Home
  By Author [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Title [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Language
all Classics books content using ISYS

Download this book: [ ASCII | HTML | PDF ]

Look for this book on Amazon


We have new books nearly every day.
If you would like a news letter once a week or once a month
fill out this form and we will give you a summary of the books for that week or month by email.

Title: A Gratidão
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
As this book started as an ASCII text book there are no pictures available.
Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Gratidão" ***

This book is indexed by ISYS Web Indexing system to allow the reader find any word or number within the document.



of public domain material from Google Book Search)



A GRATIDÃO.


      *      *      *      *      *



A GRATIDÃO.

ROMANCE.


I.

Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa
de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve
não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam
soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e
tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.

Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com
difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A
criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio,
e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas
frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com
uma energia superior á sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao
lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais
pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo
modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega.

--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha.

--Em meio caminho, minha avó.

--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres
pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.

--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada.

--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome,
e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que
me sinto desfallecer...

Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.

--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o
peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.

A cega não deu accordo de si.

--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me
abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?

--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus,
não permittaes tal.

--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio
matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.

--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.^a
D. Thereza receber-nos-ha?

--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a
boa snr.^a D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres
silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes,
que desejava que eu fosse sua filha.

--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel;
agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e
cega, que para nada sirvo.

--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores,
que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu
trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.

A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou
palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que
Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o
caminho de S. Cosme.

O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e
pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com
frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a
pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou,
e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior
abundancia.

--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me
ficar.

--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme.

--Estás bem certa d'isso?

--Eu não queria mentir...

--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.

--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou
fatigada. Encoste-se ao meu hombro.

--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.

Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. Thereza de Sousa, depois
de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta.

Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na
cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que
desfalleceram.


II.

D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para
serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado
todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal
era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos
do lar, em que ardia uma grande fogueira.

--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a
esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.

--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta.

--Sim, snr.^a D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho
fallado a v. exc.^a e...

--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza.

A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma
tal expressão de supplica, que a commoveu.

--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma
cousa, não é assim?

--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a
custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era
rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado.
Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um
homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a
casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo
para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me
acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito
mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma
molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.

Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a
rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:

--Para hoje já é de mais, ámanhã...

--Perdôe-me, snr.^a D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu
termine hoje,--e continuou:

--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de
cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que
minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha
mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:

«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?

Trabalharei, lhe respondi.

És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te
receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua
avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde,
abraçou-me e á avósinha, e expirou.»

Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e
soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por
não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora,
pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão
desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a
lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro.
Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de
satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos
pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e
faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a
Deus pela vossa vida e felicidade.

D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica,
que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.

--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos
deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não
tenha piedade de ti.

Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a
de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e
quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças.


III.

Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como
estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se
cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.

Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois
de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar
terreo.

--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.

--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde;
mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para
o que me determinardes.

--E tua avó?

--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade
d'ella.

Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.

D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa.
Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas
propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.

Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que
tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa
sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando
_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.

Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com
a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os
olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a
uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel
resistir.

N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria
injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo
bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito
fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer
dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de
compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues
escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem
menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma
criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui
desenvolvida.

A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos,
mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais
abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das
casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar,
e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.

Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das
pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a
fidalguinha.

Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas
qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a
conhecia adorava-a.

O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou
n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução
de recolher a avó e a neta.

--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D.
Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque
espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.

--Então fico em casa de v. exc.^a?--disse Rosa, não podendo crer em
tanta ventura.

--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender
do que hoje faço.

--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para
vos agradar e satisfazer os vossos desejos.

--Assim o espero. Anda vestir-te.

--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.

D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:

--Que queres a tua avó?

--Ella tambem fica?

--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica
bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.

--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me
querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria
de paixão.

Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.

--E que has-de fazer na tua aldêa?

--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da
sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho
coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o
verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a
pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para
ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...

D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.

--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa
para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a
tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.

Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me
impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas
de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa,
agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo
fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada
dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua
gratidão.


IV.

Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa.
Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal;
depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava,
fiava na sua roca.

Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto
vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como
o faria a melhor mulher de casa.

D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela
ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a
impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho
era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.

Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta
estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de
corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de
calices perfumados.

Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os
caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado,
as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha
encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz
na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada
diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como
se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e
animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que
guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza
exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.

Ganharam renome os cestos de Rosa.

Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e
até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios,
compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.

D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu
que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a
fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou.
Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra
dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.

Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua
resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom
resultado do negocio de cestos e flôres.

O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal
maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a
esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella.
Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para
fazer esquecer as suas faltas involuntarias.

Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi
augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e
flôres.

D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella
um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que
Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do
lugar.

A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal
respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza,
tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.

A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam
julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em
que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas
infelizes, não estava longe.


V.

Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi
com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres,
suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
mercado.

Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no
anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas
vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia
esta linda criança por algum tempo.

Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de
voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as
freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira;
mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia
sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.

Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha
aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter
um livro para se entregar á leitura.

D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto
que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos
fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus
desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter
terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.

Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a
colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe
aproximou uma senhora ainda joven.

--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a
joven senhora com modo affavel.

Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:

--Faço cestinhos com flôres para vender.

--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por
isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente
has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?

--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a
satisfazer, vou já preparar o vosso.

--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?

--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.

--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os
ires vender?

--Sim, minha senhora.

--E teus paes em que se occupam?

--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.

--És orphã, e onde moras?

--Estou em casa da snr.^a D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme,
tão boa, como rica.

Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de
recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos
comido, quando de repente me lembrei da snr.^a D. Thereza. Eu e minha
avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho
para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião
julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas
o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A
snr.^a D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua
casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.

--Amas então muito a snr.^a D. Thereza?

--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que
nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir
d'utilidade.

--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando
te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não
encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.

Parece-me que o meu cesto está acabado?

--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora,
que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais
frescas, e em mais abundancia.

--Ide, que aqui te espero.

Rosa partiu correndo.

D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D.
Thereza, tinha vinte annos.

O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe
sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um
brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma
palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.

Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha
consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham
aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios
mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto
deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma
quinta proximo da serra de Vallongo.

D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava.
Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á
sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao
principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos
prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão
soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou
obter o triumpho sobre a molestia.

D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não
temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas
phantasias.

A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus
passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade,
orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar
sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com
esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem
ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo
D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As
mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só
imperava o egoismo.

Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou
encantada com a sua innocencia.

Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não
voltasse, quando a viu vir correndo.

--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui
muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o
meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia
um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa,
a sua apreciação.

Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.

--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada
tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te;
mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.

Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as
folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e
em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e
geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos
formando as azas.

--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que
uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro,
cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto
queres por este trabalho?

--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras
minhas freguezas.

--Mas quanto é que custam ordinariamente?

--Tres ou quatro vintens.

--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.

--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.

--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito
maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho.
Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta
hora apparece aqui, e fallaremos...

--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.

--Queres fazer-me zangar?

--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu
não preciso de nada; a snr.^a D. Thereza é muito minha amiga e...

--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de
prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz,
de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.

E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha
desapparecido, levando na mão o cestinho.

Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou
ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D.
Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e
perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.

--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um
presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te.
Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro,
com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.

--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu
pensamento, e que me causa tanta alegria.

--Que é então?

--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.

--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não
has-de gastar mal gasto.

Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas
de flôres e cestos.


VI.

D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha
determinado.

A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
caminho, ao encontro de sua filha.

--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.

--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa
da minha demora.

E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.

--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a
prenda de fazer cestos de juncos entrançados.

--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.

--Então quem foi?

--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.

--Uma lavradeira?!

--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este
trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?

--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu
coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua
simplicidade.

--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não
queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz
que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e
se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do
interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome
sob a minha protecção?

--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a
tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e
accordaremos no que devemos fazer para seu bem.

D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua
bondade.

N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.

D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e
correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e
tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto,
desceu á sala a buscal-o.

D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.

--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse
D. Julia.

--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo.
Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.

--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia
ter melhor gosto.

--Rosa?

--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive
esta manhã. Ora ouve.

D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera
com Rosa.

Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.

--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é
assim?--disse D. Bertha.

--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a
torna digna da protecção, que se lhe dispensar.

--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que
sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides,
que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te
o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?

--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.

--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que
liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins,
concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que
só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.

--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não
admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia.
Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa
mãi, vêr Rosa?

--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem
amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha
nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar
uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um
tanto aborrecivel.

--Rosa é muito linda e interessante.

--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para
mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse
D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai
pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para
onde espero ir muito breve.

Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas
com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.

D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.

Alguns instantes depois deu principio ao quadro.


VII.

No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu
trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão
amavel e generosa tinha sido com ella.

Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D.
Julia, tinha terminado o seu serviço.

Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas
d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com
attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para
exprimir a sua alegria e enthusiasmo.

Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada
da viscondessa e de sua filha D. Julia.

--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a
viscondessa.

Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:

--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos.

--E encontras grande prazer na sua leitura?

--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato,
ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha
alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe
em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que
nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.

A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do
campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.

--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.

--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de
santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos
d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de
geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não
leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.

--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te
proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?

--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque,
para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.

--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.

--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.

--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos
conduzisses a casa da snr.^a D. Thereza, e, se a tua protectora estiver
satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á
mestra. Então não respondes?

--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria
agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?

--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.^a D. Thereza, e isso
indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires;
mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a
viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.^a D.
Thereza.

Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha.
Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas,
que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas
senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.

Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia
tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras
cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e
morno.

D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.

Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu
sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa,
manteiga e um copo de leite.

D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e,
reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.

A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de
clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance
antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria
capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi
morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos
seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.

A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta,
prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.

--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a
viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante
convosco.

--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a
cega--estou portanto ás vossas ordens.

--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a
vossa neta?

--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella,
que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa
d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era
rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu
passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia
de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu
conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa
nos ha-de recolher. E foi verdade.

A snr.^a D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a
Deus todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua
casa uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha,
porque ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o
coração, commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui
nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha,
senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á
noite. Em quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e
no campo, e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que,
quando se recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e
se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia
muito tempo.

Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não
chegas a mim para te dar um abraço?

Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se
retirado, quando a avó começára a elogial-a.

A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito
pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.

Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a
D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a
tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.

--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e
venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me
d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe
procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não
prohibireis vir algumas vezes visitar-me.

--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém
interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.

D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:

--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?

--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me
embora?

--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina
da cidade, instruida e de maneiras polidas?

--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços
da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de
me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos,
antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora,
quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome,
e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma
utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.

--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos,
razos de lagrimas.

--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse
a viscondessa.

--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua
companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.^a D.
Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade
publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se
assim fallo...

--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa
interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu
desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.

Não tenhas receio, que te separemos da snr.^a D. Thereza. Pediremos
sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos
beneficios, que te prodigalisa.

--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o
tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um
sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver
mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.^a D.
Thereza me não negará este favor, e prazer.

--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu
serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.

--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.^a D.
Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua
avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um
vestido novo.

E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a
viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo
voltar muito breve á quinta.

D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até
ámanhã».

Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D.
Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.

--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.

--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o
espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje,
mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas
mais gratas e queridas recordações.


VIII.

D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso,
que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se
tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a
sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e
muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as
lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da
viscondessa.

Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que
Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a
discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous
mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse
bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar
sósinha, durante o inverno.

Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter
deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.

A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia
sahir do quarto.

Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida,
quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter
as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma
cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não
aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.

N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por
aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os
mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo
que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço
de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus
livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.

D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a
lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha
podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma
lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para
socegar a inquietação de D. Julia.

Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor;
sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto
haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.

A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava
irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e
resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.

D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã,
consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto
amava.

Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em
deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá
voltar se peorasse.

Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde
conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a
desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era
baldado, por que Rosa estava inconsolavel.

Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe
aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes.
A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma
bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.

--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis,
que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para
que se augmente este capitalsinho.

É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa
mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.

Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.

--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó.
Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos
será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor,
para que me dê saude.

Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A
viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas
consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou
Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre
menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia,
que, com um olhar maternal, a abençoava.


IX.

Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto,
e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança
affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra
causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza,
que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os
meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia
veio confirmar as prevenções de D. Thereza.

D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula.
Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada,
e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e
embargar-lhe o seu progresso.

Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus
estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.

Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D.
Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que
tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as
arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com
fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas
fossem attendidas.

Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais
vigor.

Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo
um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para
isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e
julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde,
de que ella admirasse o valor e o gosto.

Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado,
chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe
parecia.

Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas
julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora
voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.

Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar
dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.

Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e
partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.

Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.

--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar
remedio.

O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.

Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser
muito vigilante, era boa e justa.

Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos
os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e
actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião,
ainda bem não estavam dadas.

Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e
esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.

A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em
não poder fazer cousa alguma.

De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.

Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á
noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que
D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria
mais uma palavra, nem faria um unico movimento.

Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará
dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.

D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D.
Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.

D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em
intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua
irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas
sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua
herança.

Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu
ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó
inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã
voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.

D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem
falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as
faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e
intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar,
naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos
moribundos não lhe foi permittido.

O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á
moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito
consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se
de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada
apertada nas suas.

--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha
segunda mãe no tumulo.

Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns
murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre
os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao
céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.

Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da
quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a
de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as
ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas,
que fechava com cuidado, guardando as chaves.


X

Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito
da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D.
Thereza.

--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é
inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e
ella não podia desherdar-me.

--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever,
por que a lei protege os direitos de todos.

--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem
filhos.

--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?

--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de
me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que
ella teve a phantasia de recolher em sua casa?

--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua
irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua
estima e amisade.

--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia
com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas
velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz
eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe
lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...

--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição
offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e
minha avó recebemos da snr.^a D. Thereza?

O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D.
Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão
tão vergonhosa, e feia.

Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as
suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que
Rosa não pôde refrear a sua indignação.

--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me
injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria
para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante
de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela
apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma?
Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu
e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais
insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou
forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem.
Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que,
logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.

Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou
corrida de vergonha.

Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro
a D. Thereza.

A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito.
Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da
campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as
duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.

O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia
recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.

--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.^a Maria da Gandra,
que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.

A snr.^a Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos
os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida
de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.

--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella
logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha
casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da
Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua
avó.

--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com
que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e
sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada
uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó,
que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.^a D.
Thereza, e receba as minhas inscripções.

--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.^a Maria da Gandra--Não
preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como
obtiveste essas inscripções?

--A snr.^a D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis,
com os quaes a snr.^a D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou
duas inscripções em meu nome.

--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque
d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim
como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir
ao vosso quarto.

Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.

A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e
trabalhadeira, que a snr.^a Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella
e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e
com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que
lhe podia apparecer.

No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza,
Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.

Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que
tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não
pôde reter as lagrimas.

Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava
por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos
dinheiro, do que imaginava.

Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de
surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava
um accento de triumpho.

--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter
_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria
acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.

O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo
tamanho, não pertencia de certo a Rosa.

--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui
parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando
pelo rubôr, que lhe cobre as faces.

--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança
é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que
fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto
dar-me as explicações, que tiver a fazer.

Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este
vestido se acha na tua caixa?

Rosa fez-se muito corada e respondeu:

--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.

--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.

--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.

--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de
flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.

Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos:
entregava-me a snr.^a D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas
pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a
snr.^a D. Thereza no seu dia natalicio.

Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a
minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar
a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da
snr.^a D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha
bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de
lh'a apresentar.

Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e
grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes.
Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar
a verdade.

Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do
desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse
possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde
conseguil-o.

Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó,
apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o
que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais
cruel e mais requintada avareza as expulsava.


XI.

Estamos no anno seguinte.

Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão
affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente
desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.

Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe
seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada
da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a
sua querida amiga e preceptora.

Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que
D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua
amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha
estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre
ellas.

D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé;
mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que,
quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
desvelos, de que a cercava a viscondessa.

Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora.
D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber
minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha
retirado para o Porto.

Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.

A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo,
ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.

Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal,
que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.^a Maria da
Gandra.

--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.^a Maria da
Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande
pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei
uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.

A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.^a Maria da Gandra toda a
despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e
digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa,
e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham
despendido.

A despedida de Rosa e da snr.^a Maria da Gandra foi pathetica, e só a
muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra,
promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a
snr.^a Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se
lhe não tributasse um profundo reconhecimento.

A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia
viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois
de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante
ventura lhe succedesse.

--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora
da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para
ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.

Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos,
muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha
exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com
muita censura e reparo de D. Bertha.

--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D.
Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas
mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde
affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?

--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam
uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em
tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.

--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e
attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta
contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de
deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel
dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia,
era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas
infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha
sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que,
procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D.
Bertha, era um trabalho improbo e esteril.

D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua
discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A
fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.

D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.

--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma
educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não
receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?

--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de
ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante
instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz
podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e
rustica; uma boa menina, a snr.^a D. Julia, filha da snr.^a viscondessa
do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me
ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se
me amaes, deveis igualmente amar a snr.^a D. Julia, minha bemfeitora; e
então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»

--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha
filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles
se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.

A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia,
dava as lições a Rosa.

Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber
dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella
cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o
seu coração.

D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas
nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e
periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de
braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a
poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos
proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.

D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua
mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz,
_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda
faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os
confirmar.

A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da
sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que
repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.

--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar
d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha
commettido, que mereça semelhante castigo.

--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou
certa nunca te ha-de desamparar.

Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando
distrahil-a por todos os meios possiveis.

O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo
Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um
terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os
merecer faria o impossivel se necessario fosse.


XII.

D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono,
época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.
A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo
fatal, era geral.

Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes
apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.

A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença,
começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma.
Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que
D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia
de privar da sua protectora.

A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não
passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a
sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham
enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.

Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,
que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e
affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na
época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;
tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
esperança e crença.

Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados
lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com
reconhecimento esta nova prova d'affecto.

Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a
que mais a impressionou.

Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama
de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e
prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,
para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a
sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo
a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe
ser dirigida.

Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse
alteração sensivel.

Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos
campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a
que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.

Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da
communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida
progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma
professora.

A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.

Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e
abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava
de ser concedido o titulo de capacidade.

Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder
dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam
constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve
desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era
perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas
faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus
erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto
afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito
tempo.

Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu
estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia
um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e
querida de sua filha.

D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado,
confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.

O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou,
foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma
excellente professora.

Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados,
dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera
viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e
ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
viver.

Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o
estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a
molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande
violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das
outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança
alguma de a salvar.

A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já
não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava
a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e
tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o
mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal
sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não
tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas
virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.

D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima
graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida
discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em
Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,
que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e
a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella
encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;
abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha
mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a
glorificação de suas virtudes.

Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para
o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela
pureza em que sempre vivera.


XIII.

Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo
antecedente.

Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme,
pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella
conduz, que tem lugar o que passamos a contar.

Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio,
e commovidas.

A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.

O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto
tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos
embranquecidos antes do tempo.

A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito
annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos
ramos e cestinhos.

A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois
d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.

--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta
visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a
não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?

--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a
minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje
melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por
que, quem sabe se recahirei?

--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter
muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura
e reconhecimento.

--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as
tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre
lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo?
Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo,
a que chamam mundo?

--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que
vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?

Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até
o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os
braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.

--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo
Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos,
e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida
filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era
merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser
pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia,
para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa,
minha filha querida.

Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.

As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente,
o que a commoção lhe embargava nos labios.

Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.

A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha,
mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual
ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades
viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas,
que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das
flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que
se estabelecera entre ella e D. Julia.

A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa
d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na
morte.

Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de
flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não
estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.

--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto
da campa de minha avó.

--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.

Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples.
Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus
dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade
affectuosa da sua bemfeitora.

Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
diversas flôres, semelhava um jardimsinho.

Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum
tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo
ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.

Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora
D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se
havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de
capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que
enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.

Rosa apresentou esta carta á viscondessa.

--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.

--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero,
senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e
chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia
e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre
ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!

--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou
a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me
levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?

--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha
ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos
beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia.
Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos
cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa,
por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha
adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso
lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento:
Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e
apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é
mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração,
quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças,
que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha
muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás
pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a
snr.^a D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte,
que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu
espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem
dizer os nomes da exc.^ma viscondessa do Candal e de sua filha.»

--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os
olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que
me fazes nascer no coração com as tuas palavras.

      *      *      *      *      *

Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia
perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao
professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe
concedido por unanimidade e com distincção.


XIV.

Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e
Sousa o seu titulo de capacidade.

Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra
ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na
frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos
verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim,
muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um
caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão
deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma
levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se
um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que
vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou
menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do
campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de
Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com
castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.

N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está
sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella,
está dizendo os nomes das suas discipulas.

A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na
expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.

O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas,
indica que se espera alguem.

O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este
momento pelo portão.

Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por
quem se esperava.

A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e
conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.

As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o
abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:

«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para
a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla,
devida á muita philantropia e caridade christã da exc.^ma viscondessa do
Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.^a D.
Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal
sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre
vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.^ma
viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é
assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter
uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas
vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa
pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze
annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos
de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que
reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com
ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a
achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.^ma snr.^a
D. Julia, filha da exc.^ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha,
a quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta
professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.^ma snr.^a D. Julia
voou á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e
das boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe,
que foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.

«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem,
porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica
recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido
sempre fareis por merecer.

«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o
premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao
trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez
não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação
das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
futuro.

«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»

Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.

A conferencia dos premios foi esplendida.

Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham
sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva,
todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria,
que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
distribuição.

Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um
bem servido _lunch_.

--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres
e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia,
como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa,
attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha
querida, e chorada Julia.

--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa
prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.

      *      *      *      *      *

O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e
a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda
hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D.
Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos
beneficios que recebera.


FIM.


      *      *      *      *      *

Nota do transcritor:

A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que
continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O
Arrependimento.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Gratidão" ***

Doctrine Publishing Corporation provides digitized public domain materials.
Public domain books belong to the public and we are merely their custodians.
This effort is time consuming and expensive, so in order to keep providing
this resource, we have taken steps to prevent abuse by commercial parties,
including placing technical restrictions on automated querying.

We also ask that you:

+ Make non-commercial use of the files We designed Doctrine Publishing
Corporation's ISYS search for use by individuals, and we request that you
use these files for personal, non-commercial purposes.

+ Refrain from automated querying Do not send automated queries of any sort
to Doctrine Publishing's system: If you are conducting research on machine
translation, optical character recognition or other areas where access to a
large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the use of
public domain materials for these purposes and may be able to help.

+ Keep it legal -  Whatever your use, remember that you are responsible for
ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just because
we believe a book is in the public domain for users in the United States,
that the work is also in the public domain for users in other countries.
Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we
can't offer guidance on whether any specific use of any specific book is
allowed. Please do not assume that a book's appearance in Doctrine Publishing
ISYS search  means it can be used in any manner anywhere in the world.
Copyright infringement liability can be quite severe.

About ISYS® Search Software
Established in 1988, ISYS Search Software is a global supplier of enterprise
search solutions for business and government.  The company's award-winning
software suite offers a broad range of search, navigation and discovery
solutions for desktop search, intranet search, SharePoint search and embedded
search applications.  ISYS has been deployed by thousands of organizations
operating in a variety of industries, including government, legal, law
enforcement, financial services, healthcare and recruitment.



Home