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Title: O culto do chá
Author: Morais, Wenceslau José de Sousa de, 1854-1929
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O culto do chá" ***

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    *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
    texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
    de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

                                          Rita Farinha (Outubro 2011)



[Figura]



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WENCESLAU DE MORAES


O CULTO DO CHÁ

(ILLUSTRAÇÕES DE YOSHIAKI)


[Figura]


KOBE

Typographia do "Kobe Herald"

Gravuras de Gotô Seikôdô

1905



A
Vicente Almeida d'Eça,
Sebastiäo Peres Rodrigues,
Bento Carqueja,

isto é, á _Trindade_ benevolente, que ainda ha pouco, de täo longe, me
enviou dentro das folhas de um livro--as _Cartas do Japäo_,--o perfume
ineffavel da sua amizade, offereço este outro livro, exotico pela forma,
exotico pelo texto, mas näo pelo sentimento de profunda gratidäo, que
inspirou esta primeira pagina.

Kobe, Junho de 1905.

                                                 Wenceslau de Moraes.



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O CULTO DO CHÁ.


Falla-se do Japäo; nem, francamente, devera presumir-se que eu ia
referir-me a um paiz qualquer occidental, onde a nossa raça branca
floresce.

É no Oriente, e em especial no Extremo-Oriente, que as coisas communs da
creaçäo ou os usos e costumes triviaes da vida säo susceptiveis de
merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito,
que constituam um verdadeiro culto. No espirito do europeu, despoetizado
pela chateza dos ideas da epoca, atribulado pelas multiplices exigencias
da vida, pervertido pela febre do negocio, näo medram de ha muito os
cultos. Especializando a observaçäo ao chá, havemos de convir que este
artigo de commercio, que de täo longe nos vem, propositadamente
adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume n'uma
detestavel infusäo que entrou em moda no _sport_ social, simples
pretexto para repastos pelintras, para reuniöes banaes, para palestras
väs.

A Asia é outra coisa: a muitos propositos immersa ainda em barbarismo,
se assim se quer dizer; com mil defeitos e mil erros, que a sabia Europa
aponta a dedo e algumas vezes corrige, quando pode, com a logica dos
seus conhoës de tiro rapido; o que ella retem ainda, indiscutivelmente,
esta Asia, é o caracter ancestral, nada vulgar, nada rasteiro,
palpitante de orgulhos de raça, aprazendo-se em sonhos e em chimeras,
acariciando a lenda, divinizando as coisas, prodigalizando os cultos; o
que é, em todo o caso, uma maneira amavel, de ir comprehendendo a vida.

       *       *       *       *       *

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Oh, fé dos velhos tempos!... Oh, santos patriarchas de täo varios paizes
e täo differentes seitas, tenazes campeöes, que fostes incutindo nos
simples a crença, a esperança, o amor,--balsamos consoladores das duras
miserias d'este mundo,--como eu vos amo, a todos!...

Meus piedosos pensamentos elevam-se n'este momento a Darumá. Segundo a
tradiçäo da gente japoneza, Darumá, o grande apostolo indiano do
buddhismo, veio á China ahi pelo começo do seculo VI da nossa era
christä, e em terras chinezas prégou em honra da verdade, illuminando o
espirito dos povos.

[Figura]

Consta que, por voluntaria desistencia das ephemeras alegrias terreaes,
Darumá votou-se a passar a vida de joelhos sobre o solo pedregoso,
absorto em contemplaçöes mysticas, sem mesmo permittir-se o simples
regalo de dormir. Tantos annos permaneceu de tal maneira, que as pernas
se lhe gastaram, claro está; e é assim, sem pernas, só com a cabeça e
com o tronco, envolto n'um manto carmezim, que ainda hoje é figurado. A
imagem tronou-se querida e popular entre esta boa gente japoneza; é
mesmo um brinquedo corriqueiro entre as mäositas das creanças,--os
santos e os meninos vivem sempre em boa companhia;--lembrando o tal
brinquedo o nosso _frade de sabugo_, pela teima em voltar, por mais
voltas que lhe dêem, á sua postura habitual. Deve ainda saber-se que
Darumá tem dado assumpto, desde remotos tempos até hoje, a pintores da
mais alta valia; Hokusai foi um d'elles, pintando um famoso Darumá sobre
uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza,
empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco
vassouras á laia de pinceis; estendida a tela sobre o campo, no telhado
de um templo a turba admirava a obra e applaudia o mestre.

Mas voltêmos ao que aqui mais nos interessa, respeitante ao venerando
vulto que invoquei, ajoelhado sobre as pedras. Consta mais que, em certa
noite, as palpebras se lhe cerraram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se
adormecer, para só acordar pela manhä. Entäo, pedindo a alguem uma
tesoira ou instrumento parecido, cortou a si proprio as palpebras
indignas e arremeçou-as ao solo, n'um gesto de despeito... As palpebras,
por milagre, erraizaram, dando nascença o a um gracioso arbusto nunca
visto, que medrou mui de prompto e cujas folhas, tratadas de infusäo
pela agua quente, fôram um remedio precioso contra o somno e contra o
cançaço das vigilias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua
origem, e é coisa santa, como se acava de provar. Crê quem quer; mas
devo advertir que este livro foi escripto para os crentes.

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       *       *       *       *       *

Da China, veio o chá para as terras de Nippon, mas näo se sabe quando.

[Figura]

Velhas chronicas mencionam (no dizer dos entendidos n'este caso
melindroso), que em 729 da era Christä, durante uma festa religiosa de
espavento, o imperador Shomu offerecia chá a bonzos de alta gerarchia;
mas fica-se ignorando se já antes seria conhecido... Parece que um bom
abbade buddista, Dengyo Daishi, foi o primeiro que obteve a planta em
solo japonez, em 805; o chá era entäo já uma beberagem favorita entre os
bonzos chinezes, que d'ella se serviam durante as vigilias prolongadas
das suas praticas nocturnas. Mais recentemente, ainda outro, bonzo,
Eisei, tendo ido á China, de lá voltou, trazendo as sementes preciosas,
e no monte Sefuri, em Chikuzen, cuidou da sua sementeira. Pouco depois,
ainda mais outro bonzo (sempre os bonzos!) de nome Mioyé, colhendo de
Eisei os varios segredos de cultura, novas sementes adquiriu, e em
Toga-no-o em Uji, logares visinhos de Kyoto, attentamente se entreve em
cultivar o chá; em Uji, de preferencia, fôram os resultados excellentes.
Dois seculos depois, cerca de 1400, o shogun (generalissimo) Ashikawa
Yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso ás plantacôes de Uji, as quaes
tanto fôram prosperando, mercê da riqueza do torräo, que de entäo até
hoje o chá d'aquelle sitio tem sido celebrado como o melhor de todo o
imperio; d'elle exclusivamente se serve o Imperador.

       *       *       *       *       *

O Japäo é a terra das camelias: _camelia japonica_, lá diz o latinorio
dos botanicos.

[Figura]

Quando, por fins de novembro, começam os frios e as geadas e pouco tarda
que as neves alvejem nos dorsos das montanhas, quando cessam as ultimas
florescencias dos jardins, é entäo que comecam ostentando-se as bellas
flores d'esta esplendida familia das camelias. Véem primeiro as
sazankas, umas brancas, cutras roseas, de mimosissimas petalas frisadas;
seguem-se as camelias simples, sanguineas, surdindo da rama espessa de
arvores gigantes, espalhadas pelos campos; e após véem as flores
cuidadas, de luxo, variando em innumeras formas, variando em innumeros
tons, desde o branco de leite ate ao roseo quasi negro. Entäo igualmente
desabrocha a pequenina flôr do chá, que tambem é uma camelia,
subtilmente perfumada, composta de cinco petalasinhas alvas contornando
e protegendo o feixe aureo dos estames.

       *       *       *       *       *

[Figura]

Passando, em horas de ocio, junto dos campos de chá, dos quaes sinto
prazer em acercar-me, palestro com os aldeöes e aprendo noçöes varias,
respeitantes á delicada planta. Näo pode ser transplantada, nem se
multiplica por estaca ou por enxerto, só por sementeira se propaga. Os
paizes quentes, como os paizes frios, säo-lhe nocivos; prospera nos
climas temperados, nos sitios lavados de ar e luz, visinhos dos cursos
de agua, convindo um ligeiro declive ao solo de cultura. Os arbustos säo
dispostos em renques parallelos, de norte a sul, para que o sol lhes
bata em cheio desde pela manhä até á noite; as plantas mais cuidadas
reclamam na primavera grandes toldos de palha, que abriguem das geadas
as tenras folhas dos rebentos. Durante o primeiro anno, dispensam
adubos, que depois se applicam em periodos frequentes. A guerra aos
vermes, aos insectos, exige zelos incessantes. No fim de quatro annos,
já o arbusto se presta á primeira colheita; mas säo as velhas plantas,
de cem annos, de duzentos annos, as que melhor produzem.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Quem quizer tomar conhecimento com a planta de chá, nas melhores
condiçoës de prosperidade e em mais bellas galas de aspecto pittoresco,
tem de ir até Uji, distante quinze milhas de Kyoto; escolhendo de
preferencia um dos primeiros dîas de maio, quando os rebentos novos
começam vicejando, o que marca o inicio da faina da colheita. Faina e
festa: a povoaçäo inteira acorda da sua modorra provinciana; desperta em
esperanças, em jubilos, em actividades incançaveis, para votar-se aos
cuidados da preciosa folha; deverá presumir-se, em bom criterio, que a
quadra remoçante da primavera em flores, com aromas nas brisas e
quenturas creadoras, constitue tambem um forte estimulo para a alegria
repentina que se pinta nos rostos de toda aquella gente.

O quadro é deveras aprazivel. Após uma banal estaçäo de linha ferrea,
estende-se a cidadesinha garrida, com as suas viella muito limpas e a
fila de lojinhas abarrotadas de varia mercancia. Depois segue-se o rio,
de aguas limpidas e frescas, rico de tradiçöes de gloria; galga-se a
ponte em arco, entra-se no bairro das _chayas_, dos hoteis, em tal
quadra povoados de freguezes galhofeiros e de gentis mulheres, as
_gueishas_, que cantam ou dedilham no inseparavel _shamicen_; e véem
depois os campos, vastos campos de chá a succederem-se pelo horisonte
fóra, cuidados como jardins, em longos alinhamentos de arbustos,
copados, arredondados, lembrando enormes mangericos, de delicada rama de
um verde esculro bronzeado; no azul distante, alguns famosos templos
confusamente se recortam.

[Figura]

As moças de Uji estream _kimonos_ novos para o caso, arregaçando as
mangas com fitas escarlates; amarram em turbante em volta dos cabellos
toalhas de côr azul e branca; e assim, esbeltas, graciosissimas, em
ranchos de dez, de doze companheiras, dirigem-se ao trabalho. É entäo um
encanto para os olhos ir a gente surprehendel-as no afan do seu mister,
dispersas pelas campinas fóra, como borboletas; indo de um ramo a outro
ramo, de um arbusto a outro arbusto, por vezes occultando-se entre o
verde mais denso da folhagem. Os dedos roseos, miudinhos, a escorrerem
de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados, väo colhendo os
rebentos tenros do chá e atirando-os a grandes ceiras dispostas pelo
chäo; as boccas väo sorrindo, patenteando as enfiadas alvas dos
dentinhos; os olhos esbrazeam em juvenis amores inconfessados; as vozes
unem-se ás vozes, em rythmos commoventes de velhas cançöes locaes:

[Figura]

    "Quando nasce o sol radioso
Por cima d'aquelle oiteiro,
Todas as aguas do rio
Parecem memo um brazeiro!...

    "N'estas aguas do rio d'Uji
--Taö milagrosas que säo!--
Lavam-se todos os males
De que soffre o coraçäo...

[Figura]

No campo, as raparigas. Nas casas, os homens, as velhas, as creanças.
Será rara a familia que näo tenha interesses na labuta; as grandes
fabricas constituem excepçäo, como em todas as primitivas industrias
japonezas; em cada albergue se improvisa uma manufactura, modesta,
familial, onde todos trabalham, risonhos, palestrando. O chá é
escolhido, escaldado, posto a seccar, grelhado em fornos, enroladas as
folhas ou reduzido pó, depois empacotado, guardado em latas, em caixas,
em boiöes; um melindroso amanho que requer mäos incançaveis, dedos
prestimosos, cuidados inauditos, segredos de processo, meticulosidades
devotas que espantam os profanos, nas quaes collabora a gente toda
valida d'aquelles arredores.

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       *       *       *       *       *

Tal é a industria graciosa e tal é o chá que os japonezes bebem. Vêde
agora como a civilizaçäo occidental contrasta com os usos d'estes
asiaticos. Téem os japonezes, para lá do Pacifico, um grande consumidor
do seu producto: é o _Yankee_. Tanto mimo e tanto esmero na apanha da
folha e preparoçöes que se succedem näo bastariam para o chá que os
americanos väo beber. Vem de Uji e de outros pontos, tal como os
japonezes o preparam, para as firmas estrangeiras de Kobe e de Yokohama;
é entäo submetido a novas operaçöes, ao sabor do fino paladar de
Nova-York e de Chicago. Näo säo agora as camponezas, esbeltas e trajando
roupas novas, que acodem ao mister; trabalham machinas a vopor, fumegam
chaminés e guincham engrenagens; e occupa-se no preparo um mundo
feminino inqualificavel, escoria das cidades, esfarrapado, piolhoso,
horripilante, que a gente vê sahir das fabricas á tarde como uma leva de
mendigas, cheias de pó, de pustulas, de miseria. O fabrico do chá ao
gosto americano consiste n'um segundo aquecimento em grandes fornos e na
addiçäo de varios productos, como o pó de uma certa pedra, _soopstone_,
e o azul da Prussia. Assim é expedido.

       *       *       *       *       *

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A introducçäo e vulgarisaçäo do chá na terra japoneza deveu grande
incremanto uma industria desde remotos tempos exercida, mas toscamente
praticada,--a ceramica,--que havia de alcançar com o correr dos tempos
um supremo grau de perfeiçäo como arte nacional. A conservaçäo da
preciosa folha, exigindo escrupulos inauditos para reter o seu perfume,
marcou o ponto de partida. Foi Toshiro, um oleiro da aldeia de Seto, na
provincia de Owari, quem fabricou os primeiros boiöes para guardar o
chá, empregando processos que aprendera na China, respeitantes á
perfeiçäo da pasta e dos esmaltes. Passava-se isto ha sete seculos; e é
curioso registar que _seto-mono_ (objecto de Seto) é ainda hoje o nome
consagrado para indicar qualquer artigo de ceramica.

Dos boiöes, passou-se gradualmente ás chavenas, aos bules, á gentil e
complicada baixella que a infusäo foi reclamando e o luxo pondo em moda;
e ora aqui está como a ceramica no Japäo,--faiança ou porcellana,--que
attingiu requintes de arte primorissima, deveu ao chá e á agua morna os
seus melhores progressos.

       *       *       *       *       *

Quando comecáram a tomar chá os japonezes, era este reduzido a um
impalpavel pó e com elle se fazia a beberagem; depois veio o uso de
empregar as folhas, apenas escolhidas e passadas pelos fornos; e é esta,
ainda hoje, a maneira mais commum de preparal-o.

[Figura]

No Japäo, toda a gente toma chá,--ricos e pobres, nobres e
plebeus:--bebe-se na occasiäo das refeiçöes e a toda a hora, a
pequeninos golos. No lar, quando entra o visitante, offerecese-lhe, após
as reverencias, uma almofada de regalo e uma chavena de chá. O mercador,
quando quer se amavel com o freguez, serve-lhe antes de tudo uma chavena
de chá, palestra, falla da chuva e do bom tempo; só mais tarde se trata
do negocio. Nos templos famosos, em Kyoto por exemplo, o bonzo offerece
chá ao peregrino antes de lhe mostrar as reliquias e os museus. Pelos
caminhos mais agrestes, que väo serpeando pelas collinas arriba, ha
rusticos poisos espaçados aqui e acolá, onde o caminheiro descança
alguns minutos, bebe uma chavena de chá, troca um sorriso, deixando em
retorno um cobre sobre a esteira. Um restaurante, na pittoresca
linguagem japoneza, diz-se uma _chaya_,--que quer dizer--casa de
chá.--De sorte que a chavena de chá, que acompanha os _bons-dias_ dados
a quem chega, näo constitue simplesmente uma norma rutineira, um habito
banal, tornou-se como que o symbolo da doce hospitalidade japoneza, um
rito da bonhomia d'esta gente, exercido religiosamente entre amigos,
entre estranhos tambem, porque ao estranho, que larga á porta as
sandalias, vem ao nosso lar e nos saúda, deve-se ja um sorriso e a sua
parte de conforto.

[Figura]

       *       *       *       *       *

[Figura]

Na casa, nua de moveis, porem mimosa de aceios requintados, figura
sempre o brazeiro sobre a esteira, enas brazas vae fervilhando a
chaleira de ferro cheia de agua; o _bon_ (uma bandeja) está cerca,
contendo o bule, as cinco chavenas (cinco, porque? talvez por serem
cinco os dedos em cada mäosinha japoneza), os cinco pires de madeira ou
de metal, o cofre de estanho contendo o chá em folhas e ainda o
pequenino recipiente em porcellana chamado _yuzamashi_, cuja ordinaria
serventia vae muito em breve conhecer-se. O sentimento artistico japonez
deprava-se naturalmente na industria de hoje, em grande parte com
destino á exportaçäo para a Europa e para a America; é nos utensilios
communs de uso indigena, onde näo intervem o modernismo, que ainda
reside o gosto esthetico, puro e inconfundivel, da gente japoneza,
revelando por si o complicado conjuncto de esmeros, de elegancias, de
chimeras, em que a alma d'este povo se deleita. No que respeita o
serviço de chá, é innarravel a gentileza de todo este arsenal de
bagatelas, minusculas, dando a impressäo de serem destinadas a um
banquete de bonecas!...

[Figura]

A agua passa da chaleira para o _yuzamashi_, onde arrefece, pois é
preceito fazer-se o chá com agua que ferveu, mas ja näo ferve;
prepara-se depois no bule a infusäo, que é offerecida aos hospedes nas
pequeninas taças de fina porcellana.

Eis a singela practica e eis a modesta offerta, actos da vida intima näo
poucas vizes repetidos durante cada dia, desde pela manhä até á noite.
Poderiam julgar-se sem meritos que valessem do estranho um instante de
attençäo e um commentario; mas näo succede assim. Para a alegria dos
olhos, a simples preparaçäo do chá imprime um relevo delicioso á
graciosidade innata na _musumé_, na attitude que lhe é mais habitual, de
joelhos sobre a esteira, junto do seu brazeiro. A mimica é impressiva,
unica; privilegio d'aquella figurinha meiga e ondulante e d'aquella
buliçosa mäo, de finissimos contornos, da japoneza, que é, em summa, a
Eva mais gentilmente pueril, mais captivantemente chimerica, mais
feminina emfim, de todas as Evas d'este mundo. Parece certo que jamais o
japonez, que ignora o beijo, haja poisado a bocca n'aquella mäo que
exhibe esplendores de graça para servir-lhe o chá; o forasteiro, em
intimidade serena, pode ensaiar o galenteio se a phantasia o tenta; e
entäo verá talvez, que a mäosita da _musumé_, reconhecida ao afago, se
conchega de encontro aos labios, se demora, como uma rola docil gulosa
de carinhos.

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       *       *       *       *       *

[Figura]

O chá japonez, servido invariamente sem leite e sem assucar, que lhe
prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradavel que possa
offerecer-se ao nosso paladar (näo de todos porem, ams um paladar
sentimental, um tanto sonhador... que n'isto dos nossos orgäos de sentir
ha temperamentos, aptidöes affectivas caracteristicas...). O _guyokuró_,
por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japäo,
instilla taes subtilezas balsamicas de sabor, que mais parece um
perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alchimia conseguiu
liquifazer os aromas de flores--flores dos jardins, flores
silvestres,--transferido do olphato ao paladar a impressäo do goso.
Assim é o _guyokuró_; claro está que as palavras näo podem traduzir
senäo por comparaçäo as emoçöes sentidas; e esta, a do agradoce
deliciosissimo que nos fica nos labios, persistindo, como na memoria
persiste uma reminiscencia, uma saudade, é imcomparavel...

O chá joponez tem a virtude de mitigar a sêde. Assi se explica o habito
dos japonezes näo beberem agua; mesmo na força dos calores, em pleno
agosto, a chavena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo.
Aponta-se-lhe mais outros condöes: excita ligeiramente o organismo,
combate o cançaço das vigilias, predispöe ao bem estar, infiltra no
cerebro näo sei que subtil embriaguez, lucida todavia, que nos torna
mais affectivos ás sensaçöes de agrado e mais aptos ás elaboraçöes do
pensamento

       *       *       *       *       *

[Figura]

A maneira de preparar a infusäo do chá em pó e a arte de servil-o
constituem a täo famosa cerimonia chamada do _chá-no-yu_. Foi assim que
o uso do chá se introduzio no Japäo, como uma pratica liturgica dos
frades buddhistas da seita de Daisu, exercida no proposito de
prolongares as mysticas vigilhas preceituadas; servia ao mesmo tempo de
pretexto para reuniöes intimas, que eram, imagina-se, um aprazivel
desenfado á proverbial monotonia do convento; sendo um meio efficaz de
estreitar laços de estima, pelas confidencias segredadas, pelos sorrisos
beatificos que se cruzavam, em quanto que a unica taça ia passando, de
mäo em mäo, de bocca em bocca, fraternalmente, até a esvaziar.

[Figura]

Mais tarde adoptou-se entre o povo o uso das folhas; mas o _chá-no-yu_
persistiu nas bonzarias, propagando-se tambem nos costumes profanos,
entäo com um exuberante luxo de apparato, que muito apaixonou a alta
nobreza. Pelos dias que correm, ainda está em moda, sem distincçäo de
classes; é um habito gentil que ficou dos velhos tempos e a que todos
podem entregar-se, tido em valia pela delicadeza esthetica do scenario e
ainda näo despido do prestigio ortodoxo que lhe vem da remota tradiçäo.

O _chá-do-yu_, se pode definir-se, é a arte de preparar a infusäo do chá
em pó, com esses escrupulos de limpeza, com esses requintes de elegancia
de que só é capaz o japonez; sendo a bebida offerecida a alguns amigos
de eleiçäo, a drede reunidos n'um recinto disposto para a paz do
pensamento e para o agrado dos sentidos.

Bom é dizer agora que os codigos referenets a materia täo grave säo
innumeros, diversas as escolas; e os grandes profissionaes, _chájin_
(homens do _chá_), de celebridade immoredoira, centenas de volumes
escreveram sobre o assumpto.

[Figura]

Tudo foi regulamentado e comporta um preceito, que näo é licito
esquecer. Non tempos aureos do _chá-no-yu_ o pavilhäo que recebia os
hospedes era construido n'um jardin e obedecia a uma architectura
inconfundivel. No seu arranjo interno, para a côr das paredes, para a
disposiçäo de luz, para o numero das esteiras, para a jarra com flores
ou com um ramo de arvore, havia praxes a seguir; o _kakemono_ (quadro
suspenso da parede) devia representar uma paizagem que fôsse
impressionar a pupilla com carinho; ou antes uma simples sentença
escripta por um pincel de mestre calligraphico, pois nada commove tanto
a aguda sensibilidate d'esta gente como os seus caractéres de estranha
construcçäo, cada um equivalendo já a uma synthese de ideas e
predispondo, pela sentida contemplaçäo--ora por uma desenvoltura de
traço, ora por uma ondulaçäo de curva,--ao vago discorrer da alma
sonhadora...

O plano do jardin submettia-se a regras determinadas, pelas quaes o
engenho indigena se revelava em graças prodigiosas, aqui pelos contornos
do lago e pelas pontesinhas que o cruzavam, alem pela escolha dos
arbustos e das pedras, na intençäo ingenua e amorosa de impôr á vista a
illusäo de uma paizagem rustica, reduzida a proporçöes minusculas. Mais
do que isto: a alma das coisas, o que de inexplicavel e de subtil parece
emanar de um conjuncto qualquer onde os olhos se poisem,--tranquillidade
das sombras, arrogancia de um tronco, ternura das relvas...--devia
resaltar suggestivamente do jardinsinho japonez, imprimir-lhe um
caracter, uma philosophia, acordando na mentalidade dos visitantes um
sentimento de paz, de triumpho, de saudade... Claro está que as flores
de luxo, como as rosas, como as camelias, como as peonias, eram
excluidas, por improprias da intençäo de quadro agreste dada á scena.

[Figura]

Éra de estylo a monumental lanterna, tal como se encontra nos templos,
de pedra, tanto mais valiora quanto mais esverdeada e roida de vetustos
musgos, e espalhando pela noite vagas claridades coadas pelas suas
frestasinhas cobertas de papel; os japonezes deleitam-se em contemplar,
após uma nevada, as amplas cupulas em unbella d'estas lanternas de
templos e de jardins, receptaculos onde a neve poisa e se demora, em
fofos vello de formas extravagantes, de deslumbrante alvura. Um outro
accessorio se encontrava, cerca do pavilhäo: o pedaço de rocha bruta com
uma pequena cavidade cheia de agua, onde os hospedes iam lavar as mäos
antes de entrarem, como em purificaçäo liturgica.

Até a linguagem empregada entre os convivas obedecia a regras de
pragmatica: os assumptos de religiäo ou de politica eram banidos; a
phrase devia modelar-se n'um agradavel discorrer, sem ferir melindres de
ninguem. A cortezia impunha-se: preceituava-se que o hospede proferisse
palavras de louvor pelo que via,--alfaias de serviço, arranjo do
aposento, horisontes em volta,--mas sem insistencia em demasia, que
poderia parecer pouco sincera ou pelo menos importuna.

[Figura]

Variadissimos objectos devem encontrar-se no aposento, como o brazeiro,
o carväo de reserva contido n'um cestinho, a chaleira, o abano de
pennas, o cachimbo, o tabaco, o pincel, o papel e a escrevaninha. Os
artigos destinados particularmente ao chá, muitas vezes contidos n'um
estojo especial, säo os seguintes: a boceta com perfumes, que antes de
tudo se lançam sobre as brazas e embalsamam o ambiente; a jarra com agua
fria e a competente colher feita de um pedaço de bambu; o chá em pó n'am
cofresinho de charäo e a colherinha adjunta; duas taças, de barro ou de
porcellana, uma usada no veräo, de côr clara, e outra escura, usada no
inverno; um curioso utensilio feito de finas lascas de bambu reunidas em
feixe, com que se agita na chavena a mistura do chá em pó com a agua
morna; finalmente a tigela onde se lavam e o pedaço de seda de finissimo
tecido, com que se enxugam, as peças empregadas.

É o dono da casa quem deve preparar o chá, solemnemente, prescindindo do
mais ligeiro auxilio dos criados; é elle que o offerece aos convidados.
A mäo executa setenta e cinco movimentos, n'um _chá-no-yu_ havido por
singelo... e trezentos, quandorequeridas todas as formalidade ortodoxas.

[Figura]

       *       *       *       *       *

No tempo do generalismo do Imperio, chamado Toyotomi Hideyoshi, mais
conhecido na historia pelo grande Taiko-sama, quasi todos os genesaes
eram _chajin_, isto é, ferventes apaixonados da ceremonia do
_chá-no-yu_. Em 1585, o proprio Taiko-sama organisou um _chá-no-yu_
colossal nas visinhanças de Kyoto, ainda hoje memorado como festa de
inigualavel esplendor: uma extensäo de quinze kilometros quadrados era
occupada por innumeros kiosques, aonde os generaes preparavam o chá;
todos, nobreza e plebe, os ricos e os mendigos,--um enxame
humano!--tinham entrada; Hideyoshi visitou todos os poisos e por suas
proprias mäos proparou chä, que offereceo aos chefes favoritos.

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Relembrando o passado, justamente n'um periodo de effervescencias
guerreiras culminantes no Japäo, talvez pareça estranho, talvez pareça
comico, que esses rudes heróis de täo grandes façanhas, os indomaveis
veteranos das guerras na China e na Coréa, despissem armaduras, tirassem
os dois sabres da cintura, para virem votar horas chimericas a aquecer a
agua sobre brazas e a preparar o chä... Mas o contraste, por si, explica
o facto: era precisamente essa dura existencia de batalhas e de lances
sangrentos, de inclemencias de vida nomada, de longo cogitar em
extratagemas e em argucias, que impunha aos homens dirigentes a doce
tregua do _chá-no-yu_. O convivio com os partidarios e os amigos, o
desfilas do povo alegre a reverente, a verde paizagem de repoiso, a
solemnidade hypnotica dos gestos, tudo contribuia para offerecer um
curto aprazimento áquella gente, que assim ia apagando da memoria os
amorgores soffridos, estretando sympathias, retemperando forças para as
proximas luctas.

       *       *       *       *       *

[Figura]

O _chá-no-yu_ attingiu depois, durante a longa paz da dynastia shogunal
dos Tokugawa, uma epocha de exaggeros faustuosos, de dissipaçöes
paradoxaes. Escolhiam-se as baixellas de entre objectos muitos antigos e
firmados por um nome de fabricante prestigioso, e por isso rarissimos,
preciosissimos; e estava entäo em moda offerecel-os, no momento das
ruidosas despedidas, ás bellas companheiras do festim, que haviam com as
suas guitarras, com as suas cançöes, com as suas graças profissionaes,
enfeitiçando os hospedes... Sorveram-se fortunas n'este abysmo.

É de entäo que se conta que um amador empregou n'um _chá-no-yu_
utensilios no valor de trinta e oito mil yens, o que passa de quatro mil
libras esterlinas; um outro adquiria por trinta mil yens um só boiäo de
chá!...

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Ha cerca de tres ou quatro annos, em um leiläo de Tokyo, um japonez
comprou por tres mil yens uma chavena de _chá-no-yu_; prova isto que
ainda ha devotos _chajin_ presentemente. Com effeito, se o luxo sem
limites que caracterizou o _chá-no-yu_ dos bons tempos feudaes
desappareceu para sempre com a mudança de regimen e com a mudança de
costumes, continuou todovia esta elegante pratica merecendo uma alta
estima. Hoje, os dois sexos a ella se dedicam, e pode affirmar-se que
faz parte da boa educaçäo de uma menina, exigindo uns seis ou sete annos
a sua aprendizagem. As _gueishas_ tambem se instruem em tal culto; as
celebres danças primaveraes da cidade de Kyoto, conhecidas pela
denominaçäo de _Miyako-odori_, säo sempre precedidas do _chá-no-yu_, em
que é officiante uma das mais gentil _gueishas_ do logar; e a multidäo
acode, com devota deligencia, a saborear o perfumado chá.

       *       *       *       *       *

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Näo me peçam agora, a mim, profano na materia e viageiro fatigado de täo
multiplices impressöes que tenho vindo colhendo por este mundo fóra, uma
opiniäo pessoal sobre o _chá-no-yu_. Estive uma vez, é certo, com dois
ou tres amigos, em uma das _chayas_ de mais fama da cidade de Kobe; e
Tama-Guiku (o Malmequer-Precioso) era a esplendida sacerdotiza da
cerimonia. A impressäo que d'aquella noite guardo é indefinida, fugidia,
como de um vago sonho que tivesse. Ficaram-me reminiscencias indecisas
do luxo sombrio e harmonioso e do aceio extremo das coisas impregnadas
de exotismo onde poisou o meu olhar. Na meia luz do placido aposento,
amplo e silencioso como um templo, contornava-se, distante, um vulto de
mulher, de joelhos, envolta em sedas magnificas. As attencöes fixavam-se
especialmente, como que por attracçäo hypnotica, nas suas mäos
finissimas, alvejando no espaço como se fossem de marfim, tomando de
estranhos utensilios, preparando näo sei que filtro de magia, poisando
em mimicas hieraticas, quaes mäos de mystica officiante de uma religiäo
desconhecida. Por fim, convidado a partilhar no sacrificio, acceitava
uma taça com chá que me era offerecida e levava-a aos labios commovido,
com näo sei que subitos escrupulos de apostata mal firme...

Tama-Guiku concluira. Ergueu-se, deslumbrante de graças, de atavios, de
magestade. O seu rostinho meigo illuminava-se entäo da exaltaçäo
beatifica que lhe electrizava o espirito; dirigiu sobre nós a ardencia
negra dos seus olhos, saudou-nos reverente... reverente, näo porque uma
imfima cortezia sequer lhe merecessemos,--pobres occidentais
ignaros!--mas em estricta abediencia aos preceitos rituaes; e
desappareceu da scena.

       *       *       *       *       *

A proposito d'estas divagaçöes respeitantes ao chá e ao seu culto,
vem-me agora ao pensamento e ainda me compunge um dramatico episodio da
existencia intima japoneza, que contado me foi ha cerca de tres annos.
Vou tentar descrevel-o.

Éra no fim de maio. Eu achava-me em Kobe. Um meu amigo japonez, _chajin_
apaixonado, partira para Uji, onde devia assistir a umas costumadas
reuniöes votadas ao _chá-no-yu_, em casa de um parente, cuja filha, a
gentilissima O-Hana, era eximia na arte; entre nós ficára combinado que
eu iria encontral-o, passadas tres semanas, em Nara, a cujos velhos
monumentos queriamos votar horas de estudo.

Haviam decorrido apenas uns tres dias, quando do tal sujeito recebi um
bilhete, pouco mais ou menos n'estes termos:--"Pode seguir para Nara,
onde me encontrará. Falhou o _chá-no-yu_. O-Hana suicidou-se. Pesava
sobre ella uma desdita igual á pobre Hichi da lenda..."--

Ora, eu conhecia O-Hana; e a lenda, que por signal constitue o thema de
uma notavel peça de theatro, näo me era de todo estranha.

       *       *       *       *       *

Vamos por partes. A lenda é como segue.

Näo sei ha quantos seculos e nem sei em que logar,--nem importa
sabel-o,--havia em certa rua dois estabelecimentos de negocio, dos que
se chamam _Yaoya_ em lingua do paiz, onde se vemdem variadas
provisöes,--fructos, legumes, hortaliças, ovos, peixe e muitas coisas
mais.--Defrontavam um com o outro. N'um, habitava certo casal com uma
filha unica, O-Hichi; n'outro, um outro casal com um só filho, Kichisa.
Quiz a mofina sorte que se enamorassem um do outro.

Mofina sorte? Sim, embora, á primeira vista, näo seja o caso concebivel,
quando se saiba que ambos eram jovens, gentis e animados de doces
enternecimentos amorosos. Eu me explico todavia. Os velhos codigos
nipponicos, ainda hoje respeitados, impöem aos filhos o preceito de
herdarem o appellido de seus paes; o filho mais velho herda a mais o
encargo de chefe de familia, com a administraçäo dos bens e a
superintendencia no culto piedoso devido aos parentes fallecidos. É por
este processo que as genealogias näo offerecem mysterios e as familias
se eternizam, conservando religiosamente o mesmo appellido durante
seculos sem conto; cessando apenas no caso excepcional de todos os
descendentes acabarem, consanguineos ou näo, pois é de uso corrente
chamar ao lar, por adopçäo, filhos alheios. O filho unico pode
certamente casar, e a esposa recebe o appellido do marido. A filha unica
pode igualmente casar e entäo o esposo recebe o appellido da mulher.
Está-se agora percebendo como para O-Hichi e Kichisa o problema se
complicava em demazia, por serem ambos filhos unicos. Um meio só se
apresentava, o de uma das familias adoptar um filho estranho, sobre quem
recahissem os encargos de uma supposta primogenitude. Mas o alvitre era
quasi impraticavel, por aquelles tempos feudaes que iam correndo,
dependendo da sancçäo suprema do daimyô, que a negaria, por ser o caso
novo; sem já contar com o orgulho revoltado dos paes da noiva, ou dos
paes do noivo, da familia emfim que, para evitar de ser extincta,
tivesse de investir um filho alheio nos deveres que competem ao
legitimo.

[Figura]

É certo que as duas familias se oppozeram com toda a vehemencia a taes
amores, e a casa se transformou para O-Hichi em duro encerro e a estima
dos seus em aggressöes continuas. Foi entäo que a pobre _musumé_,
captiva n'uma alcova, desesperada, louca de amores, meditou em pôr fogo
ao seu lar de tormentos, na crença de que as chammas lhe trariam a
liberdade e o ensejo de reunir-se áquelle a quem votara todo o seu
affecto. Errou porem nos calculos, como succede tantas vezes quando se
tem quinze annos e o pensamento voêja no mundo das chimeras: descoberto
o seu crime apenas posto em pratica, foi trazida á justiça da cidade e
condemnada á morte.

[Figura]

Vem agora a proposito narrar um pormenor curioso, que é de toda a
tragedia o que mais me enternece. A misera seguia, conforme o estylo,
pelas ruas populosas, amarrada ao dorso de uma besta, para ignominia
propria e para licçäo do povo; mais tarde seria executada. A meio da
jornada expiatoria, os seus longos cabellos soltos, como até entäo eram
usados, cahiam-lhe em desalinho sobre a fronte, cheios da poeira dos
caminhos, escorrendo de suor, fustigando-lhe as faces. Entäo, ou porque
quizesse poupar-se a um tormento a mais, ou--quem sabe?--por um resto de
garridice deminia, viram-n'a rasgar com os bellos dedos tremulos um
pedaço da seda carmezim do forro do vestido, com quem amarrou junto á
nuca, erguendo os braços, esses pobres cabellos... A idea pareceu
graciosa ás raparigas, que se iam juntando em grupos curiosos para
observarem o cortejo; e desde entäo as japonezas começaram de usar
aquelle enfeite, que persiste até hoje e a que chamam
_kikidashi_--litteralmente: farrapo--em memoria de O-Hichi, a triste
namorada de Kichisa...

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       *       *       *       *       *

Mas vamos depressa ao fim da historia.

Quando em Nara deparei com o meu amigo japonez, o triste fim de O-Hana
esclareceu-se em breve.

Havia em Uji duas familias abastadas, Fukumoto e Yamaguchi, possuindo as
mais bellas culturas de chá d'aquelles campos. Os Fukumoto juravam que o
seu chá éra o melhor de todo o Imperio, e os Yamaguchi diziam do seu chá
a mesma coisa; eram no fim de contas uns caturras, professando um supino
orgulho do seu nome e um culto pelo mister a que se davam; alem d'isto,
ou por isto, pouco affeiçoados entre si, confirmando a justiça d'aquelle
ditado portuguez, com curso em todas as longitudes do planeta... _dos
officiaes do mesmo officio_.

O casal Fukumoto tinha um filha unica, O-Hana; o casal Yamaguchi tinha
um unico filho, Naotarô. Este era um perfeito rapazola, amavel,
intelligente, segundo affirma quem o viu. O-Hana era uma _musumé_ em
plena flôr da vida, educada em todos as gentis prendas do seu sexo.
Ninguem como ella desprendia suavissimos sons do _koto_, a harpa
nacional; nenhumas mäos se mostravam täo habeis de pinheiro ou de lirios
floridos trazidos do jardim; no _chá-no-yu_ era incomparavel.

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Eu vi O-Hana uma só vez, nos parques de Kyoto, quando em peregrinaçäo
primaveral se vae contemplar, á luz da lua, a celebre cerejeira de
Guion, toda vestida de pequeninas petalas.

O-Hana éra uma d'essas japonezinhas embebidas de enlevo e de exotismo,
taes como vós as conheceis dos leques, dos biombos. Isto basta, á falta
de melhor, para definir-lhe o vulto em miniatura, esguio e ondulante,
coberto de sedas preciosas; e para imaginar-lhe o rosto pallido em forma
de pevide de meläo, os olhinhos cerrados, os finos traços das
sobrancelhas em viez, a boquinha sorridente, rubra, lembrando uma
cereja, e o penteado... o penteado colossal como uma enorme borboleta de
azeviche, que lhe houvesse pousado, de azas abertas, sobre a nuca. Ria,
curvava-se em mesuras, em meneios, agitando no ar as descommunaes mangas
do _kimono_; e lá ia seguindo o seu caminho entre um bando de amigas,
antes ziquezagueando, a passos miudinhos, indécisos, sem intuito. E eu
ia pensando que alli estava, em carne e osso, a companheira
deliciosissima, anjo de graças e fada de sorrisos, para quem podesse
offerecer-lhe--japonez claramente,--uma casinha de papel em extremos de
limpeza, com duas esteiras sobre o chäo, um bule com chá, um prato com
confeitos, uma jarra com ramos vicejantes; e á frente o
jadinsinho,--bambus tufados, azaleas em flor, pedras musgosas, o
pequinono lago, onde peixes vermelhos nadassem pachorrentos e räs
coaxassem em noites estivaes...--

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O-Hana e Naotarô amaram-se.. Näo se sabe porque. Porque eram ambos
jovens, visinhos, conhecidos; e em circunstancias semelhantes a
juventude attrahe a juventude...

Quando esta inclinaçäo foi conhecida, as duas familias irromperam em näo
dissimulados azedumes. O casamento era impossivel. Se a adopçäo de um
filho alheio podia resolver em theoria o problema, quem vinha
sujeitar-se ao sacrificio? Os Yamaguchi? Os Fukumoto? Mas nem uns nem
outros, com os diabos!... Os nomes das duas familias, procedentes de uma
linhagem täo remota que em väo se tentaria investigar-lhes a origem,
gosavam em todo o Imperio de um prestigo inconfundivel, conquistado
durante annos sem conto pela pobidade mercantil dos seus negocios, pela
excellencia do chá da sua lavra, pela nobre chientela nos castelos;
podendo apenas pôr-se em duvida, se o chá dos Yamaguchi preferival ao
chá dos Fukumoto. Ora,--mercê de um capricho de estouvados,--investir,
por uma adopçäo do acaso, um estranho na posse de tal nome, e ungil-o
dos nobres encargos que competem a um futuro chefe de familia--Fukumoto
ou Yamaguchi,--nem por brincadeira se propunha!... Que O-Hana e Naotarô
se casassem, intendia-se; era esse mesmo o seu dever, de perpetuar pela
prole os nomes dos avós; mas confiassem no bom tacto dos paes, que
saberiam escolher-lhes noivos do seu agrado e em condiçöes de näo virem
parturbar a paz das familias e ferir o amor das tradiçöes.

[Figura]

Muito bem. Quando os dois namorados se convenceram da impossibilidade de
viverem um para outro, tiveram certa noite uma furtiva entrevista á
beira do Ujigawa, a pittoresca ribeira, que entäo serpeava em grande
cheia de aguas, resultado das ultimas chuvas copiosas. Deram-se as mäos,
parece; sorriam-se um para o outro; näo se sabe o que segredaram entre
si, porque ninguem esta alli para os ouvir...

Quando, ao romper do dia, as moças de Uji seguiam para a apanha do chá,
em ranchos galhofeiros, quedaram-se de repente junto ao rio, cheias do
espanto, de pavor, vendo a boiar dois corpos detidos na maranha dos
juncos, rigidos, lividos, mortos, porem sorrindo ainda e dando-se ainda
as mäos...

       *       *       *       *       *

.....................................................................

"N'estas aguas do rio d'Uji,
--Täo milagrosas que säo!--
Lavam-se todos os males
De que soffre o coraçäo...

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Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |          |       Original        |         Correcção         |
  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |#pág.  19 | do outros             | de outros                 |
  |#pág.  23 | ama norma             | uma norma                 |
  |#pág.  24 | ua industria          | na industria              |
  |#pág.  24 | a modernismo          | o modernismo              |
  |#pág.  26 | da flores             | de flores                 |
  |#pág.  33 | exteusäo              | extensäo                  |
  |#pág.  33 | homeus                | homens                    |
  |#pág.  37 | desappaeceu           | desappareceu              |
  |#pág.  38 | appelldo              | appellido                 |
  |#pág.  39 | dos familias          | das familias              |
  |#pág.  39 | umo supposta          | uma supposta              |
  |#pág.  45 | pela excellencias     | pela excellencia          |
  |#pág.  45 | nobre encargos        | nobres encargos           |
  +----------+-----------------------+---------------------------+





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O culto do chá" ***

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