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Title: Noites de Cintra
Author: Pimentel, Alberto, 1849-1925
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Noites de Cintra" ***

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    Notas de transcrição:

    O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em
    1908.

    Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido
    corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a
    leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.



             COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--17.º Volume


                            NOITES DE CINTRA



                            ALBERTO PIMENTEL

                                NOITES

                                  DE

                                CINTRA

                   (2.ª edição, revista pelo auctor)


                                 1908
                    PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
                           LIVRARIA EDITORA
                        _Rua Augusta--44 a 54_
                                LISBOA



                  COMPOSTO E IMPRESSO NA TYPOGRAPHIA
                                  DA
                    Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
                       _Rua Augusta--44 a 54_
                                LISBOA



I


Eramos dez, e tinhamos combinado, por desfastio, ir a Cintra, na
primavera, ouvir os rouxinoes.

Parecerá menos inverosimil este pretexto, quando se disser que todos,
então reunidos em Lisboa, haviamos nascido na provincia, onde as volatas
dos rouxinoes dulcificaram as nossas primeiras noites de amor, e que o
mais velho de nós tinha trinta e sete annos apenas.

Ainda assim, como prova involuntaria de que o melhor da nossa vida era
já então o passado, não foi approvado o projecto sem uma correcção
prosaica. Sim, iriamos ouvir os rouxinoes a Cintra, visto que elles não
costumavam fazer-se ouvir nas ruas de Lisboa, mas temperariamos esse
devaneio romantico com as queijadas da Sapa, as laranjas do visconde da
Arriaga, e o _Collares_ do conselheiro Francisco Costa.

Como o mais novo de todos era o Gonçallinho Jervis, em cujo espirito
bailavam ainda pagens e castellãs n'uma chorea medieval, e em cujo
coração ardiam fogos de poetico platonismo, mettemol-o á galhofa
convidando-o a procurar na serra de Cintra um cabello da barba que
Bernardim Ribeiro haveria arrepellado ao vêr partir a frota com a
infanta D. Beatriz.

Para falar verdade, nenhum de nós tinha grande confiança na realisação
de tão extravagante projecto, mas sobejou-nos motivo para o applaudir,
porque durante mais de dois mezes nos forneceu alegrissimo assumpto
sempre que nos juntavamos todos ou pelo menos alguns.

Deviamos partir em abril, segundo o programma primitivamente approvado
em assembléa geral. Não fomos, e acreditavamos já que não iriamos,
quando uma noite, no _Martinho_, resolvemos partir a 20 de maio.

O Vasconcellos, muito habituado a viajatas, ficou encarregado de alugar
o _char-à-bancs_, e elle proprio me disse á puridade que tal não faria
senão á ultima hora, porque duvidava que se realisasse uma excursão
dependente do accordo de dez pessoas, todas ellas mais ou menos atarefadas.

Como se tratava, porém, de um divertimento, de uma _partie de plaisir_,
como lhe chamava o Leotte, aconteceu que, á hora marcada, apenas faltou
um, o Callixto, cuja falta, aliás, foi tida como de bom agouro, visto
chamar-se elle Callixto.

Tivemos que esperar á porta do Passeio Publico, que era o ponto de
reunião, _rendes-vous_ dizia o Leotte, que o Vasconcellos fosse alugar o
_char-à-bancs_, sendo entretanto votada uma moção de censura a este
nosso amigo pela falta de confiança que a communidade lhe inspirava. Eu,
por estar na posse do segredo, abstive-me de votar. Um Catão!

Partimos. Aquillo foi como se todos atirassemos canseiras e trabalhos
para traz das costas. Os palacios do Passeio Publico estremeceram nos
alicerces, sacudidos por um tufão de alegria. A passarinhada fugiu das
arvores precipitadamente, como se ouvisse troar uma peça de campanha. A
policia não estava accordada ainda; se fosse um pouco mais tarde,
deitava-nos a mão. E affirmava o Vasconcellos que tinha visto as figuras
do Tejo e Douro dizerem-nos adeus de dentro do Passeio, muito rapioqueiras.

--Nunca, dizia o Leotte, nunca se fez uma _partie de plaisir_ tão
honesta. Nove homens... apenas!

--Querias mais! replicava o Vasconcellos fazendo-se desentendido. Não
cabiam cá. Olha o pobre Gonçallinho, o nosso doce pagem, que teve de ir
na almofada ao pé do cocheiro. Onde querias tu metter mais gente, ó
Gonçallinho?!

--Que é lá? respondia elle do alto da almofada.

--Vaes a fazer versos?

--Ainda não. Mas já planeei um conto. Este ar de primavera é
deliciosamente suggestivo. Vocês verão que a minha ideia não é de
todo má. Chamar-se-ha _A primeira entrevista_.

--Has de contal-a em Cintra, gritei eu.

--Pois sim, respondeu o Gonçallinho, morto, como todos os novatos, por
divulgar as suas composições.

--Em Cintra, alvitrou o Vasconcellos, sempre o mais auctoritario de
todos, cada um de nós ha de contar á noite uma historia. Vá feito?

--Menos eu, protestou o Athayde, que era empregado na Junta de Credito
Publico. Eu só estou habituado a contar... _contos de réis_.

--Isso é modestia. Não péga.

--Has de contar, intimou o Leotte, aquelle caso do principe das Caldas
de Vizella, que uma noite te ouvi no Gremio.

--Ah! esse era o principe Piratinino.

--Não é um conto... _de réis_; mas é um conto de principe. Bem, já temos
dois contos, disse eu.

--E tu, propoz o Athayde, dirigindo-se a mim, tu, que andas sempre com
as mãos na massa, é que has de abrir o torneio.

--Pois seja, com a condição de que onde se lê _massa_ se leia _maçada_.

--Leia-se lá o que tu quizeres. Mas olhem vocês, observou o
Vasconcellos, que é preciso matar de algum modo as noites de Cintra, que
são tão grandes como as de Lamego. Em Cintra só devia haver dia. As
noites são frias e humidas. Vocês o sentirão.

--Queres então ouvir rouxinoes ao meio dia?

--Os rouxinoes são o menos...

--Pois não viemos nós para os ouvir?

--Nós viemos para gosar a liberdade que não temos habitualmente, e a
alegria que principia talvez a fugir-nos. Viemos tomar um banho de
oxygeneo. Elle é bem mau!

--Que vão vocês a dizer? perguntou da almofada o Gonçallinho.

--Foi o Vasconcellos que fez uma proposta para supprimirmos do nosso
programma os rouxinoes.

--Não! nunca! protestou o Gonçallinho. De mais a mais tem vindo a
dizer-me o cocheiro que os rouxinoes são aos centos na varzea de Collares.

--Tudo se póde conciliar, sentenciou o Vasconcellos. Ouviremos os
rouxinoes e os contos. Mas vamos ao lado pratico do assumpto. Quantos
dias se querem vocês demorar?

--Eu, cinco dias, o maximo.

--E eu.

--Vá lá, e é de mais.

--Oh! incomprehensivel alma portugueza! exclamei eu. Já estragamos a
nossa alegria. Ainda não chegámos, e já tratamos do regresso! Se aqui
fossem nove francezes...

--Ou quatro portuguezes e cinco francezas... reticenciou o Leotte,
sempre propenso ao eterno thema feminino. Lembrem-se vocês da historia
do nosso amigo conde, quando esteve nos Pyreneos. Ao menos lá não lhe
faltavam mulheres!

--É verdade! ó Leotte, tu has de contar a historia do conde. Tem graça!
já t'a ouvi uma vez.

--Vamos ao lado pratico, insistiu o Vasconcellos. Almôço, a que horas?

--Ás onze.

--E jantar?

--Jantar ás seis.

--É melhor ás sete.

--Tratem vocês de fazer as noites pequenas. Olhem que são o peor que ha
em Cintra.

--Jantaremos então ás sete.

--Isso é melhor. E de dia ou á noite, sentados em Collares, em Seteais
ou nas cadeiras do _Victor_ iremos contando o nosso _Decameron_,
respirando um bom ar, e um pouco de alegria, pelo menos...

O _Decameron_! exclamou o Leotte. Sabem acaso vocês que os fugitivos da
_peste negra_ de Florença eram sete mulheres e tres homens? Isso
comprehende-se.

--Ó diabo! cala-te lá com essa chorata pelas mulheres! replicou o
Vasconcellos. Póde ser que o acaso te depare em Cintra alguma boa fortuna.

--N'este tempo! objectou, desconsolado, o Leotte. Se fosse no verão!

--O verão tambem tem seus inconvenientes. Ha mais espiões, mais fiscaes
da moralidade publica. Leve o diabo tristezas. Toca a divertir, rapazes.

--Olhem lá! gritou o Gonçallinho.

--Que é?

--Parece-me que já architectei outro conto.

--O que é então?

--_A morte do bibliophilo._

--Vejam vocês, disse o Vasconcellos, o que são os poetas portuguezes.
Vae aqui um rapaz, na flôr dos annos, cheio de imaginação, em caminho de
Cintra, a pensar na morte da bezerra ou do bibliophilo, que o leve!

Rimos todos. E o proprio Gonçallinho, que ouviu o reparo, desatou a rir
na almofada.

Quando apeamos á porta do _Victor_, estavamos mais ou menos acabrunhados
pela fome.

--Por S. Thiago, e aos bifes! berrou o Vasconcellos.

E o Victor, muito mesureiro, muito amavel:

--Elles hão de estar menos maus.



II


O almôço foi uma devastação, uma hecatombe.

Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que só se tornava a
almoçar... no outro dia.

Quando saímos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde
se começaria? Os fumos capitosos do almôço accenderam brios quixotescos
no espirito da maioria dos nove. A burro e á Pena! era o grito do
Vasconcellos, reforçado por mais cinco ou seis vozes.

--Mas isso é a semsaboria de toda a gente! disse o Gonçallinho.

--Ó meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez
fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e á Pena! insistiu.

Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro cêrco,
largaram a correr para ir buscar os burros.

Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:

--Já perguntei no _Victor_, e não ha lá hospeda nenhuma. Mas ha criadas,
ao menos.

E d'ahi a pouco dizia-me o Gonçallinho, tambem em tom de confidencia,
muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo
da encosta:

--Como isto é bello!

A burricada á Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante,
cheia de episodios comicos. Quando o burro não caía, caía o cavalleiro;
e as mais das vezes caíam ambos.

N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu
despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um
verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos nós sentados junto ao
_Chalet de Madame_, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:

--Agora, sim senhor. Agora é occasião propicia de darmos principio ao
nosso _Decameron_. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.

Era eu. Pois não houve meio de resistir.

--Ora então, senhores e...

--Senhoras não ha infelizmente! exclamou o Leotte.

--Peço attenção, que eu principio.

E principiei.

--O morgado de Muxagata, ou simplesmente o _Muxagata_, como elle era
conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego,
na aldea d'aquelle nome.

Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que
lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e
lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido
aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.

Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se
perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e
boleeiro.

Ha sempre um para amostra.

Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a
menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio
era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por
investir com a onda.

O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos
hombros.

Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía
alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado
como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.

Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua
Bella.

Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e
um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio
chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos,
e palha.

Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.

Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da
Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.ª

Mas s. ex.ª não chegou.

No dia seguinte fez-se novo jantar para s. ex.ª

E s. ex.ª não chegou ainda n'esse dia.

O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da
rua Direita e travessas affluentes.

Chega o Muxagata! Não chega o Muxagata! Á noite, os criados, vendo que o
patrão já não chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado
para elle.

Passou assim uma semana.

Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido á porta do Muxagata. Foi muita
gente ás janellas. Não era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma
belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo á porta
da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata já estava no Porto,
e havia comprado aquelle bello exemplar _pur sang_ ao Côrte Real de Traz
da Sé por tresentas libras.

Finalmente, á noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e
outros amigos. Vinham a pé, todos de esporas e chicote. E antes de
subir, foram á cocheira examinar os cavallos.

Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera.
Foram jantar. O Ricardo Brown, o Côrte-Real e outros _sportmen_ caíram
logo lá. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era o
_monte_. Muxagata, depois das libações do jantar, gostava de fazer o seu
berlote.

Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, ás 7 horas, já o
Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.

Varias pessoas foram vêr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro á
espera dos dois melhores espectaculos que os _mirones_ apanhavam: o
banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o
banho da Cacilda, filha do banheiro Leão, que nadava para o mar largo.

Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um
sótão da rua de S. João Novo, que travei relações com o Muxagata.

Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flôr dos
_sportmen_ da Foz, me tratasse mano a mano.

Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no
seu garbo de cavalleiro pelos hospedes do _Hotel da Boa Vista_, dizia-me
adeus com o chicote, e eu parava muito ancho, dando-me ares de
entendedor, até o vêr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa
acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar ás
upas.

Havia sempre senhoras no balcão de pedra, que tinha um toldo listrado de
branco e escarlate.

Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de
Lamego. Falava-se que os irmãos d'ella o queriam matar. Mas não morreu
ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera
estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella
raptada. A historia do rapto augmentára-lhe a nomeada de fidalgo
extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa
lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente á Foz por Lordello do
Ouro; voltavam por Miragaia.

Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas,
sentindo o tropel dos cavallos, vinham á porta. O escandalo d'aquella
mancebia publica indignava-os; não obstante, cumprimentavam risonhamente
o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.

Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e
lenço branco serviam o chá. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como
um homem entre os homens.

_Saltava_ nos valetes, e _fazia cerco_ ás quinas.

Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se
uma boa portuguesa de Lamego.

Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos
dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.

Usava o cabello apartado ao lado, com duas _bellezas_. Chamava-se
_bellezas_ aos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa
tentadora, que desappareceu da circulação.

--É verdade! obtemperou o Leotte.

Prohibiram-lhe que interrompesse.

O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como um _deboche_ de
_toillette_. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e
nas mãos, especialmente nas mãos.

Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram
n'aquelle tempo outro _deboche_ de _toilette_. As mulheres não cheiravam
a nada ou cheiravam mal.

Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez
annos ás outras portuguezas em _mise-en-scène_ de _coquettismo_. D.
Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas
aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos
presuntos de Lamego póde nascer tão _coquette_ a dois passos da serra da
Gralheira, quanto uma creatura nascida entre os jardins de Harlem
póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.

De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa,
desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando
precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em
tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se
representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto
domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D.
Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que
nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a
conveniencia das aptidões theatraes da artista.

Rodaram mais dois annos.

A casa da rua das Fontainhas continuava a ser o _rendez-vous_ dos
estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do
Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda
o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma
pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos
appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.

Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua
principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito.
Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em grande quantidade,
mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e
outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam
atrazados.

Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar
rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos.
Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi
perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas.
Não saía a pé nem a cavallo.

Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho
de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia
os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o
fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.

Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar
introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr.
Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em
companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.

A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em
abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives
do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se
á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario.
O regedor Antonio Pedro, emquanto os cabos de policia dormiam á
sombra das arvores, _micava_ no rei.

Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na
feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o
Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.

--Que sim; que estava ali para cima a jogar.

--Mas que veiu elle cá fazer?

--Anda aos fóros. Quer dinheiro.

N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:

--Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena já começa a pôr o seu
barrete de nevoa. É a _toilette_ de noite. Vamos indo para baixo. Depois
de jantar se acabará o conto.

--Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonçallinho.

--Isso é lá como quizerem. Que não esqueça o fio da historia. O Muxagata
estava na feira e queria dinheiro--como eu.

--Como nós todos! gritaram uns poucos.

--A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.



III


--Ó filho! pelo amor de Deus! deixa os rouxinoes para ámanhã, dizia o
Vasconcellos, depois de jantar, ao Gonçallinho Jervis.

--Aqui da janella não se ouve nenhum! Já estive á escuta.

--Pudera! Imaginavas então que uma tão poetica ave principiava a amar
logo depois das ave-marias, como um caixeiro que fecha a loja e vae
metter-se n'uma escada a gargarejar para defronte! Tem juizo,
Gonçallinho. Para irmos a Collares ouvir os rouxinoes, precisavamos ter
prevenido os trens. Deixa isso para ámanhã, e vamos á historia do Muxagata.

Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi á
cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para
ver as criadas do _Victor_.

--Vamos lá ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.

--Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros
morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma
casa humilde do Escamarão, que não as ha lá melhores.

Como o jogo nivella todas as condições, os nobres e os ricaços abancavam
em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento,
e a outros o do ouro. As mãos de todos elles eram grandes e queimadas do
sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mãos finas e brancas de
D. Christina, polvilhadas de pó de arroz. Que falta que ellas faziam
ali, as mãos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio
d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se
estendiam semeando dinheiro, ora se retraíam recolhendo-o!

E pelo meu espirito passou a idéa de que o Muxagata nem por sombras se
lembrava, n'aquelle momento, das mãos patriciamente batoteiras da sua
bem amada de Lamego.

Fui injusto.

Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca,
que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras.
Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas
juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os
morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoções
do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes
as feições perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na
face o lampejo aureo de setenta libras.

Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior attenção.
Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia á noite. Disse-lhe
que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das
matriculas.

--O que?! exclamou elle. Você vae para o Porto?!

Os seus olhos accusavam uma certa satisfação, que esta noticia lhe causára.

Respondi affirmativamente.

--Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras
á D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro.
Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras serão
entregues logo que você chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia:
Eu suspeito até que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois
annos) não terão tido que comer.

Esta revelação causou-me triste surprêsa: caiu como um raio fulminador
sobre as roseas illusões que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.

Pois que?! pensei. É então para não ter talvez que jantar que uma
mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno,
perdendo todo o direito á estima da familia e ao respeito da
sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:--«O teu amor e
uma cabana». Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os
poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas não fosse propriamente
uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelação do Muxagata, era
que não havia lá que comer! E depois se eu não tivesse apparecido ali
n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam
condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras
privações?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e
lenço branco, os cavallos do passeio até á Foz, as joias e as rendas de
D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel
postiço da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter pão
na mesa e pó de arroz nas mãos?!

Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se
precipitavam no meu espirito, e não sabia se devia rir-me da comedia do
mundo, se chorar das desgraças e dos raptos alheios.

Á hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e
abicava ao areio do Escamarão. Alfredo Leão fazia as suas despedidas. Eu
recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco.
Momentos depois o lenho da _espadella_ rangia, os remos chiavam na
madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos
substituem as forquilhas, e nós desciamos o Douro deslisando sobre a
grande serenidade das aguas, que montanhas áridas e alcantiladas
marginavam silenciosamente.

Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade
turbulenta das paixões humanas.

E quando a noite começou a cair dos cerros alterosos, que rara casa
branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.

Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira,
que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a
rua de S. João, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas
ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes
do lyceu que, tendo andado á tuna, se dirigiam viciosamente para a
batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu
alleguei que tinha de ir á rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D.
Christina.

Responderam-me que áquella hora já D. Christina estaria, como todas as
mulheres, raptadas ou não, dormindo profundamente n'um poço de virtude.

Que embora, respondi. Iria bater á porta para lhe levar o ouro da perdição.

Pois sim, que fosse, mas que não me custava nada passar cinco minutos
pela batota do D. Marcos.

Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despêsa de matriculas, livros e
hospedagem, perdi quatro mil réis instantaneamente. Fiquei sobreexcitado
com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir
jogando todo o dinheiro que trazia até abrir brecha na banca. Queria uma
vingança formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante
entre a febre e a honra, um braço invisivel, fosse o pulso do anjo da
guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fóra, não
sem que os pés se me pegassem ao soalho.

Nunca me custou tanto ser homem de bem.

Corri á rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vêr luz na escada e nas
janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria áquella hora
como um poço de virtude! Bati. Um criado de casaca e lenço branco, o
Miguel, veio abrir.

Que sim, que a senhora estava a pé, ceando, e que tambem lá estava o sr.
Antonio Falcão, do Marco.

Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado
refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo
Miguel de casaca e lenço branco?!

Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fóme
transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio
Falcão do Marco era conviva suspeito?!

E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.

A mesa da ceia resplandecia de loiças e cristaes. As joias de D.
Christina não resplandeciam menos do que os cristaes e as loiças. E ella
propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.

Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. Não ousei,
por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D.
Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha
ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia
noite? Ri-me para dentro, não obstante parecer-me que a pergunta, sendo
muito melindrosa para o Muxagata, não o deixava de ser tambem o seu
tanto ou quanto para mim.

Que era o morgado quem mandava... aquillo.

D. Christina não levou a sua impudencia até ao ponto de perguntar qual
morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.

--Como está elle? perguntou.

Eu respondi com alguma atrapalhação, que parecia troça:

--Bom. Muito obrigado.

E, do lado, o Falcão do Marco:

--Esse diabo de homem já se não lembra de nós, nem da filha! Nunca vi
uma cabeça assim! Em tendo cartas e _pontos_ não quer saber de mais
nada! Pois já tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto á
D. Christina, que estaria para aqui sósinha com a pequena, se não
fosse eu!

Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente, á borda da mesa,
sobre a toalha.

--Ah! é dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.

--São quarenta libras, respondi.

--Pois então faça-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.

--Perdão! repliquei com certa rudeza. A sr.ª D. Christina vae escrever
isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.

--Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.

Agradeci, rejeitando. Então D. Christina disse ao Miguel que lhe
trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:

_Recebi as quarenta libras._

_Tua do coração_

_Christina._

Mais nada.

Saí, e respirei com soffreguidão a brisa fresca do Douro, que soprava do
Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que
ladeiam a rua. E eu, de mãos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente,
calçada acima, a esta cruel philosophia: «Onde hei de ir arranjar os
quatro mil réis que perdi?!»

Soube pela manhã que os outros tinham continuado a jogar, e ganharam.

Ora no decurso de dois annos succederam cousas que seriam espantosas se
não fossem humanas.

D. Christina passou definitivamente do Muxagata, quando o sentiu
irremediavelmente arruinado, para o Falcão do Marco, que por sua vez se
arruinou tambem.

A lei de 1863 extinguiu os vinculos em Portugal, mas os ultimos
exemplares da raça privilegiada dos morgados ainda hoje florecem, entre
as Christinas indigenas, nas praias de Portugal, em proesas tradicionaes
de batota, de femeaço e de gineta.

No inverno os mais d'elles desapparecem no fundo dos seus solares
cultivando as batatas, que no verão seguinte hão de resuscital-os. O
morgado nacional, depois que a phylloxera lhe comeu as vinhas, ficou
reduzido ás batotas.

Mas o Muxagata foi a phylloxera de si mesmo: comeu logo de uma vez as
vinhas e as batatas. Como todo o bom morgado, conservou, ainda na
pobreza, o seu enthusiasmo pela equitação. E não tendo já cavallos para
montar, cavalgava, ao longo dos vastos corredores no ruinoso solar de
Muxagata, n'um cabo de vassoura. Um bello dia morreu, e não foi por
desastre do seu ultimo cavallo... de pau.

_Finis, laus Deo_, perorei.

O Leotte, que tinha voltado á sala e ouvido o final da historia, perguntou:

--Da D. Christina nunca mais soubeste!

Expludiu uma gargalhada geral.

--Olá! exclamei. Que novas nos trazes da tua exploração?

--Por ora... nada. Mas opportunamente farei o meu relatorio.

--Pois o mesmo não posso eu prometter a respeito da D. Christina. Nunca
mais soube d'ella.

--E da filha o que foi feito? perguntou sentimentalmente o Gonçallinho.

--Tambem não sei. Se viver deve ter agora os seus dezenove annos.

--Como era o nome todo do Muxagata?

--Nunca lh'o soube. Por morgado de Muxagata era que toda a gente o
tratava.



IV


--Então, se não vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero
contar o meu conto, disse o Gonçallinho Jervis.

--Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.

--Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o
Athayde.

--_A Primeira entrevista._ Tenho porém a prevenir o respeitavel publico,
para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do
Muxagata, não aconteceu nunca. É uma phantasia que só poderia ter-se
dado no paiz azul dos sonhos...

--Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.

--Mau! protestou o Gonçallinho. _Se ralhas, não conto._

--Tem a palavra o poeta, que poderá sonhar á vontade sem que ninguem o
interrompa.

Fez-se silencio. E o Gonçallinho, romanescamente, depois de ter mettido
os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:

--Custou muito--disse, elle--a planear a primeira entrevista. Era
preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras,
saltar por cima de tantos embaraços! Mas, finalmente, o programma,
laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das
pessoas que se lhe poderiam oppôr. Ainda assim, Fanny não ficou
inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da
elaboração do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava
pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer
o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de
familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem
realmente a intenção de observal-a por desconfiança, de lêr-lhe nos
olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.

É verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de
vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade
no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada com _Elle_ á sombra das
arvores, ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio, vendo
doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas, cujo vôo
independente tantas vezes ambicionára...

Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a
amargurava! A doença de uma pessoa de familia, a carruagem que podia
faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel!
Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os
audazes e de que, como premio á sua audacia, ouviria finalmente cantar
os passaros a sua canção de estio nas grandes arvores sombrias.

Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada,
a doença de uma antiga companheira de collegio, que está a ares no
campo, e á qual se quer dizer o ultimo adeus.

Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e
como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe
excellente, o segredo não viria a descobrir-se.

Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O
egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e
tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns
dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no
collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo
passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma
da outra.

Com o coração de oratorio, como um condemnado que treme de todas
as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que
esse desejado dia chegasse.

Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento
nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos
os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria
encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam
sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros
a sua canção de estio.

Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia
amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do
estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.

Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima
que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um
recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente
saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.

A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não
oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga
criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem
sequer fez reparo n'esse pequenino _groom_ de cabello louro, faces
rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude reverente
e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.

Fôra elle, o pequenino _groom_ louro e rosado, que lhe acommodára a orla
do vestido dentro do _coupé_ e que, fechando-o cuidadosamente, esperára,
sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.

O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma
creança. Ella não via, não ouvia, disse ao _groom_, sem fazer reparo
n'elle, uma palavra. O _groom_ saltou para a almofada com a ligeireza
que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo,
rasgado, batido.

As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo
os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam
alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce
segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:

--Mil felicidades, excellencia...

E córava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado
com a sua velha ama uma unica palavra sequer.

Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de
alegria musical parecia inundar o coração feliz de Fanny, enchendo-o de
canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.

Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parára, não á porta da
quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera
ao _groom_ ao sair de casa, mas á porta de um velho castello
desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes
arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua canção de
estio.

Era o logar da entrevista.

E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se o _groom_, sempre com a
ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no
chão, teve uma vaga suspeita de que esse _groom_, que ella só agora
vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de
desempenhar tão alta missão de confiança.

E, emquanto ella descera, o _groom_, n'uma attitude sempre reverente e
humilde, com a mão na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do
estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de
pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.

Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma
solidão encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados
mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o
ceu pousar na terra.

Edmundo lá estava no seu posto, fazendo sentinella á sua propria
felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que
distendeu os seus longos braços verdes para envolver tambem na
mesma sombra o corpo de Fanny.

A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplação das flores
campestres e da larga cóma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando
para cima, e de vez em quando um melro velhaco--era decerto um
melro--zombava da ignara situação moral d'aquella mulher
desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.

Uma ironia de melro!

Á sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo,
enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua
primeira taça de amor e, quando erguiam a taça aos labios, estalava-lhes
na bocca um beijo demorado.

As horas passaram rapidamente, a velha criada já não tinha mais hervas
que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam
aborrecidos de troçal-a.

Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido
nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.

Finalmente, Fanny pôz o pé no estribo da carruagem e o _groom_, rosado e
louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabeça erguida, a
portinhola do _coupé_ e, quando a fechou, antes de subir para a
almofada, pousou o dedo pollegar da mão direita sobre a ponta do nariz e
espalmou a mão no ar, agitando os dedos.

Era o Amor, disfarçado em _groom_, que celebrava a sua victoria como um
gaiato de collegio.

--_C'est gentil!_ exclamou o Leotte.

--Bravo! mavioso Gonçallinho! conclamaram sete vozes.

E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funcções austeras de dirigente,
advertiu a assembléa de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito
conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.

--Onde estará o _groom_ da tua ballada, ó Gonçallinho? perguntou o Leotte.

--Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.

--Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.

--É que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a
lamparina do quarto.

E, rindo, cada um de nós foi para a cama--ás onze e dez, noite velha no
paraiso de Cintra, a 20 de maio.



V


No dia seguinte, quando saímos do _hotel_ depois de almoço, era quasi
uma hora da tarde.

Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o
tempo... como não ter nada que fazer.

Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar.
Concedida;--sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse
d'esta auctorisação legal.

--O Leotte traz grande empresa entre mãos.

--Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.

--Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do
burro rebeldemente ronceiro.

A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava
no ar uma serenidade saturada de bucolismo e de limpidez
campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores
floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a
superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não
eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.

Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos
de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na
esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como
aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo
empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou
as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles
desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com
estrondo.

Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica
com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia
de repulsão.

Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde
ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo
haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou
desgosto.

--O tolo do Leotte perdeu isto!

--O que térá elle feito?!

Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.

--Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.

--Então?

--Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos
criados, ouviram?

--Está dito.

Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o
nosso amigo Leotte tinha descoberto no _hotel_ uma criada originalissima.

--Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.

--Como assim?!

--Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres
do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal
D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham
hospedar-se no Victor.

--Mas quem é então esse D. Alvaro?

--Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me
que os seus avós tinham sido _gentis guerreiros_.

--E ella respeita as cinzas de seus avós?

--Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a
veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!

--Então é Maria, e chama-se Rosa?

--Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas ella, de relance,
percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra,
e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.

--Eis o que tu apuraste em todo o dia!

--E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas
cujos avós fossem _gentis guerreiros_!...

--Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a
Collares!

--Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era
principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu
nas Caldas de Vizella.

--É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente
o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto o _Decameron_.

O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:

--Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes do _Hotel do
Padre_, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque do
_hotel_, conversando, lendo, jogando, _flirtando_. Nenhum d'elles ousára
ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem
encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam
do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia
nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.

De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.--Lá chegou o
comboio!--Pois deixal-o chegar!--Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos
depois, paravam á porta do _hotel_ duas _americanas_, poeirentas e
escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco,
acompanhado por uma senhora da sua idade--vinte e quatro a vinte e cinco
annos--, atravessou olympicamente o parque do _hotel_ sem cumprimentar
ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados,
com pequenas malas na mão.

Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes do _Hotel do
Padre_, visto não haver acontecimentos de maior polpa.

--Quem será isto? perguntava-se.

--É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.

--Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.

--Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o
padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e
que era um dos hospedes mais estimados no _hotel_.

Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram
conversando, lendo, jogando, _flirtando_.

Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á
cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de
casaca, postados por detrás da cadeira do _principe_ e da
_princeza_, conservavam-se immoveis como estatuas.

Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos,
olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o
beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens,
de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.

Findo o jantar, o _principe_ e a _princeza_ levantaram-se; os seus dois
criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram
ninguem.

Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve
pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo
do _hotel_ para saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia
simplesmente isto: _Commendador Piratinino e sua esposa._

--Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!

Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade
desenfadada.

Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de
confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador
Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.

--E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.

--Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.

--Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?

--Que é principe da Ribária.

--E onde ficará geographicamente a Ribária?

--Sim... isso...

--A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a
Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um
mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.

--Magnifico!

--Maravilhoso!

Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária
ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos
criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter o
_incognito_ do principe. Quatro minutos depois os criados tinham
revelado o segredo ás criadas do _hotel_ e, passada uma hora, constava
em toda Vizella que no _Hotel do Padre_ estava hospedado um principe
estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação,
acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que,
depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens,
suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza,
porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem
cabeças guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam
alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes
preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de
hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houvera
_deficit_.

Corria tudo ás mil maravilhas.

N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram
inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha
agglomerado nas vizinhanças do _hotel_. Mas no dia seguinte pela manhã
suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os,
contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o
principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse
esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de
dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não
apanharam _vivas_. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os
hospedes que tinham inventado a _blague_, ficou capacitada de que
Piratinino era realmente um principe.

Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes do _Hotel do Padre_
esforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e
que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi
preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez
em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar toda a gente, estranhava
o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas,
e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo
principe... cada vez mais.

A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo
Thyrso, de modo que foi preciso, no _hotel_, prohibir-lhes a entrada no
parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para
serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da
Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa
obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes do _hotel_
saboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua
invenção.

Um dia o criado do principe pediu informações aos criados do _hotel_
sobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra
feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua
alteza ia n'aquella tarde para o rio.

--Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:

--Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela
mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar
a fortuna.

Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como
milho. Que ia mas era para o meio do Vizella divertir-se com um
barco que trouxera.

--Onde está o barco? perguntaram.

--Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.

Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao
hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do
Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, sua
_toilette_ favorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam--_o
principe branco_.

Deu-se rebate no _hotel_, e todos os hospedes, repartidos em diversos
grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela
Lameira, outros pelo Mourisco.

O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do
Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco
similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula
atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem
ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta.
Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de
tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na
Ribária a etiqueta é muito rigorosa.

Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar
seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali:
um principe estrangeiro pescando á linha dentro de um barco de
lona. Só os hospedes do _Hotel do Padre_ se riam, porque os do Cruzeiro
do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos
tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados o _principe
branco_ pescando.

Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca
são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes
divertem-se, e enfadam-se.

Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz
abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o
principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.

Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um
barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um
movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um
charco.

Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes do _Hotel do
Padre_ riam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para
ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande
gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.

Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe,
que estava de fato branco, precisava mudar de _toilette_. A decencia
reclamava-o. E emquanto o criado corria ao _hotel_, a pedir outro
fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro
da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte,
esperava humilhado...



VI


--E eu que sei quem elle é! apostrophou o Maldonado, que era o mais
silencioso de todos nós.

Achámos graça á observação, espicaçámos o Maldonado.

Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem lá
tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu
d'ali para as Caldas de Vizella.

Era... disse-nos o nome, que não vem para o caso.

Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o
Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nosso
_Decameron_.

Que não; que não sabia historia nenhuma. Que não tinha geito para contar.

E a assemblea insubordinada:

--Que contasse alguma coisa, senão que o levaria o diabo.

--Que de mais a mais o Maldonado não era baldo de gosto litterario:
conhecia os poetas gregos, lia muito Theócrito.

--Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Theócrito.

Muito instado, cedeu.

--Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.

--Oh!

--Uma lição de moralidade para quando elle fôr avô.

--Que genero?

--Genero realista. Eu, infelizmente, não tenho a imaginação do nosso
Gonçallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.

--Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito
amigos, socios na patuscada, sempre de mãos dadas, como dois banqueiros
do amor, nos sindicatos do prazer.

Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado
na flôr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a
correr aventuras, de braço dado, por amor da variedade, beijando, como
borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flôres que encontrassem
na sua marcha triumphante.

Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a
vida e zombando da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os
cabellos, respeitando o coração e o mais.

Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus
deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.

Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas
elles, a sós, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios:
e confidentes nas suas rapaziadas inverniças, e fechavam a sete chaves o
segredo das suas funcçanatas serodias.

Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem
casou. Mas a filha do primeiro não casou com o filho do segundo, por
accôrdo dos dois velhos.

--Não quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo,
em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer
infidelidades como tu.

E riram os dois, dando-se pansadinhas,--_eh!--eh!_--como se estivessem
em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da
nora, não ousavam falar em Theócrito, a não ser para reproduzir algum
verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora
diz a Daphne: «O casamento não tem penas nem dôres; mas sómente alegria
e danças.»

Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accôrdo
quanto ás _danças_ do casamento, porque varias vezes se tinham
visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das
consequencias de alguma conquista aventurosa.

Intimamente, rezavam pela cartilha de Theócrito, não quando elle
preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o
elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.

Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito á Providencia o
favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia
de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradição patusca.

Á medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos
frascarios se fecharam em maior discreção, de modo que das suas
aventuras serodias não pudesse chegar noticia aos netos.

Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam,
sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o pé lhes escapava para a
folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para não serem apanhados com
a bocca na botija.

Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avós
concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que não
guardassem toda a mocidade para a velhice.

--Como nós... dizia um.

--Eh! eh! respondia, rindo, o outro.

E ao cabo de alguns momentos de meditação:

--Isto tem que ser por força... exclamava um.

--Isto, o que?

--Dar com a cabeça pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais
cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, é
o que foi...

--E eu!... ponderava o outro.

Ora a verdade era que elles tinham começado desde o principio, que é a
maneira mais logica e chronologica de começar.

Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a
mocidade não é mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito
dos avós, a vantagem de não precisarem esperar pelo calendario.

Atiravam-se.

A primavera do anno chegára, e os dois velhos, galvanisados por ella,
deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.

Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, já estavam um
pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a
proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.

--Achei! disse uma vez um velho ao outro.

--Aonde?

--Longe, mas bom.

--Aonde?

--Á Penha de França.

--Irra! que é longe! Mas dize lá.

--Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura,
belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para
refrescar-se.

--Já o sabes?

--Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação
para nós ambos.

--Bravo! excellente! Lá iremos...

E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por
entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem
olhar para as _estrellas cadentes_, que lhes davam encontrões, tão
honestamente como se fossem á _Baixa_ comprar bolos moles para as
esposas desdentadas.

Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a
gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para um
_lausperenne_.

Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma
casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes no
_rez-de-chaussée_.

E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando
honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando,
andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a
rir lá por dentro--_eh! eh!_--até que começaram a marinhar lentamente
pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer lhes parecia
chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe.
Chegaram ao alto da Penha.

--É ali, disse um.

--Ha luz no _rez-de-chaussée_, observou o outro.

E espionaram, que não fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente,
aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir.
Na Penha de França, ás dez horas da noite, o vicio tem confiança na
solidão: não é preciso fechar as portas das janellas.

--Espreitemos e ouçamos.

--Sim... ouçamos e espreitemos.

E após um momento de silenciosa contrariedade:

--Ha homens, e eu conheço as vozes. Depois, puxada a gola ás faces, os
chapeus enterrados na cabeça, continuaram escutando.

E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos,
desapontados, disseram, com os labios colados á orelha um do outro:

--São os nossos netos!

De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a
descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza forças.

Só na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que
não eram seguidos, exclamaram de novo:

--E esta! Eram os nossos netos!...

Foi abraçado o chronista, que realmente nos soubera prender a attenção.
O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no
Maldonado ao collo. Uma ovação!

A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.

--Mas então, apostrophou o Gonçallinho, a gente ha de ir-se embora sem
ouvir os rouxinoes?!

Vozes, ao levantar da feira:

--Amanhã!

--Amanhã!

O Gonçallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.

--O que vaes tu escrever, meu lyrico?

--Vou, antes que me esqueça, dar forma ao outro conto que pensei pelo
caminho.

--Ah! _A morte do bibliophilo_? Pois vae, e ámanhã o lerás.

Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a
historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando
certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha
elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com
sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.

Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de
condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a
historia do seu condiscipulo Barcellos.

--Quem era esse? perguntei.

Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.

Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se
doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.

Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio
de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como
rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da
Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o
Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma
basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.

O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as
suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve
improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa.
_Verba volant._ Os seus discursos não foram fixados pela stenographia.
Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais
poderão esquecel-os.

De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam
da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma
belleza! um primor!

A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de
Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo.
Redarguiram-lhe que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso
não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que
deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a
Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo,
e tratou de annullar-se em Salvaterra.

Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da
noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava
com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe
lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.

Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade
contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a
historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando
um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a
perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e
partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso:
acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador
disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira
pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava
o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador.
Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o
terceiro tiro falhava, a perdigueira desandava para casa,
abandonando o caçador.

O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos
mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no
ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia
torrencial.

--Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e
passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me
aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu
sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que
a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para
casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde o _Mata-frades_
nasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na
escuridade. Aproximo-me, curvo-me...

E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua
narrativa.

--Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da
fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente,
chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse
generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo
irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas
sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São
segredos da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o
principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho
delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o
primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet.
Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar
para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e
applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma
cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.

O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto
collarinho engommado, e proseguiu:

--Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado.
Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia
beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua
abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar,
nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um
homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão:
safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de
dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas
coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem
escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do
quarto: primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse
eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e
abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem
era? Era o _meu_ cão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia
outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça.
«Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão
cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de
algebista? Achas mais barato do que ir ao _endireita_? Abriste conta
corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te
á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para
que eu o concerte?» E o _meu_ cão crivava o seu vivacissimo olhar em
mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O
outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no
fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo
do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes
que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato
de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão
na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de
comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o
introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono.
Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas pensei que
talvez um sentimento de delicadeza obrigasse o _meu_ cão a retirar-se:
quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes.
Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do
chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que
elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou um
_endireita_ acabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias
ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na
minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle,
parece dizer-lhe com os olhos--_Isso vae bem_--e raspa-se. O curativo
chegou a seu termo, e o _meu_ cão nunca mais voltou. Levantei o
apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um
consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me
fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para
demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma
qualquer manifestação de agradecimento.

--E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.

--Lá vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses,
tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabeça
uma borla doutoral, e recebi auctorisação solemne para acrescentar ao
meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a
minha servente me dava desde o primeiro anno. Abraços dos lentes e
de toda a mais doutorança; abraços dos estudantes, abraços dos
archeiros. A propria _Cabra_ parecia dizer-me: Se eu pudesse descer,
mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello,
emquanto n'um _hotel_ da baixa se prepara o jantar do doutoramento.
Desço até á Sé Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e
vejo á minha porta, cada um de seu lado, os dois cães que eu concertei,
e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que é a
intelligencia do cão.

Tal foi--exclamava o Leotte enthusiasmado--a improvisação do grande, do
immortal Barcellos n'uma noite da botica. E todas as outras noites eram
assim.

--Ó homem! atalhei eu. Vae deitar-te e deixa-me dormir, que são duas
horas da noite!



VII


Depois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de
que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da
criada, houve por bem, _malgrê lui_, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois
de jantar, no salão do Victor para continuarmos os nossos serões
litterarios, a que, seja dito de passagem, já todos mais ou menos iamos
tomando gosto.

As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o
presidente Vasconcellos e o _sabio congresso_ os intimavam a falar, iam
desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saía d'ali um enxame de
oradores. Que desgraça, se tal acontecesse!

Durante o dia, mettemos á bulha o Leotte por causa do seu supposto
achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco
azoinado com a nossa troça. E, por orgulho ou convicção,
promettia, protestava tirar o caso a limpo.

Já n'aquelle mesmo dia, pela manhã, apesar de se ter deitado tarde como
eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella
asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.

--A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence!
insistia elle.

--Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece
que não conheces o genero! Muito tolo és!

--Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala
mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos o _seu_
romance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.

Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois
que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de
manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra
coisa não desejava elle.

Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não
deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na
almofada do _char-á-bancs_ ao lado do cocheiro. O que é o poder da
imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que
naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle phantasiou
essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominada _A
morte do bibliophilo_.

--O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito
classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.

Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda,
havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas,
tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia
amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume
longinquo.

Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e
pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa,
burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os
senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem
annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio
succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para
resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na
sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam
na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se
estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um
terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma
grande epopêa maritima, que espumavam anciosas da apparição de um
Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma
febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente
sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.

Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como
Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de
novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente
rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam
disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os
chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o
grito de alarma.

Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos
namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios
da poesia dos combates, como na _Canção de Rolando_, cheios de
ingenuidade heroica, como na _Canção do Figueiral_; os poemas da
_Tavola-redonda_ em que o espirito cavalheiresco pairava, como a
borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e
a tradição do Santo Graal.

Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os
esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no
ar a espada nua, desembainhada em honra de uma dama, que á noite,
nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem
improvisando _tensões_, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e
perolas, o premio da victoria.

Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito,
esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que,
derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão
pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças
coloridas d'uma janella gothica.

Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um
celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições
domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.

Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que
completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o
primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a
engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado,
que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi
voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante
que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se
preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina,
reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito
exigia d'elle que não parasse no vestibulo.

Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados
n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe
deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada
pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo
amor que a divinisava.

Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos
pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade
heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação
pudera reproduzir nem copiar integralmente.

Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.

Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe
inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles
tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para
resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar
inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.

Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta
côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios,
com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes,
inquirindo do passado com uma devoção fanatica.

Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia
entrar no recinto sagrado da bibiotheca, mas tendo comprehendido
intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a
perturbar jámais.

Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos
Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que
não perdera nunca.

Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para
servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os
Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande
escudeiro de uma côrte sem cortezãos.

Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente
ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos
de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a
hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de
castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo
uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se
silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de
jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder da _Menina e moça_ e com
o Danteo da _Diana_ de Montemayor.

O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a
bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se
houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.

Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de
sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das
paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito
de luz.

Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só
voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar
um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da
bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés
deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.

O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas
bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a
lombada dos quatro in-folios da _Vita Christi_; tirava da estante, para
acarinhal-a, a _Historia do mui nobre Vespasiano_; fazia uma rapida
visita ao _Pentateuco hebraico_ e ao _Almanach perpetuus_, que eram
proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam
beijos paternaes, o seu querido _Boosco deleytuoso_, que lhe exhalava
nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.

Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto
lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de
seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor
exercicio muscular, tinha tido, ao levantar-se da cadeira, depois
de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.

Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro
de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o
sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia
accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado
de ferro, para não communicar calor ás paredes.

Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que
batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes
por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs
operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de
bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os
sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.

Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do
bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao
sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem
defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.

Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para
chamar o seu velho Leão.

Comprehende-se, pois, a angustia com que o dedicado escudeiro
ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.

Correu á bibliotheca.

Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua
alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas
dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela
doença, sobre o espaldar.

Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi
depôl-o no leito, chorando.

O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu
os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:

--Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.

Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que,
levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos,
querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.

Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente,
interrogou-o.

Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena,
disse-lhe abrindo um sorriso triste:

--Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.

Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.

--Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.

O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi
sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.

Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão
sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.

Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro,
indicando-lhe uma estante:

--Traze d'ali o _D. Quichote_ de Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde
entenderes melhor.

Leão correu á estante, tirou o _D. Quichote de la Mancha_, e,
aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.

Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto
elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais
anciado...

Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha
sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão,
sempre de joelhos, lia o _D. Quichote_ de Cervantes,--o epitaphio eterno
da idade-média.

Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem
sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior
ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia
a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a
idealisações romanescas. Mas a verdade era que, afastada a questão
de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma
litteraria, que revelava um escriptor.

Do Leotte sabia o Vasconcellos que não viriam phantasias, fabulações
romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam
assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonçallinho, segundo a
expressão do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.



VIII


Foi pois o Vasconcellos, que n'essa noite excedia o seu bom humor
habitual, quem lembrou que, para contrapor ao Gonçallinho, só havia um
homem entre nós, e que esse homem era o Leotte.

Estavamos n'isto, quando o Victor, dono do _hotel_, appareceu á porta da
sala, pedindo-nos licença para entrar.

--Era negocio urgente, dizia elle.

Convidámol-o a entrar, sentar-se, e dizer.

No fim de contas, o negocio era simples.

Do proprietario do _Hotel Braganza_, de Lisboa, recebera elle um
telegramma pedindo-lhe que na manhã seguinte tivesse promptos, pelo
menos, um quarto e uma sala, contigua ao quarto, para um brazileiro e
sua esposa.

Precisava portanto que um de nós, o Maldonado, mudasse de aposento,
porque occupava justamente o que preenchia aquellas condições.

Despachado favoravelmente o requerimento, logo. A uns alegrou--e foi
d'este numero o Leotte--a chegada de novos hospedes, especialmente de
uma mulher; a outros, que estavam saboreando a liberdade da solidão,
contrariou a noticia. Eu pertencia a estes ultimos.

Apanhando o Victor a geito, falámos-lhe na _criada fidalga_, como nós
diziamos. Pedimos informações.

--Ella conta sempre essa historia, acho eu, disse-nos o Victor, mas isso
tem-me interessado pouco. São lá coisas dos criados uns com os outros. O
que eu posso dizer é que a Rosa tem, effectivamente, algum ar de não ser
tão grosseira como as outras criadas. Mas, se v. exas. o desejam,
perguntem-lhe a ella mesma por isso, quando quizerem, menos hoje, porque
ella está engommando roupa. Póde ser ámanhã ou quando v. exas.
quizerem, se fazem tenção de se demorar.

Agradecemos a concessão que o Victor nos fizera, naturalmente para
equilibrar a concessão que nós lhe fizemos do quarto do Maldonado.

O Leotte estava triumphante: que não se tinha enganado; que já iamos
vendo que quem tinha razão era elle, porque o proprio Victor confessára
que a Rosa não era tão grosseira como as outras criadas.

E alegre por esta revelação, teve ainda menos duvida do que a principio
em contar uma tolice qualquer que lhe lembrasse, dizia elle.

--Vou-vos dizer um caso engraçado e verdadeiro, annunciou o Leotte.

--Isso é que se quer, approvou o Vasconcellos.

---Com mulher? perguntou o Maldonado.

--É dos autos... respondeu o Leotte. _Toujours la femme._

--A historia do conde? perguntei eu.

--Não; essa fica para outra vez. É uma que me lembrou agora.

Ouvimos.

--Voltavam de uma praia, não muito distante de Lisboa, tres amigos que
na melhor das intimidades tinham feito juntos a sua estação de banhos.

Vocês de certo os conhecem pessoalmente, mas a mim corre-me o dever de
lhes occultar a individualidade sob a mascara do pseudonymo.

Poderia, é certo, chamar-lhes os amigos _Tres estrellas_, mas as
estrellas sempre tiveram fama de romanticas, e o conto é seu tanto ou
quanto realista. Uma coisa brigaria com a outra. Prefiro pois inventar
tres nomes de guerra e charmar-lhes:

Arthur Reinaldo.

Leopoldo Ambrosio.

Jacinto Procopio.

E, declarados os nomes, a ninguem será licito duvidar dos recursos da
minha imaginação.

Os nossos tres heroes pagaram a sua conta de _hotel_, fecharam as
suas malas, e dirigiram-se para a proxima estação do caminho de ferro.

Chegando ahi, encontraram na sala de espera uma senhora distinctamente
elegante, vestida de preto, coberto o rosto com um espesso véu.

Todos tres arderam em curiosidade de vêr-lhe a face, e de saber quem fosse.

Mas o véu era impenetravel á perspicacia de seus olhos.

Quando chegou o comboio, offereceram-se, como bons cavalleiros andantes,
para conduzir ao wagon as malas da mysteriosa dama. Simples pretexto
para entrarem na mesma carruagem.

A traça vingou, vieram juntos. A dama mostrou-se amavel, espirituosa
até, mas o véu, sempre pendente, continuava a occultar-lhe o rosto, que
elles tanto desejavam vêr.

A distancia não era grande, e, graças á boa companhia em que vinham,
ainda mais pequena lhes pareceu.

Chegaram a Santa Apolonia depois da meia noite, despediram-se da sua
companheira de viagem, que lhes agradeceu a amabilidade com que a
trataram, mas, como era natural, todos elles desejavam seguil-a para
ficarem sabendo onde morava em Lisboa aquella mysteriosa dama, que tanto
lhes dera no goto.

Pensaram comtudo que seria inconveniente seguirem-n'a todos tres ao
mesmo tempo, e de commum accordo resolveram delegar n'um só esta
empresa, sob compromisso solemne de que narraria aos outros com a maxima
exactidão tudo quanto se passasse.

Jacinto Procopio foi o escolhido para tão importante commissão
de confiança.

Feito o accordo, despedidos os tres, Jacinto Procopio, investido nas
suas funcções de espião galante, vê a dama aproximar-se da fila de trens
que estacionavam no Largo dos Caminhos de Ferro.

E ouvindo rodar uma das carruagens, que devia ser aquella que a
mysteriosa dama havia tomado, entra n'outra carruagem, ordena ao
cocheiro que largue sem perda de vista aquelle trem que acabava de partir.

O cocheiro assim fez, guiado pelas lanternas da carruagem que o
precedia. De vez em quando Jacinto Procopio, pondo a cabeça fóra da
portinhola, espreitava; e, como visse as lanternas a brilharem como dois
pharoes no trem da frente, tranquillisava-se.

Haviam chegado ao Terreiro do Paço, e o cocheiro da primeira carruagem
parou de repente, fazendo signal ao do segundo trem para que passasse
adeante.

Jacinto Procopio disse com os seus botões:

--É ella que não quer ser seguida. Pois tenha paciencia, porque eu não
estou resolvido a fazer-lhe a vontade.

E falando para o cocheiro:

--Não faças caso. Deixa-te ficar.

Houve um momento de espera. O primeiro trem continuou rodando, e o
segundo tambem. Seguiram um atraz do outro ao longo do Aterro, subiram a
rampa de Santos, entraram na rua de S. João da Matta.

Jacinto Procopio ia jubiloso: a caça não conseguira fugir-lhe.

E depois, ficando a saber onde a dama morava, diria a verdade aos outros
ou não diria. Havia ainda de pensar n'isso. Não fosse tão tolo que,
depois de tanto trabalho, désse lenha para se queimar.

O primeiro trem parou á porta de um predio na rua da Santissima
Trindade; e o segundo trem parou logo apoz o primeiro.

Jacinto Procopio salta precipitadamente do estribo, quer vêr apear-se a
dama, mostrar-se-lhe, para que ella reconheça aquelle dos tres que
pareceria ter tido maior interesse em seguil-a.

Abre-se a portinhola da primeira carruagem e Jacinto Procopio vê descer,
de mala na mão, quem? A dama que elle julgava haver seguido, e á qual
queria mostrar-se? Não! Vê apear-se Leopoldo Ambrosio!

E os dois desatam a rir como possessos, quebrando hilariantemente o
silencio pacato da rua da Santissima Trindade.

A dama havia tomado outro trem, se é que tomou algum.

O logro fôra completo.

Tanto quanto a alacridade que lhes desconjuntava as costellas o
permittiu, os dois trocaram explicações, contaram um ao outro como as
coisas se haviam passado depois que se separaram no Largo dos Caminhos
de Ferro.

As revelações de Leopoldo Ambrosio foram interessantissimas.

Afigurou-se-lhe que era a dama que o seguia no segundo trem. E este caso
intrigava-o.

--Então é ella que me segue?! dizia elle com os seus botões.

E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o
entendimento.

No Terreiro do Paço, como o segundo trem viesse sempre na piugada do
primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao
cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.

As duas carruagens, como já contei, pararam quasi ao mesmo tempo.

E como o cocheiro do segundo trem não obedecesse ao convite que lhe
fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era
effectivamente a dama que o seguia.

Então, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o
galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos côr
de rosa na escuridão de uma noite negra.

E não fazia senão espreitar pelo oculo da carruagem a vêr se a
dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.

O seu trem subiu a rua de S. João da Matta e chegou, finalmente, á da
Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro
e que era o da sua residencia.

N'isto o outro trem pára logo.

--O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Então _ella_ pára tambem! Apea-se!
Vae talvez cair-me nos braços, dizendo n'uma grande allucinação de amor:
«Segui-te, porque quero ser tua!»

Tirou a mala para fóra do trem; que não fosse esquecer-lhe na anciedade
febril d'essa proxima explosão de amor.

Abre-se immediatamente a porta da segunda carruagem, e Leopoldo Ambrosio
vê apear-se, não a dama que elle imaginava vir seguindo-o, mas o seu
amigo Jacinto Procopio, de que se havia separado momentos antes no Largo
dos Caminhos de Ferro.

E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os
episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo,
desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus
dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador
feliz que tinha sonhado.

O caso é authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres
cavalheiros tão acreditados nos seus respectivos bairros como são os
srs. Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres
pessoas distinctas e um só logro verdadeiro.

--Bravo!

--Bravo!

--Um dos tres eras tu...

--Pois já se deixa vêr que era.

Gargalhadas, ápartes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio
orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a
historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava
primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.

--Pois então, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.

Silencio geral.



IX


Imaginem vocês que é o proprio conde que está falando.

Eu lhe conto, disse-me o conde.

E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita
sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente
malicioso:

--Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de
assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me
avisassem de que todo o Pariz--o Pariz doente e o Pariz são--havia
desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma
coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiro _expresso_, e, ao cabo
de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.

Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos
Pyrineus no estio.

Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a
paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas
revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a
bossa de poeta bucolico.

Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho
estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se
sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...

Os _omnibus dos hoteis_ solicitavam-me, na razão de 2 francos e 50
centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros das _caléches_
disputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi os _omnibus_, por nada
menos de tres razões:

1.ª Eu detesto a solidão, e os _omnibus_, como o seu nome indica,
garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais
fala no mundo: os francezes.

2.ª Eu relacionara-me no _expresso_ com tres francezes e quatro
francezas, a duas das quaes, alternadamente, e ás vezes simultaneamente,
principiei a fazer um pequenino pé de alferes, como nós cá dizemos.

3.ª Esta razão é futil: era mais barato.

As minhas duas francezas saltaram para dentro de um _omnibus_, e eu
parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.

Duas horas deliciosas!

As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr.
Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irmã
casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua
amiga, cunhada... do cunhado.

Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do
rheumatismo, que é uma doença de todos os burguezes. Se não fosse isso,
como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!

Só elle, pois, tomava tudo aquillo a sério, falando-me da composição das
aguas, das differentes _sources_ de Cauterets, em que predominava o
elemento alcalino.

As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de
Cauterets, citavam-me _la Promenade des Oeufs_, vasta explanada onde
todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade
dos divertimentos--bailes infantis, jogos, tiro ao alvo--e os _chalets_
dos vendedores põem em todo o recinto uma nota de animação movimentada,
gárrula, que a enorme concorrencia da _station_ completa; da montanha de
_Cambasque_, ao fundo da _Promenade des Oeufs_, á qual se sóbe em
zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; do _Marmelon
Vert_, a dois kilometros de Cauterets, o _rendez-vous_ do _sport_; do
_Parque_, sombreado de bellas arvores seculares; da _Grange de la Reine
Hortense_, d'onde se avistam os valles de Argelès e Lourdes; e da
_Glacière_, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...

Planeavam _parties de plaisir_, _repas champêtres_, que nós desdoiramos
com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graça delicada da
lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.

Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas,
ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela
auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam
palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e
muito hesitantes, ás minhas perguntas.

Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto
constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a
infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um
companheiro de viagem tagarella.

Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura
radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se
intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza do
_Lac Bleu_, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando
assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava
no seu espirito a poesia dos lagos...

Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.

Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como
saber quando a sua doença o abandonaria.

As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina
intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de
alferes, entre uma e outra.

Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter
ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma
portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo
tempo namorado de duas mulheres.

Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o
Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.

Uma das francezas, M.elle Suzanne, lembrou-me a conveniencia de
encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco
mais em Cauterets do que a saude.

M.elle Denise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou
menos da garganta.

Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a
tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo a _source_ ao acaso.
Arranjei, como o dr. Serrand pôde verificar por meio do laryngoscopo,
uma congestão thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas
de Cauterets são excellentes, não tanto para dar saude, como para
tiral-a.

Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar
o amor--o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um
pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades
emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mãos dadas em torno de
nós.

Uma fascinação... em francez.

Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres,
um millionario do amor... ideal.

Não chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me
solicitavam. Palavra de honra: não chegava. Uma vez encontrei-me no Pic
de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma
loira, irmã gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava
só no mundo com ella. Lembrou-me então uma certa aventura de Henrique
IV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de
Henrique IV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na
cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaçou-me de se despenhar do Pico,
arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma
simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando
ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.

Já de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento
informe da minha cobardia ou da minha inepcia.

Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia não
conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a
mesma graça amavel, sorria-me ainda com a mesma confiança que eu parecia
haver-lhe inspirado antes.

Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar á mamã, que contaria
tudo ao papá. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de
adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.

Nada d'isto aconteceu. Rosine não contou a ninguem, decerto, a scena de
Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistópheles e um cofre de
joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa
franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraía-me.

E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite não houvesse
apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a
qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.

Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti
a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que
teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder,
sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!

O conde descruzou as pernas, accendeu de novo o charuto, e,
batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:

--Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez
combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um
allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous.
Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se
no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.

Ao nascer do sol--uma manhã deliciosa dos Pyrineus--quando cheguei á
porta do _hotel_, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por
mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham
madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus.
Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam
duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem
partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.

--E a outra? perguntei eu.

--A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente
malicioso. A outra era minha sogra.

Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano,
os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as
conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que
nos foi muito agradavel ouvir mais uma vez a historia do seu
casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem
poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.

O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado,
emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando
para fóra.

Démos por isso.

--O que estás tu ahi fazendo?

--Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos
ouvir os rouxinoes!

--Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente
ir deitar-se!...



X


Era certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os
rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do
Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que
exalta allucinadamente a imaginação.

Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse
surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que,
a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.

O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade,
o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os
rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos
alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas,
uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos a
saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos
mais em ouvir.

Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós
outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma
alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma
da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa
e outros poetas da prosa ou do verso.

Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.

Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o
caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.

«Não tardou muito--diz a novella--que, estando eu assim cuidando, sobre
um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um
rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si
o meu sentido de ouvir.

«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como
cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.

«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se
cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas
folhas cahiram tambem com ella.»

Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é pouco mais ou menos
como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.

Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de
Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer
extenuada.

«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar
com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que
por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella
uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos
bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a
desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com
tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres
avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se
deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a
desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo,
que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»

Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se
refere _ás que por mais musicas são conhecidas_, e o rouxinol é, no
mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.

Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'um
_duetto_ de encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida
comtanto que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.

Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes,
principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos--Deus me
perdoe!--compuz um poema cuja heroina

    Acabára, cantando, o captiveiro
    Tal como é fama ter acontecido
    Ao rouxinol de Bernardim Ribeiro!

Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as
perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas
com molho de villão.

Um bom petisco!

O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes
como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza
que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os
antigos deram ao rouxinol.

Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido na _Arte
da caça da altenaria_, composta por Diogo Fernandes Ferreira.

«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei
de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para
o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão
desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa
solemne. Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena:
pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a
trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo
aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros,
rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se
incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras
pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade.
Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de
Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para
n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus
e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por
persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas
promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo,
acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta
princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo
de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e
traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle
outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de
um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse
que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras
de tristeza pela morte fingida da cunhada, a qual, estando em
poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda
de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã
o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim
lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que
n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou.
N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam
n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida,
foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim
a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança
do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho
de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram
fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao
marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que
era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e
guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á
mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito
amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés
do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha.
Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada.
Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena em
rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»

Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a
alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a
colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave
canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe
fizera a lingua, cortada pelo cunhado.

Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nos _Lusiadas_:

    Ao longo da agua o niveo cysne canta,
    Responde-lhe do ramo philomela.

Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso
elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne de _frak_
(certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr)
lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.

Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens
da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.

«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua,
e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas
vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do
marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar
o filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com
que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto
parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da
cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser
el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella
o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam
commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e
virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»

Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.

Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me
barbaro.



XII


No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte,
que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada
dos dois novos hospedes--o brazileiro e a mulher.

Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher,
curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.

--Já não é nova--disse-nos elle--mas considero-a ainda acirrante.
Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos
olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder
dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que
a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de
serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.

--Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.

Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida
pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a
mulher entraram.

O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era,
effectivamente, o que se costuma chamar--umas bellas ruinas. Não dessas
ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra
sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e
dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.

Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de
formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão
das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de
mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de
rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.

A _toilette_ era distincta, gentil, sem ser severa nem petulante.
Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se
poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis
nos dedos.

O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice
cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma
sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade
fidalga.

No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou
achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve
trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós
ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.

E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á
mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia
encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.

Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse
volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito
para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um
nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que
já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado,
conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.

Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos
annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.

Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto
em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte,
onde, no verão, abundavam os brazileiros em _villegiatura_? Nas Caldas
das Taipas ou de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?

Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia
lembrar-me onde nem quando.

Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar
a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não
repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver.
Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito
menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da
accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação.
Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.

Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do
jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de
expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido
a Cintra: ouvir os rouxinoes.

O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade
collectiva.

--Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os
rouxinoes são aos cardumes!

O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, os
_cardumes de rouxinoes_, que tinham saído da bocca do brazileiro.

Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:

--Então v. ex.ª é portuguez?

--Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de
Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.

--Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os
rouxinoes.

--Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos
passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os
outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais
notavel é que muitos passaros falam.

--Falam? perguntou o Leotte.

--Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.

--Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta
dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a
dizer--tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos
cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!

--Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...

--Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz,
porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar
o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto,
tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.

--Então não diz sempre a mesma coisa?

--Não, sr. De noite diz--curiangú; e de madrugada--João, corta pau.

--É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que
ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou
muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites
tão entretidos no _hotel_, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os
rouxinoes.

--Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.

--Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante.
Entretidos a contar historias.

--Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.

Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos
tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.

Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta
excentricidade.

--Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que
principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento.
Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que
viesse tomar os ares de Cintra.

--Pois se v. exas. nos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte
sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.

--Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se.
V. exas. demoram-se?

--Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na
qualidade de chefe da caravana.

--Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a
mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.

O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.

--Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e
meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?

--Sim, filha, como tu quizeres.

O Leotte, despedindo-se:

--Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da
noite, na sala de visitas.

--Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar,
seguida pelo marido.

Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio
até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.

É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela
estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.

Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas
ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos
pittorescas. O Leotte--já era de esperar--exagerava a belleza da
brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que
ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo.
Era _abelha-mestra_, concluia elle.

Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou
menos maliciosos.

Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem
disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o
marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de
Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.

Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos
meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.

--É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas
que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero,
não é a pessoa.

--Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.

--Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o
menor indicio de conhecer-te.

--Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao
brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?

--Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas
que sejam, estão inhibidas de reconhecer um homem que era das
relações da sua familia?

--O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria
explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as
acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis.
Decididamente, tu não sabes nada do mundo!

Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos,
anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada.
Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo
o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia:
«Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»

--Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha,
que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle
effectivamente é de Amares.

--Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!

--Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.

--N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.

--Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.

O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase--cardumes de rouxinoes. Outro, não
sei qual, recordou-se do _tico, tico_. O caso do passaro--já
nenhum de nós lhe atinava com o nome--que cosstuma dizer «João, corta
pau», despertou grande galhofa.

--Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos
os passaros dizem alguma coisa.

Gargalhada geral.

--É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito á _Havanesa_, já uma
vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre:
«Fogo pagou.»

--Pegou, é que ha de ser.

--Elle disse «Fogo pagou».

--E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que
davam o signal de incendio!

Novas gargalhadas.

O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle
que o lembrasse! Desandamos para o _Victor_, porque havia chegado o
momento de começar o nosso sarau litterario--com a assistencia do
brazileiro e de sua esposa.

Devia ter-se sentido em todo o _hotel_, quasi solitario, o ruido da
nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume.
D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.

Madame Araujo tinha feito _toilette_ para o sarau, uma _toilette_ que
envergonhava, pelo esplendor elegante, a nossa humilde academia
de _touristes_. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos
dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um
pouco o bom gosto da _toilette_.

De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei
onde!»

A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau,
que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.

O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua
presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».



XIII


Mettemos á bulha o Saavedra, que tinha sido até esse momento um dos mais
silenciosos do grupo, para que se dignasse fazer as honras d'aquella
noite, visto como a sua eloquencia devia achar-se ainda em folha, e a
nossa já ia estando um pouco fatigada.

O Saavedra tinha certa graça natural, era um espirito observador, mas a
sua modestia orçava ás vezes pela timidez. Felizmente pudemos
convencel-o a contar uma das suas anecdotas.

--Imaginem v. exas., disse elle, que uma respeitavel dona de casa, uma
exemplar mãe de familia, o que quer que seja de Cornelia romana, tem um
marido cujo orçamento domestico é em grande parte absorvido pelas
immensas publicações, principalmente jornaes, de que o fazem
assignante, ás vezes sem elle proprio o saber.

É sempre com uma certa contrariedade que a esposa d'esse cavalheiro vê
todos os dias entrar pela porta dentro mais um novo jornal.

Ella, que para os seus Gracchos quereria amealhar todas as economias do
_ménage_, observa ao marido que já vae sendo excessivo o numero de
jornaes que recebem.

Ordinariamente elle responde:

--Que queres, filha? Pediu-me o meu amigo Fulano; não póde deixar de
ser. Mas como tudo n'este mundo tem compensações, é mais um que podes
mandar vender no fim do mez.

E, accendendo o seu charuto, nunca mais pensa no jornal novo que lhe
mandaram, senão quando o cobrador vem receber a importancia da assignatura.

Todas as noites os jornaes d'aquelle dia são arremessados para o fundo
de um quarto esconso, d'onde, de tempos a tempos, saem ás braçadas para
a tenda vizinha, na rasão de 60 réis o kilo de idéas.

Pobres idéas! Descomposturas da politica, dissertações sociologicas,
_sueltos_ mordazes, versos de amor, charadas novissimas, tudo isso, que
custou tantas vezes a engendrar, e que teve talvez a sua hora de
celebridade, lá vae ser pesado a kilos na balança como a banha de porco,
o feijão amarello e a manteiga da terra.

Nenhum respeito, nenhuma consideração por essas pobres idéas! Do papel é
que se trata apenas: tanto pesa, quanto vale. O papel impresso tem
tambem o seu guano--coisa unica e vil que se lhe póde aproveitar, depois
que o pensamento envelheceu.

A facundia do jornalista, a inspiração do poeta, a graça do
folhetinista, ficam sendo, desde essa hora, um trapo para embrulho no
balcão dos tendeiros.

D'ahi por diante, isto é, da mercearia por diante, é o toicinho que
desbanca o artigo de fundo, é a manteiga que supplanta o folhetim. _Ceci
tuera cela._ A gordura afoga a poesia. Nos tempos modernos o trapo é a
mortalha do tropo.

Mas, como eu vinha contando, de tempos a tempos o criado da casa ia
vender á tenda vizinha grandes porções de jornaes antigos.

Succedeu porém que nos ultimos tempos, tendo-se despedido o criado, o
moço de padeiro, que servia a casa, recommendou outro.

--Era da sua terra, da Galliza, dizia o padeiro, e vinha para fugir ás
_sortes_. Não estava costumado a servir; faltava-lhe experiencia. Mas
era muito bom rapaz, honradissimo, filho de uns pequenos lavradores de
Compostella.

Affiançava-o. Quanto a pratica de serviço, não tinha--repetia o
padeiro--; mas como era esperto e tinha boa vontade de aprender,
desembaraçar-se-ia depressa.

Foi admittido o recommendado do padeiro.

Tipo montezinho; intellecto impenetravel, duro como o silex. Não
percebendo nada, parecia porém vivamente animado do desejo de perceber
tudo. Tinha sempre boas palavras, falas mansas, muito respeitosas. Mas,
sem embargo, todos estes predicados não chegavam a compensar a estupidez
desastrosa com que tudo fazia.

Estava inteiramente cheio o armario dos jornaes. Era preciso vendel-os,
e a dona da casa, tendo de sair a visitas, recommendou á criada:

--Dize ao Domingos que vá vender os jornaes. Mas explica-lhe bem o que
elle tem a fazer, para que não saia tolice.

--Sim, minha senhora; sim, minha senhora.

Mas, ou porque, logo que a senhora saiu, apparecesse á barra o namoro da
criada e começasse a fazer-lhe signaes semaphoricos, ou porque ella
realmente se esquecesse de que o criado era novo na casa, disse-lhe
simplesmente:

--Domingos, vae vender esses jornaes.

E o Domingos, muito obediente, muito submisso para a criada:

--Sim... senhora Rosa. Vender os jornaes... Eu já vou.

Uma hora depois voltava para casa a senhora. O criado ainda não tinha
chegado!

--Que é do Domingos?

--O Domingos foi vender os jornaes, minha senhora.

--Ha quanto tempo?

--Ha mais de uma hora!

--Ora essa! Tu explicaste-lhe bem?...

--Expliquei, sim, minha senhora...

--Então fugiria com o dinheiro?!

--Sim... talvez fugisse.

--Mas o padeiro affiançou-o!

--Isso não tira.

--Não tira! Mas o padeiro é que tem de entregar o valor dos jornaes...

N'isto bate-se á porta da escada.

--Ahi vem elle... diz a Rosa.

Mas, tendo espreitado á porta, recúa espavorida.

--Ó minha senhora! é um policia!

--Um policia! O que quer elle?

--Eu sei lá! Deus queira que não sejam alguns trabalhos...

--Estás tola! Vae abrir.

Batem segunda vez.

A criada, antes de abrir a porta, torna a espreitar.

--Ó minha senhora!

--O que é?!

--O Domingos vem preso com um policia!

--Preso! Mas como seria isso? Vae abrir, já te disse.

A Rosa abriu a porta.

O policia perguntou se aquelle criado era d'ali.

--Que sim, senhor, e que tinha sido affiançado pelo moço de padeiro.

Então o policia contou o seguinte:

--Estando de serviço na Avenida, fui avisado por algumas pessoas de que
na rua de S. José andava um rapaz impingindo por 10 réis jornaes
antigos. Essas pessoas, tendo caido no logro, reclamaram a intervenção
da policia, porque o rapaz, muito descarado, continuava na ladroeira. O
policia teve que intervir; foi á procura do rapaz. Não tardou a
encontral-o, justamente na occasião em que elle estava vendendo um
_Diario Popular_ do mez anterior. Foi pois apanhado em flagrante
delicto: com a bocca na botija. O policia perguntara-lhe:

--Tens fiador?

--Fiador! fiador, não tenho, sr. policia.

--Estás então preso.

--Pois então estou preso, sim, senhor.

--Quem te deu esses jornaes para vender?

--Quem me deu estes jornar para vender?!...

--Anda lá, não te faças tanso, que não ganhas nada com isso.

--Não me faço tanso, não, senhor. Quem me deu estes jornaes para vender
foi a sr.ª Rosa...

N'este ponto, a criada interrompeu abruptamente a narrativa do policia,
dizendo:

--Foi a senhora que mandou. Pois não foi, minha senhora?

O policia:

--Foi a senhora?

A criada:

--Foi, sim, sr. policia.

Mas a dona da casa, apparecendo então no patamar da escada, disse com
dignidade:

--Faça favor de continuar a dizer como isso foi.

O policia continuou:

--Quem é a sr.ª Rosa? perguntei-lhe eu.

--É a criada da patroa.

--E quem é a patroa?

--É a mulher do patrão.

--Mas como se chama? Irra!

--Chama-se... Isso é que eu não sei muito bem.

--Bom. Vamos lá a casa dos teus patrões. Quanto dinheiro apuraste tu com
a venda dos jornaes?

--Quanto dinheiro apurei?

--Sim, quanto tens na palma da mão?

--Aqui, na palma da mão, tenho este.

--São setenta réis. Dá cá.

--Isso agora é que eu não dou, não, senhor, porque este dinheiro é para
entregar á sr.ª Rosa.

--Dá cá o dinheiro, e anda lá _p'ra diente_.

Quando o policia estava n'este ponto da narrativa, subia a escada o dono
da casa, que voltava da repartição.

Muito espantado de ver um policia, perguntou o que tudo aquillo
significava.

Então sua esposa contou o que se passara: o marido riu, o policia riu, a
criada riu. Só o Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.

Comtudo, o policia, em razão de ter abandonado o serviço, precisava
justificar o seu procedimento.

--Que tivesse o cavalheiro paciencia, mas era preciso acompanhal-o á
esquadra para contar como as coisas se passaram.

--Não ha duvida nenhuma, respondeu o dono da casa, vamos lá.

O chefe da esquadra riu, todos os outros policias riram, mas, como não
estava presente o sr. commissario, o chefe da esquadra disse:

--Tenha o cavalheiro a paciencia de voltar ámanhã, das 10 para as 11
horas, a fim de contar tudo ao sr. commissario.

No dia seguinte, das 10 para as 11 horas, o dono da casa, seguido pelo
Domingos, foi falar com o sr. commissario da respectiva divisão, que era
aliás seu conhecido.

O commissario ainda não estava; o chefe da esquadra tornou a rir, só o
Domingos, com os olhos cravados no chão, não ria.

O commissario falou pelo telephone:

--Que ia fazer uma diligencia importante com o commissario geral; que
não contassem com elle.

O chefe da esquadra:

--Que tornasse a ter paciencia, mas que voltasse no dia seguinte para
falar com o sr. commissario.

--Ora essa! Que maçada!

E á saída da esquadra, tanto o patrão como o Domingos não riam--nem um,
nem outro.

Madame Araujo achou infinita graça á historia dos jornaes, e o
brazileiro, por esta vez ao menos, tambem pareceu achar graça de conta
propria.

O Leotte estava visivelmente picado com o triumpho que o Saavedra
obtivera na presença d'essa mulher, cuja _toilette_ denunciava um certo
habito de existencia mundana, que elle queria explorar.

Foi pois elle mesmo que se offereceu para contar um episodio da sua
viagem a Thomar.

--Tambem já vi Thomar, observou o brazileiro; é bonito, mas não chega
aos calcanhares do Minho!

--Pois isto que vou contar, acrescentou o Leotte, aconteceu no principio
de julho, ha tres annos.

--Ha seis é que eu lá estive, ponderou o brazileiro.

--Vamos a ouvir a historia, disse madame Araujo.

--Sim, filha, obedeceu o brazileiro, submisso como sempre.



XIV


A _festa dos taboleiros_ tinha reunido em Thomar muita gente de fóra. A
companhia dos caminhos de ferro estabelecêra comboios directos a preços
reduzidos. A pittoresca cidadesinha do Nabão, com o seu bello convento
de Christo no topo, tinha um movimento extraordinario, anormal, que a
vitalisava desde o castello dos templarios até á graciosa planicie da
_Varzea grande_, habitualmente só frequentada por alguns soldados de
infantaria 11.

Todas as familias gradas da localidade tratavam de engalanar os
taboleiros com muitas flôres e fogaças, alguns d'elles cogulados até á
altura hiperbolica de dois metros. São estes taboleiros que as raparigas
mais bonitas da cidade, entrajadas ao garrido, conduzem á igreja
de Santa Maria, onde a fogaça é benzida por um sacerdote. D'ali seguem
por entre alas de povo, que as applaude, até á igreja da Misericordia. Á
noite, a cidade, que é atravessada por uma ponte, illuminava-se com
balões venezianos, que se espelhavam nas aguas do rio. Havia um bazar, e
toirada. Era por tal signal cavalleiro um _amador_, Alfredo Marreca.

Algumas familias das minhas relações haviam planeado um passeio através
da Estremadura. Pretexto, a _festa dos taboleiros_ em Thomar. Eu, que
não gosto nada de viajar com o concurso de uma multidão festiva, combati
o projecto, propuz um adiamento para depois da romaria. Procedeu-se á
votação, e a maioria esmagou-me: tal qual como em S. Bento. Para me não
demittir, submetti-me. Fomos por Santarem, onde nos demoramos dois dias.
Depois seguimos para a estação de Paialvo, onde nos apeamos, e entramos
em _char-à-bancs_ que nos conduziram a Thomar. Estação e estrada
abarrotavam de gente. Irritado dos nervos, o meu desejo era mandar parar
o sol ou... aquella gente toda. Fomos na incerteza de obter _hotel_, e
essa incerteza sorria-me. Mas quiz o acaso que ainda encontrassemos
alojamento no _Hotel Cotrim_, á beira do Nabão. Tudo aquillo seria
delicioso, se não estivessemos em plena romaria. Uma barafunda de todos
os diabos.

Almoçamos, e saímos. Andamos aos encontrões de um lado para o
outro. Começamos por visitar o convento. Na varanda de pedra o
conservador do monumento dissera-nos: «A rainha D. Maria II, quando
visitou o conde de Thomar, gostava de vir bordar para esta janella.» Que
tinha bom gosto, concordaram as senhoras.

A cidade, cortada pelo rio, muito arruada e muito varrida, estendia-se
ao sopé do castello. E os forasteiros enxameavam cruzando-se em
direcções oppostas. Vistos do alto, pareciam lilliputianos. Depois do
castello, fomos visitar a fabrica de fiação, e as fabricas de papel do
Prado e de Mariamaia. O dia estava calmosissimo: um julho abrasador. Os
passaros, se não lograssem abrigar-se no secular arvoredo do _Padrão_,
teriam morrido de calma.

Á volta das fabricas, uma das senhoras do nosso rancho sentiu-se
subitamente indisposta. Pediu-se um copo de agua. E, como a estação
telegraphica estava proxima, recorremos ao telegraphista.

Encontrei-o sentado ao apparelho--que não era ainda o
Morse--trabalhando. Representava um homem de quarenta e cinco a quarenta
e sete annos de idade: moreno e magro, estatura regular, bigode
levemente grisalho. Muito grave de maneiras, e visivelmente melancolico.
A sua figura impressionou-me e, digo-o francamente, sem querer encarecer
o meu faro de observador, suspeitei n'aquelle homem um romance.
Acreditem: suspeitei. Logo que lhe eu disse ao que ia, chamou
para dentro a pedir um copo de agua. Veiu trazel-o uma rapariguita de
dezeseis annos, picada das bexigas, e descalça. Mas eu percebi que
alguem estava espreitando pela porta entreaberta.

Arranquei o copo das mãos da rapariga, e saí com elle. A indisposição
não tinha passado ainda. Uma mulher offerecera uma cadeira de pinho, em
que sentaram a doente, que, muito pallida, coberta de um suor frio,
bebeu um gole, e afastou o copo.

--Não teimem, disse alguem do lado.

Fui entregar o copo ao telegraphista, que gravemente me perguntou se o
incommodo tinha passado.

Disse-lhe que não. E elle, levantando-se outra vez, lembrou que seria
melhor trazerem a senhora para a estação telegraphica, onde _sua mulher_
lhe poderia offerecer um leito humilde mas asseado.

Saí a dizer isto, e todos approvaram o alvitre. Conduzida em braços a
doente, entramos na estação, e o telegraphista, vendo-nos chegar, chamou
para dentro:

--Clementina! ó Clementina!

N'isto appareceu-nos uma creatura que não teria mais de quatro palmos de
altura, vestida muito garridamente com uma saia côr de pombo e um
corpete azul; sobre o corpete, cabeção de rendas brancas com fita preta
e broche de oiro. Cara redonda e cheia, não despicienda. Mas a
cabeça, estabelecida a proporção com a altura do corpo, era
excessivamente volumosa. Estava penteada á Maria Stuart, e tinha dois
anneis de Cabello empastados sobre a fronte.

Apesar da seriedade do lance, todos os homens trocaram entre si um olhar
de surpresa e admiração, que, reduzido a palavras, poderia dizer isto:

--Pois este monstrosinho será a mulher do telegraphista?

E, inclinado o olhar ao telegraphista, o contraste assombrava-nos cada
vez mais.

Pelo meu espirito passou este raciocinio:

Casaria elle por amor? Não é possivel. Se não foi por amor, seria por
interesse? Mas então como diabo é elle telegraphista e vive pobremente?
Arruinar-se-ia no jogo? Oh! aqui ha romance por força...

As senhoras deitaram a doente, depois de a haverem desapertado, sobre o
leito conjugal do telegraphista. Nós, os homens, ficamos na sala da
estação conversando em voz baixa. O telegraphista fazia-nos, muito
polidamente, as honras da casa. Estavamos encantados com elle, com a
distincção das suas maneiras, com a sua gentileza em que uma intensa
nota melancolica predominava.

--Que era do enfado da viagem, do comer das hospedarias, do calor do
dia. Que, se o incommodo não passasse, offerecia a sua criada
para nos ensinar a casa do medico.

De dentro disseram-nos n'essa occasião que a doente estava melhor.

Para ser amavel, lamentei ao telegraphista que os deveres do seu cargo o
obrigassem a estar ali preso n'um dia de festa em Thomar.

Elle sorriu-se e respondeu:

--Eu nem dou pela festa. Detesto isto, não saio nunca de casa, não
passeio, não ando.

Instantes depois dizia-me ao ouvido um dos nossos companheiros de viagem:

--Pois, sr., tem bom gosto o homem! Prefere estar em casa a contemplar o
monstrosinho das _bellezas_!

E eu respondia-lhe no mesmo tom discreto:

--Aqui ha romance, se ha!

O meu amigo sorriu-se e respondeu:

--O que ha por força é tolice.

Ao cabo de tres quartos de hora, a doente deu-se como restabelecida.
Amparou-se ao braço de um parente seu, e recolhemos ao _hotel_, depois
de termos agradecido ao telegraphista e a sua esposa os bons serviços
que nos haviam dispensado.

Elle disse-nos o seu nome todo, offereceu-nos attenciosamente a sua
casa, pobre e humilde como era.

A mulher, erguida nos bicos dos pés, dava beijos ás senhoras e apertou a
mão aos homens, sacudindo-a á ingleza.

--Mas que figura de mulher! diziam as senhoras. Que lá bem educada
parece ser.

Depois de jantar, nós os homens saímos. As senhoras ficaram em casa. Eu,
francamente o digo, convencido de que havia um romance no casamento do
telegraphista, desejava conhecel-o. Á segunda ou terceira pergunta que
fiz, encontrei homem que m'o contasse.

No principio da sua carreira, o telegraphista fôra para Sines. Rapaz
muito bem comportado, grave e sério, toda a gente gostava delle. Ás
vezes os rapazes de Sines iam a funcçanatas, bailaricos principalmente,
a Santiago de Cacem. Elle ficava sempre; ás dez horas da noite recolhia
a casa. Durante muito tempo não se lhe conheceu qualquer inclinação
amorosa. E não era, como sabemos, porque fosse mal parecido. As
raparigas de Sines não o achavam nada feio.

Passado mais de um anno, alguem disse que o telegraphista namorava a
filha de um maritimo ali conhecido.

--Não é possivel! exclamavam alguns.

--Isso só por brincadeira! alvitravam outros. Mas o homem é sério.

Não era possivel, diziam uns, porque a filha do maritimo era aquella
creaturinha anã que nós vimos em Thomar. Só por brincadeira, diziam
outros, porque, comquanto a cara da rapariga não fosse de todo feia, o
corpo não chegava para casar.

Ora a verdade era que D. Clementina estava sempre á janella com o seu
rosto rosado e o seu penteado Stuart expostos á brisa do mar. Mas
trepava-se a uma cadeira muito alta para que o seu collo ficasse, como
n'uma pessoa de estatura regular, á altura do peitoril.

Homem de poucas falas, o telegraphista não conversava com ninguem. E, de
motu proprio, ninguem ousou dizer-lhe que a mulher que elle namorava
tinha apenas a altura de uma boneca.

O telegraphista caiu de cama com uma pneumonia. A solidão do seu quarto
de doente levou-o decerto a pensar no casamento. Restabelecido, sem
revelar a ninguem a sua intenção, entrou em casa do maritimo a pedir-lhe
a mão da filha.

Mostrou-se surprehendido o maritimo. Parecia-lhe impossivel aquella boa
fortuna para uma filha anã. Disse-lhe que teria muito gosto em
acceital-o como genro, tanto mais que sua filha, como elle acabava de
dizer, estava de accordo no casamento.

E, por cautela, dispensou-se de chamar a filha á conferencia.

Tres dias depois era o telegraphista admittido na intimidade da familia.
Foi então que viu pela primeira vez sua mulher tal qual ella era, sem o
supplemento da cadeira alta. Um tremor de frio percorreu-lhe a espinha
dorsal, mas, homem de principios honestos, presando acima de tudo a sua
reputação, casou. Outro fosse elle, e teria fugido de Sines
n'essa mesma noite, mandando a noiva e o telegrapho ao diabo. Todas as
pessoas de regular estatura o haveriam desculpado.

Sabida a historia, ficou perfeitamente explicado o melancolico
recolhimento em que o telegraphista vivia, o seu desdem pela festa dos
_taboleiros_, e o seu apêgo ao apparelho Bréguet, bem mais suave para
elle que o do Hymeneu.

Na infelicidade d'este logro conjugal, uma consolação unica poderia
sorrir ao pobre telegraphista: não tinha filhos, nem esperava tel-os.

--Muito bem sacado logro! exclamou o brazileiro com a despreoccupação de
espirito de quem não suspeita ter caído em algum logro... mais ou menos
bem sacado.

Madame Araujo commentava o caso, ria, falava, estava expansiva, o que
lisonjeava sobremodo o Leotte.

Confessava que não esperava divertir-se tanto em Cintra.

--Pena tenho eu, disse ella, se isto não durar!

O Vasconcellos respondeu:

--Naturalmente vamos embora ámanhã.

--Já?! exclamou madame Araujo. Mas o Leotte deitou agua na fervura:

--Que tanto importava mais um dia como menos um dia.

Os relogios do Victor deram meia noite.

--E que tal! já meia noite! disse o brazileiro.

Se você concorda, Christina, vamos tratar de recolher-nos, hein?

Ouvindo pronunciar a palavra _Christina_, foi como se eu proprio tivesse
pronunciado _eureka!_ como se houvesse encontrado a solução de um
problema transcendente.

Despedi-me do brazileiro e da mulher, authomaticamente. Mal que elles
voltaram costas, fiz signal aos outros para que me seguissem. Chegando
ao meu quarto, fechei a porta, e disse-lhes cuidadosamente, como se se
tratasse de um segredo de estado n'um club de conspiradores:

--Já sei quem esta mulher é!

--Quem é?

--A Christina do Muxagata, sem tirar nem pôr!

--A Christina da historia que nos contaste?!

--Acreditem, meus amigos, é a Christina do Muxagata.



XV


A minha revelação causou tanta surpresa e interesse aos meus
companheiros de _villegiature_, como a mim proprio.

Ir eu encontrar, ao cabo de tantos annos, a mesma Christina da rua das
Fontainhas, a quem fôra entregar o dinheiro do Muxagata, na occasião em
que ella estava ceando com o Falcão do Marco!

Que singular coincidencia a de ter eu começado por contar, nos nossos
improvisados serões de Cintra, a historia do Muxagata e de ter vindo ao
nosso encontro, no _hotel_ do Victor, essa famosa Christina, que eu
nunca mais tinha visto, e de que nunca mais ouvira falar!

Como, arruinando talvez o Falcão do Marco, chegára ella a desposar o
brazileiro Araujo, se é que em verdade o havia desposado mais
canonicamente do que ao Muxagata e ao Falcão do Marco?

O que seria feito d'aquella creancinha de dois annos, que fôra o
fructo do seu primeiro amor criminoso?

Mas eu não estava sonhando, por mais que o Vasconcellos quizesse
capacitar-me d'isso.

Não havia duvida. Era ella, a mesma Christina da rua das Fontainhas, a
bella lamecense raptada pelo Muxagata, com os dedos cheios de anneis e
as mãos dealbadas de pó de arroz.

O Gonçallinho Jervis estava tão encantado com esta surpresa, que me
parecia ter ciumes de que fosse eu e não elle que, por um acaso notavel,
encontrasse um verdadeiro assumpto de romance.

Ah! ingenuo Gonçallinho! Esse feliz achado representava apenas que eu
era mais velho do que elle. Consolação tristissima. Não ha homem vulgar
que, no decurso de alguns annos, não encontre na sua memoria um ou mais
romances de sensação. Esperasse o nosso Gonçallinho, vivesse mais algum
tempo, e os assumptos levantar-se-lhe-iam debaixo dos pés, quando menos
os procurasse.

O Leotte, apenas soube que madame Araujo era a Christina da historia do
Muxagata, julgou-se um César que tinha chegado, visto e vencido.

O Athayde, o Maldonado e o Vasconcellos eram os que mais reservados se
mostravam perante esta situação inesperada, que viera accidentar
pittorescamente a nossa excursão a Cintra.

As suas duvidas contrariavam-me, pois que eu não podia deixar de estar
plenamente convencido de que madame Araujo era a Christina da rua
das Fontainhas.

Procurei convencel-os, e lembrou-me um alvitre que devia acabar por
deixal-os inteiramente rendidos á verdade dos factos.

--A Christina da rua das Fontainhas, tal como eu a conheci, gostava
immenso de batotear. _Saltava_ nos valetes, e _fazia cêrco_ ás quinas.
Pois bem! experimentemol-a. Adiemos por mais dois ou tres dias o nosso
regresso a Lisboa. Uma d'estas noites armamos uma banca de jogo. Se fôr
ella, é natural que sinta renascer em si a paixão de jogar, que a
fascinava no tempo do Muxagata. Observemos se _faz saltos_ nos valetes e
_cêrcos_ ás quinas. Se isto se der, meus amigos, não ha mais que
duvidar: é ella, sem tirar nem pôr, a Christina do Muxagata.

Este alvitre agradou geralmente, e resolveu-se que ficariamos para
realisar a experiencia decisiva.

Era porém preciso proceder com boa tactica, não começar logo por falar
no jogo.

Assim se fez. No dia seguinte, madame Araujo, que ia readquirindo entre
nós o seu velho habito de conviver com homens, estava quasi
familiarisada comnosco, interessava-se pelos nossos passeios, pelos
nossos paradoxos, e, sobretudo, mostrava-se deliciada pelos nossos
serões, cheios de novidade para ella.

Á noite, como se realmente não tivessemos nenhuma intenção
reservada, principiámos por dar a palavra ao Taveira, que ainda não
tinha falado. Contasse elle alguma _partida_ do seu amigo Luiz de Lemos,
com que tantas vezes nos tinha matado o bicho do ouvido.

--A historia da _claque_, por exemplo.

--Vocês estão fartos de ouvil-a! disse elle.

--Mas nem madame Araujo nem seu esposo a conhecem de certo.

--Luiz de Lemos! Eu nunca ouvi falar sequer d'esse nome! disse madame
Araujo.

O Taveira resolveu-se a contar a historia da _claque_ do seu amigo Luiz
de Lemos, que todos nós sabiamos de cór e argumentada.

--Luiz de Lemos chegou a Braga ás cinco horas da tarde, sem ser esperado
dos primos do Campo Novo.

Apeteceu-lhe aproveitar os primeiros dias de verão, alegres e quentes, e
a resolução d'essa pequena jornada ao Minho foi tomada de repente, uma
noite, ao sair do theatro Baquet.

Tinha chegado de Boaças dias antes, apenas com o seu fato de verão e
alguma roupa branca na mala. Não contava passar do Porto. Mas, de
subito, n'aquella noite, lembraram-lhe os primos Ozorios de Braga, dois
pandegos, e, ao recolher do theatro, fez a mala e disse ao criado da
_Aguia d'ouro_ que o chamasse ao romper da manhã.

--V. ex.ª retira-se já para Boaças? perguntou o criado, admirado
de que, d'esta vez, o rega-bofes durasse tão pouco tempo.

--Não. Eu vou a Braga, visitar os primos Ozorios. Ainda hei de ir estar
na Foz alguns dias. Mas por ora é cedo. Vou a Braga.

Ao romper da manhã, Luiz de Lemos foi á rua Formosa, á alquilaria do
_Raymundo_, alugar um _coupé_ que o levasse a Braga.

Elle tinha um grande horror instinctivo pela diligencia de Entre-Paredes
em especial, e por todas as diligencias em geral. Dizia elle que a
diligencia era a _valla dos vivos_. Uma philosophia como qualquer outra.

A manhã estava deliciosa, fresca e lucida, excellente para jornada.
Almoçou na Carriça, tornou a almoçar em Villa Nova de Famalicão, e
almoçaria terceira vez em Braga, se não preferisse jantar.

Os primos Ozorios do Campo Novo, encantados com a visita do morgado de
Boaças, disseram-lhe que iam para a mesa.

--Vocês ainda jantam? perguntou o morgado.

--Bem vês tu que Braga é uma terra conservadora. Por cá ainda se pensa
no jantar e no sr. D. Miguel.

--Pois, meus amigos, eu só almóço, mas posso almoçar tantas vezes
quantas fôr preciso. É pois pela terceira vez que vou hoje almoçar.

Sentaram-se á mesa. Alegria e apetite eram de primeira ordem.

--Além de jantar, o que fazem vocês por cá?

--Divertimo-nos.

--Mas como?

--Hoje, por exemplo, temos um baile.

--Um baile! Um baile em Braga é uma coisa tão absurda como uma semana
santa em Marrocos. Mas onde é o baile?

--Em casa do Raio.

--Olá! Pois esse baile do Raio é um verdadeiro _raio_ para mim.

--Por que?

--Porque não trouxe casaca.

--Ó diabo! não trouxeste casaca?! exclamou um dos Ozorios.

--Caso grave! ponderou o outro.

--Trago apenas fato de verão. Eu podia lá imaginar um baile em Braga!
Que _raio_ de lembrança!

--Mas ha de arranjar-se uma casaca.

--Sim... uma casaca sempre ha de arranjar-se.

--Se vocês arranjassem isso, teriam cortado o nó gordio.

--Ora espera! lembrou um dos Ozorios. Eu tenho duas casacas.

--Uma para usar e outra para alugar? Magnifico! Alugo-te a segunda por
doze vintens.

Os Ozorios riram-se.

--Mas... chapeu? perguntou um dos dois irmãos.

--Vou em cabello.

--Constipas-te.

--Irei de cadeirinha, de carroção ou em maca.

--Manda pedir o cavallo emprestado ao Longuinhos do Bom Jesus do Monte.

--Ou isso. Mas vamos a resolver o caso do chapeu.

--Está resolvido, disse o Ozorio mais velho. Eu tenho uma _claque_ e um
chapeu alto. Tu levas a _claque_ e eu o chapeu alto.

--Para encheres de pasteis é melhor do que a _claque_. Tu não te perdes,
maganão!

Jantaram pantagruelicamente, comendo bem e bebendo melhor.

Ás 9 horas davam os tres primos entrada nos salões do commendador Raio,
que estavam deslumbrantes de bellezas bracarenses.

Luiz de Lemos valsou, polkou, namorou, com o prestigio que lhe dava a
sua lenda de morgado rico de Boaças.

Mas, a meio da noite, lembrou-se de que ainda não tinha fumado.

Encontrou um dos primos.

--Ó tu! onde é que se fuma?

--Ali, respondeu o primo Frederico, indicando-lhe uma pequena sala.

--Bem. Vou fumar. Olha lá, sê prudente: não digas a ninguem que a minha
casaca... é tua.

O primo riu-se.

Luiz de Lemos entrou na pequena sala, onde muitos cavalheiros de
Braga estavam fumando, incluindo o escrivão de fazenda.

Accendeu o seu charuto, pousou a _claque_ sobre a mesa, conversou com os
conhecidos e os desconhecidos, riu, falou de cavallos e de mulheres, mas
como ouvisse annunciar uma valsa, levantou-se, pegou na _claque_ e
dispunha-se a passar ao salão de baile.

Quando elle já tinha sobraçado a _claque_, o escrivão de fazenda, que
estava de pé, reparando na outra _claque_ que tinha ficado sobre a mesa,
dirigiu-se ao morgado de Boaças:

--V. ex.ª enganou-se...

--Enganei-me! Como?

--Essa _claque_ não é de v. ex.ª.

O morgado olhou fito no escrivão de fazenda, voltou-lhe as costas e
dirigiu-se para a porta.

O escrivão de fazenda seguiu-o, e já no corredor, abordou-o:

--Essa _claque_ não é de v. ex.ª.

--Não é, não sr., mas que tem o cavalheiro com isso?

--Peço perdão a v. ex.ª, mas ha aqui um pequeno engano...

--Não ha engano nenhum, replicou o morgado. Acha que a _claque_ não
é minha?

--Parece-me...

--Pois tambem a casaca não é. Ora aqui tem.

E, mal humorado, tornou a voltar-lhe as costas.

Encontrando o primo Frederico no salão, o morgado de Boaças
desfechou-lhe com vivacidade:

--Tu és um patife!

--Porque?

--Porque não és capaz de guardar um segredo.

--Que segredo?

--O da _claque_.

--Mas que dizes tu?!

--E o da casaca tambem...

--Mas a quem diabo fui eu contar que te emprestei a _claque_ e a casaca?

--A quem? Ao escrivão de fazenda! E és tolo. Porque, se não désses com a
lingua nos dentes, talvez fosse eu que tivesse de pagar a contribuição
sumptuaria. Uma casaca em Braga deve ser considerada como objecto de luxo.

N'isto viram aproximar-se o escrivão de fazenda, que se encaminhava
a elles.

--Ahi vem o homem! galhofou o morgado. Vem talvez saber qual dos dois ha
de collectar.

O escrivão de fazenda aproximou-se attenciosamente de Frederico Ozorio.

--Peço desculpa a v. ex.ª, disse elle, mas a respeito d'este cavalheiro
que o trata por primo, deu-se um pequeno engano.

O morgado teve uma sacudidella nervosa:

--É forte embirração! Eu ja disse ao cavalheiro que não houve engano
nenhum. Nem a casaca nem a _claque_ são minhas.

--Minhas é que são... interveio o Ozorio, querendo deitar agua na fervura.

--Perdão! insistiu o escrivão de fazenda. A casaca será de v. ex.ª, mas
a _claque_ é minha.

--Tem graça! Fui eu que a emprestei a meu primo.

--Torno a pedir perdão. O primo de v. ex.ª, ainda agora, lá dentro,
trocou a sua _claque_ com a minha, que tambem estava sobre a mesa.

Foi só então que o engano se desfez, mas, como désse muito que rir aos
tres primos, toda a gente quiz saber o que era e toda a gente ficou
sabendo em Braga que o morgado de Boaças tinha ido n'aquella noite ao
baile do commendador Raio com uma casaca emprestada e uma _claque_ que
não era sua.

O brazileiro commentou que não havia nada mais facil de acontecer do que
uma troca de chapeus. Esta observação não era, aliás, precisa para o
caracterisar intellectualmente. Salomão, no seu logar, teria dito a
mesma coisa.

D. Christina achou graça ao caso, mas disse, pouco amavelmente para o
Taveira, que era de historias de amor que gostava mais.

E o brazileiro observou por sua vez:

--Eu do que gosto mais é de historias de almas do outro mundo. As velhas
da minha terra crearam-me com essas historias.

--Pois eu contarei ao sr. Araujo, disse eu, uma historia de almas do
outro mundo.

O Vasconcellos interrompeu auctoritariamente:

--Agora não. Isto de historias tambem cansa. Vamos nós inventar outro
divertimento?...

--Qual? perguntaram duas ou tres vozes.

--O que eu receio, disse elle, é desagradar á sr.ª D. Christina... Mas
lá vai! V. ex.ª aborrecer-se-ia se nós armassemos uma mesa de jogo?

--Ora essa! exclamou o brazileiro. Um berlotesinho?! A Christina péla-se
por isso, e eu não desgósto tambem.

Meia hora depois, D. Christina estava contente como o peixe dentro de
agua. Batoteava de grande e á... portugueza. _Saltava_ em todos os
valetes e _cercava_ todas as quinas.

E como os rios correm para o mar, era ella e o brazileiro que estavam
com sorte.

Não havia que duvidar. A experiencia era completa, decisiva.

Ó alma batoteira do Muxagata! volta por um instante a este mundo para
verificares como a tua Christina de Lamego honra a tua memoria
transitando firmemente pelo caminho que tu lhe traçaste em roda de uma
mesa de jogo.



XVI


Todas as baterias da nossa curiosidade se assestaram contra um alvo
unico: descobrir a historia do supposto casamento da Christina do
Muxagata com o brazileiro Araujo.

Felizmente para nós, o bloqueio não durou muito. Foi a propria praça que
se rendeu voluntariamente.

Emquanto D. Christina fazia a sua _toilette_ para o jantar, o brazileiro
contava-me no terraço do _hotel_, com toda a sua ingenuidade bondosa, a
historia do seu casamento--revelação a que eu o conduzi mais ou menos
habilmente.

Tinha vindo a Portugal havia seis annos para matar saudades da patria e
visitar os parentes que viviam em Amares.

Aproveitára a occasião, e fizera algumas excursões tanto no norte do
paiz como na Extremadura.

Foi por essa occasião que encontrára D. Christina no Bom Jesus do Monte.
Tinha ella enviuvado pela segunda vez recentemente e achava-se entregue
a um profundo abatimento moral...

--Então a esposa de v. ex.ª já tinha casado duas vezes? perguntei eu.

--Já. A primeira com o morgado de Muxagata, que pela má cabeça d'elle
déra cabo de tudo.

--E a segunda?

--A segunda com outro fidalgo do Marco de Canavezes, que tambem não
tinha mais juizo. O amigo sabe decerto qual era a vida gastadora dos
antigos morgados.

--Sei muito bem.

--Pois os dois deram cabo de tudo quanto tinham. A Christina estava
reduzida ao pouco que lhe deixou o segundo marido.

--E filhos... não teve?

--Não, senhor. Como eu ia dizendo, vi-a no Bom Jesus do Monte. Gostei da
senhora, soube que não tinha muitos meios, e falei-lhe em casamento.
Ella, comquanto não fosse já nova, era bonita, como ainda se vê. Estava
boa para mim, que não era nenhum rapazinho, e de mais a mais doente.
Tudo aquillo foi obra de poucos dias. Ella lá tratou de mandar tirar os
papeis.

--Quaes papeis? Os banhos?

--Para correr os banhos eram precisas as certidões dos dois casamentos e
do obito dos dois maridos. Mas a Christina foi ao Porto, emquanto
eu fui a Amares, tambem por causa dos meus papeis, e lá os arranjou.
Juntamo-nos depois em Amares, onde eu quiz casar por ser a minha terra.
Como resolvesse ficar em Portugal, precisei ir liquidar ao Rio de
Janeiro. A Christina, coitadinha! não me quiz deixar ir só; foi tambem.
Estivemos lá dezoito mezes, liquidei, e agora por aqui ando sem mais
canseira que a de tratar da minha saude. Vivi a principio em Braga, mas
os medicos, por Braga ser muito fria, aconselharam-me que viesse viver
para Lisboa, por causa do clima.

N'isto chamaram para o jantar.

E eu, francamente, não achei na historia do brazileiro revelação alguma
que me surprehendesse--nem mesmo a dos _papeis_ que D. Christina
arranjára no Porto. Nada ha tão facil a uma mulher que vae casar com um
brazileiro como poder cohonestar o seu passado com duas certidões de
casamento... falsas. Quanto ao resto, eu havia architetado a historia do
brazileiro. Apenas a minha imaginação tinha mettido mais alguns
_maridos_ no coração de D. Christina. Mas achei natural que ella não
fosse mais verdadeira, no que contára ao marido, do que as duas
certidões que o contentaram a elle.

Ter-me-ia ella reconhecido? Certamente que sim. Estava, porém, muito
tranquilla na posse dos quatro documentos que attestavam o seu passado.
Com elles se defenderia, sendo preciso, da inconveniencia de
qualquer mau encontro. Tanto se lhe daria, pois, que eu a reconhecesse
como não. Ella era a viuva documentada do morgado de Muxagata e do
Falcão do Marco. O papel sellado livra de muitos embaraços.

Á mesa do jantar, D. Christina, que todos os dias mudava de _toilette_
duas e tres vezes, mandou dizer á criada Rosa que lhe trouxesse um lenço.

Veio a criada trazer n'uma bandeja o lenço de finas rendas que tinha
esquecido a D. Christina.

E o Leotte, quando viu entrar a rapariga, alternou os seus olhares de
guloso entre a brazileira e a criada, parecendo vacillar entre as
cerejas frescas que os labios da rapariga imitavam, e o carmim que
artificialmente coloria a bocca da brazileira, já um pouco fatigada...
de beijar canonicamente tres maridos.

Á noite, o Vasconcellos, que desejava a desforra, e D. Christina, que
amava o berlote, queriam começar logo pela jogatina.

O brazileiro, que já tinha tomado pé, sustentou que havia tempo para
tudo: acrescentando que eu lhe havia promettido contar uma historia de
almas do outro mundo.

--Pois que se contasse a historia, mas uma só, concordaram.

--De mais a mais a minha historia, disse eu, é de amores, para contentar
a sr.ª D. Christina; e de almas do outro mundo, para contentar o
sr. Araujo. O peor é que talvez pareça um pouco maliciosa...

Fingi-me escrupuloso, comquanto soubesse que os ouvidos de D. Christina
não estranhariam a malicia de qualquer narrativa.

--Ora adeus! respondeu o brazileiro rindo. Se fôr preciso, deite um
véosinho por cima da historia, e conte sempre. Nós já não somos nenhumas
creanças innocentes.

--Pois n'esse caso, ahi vae a historia:

Eu estava á janella, de manhã cedo--seis horas talvez--a comer um bello
cacho de uvas brancas. Encostado ao peitoril, ia debicando bago a bago,
com um certo prazer de gastronomo, que só me fazem sentir as uvas
brancas e doces. Ás vezes alongava os olhos pelo horizonte, que as
torres de Mafra recortavam ao longe, esfumando-se como no fundo de um
quadro. Em torno de mim havia uma placidez profunda: as arvores e as
pedras, companheiras unicas do casal, pareciam adormecidas ainda na
frescura cristalina da manhã. A estrada de Mafra, que passava sob as
janellas, estirava-se tão solitaria, que as andorinhas saltitavam no
macadame, bicando o pó. O caseiro tinha saído com o filho n'uma carroça;
a mulher do caseiro accendêra o lume para o almoço, como indicava o fumo
que rompia da chaminé.

N'isto, sinto o tilintar longinquo de guizos na estrada. É o tenente
Silverio, que vem dar o seu passeio matutino, disse eu com os meus
botões. Já lhe conhecia o trotar da egua, que puxava a _charrette_.

Nas terras pequenas sabe-se tudo: o tenente Silverio andava apaixonado
pela Libania, da Murgeira, uma saloia muito animal, de seios turgidos,
que pareciam despenhar-se no tanque, quando ella se curvava para lavar.

Era elle, o tenente.

Fez parar a _charrette_ debaixo da minha janella.

--Olá! gritou. Está, na fórma do costume, comendo as suas uvas.

--Pudesse eu, respondi-lhe, e havia de comel-as todo o anno. Que bellas!
Isto de mais a mais é recommendado. Contêem principios alcalinos, que
são salutares. E teem um rico assucar, que é nutritivo. Na Allemanha e
na Suissa comem-n'as para curar as doenças gastro-intestinaes. É bom, e
faz bem.

--Diga antes que gosta muito de uvas.

--Ou isso: gósto muito.

--Visto que já saboreou o seu primeiro almoço, venha d'ahi dar um passeio.

--Aonde?

--Ora essa!

--Á Murgeira, como sempre, não é verdade?

--Como sempre... é um modo de dizer. Já lá não vou ha tres dias.

--Que ausencia! Pois irei. Deixe-me procurar o chapeu.

Tres minutos depois a _charrette_ do tenente Silverio rodava para
a Murgeira pela estrada aberta entre pinheiraes. A egua, no seu trote
largo, quebrava o silencio da manhã, guizalhando festivamente.

Iamos bem dispostos, dilatando os pulmões no ar fresco dos pinheiraes,
em que já se sentia um gumesinho de brisa do mar, que soprava da
Ericeira. Muito agradavel a manhã.

--Isto é bom e faz bem, dizia-me o tenente. São as minhas uvas.

--Perdão, as suas uvas, meu caro tenente, são outras. Vae colhel-as á
Murgeira. Muito brancas não são; mas talvez sejam doces...

O tenente riu-se.

Tinhamos saído da estrada de Mafra, e iamos subindo, a passo, para a
Murgeira.

Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.

Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada,
puxando a _charrette_. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia
a Libania.

Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma
desgraça. Havia algum caso na Murgeira.

--Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta
terra!

--Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.

--Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.

O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se
muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.

Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.

--Quem era? perguntei.

Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se
fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e
aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou
celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas
de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé
Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um
artista para a guitarra.

Fôra em Lisboa que elle ganhára _queixa de peito_, disseram-nos. Viera
muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente,
entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros
ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um
Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte
d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista os _harmonios_ da
saloiada patusca.

Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes
de principe, o Zé Ratinho.

--Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou um saloio, que
acabava de beber dois decilitros saudosamente.

--Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.

Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a
chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-se _smorzando_
lentamente: queriam ouvir o que diriamos.

Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor
fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada,
botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado
sobre o hombro direito.

Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.

Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.

Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas
da guitarra uma dhalia branca.

O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral
abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos
foliões, saltitantes.

Deixamos a Murgeira a prantear o seu Orpheu. O tenente foi almoçar
comigo. Investindo com o linguado frito, falamos do Zé Ratinho.

--Olhe que a lembrança da flor nas cordas da guitarra não deixa de ter
certa delicadeza! observei eu.

--Qual historia! chalaçou o tenente. Mas que flor... uma dhalia! É um
cumulo de delicadeza saloia. E, rindo, acrescentou: Deite cá mais
linguado, que está melhor do que a Libania.

Decorridos tres dias, á mesma hora, passa o tenente Silverio.
Encontra-me a comer outro cacho de uvas.

--Venha d'ahi.

--Aquillo ainda ha de estar lutuoso. A morte de um Orpheu pede um triduo
de lagrimas.

--Ora adeus! Isso já lhes havia de passar.

--Quem sabe?

--Sei eu.

--Como sabe?

--De sciencia certa.

--N'esse caso vamos lá.

Fomos. Apeámos á porta da taverna. O tenente metteu logo por um atalho
para ir ter com a Libania ao lavadoiro. Muito satiro, o tenente. Eu
fiquei na taverna a dar dois dedos de _cavaco_ ao taverneiro.

Ouvi-lhe ainda muitas historias do Zé Ratinho. Uma d'ellas,
principalmente, tinha o seu quê de phantastica.

Durante a noite haviam ficado a velar o cadaver os rapazes mais afoitos
da Murgeira. Ás duas horas da noite, coube a vez ao Joaquim Prado, um
latagão forte como um Castello. Estava elle pensando na triste sorte do
Zé Ratinho, e na orphandade irreparavel da sua guitarra, quando
de repente principiou a guitarra a tocar um fado muito triste e soluçado.

--Ora pelos modos, acrescentou o taverneiro, era a alma de Zé Ratinho
que estava tocando guitarra pela ultima vez.

--Então o Joaquim Prado ouviu isso? Adormeceria elle, e estaria
sonhando?...

--Essa é boa! Não ha homem nenhum, por mais afoito que seja, capaz de
dormir ao pé de um morto. O Joaquim ouviu mesmo tocar a guitarra, bem
acordado que elle estava, e só com dez réis de aguardente que tinha
bebido ahi n'esse mesmo logar em que vocemecê se assentou. Poz-se em pé,
logo que a guitarra começou a tocar, e não viu ninguem. O Zé Ratinho
estava morto e bem morto: não se mexia.

N'isto chegava, com um certo ar dominador, o tenente Silverio.

O taverneiro commentava:

--Cá na Murgeira não é o senhor capaz de tirar da cabeça a ninguem que
foi a alma do Zé Ratinho que na propria noite em que elle morreu, por
volta das duas horas, esteve tocando guitarra.

--Venha d'ahi, dizia-me o tenente, vamos almoçar.

Subimos para a _charrette_. Já com as rédeas na mão, o tenente, muito
chalaceador, perguntou-me:

--Então os saloios ouviram a alma do Zé Ratinho tocar guitarra,
na noite em que elle morreu?!

--Ouviram.

--Pois... quem tocava guitarra era eu.

--Você?!

--Eu, sim. A Libania estava muito triste, e eu vim de Mafra dizer-lhe
coisas. Ficou mais alegre. Quando vinha embora, dei as rédeas ao
_impedido_, e vim tocando guitarra. Mas pensei que elles não tivessem
ouvido...

--Jura que isso é verdade?

O tenente olhou para mim:

--Juro.

--Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque
eu já me sentia disposto a acreditar...

--Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o
brazileiro.

D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre
a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e
abancando:

--Vamos a isto, meus senhores.



XVII


Leotte arrastava discretamente a aza a D. Christina, mas enganára-se
quanto á presumpção de, como César, chegar, ver e vencer.

Teve de conhecer que madame Araujo, muito experimentada no terreno que
pisava, não quereria comprometter-se no pequeno theatro de acção de um
_hotel_, onde o marido só a largava por instantes e onde nós, os oito
companheiros de Leotte, eramos outros tantos olheiros, cheios de malicia
e curiosidade. De mais a mais, entre esses oito havia um que lhe
conhecia a vida. Era eu. E ella estava de certo empenhada em fazer-me
convencer a mim proprio, como tinha convencido o brazileiro, de que era
a viuva authentica e duplicada do morgado Muxagata e do Falcão do Marco.

Portanto, o Leotte, que não era tambem um novato inexperiente,
resolveu _rallentar_ o galanteio, appellando para Lisboa. Por esta razão
e, certamente espicaçado pela minha feliz descoberta, voltou-se de novo
para a criada, não só por amor das cerejas apetitosas, como pelo desejo
de ver se deslindava o misterio, que fôra o primeiro a suspeitar.

E agora é chegado o lance capital d'esta novella, que talvez pareça
inverosimil como um antigo romance de Ponson, mas que é tão verdadeira,
que ainda hoje póde ser testemunhada por mais de meia duzia de pessoas.

Teve sobeja razão o Leotte para nos communicar cheio de assombro que a
sua descoberta, segundo as ultimas revelações da Rosa, excedia a que eu
acabava de fazer.

O que iria elle contar? Coisas realmente espantosas.

Dissera-lhe a Rosa que seu pai, D. Alvaro de Alarcão, era natural da
Beira Alta.

--Então a menina nasceu lá? perguntára-lhe o Leotte.

--Não, senhor. Eu nasci no Porto.

--Como foi então isso?

--Meu pai, que era morgado...

--Morgado de que?

--De Muxagata.

--De Muxagata?! Está bem certa d'isso!?

--Muito certa. Meu pai fugiu para o Porto com uma fidalga de Lamego.

--E depois?

--Meu pai arruinou-se, e foi morrer ao abandono no seu solar. Minha mãe
tomou amores com outro homem, que tambem era morgado, e que caiu doente
com uma molestia da espinha, que o poz muito impertinente. Eu tinha
apenas dois annos e, como fizesse barulho brincando, foi preciso
tirarem-me de casa. Mandaram-me então para Lamego.

--Para casa da familia de sua mãe?

--Isso sim! A familia de minha mãe nunca mais lhe perdoou a sua falta.
Mandaram-me para casa de uma pobre mulher, a _tia_ Senhorinha, que era
irmã de leite de minha mãe. Fui crescendo entregue aos cuidados da _tia_
Senhorinha, que era viuva, e que vivia de fazer mandados. Era ella quem
dava todas as voltas em casa do major Gouvêa, de infantaria 9, que era
muito bom homem, casado com uma santa senhora. Como não tinham filhos,
foram-se-me affeiçoando, e eu passava lá os dias emquanto a _tia_
Senhorinha andava lidando na cozinha ou dando voltas por fóra.

--E sua mãe não mandava mesada nenhuma á _tia_ Senhorinha?

--A principio mandava meia moeda por mez, mas quasi nunca escrevia.
Depois o sr. major Gouvêa, quando a _tia_ Senhorinha morreu de um grande
resfriamento que a tolhêra, tomou conta de mim, mandou dizer a minha mãe
que guardasse as suas migalhas de dinheiro, e minha mãe nunca
mais tornou a escrever, não quiz mais saber de mim.

--E o que foi feito de sua mãe?

--Não sei! O sr. major Gouvêa não queria que se falasse d'ella.

--Mas como foi que a menina veiu parar a Lisboa?

--O sr. major saiu tenente-coronel e foi collocado em Elvas. Eu vivia
muito feliz, porque tanto elle como a mulher, a sr.ª D. Clara--Deus a
chame lá!--me tratavam como se eu fosse sua filha. Tinham muita pena de
mim, davam-me vestidos, chapeus, tudo o que elles podiam dar, e mais do
que podiam dar, porque o sr. tenente-coronel apenas vivia do soldo. A
sr.ª D. Clara, como era alfacinha, gostava de poder vir para Lisboa; de
mais a mais, em Elvas, o sr. tenente-coronel passava mal de saude. Um
general, que era amigo d'elle, arranjou-lhe a transferencia para Lisboa.
Viemos todos. Mas o sr. tenente-coronel nunca mais tornou a ser o homem
que era em Lamego. Soffria do coração. Anno e meio depois de estarmos em
Lisboa, acamou, soffrendo cada vez mais. Morreu todo inchado, que fazia
dó. N'esse dia posso dizer que morreu o meu verdadeiro pae.--E dos olhos
da rapariga rebentavam lagrimas.

--Depois?

--Depois a sr. D. Clara e eu viviamos de uma pequena pensão que ella
tinha. Mas a pobre senhora affligiu-se tanto com a morte do
marido, que pegou de fazer-se doente. Só durou mais onze mezes. Vieram
então uns parentes d'ella, sobrinha e marido, tomar conta de tudo o que
havia. E eu achei-me sósinha no mundo, sem ter quem me protegesse. Vi-me
só, desamparada, fiz um annuncio no _Diario de Noticias_, arranjei uma
casa, fui servir.--E os soluços embargavam-lhe a voz.

--Mas por que não tentou procurar sua mãe?

--Como! Quem sabe lá se minha mãe ainda vive! Se ella quizesse fazer
caso de mim, teria deitado inculcas para me encontrar.

--Diga-me porém uma coisa... Como foi que mudou de nome?

--A primeira casa em que eu servi era na praça dos Romulares. A senhora
chamava-se Maria; a menina tambem. Começaram a embirrar com o meu nome,
que fazia confusão, diziam ellas. Talvez não gostassem que eu tivesse um
nome igual ao seu. Um dia a senhora disse-me que era melhor chamarem-me
Rosa, e desde então o meu nome tem sido sempre Rosa.

--Mas então a menina não suspeita que existam ao menos parentes de sua mãe?

--Elles não me quereriam vêr, porque ficaram de mal com minha mãe.

--Quem sabe...

--Ó meu senhor! eu nasci para ser desgraçada!

--E, se fosse preciso, a menina poderia provar tudo isso que me
tem contado?

--Vive na rua da Padaria a sobrinha da sr.ª D. Clara, em casa de quem eu
costumo ficar por esmola, quando estou desarrumada. Ella que diga se
isto é verdade ou não.

Como não podia deixar de ser, a revelação d'este dialogo causou-nos
profunda surpresa. Chamamos a rapariga, que repetiu todas as declarações
anteriores.

--Mas isto é um verdadeiro romance! disse eu.

--Começado por ti e acabado por mim! observou orgulhosamente o Leotte.

--Tens razão.

--O que eu não sei, disse-me o Vasconcellos, é como tu e os teus
collegas em lettras teem o condão de encontrar sempre um romance em toda
a parte!

--Sempre, não. Poucas vezes até o acaso poderá ter fornecido um tão
completo romance. Este a mim mesmo me surprehende.

--Sim. D'este não posso eu duvidar, porque estou assistindo a elle.
Mas--continuou o Vasconcellos--tenho corrido todo esse paiz, e nunca
encontrei nenhum romance nem coisa que o parecesse.

--Se tu fosses escriptor terias, por hipothese, feito dez romances;
d'esses dez, nove seriam inventados, e apenas um verdadeiro. Notando
que o mais inverosimil seria talvez o unico verdadeiro.

--A julgar por este, assim é.

O Gonçallinho Jervis estava visivelmente entregue a dois pensamentos:
um, que dissimulava; outro, que manifestava com vehemencia.

O primeiro adivinhava-lh'o eu: era um intimo desgosto de não ter sido
elle que surprehendesse o romance.

O segundo inspirava-lhe indignadas apostrophes contra a mãe descaroavel
que abandonára a sua propria filha á miseria, talvez á deshonra.

--Ah! Gonçallinho, é d'essa triste verdade que nasceu a creação das
rodas dos expostos, dos asilos, das misericordias, de todas as piedosas
instituições de assistencia publica. Mas parece que tu não vives n'este
mundo! Pois não lês nos jornaes, todos os dias, noticias que te ensinam
que ha mães que expõem as filhas, que as matam, que as vendem!... E
pensas que todas essas torpes mães serão desgraçadas! Só são castigadas
as que caem nas mãos da policia. As outras viverão decerto tão felizes
como D. Christina.

Mas era preciso abandonarmos philosophias, tomar alguma resolução pratica.

Duas coisas ficaram logo resolvidas:

1.ª Que se escreveria ao Callixto, que tinha ficado em Lisboa, para ir á
rua da Padaria procurar a sobrinha de D. Clara Gouvêa, a fim de
pessoalmente verificar se as declarações d'ella coincidiam com as
da Rosa. Ficariamos em Cintra esperando a resposta.

2.ª Que eu inventaria á noite uma historia qualquer que, visando ao
coração das mães descaroaveis, pudesse revelar-nos o arrependimento ou o
cinismo de D. Christina.

Escripta a carta ao Callixto, comecei a pensar no modo de conduzir a
observação psichologica de que tinha sido incumbido.



XVIII


O conto que eu architectei, para contar á noite, foi baseado, devo
confessal-o francamente, n'uma noticia que havia lido em Buffon, e que
para aqui vou transcrever textualmente.

Diz o sabio naturalista na sua obra monumental:

«_Pendant tout le temps de l'incubation, la paone évite soigneusement
le mâle, et tâche surtout de lui dérober sa marche lorsqu'elle
retourne à ses ½ufs; car dans cette espèce, comme dans celle du coq et
de bien d'autres, le mâle, plus ardent et moins fidèle au v½u de la
Nature, est plus occupé de son plaisir particulier que de la
multiplication de son espèce; et s'il peut surprendre la couveuse sur
ses ½ufs, il les casse en s'approchant d'elle, et peut-être y met-il
de l'intention, et cherche-t-il à se délivrer d'un obstacle qui
l'empêche de jouir: quelques-uns ont cru qu'il ne les cassoit que par
son empressement à les couver lui-même, ce seroit un motif bien
diffèrent._»

Achado o assumpto, graças ás minhas recordações de Buffon, era facil
oppôr a pavôa á mulher pelo que tocava aos encargos affectuosos da
maternidade.

D. Christina ia accentuando, á medida que a convivencia se estreitava,
uma alegria expansiva, de que aliás se mostrava um pouco avara para
comigo, desconfiada talvez de que eu não soubesse ser discreto até ao fim.

Por vontade sua, ter-se-ia começado logo a jogar. Mas nós, simulando
não querer interromper o tradição das nossas noites de Cintra,
oppuzemo-nos.

Contei, portanto, o meu conto.

--Era n'uma quinta da Beira Alta, uma d'essas quintas nobres do seculo
passado, cheias de estatuetas e de fontes mithologicas, de largas ruas
desenhadas por linhas de buxo alto eriçado; uma d'essas quintas em que
havia, por força, um pombal, um lago e a matta.

Ao fundo alvejava o palacio, de amplas dimensões, com janellas de
sacada, cujos ferros, muito espaçados, eram torcidos como o caduceu de
Mercurio.

Aos lados da porta do edificio avultavam duas grandes cascatas,
estrelladas de pequenas conchas, umas brancas, outras roseas; e de
cada gomil, que os Neptunos sobraçavam, descia a agua n'uma
crespa meada de cristal, caindo nos tanques, onde peixes doirados nadavam.

Havia na quinta um copioso aviario, uma collecção preciosa de faisões,
pavões, perús, patos, gallinhas raras do Oriente.

Eu tinha ido visitar o dono da casa, que havia sido meu condiscipulo,
e que fôra feito visconde, quando, por ter casado rico, comprou
aquella ultima quinta de um morgado beirão.

Tive a honra de conhecer as pessoas mais gradas da localidade, que se
reuniram a jantar em casa do meu condiscipulo no primeiro domingo que
lá passei.

O visconde conservava ainda o mesmo espirito que eu havia conhecido
doze annos antes. Muito sarcastico, um critico implacavel de todos os
ridiculos sociaes, contou-me hilariantemente a historia do seu
viscondado, que elle era o primeiro a não tomar a sério.

--O governo, disse-me rindo, fez-me visconde; no Minho chamaram-me
_bisconde_. Eu adoptei esta ultima versão, por me parecer mais
gloriosa, pois que duplica a minha nobreza. Prefiro o _bis_.

Depois informou-me minuciosamente ácêrca de todas as pessoas, de ambos
os sexos, que eu ia conhecer. Descreveu-me as _toilettes_, que eu
havia de ver, os casacos e colletes dos morgados, os vestidos e
penteados das senhoras. Biographou com incisiva satira uns e outras.
Contou-me o motivo por que certo fidalgo vinha a ser ao mesmo
tempo tio de si mesmo, uma embrulhada genealogica, que eu já não sei
agora deslindar. Historiou-me o caso de duas morgadas beatas, que
tinham perdido o direito de ir á sepultura vestidas de branco, posto
não fôssem obrigadas por convenção social a andar sempre vestidas de
preto. Uma d'ellas viria ao jantar, e eu teria occasião de observar a
sua severidade de Lucrecia perante todos os Tarquinios d'este mundo,
sem embargo de ter passado pela roda dos expostos um filho seu, cujo
destino ella propria ignorava.

Eu estava prevenido pelo bom-humor do visconde para todas as
apresentações que me seriam feitas.

Chegou o dia do jantar, e tive então ensejo de reconhecer quanto as
suas informações, apesar de mordazes, eram exactas. Vi, sentada á mesa
do visconde, a melhor nobreza de sete leguas em redor. Quasi todos os
convivas eram descendentes de reis godos, e, por conseguinte,
aparentados. Estranhei porém, e disse-o ao visconde, que não houvesse
ali nenhum primo de Viriato.

--Pois tu não te lembras de que Viriato era pastor?! observou
sentenciosamente o meu condiscipulo.

O jantar foi pantagruelico. Legiões de aves passaram por deante de
mim. Era de abarrotar. O visconde disse-me depois que ninguem lá
saía de casa para jantar de outro modo. Não valia a pena.

Findo o banquete, viemos todos sentar-nos junto das cascatas.
Conversou-se principalmente de assumptos do campo. O visconde ria
galhofeiramente da minha ignorancia agricola. A nobre Lucrecia, que
elle me havia biographado, observou-me angelicamenle que no campo as
conversações eram mais innocentes do que na sociedade destragada das
cidades. Eu, que não tinha pretenções a Tarquinio, concordei.

Fiz reparo em que muitas aves, principalmente pavões, depois que os
criados as chamaram ao pateo da cozinha para lhes dar de comer,
pairavam, a grandes distancias, sobre os ramos das arvores.

O visconde notou o meu reparo, e esclareceu-me:

--São as pavôas que procuram desorientar os pavões.

Imaginei que elle houvesse entrado n'um assumpto escabroso de zoologia
amorosa. Sorri-me. O visconde, piedosamente, observou:

--Não te rias. Estou falando serio.

--Era isso justamente o que eu receava...

--É que me não entendeste. As pavôas estão agora chocando os ovos, que
com um grande sentimento de amor maternal escondem dos pavões, que
lh'os costumam devorar. Por isso, receosas de que os machos as sigam,
procuram desoriental-os, para que não descubram o sitio em que
ellas deixaram por instantes os ovos, aliás muito bem escondidos.

--É exacto, disse do lado um morgado beirão.

--Elle não sabe uma palavra, ponderou com verdade o visconde, d'esta
historia natural, que nós cá praticamos.

Segui attentamente com os olhos o que o visconde denominava a _manobra
das pavôas_. Voando de ramo em ramo, e a longos intervallos de tempo,
iam desapparecendo, sumindo-se arteiramente na espessura do arvoredo.

Alguns pavões levantavam o vôo após ellas, e então as pavôas voltavam,
aproximavam-se do sitio em que estavamos, demoravam-se, disfarçando o
melhor que podiam a sua intenção.

--Mas isto é admiravel! exclamei eu, isto é sublime de amor maternal!

--Temos ode! gracejou o visconde. Isto é o que é. Isto são as pavôas
que não querem que os pavões lhes comam os ovos. Nada mais e nada
menos. Não tens visto isto por lá na sociedade das grandes cidades?
Pois olha que não devem faltar pavões...

--Mas faltam as pavôas.

--Isso acontece em toda a parte, replicou o visconde, piscando-me um
olho e movendo o queixo na direcção da nobre Lucrecia pudibunda.

Comprehendi o seu gesto.

N'esse momento, a fidalga descendente do rei Vamba seguia com
tranquilla curiosidade a _manobra das pavôas_, como nós todos. Não
parecia envergonhada de confrontar-se moralmente com ellas. De certo
lhe não passava pelo espirito a lembrança de que annos antes tinha
enviado á roda de Vizeu um filho, cujo destino ignorava.

--Pudesse ella aprender com as pavôas! disse eu depois ao visconde.

--Ella, respondeu-me elle, tambem as tem em casa, mas não se dá ao
trabalho de aprender coisa nenhuma.

--Pois eu aprendi.

--Que aprendeste tu?

--Aprendi a conhecer o cathecismo moral das pavôas, livro que muitas
mulheres desconhecem.

--És um ingenuo! exclamou o visconde, desfechando-me na cara uma
ruidosa gargalhada escarninha.

Aqui teem a minha historia.

D. Christina ouviu-a imperturbavel, serena, como se o seu coração
fosse de marmore.

Em contraposição, a bondade do brazileiro revelou-se mais uma vez.

--Parece impossivel, disse elle, como ha pais que despresam os filhos,
quando até as avesinhas ensinam a amal-os! No Brazil vi um passarinho
chamado João de Barros, muito estimado lá porque annuncia de que lado
ha de soprar o vento todo o anno, que faz com barro o ninho do
feitio de um forno. Se alguma ave de rapina lhe quer ir comer
os filhos, e tenta enfiar a cabeça pela porta do ninho, tanto elle
como a femea dão-lhe bicadas até que fuja ou morra.

N'outra occasião, nós teriamos rido certamente do passarinho que tem
no Brazil o nome de um historiador portuguez.

Mas o contraste da bondade simples do brazileiro com a crueza glacial
de D. Christina encheu-nos de simpathia e de estima por esse amoravel
velho, que havia ligado o seu destino a uma mulher sem coração.

D. Christina, mostrando-se enfadada com os commentarios do marido,
disse abruptamente, cortando-lhe a palavra:

--Vamos lá á nossa partida, que estou hoje com grande raiva aos valetes.

D'onde o Vasconcellos quiz concluir que ella, indignada com a minha
historia, tivera em vista chamar-me valete.



XIX


Veio a resposta do Callixto.

A sobrinha de D. Clara Gouvêa confirmou plenamente as declarações da
filha do Muxagata, acrescentando-as com excellentes informações a
respeito da pobre rapariga.

«Disse-me ella, escrevia o Callixto, que tem a pequena na conta de muito
honesta. Sempre mostrou muito juizo. Se a não tem em casa, é porque se
peja de assoldadar como criada uma rapariga fina, filha de um fidalgo;
como pessoa de familia não a póde sustentar, porque tem muitos filhos, o
marido ganha pouco na alfandega, e da tia Clara apenas herdou uma
insignificancia. Diz ella.»

Em vista d'esta carta, conferenciamos sobre o que deviamos fazer para
impôr a D. Christina o dever de olhar por sua filha. O primeiro alvitre
que nos occorreu foi o de contarmos tudo ao brazileiro. Mas ao
cabo de alguma discussão, rejeitamos o alvitre, porque elle poderia ter
um desfecho tempestuoso. Preferimos, portanto, os meios suaves e
conciliatorios.

Decidiu-se que escreveriamos a D. Christina uma carta, que seria
assignada por todos nós. Essa carta, secca e laconica, quasi imperativa,
dizia assim:

                                                            «Exma. Sr.ª

V. Ex.ª vive tranquilla e feliz. Sem embargo, sua filha encontra-se
n'uma situação desgraçada, tão desgraçada, que é ella propria quem, no
_hotel Victor_, está ao serviço de v. ex.ª É a sua criada de quarto.

«Se v. ex.ª duvidar d'esta nossa informação, queira dirigir-se á rua da
Padaria n.º... 2.º andar, e procurar a mulher de M. A. P., empregado na
alfandega.

«Esperamos que o coração de v. ex.ª experimente, ainda que tarde, um
movimento de compaixão por essa pobre creatura, que, segundo nos
informam, tem sabido conservar-se digna de melhor sorte e, digamol-o com
franqueza, de melhor mãe.

«Se V. Ex.ª despresar o aviso que lhe fazemos, ver-nos-hemos na
necessidade violenta de o repetir a seu marido, cuja alma bondosa se
revoltará decerto contra a dureza de coração de sua mulher.
Portanto acreditamos que v. ex.ª, sem prejuizo da sua actual posição,
conseguirá encontrar meio de lhe revelar a existencia de sua filha,
podendo talvez dizer-lhe que até hoje a havia procurado sem comtudo a
poder encontrar.

«Não seremos nós que, n'esse caso, o desilludiremos denunciando-lhe toda
a verdade na sua nudez hedionda.

«Mas se v. ex.ª, pelo contrario, entender que deve zombar do sentimento
de justiça a que obedecemos, seremos obrigados a provar-lhe que o seu
coração não merece a compaixão de ninguem.»

Escripta esta carta, resolvemos confial-a a Maria de Alarcão para que a
entregasse a D. Christina, e partimos immediatamente de Cintra, depois
de ter recommendado que, no caso de D. Christina recusar recebel-a ou
lel-a, nos fosse mandado aviso para Lisboa.

Tanto D. Christina como o brazileiro se mostraram muito contrariados com
a nossa ausencia, especialmente o brazileiro, que nos abraçou a cada um
e offereceu a sua casa em Lisboa na rua das Praças.

Oito dias depois noticiava um jornal que o sr. commendador Araujo e sua
esposa acabavam de partir para a sua bella quinta de Amares em companhia
de sua interessante filha, que tinha estado a educar no estrangeiro.

No inverno d'esse anno, appareciam n'um camarote de S. Carlos
tres pessoas muito nossas conhecidas: o commendador Araujo, sua mulher e
D. Maria de Alarcão.

O Gonçallinho Jervis rememorou algumas vezes, na presença de amigos
nossos, a excentricidade que tivemos de ir a Cintra na primavera
expressamente para ouvir os rouxinoes.

--E ouviram?

--Não! respondia elle.


FIM





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