Mattas de Traz-os-montes! Veja o espirito folgazão d'este rapaz...

José de Sá

Ó cruel! Póde caber tamanha vingança em alma tão dôce? Chegamos a um
tempo em que até os favos de mel se azedam! Não me disse ainda ha pouco,
minha muito contraditoria senhora, que eu tinha vivido duas duzias de
annos como anachoreta selvagem?

Viscondessa

Fóra dos bailes; mas dentro de Lisboa, onde os espiritos remoçam e
esvoaçam como...

José de Sá

Como morcegos nas torres da Conceição velha.

Viscondessa _(a Rodrigo)_

Olhe, olhe esta fecundidade! o que eu queria era vêr seu pae assim
galhofeiro, snr. Vasconcellos.

Rodrigo _(sorrindo, a retirar-se)_

Pois eu logo que o veja, snr.ª viscondessa... Póde ser que o duelo de
espirito em que V. Ex.as tão destramente se batem, produza no meu velho
e melancholico pae uma inveja salutar. _(Sáe)._


SCENA V

JORGE, VISCONDESSA E JOSÉ DE SÁ

Viscondessa _(acautelando-se de que a ouçam os que atravessam a sala)_

Ó conselheiro, lembra-se perfeitamente da parte que teve o Vasconcellos
n'aquella tragedia do Largo do Intendente?.. Ora se lembra!..

José de Sá

N'aquella tragedia... ah! sim,.. Não recordemos, não recordemos...

Jorge

Recordemos... Eu gosto de ouvir tragedias.

Viscondessa

Se V. Ex.ª esteve em Lisboa ha 20 e tantos annos ha de lembrar-se de uma
senhora que o marido matou por ciumes...

Jorge

Injustos?

Viscondessa

Isso não. Ella amava sem duvida nenhuma este visconde de Vasconcellos.
Não se recorda?

Jorge

Tenho uma vaga lembrança.

Viscondessa

Como se chamava elle? o marido? Lembra-se, José de Sá? Espere... era
Silveira não era?

Jorge

Conheceu-o V. Ex.ª?

Viscondessa

Não. Quem conheci muito foi ella. Estivemos ambas no collegio de M.elle
Duchateaux, no Rato. Era lindissima a pobre Martha de Villasboas! Nunca
vi o marido, porque nunca a visitei depois que casou, visto que não
recebi parte do casamento. Offereceu-se-me ensejo de o conhecer em
alguns bailes onde concorremos, mas nem o vi nem desejei conhecel-o
desde que me asseveraram que elle fizera uma rigorosa selecção das
amigas de sua mulher, receando que as amigas mais desempoadas a
despenhassem no abysmo. _(Rindo)_ Ha assim muitos maridos que rodeam as
mulheres de anjos; mas Satanaz que é indisputavelmente mais esperto que
os anjos, e gosta de luctar com as difficuldades, consegue ás vezes
pregar logros verdadeiramente infernaes aos maridos, deixando os anjos
tristes e até certo ponto compromettidos. É o que aconteceu ás
irreprehensiveis amigas da pobre Martha--umas creaturas que andaram
pelas egrejas a orar por alma d'ella, como se precizassem introduzil-a
no céo, para poderem alegar um exemplo em seu favor no dia do juizo...

José de Sá

Intrepida lingua, snr.ª viscondessa! Espada de dois gumes!

Viscondessa

A minha lingua não é intrepida, é portugueza.

José de Sá

Seja; mas os mortos que durmam em paz.

Jorge

Mas eu pediria á snr.ª viscondessa que me relacionasse com todos os
mortos que deixaram na terra memorias tragicas. Terá V. Ex.ª a bondade
de satisfazer a curiosidade de um homem, cuja attenção só póde ser
captiva de grandes desgraças? _(José de Sá com ar de enfado vae ao fundo
e torna)._

Viscondessa

Sim, eu resumo a historia em duas palavras para não ferir a
sensibilidade do snr. conselheiro. Martha apaixonou-se por este Heitor
de Vasconcellos, homem perigoso que o Silveira recebeu na sua
intimidade. Não sei bem como o marido suspeitou a perfidia, ou
interceptou a correspondencia. O que penso é que Martha não soube
esconder a culpa na mascara d'aquella santa hypocrisia que costuma
escrever nas sepulturas os epitaphios d'algumas excellentes esposas, que
eu conheço, e o conselheiro tambem conhece, não acha?

José de Sá

Eu conheço muitas esposas excellentes.

Viscondessa

Mascaradas?

José de Sá _(apontando para D. Eugenia que vem entrando pelo braço de
Pedro Aranha)_

Ahi tem um modelo de esposos.

Viscondessa

Cazou ha anno e meio.


SCENA VI

OS MESMOS, D. EUGENIA E PEDRO ARANHA

D. Eugenia

Eu andava procurando V. Ex.as Fogem do bulicio? tomára eu tambem fugir.

Pedro _(a D. Eugenia)_

A snr.ª viscondessa é hoje muito generosa com V. Ex.ª

D. Eugenia

Sim? pois quando deixou de ser generosa a snr.ª viscondessa?

Pedro

Se V. Ex.ª quizer, despovoa-lhe as salas onde se dança. Basta
annunciar-se que a snr.ª viscondessa está aqui derramando as perolas do
seu espirito.

Viscondessa

Cuida que está lisongeando uma _femme savante_ de Moliere este Trissotin
em formato pequeno! este snr. Aranha que tem mais peçonha que o
appellido quando quer ter um espirito de ventosa.

Pedro

Eu sou das aranhas que não tecem a sua teia em todas as ruinas.

José de Sá _(áparte)_

Bravo! estão bonitos!

D. Eugenia _(ouve-se a orchestra)_

Vai dançar-se, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Eu não vou dançar, minha querida. Fico por aqui a reconstruir o passado
com o auxilio das reminiscencias do snr. conselheiro Sá. Estou a
imaginar-me com vinte e dois annos. Isto é bom e innocente recreio. Se a
gente retrocede alguns annos, acha-se em sociedade de menos parvos.

D. Eugenia _(a Jorge)_

E V. Ex.ª está triste?

Jorge

Ó minha senhora, não...

D. Eugenia

Está; pois eu não vejo? Parece-me que ama tanto os bailes como o pae de
Rodrigo e como eu...

Pedro _(ao novo signal da mazurka)_

Vamos, minha snr.ª? _(Sahem. Movimento dos pares atravessando no
corredor)._


SCENA VII

VISCONDESSA, SÁ E JORGE

Viscondessa

Já viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que
não gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa
companhia lhe é mediocremente agradavel; não acham?..

Jorge

Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada ás
salas. É do Porto?

Viscondessa

Nada, não é; mas eu tambem não sei d'onde seja. Este casamento de
Rodrigo dá dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em
Portugal.

Jorge

Os romances portuguezes póde ser que sejam semsabores; mas as tragedias
tem um não sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos á tragedia,
snr.ª viscondessa, á tragedia interrompida.

Viscondessa

Pois eu não conclui?

Jorge

Não minha snr.ª V. Ex.ª chegou ao ponto em que...

Viscondessa

Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se á
justiça. Ajude-me a recordar, snr. José de Sá? Que explicações deu o
Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos?

José de Sá

Silveira não deu explicação alguma, snr.ª viscondessa.

Viscondessa _(com impeto)_

Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me
lembro! ora esta! pois V. ex.ª não era o amigo intimo de Silveira? Não
passava os dias com elle no Limoeiro?

José de Sá

Passava, minha snr.ª

Viscondessa

Então aqui tem o melhor informador que V. Ex.ª podia encontrar. Conte o
que sabe, conselheiro. É verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de
que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que é feito d'ella, sabe?

José de Sá

Não sei.

Viscondessa

Então que sabe? Esta ignorancia é singular, por não dizer irrizoria!
Querem vêr que a candura d'este varão se está insurgindo contra uma
historia de corrupção social.

José de Sá _(sorrindo)_

Isto não é candura, minha snr.ª Eu estou corrompido bastantemente para
não ser tolo. Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras
apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex.ª que
não sei o que é feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que
insistencia, senhora! Tendo V. Ex.ª tantas flôres e tantas coisas cheias
de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua
gentil conversação com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e
infamias a perdoar?

Jorge _(severamente)_

A perdoar!

Viscondessa

E eu accuso alguem! O snr. está exquisito! Eu não sei se a Humanitaria
dá medalhas aos sentimentalistas como V. Ex.ª Este snr. se vir
representar o Othello de Shaskspeare sáe do theatro para não vêr
historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. É
capaz de os ir accusar á policia!

José de Sá

Eu não me retirava do theatro, nem iria accusar á policia as adulteras
mortas visto que não accuso as vivas; não sahiria do theatro; mas em vez
de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem
impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte
noite, irão vêr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe
d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da
adultera e do seu cumplice.

Viscondessa

Optimo! Isso é bom, bonito e eloquente. Mas eu, se não desmaio quando
vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me não rio
dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que
fizeram do seu coração um filtro de peçonha e de infames lagrimas.
Quando Martha de Villasboas foi morta, eu não fui das que se vestiram de
lucto e andaram pelas egrejas a fazer-lhe uns baratos suffragios pela
alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que
não pôde dispôr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam ás
egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a fé que ensina a rezar pela
salvação das almas, rezava em caza. Não indo á egreja, nem saindo a
irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei
bastantemente a desgraça de ambos. E, se as minhas orações valessem
perante Deus, eu pediria perdão para ella, e misericordia para elle.

Jorge

Esse grande desgraçado, se ouvisse a snr.ª viscondessa, cuidaria que
houve no mundo duas pessoas que choraram por elle...

Viscondessa

Eu que tinha sido excluida das relações de Martha, fiz mais, snr.
Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a minha
amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforços para descobrir a paragem
da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha,
leval-a-ia para minha caza... _(Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha
tem entrado na sala que vão atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao
que se está dizendo: e solta com sobresalto uma exclamação quando a
viscondessa termina)._


SCENA VIII

OS MESMOS, PEDRO, D. EUGENIA

D. Eugenia

Ah!

Pedro

Que tem V. Ex.ª?

D. Eugenia _(aproximando-se do grupo com dissimulado socego)_

V. Ex.as estavam conversando a respeito de...

Viscondessa

De frivolidades, minha snr.ª

D. Eugenia _(com muito embaraço)_

Cuidei que ouvi proferir um nome que... V. Ex.as diziam coisa que eu
não devo ouvir... A minha chegada perturbou a snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Não minha snr.ª Estava-se conversando e recordando coisas antigas... a
sociedade de Lisboa de ha vinte annos.

D. Eugenia

Pois sim; mas V. Ex.ª não fallou de uma senhora chamada Martha de
Villasboas?..

Jorge

Fallou, snr.ª D. Eugenia. E que sabe V. Ex.ª da pessoa que teve esse
nome?..

D. Eugenia _(encarando-o com susto)_

Nada...

Jorge _(á parte a José de Sá)_

Sabe a historia do sogro.

José de Sá _(o mesmo)_

É natural.

Viscondessa

O senhor Aranha, diz-me onde está a prima Travaços...

Pedro

Eu conduzo V. Ex.ª _(dá-lhe o braço.. Sahem)._


SCENA IX

D. EUGENIA, JORGE, SÁ

Jorge _(aproximando a cadeira)_

De Martha de Villasboas estavamos nós effectivamente conversando, minha
snr.ª Quando a mulher que teve esse nome sahiu d'este mundo, V. Ex.ª
teria apenas nascido.

D. Eugenia

V. Ex.ª conheceu-a?

Jorge

Vi-a. Quer V. Ex.ª provavelmente que se lhe conte um episodio da
historia de seu sogro...

D. Eugenia _(erguendo-se de impeto)_

De meu sogro? Não intendo... que tem que vêr meu sogro com essa senhora?

José de Sá _(á parte a Jorge)_

Descrição. _(Sáe)._


SCENA X

D. EUGENIA E JORGE

Jorge

No semblante angelico de V. Ex.ª reluz sinceridade. Não posso crêr que a
snr.ª D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem não posso perceber o ar de
interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas.

D. Eugenia

Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a
desventurada sorte d'essa snr.ª

Jorge

Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no coração o dó da mulher que teve a
infelicidade de ser amada do marido até ao extremo de ser morta por elle...

D. Eugenia

E elle amava-a!?

Jorge

Que pergunta! Pois não vê que elle a matou por ciumes?

D. Eugenia _(como aterrada)_

Matar! que horror, meu Deus!

Jorge

O horror não é matar; é sobreviver a esse cadaver que deixa uma herança
de deshonra eterna. O horror é viver com o pezo d'esse cadaver, não
sobre a consciencia, mas sobre o coração esmagado para nunca mais
ressurgir. Para que V. Ex.ª possa sem espavorir-se, pôr os olhos de sua
alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado,
ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que
vem sempre de caricias, sente a precisão de redobrar de ternura e
gratidão. Veja-o de joelhos, ao pé de um berço onde lhe brincava com os
beijos uma creança que elle chamava filha...

D. Eugenia _(com impeto)_

Então V. Ex.ª conheceu-o?

Jorge

Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a
alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A mãe
descaroada vae ao berço onde está a creança, grava-lhe no rosto o labéo
da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O
marido e pae é de repente arrancado a impuxões de opprobrio dos braços
de uma esposa querida. Quando lhe elle agradecia as alegrias de seu
amor, e a creança sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha
punha um pé sobre o coração do marido, outro, sobre o seio da filha, e
repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por
espaço de quatro annos lhe beijára os pés, fez um desgraçado sem nome;
mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe
assassino. Elle matou-a, snr.ª D. Eugenia; foi a si proprio que elle se
matou. Era forçoso espedaçar a alma que se identificára ao corpo
contaminado da mulher perdida. As convulsões do veneno dilaceraram-lhe
duas robustas vidas, a do coração e a do pundonor. O anjo que esse homem
chamava filha cahiu dos braços da mãe, e elle repulsou-a dos seus,
porque... não sei onde estão torturas comparaveis ás da incerteza entre
um berço onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam
a podridão de uma coisa infame como é a mulher que deixou seus filhos
envergonhados se lhe proferirem o nome. Peço perdão, se estou magoando a
sua sensibilidade, minha snr.ª V. Ex.ª está soffrendo, e eu disse
palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que
condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex.ª chora?! porque?

D. Eugenia

E porque não pediria essa criancinha a vida de sua mãe? Ella choraria o
seu remorso ao pé do berço da filha... O desgraçado que praticou um tão
duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orfã não
ficasse tão sem abrigo, á caridade de estranhos... Não se mata uma mãe
que tem nos braços uma criancinha de tres annos.

Jorge _(severo)_

Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a
criança podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que
cobarde, deveria retribuir a deshonra da mãe, repartindo com a orfã as
pompas d'esta casa.

D. Eugenia _(vivamente agitada)_

Não entendo, snr.! Porque diz V. Ex.ª que a filha de Martha devia ter
parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo é
este de que vae estalar uma grande desgraça... Olhe que é atroz a minha
desconfiança... é horrivel... e eu receio morrer...

Jorge

É incomprehensivel o susto de V. Ex.ª! Receia morrer... porquê? A snr.ª
D. Eugenia está formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que
não ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a
historia d'um homem atraiçoado, e d'uma mulher morta...

D. Eugenia

Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento?

Jorge

E quando tivesse, minha snr.ª? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem
deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex.ª incapellarem-se grandes
tormentas á volta das pessoas como seu sogro?

D. Eugenia

Mas... só duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro
foi quem perdeu Martha.... foi? _(Agitando os braços, desprende-se-lhe
uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e
estremece)._

Jorge _(rancoroso)_

Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora?

D. Eugenia

Retrato! isto não é retrato... Esta pulseira deu-m'a...

Jorge _(interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)_

Seu sogro? Esse ignobil costuma dar ás esposas dos filhos os retratos
das amantes?

D. Eugenia

Jesus! Ouça-me...

Jorge

Sabe a snr.ª que este retrato é o de uma adultera que se chamou Martha?
uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta
pulseira entre as joias do noivado? _(Arroja a pulseira ao chão, e vae
pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente)._

D. Eugenia

Pois este retrato é o d'ella? _(beijando-o e soluçando)_ Oh! eu não
sabia... Vem gente... não quero que me vejam chorar... siga-me... eu
tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. _(Toma-lhe o braço e
sahem rapidos)._


SCENA XI

VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOSÉ DE SÁ

Visconde

Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as forças me
deixassem preparar para a jornada...

José de Sá

Para onde vaes, visconde?

Visconde

Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da
sociedade o Leproso de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te não
vejo, José de Sá. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Estás
ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos.
Vê-se que não inclinaste a cabeça para o peito a chorar. Não afogaste em
lagrimas, quando eras moço, os embriões d'onde te floriram as alegrias
da velhice. Não fui eu assim, José de Sá. Sabes que formidavel trance me
envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda não
levantou a mão inexoravel. Não pódes imaginar o que ha sido a minha vida.

José de Sá

Basta-me vêr-te para crêr que tens soffrido; porém, não o imaginava eu
assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que
tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um
baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a
fallar verdade; não me parecem bastantemente significativas da vida
dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens.

Visconde

José de Sá, o mundo quando vê padecer os grandes criminosos, recusa
acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu
odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes
veja lagrimas nas rugas do rosto, não tem compaixão d'elles. A sociedade
crê pouco nos castigos occultos da justiça divina, porque não conhece
justiça efficaz e exemplar senão a dos carceres, dos degredos e das
forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais
miseravel e despresivel homem... quando me foi forçoso esconder no meu
antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella
hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel.

José de Sá

Os teus amigos cuidaram que terias então a louvavel e virtuoza coragem
do suicidio.

Visconde

A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de
mim desgraças tamanhas, o matar-me então seria coragem? O partir a
corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio
seria coragem? Eu n'aquelle tempo não tinha o menor vislumbre de
religião, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas
circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para
não vêr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de
valor? Não. Valor é ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em
que eu não poder chorar, descrerei de Deus e então... matar-me-hei, por
intender que expiei acerbamente, e não fugi ao castigo...

José de Sá

Mas parece que fugiste do duelo.

Visconde

Eu não podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como
eu aceitam uma bala, não aceitam um contendor no campo da honra.
Matam-se, não se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu
apontasse um florete ao coração do marido de Martha? Se eu o matasse
atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.

José de Sá

Mas a sociedade, quando vê os delinquentes na tua condição, pergunta
como é que expiam.

Visconde

Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?

José de Sá

Não: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade
creio eu que não te pergunta nada. Dá-lhe bailes; que a sociedade troca
por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dança não
dilacera reputações. Evita, quanto puderes, ser desgraçado e pobre. Isso
é que se não perdôa. Ainda que os remorsos te cortem o coração, sê tu
rico, e verás que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo
da farça humana em que os truões sacodem os cascaveis para que não ouças
os gemidos da tua consciencia.

Visconde

Eu não dou bailes; dá-os meu filho que é moço, e não se priva dos gozos
da mocidade porque me vê chorar. José de Sá, tens sido duramente severo
comigo. Não me queixo. Generosamente me apertaste a mão; e eu não
merecia tanto. Se alguem houvesse compaixão de mim, não serias tu por
certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflicções
superiores ao entendimento de desgraçados maiores do que eu. Chorei-os
ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das
alegrias da honra e do amôr... e atirei-os á voragem do opprobrio e da
morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu não tenho
rehabilitação... não posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu
remorso. _(Cahe extenuado numa cadeira)._

José de Sá _(comtemplando-o, e entre si)_

Não te erguerás não, infeliz! Péza-te na consciencia o cadaver de Martha...


SCENA XII

OS MESMOS, VISCONDESSA, PEDRO ARANHA COM OUTROS GRUPOS QUE SE CRUZAM AO
FUNDO

Viscondessa

Ai! alli está o visconde! _(aproxima-se inclinando-se)_ Visconde!

Visconde

Minha senhora... _(levantando-se a custo)._

Viscondessa

Soubemos agora que V. Ex.ª tinha chegado, e procuramol-o em todas as
salas. Reanime-se!

Visconde

Estou bem, snr.ª viscondessa.. E V. Ex.ª tem-se enfastiado?

Viscondessa

Não me enfastio; gelo-me de horror, quando penso que a luz do sol nos ha
de mandar sahir d'este paraizo.

Pedro

Onde todos os pomos são prohibidos.

José de Sá

E os maduros tambem? _(tregeitando como allusão á viscondessa)._

Viscondessa

Os verdes principalmente é que são prohibidos pela mesma razão que o
eram as uvas á rapoza; não acha, snr. Pedro Aranha?

Pedro

Eu acho que V. Ex.ª sabe tudo, adivinha tudo, é a arvore da sciencia
d'este paraizo. Descubriu ultimamente que eu vinha depôr o meu
inveterado scepticismo ás plantas de uma menina portuense.

José de Sá

E eu não admiro; que n'estas salas tenho eu visto explendidas bellezas,
ás quaes seria facil empreza dobrar o orgulho d'esta moderna seita de
scepticos, e de jovens cançados d'amor que se deploram em Portugal por
versos mais ou menos errados, e morrem quasi sempre desconhecidos na sua
rua.

Viscondessa _(ao visconde)_

Que abstracção! que melancholia! Distraia-se!.. Ó visconde _(indigitando
um par)_ quem é aquella menina que parece ir adormecida sobre o hombro
do menino respectivo?

Visconde

Não sei, minha snr.ª Eu conheço n'esta sala V. Ex.ª e a mulher de meu
filho. Onde está Eugenia?

Viscondessa

É uma pergunta que eu ia fazer. Ha coisa d'um quarto de hora que a vi
passar pelo braço de Jorge de Mendanha.

Visconde

Não tive o prazer de vêr esse cavalheiro, e provavelmente já o não verei
por que vou sahir.

José de Sá

Tu não estás hospedado em casa de teu filho?

Visconde

Não, José de Sá. Eu amo bastante meu filho e minha nora para os não
mortificar com a presença continuada d'uma velhice repellente...

Viscondessa

Ahi vem lamentação do profeta... Se vem, deixo cahir a fronte com o pezo
da mortificação!.. Ah! aqui vem a snr.ª D. Eugenia com Jorge Mendanha.


SCENA ULTIMA

OS MESMOS, JORGE, RODRIGO, EUGENIA, E CONVIDADOS QUE VÃO PASSANDO

_Do lado fronteiro, por onde entrou Mendanha, vem Rodrigo que se
avisinha do pae no intento de o apresentar. Jorge de Mendanha pára, em
frente do visconde, largando o braço de Eugenia e deixando pender os
braços. O visconde encara Mendanha com penetrante frieza e spasmo._

Rodrigo _(a Mendanha)_

Tenho a honra de apresentar a V. Ex.ª meu pae. _(O visconde está fitando
convulsamente Jorge. Este mantem-se immovel, com a fronte alta e o olhar
fixo e sinistro. O visconde recua, erguendo as mãos em attitude de quem
repelle uma visão, e cahe nos braços de Eugenia e de José de Sá)._

Rodrigo _(avisinhando-se com altivez de Jorge)_

Quem é o senhor?

Jorge _(apontando para o visconde)_

Pergunte-lh'o. _(Desce o pano vagarosamente)._


FIM DO SEGUNDO ACTO.



ACTO TERCEIRO



(1.º QUADRO)

Sala do hotel de Francfort.--Vêem-se gallegos atravessar carregados de
malas.


SCENA I

VISCONDESSA, E UM CREADO, POUCO DEPOIS

Viscondessa _(em trajes de viagem)_

A carroagem ainda não chegou?

Creado

Foi-se chamar, snr.ª viscondessa.

Viscondessa _(irritada)_

Parece que as carroagens no Porto não se mandam buscar, mandam-se fazer.
A velocidade aqui é impossivel, fóra do carroção! Ai! Lisboa, Lisboa!
Olé! _(ao creado)._

Creado

Minha senhora.

Viscondessa

O snr. Mendanha já se levantou?

Creado

Parece-me que ainda se não deitou. Desde que chegou do baile tem
passeado sempre no quarto.

Viscondessa _(ao creado que está sacudindo o pano da jardineira)_

Ó sôr homem!

Creado

Minha senhora.

Viscondessa

O snr. conselheiro José de Sá está com o snr. Mendanha?

Creado

Está no quarto d'elle.

Viscondessa

Está mais alguem de Lisboa n'este hotel?

Creado

Mais ninguem, snr.ª viscondessa.

Viscondessa _(tirando dois bilhetes d'uma carteira)_

Pegue lá: dê estes bilhetes aos snrs...

Creado

Ahi vem o snr. conselheiro. _(sáe)._


SCENA II

JOSÉ DE SÁ E VISCONDESSA

José de Sá

Que madrugada é esta! V. Ex.ª, á uma hora da tarde, já radiosa, em trem
de viagem!

Viscondessa

Não dormi nada, tenho os nervos em convulsões, estou doente, e vou para
Lisboa no _Lusitania_ que sáe ás duas horas felizmente. Que me diz á
scena melodramatica do baile?

José de Sá

Pareceu-me mais tragica do que melodramatica.

Viscondessa

Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo é d'um
anachronismo e máo gosto revoltantes! Se os maridos atraiçoados começam
a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os salões hão de
tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um
bravo de Veneza em veteranos.

José da Sá

Não se graceja assim com o infortunio, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Ora pelo divino amôr de Deus, snr. Sá! A gente não ha de vestir-se de
lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu
acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os
ares carregados e funebres da _vendetta_, e esmurraçasse na Praça Nova
ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma
_toilette_ mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes,
para afinal de contas ajuntar o escandalo á irrisão, sinto dizer-lhe,
conselheiro, que é um soberano disparate, e que o seculo vae muito
luminoso para podermos receber a sério estas excrecencias da idade
media. Que diz?

José de Sá

Eu não disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr.ª viscondessa de
Pimentel.

Viscondessa

Eu não armo á admiração, meu presado conselheiro; quero apenas que me
vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira
dizer-me: não estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O
visconde não fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e
d'elle? Isto é verdade: que diz?

José de Sá

Ainda não disse nada, minha senhora.

Viscondessa

Bem sei que não disse nada. O snr. Sá ensaia-se para estadista n'esta
diplomacia de _boudoir?_ Parece-me que desperdiça a sua infinita
sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas
insignificantissimas.

José de Sá _(sorrindo)_

Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex.ª Se continua a
injuriar-me, ai da viscondessa e de mim!

Viscondessa

Mas rebata isto, snr. Sá. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de
Martha? Reviver miserias...

José de Sá

Minha senhora, não bula V. Ex.ª n'ellas, que a memoria de Martha é
sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa.

Viscondessa

Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota
curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabeça
de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos
concorridas?

José de Sá _(ironico)_

Não reparei n'esse escandalo!

Viscondessa

Não? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graça e
que profundo mysterio não teria o apaixonar-se Eugenia... _(rindo)._

José de Sá

Ora, minha senhora... V. Ex.ª traz a sua formosa cabeça repleta de máos
romances... Bem se vê que os seus nervos andam destemperados pelo terror
das tragedias... _(ouve-se o rodar da sege)._

Viscondessa

Ahi está a sege... Adeus. _(apertando-lhe a mão)_ Vou por casa de
Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a não poder vêr de relance.

José de Sá

Vae auscultar-lhe o coração a vêr se effectivamente está apaixonada pelo
meu amigo?

Viscondessa

Quem sabe?... quem sabe...

José de Sá

Ah! viscondessa, viscondessa... Receio que seu benemerito esposo esteja
mais arriscado que o de Eugenia...

Viscondessa _(fazendo-lhe uma mezura á antiga)_

_Ça n'est pas gentil, mon cher. Au revoir._

José de Sá _(cortejando-a profundamente)_

Sempre admirador e sempre admirado. _(A viscondessa sáe)._


SCENA III

JOSÉ DE SÁ E UM CREADO

Creado

O snr. Mendanha mandou-me saber se V. Ex.ª já estava a pé.

José de Sá

Diga-lhe que estou aqui.


SCENA IV

JOSÉ DE SÁ E DEPOIS JORGE

José de Sá

É necessario revelar a este infeliz as minhas esperanças de ainda
podermos encontrar a filha de Martha, fazendo-lhe chegar ao coração a
certeza de que é sua filha. _(Examinando a carteira)_ Felizmente que
tenho comigo a carta. Se não alcanço nortear-lhe o espirito para outro
destino, receio que uma terrivel fatalidade venha recomeçar as
desventuras d'este malfadado homem. _(A Jorge que entra)._ Descançaste?

Jorge

Nem levemente: começo a vêr novos abysmos.

José de Sá

Tambem eu, Jacome.

Jorge

Esta minha vinda a Portugal...

José de Sá

Eu não t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingança,
fizeste bem não me consultar. Eu te responderia que uma grande
calamidade não justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que
venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a
honra que ensanguenta as mãos só póde a allucinação desculpal-a, e que
um assassinio premeditado vinte annos é um acto de selvageria, se a
demencia o não desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com
um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudança de
nome não podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu.

Jorge _(interrompendo-o e levantando-se com impeto)_

A honra que me perdeu!.. excellente palavra. A honra devia nobilitar-me,
se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o
impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que
lhe atiram. Comigo não foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de
mim a vibora que me crivava o coração de infernaes farpas; mas a
sociedade e a sua justiça vieram e bradaram-me: «Vae, condemnado; vai-te
sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem!
Vae-te n'essa leva de ladrões e facinoras; vae contar na Africa as horas
de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo
teu desforço os centenares de despejados que não consentem que tu sejas
mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidadão,
se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a consideração dos
honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse
o ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses
em publico a mão que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados
juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e
dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do
crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra
de mera convenção chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti,
assassino, que a vida humana não era inviolavel? Eras marido
amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez
annos de idolatria não imaginaste sequer que o teu amor podesse ser
assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mão que
beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos
d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? Não
importa. A vida humana é inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses
a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a são
tantos que não se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir
o dardo do coração, bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua
mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na
inviolabilidade da sua devassidão...» É assim que a sociedade falla aos
desgraçados como eu, José de Sá?

José de Sá

Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peço que
vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os
moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida
humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que
legislam para as paixões no conforto do seu gabinete. Esses taes nos
darão exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a
deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, não me perguntes se a tua
vingança está cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse
esmagado homem que hontem á noute viste cahir nos meus braços. Que
queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? Não o vês tão dobrado pela
mão da Providencia? Não lhe vias na face a escuridão profunda d'aquella
alma?

Jorge

E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar?

José de Sá

Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda
não esteja fechado.

Jorge

Essa suspeita vinda de outro que não fosses tu seria ultrajante. Se nos
meus designios entrasse a morte de tal homem, eu não praticaria o
abjecto ardil de entrar disfarçado em sua casa. Hontem te disse no baile
o que alli fôra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da
sua ignominia. Não tenho mais que vêr. A vida é o patibulo d'aquelle
condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que não falte nada ao seu
supplicio até a coragem do suicidio o desamparou. Creio em ti, Deus! Não
se é perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem
chorar não são os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno
deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingança, José de Sá, completa-se
com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. Não tenho
mais que fazer em Portugal.

José de Sá

Tens. O teu coração póde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um
resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor
existe.

Jorge

A filha de Martha?

José de Sá

A tua filha.

Jorge

Minha!.. Não me afflijas. Olha que ainda se faz noite na minha alma, se
vejo a imagem d'essa creança. Minha! que absurda nova! onde foste saber
que ella era minha filha?

José de Sá

Se viste nas rugas do visconde de Vasconcellos assignalada a mão da
Providencia, por que duvidas crêr que a Providencia premeie as tuas
agonias, tamanhas e com tanta paciencia soffridas, mostrando-te a
creança que se acalentou em um seio sem macula, a filha do teu sangue,
do teu coração e da tua alma?

Jorge _(com vehemencia)_

Queres tu enlouquecer-me? queres que eu vá d'essa esperança á tristeza
mortal do desengano? Como sabes tu que ella vive... e é minha filha?

José de Sá

Escuta.


SCENA V

OS MESMOS E UM CREADO, O CREADO COM UM BILHETE DE VISITA N'UMA BANDEJA

Jorge _(lendo)_

Rodrigo de Vasconcellos _(Declamando:)_ Que vem aqui fazer este homem?
Não lhe fallo... Em que occasião!..

José de Sá

Ha de sobrar-nos tempo. Falla-lhe; mas não deixes apagar pela rajada da
colera a ideia luminosa de que tens uma filha. _(Ao creado)_ Que entre.
_(O creado sáe)._

Vou para o meu quarto. Quando elle tiver sahido voltarei. _(Sáe)._


SCENA VI

RODRIGO E JORGE

Rodrigo _(com altivez sarcastica)_

Não sei a quem tenho a honra de me dirigir.

Jorge

Já tive a honra de lhe dizer que o perguntasse a seu pae.

Rodrigo _(com solemnidade e tristeza)_

Meu pae não me responde. Soffre em silencio, e eu receio que elle morra.
Quem é o snr. que entrou nas minhas salas, e introduziu no seio da minha
familia o escandalo e a desgraça em presença de centenares de testemunhas?

Jorge

Entrei nas suas salas, tencionando sahir d'ellas dignamente como seu pae
não costumava sahir. Não dei escandalo. Os seus convidados viram um
homem estremecer e desmaiar diante de mim sem que eu lhe chamasse sequer
infame.

Rodrigo

Lembro-lhe que está fallando com um filho do visconde de Vasconcellos.

Jorge

Sei isso. Tome nota do conhecimento que tenho de V. Ex.ª, para todos os
effeitos. Quer por tanto saber quem sou? A minha biographia diz-se
depressa. Fui amigo de seu pae, desde a infancia que ambos passamos no
collegio dos Nobres. Cazei. Era suprema a felicidade de marido, quando
convidei seu pae a vêr nas doçuras da minha vida intima o soberano bem
d'este mundo. Disse-me seu pae que via em minha mulher a belleza do anjo
e o coração da sancta. D'este anjo e d'esta sancta fez seu pae uma
adultera. Deshonrou-me. Matei-a. Seu pae fugiu. Eu encarcerei-me;
esperei a sentença, e fui condemnado a degredo. Ha seis mezes que sahi
de Africa. Vim vêr seu pae. Vêl-o e mais nada. Vi. Achei-o miseravel até
ao asco. Repelle e enoja. A Providencia fêl-o asqueroso. Deixei-o á
Providencia, que sabe a rasão mysteriosa porque taes creaturas se fazem.
Resta-me dizer-lhe o meu nome. Sou Jacome da Silveira.

Rodrigo

Ouvi dizer ahi que meu pae fugiu. Não creio.

Jorge

Informe-se.

Rodrigo

Meu pae é um cavalheiro.

Jorge

Em relação a mim, seu pae é um villão. Desejo que V. Ex.ª não torne
irrisoria esta nossa já longa, primeira e ultima pratica. Parece-me
irracional, senão insensata a noticia que me dá do cavalheirismo de seu
pae, quando eu lhe conto uma historia...

Rodrigo _(com desdem)_

Vulgar.

Jorge

São vulgares na sua familia estas historias? Semelhante cynismo vae mal
e indecorosamente a um marido! Bom será que sua senhora não se
familiarise com historias assim vulgares, principalmente se aos
infamissimos personagens se dá o nome de cavalheiros.

Rodrigo

Minha mulher não tem que vêr com a nossa entrevista, snr.

Jorge

De accôrdo. Respeito-a muito. Nunca vi lagrimas mais dignas da virtude.
É pena que ella chore n'este tremedal...

Rodrigo

Insisto em affirmar que meu pae é cavalheiro. Não ouso condemnar as
fragilidades d'elle. Limito-me a lastimal-as, tanto mais que nenhum
homem, virtuoso ou vicioso, educou um filho com tão elevados conselhos e
exemplos.

Jorge _(sorrindo)_

Exemplos!

Rodrigo

Nunca deslizei da linha da honra que meu pae me traçou. Adivinhei que
elle havia soffrido uma cruel catastrophe em sua mocidade, por que no
vigor da vida o conheci triste, apartado da sociedade, sombrio, e só. Ha
trez dias soube a causa da sua longa expiação--expiação emfim acabada,
porque sei que meu pae chegou ao termo de sua funesta carreira, e
estende os braços para a bemaventurança da sepultura. No entanto, se
elle podesse desafogar-se das dores mortaes que o abafam, V. Ex.ª
encontraria deante da sua mal empregada bravura o homem que lhe não
fugiu; mas fugiu á horrenda contingencia de matar o homem que tinha
offendido. Permitta Deus que meu tão honrado quanto infeliz pae
restaure, pouco que seja, de suas forças, e V. Ex.ª conte com um peito
bem a descoberto do seu ferro, se á sua vingança se fazem necessarias
algumas gottas de sangue.

Jorge

Regeito. Eu quero que seu pae viva.

Rodrigo

Sem embargo d'essa sarcastica concessão de vida, cumpre-me dizer ao snr.
Silveira: primeiro, que tenho um só nome, e que o não mudarei quando
houver de insultar o mais valente, ou o mais covarde; segundo, que,
morto meu pae da angustia que o abateu, hei de obrigar o seu indirecto
assassino a retirar de sobre a sua campa as injurias cuspidas sobre as
cans d'um velho, cujo crime, longamente expiado, o havia posto na
posição alta onde os vituperios de V. Ex.ª não deviam chegar; terceira,
que sinto um verdadeiro prazer na hypothese de que o snr. Silveira terá
a coragem que inculca.

Jorge

Eu tenho apenas inculcado desprêso; e d'hora em diante não poderei senão
inculcar o tedio que o snr. Vasconcellos me está fazendo. _(Aponta-lhe a
sahida da sala)._

Rodrigo

Concluiremos n'outra parte. _(Sáe)._


SCENA VII

JORGE E JOSÉ DE SÁ

José de Sá

Ouvi tudo. Mal vae isto, Jacome! Bem pressagiava eu que se estão
encadeando outros elos á corrente das tuas fatalidades!.. Como evitarás
o duelo?

Jorge _(serenamente)_

Em meio de tudo isto, o rapaz teve momentos em que me abalou
profundamente. Via-se ali um filho, nobre coração de filho. D'uma vez
divisei-lhe lagrimas. Se elle, n'esse lance, me diz que seu pae era um
desgraçado digno de compaixão, eu creio que lhe diria: «Peça a Deus que
quebre ao penitente os espinhos do remorso; que eu deixal-o-hei a sós
com o fantasma que o arrasta á sepultura...» E, depois, que immensa
piedade me fez a mulher d'este moço, aquella doce alma que se desfazia
em prantos pedindo-me commiseração...

José de Sá

Calculemos o progresso d'esta nova calamidade. O visconde, fulminado
pela tua presença, provavelmente succumbe. Se elle morre, o filho
desafia-te. Irás ao campo. Se o matas, matarás um homem que quiz, com ou
sem razão, defender a memoria de seu pae. Imagina o restante da tua
vida, da tua velhice, com mais um fantasma para as tuas noites de
insomnia. Se elle te mata, fechaste lastimavelmente o cyclo das tuas
desventuras. Morres sem que os teus amigos de ti possam dizer que tinhas
precisão de morrer legitimamente; quero dizer, que acabaste consoante as
leis da honra; por que eu considero trez vezes scelerado o homem que vae
n'um duelo apontar uma pistola ao peito d'outro que não odeia. Que
rancor podes ter ao filho do visconde? ao marido d'aquella meiga
creatura que hontem chorava diante de ti com a uncção do anjo que pede
commiseração para a perversidade humana? Não te disse ella que, se
tivesses uma filha, os odios entranhados em teu coração sahiriam nas
primeiras lagrimas de contentamento? Pois bem. Tratemos de procurar
essa, filha de cujo amor depende a tua regeneração. Vejamos se ainda ha
n'esta vida algum contentamento para ti. Se estas esperanças fallecerem,
joga a tua vida nos desafios, ou para te entreteres matando, ou para
morrer entretido.

Jorge

Vamos... conta-me o teu sonho.

José de Sá

O meu sonho, se sonho é, começa na deploravel noite em que D. Martha
sentindo aproximar-se a morte...

Jorge

Depressa.

José de Sá

Antes de expirar escreveu uma carta.

Jorge

A quem?

José de Sá _(tirando a carta da carteira)_

Á irmã que tinha no convento da Encarnação. Lê.

Jorge _(examina a lettra com grande commoção)_

Lê tu... Não posso.

José de Sá _(lendo)_

«Minha irmã, escrevo-te nas ancias de uma terrivel morte. Morro
envenenada por Jacome. Invoco o sancto nome de Deus para jurar que
Leonor é filha de meu marido. Elle disse que não era seu pae quando eu
lhe pedi que a não desamparasse. Mostra-lhe este meu juramento, feito ao
ir d'esta vida á presença de Deus. Se elle a desamparar, dá-lhe tu
metade do teu pão. Adeus. Chora-me e pede ao Senhor pela tua pobre Martha.»

D. Maria da Gloria recebeu esta carta, sahiu do convento, e entrou em
tua casa, quando a irmã era morta. Eu dirigi o enterro da defuncta, e na
volta do cemiterio soube que D. Maria da Gloria tinha levado a sobrinha.
Indaguei na Encarnação; ninguem me soube dizer a paragem de tua cunhada.

Jorge

E soubeste depois?..

José de Sá

Quem o sabia era um teu creado velho que já o havia sido do pae de
Martha; mas esse disse-me que jurára a D. Maria da Gloria nunca divulgar
a residencia da filha de sua irmã.

Jorge

Porque?

José de Sá

Porque não queria atirar aos desprêsos do mundo a filha d'uma senhora
assassinada...

Jorge

Nada me disseste...

José de Sá

Que importava dizer-t'o para Loanda? Sobejavam-te lá mortificações. Além
de que a delicadeza impunha-me o dever de te não fallar da creança que
tu não julgavas tua filha.

Jorge

Mas esta carta...

José de Sá

Esta carta está em meu poder ha dois annos.

Jorge

Quem t'a deu? Maria da Gloria? Então onde está Maria da Gloria? onde
está minha filha?

José de Sá

Quando ha dois annos voltei da Exposição de Pariz, encontrei no meu
escriptorio uma carta escripta vinte dias antes e assignada por um
empregado do hospital de S. José, pedindo-me que chegasse lá para
negocio urgente. O empregado chamou um enfermeiro, o qual me apresentou
uma carta ditada pelo teu creado, nos ultimos momentos de vida, em que
declarava que D. Maria da Gloria o mandara chamar, cinco annos antes, em
perigo de morte, e lhe entregara uma carta para te ser entregue se
voltasses a Portugal. E no ponto em que ia proferir o nome do convento
onde tua filha estava, expirou golfando sangue.

Jorge

E afinal? onde está minha filha?

José de Sá

Até hoje tem sido frustradas as minhas dilligencias nos conventos de
Lisboa; mas tu vaes lançar mão de recursos em que tenho toda a confiança.

Jorge

Quaes? Que esperanças me dás, José de Sá?


SCENA VIII

OS MESMOS E UM CREADO

Creado

Procura V. Ex.ª o snr. Pedro Gavião Aranha.

Jorge _(a José de Sá)_

Já será o cartel? _(ao creado)_ Que entre. _(O creado sáe)._

José de Sá _(sorrindo)_

Jacome, olha que temos de procurar tua filha.

Jorge

Na eternidade?


SCENA IX

OS MESMOS E PEDRO ARANHA

Pedro _(cortejando-os)_

Snr. Silveira, snr. conselheiro. A minha missão é triste...

Jorge _(risonho)_

Eu havia adivinhado a sua missão triste.

Pedro

Que tinha V. Ex.ª adivinhado? Isso é extraordinario!

Jorge

Vem representar o pundonor agastado do snr. Rodrigo de Vasconcellos?

Pedro

Não, snr. Rodrigo de Vasconcellos, d'aqui a poucas horas, se verter
sangue, será o de suas lagrimas. V. Ex.ª entrando n'aquella casa,
fulminou a felicidade de dois esposos que se adoravam, e o futuro d'uma
creancinha que me parece condemnada a não poder dizer o nome de seus paes.

Jorge

Que lhes fiz eu?

Pedro

Creio bem que V. Ex.ª, trasido na onda da fatalidade, senão antes pela
mão da Providencia, o mal que fez, as tempestades que levantou, não as
promoveu voluntariamente. O snr. Jacome da Silveira quando entrou em
casa de Rodrigo de Vasconcellos, e viu os sobresaltos e anciedades de D.
Eugenia, decerto não podia prever que ia separar os dois esposos
dilacerando-os pelo coração.

Jorge

Não o entendo, snr. Aranha!.. Que é? Eu separei e dilacerei os corações
dos dois esposos! Que tenho eu que vêr com um ou outro? A snr.ª D.
Eugenia fallou-me de outra que morreu, e disse-me que ouvira contar a
sua historia, e chorou, não sei se compadecida de mim se d'ella... Tinha
uma pulseira com um retrato, que denunciava a impudencia de quem o
possuira e lh'o dera...

Pedro

O retrato que D. Eugenia tinha na pulseira era o retrato de sua mãe.

Jorge

Isso é falso, snr.! O retrato era d'uma mulher que se chamou Martha, e
foi amante de... _(sustendo o impeto de colera)_.

Pedro

Sem duvida nenhuma. O retrato da snr.ª D. Martha é o que a snr.ª D.
Eugenia tem na pulseira.

Jorge

Não me diga pois que o retrato é da mãe d'essa senhora.

Pedro

Affirmo a V. Ex.ª que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos é filha de D.
Martha de Villasboas, e que a pulseira não a houve do sogro, mas sim de
D. Maria da Gloria, irmã de sua mãe.

Jorge _(rapido)_

Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, José de Sá? Repita o snr...

Pedro

Que o filho do visconde está casado com uma senhora cuja filiação ainda
hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex.ª foi o marido de sua mãe, e
tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que
V. Ex.ª, desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsára uma menina
chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e
d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou.
Esta deploravel senhora está hoje apertada na cruelissima angustia de se
vêr apontada por V. Ex.ª como filha do pae de seu marido. Este conflicto
é pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade está exaltada por
sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruição rapida que a
paixão e a vergonha estão fazendo n'aquella desoladissima
senhora--vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno,
e como suspeita filha do cumplice de sua mãe, e esposa de seu proprio
irmão! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que
occultasse o mysterio do seu nascimento. «Não posso, bradou ella,
sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situação. Se o visconde
é meu pae, receio vêl-o morrer ás mãos do matador de minha mãe; se meu
pae é Jacome da Silveira, eu não posso deixar de me abraçar n'aquelle
grande desgraçado, e dizer-lhe que sou sua filha!»

Jorge _(interrompendo-o com as mãos fincadas nos braços d'elle)_

Ouça, snr... Ella chamou-se Leonor? É filha de Martha? Foi ella mesma
que lhe disse: «eu sou filha de Martha?»

Pedro

Quem poderia dizer-m'o senão a snr.ª D. Eugenia?

Jorge

José, como comprehendes tu isto?

José de Sá

Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo á borda d'um abysmo
em que tarde ou cedo cahirias.

Jorge

Vá dizer-lhe que está aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o
rosto de lagrimas quando a deixei no berço aos trez annos. Diga-lhe que
ajoelhei com ella nos braços, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo
no coração que se despedaçou quando a infernal duvida m'a desentranhou
do peito, e eu a repulsei, exclamando: «não és minha filha». Nas
primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra
compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de
rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada,
punha-me na face a mão e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos
aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: «pae». Eu despertava, e
cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre
o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a
no céo, parecia-me vêl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que
passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que
reuniu em si quantas agonias Deus pôde crear n'um dia de cruel
omnipotencia. Eu não podia então chorar como hoje. Deus não me deu a
esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que
viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo
ainda me apparecia e dizia: «Espera» Chegaram. Sinto as lagrimas.
Sinto-as no coração, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me
suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. _(sorrindo)_ Deus!.. Onde
hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraça, um acaso, um
accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao
marido? ao filho do meu algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha
filha não é um bem com que Deus me premeia... É uma nova esponja de fel,
que me dão para eu matar a minha sêde d'amor e de felicidade. Não
existe... Leonor está morta para mim... para sempre morta... meu Deus!..
Deixai-me choral-a segunda vez. _(Esconde o rosto soluçante entre as
mãos)._


FIM DO PRIMEIRO QUADRO



2.º QUADRO

Ante-camara luxuosa. D. Eugenia ajoelhada á beira de um berço com
armação de cortinados, contemplando um filho de poucos mezes. Rodrigo,
com o aspeito quebrantado, vem entrando vagarosamente.


SCENA I

D. EUGENIA E RODRIGO

Rodrigo _(com muita brandura)_

Eugenia...

D. Eugenia _(levantando-se)_

Meu bom anjo, estavas aqui?

Rodrigo

O sorriso da creancinha alumiou a escuridão da tua alma?

D. Eugenia

Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe está gemendo o coração...
_(beijando o rosto da creança)_ Eu não posso com tantas agonias,
Rodrigo! _(abraçando-o impetuosamente)_ Espedaça-me o arrependimento de
não te haver dito o nome de minha mãe... Eu sei que teu pae me daria o
pão da subsistencia ainda que não fosse causa da morte d'ella; mas minha
tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome
de minha mãe; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se
compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da
pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia,
lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das
manchas do opprobrio da minha infeliz mãe. Mas o que ella me não disse
foi que eu não poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella não
quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irmã assassinada. Nem me revelou
quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a
duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a
nossa familia. Se elle não é meu pae, Rodrigo, que me és tu a mim? Não
vês que o marido de minha mãe dirá que eu sou tua irmã, e que o nosso
filho herda a deshonra d'esta nossa união impossivel... impossivel, meu
Deus!

Rodrigo

Que queres tu pois fazer da tua vida, da minha, e d'esta creança?!

D. Eugenia

Não m'o perguntes a mim, que morro de afflicção! Ensina-me a ter
animo... Dize-me, Rodrigo, como ha de chegar um raio de luz a esta nossa
situação tão negra! Que te diz o coração, filho?

Rodrigo

Que esperemos, Eugenia. Quando meu pae estiver menos febril,
perguntar-lhe-hei com dolorosa franqueza o segredo do teu nascimento, e...

D. Eugenia _(interrompendo-o anciada)_

Não perguntes que pódes matal-o. Se elle tem de morrer, que vá sem a
terrivel surpreza de saber quem sou. Poupa-o, que eu tenho tanta pena
d'elle como de ti. Não lhe digas quem sou. Ha nada mais afflictivo? Ó
Rodrigo, que horrenda angustia a d'elle se eu sou... sua filha!
_(Esconde o rosto nas mãos)._

Rodrigo

Ahi vem o pae...


SCENA II

OS MESMOS E O VISCONDE

_O visconde vem amparado por dois creados_

Rodrigo _(adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)_

Óptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. _(Rodrigo e Eugenia vão
recebel-o dos braços dos creados, e conduzem-o á cadeira)._

D. Eugenia

Está muito melhor...

Visconde

Estou, filha.

Rodrigo

Que sente agora?

Visconde

Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que
chega a noite da morte. _(Fitando Eugenia)_ Como está desfeita a sua
formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, começa a morte a sua obra
de destruição... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como não
conheceu mãe nem pae, o grande amor filial que tinha no seu coração,
deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto...
Cheguem para aqui o berço. Quero vêr o meu Álvaro... _(Approxima Eugenia
o berço)_ Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos.
Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. _(A
Eugenia que faz menção de o tirar do berço)_ Não, não. Deixal-o
dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de têl-a. Para os grandes
desgraçados o sepulchro é suave e socegado como o berço das creanças.
Eugenia, venha aqui... Não chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu
viver.

D. Eugenia

Eu não choro... o pae ha de restabelecer-se. _(Rodrigo gesticula a
Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a não veja)._

Rodrigo

Meu pae. _(Espera instantes que o pae levante a cabeça)._

Visconde

Eugenia?

Rodrigo

Foi lá dentro. Na ausencia d'ella, faço uma pergunta a meu pae, e da
ousadia lhe peço perdão.

Visconde

Pergunta.

Rodrigo

Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira,
tinha filhos?

Visconde

Uma filha.

Rodrigo

Que se chamava...

Visconde

Leonor. Uma creança entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes
alguma coisa d'essa menina?

Rodrigo

Meu pae soube que destino lhe deram?

Visconde

Não. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella
tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegára de
filha aleivosamente, mas digno de desculpa...

Rodrigo

Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira?

Visconde

Como tu tens a certeza de que este filho é teu: jural-o-hei com os olhos
na sepultura, e o coração na misericordia de Deus. Quando comecei a...
cavar o abysmo da minha victima... Leonor já tinha dois annos e meio, e
fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia
dizer-me: «Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem mãe» E ficou.
_(Eugenia, que tem ouvido muito alvoroçada este dialogo, n'este lance
corre em grande transporte aos braços de Rodrigo)._

D. Eugenia

Graças, graças, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do céo! Agora sim,
que toda a minha alma respira desopprimida! És meu Rodrigo! _(Ajoelhando
aos pés do visconde)_ Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o
coração, e de sobre esta creança um affrontoso opprobrio!

Visconde _(enleado)_

Que é?! que diz, Eugenia?

D. Eugenia

Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que
morreu... Sou a orfã que a mãe de Deus guiou até ao coração de seu filho.

Visconde _(agitadissimo)_

É isto febre, meus filhos? é o delirio dos ultimos arrancos? Não me está
esta senhora dizendo que é filha de Martha?!

D. Eugenia

Sou... sou...

Visconde

Ajudai-me... erguei-me... Forças, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia
para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e
extremosa das mães... o coração mais sancto do amor maternal. Formosa
como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz,
virtuosa, boa... Mas... matei-a... Não foi teu pae que a matou,
Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os
dentes convulsos, e rojar-se no chão, e atirar-se a gritar para o teu
berço, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a
despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais
rica e florida existencia para um torrão desconhecido do cemiterio, para
a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame!
Fui eu... eu fui o algoz... _(Resvala á cadeira, soluça e prosegue:)_
Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mãos erguidas o penitente na
agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu
pae que me perdôe. Dize-lhe que é um agonisante que lh'o pede... Um
homem que até esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus,
não quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a
teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas...
Chora-lhe no coração, que a piedade renascerá, e o perdão virá a tempo
de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...


SCENA III

OS MESMOS, E PEDRO ARANHA

Pedro _(a D. Eugenia)_

Se V. Ex.ª quizesse sahir á primeira salla, encontraria seu pae.

D. Eugenia

Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo!

Visconde

Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de
Vasconcellos lhe pede perdão.


SCENA ULTIMA

OS MESMOS, JOSÉ DE SA E JORGE DE MENDANHA

Jorge _(com as costas voltadas para o visconde)_

Aqui estou, Leonor. _(Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar)._ Não
ajoelhes. Se algum de nós deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada
estás do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espaço de
vinte e um annos. Agora, o que pódes dar-me é lagrimas. Eu t'as recebo
como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. _(Rodrigo
approxima-se)_ Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre
coração de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa
saber que ella é rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de
fortuna, como não podiam dar-me um instante de paz, não se perderam.
Poderás enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas não forem de
angustias tamanhas como a minha.

D. Eugenia _(ajoelhando)_

O perdão, meu pae!

Jorge

Que tenho eu que perdoar-te, anjo?!

D. Eugenia

O perdão... para o pae de meu marido. _(O visconde está erguido e
amparado nos braços de Pedro Aranha e José de Sá)._

Jorge _(sem olhar para o visconde)_

A misericordia dos homens não póde ser mais indulgente que a de Deus.
Quando esse homem não sentir sobre a consciencia o pezo da justiça
divina, o meu perdão ser-lhe-ha inutil. Eu não posso perdoar-lhe a elle,
por que Deus ainda me não perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua mãe.
Elle... que morra a choral-a. _(Aponta-o sem o vêr)._


FIM.

      *      *      *      *      *



COMO OS ANJOS SE VINGAM

DRAMA EM UM ACTO.


PERSONAGENS

    FRANCISCO DE VALLADARES--30 annos, esposo de

    D. ALBERTINA--entre 20 e 25 annos.

    D. ANTONIA DE VALLADARES--irmã de Francisco de Valladares, 25 annos.

    CONSELHEIRO SOUSA--pae de Albertina.

    JOÃO LOBO--medico, entre 30 e 40 annos.

    LEONARDO--creado velho.

    Uma creada, nova.

      *      *      *      *      *



COMO OS ANJOS SE VINGAM



ACTO UNICO

Ante-camara espaçosa, bem mobilada. Portas ao fundo e lado.

_João Lobo vem sahindo do quarto ao fundo. Albertina sáe de pós elle._


SCENA I

JOÃO LOBO E D. ALBERTINA

Albertina _(com vehemencia e receio)_

O nosso doente continua bem, não é verdade, snr. Lobo?

João Lobo

Seu marido, minha senhora, pareceu-me mais concentrado, mais triste.

Albertina _(afflicta)_

Sim?! Peorou?

João Lobo

Deixei-o hontem risonho, com excellente pulso, a planear viagens, bailes...

Albertina _(sobresaltada)_

E tornou a febre, meu Deus?

João Lobo

Sim, ha o quer que seja.... e póde ser que isto não passe d'um
accidente... mas... Que está V. Ex.ª cogitando? Suspeita que alguma
impressão moral...

Albertina _(preoccupada e abstrahida)_

Nada... Eu hontem de tarde sahi para vêr minha mãe. Demorei-me uma hora;
e quando entrei no quarto achei-o a conversar com minha cunhada.
Beijei-o; elle sorriu-se de um modo extranho. Quiz pedir-lhe explicação
d'um ar tão desacostumado na nossa vida de cinco annos; mas temi
inquietal-o. Perguntei depois a minha cunhada se... Ella ahi vem.


SCENA II

OS MESMOS E D. ANTONIA

João Lobo _(comprimentando-a)_

V. Ex.ª nos vae dizer se alguma impressão moral póde explicar a tristeza
e abatimento em que encontro seu mano.

D. Antonia _(desdenhosa)_

Já a mana Albertina me fez a mesma pergunta. Acho curiosa a indagação!
Eu não sei se meu mano recebeu impressões moraes...

João Lobo _(sempre sereno e risonho)_

É que eu deixei-o hontem socegado e alegre...

D. Albertina

É verdade. Bem viu a mana Antonia como elle estava bom quando eu sahi;
depois, encontrei-o com a mana, e fui recebida com certas maneiras...
havia não sei que desconfiança e mysteriosa intelligencia entre meu
marido e...

D. Antonia _(atalhando-a)_

E eu?!

D. Albertina

Sim... pareceu-me...

D. Antonia

Ora esta! Tem coisas esta senhora! Sempre injusta comigo!

D. Albertina

Injusta, não. Sou incapaz de ajuizar mal de ninguem. Não vá o doutor
cuidar que eu tenho sido para a mana Antonia o que ella deixa
entender... Que mal lhe fiz? que injustiças minhas a offenderam?
_(Ouve-se o toque de campainha no quarto de Francisco Valladares)_ O
Francisquinho chama. _(Corre ao quarto)._


SCENA III

JOÃO LOBO E D. ANTONIA

João Lobo

A mim cumpre-me lembrar-lhe, minha senhora, que o estado de seu irmão é
melindroso. Olhe que os dois fios quasi quebrados d'aquella vida estão
mal soldados. Sacudam-lhe a alma com alguma leve paixão, que os fios
partem-se...

D. Antonia _(impaciente)_

Mas que fiz eu ou que disse?!

João Lobo

Não sei o que V. Ex.ª disse ou que fez. O que sei é que a snr.ª D.
Antonia odeia sua cunhada.

D. Antonia

Que calumnia! odeio minha cunhada!

João Lobo _(sempre sereno)_

E, se puder perdêl-a, perde-a.

D. Antonia

Porquê?.. por que hei de eu querer perdêl-a?..

João Lobo

Não lhe respondo. O meu silencio pede á sua consciencia que responda,
minha senhora. E se V. Ex.ª calar a voz da consciencia, verá como ahi na
sociedade do Porto se levantam cem vozes a dizer-lhe...

D. Antonia

O quê?..


SCENA IV

OS MESMOS E D. ALBERTINA

D. Albertina _(alvoroçada)_

Elle está tão inquieto!.. Vamos lá, doutor... _(suspende-se)_ Vá... vá!
_(O doutor entra na alcôva)._


SCENA V

D. ALBERTINA E D. ANTONIA

D. Albertina _(com brandura e commovida)_

Mana Antonia, se me fez mal, remedeie o mal que fez a seu mano e a mim.

D. Antonia

Eu! que teima! que aleivozia!

D. Albertina _(rapida e a meia voz)_

Eu accuso-me de ter querido obrigar a mana Antonia a ser honesta, a ser
uma digna irmã de meu marido. Accuse-se a senhora de ter tentado
vingar-se de mim calumniando-me.

D. Antonia

Que me accuse! É original a ordem! Ahi vem a virtuosa senhora com a
deshonestidade da minha vida! Dê-me licença. Retiro-me que não vá ser
contagiosa a minha deshonestidade! _(Sáe rindo uma rizada nervosa.
Albertina encaminha-se para a alcôva guando o doutor vem sahindo)._


SCENA VI

JOÃO LOBO E D. ALBERTINA

D. Albertina

Já?! que tem elle?

João Lobo

Mandou-me sahir: quer estar só.

D. Albertina _(com espanto)_

Mandou-o sahir?!

João Lobo

Terminantemente; mas com delicadeza.

D. Albertina

Então que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido
possa...

João Lobo

Possa o quê, minha senhora? Enlouquecer? é o que V. Ex.ª quer perguntar?
Não ouso dizer-lhe as minhas suspeitas.

D. Albertina

Então é certo? O Francisco póde enlouquecer?!

João Lobo

Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr.
Francisco Valladares está febril; não está doudo... Aquella febre tem o
ardor d'uns infernos que costumam accender-se n'uns corações
perversissimos...

D. Albertina _(atalhando-o)_

O coração de meu marido é bom, snr. Lobo.

João Lobo

Não me entendeu, snr.ª D. Albertina... Seu marido desconfia da minha
probidade.

D. Albertina

Como? desconfia?!

João Lobo

E da virtude de V. Ex.ª... desconfia tambem.

D. Albertina _(tremula e anciada)_

Não póde ser, não póde ser! _(Faz menção de correr para a alcôva: o
medico sustem-a com um gesto)._

João Lobo _(a meia voz)_

Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos está aconselhando
muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada
começou hontem a obra infame do descredito de V. Ex.ª Era preciso
dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente,
porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do
direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justiça. É sempre
assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da
hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o pé e
cahir com estrondo. O grande caso é cahir sem estrondo. Ora seu marido,
minha nobre senhora, não me julga melhor nem peor do que sou julgado
pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje
talvez preferisse a morte á fraqueza de me chamar... Eu, porém...

D. Albertina _(interrompendo-o)_

Mas então é preciso que eu me defenda já, e na sua presença, snr. Lobo!..

João Lobo

Não, minha senhora. As commoções e luctas que necessariamente
acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr.
Valladares. É cedo. Seu marido por emquanto apenas vê em V. Ex.ª o anjo,
e em mim o tentador. _(sorrindo)_ D'um pobre diabo _(desculpe V. Ex.ª a
phrase plebea)_; d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um
sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos.
Não se impaciente, minha senhora. Olhe que não está sósinha. Quando mais
opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que vê
sempre ao seu lado... a Providencia.

D. Albertina

Mas o meu silencio póde condemnar-me.

João Lobo

Quando a interrogarem responda; mas não provoque altercações. Espere que
seu marido se fortaleça; não queira V. Ex.ª curar uma alma enferma como
a delle. Qualquer balsamo o irritará. E quando eu lhe disser que se
vingue restaurando a sua dignidade, então será tempo de salvar o seu
nome... e o meu. Não posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora.

D. Albertina _(apertando-lhe a mão muito affectuosamente)_

Adeus, meu bom amigo... Não o desampare... _(D. Albertina vae á porta da
alcôva, escuta, e hesita; vae levantar o fêcho quando a porta se abre)._


SCENA VII

D. ALBERTINA E FRANCISCO VALLADARES

_Francisco Valladares extremamente magro e pallido, caminhando a custo.
Veste um rob de chambre_

D. Albertina _(tomando-lhe o braço)_

Pois tu levantas-te, meu filho?

Francisco de Valladares

Estou bom... não vês, Albertina? Sinto-me forte. _(Senta-se prostrado)._

D. Albertina

Ardem-te as mãos... Que imprudencia! O medico consentiu que te levantasses?

Francisco de Valladares _(após uma longa pausa, em que conserva o rosto
escondido nas mãos)_

Quero sahir. O dia está sereno.

D. Albertina

Pois tu queres sahir em convalescença tão arriscada?! Não vês que pódes
recahir!

Francisco de Valladares

A recahida é a cura. Onde uma sepultura se fecha, fechou-se a bôcca d'um
abysmo. A morte quando se aproxima é bella; só vista ao longe, é
horrivel. _(Ergue-se)_ Estou vigoroso. Vou a Cintra. Que tirem a caleche.

D. Albertina

Pela tua vida te rogo que não vás, meu querido filho.

Francisco de Valladares

A minha vida!.. por que me não pedes antes pela minha honra?

D. Albertina

Pois sim, peço-t'o pela tua honra...

Francisco de Valladares

E pela tua...

D. Albertina _(com dignidade)_

O quê? Que me pedes tu?

Francisco de Valladares

A ti?.. que me deixes morrer...

D. Albertina _(muito commovida)_

E tu queres morrer?

Francisco de Valladares

Honrado.


SCENA VIII

OS MESMOS, LEONARDO E DEPOIS O CONSELHEIRO SOUSA

Leonardo

Está aqui o snr. conselheiro Sousa. _(Sáe. D. Albertina vae ao encontro
do pae e beija-lhe a mão)._

Conselheiro

Ólá! a pé! Optima convalescença, snr. Valladares! Ainda hontem lhe davam
vinte dias de cama!..

Francisco de Valladares

Estou melhor.

Conselheiro

E tu como estás, filha?

D. Albertina

Bem; e a mamã peor?

Conselheiro

Peor, e pediu-me que te viesse buscar, se teu marido podesse
dispensar-te. Imagina que morre, e quer todos os filhos á volta da cama.
Já lá estão tuas irmãs.

Francisco de Valladares

Póde ir; eu mesmo insto que vá.

Conselheiro

Tenho ahi a sege; não te demores na _toilette_. _(Sáe Albertina)._


SCENA IX

O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES

Conselheiro

Não seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe
um certo rubor nas faces...

Francisco de Valladares

É signal de bom sangue, quando não seja de nobre vergonha.

Conselheiro

Como?

Francisco de Valladares _(inquieto)_

Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florença... É um
clima restaurador; quem lá não póde viver sente-se morrer mais
suavemente. Os grandes infelizes devem pensar em morrer onde as agonias
lhes sejam menos crueis. Vou só... quero ir só. Estou intratavel,
impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos.

Conselheiro

Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o não deixará ir só.

Francisco de Valladares

Deixa... ha de deixar. Não admitto contradicções que poderiam matar-me...

Conselheiro _(com assombro)_

Matarem-no!.. quem?

Francisco de Valladares

E para quê?! Eu não embaraço a passagem a ninguem! _(Com exaltação de
louco)_ Passem! Praça ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para
me atravessar á bôcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o
coração, mas deixem-me a honra salva.

Conselheiro _(áparte)_

Está perdido!


SCENA X

OS MESMOS E D. ALBERTINA

D. Albertina

Estou prompta, meu pae. _(Aproxima-se do marido, beija-lhe a fronte com
serena altivez)._ Até logo, Francisco.

Conselheiro

O doutor Lobo aconselha viagens a teu marido?

D. Albertina

Eu ainda não ouvi fallar em viagens.

Conselheiro _(encarando-os alternadamente)_

A infelicidade entrou n'esta casa ha poucas horas...

D. Albertina

Entrou, mas ha de sahir. _(Com resolução. Aproxima-se do marido
tocando-lhe no hombro)._ Olha que eu tenho Deus por mim. Hei de vencer.
Vamos, meu pae. _(Sáem)._


SCENA XI

FRANCISCO DE VALLADARES E DEPOIS LEONARDO

Francisco de Valladares

Pois esta mulher sabe que me é suspeita a sua lealdade, e não se
justifica? Não seria natural que me interrogasse com lagrimas e fizesse
ahi grande estrondo com a sua dignidade ferida? _(Tange uma campainha
com phrenesi. Apparece Leonardo)._ A snr.ª D. Antonia?

Leonardo _(com ar de maliciosa candura)_

A snr.ª D. Antonia está a conversar no jardim. V. Ex.ª quer que a chame?

Francisco de Valladares

A conversar... com quem?!

Leonardo

Com o visconde de Espinhal.

Francisco de Valladares

E esse homem está no meu jardim?!

Leonardo

Não, snr.: está no jardim do visinho.

Francisco de Valladares

Chama essa senhora. _(Leonardo sáe)._


SCENA XII

FRANCISCO DE VALLADARES

N'esta casa consideram-me morto... Ha em tudo isto que me cerca e
atormenta o travor da peçonha que está dilacerando uma familia. Assim
que a doença me prostrou, a deshonra chegou ao meu leito de moribundo
para me abafar. _(Inclina a cabeça para o peito; demora-se um instante,
senta-se de golpe, mas a custo, e amparando-se)_ Eu não quero morrer!
Fui um homem inutil; mas antes da minha morte, hei de deixar uma lição
aos infames, e um exemplo aos que não acceitam de boamente o seu
opprobrio. _(Reflectindo)_ É impossivel. O meu coração não podia
enganar-se assim. A duvida nunca passou pelo meu espirito, nem sequer o
receio... Estará ella innocente?..


SCENA XIII

O MESMO E D. ANTONIA

D. Antonia

O mano chamou?

Francisco de Valladares

Chamei.

D. Antonia

Eu tinha ido ao jardim vêr as suas araucarias. Estão lindissimas.

Francisco de Valladares

Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se não descuidasse um momento
dos seus deveres n'umas relações amorosas em que a vi muito arriscada. O
visconde do Espinhal é um homem que tem perdido no conceito da sociedade
algumas senhoras na posição da mana Antonia. O mundo, que despreza as
mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de
conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua
reputação. Á justiça ou á dignidade dos irmãos e dos maridos responde
com o duello; e á moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu,
prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe
pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi á mana que terminasse essa
perigosa inclinação. Antonia prometteu terminar. Cumpriu?

D. Antonia _(hesitante)_

Cumpri, mano Francisco.

Francisco de Valladares

É sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros é tão sincera como
quando se absolve a si?

D. Antonia

Não percebo...

Francisco de Valladares

Mentiu; mas está perdoada com a condição de desmentir-se das suspeitas
que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua
cunhada. Chamo a sua consciencia á presença de Deus. Diga, mana Antonia,
que viu? em que funda as suas desconfianças?

D. Antonia

As minhas desconfianças?..

Francisco de Valladares

Sim; não me obrigue a repetir o que está bem impresso na sua lembrança.

D. Antonia

Eu já disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que
inspiram suspeitas até certo ponto... sim, eu desconfiei porque...

Francisco de Valladares

Essa hesitação parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado
a pobre Albertina...

D. Antonia

Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar.

Francisco de Valladares

Bem. Diga então lá desembaraçadamente. _(Vê-se ao fundo Leonardo que
escuta por entre o reposteiro)._

D. Antonia

Disse e digo que Albertina faz ostentação de virtudes que não tem.

Francisco de Valladares

Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o coração
distrahido...

D. Antonia

Foi isso.

Francisco de Valladares

E que Albertina amava o doutor Lobo.

D. Antonia

Justamente.

Francisco de Valladares

Agora venham as provas que hontem lhe não pude pedir porque Albertina
entrou.

D. Antonia

As provas!

Francisco de Valladares

Tem as provas?

D. Antonia

Para que quer o mano saber... São coisas que o affligem, e lhe aggravam
os padecimentos.

Francisco de Valladares

Não me dê razões parvas. _(Ergue-se convulso)_ Responda! Mando que
responda! As provas?

D. Antonia

Não se exaspere. Eu vou satisfazêl-o... Quando o medico sahiu uma vez do
seu quarto, Albertina esperou-o n'esta salêta, e demorou-se algum tempo
a conversar com elle, tendo-lhe as mãos apertadas nas d'ella. Outra vez,
a creada de sala contou-me que ella estava a chorar de joelhos, e o
medico a levantara com muito carinho e palavras meigas. D'outra vez fui
eu que a vi abraçada n'elle com ar de grande alegria... Outra pessoa me
disse tambem que a vira sahir de casa do medico e entrar n'uma sege...

Francisco de Valladares

Que pessoa?

D. Antonia

Certa pessoa...

Francisco de Valladares _(irritado)_

O nome?

D. Antonia

O visconde do Espinhal.

Francisco de Valladares

Já o nome de minha mulher cahiu n'essa sentina? _(muito agitado)_ Então
está perdido tudo! Embora esteja innocente, Albertina perdeu-se! A
deshonra da mulher de Fracisco de Valladares é propalada pelo visconde
do Espinhal. _(Fita a irmã rancorosamente, travando-lhe do braço)_ Se
ella estiver pura, é preciso que a senhora vá ser infame longe d'esta
casa onde morreu sua mãe... _(Francisco de Valladares sáe impetuosamente
a entrar no quarto, mas encosta-se de fraco ao espaldar d'uma poltrona.
Leonardo sáe apressado a dar-lhe o braço)._


SCENA XIV

OS MESMOS E LEONARDO

Francisco de Valladares

Onde estavas, Leonardo?

Leonardo

Passava no corredor quando V. Ex.ª ia cahir.

Francisco de Valladares

Eu não cáio. Deixa-me só. _(Entra no quarto)._


SCENA XV

D. ANTONIA E LEONARDO

Leonardo _(com respeito)_

Minha senhora, vou-lhe pedir um favor por alma de sua mãe. A menina é
christã, e não ha de faltar-me.

D. Antonia _(com sobranceria)_

Que quer?

Leonardo

Que se arrependa emquanto é tempo, e vá dizer a seu mano que a senhora
faltou á verdade na intriga que armou á sua pobre cunhada. Faça-me isto,
porque a senhora é catholica.

D. Antonia

Quem lhe permittiu o atrevimento de me fallar assim?

Leonardo

Isto não é atrevimento, senhora; é confiança e amisade de creado antigo.

D. Antonia

Os creados antigos são sempre creados, entendeu? _(Menção de sahir)._

Leonardo

A menina faz favor de me ouvir aqui baixinho? _(Á bôcca da scena)._

D. Antonia

Diga.

Leonardo

Lembre-se que sua cunhada desfaz esta meada quando quizer; e se ella a
não desfizer, desfaço-a eu, dou-lhe a minha palavra de homem catholico,
que me preso de ser.

D. Antonia _(alto)_

Que meada? que meada?

Leonardo

A menina quer que eu lhe responda tambem a gritar? Veja lá. Seu mano
está alli pertinho, e a demanda póde ficar acabada aqui n'esta sancta
hora. Torno a pedir-lhe por alma de sua mãesinha que vá dizer a seu
irmão que não disse a verdade. A senhora disse a verdade até certas
alturas; mas torceu-lhe as voltas para arranjar a mentira; sim, V. Ex.ª
bem me percebe, e a consciencia lá lhe está gritando; porque a menina é,
foi, e ha de ser sempre catholica.

D. Antonia _(afogando os impetos da ira)_

Que petulante! que villão!


SCENA XVI

OS MESMOS E UMA CREADA

_Leonardo fica ao fundo, escutando ao quarto de Francisco Valladares,
emquanto a creada se aparta com D. Antonia_

Creada _(a meia voz, e rapidamente)_

O snr. visconde mandou saber se havia alguma novidade.

D. Antonia

Elle ainda está no jardim?

Creada

Está, sim, minha senhora.

D. Antonia

Vê se o passas para a sala do meio... Preciso muito fallar-lhe. Quero
sahir d'esta casa quanto antes.

Creada

O peor é se Leonardo dá fé... Veja se o entretém cá para dentro... _(Sáe)._


SCENA XVII

D. ANTONIA E LEONARDO

D. Antonia

Venha cá, Leonardo.

Leonardo

Minha senhora.

D. Antonia

Explique-me essas embrulhadas que esteve atrapalhando. Não o entendi.

Leonardo

Não?! pois então logo lhe explicarei. São horas de dar o lunch ao snr.
Francisquinho. _(Vae a sahir)._

D. Antonia

Espere.

Leonardo

Tenha paciencia que está o doente esperando. _(Sáe)._

D. Antonia

O maldito desconfiou!..


SCENA XVIII

D. ANTONIA E O CONSELHEIRO SOUSA

Conselheiro _(a D. Antonia com severidade)_

Seu mano, senhora?

D. Antonia

Está no seu quarto.

Conselheiro

Avise-o de que o estou esperando.

D. Antonia

Elle ahi vem. _(Sáe)._


SCENA XIX

CONSELHEIRO E FRANCISCO DE VALLADARES

Conselheiro

Snr. Valladares, minha filha descreveu-me com mais lagrimas que palavras
a infelicidade com que a Providencia a está castigando porque me
desobedeceu. O snr. Valladares soffre tambem porque induziu minha filha
a rebellar-se contra a vontade de seu pae. Adivinhei que Albertina seria
desgraçada; mas nunca me feriu o coração o receio de que o snr.
diffamasse minha filha com affrontosas suspeitas. Albertina tem um
defensor; sou eu, é seu pae. Accuse-a na minha presença.

Francisco de Valladares _(com enfado)_

Estou doente, estou febril, snr.; não venha atormentar-me... Esses ares
magestosos de pae irritado não me salvam da ignominia, nem desculpam os
desvarios da snr.ª D. Albertina. A accusação, se houver de fazer-se, não
tem de ser julgada por juiz tão incompetente, como V. Ex.ª Ora, se eu
não me queixo para que ha de queixar-se o snr. conselheiro? Eu, por
emquanto, resumo os meus queixumes em dizer-lhe que estou aviltado, que
sou escarnecido, que pertenço aos incentivos da zombaria, e contribuo
para sustentar á custa da minha dignidade a irrisão nos salões e nas
praças onde se applaude o impudor do visconde do Espinhal, e de...

Conselheiro

Basta. Ouvi ahi um nome que é personagem n'este romance torpe que V.
Ex.ª está urdindo. O visconde do Espinhal!.. As salas onde este illustre
devasso é recebido são as salas de muito homem de bem, incluindo as
suas, snr. Valladares.

Francisco de Valladares

As minhas!.. as minhas!..

Conselheiro

As suas.

Francisco de Valladares

Já encontrou em minha casa o visconde?

Conselheiro

Não, snr., por que eu nunca entrei nas suas alcôvas.

Francisco de Valladares

Isso é uma insinuação hedionda, snr. conselheiro!

Conselheiro

Insinuação hedionda e vilissimo affrontamento é o que o snr. está
cuspindo na cara de minha filha. Sou pae, snr.; e sou pae de uma mulher
virtuosa que outra mulher perdida calumniou. A hora da justiça não
tardará. O cumplice de minha filha será interrogado na presença do
calumniador.

Francisco de Valladares

Na minha presença! É original o escandalo! Então V. Ex.ª quer fazer
justiça, ridiculisando-me? Não o conseguirá, que eu estou em minha casa;
bom será lembrar-lh'o.

Conselheiro

Não me esqueci; mas, se a intenção da indelicadeza é mandar-me sahir,
declaro-lhe que não sahirei, sem levar d'aqui a minha filha a retratação
de V. Ex.ª Provavelmente ella não voltará a esta casa...


SCENA XX

OS MESMOS E D. ALBERTINA

D. Albertina

Volto, aqui estou, por que não hei de voltar?! _(serenamente)_ O pae não
me deu tempo a estar com a mamã alguns instantes. Receiei que tivesse
vindo para aqui, e magoadamente lhe digo que me arrependi de ser tão
expansiva!.. Como estás abatido, meu pobre Francisco! Matam-te, meu
filho! Parece incrivel que a Providencia divina não diga á tua alma que
eu estou innocente!

Francisco de Valladares _(concentrado)_

Seria preciso que a Providencia tivesse cegado as que a viram sahir de
casa de... _(Retrahindo-se com doloroso esforço)._


SCENA XXI

OS MESMOS, LEONARDO, E DEPOIS JOÃO LOBO

Leonardo

O snr. doutor Lobo. _(Sáe)._

Francisco de Valladares _(ao conselheiro)_

Esta indecente situação preparou-m'a V. Ex.ª!

D. Albertina _(afflicta)_

Que vem a ser isto, meu pae? Não vê o estado de meu marido?!

Conselheiro

Importa-me a tua dignidade muito mais.


SCENA XXII

OS MESMOS E JOÃO LOBO

João Lobo

Felizmente que eu chegava a casa quando recebi o recado.

Conselheiro

Fui eu, snr. doutor, que pedi a sua vinda.

João Lobo _(tomando o pulso de Francisco Valladares)_

Isto assim não vae bem, snr. Valladares. Se V. Ex.ª não quer, ou não
póde subordinar á rasão e á necessidade o alvoroço em que está o seu
espirito, mais doente do que o corpo, não tenho que fazer aqui. Tenha a
briosa coragem de ser homem, para viver. _(Francisco de Valladares faz
um gesto de constrangimento, sorrindo-se com amargura)._

Conselheiro

É o que elle faz, snr. Lobo. Vae affastar de si as pessoas que o
atormentam, ou mais exactamente são essas pessoas que muito por sua
vontade se affastam. Eu sou uma, e minha filha é a outra pessoa
importuna que está impeçonhando o máo ár que este doente respira.

João Lobo

Sua filha?! Pois a snr.ª D. Albertina atormenta seu marido?! V. Ex.ª sem
duvida proferiu um gracejo ou uma ironia, mas ha n'isso alguma coisa que
me punge como principal testemunha do incomparavel amor que esta senhora
tem a seu marido, ou tinha ha poucos dias. E como principal testemunha,
embora não seja chamada, vou depôr n'este pleito, e hei de ser escutado
pela delicadeza de V. Ex.as _(Circumvagando a vista pela sala)_ Falta
alguem no meu auditorio. O tribunal não póde funccionar sem a presença
da snr.ª D. Antonia. Requeiro que seja chamada S. Ex.ª _(O conselheiro
tange a campainha)._

Francisco de Valladares _(erguendo-se com impeto)_

Eu é que me nego a pertencer ao seu auditorio, snr. João Lobo. Querem
sujeitar-me a uma tutella vergonhosa! _(Quer sahir)._

Conselheiro _(retendo-o)_

Não sáia. Prohibe-lh'o a honra de sua mulher. _(A Leonardo que entra)_
Diz á snr.ª D. Antonia que se lhe pede o favor de entrar n'esta sala.
_(Leonardo sáe)._

D. Albertina _(a meia voz)_

Tu precisas de ouvir a minha justificação, Francisco?

Francisco de Valladares _(fixando-a lagrimoso)_

Quem podesse tirar-me de sobre a alma este pezo de infelicidade!..


SCENA XXIII

OS MESMOS, D. ANTONIA E LEONARDO QUE FICA AO FUNDO

_Silencio d'algum segundos. D. Antonia entra sobresaltada_

João Lobo

Ouvi agora dizer, snr.ª D. Antonia, que sua cunhada vae separar-se de
seu marido. Esta má nova commoveu-me tão profundamente quanto eu estava
convencido de que esposos, como estes eram, amantissimos e felizes,
raros se encontrariam, e principalmente nas classes elevadas onde as
apparencias de felicidade conjugal são quasi sempre convencionaes, uma
especie de hypocrisia que é assim mesmo um tal qual respeito que se
presta á virtude. Se V. Ex.ª não sabia isto que me espantou, deve estar
admirada pelo menos...

D. Antonia

Decerto.

João Lobo

E a não ser V. Ex.ª, ninguem como eu póde testemunhar quanto a snr.ª D.
Albertina amava seu marido, posto que, só ha trez mezes fui chamado para
tratar o snr. Valladares; V. Ex.ª porém, que ha cinco annos conhece sua
cunhada em familiar intimidade, decerto póde levantar voz mais
auctorisada em abono d'esta virtuosa senhora. _(Fixam todos D. Albertina
que se mostra mortificada pelo interrogatório)_ Mas, se V. Ex.ª quer ter
a bondade de me conceder a mim a satisfação de ser o primeiro a depôr,
serei eu testemunha, e será V. Ex.ª o juiz. Quando fui chamado á junta
que se fez ao snr. Francisco de Valladares encontrei o seu assistente e
mais facultativos conformes em capitular de incuravel a sua doença.
Recordo-me que ao sahir com os meus collegas da sala da consulta,
encontramos esta senhora na sala immediata com as mãos postas diante de
nós, perguntando se não tinhamos esperança de lhe salvar o esposo.
Ninguem respondia por compaixão; mas eu quasi convencido disse
afoitamente á snr.ª D. Albertina: «seu marido póde restaurar-se, minha
senhora.» Proferidas estas palavras, S. Ex.ª quiz beijar-me as mãos; não
o conseguiu, mas orvalhou-m'as de lagrimas. Comecei o tratamento do snr.
Valladares, por voto do seu assistente. A doença progrediu, desmentindo
os meus vaticinios. Já as esperanças me iam tambem abandonando, e eu a
compenetrar-me das enormes angustias que atormentam a vida do medico,
emquanto elle não sente esfriar-lhe o coração como o dos cadaveres em
que vê desapparecer o orgulho da sciencia. Eu considerava o doente
perdido, quando lhe sobreveio uma pneumonia em extremos de fraqueza. Um
dia, sahi d'aquella alcôva, e encontrei alli de joelhos esta senhora
supplicando-me a vida de seu marido, tão abafada por soluços e perdida
de côres, que, ao levantal-a quasi desmaiada, a amparei nos meus braços
e lhe pedi que suffocasse o chôro para que o doente a não ouvisse.
D'esta vez _(sorrindo)_ recordo-me, sem esconder o riso, que S. Ex.ª,
com a mais perdoavel das prodigalidades, me disse extremamente anciada:
«Eu dou tudo quanto temos a quem salvar meu marido». Vejam como o amor e
a paixão fizeram no elevado espirito d'esta senhora um intervalo de
insensatez!--angelica e sancta insensatez! S. Ex.ª queria dizer talvez
que dava a propria vida pela do esposo; mas o coração antes queria a
indigencia para ambos que vida para um só. Acho mais sublime o
sacrificio dos bens da fortuna. Eu é que não podia acceitar a proposta
sem que o snr. Francisco de Valladares fosse ouvido, por que as
senhoras, segundo o codigo civil, não podem dispôr dos bens do casal...
_(Sorri-se, e vae tomar o pulso ao enfermo)_ Está muito agitado. Se o
estou constrangendo, fecho o depoimento... Dá-me licença que prosiga?..
Mas ainda agora reparo que V. Ex.ª me tem ouvido de pé!.. Eu pedia
que... _(O conselheiro senta-se. D. Antonia tambem com ar de violentada;
D. Albertina permanece em pé, ao lado da poltrona do marido, João Lobo
tambem de pé)._ N'outro dia, tendo-me eu demorado de proposito para dar
tempo aos effeitos d'umas sarjas, foi-me annunciada a visita de uma
senhora que apeava d'uma sege. Eram 7 horas da manhã. Como eu estivesse
ainda recolhido, e minha mãe me dissesse que era a snr.ª D. Albertina
que me procurava afflictivamente, pedi a minha mãe que fosse á sala
receber S. Ex.ª Quando entrei estava a lagrimosa senhora rogando a minha
mãe que me pedisse a mim a salvação de seu marido. O quadro tinha uns
traços de magestosa tristeza! Minha mãe respondia-lhe a chorar que
pediria a Deus, e não ao medico. N'outra occasião, por volta de uma hora
da noute, era eu chamado ao pateo do Club, onde encontrei a esposa do
snr. Valladares. D'esta vez não podia eu já dar-lhe esperanças que não
tinha. Mas vinte e quatro horas depois a febre remittiu, a anciedade
acalmou, o doente sorriu-me, e a esperança renasceu. Mais trez dias
depois, disse eu á snr.ª D. Albertina: «seu marido está livre de
perigo». S. Ex.ª então mais allucinada pelo jubilo do que estivera pela
angustia, abraçou-me, e chamou-me seu querido salvador. Não me chamou
salvador de seu marido; que isto seria uma vulgaridade; chamou-me seu
salvador, como quem diz: «a vida que salvaste é a minha; eu sentia-me
morrer da morte de meu marido». Até aqui o sublime. Agora a loucura da
felicidade. S. Ex.ª foi buscar o seu estojo de joias, poz-m'o entre as
mãos, e disse: «quando tiver esposa dê-lhe esta lembrança da mais feliz
das esposas». Foi-me necessario _(sorrindo)_ convencer aquella senhora
de que eu fiz voto de celibato, e não podia sem infracção do voto
agenciar esposa a quem dar as joias. S. Ex.ª transigiu, e dispensou-me
de quebrantar o proposito. Falta quasi nada á conclusão do meu
depoimento. Depois d'estas commoventes manifestações d'um amor de esposa
virtuosissima, seu mano, snr.ª D. Antonia, influenciado não sei porque
máos espiritos, atira á face sem mancha d'aquella senhora um labeo de
muito injuriosa suspeita. Ora diga-me V. Ex.ª se isto não é injustiça
para fazer chorar os anjos! _(D. Antonia parece quebrantada)._

Conselheiro _(erguendo-se)_

O meu depoimento é mais breve.

D. Albertina _(correndo para o pae)_

Pela vida de minha mãe... por tudo que ha mais nobre e sancto na sua
alma!..

Conselheiro

O que ha mais sancto na minha alma é a tua honra.

D. Albertina

Mas meu marido está seguro da minha innocencia, e não precisa que eu me
justifique.

Conselheiro

Eu é que devo e quero justificar a tua sahida d'esta casa.

Francisco de Valladares

E quem diz a V. Ex.ª que minha mulher sae d'esta casa?

Conselheiro

Nenhum direito obriga minha filha a conciliar-se tão de barato com quem
a infamou. O marido que desacredita sua mulher innocente é apenas... um
baixo calumniador sem direito a impôr-lhe a obrigação de o amar, e muito
menos de o soffrer. Não póde a minha filha morar sob o mesmo tecto da
snr.ª D. Antonia.

D. Albertina _(a D. Antonia a meia voz)_

Mana Antonia, é melhor sahir d'esta sala. Eu vou remediar como puder
este infortunio.

D. Antonia _(erguendo-se animosa)_

Como a senhora quizer. _(Vae sahir)._

Francisco de Valladares _(á irmã)_

Espere!

Conselheiro

O que deu causa á torpe aleivosia d'esta senhora foi minha filha ter
reprehendido brandamente sua cunhada porque as suas tendencias a
perder-se doudamente eram de tal força que nem já o escandalo de descer
ao jardim alta noite escondia dos seus criados.

D. Antonia

Os creados mentem! Que o digam na minha presença. _(O creado que está ao
fundo avança dois passos tranquillamente)._

D. Albertina _(supplicante)_

Está bom, meu pae... pelo divino amor de Deus!

Conselheiro

Espero ser desmentido pelos seus criados, snr.ª D. Antonia! _(Leonardo
dá mais dois passos)._

D. Albertina _(perpassando pelo creado a meia voz)_

Nem uma palavra.

D. Antonia _(a Leonardo)_

Viu-me alguma vez no jardim depois que as portas se fecham? _(Relance
d'olhos entre D. Albertina, e Leonardo)._

Conselheiro

O calumniador por tanto sou eu, minha filha. É deploravel o papel que me
distribues. Menos caridade com os infames, e mais respeito aos meus
cabellos brancos e á tua propria dignidade, Albertina!

D. Albertina

Mas que trance este, meu pae! Terminemos isto, peço a todos por piedade
que terminemos isto!

Francisco de Valladares

Como é que se defende, Antonia? Calumniou Albertina porque ella
reprovava os seus depravados instinctos de mulher que perdeu os brios de
senhora?

D. Antonia

Não quiz calumnial-a, nem os conselhos da mana Albertina me eram
precisos para eu conservar brios de senhora. As mulheres solteiras que
amam não perderam os brios nem são deshonestas.

Francisco de Valladares _(irritado)_

Calumniou ou não?

D. Antonia

Não a quiz calumniar. Calumniada sou eu, quando me dizem que perdi os
brios, e que vou de noute ao jardim, e que...

Conselheiro

E que não vae ao jardim desde que o visconde do Espinhal sóbe facilmente
do jardim ás janellas d'esta casa.

D. Antonia

Quem disse tal?

Leonardo

Fui eu; e, se o não disse, o snr. conselheiro advinhou que eu o queria
dizer.

D. Antonia

Vossê mente! _(Leonardo caminha para uma porta do lado)_.

D. Albertina _(atalhando-o)_

Onde vae?

Leonardo _(a meia voz)_

O visconde está n'esta primeira sala.

D. Albertina _(a meia voz)_

Por piedade não faça isso, Leonardo! _(Alto)_ Eu comprehendo bem a
insistencia da mana Antonia. Ella sabe que eu me ajoelhei aos pés do
snr. João Lobo; sabe que o abracei; sabe que eu fui a casa d'elle: tudo
isto é verdade. O que ella não sabia é que eu pedia ao doutor a vida de
seu irmão quando ajoelhava, e lh'a agradecia cheia de lagrimas quando o
abraçava. No mundo julgam-se assim muitos actos e o mundo não é nem
responsavel nem condemnado. Deus que assim nos fez é por que quer que
assim nos sofframos uns aos outros. A mana Antonia não reflectiu na
intenção dos meus actos. Viu-os pelo lado máo, e julgou-me como era
justo ao seu modo de vêr. Eu sómente me queixo da imprudencia dos seus
juizos.

Francisco de Valladares

Basta. Esta senhora não é imprudente, é infame. Leonardo, dá-me a chave
do meu escriptorio que está no meu quarto. _(Leonardo sae)_ O seu dote,
senhora, é tão opulento que o visconde do Espinhal em troca d'elle vae
dar-lhe um optimo esposo e uma corôa de viscondessa. Vou entregar-lhe
duas inscripções nominaes de 2:000$000. Valem no mercado uma quantia que
sobredoira as suas virtudes. A senhora, recebido o seu dote, retire-se,
e vá fazer ao dote o que fez á herança de virtudes de nossa mãe.
_(Leonardo entrega-lhe a chave. Elle levanta-se convulso)_.

D. Albertina

Onde vaes, meu filho? Não vás... Logo... ámanhã se fará isso, Francisco.
Descança, senta-te.

Francisco de Valladares

Não me afflijas, deixa-me.

D. Albertina

Pois senta-te, e dá-me a chave que eu vou. Eu sei onde estão as
inscripções...

Francisco de Valladares

Vae. _(Da-lhe a chave)._

D. Albertina _(perpassando pela cunhada)_

Não se afflija, que eu espero salval-a. _(Sae)._


SCENA XXIV

OS MESMOS EXCEPTO D. ALBERTINA

Francisco de Valladares

Snr. João Lobo, devo-lhe duas vidas; e mais lhe devo pela da alma, por
este desafôgo do coração... Perdoou-me já, não é verdade, doutor?

João Lobo

Se o snr. Valladares me pede a mim perdão, em que termos ha de pedir a
misericordia de sua senhora?

Francisco de Valladares _(apontando para a irmã)_

E aquella!.. onde irá dar?.. que vergonhas se preparam para o apellido
de minha sancta mãe!..

João Lobo

Eu creio que ella tem um grande e sagrado refugio.

Francisco de Valladares

Qual?

João Lobo

O coração da snr.ª D. Albertina.


SCENA ULTIMA

OS MESMOS, E D. ALBERTINA

D. Albertina

Aqui estão as inscripções.

Francisco de Valladares _(a Leonardo)_

Entregue isto á snr.ª D. Antonia. _(Leonardo demora-se a olhar para o
rôlo com hesitação)._

D. Albertina _(muito carinhosa)_

Então ficas sósinho, Francisco? Sahimos ambas?

Francisco de Valladares

Se sahem ambas?! Sahires tu, minha querida Albertina! Deixa-me então
ajoelhar a teus pés, e rogar o teu perdão com as mais contrictas
lagrimas que a minha alma te póde dar! _(Ajoelha)._

D. Albertina _(erguendo-o)_

Meu filho, estás perdoado com uma condição. Se esta fôr penosa, tem
paciencia; peço-te que a acceites, em desconto das angustias que me
despedaçaram desde o instante em que estive perdida para o teu coração.
Acceitas a condição, meu querido amigo?

Francisco de Valladares

Qual condição?!

D. Albertina _(tomando a mão da cunhada)_

Has de perdoar-lhe... _(Sorrindo)_ ou eu não perdôo.

Francisco de Valladares

Então é certo que és uma sancta, minha filha?

D. Albertina

Não sou sancta; sou apenas uma mulher que se esforça por que tu sejas
sempre um anjo de bondade.


FIM.


      *      *      *      *      *

Pertencem ao auctor os direitos provenientes da representação dos dois
dramas que formam este livro.

Porto 30 de Dezembro de 1870.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

      *      *      *      *      *


ERRATAS ESSENCIAES

PAG.    LINH.   ERROS                           EMENDAS

35      1       passarôl                        passarôlo

41      8       de de marido                    de marido

43      14      estando em Beja                 estando eu em Beja

46      15      precedencia                     procedencia

68      ult.    conhecidos                      conhecido

104     15      Em Lisboa                       Em Lisboa?

117     4       snr.ª viscondessa?              senhora viscondessa!

120     14      espirito de venturoza           espirito de ventosa

122     8       VISCONDE                        VISCONDESSA

»       9       Visconde                        Viscondessa

134     14      com o pesar d'esse cadaver      com o pezo d'esse cadaver

140     9       que se chama                    que se chamou

144     4       pois que                        depois que


                      *      *      *      *      *

                       PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA
                          Rua do Bomjardim, 181.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Condemnado/Como os anjos se vingam" ***

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