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Title: Historia Antiga
Author: Unknown
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Historia Antiga" ***

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                         PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO

                                   PARA

                         Portuguezes e Brazileiros

                            BIBLIOTHECA DO POVO

                               E DAS ESCOLAS



                              HISTORIA ANTIGA



                            CADA VOLUME 50 REIS

                        TERCEIRO ANNO--OITAVA SERIE

      Cada volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição
      estereotypada,--e fórma um tratado elementar completo n'algum
      ramo de sciencias, artes ou industrias, um florilegio litterario,
      ou um aggregado de conhecimentos uteis e indispensaveis,
      expostos por fórma succinta e concisa, mas clara, despretensiosa,
      popular, ao alcance de todas as intelligencias.



                                 LISBOA
             SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
                           Adm. Justino Guedes
                        Largo do Conde Barão, 50
                Agencias: PORTO--Largo dos Loyos, 47,1.º
                   RIO DE JANEIRO--R. da Quitanda, 38
                                  1900

                                NUMERO 58



INDICE

    INTRODUCÇÃO
    CAPITULO I--OS HEBREUS
    CAPITULO II--OS EGYPCIOS
    CAPITULO III--OS ASSYRIOS E BABYLONIOS
    CAPITULO IV--OS PHENICIOS
    CAPITULO V--OS CARTHAGINEZES
    CAPITULO VI--OS SYRIOS
    CAPITULO VII--OS PERSAS
    CAPITULO VIII--OS INDIOS
    CAPITULO IX--OS CHINS
    CAPITULO X--OS GREGOS
    CAPITULO XI--OS ROMANOS



ERRATAS IMPORTANTES

    Pag.    Linha    Onde se lê    Leia-se

    11    36    elementos    alimentos

    12    18    Amvrão    Amrão

    »     27    Egypto    Egypto, por meio

    14    26    peccado,    peccado,--

    »     42    altar,    um altar

    »     44    estão    estavam

    15    38    incluindo    incluido

    22     6    de que    do que

    33    19    moisaica    moysayca

    52    31    tomam    tomaram

    53     6    impervas    impervias

    57    33    notas    novas

    58    17    seis    reis



HISTORIA ANTIGA



INTRODUCÇÃO

LIMITES DA HISTORIA ANTIGA--SUA DIVISÃO--TEMPOS PRE-HISTORICOS--O HOMEM
PRE-HISTORICO--EDADE DE PEDRA--EDADE DE BRONZE--RAÇAS HISTORICAS OU
PRIMITIVAS--OS POVOS DA ANTIGUIDADE


Conforme ao que dissémos no tratadinho de _Historia Universal_ (vol.
XLVI da _Bibliotheca do Povo e das Escolas_), começa a _Historia Antiga_
desde as mais remotas epochas de que possa haver-se conhecimento e
prolonga-se até ao seculo V da era christan.

N'ella se comprehende a epocha da phase brilhante dos povos orientaes, a
qual mais tarde esmoreceu perante a supremacia que vieram a adquirir as
civilizações classicas--primeiro a grega e depois a romana--na Europa,
comparativamente com os poderosos e vastos imperios da Asia e do norte
da Africa. O longo periodo da Historia Antiga fecha com o desmoronamento
do imperio romano.

A _Historia Antiga_ pode dividir-se em tres periodos, cada um dos quaes
se divide por sua vez em epochas principaes.

Os tres periodos são;--o dos _tempos primitivos_;--o dos _tempos
mythologicos_;--e o dos _tempos historicos_.

O primeiro periodo comprehende duas epochas principaes: a da _origem do
homem_, e a do _diluvio_ e da _dispersão dos homens_, segundo a tradição
biblica.

No segundo periodo notam-se tres epochas principaes que são:--a dos
_tempos idolatras_, caracterizada pela fundação dos imperios da China,
da Asia, do Egypto, e da Grecia, e pela tendencia que os povos tinham
a elevar á categoria de deuses os seus primeiros soberanos;--a dos
_tempos heroicos_, em que appareceram grandes conquistadores, fundadores
de cidades, e outros homens notaveis, que os povos, então já mais
adeantados, se limitaram a considerar na categoria de heroes ou
semi-deuses;--a dos _tempos poeticos_, ou epocha em que os prophetas e
os poetas exerceram uma acção efficaz sobre o progresso da civilização,
e deram a fórma poetica ás tradições e á legislação.

No periodo dos _tempos historicos_ (aquelle de que possuimos noções mais
seguras e mais positivas) são seis as epochas principaes, a saber:--a
_epocha legislativa_, em que sobresaem quatro personagens mais notaveis:
Lycurgo, Numa, Solon e Confucio;--a _epocha da grande gloria da Grecia_,
na qual esta nação teve a supremacia da civilização na Europa, então
começada a aproveitar pela expansão progressiva do Oriente;--a das
_conquistas dos Romanos_, que se substituiram aos Gregos na dominação e
na influencia, e alargaram consideravelmente a colonização até ao
occidente da Europa;--a das _dissenções intestinas da republica
romana_;--a do _grande explendor do imperio romano_;--a da _decadencia
do mesmo imperio_, cujo desmoronamento põe termo á Historia Antiga, e
abre com a invasão dos Barbaros do norte o periodo da Historia da
Edade-Média.

Reina ainda bastante incerteza na sciencia da Historia ácêrca da
verdadeira epocha do apparecimento do homem sobre a superficie da Terra.
Por muito tempo foi geralmente acceito que, se tal epocha não era
exactamente contemporanea das mais antigas civilizações orientaes de que
temos noticia, pelo menos não era anterior ao actual periodo geologico,
e que o homem sómente havia apparecido pela primeira vez n'um periodo
relativamente recente e já contemporaneo da fauna e da flóra actuaes,
cêrca do logar em que as tradições de differentes povos fazem demorar o
berço da especie humana.

Os descobrimentos da Geologia, sciencia moderna mas já abundante em
resultados definidos, têem, porêm, tirado o valor áquella noção e
demonstram ser mais antiga a existencia do homem na superficie da Terra.
Com os elementos que aquella sciencia lhe fornece, a Archeologia
Pre-historica, de creação muito recente mas de rapidos progressos, tem
chegado a adquirir o conhecimento de que o homem existia desde uma
epocha muitos milhares de annos anterior á actual, tendo até chegado a
ganhar n'essas remotissimas edades um certo gráu de cultura,
traduzido no exercicio de industria, de commercio, e ainda n'outras
manifestações de actividade.

A existencia do homem primitivo, ou do _homem pre-historico_, ou de
raças humanas de que pela Historia propriamente dita não temos
conhecimento algum, é-nos revelada pelo descobrimento de instrumentos de
pedra (utensilios mais ou menos grosseiramente fabricados com aquelle
mineral, e affeiçoados a differentes usos) e pelo de fragmentos de peças
de loiça, de armas e de differentes outros utensilios de uso
domestico,--tudo em camadas de formação anterior ao actual periodo
geologico.

Estes vestigios evidentes do homem pre-historico incontram-se nas
excavações feitas nas camadas de terreno correspondentes ao periodo que
a Geologia denomina _quaternario_, periodo que é o immediatamente
anterior ao actual. Mais recentes descobrimentos, porêm, parecem provar
que a existencia do homem é ainda anterior áquelle periodo. Excavações
feitas em terrenos do periodo _terciario_ tendem effectivamente a
revelar a existencia do homem durante a formação dos mesmos terrenos. É
no terreno denominado _mioceno_ que se incontram os vestigios que levam
a essa conclusão, e d'ahi provêm o nome de _homem mioceno_ ou _homem
terciario_ ao homem que se julga ter existido no referido periodo
geologico[1].

    [1] Veja-se o livrinho de _Geologia_ (vol. XXXI da _Bibliotheca
    do Povo e das Escolas_).

Não acceitam ainda todos os archeologos a existencia do homem terciario;
mas a opinião que a defende vai cada dia ganhando mais terreno. O
congresso de Anthropologia e de Archeologia pre-historica, que em 1880
se reuniu em Lisboa, tratou essa questão e contribuiu muito para a sua
resolução definitiva, sendo importantes os dados que para isso
forneceram as excavações feitas no nosso paiz e os achados n'ellas
realizados pelo eminente geologo portuguez Carlos Ribeiro, ha pouco
fallecido.

A Archeologia Pre-historica divide o periodo _quaternario_, sob o
ponto-de-vista da existencia de vestigios da especie humana, em duas
epochas:--a _edade paleolithica_, ou da pedra lascada;--e a _edade
neolithica_, ou da pedra polida. A substancia de que são fabricados os
instrumentos achados, e a perfeição relativa do seu fabrico, são os
fundamentos que fornecem os caracteres distinctivos das duas edades.

Á edade paleolithica pertencem armas e instrumentos de silex,
principalmente machados, talhados toscamente pela separação de lascas
tiradas pela percussão. Estes instrumentos tinham evidentemente por fim
o cortar, e alguns, de pontas mais aguçadas, o de furar. Alguns ha, com
fórma similhante á das raspadeiras, que deviam servir para preparar as
pelles de animaes, com que se vestiam os primeiros homens. Os vestigios
correspondentes a esta epocha pre-historica fazem crer que o modo de
viver da especie humana foi então de extrema simplicidade, que eram
desconhecidos os animaes domesticos e a agricultura, que os homens
vagueavam pelas florestas virgens, alimentando-se com os fructos
silvestres e com o producto da caça, e abrigando-se nas cavernas
naturaes, cuja posse ás vezes se viam obrigados a disputar aos animaes
ferozes. A alimentação dos que viviam á beira do mar ou dos lagos
consistia em peixe e marisco. O estado social devia ser o mais
rudimentar possivel; apenas se pode considerar n'aquella epocha esboçado
o viver da familia. Aquelle modo de viver era por certo ainda mais
simples e primitivo do que o dos actuaes selvagens da Nova Caledonia.

Um pouco mais perfeito foi de certo o viver na edade neolithica. As
armas e os utensilios d'aquella epocha são distinctos dos da edade
paleolithica por certas particularidades de fórma e pela maior perfeição
do trabalho, a qual já denuncia um mais adeantado estado de educação,
havendo entre os fragmentos de loiça e entre os objectos de ornato
incontrados alguns que revelam uma certa industria, ainda rudimentar,
mas já com algum desinvolvimento. Julga-se que n'estas epochas se
practicou já o commercio, por se encontrarem n'algumas localidades
substancias que eram produzidas em sitios distantes, assim como
vestigios da existencia de officinas levam a crer que effectivamente a
industria se delineava já com feições pronunciadas.

Aos ultimos tempos da edade neolithica pertencem os chamados
_kjoeckkenmoeddinger_ («restos de cozinha»), que são grandes
aglomerações de conchas de differentes mariscos, misturadas com carvão,
incontradas nas costas da Dinamarca, e tambem mais recentemente no valle
do Tejo, junto a Mugem, pelo já citado geologo Carlos Ribeiro. Pertencem
tambem á mesma epocha as _palafittas_, ou povoações lacustres, achadas
pela primeira vez no lago de Zurich em 1853, e que consistem em reuniões
de cabanas junto das margens dos lagos, construidas sobre base de
estacaria mergulhada na agua. Nas _palafittas_ incontram-se notaveis
vestigios, que provam o relativo adeantamento da especie humana
n'aquelles tempos. É assim que a existencia de cereaes demonstra que já
havia agricultura; a de tecidos, que a industria se tinha adeantado;
a de fragmentos de animaes domesticos, um viver social em via de progresso.

A existencia de utensilios de metal nas _palafittas_ indica que a epocha
d'estas se prende chronologicamente ao começo dos tempos historicos, ou
pelo menos ao periodo que precedeu a aurora das mais antigas
civilizações do Oriente. Começa n'esse ponto a _edade de bronze_, ou
aquella em que as armas e os diversos utensilios, até então construidos
exclusivamente de pedra, começam a ser substituidos por outros
fabricados de bronze.

A _edade de bronze_ variou muito em duração nos diversos paizes da
Europa, sendo n'alguns povos uma epocha inteiramente historica, e
pertencendo, pelo que respeita a outros, á Archeologia Pre-historica. No
seu todo deve considerar-se como um periodo de transição entre os tempos
pre-historicos e os tempos historicos.

Os povos que figuram na Historia da Antiguidade provêm de uma das tres
raças _semitica_, _chamitica_ e _japhetida_ (mais geralmente denominada
_aryana_ ou _indo-européa_), as quaes por isso se dizem _raças
historicas_. A existencia d'estes tres troncos primitivos é revelada
pela tradição biblica e confirmada pelas modernas investigações
ethnographicas. Quando, decorrido longo periodo depois da creação do
homem, Deus, offendido pelos vicios que haviam lavrado em toda a especia
humana, resolveu castigál-a com o diluvio, apenas quiz que escapasse
Noé, que era justo, com sua familia. Terminado aquelle cataclismo, só os
tres filhos d'elle ficaram incumbidos de povoar o mundo, e cada um
d'elles--Sem, Cham e Japhet--indo estabelecer-se em pontos differentes
deu origem a uma raça. Sem ficou na Asia e foi o pai da raça semitica;
Cham passou á Africa e originou a raça chamitica; e finalmente Japhet,
estabelecendo-se no oriente da Europa, deu origem á raça japhetida, ou
aryana, ou indo-europêa, assim denominada, porque na sua expansão
ulterior se estendeu até ás Indias.

A raça semitica--(ou os semitas)--apparece-nos, no decorrer da Historia
Antiga, povoando um vasto territorio cingido de um lado peia alta
Mesopotamia e pela parte meridional da Arabia, e do outro pelas costas
do Mediterraneo e pelo rio Tigre. Eram d'esta raça os habitantes do
imperio da Assyria e de parte da Babylonia, os Hebreus, os Lydios e
parte das populações da Syria. Presentemente esta raça está representada
pelos Judeus e pelos Arabes. A sua importancia historica deriva
principalmente das religiões que n'ella tiveram origem e do
desinvolvimento a que estas chegaram. N'ella nasceram a antiga religião
moysaica, o christianismo e o mahometanismo. Na Edade-Média um ramo
d'esta raça--os Arabes--, invadindo a Europa, trouxeram-lhe grande copia
da sciencia grega, contribuindo assim para a civilização d'esta parte do
mundo.

A raça chamitica--(ou os chamitas)--povoou na Antiguidade a Ethiopia, o
Egypto e a Nubia, e incorporou-se tambem na população de Babylonia e da
Arabia meridional. Na actualidade está representada pelos _fellahs_ do
Egypto, pelos habitantes da Nubia, pelos _abexins_ e pelos _tuaregs_.

A raça aryana--os aryas, os indo-europeus--foi representada na
Antiguidade pelos Indus, Persas, Romanos e Gregos; e actualmente está-o
sendo pelos descendentes d'estes povos e pelos Germanos e Slavos. Os
povos indo-europeus são os mais importantes sob o ponto-de-vista
historico; extendem hoje o seu _habitat_ desde o norte da Europa até ás
margens do Ganges; é no meio d'elles que se passa o grande movimento do
progresso social, e a sua expansão colonizadora extende-se até aos
confins do Novo Mundo, para onde têem transplantado as maravilhas do
progresso e os mais perfeitos methodos de cultura intellectual.

Ha nas tres raças historicas de que temos falado um grande numero de
variedades, devidas, não só a cruzamentos, mas tambem a modificações
filhas da differente acção dos climas e da diversa influencia do meio.

O estudo d'essas differentes variedades leva a uma classificação
differente da que sob o ponto-de-vista historico fizemos, e baseada em
caracteres anatomicos que são do dominio da Anthropologia.

Os principaes povos que figuram na Historia da Antiguidade são: os
Hebreus, os Egypcios, os Assyrios e Babylonyos, os Phenicios, os
Carthaginezes, os Syrios, os Persas, os Indios, os Chins, os Gregos e os
Romanos. De cada um d'elles trataremos em capitulo especial.



CAPITULO I

OS HEBREUS


A historia dos Hebreus confunde-se no seu principio com as mais antigas
tradições da primitiva edade historica do homem. A mais antiga fonte em
que ella se estuda é o _Genesis_, no qual se acham compendiadas as
tradições da creação do homem e da primitiva dispersão das raças
historicas, em que primeiro se dividiu a familia humana.

Segundo o _Genesis_, Deus, depois de ter creado o mundo, separado a
terra dos mares, e povoado aquella de plantas e de animaes, creou o
primeiro homem, que teve o nome de Adão, e creou-lhe logo depois para
companheira a primeira mulher, que se chamou Eva. D'este primeiro par
nasceram tres filhos: Caim, Abel e Seth. O primeiro, que se deu á
cultura dos campos, matou por ciumes a seu irmão Abel, expatriando-se em
seguida e indo fundar a cidade de Henochia, que tomou tal nome do
primeiro filho (Henoch) do seu fundador. Abel exercêra o mister de
pastor. Seth, o terceiro filho de Adão, teve numerosa descendencia, na
qual se tornou notavel Noé, pelas circumstancias que vamos referir.

Em tal devassidão haviam cahido os homens, que Deus, como que
arrependido de os haver creado, resolveu exterminál-os; mas, como Noé e
sua familia conservavam vida virtuosa, no meio do viver vicioso do resto
da humanidade, determinou tambem Deus fazer excepção a respeito d'elles.
Mandou por isso a Noé que construisse uma arca, na qual se mettesse com
a sua familia e com um certo numero de animaes de todas as especies; e,
feito isso, mandou á terra o diluvio, que tudo alagou e em que pereceram
todos os homens e animaes, excepto os que se continham na arca, a qual
fluctuava na superficie da agua.

Terminado o diluvio, que durou quarenta dias, e tendo baixado as aguas e
descoberto de novo a superficie da terra, poisou por fim a arca sobre o
monte Ararat, na Armenia. Sahiu d'ella Noé, com sua familia e com os
differentes animaes, e começou a cultivar a terra. Foi elle o primeiro
que cultivou a vinha, fabricou vinho e com este se embriagou.

Falavam a principio todos os homens a mesma linguagem; mas o seguinte
acontecimento deu origem a que entre elles se multiplicassem as
linguas. Tendo-se estabelecido e havendo alargado a sua occupação nas
planicies de Sennaar, entre o Tigre e o Euphrates, tornaram-se
orgulhosos do seu valor e poder, e conceberam o plano de construir uma
torre, que chegasse ao céu. Começaram a pôr em practica o seu temerario
intento; mas Deus, para castigar tamanha ousadia, confundiu-lhes as
linguagens, por fórma que elles, deixando de comprehender-se uns aos
outros, tiveram que abandonar a obra e que dispersar-se. A torre ficou,
pois, por construir-se e denominou-se _Babel_, vocabulo que quer dizer:
_confusão_. Foi aquella dispersão que deu origem á separação das tres
raças, _semitica_, _chamitica_ o _japhetida_, dos nomes dos tres filhos
de Noé--Sem, Cham e Japhet.

Pouco a pouco se extinguíra na memoria dos homens a sua historia
primitiva e as licções e preceitos que n'essa historia se continham.
Resolveu por isso o Senhor escolher entre os descendentes de Sem uma
familia, que houvesse de ser a guarda e a depositaria das antigas
crenças e tradições. Essa familia foi a de Tharé, originaria de Ur (na
Chaldéa), e que, por causa da falta de pastagens para os gados, havia
ido estabelecer-se na cidade de Haran (na Mesopotamia). Foi alli que
Deus revelou a Abrahão, filho do dito Tharé, a missão divina que lhe
destinára e como resolvêra constituil-o chefe da raça predestinada ou do
_povo escolhido_. Por mandado do Senhor fez Abrahão varias
peregrinações. O Senhor abençoou-o, prometteu-lhe grande descendencia e
disse-lhe que teria de sua mulher Sára, até então esteril, um filho,--o
que se realizou com o nascimento de Isaac.

Deus, para experimentar a fé e a obediencia de Abrahão, ordenou-lhe que
lhe sacrificasse seu filho Isaac, ao que elle sem repugnancia se
promptificou, afastando-se para consummar tal sacrificio. Quando ía a
descarregar o golpe, Deus lh'o impediu, detendo-lhe o braço e dando-se
por satisfeito com aquella prova de obediencia.

Isaac teve dois filhos, que foram Esaú e Jacob. Este ultimo, comquanto
mais novo, foi o que recebeu a benção do pae, que estava cego, e que foi
inganado, julgando que abençoava Esaú. Áquella benção, obtida
subrepticiamente, por conselhos e industria de sua mãe, Rebecca, e á
qual estava annexo o cumprimento das promessas que Deus fizera a
Abrahão, deveu Jacob o herdar o patriarchado do povo hebreu. Temendo,
porêm, a vingança de Esaú, ausentou-se para a Mesopotamia, onde, depois
de servir por muitos annos a seu tio Labão, casou com as duas filhas
d'este, Lia e Rachel.

Teve Jacob doze filhos, que são os doze patiarchas, cabeças e origens
das doze tribus do povo de Israel, nome que tambem teve o mesmo Jacob.
Esses patriarchas foram:--o 1.º, Ruben; o 2.º, Simeão; o 3.º, Levi
(cujos descendentes foram destinados ao sacerdocio e a serem ministros
do templo de Deus); o 4.º, Judá; o 5.º, Dan; o 6.º, Nephtali; o 7.º Gad;
o 8.º, Azer; o 9.º, Isachar; o 10.º, Zabulon; o 11.º José; o 12.º,
Benjamin.

Os mais velhos de entre elles começaram a ter inveja a José, por verem
que era o mais estimado de Jacob, e porfim intentaram matál-o,
lançando-o n'uma cisterna; mas, mudando de resolução, venderam-n'o como
escravo a uns madianitas, que o levaram para o Egypto, onde foi comprado
por Putiphar, creado de Pharaó, rei d'aquella nação. Serviu José a
Putiphar com tanta fidelidade, que não se prestou a um crime para que o
provocava a esposa do mesmo Putiphar. Esta, para d'elle se vingar,
accusou-o aleivosamente de falso crime e por esse motivo foi elle
mettido n'um carcere. Alli Deus revelou-lhe a significação mysteriosa de
uns sonhos que haviam tido dois dos seus companheiros de captiveiro. Um
d'estes, como Pharaó tivesse um sonho em que viu septe vaccas magras e
septe espigas delgadas, que devoravam septe vaccas gordas e septe
espigas fartas, indicou-o ao rei, como capaz de lhe interpretar o sonho.
José explicou com effeito ao rei o sentido d'aquella visão.
Surprehendido e maravilhado Pharaó com a sabedoria d'elle, elegeu-o para
seu ministro, e deu-lhe grandes honras e distinções. José casou com a
filha de um sacerdote de Heliopolis, da qual lhe nasceram seus dois
filhos Manassés e Ephraim. Como ministro, e gozando toda a confiança do
rei, organizou a arrecadação dos cereaes, de modo que, quando chegaram
os septe annos de fome, symbolizados nas septe vaccas magras e nas septe
espigas delgadas do sonho, o Egypto estava provido contra a escassez e
ainda poude efficazmente soccorrer as povoações proximas, nas quaes se
não tinham adoptado eguaes providencias.

A escassez de alimentos, que tambem se sentiu em Chanaan, terra onde com
sua familia habitava Jacob, obrigou este a mandar ao Egypto seus filhos,
a comprar trigo. Soube da chegada d'elles José e, sem se lhes revelar
como seu irmão, obrigou-os a declarar quem eram e a deixarem em poder
d'elle, em refem, a Simeão, emquanto iam a Chanaan a buscar-lhe
Benjamin, o irmão mais novo.

Obrigados a voltarem ao Egypto, por causa da fome que continuava,
conseguiram que Jacob, apesar da sua repugnancia, deixasse ir
Benjamin; e então José, dando-se a conhecer aos irmãos, entre lagrimas
de alegria, mandou-lhes que voltassem a Chanaan, a buscar Jacob e toda a
familia. Assim aconteceu, indo toda a familia de Jacob estabelecer-se no
Egypto. Alli viveu ainda Jacob 17 annos, vindo a finar-se na edade de
147, depois de abençoar seus filhos, com bençãos mysteriosas e
propheticas, vaticinando que na descendencia de seu filho Judá estaria o
imperio e o governo do povo, até vir ao mundo o Messias, que havia de
remir o peccado de Adão. Fallecido Jacob, ficaram residindo no Egypto
seus filhos, nas terras que, em attenção a José, lhes havia dado o
Pharaó, e nas quaes tiveram numerosa descendencia.

Permaneceram os Israelitas ou Hebreus no Egypto por espaço de 217 annos.
No decurso d'estes, os Egypcios, desconfiando d'elles, opprimiam-n'os
cruelmente, obrigando-os a trabalhos duros, e o rei mandava matar-lhes
todos os filhos recem-nascidos do sexo masculino, os quaes eram lançados
ao Nilo. Nascendo Moysés, filho de Amrão e de Jocabed, esta conseguiu
occultál-o por espaço de tres mezes; mas, não o podendo conservar
escondido por mais tempo, lançou-o áquelle rio, dentro de um cesto.
Estando a filha do rei a banhar-se no rio, viu a creança, salvou-a e
deu-lhe o nome de Moysés, que quer dizer: «salvo das aguas». Depois
levou-o para a côrte, onde foi creado e passou a mocidade.

Deus, condoido de quanto os Hebreus soffriam entre os Egypcios, resolveu
livrál-os da oppressão, fazendo-os sahir do Egypto, por meio de
assombrosos milagres. Foram esses prodigios obrados por intermedio de
Moysés e de seu irmão Arão, apparecendo primeiro Deus a Moysés no monte
Horeb, e mandando-lhe que fosse á presença de Pharaó, a pedir-lhe que
deixasse sahir do Egypto o povo de Israel. O rei, bem longe de acceder
ao pedido, antes redobrou a perseguição.

Então começaram os milagres. Indo Moysés e Arão á presença de Pharaó,
para lhe mostrarem como era vontade de Deus o que lhe pediam, lançou
Arão na terra uma vara que levava na mão, e a vara logo se converteu em
serpente. Quiseram os magos imitar a transformação, convertendo tambem
outras varas em serpentes; mas a serpente em que se tornára a vara de
Arão devorou todas as outras. Continuou, apezar de tudo, a obstinação de
Pharaó; e Deus, para mais claro aviso e para castigo, mandou ao Egypto
as dez pragas, que assolaram todo o paiz.

Essas pragas foram as seguintes: a primeira consistiu em se converter em
sangue a agua dos rios e das fontes do Egypto, morrendo todos os
peixes; a segunda, n'uma innumeravel multidão de rans que intravam por
todas as casas; a terceira, n'uma quantidade enormissima de mosquitos e
de outros insectos, que tornavam a vida insupportavel; a quarta, n'uma
abundancia de moscas, que perseguiam atrozmente homens e animaes; a
quinta foi uma peste que matou um numero enorme de pessoas e fez tambem
grande devastação nos animaes; a sexta foi uma epidemia de chagas
hediondas e repugnantes, que appareciam nos corpos dos Egypcios e dos
animaes; a septima, uma grande chuva de pedra, acompanhada de terrivel
trovoada, ficando destruidas por ellas as arvores, plantações,
sementeiras e pastos; a oitava foi o apparecimento de uma nuvem de
gafanhotos, que tambem produziram incalculavel estrago nos campos; a
nona manifestou-se por umas trevas muito espessas, que por tres dias
escureceram o Egypto, excepto a terra de Gessen (logar em que habitavam
os Hebreus, aos quaes não chegou nenhuma das pragas); a decima consistiu
na morte de todos os primogenitos egypcios, desde o filho de Pharaó até
ao do escravo mais humilde, e tambem na de todos os primogenitos dos
animaes.

Movido finalmente Pharaó pela decima praga, consentiu que os Hebreus
sahissem do Egypto. Na noite do dia 14 do mez de Nisan, que corresponde
ao de março, sahiram, pois, os descendentes de Jacob da terra dos
Pharaós, em tão grande numero, que só homens armados e capazes de
pelejar eram mais de 600:000. Guiava-os um anjo por meio de uma columna,
que de dia era formada como que de uma nuvem, e de noite era de fogo.
Esta columna precedia os Hebreus e indicava-lhes o caminho atravez do
deserto. Caminhavam por este, quando Pharaó, de novo indurecido, se
arrependeu da concessão que fizera, mandou armar todos os seus carros
bellicos e sahiu com um numeroso exercito, a perseguir e captivar outra
vez o povo de Israel, que ia já perto do Mar Vermelho. Vendo-se de novo
perseguidos pelos Egypcios, os Israelitas começaram a murmurar contra
Moysés, por havel-os mettido n'aquelle perigo; mas este exhortou-os a
que tivessem Esperança em Deus e, extendendo uma vara, que levava na
mão, sobre o Mar Vermelho, as aguas dividiram-se para um e outro lado,
deixando no meio um caminho enxuto, pelo qual passaram a salvo os
Israelitas. Chegando os Egypcios e vendo as aguas divididas, intraram no
mesmo caminho para os perseguirem; mas, estando já todos n'elle, Moysés
levantou outra vez a vara sobre o mar e as aguas voltaram á sua posição
natural, ficando submerso todo o exercito de Pharaó.

Em memoria da sahida do Egypto, mandou Deus aos Hebreus que celebrassem
perpetuamente a Paschoa, matando todos os annos e comendo com certas
ceremonias um cordeiro.

Passado o Mar Vermelho, fôram elles caminhando por diversos logares até
ao deserto,--onde começou o Milagre do maná. Era este um manjar
delicioso que cahiu do céu durante quarenta annos, emquanto os
Israelitas peregrinaram no deserto até intrarem na terra da promissão.
Com elle se alimentavam, colhendo cada um diariamente uma certa medida,
por fórma que, se queria guardar alguma porção para o dia seguinte, logo
o manjar se corrompia. A peregrinação pelo deserto durou tanto tempo,
porque assim o determinou Deus, em castigo das murmurações e falta de fé
dos Israelitas á sahida do Egypto, fazendo-os retrogradar para o
deserto, quando estavam já perto da terra da promissão.

Appareceu Deus a Moysés sobre o monte Sinai, e entre raios lhe deu as
taboas da lei, em que estavam escriptos os dez preceitos do decalogo, e
dictou-lhe as outras leis e ceremonias que queria que fossem usadas pelo
seu povo. Emquanto Moysés estava sobre o Sinai--que foi por quarenta
dias e quarenta noites--pediram os Israelitas a Arão que lhes fizesse um
deus que adorassem e que os governasse. Annuiu elle ao pedido e fabricou
um bezerro de oiro, que puzeram n'um altar e adoraram, e ao qual
offereceram sacrificios. Quando Moysés desceu do monte e teve noticia
d'este acto de idolatria, depois de orar ao Senhor--em desaggravo de tão
grande peccado,--em signal de indignação, quebrou as taboas da lei,
mandou aos levitas que matassem os Israelitas que incontrassem no
caminho, calcou aos pés e reduziu a pó o bezerro de oiro, e supplicou a
Deus que perdoasse ao seu povo, o que elle fez a final.

Perdoado o peccado do povo, mandou Deus a Moysés que voltasse ao cume do
Sinai, com duas taboas de pedra, nas quaes foram de novo gravados os dez
preceitos. Mandou depois se construisse um templo cuja guarda e governo
foram confiados a Arão, irmão de Moysés, sendo os mais descendentes de
Levi feitos ministros do mesmo templo, com o nome de levitas. Este
templo, que era portatil, e se chamava tambem _tabernaculo_, acompanhava
o exercito e era dividido em duas partes: na interior, que se chamava
_sancta sanctorum_, estava a arca do testamento, e só intrava o summo
sacerdote; na exterior havia um altar, em que se queimavam essencias e
um candelabro com septe lumes.

Passados quarenta annos de peregrinação estavam os Israelitas na
terra da promissão, a cuja vista havia morrido Moysés, na edade de 120
annos e depois de ter abençoado o povo.

A terra da promissão era uma provincia da Asia, chamada hoje Palestina
ou Terra Santa, que comprehendia varios reinos pequenos, conhecidos pela
denominação de _reinos dos Cananeus_. Morto Moysés, ficou com o governo
do povo Josué filho de Num, ao qual o Senhor appareceu dizendo-lhe que
metesse os Hebreus na posse da terra da promissão, dividindo as terras
pellas differentes tribus e familias. Josué teve que combater e vencer
varios povos e reis, e que conquistar varias cidades da Palestina.
Dividida esta pelos povos de Israel, obrigaram-se estes a dar a decima
parte dos fructos da terra aos levitas.

Morrendo Josué na edade de 110 annos, seguiu-se-lhe o governo dos
juizes, dos quaes os mais celebres foram Debora, Gedeão, Jephte e
Sansão. D'este ultimo contam os livros santos que, sendo ainda muito
moço e sahindo-lhe ao incontro um leão, o despedaçou logo; depois matou
de uma vez trinta Philisteus; e de outra, depois de haver quebrado umas
cordas muito fortes com que o tinham amarrado, matou mil Philisteus com
a queixada de um jumento. N'outra occasião, incerrado pelos Philisteus
na cidade de Gaza, sahindo de noite, arrancou as portas da cidade e
levou-as a um alto monte. Depois d'aquellas façanhas e de outras,
deixou-se inlear no amor de Dalila, á qual declarou que a verdadeira
causa da sua força consistia em ser dedicado a Deus e em não lhe terem
jámais cortado os cabellos; Dalila, senhora de tal segredo, fez com que
Sansão adormecesse nos seus braços e, vindo os Philisteus, cortaram
áquelle os cabellos, pelo que perdeu a força e foi aprizionado.

Os Philisteus, vencido assim Sansão, tiraram-lhe os olhos e trataram-n'o
indignamente até que, passado algum tempo, tendo-lhe novamente crescido
os cabellos, recuperou a força; e, sendo então levado pelos Philisteus
ao templo de seu falso deus Dagão, para zombarem d'elle, abraçou Sansão
duas columnas do mesmo templo e moveu-as com tal impeto, que o edificio
abateu, morrendo esmagados quantos n'elle estavam, incluido o proprio
Sansão.

O ultimo juiz que governou o povo hebreu foi o propheta Samuel, durante
o governo do qual os Israelitas pediram a Deus que lhes désse um rei, o
que Deus concedeu, mandando a Samuel que ungisse a Saul, como rei, e
esse foi o primeiro dos reis de Israel. A principio regeu Saul, conforme
ás leis e ao temor de Deus, mas depois faltou a uma e outra coisa,
pelo que mandou o Senhor a Samuel que ungisse como rei a David, mancebo
muito valoroso, da tribu de Judá, e que havia morto o gigante Golias,
que desafiava o exercito de Israel. Saul, sabendo da eleição de David,
perseguiu-o e não quiz depor o poder; mas afinal, vencido na guerra
contra os Philisteus, suicidou-se. Introu então David na posse pacifica
do governo, comquanto tivesse que sustentar guerras contra os
Philisteus, os Ammonitas, os Syrios, os Idumeus e os habitantes de
Damasco, vencendo a todos estes inimigos. Preparou os materiaes
necessarios para edificar um magnifico templo, que não chegou a
construir por Deus lh'o haver prohibido; trasladou a arca do testamento
para o seu palacio de Jerusalem, fez rigorosa penitencia por graves
peccados que tinha commetido; compoz muitos psalmos em louvor de Deus; e
practicou muitos outros actos de soberano justo e sabio.

A David succedeu no reinado seu filho Salomão, que foi muito sabio e
sagaz, e cujo governo foi assignalado por grandes riquezas e
prosperidades. Durante todo o tempo que governou, conservou em paz o
reino de Israel; foi temido e respeitado pelos principes vizinhos,
muitos dos quaes eram seus tributarios; as suas frotas levavam-lhe
grande quantidade de oiro e de materias preciosas; floresceu o commercio
em todo o paiz; e a sabedoria do rei era admirada nos reinos estranhos.
Empregou Salomão grandes riquezas em edificar um templo grandioso, para
a adoração de Deus, onde havia preciosissimos vasos e um grande numero
de ministros do Senhor. Esse templo excedeu tudo quanto se pode imaginar
de magnificente. Edificou tambem um sumptuoso palacio, para sua morada.

Antes de ter revelado a sua sabedoria em muitos livros que escreveu,
mostrou-a tambem na sabia sentença que pronunciou, conhecida pelo nome
de «juizo de Salomão». Teve ella a seguinte origem. Duas mulheres viviam
juntas e tinham cada uma seu filho. Aconteceu morrer uma das creanças, e
cada uma das mães dizia ser seu o que ficára vivo. Foram ambas ter com
Salomão, para que decidisse a contenda. Decidiu o rei que se cortasse ao
meio o menino disputado e que se désse metade d'elle a cada contendora.
Uma das mães acceitou a sentença; mas a outra clamou que antes se désse
o menino inteiro e vivo á sua rival. Assim concluiu Salomão que a
verdadeira mãe era aquella que não consentia na morte da creança. Mandou
por isso que esta lhe fôsse intregue.

Por espaço de muitos annos observou Salomão a lei de Deus, governando o
seu povo com grande sabedoria e justiça; mas nos ultimos annos da vida
prevaricou, edificando templos aos falsos deuses, adorados por
mulheres estrangeiras que tomou contra os preceitos de Deus. Não se sabe
com certeza se chegou a arrepender-se d'este peccado, de que foi
reprehendido pelo Senhor; mas julga-se que se arrependeu, compondo então
o livro sagrado chamado _Ecclesiastes_, que figura no Novo Testamento e
em que mostrou a vaidade das grandezas humanas.

A Salomão succedeu Roboão, seu filho, principe imprudente e tyrannico,
que, pedindo-lhe o povo que o alliviasse dos tributos, respondeu que não
só o não faria, antes os havia de augmentar e tratar os Israelitas como
escravos. Vendo e ouvindo isto, dez tribus rebellaram-se contra Roboão,
acclamando por seu rei a Jeroboão, homem sedicioso e impio; e só as
tribus de Judá e de Benjamin ficaram na obediencia de Roboão, que se viu
obrigado a fugir precipitadamente para Jerusalem.

Dividiu-se assim o reino em dois: a parte que permaneceu sujeita a
Roboão chamou-se Reino de Judá, ou Judéa; a outra, que seguiu a
Jeroboão, denominou-se Reino de Israel.

Jeroboão esqueceu a lei de Deus, mandou fabricar bezerros de oiro, que
fez adorar como divindades, sendo assim causa da maior parte dos
Israelitas cahirem em idolatria. Na mesma impiedade viveram os seus
successores, os 21 reis que governaram Israel por espaço de 254 annos,
findos os quaes foi o reino destruido pelos Assyrios e seu rei
Salmanazar, que tomou Samaria e levou captivas as dez tribus de Israel.

No reino de Judá continuou-se a adorar o verdadeiro Deus, ainda que
Roboão e muitos dos seus successores por varias vezes permittiram a
idolatria; por isso foi o reino castigado pelo Senhor, que o intregou
aos seus inimigos. O reino de Judá durou por 468 annos, contados do
principio do reinado de David. Os peccados dos Judeus foram causa de
Deus os intregar aos Chaldeus que, governados por seu rei Nabucodonosor,
tomaram a cidade de Jerusalem, queimaram o templo do Senhor, e levaram
os Judeus para o seu paiz. Este captiveiro chamou-se o «captiveiro de
Babylonia» que durou por mais de 70 annos.

Foi dada a liberdade aos Judeus por Cyro, rei dos Médos, Persas e
Chaldeus, o qual subjugou estes dois ultimos povos, ganhou varias
batalhas e tomou Babylonia. Tomada esta cidade permittiu Cyro aos Judeus
que regressassem á sua patria, o que se effectuou sob o mando do summo
pontifice Josué e de Zobadel. Mal chegaram a Jerusalem, o seu primeiro
cuidado foi a re-edificação do templo, a qual não poderam logo levar
a effeito por lh'o impedirem os Samaritanos, conseguindo por fim
concluil-a Zorobabel, mediante o auxilio de Dario I. por pouco durou a
independencia dos Hebreus. As reformas de Esdras, nas quaes se
comprehendia a prohibição de casamentos com mulheres de outras nações, e
a dissolução das familias até então constituidas contra esse preceito,
originaram um scisma, em que parte do povo se reuniu aos Samaritanos,
ficando a nação muitissimo infraquecida. Aproveitando este estado,
subjugaram os Persas a Judéa, cuja historia desde então até á conquista
de Alexandre se confunde com a das outras provincias humildes, sujeitas
ao dominio d'aquelle imperador. Continuou a rivalidade entre os Judeus e
os Samaritanos, aos quaes os primeiros não permittiam a intrada no
templo de Jerusalem. Os Judeus não constituiam assim já um povo, mas uma
simples communidade religiosa ou uma casta sacerdotal, isolada no meio
das outras populações do grande imperio persa.

Realizada a conquista d'este imperio em tempo de Dario Codomanno,
submetteu-se a Judéa ao conquistador, sem resistencia; por morte de
Alexandre foi governada successivamente por Laomedonte e pelos reis do
Egypto e da Syria. Com os Machabeus chegou a recobrar a sua
independencia, sendo Aristobulo proclamado rei; mas repetidas guerras
civis deram logar á intervenção dos Romanos na Palestina, chegando
Pompeu a intrar em Jerusalem, que ficou desde essa epocha em estado de
incompleta servidão.

Por fim realizou-se a annexação da Judéa aos dominios de Roma, sendo
Herodes incarregado do governo d'ella pelo imperador Augusto; mais tarde
augmentaram as dissensões e rixas, que desde o principio houvera entre
Judeus e Romanos, o que levou Nero a mandar Vespasiano, seu general,
para reduzir completamente á obediencia a Judéa. A conquista d'esta foi
interrompida pelo regresso de Vespasiano a Roma, para assumir o governo
imperial, e só veio a ser ultimada pelo imperador Tito, que foi em
pessoa á Palestina com um exercito de 60:000 homens. Á vista do exercito
romano, applacaram-se as contendas civis que havia em Jerusalem, e esta
cidade defendeu-se durante muito tempo, com um denodo verdadeiramente
heroico, contra o inimigo que a cercava. Por fim cahiu a ultima obra de
defesa, a cidade foi invadida, e o templo incendiado. Os Judeus, perdida
toda a esperança, mataram suas mulheres e filhas e suicidaram-se em
seguida, preferindo isso a intregarem-se com vida aos Romanos. A tomada
de Jerusalem deu-se no anno 70 da era christan. O povo Hebreu
perdeu, desde então e para sempre, a sua unidade politica, apezar de
continuar até hoje a existir disperso pelo mundo, com os caracteres
particulares da sua raça e da sua religião.

Já depois de submettida a Judéa aos Romanos, mas antes da tomada de
Jerusalem, nasceu perto d'esta cidade, em Bethlem, Jesus Christo, quatro
annos antes da era actual (ou era christan).



CAPITULO II

OS EGYPCIOS


As populações que primitivamente habitaram o valle do Nilo foram
subjugadas, ou compellidas para o sul, por um povo vindo da Asia pelo
isthmo de Suez. Passou-se isto em tempo anterior aos mais antigos
monumentos historicos. Aquelle povo conquistador, que alli se
estabeleceu, veio a constituir o que na Historia Antiga é conhecido pela
denominação de _povo egypcio_.

Nada ao certo é conhecido quanto ao governo primitivo dos Egypcios, que
se presume ter sido nos primordios _theocratico_ ou _sacerdotal_. Parece
provavel que aquelle paiz tinha chegado já a um certo estado de
civilização e estava bastante povoado pela epocha de 2000 annos antes da
era de Christo. Segundo Herodoto, foi Menés o fundador da monarchia
egypcia, a qual durou 1663 annos, desde a sua origem até á conquista do
Egypto por Cambyses. O dominio d'aquella monarchia limitou-se primeiro a
Thebas, cidade fundada pelo mesmo Menés, e aos seus arredores; mas este
monarcha accrescentou consideravelmente o seu territorio, construindo
diques para impedir que o Nilo continuasse a alagar os seus campos
marginaes. Nos terrenos assim conquistados ao rio, e na extremidade do
_delta_ d'este, edificou uma cidade grande e importante, que teve o nome
de Memphis.

Dos seculos que se seguiram ao reinado de Menés apenas ha vestigios
muito obscuros na Historia. Reinaram durante elles differentes
dynastias, a mais notavel das quaes foi a quarta, de que foi fundador
Snervu, e que se denominou «a dynastia dos Pharaós». Os tres Pharaós
immediatos successores de Snervu foram Cheops, Khavrá e Mycerino, que se
tornaram celebres por haverem mandado construir as tres grandes
pyramides, que foram destinadas a servir-lhes de tumulos. Situadas na
planicie de Gyzeh, na margem esquerda do Nilo, a breve distancia de
Memphis, são aquellas pyramides os mais notaveis monumentos da
civilização egypcia. A de Cheops tem 147 metros de altura, a de Khavrá
138, e a de Mycerino 66. A mais alta foi construida em 30 annos, por
100:000 homens, que eram substituidos de seis em seis mezes.

Os reis de outra dynastia, a duodecima, tornaram-se notaveis pelas
grandes obras hydraulicas que imprehenderam no Nilo, construindo um
grande numero de canaes, para distribuirem as aguas pelas differentes
regiões do sólo, afim de lhes augmentar a fertilidade e de prevenir as
inundações.

Mais tarde, reinando Timaos, um povo originario da Asia (os Hyksos ou
_Pastores_) invadiu o Egypto, cuja antiga civilização destruiu. A
invasão, comtudo, não se extendeu além do _delta_ do Nilo e do baixo
Egypto. A parte, de que Thebas era capital, escapou á dominação dos
Hyksos que porfim foram expulsos do paiz por Amenophis Thetmosis,
descendente dos antigos reis do Egypto.

Entre os reis que succederam a este, houve notavel (alêm de outros)
Moeris que executou differentes obras muito importantes, no numero das
quaes figura o famoso lago que tomou o nome d'elle, e que foi destinado
a receber as aguas do Nilo, quando a sua grande abundancia ameaçasse o
Egypto de ser totalmente inundado. Este lago fornecia agua, por um
grande numero de canaes, a differentes zonas que fertilizava.

Tornou-se tambem muito notavel o rei Sesostris (Ramsés-Meiamun), que foi
o primeiro que armou uma esquadrilha; bateu-se com os Arabes, que
subjugou, e outrotanto fez aos Lydios e Ethiopicos. Imprehendeu a
conquista da Asia; e, tendo deixado seu irmão Danao no governo do reino,
bateu e derrotou os Assyrios, os Medos, os Scythas e os Phenicios;
submetteu a Thracia, a Colchida, e chegou até ás margens do Ganges.
Deixou por toda a parte inscripções, commemorando as suas victorias.
Regressando aos seus estados, dedicou-se a promover o progresso das
artes, felicitou o povo com uma paz duradoura, e accrescentou ás suas
glorias militares a de ter fundado instituições politicas e promulgado
leis de geral utilidade. Tendo cegado na velhice, não poude resistir a
essa infelicidade e suicidou-se. Os Egypcios, gratos á sua memoria,
ergueram-lhe templos, nos quaes lhe prestavam as mesmas honras que aos
seus deuses. Por esse tempo tinha chegado o Egypto á phase do seu
maior esplendor. Tempos depois começou a pronunciar-se a sua decadencia,
que as perturbações intestinas contribuiram bastante para precipitar. A
Ethiopia proclamou a sua independencia; e os povos da Syria, sempre
insubordinados e irrequietos, negaram-se a pagar os tributos. A unidade
nacional veio a quebrar-se, e o paiz dividiu-se em vinte pequenos
estados independentes. As rivalidades entre estes differentes estados
levou-os a admittirem no seu seio os estrangeiros, cuja intrada até alli
fôra sempre vedada no Egypto. Foi então que os Ethiopes e os Assyrios
disputaram o paiz e fizeram conquistas que, comquanto não fossem
duradouras, comtudo apressaram bastante a ruina da nação. Depois de
expulsos aquelles dois povos, o Egypto ficou sendo governado outra vez
por principes independentes. No delta do Nilo havia doze d'estes
principes, os quaes constituiram uma confederação, formada dos seus
estados, a que se chamou _dodecarchia_. Um d'aquelles principes, porêm,
chamado Psammeticho I, derrubou á mão armada os outros principes e
restabeleceu a unidade nacional. Durante o reinado d'este monarcha,
ainda o Egypto se ergueu um pouco da sua decadencia e pareceu querer
voltar ao seu antigo esplendor e grandeza; floresceram de novo as
lettras, as bellas-artes e a industria; e continuaram outra vez um pouco
as grandes obras de irrigação que estavam--havia muito--suspensas.
Sustentou-se no throno durante 47 annos a dynastia de Psammeticho; no
reinado de um dos seus descendentes, Amasis, teve o Egypto uns annos de
certa prosperidade, a que logo poz termo a conquista persa, realizada
por Cambyses. Desde esta até á conquista por Alexandre Magno medeiam
dois seculos, durante os quaes os Egypcios tiveram politicamente uma
existencia miseravel. Com a conquista pelos Romanos, depois da morte de
Cleopatra, incerra-se a Historia Antiga do Egypto, que durou uns
cincoenta seculos, e na qual se contam 34 dynastias.

Gosou sempre de grande fama a civilização dos Egypcios durante o periodo
da Historia Antiga. Os proprios Gregos chegaram a gabar-se de que muitos
dos seus philosophos e legisladores tinham ido á terra do Nilo
instruir-se nas sciencias ou na arte de governar. Comtudo, fez-se em
tempo uma idéa muito exaggerada do estado a que a sciencia havia chegado
no Egypto. Attribuem-se a este povo conhecimentos mathematicos, e
especialmente astronomicos, muito adeantados; mas não é averiguado que
os possuisse em tal desinvolmento,--e bem poucos vestigios existiam
d'elles, quando alli foram da Grecia, Eudoxio e Platão. A religião,
as artes e a philosophia, é que floresceram muito notavelmente n'aquelle
paiz. As ruinas innumeraveis de que todo o seu sólo está coberto,
bastariam para attestar o grande estado de esplendor a que elle chegou.
A historia das artes apresenta alli muito mais caracteres de certeza do
que a das sciencias. Os monumentos, as ruinas, os templos, os palacios,
os colossos, que nem a acção do tempo nem a do homem puderam ainda
destruir, dão conhecimento do elevado grau de perfeição até onde os
Egypcios levaram a cultura das artes; mas, de todos os monumentos do
Egypto, os mais assombrosos são sem duvida as pyramides (construcções
colossaes que se vêem ainda em differentes pontos, e das quaes as tres
mais notaveis são as de que atraz falámos).

O antigo governo do Egypto era theocratico; reinavam alli os sacerdotes
em nome dos deuses. Os proprios reis estiveram quasi sempre sujeitos ao
poder sacerdotal, que se mantinha principalmente por effeito da severa
distincção das castas. Os sacerdotes constituiam a primeira d'estas, á
qual se seguia a dos guerreiros, depois a dos interpretes, e a dos
trabalhadores (divididos ainda estes em diversas classes, que nunca se
confundiam). A todo o egypcio era prohibido sahir da condição em que
nascêra e abraçar profissão que não fosse a de seu pae.



CAPITULO III

OS ASSYRIOS E BABYLONIOS


O imperio assyrio no principio apenas comprehendeu o territorio situado
a leste do rio Tigre; mais tarde veio a ser formado por todo o
territorio que ficava entre aquelle e o Euphrates, e comprehendeu,
juntamente com a Assyria propriamente dita, a Chaldéa, a Mesopotamia, a
Babylonia e differentes paizes tributarios. A Chaldéa foi, como o
Egypto, um dos primeiros paizes em que começou a desinvolver-se com
certo grau a civilização; os Chaldeus e os Babylonios passam por ser os
primeiros povos que fizeram descobrimentos astronomicos; deve-se-lhes a
divisão do anno em 365 dias, 6 horas e alguns minutos. É muito incerta a
chronologia da historia dos Assyrios: segundo os livros santos, a
fundação de Babylonia e de Ninive realisou-se pelo seculo XXII antes
de Jesus Christo, Nemrod foi fundador da primeira e Assur da segunda.
Nada certo se sabe sobre a historia dos povos que habitaram aquellas
cidades e ainda outras, anteriormente ao tempo de Belo que, por 1780
antes de Jesus Christo, creou o imperio da Assyria, reunindo o reino de
Babylonia com o de Ninive.

Nino, successor de Belo, alliou-se com os Arabes, derrotou os Armenios e
os Medos, estendeu o seu dominio por grande parte da Asia, e levou as
suas conquistas desde o Egypto até ás Indias. Augmentou
consideravelmente a cidade de Ninive, que dotou com palacios e outros
edificios sumptuosos. Depois de tomar a cidade de Bactres (capital da
Bactriana), casou com Semiramis, viuva do governador da mesma cidade e
uma das mulheres mais bellas d'aquelle tempo, da qual teve um filho
chamado Ninias. Pela morte de Nino, ficou Semiramis herdeira do imperio,
que augmentou com conquistas novas; subjugou a Arabia, o Egypto e a
Lybia; illustrou o seu reinado não sómente por grandes acções militares,
mas tambem pela administração do paiz e pelas assombrosas construcções,
das quaes ainda hoje existem ruinas muito notaveis. Tornou Babylonia uma
cidade magnifica e grandiosa, cingiu-a com uma muralha de 15 leguas de
circumferencia, de altura consideravel, e com cem portas de bronze em
toda a sua extensão. Era tão larga essa muralha que sobre ella podiam
passar quatro carroças a par. Construiu tambem Semiramis uma ponte
magnifica sobre o Euphrates (rio que atravessava a cidade) e em cada uma
das extremidades d'ella dois palacios. Um d'estes era a habitação
ordinaria da rainha e deposito das consideraveis riquezas que esta
recebia de todas as provincias do imperio; o outro, incimado por oito
torres de consideravel altura, era um templo consagrado a Belo, e em
cujo interior Semiramis tinha mandado collocar estatuas de oiro, de
quarenta pés de altura, representando varias divindades. Todo o interior
do templo era cheio de baixos-relevos com grande valor artistico, de
magnificas estatuas e de vasos de oiro e de prata primorosamente
trabalhados. A cidade era muito bella e cortada de lindas ruas e praças,
ornadas de opulentos palacios; mas o que sobretudo maravilhava eram os
jardins estabelecidos em terraços elevados sobre o Euphrates e
sustentados por abobadas de altura prodigiosa. Ornados das mais bellas
arvores, inriquecidos com abundancia das mais vistosas flores, eram
cortados de limpidos arroios, alimentados por agua levada áquella altura
por meio de aqueductos e de apparelhos ingenhosissimos. Davam ingresso
no jardim suberbas escadarias, ornadas de estatuas e de vasos
preciosos, em que vegetavam as mais raras flores e arbustos de todos os
paizes então conhecidos.

Na construcção d'aquellas muralhas e de outras com que opulentou
Babylonia, empregou Semiramis 2.000:000 homens durante muitos annos.
Immortalizou-se aquella rainha, não só n'isso, mas tambem na sabia
administração que exerceu nos seus estados e na organização dos seus
exercitos, em que reinou sempre a disciplina mais rigorosa e mais severa
e que ella em pessoa commandou muitas vezes.

Tendo-se ausentado no commando de uma expedição destinada a alargar os
limites dos seus estados, soube que na capital se estava urdindo uma
conspiração para a depôr e substituil-a no governo por seu filho Ninias.
Não quiz ella conservar pela força o throno, que ninguem lhe poderia
disputar; e, intregando voluntariamente o governo ao filho, absteve-se
de punir os conspiradores, e retirou-se do mundo. A população
surprehendida e maravilhada pelo seu subito desapparecimento--que
considerou sobrenatural--erigiu-lhe templos e prestou-lhe honras divinas.

Ninias foi apenas um simulacro de rei. Passou a vida na ociosidade e na
indolencia, e foi o primeiro que estabeleceu o governo do serralho.
Seguiram-se-lhe trinta e tres reis que nada fizeram pelo bem do paiz e
de que a Historia apenas faz menção. O ultimo foi Sardanapalo, cujo nome
ficou lendario e serve para caracterizar os soberanos que põem de lado
os cuidados da governação, para se darem tão sómente á ociosidade e aos
prazeres physicos. Sardanapalo, indolente e crapuloso, estabeleceu a sua
residencia em Ninive, onde passava a vida mettido n'um palacio, cercado
de mulheres, cujos habitos e adornos imitava, deixando em Babylonia o
governo intregue a valídos que de tudo dispunham. Nunca visto de seus
subditos, sempre incerrado no palacio, onde passava as noites em
libações e folgares, não lhe importavam nada os negocios publicos, e só
tratava de esconder aos olhos dos subditos os seus ignominiosos habitos.
Um dia Arbaces, governador da Média, surprehendeu-o no meio de um grupo
de mulheres impudicas, trajando como ellas. Indignado por ver que tantos
valorosos Assyrios estavam sujeitos a um monarcha desprezivel, revelou
aos seus amigos os vergonhosos habitos de Sardanapalo, ligou-se com
Belesis (governador da Babylonia), e ambos foram pôr cerco ao rei no
proprio palacio em que habitava. Depois de tenue resistencia,
Sardanapalo reduzido a circumstancias extremas, quiz apagar com um
esforço supremo de coragem a memoria da sua vergonhosa vida. Mandou
accender n'um dos pateos interiores do palacio uma grande fogueira, na
qual se queimou com suas mulheres, seus escravos e seus thesouros.

Dos restos do imperio assyrio assim desfeito, formaram-se tres grandes
reinos: o de Babylonia, o da Média, e o de Ninive ou da Assyria
propriamente dita. De Babylonia tornou-se rei Belesis, que transmitiu o
poder á sua dynastia, na qual só houve notavel o rei Nabonassar, que deu
o seu nome a uma era especial começada no anno 747, e sob cujo governo a
astronomia fez grandes progressos. Mais tarde cahiu Babylonia em poder
dos reis de Ninive.

Na quéda de Sardanapalo, o principal promotor d'ella, Arbaces, ficou
senhor do reino da Média, e tentou concentrar alli a supremacia assyria
sobre o resto da Asia. Deu certas franquias liberaes aos Medos, os quaes
por si mesmos trataram de fazer leis, dividiram-se em seis tribus, e
crearam juizes para lhes dirimirem os pleitos. Depois da morte de
Arbaces, elegeram elles para rei a Dejoces, um dos seus juizes, que
fundou a cidade de Ecbatane, onde se estabeleceu com sua familia e seu
erario, e concentrou a parte mais importante da população, constituindo
alli a capital da Média. Aquella cidade, pela sua opulencia e pelos seus
monumentos, tornou-se em breve tão celebre como Babylonia e como Ninive.

Dejoces teve por successor a Phraorto, ao qual succedeu seu filho
Cyaxaro I, que conquistou a Persia. Desde então a historia da Média
confunde-se com a do segundo imperio assyrio. Sobre a parte do antigo
imperio assyrio, de que Ninive era capital, ficou reinando, por morte de
Sardanapalo, Nino o _Moço_. Os seus successores tentaram reunir aos seus
dominios Babylonia, o que chegaram a conseguir em tempo de Assar-Haddon.
Entre os reis de Ninive, houve notaveis: Phul; Teglath-Phalasar, que
conquistou Damasco; Salmanazar, que subjugou os Israelitas (como atraz
vimos); e o terrivel Sennacherib. Reinando Sarac, Nabopolassar
(governador da Babylonia) ligou-se com Cyaxaro I, rei dos Medos, e ambos
foram pôr cerco a Ninive. Esta cidade foi tomada depois de uma sangrenta
batalha, e completamente destruida. Assim acabou, depois de 1:800 annos
de existencia, esta celebre e opulenta cidade. Nabopolassar tomou o
titulo de rei da Babylonia, que se appropriou de toda a importancia e
vantagens que desfructava Ninive e se tornou a capital do segundo
imperio assyrio.

Nabuchodonosor succedeu a seu pae Nabopolassar, tonando-se celebre
pela conquista do reino da Judéa e pela tomada de Jerusalem (cujos
habitantes levou captivos para Babylonia) e por se haver apoderado da
Phenicia e destruido a cidade de Tyro. Balthazar foi o ultimo rei do
segundo imperio assyrio que, subjugado por Cyro, cahiu no dominio dos
Persas.

A civilização dos Assyrios e Babylonios foi uma das mais notaveis, não
só da Antiguidade Oriental, mas tambem de toda a Historia Antiga. Ao
passo que vão progredindo os estudos historicos e que se vão descobrindo
novos monumentos, vai-se pondo cada vez mais em relevo a influencia que
aquelles povos exerceram no Oriente e na cultura intellectual das
populações da Grecia. A civilização dos Assyrios e a dos Babylonios
apresentam-se-nos como uma só, quer isso fosse devido á commum origem
dos dois povos, quer á mutua transmissão de conhecimentos e de usos nos
tempos historicos, podendo dizer-se que havia então homogeneidade de
meio. Apenas differem em pontos, a que os differentes caracteres dos
dois povos imprimiam feições especiaes. Os Assyrios, por exemplo, eram
sobretudo guerreiros, corajosos e intrepidos, incançaveis nos exercicios
mais violentos e conquistadores insaciaveis; os Babylonios, comquanto
tambem fossem bons soldados, tinham menos tendencia para a guerra de
conquista, o que em parte dá a razão de ter sido tão pouco duradoiro o
seu dominio. Os Babylonios representaram um papel muito importante no
commercio da Asia. Na industria, elles e os Assyrios adeantaram-se
consideravelmente, chegando a notavel perfeição, sobretudo no que tocava
a tecidos preciosos, a ourivesaria, a loiça, a esmaltes, etc. De
esculptura deixaram os Assyrios obras de alto valor e merecimento
artistico, sempre admiradas e tidas como objectos de grande estimação.



CAPITULO IV

OS PHENICIOS


Os Phenicios foram um dos povos mais notaveis da Antiguidade Oriental;
mas, apezar d'isso, escasseiam bastante os documentos historicos
directos da sua civilização. A Phenica comprehendia apenas uma estreita
faixa de terreno, entre as faldas do monte Libano e o mar Mediterraneo.
N'aquella apertada zona teve a sua evolução um dos movimentos
civilizadores da Antiguidade, cuja influencia se sente de modo
consideravel na Historia Antiga e chega ainda até nós, por meio do
alphabeto, pelos Phenicios inventado e propagado.

Os Phenicios são geralmente considerados como um povo pertencente á raça
chamitica, tendo grandes affinidades com as tribus cananéas que, uns
vinte e quatro seculos antes de Christo, se estabeleceram,
disseminando-se, nos valles do Jordão e do Oronte, e nas margens do
Mediterraneo. Comtudo elles falavam uma lingua da familia dos semitas,
muito similhante á dos Hebreus,--e as suas relações com os povos
semiticos da Palestina foram sempre muito estreitas.

Em nenhuma epocha da sua historia apparecem os Phenicios com uma unidade
nacional caracterizada, como os povos de que anteriormente tratámos.
Viveram sempre em cidades separadas, com chefes independentes, de
jurisdicção limitada a certa porção de territorio. Era o ultimo limite
da descentralização governativa. Comtudo sempre uma cidade exerceu
hegemonia entre todas as outras povoações phenicias. As duas cidades
que, como grandes centros politicos e commerciaes, exerceram
successivamente essa hegemonia foram Sidon e Tyro. D'ahi provêm a
divisão da historia da Phenicia em dois periodos: o _sidonio_ e o _tyrio_.

No primeiro periodo, Sidon (que foi a mais antiga das cidades phenicias
de que ha memoria nos livros dos historiadores) exerceu a supremacia da
influencia sobre as demais populações, organizou grandes expedições
maritimas e teve um grande movimento de expansão colonizadora. Thutmés
I, rei do Egypto, fez acceitar pelos Phenicios a sua suzerania; mas esse
facto foi-lhes antes util do que prejudicial, porque lhes proporcionou a
faculdade de commerciarem no Egypto, passando a estabelecer feitorias
nas cidades do _delta_, e chegando até a terem uma colonia sua
estabelecida n'um bairro especial de Memphis, por elles exclusivamente
habitado. N'essa epocha navegaram por todo o oriente do Mediterraneo, e
chegaram até Chypre, sendo com o auxilio d'elles que esta ilha ficou
submettida ao dominio dos Egypcios. As suas tendencias e habitos
commerciaes levaram-n'os á ilha de Creta, á Cilicia e até ao Mar-Negro,
estabelecendo por toda a parte colonias e feitorias. No Occidente
alargaram-se pelo littoral do norte da Africa e estabeleceram colonias
nos territorios em que hoje existem as regencias de Tripoli e de Tunis.
Cruzando-se alli com a população indigena, deram origem ao povo dos
liby-phenicos, que chegaram a adquirir importancia na Antiguidade.
Pelo interior da Asia extenderam as suas relações commerciaes até ao rio
Tigre e á Arabia.

Pelo seculo XIII antes da era christan os Phenicios de Sidon tinham
chegado ao maximo estado de adeantamento e de influencia. Foram então
victimas dos Philisteus, que se haviam estabelecido entre a Phenicia e o
Egypto. Sidon foi tomada e destruida por estes; e a hegemonia phenicia
passou depois para Tyro, começando então o segundo periodo da historia
d'este povo.

N'esse novo periodo, Tyro, succedendo a Sidon como centro do dominio
colonial dos Phenicios, elevou-o bem depressa ao auge da prosperidade. A
direcção, porêm, que imprimiu ao movimento de expansão colonizadora teve
que ser diversa. As populações gregas tinham-se ido desinvolvendo pelas
duas margens do mar Egeu, e não só obstaram a que os Phenicios fossem
por alli estabelecendo novas colonias, mas chegaram a desalojál-os de
algumas posições adquiridas. Por isso os Tyrios tiveram que abandonar
aquelle caminho e trataram de espalhar-se para os lados do occidente do
Mediterraneo, que ainda estava desimbaraçado. Foi assim que se occuparam
em estabelecer colonias e feitorias na Sicilia, na Sardenha, na Corsega,
em Malta, nas ilhas Baleares, nas costas da Gallia, e nas da peninsula
iberica, ao mesmo tempo que na margem meridional do mesmo mar alargaram
tambem os seus dominios, fundando as cidades de Utica e de Hippona. Por
fim, transpuseram o estreito hoje chamado de Gibraltar, indo fundar
estabelecimentos pela costa occidental da Europa, onde se suppõe que
chegaram ás costas da Gran-Bretanha, e indo tambem para o sul, onde
talvez chegassem a aportar ás ilhas Canarias e ás de Cabo-Verde.

Então o poderio phenicio chegou ao maximo esplendor e teve a sua edade
de oiro. Reinava Hirão I, que foi contemporaneo dos reinados de David e
de Salomão nos Hebreus. Com estes reis teve elle alliança e por tal modo
promoveu a grandeza phenicia, que a influencia d'esta chegou a sentir-se
consideravelmente em Jerusalem, onde Astarte (uma divindade dos
Phenicios) teve culto, sendo esse um dos actos de idolatria, com que por
vezes os Israelitas offenderam a Deus.

Logo depois se começou, porêm, a manifestar a decadencia da Phenicia.
Duas causas poderosas concorreram para ella: as luctas civis dentro de
Tyro, com successivas revoluções, e os progressos das navegações e da
colonização dos Gregos que vieram a deslocar as dos Phenicios. N'uma
d'aquellas resoluções, que occorreu durante a menoridade do rei
Pygmalião, foi assassinado o regente do estado e teve que
expatriar-se sua viuva Elisa, que com os seus partidarios foi para a
Africa, onde fundou a cidade de Carthago. Esta Elisa é a rainha que
figura com o nome de Dido na _Eneida_ de Virgilio.

A diminuição do dominio no exterior e a fraqueza do poder no interior,
fizeram que a Phenicia fosse successivamente invadida pelos Assyrios,
pelos Babylonios e pelos Egypcios. Do dominio d'estes tres povos passou
depois ao dos Persas, a que se submetteu voluntariamente, e porfim veio
a ser conquistada por Antigono, um dos generaes de Alexandre Magno, que
a assediou com uma numerosa frota e a venceu, passando ella ao dominio
d'aquelle imperador, que substituiu na Asia a dominação dos Persas.



CAPITULO V

OS CARTHAGINEZES


Crê-se geralmente que a cidade de Carthago foi fundada, (como acima
dissémos) por Dido, pelos annos 888 antes da era christan; comtudo ha
quem affirme que ella havia sido edificada antes, pelos annos 1059, por
uma colonia phenicia de Tyro.

Seja como fôr, o que é certo é que os Carthaginezes apparecem-nos, pelos
annos de 540 antes de Christo, constituindo já uma republica de certa
importancia. N'essa epocha alliaram-se com os Etruscos e forneceram-lhes
trinta navios para o ataque da Corsega.

A republica de Carthago tinha um senado e duas assembléas populares, que
elegiam os magistrados incarregados da administração civil e os generaes
incumbidos do commando dos exercitos. O senado era formado por todos os
cidadãos notaveis por sua edade, nascimento, riqueza ou merito pessoal.

Carthago, nas suas guerras, empregava unicamente soldados extrangeiros
assalariados, para não despovoar a republica que occupava apenas uma
limitada área de 75 leguas quadradas, e para que os seus cidadãos não
abandonassem o commercio, que era a fonte da riqueza e do poderio do
estado. A Numidia e a Hespanha forneciam-lhe a sua cavallaria; a
Gallia, a Liguria e a Grecia, a sua infanteria; e as ilhas Baleares, os
seus fundibularios, tão notaveis pela destreza.

Os Carthaginezes foram senhores da Sardenha; tiveram estabelecimentos
seus na Hespanha e na costa da Sicilia. Eram habeis e ousados
navegadores,--o que, junto á vantajosa posição geographica de Carthago,
foi causa do seu ingrandecimento e riqueza.

Durante dois seculos viveram em paz com os Romanos, com os quaes
celebraram tratados, que estabeleciam os limites reciprocos da navegação
e regulavam o commercio entre aa duas republicas. Mas a crescente
prosperidade de Carthago começou a inspirar inveja aos Romanos, e esse
sentimento mais tarde ou mais cedo devia accender a guerra entre as duas
nações. Foi o que succedeu.

Tendo-se originado guerra na Sicilia entre os Mammertinos e Hierão (rei
de Syracusa), pediram os primeiros soccorro aos Romanos, emquanto Hierão
recorreu ao auxilio dos Carthaginezes. Tal foi a causa das guerras entre
Carthaginezes e Romanos, conhecidas pelo nome de _guerras punicas_ (do
latim _Poeeni_, que a principio queria dizer «_Phenicios_», mas que
mais tarde se ampliou em significação, comprehendendo os Carthaginezes).
Houve tres _guerras punicas_ designadas por sua ordem chronologica:
primeira, segunda e terceira.

A primeira guerra punica durou do anno 264 a 241 antes de Christo.
N'ella os Romanos, comquanto muito menos prácticos do que os
Carthaginezes na arte de navegar, começaram por uma brilhante victoria
naval. Perto das ilhas de Lipari, batteram a frota de Carthago e
metteram-n'a a pique. A frota romana era commandada por Duilio Nepote, a
quem por isso Roma ergueu uma estatua. Cornelio Scipião, general romano,
expulsou os Carthaginezes da Corsega e da Sardenha. E Regulo, depois de
tomar Chypre, chegou triumphante deante de Carthago; mas, vencido por
sua vez por Xantippo (general lacedemonio que fôra em soccorro dos
Carthaginezes), foi aprisionado. Inviado, sob palavra, a Roma para que
negociasse a troca dos prisioneiros, Regulo aconselhou, pelo contrario,
o senado a que não intrasse em taes negociações,--pelo que, voltando a
Carthago, soffreu morte cruel.

Metello, outro general romano, expulsou os Carthaginezes da Sicilia;
mas, emquanto isto se passava, a frota romana, commandada por Claudio
Pulcher, era completamente destruida junto de Lilybea. Por fim, depois
de uma grande victoria dos Romanos, commandados pelo consul Luctacio,
sobre os Carthaginezes sob o mando de Amilcar, celebrou-se a paz com
a condição dos segundos cederem aos primeiros todas as ilhas situadas
entre a Italia e a Africa e pagarem-lhes durante dez annos um tributo
annual de 2:200 talentos.

A segunda guerra punica teve a seguinte origem. Os Carthaginezes, para
compensação das perdas soffridas em resultado da primeira guerra,
trataram de alargar os seus dominios na peninsula hispanica. Amilcar
Barcas subjugou uma grande parte d'ella e Asdrubal edificou Carthagena.
Os Romanos, que não podiam ver com bons olhos o novo ingrandecimento dos
seus rivaes, começaram a inquietar-se com aquellas conquistas e exigiram
dos Carthaginezes que firmassem tratados, pelos quaes se obrigassem a
não extender as suas conquistas alêm do Ebro e a respeitarem Sagunto,
que era alliada de Roma. Mas Annibal, filho de Amilcar, depois de se
haver apoderado de varias outras povoações, poz cêrco a Sagunto e
deatruiu-a. Isso foi motivo para a segunda guerra punica.

Annibal, tomando a offensiva, invade a Italia e ganha differentes
victorias, chegando Roma (não obstante o talento do pro-dictador Fabio)
a estar seriamente ameaçada. Mas o senado de Carthago hesitou em mandar
a Annibal os soccorros pedidos; este teve que procurál-os na Sardenha,
na Sicilia e na Macedonia, e mandou ir da Hespanha seu irmão Asdrubal
com um novo exercito de Hespanhoes e de Gaulezes. A desorganização, a
heterogeniedade d'estes elementos, e a sua indisciplina, valeram aos
Romanos nas apertadas circumstancias a que haviam chegado. Alêm d'isso o
soccorro levado por Asdrubal não poude chegar ao seu destino, porque
aquelle general, detido no caminho por um exercito romano sob o mando
dos dois consules, teve que dar-lhe batalha em que morreu, sendo
desbaratada toda a sua gente.

Entretanto Publio Scipião com um exercito romano passou a Africa e foi
cercar a propria cidade de Carthago. Annibal teve que deixar a Italia
para acudir em soccorro da capital da sua patria, e alli foi derrotado
nas planicies de Zama. Passou-se isto no anno 202 antes da era christan.
Esta victoria de Scipião poz termo á segunda guerra punica.

No seu regresso a Roma, Scipião foi alvo das mais esplendidas ovações, e
deram-lhe o cognome de _Africano_.

Depois da paz de Zama, pode dizer-se que a existencia de Carthago foi
uma lenta agonia. Massinissa, rei da Numidia, expoliou-a de muitas
povoações e de grande extensão de territorio; os Carthaginezes
appellaram para Roma, porque Massinissa era alliado dos Romanos; mas o
senado de Roma, promettendo-lhes justiça, deixou que aquelle rei
permanecesse na posse dos territorios de que se tinha apoderado. Para
apparentar uma arbitragem, inviou Catão a Carthago; mas este, vendo a
cidade rica e prospera, sentiu reviver o odio contra a rival de Roma. E
voltando, sempre terminava os seus discursos no senado pela phrase, que
ficou celebre: _delenda Carthago_ («deve ser destruida Carthago»). Tendo
os Carthaginezes repellido um novo ataque de Massinissa, Roma pretextou
que houvera violação do tratado de paz de Zama e declarou a terceira
guerra punica, que, depois de varia sorte, terminou por um cêrco a
Carthago, no qual os Carthaginezes foram reduzidos pela fome. Scipião
Emilio, o segundo _Africano_, general romano, tomou a cidade e
arrazou-a. Commissarios do senado de Roma tomaram posse do territorio
carthaginez e fizeram d'elle uma provincia romana, com o nome de
_Africa_. Foi isto no anno 146 antes de Christo.



CAPITULO VI

OS SYRIOS


Nada se conhece ao certo dos tempos primitivos da historia da Syria. A
historia dos seus reis confunde-se inteiramente n'aquella epocha com a
dos monarchas assyrios. Até ao desmembramento dos estados de Alexandre,
a Syria foi successivamente invadida pelos reis de Ninive, pelos de
Babylonia, pelos Persas em tempo de Cyro, e finalmente pelo dito
Alexandre. Depois da morte d'este, Nicator Seleuco (um dos seus
generaes) começou a fundação do grande reino da Syria, appellidado
tambem «reino dos Seleucidas» do nome do seu fundador. A Nicator Seleuco
succedeu no throno Antiocho Soter, que bateu os Bithyneos, os Macedonios
e os Galates.

O rei mais celebre da Syria foi Antiocho, cognominado o _Grande_. Depois
de ter conquistado a Judéa, a Phenicia e diversos outros paizes,
concebeu o plano de submetter ao seu dominio as cidades livres da Grecia
asiatica, Lampsaco, Smyrna e outras. Pediram estas cidades soccorro aos
Romanos, e estes inviaram embaixadores a Antiocho, convidando-o a que
deixasse aquellas cidades em paz e a que restituisse a Ptolomeu
Philadelpho o territorio que por conquista lhe tinha tirado. Antiocho
respondeu, declarando guerra aos Romanos. Seguiu-se uma lucta em que
aquelle rei foi vencido por Scipião o _Asiatico_, que só lhe
concedeu a paz depois d'elle haver dado satisfacção aos Romanos. Mais
tarde Antiocho Epiphanes usurpou a Demetrio o throno da Syria; teve
varias guerras com os extrangeiros e tomou Jerusalem. N'aquella cidade
mandou matar grande numero de habitantes, roubou os vasos sagrados do
templo; e, voltando á Syria, deixou a Judéa governada, em seu nome, por
seus generaes, que exerceram muitas perseguições contra os Judeus.
Ordenou por uma lei que todos os povos sujeitos ao seu imperio usassem
as mesmas superstições gentilicas seguidas n'este; e, depois de ter
profanado o templo de Jerusalem, mandou n'elle collocar uma estatua de
Jupiter Olympico. Por medo das perseguições, muitos Judeus abandonaram o
culto do verdadeiro Deus e lançaram-se no seio da idolatria; outros,
fieis ás suas crenças e ás suas leis, soffreram por isso tormentos
crueis. Alguns d'estes tornaram-se muito notaveis, pela sua corajosa
resistencia ás ordens do conquistador, e pelo valor com que soffreram o
martyrio. O velho Eleazar, varão de mais de 90 annos, foi apresentado em
Antiochia ao rei Antiocho, como réu de observar a lei moysayca e de não
querer sacrificar aos falsos deuses. Não sendo possivel obrigál-o a
comer das carnes prohibidas nem a fingir que o fazia, foi cruelmente
martyrizado. Septe irmãos, conhecidos pelo nome de «Irmãos Machabeus»,
juntamente com sua mãe, que os exhortava á perseverança na lei e na fé,
soffreram os mais atrozes supplicios até expirarem, desprezando as
promessas e as ameaças com que o rei os queria vencer.

Mathatias (sacerdote da tribu de Levi), sendo já de edade muito
avançada, matou a um israelita que na sua presença, obedecendo ás ordens
de um soldado de Antiocho, ia para Sacrificar aos falsos deuses, e em
seguida matou tambem o mesmo soldado. Feito isto, retirou-se com seus
cinco filhos Judas Machabeu, João, Simão, Eleazar e Jonathas; e,
juntando os Judeus que ainda seguiam o verdadeiro Deus, foi
restabelecendo por toda a parte o verdadeiro culto e derrubando os
altares e estatuas dos falsos deuses. Cahindo doente, recommendou á hora
da morte aos filhos que com as armas defendessem a patria e a religião
contra os tyrannos. Judas Machabeu tomou logo o commando das tropas; e,
com grande valor, foi lançando fóra da Judéa os Syrios. Venceu varios
generaes de Antiocho em differentes batalhas, e reparou e purificou o
templo de Jerusalem. Morreu entretanto Antiocho; e, ainda depois d'isso,
Judas Machabeu proseguiu na guerra contra os Syrios, dos quaes libertou
completamente a Judéa.

O ultimo rei da Syria foi Antiocho II. No seu tempo, o reino da
Syria, que tinha durado por 238 annos, cahiu em poder de Roma, da qual
ficou sendo uma provincia.



CAPITULO VII

OS PERSAS


É extremamente obscura e confusa a historia dos Persas anterior a Cyro,
que viveu no seculo VI antes da era christan. Está intimamente ligada á
dos Médos.

Cyro era filho de Cambyses, rei da Persia, tributario dos Médos, de cujo
rei Cyaxaro II era sobrinho.

Pela morte de Cambyses e Cyaxaro, Cyro succedeu-lhes nos governos e
reuniu o obscuro reino da Persia ao da Média. Sob o seu governo, foi a
Persia um grande imperio, ao qual estiveram sujeitos a Grande Asia, a
Asia Menor, a Syria e a Arabia.

A Cyro succedeu seu filho, tambem chamado Cambyses. Sob o mando d'este
soberano ainda mais cresceu o poderio da Persia, que se accrescentou com
a conquista do Egypto. A causa da guerra entre as duas nações foi
Cambyses ter pedido a Amasis (rei do Egypto) sua filha em casamento, e
este, inganando-o, ter-lhe inviado, em vez d'ella, a filha de Apriés.
Para tirar vingança de tal affronta, Cambyses introu no Egypto,
incontrou-se perto de Pelma com o exercito egypcio, commandado por
Psammenito (filho e successor de Amasis), batteu-o e desbaratou-o.
Depois apoderou-se de Memphis e de Sais; e em seguida imprehendeu a
conquista da Ethiopia. Para isso seguiu o curso do Nilo até Thebas, e
d'alli destacou 50:000 homens do seu exercito para irem combater os
Ammonitas e queimar o templo de Jupiter; mas aquella gente, tres dias
depois da sahida de Thebas, ficou toda sepultada nas areias do deserto,
levantadas e revoltas por um tremendo furacão. Tambem Cambyses se viu
impedido de continuar a sua marcha sobre a Ethiopia, por haver perdido,
em resultado do calor e de privações de todo o genero, as tres quartas
partes do seu exercito e por ter depois soffrido uma horrivel fome,
durante a qual os soldados se devoravam uns aos outros.

Cambyses no principio mostrára-se no Egypto com disposições para usar de
uma politica de conciliação para com os vencidos, chegando a adoptar
os titulos e os trajos dos antigos Pharaós, e fazendo-se iniciar nos
mysterios de Osiris. Porém, depois do mallogro das suas tentativas
contra a Ethiopia e contra os Ammonitas, mudou completamente de systema
e mostrou-se animado de grande intolerancia e ferocidade. Saqueou e
incendiou as cidades e os templos; mandou assassinar os sacerdotes do
boi Apis, o qual por sua propria mão apunhalou; destruiu por toda a
parte as imagens dos deuses; e por fim sahiu do Egypto para se recolher
á Persia. Quando chegou á Syria, rebentou a revolta do falso Smerdis, um
impostor que se inculcava como o irmão de Cambyses (que este assassinára
logo nos primeiros tempos do seu reinado). Apressou-se em ir desmascarar
o rebelde que usurpava o nome de seu irmão, que elle sabia estar morto;
mas, ferindo-se n'uma perna ao montar a cavallo, d'esse ferimento lhe
resultou a morte, succedida logo depois da intrada na Persia.

Herodoto e outros historiadores pintam este Cambyses como um monstro de
ferocidade, e contam d'elle varios feitos atrozes, como o de ter
assassinado com um ponta-pé dado no ventre a sua irman Meroé (com quem
tinha casado, conforme ao uso da Persia, e que d'elle estava gravida).

Morto Cambyses, succedeu-lhe no throno o falso Smerdis, que continuou a
fazer-se passar por seu irmão, e que era simplesmente o irmão de um
mago, a quem estava incumbida a administração do palacio real. Conseguiu
reinar oito mezes; mas, passados elles, septe dos mais poderosos chefes
persas urdiram uma conspiração, desmascararam-n'o, deram-lhe a morte, e
acclamaram rei o mais illustre entre elles (Dario, filho de Hystapes).

No reinado de Dario os Babylonios revoltaram-se, e foram reduzidos á
obediencia pelo estratagema de um official persa chamado Zopiro que,
havendo mutilado voluntariamente o rosto, foi persuadir os Babylonios de
que tinha sido victima da crueldade de Dario. Admittido na cidade, abriu
as portas ao exercito persa. Dario intentou depois subjugar os Gregos;
inviando contra elles um numeroso exercito, commandado por seu genro
Mardonio, exercito que foi desbaratado por Milciades na planicie de
Marathona. Quando Dario tinha apparelhado novo exercito e se dispunha
para segunda expedição, foi surprehendido pela morte.

Seu filho Xerxes, que lhe succedeu, poz-se á frente d'aquelle numeroso
exercito, cuja força alguns historiadores elevam a 1.700:000 homens, e
de uma esquadra de 1:200 navios, dirigiu-se a atacar a Grecia para
vingar a derrota de seu pae em Marathona; mas foi completamente
derrotado na batalha de Salamina, e teve que tornar a passar o
Hellesponto. No anno seguinte, novo exercito, commandado por Mardonio e
inviado com egual intento contra a Grecia, foi desfeito junto de Platéa
por Pausanias (general da Lacedemonia), e por Aristides. Xerxes veio a
morrer assassinado, no vigessimo anno de governo, por Artabano (capitão
da sua guarda). Succedeu-lhe seu filho Artaxerxes que, constrangido por
Cimon (filho de Milciades), que o venceu perto de Chypre, teve que dar a
liberdade aos Gregos da Asia.

Depois d'elle reinou Dario II, que se alliou com Sparta contra Athenas;
e a este succedeu Artaxerxes Mnemon, cujo irmão, Cyro o _Moço_, se
revoltou contra elle, com o concurso de tropas gregas, terminando a
revolta pela batalha de Cunaxa, em que aquelle principe foi morto, facto
a que se seguiu a celebre «retirada dos dez mil» picturescamente
descripta pelo historiador Xenophonte.

Pela paz de Antalcidas os Gregos da Asia tornaram a cahir sob o jugo dos
Persas--cujo imperio se ia, comtudo, progressivamente infraquecendo. O
ultimo rei foi Dario Codomano, no principio de cujo governo foi a Persia
invadida pelas tropas de Alexandre Magno, o qual, nas tres batalhas de
Granico, do Isso, e de Arbella, destruiu todo o poder d'aquella nação,
que na ultima d'ellas se rendeu á discreção do vencedor.

Durante seis seculos permaneceu a Persia confundida no immenso imperio
dos Parthos; mas, no anno 228 da era actual, Artaxerxes, filho de um
simples soldado, tendo-se elevado pelos seus meritos ás mais altas
dignidades, levantou os Persas contra Artabano, ganhou diversas
victorias e, sendo acclamado rei, fundou o segundo imperio persa. Depois
de haver reinado treze annos, com muito discernimento e prestigio,
morreu, legando a corôa a seu filho Sapor. Este devastou a Mesopotamia,
a Syria e a Cilicia; e ter-se-ia tornado senhor de toda a Asia, se
Odenato, rei de Palmyra e alliado dos Romanos, não tivesse obstado á
continuação das suas victorias e conquistas. Aprisionou o imperador
romano Valeriano ao qual, depois de o conservar por algum tempo captivo,
mandou esfollar em vida. Sapor foi, por sua vez, vencido por Odenato; e,
tendo regressado aos seus estados, foi pouco depois assassinado. Depois
d'estes acontecimentos foi successivamente infraquecendo o segundo
imperio persa. No seculo IV da era christan Sapor II tornou a
fortalecêl-o com suas conquistas, mas por pouco durou essa epocha de
renascimento. O imperio recahiu bem depressa, e a decadencia foi
progredindo até ao momento em que no seculo VII a Persia foi subjugada
pelos Arabes.

Os Persas foram celebres no tempo de Cyro pela sua austeridade e pela
sua coragem. As creanças (segundo conta Platão) recebiam uma educação
propria para d'ellas formar bons cidadãos, uteis á patria. Até á edade
de dezesete annos permaneciam fóra da casa paterna, intregues a
educadores, especialmente incumbidos de lhes inocularem no espirito os
dictames da coragem e da virtude.

O imperio era dividido em provincias, governada cada uma por um
_satrapa_, que recebia directamente ordens do rei. Era tida em especial
consideração a agricultura, e muito honrados os que a exerciam; os
cultivadores mais activos e laboriosos eram recompensados e admittidos
uma vez em cada anno á mesa do soberano. A administração da justiça
estava confiada a varões sabios e prudentes, e os juizes que
prevaricavam eram punidos com a pena de morte. A legislação não se
limitava a comminar penas contra os crimes e delictos; tratava tambem de
os evitar, inspirando o horror ao vicio e o amor á virtude.

Os Persas eram monotheistas; adoravam uma só divindade, que era Mithra
(o Sol); os emblemas da omnipotencia do Creador eram entre elles os
fogos sagrados, mantidos com o maior respeito e solicitude. Os _magos_,
ou sacerdotes, eram homens notaveis pelo seu saber, pela sua gravidade e
pela austeridade da sua vida; eram os sabios e os jurisconsultos da nação.

Depois da epocha de Cyro, intregaram-se os Persas a todos os excessos de
devassidão; dissolveu-se a disciplina do exercito; os grandes da nação
abandonaram a existencia viril, que os distinguia, e cahiram na inacção
e na ociosidade, o que foi uma das principaes causas da decadencia e da
quéda, do imperio.



CAPITULO VIII

OS INDIOS


Dá a Geographia a denominação de India a uma extensa peninsula, situada
ao sul da cordilheira do Himaiaya, que é uma das de maior altitude no
mundo. Divide-se a peninsula em tres regiões differentes:--1.ª, o
_Hindustão_ propriamente dito, constituido pelo territorio das duas
bacias do Indo e do Ganges;--2.ª, o _Deccan_, peninsula situada ao sul
d'aquella região e que termina no cabo Comorim;--3.ª, a _India central_,
constituida pela zona de planaltos, que se extende, do occidente para o
oriente, desde o mar de Oman até ao golpho de Bengala.

As populações que habitam a vasta peninsula indiana podem classificar-se
do seguinte modo:--a raça aryana, ou hindú (Gujarati, Bengali, etc.),
que é a que predomina no Hindustão; a raça dravidica (Tamul, Telinga,
Karnataka, etc.), predominante no Deccan; os restos das raças primitivas
(Ghond, Bhilla, Kolaria, etc.), estabelecidos nas diversas regiões da
India central.

A historia da raça aryana divide-se em quatro periodos, que podem
chamar-se: _vedico_, _epico_, _brahmanico_ e _buddhico_.

No _periodo vedico_, e em epocha que não pode determinar-se com
precisão, uma parte do grupo dos Aryas orientaes destacou-se, constituiu
uma nação á parte (os _Hindus_), que se dirigiu para o valle de Cabul
(antigamente, Kubha), atravessou o rio Indo e extendeu-se pelas campinas
de Pendjab (antigamente, Panchanada).

Grande numero dos hymnos que figuram no celebre _Rig-Veda_ referem-se a
factos, que se passaram n'este primeiro periodo historico, caracterizado
pela immigração e pelo primitivo estabelecimento da raça aryana em
terras da India. Quando esta raça alli chegou, incontrou o territorio
occupado por differentes populações que, ou eram aborigenes, ou pelo
menos tinham longo tempo de habitação n'aquellas paragens. Parte d'estas
populações foi absorvida e assimilada pela raça invasora; outra parte
foi pouco a pouco destruida em luctas porfiadas de seculos. A principio
os Aryas não formavam uma nação unica, mas conservaram-se por muito
tempo divididos n'um certo numero de tribus, as mais notaveis das
quaes foram a dos _Bharatas_, a dos _Iksuakus_ e a dos _Pauravas_, que
chegaram ainda independentes até ao periodo historico seguinte, e vieram
a ser troncos das poderosas dynastias que então se estabeleceram em
terras do Hindustão.

Durante todo o periodo vedico o viver dos Hindus teve a natureza
pastoril, e a sua organização sociologica distinguiu-se pelo caracter
patriarchal. Ainda entre elles não havia o regimen das castas, que só
mais tarde veio a apparecer.

O periodo _epico_ ou _heroico_ decorreu desde que os primeiros hindus
intrados na India passaram o rio Sarasuati até que, deslocando-se
progressivamente, chegaram á foz do Ganges. Este periodo foi
caracterizado pela immigração continuada e pelas luctas entre os que
primeiro tinham occupado uma localidade e os que, vindo mais tarde, os
obrigavam a abandonal-a e a progredir na immigração.

Deu-se durante este periodo um curioso phenomeno historico. Chegando os
primeiros hindus á peninsula indiana, por muito tempo limitaram a sua
occupação a uma zona de territorio que tinha por limite oriental o rio
Sarasuati. Novas tribus, descendo tambem o valle de Cabul, obrigaram as
primeiras, que tinham começado a estabelecer-se nas planicies de
Pendjab, a abandonar as posições primitivas e a ir successivamente
immigrando de localidade em localidade. Isto deu como resultado o
phenomeno de uma enorme massa de população a deslocar-se, com movimento
lento e secular ao longo de uma vasta região, até que esse progredir
parou na imboccadura do Ganges.

Estas deslocações successivas originaram grandes guerras entre as
differentes tribus; e não só essas luctas, mas tambem as que houve entre
os Hindus e os povos que primitivamente occuparam aquelles territorios,
assignalaram todo o periodo epico. A mais antiga das luctas conhecidas
entre as tribus aryanas é designada na Historia por «guerra dos dez
reis», e deu-se entre a tribu dos Bharatas (cabeça de uma confederação
de dez nações, que tinha por chefe o celebre Vishuamitra) e a tribu dos
Tritsus (a que presidia o egualmente celebre Vasista). Esta ultima tribu
havia passado o Sarasuati antes da das dez nações; e depois, tendo
occupado territorio, oppunha-se á passagem d'ella, que ia invadir-lh'o.
Por occasião d'aquella guerra, conseguiu deter o movimento dos rivaes;
mas mais tarde viu-se obrigada a ceder o logar perante o impeto, cada
vez mais irresistivel, de novas ondas de população que invadiam a India.

Ao passo que as tribus invasoras iam occupando definitivamente
territorios e iam assentando posições, iam-se formando dynastias. As
duas mais importantes d'este periodo foram: a chamada _Solar_, que
reinou sobre os Tritsus ou Kosalas e teve a sua capital em Ayodhia; e a
_Lunar_, que reinou sobre os Bharatas e teve a sua capital em
Hastinapura. Entre dois ramos da dynastia _Lunar_ houve uma tremenda
guerra; foi entre os Kurus e os Pandus. Depois de varias phases que a
grande lucta apresentou, os Kurus foram por fim inteiramente
desbaratados pelos Pandus, que ficaram reinando em Hastinapura. Com esta
guerra terminou o periodo epico ou heroico.

No _periodo brahmanico_ os Pandus, vencidos os Kurus, ficaram
constituindo uma poderosa dynastia, á qual foi facil, com o andar dos
tempos, subjugar as diversas populações aryanas que occupavam aquella
região. Formada assim uma grande e opulenta nacionalidade, em breve esta
se sentiu naturalmente animada de tendencia expansiva, mandando
successivas expedições a colonizar o Deccan, o qual tentou conquistar
arrancando-o ás nações dravidicas, que até então o haviam occupado. A
historia d'estas guerras deu assumpto ao grande poema indio o _Ramayana_
que tem por thema fundamental a conquista do sul da India e da ilha de
Lanká (hoje Ceylão) pelos Aryas. Nada, porêm, positivo se apura
n'aquelle poema com respeito aos factos intimos da referida
guerra,--porque o caracter do _Ramayana_ é inteiramente mythico; e só um
grande esforço de interpretação chega a explicar os seus episodios e a
significação dos seus personagens.

Alêm d'aquellas expedições, o interesse historico d'este periodo da
historia antiga da India concentrou-se todo na nova constituição social
que n'esta despontou e se veio a firmar e radicar com o tempo. A classe
dos guerreiros, que até então fôra a primeira em categoria e
consideração, cedeu o logar á dos sacerdotes, que ficou sendo a
aristocratica e preponderante. O regimen que desde aquella epocha
dominou na India, e que ainda hoje alli tem profundas raizes, é o
chamado _regimen das castas_. Por esse regimen a sociedade é dividida na
India em quatro classes, religiosa e intransigentemente fechada cada uma
d'ellas a elementos extranhos, e dispostas hierarchicamente na fórma
seguinte:--1.ª a dos _brahmanes_ ou sacerdotes;--2.ª a dos _kshatrias_
ou guerreiros;--3.ª a dos _vaishias_ ou commerciantes;--4.ª a dos
_sudràs_ (a infima) ou dos servidores. Esta ultima julga-se que provêm
dos restos da população aborigene, que os Aryas não poderam anniquilar
nem assimilar, e que so admittiram no seu corpo social com aquella
fórma e aquelle mister degradantes. No chamado «Código de Manu» está
expressa e formulada esta fórma do regimen estabelecido na sociedade
indiana.

Ao _periodo brahmanico_ succedeu o _periodo buddhico_, que fecha a
historia antiga da India. N'este periodo a theocracia brahmanica soffreu
um grande abalo e teve que defender-se em lucta porfiada. No seculo VI
antes da era de Christo appareceu na India um homem de talento
extraordinario, que era ao mesmo tempo um propagandista audacioso e
infatigavel. Chamava-se Çakya-muni, era filho de um rajah de um paiz
vizinho do Nepaul, e teve o cognome (pelo qual ficou eternizado na
Historia) de Buddha (ou _sabio_). Philosopho de temperamento, aos vinte
e nove annos de edade abandonou o palacio paterno, as riquezas e o
direito á realeza para viver no deserto, investigando a verdade. Nove
annos depois, fortalecido o espirito com as meditações da solidão,
voltou ao povoado; e começou a pregar nova doutrina ás multidões,
reunidas ao acaso. Por toda a parte orava,--expondo os seus principios,
(quer nas povoações, quer nos campos) á gente de todas as condições
sociaes. Servia-se na sua predica, de parabolas (o mesmo systema que
depois foi seguido por Christo). Apresentava a principio a sua doutrina
como uma simples reforma; mas ella tendia á ruina completa do
brahmanismo, substituindo ao regimen das castas o principio da egualdade
de todos os homens perante a lei moral, e ás falsas virtudes prégadas
pelos brahmanes a práctica do bem. Ás promessas de salvação (isto é, da
união com a essencia divina) só concedida pela religião antiga aos
brahmanes, substituia a capacidade, para todos os homens, de gozarem da
bemaventurança, ganha por seus meritos e virtudes. Rompia com o
privilegio da casta dos brahmanes, para chamar ao sacerdocio os pobres e
os mendigos que quizessem dedicar-se á vida religiosa. A sua doutrina
admittia seis elementos de perfeição, que eram: a sciencia, que devia
ter por objecto distinguir os verdadeiros dos falsos bens; a energia,
que devia consistir na resistencia contra os nossos maiores inimigos, os
prazeres dos sentidos; a pureza, que era a victoria adquirida por
aquella resistencia; a paciencia, que consistia em soffrer os males
imaginarios e os transitorios; a caridade, laço de união entre os
homens; a esmola, como consequencia necessaria da caridade.

Tão sympathica e tão santa doutrina, que tantos pontos de similhança tem
com a de Christo, não podia deixar de fazer, como fez, um proselytismo
enorme.

Assim prégou até aos oitenta annos, respeitando sempre a ordem
estabelecida, e proclamando (como o fez mais tarde Christo) que aos
principes se devia dar o que lhes era devido. Por sua morte, os
discipulos reuniram os principaes discursos d'elle e convocaram o
primeiro concilio buddhico, em que tomaram parte 500 religiosos. Depois
de septe mezes de discussão, esse concilio assentou na fórma do culto e
no corpo das doutrinas, o que tudo ficou mais precisado em segundo e
terceiro concilio, que se reuniram, um no seculo V e o outro 150 annos
antes de Christo.

Por fim os brahmanes, conhecendo o perigo eminente que já corria a
religião antiga e o edificio social, que elles haviam construido, e á
sombra dos quaes viviam e desfructavam commodidades, honras e
distincções, começaram uma lucta feroz contra o buddhismo, chegando a
desincadear contra os seus proselytos uma atroz perseguição. Entre
outros anathemas, prégavam os brahmanes: «Que desde Ceylão até ao
Himalaya, coberto de neve, os buddhistas sejam exterminados. Quem poupar
a creança ou o velho, soffra a pena de morte». Esta perseguição deu
resultado na India, que voltou toda ao brahmanismo; mas o buddhismo
espalhou-se no Thibet (que é hoje o seu centro), na Mongolia, na China,
na Indo-China e em Ceylão. N'estes paizes conta ainda muitos milhões de
seguidores, sendo comtudo poucos os que practicam as doutrinas e os
preceitos de Buddha na sua pureza.

A civilização indiana, toda com caracter religioso, não primou nem pelo
progresso das sciencias nem pelo das artes. Em sciencia, só a da
grammatica e da linguagem se desinvolveu consideravelmente; da arte só
ficaram monumentos grandiosos nas proporções, mas de pouca belleza
artistica. Prosperaram, porêm, algumas industrias entre os Indios.



CAPITULO IX

OS CHINS


Não se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições
maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é
certo é que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas
tradições mais ou menos certas conhecimento de factos anteriores 3:500
annos a Christo,--e, desde o seculo XXVI da mesma era, historia
positiva que apresenta seguidos annaes.

Ignora-se completamente quaes foram a origem e o modo de formação dos
Chins, habitantes do _Celeste Imperio_ ou _Imperio do Meio_. Até ao
seculo XXII antes de Christo os imperadores eram electivos; d'aquella
epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão,
modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher
entre os filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de
succeder-lhe).

O imperador Yu foi fundador da dynastia dos _Hia_, que durou quatro
seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz
tyrannia. A segunda dynastia, a dos _Chang_, foi fundada por um principe
de merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e
veio a acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um
tyranno abominavel, desthronado por Wu-Wang, principe de _Tehéu_, que
contra elle se revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo
«tribunal da historia», cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes
assegurava a independencia. Durante esta dynastia os reinos feudatarios
da China, que já desde antiga data existiam, augmentaram até ao numero
de 125, e na China constituiu-se um verdadeiro feudalismo. Este, porêm,
acabou em perfeita anarchia; o imperador chegou a absoluta impotencia, e
um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao céu (prerogativa
exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo imperador
d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos _Thsin_ que, destruindo
todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio o
grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella
transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e,
para impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a
_grande muralha_, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se
porêm, tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo
incendio dos livros. Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do
seu reinado e pretendeu assim apagar os vestigios do passado. Não poude,
felizmente, matar todos os sabios, nem destruir todos os livros. A
monarchia chineza, que n'aquella data foi perturbada por tão violento e
insensato reformador, voltou depois á sua tradicional quietação; os
sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz augmentou
consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de
dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões dos
Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram causa da divisão da
China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes houve
differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang
tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu
robustecer o imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás
repetidas Invasões mongolicas. Estas invasões continuaram durante a
Edade-Média, e são já estranhas ao assumpto do presente livrinho.

É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas,
apezar d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que
por maior decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas
d'esse estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua
fórma de governo, a sua religião e o isolamento em que a nação se tem
conservado a respeito do resto do mundo.

A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é
simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um
extremo a outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de
castas ou hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido
principalmente para conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.

Confucio viveu no seculo VI antes de Christo. Os seus livros, sendo como
que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que têem
que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e
para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem
teve auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na
práctica das doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio
politico e religioso na China.

Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna
sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das
relações entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e
entre o marido e a mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes
capitaes (que são: a humanidade, isto é, uma caridade universal para com
todos os individuos da nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a
cada um o que lhe é devido, sem favorecer um em prejuizo de outro; a
conformidade aos ritos prescriptos e aos usos estabelecidos, a fim de
que os que formam a sociedade tenham uma maneira commum de viver, e
participem todos de eguaes vantagens e de eguaes incommodos; a rectidão,
ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que cada um busque a
verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio ou alheio; a
sinceridade e boa fé, ou a lisura e confiança, que exclue toda a
dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos quer nas palavras).

Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o
principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam.
Os nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações
seguintes. Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do
homem; mostrar gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que
Fou-Hi estabeleceu ceremonias em honra do céu e dos antepassados.



CAPITULO X

OS GREGOS


Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região
constituida por uma pequena porção de territorio do continente europeu,
e pela peninsula que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo
continente, entre o mar Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado
Archipelago) ao oriente. Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas
que ha nas proximidades d'aquella região. As diversas populações que na
Grecia vieram a ter importancia historica derivaram-se todas da raça
aryana, da qual constituiam um grupo especial (o hellenico). Este grupo,
pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou, constitue um dos
mais nobres da historia, e formou uma individualidade distinctissima
atravez dos seculos.

Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros
habitadores da Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros
povoaram com suas tribus a Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram
n'estes paizes os primeiros fundamentos da civilização, e por toda a
parte deixaram nos seus monumentos provas eternas da sua actividade e
das suas poderosas aptidões. Desappareceram, porêm, sem que sobre o seu
destino ulterior haja tradição segura.

Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas
tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa
trazer-lhe os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura.
Foi assim que Cecrops, oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica,
reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas
veio a ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis
do casamento e instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os
pleitos. Do mesmo modo na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio
e edificou Cadméa, emtorno da qual se elevou mais tarde a cidade de
Thebas. Dano introduziu em Argos algumas das artes do Egypto; e Pelops,
phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua raça se espalhou por toda
a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento dominante d'aquella
epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia, sua primeira
habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula, á
custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.

Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens
de grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos
salteadores, dos oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua
vida a combater todos os flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos
agradecidos as honras de semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua
força e das suas vantagens pessoaes. Entre outros foram notaveis
Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas tradições poeticas: os Argonautas
e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em busca do _vellocino de
oiro_; os septe chefes que foram cercar Thebas, infamada pelos crimes de
Oedipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio Minos; etc.

Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a
capital de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o
ultimo resto do dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo
(rei de Troya), fez uma viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou
para a sua patria Helena, mulher de Meneláu (rei de Esparta ou
Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais Gregos aos Troyanos,
estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por aquelles declarada
a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta expedição,
levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este principe
iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu,
Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já
muito avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos
não houve batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e
habilitada a continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta
de Heitor, que a commandava e que morreu ás mãos de Achilles. Os
Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando
no campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os
Troyanos recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal
occultavam-se os mais bravos d'entre os Gregos, que assim se
introduziram na cidade, cujas portas abriram ao resto do exercito. Desse
modo cahiu Troya, sendo Priamo assassinado ao pé dos altares. Os
principes gregos que não haviam morrido na lucta, voltaram a caminho da
sua patria; mas grandes infelicidades os esperavam. Uns morreram na
viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo desviados do caminho
por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem aos seus
paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram
victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação
em regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.

Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi
impossivel apurar-se a verdade.

Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados
por dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e
transferiram a preponderancia para as mãos de novos povos. Estas
revoluções, e outras que mais tarde houve, deram logar a varias
correntes de emigração; e ao longo das costas da Asia Menor, da Africa,
da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia, que cresceu e
prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole. Foi assim
que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na
Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia);
e em Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em
contacto com as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução
civilizadora, de que Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.

Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da
divisão da Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica
conservou a sua unidade nacional, pela communidade da lingua e da
religião, pela celebridade de alguns oraculos (o de Delphos
principalmente, ao qual concorria gente de todos os pontos do mundo
grego), e por algumas instituições geraes que conservavam estreitos os
laços moraes das populações entre si.

Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o
apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A
viuva do rei Polydecto, seu irmão, offereceu-lhe com a sua mão de
esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho
Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se
mostrassem contra elle irritados pela sabia administração que usára como
regente, durante a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou
por muito tempo, estudando a legislação dos outros povos e voltando a
Lacedemonia, depois de uma ausencia de dezoito annos, com o intento de
fazer adoptar reformas importantes nas leis do reino. A pythonisa de
Delphos apoiou com a sua auctoridade religiosa as reformas propostas; e
os Espartanos, fatigados das suas dissenções intestinas, que laceravam o
estado, acolheram-n'as favoravelmente.

As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre
os Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo
subjugado. Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas
soberanas; os do senado, composto de varões de edade superior a sessenta
annos; os da assembléa geral, que podia acceitar ou regeitar as
propostas feitas pelo senado ou pelos reis; enfim, os dos _ephoros_,
magistrados annuaes, que administravam a justiça. As suas leis civis são
muito mais notaveis e de muito maior alcance; e tiveram por fim
estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a tal fim,
dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e
9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos,
Lycurgo prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as
refeições publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos
Espartanos o commercio e a cultura das artes e das lettras,
sujeitando-os todos a eguaes exercicios physicos, com a mira de formar
cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao mesmo fim era dirigida a
educação das creanças, que mais pertenciam ao estado do que á familia; a
creança que nascia disforme, matavam-n'a.

Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e
robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e
imprehendeu a do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com
a qual teve duas guerras, (uma que durou vinte annos e a outra
dezesepte). As victorias n'estas luctas alcançadas deram grande nomeada
aos Espartanos, que no seculo VI antes da era christan eram considerados
como o primeiro povo da Grecia.

Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua
organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a
repetidas perturbações. A grande desegualdade dos haveres tinha dado
origem á formação de duas classes: a dos _eupatridas_, ou senhores das
terras, e a dos _thetas_, ou servos que as cultivavam. Além d'estas duas
havia ainda a dos escravos propriamente ditos.

A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se
uma nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu,
disputaram entre si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre
muito ciosos da sua liberdade, aproveitaram este ensejo para a
reivindicarem completamente; declararam que depois de Codro não havia
ninguem digno do titulo de rei e puzeram á testa da republica um
primeiro magistrado a que deram o nome de _archonte_, e cuja auctoridade
era muito limitada. Durante mais de tres seculos foi esta magistratura
vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo tornou-se electiva, e as
funcções de _archonte_ foram limitadas a dez annos. Mais tarde ainda, o
poder foi distribuido por nove _archontes_, cujo mandato durava um anno.
D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de partidos, rivalidades e
desordens.

Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que
fossem superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as
formular Dracon, homem de virtudes austeras e que gosava da estima
geral. Dracon apresentou um codigo de leis de tal severidade, que
revoltaram os espiritos mais exigentes e que não puderam ser executadas.
Como novas dissenções puzeram em novo perigo o estado, recorreu-se a
Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem foi dada a
missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição fundada
em principios racionaes e estaveis.

Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um.
Os cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer
cargos publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos
a votar nas assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros.
Decretou a pena de morte contra todo o _archonte_ que se embriagasse, e
declarou excluido da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de
vida depravada. Estabeleceu que os _archontes_ se informassem da
occupação de todos os cidadãos e que declarassem infames os que
persistissem na ociosidade, depois de por ella terem soffrido tres
condemnações. Decretou que o estado sustentasse até á edade de vinte
annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no serviço da patria.
Das leis draconianas apenas conservou as que eram dirigidas contra
os assassinos. Não fez lei penal contra o parricidio, porque não julgou
possivel que tal crime se commettesse em Athenas. Para tornar duravel a
sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de madeira, e depois sahiu
de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria das antigas
nações do Oriente.

Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos
tinham re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia
de Pisistrato, o qual, sem abolir a constituição, exercia tal
influencia, que dominava todos os magistrados. Pisistrato duas vezes foi
expulso do poder e de Athenas; mas duas vezes conseguiu recuperar o
governo, que por fim conservou até á morte. Depois d'esta succederam-lhe
seus dois filhos Hipparco e Hippias, que governaram conjunctamente; mas
em seguida houve novas e continuadas dissensões, até ao tempo de
Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas de
Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu
poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o
producto das minas de prata de Laurion.

Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes,
que salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e
Xerxes, de que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.

Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo
que se lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e
excellentes estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo
irrequieto e o seu espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os
ardores que podiam ser prejudiciaes á causa publica, para só dar livre
curso a todas as tendencias conducentes ao ingrandecimento da patria e á
sua victoria contra os ataques dos inimigos.

Por esta epocha appareceu Pericles--homem de tal merito, que deu o seu
nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da
civilização do mundo.

Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais
notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido
em todos os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto
nascimento destinado a ser chefe do partido aristocratico, que no começo
da vida d'elle tinha a maior influencia em Athenas, esposou a causa do
povo, fazendo-se chefe do partido democratico. Fez reformas profundas,
em que cerceou as attribuições dos altos poderes do estado em beneficio
do povo. Em virtude d'essas reformas, todas as funcções publicas,
ainda as mais elevadas, ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais
humildes, contanto que a sorte ou a eleição a ellas os chamassem.

Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado
vasto, para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu
numerosas colonias que não formaram, como as anteriores, cidades
independentes da metropole, mas sim fortalezas e estabelecimentos
militares que mantinham na sujeição a Athenas os paizes onde existiam.

Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas;
cuidou tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens
eminentes que então havia na raça hellenica, os quaes todos para lá
concorreram, como para a capital da intelligencia. Celebravam-se alli
festas esplendidas, que attrahiam enorme concurso de todas as povoações
gregas.

Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que
o mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então
alli brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos
conhecidos; Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel;
Aristophanes, o maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais
illustre dos seus artistas; Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios,
pintores bastante celebres; Anaxagoras e Socrates, philosophos
notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos de primeira ordem vieram
Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles. Athenas teve por
aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia», como lhe
chamaram, mas tambem a mestra do mundo.

Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á
frente de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de
proseguir na guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado
de combater, havia ella acceitado os seus tributos em vez de
contingentes militares e continuára por si só a sustentar a lucta, no
interesse commum. Depois da guerra, continuou a cobrar os mesmos
tributos, pretextando que precisava estar prompta para impedir uma nova
invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro estar a pagar
para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se. As suas
queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as
suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias
de Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse
ás das cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A
principio houve só hostilidades parciaes; mas mais tarde tornou-se
geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses)
pelos Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela
designação de «guerra do Peloponeso».

Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para
outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que
tem o seu nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que
contava com a guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á
Sicilia, que teria sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio,
não fosse privado do commando do exercito. Alcibiades retirou-se então
para Esparta, d'onde dirigiu duros golpes contra a sua patria. Os
Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas, em resultado da pouca energia
de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da esquadra e do exercito
atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos e os soldados
reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para Athenas.

Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram
vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em
Athenas rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a
um conselho superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e
a uma reunião de 5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa
do povo; mas pouco depois um exercito que operava em Samos fez uma
contra-revolução, restabelecendo o governo democratico e acclamando
Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com a sua vinda
restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas
batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como
no mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram,
porêm, o resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da
vitalidade de Athenas.

Cyro o _Moço_, que buscava a alliança de Esparta, para arrancar a seu
irmão Artaxerxes II a corôa da Persia, forneceu a Lysandro, que
governava em Esparta, grandes recursos para levar a cabo a guerra. Com
este auxilio, os Espartanos derrotaram os Athenienses em Egos-Potamos; e
pouco depois Athenas foi tomada, as suas fortificações arrazadas, a sua
marinha reduzida, desorganizado o seu exercito e abolida a constituição
democratica, que principalmente concorreu para a sua grandeza e para a
sua gloria.

A hegemonia grega passou para Esparta, que não soube usar d'ella com a
mesma habilidade e esplendor com que o fizera Athenas. Cyro o _Moço_
levou por deante o seu plano com o auxilio dos Espartanos, avançou até
ao pé de Babylonia, onde ganhou a batalha de Cunaxa; mas foi morto, e á
sua morte seguiu-se a retirada chamada «dos dez mil» a que já nos
referimos, operada atravez de 400 leguas de terreno, pelas montanhas
impervias da Mesopotamia e da Armenia até ao Mar-Negro. O exito d'esta
retirada revelou o infraquecimento do grande imperio persa; por isso,
poucos annos depois o espartano Agesilau, resolveu conquistál-o. Chegou
a reunir grandes forças e muitas allianças, mas o seu plano ficou
frustrado, porque os Persas tiveram artes de suscitar guerra interior no
seio da propria Grecia. Por sua instigação, Corintho, Thebas e Argos
formaram uma liga, em que intraram tambem Athenas e a Thessalia.
Agesilau, regressando da Asia, conseguiu vantagens em terra,
restabelecendo o dominio de Esparta; mas o atheniense Conon, commandante
de uma frota phenicia, arrancou-lhe das mãos o dominio maritimo e com o
oiro dos Persas, restaurou as fortificações de Athenas.

Esparta, inquieta pelo renascimento da sua rival, inviou mandatarios á
Persia, a tratar com ella dos meios de lhe intregar os gregos da Asia,
acceitando todas as condições. Era o resultado do abatimento moral e da
depravação que tinha ganhado a raça hellenica. Destruiu algumas cidades
e perseguiu diversas populações sujeitas a Athenas, até que os seus
excessos tiveram um castigo. Um dos seus generaes surprehendeu e tomou á
falsa fé Cadmea, cidadella de Thebas, que era então alliada de Esparta.
O thebano Pelopidas, á frente de alguns proscriptos, libertou, porêm, a
sua patria, e reuniu n'uma alliança commum todas as cidades da Beocia.
Tendo os Espartanos mandado contra estes povos colligados um exercito,
Epaminondas desbaratou-o na batalha de Leuctras, levando a guerra até ao
seio do Peloponeso. Abriu caminho até aos muros de Esparta, na qual,
comtudo, não poude intrar; mas, para a conter em respeito, edificou aos
seus lados Megalopolis e Messena, dois optimos pontos fortificados.
Esparta procurou por toda a parte alliados contra estes novos
dominadores da Grecia; mas Epaminondas em activa guerra sustentou firme
a dominação de Thebas, dominação que veiu a cahir com elle, morto no
meio da sua victoria de Mantinéa.

Poucos annos depois, Filippe da Macedonia, tendo libertado o seu paiz do
jugo e da influencia dos extrangeiros, quiz ingrandecêl-o,
accrescentando-lhe a Grecia. Tomou e submetteu differentes povoações,
com que foi augmentado o seu imperio, observando-se por toda a extensão
da Grecia uma grande falta de energia e um fraco espirito de
resistencia. Só os Athenienses velavam pela patria commum, guiados pelo
grande cidadão e grande orador Demosthenes, que nas suas eloquentes
orações mostrava os planos ambiciosos de Filippe. Mas Athenas não poude
sustentar por si só, durante longo tempo, uma lucta tão desegual, e por
fim teve que firmar, por conselho do proprio Demosthenes, um tratado de
paz com o rei da Macedonia.

Emquanto Athenas, descançando na fé d'este tratado, se abandonava ás
festas e ás suas occupações ordinarias, Filippe transpoz as
Thermophylas, penetrou na Phocida, e conseguiu ser adimittido no
conselho amphictionico. Os Athenienses salvaram ainda Perintho e
Byzancio, ás quaes Filippe seria obrigado a levantar os cêrcos. Á voz de
Demosthenes, que não cessava de lhes mostrar os perigos, nas suas
immortaes _Filippinas_, os Athenienses e os Thebanos, esquecendo a sua
mutua rivalidade, reunem os seus exforços para opporem ao inimigo
commum; mas o seu exercito, commandado por generaes inhabeis e talvez
vendidos ao oiro de Filippe, foi desbaratado n'uma grande batalha na
planicie de Cheronéa. Depois d'esta batalha, Filippe propoz-se captar a
sympathia dos Gregos, que tratou com as maiores blandicias, e conseguiu
ser por elles nomeado generalissimo das tropas destinadas a marchar
contra a Persia. Para preparar esta grande expedição voltou a Macedonia,
onde foi assassinado por Pausanias durante a celebração dos jogos
olympicos.

Succedeu-lhe seu filho Alexandre com vinte e um annos de edade. Tendo os
barbaros, que seu pai subjugára, tomado as armas, elle, para lhes
estorvar os movimentos, levou o seu exercito até ao Danubio, passou este
rio n'uma noite e derrotou os rebeldes. Julgando os Thebanos aquelle
ensejo propicio para se libertarem dos Macedonios, apoderaram-se da
cidadella, cuja guarnição degollaram. Alexandre reuniu logo um exercito,
com que introu na Beocia, exigindo d'elles que lhe intregassem os
auctores da revolta. Como lh'os recusassem, deu-lhes batalha,
destroçando-os e tomando Thebas; que saqueou e destruiu.

Os Athenienses, receando então haver incorrido na colera de Alexandre,
mandaram-lhe emissarios a implorar clemencia. Este usou para com elles
de generosidade, da qual comtudo esperava tirar partido para os seus
planos de conquista; pacificou a Grecia e reuniu em Corintho deputados
de todas as republicas hellenicas, que o nomearam general em chefe de
uma expedição contra os Persas. Para levar d'esse modo a effeito o
plano de seu pae, confiou o governo da Macedonia e da Grecia a Antipater
e partiu com um exercito de 30:000 homens de infanteria e 5:000 de
cavallaria, á conquista da Persia, onde então reinava Dario Codomano.

Então começou para Alexandre uma serie de victorias e de conquistas, que
constituem uma verdadeira epopéa. Introu na Phrygia depois de atravessar
o Hellesponto sem difficuldade; na passagem do Granico, defendida por um
exercito persa de 100:000 homens de infanteria e mais de 10:000 de
cavallaria, derrotou este, apoderando-se depois de Sardes, que era a
chave da Alta-Asia. Epheso, Mileto, Halycarnasso e todas as cidades da
costa da Asia intregaram-se-lhe.

No anno seguinte, para se oppor á continuação das suas conquistas,
levantou Dario um grande exercito e resolveu levar a guerra ao coração
da Macedonia. Memnon, seu general em chefe, á testa da expedição, tomou
as ilhas de Chio e de Lesbos. Alexandre não quiz intregar ao acaso de um
combate naval a gloria até alli alcançada; abandonou aos Persas o
dominio do mar e fez convergir todos os seus exforços para se apoderar
dos portos e cortar toda a communicação entre o exercito inimigo e a
Grecia. Tendo subjugado a Lydia, dirigiu-se para a Pamphylia sem
incontrar obstaculos; atravessou a Cappadocia, foi á Cilicia e a Tarso,
d'onde partiu ao incontro do exercito de Dario, que derrotou nos
desfiladeiros do Isso. A mãe, mulher e filhos de Dario cahiram em seu
poder e Alexandre tratou-os com a maior generosidade. Apoderou-se depois
da Phenicia, e tomou Tyro depois de septe mezes de cêrco. Subjugou em
seguida a Judéa, e tomou Damasco, onde estavam os thesouros de Dario.
Intentou destruir Jerusalem, por lhe haver recusado viveres; mas
desistiu do seu proposito, em presença das supplicas que lhe dirigiu o
summo sacerdote Jaddo.

Da Judéa dirigiu-se para o Egypto, onde bastou a sua presença, para que
todas as povoações se lhe intregasem. Foi até á imboccadura do Nilo,
onde lançou os fundamentos da cidade de Alexandria. Incaminhou-se para o
Alto-Egypto, penetrou no deserto e chegou até ao oasis em que estava
estabelecido o templo de Jupiter Ammon, e onde os sacerdotes lhe
concederam o titulo de «filho de Jupiter».

Do Egypto voltou á Asia e penetrou na Armenia, indo ao incontro de um
terceiro exercito de Dario, que derrotou, apezar da grande superioridade
numerica d'este, intrando triumphante em Babylonia. Esta victoria
tornou-o senhor do grande imperio persa; e elle, para segurar as suas
conquistas, marchou em persiguição de Dario que foi morto por um
traidor do seu proprio exercito, Besso, em Ecbatana.

Alexandre tomou sob a sua protecção a familia de Dario; marchou contra
Besso, que se fizera proclamar rei em Bactriana, apoderou-se d'elle e
mandou-o matar. A posse do mar Caspio e as estradas militares que abriu
para Herat e para Nichapur patentearam-lhe as communicações com todos os
differentes pontos da Persia.

Depois de ter assentado tão vasto dominio, resolveu passar á India.
Atravessou o Indo, alliou-se com o rei Daxilo e subjugou differentes
estados vizinhos d'este. Adeantou-se até ao interior da India, onde
edificou diversas cidades, e preparava-se para atravessar o Hyphaso,
quando as suas tropas, fartas de tão longo exilio e de tanta
peregrinação, se recusaram a seguil-o e lhe pediram para voltar á
patria. Alexandre annuiu a este desejo. Depois do seu regresso, ainda
subjugou os Oxidracos e outros povos, percorreu a Média, e introu em
Ecbatana, onde falleceu o seu favorito Ephestion.

Voltando a Babylonia, foi alli alvo do maior triumpho. Recebeu
embaixadores de todas as partes do mundo, acolhendo com especial agrado
os da Grecia. Quiz fundir os Gregos e os Persas n'um só povo, por meio
de allianças e de colonias, e espalhou por todo o Oriente as idéas, a
litteratura e a civilização da Grecia. Durante um anno elaborou esses
planos, mas não poude pôl-os em execução, porque veiu a morrer aos 39
annos de edade, no anno 324 antes de Christo.

Fallecido Alexandre, os Macedonios, depois de alguns dias de
contestações e de jogo de intrigas e de ambições, escolheram para rei a
Arideu; mas bem depressa se desfizeram d'elle, bem como da familia de
Alexandre. Os generaes, que haviam sido d'este, trataram de apoderar-se
das conquistas que elle fizera, e a partilha foi origem de uma guerra
que veio a terminar com a batalha de Ipso.

Emquanto os successores de Alexandre disputavam entre si as conquistas
da Asia, a Grecia intentou recuperar a sua liberdade. Demosthenes, que
ficára sendo o inspirador do patriotismo e do partido nacional, promoveu
a guerra da independencia, que acabou por um desastre. O grande orador
sendo proscripto, invenenou-se no exilio. Com esta morte toda a
esperança se perdeu. Ainda Arato conseguiu restaurar a antiga
confederação das cidades de Achaia; e essa confederação ia talvez
extender-se, para formar uma barreira perante as ambições da Macedonia.
Mas Esparta, que se tinha novamente elevado sob o governo de Cleomenes,
correu a imbargar-lhe o passo. Cleomenes foi vencido; porêm os
Macedonios, que tinham auxiliado os Acheus contra elle, ficaram outra
vez preponderantes. Os Romanos começam a inquietar-se com essa
preponderancia, resolvem intervir, ganham a batalha de Cynocephalo,
dissolvem a confederação achaica, e declaram livres todas as cidades da
Grecia. Estas regosijam-se com o facto, sem comprehenderem que os
Romanos dividiam para dominar e absorver. Conheceram tarde o seu erro;
e, quando quizeram reconstruir a confederação e se armaram para resistir
aos Romanos, estes venceram a batalha de Leucopetra, junto de Corintho;
esta cidade foi queimada pelo consul Mummio, que commandava o exercito
de Roma; a Grecia foi declarada provincia romana, e o povo que a
habitava, e que tão brilhante papel representára na civilização do
mundo, foi absorvido na grande massa das populações sujeitas ao dominio
de Roma. Ficou a Grecia sendo governada por um pretor, nomeado
annualmente pelo senado romano. Só Athenas conservou até ao tempo do
imperador Vespasiano uma constituição republicana.



CAPITULO XI

OS ROMANOS


A Italia, como a conheciam e designavam na Antiguidade, era constituida
pela peninsula alongada, existente no sul da Europa, que se prolonga com
direcção sueste entre os mares Adriatico e Tyrrheno e na extensão de 800
kilometros. Tambem lhe pertencia a Sicilia (ilha d'ella separada por um
pequeno estreito), bem como a vasta planicie que se extende até á base
dos Alpes (que é atravessada pelo rio Pó e cuja metade superior era
conhecida pelo nome de Gallia Cisalpina). Aos pés das montanhas da
Sabina, iam incontrar-se as ferteis planicies do Lacio e da Etruria,
sobre as margens do rio Tibre. A alguma distancia da sua confluencia com
o Arno, passa este rio entre novas collinas, duas das quaes--o Janiculo
e o Vaticano--dominam a sua margem direita e as outras estão
sobranceiras á esquerda. Foi alli que se edificou Roma.

Durante muito tempo, e apezar da preponderancia que a população e os
estabelecimentos do Lacio adquiriram, conservou-se a peninsula dividida
em diversas nacionalidades, estabelecidas nas seguintes regiões do
territorio; Liguria, Etruria, Campania, Lucania, Apulia, Samnio, Umbria,
etc. A unidade politica da Italia peninsular sómente veio a realizar-se
depois de um grande numero de tentativas e de esforços continuos e
pertinazes de Roma, para vencer as nacionalidades autonomas locaes, que
eram muito ciosas dos seus direitos o da sua independencia.

Roma deve ter sido primitivamente uma colonia de Alba-Longa, cidade que
pertencia á confederação do Lacio. Ignora-se, porêm, ao certo como se
fundou, quaes os elementos a que deveu origem, e as circumstancias que
se deram nos seus primeiros tempos. A historia verdadeira da sua
primeira epocha é ainda hoje ignorada, porque como historia verdadeira
não pode considerar-se a collecção de fabulas e de tradições
maravilhosas e inverosimeis, que antigos historiadores colheram das
lendas e das crendices populares.

A historia dos septe reis de Roma passa por ser uma lenda em que
figuram: 1.º rei, Romulo, que com seu irmão Remo edificou no monte
Palatino a cidade de Roma; 2.º rei, Numa, monarcha religioso inspirado
pela nympha Egeria; 3.º rei, Tullo Hostilio, que destruiu Alba-Longa,
depois da guerra entre Horacios e Curiacios; 4.º rei, Anco Marcio, que
foi o fundador de Ostia; 5.º rei, Tarquinio o _Antigo_, vencedor das
cidades latinas do Tibre superior; 6.º rei, Servio Tullio, o legislador,
amigo do povo; 7.º rei, Tarquinio o _Soberbo_, tyranno abominavel que
foi expulso pelos Romanos, sendo com essa expulsão abolida a realeza.

Contam os antigos historiadores nos seguintes termos a fabula da
fundação de Roma. Romulo e Remo eram filhos do deus Marte e de Rhea
Silvia (filha de um rei de Alba), que fôra feita vestal (para não poder
casar nem ter descendencia) por seu tio Amulio que derrubou seu pae do
throno. Sabendo Amulio do nascimento das duas creanças, mandou-as lançar
ao Tibre; mas a pessoa incarregada de as deitar ao rio, por compaixão
deixou-as na margem, d'onde um pastor as recolheu, sendo ellas, segundo
uns, amamentadas por uma loba, e segundo outros pela mulher do pastor,
que dizem se chamava _Lupa_ (Loba).

Quando chegaram a homens, Romulo e Remo reuniram grande numero de
aventureiros, vagabundos e descontentes; e com elles tiraram o throno a
Amulio, restituindo-o a seu avô materno Numitor, que d'elle havia sido
desapossado. Feito isto, foram fundar uma cidade no sitio em que haviam
sido creados, e essa cidade foi Roma. Passou-se isto no anno 753
antes de Christo.

Romulo mandou matar a Remo com o pretexto de que este, saltando por um
vallado (que foi a primeira muralha de Roma), pretendêra zombar d'elle.
Povoou a nova cidade com homens dos povos vizinhos que a si attrahiu; e,
como não houvesse mulheres para com elles casarem, mandou fazer umas
festas publicas, para as quaes convidou os Sabinos, e ás quaes
concorreram estes em grande numero com suas familias. Em meio dos
festejos os Romanos roubaram as mulheres aos Sabinos, fazendo-os fugir.
Ao rapto das Sabinas seguiu-se uma guerra entre os dois povos, a qual
não teve grande duração, porque as proprias raptadas, então já casadas,
intervieram para fazer a paz entre os maridos e os paes e irmãos.

A fabula narrada como causa da expulsão de Tarquinio o Soberbo e da
abolição da realeza em Roma é a seguinte. Contam que tendo Sexto
Tarquinio (filho do rei) injuriado em seu pudor a Lucrecia (mulher do
nobre Collatino), esta convocára todos os seus parentes e os outros
nobres da cidade para lhes pedir vingança e em seguida se suicidára.
D'ahi resultou uma revolução, capitaneada por Collatino e por Lucio
Junio Bruto, sendo expulso Tarquinio, abolida a realeza e estabelecida a
fórma republicana. Esta revolução foi toda feita pelos patricios, e por
isso a republica ficou nas mãos d'elles e com feição aristocratica. O
governo foi confiado a dois consules, sendo os primeiros os dois
auctores da deposição de Tarquinio, Bruto e Collatino. Refere-se este
acontecimento ao anno 509 antes de Christo.

Tiveram pouco depois os Romanos que sustentar uma guerra contra
Parsenna, rei da Etruria, que os atacou para restabelecer no poder a
Tarquinio. O exercito de Persenna chegou a tomar o Janiculo e a acampar
junto dos muros de Roma, pretendendo reduzil-a pela fome; mas foi
repellido pelos Romanos com grande denodo, e Persenna veio depois a
tornar-se amigo e alliado de Roma.

Os Tarquinios continuaram ainda a fazer guerra á republica até á morte
de Aruns (filho de Tarquinio) que succumbiu ás mãos de Bruto. Este fôra
ferido mortalmente por Aruns e, concitando todas as suas forças e
energia, matou-o, cahindo sem vida sobre o seu cadaver.

Annos depois Manlio (genro de Tarquinio) suscitou contra Roma a guerra,
chamada dos Latinos. Estes chegaram a approximar-se da cidade com um
exercito numeroso. O povo romano recusava-se a tomar as armas se os
nobres ou patricios, que os opprimiam, não o desobrigassem das suas
dividas e não lhe tornassem melhor o viver. Representava que era elle
que fazia a guerra, mas que as vantagens e as honras eram todas para os
ricos e nobres. Estes promptificaram-se a adiar a exigencia das dividas,
mas não a dál-as por findas. Em tal apuro, por consenso mutuo, creou-se
um magistrado supremo, denominado _dictador_, com poder absoluto por
seis mezes e incarregado de conciliar todos os interesses. Para esse
cargo foi escolhido Largio que, fazendo-se acompanhar de 24 lictores
armados de machados, apparecia em toda a parte, obrigando todos a intrar
na ordem, sob ameaça de morte. O povo amedrontou-se perante esta
energia, fez-se o alistamento, e o exercito marchou contra os Latinos.
Estes pediram um armisticio, que lhes foi concedido; e Largio
exonerou-se da dictadura. Reappareceram mais tarde os Latinos; mas Aulo
Posthumio, nomeado dictador, foi ao seu incontro, vencendo-os n'uma
batalha decisiva em que ficaram mortos Tito e Sexto, filhos de Tarquinio
o Soberbo.

Tendo depois os Romanos guerras com os Volscos e os Equos, foi
Cincinnato incarregado do commando do exercito. O lictor que ia dar-lhe
noticia da nomeação, incontrou-o com a charrua a arar o campo.
Cincinnato largou a cultura, poz-se á frente do exercito, e, em quinze
dias, derrotou os inimigos. Alcançada a victoria, o heroe voltou ao
trabalho da sua cultura agricola, que deixára interrompido. Coriolano,
que se vira obrigado a sahir de Roma, em resultado de dissenções civis
entre os tribunos da plebe e os patricios, aos quaes aquelle pertencia,
lançou-se no partido dos Volscos e recomeçou com elles a guerra contra
os Romanos. Vencido, porêm, pelas supplicas de sua mulher e de sua mãe,
retirou-se e recolheu ao paiz dos Volscos que (segundo alguns) o
assassinaram.

Seguiu-se a guerra contra os Veientes,--um dos povos etruscos, inimigo
eterno dos Romanos, que todos os annos renovava as hostilidades. Os
Fabios, familia nobre de Roma, offereceram á republica um concurso
poderoso e extraordinario, fazendo por si sós uma guerra particular
contra os Veientes; mas foram horrivelmente derrotados, ficando os
trezentos patricios, que compunham este pequeno exercito, todos mortos
junto a Cremera. Notaveis victorias vingaram, porêm, depois esta
derrota; differentes generaes romanos ganharam grandes batalhas e se
apoderaram das praças fortes do inimigo. Os Veientes eram tão poderosos
que, cercados na sua cidade, defenderam-se durante dez annos dos
Romanos, os quaes haviam jurado não voltar a Roma sem haverem tomado
a valorosa povoação dos Veientes. O juramento cumpriu-se e a cidade foi
tomada.

Por esse tempo Roma tratou de aperfeiçoar as suas instituições e a sua
legislação, adoptando algumas das leis vigentes na Grecia. Crearam-se os
_decemviros_, para exercerem o poder em vez dos dois consules. As leis
que adoptaram de Athenas foram pelos Romanos gravadas em doze tábuas, o
que lhes originou a designação de _leis das doze tábuas_. Teve pouca
duração a instituição dos decemviros, que foi por sua vez substituida
pela de dois consules. Esta substituição fez-se por exigencia do povo,
cançado da tyrannia dos decemviros e dos excessos dos nobres. O povo
ainda obteve outra victoria: estabeleceu-se que os consules tanto
pudessem ser eleitos entre os patricios como entre a plebe, e que se
pudessem fazer casamentos entre individuos de differentes classes sociaes.

Seguiram-se outras guerras, de algumas das quaes tratámos atraz, em
differentes capitulos, a proposito dos outros diversos povos, como a de
Tarento, a de Pyrrho, a de Syracusa, as tres guerras punicas, a dos
Corinthios, e a da Hespanha, que os Romanos submetteram tambem. Todas
estas guerras tiveram como resultado dar a Roma uma vastissima dominação
no mundo.

Assim, no anno 130 antes de Christo, dominava ella desde o littoral da
peninsula iberica até ao centro da Asia Menor. Estava sujeito ao seu
dominio quasi todo o antigo mundo.

Mas a conquista de tão vastos e tão ricos paizes tinha tido sobre os
costumes dos Romanos uma influencia desastrosa. Tinham estes renunciado
á sua antiga simplicidade e tinham aberto as portas ao luxo. Os nobres
tinham-se tornado crapulosos e perdularios; o povo, accessivel á
venalidade. D'ali proveio a decadencia que a pouco e pouco produziu a
ruina da republica e da liberdade.

Catilina, um nobre romano, eivado de todos os vicios da sua classe,
aproveitando-se da ausencia dos exercitos, que estavam na Asia
combatendo contra Mithridates, concebeu o negro plano da perda da
patria, tendo por cumplices alguns dos seus mais nobres compatriotas.
Incontrou porêm a opposição patriotica dos consules Cicero e Antonio; o
primeiro, nos seus eloquentes discursos, punha em evidencia as
conspirações do traidor e concitava contra elle o patriotismo da plebe;
o segundo marchou contra o exercito com que Catilina vinha, da Etruria
sobre Roma e desbaratou-o. Catilina foi morto no combate.

Novas calamidades esperavam, porêm, a republica romana. No meio do
excessivo poderio e da dissolução dos costumes, quando Roma celebrava as
victorias alcançadas por Pompeu no Oriente, a grande influencia e o
grande prestigio d'este general despertou a inveja de outros generaes e
outros nobres ambiciosos, como Metello, Crasso e Cesar.

Aspirando Cesar a ganhar poder, Crasso a augmentar o seu, e Pompeu a
conservar o que possuia, facil foi aos tres ambiciosos combinarem-se
para se apoderarem da republica. Distribuindo elles a sua força commum,
Cesar assenhorou-se da Gallia, Crasso da Asia, e Pompeu de Hespanha;
cada um tinha um grande exercito sob as suas ordens, por fórma que o
imperio do mundo ficou assim dividido entre aquelles tres dominadores.
Mas a concordia que apparentavam entre si era unicamente o resultado do
receio que cada um d'elles tinha dos outros. Morto Crasso, bem depressa
se rompeu a harmonia entre Cesar e Pompeu. Este, apoiado pelo senado,
intimou Cesar para que abandonasse o seu governo e o commando do seu
exercito. Cesar, em vez de obedecer, marchou sobre Roma e fez sabir
d'ahi Pompeu e todos os seus partidarios. Seguia-os até á Hespanha, onde
bateu todos os logar-tenentes de Pompeu, e passou depois á Grecia, onde
se incontrou com este na Thessalia, perto de Pharsalia. Vieram ás mãos
os exercitos de um e outro, a victoria ficou indecisa; mas, tendo-se
afastado Pompeu do campo,--o seu exercito, perdendo a força moral, foi
completamente destroçado.

Pompeu viu-se obrigado a refugiar-se no Egypto, onde foi assassinado no
momento de desimbarcar, por ordem de Ptolomeu. Depois de em Africa bater
Juba, que sustentára o partido de Pompeu, e de derrotar os filhos d'este
em Hespanha,--Cesar recolheu a Roma, onde foi recebido com grande
ovação, e onde sobre sua cabeça foram accumuladas as maximas honras.

Bem depressa se urdiu, porêm, uma conspiração contra a sua vida. Foram
auctores d'ella Bruto, Cassio e outros patricios; e Cesar morreu sob o
punhal de Bruto.

Livres os Romanos de Pompeu e de Cesar, parecia que iam recuperar a
antiga liberdade; mas Sexto Pompeu, reclamando os bens de seu pae,
tornou-se o flagello do mar; Octavio, procurando vingar Cesar, soprou a
guerra na Thessalia, e Antonio amotinou o povo contra os assassinos de
Cesar, fazendo com que elles fossem expulsos de Roma.

Antonio, Lepido e Augusto constituiram-se em triumvirato para vingar a
morte de Cesar. Octavio e Antonio marcharam contra Bruto e Cassio,
que sustentavam o senado, e deixaram Lepido em Roma. Incontraram-se os
dois exercitos inimigos na Thessalia; a victoria esteve a principio
indecisa; mas depois Cassio, sendo repellido, persuadiu-se de que o
mesmo tinha acontecido a Bruto e suicidou-se. Isso produziu a derrota de
Bruto, que tambem se matou, para não cahir nas mãos dos inimigos.

A harmonia entre os triumviros não se manteve muito tempo. Lepido foi
desterrado para uma ilha, onde morreu. Antonio e Augusto desavieram-se e
romperam hostilidades, acabando a contenda pela batalha de Accio.
Antonio, vencido, suicidou-se; e o Egypto foi reduzido a uma provincia
romana.

Doze annos depois de se haver constituido o triumvirato, viu-se Octavio
senhor absoluto do grande imperio romano. Depois de ter estabelecido a
paz na terra e no mar, fechou o templo de Jano, em signal de paz geral.
Senhor de tudo, tendo nas suas mãos a força militar, investido nas
funcções de todas as magistraturas do estado, apezar de conservar as
formulas republicanas, tomou o titulo de imperador, com o nome de
_Augusto_. Pouco depois, declarou que ia intregar os poderes nas mãos do
senado e do povo; mas, tendo disposto convenientemente as coisas, obteve
que, em nome do bem publico, lhe conservassem o poder por mais dez annos.

Não tendo filhos que pudessem ser herdeiros do imperio, declarou como
tal a Tiberio Nero, que adoptou por filho. Deu o commando de oito
legiões, inviadas ao Rheno, a Germanico Cesar, filho de Druso, e fez com
que Tiberio o adoptasse. Veio a morrer na edade de 76 annos.

Foi no seu reinado que, no anno 753 da fundação de Roma, nasceu Jesus
Christo em Bethlem, cidade da Palestina.

O imperio romano tentou continuar o dominio universal. Succederam-se uns
aos outros os imperadores, muitos dos quaes foram tyrannos, e muitos
morreram assassinados. O imperio foi successivamente infraquecendo. Tres
invasões lhe deram o ultimo golpe: a dos Wisigodos, a dos Vandalos e a
dos Hunos. Por morte do imperador Theodosio, o imperio fôra dividido
entre seus dois filhos: Arcadio teve em partilha o imperio do Oriente;
Honorio o do Occidente. Foi este o que cahiu perante a invasão
d'aquelles Barbaros, no anno 476 da era christan, fechando com esse
acontecimento a Historia Antiga. O imperio do Oriente logrou acompanhar
ainda o periodo historico da Edade-Média.

FIM



Os Mysterios da Inquisição

POR

F. Gomes da Silva

Obra illustrada a côres

POR

MANUEL DE MACEDO E ROQUE GAMEIRO.

Sob o titulo *Os Mysterios da Inquisição* condensam-se variadissimos
factos historicos, desentranham-se os horrores d'epochas passadas,
escalpellam-se figuras d'outros seculos, investigam-se particularidades
estupendas, encadeiam-se acontecimentos dispersos e tenebrosos,
enaltecem-se as grandes virtudes, faz-se rebrilhar a verdade, e põem-se
em relevo todas as personagens que entram n'este grande drama, em que
vibram commoções da maior intensidade e affectos do mais exaltado amor.

O romance *Os Mysterios da Inquisição* constará de 3 volumes de grande
formato. A distribuição será feita semanalmente em fasciculos de 3
folhas ou 24 paginas com uma gravura a côres pelo preço de 60 réis, ou
em tomos de 15 folhas ou 120 paginas com 5 gravuras por 300 réis.

Para as provincias a distribuição é feita em tomos de 300 réis ou em
fasciculos quinzenaes de 48 paginas e 2 gravuras por 120 réis.

_Precioso brinde a todos os Srs. assignantes_

Uma magnifica estampa a côres, medindo 0,57x0,44





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