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Title: Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos
Author: Pimentel, Alberto, 1849-1925
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos" ***

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                            ALBERTO PIMENTEL

                          NERVOSOS, LYMPHATICOS

                                    E

                                SANGUINEOS



                                  PORTO
              TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
                      62, Rua da Cancella Velha, 62
                                  1872



                          NERVOSOS, LYMPHATICOS

                                    E

                                SANGUINEOS



                            ALBERTO PIMENTEL

                          NERVOSOS, LYMPHATICOS

                                    E

                                SANGUINEOS



                                  PORTO
              TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
                      62, Rua da Cancella Velha, 62
                                  1872



AO EXC.mo SNR.

D. ANTONIO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO

EM TESTEMUNHO DE RESPEITOSA AMIZADE

Offerece

                            _O author._



PHYSIOLOGIA LITTERARIA


I

«O genio é uma nevrose» proclamou d'uma vez o doutor Moreau, de Tours,
aos quatro ventos do universo. Segundo elle, as esplendidas disposições
d'espirito que fazem com que um homem suba acima do nivel commum,
procedem das mesmas condições physiologicas que as diversas perturbações
moraes cuja expressão é a _loucura_ e o _idiotismo_.

Seja isto ou seja que a constante intuscepção dos homens intelligentes
os concentra de tal modo que parece viverem exclusivamente para si
mesmos, absortos apenas no seu mundo psychologico, o certo é que estes
homens se nos afiguram a mais das vezes entrados d'uma melancolia
excepcional. Ora o doutor Moreau quer que esta melancolia que
Aristoteles notou no seu tempo, seja simplesmente alienação mental, e
escreve «que, por constituição melancolica, Aristoteles entendia a
disposição do organismo mais favoravel ao desenvolvimento da loucura.
Melancolia,--continua o nosso doutor,--era o termo generico, sob o qual
os medicos e philosophos da antiguidade designavam todas as fórmas de
delirio chronico; corresponde á nossa palavra: alienação mental, loucura.»

Aristoteles escreveu «que não havia um grande espirito que não tivesse
um grau de loucura.» O doutor Moreau aproveita-se d'este dito e abona
espirituosamente a verdade da sua these com o testemunho da antiguidade
letrada. A excitação cerebral que precede e acompanha a inspiração,
pareceu ao doutor de Tours o estado que mais analogia offerece com a
loucura real, por isso que da accumulação insolita de forças vitaes n'um
orgão,--palavras d'elle--duas consequencias são igualmente possiveis:
mais energia nas funcções d'esse orgão mas tambem mais probabilidades de
aberração e desvio d'essas mesmas funcções.

Emilio Deschanel, author d'um interessante livro que temos aberto diante
de nós, _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, não deixa sem
commentarios as proposições do espirituoso doutor.

«Se se póde, em verdade,--escreve Deschanel--observar alguma cousa
d'involuntario nos momentos sagrados da inspiração, esses momentos
fugitivos não são tudo: subsiste toda a potencia innata e toda a força
adquirida, toda a somma de experiencia humana, de alegrias e dôres, que
os precedem: toda a energia de escolha e de vontade que os segue,--se é
que não os acompanha--: porque o que ha de involuntario é apenas
apparente; e mesmo no enthusiasmo o genio não perde a sua bussola.»

Ainda algumas palavras do doutor Moreau para ouvirmos depois Emilio
Deschanel:

«Todas as vezes que as faculdades intellectuaes ultrapassem a bitola
ordinaria, especialmente nos casos em que ellas attinjam um grau de
energia excepcional, podemos estar certos de que o estado nervopathico,
sob uma fórma qualquer, influenciou o orgão do pensamento, quer
idiopathicamente, quer por via da hereditariedade. O que é o mesmo que
dizer que nos homens excepcionaes se reconhecem as mesmas condições
d'origem ou de temperamento que nos alienados ou nos idiotas.»

Modifica Emilio Deschanel:

«O que é verdade, é que um pequeno numero de pessoas, maiores de trinta
e cinco annos, goza um estado de saude completa; quasi todas soffrem
mais ou menos, quer notoria quer secretamente, com mais razão, os homens
de letras e os artistas, cujo estado nervoso hereditario e innato está
sobreexcitado incessantemente. A concentração habitual em que vivem, a
fermentação quasi contínua do cerebro, inflamma-os, gasta-os, mina-os.
Brilham ardendo. São, a certos respeitos, _meio doentes_; isso é
incontestavel. Parece que o pensamento lhes aproveita tudo quanto roubam
ao corpo. Ao passo que um se estiola, o outro se robustece; arruinam-se
physicamente á medida que se constroem moralmente.--Mas se soubessem
conservar o equilibrio entre o espirito e o corpo, iriam peor as cousas,
e o seu talento d'elles perderia? Não, de certo! Pelo contrario, só
tinha a ganhar.»

Estas ultimas palavras d'Emilio Deschanel parece deixarem brecha aberta
á contestação, se acreditarmos que elle se propõe refutar completamente
a these do doutor Moreau. Não. Deschanel protesta contra a exageração do
doutor de Tours, mas aceita o _estado-mixto_, quer dizer, um estado que
ao mesmo tempo participa da saude e da doença.

Emilio Deschanel compartilha pois da opinião d'outro medico francez, o
doutor Bouchut, segundo o qual o _nervosismo_ é a molestia ordinaria dos
homens de letras e dos artistas.

A antiguidade chamava-lhe _genus imbecille, genus irritabile vatum_. A
sciencia moderna foi mais longe, muito mais longe:--adoptou uma palavra,
e eis tudo,--_O nervoso._

_Nervosismo, estado-mixto_, seja como fôr, tenha a denominação que
tiver, o que é certo é que parece ser apanagio das pessoas cujo
exercicio intellectual está em flagrante desproporção com a despeza
d'actividade physica.

Os homens de letras estão por via de regra costumados á reclusão do
estudo e á vida sedentaria do gabinete. N'essas longas horas do
continuado labutar, toda a vida se concentra no cerebro, para assim
dizer;--d'aqui a excitação nervosa, um excesso d'actividade intellectual
que não é equilibrado pelo exercicio muscular, pelo desenvolvimento do
corpo.

A falta de saude, a debilidade, o _estado-mixto_ afigura-se-nos uma
consequencia inevitavel. Toda a vida organica tem por base a renovação
incessante da materia. A natureza quer expulsar de si o que é velho e
morbido. A moderada actividade das fibras musculares tende pois a
favorecer a transformação da materia, a regeneração da massa do sangue,
e a dar um impulso benefico ao acto vital.

Os homens de letras descuram porém as conveniencias do organismo. Para
elles a vida intellectual é tudo e,--dissipadores inconscientes!--vão-se
atirando para o tumulo com uma pressa que o seu estado de continua
excitabilidade lhes não permitte domar.

Abundam n'estas desafinações do systema nervoso os caprichos, as
velleidades, os habitos exquisitos e bizarros, as idiosyncrasias.

Michelet, por exemplo, trabalha de manhã, tomando café em larga cópia.
Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvasiando chavenas sem
conto d'um café negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia n'um
quarto frio com a cabeça coberta; de Schiller conta-se que mettia os pés
em gelo para ter uma inspiração feliz.

Mozart, a sensitiva da musica, organisação extremamente nervosa, era
victima de profunda melancolia. Procurava vencel-a com o trabalho, com o
trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cahir
no leito, exhausto de forças.

Paulo Janet, refutando n'um capitulo do seu livro _Le cerveau et la
pensée_ a theoria do doutor Moreau, procura demonstrar que estas
excentricidades não são provenientes da loucura sublime do genio.
Quer-nos parecer porém que tanto exorbita Paulo Janet como o celebre
medico de Tours. Os extremos são por via de regra viciosos, e, n'esta
questão especialmente, afigura-se-nos que o meio termo é sobremodo
aceitavel. Por tal razão propendemos para as modificações sensatas de
Emilio Deschanel. Não se estabelece uma lei fatal, não nos referimos á
totalidade absoluta; falla-se do _maior numero_, o que é incontestavel,
como demonstra a longa experiencia dos factos. Cumpre notar que não
fazemos propaganda scientifica, senão que estamos lançando ao papel uns
estudos humoristicos para correrem em folhetim.

Prosigamos finalmente, deixando para academias e academicos esta grande
questão do genio e da loucura. O nosso proposito é outro;--vejamos.

Emilio Deschanel, não menos espirituoso humorista que o doutor Moreau,
procura demonstrar que o estylo revela o temperamento do escriptor.

É verdadeiramente a physiologia applicada á critica.

Através da eloquencia fogosa de Bossuet descobre Emilio Deschanel um
temperamento nervoso-sanguineo. Pascal era nervoso-bilioso; é o seu
estylo que nol-o diz.

Basta lêr Voltaire para comprehender o doutor Raspail:

«Voltaire é o systema nervoso levado á suprema potencia.»

O marquez d'Argensou costumava definir Voltaire em poucas palavras:

«Todo nervos e todo fogo, era sensivel ás moscas.»

As _Maximas_ de La Rochefoucauld denunciam um nervoso-bilioso; João
Jacques Rosseau é bilioso-melancolico.

N'este ultimo escriptor a educação influiu de certo muito sobre o
temperamento. Rosseau foi creado com seu pai em cujo coração jámais
cicatrisou a ferida dolorosa da viuvez. Escreve Rosseau fallando do pai:

«Quando elle me dizia:--João Jacques, fallemos de tua mãi; eu
respondia-lhe:--Ah! meu pai, então vamos chorar? E só estas palavras lhe
arrancavam lagrimas.»

Vem a proposito algumas palavras de Lamartine: «Rosseau foi educado
pelas arvores, pelas aguas, pelos ventos, pelo céo, pelo sol, pelas
estrellas; carecia ao mesmo tempo da educação de uma terna mãi e d'um
pai laborioso: tudo isso lhe faltou[1].»

A solidão predispõe para a meditação, para a melancolia, e Rosseau foi
creado pela natureza.

Temos visto como Emilio Deschanel desenvolveu galhardamente a these de
Buffon,--_O estylo é o homem_, encarregando-se de demonstrar que o
seculo, o clima, o solo, a raça, o sexo, a idade, o temperamento, o
caracter, a profissão, a hereditariedade physica e moral, a saude, o
regimen e os costumes,--tudo isso se espelha na superficie ora limpida
ora revolta do estylo.

É impossivel ir mais longe.

É impossivel saber aproveitar melhor o reflexo interior para fazer
resaltar do prisma fornecido por Buffon scintillações de tal modo
deslumbrantes e magicas.

A _Physiologia dos escriptores e dos artistas_ é um espirituoso livro, e
Emilio Deschanel um espirituoso escriptor que eu tenho conversado nos
ultimos serões d'inverno.

Procuremos nós n'esta linguagem facil do folhetim, nortear a penna, a
despeito de Paulo Janet, segundo o rumo dos trabalhos de critica natural
de Emilio Deschanel.

Não podemos aventurar-nos, como elle, á vasta amplidão das aguas.

Navegaremos terra a terra, modestamente, velejando ao sabor da
phantasia. Appliquemos tambem a physiologia á critica, e estudemos em
alguns livros portuguezes a organisação d'alguns escriptores nacionaes.

Algumas vezes, é possivel, teremos de abrir excepção para um escriptor
que n'um ou n'outro relance, mesmo n'um ou n'outro livro, quiz ou pôde
dissimular a sua organisação, o seu temperamento, a sua predisposição.
Toda a regra tem excepções; esta ha-de tel-as tambem. O que é certo
porém é que o homem, na sua dupla existencia, moral e physica, não póde
encobrir-se por tanto tempo, que o physiologista litterario não chegue a
encontrar a verdade com o escalpello da critica.

Estão-nos já acudindo á memoria algumas excepções. Aproveitemos uma.

O snr. visconde de Castilho cuja indole amena e suavissima se espraia em
recamos scintillantes por todas as paginas dos seus formosos livros,
escreveu d'uma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento
mais violento que póde escandecer o coração do homem,--o ciume.

A sua bibliotheca tem porém só um livro de tempestades e luctas; todos
os outros refulgem serenos como os lagos na primavera.

O _estado-mixto_ dos escriptores e dos artistas soffre tambem excepções,
e n'ellas deve ter grande parte a hereditariedade.

Agora nos occorrem tres:

Um escriptor robusto, bem humorado, infatigavel--Alexandre Dumas, pai.

Um maestro todo alegria e saude,--Rossini.

Um pintor, cheio d'animação e de vida, em cujos quadros tudo é louro e
rosado,--Rubens.

Se estas excepções prejudicam por um lado a regra geral do
_estado-mixto_, por outro tendem a provar que o estylo é a
organisação--a doença ou a saude.

O vigoroso estomago de Alexandre Dumas, de cuja propriedade elle tantas
vezes se ufanava, está, deixem-me dizel-o, nos seus livros.

A _charis phytalmos_, de Pindaro, revela-se no _Guilherme Tell_ de Rossini.

De Raphael basta citar as _Virgens_, que mereceram a Michelet estas
palavras: «Virgens enormes, rosadas, refeitas, escandalosamente bellas.»

Ponhamos ponto, para comecarmos a fallar de escriptores portuguezes.
Principiemos por um que tem um triste direito a ser o primeiro--porque
morreu doudo.

    [1] _J. J. Rousseau_ por A. Lamartine.

      *      *      *      *      *



II

A. P. Lopes de Mendonça


Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que
parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente
assalta o escriptor no remanso do gabinete.

A pag. 324 das _Memorias de litteratura contemporanea_, de Lopes de
Mendonça, encontro eu estas palavras:

«Ha vocações, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas.
Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar
pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta não cantava,
sómente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus
cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a
sua alma ébria e palpitante, lhe accendia a imaginação, e como lhe
intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos
seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperança.»

É certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a
gloria e para o martyrio, _reproduzem os prodigios das sibyllas e
prophetisam involuntariamente_.

Lopes de Mendonça escrevendo as _Memorias d'um doido_ prophetisava tambem.

Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as
organisações como a sua resistem corajosamente a lucta social até
perderem a vida ou a razão.

Mauricio, o seu heroe, é o que geralmente se chama um doudo
sublime,--que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se
sacrifica, que obedece fatalmente á excitabilidade do seu temperamento.

«Arremessado aos quatorze annos no tumulto da capital,--escreve Lopes de
Mendonça--tivera de se sustentar, como Rousseau, do trabalho machinal do
copista, e na estreiteza e improbas fadigas de tal profissão, póde
entregar-se ao estudo. Lendo avidamente a historia, sobretudo a historia
moderna, já a sua intelligencia penetrára em todos os problemas da
politica, e a acção dos acontecimentos que se succediam com uma
variedade propria das quadras revolucionarias, amadureceu a sua precoce
experiencia.»

Tal era Mauricio, tal era Lopes de Mendonça. O verdadeiro artista tanto
quer á sua obra, que procura animal-a com a parte psychologica da
propria individualidade.

D'aqui o encontrar-se frequentemente o author reproduzido no heroe.

A politica, a idéa fixa e a maxima aspiração de Lopes de Mendonça, que
transpirava sempre nos seus livros e nos seus folhetins, não podia ser
indifferente a Mauricio.

«Mostrára a sua vocação,--continúa Lopes de Mendonça--escrevendo alguns
pamphletos, cheios de energia, e de vivacidade pittoresca. Lançára-se na
critica implacavel de medidas que elle suppunha timidas e incompletas,
porque reconhecera a distancia que o separava dos mediocres vultos, que
dirigiam os negocios publicos.

«Apreciando, pelo que lêra, o que devia ser um homem d'estado, via os
que governavam desperdiçando as fôrças d'uma situação excepcional em
questões de mesquinha influencia, e nas intrigas, que manchavam todas as
obras, grandes ou pequenas, da politica.»

Está claramente photographada n'estes periodos a ancia, a febre, a
aspiração, o espirito de justiça e verdade, a coragem, o esforço, a
persistencia de Lopes de Mendonça.

Queria elle,--aquelle espirito poderoso--que sahisse da espuma da
revolução a verdadeira liberdade politica como tinha sahido--Venus
moderna,--a verdadeira liberdade litteraria.

E propunha-se os graves problemas da administração, e planeava as
grandes medidas que correspondem ás grandes necessidades d'um paiz, e
queria levantar sobre as bases da justiça e da moralidade todo o
edificio do regimen liberal, e queria realisar em si o ideal perfeito e
quasi impossivel d'um homem d'estado, e queria apartar do centro da
acção politica as pequenas individualidades que prejudicam a marcha dos
acontecimentos no interesse da patria, e ao mesmo tempo mantinha digna e
corajosamente a revolução litteraria que se havia iniciado, e escrevia
os seus livros, e sustentava durante onze annos o folhetim da _Revolução
de Setembro_, e cumpria os encargos litterarios da academia real das
sciencias de que era socio e bibliothecario, e versava os trabalhos
parlamentares na legislatura de 1855, e desempenhava o magisterio, e
queria saber, precipitar o tempo para adquirir o que só o futuro lhe
podia ensinar, e lidava, pensava, trabalhava, para ter de sobreviver á
ruina da propria intelligencia.

Cavou a si mesmo o tumulo, onde o contemplamos alguns annos meio vivo,
meio cadaver.

«Lia, annotava,--escreve Julio Machado--commentava todos os livros,
lidando desde o romper da manhã, dormindo duas horas apenas, e
lastimando essas duas horas perdidas.

«Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos
os seus oraculos d'outr'ora, e já não acreditava mesmo em si proprio.
Tornou-se-lhe tudo escuro em redor. Não tinha uma venda nos olhos, mas
principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em
que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a acção
cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem então se
desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos
seus haveres, e instava para que aceitassemos.

«No breve intervallo que mediou da revelação d'esse estado á sua
reclusão, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os
livros que encontrou. Mas, a essa hora já estava perdido.

«As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram
como as cordas d'um instrumento[2].»

Estava irremediavelmente perdido,--estava louco; tinha morrido para a
familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em
Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua
linguagem ás vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento
nervoso-sanguineo.

A exaltação dos pensamentos, as scintillações differentes e successivas,
a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha
variada dos assumptos, e até as mesmas imperfeições revelavam ao
physiologista litterario a organisação de A. P. Lopes de Mendonça.

Nas _Memorias d'um doudo_, tudo é febril, tudo escalda, tudo denuncia o
homem.

Lopes de Mendonça era realmente uma organisação de artista que
participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animação
caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela
definição em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista:
«Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginação fecunda, ao
serviço d'um coração generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razão
elevada.»

Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendonça, apreciando um escriptor
contemporaneo, definia o artista:

«Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, não nos
poupamos a repetil-o, em que é artista, completa e essencialmente
artista. A sua razão philosophica, é mais d'uma vez desvairada pelos
caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor é logico, é racional
e concludente, em cada uma das posições que alternativamente occupa.
Hoje, reflectido e maduro, elevado ás austeras e mornas regiões do homem
de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expõe os problemas com a
mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e
salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos
os conflictos da opinião, e apalpando o terreno social como dextro e
instruido estrategico.

«Ámanhã, desempedido e solto n'uma questão puramente litteraria, n'um
ponto moral ou metaphysico, vê-o-heis enthusiasta d'um brilhante
paradoxo, comprazer-se em destruir as idéas recebidas, em ferir as
convicções consagradas, e fazendo _taboa rasa_ do _criterium_ publico,
pôr os recursos do seu talento ao serviço da sua impressão
instantanea[3].»

Eis-aqui Lopes de Mendonça, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o
artista. A sua vida foi uma serie de congestões, um incendiar-se
lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o coração e o cerebro.
Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado,
era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas
primeiras salas, e elle, que tinha resistido á lucta, á insomnia, ao
trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congestão
seccou, e para sempre, os louros da sua corôa.

Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,--foi o
ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicação da esposa de Lopes
de Mendonça, escreve com a mimosa delicadesa que lhe é peculiar: «Um
dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se
talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer!»

Não havia já o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica
combustão restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte
espalhou-as.

Acabou-se tudo.

Alli agonisou nos braços da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que
mais d'uma vez o acclamára festivamente e que mais d'uma vez o
apunhalára na couraça onde resvalaram todos os golpes dos detractores
impotentes.

Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro--_Da
loucura e das manias em Portugal_, fallando dos doudos de Rilhafolles:

«Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e
sua esposa alli foi todos os dias vêl-o e fazer-lhe companhia,--colhendo
no céo a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e
abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos
primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe
com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta
vida teve dedicação pelo infortunio!»

Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta
apenas um epitaphio;--pouco é, e transitorio. Mas de Lopes de Mendonça,
do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta
alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,--os seus livros, nos
quaes o physiologista poderá estudar largamente a vida impetupsa d'um
temperamento nervoso-sanguineo.

    [2] _Trechos de folhetim_, pag. 128.

    [3] _Memorias de litteratura contemporanea_, pag. 328-329.

      *      *      *      *      *



III

J. C. Vieira de Castro


Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais
animadas sessões da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do
alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexões
caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade
fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador
de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria,
que, de triumpho em triumpho, o impellira até ás regiões do olympo
parlamentar.

Na sessão do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia
o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a
que nos referimos:

«É licito perguntar com um notavel estylista da França: «Que temem os
governos da imprensa livre?»

«A guerra da discussão? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor
proprio, e a sua dedicação patriotica, porque lhes rasga vastos plainos
ás victorias de suas doutrinas e de seus principios!

«Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que é para isso que são homens
publicos. Se pelas eminencias do poder não houvesse senão estradas de
flôres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua
abnegação e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes
arrancasse um grito contra a liberdade?

«Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de
estado devem ser fortes de coração e de cabeça, não ter a sensibilidade
de nervos d'uma _petite-maitresse_, e fazer mesmo a epiderme robusta
para as affrontas!

«Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura
judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas
gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua
vigilancia. Ella é como a mulher de Cesar; está acima de toda a
suspeita. E aproveito a primeira occasião do meu discurso em que posso
render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e
culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando
desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da
minha patria, com orgulho vejo e com orgulho contemplo as togas da nossa
magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado!»

Mezes antes, na sessão de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador
propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de
lord Palmerston, e discursava sobre a proposta:

«Verdadeiros heroes... e perdôe-me a memoria de José Estevão se eu penso
que os ha, e perdôe-me ella ainda mais se é exactamente, comparando-os
aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes!

«Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada
imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o
mais digno de admiração n'aquelle atrevimento oratorio, é a modestia
sublime de José Estevão. É que para mim no confronto dos heroes com os
rochedos, não perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a
irregularidade ás vezes monstruosa da sua estructura póde ser um defeito
para a arte; é ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas
fadadas para as grandes tempestades, e dos corações baptisados desde o
primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os _rochedos_, os _heroes_
topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os pés as vagas da
opinião humilhada e abatida, e além cançada de se espedaçar contra
elles; e estendem os seus braços, que não vergam nunca, aos naufragos
cuspidos já quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os
destinados pela impassibilidade da sua força, pelo seu contacto com a
luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza
dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a
apontarem o porto de salvação e das novas esperanças aos que a resaca do
primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pégo!

«Tudo isto era tambem José Estevão, e porque se arreceasse aquella
sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia
mal dos rochedos!

«E depois os rochedos não cahem nunca! E são tambem assim os heroes; nem
cahem quando morrem!

«Os heroes morrem de pé!

«Morrem de pé!

«Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle
morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra
correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura
para o seu partido e para o seu paiz.»

Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mãos inertes de
José Estevão, era opinião geral da gente portugueza que tarde, ou talvez
nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria
os echos adormecidos da camara electiva.

Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange
gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa
de José Estevão. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo
Guimarães, _Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar_, que
fornece uma prova do que vimos dizendo.

«Quem lhe herdou--escreve o author do livro citado fallando de José
Estevão--o primado da palestra familiar, que elle exercia desaffrontado
de rivaes?

«Por ora é elle herança jacente como o é, e será--Deus sabe porque
tempo!--o sceptro dourado da eloquencia de que não poderam despojal-o em
vida os mais possantes emulos, sceptro que ainda hoje pousa sobre o
tumulo do orador, insignia indisputada d'aquella realeza do genio.»

Isto escrevia e publicava em 1863 Ricardo Guimarães; em 1865 entrava no
parlamento José Cardoso Vieira de Castro.

Não é intento nosso fazer apreciações ou discutir personalidades.
Todavia cumpre dizer que a entrada de Vieira de Castro nas lides
parlamentares desabrochou no horisonte politico os primeiros alvores
d'uma esperança. Vieira de Castro não era ainda o successor de José
Estevão; promettia sel-o, depois d'um longo tirocinio parlamentar que
lhe proporcionasse um pleno conhecimento dos mais reconditos segredos da
eloquencia tribunicia. Vieira de Castro, ebrio dos triumphos que lograra
na carreira universitaria, vinha cheio de mocidade e de inexperiencia, e
abandonava-se aprazivelmente aos arrebatamentos da sua organisação e da
sua idade, julgando de si para si que a melhor lente para estudar os
intrincados problemas da administração era o prisma dourado da sua
phantasia ardente.

Palavra facil, copiosa, scintillante, ageitando-se ás sinuosidades da
replica, sem se desviar do curso natural das idéas, tinha-a elle, como
José Estevão.

A vida academica de Vieira de Castro, repleta de episodios pittorescos,
aos quaes a opinião publica do paiz, mormente a dos homens de letras[4]
não foi indifferente, inoculou nova seiva no espirito já de
natural fogoso e opulento do author da _Pagina da Universidade_. D'aqui,
aquelle desabotoar incessante de vigorosos florecimentos na alma do
futuro orador parlamentar, aquelle espanejar incessante de flôres
variegadas e mimosas que elle espalhou ás rebatinhas nas paginas da
_Biographia de Camillo Castello-Branco_.

N'este livro a imaginação de Vieira de Castro levantou-se em vôos
alterosos e successivos. Era o phrenesi da aguia que pela primeira vez
bate as azas nos páramos infinitos.

Cada pagina é um jardim; todo o livro é uma primavera. Mas o que é
verdade é que a biographia de Camillo Castello-Branco está por fazer,
apesar de elle mesmo nos ter dado em muitas das paginas dos seus
preciosos livros, como as _Memorias do carcere_, _No Bom Jesus-do
Monte_, e outros, á similhanca de Garrett, copiosos apontamentos para se
escrever a verdadeira noticia de sua vida.

Este defeito, que a maioria da opinião notou na Biographia de _Camillo
Castello-Branco_, era ainda o senão que o mesmo tribunal encontrava nos
seus formosos discursos de estreia parlamentar. A opa tribunicia não
logrou abafar os impetos da eloquencia asiatica de Vieira de Castro. Os
seus discursos todos se emmaranhavam em ramagens phantasiosas, em
filagranas de caprichoso labor, ora alongando-se para cima como os
leques ondulantes da palmeira, ora escondendo as violetas gentis da
eloquencia nos taboleiros relvosos de um jardim oratoriano.

Era preciso desbravar trabalhosamente estes apertados labyrinthos de
vegetação esplendida, para se encontrar a idéa que se estava affrontando
sob os innumeros recamos d'uma chlamyde roçagante.

Eis-aqui a razão porque Vieira de Castro se não podia medir ainda com a
estatua gigantesca de José Estevão.

Os outonos da idade haviam de ir pouco e pouco mondando aquellas
exuberancias de vegetação litteraria, e então appareceria o pensamento
com toda a sua lucidez no meio d'uma delicada moldura como apparece uma
paisagem entre duas arvores em flôr, no alto d'uma estrada.

É esta a meu vêr a grande distancia que temporariamente separava Vieira
de Castro de José Estevão. De resto era congenere a eloquencia,--o
temperamento o mesmo.

Na sessão do dia 4 de abril de 1865 procurava Vieira de Castro
defender-se da censura que um deputado imputára á camara por se
comprazer a cada momento em frequentes e estereis luctas de palavra.

O claro entendimento do novo deputado segredou-lhe que era elle mesmo o
verdadeiro alvo de similhante accusação, e levantou-se para declamar.

São logo do principio do seu discurso estes periodos. «Demasias da
palavra? Demasias da palavra tinha-as tambem o padre Antonio Vieira, no
pulpito da igreja de Nossa Senhora da Bahia, quando interrogava a Deus;
e as nações pasmadas diante das prodigiosas catadupas da eloquencia do
oratoriano, hesitavam em pensar se fallava pelo seu verbo um inspirado
do céo, ou um desvairado da terra.

«E já que estou na igreja, abro o livro que encontro sobre o altar. Aqui
sim, aqui, na primeira pagina, não ha demasias de palavra, porque este
primeiro versiculo soube dizer na mais bella e sublime de todas as
phrases escriptas o maior e o mais estupendo de todos os milagres
creados: _Dixit Deus: fiat lux, et lux facta est._

«Santas demasias da palavra, que são como as demasias do sangue, ou no
corpo de Catão, ou na liteira de Cicero, ou no sudario do Salvador!»

E aqui estava o seu espirito a trahil-o e a arremessar para o ambito da
camara abadas de flôres que ao mesmo tempo lhe serviam de imputação e de
gloria. E aqui estava a primavera a bracejar frondes e a engrinaldar-se
de festões quando mais a accusavam de perdularia e formosa.

O orador havia porém de modificar-se como o escriptor se modificou. Nos
ultimos opusculos de Vieira de Castro o estylo não se enredava já nos
antigos dedalos, mas era formoso, gentil e magistralmente modelado; a
linguagem derivava fluente, correcta e portugueza de lei. Todavia o
temperamento do escriptor estava patente. Todos os seus livros, todos os
seus escriptos, antigos e modernos, dão testemunho da exaltação cerebral
das organisações nervosas e da extrema actividade dos vasos sanguineos
no colorido vivo, animado e brilhante da sua penna.

Mas infelizmente o orador não teve ensejo de se modificar.

Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das
suas esperanças e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa
consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio
Machado, escriptas horas depois da catastrophe:

«Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denunciára muitas
vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixões e o
enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de coração, ambições quebradas,
feridas do orgulho, esperanças illudidas, fortuna exhausta, crenças
mortas, figuravam-se-lhe ser doenças da alma a que não era dado
resistir, e não podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir
vivendo cada um com o seu mal.»

Ou ainda estas:

«Todavia, não sei dizer-lhes como, não sei dizer-lhes porque, elle
proprio o não sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o
castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia
ter gosto ás vezes em vêr desabar o edificio da sua felicidade e da sua
gloria. Não era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta
de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril.»

O temperamento de Lopes de Mendonça levara-o á loucura e da loucura á
morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastára-o ao carcere e do
carcere ao desterro.

Ambos sobreviveram á sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que
a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos côr de rosa das
imaginações ardentes, ambos dormiram nos braços da gloria as dôces horas
da embriaguez terrena, ambos entraram nos salões luxuosos da vida
aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava
dilatar-se para os deixar respirar mais livremente.

Ambos viveram finalmente, porque um está no tumulo e outro no exilio.

Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa.

Era ainda feliz.

Dous annos depois d'essa noite, despenhou-se. Emquanto o processo estava
affecto aos tribunaes, não fallaria d'elle, mas hoje, que já a
posteridade começou para o homem d'outr'ora, não duvidei aproveitar o
seu nome que pertence á historia do passado, e a historia é indefesa
para todos.

Não offendi a sua memoria, não ri da sua desgraça. Inscrevi o seu nome
n'este pequeno catalogo de escriptores nacionaes, que estamos estudando
physiologicamente.

Dos nervosos-sanguineos temos fallado que farte; occupar-nos-hemos
d'outros temperamentos que estão convidando a nossa analyse.

    [4] Vêr--_José Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do
    seu julgamento_, por seu irmão Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro,
    pag. 19 e seguintes.

      *      *      *      *      *



IV

Camillo Castello-Branco


«O verdadeiro talento, como o vismara, borboleta das Indias, toma a côr
da planta sobre que vive», escreveu Stendhal. Seria difficil resumir tão
profunda verdade em mais formoso conceito.

É conhecido até onde a critica moderna tem estudado a influencia do
clima sobre o espirito do homem. Montesquieu e Herder levaram ao exagero
a theoria climatologica. Proudhon contrapõe reflectidamente á doutrina
de Herder: «Todo o systema descança sobre o fatalismo geographico,
chimico e organico; sol, clima; planicies e montanhas; rios, lagos e
mares; d'onde se deduzem successivamente, por cada latitude e meridiano,
a flora e a fauna, depois o homem; finalmente, a sociedade e sua
historia. Nada temos a censurar; sómente perguntaremos o para que servem
então a liberdade e o progresso, e o para que nos aproveita a
intelligencia?»

A objecção é sensata. Emilio Deschanel não vai tão longe como Herder,
sem todavia rejeitar a theoria, e tanto não vai tão longe, que escreve
estas palavras: «Esta doutrina de Hippocrates, de Platão, de
Aristoteles, d'Eratosthenes, de Varrão, de Montesquieu, de Voltaire, de
Rousseau, de Herder, tem sido aceite e continuada em nossos dias com
muita distincção. Tornou-se a base da critica _naturista_, que é a
critica natural levada ao extremo. A terra, segundo esta doutrina, é a
prophecia da historia. Dize-me d'onde vieste, dir-te-hei quem és. E
reciprocamente, sabendo quem tu és, dir-te-hei d'onde vieste.»

Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no
homem, na lingua, na litteratura, na arte, e até na religião um reflexo
da natureza que lhes foi berço,--reflexo que a ausencia do torrão natal
e a identificação com um novo clima póde attenuar, no homem,
consideravelmente. O que é certo, e tem sido muitas rezes notado, é que,
por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das
articulações das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que
as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se
póde contrapôr á riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a
musica do Norte é magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do
Meio-dia é caracterisada pela variedade das inflexões, pela harmonia, e
pelo sentimentalismo.

Cumpre notar,--aproveitando uma observação de Deschanel,--que umas vezes
e pela similhança e outras pelo contraste que o clima se reproduz na
litteratura. «Ideal de belleza,--diz elle,--ideal de fealdade, que
importa! Na religião dos negros, o diabo, dizem, é branco. E isto, pela
mesma razão que na religião dos brancos--dos brancos que acreditam no
diabo--o diabo é preto. Porque é que os poetas latinos, quando querem
pintar a graça e a belleza das mulheres, lhes dão mais vezes cabellos
louros do que cabellos pretos? É porque entre elles, em Italia, quasi
todas as mulheres teem cabellos negros.--Reciprocamente, quando os
poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que são do
Norte, clima das bellezas louras.»

Isto é realmente verdade. Diz o proloquio: «Só se deseja o que só se não
tem.»

Já deixamos dito que Emilio Deschanel não leva a influencia do clima até
ao fatalismo geographico. A sua _Physiologia_ não é uma theoria
absoluta, uma demonstração didactica, como elle mesmo diz, mas
simplesmente uma _causerie_ sobre a litteratura e sobre a arte. Nós, que
procuramos seguir o caminho de Deschanel, não podemos acreditar que seja
a terra a _prophecia da historia_, mas firmemente cremos que todo o
homem tem muito do seu paiz como a flôr tem muito do sitio onde
desabrochou. E depois o homem,--como notou Lamartine--é planta até certa
idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no céo que lhe formaram
os sentidos. D'aqui a absorpção dos fluidos que andavam espalhados no
ambiente da patria.

Não será difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento
predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam
perfeitamente,--_Os Lusiadas_ e a _Menina e moça_. Fomos sempre o povo
das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo é dizer tambem da
saudade.

    Longe, por esse azul dos vastos mares,
    Na soidão melancolica das aguas
    Ouvi gemer a lamentosa Alcyone,
    E com ella gemeu minha saudade.

Muita da nossa melhor litteratura são chronicas de viagem e poemas
d'amor. Nós, a nação que formamos a monarchia á sombra da cruz,
herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de
Virgilio, que foi o poeta mais christão do paganismo e de quem disse
Victor Hugo

    _Il chantait presque á l'heure ou Jèsus vagissait._

Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros são d'uma saudosa
melancolia, como notou Garrett, as perturbações subitas da atmosphera, o
aspecto suavemente triste da natureza, a solidão do navio, do bivaque e
do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue,
predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que é o
predominante.

O nosso clima favorece as molestias intestinaes--d'aqui o mau humor, a
hypocondria, o azedume, a satyra, que está perfeitamente representada em
Bocage.

Ao contrario, os gregos, cujo céo era todo alegria e esplendores, tinham
uma palavra propria para designarem o seu estado normal--_Eucolos_, o
que diz simplesmente,--_ter bons intestinos_.

A França representa na civilisação moderna o papel de mediadora e
interprete; notou-o Edgar Quinet.

Pela sua posição topographica communica com a Italia e com a Allemanha,
e creou tambem uma phrase para designar as influencias beneficas que
recebe d'esta communicação--_en belle humeur_; por outro lado está
ligada aos paizes de Calderon e Camões, d'onde lhe sopram as auras
murmurosas que pozeram em vibrato a lyra plangente de Lamartine.

A meu vêr, um dos maiores escriptores da Europa, que mais salientemente
deixa vêr a influencia do seu clima natal,--é Camillo Castello-Branco.
Basta lêl-o, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento
portuguez.

É que Camillo Castello-Branco é primeiro que tudo um escriptor nacional.
Nos seus romances anda o idylio triste, suave, sublime de doçura e
pungimento a par da satyra envenenada, da critica mordaz, do epigramma
lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrand, teem a magia do
claro-escuro que caracterisa a escóla hollandeza.

É facil encontrar n'elles Moliere a par de Millevoye.

A educação de Camillo Castello-Branco devia influir gravemente no seu
temperamento como aconteceu com Rousseau. São do livro _No Bom Jesus do
Monte_ estes pequenos quadros retrospectivos da sua primeira vida:

«Tinha eu nove annos e era orphão.

«Dous mezes depois d'este desamparo, com o tenro coração fistulado de
saudade, a desbordar de lagrimas, e os ouvidos ainda resoando-me á alma
o estertor da agonia de meu pai, é que eu, pela primeira vez, entrei no
sanctuario do Bom Jesus.»

Ainda do mesmo livro:

«Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes
antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado,
sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem
orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz
tambem a bocca nas mãos glaciaes; senti um frio de que ainda o coração
me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem.
A irmã que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dôr
e com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das
sombras que desciam dos angulos do tecto á penumbra do clarão
oscillatorio das tochas.»

Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,--para vencer as
rebeldias do seu temperamento. O trabalho é, para elle, ao mesmo tempo,
toxico e remedio.

D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos
teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco.
Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua!

Ha um anno tem publicado quatro livros, e já estão traçados tres novos
romances que são _Celestina_, _Scenas da tragedia humana_ e _Infanta
capellista_.

É condão dos homens de letras o desentranharem-se em flôres do espirito
quando o corpo mais se nega por enfermiço. Assim foi tambem Garrett, que
já em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmão:

«Ha muito que devo resposta á tua de 13 de agosto e terás attribuido a
demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que não tenho saude
para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. Não tanto em cousas de
meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,--mas tendo de
roubar aos padecimentos corporaes e amofinações d'espirito os proprios
momentos que a natureza exhausta pedia para socego,--fico incapaz até
para o que aliás me daria gosto e ainda allivio.»

Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande
espirito estava sempre moço, sempre acordado, e publicava, depois da
data d'esta carta, o _Frei Luiz de Sousa_ em 1844; em 1845 as _Flores
sem fructo_ e o _Arco de Sant'Anna_; em 1846 a _Philippa de Vilhena_ e
as _Viagens na minha terra_; em 1848 a _Sobrinha do marquez_ e, para
dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da
sua gentil bibliotheca.

Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar
que renunciaria á vida se o privassem de escrever os seus romances
admiraveis de verdade, de analyse, de _côr local_, o que é, a meu vêr,
um dos quilates mais preciosos do seu talento.

Lê-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que está
lendo uma novella.

O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. Só
elle sabe temperar a verdade com a ficção de modo que não offenda, por
falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares. É que a verdade,
como sabem, nem sempre é verosimil.

Ouçamol-o a este proposito:

«Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido
as minhas novellas, disse-me assim uma vez:

«--Tenho observado que vossê inculca verdadeiras todas as suas historias.

«--E vossê duvída?

«--Duvido porque as acho verosimeis de mais.

«--Isso é um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas
historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis?

«--A pergunta formulada d'esse modo é irrespondivel; mas o que eu queria
dizer não é o que vossê entendeu.

«--Faça favor de se explicar.

«--Lá vou. A verdade é ás vezes mais inverosimil que a ficção. O engenho
do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o
espirito não póde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem tão
harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se tão espontaneamente,
que o leitor póde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista é
muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as
cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto
em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre
ordinario das realidades, isso, meu amigo, é o que os torna inverosimeis
e inacreditaveis, se vossê ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez
de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que
relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a
mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga só verdadeiro o
que é possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte é muito mais
verosimil que a natureza, e que os seus romances são inacreditaveis por
isso que são verosimeis.»

É este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo
Castello-Branco, o serem muitas vezes, para não dizer quasi sempre, mais
verosimeis que a verdade.

O que é certo é que não ha ahi author que seja mais lido, mais gostado,
mais popular até. A razão d'isto já fica acima apontada,--é que Camillo
Castello-Branco é, pelo seu temperamento, um romancista verdadeiramente
nacional.

--Eu já nem temperamento tenho! dizia-me elle outro dia. Creio que sou
uma degeneração de todos os temperamentos.

Ah! perdão, meu presado mestre, eu que tenho lido os seus ultimos livros
e que os estou agora dissecando sobre a minha mesa de physiologista,
acho que elles são extremamente eloquentes, sobejamente verdadeiros.

A prodigiosa imaginação de Camillo Castello-Branco augmenta-lhe tambem a
gravidade dos seus padecimentos; é ainda o romancista a fazer-se um
romance para si mesmo.

D'isto não tem elle culpa, que é tambem uma consequencia do seu mesmo
temperamento. A excitabilidade nervosa de certas organisações leva-as
muitas vezes a verem os acontecimentos pelo prisma da sua imaginação
pessimista. É assim que o snr. Alexandre Herculano que, a meu vêr, tem o
mesmo temperamento, escrevia inspirado pela revolução de 1836 umas
formosas paginas, esplendidamente exageradas, que fazem lembrar as
_Ruinas_ de Volney e o _Livro do povo_ de Lamenais.

Depois de fallarmos de Camillo Castello-Branco parece-nos ocioso estudar
o mesmo temperamento em escriptores differentes, um dos quaes seria, se
o houvessemos de fazer, o snr. Latino Coelho, cuja feição peninsular
resalta dos seus escriptos politicos, cheios de _verve_, de mordacidade,
de energia nervosa.

      *      *      *      *      *



V

Visconde de Castilho


Estamos tratando do estylo e ainda o não definimos siquer. Emende-se a
tempo o descuido, e aproveitemos a definição d'um grande estylista
portuguez que nos vai preleccionar com maior clareza do que as regrinhas
pretenciosamente concisas d'uns compendios de bem fallar que por ahi
apparecem.

O estylo é na opinião de Camillo Castello-Branco «a concepção das idéas,
manifestada em formulas visiveis e transmissiveis; é a luz exterior
reflectida da luz interna. É ainda, em sentido menos lato, a escolha
harmoniosa das palavras, congruentes á elevação ou simplicidade do
assumpto. Que e mais o estylo? E a physionomia distincta da obra, do
author, do assumpto, do paiz e do seculo. É, finalmente, o que ahi ha
menos material na arte de escrever.»

Anda visivelmente por isto a doutrina de Emilio Deschanel, e a verdade,
que eu anteponho a todas as philosophias nebulosas, não fica tambem
muito longe da definição de Camillo e da these do escriptor francez.

Todo isso é o estylo.

O estylo é o homem na sua dupla existencia. Temol-o provado, pelo que
respeita á physiologia, e continuaremos a proval-o. Pelo que prende com
a pessoa moral basta ler simplesmente um conto de Antonio de la Trueba,
intitulado _O estylo e o homem_.

Fallemos levemente da formosa historieta do contista hespanhol.

Trueba recebe um dia uma carta que o chama urgentemente a Navalcarnero.
Dá-se pressa em partir; parte.

Ao chegar a Mósteles, um cabo da guarda civil, commandante do posto,
exige-lhe o passaporte.

Não se muníra Trueba de documentos officiaes, e contenta-se com dizer o
seu nome.

O cabo, que tem na algibeira os _Contos campesinos_, duvida da
identidade do viajante.

Antonio de la Trueba quer sahir-se d'estes apertos, e appella para um
expediente extremo.

No correr do dialogo insinuára o cabo que Antonio de la Trueba devia de
ser um homem de bem, porque o estylo é o homem; mas que se via obrigado
a vedar-lhe a passagem até obter uma prova da sua identidade.

«Pois se o estylo é o homem--replicou Trueba--deixe-me recolher á casa
da guarda onde escreverei um conto. Está costumado a lêr os meus livros;
reconhecerá o homem no estylo.»

O alvitre foi aceite.

Trueba escreveu o conto, que era simplesmente a historia interessante da
sua inesperada jornada, historia admiravel de sentimento e singeleza.

O verdadeiro conto está n'essa narrativa. O guarda ouviu attento, e,
terminada a leitura, disse apenas estas palavras:

--D. Antonio de la Trueba, póde partir.

Na opinião do author dos _Contos campesinos_ tres cousas ha que teem uma
physionomia unica,--a letra, o rosto e a alma.

Procurem disfarçal-as; o observador intelligente ha-de sempre
conhecel-as. A mascara ha-de cahir perante a observação,--ou véle o
espirito ou cubra as faces, tanto importa. O estylo é o homem,--a alma é
o temperamento, o que não se palpa é o que se vê, o _eu_ subjectivo e o
_eu_ objectivo. Por isso o estylo é mais perfido do que a onda,--atraiçôa.

A alma é a luz; o corpo a lampada. O estylo é o reflexo que parte da
chamma e que ao atravessar o candelabro mostra a transparencia do
crystal ou o espelho scintillante do ouro.

Que o estylo era o paiz, o clima, mostramol-o no capitulo antecedente,
porque o homem, como os rios, reflecte a côr do céo sob que nasceu.

Diremos tambem, e de passagem, até onde o estylo é o seculo.

A França do seculo XVIII está claramente representada nos romances
licenciosos de Duclos e de Crebillon, filho, como nos quadros eroticos
de Fragonard e Boucher.

Em Portugal os poetas e os historiadores do seculo XVI eloquentemente
revelam a época de maior esplendor que jámais atravessou a patria, assim
como os annaes da _Accademia real de historia_ bastam para pregoar, em
suas declamações fatuas e vans, a decadencia da litteratura portugueza
que veio depois a receber alento do grande espirito do marquez da Pombal.

«_Chaque siècle a son tour d'esprit_», disse Fontenelle, e a historia
nos está provando que Fontenelle não mentiu.

Emilio Deschanel ponderou que «se o estylo era o homem, a litteratura
era a sociedade.»

Outra verdade profunda, outra illação da historia, que não só se
deprehende da litteratura propriamente dita, senão que tambem se está
revelando n'essa outra litteratura de pedra chamada architectura.

Para o nosso caso, os monumentos são tão eloquentes como os livros.

Já Victor Hugo notou, no romance _Notre Dame_, que o Paris de Luiz XV
estava em Saint-Sulpice, o Paris de Luiz XVI no Pantheon, e o Paris da
republica na Escola de Medicina.

Em Portugal, tambem o snr. Alexandre Herculano observou que a Batalha
era um poema de pedra e Mafra uma semsaboria de marmore,--que uma era
grave como o vulto homerico de D. João I e que a outra representava uma
geração effeminada que se fingia gente.

Todavia promettemos logo ao principio ir apontando as excepções que
fossem occorrendo, e ao proverbio de que o escriptor encarna o seculo em
que viveu,--não nos esqueceremos de contrapôr que as fabulas de Florian
são de 1792 e que em 93 Légouvé dava no _Theatro-francez_ uma tragedia
pastoril. Offenbach é um exemplo do nosso tempo; depois da guerra com o
estrangeiro, depois dos dias sangrentos da communa, recomeça
tranquillamente as suas operetas.

Temo-nos desviado por atalhos que partem do nosso caminho, mas que não
seguem a direcção que tomamos.

Continuemos o nosso estudo sobre temperamentos, e fallemos hoje d'um
escriptor, justamente laureado, poeta d'amenidades e branduras, cantor
da natureza e do amor.

É claro que fazemos referencia a Castilho, cujo temperamento
exuberantemente se está espelhando nos seus livros.

Escreve o author da _Chave do enigma_ fallando da sua infancia:

«Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e
poeta unicamente de branduras.»

Vendo-se ainda nas recordações longiquas do passado, continúa:

«Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter
conhecido, rosada, chilreada, alegrissima como quasi todas as auroras.
Mas os penates do seu berço haviam sido na cidade, e os passaros
cantores não se criam e educam bem senão pelas amenidades tranquillas e
scismadoras d'esses campos.»

A infancia bucolica de Castilho preparou-lhe a alma para os eternos
florecimentos com que ainda hoje toda se expande em cadencias e
perfumes. Nem siquer lhe faltou no paraiso dos primeiros annos uma
creança amiga que lhe inundasse o coração com os alvores matinaes do
santo amor da puericia. A sua indole, dil-o elle, «foi-se compondo com
duas religiões que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e
eternas amantes universaes,--a natureza e a mulher.»

Um dia appareceu n'este céo azulado e crystallino d'uma infancia
suavemente idyllica, a primeira nuvem presaga de tempestade. O que
aconteceu elle vol-o dirá, que ninguem melhor o pode dizer: «De repente
outra doença, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que
ella, não paga com martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio
largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulchro. Eu
respirava: mas os bellos olhos, idolatras das flôres e de Amalia, e
vangloria de minha mãi, não sabiam se ainda havia no céo o sol de Deus!»

Privado de contemplar as paisagens dos seus primeiros amores, começou a
saudade a reproduzir-lh'as na visão interior, a rememoral-as a toda a
hora, a contornal-as no horisonte infinitamente suave d'um paraiso perdido.

A fatalidade tinha-o atirado para um sepulchro, é certo, mas o sepulchro
d'um poeta tem sempre flôres.

Era recendente a urna espessa em que lhe ficava cerrada a infancia. Mas
pelas estrophes perfumadas do passado recompoz Castilho os poemas
inebriantes do futuro; pelos aromas da infancia adivinhou a primavera
invisivel da mocidade.

Pouco era o que tinha aprendido, mas de muito lhe serviu para o que
viria saber. Onde lhe faltava a visão, porque as palpebras tinha-as para
sempre fechadas, ahi lhe acudiam os olhos de seus irmãos, que viam por
elle, ahi o soccorria a lição dos poetas bucolicos com que foi creado,
ahi lhe entrava a flux pela alma e pelos ouvidos o dulcissimo
conhecimento da natureza que idolatrava. Assim se fez e educou poeta ao
murmurio placido do Mondego e do Tibre, de que não estava menos proximo.
O rouxinol, privado de vista, tambem canta, como sinta os perfumes da
primavera e a melopêa da corrente suspirosa. De musicas e aromas se
formou a sua alma, por isso não ha ahi melhor poeta do amor, da
melancolia, das flôres, das aves e das creanças.

O livro _Primavera_ caracterisa-o perfeitamente; estão n'elle todas as
branduras lymphaticas do seu teraperamento, todas as doçuras ineffaveis
da sua alma. Uma vez só, como já dissemos em outro lugar, cahiram as
boninas da sua lyra campestre sacudidas pela rajada violenta das
paixões. Os _Ciumes do bardo_ e a _Noite do castello_ representavam um
esforço ao qual se devia seguir, como a claridade da manhã após a
negrura da tormenta, todos os idyllios suavemente elegiacos que dedilhou
depois. Ha d'estas contradicções na vida dos escriptores, e nós, que
voluntariamente nos obrigamos a apontar as excepções, não podemos deixar
em silencio a seguinte, que é flagrante.

Gomes Goelho, já gravemente doente, escrevia, n'uma hora de dolorosos
soffrimentos, uns versos scintillantes de _verve_ peninsular, que
desmentem completamente o genero caracteristico do finado escriptor.

A poesia de que venho fallando destina-se á _Grinalda_ e, por obsequio
de Nogueira Lima, transcrevo as tres primeiras quadras:

    Ai, quem me dera em Sevilha,
    Onde a travessa hespanhola
    Sob a elegante mantilha
    As negras tranças enrola.

    Na arcada da sé formosa
    Vêl-a entrar, tal como a sonho;
    Entre _coquette_ e piedosa,
    Rosto, entre grave e risonho.

    Mergulhar na agua benzida
    A mão pequena e elegante
    E entre a turba, alli reunida,
    Distinguir o olhar do amante.

........................................................................

A vida de Castilho tem sido o caminhar empós idéas generosas, principios
nobres e santos, quaesquer que sejam, com o peito cheio de serenidade,
ou o recebam hymnos ou chufas, ou o acclamem «Poeta» ou lhe gritem
«Utopista». Não ha presentemente em Portugal homem que mais tenha sido
aggredido e que mais razões tenha para ser respeitado. As vagas que se
levantam no esforço de quererem submergir a sua corôa litteraria, batem
d'encontro ao throno em que a patria já collocou, e para sempre, o
cantor da _Primavera_, e refervem, e espumam e, finalmente, desfazem-se.

Elle, a cujos ouvidos resoam incessantemente as musicas da alma, não
ouve siquer o acachoar das aguas impuras que não chegam a macular-lhe as
plantas. Está embevecido na sua poesia, no seu sonhar perpetuo, nas suas
dôces affeições.

Um dia, desceu do solio litterario e entrou á escóla, levando comsigo a
alegria, a musica, o amor pelo estudo. Cercaram-no umas creanças
pallidas e concentradas, que lhe faziam dó, e essas creanças, volvidos
dias, amavam-se entre si, estimavam o mestre, já não riscavam os seus
livros, e do intimo de suas almas immaculadas abençoavam o poeta cego e
velho que lhes enchera de poesia o recesso humido e soturno da escóla.
Mas levantaram-se as vagas, e referveram, e espumaram. Castilho
recolheu-se ao ninho querido onde o estavam convidando as amenidades de
todos os dias. As multidões gritavam «Utopista» e as vozes esmoreciam no
ar. Não lhe deixaram fazer da escóla-cemiterio, cheia de escuridade e
tristeza, a escóla-floresta gorgeada, alegre e festiva. Conseguiram que
elle depozesse o livro da primeira communhão espiritual, mas não lhe
poderam arrancar do peito o amor que elle ainda conserva á escóla, ás
creanças e á legião dos seus poetas romanos com os quaes se entende
muito melhor que com os impertinentes conservadores do velho ensino.
Arrancaram-lhe das mãos o cathecismo preceptor, é certo, mas não lhe
poderam empolgar a lyra das branduras predilectas. E recomeçou a cantar
os seus idyllios, a suspirar as suas dôces elegias, pedindo aos seus
amigos que o deixassem morrer com as mãos postas sobre as cabeças de
seus filhos e com a lyra encostada ao coração.

Não quer outra indemnisação em quanto fôr do mundo; depois que a morte
arrefecer a escuridão dos seus olhos, pouco é, e de poeta, o que elle
deseja para si:

    «Depois que entre os abraços delirantes
    De todos os que amei, findar meus dias,
    Sepultai-me n'um valle ignoto e fertil.
    Para marcar da sepultura o sitio,
    Sobre o cadaver, que vos foi tão caro,
    Mangeronas plantai, cuja verdura
    Em roda fechem variados lirios.
    Na raiz funda de soberba olaia
    Pouse a minha cabeça, e o tronco amigo
    Sobre mim curve a copa florecente.
    Mil piteiras unidas, ostentando
    Na hastea vaidosa as flôres amarellas,
    Em quadrado não grande me defendam
    Das incursões das cabras roedoras.
    Em meu tronco se escreva este epitaphio:

    _Foi poeta amador da natureza:
    D'entre as sombras ancioso a procurava,
    Qual terno amante a bella fugitiva._

    Sobre isto pendurai sonora flauta,
    Que se revolva á discrição do vento.
    Não cerque os ossos meus, não mos ensombre
    Nem teixo nem cypreste; arvores quatro
    Quizera só no meu jardim de morte.
    N'um canto a laranjeira graciosa,
    Que mescla util e dôce, a flôr e o fructo:
    N'outro a figueira sob as amplas folhas
    Modesta occulte seus nectareos mimos:
    Defronte um pecegueiro em fructos mostre
    Que amavel é pudor, quando enche faces
    De pennugem subtil inda cobertas:
    No ultimo canto... (a escolha me confunde)
    Plantai no ultimo canto uma ginjeira,
    É a arvore da infancia até na altura;
    D'esta por sua mão colhe um menino
    A mui ridente baga, e ri de ufano.
    Alguns tempos depois que a fria terra
    Meus restos encerrar, á minha olaia
    Vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
    Pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.»

Envelhece o homem mas sobrevive o poeta. O seu temperamento tem
prevalecido o mesmo e já se tornaram em sazonados pomos de abundante
outomno as flôres odorosas da septuagesima primavera. A sua alma
conserva-se tranquilla, cheia de luz como o céo da Grecia, sob o qual
poetou o seu Anacreonte, perfumada como os pomares tiburtinos do seu
Horacio.

O temperamento de Lopes de Mendonça era prophecia da fatalidade a que
devia succumbir; o temperamento de Castilho assegura-lhe viver poeta e
morrer, como o cysne da tradição fabulosa, ainda poeta.

      *      *      *      *      *



VI

Julio Cesar Machado


A photographia é o folhetim da optica, assim, como o folhetim é a
photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos
jornaes, introduziu-se a moda já agora generalisada dos albuns, e a
photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mãos dadas, de
polo a polo, porque se o folhetim é a reproducção dos acontecimentos,
começada e concluida n'um instante, a photographia é a copia ligeira das
pessoas, consummada em cinco minutos, n'um _atelier_ elegante. Quem tem
pretenções a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificações
de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre
da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se
estivesse em perpetuo baile.

Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo
dos retratos a oleo, senta-se pacientemente á banca todos os dias,
corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a
tela, aperfeiçoando um traço, avivando o colorido, corrigindo o
contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai
retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar
presente a uns olhos queridos com a firme tenção de mais tarde
substituir o cartão pela propria pessoa, contenta-se com a photographia,
que é um retrato incompleto, mas que é todavia um retrato.

Do mesmo modo, quem se senta á mesa de trabalho para traçar um esboço
dos acontecimentos, para consignar as impressões do espectaculo d'hontem
em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio
d'ámanhã, quem não quer historiar os factos mas unicamente
estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando
um sorriso á bailarina nova, atirando um punhado de flôres ás alegrias
do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe
depois, de casaca e luva côr de perola, quando chega a carruagem, sem
pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio
mais depressa do que á sala esplendida e perfumada que o espera.

A missão do folhetim é pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um
só jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo
Castello-Branco escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: «Bem
sabe elle como é rapido o photographar, e bem sabemos nós que não
devemos pedir-lhe mais que o esboço das cousas, aperfeiçoado depois pelo
sexto sentido do talento.»

Em Portugal, o folhetim começou grosseiramente no «Almocreve das petas»
e no «Barco da carreira dos tolos» como notou Rebello da Silva. José
Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da época, procurou fazer
a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o
riso, com a graça saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um
respiraculo intencionalmente aberto ás combustões da inveja e do odio.

Era o embryão do folhetim, preparado á portugueza velha e pautado pelos
modêlos da _Eufrosina_ de Sá de Miranda e do _Fidalgo aprendiz_ de
Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como nós hoje o
conhecemos, «a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de
leve por cima das flôres» como disse tambem Rebello da Silva, veio de
França junto com os primeiros albuns que de lá recebemos, ao tempo que
Julio Janin era moço, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos,
expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.

Garrett, que estudou lá fóra as mais notaveis evoluções da litteratura
moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez,
amaneirado, elegante, _chic_. O mesmo não aconteceu ao snr. Alexandre
Herculano, que estudou tambem na escóla do estrangeiro durante o tempo
da emigração, mas cujo temperamento era adverso ás amenidades da
litteratura ligeira. Á hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente
o plano das suas lucubrações historicas, descia o futuro visconde
d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera o
_Camões_, e _flanava_ distrahidamente pelas margens do Sena.

Era isto--Garrett, o _flaneur_; Herculano, o philosopho.

Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiro _flaneur_.
Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou,
folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida,
admiravelmente. Garrett era porém o folhetinista do livro; faltava em
Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett
vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubrações jornalisticas.
Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flôres e crystaes.
Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse
os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, nú de moveis e
ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prélo impaciente.
Esse homem appareceu,--foi Lopes de Mendonça. Durante muitos annos
exerceu elle brilhantemente o folhetim,--o folhetim que se compromette a
apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa
escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se
dar ares de leviano. O incendio d'aquella poderosa imaginação crepitou,
deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Então appareceu em Lisboa um
rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperança, que se estreou na
litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que
elle sonhava eram lucidos como o céo da primavera. Em redor de Julio
Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era
feliz porque sonhava com a esperança. Não basta ser feliz para o ser
verdadeiramente. É preciso, e n'isto está tudo, amar a felicidade.

Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria.
Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar
é inquestionavelmente a primeira condição para vencer. Os seus nervos
eram de natural submissos; impaciencia não a teve nunca. Por isso foi
feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva
lhe sahia ao caminho, lá lhe vinha uma sombra á alma, mas as tristezas
d'estes temperamentos são dolorosamente suaves. Passava a
nuvem;--sonhava de novo com a esperança.

Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima
deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdôem-me
este orgulho.

O author dos _Contos ao luar_ entrou no mundo sósinho; seu pai deixou-o
muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o
braço de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, só com extrema
difficuldade poderia nortear a minha educação pelos mares que a sua alma
affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus
primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a
amizade de José Estevão que lhe franqueou as columnas da _Revolução de
Setembro_. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um
jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus
primeiros ensaios nas columnas do _Jornal do Porto_, e me animou a
proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro pão da vida. Do meu
passado, conservo saudosas lembranças; Julio Machado compraz-se tambem
em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos
através da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso
superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente
uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,--mais feliz,
pelo menos.

Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho
da Durruivos? Não sei; o latim de certo não foi, que esse ensinou-lh'o o
padre Paulo, de quem elle falla nos _Quadros do campo e da cidade_.

A esphynge da latinidade tambem me não amedrontou a mim; conservo ainda
saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas
que foi meu mestre.

O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a mathematica sim. O Garrett
queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa
d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um
homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e
admiro em qualquer homem.

Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret,
errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não
pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de
menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.

Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a
minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre
plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a
arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja
impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo
denunciam a milicia dos mortos.

N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo
Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós
sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas
na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica
ha-de perseguir-me além da morte!»

Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que
amanhã ha-de gritar a maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz
nivelar com Julio Machado. Não ha tal; previno o commentario. Basta
dizer-lhes que ha sete annos,--era eu uma creança,--li pela primeira
vêz, na Foz, as _Scenas da minha terra_ e que me demorei longo tempo
diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mãi,
não sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era
então já um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes,
ainda era uma creança. Applaudi-o então, applaudo-o hoje e
applaudil-o-hei sempre.

Mas era d'elle que vinhamos fallando,--era do seu temperamento que
queriamos fallar.

Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus
folhetins, na doçura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.

O temperamento de Julio Machado está no _Pedrinho_ dos _Contos ao luar_,
na _Marcolina_ das _Scenas da minha terra_, no _Romance d'uma alma_, das
_Historias para gente moça_. São tristezas suaves,--deliciosas tristezas!

Elle, que foi o successor de Lopes de Mendonça, deve inquestionavelmente
ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba
canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.

Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma
tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer.
Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse na pista
a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a
Londres gastou dous mezes.

Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes
para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,--para Italia;
cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de _touriste_, em
communidade de aventuras com o conde d'Obidos.

Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao
contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um _bouquet_.
É elle mesmo quem nol-o diz:

«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes
de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de
perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que
por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»

Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E
muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.

Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas _Viagens_, que é o folhetim
mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de
viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a
pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o
folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a
flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar,
tudo para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.

Quando elle publicou os _Contos ao luar_, sahiram-lhe ao encontro os
grammaticões, os nossos graves grammaticões--que graça!--por haver
attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma
conjuncção copulativa.

Era certo que elle havia escripto--«... E depois, eu não sei bem porque
chamei ao meu livro _Contos ao luar_!» Que elle, o phantasioso contista,
tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio
cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago
do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias
que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles
queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.

Os grammaticões são como os diccionarios;--o que mais têem são palavras.
E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a
critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres
edições, para dizer tudo d'uma vez.

Já que me referi n'outro lugar ao _Romance de uma alma_ quero
acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente
Julio Cesar Machado,--um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de
phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno
primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.

Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida
mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias
d'esses gentis _bouquets_ que o seu talento tem enfeixado, e ao terminar
estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude
d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanças.

Algum dia dirá de si a historia da litteratura patria que foi um
escriptor sempre moço, que sabia com o seu espirito enganar a idade,
quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a
primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um
bonito _bouquet_, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma
ruga e de uma can igualmente traiçoeiras, tiveram inveja á sua mocidade
e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se
lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flôres.

Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto
folhetinista. Assim devia ser; é sobre o pedestal que se colloca a estatua.

N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em
Portugal o que fez Emilio Deschanel em França, com uma unica
differença--que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me
serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi
applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, não
na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas
ramificações, o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como
elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um
certo numero de individuos.

Tentei estudar o temperamento no estylo.

Mais que nunca se me figura opportuna a occasião para trazer em minha
defeza as palavras de Deschanel: «Paradoxo! dirão uns. Banalidade!
clamarão outros. Que se entendam uns com os outros até chegarem a um
accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se é verdadeira? E não
será sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fôr precisa e
sincera?» E depois, receioso de que supponham que se dá ares academicos,
acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: «Imaginai que
folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de
photographias; é pouco mais ou menos o que vos eu apresento.» Isto
escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razão.

      *      *      *      *      *



EM ADDITAMENTO A PHYSIOLOGIA LITTERARIA



Carta do snr. Alexandre da Conceição ao author


                                                         _Ill.mo amigo._


Na ultima das suas _Cartas do Inverno_[5], nas quaes o meu
amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante
questão do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores,
vem lá uns piparotes á mathematica e aos mathematicos que eu não posso
deixar passar sem reparos.

Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as
chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas
como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas
de todos os tempos e de todos os paizes--veja que ambições de erudição
as minhas!--não ha concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do
que nas mathematicas.

Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho
ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente
vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação,
mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a
quarta pagina do _Times_.

Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção
mascavada, os _Tres Mosqueteiros_ ou a _Menina do 4.º andar_, que se não
julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe
a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.

Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem
gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares
de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes
esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza
e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra
ou da geometria.

É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na
mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de
trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados
physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos
corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás
salas de espera dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico,
onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos
cafes e nos passeios publicos.

Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para
a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias
intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de
repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é
apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de
Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes
de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia
versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli
empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que
havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia
apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu
asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para
demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a
estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura
d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos
os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo do
_Francoeur_ disse de mim para mim, para me desculpar da propria
mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e
alistei-me galhardamente na numerosa ala dos _mergulhadores_, meus
condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande
actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu
incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr.
Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a _loureirice_ com tres
rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos
meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços,
ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece
inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a
meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado
perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de
minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de
todos os castigos.

Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.

Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno
e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional.
Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos
na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra
companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo
essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá
vindo nos enxurros da litteratura franceza.

O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu
nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem
melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a
compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que
fiz o papel de poeta e de folhetinista.

Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas
nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico.
Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só
a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de
felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as
mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas
lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca
sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós
quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se
comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade.
Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre
familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.

E depois, meu amigo, que idéa se ha-de fazer da arte, se fôrmos apregoar
que as sciencias exactas, que é onde a verdade mais luminosa se
apresenta, são inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se
ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia o rigor logico
dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os
exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de
não sei qual dos seus livros que a algebra é uma poesia. É um acerto
isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa dão a comer aos filhos
coração de leão para os tornar robustos e corajosos. O coração do leão
para o espirito é o estudo das mathematicas. Não ha nada mais sadio nem
mais nutritivo.

É uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o
ar da vida. É a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educação,
e que nos levanta o entendimento áquella altura d'onde se não podem já
enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas
com os ouropeis da phantasia, e que são tão futeis e tão ridiculas, como
os interesses que sustentam.

Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu
entender, não póde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica
nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; é a Astronomia. Galileu,
Kepler, Newton e Laplace são poetas de mais alto cothurno que Homero e
Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. Não grite á d'el-rei contra a
blasphemia litteraria; olhe que é verdade isto que lhe digo. Se tirar
aquelles grandes vultos da sciencia a imaginação, o enthusiasmo, a
intuição prophetica da verdade, as allucinações do ideal, este exaltado
lyrismo que o amor sofrego da verdade produz nas intelligencias
privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que
fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens á craveira vulgar de
quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas não m'os eleva nunca á
altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.

Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenções de
possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepção e
em sublimidade de idéas com a theoria da attracção universal de Newton
ou com a hypothese sobre a formação dos mundos de Laplace?

Que nome senão o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier
que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na
ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se
fosse millionario não pagaria por bem maior preço os calculos originaes
de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?

E não me diga que esta poesia da sciencia só é accessivel aos espiritos
iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento
e de gosto litterario, lêa-lhes o melhor trecho do _Hamlet_, o melhor
canto do _Inferno_, a melhor composição da _Lenda dos Seculos_, e depois
faça-lhes uma exposição singela do systema dos mundos, narre-lhes a
historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso
romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e verá
qual das cousas as deixou mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da
palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.

Em si, que é um espirito serio e estudioso, não quero eu vêr no seu
horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas é que
nós padecemos d'uma profunda doença social que se revela muito n'esse
desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela
logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente
scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de
methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o não se contentar tão
facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os
especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasião que
trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a
consciencia adstricta á gleba dos empregos publicos, e toda a alma
enfeudada aos preconceitos da opinião do maior numero. Olhe que é seria
esta questão. Dê-me á França mais mathematicos e menos romancistas, mais
arithmetica e menos versos, e Sedan é impossivel e os incendios de Paris
serão irrealisaveis. A victoria é o resultado da superioridade dos
vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppõe a inferioridade
dos vencidos.

O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais
cedo derrotar o genio romantico e futil da França contemporanea. Era uma
guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por
isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna, que talvez o encontre disporto a
dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe, _apesar_ de saber tambem
mathematica como poucos.

E, já que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a
admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesia _O Firmamento_,
cuja inspiração elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos
numeros, que muita gente suppõe arida e esterilisadora como um livro de
conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e
robusto das verdades scientificas; leve-a pela mão aos grandes templos
da vida moral; ensine-lhe a historia, que é a epopêa da humanidade;
ensine-lhe a geologia, que é a historia da terra; ensine-lhe a
astronomia, que é o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da
lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha
apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que é o homem; a alma
d'esse homem, essa, que a não procure n'esses restos, mas no proprio
espirito d'ella, na memoria das suas boas acções, na recordação, que
ella deve ter sempre viva da sua dedicação á familia, do seu amor ao
trabalho, da sua paixão pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua
modestia nas alegrias, do seu respeito á virtude, da sua aspiração ao
bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e
como cidadão, pois que n'essa recordação na alma ingenua d'uma filha vai
a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.

Creio que abusei muito da sua paciencia, não abusei? Que quer?...
custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.

Não torne, olhe que eu estou de atalaia, e então ai da sua paciencia.

Até lá e sempre creia-me

                                              seu amigo e admirador,

Bragança, 22 de Janeiro de 1871.

                                             _Alexandre da Conceição._

    [5] As paginas antecedentes sahiram com este titulo em
    folhetins do _Jornal do Porto_, de dezembro de 1871 a março de 1872.

      *      *      *      *      *



Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição


                                                      _Meu bom amigo:_


Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos
folhetins que tenho publicado no _Jornal do Porto_ sob o titulo de
_Cartas do Inverno_, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira
conservação das nossas relações amigaveis e litterarias.

Sahiu o meu amigo _pela honra do seu convento_, levantando umas ligeiras
insinuações com que eu não esperava offender a mathematica e muito menos
melindrar um só mathematico.

Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para
mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz
digladiar com luctador assim digno como leal.

Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar
á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo
scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas.
E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo
tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que
se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.

Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que
foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da
sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as
bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios
da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.

Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica,
antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um
epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O
rei Jorge III, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de
uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao
homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são
as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento,
visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista
Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso
deserto das alturas. D'esses não fallava eu, porque os respeito tanto,
quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para
logo; fallemos por agora da mathematica.

Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da
verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento.
Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;--a
Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de
mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral
estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas,
objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem
paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de
concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon,
finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a
entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta
arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com
numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a
verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa
d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.

Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que
quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua
replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de
preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi
penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou
d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o
somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura
com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo
de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar
da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a
cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita
a esta disposição, é publico.

Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela
leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação
do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos,
infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São
uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no
compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para
engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.

Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha
pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia
algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A
esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para
reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa
que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos
conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda
quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem
fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um
moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro
braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas
nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores
que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.

Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias
exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só
sahem incolumes do exame de geometria,--quando sahem--depois de longo
soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu
espirito d'elles.

Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;--é
Gonçalves Crespo, o author das _Miniaturas_.

Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um
estado.

Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por
combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.

Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os
velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo
suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião
que geralmente se fórma da sua intelligencia.

Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a
despeito das mathematicas,--foi o estylo que naturalmente resalta da sua
penna com estimavel donaire.

Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito,
alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.

Voltemos porém aos mathematicos.

Em duas classes os divido eu; mathematicos-_artistas_ e
mathematicos-_operarios_.

Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que
entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da
mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão
narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.

Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se
tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram
Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes
afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.

Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá
vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de
mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira
d'essa hypothese.

São maneiras de vêr.

Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu os distingo, pertencem
os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está
n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a
esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros
frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia
e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para
intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do
professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr
a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a
sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita
aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia
acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir
com o seu talento.

Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo
que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos
inchados que elles,--os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos
lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por
isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes
commettem. Mais nada.

«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os
empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me
fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»

Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do
contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso
desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os
mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção
que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o
Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle
no _Genio do Christianismo_:

«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra
as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença
d'opiniões vem do erro commum, que confunde um _grande_ com um _habil_
mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de
pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde
entrar por ella dentro com galhardia.

«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si
operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas
sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque
qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em
mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de
sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os
seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas
artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de
litteratura, de moral, de religião; _conhecem_, dizem elles, a natureza.
Não será para adorar-se a _ignorancia_ de Platão, que chama á natureza
uma _poesia mysteriosa_?»

Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure
poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa
professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o
jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas
_Alvoradas_. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico
Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa
litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga
ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livro _Manual
do apontador_.

Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.

Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.

Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras
d'astronomia a mulheres.

Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade
no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam
Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, á roda de Maupertuis, no jardim
das Tulherias.

Ora estas sabenças d'alto cothurno, que se conversavam nas cêas do barão
d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza
ao desvergonhamento, a que só póde ser cauterio a verdadeira religião;
não a religião das missões e dos missionarios, mas a religião de Deus.

O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da
mulher que sabe mais do que latim. Quero instrucção para a mulher, grito
por ella; mas ha-de ser uma instrucção rosada, loura, como as mais
formosas tranças, casta, pura, limpida.

Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes.
Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as
legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres
imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos
as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas
e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas
as não soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam
correntemente as quatro operações elementares. É o que minha filha ha-de
saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abençoará algum dia a
discrição com que eu a hei-de educar.

É debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o
que é seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro
Conceição, não lhe hei-de ensinar a ella a «historia, que é a epopêa da
humanidade», mas unicamente da historia o preciso para ella não
aborrecer a humanidade.

Não quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.

Eu não entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma
educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mãi.
Isto não é dizer que a maxima erudição seja a maxima desmoralidade. Não;
eu quero que a instrucção seja para quem a póde professar, e que se
estude quando se deve estudar.

É meu proposito que minha filha não ande pelas salas a fazer discursos
de varia historia ás meninas da sua idade.

Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lêr um dia, não levam
doutrina que a faça corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author
d'aquellas novellas.

Não fallemos mais de minha filha, que dorme no berço os sonhos
auriluzentes da primeira infancia. Não quero passeal-a na imprensa,
depois de a ter roubado ás caricias de sua mãi.

Aqui tem, meu caro Conceição, o que se me offerece dizer-lhe.

Peço-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e
creia-me sempre,

                                     amigo dedicado e sincero discipulo,

Porto, 1 de fevereiro de 1872.

                                              _Alberto Pimentel._

      *      *      *      *      *



Segunda carta do snr. Alexandre da Conceição ao author


                                                        _Ill.mo amigo._


Uma declaração antes de mais nada: Agradeço ao seu bom senso e á sua
lealdade o ter-me feito a justiça de não vêr uma allusão pessoal e
indelicada no esboço que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que
detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentos _originaes_
e impetuosos se não podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. Não
podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboço, primeiro: porque
seria isso uma grosseria incompativel com a minha educação; segundo:
porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o
estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheço o
talento, a elevação do caracter, o amor ao estudo e a dedicação ao
trabalho.

Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio
com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que
eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua
amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu
folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.

Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na
sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais
importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com
competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria
proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este
jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar
a sua boa reputação.

Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado,
ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o
que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me
parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com
o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja
pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes
tão finamente epigrammatica. Assignar-se _meu discipulo_!... Eu, seu
mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma
inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que
não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe regularmente mais cousa
alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.

Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal
expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as
tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe
apresentaram.

A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o
entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de
suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima
d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da
minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente
indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da
_Popa do Navio_ ou para a _alpha do Centauro_. O que digo e sustento, em
quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das
mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo
menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser
prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões
intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos
caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito
acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos
a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as
faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento _à
priori_, como se diz na logica. O argumento _à posteriori_ está nos
exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes
mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito
enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes
mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos
_mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_, theoria que, a
meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de
espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico,
logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes
mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal
fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos
numeros e do calculo.

Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira
teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras
sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros
litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e
duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua
patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe
admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e
soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do
_Eurico_ teve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado
e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio
Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco, Theophilo Braga e alguns
outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com
admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito
livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o
talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi
ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que
elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.

Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto
caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um
padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.

As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a
ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da
jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da
religião.

Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua
argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem
póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.

Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa
gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos
mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.

Não lhe fallo já da civilização material do nosso seculo, para cujas
maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe
notar sómente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito
scientifico do nosso tempo. A mathematica não inventou por certo nenhuma
theoria physiologica, não ditou nenhum tratado de direito publico, não
descobriu um unico corpo simples ou a composição de qualquer corpo
composto, não acrescentou um só versete aos Evangelhos; mas tem, pela
benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do
seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras
sciencias muito espantalho com fóros de verdade; muitas tolices com
ambições de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputação
de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias,
incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias
exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de
conclusões, que são as feições caracteristicas da philosophia
contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe
d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e
lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa
forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas
tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos
eleva, e que nos instrue. É porque a poesia ainda se não compenetrou bem
d'estas verdades, que ella está representando na sociedade o papel
secundario que representa. Como explica o meu amigo este palpavel
desamor da opinião publica pela poesia? Não nota que a sociedade
contemporanea não quer que lhe fallem em versos; e que os não lê e que
vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appareçam? A
culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro á sociedade ou aos
versos?... É a sociedade que está acima dos versos, ou a poesia acima da
sociedade? Ha depressão no sentimento moral e artistico da sociedade ou
ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa,
posto que lhe caiba em parte, cabe menos á sociedade do que á poesia.
Isto porém é uma questão para largos desenvolvimentos, e eu não quero
terminar esta minha carta, que já vai escandalosamente massadora, sem
lhe levantar outras duas questões que o meu amigo toca no seu folhetim.

A que chama o meu amigo _impiedade_?... Ás conquistas do espirito
analytico do mundo moderno, á reforma, á revolução de 93? Á philosophia
raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? Á critica
historica, á exagese biblica, a toda esta febre de investigações que
trabalha a alma do seculo XIX e que lhe faz bater apressado no pulso o
sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por
impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmãos
das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela
agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual
bispo de Orleans que se arreda de mr. Littré como de um leproso?
Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto
da palavra e da idéa que ella representa, que me não admira vêr
appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou até o
snr. marquez d'Avila e Bolama.

O meu amigo parece tambem pensar que o seculo XVIII foi immoral por
excesso de sciencia nas mulheres, e impio--volta a terrivel
palavra!--por excesso de philosophia nos homens. Mas onde é que está
isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar o
_Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder
ser recitado ao piano? Mas quando e onde é que a sciencia e a
philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e
onde é que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o
absurdo, o preconceito, a _rèvèrie_? Mas então voltemos aos cilicios,
aos jejuns, aos conventos, á inquisição, á idade media. Nego com toda a
força das minhas convicções, nego com todos os insignificantes recursos
da minha intelligencia que a immoralidade tão apregoada da sociedade
franceza do seculo XVIII tenha nascido no palacio de Rambouillet; nego
que a impiedade--não me deixa esta maldita palavra!--do tempo dos
encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. São absurdas
taes supposições perante os principios, são illegitimas perante os
factos, são calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.

Agora a questão magna do seu folhetim, a educação da mulher. Sobre este
ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom
senso e intelligencia eu tanto aprecio, não quer para a mulher a maxima
instrucção, que dá em regra, a maxima elevação moral; não, para todas as
mulheres, a instrucção professional de que precisa o medico, o
jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade,
mas esta instrucção geral, completa e solida, que dá aos espiritos a
maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, á alma a
maxima grandeza moral, ao coração a maxima bondade, pela comprehensão do
direito, pelo sentimento profundo do dever.

Quer o meu amigo para a mulher uma instrucção rosada e transparente como
uma meditação suspirosa de Lamartine; não lhe quer ensinar da historia
senão o sufficiente para que ella se não faça beata, pelo horror aos
seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitação ou por amor aos
envenenamentos; não lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella
ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou ás
amigas que a abraçam, qual seja n'esse momento a declinação austral do
planeta Saturno ou em que phase está o quarto satellite de Jupiter! Eu,
francamente, não lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito,
clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mãi Eva, ignorante como
uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma
convicção, a que eu tributaria todos os respeitos que me merecem as
convicções sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia
instrucção, que não vi que désse nunca mais que petulancia, mau senso e
bacharelice ás mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade
sem lh'a satisfazer, porque as não deixa na completa ignorancia, que as
obriga á modestia do silencio, nem lhes dá á instrucção regular que
produz a sensatez, dizer isto é estar a fazer versos quando se trata de
formular claramente um principio, e responder com a _aria final_ da
_Traviata_ ao X de uma equação algebrica. Não posso pois acreditar na
solidez das suas convicções sobre este ponto, e peço-lhe que, antes de
me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de
Ernesto Legouvé--_Histoire morale des femmes_. Se elle o não convencer,
eu perco as esperanças de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da
instrucção e do espirito da mulher.

Creia-me

                                                  muito seu amigo,

Braganca, 7 de fevereiro de 1872.

                                              _Alexandre da Conceição._

      *      *      *      *      *



Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição


                                                         Meu bom amigo:


Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares,
abundam as palavras e escacêa o methodo, a deducção clara, e a
argumentação logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta
um pouco preoccupado, e eu com mais justa razão o poderia accusar de
igual desleixo, o que é em si muito mais para sentir attenta a sua
intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo.
Vejo-me portanto, obrigado a pôr nos seus verdadeiros termos esta
conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que
demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos,
foram estes:

«O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett
queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa
d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um
homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e
admiro em qualquer homem.

«Mas eu já tinha no corpo a peçonha da poesia; aborreceu-me o Serret,
errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que não
pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de
menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.

«Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a
minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre
plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a
arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja
impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo
denunciam a milicia dos mortos.

«N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo
Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós
sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas
na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica
ha-de perseguir-me além da morte!»

Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas
mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas não eram tão
destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente
acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como
Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica «é uma atmosphera de
verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida»; e
finalmente «que esta poesia da sciencia não era só accessivel aos
espiritos iniciados n'ella», senão que tambem se lhe afigurava muito
para ser entendida e afagada pelas mulheres.

Esta a summa da sua argumentação.

Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas
grandes syntheses, nas suas vastas concepções, e que o meu espirito não
tinha chegado a este apogeu aonde só podem subir as intelligencias
privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama é
preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o
seu esplendor;--que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao
mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os
outros não vão era já prova mais que sufficiente de que para elles não
havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o
universo; disse-lhe outrosim que não negava nem discutia que a
mathematica fosse um instrumento de verdade, o que não obstante tinham
feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto era esse estranho
ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel
a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que
alguns havia que só a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter
pé nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os
regulamentos academicos. Quanlo á competencia das mulheres para
entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os
problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que não era minha
opinião dar tamanha latitude á instrucção feminina. Já vê que não fui eu
que puz esta questão accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu
tambem accidentalmente.

Deixemos porém isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a
unidade das materias que me proponho tratar.

Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que
expunha as mathematicas elementares na _linguagem hirsuta das cadeiras_,
na opinião de Garrett, que amontoava explicações confusas, citações
nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante.

A clareza é a primeira condição para nos fazermos entender, e os
mathematicos charlatães não a podem ter, porque elles mesmos não
digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica
em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia.

Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco
preoccupado, diz-me que «ha salvação possivel fóra da sua igreja, e que
para divisar uma face á verdade não é absolutamente indispensavel saber
dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da _Popa do Navio_.»

Isto e o que eu digo é simplesmente a mesma cousa; o Conceição está
portanto commigo.

Se ha salvação possivel fóra da sua igreja, o mesmo é dizer que se póde
ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber
grande mathematica.

A verdade é a côrte das idéas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas
se devem grupar ao serviço da intelligencia soberana. A familiaridade
com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais
curto para chegar á verdade, e como o meu amigo observa que ha salvação
possivel fóra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica não
é o unico methodo seguro para conseguir tal fim. Não sei se é ou não,
pela simples razão de não saber mathematica.

Por isso é que eu tinha dito: «Não nego nem discuto que a mathematica
seja um instrumento de verdade,» e mais abaixo:


«Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que
quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua
replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de
preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi
penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou
d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descançado o
somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura
com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo
de flôres. Isto é o que meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da
sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada
um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a
esta disposição, é publico.»


Como eu não posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim
para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a
verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo é um exercicio de
gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do
espirito. Mas do que eu não posso duvidar é de que as outras sciencias,
como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram
verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades
intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica
é a unica estrada que leva á Roma da verdade, dizendo que «ha salvação
possivel fóra da sua igreja»; mais arraigado fico eu pois ao pensamento
de que um homem póde ser grande sem a muleta da mathematica. Não admira
que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque
quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, está
apta para abranger todos os conhecimentos humanos.

Se porém um limitado peculio mathematico não permitte attingir-se esse
grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas
respigadas em outros thesouros de sciencia, então é muito para
duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha «mathematicos seccos
de espirito» é que tão pouco se exercitaram n'esse ramo de
conhecimentos, que não chegaram á perfectibilidade intellectual relativa
ou porque a sua intelligencia d'elles é pequena, rachitica, tacanha, e
assimila pouco, não podendo digerir a variedade de conhecimentos pela
sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos
creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas
estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de
cansaço e de inepcia porque a cabeça se lhes nega a ir mais longe.

É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia
d'homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.

Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos,
nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, não ha
difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; são como os
Alexandre Magno e os Napoleão que não recuam diante da metralha
inimiga e vôam no corcel impaciente até que a morte lhes arrefeça o
sangue nas vêas. Da theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos
_mathematicos-executantes_ deduz o meu amigo o seguinte argumento:


«Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de
todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e
massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento,
esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás
influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.»


Esta maneira de deduzir é que a mim me quer parecer extremamente
sophistica. Então o meu amigo acha que se póde sujeitar a influencias
materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer então
medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um só
grau de desenvolvimento intellectual, não teriam hoje menção especial os
Newton, os Galileu e os Laplace.

O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua
rara intuição todas as difficuldades e devassou os mais reconditos
segredos da arte dando ao mundo o _Tractado da harmonia_[6] um
verdadeiro monumento que não poderia ser escripto por qualquer
executante secundario da orchestra de S. João.

E porque não poderia? Segundo as suas conclusões, porque a musica os
«fez mirrhados e massadores.» Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos
quinze annos; logo, ainda segundo as suas conclusões, foi porque
resistiu ás influencias esterilisadoras da poetica. Não sophisme, meu
amigo; bem sabe que ha aptidões excepcionaes e especiaes, que os Newton
e os Victor Hugo são grandes porque não são vulgares.

Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo é ter
aptidão natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos
considerar irmãs gemeas.

Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a
geographia e com a historia. Todavia esta affinidade não se dá a meu vêr
entre a mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas á
verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela
sensibilidade, pela imaginação, e a outra pela intelligencia, pela
razão. É preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente
organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:


«Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua
argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem
póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.»


E na primeira dizia que dessem á França mais arithmetica e menos versos,
e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradicção. Então foram os
versos que mataram o calculo,--foram as demasias do coração que
allucinaram a cabeça. Portanto uma cousa e outra são incompativeis.

Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devêra a sua
reprovação em mathematica ás influencias nocivas da poesia, e que só
combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se
com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.

A mathematica dilata a razão, como a poesia dilata o coração. Uma vai
após a razão, a outra após a sensibilidade, e tanto isto é verdade, que
os grandes litteratos são achacados ás irritações nervosas, ao _genus
irritabile vatum_, como diziam os antigos. O melhor poeta será o que
sentir melhor; o maior mathematico será o que calcular melhor. Portanto,
é indispensavel uma organisação especialissima para ser tamanho n'uma
como na outra. Lopes de Mendonça que tentou passar das amenidades da
litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administração,
de tudo o que era adverso á sua inclinação natural, acabou por se perder
para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.

A nossa conversa fica n'isto: Não nego que a mathematica forneça
processos seguros para a percepção da verdade, nem o meu amigo affirma
que só pela mathematica se chegue á verdade, o que é o mesmo que dizer
que sem se ser forte em mathematica, se póde ser grande em qualquer
outra cousa,--em litteratura por exemplo. Faço entre os mathematicos,
como entre todas as sciencias e artes, a distincção natural que
offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de
que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo
antagonismo natural de modalidade, como se dá por exemplo entre as aves
e os peixes cujo fim commum é a vida, com quanto umas vivam no ar e
outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinião mostrando que a
poesia no seu proprio espirito só cedeu campo á mathematica, depois que
a expulsou a ella, a poesia, e que a França não attingiu o _fim_ que
devia attingir, porque empregou o _meio_-poesia, em vez de empregar o
_meio_-mathematica.

Vamos agora á que o meu amigo chama _magna_ questão da educação da
mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase
«responder com a _aria_ da _Traviata_ ao X de uma equação algebrica.»
Isto ou é gracioso ou serio. Se é gracioso, é improprio d'uma questão de
doutrina, e se é serio, colloca-se o meu amigo na posição de não poder
continuar uma discussão com um contendor que larga a cantar á desgarrada
quando o meu amigo lhe está expondo argumentos, e corre além d'isso o
risco de se contradizer porque não se concebe como o Conceição,
acreditando que eu estudo, suppõe que eu possa cantarolar quando o meu
amigo raciocina.

Eu chamo _impiedade_, no nosso caso, ao desprezo pela religião e
portanto á incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais
a mulher, roubou-lhe a meu vêr a timidez que lhe é natural, e portanto a
candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questão no
_Jesus Christo perante o seculo_. Na minha opinião a mulher deve ter a
instrucção da preceptora, não a erudição de uma academia. Já vê que não
quero a mulher ignorante mas que tambem a não quero sabia.

O Legouvé, cuja leitura me recommenda, já era meu conhecido,--estava na
minha estante.

Acho a _Histoire morale des femmes_ um bonito livro, mas não um livro
irrespondivel, irrefutavel.

Vejamos o capitulo _Educação_ que friza ao nosso caso, e permitta-me que
lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas.

Cita Legouvé o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo
astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada,
enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que
não é o mesmo que comprehender melhor.

N'outro relanço diz Legouvé: «Ser esposa e mãi é simplesmente dirigir um
jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude
de todos, que sei eu, é simplesmente amar, orar, consolar? Não! É tudo
isso; mas é mais ainda; é guiar e educar, por consequencia é saber.» Ora
guiar e educar é saber, mas saber astronomia não é guiar e educar.
Dando-se tão lata instrucção á mulher, occasiona-se um desequilibrio na
familia, desapparece um dos elementos primordiaes,--o pai. Ha um excesso
de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a
mulher usurpou as funcções educativas do esposo.

Tinha muito que lhe dizer, mas nós tratamos tantos pontos ao mesmo
tempo, que é impossivel continuarmos assim.

Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia.

A Europa está n'uma verdadeira época de transição. Tudo é fluctuante,
incerto. Não tarda, segundo penso, uma evolução geral, que se presente
através dos acontecimentos presentes. A sociedade está em ebullição e
por conseguinte falta de instrucção; a litteratura resente-se d'este
estado geral, e por isso produz pouco e mal.

Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido
os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se
retiraram da arena, e nem a sociedade lê, porque não entende, nem a
poesia canta, porque não tem voz.

O que se dá entre nós esta-se dando actualmente em França onde o theatro
vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros são
apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza.
Sedan parece-me que não é um facto sem proximas consequencias europêas.
A litteratura e a politica estão n'uma indolencia esterilisadora, e isto
assim não póde continuar.

A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendonça: «A nossa decadencia
litteraria retrata-se com a mais severa exactidão nos factos da nossa
historia politica.» O mesmo é em todos os outros paizes.

Estas evoluções são fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos
corpos não podem subsistir sem a renovação incessante da materia. As
nações são corpos collectivos, e estão sujeitas a esta lei de renovação
perpetua. A poesia está defecada porque respira no meio d'uma sociedade
igualmente defecada;--d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto é o que
me parece.

Deixe-me,--e já me ia esquecendo,--levantar uma phrase sua a respeito de
Chateaubriand, o qual «se esqueceu de metrificar o _Genio do
Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser
recitado ao piano.»

Eu não esperava isto de si, meu caro Conceição. O _Genio do
Christianismo_ afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente.

Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes
de Mendonça tambem, e Garrett escreveu simplesmente no _Tractado da
educação_: «Mr. de Chateaubriand diz em sua obra _immortal_ do _Genie du
Christianisme_, etc.»

O meu amigo dir-me-ha agora se Guizot, Garrett e Lopes de Mendonça são
uns futeis.

Visto que me não permitte que publicamente confesse que tenho muito a
aprender da sua intelligencia, consinta ao menos que me assigne

                                                    seu admirador,

Porto, 20 de fevereiro de 1872.

                                                  _Alberto Pimentel._

    [6] Nós vêmos, por exemplo, um musico mediocre produzir um
    effeito mediocre com um excellente instrumento, e pelo contrario um
    excellente musico produzir um admiravel effeito com um instrumento
    mediocre. Aqui o genio não se póde medir pelo instrumento material.
    Vêmos as lesões do instrumento compensadas pelo _genio_ do executante,
    tal instrumento doente e maltratado tornar-se uma origem de maravilhosa
    emoção nas mãos d'um _artista_ arroubado e sublime. Vêmos um Paganini
    obter sobre a corda unica d'um violino effeitos que um artista vulgar
    procuraria em vão n'um instrumento completo, ainda que fosse obra do
    mais habil fabricante; vêmos Duprez sem vos sobrepujar pela alma todos
    os seus successores. Em todos estes factos, é indubitavel que o genio
    não se mede, como ha pouco vimos, pelo valor e integridade do
    instrumento de que se serve.»

                                  PAULO JANET--_Le cerveau et la pensée._

    O snr. Alexandre Herculano escreveu tambem em nota ao _Eurico_:

    «Se a arte fôra facil para todos os que tentam possuil-a, não nos
    faltariam artistas!»

      *      *      *      *      *



Terceira carta do snr. Alexandre da Conceição ao author


                                                         _Ill.mo amigo._


Este nosso palestrear leva geitos de não terminar este anno, e estamos
apenas em principios de março. Em cada folhetim seu surgem a par da
primitiva questão, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro
da _triste figura_, outras questões qual d'ellas mais grave e mais
complicada. Vamos mais uma vez á primeira questão, a vêr se conseguimos
entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca.

É ou não verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta
amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim,
revela manifestamente a opinião de que o estudo das mathematicas é
inimigo inconciliavel da aptidão poetica, pois que muitas das nossas
melhores reputações litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco,
etc., mostraram com o seu muito amor ás letras e ás musas horror igual
pelos numeros e pela algebra? Creio que é verdade, e esta opinião já o
meu amigo concordou que não é segura, pois que me diz na sua ultima carta:


«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes
poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de
desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»


Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se _póde_
attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual--o que não
implica que esse grau de desenvolvimento se não possa attingir com outra
qualquer ordem de estudos--e confessa mais que uma intelligencia chegada
a essas luminosas alturas está apta para a comprehensão de todas as
verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora é isto exactamente
o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o começo, pois que
se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o
maximo grau de desenvolvimento intellectual não é incompativel com o
desenvolvimento da aptidão poetica, é claro que, _em principio_--que,
como todos os principios, tem as suas excepções--o estudo das
mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á
inspiração artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que não sou eu que
estou de accordo comsigo, mas que é o Pimentel que se pôz de accordo
commigo, não pela força dos meus argumentos, que são d'uma debilidade
lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei
a attentar.

Depois d'isto será desnecessario dizer-lhe que eu não chamo aptidão
poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua
accepção mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a
comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso á
poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi
nos ministram quotidianamente, não serei eu que o duvide, que com as
mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palôr da
lua, ás brisas, á alvura dos lirios, á modestia das violetas e a outras
especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal
nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas
almas a sublime loucura do genio, não creio, nem o meu amigo o póde crêr
tambem, porque a poesia assim comprehendida é a manifestação da
intelligencia no seu estado de graça.

Esta questão por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me
compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada
a apparente contradicção que o meu amigo notou nas minhas idéas sobre
este assumpto, termina aqui, porque isto vai tomando geitos d'uns _dize
tu direi eu_ interminaveis.

Vou pois responder á contradicção que me aponta, e passar a conversar
comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim.

Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos não são
contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto
litterario, estou em opposição commigo mesmo quando avanço que se dessem
á França mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel.

Crivei este periodo umas poucas de vezes e, á parte o joio dos meus
defeitos grammaticaes--com que já me não afflijo porque estou calejado
no peccado--não achei cousa que se parecesse com uma contradicção.

Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questões mais
serias com a leviandade que lhes é propria, de fazerem romances quando
se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de
discutir sciencia, de sonharem theorias de governação platonica quando
se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem ás
turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas
e defender a patria.

Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo não podia deixar de
entender assim.

Que contradicção ha entre isto e a minha these de que o estudo das
mathematicas não póde ser prejudicial á aptidão poetica?

Póde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como
eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo
rebeldes ao senso pratico e á comprehensão das questões positivas?

Creio que não, porque sendo a litteratura, como não podia deixar de ser,
o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma
dada época, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e é o que se
está vendo em França actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda
a parte em identicas circumstancias: á falta de tino pratico, de
seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convicções corresponde o
abaixamento litterario filho d'essa depressão de espirito e de caracter.

Menos contradictorio com as minhas opiniões actuaes é o facto que me
aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas _Alvoradas_ pelas
contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as
mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia _piegas_,
e eu nunca dei outra.

Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:


«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia
de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»


Se não se offende peço licenca para lhe dizer que eu estou na innocente
persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão
importante, a não ser alguma physiologia official _ad usum delplini_.

Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica,
quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas
elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz _averiguado_
me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente
resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz
em S. Bento.

Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir.
Adiante.

Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis
reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a
educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:


«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na
familia, desapparece um dos elementos primordiaes--o pai. Ha um excesso
de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a
mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»


O meu amigo crê que ha actualmente _equilibrio_ na familia? Mas que
qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me,
por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer que haja
equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas
e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive
em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu
amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia
especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas
creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta,
é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de
sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle
estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o
coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que
não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a
força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em
geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas
para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina,
por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas
almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a
indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a
crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e
prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das
ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das
ambições domesticas legitimas.

Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve para lá ir comer ou
dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma
companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato,
que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho.
D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com
as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós
lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta
nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a
que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado
social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos
sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos
obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a
litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de
sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns
respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos
salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela
rua.

A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com
o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.

Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor
dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e
logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham
utopia ridicula a emancipação da mulher e não acham grotesca a
emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e
brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a
mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza
de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos
medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do
trabalho intellectual da mulher!...

Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á
opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a
mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia
nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam
as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a
perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós,
pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem
distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos
á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses
direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa
d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a
historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois
démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal
a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao
homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo!
Perigosa sensibilidade a que prescinde da intelligencia; e é com effeito
essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa,
indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta,
que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do
termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de
aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do
trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.

A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que
usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a
não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial,
educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que
quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira
preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido
usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o
principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o
trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é
preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher
actualmente.

É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel
Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo
numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a
mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução
d'essas questões. Por exemplo: as questões de beneficencia, de
instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia,
com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só
o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução
completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do
ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços.
Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa,
esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da
hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da
frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de
todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a
sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos,
todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da
mulher contemporanea.

Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação
amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada
mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e
politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me
assustam as consequencias legitimas de principios que considero
verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de
utopista, de exaltado e de revolucionario.

Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o
meu amigo ataque tambem francamente os pontos que julgar vulneraveis.
Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a
coragem que me dão as minhas profundas convicções.

Vou terminar por hoje.

O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas
muito boas é muito bonitas ácerca do _Genio do Christianismo_ de
Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por
ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar
de todas essas authoridades, eu considero o _Genio do Christianismo_ um
bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso
tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como
livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me
dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se
quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que
não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém
d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre

                                              seu amigo e admirador,

Bragança, 3 de março de 1872.

                                             _Alexandre da Conceição._

      *      *      *      *      *



Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição


                                                        _Meu bom amigo:_


Conservo-me impenitente.

Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter
já começado a cantar-me piedosamente o _De profundis_.

Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do
imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me
com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e
benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos
contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a
entender com a sua phrase do _dize tu, direi eu_, se está contorcendo
nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.

Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião, que se me afigura
sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde
comecei a pugnar.

A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de
demonstração em demonstração até chegar á verdade final,--a conclusão.
Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á
força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella
cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.

A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe,
desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque
muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma
ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes
poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que
pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por
isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com
a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia,
não devaneia, não sonha,--raciocina. Segue um methodo, um processo, um
calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte,
póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como
Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia,
como Lamartine.

Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e
essencialmente sonhadora, e em vez de a educar em Homero, em Virgilio,
em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo
mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido
e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das
vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico
para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se
transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina
florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E
resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para
outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz
intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos
salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando
á porfia com o echo melodioso do seu ideal...

Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a
gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta
mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem
fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.

Disse eu e repito-o:

«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes
poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de
desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»

Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou
uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa
gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender
toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe
analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo
a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á
cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva
uma ou outra rarissima excepção, é escrever a _Illiada_, e ser Homero.
Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá
melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton,
apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com
Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é
intuitivo.

O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de
pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de
viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e
as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas,
da ultima crise sociologica.

É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico,
primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então?
Porque _isto_ mata _aquillo_, porque a mathematica, que é a razão, mata
aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.

O meu amigo, que era mavioso poeta,--sinceramente lh'o digo,--teve de
suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das
sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor
aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social,
para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em
mathematica. A inspiração de que brotaram as _Alvoradas_ era dôce,
gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma,
desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da
poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a
levantar plantas.

Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar
pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de
melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para
isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa,
mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus
primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto--_Abençoada esmola_--e
desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e
que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.

Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.

Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar
as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado
pela pressão da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe
ha-de dizer isto mesmo.

Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda,
livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das
suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e
eu sinceramente sinto que tenha de _sahir pela honra do seu convento_
mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas
fileiras.

Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos
escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito,
entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu
conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta
intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu
mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe
permittem resistir á minha lastimavel dialectica.

Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.

Quanto ás relaçõs physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me
obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas
palavras de Paulo Janet:[7]

«A experiencia nos ensina, é certo, que o cerebro entra por uma certa
parte, por uma grandissima parte no exercicio do pensamento; mas qual
seja a causa unica e rigorosa medida, é o que não está demonstrado.» É a
massa cerebral, a composição chimica, a electricidade, o phosphoro? Não
está _averiguado_, tem razão, e a isso não era eu estranho.

Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e
Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do
pensamento.

Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.

Adiante.

Com relação á educação da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas
convicções adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das
quaes, e das não menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou
tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda não tenho razões para me
demover. Quando tiver, confessarei a minha abjuração solemnemente. Se
estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens
que teem restricta obrigação de estudar pausadamente esta questão são os
philosophos e os legisladores.

Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.

Na questão da educação da mulher aceito inteiramente as idéas do snr. D.
Antonio da Costa no seu livro--_A instrucção nacional_. Permitta-me,
pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a tão sympathico
escriptor, e que me defenda com elle.

É preciso, é indispensavel, é urgente promover a instrucção da mulher,
que está em Portugal na proporção d'uma escóla para 6:000 habitantes,
sendo que dos 146:000$000 réis votados para as escólas primarias, apenas
18 revertem em favor das creanças do sexo feminino.

Isto está d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de
dizer que se não queria a mulher sabia tambem não a queria ignorante.

Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mãi, e da mãi é que brota
a humanidade, da mãi é que deriva a felicidade social. Mas note-se,
entenda-se bem, quero a mulher educada para as funcções pedagogicas que
possa exercer na escóla ou no collegio, para as attribuições industriaes
que precise desempenhar, para as occupações artisticas que lhe possam
caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mãi, para directora,
não só destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem
para ser espelho na sociedade, divindade na familia,--para ser mãi e
esposa.

Deverá defender-se e favorecer-se a absoluta emancipação da mulher?

Digo que não,--convictamente digo que não.

Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, não desejo
portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitação que ella tem,--a
mulher. Não quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque
não desejo desmembrar a familia.

«Dizeis--escreve o snr. D. Antonio da Costa,--que a somma da
intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida
para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras
politicas e scientificas? Vêde que esta razão fundada na capacidade
igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as
funcções hoje especiaes da mulher, educação infantil, governo da casa,
costurar e bordar, formação dos costumes publicos pela influencia
domestica, devessem tambem pertencer ao homem, aliás seriamos nós as
victimas da desigualdade cujo principio combateis.»

Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica?
Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razões já expostas.
Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que
soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe
disputa essa? que «é verdadeira, como diz Paulo Janet na _Familia_--é
evidente, e condição essencial em uma familia completa e feliz.»

Isto é o que eu penso, a convicção que eu tenho adquirido n'uns estudos
placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e
crystallinos, e não se desvirtue a minha opinião, e não se diga que eu
quero a mulher analphabeta e só apta para fiar ou coser.

Isto penso eu.

Mas para que discutil-o, Conceição?

Que o discutam philosophos e legisladores, que façam luz no espirito
publico, que demonstrem, que provem, que eu então irei após a verdade.

Para questão de tal magnitude não me julgo habilitado.

Poz o meu amigo em duvida as _funcções educativas do esposo_! Pois o pai
não educa, não dirige a educação do filho! Sabe que eu não quero a
mulher ignorante, mas por não a querer ignorante, não deixo de
reconhecer que os pais são, como diz o Garrett no tractado _Da
Educação_, «os mentores e educadores naturaes de seus filhos.»
Plenamente concordo com Janet, quando expõe que «o pai esboça com
firmeza a estatua do homem futuro, e a mãi retoca, aperfeiçoa e
alinda-a.» Para isto cumpre não ser ignorante, mas não é indispensavel
que seja sabia.

Aqui tem com franqueza as minhas opiniões. Estou firme n'ellas, e
estarei sempre, até que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o
erro.

Agora deixe-me dizer-lhe que não tardam nada as andorinhas e que podemos
intimidal-as com _estes exercicios de polvora secca_. Vão cantar os
rouxinoes e eu, que mercê de Deus não tenho de resolver nenhuma operação
arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em
que o céo é azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus
dilectos remansos vou saudoso de tão socegada obscuridade. No meu lar
espera-se a primavera como uma festa, e o que é certo é que tenho
descurado as flôres da minha janella por causa d'estes malditos
algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, não obstante a honra
que me deu o Conceição em descer até pelejar lealmente commigo.

Aperto-lhe cordealmente a mão.


Creia-me sempre

                                              seu amigo e admirador,

Porto, 14 de março de 1872.

                                                 _Alberto Pimentel._

    [7] _La cerveau et la pensée._

      *      *      *      *      *



PHYSIOLOGIA HISTORICA



Beethoven


A biographia é uma nova fórma dada á historia por Plutarcho.

Seguindo o methodo seguro da inducção, caminhamos da biographia para a
synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem
para a _época_. Não concordamos portanto com mr. Paul Albert[8]
que vê n'esta evolução historica mais uma decadencia que um
progresso.

A biographia é a historia do homem, quer dizer, tem de o estudar na
dupla manifestação da sua actividade, e é por isso que ultimamente a
critica e a historia não prescindem da alliança da physiologia com a
psychologia. Por tal razão foi que o doutor Moreau, de Tours, estudou a
_Psychologia morbida nas suas relações com a historia_; que Emilio
Deschanel escreveu a _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, e que
recentemente o doutor Laborde se entregou ás lucubrações
medico-psychologicas que originaram o seu livro sobre _Os homens e os
actos da insurreição de Paris perante a psychologia morbida_.

Esboçando na tela do folhetim alguns perfis historicos, tivemos sempre
em vista a noção de temperamento, ou antes, e melhor, o dualismo de
Platão, que definiu o homem na expressão «d'uma alma que se serve d'um
corpo», e porque, segundo uma expressão feliz de Emilio Deschanel, para
conhecer o fructo é preciso conhecer a arvore.

Posto isto como exordio já demasiadamente longo, fallemos d'um grande
genio que enche de esplendor a historia da musica, d'um compositor
nervoso, hypocondriaco, melancolico,--Beethoven.

Antes de escrevermos do artista, saudemos a arte, esta linguagem
sublime, que parece revelar-nos o infinito, d'origem divina, porque se
nos remontarmos ao pantheismo oriental teremos de vêr a musica
considerada como imperfeita imitação da harmonia que produzem os
movimentos dos corpos celestes.

Na tradição asiatica, devemos procurar a origem da musica na organisação
do universo. As sete nymphas _Swaras_ são a personificação das sete
notas. _Saraswati_, filha, mulher e irmã de _Brahma_, representa a
primeira nota da escala dos sons[9].

Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta
grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas
particulares.

Seja o que fôr a musica, venha ella do céo ou da terra, dos astros ou
dos homens, bemdita seja, que nos leva após si a umas paragens ethereas
de um paraiso desconhecido. Abençoados sejaes, sacerdotes do bello, que
lançaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia.

Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de
Beethoven.

Este nome é per si só uma epopêa.

Tem a grandeza do mar, e a irradiação do sol.

Em torno do berço d'este homem sublime quer a nossa imaginação que
volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da
terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em
revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais
dôces harmonias da musica universal e pelas mais dôces gravitações dos
astros melodiosos.

Todavia a historia é que não admitte hypotheses romanescas e devaneios
poeticos; e á historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da
infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de
musica os aprendera elle com violencia, e que só abancava ao piano
quando a voz paterna trovejava ameaçadora.

O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina.

É um abysmo que se não póde abranger com a vista através do vaporoso
involucro. Mas ao primeiro raio de sol vôa desfeito o véo, e arqueiam-se
as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e
tudo são fremitos, movimentos, prodigios,--e apparece finalmente o mar,
pregoando Deus e assombrando os homens.

O véo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em
fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se
rarefaz ao primeiro raio da aurora.

Muito moço ainda, improvisou em Colonia, diante do compositor Junker, e
em Vienna, na presença de Mozart. Beethoven executou brilhantemente, o
que todavia não impediu Mozart de suppôr que elle reproduzia de memoria.
Então Beethoven pediu um thema, e devaneiou ao piano longo tempo. Este
prodigio arrancou a Mozart uma prophecia: «Escutai-o com attenção;
dentro em pouco ouvireis fallar d'elle.»

Luctar é o condão do genio; o mar creou-o Deus para a ebullição eterna.

Por mais d'uma vez se bateu Beethoven ao piano, em duello artistico, com
o compositor Woelff.

Essas noites de calorosa porfia foram ruidosas e agitadas, porque o
partido de Beethoven era capitaneado pelo principe de Lichnosky, e o de
Woelff presidido pelo barão Raymundo de Wezslar. Uma deliciosa _villa_
do barão, em Grunberg, era o theatro d'estas luctas homericas, onde o
genio fecundo de Beethoven revelava uma prodigiosa faculdade de
concepção, e uma imaginação estupenda, que tinha alguma cousa das noites
sombrias e mysteriosas das florestas.

Não obstante, o demonio da melancolia havia empolgado o espirito de
Beethoven desde os primeiros annos.

Era uma consequencia do seu temperamento, aggravado pelos primeiros
signaes de surdez, em plena mocidade.

Aos vinte e nove annos escrevia Beethoven a um amigo da adolescencia,
lamentando-se amargamente da perda imminente do ouvido, e pedindo-lhe
que não transmittisse a confidencia a ninguem, nem mesmo a Leonor de
Breuning, outra companheira da adolescencia, que fôra de certo a mulher
amada de toda a vida. A unica opera que Beethoven escreveu, movido por
instancias de amigos, tomou o nome de _Leonora_, sendo que depois de
reprovada pelo publico de Vienna reappareceu em scena com a denominação
de _Fidelio_.

Gustave Bertrand, no seu livro _Les nationalités musicales_, diz que a
opera fôra cantada n'uma época politicamente calamitosa, que o libreto
era deploravel, e que o desempenho orçára pelo libreto, com quanto os
mesmos partidarios de Beethoven, reunidos em congresso, lamentassem ter
de accusar o _maestro_ de certa culpabilidade no desastre. Quatro annos
depois voltou á scena a opera, mudado o nome, e foi igualmente rejeitada.

Então começou a cerrar-se uma noite profundissima na alma de Beethoven.
Minguado de recursos, ameaçado de completa surdez, agitado pelas
nevroses continuas do seu temperamento, escondendo talvez no peito uma
dôr mais que todas dilacerante, porque Leonor de Breuning havia
desposado Wegeler, o amigo do _maestro_, a quem primeiro fizera a
confidencia das suas apprehensões, viu-se Beethoven compellido a aceitar
o lugar de mestre de capella do rei de Westphalia, Jeronymo Napoleão.
Quasi ao mesmo tempo, o archiduque Rodolpho, o principe Lobkowitz e o
conde de Kinsky resolveram obrigal-o por um contracto, mediante a renda
annual de quatro mil florins, a não sahir do territorio austriaco.
Beethoven, grato a esta consideração já então muito para estranhar, e
hoje impossivel, fixou residencia em Vienna.

Era em Baden, a cinco leguas da capital, que elle vivia a maior parte do
anno.

Cortadas as suas relações com o mundo exterior, doente, melancolico,
quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava
pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a
despeito da opinião geral de que a posição perpendicular é a que menos
favorece os actos do espirito, e a mais adversa á inspiração.

Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina dos _Grotesques de la
musique_, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso:

«A posição horisontal é evidentemente a mais favoravel ao trabalho da
intelligencia, á expansão do espirito, e isso concebe-se. O nosso
cerebro é a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de
idéas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas
humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor;
todos os physiologistas vol-o dirão. Quanto mais este liquido affluir
facilmente á caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir
idéas ou vapores.

«Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a
_Candida_, gozava de vigorosa saude quando poz mão na _Henrieida_.
Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede
onde gostava de se deitar para compôr; foi onde elle pensou as suas
deliciosas obras primas, _Paul et Virginie_ e a _Chauniére de la
Nature_. Quando em seguida compoz as _Harmonies de la Nature_ e quiz
explicar o phenomeno das mares pela liquidação dos gelos polares, já a
rede estava velha, e não pôde servir-se d'ella.».

Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a
sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de
subito respeito, e crianças, velhos e mulheres não o deixavam de saudar
com estas palavras: «_Alli vai Beethoven!_» saudação que o _maestro_ não
podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admiração.

Como n'essas longas horas de excursão campestre ou urbana redemoinhariam
na alma de Beethoven as recordações dolorosas de melhores tempos! A
imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de
apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com
aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor
observação dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor
de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram
dissenções de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos
de outr'ora. Todavia a distancia não pôde endurecer o coração, porque,
na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo:

«Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se
possuisse um collete de pêllo de coelho, costurado pelas vossas mãos,
minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa é
do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mãos, e depois
tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: é
poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha
de Bonn.

Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em
Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora só me resta conserval-o n'um
guarda-roupa, como um objecto que me é muito caro porque vem de vós...»

Ah! o coração namorado palpita ainda sob estas formulas respeitosas da
epistolographia. É manifesto. O collete, costurado pelas mãos de Leonor,
queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando
umas recordações sempre vivas.

Foi satisfeito o pedido? Foi e não foi. Em vez d'um collete, recebeu
Beethoven uma gravata, o que não é menos significativo, porque uma
gravata, dada por uma mulher, é o mesmo que dizer-nos ella: «Com este
delicado esparto estrangula tu todas as palavras que não sejam para mim.»

Beethoven agradeceu epistolarmente: «A bella gravata, obra de vossas
mãos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem
doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordação do
tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vêr como sois generosa para
commigo...»

Em 1806 o nome de Leonor é substituido pelo de Julieta, em tres cartas,
das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo
entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias,
as circumstancias, obrigaram Beethoven a lançar este véo transparente
sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia não póde
duvidar.

Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que
sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior,
já bruxoleante.

De longe a longe descia um raio de sol aos carceres d'aquella alma. Os
nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descançavam por
momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta
favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto.

Á surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro
mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro.

O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito
de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do
ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados.

Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do
maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o
governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava ás verberações de
Beethoven. «Escrevei uma collecção de psalmos de penitencia,--dizia elle
a Hummel--e dedicai-os á imperatriz.» Era ainda a Hummel que elle
confidenciava entre afflicto e pensativo: «Sois feliz, porque não vos
falta uma mulher que vele por vós. Mas eu, ai de mim, _povero_ que sou!»

N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboçou no papel a casa onde
nascera Haydn; pendurou o desenho á beira do catre, e por mais de uma
vez revelou que lhe era consolação estar contemplando as paredes dentro
das quaes viera á luz do mundo um grande homem.

Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava a duas pessoas
que acabavam de entrar no seu quarto: _Plaudite, amici, comoedia finita
est._ Nas horas que lhe restaram de vida parece que não mais referveu
nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada
por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como
lhe chama Deschanel. E é certo que os livros de Goethe e as partituras
de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. São
como os grandes lagos, que ora se anilam sob um céo transparente, ora se
revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes.

Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes
Beethoven costumava sentar-se para descançar dos seus longos passeios,
mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o
pouso devoluto, não contam ás gerações os monologos do _maestro_, nem
quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor...

    [8] _La Prose, leçons faites a la Sorbonne._

    [9] _Traité complet de la theorie et de la pratique de
    l'harmonie, par Fetis._

      *      *      *      *      *



Raphael

A MR. PELLEREAU


Era um talento enorme.

O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os
primeiros traços, a lançar as primeiras tintas na tela.

Mas é ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos
Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.

O céo d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre
as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza até á bahia de Napoles.

Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com
todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doçura.

Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e
disse-lhe:--Parte.

E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa
no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia
formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.

Dias depois entrava no _atelier_ de Perugino, em Perugia. Um artista
hospedava outro.

A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser
mais alguma cousa do que um simples hospede,--ambicionava ser discipulo.

Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre
inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede
nem o quereria já como rival.

Tinha dezesete annos.

Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a
mão, e Perugino ficára vencido.

Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas
dimensões, o celebre _Sposalizio_, cujo assumpto delicado e formoso é o
_Casamento da Virgem_.

O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo,
respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na _maneira_ do mestre.

Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura
quebrar as gramalheiras da imitação.

É a época da liberdade.

Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na
reforma artistica por que ia passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael
foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da
pintura.

Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e
mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.

Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a
arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em
campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde
podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o
seu anjo da guarda;--a gloria o sonho de todas as horas.

Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e
dividindo o tempo com a arte e com o amor!

Fóra do _atelier_, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a
_fioraia_; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres
d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que
o seu pincel a reproduziu espontaneamente na _Bella Jardineira_, a
primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na
galeria do Louvre.

Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava
travada a lucta entre os poderosos athletas.

Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia
envolver-se n'um manto de roçagante magestade.

Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O
torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do
mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor,
deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.

O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era
Bramante, tio de Raphael.

O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael
despediu-se da _fioraia_ e aceitou, entre triste e distrahido, umas
flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença
ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia
lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...

Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz
para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados
rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.

Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel
era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano.
Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do
seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:--a
Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.

O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante
do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os
_frescos_ que os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era muito e
ainda não era tudo;--começava a realisação do sonho.

E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma
sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a
Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença
artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem
siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros.
Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre
que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael
o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho
artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante,
aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos o _Juizo
Final_, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á
capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo
e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida
transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia
consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece
aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de
outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos á _Santa
Cecilia_ de Raphael, exclama arrebatado: «_Anch' io son pittor!_»--La
Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no
fogo da inspiração.

Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano e não póde
conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael
estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»

E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho
d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a
gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição
artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos
ruidosos de Mozart.

Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam
coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e
Giotto.

Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura;
Brunelleschi levanta o zimborio de _Santa-Maria-del-Fiore_; Colombo
descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as
trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a
consciencia individual;--Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci
rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois
d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade
media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a
arte.

Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e
portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no
catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em
Magdalena e na Virgem. Da religião catholica nasce a poesia moderna. É
um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores
architectos.

As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.

A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura
a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau,
a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na
historia sagrada mais que a historia da humanidade.

Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira,
um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel
a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre.
Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de
voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros
notabilissimos--_Galathea_ e _Psyché_.

Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio
d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as
opiniões; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e
Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa,
como a de Bellini e Beethoven.

Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa
compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos
vêr n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes
que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos
antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos
prazeres desregrados e ás expansões vehementes.

Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus
cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros,
davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.

Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, _fornarina_, a filha do
padeiro.

Muitas vezes, emquanto pintava a _Galathea_, abandonava a paleta para ir
vêr _fornarina_, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da
segunda metade da vida de Raphael.

Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se
esbate n'um azul delicioso, _fornarina_, que estava cuidando d'umas
flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir
passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim
das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das
estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.

--Raffaelo! exclamára a _fornarina_.

--Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu
tenho ciumes d'ellas.

--Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já
te não lembras de Florença?...

--Ah! sempre cruel e formosa!

--Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os
encantos da _fioraia_.

--Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que
o meu amor é só teu. Não falles da _fioraia_, que é apenas uma
recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que
te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa.
Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando
nas faces da _Galathea_ o colorido da _fornarina_! Quero deixar o teu
retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se
visses a _Galathea_, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura
animada pelo meu amor.

--Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?

--Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.

--Ah! E o amor da _fornarina_ ha-de extinguir-se um dia como as flôres
da _fioraia_. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres
pintado a _Galathea_. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de
subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua
vida. Que resta da _fioraia_? A _Bella-Jardineira_. Que ha-de ficar da
_fornarina_? A _Galathea_. Ella era mulher do povo; eu tambem sou.
Cabe-nos a mesma sorte;--o esquecimento. O teu amor é um capricho de
artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu
coração. O artista copia, mas o homem não ama.

--Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o
espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance
extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de
esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o
cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se.
O espirito dos artistas é lava;--queima, escalda, por isso o corpo
succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que
os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...

--Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo
perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um
sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar
tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não
falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não
succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou
pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que
bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer
inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!

Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no
seio.

D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento
do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o
navio que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento
precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao
saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de
Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.

--Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu
pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento,
na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em
sorrisos...

--Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria?
Fallas d'um quadro que perdeste! E a _Disputa do Santo Sacramento_? E a
_Escola de Athenas_? E _Psyché_? E _Galathea_?--a _Galathea_ que sou eu,
que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde
ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu
nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das
realezas do mundo--a gloria!

Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de
Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo.
Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára
o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia
italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.

A _Transfiguração_, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis,
foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha
n'esta composição--escreve Valentin no seu livro _Les peintres
celébres_--figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão
novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os
artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»

Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da _Transfiguração_,
quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se
pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se
demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S.
Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente
atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.

Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos
de Raphael.

--Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso.
Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa
esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,--é
amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me da
_Glycera_. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado
trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se
extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso
espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...

N'este momento entrava Julio Romano.

Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado
colhia nos braços Fornarina para a tirar da camara onde ella sentia os
pés chumbados ao pavimento.

Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio
Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma
propriedade que possuia perto do Vaticano.

Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu
ao Creador a grande alma.

O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de
preferencia costumava trabalhar. Á cabeceira, erguia-se o quadro da
_Transfiguração_.

Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro,
alteavam-se depois á tela onde o pincel do artista havia traçado a
epopêa da sua gloria...

    [10] Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.

      *      *      *      *      *



Luiz Rossel


Quasi á mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 começava
a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do
tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas
denegridas pela polvorada da communa.

Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte,
na mais cruel e dolorosa incerteza com que se póde opprimir um homem
dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido
pelo coronel Merlin, havia sentenciado á pena ultima os communistas
Rossel, Ferré e Bourgeois. Os processos foram enviados á commissão de
indultos e desde então começou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E
a commissão não se lembrava talvez de que per si mesma impunha uma nova
pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia
melhorar, confirmando a sentença, sem tão deshumanas delongas! Grandes
criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da
morte durante cento e oitenta dias de carcere!

Um d'elles, Luiz Rossel, despertára profundas e geraes sympathias.

Durante esses seis mezes de suprema tribulação, era-lhe consolo extremo
a dôce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas
quando a saudade da familia acudia intensa a despedaçar-lhe o coração.
Com que dolorido enthusiasmo não fallava elle de seu pai, de sua mãi,
das suas pequenas irmãs, Bella e Sara!

O sacerdote protestante que lhe assistia pôde sondar-lhe vagarosamente
as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa
observação foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia á
commissão d'indultos e ao presidente da republica franceza.

«De todos os pontos da França--escrevia o padre Passa--vos dirigem esta
supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis
mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus,
para se preparar para a morte.»

«De todos os pontos da França!» escrevia o assistente espiritual de
Rossel. Que crime tinha então commettido elle que inspirava tamanha
compaixão? Rossel desertára das tropas de Versailles para as tropas da
communa.

Fôra julgado desertor e condemnado á morte. Henrique Rochefort, que
desertára tambem da republica para a communa, fôra simplesmente
condemnado a deportação para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort,
espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperança da
amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomára parte na
revolução de 18 de março, era condemnado sem appellação nem aggravo.

Porque desertára Rossel? Expliquemos. Rossel não era d'estes lymphaticos
que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperançados
em que tudo será pelo melhor,--embora o melhor venha longe. Era um
nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de
susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e
humanas.

Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, então ministro da guerra
na republica:

«Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes ácerca do meu
comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas,
para a defeza do meu paiz, forneceriam occasião de vos elucidar sobre a
guerra actual, de vos notar as faltas de organisação e de estrategia que
se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.»

E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes
republicanos, acrescentava:

«Em nome da nossa fé commum na patria e na liberdade, concedei-me um
cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de
vos expôr as razões das vossas derrotas passadas e dos desastres que vós
vos preparaes.»

Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? Não. Isto é a expansibilidade da
nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos
ateimem que as flôres da mocidade não chegam a ser fructo porque as
desfolham sempre os vendavaes da paixão. Não. Rossel não estava obcecado
pela amaurose da exaltação partidaria, e tanto não estava que começava a
desacoroçoar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a
Gambetta estas palavras:

Não comprehendi nunca o que vós fazieis no vosso gabinete. Quando me
lembro que Napoleão resumia em algumas horas por semana esse trabalho de
contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vós.
Elle fazia a guerra, e vós, vós, deixastes fazel-a. O vosso governo não
foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas
secretarías,--e muito pouca policia.»

O desalento lavrou fundo no coração de Rossel. Em 19 de março de 1871
escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:


«Meu general:

Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pôr á
disposição das fôrças governamentaes que se possam constituir. Instruido
por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous
partidos em lucta no paiz, _colloco-me sem hesitação do lado d'aquelle
que não assignou a paz e que não conta nas suas fileiras generaes
culpados das capitulações_.

Tomando uma tão grave e tão dolorosa resolução, sinto deixar em
suspensão o serviço de engenharia do campo de Nevers, que me tinha
confiado o governo de 4 de setembro.

Entrego este serviço, que apenas consiste em assentos d'artigos de
despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia
auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou ás minhas ordens por
determinação de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho
datado de 5 do mez corrente.

Eu vos informo summariamente, por carta dirigida á repartição do
material, do estado em que deixo o serviço.

Tenho a honra de ser,

Meu general,

Vosso muito obediente e dedicado servo

                                                      _L. Rossel._»


Data da expedição d'esta carta a deserção de Rossel. Chegado a Pariz,
não sentiu revigorar-lhe o coração enfermo de desalento uma esperança
vivificadora. Ao lêr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier
e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda
assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma
consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Então
foi o succederem-se as intermittencias de esperança e desconforto, e por
mais d'uma vez o assaltou a idéa de abandonar Pariz. As tropas estavam
indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! já não
acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na
propria dedicação. N'esta conjunctura organisou-se a _cour martiale_,
cujo presidente era. «O aceitar as funcções de presidente d'este
tribunal,--escreveu elle--é o maior sacrificio que eu tenho feito e que
eu podia fazer á causa da Revolução. Inimigo das revoluções, as
circumstancias me lançaram n'uma revolução; aborrecendo a guerra civil,
estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um
tribunal revolucionario, um tribunal que só pronunciaria sentenças de
morte.

Se eu tivesse a defender-me da accusação d'ambição, o aceitar
dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu
poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mãos?
Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir
ensanguentar o meu nome em funcções subalternas. Ha apenas uma
explicação razoavel para o meu procedimento,--é que eu me sacrifiquei á
Revolução. Não tinha escolhido nenhuma das funcções de que fui
successivamente encarregado, mas não recusei nenhuma. N'estes momentos
de similhantes crises é preciso ter a dedicação d'um sectario.» Mal
entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as
medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a
organisação de forças activas. Então começaram a empecer a sua boa
vontade as intrigas e complicações que elle não podia desviar com o pé
por serem numerosas e constantes.

«A recordação de todos estes revolucionarios presumpçosos,--diz
elle--mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um
assalto talvez, mas não d'uma vontade e d'um proposito firme, esta
recordação, digo eu, é para mim um pesadelo.»

Não obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na
organisação de tropas activas, medida que era sempre contrariada por
obstaculos cada vez maiores.

A designação de--regimentos,--que elle adoptára, em vez de--brigadas--,
para não augmentar o numero de generaes «fez sombra aos chefes de
legião, que receiavam vêr-se desapossados da sua authoridade por esta
combinação», escrevia Rossel de proprio punho.

A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados,
sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a
aldêa e o forte d'aquelle nome. Em vão tentou Rossel reunil-as de novo,
e procurou organisar forças para fazer rosto ao violento bombardeamento
do inimigo. Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura
reuniram-se os chefes de legião para protestar contra a formação dos
regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua
authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas
immediatamente. O certo é que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de
que não podiam pôr em movimento as tropas que tinham promettido.

Rossel, inteiramente desacoroçoado, demittiu-se, e poucas horas depois
fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera
pela guarnição, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. Não
obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demissão,
accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver
aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para
realisar a traição.

Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha
pouco tempo, no _Diario de Noticias_:

«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma
cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é
mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da
communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham
obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas
poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que
devia cumprir as ultimas vontades da communa, e fuzilou Rossel.
Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe
causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa
gente!»

A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das
quatro paredes do carcere.

A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem,
desvairaram-n'o.

«Quando me juntei á insurreição--escrevia Rossel do caderno das suas
notas intimas--não contava com o successo, não esperava chegar a uma das
primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra
civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar
era em Paris.»

Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam
estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.

Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á
commissão d'indultos--sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel,
antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até
no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o
consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares.
Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava.
Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz
recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez
retrocedido á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da
ordem, que era a causa da patria.

Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A
manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira
esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si
as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as
balas,--as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em
França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava
resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.

Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os
comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se
sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o
padre Passa, seu director especial.

Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais
queridas pessoas da sua familia,--sua avó:

«A mistress Isabella Campbell:

Adeus, madrinha, amo-te.

28 de novembro de 1871.

Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abençoou a nossa communhão.

Posso dizer que é a primeira vez que commungo, e estou extremamente
agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.»

Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos depois de ter recebido a
particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religião
christã, perante o qual se sentem impressionados os mais duros corações,
ao qual ninguem póde assistir sem chorar,--Rossel não mentia.

Depois da patria, como elle amava a familia!

«Não posso supportar--escrevia no carcere--que se faça soffrer meus
paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou tão pouco
preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo
pergunto muitas vezes se não será uma insensibilidade doentia da minha
parte. Mas o que não concebo, é que differindo sempre uma resolução,
dissimulando a decisão que já esta tomada, façam soffrer uma longa
agonia a meus paes, que não commetteram outro crime que não fosse o de
me ensinarem a amar o meu paiz.»

São docemente dolorosas estas palavras:

«A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mãi os passos
que deu na vespera; de repente interrompe-se: «Não posso mais! já nem me
lembro! estou douda, vês tu!» Minha irmã, que estava mais serena,
continuou a narração, que eu não pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis
tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mãi que estava serena e
minha irmã que parecia louca. Todavia nós estavamos tranquillos hontem á
noite. Mr. Passa havia-nos socegado!

«Mas eu tenho confiança--diz minha mãi--eu tenho confiança; elles não te
farão nada.» Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do
ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mãi fez-me
prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz
por fazer alguma cousa para ella.

A pequenita não chora, mas tem o coração cheio de lagrimas.

«Tambem a ti--lhe digo-eu--tambem te fazem soffrer!» N'este meio tempo,
ella rompe em soluços, por que lhe faltou a coragem.»

Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.

Está revestido d'uma resignação providencial. Vai morrer, porque deve
morrer. Não treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irmãs, dos seus,
salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente não tornou a
chorar. Quer porém mandar-lhes a ultima palavra de saudade.
Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a
porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram
de o vêr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se.
Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe dão, abraça Alberto Joly,
abraça o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e
acompanhado pelo padre Passa.

Ferré é grosseiro e materialista. Despede estultamente o capellão Folley
e escreve a suas irmãs,--crentes e nobres corações de mulher, de
certo--que vai morrer como viveu: sem crenças religiosas!

Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no
seu quarto, embriagando-se para a morte.

Pois bem. O mesmo pelotão fuzilou Rossel, Ferré e Bourgeois. O governo
de Versailles foi injusto. Não devia emparceirar estes tres homens.

Rossel chega ao lugar da execução acompanhado pelo seu confessor, como
se quizesse que elle o conduzisse até ao limiar da eternidade. O coronel
Merlin, seu juiz, está presente.

Rossel quer que lhe façam sciente de que não morre odiando-o, e pede ao
seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.

Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferença.

Ferré não consente que lhe velem os olhos, e, materialista, não se
dispensa o ultimo regalo;--morre de cigarro na mão, como quem sahe d'uma
taberna.

Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o
filho. Ao assomar á porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na
cabeça as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade;
agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.

Está ainda distincta a pequena cavidade onde descançára a cabeça de
Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e
pousa os labios descorados no travesseiro.

O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e,
instantes depois, quando aperta nos braços o tremulo corpo do velho,
orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que não póde reprimir.

Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeças
latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,--Bella e Sara, e
dizia-lhes commovido:

--Não choreis, meus anjos, que vosso irmão está no céo. Acompanhei-o até
que Deus m'o recebesse. Não choreis por elle, que é de certo feliz.

A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanças,
levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.

A republica, que é o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez
justiça e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado á familia
que o reclamára. Famosa ironia da republica!

O cesarismo dava a toda a França festas ruidosas que deslumbravam o
mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de não menos
opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe
pertencia.

A França escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava.

Mr. Thiers dá e recebe condecorações como Luiz Napoleão. Os jantares e
os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes
das Tulherias. Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame
Napoleão. D'antes a côrte era em Pariz; agora está em Versailles.

D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se
em Satory e Marselha.

D'antes applaudia-se Luiz Napoleão; agora applaude-se Adolpho Thiers.

Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; ámanhã apedrejar-se-ha o
presidente da republica.

Ora aqui está porque eu não sou monarchico nem republicano,--porque não
quero ser cousa nenhuma.

O meu posto é do lado da justiça; onde ella estiver, estou eu. É ainda
por esta razão que eu protesto contra as palavras que a _France_ atirou
para cima do tumulo de Rossel. A _France_ declara que se absteve de
fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. A
_France_ fez o que devia; não ha motivo para encarecer-se.

Depois, quando o tribunal pronunciou o seu _veredictum_, quando a
sentença foi executada, a _France_ enumera as circumstancias aggravantes
que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal,
sentenceia um cadaver.

Recorda a _France_ que Rossel encarregado de julgar o commandante de
batalhão, Giraud, no dia 19 de abril, fôra implacavel para com o réo,
accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os
debates, apostrophando:

--Mas finalmente desobedeceu!

Foi ainda Rossel que lera a sentença de morte a Giraud e que escrevera
estas palavras ao cidadão Laperche:

«É prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo
levante a coronha para o ar ou arvóre a bandeira parlamentar.

«É prohibido, _sob pena de morte_, continuar o fogo depois de se ter
dado ordem para o suspender, etc.»

«Estas lembranças--pondera a _France_--bastam para dizer o que elle foi
durante o seu commando, para dar uma idéa do que teria sido na victoria.»

E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar a
_France_. Uma vez chefe, Rossel não podia dar exemplo de cobardia, assim
como, uma vez vencido, não o deu tambem. Não trepidou diante da morte, e
se Giraud, que fôra julgado traidor aos seus, não teve a coragem de
agradecer a justiça que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz
Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras:

--Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me.

Não satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os
odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da idéa
que o sacrificára a elle.

Eu não defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar
na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e
prender Rochefort.

Entre Rochefort e Rossel a desproporção é immensa. Rochefort é um
aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel
era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util á causa da idéa
que defendesse.

Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para
a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel
está morto.

Mas a republica é o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a
protecção, dizem!

Rochefort está preso, ámanhã será amnistiado, fulminará o governo que
lhe perdoou, por que Rochefort é d'estes homens que estão sempre do lado
da opposição, e recomeçará a negociar litterariamente com a _Lanterne_
ou o _Mot d'ordre_.

Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de
communistas francezes. Como é que estes homens poderam enganar a
vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras?

Fugiram, salvaram-se, estão contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo
viverão tranquillamente em França.

Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas.

Estrondearam as espingardas;--a folha cahiu.

10 de dezembro de 1871.

      *      *      *      *      *



PHYSIOLOGIA ROMANTICA

HISTORIA D'UM NERVOSO


I

Minha mãi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.

Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposição hereditaria;
recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affecções
dynamicas.

Era eu uma creança de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada
fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreição dos
mortos, do inferno e do diabo.

Minha mãi, que não assistia a estas praticas quotidianas, não abdicava
porém todos os seus direitos educativos.

Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude
era minha mãi. Resguardava-me o peito com flanellas, prohibia-me que
comesse fructas, e não me deixava expôr ao ar, no quintal.

Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fóra de casa, oppunha-se,
nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico.
Todavia, como eu estava sempre ao pé de minha mãi, cada vez se me
arraigavam mais no espirito os seus habitos.

N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creança
que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.

Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz
tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles
tempos oppoz-se. Meu pai, que não tinha tempo para estas luctas
familiares, desistiu.

Estudava eu instrucção primaria.

O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade
intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia
estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.

Iamos poucas vezes ao theatro.

As noites de nossa casa eram tristes.

Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada
rezava ao som da minha leitura.

Não sei porque, mas eu odiava o theatro.

Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem
morresse n'um espectaculo...


II

Fiz exame de instrucção primaria e comecei a estudar o latim com um
padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns
e orações. O seu contacto dava á alma uma tristeza gelida.

Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A
concentração do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me
melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e
do dia de juizo. A idéa da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos
agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mãi. A criada
velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.

Comecei a adoecer frequentemente.

Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau,
que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas
feiras, antes de ir para a aula.

Esta predilecção pelo culto religioso provinha de certo da minha
educação biblica e caseira.

Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo.

O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanças como eu não se
vingavam.

Eu suppunha o padre muito em relação com as cousas futuras, e tremi da
prophecia.


III

Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.

Estudei francez, e logica nas aulas publicas.

Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.

Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus
condiscipulos e achava-me rachitico.

Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.

Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.

Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me a _Menina e moça_ de
Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impressão suavissima; pedi
mais livros, e li-os todos.

Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda;
eram simplesmente desastradas.

Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava
doudamente namorado pela litteratura.

Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a idéa d'um
curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A
esse tempo tinha esboçado um poemeto no genero archaico. Quando entrei
para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu
patrão era boçal. A sua presença exercia no meu animo uma influencia
tyrannica.

Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia
surprehendeu-me nas minhas lucubrações poeticas, quiz ver o meu
autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa
triste, concentrado, apprehensivel.

Tinha então dezoito annos.

A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu já tinha sido
convidado para a maçonaria.

Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular
sobre a maçonaria.

Eu não conhecia bem o espirito d'esta associação, mas sympathisei com a
maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram
tambem os meus. Comecei então a pensar na grandeza do problema social
que a imprensa se propunha resolver. O jornalismo afigurou-se-me a mais
poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio
no pensamento humano.

Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube
que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.

Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista
procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das
minhas illusões talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e
revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.


IV

Eu amava.

A minha amada era rosada e loura.

Tinha nas tranças o que o céo tem de mais formoso--o sol; e nas faces o
que a primavera possue de mais puro--as rosas.

Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia
operado em mim.

Sentia-me assombrado.

Tinha vagas aspirações, desejos indefinidos.

Queria ser grande.

Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia
politica.

O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir
ao olympo das grandezas sociaes.

Comecei a escrever artigos politicos, e já uma vez por outra se fallava
no meu nome.

Por esse tempo uma facção militante offereceu-me um circulo.

Eu endoudecia de felicidade; começava a vêr realisarem-se os meus desejos.

Sahi eleito.

Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo.

O meu temperamento desvairava-me.

Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a
cada momento a marcha da governação publica.

Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os
hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis.

Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi
os recursos com que vivia modestamente.

Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a facção
ministerial, sob promessa d'um despacho.

Renunciei dignamente, e lancei mão do facto na camara para fulminar o
ministro do reino.

Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo,
na esperança de ser nomeado conselheiro d'estado.

A maioria ficou por tanto sendo governamental.

Ergui-me para fallar.

Fui impetuoso, violento, audaz.

O presidente notou-me que eu estava fóra da ordem, e retirou-me a palavra.

Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a
resolução da presidencia.

Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante.

Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mãi.

Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente.

Dei-me pressa em partir.

Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada
tinha morrido.


V

Vi-a no caixão.

Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranças os reflexos da eternidade.

As rosas da face tinham desmaiado.

Em volta da sala havia crepes.

Senti um horror instinctivo d'aquelle luto.

Ao longe dobrava um sino.

Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre.

Se a alma é immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para
outra vida?

Se não é, para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas?

Notou alguem que eu estava excessivamente pallido.

Tiraram-me da sala, quando eu já não dava accôrdo de mim.

Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel.

Estive muito tempo sentado no leito até que me fosse possivel atinar com
a realidade.

Não sahi n'esse dia, não sahi tambem nos immediatos.

Comecei a lêr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a
cabeça humana.

Queria devassar os mysterios d'além-tumulo.

Tinha visões, dôres dilacerantes.

Chamei um medico, que me disse que as visões eram gastricas e as dôres
nevralgicas.

Aconselhou-me distracções, passeios, agitação.

Desobedeci, e continuei a viver recluso.

Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi
que a minha pertinacia começava a aborrecer aos meus amigos.

A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco.

Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir
immediatamente para o campo.

Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de
administrador d'uma casa no Minho.

Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente.

Offereci os meus serviços, que foram aceites.

O rio Lima passa perto da casa que eu administro.

O sitio é formoso e saudavel.

Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a
dirigir as maltas.

Ao domingo ou caço ou pesco.

Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura é a do jornal que eu
assigno.

Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos.

Estou d'uma carnação razoavel, sem todavia estar gordo.

Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem.

Posso rir-me de vós, ó nervosos esgrouviados, que tendes visões,
idiosyncrasias, que viveis n'um inferno.

O clarão do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo.

Dentro em pouco sereis cinzas.

O adelgaçamento da raça toma um incremento prodigioso.

Os vossos filhos são amarellos e intanguidos; já me não parecem
creanças, mas futuras congestões visceraes, dyspepsias, catarrhos
vesicaes, nevralgias e affecções calculosas.

Pobres d'elles, por vossa causa!

Um unico meio póde ainda conservar-vos, a vós, e remil-os a elles d'uma
catastrophe imminente.

Um grande medico que vos póde salvar,--a Hygiene!

Vêde bem que a questão do temperamento é uma questão nacional, porque os
nervos da patria começam a ter contracções dolorosas.

Na estatistica dos temperamentos, o nervoso é o predominante.

Pois bem. Resta um unico meio de salvação, o regimen hygienico.


VI

Costumai-os desde pequenos á gymnastica, não á gymnastica violenta do
trapezio, mas á suave gymnastica de quarto.

Mandai comprar-lhes a _Gymnastique de chambre_, escripta em allemão por
Schreber e traduzida em francez por Delondre.

Chegando a primavera, atirai-os para o campo.

Deixai-os correr, saltar, e cahir,--e cahir tambem.

Vêde bem que é preciso desenvolver-lhes o systema muscular.

Urge reformar esta raça enfesada que se está eximindo a cada passo de
servir o exercito nacional por não chegar ao estalão.

Não deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se
narcotisam com o charuto, que se requeimam com o _grog_, e se desvairam
com o romance.

E as raparigas! ah! e as raparigas!

Como ellas querem ser pallidas e languidas!

Aos dezoito annos começam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem
nevroses,--classicas e romanticas--, como as classificou Balzac na
_Physiologia do casamento_.

Havieis de vêr estas moçoilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam
tardes inteiras na valsa, em dias de romagem!

Vós, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro.

Tendes uma transparencia etherea.

Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da
superficie da terra e subir ao ar em vapor.

Depois haverá uma epidemia europêa, porque vós, particulas deleterias,
corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem hão-de cahir
fulminados.

Das alturas de Barroso descerá então uma mocetona que, solidamente
organisada, o tufão não logrou empolgar.

E da serra da Estrella baixará um beirão que zombou das correntes
atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de
canapé a Viriato.

E d'esta mulher e d'este homem nascerá a raça futura.

E a proposito de vós, ó gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas
mumias que foram desfeitas por um sôpro...


FIM





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos" ***

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