Home
  By Author [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Title [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Language
all Classics books content using ISYS

Download this book: [ ASCII | HTML | PDF ]

Look for this book on Amazon


We have new books nearly every day.
If you would like a news letter once a week or once a month
fill out this form and we will give you a summary of the books for that week or month by email.

Title: Lagrimas Abençoadas
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
As this book started as an ASCII text book there are no pictures available.
Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Lagrimas Abençoadas" ***

This book is indexed by ISYS Web Indexing system to allow the reader find any word or number within the document.



scanned images of public domain material from Google Book
Search)



Nota do transcritor:

    Foram corrigidos diversos erros tipográficos menores, sem que seja
    feita qualquer menção desse facto. As marcas [NT] identificam as notas
    explicativas das alterações importantes ao texto original.


OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

LI

LAGRIMAS ABENÇOADAS


VOLUMES PUBLICADOS

N.^o 1--Coisas espantosas.

N.^o 2--As tres irmans.

N.^o 3--A engeitada.

N.^o 4--Doze casamentos felizes.

N.^o 5--O esqueleto.

N.^o 6--O bem e o mal.

N.^o 7--O senhor do Paço de Ninães.

N.^o 8--Anathema.

N.^o 9--A mulher fatal.

N.^o 10--Cavar em ruinas.

N.^os 11 e 12--Correspondencia epistolar

N.^o 13--Divindade de Jesus

N.^o 14--A doida do Candal.

N.^o 15--Duas horas de leitura.

N.^o 16--Fanny.

N.^os 17,18 e 19--Novellas do Minho.

N.^os 20 e 21--Horas de paz.

N.^o 22--Agulha em palheiro.

N.^o 23--O olho de vidro.

N.^o 24--Annos de prosa.

N.^o 25--Os brilhantes do brasileiro.

N.^o 26--A bruxa do Monte-Cordova.

N.^o 27--Carlota Angela.

N.^o 28--Quatro horas innocentes.

N.^o 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico!

N.^o 30--A filha do Doutor Negro.

N.^o 31--Estrellas propicias.

N.^o 32--A filha do regicida.

N.^os 33 e 34--O demonio do ouro.

N.^o 35--O regicida.

N.^o 36--A filha do arcediago.

N.^o 37--A neta do arcediago.

N.^o 38--Delictos da Mocidade.

N.^o 39--Onde está a felicidade?

N.^o 40--Um homem de brios.

N.^o 41--Memorias de Guilherme do Amaral.

N.^os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.

N.^os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.

N.^os 47 e 48--O judeu.

N.^o 49--Duas épocas da vida.

N.^o 50--Estrellas funestas.

N.^o 51--Lagrimas abençoadas.



CAMILLO CASTELLO BRANCO


LAGRIMAS ABENÇOADAS


ROMANCE


QUARTA EDIÇÃO

1906

Parceria Antonio Maria Pereira

Livraria editora e Oficinas Typographica e de Encadernação

Movidas a electricidade

_Rua Augusta--44 a 54_

LISBOA


1906

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO

Movidas a electricidade

Da Parceria Antonio Maria Pereira

_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.^o andar_

LISBOA



A QUEM LER


QUE FELICIDADE É POSSIVEL SOBRE A TERRA: tal é o pensamento d'este
romance.

QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIENCIA, É A UNICA VERDADEIRA:
quizera eu poder provar, assim como posso sentir.

QUE A FELICIDADE VEM A PREÇO DE LAGRIMAS, COMO A CONSOLAÇÃO DO
SALVAMENTO A PREÇO DAS AGONIAS DO NAUFRAGIO: é um paradoxo, talvez, para
os que não conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lagrimas
abençoadas da resignação.

Este romance é religioso na essencia. Escreve-se ahi muitas vezes a
palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos,
gastos do coração, e fallidos da alma. Os que buscam no romance qualquer
cousa que não sirva de nada para o espirito, não leiam este.

Eu espero achar entendimentos que m'o recebam, e corações que m'o
agradeçam.

Vereis ahi uma mulher, que não é uma chimera. Imaginei-a, primeiro, e
encontrei-a fóra da imaginação, depois.

Maria, linda creatura da terra, é a rainha de dois diademas: um no céo:
os anjos, seus irmãos, tecem-lh'o das flores, que ella rega no mundo com
as suas lagrimas. Outro na terra: é a soberania da virtude, respeitada,
embora não compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho.

Eu sou um d'estes.

E o meu romance é uma palavra d'esse cantico de louvor, que o espirito
não póde revelar aos que, no seu caminho, não parariam a
compreender-lh'o.

Meditemos este assumpto.

Ha ahi n'esse mundo material uma decidida negação para acompanhar o
espirito nas suas elevações. Eu sei-o.

Um ou outro homem encosta a face á mão, abraça os horisontes com uma
vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos
pinhaes; compõe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e
desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de commum com a fraca
natureza humana. É o sentimental.

O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira.

O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos, é uma
exigencia da epoca, é um encargo que a mocidade se impoz, é a precisão
de variar. Diga-se tudo: é a moda.

Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem precise inventar
amarguras, para que a felicidade o não enjoe;

Não porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal,
respirar o elemento de vida, que lhe é proprio;

É porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos não deixam no coração
motivo para um hymno. O homem, que não póde apagar na mente a faisca do
genio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou
abysma-se com ella, por feretros e ossadas até materialisa'-la nas
fórmas repugnantes de uma dor monstruosa.

E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o genio fallece-lhe
de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das
flores em troca da corôa de espinhos; é preciso cantar.

Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste,
em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo...

Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as
alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe
pinta ingrato á sua alma candida, se refugia aos pés de Maria, Rainha
das Virgens, a pedir-lhe o céo, como repouso inviolavel da innocencia...

Se lhe pedisseis a doçura das lagrimas da pobre, que aconchega seus
filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os á
Providencia, para que, ao amanhecer, não sejam muito repetidos os seus
gritos de fome...

Pedi.

O poeta ha-de dizer-vos que a luz do céo é esse oceano de luz, que banha
a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um
sol esplendido.

Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio immaculado, mas
esperanças todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixões
terrenas.

O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de
romance, é sempre a victima da má organisação social, e de uma mentirosa
economia politica. Vê'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia
de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da
miseria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céo, e das
promessas de Jesus Christo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras
que guerreiam o rico.

Eu pensei, uma vez, na vastidão de assumptos sobre que o sceptro do
talento extende o seu imperio. Chamando á reminiscencia o acervo de
leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus
tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e
não poderei classificar-vos, em synopse de idéas, uma só que me
prestasse ao espirito, ou ao coração, ou á cabeça.

Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse.

Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o coração contaminado m'a
inspirasse.

Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia
fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos
para o espirito.

Vislumbravam-me no escuro das minhas idéas religiosas uns clarôes
pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos
infortunios. Mas, que me pedissem a idéa formulada no livro! Faltava-me
a convicção das virtudes do balsamo para saber applica'-lo á ferida.

Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a
taça do Evangelho, á borda do caminho, e dizer ao peregrino cançado:

Bebe!......................................

Dão-vos tedio estas minhas considerações? Não são vaidosas. Eu juro-vos
que me doeria muito se uma verdade, esboçada com amplos contornos, não
valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado
estylo.

O que está dito é o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-n'o
laconicamente n'uma idéa conceituosa.

Sei em que tempo escrevo, e comtudo, ouso nos estreitos limites de que
posso dispôr, ajustar em molde christão um genero, raras vezes assim
tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estylo, quer pelas
leis da escola.

Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa uma virtude, porque não
desafinarei, em quanto possa, a lyra em que fiz soar algumas poesias,
unicas de que me não culpo, nem arrependo. As outras...

Se eu pudesse avaliar a vossa opinião, consolava-me de não ser enganado
pela minha consciencia de christão e de artista.

Porto--em 1853.



LAGRIMAS ABENÇOADAS



LIVRO I


I

Disseram muitos dos que estavam em redor de uma creancinha, na pia do
baptismo, que na face d'ella havia uma luz mysteriosa, como a projecção
de um cirio invisivel, que, n'aquelle instante solemne, allumiasse, nas
mãos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Visão de boas
almas.

Era uma menina de nove dias.

Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no
seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os
olhos extaticos no céo, como seguindo o trilho de estrellas por onde,
aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO.

Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de
general em chefe, com o seu thesouro de condecorações guerreiras a
cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais,
por isso, em coração de homem.

Seu pae era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram n'esta terra,
valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como
aquelle de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não
denunciar o que lhe fôra amigo desleal, embora traidor ao rei D. João
II.

Era o coronel... que vos importa o nome?!...

Sua mãe nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e
docilidade, emancipára-se donzella de todas as virtudes, casára-se,
mulher, exemplo das mais santas affeições de um marido, e fôra mãe como
póde se'-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho,
depois que Jesus Christo rehabilitou a fascinada da serpente, depois que
a filha de Eva entrou no seu reconquistado Eden, a colher a flor da
dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria.


II

Este dia, jubilo de anjos, para os quaes os orvalhos do céo, fecundando
as aguas do baptismo, geram na terra um irmão; jubilo de seus paes, que,
depois de quatro filhos, tinham um novo penhor de innocencia para, em
seu nome, agradecer, com labios puros, as esmolas do céo; jubilo da
egreja catholica, que estremece de felicidade, quando entra em seu seio
um filho, que lhe gosta o leite da virtude, como sustento da
immortalidade: este dia amanheceu em 1827.

Maria era o incentivo de tanta alegria. Nos braços de sua mãe, com o seu
olhar errante pelas faces desmaiadas d'ella, que parecia sorve'-la com
os seus beijos, como se aquelles fossem os ultimos; Maria, a afilhada da
Senhora da Conceição estava alli asseverando o que tantos diziam da luz
mysteriosa, que na pia do baptismo, lhe illuminava a face.

A pureza dos anjos, não será como a santidade do predestinado!? E o
justo, na ultima hora da sua passagem na terra, quando o anjo da
serenidade lhe alveja o rosto com as suas azas transparentes, não será
como a creancinha immaculada, cuja alma vem brincar-lhe ao rosto com
toda a pureza e innocencia, que o halito creador lhe bafejou!?

A mãe de Maria chorava e as suas lagrimas desconsolavam o pae, que as
não queria ver n'aquelle dia, n'aquella hora, tão faustosa, tão de gala
para os parentes, que se abraçavam em redor do leito.

Mas fossem calar-lhe o presentimento no coração! Digam á flôr que não
penda amortecida sobre a haste, quando o sol se esconde! Digam ás
lagrimas, que estanquem nos olhos, quando o que chora não sabe d'onde
ellas nascem, nem o que contempla sabe a linguagem do espirito, para
consola'-lo em seus presentimentos sobrenaturaes!

Porque é que aquella mãe não buscava o allivio no sorriso de seu marido?
Porque não olha ella para os seus? Que é tão consolador ahi como a
presença de um marido amado, quando a fraca mulher quer desafogo?

Não bastam allivios do mundo para essas ancias.

Deus! sim, para todas as afflicções, para todos os presagios, para todos
os temores, para todas as mães que vaticinam desventuras a suas filhas!

Deus! E na sua imagem é que aquella mãe fitava os olhos. Depois, ao lado
de Christo, estava outra imagem: era Nossa Senhora da Conceição. Que lhe
dizia aquella pallida mulher, com sua filhinha nos braços? Ouviram-lhe
só as derradeiras palavras:

«Minha Mae Santissima! entrego-vos a vossa afilhada!»

Viram um sorriso nos labios de Maria. Seria um acto maquinal dos labios?
Porque é que os adultos não sorriem maquinalmente?... Lisongeiras
duvidas para o homem que pensa nos segredos do homem.


III

Decorreram sete annos.

Eu não devo aqui pintar um quadro de guerra. Seria salpicar de sangue a
tela onde me propuz traçar uma figura grandiosa, com o colorido suave da
religião. Abomino a historia, se é força lembra'-la a testemunhas
oculares. Ha ahi muitos escolhos que ludibriam os mais atilados pilotos.
Escandecencias politicas não se refrigeram com o orvalho do céo. Se do
pulpito o hyssope muitas vezes as exacerba, que fará d'aqui?!

E tomára eu que estas linhas, pallido reflexo do que ha de
incommunicavel no meu coração, accendessem o amor de Deus, apagando a
flamma das inimizades humanas! Tomára eu lagrimas e dó, e paz e
esquecimento para os homens, que não devem aqui encher uma pagina de
odio n'um livro que aconselha a resignação. Durmam uns e outros o breve
somno, que vae do anoitecer da vida á alvorada do archanjo.
Ver-nos-hemos em volta do juiz, que, nos seus dias de réo entre a
humanidade pervertida, dissera:

«Só a mim pertence julgar os bons e os maus!»

Bemaventurados os que esperam.


IV

1834!

Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso céo esperdiçou-se
muito sangue. As espadas terçavam por duas causas, quando dois corações
do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmãos, anciavam
aniquilarem-se. E, se, após o ruido das armas, se fazia o silencio
tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mães, das viuvas e dos
orphãos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de
labios para o céo, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o
holocausto de uma vingança tremenda.

Tremenda... como a de Gaza e Moab!

«Que é dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!?» dizia o
propheta das lagrimas.

Não vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos
grandes edificios?

Não vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza?

Que tem?!

O enviado de Deus responderia:

«Que é dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?»

«Que importam os coruchéos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se
lá não está a cruz veladora das felicidades da vida?!»

     *     *     *     *     *

Mãe de Maria, porque choravas tu?

As tuas lagrimas já não eram um mysterio;

     *     *     *     *     *


V

Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava
diante da imagem da Senhora da Conceição e murmurava esta prece:

«Virgem Maria, nunca a vossos pés caíram mais afflictas lagrimas!
Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, mãe de cinco filhos,
esposa de um homem, que é o amparo d'esta pobre familia, que vos
ajoelha! Vêde, ó Mãe dos afflictos, que o tumulo de meu marido é o
tumulo d'estes orphãos, e o d'esta mãe desvalida, que não tem um palmo
de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome
de seus filhos. Protegei-o, ó Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que
a cada instante cáe um pae de familia, tão desgraçada como a minha! Eu
não vos peço as honras, e a subsistencia que meu marido ganhára no
serviço da sua patria: o que eu vos peço é muito mais... é a vida de meu
marido, mas só a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu
sangue derramado, sem mais outra riqueza que a do coração que elle tem,
e a resignação com que vós, consoladora do infortunio, e eu, esposa
extremosa, lhe adoçaremos a desgraça! Os labios da vossa afilhada não
murmuram a oração de sua mãe, mas o seu coração é aquelle que vós lhe
déstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que estes
olhos não sintam tão cedo o travo das lagrimas, que chora sua mãe!
Piedade para todos nós!... amparo para meu marido... compaixão para
todas as mães atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a
vida de seus maridos...»

E era esta a oração que os suspiros não poderam cortar. Assim simples e
angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que não escolhe
palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes
lances, sublimes no tormento, pela explosão da agonia com que se
refugiam no céo, compreenderá o cunho pungente, marcando a mais
insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da
mulher consternada entre seus filhos.

E, depois, a mãe de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a,
estremecia ás vezes, como se os accessos de uma convulsão a não
deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo. É que a cada trom remoto da
artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de
guerra sentia o véo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade
envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no
mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros quatro meninos
aconchegavam-se no regaço d'ella; fitavam-n'a, como os passageiros de um
barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se confiaram; e, no
choro, modelado pelos gemidos de sua mãe, compunham uma consonancia de
vagidos, e brados, e soluços. Quando assim se soffre, a indifferença do
Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que se acolhem ao
abrigo das suas misericordias... Não haveria Deus: a justiça divina
seria uma astucia humana.

A oração é um respiradouro de espirito, quando a mão da desventura o
comprime até lhe abafar a derradeira esperança na terra. A oração não
tem nada com este mundo. Pedir a justiça do céo para as injustiças da
terra e renunciar a toda a vingança, é pedir a felicidade de nossos
inimigos, porque Deus é misericordioso, e não precisa de fulminar o
poderoso para vingar o fraco. Orar é caír de joelhos, e muitas vezes não
articular dois sons de uma supplica: é não atinar com a linguagem de
falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, só inspira
ao desgraçado expressões para que os homens o compreendam. Aquella mãe
afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de
regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel,
escravo das suas convicções, da sua honra talvez, e pae de familia
tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os
cabellos. Mas a mãe de Maria pedia por ambos; e, quando a oração assim é
feita, o espirito de Deus está nos labios do que ora.

Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, mãe e
esposa, que o pae d'essas creanças, o homem, que traz no coração os
alentos de que te sustentas no mundo, não ha de a bala ou a espada
cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia.

Não ha de, que teu marido entrou na guerra de irmãos com o coração
enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da
trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o
espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliação dos portuguezes.

Não ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso
marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam
farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mãos ao Senhor,
supplicando-lhe que acceite no regaço da sua misericordia, uma viuva
desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mão do vencedor não
extenderá mão esmoler, seja qual fôr o triumphante.

Não ha de, atribulada mãe e esposa, porque as paixões clamorosas dos
impios não ensurdecem o céo aos rogos de um justo, que lava com lagrimas
cada gota de sangue de irmãos que lhe salpica a farda.

Expande o teu coração opprimido no seio de Deus, dolorida mãe.

Deixa rugir lá fóra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher
cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religião, respira ahi em
lagrimas a oppressão que os meigos carinhos de teus filhos não podem
consolar-te.

Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o coração de teu esposo comtigo
se ala para a região serena da paz e bemaventurança eterna. Sois duas
almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na
oração, juntas hão de compartir as amarguras da pobreza, juntas hão de
receber a corôa triumphal no dia marcado á recompensa dos que choram na
terra.

Assim lhe segredava o anjo da resignação alentos que a faziam confiar no
regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel,
fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar
corações enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, tão joven e
innocentinha, compreendia as alegrias de sua mãe, e respondia a ellas
festejando a volta de seu pae, como se elle viesse já caminhando a
indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia,
nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz.

Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que
vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente
despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.


VI

O coronel... (já não era coronel) o homem da honra e da coragem
amanheceu um dia á porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza
livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no
rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. Não trazia espada,
que a pureza, não aos pés do vencedor, mas sobre a acta de uma
capitulação, deixára ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma
lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e
desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam:
sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu
coração como a virtude, emanação de Deus, é quasi sempre o unico
patrimonio do virtuoso.

E é por isso que não houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles
labios o jubilo do sorriso. É por isso que paes e filhos caíram de
joelhos; e, no silencio de seus corações, Deus sabe a acção de graças,
que lhe subira aos pés de seu throno n'aquellas extaticas elevações de
alegria reconhecida.

Ao levantarem-se, abraçaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras
venceram a suffocação da surpresa, uma só voz, a de todos, exclamou:

«Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!»


VII

Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o
infeliz na queda, deve ser morrer!

Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é
provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da
inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus
nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio
d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa
arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno.

Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:

A resignação;

O cynismo;

O suicidio.

A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das
honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que
olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se
abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado
pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das
glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de
ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a
taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar de lagrimas? Quem affiança á
aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se libra para
abate'-la nas urzes?

E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam
o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os
contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino
que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou?
onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que
nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da _nossa
sina_, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o
punhal ou o veneno, porque _estava escripto o meu suicidio_!?...

A providencia é a acção da Divindade.

O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um
magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos
de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande,
só, e proscripto das ovações, _em que elle fôra o menos laureado_, era
ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e
na confiança.

Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo,
onde o rico deixa debitos enormes a solver.

Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas
como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no
dia das tremendas explicações dos mysterios, incompreensiveis aqui.
Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante d'aquelles,
que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu passado
orgulho.

Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade;
quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas
esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do
mundo, sem adulterar as mercês do Creador.

Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso
providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira
abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao
Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera.


VIII

Não é assim o cynico.

Herdára um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparára elle em
seu coração todos os elementos para augmenta'-lo.

Que o ouro augmenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o
coração, ferido de avareza, é um segundo thesouro para quem herdou o
primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do
avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no proprio
coração, outro no coração que lhe pede o obulo.

É assim o cynico.

Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces
que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam,
fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da
irreligião.

Quem lhe déra o sorriso feroz fôra a impiedade.

Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas
e sangue, fôra a impiedade.

Quem lhe segredára os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de
crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sordido da vida, fôra a
impiedade.

Quem lhe disséra que no tumulo para dentro não ha pobres para repellir,
nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir,
nem amigos para vender a inimigos, fôra a impiedade.


IX

E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.

No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle
fizera.

E riu-se.

Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle
enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu
carro insultuoso.

E riu-se.

Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um
d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.

E riu-se.

Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo:
pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.

E riu-se.

Este é o cynico.

E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a
morte de cynico é uma risada na blasphemia.


X

Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel
entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.

Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a
vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração,
era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.

Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado
d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre
duas idéas: pobreza e impotencia.

Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o
desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal,
que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o
sacrifica á justiça de Deus.

O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos
seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.

A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.

O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro
são machinas de morte.


XI

E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam
na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam.

Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas
tu.


XII

E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança,
nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto
nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello
sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera,
gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos
uma nova desgraça?

Muito triste. É uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma
colheita de lagrimas na seara das esperanças.

E o sorrir da resignação, e o levantar das mãos em fervente amor de
Deus, é a mais grandiosa attitude na desgraça. O infeliz é então um rei
no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura.
Ignacio, o mendigo de Monserrate, é maior que o gentil-homem de Loyola.


XIII

O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e
filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria.

Á escuridade da indigencia não chega a luz do amor: deixar falar os
poetas.

Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria não podem
eclipsar. A felicidade tem exaltações intermittentes de jubilo. Mas a
desgraça pensa sempre, fala sempre; vela á cabeceira do infeliz;
desperta-o com o aguilhão de um sonho mau; desmente-lhe as illusões;
ri-lhe a cada esperança; embrutece-o; retráe-lhe as expansões do
espirito.

Onde a desgraça emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta
dos pés do ministro dos perdões, é na presença da cruz.

O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas
palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos
labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita
desventura.

A sua oração era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos
labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como
balsamo para todas as chagas, como herança de amor para todas as
gerações de ingratos.

Era esta a sua oração:


«Padre nosso, que estaes no céo, sanctificado seja o vosso nome; venha a
nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade...»


XIV

Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se
nega. O que fôra christão antes de politico, e pedira a Deus a paz de
seus irmãos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de
uma espada escrava da obrigação, esse poude ser exauctorado de titulos
ás grandezas, de direito ao trabalho, de pão, e de liberdade, mas o
opprobrio não o desanima, nem o envergonha.

A valentia moral não tem capitolios na sociedade immorigerada; mas
tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim,
decaído do que fôra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece
um triumpho, ultraje dos oppressores.

O coronel, se tivesse a receber as felicitações _vendidas_ á sua patente
de general, talvez não consentisse que tão depressa fosse aberta a sua
porta.

Abriram-n'a.

O homem que entrára, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular
palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente.

Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio,
acha'-la-ia n'aquelle homem.

E, sorrindo, offerecia a mão ao coronel, que viera, chamado por sua
esposa, a contempla'-lo rodeado dos filhos, que pareciam perguntar-lhe
quem era o extranho hospede.

Aquelle silencio, precursor de lagrimas, não podia conter muitos minutos
corações anciosos.

--«Quem é o senhor?» perguntou o coronel.

--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e
alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmão!...

O coronel correra aos braços do hospede. Maria, organisação melindrosa,
que presentia já os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia
d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma
vehemente, apaixonada por tudo que é grandioso. Sua mãe tomava a mão de
seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graças ao Altissimo.
As outras creanças volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam
outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle
jubiloso alvoroço do sangue, quando o espirito se confrangia na dôr.


XV

Fr. Antonio dos Anjos fôra um oraculo de sciencia, e um exemplo de
santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herança
de avós corajosos de braço e espirito, o seu patrimonio de resignação
não pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praça. Affeito a
encaminhar, com mão segura, pelas margens do abysmo, os que a dôr
extraviára, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No
centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no coração
era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo,
e envergára o habito que desfigura as fórmas do corpo, e as feições da
alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que
afervora a adoração das multidões; e, então expulso da sua enxerga, e do
seu refeitorio, não geme a falta de um ouro, que nunca possuira.


XVI

--«Quereis a historia dos meus trabalhos, não é verdade?» perguntava o
monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros
abraçados.

--«Sim, sim, queremos» respondeu Maria com extranha vivacidade.

--«Não--replicou o coronel--não recordes penas que te não alliviam o
receio de outras maiores...»

--«Não é assim...--tornou Frei Antonio--As afflicções, que se recordam
com serenidade, parecem zombar das afflicções por vir...»

--«Conte, conte... meu tio» instou Maria com muita doçura, dando á voz a
terna inflexão de uma supplica.

E frei Antonio, alegre como se contára apraziveis lances da fortuna,
contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida:

«Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer,
e a sepultura onde o repouso do corpo continuará, foi a minha vida do
mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o
espirito, porque na terra nem ao justo é permittida completa
tranquillidade. Vigiar, é entregar ao espirito a guarda do coração; é
pôr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperança, enxugar-lhes o
pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o não
comprehendem. A vigilia de um monge, tem, ás vezes, dôres, que ninguem
póde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da
humanidade, que se espedaça.

«Não me viste saír da casa do nosso pae, meu irmão!... Eras creancinha,
e do colo de nossa mãe me deste um beijo, que me fez chorar, porque era
o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas
essas lagrimas, que te vejo agora, são as do meu irmão... é impossivel
que o não sejam. Sabias tu que eu existia?»

--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o
coronel.

--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos
Anjos descera a um tumulo... O espirito vivia... mas o espirito do
penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os
vinculos do sangue, se os tem no mundo.

A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas,
que traíam a sua serenidade contrafeita.

Seguiram-se o silencio, e a anciedade.

Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa
recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos.

Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo
remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com
a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para
quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem,
fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez!

É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento
de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns
pelo menos, é verosimil e explicavel.

Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é
o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de
Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da
materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva
do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do
seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos
incendios philosophicos.


XVII

Frei Antonio continuou:

«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza,
quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas
amarguras não adoçarei as tuas?

--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»

--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria
a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um
passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os
homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante...
Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»

O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S.
Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em
todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso
d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre
revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia
da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a
tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia,
e não podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. Maria,
pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude pathetica
de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os
joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe não tomasse as
mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.

Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que
nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia
precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica
das almas flexiveis.


XVIII

Proseguiu o frade:

«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a
hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para
deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham
posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram
de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido
que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo
seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar
que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregámo-nos a
Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso
habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo
crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos
maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração
commum do côro até ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella.
Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos
agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos
homens. De Deus sabia eu que elles o não eram. Dos homens, cruel amizade
era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus
companheiros!

«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma
prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal,
apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade.
Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha,
lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os
algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão
natural.

«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios
nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia
esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte,
porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de
disciplina. A sua resposta foi simples:

«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos
todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres
para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus
irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para
vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que
sou chamado ao côro.»

«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por
violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados
como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a
annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão
pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo,
humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram
os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não
tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali
morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não
consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.

--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos
turvos de lagrimas.

--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são
entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.

--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?

--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o
perdão dos seus matadores.

--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a
menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não
pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus
paes e meus irmãos!

--E para o tio padre, não, meu anjinho?

--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?

--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?

--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu
tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os
façam ter dó dos que soffrem.

Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade;
e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...


XIX

«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do
nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe
do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror
não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem não
offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande
tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com
emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica
do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o
alarido, ao principio confuso, era já perto um grito distincto: _morram
os frades! abaixo os ladrões!_

«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...

«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas
vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram
ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos
ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o
invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á
debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono
de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido
longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que
sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera
quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»

--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda?
perguntou Maria.

--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação,
a vida da alma. A morte não nos atormentava: poderia a natureza
estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno
manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a
providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um
decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais
perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da
morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não
fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este
mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das
algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu
entendeste-me?

--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em
comparação do mal que estava soffrendo: não é assim?

--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação
que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos.


XX

«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que,
depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com
despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas
balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam
vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares.
Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os
estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de
dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um
de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as
lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração
em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado
e magestoso como um _de profundis_.

«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão
abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de
martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do
templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das
pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel,
que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!

«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as
portas á chusma de povo.

«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a
responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera
onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze,
que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle
instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus
Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande.
Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo,
como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram
na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus,
e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de
minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito
sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo
coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens
torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua
missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com
violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos.
_Morram!_ era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso
de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça
para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e
da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de
estertor; e senti que alguns vinham arrastados.

«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas.
Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir
com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei
depois.»


XXI

--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou
Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou
ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum
mal?

«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu
verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma
affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me
fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica.
Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a
redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue
me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir
canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios,
bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do
tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder
fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao
amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com
vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.

«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos
palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em
tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem
um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o
travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes.
Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de
Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da
misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor
indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura
quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus
Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de
caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus
matadores!»

Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua
familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre,
entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote
no espirito do christão agonisante.

«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia
pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada
um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em
que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que
saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo
e da terra.

«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma
voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e
espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu
as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas
guardas.

«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos
dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se,
reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os
vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso
carcere.

«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos
como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos
insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador,
cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as
faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e
truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes,
mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do
habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.

«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi
lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por
um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto
quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas
campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.

«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver
que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente
o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a
sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar.
Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham
excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um
salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua
consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto
n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.

«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos
podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença
de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a
«arreata» como elles nos disseram.

«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte
dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração,
todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus,
complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de
approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas
temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de
difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio
aos labios queimados da febre.

No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não
caminharmos para o sul. A infracção d'esta lei implicava pena de morte.
Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condição
era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás
humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não
levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu
maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica
legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a
abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua
vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate
para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos
partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como
um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria
ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa
e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar
a morte das espingardas dos teus soldados.[1]

Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto
para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?

--E tenho chorado... o tio não vê?

--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem
assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?

--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão
bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia
mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu
tio?

--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da
minha triste peregrinação até á casa de teus paes?

--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.

--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.

--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um
sorriso de candida alegria e admiração.

--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.

     [1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões
     muito judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de
     Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e
     disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses
     estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do
     pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi mais do que lançar um
     correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria
     o som do arcabuz homicida. Se não receássemos desnaturalisar o
     romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da
     sua politica, se é que elle tinha alguma além da do Evangelho,
     seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se
     não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade,
     afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo
     em paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de
     imaginarmos, antes de começar o romance, que os não teriamos...


XXII

«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa
desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão
mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros
de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e
ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes
em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á
mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos
sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter
indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo,
como foi chorado aquelle adeus... _para sempre!_ «Antes o martyrio, e
que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas
nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um
lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O
supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não
cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos
seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos?
Não! Deus quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar no
coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas
as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.

«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus
filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido,
convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este
doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos
dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que
tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em
armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos...
Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O
ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.

«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na
casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um
jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem
vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe
umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa.
Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão
amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana
para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre,
em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a
fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre será
sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do
evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao
espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.

«Adormeci.

«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros.
«Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço
estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei
eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.

«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa.
Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu
convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar
fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o
jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle,
é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a
não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei
por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação
bastante de suas faltas.

«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges
desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a
entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao
principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu
contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com
os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com
arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas,
alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois
desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes,
depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia!
parecia-me um conto disparatado!

«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me.
Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida
que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu
o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo
áquelles que o confessam!

«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que
os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do
carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de
gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande.
Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»

«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o
cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando
prelado.

«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de
punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.

«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. Oremos pelas almas
dos meus desgraçados companheiros!»

E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.


XXIII

Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao
meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe
o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.

«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o
norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a
condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»

O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:

«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de
montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na
pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando
ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que
parece firmar-se nas cristas das montanhas.

--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.

«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.

--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu
nascimento.

«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu
nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça
não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu
irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do
braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse?
Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o
coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta
pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o
trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias,
que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o
ouvimos gemer... e gememos todos.

--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga
como vivia...

--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.

--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao
Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para
poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. _Roçar um carro de
tojo_ é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos
que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas
empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma
vestia de borel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela,
durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come
um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir
a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, nem
melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia do
homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o
infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas.
E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia
alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser
mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a
minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio
apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo,
nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti
doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar
os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o
premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que
viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da
sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe
sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo
Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem
trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de
uma herança!...


XXIV

«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre
para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração
vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e
irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus
bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas
palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me
com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?»
perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.

«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o
jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote?
perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do
Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco
leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos
homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os
ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava.
Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um
epitheto injurioso.

«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á
valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me
em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui
instrumento de fortaleza.

«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me
comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»

--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.

--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz
que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se
de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á
resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do
Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me
querem: é assim, Maria?

--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como
se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o
todos.

Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou,
exclamando:

--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem
attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia!
Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro
fosse quebrado.



LIVRO II


I

Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um
problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a
miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado,
tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica
situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das
suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece
repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as
escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo
dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o
christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar
contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um
grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por
todos os homens.

Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar
estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da
humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los
para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal
prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela
associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que
Jesus nos deixou recommendado.

O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem,
assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas
risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal
homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a
religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende,
apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o
artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas
do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe
que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia,
é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é
christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do
tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo
contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o
soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem
laborioso.

A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza
tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O
coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava
latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para
dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia
flores.

--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio,
extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual
uma familia alegremente saboreava um parco jantar.

Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se
aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de
operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva
da necessidade?

Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do
orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia
laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das
esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas
acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da
prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos
arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio
aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle
dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não
trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.

--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe,
e recortando a folha de um lyrio.

--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os
olhos do seu trabalho.

--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os
cabellos negros de Maria.

--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande
tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a
mãe... senão... o tio bem sabe...

--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.

--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.

--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e
violentamente sorrindo.

--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um
tom de risonha ameaça.

--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente
fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos
como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão
feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no
meu amor?!...

--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão...
Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito
feliz...

E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a
transportava.

O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do
grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o
céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece
scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram
solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha,
com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.

Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de
corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.

--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as
vossas inspirações.

--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio,
tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.


II

A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado
em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma
tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.

Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava,
não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria,
frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da
poesia portugueza do seculo 16.^o Fizera-a decorar a historia nos cantos
das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que
deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema
decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se,
commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade.
O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei
Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os
seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas
vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não
interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe
brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo
calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua
intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos
que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio,
quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era
um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas
duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á
superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior
pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica»
accrescentava o mestre.

Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão.
Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e
leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito
descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo
das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda
o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois
annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na
amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a
revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser
galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos.
Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente
do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia
repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista
tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus
paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando
accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o,
quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a
moda pagava caros.

Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá
pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa
deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não
foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a
felicidade d'aquella familia.

Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes
circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o
prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas.
Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para
a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da
epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em
forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres,
ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém,
que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs,
diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos,
maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.


III

O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A
ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual
elogio.

Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos
gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que
occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos,
rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta
alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua
virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz
d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia
depois os outros a empobrecerem-se.

Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um
naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia
remunerar-lhe o seu trabalho.

O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta
impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente.
Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle
esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades
inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que
não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa,
justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o
coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era
irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra
pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á
libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo
perdido.

Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida.
Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir
com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto
repartia com ella.

--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu
coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito,
reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua
amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada.
Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do
dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?

--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.

--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu
coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde
ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu
tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro
tio?

--Sim, tudo, minha menina.

--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A
intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se
meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa
tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha
mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro
pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de
alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui,
se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o
trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho?
Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias,
reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não
me faça persuadir que Deus olha com indifferença as minhas preces...[2]

--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de
vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me
pareceram tuas...

E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.

     [2]Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um
     critico, a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria,
     aos quatorze annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o
     seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas
     onde o lyrismo do coração não tem nada a fazer com a vida
     positivissima que lá se vive, em linguagem chan e desenflorada de
     figuras inuteis, tinham razão sobeja para dizerem que nunca por cá
     toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como
     quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não teem a experiencia:
     mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe falta o trato
     que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e
     escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de
     Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em _Fr.
     Luiz de Sousa_, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa,
     e, se querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes
     verdadeiro, assim como

          _Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable._
                               (Boileau, _Art. poet. c. 3.^e_).

--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um
sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá
fazer um bom filho, e um bom cidadão?

--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.

--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que
não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?

--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á
esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para
Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle;
trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de
um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de,
inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que
vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.


IV

Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da
Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este
mancebo.

Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e
libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança,
qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos
lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação
dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o
enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as
suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o _A_,
_B_, _C_, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes
riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim
brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a
ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão,
disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os
parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o
ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança,
preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro,
com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por
passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....

Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a
planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa,
onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou
pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore
lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e
extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um
affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de
opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente,
que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma
familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não
attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram
baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e
satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu
pae novos credores e novas vergonhas.

E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os
vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás
vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido
e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não
eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas
n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O
homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto,
provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo
impotente de vingança.

Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a
honra, levando-o pela vereda da religião.


V

Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote,
apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe
um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado
com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo.
Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este
homem?

Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida
de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os
traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade
desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa
de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem
religiosa?

Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe
não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou
momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou
depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão
culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu
filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou
ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.

Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das
mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se
illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada,
em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado
de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de
maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou
as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do
impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.


VI

Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas
immoralidades do discipulo.

Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo
dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no
pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em
lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o
repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E,
então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma
esperança infallivel no refrigerio do céo.

A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era
immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das
cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos
pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos
imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa
demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia,
repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e
comendo promiscuamente.

Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu
na porta um toque.

--Entre quem é!--bradou elle.

Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo
dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo!
Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com
que o sacerdote o saudára.

--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.

--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as
horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do
espirito com Deus... E v. ex.^a recolheu-se agora, não é verdade?

--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua
extranheza n'estes dialogos.

--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe
as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como
condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não
alvorecer para nós. Fique v. ex.^a com Deus.

E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas
desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas
impressões. Aquelle _memento_, áquella hora, por aquelle homem,
acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe
adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia
seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da
morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino
eterno.

O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira
adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se
entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no
alarido das turbas amotinadas.


VII

Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia,
quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da
manha.

Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe
parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com
o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu
filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé
firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com
palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De
improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste,
profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle
papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?

E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os
cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás
vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o
regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve
exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face
pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!...
Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo
do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração?
Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz
entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio
que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria,
córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

      PRESENTIMENTO

        «Minha paz no infortunio,
      Minha alegria na dôr,
      Quem m'a déra, qual a tive,
      Qual m'a déstes, vós, SENHOR!

       «Desbotou-se-me nos labios
      Meu sorriso tão singelo...
      E eu com elle premiava
      Tanto amor, tanto desvelo!...

        «Tanto amor, que eu vos pedia,
      Do que os anjos tem nos céos,
      Para amar meus paes, meu tio,
      Como vos amo, meu Deus!

        «Não scismei outras venturas,
      Outros gosos não pedi:
      Fui tão rica na pobreza...
      Na pobreza empobreci.

        «Senti lagrimas no rosto...
      Sei que tenho aqui no seio
      Escondida uma tristeza
      Que de vós, meu Deus, não veio!

       «Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
      Mas que mal ao mundo fiz!?
      Serei eu de alguem inveja?
      Pois que eu não seja feliz!

        «Volva o tempo da penuria,
      Quando eu fiz a pobre flor,
      Que me dava um pão regado
      Com meu pranto e meu suor.

        «Dae-me as noites não dormidas
      De trabalho e de alegria;
      Meu orar na madrugada,
      Quando, tão feliz, me erguia.

        «Oh meu Deus! se a humilde serva,
      Não votaste ao soffrimento,
      Abafae lhe a voz, que a punge,
      D'um cruel presentimento!»

Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de
sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos
e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no
declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus
que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era
como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a
luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento
que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro.

--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.

--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.

--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias
culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...

--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento...
nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O
meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração,
esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de
dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este
calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.

Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor
febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha
silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella
revelação confusa.

O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a
sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á
custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas
a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos
olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como
lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus
temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem
tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma
virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus
lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da
innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada
com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua
infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as
precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se
dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um
instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro
desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.

Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala.
O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via
o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses
olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no
coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do
espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões,
encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres
agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um
mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos
gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades,
responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de
uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se
lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É
necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario
adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela
outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo
silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples
theoria das paixões.


VIII

A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era
desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem.
Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos
seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações
á sua familia.

--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas
convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.

--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia,
que lhe respondia de prompto--aquelle silencio... é a falta de palavras
com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a Divindade
nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas como d'antes
na oração, no estudo e no trabalho?

--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum.
Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas
vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o
sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do
perdão para o crime que a accusa.

--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É
impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma
falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e
feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou
para crear-lhe um anjo.

--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.

A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do
padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade.
Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á
voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em
throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se
nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja
innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia
pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara
receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O
lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e
acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por
Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos
soffrimentos.


IX

Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?

Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma
estrella?

Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada
pelas sombras da noite?

O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se
enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro,
como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação
futura. É o presentimento.

Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente
providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.

O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica
resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:

--Anjo, porque soffres?


X

Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita.
Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia.
O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima
afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida
n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr.
Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com
o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E
esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em
casa de Silveira.

A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que
provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o
tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor
d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser
lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o
padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s.
exc.^a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta,
qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio,
insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez,
ao seu educando.

A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se
sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma
impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem
celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em
riqueza. A distincção da virtude ou do _fanatismo_, como elle dizia da
religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não
deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma
explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia
com a classe dos padres.

Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros,
tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem
dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los
como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos
blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o
campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem
sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos
religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da
Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que
elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.

Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e
poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.

--Dormiu v. ex.^a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.

--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do
sacerdote.--E v. s.^a como se deu no seu novo quarto?

--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um
lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma
boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O
melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando
francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da
paz. Deus defenda v. ex.^a de revolver-se um dia nos espinhos, que
perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.

--Então v. s.^a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu
cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é
o que se diz por ahi...

--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam
todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que
podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a
riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que
olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta.
Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios,
tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais
pertencer-lhes.

Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para
servir o discipulo.

--Então v. s.^a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede
uma chavena, não recebida.

--Almocei já, sr. Silveira.

--Com o pae, não é verdade?

--Não, senhor: com a minha familia.

--Então v. s.^a tem familia em Lisboa?

--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.

--Naturalmente pobre...

--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor
do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem
sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os
infortunios...

Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A
novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe
desejos de ouvir o padre longo tempo.


XI

--A sua familia é conhecida?

Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito
galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar
approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro
dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é
ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão
sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não
possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é
conhecido...

--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de
lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans
regalias da sociedade, que v. ex.^a chamou conhecida! Penso que a minha
familia não é conhecida.

--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas
perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.

--Creio que sim... O coronel ***...

--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está
aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.^a é tio de uma
menina muito falada?...

--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.

--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.

--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que
valha a pena de mencionar-se. V. ex.^a já viu poesias ou romances, ou o
retrato de minha sobrinha?

--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de
virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei
verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente
menina a todos os respeitos.

--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v.
ex.^a o que é crime?

--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de
espirito-forte.

--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á
sua alma, sr. Silveira. V. ex.^a disse que minha sobrinha era dotada de
bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta,
romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas
prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má
irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e
talento, para que lhe não vissem os defeitos...

--De certo não.

--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha
sobrinha?

--Creio que sim.

--E v. ex.^a?

Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:

--Eu... eu... naturalmente...

--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v.
ex.^a não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.

--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.

--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a
«verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões
desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade
gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a
innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do
templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o
pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.^a,
insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é
esse que se serve de v. ex.^a, como de uma machina para se exprimir? É a
virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha
sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde
encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do
bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade
não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e
Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...

Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um
tão generoso como irrespondivel adversario.

Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se
calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á
«philosophia» irreconciliavel, para responder.

--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e
modestia.

--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o
mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que
respeita.

--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira.
Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.^a não podia, sem horror, encarar
um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz
que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre
mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.^a não póde, com
indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?

--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...

--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as
trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.

--Mas diga-me v.^a sr.^a... não dizem que ha paizes onde os paes matam
os filhos, e os filhos os paes, legalmente?

--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.^a o que é permittido ahi pela
lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.

--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja
preciso que o christianismo os declare criminosos?

--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos
maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a
coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que
seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os
gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a
adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que
matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz
um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a
virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um
homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o
homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade?

--Penso que não.

--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os
homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar,
dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...

Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:

--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...

--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita
satisfação...

--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser
hospede de v. ex.^a...

--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.

--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--_amigo_, se v. ex.^a me
quizer honrar com este parentesco.

--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro,
apertando-lhe cordealmente a mão.

--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso
para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.^a que os padres teem
um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por
aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de Deus, pedimos
uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece,
com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não é isto uma
consolação para os que são atheus por contagio e não por convicções;
fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?

--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro
com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á
ironia dos sabios, segundo a moda.

--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade
conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra
occasião...

E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o
coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força
descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.


XII

Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o
filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras
vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro
absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia
meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua
diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam
assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse
n'um espelho.

--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.

E Alvaro affavelmente respondeu:

--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.

--Falaste com o egresso?

--Sim, senhor.

--Que te pareceu?

--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.

--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição
extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?

--Quem me dera ser o que elle é...

--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.

--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que
acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:

--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...

--Tambem meu pae não amava a formosura de minha mãe, antes de
conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na
vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente
do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em
padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello
coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os
crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia
com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda
falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem,
adorava-o!

O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não
ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas.
Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de
estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte,
com amor de filho, sentimento para elle novo!


XIII

Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que,
primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.

Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura
immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu
throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter
sido abrazados pela oração contricta.

Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas
purificadoras das maculas hediondas do vicio.

Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse.

Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de
entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo.
Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que
é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas
novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções;
e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a
verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro
existia DEUS!


XIV

A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações.
Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo,
ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de
rir.


XV

Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava
anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou.
Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote
achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de
reconhecimento.

O padre maravilhava-se.

--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle
enternecido.

--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as
mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa
morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.

Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira
contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas
expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças
da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida
mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de
graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando
a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como
um propheta, apontou para o crucifixo.

--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v.
exc.^a deve ajoelhar e agradecer.

Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.

O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com
mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!

Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver
seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do
levita, recuou machinalmente.

Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se
irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta.
Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas
faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se
vangloriava de um cynismo inalteravel!

--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio,
collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.

--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.

--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos
cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a
entrada de v. exc.^a não podia distrair-nos para mal.

Alvaro tinha entrado.

Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio,
que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de
agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os
melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes
propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio,
especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das
sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto
guardasse um justificado silencio na materia.

Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a
attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou
universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos
estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.

Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade.
Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma
pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas
encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os
licenciosos _Paulo de Kock_ e _Pigault Lebrun_ assignalaram os seus
thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.

Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a
louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria
de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:

--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...

--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.

--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não
vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...

--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma
risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser
uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no
hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v.
exc.^a, sr. Alvaro.

--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.

--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de
uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação
maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para
sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial,
muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance.
Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu
escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da
virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia
profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito
pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de
canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe,
limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra
sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem
enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos
envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram
ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem,
senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus
paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua
familia... É isto que v. ex.^a chama «mulher romantica?»

Alvaro demorou a resposta.

--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos
seus juizos.

--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a
respeito d'ella?

--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas
mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive
n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem
nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma
continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão
direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem
poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a
febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho,
de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.

Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que
algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido.
Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o
mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de
toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e
transigiu discretamente.

--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu
posso conscienciosamente asseverar a v. ex.^a, é que minha sobrinha está
tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o
meu amigo acaba de dar.


XVI

Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando
uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr.
conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de
enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da
Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu
filho.

Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.


XVII

O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na
libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa
aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o viço da alma
vae fenecendo.

O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz
de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo,
aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a
presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro
do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.

Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla
de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira
ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?

O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua
immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era
bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã
religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes
e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos
contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que
sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta,
em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o
preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.

Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a
Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da
immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia,
pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas,
a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre
no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade
pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em
tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado
para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.

Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao
companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A
negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em
sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.

Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo
em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho,
deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.

Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta
desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal,
com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de
virtudes christãs... _extra-muros_. A educação ahi é mais religiosa que
scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar
cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos,
enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro
encontrareis no colo materno, uma creança de sangue _illustre_, como lá
se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.

Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um
acto providencial.


XVIII

Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto
era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica
com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela
mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão
rico e tão nobre como elle.

Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma
seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade
nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a
tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina
era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue
das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de
dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua
irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que
rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida
em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o
ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua
familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe _cobarde_ nas
praças, ou nos salões.

Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de
uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E,
depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o
desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua
liberdade.

Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia
moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.


XIX

A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu
conteudo:

«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á
minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e
conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já
vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não
posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e não posso nem quero
vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. Penso que o
não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se exprimir a
gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me
escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer
que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será isto uma
fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar
este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.

«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me
com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o
espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco.
Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma
voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao
combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro
tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem,
se me amam?!

«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão
necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não
sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo
Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me
vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde
ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.

«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as
syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus,
meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos estão muito
saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o ama tanto como
a sua sobrinha

                                                             _Maria._»

--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!


XX

O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no
quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões
são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza
n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e
triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario!
Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e
mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o
hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa,
onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza
quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dôres do espirito, matam-se com _espirito_... mas é de vinho...
Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_.

--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um
sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que
pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a
materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é
simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que
é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_.
Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia:
esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta
alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma
solemne pirraça á tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi
para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este
silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas
de um truão, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O
conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro
seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente
chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje
conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo
gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o
olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não
pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?

Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde só
agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do
discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O
predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto.
Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia
servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não
lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um
padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as
caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o
coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava
Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos
bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade,
que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem
da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com
esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e
ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a
impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado
pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte,
uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos
arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na
presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na
alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de
verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo
da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos,
que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora
entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que
nunca ouviram.


XXI

Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco
ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para
vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não
vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que
prostrou o gigante philisteu.

--Que tens tu?--repetiu o conde.

--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria
um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse.
Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só
palavra...

--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer
tres palavras conceituosas como as de Cesar...

--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que
pudesse estar tão longe de ti como estou agora.

--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de
espanto.

--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do
que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava
romantico.

--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?

--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.

--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler
geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa
charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S.
José.

--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?

--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia
humana!

--É um padre!

--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á
cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a
fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...


XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae
de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a
impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua
altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe
applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle
momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o
homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre
sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres
cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não
conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho
do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da
verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não
tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com
risonha benevolencia.

--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a
sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra
reverendissima.

--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o
padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para
depois avaliar a opinião de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira
sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se
dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de
principios certos, é Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira
intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um
exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»

--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com
acatamento ironico.

--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a
citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha,
por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram
recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é
possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem,
buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei,
falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa
philosophia emprega contra Deus.

--V. s.^a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a
philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a
philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito
dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade
do christianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a
philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como
v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella
astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu
agora, quaes são os mais reflectidos?

--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!

--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?

-É.

--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é
uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não
passa de uma humana impostura. Póde v. ex.^a elucidar-me n'esta grave
questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?

O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do
padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava
bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a
arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil
edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade,
tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.

--Estou como v. ex.^a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á
qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por
nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades
vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a
razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo
escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim
chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo,
desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram
philosophos, sr. conde?

--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert,
Holbac...

--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados
philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a
philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação
do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as
academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut,
expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de
Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a
formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia,
escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto
eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os
segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho
recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias
naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira
philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por
isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se
acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu
proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao
conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada
razão do homem.

--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem
é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços
d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do
Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do
homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.

--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.^a
devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros
philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu
prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me
que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e
restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova
impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire
combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.^a vê as
cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.^a
ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á
apologia que fez á razão do homem.

Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em
sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente
esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem
conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê
v. ex.^a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas,
já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me
explique os principios de que ella tira as suas consequencias
scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande
principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.^a em nome
d'elles?

--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.

--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que
attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque
observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse
explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos
inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a
«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a
força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro
globo, que não conhecemos?

--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da
creação.

--Mas v. ex.^a concede que o Creador não os ignora?

--Seria um absurdo não o conceder.

--E a razão humana não póde conhece'-los?

--Já disse que não.

--Mas v. ex.^a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes
difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram
d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela
celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde
profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo
facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para
si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento
de certas e determinadas verdades como «razão.»

--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a
desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me
com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.

--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação
de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não
posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a
emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo
como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado
em si, segundo v. ex.^a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra:
Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos
principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao
conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel
conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde
tentam descortinar.

--Pois v. s.^a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?

--Não, senhor, não admitto.

--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?

--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe
das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo
poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua
omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?

--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem
corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.

--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da
alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia
espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que
sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de
nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á
memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á
operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo
soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a
intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido
citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.^a invoca os textos de Voltaire.
«Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é
caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o
homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e
paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas
virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle.
Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera
d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas
palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu
a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a
elles.»

--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da
geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem
evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam
perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses
tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras
sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta
que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum
orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á
força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!

--V. ex.^a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de
calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras
textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas
palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na
creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem
a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao
Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua
intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz
creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente
d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor,
conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são
inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal
da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe
conservar a sua felicidade!»

--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de
Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da
esposa de Jesus Christo.

--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos
desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço
homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me
blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.

--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não
póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o
mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da
natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos
que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao
universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a
ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade,
submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.»
«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o
psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e
destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem,
quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se
tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não
é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do
homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro.
Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da
eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É
aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega
primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer,
porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a
alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de
materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das
nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por
intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento
que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema
intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as
presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas
paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus
movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma,
posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os
seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar
penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além
do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não
está, Deus é um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do
homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no
momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem
degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi
depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se
pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia
dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus,
seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma,
para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso
provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos
convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que
amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como
os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao
pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o
espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma
porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do
sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma
substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo
Espirito.

--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união
real?--interrogou o conde.

--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se
serve para obter o conhecimento dos objectos.

--Mas qual é a natureza d'essa união?

--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio
d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil
entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima
consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal
união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia
da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos
órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as
fibras. Sabe, por ventura, v. ex.^a explicar-me a natureza de certas
operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida
pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu
exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela
resistencia dos sentidos.

--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de
querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa
tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto
parece-me uma flagrante injustiça!

--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o
peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus
descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos
d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes,
alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa
semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma
acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um
crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e
com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos
os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta
estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo
porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos
é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em
proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de
innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela
culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se
escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a
tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da
vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.

O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo
a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo.
Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:

--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo,
responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...

--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite
pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia
sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as
funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.^a que os
apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora
eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não
quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha
noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João
Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.


XXIII

As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes.
Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que
engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou
pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber
impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a
desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.

Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras
resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda
compaixão:

--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra
sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o
desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas
desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle
ter sido!...

Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia
religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa
retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a
favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado
pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma
philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não era aquella
do seu amigo conde.

O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi
invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre
que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração
de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não
tinham enfastiado ainda.

A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de
vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do
mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e
herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.

Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle
fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um
peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria
tardio.


XXIV

Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente,
porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles
que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se
occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da
religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de
correr parelhas no cynismo philosophico do conde.

Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e
acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes
tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes
uma historia assim resumida:

«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu
mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o
mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o
primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um
hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor.
Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola
do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a
conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»

Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!...
Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do
cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»



LIVRO III


I

Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu
cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de
reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se
bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á
vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente
as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e
aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja
imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.

E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro
rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta
transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na
conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.

A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da
graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas
do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára
vencer.

Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um
abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de
todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A
melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais
aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção,
nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi
sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que
lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o
mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os
elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não
vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta
esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos
espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a
tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que
pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo.
O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam
inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em
faze'-los proveitosos.


II

N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava
trabalhada, inspirou-lhe a sua afflicção um pensamento que longas e
veladas noites lhe alvoroçou o espirito, antes que seus labios o
proferissem.

Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro á sociedade; leva'lo elle
proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem,
tanto como elle, na regeneração d'aquelle mancebo.

Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam ás do
parentesco, e ás novas que adquirira na casa em que vivia.

Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em
sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma
pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua
posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não
sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do
homem que fôra mau e parecia bom.

A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo,
cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que
Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho,
e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.

E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois
sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção.

Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de
sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa
suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua
familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram
n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em
communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.

Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou
a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi
talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não
promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no
espirito.

Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero
agouro. Seriam illusões de uma boa alma?


III

O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A
mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia
de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com
jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de
interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham
medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao
pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de
que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei
Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se
precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o
padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não
temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo...
Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as
minhas culpas... Não temas, meu irmão.»

Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas
raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que
as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de
beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou
silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.

Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio
das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina
consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de
melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que
Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser
recebido como amigo no seio de sua familia.

Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio
destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso
quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma
poesia intitulada _presentimento_, dissera tudo quanto podia dizer, vira
o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia
caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o
seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.


IV

A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente
aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na
sua sala um extranho.

Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia,
pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a
inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta
rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos
senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.

Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um
acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a
respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer
das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle
nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter
visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o
sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.

E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?

Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor
possa ver a de Alvaro da Silveira?

Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura,
illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da
face e os da alma?

E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a
mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente
simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa
idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já
encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...

Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de
Maria dos Prazeres.

A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu,
na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações
immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas
invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da
Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros
tempos, poderia abater-lhe o orgulho.

Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de
maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes
antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os
recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo»
intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da
phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo
genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.

O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do
pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia
encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas
retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo.
Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta
esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer
o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se
acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la
com um momento semelhante na sua vida.

Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava.
Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz
tremula:

--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre.
Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia
deve fazer de mim uma idéa triste...

--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.

--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto,
entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de
um modo que v. ex.^a de certo não esperava receber um hospede que vive
na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de
reparos.

--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas
cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.^a frequentou. Minha
filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as
aprendesse e v. ex.^a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa
exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas
da côrte é talvez v. ex.^a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se
nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da
fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a
ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.^a as idéas a
respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por
ahi se chamam _fazedores de espirito_. Sejam lá o que forem, eu aprecio
muito a economia de palavras com que v. ex.^a abriu as relações com esta
familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta
casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada
delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem
a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece
queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o
receber.


V

Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria,
cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida
pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei
Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua
sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das
etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras,
fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se
contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á
primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os
corações para o rosto incendiado da formosa menina.

O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz
perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de
musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou
duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio,
alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era
de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era
absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos
de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de
todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas
composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem
com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos
ultimos mezes da sua existencia.

Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que
a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha.
Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas
em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso
passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser
a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela
obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom
grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando
os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede,
que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se
dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um
tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade
de uma senhora.

Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos
recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro
abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das
perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam
a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade,
sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a
bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances,
depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a
leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era
concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos
verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.


VI

Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em
francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para
a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido
da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de
amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. _Amigo_ é uma palavra
profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como
a _palavra de honra_, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade.

As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e
despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde
o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e
cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de
ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema
da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se
retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os
vicios dos seus hospedes _espirituosos_.

D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado
pelo conde de *** primára como bom artista de _equivocos_, e
trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente
pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria
saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.

Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de
sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e
sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se
extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em
exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e
tão fascinadora no dom da palavra.

Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os
temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposição
das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem se lançára
tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera menina,
ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite era aos
seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias,
se diria a frei Antonio dos Anjos.

Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era,
que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa,
merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria
dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos
se interessavam.

Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e
particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que
as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia
superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou
dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor.
Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham
creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os
romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua
mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera
romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na
defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do
talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.

--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha
tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é;
matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da
realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o
discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz
senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas
seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é
levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a
triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da
innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más
situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem
aborrecer o que é virtude...

--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas
tintas da seducção?

--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho
lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade:
mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar
as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de
ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para
fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral
religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa
philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado,
outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito
essas más doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio
em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se o primeiro
incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse
alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um
livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e pelo estudo!...
Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me
dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas
vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos de prazer.
O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em que a
intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da
mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio
de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não
sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...

Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e
abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o
desgosto de ouvi'-la.

Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz,
que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos,
sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o
respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do
espirito.

Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de
perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no
coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de
remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos
homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de
ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a
Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela
primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o
segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria
nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia
sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o
viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e
mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter
concorrido para a regeneração de um anjo.


VII

Á primeira visita succederam outras.

Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que
assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do
discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz
tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a
felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde
que visitara a obscura familia de frei Antonio.

Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um
moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de
suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas,
passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão
zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de
seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada
n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de
Maria dos Prazeres.

Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que
frequentaram juntos a casa do coronel.

--Parece-me que és feliz, Alvaro.

--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato
a Deus.

--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a
força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a
virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a
tempestade vier depois da bonança...

--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para
vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me.
Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso
luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.

--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o
mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração,
porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.

--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração
que se morre...

--Se a virtude nos não vale...

--A intenção com que me diz essas palavras...

--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho,
e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te
renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam
vencer por pequenas resistencias...

--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que
me anime a falar-lhe.

--Adivinhei a tua alma?

--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...

--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos
a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que
nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.

--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?

--Que sentes por ella, Alvaro?

--O pae adivinhou-me... _é um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o
meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa
desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a
liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...

--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.

--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti,
vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez
vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga,
adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha
alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos
innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae,
provocar as tempestades do coração?

--É, filho.

--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma
mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar
a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que
nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...

--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o
enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em
que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e
grandes expiações a soffrer na terra.

--Pois bem, meu pae...

Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas
se mostraram.

--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É
sensibilidade ou arrependimento?

--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.

--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa
menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas
palavras, na educação...

--Não é o coração de Maria dos Prazeres.

--Pois qual?

--O de meu pae.

--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?

--Gosta de Maria dos Prazeres?

--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se
das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?

--O pae quereria ter uma assim?

--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...

--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.

O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu
costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio
inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos;
e, depois de alguns segundos, disse:

--Queria.

--Queria assim dar-me um esposa?

--Queria. E serias tu digno d'ella?

--Não ouso responder.

--Pois medita.

Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção,
dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:

--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua
crueldade. Medita, Alvaro.

E deixou-o.


VIII

Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte
dialogo:

--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar
se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?

--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos...

--Que se não dizem a uma amiga?

--Que se não dizem por que se não sabem dizer...

--E sentir, sim?

--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de
mim, não?

--Pois eu vou queixar-me, Maria?!

--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo...

--De que?

--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que
o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa
se esconde aos meus.

--Nada tens dito a teu tio, filha?

--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?

--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em
tua alma.

--E eu sei!...

--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom
tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que
é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas,
Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?

«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde
estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo,
Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como
amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas.
Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa
uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do
coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados
com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades
de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se
povoam de anjos.

«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que
falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de
sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu
desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não
confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua
sensibilidade não póde ser só da tua familia: deve extender-se a tudo
que te rodeia.

«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem
protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria
aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por
elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me
eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança?
Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo,
filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir
constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!...

«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece
providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem
reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não
ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo
acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de
filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com
estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus
irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos
seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade
domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano!

«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle
do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para
ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz,
diz, Maria...

A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem
sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor
do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.

Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.


IX

--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.

--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de
Maria.

--Pois então dizei-me por que choraes.

--Logo, logo...

Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.

--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.

--Vou trabalhar, meu tio.

--Havemos de falar logo.

Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:

--Vá chamar seu marido e venha com elle.

O coronel entrava n'este momento.

--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar.
Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?

--Bem; parece-me um bom moço.

--E o vosso, minha irmã?

--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o
conhecesse desde creancinha.

--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?

--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As
lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.

--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.

--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração,
lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.

--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a
Providencia quer que se amem...

--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.

--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus
paes...

--Se elles a approvarem, meu irmão.

--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico
por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós
não defendermos, defende-se ella.

--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.

--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o
de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá resolução. O
pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle
pede-a para sua filha. Que respondeis?

--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o
coração--disse a mãe de Maria.

--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse
moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado
alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a
minha vontade.

--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda
agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu
conheço pouco do mundo.

--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem
hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena
alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida
exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo.
Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a
nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o
escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me.
Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram
exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser
virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser
hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a
nova da minha conversão ao conhecimento da familia de minha mulher.
Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia
para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei a convencer-me
de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e
concederam-m'a. Casei... e depois...

--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.

--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o
fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular.
Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e
particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada.
Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo
já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus
vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito
dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá.
Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que
tu sabes, meu irmão.

«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um
gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o
aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse
inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o
impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro
quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir
dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as que tem
sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Alvaro
ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo d'ella:
cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta
annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me a esta
pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje.
Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da
sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo,
agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse
conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores
que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço
póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu,
porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente.
Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de
sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.


X

Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade
pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao
coronel o casamento, com que o pae queria recompensar as virtudes de uma
familia, á qual devia a regeneração de seu filho.

O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo.
«Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu
amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse
ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado
o edificio da virtude de Alvaro.

O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel.
Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos
de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.

Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites
seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.


XI

Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem
perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites,
via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe
perguntava que mal fizera ella a Alvaro.

A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que
presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles
singelos versos que fizera nascer uma musica triste, filha da sua
imaginação.

Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de
seu pae a febre constante que a extenuava.

Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei
Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua
cunhada ao pé do leito de Maria, e disse:

--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças,
sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será.

Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de
ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue.
Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos
seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra,
quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes.


XII

E dizia o coronel a seu irmão:

--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito
experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam
dignos um do outro. Casem embora, e queira o céo que eu me arrependa mil
vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou
minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu
lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la infeliz.
Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de
arrependimento.

--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.

--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não
desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem
seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado
d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente.
Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim;
não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria
o que as flores foram na minha?


XIII

Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se
expansões sem testemunhas aos dois amantes.

A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino,
afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se
quererem.

Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava.
Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em
vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e
ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se
infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre
como todos.


XIV

Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de
Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de
felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava
alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda
creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas
carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria
se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com
elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em
redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e
rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae
erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo
da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso
na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua
familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo
tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre.
Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos,
desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.

--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.

--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta
familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta
casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de
emprestimo.

O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:

--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua
familia?

--Não...--disse a mãe de Maria.

--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste!
No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que
deixou.

--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma
mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não
lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?!
Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a
differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração.
Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão
dos meus irmãos, aqui...

Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades,
chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham
visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas
carruagens.

--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que
tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As
maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a
munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de
orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece
dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de
vos querer elevar com ella!» Não te parece?

--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.


XV

Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na
alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a
esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do
prazer esconde no fundo.

Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te
via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados
horisontes do meu destino?

O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre
a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de
infeliz?

Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura
como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os
pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do
ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te
busca na terra, a esponja acerba do desengano?

Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra?
Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de
sangue no cadafalso as tuas grinaldas?

Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a
condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não
estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da
esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que
o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua
mãe.

Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era
falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera;
a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a
independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.

Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma,
porque o não salvaste do punhal de Bruto?

Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de
Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e
Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre
espirito, o premio benemerito do coração immaculado?

Na gloria da sabedoria?

Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as
multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito
abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo
inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as
ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos,
honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de
pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?

Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do
céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo
inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija
nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um
velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao
seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?

Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra,
se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.


XVI

--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua
cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter
enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.

--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um
mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella
os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!

--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não
deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos
reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos
olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato
de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o,
e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me
que rogue a Deus por ella.

--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa
senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só!
Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o
contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o
puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno
d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava
saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que
direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso
anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos
enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com
exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá
dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso,
sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que
ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na
presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina
que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...

--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique
com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa.
Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que
minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde
ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós
precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O
anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas
vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas
escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de
responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver
n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria
faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua
tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao
marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha
que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de
familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha:
augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu
conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e
sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu
marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem
jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais
em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos
lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim
aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.


XVII

O velho Silveira chamou seu filho, e disse:

--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?

--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o
soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.

--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar
com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este
anjo?!

--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu
pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?

--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da
perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a
tua emenda?

--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é
hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.^a não me
accuse sem fundar a sua accusação.

--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz
ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?

--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso
trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei
fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a
privo dos seus prazeres...

--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras
vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres
lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que
empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu
procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas
para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com
que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos
padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso!
Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma
explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?

--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma.
Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel
verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia
procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel
illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me
inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a
posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da
indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as
virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas
não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que
o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me
chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu
faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu
pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher...
Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão;
mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é
inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal...
Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu
são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são mais
dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a adorei ha
tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me aggrave as
minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por ella... Eu
tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de
que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e
d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia
auxiliadora. Consiga v. ex.^a que ella saia do quarto, que vá aos
theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas relações,
que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios
domesticos, que eu farei o mesmo...

--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o
velho.

--Como _alliança infame_!--redarguiu o filho.

--Sim! consentes a tua mulher...

--O que? queira dizer, meu pae!

--Tenho vergonha de o proferir!...

--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra.
Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher
allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade
sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes.
Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que
possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua
posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, me algeme a um
gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero
viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe incutiram
a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que não
tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam.
Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli
constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases cançadas de um
amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...

O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de
padre Antonio que se fizera annunciar.


XVIII

Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a
libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra.
Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse
morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é
esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que
converte a piedade em estima.

A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as
lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer
ao seu procedimento.

A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do
pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam
lançar á sua liberdade.

O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole
apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos
prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que
lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o
espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas,
outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.

Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro,
que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua
mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a
respeito da felicidade que o marido lhe dava.

Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á
sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas
brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse
atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos
homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a
esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a
tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que
uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.

O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular
estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos
dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação
de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu
caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em
casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não
podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu
proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.

Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual
porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de
Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos
netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse
tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De
volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que
entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.

Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso,
palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da
viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.

É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...


XIX

Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares,
acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa
Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa,
fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de
tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.

Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a
causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar
queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua
sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo
para tristeza tão inconsolavel.

Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus
grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que
reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e
parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva
respiração de uma queixa.

Frei Antonio entendeu-a, e disse:

--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao
Senhor que nos dê melhor vida a ambos.


XX

A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:

--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem
pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos
infelizes.

--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.

--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a
doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim,
sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de
meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.

--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais
abatida, mais magra, e mais febril.

--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A
morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de
Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que
eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas
d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito...
minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu
pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a
morte...

--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua
existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.

--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?

--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.

--Pois esse amor póde por ventura tornar?

--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é
impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia.
Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o
anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha.
Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom
coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas
supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos,
quando a sua bondade quizer.


XXI

Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a
Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro.
Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver
attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse
vê'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a
acompanhassem no ermo em que vivia.

O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se
banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O
conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a
resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha
entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos
tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria.
Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os
incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida,
e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua
pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada,
provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava,
ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que
os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.

Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma
sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.


XXII

Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em
casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a
carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o
prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.

Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta
no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o
alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de
um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a
insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao
pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras
confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão
ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.

--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.

--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que
dei longo de mais para as minhas forças...

--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.

Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para
outra idéa.

Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a
enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:

--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem
quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a
passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto
assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por
instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa
carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora
estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz
da graça.

Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade
saíra.


XXIII

Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta,
que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos
diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:

--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.

Maria ajoelhou ao pé d'elle.

--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, pede comigo
ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu agrado.

Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.

--Pensei, meu tio--disse Maria.

--E então?

--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da
minha fé, se não se oppuzer.

--Pois diz, filha.

--Eu fujo a meu marido.

--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.

--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.

--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres
dizer que entras n'um convento.

--Sim, sim.

--Foi a minha idéa, quando orava...

--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com
arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi
muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas.
Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas.
Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que
pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus
paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e
eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho.
Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de
meu tio, quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o conheci.

--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades
de Alvaro, não levas?

--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da
compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e
assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto,
meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de
vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo
de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de
todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o
nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando
elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que
elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as
Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No
tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em
pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse
como creada...

--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...

--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas
senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja
creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas
situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma
d'essas... pois não?

Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio
depois de abraça'-la, disse:

--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos
como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a
Alvaro.

--Pedindo-lhe consentimento?

--Sim.

--Se m'o nega?! não vou?

--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo
direito da victima. Onde ha algoz não ha marido.


XXIV

Era assim a carta de Maria a seu marido:

«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do
teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento,
tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer
e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo,
cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se
não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer
que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.

«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.

«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da
liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o
eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do
remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas.
Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra
aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me
surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que
exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito
de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança,
nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.

«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este
titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o
grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos
suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com
arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu
tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que
m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.

«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e
vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque
não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das
tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.

«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida
obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu
caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na
sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos
olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na
simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole.
Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá
contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me
deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar
as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.

«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração,
quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de
ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára
mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.

«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por
aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu
que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até
que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia
lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu
não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae,
tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu
conto com a bondade da sua alma.

«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo,
porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o
teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus
ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia
sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de
allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu
farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito.
Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a
mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás
sempre uma irmã.

«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de
que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha
vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não
fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem
filha do espirito.

Adeus.

                                                       Tua mulher

                                                _Maria dos Prazeres._»


XXV

Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os
seus livros, e uma pouca de roupa branca.

--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle
continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e
estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde
um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua
cartinha.

Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a
instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na
côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.

--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o
proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei
então saber qual ella foi.

--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.

--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja
prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento
que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que
não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é
possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a
mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no
teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco...
Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com
olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma
só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é
Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te
eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte,
perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.


XXVI

Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o
esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se
deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo
da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma
accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.

Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O
portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava
sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe
Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse
hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou
elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta,
a carta de sua mulher.

Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que
este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de
consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou
tambem.

--Vamos, filha--disse elle por fim.

--Já?! de noite?--reflectiu ella.

--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma...
Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com
a nossa familia.

--Pois está tudo arranjado?

--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da
sr.^a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de
deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho
dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos
embora.

Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até
entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém,
foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi
apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe
bebiam as lagrimas da face.

O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém,
queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por
lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque
fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos
da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.


XXVII

A sege parou defronte do mosteiro.

Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do
arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro
despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que,
enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas
de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da
abafação angustiosa em que penára.

Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e
sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe
e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para
a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a
virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, protectora
sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das carinhosas freiras
que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á querida hospeda.

D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O
coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica
da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem
enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que
tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria
talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem
confessa a maior culpa de tamanha desventura.

Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda
assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.

Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não
entendesse a freira condoida, disse:

--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as
nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria
que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais
feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras
d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.

Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os corações.
Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.

Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam
os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com
ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.


XXVIII

Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o
seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho
alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha,
a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o
eram.

Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:

--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É
homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu
pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria
vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos
com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade
para o receberes.

E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho
Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O
claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade
onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o
velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes,
pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro.

Siveira apertava a mão do padre, e dizia:

--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os
padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha
magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle,
e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...

Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos
os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a
christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as
provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.

Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O
velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza
para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma
secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias
possiveis n'um convento.

Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um
ceitil em quanto pudesse trabalhar.

Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões,
demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira
queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto
replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua
obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir
na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia
ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos,
porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio.



LIVRO ULTIMO


I

Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de
todos os homens perdidos.

A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos
seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um
divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento.

Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu
amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que
poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o
descartára a elle do tropeço conjugal.

O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no
convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que,
de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a
chamada _sociedade do delirio_. Ao estrondo das primeiras impudencias, o
pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido com desdém, e
repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho coração não podia
com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi desamparado dos
parentes que o inculpavam na educação licenciosa de Alvaro. Quem lhe
ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho. Frei Antonio dos
Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora da morte, que as
dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis vintens para mandar
dizer por sua alma uma missa.


II

O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte
de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae
lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á
dissipação.

Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.

Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns
contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de
tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.

Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava
á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca
de uma somma quasi egual ao valor d'elles.

Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se
arrependesse, apressou o contracto.

O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma
para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as
sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto
logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!

Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo
interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos
d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que
seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para
uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe
aproveitasse depois de uma lição amarga.


III

Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de
onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo
ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro
pedia com humildade, se não era antes relaxamento, soccorro ao creado de
sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em deposito, para
ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a seu marido.

Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que
não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da
desgraça, sem honra, se encontram.

Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava.
O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de
levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.

Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira.
Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras,
achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os
explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do
logista.


IV

Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o
desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser
intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos.
Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito
embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada,
porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos
desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a
resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.

Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella
nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a
propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente
com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta
carta.

Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle
vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o
offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro
preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções
de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.

Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.

--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?

--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me
d'elle.

--Minha sobrinha?!

--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse
dos meus rendimentos por vinte annos...

--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.

--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui
creado na opulencia, e ella...

--Na miseria: póde v. ex.^a acabar a phrase que nos não envergonha.
Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.

--Não entendo...

--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.

--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?

--Migalhas.

--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe
esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem
castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha
especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o
homem que teve.

--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.

--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou
deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito,
esse tudo era meu.

--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito!

--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella
me repellisse.

--E se ella o abraçasse na sua pobreza?

--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria
hoje a feliz virtuosa que foi.

--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela
esperança...

--Esperança!...

--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me,
sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é
um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este
mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam
empregar na sua regeneração, verá v. ex.^a o que é nas mãos da
pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe
fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de
ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem
se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro
da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e
esperança...

Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão
de palavras qual d'ellas mais tocante.

Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:

--Vae, sr. Alvaro?

--Irei, se assim o quizer.

As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas
que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a
florir, para fructos abençoados.


V

O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia
constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém,
desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.

Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas
accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe
esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si
proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas
primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar
sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia
quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.

A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as
acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro,
tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da
soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca
poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora
entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria
constante lh'a estava descarnando sempre.

Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se
Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em
miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará
no coração d'esse Lucifer despenhado.


VI

Maria recebeu esta carta:

«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como
hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde
estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a
peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando,
e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o
destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que
eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre
as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para
onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções!

--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me
não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está
o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes
humilhadora. Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que vivo. A
esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus.

                                                            _Alvaro_».


VII

As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á
leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a
primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro
o padre.

Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:

«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao
arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei,
e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide
restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma
felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu
precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa
que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma
soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não
queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas
esperanças.

                                                             _Maria_».


VIII

O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta
vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que
viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.

Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para
sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro,
e, só depois da missa, viria ao locutorio.

O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio
de uma amiga, um _ai_ que o denunciára. A amiga, electrisada pelas
lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que
tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar,
magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a
musica do _Te-Deum laudamus_.

Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade
trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do
arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as
organisações delicadas.


IX

Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber
porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o
motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a
prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria,
pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao
seio com alvoroço de contentamento.

--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as
palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no
infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu
o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for
possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a
minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz
blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa
vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que
se póde ser pobre e feliz!

A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu
oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança
em Deus no coração.

Entraram na grade.


X

Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia
entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui
affavelmente:

--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de
cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e
seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me
disseram ser esposa de v. ex.^a Tratei de averiguar se era verdade. O
mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre
que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo
do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu
digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não
póde ser sua esposa, sem que v. ex.^a m'a venha pedir com todas as
formalidades de noivo.

--E dar-m'a-ha v. ex.^a?--perguntou Alvaro correspondendo com
jovialidade á graça risonha da prelada.

--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé
de nós.

--Como, minha senhora?!

--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de
razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira,
que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar
por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão
lindos! V. ex.^a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta
Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr.
Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa
e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae?

--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.^a.

--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos
Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas,
que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que
ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir
contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos
pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do
mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.

Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a
face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos
rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da
ainda formosa Maria.



XI

--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não
podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias
que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de
estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias
a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha
de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita
prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque
eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me
contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa
vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á
minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento
e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e
trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro,
responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.

--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.

--Não está?!--interrompeu a prelada.

--Se estivesse ao pé de v. ex.^a... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no
coração arrancando-me os espinhos que m'o rasgavam. Deixe-me verter este
pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte de asfixia.
Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer mais nada.

--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e
ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o
d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella
postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e
contemplando-a, mudamente.


XII

Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade
passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora
limpava as lagrimas.

--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso
jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais
instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e
entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da
resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o
seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado?
Pois ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje ha
de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã ha de ter um
quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a minha filha me
deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração até Deus; são
um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que significa o
throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da gloria
eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia,
desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro;
eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a
minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas
lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?

Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de
Alvaro, e conheceu-o opprimido.

--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.

--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma...
diz-me: «perdôo-te.»

Maria exclamou entre soluços:

--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira,
pedia-te perdão agora.

--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.

--O que?--perguntou a prioreza.

--É certo que é possivel a felicidade para mim?


XIII

Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram
repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava
confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com
a rehabilitação de Alvaro.

Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com
ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo
livre.

Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que
despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria
vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um
soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.

O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou
elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia
muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:

--Estou punido, meu Deus!


XIV

Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:

--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho,
agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.

Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.

--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não
abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a
santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar
que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses
ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos,
não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é
certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que
entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as
nossas ultimas migalhas de pão.


XV

Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha
emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.

--Já sabe tudo?--perguntou o padre.

--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher
todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle
agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento?
Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.

--É pouco de mais o que elles têem para viverem.

--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que
nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles.

Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no
convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento
para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de
lagrimas felizes.

Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir
d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a
prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os
impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua acção
de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento
da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraçado
que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e o coronel
rejuvenescia da intempestiva velhice.

--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle.

--A providencia de Deus--respondia o irmão.

--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.

--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias.


XVI

Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua
primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o
ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com
quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao
extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não
ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.

O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:

--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. A minha conversão
religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava
pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com
enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no
lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos
confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem,
procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de
encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu destino.

«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel.
Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas
perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os
seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e
alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu
coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O
amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia
sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da
liberdade.

«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que
aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria
tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos:
dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do
templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se
apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas,
até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso
que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu
pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam
desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro.

«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me
que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a
conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de
alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a
respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas
perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me
insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que
parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros
e de baixa condição.

«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a
mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.

«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei.
Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive
uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação
aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do
diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa
da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi
quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, porque estou pobre, e
outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.

«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos
sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos
braços.

«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas
o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o
infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o
espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na
esperança de uma vida melhor.

«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de
impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o
desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo
divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é
o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a
omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da
argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que
o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo,
creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos
aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha
rehabilitação.»

Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de
felicidade inexprimivel.


XVII

N'um dia de 1839[NT], frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o
lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.

--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar
as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros
de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O
que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha
dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de
Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta
o sr. Alvaro?

--Melhor do que as minhas ambições.

--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?

--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.

--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?

--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.

--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...

--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que
confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.

--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um
creado antigo da sua casa, doente?

--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença
estava eu para pedir-lh'a...

--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais
breve que possa ser.


XVIII

No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o
merceeiro Joaquim Nunes.

As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo.
Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o
velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em
afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de
humilhar-se para rehavê'-los.

--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e
agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.^a D. Maria
e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa
do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?

--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para a nossa
companhia!--exclamou a sobrinha do padre.

--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr.
padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio
acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os
meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas
pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem
que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a
doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de
sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.

Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito,
limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr.
Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria
ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos.


XIX

Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.

Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo
physico e moral da mudança.

Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos facultativos.
Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um mez de
alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a
restabelecer-se.

No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um
tabellião.

Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que
instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O
testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de
doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o
alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados
excediam a meio milhão.


XX

Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas
lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo
respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só
vontade.

E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro
fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto
d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos.
Cumpriram-se os seus bons desejos.

A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que
todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza.

Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está
constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias.
Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no
HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para
consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem
adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.

Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!


FIM


     [NT] Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não
     estar coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é
     referido mais adiante na obra pelo que deve ser esta a data
     correcta.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Lagrimas Abençoadas" ***

Doctrine Publishing Corporation provides digitized public domain materials.
Public domain books belong to the public and we are merely their custodians.
This effort is time consuming and expensive, so in order to keep providing
this resource, we have taken steps to prevent abuse by commercial parties,
including placing technical restrictions on automated querying.

We also ask that you:

+ Make non-commercial use of the files We designed Doctrine Publishing
Corporation's ISYS search for use by individuals, and we request that you
use these files for personal, non-commercial purposes.

+ Refrain from automated querying Do not send automated queries of any sort
to Doctrine Publishing's system: If you are conducting research on machine
translation, optical character recognition or other areas where access to a
large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the use of
public domain materials for these purposes and may be able to help.

+ Keep it legal -  Whatever your use, remember that you are responsible for
ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just because
we believe a book is in the public domain for users in the United States,
that the work is also in the public domain for users in other countries.
Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we
can't offer guidance on whether any specific use of any specific book is
allowed. Please do not assume that a book's appearance in Doctrine Publishing
ISYS search  means it can be used in any manner anywhere in the world.
Copyright infringement liability can be quite severe.

About ISYS® Search Software
Established in 1988, ISYS Search Software is a global supplier of enterprise
search solutions for business and government.  The company's award-winning
software suite offers a broad range of search, navigation and discovery
solutions for desktop search, intranet search, SharePoint search and embedded
search applications.  ISYS has been deployed by thousands of organizations
operating in a variety of industries, including government, legal, law
enforcement, financial services, healthcare and recruitment.



Home