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Title: O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (5/7) - Parte Quinta: O oraculo das Sinas
Author: Serrano, Bento
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (5/7) - Parte Quinta: O oraculo das Sinas" ***

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O ORACULO

DO

PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO

OU O

Verdadeiro modo de aprender no passado
a prevenir o presente, e a adivinhar o futuro

POR

BENTO SERRANO

ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,

_Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita
gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos_


OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:

    Parte primeira--O ORACULO DA NOITE
    Parte Segunda--O ORACULO DAS SALAS
    Parte Terceira--O ORACULO DOS SEGREDOS
    Parte Quarta--O ORACULO DAS FLORES
    Parte Quinta--O ORACULO DAS SINAS
    Parte Sexta--O ORACULO DA MAGICA
    Parte Setima--O ORACULO DOS ASTROS


PORTO
LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA
55, Largo dos Loyos, 56
1883



PARTE QUINTA

O ORACULO DAS SINAS

OU

Verdadeira arte de adivinhar o futuro, por meio da interpretação da sina
de qualquer pessoa, explicado de um modo claro e facil, ao alcance de
todas as intelligencias.



PORTO
LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA
55, Largo dos Loyos, 56
1883



Porto: 1883--Imprensa Commercial--Lavadouros, 16.



ARTE

DE CADA PESSOA CONHECER A SUA SINA


Dos effeitos, e prognostico do signo de Aquario, que começa a 22 de
Janeiro, e acaba a 21 de fevereiro.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo será de mediana
estatura, cortez, secreto e venturoso. Denota que receberá algum golpe
de ferro e perigo de agua, denota mais que será rico e prospero, e
deve-se guardar muito de tomar paixão, por que lhe começará em demazia.
Terá a sua vida em grande risco e se escapar, promette conforme a sua
natureza 68 annos de vida.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será muito amiga do seu parecer, e corre grande perigo em
perder tudo quanto com a sua industria tiver alcançado. Tambem mostra
ter perigo de agua, e que da mediana idade em diante passará melhor,
ainda que antes de 38 annos terá algumas enfermidades, e conforme o seu
temperamento poderá chegar aos 82 annos de idade.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Piscis, que começa a 22 de
fevereiro, e acaba a 21 de março.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será amigo de vêr
terras, deleitar-se-ha de andar por mar: e será mui comilão, o que será
causa de elle ser enfermo. Será homem de poucas palavras e inclinado a
largar a sua patria. Terá uma grande enfermidade aos 15 annos, outra aos
30, e outra aos 38: d'esta se escapar, conforme a sua natureza poderá
viver 67 annos.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher padecerá achaques nos olhos, será muito honesta e piedosa.
Deve-se guardar do fogo, por que lhe denota grandes damnos. Terá uma
enfermidade aos 12 annos, outra aos 20, outra os 21, e outra aos 30,
conforme a sua natureza poderá viver até 79 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Aries, que começa a 22 de
março, e acaba a 21 de abril.

SINA DO HOMEM

O homem, que nascer debaixo da subida d'este signo, será engenhoso,
prudente, e de nobre animo, ainda que muito fallador: com facilidade se
apaixonará, porém com brevidade lhe passará. Andará fallando só comsigo;
não será muito rico, nem muito pobre, e guardará fidelidade aos seus
amigos. Terá heranças. Denota-lhe um signal notavel no corpo, e damno
por algum animal quadrupede, e golpe de ferro: e padecerá alguns
infortunios e trabalhos. Terá uma grande enfermidade antes dos 22 annos,
da qual se escapar, viverá conforme a sua natureza 75 annos. Denota
mais, que casará até 22 annos.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será iracunda, e mui esperta em suas acções, de bom
parecer e desenvolta. Casará e ficará viuva. Virá a grande pobreza,
porém depois recuperará o perdido, e terá uma perigosa enfermidade na
cabeça ou nos joelhos desde os 7 annos até aos 12, e conforme a sua
natureza poderá viver 96 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Tauro, que começa a 22 de
abril, e acaba a 21 de maio.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será attrevido,
presumido, e altivo de coração: inclinado a deixar a sua patria, e ir
para terras estranhas, aonde terá mais fortuna. Se casar virá a ter
cargo, e cabedal pela mulher. Denota que ha-de ser mordido de algum cão;
e se for tratante, será venturoso no trato de comprar e vender. Mostra
que lhe succederá perigo de agua mais de uma vez, se se não souber
acautelar; e terá infortunio, por causa de mulheres, e uma enfermidade
aos 11 annos, outra aos 30, e outra aos 40, da qual se se livrar, viverá
conforme a sua natureza 64 annos.

SINA DA MULHER

Se for mulher será solicita, cuidadosa, determinada, e será inclinada á
ir vêr terras estranhas. Será fecunda, e casará mais de uma vez e terá
muitos fllhos. Denota que cahirá, de alto, e terá uma enfermidade aos 16
annos, outra aos 30, e outra aos 33. Conforme a sua natureza poderá
viver 66 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Geminis, que começa a 22 de
maio, e acaba a 21 de junho.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será de boas
entranhas, e liberal. Denota que a sua natureza o inclinará a não viver
em sua patria, e andará muitos caminhos. Será pessoa de muito credito; e
virá a ter muitas fazendas. Será homem diligente em suas cousas, e se
verá em perigo de agua. Guarde-se do cão damnado, que lhe prognostica
ser ferido d'elles, padecerá 4 enfermidades até aos 30 annos, e depois
viverá são, e lhe promette, conforme a sua natureza, 68 annos de vida.

SINA DA MULHER

Se for mulher será de grande constancia, estimada, e tida em muita
conta, e encimada ao Santo Matrimonio. Receberá grande pezar de cousas
mal feitas, padecerá algumas enfermidades; e conforme a sua natureza
viverá 62 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Cancer, que começa a 22 de
junho, e acaba a 31 de julho.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será de boa estatura,
secreto, humilde, e alegre. Padecerá alguns trabalhos por demandas,
defenderá causas alheias, será inclinado a requerentes, e será grande
gastador. Terá perigo de agua, fogo e ferro, será arrogante, e de muita
reputação. Terá algumas enfermidades, porém pequenas e lhe promette 73
annos de idade.

SINA DA MULHER

Sendo mulher será diligente, cuidadosa, prompta ao pezar, e com
brevidade lhe passará, e será mui agradecida. Padecerá algumas
inquietações por causa de filhos, e corre perigo de cahir de alto, e
achará algumas cousas escondidas, ainda que de pouco preço. Viverá sã, e
conforme a sua natureza viverá 70 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Leão, que começa a 22 de
julho, e acaba a 21 de agosto.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo será bem disposto, de
boa presença, altivo e de grande animo. Será atrevido, arrogante,
eloquente, e será muito sabio se se applicar ás letras. Alcançará
algumas dignidades, ou cargo, e verá muitas terras. Se casar terá com
que passar, por ter heranças por parte de sua mulher. Denota que terá um
perigoso golpe de ferro, e padecerá alguns perigos no mar, e será
venturoso nos negocios, e achará dinheiro escondido. Terá 6 enfermidades
por todo o curso da sua vida, e aos 40 annos uma mui perigosa, da qual
se se livrar lhe promette este signo 71 annos de vida.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será formosa, e forte. Será molestada de dores de
estomago, e mui amante da honra, e virá a possuir muita fazenda. Será
piedosa, e caritativa para com os pobres, e está em perigo de padecer
fluxo de sangue. Denota algumas enfermidades pelo demasiado sangue que
sempre terá, e que viverá conforme a sua natureza 71 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Virgo, que começa a 22 de
agosto, e acaba, a 21 de setembro.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será honrado, casto,
e de nobre condição. Solicito, e cuidadoso em suas cousas, e virá a ter
alguns cargos, e governo. Será homem vergonhoso, e variavel e possuirá
riquezas; mas virá a cahir em grande pobreza, por se não saber governar.
Terá algumas enfermidades até 30 annos, e conforme a sua natureza lhe
promette o signo 84 annos de vida.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será vergonhosa, diligente, e mui devota. Denota que
cahirá de alto, e que viverá algum tempo enferma. Terá grande alegria de
viver com limpeza, e castidade, supposto padecerá trabalhos. Desde os 30
annos até aos 36 terá uma grande enfermidade, e poderá esperar 77 annos
de vida.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Libra, que começa a 22 de
setembro, e acaba a 21 de outubro.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será honrado,
venturoso no que emprehender, e cuidadoso em servir aos seus amigos.
Será inclinado a ir a terras estranhas, aonde lhe irá melhor que na sua
patria, e será homem de bom entendimento. Terá com que passar a vida,
supposto padecerá alguns infortunios, e trabalhos. Terá uma enfermidade
aos 6 annos, outra aos 8 e outra aos 35, da qual se escapar poderá viver
até 77 annos.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será alegre e mui affavel, e terá alguma queimadura nos
pés. Será inclinada a peregrinar e andar pelo mundo. Padecerá algumas
enfermidades e poderá viver 66 annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Escorpiao, que começa A 22
de outubro, e acaba a 21 de novembro.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será de maus
costumes, enganador, e teimoso, e pouco lizo nos seus negocios, e
inclinado a furtar! será grave, e amigavel, e de boas entranhas, porem
falsas. Se se applicar á Astrologia será sabio. Padecerá dores no
estomago, e terá perigo de golpe de pedra, e de ferro, e inclinado a
andar por diversas terras; e será tão subtil e astuto em seus ditos e
effeitos, que ninguem o entenderá. Não será muito rico, nem
demasiadamente pobre. Ainda que pequenas, terá algumas enfermidades, e
conforme a sua natureza poderá viver 71 annos.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será forte e terrivel, e terá feridas pelas quaes estará
em grande perigo de vida, e viverá enferma e lhe promette o seu signo 72
annos de vida.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Sagitario, que começa a 22
de novembro, e acaba a 21 de dezembro.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será vergonhoso,
affavel, honesto, inconstante e venturoso. Será inclinado a navegar, por
onde adquirirá fazenda, e padecerá damno por animal quadrupede, e terá
algumas enfermidades, a primeira aos 7 annos, outra aos 18, e outra aos
28, e viverá 67 annos.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher será imaginativa, temerosa e vergonhosa: alcançará
riquezas, e será de grande governo. Será inconstante, mudavel, ainda que
misericordiosa, e de boa constancia. Terá uma enfermidade aos 4 annos,
outra aos 23, e outra aos 30. Promette-lhe conforme a sua natureza 107
annos.


Dos effeitos, e prognostico do signo de Capricornio, que começa a 22
de dezembro e acaba a 21 de janeiro.

SINA DO HOMEM

O homem que nascer debaixo da subida d'este signo, será iracundo, vão e
mentiroso: Andará muitas vezes fallando só comsigo, e será algum tanto
melancolico, animoso, inclinado á guerra. Folgará com bens alheios, e
será inclinado a guardar gado, e padecerá alguns trabalhos por causa de
mulheres, viverá enfermo, e conforme a sua natureza poderá viver 97 annos.

SINA DA MULHER

Se fôr mulher terá condição perversa, correrá perigo de se perder, se se
lhe não atalharem as suas leviandades. Denota que será mordida de animal
quadrupede, e corre perigo de cahir de alto. Padecerá algumas
enfermidades, ainda que pequenas, a qual conforme a sua natureza, poderá
viver 69 annos.



ANIMAES AGOUREIROS


ERROS ÁCERCA DE ALGUNS ANIMAES[1]


                                                              Amigo:

Fiquei, na minha carta passada, de te fallar dos erros inveterados no
povo, a respeito d'alguns animaes; e que só podem trazer males, como
erros que são.

Sabido é de ti, por certo, que a superstição chega a crêr que a entrada
d'uma borboleta branca pela porta ou pela janella dentro, é signal de
ter o dono ou dona da casa de receber uma boa nova; mas se a borboleta é
parda ou escura, maldita seja ella que annuncia desgraça.

Se uma aranha, vermelha e pequena, passeia pelo vestido de qualquer
pessoa, é certo que tem essa pessoa de receber dinheiro; em prata se é
branca, em ouro se é amarella, e em cobre se é negra. Quando a mosca
vareja entra em casa, traz visita inesperada; e que fortuna não é
para a casa onde canta o grillo branco!

Isto, que parece sómente ridiculo, é mais do que isso; porque tanto se
alegra quem tem bom agouro, como se entristece e apoquenta quem teve a
infelicidade de o receber máo.

A coruja das torres, que toda a gente conhece pelo nome, mas que ainda
muita outra a não conhece por a ter visto, inspira horror, susto,
desprezo, raiva e odio, pelas crenças de máo agouro, ás mulheres, que
isto mesmo transmittem ás creanças, e ainda aos homens, fracos pela
ignorancia, que vêem almas do outro mundo, consultão os agouros, as
feiticeiras e os adivinhos!

A coruja das torres é a mais bella das tres especies que temos, pela sua
leveza, pelo bem pintado de amarello e cinzento sobre o mais bello
branco d'algodão, e pelo delicado folho de pennas encrespadas que lhe
circumda a cabeça; mas como ave nocturna, para que os raios do sol lhe
não firão os olhos, de dia se esconde; e procura para isso as torres e
os campanarios das egrejas, os telhados e ainda algumas paredes velhas,
aonde encontre buracos, para passar o dia; d'onde sáe pelo crepusculo,
quando a luz a não incommoda já.

Suppõe o povo que ella mora nas torres e telhados das egrejas, para
roubar e beber o azeite das alampadas, ao passo que ella procura
aquelles logares, onde os ratos, sempre damninhos, vivendo á vontade e
multiplicando-se, lhe possão servir de sustento.

Se, pousando sobre o telhado de uma casa, deixa ouvir o seu grito
rouquenho ou o sopro seguido, que se assemelha ao resonar d'uma pessoa
com a bôca aberta, entende o povo que ella chama alguem á sepultura;
e com a ideia da noite e visinhanças dos cemiterios, olha a coruja como
ave funebre e mensageira da morte; declarando-lhe a guerra mais atroz,
sem compaixão nem indulgencia, em logar da benevolencia e gratidão, que
devia prestar-lhe, poupando-lhe sempre a vida, pelos bons serviços que
esta ave presta á agricultura. De todas as aves nocturnas, nenhuma lhe é
mais proveitosa, por ser um creado e guarda fiel, que em quanto dorme o
senhor, espreita e dá caça a muitos roedores nocivos, como o rato
domestico ou rato commum, o rato campestre, etc., os quaes roubão de
noite, roendo os fructos, os grãos e as sementes.

Um outro animal, cuja perseguição é de morte, e a quem attribuem crassos
erros, é a cobra, conhecida nas aldeias pelo nome geral de bicha. Talvez
concorra tambem para esta aversão, que o povo lhe tem, a magnifica
pintura que no _Genesis_ faz Moysés, corporisando o peccado ou antes, a
tentação na figura d'uma serpente, a que dá o nome de _demonio_. A cobra
é destituida de palpebras; conservando os olhos abertos, a sua vista,
por isso, é fixa, e parece olhar em todas as direcções! Não ha fugir de
vista semelhante! Para qualquer lado que se caminhe, a vista da serpente
está fixa em nós!

Assim é a tentação! Só lhe póde escapar quem, apoiado na virtude,
resoluto lhe volta as costas. Escorregadia, como a serpente e como ella
capaz de enroscar-se, só se póde evitar, não a deixando enlear, para não
tomar posse, porque depois de apertar, cada vez nos cinge mais. Se a
serpente levanta, por algum tempo, a cabeça, é para a abaixar logo; e só
caminha de rastos, sempre, vista com repugnancia, como a tentação e o
crime, que será sempre rasteiro, vil e abjecto; e que para se não
apresentar horripilante, ou ha-de viver enroscado sobre si mesmo,
como a serpente, ou, como ella, escondido por entre o matto.

O que é certo é que o olhar d'estes reptis, com a posição da cabeça,
cingindo-se ao chão ou elevando-se e estendendo-se, o que faz parecer
que uma cobra caminha, sem comtudo saír do mesmo logar, assusta de tal
modo os pequenos e timidos animaes, que procurando fugir-lhe, para
qualquer lado que se dirigem, encontrão sempre os olhos do seu pequeno
inimigo, o qual parece persegui-los; até que cansados, tremulos e
atordoados pelo mêdo, approximão-se, máo grado seu, do inimigo que os
espera e que lhes dá a morte! Isto tem feito attribuir ás serpentes a
faculdade de magnetisar com a vista. Nós mesmos sentimos muitas vezes
uma impressão, que quasi nos incommoda, com o olhar de certas pessoas
que têm os olhos grandes, saídos, e a vista um pouco fixa; e como
fascinados tambem, tentamos desviar dellas os nossos olhos; mas, apesar
da impressão um tanto desagradavel, lá se vão sempre encontrar com os
outros.

Porém, o erro, mais commum ácerca das cobras, é o de ellas procurarem as
mulheres, as vacas e as cabras para mamarem! Que intelligencia lhe
concede o vulgo, quando afiança que a cobra para enganar a creança,
emquanto mama na mãe que dorme, mette a ponta da cauda na bôca do filho,
para elle chupar, suppondo assim ser o bico do peito pela forma
cylindro-conica! Como afiança ter encontrado nos curraes cobras debaixo
das vacas, sugando-lhes o leite!

A cobra, se mamasse, pertenceria aos mamiferos; daria á luz os filhos
vivos, e não poria ovos; teria têtas proprias para alimentação dos
filhos, e a sua organisação seria muito differente. Mas ainda mesmo,
apesar de tudo isto, se a cobra, por uma especie de lambarice,
tentasse mamar, enganando a mãe e o filho com a sua intelligencia, não o
poderia fazer em razão da disposição anatomica da sua lingoa e falta de
beiços, para poder fazer preza no mamilão e chupar. É verdade que se
encontrão algumas vezes nos aidos; mas ahi vão ellas buscar mais elevada
temperatura, que o calor do gado fornece áquelles logares.

Não sei como algumas historias, ás quaes não acho fundamento algum, não
fôrão desmentidas logo no seu principio; e puderão correr de bôca em
bôca, de logar para logar, enchendo o paiz inteiro, e passando até de
nação para nação.

Tal é o que contão do ouriço cacheiro. Diz o povo que este pequeno
animal se sustenta de fructos, e que para os colher sobe acima das
arvores fructeiras, chega aos ramos carregados, abana com elles, deita a
fructa ao chão, desce depois e vem rolar-se sobre ella, até ficar
coberto, espetando-a nos espinhos que lhe revestem o corpo; e que assim
carregado, caminha para o seu buraco, chiando de contente e fazendo tal
bulha, como um carro das aldeias, bem carregado, ao qual de proposito
fazem chiar o eixo, dizendo que os bois se enthusiasmão com aquella
infernal chieira.

Ora o ouriço cacheiro não faz cova na terra para habitar, mas dorme
debaixo de hervas que ajunta, ou debaixo de raizes junto dos pés das
arvores, ou serve-se d'algum buraco já feito ao pé dos muros ou debaixo
de algum montão de pedras.

Come fructos, é verdade, e mesmo algumas raizes, quando não tem para
comer os insectos, que são o seu verdadeiro sustento; assim como a carne
dos animaes que encontra mortos: e uma cousa que tem sido notada por
alguns naturalistas, e poder elle comer com grande vontade, sem
experimentar incommodo algum, as cantharidas aos centos, quando nos
outros animaes são veneno tão forte, que basta uma para causar tormentos
horriveis num cão ou num gato, e tres ou quatro serão sufficientes para
darem a morte ao homem.

Quer o povo que este animal suba, e vá abanar a fructa das arvores. Mas,
como ha-de elle trepar, se não póde?

Nem tem a flexibilidade e agilidade para isso, nem os membros
conformados de tal modo, que o possa fazer, nem unhas para se poder
segurar.

É tão fraco trepador, que, para subir a uma pequena pedra, emprega todos
os esforços, firmando a cabeça, sem ás vezes o poder conseguir.

Lembra-me dizer aqui, que os espinhos da pelle d'este animal são
proveitosos para as preparações de historia natural, que têm de estar em
alcool; servindo em logar de alfinetes, por se não estragarem,
oxydando-se, nem estragarem as preparações; assim como tambem podem
servir, pela mesma razão, para segurarem os insectos nos quadros.

Porém, nada mais grosseiro e vergonhoso do que a metamorphose do cabello
em cobra! Um cabello deitado em agoa transforma-se numa cobra muito
fina: diz o pensar mais rude!

Este absurdo é de tal grandeza, que não gastarei palavras para o
mostrar; mas direi sómente que a pretendida cobra é uma espécie de
filaria; animal filiforme, commum nos regatos e nas agoas pouco
correntes, chegando a um metro e ás vezes a tres e quatro de comprido,
negro ou acastanhado; e como se tem encontrado algumas vezes nas agoas,
aonde o gado costuma ir beber, e deixa muitas vezes os cabellos,
coçando-se, o povo ao vêr estes helmintos juntos com os cabellos,
decidiu logo a metamorphose d'estes nos animaes, aos quaes por serem
finos e compridos, lhes chamárão cobras!

Estes animaes costumão dar voltas sobre si, mettendo as extremidades por
entre ellas, como as pontas d'um nó, e quando morrem, parece terem dado
um nó perfeito.

Tambem terás ouvido dizer que as andorinhas vão á beira do mar procurar
e escolher uma pedrinha, conhecida pela _pedra das andorinhas_; e vem
com ella no bico para abrir no ninho os olhos aos filhos, que sem esta
operação os não abrem! E como é procurada a tal pedrinha e estimada por
algumas pessoas, para, pela sua virtude, tirarem os argueiros dos olhos!
E de certo precisão bem d'ella, pois devem andar com elles bem cobertos
de poeira! A tal pedrinha é um seixo chato e bem polido pelo mar, ou
mesmo um bocado de uma concha preta, que o mar tenha tornado bem lisa e
macia! Que graça! as andorinhas feitas operadoras da catarata dos
proprios filhos!

Muito mais teria que dize-te sobre estes grosseiros prejuizos, como da
amizade que as cobras têm aos homens; da sympathia que os sardões têm
para com as mulheres; e d'outras muitas _babuseiras_ e erros
prejudiciaes, mas hoje ficarei por aqui.



Adeos até outra occasião.

Teu amigo==_A. Luso._

      [1]Augusto Luso.



CONTINUAÇÃO DOS ERROS ÁCERCA DE ALGUNS ANIMAES


Os erros ácerca dos animaes são tão variados, tão extravagantes e
tantos, que ainda hoje te fallarei de mais alguns; e quantos haverá de
que não tenho conhecimento?

Hoje é bem conhecida a utilidade dos sapos na agricultura, pelo devaste
que fazem nos insectos, nas lagartas, nos caracoes, etc., chegando a ser
procurados para as estufas, como remedio contra aquelles animaes, que
devorão e estragão as plantas. Porém é tal a aversão que o povo lhes
tem, talvez pela sua fórma e vista, pouco agradavel, como em geral é a
de quasi todos os reptis, que chega mesmo a dizer que se deve cuspir
trez vezes fóra, todas as vezes que se fallar em sapo, para que não
nasção sapinhos na bôca! É tal o odio que lhes tem, attribuindo-lhes o
perigo de veneno ou _peçonha_, como vulgarmente dizem, que se não
satisfazem só com os matar, mas sómente em lhes dar uma morte cruel,
espetando-os e atormentando-os, deixando-os morrer lentamente; quando
estes innocentes animaes, além do bem que nos fazem, como já disse, não
podem fazer mal a ninguem, pois não têm armas de que se possão servir
para isso; apenas, em sendo muito apoquentados e atormentados, expellem
pelo anus um liquido um tanto acre, mas que nem elle, nem a baba, como
dizem, são venenosos. Reproduzem-se com tanta facilidade e em tanta
abundancia, e desenvolvem-se tanto com o calor e humidade, que, ás
vezes, com as primeiras chuvas de maio, são tantos, que por isso e
pelos saltos e pulos que dão, coincidindo com a quéda das gotas da
chuva, em muitas partes dizem que chovem sapos!

A respeito do pretendido veneno ou _peçonha_, deves saber que são poucos
os animaes, exceptuando os mamiferos, as aves e os peixes, aos quaes o
nosso povo não attribua veneno, a ponto de julgar passagem de bicho que
deixára rasto venenoso ou peçonhento, a quaesquer feridas que apparecem
no corpo das creanças, persuadindo-se que _matando o bicho_, desapparece
a peçonha e logo o mal. Mas, como não sabem qual fôra o genero, nem a
especie do bicho que por alli passára, applicão logo um remedio geral
para toda a sorte de bicho, dizendo:

    Eu te talho, bicho, bichão;
    Sapo, sapão;
    Aranha, aranhão;
    Bicho de toda a nação:
    Em louvor de S. Silvestre,
    Quanto faço tudo preste,
    E de nosso Senhor,
    Que é o verdadeiro Mestre.

E fazendo passar ao mesmo tempo, em cruz, uma faca por cima das feridas,
talhão e retalhão d'esta sorte qualquer bicho que por alli passasse!

Nada mais difficil do que a medicina, nada mais difficultoso do que ser
medico, nada mais melindroso do que receitar, nada mais delicado do que
ser boticario; e todos sabem curar, todos são medicos, todos
receitão e todos são boticarios, porque todos fazem remedios!

E quanto mais extravagante, mysterioso e miraculoso e sobrenatural
parecer o remedio, mais importancia e mais fé lhe dá o povo, pela
tendencia que tem para admirar e acreditar sempre aquillo que menos
entende. É de grande fé tambem, que um frango preto é proveitoso para
servir de remedio contra as lombrigas que atacão frequentemente as
creanças. Por meio d'um pequeno golpe dado superficialmente no pescoço
do frango, extrahem-lhe um pouco de sangue, com o qual dão uma fricção
forte nas costas da creança doente, até que appareção algumas
borbulhasinhas! A mais grosseira ignorancia quer vêr n'estas borbulhas
as cabeças das lombrigas que acudirão alli ao cheiro do sangue; e com
uma navalha de barba, bem afiada, corta então as bolhasitas, dizendo que
talhará assim as bichas, de uma vez para sempre; e que este é o unico
remedio infallivel!

Já que fallamos em frango, vem a proposito aqui o preconceito mais
grosseiro, que revela a maior ignorancia e a mais crassa pequice!

Diz o povo que o gallo aos sete annos põe um ovo, do qual nasce uma
cobra! E isto mesmo tenho eu ouvido dizer a algumas pessoas que se
querem apartar do povo pelo seu vestuario e pelos seus costumes, e ficão
a par da mais grosseira plebe, pelo seu modo de pensar e pelas suas
crenças!

Acontece que uma gallinha nova, ainda franga, pouco robusta, põe ás
vezes um ovo pequeno, sem gemma, constando só da clara e casca, que
quasi sempre é aspera e rugosa; outras vezes uma gallinha já casada, e
cansada por uma longa postura, põe um ovo semelhante, como fazendo um
ultimo esforço; e achados estes ovos nas capoeiras ou poleiros, como
são differentes dos outros, por serem mais pequenos e pela falta de
gemma, são do gallo e não das gallinhas! Porém o erro sobe de ponto ao
dizerem que d'aquelle ovo sairia uma serpente! Um gallo feito mãe! e
feito mãe de serpente!!

Em que ovario se desenvolveria aquelle ovo? em que oviducto tomaria a
clara ou albúmen? Aonde formaria elle a casca ou essa crusta calcarea?

Certamente nas tripas!

A gemma ou _vitellus_, para que a esphera germinativa, que é o ponto
branco que se vé no meio, fique sempre voltada para cima, em qualquer
posição que o ovo tome, para receber o calor immediato da gallinha no
chôco, é ligada de cada lado ás duas extremidades do ovo por uma especie
de cordão torcido da mesma materia da clara, a que se dá o nome de
_chalases_. Ora, estes pequenos ovos abortados, apesar de não conterem a
gemma, contem a clara e conservam os _chalases_; e são elles a terrivel
serpente que mais tarde tinha de se desenvolver! Haverá cousa mais
grosseira? Ignorancia maior?!

O lobo, animal bem commum entre nós, é tido por muitas pessoas, como
tendo a bôca de um lado escachada até o ouvido; e que agarrando nos
cordeiros os lança ás costas, fugindo com elles.

O lobo tem a bôca regular d'ambos os lados, não põe os cordeiros ás
costas, mas muitas vezes, vendo-se perseguido, não querendo deixar a
preza, segura-a pelo lado do pescoço e foge com ella, correndo ambos,
como uma parelha de cavallos.

Quando isto se dá com os nossos animaes, a respeito dos quaes o exagero,
passando de bôca em bôca, tem dado causa tambem a muitos erros, o que
será a respeito dos animaes estranhos, cujas descripções são feitas
por viajantes, quasi sempre propensos á mentira, a augmentarem e a
exagerarem as cousas!

Muitas vezes os proprios naturaes de um paiz, pela mesma razão,
informando mal os curiosos, os fizerão acreditar em falsas narrações e
contos extravagantes.

Hoje, porém, graças ao desenvolvimento do estudo da Historia natural, á
sua reconhecida utilidade, á protecção dada aos museus e aos jardins
d'acclimatação, estes erros têm-se emendado, e vão-se conhecendo as
cousas á luz da verdade. Só entre nós, aqui no Porto, parece
desnecessario um museu; pelo menos não vejo ligar-lhe a mais pequena
importancia! E para que!

Aqui já todos são sabios.

Que importa o estudo dos bichos e das hervas?

Dá elle dinheiro? Não dá? Pouco importa dizer tolices; não é cousa de
_utilidade publica_.

As ridiculas historias de alguns macacos, como os gorillos, os
chimpanzés e os orangos, raptarem as raparigas e fugirem com ellas para
os bosques, que tão acreditadas forão, e fazião que as mulheres tivessem
tanto medo dos macacos, são hoje desmentidas.

A hyena foi tida como um monstro; fizeram-n'a até hermaphrodita!
Derão-lhe os instinctos mais sanguinarios e a maior ferocidade; disserão
que ia aos cemiterios desenterrar os cadaveres, para nelles cevar a sua
ferocidade! A hyena é um animal pouco sanguinario, preferindo a carne
morta e de dias, á carne viva e com sangue; cobarde, poucas vezes ataca,
e se ataca são os animaes pequenos, matando a fome muitas vezes com os
cadaveres dos animaes que desenterra, quando se achão mal cobertos.

O condor, que passou como ave cruel e temivel, é cobarde como em geral
todos os abutres, que mal merecem o nome de aves de rapina; e estão
no caso das hyenas. Sustentando-se de carne morta, não atacão os outros
animaes; mas lanção-se sobre os que encontrão mortos ou sobre aquelles
que encontrão morrendo; ou espreitando as cabras, as vacas, etc., na
occasião em que dão á luz o filho, lanção-se sobre o recem-nascido, sem
sequer atacarem a mãe, apesar de doente; uma creança armada d'um páo
basta para os fazer fugir.

O veneno da tarantula, aranha bem commum na Italia, Hespanha e Portugal,
foi tido como causa de effeitos terriveis, deixando atarantados ou em
convulsões horriveis os mordidos por ella, e receitando-se até como
remedio a musica. Mas hoje, dizem que é bem sabido, que o veneno d'estas
aranhas não é perigoso senão para os insectos que lhes servem de sustento.

Has-de ter visto os nossos pescadores andarem pelas ruas vendendo alguns
polypeiros petrosos, a que chamam arvores do mar. Não estranho que elles
lhes chamem arvores do mar. Porém estranho que pessoas de instrucção,
dadas ás letras, nada queirão saber da sciencia e se contentem com a
lição do pobre pescador, repetindo o mesmo, e até ensinando, que as
madréporas, astréas, fungias, etc., são tortulhos e arvores do mar, sem
fazerem ideia, já se vê, do que é uma arvore, nem dos pobres animaes que
caírão nas suas mãos e debaixo das suas vistas, que tão mal os olharão;
porém para maior esclarecimento e maior disparate acrescentão os que já
não precisão de estudar--são arvores do mar _petrificadas_.

Poderia continuar a fallar-te de mais alguns d'estes erros, mas receio
enfadar-te, e por isso fico por aqui. Emquanto aos curiosos animaes
que habitão a nossa costa da Foz, da Granja, Mattosinhos e Leça, terei
talvez ainda occasião de te fallar d'elles em particular; pois são uma
distracção nos solitarios passeios á beira-mar, amenisando o que parecia
monotono, e tornando habitado o que parecia deserto, achando nós
companhia aonde nos julgavamos sós.

Adeos até outra occasião.

                                                  Teu amigo==_A. Luso._



O NOIVADO DO SEPULCHRO

  (BALLADA)

    Vae alta a lua! na mansão da morte
    Já meia noite, com vagar soou;
    Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte,
    Só tem descanço quem alli baixou.

    Que paz tranquilla!... mas ao longe, ao longe
    Funérea campa com fragor rangeu:
    Branco phantasma, semelhando um monge,
    D'entre os sepulchros a cabeça ergueu.

    Ergueu-se ergueu-se!... na amplidão celeste
    Campeia a lua com sinistra luz;
    O vento geme no feral cypreste,
    O mocho pia na marmorea cruz.

    Ergueu-se, ergueu-se, com sombrio espanto,
    Olhou em roda... não achou ninguem...
    Por entre as campas, arrastando o manto,
    Com lentos passos caminhou além.

    Chegando perto d'uma cruz alçada,
    Que entre os cyprestes alvejava ao fim,
    Parou, sentou-se, e com voz maguada
    Os éccos tristes accordou assim:

    «Mulher formosa, que adorei na vida,
    E que na tumba não cessei d'amar;
    Porque atraiçôas desleal, mentida,
    O amor eterno que te ouvi jurar?

    «Amor! engano, que a campa finda,
    Que a morte despe d'illusão fallaz;
    Quem d'entre os vivos se lembrará ainda
    Do pobre morto que na terra jaz?

    «Abandonado n'este chão repousa;
    Ha já tres dias, e não vens aqui...
    Ai! quão pesada me tem sido a lousa
    Sobre este peito que bateu por ti!

    «Ai! quão pesada me tem sido!» e em meio,
    A fronte exhausta lhe pendeu na mão,
    E entre soluços arrancou do seio
    Fundo suspiro de cruel paixão.

    «Talvez que rindo dos protestos nossos,
    Gozes com outro d'infernal prazer;
    E o olvido cobrirá meus ossos
    Na fria terra, sem vingança ter!

    --«Oh! nunca, nunca!» de saudade infinda
    Responde um écco-suspirando além...
    «Oh! nunca, nunca!» repetiu ainda
    Formosa virgem que em seus braços tem.

    Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas,
    Longas roupagens de nevada côr;
    Singéla c'rôa de virgineas rosas,
    Lhe cerca a fronte d'um mortal pallôr.

    «Não, não perdeste meu amor jurado;
    Vês este peito! reina a morte aqui...
    E já sem forças, ai de mim, gelado,
    Mas ainda pulsa com amor por ti.

    «Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
    Da sepultura, succumbindo á dor;
    Deixei a vida... que importava o mundo,
    O mundo em trevas sem a luz do amor?

    «Saudosa ao longe vês no céo a lua?
    --Oh! vejo, sim... recordação fatal!
    --Foi á luz d'ella que jurei ser tua,
    --Durante a vida, e na mansão final.

    «Oh! vem! se nunca te cingi ao peito,
    Hoje o sepulchro nos reune emfim...
    Quero o repouso do teu frio leito,
    Quero-te unido para sempre a mim!»

    E ao som dos pios do cantor funéreo,
    E á luz da lua de sinistro alvor,
    Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio,
    Foi celebrado, d'infeliz amor.

    Quando risonho despontava o dia,
    Já d'esse drama nada havia então,
    Mais que uma tumba funeral vasia,
    Quebrada lousa por ignara mão.

    Porem, mais tarde, quando foi volvido
    Das sepulturas o gelado pó,
    Dous esqueletos um ao outro unido,
    Foram achados n'um sepulchro só.



AO MEU GATO

    Ai! meu pobre animal unicos restos
        do meu viver de então;
    Companheiro nos dias tão funestos
        e d'esta solidão.

    Ficaste ainda assim ao meu abrigo
        para me acompanhar,
    Tu agora, talvez unico amigo
        que sabe o meu penar.

    Tua dona morreu: Já não existe
        quem te affagava emfim;
    Hoje pobre animal, tu hoje triste
        só me possues a mim.

    Como tudo mudou, como perdida
        nos foi a nossa luz;
    e cada qual de nós em sua lida
        tem hoje a sua cruz.

    Hoje é tudo deserto, o lar sem lume
        para te conchegar
    que foi-se-nos da vida esse perfume
        o conforto do lar

    Ai! meu pobre animal tão resignado,
        me vens agradecer
    não me olvidar, embora fatigado
        de dar-te de comer.

    Mas tu tambem não comes, tambem sente
        teu seio cruel dor,
    porque ás vezes me fitas de repente
        com bem triste amargor.

    Que fazemos nós ambos sem conforto
        n'este deserto assim!
    Oh! vamo-nos embora d'este horto
        partamos já emfim.

    Nem eu, nem tu já temos alegria,
        tudo vimos morrer;
    que fazemos aqui de noite e dia?
        apenas só gemer.

    Oh! vamo-nos embora e bem depressa
        que já não póde mais o coração,
    acabe-se o tormento que não cessa,
        fujamos d'esta triste solidão.



Agosto--1870

                     _Costa Goodolphim._



SIGNAES PHISIONOMICOS


SATURNO

Os homens que nascem debaixo do dominio de Saturno, são d'estatura
grossa, avultada, nervosa, e com alguma imperfeição, o rosto grande e de
côr palida, a fronte larga e cheia de lineamentos tortuosos, a cabeça
imperfeita, os cabellos pretos, humidos e crespos nas pontas; os olhos
pretos e centralmente disposto um maior que o outro, e ás vezes uma
macula ou albugem em um d'elles; as sobrancelhas grandes, e unidas uma
com outra até á raiz superior do nariz; a bocca larga; o beiço superior
mais contrahido e o inferior mais grosso; os dentes superiores grandes e
os inferiores agudos, curtos e desiguaes; o pescoço magro, comprido e
algum tanto inclinado para diante, cheio de musculos, veias e arterias
que se manifestam com boa distincção; os hombros largos e levantados; o
peito apertado; as costas largas; a cutis aspera e bem povoada de
cabellos; os braços compridos e robustos; as pernas delgadas, compridas
e tortas; os pés cheios de veias superficialmente dispostas e pela maior
parte sugeitos aos calos.


JUPITER

Os homens nascidos debaixo do dominio de Jupiter, são de boa estatura,
bem dispostos e temperados; teem o rosto grande mas em boa conformidade
de côr rosada; a fronte bem formada e descoberta; a cabeça espherica; os
cabellos densos e pouco crespos, inclinando a louros; os olhos formosos,
grandes e sahidos; as sobrancelhas agudas e bem povoadas de cabellos; o
nariz comprido e no meio com alguma eminencia; a bôca rasgada; o labio
superior maior que o inferior, ambos vistosos e córados; os dentes
superiores compridos e largos, especialmente os dous medios, os
inferiores mais miudos, mas uns e outros firmes e bem collocados; a
barba sahida de côr castanha com uma cova no meio; o pescoço elegante e
bem proporcionado, com algumas veias musculosas, e arterias bem
distinctas e engraçadas; os hombros largos, carnosos e bem compostos; o
peito entre largo e apertado, pouco povoado de cabellos; os braços e pés
medianamente crassos e robustos, povoados de cabellos tenues e
compridos, com algumas veias ceroleias e manifestas.


MARTE

Os homens que nascem sob a influencia de Marte, são de estatura
avultada, fornida, e varonil; o rosto comprido, feio e de côr acceza; a
fronte redonda e cheia de rugas; a cabeça grande e aguda; os
cabellos densos de côr castanha ou ruiva; os olhos claros, seccos, e
centralmente dispostos, a vista aguda, secca e espantada; as
sobrancelhas estendidas e mal povoadas: o nariz agudo, apertado e curvo;
a bôca grande; os beiços delgados e tenues; os dentes pequenos e agudos,
mas dispostos por boa ordem; a barba aguda e bem povoada de cabellos,
com uma cova na ponta; o pescoço comprido, magro e cheio de musculos, e
veias patentes; os hombros magros e robustos; o peito estreito; as
costellas vigorosas; a cutis povoada; os braços e pés magros, duros e
robustos, com musculos, veias, e arterias prominentes e bem superficiaes.


SOL

Os homens que nascem sob a influencia do Sol, teem a estatura do corpo
bem formada e proporcionada; são alvos e de muitas carnes; a cabeça
redonda e não muito grande; os cabellos louros breves e pouco densos; os
olhos formosos, claros e castanhos; as sobrancelhas bem dispostas,
delgadas e pouco povoadas de cabellos; o nariz direito e extenso; a bôca
pequena; os beiços redondos e carnosos; os dentes raros, agudos e
firmes; a barba quasi redonda e largamente povoada de cabellos, com uma
cova profunda no meio; o pescoço breve e robusto, musculoso e pouco
patentes as arterias e as veias; os hombros grandes, largos, carnosos e
robustos; o peito grande sahido e bem formado; as costellas largas e
robustas; os braços, pernas e pés robustos, crassos e bem
proporcionados, e o corpo direito, bem formado e forte.


VENUS

Os homens que Venus vê nascer são elegantes, de estatura pequena, mimosa
e engraçada; o rosto entre redondo e comprido, bem proporcionado e
córado; a fronte engraçada, aonde se distingue a linha venera; a cabeça
mediocre na grandeza e redonda na fórma; os olhos alegres, claros,
pretos, grandes e resplandecentes; as sobrancelhas formosas, grandes,
bem povoadas e unidas; o nariz plano, mediocre e prominente; a bôca
pequena e engraçada; os dentes miudos, bastos, brancos e firmes; a barba
abreviada, e cheia; o pescoço comprido, carnoso e bem formado; os
hombros largos e robustos; o peito carnoso; as costellas robustas; os
braços e pés carnosos e bem formados.


MERCURIO

Os homens que nascem sob a influencia de Mercurio, são de estatura
mediocre, mas bem formada; o rosto entre comprido e redondo de poucas
carnes e de côr morena; a fronte regular com profundas lineações
phisionomicas, e com mais distincção a linha mercurial, que é a segunda
em ordem, contando da raiz superior das sobrancelhas; a cabeça grande e
redonda; os cabellos poucos, densos e delgados; os olhos profundos,
pequenos e formosos, não de todo pretos; as sobrancelhas pequenas, pouco
arquiadas e unidas ás palpebras; o nariz pequeno, plano, igual e um
pouco afilado; a bôca rasgada; os beiços carnosos e rubicundos; os
dentes superiores desiguaes e raros, os inferiores compostos e
unidos; a barba redonda, assignalada no meio e os cabellos pretos; o
pescoço mediocremente comprido; os hombros largos e robustos; o peito
plano, igual e pouco povoado de cabellos; os braços e dedos das mãos
compridos, bem feitos do corpo e dos pés, são fortes rapazes.


LUA

Os homens que nascem na influencia da Lua a sua estatura é comprida e
descomposta; o rosto grande, largo, carnoso e de côr trigueira; a cabeça
grande e algum tanto espherica; os olhos grandes bem dispostos, redondos
e superficiaes, e algumas vezes um maior que o outro; as sobrancelhas
grandes arquiadas e unidas; o nariz grande, redondo ou rombo; a bôca
rasgada não muito grande; os beiços grossos e carnosos; os dentes
largos, grandes e mal dispostos; a barba redonda, abreviada e pouco
povoada de cabellos; o pescoço breve, robusto e carnoso; os hombros
grandes e mal dispostos; o peito grande e largo com muitas carnes; os
braços e pés robustos, grossos, com poucos pellos e muitas veias
distinctas.



ORAÇÃO DO JUSTO JUIZ


Justo Juiz de Nazareth, filho da Virgem Maria, que em Belem fostes
nascido entre as idolatrias, eu vos peço, Senhor, pelo vosso sexto dia,
que meu corpo não seja preso, nem ferido, nem morto, nem nas mãos da
justiça envolto, _Pax Tecum_, _Pax Tecum_, _Pax Tecum_. Christo assim o
disse aos seus Discipulos, se os meus inimigos vierem para me prender,
terão olhos não me verão, terão ouvidos não me ouvirão, terão bocca não
me fallarão, com as armas de S. Jorge serei armado, com a espada de
Habrahão serei coberto, com o leite da Virgem Maria serei borrifado, com
o sangue de meu Senhor Jesus Christo serei Baptisado, na Arca de Noé
serei arrecadado, com as chaves de S. Pedro serei fechado, aonde me não
possam vêr, nem ferir, nem matar, nem sangue de meu corpo tirar; tambem
vos peço Senhor, por aquelles tres Calix bentos, por aquelles trez
Padres revestidos, por aquellas trez Hostias consagradas, que
consagradas ao Terceiro dia me deis aquella doce companhia que déste á
Virgem desde as portas de Belem até Jerusalem, que com prazer e alegria
eu seja tão bem guardado de noite como de dia, assim como andou Jesus
Christo no ventre da Virgem Maria, Deus diante, paz na guia, Deus me
dê a companhia que Deus deu á virgem Maria; desde a casa Santa de Belem
até Jerusalem.

Deus é meu Pae, a Virgem Santa Maria é minha Mãe? com as armas de S.
Jorge serei armado, com a espada de S. Thiago serei guardado para
sempre. Amen.



ORAÇÃO

A Jesus christo, como a dizia S. Cypriano


Meu Senhor Jesus Christo, lembrai-vos de mim peccador. Virgem
Santissima, rogai por mim sempre sereis louvada, bemdita; rogai por este
peccador ao vosso amado filho, preciosa formosura dos anjos, flor dos
archanjos, prophetas e Patriarchas, coroa dos Martyres Apostolos e
confessores, gloria dos Serafins, coroa das Virgens, livrai-me de
aquella espantosa figura quando minha alma do meu corpo sahir, ó
Santissima fonte de piedade, formosura de Jesus Christo, alegria da
gloria, consolação no ceu, remedio nos trabalhos, comvosco ó Virgem
prudentissima se alegram os Anjos, encommendae minha alma a todos os
fieis christãos e conduz-me ao eterno Paraiso aonde viveis e reinaes
para sempre e eu para vos louvar. Amen.



ORAÇÃO

Ao Anjo Custodio, como a dizia S. Cypriano


Anjo Custodio quereis ser Santo pela graça de Deus? Quero.

Das treze palavras que sabeis dizei-me a uma.

(_Assim se deve dizer em todas as palavras_).

1.ª Uma entre o sol e a lua. Padre, Filho, Espirito Santo.

2.ª São as duas taboinhas de Moysés.

3.ª São os tres Patriarchas Jarco Jarcó.

4.ª São os quatro Evangelistas.

5.ª São as 5 Chagas de Nosso Senhor Jesus Christo.

6.ª São os seis cirios bentos que appareceram em Jerusalem para alumiar
a Nosso Senhor Jesus Christo para todo o sempre. Amen.

7.ª São as sete salvas da Senhora.

8.ª São os oito coros d'Anjos.

9.ª São os Nove Corpos Santos.

10.ª São os Dez Mandamentos.

11.ª São as 11 Mil Virgens.

12.ª São os Doze Apostolos.

13.ª São os 13 raios do Sol que arrebente o Demonio do mais pequeno até
o maior.

N. B. Esta oração deve ser principiada e acabada, porque do contrario, o
Santo fica de joelhos até que a pessoa que a principiou a acabe.



RECEITAS CURIOSAS


Contra a picada da vibora

Dissolva-se em agua chlorureto de cal até que fique em uma massa mole, e
se põe sobre a picada.


Contra o envenenamento produzido pelo verdete

Bata-se uma clara d'ovo, e depois de bem batida misture com agua e dê ao
doente, repetindo o mesmo até acalmar as colicas, tomando depois bebidas
temperantes.


Contra a mordedura de cães damnados

O que se deve logo fazer é espremer bem a ferida para expellir o sangue
e a baba, e depois lavar a ferida com a dissolução de pedra caustica
(alkali) em agua, ou a cauterisação de ferro em braza pondo depois
pannos e enchumaços molhados na dissolução para dilatar a ferida, póde
ajuizar-se se é de cão damnado molhando um bocado de pão no sangue da
ferida e deital-o a uma gallinha e se fôr damnado morre a gallinha;
se se deitar a outro cão não o quererá comer e até fugirá do pão.


Contra as queimaduras

Metta-se immediatamente a parte queimada em agua de cal ou envolva-se em
algodão em rama.


Contra escaldaduras d'agua a ferver

Esfregue-se a parte offendida com farinha triga e depois cubra-se com
bastante farinha e pannos de linho.


Contra os ataques de gota

Esprema-se um limão na bocca da pessoa atacada que logo cessam os
accidentes.


Para estancar sangue de veia ou outro qualquer vaso cortado

Magisterio d'opio um escropulo, cabellos de lebre cortados miudos e
clara d'ovo q. b. para fazer uma massa a qual se põe na parte com ataduras.


Para os surdos

Toma-se do fel de gallinha, aguia, corvo e lebre (todos ou partes
d'elles) uma porção sufficiente e cozam-se em panella nova, com vinho
branco, bem tapada, até ficar em consistencia d'oleo, do qual se
deita todos os dias nos ouvidos algumas gotas tepidas.


Para estancar o sangue do nariz

Esfregue-se a testa com o mesmo sangue, ou levantem os braços para o ar
até passar.


Para não cahir o cabello

Lava-se a cabeça com oleo rosado em o qual se tenha fervido a semente de
murta, galha, e mirabolanos, o summo das cebolas tambem serve para o mesmo.


Contra a embriaguez

Tome seis a oito gotas d'amoniaco liquido (alkali volatil) dissolvidas
n'um copo d'agua.


Para enjoar o vinho

Tome-se o chora das videiras misturado em vinho.


Contra o defluxo

Esfregue o nariz e entre os olhos ao deitar na cama com pomada
camphorada, e em jejum tome algumas colheres de mel.


Contra a dôr de dentes

Sulphato d'alumina em pó uma oitava; ether nitrico uma dita, faça uma
pasta mole, e cubra o dente dorido.


Outra para o mesmo

Ether sulphurico uma oitava, laudam 30 gotas, misture e ponha no dente
por meio do algodão em rama.


Outra

Mel rosado meia onça, alcamphora, espirito de mirrha, e dito de sal
commum de cada um 30 gotas; misture e ponha no dente por meio do algodão
em rama.


Contra o azedume do estomago

Serve para a azia comer salsa crua e tambem se recommenda para dôres de
garganta.


Para as vespas não picarem

Lavam-se as mãos e cara com agua de colonia, ou de alfazema, vinagre ou
agua ardente.


Para as moscas não morderem no gado

Esfreguem o gado com folhas verdes de nogueira.


Contra picadas das vespas

Esfregue-se a parte dorida com uma mosca.


Contra os callos

Ponha-se sobre elles uma pasta de adzivo morno, até se desfazerem; ou
cubram-se com algodão em rama para mitigar as dores.


Contra as formigas

Deite-se nos formigueiros ou logares aonde ellas causam prejuizo folhas
de tomates, ou sal, pó de carvão ou cinza.


Contra o gorgulho

Deitem-se alguns punhados de linho canhamo com a semente e fresco por
toda a superficie dos grãos enceleirados.


Para tirar nodoas de tinta

Molhe-se o panno no lugar da nodoa, cobre-se esta com uma pitada de sal
d'azedas (acido oxalico), molha-se outra vez com agua e põe-se ao pé do
lume. Á medida que a agua se evapora, molha-se de novo o panno, e se é
preciso cobre-se outra vez de pó, logo que tem desapparecido a nodoa,
lava-se o panno para que a dissolução acida o não altere.


Para evitar os espirros

Quando nos vierem os espirros, esfreguem-se logo os olhos, e elles se
irão sem effeito.


Para a boa criação das gallinhas

Deverá votar-se as gallinhas ou patos na Lua Cheia de Janeiro ou
Fevereiro, os ovos mais redondos são machos e os mais compridos são femeas.


Conhecimento das complexões pelos sonhos

Quando sonharmos com fogos, guerras, armas ou cousa similhante, é signal
de complexão colerica; quando sonharmos com arvoredos, flores, festas,
banquetes etc., é signal de complexão sanguinea; quando sonharmos com
chuvas, pescarias, embarcações ou cousas d'agua, é signal de complexão
flegmatica; quando sonharmos com prisões, mortes ou desgraças que causem
tristeza, é signal de complexão melancolica e conforme a estas
complexões se applicará o remedio.


FIM DA QUINTA PARTE





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (5/7) - Parte Quinta: O oraculo das Sinas" ***

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