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Title: Luiz de Camões: notas biograficas - Prefacio da setima edição do Camões de Garrett
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
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CAMILLO CASTELLO BRANCO

LUIZ DE CAMÕES

NOTAS BIOGRAPHICAS

PREFACIO DA SETIMA EDIÇÃO DO CAMÕES DE GARRETT

NA LIVRARIA DE ERNESTO CHARDRON, Editor

PORTO E BRAGA



Luiz de Camões

NOTAS BIOGRAPHICAS

PREFACIO DA SETIMA EDIÇÃO DO CAMÕES DE GARRETT

PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

Cancella Velha, 62



CAMILLO CASTELLO BRANCO

LUIZ DE CAMÕES

NOTAS BIOGRAPHICAS

PREFACIO DA SETIMA EDIÇÃO DO CAMÕES DE GARRETT


Livraria Internacional

DE

ERNESTO CHARDRON--EDITOR

PORTO E BRAGA

1880



A

D. Antonio Alves Martins

BISPO DE VIZEU

OFFERECE O DISCIPULO E AMIGO

Camillo Castello Branco.



LUIZ DE CAMÕES


I

O protagonista do sempre formoso poema de Almeida-Garrett é um Luiz de
Camões romantico, remodelado na phantasia melancolica d'um grande poeta
exilado, amoroso, nostalgico. A ideal tradição romanesca impediu, com as
suas nevoas irisadas de fulgores poeticos, passante de duzentos e
cincoenta annos, que o amador de Natercia, o trovador guerreiro, fosse
aferido no estalão commum dos bardos que immortalisaram, a frio e com um
grande socego de metrificação, o seu amor, a fatalidade do seu destino
em centurias de sonetos. Garrett fez uma apotheose ao genio, e a si se
ungiu ao mesmo tempo principe reinante na dynastia dos poetas
portuguezes, creando aquella incomparavel maravilha litteraria. Ensinou
a sua geração sentimental a vêr a corporatura agigantada do poeta que a
critica facciosa de Verney e do padre José Agostinho apoucára a uma
estatura pouco mais que regular.

Camões resurgiu em pleno meio-dia do romantismo do seculo XIX, não
porque escrevêra os LUSIADAS, mas porque padecera d'uns amores
funestissimos. O seculo XVIII citava-o apenas nos livros didacticos e
nas academias eruditas, como exemplar classico em epithetos e figuras da
mais esmerada rhetorica. Tinha cahido em mãos esterilisadoras dos
grammaticos que desbotam sapientissimamente todas as flôres que tocam,
apanham as borboletas, prégam-as para as classificarem mortas, e abrem
lista de hyperboles e metaphoras para tudo que transcende a legislatura
codificada de Horacio e Aristoteles.

Luiz de Camões, qual o figuram Garrett no poema tragico e Castilho no
drama ultra-romantico, e as musas indigenas e forasteiras nas suas
contemplações plangentes, é o que se requer que seja o martyr do amor, o
soldado ardído, o talento menoscabado pela camarilha dos reis. Os
maviosos sentimentalistas afizeram-nos a estas côres prismaticas--ás
refulgencias das auroras e dos luares theatraes. Mal podemos encarar o
nosso Camões a uma grande luz natural. Queremol-o na tristeza
crepuscular das tardes calmosas, na mesta solidão dos mares, nas
saudades do desterro, no desconforto das primeiras precisões, vivendo da
mendicidade do Jáo--do _escravo_, como se alguma hora houvesse em
Portugal escravos de procedencia asiatica--e das economias da preta,
arrastando-se sobre moletas do adro de S. Domingos para o catre do
hospital. Quem nos mostrar Camões á luz com que a historia e a critica
inductiva elucidam as confusas obscuridades dos homens
extraordinarios--e por isso mais expostos á deturpação lendaria--poderá
avisinhar-se da verdade? mas, do mesmo passo, se desvia da nossa
inveterada opinião, e talvez incorra em delicto de ruim portuguez.

Eu me vejo n'este perigo e não me poupo ás eventualidades da ousadia.
Pretender exhibir novidades inferidas de factos comparados e
probabilidades em uma biographia tantas vezes feita e refeita, será
irrisorio atrevimento quando m'as poderem contradictar com provas
solidamente cimentadas. O que não parecer novo n'estes traços será uma
justificada emenda aos erros dos biographos antigos e recentes em que
nomeadamente avultam os senhores visconde de Juromenha e doutor
Theophilo Braga que segue muito confiado aquelle douto investigador com
uma condescendencia extraordinaria para escriptor que tanto averigua.


II

Direi primeiro do amor meio lendario de Luiz Vaz de Camões a D.
Catharina de Athaide, como causa essencial da sua vida inquieta e dos
revezes da sinistra fortuna procedentes d'esse desvio da prudencia na
mocidade.

Diogo de Paiva de Andrade, sobrinho do celebrado orador, deixou umas
LEMBRANÇAS ineditas que passaram da opulenta livraria do advogado
Pereira e Sousa para meu poder[1]. Diogo de Paiva nascera em 1576. É
contemporaneo de Camões. Conheceu provavelmente pessoas da convivencia
do poeta. Poderia escrever amplamente, impugnando algumas noticias de
Mariz, de Severim e de Manuel Corrêa. Era cedo, porém, para que o
assumpto lhe interessasse bastante. Na juventude de Paiva, as memorias
de Camões não tinham ainda attingido a consagração poetica de que se
formam as nebulosas do mytho. Diogo de Paiva pouco diz; mas, n'essas
poucas linhas, ha duas especies não relatadas pelos outros biographos:

_Luiz de Camões, poeta bem conhecido, tendo 18 annos, namorou Catharina
de Athaide, e principiou a inclinação em 19 ou 20 de abril, do anno de
1542, em sexta-feira da semana santa, indo ella á igreja das Chagas de
Lisboa, onde o poeta, se achava. A esta senhora dedicou muitas das suas
obras, e ainda que com differentes nomes é a mesma de que falla
repetidas vezes. Foi depois dama da rainha D. Catharina, e continuando
os amores com boa correspondencia, mudou ella de objecto para os agrados
de que Camões se queixa em suas composições. Por estes amores foi quatro
vezes desterrado: uma de Coimbra, estando lá a côrte, para Lisboa; outra
de Lisboa para Santarém; outra de Lisboa para a Africa; e finalmente de
Lisboa para a India, d'onde voltou muito pobre, sendo já fallecida D.
Catharina, por quem tão cegamente se apaixonára._

O desterro de Camões de Coimbra, onde estava a côrte, é a novidade que
não pude conciliar com o facto de ter residido D. João III em Coimbra
nos annos immediatos a 1542, anno em que o poeta vira D. Catharina na
igreja das Chagas. Os impressos que consultei, e não foram poucos, não
me esclareceram. Sei tão sómente que o rei esteve em Coimbra por 1527 e
1550. N'esta segunda data já Camões se repatriára do segundo desterro em
Africa. Quanto á inconstancia da dama da rainha--novidade de mais facil
averiguação--os factos que vou expender a persuadem coherentemente.

D. João III, o rei-inquisidor, e _piedoso_ por antonomasia, antes de
fazer um filho em Isabel Moniz, fizera outro em Antonia de Berredo. Eram
ambas de linhagem illustre. A primeira finou-se n'um convento da Guarda,
sem ter visto seu filho Duarte que, aos 22 annos, morreu arcebispo de
Braga. A segunda ficou na côrte, e achou marido de raça fina, sem
embargo da concubinagem real, aggravada pelo acto da sua notoria
fecundidade. A criança tinha morrido. Os nobiliaristas chamaram-lhe
_Manuel_ e occultaram-lhe o nome da mãi, visto que ella propagou altos
personagens, sujeitos envergonhados.

Antonia de Berredo casára com um viuvo rico e velho, Antonio Borges de
Miranda, senhor de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, que de sua primeira
mulher, da casa de Barbacena, tivera dous filhos, a quem competia a
successão dos vinculos. D. Antonia concebeu do marido, e deu á luz um
menino que se chamou Ruy Borges Pereira de Miranda. O marido falleceu.
Os filhos do primeiro matrimonio, Simão Borges e Gonçalo Borges foram
esbulhados da successão dos vinculos--um estrondoso escandalo em que
influiu o arbitrio despotico do rei a favor do filho da sua amante[2].

Apossado iniquamente dos senhorios de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho,
Ruy Borges, filho de Antonia de Berredo, affeiçoou-se a D. Catharina de
Athaide, filha de Alvaro de Sousa, veador da casa da rainha, senhor de
Eixo e Requeixo, nas visinhanças de Aveiro. D. Catharina era pobre, como
filha segunda; seu irmão André de Sousa era um simples clerigo, prior de
Requeixo; o senhor da casa era o primogenito Diogo Lopes de Sousa.

D. Catharina aceitára o galanteio do poeta Luiz Vaz de Camões, talvez
antes de ser requestada por Borges de Miranda. O senhor de Ilhavo,
rivalisado pelo juvenil poeta, sentia-se inferior ante o espirito da
dama da rainha. Seria um estupido consciente; queixou-se talvez a mãi.
Não é de presumir que a mulher de D. João III se aviltasse protegendo o
galanteio repellido do filho da Berredo--amante notoria de seu marido;
mas é natural que a mãi de Ruy Borges recorresse directa e
clandestinamente ao rei solicitando o desterro do perigoso émulo de seu
filho. Assim pôde motivar-se o primeiro desterro de Camões para longe da
côrte, e o segundo para Africa em castigo da teimosia d'elle e das
vacillações de Catharina de Athaide na aceitação do opulento Ruy
Borges,--vacillações transigentes com a riqueza do rival do poeta pobre,
a meu vêr. A dama não seria muito escoimada em primores de fidelidade.
Das damas da côrte de D. João III, dizia Jorge Ferreira de Vasconcellos:
«todas são mui próvidas em não estarem sobre uma amarra por não ser como
o rato que não sabe mais que um buraco»--e talvez pensasse em Camões
quando escrevia: «Elle cuida que por discreto e galante ha de vencer
tudo: eu quizera-lhe muito mais dinheiro que todas suas trovas, porque
este franqueia o campo, e o al é martellar em ferro frio[3]».

Sahiu Camões para a Africa em 1547, e lá se deteve proximamente dous
annos. Quando regressou, a dama da rainha era já casada com Ruy Borges e
vivia na casa do esposo convisinha de Aveiro, entregue ao ascetismo, sob
a direcção de frei João do Rosario, frade dominicano.

Subsistem umas MEMORIAS communicadas a Herculano em 1852, e datadas em
1573 por aquelle frade, nas quaes o confessor revela que D. Catharina,
quando elle a interrogava ácerca do desterro de Camões por sua causa, a
esposa discreta de Ruy Borges respondia que não ella, mas o grande
espirito do poeta o impellira a empresas grandiosas e regiões,
apartadas. Esta resposta, um tanto amphibologica, argue e justifica o
honestissimo melindre da esposa.

Se respondesse: «fui a causa de seu desterro», daria testemunho menos
nobre de sua ingratidão, e teria de córar como esposa voluntaria de Ruy
Borges, como treda amante do desditoso poeta, e ainda como filha
espiritual do frade nimiamente indagador que varias vezes e
indelicadamente a interrogava sobre o caso melindroso: _E todas las
vezes que no poeta desterrado por saa rasão lhe falava..._--escreve frei
João do Rosario.

O arrependimento, o tedio e a saudade não a mortificaram longo tempo.
Morreu Catharina de Athaide em 28 de setembro de 1551, e foi sepultada
na capella-mór que dotára no mosteiro de S. Domingos d'Aveiro em
sepultura que talvez mandasse construir.

Camões não ignorava a tristeza raladora de D. Catharina. Este soneto
exprime o sentimento d'uma vingança nobre até ao extremo de compadecida:

  Já não sinto, senhora, os desenganos
  Com que minha affeiçao sempre tratastes,
  Nem vêr o galardão, que me negastes,
  Merecido por fé ha tantos annos.

  A mágoa choro só, só choro os damnos
  De vêr por quem, senhora, me trocastes!
  Mas em tal caso vós só me vingastes
  De vossa ingratidão, vossos enganos.

  Dobrada glória dá qualquer vingança,
  Que o offendido toma do culpado,
  Quando se satisfaz com causa justa;

  Mas eu de vossos males a esquivança
  De que agora me vejo bem vingado,
  Não a quizera tanto á vossa custa.

Semelhante soneto dirigido á outra D. Catharina de Athaide, dama do paço
que morreu solteira, não tem explicação. Claro é que Luiz de Camões
allude á mulher que o vinga padecendo as mágoas resultantes d'uma
alliança em que elle foi ingratamente sacrificado. Á outra dama que
morreu, estando para casar, segundo a versão colhida pelos primeiros
biographos, não diria Camões:

          _... a vingança_
  _Não a quizera tanto á vossa custa._

Como o vingaria ella, desconhecendo as tristezas de casada que não
chegou a ser? Era mister que se désse mudança de vida irremediavelmente
afflictiva e remordida de arrependimento para que o poeta se ufanasse de
vingado,--e tanto que implicitamente lhe perdôa. O soneto que trasladei
não attrahiu ainda notavel reparo d'algum biographo, sendo a pagina mais
para estudo nos amores de Camões. Antes do generoso soneto, quando a
julgava contente, Camões exprimia-se de mui diverso theor. O ciume, o
despeito e a cólera desafogára n'outros versos perdoaveis á dôr, mas
somenos fidalgos. Chamou-lhe _cadella_.

O viuvo Ruy Borges passou logo a segundas nupcias como quem procura em
outra mulher a felicidade que não pudera dar-lhe a devota Catharina
absorvida no mysticismo, como n'um refugio aos pungitivos espinhos da
sua irremediavel ingratidão.

O poeta grangeára inimigos na côrte. Deviam ser os Berredos e os
parentes de Ruy Borges de Miranda. Entre os mais proximos d'este havia
um seu irmão bastardo, Gonçalo Borges, criado do paço, a cargo de quem
corria a fiscalisação dos arreios da casa real. Teria sido esse o espia,
o denunciante das clandestinas entrevistas do poeta com a dama querida
de seu irmão?

Em maio de 1552, Gonçalo Borges curveteava o seu cavallo entre o Rocio e
Santo Antão, no dia da procissão de _Corpus-Christi_, em que se mesclava
um paganismo carnavalesco de exhibições mascaradas. Dous incognitos de
mascara enxovalharam Gonçalo Borges com remoques. Houve um reciproco
arrancar das espadas. N'este comenos, Luiz de Camões enviou-se ao irmão
de Ruy Borges e acutilou-o no pescoço. O golpe, segundo parece, era a
segurar; mas não deu resultados perigosos para o ferido. Camões foi
preso; e, ao terminar um anno de carcere, solicitou perdão de Gonçalo
Borges que, voluntario ou coagido por empenhos, lhe perdoou, visto que
não tinha _aleijão nem deformidade_. A _Carta de perdão_, produzida pelo
snr. visconde de Juromenha, é datada em 7 de março de 1553, e está
integralmente copiada[4].

Dias depois, Luiz Vaz de Camões sahia para a India, na mesquinha posição
de substituto d'um Fernando Casado, e recebia 2$400 reis como todos os
soldados razos que embarcavam para o Oriente; e para isto mesmo prestou
a fiança de Belchior Barreto, casado com sua tia. Aquelles 2$400 reis
eram o primeiro quartel dos 9$600 reis, soldo annual do soldado reinol.

Expatriou-se na humilhação dos mais desprotegidos. Devia de ter alienado
a estima e o favor de amigos influentes, porque sahia do carcere
rebaixado pelo desbrio com que implorára o perdão, e réo confesso de uma
vingança por motivos menos honestos aos olhos dos velhos serios, e
desdourados na propria fidalguia pelas ribalderias amorosas d'um mancebo
de nascimento illustre. Se Luiz de Camões embarcasse para a India como o
commum dos mancebos fidalgos, receberia 300 ou 400 cruzados de ajuda de
custo.

A familia _Camões_, no reinado de D. João III, esteve relegada da
consideração da côrte. O mais notavel d'essa familia, o cruzio D. Bento,
prior geral da sua Ordem, gozou apenas a prelazia monastica, mas sem
influencia civil d'alguma especie. Simão Vaz de Camões, parente do
poeta, senhor d'um morgado mediano, era, por esse tempo, um libertino
espiado pela justiça, deshonrado por delictos graves e allianças
matrimonialmente ignobeis. Os outros ramos vegetavam obscuros; e alguns
d'essa familia que militaram na Asia não alcançaram alguma qualificação
notavel nos minuciosos annaes de Graspar Corrêa. Diogo do Couto nem
sequer os nomeia.

No reinado de D, João II, Antão Vaz, avô do poeta, casára com D. Guiomar
da Gama, parenta de Vasco da Gama, a quem seguiu á India, capitaneando
uma caravela, talvez escolhido por Vasco, em attenção ao parentesco. O
heroe dos LUSIADAS enviou Antão Vaz embaixador ao rei de Melinde, a
comprimental-o, a levar-lhe presentes e a concertar as pazes[5]. Luiz de
Camões, com rara modestia, omitte o nome de seu illustre avô; dá-lhe,
porém, predicados d'elegancia oratoria, e compraz-se em o fazer
discursar largamente. Na dilação do discurso transluz uma licita
vaidade. Vasco

  Manda mais um, _na pratica elegante_,
  Que co'o rei nobre as pazes concertasse;
  ........................................

  Partido assi o _embaixador prestante_,
  ......................................
  Com estylo que _Pallas lhe ensinava_,
  Estas palavras taes fallando orava[6].

Nenhum biographo, que me conste, aproximou ainda a passagem do poema do
nome do embaixador Antão Vaz. Verdade é que João de Barros, Damião de
Goes e o bispo Osorio escondem o nome do enviado; e a maioria dos
biographos não conheceu os mss. de Gaspar Corrêa, nem consultou senão os
expositores triviaes. Antão Vaz, como se lê n'outros trechos d'aquelle
prolixo chronista, é sempre o preferido nas mensagens em que é essencial
o discurso. Conhece-se que Vasco da Gama o reputava efficaz no dom da
palavra. Passado o anno 1508 não tenho noticias d'elle, nem sei que se
avantajasse no posto com que sahiu do reino, commandante de caravela, em
1502. Provavelmente não «fez fazenda», como lá se dizia na Asia, ou
porque tinha espiritos por demais levantados da terra nas azas da
eloquencia, como se deprehende do conceito do neto, ou porque pertencia
á raça ainda generosa e desinteresseira dos primitivos soldados do
Oriente. O certo é que a sua descendencia, filho e neto, não inculcam
herdar-lhe os haveres.


III

Posto que na _Carta de perdão_ se diga que o pai do soldado, Simão Vaz
de Camões, cavalleiro fidalgo, morava na cidade de Lisboa, isto não
affirma que elle, no anno em que o filho embarcou, alli residisse. Simão
Vaz estanciára muito pela India, e possuíra em Baçaim, em 1543, a aldêa
de Patarvaly que D. João de Castro, o vice-rei, lhe aforára por 60
pardáos[7]. Estes aforamentos eram vitalicios e concedidos como
remuneração de serviços a fidalgos pobres, porque, dizia o vice-rei, não
dispunha d'outra moeda. Fallecido D. João de Castro, os governadores
subsequentes Garcia de Sá e Jorge Cabral, insinuados por D. João III,
que já vivia do expediente de emprestimos, annullaram as concessões do
vice-rei como nocivas aos interesses da monarchia. A aldêa de Patarvaly
foi reivindicada para a corôa, e a fortuna de Simão Vaz manifestou-se na
pobreza da sua viuva e do seu filho unico.

Pedro de Mariz e a serie de biographos mais antigos testificam que Simão
Vaz, tendo naufragado em terra firme de Gôa, a custo se salvára e
morrera depois n'esta cidade. Ora, em 1552, a nau _Zambuco_ varou no rio
de Seitapor, a trinta leguas de Gôa, salvando-se a tripolação. Seria
essa a nau em que Simão Vaz de Camões ia novamente no engodo da fortuna
esquiva? Se era, em março de 1553, quando Camões sahiu do carcere, a
morte de seu pai não podia ainda saber-se em Lisboa. É certo que, nas
LENDAS de Gaspar Corrêa e DECADAS de Couto, o nome de Simão Vaz é
inteiramente desconhecido. Seja como fôr, é necessario expungir da
biographia de Luiz de Camões um _Simão Vaz_, residente em Coimbra, primo
do poeta, que o snr. visconde de Juromenha por desculpavel equivoco da
homonymia reputou pai de Luiz, descurando as inducções da chronologia e
todas as provas moraes que impugnam semelhante parentesco.

Das poesias de Camões nada se deprehende quanto aos seus progenitores.
Em toda a obra poetica e variadissima do grande cantor não transluz
frouxo sedimento filial,--nem um verso referente ao pai. Em todos os
seus poemas escriptos na Africa e Asia, na juventude e na velhice, não
ha uma nota maviosa de saudade da mãi. Os poetas da renascença tinham
esse aleijão como preceito de escóla. Desnaturalisavam-se da familia, da
trivialidade caseira para se inaltecerem ás cousas olympicas.
Gastavam-se na sentimentalidade das epopêas e das eclogas. O amor da
familia, se alguma hora reluz, não é o da sua--é o das familias
heroicas. Apaixonavam-se pelo mytho, e timbravam em nos commoverem com
as desgraças de Agamemnon ou Nióbe. Isto não desdoura a sensibilidade do
cantor de Ignez e de Leonor de Sá; mas vem de molde para notar que do
poeta para com seus paes não se encontra um hendecasyllabo que lhe abone
a ternura. O mesmo desamor se verifica em todos os poetas coevos, quer
epicos, quer lyricos. Só uma vez em Diogo Bernardes se entrevê tal qual
affecto de familia a um irmão que professa na Arrabida, e em Sá de
Miranda a um filho e á esposa mortos: mas de amor filial é escusado
inquirir-lhes o coração nas rimas. Parece que o haverem sido um producto
physiologico do preceito da propagação os isentava de grandes affectos e
respeitos a quem os gerou. Não os escandecia em raptos poeticos essa
vulgar e material alliança de filhos a paes.


IV

Luiz de Camões achou-se bem, confortavelmente em Gôa. As suas cartas
conhecidas não inculcam nostalgia, nem a estranheza dolorosa do
insulamento em região desconhecida. Rescendem o motejo, o sarcasmo e a
vaidade das valentias. Não se demora a bosquejar sequer, com séria
indignação, o estrago, a gangrena que lavrava no decadente imperio
índico pelos termos graves de Simão Botelho, de Gaspar Corrêa, Antonio
Tenreiro, Diogo do Couto e dos theologos. Narra de relance e com phrases
jocosas as façanhas d'esses ignorados acutiladiços, as basofias de
Toscano, a moderada furia de Calisto, e as proezas do duellista Manuel
Serrão. Era este Serrão um ricaço de Baçaim, senhor de quatro aldêas,
que fizera desdizer um bravo da alta milicia. Comprazia-se Camões
n'estas historias façanhosas, chasqueando os pimpões de lá e os de cá,
uns que nunca lhe viram as solas dos pés por onde unicamente podiam
vulneral-o como ao heroe grego. Acha-se tranquillo como em cella de
frade prégador, e acatado na sua força como os touros da Merceana.
Preoccupava-o fortemente a bravura. Como a metropole da India
portugueza, não havia terra mais de feição para chibantes. Escrevia
Francisco Rodrigues da Silveira: «Dentro em Gôa se cortam braços e
pernas e se lançam narizes e queixadas em baixo cada dia e cada hora, e
não ha justiça que sobre o caso faça alguma diligencia: dando por razão
que o não permitte a India, porque cada qual pretende satisfazer-se por
suas mãos de quem o tem aggravado[8]».

Depois, as mulheres. As portuguezas cahem de maduras, ou porque a
lascivia as sorvou antes de sazonadas, ou porque vem ao chão de
velhas:--é opiniativa a intelligencia do conceito picaresco. As
indigenas são pardas como pão de rala, tem uns palavriados que travam a
hervilhaca, e gelam os mais escandecidos desejos. São carne de salé onde
amor não acha em que pegue. Lembra-se das lisboetas que chiam como
pucarinho novo com agua, e manda-lhes dizer que, se lá quizerem ir,
receberão das mãos das velhotas as chaves da cidade. De envolta com
estas prosas facetas, envia um soneto e uma ecloga funebres á morte d'um
amigo.

Esta carta encerra a nota melancolica d'uma phrase de Scipião: _Patria
ingrata, não terás meus ossos._ Mas a comparação, para não ser um
dislate d'orgulho, era de certo um gracejo de Luiz de Camões. Que lhe
devia a patria em 1553? Elle tinha 30 annos; escrevera poemas lyricos
excellentes, apenas louvados na roda dos palacianos e dos menos cultos.
Ferreira e Sá de Miranda parece que não o conheciam. O bravo que sahira
do carcere com perdão de Gonçalo Borges a quem golpeára o cachaço, ou o
toutiço, como disseram os physicos do exame, em verdade, confrontando-se
com Scipião Africano, ao desterrar-se, não primava em pontos de
modestia. O seu avantajado e indiscutivel direito á gratidão da patria
era um poema começado apenas, ou talvez ainda não tracejado. Camões tem
ante si dezeseis annos para pleitear com Vasco da Gama a imperecedoura
glorificação que lhe prepara. A patria desconhecia ainda o seu grande
acrédor que se estava germinando no cerebro potentissimo d'aquelle seu
filho--unico filho que todas as nações cultas conhecem, e o maximo na
immortalidade que tem de sobreviver á terra que cantou.

Os feitos valorosos de Luiz de Camões na Asia não tiveram a notabilidade
que os chronistas do Oriente e de D. João III deram a lances
insignificantes de homens obscuros. O diffuso author das DECADAS, Couto,
apenas o nomeia n'uma crise de pobreza convisinha da mendiguez. Os
antigos biographos e commentaristas não o condecoram como quinhoeiro nos
fastos das carnificinas memorandas. Seria grande elogio á primorosa
probidade de Camões o excluil-o d'esses canibalismos, d'essa

  ...... _bruta crueza e feridade_,

como elle invectiva na estancia XCIX do canto IV.

Mas entrevejo na cerração de tres seculos que o poeta, na apotheose do
Albuquerque terrivel e do Castro forte--elaborando a epopêa que sagrou
em idolatria de semi-deuses uma phalange de piratas, escrevia com as
mãos lavadas de sangue innocente do indio, a quem apenas os
conquistadores concediam terra para sepultura como precaução contra a
peste dos cadaveres insepultos, quando não exhumavam as ossadas dos reis
indigenas na esperança de que lh'as resgatassem com aljofar e
canella[9]. Façanhas de Camões não sei decifral-as nos seus poemas:
elles--os poemas--só per si sobejam na sua historia como acções
gloriosissimas.


V

As suas composições satyricas aos festejos do governador Francisco
Barreto parece-me que nunca seriam vistas dos offendidos nem explicam
odios desnecessarios á motivação dos infortunios do poeta. Esse papel em
prosa chegou a Portugal, incluso na carta que _vinha com a candeia na
mão morrer nas mãos do amigo_[10]. OS DISPARATES NA INDIA não offendem,
não individualisam, nem exprimem nitidamente a feição social. São
banaes. O desterro para Macau é uma lenda. Não se desterra um inimigo
desprotegido e desvalido com uma provedoria, cujo triennio afiançava uma
riqueza relativa.

Provedor dos defuntos e ausentes de Macau, Luiz de Camões fruía
abundantes recursos para trabalhar com socego, despreoccupado, estudando
a historia e a geographia asiatica nas DECADAS de João de Barros, ao
passo que sinzelava de primorosos lavores a epopêa architectada. O poeta
gastava á medida dos proventos e talvez o que licitamente podia
dispensar sem menoscabo da sua rectidão. Mariz culpa-o de demasias nas
liberalidades comsigo e com os outros: _Gastador, muito liberal e
magnifico, não lhe duravam os bens temporaes mais que em quanto elle não
via occasião de os despender a seu bel-prazer. Mas nem a enchente de
bens que lá grangeou_ (em Macau) _o pôde livrar que em terra gastasse o
seu liberalmente, e no mar perdesse o das partes em um naufragio que
padeceu terrivel_[11].

Sem umas intermittencias de estouvanice dissipadora, e destemperada
desordem de costumes, Camões seria a excepção do genio. Tem o talento
transcendente crises vertiginosas, doudices sublimes que o extraviam da
pauta do bom viver. Elle apreciava mais os gozos, a magnificencia, as
commoções do que os pardáos amuados na arca. Sabia que o arranjar
dinheiro na India era facil, excluidos os escrupulos. Disse-o elle: _Os
que se cá lançam a buscar dinheiro, sempre se sustentam sobre agua como
bexigas; mas os que sua opinião deita á las armas Mouriscote como maré
corpos mortos á praia, sabei que antes que amadureçam se seccam_[12].
Parece pois que não procedeu com o espolio dos defuntos e o direito dos
ausentes de modo mais zeloso e exemplar que o commum dos provedores das
cidades asiaticas.

Os politicos organisadores e residentes na India aconselhavam D. João
III que nomeasse thesoureiro privativo para o espolio dos mortos, e
obstasse a que os dinheiros passassem pelas mãos dos provedores. Logo
citarei um exemplo d'esse alvitre que foi grande parte na accusação que
Luiz de Camões soffreu como delapidador dos espolios.

Accusado e chamado a Gôa, sob prisão, pelo governador Francisco Barreto,
antes de fechado o triennio da sua provisão, naufragou e perdeu os
haveres proprios e os alheios de que lhe pediam conta. Recolhido á
cadêa, instaurou-se-lhe processo para o capitularem e remetterem ao
reino. Raramente, porém, os capitulados por culpa d'essa especie vinham
ao reino.

Francisco Barreto, gabado exageradamente na sua honra e limpeza de mãos
pelo bispo D. Francisco Alexandre Lobo e pelo snr. visconde de
Juromenha, havia sido tambem concussionario quando, oito annos antes,
governava Baçaim. Contra ordem expressa d'el-rei D. João III desmoutava
as matas e de mãos dadas com o feitor vendia ao Estado a madeira pelo
triplo da quantia que lhe custava o córte--uma ladroeira que não o
impediu de ser governador da India, assim como Garcia de Sá, duas vezes
preso como concussionario, substituiu no governo o honrado D. João de
Castro. Em 1552 escrevia o veador da India, Simão Botelho, a D. João III
estas graves accusações de Francisco Barreto: «O capitão de Baçaim tomou
tanta posse com os poderes que lhe vossa alteza mandou, que faz mercês
em seu nome, como o vice-rei; vi-o por dous mandados seus; fez escrivão
da fazenda a que poz de ordenado cento e cincoenta mil reis, sem licença
do vice-rei, e mandou-lhe logo pagar um anno de antemão; paga quanto
soldo quer... _E comquanto vossa alteza defendeu por sua provisão que os
capitães de Baçaim não cortassem madeira, não o quiz Francisco Barreto
deixar de fazer, mas antes pediu ao vice-rei, depois de a tirar, que
lh'a tomasse para vossa alteza por avaliação; e custando-lhe a corja de
dezoito até vinte pardáos, lh'a avaliaram a cincoenta e oito pardáos em
que se montou perto de dezoito mil pardáos de ouro, que se fez bem a sua
a vontade; e assim tinha certos cavallos seus, e vende-os no soldo, para
que tambem lhe o vice-rei deu licença para se pagar d'elle, o qual
comprou, em que se montou seis ou sete mil pardáos; e dizem alguns que
estavam concertados elle e o feitor sobre estes ganhos, e por se agora
desavirem se souberam estas cousas e outras, e mal pela fazenda de vossa
alteza..._[13]». Aqui está o perfil do tão encomiado Francisco Barreto
que poz em justiça Luiz de Camões. D'aquelle governador diz
magnanimamente o snr. visconde de Juromenha: _homem por todos os
respeitos mui digno de occupar um lugar tão elevado..._ E não acha
motivo para que o poeta o censurasse apaixonadamente[14]. Chama-lhe
«joven», e o snr. Theophilo Braga tambem adjectiva de joven o
governador. Porque? Francisco Barreto em 1548 sahiu do reino capitão-mór
de tres naus. Tão importante cargo não era dado a moços. Nove annos
depois era provido no governo da India. Orçaria por perto dos cincoenta
annos--uma juventude realmente duvidosa.

Camões estava preso quando cessou o governo de Barreto. D. Constantino
de Bragança deu-lhe liberdade, quer movido por compaixão do poeta, quer
por inducções de sua innocencia. Livre d'este perigo, Luiz de Camões
voltou á vida dos amores e das suciatas. Um dia, banqueteava os seus
amigos: a primeira cortina do jantar, espiritualmente succulenta, eram
trovas. Fez poesias elegiacas á incognita Dinamene, uma quem quer que
fosse que morreu afogada.

  _Ah! minha Dinamene! assim deixaste_
  _Quem nunca deixar póde de querer-te!..._
  _Puderam essas aguas defender-te_
  _Que não visses quem tanto magoaste!..._

N'esta dôr, porém, deve descontar-se o que vai de artificio no rhythmo,
e de engenho calculado:

  «............ Torno a bradar _Dina_...
  E antes que diga _Mene_, acórdo e vejo
  Que nem um breve engano posso ter».

Cantou a baiadera Luiza Barbora, captivo,

  _Da captiva gentil que serve e adora._

Sempre amores.

Diz elle sinceramente:

  _No tempo que de amor tiver sohia_
  _Em varias flammas variamente ardia._

O certo é que não ha vestigios de lagrimas, nem signaes d'uma grande
mortificação. Vivia de emprestimos. Miguel Rodrigues Coutinho
embargava-o na cadêa por dividas, e elle satyrisava o _fero Miguel
armado_ com a sua espada de _fios seccos_. Não cahia aquelle forte
espirito a repellões de infortunio. Transigia com a desgraça como quem
não póde queixar-se conscienciosamente da injustiça humana e da
fatalidade das cousas. Arrostou os perigos de segundo encarceramento. A
não se darem novos motivos, Camões não pudera ainda illibar-se da nota
de peculato, quando o conde de Redondo lhe deu liberdade.

Os snrs. visconde de Juromenha e doutor Theophilo Braga, encarecendo a
estima que o poeta grangeára com o vice-rei conde de Redondo, citam uma
carta, escripta para o reino, em que o conde, fallando do expediente do
seu governo, mostra a consideração que lhe merece Camões, n'esta
passagem: «Remetto-me a S. Domingos, e mando tirar os prégadores do
pulpito para que venham despachar commigo os feitos; _agora me valho
algum tanto do provedor-mór dos defuntos_».

Este equivoco original do snr. visconde, como feição nova na historia de
Camões, é disparatado pelas incongruencias que suggere. Como se ha de
crêr que o vice-rei chamasse á mesa do despacho um ex-funccionario
arguido de concussão no exercicio da provedoria de Macau, e ainda não
julgado nem absolto, porque, segundo Pedro de Mariz, devia vir para o
reino _capitulado_--accusado em capitulos, ou, como hoje se diria,
_pronunciado_? Concedido ainda que o ouvidor geral de Gôa o absolvesse
de ambas as vezes que foi preso--o que se não prova, porque a sua
liberdade foi acto arbitrario e por ventura equitativo de dous
governadores--como admittir que os magistrados se acamaradassem com o
manchado ex-provedor dos defuntos no expediente dos negocios? Esta
incompatibilidade facilmente se deslinda, e não viria a lume na obra
erudita do snr. visconde de Juromenha, se ao versado escriptor
occorresse que em Gôa havia um _provedor-mór de defuntos_ e que esse
devia ser o provedor a quem alludia o conde de Redondo. E, de feito,
esse magistrado era o licenceado Christovão Ferreira, homem probo,
consoante o testemunho do veador Simão Botelho de Andrade que, em carta
de 30 de janeiro de 1552, dizia a el-rei D. João III: «... O ouvidor
geral André de Mendanha é infamado n'esta terra acerca de peitas: póde
ser que será mentira: e no mais do seu cargo parece que o faz bem: o
_provedor-mór_ Christovão Fernandes é muito bom homem, segundo dizem, se
não é um pouco embaraçado no cargo: parece que havia de haver
thesoureiro do dinheiro dos defuntos, porque será melhor despacho para
as partes, e andará o _dinheiro mais liquido e certo, quando o não
houver de arrecadar a pessoa que houver de julgar_[15]. O frade
dominicano que o vice-rei chamava ao seu despacho era esse mesmo Simão
Botelho das cartas austeras, que depois de ter sido muitos annos veador
e capitão de Malaca, vestira o habito de S. Domingos, e assim mesmo era
consultado por todos os vice-reis, e acompanhára D. Constantino na
jornada de Jafanapatão, em 1560, arvorando á frente da hoste um Christo
crucificado. Rodrigo Felner, prefaciando os escriptos ineditos de Simão
Botelho, mostrou-se pezaroso por não saber o fim d'aquelle homem, «um
dos mais illustrados do seu tempo, e alma incorruptivel». Facil era
averigual-o, se buscasse na vulgar CHRONICA DE S. DOMINGOS, por frei
Luiz Sousa, ou sequer em Diogo do Couto os ultimos actos de tão
interessante personagem.

Outra hypothese que me não parece aceitavel:--a do provimento da
feitoria de Chaul em Luiz de Camões pelo vice-rei D. Antão de Noronha.
Achou o snr. visconde de Juromenha o alvará de Philippe I de Portugal
que concede a Anna de Sá a tença de 15$000 reis que recebia o filho
fallecido. Diz o alvará: _... havendo respeito aos serviços de Simão Vaz
de Camões e aos de Luiz de Camões, seu filho, cavalleiro da minha casa e
a não entrar na feitoria de Chaul de que era provido, etc._ D'isto
deprehendeu o biographo que Luiz de Camões fôra provido pelo vice-rei D.
Antão de Noronha.

Camões não regressaria pobre, empenhado, vivendo do bem-fazer dos
passageiros, se o vice-rei o provesse na vaga d'uma feitoria que
avultava ao rendimento de 500 pardáos, com rendimentos e cargos annexos
licitamente percebidos. Esse provimento lhe bastaria como hypotheca a
adiantamentos e independencia relativa. A mim me quer parecer que a
feitoria de Chaul lhe foi dada por provisão real depois da publicação
dos LUSIADAS, ao mesmo tempo que se lhe deu a tença, sob condição de
residir na côrte. A condição de residencia seria inexplicavel d'outro
modo. Logo que a feitoria vagasse, cessaria a tença. A condição
inhibia-o de auferir a tença desde que exercesse o officio.


VI

A tença dos 15$000 reis, o apregoado escandalo da sovinaria dos
ministros, não era, áquelle tempo, a miseria que se nos cá figura.
Vejamos e comparemos os ordenados d'aquella época. O ordenado dos
desembargadores do cardeal infante eram 30$000 reis, do copeiro-mór
6$000 reis, do vedor das obras 4$000 reis, do guarda-mór 13$000 reis, e
do veador da fazenda 30$000 reis. As tenças de 30$000 reis eram apanagio
de homens de muitos serviços.

Na conta de receita e despeza de 1557 vê-se que o regedor da justiça, 45
desembargadores, e os do paço que não eram poucos, e os da fazenda que
eram muitos, todos juntos, receberam dos seus ordenados 3:777$800 reis.
O governador da casa do civel, 24 desembargadores, 6 alcaides, 100
empregados e outros officiaes de justiça, todos juntos, receberam dos
seus ordenados 1:664$200 reis[16]. Trinta annos depois, o numerario não
estava mais barato, e os reis de tença de Camões haviam de parecer um
excesso, um esbanjamento da fazenda nacional a qualquer d'aquelles
desembargadores. Diogo Botelho, tão celebrado em Africa e Asia, recebia
12$000 reis de tença[17]. Luiz de Camões não se julgaria desdourado com
os 15$000 reis, nem essas hypotheses de fomes, frios e mendicidades que
se encarecem deve aceital-as a critica desligada de velhos preconceitos.

Eu creio tanto na mendicidade de Homero como nos peditórios nocturnos de
esmola do Antonio de Java para sustentar Camões. Se o poeta chegasse ao
extremo da penuria, acharia no refeitorio dos seus bons amigos
dominicanos com quem tratava frequentemente a farta mesa que alli
encontravam somenos benemeritos. Não me soffre o conceito que fórmo
d'esse egregio espirito que elle quizesse a vida sustentada com tão
desprimorosos expedientes. É a lenda da miseria em que se comprazem as
imaginações sombrias. Porque elle pediu em verso uma camisa em Gôa,
decidiram que o poeta não tinha camisa. Parece ignorarem que a dadiva
d'uma camisa como ellas por esse tempo se presenteavam era um objecto
caro e luxuoso. A fabula tecida sobre a fome de Camões originou-se
talvez d'alguns poetas subalternos que entenderam desforçar-se da sua
pobreza affrontando a nação que vira finar-se no desconforto o principe
dos poetas da Hespanha. Consolavam-se assim com a camaradagem e
vociferavam contra a ingratidão dos parvos. Espanta, porém, que se não
clamasse com mais justiça contra os aulicos que deixaram morrer no
hospital Antonio Galvão, o apostolo das Molucas, e Duarte Pacheco
Pereira.

Não se póde ajuizar que os proventos do poema impresso lhe auxiliassem a
vida. Os LUSIADAS talvez lhe não surtissem o equivalente da tença nos
oito annos da sua maior popularidade. Devia ser vagarosa a extracção da
obra, attentas as calamidades d'aquelles annos--pestes, ameaças de
guerra, pobreza do estado, corrupção de costumes, desavenças no paço, a
preponderancia dos livros mysticos e o descahimento das letras profanas.
A segunda edição do poema, no mesmo anno de 1572, em vista dos
argumentos plausiveis do academico Trigoso[18], não é aceitavel nem
sequer verosimil. Falsificaram retrospectivamente a data porque havia
razão para recear que uma censura mais severa prohibisse nova edição sem
os córtes das estancias que desagradaram á clerezia e á pudicicia d'uns
velhos que poderiam, na verdura dos annos, ter assistido sem pejo ás
chocarrices obscenas de Gil Vicente. Não se póde calcular quantos annos
intercorreram da primeira á segunda edição; é, todavia, provavel que a
segunda se fizesse em vida do poeta.

Luiz de Camões, se a vida se lhe prolongasse, teria mais abastada
velhice. Philippe II de Castella, vindo a Portugal mezes depois da morte
do poeta, perguntou pelo author dos LUSIADAS. Não me consta que os reis
naturaes, os legitimos, alguma hora perguntassem por Camões. O intruso
concedeu á provecta mãi do poeta fallecido a tença que o filho recebia.
Este procedimento, e a curiosidade benevola do usurpador é o unico acto
honorifico que liga a biographia de Camões á dos monarchas. D. João III
desterrára-o, D. Catharina e o cardeal desprezaram-o, D. Sebastião
ouviria novas do seu poema, lêl-o-hia, e não impugnaria a concessão da
tença e do officio na Asia. No desprezo, se não odio da rainha D.
Catharina transpira a vingança do rancoroso Francisco Barreto contra
quem Camões, livre dos ferros, dardejaria violentas, mas não injustas
satyras. Barreto, chegado a Lisboa, vingou-se de quantos inimigos
deixára na India. O bravo Gonçalo Falcão, que logo que elle sahiu do
governo o desafiára a combate singular, foi mandado carregar de ferros e
conduzir a Lisboa. Pôde fugir a tamanha ignominia o bravo de
Jafanapatão, escondeu-se em Lisboa, e conseguiu ser absolvido, allegando
que os duellos ainda não eram prohibidos pelo concilio tridentino,
quando elle reptou Francisco Barreto. Não obstante, a rainha mandou-o
riscar dos livros da nobreza e reduziu-o á miseria. D. Sebastião,
volvidos annos, restituiu-o á capitania de Sofála, onde expirou apenas
tomou posse. Barreto fanatisára a rainha brindando-a com uma pedra
milagrosa que levou da India. O seixo tinha sete céos de côres diversas
e uma figura de mulher com um menino no collo. Era Nossa Senhora, achada
nas mãos d'um bonzo! Agua onde mergulhassem a pedra sarava muitas
doenças; _mulheres de parto muito bem pariam_, assevera Miguel Leitão de
Andrade na MISCELLANEA; e nas mãos da rainha o calhau fazia os mesmos
milagres. A viuva de D. João III, além d'estes seixos milagrosos,
gostava muito que os governadores do Levante lhe vendessem bem e pelo
maior preço a pimenta. É o que ella pedia fervorosamente a D. João de
Castro e aos outros vice-reis. A respeito de poetas e viajantes, dava
tanto por Luiz de Camões como por Fernão Mendes Pinto--rivaes no
infortunio, mas não iguaes no merecimento de melhor sorte. Os favores,
embora apoucados, que Luiz de Camões recebeu da côrte são posteriores ás
finaes desavenças de D. Sebastião com sua avó. Esse divorcio deu-se em
1571, e o alvará da tença é lavrado em 1572.

Não vituperemos Philippe I pelo desamor com que tratou os nossos
escriptores. Não cahe a ponto aqui a lista dos talentos portuguezes
protegidos pelos reis castelhanos, desde Diogo Bernardes, o moço da
toalha, até Manoel de Sousa Coutinho, o incendiario da casa de Almada,
que, depois de frade, offerecia a sua chronica ao terceiro dos
usurpadores. Se Camões se bandearia em Castella como Gabriel Pereira de
Castro, Caminha, Pereira Brandão e Côrte Real não sei; porém, quando o
snr. Theophilo Braga me nomeia os amigos de Camões parciaes do prior do
Crato, e entre elles está Miguel Leitão de Andrade, lembra-me se Camões,
vivendo, seria tanto por D. Antonio como o preconisado Leitão de
Andrade. Diz o snr. doutor Theophilo Braga na sua primeira VIDA DE
CAMÕES e repete na segunda, publicada ha dias, que o author da
MISCELLANEA «esteve a ponto de ser degolado pelo invasor hespanhol». O
snr. Braga entendeu a passagem do carnaz. Miguel Leitão esteve a pique
de ser decapitado justamente porque fugia de D. Antonio para o usurpador
Philippe. Elle mesmo o refere na MISCELLANEA, n'estes termos explicitos:
_No tempo que o snr. D. Antonio se levantou rei, me achei com elle em
Lisboa, por não poder escusar servil-o, sendo fidalgo de sua casa.
Porém, vendo entregar-se a fortaleza de S. Gião a Sua Magestade me
pareceu ir-me para o dito senhor, e indo ja na Gollegan, a meu parecer
fóra ja do perigo de morte a todos os que se fossem de Lisboa, a qual
executava cruelmente Manoel da Silva fronteiro de Santarem, alli me
prenderam_, etc. E conta depois como pôde evadir-se pela latrina, e foi
depois mais tarde a Madrid requerer com o traslado authentico dos
trabalhos que passou para fugir. Tambem o snr. visconde de Juromenha
conjecturou que Camões estivesse no Pedrogão, convidado por Miguel
Leitão de Andrade quando foi desterrado para Riba-Tejo. Camões soffreu
este desterro em 1546, e Miguel Leitão de Andrade nasceu em 1555. Não me
parece aceitavel que Camões fosse visitar um sujeito que nasceu nove
annos depois da visita. Que processos tão de palpite e phantasmagoricos
tem usado estes doutos na biographia de Camões! Se não seria melhor
estudar o assumpto!

Accusam os jesuitas de propulsores da jornada de Africa, porque
aferventavam o zelo religioso do principe fanatisado contra a mourisma.
Porque não accusam com maior justiça e sobre provas escriptas Luiz de
Camões? Affirma o snr. Theophilo Braga que _o poeta não sympathisava com
a jornada d'Africa_. Tanto sympathisava que, ao proposito da setta
enviada pelo Papa a D. Sebastião, lhe escreveu uma epistola recheada de
versos assignalados por uma virulenta rhetorica sanguinaria:

  Já por ordem do céo, que o consentiu,
  Tendes o braço seu, reliquia cara,
  Defensor contra o gladio que feriu
  O povo que David contar mandára,
  No qual, pois tudo em vós se permittiu,
  Presagio temos, e esperança clara,
  Que sereis braço forte e soberano
  Contra o soberbo gladio Mauritano.

  ....................................
  Que as vossas settas são na justa guerra
  Agudas, e entrarão por derradeiro
  (Cahindo a vossos pés povo sem lei)
  Nos peitos que inimigos são do Rei.

Está revendo a incitadora carta um coração que ainda vibra hostil como
outr'ora o braço valoroso do mancebo que se estreára em Ceuta, Não se
condemne Luiz de Camões por esse enthusiasmo; mas reservemos os louvores
da prudencia discreta e previdente para o bispo Jeronymo Osorio e Martim
Gonçalves da Camara. Se pretendem illibar Camões da nodoa quasi commum
dos fidalgos--para que nos dizem que o alquebrado poeta escreveu
bastantes estancias cantando, por hypothese, o regresso triumphal do
coroado imperador de Marrocos? Essa mal estreada epopêa condiz á indole
bellicosa de Camões--foi a ultima e mallograda explosão do seu
patriotismo; todavia, é uma prova negativa do seu juizo politico. Emfim,
sempre poeta e sublime poeta do amor e das batalhas, foi astro que
refulgiu até ao occaso, apesar dos annos aggravados de doença, de
necessidades supportadas com a impaciencia da velhice, e um pouco do fel
do ciume d'outros poetas eleitos para cantarem a Iliada africana.


VII

Se Luiz de Camões, em pureza de costumes, condissesse com a
sobr'excellencia do engenho, seria exemplar unico de talento irmanado
com o juizo. Não se conciliam as regras austeras da vida serena e
pautada com as convulsões da phantasia. Amores d'alto enlevo e de baixa
estôfa, o ideal de Catharina de Athaide e as carnalidades das malabares
e baiaderas levantinas--o exalçar-se a regiões de luz divina e o cahir
nos tremedaes do vulgo--essas vicissitudes que a si mesmo fazem o homem
assombroso em sua magestade e miseria, tudo isso foi Camões, e em tudo
isso foi semelhante aos genios eminentissimos; mas nenhum homem como
elle pôde redimir-se de suas fragilidades, divinisando os erros da
imprudencia, fazendo-se amar nos extravios, e immortalisando-se em um
livro que, ao fechar de tres seculos, alvoroça uma nação. É de nós todos
esse thesouro legado por um homem que no dia 10 de junho de 1580
expirava na obscuridade. Elle teve de esmola a mortalha. Permitta a
Providencia das nações que os LUSIADAS não sejam a esplendida mortalha
que Luiz de Camões deixou a Portugal.


     [1] Por compra feita ao livreiro snr. Rodrigues, da travessa de S.
     Nicolau, em 1871.

     [2] NOBILIARIO DAS GERAÇÕES D'ENTRE DOURO E MINHO _escripto por
     Manuel de Sousa da Silva_. D'este genealogico nos dá noticia
     abonatoria D. Antonio Caetano de Sousa, no APPARATO Á HISTORIA
     GENEALOGICA, pag. CLXIII: «Manuel de Sousa da Silva, filho de
     Antonio de Sousa Alcaforado e de sua mulher D. Isabel da Silva,
     filha de Duarte Carneiro Rangel. Foi capitão-mór do concelho de
     Santa Cruz de Riba Tamega: escreveu notas ao conde D. Pedro em um
     grande volume em folio que se conserva original da sua mesma letra
     na livraria de Luiz Carlos Machado, senhor de Entre Homem e Cavado.
     Escreveu em quintilhas os solares de todas as familias do reino
     manuscriptas, e um grande numero de titulos de familias com muita
     exacção porque viu os cartorios dos mosteiros antigos do Minho de
     que tirou muitas antiguidades para as familias de que tratou».

     [3] EUFROSINA. act. I, sc. VI, e act. II, sc. II.

     [4] OBRAS DE LUIZ DE CAMÕES, ediç. Jur., tom. I, pag. 166.

     [5] LENDAS de Gaspar Corrêa, tom. I, pag. 560 e 561.

     [6] Veja as estancias desde LXXVII a LXXXIV do canto II.

     [7] TOMBO DO ESTADO DA INDIA, por Simão Botelho. (Na _Collecção dos
     ineditos para a Historia das conquistas dos portuguezes_, pag.
     198).

     [8] MEMORIAS D'UM SOLDADO DA INDIA, compiladas por A. de S. Costa
     Lobo. Lisboa 1877.

     [9] LENDAS de Gaspar Corrêa, III, 637.

     [10] CARTA II.

     [11] Vida de Camões.

     [12] Carta I.

     [13] CARTA DE SIMÃO BOTELHO, pag. 32. (Na _Collecçao de monumentos
     ineditos para a historia das conquistas dos portuguezes_, tom. V).

     [14] Ediç. Jur., tom. I, pag. 70 e 83.

     [15] CARTAS DE SIMÃO BOTELHO, pag. 40 e 41. Este alvitre do veador,
     sempre honrado e muito aceito ao monarcha, surtiu as cautelas e
     desconfianças que puzeram Camões ao lado de muitos réos do mesmo
     delicto, porque sentenceavam a entrega dos dinheiros que
     «arrecadavam», tornando-os por isso menos _liquidos e certos_.

     [16] Rebello da Silva, HISTORIA DE PORTUGAL, tom. V.

     [17] HIST. GEN. DA CASA REAL. _Provas_, tom. VI, pag. 633 e seg.

     [18] HISTORIA E MEMORIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS.





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