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Title: O presbyterio da montanha
Author: Castilho, António Feliciano de, 1800-1875
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



     *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
     texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em
     caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
     No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

                                               Rita Farinha (Fev. 2009)



Obras completas de A. F. de Castilho

XIX

O Presbyterio da Montanha

VOLUME I

[Figura]


LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905



OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 19.^o



VOLUMES PUBLICADOS:


I--Amor e melancolia.
II--A chave do enigma.
III--Cartas de Ecco e Narciso.
IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
VI--A primavera (1.^o vol.)
VII--A primavera (2.^o vol.)
VIII--Vivos e mortos--Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
XVI---Excavações poeticas (1.^o vol.)
XVII--Excavações poeticas (2.^o vol.)
XVIII--Excavações poeticas (3.^o vol.)
XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)


NO PRÈLO:


XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)



OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XIX

O PRESBYTERIO DA MONTANHA

VOLUME I

[Figura]

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_


LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
Rua Augusta, 95  || 45, Rua Ivens, 47


1905



Advertencia dos Editores


Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos
antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais
de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que
ia publicar com o titulo de _O Presbyterio da montanha_, escreveu um
prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos
de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades
de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S.
Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo
concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a
publicar-se.

O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes
da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas,
fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como;
e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje
considerados especies bibliographicas de primeira raridade.

Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional
de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e
escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.^a D.
Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece
ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal
_Diccionario_, não declara se era dono de algum; menciona a obra,
apenas.

Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa,
desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas
inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando
esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.

O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em
construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais
curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a
historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o
_folk-lore_, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão
desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um
archeologo-poeta.

Appareceu tambem uma _Introducção_ em verso sôlto a certo poema
intitulado _O Sepulcro, historia de uma noite de S. João_, projectado
pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico,
infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa
Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nos
Castilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o
estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar,
a vida, os usos populares da montanha. O _Sepulcro_ é pois optimo
contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel,
apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que
possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta
licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor
ditadas em 1864.

Além do _Sepulcro_, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas
nas _Excavações_, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data,
pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume.
Facil é ao leitor intelligente o procural-as.



Á MEMORIA

DO

EXEMPLAR DE IRMÃOS

AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO

PRIOR DE

S. Mamede da Castanheira do Vouga

_Em testemunho publico e perenne_

_DE_

AFFECTO E GRATIDÃO

Offerece

_Antonio Feliciano de Castilho_



PREAMBULO


I

O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o
classifical-o podesse por alguma via valer a pena.

Não é historico, nem ficticio; não é didactico, philosophico, nem
descriptivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada
de tudo isso, de tudo isso participa.

Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou
menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos não
procurados, se não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem
determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles
banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que ha em casa,


  _...dapibus mensas oneramus inemptis,_


para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura
enganal os]: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só
para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu
pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem;
algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas
como vos assoalha com bom rosto quanto possue, não se vos alardeia de
abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balcões
envidraçados. Como quer que vós d'elle o fiqueis, não ficará elle
descontente de si mesmo á despedida.

       *       *       *       *       *

Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de carreira, parte apenas
esboçado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis
annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas
abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e
ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem
atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.

Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de
todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os
educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim
sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.

Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse;
achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e
semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e
penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por
dentro faz a consciencia.

Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já
annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios;
reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.


II

Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que
_se compõem_ para o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça
senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de
parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto
alheio.

Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.

Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir
para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo;
as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os
seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo
recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e
pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de
tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco
ella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui
(a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não
contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar
alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa
alheia, e nos segredos do visinho.

É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns
escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por
acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente
são lidas com interesse.

É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de
antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda
particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano
veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da
gente que ali houve.

Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do
forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes,
dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns
eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos
intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos
animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das
plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e
feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e
a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.

Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e
emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que
engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é
todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.

       *       *       *       *       *

As _impressões de viagens_ estão sendo ao presente um genero de
Literatura mixta mui usado e mui querido.

Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando
menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco;
sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por
aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica
para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir
algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em
corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a
espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem
som da sua creação.

A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos
atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa
casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa
cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler
deitado.

       *       *       *       *       *

Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de
conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir
as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior
desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á
França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia,
ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa
terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?

¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está
assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de
sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se
abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.

Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém
bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal
productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e
pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos
córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e
triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades
opulentas e festivas.

Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como
taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com
quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iria agora
enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe
lá ficou em quieto desterro para todo sempre.[1]


III

A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo
Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e
sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia,
de que era eu parte inseparavel.

Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos;
Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam
pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não
houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então
cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos
sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado
e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os
outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais
amenas ou mais vívidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas
de uma natureza quasi primitiva.

       *       *       *       *       *

Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o
viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a
tradição, o _bom fiar_ de certa moça mui santa, que junto d'elle vivia
n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da
sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido,
significando _pepinal_, ou _rio das terras dos pepinos_; pacifico rio,
que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e
verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter
enlevado na amenidade de tal painel.

Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro
cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe
interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho;
terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se
houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.


IV

A freguezia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e
emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de
povoação.

O aspecto do paiz, para quem só o atravessa é de inhospedeiro. Mas que
se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea e
desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os
corações. É porque a solidão é de si mais affectuosa, e a pobreza mais
liberal e larga, que o rico povoado.

Esta differença e vantagem que os moradores levam á sua terra,
experimentámol-as nós ainda antes de chegarmos á egreja e residencia,
sahindo a receber o seu Pastor novo não só os maioraes, se não quasi
todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das
cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde
áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.

A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro
muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoações em que a freguezia se
divide, nenhuma lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia
parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como
serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que
o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espêssas, crespas,
e lustrosas heras, onde jámais se esconderam e cantaram melros.

Ambos os edificios ficam no meio do _passal_, antiga quinta «das
Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso
deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali
teem o seu foco espiritual.

Um grande silencio rodeia largamente a casa da oração. O presbyterio não
lh'o quebra.

Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas
espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal
unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras,
que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto
domicilio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal
rebanho, não se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do
santuario, porque não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez
mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa para além
a esconcear, descer, e afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e
espumifero rio de S. Mamede.

Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura,
por cima das aguas escuras e raro alcançadas do sol, communica esta com
a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a
pique.

Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até ao moirisco logar de
Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio,
entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de
parte a parte os ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os
alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquelle _quasi-nada_ para os
ouvidos e olhos, é para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem
perigos.

As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte, giram enleadas
e perplexas, torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a
esquerda, como espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a
subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.

Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os unicos
entes vivos, que por ali se affoitam a tomar pé. Os seus frutos
vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vão sumir-se entre as
espumas arrebatadas.

Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes escarpas, com
poucas braças de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas
aguas, dá as sensações de um bello horror.

Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para
aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por
tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as táboas, gastadas
e rôtas da humidade, me gosava da viração transpirada pela corrente.
¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspiração de religiosa
poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço,
como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja?
¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada,
tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras
inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo
ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o
dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorgeada a ambas suas
portas de passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do
pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres,
symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo
da Fé e das Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e
transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança,
verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola,
inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tácita como a
meditação, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas
para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores
de Deus para o firmamento.....

O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a
torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um
humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Egreja
do Oriente pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou
martyr, por volta do anno 274 da nossa era.

O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o
vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos
arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda
menino na innocencia.

Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.


V

Era a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia
de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior;
por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de
inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor
a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.

A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na
casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo
desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de
cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro
n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que
n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na
terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como
lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu
tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2]

O novo Prior, o Rev.^{do} snr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a
quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e
espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo
nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla
tudo aquillo com amor.

É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro,
que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia
ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este
livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente
reclinado entre tantas outras saudades minhas.


VI

Já os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu
sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que
nasceram, sem pensarem em abrir o vôo que hoje abrem para o mundo, estas
poesias montesinhas.

Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo esboçado,
peço-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por
alto, os arredores.

       *       *       *       *       *

O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por
traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se
cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.

Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e erma de
Falgozelhe, se boleiam melancolica mas graciosamente as suas hortas, os
seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras,
que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de
povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal,
por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, até ir
bater, lá ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe
servem de limite.

Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de
avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da
Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que
achar a casa do Creador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia
das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?

O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre
duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a
egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai
mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura
sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja
antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas,
assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um
troço de lança enferrujado de musgo.


VII

Detenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já
ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a
obscura historia d'este sitio.

¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de
attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob
a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões,
mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha,
e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho
quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e
até festas.

Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da
Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela
margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o
nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como
tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos
levantados.

Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira
em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)...
mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio,
guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro
grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto da sua vivenda entre
penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de
Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu
sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os
penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do
precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á
sua voz melodiosa.

A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava
cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a
estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido
entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse,
porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.

Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem
então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias
muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe
que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a
fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das
aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para
communicar dois estados tão diversos.

       *       *       *       *       *

Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia
não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi
repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario
em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de
confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se
sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que
elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos,
sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no
corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o
seu amor, que não era pequeno.

Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el
Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e
para quê.....

No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento,
assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se
com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu
a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella
da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe,
onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os
irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a
avistava todos os domingos.....

Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante
lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e
escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas
quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.

Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.

Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em
boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a
aventurar-se sobre aguas do mar.

Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se
divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir
como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova,
que já sabeis lhe estão visinhas.

       *       *       *       *       *

--¿Mas o fim de seus amores?--me perguntareis vós.

Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.

O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a
casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada;
que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em
memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e
mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma
Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e
em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres
cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.

Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na
parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella
de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.

Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma
póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e
onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por
todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a
que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não
alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me
lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino
com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da
minha serra.

A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer
apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que
os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia
forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.

Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de
pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome
ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os
recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber
á saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da
Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do Monte.


VIII

A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o antigo oratorio
dos Condes da Feira; e a residencia, já depois duas vezes transformada,
albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fóros, e
lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como já tocámos, «das
Limeiras».

Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto,
havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão, do Bispado
de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia
da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente
agora á freguezia de Agadão, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e
descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida,
casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a sustentação de Parochia
sobre si.

N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos
hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus
amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a espessura das
moitas então creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a
phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando
o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra
edade.


IX

Explorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os
olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico
senhorio.

       *       *       *       *       *

D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar
das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua
fonte muito fresca.

Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da
Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa
com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do
Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde
as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu
oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a
extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa,
nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de
rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.

A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de
Falgarinho, de não mais que oito visinhos.

Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se,
n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres
pessoas.

Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores,
e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel
quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora
do Livramento.

Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte,
que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e
quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.

Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a
meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de
quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.

Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo
bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.

Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos
Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente
Alcafaz (nome arabe, que significa «o salto») nome que para ali está, ha
mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua
origem, nem se corromper.

Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de
honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de
um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze
almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros;
dista-nos um quarto de legua para nordeste.

Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que
toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de
pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a
apanhar á fresca.

Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se
a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia
da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de
onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz,
a quarto e meio de legua para nós.

Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta;
e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas,
posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade
occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que
á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.

Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de
pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar
da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora
da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o
delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de
sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo,
com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle
rebanho.

Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de
se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.

Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com
sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da
egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.

       *       *       *       *       *

Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações
externas.

Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo
poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e
Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda
então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por
ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.


X

O territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo
do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer
dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.

Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros
ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas,
sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe a
veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas
noticias que d'elle tive.

Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as
nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em
tempestades, em frutos magra, mas optíma em homens e mulheres de antiga
tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é
um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S.
Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios
poderia estar a antiga Attica.

       *       *       *       *       *

Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem
mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.

N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este
seculo, uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou
menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem;
mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da
circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram
demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura
em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.

O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver
passar seculos e desfazer-se gerações.

N'uma arremeçada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo
de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». É
uma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por
esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo
sido um arrancado para as obras da visinha egreja.

Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de
grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente
onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos,
só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente
apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e
pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por
baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de
cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo
cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.

¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim,
se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de
gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra
desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola,
industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia.
Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a
que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem
letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de arte nem de
architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!

Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais,
quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda
hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.

Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se
estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas
victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram
a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para
este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a
pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do
qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas)
não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.

Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a
pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus
affectos.


XI

Nada concita aos logares veneração, como a antiguidade.

Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros,
Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia
d'essas edades, com que fazer obra.

Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve
memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem
ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam.
O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou
letra para enigmas.

Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira
valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê
uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta
palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e
algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.

E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma
furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva;
a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de
largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama
que fôra aberta pelos Moiros.

       *       *       *       *       *

Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os
netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S.
João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros
por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.

N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e
que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.

Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente
já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a
sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem
quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.

A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros
sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem
para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e
prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca
e saborosa, mas em pequena copia.

       *       *       *       *       *

Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.

Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe
figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros
as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros
vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que
elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam
deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos,
que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das
montanhas mais energico.

       *       *       *       *       *

Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu
nome, se christão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não
reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?

Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que
podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana
região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto
que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era
já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras.
Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em
tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem
castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos
depois de sete seculos!

Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de
outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar
d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores,
de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas
copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e
turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez
poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e
immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.

Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos,
que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e
serão sempre.

       *       *       *       *       *

Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda
antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os
diluvios: tarde chegam a engulir as serras.

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se
os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela
conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.

Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e
construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de
segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas
de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das
balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.

Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como
o _nanja_ o _bofé_, o _canté_, o _quiçá_, e mil outros, sôam por lá sem
extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de
namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.

Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das
crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e
abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da
Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os
ramos ou cerceal-a pelo pé.

O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. Não ha curas nem
reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as
não ajudam ou contrariam.

Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de
apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas,
thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos
moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e
virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.

Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo
sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no
viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.

       *       *       *       *       *

Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto
vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por
ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas
costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os
vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma
uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal
renova as suas folhas e flores.

Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das
suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães,
mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da
freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordão
ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das
ladeiras, e tamancos cravejados.

As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sáia de
burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem
apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no
tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre
os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um
chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço
de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da
magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite
dos seus sombreiros.

São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando
calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia
palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou
chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e
capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as
mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.


XII

A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo
ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos
naturaes e religiosos, o afferro á justiça e á verdade, os differentes
amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o
respeito á velhice e ao infortunio.

As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses
discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora
deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam,
inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o
pensam.

Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons
lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois
de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.

Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para
folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em
saraus esplendidos.

Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.

Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em
toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que
encher mais de um livro para nos envergonhar.

A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o
coração bem nascido dará gosto. A _mercê_ e o _vós_ de nossos maiores
são tratamentos para os raros casos em que não cabe o _tu_.

Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros.
O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico;
isto é, do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o
abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a
geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na
canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o
verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por
instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas
para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as
presenceia.

É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu
parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e
«trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma
«cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em
Lisboa «deputado», ou «millionario».

As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu
paquife de pâmpanos e espigas, e a letra _Ut operaretur terram, de qua
sumptus_.

       *       *       *       *       *

¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de
amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades,
o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior
vergonha!!

Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o
sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas
do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal
roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na
roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia
admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem
lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?

       *       *       *       *       *

As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de
ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as
deliciosas.

Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu
costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão
formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos
do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que
allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os
trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente
jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos,
que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas
e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça
montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan
sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua
grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em
bemaventurança para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos
roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os
muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.

Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo
custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo
no sangue a saude, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos.
Seriam as amasonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem
inteiros, e se os homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as
lidas.

       *       *       *       *       *

Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz, que moralmente parece
distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu
não moraliso, mas só historio.

As mais graves, tanto como as mais somenos, não só á laia das Penélopes
e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio
até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cosinha para a
familia e para os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de
ministrar de pé, como servas, á meza de seus maridos e filhos, nem em
dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia
assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. São sempre aquillo: sempre
passivas, boas, e contentes.


XIII

Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris
estas noticias; mas hei-de já agora continual-as, e seja com vénia sua.
A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns
annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem renteado as asperezas
das serras, alguem festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já
por ventura rôtas e descosidas d'este livro.

Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao commum da nossa
gente; mas então hão-de ser antigualhas fosseis, e portanto com
veneração duplicada venerandas.

       *       *       *       *       *

A indole da gente é de si commedida e pacifica.

De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre ella achar
amostras, que emfim, terra é, e não paraiso; mas nem tantas
proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras
partes, e em quasi todas.

Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com
todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico;
ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para
se despender em vida de enredos, corrupção e maleficios; nem tão
extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o
despeito, o despenhem de salto em salto até ao fundo da depravação. É o
_inter utrumque_, a _aurea mediocritas_.

Conservam inteira a Fé religiosa.

Não lêem, nem conhecem, nem levariam á paciencia, jornaes que
desorientam, desencantam, e põem o genero humano em guerra viva comsigo
mesmo.

E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda
novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e venenosa, que por cá
nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as familias, que a maldizem,
e a repulsam da sua porta.

Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de só provir da fragilidade, ou dos
impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na
consciencia remordimentos.

Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a julgam;
quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como
aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se
conchava.

D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais,
resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e
innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças
exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores
ponhâmos o exemplo:

       *       *       *       *       *

Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade:
tendem á união, de que se originam as familias, e por onde a especie se
mantém.

Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior
arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além do ocio lhes
fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que estimulam e irritam as
phantasias, para o casamento se namoram, e não por alardo; para goso do
coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligencias que outros
põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar
no repellir e despresar depois de saciados.

Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de seducções, de emboscadas,
enganando-se e sacrificando-se um ao outro.

A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em
desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou
no vão de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho,
meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali é que as
mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem
encarecimentos; são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem modistas,
nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem
lisonjeiros, nem romances, as transformaram. São-n-o pelo que são, e não
pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.

Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão lá supprir lindezas do
corpo, graças do animo, ou preciosidades do coração.

Não é entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor
artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da occasião, do medo ao
ridiculo, e da audacia emprehendedora, não é ao abrigo do estrondo e
confusão de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras
declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas
mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e
amigas, em derredor da merenda, á sombra das carvalheiras.

São amores que se não escondem, porque não teem de quê; amores que se
exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada
capella do festejo, ao som folgasão da _Mirontella_ roncada pela gaita
de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.

No progresso de taes inclinações é sabedora e consentidora toda a
visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto
de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e
cahirem em infieis.

Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a
lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia commetteria galantear
a conhecida por _emprêgo_ de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe
surtiria o empenho, senão só motejos e descredito.

D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma constancia
verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o bem-querer d'estes
Jacobs e d'estas Rachéis.

¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser sinceras, hão de confessar
que a escolha que n'um baile fizeram... só durou até que veio o baile
seguinte! ¡Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que
pelas duas orelhas que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo tempo) se
poderia contar, perguntando á sua modista franceza quantos vestidos
novos lhes havia feito!

Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais
a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e
pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pôr á cabeça a gavella das
espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este anno;
continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados
dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos
contados, o seu gosto.

Observação tão curiosa como verdadeira:

Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a
variedade dos serviços rusticos tão a miudo lhes depara, rodeadas da
Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos
rebanhos, favorecidas pela solidão selvática e pelo silencio, e pelas
moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e
em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como
aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de
Enêas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bôdas, e as
nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de
fragilidade como a de Dido por phenómeno se apontam; e annos e annos se
devolvem, sem que um só se realise.

Quando porém se dá, e vem a lume filho não de benção, o peccado de amor
não se carrega de crueldade. O innocente não se faz victima expiatoria
dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lh'a deu; horror
nefandíssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro;
nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, á porta
lá ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em
lagrimas ás lagrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor
para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes,
e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.

Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral,
mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a
faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os
louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu
cadaver do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa;
tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto ineffavel
de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante,
a desamparasse, tudo tudo esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se
afortunada. De não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a
consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o
sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.

Estas resignadas victimas, immoladas por um amor, por outro amor
ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude,
produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi
em lustre a virgindade, são poucas; são rarissimas; custar-nos-hia a
encontrar uma. Quando porém a desencantasseis, lembrando vos do que
sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiseração
e respeito vos infundira.

       *       *       *       *       *

Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham
em ruas e ruas, e até já por villas e aldeias vão surdindo, não se
conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.

Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de vergonha, a que
se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as
sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são victimas
das victimas que ellas sacrificam.

Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se
transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos
casaes.


XIV

Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve
de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.

       *       *       *       *       *

Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou
de jerarchia. O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes,
acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As
palavras _dote_ e _escrituras_ apenas seriam entendidas.

Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e
economia, a ajuntar para _uma cama de roupa_, uma teia de estôpa, outra
de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma
panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires
de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da
fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.

O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um
anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia
grande.

Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e
bizarros com o seu _aceio_ dos domingos: ella, sobretudo, flammante como
uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda,
mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.

As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de
boa-mente lhes acodem, cada uma com o seu _melhorado_, convencidas como
estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção
matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no
apertar das mãos.

Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera
para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo florído tem
mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro
(suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem
liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que,
vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e
dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados,
não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.

O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua
sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de
pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé,
caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por
lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom
agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.

......................................................................

A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar
enflorado de fresco, e a alampada atiçada.

A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas
cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a
todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do
sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os
deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo
não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de
tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices,
zabumbas de arlequins.

Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai
profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e
afugentar as evocadas memorias de Lia, de Rachel, e de Rebecca.

O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre
alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S.
Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no
trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da
Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.

Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e
muito mais formosa benção.

       *       *       *       *       *

É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser
mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome,
como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.

É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por
isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves
tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse
acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.

Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro
egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de
obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol
entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias
naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar,
ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de
alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que
alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a
prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...

       *       *       *       *       *

Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados,
e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando
logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á
casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira,
roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas
ou mais floridas brota o monte.

Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e
ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos
de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito
triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os
quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem
deixa de lhe lançar.

Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada;
foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de
seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes
naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos
padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem
concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a
diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes
se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o
acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.

Em cada uma d'estas _estações_ chove de todas as partes a saraivada dos
confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove
mezes ha-de vir.»

       *       *       *       *       *

O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos
admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades
prestes para quem se quizer apresentar.

Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e
o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o
desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar
da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece
entre aquellas gentes primitivas.

N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e
com um só talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer
durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu
bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a
communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.

       *       *       *       *       *

Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos,
dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.

Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á
companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre
os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e
fuzo symbolicos de amores perfeitos.

Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita
da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos
teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo
suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão
revôlto.....


XV

O nascer de cada filho é uma festa.

Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que
se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são
riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a
lhes acudir com mais larga mão; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao
pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de
tão bons hóspedes.

E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um
sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes
deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho
proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem
regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são
necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o
exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se
atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua
progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão
a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.

       *       *       *       *       *

Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes
lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a
canastra que lhe ha-de servir de berço.

Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é
escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a
chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e
ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé
para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as
amigas da casa.

Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com
a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente
o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar
em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam
muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e
janellas.

       *       *       *       *       *

Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a
graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu
sinto.

¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão
christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos
provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem
visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que
estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da
Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não,
oiçâmol-o, e julgareis:


  Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,
santo bosque, onde levam sacrificios
inda agora os Pontífices romanos.

  Ali nasceu outr'ora, ali vivia
a que nossos avós chamavam Grane,
casta Nympha, de excelsos pretensores
pedida vezes mil e em vão pedida.
Era seu exercicio errar nos campos,
as feras perseguir com dardo agudo,
e as redes emboscar nos fundos valles.
Inda que aljava ao lado não trouxesse,
criam-n-a irman de Phebo; o parentesco
não poderia, ó Phebo, envergonhar-te.

  Quando algum namorado a requestava,
tinha prompta a resposta.--«Aqui,--dizia--
ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...
Se preferes entrar n'aquella gruta,
sigo-te.»--Á gruta o crédulo voava;
ella torcia o passo, ia á carreira
das moitas na espessura homisiar-se;
d'ali desencantal-a era impossivel.

  Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;
combateu lhe o rigor com brandos rogos,
e a sólita resposta obteve em prémio:
que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;
segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.
O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,
no usado esconderijo em vão confias;
olha como t'o observa, e t'o devassa.
Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;
eil-o comtigo a sós na cava penha,
onde havias buscado o teu refugio.

  Saciados os sôffregos desejos,
--«Em paga d'este goso--exclama o Nume--
dos quícios a tutella eu te confio;
pela honra perdida esta conserva.»
Assim falando, candida varinha
lhe entrega, com que os tétricos asares
das protegidas portas afugente.

  Existem de brutal voracidade
umas infames aves; não já essas
que de Phineu a meza espoliavam,
mas da mesma relé: cabeça grande,
fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,
garra adunca; esvoaçam pela noite;
onde encontram creança ao desamparo,
que a ama deixou só, prestes a empólgam,
arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.
Diz que as lactentes vísceras co'os róstros
lhes picam, lhes devoram; teem as fauces
sempre repletas de sorvido sangue.
Do _estridor_ com que as trevas alvorótam,
lhes vem o nome: _estriges_ se nomeiam.

  Estas pois, quer de si nascessem aves,
quer em aves, de velhas que antes foram,
fatal conjuro marso as encantasse,
penetraram de Proca no aposento.

  Com cinco soes de edade, o innocentinho
era ao bando ferino egregio pasto.
Já co'as gulosas linguas ferem, sugam
o tenro peito nu; sôam do infante
os consternados trémulos vagidos,
com que, á falta de voz, auxilio pede.

  Corre a ama assustada; acha nas faces
do caro alumno seu lavado em sangue
das brutas garras os crueis vestigios.
¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,
que na côr arremeda as tardas folhas
já do rígido inverno bafejadas.

  Corre a Grane; o successo lhe relata.
--«Cobra valor--a Nympha lhe responde;--
viverá teu alumno.»
                    Entrada ao berço,
acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.

  --«Eis-me; enxugae as lágrimas--exclama;--
vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezes
de medronheiro com frondosa vara
fere da estancia as portas; outras tantas
co'a mesma vara o limiar sinála;
rega o ádito; as aguas com que o rega
encerram salutifera mistura.
Entranhas cruas de bimestre porca
toma nas mãos, e diz:
                      --«Aves da noite,
í-vos, deixae as puerís entranhas.
N'esta pequena victima tenrinha
o tenro pequenino aqui resgato;
é coração por coração; tomae-o;
por visceras são visceras; redima
esta existencia immunda outra mais nobre.»

  Finda a sacra oblação, corta o deventre,
e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,
prohibindo do rito ás testemunhas
olhal-a então ninguem; por fim colloca
a vara de oxiacanta, o don de Jano,
na janellinha que dá luz ao quarto.

  Consta que desde então não mais volveram
ao berço aves ruins; saude, cores,
tudo refloresceu no innocentinho.[3]


       *       *       *       *       *

O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois côvados de
baêta encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe,
conforme o dia em que acerta. A madrinha dá um vestido, duas camisas, e
uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu
brio.

Este dia é quasi tão festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre
a benção que no primeiro dia se recebêra, e está salvo o interessante
pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas
nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.


XVI

Além d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado,
cada povoação celébra a sua, pública, no dia do Orago da sua capella.
Tem fogo do ar e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns
aos outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o consentem, andam
já desde a vespera á tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o
tambor, e despovôa-se a visinhança com o chamariz do fogo de vistas
nomeado de _armação_, ou _parreira_.

Por esta occasião, nas casas principaes, isto é, nas menos apertadas,
saltam-se até a meia-noite as danças, pela mór parte cantadas, do bom
Portugal velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle vivente archivo
de antiguidades, nem já, quasi, os nomes se conservam. São o _caracol_,
o _Senhor da serra_, o _lundú_, ou _landum_, o _escalhabardo_, a
_ribaldeira_, o _Francisco bandalho_, etc.

A excitação do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um
poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos
rapazes, fazem ás vezes com que ahi appareçam, como nas romarias, como
nos serões dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de
gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e á porfia, por espaço
de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.

       *       *       *       *       *

Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.

Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, estão em pé,
um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se
ambos servem, é sempre das mais populares, e vai toda remançada, para
que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou
desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamação
accentuada.

O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos,
correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto
é: usam das quadras correntes em todo o Reino.

Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme
lhes convém.

Principiam (é obrigado) por uma especie de elogio, ou vénia, ao dono da
casa, se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se é em
terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios
amores; e d'ahi, muitas vezes sem transição, saltam para um genero entre
elles muito saboroso, que se poderá chamar o «rustico fescenino», se, de
envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os
dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham,
como os dois pastores virgilianos, com surriadas de impropérios sempre
ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos corações. Com a
mesma feição com que dizem, com a mesma ouvem; e tão avindos saem da
contenda, como n'ella entraram.

Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da
sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por
mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e que tudo
quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.

       *       *       *       *       *

Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes
porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é: que a primeira metade
de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do
sentido da segunda metade.

Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma verdade vulgar,
uma imagem campestre, a exposição succinta de qualquer facto, mas sem
relação alguma com o assumpto que se versa, o qual só nos dois versos
ultimos apparece.

Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em pratica de amigos com
meus leitores:


O loireiro bate bate,
que eu bem o sinto bater.
Para comigo cantares
has-de tornar a nascer.

Á couve se come a folha;
come-se a raiz ao nabo.
Só te espero ver casado
sendo mulher o diabo.

Navio d'el-Rei é grande,
é grande e chega ao Brazil.
Se namorares alguma,
não seja á luz do candil.

Sequidão cria o centeio,
frescura cria os repolhos.
¡Quem me estreára comtigo,
menina, os lençoes de folhos!


Já se vê, por estas amostras, que a improvisação não é tão difficil
coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns
viajantes, d'estes que só viajam no seu quarto, embarcados na sua
poltrona.

É por cá o mesmo, que provavelmente será por toda a parte, sem exceptuar
a Italia, com que tanta bulha se nos faz.


_Al porto di Livorno
è giunto un bastimento.
Cara, morir mi sento!
mi sento, o Dio, mancar!_



XVII

Muito, porém, se enganára, quem inferisse que toda a poesia dos meus
serranos é de egual teor; porque, sobre conservarem muita xácara de bons
tempos, com as suas lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices e
aprasiveis como ellas (o que já não seria pequeno cabedal), cantam, e ás
vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso
affecto e graça natural, que um poeta de nome não enjeitaria.

E ¿que muito? ¿Por que não haviam de nascer estros por ali, onde ha
tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, tão bons ocios na solidão,
tantos amores (¡e amores tão bem empregados!), e tão largos horizontes
para a saudade!

¿Por que não haviam elles de nascer, quando até pelas nossas
encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e
azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se
perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viçam, e não raro florejam,
talentos de estimação e de valia?

Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas
coisas lhes empecem (não falando no desamor que os esfria, e nas parvoas
invejas que os matam); aos montanhezes, afóra a Natureza, que lhes
abunda, tudo mais lhe mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha poesia,
como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as
Musas, não invocadas, para o bemfadarem.

       *       *       *       *       *

¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não esperdiçam, e, por falta de um prodigio que
os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!

......................................................................

De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de verão
muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da
capella de S. Sebastião; ella ali perto, cantando e fiando em pé á
sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como
bem se pode crer, ¡enfeitiçados com a placidez de tão livres horas em
logares tão fugidos, tão sobranceiros ao mundo todo!

De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos
corados, não da memoria se não do espirito; e o espirito d'ella,
estava-se conhecendo que lhe residia no coração, tão bem, tão bem, tanto
a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameaço
de frio mataria.

Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras
de poesia senão as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de
madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias
das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias;
ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus
moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus
rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a alma; de noite
os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.

Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha encarecer o que
ella improvisava para as suas ovelhas, que a não entendiam; para mim,
que me occultava com mil cuidados para não afugentar tão melodiosa ave;
e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se
ao-pé da sua.

Era a inspiração lyrica mais formosa, se não a mais remontada. Eram os
objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus
affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras
destillando-se cada uma da sua ideia com a propria côr, com a propria
fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem
extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as
rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da
outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois
passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quanto a Arte requer, e só a
Natureza pode dar aos seus mimosos

......................................................................

¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se
esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais
vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas.
Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito
mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as
scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e
virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz
immortal no cantico sem limite

......................................................................


XVIII

Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.

É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e
conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o
trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os
modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os
nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a
peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se
ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa
creação.

Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e
o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga
que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer
vasquinha e falar chão.

Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já
não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas
comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes.
Mas uma vez ou outra (_al de menos por cortezia_, como dizem os meus
serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre
das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas
da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida
para ressurgirem ao primeiro aceno.

Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e
arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá,
emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a
papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a
papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um
só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma
primavera.

Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez
n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes
da serra.

Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a
dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a
sumir os seus píncaros florídos e trémulos pelas nuvens, admiro-a,
applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.

Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei
quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas;
assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em
substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do
silencio.

Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares,
da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter
encontrado.

E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para
orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!

       *       *       *       *       *

¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que
por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a
beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem
cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas,
rescendendo a amor e contentamento!

Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos
perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e
cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.

O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões,
edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua
lyra penedias e florestas.

¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o
thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.

Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado;
e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas
quando? sabe-o Elle.

Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se.
Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em
alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta
corôa grangeára.

¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de
Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com
agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto
dos thesoiros que se tomam?

       *       *       *       *       *

Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus
espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui
suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes
a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...

A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o
costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de
oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com
ouvido em que se hospéde. Outras vezes é ao-pé de estrépito de aguas,
que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos,
nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.

       *       *       *       *       *

De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle,
ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e,
graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida...
comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram
assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.

Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada
de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como
facil.

Exemplo:

¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:


--Ó ia, eu te digo ó Maria,
Ó iga, que se tu és minha amiga,
Ó á, botes as cabras para cá,
Ó enda para me ajudares a comer a merenda,
Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,
Ó ôas, e umas maçans muito bôas.


E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra
interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por
ter chegado a sua vez.


XIX

Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica.
Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.

       *       *       *       *       *

As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as
de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e
o Natal.

       *       *       *       *       *

O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e
se deitar uma can fora.

As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá
vão.

Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se
desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do
anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem
arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem
de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se
lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de
campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando
sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a
ajuda do _refestêllo_; contribuição com força de Lei, mas de que todos
se desempenhavam á boa-mente.

       *       *       *       *       *

O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos,
tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra
cada um, e de cada um contra todos.

São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja


  .....que derruba o chapeo,


de que o bom Filinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o
rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite
pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com
sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual
classico se conteem.

Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem
viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e
apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são
descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar
fogo, que não saia com ella a salvar.

N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar
fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade
ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na
sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios,
para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia,
turbilhões de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas
accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco
dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os
rolantes trovões centuplicados...

O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho,
visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna
em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a
abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá
ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo,
constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande
perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram
diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por
embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era
folgado).

As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e
apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um
Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido
ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».

O _gôrdo_, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por
varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e
algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.

Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda
agora me está sabendo.

Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso
de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de
areia parda e fina, á borda da agua.


  Nympharum domus.....


não lhes faltando os competentes


  .....vivo sedilia saxo.


O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os
comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria
folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite
recem-mugido.

Terminaram com uma dança no areal, por não haver melhor, e debandaram,
cada uma atraz do seu gado, quando já lá por cima branquejavam
estrellas. A fogueira serviçal lá ficou sosinha, remirando-se ainda na
corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as
levaria.

Innocentes leviandades são todas estas, e, mais ou menos, parecidas com
o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas,
uma usança ha ali, que só ali ha, e que eu aponto, não só porque me
ajuda no retrato d'aquella gente optima, se não porque dará luz para se
entender o poema que a diante vai, com o titulo de _Domingo gordo dos
montanhezes_.

N'este dia, pois, logo de manhan, acodem á matta de S. Sebastião, que já
sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moços solteiros da
freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o
quê, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que já para isso a
Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas
terras a folgar.

Nem o introductor, nem o tempo da introducção d'esta pratica, são já
hoje conhecidos. É uma tradição piedosa, uma lei moral, sem nenhum
genero de comminação, mas tão á risca obedecida, como se as tivera.

É, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo
de desinteresse; pois na plantação quem só ganha é a selva, que se
dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.

Se de S. Gonçalo ou Santo Antonio fôra a capellinha, ou de algum outro
Bemaventurado, com fama de boa-mão para casamentos, ainda se aventaria
um motivo pessoal para o obsequio; ¡mas S. Sebastião, que só da peste é
advogado!...

Seja o que fôr: o amavel instituto persevéra, ¡e oxalá dure sempre! ¡e
oxalá por muitas partes o imitassem!

       *       *       *       *       *

Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de nós
outros, bastam duas considerações: a d'elles é festa do espirito, e mais
do corpo; a nossa nem do corpo o é, nem do espirito.

Digo que é do espirito a sua, porque a Fé viva lhes faz estar vendo
ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo
tambem, porque o brodio paschal, opíparo, rescendente, de viandas
succulentas e escolhidas, lhes dá mate á longa e bem jejuada quarentena.

Move suavemente os corações acompanhar a procissão, que da egreja sai
depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as
aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado
das suas cerejeiras já revestidas, atravessa o passal por entre as alas
das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastião, e se espairece
ao longe, como uma piedosa exultação, por entre os mattos
rejuvenescentes.

O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As
arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado
de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pôz por fora todas suas
galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece
ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entôam canticos, como
os homens, as mulheres, e as creanças. A aleluia ressôa em toda a parte;
lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os corações
ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.

¡Oh! ¡que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do
Esposo e da Esposa dos Cantares! ¡Oh! ¡que permutar de boas-festas! Mal
o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um
cartão alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.

Recolhida a procissão, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar
de as pôr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de
ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas;
crepíta o lume na cosinha revôlta; idéia-se um simulacro de altar, ou se
enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o
senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar
(quando mais não seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da
familia falta á porta para receber a aspersão de agua benta, que elle ao
entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da benção: «Paz
a esta casa, e a todos que n'ella moram.»

Tal visitação, que (já se vê) se não conclue no primeiro, nem muitas
vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; não pela moeda de
prata, de meio tostão ou seis vintens, recebida em cada fogo; não pelos
saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se
apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.

       *       *       *       *       *

No 1.^o de Maio põem, á entrada das habitações, _maias_, que são ramos
de sabugueiro e giestas florídas; e nos linhares, rocas com seus fuzos,
carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a
terra e a casa: a terra, para que dê linho comprido e sedoso; a casa,
para que se guarde e mantenha próspera.

¿Quem não vê n'estas maias outra degenerada herança dos nossos antigos
senhoreadores? No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo
domestico dos seus _Lares_, deuses protectores da poisada, e cujos
idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da
porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos
se vê ao pé d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade,
e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus
_Fastos_ nol-o descreve. Brindavam-n-os com libações de bom comer e
beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, já de flores, e já de lan.

Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam
que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de
habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do
seu sangue.

Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do
mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas.
Vieram Lares _viaes_ (dos caminhos), _compitaes_ (das encruzilhadas),
_urbanos_ (os padroeiros de cada cidade), _publicos_ (os mantenedores
dos publicos edificios), _rusticos_ (os custodios do campo), _hostis_
(os amparadores contra inimigos), _marinhos_ (os guardiães dos navios).

É portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se
haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas
praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem
boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos
desatinos e devassidões. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a
familia; com a familia, os sãos costumes da creação. Ainda por cima,
fazia resplandecer luzeiros de esperança na cerração das adversidades; o
que dá coração e brios para as resistir.

Pressupponhâmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia
Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, aliás, podem ser
documentos, além de outros, o nome de _lareira_, geralmente conservado
ao lastro da chaminé, e o proprio de _lar_, com que em Traz-os-Montes se
chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeirão sobre a
fogueira.

Já cada um inferirá que as _maias_ dos meus serranos, festejo que só á
casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como
quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e não podem deixar de
ter, aquella origem.

Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito
christão, ainda mais poetico, chamado das Rogações ou Ladainhas de Maio.

Os lavradores seguem, com as cabeças descobertas, e acompanhando em
chusma as entoadas preces da Egreja, a procissão, que lá se vai,
humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as bençãos do
Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos não devorem
a vinha ou seára; que intempéries do ar e trovejados granizos não
derribem mortas as benevolas esperanças dos pomares.

       *       *       *       *       *

O S. João por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos
oiteiros, de noite pelos serões.

Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que
se vão lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, não sem graça),
que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de
poetas desconhecidos.

A medo me rendo á tentação urgente de as mostrar; que, despojadas da sua
melodia, desquitadas das vozes tão frescas e juvenís das suas cantoras,
e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e
sombras em pino de verão, trovas taes aqui mal poderão parecer-se
comsigo mesmas.

Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto não haja differença na
substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podéra differir o
seu cadaver.

Sem mais precauções, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me
estão ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem
sobreceo verde á fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros,
não as contem; basta que todos elles acertem na cantoria ás mil
maravilhas. Tão pouco embiquem na confiança, com que umas rusticasinhas
de roca á cinta tratam o Santo Precursor. São amores velhos; não ha que
lhes dizer.


--¿San-João das barbas doiradas,
onde foste ter as orvalhadas?
--Fui as ter áquellas hortas,
recordar aquellas cachopas.

Recordae, recordae, perguiçosas,
que da fonte já veem as formosas,
com as talhas cheias de cravos,
que lh'os deram os seus namorados,
com as talhas cheias de flores,
que lh'as deram os seus amores.

San-João, rico cavalleiro,
companheiro de Nosso Senhor,
acompanhae a minha alma
quando d'este mundo fôr.

--¿Por que tendes, San-João,
esses sapatinhos brancos?
--Para passear ás moças
domingos e dias santos.

--¿D'onde vindes, San-João,
que assim cheirais á macella?
--Venho da serra da Estrella,
de fazer uma capella.

--¿D'onde vindes, San-João,
pela calma sem chapeo?
--Venho beber agua fresca,
que faz calor lá no ceo.
...................................


Basta, basta, que já pressinto ali á esquina os aferidores e malsins da
Literatura, que, se me tomam, com isto nas mãos, dão comigo do avêsso.

Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. Á
noite accendem fogueiras, dançam, cantam, namoram, e galhofeiam em de
redor d'ellas.

Á meia noite, quebram ovos para os expôrem ao sereno, que lhes ha-de
n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as
hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.

Vão nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e
preservativos; mas especialmente o de S. João do Monte, á conta do seu
nome bento.

Sobre a madrugada vão lavar seus gados, e á volta colhem ramos
orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio;
trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos,
apertando-se nas mãos.

A agua da fonte da manhan de S. João é como a primeira que chove em
Maio: torna o carão formoso.

       *       *       *       *       *

Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo
descoberto, não correndo o tempo de invernia. São rebordans a granel,
entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto
um farto lombo de cevado rechína e fumega em vergante espeto de pau, a
pingar n'uma telha ou frigideira.

É dia já de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos
visinhos menos folgados, que todos então se convidam.

Bebe-se, como requer a quadra, que assaz é já então arripiada. Mas...
quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e
para a noite, mais se vão pendendo com scismadora tristeza os animos dos
convivas.

Á fé que lhes não falta por quê. O dia que apóz vem, é o dos finados;
dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos
quantos, com Fé ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.

¡E que mais meditabundo que as montanhas! ¡E quem mais devaneador e
recolhido, que homens acostumados a solidão, curtidos nas duras
realidades da vida, remotos do cortesão bulicio, embotador pessimo de
toda a sensibilidade!

       *       *       *       *       *

Mal soaram as Ave-Marias, começa dobre funebre, que toda a noite não
quieta.

Pela escuridão pasmada se devolvem, a longe, a longe, até se esvaecerem,
os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer
algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. ¡Oh! ¡se não se
elevarão elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo
amor, pela amisade, pela caridade!

Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz
bruxuleia de nenhuma fresta, e já nenhuns olhos por ventura se
descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis côro de
Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da
povoação, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si não
podem requerer, esmola de orações, refrigerio para os ardores que lá
padecem.

Não ha seio tão escudado, que um santo horror o não estremeça; egoismo
tão empedrenido, que sustenha as lagrimas.

...Até que o solemne pregão transpõe e se esvai; e na calada se torna a
perceber o dobre longinquo da egreja.

Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o
interior.

Estes devotos cantores, que ninguem vê, mas que vão de aldeia em aldeia
_amentando_ as almas, arrastavam d'antes grilhões aos pés, o que ainda
augmentava o pavor do seu pregão.

Com grilhões ou sem elles, ¿despertadores taes quem entre nós os
soffreria? Por lá querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se,
como exactores que são de um tributo da outra vida.

Desde o romper d'alva não descança a egreja de absorver povo. Todos os
caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos
os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem á porfia.

Vem o ancião alquebrado, atido ao bordão; o moço em flor de annos; a
donzella; os irmãos, pequeninos e já orphãos, pela mão de sua mãe; todos
graves, cuidosos, taciturnos; todos lá por dentro orando; todos
anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali
assistirem ao incruento Sacrificio.

Todos os confessionarios n'este dia estão apinhados, e o semi-festim da
vespera é quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.

       *       *       *       *       *

Emfim vem o Natal.

Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas
christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe tão
em cheio, nem tanto com os animos e corações se coaduna, de veras crida
e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.

Víreis o Presépio de Belem, não já por caprichosas artes remedado, mas
em tão cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a
adoral o.

Disséreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vôo d'entre as
estrellas, de que se corôa a montanha, côro de Anjos a dar rebate aos
pegureiros com o pregão de «Gloria e Paz», com a nova de ser nascido o
Desejado das gentes.

¡Tanto é o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem
pelo escuro em demanda do Menino!

Cada qual lhe traz nas mãos o seu presente, e o mais valioso dentro
n'alma.

O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto,
é a santa Gruta.

Lá no tôpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.

O adro vê dançar as rondas de camponezes á roda de um monte de arvores
accezas, ao som da gaita e do tamboril.

Os sinos doidejam de alvoroço na torre illuminada.

Sob o tecto religioso se alternam em dois córos feminis as cantigas da
benta noite. Cada um d'estes córos é exclusivamente composto das
moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas
a mesma rivalidade, que já descobrimos entre os homens, quando no
Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso
arremêdo de combate.

É a qual dos bandos trará mais formosas quadras para entretecer com as
antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear.
Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o coração; e, sem vergonha,
se estão sentindo as faces humedecer-se.

Por meio d'estes córos, cujos enthusiasmos devotos como que se estão
vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braços do Parocho o Menino,
a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Então é
que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e á
porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos,
os mui primorosos artefactos de pinhões e frutos sêccos.

¡Oh! ¡que invejas para as creanças, que ali pendem ao collo de suas
mães! vão-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mãosinhas, apóz lindezas
tão guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus
olhos tão azues, a bocca tão amorosa, as faces tão coradas como as
maçans que se lhe offerecem, é já a Elle que só cubiçam; e só choram,
porque o não deixam acompanhal-o.

       *       *       *       *       *

Taes são as mais notaveis festas d'esta singela gente.

¿Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a
destruir-lh'as com lhe tirarem a Fé?

É uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.

       *       *       *       *       *

Assim crêem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de
humildade, e pela rudez ainda sãos, os moradores de S. Mamede da
Castanheira do Vouga.


XX

Que eu por lá versejasse, já a ninguem ficará sendo maravilha; antes,
sim, a podéra ser, que de tal assumpto só tal volume se estillasse; mas
as rasões d'isso de si mesmas se confessam.

Já eu disse, que os annos que por lá sumi, me foram totalmente
desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos
jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.

Assim, só por desabhorrimento é que poetava de longe em longe; isto é:
poetava por fóra, e no papel, que no coração e no animo estava eu comigo
a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditarão os
que d'isto sabem) não foi a que se escreveu, se não a que deslizou
suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta,
suspira e medita.

Escrever só para si, não sei que ninguem escreva; é trabalho supérfluo,
e que, se dá fruto, o dá ruim, que de pêco e descorado nos desconsola.

¿Pois qual é, em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho
de se corporificar para sahir a lume e correr por mãos e olhos, não
perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graça, ou
do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja
que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?

Isto dos livros não são senão uns retratos mortos, umas toadas,
reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os
passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles
appliquem os olhos e ouvidos, só podem perceber a totalidade, e
conjecturar as circumstancias.

O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros
de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda
para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder,
ás concepções e aos affectos.

       *       *       *       *       *

Outra explicação da exiguidade, e tenuidade (que peor é) do livrinho,
está em que a maior e melhor parte dos condões e feitiços da montanha,
que ora cá ao longe me apparecem tão inteiros e gentis, então que eu os
tratava e d'elles vivia colmado, me não faziam os effeitos, que atravéz
dos vidros da saudade me produzem.

Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistér havel-o perdido; que já
por isso dizia Rousseau, que nunca tão bem falaria da liberdade, como
entre ferros da Bastilha.

¿Onde é que nos ri a imagem da primavera a abrolhar? é no meio do outono
a desvestir-se. ¿A do verão, que tressúa afogueado? no inverno, que
tirita e se encanece de geada.

¿A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, não é paraiso, para
onde todos, todos, nos quizéramos tornar?

¡Que bem que o Poeta cantava: «Aventurados em summo extremo os
camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!»

Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, é
este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o
explica.

Á saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo
descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando
importunas obrigações me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia,
os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.

Pela conversação pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no
mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre
desencantamentos, desconsolos, rasões para os desprezar, ou para
fugil-os.

Lá, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo
contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.

Lá, a benevolencia é semente de benevolencia, para dar cento por um.
Aqui, é grão que sempre degenéra, ou não germina, ou brota villans
ingratidões, que envergonham até a quem as ouve.

Lá, o folgar é franco, e as festas são festas. Aqui, o folgar é escaço e
fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de
gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns
aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.

O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavoneará pelo mais
cortesão e de maior donaire; far-lhe-hão roda; e em vez de o
esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua
mão, para escarmento a sevandijas e lição a paes que estão creando feras
bravas para andarem sôltas no povoado, hão-de applaudil-o por medo,
apertar lhe a mão dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas,
com sabel-o expulso de muitas portas.

Acobertam-se lá e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus
os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para macío
agazalho nas horas do somno ou da doença, para gala candida dos altares,
e a final para curativo de feridas.

Ora, ¿que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a
sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de
tão bons serviços, poderia vir ainda a converter-se em papel para a
nossa Imprensa, isto é, em pregoeiro e depositario de quanto erro, e
absurdo, a ignorancia ou maldade podérem delirar, em ventilador de
descredito e odios, em disseminador de todos os principios de
dissolução, já moral, e já politica?! ¡Pôr-lhe ella a sua roca para
benção! ella, a boa filha das serras, fêmea sincera e verdadeira,
coração lavado, animo propenso em tudo para o bem! ¡Pôr-lhe ella
encamisada e florída a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que
tão santas maximas e tão formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar
á sementeira o fogo, ou amaldiçoal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que
vale o mesmo.


XXI

¡Que de vantagens para o ermo não são todas estas!

E no gosal-as, ¡que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!

Sim; mas, torno a dizel-o, é em distancia de espaço e tempo, e pela
contraposição, que se conhecem. ¡E eu malbaratei quasi tudo isso!...


  ........ munera nondum
  Intellecta deum!....


Havia de ser agora, depois de tão prolixo, de tão quebrantador martyrio
da experiencia,


  ..... Oh ubi campi!


¡Como me não agarrára, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro,
ao chão da vida facil, innocente, e obscura! ¡Como não borbotára em
hymnos o meu jubilo! ¡Como não saudára com lagrimas de gratidão a
aurora, tornando a encontral-a! ¡Que não palrára com as torrentes! ¡Que
noites desveladas sob o pavilhão estrellado e vastissimo da montanha!

Em vez de rebuscar (como agora me foi forçado) para esboçar este painel
noticias de logares, e até de usos, tudo eu mesmo visitára com devoção
de peregrino; tudo revolvêra; com tudo me identificára.

As saudades, que de lá para aqui me estão salteando, d'aqui para lá já
não atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira
sarça onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem
logo.

       *       *       *       *       *

--O abdicar--dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e
hortelão de Salona--o abdicar é o começo do viver.

¡Quantos dos que desaprenderam no regaço espinhoso da fortuna o rir, o
dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que
empunhassem, com animo feito, uma rabiça ou um foicinho!

¡Se não ha-de ser inefavel o abdicar muito, e até imperios romanos, como
elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade....
só de o cuidar, tanto namora a phantasia!

¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras
minhas, a cabeça encanecida e regalada!

Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o
presbyterio. Á roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais
pequeno atravessasse correndo de um fôlego. Mas isto em solidão bem
solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem,
e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado e
esquecido de humanas vozes.

Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e
reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.

Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá
trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos.

Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoçador de quanto
existe.

A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa eólia entre
jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.

Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephémeras e
sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me
desbarataram na galé da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade)
nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do
Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.

Só me não rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos
que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em
cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia
escrever este epitaphio: _Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida
de.... Orae por elle_.[4] Vendem-se ainda primogenituras por menos que
prato de lentilhas.

Vingára-me (¡oh! ¡se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda
por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes,
appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os
seus do desterro, aviaría eu os meus do meu eden.


  Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.


       *       *       *       *       *

--¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e
desejos?--dirá (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca
faltam, escoimadores _ex-officio_ do alheio.

--Senhor meu,--lhe respondo eu já:--pois é por isso mesmo, de não
passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o
dar-lhes eu largas no papel.

Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados
de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio
a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras
gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o,
replantal-o, aformosental-o. E em lá vindo o florído Maio, ride-vos de
pagão que brindasse os seus lares com mais fé ou egual amor.

       *       *       *       *       *

¡A liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade, que nem por longe se pareça com
a de um viver remançado, em casa sem numero, nem espias, ao som da
Natureza, á lei da propria inclinação; sem ouvir horas que nos chamem,
sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar acções e palavras,
para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de
ociosos, que vos emprazarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma
noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que são
a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento;
seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos não
vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de
esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na
meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens,
que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para
nada, pygmeus, histriões, da farça séria d'este mundo?

Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura,
ennobrece, e concilía os homens, na montanha encontrareis mais depressa
coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde
se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre
são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao
mesmo tempo: este, o _Te Deum_; aquelle, o _De profundis_; um, o
_Quomodo cecidit civitas plena populo_; outro, o _Cantemus Domino_;
qual, o _Miseremini mei_; qual, o _Ecce sacerdos magnus_.

Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade,
derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando
arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o
pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha
de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira.
Aqui, pregôam-n-a; lá a disfrutam. Assim vai tudo.

       *       *       *       *       *

E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia; e, deixado o
palavrório que não sôa muito senão por ser vazio (como tambor de
foliões), dizei-me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem
que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado,
e não porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de
praças, e reboliço de vizinhos, pois diante de suas janellas o que só se
meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão
hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou
borboletas?

¿Quem mais livre?

Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu,
sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o
cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos
convites. ¿Quem mais livre?

Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as
occupações de todo o dia. ¿Quem mais livre?

Entre o trabalhar, que lhe grangeia forças, saude, bons somnos, pão, e
para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta,
ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chyméras (que tambem as tem
como qualquer outro); e é este o mais invejavel privilegio do trabalho
corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: não captivar
senão os braços; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da
obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir
com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a
alegria que se esconde.

Este _deus in nobis_, unica das divindades campestres em que se pode
crer, perguntae se não será para muitas invejas aos taciturnos enxames
que pejam escritórios e secretarías; perguntae-o a quasi todos os que
remam á consciencia o seu remo na galé baloiçosa do Estado. ¿Quem mais
livre?

Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o
meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoço, para folgar
entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume
que o aquece. Não tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio;
não ha que ciar se de mulher e filhas, que não dá a terra operas nem
bailes; filhas e mulher á roda lhe serôam, tão satisfeitas como elle.
Não se levanta ali jogo, que, por tentação ou falso pondonor, o obrigue
a pôr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. Não o compellem a
ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em sêcco;
nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico
(especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os não maléficos tantos
ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem quê nem para quê, lhe
levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do
chylo. Quem não tem com que incite invejas, seguro está de vis
praguentos. ¿Quem, finalmente, mais livre?

Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas
destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre não creal-os o sitio,
nada reluz na poisada que os attráia.

Entretanto lhe vão caladamente amadurecendo os pães para a tulha, o
vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortaliça
para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para
lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o
Ceo, onde crêem de fé que os estão seus parentes esperando.

¿Então, será, ou não será, este um viver dez vezes mais livre e
afortunado que o nosso? Pois não disse eu d'elle tudo que poderia, nem o
direi, ainda que já talvez me hajam de arguir de prolixo, que não deixei
na matéria udo nem miudo; ¡como se miudos houvera no que são condições
de boa ventura!

Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu
proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao coração de
alguns d'estes, que vivem na Côrte por fadario, por vezo, ou por
inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou
podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma
difficuldade, o que eu, e outros taes, tão baldadamente supplicamos á
fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda,
florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os
visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons
costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a
de mais de retemperar corpo, animo, e coração, para se n'ella
saborearem, até aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto,
quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.

       *       *       *       *       *

Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o
medicinalissimo _Livro da Solidão_ do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a
perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e
a fazerem venturosos, quanto é dado havel-os n'este mundo tão instavel,
tão fugidio, tão calabreado de bens e males.

O homem na sociedade é um instrumento, que se gasta e quebra servindo;
na solidão é um homem. Na sociedade, é uma partícula irresistivelmente
arrebatada n'um redemoinho; na solidão um todo quieto.

Puericia, edade de oiro da vida, não torna jamais por onde uma vez
passou; mas na solidão se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o
homem, redimido dos cepos do mundo, e fôrro das humanas tirannias, se
faz em algum modo semelhante á creança; readquire o que quer que seja da
sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.

¿Quem se lembraria de pôr um barco de cortiça (ainda que de seu natural
tivesse o ousal-o) n'um tanque do Passeio publico, cercado dos fumantes
do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? ¿quem o ousaria, mas
que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, até só
para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricaço em
torrear palacios.

Em quanto dá tempo aos passaros para irem picar no cêvo das armadilhas
que lhes andou dispondo, edifica á borda de um arroio uma azenha de dois
palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. Só no vêl-o voltear,
respingando aljôfares pelos ares, tem entretenimento para horas.

Alevanta ao pé uns paços nobres, que se encheriam com a familia de um
coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo
se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animálculos, em
que só o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam
enlevar.

¡A solidão! ¡a solidão!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e
pregoareis d'ella o que eu me não affoito a encarecer-vos.

       *       *       *       *       *

Um só achaque hei-de eu impôr á boa da solidão, á gentil namorada de
Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser:
que, pois nos descalleja o coração, banhado nas suavidades da mãe
Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai,
assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando não as
podemos extirpar. No ermo ressôam mais alto os gemidos, como na calada
da noite se dão a ouvir mais claras as vozes.

Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita,
o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos,
quizera-se ter mãos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o coração,
que não tem para dar senão suspiros, no fundo do peito se confrange
todo, e se espedaça.

¡Cada uma d'aquellas curas dependeria de tão pouco! ¡sería tão
festejada! ¡tantos effeitos afortunados produziria! ¡deixaria, por corôa
de beneficios, tão sinceros, tão duradoiros agradecimentos!

       *       *       *       *       *

Numerosas, numerosissimas, são as coisas das cidades, que d'aquellas
alturas se não percebem; mas a que menos de todas se percebêra é o
coração metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos,
os seus ouvidos que só vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia
terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como
deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os
erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.

Então sim, que haveria que se lhes invejar.

Dôr d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e
por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, lá
estende os braços valedores até onde lhe é dado. Onde não chega a
remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendacões
poderosas, com as esperanças, com a presença, com a uncção da palavra
amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas.
Assim, se terá sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo
trabalhos, e no seio coração.


XXII

Isto presenciei eu:

O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural
pejo me veda transladar louvores, que por lá se lêem em todos os peitos,
contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que não pára
onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo
Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem
ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.

Era para ver (se elle não poséra tanto em recatal-a) a alacridade, a
sôffrega alacridade, com que ia levar aqui um pão, que se devorava como
vida que em realidade era, ali o remedio para a doença; aos mal avindos,
a reconciliação; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a
paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordão para a
seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea,
cunhada de uma banda com a effigie do coração, da outra com a da Cruz
florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se cambía; o affecto
fraternal.

Ali, sim, que é o ser Parocho.

¡Oh officio divinamente instituido, como te hão degenerado annos frios
de descrença e desamor! ¡Com que maravilhoso laço não cifravas o que de
mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e
nas do mundo!

O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de
eleição, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os
exemplos, as ameaças, os anáthemas, as absolvições, os confortos, e os
jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam, á sombra
d'elle.

Entrados á vida, encontravamol-o, resplandecente de Fé, á nossa espera
diante da fonte da Graça, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos
purificar.

Arribados á edade da rasão e dos delirios, tornavamol-o a achar na
piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de
Apóstolo, a foragida paz do interior.

No consorcio, eram as suas mãos castas as que nos entregavam, com
bençãos d'alma e sincera prophecia, a mão tremente da futura mãe de
nossos filhos.

Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em
lagrimas, a que levava, como guia segura, o côro de todas as nossas á
presença do Senhor da Natureza.

Em nossas dissensões domesticas, elle o Anjo da concordancia, que
primeiro apparecia.

Nas nossas quédas, elle o primeiro braço que nos alçava.

Nas tribulações, elle o nosso mais previsto conselheiro.

Na enfermidade, elle o medico gratuito e não chamado.

Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e
aterrada o pão, o oleo, e o fardel das esperanças para o caminho.

Elle o que ainda nos seguia, depois que já todos os outros medicos iam
longe, e até nossos paes e nossos filhos nos deixavam sós. Com preces
fervorosas nos acompanhava, até que a terra nos submergisse; e ainda
então nos não largava, senão para ir instaurar novas preces por nós
sobre os altares.

Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com
quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua
pobreza, sempre paschoas-florídas para grandes e pequenos, só temido dos
maus, ainda que tambem d'esses respeitado.

Se carecia de progénie, se não tinha uma esposa, elle, que tão amenos
quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava
por irmãos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thálamo de
oiro a aguardal-o no paraizo, região que todos os dias entrevia atravéz
das folhas do seu breviário; e, se ainda no coração lhe podia alguma
ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem
se revía; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir
galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas
festas se remoçava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua
voz.

No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava
tambem. Se, perante a ara santa a Fé via n'elle um representante da
Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e
sobrehumano.

A hora em que elle expirava, hora de consternação e alaridos para todo
um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns
relampagos de duvidas sobre a justiça e a misericordia do ENTE SUPREMO;
duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehensão dos seus
olhos fechados, já não podia fulminar, mas que a sua presença, mal
chegavam a beijar-lhe os pés como a bemaventurado, promptamente
desvanecìa. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte não era mais
que somno; e bem se entendia como, ao cabo de tão prolixo, de tão zeloso
trabalhar, era rasão colher descanço e premio, como só lá em cima os
pode haver.

       *       *       *       *       *

Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prospérrimas da
Christandade.

De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas tão raro,
que a dedo se apontam; e ainda se não hão-de crer, se não fôrem vistos
bem por miudo, e contrasteados bem de espaço.

De ninguem é a culpa, sendo de todos a desgraça.

Não; de ninguem é a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque
principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstição;
está agora no frio da incredulidade ¿Que lhe ha-de fazer? jazer-se com
elle, até que do alto lhe venha o remedio.

       *       *       *       *       *

Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma
de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de Fé intrinzeca, nem um
phantasma.

A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecêra, pegou-se d'ella,
pelo contacto, primeiro á superior, depois á infima.

Ha doenças que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.

A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada já
quer ir convalescendo; já convalesce em muitas partes, se em nenhuma se
acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a
mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe
(segundo todos os symptômas) de se restaurar.

Hoje o materialismo é especialmente plebeu.

Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e
descendo manso e manso, a luz, que adelgaçasse, que por derradeiro
desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.

Mas nem de lá baixa, porque por lá faz ainda noite, nem se derrama da
Imprensa, de que a mean classe é representante.

O Poder, fingindo _proteger_, apenas _tolera_ os escassos restos da
crença. Se alguma vez lhes dá consideração, é quando se lhe antólha que
os poderá empregar, por material, para obras politicas a seu modo.

A Literatura, ou por especulação de popularidade, ou por extravagancia
de muito joven, ou porque o seculo XVIII do «Paiz modelo» só poude
chegar cá no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem á
unica Religião civilisadora, tão decepada e desgeitosa se avém, que, por
entre as suas expremidas lagrimas de compuncção, se lhe está vendo
voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.

A sua religiosidade é um cálculo; ¡grande mal! é um cálculo
transparente; ¡mal ainda muito mais funesto!

Reconhece-se que, se de alguma coisa está convencida, não é da verdade
real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus
ouvintes a acreditem.

Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e
aqueça; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e ás escuras
por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.

Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante «o _Christo_» (como lhe
ella sempre chama), que a sua cabeça ennastrada de loiros não fique,
mais ou menos, sobre-sahindo á pendida fronte coroada de espinhos.

¿Que poderá jamais conseguir para verdadeiras aleluias da Fé e da Moral,
este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo
do falso nome de Christianismo pregôa d'elle uma, ou outra, ou muitas,
paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?

Quanto entre si concordavam as inspirações dos quatro Evangelistas,
tanto discrepam uns dos outros (e não raro de si mesmos) os novos
evangelhos d'estes missionarios sem missão. Á prima-vista se averigua
que lhes fallece a convicção, a coherencia, a logica, e a unidade. ¿Quem
se irá apóz taes innovadores? Ninguem.

Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar só valeriam para
acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religião de Jesu-Christo.

A Fé é uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a força, nem o poder da
terra tem a minima jurisdicção para alterar.

Ou a Fé toda completa, cabal, absoluta, sem um átomo de menos, sem um
átomo de mais... ou nenhuma Fé. Fraccional-a, decompôl-a, temperal-a
cada um para o seu paladar, é pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz
desbenzida, revirado com a cabeça para a terra, e os calcanhares contra
o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e até o atheismo, seria menos
descommodo e mais logico dobradamente.

       *       *       *       *       *

Em quanto a Literatura assim acode á obra de Christo, como o poderia
fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, ¿como é que a
trata a autoridade mundana?

Como se fôra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora
desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabeça despojada do
diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para não cahir, ao sceptro que
a diante lhe caminha. ¡Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco
roborava os thronos com a sua benção, permitte, quasi, que os seus
inimigos o ludibriem!

A blasphemia, que vai picar, verme peçonhento, a raiz da arvore da vida,
d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as
multidões pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu
castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orçará apenas pelo dos crimes
leves, e indifferentes ao Estado.

       *       *       *       *       *

Não é ainda tudo.

Aos ministros do culto, já de si por ventura tibios, como filhos e
herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra já meio derretido, luz
do mundo já mortiça, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e
relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os
nas temporalidades odiosas.

Repitâmol o: não é isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. É
uma calamidade providencial, que lá se encaminha para fins certamente
gloriosos, que não podemos enxergar.

Em Religião, como em Politica, somos nós, enfatuada geração de hoje,
mesquinho adubío n'um chão semeado, que outros hão-de ceifar em vindo a
quadra.

Chegarão tempos (dil-o o instincto da rasão) em que os direitos e os
deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome não seja, como
pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro
vôo; em que todas as causas santas e uteis se conheçam e respeitem; em
que nem a régia tribu de Judá seja, como outr'ora, apesinhada pela de
Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenária, captiva, e
escrava da de Judá.

Então quando o lenho sêcco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do
Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de forças, de
esperança, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos,
então os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi
mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleição, tornarão a assentar
ao-pé da arca santa a sua tenda humilde e venerada, não opulenta mas
dadivosa, tenda pobre e rôta, para que pelas aberturas penetrem melhor
até ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os
olhos d'elle entrevejam as estrellas.

¡Oh! ¡como volverão a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo!
Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.

       *       *       *       *       *

O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, não acredita em
malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma
verdade, que a sua posição d'elles lhes não deixou talvez ainda
perceber; verdade importante para applicações, verdade a cujo
escurecimento se pode imputar já muito e muito damno:

O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma
importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e
prosperidade do Estado, a que nenhuma instituição humana poderia
confrontar a sua.

Nas cidades é talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano é quasi um
pastor sem rebanho; não conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A
ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o
officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a
acabar com a esperança, e logo a caridade tambem; e a final talvez
tambem a fé, mal se inteirou de que todos seus esforços se haviam sempre
de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse
vencer o estrépito circumfuso, só serviria para lhe atrahir escárneos e
motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.

Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscônditas
sobre tudo, ainda não é totalmente assim. Á entidade abstracta _Parocho_
se conserva, no respeito e benevolencia dos subdítos, um resto da sua
antiga majestade, da sua benéfica influencia, das suas altissimas
prerogativas.

Ainda é um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie
de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e
os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem
appellação para as consciencias; um censor, não em nome da Lei (como os
de Roma), porém em nome, e com delegação, e por inspiração, do Espirito
de Verdade, com quem se crê ter commercio no fundo do santuario.
Qualquer que seja a sua sciencia, é a ella que se recorre como á
principal.

Tal é, repito, a entidade _Parocho_ em abstracto.


XXIII

Isto posto, e acceito por certo, como é, pergunto: se não deverão
empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que
o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em
homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada Fé,
humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel
trato.

Ninguem o negará, pois são elles as fontes, que, segundo sua qualidade,
teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra
que os rodeia.

N'estes agros tempos de contínua revolução e peleja, ou porque tão
momentosa ponderação não occorresse, ou porque a vista, de dentro da
cidade, não traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes
e ephémeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar
considerações de maior utilidade, mas de effeito mais tardío; as egrejas
ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo:
entregues, não como egrejas, a homens de oração e de esmola, mas, como
torres e castellos, a alcaides e capitães eleitoraes, que no dia do
conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando.

¡Oh! que não sem rasão se collocou a rixosa urna dos suffragios
politicos na extranhada mansão dos serenos suffragios religiosos. A um
clero secularisado, competia um templo secularisado tambem.

       *       *       *       *       *

E não ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade; é peccado, que todas
ellas peccam; ou, para falar com mais justiça, é açoite que Deus mette
na mão de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephémero triumpho.

Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, até ás mais
illusas, como as devemos suppôr, cordealmente empenhadas na civilisação
e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a revêzes
a favor de todas e contra todas, vem a ser, a final, para todas e para
cada uma, como se de feito não existira.

O direito mesmo da Guerra, com ser tão largo e licencioso, nem tudo
permitte. ¿Porque não ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica
reconhecer limites, onde o Ceo e a rasão os teem marcado?

Combatam se os adversarios; mas não se envenenem as aguas; e se a
desavença é entre consanguineos, e em solo commum, não cortemos, para
aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que já
deram oleo, sombra, e paz a nossos avós, e que ainda podem liberalisar o
mesmo a nossos netos.

¿Por que é trazer aos festins profanos os vasos do Templo?

Se é chyméra a Religião, se Jesus não é em realidade senão «o Christo»,
vão fóra tartufías, que não deshonram menos a uma nação que a um
individuo; acabe-se de uma vez com _superstições_ importunas e
dispendiosas.

Mas se «o Christo» foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol é ainda
agora a vida do genero humano; se a Cruz é o unico pezo que faz crescer
a quem a soffre; se na terra não ha luz senão a que vem de cima; se toda
a negação expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os
anhélitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir, ó vós que
ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle
conhece, ao Povo os unicos oráculos em que elle pode crer, ás miserias o
seu antigo e tão amado refugio, aos vicíos e aos crimes o dique onde já
tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram.

¿Não é assaz amplo o thesoiro que entre as mãos tendes de destinos
humanos?

¿Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as
magistraturas, todos os magisterios, todas as exacções, todas as
administrações, não vos dão de sobejo com que pagar ou empenhar
amisades, zelos, e serviços, sem ser mistér que o povo de Deus venha,
escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a
pedra e a areia para o vosso arco de triumpho?

Rachel chorosa chora os seus filhos, e não quer consolada porque elles
não existem para ella. Os moradores de Sião não entôam os seus
inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de
Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sião os
seus moradores.

A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha.
A Cidade santa restaurará as suas festas.

Não vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das
vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade,
qualquer que ella seja, se torne mais fraco.

Pelo contrario: então é que a victoria, filha das bençãos da terra e do
Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma auréola, sobre a hasta do vosso
estandarte, porque se dirá de toda a parte: «Eis ali os fortes, os que
bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor
outorgará dominação, porque elles lhe hão restituido os sacrificios.»


XXIV

Mas redescendâmos o estylo á lhaneza do nosso assumpto.

       *       *       *       *       *

Logo que na legislação entrar mais _bom-senso_ que _politica_, mais
realidade que ficção, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor
do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada
devolver-se-hão inteiramente, francamente, sem restricções mesquinhas e
nocivas, das mãos profanas para as dos seus superiores e arbitros
naturaes: os Prelados.

O Governo se gloriará de haver se desembaraçado de uma tarefa, de pouca
importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de
responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver
facultado com a sua restituição o incremento da religiosidade; por ella
o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por
tudo, o da prosperidade do Estado.

Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei,
podér escolher por si mesmo, affeiçoar de espaço, collocar por sua mão,
os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, ¿quem duvída de que
então os desacertos nas ponderadas escolhas hão-de ser tão raros, como
os acertos o são no actual systema, em que são as casualidades, quando
não as affeições ou os interesses, que predominam?

       *       *       *       *       *

Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justiça a todos), as
eleições do poder temporal teem merecido a geral approvação; teem
recahido, pelo commum, em varões de mui notoria sciencia e prudencia,
equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e
zelosos discretamente.

Graças, graças ao poder temporal, que já deu o primeiro passo, passo de
gigante, para a suspirada reformação. Agora os restantes hão de
seguir-se, porque são consequencia.

Logo que soube, e quiz, prepôr ao Episcopado varões taes, logo que
manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava,
tacitamente se obrigou a lhes repôr... (estas suas usurpadas regalias,
ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua
cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificações, este para uma
consciencia melindrosa martyrio das horas todas.

Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros
a tão duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu
officio, os não forçára a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultação,
e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo.

       *       *       *       *       *

¿E que são em verdade os Parochos, ou antes: ¿que foram os Parochos
desde os antigos seculos da sua instituição, que foram, se não uns
coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar até aos minimos e
mais obscuros recantinhos das Diocéses a sua doutrina, a sua caridade, e
os seus exemplos?

Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mãos, de um só, e quasi
sempre velho e cançado, não podiam alcançar tão longe como o seu
espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem),
não lhes chegando as forças para estarem dia e noite a todas as
cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios,
estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em
todos e com todos, segundo a maravilhosa expressão do Apóstolo das
gentes; distribuiram em cada enfermaría quem os supprisse, quem os
fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua
sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse
de subito acudir.

¿Como póde portanto, quando militam as mesmas rasões que presidiram á
creação dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai
falsificado?

Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens
inexpertos e ignaros da sua arte, não pode ser; e não ha-de ser sempre;
e cabe nos esperar que nem continuará a ser por muito tempo.

O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o
indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os
presbytérios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vão ser como essas
torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de
pombas. As parochias reverdecerão: e florescerão, até ao possivel auge,
em creanças innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em
mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos
pacientes, resignados e conselheiros, em sólo bem cultivado e bem
festivo; e o Throno se alegrará com os novos reflexos de ventura, que
lhe virão de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte.


XXV

Não venha agora, no processo d'esta santificação, intrometter se o
_Cardeal-diabo_ do ciume, com máscara de amor da Liberdade. Ainda que a
máscara é de vidro, já d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mãos,
batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: França, Italia,
Inglaterra.

       *       *       *       *       *

¿Que nação mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? ¿Que nação
menos para consentir á Egreja o que de jus estricto lhe não compita?

Nenhuma.

Ora em França, bem sabemos todos que são unicamente os Prelados os que
formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente,
por livros não escolhidos (como entre nós) pela Autoridade civil, ainda
que (de si se entende) sujeitos á sua inspecção. Acostumam n-o ás
praticas do seu não facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a
aptidão e especial préstimo de cada um. Aproveitam só os que n'esse
crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem á
mão, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais
aproveitem; pois de ver está, que, differindo em indole e circumstancias
as povoações como os individuos, tal individuo, que em tal povoação
quadrará á justa, a afortunará afortunando-se; n'outra, que menos lhe
molde, valerá menos, trabalhando e padecendo mais.

       *       *       *       *       *

O exemplo da Italia, tenho eu que ainda apérta melhor; porque, se lá os
Bispos são independentes, como em França, para o provimento de suas
egrejas, não é porque em mãos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o
Sceptro é Bago juntamente.

       *       *       *       *       *

Documento, porém, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran
Bretanha.

Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, não protegida se não
tolerada, não acarinhada se não temida pelo seu progressivo, cada vez
mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, não obstante,
por longa e pacifica posse, d'este seu não _privilegio_, se não
_direito_ essencial; e os seus Bispos são pelo menos tão independentes
no tocante á cura de almas dentro de suas Diocéses, como dentro nas suas
os proprios Bispos protestantes.


XXVI

Ora pois: logo que entre nós se houver perfeito d'este modo a
regeneração do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que
ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas
populações ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que
a minha gente de S. Mamede do Monte será querida, e comprehendida até
por cortesãos, quando sahirem a folgar no campo algum estio.

Para então é que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em
casa e ás escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu já lhe
tomo.

       *       *       *       *       *

Se elle consegue, para além das raias da minha expectação, fazer com que
um só captivo da Cidade cobre amor á vida solitária, ou que um unico
solitário aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta
bemaventurança, já não trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos
maiores triumphos literarios.


FIM DO PROLOGO



Notas de Castilho a este Preambulo


NOTA I

Fontes de estudo


Como, durante a minha estada na serra, me não passava pela mente que
houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssêa dos sitios e gente
d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas
memorias não escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no
tocante á topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar.
N'esta pressa me soccorri á officiosa amisade do actual Prior de S.
Mamede da Castanheira, o Rev.^{do} Padre Antonio Jozé Rodrigues de
Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu
painel, em que faltará tudo, á excepção de verdade nas coisas, e nos
retratos parecença.


NOTA II

Parochos

Na generalidade que estabeleço, por muito convencido, caberá fazer
algumas gloriosas excepções; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta
freguesia de Santa Isabel[5], o Rev.^{do} Padre Jozé Jacintho Tavares, é
varão de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sãos costumes,
sobredoirados de indole sociavel e amena, e incançavel na caridade. As
reparações e embellezamentos, com que se tem remoçado o templo em que
elle serve, nada são comparados com os soccorros de pão, de letras, e de
instrucção christan e civil, que já começam a disfrutar os indigentes da
sua freguesia. Largos são ainda os seus projectos; ajude-o a
Providencia; deixará formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade
filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haverá transformado,
pela educação, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de
perdimento. Não quiz perder este lanço de ajudar com um pequeno brado o
clamor da gratidão popular, que algum dia ha-de ser alto.


FIM DO PRIMEIRO VOLUME



Notas:

[1] O Doutor de capello José Feliciano de Castilho Barreto falleceu na
Castanheira do Vouga a 6 de Março de 1827, e foi enterrado na capella
mór da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os
seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos
Praseres em Lisboa, onde se conservam.

                                                            Os Editores

[2] Existe ainda este cedro que tem alcançado descommunal corpulencia.
Chamam-lhe por lá _o cedro do poeta_, ou _do Castilho_.

                                                           Os Editores.

[3] Ovidio--_Os Fastos_--Liv. VI.

[4] Allusão aos amargores da redacção da _Revista Universal Lisbonense_,
minuciosamente narrados _nas Memorias de Castilho_.

                                                           Os Editores.

[5] Castilho morava então na rua de S. Marçal.

                                                           Os Editores.



EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

Sociedade editora

Livraria Moderna

95--RUA AUGUSTA--LISBOA



Obras completas de A. F. de Castilho

XX

O Presbyterio da Montanha

VOLUME II

[Figura]


LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905


OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 20.^o



VOLUMES PUBLICADOS:


I--Amor e melancolia.
II--A chave do enigma.
III--Cartas de Ecco e Narciso.
IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
VI--A primavera (1.^o vol.)
VII--A primavera (2.^o vol.)
VIII--Vivos e mortos--Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.
IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
XVI---Excavações poeticas (1.^o vol.)
XVII--Excavações poeticas (2.^o vol.)
XVIII--Excavações poeticas (3.^o vol.)
XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)
XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)


NO PRÉLO:


XXI--O Outono.



OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XX

O PRESBYTERIO DA MONTANHA

VOLUME II

[Figura]

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_


LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
Rua Augusta, 95  || 45, Rua Ivens, 47


1905



I

A PRIMEIRA NOITE NA SERRA



     ... Ibi haec incondita solus montibus et silvis studio jactabat
     inani.


¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! ¿Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
de mundo a tumultuar, de cidades a rir...
    n'este ermo ignaro, frio, mudo...
aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!
    ¡o meu presente e o meu porvir!

    Genio invisivel da montanha,
    de astros, de sol, o ceo te banha;
    o mar de longe te acompanha
    no livre cantico sem fim.
Escada de Jacob da terra ao firmamento,
    a mansão tua é monumento
da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.

Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
    a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
    e do diluvio assolador.

    Silencio e paz comtigo habita;
    o ermo é como o eremita;
    loucas vaidades não cogita;
    ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva occulto
    de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
    sim; mas eu, frivolo, profano,
á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
    ¿que hei-de esperar? ¿que tenho aqui?

    Toda a minh'alma se entristece,
    e se confrange, e se ennoitece,
    ao ver que a sorte lhe destece
    de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
    sonhava mundo... ¡acho um deserto!
sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!

Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
quem me resurgirá? Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero entender
    é como uns sons de ignota fala;
qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
    sem me abalar, nem me embeber.

    ¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
    que importa, ó montanha soturna,
    que de perfumes sejas urna
    da terra erguida sobre o altar?
¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
    que o sol doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?

Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
    ¡são mais pesares, mais saudades,
mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
    mais tentações a dar-me fel!...»

    ¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
    ¡Tanto vate a ceifar louvores!...
    ¡Tanto moço a colher amores!...
    ¡Tantos loireiros e rosaes!...
E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
    qual roble que geme indignado,
vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

Assim ruge, baldão de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
    Só o abutre de eterna fome,
que o grande coração algoz sem fim lhe come,
    responde em ais á sua voz.

    Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
    que eu tanto amava! ¡hora fecunda
    dos cantos meus! ¿por que me inunda
    nova amargura o coração?
¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
    a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a solidão.

Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
    de luzeiros um labyrinto.
¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
    é vento em selvas a rugir.

    Calae, fugi, ventos agrestes;
    sumi-vos, lampadas celestes;
    n'um seio a delirios já prestes
    não susciteis mais tentações.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
    vós, astros, cifras de diamantes,
o arcano me aclarae lá d'essas regiões.

¡Oh! ¡se á minha razão, contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
de vós, faroes do Ceo, baixasse a crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
    ¡se me volvesseis as ditosas
esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
    com que se enfeita e esconde a Cruz!...

    Tornar-se-me-hiam de improviso
    a solidão, em paraizo;
    a magua, em perenne sorriso;
    em alto cantico, a mudez;
a mallograda lyra, o não colhido loiro,
    em harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.

Delirios sempre vãos, fugi de um peito enfermo;
tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
ermo para ambições, é inferno, e não ermo;
para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
    Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
    como um esquife em aureo veo.

    ¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
    (embora em saudades me eu queime)!
    O somno, as vigilias enchei-me
    da vossa esplendida vizão.
¿Val o riso choroso as festas da loucura?
    vinde, guiae-me á sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.

¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
    não, no silvestre seio vosso,
nem de amenas ficções apascentar-me posso,
    nem menos as posso esquecer.

    ¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
    sondou jamais o abysmo escuro?
    ¡Apenas chego e já murmuro!
    ¿O de que tremo acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
    aqui me aguardem, recatados,
dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.

Se além, no presbyterio, humillima choupana,
(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollícito se afana
em me afôfar o ninho, a vida em me inflorar;
    se n'um retiro verde e mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
    sombras no estio, o inverno ao lar;

    se a solidão que me apavora,
    sómente o fôr vista de fóra;
    se em seus recôncavos demora
    gente feliz, povo de irmãos;
se do antigo viver, das crenças de outra edade,
    vestigios guarda a soledade;
se poesia se vive entre estes aldeãos;

se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em céos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte á Natureza ri...
    coração meu, não desanimes,
gozos que não prevês, e cantos mais sublimes,
    encontrarás talvez aqui.

    ¡Ah! sendo assim, ¡que importa a fama!
    Tambem philoméla derrama
    sua harmonia ás selvas que ama
    longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria
    que a viva, a lustrosa poesia,
de perolas que a flux borbóta o rouxinol?



     Castanheira do Vouga

     Outubro de 1826.



II

O SEPULCRO OU HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOÃO (POEMA)


INTRODUCÇÃO

(QUE É MELHOR DORMIR, QUE LER)


     (Ermo alpestre entre cabeços de rocha e pinheiros, na serra do
     Caramulo. É noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a
     cavallo, transviados na montanha.)



I


--Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;
a velha era por força alguma bruxa.
Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!
--Bom; a pobre mulher (¿que mais querias?)
tres vezes t'o ensinou.
                        --Nem trinta vezes
que eu passasse por elle, o aprenderia;
a não ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas lapas.
Já levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o norte; não descubro casa,
nem gente, nem caminho, e é quasi noite.
Patrão, por meia legua mais ou menos,
não se deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte á beira da agua.
A velha era uma bruxa, e nós dois asnos.
--Dize um que vale dois, mas dois não digas.
Se tomámos o atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu não queria,
porem teimaste; e eu não me opponho a teimas.
--Mas eu ¿por que teimei? ¡pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas manças,
nos rabiscou co'o pau no pó da estrada
tão claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, não lhe escapando
lomba, moiteira, torcicólo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
¿Quem não cahia em tal? cahiam todos.
E de mais ¿quem nos diz que aquelles riscos
não tinham diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
¿E quem me diz a mim que a grenha russa
não vai ao pé de nós? ¡talvez sentada
na anca da mula!... ¡_fúgite_, demonios!
  Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;
quem mais anda, mais sabe; e eu não sou tolo,
nem creancinha de honte. ¡Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... ¡era uma vez! ¡Má raio a parta!
¿que havemos de fazer nestas alturas?
--Tornarmos para traz.
                      --¿Por este escuro?
¿quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
¡co'um milhão de diabos!!...
                            --Pois fiquemos.
--E as mulas comam terra, como os sapos,
e nós carqueja.
                --As noites são bem curtas.
--Se ao menos se avistasse alguma venda...
--Em rompendo a manhan teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.

(_Apeiam-se._)

       *       *       *       *       *

                        --No inferno
estoire entre um milhão de Satanazes
o que inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladrão... ¿Que bulha é essa?
--Não é nada; uma pedra que rebola.
--¡Que rebola!? ¡e sem mão! será bonito,
mas nem por isso engraço. ¿E aquelle bruto
lá em cima no pinhal, que guincha tanto!
--Algum mocho.
              --Más balas o atravessem,
e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou seis; mas cá perdido,
e então de noite, um pisco me põe medo.
--Pois dorme.
      --¿O quê? ¡dormir! ¡co'a bruxa ás barbas!
só se eu fôsse algum bêbado. Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas
dois penedos; e ao pé já está reforço.
--Golgan, já que não foi por nossa escolha,
busquemos contentar-nos co'a poisada,
que inda não é tão má como o parece.
¡Quantos ha menos bem acomodados
por esse mundo agora! uns em cadeias,
outros entre ladrões, náufragos outros,
estes em luto, aquelles em doença.
Bastantes em colxões de plumas fôfas
revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
cuidados tristes, asperos remorsos.
¡Quantos até nas salas mais alegres,
entre as luzes, e as muzicas, e as danças,
mas em face de um sôffrego banqueiro,
padecem mais que um reo chegando á fôrca
Não ha mal sem peor; qualquer estado
se se compara, é bom; com cara alegre
suavisam-se os incommodos; um fardo
n'um hombro impaciente é fardo e meio.
Quem não soffre um descommodo pequeno
nos grandes morre; um leve desagrado
dá realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer estado, e pessimo que seja,
tem seu lado risonho; e é da prudencia
d'entre os picos da silva achar a amora.
_Amen_.--Brava o latim; dá ceia e cama.
--A falta d'esta ceia é novo adubo
do almoço de amanhan; e emquanto á cama,
¿que outra melhor do que esta em mez de Junho?
Nem paredes nem tectos, que nos roubem
a viração da noite apoz a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
lá em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
sobre nós, e por baixo das estrellas,
pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado de insectos que entre-luzem;
dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.
Vê; que soberba camara!; que leitos
desde a origem dos seculos nos guarda
no seio d'esta brenha a Natureza!
--Ao menos não tem pulgas. ¡Xó, canalha!
¡leva rumor! é bom pregar de coices.
Não durma, Sôr Doutor.
                      --Não tarda muito
que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos
não devem ser os de uma noite d'estas!
--Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,
para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir á _Gazeta_!


       *       *       *       *       *


Uma vez ia eu só; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle; andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontapés da gente;
tambem... ¡já cá não torna! O grande caso
é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
que não pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas bem: é uma delicia
ter o seu homem só de vez em quando,
em logar do espião de um pegamaço
com residencia fixa em ar de abbade.
Mas... não é bom falar na vida alheia.


       *       *       *       *       *


Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o _Chupista_. ¡Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do coécas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creança lhe moia os queixos;
já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?
¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e monte havia
para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
Que isto do fôro é bom, nem que pareça;
uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]
Não ha n'um pardieiro um desgraçado
que não deva pagar alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem rasão; é porque andava ás ordens.
Tambem já tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
Vamos cá co'o meu conto.


       *       *       *       *       *


                              Era uma noite,
cuido que já lh'o disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.

  Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,
gósto de andar de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.


       *       *       *       *       *


Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,
vendo os machos no pateo é uma alegria!...
¡aquillo até os olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.
Não durma Sôr Doutor.
                      --Não durmo; acaba.
--¡Acabar! não acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha um cachaço,...
por tal signal que até revia enxundia;
¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
um sermãosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constancia
de arrumar prègações de duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
já tinhamos dormido á regalada)
disse muito pausado: «Eu principio.»

  Assim faço eu tambem. Todos devemos
tirar das prègações algum proveito.
Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
porém tenha lá mão, que a levo errada.


       *       *       *       *       *


Nesse dia á tardinha, na estalage
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabeça um lenço pardo
atado pela barba, um manteo ruço,
e uma mantinha exotica e de agoiro.
Tinha então uma cara não sei como;
nem parecia cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
¡Tambem aquella rez tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanças!


       *       *       *       *       *


Cheguei eu á estalage, e ia com fome;
vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,
mando os frigir com mel, que é papa fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que é bom, que livra do catarro,
já se sabe com quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu guizado,
e era um cheiro tão bom pela cosinha,
que isso não ha dizer. Já dois gallegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e ás voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!


       *       *       *       *       *


  Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com cada olho aberto, ¡que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
Logo eu tive má fé co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porém quem mal não usa mal não cuida;
sentei-me á meza a codear nos ovos.
Ora agora o vereis: a minha amiga
amúa-se n'um canto, mais vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a não ser por temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada lagrima... ¡de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.

  Era já noite escura, e um vento frio
como o gran Satanaz.


       *       *       *       *       *


                          ¿Que diabo é isso?
ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
--Avante; são as ramas que sussurram.
--Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser já tarde,
e a assobiar sósinho o _tiroliro_.
Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
Á esquerda, como ahi, ficava um monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e então mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldão o andava áquellas horas.
Entrei logo a suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem quê nem para quê; davam taes rinchos,
que se fundia o chão; pregavam coices,
que assoviavam no ar; ¡que contradança!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]
Aqui digo eu como dizia o Frade
n'outro sermão de um Santo; _não lh'o pinto
por não ter um pincel_. Mas faça ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!
Por força era algum sabbado lá d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sabbados, o mesmo
como nós no Natal á meia noite...
Ha muita comezana de creanças,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que até Deus se admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o proprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas ellas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e ellas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e então é que dei tudo por perdido.
Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa
(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)
entrei eu co'as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que pé ante pé viessem vindo;
que eu promettia uma ração dobrada.
Partimos. De repente desembésta
d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xára.
Com seis milhões de grozas de diabos!
¿quem havia de ser, senão a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sizuda
entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
--¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
--Certo é que lembrou bem; tambem agora
lá me faz confusão ter visto a cara.
¿Escuro? isso era escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.


       *       *       *       *       *


Mas o bom não foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o gallinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo ás cegas
sem as poder juntar. Foi se-me a noite
n'esta labutação; de cada canto
sentia um cacarejo, ia ás carreiras,
gallinha... por um oculo. Já rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas n'um bando ao pé das mulas.


       *       *       *       *       *


Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:
¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;
¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!
--Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
--Para nós ambos de Fieis defuntos.
--De San João.
              --¡Ah! sim; pois é fogueira,
e não é outra coisa. ¡Ora o diabo!
sempre tive uma colica soffrível.
Mas vamos nós a andar, se lhe parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
n'umas rasões que teve com meu tio,
que era barbeiro então, e o Padre Mestre
era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
que era um tição que só á bofetada;
¡mas muito presumido! ¡e então por moças
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que emfim, tinha o Padre este ditado:
aonde ha lume ha fumo; e eu então digo
que por força onde ha lume ha-de haver gente;
e que onde ha gente ha casa; e toda a casa
tem a sua cosinha, e então ceâmos.
E é partir de repente em quanto ha lume.
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II


Eis aqui um dialogo de ensanchas
sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo--
grita o leitor perdendo as estribeiras.
¿Onde foi isto? ¿ou quando? ¿quem são elles?
¿onde vão? ¿d'onde veem?


       *       *       *       *       *


                            Leitor amigo,
ha duas horas que soubéras tudo,
se o cruel arrieiro o permittisse;
mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
Quanto a elle, presumo que o conheces;
o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso
não peor que outros muitos portuguezes:
Antonio Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir a bodas;
recolho me outra vez á Castanheira[3]
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
O theatro da scena é certo monte
de que me esquece o nome; o anno, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito, á noite,
vespera de S. João. Se mais desejas,
é perguntar, que eu te respondo a tudo.


       *       *       *       *       *


Mas o melhor (se queres um conselho)
é fazer-me um favor, ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda comnosco;
a noite está bellissima; podemos
ir co'o nosso vagar pataratando,
e conduzindo as mulas pela redea.
Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
fica-te em paz, regala te, que eu juro
que estando em teu logar fazia o mesmo.
Se queres, faze ás paginas seguintes
onde vai mais Golgan (porque já agora
hei-de contar a historia por miudo)
faze, digo, a taes paginas o mesmo
que eu, tu, e elle, e nós, e vós, e elles,
fazemos ás dos _Martyres_ do Padre,
que são apezar d'isso uma obra prima.
Passa-as em claro, e dize que já leste.
Quem fala assim não quer suor alheio.
E adeus; até mais ver que vou com pressa.
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III


--Olhe lá, Sôr Doutor; diz um livrito,
que a gente sem falar é como os burros;
e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se passou depois da historia.
Mas vá picando a mula; ¡olhe a fogueira!


       *       *       *       *       *


Com que, como eu já disse, ao outro dia
vi as gallinhas ao redor das bestas;
torno-as a pôr na carga, e digo logo:
A Santa-Cruz não vão vocês de certo;
nem vocês, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai, ¡com trinta infernos!
Servos de Deus tão bons, tão meus amigos,
¡haviam comer tal! ¡metter no corpo
talvez quanto bruxedo ha neste mundo!
Deus me livre do mais, que de encarrêgos
posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
direito á Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.
              --¿As mulas!
                          --Pois as mulas
tinham tantos diabos na muchilla
como as gallinhas, os boreis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
não digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu trez annos para quatro
a correr Portugal e Hespanha toda
a buscar confessor; ¡tudo ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho de um cigano,
dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
Mas então penitencia não falemos;
se a quizesse rezar, ¡nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
mas disse-me que havia até ser velho
mortificar o corpo co'um vergalho,
e com muitos jejuns. ¡Se eu fôra pato!
Sabe então o que fiz inda algum tempo?
era correr de chôto os meus pedaços,
e depois descançar.


       *       *       *       *       *


                        Deixemos isto,
que não lhe importa muito, e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpão, e cheio como um ovo.
Namorei, namoraram-me bastantes;
por encurtar rasões, casei com uma
que era filha do irmão de um primo ou tio
de um meu compadre Abreu, que era cunhado
da sogra d'esta mesma rapariga,
e enteado do irmão do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e temente ao Senhor, que é todo o caso.
Gastei para impôr Bulla os meus tanturrios,
¡e não foi lá tão pouco! ¡Veja agora:
¡para a gente casar largar dinheiro!
É como ir para a India ou para a fôrca,
e pagar inda em cima aos da sentença.
Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,
disse me elle que a causa era nós termos
quatro humores no corpo, e d'aqui vinha
haver os quatro grãos na parentela;
que ella era minha prima, e que entre primos
havia os quatro grãos todos inteiros.
Não se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peças
não só os quatro grãos que se não viam,
mas ainda mais cá certa brincadeira.


       *       *       *       *       *


Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me.
Aquelle mez primeiro é uma delicia;
foi todo elle um _cantate_; muito amigos,
muito beijo, e comer; muita broega,
muita romage, e tudo muito e muito.
Nunca houve um par assim tão contentinho;
nanja na aldeia e na comarca em roda;
era até amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a gente,
n'um dia santo á pratica da Missa
deu-me um foguete ¡caspite! Disse elle
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
ella entrou-me a azoar com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o asneirão do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho, e ameaçou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.


       *       *       *       *       *


¿E então que lhe parece a entaladella?
Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
vem o Juiz, promette-me a enxovia.
É como o conto de um palerma velho
que ia a pé co'um rapaz e mais um burro.
--Bem sei.
    --Pois sim senhor. Com que, tivemos,
não digo bem; teve ella oito ou dez filhos;
e sempre a dois e dois; forte coelha!
Entrei a dar á bruta; acudiu povo,
ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
E d'então para cá desandou tudo.
E hoje ando aqui por moço de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as ventas.
Aqui está por que eu digo que este mundo
é coisa muito celebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram tudo.
........................................


       *       *       *       *       *


¡Brava! ¿não ouve uns sinos que repicam?
¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o Vinagre!
¡e viva a ceia e a cama que estão perto!



IV


Com effeito, assim era; a poucos passos
já se ouvia tambor, gaita de folles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na direcção dos sons e da fogueira,
descemos uma encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns cinco ou seis pastores se occupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdêramos no monte,
off'recendo á porfia os seus albergues.
Não findara a benevola contenda,
se um d'elles agarrando o freio á mula
me não posesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que inda ficavam,
segui affoitamente o nosso guia.


       *       *       *       *       *


Uma ponte de pau que atravessámos
coberta de chorões, nos poz á borda
de um trigo já maduro e sussurrante,
contiguo ao seu casal. ¡Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada ahi como risonha ilhota
n'um vasto mar de tremulas searas,
e clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do ceo por entre as folhas
de um esquivo parreiral. Junto ás paredes,
de rosas e limeiras revestidas,
canapés de cortiça apresentavam
a imagem do descanço e a do convite.
Não era necessario entrar a porta,
para já conhecer o domicilio
da hospedage e da paz; que as proprias auras,
como que em tão poeticas folhagens
se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo o estranho!»


       *       *       *       *       *


  Não longe lhe ficava a sua aldeia
na c'roa de um oiteiro; pensarieis,
vendo-as tão perto, e um bosque a separal-as,
a aldeia tão brilhante de fogueiras
e esta casa tão só mas tão alegre,
pensarieis, como eu, ver n'uma festa
moça ausente e feliz, amante e amada,
que entre o prazer commum não quer nem deve
ir desfazer seus pensamentos doces.


       *       *       *       *       *


  Visinho seu mui proximo era o templo,
aos valles do arredor alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a Residencia, occulta em parte
n'um ramilhete de altas cerejeiras.


       *       *       *       *       *


  Nunca mão de pintor juntou n'um quadro
objectos mais simpathicos. Tal como
trépido arroio em tacita espessura
das copas bebe a sombra, e envia ás copas,
do sol reflexo voadores raios,
do casal a presença alegra o templo;
a presença do templo está lançando
sobre o casal o sério da virtude.
Tudo isto sob um ceo de fertil benção,
sobre um chão de abundancia, e no ar mais puro!
--¡Meu Pae,!--grita o pastor entrando á pressa--
minhas irmans! ¡um hospede!--


       *       *       *       *       *


                          A tal nome,
como se fosse á voz de alguma fada,
com repentina luz nos apparecem
creanças folgasans, esbeltas moças,
um ancião, e uma velha. Imagináreis
ver Graças, ver Amores, ver Napêas,
trajados de aldeãos, e honrando os lares
de Baucis e Philémon, que o parecem
na edade e na virtude os meus dois velhos.


       *       *       *       *       *


Não mora entre seáras a etiqueta;
mas sobre herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
logo o segundo aos commodos; o resto
á conversa, e ao bulicio de tal noite.


       *       *       *       *       *


Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
vital perfume de mellifluos bolos,
que em molles virações traz a alegria.
Aquella vai e vem compondo a meza;
esta afervora a ceia, e a cada instante
corre á janella que descobre a aldeia.
Juntam-se á bulha os sinos da parochia,
que o sacristão na vespera do Orago
jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra.
O festivo repique exalta as mentes,
os meninos não param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaçam fogo á pipa velha.
A boa annosa mãe ralha do estrondo,
e o faz inda maior; o esposo enfia
uma sobre outra historias do seu tempo.
O avito candieiro de tres lumes
cobre da meza o centro, e chama á ceia;
a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.
Não foi longo o festim, mas cada copo
lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes,
ó dos tres lumes candieiro avito!
¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
não tens visto florir em tua casa!
¡quantas mãos tão felizes como puras
te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe
que de memorias para ti conservas!
¡Em premio da hospedage aqui te accendam
longas eras em noites semelhantes
dignos de seus avós contentes netos!


       *       *       *       *       *


Iria a muda apostrophe adiante,
mas ouviu-se o zabumba.--¡Ahi veem! ¡são elles!--
dizem todos, e todos saem pulando.
--Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!
este anno veio tudo. ¡Que alegria
terá o nosso Parocho!
                        --Maria,
dá cá o meu chapéo.
                        --¡Corre, Pedrinho!
--¿Onde está meu irmão?
                        --¡Não se demorem!
--Vamos dançar.
                --Perdi as alcaxofras.
--Vinde por cá; passemos-lhes adiante;
que rancho que lá vem!................
..........................................
.................... Golgan, que eu fosse,
não pintara a estrondosa miscellanea
que vôa do cazal ao Presbyterio.
Lavra nos proprios velhos o alvoroço;
vão co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo,
estranho á festa. O pateo illuminado
nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.
--Viva o nosso Prior!...
                        --¡Viva!!!...
                                      Mil vozes
restrugem o ecco apenas avistaram
rindo á janella o velho gordo e alegre.
--¡Viva o Senhor San João! ¡viva a alegria!



V


Bate o zabumba; a muzica rebenta;
fogem foguetes pelos ares livres
estrepitando; o campanario ovante
de jubilo endoidece; repentina
por dez partes acceza alta fogueira
dentro de um vasto circulo purpureo
mostra o prazer brincando em cada rosto.
Bello é ver n'este lance as raparigas
compondo mais o lenço, alevantando
o chapeo, que o semblante lhes encobre,
dando, como a descuido, um toque leve,
mas gracioso, ás flores que lh'o adornam,
e á flor do seio, e ao laço do collete.
¡Quantos nós ata amor n'esses instantes!
¡quantos outros aperta! ¡em quantos outros
embebe o espinho de um sutil ciume!

¡Chiton! temos o Parocho na frente;
e as cangalhas vêem mais do que parece.
A _alegria decente_, eis o estribilho
com que recheia as praticas. Se cantam,
co'a cabeça e co'o pé bate o compasso;
se pulam boa dança em honra ao Santo,
bota fora uma can. Por isso o baile
circula agora a estridula fogueira;
por isso o San João vai toda a noite
injuriado em canticos devotos.



VI


Meia noite. Que som mysterioso!
interrupção no baile e nos descantes.


       *       *       *       *       *


Fada das amorosas prophecias,
tu, tu passaste agora em concha aerea
tirada pelo zephyro; sentimos
todos nós tua magica presença.
¡Boa viagem, Fada, e boa noite!
¡Salve, hora duodecima; bateste,
e descerrou-se a porta do futuro.
Sua nevoa desfeita em orvalhadas
vai nas plantas eleitas, vai nas flores
mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
benção, certeza, amor, felicidade.
Já se interrompem bailes e descantes.
Embebida em potentes nigromancias
toda esta multidão por modos varios
exerce escrupulosa altos mysterios.
Mas renasce o alvoroço; é porque os copos
dos bilhetes fatidicos chegaram
da ama nas mãos com riso de importancia.

--Não falta aqui rapaz nem rapariga--
diz ella;--o senhor Padre escreveu todos,
mesmo á vista do rol dos confessados.
Meia noite já deu; quem quer casar-se,
pode vir vindo.

                        Ao grande reboliço
succedeu a attenção, que a cada sorte
outra vez se converte em gargalhadas.
Por cada par que amor approvaria,
veem disparates comicos ás duzias,
e dão rebate ás palmas e epigrammas.
O proprio bom do velho applaude a tudo,
e por primeira vez da sua vida
encontra em si chorrilhos de finuras.
Já pede a uma o bolo do noivado;
quer ser padrinho de outra; e ás mais bonitas
quer baptisar de graça os pequerruchos.

Muito custa no mundo o ser discreto
sem descambar o pé! coisas escapam...
que é por Deus não haver o Santo Officio,
como esta ao nosso padre:
                        --Olhae, rapazes,
vai n'estas sortes o que vai no mundo:
o acaso e a Providencia, ao que parece,
ambos lêem pelo mesmo Breviario.

Não foi dos mais christãos o epiphonema,
mas fez rir. O Golgan neste comenos
chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:
--Esta, seja quem fôr, é cá p'ra nostri.

Pede que a leiam; lê-se-lhe:--O coveiro.--
Mudo o povo se entre-olha; e de repente
co'as pragas do Golgan destampam risos,
como os que o padre Homero encaixa aos deuses;
¡inextinguiveis risos! Mas não cede
a chufas nem a agoiro o varão forte;
e com mão bem segura extrae sublime
do outro copo outra sorte:--Ambrosia Trécula.

Então do pateo o riso clamoroso
deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana,
e retumbou nos ceos: Trécula... Trécula.

--¿Quem diabo é esta Ambrosia?--o heroe pergunta.
--Sou eu--responde a ama.
                       --¡Está brincando!
é talvez sua neta ou titrineta.
--Vá-se, tolo.
                --Olhe cá, senhora tia,
não vai a arrenegar; não lhe pergunto
por cara, corpo e modos, que são lindos;
¿mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?

Com o desdem mais dramatico, a matrona
voltou costas; e o bêbado prosegue:
--Sô Reverendo, não lhe aceite os banhos,
que eu sou casado, e ponho impedimentos.

Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem
tirar tambem; tirei; ¿quem tiraria?
uma das filhas do meu bom Philémon.
Recebi parabens de todo o povo;
deixei-o bem disposto a divertir-se,
e tornei co'o o meu _sogro_ ao nosso albergue.
Instou que me deitasse; respondi-lhe
que em noite de San-João ninguem se deita;
que alem d'isso a jornada fôra curta,
e sem nimia fadiga; ultimamente
que, pois que elle esperava a mais familia,
esperava eu tambem; não sendo airoso
faltar á noiva no primeiro dia.
--Cedo, mas só co'a clausula--disse elle--
que inda amanhan sois nosso.
                      --Assigno.
                            --¡Bello!


       *       *       *       *       *


Então toca a palrar até que venham.
Saiâmos, que faz calma; alem, na eira,
sobre a alta palha do centeio novo
tomaremos a fresca e as orvalhadas.


       *       *       *       *       *


Disse, e fez se. ¡Que ceo! ¡que paz! ¡que noite!
na molle aragem das fagueiras horas
meu coração feliz desabroxado
me enchia de um perfume egual ao vosso,
nocturnas flores, que o gosais sosinhas.
¡Quem podesse apanhar, prender na vida
estes momentos lubricos, momentos
que só caem do ceo durante a noite,
e só na solidão! Temi perdel-os
co'a triste distracção de mutuas falas.
Lembrou-me haver notado no meu velho
um genio amigo de contar historias;
pedi-lhe uma qualquer, bem decidido
a deixal-o á vontade espanejar-se
sem lhe dar attenção; mas enganei-me,
Pondo o rosto na mão, nos céos os olhos,
entra a buscar pela memoria antiga
algum caso mais raro; e como desse
casualmente co'a vista em certo lume
n'um cabeço remoto,


       *       *       *       *       *


                   --Ouvi--me disse;--
por aquella luzinha lá ao longe
lembra-me um caso, e um caso que foi certo,
passado ali no Minho ha largos annos.
Inda eu conservo em casa uns Breviarios
de um Padre irmão da minha avó materna,
que poderão servir de documento.
Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas
do principio e do fim dos quatro tomos.
E era um clerigo honrado, o que escrevia;
merece tanta fé como a Escritura.
Diz elle então ali (nem é só elle;
minha Avó sua irman dizia o mesmo):
que esta nossa familia inda descende
da Rosa de quem fala a dita historia.
A minha avó foi Rosa, e tinha o nome
de sua mãe; a minha mãe foi Rosa;
a vossa _noiva_ é Rosa; e n'esta casa,
querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.


       *       *       *       *       *


Depois d'este preambulo de Rosas,
veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa
hora e sitio, ou a amavel singeleza
com que narrava o historiador das medas,
ou já disposição com que eu me achasse.
Creio que sim: do espirito do ouvinte
vem mais de meio o merito das obras.
Por exemplo: da Eneida o livro quarto
dias ha que me enfada; ha tambem dias
em que se atura o _Italico_ do Padre;[4]
e em que se entende um pouco a pálrea bruta
que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5]
Nada parece mal, trazido a tempo;
fora de tempo, tudo. A mesma coisa
entre obras e leitores acontece,
que entre os garfos e as arvores: se enxertam
quando o não pede o tronco e o veda a lua,
¡adeus ramo bastardo! e se ao contrario,
penetra a seiva toda, e pula o ramo.

Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,
que protestei contar-vol-o a meu modo;
e o poema seguinte é o desempenho.
Tivesse elle, o que em vão lhe hei procurado,
da prosa do meu sogro o tom singelo,
talvez, leitores meus, o relerieis.

Inventar, descrever, compor os versos,
são os tres pés, da trípode de Apollo.
Já sabereis do Reverendo Kinsey
que eu não tenho invenção; que nada pinto
co'a verdadeira côr da Natureza;
que os versos meus são bons, mas que aborrecem;
o que não tira que um poéta eu seja
digno de ser notado entre os que vivem.
Ora, quanto á invenção d'este poema,
bem vedes que a não ha, ou se a ha que é d'outrem.
E quanto ás descripcões, fiz o possivel
para não metter mais que as do meu _sogro_.
Mas faltava o melhor, e o mais difficil:
versificar á moda. Atirei fora
o Virgilio, o Racine, e o Metastasio,
gebos todos monótonos, que enfiam
os versos bons e os optimos aos centos;
atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;
estudei, fiz ensaios, compuz paginas
de embréxados velhissimos e esdruxulos,
e não foi sem proveito o estudo acerrimo.


       *       *       *       *       *


Perdoae se este livro inda vai falho
d'esses donaires que travêssos fogem
de mal expertas mãos; soffrei-o em quanto
vou destilar sobre outro o _Elucidario_,
qual se espreme um limão sobre um guizote.


Abril de 1831.

FIM DA INTRODUCÇÃO[6]



III

EPISTOLA

A JOÃO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)



Da paz de um ermo ao turbilhão da côrte
a Musa de Castilho á do seu Costa
saude e amor. Já outra primavera
se enflora, a seu pesar, desde que ausente
pede aos montes a irman, que a não suspira,
e dorme ao lado de um feliz ingrato.


Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios
em cantos cujo ecco além não passa
....................................


1831--Abril, 21.



IV

O PRESBYTÉRIO



¡Salvè, principio e fim dos meus passeios!
¡Salvè, ó tu, cujo tecto, alva casinha,
cobre ha perto de um lustro os meus autores,
meus castellos no ar, meus faceis versos!
¡Salvè, co'o teu rosal; co'as tuas limas,
festivo ornato das paredes brancas;
co'o teu portão patente oppresso de heras;
e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,
brasão futuro do obumbrado pateo!
¡Salvè outra vez, meu presbytério! ¡Salvè!


       *       *       *       *       *


Hoje, que o caprichoso do meu estro
(bem sabes se elle o é) deixa inconstante
versos índa no chôco, outros que apenas
vão da casca a sahir, outros que breve
teem de fugir do ninho em vôos livres,
entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,
a doidejar-te em roda, a namorar-te,
qual borboleta ociosa ou leve abelha.
Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perdôa
se o canto falador, transpondo os cumes
das tuas cerejeiras, fôr mais longe
revelar tua humilde obscuridade.


       *       *       *       *       *


A antiga mediania, a segurança,
a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens,
genios foram, que em bençãos presidiram
aos alicerces teus. De Pário monte
não foi mistér que entranhas te enviassem
chão, columnas, e abóbadas, e estatuas;
tuas portas sem chave não cresceram
lá nas florestas do hemisphério opposto.
Foi visinho pinhal teu sôlho e tecto;
deu-te paredes mais visinho oiteiro;
portões e meza um cedro bom da extrema.
Não custaste nem lagrimas a pobre,
que á força te cedesse a choça avita,
nem odioso suor; e não se dormem
somnos melhores em Belem nem Mafra.


       *       *       *       *       *


¿Que importa que no centro d'estes ermos
vivas tão só, que apenas descortines
n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia?
Tu e o templo co'as messes que vos cingem
bastais no quadro agreste; em vós affluem
(como em sua Queluz) nos festos dias
ondas e ondas de amaveis saudadores.
Os rebanhos ociosos não desdenham
tôjo em flor, que te doira o chão das mattas,
d'onde envôltos co' os trémulos balidos,
veem cantos de amorosas guardadoras
endoidecer teu ecco.
                   Os caminheiros
abençôam-te a sombra; aqui teem fonte,
que em tua relva, ao fresco das parreiras,
detém, dessedentando-as, caravanas
que vão ou veem no alpestre Caramulo.


       *       *       *       *       *


O anjo das flores liberal te arqueia
de bordada verdura as rescendentes
claras janellas.
                 Um bulicio manso
de amigas vozes teu recinto alegra.
Na sua tépida choça os bois ruminam
ante o feno em montões; dorme no páteo
farto esquadrão lanigero; ao sol pôsto,
cão, dos lobos terror, te vela as noites;
teus gallos as demarcam vigilantes.
Co'a luz primeira arrulha-te alvejando
cypria nuvem plumosa; e apenas saltam
da dextra mão mesquinha os grãos doirados,
em torno da gentil madrugadeira
de toda a parte os hospedes revôam.
Bicam por entre as pombas á porfia
a gallinha de filhos rodeada,
o manso grasnador do aquoso tanque,
o vaidoso perú, que ri cantando,
e vós, e vós, mais vivos do que todos,
não chamados, mas sempre a nós bemvindos,
passarinhos do ceo, turba sem dono.

       *       *       *       *       *

Singelo presbyterio, ¡oh! ¡como te amo,
co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,
tão social á noite; a simples sala,
quasi sempre deserta; a livraria,
deserta rara vez; estas alcôvas,
que enche um só leito; e a adega, assoviada
do alvo sôpro do Norte; e o fuso, e a pia
da cheirosa vendima; e o teu celleiro,
alto, arejado, e tão patente aos pobres,
como as portas do templo convisinho.


       *       *       *       *       *


¡Floresças para o Ceo e para a terra
nos inconstantes seculos! ¡floresças,
feliz, co'o feliz dono, edade longa!
E se, lá no futuro, algum amigo,
sócio dos dias bons, saudoso e triste,
torcendo a estrada, a te pedir viesse
novas do teu cantor,--«Amou me, e amei-o--
lhe dirias mostrando-te; e--«Seus ossos--
juntaria o teu velho--aqui descançam.»

       *       *       *       *       *

Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos,
gratos aos bons d'este recanto obscuro,
onde escapei no seculo de sangue,
cá ficarão n'este ocio, inda alguns dias
do simples montanhez talvez chorados.

       *       *       *       *       *

Oh santa perseguida Liberdade,
¡onde te achei!.... Onde não vivem homens;
n'um torrão bravo que não chama invejas.

       *       *       *       *       *

Em quanto, ora que a noite o ceo regela
humida e turva, tantos ricos enchem
de bocejante enôjo as assemblêas,
e tantos, tantos miseros, sem lares,
sem consôlo, sem pão, sem voz de amigo,
só reos de patrio amor, dormem nas furnas,
pelas praias do Oceano, e pelas rochas
(sublimes troncos pelo pé cortados)...
tua clara fogueira nos aquece;
¡graças, graças a um Deus!
                              Assim vagava
sobre o universo undoso a arca do justo.

       *       *       *       *       *

Nós, depois de annos tres, inda esperâmos.
Ainda do trovão eccos retumbam.
Ainda os escarceos assoladores
remugem lá por fóra. Ainda a pomba
co'o ramo de oliveira inda não volve.

       *       *       *       *       *

¡Oh santa perseguida Liberdade!
¡Oh! ¡Se eu podesse, a trôco dos meus dias,
restituir-te á minha Patria!....

       *       *       *       *       *

                           Basta.
Esperemos ainda. Oremos sempre;
e talvez que não tarde a grata aurora,
em que, a adejar da serra pelos pincaros,
venha de longe a nuncia das venturas,
a pomba com o seu ramo de oliveira!...

Castanheira de Vouga

    Maio de 1831.



V

A LYRA DO DESTERRADO

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)



Era a noite dos finados;
sombria noite de outono.
Entre sinos acordados
lá jaz Roma entregue ao sono;
seus luzeiros apagados.

Do ceo pelo rôto manto
só brilham frouxas estrellas;
sai a custo o clarão santo
dos templos pelas janellas;
e Petrarcha vela emtanto.

Véla Petrarcha, e suspira
no leito amoroso e ermo;
olhos na véla que expira;
saudades no peito enfermo;
nem gloria sonha, nem lyra.

Qual raio sôlto de lua
por móveis aguas vibrada
n'um bosque inteiro flutúa,
tal adeja no passado
a saudosa mente sua.

¿Quem dirá seus pensamentos?
a douta lingua está muda.
¡Que paixões, que sentimentos,
no rosto, que aspeitos muda,
veem transluzir por momentos!

Ora é dor, ora é sorriso,
esperança, amor, transporte;
queixas, ternuras diviso;
desce aos abysmos da morte,
vôa aéreo ao Paraizo.

¡Não falar o Vate agora
co'os labios que move apenas!
¡Que torrente abrazadora!
¡que amor! ¡que incendidas penas!
¡quão nova a paixão não fôra!

Vai a noite adiantada;
humido vento assovia;
treme a luz quasi apagada.
Do grão Cantor que vigia
ferve a mente a sonhos dada.

--«Eís o templo conhecido
que os meus destinos encerra.
A mãe terna, o pae querido,
cá m'os tem no seio a terra.
Cá vi Laura, e fui perdido...
...............................

Castanheira do Vouga
    1830...(?)



VI

EPISTOLA

(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)



A minha primavera emfim renasce.
Té n'este horror selvatico dos montes
roupas traja nupciaes a Natureza.
O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,
tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho alegre; armento o muge;
na folha nova zéphiro o cicia;
a camponeza em meio de mil flores,
que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
e ao viçoso tapiz, á sombra vasta
macia e tentadora lança os olhos.

Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
enleva a fonte e as arvores nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lições que mais de um ente ao longe estuda
(e pratica talvez); em sons de lyra,
solitario eu tambem, lições de affectos
de cá te envio ao centro da cidade.
N'esse ruidoso vórtice de povo,
de vãos praseres, de negocios futeis,
a geral rotação te arrasta ás cegas;
é dever da amisade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas
pode não ver a táboa ás vezes perto;
pode a praia ignorar, e tel a em face.
Táboa amor te lançou da praia firme;
ledo e fausto Hymeneu te está chamando.
.......................................



VII

A ROMARIA



Lá vem Maio rosado. Já floreja
nas planicies, verdeja pelos montes;
é o mez de Amor, é o mez de Philoméla.

Aureo amanhece o dia suspirado
da romaria annual; léguas em roda
já tudo é festa, esp'rança, e regosijo.
As povoações, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados bandos.
Lá retrôa nos eccos aturdidos
a matinal girandola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem povos misturado
enche a vozeada selva, a acceza ermida,
e de ondeado matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triumphante bandeira alvi-cerúlea.
Vai e vem, ora chega, ora se allonga,
não está em nenhum sitio, e assoma em todos,
a alma da festa, a gloria do Gallego,
a aguda gaita túmida e franjada,
que ao rufado tambor sócia, repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.
Em vidrado alguidar reluzem n'agua
os doirados tremóços, que afadigam
com compradores a afrontada tia.
As navalhas e anéis, o apito, o espelho,
se assoalham mais além; na alva toalha,
alva e folhuda, estão chamando o exul.
Em cima de seus carros triumphantes
os laureados tonéis, reis da alegria,
dão n'um fogo perenne a vida a tudo.

Aqui se ouve o descante ao desafio,
que a viola ora segue, ora acompanha.
Ali se apinham para ver as danças,
que a discorde rabecca entorta ás vezes.
Lá, se entorna o licor em puros vidros;
ao pé se adoça a fresca limonada.

Aqui se comprimentam; além chamam;
um se perde, outro se acha, outro convida.
Este corre; esta pára a ataviar-se,
por mostrar o cordão e o lenço novo.
Estirados na relva os velhos palram;
grita o rapaz. O amante, recostado
ao páu, por onde um braço lhe serpeia,
faz longa côrte á tímida futura,
que em resposta de amor lhe dá tremóços.

N'isto vôa o foguete, e atrôa as nuvens.
Lá sai a procissão; lá foram todos.
¡Ah! depois do jantar comido ás sombras,
cada um levará, volvendo a casa,
gratas lembranças para o anno inteiro.



VIII

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES

OU

A MATTA DE S. SEBASTIÃO


     Versos na plantação de uns carvalhos junto á egreja de S. Mamede da
     Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia no
     Domingo do Carnaval de 183...



I


N'este dia, em que o povo tumultuando
nos casaes, nas aldeias, nas cidades,
troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,
por copos, danças, máscaras, e risos
nas saturnaes christans; quando se espraia,
desde o seio de Roma aos fins da terra,
de um praser contagioso alta vertigem;
¿por que retreme ao golpe das enxadas
sob os meus pés a solitaria encosta?

       *       *       *       *       *

¡Saude a vós, a vós louvor. Bemvindos,
montanhezes, fieis aos priscos usos!
O cântaro do estylo ahi está coroado,
risonho e prestes a inundar os copos;
o prémio á vista vos redobre as forças.


       *       *       *       *       *


Rasgae co'o duro ferro a terra dura;
de vossos paes a matta veneranda
em torno de seu santo antigo dono
se accrescente por vós. Plantae, que é tempo,
no chão, sagrado de suor devoto,
ó presente annual, que o Ceo prospére.


       *       *       *       *       *


Onde quer que elle jaz, abençoemos
as cinzas do homem bom, lá d'essas eras
que a pia usança introduziu primeiro.
¡Quanto a sua virtude era risonha!
--«Cada solteiro plantará n'este ermo
mais uma arvoresinha de anno em anno,
que lá em cima encontrará seu premio.»
¡Oh! estes rogos, sim, este pedido,
doce e desint'ressado, uncção respira;
manda mais do que as Leis; morrer não deve.


       *       *       *       *       *


Produz, produz a miudo, ó Natureza,
por teu bem, por bem nosso, homens como esse.
Haja quem diga ao joven par, que ás aras
sobe apenas amante, e desce esposo:
--«Hoje, que são já fruto esp'ranças de hontem,
entrae sorrindo pelo chão da vida;
plantae, plantae um'arvore que o lembre.»


       *       *       *       *       *


Quando a cabana festival se enrama,
se enflora a meza, e os aldeãos visinhos
veem festejar na casa um filho novo,
a mão paterna, de praser tremendo,
orne de um novo tronco o prédio avito.


       *       *       *       *       *


¿Depois de suspirada e curta ausencia
volve um irmão das terras estrangeiras?
¿Convalesce um parente? ¿Em bem se acaba
suado, volumoso, eterno pleito,
que empobreceu o avô, o filho, e o neto?
¿Fizestes o adversario amigo vosso?
¿Sorriu-vos a ventura? ¿É farto o anno?
A sêrdes Reis, alçáreis monumentos;
¿que vale um monumento? O homem dos campos
melhores pode erguer a menos custo:
plante sobre o caminho arvores férteis.
Por elle o passageiro ardendo em calma
ache a sombra hospedeira que o recreie.
Por elle o pobre, que seu pão mendiga
de casal em casal, de monte em monte,
que não vê ceo, nem lar onde se aqueça,
nem feno onde descance, e em todo o mundo
só tem por património a caridade,
ache a fruta a pender em curvos ramos,
a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe.
Assim, do bem de um só germinariam
mil bens communs; e do praser de um homem
o publico praser, publicas bençãos.



II


Se tendes de nascer, nascei mui breve,
sensiveis corações a quem Deus guarda,
a gloria de influir eguaes costumes.
Desde já nossas lagrimas de affecto
correm por vós; ao seio do futuro
nós vos lançamos desde cá louvores.



III


Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos
aqui se embebem na tarefa honrosa,
sentemo-nos á sombra, a vós bem grata,
do carvalhal que as vossas mãos plantaram,
homens das cans, antigas testemunhas
dos tempos que não são.


       *       *       *       *       *


                          Vós, deputados
das mortas gerações aos vivos de hoje
como pregões propheticos; thesoiro
de saudades, de dor, de experiencia;
bons velhos, á vossa alma taciturna
aprazem mais que a festa os pensamentos.


       *       *       *       *       *


Falae: ¿d'onde vos nasce essa tristeza
profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?
¿Será de enfeitiçada sympathia
que nos attrai á terra, ao chão da vida,
chão sempre cubiçado e sempre ingrato?


       *       *       *       *       *


O coração, zeloso da existencia,
compara os dias seus do tronco aos dias,
e a conta desegual o opprime e o fecha.
¡Annos a nós, e seculos aos bosques!...
Planta o pae, mas a sombra hospéda os filhos;
netos, que não verá, gosarão d'ella;
e indiff'rentes incógnitos vindoiros
rirão contentes ao folhudo abrigo.


       *       *       *       *       *


Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio
dispõe arvore fértil de esperanças,
que irá legada aos filhos de seus filhos.
Prophecias de amor lhe expande o seio,
sorri, e ama o que é seu, na esp'rança ao menos.
Mas feliz egualmente o que em seu predio
possue vaidoso um tronco hereditario.


       *       *       *       *       *


Na réga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
¿como ha-de não pensar em seus maiores?
Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;
¿Como ha-de recusar-lhe uma saudade,
um suspiro, um suffragio, um elogio?
A gratidão medita á mesma sombra
onde já meditára o amor paterno.
Esta arvore mortal é o santo marco,
em que se juntam, se entrelaçam, crescem,
dos idos o interesse e o dos vindoiros;
nó de affeição, que os seculos reune.


       *       *       *       *       *


¿Vedes vós essa mãe, que ha tantos annos
chora um filho alem-mar, em longes terras?
Mostrae-lhe um passageiro a dar á vella
para o porto feliz; ¡com que ternura
lhe não dará, chorando, um longo abraço,
que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,
e todo o amor de mãe lhe exprima n'elle!...
¡E com quanto alvoroço o desterrado
não cingirá o amavel mensageiro!...
Eis o emblema da arvore, cruzando
viva e lembrada o Oceano das edades,
mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.



IV


¿Qual de vós, repoisando n'esta cama
de folhas mortas, qual de vós, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choça, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeição de um pae, de um pae nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
¡Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extincta geração recai nas campas.


       *       *       *       *       *


¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores
nada mais resta além de uns troncos mudos
n'este universo movediço e instavel?
¿nem uma só lembrança, um dito, um nome?
Tudo passou sem mínimo vestigio,
como os sons leves de um descante ao longe.
...........................................



V


Bons aldeões, estas sombras regaladas
vos falam nos avós; porém comigo,
comigo, extranho, e novo em meio d'ellas,
conversam no aureo tempo a que assistiram;
recordam-me as edades do Universo,
e os varios povos, e os paizes varios,
contemporaneos do nascente mundo.


       *       *       *       *       *


Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abóbadas immensas
as velhas tradições nol-os descrevem
pobres e alegres, nús e satisfeitos,
saboreando em ocio a glande e a fonte,
dormindo sobre a folha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.


       *       *       *       *       *


A pouco e pouco o numero crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza.
Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam;
a um Maio eterno as estações succedem;
o ar se gela e accende, alaga e silva;
já bravejam leões, já bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.


       *       *       *       *       *


Vós, troncos, até ali seus companheiros,
acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!
lá, crepitais em rútila fogueira;
aqui, das feras prohibís a entrada;
dais uma clava ao caçador valente;
na serviçal cortiça um berço aos filhos;
leitos a amor, assentos á velhice,
aos enxames um lar, um copo ás festas.


       *       *       *       *       *


Das precisões ao grito, o engenho acorda;
lá surgem povoações, curraes, tugúrios,
e uma capella ás rusticas deidades.
Lá rompe o novo arado a terra dura;
lá geme, a transportar enormes pezos,
o carro, e sulca atónitos caminhos.
O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo;
a rudeza se pule; as artes crescem;
a especie racional das mais triumpha.


       *       *       *       *       *


As gerações do ceo, do mar, da terra,
tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.


       *       *       *       *       *


Então foi, que estas arvores, tão uteis
no patrio continente, abriram vôo
sobre o liquido abysmo a novos climas.


       *       *       *       *       *


¿E em que parte do globo, arvore excelsa,
te podes presentar, que não recordes
uma façanha, um culto, um grão successo?


       *       *       *       *       *


¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
que foste invicta clava em mão de Alcides;
vê-te, suspira, bate o chão raivando
de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças.
¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
do arvoredo Dodónio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.


       *       *       *       *       *


¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos;
Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?


       *       *       *       *       *


                              ¿Nos campos?
¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?


       *       *       *       *       *


¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.


       *       *       *       *       *


¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos,
sobre os cumes, á beira das torrentes?
Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na vespera do sangue
em nocturno festim que allumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heroes do antigo tempo.


       *       *       *       *       *


¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os principes e os velhos,
os juizes, as tribus, apinhar-se
em torno ao tabernáculo de Sila.
Por cima d'este mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silencio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josué, braço do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira;
os favores do Ceo recorda ao povo;
renasce a Fé; os idolos se arrazam;
--«¡Gloria ao Deus de Israel!--vozeia a turba--
¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos!
--Erga-se um monumento,--exclama o chefe--
que, se infieis um dia os esquecerdes,
vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.»
E a monumento põe no logar santo
enorme pedra á sombra de um carvalho,
que abrigava co'a copa o santuário.[7]
Despede o Povo, e em paz contente expira;
em paz, que já não vê perjúrios novos.


       *       *       *       *       *


Escrava de Madian a plebe expia,
na miseria e no opprobrio, os males torpes
que fez ante o Senhor. Mas inda existe
um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
é Gedeão, é o Josué segundo.[8]
Este, em quanto seu pae lança aos caminhos
medroso olhar á espera do inimigo
para fugir com elle, ajunta á pressa
o trigo que limpou.
                    Vê de repente
um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho é testemunha
da belleza do alado mensageiro,
da voz de salvação mandada ao Povo,
e do holocausto acceito e posto em cinzas,
e do altar, a quem _Paz_ foi dada em nome.


       *       *       *       *       *


E este, que tão frondoso opáca os valles,
¿por que o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
jazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o ceo voltados
pelo rosto amarello lhes escorre
grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.
Choram Saul, e a régia descendencia,
que mortos no combate aqui descançam.
Para o Monarcha agigantado e invicto
nenhuma estátua se erguerá na campa.
Sua columna e funebre palacio
preparou-lh'os com tempo a Natureza:
o tronco, rei da selva, o está cobrindo.


       *       *       *       *       *


¡Mas quanto é mais tocante o que se eleva
nas faldas solitarias da montanha!
Ali Débora jaz; ali Rebecca
chora na morte a que a nutriu na infancia,
ama no coração, mãe nos extremos,
de seus primeiros e ultimos segredos
confidente fiel no lar paterno,
querida socia na feliz viagem,
e no lar conjugal seu doce allivio.
¿Arvore a tanto affecto consagrada
na affectuosa Biblia irá sem nome?
o _carvalho das lagrimas_ lhe chamam.



VI


¡Que uso tão doce aos corações piedosos!
Reverdecei, costumes do bom tempo,
quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
tinham sob um ceo livre a sepultura.
A Morte, menos barbara do que hoje,
com avarenta mão não ferrolhava
sob um tecto pezado, entre altos muros,
as prezas, cá de fóra em vão pedidas.
Não era um templo um cárcere de mortos.
Dormiam mollemente em terra franca,
em jardins frescos, em copadas selvas.
Esta esp'rança adoçava um pouco o amargo
do ultimo trago aos labios moribundos.
Este bem, tão pequeno em mal tão grande,
¡quanto valor não tinha aos que ficavam!
O irmão, o pae, o filho, o amigo, o esposo,
podiam livremente, a toda a hora,
ir regar de seu pranto amadas cinzas,
fartar saudades, inflammar lembranças,
delirar doce a noite, e o dia inteiro,
e de praser a um peito onde palpitam
superstições de amor ou de amisade,
dizer:
          «Este tapiz relvoso o cobre;
esta ave lhe gorgeia; esta aura sôlta
o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
a primavera m'o visita, e espalha
tambem por cima d'elle o seu regaço;
esta violeta é sua, hei-de colhel-a;
d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte,
nutre-se do seu pó, vive por elle,
é elle mesmo em parte; arvore amiga,
recebe o nome caro, hoje sem dono,
toma os abraços que não posso dar-lhe.»


       *       *       *       *       *


Sim, sim, convém um bosque ás sepulturas.
A arvore, Deus a fez como passagem
do mundo que respira ao mundo inerte;
commum co'os animaes, commum co'a terra,
vive e não sente; habita e ignora o mundo,
sympathisa co'a morte e co'a existencia,
é grata ás cinzas, á saude é grata.


       *       *       *       *       *


¡Que férreos somos nós, que a um como vago
atiramos sem dó perdidos, mixtos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
arrojasse o que os seculos pouparam,
bronzes, escritos, marmores romanos,
ou, derrotando porticos, columnas,
theatros, colliseus, palacios, templos,
em serra inutil amontoasse as pedras,
¿quem não vertêra em lagrimas o sangue?
¡E ante a nossa affeição teem menos pezo
que as ruinas de Roma as que são nossas?!...
¡Dá-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectaculos, jogos, aureas festas,
jardins, parques!... ¡e aos miseros que gemem,
e aos peitos melancólicos, viuvos,
ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
¿De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
¡nem um torrão perdido, e uns troncos nullos?!...


       *       *       *       *       *


¿Quando virá um dia, em que estes bosques,
semeados de tumulos não altos,
de lugubres saudades se povôem?
Então, a propria Morte, hoje tão sêcca,
terá sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o pó, e cultos o ermo.


       *       *       *       *       *


Pelas noites mui placidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
bello será, sentado n'este sitio,
ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmans resam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho attento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na fallecida esposa.
O filho aos pés da mãe co'os mais soluça
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos annos.
Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
memorias doces, orações e esp'ranças.


       *       *       *       *       *


¿E a quem não conviria egual retiro?
N'elle a tristeza encontraria um pasto;
a sciencia, reflexões; o vicio, escolhos;
a leviandade, assento; a desventura,
consolação; o amor, silencio e pranto.
Ensaiára-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar uncção para a verdade;
o orador, persuasões, ternura, encantos.


       *       *       *       *       *


Ó filhos da montanha, ¡oh! libertae-vos
de um preconceito vão; é toda a terra
a terra do Senhor; afora o vicio,
debaixo d'este ceo nada é profano.
A benção do Pastor consagraria
vosso asylo feliz; e a Cruz em meio
todo de um santo influxo enchêra o bosque.



VII


Mas, em quanto esses dias vos não raiam,
bons velhos, vigiae que, de anno em anno,
aos juvenis futuros plantadores,
em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo.
Cresça com seu favor por estas serras
a geração dos vegetaes gigantes.
Com todos vós conversam todos elles
sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
são parentes de todas as aldeias,
e o brasão da montanha é o vosso parque.
Sobre tudo influi que a vossa raça
trema ao só nome do brutal machado
que ouse violar a veneranda herança.
O que só Deus medrou, só Deus derribe.


       *       *       *       *       *


Crêde-me (eu já vi outras) vossa terra
é descrida, enteada á Natureza.
Cumpre a vós adoçar-lhe o aspecto agreste,
amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
estas ilhas, virentes, graciosas,
que espalhem primavera pelos montes,
que attráiam as volantes caravanas
do rouxinol, da rôla, e da andorinha.



VIII


Lá em baixo a casa humilde que branqeja,
entre os alegres plátanos e o templo,
quasi que pasma, e se entristece e encolhe,
de ver em torno a solidão tão vasta.
Como que está pedindo... ao menos bosques;
não tem outros jardins, outros passeios,
que offereça a seu dono, o Pastor vosso.
Preparae desde já para o futuro
sombras novas aos novos successores,
e refrigério estivo ás cans do velho.
Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio.
Mil vezes sua voz reconhecida
rogará paz ditosa aos vossos netos,
quando, serena a mente, e sôlta a vista
lá fôrem divagar, ora embebidos
nos psalmos, nos poeticos arrojos,
ora admirando o Autor e o Nó dos mundos,
no largo azul dos ceos, no alto dos troncos
e no zumbir e no voar do insecto.


       *       *       *       *       *


¡Surgi! ¡surgi! Lá jazem as enxadas.

  Velhos, surgi! La voltam triumphantes,
findo o novo trabalho, os vossos filhos.
Agora espumem copos, sôem risos,
exulte a dança, alonguem-se os cantores.
Conquistastes o inculto á Natureza:
forçástel-a a sorrir, a ornar-se em festas.
Toda a vasta planicie, hontem tão erma,
¡que povoada vai já! ¡como promette
lembrar ao vosso gado, ás vossas filhas!


UM VELHO

Sim, dará sombra e vai povoado o valle:
mas fosse eu rico, e lhe dobrára encantos.


SEGUNDO VELHO

¿E como, irmão?


O PRIMEIRO

                    No alto d'este oiteiro,
d'onde se avista o mar, o ceo, a terra,
poria uma capella, e um San-Mamede
co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
nas mãos o cajadito, o alforge ao lado,
e o seu rafeiro ao pé todo soberbo
co'a colleira escarlate, e todo amigo
a lamber o seu Santo. É bom que os altos
se c'rôem de capellas, que levantem
o pensamento aos Ceos, no campo espalhem
devoção e piedade, e aos peregrinos
ensinem o caminho e a vista alegrem.


UM PASTOR

Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques,
¿que haviam de temer, nem cães nem gado?
Nos degraus da capella, á sombra inquieta,
longas séstas sonháramos de amores.


TERCEIRO VELHO

Já lá vão o bom tempo e os bons costumes;
foi-se a abundancia e os corações piedosos.
Esses fundavam templos, como o nosso,
n'um árido deserto; e hoje.... se estala
no campanario um sino, em ocio eterno
fica mudo a pender dos braços podres.



IX


Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
não a Mamede, não ao pastor martyr,
mas á contrita amavel Peccadora.
¿Não valem mais as lagrimas que o sangue?
¿Mais que heroico valor não nos commove
doce humildade e penitencia longa?
E de mais: se ás aspérrimas proezas
vos não destina o Ceo, todos nascestes
captivos frágeis de amorosas culpas.
Muita virgem no monte solitario
tentada pelo amor e pelo amante,
só com ver a capella ha-de livrar-se,
e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.
E quando aqui errantes missionarios
vierem dar, e á sombra dos carvalhos,
as turbas apinhadas instruirem,
¡que persuasões, que lagrimas, que exemplos
hão-de tirar da veneranda Imagem!....


       *       *       *       *       *


¡Qual me ri já na mente o grão projecto!
Eu serei pois o fundador de um culto
que aos frutos da moral reuna flores.
Sim; ¿quem tolhe o prazer puro e innocente?
...........................................



X


Partiram. E eis-me só. Todos partiram.
O alvoroço do entrudo os chama aos lares.
¡Oh! ¡Bemdita a ignorancia d'estas serras!
O rustico inda ri na Patria em luto,
e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
¡Bem sabe elle que lagrimas aos mares
d'este horizonte em roda estão correndo!
¿Sabe elle que o atro dia é menos atro?
A paz, a confiança, as alegrias,
a abundancia, a união de antigos Lusos,
não deixaram, fugindo, um só vestigio.
No vaivem das facções, que se entrevencem,
tudo se perde e esquece, afora a raiva.
Os bons usos, as festas populares,
a romaria alegre, as patrias danças,
vão-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
a pastora, esquecendo os seus amores,
canta a questão dos Reis, o hymno da guerra,
sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.


       *       *       *       *       *


Ó Patria, bella Italia do Occidente,
tu que egual a Parthénope repoisas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruido de aguas limpidas, no abri
de um ceo inspirador tão proprio ao genio,
ó bella Italia do Occidente, ó Patria,
¿era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?....
A guerra, sim, te coroou co'as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das sciencias, no chão dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
¿espontâneos no teu medraram nunca?...
¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar á eternidade!!...
Talvez bem perto os seculos se cheguem,
que hão-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiff'rente apascentar-se
sobre os teus tribunaes, theatros, praças.


       *       *       *       *       *


Vê-te o sol com praser; deixa-te a custo,
Lusitania, que á borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graça.
Deusa, e immortal, te crêram; mas tu jazes
entre tropheos em pó, lavada em sangue.
Deshonrada Cleópatra, inda és bella,
mas já nas veias te circula a morte.
¡Ai de quem nutre as áspides no seio!...


       *       *       *       *       *


¡Ó Patria, ó Patria, com que voz tão baixa,
com que pejo te expróbro! ¡Ah! se podéres,
perdôa meu furor, vê só meu pranto;
ó Patria, ó mãe, ó misera querida!...


       *       *       *       *       *


¿Que ouvi? ¡longinquo estrondo! ¿que seria?
¡Som de espingardas!... Sim, talvez... são homens
que nos matam irmãos... ¡Alerta!... oiçâmos...

..............................................



IX

O SAN JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO


     Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pateo da
     residencia parochial da Castanheira do Vouga


(FRAGMENTO)



..........................................

  Se, de teus annos na madura força,
a mão que te ora planta inda fôr viva,
essa mesma, já trémula e caduca,
no tronco te abrirá, com pio exforço,
graciosa capellinha, onde sorria
um San-João, o Santo alegre do ermo,
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.


       *       *       *       *       *


N'essa noite poetica e devota,
em que o praser, centuplicando aspectos,
povôa, anima, encanta o mundo inteiro,
agua e terra, ar e ceo, tudo é macio,
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
quando n'alma insaciavel de delicias
se juntam, com mistura inexplicavel,
ao saudoso passado, aos bens presentes,
as mil visões do esplendido futuro;
quando em laço phantastico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gosos, superstições, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mão das feiticeiras;
n'essa noite, das noites invejada,
a ti concorrerão por toda a parte,
té das aldeias do horizonte extremo,
dançantes bandos que a viola guia.


       *       *       *       *       *


Verás girar seus bailes clamorosos
em redor das estrídulas fogueiras;
ouvirás os seus cânticos em côro
devoto e ennamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e sollapada estoira;
o buscapé no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vórtice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
aqui floreia o fúlgido valverde,
vesuviosinho que arremette ás nuvens;
arranca o vôo e vai rugindo aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.


       *       *       *       *       *


¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
¡e os protestos de amor! ¡e a prece occulta!
¡e essa mão dada a furto e a furto acceita!
¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada!
¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malicia!
¡e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festões verdes e entrançadas flores!
¡Que noites, que alegrias, que triumphos,
te aguardam no porvir, me estão na mente![9]
............................................



X

O MOSTEIRO



Vós, que sois do amavel sexo
ardentes adoradores,
que girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,

que sabeis n'um só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
não poder-vos saciar,

mancebos, o mundo é vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas não choreis as que á sombra
repoisar das aras veem.

Se um jardim, florído, immenso,
encontrais na sociedade,
¿que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da piedade?

poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de extranha mão.

Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idália Venus;
segui as Nymphas e as Graças
pelos seus bosques amenos;

os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vôem;
a mocidade vos ria;
espêssas rosas vos c'rôem;

¿que falta aos desejos vossos?
¡ah! soffrei, sem murmurar,
ver d'entre os vergéis florídos
poucas pombas desertar,

poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.

Do Libano opacos cedros,
de Sião bosque tranquillo,
vós, palmeiras de Idumêa,
prestae-lhes seguro asylo.

Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes á sombra vivam
dos sagrados arvoredos.

Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.

Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.

Eu vos lamento e vos chóro,
insensiveis corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vêdes senão prisões.

Córae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden recatado ao mundo
no seio d'este deserto.

Modestas virgens o habitam,
que só não teem liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.

Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.

¿Não vêdes sobre os altares
com graça engrupadas flores
lançar torrentes de aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?

N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e zephyros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.

Essas pois, que vós julgaveis
desgraçadas prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins, são jardineiras.

Vêde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.

Vêde a grinalda florida;
vêde o ramo; estes jasmins,
estes lirios, estas rosas,
não são já de seus jardins.

Não devem sua existencia
nem á terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.

Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida ás suas flores;
prestou-lhes egual belleza.

¿Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodigios taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.

Ellas no côro apparecem;
e, ao som dos orgãos divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.

Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde n'alma ternura.

Em seus canticos não reina
terreno vulgar affecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o objecto.

O pensamento que as ouve,
sai da térrea habitação,
deixa os ares, das esphéras
atravessa o turbilhão,

vê do Empyrio as portas de oiro
abertas á humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.

Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.

Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.

Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois das Musas entram
os aprasiveis recreios.

Olhae por fim seus aspectos,
¿Não vedes vós a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da piedade?

Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da piedade,
os praseres da innocencia.

A amisade entre ellas reina;
¿os encantos da amisade
não prestarão, por ventura,
delicias á soledade?

Mas basta, insensatos, basta;
á scena se corra o veo;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do Ceo.

Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.

Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
¿sois ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?

¿Sabeis vós o que amor seja?
¿Satisfaz-se o coração
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitação?

¿Não virá talvez um dia,
em que, mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
á melhor d'entre as mortaes?

¿Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?

Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que não tendes, não existe.

Então aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros que insultaveis,
ouvirão vossos suspiros.

Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
á sombra da solidão,

viréis procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.

Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.

Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graças, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.

Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,

mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos logares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,

se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;

ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;

de extranhos somente é visto;
tem louvor; é cubiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não é jamais despojado.

¡Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, á luz da verdade,
queimar a máscara d'oiro
ás larvas da sociedade!

Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calumnia que em vão troveja.

Brilhae, como ilhas florídas,
no meio do mar profundo
de vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.

Sêde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.


Coimbra--1826 (?)



XI

SANTA MARIA EGYPCÍACA

(Fragmento de um poema)



.........................................
Prostrada aos pés da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
de olhos lindos, que os ceos fitar não ousam,


       *       *       *       *       *


¿Tão nova, e isenta? ¡Oh! não; mudou de amores.
Dos primeiros só guarda a dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em vida, e em morte havel-os.


       *       *       *       *       *


Té aqui, pela alma escura só lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe côa pelas veias.


       *       *       *       *       *


Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os soes vivos, os ventos importunos,
lhe ameaçavam fim; ruins borboletas
captivas da belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.


       *       *       *       *       *


No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
impróvida e leviana; hoje pranteia
na solidão, mas sob um Ceo que a espera.
As cidades, em que ídolo brilhára,
inda a chamam em vão, e em vão a aguardam.
De um lustro que a houveram, ¡quantos lustros
lhe volveram saudade!


       *       *       *       *       *


                            Em viço de annos,
e mais bella que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e não voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danças;
os banquetes, diffusos pela noite,
já não veem despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botões das grinaldas; o alaúde,
que falou tanto amor nas mãos da bella,
discorde jaz, e mudo...


       *       *       *       *       *


                        Ella, entretanto,
co'os mimosos pés nús calcando areias,
desornado o cabello, envôlta em pelles,
timida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes á avesinha se compára,
sem família, sem lar; corre erradia;
¿não ha-de ambas manter a paz que é de ambas?
Beija a caverna frígida que a hospéda,
e agradecendo este hórrido paraizo
ao Deus que lh'o depára, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.


       *       *       *       *       *


Ai coração tão amplo, onde estuava
mar de affectos sem conto, escoado agora,
¿quem o ha de encher? ¡em solidão tão funda!
¿quem o ha-de encher? Já o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquilões, anima os troncos.


       *       *       *       *       *


Só conversa com Deus, e a Deus só ouve.
Este seio, estas tranças desatadas,
são brinco só do vento do deserto.
Esta mão, tão mimosa e tão querida,
só procura, excavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou já se encurva
para dar agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar já de joelhos.
Não ha um sol, não ha na noite um astro,
que não saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a onça,
foge, ou quebra os devotos exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira não treme; ora, e descança.


       *       *       *       *       *


Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol já mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
¡que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea mão o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o coração, mandava os olhos!


       *       *       *       *       *


--«Além--dizia--além, n'esse Occidente,
corre o santo Jordão delicias minhas,
que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que lá brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Além... Jerusalem, Sião, Judêa...»


       *       *       *       *       *


E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda ás vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue,
e apóz elle os passeios namorados,
os theatros esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvôltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como á sua rainha vão saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando se á terra, e sôlta em chóros,
pagava erros não seus com dor bem sua.


       *       *       *       *       *


Taes se lhe vão no ermo deslizando
dias e annos, sem ver na areia impressos
mais vestigios que os seus.


       *       *       *       *       *


                        De tempo em tempo,
só vê talvez, ou ver presume ao longe,
do horisonte nas sombras pavorosas,
o ténue pó da immensa caravana,
que vai de Alépo á Méka em certa estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota fanática impiedade.


       *       *       *       *       *


Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e se esfólha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, já seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um coração de amor não farto.


       *       *       *       *       *


Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil Palmyra.
Uma e outra já gloria do Universo;
agora mudas, sós, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no exemplo.


       *       *       *       *       *


Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zózimo, como ella
ancião virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oiça a longa vida, a anime, e exforce;
lhe dê perdão e paz de um Deus em nome.


       *       *       *       *       *


Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,
            --«¿Trareis,--lhe disse--
á pobre peccadora o manjar de Anjos?»
--«Sim.»
       E partiu.
                 Com vista prolongada
ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo o dia; ¡e este é tão longo!...
¡tarda tanto o bom hóspede!...


       *       *       *       *       *


                                  Passou-se
um anno inteiro. É elle agora; é elle;
conheço o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a calva, e as faces penitentes...


       *       *       *       *       *


Chega; clama; a caverna não responde;
grita, e só ouve a si. Olha em redondo,
vê-a jazer na areia, e a areia escrita
por mão trémula, errante, ao que parece:


Bom Zózimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te fôste.
Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.

............................................



XII

EPISTOLA

Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio Deslandes

(NO DIA DOS MEUS ANNOS)

FRAGMENTO



Em torno ao teu amigo estão fervendo,
Deslandes meu, na hora em que te escreve,
de uma festa caseira o reboliço.


       *       *       *       *       *


Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frígido suão de lá nos venha,
ninguem hoje de frio aqui se queixa.
Não descança nem pé, nem mão, nem lingua;
o sumptuoso lar arde em tres fógos;
o forno se afogueia; a branca meza
vai-se de loiça e vidros alegrando.


       *       *       *       *       *


Uma estuda em compôr as sobremezas;
outra enrama de loiro alta ferrugem
das vigas da cosinha; esta, sizuda,
de riscado avental e nus os braços,
com importancia e afan revira espêtos;
aquella, anda scismatica, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
que além de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano, além de rosas,
frágeis, sem cheiro, e languidas, não cria
com que se enflore a meza dos meus annos.


       *       *       *       *       *


¿Porque é, quando a sorrir divagam todos,
quando só para mim se andam tecendo
estas pompas domesticas, agora
que a potente amisade em meu obsequio
para tudo fazer até fez estros;
agora, emfim, que aos raios da alegria
não ha um coração que se não abra...
¿por que se fecha o meu? ¿Dará (não creio)
da Natureza o luto um certo assombro
ás festas do homem? ¿Pensas que enfartado
d'esta patria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo azéda?...
.............................................

26 de Janeiro
de 1833.


FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA



NOTAS DOS EDITORES

AO VOLUME I DO

PRESBYTERIO DA MONTANHA


Da villa da Castanheira--No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de
Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o
sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam
da Beira, a qual é tambem dos Condes da Feira, e n'ella entra em
correição o seu Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja
parochial da invocação de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que
rende 600$000 réis, e tres ermidas. O seu termo tem uma freguezia
dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de Aguadão, que consta de 100
visinhos. É curado annexo á egreja de S. Mamede, que apresenta o seu
Prior. Tem este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que
fertilisam seus campos de pão e vinho, e os fazem abundantes de todo
genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinarios,
Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivão da Camara, Juiz dos
Orphãos com seu Escrivão, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenança.

(_Chorographia portugueza_ pelo Padre Antonio Carvalho da Costa.--T. II,
pag. 176--1708.)


Castanheira do Vouga--Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de
Coimbra, Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado; tem 803 visinhos.
Está situada em monte junto da serra do Caramulo. É seu orago S. Mamede.
Tem quatro altares; e o maior é do orago; os outros são do Santissimo,
de Nossa Senhora da Expectação, com sua irmandade, e outro de S. Jorge.
O Parocho é Prior, apresentação da casa do Infantado; tem de renda
400$000 reis. Tem tres ermidas, que são: a do Espirito Santo, a de Nossa
Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastião. Os frutos d'esta terra são
milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa um Juiz
ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios Aguedão,
Alfusqueiro, e Agueda.

(_Diccionario geographico_ pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.)


       *       *       *       *       *


Castanheira do Vouga.--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago S.
Mamede; o Parocho é Prior da apresentação da Casa do Infantado; rende
480$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos.

Ágadão--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria
Magdalena; o Parocho é Cura da apresentação do Prior da Castanheira;
rende 40$000 réis; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem 102
moradores

(_Portugal sacro-profano_--por Paulo Dias de Niza; cryptonimo do Padre
Luiz Cardoso--Lisboa--1767--8.^o--2 vol)


       *       *       *       *       *


Castanheira do Vouga.--Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do
Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140
fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto
administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da
Comarca de Esgueira. É da Casa do Infantado. Situada em um monte proximo
á serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha
400$000 réis. É fertil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais
pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era
cabeça do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinario, Camara,
Escrivães, e mais Justiças. Passam pela freguezia os rios Agueda,
Aguedão, e Alfusqueira.

(_Portugal antigo e moderno_--por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de
Pinho Leal--Lisboa, 1874).


       *       *       *       *       *


Pag. 11 lin. ultima

Dapibus mensas oneramus inemptis


Oneramos as mezas com iguarias não compradas; isto é, vivemos, sem
comprar, das nossas lavras proprias.

Citação de Virgilio (_Georgicas_, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina
variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto é:


                   _....Sero que revertens
nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis._


Isso faz parte de uma historieta que Virgílio conta, e que vamos ouvir
na traducção de Castilho:


               ......Alembra-me que outr'ora,
lá por onde o Galeso arrasta a veia escura
por entre loiros chãos de cereal cultura,
junto á Ebália cidade, a de torreados muros,
conheci um corycio em annos já maduros,
dono de uma chanzinha ali desamparada.
O pobre do torrão de si não dava nada:
nem pasto para bois, nem para um fato hervinha.
Sumitico de pães, escasso para vinha,
era um sarçal fechado; e no sarçal, comtudo,
o bom velho, a poder de diligencia e estudo,
tinha hortaliça rara, e emmoldurada em torno
com seve de jardim para maior adorno,
alvos lirios, verbena, e papoilas de prato.
Não trocára co'os Reis seu parco haver tão grato.
Recolhia ao casal já noite; e, ¡que riqueza
de iguarias de graça a assoberbar-lhe a meza!



Pag. 18 lin. 3

Passámos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o
víçoso rio de Bolfiar.


Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O
caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeiçoamentos modernos,
deram cabo da antiga viagem tão pittoresca.


Pag. 36 lin. 20

Uma especie de zimborio de doze palmos de altura.


Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que
primeiro se dedicaram ao estudo da triangulação do Reino.


Pag. 37 lin. 3

Uma desconforme loisa inteiriça horizontalmente aguentada nos ares por
esteios de pedra.


Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em muitas
partes das Hespanhas, e acham-se estudados á luz da sciencia moderna.


Pag. 42 lin. 6

A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucídez.


O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho o
seu constante amor á vernaculidade. Veja-se nas _Excavações poeticas_ o
que elle diz do velho camponez Francisco Gomes, creado da casa, e «um
dos mais chapados classicos» que elle jamais encontrou.


Pag. 58 lin. 7

Lia, Rachel e Rebecca


Lia era filha primogenita de Labão, e irman de Rachel. Achando-se Rachel
ajustada para casar com Jacob, teve Labão astucia de lhe substituir Lia,
apesar de menos formosa. Foi mãe de Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issachar,
Zabulon, e Dina.

Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve
José, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que ainda se
conserva e mostra o seu tumulo.

Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de
Abrahão, e teve por filhos Ezaú e Jacob.

Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan,
são encantadoras de singeleza e graça nas descripções que d'ellas nos
deixaram os Livros santos.


Pag. 72 lin. 15

Uma pobre mocinha ovelheira


Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era
Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta na
sua _Chave do enigma_.


Pag. 80, lin. 9

Filinto e o entrudo


Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco
Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da velha
Lisboa.


¡Viva o meu Portugal! ¡viva a laranja
que derruba o chapeo!


exclamava elle em París, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos
Portuguezes, felizmente meio polídas já hoje.


Pag. 82 linhas 6 e 8

Citações latinas


Essas duas são de Virgilio (_Eneida_, Livro I)


_Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus_.


Isto é: defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e lá
dentro correm aguas doces, e apparecem assentos como que talhados na
rocha viva; verdadeira habitação de nymphas.


Pag. 87 lin. 21

As rogações de Maio

Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado,
fallecido no anno 475.


Pagina 99 linha 23

O ubi campi!


Recordação de palavras de Virgilio ao Livro II das _Georgicas_:


_Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems
Taygeta!......_


Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles;
encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. ¿Onde estais,
campinas? ¿onde estás, rio Sperchio, e tu, monte Taygéte, habitado pelas
alegres virgens espartanas?

Castilho traduziu assim este trecho:


Então amar só quero os rios e arvoredos,
de glorias desquitado. Ai, campos meus tão quedos!
ai ribeiras do Spérchio, oiteiros do Taygéto,
das virgens de Lacónia ás órgias predilecto,
¿onde, onde me estais vós?....



Pag. 102, lin. 10

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem


Verso de Ovidio, logo no começo da elegia I do Livro I das _Tristezas_.
Dirigindo-se ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no
desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno
livro; has-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.


Parte, ó meu pobre livro; irás sem mim, sosinho,
correr na gran Cidade incognito caminho


traduziu alguem


Pag. 107, lin. 17

Zimmermann


João Jorge Zimmermann, nascido em Brug, cantão de Berne, a 8 de Dezembro
de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi abalisado sabio. Nomeou-o
medico da sua camara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el Rei de Prussia
Frederico, o grande, foi tratado por elle na sua ultima doença, e deveu
allivios aos seus cuidados intelligentes. O Principe russo Orloff foi de
proposito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se
a S. Petersburgo falou d'elle com enthusiasmo á Imperatriz Catherina,
que em 1784 procurou attrahir á sua côrte aquelle luminar da sciencia.
Elle pediu excusa, porque a vida mundana não condizia com os habitos que
tinha creado o seu espirito; não se ofendeu a eminente Princeza, e
conferiu-lhe a ordem de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu
morrer-lhe entre os braços uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho.
Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Além de outras
obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em
1756 o seu _Tratado da Solidão_, onde todas as vantagens moraes do
isolamento são defendidas com eloquencia e convicção, e sem mysanthropia
exagerada.


Pag. 108, lin. 6

O Passeio publico e o Marrare


Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico,
riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas
Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar
os habitantes da Capital. Ia desde a actual praça dos Restauradores até
á extinta praça da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sitio exacto
do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo
(hoje no jardim da Graça).

O café Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado.



ADDITAMENTO


Visto ser esta obra de Castilho dedicada á memoria de seu bom irmão,
pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres sermões que ainda restam
d'este. As suas obras ineditas mandou o proprio Doutor Augusto Frederico
de Castilho que lh'as queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as
seguintes:


     I--O sermão de S. Pedro, ou da Fé; II--O sermão da esmola, ou da
     Caridade; III--O sermão nas exequias do senhor D. Pedro IV; IV--A
     pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja; V--Uns versos
     na _Primavera_ de Antonio Feliciano.

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SERMÃO

DA

ESMOLA OU DA CARIDADE


     Prégado na 5.^a dominga da Quaresma de 1839 na Sé de Lisboa pelo
     Conego Arcipreste da mesma Sé, o Doutor de capello em Canones
     Augusto Frederico de Castilho



_Jesus abscondit se, et exivit de templo._
Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.



De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de
Jesus fóra do templo; e nem por sahido do templo, nem por escondido,
deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu serviço. Jesus vivo, e
na occasião de que trata o Evangelho, estava no mundo, e faltava no
templo. Jesus, hoje, por dois milagres de fé e amor, por duas
eucharistias, está no templo, e mais no mundo: no _templo_, encoberto no
Sacramento; no _mundo_, encoberto nos seus pobres. N'uma e n'outra parte
o devemos servir com egual zelo.

Orar todo o dia na egreja, e deixar fóra d'ella morrer á fome e ao frio
os necessitados, não é de christão; é fé morta. Soccorrer aos infelizes,
sem crer (se tal é possivel) n'Aquelle que elles representam, é caridade
morta; tambem não é de christão.

Vós pareceis christãos pela fé, pois que vindes á casa de Deus; vós o
pareceis, mas não o sois, porque essa fé é morta; cumpre que se
resuscite pela caridade.

Da caridade prégarei portanto hoje, ou antes da esmola, que é a caridade
pratica e activa; é o christianismo na sua parte mundana, o culto do
Verbo humanado aos olhos de todos, a religião de todas as religiões, a
philosophia de todas as philosophias, o axioma para todos os
entendimentos, o dogma até para o atheismo. O objecto é o mais
accommodado ás necessidades do tempo em que vivemos; offensa faria á
vossa piedade, se vos exigisse a attenção.

       *       *       *       *       *

Alma e coração, discurso e affectos, convencem e persuadem como dever a
esmola. Não creou a Natureza irmãos privilegiados, e morgados na familia
dos homens: para uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para
outros, encargos de miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou
malicias, estabeleceram essa desegualdade; e andou tambem ahi traça
recôndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se uns de outros
não carecessemos, não nos amáramos; se tudo a nós mesmos referissemos,
não fôramos virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes,
desentranhada de nós a beneficencia, origem de toda a sociedade, e
purissima fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos, pois, a
Natureza; a Providencia nos desegualou; e n'esta contradicção apparente,
é que Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus
conselhos. Na Natureza, isto é, na sua Justiça, quiz que tivessemos uma
norma de egualdade; na Providencia, isto é, na sua caridade, que
aprendessemos a restabelecer, quanto em nós coubesse, aquella egualdade
primitiva por mutuos soccorros.

O homem caritativo é portanto o homem da Natureza, e o filho mimoso da
Providencia, depositario e executor da Justiça de Deus, transumpto e
argumento de sua bondade e misericordia.

O supérfluo de nossos bens constitue rigorosamente o patrimonio dos
pobres, e negar-lh'o é ao mesmo tempo injustiça e barbaridade, egual á
do depositario que consome os bens sagrados do deposito, do ecónomo que
converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a
substancia do seu pupillo; é ainda mais: é declararmo-nos inimigos de
Deus, desacreditando, e dando, de certo modo, quebra áquella
Providencia, cujos éramos dispensadores e supplementos; áquella
Providencia, que não consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes
pelo ar, caiam mortas em terra, sem ordenação do Pae Celeste.

Tudo quanto de nós emana, ou em nós ressumbra bello, generoso, heroico,
brota (não duvidemos) da caridade. Deus, para tornar as virtudes caras,
e accessiveis até aos mais faltos de discurso, não creou a caridade,
senão que a tirou de suas proprias entranhas, e orvalhando-a sobre a
terra, lhe deu por benção que de todas as mais virtudes fosse ella
semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos
ficou independente de qualquer reflexão, affecto innato, instinto (¿por
que o não diremos?), instinto moral.

Ainda mais, senhores: não só a tornou o mais profundo, mas tambem o mais
extenso de todos os affectos, para que, sobre encher-nos o coração de
virtude, ella nol o podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade,
nol-a podesse tornar permanente.

¡Oh! ¡que maravilhosa não é esta caridade, que em todas as edades, e em
todas as circumstancias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre
lhe renascem objectos, e infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre,
como elle, toda a Natureza creada, passa dos homens aos animaes brutos,
d'estes aos proprios entes insensiveis, adivinha infortunios, inventa e
persuade soccorros, até para entes que os não sabem agradecer, que os
não requerem, que os não precisam!

Tem a caridade, como as demais paixões, os seus excessos; momentos em
que se não sabe conter, nem governar; suspiros, lagrimas, e desalentos;
enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas, como tudo lhe nasce do
amor e compaixão, tudo é terno, tudo é mavioso e consolador. Virtude de
virtudes, virtude unica onde não ha excessos.

Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras
primas da creação. ¡Ah! ¡que se jamais se podessem tributar ao homem
cultos, que só á Divindade se devem, ninguem tanto os merecêra, como
esses que, possuindo os thesoiros dos bens terrestres, os derramam no
seio dos infelizes!

Porém, meus irmãos, não é mistér uma brandura de animo requintada, para
nos movermos com os infortunios dos nossos semelhantes, e
procurarmos-lhes o remedio. ¿Qual de nós, vendo padecer um animalsinho,
morto de fome, transido de frio, desamparado ás inclemencias de uma
noite de inverno, e invocando a nossa piedade com aquelles gritos
lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes para dizerem as
suas dores, qual de nós se não sentiria profundamente condoído, não
correria a abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? ¡Ah! ¿e
deixariamos no infortunio o homem? ¿o homem, semelhante nosso, nosso
irmão, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens possuimos,
cuja felicidade é tão travada com a nossa, e cuja desgraça tem sido
talvez effeito da nossa injustiça, da nossa barbaridade?

¡Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o coração... ¿que
digo? que o trazeis defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores
mais doridos da Natureza, ¡ah! emquanto, ao redor de vós, se estão
sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis, ¿que uso mais
util farieis vós de vossos bens, do que seria o acudir-lhes? Na vossa
avidez insaciavel (semelhantes ao inferno, que, por mais victimas que lá
chovam, não cessa de clamar _affer_, _affer_, mais e mais), uns de vós,
ó ricos do mundo, se contentam com a visão beatifica dos seus cofres; a
sua alegria, a sua felicidade, o seu proximo, o seu mundo, a sua alma, o
seu Deus, tudo seu ali jaz; ali enterraram o coração, e o conservam mais
duro, mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que
amontoaram; em quanto outros, pródigos em excesso, como se os seus
thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por
luxos, por vaidades, sem moderação, sem ordem, sem destino, sem uma só
utilidade real. Mais loucos ainda e mais infelizes, outros emfim,
parecendo arrenegar dos beneficios da Providencia, os cofres que ella
confiou nas suas mãos, elles os despedaçam e espalham, não só sem
vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de
si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios,
abysmaram a rasão, destruiram as forças, aniquilaram a saude,
anteciparam a morte, e.... ¡ah! meus irmãos, ¡que de inquietações, de
violencias, de trabalhos e de dores, para comprar uma eternidade
desgraçada! ¡Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o
inferno!

Maus ricos, vós sois como o discipulo traidor; com esses dinheiros de
maldição, preço dos tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os
dias se renova nos seus pobres, que vós entregais e desamparais sem
piedade, com esses dinheiros de maldição, ides comprar um arrependimento
esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o odio dos homens, a
vingança de Deus, os tormentos eternos!

¡Quantas injustiças accumuladas n'esta barbara opulencia! Injustiça para
com os infelizes, cujos bens sonegamos, cujos lamentos não queremos
escutar, cuja morte mesmo antecipamos muitas vezes.--Injustiça para com
Deus, de quem recebemos esses bens, com a condição da caridade, e cuja
Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos beneficios e
esmolas, desde que entramos no mundo.--Injustiça para comnosco mesmos, a
quem fechamos as portas de um céo de deleites, em quem apagamos todos os
sentimentos de virtude, a quem já n'este mundo excluimos de toda a
felicidade.--Injustiça, emfim, para com todo o genero humano, de quem
nos afastamos, a quem não queremos pertencer, de quem até nos declaramos
inimigos.

¿E para onde fugirão os nossos olhos, que lá não vá a miseria publica
perseguil-os? Nunca soaram tão alto os gemidos dos desgraçados, porque
nunca a nossa immoralidade foi tão barbara. Realisou-se sobre tantos
irmãos nossos parte grande das maldições, com que Deus, por bocca de
Moysés, ameaçava os seus inimigos. Explorae por todas as guaridas da
indigencia; visitae os tugurios e choupanas miseraveis das aldeias, das
maiores povoações, e até das cidades... ¡Grande Deus! ¡que multidão e
variedade de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e
doentias, mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de
pão negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas; ¡quantas se não
chamam poisadas e casas, que antes são covas, masmorras, ou jazigo de
viventes! ¡de quantos não é cama a terra humida, e vestido o que nem
lhes encobre a nudez! ¡Tantos paes cercados de um bando de meninos,
chorando e pedindo-lhes pão! Tantos outros meninos, ainda mais
infelizes, orphãos de pae e mãe, que nada teem na Natureza, além do sol
que os aquece, e do ar que respiram, e começam a conhecer tão cedo a
dureza dos homens, obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar
por si mesmos com que supram as necessidades, ainda tão mesquinhas, mas
tão pesadas para nós! ¡Tantas viuvas sem protecção, em quem, sobre o
desamparo e dôr perpétua da viuvez, accresceu verem os seus bens
arrancados por crédores, e quantas vezes por ladrões, debaixo do nome de
crédores! ¡Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores ás suas
forças, ou á sua creação, ou aos seus annos, para sustentarem, com o
suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes está derretendo e
mirrando! ¡Tantos enfermos expirando á mingua, sem medico, sem
tratamento, sem remedios, sem enfermeiros, sem alma viva que os console,
que lhes suscite as ideias da Eternidade, e até sem um lençol que os
amortalhe! ¡Tantos privados dos olhos, dos braços, e do uso dos sentidos
mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados para a borda dos
caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol, as chuvas, os
frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros de outra
especie pelos homens! ¡Tantos mendigos, emfim, sem lar, sem nada, nem um
amigo, sósinhos em meio de tanto mundo!

¡Mas que me canço eu a enfeixar o que não tem conta! E quando de taes
miserias conseguisse fazer aqui um piedoso inventario, ¡quantas outras
não ficariam de fóra, mais profundas, e mais miserias, porque ellas
mesmas refogem e se escondem! As ruas e as praças, com todos os seus
clamores e penurias, não confessam ainda assim quanto a nossa especie
está padecendo. Ha, em todo este exterior, um não sei que reflexo de
verniz e doirado, um não sei que ruido festivo, um perfume de opulencia
e sabores, um certo sorrir, um raio de sol, um aspecto de céo azul, uma
vida e uma esperança, que são disfarce, e mascara da existencia do povo,
real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida. Sahindo-se para a rua,
deixam-se á porta as lagrimas, e cuidados verdadeiros, e toma-se na
bocca e faces o contentamento postiço. Por fóra andam os corpos em toda
a sua gala; mas dentro, por todo esse immenso _dentro_, nas entranhas
d'esse infinito massiço de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos
sem termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, estão chorando
milhares de corações, estão-se desesperando milhares de almas.

Oh! ¡se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira para se
recrear, por esses caminhos tão lageados de marmores, tão ataviados de
vidros de cores, de metaes brilhantes, de todas as espumas mais formosas
do luxo, se Deus permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos
por entre que duas montanhas de infortunio, vai caminhando! ¡oh! ¡como
de repente, semelhante a Pharaó, na estrada do Mar Vermelho, desabariam
de todas as partes a afogal-o ondas e mares de dor!

Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da caridade,
¡quantos pobres envergonhados que abafam soluços e gemidos entre as
quatro paredes da sua casa! Nas horas da noite, quando das dansas, dos
jogos, dos espectaculos, e de peores logares, saem torrentes de
mundanos, em quem parece que o tempo, o dinheiro, a saude e a fama pesam
insoffrivelmente, ¡que de vezes se lhes não atravessam diante uns
phantasmas de penuria, em fórma já de mulheres, já de meninos, já de
anciãos, a quem a vergonha do sol não consentíra sahir dos seus
sepulcros! De um portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua,
nos saem as suas vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de
que não soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo a mão a
receber a esmola, e a abençoar a caridade; algum vos esconde um rosto,
que, em melhores dias, tinheis visto brilhar á luz da prosperidade.

Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os
dias, e não temem o aspecto da noite, porque já não podem ser mais
infelizes, é Deus quem nol os envia ao encontro, menos por elles que por
nós, menos para alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem
algum affecto ao coração gasto, algum pensamento fundo e importante á
alma dissipada. ¡Felizes vós, os que entendeis estes avisos mysteriosos
da desgraça, estas embaixadas solemnes do outro mundo! ¡Felizes os que,
em vez de os repellir com dureza, accudis com o dinheiro á necessidade,
com a esperança ao queixume, e com a commiseração a quem não cuidava que
no mundo a houvesse!

--Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que
me desatinam, que me desesperam (dizeis vós), ¿quem me abona a sua
pobreza? e concedendo-lh'a, ¿quem me affirma que não é ella castigo da
sua perguiça, ou mau proceder?... ¿Que vos importa? Se póde ser uma
coisa ou outra, dae; antes lançar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em
vaso cheio, ou em vaso indigno, do que deixar de accudir uma só vez a
quem do vosso superfluo fará o seu necessario, e talvez, se lhe
recusasseis, padecêra n'um dia o que vós não padeceis n'um anno, ou,
para o não padecer, commêttera crimes, que, depois de o perderem a elle
n'este mundo, vos percam a vós no outro. E demais: vós, que tão de
repente sentenciais o desgraçado que não conheceis, ¿por que vos não
sentenciará Deus, por esse mesmo facto, a vós?

_Póde não ser pobre o que vos pede._--Sim, e algumas vezes se tem
visto.--_Póde ter merecimentos para muito mais ainda do que
padece._--Sim, que é homem como vós, e com mais razão do que vós para
aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso póde ser; ¿mas
examinastes vós se era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a
esmola por tal motivo, ¿não tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a
injuria? ¡Ah! em quanto sentenciais uma alma que não conheceis, e
condemnais o vosso semelhante para o deixar ir despojado, ¡quanto mais
razão não tem elle para condemnar a vossa alma, que vós mesmos lhe
descobristes inteira com uma só palavra!

Mas ainda vos concedo (perdôe-me Deus a concessão), que todos esses
andam expiando peccados seus; são até criminosos e facinorosos; que nem
um d'elles tem necessidade; são até abastados e opulentos; que todo o
mendigo é um salteador e um millionario. ¿Estais contentes com a
concessão, ou quereis mais? Não podeis querer mais, porque o não ha.
Pois bem: ¿mas que direis, quando eu vos apresentar pobres, de uma
pobreza processada e demonstrada, que vos não importunam nem se queixam,
dos quaes muitos, dos quaes inteiras classes, não mereceram, nem poderam
merecer, o seu estado? Ahi tendes os enjeitados, que não é muito que o
sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas mães; ahi os
tendes, que a Misericordia mesma não basta a amamental-os e vestil-os,
e, de seus pobres bercinhos, caem em cardumes nas sepulturas, e vôam a
ir depôr na presença de Deus, contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes
dado a vida por um peccado, por um peccado ainda mais mortal (se é
licito dizêl-o) o da avareza, lhes concorrêram para a morte.

¿Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem innocentes.
Ahi estão tantos asylos da infancia desvalida, onde se queria educar e
felicitar um seculo novo, e que, por falta de caridade publica,
morreram, depois de tão bem nascidos e esperançosos.

¿Quereis mais? ahi estão os asylos da velhice, tambem e mais desvalida,
onde os soccorros nunca são sobejos, nem sufficientes; porque muitos
mais são sempre os que batem e choram áquellas portas de refugio, que os
que a estreiteza das posses consentem sentar-se lá dentro á meza do
convite de Deus.

Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos está o Senhor chamando o
coração, e por toda a parte vos tem cercado do dever da esmola.

¿Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias.

¿Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos, a quem
falta pão, lar, vestido, mundo, que o não conhecem, nem elle os conhece;
militares que envelheceram nas armas e morrem á míngua; viuvas e orphãos
de servidores do Estado, a quem se não paga, nem com esperanças.

¿Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos politicos
vencidos, em quem não é mister longo exame para se reconhecer a
desgraça, porque é corollario evidente de causas notorias. A terça parte
de uma edade do homem, dezanove annos, para não datar de mais longe, tem
sido entre nós consumidos em dissenções e odios. Com successivos
terremotos políticos, teem desabado as mais altas torres de fortuna;
desappareceram abundancias afogadas entre ruínas; voaram arrancadas de
furacões contrarios e imprevistos, as mais florescentes esperanças; os
caminhos trilhados e sabidos subverteram-se; por onde se descia,
sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum
dos filhos do pobre vôa dormitando em côche de oiro, e o ancião doirado,
que ainda hontem lhe houvera matado a fome, lhe alonga a mão, da margem
do caminho, clamando esmola. Não se cuide, senhores, que eu condemno o
presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado; entendo
os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e bens do
futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males extraordinarios,
que não são, para que assim digâmos, nem do homem, nem da Natureza, nem
de Deus, mas sim da mudança, da transformação da fortuna, da fortuna
cega, que, no trocar das mãos, quebra sem pejo, nem dó, nem consciencia,
o que depois todos choram e ninguem concerta.

Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dôres, que não vemos,
pela peior de todas as cegueiras, que é o não querer ver. E quando
d'esta somnolencia, d'este lethargo, d'esta morte do coração, acordamos
algum momento a este som _Esmola a este vosso irmão pelas chagas de
Nosso Senhor Jesu-Christo_, já nos reputâmos muito generosos, se em vez
do silencio ou de uma injuria, lhe acudimos com um _Deus o favoreça_; e
tornâmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos vãos ou
peccaminosos que traziamos; e lá deixámos para traz a Jesu-Christo morto
de fome, a Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. ¡Ah! que se o
seu estado de abjecção os não obrigasse á humildade ínfima, se o uso de
soffrer estas repulsas os não tornasse já meio insensiveis, se elles nos
podessem retorquir, «¡Quê! (nos responderiam) ¿Deus que nos favoreça?
Deus nos favoreceu com esses bens que indevidamente retendes; Deus nos
favoreceu com os thesoiros da sua Providencia, que vós nos roubastes.
¿Que o Senhor nos favoreça? ¿Quereis acaso tental-o? ¿que elle obre em
nosso favor um milagre desnecessario? ¿que torne a chover o maná do céo,
não sobre um deserto árido como aos nossos paes, mas sobre uma terra,
que por toda a parte está cheia dos seus frutos e das suas dádivas? Esse
maná vós o possuis, e encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus fará
que se corrompa e apodreça. ¿Que Deus nos favoreça, deshumanos? Sim,
sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os merecimentos que
terieis na sua presença em serdes misericordiosos, elle os accumula
sobre a nossa resignação; com os infortunios que nos accrescentais, e os
prémios que rejeitais, se juntarão em nosso favor aos prémios de que a
sua misericordia nos achar dignos.»

¡Ah! meus queridos irmãos, que se em nossa dureza fossemos capazes de
entender os gritos e lagrimas de tantos paes de familias, cujas familias
podem dizer que não teem pae, tantos orphãos de pae e mãe, tantas viuvas
desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos
enfermos, tantos cégos e aleijados, tantos mendigos, tantos pobres
envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a
significação das suas dôres e desalento, que uma reprehensão amarga da
nossa barbaridade para com os nossos irmãos, da nossa ingratidão para
com Deus; acharíamos, sim, acharíamos até n'esses lamentos, a expressão
propria com que devêramos deplorar nós mesmos a dureza, antes
ferocidade, dos nossos corações.

Não só, meus irmãos, as nossas liberalidades atalham todas estas
miserias, mas ainda vão precaver muitas desordens. Aqui é uma pobre
rapariga, a cuja honra se preparam violentos ataques. O Céo a dotára das
qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou de algum modo desfazer a
obra do Céo, juntando-lhe a pobreza com a formosura. Do seio da
opulencia, um libertino já vibrou olhos tôrpes e ávidos para o santuario
da virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e
todas as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que
exaltaram o seu triumpho, por mais arriscado e difficil. Já abriu os
seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque;
frustrou-se. Não importa; os desejos augmentaram-se na repulsa, o
merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a seducção, de
mãos dadas com a indigencia... ¿não vencerão cedo ou tarde? Chegou emfim
esse dia; ¡venceu! e com um sorriso infernal applaudiu o seu triumpho, e
a desgraça que consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre
victima. Ali jaz, n'um arrependimento já tardio e inutil para o mundo;
ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que, depois de a
desgraçar, chegou mesmo a aborrecel a; ali jaz na mesma indigencia que
d'antes, porém mais infeliz agora; a sua honra fugindo abalou-lhe todas
as outras virtudes. Em odio a Deus e a si mesma, ¿ficou-lhe ao menos um
refugio no mundo? nenhum, porque o traidor, declarando-se seu cruel
inimigo, foi divulgar o segredo, e exigir esses applausos infames, que
tanto mereceu. ¡Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia,
seriais sempre um anjo tão bello de virtude. Se a caridade te houvesse a
tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e modesto, onde
vivias tão innocente e bemquista de Deus e dos homens, ¿não se teria
afastado ainda o raio que reduziu a cinzas o desambicioso edificio da
tua felicidade?

Além é um moço, que, cançado da dureza dos homens, começa a não conhecer
as leis na sua necessidade. Por toda a parte repellido, julgou direito
prover por si mesmo, e a todos os despeitos, á sua conservação.--«Todos
esses a quem recorri (diz comsigo mesmo) são felizes; eu não quero a sua
felicidade; mas tenho, como elles, direito de viver.»--Levado assim
pelos raciocinios errados do vicio, ou só por um instinto que lhe
bafejou a injustiça dos homens, começou por pequenos furtos; passou a
maiores; nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade;
zombou de todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e
acabará em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o affasta do
precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe tira deante dos
olhos dois futuros que o terão muitas vezes feito estremecer: um carcere
perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas
correspondentes, em si e na sua duração, a crimes de que nunca se
arrependeu, e damnos que nunca tiveram restituição. E quando elle passar
para o patibulo, vós fechareis talvez as vossas janellas, e direis: «Não
tenho coração para taes espectaculos;» ¡como se esse mesmo coração não
fosse o seu peor algoz, o que o conduziu áquelle passo affrontoso!

N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade,
mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas
esperanças, que contou, para segurar a subsistencia, com os amigos que o
atraiçoaram, com a fortuna que lhe fugiu, que se vê precipitado n'uma
desgraça a que não prevê termo na sua desesperação, insulta o Céo,
blasfema da Providencia, e, se lhe não accudis, ¡quem sabe se irá (como
tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender um
laço, por onde arranque uma existencia que o importuna! ¿E a caridade e
a ternura não poderão ainda aqui obrar um novo milagre? ¿fazer-lhe
rebentar as lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? ¿abrandar-lhe o
coração? ¿obrigál o a bemdizer a Providencia, e abençoar o pão com que
lhe sustentamos uma vida que lhe fizemos amar ainda?

¡Oh! ¡meu Deus! ¡que doces prerogativas não déstes vós ás almas
generosas e humanas! Se entre os próprios pagãos alcançava uma côroa o
que salvava os dias do seu concidadão, ¡que honras não merece dos outros
homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma vida
infeliz! ¡que os reconcilia com o Céo que já suppunham surdo e injusto!
¡e que até previne com os seus soccorros a desordem e excessos da
miseria que lhes arrancariam os meios de salvação!

¡Ah! meus irmãos, se nos basta ser homens, para reconhecermos como bem
real esta doce obrigação da esmola, segundo a razão e humanidade, ¡que
mais fortes motivos não tem o homem christão, para ser esmoler, segundo
as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os deveres da caridade não
são para nós simplices axiomas, ou preceitos da philosophia; não são o
resultado de um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas
vieram não só confirmar, mas dar ainda, se é possível, uma extensão
muito maior a tudo quanto n'esta parte a Religião natural nos havia
imposto.

Segundo o systema religioso do Christianismo, ¡por quantos modos, até
indirectos, nos não é persuadida a caridade! O Padre derramou sobre nós
todo o thesoiro das misericordias do Céo; creou nos entes os mais
perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo qual
nos formou (pelas suas proprias mãos, dizem as Escrituras); não só nos
adornou de todas as graças que perdemos na desobediência de nossos paes,
mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem (mais
parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma
habitação commoda e feliz. Esse sol que nos allumia o theatro do mundo,
essas estações que lhe mudam as scenas, os frutos saborosos e delicados
que rompem da terra, os vestidos que nos cobrem, o ar que respiramos, o
somno que nos restaura as forças, os prazeres que nos lisonjeiam os
sentidos, os prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do
coração, são outras tantas esmolas, com que Deus proveu desde a
eternidade ao homem, sobre fraco e indigente, ingrato a tantos
beneficios.

Na sábia disposição com que de mais o Eterno Padre arranjou todo o
grande systema da Natureza, ¿não nos deu Elle uma grande lição de
caridade, estabelecendo em todas as suas obras uma encadeacão successiva
e mutua de dependencias e soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares
liberalisam as suas aguas ao ar em nuvens, o ar as suas á terra em
chuvas, a terra ás fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos
mares; e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo
se conserva, se reanima, se restaura.

D'esta mesma sorte, não só as grandes porções da Natureza, mas ainda os
seus minimos individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e
os soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes á
existencia dos outros. É assim que, por toda a parte envolvidos pela
Natureza, do meio da qual nos elevamos, como obras as mais perfeitas,
não só nos não devemos resvalar a uma condição inferior á da propria
materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade, quanto
nos devemos considerar como entes, cuja conservação é mais importante
para a manifestação da gloria de Deus.

O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia,
desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de
felicidade nas suas doutrinas, dá-lhes a esmola de todo o seu sangue,
lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o Céo e a
terra.

O Espirito Santo vem tornar effectivos todos os meios de santificação, e
nos accode com esmolas continuas, desde que abrimos os olhos, até que
deixamos o mundo; pelo baptismo assenta os nossos nomes no livro da
vida; confirma-nos e augmenta-nos depois esse perdão; repete-o tantas
vezes quantas offendemos o Céo; sustenta-nos com o manjar dos anjos; e
accode-nos até com remedios temporaes, á hora em que as portas do
carcere se vão abrir, e a alma sôlta reverter á sua origem.

Mas não só pelo seu exemplo e meios tão indirectos nos persuadiu Deus a
esmola; não é uma simples recommendação, é um dos preceitos mais
rigorosos:--_Ego proecipio tibi, ut aperias manum fratri tuo egeno, et
pauperi qui tecum versatur in terra_: Sou eu, é o teu proprio Deus, quem
te ordena, que abras a tua mão ao necessitado e ao pobre, que lida
comtigo sobre a terra. Esta lei tão clara, tão precisa e absoluta na sua
letra, ¿terá acaso todos esses caractéres que devem sempre manifestar-se
em todas as leis de Deus? Examinemol-a, e seja o proprio Deus quem nol-a
interprete.

É _justa e necessaria_: necessaria muito mais ainda para o bem
espiritual dos bem-feitores, do que para o commodo temporal do
soccorrido. A esmola, segundo Jesu-Christo, é um acto de Religião,
conjuntamente com a oração e jejuns; é pois rigorosamente um meio
expiatorio; é um commercio que temos com Deus por meio do nosso proximo;
é uma agua copiosa (diz o Espirito-Santo) com que apagamos o incendio
das nossas iniquidades; é uma santa usura, em que trocamos bens
superfluos e temporaes por bens inapreciaveis e eternos; são thesoiros
que ficam depositados no seio do pobre, e que d'ali estão sempre
clamando ao Céo em nosso favor; são bolsas que nunca teem de se estragar
nem de esgotar-se, que nunca nos serão roubadas nem podem ser
consumidas; é um seguro para o dia da afflicção; é finalmente um arrimo
a que nos soccorremos para não cahir.

Mais: é _util_, considerada mesmo temporalmente para quem a dá. O
Espirito-Santo o disse tambem nos Proverbios: _Aquelle que der ao pobre,
de nada carecerá; aquelle que desprezar as suas supplicas, cahirá tambem
na pobreza._--Eis aqui, meus irmãos, eis aqui patente o terrivel segredo
da vingança divina, quando aniquilla tantas fortunas que pareciam tão
solidamente estabelecidas: _Dispersit, dedit pauperibus; divites dimisil
inanes_. Sim, porque as maldições, ó ricos do mundo, que o pobre vos
lança em segredo, na amargura da sua alma, são ouvidas com todas suas
imprecações, por Aquelle que o creou, e que nunca d'elle arredará os
seus olhos. Folgae hoje, que, semelhantes ao mau rico do Evangelho,
sereis ámanhan sepultados no inferno, debaixo do peso de vossos
thesoiros; _et sepultus est in inferno_. E se as vossas riquezas vos são
consentidas, muitas vezes é para que principiem o vosso inferno no
mundo. Se pareceis prosperar, é para que a vossa quéda seja mais
espantosa, ou para que os vossos descendentes, que não são culpados nas
vossas iniquidades, não experimentem a punição da vossa dureza, e
recebam juntos esses bens a que irão dar um justo emprego.

¡Ah! meus irmãos, dizei me: ¿vistes vós, pelo contrario, que homem algum
se arruinasse jámais pelas suas larguezas com os pobres? ¿Não é antes
uma verdade, confirmada pela experiencia de tantos seculos, que as
familias de mais caridade são as que mais teem prosperado? Sim, sim, o
Espirito Santo o disse pela bocca do mais sublime de todos os prophetas:
«Se derramares toda a tua misericordia sobre os necessitados, e encheres
de consolação almas que gemiam na afflicção, a tua casa se tornará como
um jardim sempre regado, e a tua prosperidade será tão perenne como a
fonte que a todos offerece os seus licores, e por mais que a bebam nunca
se esgota, nem cessará de correr.» ¿E o Redemptor não disse ainda mais
expressamente: _Date et dabitur vobis_? ¿Não compara elle a retribuição
com que o Céo ha-de corresponder ás nossas liberalidades, com uma medida
avantajada, calcada, de cogulo, a verter de todos os lados, que se nos
vasará para o regaço? ¡Oh! não duvidemos: os bens do misericordioso,
repartidos pelos infelizes, são o azeite e a farinha milagrosa da santa
viuva de Sarepta. Comeu Elias, diz a Escritura, comeu ella e a sua casa;
e desde aquelle dia nunca lhe faltou a farinha no pote, nunca o azeite
do vasinho se diminuia.

Vêde, depois d'isto, ¡que multidão de bençãos as Escrituras não veem
chovendo sobre o homem compassivo e esmoler! O Senhor o conserve, o
Senhor lhe dê uma longa vida, o faça feliz no mundo, o livre das mãos
dos seus inimigos, o allivie no leito da sua dôr. O que dispersar os
seus bens pelos pobres, viverá de seculo em seculo na memoria dos
homens, abençoado será o seu nome, e n'elle se despontarão as settas
envenenadas da calumnia. _Justitia ejus manet in saeculum saeculi.
Exaltabitur in gloria. Ab auditione mala non timebit._ ¿Que significam
tantas promessas, meus irmãos, tantos premios, tanta abundancia de
bençãos, as glorias do Céo e da terra, tudo cumulado sobre o homem
benefico? ¿Que sacrificio tão importante se vai exigir d'elle? ¿a que
lances heroicos o querem persuadir? ¿que perdas soffrerá que cumpra
contrabalançar por premios de tão alta valia? ¿Exige-se-lhe a
mendicidade e a miseria, em que viveram os Apostolos e o Redemptor? ¿um
exterminio de todas as paixões? ¿uma abnegação de todos os prazeres? ¿as
mortificacões da penitencia? ¿a constancia e morte gloriosa dos
martyres? Não, não. Pede-se-lhe só amor e provas de amor para com seu
irmão; pedem-se-lhe só lagrimas e pão para os infelizes. Não se lhe
intima que dê, com prejuizo seu, até o ultimo boccado d'esse pão, mas
empenham-se os titulos mais sagrados da misericordia, e
patenteiam-se-lhe todos os cofres e enchentes da Graça, para lhe pedir
só as migalhas superfluas da sua meza.

¡Grande Deus! ¡que generosidade incomprehensivel a vossa! ¡Remunerardes
como sacrificio uma virtude, e acceitardes como virtude o que nada custa
ao coração! ¡Accumulardes os vossos prémios sobre os prazeres mais doces
da consciencia! ¡Considerardes em mais do que homem a quem só cumprìu
com deveres da humanidade! ¡Avaliardes em tanto um superfluo, que
trasbordamos para o seio do desgraçado, quando já nol-o havieis dado com
essa condição! ¡Acceitardes, finalmente, esses bens frageis, temporaes e
caducos, esses bens que só devemos á vossa liberalidade, como moeda
correspondente em valor ao preço inestimavel dos vossos thesoiros
infinitos!

Mas d'estas elevadas contemplações, em que todos nos deveriamos abysmar,
vós me chamais, meus irmãos, vós me fazeis descer ás profundezas da
vossa miseria, e surprehender nas vossas consciencias um segredo bem
importante. ¿E não adivinho eu quaes teem sido, desde que enunciei o
thema e objecto do meu discurso, os pensamentos de muitos de vós, da
maior parte, ou antes de quasi todos os que me escutais?--«Feliz
(exclama cada um de vós, no seu coração) feliz de mim, se eu podera
soccorrer o meu proximo, que a tão bom barato me veria de posse do Céo.
Porém Deus não me destinou a mim esses premios e bençãos; e se a esmola
fôra um meio indispensavel de salvação, eu me perderia sem remedio, não
por minha culpa, mas por culpa da fortuna. Todos os meus bens
escassamente chegam para a minha sustentação e da minha casa.»--Assim
pensais; assim buscamos pretextos para illudir todos os preceitos até os
mais terminantes e expressos da Religião. Mentis a Deus, aqui, na sua
presença, dentro da sua mesma casa, e, suppondo justificada a vossa
propria crueldade, vos revestis d'aquelle zelo hypócrita do phariseu do
Evangelho, e lançais de travez os olhos para os ricos, que ahi estão
comvosco. Folgais talvez com a sua confusão; e a doutrina da caridade, a
doutrina de tanto amor, só serve de despertar em vós a insolencia, o
desprezo, e o odio. Não permitia Deus que a sua preciosa semente se
perca d'este modo; que só a acceite um pequeno torrão de terra, e que em
vez de produzir os bellos frutos do Senhor, a maior parte do seu campo,
ou quasi todo elle, continue a só desatar-se em cardos e espinhos.
Afugentemos as aves d'esta preciosa sementeira. Arredemos as pedras, e
não consintâmos que fique sem proveito e inculto nenhum pedacinho, por
mais pequeno, da sua terra.

Todos vós podeis dar a esmola, todos, sem excepção, vos achais obrigados
a ella; e esta universalidade constitue, n'aquelle divino preceito, o
seu segundo caracter de lei.

Ha duas especies de esmola (diz Santo Agostinho): uma da bolsa, e a
outra do coração. Tão longe vai, pois, a esmola como a caridade; e para
podermos soccorrer o nosso proximo, basta-nos possuir um coração. ¿Não
tendes dinheiro, mas tendes pão com fartura? Reparti-o por tantos
famintos. ¿Escassamente vos chega o pão, mas tendes algumas roupas
superfluas? Cobri com ellas tantos nús. ¿Nada tendes hoje? Promettei
para ámanhan; enchei de esperanças o seio vazio de todas as consolações.
¿São a caso insignificantes os bens que vos restam para os frutos da
caridade? Offerecei-os assim mesmo; basta que deis só um copo de agua
fria a um dos mais pequenos do mundo, lembrando-vos de que elle é meu
discipulo (vos diz Jesu Christo); este só copo eu vos affirmo que não
ficará sem recompensa. ¿Nada tendes que dar? Reparae bem: ¿Nada tendes
que dar? Lançae bem os olhos de todos os lados. Sondae bem toda a vossa
fortuna. ¿Nada tendes que dar? Se não mentis ao desgraçado, se na
verdade vos achais privado de todo o genero de haveres, ainda possuis
muitos bens em que não reparaveis. São os que existem dentro do vosso
coração. Offerecei-lh'os. Derramae d'elle torrentes de balsamos sobre
todas as feridas dos vossos tristes irmãos. Sois ainda mais rico com o
vosso coração, no meio mesmo da miseria, do que os ricos sem elle,
afogados nos seus thesoiros. Consultae esse coração; ouvi como um
oraculo as suas respostas. ¿Que vos demorais? Segui todos os seus
impulsos.

¿Não tendes com que soccorrer o indigente? Correi á morada do rico.
Entrae affoitos.

Pintae-lhe as miserias do seu semelhante. Mostrae que só os interesses
da humanidade vos dirigiram ali. Contae o que presenciastes com os
vossos olhos. Chorae diante d'elle. Desfazei as calumnias. Reconciliae
as eternas inimizades da opulencia com a miseria, e, semelhantes aos
corvos de Elias, voae á choupaninha faminta do deserto, com o pão e com
a carne, que vos deu essa Providencia, que assim soubestes interessar.

¡Não tendes que dar! Ajudae o vosso proximo, com o trabalho dos vossos
braços. Advogae perante o poderoso a causa do fraco. Desfazei os enredos
e calumnias, que ennegreceram vosso irmão, que lhe roubaram todas as
protecções.

¡Não tendes que dar! Congraçae o homem com o homem, a familia com a
familia.

¡Não tendes que dar! Visitae tantos desgraçados, que gemem por esses
carceres; persuadi-lhes a paciencia, e a resignação evangelica;
confortae-os com palavras doces, com esperanças consoladoras.
Approximae-vos ao leito do enfermo; offerecei-lhe, com mão carinhosa, os
remedios; animae-o com os vossos sorrisos, e fazei que troque os
suspiros da sua dôr e do seu desalento em suspiros de ternura, em
expressões de confôrto; que veja os Céos abertos, e que goze
antecipadamente de premios, que, se não fosseis vós, talvez não tivesse
de possuir.

¡Não tendes que dar! Instrui, na santa doutrina, a tantos meninos, e
ainda a pessoas maiores, que a ignoram. Bemdizei de vosso proximo na
presença, assim como na ausencia. Ajudae-o com as vossas orações.

Nada tendes que dar! ¡Nada tendes que dar! ¡Ah! ainda tendes lagrimas.
São as perolas e os diamantes da alma; e esse thesoiro nunca se esgota
para um christão. Tomae a vós uma parte do seu infortunio, e elles
ficarão menos oppressos. ¡Que esmolas, tanto ou mais preciosas que as do
oiro! ¡De quantos e quantos modos, não sabe reproduzir-se a
beneficencia!

Bemaventurados, disse o Redemptor, todos os que usam de misericordia,
porque elles alcançarão misericordia.

Eis aqui as bençãos e os premios do Céo, recahindo sobre todos vós, sem
exclusão de um só. Ahi vos tendes tão ricos, aos olhos do Senhor, como
esses ricos, cuja dureza lamentaveis, a cujos bens vos promettieis dar
um melhor emprego, se os possuisseis. ¿Quem vos detem? ¿por que não
correis a praticar essas obras de misericordia, que podeis? ¿a
merecerdes essas bençãos e premios, que ha pouco ambicionaveis? ¡Quê!
¡Já se vos affrouxa o zêlo! Sim, o zêlo, que murmura, que reprehende,
que insulta nos outros a infracção dos deveres, em quanto os julga
alheios, esmorece de todo se esses deveres se tornaram proprios; e, por
mais injusta contradicção, as fraquezas, que não perdoamos no mundo,
sendo em nós, já as sabemos desculpar; ¡e quantas vezes não passam de
desculpadas a canonisadas! Pois bem, senhores: se a razão, se a
humanidade, se a justiça, se a consciencia, se os interesses do mundo,
se as bençãos do tempo e da Eternidade, se todos os premios de Deus,
emfim, nada podem comvosco, possam-n-o, ao menos, as suas ameaças,
castigos e maldições, que vão constituir a sua lei perfeitamente
obrigatoria. Eis o seu ultimo caracter.

¿Recusais a misericordia de Deus? Já não tendes que escolher. Só lhe
ficaram as vinganças. Affastae-vos, ó santa familia de infelizes.
Pobresinhos do Senhor, affastae-vos da terra maldita, onde vai chover
fogo e colera do Céo. Para além, para além, é o vosso refugio, á dextra
do Eterno Padre. _Venite ad me, omnes qui laboratis, etc._ ¿Não vos
tinha elle dito que os vossos gritos lhe chegariam aos ouvidos, que as
humiliações se lhes converteriam um dia em triumphos? Sim, sim, ó
famintos, ó sedentos, nus, chorosos, calcados, perseguidos, ¡jubilae!
Vós nunca cessastes de ser os seus filhos muito amados. Eu vou reassumir
todos os thesoiros (vos diz elle) que a minha Providencia repartira
pelos vossos barbaros oppressores. Eu lhes havia dado mais altos meios
do que a vós mesmos de alcançarem a minha gloria, de alcançarem a menos
custo. Os privilegios com que eu os mimosiei, só serviram de os fazer
ingratos e crueis. Frutos mui formosos do meu campo, fostel-o vós, ó
meus pobres; frutos que eu vou recolher e guardar para sempre no meu
seio; elles foram arvores estereis, que, dominando toda a sementeira, a
açoitaram com os ramos, a damnaram com a sombra, a devoraram com as
raizes; infecundas e nocivas eu as arranquei em meu furor; eu vou
lançal-as ao fogo. Retirae-vos de mim, malditos. Precipitae-vos no
incendio eterno, que foi preparado ao diabo e aos seus anjos; porque eu
tive fome, e vós me não déstes de comer; eu tive sêde, e vós me não
déstes de beber; fui peregrino, e não me recolhestes; nu, e não me
vestistes; enfermo e encarcerado, e não me visitastes. Todas as vezes
que despedistes, que calcastes os pequenos do mundo, a mim, a mim o
fizestes.

¡Ah! meus irmãos, possa esta sentença de maldição estampar-se hoje com
letras de fogo e indeleveis nos vossos corações. Este Jesus escondido
nos pobres, este Jesus que por ahi vaga fóra dos templos, coberto de
remendos, macilento, prostrado debaixo do pêso de tantas cruzes, é um
rei de majestade, é um senhor indignado que vos ha-de apparecer em toda
a sua cólera, e de cujas sentenças nunca poderêis mais appelar. ¡Oh!
compadecei-vos d'elle, soccorrei-o emquanto o-vêdes pobre, cahido e
humilhado, para o não experimentardes depois, senhor altivo e vingador.
¡Oh! pobresinhos do Senhor, parabens! o coração me-diz que esta semente
não será perdida, e que terêis hoje ao menos soccorros e consolações.

Pois bem, Senhor. A Vós, recorremos hoje, que ainda é tempo. Aqui
promettemos soccorrer-vos com o que é vosso, a Vós, ó meu Jesus pobre; a
vós, cahido, a vós humilhado, para vos não experimentarmos depois
accusador, testemunha, vingador e inexoravel. Antes que nos-accendais
esses fogos de maldicção, já era nossos corações temos accezos outros,
que muito mais são vossos: os da caridade.

Ó modêlo do bom pae de familias, ajuntae-nos em tôrno da meza do vosso
banquete celestial, aonde se assenta o opulento Salomão a par do Lazaro
mendigo, os grandes com os pequenos da terra, o peccador arrependido com
o justo que nunca vos-offendeu. Reclinae-nos sôbre o vosso seio; e n'um
abraço de eterno amor nos-apertae a todos sôbre o vosso coração
paternal, por todos os séculos dos séculos.

Assim seja.



INDICE


I--A primeira noite na serra      5

II--O sepulchro, ou historia de uma noite
de S. João      11

III--Epistola a João Evangelista Pereira da
Costa      41

IV--O Presbyterio      43

V--A lyra do desterrado      49

VI--Epistola a      51

VII--A romaria      53

VIII--O Domingo gordo dos montanhezes      55

IX--O S. João nas faldas do Caramulo      77

X--O mosteiro      81

XI--Santa Maria Egypcíaca      91

XII--Epistola ao Desembargador Deslandes      97

Notas ao 1.^o volume      99

Additamento      107

Sermão da Esmola ou da Caridade      109



EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL Sociedade editora

[Figura]

LIVRARIA MODERNA 95--RUA AUGUSTA--LISBOA



*Notas:*

[1] Verbi gratia na quinta da Domanderes.


                                                         Nota do autor.


[2] Descreva-se aqui n'uma nota o encontro que hoje tivemos com o
gallinheiro de Santa Cruz junto ao Val da Gallega, que quiz descarregar
uma espingarda em mim e no poeta, julgando-nos ladrões, pelas muitas
perguntas que lhe faziamos sobre o que levava etc. etc.--Nota do
secretario Augusto.

[3] A Castanheira do Vouga, Bispado de Aveiro, Comarca da Feira, a uma
legua de Agueda.


                                                         Nota do autor.


[4] A traducção de parte de Silio Italico pelo Padre Francisco Manoel do
Nascimento (Filinto Elysio.)


                                                         Nota do autor.


[5] Traducção da escolha das Fabulas de Lafontaine pelo mesmo.


                                                         Nota do autor.


[6] (O poema desappareceu, ou nunca chegou a escrever-se.)


                                                     Nota dos Editores.


[7] Josué--cap. XXIV

[8] Juizes--cap. VI.

[9] Foi este fragmento publicado na _Revista Universal Lisbonense_ de 19
de Junho de 1845--Tomo IV, pag. 582.


                                                           Os Editores.



Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  | Volume I |                     |                      |
  |#pág.   20| a ém                | além                 |
  |#pág.   33| «o salto)»          | «o salto»)           |
  |#pág.   36| opíma               | optíma               |
  |#pág.   56| Ines                | lhes                 |
  |#pág.   69| fescenino,»         | fescenino»,          |
  |#pág.   94| acompapanhal-o      | acompanhal-o         |
  |          |                     |                      |
  | Volume II|                     |                      |
  |#pág.   45| dextra não          | dextra mão           |
  |#pág.  113| tarrestres          | terrestres           |
  +----------+---------------------+----------------------+





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O presbyterio da montanha" ***

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