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Title: O culto da arte em Portugal
Author: Ortigão, José Duarte Ramalho, 1836-1915
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

                                             Rita Farinha (Nov. 2009)



O CULTO DA ARTE

EM

PORTUGAL



_RAMALHO ORTIGÃO_


O CULTO DA ARTE EM PORTUGAL



_Monumentos architectonicos--Restaurações--Desacatos
Pintura e esculptura--Artes industriaes
O genio e o trabalho do povo--Indifferença oficial--Decadencia
Anarchia esthetica
Desnacionalisação da arte--Dissolução dos sentimentos
Urgencia de uma reforma_



LISBOA
Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
50--Rua Augusta--52
1896



Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa



_Á Commissão dos Monumentos Nacionaes_


dedica respeitosamente
este humilde trabalho


_O AUCTOR_



Durante a Renascença, e ainda atravez da Edade Média, tão
insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os
reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o
fausto e a pompa hierarchica não sómente construindo palacios e
castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo
basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforços do
talento de uma raça, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados
magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus,
em nome do rei, em honra da patria.

N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas
monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da
sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria
dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a
pintura das vidraçarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um
pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as
fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus
desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbação dos sentidos pelo
peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e
o vôo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de
paz, de verdade e de justiça.

Dentro d'essas egrejas, ameaçadas hoje de proxima ruina ou inteiramente
arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida
civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os
filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas
os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra,
as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendões dos
officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as
franquias, os foros da communa. Ahi se prégava o Evangelho, se resava a
missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus
santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando
o orgão emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo
bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas
bysantinas, e as lôas e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam
para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao
repique das castanholas e ao rufar dos adufes.

Ao lado dos brazões e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos
modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.

Esse alcaçar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaçar mais
sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e
sagrado, aos maltrapilhos, aos villões, aos mendigos, aos lazaros e ás
lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus,
aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, ás mulheres adulteras, ás
mancebas, ás mundanarias, ás barregãs.

O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento
de tão grandes obras. Creamos instituições de caridade, fazemos
regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido
pela revolução liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos
fundamentalmente incapazes de consagrar á pratica das virtudes, de que
julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que
nossos avós lhe levantaram _a proll do comum e aproveitança da terra_,
dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro
de Alcobaça ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoço e
a sua escudella debaixo do braço, participava, além da ração quotidiana
que se lhe distribuia pelo caldeirão da communidade, de um agasalho de
principe e de um luxo d'arte com que hoje não competem os maiores
potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam
de todas as joias artisticas de que pela abolição dos vinculos e pela
extinção das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do
bric-à-brac.

Falta-nos a alta noção de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego
dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegação, falta-nos
a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a fé dos nossos
avós.

Na architectura trabalhamos unicamente para nós mesmos, sem cuidados de
futuro, sem pensamento de continuidade de raça ou de familia,
deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.

Entre as nossas antigas construcções hydraulicas ha o aqueducto de
Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias gerações successivas
acarretaram para essa construcção os materiaes; e lentamente,
pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a
agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles
que de tão longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal
empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com
egual carinho ao futuro aquillo que deve á previdencia, aos sacrificios
e aos desvelos do passado.

O nosso ideal na arte de construir é que a obra se faça em pouco tempo e
por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a
pedra e a madeira, em que é nimiamente moroso para a morbida inquietação
do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor.
Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o
tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se
converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da
pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga missão
perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de
enformar a vapôr a habitação moderna e o moderno edificio publico--a
gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.

O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos
seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e
de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia.
Não succede assim, porque são inviolaveis as leis do progresso. Ao
seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais
perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte
nunca em nenhum outro periodo da civilisação chegaram á eminencia
attingida pelos investigadores contemporaneos. É tambem em sua maneira
um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que
erigiu a erudição do nosso tempo, constituindo scientificamente a
archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites,
especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da
archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a
paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica,
para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e
ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia
figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigações a
cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a
prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que tão amplo clarão teem
derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuição das
raças, da formação das linguas. Fixaram-se pelas escavações de Troia, de
Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e
pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confusão
existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se
completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da
olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos
bronzes, a das joias, a da tapeçaria, a da illuminura. Desvendou-se o
conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos,
ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino.
Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e
classificaram-se as inscripções gregas e romanas dessiminadas pela
Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos
graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas
lapidares da edade média e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de
Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos.
Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia
sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres
hieroglyphicos e cuneiformes das inscripções egypcias, caldéas, assyrias
e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade
dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuação e pela
evolução da letra desde a oncial da _Iliada_ no palimpsesto
greco-syriaco do Museu Britannico até a minuscula italiana egual á dos
primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as
primitivas habitações do homem, as suas primeiras fortificações, os seus
mais antigos sepulcros,--a caverna, a cidade lacustre, os castros e os
dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de
critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo
assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do
homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce
até o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida
formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os
mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto é como
a estatistica moral das sociedades extinctas.

D'esse novo criterio resultou a attenção especial com que todos os povos
cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim
nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de _restaurar_ os edificios
publicos.

Em mais de um documento da edade média se encontram provas de que os
antigos poderes não abandonavam, tão completamente como hoje se poderia
suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as
edificações consagradas ao publico. No _Codigo de las partidas_, lei
6.ª, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que
mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: «Por bienaventurado
se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar
tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Señor Jesucristo,
et como quiere que todo home ó mujer la puede facer a servicio de Dios,
pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste
titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga
complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et
en las vestimientas...»

Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores,
procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a
Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos açougues, e eram do
antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a
esse tempo edificava. «E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde
estam e em as ditas casas faram muito, e ainda é nobresa as cidades
haverem em ellas bôas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu
fundamento he as faser para nós em ellas havermos de pousar, Nós vos
rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo
Esteves mestre das nossas obras em essa cidade terá cuidado de as tirar
donde estam, etc.» Estas linhas são um traço caracteristico da policia
do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a
intervenção regia para bulir em duas pedras de um velho monumento,
operação que hoje se realisa com menos formalidades, e até, como é
sabido, sem formalidade alguma. Era porém entendido como doutrina
corrente não desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo
romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de
stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo
neologismo restaurar é operação desconhecida dos antigos. A obra
architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas
edificações, quer em reparação de antigas, o systema e o stylo da epocha
em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as
reconstrucções se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela
tradição, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes
que haviam servido á glorificação de feitos anteriores, como no arco de
Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a
Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em
cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das
influencias diversas atravez das successivas phases da construcção por
differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e
desenvolvem-se romanicos; outros começam romanicos e concluem gothicos;
outros, gothicos de nascença, acabam no clacissismo greco-romano do
renascimento; e é frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal
do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mór no stylo barroco
de D. João V, de D. José ou de D. Maria I. D'esses casos de
polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos
Jeronymos, na Batalha.

A cathedral de Colonia é n'este ponto de vista, um facto particularmente
expressivo. A construcção, principiada no meado do seculo XIII,
proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por
desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no
seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, é ornamentada em
stylo rococo. Sómente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma
restauração authenticamente archeologica, segundo o plano original,
cabendo o projecto da conclusão a um architecto que ao mais profundo
estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais
perspicaz.

Na historia da cathedral de Milão circumstancias analogas ás de Colonia
veem ainda corroborar a affirmação de que unicamente ao seculo XIX cabe
o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milão iniciada no seculo
XIV, é interrompida por desavenças entre os architectos, uns allemães,
outros italianos, outros francezes; é continuada no seculo XVI em stylo
da renascença; e tão sómente em 1805 a restauração do monumento no seu
stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou
determinada por Napoleão I, o qual pela vastidão do seu genio, ainda que
pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em
muitas campanhas da intelligencia indicou de antemão o ponto da
victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na
carta do Piemonte o logar de Marengo.

Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830,
quem primeiro indicou em França o programma das restaurações
architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:--em Hispanha,
onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se não emprehende obra
de especie alguma nos edificios monumentaes sem prévia consulta da
commissão dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na
Allemanha, que haviam precedido a França na protecção da arte nacional;
na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na
Grecia, na Turquia.

Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da
archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, não sómente
ampliando os seus preceitos, mas dando da applicação d'elles o mais
notavel exemplo na restauração do castello le Pierrefonds.

Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com tão paciente
laboriosidade, escriptos com tão lucido e penetrante engenho, e
conhecida a legislação européa baseada n'esses estudos tão completos e
tão perfeitos, a questão puramente administrativa de dar aos monumentos
nacionaes de cada povo a protecção que se lhes deve, quando menos por
simples solidariedade intellectual na civilisação do nosso tempo, é
questão perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.

Vejamos agora qual é em Portugal, perante as responsabilidades da
administração, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com
o fim de pôr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.


Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os
attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais
desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos
architectonicos da nação, os quaes assignalam e commemoram os mais
grandes feitos da nossa raça, sendo assim por duplo titulo, já como
documento historico, já como documento artistico, quanto ha, sobre a
terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a
dignidade, para a gloria da nossa patria.

Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dôr e a vergonha
de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a
cumplicidade official. Os primeiros são uma consequencia de desdem; os
segundos são um resultado de incapacidade.

A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a
conservação e a guarda da nossa architectura monumental, procede com
esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos
differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle
mesmo não tome essa resolução lamentavel, assassina-o. Na primeira
hypothese a calamidade correlativa chama-se _abandonar_. Na segunda
hypothese a catastrophe correspondente chama-se _restaurar_,--gallicismo
technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda
não definido vernaculamente na applicação pratica.

Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre
os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos
monumentos, o desastre denominado _restauração_.

Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os
factos são de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na
materia de que se trata.

Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da
nação, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a
Batalha.

Nos Jeronymos a construcção desmoronou-se, sem provocação alguma de
agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o
commentario. A restauração, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova
mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi
insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o
programma de tal restauração?! As seguranças de execução falham
precisamente na parte mais rudimentar do problema.

Attente-se em que não se trata ainda de uma questão de archeologia, nem
de uma questão de arte; não se apresenta nenhuma d'essas subtis
difficuldades inherentes ao estudo das fórmas constructivas ou
ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento
das antigas escolas no tempo e na região a que o edificio pertence.
Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construcção, e esquece,
incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto
dos scenographos, que a primeira condição de um architecto a quem se
confia a restauração de um monumento é que elle seja, antes de tudo,
acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos
os constructores.

Na Madre de Deus, onde aliás o primitivo portal da rainha D. Leonor foi
discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o
infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do
tempo de D. João III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da
ornamentação vegetal do nosso seculo XVI se vê reinar nos entablamentos
a figuração, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de
caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo
lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este
assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que
dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigação da
autopsia.

Nas restaurações da Batalha, umas já em realidade, outras ainda em
projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no
ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de
vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode
ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de
materiaes, condições de resistencia e de equilibrio, systema geral de
structura, determinação do stylo, desde as suas grandes linhas e dos
seus motivos dominantes até os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas,
até o extremo desdobramento d'esses motivos, mão de obra, direcção e
apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.

Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto
restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova,
comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alçados, photographias,
desenhos de projectos, systemas de stylisação, methodos de estudo e de
trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos nós, que não somos
architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico,
decidir se o restaurador da Batalha está ou não está ao nivel da sua
missão. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que
teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se
entrega a restauração de um monumento, nós não podemos julgar senão de
um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da
execução, para o qual nos fallece a competencia profissional.

Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o unico architecto portuguez de
quem conhecemos, com relação á historia do edificio e ao plano da
restauração da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma
memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a
que me refiro, além de mui interessantes revelações sobre os vandalismos
perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a
quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os
visitantes com cabeças das figuras de que elles se compunham, contém
alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse
perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear,
comprehendia a sua delicada missão. E excellente o methodo por elle
proposto para a conservação das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns
excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao
restaurador repugna adoptar, para o fim de pôr o monumento ao abrigo das
intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao
tempo da construcção primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de
cimentos modernos na vedação de uma cobertura, etc. A memoria programma
de Mousinho de Albuquerque é não obstante um trabalho de incontestavel
merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse
illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em
que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela
primeira vez a attenção dos poderes publicos.

Até Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um
puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do
gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as
xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castellãs, os seus
paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos
attributos--lanças, montantes, elmos, guantes de ferro, falcões, adagas,
béstas e bandolins, pediam um scenario de fortificação feudal, fossos e
pontes levadiças, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de
menagem, amplas chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas.
As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que não
eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos
os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O
romance historico, tanto em voga durante a geração litteraria de
Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas ás da poesia
cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo
por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado
geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.

A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira apparição da
_Abobada_ no _Panorama_, até hoje, o _grande livro de marmore_, o
_immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante
affirmação da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela
vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno
Alvares Pereira e pela penna de João das Regras.

Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito
d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria,
destinado a commemorar esse feito, por voto de D. João I. Mas d'ahi a
poder-se dizer que o edificio da Batalha é, como a epopéa dos
_Luziadas_, a imagem technica das idéas e dos sentimentos da patria,
medeia--me parece--um largo abysmo.

Olhemos por um momento a historia d'esta construcção.

Frei Luiz de Sousa diz que «El-rei chamara de longes terras os mais
celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes,
officiaes de cantaria déstros e sabios; convidara a uns com honras, a
outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto.» Este
testemunho é precioso e está acima de toda a suspeita, porque nos vem de
um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da
Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo
archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundação.

Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos
celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da
grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque
d'elle se sabe que teve parte na direcção das obras nos primeiros annos
da fundação, e não consta de documento authentico que qualquer outro
architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que
medeiam entre o seu começo e o anno da morte de Affonso Domingues, em
1402.

Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta
opinião; de modo que se tornou uma cousa tão corrente como se estivesse
demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.

James Murphy, porém, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por
_informações que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do
Tombo_, que o encarregado da construcção foi o architecto inglez Stephan
Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua séde
principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por intervenção da
rainha D. Filippa, mulher de D. João I, ingleza de nação, filha do duque
João de Lencastre e neta de Eduardo III.

O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as
gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se
convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de
York não permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois
edificios. «Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra
de um portuguez ou de um inglez, a verdade é que as duas igrejas
nasceram de inspirações artisticas analogas, homogeneas e
contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impressão
tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.»

Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos
importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de
Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.

Na Torre do Tombo não se encontra documento algum relativo á construcção
da Batalha, nem á vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre
Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da
Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de
satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.

É claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre
o facto de ter estado ou não em Portugal o architecto de York. Não
consta tão pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse
estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano
Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se
fóra de toda a contestação.

O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da
negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos
primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor
da obra foi Affonso Domingues, diz que não vê razão para pôr em duvida a
habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar
a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. João I, na
qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nação da Europa se achava mais
adeantada que a nação portugueza, tanto na arte da architectura, como em
todas as outras_.

O patriotismo imprudentemente levado até ás affirmações da natureza das
de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que é o de
fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicação dos nossos
sentimentos civicos á historia da arte européa.

Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se
vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que
primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha
de França e na região circumstante. Foi n'esses logares que até o seculo
XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega
em França aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e
d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de
Chartres.

Os allemães e os inglezes teem contestado á França a prioridade do
emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle
procedem. O que, porém, está acima de todo o litigio, é que o systema
ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, não
procede da invenção dos paizes meridionaes, de céu azul, mas sim das
regiões nevoentas de longos e rudes invernos.

No norte da Europa, durante a edade média, tratou-se de edificar a
grande cathedral que désse um abrigo espaçoso ás numerosas congregações
de fieis e de cidadãos; como a pedra escasseava, como a neve cahia em
abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de
construcção, que, sem difficultar a circulação da gente com grandes e
repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse
empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que,
não pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os,
deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies
exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltração da
humidade no interior do templo.

Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas
condições sociaes, e não de um mero capricho inventivo, que resultou
para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar
a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado,
puzeram de parte, para o fim de dar logar na construcção das basilicas
christãs á enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.

Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fóra das
influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e
da indole da nossa raça, que nasceu o stylo architectonico da egreja da
Batalha.

A affirmativa de que nenhuma nação da Europa, com excepção da Italia, se
achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. João I, nas artes
da architectura, sómente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S.
Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou não viajou
nunca em França e na Allemanha, ou não visitou n'estes paizes os
monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.

A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, é chronologicamente um dos
ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar
de toda a sua belleza, está, como obra d'arte e como magnificencia
monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem
ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275),
Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz
(1248), Notre-Dame (1275), etc.

Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construcção do
convento da Batalha, encorporada na collecção das memorias da Academia,
tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os
baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento
as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma idéa do
enorme abysmo que no tempo de D. João I nos distanciava ainda dos
grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se
chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de
Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos
monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de
Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.

Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na
Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em
Hispanha, Burgos e Toledo.

Anterior á Batalha não ha em Portugal monumento algum que prenuncie,
prepare e explique a apparição d'este.

Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os
artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era
como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulações
estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe
chegava o tempo para desbravar o sólo e para bater os inimigos, que de
todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e
aguerrida.

A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, já então consagradas
na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na
corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma
planta exotica.

D'onde é que foi transplantado para terra portugueza este producto de
uma civilisação superior, em que o desenvolvimento da vida municipal,
iniciada pelas fortes corporações operarias e mercantis, impellira as
communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo,
nas cidades novas, um asylo de religião e um fóco de vida civil?

Não sei responder peremptoriamente a esse quesito.

O problema assim estreitado é, no fim de contas, de pura curiosidade.

O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o
estylo ogival não tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade.
Só poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma
corporação de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres
eram as unicas corporações que na edade média possuiam os conhecimentos
necessarios para o plano e para a execução dos edificios sagrados, quer
para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.

Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros
livres se compunham de cidadãos de todos os paizes, que reconheciam a
supremacia da egreja romana, não seria possivel determinar positivamente
os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o
logar preciso do seu berço.

Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas
não são a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma
congregação encerrando no seu gremio homens de todas as nações.

Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig lê-se com referencia ás associações
maçonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes
formando uma só corporação dirigida por um ou por varios chefes.
«Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades
ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construcções em toda
a Europa e são auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e
que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as
construcções d'essa época fundamentalmente identico. As associações
alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemães,
flamengos, francezes, inglezes, escocezes e até gregos. Foi d'essa
maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em
Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de
Milão, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da
Inglaterra.»

Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque não conheço os documentos
positivos em que se baseia o escriptor allemão--condiz perfeitamente com
a lição de Frei Luiz de Sousa, e é talvez de todas a mais verosimil com
relação aos constructores da Batalha.

Que fosse, porém, uma associação de artistas e de operarios; que fosse
Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que não
inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da
Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou
Huet, de nação inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei
Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de
aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja,
emfim, a hypothese que menos verosimilhança offerece é a de ter sido o
monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso
Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.

O mais superficial exame aos edificios anteriores á Batalha manifesta do
modo mais evidente que não tinhamos nem escola, nem tradições, nem
tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu
a egreja da Batalha.

Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a versão
relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas
accrescenta: «É muito para admirar, não devo negal-o, que houvesse
n'aquella época em Portugal um artista tão consumado como o que fez o
risco do monumento, achando-se a architectura entre nós, antes da
execução d'esta obra em um estado, que, se não era de grande atrazo,
tambem não se lhe poderá chamar de adiantamento; em um estado pelo menos
que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como
escola d'onde pudesse sahir um artista tão completo.»

A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo
com a tradição geralmente recebida, exclama um tanto contricto: «N'este
caso lançarei mão de uma conjectura, não pela necessidade de sahir do
embaraço, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser
que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da
acclamação do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeiçoar
na sua arte. Bem sei que n'essa época não eram dados os artistas, pelo
menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo
estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois
principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmão natural, filhos
de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues,
levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a
acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da
architectura gothica no genero da Batalha.»

Confessemos que é preciso ter vontade de attribuir por força a Affonso
Domingues uma obra que este não podia fazer, para formular a conjectura
de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os
filhos de Duarte III.

Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de
seu irmão com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e
de que não ha o minimo vestigio historico, não será talvez inutil
reflectir que depois d'essa excursão a Inglaterra--paiz tão debilmente
_classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que não
tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa
pôr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos
voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar,
proximamente no mesmo estado em que para lá tivesse ido, o que
facilmente se demonstra, como vamos vêr.

Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela
Lombardia, essas associações de artistas seculares, architectos,
esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e
canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira
renascença da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por
muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade
estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento
universal.

Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral
de _franco-maçonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de
associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos
tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de
exercer a profissão na qualidade de mestres.

Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia
Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em
poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados
adjacentes.

Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia
cessaram emfim de ter obras em que empregar a associação, cada vez mais
numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a
sua actividade fora do solo natal.

Este expatriamento não representava unicamente uma expansão artistica
mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista
internacional da egreja latina.

Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de
cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do
Norte da Europa, constituia como que um solido reforço esthetico,
temporal, naturalista e humano á sagrada legião espiritual vulgarisadora
do credo latino pela ramificação das ordens religiosas sobre todas as
latitudes da terra.

Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos
eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.

A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, tão
importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte
gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a
influencia da antiga civilisação hellenico-romana.

Como incentivo e amparo da vasta odysséa, a que se aventuravam os
denominados pedreiros livres receberam então da auctoridade pontificia,
emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania
e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis,
destinados a assegurar á confraria errante uma especie de inviolavel
monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia
resultar de um congresso universal, tendo em vista pôr acima de qualquer
contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.

Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem
reconhecido a fé catholica apostolica romana, todos os privilegios que a
confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era
oriunda.

Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia,
isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos
regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposição obrigatoria
para os naturaes do paiz em que se encontrasse.

Só á associação caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de
prover em capitulo, sem appellação nem aggravo, a quanto dissesse
respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o
artista não iniciado nem admittido na associação estabelecer para com
ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena
de excomunhão, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de
rebeldia ás prescripções da egreja.

Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a
_Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas
do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos
gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas
confederados, vindo em seguida allemães, francezes, belgas e inglezes.

Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de
agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em
communicação com os chefes das demais decurias e com a direcção central.

Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados
e bispos, accrescentavam a força e o prestigio da associação,
alistando-se como membros da irmandade.

Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes
distincções e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.

Para o fim de evitar que individuos estranhos á associação aproveitassem
fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e
bem assim para que, em qualquer região do mundo, cada irmão pudesse
communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciação e o
seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes
maçonicos_, por meio dos

quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o
acto de iniciação e matricula de formalidades solemnes, de provas
especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade
se obrigava não sómente a não revelar a quem quer que fosse os signaes,
com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos
estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de
que a associação tinha a posse. Esta collaboração phenomenal dos
melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do
mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita
para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este
periodo á mais alta perfeição scientifica e technica, a que jámais
chegou a obra da intelligencia e da mão do homem.

Quando a longa e laboriosa gestação de todos os demais ramos do saber
humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma
confusão tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de
leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as
mais caracteristicas fórmas de stylo, resolveram-se os mais complicados
e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica,
acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos,
que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande
confraria dos maçons morreu a tradição de que elles tinham a guarda e o
segredo.

No tempo de Eduardo III a maçonaria, que só um seculo depois acabou na
Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.

Ora, dado que só muito lentamente e por via de provas espaçadas e
progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir á qualificação
de mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido e iniciado,
dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar
que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico,
era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois
de utilisado em qualquer obra, parece-me não haver um excessivo arrojo
em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo
de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho á
maçonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha,
seria então da maçonaria e não d'elle o monumento de que se trata.

Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que
elle não encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe
submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas
imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais
caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram
em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das
herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos
intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as
lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo
intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra,
ameaçava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.

Sem exposição de plano referido ás obras que recentemente se tem feito,
e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discussão, quem, como
eu, não tem voto na materia para a resolver por sentença, precisaria de
entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes
demonstrações para pôr em evidencia todos os erros que em taes obras se
teem comettido. Para não tornar pelo emprego d'esse processo,
excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital,
sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na
restauração da Batalha.

Pela entrada principal da egreja, á semelhança do que succede em grande
parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete
se me não engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos
restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por
assistido de razões plausiveis para modificar o alludido systema,
rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu
os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe
serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por
esse modo tendo de altura a dimensão de duas larguras em vez de largura
e meia approximadamente, segundo a dimensão primitiva. O architecto
havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estações
superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta
approvação.

Será difficil encontrar em um tão breve episodio de construcção uma tão
vasta affirmativa de desoladora ignorancia.

Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se
arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio
da sua profissão. O erro é todavia no caso sujeito tão flagrante que não
supporta defesa. Um barbarismo architectonico está tanto ao alcance de
um escriptor como um barbarismo grammatical está ao alcance de um
architecto.

Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de
proporção e de relacionação que se chama a _escala_. Sem escala não ha
obra de architectura nem ha construcção alguma sensata, por mais
subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a
unidade abstracta d'essa medida é o modulo. Na architectura da edade
média a unidade é o homem. N'este simples principio, tão magistralmente
exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da
architectura medieval. D'essa referencia de toda a construcção á
pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade
que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa
Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja
de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras
da cantaria á altura das paredes e das pilastras, porque a escala
gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente
ás dimensões do material. Assim pela serie das juntas, sempre em
evidencia na sobreposição das cantarias, a vista calcula rapidamente,
por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha,
estabelecendo a proporção entre as dimensões da pedra e a estatura do
homem, e entre a altura do homem e a elevação da nave.

Do que fica exposto resulta que a simples substituição de uma pedra por
uma pedra de dimensão differente na base de uma hombreira no portal da
Batalha é, em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um
grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente
a dimensão exacta e precisa, que á esquadria da cantaria impõe a
dimensão do bloco, é um elemento fundamental da escala pela qual se rege
todo o edificio; e não pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.

Mas temos de considerar ainda que com essa mudança de pedra se offendeu
o preceito da unidade, alterando a fórma e a dimensão de um dos mais
importantes membros da construcção. O conjuncto de um monumento--diz
Quatremère de Quincy--é de tal modo combinado, que n'elle se não pode
nem tirar nem pôr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Dué
desenvolve esse preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro
suppôr que um qualquer membro de architectura da edade média pode ser
impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura não ha
membro algum, que não esteja na escala do monumento para que foi
composto. Alterar esta escala é tornar esse membro disforme... Os erros
de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o
valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restauração.» As
dimensões das portas--já dizia Vinhola--devem ser de uma proporção
relativa á escala pela qual se construir o edificio, á grandeza das suas
differentes peças e finalmente ás particularidades da obra e do local em
que esta fôr feita. Com relação ás portas nas ordens jonica, dorica,
corinthia e toscana as proporções entre a altura e a largura dos
portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de
Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porém um papel mais
preponderante que em qualquer outro systema de construcção. «De hora
avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta
deixará de augmentar em proporção com o edificio, porque, sendo feita
para o homem, conservará sempre a escala propria do seu destino.»

A medida de extensão na edade média era a toeza, correspondente á
estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao
portador de uma lança de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz
ou de um pendão, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas
toezas e meia, segundo as regiões em que se construia. O portal gothico
tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a
condição de representar na fachada do templo como que um summario de
toda a obra. É do principio da arcada, de que a porta é o motivo
predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as
demais fórmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio.
Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas,
baldaquinos, trifolios, que são na egreja da Batalha senão applicações e
desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas
constitutivas da porta principal do templo?

Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos
os serviços da arte para que possa dar-se um attentado da ordem
d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que
uma repartição publica auctorise, para que um ministro da corôa
sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que
se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade média, alterando
as fórmas de uma porta, que é a porta principal d'essa gloriosa egreja
de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alçaram
pela bitola dos estandartes, dos balsões e das bandeiras de Aljubarrota,
e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a
cimeira do morrião dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!

Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restaurações da
Batalha teria de referir-me ás vís deturpações por que está passando a
capella do fundador; ao detestavel altar mór, em cuja pedra tão
miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de
um mosaico, e a odiosa coloração das vidraças, em que o doce tom de
ambar, que os vidristas da edade média obtinham por uma emulsão de mel
na preparação da tinta, se vê substituido pelo de um reles amarello cru,
de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo
de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma
capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu
horrorisado espanto perante esse tão insolente e tão irrespeitoso abuso
do pseudo-gothico, em proporção e em escala unicamente permittidas, por
longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados,
na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.

O meu fim porém não é fazer a critica das restaurações da Batalha, mas
sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos
caracteristicos e capitaes, que nas restaurações emprehendidas tanto
n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados
a expensas do estado, não houve antecedencia de programma, nem estudo
previo, nem determinação de methodo, nem sancção critica, nem
fiscalisação technica, nem policia artistica de especie alguma.

Pelo numero e pelo quilate das mutilações, deturpações e superfetações,
inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que são objecto os
monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a
Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se
passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares
estão no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.

Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome á villa. Esta ponte,
em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada
por dois castellos ogivaes. A vereação, com o motivo de desafogar a
vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar
as ameias da alludida ponte.

Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa
Maria de Marvilla, fundação dos primeiros tempos da monarchia, para o
fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa
razão uma praça. A Real Associação dos architectos civis propõe-se a
esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A
junta de parochia prefere derretel-os.

No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo
rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um
documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de
côrte na edade média, certos festeiros em noite de gala, derribam a
columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias
e de pyrotechnica.

Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se
por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.

A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
_Viagens na minha terra_, é arrasada, juntamente com a capellinha de
Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento d'essa
demolição, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem,
tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais
tempo se não podia protrahir_, fôra vantajosamente arrematada pela
quantia de trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de cem mil o
valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de
alegria orçamental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador
da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com
as espadas e as lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por esse
acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.

A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por
disposição do respectivo municipio.

A destruição das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes,
com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido
a grande preocupação vesanica das municipalidades modernas,
absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradições locaes
de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.

Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será difficil disputar o
primeiro logar da serie pathologica á cidade do Porto.

O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia sido uma das portas da
circumvalação sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em
ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de França pelo bispo D.
Nonego, é desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito
seculos de existencia.

Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do
Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem
mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol
ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_,
onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de
tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam
espontaneamente cedido á armada de D. João I para a expedição de Ceuta.

Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol só resta o nome, foi
acclamado D. João I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por
ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasião das suas bodas com
o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.

O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo á linda narrativa
portuense de Almeida Garrett, é sacrificado como os demais ao alvião
municipal da cidade invicta.

O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido,
foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e
os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua
rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes
das velhas janellas de resalto, á flamenga, sob punhados de trigo,
reluzente no ar em chuva de ouro.

Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se está
mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a
Torre das Cabaças.

Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as
medidas do côche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de
percorrer, e desfizeram-se diligentemente a picão, nas ruas da villa,
todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de
entalação para o trajecto da real berlinda.

No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos
angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio
transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre das Cabaças o passo porém
apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio
côche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira
mandára previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra,
presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra
infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo
da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os
dois monumentos. Então, depois de haverem marrado por um momento no
problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a
difficuldade, redobando a fita da medição inutilmente esticada, mettendo
os solicitos e suados covados debaixo dos braços, e mandando
simplesmente arrasar a Torre do Alporão, monumento do dominio romano, do
alto do qual, durante a occupação serracena, o arabe dictava ao povo a
lei de Mahomet.

A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do
Alporão. Com quanto Garrett a faça invocar anachronicamente no _Alfageme
de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invasão castelhana, como um
dos traços mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa
torre data apenas do tempo de D. Manoel. Não tem caracter propriamente
architectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu
estranho remate, em grande elevação, formado pelo sino a descoberto,
sustido na convergencia superior de quatro varões de ferro, estribados
obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de
barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no
tanger das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma feição
verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. Não será talvez o
mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é de certo o mais
suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o
mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa tão formosa campina
ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo
envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
_relogio das cabaças_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no
ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e
dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte
integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de
improvisação e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que
parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, que
lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos
architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da
região em que surgiu.

Os conspicuos burguezes do senado de Santarem não podem ter opinião
sobre esta questão de esthetica, porque elles carecem absolutamente do
ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaças, a
qual evidentemente se não construiu para que suas excellencias a
alveitassem doutoralmente de dentro dos paços do concelho, ou cá fora na
praça, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas,
abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente
cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaças fez-se
para ser olhada do vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, vindo
do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos
olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de
jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de
cabeçada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O
Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaças de
barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para
o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os
vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que
não vejo em arte razão alguma plausivel para que, como motivo ornamental
de uma torre, á folha do acantho ou ao chavelho em voluta da
architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho
de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.

Não! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella está a sua tão
caracteristica torre, para que se não diga que dos tres potes, que de
antiga tradição consta acharem-se soterrados na Alcaçova, um cheio de
ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade
não encontrou senão o ultimo para o despejar sobre os monumentos
publicos sujeitos á sua jurisdição e confiados á sua guarda.

Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a
Torre do Alporão, para passar uma rainha, é uma desdita em extremo
lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a
Torre das Cabaças, para que passem os proprios vereadores, é um desando
grande da publica administração para muito peior do que estavamos no
tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.

A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado
perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os
poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo
o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nação.
Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os
documentos ineditos das relações do marquez de Pombal com D. Francisco
de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve
historia da demolição da torre da Sé Velha. Em carta de 3 de setembro de
1773, D. Francisco de Lemos dá conta ao marquez de que demoliu a torre:
«...A dita torre era um montão de pedra e cal sem arte e figura, que
servisse de ornato á cidade, e antes estava tirando a vista do Paço das
Escolas, e de muitas casas. E principalmente é muito nociva á Imprensa,
porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a
fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista de todas
estas razões que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas
as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo
o que foi preciso fazer.» Em sigla marginal a esta carta opina o marquez
de Pombal: «Que está muito bem feita a providencia sobre a torre da Sé
antiga.» E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez,
em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo
de D. Francisco de Lemos: «Tambem me pareceu bem ajustada a providencia
e resolução que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da Sé antiga
que não servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, só
proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase
contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.»

Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um claustro do tempo de D.
Affonso Henriques.

Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões da rosacea no
frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em
risco todo o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim de aproveitar
a pedra para outras applicações, desampara-se a abobada, deitando abaixo
a ala do convento que lhe servia de encontro.

No castello de Palmella e em S. Salvador de Paço de Sousa acham-se
violados e deshonrados pelo mais completo despreso, além das campas dos
cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de
Egas Moniz, que em Paço de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade
para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que
continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia
de um bebedouro publico.

A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundação de
D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos
capiteis e os floridos arcos da sua restauração manoelina, converte-se
em uma das cavallariças do regimento aquartelado no convento.
Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a
egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada
liturgicamente. Parece que não houve tempo para satisfazer essa tão
breve formalidade de respeito.

As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo
precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de
ser a esculptura removida para S. João do Alporão pela benemerita
commissão administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam
miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez
destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal á
memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de
Alcacer-Ceguer se deixou morrer ás lançadas para salvar a vida do seu
rei.

O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associação
dos architectos trazido para o museu do Carmo.

Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica
reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se
ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D.
Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de
Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião em que se lhe
destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo
para bebedouro especial dos cavallos com mormo.

As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o
principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe já de
quem eram, por que, para não escorregarem os cavallos do regimento,
desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se
continham.

A sepultura de Pedro Alvares Cabral está na egreja da Graça, um dos
bellos templos da fundação da monarchia em Santarem. Esta egreja é
cedida pelo governo á pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de
meios para custear o decoro do culto e a conservação do edificio.
Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo
á egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um
azylo que n'ella fundou. A egreja da Graça de Santarem está portanto, a
bem dizer, desamparada. A quem é que se acha confiado o tumulo de Pedro
Alvares Cabral? Não se sabe bem, e são grandes, como pessoalmente tive
occasião de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar
com o depositario das chaves para ver a egreja. Ás gloriosas cinzas
d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.

O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do
mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo,
recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado.
A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A
arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem,
servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.

Em Guimarães mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as
arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos
primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua
mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma
parte da egreja, revestem de caixilharia envidraçada a graciosa arcaria,
e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante
janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia
explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga
cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em
phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, é
impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria
corrida, perfurada por quatro oculos.

Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este verão, um raio
fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mór, despedaça a
madeira do arco que a separa da nave, e põe a descoberto, por baixo
d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores
esculpturaes de uma arcaria da Renascença, em que cherubins voejam,
sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laçaria
afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da
esculptura haviam sido desbastados a picão para nivelar a superficie da
pedra em que assentara a madeira.

Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as
columnas, os artezões e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa
camada de pintura. O material subjacente é o lindo marmore polychromico
da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a intenção esthetica de
imitar a borrões d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie tão
sordidamente conspurca.

Quando ha quatro annos o governo mandou pôr em hasta publica uma parte
do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do
qual é do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e
energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena
brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a
pedir soccorro á imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na
parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas
de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por
todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes
episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, é a mais
delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza
n'esse interessante periodo da transição do stylo romanico para o
advento do gothico, na evolução capital da arte na Edade Media. A
virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da
preceituação hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com
toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, é
invasivamente tocante na concepção de varios episodios d'esta
composição, como o da Annunciação, o do Sonho de Nossa Senhora, o da
Adoração dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificação de
Jesus, que, pela primeira vez nas representações d'este periodo, nos
apparece flagellado pela corôa de espinhos e com os dois pés
sobrepostos, fixados ao madeiro por um só cravo. Acompanhando e
envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se
compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pôr em
suggestão o pensamento que d'essa obra deriva.

É uma construcção ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religião,
no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu
conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpção ou de orgulho.
Nem um só nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazão, corôa,
paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambições, a
força, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem
espheras. A mesma aconchegada dimensão do recinto, parecendo amoldado ao
passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de
um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada
revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a
pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de noviça, que
poderia do chão acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr de
açucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do
telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma
vegetação arbustiva, que ainda sobrevive á antiga ornamentação floral do
pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a
claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de
uma expressão intradusivel. O claustro de Cellas é, pela extranhesa e
pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa
fonte, ineffavel e perenne, em que a agua não vem de alterosos e
magestaticos aqueductos cantar ao sol em taças brunidas de prophyro ou
de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de
golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes
alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino,
desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos
para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de
violetas em flôr.

Providenciando sobre o destino de um tão delicado monumento, posto em
leilão pela quantia de um conto de réis, dispunha o governo que os
capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se
recolhessem n'um museu!

Não sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O
que sei é que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado
da perpendicularidade das suas columnas, não espera senão o primeiro dos
mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.

Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de
cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e
mais villôa cantaria.

Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha
periodica, os desacatos por que está passando o antigo mosteiro das
Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa
Iria pela devota Berengaria com a collaboração de Santa Isabel.

Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e
de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos
logares para onde as transferiram, e, com o fim de não transtornar
inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os pés
decepados aos joelhos das figuras.

Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D.
Affonso, filho de D. João I, obra mandada fazer em Bruxellas pela
infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do
infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo
entre dois anjos em adoração. A caixa tumular, ornada de brazões,
cingidos de arabescos e silvados em relevo, descança sobre leões. Em
1881 foram roubadas as cabeças dos leões, os pés e as mãos da estatua, e
os dois anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo está
completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os
capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se
grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das
capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se
tudo de branco--madeiras e cantarias.

A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida
que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa
Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e
serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de
Evora.

Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em
tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaça os de D.
Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de Sousa o de Egas Moniz; como
em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma
verba ás reparações d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em
Alemquer, o de Damião de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr.
Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da
egreja da Varzea.

Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares
as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do
descobridor da India não tivesse mais importancia historica que a que se
liga a qualquer pedreira.

Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma
praça, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paços do
concelho, edificada em tempo de Affonso V, por João Mendes Cecioso, o
_pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez
se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alterações_,
tão minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
_Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. João II.

Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece até haver
sobre tal assumpto uma resolução assente, o projecto inaudito de
eliminar toda a bella alpendrada da praça, da rua Ancha e da rua da
Porta Nova.

Outra resolução da camara de Evora, resolução definitiva e aprasada para
muito breve, é a de destruir a pequena e tão graciosa egreja do convento
do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praça entre as duas ruas
de Machede e de Mendo Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo.

A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os
seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas
barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de
D. Alvaro da Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos
do seu tempo.

Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus
de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida
collecção de praças largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos
bairros historicos são hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em
muitos logares, onde esses bairros não existem, estão-os inventando,
estão-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa á tradição
historica, á poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no
pelintrismo das suas innovações, bota abaixo os mais venerandos
monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no
seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos
sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse
effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; pica os seus
historicos brazões para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus
janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais
palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a
carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos
reporters.

Mas eu é que não posso deixar de dizer á cidade de Evora, que o que a
ella nos attrae e n'ella nos retem não são as suas novas avenidas, nem
as suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio
Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, são os seus velhos
mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas,
estreitas e sinuosas, tão curiosos e tão archaicos como o de
_Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate
da_ _Condessa_; são os quadros incomparaveis do seu paço archiepiscopal;
são os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua
architectura da Renascença, tão especialmente amoiriscada n'esta parte
do Alemtejo; são os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria,
a tapeçaria, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; é
talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doçaria famosa dos seus
conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pôdre, de
farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os
hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão.

Com as improvisações do seu modernismo Evora é como Vianna do Castello,
Braga, Guimarães, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que sómente
interessam os viajantes pela sua antiga arte, e não valem realmente a
pena de que alguem as visite pelo que dão de novo.

Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello
dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo é de uma
magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores sómente se pode comparar
á de Mafra. A mão d'obra é de uma perfeição magistral a ponto de parecer
indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um
dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente á sua
conclusão a cupula do tecto e o lageamento do chão. Taparam-lhe o arco
da entrada a pedra e cal, não tem cobertura, e está servindo de armazem
de arrecadação do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.

A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela
ornamentação tão portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda
acabou de desapparecer, como o convento da Esperança, sem se saber
porque, nem para que.

A restauração, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fóra,
tão particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a
exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a
nobreza d'aquelle templo.

Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido
objecto a Sé de Lisboa são tão lastimosos quanto innumeraveis.

Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da
areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um
retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite,
formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas,
de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por
um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais
expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual
sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso,
gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado
de carvão como um chéché de entrudo.

Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam
consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles pareça attentar em um
tal desdouro, expressão viva do mais abandalhado rebaixamento a que,
perante as suas tradições historicas e artisticas, podia chegar a
degeneração de uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa são
insensiveis á responsabilidade de taes civicias, porque esses dois
poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados
n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que
perderam o sentimento de nacionalidade e a noção de patria, relaxando
completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica
legitima representação, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.

Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario
da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa
historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas
dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe
puzemos ao pé, para o deshonrar.


Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das
artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, é mais lastimoso
ainda o espectaculo da nossa incuria.

Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o
que ainda resta do nosso patrimonio artistico.

Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda
encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.

Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudança de
dono, pela mudança de destino, pela transformação mais radical da vida
interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o
typo das habitações nobres em Lisboa.

Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas,
fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos
Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, á Junqueira; o do
marquez de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha
do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela collecção das suas mobilias; á
Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de
Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez de
Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na
collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de
Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde
de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um
pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a
S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e
o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos
os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio
do seculo, como o do barão de Quintella, o do visconde de Anadia, o do
conde de Almada, e o do conde de Sampaio.

A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar
dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invasão franceza,
verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peças das
industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras
e bahus monumentaes de charão, bufetes e contadores feitos na India ou
fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D.
Manoel, por artistas indianos.

Os serviços de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das
mais preciosas porcellanas da China e do Japão. A collecção das colxas e
dos panos de armar, com que no dia da procissão de Corpus-Christi se
revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de
brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro
nos mais deslumbrantes desenhos persas.

Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se
nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das
industrias famosas de Lisboa.

Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas
estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes,
as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis
das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de
face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.

As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em bestiões e em
silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini,
trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laçarias, eram
um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes
festas do anno em todas as casas de jantar.

O mogno francez do imperio, com as suas applicações de bronze,
representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra,
invadira com as modas da revolução liberal muitas casas lisboetas, sem
todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascença, em
cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao
gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de
madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as
cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no
carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e
nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas
cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as
formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na época de D.
João V e de D. Maria I.

Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em
madeira, polychromicos, em escala mui clara, tão caracteristicos da
nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada
nas obras de Bouro, de Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da Sé Nova de
Coimbra.

O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que não
occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na
sua machineta em forma de urna, semelhante ás que se destinavam a conter
uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.

Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel
galeria de pintura: paineis de devoção, retratos de antepassados, e um
ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre,
attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras
em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez
excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os
retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de
Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame
Guiard, por Gérard e por Therbouché, em casa do visconde de Sobral.
Entre os quadros de devoção destacavam-se frequentes obras primas
nacionaes, do seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á lenda de
Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como
Verissimo, Maxima e Julia.

Nos sotãos d'essas antigas casas havia accumulações seculares de moveis
inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se
sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia
na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés
desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão,
abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado
as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de
tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de
cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de
manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas
clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de
marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol,
que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa,
ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os
companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros
apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as
primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a
Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas
fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da
civilisação moderna.

E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo
desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de
camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões
despejados.

Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais
preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores
genealogicas.

Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de
Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a
collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus
e do marquez de Borba em Santa Martha.

O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos
barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle
incomparavel monumento.

Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas--almafres, capellinas,
bacinetes, barbudas e morriões--, couraças, escarcellas, grevas,
manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos
nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as
sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.

A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha
pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.

Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao
Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer
resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á
mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se
adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.

Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente
edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por
disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma
armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura
suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do
órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas
da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--«Aquella é a
armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na
batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos,
morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em
frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo,
Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a
grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da
padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual pá
uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de
tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos
viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.

Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos
esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.

Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem,
lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se
desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo
hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das
conquistas, mas de simples prata dourada.

Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a
investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e
a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se
ainda por fazer.

A restauração dos antigos quadros está constituindo na historia da nossa
arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restauração da
nossa architectura.

Alguns annos mais sobre o systema devastador que se está seguindo, e
ninguem poderá reconhecer nas taboas da nossa grande época uma só
pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal
os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten
Massys ou os Dierik Bouts.

N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os
flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida
portugueza desde o meiado do seculo XV até o fim do seculo XVI, isto é,
durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no
apogeu da nossa gloria. São raras as puras composições historicas e
raros os retratos d'esta época. Os grandes feitos da navegação e da
guerra celebravam-se de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, e
constituiam o principal adorno d'arte dos paços dos reis e dos palacios
dos nobres. Na pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos,
conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo
misturam-se em brilhante anachronismo ás figuras sagradas, e muitas
authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos
que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos está ahi, por
nós mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio
artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos
devocionarios portuguezes. Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes,
os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascença. São
essas as caracteristicas figuras dos nossos avós: as faces cheias, a
pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A
essas nobres e delicadas cabeças femininas serviram de modelo as mais
lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar
avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas
fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado
na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao
meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulação leve, sinuosa e
ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses
venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da
physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os
utensilios da casa e os estados do espirito.

O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais
bella obra da nossa historiographia.

_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos
seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em
que collaborariam todas as aptidões intellectuaes de que dispõe o paiz,
por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e
comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o
quadro:

1.º _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_
portugueza, que nós tão opulentamente enriquecemos, pelo commercio das
conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro
jardim de acclimatação, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado
da Europa, pela introducção do chá, do café, do assucar, do algodão, da
pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylão, do cravo das
Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem,
do pau de Solor, do anil de Cambaya, da onça, do elephante, do
rhinoceronte, do cavallo arabe.

2.º _O mobiliario_, cuja fabricação tão fecundamente desenvolvemos por
meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e
estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administração de
Affonso de Albuquerque.

3.º _A indumentaria_, comprehendendo, além da historia do _traje_, a dos
_tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da
China, da Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas pelo
nosso contacto nas suas origens, tão especialmente desenvolvidas no
Reino, pelo lavôr do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha as
mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas á rainha pelos capitães
da India.

4.º _As armas_, de guerra, de torneio e de côrte.

5.º A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias
religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a
tão curiosa evolução em Portugal da fórma e do ornato dos calices, das
custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peças
em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascença,
como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras,
almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras,
perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros,
taxos de perfumar luvas, copas, taças, gomis, bacias d'agua ás mãos,
maças, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar,
guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos,
arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias,
guarnições de coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabeça,
tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas
de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de
rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.

6.º _As embarcações_--galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas,
toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão
variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos
sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestões do
mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros,
que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego
do tempo de Herodoto.

7.º _A olaria e a cestaria popular_, em que tão atticamente se affirma o
hereditario engenho artistico da nossa raça, e cujos productos tanto se
compraziam em reproduzir os nossos pintores.

8.º Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto,
pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos
predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba,
etc.

Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza
artistica da nação, não ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos
nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em
Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa
indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa ás fontes
da tradição e da nacionalidade, em que cada um de nós tem a mais
restricta e a mais instante obrigação de ir retemperar e fortalecer de
portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educação a que se
pode condemnar um paiz.

Não ha collecção publica, chronologicamente completa, dos nossos
incomparaveis azulejos. Esta industria artistica é no emtanto d'aquellas
de que mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o seculo XVII o
azulejador portuguez acompanhou a evolução peninsular, de influencia
mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto
hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo
azul e branco, em vastas composições historicas e de genero, paizagens,
merendas, caçadas, allegorias religiosas e lendas monasticas,
enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado
talento de composição historica e decorativa.

Raro será o anno em que de Portugal não tenha desapparecido um quadro
inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de coherção,
sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das côrtes ou da
imprensa. Á hora a que escrevo estas linhas me dizem que está á venda ou
vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindára um
fidalgo da sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que
era uma gloria da nação.

Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras
d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.

É bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes,
fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se
suavemente, a pouco e pouco, até chegar a não existir do deposito
primitivo senão unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia
sido collocado.

O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos
por Estacio da Veiga, ainda hoje se não acha instalado.

Da inestimavel collecção das antigas peças de louça e de obras de barro,
que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto
Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu
tudo.

Tão vasta é a nossa riqueza artistica e tão profundo o desleixo de a
escripturar, que são quasi tão frequentes as surpresas no que se
encontra como no que se perde.

Como exemplo direi que era assentado não haver em Portugal vestigio
algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e não
existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na
miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente
propriedade da _Bibliothèque Nationale_, em Paris. É entretanto nosso, e
existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em
tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse
retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no
dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios
personagens, é da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de
quatro paineis, de dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia
de data e de assumpto. Está bem conservado, e acha-se, com os tres da
serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S.
Vicente de Fóra, no vão de uma janella, junto dos aposentos habitados
n'essa occasião por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.

O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma
reproducção photographica, destinada a illustrar a nova edição ingleza
da _Chronica da Guiné_.

Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto
Nepomuceno comprou por 300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro
fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador
da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de
bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela
mão d'obra e pelo estado de conservação em que se acha, uma das obras
capitaes da esculptura da Renascença em Portugal. Compõe-se de dezesete
figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor,
está prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da
Soledade, as tres Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João
Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico
trage do seculo XVI. Enquadra a composição um bello portico, de columnas
e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos Valles. Só outro
Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do
primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e
quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja,
á esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.

Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos
viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthéon dos
Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de
Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os
cinco sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente regio dos
Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mór da egreja constituem
uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel
repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos
vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis
contos de réis.

Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente
desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje
dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior aos dos quadros de
mesma época recolhidos pelo estado depois da abolição das ordens
religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, só á sua
parte, noticia de não menos de cem obras desconhecidas do publico. Das
que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da Academia das
Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, não ha uma só photographia
registrada pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos os museus do
mundo.

Por occasião da ultima exposição, tão interessante, realisada nas salas
devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo
Antonio, a direcção das Bellas Artes não respondeu ao pedido da modesta
quantia de 50$000 réis que a commissão executiva da mesma exposição lhe
dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em
manuscripto na mão do redactor.

Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos photographos
portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes tão valiosos e
desinteressados serviços devem as artes portuguezas, dirigiram ao
governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio
algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas
Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.

Inutil me parece alludir ainda á dispersão das mais ricas peças do
mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascença artistica
e industrial do nosso seculo XVIII.

Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias da Persia, bordados e
rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas
antigas da India, do Japão e da China, credencias, leitos torcidos ou
empennachados, canapés e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de
Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da
Real Fabrica das sedas, louças artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do
Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas,
de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em
cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade que bem melancholicamente
lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia
Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não quiz. Ainda ha Verres,
como no tempo do velho mestre romano, mas já não ha verrinas.

D'esta desorganisação geral de toda a policia da arte resulta mais ou
menos lentamente, a quebra da tradição esthetica nacional, que é a seiva
de toda a producção artistica.

Á infecundação do individuo pelo espirito da raça corresponde o
desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a
esterilidade do estudo, a degeneração da phantasia, o abandalhamento do
gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da
decadencia geral, a desnacionalisação pelintra de todo um povo.

Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo é producto
da arte tudo o que não é unicamente obra da natureza.

O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma
fatalmente a configuração das coisas que o rodeiam e, para assim dizer,
lhe enformam a personalidade.

Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de
abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja
que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de
Portugal faltam corações portuguezes.

Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida
intellectual.

Em resultado de não termos uma historia geral da arte portugueza,
devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos
seus capitulos, vemos grassar, não só entre o vulgo mas entre pessoas de
saber, incumbidas de guiar e de reger a opinião, o erro criminoso,
profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz
de concepções artisticas originaes.

A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e
de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos,
anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica,
interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos
os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas
seitas.

Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de
critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada
tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da
raça, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de
apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a
grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias
dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um
residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das
paixões mais profundas, todo de improvisação e de repentismo, capaz das
coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.

Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola
portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos
artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem
lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de
que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimento.

Por egual razão não teem caracter nacional, sendo portanto destituidas
de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia
mercantil, todas as nossas industrias.

A decapitação official da nossa educação artistica manifesta-se ainda de
mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no
aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na
apparencia dos predios, na decoração das praças, das avenidas, dos
cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das repartições do estado e
das habitações particulares.

Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma sala de concertos populares, nem
vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona
Maria se não representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S.
Carlos se não canta Marcos Portugal, onde não ha um museu de arte
decorativa, nem um simples mostruario da nossa producção industrial, nem
um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que
communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa,
a lição que um museu contém, ha pelo contrario escaparates de
apparatosos armazens, que são para quem anda pelas ruas o contagioso
exemplo da mais corrompida perversão, do mais provocante e pomposo
relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal
maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de
construcção. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade
média era um accessorio movel, e só no seculo XVI se principiou a fixar
com pregos ao banco ou á cadeira, invade boçalmente todo o movel, armado
em ripes de pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em pelucia, que
nos esburaca os olhos pela insolente má creação da côr. E horripilantes
lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece
apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulação do contorno até o
material empregado, porque todas as linhas são aleijadas, a prata é
zinco, o marfim é gesso, o charão é de papel e o marmore esculpido é de
sabão. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a
familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos,
desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e
de canalhismo de casta para a vida toda.

Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao
transito do publico, em vez da ornamentação da flora regional, em vez
dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de
bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois
miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas,
gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em
fosquinhas para trambulhões do viandante.

Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie
das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com
hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis
e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas,
em Lisboa é prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.

Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradição portugueza caem em
desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a acção do nosso
clima.

O tão commodo, tão modico e tão gracioso typo da nossa antiga casa de
campo é substituido nas construcções modernas pelas fórmas de um
exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais
chinfrins, hybrida confusão allucinada do châlet suisso, do cottage
inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita
moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa.
Em presença de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta ou de
revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicações, anedocticas e
chorographicas, será capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre
que casta de gente se está passando a peça. Tal é a delirante epidemia
de que estão combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter
um indicio nacional da nossa tradição, entre as casas de campo ou de
praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de
ir a Cascaes vêr o typo, unico, da habitação dos condes de Arnozo, tão
saudosamente semelhante á casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado
sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de
escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da
familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de
pedra, destinados ás varas do estendal, e servindo de misula aos vasos
de craveiros e de mangericos, em frente do poço de roldana, no mais doce
e tranquillo sorriso d'outr'ora.

Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominações que
esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade
esthetica dos habitantes.

No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas tão sympathicamente
suggeria a lembrança bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os
jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a
do _Moinho de Vento_, a do _Poço_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da
_Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram,
como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta
falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para
dar ás ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas
moram ou se diz que por lá passaram. E com egual afouteza se dissolvem,
n'um borrão de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente
vinculados á historia do povo e á historia da cidade, como o da Rainha
Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.

Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão suggestivos e tão
bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de
Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e
da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e
abastardam-se ridiculamente, porque não ha entre a gente culta quem
preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.

Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel
extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias
populares.

Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de côr e mais graça de risco
esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com
estopa, com linho, com lã ou com algodão, de que se fazem os panos
liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna,
e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes
chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro
com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a
pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo,
de Loulé.

Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher,
arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão
pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.

Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve á iniciativa
e á propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï
considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o
_ethereal Ruskin_. Este glorioso campeão da esthetica e da arte em todas
as suas mais complexas e mais variadas manifestações não pode deixar de
ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus
numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a
pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus
profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a
sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das
industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são um
verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere
constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome
consagrado de _ruskineana_. Grande homem de acção, gloria dos da sua
raça, tomando por divisa _To day_, Ruskin não se emparedou, como a
maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das
contemplações expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de
réis da legitima paterna em subvenções das mais generosas empresas
sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundações de
escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a
trinta contos a edição) um rendimento de riquissimo proprietario, elle
fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario.
Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_,
fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos
Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de
Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de
Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National
Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de
Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu á arte
todo um novo ideal e uma religião nova, creando uma pleiade
brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre
os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris,
Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo
Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle
emfim que deu a mais alta expressão á auctoridade esthetica em nossos
tempos, impedindo, em nome da arte, que um traçado de caminho de ferro
deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma
commissão da Camara dos Lords a consultar uma commissão de artistas
sobre se a passagem de uma linha ferrea não affectaria ruinosamente a
parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de
certo valle.

É porém com um intuito especial,--a proposito das nossas tão resistentes
industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de
Ruskin.

O trabalho rural da fiação á mão e da tecelagem no estreito e primitivo
tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin,
considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de
satisfação, de educação esthetica e de intima poesia, destruidos pela
suppressão d'essa antiga actividade artistica da familia no campo
inglez, dedicou-se com um esforço portentoso a fazer reviver em Langdale
e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos
de lã em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da
força individual uma vela de moinho nos cabeços das collinas ou a
corrente da agua á beira dos riachos. Elle mesmo dá o exemplo da nova
organisação do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de
Laxey. Recompõe-se uma antiga roda de fiar com as peças desarticuladas e
esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de
uma velha tecedeira. É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo
florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo
movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais
eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente,
encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo
linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo,
espadelado, assedado, fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, á
porta ou á janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das
faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como
n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice,
substituida á banal perfeição estupida e antipathica do apparelho
mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiação a vapor, cae em moda
entre as pessoas de gosto aperfeiçoado, recebe a alta protecção da
princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e
faz-se pagar mui remuneradoramente por preços consideravelmente
superiores ao dos productos da grande industria mechanica.

Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na
ilha de Man. É conhecida não só em toda a Inglaterra mas em toda a
Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados á mão, de
desenhos combinados na urdidura e na trama com as côres naturaes da lã,
sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a
mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça,
de viagem, de equitação, é o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do
nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É
a esta evolução das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor
remunerativo com as grandes industrias, e não a destructiva absorpção do
trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu
chamo _transformação de industrias caseiras em industrias de
concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso
d'aquelle que eu lhe ligo.

Em Portugal é certo que definham de dia para dia, e que successivamente
se vão extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece
calamitosamente, por culpa da administração economica dos nossos
governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de
prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos
districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragança a industria da
sericultura e a da fabricação do veludo. Acabou em Guimarães, entre
outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas
e dos brocados. No Algarve talvez que já hoje se não faça um unico
trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares
caseiros na Covilhã, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas
margens do Lima, porém, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha
ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas
as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a lã, o algodão,
e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais
consistentes e mais bellos, de sua fabricação exclusiva em todas as
phases por que passa a materia prima, desde que é cegada no campo ou
tosquiada no carneiro até se converter em vestido. Á feira semanal de
Vianna as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, além dos
ovos e dos frangos que criam, além da manteiga que fabricam, as teias de
pano de linho, os cortes de saias de lã e de algodão, as peças de
sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou á agulha. As
de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de
Thomar vende-se em graciosos novellos da fórma de casulos a melhor
linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se
ainda a antiga tradição das _mantas do Alemtejo_, citadas já por Gil
Vicente na _Farça dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos,
a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de
Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de lã, que são o
_homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis,
estamenhas, briches, saragoças, jardos, sorrubecos.

Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico,
que á primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em
germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as
industrias, desde que os aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o
eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um
tenue fio de arame o quinhão de força que tem para distribuir por cada
operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforço propulsôr do
sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos rios,
dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presença da
revolução das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de
tradição desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde
a tradição sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a
todas as oppressões que a esmagam!

É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, que distingue o nosso
marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados,
pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho
torcido ou entrançado. Ninguem como elle manusêa os ferros e as
amarrações, o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou o pano. Ninguem
como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a
linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha mais
dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha e em dar o nó de escota,
de fateixa ou de botija, o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de
borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho
até o Guadiana, a enorme variedade de fórmas nas embarcações da pesca
maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a
persistencia da tradição no grande genio maritimo de tão pequeno povo.

Os que ainda vão á pesca do bacalhau, á Terra Nova, equipam de uma
maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porém o typo latino
do hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, á pescada e ao sarrajão, no
mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de toda
a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de prôa redonda,
apparelhando com dois bastardos. Á pesca do alto vae a lancha de
Caminha, construida no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, de
bocca aberta, apparelhando com um só mastro e a verga munida de uma
grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e
duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da
Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro
escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da
Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canôas de Belem, de
Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou
_canôas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira
empregam-se embarcações numerosas e variadissimas. Na arte de galeão
agrupam-se: o _galeão_, coberto, de prôa direita e arrufada,
apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de prôa e caça á
pôpa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na
roda de prôa e sem coberta; a canôa do galeão, e o _acostado_, que se
emprega no transporte do peixe. Na armação fixa do atum e da sardinha,
nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos,
do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calão_, grande
lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por
banda, tendo na prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma
saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e,
pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da
testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _laúde_.

Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os
mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calão_ é, como alguns
barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria para atracar a margens
escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao
das embarcações portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.

_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os
_saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa
Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do
Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e
da Galé, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as
_muletas_ e os _bateis do Seixal_.

O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das
pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de
embarcações empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de
Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_,
a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do
Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a
_lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de
Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcação
portugueza da nossa costa meridional, a _caçadeira_ e a _focinheira de
porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_,
o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do
Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueirão da ria de Aveiro_, a _lancha
de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do
Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os
typos da Africa, dos Açores, da ilha da Madeira, não descriptos,
infelizmente. São ainda de notar, entre as jangadas mais
caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fão e da
Apulia, para a apanha do sargaço; as de Neiva e as de Sedovem.

Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos
os outros povos, é verdadeiramente inacreditavel que em Portugal não
haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem.
Não ha tal museu.

Em terra é tão variada a collecção popular das vasilhas, dos fogareiros
e dos cestos caseiros, como é variada na agua a fórma das embarcações. A
simples nomenclatura do vasilhame portuguez dá, só de per si, uma idéa,
ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas fórmas, porque ha
typos que variam de região para região, de dez em dez leguas de
perimetro. Esses typos principaes são a talha, o pote, o cantaro, o
caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a
infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a
sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e
o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, o cantil, a
almofia, o alcatruz, o porrão, o côcho, o picho, o pichel, a almotolia,
a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeirão, a caldeira e a
caldeirinha, o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a
pichorra, a botija, a cabaça, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam
com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se
estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha
correspondente á velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastião,
sobreviveu porém na tradição e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com
quatro decilitros de capacidade, tão maneira, tão graciosa, tão bem
proporcionada a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria de Coimbra o
pucaro consagrado, que no pote da região, de uma elegancia tão fina e
tão attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.

As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do
Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de
typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do
bombylio, etc., são por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as
mais bellas, as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais
irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda mechanica do operario
as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a peça por peça, o
sorriso acariciante de um artista.

De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de
Molellos, deduziram em França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o
bule de um serviço de almoço, que ficou tradicional na fabricação de
Sèvres.

A industria popular da cestaria acompanha na evolução das fórmas a
industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do
nosso paiz notariam que cada região tem a sua canastra, o seu cabaz e o
seu gigo, differentes na fórma ou no ornato. Ha-os de todas as
configurações, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados,
oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a
fórma e a construcção americana dos samburás, dos tipitis e dos côfos
tupis, feitos de taquara e de cipó, que introduzimos talvez no Brazil
ou, mais provavelmente, lá aprendemos a fabricar, deixando o typo do
balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de
ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configuração,
semelhante á de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o
canistel, a cesta, a condeça, o ceirão e a ceira, a alcofa e a
alcofinha. A materia prima do cesto é o vime, o junco, a fasquia de
castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa é o
esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a tabúa, a juta e a
pita. Em algumas regiões, como nas Caldas e Vizeu, os cestos são obras
primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha
burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, é
um simples prodigio de fabricação minudente e delicada. No Algarve a
alcofa, de filiação arabe, é por vezes ornada de apparatosas flores
bordadas a seda ou a lã.

Sem embargo, continuando a affirmar-se que não temos sentimento
artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de
transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias
domesticas, e não negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia,
tão originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados
d'esses tecidos, nem a louça, nem a cestaria, nem a filigrana,
immobilisada em typos decrepitos, e da qual tão lindos effeitos se
tirariam, applicando-a em ouro a serviços de toucador, a frascos de
cristal, a molduras de retratos, a encadernações de devocionarios, etc,
etc.

Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa
civilisação artistica.

A arte que menos estudamos é a arte hispanhola, á qual todavia
indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de
temperamento, de tradição e de ideal. Juntamente com os hispanhoes
recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a producção
artistica da Peninsula imprimiram a feição differencial mais
caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de
mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos
o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso
stylo romanico, ogival e da renascença. E da mesma procedencia, mosarabe
ou mudejar, são algumas das nossas mais interessantes industrias, como a
da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da
encadernação, a dos couros lavrados, (a que chamavamos _cordovões_ por
nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de
esparto, de palma, de pita. Até o fim do seculo XVI artistas
portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catalães,
asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na
esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes,
celebrando identicos feitos de guerra, de religião e de amor, servindo
reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da
mesma invocação popular.

Das nossas relações com Flandres só conheciamos--até ha bem poucos
annos--a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a
reciproca acção dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o
sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias
e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da
protecção dada aos artistas nacionaes por D. João II e por D. Manoel, de
uma só vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas
portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje
apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres,
entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys,
proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.

Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos estão sendo diligentemente
continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr.
Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.

Em uma recente publicação do sr. Mauricio Lopes, _Les portugais à Envers
au XVI^{ème} siècle_, demonstra-se por meio dos mais expressivos
documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que
em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licença para ahi
viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os
seus creados, foi para a civilisação que os acolheu de uma importancia
incomparavelmente superior á que jámais exerceu a colonia flamenga em
Portugal.

Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundação da
primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base,
além das exportações do reino, o commercio das especiarias trazidas da
India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da
nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de
cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas
viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasião
da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada
portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta
creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os
senhores trajavam de brocado e seda côr de purpura, bordada de ouro e de
rubis, com botões, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram
orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraça e espada,
vestiam librés de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de
seda branca.--O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, _chose
moult riche et triomphante à voir_.

Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos
Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam
as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do
Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe
Filippe de Hispanha, de D. João II e de D. Manoel. Em outro arco de
triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando
d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros
representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da
Felicidade, da Religião, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. João
I, D. Manoel e D. Filippe II.

Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos
saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a
lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e
queimar canela em todas as fogueiras das chaminés.

Outro portuguez, Simão Rodrigues d'Evora, era barão de Rhodes,
cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme
fortuna lhe chamavam o _rei pequeno_; possuia muitos predios na
principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que
successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de
Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim
caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia
reduzidas á indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de
Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua
mulher D. Anna Lopes Ximenes de Aragão.

O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais
nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade
conferida pelos portuguezes a Alberto Dürer ficou assignalada pelas
grandes festas a que deu origem. Dürer retribuiu esses favores com
presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de
Portugal.

Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias
de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um
catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Dürer, de
Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea
del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe
D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.

Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as
sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos,
escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia
Lopes, Damião de Goes, etc.

Outro curioso symptoma da nossa desaffeição dos estudos da arte nacional
é a estagnação das velhas idéas preconcebidas na apreciação dos nossos
monumentos architectonicos. Já me referi ao ôco basbaquismo privilegiado
de que é objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um
pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.

Por notavel superstição epidemica, por inercia de espirito, por
servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por
commodidade, por convenção admirativa, ou por qualquer outro motivo, os
criticos portuguezes, que mais teem governado a opinião, estabeleceram
axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o
unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal é o
da Batalha. Toda a modificação nas linhas constructivas ou nos motivos
ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a
qualificar-se de _decadencia_. Capellas imperfeitas, decadencia!
Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. João em
Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia!
Decadencia emfim toda a obra architectonica da época manoelina.

A termos acceitado tal principio na sua applicação pratica, teriamos
tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e
invariavel, como o neo-greco-romano da renascença, que é o triumpho
consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas
de construir, a cristalisação da rotina, a sujeição de toda a
imaginação, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos
tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como tão cegamente, tão
estupidamente, tão inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas
centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com
os seus correspondentes aphorismos de proporção e de symetria, seu
pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente,
sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilhão, a
mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gôta, a mesma carranca! Ora
precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua
effusão esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos
ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as
suas desproporções e todas as suas assymetrias, não é precisamente senão
a contraposição da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores
á enfatuação idolatrica, á pedantesca preceituação rhetorica, ao
esmagador e exhaustivo despotismo das _cinco ordens_, com que o
neo-classicismo da renascença razoirou todo o talento humano. O stylo
gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos
seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que
o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim
architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um
elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na
palpitação do seu lavor evocações de idéas e de sentimentos proprios dos
homens da sua raça e da sua terra. Os artistas manoelinos não teriam
feito talvez monumentos _correctos_, na accessão indigente em que as
academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos
_expressivos_,--o que é melhor. Porque não são as academias que pautam
as proporções e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode
formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um
producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma,
convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma
vibração nova do sentimento.

A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria,
deduz-se da maior ou menor quantidade das idéas que a sua obra suggere e
dos sentimentos cuja percussão ella determina. Nos monumentos
architectonicos é pela sobreposição do ornato esculptural ás linhas
geometricas da construcção que a arte se exerce. É principalmente na
esculptura que reside a expressão poetica do monumento.

Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem
pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construcção,
submettendo assim as fórmas constructivas á ornamentação esculptural. Os
grandes criticos da Inglaterra, que tão consideravel impulso teem dado
ás idéas estheticas e á moderna evolução artistica, entendem porém, ao
contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas é na
construcção de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta
affirmativa envolve a consagração da escola manoelina pela critica que
n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a
arte gothica e a arte da renascença.

Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes
da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela
carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o
reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes tão vigorosamente
accentuaram a palpitação victoriosa do genio, da originalidade, da
poesia, da gloria do povo lusitano.

O que se convencionou chamar _decadencia_ na ultima evolução do stylo
gothico em Portugal é a modificação portugueza d'esse stylo, é a sua
nacionalisação, é a originalidade local, imposta pelos architectos
portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construcção, commum a
toda a Europa. Dirão que não é isso precisamente um novo stylo.
Certamente que não, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura á
constituição complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se
tomarmos a palavra stylo em tal accepção, nenhum stylo é novo em toda a
architectura da edade média e da renascença. Todo o processo
constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da
Syria, do Egypto. Os mesmos gregos não inventaram a columna, nem os
romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na
architectura de qualquer povo é, como em Portugal, na época manoelina, a
subordinação de um systema qualquer de geometria architectural ás
condições do clima e da paizagem, á natureza dos materiaes empregados, á
flora, á fauna, á concepção religiosa, á historia, á poesia, ao
temperamento e á psychologia dos artistas, em cada região. Quanto mais
intensa for a intervenção d'esses factores mais original será a obra.
Assim, na evolução do gothico na architectura portugueza, quanto menos
modificado, isto é, quanto mais _puro_ fôr o stylo, mais insignificante
será o monumento como documentação artistica, como expressão social.

É á _decadencia_ do gothico da Batalha que nós devemos o incomparavel
claustro dos Jeronymos, segundo Haupt _o mais bello claustro de todo o
mundo_, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a
flammejante janella da sala do capitulo é a obra mais eloquente, mais
convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais
estremecidamente portugueza, que jámais realisou em nossa raça o talento
de esculpir e de fazer cantar a pedra.

Na ornamentação d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais
entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno
da idéa christã, todo o sagrado pantheismo das velhas religiões da
India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz,
acompanhada ao orgão, no deslumbramento dos cirios, no aroma das
açucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos
decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggestão mais profunda. O
artista, em plena posse da sua idéa, em completa independencia do seu
espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execução, desdiz todos
os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe
todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando
nas entranhas da sua propria vaidade a opinião de si mesmo, unicamente
porque tem fé na verdade que enuncia, porque concentrou toda a força da
sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixão do seu sangue, no
amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em
torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que
verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.

As columnas na janella da sala do capitulo são polipeiros de coral, dos
mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra
cobriu o berço da civilisação no littoral mediterraneo, providencia dos
peregrinos nos oasis do deserto, á qual os arabes da Peninsula dedicavam
uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminação do polen,--a
arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico
é um attributo da paixão e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os
demais elementos decorativos são as ondas do mar, taes como ellas se
representam na heraldica; são os troncos seculares e as raizes profundas
dos sobreiros dos nossos montes, extrema expressão de força na
fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradição e a
familia prendem a debil e errante creatura humana, ao coração da terra
em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas á carreta
alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos
feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes
cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortiça, enlaçam a
decoração, amarrando-a vigorosamente á empena por fortes argolões, como
se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composição, partindo
das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende
n'uma trepidação de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as
espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante
na vastidão dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema
esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo,
formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de
um galeão da India.

O nosso povo porém desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e
nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos,
que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.


Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito
malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender
os productos d'arte.

Em julho de 1890 o então ministro da Instrucção Publica consultou sobre
a questão de que se trata uma commissão de artistas, de archeologos e de
escriptores. Da resposta, até hoje inedita, d'essa commissão, de que me
coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.

O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se propõe effectuar o
ministerio da instrucção publica e das bellas artes é--ponderava o
relatorio--a pedra fundamental de toda a construcção destinada a dar á
arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da
nacionalidade, na orientação do sentimento collectivo do povo, no
conjuncto dos elementos de impulsão e de progresso para o
desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da
Europa.

O inventario de que se trata, comprehendendo não só os edificios
monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de
toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentação preciosa para a
historia da arte em Portugal,--determinação das suas origens ethnicas e
sociaes, fixação dos seus caracteres distinctivos e sua relação com a
psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspirações, com as
ideias, com os costumes e com as instituições sociaes. Esse repositorio
tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas
modalidades, segundo as influencias especiaes de cada época, de cada
phase de cultura, de cada estadio social, todas as forças emotivas,
todas as aptidões estheticas da nossa raça. A historia dos seus
monumentos é para cada povo a historia da sua individualidade, porque
não ha monumento artistico que não traduza, mais ou menos directamente,
a acção intellectual e politica da sociedade que o concebeu.

A ideia do inventario projectado não é--para honra nossa--inteiramente
nova. No reinado de D. João V existia na Bibliotheca Real uma obra em
cinco volumes, datada de 1686 e intitulada «Theatro do reino de Portugal
e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que
por scenas repartido.» Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre
Frei Luiz de S. José, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse
os debuxos de todas as povoações do Minho, o que elle cumpriu no anno de
1726. Por indicação da Academia Real da Historia, e para o fim de
inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto
de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus
archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos não chegaram a
ser dados á estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de
1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas
casas dos duques de Bragança, ao Thesouro Velho.

As disposições do alvará de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte
trecho do mesmo alvará: «Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessôa
de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em
todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos
(assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios)
ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas,
marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou
tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de
qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como
outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos
inferiores até o reinado do Senhor Rey D. Sebastião; nem encubrão ou
ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego ás camaras das cidades
e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e
guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que
houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu
districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, darão conta
ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e
censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia
que se lhes participar, poderão dar a providencia que lhes parecer
necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto.
Etc.»

Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvará sobre a mesma materia, assim
designado: «Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real he
servido suscitar o alvará de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em
beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservação e
integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peças de
Antiguidade: mandando que as funcções do mesmo Alvará, que até agora
pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do
presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca
Publica; tudo na forma acima declarada.»

Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mór da Bibliotheca Nacional de
Lisboa José Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos
seguintes termos: «Para o bibliothecario mór passaram attribuições que
competiam á Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente
tem sido até hoje letra morta, a tal ponto que até ignoram as suas
disposições os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave
detrimento, não só d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se
acha estacionario em aquisições archeologicas, mas tambem de todo o
reino, onde o bibliothecario mór deveria sempre ter, por obrigação do
seu cargo, promovido a conservação e segurança dos monumentos que não
podem ou não devem transportar-se.»

Em seguido propõe o bibliothecario que se torne effectiva a
responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de
agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com
o bibliothecario, etc.

Ficou porém tão morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella
se refere.

Por decreto de 10 de novembro de 1875 é nomeada uma commissão para
propôr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o
plano de um museu, «as providencias que julgar mais adquadas á
conservação, guarda e reparação dos monumentos historicos e dos objectos
archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino.» A
commissão alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo
marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fôra
confiado.

A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real
Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim
de lançar em 1880 as bases de uma inventariação systematica dos
monumentos nacionaes, não foi, assim como o zeloso trabalho da commissão
de 1875, seguida de resultados praticos.

Independentemente da preceituação official, teem sido modernamente do
mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores
artisticos a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em
Lisboa em 1882, a exposição de Coimbra, a exposição de Aveiro, a
exposição de Guimarães, a recente exposição do centenario antonino, e as
exposições de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no
Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de
Instrucção.

De algumas das exposições alludidas ficaram documentos de alto valor.
Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos
expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa
collecção photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos
Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos
museus e das exposições celebradas, se poderia extrahir desde já um
esboço de inventario, que não seria difficil aperfeiçoar e prehencher,
emprehendendo novas exposições e systematisando completamente as
investigações e os estudos correlativos.

A commissão de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo
das pesquisas que, convém continuar, para recolher ou arrolar os valores
artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporações ou
de particulares, a commissão incumbida do inventario geral e definitivo
desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as
peças de que ha conhecimento, já pelo exame de que foram objecto nos
museus onde existem, ou nas exposições até hoje feitas, já pelos
catalogos e relatorios que d'essas exposições existem, já pela
consideravel collecção de photographias que reproduzem os objectos
expostos.

Emquanto á catalogação e á conservação dos objectos pertencentes a
particulares ou a corporações de caracter civil ou religioso, não
conviria desde já estabelecer principios absolutos. O modo de proceder
dos delegados do governo em tal serviço seria indicado pelas
circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porém altamente
para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos
vinculos que ligam o esplendor das artes á gloria do catholicismo,
conseguissem fazer penetrar na convicção das auctoridades eclesiasticas
das suas circumscripções quanto é inseparavel da historia da egreja a
historia da arte christã, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente
catholicos, é ainda uma fórma do culto ou um desdobramento d'elle na
ordem civil, além de ser o permanente attestado da alliança da crença
religiosa com a immortal aspiração da poesia no coração e no espirito da
nossa raça.

Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de
expor é indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma
lei, semelhante á que existe hoje na Italia, em França, nos Paizes
Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por
fim definir claramente e assegurar, de combinação com a legislação
canonica, com os principios da concordata e com a legislação geral da
propriedade, os direitos especiaes do Estado com relação á guarda dos
monumentos e á parte que elle tem na posse dos objectos d'arte,
determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.

Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade
em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commissões
regionaes, dependentes da commissão central, e incumbidas, em suas
localidades, da guarda e da conservação dos monumentos e dos objectos
d'arte. Estas commissões, á semelhança do que foi disposto na lei
italiana de 1878, da qual se inspirou em França, para a organisação de
eguaes serviços, a Direcção das Bellas Artes, seriam compostas de oito
vogaes, sendo quatro da nomeação dos municipios e quatro da nomeação do
governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do
governador civil ou do administrador do concelho.

Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha
sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o
estuda, que o comprehende. É a collaboração preciosa d'esses pobres
poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do
publico, que aos organisadores das commissões locaes compete acolher e
utilisar.

O processo de inventariação de cada peça artistica constaria de duas
partes.

A primeira seria a reproducção photographica, ou em gesso, ou pela
galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo
cliché ou molde.

A segunda, a confecção de um simples verbete, impresso, correspondendo á
photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes
quesitos: 1.º Descripção summaria do objecto; 2.º Logar onde elle se
encontra; 3.º Nome do individuo ou da corporação em cuja posse se acha;
4.º Antecedentes; 5.º Attribuição; 6.º Avaliação; 7.º Escala em que
houver sido feita a reproducção.

Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de
Vienna, é o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais
expedito. Com applicação ao inventario da arte hispanhola elle foi
proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposição
historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pôr em execução,
tendo-o sanccionado a approvação unanime de uma commissão presidida pelo
sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia
indiscutivel e de uma notoriedade europeia.

Com a collecção completa das photographias e dos verbetes a que alludo,
o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nação um
inventario tão desenvolvido e tão perfeito como o que outros paizes
possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia
habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.

Da collecção integral, subdividida em tantas series diversas quantos os
differentes criterios de classificação que se lhe applicassem, se
extrairiam collecções especiaes, em edições mais ou menos modestas,
relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas ás
escolas de bellas artes, ás escolas industriaes, aos museus das escolas
primarias e secundarias, ás officinas, aos operarios, facultando assim,
ou gratuitamente ou por infimo preço, a todas as classes sociaes um
pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da
arte em cada uma das suas mais especiaes applicações, da evolução das
fórmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na
esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica,
em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.

Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias,
os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o
verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados
quesitos de classificação, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios
mais simplesmente pedagogicos, a discernir as épocas e os stylos,
retendo todas as diversidades da fórma pela memoria da vista.

Além do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos
architectonicos e das riquezas artisticas da nação, o estado fundaria
simultaneamente o mais interessante museu de reproducções.

A Commissão dos Monumentos Nacionaes não é inteiramente, pelos seus
meios de acção e pelos seus fins, a commissão a que se refere a consulta
de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commissão se
reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commissão
do inventario geral da d'arte, ao qual é urgentissimo que se proceda.

Na parte em que a commissão tem de responder pela conservação dos
monumentos nacionaes, é preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto
no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pôr em
execução esse programma, não de um modo como até hoje officioso e
facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para
esse effeito a aggregação e a collaboração effectiva de dois
architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicação periodica de
um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados
do trabalho feito.

Conseguidas as condições de consistencia technica, de auctoridade e de
expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe á
commissão arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os
monumentos confiados á sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz
possue; nomear as commissões locaes; definir claramente o que é
_conservar_, o que é _restaurar_, e o que é _continuar_ ou _concluir_ um
monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares
minudencias (porque n'este ponto tudo está por definir e por
estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer
rigorosamente todo o projecto de conservação, de restauro ou de
acabamento na obra de cada edificio.

Os cuidados de _conservação_ devem ser obrigatorios e extensivos a todos
os monumentos. Para esse effeito o programma é simples, e a despesa
insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasiões em
que cabe _restaurar_ são relativamente raras. E nenhum edificio,
qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem
_concluir_, a não ser nos casos em que vantajosamente elle se possa
adaptar a algum dos serviços vigentes da civilisação contemporanea. Este
mesmo criterio economico se deveria applicar á opportunidade das
_restaurações_. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou
o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se
accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser
indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma
escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou
uma habitação particular![1]


Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que
com tão patriotico desinteresse constituem a Commissão dos Monumentos
Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentação e
auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.


Se o Estado não intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um
decisivo esforço de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.

Está-nos dado o exemplo na actividade e na abnegação de alguns cidadãos
benemeritos.

O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais
interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e
emprehende e realisa, sob a intelligente collaboração do sr. Antonio
Augusto Gonçalves, a restauração da Sé Velha e a de Santa Cruz, com uma
segurança de criterio, de que não ha exemplo em obra alguma do mesmo
genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.

O sr. bispo de Beja applica um egual fervor ás obras do convento da
Conceição; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade,
por concurso patriotico de alguns cidadãos, funda-se o mais copioso e o
mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.

Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si só a dispendiosa
reparação do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria já
desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo
D. João II.

Na ultima visita que fiz, em setembro passado, á Sé de Braga, ahi me foi
affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da
reconstituição artistica d'aquelle importante monumento.

Em Cette e em Paço de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples
influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes
esforços para a conservação dos monumentos gloriosos a que n'esses
logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonçalo Veques e de Estevam
da Gama.

A obra tão desvelada da extincta Sociedade de Instrucção do Porto e a da
Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, são verdadeiros monumentos de
erudição, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.

Para a constituição integral da historia da arte e da tradição artistica
portugueza, quantas contribuições dedicadas, quantos esforços
individuaes, desassociados e dispersos, na obra, tão incomprehendida e
tão despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento,
Antonio Augusto Gonçalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano
Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimarães, Alberto Sampaio, Julio de
Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano
Bellino, Teixeira de Aragão, Vilhena Barbosa, Conceição Gomes, Filippe
Simões, Manoel de Macedo, José Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim,
Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de
Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino
Brandão, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimarães, Freire
d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais
obscuros!

O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada
monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que só
devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro.
Possam ellas ao menos communicar a outros corações a sympathia, que
filialmente prende o meu á terra em que nasci, e á raça de que procedo!

É pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religião da
nacionalidade se exteriorisa e se exerce.

Desde que nas consciencias se extinguiu a fé, é por meio da arte que as
tradicções se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os
affectos se depuram, que as paixões se enobrecem. É pela arte, que a
exprime, que a poesia do christianismo sobreviverá aos seus dogmas no
enternecimento, no amor, na saudade dos homens. É tambem pela arte que
em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituições, dos
systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.

A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias
liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attracção para as
idéas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o
destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas,
infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por
seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu ás
anteriores, como succederá ás que se seguirem.

No momento presente são unicamente os poetas, os philosofos e os
artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de
cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma
effusão de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdão, que
caracterisa bem o nosso tempo, e de que não ha na historia outro
exemplo.

Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que
deu motivo o tratado de Lourenço Marques, quem na minha susceptibilidade
portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin,
proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que
os estadistas inglezes (tratava-se então do sr. Disraëli e do sr.
Gladstone) lhe não mereciam nem mais respeito nem mais consideração que
duas velhas gaitas de folle.

Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do _Foreign
Office_ e de lord Salisbury, da Inglaterra de _South Kensington_, de
_British Museum_, da _National Gallery_, de _Ruskin Museum_, de Darwin,
de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual
tenderá sempre e irrevogavelmente a terna gratidão do nosso espirito.

É unicamente pela arte, inherente á natureza humana, progressiva e
eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na
solidariedade da especie.

É pela arte que o genio de cada raça se patenteia, que a autonomia
nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma,
não só pela sua especial comprehensão da natureza, da vida e do
universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura,
na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.

É pelo culto da arte, e pela educação artistica que esse culto
comprehende, que a producção industrial se especialisa, se valorisa pela
originalidade caracteristica do producto, e transforma pela
prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma
nação, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria,
na Allemanha, por via da simples reconstituição dos museus e da
multiplicação das escolas.

Finalmente,--se para cada povo a arte é a segurança da tradição, o
refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da
patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e
até politicos,--para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes
na magoa e na ruina de tantas crenças extinctas, de tantos ideaes
desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte é ainda--como
diz Schopenhauer--_a unica flôr da vida_.



*Notas:*


[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi
pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado á Commissão dos Monumentos
Nacionaes, em sessão de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras,
pelas conclusões seguintes:

«5.ª O Templo deve ficar destinado, sómente, ás grandes celebrações
religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores
e Navegadores portuguezes.

«6.ª Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento
e installação do Archivo Nacional, convindo que essa installação se ache
concluida até o mez de maio de 1897.»

Não concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se
transporte para o edificio annexo á egreja dos Jeronymos o archivo da
Torre do Tombo, e tão pouco em que se remova da egreja o exercicio
parochial do culto.

Por complexas razões, que não vem para aqui desenvolver, eu votaria por
que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval
no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, além de que, em minha
humilde opinião, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o
estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem é uma
instituição historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso
respeito á tradição do monumento. Foi o infante D. Henrique quem
transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem,
arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos
navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes
e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se
edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma
bula a doação do infante á ordem de Christo, e instituiu em parochia a
primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem,
para os navegantes e para o publico senão o de se rezar a cada missa,
aos sabbados, um _Pater e uma Ave Maria pela salvação da alma do infante
D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo_. O rei D. Manoel,
tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta
da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a
estatua do infante á porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em
cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao
lavar das mãos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz.
«Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta
casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou á ordem de Christo.»

A data d'esta carta de doação é de 26 de dezembro de 1498.

Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratidão, e um torpe desacato
remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus
gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever
de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto
voto dos fundadores se cumpra, como é de razão juridica e de probidade
nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na
egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao _lavabo_, e
peça um _Pater_ e uma _Ave Maria_ pela alma do infante D. Henrique e
pela de el-rei D. Manoel.

Que se adopte porém ou se não adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro,
o que technicamente não é de certo admissivel é que as obras dos
Jeronymos se prosigam e se concluam sem resolução tomada ácerca do
destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.



Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pág.   71| ta boas             | taboas               |
  |#pág.   74| onem                | nem                  |
  |#pág.   74| dimensã             | dimensão             |
  |#pág.  105| ascebispo           | arcebispo            |
  |#pág.  142| privilegido         | privilegiado         |
  +----------+---------------------+----------------------+

Variantes dos nomes próprios foram mantidas de acordo com o original.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O culto da arte em Portugal" ***

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