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Title: Manuel de Moraes - Chronica do Seculo XVII
Author: Silva, J. M. Pereira da (João Manuel Pereira), 1817-1898
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Manuel de Moraes - Chronica do Seculo XVII" ***

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                                 MANUEL

                               DE MORAES

                        CHRONICA DO SECULO XVII

                                 POR

                        J. M. PEREIRA DA SILVA


                           RIO DE JANEIRO
                   B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
                       69, RUA DO OUVIDOR, 69
              PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7

                                1866



MANUEL

DE MORAES



VENDEM-SE
AS SEGUINTES OBRAS DO MESMO AUTOR
NAS CASAS MENCIONADAS


EM PORTUGUEZ:

HISTORIA DA FUNDAÇÃO DO IMPERIO BRAZILEIRO. 6 vol. in-8º.

VARÕES ILLUSTRES DO BRAZIL DURANTE OS TEMPOS COLONIAES. 2 vol. in-8º 2.ª
edição.

OBRAS POLITICAS E LITTERARIAS, Discursos parlamentares, Viagens,
Reminiscencias, Poesias, etc. 2 vol. in-8º.

JERONYMO CORTE-REAL, chronica do seculo XVI. 1 vol. in-12.


EM FRANCEZ:

SITUATION SOCIALE, POLITIQUE ET ÉCONOMIQUE DU BRÉSIL. 1 vol. in-12.

LA LITTÉRATURE PORTUGAISE, son passé, son état actuel. 1 vol. in-12.

PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.



MANUEL

DE MORAES

CHRONICA DO SECULO XVII

POR

J. M. PEREIRA DA SILVA

RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
69, RUA DO OUVIDOR, 69
PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7

1866



DUAS PALAVRAS

AO LEITOR


Encontra-se na _Biographia luzitana_ do abbade Diogo Barbosa uma
succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em São Paulo (Brazil),
pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma _Historia
da America_, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pró da
acclamação d'el-rei D. João IVº, publicada em Leyde (Hollanda), no anno
de 1641, com o titulo de _Prognostico y respuesta á una pergunta de
un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal_; condemnado pelo
tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de fé de 6 de
Abril de 1643, por apostata da religião catholica, e casado com mulher
schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer
de varias tradições; pela violencia, conforme outras não menos procedentes.

Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu
_Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro_,
accrescenta que pertencêra á companhia de Jesus em São Paulo, e fôra
garroteado no auto de fé de 15 de Dezembro de 1647.

Outros escriptores, que procurárão lembrar-lhe tambem o nome, e nós
particularmente no supplemento annexo á obra dos _Varões illustres do
Brazil durante os tempos coloniaes_, repetírão sómente o que
avançára o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos lográrão
mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido.

Parece pois evidente que se não poderá jámais esboçar um estudo
biographico e regular ácerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os
elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos
de um varão tão distincto, e cuja existencia é todavia incontestavel.

No desejo porém de torna-lo conhecido dos leitores, e de pôr a limpo a
sua original e extravagante personalidade, traçamos proceder em relação
ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez
Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legárão todavia menos incompleta
os autores passados.

A chronica de Cortereal terá assim uma imitação na de Manuel de
Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nação e da sociedade
portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastião até o jugo
castelhano. Encerrará esta a descripção dos successos occorridos durante
o seculo XVII em São Paulo e nas missões jesuiticas de Guayrá; em
Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na
emigração dos judêos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento
da Inquisição.

Confundir-se-hão no mesmo quadro a historia real e a imaginação
aventureira. Não é este o ramo mais popular da moderna litteratura, a
formula mais estimada pelo publico da actualidade?



MANUEL DE MORAES


CAPITULO PRIMEIRO

Quem presentemente seguir da cidade de Santos para a de Sao Paulo
aproveitando a estrada de ferro, que se acaba de construir entre os dous
pontos mais interessantes da provincia; e lançar os seus olhos curiosos
sobre a capital, assentada doce e preguiçosamente nos cimos de serras
altanadas, que affrontão os ares; bafejada por uma atmosphera
encantadora e portentosamente diaphana; avistada de longe por todos os
lados como uma habitação aerea; coroada de torres de igrejas e de
edificios risonhos; cercada de campinas que se somem na confusão do
firmamento; regada aos pés pelo riacho Tramandatahy, que a pequena
distancia, e na propria planicie descoberta, precipita as suas aguas
claras e boliçosas no seio do rio Tieté, assemelhando-se já na infancia
a um monarcha poderoso quando o assorberbão as copiosas torrentes das
chuvas: não póde ao certo imaginar o que fôra esta povoação nos
primeiros annos do seculo XVII.

O celebrisado Martim Affonso de Souza, donatario das terras que correm
do Cabo de São Thomé para o sul até encontrar as ultimas cincoenta
leguas reputadas pertencentes á corôa portugueza, e que havião sido
concedidas a seu irmão Pedro Lopes de Souza, edificára o arraial de São
Vicente, á beira do mar, povoára-o de gente laboriosa e aventureira,
e passára aos moradores ordem de internar-se pelo solo, explora-lo, e
cultiva-lo, travando amizade e pazes com as tribus gentias e tranquillas
que encontrassem pelo caminho.

Seguio-se a São Vicente o arraial de Santos, como porto mais favoravel á
navegação e ao commercio, por mais resguardado dos ventos e das furias
do oceano. Dobrando depois as serras alcantiladas e graniticas que se
avistavão, descobrírão os Portuguezes planicies immensas e uberrimas,
que se estendião voluptuosamente pelas alturas dos montes, e fundárão
então ahi a povoação de São Paulo, perto das tabas e residencias da
tribu de Tyberiçá, que habitava os sitios deleitosos de Piratininga, e
acolhêra os invasores como amigos e alliados, contando com o seu auxilio
para combater e resistir aos valentes Tamoyos do Rio de Janeiro, que
pela parte do Norte commettião assaltos e depredações incessantes,
roubavão e assassinavão os vizinhos sem piedade e nem commiseração, e
aterrorisavão com as suas façanhas as raças mansas de Carijós, e
Goyanazes, que possuião as terras e florestas da parte meridional da
capitania hoje denominada provincia de São Paulo.

Não se tinhão ainda derribado as mattas poderosas, que cobrião o solo, e
negavão caminho. Não se havião vencido ainda as correntes rapidas e
desordenadas dos arroios, que cortavão as communicações com o largo e
fundo das suas aguas possantes. Não se encontravão ainda pousos e
ranchos semeiados pela estrada, para allivio dos viajantes. Não estavão
ainda edificadas as lindas casas de campo, rodeiadas de pomares e
jardins, e enfeitadas de flôres cheirosas, que alegrão os sentidos, e
extasião com doçuras ineffaveis.

Não apparecia ainda o pittoresco arraial de São Bernardo, brilhando
como preciosa quinta de fidalgo no seio de arvoredos fructiferos.

Desde que se attingia ao alto dos serros, de onde se descortina o
panorama soberbo das terras inferiores, rasgadas pelo curso caudaloso
dos rios, e do mar fremente, que sussurrava de continuo como o gemido da
eternidade, até que se chegasse á povoação de São Paulo, fulgurava a só
natureza virgem com a magestade das suas arvores, a grandeza dos seus
penhascos, a immensidade das suas cataractas de aguas, a extensão dos
seus desertos, e a pompa e sombrio dos seus reconditos segredos.

Traçárão-se a esmo os caminhos, descendo e trepando como animaes bravios
da solidão. Transpunhão-se os arroios a nado, as catadupas com páos
agrestes e mal afeiçoados, que se destruião e atiravão por cima d'ellas
para servir de pontes de passagem. Desperdiçavão-se dias e noites
inteiras na viagem difficultosa, dormindo-se ao ar, sobre o chão humido,
ou em redes pendidas dos galhos das arvores. Que espirito extraordinario
imaginaria n'essa época que uma estrada de ferro, movida pelo vapor,
levaria hoje em poucas horas os viajantes de Santos a São Paulo, domando
a natureza, avassallando os elementos do solo, e correndo mais que as
aguias velozes, e quasi tanto como a aragem fresca do vento!

Se por um lado perdeu com a metamorphose a poesia das brenhas,
esplendores e primitiva magnificencia das localidades, não resplandece
porém nos progressos da sociedade actual, nos descobrimentos arrojados
do genio do homem, outra poesia nova, que se reveste igualmente de
encantos e vôos admiraveis, posto diametralmente differentes?

Não possuia a povoação de São Paulo nos primeiros trinta annos do
seculo XVII mais de trezentas a quatrocentas casas, com cerca de tres
mil moradores, gentios catechisados e livres em maioria, Portuguezes,
mamelucos ou mestiços de branco e gentio, mulatos e pretos escravos.
Erão pela maior parte as habitações simplices choupanas, cobertas de
telhas ou de palha; quatro ou cinco igrejas regulares, e não mais de
trinta a quarenta predios de apparencia senhoril. Estreitas e tortuosas
ruas traçadas sem o nivellamento preciso do solo exigião degráos para
subidas e descidas, que communicassem os varios outeiros, sobre que o
arraial pousava. Dominando a eminencia banhada aos pés pelo riacho
Tramandatahy, pairava a casa da companhia de Jesus, limpamente caiada,
erguida em sobrados, coroada de telhas vermelhas, dominando a planicie,
que acabava nos montes da Penha, atirando uma cerca repleta de
larangeiras, jaboticabeiras, e varias arvores fructiferas pela
quebrada do outeiro até as margens do arroio, e encostada á igreja do
Instituto modestamente edificada, tendo ao lado uma torre pittoresca e
um cemiterio já bastante povoado de sepulcros, e na frente uma praça
irregular bem que espaçosa.

As varias classes dos moradores se differençavão igualmente pelos
costumes e tendencias. Empregavão-se os escravos nos trabalhos infimos e
agricolas. Dedicavão-se os Portuguezes nascidos na Europa ou já no
Brazil ao commercio e industria, á construcção e edificação de
propriedades, a compras e vendas de terrenos, ou permutas em grosso ou a
varejo de objectos de mercancia. Regimentos militares e milicianos
defendião a povoação. Algumas ordens monasticas possuião já conventos.
Mais numeroso e importante se manifestava porém o Instituto de santo
Ignacio de Loyola, ao qual respeitavão as proprias autoridades civis
e militares, em obediencia ás ordens terminantes e rigorosas que lhes
chegavão da metropole européa, recommendando-lhes todo o apoio e
protecção aos jesuitas, como os apostolos mais fervorosos da
catechisação dos indigenas, e os esteios mais firmes do altar e do
throno. Posto em geral mais viciosos que todos os habitantes, se
reputavão os mamelucos descobridores audazes de terras interiores, e
exploradores perspicazes dos desertos, incitando continuamente a cobiça
dos Portuguezes, que chegavão á povoação nos desejos e ancias de
correrem atrás de minas de ouro e prata, que dizião existir para as
partes de dentro da capitania, e para os confins e limites do Perú, e de
guerrearem os gentios salvagens, que se reduzião ao captiveiro, segundo
as leis existentes, quando apanhados sómente nos combates, ou
convencidos de crimes.

Formavão os caboclos catechisados uma classe innocente, submissa,
devota, mas activa e industriosa. Compunha-se de operarios,
agricultores, musicos e cantores. Apprendião todos os officios, e
gostavão de procissões religiosas, festas nos templos e solemnidades
apparatosas. Veneravão e obedecião aos padres da companhia de Jesus como
a seus pais e protectores, seus amigos e mestres, seus medicos e anjos
tutelares. Ouvião-lhes os conselhos, attendião-lhes aos sermões e
predicas, assistião nas suas escolas ás lições da lingua e grammatica
portugueza, ás explicações do catechismo romano, e ao exercicio do canto
e musica, com que particularmente os deleitavão os jesuitas,
alimentando-lhes a fé, e moralisando-os convenientemente. Applicavão os
filhos desde a infancia aos coros das igrejas, ao tanger dos
instrumentos sonoros, e ao serviço religioso.

Estava a capitania de São Vicente dominada ainda pelos herdeiros do
donatario, e administrada em seu nome por autoridades de sua escolha,
conhecidas pelos titulos de locotenentes e capitães-móres. Prestavão
todas preito todavia ao governador do Rio de Janeiro em tudo quanto se
considerava direcção politica.

Não erão raras as lutas em que se envolvião os jesuitas contra as
pretenções dos brancos e mamelucos, ambiciosos de converter em escravos
quantos gentios apanhavão, ainda que as leis não consentissem o
captiveiro senão em casos particularisados. Timbravão os padres em
defender os infelizes indigenas, e sustentar os seus direitos e fóros de
homens livres. Bastantes conflictos travavão igualmente no intuito de
livrar os gentios de attentados e malversações, que soíão praticar os
conquistadores contra as suas pessoas, familias e propriedades.
Valião-lhes o respeito que incutião em animos ignorantes, as crenças
catholicas da época e que chegavão ao gráo de superstição, e das quaes
os jesuitas se aproveitavão, e o apoio igualmente que prestavão aos
padres as autoridades da colonia.

Como se alvoroçava a população de São Paulo ao receber noticias de
Portugal e Hespanha, unidos então sob o sceptro dos Felippes de
Castella? Quantas dôres e gemidos, quantas preces nos templos, quantas
genuflexões perante os altares, ao espalhar-se que os Hollandezes se
havião apoderado da cidade do Salvador da Bahia, e logo após do
territorio de Pernambuco, ameaçando submergir o Brazil no pelago das
calamidades, com levantar sobre as ruinas da religião romana o frio e
schismatico culto da reforma preconisada por Luthero, Calvino e seus
discipulos! Ao saber-se de victorias dos Hollandezes, acudião povos dos
arredores de São Paulo, e corrião todos os moradores, guiados pelos
jesuitas e pelas autoridades, a implorar do Deos eterno misericordia e
salvação, misturando-se as imprecações e lagrimas de gentios, mamelucos,
brancos e escravos, que batião nos peitos amarguradamente, se infligião
castigos corporaes, e apegavão-se aos santos do calendario para lhes
conseguir protecção e piedade!

Corria assim este estado de cousas, quando, ao acabar de uma tarde do
mez de Abril de 1628, descêrão dous vultos o outeiro em que estava
situada a cerca da casa de Jesus, como peregrinando por entre o
arvoredo, e procurando as margens do Tramandatahy.

Cobrião-se ambos de roupetas de jesuitas. Mas um puxava já os seus annos
para além do numero de quarenta. Começava-lhe a cabeça a embranquecer e
calvejar, cahindo-lhe os cabellos á proporção que perdião a côr
primitiva. Physionomia sympathica e rasgada; olhos bondadosos; gestos
agradaveis apparentava. Conversando com o seu companheiro, que pouco
mais passava dos vinte annos de idade, mexia o padre Eusebio de
Monserrate, que assim se chamava o mais velho dos dous vultos, as contas
grandes e pretas de um rosario terminado por uma cruz regular, parava de
quando em quando, ouvia attentamente o seu interlocutor, dirigia-lhe
palavras curtas e pausadas, levantava os olhos para o céo, e fixava-os a
miudo no mancebo, como perscrutando-lhe no intimo do peito. Esbelto,
vigoroso e alto, erguia-se o seu companheiro, noviço ainda da companhia.
Dir-se-hia porém triste, abatido, acurvado por alguma dôr do espirito, e
mais prestes a confessar-se humildemente que a entreter uma conversação
regular e séria.

Morria ao longe o dia, enterrando-se o sol, que o allumiára, por detrás
dos morros da Penha, posto raiassem ainda os derradeiros clarões, que
vagão indefinida e indecifravelmente depois ainda que o rei dos
astros desapparece, demorando-se elles por algum tempo no horizonte, que
do lado opposto se escurecia e minguava com as sombras da noite proxima.
Suave viração brincava com as folhas das arvores, perfumando e
refrescando a atmosphera um pouco aquecida com os ardores antecedentes
do sol. De um para outro lado saltavão pelo chão timidas rolinhas,
fugindo aterrorisadas sempre que ouvião o menor sussurro, e parecendo
procurar abrigo tranquillo em qualquer galho ou tronco esparso que
encontravão.

Soárão sete horas nos sinos da torre dos jesuitas, quando se havião já
approximado do Tramandatahy os dous individuos de que fallamos. Tirárão
immediatamente da cabeça os seus grandes chapéos de abas largas, e
cortárão toda a conversação para dirigir preces ao Todo Poderoso e
benzer-se devotamente. Acabadas as rezas, pegou o padre na mão do
mancebo, e disse-lhe com pausa estudada:

--Queres emfim abandonar a casa de Deos e deixar o serviço da religião e
da companhia?

--Não me inspira vocação nenhuma para o estado,--respondeu-lhe o joven,
tentando beijar a mão do jesuita, o que este lhe não permittio.--Não
dirige Deos a creatura humana?--continuou depois de alguns momentos de
repouso.--Se me não concede vontade e dedicação é porque me destina para
outros fins.

--Serás desgraçado, filho!--retorquio-lhe o padre.--Deos não quer
violencias. Recommenda apenas a convicção para chamar ao gremio da
Igreja as ovelhas extraviadas. Dá-lhes o livre arbitrio, para ficarem
responsaveis das suas intenções e feitos. Mas serás desgraçado, porque a
Igreja catholica é a razão divina, a unica salvação da creatura
humana, e não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel
do mundo das miserias.

--E porque me não depositou Deos no espirito ancias e aspirações intimas
para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que
exige o santo Instituto?--perguntou o joven, exaltando-se
amarguradamente, e manifestando agitação patente do animo.

--Para que saibas domar as paixões que borbulhão no homem,--repetio-lhe
o velho.--Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os
instinctos desregrados da natureza e da juventude.

--Que vale a devoção contrafeita?--articulou o mancebo.

Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento.
Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no
intuito de arrimar-se n'elle, levando pelo braço e para perto de si
o noviço angustiado.

--Escuta,--disse-lhe com amenidade.--Eu tambem passei pela tua idade. Eu
tambem senti ferver-me no peito paixões desencontradas, como em ti
prevejo, e que me incitárão e arredárão do verdadeiro caminho da
felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de
Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas
extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado,
viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sêdes,
perigos, prisões e exilios. Apprendi porém á minha custa, ensaiou-me a
experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o
Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razão, para
buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi
de coração. Oxalá seja Deos bondadoso tambem comtigo, e te manifeste
na eternidade a sua infinita piedade!

--Deixai-me igualmente gozar da mocidade,--exclamou o joven.--Siga
comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco.

Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos
olhos apezar da firme resolução que denunciavão as palavras do mancebo.
Não descobrio maldades aonde apparecia a só exaltação de animo verde e
inexperiente. Moveu-o a compaixão, e assomou-lhe igualmente ao espirito
a reminiscencia do seu proprio passado. Abraçou-o apertada e
amigavelmente, e disse-lhe:

--Não lucra a religião com duvidas e lutas do espirito. Não agradece o
Instituto de santo Ignacio serviços involuntarios. Parte. Manda-me a
consciencia que te abençôe na despedida, e rogue a Deos todo
poderoso te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e
te abra os thesouros da sua ineffavel graça a tempo de salvar-te dos
perigos.

Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a benção, que
lhe lançou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios
olhos humedecião, e lhe rolava pela face, que começava a enrugar-se,
pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da
cerca, até que não pôde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se
adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio
machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao
alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vão esforço!
Desapparecêra elle completamente.

Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o
porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja, prostrou-se
ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posição, orando
em pró do noviço infeliz, que as tentações do mundo arrancavão á vocação
religiosa.


CAPITULO II

Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da
povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de
Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do
seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de
membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais
feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia
descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra a Providencia.
Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes
com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e
procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira.
Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente
admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e
ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São
Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel
de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava
piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais
salutares e virtuosas.

Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus.
Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo
antigo, e protector decidido. Madrugára no moço o engenho, e nem-um
estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de
instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias
dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que
seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á
disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos
discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar
essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço
manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se
determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho
padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas
exhortações e conselhos.

Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra,
prognosticava maiores torrentes, pela escuridão que cobria o
firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na
atmosphera carregada de grossas nuvens.

Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela
importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao
saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e
preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que
aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao
Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se
atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a
imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu
caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o
acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?

Ao descer um outeiro ingreme para subir aquelle em que pousava a
casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na
extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por
detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.

Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas
para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um
instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que
parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força
moral que lhe attrahia o respeito?

Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro
homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do
acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a
cruz do seu rosario:--Em nome de Deos, cessai, peccadores!

Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao
ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente.
Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que
se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.

Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua
salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão
ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.

--Que succedeu?--perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e
animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia
affeiçoar a confiança.

--Padre!--disse-lhe o homem mais tranquillo--Sou um pobre carijó, e é
minha filha esta menina. Moravamos ahi,--apontando para uma infima
choupana--quando tres brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre
a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua,
carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra
elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem
as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles,
quando chegastes, e nos salvastes!

--E que sangue é este?--continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a
cabeça, a face, e a camisa de algodão.

--Não é nada, meu salvador,--repetio o gentio, chegando os labios á mão
do noviço.--Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora
dos seus perseguidores.

--E os conhecestes?--interrogou-lhe o joven.

--São perros,--tornou-lhe o carijó.--Não lhes divisei bem os rostos, mas
creio que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem
tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e
nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os
padres sós nos amparão e protegem!

Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de
habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria
communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra.
Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o
fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento.
Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis
seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia
camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel.
Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na
cintura e com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem
pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o
verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas
pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das
faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o
esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem
lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro
nem soalho de madeira.

Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta
do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a
proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles,
deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das
duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em
face uma da outra, e agradecendo a Deos por conservar ao menos a
autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de
defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da
religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as
violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os
conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.

Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da
companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á
protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos,
e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que
havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava
para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que
marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.

Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o
maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais
grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera
atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões
assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e
nem uma porta ou janella das casas estava aberta.

Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo
o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á
sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.

Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia
folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a
satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.
Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta
annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres
filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e
conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada
a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e
uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno.
Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia
attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.

--Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,--disse Manuel, benzendo-se ao
entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.

--Novidades grandes trazeis-nos,--exclamou o velho, percebendo-o.--A
taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?

Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina, e que o impressionou
como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão
adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão
religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a
companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia
produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso
pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia
visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.

Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos
gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e
mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.

Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos
desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de
Moraes com a sua conhecida repugnancia de passar na companhia do
gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito
necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se
porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o
continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a
infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e
profundamente o irritavão.

--Antes de responder-vos, meu querido pai--disse-lhe Manuel,
ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto
extremoso--Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!

A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho
conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se
arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:

--Que crime commettestes? Preciso sabê-lo primeiro, porque Deos me
não permitte perdoar na ignorancia!

Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára
ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado.
Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se
taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando
estes pretendião dar passagem ás palavras.

Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e
procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se
não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.

Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas
lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:

--Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.

Levou o velho a mão á fronte despovoada quasi de cabellos. Ergueu-se
com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os
olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.

--Expulsárão-te da companhia?--disse-lhe desesperadamente.

--Não, meu pai,--tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.--Foi sempre
exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão
todos, que não criei nem-um desaffecto.

--Mais criminoso foste então,--retorquio-lhe o velho--porque lançaste
sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra,
commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.

--Não, meu pai,--continuou Manuel mais tranquillamente.--Segui sempre o
caminho da virtude, que me ensinastes.

--Não te entendo,--repetio-lhe José de Moraes, bastante alliviado já
do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.

--Não commetti um crime, meu pai,--proseguio Manuel.--Não pratiquei uma
acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa
vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as
forças!

Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas
declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que
lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe
desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse
a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa
lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe
fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos
exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.

Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um
movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados
apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho
para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem
fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando
nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um
canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a
quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.

--Que fizeste pois?--disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se
para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia
implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a
historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.

--Perdoai-me antes, meu pai,--repetio-lhe Manuel.--Promettei-me o vosso
perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.

--Confessa primeiro,--continuou o velho, arredando-se de novo do pé do
filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.

Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar
José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de
benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois
de ter dado provas patentes das suas exigencias.

Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de
acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e
agradecido.

--Sahe d'ahi,--gritou para o cachorro estremoso o velho irritado,
lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o
o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua,
aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a
vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.

Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de
terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou
humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:

--Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos
claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para
vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias
para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que
d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer
á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho
obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto, e ajudar-vos
nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!

--Nunca!--retorquio-lhe o velho com violencia.--Dediquei-te á vida dos
missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da
tua familia.

--Deixei-a já, meu pai!--respondeu o filho.--Esta roupeta me não
pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da
companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios
ao coração e ao espirito.

Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de
Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o
filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:

--Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe
immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para
sempre fechada!

Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo
e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco
encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador
feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.

--Minha querida mãi!...--escapou-lhe dos labios uma voz dorida.

Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o
braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.

--Manuel!--pronunciou sempre a assustada mãi.--Obedece a teu pai, volta
para os teus deveres.

--É impossivel já, exclamou o noviço.

--Calai-vos, senhora!--cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava
ella pronunciar.--É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso
filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!

Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição
dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida
pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a
submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se
revestem.

Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos.
Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir
algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo.
Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu
lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo
para a tocar com os labios.

--Segue o teu destino, infeliz!--disse-lhe o velho.

Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e
lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a porta da rua, e
abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes,
mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade.
Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos
dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a
sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.


CAPITULO III

Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os
coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São
Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não
deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em
quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço
no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas e
descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.

De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio
para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto,
apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado
e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se
ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.

Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a
inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre
outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais,
até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe
dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com
o qual entretinha a maior intimidade.

Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada,
e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da
roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa
se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma
refeição, para recobrar as forças perdidas.

Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem
robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia
imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só
e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que
minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou
officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da
ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e
aborrida a sua existencia no mundo.

Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a
situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço
as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica
a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente,
procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo
destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em
mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que
devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando
começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.

Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava.
Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes
rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre
ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e ás vezes
conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta
homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados
todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás
costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos,
ou carapuças espessas.

Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se
occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e
commettendo a maior algazarra.

--Não ha que fallar mais,--disse um com voz de estentor, dominando
inteiramente o barulho...--Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os
caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás
cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas
acclamado para nosso chefe.

Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:--Viva Matheus Chagas!

Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de
physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou
instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande
espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote
velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as
costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em
commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes
a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de
resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus
destinos.

--Amigos!--disse-lhes emphaticamente.--Levar-vos-hei caminho direito ao
Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e muito peixe nos rios
para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas
frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os
ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em
Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e
carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais
felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e
matárão com tanta barbaridade[1]. Não sabeis que o cacique
Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas
riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar
os bens aos gentios e assassinar-lhes os filhos e as mulheres[2]?

--Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento
cada vez mais estridente e progressivo.

--Em ordem pois, e andar para adiante!--continuou o fogoso
orador.--D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então
viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de
jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco.
Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos
homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio
de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da
refrega[3]. Marchemos, amigos!

Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo
avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a
organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de
descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior
para os reduzirem ao captiveiro.

Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos
Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata
no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes,
bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna
nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios
caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de
preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e
colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza
a estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que
conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os
vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que
com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e
caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a
estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos
aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias.
Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes
terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos,
para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em
banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas
vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em
terras, população e riquezas.

Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo, e disse-lhe:--Não pensas
que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes
homens nas suas explorações?

Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento
repentino.--Vá feito,--respondeu,--e já!

Não gastárão tempo em colloquios. Tomou o noviço a sua roupeta que
seccára, e o seu chapéo preto de abas largas. Vestio-se Antonio da Costa
com uma jaqueta grossa, deitou-lhe por cima um capote, collocou na
cabeça um barrete de palha tosca, e pegou da espingarda e espada que
possuia. Promptos para a longa peregrinação, sahírão ambos da choupana,
cuja porta ficou trancada, e apressárão os seus passos afim de apanharem
a bandeira, que se tinha afastado e adiantado bastante.

Ao chegar á margem do rio Tieté, lográrão os moços encontrar os
aventureiros, a cuja empreza pretendião associar-se. Requereu
Antonio da Costa fallar ao chefe. Apresentado a Matheus Chagas,
declarou-lhe a sua intenção e a do seu companheiro.

--Hum! hum!--vociferárão alguns.--Dous rapazolas, que parecem uns
fracalhões, para que nos servem? Queremos gente forte, robusta, capaz de
trabalhos e de fadigas, e não franguinhos, que irão só incommodar-nos!

--Silencio!--bradou Matheus Chagas.--Sou eu quem governa, e aceito a
companhia. Teremos assim padre e sacristão!

Gargalhadas estrepitosas soárão d'entre os aventureiros. Apropriava-se
de feito o dito do chefe ás vestes de Manuel de Moraes e ao juvenil
semblante de Antonio da Costa. Subio ao rosto do noviço um rubor subito.
Virando-se para o seu amigo, pareceu annunciar-lhe que melhor fôra
abandonar o intento. Disse-lhe porém baixo Antonio da Costa que não
fizesse caso das risotas do grupo, e lançado estava o dado do destino.

Concordes assim, seguírão todos o seu caminho, acompanhando pela margem
esquerda a correnteza do rio, até que em um sitio mais baixo deparárão
com seis canôas de toscas e mal afeiçoadas madeiras, juntas por amarras
de corda, e pregos grossos, como as jangadas modernas das costas do
norte do Brazil. Embarcárão-se nas canôas, desatárão-lhes as cordas que
as seguravão á terra, e largárão-nas pelo Tieté, para que as suas aguas
as levassem.

Rolava o Tieté no seio de planicies admiraveis, povoadas de arvoredos
gigantescos, jacarandás, louro, gurubus, cabiunas e gabirobas possantes,
volteando incessantemente como serpente que se enrosca, recuando,
avançando como jogo de xadrez, e lançando assim traços argenteos e
limpidos através da côr verde-escura das mattas, que o cobrião ás
vezes com o tecto protector e hospitaleiro dos seus galhos numerosos.
Pelos troncos e ramos das arvores corpulentas se atracavão igualmente
mil tenues fios de parasitas, scintillando com as côres de suas flôres
deleitosas, que perfumavão a atmosphera e extasiavão os olhos. Rasgavão
os ares diversos e copiosos chilros de pequenos passaros, que se erguião
e sumião ao rumor que fazião os viajantes. Alli gemia funebremente a
juriti, e mais adiante repercutia o som vibrante da araponga,
assemelhando-se ao lavrar dos ferros nas forjas das officinas. Via-se ás
vezes correr assustada a cotia ligeira, e estridentes risadas dos
macacos parecião zombarias de gente que chasqueava a viagem dos
aventureiros.

Amarravão-se de noite as canôas ás ribas do rio. Acendião-se fogueiras
para seccar a temperatura, e afugentar os animaes damninhos dos
desertos. Envolvião-se nos seus capotes os homens da bandeira, e
dormião ao ar, e á luz opaca dos astros. Levantavão-se á alvorada,
reganhavão as suas embarcações, e continuavão a sua derrota.

Havião navegado oito dias já com esta monotonia, quando percebêrão o
primeiro salto do rio, cavado entre morros, e apertado pelas suas
quebradas. Passárão as canôas para a terra, e as carregárão ás costas
até vencerem o salto, e collocarem aonde o rio offerecia de novo facil
navegação. Formava o salto uma verdadeira e perigosa cascata, pela qual
rodomoinhavão e se precipitavão as aguas por entre pedras ás vezes
agudas, que despedaçavão tudo quanto rolasse com a corrente atirada do
alto. Exigia esta operação grandes trabalhos materiaes dos aventureiros,
que a pericia de Matheus Chagas sabia até diminuir para se não cansarem.

Não poupavão aves e animaes, que lhes apparecião, roncando de quando em
quando na solidão o tiro das espingardas disparadas. Apanhavão ás
tardes e ao cahir da noite, ao anzol, peixes exquisitos que lhes
variavão o paladar, e lhes deleitavão o gosto. Jacús, tucanos, pacas e
capivaras dos mattos, bagres, e surubis do rio, erão tudo regalos, com
que os presenteava aquella magestosa solidão dos tropicos.

Soou-lhes um dia um assobio agudo e penetrante de animal bravio. Não lhe
prestavão os aventureiros mais attenção, quando minutos depois echoou um
segundo. Levantou-se Matheus Chagas, e fazendo signal de silencio, disse
á meia voz aos companheiros:

--Atraca, e quietos e mudos. Temos, pelo que parece, gentio perto.
Cuidado com as tocaias. São finos como lãs de cagado, e velhacos como
lobos.

Encostárão as canôas á margem, e o chefe escolheu tres Carijós, aos
quaes incumbio de reconhecer os signaes, e vigiar os sitios.

Não se demorárão os caboclos designados. Entranhárão-se logo pelo basto
arvoredo, marchando sobre folhas seccas sem que fizessem o menor ruido,
enfiando pelos galhos das arvores com geito de animaes silvestres, e
avançando com a ligeireza da corça.

Chegados á raiz de um outeiro, que estava a duzentas braças do sitio em
que havião ficado os aventureiros, apromptando as suas armas de fogo
para o que désse e viesse, deitárão-se ao chão os tres Carijós,
estendendo-se ao correr do terreno. Reinava silencio sepulcral. Nem
gritos de aves, ou animaes, nem barulho do rio, ou sopro de vento.
Ardentissimo o sol vibrava raios abrazadores, que recolhião ao repouso
os entes todos que habitavão as florestas.

Applicárão os Carijós á terra os ouvidos, para que a terra lhes
communicasse o que sobre ella se passava em distancia. Em dous livros
soem os gentios ler com particular attenção, a terra que lhes
noticia o que se passa em torno e até distante d'elles, e o céo, aonde
descobrem as peripecias do tempo. Depois de um quarto de hora de acurada
attenção erguêrão-se vagarosamente, e a um signal expressivo de um
respondêrão os dous com breve abano de cabeça. Examinárão então o
terreno, para descobrir que especie de entes o havia pisado. Voltárão
para junto dos aventureiros com as mesmas cautelas, e disserão ao chefe:

--Inimigo está perto. São muitas duzias.

--Como o podeis saber?--perguntou-lhes um Portuguez curioso.

--Calai-vos--retorquio Matheus Chagas.--Sou eu o chefe, e quem governa.

Approximou-se dos Carijós, e indagou a distancia em que pensavão estar
os inimigos.

--Quatro a seis tiros de frexa--respondêrão-lhe os Carijós.--Ouvimos
debaixo da terra o rumor dos seus pés. Apanhámos no chão os signaes
de seus passos.

Havião acabado apenas de proferir estas palavras, quando cahio de cima
das arvores, não muito longe dos aventureiros, um passaro atravessado
por uma frexa produzindo um ruido grande por entre as folhas seccas.
Correu para alli um dos Carijós, apanhou o passaro, que reconheceu por
uma jacotinga, que entregou a Matheus Chagas.

Não podia haver mais duvida de que tinhão perto de si tribus de gentios
selvagens. Não era porém Matheus Chagas homem de temer. Habituára-se ás
correrias e á luta.

--Á tocáia tocáia,--disse elle.--Vá o padre fallar-lhes, engana-los, e
descobrir-lhes o numero. E digão que o padre nos não serve!

Nomeou quatro Carijós, dous mamelucos, e dous Portuguezes. Ordenou-lhes
acompanhassem em distancia, e escondidos, a Manuel de Moraes.
Recommendou ao noviço avançasse sem temer, procurasse os gentios, e
mostrando-lhes sempre a cruz do seu rosario, lhes fallasse no céo, para
que elles se persuadissem que não tinhão inimigos diante de si, mas
missionarios de paz, que os pretendião catechisar.

Não trepidou Moraes em obedecer ao chefe. A rogos de Antonio da Costa,
deu-lhe Matheus Chagas o seu amigo por companheiro.

Tomárão os dous moços a direcção que lhes apontárão os tres Carijós que
tinhão já reconhecido os sitios. Seguírão-lhes os passos os oito
aventureiros, occultando-se para não serem vistos, e nem pressentidos
pelos inimigos.

Chegárão Manuel de Moraes e Antonio da Costa á raiz do outeiro, e
subírão-no até o alto pelas escabrosidades do terreno. Quando alli
apparecêrão, echoou na baixada opposta uma gritaria descommunal, que
lhes annunciou a existencia proxima dos gentios que devião procurar.
Levantou os braços o noviço, apertando e mostrando nas mãos a cruz e o
rosario, e seguido pelo seu amigo, foi descendo em direitura ao sitio de
onde partião as vozes da tribu selvagem, sem que entretanto descobrissem
pessoa alguma adiante e nem atrás de si.

Deixado o outeiro, encaminhárão-se afoutamente pela veiga, que se abria,
e acabava no rio. Terião marchado duzentas braças mais, quando a gritos
repetidos, se sentírão rodeados de um enxame de gentios nús, tendo
apenas na cabeça, e nas partes inferiores do corpo, pennas multicôres de
passaros vermelhos e fulgurantes, e nas mãos arcos e frexas de tamanhos
e feitios diversos.

Sentírão ambos os moços parar-lhes o sangue nas veias, e
arripiarem-se-lhes as carnes. Levantada a cabeça, e erguidas as mãos,
mostrou Manuel de Moraes aos gentios a cruz divina, e começou um
discurso em portuguez, que derão os indigenas mostras de não entender,
posto lhe prestassem attenção com ares de curiosidade. Curvado com
humildade, e as mãos entrelaçadas no peito, como penitente, se
conservava Antonio da Costa firme e resignado, representando ambos as
personagens que lhe havião sido confiadas.

Cada um dos gentios procurava todavia examinar os dous individuos.
Occupárão-se uns com o improvisado Jesuita, pegavão-lhe na roupeta,
miravão-lhe o chapéo, olhavão-lhe para os grossos sapatos, espantavão-se
diante dos seus gestos e das suas palavras incomprehensiveis. Seguravão
outros no seu acolyto, e puxavão-lhe as barbas sem o menor respeito.

--Homem de paz,--exclamava Manuel pomposamente,--procuro dar-vos a paz,
e ensinar-vos a religião do unico Deos, creador do mundo. Deixai,
selvagens, a vida errante e nomade, que vos arrasta para a perdição!
Morreu o verdadeiro filho de Deos em Golgota...

Trocárão no entanto entre si os gentios palavras rapidas em lingua
guarany, das quaes posto algumas escapassem a Manuel, percebeu-lhes
comtudo o sentido, por haver estudado o idioma na casa da companhia.
Manifestavão os gentios suspeitas de que fosse um laço a scena a que
assistião, e parecião desconfiar da veracidade do missionario.

Para desviar-lhes as suspeitas, e affeiçoar-lhes os animos, disse-lhes
Manuel em guarany:

--Tenho companheiros, sim, mas ficárão longe e não vos farão mal. Somos
mensageiros de paz, e procuramos a vossa amizade. Vim por isso fallar-vos.

--Piayas desconfião, e mossacaz são fortes,--respondeu-lhe um d'entre
elles.--Os brancos são máos e enganadores.

--Socegai-vos,--continuou o noviço.--Os que vêm comigo são bons e amigos.

Trocárão-se signaes mutuos os indigenas. Apalpárão alguns d'entre elles
os dous moços para examinarem se tinhão armas escondidas. Reconhecendo
que nem-umas trazião, o que parecia cacique da tribu lhes disse com
resolução:

--Padre, não vos faremos mal. Somos uma tribu e uma nação poderosa.
Temos perto d'aqui as nossas tabas, as nossas mulheres e filhos, e os
nossos maracás e uapis. Seguí vosso caminho tranquillamente, e não nos
procureis mais, que não queremos negocios com brancos.

Sumírão-se logo em um instante com a mesma velocidade com que tinhão
apparecido, deixando absortos os dous moços, que sem os verem mais, lhes
ouvião todavia estridentes e repetidos assobios pela espessa floresta,
os quaes devião corresponder á signaes e avisos que se communicassem
os gentios.

Tratárão os moços de voltar para onde estavão os seus companheiros, e
descobrírão agachados por detrás de uma grande arvore os oito amigos que
os seguião.

--Cuidado,--disse um Carijó.--São muitos centos. Se desconfião, mal de nós.

Deixárão o sitio e procurárão ajuntar-se aos aventureiros, que anciosos
os esperavão. Ouvida a narração do successo, deu Matheus Chagas ordem
para se demorarem ahi um dia e uma noite, afim de darem tempo aos
gentios inimigos de se afastarem para longe das margens do rio. Passado
o prazo marcado, embarcárão-se de novo nas suas canôas, e proseguírão na
sua derrota empregando todo o cuidado e vigilancia.

Mais de dous mezes terião gasto já, navegando o Tieté sem que outras
aventuras os houvessem perturbado, quando começárão a aperceber que o
rio se alargava desmedidamente, assoberbavão as suas aguas campinas
extensas, cobrião parte das florestas, e corrião com maior violencia.

Appareceu-lhes pela frente dous dias depois como que uma lagôa de
dimensão extraordinaria, além de cujas margens se avistavão
difficultosamente as terras.

--É o grande rio Paraná,--disse um dos Carijós.--Entramos agora n'elle.

É impossivel descrever-se a magnificencia do soberbo rio. Depois de
atravessar as terras de Matto-Grosso, Minas e parte superior da
capitania de São Vicente, e de se ter engrossado com tributarios não
menos possantes, e extremamente caudalosos, absorvia no sitio descoberto
pelos aventureiros as aguas do Tieté por um lado, e as do Sucuriu, e
mais o Pardo do outro, formando uma vasta e grandiosa bahia. Cosêrão-se
com as suas canôas á riba esquerda do Paraná, para se não expôrem ao
arrebatamento das aguas. Transpuzerão outros arroios importantes, e
alguns poderosos, como o Aguapehi e Santo Anastacio. Approximando-se do
Paranapanema, ordenou Matheus se desamparasse a corrente do Paraná, e se
tratasse de subir este seu tributario encostando-se á ribanceira do lado
esquerdo. Foi então mister empregar a força das varas e remos para
vencer as aguas que descião. Quatro dias de esforços bastárão para se
appropinquarem á embocadura do Pirapó, que se despeja no Paranapanema.

Ao descansar das suas fadigas, partírão gentios a pesquizar os terrenos
em que se achavão. Participárão na sua volta a Matheus Chagas, que
havião descoberto indicios certos de taba proxima de gentios, galhos de
arvores cortados, ausencia de caça e signaes de pisadas humanas.
Aproveitou o chefe os avisos e destacou de novo espias para melhor e
mais cuidadosamente examinarem as localidades.

Dias depois regressárão os exploradores, declarando terem encontrado uma
aldeia grande e vasta, com igreja, campos lavrados, bois, cavallos e
carneiros pastando, e abonos visiveis de que não erão os seus
habitadores gentios selvagens e errantes.

Pensou logo Matheus Chagas que estavão os aventureiros perto das
povoações castelhanas de Guayrá, e raiou de alegria por notar a
felicidade com que tinhão percorrido todo o Tieté sem a perda de um
homem, e nem lutas com os gentios, e chegado a salvo a uma das aldeias
de Guaranys catechisados, que, conforme as noticias espalhadas em São
Paulo, devião conter immensas riquezas de prata e ouro, que se podião
arrebatar aos Castelhanos em paga das que elles havião roubado aos
Portuguezes de Aleixo Garcia.

Formou logo uma especie de campo militar com a sua pequena tropa,
escondendo-o no seio das mattas mais proximas da aldeia. Tomou todas
as providencias que reputou precisas, e preparou-se para lhe dar o
assalto, almejando encher-se de despojos e carregal-os para São Paulo.


CAPITULO IV

Chamava-se Loreto a aldeia que tinhão em presença os aventureiros
paulistas. Fôra uma das mais modernamente creadas e edificadas pelos
Jesuitas, e a mais conchegada ás fronteiras que dividião os territorios
conhecidos de Portugal e Hespanha. Havia o governador do Paraguay
fundado Villa Real em 1557 na juncção dos rios Paraná e Piquiri, e em
1577 Villa Rica sobre o Ivahy, chamando para povoal-as os gentios
guaranys; Não parecendo marchar a catechisação e civilisação dos
indigenas com o dominio das autoridades civis, cedeu o governo da
metropole aos missionarios jesuitas as duas mencionadas aldeias, e os
autorisou a organisarem outras, com que formassem a provincia denominada
de Guayrá, submeltida á corôa hespanhola.

Tomárão conta os Jesuitas da direcção das duas povoações, e augmentando
o numero dos indigenas que adoptárão a religião catholica, e se
declarárão promptos a obedecer-lhes, estendêrão para as margens
superiores do Paraná a largueza das suas posses, e a dominação da sua
provincia. Santa Maria Maior sobre o rio Iguassú, São Francisco Xavier
na embocadura do Imbiberalá, Arcanjos em Tayoba, Santo Ignacio no
Iquatemy, São Pedro nos Pinhaes e Loreto no Pirapó, devêrão o seu
nascimento aos primeiros annos do seculo XVII, e aos trabalhos
exclusivos dos intrepidos discipulos de santo Ignacio.

Não se poupárão os padres a fadigas. Sorria-lhes a idéa de attrahir ao
catholicismo almas de gentios, e de protegê-los nos seus direitos e
liberdade. Encontrando fertilissimo solo, rasgado por numerosos cursos
de agua, e collocado nas duas margens do Paraná desde o Iguassú e o
Igurey até o Paranapanema e Pardo, e copiosa quantia de gentios mansos e
submissos, que por alli residião, começárão o edificio de um Estado
independente no proprio centro dos dominios portuguezes e castelhanos da
America.

Lográrão da corôa hespanhola prohibir a entrada na provincia de Guayrá a
Europêos, qualquer que fosse a nação a que pertencessem, afim de lhes
retirar o contacto dos innocentes indigenas. Á frente de cada uma aldeia
collocárão um cura e tanto mais padres e irmãos quantos necessarios para
a sua administração e regimen. Era o cura a autoridade principal, e
poder executivo da missão, tanto na parte civil como na
ecclesiastica. Prestavão-lhe preito diversos funccionarios escolhidos
d'entre os gentios, e incumbidos de funcções distinctas. Um corregedor,
um lugar-tenente, dous alcaides, um porta-bandeira, sete
administradores, um secretario e varios caciques possuia cada uma
aldeia, além de officiaes de corpos milicianos, que os padres
organisavão e disciplinavão. Dividião-se os gentios em officios.
Applicavão-se á agricultura, que se compunha da canna de assucar, matte,
trigo, algodão, feijão, milho, anil e tabaco; a fabricas de farinha e
officinas de serralharia, carpintaria e outros misteres. Aprendião o
manejo das armas de fogo. Formavão uma communidade em que erão iguaes os
deveres e direitos.

Recebião os padres nos seus armazens todos os productos da industria dos
habitantes da aldeia. Remettião-nos pelos rios e em balsas para
Santa-Fé, Buenos-Ayres e ás vezes directamente para Hespanha, aonde
erão vendidos, e aonde se compravão os objectos precisos para as
necessidades e commodidades dos gentios. Do saldo tiravão a quantia
correspondente ao imposto de um peso annual por cabeça de gentio
catechisado, o qual competia e se entregava ao governo de Hespanha,
segundo a estatistica organisada pelos curas, que para defraudar a corôa
não incluião nas listas os menores de vinte annos, as autoridades em
exercicio, e os proprios doentes. O que restava ainda se remettia ao
geral do Instituto residente em Roma.

Separavão-se nos trabalhos as mulheres, os homens e as crianças,
fixando-se a cada um a parte que lhes cumpria executar no dia. Os sós
casados vivião na mesma choupana, formando-se quarteirões destacados e
particulares para os solteiros e viuvos, para as donzellas e meninos.

Dominava sobre os curas das aldeias de Guayrá o collegio dos
Jesuitas fundado na Assumpção, ao qual prestárão obediencia todos os
varios nucleos da companhia estabelecidos nos territorios do rio da
Prata e seus tributarios até que em Cordova se creou a séde principal do
Instituto, e se deliberou a residir ahi o seu principal, assistido por
quatro consultores ordinarios e tres extraordinarios, estendendo a sua
autoridade sobre os demais collegios espalhados pela America meridional.
Existião nos collegios seminarios de instrucção primaria e secundaria, e
os dominios hespanhóes de Buenos-Ayres, Paraguay e Tucuman chegárão mais
tarde a contar em seu seio cerca de trezentos padres e cem irmãos, além
de numerosos noviços.

Erão semelhantemente, e segundo o mesmo plano, edificadas todas as
aldeias. Uma grande praça, quadrilatera na extremidade, terminada na
ultima linha pela igreja no centro, tendo ao lado direito uma torre,
a casa dos Jesuitas, e os armazens que guardavão as mercadorias, e á
esquerda o cemiterio, e a habitação das viuvas e donzellas, que se
separavão desde a infancia da companhia dos pais e da familia. Quatro
cruzes grandes, postadas nos cantos, e uma columna elevada no centro,
coroada pela estatua da santissima Virgem, ornavão a praça, á qual em
linhas regulares e direitas communicavão as differentes ruas em que se
partia a aldeia, povoadas de ambos os lados por predios iguaes na
architectura exterior e interior, e cobertos de telhas vermelhas.

Usavão os varões de camisa, calça, ponche e barrete de algodão, e as
mulheres de camisa comprida, chamada tipay, sem mangas, apertada ao
pescoço e á cintura. Andavão todos de pé no chão, e se permittia apenas
aos caciques e funccionarios trazerem os bastões designatorios dos seus
cargos particulares.

Mantinha-se a mais perfeita igualdade nos trajos e objectos
concedidos aos gentios, nas rações e trabalhos que se lhes fixavão.

Praticavão os corpos milicianos exercicios de guerra aos domingos,
ensaiando-se no esgrimir as espadas, disparar tiros, despedir frexas, e
atirar com fundas pedras lavradas á maneira de bola. Terminado o
exercicio, se recolhião as armas aos armazens, e se conservava a
população sem o menor elemento de defesa.

Além da escripta, leitura e arithmetica, ensinavão os padres a musica e
o canto, e formavão artistas para as solemnidades e festas da Igreja e
da communidade, com a que captivavão os gentios, que se mostravão, em
geral, propensos ás artes liberaes.

Acordavão os gentios ao som do sino da igreja, que lhes annunciava a
alvorada do dia. Reunião-se para as preces. Seguião depois para os seus
trabalhos respectivos guiados pelos seus fiscaes. Erão os castigos
infligidos aos delinquentes por um tribunal composto das autoridades
da aldeia, sob a presidencia do cura.

Andava assim governada a provincia de Guayrá na época em que Matheus
Chagas penetrou em seu territorio com a bandeira ao seu commando, e que
foi uma das primeiras dirigidas pelos aventureiros paulistas contra as
missões jesuiticas do Paraná superior, e cujos assaltos posteriores as
destruírão por tal fórma, que os padres convencêrão aos gentios da
necessidade de abandonal-as inteiramente, retirar-se para territorios
inferiores do rio, e formar ahi novas aldeias, aonde escapassem ás
correrias dos seus inimigos, que elles denominavão de mamelucos.

Observámos já que Loreto era a mais afastada reducção dos dominios
castelhanos. Conteria oito ruas com uma população de duas mil almas de
ambos os sexos e todas as idades. Estavão cultivados os campos em
roda, e offerecião abonos claros de prosperidade. Pastavão
tranquillamente animaes domesticos. Vivião quietos os gentios da aldeia,
sob o regimen communista dos missionarios, e nem-um acontecimento
alterára ainda a paz de Loreto desde a sua fundação.

Não tinhão porém os Portuguezes de São Paulo, e nem portanto os
aventureiros exploradores, o menor conhecimento dos feitos dos Jesuitas
e da situação e estado das reducções da provincia de Guayrá, desde que
passárão para o poder temporal, espiritual e exclusivo da companhia.
Pensavão ainda, dando credito ás ultimas noticias espalhadas, que os
gentios desejavão soccorros dos Portuguezes para combater os
Castelhanos, e estes possuião ahi prata e ouro em quantidade, produzida
pelos terrenos proximos sem grande trabalho do homem. Não excedião as
idéas moraes dos colonos portuguezes de então as idéas dos
Hespanhóes, posto fossem menos crueis e barbaras. Nutrião porém aquelles
contra estes grandes sommas de odio, quer pelos interesses contrarios de
vizinhança na Europa e America, quer por estar o reino de Portugal
avassallado n'esse periodo ao de Castella, e formar uma provincia da
monarchia hespanhola desde o anno de 1580, em que Felippe IIº o acurvára
ao seu jugo pela força e violencia, e o mantivera e legára aos seus
successores castelhanos com tradições de terror, que irritava o povo
lusitano, e o desesperava cada vez mais contra o dominio do captiveiro,
incitando-lhe constantemente os brios para se levantar e recuperar a sua
independencia.

Repousava portanto a razão principal dos assaltos dos Portuguezes de São
Paulo contra as missões de Guayrá no desejo de guerrear mais aos
Castelhanos que aos gentios, ainda que não poupassem a estes pela cobiça
de escravisa-los e vendê-los, afim de lograrem vantagens proveitosas.

Scientificado Matheus Chagas pelos seus espias da situação do Loreto,
prohibio aos companheiros dessem o mais pequeno indicio da sua presença,
afim de não levantarem suspeitas, e nem alterarem o socego de que os
inimigos gozavão. Incitou os aventureiros a atacarem a povoação, que em
sua opinião possuia riquezas extraordinarias. Applaudirão-no todos, á
excepção de Manuel de Moraes, que exigia reconhecer primeiro se erão
contrarios ou amigos, pois que o ultimo caso lhe parecia acção má e
digna de castigo do céo. Desprezárão-lhe os companheiros o aviso, e ao
amanhecer de um dia, logo que Matheus Chagas notou que a maior parte dos
habitantes estava occupada fóra da aldeia, e descuidados os que n'ella
permanecião, deixou a guardar o campo alguns que lhe parecêrão mais
fracos, e entre elles o proprio noviço, e partio com a sua gente
aprestada para o combate.

Encontrárão primeiramente no campo cerca de cincoenta gentios, que
reconhecendo inimigos deitárão a fugir para a aldeia. Perseguírão-nos os
aventureiros, e entrárão todos na povoação quasi ao mesmo tempo, no meio
de um infernal alarido. Tentárão os indigenas defender-se, e comquanto
resistissem com furor e denodo, achando-se sem armas, por estarem ellas
guardadas nos armazens da companhia, cortava vigorosamente o ferro dos
aventureiros por seus corpos, e bastárão poucas horas aos Portuguezes
para se apossarem da povoação, que a maior parte dos gentios abandonou
logo. Amedrontára os padres e os Guaranys o inopinado do ataque, e
cahira em poder dos aventureiros cópia numerosa de gentios, que forão a
pouco e pouco amarrados e trancados nas casas, havendo corrido sangue
bastante na luta e na perseguição dos fugitivos.

Senhores os aventureiros da povoação, cuidárão em examina-la.
Descobrírão nos armazens mantimentos de boca, armas de fogo, munições de
guerra, instrumentos de combate, roupas e vestes, aguardente, e muitos
outros objectos de valia. Encontrárão na igreja lampadas, castiçaes de
prata, e preciosidades agradaveis. Saudárão com vivas estrepitosos o seu
triumpho assignalado. Espantárão-se porém de não deparar com Hespanhóes,
que pensavão dever alli existir igualmente.

Passou Matheus Chagas ordens apertadas para que se regularisasse o
serviço. Mandou vir do seu campo os individuos que lá deixára. Contou e
separou os prisioneiros, pela maior parte caciques velhos, mulheres e
crianças, que se não tinhão podido evadir, e dividio os presos por
diversos sitios guardados com sentinellas. Tratou de recolher e
ajuntar os objectos, e tomou providencias e cautelas para responder aos
que ousassem retroceder, e roubar-lhe os fructos da victoria.

Conhecendo porém que estava em paiz inimigo, e se não deveria
prudentemente alli conservar, applicou toda a sua attenção ao
aproveitamento do que pudesse conduzir comsigo, tencionado a desamparar
quanto antes a aldeia. Cumprindo partilhar os despojos, consistentes em
preciosidades, armas, roupas, animaes, e prisioneiros, manifestárão-se
pretenções oppostas, que quasi degenerárão em uma luta civil, teimando
cada um dos aventureiros no desejo e cobiça de receber o mesmo objecto.
Conseguio o chefe pôr cobro ás pretenções exageradas, fazendo approvar a
ideia de uma especie de loteria ou sorte para a divisão immediata dos
prisioneiros, animaes e vestimentas, guardando-se em deposito as
cousas de valor para serem rateadas em São Paulo.

A cada um tocára um numero correspondente a lote quasi regular e igual.
Declarou Moraes que se contentava pela sua parte com os prisioneiros
velhos, mulheres e crianças, que erão incapazes de ser transportados,
porque náda queria aceitar na partilha, e preferia conceder-lhes a
liberdade, e deixa-los em socego. Não entrou assim na loteria
organisada, e cuidou logo em dar mantimentos e consolar aquelles
infelizes, que lhe agradecêrão fervorosamente a caridade, tanto mais
espantados quanto lhes aterrorisavão as imaginações as noticias que
entre elles propalavão os padres de que os mamelucos de São Paulo
ajuntavão á cobiça ferocidade exaltada, e não tinhão a menor idéa de
religião e piedade.

Accommodados os aventureiros, e tomando cada um conta do que lhe
pertencia, preparou-se Matheus Chagas para deixar a aldeia. Não
raiavão ainda os primeiros arrebóes da madrugada quando começou a
bandeira paulista a sua marcha retrograda, collocando-se gente armada na
frente, os prisioneiros amarrados, aggrupados, e cercados no centro, os
cavallos e bestas carregadas na retaguarda, defendidos e guardados pelos
mamelucos.

Não tinhão ainda sahido de todo da povoação, quando estouros fortes e
prolongados se ouvírão, e logo após signaes de incendio que rebentára em
varios pontos extremos da aldeia. Crescêrão os fogos amiudados, e uma
nuvem espessa de fumaça encheu ao principio os ares, que se aclareárão
paulatinamente com as luzes do incendio.

Dir-se-hia dia claro, posto a atmosphera se tornasse cada vez mais
pesada e quente. Amedrontárão-se os aventureiros, ignorando se o acaso
ou deliberada intenção dos gentios causára o incendio ameaçador.
Apressárão-se em desamparar a aldeia, recommendando Matheus Chagas
aos aventureiros se prevenissem de ciladas.

Multiplicavão-se as chammas, incitadas por um vento fresco do Norte que
rijamente assoprava. Illuminárão-se horrivelmente a aldeia, os campos e
florestas adjacentes. Gritos espantosos atroárão os ares como se
formassem uma infernal orchestra. Estalavão os tectos e portaes das
casas, rolavão por terra pedaços dos edificios, telhas soltas, paredes
desmoronadas. Atopetavão-se as ruas com destroços, que impedião a livre
passagem, e davão immensos trabalhos aos aventureiros para as atravessarem.

Parte d'elles se semeava já por fóra da povoação, e a retaguarda tentava
dentro ainda evadir-se ao perigo, e ajuntar-se aos que marchavão adiante.

A numerosos gritos soltados de longe, e cujo sibillo augmentava o pavor
produzido pelo incendio, e causado pelas ruinas do fogo, e pelas
chammas, que esclarecião a aldeia e envolvião a parte superior do
horizonte em nuvens negras, descortinárão os olhos dos aventureiros
paulistas massas armadas de Guaranys, que se lhes puzerão por diante;
lhes atacárão os flancos, apparecêrão por detrás, e lhes circumdárão os
caminhos.

Travou-se uma peleja sem ordem, sem direcção, e nem regularidade. Cada
um dos aventureiros tratou de combater como pôde, apercebendo-se emfim
da cilada que lhes tinha sido traçada, e descobrindo que se havião
introduzido surrateiramente na aldeia e durante a noite, gentios de
fóra, para coadjuvarem os que devião correr em soccorro do arraial. Nem
lhes era dado avaliar o numero dos inimigos e adivinhar o resultado do
combate. Balas de espingardas, settas disparadas, tiros de funda,
abrião-lhes as fileiras, zunião-lhes pelos ouvidos, ferião-lhes
companheiros, matavão-lhes amigos, ao lado, atrás, adiante, e perto.
Pancadas de tacapes pesadas, golpes vibrantes de espadas, sangrias de
faca e punhal, succedêrão ao primeiro ataque, e lhes trouxerão a luta de
corpo a corpo, e de homem a homem, que é a mais cruel e ceifadora de vidas.

Terrivel espectaculo, que illuminavão por vezes as chammas estridentes
do incendio devorador da aldeia, que parecia desabar, estorcendo-se em
angustias doridas. Echoavão gemidos, exclamações, algazarras, sons de
ferros, e estrepito de fusilaria.

Tropeçava-se por cima de homens vivos e de cadaveres. Esbarrava-se com
cavallos e mulas carregadas. Cutilavão-se mutuamente Portuguezes e
mamelucos, Carijós e Guaranys, sem quasi se conhecerem. Durou a peleja
até que a aurora radiou risonha, e embranqueceu de todo o firmamento.

Notou-se então uma scena tristissima de desolação. Desde as ruas
extremas da aldeia até não pequena distancia do campo contiguo, aonde
chegára a vanguarda dos aventureiros, cobrião o solo cadaveres de homens
e de animaes sem conta; misturados com cargas, armas dispersas, e
objectos desgarrados; inundados de sangue, e cobertos muitos com restos
do incendio, elevados pelo vento ao ar, e cahidos depois sobre os
proprios combatentes.

Poucos aventureiros lográrão salvar-se pela fuga. Sua maior quantia
ficou estendida e morta no campo da peleja; raros forão os prisioneiros,
e todos feridos mais ou menos gravemente. Havião os Guaranys vencido, e
vingado a sua anterior affronta. Tratárão as suas autoridades de dar fim
á luta, e de restaurar a aldeia, apagando o incendio, tomando posse
d'ella, recolhendo o que pudessem salvar das garras dos aventureiros,
pondo ordem no povo, e fazendo enterrar as victimas do combate.

Achavão-se numerosos individuos de um e outro partido entre os
cadaveres. Matheus Chagas, Antonio da Costa, e varios outros dos
principaes aventureiros perecêrão na peleja. Quatro ou cinco Paulistas
feridos se tirárão do meio do campo, e se recolhêrão á prisão. Era
Manuel de Moraes um d'estes ultimos infelizes. Recebêra uma frexada no
braço, e uma bala de espingarda na perna. Não o ameaçava perigo, mas
soffria dôres agudas e penetrantes.

Confiárão-se os prisioneiros aos fiscaes do hospicio, com instrucções
para os curarem e guardarem até que se decidisse a sentença dos
competentes juizes, incumbidos do seu julgamento. Quando se restabeleceu
Moraes das suas feridas, soube com dôr e magoa que os proprios
companheiros, que tinhão ficado igualmente prisioneiros, havião já
expirado nas prisões respectivas por não poderem resistir á gravidade
dos seus ferimentos.


CAPITULO V

Não foi longo e nem demorado o processo de Manuel de Moraes. Depuzerão
em seu favor varios caciques e mulheres, que summariárão os seus actos
de humanidade durante a occupação da aldeia pelos Paulistas
aventureiros. Valêrão-lhe tão significativos testemunhos, e o proprio
habito com que se cobríra, e o fizera reconhecer por membro da companhia
de Jesus. Determinou a sentença lavrada pelo tribunal respectivo que
fosse expulso da aldeia, enviado para Santa-Fé, e ahi entregue ao
provincial dos Jesuitas para lhe impôr as penas que julgasse
necessarias, attenta a sua qualidade de noviço que abandonára o
Instituto de santo Ignacio, e se alistára nas bandeiras dos aventureiros
paulistas.

Acompanhado por Guaranys armados seguio Moraes por terra para Villa
Rica, que distava não menos de sessenta leguas de Loreto. Conservárão-no
ahi preso os padres da povoação por mais de dous mezes, esperando que se
apromptassem as balsas que tinhão de expedir para Villa Real com generos
e objectos de mercancia.

Embarcou-se emfim Manuel de Moraes, confiado a um irmão da companhia,
por nome Cialdini, e a mais de trinta Guaranys, que servião de guardas,
e marinheiros dos barcos numerosos que partião carregados de productos
da industria das reducções. Descêrão o rio Ivahy, povoado de
arvoredos frondosos. Penetrárão no Paraná, e logo que descobrírão a
ilha grande, tomárão a embocadura do Pequiri, e atracárão á Villa Real,
que repousava docemente á margem d'este rio, e constituia a reducção
mais importante e populosa da provincia de Guayrá, governada pelos
Jesuitas. Não podião ahi as balsas continuar a descer as aguas do
Paraná, porque começava um enormissimo salto, conhecido pelo nome de
Sete Quedas.

Nem-um espectaculo, por mais soberbo e admiravel, extasiava tanto os
olhos dos viajantes como o da famosa cascata que n'este sitio formavão
as aguas do rio Paraná. Dividião-se para deixar erguer-se do seu seio
uma ilha espaçosa, coberta de florestas espessas e sombrias, que
contrastavão magnificamente com a claridade das aguas, precipitadas á
roda. Reunindo-se de novo as massas poderosas do liquido elemento,
recuperavão uma largura e extensão de mais de duas mil braças.
Ião-se depois estreitando, aprofundando o solo, e aterrorisando com
rumores espantosos e roncos estridentes. Apertavão-se em menos de
quarenta braças, e arrojavão-se então de uma altura superior a
quatrocentos palmos até cahirem em uma bacia estupenda, que formava um
lago de quasi duas milhas de diametro.

A oito leguas de distancia se percebia o ruido da cascata. Uma poeira
humida levantavão as aguas á elevação grandiosa, formando atravessada
pelos raios do sol os arcos iris mais harmonica e variadamente coloridos
que se podião imaginar.

Pullulavão na enormissima bacia coroada de densas e phosphorescentes
nuvens de vapor ilhéos numerosos, repletos de arvores gigantescas, que
matizavão a scena com delicias ineffaveis.

Rolavão ainda de novo as aguas por sete precipicios seguidos, carregando
comsigo jaguáras pardas e pintadas, antas, serpentes hediondas, e
toda qualidade de animaes do sertão, que se acoutárão nas ilhas durante
as seccas, e não tiverão tempo e nem forças para nadar e evadir-se,
apenas começárão as aguas a avultar e engrandecer-se. Acolhia-as com
gemidos profundos, ecchos dolorosos e repetidos, uma segunda cratera,
inçada de picos e rochedos, que parecião erguer-se, e pretender, como os
Titães antigos, escalar os céos, resvalando-lhes pelos flancos raios
repentinos de luz, que produzia o reflexo do sol por entre a fumaça das
aguas, e que se afiguravão de longe verdadeiros coriscos durante o dia,
e edificios de pedra alvissima através da escuridão da noite.

Não se podia ahi fallar, porque se sumia a voz humana ao estrondo rouco,
monotono e sombriamente horrivel da cascata portentosa.

Mais de tres mezes se demorou Moraes em Villa Real, occupado, pelos
padres que a dirigião, no serviço da Igreja e das cousas sagradas,
posto persistisse em assegurar-lhes que não volveria mais para o
Instituto de santo Ignacio, comquanto guardasse no peito as mais gratas
e saudosas reminiscencias pelo acolhimento que recebêra, instrucção que
adquiríra, e sympathias que alcançára.

Seguio então por terra com copiosa caravana de gentios, e animaes
carregados de mercadorias, para a povoação de Santa Maria Maior,
edificada á margem quasi da barra do rio São Francisco na sua absorpção
pelo Paraná, e abaixo do salto das Sete Quedas. Tornárão todos a
embarcar-se n'este sitio em novas e numerosas balsas, que dirigir-se
devião directamente para Santa-Fé, visto que a navegação não offerecia
obstaculos mais e nem perigos. Conservava-se Moraes guardado tão
cuidadosamente como o fôra desde o Loreto, gozando comtudo da companhia
do irmão Cialdini, cùja pratica interessante lhe ganhára cada vez
mais o affecto e sympathia.

Cerca de um mez gastárão na descida do Paraná até onde elle recebe o
curso do Paraguay engrossado pelas aguas do Vermelho, e cujas barras se
denominão das Tres Bocas.

Extasiára-se Manuel de Moraes diante d'essas scenas variadas e sublimes
da natureza, e da magnificencia deslumbrante do rio. De um e outro lado
florestas virgens, copadas e gigantescas, que provavão a uberdade do
solo; rios poderosos que se vinhão ajuntar ao Paraná, que já por si
assoberbava os olhos e a imaginação com as grossas e caudalosas massas
de agua que rolava, e que se dirião de um vasto oceano; aves de todos os
tamanhos, fórmas e coloridos, guarás, anuns, e garças, esvoaçando ao
rumor dos remos, e grasnando amedrontadas, para se esconderem nos galhos
viçosos do resplendente arvoredo ou se entranharem nos brejos
reconditos; jacarés enormes, dormindo ao calor do sol, e que
saltavão de subito das ribanceiras, e mergulhavão no vasto pego, como em
fortaleza segura.

Mais que o dia claro e limpido deslumbravão as noites deleitosas no seio
das solidões. Que painel primoroso e divino quando os raios merencorios
da lua, entornando uma luz melancholica por entre as folhas do arvoredo,
que sombreava as aguas do rio, scintillavão phosphorescentemente por
cima da sua superficie, formavão espelhos estrellados de ouro e prata, e
reflectião o horizonte com todos os seus toques magistraes e voluptuosas
ondulações!

Atravessárão-se sitios desertos e inexplorados então, e aonde os
proprios Jesuitas fundárão depois missões novas, para acolherem os
Guaranys atropelados constantemente na provincia de Guayrá, que
abandonárão por fim aos Paulistas aventureiros. Em uma e outra margem
existem hoje os povos de Corpus Christi, Candellaria, Itaqui, Santa
Clara, Trindade, São Cosme, e outras aldeias edificadas pelos famosos
missionarios, quando na época a que nos referimos formavão apenas esses
territorios immensos, escondrijos e asylos de animaes ferozes.

Descêrão os viajantes das Tres Bocas para Santa-Fé, e acolheu ahi o
provincial do Instituto a Manuel de Moraes com carinho paterno,
recommendando-lhe penitencias e cogitações serias afim de decidi-lo a
volver para o serviço da companhia, que o receberia com os braços
abertos, esquecendo-lhe as faltas commettidas.

Em despeito porém das exhortações e conselhos dos padres, apezar de mais
de tres annos que foi coagido a demorar-se no convento, persistio Manuel
em sua deliberação anterior, e firme proposito, que se não modificava
com as circumstancias e eventos.

Concordárão então os padres em remettê-lo por Hespanha para Roma,
esperando que o geral da companhia fosse mais que elles afortunado, e se
não perderia assim para o Instituto um moço, cujos talentos variados, e
solida instrucção, divisavão todos que com elle se entretinhão.

Seguio portanto de Santa-Fé para Buenos-Ayres em uma lancha, que
praticava regularmente a navegação entre os dous portos do Paraná e
Prata. Residio na casa da companhia o tempo que necessitárão os aprestos
de um comboio de embarcações que se tinha de dirigir para Cadix,
acompanhado por dous bergantins de guerra hespanhóes, e incumbidos de
amparar e defender os vasos do commercio contra as esquadras e corsarios
hollandezes, que infestavão os mares.

Ajudou aos navegantes um violento pampeiro, que os tirou em pouco tempo
das aguas perigosas do rio da Prata, e os precipitou no seio do oceano
Atlantico. Achava-se Moraes em face do outro assombro da natureza,
o mar immenso, profundo, tranquillo, ou agitado segundo as crises das
correntes e as violencias do vento. As florestas virgens, os rios
selvagens e inavegados, os animaes bravios, as cataractas estupendas, os
sitios pittorescos, as planicies e montanhas, constituia tudo isso o
deserto americano, e formava ao certo uma maravilha, em que o bello, o
sublime, o grandioso e o infinito se abraçavão sem que a arte cooperasse
para o quadro magestoso. Contrapunha-se-lhe agora o oceano, que sabia
gemer tambem como as mattas reconditas, alvoroçar-se como a cratera dos
saltos, roncar e enfurecer-se como o jaguára, e o surucucú, e mudar
constantemente de physionomia, situação, e colorido, como a varia
atmosphera que rodeia a creatura humana.

Corrêrão velozmente os navios para o Norte assoprados pelas aragens
frescas de galernos favoraveis, posto fossem coagidos os mais
veleiros a reter de quando em quando a sua marcha, afim de
esperarem pelos mais pesados, e não se desligarem do comboio, que pelo
numero e união dos seus vasos lograria conter piratas e inimigos.

Estavão já pela altura da ilha de Fernando de Noronha, semeiados os
navios como uma frota, e communicados constantemente por meio de signaes
com os dous bergantins de guerra que os escoltavão, quando velas
estranhas rasgárão o horizonte, e apparecêrão aos olhos, ainda que a
grande distancia. Deu rebate ao coração dos navegantes o inopinado do
caso, e sustos geraes se lhes incutírão nos animos. Serião inimigos?
Pretender reconhecê-los não equivaleria a expôr-se mais aos perigos?
Fugir-lhes não significaria medo, e os não animaria no seu proseguimento?

Organisou-se conselho a bordo dos bergantins de guerra, que se
approximárão um do outro. Decidírão os commandantes preferivel
evitar o encontro, e afastar-se o comboio, largando todas as velas para
que corressem os navios com maior velocidade. Estavão infelizmente a
barlavento as embarcações suspeitas. Percebêrão a manobra, e suspeitando
o comboio, e imitando-lhe o exemplo, se precipitárão sobre elles a
pannos abertos. Muitos do comboio, por mais veleiros, se forão sumindo,
e escapando no seio do oceano e na immensidade do firmamento. Menos
felizes, vírão outros os seus perseguidores ganhar-lhes a cada momento
em distancia, e cerrar-lhes o espaço que os havia a principio separado.
Figurava entre os ultimos o galeão _Santo Ambrosio_, a cujo bordo se
achava Manuel de Moraes.

Ao approximar-se, içárão os navios desconhecidos bandeira dos Estados
Geraes de Hollanda, e apresentárão um costado de guerra que mais
contribuio para amedrontar os Hespanhóes do comboio. Tiros de
artilharia disparados logo após lhes intimárão o dever de parar, e
sujeitar-se á inspecção e visita. O commandante do _Santo Ambrosio_
pensou incutir-lhes sustos descarregando sobre elles a metralha de duas
peças que o guarnecião, e esforçando-se no entanto em evadir-se. A este
signal acompanhárão igualmente com tiros outras embarcações do comboio.
Mas infelizmente para ellas não ficou muda a artilharia dos Hollandezes,
que posto apenas oito vasos, se mostrárão mais bem tripulados e armados.
Nuvens de fumo, cortadas ás vezes por fuzis de fogo, e o estrondo das
peças, assoberbavão inteiramente a atmosphera. Abrio agua pela pôpa o
galeão _Santo Ambrosio_, despedaçado por uma bala certeira. Mandou
subito o commandante arreiar a bandeira hespanhola que levantára no
começo da acção, e dar signaes de render-se para não ir ao fundo do
oceano.

Percebidos os signaes pelos Hollandezes, acudírão-lhes incontinente com
lanchas ao mar para tomarem conta do navio vencido. Antes que ellas
chegassem, rebentou infelizmente a bordo do _Santo Ambrosio_ um incendio
do paiol de prôa, que ameaçou devorar-lhe a tripolação, inquietada
assim, e ao mesmo tempo pelas aguas do oceano que pela pôpa submergião o
galeão desditoso. Achavão-se portanto os navegantes entre dous perigos
fataes e horrorosos. Echoárão pelos ares gritos estridentes de
desesperação, ais sentidos clamando por soccorro e misericordia. Reinou
a bordo infernal anarchia, ninguem mais governando, ninguem mais
obedecendo. Lançárão-se uns desordenadamente no seio das vagas do mar,
cogitando salvar-se melhor no meio d'ellas que dentro do navio. Saltárão
outros nos escaleres pendurados aos lados, cortando-lhes as cordas que
os prendião, e arriscando-se a quaesquer eventualidades.
Agarrárão-se alguns a bancos de madeira, e com elles se deixárão
resvalar pela superficie do oceano.

Conseguírão as lanchas hollandezas salvar bastantes desgraçados, posto
crescido numero de Hespanhóes perecesse nos arrancos da dôr, e no jogo
sorvedor das ondas. Contou-se entre os escapos Manuel de Moraes, mas nem
presa pôde ficar dos Hollandezes o galeão _Santo Ambrosio_, que as
labaredas do fogo e os ultrages das vagas destruírão totalmente em pouco
tempo. Lográrão todavia os Batavos audaciosos colher ás mãos dez dos
outros vasos do comboio, que não tiverão a fortuna de evadir-se, e com
que applaudírão estrondosamente o seu feito e triumpho.

Chamava-se Henrique Long o chefe da frota hollandeza que aprisionára as
embarcações referidas. Era um famoso marinheiro, que desde 1630,
succedendo a Willekens, Pict Heyne e Padrid, limpava os mares de
navios hespanhóes e portuguezes, mercantes e de guerra, causava
destroços inauditos no oceano, apoderava-se de cópia numerosissima de
galeões adversos, e espalhava os sustos e terrores por toda a
immensidade dos mares.

Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e
fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do
Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez
vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as
cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas
tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e
attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo
ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e
estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos dos navios
hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.

Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões
para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho
director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista
hollandeza.

Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira
liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já
que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o
anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio
da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais
infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára
imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões
sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua
marcha debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por
capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a
quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e
aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella
desventurada.


CAPITULO VI

Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do
duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra
reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão
constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e
esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de
regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das
passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os
Hollandezes, inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões
transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe
inteiramente o commercio maritimo.

Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas,
que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado
independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo.
Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se
em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos
Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas
outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes
para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias
Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar
os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar
de 1624, com a obrigação de entregal-os no fim do prazo ao governo,
e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem,
estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe
restassem.

Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções,
espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um
milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte
navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da
metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.

Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho
director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de
Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras
e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e
Frisa. Competião á administração superior as attribuições politicas
e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias
para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se
fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.

Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza
apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de
1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de
Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das
massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da
capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua
capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D.
Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.

Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em
1630, lográra fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel
Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda,
capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão
Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do
Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo
no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois
de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto,
para que não pudessem servir ao inimigo.

Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco,
em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores
portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque,
e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente
dirigia.

Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de São Jorge, arrasára-se o
heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a
Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se
forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o
territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias
incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes
activos e bravos.

Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou
lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da
Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que
possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando
apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas
preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o
commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se
unicamente aos Portuguezes o cultivo das terras, e os trabalhos da
industria agricola.

Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de
Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres
quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio,
fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de
terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe.
Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio
d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e
Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que
nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife.
Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e
aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos
agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente
estabelecido nos seus regulamentos e annuncios.

Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos
Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com
que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho
manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em
applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas,
alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem
esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o
notavel bairro da Boa Vista.

Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com
meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios
generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o
principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou
nova vida á colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além
do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as
possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo
naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o
celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como
Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da
escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a
Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio,
guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de
augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio
funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a
administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com
arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos
levantar as suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua
religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as
suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou
restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que
estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda.
Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e
outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as
ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo,
com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a
ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe,
que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha
deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e
predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do
paiz, que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e
não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se
entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do
forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do
Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se
até um dos agentes financeiros da Companhia.

Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando
a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de
Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus
corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais
d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda,
e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém
mais o ginete da dama que vinha adiante, percebeu Manuel com susto
que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira,
que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a
ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e
lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.

Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo
instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem
canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não
hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las,
vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus
intentos.

Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da
terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado,
agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o
ginete de raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão
o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que
desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar,
tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous
cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme
Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e
pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e
fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome,
officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado
que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus
sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de
viva voz o seu reconhecimento.

Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a
dama, e a transportou para a sua casa, emquanto Manuel tratou de
recolher-se ao seu mesquinho alvergue.

Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservára
sobre o corpo, lhe não deixára conciliar o repouso. Com o correr da
noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as forças, agitou os
membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno.

Horas tormentosas se passárão para Moraes até que o dia raiou, e linhas
quentes do sol lhe rasgárão as frestas da janella do seu alvergue, sem
que uma mão amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto
como só e isolado residia.

Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado
que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de forças, quando
ouvio bater á porta, e fallar uma voz meiga posto desconhecida.
Pôde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo
depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito.

Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvára na vespera. Com
difficuldade pôde responder-lhe Moraes ás perguntas, reconhecendo-se
extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que
o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e
instrucções no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a
mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse.

Regressado o velho á sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar
para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella
propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia.

Não sabia Brodechevius recusar-se á vontade de sua filha Beatriz. Era o
fructo unico que lhe restava da sua finada e querida esposa, e
dominava-lhe o animo e o coração com poder extraordinario. Desesperado
com a morte da companheira, abandonára Amsterdam, aceitára um emprego no
conselho director da Companhia das Indias, passára-se para o Recife, e
ahi se estabelecêra, vivendo só para Beatriz, e cercando-lhe a vida com
todas as delicias, que sóem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno.

Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de
Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde
um facultativo se incumbio de trata-lo.

Tomou a febre um caracter maligno e proporções assustadoras. Visitava a
miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o ás vezes a tomar os
medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao
enfermeiro, animando-o com maneiras gentis e expressões doces e
sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava á cabeceira, e
lhe dirigia a vontade.

Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e
louros cabellos ondeavão-lhe por sobre a cabeça altiva, denunciando a
sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e
expressiva, olhos grandes e feições regulares, lhe davão ares de
magestade mais que de delicadeza e doçura. Impunha o respeito pela
seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertêra o
catholicismo em santas da sua Igreja, tão graciosas na sua dignidade
quanto imponentes na sua attitude.

Faltavão a doçura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das
imagens traçadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porém uma
d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a
imaginação. Não resplandecião os seus olhos voluptuosamente,
inundando-se de paixões deleitosas. Mas dizião admiravelmente que se um
dia sentissem os assaltos do amor, não serião estes transitorios e
mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hião á altura de dedicação
firme e permanente.

Acostumava-se Moraes á direcção que lhe dava Beatriz, descobrindo pela
primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as
vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos.
Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavão os
seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua
ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella
queria que elle não morresse. Fallava-lhe já o coração que era Beatriz
indispensavel á sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixão lhe
tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito.

Não deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moço, as
suas maneiras nobres, que lhe não parecião coadunar com a condição em
que o achára, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que
manifestavão uma educação superior á sua profissão, e os pensamentos
moraes e religiosos, que soía exprimir, e que abonavão uma alma pura e
honesta, e um animo primoroso.

O que foi n'elle desde o principio paixão amorosa, iniciou-se em Beatriz
como sympathia razoavel. Borbulhavão no peito de Manuel sentimentos
fogosos e delirantes, que lhe assoberbárão o espirito. Deixou-se
arrastar a donzella por uma affeição moral, que lhe descrevia as
qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da
razão para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o coração, como gottas
d'agua, que esbroão a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo
razoavelmente, tomou a affeição o caracter de amizade, e este o
gráo de amor, acompanhando as phases da reflexão em luta com os
sentimentos naturaes, até que estes conseguírão sobre aquella um
triumpho decidido.

Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e
diminuindo alternativamente até que entrou em plena convalescença.
Bastou esse tempo para criar e firmar nos corações de ambos os jovens o
sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre.

Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento,
e que o só destino cego conservava em trabalhos inferiores á sua
educação e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego
conveniente na administração da Companhia, em cujo exercicio entrou,
sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que
suspeitasse o velho os mysterios que lhe escondia o coração,
abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais
evidentes de verdadeira estima.

Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez
mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeiçoava as vontades da
donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da
paixão, ganhou Moraes relações com personagens importantes da Companhia,
e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes
distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto
calvinista, e arreigados profundamente ás virtudes domesticas, e á vida
intima e pura do lar e da familia.

Resistíra sempre o seu espirito altivo e independente á disciplina
imposta e forçada. A instrucção que adquiríra dos dogmas da religião
catholica não lhe havião ganho a razão, como elle proprio o desejára,
para que com a razão lhe sorrisse a fé que lhe cumpria ter na
orthodoxia de Roma. Conservava já o seu culto mais por habito e
instincto que por convicção, porque se impregnára de duvidas o seu
animo, não distinguindo nas religiões senão as idéas moraes e as
virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe
parecião em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os
Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de São Paulo.

A cogitações tão fataes lhe ia seguindo a indifferença espiritual e o
scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da
alma. Concorreria o amor para esta phase desgraçada, que o desprendia da
religião pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida
eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da
creatura diante do supremo autor do mundo?


CAPITULO VII

Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as
obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes.
Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em
prazer e delicias ineffaveis.

Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do
peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião
comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma,
e nas conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os
seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes
tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de
Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos
dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella,
porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos
sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma
aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos
materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo
enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e
inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus
impetos.

Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que
percebessem as differenças que os arredarião mais tarde.

Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para
augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo
uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e
duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem
entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens
para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta
d'esta praça importante.

Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra
coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e
medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os
Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario.
Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado
cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que
os compellio a recuar. Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens,
quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos,
senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão
vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos
Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de
Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia
ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo
a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de
que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse
tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos
Portuguezes.

Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo,
Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos
Estados Geraes, e que governára militarmente Pernambuco antes que
se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau.
Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de
valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente
laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao
chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e
procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua
substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em
seus territorios de Pernambuco.

Aproveitando-se da derrota soffrida pélas armas hollandezas diante da
Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho
director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e
administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe
das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.

Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma
serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe
de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua
autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.

Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu
conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia
no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia.
Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.

Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos
apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente
em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo
em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com
communicações francas á Companhia a respeito dos motivos que os
levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.

Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação,
e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro
Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam
arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios
concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas
terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo
americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil
hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau.
Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.

Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a
Amsterdam com a sua familia. Communicou á sua filha os seus intentos
para que se preparasse a seguir na primeira frota que para Hollanda
se fizesse de vela.

Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas não oppôz duvidas
á resolução de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de
Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos.

Não escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da
donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jámais
declarado, elle não deixára de perceber? Que causas lhe teria dado?
Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste
e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem?

Atormentava-se Moraes com serias cogitações, sem que pudesse rasgar o
véo que encobria a dôr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o
seu procedimento reservado. Corrêrão alguns dias nebulosos e enlutados
após tantos dias alegres, felizes, perfumados de amores, de
estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos.

Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. Não podia conservar-se n'aquella
situação miseranda depois da anterior e aventurada posição. Sentio que a
franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado.
Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma
declaração leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais
eloquencia havião os olhos propalado, já que uma nuvem se interpuzera á
linguagem muda com que mutuamente até então se correspondião.

Não lhe faltavão occasiões para se achar a sós com a donzella. Tomou
forças para a acção, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e
resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraça lhe houvera
acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz
esconder-lhe a verdade. Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse
ser satisfeito, arrancou do coração um grito de dôr, e disse-lhe
estremecidamente:

--Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. Não sabeis já, com que força vos amo
e adoro!

Não espantou a confissão á donzella. Conheceu porém que após ella feita
tão solemnemente, melhor fôra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse
apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz
se lhe embargava ás vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre
os tremulos labios que a desprendião.

Declarou-lhe que seu pai lhe annunciára que pela primeira frota, que do
Recife seguisse para a Hollanda, deverião ambos partir, deixando por uma
vez as terras de Pernambuco.

--Partir! partir!--exclamou elle attonito;--E eu que fico aqui fazendo?
que vida posso esperar?

Subírão-lhe ao espirito todos os impetos da paixão. Fallou mais alto o
sentimento do peito que a reflexão, o respeito e a conveniencia.

--Para que me apparecestes?--continuou desasocegadamente.--Para que
mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era
amor, que elles nunca tinhão conhecido.

Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixão nos gestos, no trato, nos
olhos, no fogo, e no enthusiasmo. Não escapa a mulher nem-uma o mysterio
de um coração apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue
em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a força e vehemencia com que
elle fallava. Fingíra a principio que o não comprehendêra. Empregára
esforços para divergir do assumpto do colloquio. Não conseguindo porém
que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado
enternecimento:

--Razão maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. Não vos
quero enganar. Amo-vos tambem, e não menos profundamente do que me
asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa
igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaços.
Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a
minha lembrança... Poderá talvez o tempo abafar idéas que a loucura nos
creou, e que a razão condemna...

--Não vos entendo,--interrompeu-a Manuel de Moraes.--Porque condemnará a
razão o que lhe não é contrario?

--Não o pensastes, e nem eu ao principio--repetio-lhe Beatriz,
pegando-lhe na mão, erguendo humedecidos os olhos para o céo, e
empregando um tom de ineffavel ternura.--Deixámos imprudentemente que a
paixão se infiltrasse pelos nossos corações, sem que pressentissemos a
impossibilidade de uma união legitima. Sois catholico, eu
protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. Não
podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrêrão.
Gottejão feridas profundas entre os dous cultos...

--Impossivel! impossivel!--prorompeu Moraes.--Emquanto me não convencia
de ser correspondido, poderia realisar-se a separação. Tragaria eu só a
minha dôr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o céo
diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallão os anjos no
paraiso--é impossivel.--Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou
sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi
tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com
a vossa vida, e exhalará o ultimo suspiro da existencia por vós, ou
comvosco!

--De que serve tudo isso,--replicou-lhe Beatriz agitada igualmente,
posto esforçando-se em parecer serena,--se jámais podemos unir-nos,
se nos separão para sempre os homens, os cultos, as tradições e os
costumes? Eu não posso tornar-me catholica. Não poderieis renegar a
vossa religião, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razão,
e vos coagisse a renegar, não vos atormentaria eternamente o perjurio,
não ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? Não se murcharia com
elle o amor que exigio sacrificios superiores á alma e á fé? Não o
quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai
melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous
viajores que se encontrárão no deserto, repousárão ambos á sombra do
mesmo oásis, refrescárão os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se
despedírão depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle
de lagrimas em que andamos errantes não é eterno. Transpomo-lo apenas.
Mais tarde nos encontraremos. Como o filho de Abrahão atravessastes
a Mesopotamia. Não vos seguirá porém a filha de Labão.

--Quereis que eu morra?--perguntou-lhe Manuel assombrado por essas
palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a
donzella.--Melhor fôra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me
mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos
cuidados e carinhos me não tivessem salvado!

--Deos--repetio-lhe Beatriz--nos concedeu um coração para amar, mas
acima do coração collocou o espirito, que é a sua emanação divina, e a
razão que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudeça a paixão diante da
reflexão. Não nos é permittido unir-nos honestamente. Ficai em
Pernambuco. Eu parto. Assim devia sê-lo, logo que nos descobrímos
mutuamente os sentimentos.

--Não, não,--gritou Manuel.--Mato-me antes. O que é a vida? o que vale
para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando
a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence
igualmente ao mundo, e á sociedade humana?

Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a
paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas
essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu
amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores
sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos
instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as
consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.

--Mudança de culto,--disse-lhe ella,--exige convicção firme, e não
subito hallucinamento. Deve ser obra da razão, não do coração. O
espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece
o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu
propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...

--Não a temais,--retorquio-lhe Manuel.--Permitti que eu vos acompanhe
para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas
palavras.

Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um
momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior
agitação do espirito.

Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes.
Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes.
Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas
cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade, considerando-os
como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem
delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.

Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de
Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta
de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no
espirito, e o apouquentou bastante.

Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe
seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a
aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua
alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a
sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo
pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.

Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como
intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz
dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por
genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento
desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos,
que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e
adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar
igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança.
Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do
amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria
mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.

Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno
de 1639.

Embarcárão-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se
Manuel de Moraes da America, na intenção firme de nunca mais revê-la.


CAPITULO VIII

Não decorrêra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havião retirado
Brodechevius e sua filha, e já havia Manuel de Moraes abjurado a
religião catholica, abraçado o protestantismo com o consentimento do
velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado
emfim a sua residencia na nova patria que adoptára.

Venturosos dias se passárão a principio no seio d'essa familia
tranquilla e socegada. Posto nem-uma convicção arrastasse Moraes
para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactidão, e cumpria
escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava.
Não lhe pesavão no espirito, porque não era ainda chegada a hora do
arrependimento e dos remorsos, e o prendião com doces e agradaveis laços
os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e
correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicação admiravel e extremosa.

Frequentavão-lhes a casa familias distinctas, affeiçoavão-lhes a amizade
pessoas selectas, attrahião-lhes os cuidados relações agradaveis.

Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judêos portuguezes, evadidos
de Portugal diante das perseguições do governo e do Santo Officio da
Inquisição. Numerosas familias d'essa raça condemnada por injustos
preconceitos e prejuizos loucos da opinião publica da época, abandonárão
as terras luzitanas, e achárão abrigo, e liberdade para os seus
cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua
industria e fortunas.

Primavão entre os judêos portuguezes homens de merito notavel. Havião
muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religião pela catholica,
afim de se lhes consentir a residencia na patria, que não admittia o
culto israelita. Bastava porém a mais pequena suspeita, a menor
denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e
condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrárão alguns
para as ordens monasticas, tomárão habitos de sacerdotes, empregárão-se
no proprio tribunal da Inquisição, como seus famulos e servidores. Não
lhes valêra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditára
na sinceridade da sua abjuração. Após os que, por não quererem renegar
as suas crenças religiosas, forão compellidos a expatriar-se,
seguírão aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente,
adoptárão o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de
sinceridade e dedicação aos dogmas e disciplina da Igreja romana.

Bastava ser judêo, tê-lo sido, ou descender de sangue judêo, para que se
lhe não poupassem insultos, prisões, miserias, violencias, assassinatos
juridicos e barbaros. Não os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu
Portugal com a sua emigração um povo rico, industrioso, trabalhador,
activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas.

Figuravão entre os judêos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres
Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixárão fama
nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fôra medico notavel
em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio
graças a um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da
communhão israelita da Hollanda[4]. Manassé ben Israel,
oriundo de Arabes e judêos, naturalista distincto[5]. Uriel
da Costa, que exercêra cargos civis em Lisboa, convertendo-se á religião
de Roma, e que nem por isso fôra poupado pelo cruento tribunal, que
anciava por purificar a fé religiosa nas fogueiras que levantava para
queimar vivas as victimas da sua atrocidade supersticiosa[6].

Perseveravão as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus
costumes, e a lingua portugueza, formando uma communhão livre e
levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos,
solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes.

Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e
situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a
principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel
arrependimento.

Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão
todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano
para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha.
Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas
reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os
direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional,
com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado
para Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado[7].

Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes
reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que
traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo
timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua
abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que
arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.

Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um
sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa
bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome
de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com
urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na
terra?

Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia
senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e
perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião
reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da
alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi
entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como
a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava
viço e vida.

Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da
consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra
por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de
Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não
tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a
menor confidencia de Manuel, posto o interrogasse por todas as
fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia
operando no seu animo.

Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos
prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos
posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que
correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do
espirito.

Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel
que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia
queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára
por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino;
adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das
idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma
contra esse amor e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia
parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior
que era á razão e á vida.

Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca,
aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua
grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento
moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão
ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade
approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de
crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.

Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico
a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem
reciprocamente.

--Sou eu causa,--disse-lhe Beatriz um dia,--dos tormentos do teu
espirito?

--Tu?--respondeu-lhe Moraes.--Enganas-te. És antes o unico anjo que me
ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha
eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado;
paralysava-me porém a inercia do somno--chegaste,--fugio o
monstro,--salvaste-me!

--Sacrificaste por mim tua vida,--continuou ella.--Sei que isso te não
peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o
que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o
espirito!

--Ama-me sempre,--replicou-lhe Moraes,--e tudo isso é nada, porque só
vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas,
precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não
vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua
presença, como a do anjo tutelar e da guarda.

--Moraes,--tornou-lhe ella,--conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que
sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua,
em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias
apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão
um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço
ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que
dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que
sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz
no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia
inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema
d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio
o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie incolor
das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e
do firmamento.

Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem
mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo
sentimento forte da dôr e da amargura.

--Ó santa creatura!--exclamou, abraçando-a e beijando-a com
effusão,--desterra imagens tristes e aterradoras. Se não sou o que fui,
se não passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual,
só tu podes alliviar-me as dôres, e salvar-me, porque és o unico ente
que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, dá-me a fé que é a vida, a
fé no teu amor!

--Pensei,--interrompeu ella,--que encarariamos a felicidade sob a mesma
feição e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas
teu espirito se revolta, e eu considero-me culpada. Dize que
sacrificios queres que eu faça para superar os que por mim commetteste!

--Nem-um, nem-um,--respondeu-lhe Moraes.--Cumpre-me a mim repetir todos
para te provar minha dedicação. Se queres que eu exista, não soffras,
minha alma! Perdôa-me, serena-me estes impetos involuntarios do
espirito. Não és culpada,--nem eu,--ninguem o é. Abandona sonhos e
pressentimentos infaustos.

Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com
a falta de filhos, que são prisões no mundo, e tomão pela sua affeição a
dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e
força, e obrigando os pais a ligar-se á terra, e a applicar-se á sorte e
felicidade da sua prole querida.

Definhavão assim cada um para o seu lado os dous esposos, que se
adoravão no entretanto. Excedia a prostração em que cahíra Beatriz
ao abatimento que Moraes manifestava. Cifrava-se o sentimento d'este no
espirito e n'alma. Provinha do arrependimento, acarretára remorsos, que
ralando inteiramente, não lhe offendião todavia as forças physicas. A
intensidade da dôr de Beatriz se passára porém para o corpo, que
minguava a olhos vistos. Empallidecião-se-lhe as faces, outr'ora roseas
e rubicundas. Cavavão-se-lhe os olhos, em outro tempo vivos, penetrantes
e espirituosos. Quebravão-se-lhe as forças paulatinamente. Tomava
aquelle aspecto todo, tão esbelto e levantado como a palmeira do
deserto, tão elegante e primoroso como o cysne deslisando-se gentilmente
pelas aguas do lago, proporções graves, tendencias á decadencia e ruina,
ares de soffrimentos physicos, que assustavão a todos que com ella
convivião, e a estimavão e amavão.

Lamentava-se o velho Brodechevius, percebendo finar-se a filha
adorada, sem lhe conhecer o mal que a minava, e adivinhar-lhe a cura
necessaria. Chorava Moraes como uma criança, esquecendo quasi diante do
seu amor a propria dôr, que lhe acabrunhava o espirito. Procurava
engana-la, asseverando-lhe que não sentia mais as primeiras impressões
que o havião assaltado, e convencido cada vez mais do bem que procurára,
e da utilidade moral que lhe proviera dos seus actos, não poderia
existir longe d'ella, e sem ella. Esforçava-se em chama-la á ventura e á
vida pelo amor que Beatriz lhe consagrava, e por piedade para com
aquelle que se lhe dedicára com todas as forças do coração e faculdades
d'alma.

--Moraes--disse-lhe ella um dia ao cahir da noite, encostando-se a uma
janella que dava sobre o braço de mar que banha Amsterdam, e olhando
para uma pallida estrella que bruxuleava no horizonte sombrio e
tristonho do norte.--Vês aquella estrella merencoria? É a minha
existencia. Breve se sumirá ella no firmamento, e o negro manto da
escuridão a cobrirá de todo. Fui feliz emquanto te senti feliz a meu
lado. Causei a tua desventura, e devo receber do céo o castigo merecido.
Sonhão-te pelo pensamento idéas de deveres nobres e patrioticos.
Ruminão-te pelo espirito os insensatos sacrificios que por mim
praticaste. Torturão-te a alma os remorsos crueis que acompanhão sempre
quem abandona o seu culto, e a religião de seus pais. Não tardará o
momento em que fiques livre de mim para volveres ao gremio da tua
Igreja, e recuperares o socego pela penitencia e santidade de vida,
desprendendo-te das cousas terrestres, que nos afastão da Divindade.

--Por compaixão por ti e por mim--atalhou elle.--Que me importa a
religião de Roma, se é christão igualmente o culto ensinado por
Calvino, e mais consentaneo com a liberdade e o arbitrio do homem! Não
me arrependi; não soffro remorsos. Asseverei-t'o tantas e repetidas
vezes, e porque m'o não acreditas?

--Leio melhor que tu no fundo do teu peito--continuou Beatriz.--Fez-me
Deos de modo que, ou não devia amar, ou possuindo amor, deveria elle
assorberbar-me de sorte que o ente que escolhesse o meu coração me
pertencesse inteira e exclusivamente, e não nutrisse idéa que se não
cifrasse em mim. No dia em que notei que involuntariamente--sei-o bem,
não precisas repetir-m'o--te impressionavão sentimentos, reminiscencias,
saudades doridas do passado--afastavas de mim um pensamento, que te ia
acommettendo, e dominando o espirito, posto me dedicasses o mesmo amor
do coração, não mais porém as faculdades d'alma, entendi que devia
desamparar a terra, e que meus dias estavão terminados no mundo,
para só entregar-me a Deos.

Pretendeu Moraes replicar-lhe; ella porém largou-o, e retirou-se para o
interior do seu aposento.

Não durou muito o seu soffrimento. Á decadencia do corpo ligou-se uma
febre nervosa. Inuteis e infructuosos cuidados se lhe applicárão. Nem-um
medico lhe adivinhou a molestia. Reclamou-a a eternidade. Forão os seus
ultimos momentos tristes, mas affaveis, despedindo-se enternecidamente
do pai e do esposo, e entregando a sua alma fervorosa nos braços do Deos
eterno!


CAPITULO IX

Achava-se de novo Manuel de Moraes só, e isolado no mundo.

Quando se separára do claustro, dos pais e da familia, o fortalecião
muito ainda o viço, a imprudencia afouta e audaciosa, e a esperança
propria da idade juvenil. Ao faltar-lhe agora a consorte querida, ente
unico, por quem se lhe cifrava a ventura no mundo, roçavão já os seus
annos pelos quarenta, e a vida se lhe annunciava com o peso da
experiencia e dos soffrimentos.

Não guardára reminiscencias profundas na primeira época. Os
acontecimentos repentinos que lhe succedêrão, as viagens que effectuára
pelo sertão da capitania de São Vicente, as aventuras que encontrára no
meio dos gentios errantes, e na provincia de Guayrá, os rios poderosos,
a natureza esplendida do interior da America, o mar com as suas furias e
os seus gemidos estridentes, lhe havião exaltado a mente, em vez de
abatê-la e curva-la.

Diversa physionomia lhe raiava agora, em idade mais avançada, e
fulgurava em torno d'elle. Idéas differentes o acommettião, e lhe
corroião as fibras da alma e os segredos do espirito. Saudades sinceras
da esposa mortificavão-no e torturavão-no. Havião corrido em companhia
d'ella dias tão alegres, tão prazenteiros, tão socegados, tão felizes!
Amor puro e sem igual, dedicação primorosa e exclusiva, possuia aquelle
ente adorado, que se deixára morrer quando percebêra falta de uma
inteira correspondencia da sua parte!

Longe igualmente da patria, cuja lembrança lhe sussurrava a miudo; sem
noticias dos pais e da familia que abandonára, e que agora lhe
mortificavão o peito com doridos impetos; abjurado da fé catholica, que
mitiga as dôres humanas, e falla ao coração com mais eloquencia que
qualquer outro culto religioso; atirado no seio de uma socidade, na qual
não nascêra, e nem encontrava parentes e amigos intimos, tão necessarios
á vida, como companheiros leaes e devotados; que miseria o cercava, que
esperança lhe poderia sorrir, que futuro devia antever?

Deixou a casa em que morava, por se lhe partir o peito com o aspecto que
ella lhe offerecia já. Separou-se do desditoso Brodechevius,
abandonando-lhe as riquezas, que lhe podião pertencer por direito.
Recolheu-se a um sitio solitario, nos arredores de Amsterdam, para
com liberdade se entregar á expansão da sua dôr.

Era já Amsterdam uma cidade importante pela industria e commercio.
Cortavão-na mil canaes, ornados de magnificos edificios, povoados de
numerosos navios. Prosperava com o trato mercantil das colonias que
roubára Hollanda a Portugal, durante o tempo do seu captiveiro dos
sessenta annos, sob os tres Felippes de Castella. Expedia carregamentos
continuos e importantes para a Asia, para o Brazil, para o cabo da Boa
Esperança. Agglomerava-se-lhe pelas ruas e dentro dos muros um povo
emprehendedor, activo e industrioso, que sabia curvar uma natureza
ingrata e um clima agreste, e criar bellezas ficticias, e espantosas
riquezas, que lhe davão o aspecto de commodos e magestade.

O que admirára Moraes nas obras dos homens começou a perder os seus
encantos e fulgor, á proporção que a memoria lhe avivava scenas do
passado. Não era mais soberba a natureza dos tropicos, e não extasiavão
mais aos olhos as florestas virgens da capitania de São Vicente, os rios
caudalosos do Paraná, Tieté, e Prata, e a physionomia esplendida do
firmamento com a sua doce e arrebatadora temperatura? Em concepções e
obras não superava a natureza á arte? O que valia o panorama de uma
Cidade artificial, coagida a oppôr diques ao mar, para que o mar a não
engolisse e absorvesse, diante da planicie alegre em que assentava o
Recife, ou as alturas em que repousava a povoação de São Paulo?

Á terra seguio-se a raça dos homens na comparação que o espirito lhe foi
formando. A taciturna gravidade do Hollandez, posto industrioso e
emprehendedor, a avareza dos judêos, ainda que activos e trabalhadores,
não estavão abaixo do caracter jovial e vivo dos Portuguezes, e da
innocencia e bondade dos gentios americanos? As virtudes e
qualidades dos padres protestantes casados, homens do mundo, dos
negocios e do trato mercantil, poderião correr por acaso parelhas com a
dedicação mystica e santa dos Jesuitas, que parecião não pertencer á
terra, mas ao céo, e que na terra cuidavão só e exclusivamente em
praticar feitos meritorios e exercer a caridade e a philanthropia moral,
expondo-se aos maiores perigos e á propria morte, em beneficio dos
gentios desgraçados e nomades?

Subio dos objectos mundanos para os espirituaes. Encarou os dous cultos,
calvinista e catholico, mais como philosopho que propriamente como
religioso. Lobrigou desenhado ás claras n'aquelle o orgulho do homem,
que, a pretexto de liberdade da razão, queria elevar-se directamente a
Deos, dispensando intermediarios, e interpretar a capricho os santos
Evangelhos, e os livros da lei divina, emquanto que o catholicismo,
organisando uma igreja gradual, e erguendo os homens segundo os
seus merecimentos, curvava a creatura na humilhação do creador supremo,
e lhe explicava os dogmas do culto e os textos das Escripturas sagradas
sob a formula mais simples, a da obediencia a uma intelligencia só, para
a unidade e regularidade da fé.

E quanta ousadia na affrontação da Divindade; quanta arrogancia na
exclusão das pompas dos templos; quanto desprezo na repulsa dos varões
virtuosos, dedicados ao ascetismo e ás doçuras da vida eterna, que com
razão se canonisárão de santos; quanta rebeldia para com o successor de
São Pedro, cuja autoridade negavão os protestantes, que aceitavão no
entanto a direcção de qualquer ente levantado do pó, despido de
prestigio, e que se erigia por si em propheta e chefe de seita, como
Luthero ou Calvino! Resplandecião-lhe pela imaginação a physionomia e o
caracter grave, sereno e attrahente da Igreja Catholica, que com o
fausto de suas solemnidades irradiava de jubilo; com a melancolia dos
seus canticos lembrava ao homem o nada que era; com a confissão e
communhão lhe alliviava o peito e a alma; com os sacramentos finaes á
hora da morte o levava para a vida eterna socegado e contricto,
esperando o perdão da misericordia divina, que nunca desampara os seus
filhos malaventurados.

Agglomeravão-se-lhe os remorsos com a consequencia das suas cogitações.
Vida sem fé e sem esperança não era a do animal selvagem e embrutecido?
Trocar o catholicismo, que nutre, sustenta e enche de fé, pelo
calvinismo frio e interessadamente calculado, não constituia um crime,
superior ao maior peccado contra a moral universal?

Não existia mais a esposa para lhe distrahir o pensamento amargurado,
quando o martyrisava com agudos espinhos e sangrentas dôres. Nem-um
amigo lhe apparecia para lhe modificar a direcção espiritualista
das idéas, e attrahi-lo de novo ás cousas do mundo. Arrastava-se de dia,
estorcendo-se em amarguras. Velava de noite, atormentando-se em
reminiscencias crueis e remorsos pungentes. Nem-um instincto o prendia
mais á terra. Aborrecia a sociedade, e não encontrava allivio na
solidão. Dias sem repouso, e noites sem somno, lhe avivavão cada vez
mais os soffrimentos do espirito, ao passo que lhe arruinavão a saude do
corpo.

Esforçava-se por respirar o ar livre dos campos, e notando-os todos
lavrados artisticamente, cortados de canaes artificiaes e monotonos,
divididos com regularidade exemplar, despidos de arvores naturaes e de
vegetação espontanea, despovoados de passaros que gorgéão hymnos de
amor, que devem subir agradavelmente ao throno de Deos, como harmoniosa
orchestra que proclama e sauda a sua omnipotencia, cahia na maior
tristeza e prostração, recordando-se das planicies e veigas
americanas, imagem e symbolo da Providencia divina pela sua grandeza
ineffavel, encantos magestosos, e sublimes attractivos.

Que é das aguas, que corrião com a sua propria força, se desprendião de
rochedos, brincavão com as pedrinhas alvas que lhes interrompião o
curso, e engrossando, e recostando-se a leitos de flôres e perfumes,
extasiavão os olhos, e denunciavão o poder ingente do organisador dos
mundos?

Marchava assim meditabundo e só pela beira de um canal proximo a
Amsterdam. Cahira a noite, e escurecêra com o seu manto o firmamento,
rodeiando-o de trevas, sem que se apercebesse Moraes de que lhe cumpria
suspender o seu passeio.

Fendeu os ares de repente uma voz enternecida de mulher, que cantava ao
som de um instrumento que elle conhecêra na sua infancia, e que desde as
plagas do Brazil não ouvira mais tanger. Era uma guitarra portugueza,
que, imitando a harmonia da harpa, gemia melancolicamente. Approximou-se
Moraes para a casa de campo de onde sahião os melodicos accentos,
arrastado por uma sympathia rapida que lhe sahio do peito. Applicando o
ouvido ás palavras do cantico, estremeceu involuntariamente. Erão
portuguezas, e pronunciadas por labios portuguezes. Quem seria o anjo
que lhe sussurrava aos sentidos vocabulos da juventude? E que exprimião
elles, affectos, paixões, ou delirios amorosos?

A pouco e pouco ouvio claramente as palavras, e não pôde suster-se em
pé. Cahio sobre uma pedra, que lhe servio de abrigo.

Fôra para elle o cantico mais uma oração que uma lettra poetica; mais um
estigma que uma rima musical; mais uma imprecação que um hymno.
Formava-se dos versos seguintes, que a boca que os proferia soltava
com sonora e cadente melodia:

    Ó doce e sagrado culto,
    Que com o leite bebemos!
    Tu nos sorris desde a infancia,
    Com teus feitiços crescemos.

    Antes carceres, exilios,
    Antes barbaro tormento,
    Antes cruentas torturas
    Que esquecer-te um momento!

    Antes a triste miseria,
    A fome e a sêde mais dura;
    Antes a morte em martyrios,
    Em ancias de crua amargura!

    Ó legado precioso
    Confiado ao coração!
    O penhor sagrado de honra,
    Ó santa religião!

    Quem póde a fé, que lhe derão,
    Renegar impunemente?
    Quem seu Deos e sua crença
    Se arroja a arrancar da mente?

    Vagará no mundo inteiro,
    Como um animal damnado.
    Nem amigos--nem piedade,
    Só, de remorsos ralado!

Ha no espirito do homem uma fibra mysteriosa, que Deos ahi depositou
para o fim de impressiona-lo de quando em quando pelo supersticioso,
extraordinario e fantastico, abater-lhe a vaidade, e manifestar-lhe a
differença das duas naturezas que o compõem, uma fragil como o corpo e
oriunda do pó, e a outra immaterial e eterna, como emanação da chamma
divina, á qual deve annexar-se no fim da existencia, quando separada dos
restos mortaes.

Por mais robusto e forte que seja o espirito, alli estremece diante de
um cadaver que passa; acolá se curva contrito diante de uma sepultura;
mais adiante se apodera de pensamentos sombrios ao avistar uma cruz no
meio do deserto, ou á beira do rio, abandonada como foi pelos povos
de Israel o Deos homem, que se sacrificou pela salvação do mundo; um som
repentino do sino de igreja; um cantico tristonho a deshoras perdidas da
noite; um miserere solemne soltado debaixo das abobadas do templo; quem
póde resistir á emoção, immediata e dorida que traspassa os membros do
corpo, gela o sangue, sobe á mente, prostra o espirito, e arrasta a alma
mais sceptica para cogitações philosophicas e reminiscencias merencorias?

Avassallárão Manuel de Moraes todas estas impressões, causadas pelo
cantico e guitarra portugueza, repetidos sem duvida e tangidos por
alguma judia expatriada que guardára a sua fé, e conservára a lingua
pittoresca de seus pais nas ribas do mar do Norte, e sob os frios gelos
de Amsterdam.

--Renegado, renegado!--parecia clamar-lhe uma voz sahida do seu proprio
peito, entornando-lhe pela alma abatida uma nuvem de remorsos
crueis e dolorosos!--Renegado, renegado!--era o grito estridente que lhe
soava os ouvidos. Sem amigos, nem piedade, ficára só e solitario na
terra.--Não era este o seu estado? Não se diria o verso dirigido e
applicado contra o seu procedimento? Não era um castigo do céo?

Não teve forças para aturar a violencia dos pensamentos. Perdeu os
sentidos, rolou por cima da relva que matizava o chão humido, e horas e
horas se passárão sem que se percebesse do seu estado, e nem-um
individuo caritativo, que por acaso transitou, o descobrio, e cuidou em
tira-lo do perigo.

Esclarecião-se já os horizontes com os primeiros raios da aurora,
desprendendo-se das fumaças escuras da noite, desfazendo-as ao seu sopro
vital, e derramando luz por sobre a terra e nas immensidades do
firmamento celeste, quando a propria humidade do chão o acordou do
lethargo soporifico, e lhe prestou forças para levantar-se, e
reconhecer a sua triste situação.

Encaminhou-se vagarosa e pausadamente para a cidade, estremecendo ao
echoar-lhe ainda aos ouvidos o cantico fatal, que o condemnava, e
lembrava a sua situação.

--Eu abandonei patria, e reneguei o culto, sem convicção nem
consciencia!--dizia comsigo.--Aquelles fieis sempre á sua religião, e
supportando por ella tormentos, mortes, exilios, fome e miseria! Ai,
padre Eusebio de Monserrate! Não serieis o autor d'esses versos que me
lanção sobre a fronte o estigma da trahição? Não me dissestes igualmente
que desgraçado seria quem trocasse a Igreja pacifica de Deos pelo oceano
tormentoso do mundo?

Faltava-lhe o ar para respirar, a luz para allumia-lo; a fé para lhe
tranquillisar a alma agitada por commoções as mais desesperadas e
violentas.

Chamou-o o leito a repouso, mas o repouso lhe não appareceu no meio das
tormentas do espirito, e o leito se lhe afigurou de espinhos, que lhe
rasgavão o corpo, e lhe ferião dorida e profundamente as entranhas todas.

Molestia tenaz o assaltou, e levou-o quasi ás bordas do sepulcro.
Resistio a natureza só, e dir-se-hia que ella o reservára ainda no mundo
para provanças mais calamitosas.

Quando se ergueu do leito, e logrou sahir de casa, deliberou-se a
procurar alguma igreja catholica afim de sentir o effeito que sobre o
seu espirito produziria a solemnidade pomposa do culto, que desamparára
imprudente, e a que o chamava de novo a agitação do animo.

Póde o homem nas primeiras idades da vida ser desdenhoso de crenças
religiosas, philosopho sceptico, indifferente ao culto, mofador das
cousas sagradas. Rodeião-no tantos encantos sensuaes, tantas ineffaveis
delicias e prazeres materiaes, que n'elles se deixa absorver, e por
elles domar facilmente. Acena-lhe o mundo com scenas prestigiosas,
falla-lhe a natureza com attractivos, doura-lhe o horizonte tantos
quadros alegres, cantão-lhe tão agradavelmente as aves, enfeitição-no as
flôres com tantos perfumes, sorri-lhe a sociedade com tanta meiguice,
extasião-lhe a existencia tantos mysterios e sonhos! Quando porém dobra
o cabo de mais da metade do prazo provavel que tem de passar na terra, e
para adiante alarga a vista, vê estreitar-se o espaço, e fulgurar-lhe
perto o espectaculo da morte, a sepultura cavada no chão, o somno
derradeiro... ai!... infeliz!... Precisa de religião que lhe allivie o
peito, de fé que lhe alimente esperanças, de crença firme na eternidade
e na misericordia divina, que unica póde perdoar-lhe os crimes!

Era este já o estado de Moraes, e procurando a Igreja de seus pais, quem
sabe--fallava-lhe o seu pensamento--se depararia com algum lenitivo
aos seus males pungentes!

Custou-lhe a achar uma quasi choupana, sem aspecto e nem perspectiva de
templo, aonde se celebrava o culto romano por alguns poucos fieis que
residião em Hollanda, e não adoptavão o calvinismo, ou lutheranismo, que
predominavão na maioria do povo.

Tremulo, convulso e submisso peneirou os umbraes da porta. Achou-se
dentro da igreja, em face de tres altares ornados com imagens, cobertos
de flôres allegoricas, scintillantes de luzes. Appareceu-lhe ao lado a
pia com a agua benta para se purificar dos peccados. Celebravão os
sacerdotes missas solemnes, com canto, coros e musica de orgão.
Exaltavão-se as grandezas e o poder de Deos eterno, e anjos com azas
brancas, santos prostrados, e parecendo interceder pelos homens, as
vestes sagradas dos padres e assessores, e a linguagem mystica latina,
formavão um espectaculo imponente da magestade do culto.

Como alegra o viandante cansado e atormentado por sol ardente e areiaes
abrazadores a vista de um oasis no seio do deserto da Arabia? Como sorri
o encontro de uma fonte crystallina a quem arqueja de sede devoradora?
Assomou assim á mente de Moraes uma sensação balsamica, deliciosa,
salvadora quasi, que lhe borrifou o pensamento com idéas mais
prazenteiras, com um raio de luz que lhe resplendeu nos arcanos d'alma,
e allumiou-lhe o espirito.

Prostrou-se contrito como penitente. Raiou-lhe a esperança com as vozes
dos sacerdotes, a presença dos altares, a vista dos santos, o aspecto
das flôres e ornamentos, o som harmonico do orgão. Elevou até o throno
de Deos o grito do seu arrependimento, e implorou-lhe a immensidade da
sua misericordia.

Duas horas ahi passou, de joelhos, firme e mais socegado,
parecendo-lhe que durante esse tempo lhe concedia a Providencia divina
uma vida nova, e promettia um melhor porvir. Para sahir do recinto do
templo foi preciso que os empregados lhe annunciassem que tinhão de
fechar-lhe as portas.

Descobríra porém o balsamo alliviador dos soffrimentos do seu espirito.
Que lhe dizia agora a alma que fizesse para completar a cura, e
trazer-lhe o socego?


CAPITULO X

Ao amanhecer do dia immediato deixou Amsterdam, e partio para Haya.
Chegado á capital dos Estados de Hollanda, indagou aonde residia o
emissario e agente diplomatico portuguez, acreditado perante o governo
do stathouder, e que era então o padre Antonio Vieira, Jesuita
celebrisado, prégador excelso, e amigo particular de D. João IVº, rei de
Portugal, incumbido de negociar pazes com os Estados Geraes, afim de
poder sustentar a guerra da independencia, em que laborava contra
Hespanha.

Dirigio-se para a sua habitação, e pedio ser levado á presença da
illustre personagem. Introduzido em uma sala simplesmente arranjada,
brilhando mais pela modestia e decencia que pelos ornamentos de luxo tão
proprios dos agentes diplomaticos, que nas apparencias assentão a sua
dignidade e cuidão realçar o seu credito e caracter, descobrio a um
canto sentado em uma poltrona um homem, revestido com a roupeta negra e
comprida da companhia de santo Ignacio, tendo um pequeno barrete preto
coroando-lhe a cabeça, e occupado em escrever sobre uma mesa singela e
repleta de papeis, a que se encostava absorto, parecendo não prestar
attenção ao que em torno d'elle se passava.

Contemplou-o Moraes cuidadosamente. Era a sua estatura mais que mediana.
Fronte larga, espaçosa, manifestando protuberancias salientes.
Olhos vivos e scintillantes. Rosto e queixo povoados de barba espessa,
que começava a embranquecer. Aspecto respeitoso e severo.

Aquella roupeta, aquelle barrete, que elle nunca mais víra desde que
deixára o Rio da Prata, lhe avivárão reminiscencias de São Paulo, e
anuviárão o pensamento com extraordinarios impetos. Fulgurou-lhe á mente
a idéa que estava ainda na companhia de santo Ignacio, e perante esses
varões respeitaveis, virtuosos e santos, cuja veneração guardava no
intimo do peito.

Não ousava approximar-se ao Jesuita, e nem perturba-lo nas suas
occupações. Esperou que o padre por si mesmo lhe percebesse a presença,
e lhe dirigisse a palavra, o que não tardou em realisar-se, Virando-se
por acaso Antonio Vieira, vio de pé, em attitude submissa e quieta,
aquelle vulto, e perguntou-lhe o que queria, sem fazer um gesto e
nem mover-se do assento.

--Sou Portuguez, e preciso fallar á Vossa Reverendissima,--respondeu-lhe
humildemente.

--Como vos chamais?--continuou o padre pela mesma maneira com que lhe
fizera a primeira pergunta.

--Manuel de Moraes é o meu nome,--disse-lhe acanhadamente o desgraçado.

Levantou-se subito Antonio Vieira da sua poltrona, avançou alguns passos
para o sitio em que estava Moraes, encarou-o com cuidado e perspicacia,
e dirigio-lhe as seguintes palavras:

--Conheço-o bem. Tome banco, e communique-me o que deseja.

--Nasci em São Paulo,--proseguio de pé Moraes, não ousando obedecer ao
padre, que lhe ordenára de sentar-se.

--Sei, sei,--interrompeu-o o Jesuita.--Não precisa desdobrar
paginas que o devem amargurar. Sei toda a sua vida.

--Pois se o reverendo padre a sabe,--continuou Manuel de Moraes,--inutil
é que eu o incommode e roube o tempo.

E um signal de despeito se espalhou por toda a sua physionomia, o qual
Antonio Vieira penetrou immediatamente, e traçou de desfazer com certo
affecto, e sorriso meigo, que lhe morreu nos labios, apenas elles o
denunciárão.

--Não tem razão,--disse-lhe o Jesuita.--Abanque-se, e conversemos. Eu
pertenço ao Instituto de santo Ignacio de Loyola. Parece que da sua
memoria se não varreu ainda o procedimento dos servos de Deos, que o
educárão em São Paulo. Nutre contra elles algum motivo de queixa?

--Oh não!--exclamou Moraes.--Deixárão-me gravadas eternamente no
espirito e no coração as mais saudosas lembranças. Mas eu reverendo
padre, illudi-me, pensando que não nascêra para os santos misteres da
companhia. Um espirito inimigo me arrancou do seu socegado e glorioso
asylo. Aquellas virtudes primorosas, mas asceticas, aquella vida
exemplar de sacrificios constantes e de devotação solitaria em pró dos
homens, parecêrão-me superiores ás minhas aspirações e forças. Faltou-me
a vocação, a fé, a persistencia do animo. Preferia servir a meus pais no
lar domestico, coadjuvar minha familia nos meneios da vida, e pertencer
ao mundo. Repellio-me meu pai... Entreguei-me ás aventuras. Atravessei
desertos. Cahi prisioneiro...

--Isso nada é--cortou-lhe o Jesuita o discurso, carregando o sobrolho;
apertando os labios, e reganhando o aspecto da severidade.--Ahi não ha
crime ainda... ha desgraças apenas.

--Perdôe-me o reverendo padre,--gritou soluçando Moraes, e
atirando-se ao chão.--Tem razão. Tem toda a razão. Mas Deos não perdôa
quando ha arrependimento sincero e firme? Arrependo-me, arrependo-me.
Passou-se a época das loucuras. Estou preparado para todos os
sacrificios que possão remir os meus crimes. Ancio por confessar-me,
fazer quantas penitencias me recommendarem, soffrer as penas que me
impuzerem, comtanto que volte á minha santa religião, unica que
reconheço por verdadeira, e possa regressar para a minha patria, para o
seio dos meus parentes, e para a santa companhia, acabando os meus dias
no serviço de Deos, e esperando o seu perdão na eternidade!

Fixou n'elle o padre olhares vibrantes e perscrutadores. Quiz ler-lhe na
consciencia, descer-lhe ao fundo d'alma, e descobrir a verdade da
retractação e sua espontaneidade. Não se tratava de um gentio
selvagem, puro e innocente, nomade e ignorante, despido de idéas
sociaes e religiosas, que Antonio Vieira encontrára em multidão errante
no seio das florestas brazileiras, e que elle sabia tão perfeita e
carinhosamente affeiçoar á grei catholica, chama-lo á religião santa de
Christo, e fazer-lhe abraçar de um trago o baptismo com a fé, não
guardando no coração pensamento adverso ou malicioso. Fôra Antonio
Vieira um missionario magistral, e se habituára a considerar o indigena
das solidões da Bahia, do Maranhão e do Pará como uma criança, que
aceita sincera e convencidamente os conselhos do religioso provecto, e
se lhe dedica com todo o fervor ingenuo da alma e do espirito. Outra era
porém a situação de um Portuguez, que esquecêra o seu culto, postergára
os seus deveres religiosos, e apostatára da sua fé, trocando-a pelas
doutrinas dissidentes e schismaticas que perdião o mundo. Mais
difficultosa e grave era ainda a sua posição, tendo em presença um
homem que elle sabia instruido, intelligente, e atormentado de paixões
tumultuosas.

--Manuel de Moraes,--disse-lhe o padre, erguendo-se como o sacerdote, e
tomando a attitude que cabia a quem não fallava já como homem, mas
obrava como representante de Deos e da Igreja.--Como posso dar credito
ás vossas vozes, quando contra vós proclama uma serie constante de
procedimentos indecorosos, uma lista de crimes infamantes?

--Não proclama só, reverendo padre,--retorquio-lhe Moraes;--condemna-me
até com força e verdade; sei-o eu mais que ninguem. Daria porém este
passo por interesse? O que me falta na vida, se a pretendesse continuar
como até agora?

--Sois ardiloso,--disse-lhe o Jesuita.--Conheço-vos muito pelos vossos
escriptos, e pela fama dos talentos que Deos vos concedeu. Como
patriota, não nutro a menor duvida, porque a defesa que publicastes
da nossa revolução de 1640 o certifica de sobejo. Não basta porém
isso... não... A religião é superior a tudo. O que é patria, sociedade,
familia, homem, sem a religião de Christo, dos seus apostolos, dos seus
santos canonisados, da sua Igreja universal e eterna, do seu
representante na terra, que é o Summo Pontifice de Roma? Fragil tudo,
barro incolor e imprestavel, materia inerte, selvageria miseranda,
animalia bruta. Aos interesses mundanos se antepõem as aspirações
sagradas e as cousas divinas. Ao homem a familia, á familia a sociedade,
á sociedade a patria, e á patria a religião unica e verdadeira de Deos,
que é a catholica apostolica romana, da qual são servos humilissimos os
socios e discipulos de santo Ignacio, que abandonastes e renegastes!

--É sincero, meu padre,--continuou Moraes,--é sincero o meu
arrependimento. Torturão-me os remorsos. Não me deixe morrer sem
retractar-me, e expiar os meus crimes. Não me deixe finar nas penas do
inferno, que me devastão, assolão e martyrisão já. Tenha piedade.
Guie-me. Ensine-me o caminho da esperança, que allivia, quando mesmo não
salve!

Forão estas palavras acompanhadas por tão abundantes lagrimas que
inundárão o semblante de Moraes, e proferidas com accento tão
enternecido e convencidamente profundo, que o Jesuita se impressionou em
pró do penitente, e arrancando do pescoço uma enorme cruz pendida de um
rosario que o ornava, apresentou-a a Moraes, que a beijou incontinente
com fervoroso affecto, e dando evidentes demonstrações de arrependimento
consciencioso.

--Levanta-te, peccador!--disse-lhe o padre, e abrindo uma porta, que lhe
apontou com a mão, continuou:--Eis alli um oratorio. Alli está a
imagem de Deos. Curva-te diante d'elle, dirige-lhe tuas preces, e pede o
teu perdão.

Ergueu-se Moraes de subito, correu para o oratorio annunciado, transpôz
a porta, e atirou-se de joelhos diante de um altar allumiado por uma
lampada de prata e quatro velas de cêra, que lançavão um clarão funebre
e merencorio.

Estava em cima do altar um grande quadro representando Jesus
crucificado. Gottejava-lhe o sangue das mãos, dos pés, e das numerosas
feridas de que tinha o corpo atravessado. Serenidade celeste e magestosa
lhe pairava por sobre as faces esbranquiçadas. Dos olhos amortecidos
partião raios vivazes de innocencia, pureza e santidade ineffavel.
Parecia proclamar ainda ao mundo as verdades eternas, a moral e a
fraternidade humanitaria. Pintava-se agarrada aos pés da cruz a afflicta
Mãi, carpindo a dôr que lhe dilacerava o peito, e lhe raiava
sublime pelas faces enternecidas. De um lado do quadro a grande figura
de santo Ignacio de Loyola prégava a disciplina e o enthusiasmo para
combater o protestantismo. São Pedro, do outro lado, mostrava as chaves
do céo, e cingia a tiára augusta dos Pontifices de Roma, cabeça da
Igreja catholica.

Sentio Manuel coar-lhe pelas veias como que um lenitivo, senão jubilo,
diante d'essas santas imagens. Despio-se a sua alma do sopro frio e
secco do calvinismo, aquecendo-se ás chammas mysteriosas do culto
salvador e misericordioso. Não lhe esquecêrão orações enternecidas,
preces da mocidade, e sinceras demonstrações de convicção e fé.
Sorrio-lhe a esperança, a vida, a eternidade sob nova physionomia.
Rasgou-se-lhe aos sentidos, e ao espirito, um vago, diaphano e
indefinido futuro, que já não era o da desesperação, como até então
antevia, e com que tanto se assustava.

Tempo bastante deixou-o a sós o padre Antonio Vieira na posição de
peccador e penitente. Aproveitou Moraes esse espaço, saboreando-o a
tragos apraziveis, inundando-se de esperanças prazenteiras, e reganhando
a fé perdida, que se lhe entranhou profundamente, e se apossou de sua
mente inteira. Dir-se-hia outro homem, mudado, metamorphoseado, crente,
e ancioso de entregar-se ao serviço de Deos eterno, e da sua Igreja
universal, para remir por meio de todos os sacrificios, que o não
aterrorisavão já, os seus peccados e crimes, e alcançar a sua salvação
eterna.

Chegou-se a passos vagarosos para o pé d'elle o celebrisado Jesuita.
Percebeu-o absorto na contemplação celeste, raiando-lhe o semblante com
uma alegria extraordinaria, dedicado fervorosamente á adoração, entregue
a pensamentos puros e divinos. Admirou-o na sua contricção, e
convenceu-se de que provinha o seu arrependimento de espontaneidade
e sinceridade da consciencia, e que o catholicismo e a companhia de
Jesus ganharião muito com a abjuração da sua apostasia.

Estava o padre acostumado a assistir a arrependimentos serios, e a
devoções preciosas e inspiradas subitamente depois de uma carreira
lamentavel de crimes, como se a Providencia divina prezasse sacar do mal
infindo o prestimoso bem, e mostrar que a retractacão convencida e
conscienciosa conseguia o esquecimento de peccados horriveis, e salvava
os infelizes que, recuados dos seus impetos de loucura, se soccorrião á
sua inextinguivel piedade.

Não iniciára o proprio santo Ignacio de Loyola a sua vida tormentosa no
turbilhão de feitos escandalosos? Não se convertêrão em seus discipulos
e se tornárão exemplares de virtudes selectas individuos exaltados
repentinamente pelas obras meritorias e gloriosas dos padres da
companhia? Não se recrutára e resplandecêra o Instituto algumas
vezes com peccadores que se reputavão perdidos, e que uma vida nova de
sacrificios attrahira á salvação das suas almas, e ao serviço heroico e
humanitario da companhia? Não conseguira Madgalena ser por fim
canonisada santa da Igreja, após enormes acções, que a prostravão na
miseria degradante e infima?

Era por demais avisado o Jesuita para se enganar em presença de
manifestações tão expressivas, e para deixar perder-se uma occasião tão
propicia, que offerecia ao Instituto recuperar uma intelligencia
primorosa, e um sujeito ornado dos mais bellos e distinctos dotes e
qualidades.

Não lhe bastavão os triumphos adquiridos nos sertões do Brazil sobre
tribus inteiras de gentios desgarrados e errantes, que chamára ao gremio
da igreja santa. Não se reputava o Instituto devotado exclusivamente á
catechisação e civilisação dos selvagens dos desertos americanos,
como praticavão ainda os discipulos de santo Ignacio, expondo-se
corajosos e enthusiasticamente á fome, á sede, ás perseguições, ás
frexas envenenadas dos gentios, e á morte cruel, que alguns encontravão
na solidão das mattas virgens; nem tambem a conseguir abjurações de
rajahs e povos idolatras da Asia, como São Francisco Xavier, apostolo
das Indias. Mais poderosa aspiração e ambição mais elevada lhe exaltavão
e dirigião o animo. Anciava por ver a companhia alçar-se em prestigio na
Europa, combatendo com denodo os schismas que rasgavão a Igreja
Catholica, domando as autoridades civis, superintendendo os soberanos, e
impondo-se ao poder temporal, e á marcha dos governos. Verdadeiro
revolucionario politico e religioso, empregava a penna escrevendo
constantemente e publicando umas sobre outras obras primorosas, e não
poupava a palavra, fallando dos pulpitos aos reis, aos nobres, ao
clero, e ao povo, que se apinhavão nos templos para ouvi-lo prégar, e
admirar-lhe a portentosa eloquencia, e a instrucção variada e
interessante. Convencido de que a companhia de Jesus era um instrumento
da Igreja e do Papa, não repousava em seus trabalhos. Conseguira fazer
resoar os templos da Bahia, de Lisboa e de Roma sob os échos agradaveis
e harmoniosos de sua voz admiravel, e gemer os prelos typographicos com
a tarefa ininterrompida de manufacturar os seus livros. Recebêra missões
secretas e politicas de Dom João IVº de Portugal para Roma, França e
Hollanda, e em pró do seu paiz negociava ainda allianças de nações
estranhas, que o ajudassem contra Hespanha.

Despedia a sua palavra o fogo sagrado. Queimava como incendio, feria
como punhal afiado e agudo. Seduzia, arrastava, captivava, e enchia ao
mesmo tempo de encantos os ouvintes todos. Manifestava a sua penna
uma logica cerrada, um estylo pomposo e correcto, uma cópia espantosa de
erudição, e imagens apropriadas, interessantes e arrebatadoras.

Alma grande, sublime espirito, eloquencia superior, corpo affeito a
trabalhos e fatigas, indifferente a perigos, devia justamente passar o
padre Antonio Vieira, nascido em Lisboa, criado e educado na Bahia, por
um dos homens mais extraordinarios que tem o mundo produzido: meio
Portuguez e meio Brazileiro; meio civil e meio religioso; meio patriota
e meio romano; gozou devidamente em sua vida de uma fama universal e
legou á posteridade um nome de engenho selecto, grandioso e admiravel.


CAPITULO XI

Notámos já que o padre Antonio Vieira, percebendo a sinceridade dos
passos e desejos de Manuel de Moraes, se chegára para elle, posto o não
interrompesse na sua adoração mystica. Logo porém que percebeu occasião
opportuna, se apresentou-lhe á frente, lançou-lhe uma benção paterna com
apparatosa solemnidade, e ajoelhou-se igualmente a seu lado, rezando com
devoção, e implorando a misericordia divina em pró do acolhimento no
gremio da sua Igreja da ovelha desgarrada do rebanho, e que
espontanea e convencidamente voltava para viver e morrer no seio d'elle.

Erguendo-se depois, disse a Moraes em tom resoluto:--Approxima-te do
confessionario, ajoelha-te perante o sacerdote de Deos, e revela-lhe
todo o teu coração!

Obedeceu-lhe Moraes. Sentou-se o Jesuita no confessionario, e a seus pés
se prostrou o penitente. Longa foi a confissão com o summariar de
aventuras, erros, peccados e crimes de acção e intenção que formárão a
vida do renegado. Interrompião-na a miudo soluços magoados, abundantes
demonstrações de dôr, e jorros de lagrimas que lhe saltavão dos olhos.
Quando a terminou Moraes, levantou-se o Jesuita, cravou as suas vistas
no altar, como quem lhe pedia conselhos ou auxilio, e balbuciou preces
repetidas. Benzeu depois ao penitente, e designou-lhe a penitencia que
lhe cabia para encetar a vida nova que se lhe destinava. Deixou-o
ainda no oratorio, e retirou-se para o seu aposento enternecido, e ao
mesmo tempo contente e satisfeito com o que se passára, como de um feito
importante que lhe devia augmentar os serviços e a gloria!

Mudou inteiramente Manuel de Moraes. Posto conservasse aspecto triste e
meditabundo, recuperára o repouso d'alma e do espirito, e com elle o do
corpo. Intima alegria lhe proclamava o acerto da sua nova abjuração, que
tornou publica, segundo as ordens do padre Antonio Vieira. Cumprindo com
os seus deveres religiosos, parecia-lhe que alliviava o animo de um peso
insupportavel, que o acabrunhava outr'ora constantemente. Rompeu com o
mundo que o rodeiava, cortou as relações e conhecimentos que possuíra, e
o padre, a igreja e o estudo occupárão d'ahi por diante e
exclusivamente todos os seus momentos. Estimava-o o Jesuita, prezava-o
já, e recommendou-lhe escrevesse uma historia da America
portugueza, que elle conhecia perfeitamente, e com referencia em
particular ás invasões e occupações dos Hollandezes, cuja lingua
praticava, e cujos livros lia com facilidade. Quando lhe considerou
completa a abjuração, annunciou-lhe a necessidade de partir para Lisboa,
afim de ahi reentrando para a companhia de Jesus, e logrando o seu
perdão do soberano, e permissão do provincial, passar-se para o Brazil,
e dedicar-se com fervor á catechisação dos gentios.

--Cumpre rehabilitar-te,--disse-lhe,--n'aquella sociedade e n'aquelle
governo. Encontras nas capitanias do Brazil trabalhos escabrosos,
fadigas superiores, perigos incessantes, e talvez a morte cruel amarrado
a algum cepo, ou ao sibillar de uma frexa de gentio selvagem. Mas
liquidarás as contas dos teus peccados com os sacrificios e feitos
honrosos que commetteres. O Deos misericordioso te acolherá nos
seus braços divinos. Não hão de ser só os Brazis que te hão de pôr á
prova de calamidades e amarguras, de resignação e paciencia. Maiores
incommodos te causaráõ os brancos europêos, e a sua raça americana, que
anhelão unicamente accumular riquezas, captivando, roubando e destruindo
os infelizes gentios, sem freio moral e religioso. Acima d'elles estão
ainda o governador e as autoridades da colonia, insaciaveis,
perseguidores, tyrannicos, despoticos, para quem não ha lei humana ou
divina, e com quem terás de arrostar, no serviço da companhia de Jesus,
e na pratica das virtudes christãs e dos dogmas e disciplina da Igreja.
Precisas encher com feitos heroicos e meritorios do corpo e do espirito
as paginas negras que lavraste no livro da tua existencia atormentada e
virtiginosa. Não bastão a fé e a convicção conscienciosa para com Deos e
os homens, volvendo dos erros e crimes para o caminho da verdade.
Tornão-se indispensaveis muitos exemplos de virtudes e serios
sacrificios para te restaurarem no conceito geral, e perante o Eterno.
Eu tambem atravessei desertos e mattas virgens, subi montanhas, transpuz
rios caudalosos, avassallei distancias abandonadas, só, inerme, confiado
na cruz de Christo que trazia ao peito, vigorado pela fé, e fortificado
pelos desejos de commetter serviços em pró da religião. Avistei-me com
tribus nomades de gentio desconhecido. Senti armar-se o arco,
desprender-se a frexa, roncar a tacape por cima da minha cabeça,
roçando-me os cabellos com sibillos horriveis e aterradores. Achei-me
amarrado ao tronco da arvore, despido das vestes e exposto á morte mais
tormentosa. Vi-lhes as velhas nojentas, chegando-se para mim com as suas
cabaças, sequiosas do meu sangue, bezuntando-me o corpo com tintas
vermelhas e pretas, dansando horrivelmente em torno como megeras,
retorcendo-se como serpentes damnadas, e gritando como espiritos do
inferno. Escapei aos perigos por milagre de Deos, e catechisei numerosa
cópia de Brazis desgraçados, que á minha palavra se ameigavão, á minha
voz abandonárão a sua vida errante e seus costumes selvagens, e aos meus
conselhos e exhortações recebião o baptismo, e abraçavão a religião
catholica e a vida social, sahindo da miseria e da perdição. Formei
muitas aldeias de indigenas catechisados, que se tornárão tão bons ou
melhores catholicos e vassallos que os proprios conquistadores do seu
paiz e das suas terras. Nada d'isso me curtio de dissabores, e nem me
pareceu pesado sacrificio. Mas os Portuguezes aventureiros, e
principalmente os governadores, capitães-generaes, capitães-móres,
autoridades, e empregados publicos da metropole, forão,--sim,--a pedra
de toque de minha humildade e paciencia. Eis a vida do Jesuita
missionario. Homem, não pertence á humanidade senão pelo lado
espiritual, e á sociedade senão pela vida dos sacrificios. Padre, não
vive no descanso do claustro e no repouso da communhão. É propriedade
dos desertos, das missões longinquas, dos perigos, das almas perdidas
dos gentios, da morte ingloria no meio das brenhas. Não são d'este mundo
os seus bens e gozos. Lembra-te de José de Anchietta ou de Manuel da
Nobrega. Caminha em vida para o céo através de cachopos levantados a
cada instante diante de teus passos, e a teu lado, afim de te provarem a
devoção, e te apurarem o sentimento humano. Avança sem dobrar o collo,
sem perder a resignação evangelica, sem renegar a piedade, sem esquecer
a caridade christã, sem conhecer o desanimo, e nem olhar para trás de
ti. Envolve-te em manto novo, e regressando para a companhia de Jesus,
ennobrece-te e exalta-te no serviço da Igreja e na propagação da fé
catholica com feitos meritorios e gloriosos. Será a penitencia reservada
ao teu arrependimento, e o balsamo que mitigará os teus remorsos.

Aprazia a Moraes esta linguagem do padre venerando e insigne. Coincidia
com os seus desejos. Nada o apegava mais á terra hollandeza. Havião
findado os seus amores e os seus deveres sociaes, com o passamento
d'aquella creatura humana que o encantára e enfeitiçára com tamanha
força. Não o prendia o tumulo, que lhe cobrira os restos mortaes, posto
ahi corresse de quando em quando a lançar-lhe flôres doridas de saudade,
porque o coração lhe dizia que fôra a hallucinação apaixonada, que se
havia apoderado de todos os seus sentidos, a causa da primeira e fatal
abjuração religiosa, que lhe pesava constantemente sobre a alma.

Occorrêra além d'isso que Brodechevius, a quem consagrava affecto filial
pelas suas qualidades virtuosas, e pelo acolhimento com que sempre o
favorecera, não lográra resistir á morte de Beatriz, e conservar-se no
mundo. Arrebatára-o a morte mezes logo depois do infausto acontecimento.
Que lhe restava em Hollanda, a que mais se chegasse?

Soárão-lhe os conselhos e exhortações do padre Antonio Vieira como uma
esperança mais para se conciliar com Deos e com a Igreja. Abrindo-lhe a
companhia de novo os braços, regressando para o seu gremio, dedicando-se
ao seu serviço, volvendo para a sua patria, não conseguiria rever os
pais e a familia querida, receber o seu perdão igualmente, e gastar os
ultimos dias de vida de um modo util, proveitoso e santo?

Não o aterrorisavão os trabalhos e sacrificios que se lhe reservavão.
Não temia os perigos da tarefa de missionario, porque elles o exaltarião
no amor de Deos, e o fortalecerião na fé do culto catholico. Não
poderia commetter feitos que lhe remissem os peccados, e afeiçoassem a
misericordia divina?

Preparou-se para partir, abandonando Hollanda para sempre. Não podendo
seguir por terra e embarcar-se em qualquer porto de França, por causa do
dominio castelhano na Belgica, tomou passagem em um navio hollandez que
seguia de Rotterdam. Recebeu cartas de recommendação do padre Antonio
Vieira para o provincial dos Jesuitas em Portugal, para alguns
funccionarios importantes e fidalgos distinctos em Lisboa, e
particularmente para Dom Francisco Manuel de Mello. Despedio-se do
Jesuita seu protector, que tinha de partir para Munster, no serviço do
seu soberano.

Não quiz esquivar-se á obrigação de dizer o ultimo adeos áquella que lhe
dominára em vida o coração e o espirito, e o hallucinára a ponto de
perder a sua razão e comprometter a sua alma. Seguio para Amsterdam, que
lhe recordava acontecimentos que lhe parecêrão felizes a principio, e se
lhe tornárão depois tão dolorosos e infaustos. Dirigio-se para o
cemiterio, aonde parava a sepultura querida. Ornava-a uma columna de
marmore, cercada por uma grande cadeia de ferro. Em grandes lettras
douradas se esculpira o nome de Beatriz de Moraes, com a data do seu
nascimento e da sua morte. Pallidas roseiras lhe vicejavão em torno, e
um cypreste sombrio lhe deitava por cima os galhos dispersos e
desordenados. Rodeiavão a grade pequenos arbustos, brotando flôres
merencorias nas estações competentes.

Impressionárão-lhe profundamente o aspecto do tumulo, o silencio que
reinava, e as reminiscencias que lhe assaltárão o animo. Approximou-se
com respeito, e rebentárão-lhe dos olhos prantos amargurados.
Ajoelhou-se, dirigio suas preces a Deos, e atirando-lhe em cima
ramos de flôres saudosas, exclamou enternecido:

--Mulher adorada! uma fatalidade inesperada nos reunio, uma louca paixão
nos enlaçou, um crime nasceu do nosso amor! Fomos mutua causa das nossas
desditas e calamidades. Assim nos perdôe Deos no mundo da eternidade,
para o qual já te passaste, e aonde não tardarei a seguir-te! Só Deos é
grande!

Lançou-lhe um derradeiro olhar. Tinha cumprido com os seus deveres.
Affrontára a provança cruel, e a dominára com força.

Embarcou-se em Rotterdam para Lisboa.

Atirárão os mares por vezes o miseravel baixel sobre as costas de França
e de Inglaterra, ao atravessar o canal perigoso que as separa, e aonde
os ventos se encrespão com tanta furia, e se desencadeião com espantosa
e repetida violencia.

Dobrado o cabo de Finisterra, não o poupou o golpho da Gasconha,
celebrisado pelas suas constantes tormentas. Ondas precipitadas,
correntes de agua, e furacões desordenados, parecião pretender devorar o
galeão e os seus hospedes imprudentes.

Vencêrão os nautas todos os perigos. Ao entrarem porém no Oceano,
dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellião, enviando-lhes
ventos impetuosos de leste, que os arrastavão para o largo. Mais de
quarenta dias despendêrão até que lograssem avistar as montanhas de
Cintra. Aproárão á barra do Tejo, com os mastros do galeão partidos,
velas rasgadas, cortado em pedaços, e falta quasi completa de alimentos
e aguada. Dobrárão felizmente o cabo, e penetrárão dentro das aguas
mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigião.

Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos
e minuciosos interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para
a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao
tomar conhecimento das recommendações do padre Antonio Vieira, o acolheu
com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto.

Não terião decorrido duas horas depois que se abrigára ao Instituto de
santo Ignacio, quando soldados armados, e fâmulos cobertos com as
insignias do Santo Officio da Inquisição, se apresentárão á porta da
casa santa, exigindo fallar ao provincial, e derramando espanto no
claustro e em todo o povo da vizinhança.

Levados á presença do veneravel sacerdote, intimárão-lhe uma ordem do
tribunal, reclamando a entrega de Manuel de Moraes, chegado de Hollanda,
e asylado na companhia, réo dos crimes de abjuração e apostasia, e
sujeito á jurisdicção do Santo Officio.

Conferenciou o provincial com varios padres respeitaveis e
illustrados sobre o que lhe convinha praticar em honra do Instituto e em
defesa dos seus direitos. Concordárão todos unanimemente, que offendia
os fóros e privilegios da companhia a ordem inaudita do tribunal da
Inquisição, mas lhe não podia o provincial oppôr resistencia,
cumprindo-lhe apenas entregar o preso, e dirigir os seus protestos ao
governo e ao soberano, afim de reinvindica-lo como membro do Instituto,
e julga-lo segundo os seus regulamentos, quando se lhe imputassem crimes
dignos de punição e castigo.

Executou-se a ordem do Santo Officio. Sahio Manuel de Moraes da casa da
companhia de Jesus, e se passou para o poder da Inquisição. Corria então
o anno de 1645.


CAPITULO XII

Estava então o edificio da Inquisição no largo do Rocio, assoberbando a
praça com os seus muros tristes de pedra, e suas portas robustas de
ferro. Formava uma massa disforme, mas grandiosa, sem bellezas
architecturaes, mas de aspecto imponente e fortificado.

Destacado no fundo do Rocio, rodeiado de soldados e guardas, que velavão
noite e dia, contendo as salas do tribunal, os carceres, as cellas dos
presos, os quartos dos tormentos e torturas, e os aposentos das
penitencias, afugentava o palacio de perto de si e dos seus arredores as
massas tranquillas do povo, que o não avistava sem benzer-se devotamente
e tirar-lhe o chapéo com respeitoso acatamento, temendo suspeitas e
castigo.

Nem pedras restão hoje do barbaro edificio. Uma por uma forão pela
população exasperada de Lisboa distrahidas do seu lugar, arrancadas á
força, e dispersas em desordem, quando as côrtes constituintes de 1821
abolírão a instituição do Santo Officio, e extinguírão para sempre o
tribunal execrando.

Por cima do palacio da Inquisição levanta-se actualmente o lindo theatro
de Maria II, fazendo substituir o riso, os prazeres e os divertimentos
alegres, ás scenas de dôres e de sangue commettidas outr'ora dentro
d'aquelles muros enfumaçados, e que nodoárão as paginas da historia
portugueza.

Foi Manuel de Moraes para alli conduzido. Ao penetrar os umbraes da
porta principal por entre fileiras de guardas armados, ao avistar a
enorme estatua de pedra da Fé, que resplandecia no topo da grande
escada, sentio coar-lhe pelo sangue um frio intenso, e anuviar-lhe o
espirito cogitações tenebrosas.

Atravessou varios páteos escusos e sombrios. Desceu e subio diversas
escadas allumiadas apenas pelo frouxo clarão de lampadas pregadas no
tecto. Ouvio ranger gonzos pesados de portas, que se abrião e fechavão.
Respirava-se dentro um odor infecto, que parecia exhalação de cadaveres.
Dir-se-hia que as paredes gottejavão sangue humano, e gemidos de
infelizes creaturas echoavão pelos longos corredores abobadados.
Trajavão os empregados vestes iguaes, resplandecendo-lhes ao peito uma
grande cruz pintada de côr amarella, e cobrindo-lhes as cabeças um capuz
que lhes escondia as faces.

Reinava uma lugubre tristeza, um horror extraordinario, que se entornava
por todos os sitios e reconditos do edificio, e amedrontava os sentidos
dos entes malfadados que alli penetravão.

Depois de muitas voltas, e palavras baixas trocadas entre os guardas e
empregados, achou-se em um negro corredor, aonde se não adivinharia
caminho se o não aclareasse opacamente uma lampada acesa, collocada no
centro. Abrio-se a um dos lados uma porta de ferro, e foi Moraes
introduzido em um quarto pequeno, baixo, despido de ar e sombrio, que se
reputaria antes um sepulcro, cavado como que em rocha viva e humida.
Trancou-se-lhe a porta, apenas elle entrou para esta prisão solitaria,
que com difficuldade agazalharia duas pessoas juntas. Não havia um
leito, e nem-um traste. A unica cousa que se apercebia era um pucaro de
barro, que parecia cheio de agua, a um canto da cella. O chão de
tijollo servia de assento e uma porção de palhas espalhadas formavão a
cama. Negra escuridão o rodeiava, vasando-lhe ás vezes por uma fresta
aberta na parte superior da muralha um ou outro raio da lampada do
corredor contiguo, que descobria o preso aos guardas, que alli vigiavão
todas as acções e gestos dos presos, e lhes ouvião os ais e palavras,
por maiores cautelas que as victimas empregassem em abafa-los.

Só e n'esta penosa posição, se entregou Moraes a um exame minucioso do
sitio em que se achava. Percorreu com os olhos o chão, o tecto, as
paredes. Deslumbrou aqui e alli dispersas manchas vermelhas que se
dirião de sangue borrifado no meio do colorido enfumaçado e sujo, e
hieroglyphicos sensiveis que se afiguravão traçados por mãos humanas.
Subírão-lhe á mente assombrada pensamentos amargos e tristonhos. Seria
sangue dos réos do Santo Officio que salpicava aquellas paredes?
Serião adeoses ao mundo que elles alli escrevêrão, e que já nem erão
decifraveis? Appareceria algum nome, alguma data, algum signal, por onde
se descobrisse o segredo que pretendessem legar aos posteriores?

Não logrou comprehender nem-um d'esses mysterios. Arripiou-se-lhe porém
todo o corpo com o seu aspecto merencorio, e assomou-lhe ao espirito a
historia tenebrosa do tribunal da Inquisição, que lançava o susto por
toda a parte, e sobre todo o povo, e era tão geralmente execrado pelos
seus crimes monstruosos.

Trouxe-lhe o cansaço o somno, porque a consciencia repousava tranquilla,
desde que abandonára o calvinismo, e volvêra á religião dos seus
maiores. O tempo que dormio não apreciou exactamente. As noites se
confundirão com os dias, sem que um signal de maior ou menor luz ou
claridade as deixasse verificar, no seio das trevas constantes que
inundavão monotonamente a cella solitaria.

Imaginava comsigo que raiava o dia quando, sem lhe abrir a porta da
prisão, rolava pelas paredes arranjadas adrede um novo pucaro de agua, e
uns pães seccos e duros, avisando-o uma voz cavernosa de fóra para os
receber, tira-los do lugar, e substitui-los pelo pucaro da vespera, que
se sumia logo com as mesmas mysteriosas cautelas, não ouvindo resposta
alguma á pergunta que dirigisse.

Lembrou-se de contar as vezes em que se verificava esta operação, e
pensou encontrar no seu numero a quantia dos dias de prisão. Mais de
quarenta erão já decorridos, quando sentio rumor mais sensivel de passos
e palavras baixas trocadas fóra da cella.

--A mim,--disse comsigo,--ou a outra victima vizinha procurão e buscão
para os tormentos e torturas.

Percebeu minutos depois abrir-se a sua porta. Ergueu-se, e vio apparecer
um vulto coberto de manto longo e escuro. Tornou a porta a fechar-se, e
achárão-se os dous cerrados um junto ao outro, quasi sem poderem fazer
livremente um gesto, pela estreiteza do aposento.

--Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada.

Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados
do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe
dirigíra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados
pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas
palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os
seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narrações de imaginarios crimes.

Deliberado porém a dizer a verdade inteira, fosse qual fosse o
resultado, e a se não deixar enganar com promessas fascinadoras,
respondeu ao vulto em tom resoluto.

--Não ha duvida que me chamo Manuel de Moraes.

--É vossa patria a povoação de São Paulo na capitania de São Vicente dos
Brazis?--continuou o vulto a perguntar-lhe.

--É verdade,--repetio Moraes.

--Fostes noviço na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o
habito?--continuou o vulto.

--Não posso, não devo, e nem quero nega-lo,--proseguio Moraes.

--E me não reconheceis?--disse-lhe o vulto, approximando-se do espaço
atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face
macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabeça despida
inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido.

Encarou-o Moraes em vão. Não lhe recordárão os seus olhos o homem que
tinhão diante de si. Traçou chamar em seu auxilio reminiscencias
passadas. Nem-uma idéa o coadjuvou nos seus intentos.

--Não me é possivel,--respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns
momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:--Sem duvida
querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos
envião para interrogar-me?

--Afastai do espirito,--replicou-lhe o Jesuita,--idéas tão erradas
quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela
persuasão e consciencia. Não dobra vontades com a força physica. Não
castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou
carceres. Deos todo poderoso é o unico juiz que reconhece para os
delictos dos homens. Não estais preso por ordem do Instituto de santo
Ignacio de Loyola. Sois réo do tribunal do Santo Officio da Inquisição.
Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo
as licenças necessarias para penetrar até esta prisão.

Profunda impressão produzírão sobre o desditoso Moraes essas palavras
pausadas, e proferidas com uma uncção tão aprimorada, que lhe levárão
certeza ao animo de robusta expressão de franqueza e verdade. Mas quem
era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a
idéa de não podê-lo descobrir e conhecer.

--Que quereis pois de mim?--disse-lhe meigamente.--Cheguei de Hollanda,
trazendo cartas de recommendação do veneravel padre Antonio Vieira, que
me protegeu e salvou do precipicio e da perdição eterna. Se sois Jesuita
como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e
documentos, que lá deixei quando os famulos da Inquisição me
arrancárão da santa morada.

--Tomou o nosso provincial conta de tudo--proseguio o vulto com
tristeza.--Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de
affeiçoar vontades e dedicações em pró de vossa pessoa e defesa.
Infelizmente porém não vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos
os esforços!

--Tenho de morrer!--proseguio Moraes.--Sinto-o tão cedo porque não
expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejára conservar-me
no mundo o tempo só preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos
ouve o meu sincero arrependimento, e será de certo misericordioso para
comigo!

--Ignorais que já vos condemnárão?--retorquio o vulto.

--Condemnado sem ser ouvido?--perguntou-lhe.

--Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e
apostata,--continuou o Jesuita.--Formou-se o processo, e lavrou-se
a sentença. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado
comtudo em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, e inscripto o
vosso nome no livro dos condemnados á morte.

--Nada me resta portanto no mundo?--exclamou Moraes.--Deixai-me então
rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobrão de vida,
para que me conceda a sua graça infinita!

--Ereis assim um réo já, e sujeito ao tribunal da Inquisição--proseguio
o velho--quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjuração,
e na protecção do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio
que vos havieis recolhido á nossa casa, e reclamou-vos com a sua justiça.

--E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?--murmurou
Manuel com indicios visiveis de despeito.

--Que póde contra a Inquisição a companhia de Jesus?--repetio-lhe o
padre.--São tão diversas as funcções respectivas das duas oppostas
instituições! Aquella cura da purificação da fé, e da orthodoxia romana,
constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes,
guardas, empregados, força publica, instrumentos de tortura, fogueiras,
processos e execuções. Limita-se esta ao espiritual, e ás cousas
sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo.
Quantos trabalhos lhe não tem custado salvar os Brazis da inquisição,
que desejaria lá como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a
Inquisição e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta
constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta,
emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte
imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos sãos, que
podem dar ainda viço e fructos.

--Mande-me ao menos--interrompeu Moraes--um padre, um amigo fiel para me
ouvir de confissão, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia!

--E que vim eu aqui fazer?--perguntou-lhe o Jesuita em tom de
queixa--para que penetraria por entre estes negros corredores, e
chegaria até aqui, se não houvera recebido encargo particular do nosso
provincial, e logrado licença do Santo Officio, para ver-vos,
fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que não
desampara os seus discipulos?

--Obrigado! obrigado!--proferio Moraes, deixando-se cahir aos pés do
padre, e esforçando-se em abraça-los com fervor.

--Levantai-vos, filho--continuou o vulto, tentando erguer o desgraçado e
apertando-o nos braços--não é tempo ainda de confissão e preparativos do
ultimo instante. Sou por ora um amigo, que procura consolar-vos, e
basta para que me presteis toda a vossa confiança recordar-vos de quem
sou... lembrar-vos do passado...

Observou Manuel que sahírão estas palavras no meio de suffocados
soluços, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e
copioso.

Por mais tratos porém que désse á memoria, não lhe foi possivel ainda
assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura
arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabeça, aquella voz doce e
attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencião no entanto de
que não o enganavão as expressões sinceras do seu respeitavel interlocutor.

Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse
interrompê-lo, até que o desconhecido, encostando-lhe a face, e
imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e
sonora:

--Não me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se
com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse
atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o véo que o
assombrava de todo.

--Olha--proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de
avivar-lhe a memoria--olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia
de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre
pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha
vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos
tortuosos, que trepão e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa
do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras,
jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabiás e pintados
gaturamos saudão a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e
a grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre
abaixo da cerca, que povoa o outeiro até a sua base, esse riacho, que
alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo
flôres sylvestres, que lhe brotão das margens alegres e festivas. Lança
para mais longe os olhos, e lá pairão a planicie com suas mattas
poderosas; o grande rio Tieté, que lhe rasga as entranhas; os morros da
Penha, que em distancia arrebatão os sentidos, e terminão em soberbo
amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e
balouçadas pelo brando zephyro, e que se não escapão jámais dos galhos
das arvores carinhosas, e nem jorrão murchas pelo chão como succede na
Europa durante a estação do outono. Nota esses gentios, côr de cobre,
que enchem os templos em multidão, orão devotamente, respeitão e
obedecem aos padres da companhia, e formão procissões religiosas. Não
avistas a povoação de São Paulo pelas lembranças, já que a não vêem
mais os teus olhos? Não me reconheces ainda?

--Meu Deos, meu Senhor!--gritou Moraes.--Que feridas me rasga este
padre, e não posso recordar-me d'elle!

--Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma
casinha branca, de telhas vermelhas,--continnou o vulto.--Morava n'ella
José de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que
lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue.

--Morto é já meu pai!--desgraçado!--Basta, basta!--interrompeu-o
Moraes.--Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixão!

--Não descobriste ainda?--repetio o padre.--Conto está obsecado o teu
espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!...
Lembra-te, filho, do padre que te disse: Desgraçado serás, porque a
Igreja calholica é a razão divina, a unica salvação da creatura humana.
Não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo
das miserias!

--Eusebio de Monserrate!--prorompeu em ancias afflictas Manuel de
Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os
sentidos, e cahindo sobre o chão frio do carcere.


CAPITULO XIII

Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paços da Inquisição,
encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial.

Expôz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era
sua opinião que a sua conversão ao catholicismo se baseava em
sinceridade e espontaneidade d'alma, e fôra o seu arrependimento
verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo
de santo Ignacio, e prestar relevantes serviços á religião e ao Estado.

Em relação no entanto ás suas pesquizas ácerca dos intentos do tribunal
do Santo Officio, perseverava em desconfiança de que confirmaria a
primeira sentença proferida em ausencia do réo, e não seria poupado o
infeliz no primeiro auto de fé que a Inquisição designasse.

Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforços e
empenhos afim de salvar o noviço, avocando-o a companhia como sujeito á
sua jurisdicção, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do
Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais:
Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes
da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a
cooperação e a autoridade d'el-rei e da rainha.

Concordárão em procurar todos os seus amigos, e aquelles individuos
para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus
auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira,
summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do
proprio soberano o perdão do noviço por uma missiva sua directa,
empenhando todo o seu valimento.

Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de
poucos dias em movimento, e trabalhando em pró de Manuel de Moraes. O
confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leão, desembargador da
casa da Supplicação, João Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha,
e varios individuos mais de influencia. Não pôde infelizmente Dom
Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o
roubara á liberdade, e o arrastára aos carceres. Ninguem valêra mais que
elle á sua chegada a Lisboa. Considerado pelos seus escriptos
primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e
Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e
independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e
expondo-se a perseguições do governo de Castella, de cujas prisões
lográra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavão, e recolhendo-se
a Portugal, travára por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeão
Francisco Cardoso, e o matára exasperado. Estava por esse motivo
processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvação que do
beneficio alheio.

Virão-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para
salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porém Dom João IVº em intrometter
a sua autoridade, ainda não solidamente estabelecida em Portugal, em
questões inherentes ao tribunal do Santo Officio.

Saltára a sua corôa do meio de uma revolução. Sahíra o seu throno de um
movimento popular, que fôra unisono no povo, e em maioria apenas na
nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reacções e
levantamentos dos que lhe não adherião ao governo, e perseveravão em
obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade
fidalgos e bispos, que se lhe oppunhão, e tramavão contra a sua
autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a
Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus
dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus
exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, não alcançavão
victorias assignaladas.

Cumpria portanto a Dom João IVº praticar na sua administração interior
uma tal moderação, que não augmentasse a somma de difficuldades e
perigos que lhe surgião por toda a parte. Que valia a salvação de
um noviço dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio,
que exercia influencia nos animos populares, e ajudava até o seu governo
nacional?

Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravão
de pertencer á Inquisição, e de lhe servir de famulos. E não estremecia
o povo todo diante dos seus actos e jurisdicção, reputando-a mais divina
que humana?

Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus
mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da
propria rainha Dona Luiza de Gusmão, que tomava o partido dos Jesuitas,
apezar de quanta affeição e confiança tributava el-rei á sua extremosa
consorte.

Sem a intervenção directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate
que perdidos serião todos os esforços empregados. Esvoaçava por
cima da sociedade portugueza da época o poder aterrorisador do Santo
Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a não ser el-rei em
pessoa, graças ao seu prestigio pessoal, e á necessidade que reconhecião
os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir ás
forças de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia.

Espalhavão-se por toda a parte espias da Inquisição, adivinhando acções,
gestos, palavras, pensamentos, para os denunciarem ao tribunal
execrando. Dir-se-hia que as paredes tinhão ouvidos, olhos os trastes
das casas, e lia a propria atmosphera no fundo d'alma os mais reconditos
segredos, porque chegavão todos ao conhecimento do Santo Officio, que
não tardava em expedir mandados de prisão, ordenar castigos, applicar
torturas, formar processos, lavrar sentenças rigorosas, preparar forcas
e fogueiras, espantando a multidão supersticiosa com os
espectaculos horriveis dos autos de fé, acreditados como sacramentos da
Igreja.

Não escapavão á sua jurisdicção condições, nem classes da sociedade. Era
o unico tribunal judiciario diante do qual desapparecião fóros e
privilegios, e que curvava á sua autoridade velhos, moços, crianças,
mulheres, aldeões, populares, obreiros, commerciantes, padres, frades,
fidalgos, grandes officiaes da Igreja, titulares e validos do soberano.

Não desanimou todavia o padre Monserrate, e quantas mais difficuldades
surgião adiante dos seus passos, quanto mais seus projectos se
nullificavão, mais tratos dava ao espirito para lembrar-lhe novos meios
a empregar, no intuito de conseguir o triumpho. Ardia-lhe no peito o
amor-proprio de Jesuita, que não queria consentir na affronta de
arrancar a Inquisição ao Instituto um seu noviço e membro, para o julgar
e condemnar livremente. Movia-lhe igualmente os affectos a
sympathia que lhe ganhára Moraes desde os seus mais verdes annos.
Accrescia a essas duas razões poderosas outra ainda de grande
importancia para o padre. Não fôra sincero o arrependimento de Moraes?
Não estava prompto a commetter todas as penitencias e sacificios que lhe
exigissem? Não podia prestar serviços relevantes á religião, á
companhia, ao Estado e aos gentios do Brazil? Não o perdoára Deos quando
espontaneamente lhe infiltrára no animo a idéa de abandonar riquezas e
posições honrosas em Hollanda, trajar de novo o habito da companhia,
dedicar-se á vida trabalhosa e miseravel do missionario, volver á sua
antiga fé e crenças religiosas, como a ovelha desgarrada que regressa
para o rebanho, ou o filho perdido que reganha a casa paterna? Quando
Deos se mostrára tão misericordioso, haveria justiça nos homens em
condemna-lo?

Proseguíra no entanto o tribunal no julgamento de Moraes. Revendo o
antigo processo instaurado na sua ausencia, e annexando-o a novo
summario, passou aos interrogatorios necessarios do réo, que por mais de
seis dias seguidos fôra tirado do seu aposento e conduzido á sala dos
juizes. Perguntas insinuantes a principio, argucias preparadas adrede e
geitosamente, lhe forão dirigidas para o apanharem em contradicções, e
confissões do que lhes convinha. Mas o preso se conservou inalteravel,
sereno, sincero, igual e verdadeiro. Expôz com franqueza toda a sua
vida, todos os seus erros e hallucinações, todos os seus peccados e
crimes, e os seus remorsos e arrependimento espontaneo, que a propria
alma gerára, robustecêra, e lográra verificar particular e publicamente.

Persuadidos os juizes de que conseguirião maiores esclarecimentos, ou
factos que mais correspondessem aos seus intentos, com a applicação
dos tormentos usados contra as suas victimas, passárão das declarações
voluntarias ás arrancadas por meio das dôres resultantes dos
instrumentos de tortura.

Começárão pelos anginhos, doce e mimoso nome dado por irrisão a ferros
que se collocavão aos dedos dos pés e das mãos, e os apertavão tão
cruelmente que causavão soffrimentos horrorosos. Exigírão-lhe
confessasse que volvêra apparente e maliciosamente á religião catholica,
no intuito de se passar para o Brazil, e servir aos interesses dos
Hollandezes, com os quaes se unira, para coadjuva-los nas suas invasões
e conquista da America. Resistio Moraes com estoica resignação á
barbaridade dos castigos, arrasando-se-lhe os olhos de lagrimas, e
escapando-lhe dos labios o nome santo do Christo, que pela salvação dos
homens padecêra martyrios superiores.

Não alcançando os juizes o seu fim, adiárão para mais tarde a
applicação de novos instrumentos, insinuando a Moraes que lhe era
preferivel revelar a verdade espontaneamente a confessa-la á custa de
soffrimentos agudos.

Não se apressava a Inquisição nos processos e julgamentos. Annos
inteiros se demoravão em seus carceres presos innocentes ou culpados,
accusados sem fundamento, suspeitos apenas, e ás vezes mesmo despidos do
menor indicio de crime, sem que cuidasse o tribunal em adiantar-lhes as
sentenças!

Não se contentando com factos materiaes, e procurando adivinhar
intenções e pensamentos, carecia de ganhar tempo, rodeiando as suas
victimas com uma espionagem vigilante, que visse e ouvisse o que ellas
praticavão ou dizião. Aquelle por recusar-se a comer carne de porco em
certos dias; este por soltar uma expressão de raiva ou despeito; um por
commetter qualquer gesto que se interpretasse malignamente; outro
por não se benzer, ou rezar em horas determinadas: tudo lhe servia de
inducção e prova para descobrir crimes, que imaginava o Santo Officio.

Seguírão-se aos interrogatorios e primeiras torturas os depoimentos de
testemunhas, que declarárão ser voz geral e constante que Moraes se
convertêra ao calvinismo, praticára nos templos protestantes todos os
officios religiosos que lhes erão proprios, e se casára com uma mulher
schismatica.

Anciosos de confissões mais amplas do réo, applicárão-lhe novos
tormentos para o obrigarem pela violencia ás revelações necessarias.
Suspendêrão-lhe o pescoço a uma argola pregada no muro, chamada gonilha,
que levantando o corpo por uma fórma perpendicular, produzia-lhe uma
posição dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que
os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade média.
Escalárão-lhe depois as costas e os peitos com azorragues de arame,
que o ensanguentárão todo.

Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada á sua
sorte. Repetia constantemente as mesmas declarações, e não offerecia
elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos.

Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos
agudos, á qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima.
Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na
cópia de sangue que lhe rebentava por todos os póros.

Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma
esteira de palha mais macia, é tratado com mais cuidado para se lhe não
esvair a vida antes da execução da sentença, e não escapar assim ao
castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio.

Lavrou-se a sua sentença. Confirmava em todas as suas partes a do
anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de fé, coberto com
as insignias do fogo, e a ser garroteado na praça publica por apostata,
profitente e obstinado.

Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da decisão. Intensa
desesperação e despeito violento se apoderárão dos padres. Nem-um deixou
de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecêrão
proprios a nullificar a sentença do tribunal do Santo Officio.
Applicárão-se os ultimos esforços para lograr d'el-rei uma ordem
terminante em pró do infeliz noviço. Cartas do padre Antonio Vieira,
conselhos e insinuações do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus
secretarios de estado, e do seu escrivão da puridade, rogos e empenhos
dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcançava todavia
d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto.

Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate uma idéa aventurada.
Conhecendo uma irmã de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnação, viuva
de um Portuguez que de São Paulo mudára a sua residencia para Lisboa, e
carregada de numerosa familia, preparou-a para se lançar aos pés do
soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus
filhos o perdão do noviço. Concertou com o confessor d'el-rei em
facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom João IVº e Dona Luiza
de Gusmão seguissem para o oratorio a receber a communhão sagrada.

Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os
paços reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma
porta particular, achárão-se na passagem dos soberanos no momento
designado.

--Piedade! piedade!--gritou toda a familia, arrastando-se aos pés de Dom
João IVº, e de sua augusta consorte, agarrando-os com força, e
molhando-os com pranto acerbo e copioso.

Enternecêrão-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado
profundamente, e não pôde proferir palavra. A rainha, banhada em
lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial
escripto, supplicando a graça de Manuel de Moraes. Representou-se a
scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos
era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra não tinhão
prerogativa mais bem aceita do céo e mais humana que o perdão, que os
igualava quasi á Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes
ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados.

Não pôde então o monarcha recusar-se ás supplicas da sua consorte, e
deixa-la faltar á sua palavra. Ordenou ao seu escrivão da puridade
expedisse ao tribunal do Santo Officio uma ordem terminante, em que,
declarando haver el-rei perdoado Manuel de Moraes, lhe determinasse a
entrega do preso á companhia de Jesus, como membro que era do Instituto,
afim de que esta com penas menores o castigasse conforme julgasse
conveniente.

Lavrado e assignado, foi o aviso entregue immediatamente ao Inquisidor
geral, afim de executa-lo com o seu zelo reconhecido em pró da religião
e do soberano.

Tremia no entanto o padre Eusebio de Monserrate. Obedecer-lhe-hião os
juizes do Santo Officio? Não se consideravão superiores a todas as
autoridades temporaes, baseando a sua alçada nos breves e determinações
do Summo Pontifice de Roma? Não responderião a el-rei memorando-lhe a
necessidade de expurgar a fé catholica, e de salvar o dogma; e se
resolveria o monarcha a sustentar e fazer cumprir a sua primeira
deliberação, que mais ao sentimento intimo que á propria convicção lhe
havia sido arrancada?


CAPITULO XIV

Fixou e annunciou no entanto o tribunal do Santo Officio de Lisboa um
auto de fé para o dia 15 de Dezembro de 1647.

Oito condemnados devião ser queimados nas fogueiras; dez se destinávão
ao supplicio do garrote; trinta e quatro ao acompanhamento da procissão,
cobertos com as insignias do fogo; tres relaxados em estatua por
ausentes e fugidos.

Agitou-se e alegrou-se a população de Lisboa com o aviso do espectaculo
que se lhe preparava. Ninguem ousaria deixar de assistir a essa
solemnidade religiosa e sagrada, que remia peccados, e valia perante
Deos, abrindo aos crentes as portas do céo, e trazendo-lhes pelas
indulgencias ganhas a salvação na vida eterna. Quem não tivesse fé no
sacrificio divino não se arriscava a perseguições e tormentos iguaes aos
das victimas condemnadas, no caso de faltar com a sua presença, e não
apparentar jubilo?

Levantárão-se no campo de Santa Anna os cadafalsos e fogueiras.
Prevenírão-se os réos que devião figurar na ceremonia. Concedeu-se a
alguns a faculdade de chamar confessores particulares, e de receber uma
ou outra pessoa da familia, com quem desejassem entreter-se uma vez
ainda antes de abandonar o mundo. Transferírão-se todos os condemnados
para prisões especiaes, aonde lhes cumpria passar o resto do tempo que
lhes sobrava nos paços do Santo Officio.

Intimada a Moraes a sua sentença de garrote, e communicada a noticia de
que lhe era licito escolher um confessor, e receber uma pessoa da sua
familia, declarou desejar o padre Eusebio de Monserrate para o
acompanhar nos ultimos momentos, e sua irmã Dona Clara da Incarnação
para lhe dizer o adeos derradeiro.

Forão-lhe satisfeitos ambos os desejos. Impossivel é descrever a sua
entrevista com Dona Clara. Quebrantado de forças physicas, martyrisado
cruelmente pelas chagas que lhe deixárão no corpo os instrumentos
terriveis que supportára, decomposta a physionomia pelas dôres
profundas, brancos os cabellos da cabeça e do rosto antes que o tempo
lhes mudasse o colorido natural, mais se assemelhava a um decrepito
ancião que anciava por descer ao tumulo e não pertencer mais ao mundo.

O tempo, os trabalhos, as peregrinações e soffrimentos lhe havião
por tal feitio transfigurado a physionomia, que o não conhecêra Dona
Clara, e para o tratar como irmão necessitára de que lhe affirmassem
estar em presença de Manuel de Moraes. Abraçando-se ternamente,
entretiverão-se no meio de soluços repetidos e de lagrimas abundantes,
ácerca dos pais já fallecidos, das irmãs, e parentes domiciliados em São
Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das
reminiscencias da mutua mocidade. Revivêrão saudades que pungião o
coração, e o cortavão dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz
passado lhes manifestava a profunda miseria presente.

--Meu respeitavel pai! minha querida mãi e verdadeira santa,--exclamava
a miudo Moraes.--Estais ambos já no seio da eternidade, e em presença de
Deos. Breve vos irá ahi encontrar o vosso filho desgraçado.
Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu sem duvida para os vossos
males na terra, mas que padeceu tambem muito!

Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel
prostrar mais as forças do infeliz noviço, que só deixou a irmã quando
os empregados do Santo Officio a coagírão a abandona-lo, e sahir dos
paços terriveis da Inquisição.

Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no
caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto
lhe não occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a
desattendesse, quanto até aquelle momento lhe não constára haverem os
juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal
designado para o auto de fé e execução da sua sentença, preferivel era
que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a
sua alma inteira, e recebendo a sua absolvição para se passar á
eternidade tranquillo e sacramentado.

Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com
franqueza os desejos e aspirações mundanas que lhe havião assoberbado o
espirito, os crimes que praticára no seu desvairamento, e as idéas e
pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento
solemne. Orárão ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz
sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lançou-lhe o padre
a benção consoladora, e recommendou-o á misericordia do Omnipotente.

Estava-se já em vesperas do auto de fé annunciado, e nem-uma deliberação
tomára ainda o tribunal do Santo Officio ácerca do aviso expedido pelo
escrivão da puridade d'el-rei em pró de Moraes, posto o provincial dos
Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento.

No dia porém anterior ao designado para a horrenda ceremonia,
quando os aprestos todos se havião já concluido, correu voz emfim que
não ousára o tribunal do Santo Officio affrontar o perdão que Dom João
IVº concedêra, bem que singular e desusado. Assentárão os juizes que
darião execução ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto
de fé como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir
ao cumprimento das sentenças relativas aos demais accusados.

Raiou o dia fatal. Cobrírão-se desde a madrugada as casas dos habitantes
de Lisboa sitas nas ruas e praças que devia atravessar a procissão, e
ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas
acesas. Guarneceu-se o chão, que nem calçado era n'aquelle tempo, com
folhas viçosas de arvores. Brilhárão com velas e lampadas, e ornárão-se
com flôres odoriferas os oratorios, que se semeavão pelos cantos
das ruas. Derão signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos
templos, que saudavão o triumpho da Igreja catholica, que salvava a fé e
o dogma, castigando os máos, e amedrontando os tibios e descrentes.
Desfilárão soldados, occupando varios pontos proximos á praça de
Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afóra as
pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado ás execuções
das sentenças.

Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os
condemnados ás chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devião
supportar o supplicio do garrote, aterrorisavão as vistas. Vultos
cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com
grandes cruzes, que se lhes gravárão nos peitos, os rodeiavão em copiosa
quantidade.

Á hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios e conselheiros de
estado, e a côrte toda, tomárão os seus lugares, occupando um edificio
levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da época. Por toda
a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma
multidão de gente miuda, que não falta a quaesquer espectaculos de dôr
ou de alegria.

Ouvírão-se tiros multiplicados da artilharia dos arsenaes, fortalezas e
navios de guerra. Repicárão de novo os sinos das igrejas, e girandolas
pittorescas de fogos artificiaes subírão aos ares, e os partírão com mil
riscos refulgentes, e ribombos repetidos. Era o signal de que partia dos
paços do largo do Rocio o auto de fé e se encaminhava para o seu
destino, segundo as formulas da mais rigorosa etiqueta. Marchavão
adiante empregados do Santo Officio, montados a cavallo, armados, e
segurando bandeiras negras com chammas de fogo, emblemas do tribunal
sanguinolento. Seguião-nos padres e frades de diversas ordens,
recitando orações lugubres, com a cabeça descoberta. Guardas a pé com
clavinotes, espadas e terçados, e vultos mascarados, e com os habitos da
Inquisição, rodeiavão as numerosas victimas, amarradas umas ás outras,
de pés no chão, e ornadas as cabeças com capuzes negros manchados de
flammas luminosas, que lhes cobrião as faces, permittindo-lhes apenas a
vista por dous buracos rasgados.

Ião depois os membros do Santo Officio, cercando o Inquisidor geral, que
caminhava sob um pallio, e acompanhados por mais de duzentos famulos da
Inquisição, que no dizer das tradições se compunhão de fidalgos das
primeiras casas do reino, magistrados, altos funccionarios,
capitalistas, industriosos, e gente de todas as condições e classes da
sociedade.

Fechava o prestito um corpo de cavallaria, com a sua musica e
tambores tangendo constantemente.

Parava o auto de fé diante de todos os oratorios e imagens levantadas na
sua passagem, e demoradamente chegou assim ao largo de Santa-Anna.

Levantárão-se as bandeiras, e rufárão os tambores. Occupára cada pessoa
do cortejo o seu lugar competente. Leu o pregoeiro a lista dos
condemnados ao fogo e ao garrote, e a dos penitentes que devião assistir
á execução das sentenças. Figurava entre estes ultimos o nome do
desditoso Manuel de Moraes, perdoado da pena capital por graça
particular de Dom João IVº. Dirigio um sacerdote uma oração a Deos,
ajoelhárão-se todos os circumstantes, e manifestárão a piedade dos seus
sentimentos.

Derão-se as ordens derradeiras. Subírão ás fogueiras por meio de escadas
preparadas as victimas reservadas ás chammas. Forão amarradas a um
poste de páo que se erguia no centro d'ellas. Incendiou-se a palha e o
madeiro. Uma nuvem escura e ardentes labaredas brotárão immediatamente,
e logo depois se ouvírão gritos doridos, e gemidos pungentes dos
desgraçados, que se queimavão e desapparecião nas flammas.

Succedeu-lhe a operação do garrote, e algozes impedernidos cortárão os
fios de vida, por meio da suffocação instantanea, aos desventurados
réos, cujos restos se lançárão nas fogueiras ainda abrazadoras para o
fim de se confundirem todos, que se havião condemnado.

Organisou-se por fim em torno das fogueiras e cadafalsos a procissão dos
penitentes, sustidos a maior parte por famulos e empregados do Santo
Officio, visto como lhes faltavão forças para se sustentarem por seus
proprios pés.

Terminada a ceremonia, volveu o cortejo para os paços da Inquisição.

Logo que passou os umbraes da entrada principal do edificio, deu ordens
o Inquisidor geral para se tirar Manuel de Moraes d'entre os penitentes,
e restitui-lo aos Jesuitas, que já alli se havião reunido, no intuito de
recebê-lo, e recolhê-lo á sua casa.

Procedeu-se á entrega solemne, e lavrou-se termo, que assignárão as
autoridades competentes. Não se podendo ter em pé o paciente, foi
depositado em um assento de pedra, emquanto se cumprião as formalidades
do acto.

Quando o padre Eusebio de Monserrate se approximou d'elle para lhe dar o
braço, levanta-lo, e ajuda-lo a sahir dos paços do Santo Officio,
escapou-lhe Moraes das mãos, resvalou do assento, e rolou pelo chão.

Tratou subito o Jesuita de rasgar-lhe a mascara e as vestes. Descobrio
um cadaver. Já não pertencia ao mundo.

Ajoelhou-se Eusebio de Monserrate, e disse enternecidamente:

--Senhor! Senhor! recebe no teu seio piedoso o peccador contrito, e
perdôa com a tua infinita misericordia a quem tanto soffreu na terra!

FIM


    [1] O padre Techo na sua obra sobre o Paraguay, e a _Historia
    Argentina_, L. Iº, Capº. 5º narrão o facto de Aleixo Garcia mandado
    ao sertão por Martim Affonso, e morto por Gaboto, que se apoderou da
    prata que elle encontrára.

    [2] Nos citados autores se falla do convite do cacique Taubixi para
    se defender contra os Castelhanos.

    [3] O padre Techo conta a historia de Sedenho, que fôra em soccorro
    de Aleixo Garcia com 60 homens, dos quaes a maior parte pereceu com
    o chefe.

    [4] Historico--V. René Saint Taillandier, _les juifs portugais en
    Hollande_.

    [5] Barlius, _de rebus variis_.

    [6] Taillandier acima citado.

    [7] Publicada em Leyde, e na lingua castelhana, no anno de 1641, com
    o titulo de _Prognostico y respuesta a una pergunta de un cabalero
    muy ilustre sobre las cosas de Portugal_.



INDICE

    DUAS PALAVRAS AO LEITOR
    CAPITULO PRIMEIRO                 1
    CAPITULO II                      21
    CAPITULO III                     46
    CAPITULO IV                      75
    CAPITULO V                       97
    CAPITULO VI                     116
    CAPITULO VII                    138
    CAPITULO VIII                   158
    CAPITULO IX                     177
    CAPITULO X                      198
    CAPITULO XI                     217
    CAPITULO XII                    235
    CAPITULO XIII                   255
    CAPITULO XIV                    272



PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.



PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.





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