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Title: O Olho de Vidro
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

XXIII

O OLHO DE VIDRO

TYPOGRAPHIA
DA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

--RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48--

LISBOA

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a 300
paginas Impressa em bom papel, typo elzevir

250 réis em brochura e 400 réis encadernado

1--Coisas espantosas.

2--As tres irmans.

3--A engeitada.

4--Doze casamentos felizes.

5--O esqueleto.

6--O bem e o mal.

7--O senhor do Paço de Ninães.

8--Anathema.

9--A mulher fatal.

10--Cavar em ruinas.

11 e 12--Correspondencia epistolar.

13--Divindade de Jesus.

14--A doida do Candal.

15--Duas horas de leitura.

16--Fanny.

17, 18 e 19--Novellas do Minho.

20 e 21--Horas de paz.

22--Agulha em palheiro.

23--O olho de vidro.

24--Annos de prosa.

25--Os brilhantes do brasileiro.

26--A bruxa do Monte-Cordova.

27--Carlota Angela.

28--Quatro horas innocentes.

29--As virtudes antigas.

30--A filha do Doutor Negro.

31--Estrellas propicias.

32--A filha do regicida.

33 e 34--O demonio do ouro.

35--O regicida.

36--A filha do arcediago.

37--A neta do arcediago.

38--Delictos da mocidade.

39--Onde está a felicidade?

40--Um homem de brios.

41--Memorias de Guilherme do Amaral.

42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.

45 e 46--Livro negro do padre Dinis.

47 e 48--O judeu.

49--Duas épocas da vida.

50--Estrellas funestas.

51--Lagrimas abençoadas.

52--Lucta de gigantes.

53 e 54--Memorias do carcere.

55--Mysterios de Fafe.

56--Coração, cabeça e estomago.

57--O que fazem mulheres.

58--O retrato de Ricardina.

59--O sangue.

60--O santo da montanha.

61--Vingança.

62--Vinte horas de liteira.

63--A queda d'um anjo.

64--Scenas da Foz.

65--Scenas contemporaneas.

66--O romance d'um rapaz pobre.

67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.

68--Noites de Lamego.

69--Scenas innocentes da comedia humana.

70 e 71--Os Martyres.

72--Um livro.

73--A Sereia.

74--Esboços de apreciações litterarias.

75--Cousas leves e pesadas.

76--THEATRO: I--Agostinho de Ceuta.--O marquez de Torres-Novas.

77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justiça.--Espinhos e
flôres.--Purgatorio e Paraizo.

78--THEATRO: III--O Morgado de Fafe em Lisboa.--O Morgado de Fafe
amoroso.--O ultimo acto.--Abençoadas lagrimas!

79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como os anjos se vingam.--Entre a flauta
e a viola.

80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A Morgadinha de Val-d'Amores.



_CAMILLO CASTELLO BRANCO_


O OLHO DE VIDRO

ROMANCE HISTORICO


4.ª edição, conforme a 1.ª, unica revista pelo auctor


1918

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

LIVRARIA EDITORA

_Rua Augusta, 44 a 54_

LISBOA


O OLHO DE VIDRO


Nota das edições que tem tido este romance até á presente

1.ª edição--Lisboa--1866--Livraria de Campos Junior--1 vol. in-8.º de 199
pags.

2.ª edição--Lisboa--(Sem data)--(É a 1.ª edição com a reimpressão da
1.ª folha.)

3.ª edição--Lisboa--1904--Vol. 23.º da nossa Collecção, da qual se fez uma
tiragem especial de 100 exemplares em papel de linho nacional para
bibliophilos.

4.ª edição--Lisboa--1917--que é a presente.



PROLOGO

(DA 1.ª EDIÇÃO)


O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva,
historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu,
conclue com estas palavras: _Se algum dos nossos romancistas actuaes se
resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso
medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam
sobeja materia para a fabrica de uma composição, onde mediante a lição dos
escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente
especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho
verdadeiramente nacional_.

Os termos em que o convite é feito animam e ao mesmo tempo assustam.
Comecei temerariamente a composição d'este romance: máo foi principial-o,
que eu sou tão pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem, que não me
fórro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam.

Não direi o que penso d'este: assevero, porém, que não está de certo
realisada a esperança do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a
biographia do author do _Portugal-medico_ é mina para locupletar
romancistas, vão lá todos, que eu não toquei nos veios mais ricos.

Porto, 3 de março de 1866.

                                                _Camillo Castello Branco._



INTRODUCÇÃO


Francisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de
Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de
1692, estudando, no seu _Vila Corta_, as theorias de Galeno ácerca das
purgas--_de purgatione_.--Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos
olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os
não menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, tão a deshoras,
duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se
no gabão, e abriu as portadas da janella que dava sobre o _Becco das
Flores_, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica
tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram
a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas.

--Quem é--perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato
despreso das boninas da sua rua.--Quem é o vadio?

--Sou eu!--respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por
sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto.

--Tu!...--exclamou Abreu com alvoroço.--Vou abrir! Pois és tu?!

Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer ás escuras a
precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o pé cauteloso
sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braços com ardente vehemencia
o interruptor de seus estudos, e tão alheado ficou das suas considerações
therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem já os olhos de caranguejo lhe
lembravam.

--Tu aqui, Antonio de Sá!--tornou Francisco.--Eu fazia-te na India!...
Sobe, meu desventurado rapaz, que não ha ainda duas horas que os teus
condiscipulos te lamentaram, especialmente José de Barredo se arrepellava
por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam...

--Com razão!...--murmurou o outro--com razão me lamentaste, que eu sou
desgraçado, quanto póde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos.

--E que magro estás!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a
candeia de lata, que despregou do velador.--Como estás acabado!...

--Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores...
Como não queres que eu esteja pallido e descarnado?! São assim todos os
rostos que se lavam com lagrimas...

--Pobre Antonio!...--atalhou o outro muito consternado--Se, ao menos,
tivesses fugido de Portugal, como nós suppunhamos, terias céo e ar...
Senta-te, homem!... Queres tu comer?

--Quero.

--Ainda bem! A desgraça não te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens
queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da
freira... Aqui tens o coração da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne não
na ha, e não sei onde vá procural-a a esta hora... Queres tu uma sôrda?
Essa faço-t'a eu: estão alli os alhos; e, á mingoa de azeite, cosinha-se
com o da candeia, e depois conversaremos ás escuras.

--Isto basta para quem anda faminto de bons bocados--disse Antonio, com
desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas
do coração da franciscana, não já como desgraçadissimo entre os homens, mas
certamente como de entre os estudantes o mais faminto.

O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo não pôde
dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutição. No entretanto,
andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de
estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas
se gosaram na Palestina, quando os anjos do céo lhes cosinhavam os
fricassés.

--Que andas tu procurando?--perguntou Antonio de Sá Mourão.

--Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz.

--Nem manjar branco me dês que já me cá não cabe. Estou alimentado para
tres dias, se fôr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes?
Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu
da minha vida?

--Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragança com uma moça, filha unica
de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter
no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forçosamente ser
teu confidente, por que sou christão novo como tu.

--Não sabia--interrompeu Antonio--que os meus infortunios implicaram
comtigo...

--Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaçavam,
affligiam-me muitissimo menos que a idéa da inexoravel perseguição que te
fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua prisão,
com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se não morresses na
fogueira. Ninguem dava novas tuas, que não fossem horrorosas. Uns diziam
que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao
cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a
India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a
moça te acompanhára vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti,
acreditámos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que é isto?!
Onde tens estado? Como pudeste fugir á justiça, se não foi n'algum
subterraneo?

--Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui
passar com meus tios em Bragança foi a morte da mocidade, das esperanças, e
de tudo em que eu fundamentára a felicidade das minhas modestas ambições. O
prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia,
desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do
throno, como os antigos da nação[1] e desopprimir nossos irmãos, quanto
coubesse na alçada do juizo, e no prestigio que a posição de medico do rei
me désse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi
atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor.
Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, não
poderam reduzir-me ao dever, á honra, e propriamente ao discreto egoismo,
que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva
sensibilidade. O peior, meu amigo, já não era vencer-me eu; era vencer a
compaixão que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu
fôra converter em amargura de toda a vida.

--Combati essa opinião--interrompeu Francisco Luiz--por cuidar que era
grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga
necessario á vida da mulher...

--É verdade; combateste a insensata opinião; mas... não sei se cedo se
tarde o fizeste; o certo é que as tuas razões me pareceram sophisticas e
glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem
duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homens que se combatem e
forcejam por despedaçar-se, até que um triumpha, e... fica senhor das
ruínas do coração... Já agora não discutamos como medicos em volta de um
cadaver. Saibamos que está morto o homem, e ouve tu singelamente a historia
das delirantes febres que o acabaram.

De antemão sabia eu já que a filha de Fernão Cabral me seria negada e que
os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me
ameaçariam com os seus tagantes.

Isto não embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado
de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Fernão ouviu-me em pé, e respondeu-me
n'estes termos: «Olhe para estes retratos»--e apontou para uma duzia de
figuras pendentes das paredes--«olhe para estes retratos, e veja se ahi
está algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha
ou sobre o arnez[2]» dito isto apontou-me a porta da escada.

Não sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o coração! Já
então não tive animo para te escrever!

Ha desgraças tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos
seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha
ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me
inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na
quebrada da Serra da Estrella. A desesperação alli foi-me consoladora, por
que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.

Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, não
sei exprimir que desalento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me?! dizia
eu entre mim--O que Deus não dá não m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar,
deixal-os ignorar estas obscuras angustias.»

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros
da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia
da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes alli se tinham
homisiado no tempo das grandes perseguições do rei D. Manuel. Accudi á
janella e ouvi uma voz de homem dizer: «É aqui.» Não sei que outras
palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situação, tinha,
nos braços a filha de Fernão Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua,
que nos fôra medianeira, e um criado da casa de meu pae.

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragança, logo que o
pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento
d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha mãe, e costumava passar
muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos não deram logo conta da
fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia não faltasse tambem. Fugiu
caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que
tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella,
porém, os assustasse ainda mais com o proposito de se matar,
encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.

Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do gentil-homem, alli,
n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca,
dois tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso dos caseiros, pobre
gente de nossa raça, que para alli ficára grangeando e usofruindo as
pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e á sua criada grave dei o meu
leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que
os caseiros nos emprestaram.

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns
recursos para fugirmos até onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e
eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu
pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria,
esperançada na commiseração do pae e na protecção dos seus santos
advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais
que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do céo, não pude
sequer imaginar possivel o perdão do soberbo fidalgo.

Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos
arrabaldes, moravam irmãos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli
deliberei repousar alguns dias, porque Maria já tão sem forças ia da
jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas
andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse.
Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle,
com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos.

E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras.

As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens
tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de
judeus. Eu não devia já esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro
que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fóra do reino.
Sobrepõe tu, Francisco, a estes lances, o medo da prisão, e escutar a cada
instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes são
poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a
isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania
esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das
sesões, e eu de mãos postas a contemplal-a assim!

Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para nós eram a continuação
das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram
quanto poderam a nossa situação. Eu, por minhas mãos, carpintijei o tabique
para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que
viessem de longe bragaes e roupas com que tirei á alcova de Maria as
tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu
espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas não podia
espancar da minha alma a imagem de meu pae, mãe e irmãos encarcerados,
perseguidos pelo rancor vingativo de Fernão Cabral, e mais que muito
sujeitos á extremidade de pagarem com a vida o meu delicto.

Com que traças e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim
era já consolativa a nova de que os não tinham mandado para os carceres da
inquisição de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os
considerava eu.

E assim vão decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que
infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!...
Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu
desalento, não desanime!...

--E choras assim, Antonio! Coragem!--exclamou Abreu, tomando contra o seio
o anciadissimo moço.

--Ai! deixa-me chorar, que não o pude ainda fazer tanto ás largas. Deixa-me
chorar, que isto é veneno mortal que me sáe aos olhos! É preciso que
vejamos alma compadecida para sabermos a doçura d'este desafogo das
lagrimas!

Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mãos do
condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluçante:

--Sabes ao que vim?

--Diz, meu querido amigo.

--Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal.

--Tel-o-has. Minha mãe já não vive, e eu tenho uma legitima. Conta com
ella.

--Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma
coisa.

--Diz.

--Eu tenho um filho de quinze dias. Não posso fugir com a creancinha.
Aceitas-m'a no regaço da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o
restituir, quando a felicidade me bafejar?

--Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o coração que te dou a
ti. Se Deus o não tiver levado, quando voltares, achal-o-has. Não lhe direi
o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saberá que é teu
filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo.

--É assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me
está fallando no teu coração. Porque não hei de eu ajoelhar a teus pés, se
creio que em ti está o Senhor da compaixão e da misericordia?!

Francisco Luiz de Abreu levantou nos braços o arquejante moço; e, não menos
commovido, ratificou as promessas feitas.

      *      *      *      *      *

Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de
Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua
terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas
noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que
bebia um leite aguado de lagrimas.

Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz
de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de
moedas de ouro.

Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braços
d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do
seio.

--Como se chama o anjinho?--perguntou o academico.

--Tu o dirás--respondeu Antonio.--É teu afilhado.

--Seja Francisco--disse a mãe.

--Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome--observou o
academico;--mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convém ter comvosco, com
este menino e comigo. O meu parecer é que se esconda quanto ser possa a
influencia que eu hei de ter na creação de teu filho. Melhor é que as
suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligações d'esta creança
comigo, me julguem a mim, que não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar
uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não irei ser padrinho,
para não dar corte á desconfiança de que elle seja meu filho. Assim se irá
creando, até que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, quererá Deus
que tu voltes a Portugal.

--Voltarei eu?!--exclamou Antonio, apertando no mesmo braço o amigo, o
filho, e a mãe, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha,
deitada nos braços do estudante.--Ver-vos-hei eu mais?--balbuciou,
intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crês tu
possivel o termo da perseguição?...

--Não sei--disse Abreu, fingindo esperanças.--Não sei... mas as voltas do
mundo são tão espantosas... Todavia...--continuou elle com o alvoroço de
uma já sincera esperança--não te lembraste ainda d'uma felicidade
muitissimo possivel?

--Qual?--conclamaram os dois, para quem um raio de esperança era já cousa
de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo
encarceramento.--Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?

--A mais obvia e facil. O que me espanta é que ella vos não haja sorrido
primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, não é assim?

--Vamos.

--De lá passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmãos
deparam a quantos infelizes vão de cá acossados pelas tochas do auto da fé.
Tu, Antonio, és novo e robusto. Se não quizeres continuar os teus estudos
medicos lá fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos:
fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a
tivesses, como em verdade não temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como
complemento da tua felicidade na vida tranquilla.

--Que sonho!--clamou alegremente a filha de Fernão Cabral.--E eu nunca
pensára n'isso...

--Nem eu...--ajuntou Antonio.--Ha umas desgraças que esterilisam a mais
pensadora e expeditiva alma! Eu não via senão escuridade... Agora, bem
hajas tu, meu irmão, que me restitues á serenidade de homem inquebrantavel
por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? Não hei de eu mais
vêr-te?

--Porque não, se eu hei de ser propriamente quem te vá levar o filho?

--Oh! então já sei que ha o antever da perfeita felicidade, cá mesmo d'este
grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina...

E, abraçando-se n'ella, choravam ambos lagrimas já de jubilo, como as de
quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao
despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham.

N'este dia, como se a adversidade cançasse de cruciar os dois fugitivos,
boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperança.

Sem embargo da raivosa perseguição do fidalgo de Bragança á inculpada
familia do hebreu, as leis não se dobraram a sentenciar a perdição dos
innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos
e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios
da Sé, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e
sua irresponsabilidade nas desordens do máo membro de sua familia.

Redobrada a exultação de Antonio com esta nova, queria já elle dispensar-se
de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo
dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porém, não
condescendeu nem o desquitou da obrigação de devedor, instando na immediata
saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia,
depois da soltura dos presos em quem não podéra assentar em cheio a mão
rancorosa.

Prevaleceram as judiciosas previsões de Francisco Luiz. Áquella hora, de
feito, já Fernão Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias
para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarçados espias que na
Guarda lh'os andavam furoando, não estava já longe de lhes descobrir o
rasto.

Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arrancaram a
creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de tão
puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as
ultimas despedidas.

Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias não trilhadas
endireitaram ás fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a
espaços, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperança, o
convencimento de que sua desgraça ia crescendo.

--E o nosso filhinho?...--dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar
da vida.

E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, engulia as lagrimas e não
respondia.

--Que mal fizemos em deixar a creancinha!--voltava ella, cruzando os braços
sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.--Que ruim mãe eu
fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu sómente agora considero
a grandeza do meu crime!

--Não chores assim!--atalhava o attribulado moço. Pois como andarias tu
fugitiva com um filhinho de tres semanas! Ó Maria, por Deus te peço que nos
não atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso
filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma!
Esperemos... luctemos, sejamos fortes, não nos deixemos acabar aos golpes
d'esta saudade.



I

Informações


Corria o anno de 1697.

Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para
Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam
sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos
antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de
Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um
menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho.
A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A
esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de
anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome
de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o
pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira,
bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito
entranhas tão christãs que levara para sua companhia o menino, e lhe
queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe
chamasse mãe.

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem
fossem os paes d'aquella creança. A ama, que a tinha amamentado,
morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o
destino d'elle.

Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a mão
do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:

--Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?

--Pois sim, mãesinha--disse a creança, e saiu pela mão da creada.

Francisca proseguiu:

--Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso
filho.

--Ó menina, respondeu o marido--esse convencimento parece-me difficil...

--Nosso filho gerado no coração...--tornou ella.

--Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã
podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua
maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.

--Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles
vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!

--Mas tambem não recebemos a certidão de obito.

--Pois sim,--redarguiu Francisca--mas, se elles vivessem, as pessoas de
Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as
dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!

--Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos.
O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...

--Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

--Sim.

--Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a
parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a
mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do
fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de
desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado
succedeu com tantos irmãos nossos.

--Póde ser--obtemperou Francisco Luiz;--mas teriam coragem de matar-se
uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta,
que recebi de Antonio, aqui está--disse elle, tirando-a do segredo de
uma gaveta--é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se
queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito,
que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em
arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se
trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle,
talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver
definitivamente resolvido, e depois...

--Mais nada--atalhou Francisca--Ora, no Canadá, já sabemos que elles não
estão. N'outras colonias, tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que
havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres
annos?

--Que as cartas me são roubadas--insistiu o doutor.

--E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho,
Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho,
ainda que o senhor me dê muitos filhos.

--Suicidarem-se!--proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de
absorvido em suas cogitações, não ouvir a esposa--Suicidarem-se não póde
ser... Antonio Mourão graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e
de lá passou para Hollanda. Um medico não chega a encarar com tão feia
miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em
qualquer parte acharia pão, ainda que fosse máo physico; porém, com os
talentos d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que fôr,
Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha.
Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para
onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem
espiadas, e vão dar ás mãos de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso
amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para
França, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmãos de
Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mourão.

Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a
contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa
entre-aberta dos labios.

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo
Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de
pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado
a França, iria indagar pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas
com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasião, lhe
noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá
se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina
em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: «Não sei se érro em trazer
o rapaz para Portugal; mas a mãe insta, chora, e definha-se a termos que
receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o
que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da
vida, me attenda.»

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que não trouxesse
para Portugal, como victima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que
lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem
encarecimento, os perigos que ameaçavam em Portugal um rapaz creado e
educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e
destemidamente o seu pensar em coisas de religião. Recordava-lhe as
numerosas victimas da inquisição, que preferiram morrer a desconfessar
sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á
hypocrisia de aceitarem apparentemente a religião dos carniceiros filhos
de Domingos de Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel
Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, não obstante,
garrotado e queimado na praça da Ribeira em Lisboa no anno de 1652.
Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o
advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serrão[3] e outros, cuja
inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes
custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga
torrente de lagrimas.

As reflexões do medico abalaram o judeu; mas não lhe demudaram a tenção.
Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á
patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e
instancias da mãe; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do
clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o
afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até
que deliberou trazel-o de volta da sua excursão mercantil a França e
outras nações.

De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu.
Dizia que Antonio de Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir
estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova França, aceitara a
proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no
prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios,
carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e
fôra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de
flibusteiros, conhecidos como _demonios do mar_, na linguagem da
peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada
costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas,
capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle.
Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o
medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia,
algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mãos dos flibusteiros
segundo informações de um galeão hespanhol, que das pessoas embarcadas
no navio perdido, até áquella hora, não viera noticia a França.

Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.

--Tinhas adivinhado desgraçadamente! O nosso Braz já não tem pae nem
mãe. Agora podemos dispor do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto
remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já não ha
duvidar... Estão mortos! Batam as mãos os gallileos, e folguem de ver
que vingaram as ondas o que as lavaredas não poderam! Oh!... que vontade
eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e
contar-lhe as desgraças de seus paes.

--Não--atalhou Francisca--não lhe digas nada; não digas! Que lucra elle
em saber isso?... Vaes semear-lhe no coração odios e paixões que, no
futuro, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer lhe digas em tempo
algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condão
funesto!



II

Não era mãe!...


No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter
o ouvido fito aos rumores surdos da inquisição, recebeu mui secreto
aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio,
qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se
nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a
entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam,
tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se
para trabalhos grandes.

Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e
refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a
profissão de boticario, no Fundão, até ao anno de 1652, em que fôra
queimado o capitão Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo
Pedro Lopes.

Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que
podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe,
porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas
demonstrações de sua piedade.

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui
violentada se prestasse a uma ostentação hypocrita, da qual a credula
israelita se penitenciava com muitos jejuns e orações.

Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a prisão
illimitada um Fernão Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa
d'este christão novo era o ter-se descaminhado e caido nas mãos dos
inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz
d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaçava a
tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a
tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia
conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.

Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam
motivo para condemnarem Fernão Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho
manuscripto que possuimos, chamado _Memorias de Francisco Soares
Nogueira_, encontramos trasladada a carta, cuja copia não vem descabida
ao ponto; e, se mais não vale, tem por si o merito de nos dizer como os
boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulação dos
ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a
inspiração com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.

Dizia assim a carta:

  Oh Fernando, oh Fernando,
        até quando
  ha de durar teu descudo,
  entre o povo torpe e rudo?
  Que serve estar aguardando?
  Sabes a banda d'além...
        e o que convem.
  Quem se agarra, quem se afferra,
  deixa o monte, deixa a serra,
  e ao valle seguro vem.

  Não vês como arde esse matto,
        mentecato,
  que pouco a industria val?
  Antes que chegue ao casal,
  levanta cabana e fato!
  Não sejas aventureiro,
        que o toureiro
  _sim_ (?), morre em seu officio.
  Mais val ter outro exercicio,
  que fundar em ser ligeiro.
  Por que não queres ser forro?
        Eu morro,
  por não haver quem te arranque!
  Se pódes vêr de palanque
  por que queres andar no corro?

  Tambem eu estive lá,
        e sei o que ha;
  tudo passei, tudo vi.
  Não se incerra o mundo ahi;
  melhor mundo vae por cá;
  o pão é cá mais ensôsso,
  e a carne sem chambão;
  tambem cá se ganha pão,
  e não com tanto sobr'ôsso.

  A gente é cá sem reima,
        de menos teima;
  a terra fructos produz,
  e o sol dá cá mais luz,
  posto que tanto não queima.

  Digo-te verdade mera:
        considera;
  e, se queres ter descanço,
  vem buscar o rio manso,
  foge do mar que se altera;
  foge do lago e da cova,
        cousa nova,
  e só n'isto me obedece.
  Mova-te o proprio interesse,
  quando o grão Deus te não mova;
  que os lobos como rodeiam
  sempre pream.

Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a
viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas
punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos
dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém,
como se a hypocrisia lhe não désse caução bastante segura, o lente de
medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de
fugir, sem dar ansa aos espias.

Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisição cada vez mais
desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, não menos vigilante
que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus
haveres ao estrangeiro.

O pequeno Braz era-lhe empêço. Não sabia elle se devia levar comsigo a
creança. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se,
tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do
pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á creança;
mas não era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se
viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Então lhe seria a ella
bom de comprehender que sómente é mãe aquella que sentiu as dôres da
maternidade.

--Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?--perguntava
Francisco Luiz á mulher.

--Se o podessemos levar sem difficuldade...

--Não podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte.
Temos de fugir; e escapar com uma creança desembaraçadamente ninguem o
faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e
denunciavam a fuga.

--Deixa-se em casa dos nossos parentes--tornava ella.

--Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu
filho--observou o doutor.

--Tenho uma boa idéa--ajuntou elle--entreguemol-o a Francisco de Moraes,
de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de
pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo a perder. Vou
escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze
dias.

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe
ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do
desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava
ganhal-a com honra.

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da
creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o
menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias
desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao
marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito
instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou
resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a
passagem para outro reino.

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua
patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou
na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de
liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu
rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o
inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava
processo, quando o lente alli chegou.

Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição,
Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra.
Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de
maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz
o hebreu de Villa Flor.

A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes
principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com
portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade
do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o
doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do
piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo
que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino
Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe
nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o
fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.

Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra
de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em
silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as
caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.

Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos
proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo.
Heitor quiz instituir-se mestre do _a b c_ do pequeno; mas as graças
infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito
rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela
casa no jogo dos esconderêlos.

Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas
brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor,
e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma
hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astucia no escape do
sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da
fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por cançado de
amontoar riquezas.

Assim se reuniram em felicidade ainda não experimentada, os paes de
Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orphão, que,
de muito amado que era, não sentia falta dos seus primeiros amparadores.



III

O faro das bestas-feras


Por espaço de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias
de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes não o
incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de
gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das
sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas
muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita
de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.

Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao
pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já
pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes,
confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o
deixasse levar com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde os dez
annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina.
A generosa lembrança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno
agradeceu-a com lagrimas de alegria.

Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo de Coimbra, filho do
doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá
voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino.
Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja educação elle tomára a seu
cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e
quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou mãe, o filho de
Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas não
dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido
examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica,
sciencia que então reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de
Villa Flôr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições
que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores.
Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe
os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco
de perder-se.

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com
precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que
liam no collegio a ignorancia do moço em doutrina christã,
interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o
educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem
resava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de
piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno
sentiu um bate no coração, comprehendeu instantaneamente o perigoso
d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o
cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz
Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fôra
necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta
esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram
logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades não levavam
as noites d'um somno.

No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicação e extremado
engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e
contou ao pae a inquirição porque passára o menino sobre o cathecismo
christão. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho
que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias
engenhou razões para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno
de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.

Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já
cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia
atiladas; de modo que deu força ás suspeitas, mostrando estar apercebido
para destruil-as.

A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os christãos
novos de Villa Flôr, se não eram sinceros judeus, tambem não eram
sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era
egual á outra como affrontamento á verdadeira religião.

Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o
provocavam a questões theologicas, das quaes elle se desembaraçava,
dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem
discussão. O conceito dos espiões de sua consciencia não melhorava por
isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.

Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o
precatasse contra alguma violencia.

Voltou Heitor ao terceiro anno, com o coração retalhado de saudades de
sua mãe que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria
deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A
convivencia do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a
cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.

Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de
Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o
seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria elle que fosse um como
adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas
abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando
sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via alli o pae
moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos
a turvação de seu pae, e a, por isso, involuntaria privação de
sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com
descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Flôr. Da
replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador
fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor
Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de
tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisição.

Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da mãe
d'aquelle moço!

Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso
ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo,
não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo
estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa
religião. Além de que o orphão, esquecido do nome de seus paes, senão
engeitado d'elles, não tinha culpa minima do hebraismo de quem o
protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra
lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da
casa, sem licença do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino
de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe
disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados
gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia
misericordiosa do santo tribunal da inquisição.

Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço
mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras
de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mãos dos
filhos de S. Domingos.

Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era
transferido á inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos
extraordinarios, que não vingámos averiguar. O que a toda luz
evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até
12 de setembro de 1706.

E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das
cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao
menos o coração com algum sangue, aquelle coração de vinte e oito annos,
para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que
o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua
masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?



IV

Resposta


Abrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'aquelle dia 12 de setembro de
1706.

Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das
reaes cavallariças ás berlindas cosidas em oiro. As variegadas librés
dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depóz os
coches do filho de D. João IV. Ia grande movimento e alvoroço nos
mosteiros. Serpejavam innoveladas as multidões que desciam da cidade
alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o
dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da fé.

D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos;
e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores,
caminharam mesuradamente por entre as naves, até se assentarem na sua
alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo á tribuna dos inquisidores,
que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.

Para que tudo fosse egregio, até o prégador no auto da fé de 1706 era um
dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um
dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o
reverendissimo padre mestre, geral da congregação de S. João
Evangelista, chronista-mór de sua ordem, qualificador da inquisição,
examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de
tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitára o bispado de
Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa
Maria, author do _Ceu aberto na terra_, da _Aguia do Empireo_, da
_Saphyra veneziana e Jacintho portuguez_, do _Anno historico_, de muitos
volumes de sermões, todos esplendidos, todos laureados, todos
christianissimos; mas nenhum tão esplendido, tão laureado, tão christão,
como este que sua reverendissima vae hoje prégar no auto da fé, em
presença de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as
tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta á praça do
Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos
corpos que vão ser queimados, e aponta as orelhas pias para não deixar
perder minima palavra da ungida oração de padre Francisco.

A procissão dos condemnados é longa. São mais de cincoenta, homens e
mulheres, os que vão padecer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua,
ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco,
tres homens e duas mulheres, _relaxados em carne_, como rezam as
sentenças.

Dois homens e as duas mulheres dão visos de já levarem obliterada a
memoria da vida que deixam. Vão amparados nos braços dos officiaes do
santo officio agonisando a espaços ancias soluçantes que lhes ressumbram
á fronte um suor glacial. Entre elles, porém, caminha firme, direito,
altivo, com a sua tocha de cêra verde na mão, e a samarra e a carocha
pintalgadas de demonios e fogueiras, um moço de vinte e oito annos,
gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de
carcere. É Heitor Dias da Paz.

O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. Ao fim de quatro horas de
leitura de cincoenta e tantas sentenças, indigitou o hebreu de
Villa-Flôr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o
moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta á
tribuna.

E o promotor leu o seguinte:

«Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição[5]
que, vistos estes autos, culpas, confissões e declarações de Heitor dias
da Paz, christão novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes
Taveira, mercador, natural de Villa-Flôr, reu preso que presente está,
porque se mostra que sendo christão baptisado, e como tal obrigado a ter
e crer tudo o que tem, crê, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle
o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo
crença na lei de Moisés, e fazendo em observancia da dita lei jejuns
judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, senão á noite
depois de sair a estrella, ceando então coisas que não eram de carne, e
deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama,
e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e
os melhores vestidos, começando a guarda d'elles da sexta feira á tarde.

«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e
com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua
consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer
e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario á sua
salvação) era crêr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob,
assim e da maneira que o manda a lei de Moisés.

«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinação do
reu, lhe foi dito que considerasse bem a resolução que tomava em se não
querer apartar da crença da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em
querer persistir na lei de Moisés, por que já n'ella não havia nem podia
haver salvação, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor
nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e,
conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á fé
catholica que tem, crê e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho
elle era e professára no baptismo, e confessasse inteiramente suas
culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvação de sua alma, e
para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma
conceder aos bons e verdadeiros confitentes.

«E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, não
só n'aquella sessão, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim
de sua reducção, que não se queria apartar da crença da lei de Moisés,
que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:

«Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e
accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois
perseverava ainda na crença de seus erros com obstinação e contumacia,
estivesse com seu procurador e lhe désse conta do estado de sua causa, e
lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle
respondesse ao libello da justiça, para que, guardados os termos de
direito, se podesse continuar sua causa.

«Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas
declarações, e não quiz usar de defesa, pelo que foi lançado da com que
podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, se lhe fez
publicação de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a
que não veiu com contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando
outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que
quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si
não veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle
estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moisés; e, como a
não negava, não havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas.
E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em
sua causa, e começava pelas palavras seguintes:--_Perditio tua, Israel,
tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus_.

«E logo continuava dizendo que elle reu não só não deixava a crença da
lei de Moisés; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos
termos dos autos, e queria ficar em juizo com a crença da lei de Moisés,
na fórma seguinte, declarando: Que cria em um só Deus verdadeiro, e que
este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o céo
e a terra, e fez pacto com Abrahão, e deu lei a Moisés, e poz por
primeiro preceito d'ella: _Non habebis alios Deos preter me_. E, como
tal, tinha por damnada crença o christianismo, e por tal a excluia,
abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E
assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da fé
e por passado á crença da lei de Moisés, mostrando que a differença que
havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus sómente a Deus
verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e
accrescentando ás ditas declarações algumas subtilezas e subterfugios
cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor
da lei de Moisés.

«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o
dito papel em que se continham as ditas declarações era por elle
escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu
entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que
sim, e por aquellas declarações queria ser julgado; e sendo, advertido
que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de Jesus Christo
crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava
repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a
sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de
outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer,
nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavras _santa
inquisição_.

«E pelo reu foi dito que não queria mais procurador nem mais
interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que
elle já de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham
deposto.

«E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o
discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvação e engano dos
seus erros, persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo a ter e
crer na fé catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma fé,
e dar credito nas materias de consciencia e religião ás pessoas que lhe
foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas
letras, não havia professado as divinas, e como tal não podia explicar
as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos
letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio
entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os
ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido,
pois não tinha fundamento algum para permanecer na crença da lei de
Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava ás
protestações de sua crença contheudas nos papeis que havia escripto.[6]

«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem
embargo da obstinação de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e,
arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de
arrependimento que se podesse entender que elle reu, de puro e
verdadeiro coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de que tão
cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da
misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e
verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o
risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia
imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma
ás irremissiveis e eternas penas do inferno.

«E pelo reu foi dito que das sessões, que lhe foram feitas na inquisição
e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma
inquisição haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem á crença dos
christãos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a
que estava exposta sua vida; porém que, sem embargo da perda d'esta, não
podia largar a crença que seguia, emquanto lhe não propunham razões mais
concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moisés.

«E visto como o reu se não quiz haver por convencido de seus erros,
havendo-se dado solução verdadeira ás duvidas que propunha, sendo por
tão repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa
caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do
santo officio, se assentou que o reu pela prova da justiça e sua mesma
confissão e declaração estava convencido no crime de heresia e
apostasia, e como herege apostata de nossa santa fé catholica convicto,
confesso affirmativo e profitente da lei de Moisés, pertinaz e
impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir
sua sentença, pela qual estava relaxado á justiça secular. O que tudo
visto e bem examinado:

«_Christi Jesu nomine invocato._ Julgam, pronunciam e declaram o reu
Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo
profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente, e que incorreu em
sentença de excommunhão maior, em confiscação dos seus bens para o fisco
e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes
estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa fé catholica,
convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moisés,
pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem
pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não
proceda a pena de morte e effusão de sangue.»

      *      *      *      *      *

Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentença, fitou
penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros
mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a
ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a
fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na
tribuna real:

--Não quero!

Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitação foi de
subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no
pulpito.

Reinava já sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author
do _Anno historico_, trovejou estas palavras do texto: _De malo ad malum
eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus_[7].



V

A piedosa eloquencia do frade


O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de
um auto da fé, póde ser que não faça cabal juizo da peça chamada o
discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe
dar alguma noticia do sermão de 1706, por ser elle do ascetico e
sapientissimo auctor da _Aguia do Empyreo_. Póde ser que ainda a muitos
curiosos d'estas christãs leituras o sermão de fr. Francisco de Santa
Maria seja desconhecido, por que é já rarissimo. A meu vêr, a maior
parte da edição arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do céo!
Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que é a minha vaidade de
bibliomano e a minha edificação de devoto.

O prégador, no exordio, propõe-se demonstrar tres pontos: primeiro, que
o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus;
terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazareth, crucificado
por aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes.
Depois do que, implora a intercessão da sacratissima Virgem, e começa.

Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos
Evangelistas:

«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a
Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou
affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta acção,
mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da fé,
o remedio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a
força do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos
peço perdão d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e
altissimo Deus.»

Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do
san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria.
Esteve-se quêdo alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, a
tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava
aquellas expressões, que o leitor pio leu commovido.

Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas ás
outras:

--Veremos á tardinha se o marrano se ri na fogueira...

O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstração dos seus tres
pontos, que foi completissima, sem deixar brecha á mais especiosa
contestação.

Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, sorria; e, por pouco não
desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador,
repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os
catholicos, argumentou d'esta sorte: «E como é possivel que, sendo nós
idolatras ha tantos seculos, e sendo vós ha tantos seculos cultores do
verdadeiro Deus; sobre vós ha tantos seculos que chovam os castigos, e
sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vêdes, pois vos vêdes
ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem
prophetas, sem capitães, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem
altar, sem sacrificio, sem liberdade. Nós os christãos tudo isto temos.
Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente
aos fieis?»

O impulso de riso do judeu, a meu vêr, procedeu da respeitavel
ignorancia do padre quanto ás regalias de que os sectarios de Mafoma se
estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e
comprida que a porção alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o
israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da
fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e
crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente fallando que
os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaçado, se
elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir
parvamente heretico. O caso, porém, não fez levemente titubar o
impassivel prégador.

Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao
ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da
lei de Moysés. D'isto a prova mais insinuante que o douto prégador
desfechou dos labios inspirados está no seguinte argumento:

«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de vós ao patibulo, e sendo
diante dos nossos olhos pasto á voracidade do fogo, nunca se viu em
algum de vós algum prodigio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade
escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a
chamma lavra em vós como em madeira secca?»

Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto
para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe ás
carnes o calefrio horrendo das dôres que o aguardavam para o fim
d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito,
e a suffocação da fumarada da fogueira.

Demonstrados os tres pontos da oração com quanta lucidez se esperava de
tão conspicuo sujeito, o author do _Céo aberto na terra_ apostrophou
primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico
profitente que era Heitor.

Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso
Senhor que perseverassem.

Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal;
mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer
affrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a
alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis
emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos
dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a ultima hora!»

Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis á
caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso? _Morrer é
natureza_; morrer em colchão flacido ou em cama de brazas vivas é uma e
a mesma coisa: é natureza; mas o importante alli para o caso já não era
o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz
homicidio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava
arranjada, logo que os relapsos, á ultima hora, se entendessem com Deus
uno e trino.

Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o
confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:

«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae
que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o
que dizem as palavras do meu thema: _De malo ad malum egressi sunt_.
Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser
condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na
eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro
fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim
vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á
vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar
ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio
d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem
madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos
resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que
estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos
mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos
diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos
doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se
empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?

«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão
antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes,
que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua
latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria--ajuntou o
orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia
desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente--não o tomeis por
injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que
na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom
da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»[8]

Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta
em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão
divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a
apostrophe n'estas branduras:

«Ora filho do meu coração, _convertere, convertere ad Dominum Deum
tuum_.

Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que,
abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter
n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto
ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae
este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este
numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras
a vossa vida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a
salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis
na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que
dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do
qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo
eterno.»

E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo
agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o
eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo,
e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o
seu sermão impresso.

D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes
e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.

O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse
coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem
não voltou a regalar o publico nos autos da fé.

      *      *      *      *      *

Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram
conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação
para os sentenciar.

A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora
fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão,
perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]

--Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?

--Sou.

--D'onde sois?

--De Villa Flor.

--Credes--tornou o presidente--na Santissima Trindade, Padre, Filho,
Espirito Santo, tres pessoas e um só Deus verdadeiro?

--Não creio.

E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.

O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao
condemnado:

--Ajoelhe para ouvir ler a sentença.

--Ouvil-a-hei em pé--respondeu Heitor.

--Leia--disse o presidente ao escrivão.

O escrivão leu o seguinte:

«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores,
ordinario, e deputados da inquisição, e como por ella se mostra o réo
preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa fé
catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado á justiça
secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e
declarar que não cria em nossa santa fé catholica, senão na lei de
Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso,
condemnam ao reu que com baraço e pregão pelas ruas publicas e
costumadas seja levado á ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em
um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que
nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam
outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto
que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes,
inhabeis, e infames na fórma de direito e ordenação. E pague as custas
d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»

A procissão dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da
Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas.
Os dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de suas sentenças em
anciados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo
officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e
ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.

Ao embocar o prestito á rua da Padaria, um ancião mal coberto de
andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do
povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.

Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a
repellões. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma
palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no
seio do ancião, que exclamou:

--Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe
que por instantes estarás comnosco no seio de Abrahão!

E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha,
ao qual se seguiram medonhas convulsões.

--Abençoada seja a sua coragem, meu pae!--exclamou Heitor--Até logo, até
á eternidade!

As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho
principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o
queimar das lavaredas nas entranhas, expirára afogado no fumo.

E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar
bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do paço da Ribeira,
aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam
vesperas.



VI

Braz Luiz


N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.

A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos
condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porém,
n'aquellas edades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas
queridas que morreram não se prendem á previsão angustiosa das desgraças
porvindouras. O filho de Antonio de Sá Mourão estava de todo esquecido
do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.

Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo engenho do moço se
manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e
no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo
officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse
irmão de Heitor, zelosamente informaram os inquisidores dos piedosos
sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoção com que elle se
entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto,
deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.

Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos
mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o
moço tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que
enviára delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e
Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem
enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não soffresse
quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.

Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas
arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta,
entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o
moveram á repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de
o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não
violentava. Tamsómente as vocações liberrimas e muito espontaneas lhe
serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposição para a vida
sacerdotal, abriram mão d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se
necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde
pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os
padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo é que
Braz Luiz teria a protecção d'elles, se não tivesse a dos paulistas.

Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz escolheu a medicina.

Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter
estudado artes, e logo deu de si tão lisongeira conta, que se estremou
entre os condiscipulos, ganhando as distincções das escolas, a estima
dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o
discipulo dos seus futuros escriptos se mostrará agradecido.

Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada
revolução. Sem faltar ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos
estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro
e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus
desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando optimas lições nas
aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o
primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.

Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, travou-se uma refesta
ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz,
depois de muitas proezas, caíu ferido de uma choupada, que lhe vasou o
olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braços para sua casa, e
lhe assistiram affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte: mas não
poderam salvar-lhe o olho.

Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a má nova de ter
perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se
para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e não
mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem já não tinha mais que
um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes da reforma do seu
protegido, voltaram a soccorrel-o; porém, o pundonoroso academico,
reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com
que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a
recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a
regeitar o pão vilipendioso dos paulistas.

Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gráo de licenciado em medicina. A razão
que elle teve para assignar-se _Abreu_ funda n'uma casualidade de que
resultou enganar-se Barbosa na sua _Bibliotheca Lusitana_, dando Braz
Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues
d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde começára
a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro
protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina
do alphabeto: _Braz Luiz de Abreu_. Assim o escrevêra a esposa do
doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no
menino como em filho propriamente seu.

Ahi está onde ao medico se deparou um apellido, que elle não sabia
d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de
rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais
provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidado
_Abreu_; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida
ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagal-o; porque elle não
tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros
annos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete annos para áquem.
Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Villa Flor;
e imagens de pessoas, duas sómente lhe viviam meio delidas na lembrança:
eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.

Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas
noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradições encontradas alli
eram que uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que
seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas
não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador
accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia
palmo de terra que a inquisição não confiscasse.

Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos
de grande estudante, faltavam-lhe doentes. Á mingua de recursos, pensou
em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu
contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o
encontrámos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 1718[10].

No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para
terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e
n'este mesmo anno começou elle a olhar tristemente para a deformidade
que lhe deixára no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não
repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita
direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.

Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, com que encher a orbita
nauseenta e dar contractibilidade apparente á palpebra. Investigou a
sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos
artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou
esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido
longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao
nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram
que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de
esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos.
Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na
orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou á
sua elasticidade.

Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para
logo se conhecer que a orbita direita estava envidraçada. D'ahi
seguiu-se chamarem-lhe o _doutor Olho de Vidro_, alcunha que lhe ficou
até á morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a
magnitude dos talentos medicos e os seus não menores infortunios.

Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, não obstante a
pouca illusão que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.

O restante do carão, como diziam os coevos d'elle, era senão gentil, mui
symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com
esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão
d'este proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é elle quem
propriamente a escreve d'este modo: «... Emquanto aos polvilhos, tão
longe estão de parecerem ornato na cabeça do medico, que antes são
presagios lethaes da vida do doente. Porque se a egreja com pós na
cabeça nos adverte da morte que vem, como o medico com pós no cabello
nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio
que, os pós são significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do
que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os
verdadeiros ministros d'Apollo só usam de polvilhos cephalicos na região
animal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de polvilhos
estomachicos na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para
dizer que era abuso ridiculo.»[11]

Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor allega contra
os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito
d'ellas, faço justiça aos contemporaneos do auctor do _Portugal medico_.

Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o
peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra
razão efficientissima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o
medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes,
porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que não eram
suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais
prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses
esmeros para os que vivem á moda, e não excedamos a moda, que nem porque
um medico cheira bem, cura melhor.»[12]

Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava
simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artificios e emprestimos;
porque dizia elle: «Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabeça,
tão introduzidos n'este miseravel seculo, que não ha já encontrar
solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E acrescentava:
«Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christãos e
collocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»[13]

O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias
luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignação, e a
indignação porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais
intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do
olvidio, graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de
medicina. Resa d'esta sorte:

  Oh, medico! se és medico com effeito
  Procura mundo[14] ser, mas não mundano;
  Que de Apollo o caracter soberano
  Não anima nos vicios o respeito.

  Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geito
  Que o crocodilo do rumor profano
  Quando vás a beber do Nilo humano
  Não possa devorar teu bom conceito.

  Em teu ornato a modestia nunca falte,
  Um pouco mais ao grave do que ao lindo;
  Que assim obra quem douto assim discorre.

  E porque a tua fama mais se exalte,
  Visita a modo de quem vae fugindo,
  Como do Nilo o cão, que bebe e corre.[15]

O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se
não era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural
d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais
verde da mocidade, argue um aliás louvavel cuidado de se fazer bemquisto
aos homens graves do seu tempo. É, de mais d'isso, muito provavel que o
medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem
farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava
da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos
bemfeitores de Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asseverava
que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do
baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?



VII

Exemplo de honestidade aos medicos


Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que então
contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus
magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino.
Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo
officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde
entravam, contra a prescripção do soneto, não procediam exactamente

  Como do Nilo o cão, que bebe e corre.

Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia
despreoccupada d'aquelles cães do Tejo que bebiam muito devagar,
bandeou-se com elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte e
cinco annos, resalvadas as apparencias.

A primeira dama que se quiz senhorear da alma do seu medico, era uma
fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por
bons galans que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta annos, e se
purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo
caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella
cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.

D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente
pelo olho unico do seu medico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder.
Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz
escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com
agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de
lingua de vacca, antidotos de sua predilecção contra os estherismos e
enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.

A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a desesperação da medicina
gallenica. Dos linimentos á chaga interna que lhe cancerava as
entranhas, um sómente dera satisfatorio resultado: era a presença do
medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas
costellas sobre e sub-jacentes ao coração. No coração nomeadamente é que
ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que
quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna
sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se
para o acto, e exclamou, repellindo a criada:

--Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!

Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões a persuadil-a, cuidando
sinceramente que a dama soffria dolorosissimas palpitações. Da
austeridade de medico passou ás branduras de amigo que muito lhe devia,
porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento
para ser elle quem lhe friccionasse o seio.

Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia,
referindo a sua condescendencia não tanto ao amor da vida, como ao
horror de morte assim atribulada.

O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel
Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos
untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio
tentador do santo, emquanto assentava a outra mão sobre um brazeiro para
ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da materia bruta, as
_fervenças da carne_, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.

D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demonio;
porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e
quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céo, se a
mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.

Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da
brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os
gemidos por um suspirar descançado que parecia descair em dormir
restaurador das forças extenuadas.

Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama,
que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia,
vencida do turpor do somno.

Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou
enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que
lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.

Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe á
cara com a taça do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.

A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que
estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com
magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:

--Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.

--Mas elle ainda agora saiu, senhor!

--Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo,
que faça o que ella quizer, comtanto que eu não ature minha cunhada
Claudia.

Assim se fez.

Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de
observações a rapida cura das convulsões de coração de D. Claudia com
unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos
Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.

O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.

Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era
ainda a dôr do coração que lhe estava destroçando o peito. Fallou o
doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem
calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas.

--Pois não, minha senhora!--accudiu o medico--não faremos uso das
ventosas, até mesmo porque a convulsão se vae distendendo aos membros, e
receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado
do remedio. Senhora Anacleta--continuou o doutor voltando-se para a
criada grave--mande procurar um pato gordo; ordene que o matem,
depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao
boticario com a receita que vou escrever[16].

  RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco
  e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flôr da mesma, e
  cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em
  almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no
  ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que
  destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura
  se unte o coração.

                                                                     ABREU.

Depois, sentando-se ao pé da doente algum tanto melhorada das
convulsões, ajuntou:

--Se este admiravel remedio não produzir o almejado effeito, asseguro a
vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com
os banhos de azeite puro, e melhor será se antes se tiver cozido n'elle
uma raposa[17].

--Uma raposa, doutor!--exclamou a dama engulhosa--uma raposa! Que
immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?

--Que desejará vossa senhoria que não appareça, minha senhora! Qualquer
caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa
senhoria, caçará raposas, que são mirificamente medicinaes.

--Anjo bento! raposas medicinaes!...--volveu D. Claudia, e abriu um
sorriso jovial, á volta com um gemido, como se o picar subito da dôr a
não deixasse rir francamente.

--Parece-me que está mais alliviada...--disse o medico.

--Um poucachinho...

--Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora--proseguiu
elle, confiado na efficacia da distracção.--A lingua da raposa trazida
ao pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao pescoço preservam
do quebranto.[18]

--Do quebranto!...--murmurou D. Claudia da Silveira--Ai! doutor, ha
quebrantos sem cura! Ha arêjos que em pegando da gente o remedio é
morrer.

--Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra
esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.

--Bem sei, bem sei--balbuciou a dama, com piedoso gesto.--Não é d'esses
que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defenderá... Ha coisas peiores
do que isso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabeça á creatura
mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim
dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com
todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de
máo... E, chegada a occasião, tanto faz como nada! Ai!--suspirou ella,
pondo as mãos ambas sobre o coração.--Ai!... pobres mulheres!... Só vós
sois as fracas... as peccadoras... não é assim doutor?

Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava espreitando de soslaio uns
olhos que o espreitavam por entre o reposteiro--os olhos da engraçada e
trigueira aia de D. Claudia--por pouco não é surprehendido pelo relance
da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.

--É assim, minha senhora, é assim--balbuciou elle.

--É assim, é--tornou ella--E que remedio sabe vossemecê para estes
quebrantos, doutor?

--É conforme...--tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta
conveniente, porque só n'aquelle instante percebera, com despeito de sua
vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.

--É conforme, disse vossemecê doutor...--volveu ella, anciosa de
entender as reticencias.

--Sim, minha senhora... Ha varios modos de possessão, além dos
conhecidos nas demoographias...

--Mão entendo isso--atalhou a fidalga--Pois a paixão d'alma tambem é
feitiço?

--Se não é...--balbuciou o doutor.

--Leva as mesmas voltas--accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo
com pouquissimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor
tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das taes
diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas
impudicicias muito reconditas da côrte da primeira mulher de D. Pedro
II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.

Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do
medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e
como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fóra.

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado
opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local
suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem
doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.

--Olé!--exclamou ella, erguendo-se de salto--Agora entendo!--E, correndo
ao reposteiro, afastou-o de repellão, e disse iracunda:

--Anacleta! já hoje não dormes n'esta casa. Rua! Não quero testemunhas
nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!

E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que
assistia corrido áquelle conflicto, disse-lhe:

--E a hypocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha
criada tambem se cura com os prodigiosos _não sei que_ (o doutor tinha
dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? Que hypocritas são
estes medicos!...

E cacarejou uma risada secca.

--Pois que?!--tartamudeou o doutor, enleado até á irrisão.

--Eu logo vi!...--disse a fidalga, como em praticas de soliloquio
comsigo mesma.--A promptidão das visitas... está explicada... Assim
devia ser. Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas
serviam sómente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se não
sujavam com amores de servilhetas...

--Oh! senhora D. Claudia!--atalhou o pundonoroso doutor--vossa senhoria
está-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer
isto a pessoa de sangue tão illustre... E, de mais, cavalheiro que tal
diz a uma dama, não deve mais voltar á presença d'ella.

E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arqueada cortezia.

--Faça o que quizer, doutor!--disse ella abespinhada, com o nó esterico
nos gorgomilos--Faça o que quizer que vossemecê se arrependerá...

Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da
Silveira.

--Que tal está a pellada!--dizia elle de si para comsigo--A impudica!...
E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é
que ella precisava nos lombos ociosos!...



VIII

Má sina de poetas


Passados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe
segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fôra expulso da casa dos
Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito
ao que devia á illustre enferma, e ao que devia á sua dignidade de
medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de
primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as
amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas ás suas servas.

A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era
uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez
de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o susto de ver-se banido das
casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afóra as
doentes mais rendosas.

O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que
elle figurava ridiculo, era contada entre as familias ás gargalhadas.
Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos á custa da
fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente látego era a satyra em
verso. Não teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrição, como
convinha á gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela
de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes
quadras:

  A UMA PELLADA

  Mulher, n'esse teu desgarro...

Convém saber, antes de ir ávante, que D. Claudia, como se quizesse
attrahir aos pés a attenção das pessoas, que lhe reparavam na cabeça,
costumava estar sempre calçada de sapatos bordados a fio de ouro. As
mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e
propalavam que o Olho de Vidro se deixára algum tempo fascinar dos
aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, não ha já commentarios
que aditar á poesia.

  Mulher, n'esse teu desgarro,
  Um Nabuco ás vessas és;
  Porque, tendo d'ouro os pés,
  Tens a cabeça de barro.

  Se alguma pedra traveça
  Te quizesse derrubar
  Era preciso acertar
  Mais que nos pés na cabeça

  Por que, se pelo mais fraco
  Estalla a corda mais grossa,
  Quem quizer que estalles, _moça_,
  Ha de cascar-te no caco.

  Mais flammantes do que um ouro,
  Mais liza do que uma ostra,
  A cabeça a coura mostra,
  Os pés vão mostrando o couro.

  Dize-me com que destino,
  Mesclas n'essa estatua van
  Entre affectos de christan
  Heresias de _Calvino_?

  Sem monho, e com cara alva
  Sahes a toda a occasião;
  E vejo que tens rasão,
  Porque a occasião é calva.

  Sendo mal encabellada,
  Para que andas, dize, á pella,
  Se ninguem por ti se pella
  Por mais que venhas pellada?

  Vae-te, e pede a Deus, ó louca,
  Que te dê com toda a pressa,
  Cabellos para a cabeça
  Em vez de pão para a boca.

  Ao padre nosso á porfia
  Pede que te encabellise;
  E em vez de _pão nosso_, dize:
  _Cabellos de cada dia_[19].

Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; não tardou, porém, que
sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido,
estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou á noticia da dama a zombaria.
Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor.
Odiou-o de morte; não relevava, porém, a soberba da fidalga que ella se
désse por ultrajada.

Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os
amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle,
deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os
desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e
mêdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque não lhe
faltou.

Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do
peito. Do plano á execução mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz,
recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma
arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.

Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por
Coimbra, onde assistiu á impressão de um seu livro em castelhano,
intitulado _Aguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna.
Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria
gloriosamente alcançada por las aguilas impiriales contra las nocturnas
aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto año
1716._[20]

A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante
para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chama
_Aguias filhas do sol, que voam sobre a lua_. E, como se isto não fosse
já recommendação á obra, acresce-lhe o merecimento de ser _representação
comica, tragica e triumphante_. Um livro assim, e os applausos com que a
peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga
compensação dos dissabores com que saira de Lisboa. Não ha ahi chaga em
peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento.

Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo tenção de estabelecer-se na
segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando
scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do chá,
nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de
certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para
seu uso o chá da China, como se não tivessem alli á mão a erva de que
elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito faço
em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se não iria eu
propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de
Aveiro em poucos annos. Aqui está a noticia: «Na villa de Aveiro, e em
todas as suas visinhanças nasce uma erva, a que os naturaes chamam _erva
formigueira_, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a
ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao
meu entender) é o verdadeiro _chá_ que vem da China e do Japão; não só
porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes do _chá_; mas
tambem porque mandando-se da India a Gonçalo de Sousa de Menezes,
morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo chá, elle a
mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se
acham revestidos os campos e os comaros.»[21]

Não ha duvida nenhuma: o chá da India é a _erva formigueira de Aveiro_.
E dizem que nós, os portuguezes, não somos gente para descobrimentos! O
que nós somos é uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza
que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se
alguma companhia entrasse em exploração d'aquella mina, quem sabe se,
fechados os portos á erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso chá
amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infusão de erva
formigueira? Razão tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em
seguida á noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: «Quem quizer
indagar-lhe os prestimos, com facilidade o póde fazer, se acaso não fôr
do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as
coisas estrangeiras ás nacionaes e domesticas.»

Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao começar o anno de 1718.
Estreiou-se auspiciosamente. Açambarcou a clinica dos mais acreditados,
e manteve-se com recato e honra no tocante ás venialidades do coração,
tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a má fama grangeada
em Lisboa.

No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas
bonitas de sua pessoa, rubras e sadias d'aquelle antigo sangue e pojante
saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos
Pellames, Congostas e Mercadores.

Não se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro,
estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de
minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de
rato fresco.[22] O coração cedia á freima com que elle trazia empunhada
a cabeça em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia,
como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria,
se está gosando e gosará, emquanto o seu _Portugal Medico_, e a sua
_Vida de Santo Antonio_ e este meu romance forem livros conspicuos.

Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito
adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada
pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua
cura na milagrosa reputação de Braz Luiz de Abreu.

Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de
Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu
medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes
apenas lhe davam tempo para gemer, não obstante os esmerados disvelos do
doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando á pobre senhora lhe acudia a
lembrança de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem
parentes, bem que ella os tivesse ricos. Bem quizera Braz Luiz, com a
alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas
vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de
prompto as investigações indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e
três annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito
custo a lingua portugueza, e com sua mãe expressava-se sempre na lingua
franceza. Braz Luiz de Abreu não se deteve a perguntar ao seu espirito
se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a
perdidamente desde que a ouviu.

D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras á
filha foram estas: «Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada
menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar
os teus parentes, e diz-lhes que não és culpada dos delictos de tua
mãe.» Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao pé da filha:

--Abençoae a nossa união.

--Eu vos abençôo, meus filhos--murmurou a moribunda.



IX

Poeta e moralista


Casaram.

As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.

O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente
referidos por sua mulher, que os não sabia bem contar. O essencial da
historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se
finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo.
Declarou ella que sua mãe não se chamava Antonia, nem o seu appelido era
Castro. O mysterio, a perseguição, a formosura, a indole meiga, tudo
cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido,
começou a contar os seus dias de vida.

Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma
enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um
conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de
mandal-o á posteridade! Como não era coisa bem cabida um soneto de
amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos,
attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que
eternisára as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo
encarecer a formosura de um opulento cabello: «Temos um heroico exemplo
na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou
toalha para enxugar os pés de Christo lavados com suas lagrimas...
Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada
n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'este

  SONETO

  «Teus cabellos, teus olhos basta vel-os,
  Compondo o rosto teu, que ao sol prefere,
  Ó minha esposa, porque a fé venere
  A amorosa ambição de pretendel-os.

  «Nem porque muitos são chego a querel-os,
  Antes por qualquer um amor requere,
  Um dos olhos o coração me fere,
  Prende-me a alma um só d'esses cabellos.

  «N'um dos olhos por pura te comprehendes,
  N'um cabello a humildade sem refolhos,
  Dás a entender em symbolos bemquistos:

  «Por isso humilde e pura tu me prendes;
  Que se um dos olhos me entra pelos olhos
  Um dos cabellos me ata a olhos vistos.»[23]

O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é bom modelo para
mysticos; porém, como brinde á estremecida Josepha, é o melhor de que eu
tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente.

O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que
chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram
Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e
depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho
Luiz, e depois Pedro José, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo
mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de
felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em
nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do
estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella
familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas são os
anjos que pintam os quadros da vida intima com côres e instincto do céo.
Quem quer dizer «suprema e indisivel felicidade» não tem mais que pôr:
«eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a
beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em
volta do ninho que lhes dá o aconchego da plumagem e do cibo.»

Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia
enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado ás caricias da familia,
entre os trabalhos de gabinete e visitas ás pessoas mais illustres e
pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade
fallou por elle no tribunal da inquisição, quando lá chegou o
requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio.
Concederam-lh'as sem hesitação, porque os medicos, como senhores do
arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da
pureza da fé. Não só os sãos costumes, que tambem um livro de summa
piedade e vasta erudição, lhe ganharam as honras e privilegios de
familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos
fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo,
intitula-se «Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo
Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida
e prodigiosas acções.» N'aquelle tempo, não houve livro que ousasse
medir-se com as elegancias e pompas d'aquelle _in-folio_, para o qual
devêra inventar-se a eternidade, se ella não andasse já por ahi á
disposição das obras inuteis.

D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos
milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido,
reduziu-se á pureza da fé catholica, e revalidou as ceremonias do
baptismo, para se limpar de escrupulos. Não seria esta a razão
efficiente; mas parecia ser.

No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem
que menos importante á salvação da alma. Todavia, choviam bençãos sobre
o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava á
humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a
minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padrão da
medicina portugueza: «Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana.
Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e
comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e
microcosmo.» Estes dizeres podem chamar-se o cabeçalho do titulo, que se
continua em vinte linhas. Assim o declaro para que se não julgue da
superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de
Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. José Francisco, e
assigna-se _medico portuense e familiar do santo officio_, assentando
n'estas qualidades dois titulos á consideração publica.

Este livro, a meu ver, é a mais pittoresca historia dos costumes
d'aquelle seculo. Ninguem lê o _Portugal Medico_, e poucos sabem que
desprezado thesouro alli está. Como author de livros de medicina é
vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores
medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro
Sarmento; como relação das usanças do seculo XVIII, não ha novella nem
poema satyrico em portuguez que lhe chegue á barba.

Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em
Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram
traços da chusma de charlatães, naturaes e peregrinos, que se
locupletaram entre nós, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha
descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso,
nenhuma publicação coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou
escarnecido do Olho de Vidro.

Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae
folhear o _Portugal Medico_. Pois eu, mas que me alcunhem de
impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro,
que é mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais
comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.

Ácerca dos medicos estrangeiros:

«Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e
constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religião feito
apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne
medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e
vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E até entre os nossos o
que é alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que é cirurgião
na Extremadura vae buscar o gráo de doutor ao Alemtejo; e de boticario
da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte
espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem
de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem
sem pena e matam sem castigo...

«Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra d'este reino
um medico estrangeiro, não disse bem, um estrangeiro metido a medico;
antes que ponha o pé em terra, já o bom do homem tem mandado encher as
esquinas de editaes em que publica remedios infalliveis para todos os
achaques... Entra-se um d'estes por casa de um illustre, de um nobre, de
um ecclesiastico; mas nunca de um pobre; e se ha achaque na casa, começa
logo o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi fortuna chegar
elle a tempo em que podesse emendar o que os medicos tinham errado;
porque a queixa só elle a conhecia, por ter já feito, similhante cura na
pessoa do delfim de França, e vencido o mesmo achaque no principe
Eugenio, ou em outro qualquer personagem d'este calibre; por que
similhantes physicos nunca se fazem medicos ahi de qualquer tudesco de
má morte; mas as suas experiencias sempre tem sido observadas, ou nos
palacios dos principes, ou no serralho do grão turco.

«Começa um d'estes alchimistas a prometter e o pobre doente a pasmar. Se
o achaque é uma ethica marasmada, diz-lhe: senhor, eu faço uma agua tão
portentosa e de tão infallivel virtude, para esta sua queixa, que não só
é capaz de restauricar ethicos, mas de resuscitar mortos. O cardeal de
Rouen em Paris estava já mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a
mesma agua, e logo se poz mais gordo que um taralhão por agosto... É
verdade que lhe custou do seu porque este remedio para se compôr leva
duzentas moedas de ingredientes. Se vossemecê quer que eu lh'o faça
venham as moedas; e, se não se achar bom, não me dará nada pela cura. A
isto responde o doente que é muito dinheiro--Bom remedio (torna o
estrangeiro) faremos por ora só metade da cura, e não vem vossemecê a
gastar mais do que cem moedas. Ainda é muito? Pois venham cincoenta.
Assim vae duvidando um e outro, e abatendo, até que o alchimista para
não ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a
fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque não
quer fazer o seu remedio mal reputado. Vae para casa; põe a ferver dois
almudes d'agua da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas
de flores de papoulas, para tomar outra côr, e um arratel de assucar
mascavado; compõe uma agua adocicada côr de fogo; enche quatro garrafões
bem tapados com cortiça e lacre, e pilha duas moedas.»

Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa e verso a critica
zombeteira dos medicos mesinheiros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros,
das benzedeiras.

Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer
das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saía de
frente contra os charlatães em favor da humanidade.

«Oh!--exclama elle--quantos e quantos medicos, lobos na condição, estou
eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que não sabem mais
que roubar e matar!... São estes ladrões e matadores publicos todos
aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraçada
medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! Já
não és arte de curar, és atalho de morrer; já não emendas os vicios do
corpo, extingues as virtudes da alma; já não és triumpho das queixas, és
flagello das vidas; já não és sciencia, és ignorancia; já não és arte
preclarissima, és claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de
curar são modos de viver; os teus aphorismos são gyrias; os teus textos
são roubos; os teus remedios são mortes, e os teus brazões são
sepulturas. Mas como não ha de ser assim, se são homens ignorantes e
perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os
vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os
benzedores...»

É christãmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os
judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porém, tristeza ver n'isto
a ingratidão com que elle malsina a raça d'aquelle Heitor Dias da Paz,
que vinte annos antes lhe estabelecêra a pensão no real collegio de S.
Paulo. Entristece ainda mais que elle se não condôa do pae de sua
mulher, do avô de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer
de D. Josepha, expirara exclamando:

«Dêem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu não morrerei ainda!»

Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que
elle devia á inquisição, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a
raça, até á quarta geração, condicional indispensavel na investidura
d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurança na conquista do outro,
vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia
d'estes esbirros do santo officio.

Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerença e odio
com que os seus collegas leram o seguinte soneto:

  «Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem,
  Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil,
  Milhares de milhares (São frei Gil!)
  Quem poderá contar quantos cá vem?

  «Tanta gente sem conhecer ninguem![24]
  Más caras! ruins aspectos! fórma vil!
  Nunca elles são de genio mais subtil,
  Se a cara testemunha o que ellas tem.

  «Ah! sim; já sei; uns mata-sanos são
  D'aquelles asneiroens que por hi ha,
  Que não sabem escolher o mal do bom.

  «Ah! quantos burros ha! (mais de um milhão?)
  Que sem saberem lêr o _b a-Bá_,
  Curam e matam por hi sem tom nem som?»

Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas
prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da
sua grande nomeada. Não cuidem que elle, á similhança dos poetas, de seu
natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das
suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se
declara: «Não faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este
modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e
povoações grandes d'este reino, é para os seus medicos muito pouco o
sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta
monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as
pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes
chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora
da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias,
examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que
para isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenças, e
embolçar estipendios, isso não, que por isso é asno.»

Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, não por
attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livro _in
folio_, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do
tempo d'agora, e censura aos doentes que não pagam.



X

Os expatriados


Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a
India, em uma náo mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua
mulher, disfarçados em mercadores de drogas indostanicas.

Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisição os
farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar
sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No
primeiro navio britannico aproado á costa do Malabar, conseguiram os
incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do
grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos
hollandezes. Estavam salvos.

O doutor Abreu começou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo
mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das
drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortuna lhe
sobrassem, visto que já de Portugal saira com sobejos para viver
meãmente, passou á Europa e estabeleceu-se em Hollanda.

Aqui, recebido nos braços de centenares de portuguezes, voltou á
profissão de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos
resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. «Em
parte nenhuma do mundo,--escrevia Daniel Lavi de Barros--gosam maior
segurança que em Amsterdão, tanto pela liberdade de consciencia nas sete
provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.»[25]

Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente
dos israelitas de procedencia allemã. Foi a primeira edificada em
Amsterdão, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na sua _Sylva_:

  _La primera Synagoga Amstelodama_
  _Fundada fué del grand Jacob Tirado_
  _Que por su nombre Bet Jahacob la llama,_
  _I por el pueblo de Jacob sagrado._

Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica, desde que
a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos,
levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje
sobreleva a todos de Amsterdão. No crer dos hebreus, aquelle templo era
o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: «Porque os puz
longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes,
eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde
forem.»[26]

Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de
esquecido da patria, logo que a occasião se lhe amoldou, sem risco do
seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho
de Antonio de Sá Mourão para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz,
respondendo á carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe não tirasse o
pequeno, porque, além de magoar penetrantemente seu filho, que o
estremecia como irmão, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a
ida, suggerisse á inquisição suspeitas e aparelhasse desgraças para os
que lhe estavam debaixo da vista fulminante.

Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo,
desde a fuga na náo da carreira da India, e o certo perigo que corria a
creança, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco
de Abreu.

O medico desvaneceu as esperanças da sua mulher, que era a mais
fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem
palavra Francisco de Moraes revelava á creança, por medo que a
indiscrição propria dos annos acareasse desconfianças da espionagem, que
sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao
seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurança, para que as
suas cartas não tivessem destino egual ás de Pedro Lopes, residente em
Damasco.

Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a França
inquirir de novo informações de Antonio de Sá. Nada adiantou ás colhidas
pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canadá,
parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos
seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego
vivo d'aquella náo, a não ser que as duas galeotas de flibusteiros,
então ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do
naufragio.

Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperanças de todo perdidas.

Seis annos decorridos, chegou á familia dos Moraes, residente em
Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisição de Lisboa Heitor
Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de
Amsterdão, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho.
Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu
Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o
mancebo, cuja genealogia promanava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles
que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moysés, e
sómente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.

Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes
Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas
dypticas da nação fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o
tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fôra
queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um
pegão de vento esboroou o tribunal onde elle havia sido condemnado.[27]
Assim fôra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da
fogueira lhe levou aos pulmões as primeiras agonias, desataram-se-lhe os
ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam
que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu
servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as
chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. Não menos
illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Assenção,
queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em
Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. Na _Sylva_, de Antonio
Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr:

_Veinte y dos annos in prison penosa_ _Por defender de Dios la verdad
pura,_ _Termino arrastra la cadena dura_ _Que le da el ser la sacra ley
su esposa._

Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo
de Vea, filho de paes christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se
circumcidára no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor
geral a dizer que _nunca vira tão ardente desejo de morrer, nem tamanha
confiança de salvação, nem tão completa firmesa, como a d'aquelle moço
na flor da edade_.[28]

O medico Abreu, para não arriscar a segurança dos seus parentes e amigos
de Portugal, absteve-se de pedir informações de Braz, nos primeiros
annos seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710
quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas
foram disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum
esclarecimento alcançaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do
moço. Eram obvias as razões d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em
Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de
S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua
parte, movidos de compaixão do estudantinho, cuidavam em salval-o da
nota infame de amizade com taes protectores.

O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho de Antonio de Sá,
desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle.
Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura
indigencia, depois do auto de fé de 1706.

Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em
1717, com o titulo: «Aguias filhas do sol que voam sobre a lua.» O nome
do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu. _Braz_ era
o nome da creancinha, que elle entregára a Francisco de Moraes; o
sobrenome e o appellido eram os d'elle.

--Quem sabe!--dizia elle á esposa--Cuidaria o filho de Antonio de Sá que
era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da
Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixámos, e o appellido
que eu tenho?...

--Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse
livro--lembrou Francisca.

De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico
residente no Porto.

Sem medeação de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico
do Porto estas palavras: «Pessoa interessada em querer saber quaes foram
ou são os paes de vossemecê, pede-lhe que os indique, se os conheceu.
Responda para Amsterdão.»

E deu o pseudonimo _Elias Sarmento_, a quem devia ser dirigida a
resposta.

Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle
desgraçado, que não tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de
inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por tão
certeira azagaia á sua immensa dôr e pejo de não poder dizer cujo filho
era, respondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu responderia com um
tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se não tivesse de ir
longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor
fez aos avós de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos
crucificadores do Messias para o insultar.» N'um homem, chamado _Elias_,
a allusão insultante devia de acertar infallivelmente.

Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illusão e da
catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de
Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntára onde residia o
medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha
sido creado com frades, á custa d'elles se licenciára, e era familiar do
santo officio, e denominado o _Olho de Vidro_, porque, tendo perdido um
olho em desordem, o substituira por outro artificial. Accrescentava mais
que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um
frade, se não fosse filho de tres frades.

Á vista d'isto e da resposta do author das _Aguias_, o hebreu acreditou
evidentemente que este Braz não tinha de commum com o outro senão o
nome.



XI

Treze annos depois


Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu
marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da
saude que ella a pouco e pouco perdêra em Amsterdão.

O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade,
sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o
veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de oiro, não lhe
era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na
canceira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua corôa de
orfão de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que sómente
esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguem lá
fóra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já
esperava, nem queria ser estimado d'elles.

Vagamundeou de reino em reino, repartindo alguma parte dos muitos
haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que
computou necessaria para passadio abundante de quinze annos.

Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava
carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os
perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos já tinha que
desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como
hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdão, e
desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e
viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e
encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle
em tres annos não tivesse encanecido, e oito annos antes se não
retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e
pittorescos da Italia.

Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que vê pelo miudo as mais e
menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascêra havia sido
vendida pela corôa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono
fôra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella;
dormiu no quarto de sua mãe... não dormiu: chorou por todo o correr da
noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu
do quarto onde nascêra e morrêra sua mãe, viu de passagem o quarto que
fôra o seu, e d'onde agora saía outro viageiro madrugador.

D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluços para que o
arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os não
ouvissem.

Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro:

--Vae para Coimbra, camarada?

Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco
de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os
monumentos celebres de Portugal.

O collocutor era homem já de annos adiantados: orçaria tambem por perto
dos sessenta.

--Aquillo já foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei
estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem já parece
Coimbra, nem cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro,
posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos.

--Ha quantos annos andou vossemecê estudando na universidade?

--Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.

--Noventa e tres?--perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de
espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito
longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.

--É verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu
saiba, já não vive nenhum.

--Seria d'esse tempo--tornou Abreu--um portuguez medico que eu conheci
em Hollanda?

--Como se chamava?

O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:

--Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...

--De Abreu?--accudiu o interlocutor--Ora se conheci!... Não era meu
condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia
de regular pela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu.
Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em
1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?

--Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e não voltei ao meu
paiz. Tem familia em Portugal?

--Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito
natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro
hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; não sei se elle
o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.

--Tambem a mim me está lembrando que esse medico me fallava muitas vezes
n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me não accode o nome!...
Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christão
velho...

--Ah! já sei de quem vossemecê me quer fallar... Ha de ser Antonio de Sá
Mourão.

--Parece-me que sim...

--Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante
da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraçado, perfeitamente...

--Então sabe que fim elle teve?--atalhou Francisco Luiz.

--Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fóra e por pouco
lhe não matavam os paes cá dentro. A minha casa dista da casa dos
Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu não estarei
lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos.
Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze
annos, a vi.

--A viu?!--exclamou Abreu--viu? quem?!

--A morgada de Carrazedo...

E, como soffreando a expansão, o viajante disse:

--Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ella já
morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ella andou em Portugal
incognita...

--Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?--tornou Francisco Luiz.

--Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas
miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia
vel-a tambem, se ella não tivesse morrido em 1718.

--Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima
curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...

--Olhe, o modo como o marido lá morreu por fóra, não m'o disse ella...
mas, o melhor é contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora
em Bragança, com uma menina de vinte e dois annos.

--Menina! filha d'ella?

--Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão.

Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe
acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade
de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se
privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, já
tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que
o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.

--Então ella tinha uma filha?--insistiu Abreu.

--É verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a mãe, d'aquillo que
tinha sido, não lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria,
não podendo ter então mais de quarenta e quatro annos, cá pelas minhas
contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda...
Não me lembra o que eu ia dizendo...

--Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...

--É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito confusamente o
portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e
para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da
Piedade.

Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á
curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a
dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde
ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá
passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha
visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves
tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a
filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de
uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de
cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se
tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os
descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno,
desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu
voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com
enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de
Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem
casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora
ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande
patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha
casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor
José de Barredo.

--José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia
que lhe accudiu.

--Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!

--Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.

--Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim,
quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei
porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores
funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle
escrevia á morgada.

--Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê,
disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle
velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos
contemporaneos.--Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco
Luiz--tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.--Se elle
o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao
coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na
mocidade o prezaram...

--Certamente--disse José de Barredo enternecido a lagrimas.--Se elle
vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram...
A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles
judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria
comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos,
procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha
cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de
medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em
lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que,
expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a
sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de
Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e
pediram almoço.

José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

--Eu sou a sua amiga da infancia!--clamou ella--Sou Maria Cabral,
morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo--faça idéa do meu
assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Um amigo do
meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe
offereço, e dizer-me o seu nome...

--Direi--balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:--mas ha
de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito
baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de
Abreu.

José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações
das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som
rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe
subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos
braços do amigo, e exclamar:

--Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

--Tu sómente me conheces em Portugal--disse o doutor Abreu--E não temas
por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se
doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete
annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim
agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais
depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...

José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio
de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o
permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e
continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no
Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de
Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

--O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e
de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo,
só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste,
Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se.
Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por
que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...

--Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco
Luiz.

--Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois
velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo
para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que
ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o
mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou
simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe
já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para
minha casa, não é verdade, Francisco?

--Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da
nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.

--Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo
em que fallar dos outros desgraçados...

--Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...

--Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi
vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o
seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse
em tal pretenção, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle
seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos
páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a
desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de
corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te
hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria
porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já
era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir
quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria
alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia
incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos:
bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a
consultar um famoso medico chamado o _Olho de Vidro_.

--Braz Luiz de Abreu--atalhou Francisco Luiz.

--Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a
perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e,
para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era
familiar do santo officio.

Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que
tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso
maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...

--Muita gente--accudiu José de Barredo--e eu mesmo pensei que fosse teu
filho...

--E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!

--Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas
d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado
procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae,
a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde
estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a
India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me
disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua
situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na
Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu
algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu
filho... Morreu esse menino?

--Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes
pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de
Villa Flor?

--Lembro, foi em 1707.

--Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que
então devia ter entre quatorze e quinze annos?

--Não ouvi dizer nada.

--Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria.
Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

--Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que
ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha
D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que
sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro,
no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de
inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro
chamado _Portugal Medico_, tivera de afastar-se do Porto, e fôra
estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e
vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e
já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta,
ou quem sabe se já estará na eternidade!

--Irás agora a Aveiro comigo--disse Francisco Luiz.--Quero vel-a, sem
que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe
o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu
a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido.
Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente
estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico.
Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de
muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D.
Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D.
Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para
Hespanha?

--Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou
d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe
pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua
companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te
disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e
paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações
taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De
sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em
Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava
convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com
certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as
desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu,
Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos
esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a
memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem
melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido
da filha; mas quererá elle--o familiar do santo officio e author da vida
de Santo Antonio--que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher,
embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos?
Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas
á mulher dos delictos do pae e da mãe?

--Isso é claro--observou Abreu.--Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me
contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais,
já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir
prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo
cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e
andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco
antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de
Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida.
Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança;
Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de
lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo.
E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de
muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança
em direitura a Aveiro.



XII

Historia de Antonio de Sá


Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara
enfermo na estalagem.

Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do
medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os
dias.

Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram
phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro
doutor Abreu.

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e
sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a
qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a
confissão do doente.

Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém,
instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.

Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.

Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o
forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou
passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo
que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas
portuguezes.

O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era
conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria
indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da
convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são
tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia,
que monta o mesmo.

Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira
visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras
muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de
relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria
Cabral.

Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de
oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que
tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons
sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa
energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a
esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os
rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias
curiosas das suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma batalha de
corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S.
Domingos.

--De S. Domingos!?--exclamou D. Josepha.--Já esteve n'esses sitios
vossemecê?

--Avistei-os--disse o hospede.

E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção
temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.

Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu,
cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:

--D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de
navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha
mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que
a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse
seu, hão de calal-a.

--Honrado sou eu por benevolencia do doutor--se vossemecê me considera
egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes,
respondeu Francisco Luiz.

--É segredo de tanto porte--accrescentou o medico, abaixando a voz--que
não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que
me merece, senhor D. José.

E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos
profundamente os ouvintes, principiou assim:

--Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes.
O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu
sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.

Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual
hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e
tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na
Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito
vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em
Marselha, quando minha mulher era creancinha.

Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu
o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao
mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse,
alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por
entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa
com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.

Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios
de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos
extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da
patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:

--São os demonios do mar! São flibusteiros![30] Vejam lá o que querem:
morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?

Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a
morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que
a morte horrivel de afogados.

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro.
Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas
abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns
dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que
situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do
outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia
entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos
rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro
a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um
tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com
especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se
explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?

--Se eu não receasse interromper a sua interessante historia--disse
Francisco Luiz--lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não
quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não
por experiencia.

--Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe
do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.

--Em poucas palavras o farei--tornou o hospede.--Os pontos essenciaes da
ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram
á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas de
aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as
nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que
precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este
mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole
saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas
florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros
bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram
medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se
de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas,
uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta
com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles,
durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se
defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos
dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era
herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam
matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros
pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.

O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender
ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre
elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde
se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.

Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores
nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas,
pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos
flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de
exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por
causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás
mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as
fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem
do inquebrantavel rancor dos chamados _demonios do mar_. Agora, vamos á
historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.

--Meu sogro, minha mulher e filho--continuou Braz de Abreu--foram
remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O
capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se
Duparquet...

--Devia ser filho--atalhou Francisco Luiz--de um francez tambem chamado
Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de
França, a quem convinha aliançar-se com _tão honrados_ vassallos.

--Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com
alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha.
Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico
da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou
98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado
embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um
francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares.
Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de
Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand,
ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro
assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida,
que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.

Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada
por flibusteiros, que lhe deram a victoria.

No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas
de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa.
N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir
vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que
a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.

Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das
batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o
prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á
companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em
casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet
se habituára a consideral-a a sua escrava loura.

Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga
de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez,
importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se
elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro
almirante!

Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera
desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A
carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a
seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos
flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o
perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»

Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.

O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém,
um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o
latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o
consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos
foros de lealdade, que uns com outros guardavam.

Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae
consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de
creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de
Marselha, enviadas como presas ás colonias.

Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do
governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para
enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O
governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na
primeira náo que saiu para França.

Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo
passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da
concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.



XIII

Seguimento da historia


--Antonio de Sá--proseguiu Braz Luiz--foi chamado a curar de febres um
judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus
pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licença do rei
de França e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de
liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da
amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nação fiel, e
evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.

O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu
intento e pedir-lhe coadjuvação para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu
grandes difficuldades á boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo
que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de
França.

O medico, alentado de esperanças, aguardou anno e meio a almejada hora;
todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato,
começou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por
pedras preciosas e coisas de facil transporte.

Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado
pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador
a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia
clandestinamente por um cirurgião francez, fugido das galés de Marselha,
e foi certificado de que era imaginaria a contagião. Foi o hebreu
normando chamado á Martinica, quando já Antonio de Sá se desconfiava de
certos tregeitos que vira na má cara do governador. O judeu, porém, mais
desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao
commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou
aproar ás ribas normandas e accender os morrões para incutir respeito ás
galés de flibusteiros ancoradas na costa.

Antonio de Sá foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes não foram
os judeus da colonia que o governador mandou passar á espada, sem
perdoar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro teria sido
espingardeado, se a esposa se não lançasse em joelhos aos pés da filha
de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara ás presas da
morte.

Depois de preso alguns mezes, Antonio de Sá foi chamado á presença do
governador e perdoado. Prégou-lhe o francez um demorado sermão, recheado
de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o
mais venturoso homem que ainda tinha caído em unhas de flibusteiros, e
homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios
desusados com que lhe galardoara os seus bons serviços como medico, e os
conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um
dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o
resgate que lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como
formosissima que era, a casar com um seu neto.

Antonio de Sá respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo
recordar-se da filha, e desesperança de tornar a vel-a. Estas lagrimas
compadeceram o governador, que o abraçou estreitamente, e lhe pediu que
se deixasse estar até que um dia passassem ambos a França.

O medico resignou-se e esperou.

Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre
esposa não sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o coração aquelle
espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de
costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas,
exclamando: «Não hei de mais ver-te, ó minha filha... não hei de mais
ver-vos, meus filhos...»

--Pois elle tinha mais que uma filha?--perguntou Francisco Luiz de
Abreu.

--Essa mesma pergunta fiz a minha sogra--disse Braz--; mas a resposta
era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha
mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha
sogra padecia umas turvações, a revezes, durante as quaes era preciso
que a gente se não demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que
então rompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.

Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os
deixasse sair, ou os mandasse matar.

O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar
resposta em occasião opportuna. A opportunidade chegou tarde.

Tinham já decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer
homem acharia distracção, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se
d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente.

Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o
veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflicção era
antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se já a
estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e
rogava-lhe de mãos postas que tivesse mais força d'alma, mais coragem do
que elle tinha para arrastar aquellas cadeias.

Póde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz
de razão com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em
Coimbra...

--Fallou vossemecê com alguem que o houvesse conhecido em
Coimbra?--perguntou Francisco Luiz.

--Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e
contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo
em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas...
Em que ponto estavamos?

--Na doença do pae...--disse D. Josepha.

--É verdade... na doença do meu sogro que foi a primeira e ultima da sua
vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia,
parece que se lhe apagava o entendimento. Soluçava, com os braços
cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella
imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo é que
elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que então já
contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um
convento.

A compaixão franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da
herança do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez,
que voltava do Canadá; antes, porém, de saltar de um barco de
flibusteiro ao navio francez, já estava roubada do mais precioso da sua
fazenda.

A pobrinha não se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia.
Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de
seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha.

Procurou em França o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a
mãe. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras
desamparadas em meio da França, entregues á propria deliberação. Alguem
as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com
sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse
muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome
d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porém, como quer que D.
Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que
mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a inquisição
a perseguisse, por effeito de alguma irreflexão d'ella, quanto á
exigencia dos haveres de seus paes.

Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que já é notorio ao leitor,
até ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.

--Crucificada existencia foi pois a de Antonio de Sá Mourão!--murmurou
muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por
largo espaço.

--Vejo que lhe fez commoção esta funebre historia!--disse D. Josepha.

--Muitissima dôr!--murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de
lagrimas.--Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo
debaixo do céo está infamado de tamanhas desgraças!... E vale a pena o
viver!... E não morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus paes!...

Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.

Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mão
de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluços.

--Que sensibilissimo homem!...--disse o medico.



XIV

O segredo horrivel


Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A
condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais
n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na
intimidade dos seus.

O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera
d'aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá.
Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já
o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu
lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria
não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.

Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fóra o
hespanhol--que nunca se esquecera de o ser na linguagem--praticaram
largamente ácerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol
relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir
que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia
sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com
fogo infinito.

Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa
sombra aquella um tanto ironica reflexão do commensal, attribuindo a
genio espanholado a comparação faceta.

Voltando á conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz
que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisição de Portugal,
notára que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquissimo
misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E
ajuntou:

--É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os
estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como
familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisição os
desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro
Sarmento...

--Foi meu condiscipulo--atalhou Braz de Abreu.

--Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de
Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha,
foi elevado á cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio
da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da
sciencia, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui uns
quatro annos depois de licenciado? Seria porção d'essa vasa do Tejo por
onde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raça e do seu alto
entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram,
que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua
mulher para a India hollandeza.

--Quem era? perguntou o doutor.

--Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de
vossemecê. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.

--É verdade!--acudiu D. Josepha--que nome tão similhante!...

--E não sei--disse meditativo Braz Luiz--como esse nome me desperta
coisas da minha primeira mocidade!

--Póde ser--tornou o hospede--que, no tempo em que vossemecê estudou, se
fallasse ainda no lente fugitivo.

--Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas
memorias--redarguiu o Olho de Vidro.--Creio até que elle teria sido
contemporaneo de meu sogro.

--Provavelmente seria--obtemperou Francisco Luiz.

--E a mim me está parecendo--acrescentou D. Josepha--que alguma vez ouvi
meu pae proferir esse nome.

--Ouviu?--perguntou o hospede com o coração sobresaltado.

--Ouvi, sem duvida... _Francisco Luiz de Abreu_... Pois não ouvi?
quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?

--Provavelmente morreu, senhora--respondeu o hebreu; e proseguiu sem
sensivel mudança de rosto:--Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro
exemplo de perseguição á medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de
provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.

--Nada--balbuciou Braz Luiz, receando que, depós isto, disparasse a
affrontosa pergunta de quem era filho.

Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que o _Olho de
Vidro_ lhe mandára bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do
dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz
Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, senão fosse filho de tres
frades ao mesmo tempo.

A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa
expressava nenhuma satisfação de que ella se proseguisse.

Todavia, D. Josepha, quando já estavam sentados á lareira, porque a
tarde era de março, disse:

--Não me sae da lembrança o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente,
quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas
no correr de muitos annos...

--A envelhecer!--disse risonho o hospede--vossemecê, minha senhora, está
ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...

--Trinta e sete annos--concluiu D. Josepha.

--Pois ahi tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que
já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...

--Treze--disse a mãe, correndo a mão pelos cabellos negros da sua
primogenita Anna Maria.

--E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o
hospede.

--Se o meu plano fôr ávante, irá um para a companhia de Jesus, e outro
para medicina.

--Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luiz--Faço-os
ambos jesuitas, que os fará ambos dois grandes homens.

--Pois D. José receia--dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso--que um
meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?

--Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer
que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez
por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: _é necessario que
haja escandalos_.

--Como amigo--acudiu Braz Luiz--lhe peço que não falle assim diante de
alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...

--Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o
lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me
estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a
estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros,
dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza
de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de
abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser
ouvido da minha consciencia sómente...

--Em nossa casa póde fallar--retarquiu o doutor--como falla a sós com a
sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a
receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe
n'um paiz que vossemecê conhece pouco.

--Mercês, meu amigo!--tornou Francisco Luiz de Abreu.--O que eu sei de
Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais...
Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou
estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver...
Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia
de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram,
andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou
menos.

Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se
está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:

--Conheci-o.

--Pessoalmente?

--Pessoalmente.

N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no
interior da casa a chamal-o, ergueu-se.

--Ninguem te chamou, Braz--disse D. Josepha.

--Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.

--Não serão familiares do santo officio, que me requeiram para maior
gloria de Deus!...--observou o hebreu como comico tregeito de quem se
esconde.

--Venha comigo á sala, D. José, se não tem muito frio--disse o _Olho de
Vidro_.

--Quem fallou na inquisição que sentisse frio? Estas praticas são
excellentes no inverno...--respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu
hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os
sustos de o ver a braços com o santo officio.

Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as
portas receiando a curiosidade da familia, e disse a meia voz ao muito
attento e como espantado hospede:

--Conheci-o, e conheci-o muito.

--A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luiz.

--A Heitor Dias da Paz.

--Ah... já me não lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz
mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu
amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...

--Francisco de Moraes Taveira...

--Justamente... são considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos
martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga
hollandeza chamada a _Casa de Jacob_... Com que então conheceu vossemecê
mui de perto...

--Conheci, como se conhece um irmão--acudiu Braz Luiz.--Não lh'o disse
diante de meus filhos, porque é meu dever de pae e de christão esconder
d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as
soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e
me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com egual sinceridade á
da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de
mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a
Heitor Dias da Paz.

Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte
pancada no coração. Braz devia ver-lhe a subita alteração do aspecto, se
tivesse mais claridade a sala, e elles não estivessem sentados no
recanto mais escuro d'ella.

Braz Luiz continuou:

--Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que
me aperta ao coração, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem já
sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um
sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e
responderam-me que fôra uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o
saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham
promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho,
o suppliciado Heitor.

Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora
que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em
tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietação ao natural condoimento
do seu ouvinte.

E, proseguindo, disse:

--Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como
a filho.

--Vossemecê vivia em casa d'elles?

--Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns,
Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu
entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor
Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a
inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião--o
desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura
ainda fresca--saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se
suicidara em presença de Heitor.

Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.

Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos,
sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.

--Que tem, D. José?--perguntou o medico.

--Eu não comprehendo o horror da sua situação!--murmurou Francisco de
Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos
convulsivas.

--Não comprehende o que?!--interpellou Braz estranhando grandemente a
mutação de linguagem.

--Como se chamava seu pae?--perguntou com palavras intercortadas pela
abafação o hospede.

--Não sei...--tartamudeou o interrogado.

--Porque se chama Braz _Luiz de Abreu_? Como ajuntou este sobrenome e
appellido ao seu nome baptismal?

--Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.

--Que desgraça!--exclamou Francisco Luiz, e começou passeando
vertiginosamente na sala!--Que desgraça, Deus do céo!...

Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede
algum symptoma de demencia.

N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer
pé atraz de espavorido, e diz-lhe:

--Vossemecê ama muito sua mulher?

--Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do
que aos meus filhos!...

Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:

--Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar...
mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.

--Não... ha de explicar-me o que é isto... A sua linguagem é outra... Ha
terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta
incerteza, por quem é...

Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo
homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á
humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos
paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que
não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais
humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos
felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa
ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos:
sepultae-vos!»

Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que
pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom
violento:

--Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito
alanceado de mortaes agonias!

--Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu--disse moderada e placidamente
o hospede--Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.

E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.

--Não!--exclamou o medico--não irá de minha casa, sem me dizer o que
sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um
hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que
o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim
basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos
insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado!
Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus
não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?

--Conheci.

--Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?

--Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra
d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra
nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que
recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se
chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa
creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de
Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de
seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas
de sua mãe...

--Mas o nome de meu pae--atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e
trementes.--O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.

--Dir-lh'o-hei ao ouvido--disse o hebreu, inclinando-se á orelha do
medico.

Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:

--E o nome de minha mãe?

--Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe
d'ella.

--Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me d'esta duvida
atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?

--É a filha de sua mãe.

Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou,
fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa,
como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de
incendio que ameaçava devorar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços
do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no
pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de
todas as fibras da vida.

O quadro era de mais pavor do que póde exprimir lingua humana.

Francisco Luiz poz a mão na fronte glacial e disse entre si:

--Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta familia!

Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a
não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que
levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava
chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe
brandamente:

--Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que
as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo
sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora
comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os
meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou.
Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de
santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de
aceitar e retribuir em consolações...

Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida de santa resignação.
Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á
cabeça, exclamou:

--Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo
bemdito de toda a minha vida!...

E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o
aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.



XV

Angustias que existiram


Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu saíu de casa
do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos,
convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o
familiar do santo officio era irmão professo. Que noite aquella, que
lagrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa
hospitaleira do maior infeliz que alli se albergára!

Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antonio, varões de
grandes annos e virtudes, chegaram á porta de D. Josepha de Abreu.
Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e
passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra
aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, pedindo
misericordia, diante de um santuario.

De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso
terror, appareceram no limiar da casa da oração.

--Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e
vinde.

--Para onde, senhor?--murmurou ella com os olhos no pavimento e as mãos
sobre o seio.

--Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S.
Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.

--E eu não hei de vêr mais...--exclamou ella, e retraiu-se como aterrada
do delicto de tal pergunta.

--Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, moços, esperae que vos digam
o vosso destino.

Era na madrugada de 25 de março de 1732.

Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no
arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua
assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces
escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente
das lagrimas.

Os antoninos caminhavam mesuradamente á beira d'ellas, com as mãos
enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras,
que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos
afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente
desgraçada.

Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram
áquem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos
gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas
subterraneas.

D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada,
deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado,
mais blasphemo que invocativo da divina graça para tão acerbo calix.

--Haja-se com paciencia, senhora!--disse o prior--Olhe que desde este
momento o Altissimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorancia
não podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com
os deveres que lhe impõe a justiça do céo e a justiça da terra é crime
mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?

--Entendi, senhor padre-mestre prior--respondeu a confessada do prelado
dos antoninos.

Fecharam-se as portas.

A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D.
Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com
cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No
extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaçosa.

--Aqui está, senhora--disse a directora, e ausentou-se.

As meninas romperam em grande chôro, assim que a livida directora saíu;
logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da
porta, e disse:

--Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da penitencia, e só esses,
senhoras!

Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava de um amplexo em todas as
cinco filhas, e lhes dizia:

--Choremos baixinho.

Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um
de dez, outro de nove annos, eram conduzidos ao convento de Santo
Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmão professo
da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O
medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e
disse-lhes:

--Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo.
Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo,
e trabalhae por ganhar o coração d'estes santos homens.

Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graça
seccara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos orgãos
da vida de relação. Era o homem sobre-natural, aquella coisa
inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as visões beatificas
ou o revolutear escandecente da legião.

Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos
d'elles, disse:

--É tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu.

--Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...--disse o irmão professo
da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.

Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes
ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua
mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no
genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando
ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a
dar explicação d'aquelle habito, d'aquella soledade. Não foi a tempo.
Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho
semblante:

--Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço grande differença do que
era ha quarenta annos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me
junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.

O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras não podiam sair do peito
anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:

--E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se
com vestir esta tunica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande
na dôr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?

--O homem é um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.--Se a religião me
não soldar os pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo em que
estou caido, que hei de eu fazer tão esmagado até á medula dos ossos?

--Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Braz Luiz.

--As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á penitencia de sua mãe.

--Penitencia de quaes peccados?

--Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de Sá!
Se não era crime o meu viver para que me avisou?...

--Diz bem... Perdôe-me.

--Não só lhe perdôo... que lhe agradeço... Agora é que eu me gelo de
horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: «porque
lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos não
viram outra mulher sobre a terra!» As irmãs não se amam assim... Ai!...
e eu que assisti á morte de minha mãe, ainda lhe beijei as mãos... Alli
sim, então senti convulsões de espirito extrordinarias, das quaes não
podiam ser motivo o amor que eu tinha á filha... Não; era Deus que me
avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os
meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam...

--Onde vae?...

--Onde vou?!

E chorava com tamanho afôgo que lhe vieram umas ancias mortaes.

--Deus me mate já, já!--vociferou por entre o repuchar dos gritos
abafados.--Sou fraco, sou miseravel lodo! Dê-me animo, salve o filho do
seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz
me alente, e eu não seja confundido pelo escarneo da multidão.

--Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio--atalhou
Francisco Luiz.--Soffra, chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que
está comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de
Sá, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os
martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados
sobre a lenha que vae abrasar um corpo. É Jesus de Nazareth o seu Deus?
Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os
inimigos, valha aos desvalidos, acôlha os orphãos á alma que os
aconselha, dê-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim
faziam os justos segundo Platão, os justos segundo Bouddha, os justos
segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame,
condoa-se, e ampare como elles, e será salvo para melhor mundo, e
sentirá n'este as supremas alegrias da consciencia...

--Oh! não é isso--atalhou Braz Luiz--ha uma só religião, e uma só
salvação.

--Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas ellas dão as suas melhores
corôas aos seus martyres, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e
abençoados da mesma benção; mas é preciso soffrer, soffrer sem infligir
tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer
com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito
grandemente a sua angustia, e dou graças ao Senhor do céo e terra que
lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa pobre
alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos n'ella, e
ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós
orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?--proseguiu
Francisco Luiz--quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?

--Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei;
tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas
cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdocio.

--Qual é o seu destino, Braz?

--Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê
deixa Portugal?

--Ainda não.

--Adeus, pois, até quando?... Até á eternidade?

--Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os
desgraçados são de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem
muito vistos como pompas do mal necessario.



XVI

O padre Braz


O famigerado author do _Portugal Medico_ appareceu em Lisboa, cingido
pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces
sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de
rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos
que o vissem.

Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo
da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão
de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de
S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.

D. João V, informado da resolução mysteriosa do celebre Olho de Vidro,
cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de
pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvir da bocca
do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos
dignitarios da egreja.

Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José Rodrigues de Abreu, medico
de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que
fundo reviramento se operára no espirito de um pae de sete filhos, para,
no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a
esposa de marido e os filhos de pae.

O medico referiu a sua historia, a sós com o curioso monarcha, depondo
na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e
secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da
confidencia lhe fez mercê das rendas do real d'agua para que as elle
applicasse á fundação do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de
harmonia com o nuncio, que se não delongassem a Braz Luiz de Abreu as
ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras não interferisse
mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gráo da
dispensação em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de
seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e
explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram
monstruosas irregularidades. N'este anno da graça de 1866, póde qualquer
novelleiro citar o concilio tridentino, por que é presumivel senão
certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma
curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.

Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos,
e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, é a
_Sess. 24 de Matrimonio, Can. 9_.

Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do
convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.

Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do
convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a
para o dia em que sua mulher e filhas professassem.

A edificação do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, além do
subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos
donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar ás mãos
do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito
não queimava as mãos ungidas do sacerdote.

Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade
para se entender com a mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á
profissão. Dizem as memorias que nunca jámais lhe elle vira o rosto,
porque D. Josepha o velava com um espesso véo negro.[31]

Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de
noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco
filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua mãe,
ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mãos da prioresa tudo que
podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de
repente se viram despenhadas.

Aquelle acto era uma crucificação atrocissima para a filha de Antonio de
Sá, porque ella tinha perdido a fé. Nunca se lhe haviam entranhado muito
as crenças na religião do Calvario, porque da indifferença religiosa, em
que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez,
onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso
por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos
andassem namorados.

Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins
de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque,
dizia ella: «Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religião, seja
ella qual fôr.»

A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco
menos de hypocrita, e sustentada á custa da razão. Todavia, como
discreta e amantissima d'elle, não lh'a impugnava, nem se esquivava a
seguil-o nas publicas demonstrações de sua piedade.

Quando ella, desde os reconcavos d'alma, caíu aos pés de Christo, foi na
hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu marido.
Orou então, para não morrer, ou póde ser que orasse para ser arrebatada
á sua angustia pela mão de Deus, ou fulminada por poder satanico.
N'aquellas orações ninguem sabe o que a alma pensa.

Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam
ás rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse céo fóra, e
seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a
infeliz mãe adivinhava os colloquios das pobrinhas com o céo impassivel,
e fugia-se d'ellas, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, e
trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos,
e, em vez do fervor piedoso e consolativo de sua mãe, ouviam-lhe
supplicas com que ella lhes pedia perdão de as ter gerado. As meninas
perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida tão
sem vontade, e a mãe não podia responder-lhes: «É porque sois filhas de
meu irmão, e minhas filhas.»

Que importava?

Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido
á missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as não
apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria
um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos pés a
hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prégar com elegancias
de primoroso lapidario de palavras o sermão da profissão, o sermão
d'aquelle enterro de seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos,
com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos
prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.

Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte
cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a
filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna
Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze--onze
annos e professa com um breve de Sua Santidade!--todas cinco, seguindo
sua mãe da egreja ao claustro, olhavam contra o chão como a procurarem a
cova que se lhes abrira.

E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e dizia-lhes:

--Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...

E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticia de que suas
filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos
que varam e matam todo homem menos santo, respondia:

--É o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o côro das
virgens.

E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia a _Lusiada sacra_, a
origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mão do trabalho para
assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos
gratuitamente.

Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estudando latinidade no convento
de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu pae e
por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:

--O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa Senhora, as melhores irmãs
são as tres pessoas da Santissima Trindade.

Sã theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua mãe, de seu pae e de
suas irmãs.

Deram em não estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre
Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se
n'elle, e pareciam contentes.

--E nossa mãe? perguntava Agostinho.

--E nossas irmãsinhas? perguntava Pedro.

E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento
angustiado, e saía com estas palavras:

--É verdade!... e vossa mãe!... e as vossas irmãsinhas?

Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do coração,
o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e
clamava:

--Pequei! pequei! perdão, meu Redemptor!



XVII

O inferno, como elle é possivel


Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem
culpa não ha Deus que a ouça e attenda. Se ha!...

N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da
Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns
spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella não
via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado
confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava
elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o
aviso, para atar um _pater noster_ interrompido no _fiat voluntas tua_.
Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento o _fiat voluntas
tua_--«faça-se a tua vontade»--e de si para si entendeu que aquelle seu
despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava em
trabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica,
e santo stoicismo, contados no _Flos-Sanctorum_, e _Vita patrum_.

Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi
caminho do convento, resmuneando o psalmo:... _Amplius lava me ab
iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego
agnosco... etc._

Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:

--Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico Braz Luiz.

Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não entendera o aviso da
prioreza.

Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos.
Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira
da porta.

Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compoz o semblante,
acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:

--Soror Josepha da Cruz!

A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas
esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse
faiscas de raio aos olhos.

--Os aprestos para a extrema-uncção--disse o syndico.

--Venha o capellão ministrar-lh'a--ajuntou a prioreza.

--Não, nossa madre: serei eu--disse o padre Braz.

Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu á egreja a envergar
uma cotta com estola roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras
acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e
muitas cantando alternadamente os versos do psalmo _Miserere mei Deus_.
Entrou á cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza
observou que as uncções deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as
ceremonias usadas quando não ha receio de que o enfermo expire antes de
ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os
dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando
que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu
as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os
rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de
lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa
do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expressão vulgar da
insania. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lagrimas
saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos
que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em
joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:

--Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó martyr!

As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre
as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.

Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras
as suas mãos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam
que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as
angustias por que tão santa e heroicamente quizera passar e ser provado.

O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:

--E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?

As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.

--Pois então!--proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante
descomposto--pois então, não houve um raio de graça para esta santa
mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de
uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que
eu te matei minha innocente victima?

E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos
soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.

Era isto já uma vertigem, que terminou pelo deliquio.

Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio.
Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras
escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas
viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle
homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si
a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse.
Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na
reforma de vida. As freiras--santo nome de Deus!--davam como perdida a
alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram
em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso
da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.

Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com
dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas
formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a
impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se
não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos
affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.

O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para
examinar sua consciencia.

Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído
em jejum.

Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da oração ou não
sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como
aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a
alma.

Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como
a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no
desprezo, na negação das mais santas coisas do christianismo! Alli se
estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as
phantasias do espirito arrancado ás leis da humanidade, quando a mão da
desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e
fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a
derruir-se. O coração de quarenta e tres annos dava pulos como para
espedaçar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito
franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima
por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de visões extravagantes
que o assediavam, á volta do cadaver d'aquella mulher assassinada sem
culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto immerecida
penitencia.

Fez-se em volta d'elle a solidão dos grandes desgraçados, que já nem
sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima
dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que
do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases
do syndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além d'isto,
entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os factos
antecedentes á resolução de entrar aquella mulher na religião e elle no
sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto
gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fôra
sequencia de um casamento incestuoso.

Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade
dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a á outra
metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.

Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos grandes desgraçados.

Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento,
para que elle lhes désse destino. O padre levou-os para si, e desde esse
momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e
atiravam impenitente á sepultura.

Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o
nome e os infortunios. Mas alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam
as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada
fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavam perdidas para elle
e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do
poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem
pae, nem Deus!

E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrião de esperança n'algum
reconcavo d'ella, não ha vida.

A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua mãe, e
acabou em phrenesis, não obstante os exorcismos com que valentes
demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma.
Expirou com reputação de precíta aquella gentil creatura com dezoito
annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes
denominavam, á conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia,
o exemplo angelico de suas irmãs.

Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a
Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe désse amparo.

Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descêra dos arrabaldes de
Bragança, onde fôra despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passára
por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias
do céo o sacerdote de Jesus.



XVIII

Catequeze


Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de Sá Mourão a saír de
Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das
armas os dois moços, já habilitados para as começarem.

O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro.
Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os
encaminhára, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio.
N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em
esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já então
decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas
mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais
conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.

Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a
grandiosa estatura do jesuita e do dominicano, em cujas frontes se
estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se
elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o
enlace mystico do céo com a absoluta soberania da terra.

Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo á consulta de
seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a
companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.

Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: não podia ser de piedade,
nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de
Ourem.

Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:

--Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo
filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degráos para escalar a
bem-aventurança dos carnifices... Se o avô d'este menino se lembraria de
que um seu neto seria frade dominicano!...

E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:

--Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber,
vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da
christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e
no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem
de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de
qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e
bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se
applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de
Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz.
Pergunto-lh'o agora, na occasião em que vossemecê manda um filho
alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias
das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja
de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.

--Basta! que me está mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um
desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem
contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos?
Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...

--Abandonado de Deus! como assim?--accudiu o israelita.--Pois as tres
divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam
quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções,
meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma
só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo
em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas
e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a
receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne
e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o
deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal
mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas
vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu
estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...

--É que eu sou lodo... atalhou o padre.

--É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do
homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justiça das
religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser
verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas
mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a
virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay,
legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações
selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está
Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução
e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem,
careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos
pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas
lavaredas do santo officio?!

--Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte,
em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.

Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes
contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do
demonio, que é tudo um.

O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima
compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos
da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos
heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente
derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas
desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para
as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre
effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não
mettia em trabalhos as molas da imaginação.

As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia
inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique
do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o
hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa;
se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o
silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração
bafejou o Senhor.

Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as
orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de
dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á
milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco
Luiz de Abreu.

Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para
manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas
divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os
seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro
freiras.

Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o
destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no
noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo
Antão.

O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da
extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia
pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o
definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre
incessante martyrio e desesperação de que a misericordia divina talvez
pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua
companhia as quatro meninas.

--São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.

El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem
provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S.
Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.

Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.

N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada
philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era
generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa
execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do
padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as
esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos
serafins.

Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas,
a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava.
Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da
duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados
sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e
estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a
sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por
affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de
besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia
que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era a da
profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a
professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de
mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.

Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias,
o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras,
leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á
simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual,
a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não
freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar
individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.

Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com
erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te
admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco,
no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os
preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava
tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo,
não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si
mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica
pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no
occidente e posto ao nascer do sol!»

Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu
pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento,
onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a
campa de sua mãe.

Dizia elle, todavia, ao pae:

--Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?

--Espero que sim.

--Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha,
Braz Luiz!--exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.--Dê-me estas
meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar
abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois
estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as
ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o
coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a
vida!

O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos
braços do hebreu, e exclamou:

--Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas
filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha
familia, homem da horrivel fatalidade!



XIX

O velho da ermida


Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738
um ancião, reputado justo porque á volta da sua casa, colmada e
desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da
freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam á
alimentação parca da semana. Chamavam ao incognito o «velho da ermida»
porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres,
favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da
ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos
enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por elles
como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:

«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»

Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres
seguiram-n'o, e disseram-lhe:

--Não voltaes mais aqui, nosso bemfeitor?

--Voltarei, filhos. Á noite serei comvosco.

E caminhava a pé, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres.

Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais
escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz
de Abreu, a qual estava sobre a eça.

Saiu, parou á porta do pae da defunta, subiu, entrou á saleta em que
elle recebia os pesames, apertou-o nos braços e disse-lhe:

--Dá-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas.

O padre derramou copiosas lagrimas, e não respondeu.

Voltou Francisco Luiz á sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia,
confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.

Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se
resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:

--Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas.
Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre
por ellas.

O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.

Voltou o caminheiro á sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita
amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da região dos
sepulchros.

Uma tarde, não longe d'aquelle dia em que se finára a quarta professa de
S. Bernardino, appareceu em Verdimilho o padre Braz Luiz, atirou-se
esbofado aos braços do hebreu, e disse-lhe:

--Dê-me as minhas filhas!

--Pede-m'as a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que
resuscitou muitas...

--Não peço as mortas; quero as vivas.

--Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a
ultima.

--Pois minhas filhas não estão aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu.

--Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?

--Meu Deus! bradou o padre.

--Que é de suas filhas? acudiu o hebreu.

--Fugiram! perderam-se!...

--Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu
desconheço?...

--Roubaram-m'as!

E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com
intermittentes de gemidos e ancias offegantes:

--Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto senão é
prostituição?... A justiça lançará mão d'ellas... e d'elles...

--D'elles quem?--atalhou o israelita.

--De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro,
hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da
existencia d'estes homens...

--E rasgaram as mortalhas--ajuntou o velho de Verdimilho--Pois deixal-as
ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religião as perseguirem.
Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes forças para a continuação do
martyrio. Muitas das viuvas do Indostão já hoje se não queimam. É
necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver
se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor geração, que traga ao
mundo a idéa de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde
lhes digam: «Vivei, gosae sem remorsos. O que vos lá ensinaram a dizer
na profissão caducou debaixo de outro céo. Pedi, meninas, o coração ás
estrellas da noite, ao sol do dia, ás campinas que reflorecem, ás aves
que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das
arvores. Perguntae ás bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez
lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas,
aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e
aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces.
Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se
escondem do pelouro do carniceiro.» E tu choras?--disse elle com
vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz--hei de
fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha,
que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braços da ama para sentir o
goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que és
muitissimo desgraçado: por ellas não, que eu duvido que haja ahi maior
horror que o morrer das outras. Porque não iria eu com tuas filhas á
fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as não déste? Davas
dois anjos a este homem de setenta annos, que não tem ninguem que lhe
feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas
filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem
religião revelada, a soccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da
caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as não déste, nem por isso
descreias da felicidade d'ellas. O amor tem céos e resplendores, que
banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas é coisa tão mal
feita á superficie da razão degenerada, que lhes não ha de durar mais na
consciencia do que a sentença d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros
crimes, diante do juiz incorruptivel, são aquelles de que o senso
interior nos condemna.

Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre não o ouvia. O que elle
parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o coração,
este envelhecer e morrer que o homem está sentindo a branquear-lhe os
cabellos e a ressumar-lhe á face camarinhas de suor de agonia.

Depois despediu-se, e murmurou:

--E adeus! que está consummado tudo!

--Ainda não: viverás mais annos, porque se não é desgraçado como tu és
senão em toda a plenitude. Eu é que vou sair d'aqui. É noite fechada. Já
não tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos.



XX

Parecia christão na morte!


Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o
velho da ermida estava enfermo.

Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na
cabana do ancião. Os ricos tambem foram com os seus capellães, com os
seus padres adscriptos á gleba das missas de _requiem_, com que mercavam
barato o paraiso aos seus ascendentes.

O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e disse:

--Que entrem sómente os pobres. O espectaculo de um moribundo não
convida.

Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se
encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas
orações.

A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a
poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas
alumiar a fronte do enfermo, vinha com direcção obliqua e coada por uma
abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de pó lucido coisa
mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.

Appareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas
aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz
Luiz de Abreu.

E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, saíu, cuidando que o
velho da ermida ia confessar-se.

A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:

--Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho
adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu
travesseiro está um papel escripto de meu pulso; na arca em que te
sentas, está o que eu tenho de meu. Cumprirás as minhas disposições...

--E a sua alma?...--atalhou o padre.--É tempo ainda. Salve-se, homem de
bem! salve-se...

--Se sou homem de bem, estou salvo--murmurou o judeu.

--Receba com fé os sacramentos da Santa Madre Egreja.

--Ceremonias pagãs... A vida do espirito vae começar. Receba a natureza
em seu seio a porção immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz
este motor interno, que recebia as lançadas da adversidade, a influencia
do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem
esperanças. Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei.
Agora, filho, deixa entrar a minha familia. São esses pobrinhos que
saíram. Abre-lhes as portas: quero vel-os até á ultima.

Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles.

O vigario perguntou ao medico e supposto confessor se era tempo de virem
os santos oleos.

--Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o moribundo caído na
apathia da extrema hora, insensivelmente recebesse as uncções e assim
enganasse a devoção d'aquelle povo. Piedosa impostura, santa fraude, que
levava em vista salvar os creditos do padre visitante, e abonar as
virtudes do homem que os pobres começavam a beatificar.

Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos. Á meia
noite, descaíu o moribundo em lethargia. A respiração era quasi
imperceptivel. Saíu o sacerdote a pedir a extrema-uncção, sem
impedimento de saber que a boa e sã theologia não dava já nada por
aquella alma, embora o agonisante fosse sacramentado.

Quando o vigario, espertado do primeiro somno, chegou, estremunhado e
carrancudo, com a ambula á porta da cabana, o padre Braz ajoelhara á
cabeceira do moribundo, em adoração ao Santissimo Sacramento. Sondou o
pulso do velho da ermida, e disse:

--Expirou agora.

Os pobres cessaram de cantar o _Bemdito_, e levantaram um grande choro,
entrando todos a beijar a mão do cadaver.

Se este acabamento de homem, transviado da religião verdadeira e das
falsas, não fosse referido em romance, poderia alguem suppor que póde
uma pessoa morrer como justo, sem ser absolutamente religioso. Bom é que
mortes assim se não divulguem em livros graves.

As disposições do philosopho são faceis de antever. Os seus herdeiros
eram aquelles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e
remedios na santa casa da misericordia de Aveiro, e tambem os peregrinos
que se acolhiam á albergaria convisinha da egreja de S. Braz.

Pois com tantos legados de espirito christianissimo ninguem acreditava
que fosse sincero christão um sujeito que entre tantas disposições não
applicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava
escandalisado!

Folgavam tamsómente os pobres,--e tanto folgavam que nem já choravam a
perda do bemfeitor.



XXI

Como se póde viver!


De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem
effeitos similhantissimos.

O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo,
caleja e abroqueia tão rijamente o homem, que todas as setas da desgraça
lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soçobrado, eil-o se apruma
a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega á
derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias não se curam
com a valentia da alma.

Vejamos agora o justo em tribulações, o christão de tempera
pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As
calamidades a choverem-lhe, as injustiças dos homens a pôrem-lhe em
duvida a justiça divina--por se dizer que o homem tem fórma e similhança
de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-se do bom da
vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao céo o
amargor d'ella e a reluctação com que a toma, degenerando e estragando
tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e
outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e
deshonram-n'o; e o christão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra
as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a
descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a
exclamar:

«Mais, mais, Senhor!» _Amplius, amplius, domine!_ Este é o christão, o
penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fóra,
caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta,
esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso,
ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, até aos sessenta, e ávante ainda,
n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!

Tal foi Braz Luiz de Abreu.

Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, terá dito: «o
homem vae morrer agora!»

Morrer! quando será isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que
lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! sósinho!
alli em Aveiro, não sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais
desaconchegadas, a rever na téia da phantasia o rosto da mulher
agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos
seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das
divinas esposas! E, como elle pôde, em meio d'isto, escrever ainda dois
livros, dois grossos manuscriptos, que não sei onde param, um chamado
_Feniz Lusa_, referindo a vida e acções do serenissimo infante o senhor
D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado: _Vida e acções do
primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe
D. José_.[32]

Querem revelação para maiores assombros?

Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de
Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao
começar o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo,
ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha
debaixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto
abatido. Já sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando
a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de
sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas
que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmo _Miserere mei
Deus_.

Que morte será pois a d'este homem para que se não diga que houve ahi
angustia que podesse com elle? Ha de ser a morte designada pelos seus
biographos, a morte que o senhor Innocencio Francisco da Silva lhe
assigna: «apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma
cadeira.»

Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de
franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadaver de
Braz Luiz de Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraças será menos
duradoura que o renome de medico abalisado que os contemporaneos lhe
celebraram.



CONCLUSÃO


Que destino tiveram aquellas duas freiras que, no dizer do defunto
hebreu, rasgaram as mortalhas?

Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavallaria, filhos
de um Heitor Teixeira de Macedo, capitão-mór de Coimbra, e fidalgo
solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros,
Marreiros e Matosos, nobilissimos apellidos de familias aveirenses.
Hospedados em casa d'estes Chamorros e Matosos é que os Cadetes puderam
ver soror Antonia Maria e soror Sebastiana Ignacia. Fazerem-se amados
devia ser coisa de pequeno prologo, já porque as duas virgens não tinham
das cousas d'este mundo mais experiencia que os anjos, já porque
almejavam ser amadas, já porque os dois cadetes eram bizarros moços,
galans palacianos, formosissimos demonios, que faziam tremer as calçadas
e os corações das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alasões.

O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi n'um prompto. A justiça,
quando tal soube, quiz gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros
amordaçaram-n'a. Os rapazes já não tinham pae: tinham mãe, uma santa
matrona, que era a imagem das virtudes christãs. Appareceram-lhe os
filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A
tremula e espavorida senhora escutou a historia do criminoso passo. Não
amaldiçoou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas d'ella,
faziam esgares de grandes farcistas!

A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham
escondidas n'uma quinta distante. Quiz vêl-as, porque sabia a tragedia
singular da familia do medico.

Por noite alta, entraram as duas meninas á recamara da viuva do
capitão-mór de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquella
senhora tinha facilidades incriveis! Receber assim duas libertinas
esposas do Espirito Santo!

Receiando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora
tencionava mandal-as, não as deixou mais saír da sua recamara.

O capellão saíu para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com
muitas cartas para cardeaes e ministros residentes em Roma.

--Podeis ámanhã partir, filhos--lhes disse ella.--Ide a Roma com estas
cartas, entregae-as, e tornae com um bom despacho. De volta, podereis
ser esposos d'estas meninas, que ficam no quarto de vossa mãe até que
volteis.

Os moços olharam-se entre si, e ficaram como aparvados. Olharam para as
freirinhas, e viram-n'as a chorar, fingindo que sorriam.

Não havia que replicar. Partiram para Roma.

Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros
romanos, quando foram chamados á pressa por ordem da mãe.

A fidalga adoecêra com todos os symptomas de proxima morte.

--Chamei-vos, disse ella, para que me assistaes ao enterro. Depois,
ireis. Agora, jurae sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade
quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para
Roma, e, obtida a annullação dos votos d'ellas, casareis.

Juraram e cumpriram. A annullação dos votos foi prolongada com
inqueritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Braz não
favoreceu nem contradictou a annullação.

Ao cabo, porém, de tres annos, Antonia e Sebastiana receberam as bençãos
nupciaes em Roma.

Detiveram-se em Roma até 1750. Em 1751 já estavam em Portugal. Não
procuraram o pae, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua
mãe e irmãs, vivas, novas e formosas, ao sepulchro de um convento, e
lhes dera como flagellos a convivencia de freiras que enfeitavam a sua
estupidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refinadissima
protervia de intolerantes. Odiavam por isso o pae, e o lucto, que
vestiram por elle, não tinha nodoa de uma lagrima.

Morreram velhas, ignorando que motivo lançara um véo negro sobre o rosto
de sua mãe, á hora em que o padre maldito lhe fallára.

Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou a ser qualificador do
santo officio; mas, como quer que o marquez de Pombal apagasse a ultima
lavareda do santo officio com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro
acabou sem assistir a um auto de fé espectaculoso, como tinham sido os
da triumphal egreja, quando os relaxados perfumavam a atmosphera com os
aromas dos ossos torrados.


FIM



NOTAS



I

(Pag. 23)


Sobre os nomes referidos dos justiçados pela inquisição

Manuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os Filippes os direitos
de D. João IV á corôa de Portugal, e o fez com tamanho engenho, que
insinua a legalidade da sua argumentação no livro intitulado
_Anti-Caramuel_, veio de Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro
de 1652 mandado á fogueira com a seguinte sentença, que é um testemunho
da magnanimidade com que D. João de Bragança pagava aos defensores da
sua legitimidade, perante os estados que o sustentavam no throno ganhado
de assalto:

«Accordão os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição
que, vistos estes autos, libello e prova da justiça, author, confissões
e defesa de Manuel Fernandes de Villa Real, x n. (christão novo) natural
d'esta cidade de Lisboa, morador no reino de França e residente n'esta
dita cidade, réo preso que presente está, porque se mostra que sendo
christão baptisado, obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a
santa madre egreja, e não ser fautor de heresias, e respeitar e venerar
o tribunal do santo officio, e não detrair de seu justo, recto e livre
procedimento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do ultimo
perdão geral, de ser israelita e descendente de prophetas, e tratando
com judeus publicos muito familiarmente, e por cartas com um
archisinagogo dos judeus de certa parte, tendo e lendo muitos livros
prohibidos, e principalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual
deu a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer nem beber
em certos dias senão á noite depois de saida a estrella, e fazendo um
livro que imprimiu[33] tratando n'elle varios assumptos; um dos quaes
era favorecer os que commettem erros contra a fé, persuadindo ser bom
meio para estabelecer a fé nos reinos e cidades controversias publicas,
approvando por este modo em uma parte os erros publicos, e em outras os
occultos, dizendo que os principes não podem impedir os que sem
escandalo e máo exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que
dissimulem os desacatos feitos á religião, reprovando que algum principe
altere com rigores, querendo o réo que ainda que falsa se conserve, e
mostrando ser da opinião que haja liberdade geral de consciencia,
pretendendo sempre que o politico de uma republica se conserve, vivendo
cada um na religião que mais quizer, e tendo por escandaloso não
admittir aos officios publicos os de contraria religião; e querendo que
em nenhum caso possa haver causa para que um principe catholico favoreça
os subditos catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em
soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim que a palavra
da...[34] aos de contraria religião se observe ainda que seja contra os
bons costumes, admittindo que Deus concede aos herejes victorias pela
caridade e piedade que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou
piedade, ou virtude alguma, comparando nas insolencias os catholicos na
modestia, admittindo que os de contraria religião, quando se reduzem á
catholica, se podem enganar em cuidar que até então iam errados,
approvando a condemnação, e censura que em certa parte se deu a certo
livro que tratava do poder do summo pontifice, sendo a dita censura
errada, em que tira totalmente ao papa um poder em direito aos principes
_circa tempo_, _ralia_ ainda quando o principe seja heretico e
scismatico e que nunca o summo pontifice possa sujeitar o principe a
interdicto ecclesiastico, nem absolver os vassallos do juramento de
fidelidade; e que os principes temporaes totalmente são independentes,
mostrando pouca affeição á egreja romana, fazendo distincção d'ella á
galicana, e preferindo a liberdade d'esta particular á authoridade
d'aquella catholica e universal; e sendo outro assumpto do dito livro
reprovar o justo, recto e livre procedimento do santo officio, e os
castigos e confissões dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe
tyrannico e barbaro, e qualificando estes procedimentos por effeitos do
odio, avareza e paixão, dizendo que de cumplices faziam prophetas, e de
delictos enigmas, e que por um erro de entendimento se castigava a
fazenda, não só a propria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fôra
melhor não querer dar luz a uma alma cega com processo ás escuras; e que
emquanto o odio e ambição acompanhassem os ministros, nem os subditos
viveriam seguros, nem as monarchias gosariam felicidade. E sendo
estranhadas ao réo as ditas proposições antes de imprimir o dito livro,
comtudo as não quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa em outro livro
que tambem imprimiu contra os procedimentos do santo officio, procurando
introduzir pratica entre pessoas grandes, para que se tratasse de haver
alteração e mudança nos estylos do santo officio.

«Pelas quaes culpas sendo o réo preso nos carceres do santo officio e
com caridade admoestado as quizesse confessar, por ser o que lhe
convinha para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma, e seu
bom despacho, disse e confessou que do ultimo perdão geral a esta parte,
persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pessoas da sua nação,
se apartára da nossa santa fé catholica, e passára á crença da lei de
Moysés, tendo-a ainda por boa e esperando salvar-se n'ella, e não na fé
de Christo Senhor nosso, em o qual não cria nem o tinha por verdadeiro
Deus e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer que ainda
havia de vir, e só cria em Deus do céo, que fez o céo e a terra, e a
elle se encommendava com algumas orações judaicas, que recitava por um
livro e por observancia da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e
a paschoa do mez de março, comendo por espaço de oito dias pão asmo e
seladas, e fazia varios jejuns judaicos, como era o dia grande, estando
n'elles sem comer nem beber senão á noite, em que comia gallinha, com
tanto que fosse degolada ao modo judaico por mão de pessoa circumcidada,
compondo-se no mesmo dia com os melhores vestidos e peças novas, ainda
que para isso fosse necessario buscal-as e fazel-as; e outro jejum que
caía em certo mez, estando por espaço de tres semanas sem começar
negocio algum, posto que continuava os principiados, estando n'ellas
dois dias sem comer nem beber senão á noite, como dito é; e usando de
particulares vocabulos e palavras para se entender com outras pessoas
quando fazia ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem
entendidos ordinariamente, por o sentido comum das ditas palavras ser
mui differente, communicando estas coisas com pessoas da sua nação
apartadas da fé, com as quaes se declarava por judeu, perseverando na
dita crença até certo tempo, que declarou.

«E que por andar apartado da fé, no dito livro que compuzera, detrahira
em alguns logares no procedimento do santo officio, e se accommodara com
algumas opiniões politicas com que o via usar e praticar em certo reino;
e que tambem usava de livros prohibidos, e que de tudo estava muito
arrependido e pedia perdão e misericordia. E por o réo não satisfazer á
informação da justiça nem declarar todas as ceremonias e jejuns que
havia feito por guarda da dita lei, sendo para o fazer por vezes
admoestado, na fórma do estylo do santo officio, o promotor fiscal do
santo officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, que
lhe foi recebido, e o réo o contestou pela materia de suas culpas e
confissões, e não quiz usar de contrariedade. E sendo lançado da com que
podera vir, e sendo ratificadas as testemunhas da justiça na fórma de
direito, se lhe fez publicação de seus ditos, conforme o estylo do santo
officio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e não provou
coisa relevante; e guardados os termos de direito, e feitas as
diligencias necessarias, seu feito se processou até final conclusão,
sendo o réo por muitas vezes advertido de suas diminuições e admoestado
com muita caridade da parte de Christo nosso Salvador as quizesse
declarar, para se poder usar com elle de misericordia, que a santa madre
egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes sem o réo o
querer fazer. E visto seu processo, na mesa do santo officio se assentou
que pela prova da justiça e por sua confissão estava convencido no crime
de heresia e que a dita sua confissão não estava em termos de ser
recebida, e por hereje e apostata da santa fé catholica, feito falso,
simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e pronunciado.

«E para o réo cuidar em suas culpas e diminuições, e as poder confessar
arrependendo-se d'ellas, lhe foi dada noticia do dito assento, e foi de
novo admoestado para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma,
e ser tratado com misericordia, quizesse dizer toda a verdade. Vendo o
réo que estava convencido por diminuto em suas confissões, pediu
audiencia, e as continuou, dizendo que depois de fazer as primeiras
confissões, ficára continuando até áquella hora na crença da lei de
Moysés, e que por sua guarda fizera algumas cerimonias judaicas, e para
que Deus lhe perdoasse seus peccados na observancia da dita lei, fazia
tambem algumas penitencias, como eram não dormir em cama senão em noite
de sabbado; resar algumas orações e psalmos sem _Gloria Patri_, e
repetir muitas vezes a confissão geral, e communicava estas coisas com
certa pessoa da sua nação, com a qual se declarava por judeu e animava
para continuar na dita crença: e que de tudo pedia perdão e
misericordia. E sendo visto outra vez seu proccesso em mesa, se
determinou que o assento que n'elle se havia tomado não estava alterado,
porque não declarava o réo todas as culpas que havia commettido segundo
a informação da justiça, não se presumindo, conforme a direito,
esquecimento. Alem de que não dava signaes de verdadeiro arrependimento
antes os contrarios, dizendo que confessava o que fizera exteriormente,
e que o que ficava em seu coração não era necessario dizel-o; pelo que
foi notificado para ir ao auto da fé ouvir sua sentença, pela qual
estava relaxado á justiça secular. E sendo trazido ao auto da fé, pediu
n'elle audiencia, e n'ella disse que a pedira para requerer ao santo
officio, com intimo e verdadeiro arrependimento de suas culpas, se
usasse com elle de misericordia; que a verdade era que elle permanecera
até áquella hora em seus erros, dos quaes se apartava por meio das
admoestações dos religiosos que lhe assistiam, e por ver a commiseração
que seu estado causava a todo este povo e pessoas que o conheceram; e
que por guarda da lei de Moysés em que até então crêra, fizera muitos
mais jejuns judaicos dos que tinha declarado e muitas outras cerimonias;
e que de tal maneira estava na observancia d'ella depois da sua prisão
que determinara morrer por sua guarda, com tal excesso que depois de lhe
ser dada noticia do assento que se tinha tomado em sua causa, se tinha
disposto para a morte, com aquellas cerimonias que sabia, lavando-se e
vestindo camisa nova, que tinha feito para este fim, e jejuando ainda
como judeu[35]. E sendo vista esta sua confissão na mesa do santo
officio, se assentou que não estava em termos de ser recebida, e que era
feita mais afim de escapar da morte, que pelo réo estar verdadeiramente
arrependido de seus erros, como claramente se mostra do termo de que
tinha usado nas mais confissões que fizera no discurso de sua causa: O
que tudo visto e bem examinado, e como o réo sendo por tantas vezes
admoestado nunca deu mostras de se tornar do coração á fé de Christo
Nosso Senhor de que se apartou; de que claramente se colhe que persevera
ainda agora em seus erros e na damnada crença da lei de Moysés. _Christi
Jesus nomine invocato_, declaram ao réo Manuel Fernandes Villa Real por
convicto e confesso no crime de heresia e apostasia, e que foi, e ao
presente é, hereje apostata da nossa santa fé, e que incorreu em
sentença de excommunhão maior e em confiscação de todos os seus bens
para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra os
similhantes estabelecidas; e que como hereje apostata, convicto,
confesso, ficto, falso e impenitente o condemnam e relaxam á justiça
secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e
piedosamente, e não proceda a pena de morte nem effusão de
sangue.--_Luiz Alves da Rocha._--_Pedro de Castilho._--_Belchior Dias
Preto._

      *      *      *      *      *

É escusado dizer que a justiça secular, comprehendendo ao justo a
_benignidade e piedade_ recommendadas pelo santo officio, condemnou o
réo a garrote e fogueira para que das cinzas do strenuo defensor de D.
João de Bragança não ficasse memoria, como se assim podessem diante da
posteridade passar a esponja por sobre uma das mais esqualidas manchas
do reinado d'aquelle soberano.

      *      *      *      *      *

O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em Lisboa, foi queimado
vivo em 10 de maio de 1682. Infere-se da leitura da sua sentença que
este infeliz dez vezes foi posto a tormento, e com todas ellas foi
aggravando a sua desgraça, revelando peccados novos, que o apertar das
cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. Afinal, já calejado
e invulneravel ás torturas, manifestou-se profitente da lei de Moysés,
affrontou no rosto os algozes, e subiu á fogueira com grande animo e
anciedade do martyrio.

      *      *      *      *      *

Por occasião do supplicio do doutor Antonio Homem, lente da universidade
em 5 de maio de 1624, _um engenhoso_ poeta contemporaneo publicou, e fez
correr, com grande applauso publico, o seguinte soneto em _écos_ ou de
_reflexo_:

  «Quando um primario excellente        _lente_
  contra a fé cáe em desconcerto        _certo_,
  está o que não é tão esperto          _perto_
  de seguir o erro que de presente      _sente_,

  «Mas quem é da hebrea e negligente    _gente_,
  e vendo-se do bom respeito            _peito_
  na fé segura do deserto               _certo_
  nega a Jesus, que é tão clemente      _mente_

  «Povo que elegeu uma bezerra          _erra_;
  deixae do vosso velho estudo          _tudo_;
  Segui a lei para ser guardada         _dada_;

  «que quando em tal descuido           _cuido_
  que um bom lente, o melhor da terra   _erra_,
  mas sciencia sem Deus tornada         _nada_»

Nunca a piedade inspirou coisa mais insulsa e soez!



III

(Pag. 39)


A expensas da casa, sem licença do reitor...

O _Regimento dos medicos e boticarios christãos velhos_, adjunto aos
_Estatutos da Universidade de Coimbra_, mandados imprimir em 1653 por
Manuel de Saldanha, ordena que haja trinta estudantes porcionistas e os
dois logares de collegiaes medicos _que sempre houve no collegio real de
S. Paulo_.

«Os que houverem de ser admittidos no partido da medicina (diz o
_Regimento_) não hão de ter raça de judeu e christão novo, nem mouro,
nem proceder de gente infame, nem ter doenças contagiosas...

«Para constar que os pretendentes tem as partes sobreditas, farão
petição ao reitor, em que declarem d'onde são naturaes, e cujos filhos;
e elle por seu despacho mandará passar carta em meu nome para os
corregedores e justiças fazerem as ditas informações com muito segredo,
tirando-as das pessoas antigas, honradas, etc.»

Estas averiguações eram feitas tanto pelo miudo, que seria impossivel
escapar pela malha porcionista, que tivesse gota de sangue judeu. Braz
Luiz não poderia certamente dizer cujo filho era, se pretendesse os
_vinte mil réis annuaes_, que tanto era a _porção paga aos quarteis_, e
tirada das rendas dos concelhos de certas cidades e villas.



XI

(Pag. 112)


As leis do reino davam rasão de sobra a Fernão Cabral, para desherdar a
filha...

No tit. 88 do liv. 4.º das Ordn. Filip. § 1.º, lê-se:

«E se alguma filha, antes de ter vinte e cinco annos, dormir com algum
homem, ou se casar sem mandado de seu pae, ou de sua mãe, não tendo pae,
por esse mesmo feito será desherdada e excluida de todos os bens e
fazenda do pae ou mãe, _posto que não seja por elles desherdada
expressamente_(!)»

E no § 17;

«Item. poderá o pae ou mãe, que forem catholicos christãos, desherdar
livremente os filhos herejes, que perfeitamente não crerem em nossa
santa fé catholica, desviando-se do que tem e crê a santa madre egreja.»

Convinha que, uma vez por outra, tirassemos o látego das costas dos
frades e o sacudissemos nas costas dos legisladores. Corriam parelhas na
perversidade. A depravação moral era tão cerrada e tamanha que havemos
de receber como fabula um justo no meio de taes ministros da justiça
divina e humana.



INDICE


                                            PAG.

Prologo                                       5

Introducção                                   7

I--Informações                               22

II--Não era mãe!                             29

III--O faro das bestas-feras                 37

IV--Resposta                                 43

V--A piedosa eloquencia do frade             53

VI--Braz Luiz                                63

VII--Exemplo de honestidade aos medicos      72

VIII--Má sina de poetas                      81

IX--Poeta e moralista                        89

X--Os expatriados                            99

XI--Trese annos depois                      107

XII--Historia de Antonio de Sá              122

XIII--Seguimento da historia                131

XIV--O segredo horrivel                     137

XV--Angustias que existiram                 150

XVI--O padre Braz                           157

XII--O inferno como elle é possivel         164

XVIII--Catequeze                            171

XIX--O velho da ermida                      179

XX--Parecia christão na morte               184

XXI--Como se póde viver!                    188

Conclusão                                   191

Notas                                       195



    [1] _Nação_ era o termo denominativo e collectivo do povo judaico,
    dispersado entre as nações. Nação, por excellencia, era a d'elle.
    Vej. _passim_, João Baptista d'Este, _Dialogo entre discipulo e
    mestre cathechisante_, e todas as sentenças do santo officio, e
    escriptos concernentes á raça hebraica.

    [2] _Caracteristico legal da raça judaica._ Vej. Ord. do Reino--as
    Philip.

    [3] Veja a nota final.

    [4] Veja a nota final.

    [5] O leitor dispensa que se lhe dê fielmente traslado das
    maiusculas e da orthographia.

    [6] N'este periodo asfixiante é menos admiravel a profundeza da
    doutrina que o folego pulmonar do leitor da sentença!

    [7] Sairam de um mal para outro mal, e não me conheceram, diz o
    Senhor. _Jerem., cap. 9._

    [8] Desculpe-se á obcecação piedosa do author do _Anno historico_
    uma bestidade de tanto porte. Foi a maior que se atirou do pulpito
    abaixo n'aquelle seculo!

    [9] Estes pormenores, corridos na relação com os condemnados,
    vejam-se em João Martins da Costa. «Estylos mais praticados na casa
    da supplicação» pag. 239 e seg.

    [10] Isto consta do livro que Braz Luiz d'Abreu publicou, oito annos
    depois, intitulado _Portugal medico_.

    [11] _Portugal Medico_, pag, 730 n.º 63.

    [12] Idem, pag. 728, n.º 56.

    [13] Idem, mesma pag. n.º 57.

    [14] Limpo.

    [15] _Portugal Medico_, pag. 724.

    [16] A receita é trasladada de pag. 752 do _Portugal Medico_.

    [17] É textual da pag. 751. «A sciencia da medicina está de todo
    perdida em Portugal...» escrevia o doutor Francisco Thomaz, medico
    do hospital de Lisboa, ao bispo D. Jorge de Athaide em 1592 Vej.
    _Comp. hist. do estado da Univ. de Coimbra, 1772_.

    [18] São as menores virtudes da raposa, segundo vemos no tratado,
    d'este escriptor, medico, o mais famigerado dos seus collegas. Vej.
    a pag. 722.

    [19] Veja _Portugal Medico_, pag. 690-691.

    [20] É impresso em 1717, por Bento Secco Ferreira.

    [21] _Portugal Medico_, pag. 307.

    [22] Vej. _Port. Med._ pag. 209

    [23] _Portugal Medico_, pag. 741 e 742.

    [24] Os versos errados é necessario desculpal-os tambem á santa
    indignação.

    [25] Cap. II, V. 16

    [26] _Casa de Jacob_, pag. 24.

    [27] Cardoso. Las excellencias, 10 Exp. p. 322.

    [28] Foi queimado em Valhadolid em 1644. As expressões estão na
    _Carta del Inquisidor Moscoso a la condesa de Mònterrey_.

    [29] As leis do reino davam razão de sobra a Fernão Cabral para
    desherdar a filha, e transferir os vinculos a parentes. Os
    interesses da religião sobrelevavam aos mais sagrados vinculos do
    sangue e da piedade paternal. O pae, que quizesse perdoar as
    injurias recebidas do filho, poderia fazel-o; mas o desacato ás
    coisas e prescripções das Decretaes não estava em seu poder
    perdoal-o, concedendo o pão da vida a seus filhos. Veja a nota final
    sobre as leis facultativas do desherdamento.

    [30] Não se liquidou ainda a etimologia de _flibusteiros_, palavra
    que aportuguezamos por lhe não conhecermos a correspondente, se a
    ha. Vem de _flyboat_ em inglez, ou de _flibot_ em francez, ou ainda
    do bretão _free booter_?

    [31] Diccionario bibliog. do sr. J. F. da Silva Art. _Braz Luiz de
    Abreu_.

    [32] Veja _Barbosa. Biblioth. Lusit._

    [33] Presumo que seria o livro intitulado _El politico
    christianissimo, e discursos politicos sobre algumas aciones de la
    vida del em.mo sr. Cardenal Duque de Richelieu_. 1642. 12.º Da 2.ª
    edição d'este livro diz o versadissimo bibliophilo I. Francisco da
    Silva «N'esta segunda edição se supprimiram depois de impressos
    varios trechos que desagradaram aos inquisidores, e que tambem foram
    na primeira riscados e illegiveis algumas passagens a pag... etc. Na
    edição de 1642 se acham as folhas respectivas suppridas com
    _cartuns_ ou folhas intercalares...» Vej. _Diccion. bibliog._ pag.
    422 e 423 do 5.º vol.

    [34] Não podemos decifrar os caracteres que o tempo desfez no
    manuscripto, d'onde vamos trasladando a sentença.

    [35] Das tres confissões augmentativas infere-se que Manuel
    Fernandes Villa Real foi, por tres vezes, interrogado na tortura.



Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipográficos.
Na lista que segue estão algumas das alterações efectuadas.

Pág.     Original                          Corrigido

20       inculpada familla                 inculpada familia

26       que o estremecia como irmoo       que o estremecia como irmão

56       o unico profiente                 o unico profitente

138      conversação da noite anterio      conversação da noite anterior

143      --Braz Luiz continuou:            Braz Luiz continuou:

155      Deus me mate já, já!              --Deus me mate já, já!

168      achou se na sua pobre alcova      achou-se na sua pobre alcova

182      aquecei vos ao calor que          aquecei-vos ao calor que

Os números de página no índice estavam errados, pelo que foram corrigidos.





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