Home
  By Author [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Title [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Language
all Classics books content using ISYS

Download this book: [ ASCII ]

Look for this book on Amazon


We have new books nearly every day.
If you would like a news letter once a week or once a month
fill out this form and we will give you a summary of the books for that week or month by email.

Title: Historias Brazileiras
Author: Taunay, Alfredo Maria Adriano d'Escragno, Dinarte, Sylvio
Language: Portuguese
As this book started as an ASCII text book there are no pictures available.
Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Historias Brazileiras" ***

This book is indexed by ISYS Web Indexing system to allow the reader find any word or number within the document.



produced from scanned images of public domain material
from the Google Books project.)



HISTORIAS BRASILEIRAS



OBRAS DE J. DE ALENCAR


    O ERMITÃO DA GLORIA.—A ALMA DO LAZARO, 1 v. enc. 3$, br.         2$000

    O GARATUJA, chronicas dos tempos coloniaes, 1 v. in-8º enc.
      3$, br.                                                        2$000

    TIL, romance brasileiro. 4 v. enc. 6$, br.                       4$000

    IRACEMA, lenda do Ceará, 2ª edição, 2 v. br. 2$, enc.            3$000

    VIUVINHA E OS CINCO MINUTOS, 2ª edição, 1 v. br. 2$, enc.        3$000

    O GUARANY, 3ª edição, 2 v. in-4º encadernados                   10$000

    AS MINAS DE PRATA, rom. historico, complemento do precedente,
      6 v. in-8º br. 12$, enc.                                      16$000

    O DEMONIO FAMILIAR, comedia em 4 actos, 2ª edição, 1 v.          1$500

    A MÃI, drama em 4 actos, 2ª edição, 1 v.                         2$000

    VERSO E REVERSO, comedia em 2 actos, 2ª edição, 1 v.             1$000

    AS AZAS DE UM ANJO, comedia em 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo,
      2ª edição, 1 v.                                                2$000

    O GAUCHO, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, enc.         6$000

    PATA DA GAZELLA, romance brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000
      encadernado.                                                   3$000

    O TRONCO DO IPÊ, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000,
      encadernado.                                                   6$000

    SONHOS D’OIRO, romance brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br.       4$000

    DIVA, _perfil de mulher_, 2ª edição, 4 v. enc.                   3$000

    LUCIOLA, _perfil de mulher_, 3ª edição 1 v. enc.                 3$000


BERNARDO GUIMARÃES

    O SEMINARISTA, romance brasileiro, 1 v., enc. 3$, br.            2$000

    LENDAS E ROMANCES. Uma Historia de Quilombólas, a Garganta do
      Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v. enc. 3$, br.                  2$000

    O GARIMPEIRO, romance, 1 v. enc. 3$, br.                         2$000

    HISTORIAS E TRADIÇÕES da Provincia de Minas-Geraes: A Cabeça
      do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira, 1 v. enc. 3$,
      br.                                                            2$000



                          HISTORIAS BRAZILEIRAS

                                   POR
                             SYLVIO DINARTE
               (Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do
                       Coração, Innocencia, etc.)

                             [Illustration]

                             RIO DE JANEIRO
               Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69.
                                  1874



AO CAMARADA E AMIGO

CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO.

OFFERECE

O Autor.



IERECÊ A GUANÁ

EPISODIO

    Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère,
    Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur?
    ...
    Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle...
    Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle.
                Moi, je t’aime, comme je vis.

                         VICTOR HUGO—_A Taitiana_ (Ballada).

    Savais-je s’il était des malheureux au monde?
    Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus!

                                          CHAMFORT.


IERECÊ A GUANÁ


CAPITULO I

Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho _Alpha_, sahindo da capital
da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do
presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a
fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima
para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca
até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40
legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande
Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante
barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de
alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego
d’aquella distante localidade.

Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação
de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio
Piquiry até o Apa e o Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de
importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno,
nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul,
havião podido lhe tirar.

Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de
exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de _cidade_,
justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos
em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito
remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S.
Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado,
e Miranda do outro.

A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que erão repetidas com
desvanecimento.

Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do
forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro
á influencia portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, em
Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que
fluctuavão as quinas do dominio legal.

Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre e das promessas
do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa
e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto
para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres
intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente
trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de
passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes
até, alguns dos mais antigos moradores.

Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas
acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e
Nioac.

Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita
ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se
procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão
aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade,
mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos
inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade.
N’esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do
que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de
duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já
aproveitado.

Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente
deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não
fazia muitos mezes antes da chegada do _Alpha_, havião sido lançadas no
lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de _forte_,
as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem
contestação uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi em 1866
vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem
do districto para operar a sua concentração na fronteira.

Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, o apparecimento de um
vapor causava immenso contentamento no seio da população de Miranda pelas
consequencias que necessariamente havia de produzir aquella viagem de
ensaio, prova cabal de que o rio, ainda na vazante, prestava-se á franca
navegação muito além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até onde
havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, este ultimo em 1860
no _Jaurú_, que é de calado não pequeno.

Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos o espirito muito
inclinado para as transacções commerciaes e n’ellas desenvolvem o seu
genio naturalmente activo, e tão atilado quão desconfiado.

Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos de negocio a Cuyabá
e na previsão de lucros proveitosos entregavão-se á mais expansiva
alegria.

Por toda a parte a agitação era grande.

Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; o sino da matriz com
festivos repiques parecia querer rachar de contente e o povo, depois de
se ter agglomerado nas duas ruas convergentes á praça da igreja, havia
se encaminhado todo para a margem do rio, tomando a estrada que, com
extensão de quasi meia legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o
porto—e que não passa de uma rampa mal cavada na barranca.

No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta do Miranda desapparece,
invadida pelas agoas que vêm então lamber o limiar das primeiras casas
da villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida de chão um tanto
lodoso e ensombrada por magnifico arvoredo.

Entre os grupos dos que conversavão animadamente a caminharem para
o _porto_, circulava tambem a noticia da vinda de dous officiaes de
engenheiros, incumbidos, pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao
Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que já n’esse tempo
tinha soffrido senão insultos directos da parte dos nossos vizinhos
paraguayos, pelo menos os effeitos de sua cada vez mais decidida
altaneria.

Estava ainda recente a desagradavel impressão do modo insolente por
que um commandante do forte Bella Vista, no Apa, tratára o piquete
brazileiro que fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, e,
na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem taes scenas e
outras peiores, como em 1850—em que uma força estrangeira, sem respeito
á linha divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia do
mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir o sobr’olho a vizinhos tão
carrancudos e desagradaveis.

N’essa época, já proxima da invasão que o dictador do Paraguay Lopez
ideava, raros erão, comtudo, aquelles que, nos mais chegados lugares
da fronteira, suppuzessem possivel uma guerra provocada pela republica
confinante.

Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era despotico e que se
achava militarisado com grande rigor de disciplina, mas ignoravão-se
os innumeros recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis que
accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo crença geral de que o
seu affastamento systematico da communhão das nações era produzido pela
politica tacanha e mal concebida dos directores de um povo, que, por
habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, era feliz a seu modo,
e queria viver em paz.

Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito publico com essas
supposições quasi erigidas em certeza e com a convicção de que bastarião
providencias de ordem secundaria para manter o Paraguay na orbita do
respeito que nos era devido, intelligentes emissarios do dictador havião
já percorrido de norte a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado
com especialidade o territorio que mais de prompto teria de experimentar
os effeitos do humor bellicoso e conquistador de Solano Lopez.

Em todo o caso, apezar do socego de que gozava o districto, é certo
que a chegada de dous profissionaes com aquella commissão de caracter
militar indicava que o governo central, fiando-se nas boas relações que
entre as duas nações parecia não deverem de tão cedo soffrer québra,
cuidava comtudo de attender para as suas fronteiras, cuja tranquillidade
e segurança influião directamente no desenvolvimento agricola de toda
aquella zona.

No _Alpha_ viéra com effeito, não dous, mas um official de engenheiros,
esse mesmo com incumbencia puramente civil, visto como só devia ir
observar os progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho que liga
aquella nascente colonia ao porto de Santa Rosalinda, no rio Brilhante,
até onde já tinha subido um vapor partido de Itapúra, na provincia de S.
Paulo. Quanto ao companheiro com que esse official viéra de Cuyabá, não
tinha posição alguma militar, nem trouxera encargo que desempenhar.

Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por méra distracção. Homem no
pleno vigor dos annos, e bastante rico para satisfazer os seus caprichos,
emprehendera extensas viagens por simples distracção e pelo prazer do
movimento, percorrendo paizes uns após outros como _turista_ e á maneira
de Victor Jacquemont, que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez
tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior da Asia.

O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda não era dos mais
naturaes.

Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de Janeiro, comprou passagem
para Montevidéo, passou lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres,
onde se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade pelo que dizião
do Paraguay, subio até Assumpção, que, no fim de poucas horas, ficou
peremptoriamente julgada e qualificada sem appellação de acanhada,
monotona e estupida.

—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me a ir até Cuyabá.

E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade de continuar a
viagem fluvial, sulcou rio acima o Paraguay e, n’uma tarde de calor
intenso, foi desembarcar na capital de Matto-Grosso.

Arrepender-se logo do que acabava de executar era sempre o primeiro
movimento do nosso viajante; por isso a elle mesmo não causou espanto o
desgosto que experimentou ao pôr pé em terra.

—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, vir ter a uma terra,
onde nem sequer ha hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem ao
Sr. capitão de engenheiros Freitas....

E procurando nos bolsos uma carta de recommendação de que se munira em
Assumpção, sacou-a para lêr o sobrescripto e poder se orientar.

—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo da Mandioca n. 10.

Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta foi-lhe aberta por um
sympathico moço, a propria pessoa a quem o recommendavão.

—Poucas relações tenho, disse o official correndo os olhos pela carta,
com quem me escreve, mas sinceramente acolho quem me traz a apresentação
com a maior satisfação e cordialidade.

—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo no rosto de Freitas a
confirmação de suas palavras, me agrada sobremodo.

—Pois então entre, e trate-me desde já senão como amigo, pelo menos como
camarada.... Onde estão as suas cargas?

—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem sou....

—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um cavalheiro....

—Pelo menos o meu nome é indispensavel....

—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais que a carta de
recommendação nem sequer lembrou-se d’isso. É um cheque ao portador.... O
senhor chama-se meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.

Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel era que Alberto não
sentisse desvanecerem-se as primeiras impressões de máo humor. Tambem
d’ahi a pouco conversavão os dous como se o conhecimento datasse dos dias
de infancia.

Para o homem acostumado a viajar nada custa menos do que a immediata
familiarisação. Qualquer com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre
algum agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo companheiro muito
estimado: outro com quem passe um dia inteiro é quasi um intimo, e se
houver então uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se
em amigo de data mui remota.

Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se inseparavel de
Julio Freitas, o qual por seu lado fazia todos os esforços para tornar a
estada do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.

—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações sobre
Matto-Grosso, não é aborrecida, muito pelo contrario; mas é sempre uma
cidade de provincia. O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem o
espirito de quem chega e não conta deparar com povoação tão importante
e, pode-se assim dizer sem exageração, tão civilisada no meio de
immensos desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil, vive-se
por demais debaixo da influencia da côrte. Ha bonitas mulheres, bem
conversadas; dão-se brilhantes bailes; ha tal ou qual sociabilidade;
o commercio tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia,
nem de espirito, mas só se sente verdadeira vida quando chega a mala do
Rio de Janeiro. É o sol benefico que mandou um raiosinho de luz e de
calor para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento de abandono e
de desterro é que me fez sempre desejar ardentemente sahir d’aqui, mas
afianço-lhe que o meu contentamento pela volta, que está muito proxima,
não é de todo isento de certo aperto de coração.... e entretanto nada me
prende particularmente a Cuyabá....

—De modo que se houvesse algum liame, você não deixaria mais esta terra?

—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa por ser perigosa, e, como
fallo a pessoa novata, recommendo-lhe que fuja das causas que o podem
reter para sempre n’este canto do mundo.

—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.

—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente na meiguice das
mulheres, nas cabeças de pacús e caudas de pirapitangas. Trate, pois, se
não quer encalhar em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e de não
provar das extremidades d’aquelles dous peixes senão com muita reserva e
cautela.

Se houve e ha com effeito esse risco para quem se demora na capital de
Matto-Grosso, Alberto soube tão bem resguardar-se, que quando, mez e
meio depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque no vapor _Alpha_
com destino á villa de Miranda e a sua digressão pelo districto, antes
de seguir definitivamente para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para
partir e muito satisfeito com tão breve retirada.

—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu passeio ás terras de Miranda
e Nioac....

—Mas é cousa muito rapida e incommoda....

—Não importa....

—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa Rosalinda no Brilhante e
voltar a Corumbá.

—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os indios e estar com elles.
Vir a Matto-Grosso e não conviver algumas semanas com os seus amaveis
aborigenes, é falta imperdoavel em viajante de meu quilate....

—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?

—Estes não me servem. Estão já modificados pelo nosso modo de viver;
demais _aportuguezados_, já que não posso dizer _abrazileirados_. Em
Miranda encontrarei o que desejo e, mettido em alguma aldêa, pilharei _la
nature chez elle_.

—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar á anthropologia, não
é? São estudos que agradão á muita gente, sem que por isso a sciencia
adiante um passo....

Eis explicada a razão por que se achava Alberto Monteiro na villa de
Miranda e fazia tambem seus preparativos para uma viagem ás terras altas.

Partirão os dous moços por uma fria madrugada, montados em bons animaes
e acompanhados de tres soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso
que devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos em bruacas
ás costas de um valente burro de carga, redes, uma barraca de campanha,
pequenas malas contendo alguma roupa, erão condições para com muita
commodidade alcançar o povoado de Nioac, aliás pouco distante aos olhos
de quem está acostumado a viajar por terra.

Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, cobertos, não
raras vezes em vasta extensão, de _piripiris_, juncos que mergulhão
as raizes n’agoa ou no lodo e morrem na época dos grandes calores.
Entretanto, logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, já pela
natureza da vegetação, já pelos córtes e margens elevadas em que correm
os regatos, que o sólo vai gradualmente se levantando.

Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da povoação, a estrada
alarga e parece um caminho macadamisado, tamanha é a quantidade de
seixinhos rolados que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda
estende-se vistoso o cerrado: ha muito _umbú_ que embalsama os ares com a
fragrancia de suas flôres, grande cópia de _jatahys_, de _piquís_, cujos
fructos amarello-avermelhados são tão bonitos, e de _mangabeiras_ que nos
mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos saborosos e rubicundos
pomos.

O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende como a lomba de uma
serrania, cuja vertente d’esse lado é muito suave e estendida.

Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do _cerrado_ e deixa que
a vista ganhe espaço para a esquerda. Então dilata-se o horizonte,
e vêem-se campos ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco
amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, uma linha
tortuosa e escura de matta indica um grande rio, e no fundo, emmoldurando
aquella bella paisagem, ergue-se altanada serra, corôada de pincaros
escalvados e talhados de um modo tão sorprendedor, quão grandioso.

O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que serpêa a procurar o
Mondego; a serra, a de Maracajú que em alguns pontos parece lavrada pela
mão de caprichoso genio empenhado em imitar com proporções colossaes
castellos, baluartes e outras construcções que tambem com pedra levantão
os fracos mortaes.

Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, abatem-se as
terras. Então, de um lado, para o Norte, melhor se accentuão os
accidentes que esboçámos, e do outro, ao Sul, abrem-se campinas
extensissimas sem outro córte mais na sua uniforme expansão do que um
ou outro capão de matto em encontro pronunciado de declives, onde se
mantenha com persistencia a humidade precisa para o desenvolvimento de
vegetação mais vigorosa.

A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de continuo na pedra
solta e roliça que forra o chão.

—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo as redeas ao animal
para comtemplar com mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a
pena vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... admiravel!

Depois do corrego de Eponadigo[1], o _cerrado_ fica mais fechado, de modo
que o viajante caminha em aléa encoberta dos raios de sol por grandes
arvores, algumas das quaes até são madeiras de lei, como o _jatahy_ e o
_vinhatico_.

O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, escandescida que
foi pela reverberação dos campos desabrigados de Camapuan.

Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se incommodado e no
pouso teve febre bastante violenta.

—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o accesso, para quem, ha
muitos annos, não tem tido molestia. O que porém me acontece agora é uma
homenagem devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, pois.

Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, estava elle bem disposto de
espirito, mas com o corpo alquebrado. Tomára uma beberagem de _quina do
campo_ que um dos soldados lhe havia preparado e transpirára muito.

Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, com muito mais intensidade
d’essa vez.

Estavão então os dous viajantes no _Agaxi_[2], corrego que atravessa o
aldeamento dos kinikináos, a meia legoa para lá da estrada, e procurarão
a sombra de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.

Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar a rede que lhe
havião promptamente armado. Á tarde, cahio em grande prostração e só se
reanimou quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador que
fizera durante todo o dia.

—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente continuar a viajar
sem incorrer na pécha de imprudente, tanto menos justificavel quanto não
ha dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa de indios para mais
tarde e volte amanhã mesmo para a villa. Com duas dóses de sulfato de
quinina desapparecerão com certeza estes accessos, e eu, dentro em poucas
semanas, estou de volta a Miranda.

—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento?

—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. Se você estivesse de
saude, eu lhe proporia uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha,
é de prudencia regressar quanto antes.

Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou Alberto, que
de manhã acompanhou Julio Freitas por um quarto de legoa na estrada de
Nioac, e, lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso onde esperou
tranquillo pela hora do accesso que, se foi pontual como um inglez, pelo
menos não veio com a costumada violencia.

Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, uma robustez toda
especial que lhe parecerão prenuncio certo de total restabelecimento.

—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado que Julio deixára ao
amigo para camarada, _ansim_ é que são as maleitas. Mas _vossuncê_ não
_percisa_ para sarar ir até a _cidade_; fique uns pares de dias na aldêa
e os ares de lá sacodem a _maldade_ do seu corpo.

—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados
de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da
experiencia.

Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a
estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á
direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com
pouca distancia ao aldeamento dos indios.

O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi
regulares, formando o que se chama _potreiros_, denominação muito
popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em
dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas
crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús.

Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e
socegada.

—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida,
exclamou Alberto.

E, voltando-se para o camarada:

—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa?

—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito
meu conhecido e que é _mandingueiro_.

As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão
n’uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle.
Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de
frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de
porta. Diante da mais espaçosa d’ellas, um bambú, ornado de comprido
trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de
importancia, capitão sem duvida ou então _padre_, que exerce as funcções
de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador.

Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior
benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a
presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima,
tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de
vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados
de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo
do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente
a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de
tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural
de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios
guanás e kinikináos.

Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de
feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão
a Florindo e saudou-o com provas até de respeito.

—_Unatiti?_[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e
ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o
enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca.

O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle
companheiro era _capitão_[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de
sezões.

—_Quixauó!_ exclamou Morevi, _carineti tchikiiti_.[6]

Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute
n’aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de
uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais
quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de
meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas
de um homem branco e artista de coração.

A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro
batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a
sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça.

Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que
elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel.

Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de
vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço,
então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito
gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em
seu idioma, outras em portuguez estropeado.

—Este _lavrado_[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a
Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um
_nadinha_ estará batendo de volta.

Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para
lá do corrego.

—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta!

E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de
orgulho.

Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante.
Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de
carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois
adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de
Miranda na aldêa dos indios seus patricios.

Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, a que chamão
_julata_ e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios,
desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos
idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas localidades em que
o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre
apressado.

Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo
prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos
e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos
e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma
rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira
negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis
de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem
sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de
cuidadosa attenção.

A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado
em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia
entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor.

O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella
deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto
das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe
pairava na physionomia.

A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou
despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação,
partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar
que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle
estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos
labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.

—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.

—_Acó_, respondeo Morevi, _pae tchoronó-unó_, filha tambem: mãe só
_koinukunó_.[9]

—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.

O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e
tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que
deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.

—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e
gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.

Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na
dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo
que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.

Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a
ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido
por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se
completamente indifferente.

Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito
os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que
a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.


CAPITULO II

A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de
todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro
em que vivia.

De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto
e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns
notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.

A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de
fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos
como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia,
que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.

Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a
aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que
mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da
gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi.

Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com
Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis
procurava coordenar um ligeiro vocabulario.

Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos
elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços
que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.

Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.

Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia
completamente estranho ao casal.

No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o
lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de,
com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos
seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser
de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle
local.

Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas
de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão
destinadas ao complacente Morevi.

Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo
nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que
Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho
da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por
terminar e poder envergar aquella roupagem nova.

Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa
parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos
hombros, repellida pela rebeldia dos seios.

Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita
brandura, tristeza e alguma curiosidade.

A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior,
a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo;
depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o
tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou
agradar ao seu espirito.

Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria,
quando aquelle _portuguez_[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava
com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e
sempre novos penteados?!

Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha
entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas
que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva
diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute
subir da terra para os céos?!

N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza
parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de
Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó
acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse
aos ares as plangentes notas da aspera garganta.

A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida
e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e
braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou
de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida
e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono
prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver
civilisado.

Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os
seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas
pontas e atado pelas outras ao pescoço.

O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente
entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e
todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa
que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante
pennacho.

Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a
bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané,
logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não
poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que
ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom
Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario
frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de
Sylvana.

Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe
ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo
que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.

Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto,
nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista.
Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes,
ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas,
ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e
custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de
variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim
mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso
nunca visto de momices e caricias.

Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela
matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de
chofre sobre elle com o fim de assultal-o.

Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito
que não sente cuidados.

Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando
muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir
apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que
os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para
armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os
vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de
Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira
larga.

Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor,
irresistivel.

Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação
possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os
prisioneiros.

Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz
bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de
querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a
Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo.

O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê
seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os
olhos carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso para com todos
os filhos da natureza.

Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida
que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave
que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os
progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer
entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve
dar fim áquella ligação passageira.

O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do
moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas
raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas
do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e
fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e
que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas.

Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um
gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do
mancebo lhe havia de denunciar.

As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de
Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das
mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo
singular.

—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro.

—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.

—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das _portuguezas_ tão alvas e
bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda
de bexigas.

Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da
comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d’agua;
respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha
espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar
a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na
mulher a posição do seu camarada.

—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta _dona_ parece mesmo, com sua
licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da
palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente.

Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão
calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára
completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava.

A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta
virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão
obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que
acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de
uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de
areias prateadas.

Ahi era o banho de Ierecê.

Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com
um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas
barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto
no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas,
presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de
urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um
espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um
chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e
recuar, um couro sem pello estendido diante da porta.

Erão as conferencias do feiticeiro com o _acauan_, especie de gavião
pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o
nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas
podem os padres descortinar o futuro.

De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente
ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia
com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia
acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal
os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar
do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.

Ahi começavão as revelações.

Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com
que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as
descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser
interrompido no melhor do somno.

Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em
dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a
tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão
sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não
incommodar o _portuguez_.

Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha
cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas,
mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e
enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica
tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu
passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?!

Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas
tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando
e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas
repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das
cordas do coração.

Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor
a quem o captivára.

       *       *       *       *       *

Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e
azulada.

A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia
desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a
folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando
vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas
derrubadas por terra.

Ierecê preparára uma sorpresa.

Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para
virem passar a noute no Hetagati.

Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com
a tradicional _julata_ que lhes deixava descobertos os seios pequenos
e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das
companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais
altivo, physionomia mais expressiva e intelligente.

Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro.

A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe
pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e
medrosa, disse-lhe que d’ora avante se considerava vencida em formosura e
cedia o seu lugar a quem mais o merecia.

A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a
alegria de Ierecê.

Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos
sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido
avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto,
palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora
satisfazer a sofreguidão do appetite.

Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo
ruido.

Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca
e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se
deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as
companheiras ião executar.

Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle de anta e entoou uma
canção de andamento vivo.

Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n’essa
disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente
tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em
grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de
reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e unia
a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava
e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições
voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas.

Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo
afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual
Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito
quando a gente estivesse a dormir.

Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a
funcção.

Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa
condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido.

Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com
mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco,
cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar,
tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar
as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi.

Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando
para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao
relento.

De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os
presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas,
agulhas, e os restos do banquete da vespera.

Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar
até a aldêa.

No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava
mostras de perceber isso.

—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos
aqui?

—Talvez um mez, não é?

—Já lá vão dous, rectificou o soldado.

Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta.

—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!...
Como é que não appareceo por cá?

—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo
Lalima. Fazia V. S. na _cidade_ e foi para lá em rumo certo.

—Então de Nioac ha outro caminho que não este?

—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais _arriba_. Ahi ha uma
estrada que vai de parelha com o rio Miranda.

—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É
preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez....

No dia seguinte o projecto de partida não se realisou.

—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá
para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão,
diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá.
Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.

O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem.

—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n’aquelle
mister.

—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a _cidade_.

A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a
mesma resposta.

Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um
presentimento doloroso agitava-lhe a alma.

Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por
vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que
não lhe permittião quietação.

Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de
Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa.

Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.

—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n’este lindo retiro e os
outros com cuidados de sua pessoinha!

Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.

—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo
de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m’as souberão dar....
Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim
em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos.....
E as febres?

—Ha muito que já se forão....

—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que
soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos
batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado
á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas
d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino?
Ah! deixe lhe dar o conhecimento d’este amigo de Miranda. É um morador
da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá.

Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno,
physionomia amena e franca.

—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem
contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um
optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde
contar.

Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João
Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a
venustade da india.

—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto
teve faro.

—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle
fallava com perfeição.

—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os
_paratudos_[13] já derão flôr cinco vezes.

Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca
á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento
percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava
n’este mundo só, acima de tudo.

Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel,
qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito.

—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso....

—Passei bem...

—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N’estes dias devemos
todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito,
trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não;
está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo
que a data não póde ser muito antiga.

Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe
pelo rosto.

—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro
em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto
abalado...

—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua
presença é indispensavel e quanto antes...

—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir.

Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d’alma parecia-lhe
que a sua hora de morrer vinha chegando.

Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio
Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos,
em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem
abandonal-a de chofre...

—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui
anniquilado!... Fôra quasi um crime!...

—De certo, porém...

—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é
máo...

—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem
depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois
consolar-se-ha... é...

—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas.

Alberto nada replicou.

—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para
esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua
subsistencia...

—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que
elle se incumbirá de tudo...

—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu
dispor para tudo quanto fôr do seu serviço....

—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos
sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda.

—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa.
No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma
occasião d’essas...

—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e
no domingo estarei em Miranda.

—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.

—Infallivelmente...

—Veja se vai perder o vapor... depois não teria outro remedio senão
descer em _igarité_ para Corumbá... viagem vagarosa e massante....

—Não... eu partirei no _Alpha_, afiançou Alberto.

De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.

Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas novidades, mas, quando
vio os visitantes partidos, olhou para Alberto com tamanha angustia,
tanta expressão que este ficou todo perturbado.

—Que tem você? perguntou elle.

—Nada, respondeu a india...

—Você está doente?

—O corpo não está, mas isto está ficando...

E apontou para o coração, accrescentando.

—E para sempre.

Depois tornou-se silenciosa.

Á hora da refeição recusou comer e com a approximação da tarde tornou-se
muito agitada. Ia e vinha do corrego para a choupana a passo lento e com
o ar de completa distracção. Debalde Alberto procurou gracejar com ella:
nem se quer um sorriso melancolico desdobrou-lhe os labios contrahidos.
Tinha os olhos seccos e brilhantes.

A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais augmentou-lhe o
desassocego: por vezes sahio para fóra da palhoça e respirou sofrega o ar
frio da madrugada.

Havia um luar tristonho de mingoante: o valle estava frôxamente
illuminado e ao longe ouvião-se os _quero-queros_ que gritavão nas matas
do Aquidauána.

O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A certeza de que uma grande
desgraça estava imminente sobre a sua cabeça a acabrunhava.

Voltou para a choupana e parou perto da rede em que dormia Alberto.

Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou levemente no hombro do
moço e acordou-o.

—Então, disse ella, _unái_[14] vai-se embóra?

Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio da noute, e entretanto
quanto esforço assim mesmo lhe custára essa pergunta!

—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto sentando-se na rede.

—Forão aquelles homens máos que vierão buscar _unái_.

—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.

—E que será de Ierecê?

Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.

Estava vacillante.

—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se lembrar de mim. Deixo
ordem a João Faustino para que o seu avô tenha dinheiro e roupa....

—E _unái_, perguntou ella, parando em cada palavra, nunca mais hade
voltar?

—Volto....

Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.

De manhã a sua physionomia estava toda alterada. A mão pesada da dôr
havia pousado sobre o seu rosto e, tirando-lhe o colorido das faces,
traçára circulos rôxeados ao redor dos olhos.

Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e até ordens imperiosas
de Alberto, ella nada comeu. Acocorada em um canto estava sombria.
Parecia doente; teve um pouco de febre.

Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, decidio elle partir
antes do dia em que pretendêra sahir do Hetagati.

Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte fazia-se de viagem.

O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: pelo contrario
desejou-lhe toda a sorte de felicidades pelo regresso e cobrio-o de
bençãos quando soube que tudo quanto continha o rancho ao lado viria a
pertencer-lhe desde logo. Com a posse de duas redes, alguns cobertores,
espingardas, polvora e chumbo, pelles, facões, um par de tamancos e
varias notas de papel-moeda, julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de
riquezas inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente o maior
reconhecimento a quem se despedia por modo tão generoso.

Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, que Morevi deixou-o
montar a cavallo.

Ierecê tinha se ausentado.

O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, disse com os olhos um
adeos eterno áquelle recanto e fazendo um gesto amigavel ao velho, partio
á hora em que o sol ia quasi chegando ao pino.

Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, quando n’uma das
voltas vio Ierecê mais adiante sentada n’um tronco de arvore cahida e á
sua espera.

Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, mas não poude e
deixou que o cavalleiro se approximasse mais. Então chegou-se tremula
e, encostando a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel
apertando de encontro aos labios a mão do seu amado, ao passo que
lentamente lhe descia pelas faces uma lagrima, uma unica, mas de fogo que
devorava para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente de vulcão
a abrir sulco fundo e devastador.

—_Biónne_[15], disse-lhe o moço sinceramente commovido.

—_Pehehêvo_[16], respondeo ella, _pehehêvo_!

Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar
para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou
rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta....
deserta....

Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo
das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas.

Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous dias chegou á villa de
Miranda.


CAPITULO III

Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor
_Alpha_ estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto
dispensar outra qualquer demora.

—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino
as instrucções relativas ao valle do Hetagati.

A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado
uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india,
mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade.

Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na
manhã seguinte o vapor levantava ferro.

Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa
d’este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou
um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho,
prostrados de fadiga.

Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza.

Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o
interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior
espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores
que podessem o censurar.

O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no
chão ao pé da porta.

Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve
animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção.

—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho
n’aquella contingencia.

—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe
uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n’estes
sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por
transes d’esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais
estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a
para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo
vexame. Além d’isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer
irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados
que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As
suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em
qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta!
Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente
com todas as suas ordens.

Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém
precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos
aquelles dias passados.

A final chegou a hora da partida.

Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera
concentrada para o navio que lhe roubava o amante.

Parecia, comtudo, calma.

Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a
vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de
saltar na canoinha que o ia levar ao _Alpha_ já sobre rodas no meio do
rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e,
retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi.

Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da
inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n’um
paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n’uma contracção de
agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de
sahir d’aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos.

       *       *       *       *       *

Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro
recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de
Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.

Era de João Faustino.

«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas.
Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe.

«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade de chegar ao
Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao
valle de Hetagati.

«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d’aquella bella creatura.
Quando assomei á porta do seu _rancho_[17], ella deo um grito de jubilo
e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que
estava deitada.

«Sua magreza era extrema.

«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da
villa, tranquilla e resignada.

«—_Unái_ volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração.

«Julgei de caridade mentir.

«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro.

«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os
seus olhos empanados ainda podérão fulgir.

«Depois não disse mais palavra.

«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão
curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta
não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma
tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava
as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o
acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como
medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n’uma cova
distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal.

«—O _portuguez_, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d’ella.

«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.

«Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia
querer sorrir.

«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou,
pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade
conhecer.

«—Alber...to... Al...ber...to!

«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr
tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e
gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não
perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração.

«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella bella mulher na rede
e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias
antes pedira ao seu avô.

«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.

«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião
do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a
vida amado muito.»

       *       *       *       *       *

Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de
Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração.


FIM DE IERECÊ A GUANÁ



DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA

PROVERBIO EM 1 ACTO


PERSONAGENS

    Manoel Ribeiro, capitalista.
    D. Rita, mãe de
    Isabel.
    Antonio da Fonseca, tio de
    Miguel Faria.
    João de Siqueira.
    Alfredo Rocha, primo de Isabel.
    Ignacio Lemos, pae de
    Alberto Lemos.
    Um criado.

A scena passa-se no Rio de Janeiro.

Época—1871.


DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA

PROVERBIO


ACTO UNICO


SCENA I

Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com
tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao
fundo.

MANOEL RIBEIRO, FONSECA.

RIBEIRO (_passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está
sentado junto á mesa_).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se
arranjar...

FONSECA.—Então não lhe desagrada a minha proposta?

RIBEIRO.—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a esperava... Combinei
certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma:
previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha
mulher...

FONSECA.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz.

RIBEIRO (_com simplicidade affectada_).—Sagacidade, não: alguma
penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (_parando diante de Fonseca
que se levanta_) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa
da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma
cousa de grande n’este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim
de contas?

FONSECA (_com calor_).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que
se póde desejar mais?

RIBEIRO (_levantando os hombros_).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A
gloria?

FONSECA (_com sorpreza_).—Que quer você com a gloria?

RIBEIRO (_apressadamente_).—Sim... ter um nome celebre, conhecido...
ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas...
vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado...
Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora,
n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que
tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro
cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em
cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha
solemne para oitocentos e cincoenta professores (_com muito fogo_)
hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é
viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse
simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu
nascera:... entretanto...

FONSECA.—Entretanto?

RIBEIRO.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação...
Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de
meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi
extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o
desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...

FONSECA.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...

RIBEIRO (_com ar desabusado e puchando o beiço_).—Eu poeta?... Aos
cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já
com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o
poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das
estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima
das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de
desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado
(_parando de repente e com satisfação_). Sinceramente agrada-me esta
descripção... fui feliz devéras. (_Mudando de tom_) Se o poeta fôr velho
então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha
inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as
delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da
salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente
o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No
juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não
troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...

FONSECA.—De um Ribeiro... maganão!

RIBEIRO (_sorrindo-se meio resignado_).—Que quer você? Não tenho outro
meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não
estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez
nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos
do que muitos versos na cachola. (_Rindo-se, approxima-se de Fonseca a
piscar um olho_) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não
é? Diga com franqueza...

FONSECA.—De certo os encargos de familia...

RIBEIRO (_abanando a cabeça com ar fino_).—Não é só por isso!.. É tambem
por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!

FONSECA (_com repentino enthusiasmo_).—Que actividade!

RIBEIRO.—Boa presença... bons cabellos...

FONSECA (_encarecendo_).—Dentes excellentes!

RIBEIRO.—É um moço que tem futuro...

FONSECA.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não
diz uma palavra (_faz com as mãos gesto de quem pesa_) sem pesal-a
cuidadosamente...

RIBEIRO (_com certa hesitação_).—Mas elle... me parece...

FONSECA (_com algum receio_).—O que?

RIBEIRO.—Prosaico de mais...

FONSECA (_arrebatado_).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso
pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás
avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha
escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus
bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais
poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados.
Assustei-me... Então... (_interrompe para assuar-se com estrondo_).

RIBEIRO (_com interesse_).—Então?

FONSECA.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais...

RIBEIRO.—Ó homem, era arriscado.

FONSECA (_com vivacidade e orgulho_).—Não era? Pois bem, dous dias
depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei
bastante. (_Com alguma ternura_) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um
casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia...

RIBEIRO.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz...

FONSECA (_influindo-se pouco a pouco_).—Que duvida! Um noivo d’aquella
força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas
do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e
afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos
filhos... Comprehende?... Não ha tempo.

RIBEIRO.—E isso é mais conforme á poesia...

FONSECA.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna...

RIBEIRO.—É pena que o seu sobrinho não cultive (_parando nas palavras_)
alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa
(_com gesto de quem dedilha_). É tão gracioso!

FONSECA (_meio admirado_).—Pois quer mais arte do que a que elle tem?
Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos
agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no
mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe
asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos
de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem
gastador; sempre no meio termo...

RIBEIRO.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher...

FONSECA.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista.

RIBEIRO.—E minha filha? Que pensará d’elle?

FONSECA (_com segurança_).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu
sobrinho...

RIBEIRO.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album...

FONSECA.—Qual album!...

RIBEIRO.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo,
entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua
lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres...

FONSECA.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza,
póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a
gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a
côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o
Miguel sahe-se d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?..
Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta
calma!... Hen? mal se percebe...

RIBEIRO.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o
casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial...

FONSECA.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle
o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho
disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que
fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (_com
tom grave_) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a
Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (_com ar funebre_) É á Europa!...

RIBEIRO.—Com effeito, se elle disse isso...

FONSECA (_com imposição_).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem
posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz
de garatujar n’um instante resmas de papel, enchendo-as de versos...

RIBEIRO (_com ar de superioridade compassiva_).—Ah! isto fia-se mais
fino! E a inspiração?

FONSECA (_com resolução_).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe
dou, Sr. Ribeiro...

RIBEIRO.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição
indispensavel.

FONSECA.—É do que ninguem duvída... Elle entra n’esta casa com o pé
direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher...

RIBEIRO.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos.

FONSECA.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o
acontecimento, não é?

RIBEIRO (_com alguma pausa_).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca
vi casamento com menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma
cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a
chorar... noivos audazes...

FONSECA.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro
tempo... Ahi chega D. Rita...


SCENA II

RIBEIRO, FONSECA, D. RITA.

FONSECA (_dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a
mão_).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente...

D. RITA (_estende-lhe a mão_).—Oh! Sr. Fonseca...

FONSECA (_continuando no que ia dizendo_).—que a cumprimente n’este
momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca...

D. RITA.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d’esta
effusão...

FONSECA.—O seo marido que lh’o diga...

D. RITA.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é?

FONSECA.—Para mim, excellente...

D. RITA.—E hade agradar-me?

FONSECA.—Estou que sim...

D. RITA (_meio risonha_).—Então adivinho...

FONSECA.—É...

D. RITA.—O pedido em casamento de minha filha...

RIBEIRO (_intervindo_).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr.
Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem
concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel...

D. RITA (_interrompendo-o_).—E você lhe respondeo...

RIBEIRO.—O que você responderia.

FONSECA (_voltando-se para D. Rita_).—Então?

D. RITA (_sem hesitação e com simplicidade_).—Eu diria que sim! A que
devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?...

FONSECA.—Não soffre duvida...

D. RITA.—E quem poderá tornal-a feliz?

FONSECA (_para Ribeiro_).—Sim, quem?

RIBEIRO.—Quem?

OS TRES (_a um tempo_).—Miguel Faria!...

D. RITA.—Tão amavel moço...

RIBEIRO.—Boa figura...

FONSECA (_com ar de importancia_).—E apatacado...

D. RITA.—Um cavalheiro perfeito...

RIBEIRO.—Previdente...

FONSECA.—Em cafés não ha outro igual...

RIBEIRO.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas...

D. RITA.—Accordo perfeito...

RIBEIRO.—Embora. Eu desejára algum motivo (_hesitando_) de
contrariedade... Estes casamentos assim...

FONSECA (_com alguma impaciencia_).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas
idéas?... (_voltando-se para D. Rita_).—Não entendo bem... O compadre
pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como
diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!...

D. RITA (_offendida_).—Oh! Sr. Ribeiro!...

RIBEIRO (_com alguma vivacidade_).—Não: o meu pensamento não é este...
eu...

FONSECA (_interrompendo-o_).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão
feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as
circumstancias desejaveis?

RIBEIRO.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se...

D. RITA (_com indignação_).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...

RIBEIRO (_com ar conciliador e fallando com volubilidade_).—Não
é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas,
essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria
eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando
voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (_com fogo_)
Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras,
fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.»
«O signal para appareceres na janella era assim (_assovia baixinho e
prolongadamente_) Teu pae estava dormindo»...

D. RITA (_procurando interrompel-o_).—Que historias, Sr. Ribeiro!

RIBEIRO (_continuando_).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma
escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu
pucho; elle rasga-se»...

D. RITA.—Mas isto é até indecente...

FONSECA.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...

D. RITA (_rindo-se_).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de
reis!...

RIBEIRO (_pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si_).—Não
o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse
estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não;
mas quanto á alma posso exclamar como Nero (_batem palmas na porta do
fundo.—Ribeiro muda de tom e alto_).—Quem é?... É sempre assim! Estava
com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (_Novas
palmas e fortes_) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre
(_caminhando para a porta_) entre pelo amor de Deos!

(_Alfredo Rocha entra_)


SCENA III

D. RITA, FONSECA, RIBEIRO E ROCHA.

RIBEIRO (_olha admirado para Rocha que mostra-se espantado_).—Com a
bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de
visitas?... Porque não entrava?...

ROCHA (_cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento_).—Sr.
Fonseca... minha tia...

D. RITA.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...

ROCHA (_com sentimentalismo como que comprimido a custo_).—Oh! essas
palmas tem uma significação... sim, ellas têm...

RIBEIRO.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio
de uma comparação (_voltando-se para Fonseca_) Que dizia eu, compadre?...

FONSECA.—Você dizia... espere...

RIBEIRO (_instando_).—Procure... procure...

FONSECA (_deitando os olhos de um lado e d’outro como quem procura no
chão alguma cousa_).—Nada acho...

RIBEIRO (_com um dedo na testa_).—Eu comparava-me... Qual!... Está
perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas!

FONSECA.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu
sobrinho... Este, sim, é poeta!...

D. RITA.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos...

ROCHA (_com alguma enfatuação_).—Oh! isto é bondade!...

RIBEIRO (_com tom dogmatico_).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle
seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas...
aquella...

FONSECA (_interrompendo-o_).—Tambem foi acolhido com estrondo
(_voltando-se para Rocha_) O senhor deve ter ganho muito, não é?

ROCHA (_ironico e superior_).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha
quem compre livros... As letras vegetão...

RIBEIRO.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever
comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda,
como para não dever favores...

FONSECA.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia...

RIBEIRO (_com enfatuação_).—Fui ao livreiro e paguei logo tres
mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito
entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu
dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria
talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual
faz como póde e entende... Entretanto...

D. RITA (_interrompendo_).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá
vêr porque não apparece Isabel... (_voltando-se para Fonseca_).—O senhor
janta comnosco...

FONSECA.—Já que é ordem...

D. RITA (_para Rocha_).—De certo você tambem...

ROCHA.—Com muito gosto...

D. RITA.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos
a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de
Petropolis... (_para Rocha_). Quer vir, Alfredo?

ROCHA.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido...

D. RITA.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.

(_D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da
esquerda_).


SCENA IV

RIBEIRO E ROCHA.

RIBEIRO.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer
_toilette_ antes de ir para a mesa do jantar.

ROCHA (_um pouco sombrio_).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!...

RIBEIRO.—Cousa urgente?...

ROCHA.—Urgentissima!

RIBEIRO.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje
com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?

ROCHA.—Gravissima...

RIBEIRO.—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos...

(_Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado_).

RIBEIRO.—Comece pois...

ROCHA (_meio acanhado_).—Meu tio... convem recorrer... á sua
benevolencia... antes de encetar esta conversa...

RIBEIRO (_olhando para Rocha com alguma admiração_).—Você está
perturbado... Que tem?

ROCHA (_no mesmo tom_).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão
grande... tão grande...

RIBEIRO (_irresoluto_).—Di...nheiro?

ROCHA (_com movimento energico de denegação_).—Não, Snr.!

RIBEIRO (_mais expansivo_).—Então que é?

ROCHA (_hesitando_).—É...

RIBEIRO (_com curiosidade e chegando a cadeira_).—É?...

ROCHA (_tomando subita resolução e ás pressas_).—É a mão de sua filha
Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro,
idolatro em segredo, dia e noute, a quem...

RIBEIRO (_affastando um pouco a cadeira e tossindo_).—Hum! hum!

ROCHA (_com anciedade_).—Então?... que diz?

RIBEIRO (_encolhendo de vagar os hombros_).—Homem, eu não digo nada.

ROCHA (_apressadamente_).—Então consente?... Oh! meu Deus!

RIBEIRO.—Eu não disse isso...

ROCHA (_abatido_).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...

RIBEIRO.—Tambem não disse isso...

ROCHA.—Então que foi que disse?...

RIBEIRO.—Nada! (_tomando attitude de quem vai orar_) Alfredo, conversemos
um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração
devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e
conceituado...

ROCHA (_interrompendo-o_).—Mas...

RIBEIRO (_gravemente_).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe
dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a
gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é?

ROCHA.—É verdade... aspiro...

RIBEIRO (_com gesto de imposição_).—Pois faz uma furiosa asneira...

ROCHA (_levantando-se admirado_).—Como assim?...

RIBEIRO (_levantando-se tambem_).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você
(_pausado e com voz muito grave_) não deve casar! A sua vocação não lhe
permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que
quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao
lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada,
descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que
resista a causas tão deleterias?...

ROCHA.—Meu tio...

RIBEIRO (_com volubilidade_).—Não me interrompa... Sei que hei de levar
a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas
do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de
vezes nada!...

ROCHA (_enfiado_).—O senhor quer caçoar...

RIBEIRO (_enthusiasmando-se_).—Não consinto que me interrompa... Que fôra
de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem
prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que
cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio,
á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!...
Puramente a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? Carpirão
só os males da alma, d’essa alma que encheu os espaços com clarões
inextinguiveis!...

ROCHA.—Mas... eu amo...

RIBEIRO (_levantando a voz_).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos.
Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d’ahi
resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos
arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é
poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida;
as insomnias o perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; terá
talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer
atroz!...

ROCHA (_um tanto sombrio_).—Não posso crêr que o senhor queira se
divertir á minha custa...

RIBEIRO (_muito serio_).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade.
Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem
muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem
produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente
porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos,
cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo
sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?!
Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de
anormal... direi quasi de infernal!...

ROCHA.—Ora, meu tio...

RIBEIRO.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego,
bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (_Mudando repentinamente
de tom_) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples
hypothese... (_Voltando ao primeiro tom_) frequente a taverna, desça á
mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra,
seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá
transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida
que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome
que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e,
no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia
desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ...
eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!...

ROCHA.—Não posso ouvil-o...

RIBEIRO.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um
chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os
dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio
para a sua alma! E por cima quer casar?...

ROCHA.—Mas sua filha?...

RIBEIRO.—Minha filha? (_Com simplicidade_) Que tem? Você a accusará
perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema,
hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de
exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas
casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado
nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você
tambem se perca?

ROCHA.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma...

RIBEIRO.—Como assim?

ROCHA.—Não vejo uma razão...

RIBEIRO.—Uma razão?

ROCHA.—Sim... um motivo plausivel...

RIBEIRO (_pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça_).—Pois
elle existe e muito, muitissimo valioso...

ROCHA (_com anciedade_).—Qual é?

RIBEIRO.—A mão de Isabel já está dada...

ROCHA (_com explosão_).—Mas a quem?... A quem?

(_Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira_).

RIBEIRO (_approximando-se de Rocha; á meia voz_).—O noivo é o Faria.

(_Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados_).

ROCHA (_chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento_).—Meu
Deus, quanto verso perdido, quanta rima n’agoa!... E eu que tinha para
hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte.


SCENA V

ROCHA, RIBEIRO, FARIA E SIQUEIRA.

RIBEIRO (_adiantando-se para Faria_).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem
vindo (_aperta-lhe as mãos_).

FARIA.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu
particular amigo Alves de Siqueira.

RIBEIRO (_apertando-lhe a mão_).—Conheço-o já de vista. Tenho muito
prazer em vêl-o em minha casa.

SIQUEIRA (_inclinando-se_).—A honra é para mim.

RIBEIRO.—Basta ser-me apresentado por quem é...

SIQUEIRA.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é
summamente lisongeira...

(_Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente_).

RIBEIRO.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha?

FARIA (_com frieza e alguma sobranceria_).—Ainda não senhor; de nome...
vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho...

RIBEIRO.—Justamente, um livro de poesias...

ROCHA. (_com ironia_).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos...

RIBEIRO (_para Siqueira_).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu
sobrinho (_Os dous cumprimentão-se seccamente_).—A proposito já sei que
os senhores dous jantão commigo...

SIQUEIRA.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade...
Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio
importante...

RIBEIRO.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo...
Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (_com intenção_)
principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma
lauta refeição....

SIQUEIRA.—Pois bem, resigno-me...

RIBEIRO (_com expansão_).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua
resignação!... Com um peixe! (_Dando um muchôcho_) Que peixe!... O primor
dos mares!...

FARIA (_com ar grave_).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio
a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer
demóra...

RIBEIRO (_pressuroso_).—N’este caso, ouvil-o hei já e já...

ROCHA.—Então eu me retiro...

RIBEIRO.—Vá lá dentro conversar com a sua prima...

FARIA (_com vivacidade_).—Este senhor é primo de D. Isabel?

(_Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia_.)

RIBEIRO.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...

(_Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e
volta logo para trocar novos olhares_.)


SCENA VI

RIBEIRO, SIQUEIRA, FARIA.

RIBEIRO.—Sentemo-nos...

(_Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres,
depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia._)

SIQUEIRA (_como que annunciando_).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar...

FARIA (_após breve pausa_).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito
de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai
entender com o meu futuro (_parondo um pouco_). Meu tio sem duvida já lhe
ha de ter vindo fallar...

RIBEIRO.—Pois não... e...

FARIA (_apressadamente_).—Devo contar com a sua benevolencia?

RIBEIRO (_com ar fino_).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo
isto... muito feliz!

FARIA (_com fingida effusão_).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A
minha estrella...

SIQUEIRA (_interrompendo_).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em
pouca conta?... Além d’isto tudo estava calculado...

RIBEIRO.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta
circumspecção...

FARIA (_com ar modesto_).—Oh! Sr. commendador!...

RIBEIRO.—Tão bom senso...

FARIA.—Sr. commendador!...

RIBEIRO.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima
muito...

FARIA.—E ella?... sua filha?...

RIBEIRO.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe
fallei... mas é natural... nada mais natural...

FARIA.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe
inspiro, acho-me capaz de tudo. (_Com tom frio_) Liquidado este primeiro
negocio (_emendando com rapidez a phrase_), decidido este primeiro
assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo
Siqueira á sua presença...

SIQUEIRA (_tomando a palavra, com volubilidade_).—É cousa infallivel, Sr.
commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista;
Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, homem que a
ambos deve merecer credito... não é?

FARIA E RIBEIRO (_inclinando-se_).—De certo!...

SIQUEIRA.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V.
Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará
uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres
presentes, quarenta por cento...

RIBEIRO.—Quarenta por cento... da noute para o dia?...

FARIA.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta
contos e...

RIBEIRO.—Mas a somma... a somma é grande...

FARIA.—Setenta contos?...

RIBEIRO.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!...

FARIA.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança...
digo até, certeza!...

RIBEIRO.—Mas... afinal... de que se trata?

SIQUEIRA.—Trata-se do algodão...

RIBEIRO.—Do algodão?...

SIQUEIRA.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa
consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café
subio...

RIBEIRO.—Sei perfeitamente...

SIQUEIRA.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão...

RIBEIRO.—Sei d’isto.

SIQUEIRA.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por
um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta
contos, a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, que
é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos _pences_, tem se
feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me
offerecem é de qualidade superior...

RIBEIRO (_duvidoso_).—Era bom... reflectir... Assim...

SIQUEIRA.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se...
E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que
entro, esses, sim, representão arrojo e segurança...

RIBEIRO (_com enfatuação_).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim,
não é meia pataca...

SIQUEIRA (_com voz insinuante_).—Se fecharmos o negocio, d’aqui mesmo
expeço o telegramma de compra...

RIBEIRO (_voltando-se para Faria_).—Que diz, Sr. Faria?...

FARIA.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente...
Senão, reflexionemos um pouco...

RIBEIRO (_approximando a sua cadeira da de Faria_).—Sim... sim,
reflexionemos um pouco...

FARIA.—Tudo n’este mundo está subordinado a causas, de maneira que para
estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar
á origem...

RIBEIRO (_abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira_).—De certo...
subamos á origem...

FARIA (_com tom oratorio_).—Ora bem... Quaes são as causas que produzem
no mundo as oscillações do movimento commercial?... Diversas...

SIQUEIRA.—Diversas... não ha duvida.

FARIA.—Mas qual a predominante?... Sem contestação a politica... Qual
é hoje a face politica do globo? Paz em todos os Estados... A França
exhausta... a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a parte,
mas a luta armada impossivel por muitos annos. N’estas circumstancias o
café, bebida excitante, tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas
pedem trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos foi
escassa; a do norte do Brazil não satisfez a expectação. Pelo contrario
ha muito café... e depreciado...

RIBEIRO (_approximando mais a sua cadeira_).—Estou o seguindo com
anciedade...

FARIA (_batendo compasso com a bengalinha que conservára em mão desde a
entrada em scena_).—Depois, não nos esqueçamos de um facto natural...
Cada genero tem um preço normal que representa a exacta necessidade da
população consumidora. O progresso na ascensão justo e natural está
sugeito a rigorosas apreciações estatisticas. O café por muito tempo
esteve a tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a sete, onde
ficou firme...

RIBEIRO.—Perfeitamente.

FARIA.—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco do café... É o
seu ponto de equilibrio...

RIBEIRO.—De certo, de equilibrio (_mechendo com os braços, imitando uma
balança_) Isto é uma balança: o fiel marca sete...

FARIA.—A sua comparação é justissima.

RIBEIRO. (_com vivacidade_).—Então gostou?

FARIA.—N’uma concha está o café, na outra...

RIBEIRO (_com rapidez_).—O assucar...

FARIA.—Não, o algodão. Nas nossas condições actuaes, são os dous typos
de exportação. O assucar pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da
betteraba e até de couros velhos...

RIBEIRO.—É verdade: equivoquei-me...

FARIA.—O café desce: sóbe o algodão...

SIQUEIRA (_intervindo_).—V. Ex. vê como temos tudo calculado... Podemos
contar com os seus setenta?

RIBEIRO (_hesitando_).—Talvez... se eu consultasse com o meu socio... o
Lemos...

SIQUEIRA.—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto tino! Alem d’isso é
irresoluto o tal Sr. Lemos...

RIBEIRO.—De facto... elle não tem golpe de vista... esse lance de olhos
que vê uma operação em globo...

SIQUEIRA (_apressadamente_).—Como esta, Sr. Commendador, como esta...

RIBEIRO (_vacillante_).—Não direi tanto...

FARIA.—O que é necessario é passar quanto antes o telegramma...

RIBEIRO (_decidindo-se de repente e levantando-se_).—Pois vá lá: o
Lemos era incapaz. (_Apresentando a mão aberta a Siqueira, que a aperta
com mostras de muito respeito_). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o
negocio!... Escreva para Santos...

SIQUEIRA (_dirige-se para a mesa, arranca da carteira uma folhinha de
papel e escreve a lapis_).—É já e já... Ouça, Exm.: «Todo o algodão para
Siqueira & C.ª Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado!

RIBEIRO.—Toque a campa.

(_Siqueira bate n’um tympano_.)

FARIA.—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto (_com fingida
commoção_) que fará a minha eterna felicidade.

SIQUEIRA (_para Faria_).—Então vem todo o algodão?

FARIA.—Todo. Se mais houver, que mandem! (_Mudando de tom e voltando-se
para Ribeiro_).—Sim, a minha felicidade...

SIQUEIRA (_atalhando_).—E se o telegrapho estiver interrompido?

FARIA (_mudando de tom_).—Está trabalhando... Ha pouco passei um
telegramma. (_Voltando-se para Ribeiro_) Na verdade o amor que sinto por
sua filha...

(_Entra um criado_.)

FARIA (_dirigindo-se para o criado e com tom imperativo_).—Entregue de
minha parte ao Sr. Queiroz, o administrador...

(_O criado sahe_.)

RIBEIRO.—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos temos entendido, ha de
permittir, com o seu amigo, que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa
antes de apparecer á mesa. (_Para Siqueira_) Como estava decidido, o
senhor fica comnosco...

SIQUEIRA.—Com summo gosto...

RIBEIRO.—Verá que peixe!... Parece pescado em Santos! Vale o seu peso de
algodão (_rindo-se_). Não gostárão?

SIQUEIRA (_admirado_).—De que?

RIBEIRO.—Do meu dito...

SIQUEIRA (_rapidamente_).—Oh! muito... esteve excellente.

RIBEIRO.—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, mas graça natural, nada
forçada... É como aprecio... Isto de repentes estudados de vespera não é
commigo... Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e estou de
volta.

(_Ribeiro sahe pela porta da esquerda_.)


SCENA VII

SIQUEIRA E FARIA.

(_Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende um charuto e
põe-se a folhear um album de retratos._)

SIQUEIRA.—Emfim, está feito o negocio!

FARIA (_soltando uma fumaça e com indifferença_).—Está, sim.

SIQUEIRA (_parando defronte de Faria_).—Mas agora, muito seriamente, digo
a você uma cousa...

FARIA.—Que é que diz?

SIQUEIRA.—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... mas tambem os
setenta contos d’este homem...

FARIA.—Você, medroso, só se lembra dos seus trinta...

SIQUEIRA.—Ora... mas...

FARIA.—Deixe-se de mas... O negocio é bom.

SIQUEIRA (_com anciedade_).—Você acha?

FARIA (_indifferente_).—Acho...

SIQUEIRA.—Mas d’onde lhe vem esta segurança?...

FARIA.—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto disse ao meu futuro
sogro?

SIQUEIRA.—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: se o vapor de
New-York vier pedindo café e recusando algodão?... Levamos um baque
soffrivel...

FARIA.—É possivel...

SIQUEIRA.—E então?

FARIA.—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo que um homem serio
prevê... O mais é anomalia. (_Batendo n’uma folha do album_) Eis-aqui um
facto. Estão n’este album dous retratos... um defronte do outro, como que
a se namorarem...

SIQUEIRA (_distrahido_).—De quem são?

FARIA.—Um é o de minha noiva; o outro é o do tal primo, o poeta. Não é
possivel que estes dous jovens photographados tenhão inclinação um para o
outro?

SIQUEIRA.—Com effeito...

FARIA.—Mas o que é provavel? É que a moça tenha considerado que ella
não nasceo para casar com um rapaz muito rico de versos, mas pobre
de dinheiro... Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas
casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples bom senso mostra...

SIQUEIRA.—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou assim... facilmente perco
a cabeça. Esta compra de algodão...

FARIA.—Ora, deixe-se d’isso. (_Com desprezo_) Trinta contos!

SIQUEIRA.—Sinceramente...

FARIA.—Se você se afflige quando navegamos no mar sereno das
probabilidades... que fará quando o vento nos açoutar rijo?...

SIQUEIRA.—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom.

FARIA (_fechando o album com força e levantando-se_).—Pois eu... sou
homem para a lucta... e...

(_Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira_.)

SIQUEIRA.—Está passado o telegramma... O algodão é nosso...

FARIA.—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete de New-York e teremos
feito um optimo negocio... E não póde tardar... De um lado ganho com o
algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de café que vinha de
Campinas. Sou um general previdente... De mim não se dirá que não cuidei.

SIQUEIRA.—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...

FARIA.—Qual sorte! O descuido dos homens é que merece este nome, nada
mais, nada menos. Infatuados, pueris, buscão uma explicação sobrenatural
para a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me ajudado? Meu
amigo, tudo n’este mundo cifra-se no esforço proprio, na iniciativa e nas
quatro operações da arithmetica...

SIQUEIRA.—Eu sempre conservo o meu medo...

FARIA.—Você quer me ceder a sua parte?...

SIQUEIRA (_apressadamente_).—Não, não! Afianço-lhe que estou
perfeitamente tranquillo...

FARIA.—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto mais que ahi vem gente.

(_Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca_.)


SCENA VIII

SIQUEIRA, FARIA E RIBEIRO.

RIBEIRO (_puchando os punhos da camisa_).—Estou prompto, promptinho...
Creio que não me fiz esperar demais...

FARIA.—Não, de certo.

RIBEIRO.—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos á mesa. O Sr.
Siqueira verá que peixe!...

SIQUEIRA.—V. Ex., porém, me disse que...

RIBEIRO.—Minha excellencia não attinge á d’elle... Não ha môlho que me
sirva. (_rindo-se_) Não gostou?

SIQUEIRA.—Muito... mas gostarei ainda mais do peixe...

RIBEIRO.—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas falta-nos o compadre
Ignacio... Quererá elle dar ponto hoje? Logo hoje! O certo é que está
tardando. (_Ouve-se barulho fóra_). Estão subindo a escada: sem duvida é
elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!


SCENA IX

SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO E LEMOS.

LEMOS (_entra precipitadamente com ar de grande prostração e atira-se
n’uma cadeira_).—Ai! não posso mais... morro de calor... que commoção!

RIBEIRO.—Que tem você?... Estava tardando... O jantar...

LEMOS (_levantando-se precipitadamente_).—Bem se trata de jantar!... Não
quero jantar... hoje ninguem deve jantar...

RIBEIRO (_inquieto_).—Mas que ha? Você me assusta...

LEMOS (_passeiando agitado_).—Que ha? É que acabo de comprar uma partida
forte de café e recusar algodão. Que ha? É que d’aqui a pouco podemos,
com a chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder ainda mais. É o
que ha!

RIBEIRO.—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos bem aviados!... Temos
prejuizo certo...

FARIA.—É cousa infallivel!

LEMOS (_reanimando-se_).—Mas porque, homens de Deos? Vocês me pôem
doudo...

SIQUEIRA.—Eu me abstinha...

RIBEIRO.—Por certo... mas em alguns falta o lance de olhos...

FARIA.—Querem se apressar...

LEMOS.—Talvez tenhão razão (_com acabrunhamento_). Aquellas saccas de
café me esmagão. (_Reanimando-se_) Mas ao menos esperemos pelo vapor de
New-York...

FARIA.—Não ha que esperar...

SIQUEIRA.—E para que esperar?

RIBEIRO.—Esperar o que?

LEMOS (_muito abatido_).—É verdade... é verdade...

RIBEIRO (_com seccura e concertando a garganta_).—De modo que o Sr.
Lemos, sem me consultar, metteu-se a calculista e...

LEMOS (_deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo_).—Tem razão...
tem razão... Compadre, o nosso prejuizo é grande...

RIBEIRO (_com muita importancia_).—Isto não é o que mais me aborrece...
É vêl-o assim arriscar-se sem prévio conselho meu... Olhe, emquanto o
senhor fazia imprudencias, eu realizava com toda a calma uma operação
grave, premeditada e de lucros certos. Fechei uma compra de algodão em
Santos consideravel...

FARIA (_intervindo_).—É verdade, o Sr. commendador, eu e Siqueira,
acabamos de telegraphar, e amanhã poderemos impôr o nosso preço ao
mercado.

(_Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de Faria._)


SCENA X

SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E FONSECA.

FONSECA.—Impôr preço ao mercado? De que modo?

FARIA.—Eu lhe explico.

(_Vai para Fonseca e falla-lhe baixo._)

LEMOS (_levantando os olhos para Ribeiro, abatido._)—Você salvou-nos, Sr.
compadre...

RIBEIRO.—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas vezes que faltava-lhe o
palpite...

FONSECA (_alto_).—O negocio é excellente.

SIQUEIRA.—Optimo... mas devéras, estou com medo...

FONSECA.—Pois, então, ceda-me metade do que lhe toca...

SIQUEIRA (_irresoluto_).—Não... não quero... entretanto?

FONSECA (_com superioridade_).—Então ceda-me tudo!

SIQUEIRA.—Tudo?

FONSECA.—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?

RIBEIRO.—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste rasgo.

FONSECA.—Então aceita?

FARIA.—Você está com receios... você o da idéa... aceite...

SIQUEIRA (_resolvendo-se_).—Pois vá lá... Eu me contento com pouco. Mas
palavra, se o senhor ganhar... tem de me agradecer a lembrança...

FONSECA.—Quer que lhe dê uma clareza?

SIQUEIRA.—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.


SCENA XI

OS MESMOS, UM CRIADO.

O CRIADO.—Esta carta urgentissima para o Sr. commendador.

RIBEIRO (_apressadamente_).—Dê-m’a. (_Lê_) Meus senhores, o vapor
americano está entrando. Falla-se em alta no algodão...

SIQUEIRA (_com dôr_).—Oh! Faria!... Meu algodão...

FONSECA (_com voz de triumpho_).—Quer comprar a minha parte? 30% de lucro
sobre a venda!

SIQUEIRA.—O senhor me mata!

RIBEIRO (_para Lemos_).—Compadre, tem algodão que vender?

LEMOS (_sempre sentado; lugubre_).—E o meu café!... O remedio é bebê-lo
todo. Arrebentarei!

(_Ouve-se uma voz fóra gritar_: Meu pai! Meu pai! _barulho na escada_).

RIBEIRO.—Que é isto?


SCENA XII

SIQUEIRA, FONSECA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.

ALBERTO LEMOS (_vem offegante e mal póde fallar_). Meu pai... o vapor
americano... alta no café... algodão desceo!

LEMOS (_dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira_).—Café?!... Café?...

ALBERTO.—Pede-se de toda a America do Norte.

TODOS.—Impossivel!

ALBERTO.—Leião! (_Entrega um boletim a Ribeiro, que é logo cercado por
todos com grande sofreguidão._)

RIBEIRO.—É verdade! Mas... arredem-se um pouco... Os senhores me suffocão!

LEMOS (_com voz de triumpho_).—Eu logo vi!

FONSECA (_deixando-se cahir na cadeira em que estivéra Lemos_).—Em que
tremedal me metti! Infame algodão!

SIQUEIRA (_chegando-se para Fonseca_).—Coragem, Sr. Fonseca!... Vou
certificar-me das noticias. Não se esqueça de mim.

(_Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente._)


SCENA XIII

FARIA, FONSECA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.

FONSECA (_levantando-se_).—Não! isto é horrivel!... D’esta feita... (_Com
explosão_) Mas é preciso fazer alguma cousa... tomar providencias!...
Anda, Faria! (_Sacode com força Faria, que parece estar meditando_). Diga
alguma cousa... Você sempre tem idéas...

FARIA (_meio abatido_).—Estou pensando...

FONSECA (_irado_).—Qual pensando! Agora não é hora de pensar. Queremos
factos... factos...

RIBEIRO (_muito sêcco para Faria_).—É facto que o senhor, com suas
historias... encalacrou-me (_Com gestos da scena anterior_). Equilibrio,
alta... baixa... isto, aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em
Santos o meu dinheiro (_Pesando nas palavras_) está ardendo... e...

LEMOS (_interrompendo-o_).—Deixe isso... Os nossos lucros por cá
compensão tudo...

RIBEIRO (_com altivez_).—Não me queixo da perda... deploro tão sómente
que calculos...

FARIA (_como que acordando do lethargo_).—Um telegramma para Santos... um
telegramma!

FONSECA.—É verdade... um telegramma!... Um criado, depressa!

ALBERTO (_que tem estado a olhar para o interior da casa_).—É inutil:
ha cinco minutos o telegrapho interrompeo as communicações... É noticia
certa...

FONSECA.—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...

RIBEIRO.—Mais calma, meu amigo! Mais calma!

FONSECA (_desabrido_).—Vá á breca com os seus conselhos (_Agarrando na
cabeça com desespero_). Minhas perdas! (_De repente_) Ah! uma idéa.
Compadre, podemos remediar alguma cousa! Uma idéa! (_Para Faria,
imperioso_) Você vai partir d’aqui a meia hora...

FARIA.—Para onde?

FONSECA.—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas da tarde... ha tempo
de sobra... Não deixe embarcar o algodão... Ao menos espere elle em
Santos... Talvez deixando passar a primeira impressão na praça... d’aqui
a dias...

FARIA.—É uma idéa, mas...

FONSECA.—Mas o que?

FARIA.—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...

FONSECA.—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto você não voltar...
Dous dias, ou pouco mais...

RIBEIRO (_com a mão mettida dentro do bolso do collete_).—Perdôe-me: isto
não. (_Com sorriso um pouco altivo_) Mas ninguem póde retêl-o... Antes de
tudo... (_Accentuando_) de tudo, os negocios...

FONSECA.—Você bem vê... vamos! Aviemos isto (_Baixo_). Eu arranjo tudo; o
casamento e o mais. (_Alto_) Vamos.

FARIA (_um pouco acanhado_).—Então o Sr. commendador... consente?

RIBEIRO.—Pois não... com muito gosto... por minha parte...

FONSECA (_com alegria forçada_).—Ah! muito bem! depressa agora... A
Santos! A Santos! (_Procura empurrar Faria_) livra-nos d’essa...

FARIA (_com alguma resistencia_).—Deixe-me ao menos despedir-me...
(_Estendendo a mão a Ribeiro_) Dê-me então suas ordens...

RIBEIRO (_com frieza_).—Seja feliz... e avisado...

FONSECA.—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?

LEMOS.—De certo...

RIBEIRO (_sempre sêcco_).—É medida de segurança.


SCENA XIV

ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO, FONSECA E ROCHA.

ROCHA (_ao entrar esbarra quasi com Faria_).—Oh! senhor!...

FONSECA.—Adeos... adeos, vamos de sahida...

ROCHA.—Boa viagem!

(_Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas._)

FARIA.—Oh! eu...

FONSECA.—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...

(_Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por Fonseca._)


SCENA XV

ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO E ROCHA.

(_Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por baixo das abas da
casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, de pé, no meio da scena, com
os braços cruzados sobre o peito._)

ROCHA (_ironico e sombrio_).—Então o Sr. Faria se retira?

RIBEIRO.—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...

ROCHA.—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais bello thesouro?

ALBERTO (_assustado_).—Hen?

RIBEIRO.—Ora, Alfredo...

ROCHA.—Consulte a sua consciencia, meu tio (_melodramaticamente_), e
decida se elle é digno da noiva que lhe reservão...

ALBERTO (_assustado sempre_).—Noiva?

ROCHA (_continuando_).—Não, eu tambem sou parente... tenho que erguer
a minha voz... Quer uma prova mais evidente da baixa ganancia... do
mercantilismo do que a que acaba de ter?... Por uma questão de contos de
réis... esse homem, que fingia um sentimento, esqueceo tudo e sobre tudo
a sua noiva, anjo de innocencia, gemma de um valor inestimavel...

ALBERTO.—Mas quem é essa?

ROCHA (_arrebatado_).—Oh! é um diamante de Golconda... é um seraphim
capaz de levar as almas ao paraizo só com o poder do seu olhar... é
emfim...

RIBEIRO.—Se falla de minha filha, declaro-lhe que ella ainda não é
noiva...

ROCHA.—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia crêr...

RIBEIRO (_meio zangado_).—Ha pouco eu lhe disse muita cousa... Na
realidade, pensei que poderia... mas... emfim... nem tudo... quanto se
pensa, pode realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo...
(_Animando-se a pouco e pouco._) E com mil bombas! este procedimento
desagrada-me solemnemente...

LEMOS (_com a mão no queixo_).—E com toda a razão.

RIBEIRO (_exaltado_).—Razão tenho de sobra... É fazer pouco em mim. N’um
dia em que convido para jantar não pode haver motivos...

ROCHA.—Justamente, justamente...

RIBEIRO.—E depois do que tinhamos conversado... Oh! isto não ha de ficar
assim... Desfaço tudo...

ROCHA (_continuando no mesmo tom_).—Por uma questão pequenina de
dinheiro! (_Com muito desprezo_) Oh! indigno metal! tão negro como as
entranhas da terra em que vives!

RIBEIRO.—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e amigo! Ao Faria nunca hei
de dar a minha filha...

ALBERTO (_intervindo_).—Por certo... É um coração secco...

ROCHA.—Um ganhador...

RIBEIRO.—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante quantia que
perdeu derrubou-lhe o edificio da hypocrisia... Aquella menina devia
pertencer a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.

ROCHA. (_com exaltação_).—Oh! meu pai (_Aperta as mãos de Ribeiro._)

ALBERTO (_admirado_).—Mas que é isto?

ROCHA (_com affectação_).—É um quadro de familia... Veja e enterneça-se
(_Abraça Ribeiro que não lhe mostra boa cara._)

RIBEIRO (_meio triste_).—A final os poetas tem sempre razão...


SCENA XVI

LEMOS, ALBERTO, ROCHA, RIBEIRO E D. RITA.

D. RITA (_entrando pela porta da direita_).—Então, meus senhores, quando
quizerem, faráõ o favor de entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o
compadre Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?

RIBEIRO.—Aqui estiveram ambos e partiram...

D. RITA.—Mas voltam já...

RIBEIRO (_seccamente_).—Não voltão tão cedo... partiram...

D. RITA.—Para onde?...

RIBEIRO.—Para Santos...

D. RITA.—N’um dia como o de hoje! Depois das promessas! Que foi? Que
houve?

RIBEIRO.—Um negocio de algodão...

D. RITA.—Não ha negocio que podesse obrigal-os a se retirar...

RIBEIRO (_com explosão_).—Não sei, não sei, nada sei, mas o que lhe
digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha filha, a sua, a nossa filha
não casará nunca com o tal Faria. (_Com tom lugubre_) É excusado pedir
ou chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o compadre, nem com
ninguem...

D. RITA (_admirada_).—Expliquem-me o que houve... Estou pasma.

RIBEIRO.—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha vontade e aqui
(_com resolução_) não é casa de Gonçalo, em que a gallinha cante mais do
que o gallo... É excusado, senhora...

D. RITA (_picada_).—Mas quem lhe disse que eu morro de amores pelo
Faria?... Minha filha, graças a Deos não precisa mendigar noivos...

ROCHA (_adiantando-se_).—Minha tia, em duas palavras lhe explico tudo...
O tal pretendente á mão de minha adoravel prima metteo-se, e por seus
conselhos metteo o tio, em uma compra de algodão em Santos. Agora
acontece que o genero baixou, de modo que elle, sem consideração alguma
pela bondade com que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente
uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum remedio aos seus
prejuizos... Não houve nada que o retivesse... nem a honra de jantar hoje
aqui, nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto já lhe tinha
sido quasi dada...

RIBEIRO (_tossindo e cortando a palavra a Rocha_).—Isto é, o tio, o
animal do Fonseca, procurou, etc., etc., e tal... mas eu...

ROCHA.—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito procedimento e...

D. RITA.—De certo, fez muito bem...

ROCHA.—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma...

D. RITA.—Eu faria o mesmo...

ROCHA.—E deo o dito por não dito...

RIBEIRO (_com resolução_).—E se eu disse alguma cousa, dou o dito por não
dito... Em dignidade ninguem me ha de vencer...

LEMOS.—Perfeitamente, compadre...

ALBERTO.—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...

LEMOS.—Extraordinario...

ROCHA.—Inexplicavel...

RIBEIRO (_com ar de dignidade offendida_).—Digão antes de tudo offensivo;
mas eu soube manter-me na posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?

LEMOS.—Optimamente...

D. RITA.—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo que o Sr. Fonseca ha de me
ouvir...

RIBEIRO.—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a possibilidade de um
prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe boa!... É verdade que os meus
setenta...

(_Isabel apparece na porta da direita._)


SCENA XVII

LEMOS, ALBERTO, ROCHA, FARIA, D. RITA E ISABEL.

ISABEL.—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...

ALBERTO (_adiantando-se para Isabel_).—Minha senhora... eu...

ISABEL (_com acanhamento_).—Meu senhor...

ROCHA (_precipitando-se_).—Oh! minha prima!...

ISABEL (_adiantando-se_).—Que tem, primo Alfredo? Acho-o commovido.

ROCHA.—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, sim, e muito...

RIBEIRO.—Acabemos com isto, senão eu tambem passo a commover-me!...

D. RITA.—Eu já estou commovida...

RIBEIRO.—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.

ROCHA.—Que dia este!

ALBERTO (_com sorpreza e dôr_).—Que é isto?

ISABEL (_muito admirada_).—Eu, casar-me?

RIBEIRO.—Sim... faço-lhe a vontade...

ROCHA (_muito apressado_).—Emfim, posso dizer que a amo, Isabel... que a
adoro, a idolatro...

RIBEIRO.—E é com esses confeitos que os poetas nos dão batalha e nos
vencem.

ISABEL (_com constrangimento_).—Devéras eu... estimo muito o meu primo...
admiro o seu talento... mas...

ALBERTO (_chegando-se e em tom de supplica_).—Falle, D. Isabel... estou
soffrendo como um desgraçado.

RIBEIRO (_admirado_).—Então que é isto? Você diz que...

ISABEL.—Eu... não amo a meu primo...

TODOS.—Oh!

(_Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: Ribeiro pucha o
beiço, como pessoa que labora em grande duvida._)

RIBEIRO.—Essa não está má! (_Para Isabel_) Então você de quem gosta?

ISABEL (_enrubecendo_).—De ninguem, papae...

ALBERTO (_com tom de supplica_).—D. Isabel...

ROCHA (_implorando_).—Oh! minha prima, que cruel momento! Por que crime
estarei expiando tanta dôr! Os meus versos, os meus cantos devem já lhe
ter dito quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando tudo parecia
indicar o final de um soffrimento immenso, uma unica palavra sua, cruel,
implacavel, veio me atirar em abysmo insondavel...

(_Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para
que se adiante._)

LEMOS.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha...

RIBEIRO.—Homem, é excellente! Até você é candidato?...

LEMOS (_apressadamente_).—É para meu filho... meu filho Alberto...

D. RITA (_graciosa_).—É uma cousa muito possivel.

RIBEIRO.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de...

ISABEL (_intervindo com animação_).—Papae, eu não disse isto...

RIBEIRO.—Então você aceita o Alberto?

ALBERTO (_sofrego_).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora...

ISABEL (_confusa_).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe...

RIBEIRO (_risonho_).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (_Para D. Rita_)
E a senhora não me dizia nada!...

D. RITA.—Eu de nada sabia...

RIBEIRO.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos
o meu pleno consentimento.

D. RITA.—Eu com a maior satisfação...

ROCHA (_adiantando-se com ar sombrio e theatral_).—E eu? Que fazem de
mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte
no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?

RIBEIRO (_puchando-o pela sobrecasaca_).—Ora, deixe-se d’isso, Alfredo, e
vem comer o nosso peixe.

ROCHA (_encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama_).—Não
quero comer o seu peixe! (_Sahe arrebatadamente._)


SCENA XVIII

LEMOS, ALBERTO, RIBEIRO, D. RITA E ISABEL.

RIBEIRO.—Vai o pobresinho furioso (_levantando os hombros_). Hão de vocês
vêr que versalhada sahe d’aquelles furores. O certo é que no fim de
contas faz-se um casamento com quem ninguem contava...

LEMOS.—Agrada-lhe menos...

RIBEIRO.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco
o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas...
Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos
do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa
e depressa... porque, como diz o proverbio: «_Da mão á boca se perde a
sôpa._»

(_Cahe o panno._)


FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.



CAMIRAN A KINIKINAO

EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO


CAMIRAN A KINIKINAO

Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a
morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.

Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela
consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a
vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo
inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que
irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria
nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que
sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia
á existencia de seu adorado filho.

Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de
resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia
contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira,
se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás
caricias de branda aragem.

Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a
recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua
choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára,
mas dado de coração.

N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa
em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então
assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos
mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do
inimigo.

Tambem quem deixára de soffrer!

A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da
republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.

O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem
opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si
toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor.

Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de
cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia
do tenente Antonio João na colonia de Dourados.

Valente homem aquelle tenente!

Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo
como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e
o patriotismo que lhe inflammavão o peito.

Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha
diante e ao redor de si a immensidade do deserto.

Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente,
não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma
falla em que citou francez e até latim.

O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se
revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de
Nioac.

N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia
e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o
abandonarem.

Elle ficaria.

—Para que? perguntárão uns soldados.

—Para morrer!

Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem.

Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços.

Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira
do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á
intimação do invasor.

No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar
a redondeza, voltou a galope.

A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.

Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela
palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas
ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor.

Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião
tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo
maculavão a verdejante relva.

—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente.

—Todos, respondêrão os onze.

—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega.

—Ninguem! repetirão os onze.

Era Leonidas no meio dos lacedemonios.

De repente soou o clarim paraguayo.

Um parlamentario se approximava.

A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana
de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre
fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando
elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial
como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em
corôa de gloria.

Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior
cortezia o enviado.

A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como
costumavão alinhar os generaes de Lopez.

O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com
tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta:

«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de
protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria.»

E assignou com mão firme:

                                                 «Antonio João da Silva.»

Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois
dissesse o mesmo.

Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo
o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os
olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando.

Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava
aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo.

—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João.

Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas,
ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa
repercussão.

O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.

—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia.

Raros obedecêrão á ordem.

D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com
ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas
dobras foi se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião ennobrecido.

Parecia enrubescer de orgulho.

Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.

—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d’esses, a
nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como
nos contárão.

Outra vez repetirão isto.

Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda
seis legoas.

Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel
Barboza.

Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de
corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as
vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão.

Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava
transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante
do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta
soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do
inimigo.

Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar
grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos,
podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia
mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra.

Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava
terras brazileiras.

Não caminhou muito.

A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela
mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos.

Era no dia 31 do Dezembro de 1864.

Muita gente pensou que não veria o anno novo.

No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou
alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom.

Trocarão-se amabilidades antes das balas.

Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo.

O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que
sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de
indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar
os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu
arrojo.

Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que
poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de
caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda
debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os
habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d’onde tomou
rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que
mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão
estrangeira.

Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n’um dia de
combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha
cabeça para organisar a defeza de uma grande zona.

Ah! se fôra Antonio João!

Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava
um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças.

A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia
começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os
paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria
que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro
José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e
esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso.

Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho
estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára
mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o
tronco.

A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:

—Os paraguayos estão passando o rio!

Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar.

De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem
direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros.

A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada
qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando,
tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral
para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres
de seus cavallos.

Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de
correr.

De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar.

O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de
modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe
perguntou:

—O seu cavallo _bombeou_?

—Não póde mais comsigo...

—Pois bem, então faça como eu; _fréche_ para aquelle capão que nós
cahimos logo na mata do Nioac.

—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui...

—Mas aqui é morte certa!

O outro fez um gesto de pouco caso.

—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos.

E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a
sua arma e parou immovel no meio da estrada.

Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros,
apressou ainda mais a carreira que trazia.

Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma
espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia
atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar
o primeiro brasileiro.

Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.

Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de
agonia.

Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a
esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e
depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado.

Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta
de desenhos, na qual está gravada esta inscripção:

«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di
guera.—Ennero, 1—1865» (_sic_).

Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos
restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de
espada.

Era o craneo de Gabriel Barbosa.

No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda
povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas.

Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse dia, a perturbação
tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos
desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores
da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos,
kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos
e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas
e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para
correrem a se metter em emboscadas.

Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão
duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão
qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz
de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem
esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas
e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz
do seu affluente, o Aquidauána.

No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações
dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das
discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem
geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no
sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e
deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em
peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão.

Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns
seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a
pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e
em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar.

Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim
que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que
completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo,
havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente
armamento e cartuxame.

O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de
toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter
para a republica.

—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu
territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças.

Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que
declarou haver d’aquelle dia em diante passado todo o districto a
pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar
de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena
de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas.

Naturalmente ninguem se apresentou.

Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no
lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de
privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas
intrigas.

Tudo era motivo para recriminações e queixumes.

Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e
querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão
necessaria n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma
vez vio-se desrespeitado.

O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para
muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á
parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos
paraguayos.

Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco
e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a
miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos,
estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder
do inimigo.

Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao
invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres
principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir,
acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco
de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.

Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a
igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os
seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.

Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei
Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia
passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus
extremos, de sua adoração!

As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio
incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição,
nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.

Elle voava para a sua matriz.

Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro
sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos
ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as
imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.

Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e
elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle
templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.

A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão.

—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d’elles.

—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja
exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para
clamar vingança aos céos.

Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido
para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida
escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em
que n’ella havião entrado.

Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles
inesperados successos?

Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da
invasão paraguaya.

Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão
estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e
meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N.
E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes
todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto
de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem
chamado Rio-Branco.

Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, cada tribu manifestou
as suas tendencias particulares. Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com
o invasor. O _castelhano_ era por todas considerado de longas éras como
inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as
desgraças dos _portuguezes_; outras se separárão d’elles; outras, emfim,
começárão a hostilisar a gente de um e outro lado.

Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população
fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude
infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa,
ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz
Barbosa, no Bonito.

Voltemos, porém, aos kinikináos.

Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada
pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada.

—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos,
Flavio Botelho.

—Fujão todos.

—Para onde?

—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos.

Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico
merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se
diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com
grande orgulho, assignada por D. Pedro I.

N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente
e tratou de dormir.

A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um
chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo
possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.

Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.

Era o filho de Camiran.

Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de
cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes
acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando
energia.

Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade
dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas
relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno
as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua
aldêa. Pedia providencias n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas,
e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses
dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir
o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e,
apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão,
obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas
medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios.

Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado
de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação
de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma
garrafa de aguardente no fim de cada mez.

Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se
apressou em saber da verdade.

Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio
declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade.

Não havia recalcitrar.

Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do
trabalhador, ficando de pé a letra do contracto.

Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como o tal juiz de paz não
podia fazer negocio melhor, immediatamente aceitou a proposta, com grande
applauso do frade.

Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente trabalho a
500 réis diarios, esteve com toda a constancia dous mezes ás ordens do
contractante, e sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do
indio que substituira.

Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro mil réis que deo de
esmola para as obras da matriz, e levou as garrafas de aguardente para
offertal-as a Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido o
coração.

Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, em compensação o seu
prestigio augmentou de um modo extraordinario.

—Os _portuguezes_, dizião os velhos com aquelle sorriso quasi
imperceptivel que os indios têm, não podem com Pacalalá. Elles são
velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá é como o lagarto que dá
chicotadas sem ser visto.

Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho, orgulho immenso, mas
occulto no ádito de sua alma. Não só por indole, como pelos costumes dos
seus, nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia por elle,
nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, quanto mais beijal-o ou
tecer-lhe elogios!

A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, repassado, com tudo,
do mais profundo enthusiasmo.

Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella; se alguem tinha
commodidade de vida na aldêa não excedia a que desfructava Camiran.

Da roça de seu filho vinha abundante colheita de aboboras, milho, arroz e
feijão; varias gallinhas cacarejavão diante de sua porta, e uma vacca com
o bezerro ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.

Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para
a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou
miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia.

Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual
a delicada carne da _jáo_, da _aracuan_, _jacutinga_ e _inambú_; mas o
preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões.

Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os
alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião
para o gyro habitual, embrulhava-se n’uma _julata_ e ia deitar-se na rêde
de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo de barro.

Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em
torpor.

As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes
de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os
brancos punhão sempre n’essas relações.

—Cuidado com os _portuguezes_, dizia elle para os seus quando consultado;
são nossos iguaes e não nossos amos. N’esta terra não deve haver duas
gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar.

Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de
queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da
villa, tão arbitraria quão subalterna.

—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador,
que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão
maltratados pelos _portuguezes_.

Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os
kinikináos do que qualquer outro.

Se não reagia, pelo menos protestava sempre.

Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e
elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a
consideração de sua tribu n’aquella difficil emergencia.

Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi.
Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser
mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio
Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána,
d’ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú.

A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas
sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação.

Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do
_nadô_, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira
de couro que applicão de encontro á testa.

Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á
frente d’elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer.

A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios
em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se
arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e
familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que
caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão.

Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n’essa
occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e
assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral.

—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado
da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada,
cercado da familia em pranto.

—Para Miranda, respondeu o indio.

—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão
bem a pé e depois de amanhã estou _batendo_ na villa. Fico para esconder
o meu trem no mato.

O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo sob sua protecção a
familia do mineiro, com ella entrou em Miranda.

A villa estava, como dissemos, entregue á maior anarchia.

Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções de resistir e que
toda demora importava augmento de perigo: entretanto, como era preciso
armar os seus e as autoridades não distribuião, nem querião distribuir
armamento e munições, esperou que os moradores se retirassem.

No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e um deposito immenso
de artigos bellicos ficava entregue ao saque dos indios, antes de passar
para o poder dos paraguayos.

Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, guanás, guaycurús,
cadiuêos, beaquiéos e outros vião-se excellentes clavinas e muita polvora
e bala durante todo o tempo da occupação do districto.

Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se então para o porto do
Canuto e capitaneando a tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais
ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima chapada que corôa
aquellas alturas.

A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, havião já chegado
muitos fugitivos, entretanto como ella era coberta em toda a superficie
de mato virgem e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, sem que
communicassem logo uns com os outros.

Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas quanto soffrimento,
quanto desespero, para toda aquella infeliz gente sem outro alimento mais
do que palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e uma ou outra
caça, essa mesma comprada a peso de ouro!...

Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas para entregar á
terra as sementes que havião cuidadosamente trazido comsigo e preparar
assim um futuro melhor.

Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos todos os kinikináos
cuidarão promptamente de roçar e de plantar, pelo que forão os primeiros
que conhecerão a abundancia de cereaes.

Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar os pobres refugiados
que só de uma boa colheita podião esperar lenitivo para tantos males.
O grão que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de uma maneira
maravilhosa, e todos quantos galgarão a serra e se acoutarão em suas
umbrosas dobras tiverão em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além
das mais exageradas esperanças.

Houve até um branco de Miranda que, plantando meio alqueire de milho,
colheu mais de duzentos, e de uma quarta de feijão tirou perto de
quarenta alqueires!

A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira no mato, aberta é
verdade com muito trabalho e a poder do machado muitas vezes manejado por
mãos de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia cahir o maná
do céo.

Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira ahi estabelecida
de mistura com indios kinikináos, guanás, terenos e laianos, gozasse de
bastantes recursos para considerar de animo mais calmo as desgraças que
acabavão de soffrer e poder com paciencia esperar pelo final da guerra
que os paraguayos tão imprevista quão deslealmente havião encetado.

Nos diversos lugares da serra em que havia moradores e que tomarão o nome
de acampamentos, construirão-se ranchos vastos e commodos, e pouco e
pouco regularisou-se o modo de viver.

Para augmentar até aquella repentina prosperidade, veio um casal de
gallinhas, trazido com muita cautela de Miranda por um indio, que lá se
introduzio á noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande numero
que anno e meio depois contavão-se alguns possuidores de centenares de
cabeças de criação.

Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a boa paz presidio as relações
de todos, e em honra ao espirito da população de Matto-Grosso póde se
afiançar que nenhuma scena de violencia, durante todo o tempo de exilio,
lembrou que havião totalmente desapparecido o imperio das leis e a
protecção das autoridades.

Os indios, em numero décuplo dos brancos e que podião, como receiarão
a principio muitos, libertar-se com estrondo da tutéla em que havião
vivido, se ficárão um pouco mais altanados e independentes, nem por isso
praticárão desmandos nem se aproveitarão das occasiões para reacções ás
vezes justificadas.

Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros ia attrahindo para
lá os fugidos do districto, de modo que em fins de 1865 estavão elles
quasi todos reunidos na chapada da serra de Maracajú.

O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa de um lado, e de outro
desde o Paraguay até os campos de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue
aos paraguayos que rondavão sobretudo a área comprehendida entre os
pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, Nioac, Ariranha e Esbarrancado,
onde mantiverão, até Agosto de 1866, importantes destacamentos.

Por entre essas rondas passavão á noute os indios quando descião da
serra para vir laçar rezes na planicie e ajoujal-as com outras mansas,
tangendo-as assim para os acampamentos.

Com essas expedições repetidas sempre com exito, apezar da vigilancia dos
inimigos, abastecião-se de carne fresca e secca ao sol todos os moradores
dos Morros, que então só se podião queixar da falta de sal, essa mesma
até certo ponto minorada pela exploração dos barreiros e terrenos
salitrosos, tão abundantes em todo o sul de Matto-Grosso.

Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade na obtenção de
bois para o córte. Era o mais ousado em descer á planicie, ficando ali
sem receio dias inteiros a escolher as rezes que contava agarrar. Com
alguns companheiros bem armados chegou a levar oito e mais animaes, tendo
sempre a cautéla de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes,
quando n’isso via vantagem.

Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido de perto por uma
ronda paraguaya.

Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, quando Pacalalá
reconheceu que ião ser atacados. O lugar, porém, prestava-se á
resistencia: era já na fralda da montanha e a trilha de subida serpeava
por denso matagal de taquarissima.

Destacando dous indios para continuarem a tanger o gado, Pacalalá com
os outros esperou a ronda n’um angusto pedregoso, e de um tiro certeiro
derrubou o paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos mais
soldados.

A ronda recuou precipitadamente, deixando como trophéos de victoria não
só o cadaver do companheiro como o cavallo que montava.

Grave agitação produzio nos acampamentos dos Morros a chegada de Pacalalá
todo cheio de seu triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo do
inimigo.

Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo e formal ataque
dos paraguayos, que, abandonando os seus ranchos e roçados, atirarão-se
pelas matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario virão n’esse
successo maior garantia para a sua segurança e cobrirão o vencedor de
felicitações e elogios. Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a
alegria selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha embeber
nas carnes pisadas pelo arrastamento facões e espadas, e o corpo
espicaçado, mutilado e já sem forma foi por fim atirado aos cães e corvos.

Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se as descidas dos Morros
mais frequentes e ousadas, e os paraguayos mais cautelosos e receiosos de
emboscadas e estratagemas.

Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante umas 16 leguas e ficava
muitos e muitos dias entretido em preparar e seccar os saborosos pacús,
que abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado quanto vigiadas
pelas rondas dos paraguayos as margens do caudal, a que davão o nome
de Rio-Branco e que impunhão como divisa do novo districto annexado á
republica sob o titulo de Mbotetiû.

As temeridades do kinikináo devião necessariamente trazer um novo
encontro e esse deu-se com proporções tão vastas em relação aos que
n’elle se empenharão que póde ser considerado como o feito de guerra mais
importante durante todo o periodo de occupação.

Foi em Maio de 1866.

No porto de D. Maria Domingas á margem direita do rio Aquiadauána,
existia um extenso cannavial que era o objecto da cubiça dos indios muito
inclinados ás substancias assucaradas.

Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no proprio lugar e,
convidando seis kinikináos e dez terenos, poude encetar com felicidade o
seu trabalho.

Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo natural abandono
de medidas cautelosas quando nada parece dever prescrevel-as, ou por
casualidade, forão os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda
inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou pedir reforço ao posto
do Souza, d’ahi a 6 legoas.

Vierão perto de duzentos homens.

Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.

Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, os incitasse,
mostrasse-lhes a vantagem da posição e emfim a necessidade de se
defenderem de quem por certo não daria quartel a nenhum d’elles.

Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.

Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.

Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou cada companheiro
atraz de arvores grossas e aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de
fazerem fogo.

Os paraguayos estavão a pouca distancia formados em linha na planicie,
assim pois os primeiros tiros derrubarão de uma vez para mais de uma
duzia d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas balas forão só
varar troncos e cortar galhada.

Os indios recuarão então, ganhando o interior da mata. Perseguidos por
uma companhia de infantaria acolherão-na por modo tal que a obrigarão a
retroceder.

Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda parte se achava para
exaltar o animo de cada combatente e melhor aproveitar os esforços e
crescente enthusiasmo dos seus commandados.

Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando os feridos e mortos
e suppondo haver-se batido contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o
valente, a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, não poude cantar
victoria.

Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o tocára no meio da testa e
o atirára sem vida no chão.

Essa morte, no fim do combate, encheu os indios de pavor e, quando a
noute cahio, elles fugirão todos sem levar sequer uma das rapaduras que
tão caro lhes havia custádo.

Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos dos Morros, levantou-se
uma grita immensa. As moças kinikináos cortarão logo os cabellos na
altura das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e prata que
ainda conservavão.

A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão gritos
agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças.

A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem sequer podia, como é de
uso entre os seus, guiar as lamentações e contar as proezas e virtudes do
morto.

Estava anniquilada.

Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada ouvia. Não chorava, não
podia chorar, mas desde aquelles momentos sentio que não podia mais viver.

É n’um estado de quasi completo definhamento que encontramos Camiran no
principio d’esta narração veridica em quasi todos os pontos e que terá o
merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, na historia do
quanto soffrerão os refugiados de Miranda, e sobretudo nas façanhas do
desconhecido Pacalalá.

O combate do porto de Maria Domingas—que combate deve ser o qualificativo
adequado áquelle encontro—fez com que, durante muitos mezes, cessasem as
correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.

Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com coragem para se
arriscar até o lugar em que havia valentemente guerreado.

Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não soffrera decomposição,
mas estava secco e mirrado como se fôra uma mumia[20].

Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento kinikináo. Forão gritos
horriveis, gemidos, ululações que se ouvião em distancia consideravel.

Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e longos mezes,
mergulhada na dôr que a ia matando, foi consultar um feiticeiro e saber o
que significava aquillo.

O nigromante declarou-lhe positivamente que aquelle corpo, emquanto não
fosse enterrado, reteria em duro captiveiro a alma de Pacalalá.

Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar o cadaver do filho
á terra.

Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da aldêa.

Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o porto de D. Maria
Domingas.

Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe que a natureza toda, as
arvores, os montes, os rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que
o seu coração era o unico e immenso echo.

Cahio desfallecida....

Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.

Depois se ergueo a muito custo.

Não levára alimento algum.

Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que devia deitar o guerreiro
morto.

Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um pouco o chão e já quasi sem
forças suspendeu o cadaver ressicado e o estendeu no leito derradeiro que
lhe preparára.

Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, os seus braços, finos
como gomos de canniço, recusarão-se ao movimento; o seu corpo dobrou-se
todo e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura mal
fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados estremecimentos, as suas
mãos convulsas chamavão a terra para junto de si.

A noute envolveu no manto mysterioso das sombras as ultimas dôres
d’aquelle coração, e quando o sol, na manhã seguinte, irrompeo
deslumbrante, os seus raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho,
mas tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles recebião, ião-se
fundir no gigantesco cadinho que se chama a natureza!


FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.



O VIGARIO DAS DORES


O VIGARIO DAS DORES

O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente chamada villa das
Aboboras, na provincia de Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da
estima e da consideração de todos os seus freguezes.

Passava por ser homem de muitas letras, e raramente era visto sem ter
entre mãos um livro que ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe
longas e sérias meditações.

N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o padre Monte—assim se
chamava elle—no adro da modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e
que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio fica no alto de
uma collina, a cuja fralda se estendem as casas da povoação.

—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, dizião as mulheres, seguindo
com os olhos o clérigo em seu limitado passeio quanto lhes permittia o
pallôr do crespusculo.

Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia melancolica e quasi
sombria havia logo colhido as affeições geraes pela doçura de trato e
amenidade de palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar vivo e
expressivo e testa larga abrindo em calva.

Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas prematuras havião lhe
já impresso na fronte os sulcos da preoccupação e do soffrimento interno.
Fôra educado em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso que,
reduzido pela orphandade á mais completa miseria, nunca tivéra amparo de
paes ou de parente algum.

Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, abraçou, por
gratidão áquelles que o havião socorrido e por não ter outra vida que
seguir, a carreira ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de ordens
tomadas.

Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os seus livros classicos
ou theologicos e cumprindo regularmente com os deveres de sua profissão
passou alguns annos sem dar motivo algum para que os seus protectores se
arrependessem do diminuto apoio que lhe havião dispensado.

Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, ganhava bastante
para cobrir os reduzidos gastos que comsigo fazia, recusando com modestia
e naturalidade de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho
dos pobres.

Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes de quem o
procurasse, era o padre Monte um bello modelo de virtude christã. O seu
espirito benevolo não admittia exagerações em materia religiosa, mas a
pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que tentasse apontal-o como
desprezador dos mais insignificantes preceitos do ritual.

Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior tributo de veneração,
havia alguem que conhecia uma falha profunda naquelle caracter honesto e
amigo do dever.

Era elle mesmo.

O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com
satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos;
repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si
essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha
necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do
que a vontade, lhe havião imposto.

Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado
a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e
retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando?
Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia
divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não
erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes
aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante
da fé.

O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na
meditação dos textos sagrados.

O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica
tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o
folego.

Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e só no somno—o grande
procrastinador do soffrimento—é que achava refugio.

Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na sua mente se reproduzião
os tormentos de Santo Antonio e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que
lhe podesse lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe proporcionasse
d’essas alegrias immensas que cercão os triumphos completos.

Havia no imo do seu peito como que uma recordação vaga do mundo que
elle não conhecia, como que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres
inebriantes e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos de revolta.

Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia o padre Monte as
homenagens á sua virtude como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para
a sua alma indomada senão indomavel.

N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o peccado, odial-o
em cada passo da vida e, abrindo lucta com elle, não sahir sempre
vencedor.

D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi incerteza do futuro e
pavor.

O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia lhe retratava;
era tão sómente aquelle que pautava o seu procedimento pelas restrictas
regras que devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia d’entre
os seus companheiros, quanto subira no conceito dos outros, da população
e de seus superiores!...

Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas horas arrependeo-se
profunda e amargamente de não haver consultado o coração e as forças
antes de se alistar na milicia de Deos.

Foi com a vista de uma mulher.

Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n’aquelle dia
não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no
altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous
olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor
que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que
fazia.

Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os
degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em
que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito
vacillante aquella fascinadora visão.

Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja.

Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos.

Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao
sopro gélido da prostituição.

O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo
confissão a um velho sacerdote e aos pés d’elle abrio o coração macerado.

Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua
alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que
travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de
convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula,
que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o,
tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir.

A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar,
fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar
com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o
balsamo do bom conselho.

O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição
do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi
dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida
importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como
abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente
meticulosa.

O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou
uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua
imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava
ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a
bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com
poder sobrenatural.

O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa
tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo
estremecião e a mente em fogo parecia um volcão.

Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria.

O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre.

No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para
elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e
cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.

Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não
podia vencer o espirito das trevas.

No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica.

O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a parochia das Dôres do Rio
Verde, sertão pouco povoado e ao sul daquella provincia tão bem dotada
pela natureza, quão mal aproveitada pelos homens.

Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade a conseguio.

—No deserto, pensava o padre, heide domar esses movimentos revoltos.
Ficarei como a rocha que se não vive, pelo menos não sente.

Justamente estava a partir uma tropa carregada de sal com destino
á capital de Goyaz. Monte sahio de S. Paulo por uma tarde amena e
disse-lhe o adeos ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro de
Nossa Senhora do Ó.

Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica a 2 leguas da cidade
e assenta n’uma cumiada d’onde se descortinão vastos horisontes. Para o
sul avistão-se as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da
antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos accidentados, incultos
e que parecem o portico do deserto.

O padre Monte olhou largo tempo para as bandas da cidade, e os seus olhos
se arrazarão de lagrimas que ainda cahião como que inconscientes, quando
elle ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que leva a Campinas.

A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto occidental de Minas e
por parte de Goyaz, servio-lhe de agradavel diversão e pouco e pouco foi
incutindo em seu espirito uma tranquillidade que desde muitos annos já
não conhecia.

As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma variedade extraordinaria.
Ora é o cerrote de Matto-Grosso d’onde a vista goza uma das mais lindas
paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar de pousada. Aqui
é o campo das Cruzes, logo ao sahir de Mogiguassú, como que destinado
pela natureza para uma gigantesca cidade, tão plano e vasto é elle; alli
são as aguas puras e borbulhantes dos ribeirões; mais diante fica a
villa da Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama miuda e sempre
verde; durante leguas inteiras é a vista de cerrados ennegrecidos pelo
fogo, ou então de campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos
encachoeirados e crystallinos.

Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se a cidade da Franca
do Imperador, tão celebre outr’or pelos seus crimes e disturbios. O
seu aspecto de longe é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada
perfeitamente nivelada de uma elevada collina, cujas fraldas vem morrer
em campo limpo. A sopé corre um ribeirão, e as casas parecem encravadas
em densa matta de laranjaes e bananeiras.

Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, riscado pelo rio Grande
que já ahi vai tomando apparencia do imponente Paraná.

Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão sertão da Farinha
Podre e que hoje constitue as comarcas do Prata e Paraná: um angulo
agudo, cujos lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi na linha
bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de altos e baixos, regada,
em todos os seus pontos, de agua nunca turvada, a qual brota de um chão
ferreo e poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua Direita,
levantão-se então nuvens de pó amarello que se agarra a todos os objectos
e dá uma côr nova á camisa já matizada e barrenta do tropeiro.

Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: a vegetação é outra.
Amiudão-se os grupos de magestosos boritys, essas bellas e melancolicas
palmeiras que desde então acompanhão o viajante até o fundo de Matto
Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, palmeiras que, uma
vez vistas, não podem ser confundidas com alguma outra e que deixão, no
espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma verdadeira saudade.

A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que justifica o seu
nome indigena—largo e claro.—É largo e claro no estado normal; aguas
espraiadas e limpidas; aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas:
é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba as margens que se
erguem a muitas braças acima do nivel.

Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas arterias collossaes, o
Araguaya e o Tocantins, como se fôra o coração do Brasil; mas coração
pelo amor e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza de
aspirações, pela cordura e sinceridade, não pela força que não tem, nem
póde dar ao corpo todo.

A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, diamantes, pedras
preciosas, capazes de offuscar os thesouros da Persia e da India; possue
mineraes riquissimos que alimentarião industrias possantes, campos para
toda a especie de actividade humana, e entretanto é pobre, é pauperrima,
não como o avaro que morre de fome acocorado sobre os seus milhões, mas
como essas intelligencias ricas que nada produzem porque para ellas nunca
chegou a cultura.

Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é só no futuro, e ninguem
poderá ainda dizer quando hade raiar o dia em que um começo de realidade
possa vir dar mais alento á esperança.

Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados porque os seus
esforços, quando nada consigão, serão um legado precioso que, augmentado
pelos annos, rasgará, por entre todas as difficuldades das distancias, da
solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, caminho á prosperidade
daquellas opulentissimas e incultas zonas!

A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa princeza da fabula que
devia dormir seculos inteiros até que do fatidico somno a viessem acordar
os emissarios de um genio bondadoso e amigo.

Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O sybilar da locomotiva
e a letra telegraphica sacudirão a bella adormecida que poderá de prompto
recompensar a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.

Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.

As suas posses são pequenas; nem sequer tira de si com que cobrir as mais
urgentes despezas, mas em compensação guarda no intimo esses thesouros
de hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já vão se tornando
raros.

Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, o padre Monte chegou á
capital da provincia e fez, um mez depois, a sua entrada na villa das
Dôres do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.

Nos primeiros dias de installação, passou o tempo em inspecções e
passeios. O processo de occupação era breve e limitados os pontos de
recreio.

A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro em cujo alto está a
igreja, consta de uma rua unica e tortuosa, larga aqui, estreita adiante
e com casinholas cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de
telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta se não cahisse de
velha, annunciando ser ahi a camara municipal, mas está tão esburacada e
suja que ninguem lhe daria outra denominação que não a de pardieiro.

Estrada para passeio só ha a geral; fita larga barreada ou areenta que
vai se desdobrando por sobre campos quasi uniformes em seus accidentes.

Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir desde então de morada,
e acalmada aquella agitação que acompanha todo o estabelecimento novo,
sentio-se o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.

Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha pouco agradaveis. Não era
a lembrança daquella mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma
a uma as paginas do innocente segredo que não lhe sahíra do peito senão
para cahir no ouvido do confessor.

Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o peso da vida, de uma vida
que lhe parecia sem mira e por demais longa.

Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os mais restrictos
possivel: dizer missa aos domingos, baptisar raras vezes, casar ainda
menos, tudo n’uma igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em
ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.

Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se pela amenidade
de costumes e uniformidade de habitos; mas, uma vez ouvida a missa do
domingo, não se occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô,
havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem lá ião, tanto mais
que era um ponto de reunião para trocarem algumas palavras uns com os
outros e assim romper-se a monotonia das semanas.

Um outro sacerdote mais dominador do que o padre Monte, ou mais
ambicioso, teria procurado reagir contra essa apathia espiritual,
incutindo nos seus freguezes algum fervor, reconstruindo o templo como
podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no seio das familias,
chamando promptamente as crianças ao baptismo, fazendo viagens em torno
para prégar e avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando
o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua exigencia e energia. Se
alguma cousa, porém, faltava ao novo vigario era justamente a energia.

Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem o interior do
Brasil: é pela violencia com que sacodem as naturezas apathicas do sertão
e actuão sobre as imaginações.

Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma cousa naquelle
piedoso sentido, mas desanimou logo. Era preciso travar lucta, e elle
não tinha bastante firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi
indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás superstições que
abafavão-lhe a religião como a má herva tira o alento e vida á planta
benefica, mas descurada.

O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão e que logo
presentio lhe damnificassem o proprio espirito, já por si inerte.

Nas primeiras missas que celebrou procurou na linguagem a mais singela
explicar o Evangelho, mas notou no seu auditorio, desacostumado ás
praticas, certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. Ninguem
sahio de seu lugar: todos tinhão os olhos postos no pregador, mas não
precisava ser observador fino para reconhecer que, se alli estavão
corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias ao que lhes era
ensinado.

A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; não suscitava remorsos;
não penetrava no intimo das consciencias como o ferro do cirurgião na
carne viva do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e torpezas;
não profligava; não mostrava o Creador como um Deos carrancudo e
vingador; por isso ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...

Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem virulenta e
estropeada estivesse fallando!... Todos ficarião aterrados, cabisbaixos,
possuidos de suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...

Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, saberia de
todos os mexericos para, armado do poder da bisbilhotice, rasgar, como
se diz vulgarmente, o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir
os peccadores com allusões tão directas a uma determinada pessoa que
equivaleria á sua exposição em pelourinho.

Para isso não servia de certo o padre Monte. Além da natural altivez de
sentimento que o arredava de intrometter-se no jogo calunioso de aldêa,
não poderia nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, para assim
grangear a attenção dos que o ouvião e dominar o seu rebanho por meio do
terror.

Tambem as suas praticas não erão seguidas senão por consideração á
cathegoria official de quem as fazia.

Esta certeza tinha elle.

D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos depois da sua chegada, a
cessação completa de explicação do Evangelho no meio da missa. Para
desencargo de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, e
notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão ouvir, acocoradas em
cantos e com ar de estupida contemplação. O resto dos freguezes calculára
pouco mais ou menos o momento em que entrava a missa para então ir ter á
igreja.

—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se aos seus proprios
olhos, fazer milagres, tocar-se esta gente insensivel pelo sobrenatural
e, traspassando a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo divino
até os seus corações.

Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao desacoroçoado
sacerdote; era a força de vontade, essa alavanca inquebrantavel que
produz milagres espantosos.

Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava nem podia perturbar a
monotonia da vida que se vivia na villa das Aboboras.

O vigario cada vez mais se desapegára das suas ovelhas que, respeitando-o
sinceramente, nunca o procuravão comtudo, nem mostravão ter grande
necessidade de sua presença.

—O nosso padre é um santo homem, dizião na villa, mas é um exquisitão.

Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos vastos em torno.

Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente para aquellas
extensões, e sem presentir, era sorprehendido pela escuridão! Havia dias
em que, á tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se pela
campina alongada, se esbatião umas nas outras até se fundirem todas na
luz crepuscular.

E sempre a mesma cousa!

Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça das queimadas, então subia
de ponto a tristeza do painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar
incinerado uniformava todos os aspectos, até que de repente cahia a noite.

Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel voltava o vigario para a
modesta vivenda e á luz de uma vela de sebo lia o seu breviario.

Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com um coachar sonóro
formavam monotona orchestra.

—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude não é a atonia. A
virtude é a resistencia ao mal que solicita. Aqui nada me instiga, e não
sei desempenhar o meu dever. Sou bom sem merecimento e inutilmente.

Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja permitisse ao padre o
casamento, não teria elle uma familia regular, em cujo seio se cultivasse
o respeito á religião e que serviria de norma para as outras menos bem
dotadas de intelligencia e sentimento?

Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente naquelles
logares, em que o isolamento faz medrar com tanta força o egoismo, maior
seria o abandono dos interesses de todos em prol da commodidade da
familia. Elle não seria mais do que um funccionario publico que teria um
subsidio mensal para cumprir um determinado exercicio.

Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas o padre
desappareceria. O pastor teria que obedecer á imposição da natureza,
olhando mais para umas ovelhas do que para todo o resto do rebanho.

Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma agitação, esse desgosto
intimo servião-lhe de castigo moral pelo pouco que conseguia.

Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de caracter do padre
Monte, muito livre de culpa andava elle.

O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, sem molestia physica,
podia-se o considerar gravemente doente.

Uma nostalgia _sui generis_ o ralava noite e dia.

Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os sabia de
cór e salteado e nos sermões do padre Antonio Vieira, alguns volumes
desirmanados, contára até as letras de cada lauda, o que anotára
cuidadosamente no alto das paginas.

Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio Verde—teve a velleidade de
tratar da sua remoção para outra parochia.

Esta intenção o animou por algumas horas, mas logo depois veio a reacção.

Para que?

Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de torpôr que impedira
o choque da duvida, obstára á invasão talvez da descrença? Não havia
conseguido o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que tanto o
assustára outr’ora?

Em lugar de pedir transferencia, escreveu para Goyaz, remettendo a
relação de uns livros que o seu correspondente deveria mandar comprar no
Rio de Janeiro.

Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles tornou-se para o bom
do vigario uma causa de distracção.

Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia dever-lhe trazer
a noticia da proxima chegada de sua encommenda, mas se é difficil levar
livros á Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!

O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente possivel, a satisfação de
seu innocente desejo.

Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.

—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a meio o chapéo e coçando a
gaforina, saberá Vossa Senhoria que tenho na minha carga uns dous pacótes
que deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. Não achei na cidade
o cujo e não tendo onde deixa-los, vim os trazendo _até acá_. Mas o trem
peza e fiz tenção de pincha-los na _beiradinha_ da estrada, se alguem não
quizer ficar com eles...

—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o senhor que devia receber
essa carga?

—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio de Janeiro, nhor-sim,
outros que morreu.

—E o que contem as taes caixas?

—Parece que são livros da gente ler... eu cá não sei com segurança.

O vigário corou de emoção e com alguma pressa disse:

—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... E depois, como que
fazendo um esforço penoso:

—Mas não será melhor que você faça a entrega a quem enviou a encommenda?

—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba
trazida por um tropeiro; _ansim_ ninguem poderá acertar d’onde sahiu da
_primeira vez_.

—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei
aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no
_Correio Official_ o que acontece.

—Isto fica a seu cuidado.

Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um
animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a
um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá.

—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa
Senhoria mande abrir este _trem_. O cupim póde ter dado nelle: dizem que
é muito _caroavel_ do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso.

O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim,
suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava.

Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar
aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou
não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso
discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e
contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica.

Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos
com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles
sahir... um cupim!

Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo.

O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco
foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o
argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os
sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel.

No momento do vigario dar a primeira martellada para despregar o tampo
do caixote, um pensamento sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins
houvessem já tudo devorado!

Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos maravilhados do padre
uma boa porção de livros, uns grossos, outros finos, uns encadernados,
outros em brochura.

Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente e, com
verdadeiros affagos, levando-os para cima de uma mesa, onde os collocou
verticalmente.

Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem duvida alguma,
proceder a um simples reconhecimento e providencialmente servira para
acabar com as dolorosas vacillações do vigario.

Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite do que nunca, que
o padre Monte passou revista ás obras. Havia dous volumes grossos: D.
Quixote de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de Alexandre Dumas
em portuguez; varios folhetos, uma historia das Missões na India e China,
e Os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles.

Apezar de alguma difficuldade em comprehender a principio correntemente o
francez, naquella mesma noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.

O padre Monte nunca havia lido romances; por isso semelhante livro lhe
pareceu extraordinario. Aquelles episodios multiplos e tão variados
quão curiosos, aquelle estylo simples mas valente, aquelles typos de D.
Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas tão philosophicos e
profundos na essencia, tudo o encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava
de um modo desconhecido.

Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca mais bellos thesouros
lhe terião deslumbrado as vistas.

E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas sonoras que echoavão
no seu quarto, deshabituado de semelhantes expansões!

O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe
IV.

Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua
penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as
preocupações e os desgostos que os assaltavão!

O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim
dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na
lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.

D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante
os passeios; o consolador daquellas afflicções d’outr’ora quando por
acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão.

Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro.

Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado pela imaginação
cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás
vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.

Um acontecimento imprevisto veiu interromper aquellas leituras.

O vigario cahiu gravemente doente.

Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça
em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no
leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer
forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, de modo que supportou o
tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão
no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.

Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu
auxilio de nada valia para o enfermo.

O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias.

Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que
estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz.

Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o
cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo
que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no
azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.

N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.

De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto
de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a
todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios
havião tumultuado em seu espirito?

Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a
sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d’esses animaculos
ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que.

Mas não!

A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura
sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante
d’ella e guial-a pelos espaços do infinito.

Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se um clarão, cuja luz
apezar da distancia incommensuravel, não podia ser fitada.

Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, indefinido,
échoava uma musica suave, mas que abalava a coragem a mais indomita e
quebrava-lhe toda a força.

—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á morte.

O silencio é que respondia.

—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava elle ainda.

E sempre o silencio.

Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, acima, abaixo, por
todos os lados, almas e mais almas que subião, subião, umas rapidas e
velozes, como anciosas de chegarem e desferindo faiscas de luz, outras
pesada e penosamente, deixando após si um sulco escuro, quasi negro.

No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como que acordou de um sonno
profundo.

Estava salvo!

Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha que ella compuzéra com
hervas do campo e diariamente fazia quasi á força o doente tomar, mas
é de crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar a si a gloria
d’aquella resurreição.

Em todo o caso começou uma longa convalescença, durante a qual o padre
Monte—quem o disséra!—sentio o prazer ineffavel de voltar á vida.

Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações são sempre para
elevar-se. Assim, pois, quando vai-se despenhando o corpo pelo abysmo
do aniquilamento e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser doce
parar de repente e subir tudo quanto acabára de rolar, bem que aggravada
do peso do seu envoltorio terrestre.

O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e as mãos tremulas,
poude dizer missa, elle experimentou uma uncção nova, indizivel e como
sempre desejára ter sentido.

N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da China e India e os
Novissimos do homem de S. Francisco de Salles, livros, cuja leitura fôra
adiada para depois de esgotados os romances.

Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição de sacrificios
immensos, modestos, perdidos no meio das selvas e montanhas de paizes
desconhecidos! Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores que
deixavão todas as regalias de cidadãos, de homens, davão de mão a toda a
possibilidade de gozo, de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e
uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, cheios de ardor e
esperanças no resultado que todos os esforços reunidos havião de produzir
a final!...

O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.

Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito de populações
indifferentes, já que não podia avivar n’ellas a fé que havião recebido
dos antepassados, e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo
libertada de todas as superstições e quasi gentillismos com que no sertão
a cercão a ignorancia e as tradições oraes, ao menos devia procurar a
gente indigena, os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador,
abrir os seus corações ao influxo da religião.

Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria a massa bruta.
A outros mais valentes na palavra, mais felizes, mais inspirados, mais
energicos e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado que as cinzas
frias da indifferença havião quasi abafado.

Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util á sua consciencia e á
patria.

Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser
encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia.

A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu
vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e
indomaveis Canoeiros.

Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho, severo em seus
costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve
indifferentismo.

Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra,
mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões,
que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir
na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o
sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.

No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus
freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle.

Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros
a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o
dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas
antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no
correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro
umas notas do Thesouro.

       *       *       *       *       *

O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar
e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum,
frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar.

Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia
do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o
intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus
inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas
mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d’aquelles que hoje
são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles,
brasileiros.


FIM DO VIGARIO DAS DÔRES



JUCA, O TROPEIRO


ADVERTENCIA

A autoria da presente narração pertence mais a um ex-sargento de
voluntarios de Minas, que nos disse haver conhecido de perto o personagem
que n’ella figura, do que á nossa penna.

O que fizémos foi desbastar o correr da historia de incidentes por demais
longos, de innumeros termos familiares, e sobretudo de locuções chulas e
sertanejas que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo comtudo
reconhecido a originalidade e força de colorido d’essa linguagem, e
desejando conservar ainda um que da ingenua, mas pitoresca expressão
do narrador, resultou uma cousa esquesita, nem como era quando contada
pelo ex-sargento, nem como devéra ser, sahida da mão de quem se atira a
escrever para o publico.

Batemos de arrependido nos peitos.


JUCA, O TROPEIRO


I

Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas Geraes e tropeiro desde
em menino, era um companheirão, alegre e estimado, como nenhum outro nas
tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto Grosso e trabalhar
n’aquelles sertões brutos.

Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar uma boa prosa, no
que não havia quem lhe posesse o pé adiante.

Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um cururú, repinicar na
viola ou contar historias, umas gaiatas que fazião estourar de riso,
outras de bruxas e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada e
sem vontade mais de pregar olho.

Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava o serviço, mas isso era
tão raro que bem poucos poderião dizer tel-o visto calado e amofinado.

Não havia capataz que o não desejasse em sua tropa, porque não era só de
lingoa que elle fazia bichas.

Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho grosso, não se contava um,
por mais pintado que fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso
de atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar a sobrecarga,
acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os, remexer pastos, arrumar no
pouso as cargas, arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os ligaes
por causa da chuva e da humidade, era elle mestre e tudo n’um sopro.
Emquanto o diabo esfregava um olho, Juca Ventura já tinha feito muita
cousa.

E forte de saude que parecia de ferro. Zombava das maleitas e sezões,
cortando por todo o tempo rios cheios e cruzando _pantános_ sem o
menor medo de _maldades_. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas e
beberagens, e dizia com gabolice que chegaria ao fim da vida sem dar o
pulso a cirurgião nenhum, nem se quer para saber do que morria.

Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas, onze animaes gordos
de encher o olho, e que se derreava na sella com o chicóte de couro crú
apoiado na coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas estradas de
Christo, cantando alto e afinado, contente como um ricaço e cheio de si
como se tivesse o rei na barriga.

Debalde o vento levantava uma _polvadeira_ immensa que lhe avermelhava
a camisa e lhe grudava o cabello ao casco da cabeça, debalde a chuva o
molhava até os ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e
as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um nadinha, o seu genio
brincador, nem fazia parar a sua força de trabalho e expediente.

Chegado que fosse ao pouso e não havia um só n’esses fundões de Goyaz
e Matto Grosso que elle deixasse de conhecer como se em cada um
d’elles houvéra nascido e lá passado annos inteiros—chegado ao pouso e
acommodados os seus animaes, se havia matalotagem farta, comia que mettia
gosto, se não havia, lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um somno
gostoso como tudo.

Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer barulho, por menor que
fosse, o punha logo de pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e
podia até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural vigilante.

Tambem se era preciso, passava muito a gosto a noute em claro: e no dia
seguinte estava lépido e bem disposto, como se não houvéra novidade.

Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos a contar aos
camaradas historias do sertão ou a fazer gemer a viola em cantorias e
caterêtes?

Nem havia conta.

E com tal não padecia o serviço: nem capataz nenhum se gabava de o haver
pilhado a cochilar.

Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se ao respeito e se não
andava com os chefes e superiores a mostrar os dentes em risótas, nem por
isso era carrancudo e malcriado.

Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de sobresalente para não
parecer unhas de fome e mofino quando tinha de pagar a pinga aos
companheiros da carreira.

Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas de estouro; mas
ninguem o podia alcunhar de enjoado, porque nos dias de mareta era boa
perna para o pagode.

Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim que as raparigas dos
povoados, quando chegava alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca
Ventura, pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas fallas de pura
amisade.

É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa maldizente que quer botar
malicia em tudo, malicia que só existe no juizo enviezado e falso dos
falladores.

Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das villas e povoações,
algumas até bem bonitas; mas era negocio de simples palavreado, e nenhuma
d’ellas poderia com verdade dizer que o ouvira fallar de amor, ou fazer
alguma promessa.

Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como um perdido.

Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas novinhas que lhe
mostravão agrado e sympathias; as velhas tambem lhe querião bem e quando
elle cruzava por diante de qualquer casa da estrada, não havia quem
deixasse de o saudar com boas maneiras e franqueza.

E a razão era uma.

É que não se passava uma viagem ou do sertão para o mar ou de lá para
cá, em que elle viesse de mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança
para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e houve até occasião
em que deu de presente uns córtes de fazenda fina e algumas jardas de
fita muito vistosa e larga.

E depois não querião que fosse estimado!

Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos conforme os seus
merecimentos. Mas por estes mundos afóra não falta quem metta a catana
nos mais sem ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas até igual.

E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos a arrastar a aza
e a fazer pé de alferes pelos pousos, como se fôra algum rufião mal
intencionado que botasse a perder as coitadinhas sem experiencia?

Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á uma pessoa; e quando
um homem de vergonha estima devéras uma mulher, esse amor não consente
outro: é o unico na vida.

Nem havia mais segredo.

Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é que morava aquella moça,
que se chamava Balbina do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já
fallecido, havia morado n’uma esquina de becco, que ella era rapariga
de truz, morena, mas corada, de muito proposito e composição e de quem
lingoa nenhuma tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena cousa.

Quem é que não sabia d’isso?...

Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula[21], senhora capaz de
revirar com um peteléco o patife que quizesse vir se engraçar com a filha?

Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabellos pretos como aza
da graúna e tão compridos que passavão alem do quadril talvez um palmo,
olhos que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha
como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de
maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da côrte,
e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava
para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites.

E querem vêr?

Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma janella e D. Cula cozendo
perto de outra, por detraz da rotula fechada, porque a casa tinha duas
janellas e uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão para
um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda
nacional e, tirando-se de seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um
beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado a carinha da moça.

Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma çuçuarana foi D. Cula.

Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo de vassoura, escancarou
a porta e cahio de pauladas no costado do engraçado que não foi um
brinquedo. Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a sóva
quando o páo se quebrou e por cima levou elle com os pedaços na cara.

E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia rota, acompanhado de uma
vaia de conta que lhe passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas
de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.

Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou de dizer graçolas a Babita,
bem que todos os dias ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de
pôr agoa na boca.

Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de tábua a tres pessoas de
consideração.

D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, mostrando que era
preciso tomar estado, que ella nem sempre havia de estar n’este mundo
para dar-lhe amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada do que
bem requestada.

Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que estava já arranjado
em seus negocios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinôco, de quem
a principio fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura,
procedêra sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e
confiança.

—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba.

—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa gente sahem bons maridos.
Depois ha tanto tempo que está na terra, que nem parece filho da outra
banda.

—Não quero este, murmurava a rapariga.

—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz este por ser portuga. Mas
porque disse não ao João Grande, lá da Casa Branca?

—Ora, um socó... e depois zarôlho...

—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica e ninguem dirá que seja
moço feio de todo. Outras mais pintadas do que você, Babita, não hão de
torcer o nariz, quando elle as procurar para casamento. Agora me diga o
Mané Quetano, tambem é zarôlho? Rapaz tão bom, tão socegado e de familia
limpa! O pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando ella não
passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto como elle só...

—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó.

D. Cula costumava então abanar a cabeça.

—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta Deus Nosso Senhor
Jesus Christo, que você não tire de tudo isso motivos de se arrepender.
Querer fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para comer,
são cousas que não vão juntas. Cada um deve pedir a Deus aquillo que
basta para a sua posição. Não vá depois lhe acontecer como á Maria do
Frajado, a coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada e,
afinal, quando quiz casar, já não achou com quem. Morreu velha e levou
palma e capella em cima do caixão. E não foi das mais infelizes, porque
tem se visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga de sangue
nas veias, só em pensar n’ellas.

Babita rematava taes conversas que muito se repetião com este estrebilho:

—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar.

Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento na casa, D. Cula se
mostrou meio carrancuda. O rapaz tinha modos direitos e a sua fama era
boa; mas ella não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos
outros.

Fez cara de poucos amigos e observou de parte a filha.

Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo aceiado e faceiro,
passava por diante da janella e comprimentava com muito respeito as
pessoas que lá estivessem: vio que elle cruzava por demais n’aquellas
paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro, mas por poderem
as suas passadas dar na vista dos outros e trazer fallatorios.

Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios de casorio, e a
menina parecia estar se inclinando muito por elle.

D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos o tropeiro por entre
as frestas da rótula, chamou-a a contas, mas com toda a prudencia,
porque era pessoa de experiencia e bem sabia que com mulheres
_enrabichadas_[22], não se deve apertar muito.

—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta rua anda muito um sugeito
que quer se engraçar com você.

—Eu não sei, respondeu Babita com susto que pareceu de máo agouro á mãe.

—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando
um moço gosta sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de mulher
diante de Deus e dos homens, sem ter que se _avexar_ de ninguem, deve
vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos
outros....

—Mas ninguem me anda _desinquietando_, interrompeu Babita meio arrufuda.

—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está mordida...

E alto continuou:

—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já que estou com a mão
na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são
muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do socego das
mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, revirão o coração de uma
probresinha e, quando não a atirão de uma vez no caminho da perdição,
mettem na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei mais o que.
A cousa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal:
acha graça no namôro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se
cá dentro no peito uma afflicção, um tormento que não pára nem de dia
nem de noute. Então se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha
de fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, menos a vista do
tentador. E elle a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com
a boca aberta, que a rãsinha se chegue por si mesma...

Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma historia
do que outr’ora se havia dado com ella, estava sem saber onde pôr os
olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de
aroeira.

A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um pranto de chôro, atirou-se
ao collo da mãe, escondendo a cara com as mãos.

D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario beijou com muito
carinho a testa da filha.

—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era como dantes. Mas não se
afflija. Aquelle moço tem bom nome, e eu vou me entender com elle. O
peior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado.

—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguem
desconfia.

—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente está desprevenida e da
noute para o dia fica-se outra e presa para toda a vida. O tal rapaz
é tropeiro: não digo que seja bom officio, mas tambem não é de fazer
vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado
não somos filhos de capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos
desejar é que seja de familia limpa, porque graças á Nossa Senhora
Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pae,
que Deus lhe dê a gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá
n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, tudo assentado
nos livros do Revm. Vigario; d’ahi para cima não posso dizer mais, mas
emfim nem todos podem dizer tanto...

Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de palavreado, d’onde só
sahio quando lhe faltou a respiração.

Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sahir,
uma manta côr de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na
altura dos hombros umas especies de dragonas de retroz preto, fincou um
pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de
pouso a tropa de Juca Ventura.

Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lóte de bestas
para esperar os companheiros d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.

—E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cula.

—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, respondeu um outro tropeiro.

Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no seu espirito
cousas bem tristes. Havia sido o que ella suppunha: o tal sujeito era
como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada,
não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que
mais?

Malditos homens que vem bolir por maldade com as mocinhas e pôr as casas
de familia em dobadoura!

D. Cula não disse á filha a verdade.

Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito, mas não sem que ella
lhe dissesse duas palavrinhas.

—E então? perguntou a moça com receio.

—Então elle ficou muito admirado e meio corrido, quando vio que eu estava
corrente com as suas passadas, mas, fallando com franqueza, não pude
saber se elle quer bem ou não a você.

—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando logo fogo. Tenho toda certeza.

—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de voltar, e saberemos então se
é o que você julga d’elle, ou se não passa de um marióla que hei de pôr a
tinir como aquelle filho do capitãosinho.

N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas semanas não se fallou
n’aquella casa em Juca Ventura.

A mocinha estava um pouco macambuzia: não chegava á janella e não queria
sahir, mas comia com vontade e não parecia começar a ficar magra.

Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu caminho, jururú e
abatido. Se cantava, era com uma vóz abafada que fazia ainda mais triste
a solidão.

Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula e o rosto da namorada
não lhe sahião da memoria.

Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma cousa sem conta, e se
no serviço não afrôxava é porque só no trabalho achava algum consolo.

E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:

    Babita, meu bem Babita,
    Babita do coração,
    Tem pena de minhas penas,
    Senão morro de paixão.

    Passarinho que tem aza
    Depressa vôa ao seu bem.
    Aza não tenho, nem tenho
    Quem me possa querer bem.

    Desgraçado do tropeiro,
    Minha sina é só gemer:
    Meu destino caminhar,
    Caminhar até morrer.

    Chaga viva em mim abrio
    Teu olhar, mulher querida.
    Mas de ti eu não me queixo,
    Pois adoro essa ferida.

    Tenhão os _rezes_ seus palacios
    Ouro e mais prata infinita,
    Eu só quero d’este mundo
    Ser querido de Babita.

    Mas, coitado, porque choro?
    Quem m’ouvir póde n’este ermo?
    Se o meu canto não tem écho,
    Meu tormento não tem termo.

    Ó rochedos, montes, valles
    Ó campinas tão floridas,
    Compaixão deveis sentir
    D’essas mágoas tão crescidas!...

N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava o peito, de modo que
todos sabião por quem ficára preso o tropeiro modelo.

Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os seus males, e a viola
chorava nos dedos do namorado. Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir
o cantor, cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar.

    Ventura me chamão todos,
    Desgraça devem chamar.
    Pois aquella a quem adoro
    Não me quer _a mim_ amar.

    Sou tropeiro, não sou rico
    Casas não tenho, nem ouro;
    Mas no peito tenho honra,
    E não sou filho de mouro.

    No braço tenho _talento_[23]
    Na cara tenho vergonha,
    Não vivo de comer bichos
    No lôdo como cegonha.[24]

    Ai! se apaga em mim a vida!
    Sinto já que vou morrer.
    Mas não sei se chóre ou não
    Por agora perecer.

    Pois embóra eu _seje_ moço,
    Por effeito da paixão
    Com certeza hei de findar
    Nas funduras do sertão.

N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o brazeiro se apagára, e já
as barras do dia riscávão os lados do nascente, e elle ainda ficava de
vióla na mão, tocando e verseando.

Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou em Uberaba, foi logo
procurar vêr a quem lhe tinha inspirado tanta quadrinha bonita.

O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se a ronda com a
patrulha.

Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D. Cula com um ar muito
agradavel e cheio de riso.

Ventura quiz voltar, não poude e parou.

A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado com muito boas maneiras,
perguntando noticias da saude e da ultima viagem e mais outras cousas.

Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou passado de uma vez
quando, conversa puchando conversa, D. Cula o convidou para descansar em
sua casa.

O moço no acto de se sentar já não estava muito em si, mas quando vio
entrar na sala a rapariga por quem suspirava tanto, perdeu de todo a
cabeça.

Não soube mais dizer uma palavra.

Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria ficar calado,
vinha-lhe a comixão de fallar.

Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer pasmado. Foi que no fim
de sua visita, uma visita de medico, elle pedio a mão de Babita, que
Babita ficou muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita chorou
algumas lagrimas e que consentio e poz-se a fallar muito e a contar casos
e mais casos, dando de lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo,
quanto mais a um namorado!

Elle levantou-se cambaleando.

Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...

A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade chegada do Rio de
Janeiro. Uns approvarão muito, outros acharão a cousa má, outros emfim
nada disserão, no que fizerão melhor do que os que se mettião a abelhudos.

Os que approvavão, mostravão que as idades dos noivos estavão muito
combinadas e achavão direito que um pobre casasse com uma pobre e outras
cousas mais.

Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio de tropeiro era
baixo e por demais andejo, sendo assim o casal obrigado a viver sempre
separado. E a final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida? Nas
de um camarada de tropa...

Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se na vida e nos
interesses dos outros como melhor quizerem, mas por amor á verdade não
digão que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!

Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos, olhos rasgados, côr
morena, bigodes finos, boca bem feita, e barba sempre penteada? Não tinha
elle cabellos cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso era do
pó da estrada, e esse pó dava signal de que elle trabalhava para ganhar
honradamente o pão de cada dia.

Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua pobreza, mas não tivessem
susto de qualidade nenhuma. A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se
Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a ninguem. Graças aos
céos, braços não lhe faltavão para sustentar a sua gente, e, se até então
ainda não tinha ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava fóra
tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.

Agora o caso mudava de figura, e para prova é que elle tratou logo de
preparar um montesinho de prata já com vista nos gastos dos papeis de
casamento e tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella occasião.

Emfim quer os moradores quizessem, quer não, Babita e Ventura erão
noivos, tinhão já o sim de D. Cula, a unica que podia n’aquelle negocio
serrar de cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio do Brasil
que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes como se tivessem ganho o
reino do céo.

O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes, quando o tropeiro voltasse
de uma viagem que tinha de fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava
paga.

No momento da despedida os noivos chorarão como dous perdidos; mas no
coração lhes ficava a quentura da felicidade.

D’ahi a tres mezes!...


II

No tempo marcado voltou Ventura mais _amorudo_ do que quando partira e
com as mãos cheias de presentes. D. Cula ganhou um vestido de muito boa
seda e Babita uma joia de ouro verdadeiro.

Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que entendia de ourives o
disse, e o que sabia da boca d’elle era que nem palavra de Evangelho,
pelo menos ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras.

Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou de mãos abanando.
Tinha cozido todo o seu enxoval e arranjado com os dedinhos o vestido do
casamento, que a mulher do commandante superior da guarda nacional fez o
favor de cortar e acertar, porque era uma senhora muito estimavel. Tambem
a cousa parecia uma maravilha de feitio e assentada.

Mas o que é o destino da gente!

Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se n’uma dobadoura que
ninguem na terra se lembrava de cousa igual. Uberaba tão socegadinha!
Longe de tudo e de todos no meio de seus sertões!

Não se fallava senão em guerra!

Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar que o Imperio do
Brazil estava n’uma pendencia muito grossa com uma republica chamada
do Paraguay, que havia muito fogo de parte a parte, gente e mais gente
partia para fóra, que muitos ião por gosto, outros a páo e corda, que o
recrutamento roncava feio e forte e os rapazes andavão disparando para
os matos, mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e lhe perguntar
quantos annos tinha, seguio socegado o seu caminho do interior, sem se
occupar com as novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava
n’este mundo.

Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, o mesmo reboliço.

Parece que os negocios não ião bem. O governo da côrte tinha posto
nos jornaes que todos devião combater, que a guarda nacional havia
de marchar, que era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma
lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios.

Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados. Imaginem!

Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, mas onde é que se ia
buscar tanto povo de uma vez para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá
de cima que governão os outros ás vezes não pensão com juizo. Era uma
exigencia por demais.

Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de S. Paulo e de Ouro-Preto
duas forças grandes para se juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para
os lados de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á força e onde
estavão fazendo selvajarias sem conta nos brazileiros que cortava o
coração só de ouvir fallar.

Tudo isto não bastava.

Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se na cidade que os
guardas nacionaes ião ser reunidos, que muitos havião de seguir com a
expedição, que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de historias
capazes de assustar os mais valentes.

As familias andavão com o coração na mão e com toda a razão, porque não
tardou muito e ahi chegarão uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa
e ensinar o manejo de arma.

Então é que foi susto!

No meio de todo esse barulho, Babita não tinha um momento de descanço.
Juca Ventura era guarda nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos
annos e podia ser chamado.

—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se você tiver de marchar?

—Não marcho, não, respondia o tropeiro para lhe dar algum socego.

A mocinha perguntava abaixando a voz:

—Então você deserta?

—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de cousa nenhuma! Mas tenho
certeza de que não vou. Não me chamão. Você verá...

Esta certeza durou pouco tempo.

Um bello dia o commandante superior da guarda nacional mandou-lhe por um
cabo de esquadra aviso, ordenando que chegasse n’aquella mesma hora ao
palacio da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais quinze
companheiros fez uma falla meio gaguejada em que disse que era preciso
ir acabar com o inimigo, que os brazileiros nunca tinham sido vencidos,
que a gente de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam de
voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que o Brazil contava com os seus
filhos, etc., etc., e depois de toda essa perlenga acabou dando vivas ao
Imperador e á Constituição, no que foi acompanhado com muito barulho por
outros homens de casaca reunidos a um lado da sala.

Mas ahi é que cabia bem uma pergunta?

Porque é que aquelle commandante superior não marchava tambem para a
guerra? Então só lá devião ir os pobres soldados para chuchar bala como
terra em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas cheias a se
deixarem ficar muito a gosto e só enchendo as bochechas com patriotadas?

Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade, como diziam,
então que todos se sacrificassem.

O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos e mostrar boa
vontade, supporta tudo com cara alegre, não assim a empurrar-se gente
para obedecer ao governo e mettido na tóca caladinho!...

Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não disse patavina, e sem
demora foi mandado para o quartel, uma casa de paredes altas e vigiada
que parecia uma cadeia.

Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios assarapantados que
todos os dias ouviam fallas e mais fallas do commandante d’aquelle
deposito—um major de linha, mandado de proposito da côrte para ensinar
recrutas.

Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não havia influencia nenhuma.

Juca Ventura só viu caras muito _jururús_.

Quando Babita teve conhecimento do que succedêra ao noivo, cahiu n’um
desmaio que poz D. Cula tonta; depois as duas choraram juntas até não
terem mais lagrimas nos olhos.

Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres. Via-se bem que elle
queria se fazer de forte, mas que estava por seu lado desanimado.

Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi ao quartel para ver
se trocava alguma palavra com o rapaz, mas não pôde entrar, porque na
porta estava um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido que
passeava como um rei, de um lado para outro, segurando na mão uma espada
desembainhada. Quando a boa da velha foi se chegando para mais perto,
elle gritou—Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem.

Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira o cabo fallar
n’uma guerra que houve no tempo de dantes em que elle com mais dois
companheiros tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem de
brincadeira e que cortaria pelo meio todos aquelles que quizessem sahir
do quartel sem passe do senhor major.

Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava o bigode com
raiva e rangia os dentes como porco do matto.

Homens assim é que deviam ir para a guerra, já que gostavam tanto da
historia, e não uns pobres moços socegados que tinham suas familias
ou estavam em vesperas de formar casa. Fosse lá o _tres contra
quatorze_[25], mas não uns guardas nacionaes que nunca haviam feito mal a
ninguem.

Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que ella não passou a
ninguem, porque não gostava de metter o bedelho nos negocios geraes,
entendendo com razão que as mulheres, quando se atiram a discursar nestas
e n’outras cousas, dizem por força desacertos.

Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora podesse trocar lingua
com Juca o tropeiro. Elle estava socegado, e entretanto bastante murcho,
não que o dissesse, mas pela cara logo se via isso.

O recado que elle deu para Babita não acabava mais de comprido, mas em
duas palavras queria dizer _amor para sempre_.

Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e trancadinhos no que se
chamava quartel e que já continha uns centos de pessoas, receberam uma
bandeira novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim muito rica e
vistosa.

Houve muita pancadaria de musica, muito foguete do ar, estouros de
bombas, e fallatorios compridos e cheios de enthusiasmo.

O commandante superior tomou novamente a palavra e disse que com o
contingente mineiro a guerra havia por força de acabar, que Uberaba ia
dessa feita para a historia, que todos deviam marchar com a maior alegria
e que aquelles que desertassem haviam de receber castigo de Deos e dos
homens. Mas o espertalhão não prometteu dar o exemplo e tomar parte nos
perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.

Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião, ambos com muito
fogo, e no fim do seu palavreado, todos romperam em vivas ao Brazil, e
morras ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo.

O cabo _tres contra quatorze_ já com algumas garrafas de cerveja no
bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos e fazia com os dentes tal
barulho que semelhava não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos.
Elle pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e que estava
tremendo de susto, que fosse buscar oito ou dez castelhanos, armados de
lança e espada, para vêr como n’um instantinho os havia de cortar em
pedaços miudos.

Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado por uma lista de
nomes, veiu jurar por baixo da bandeira e com a mão aberta sobre os
Santos Evangelhos em como havia de defender até a morte o Imperador e a
Constitução e nunca desamparar o seu posto de honra.

Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a verdade, n’esse
momento o coração lhe tremeu dentro do peito. Os companheiros diziam
_sim, sim_, mas eram uns _sim_ muito chochinhos que em muitos parecia
mais um soluço do que uma promessa que só Deos podia quebrar.

Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação—meia duzia de
lanternas de papel—e o quartel ficou todo ás escuras, guardado por uma
sentinella que chorava baixinho e pelos roncos de _tres contra quatorze_.

O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos cópos deixou-se cahir
na porta estirado a fio comprido, como que para impedir com o seu corpo a
escapúla de algum medroso.

Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio e trevas.

Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados do fundo d’alma, pegou
a dormir e a sonhar com Babita.

De repente alguem o puxou por um braço.

—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda tonto de somno.

—Falle baixo, murmurou alguem.

—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a voz.

—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo tempo cinco ou seis mas tão
baixinho que parecia um sopro.

Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba.

—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar _vancê_ para abrir
campo. Parece que o negocio vai ficando sério e que chegou a hora de cada
um cuidar em si.

Ventura respondeu com um gemido abafado.

—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas agora...

—Agora, o que?

—Agora não posso.

—E porque?

—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no livro sagrado, e
decididamente hei de ir por estas terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê
coragem...

Houve silencio no grupo.

—Mas... então, disse com hesitação um d’elles, _vancê_... não vá... dar
parte de nós...

—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual tome o rumo que quizer. Eu
não jurei que havia de guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a
defender o Brasil.

E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro lado.

De manhã vio-se que havião desertado quinze guardas nacionaes e que a
sentinella do portão tinha tambem batido a linda plumagem.

Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol claro, umas machinas
exquisitas, canos feitos de bronze, assentes em grandes rodas e
acompanhados de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas de bois.

Essa machinada vinha com muito barulho e pôz em reboliço todos os
moradores.

—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque nunca tinhão visto
artilharias.

Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas janellas da casa
aquella procissão capaz de metter medo aos mais valentes e soube que
aquelles canudos ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos.

—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo as mãos de admirada, que
peccado atirar em christãos com bacamartes d’esses!

Na noute da chegada da artilharia desertárão de pancada quarenta guardas
nacionaes, e ninguem mais lhes poz o olho emcima.

_Tres contra quatorze_ andava damnado e gritava, no meio da praça da
matriz, que aquillo era uma pouca vergonha e que elle só com um cacete
curto era bastante para dar conta de todos os moradores de uma cidade tão
medrosa e—com perdão da palavra—safada, assim dizia o cabo de esquadra.

Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada mineira que foi acampar
no Cachimbo, a uma legua de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz
de influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão mais vinte
dos aquartelados.

Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros.

Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza do exemplo e
deixar-se estar quietinho quando os mais abrião pernas e ião cuidar da
vida! Quanta coragem para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos
lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, que ella não podia
mais viver assim e era noiva de um ingrato, e não sei o que mais, e mil
cousas e ditos de fazer sangrar o coração.

Mas elle tinha jurado!

Quando no quartel não restarão senão tres homens, o commandante superior,
não se fiando n’elles, mandou trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa.
Queria ao menos segurar bem esses ultimos.

Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.

Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e estava marcado o dia 4
de Julho de 1865 para a partida de toda a expedição que devia se internar
pelo sertão bravio á procura do inimigo.

Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se do noivo que
estava como um desgraçado galé encostado ás grades da cadêa.

—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe na mão, isto é que é ser
_desinfeliz_ de uma vez!...

—A culpa é de _vassuncê_, respondeu a moça soluçando.

—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!... Foi destino...

—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que _vassuncê_ faz mal...
entretanto...

—O que devemos fazer, disse o coitado depois de uma pausa em que todos os
tres choravam, é não perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade;
mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de voltar com toda a
certeza, e então seremos felizes para sempre... Tenho o meu amor para
me salvar. Agora, Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao seu
noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas de Nosso Senhor Jesus
Christo que, na batalha ou no descanço, não haverá uma só hora que eu
deixe de pensar em quem tanto quero.

E, voltando-se para D. Cula, acrescentou:

—Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece bem me vêrem chorar
como se fosse um fracalhão. Tenham fé no que digo: eu hei de voltar...

Babita soluçava como uma criança.

No dia seguinte, as forças da expedição abalaram do acampamento do
Cachimbo.

Foi uma cousa bonita.

Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos bem fardados; o bronze
das peças de artilharia faiscava aos raios do sol; as musicas tocavam o
hymno nacional, e as cornetas faziam uma charamellada de pôr surda uma
pessoa.

D. Cula e sua filha tinham ido dizer adeus a Juca Ventura e para isso
caminharam a pé e de madrugadinha, ainda escurão, legua e meia, distancia
da cidade ao acampamento.

O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, já estava
mettido n’uma grande blusa militar e ás costas trazia uma mochila que
havia de ter bom peso, além da espingarda e do mais.

Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos braços, disse-lhe a modo
de consolo.

—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me no batalhão mineiro:
estou rodeado de patricios e conheço bem o sertão. Não é isto que me
assusta.

E, com um suspiro, concluiu baixinho:

—Ah! se eu não tivesse jurado!

O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu de arma ao hombro e com
passo dobrado.


III

Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de Matto-Grosso, fôra
contar o que todos, desde o commandante das forças até o ultimo soldado,
soffreram, e é cousa de encher livros e livros.

Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se a padecer de fome,
que desde então acompanhou sempre e sempre toda aquella gente, como se
fizesse parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora apertando
devéras, ora menos forte, mas ali prompta á toda a hora para apparecer,
quando menos se cuidasse.

Agora fallando com o coração na mão, foi preciso muita paciencia, muita
confiança em Deos para não se desanimar de uma vez e querer antes
morrer do que aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17 de
Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao resto da expedição. Era uma
rapaziada toda limpa; officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e
commandante meio zangado mas justiceiro e cheio de disciplina. Devéras
fazia gosto servir n’esse corpo.

Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa; foi excellente soldado,
porque, antes de tudo, era um homem que queria sempre cumprir com a sua
obrigação Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra e como
sabia ler e escrever corrente, no Coxim, passou a furriel.

Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além delle ser pouco
_imbicioneiro_, não se ageitava em riscar mappas do dia e relações de
mostra.

No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir os outros, do que
por gosto de galhofa. Na verdade não se esquecia um minuto de sua bonita
noiva: escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto houve correio,
recebia, lá de vez em vez, respostas muito amorudas do punho de D. Cula,
mas do coração de Babita.

Depressa, porém, desse gostinho devia se _desmamar_, porque não houve
mais estafetas e até officiaes de posto graúdo ficárão seis e mais mezes
sem poder receber uma só letra de suas familias, todas moradoras na Côrte
do Rio de Janeiro, de muita consideração e apatacadas.

Lá nos _pantános_ de Miranda, quando a expedição foi se metter no tijuco
até o pescoço é que houve dias da gente duvidar da bondade de Deus.

Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no lodo que de lá nunca
mais sahiram.

Morria _goyanada_ aos punhados, não que sejam mofinos de animo, pelo
contrario no fogo são bons devéras, mas, fanadinhos de corpo, sahiam da
fartura para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza.

Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas de alagadiços e
tremedaes, que era mesmo um Mar de Hespanha, basta dizer que do Coxim
sahiram mais de 3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco mais de
dois mil, quasi todos agorentados.

Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que se poupasse ao
trabalho, mas porque era de seu natural resistir ás epidemias. Isso para
o serviço foi sempre dos melhores e de machado em punho para derrubar
arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina era um grande.

Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e nos acampamentos só
se ouvia gritar: «Furriel Ventura, vai fazer isto. Furriel Ventura, vai
fazer aquillo.» E elle de boa vontade sempre, quando os companheiros
estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, não só do seu
corpo, como de outros batalhões.

O commandante de sua companhia, o Sr. capitão Juca Duarte, que morreo,
coitado, em Miranda todo inchado, moço tão bom que até os soldados
choravão quando o ião carregando no caixão, queria muito ao furriel,
assim como o Sr. major Juca Borges, que depois veio a commandar o
batalhão e era muito valente e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no
Araguaya de Goyaz.

Era um homem muito alegre esse major e tratava bem os soldados, e tambem
um capitão, quasi criança, chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr.
Tenente Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos.

Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O commandante Enéas era
homem sério e meio carrancudo, mas não deixava perecer a sua gente de
máos tratos e injustiças.

A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda onde soffreo muito de
molestias exquisitas que levarão uma _machina_ de officiaes e soldados
ao cemiterio; depois foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar
bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda; desceo ainda para o Apa
e ahi entrou no Paraguay, assim com ares de quem queria engulir aquella
terra toda.

Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de Uberaba! Mais de dous
annos...

E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava uma ou outra, isso mesmo
para a gente lá de cima, e sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que
valem alguma cousa.

Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade, já não escrevia mais.
Que é de papel para no fundo de sertões brutos estar riscando finezas,
quando muitas centenas de legoas separão os namorados?

Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa, quando ella se vio sem
gado nem mantimentos e teve que recuar de um lugar chamado Invernada da
Laguna, parece que tudo quanto é desgraça se juntou para fazer a gente
ter saudades dos tempos de dantes.

Que calamidades, meu Deos!

Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar caro a muito castelhano de
blusa vermelha o incommodo de vir os procurar tão longe, mas o cholera,
mas a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, os aguaceiros, o
sol de rachar, os rios todos cheios, a falta de caminhos, cruz! era de
quebrantar a coragem de um Roldão.

Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma vez em cem annos, e quem
escapou d’aquella feita póde dizer que tomou passagem para a eternidade,
mas não embarcou por ser afilhado da sorte.

Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda achava occasião de dizer
a sua gaitadasinha, mais já a sua prosa não alegrava a ninguem: tudo
andava muito jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar voando
por cima da cabeça da gente, matando este, matando aquelle, aquelle outro
e assombrando a todos.

D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão deixar jogados no meio do
campo como carniça mais de duzentos companheiros a morrerem de cholera e
de ferimentos.

E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem surdos, e o coração
batia, mas parecia pedra ou páo porque nada sentia.

É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só tratava de salvar o
vulto.

Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição vinha rolando as
suas miserias, caminhando quanto podia.

Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava aquella tropa toda, lá se
foi o Sr. tenente-coronel Juvencio, e de nada lhes valêrão as divisas de
ouro bem grossas que tinhão no braço.

Era mesmo um _despotismo_ de morte, e nem se livrou quem estava já
affeito a aquelles lugares malvados e de pestes e forão batendo a bota
o pratico Francisco Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando
os brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem tinha ainda cruzado,
e d’onde não havia de escapar um só ao menos para vir contar onde é que
paravão os ossos dos outros.

Mas Deos foi servido mandar que morressem, um no dia, o outro na hora em
que a columna pisou terreno conhecido. Olhe que foi um milagre!

Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre d’aqui, morre d’acolá,
chegou-se a salvamento, tudo muito porco, muito magro e esfarrapado,
mas emfim ainda com vida e vontade de saber o que era passar um pouco
melhorzinho do que naquella desgraça.

Foi no Canuto.

Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão lá para as suas tócas:
nós então, fizemos acampamento perto de um rio grande, o Aquidauana, que
só uma força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade que todos,
soldados e officiaes, trazião no corpo e na roupa.

Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando, disse n’uma ordem
do dia que os inimigos estavão _anarchisados_[26] com a nossa retirada,
que os batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia de fallar
nos soldados de Matto-Grosso e um bando mais de cousas.

Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia estar lendo toda
aquella escripta, disse para os outros:

—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal chegou.

E os outros se rirão, porque já estava passado o perigo, mas devéras o
furriel tinha razão. Mais de mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios
de vida e _talento_[27] e, em menos de mez e meio, de lá voltarão só uns
setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados que parecia uma tropa de
ladrões do mato.

Não, aquillo foi de mais!

Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o batalhão para Cuyabá,
d’ahi desceu para o Paraguay, ainda entrou em fogo, e foi acampar no
Humaytá, que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era então uma
barranca de rio.

Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira de Uberaba, e, ha
mais de quatro, não recebêra uma cartinha de Babita, uma noticia se quer.

Mas _porém_ o rapaz era de palavra e não houve, neste tempo todo, um só
dia, uma só hora, em que o seu pensamento não fizesse viagem até a cidade
em que morava a namorada.

Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a guerra acabou.

O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro: houve muita festa;
discursos como terra, gritaria, e, o que valia mais, cada voluntario
recebeu uma boa bolada de cobres na pagadoria da Côrte.

Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados e certas differenças de
soldo, de uma assentada metteu no bolso trezentos mil réis do premio de
voluntario da patria e setecentos e picos do resto.

Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas da caixa do
governo!

Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz de Fóra, e, por toda a
parte onde passava havia muito discurso, havia festa a valer e tudo o
mais.

Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar o rumo de sua casa.

Foi um dia grande aquelle!...

Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba, assim com modos de
passarinho que achou a porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra,
tonto de alegria e cantando como um maluco. A saude do tropeiro era
sempre a mesma: pouca differença fazia no rosto, mas nas maneiras era
mais compassado e orgulhoso.

Tambem estava com o peito cheio de medalhas de campanha e ganhara até o
habito da Rosa.

Tinha honras de capitão!

Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não perguntou noticias a
ninguem.

O coração lhe batia socegado e só o que queria era chegar, chegar
depressa...

Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba, a 15 de Julho de 1870 e
frechou direitinho para a casa da noiva.

Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha no collo.

Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um grito forte, levantou-se
e correu para dentro como uma douda.

Era Babita!


IV

Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.

Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros.

Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não
estava:

—Ó de casa, ó minha gente!

Ninguem lhe respondeu.

Elle então entrou na sala.

Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma
imagem do Menino Jesus entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco
annos passados.

Ventura bateu palmas.

Ninguem lhe respondeu ainda.

Oh! Era caso de pensar.

O nosso homem assarampatado empurrou a porta do interior... nem viv’alma
na varanda: correu a casa toda, nada.

Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado gente que havia fugido ás
carreiras.

Decididamente succedêra alguma novidade graúda.

Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia que nem um condemnado á
forca, mas como não era precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar
em mal.

—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou elle, e tomasse um susto.

N’estas idéas sahio da casa.

Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava rente com as casas para
apanhar um pouco de sombra.

Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.

—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não a
conheço, mas sei que a filha d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.

Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito que lhe deu aquella
noticia, ou como não cahio no chão morto para todo o sempre, é o que elle
mesmo não sabe.

Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do que todos os de
Mato-Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como
se fosse uma fogueira.

Tudo estava perdido!

Tudo!

Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella mulher, elle que
vinha cheio de amor, limpo de miserias, depois de ter dado conta de sua
obrigação, elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas para
enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia
já tomado, e em vez de um coração para o affagar e estimar, a traição e o
pouco caso?!

Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para
ser degollado pelos paraguayos?

De que lhe servia a vida?

A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia
de furacão.

Que restava fazer?

Nada... nada mais!

E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de
tirar despique do desprezo de uma mulher?

Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo e o coração a quem
quizesse; mas elle o bravo de 17º. de voluntarios de Minas precisava se
desaffrontar.

Tremessem os desalmados que havião brincado com a honra do tropeiro!

Com isso tudo a lhe ferver no sangue, _amontou_ Juca a cavallo e foi
_sestear_ n’um rancho fóra da cidade.

Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, senão é de crer que
se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o commandante superior da
guarda nacional o viesse abraçar á vista de todos.

Mas para abraços não estava elle.

Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.

Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, com o queixo encostado
na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão.
Na cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada e um facão-punhal.

Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, Juca sahio do rancho, mas
as pernas lhe tremião.

Queria pisar firme e não podia.

É que nunca fôra assassino e agora ia matar!

Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar á beira da
estrada pela affrontação em que vinha.

O coração quasi que lhe saltava pela boca.

Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle homem para você o tratar
assim? Pois não póde haver uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?

E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de matador, quando podia
entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o
peito em que estava escripta a sua historia de soldado! E todos o havião
de festejar e até adular!...

Mas não... O destino assim não quiz.

Apparecião as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se
n’um matacão de barro duro a um lado da estrada, á espera que a noute
fechasse.

Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no
nascente umas nuvens côr de chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de
quando em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.

Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava que assim estava o seu
coração, faiscando, faiscando, mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio
havia de ferir a quem menos cuidava.

Um barulho de passos lhe chamou a attenção.

Era um homem branco, de meia idade e bem _limpo_[28], que tinha um ar
sério e muita composição no andar.

Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, como que virou-se em pedra.

Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a
pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada.

A sua boca deu um uivo.

—O emboaba!

Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço,
era um homem morto.

E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Juca
Ventura com olhos de engolir um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de
si e de sangue frio.

—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe
quem eu sou?

—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um
matador.

O modo por que estas palavras cahirão da boca de Chico Luiz e o seu
proposito fizerão um abalo tão forte no voluntario que elle ficou branco
como cêra.

—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas agora vou ser...

—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim...

—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspirão
na minha cara.

—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a
mais ninguem, ouvio? O unico culpado sou eu.

A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro como que sentia o coração
ficar frio. Quiz puchar pelo braço, mas a mão do portuguez se não
apertava com força, segurava com firmeza.

—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e com os olhos prégados
nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um páo
sequer, e lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada
ninguem mais póde ser acusado... Agora...

E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito:

—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança!

O modo era de quem estava preparado para morrer n’aquelle instante mesmo.

Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e
murmurando:

—Eu nunca matei ninguem assim...

—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita muito depressa, eu quero
defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa
como N. S. da Conceição...

E como Ventura fizesse um gesto de raiva:

—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita
é innocente; Babita resistio quanto poude a este casamento, Babita não
se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lagrimas do seu
coração; foi fiel quanto poude á sua promessa.

O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas fallava como quem
diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito
de Ventura.

—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?

—Não, respondeu com energia Chico Luiz.

—Que aconteceu pois?

—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare
já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir
dia em que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: Sua mão deu
cabo de gente innocente!

E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo uma cousa muito grande.

—Você me ouve? perguntou elle ainda.

Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle homem estava se
decidindo.

—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido e pondo ao cinto a
garrucha depois de ter abaixado de vagarinho o cão.

—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partio para
Mato-Grosso e só houve noticia certa de sua pessoa por uns seis mezes.
Depois passarão-se annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o
seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia
muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noute que era uma
cousa por demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, a
Uberaba um soldado do 17º de voluntarios que disse que conhecia muito
a você, que você tinha morrido ha mais de um anno e até elle tinha
carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua
alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mez inteiro. Correu
muito tempo. N’isso chegou outro soldado que tambem deu a você por morto
e enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que eu, apezar de ter
levado de táboa já uma vez, me apresentei de novo para casar com ella.
N’esse tempo D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse;
ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias ia lá; fiz muitos
quartos quando a minha sogra ficou a sahir d’este mundo. Então Babita,
para obedecer, eu sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se
commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.

E acrescentou:

—Agora estou ás suas ordens.

Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no tempo em que um gato passa
por cima de um brazeiro, estava calado e mais sombrio do que a noute que
vinha chegando.

As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que formavão uma só linha na
testa.

Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria poder não acreditar.

—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, vocês todos enganárão a
Babita. Foi você quem inventou a _embromação_ da minha morte.

—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! Caia ella no inferno se eu
estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aquelles soldados... E depois
olhe para mim, e veja se sou capaz disso...

Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou o portuguez.

O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do
coração do tropeiro: mas elle ficou mudo com a cabeça cahida sobre o
peito...

Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de todo é que no céo
havia umas nuvensinhas vermelhas que aos poucos ião perdendo as côres.

Os dous homens estavão calados.

De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:

—Você me perdôa?

Juca Ventura estremeceu todo.

—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de amargura, não bastou a você,
portuga de desgraças, me tomar a _minha_ noiva, me arrancar o coração,
pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha
alegria, quer tambem o meu perdão?...

—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem de honra, é homem
de bem, eu tambem sou. Da conversa de hoje é que vai sahir o futuro da
mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas
que me pertence _a mim_. Eu fallo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de
joelhos...

—Não, não!

—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu
perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher,
tem pena de meu filho!...

E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Juca
Ventura, mas com tanta dignidade que ninguem havia de vêr n’aquelle acto,
não uma baixeza ou medo, mas uma _menagem_ á desgraça do tropeiro.

—Levante-se, homem, disse em fim com muita pausa Ventura... Eu... vou
pensar.

E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.

—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... é signal que...
para mim... o passado, passado. Se... eu não fôr lá... é que parti para
nunca... mais ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui mora.

E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, na escuridão da
noite...

No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua entrada na cidade de
Uberaba.

Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que todos olhavão para elle,
conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito.
Parecião encarar alguem que sahia da cova para fazer cousas do arco da
velha.

Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já
fazião cruzes pelo que ia succeder sem falta, e alguns que muito a tôa
tinhão raiva do portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá no
coração sentião certa alegria, apezar de estarem a dizer por toda a parte
que o delegado de policia devia estar alerta se não quizesse vêr uma
desgraça feia.

Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de queixo cabido. Começou a
fallar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não
se admirava disso, porque tinha corrido a _rodella_ de sua morte, e mais
isto e mais aquillo e tanta cousa com socego tão grande que não se sabia
o que pensar se era disfarce ou não.

Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel ter-se
apresentado, como militar, ás autoridades que o receberão muito bem, o
abraçárão e o fizerão sentar, foi elle com sol alto parar á porta do
emboaba.

Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, e nem de
proposito, a casa estava cheia de freguezia que nada lhe comprava, é
preciso notar.

Juca Ventura _desapeou_ meio branco. O outro ficou um tanto amarello, mas
se adiantou a encontrar quem vinha entrando.

—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o traz a esta casa, disse o
portuga estendendo a mão.

O tropeiro mal a tocou.

—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito serio.

E accrescentou.

—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha della.

Houve um silencio grande.

Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para dentro:

—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e mulher hão
de vêr com gosto um conhecido antigo e amigo.

E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.

Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado Babita, a bella e
chorada Babita, com o filhinho no collo, como se fosse bandeira de
misericordia.

Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas mulheres, que de tudo
sabião, tinhão os olhos pregados no chão e choravão sem fazer barulho.

—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada
palavra.

Ninguem lhe respondeu.

—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a vocês todos... No meu
coração só guardo uma cousa: é tristeza para sempre.

Babita deu um soluço de desespero.

Ventura chegou-se para ella.

Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:

—E você é feliz?

—Chico... Luiz... é... o... pae de meu filho.

—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal...
Adeos, adeos!

As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até não poder mais.

Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do portuguez, lhe apertou
uma outra vez a mão.

       *       *       *       *       *

Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro
tempo, mas já não era o mesmo _de dantes_. Calado sempre, só achava gosto
no trabalho.

A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia festas e mostrava
amizade. Não se mettia com pessoa alguma, nem queria que se mettessem com
a vida d’elle.

Uma vez, porém, sahio do sério.

Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado,
e que se lembrou de fallar da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta
pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo.

Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher com Juca Ventura.

Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando
o seu lóte de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a
gente vê bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando por
dentro.

    _Longes_ terras viajei
    Padeci muito na vida.
    E o Deus de compaixão
    Não me quer findar a lida.

    Faço força para ter
    Paciencia, meu senhor:
    Mas debalde aperto o peito
    Atravez rompe-me a dôr.

    Coração, meu coração,
    Á razão porque não cedes?
    Se não ha poder no mundo
    Que te dê o que tu pedes...

    Porque, pois, tanto affligir?
    Palpitar com violencia?
    O destino já fallou
    E foi falla sem clemencia.

    Golpes duros contra mim
    Desfechou sorte perjura,
    Mas, cruel, deixou-me o nome,
    Por chacóta, de Ventura.

    Sim, ventura hei de emfim ter
    Quando a morte apparecer.
    Sim, ventura sentirei,
    Quando me sentir morrer.


FIM DE JUCA, O TROPEIRO.



NOTAS


[1] Como em geral todas as denominações de lugares do districto de
Miranda, é este nome de origem guaycurú e significa—_bando de trairas_.

[2] Agaxi é corrupção da palavra _Euagaxigo_, que quer dizer—_bando de
capivaras_.

[3] Está muito bom?

[4] Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro tribus em
que se divide a nação chané: terenos, laianos kinikináos e guanás.

[5] Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil.

[6] Coitado! Está doente de febres!

[7] Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro.

[8] Estrella, em dialecto guaná.

[9] Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era kinikináo.

[10] Taquaral.

[11] Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados portuguezes.

[12] Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar as pessoas de
importancia. Ás vezes dizem simplesmente: ó senhoria!

[13] O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore que annualmente se
cobre de flores grandes e amarellas. Os indios contão os annos pela época
da florescencia.

[14] Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento de muito respeito.

[15] —Adeos.

[16] —Adeos. A differença entre as duas palavras provém de que a primeira
é a despedida de quem parte e a outra a saudação de quem fica.

[17] Em Matto-Grosso toda a casa de palha é chamada _rancho_.

[18] Nome geral que os paraguayos dão aos indios de Matto-Grosso.

[19] Frei Marianno esteve sempre em rigoroso carcere e só foi salvo
no dia 12 de Agosto de 1869 pelos brazileiros depois da batalha de
Campo-Grande.

[20] Deu-se este facto com diversos cadaveres, indios e paraguayos,
devido naturalmente á natureza eminentemente salina de todo o terreno do
districto de Miranda e principalmente das margens do Aquidauána.

[21] Diminutivo familiar de Clotilde em todo o interior.

[22] Apaixonadas.

[23] Talento em linguagem sertaneja é força, robustez.

[24] Já se vê que a necessidade da rima é que levava o nosso cantor a
esses disparates.

[25] O cabo de esquadra de que se trata existiu com effeito e tinha
aquelle honroso e singular appellido. Mandado de Uberaba a reunir-se
ás forças expedicionarias de Matto Grosso, portou-se sempre com muita
coragem e falleceu de cholera morbus em fins de maio de 1867. _Tres
contra quatorze_ havia sido, pelo que contava elle, uma sua façanha
praticada na guerra do Rio Grande do Sul, durante a luta dos _farrapos_.

[26] Desmoralisados.

[27] Fortaleza.

[28] Vestido.



INDICE


                                         PAG.

    Ierecê a Guaná.                       11

    Da mão á boca se perde a sopa.        67

    Camiran a Kinikinao.                 119

    O Vigario das Dôres.                 155

    Juca, o Tropeiro.                    183

TYP. DE Pinheiro & C.ª RUA SETE DE SETEMBRO N. 157





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Historias Brazileiras" ***

Doctrine Publishing Corporation provides digitized public domain materials.
Public domain books belong to the public and we are merely their custodians.
This effort is time consuming and expensive, so in order to keep providing
this resource, we have taken steps to prevent abuse by commercial parties,
including placing technical restrictions on automated querying.

We also ask that you:

+ Make non-commercial use of the files We designed Doctrine Publishing
Corporation's ISYS search for use by individuals, and we request that you
use these files for personal, non-commercial purposes.

+ Refrain from automated querying Do not send automated queries of any sort
to Doctrine Publishing's system: If you are conducting research on machine
translation, optical character recognition or other areas where access to a
large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the use of
public domain materials for these purposes and may be able to help.

+ Keep it legal -  Whatever your use, remember that you are responsible for
ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just because
we believe a book is in the public domain for users in the United States,
that the work is also in the public domain for users in other countries.
Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we
can't offer guidance on whether any specific use of any specific book is
allowed. Please do not assume that a book's appearance in Doctrine Publishing
ISYS search  means it can be used in any manner anywhere in the world.
Copyright infringement liability can be quite severe.

About ISYS® Search Software
Established in 1988, ISYS Search Software is a global supplier of enterprise
search solutions for business and government.  The company's award-winning
software suite offers a broad range of search, navigation and discovery
solutions for desktop search, intranet search, SharePoint search and embedded
search applications.  ISYS has been deployed by thousands of organizations
operating in a variety of industries, including government, legal, law
enforcement, financial services, healthcare and recruitment.



Home