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Title: O Regicida
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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ROMANCES NACIONAES



ROMANCES NACIONAES


O REGICIDA

Romance Historico

por

CAMILLO CASTELLO BRANCO


LISBOA

Livraria Editora de Mattos Moreira E Comp.ª

68--Praça de D. Pedro--68

1874


_A propriedade d'este livro, pertence a Henrique de Araujo Godinho
Tavares, subdito brazileiro._



A

Francisco Martins de Gouvêa Moraes Sarmento

OFFERECE

o seu amigo mais devedor e agradecido

                   _Camillo Castello Branco._



ADVERTENCIA


A urdidura d'este romance, que afoitamente denominamos _historico_,
deu-no'l-a um manuscripto, que pertenceu á livraria do secretario de
estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.

O collector d'estes apontamentos, que a historia impressa, respeitando
as conveniencias, omittiu, foi contemporaneo dos successos que archivou,
pois escrevia em 1648.

De lavra nossa, n'este romance, ha apenas os episodios, que me sahiram
ajustados e congruentes com os traços essenciaes da narrativa.



O REGICIDA


I

Antonio Leite, casado com Maria Pereira, e morador na villa de
Guimarães, em 1634, era o cuteleiro de maior voga em Portugal.

N'aquelle anno, tinham um filho, de nome Domingos, com dezesete annos de
edade.

Quizera o pai ensinar-lhe a arte, que lhe dera fama e dinheiro. A mãe
desejava que o rapaz fosse frade, consoante á vontade de seu irmão fr.
Gaspar de Sancta Thereza, leitor apostolico de moral no convento de S.
Francisco de Lisboa.

Ora o rapaz não queria ser frade nem cuteleiro: aspirava ardentemente um
officio mais prestadio ao genero humano infermiço: queria ser boticario.

Era esperto o moço, não só porque appetecia ser boticario; mas porque
realmente era agudo de intendimento, ladino, sedento de saber tudo e
propenso a correr mundo, tendencia, na verdade, incompativel com a
quietação da almejada botica.

Aos quinze annos, Domingos sabia latim, cursava philosophia de
Aristoteles com um insigne mestre da ordem franciscana, e lia os
cartapacios pharmaceuticos do frade boticario do mesmo convento.

Participou Maria a seu irmão fr. Gaspar a inclinação do filho. Respondeu
o prudentissimo tio que lhe não torcessem a vocação, por quanto em todos
os misteres podia um bom christão servir o proximo e ganhar o ceo. E, em
prova do seu applauso, mandou ir o sobrinho para Lisboa, afim de lhe
arranjar mestre que o exercitasse e approvasse.

Foi Domingos Leite para a capital, e entrou como praticante na botica do
Hospital Real, sob direcção de Estevão de Lima, o primeiro mestre de
pharmacia entre os quarenta e trez boticarios de Lisboa.

Ao cabo do primeiro anno, o professor não tinha que lhe ensinar.
Domingos intendia e aviava as receitas com rara destreza. A estatistica
mortuaria, se não tinha diminuido, tambem não tinha augmentado. Todavia,
o habil praticante mostrava-se descontente d'aquelle genero de vida, e
de si comsigo resolvera encarreirar-se para outro destino mais adquado a
umas vaidades do mundo que lhe estonteavam a cabeça de mistura com o
cheiro nauseativo das drogas moídas no gral.

Frequentava a famosa botica Luiz das Povoas, provedor da alfandega, que
se comprazia de conversar com Domingos Leite em coisas de lettras,
mormente poetas latinos. O rapaz revelou ao provedor o seu desgosto da
botica, e rogou-lhe que o empregasse na alfandega. Vê-se que já em 1636
os bons talentos portuguezes, as aguias do genio, pairavam sobre as
prêas alfandegueiras, como hoje em dia succede com tanto litterato que
prefere á gloria de rimar ao ar livre a athmosphera aziumada dos
armazens, e o fartum engulhoso da matullagem.

De feito, Luiz das Povoas accedeu á petição de Domingos Leite,
nomeando-o escrivão das «Fructas» com 40:000 reis annuaes de ordenado.

Volvido um anno, o escrivão das fructas confessou ao provedor que a sua
vocação definida não era bem a alfandega; que semelhante vida lhe
desagradava por monotona; que o seu espirito precisava de repasto mais
poetico; em fim, que se sentia alli embrutecer com trabalhos em que a
intelligencia andava grávida de cifras e cifrões, coisas indigestas para
quem scismava em trechos de Virgilio ou estancias de Camões, quando a
penna alinhavava a um tendeiro da rua de Quebra-Costas a conta dos
direitos da alfarroba ou do cacáo.

--Que queres tu ser então, Domingos Leite?--perguntou-lhe o bom amigo.

--Estou gostando arrebatadamente da muzica, desde que vossa mercê me
levou ás festas da capella real. Se eu podesse arranjar o emprego de
môço da capella...

--Achas isso bom? Poucas ambições tens, rapaz!

--O que mais me encanta é o viver com os meus poetas, e ter alli á mão
as delicias da musica. O ordenado é pequeno; mas setenta cruzados chegam
e sobram. Lá ao diante, se eu grangear cabedal de saber para dar a lume
algumas ideias que me cá refervem nos miólos, então darei gloria ao meu
nome. Quanto a bens de fortuna, lá está meu pai na officina a ganhar-me
o patrimonio. Sou filho unico, e com pouco heide ir onde vão os grandes.

--Olha tu que os grandes não começaram por môços da capella real...

--Bem sei; mas eu, quando desprender as azas, voarei do zimborio da
capella, e irei poisar nas grimpas dos palacios.

--Vê lá se te aguentas no vôo, meu Icaro!--redarguiu o provedor--Cuidado
comtigo que não tenhas de voltar á botica a manipular aquella herva
bicha e o pastel de carne de gato com que me curaste das almorreimas...

--Não tenha medo, sr. Luiz das Povoas. Os homens da minha tempera tem
fados esquisitos! Eu, ás vezes, sinto uns deslumbramentos que me cegam!
Se eu não fosse filho de meu pai cuteleiro, e pudesse desconfiar da
honestidade de minha mãe, havia de crer que o meu sangue girou já nas
veias dos duques de Guimarães!

--Serás tu filho do real Encoberto D. Sebastião que se espera? Toma
tento, Domingos, que não te fermente no miôlo a parvoice do rei da
Ericeira ou do rei de Penamacor, ou do pasteleiro do Escurial...--volveu
casquinando o provedor da alfandega--Vê lá se contendes com o sr. D.
João, duque de Bragança, a ver qual dos dois é o Encoberto das profecias
do Preto ou do Caldeirão, astrologo de Cascaes!... Emfim, rapaz dos meus
peccados, eu fallarei ao sr. Miguel de Vasconcellos, e tu serás nomeado
môço da capella real com setenta cruzados; e, depois, quando te sentires
com voadoiros de servir, ála-te do zimborio da capella; mas guarda-te de
avoares com azas de páo dadas por algum cioso dos que seguem as damas da
princeza Margarida a ouvir as antigas cançonetas do Guerreiro, os
motetes do duque de Bragança, e os tonadilhos de Diogo de Alvarado.
(_Nota 1.ª_) Ora queira Deus!... És bem apessoado; tens-me uns requebros
de poeta galan; lês muito pelo livro das _Saudades_ de Bernardim
Ribeiro, que os moços do monte de el-rei D. Manuel mataram a tiro na Rua
Nova. (_Nota 2.ª_) Não vás tu pensar que o amor dá azas, e que o tracto
com as Camenas te habilita a ser ruysenhor do paço!...

--A boa fortuna--replicou enfaticamente o moço--hade dar-m'a o engenho e
a arte...

--_Se a tanto me ajudar_, disse o Camões, e a nada o ajudou, nem sequer
a envisgar de raiz o coração d'aquella dama da rainha D. Catharina!..
Chamavam-lhe a Bocca-negra da alcunha da mãe; mas meu pai, que a viu no
mesmo dia em que o poeta a encontrou na egreja das Chagas, n'uma sexta
feira da Paixão, em 20 de abril de 1542, disse-me que a menina era tão
esbelta como trêda. Que farte a cantou o poeta com diversos nomes; até
que ella, norteando o coração a mais substanciosos amores, tractou
cazamento com outro e finou-se antes de realisar o intento. Á conta
d'esta ingrata quatro vezes foi desterrado o nosso Homero. Primeiro, de
Coimbra, onde estava a corte, para Lisboa. Veio a corte para Lisboa,
desterraram-no para Santarem; depois para Africa, e por derradeiro para
a India, d'onde voltou á mercê d'alguns passageiros. (_Nota 3.ª_)

Não são de mais estes exemplos referidos a um galan de Guimarães que vai
implumar as azas debaixo dos tectos reaes da vice-rainha duqueza de
Mantua para depois voar...

--Sei todas essas historias, sr. provedor--atalhou Domingos Leite.--E
sei outras muitas de egual moralidade, como a do poeta Jorge da Silva,
que expiou no Limoeiro os seus amores a uma irmã de D. João III; e
tambem sei que D. João da Silva, por malogrado amor á imperatriz Leonor,
filha de D. Affonso V, se fez frade franciscano, chamou-se o Beato
Amadeu, e disciplinou as rebeldes carnes, lembrando-se sempre do paço
como S. Jeronimo se lembrava das virgens de Roma nos areaes do Mar
Morto. Não ignoro que D. Affonso V mandou degolar um Duarte de Souza que
visitava fóra de horas uma das suas criadas. Sei, finalmente, o que
custam sereyas da côrte, desde que D. João I mandou queimar no Rocio o
seu camareiro Fernando Affonso, por que uma dama da rainha se queimára
nas chammas do gentil galan... Sei tudo o que diz ao intento das
reflexões de vossa mercê; mas eu já lhe declarei que vou attrahido á
capella real pela musica á imitação do penhasco arrastado por Orpheu;
depois, irei, como Cezar, _Quó Deus impulerit_. De damarias não curo,
nem por mulheres vai longe quem lhes procura a fortuna no regaço. Não me
deu Deus geitos de pagem, nem de nâmorado de arrabil. Sou de Guimarães,
onde os corações tem mais aço que flores. Tudo que ali nasce parece
sahir da forja onde se fazem as rijas laminas das facas de matto e das
alabardas.


II

A residencia no paço da Ribeira facilitou ao moço da capella
relacionar-se com fidalgos que o estremaram da turba da criadagem.

O capellão-mór D. João da Silva, irmão do marquez de Gouveia, agradecido
ao rei intruso que, em 1625, dera a seu irmão Manrique, conde de
Portalegre, a coroa de marquez, ajoelhava nos estrados da vice-rainha,
como outros muitos portuguezes que, volvidos quatro annos, a ameaçaram
de ser despejada á rua sobre o cadaver de Miguel de Vasconcellos (_Nota
4.ª_)

Este D. João da Silva corria com os negocios da grande caza de seu
irmão, e sentia-se escasso de ideas e até de orthographia para
dignamente fazer a correspondencia. Outros fidalgos lhe gabaram a
esperteza de Domingos Leite, incitando-o a estipendial-o como secretario.

Convidado para o serviço da casa do capellão-mór, o moço da capella,
perscrutando ao longe, na escrevaninha de D. João da Silva, uma aberta,
para elevadas regiões, acceitou o encargo com dobrado salario, e sahiu
do paço com fastio á musica do Alvarado e aos vilhancicos do Guerreiro
com que na noite do Natal lhe gelaram a piedade na alma e nos ouvidos.

Logo que poz mão no archivo da casa de seu amo, assignalou-se a
actividade intelligente do secretario.

Ganhando a confiança de D. João e tambem a do marquez, entrou no segredo
de certos actos clandestinos da politica, e por ahi lhe alvoreceram
esperanças de entrar em carreira mais frizante com a sua vocação, que
elle ainda não sabia ponctualmente qual fosse.

Com quanto os Silvas da casa de Portalegre ou Gouvêa não sejam nomeados
entre os principaes fautores da conjuração heroica a favor do duque
bragantino, é averiguado que o marquez de Gouvêa e seus irmãos
assentiram á sublevação de 1640; d'outro modo D. João IV não nomearia
seu mordomo-mór o marquez que recebêra o titulo da chancella de Filippe
III, cujo mordomo-mór fôra tambem.[1]

Em caza do aulico da vice-rainha conversava-se, planeavam-se alvitres
ácerca da restauração, e não havia rezervas na presença de Domingos
Leite, abonado por seus amos e pelo enthusiasmo dos seus dizeres
conceituosos em annos tão juvenis. Os douctores João Pinto Ribeiro e
João Sanches de Baêna que, para assim dizer, foram o cerebro, o
pensamento do gigante que estendeu braços de ferro no 1.º de dezembro,
tinham justificado a confiança dos fidalgos, dignando-se approvar a
admissão de Domingos Leite Pereira ás reuniões da gente media, afim de a
ir educando e predispondo com argumentos patrioticos, mui eloquentemente
discursados.

E o ensejo veio bem de molde á explosão das iras de um portuguez
palavroso. N'aquelle anno de 1637 era o povo esmagado com tributos; e a
nobreza, menos ferida nas suas rendas, olhava de esconso para a desgraça
das classes mechanicas, e de fito para os seus proprios interesses. Não
obstante, alguns fidalgos sob-capa incitavam ao longe os motins. Nos
tumultos de Evora, houve precedencia de conciliabulos em que dois homens
da cidade e um estranho e desconhecido das turbas oraram de feição a
irritar a rebeldia ás execuções tributarias do corregedor André de
Moraes Sarmento.

Os sediciosos eborenses eram Sezinando Rodrigues e João Barradas; e o de
fóra era o quasi imberbe Domingos Leite Pereira, que depois de haver
pedido na praça a cabeça do corregedor, e rompido os diques á onda
popular contra o arcebispo e outros fidalgos que sahiram de cruz alçada
a socegar os amotinados, appareceu orando ás turbas preceitos de
prudencia e respeito ao ancião conde de Basto.

Vê-se que a vocação do rapaz, afinal, era a politica.

Em 1638 morreu D. João da Silva. Logo o marquez de Gouvêa chamou aos
segredos da sua escrevaninha Domingos Leite, exonerando-o dos encargos
impertinentes da administração da caza, e investindo-o de occupação mais
condigna. Os seus trabalhos meditados e escriptos eram relativos á
republica, já trasladando papeis mysteriosos que se trocavam entre
Portugal e Castella, já discorrendo de lavra propria declamações contra
o uzurpador, as quaes eram lidas com um sorriso de complacencia por João
Pinto Ribeiro, e repetidas com enfaze pelo padre Nicolau da Maya aos
lagrimosos burguezes da caza dos «Vinte-e-quatro.»

A importancia do filho do cuteleiro crescia á medida que o perigoso
levantamento da nação calcada se avisinhava da destemida audacia de
muitos e da receiosa prudencia de alguns. Domingos Leite aliáva á
energia intellectual a impavidez nas mensagens arriscadas. Uma noite se
offerecêra elle para entrar ao segundo andar do paço da Ribeira cujos
corredores conhecia, e apunhalar na sua propria camara Miguel de
Vasconcellos. Galardoaram-lhe com louvores o romano intento; mas
dispensaram-no de antecipar o sacrificio de uma vida, que poderia abrir
a sepultura de muitas vidas preciosas. Acceitaram-lhe, todavia, a
melindrosa missão de ir a Madrid prevenir alguns fidalgos affectos á
restauração, já quando Miguel de Vasconcellos, desde os tumultos de
Evora, o trazia espiado como suspeito de ser o ardente caudilho dos
amotinados a casa do corregedor Moraes Sarmento.

N'esta commissão associou-se Domingos Leite a um Roque da Cunha, homem
passante dos 40 annos, que elle havia conhecido nas assemblêas populares
do padre Nicolau da Maya, ardente impulsor do resgate do reino.

Roque vivia mysteriosamente e apenas sabia o nome de sua mãe, uma D.
Vicencia, de quem ao diante se fará menção.

Era temido como valente, e conceituado como perverso; mas ninguem o
excedia em vehemencia de applausos, quando Domingos Leite proclamava
ácerca da independencia da patria.

A vaidade do orador transpoz os obstaculos erguidos pela má fama do seu
enthusiastico ouvinte, e foi procurar um amigo em Roque da Cunha.
Travaram-se de intima estima, a ponto de lhe abrir o cofre dos seus
segredos o homem, cujos haveres procediam de fonte desconhecida e
forçosamente impura.

Entre diversas aventuras referiu o arrebatado patriota que os seus bens
eram a paga de uma boa acção; porém mesquinha paga; pois que se elle
podesse contal-a em dias de liberdade para a patria, os portuguezes
deveriam ladrilhar-lhe de ouro as ruas por onde passasse. Expendido o
caso, depois de o exordiar com o enfaze de um Sc½vola, disse que fôra
elle quem matára com um tiro de pistola Pedro Barbosa de Luna,
desembargador da casa da supplicação, pai de Miguel de Vasconcellos.
Deste homicidio havia elle cobrado alguns mil cruzados: e, posto que o
mandante fôsse um opulento mercador que assim vingava a justiça de um
pleito postergada pelo desembargador, Roque da Cunha recebêra os tantos
mil cruzados com os olhos postos na patria captiva. (_Nota 5.ª_)

Este feito, com outros significativos de esforço e destemor, captaram a
indole de Domingos Leite propensa á admiração da bravura que em Roque da
Cunha era realçada por intendimento e graça no desplante com que
assoalhava os vicios ao seu unico amigo.

Tal era o companheiro escolhido nas mensagens arriscadas de Evora e de
Madrid. E tanto Domingos Leite encareceu depois os serviços do amigo, na
volta a Portugal, que vingou leval-o comsigo a Villa Viçosa, e
apresental-o ao duque, no acto de lhe entregar cartas dos fidalgos com a
noticia dos planos discutidos no palacio dos Almadas.


III

O que o leitor sabe sobejamente da historia seria impertinencia
repetir-lh'o no romance.

A revolução de 1640 é tão fallada, desde a escola de instrucção primaria
até ás festividades rhetoricas de cada 1.º de dezembro, que a pessoa
intelligente em cuja mão este livrinho tem o prestimo de a livrar de ler
outro peor, me está pedindo que dê vivas á independencia nacional e
passe ávante.

Seja assim, para agradar a V. Ex.ª e não defraudar historiadores que não
tem, quando historiam, analoga consideração com os novellistas.

O duque de Bragança era já D. João IV; e Domingos Leite Pereira, desde
Janeiro de 1641, era escrivão da correição do civel da corte, logar que
rendia para mais de trezentos mil reis--quantia valiosissima n'aquelle
tempo. Além d'isso fôra-lhe facultado arrendar o officio e continuar
exercendo o posto de secretario do marquez de Gouvêa, mordomo-mór de
el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquez, indo
semanalmente á côrte, levava comsigo no coche o seu secretario: e bem
que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admittiu ao
gabinete de despacho o diserto moço folgando de o ouvir remedar alguns
bassos e tiples da capella real da princeza Margarida. É notorio que D.
João IV foi muito caroavel de musica; e, sendo analphabeto em quasi
tudo, publicou em 1649 uma _Defesa da musica_ em lingua castelhana, para
dar bom exemplo de patriotismo aos escriptores coevos. (_Nota 6.ª_)
Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a
distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte trez annos,
esbelto, valoroso, bemquisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os paes
d'estas meninas viam o escrivão da correição do civel, o secretario do
conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes.

Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de
tantos meritos! nem fama publica de vicios, em epoca tão eivada da
corrupção da mocidade! Bastava a honrar-lhe os creditos de bom christão
ser elle sobrinho de fr. Gaspar de Sancta Thereza, já prior de
franciscanos, e tão bom patriota que havia sido elle o primeiro que déra
a ideia de despregar o braço de Jezus crucificado afim de persuadir ao
povo revolto no 1.º de dezembro que a imagem do Redemptor desencravára a
mão da haste da cruz para abençoar o povo que lhe estendia os devotos
braços banhados de sangue!

O manuscripto que vai architectando este livro, ao entrar no periodo
amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: «sahiram-lhe muitos
cazamentos.» E, nomeando algumas noivas de nascimento illustre, repára e
nota que o escrivão do civel se esquivasse a aparentar-se com familias
primaciaes regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito
parenta da casa de Bragança e descendente de reis. (_Nota 7.ª_)

Passava então por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em
Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, João
Bernardes, de alcunha o _Traga-malhas_. Aos quinze annos era a moça tão
tentadora, os fidalgos tão tentadiços, e a honra das familias tão
menosprezada, que a mãe de Maria Izabel fez voto ao sancto Antonio de
fr. Bartholomeu dos Martyres accender-lhe luz toda a noute para que lhe
vigiasse a filha emquanto ella fosse solteira: tamanha era a falta de
illuminação e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! (_Nota 8.ª_)

Como era filha unica e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em
moeda, Maria teve mestre de escripta em casa--um padre de boa fama, do
qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e
esclarecida, por consequencia um optimo cazamento para filho segundo de
caza illustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite.

Foi o tio fr. Gaspar quem lhe fallou o cazamento, por ser muito da
familia Traga-malhas, e director espiritual da mãe da noiva.

Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de
cazar-se; porém, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas
palavras tão candidas que mais o pareciam pelo que o rosto respiráva de
amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.

No entretanto, quando tudo era alegria na familia, Maria Isabel
escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao sancto Antonio do
sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante,
formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e então
verá que tal era elle que o sancto, se o não fez, foi por que realmente
não pôde.

O escrivão do civel da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos
invejosos, quando annunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e
redobrou a inveja das congratulações ao saber-se que o rico tanoeiro
dotára a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente
computarmos o valor de dez mil cruzados n'aquelle anno de 1642, basta
saber-se que, no anno anterior, o mais opulento negociante de Lisboa,
Pedro de Baeça, thesoureiro da alfandega, condemnado á morte em
supplicios atrozes, como cumplice na conjuração de alguns fidalgos
contra D. João IV, offereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta
mil cruzados!

Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo
rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquez
de Gouvêa assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano
deu a benção nupcial aos conjuges, e uma preciosa gargantilha de
diamantes á esposada, por ordem de sua irmã, e de seu cunhado, pais do
desposado.

Principiou na alcôva conjugal, quando os anjos do amor e da ventura
deviam vedar os umbraes d'ella á tristeza e á desgraça, uma secretissima
lucta de desconfiança e lagrimas, de invectivas affrontosas e juramentos
de mãos erguidas. Quem diria que, áquella hora alta da noite, uma
formosa mulher, com as tranças desatadas em serpentes pelas espaduas
convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lagrimas, soluçava:

--Eu te juro que nunca amei outro homem! Não intendo as perguntas que me
fazes! Fui creada no regaço de minha mãe! Nunca sahi de casa senão para
a igreja, e sempre com minha mãe! Os homens que para mim olhavam uma vez
não me tornavam a ver... Não me perguntes se amei alguem n'este mundo,
que mettes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no
Tejo com a minha vergonha!..

Já se vai vendo que o padre Sancto Antonio do nicho assistia de longe e
neutral a este lance.

A luz do dia seguinte não alvorejou na alma entenebrecida de Domingos
Leite Pereira. Apenas rompeu a manhã, o noivo sahiu do thalamo como de
um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre
de pharmacia Estevão de Lima. Admittido á escrevaninha do matutino
boticario do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anceio de
intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse
elle ao sabio em poucas e tartamudas palavras a ignorancia que o
atormentava.

Estevão de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os oculos da testa sobre o
promontorio do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas
estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia
sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou
João Rodrigues de Castello Branco) Abraham Nehemias, Thomaz Rodrigues da
Veiga, Antonio Luiz, João Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Affonso
Rodrigues de Guevara.

Quando desempoava o ultimo, affirmou o douto boticario:

--Este physico é chavão na materia, se bem me recordo.

E, percorrendo a lista alphabetica das coisas notaveis, poz o dedo
infallivel na questão subjeita, e disse ao offegante interlocutor:

--Veja isso a paginas 488, columna 1.ª

O contheudo da columna 1.ª da pagina 488 da obra admiravel, chamada _De
re anatomica_, não se reproduz, em respeito ás damas que se dispensam de
saber anatomia, apezar da senhora Deraisme, certa adversaria conspicua
de Dumas, para a qual o saber sciencias da organisação humana é coisa
util ás damas maridadas.

Qualquer que fosse, porém, o contexto da pagina consoladora, é certo que
na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria,
e tanto era o desafogo, e desoppresso o respirar do moço, que se abraçou
no seu antigo mestre, exclamando:

--Vossa mercê apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da mão o ferro
uxoricida!

--Ó mentecapto!--volveu Estevão de Lima--Quem querias tu matar?!

--Ella que me infamára aos olhos do homem que m'a atirou aos braços com
uma gargalhada!

--Sobre infamado, matador!--acudiu Estevão--Ruim philosopho és, Domingos
Leite! Se o meu auctor Guevara te não defendesse a esposa com o escudo
da phisica, ainda assim deveras christã e honradamente desligar de ti a
mulher indigna, e salvar tua honra interpondo o juizo do mundo como juiz
na tua causa. A sentenciada seria ella; e tu, se fosses lastimado, não
perderias com isso o direito á veneração dos homens de bem.

--Excellentes rasões...--atalhou Domingos Leite;--mas, sr. Estevão, se
eu um dia fôr enganado, não me dê essas nem outras melhores, que eu não
lh'as escutarei...

Discorreram sobre o assumpto breve espaço, porque Domingos Leite anciava
reconciliar-se com a esposa, pedir-lhe perdão da injuria, indemnisal-a
das perguntas ultrajantes com affagos de noivo apaixonado e repêzo da
injustiça.

Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre, e a surpresou
enfardelando nos bahús os seus vestidos.

--Que fazes?!--perguntou elle já de má sombra.

--Arranjava a minha roupa...

--Com que intento?

--De me voltar a caza de meu pai.

--Fugindo?

--Fugindo, não; livrando-te da mulher innocente que tu cobriste de
affrontamentos.

Demudou-se-lhe o semblante em ares supplicantes, e dobraram-se-lhe os
joelhos aos pés da esposa illibada pela pagina 488, columna 1.ª, do
livro _De re anatomica_ do physico thaumathurgo Affonso Rodrigues de
Guevára.

--Perdoas-me?--balbuciou Domingos Leite, ungindo-lhe a cara de lagrimas.

E ella, que ainda tinha pudor na consciencia, sentiu embargar-se-lhe na
garganta a palavra que perdoava, e ajoelhou tambem apertando-o
freneticamente ao coração.

Amaram-se em redobro desde aquelle momento: elle porque offendera uma
innocente; ella... porque o sancto Antoninho do nicho lhe fizera afinal
o milagre. «E, se não era milagre, diria ella comsigo, onde foi meu
marido desfazer as suas suspeitas? quem o despersuadiu?»

Nós é que sabemos como foi.


IV

Em alegre paz derivaram dois annos.

Ao fim do primeiro, deu ao amor de seu marido Maria Isabel uma menina.

Pouco depois, duplicou-se a riqueza do cazal com o falecimento do
Traga-Malhas, e a entrada da viuva n'um Recolhimento da Terceira ordem
de S. Francisco.

Não obstante, a felicidade do antigo aprendiz de boticario era dardejada
pela inveja disfarçada no epigramma.

Quando Maria Isabel apparecia nas festividades de igreja, egualando-se
nas pompas ás mais ricas fidalgas, rumorejavam-se facecias que eram
victoriadas com frouxos de riso.

A corrupção da epoca vestia-se de gala nas mulheres, Maria Isabel,
porque sabia que as fidalgas a remoqueavam, de dia para dia dava novo
pasto á satyra. Arrastava saias golpeadas de mosqueta; corpetes
recamados de oiro; chapins estrellados de prata e perolas; fraldelhins
agrinaldados de rubis. Sahia em liteira sua, das mais adamascadas e
pintadas, com lacaios bizarramente vestidos.

E, por sobre tudo isto, realçava como engodo ao despeito aquella
esplendorosa beldade de Maria Isabel, a quem as senhoras dos palacios,
arruinados como a honra propria, chamavam a _Traga-malhas tanoeira_.

N'este em meio, Domingos Leite Pereira, advertido pelo marquez de
Gouveia que posesse côbro ao luxo da mulher, respondeu que era
bastantemente rico...

--E bastantemente inepto, sr. Leite--acudiu o mordomo-mór--Quando um
marido assim arreia sua mulher para a exhibir nos adros das igrejas, os
outros podem suspeitar que elle a veste, á guiza de moira da procissão,
para a mostrar bem adubada e apetitosa á cupidez dos outros.

--Se o sr. marquez pensasse como esses vilãos que assim pensam, eu
sahiria da sua casa, com a magua de o não poder reptar ao baixo ponto em
que está a honra dos plebeus--replicou Domingos Leite com altivez.

--Eu não penso assim--obviou o fidalgo--mas sei como os outros pensam.

--Quem são os outros? diz-m'o V. Ex.ª?

--Não denuncio, sr. Leite; advirto-o e mais nada. Vossa mercê conhece os
livros; mas desconhece os homens. Tem grandes espiritos; mas possue
imperfeitissima rasão. Guarde isto que lhe digo; e oxalá que eu nunca
lh'o recorde.

--Sr. marquez!--volveu o secretario com vehemente arrebatamento--se
minha mulher não é a honesta esposa que eu creio, diga-m'o; peço a V.
Ex.ª pela sorte de suas filhas!

--Nada sei...--balbuciou o marquez, refreando a perturbação.

--V. Ex.ª está indeciso!--sobreveio Domingos Leite agitadissimo.

--Não seja louco!--objectou o velho, refazendo-se de apparente
serenidade--Nada sei de sua mulher que o desdoure.

E, rematando o dialogo, o mordomo-mór disse que el-rei o esperava para o
despacho.

Esta acerba palestra instillou peçonha no coração de Domingos Leite.

Havia um só homem e esse o mais indigno de todos com quem o marido de
Maria Isabel desafogava a plenos pulmões: era Roque da Cunha, que, ao
tempo, exercia um officio dos mais grados entre os aguasis de uma das
corregedorias criminaes da corte, em recompensa de haver testemunhado em
1641 contra o general Mathias de Albuquerque, por industria e compra dos
inimigos d'aquelle insigne cabo de guerra. E, bem que Mathias de
Albuquerque provasse sua innocencia, D. João IV, tão presador dos
denunciantes como dos bons e fieis generaes, não retirou a Roque da
Cunha a paga da aleivosia. Parece que antevira a urgente necessidade
d'aquelle homem...

Abriu sua alma Domingos Leite ao assassino de Pedro Barbosa,
referindo-lhe o que passara com o marquez de Gouvêa, e terminando por
lhe perguntar se ouvira qualquer calumnia contra a honestidade de sua
mulher.

--Ouvi, respondeu friamente Roque.

--O que?! acudiu o outro sobresaltado e livido.

--Ouvi que antes de ser tua mulher tivera outros amores.

--Com quem? bradou arquejante Domingos Leite.

--Não perguntei. O calumniador disse a calumnia, e adormeceu na rua dos
Romulares com dois bofetões puxados á sustancia, que lhe dei nos
indignos focinhos.

--Nunca m'o disseste...

--Não sou echo de calumniadores, amigo Leite. Encarecer-te a minha
amisade com a noticia dos bofetões, seria dar importancia a bagatellas.
Se eu estivesse em sitio onde podesse arrancar-lhe a lingua, mandava-t'a
embrulhada em uma folha de alface com a mesma facilidade com que t'o digo.

--Mas conheces esse homem?

--Conheci ha muitos annos: era parente de um official, ou quem quer que
fosse de Miguel de Vasconcellos. Não lhe sei o nome, nem o tornei a ver
desde ha dois annos. Morreria elle?... Se o matei com o primeiro murro,
era escusado pregar-lhe o segundo...

Esta revelação attribulou Domingos Leite por tanta maneira, que Roque da
Cunha chacoteava a irracional afflicção do seu amigo, chegando a
dizer-lhe brutalmente:

--Homem! se este caso te faz tamanha mossa, parece que estás mais
inclinado do que eu a acreditar a calumnia do tal que eu esmurracei! Em
fim, tu lá sabes... concluiu faceiramente.

--Deixa-me... Olha que me estás fazendo perder a razão! atalhou o
desvairado moço. Vê se me encontras esse homem, Roque! Pede-t'o a minha
honra! dou-te por esse homem metade do que tenho! Se o tu não achares,
ninguem o achará... Olha que me salvas, se m'o trazes! salvas o teu
maior amigo!

--Irei procural-o no inferno, se o não achar cá em cimo. Confia nos
quadrilheiros de todos os bairros de Lisboa. Saibamos: que queres tu do
homem?

--O nome do amante que teve Maria Isabel antes de ser minha mulher.

--Então é coisa averiguada que teve? interpellou despejada, mas
rasoavelmente o cynico.

--Perguntas-m'o!... balbuciou Leite Pereira.

--Não t'o pergunto: és tu que m'o dizes, homem! Seja como for.
Apparecendo vivo o sujeito, queres interrogal-o, ou fias de mim
desembuchar-lhe tudo que elle souber?

--Fio de ti a minha honra, que ha de sahir limpa d'essa prova, ou hei de
lavar o ferrete com o sangue de alguem.

--Até mais ver, Domingos Leite. Dá-me tres dias e tres noutes. D'aqui
até lá não tujas palavra que possa espantar a caça, percebes? Olha que
as mulheres tem faro de tres narizes, quando não podem apresentar folha
corrida ao almotacé do bairro da virtude.

Nos dias subsequentes, o secretario do marquez de Gouvêa, pretextando
extraordinarios trabalhos, apenas pernoitava em casa; e, apesar de
esforçada dissimulação, denunciou a Maria Isabel torvado animo e
sobresaltos no dormitar. Interrogava-o ella amorosamente e com uns
abalos de susto. Elle attribuia o seu dessocego a receios da causa da
patria, visto que o exercito do Alemtejo soffria numerosas deserções, e
perigava á mingua de generaes. No entanto, a esposa decifrara desgraça
eminente em umas lagrimas que lhe vira toldar os olhos fitos no rosto
angelico da filhinha adormecida. E perguntando-lhe então porque chorava,
elle respondera que chorava em nome da creança a desventura de ter nascido.

Devoravam-no entretanto impaciencias de ouvir Roque da Cunha.

Chegou o mensageiro ao escriptorio de Domingos Leite, no palacio do
conselheiro de estado, terminado o praso prescripto, e começou dizendo,
com solemnidade e tristeza, coisas singulares e raras no seu caracter:

--Achei-o. Morava em Alfama, e tem loja de mercearia.

--Bem! exclamou Leite Pereira com um tregeito de ficticia alegria que
poderia egualmente significar a angustia de uma noticia
dilacerante.--Que diz elle?

--Vamos de passo. Indaguei primeiro quem tinham sido os officiaes da
escrivaninha de Miguel de Vasconcellos. Nomearam-m'os todos; e eu, logo
que ouvi o nome de um, recordei-me de que o homem em quem eu dera os
cachações era parente do tal. Ora este tal, que foi muito da confiança
do ministro, conhecia-o eu como as minhas mãos. Fui ter com elle, e sem
detença soube que o seu parente era tendeiro. Isto no primeiro dia. No
segundo, mandei-o chamar por um quadrilheiro á corregedoria. Carreguei a
sêlha, e perguntei-o sobre o que havia dito a respeito da mulher do
escrivão do civel, Domingos Leite Pereira, no anno de 1643, na praça dos
Romulares. Como elle fingisse estar esquecido, lembrei-lhe os dois
murros, e ajudei-lhe a memoria, promettendo-lhe mandal-o para o Limoeiro
até se lembrar. Confessou então que, estando em um jantar de annos, onde
o vinho sobejava e minguava o juizo, ouvira dizer a um dos do banquete,
fallando-se no teu casamento, que elle conhecia um sujeito que, se não
tivesse coroa rapada, a Maria Traga-Malhas e os dez mil cruzados não
seriam para ti. E que mais? perguntei ao homem que engulira o principal.
Não sei mais nada, respondeu elle. Chamei um aguazil e disse-lhe que
levasse aquelle esquecidiço ao Limoeiro, e o trouxesse quando elle
tivesse mais miudas lembranças do que ouviu n'um tal jantar. Deixou-se
levar, e foi posto no segredo, e prohibido de fallar ou escrever a
alguem. Segundo dia. Agora o terceiro, que é hoje. Ás duas da tarde
pediu que o trouxessem á corregedoria. Recuperara a memoria. O homem que
tinha coroa rapada, e se gabava de te disputar a noiva e os dez mil
cruzados, era propriamente o primo d'elle, que eu conhecera official de
Miguel de Vasconcellos.

--Como se chamava? atalhou Domingos Leite com os olhos abraseados e a
respiração a trancos.

--Chamava-se o padre Luiz da Silveira.

--O que?... dize! Luiz da Silveira?! Esse padre foi o mestre de Maria
Isabel... Basta!... Disseste tudo...--rugia Domingos Leite, regirando
como fera prêza, de um lado a outro da saleta, e tomando o chapêo,
apertou as mãos do informador, rugindo-lhe como em segredo:--Se eu
precisar de ti, não me desampares... Bem sabes que eu só chamo amigo a
quem me matar ou me restituir a honra n'esta horrivel conjunctura. Olha,
escuta-me, Roque... Maria Isabel, antes de ser minha mulher, foi... Oh!
como é atroz esta certeza!...

E, batendo com os punhos nas fontes, ringia os dentes, e
istriavam-se-lhe os olhos de filamentos sanguinosos.

N'este comenos, ouviram-se os passos mesurados do marquez mordomo-mór no
salão contiguo. Os dois amigos evadiram-se pressurosos escada abaixo.


V

O padre Luiz da Silveira viera da Alhandra para Lisboa, chamado pela
fama de prégador, em 1635, tendo vinte e quatro annos de edade.

A marqueza de Montalvão deu-lhe capellania em sua casa, e accesso á
estima dos fidalgos mais parciaes do rei castelhano. Os sermões de padre
Luiz degeneravam, pelo ordinario, em arengas politicas em prol da
legitimidade dos Filippes, e invectivas ironicas adversas aos
sebastianistas. N'aquelle tempo, tanto os esperançados no vencido de
Alcacer-kibir, como os imaginativos de rei portuguez, eram chanceados de
sebastianistas.

Em casa da marqueza beijara o padre a mão do arcebispo de Braga, D.
Sebastião de Mattos e Noronha, um dos mais esturrados sustentaculos do
dominio hespanhol, e tão execrado dos portuguezes como Miguel de
Vasconcellos.

Affeiçoou-se o arcebispo ao capellão da marqueza, ouvindo-o prégar no
anniversario de Filippe IV, de Castella, e de moto proprio lhe offereceu
o emprego honroso e lucrativo de official do secretario de Vasconcellos.

N'esta posição, e com promessas de boa prebenda na Sé lisbonense, o
sobresaltou a revolução de 1640. Dormia elle ainda o somno do justo,
quando o ministro era espostejado no terreiro do Paço da Ribeira. A
consciencia remordia-o já com os delictos oratorios, já com os aggravos
feitos aos seus compatriotas, sob a egide de ministro despota.
Escondeu-se, portanto, no palacio do arcebispo de Braga, que os
conjurados teriam morto, se rogos de D. Miguel de Almeida o não
salvassem, e se D. João IV, receoso do clero e de Roma, lhe não desse
parte no governo provisorio, defraudando de tamanha honra fidalgos que
jogaram a cabeça, proclamando-o.

O arcebispo, inflexivel á indulgencia do rei, urdiu, travado com outros
da sua estofa, a malograda contra-revolução, a fim de reconquistar a
graça de Filippe IV.

Carteando-se com o conde-duque de Olivares, confiou a mensagem da
correspondencia ao seu commensal, padre Luiz da Silveira, que tres vezes
desempenhara destramente a perigosa empreza, disfarçado em almocreve.

Planeada a tentativa dos conjurados, de accordo com a Junta de Madrid,
chamada da _Intelligencia secreta_, padre Luiz, ou por que desconfiasse
do bom exito, ou por que um leicenço de infamia lhe apojasse na alma,
ou--e seria o mais improvavel--porque o patriotismo o esporeasse,
resolveu delatar os conspiradores a D. João IV.

Outra versão correu explicando a perfidia do padre. Disseram que elle, a
fim de alliciar um antigo parceiro, communicara o segredo da conjuração
a Luiz Pereira de Barros, que tambem servira Miguel de Vasconcellos, com
grande applauso e confiança do ministro; porém Luiz de Barros, como a
esse tempo já fosse contador da fazenda, a revellação do familiar do
arcebispo recebeu-a sem enthusiasmo, promettendo, todavia, reflectir
antes de se alistar nos conjurados. Mas, como quer que o clerigo
desconfiasse que Pereira de Barros denunciasse a conspiração, deu-se
elle pressa na precedencia da protervia e da paga. Não se illudira, por
que D. João IV recebera os dois delatores no mesmo dia, e os enviara
conjunctamente ao seu ministro Francisco de Lucena, e este os mandara ao
procurador geral da coroa, Thomé Pinheiro da Veiga.

Simultaneamente, novas denuncias asseveraram a do confidente do
arcebispo, umas espontaneas, outras arrancadas pela tortura. Dois
capitães, Diogo de Brito e Belchior Corrêa de França, postos a tormento,
confessaram os nomes dos cumplices; não assim o opulento mercador Pedro
de Baeça que, desde o cavalête, em que lhe quebraram os ossos, até o
verdugo bamboar-lhe o corpo dependurado, apenas fallou para offerecer
trinta mil cruzados pela vida, mostrando até final, como bom mercador,
que a vida tambem era mercadoria.

Não podemos attribuir especialmente á delação do clerigo o malôgro da
revolta: tão obcecados de medo de Castella tremiam os conspiradores, que
não viram o carrasco em casa, nem se arrecearam da irreflectida escolha
dos cumplices. No entanto, os pormenores da revolução, que devia estalar
no dia 5 de agosto de 1641, começando pelo incendio do Paço da Ribeira e
assasinio do monarcha, deu-os o padre Luiz, taes quaes os sabia da
confidencia plenissima do arcebispo de Braga.

A 28 de julho, a mais selecta porção de conjurados foi aferrolhada em
diversos carceres; e a 28 de agosto soffreram decapitação na Praça do
Rocio o marquez de Villa Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar, e
o escriptor D. Agostinho Manuel. Quanto aos outros padecentes, por que
eram plebeus, as agonias estiraram-se mais prolongadas, desde o serem
cavalleados pelo algoz, e d'ahi, como ignominia aos vilissimos
cadaveres, começou a estupida ferocia de os arrastarem e esquartejarem.

O amigo do padre Luiz morreu nas masmorras de S. Julião da Barra; o
bispo de Martyria acabou socegadamente no claustro de S. Vicente; o
inquisidor-geral, D. Francisco de Castro, dois annos preso, sahiu
perdoado e d'ahi a pouco reposto em todos os cargos e honras, depois de
accusar, com a promessa do perdão, as particularidades do plano
sedicioso. Este abjecto prelado, que merecera depois a estima de D. João
IV, era esbofeteado, passados annos, pelo principe D. Theodosio, que o
detestava como denunciante dos seus parceiros de infamia. (_Nota 9.ª_)

O padre Luiz da Silveira, dado que el-rei o recommendasse a D. Rodrigo
da Cunha, arcebispo de Lisboa, não tinha ainda, em 1642, recebido
condigno galardão, pois que n'esse tempo esbrugava apenas o escarnado
osso de thesoureiro de S. Miguel de Alfama. O arcebispo D. Rodrigo da
Cunha era homem honesto e verosimilmente despresador do fementido padre
que prégara a legitimidade dos Filippes, e denunciara os seus co-reos na
trama contra a liberdade da patria.

Retrocedamos dois annos na biographia d'este clerigo. Quando, em 1639, o
tanoeiro João Bernardes Traga-malhas resolveu aperfeiçoar a sua filha em
lettra e leitura, já quando a menina, por muito encorpada, corria perigo
em andar na mestra, indagou como cauteloso pae onde houvesse um
sacerdote ajustado ao intento.

Inculcaram-lhe padre Luiz da Silveira, a quem muitos fidalgos confiavam
a educação de suas filhas.

Quiz o Traga-malhas julgar do clerigo pela cara, e desagradou-se da
mocidade do mestre; porém, como pegassem de conversar a respeito da
soltura do genero humano, o official do ministro Vasconcellos tamanhas
lastimas gemeu sobre os peccados do mundo, que o bom João Bernardes
ponderou a sua mulher que o mestre de Maria Isabel era o que elle nunca
tinha visto em padres.

Teria vinte e oito annos, ao tempo, o capellão da marqueza de Montalvão.
Bem apessoado, limpo no trajar, polido pelo trato da melhor sociedade,
sisudo nas fallas, grave e composto com aquelle geito nobre que lhe dera
o pulpito, padre Luiz fez-se, a um tempo, respeitar e estimar da discipula.

Do adiantamento da menina, em materia de escripta, leitura e doutrina,
eram sensiveis os effeitos, e bem provada portanto a aptidão tanto do
professor como da alumna.

Maria Isabel, que até então só conhecia em leitura a _Primavera de
Meninos_, do Brochado, por conselho do novo mestre lia o _Clarimundo_,
de João de Barros, e os _Contos do Trancoso_; e quanto a escripta,
sahiu-se muito habilidosamente imitando os _Exemplares de diversas
sortes de lettras_, de Manuel Barata.

Ora os paes, quando admiravam as rapidas sabensas da filha, graças á
assiduidade do mestre, de certo não sentiam sobresaltos que lhes
agorentassem a satisfação, lembrando-lhes que houvera no mundo uma
discipula muito aproveitada, chamada Heloisa. Se na mente de padre Luiz
chammejaram memorias historicas de Pedro Abeilard, e o demonio da
imitação entrou com elle, é o que vamos deprehender do capitulo seguinte.


VI

Vimos, no capitulo IV, Domingos Leite e Roque da Cunha esquivarem-se
rapidamente á presença do marquez de Gouvêa.

Ao separar-se, o allucinado escrivão murmurou sinistramente ao seu
funesto amigo:

--Conto comtigo, Roque! Se algum de nós faltar ao que deve ao outro,
esse seja infame!

--Seja!--assentiu o sicario de Pedro Barbosa, sacudindo-lhe a mão com a
solemnidade cavalheirosa de um pacto de honra.

D'ali, de Pedroiços, onde o marquez residia, até Lisboa, Domingos Leite
não desfitou as esporas dos ilhaes do cavallo. (_Nota 10.ª_)

Quando apeava no pateo de sua casa, vinha Maria Izabel, ao longo d'um
corredor que conduzia ao jardim, com a menina no collo. A creancinha
festejava o pai, batendo palmas, e exuberando de alegria no riso que
tanto lhe brincava nos labios como nos olhos. Domingos fitou a mãe com
torvo olhar, e apenas de relance olhou para a filha, como se o encaral-a
de fito lhe traspassasse a alma.

--Olha a creancinha como se ri para ti!..--disse Maria Isabel entre
meiga e atemorisada, já quando o marido galgava apressadamente as escadas.

Ella, apesar do susto que lhe arfava o coração, seguiu-o até á
ante-camara. Ahi, Domingos Leite, voltando-se para a mulher, e
repulsando as caricias da menina, disse-lhe com desabrimento:

--Largue a creança, e volte, que preciso fallar-lhe!

--Que modo de me tratar!--acudiu Maria--Tu que tens, Domingos? Que
queres dizer-me? Podes fallar, que a tua filha não entende injurias, se
m'as queres dizer...

--_A minha filha_....--atalhou elle casquinando um froixo de riso por
entre os dentes cerrados; e logo, arrugando a testa e alteando a cabeça
com intimativa, bradou:

--Não me percebe!?

E, arrancando-lhe a filha do collo, sahiu com ella pendente dos braços,
fechando a porta da ante-camara para que a mãe a não seguisse em gritos.

A creança, apesar do repellão, olhava para o pae com a mesma
jovialidade. Domingos Leite, que parecia buscar a quem entregasse a
menina, parou de repente, aconchegou-a do peito, beijou-a, lavou-a de
lagrimas, e, soluçando no seio d'ella, queria talvez evitar que a mulher
lhe ouvisse os gemidos. Deteve-se largo espaço assim, até que uma
escrava, passando acaso, o surpresou n'aquelle lance. Como vexado da sua
fraqueza, Leite Pereira entregou a menina á negra, e, enxugando o rosto,
voltou ao quarto onde Maria Isabel estivera em rogos á Virgem, sem
todavia saber que soccorros lhe cumpria pedir.

Entrou o marido, fechou-se por dentro, travou do pulso de Maria,
empurrou-a para sobre um preguiceiro, sentou-se á beira d'ella, e disse:

--Porque treme? A innocencia não costuma assim tremer!... Porque treme?

--Pois eu vejo-te enfurecido sem saber que mal te fiz!... Sahiste de
casa tão contente commigo...

--Quantas vezes a senhora escarneceu o contentamento com que eu sahia e
entrava n'esta casa? Tinha alegria ou remorso de me enganar com
juramentos sacrilegos, invocando o testemunho de Deus sobre a innocencia
da sua vida de solteira?... Que responde?

--Voltas ás tuas suspeitas antigas...--balbuciou Maria Isabel, menos
affoita do que tinha luctado n'aquella primeira noite.

--Não me irrite com referencias estupidas ás suspeitas
antigas!--redarguiu o marido enfreando as arremettidas da raiva--Diga-me
cá, barregan de clerigo, diga-me que conceito formou de mim, quando,
depois de eu ter sahido d'aquella alcôva na primeira noite de meu
deshonrado consorcio com uma manceba de padre Luiz da Silveira, voltei,
passadas poucas horas, e me ajoelhei a seus pés, pedindo-lhe me
perdoasse a injuria que fizera á sua puresa de menina solteira?

Maria Isabel soluçava uns gemidos que a estrangulavam. Elle arrancou-lhe
as mãos do rosto, e bradou-lhe:

--Olhe para mim! Nada de momos! Responda: que juizo fez de mim n'este
espaço de tres annos em que a tenho tratado com os extremos de noivo no
primeiro dia da sua felicidade? Imaginou que eu fosse um vil, que se
habituou á deshonra, a troco de vinte mil cruzados da sua infame mulher?
Responda, que o seu silencio obriga-me a arrancar-lhe do coração a
resposta!

--Não...

--Não... o quê?..

--Eu nunca te suppuz vil...

--Suppoz-me então enganado?...

--Enganado... não...

--Então, vil... uma das duas coisas... Em que ficamos: vil, conformado
com a deshonra, ou enganado, isto é, persuadido de que tinha casado com
uma mulher honesta?

--Meu Deus!--exclamou ella afflictissima--Matae-me, Senhor!--e punha os
olhos sinceramente supplicantes na imagem de Jesus.

--Pois que suppunha?--insistiu Domingos Leite--Cuidou que a sua devassa
mocidade seria segredo entre Deus e o padre? Nunca lhe gelaram terrores
a alma, prevendo que um acaso viria explicar a rasão que eu tive para a
injuriar poucas horas depois que lhe dei o meu nome honrado e a minha
vida sem mancha? A senhora deve ter tido remorsos de mentir tão
torpemente a um homem que tinha direito a encontrar esposa honrada! Bem
sabia que eu não era marido que se vendesse, e trocasse a ignominia da
pobresa pela ignominia de uma manceba de clerigo com alguns mil
cruzados. Quem a privou de me dizer, quando fallou a só commigo; que na
sua vida havia desaires que a prohibiam de amar um homem de bem?
Recorde-se... Não lhe disse eu que, apesar de lhe querer com toda a alma
d'um primeiro amor, como não acreditava na efficacia dos meus meritos,
reflectisse antes de me acceitar como marido, e não viesse para os meus
braços com o mais pequeno affecto sacrificado á vontade de seus paes?

Maria Isabel prostrou-se aos pés do marido, exclamando:

--Foi verdade...

--Foi verdade!... e a senhora mentiu-me, cobriu-me de lama, fez-me o
successor indissoluvel do padre!.. E que sou eu então diante de si e
diante do mundo? A irrisão dos meus inimigos, e a compaixão aviltadora
dos meus amigos!...

E, levantando-se de golpe, sacudiu phreneticamente a mulher, que lhe
abraçava os joelhos, e, dados alguns passos, parou em frente d'ella,
cruzou os braços, e rouquejou convulsamente:

--Ó miseravel! pôde assim, formosa e rica, aos quatorze ou quinze annos,
resvalar á voragem das loureiras secretas por entre os braços d'um
padre! Amou-o? diga, mulher impudica, amou-o?

--Pelas chagas de Jesus Christo!--volveu ella, ajoelhando-se-lhe
novamente--Eu sei que vou morrer... Se me tu não matares, heide eu
matar-me!. Ai! minha querida filha!... Ó Domingos, não desampares
aquella creancinha que é tua filha!...

--Matar-se!--replicou sarcasticamente--As mulheres na sua condição não
se matam, porque... estão mortas... Quem teve a coragem de se deshonrar
perdeu a força moral que dá a rehabilitação...

--Eu era uma innocente...--soluçou Maria Isabel--Não sabia o que era
deshonra... Passára a minha infancia entre meus paes. Minha mãe era tão
virtuosa que nem me precaveu contra a maldade do mundo...

E, como os arrancos lhe embargassem a voz, o marido, que parecia
ferozmente interessado na confidencia, disse:

--Continue... Vae-me contar por miudos a historia da sua... queda... Conte.

--Oh!.. pelo divino amor de Deus!--clamou ella--que queres saber d'esta
desgraçada?... Eu só soube que estava perdida, quando te amei, porque
então senti que era indigna do teu amor!..

--E não obstante... diga o mais... Conhecendo-se indigna, fez-me descer
na rampa da infamia para me nivelar com a senhora!..

--Pois bem!--bradou ella com vehemente resolução--Esmague-me, que eu sou
punida, e o senhor vingado!

--Heide reflectir...--retrocou Domingos Leite serenamente--Nem todas as
mulheres são dignas de morrerem ás mãos de homens honrados. Entretanto,
dê-me o infernal praser de lhe ouvir contar a historia dos seus
primeiros amores.

E, dizendo, sentou-se, indicando-lhe com um tregeito de cabeça que se
assentasse a seu lado. Ella hesitou; mas um arremêsso de impaciencia, e
duas fortes punhadas que elle deu no espaldar do preguiceiro, incutiram
no animo de Maria Isabel a suspeita de não sahir com vida de tamanha
angustia.

Sentou-se ella, a tremer, com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos
piedosos fitos no perfil do marido.

--Conte lá,--disse elle com os cotovellos apoiados nas pernas, a face
entre as mãos, e os olhos postos no pavimento--conte desde o principio
essa historia... Como foi que o padre lhe fez saber que a desejava, e
como foi que a menina de quinze annos acceitou as doutrinas do mestre.

O dialogo seguido a esta intimação demorou-se meia hora, que devia
figurar-se um dia de tormentos a Maria Isabel: tão dilacerantes cortavam
as perguntas no pudor d'aquella mulher.

Porém, finalmente, no rosto de Domingos Leite Pereira já vislumbravam
sentimentos de compaixão, porque os do rancor tinham posto a pontaria em
outro alvo.

As ultimas palavras d'elle, proferidas com gravidade, mas sem tom de
ira, foram estas:

--D'hora em diante eu continuo a ser seu marido perante o mundo; mas
diante da senhora sou um estranho. Emquanto a mãe de minha filha assim
quizer viver commigo, essa creança, que eu adoro, será sua tambem; mas,
se este viver lhe não quadrar, eu sahirei com minha filha; e farei que
ella nunca saiba quem foi sua mãe. Esta sentença não condemna o delicto
da sua impuresa; condemna o enorme crime de me ter acceitado como
marido. Concorda na minha proposta?

--Sim... concordo... Eu viverei como tua criada, se assim o quizeres;
mas não me tires a minha filha.

--Retire esse tratamento do _tu_--voltou o marido com sobrecenho.--Nem
uma palavra, nem um gesto que indique a maior ou menor alliança de duas
almas que se estimaram, ou tredamente se dissimularam... Esta casa é
bastante grande. Podem viver n'ella duas pessoas sem se encontrarem. A
senhora é rica: administre o que tem: eu não tenho nada que vêr com os
seus bens de fortuna. Ficamos entendidos. Qualquer infracção d'este
pacto, estalará em tempestade sem bonança.


VII

Aquelle mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, attribulado agora
pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da
Silveira, encarecendo os martyrios que lhe arrancaram o segredo.

O thesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e
maldisse a embriaguez que o levou á imprudencia de se gabar d'um delicto
que elle julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe
espumara aos beiços a jactancia de ter sido amado da esbelta Maria
Isabel Traga-malhas.

Trazia elle, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um
beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia
na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi
pessoalmente á côrte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de
estado a promessa do despacho n'um dos seguintes dias.

No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus
haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons
quilates de bellesa, não sabemos se tambem discipula d'elle, se creatura
já amestrada em amores, quando o cauto clerigo a installou na freguezia
de S. Mamede, no _Bêco dos Namorados_,--nome gracioso que desdizia da
immundicie d'aquella escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas,
por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das
extremidades no _Terreirinho do Ximenes_, local azado para amantes
clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das
Ave-Marias.

Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da
Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz
fiava-se na convicção de que ninguem lhe suspeitava a lura, nem por
aquelles sitios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o
seu mêdo era mais de clerigo do que de homem, e o escandalo o assustasse
mais do que a lucta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa
longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, á
hora do costume, sahiu com o intento de conduzir para casa do primo
tendeiro a moça inquilina do _Bêco dos Namorados_.

Meia hora antes de elle entrar no _Terreirinho do Ximenes_,
precederam-no n'aquella paragem, desembocando das _Pedras Negras_[2]
dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e
sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difficil fôra estremar
qual d'elles projectasse a sombra do outro.

--Hade passar aqui ou entrar pelo outro lado--disse Roque da Cunha a
Domingos Leite--A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto
mais arriscado, visto que m'o não cedes. Olha que o padre tem figados,
torno a dizer-t'o... Até logo.

Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao
collegio jesuitico de S. Patricio, e acantoou-se no angulo mais
comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada
traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda
immaculada d'aquelle homem, que se via precipitado a um tal feito; que
nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem
desconhecido, que não o ultrajara, que era innocente nas suas angustias
de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou
infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe
a fama, e assoalhando a deshonra do marido ao sêvo dos seus muitos
inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso officio com
que el-rei lhe premiára intelligentes serviços. O orgulho afinal
amordaçara o instincto da justiça; ainda assim, a batalha travada na
consciencia de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, mettia-lhe
horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem,
cujo nome havia de ouvir dos labios d'elle mesmo; porém, se lhe
negrejava no espirito a horrivel irrisão de encontrar-se rosto a rosto
com o seductor da donzella, que se deixára poluir como um anjo de
alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar ás mãos de um ébrio
furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o
ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a
aproximação da victima.

N'este conflicto, ouviu o estampido d'um tiro, a curta distancia, e um
grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do
_Bêco dos Namorados_. Promptamente reflectiu Domingos Leite que Roque da
Cunha se encontrára com o padre; e, por saber que a arma do seu
confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com elle. Isto
colligia correndo ao longo do bêco, de faca arrancada, e os olhos
cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quaes, a revezes,
resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.

Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina d'aço
contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que
pedia misericordia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa proxima
estrugiam gritos _á-d'el-rei_.

A supplica de misericordia, que padre Luiz da Silveira vociferára,
foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e
quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado
de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.

--O ladrão crivou-me a cara de zagalotes!--murmurou Roque da Cunha--Olha
do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar,
que a barregan não se cala...

Domingos Leite olhou de revez para o cadaver que cahira de bruços,
esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.

--Não vais?!--disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava
da face direita--Tu és covarde ou sandeu, homem?

--Podemos ir que elle está morto...--respondeu tiritando Domingos Leite.

--Podemos ir que elle está morto?--replicou sorrindo--Cá te avirás com o
padre, se ressuscitar--volveu Roque, e sahiu pelo outro lado, descendo a
calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até ás
Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.

Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competencia de experto
boticario, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem
cortar veia importante.

O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho
hespanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao _Beco dos
Namorados_, quando elle, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um
cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse
na figura; porém, ajunctou elle:

--O homem, a trez passos de mim, desembuçou-se, arremetteu commigo,
poz-me a pistola tão perto da cára, perguntando-me quem eu era, que, a
fallar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiencia d'este mundo e a
certeza de que ninguem morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que
fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hasde
tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais
depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é
cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não
brinca. Deu-se com o perro do clerigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem
era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão
do corregedor ámanhã dirá quantas foram. Atirou-me á cabeça ainda antes
que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse
matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da
Cunha! Estás ahi a contemplar-me com uma cara de môço de côro da real
capella, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até ha pouco te
andava ás cavalleiras da honra, te peza agora ás cavalleiras da
consciencia! Vamos a saber: estás contente commigo, ou querias que eu,
em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu
systema de ensinar raparigas?

--Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques...--acudiu
gravemente Domingos Leite Pereira--Eu sou um homem triste como todos os
desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha
felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu
desejo seria tel-o morto, para me apresentar á justiça, e dizer: «fui eu
quem o matou; matem-me, que me dispensam d'um martyrio sem fim!..» E, se
acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador.
Agora, meu amigo, pelo que cumpre á minha obrigação para comtigo, sou a
dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco
vale.

--Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco--respondeu Roque da
Cunha--Ámanhã fallas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou
doente: bem vês que não devo apparecer com o carão esfarrapado. Depois,
trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim,
mandando-me da estalagem do hespanhol do _Largo do Forno_ umas empadas
de gallinha, e do armazem dos _Sete Cotovêlos_ algumas botijas do de
Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando
souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.

Uma hora depois, Roque da Cunha, affeito a dormir em conjuncturas
analogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite
Pereira, entrando em sua caza com todas as precauções para não ser
ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janella para sentir na fronte
esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo ceu estrellado;
e, chorando como nunca chorára, disse entre si:

--Porque sahi eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes
serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha sancta mãe,
que eu fazia mal em deixar a caza, onde nunca chorara alguem até á hora
da minha partida... para este inferno em que estou penando!

Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contiguo ao
quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia
deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do collo da ama,
agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o
rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou
n'aquella tortura misturada com o desafogo aprasivel das lagrimas.


VIII

O assassinio do padre Luiz da Silveira foi explicado por varios modos,
tanto que o cadaver appareceu, no _Bêco dos Namorados_, com dez
punhaladas no peito.

Disse-se que os seus antigos consocios de infidelidade á patria, e
contubernaes em patifarias, receiosos que elle lhes delatasse os
delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o
matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais
plausivelmente, que o padre acabára ás mãos dos vingadores do arcebispo
Sebastião de Mattos e seus cumplices, levados ao patibulo pela delação
do seu ignobil confidente. Outros finalmente accusavam sem rancor, antes
com approvação, um tal licenciado Ruy Pires da Veiga, irmão da manceba
do clerigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram n'ella a
menina que, dous annos antes, desapparecera de casa de sua familia
honesta e abastada.

Instaurou-se a devassa.

O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na
corregedoria foi aquelle mercieiro, primo do clerigo morto. O testemunho
deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira
respeito á esposa do escrivão do civel da corte, illucidava cabalmente a
morte do padre Luiz.

No entanto, o escrivão do civel da corte continuava a exercer o seu
officio, Roque da Cunha tambem, e ambos desassombradamente fruiam os
seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não succedeu o mesmo com Ruy
Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da
mulher teúda e manteúda do clerigo, quer receoso de que o prendessem por
suspeito do homicidio.

Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandára suspender a
devassa. Os politicos inferiram d'ahi que na morte do antigo official de
Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga,
havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.

Volvido um anno sobre a morte do thesoureiro de S. Miguel de Alfama, Ruy
Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo
que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, appareceu
na côrte a defender-se da calumnia. A voz publica, espicaçada por este
novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o
mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas
voltas, divulgadas por toda a cidade.

Estes murmurios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia
quem era o assassino directo ou indirecto do clerigo.

O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que
lhe prestára nos passos anteriores á sua acclamação, principalmente nos
tumultos de Evora e recovagem de recados a Madrid e a Villa Viçosa, já
pelos creditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mór
marquez de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução
das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite
por que o delicto do padre, seductor da discipula, lhe era odioso; e a
circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente,
não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.

Perguntara o rei ao marquez de Gouvêa, quando se viu forçado a dar
satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que
sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquez respondeu que
o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso,
nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver
domestico:

--Mas vivem com apparencia de bem casados...--observou maliciosamente
o rei.

--Um viver mais horrivel que a separação com escandalo publico, real
senhor!--disse o marquez.--Ha um anno sei eu que nunca mais se fallaram
nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora.
Uma vez unica me fallou da sua desgraça, bem que me não desse novidade;
porque eu, antes que elle a conhecesse, já a sabia das atoardas
publicas, auctorisadas pelas gabações do clerigo. Então, n'essa vez
unica em que Leite Pereira desafogou commigo, lhe ouvi dizer que pensava
em sahir da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas
que o não faria sem levar comsigo a filha; receava, porém, que a mulher,
irritada por se lhe tirar a filha, desse occasião a divulgar-se um
opprobrio nocivo á creança que elle queria defender da deshonra da mãe.
Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal proposito, incutindo-lhe
sentimentos generosos de perdão á esposa por amor da filha. Este
argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu
ver, era indigna de misericordia tal mulher que, depois de o ter
enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre
ninguem melhor do que ella poderia explical-a, em vez de viver
amargurada do despreso do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas
ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que
despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e
riqueza...

--Tenho ouvido dizer que é muito formosa...--atalhou o rei.

--Não ha em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Magestade
viu mais galante mulher, sendo a côrte da rainha, minha senhora, a mais
selecta de bellas damas!

--E o seu procedimento?

--Apparentemente bom--respondeu o mordomo-mór sorrindo--Digo
apparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa
o padre Luiz, nem Vossa Magestade crê que tão sómente os mestres de
meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas
avezinhas innocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram pennas
das azas na esparrela, hade ser difficil fazel-as entralhar sem que
ellas se guardem de perder a plumagem.

--Assim parece--assentiu o rei--Seja como for, Domingos Leite andaria
melhor avisado se sahisse da côrte logo que vingou no padre a aleivosia
da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram
já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque
bastante causa dera o padre a ser castigado; e, alem disso, ás cegueiras
do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos
matadores que matam de animo frio. É tambem culpado na morte do padre,
como o marquez deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo á sombra
de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que máo homem é,
desde que ha seis annos me denunciou Mathias de Albuquerque por motivos
de odio pessoal. Mas este e outros eguaes membros gangrenados não os
posso amputar cerces, em quanto preciso me for espiar uns infames com
outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade,
não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquez sabe a razão
porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite.
Porém, desde que Ruy Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e
passeia em Lisboa desmentindo e affrontando o boato, que lhe assacava a
morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar
meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquez
ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o
serviu na sua vingança, que se retire tambem, se Domingos Leite deseja
salvar o cumplice. O julgamento de Domingos Leite correrá os seus
tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da patria.

O marquez de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao
rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem
dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão
carregado e resoluto semblante, quanto, antes de acclamado, era com
todos os fidalgos ameno de tracto e docil aos votos alheios.

Bem quizera o amigo e protector de Domingos Leite rogar ao menos a
delonga da partida, e n'esse intuito começou perguntando ao monarcha se
era forçosa a sahida do seu secretario ainda n'aquelle mez de fevereiro,
que ia em começo.

O rei respondeu:

--É ámanhã que deve sahir; porque depois de ámanhã fecha-se a devassa,
infalivelmente.

O mordomo-mór beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão
ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas
arterias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco
d'aquella alta vergontea que cahiu com a corôa ducal de Aveiro sob a
lamina do algoz em 1759.

Sahiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu
gabinete. Referiu-lhe o que se passára com el-rei, deplorando a
fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.

Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.

--Agradeço a sua magestade--disse elle--a permissão de levar commigo o
homem que associei ao meu funesto desaggravo. V. Ex.ª sabe que eu me
furto ás penas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta
para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha
filha--unico amor que me ficou ao de cima d'este abysmo em que me vejo
precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me
sinto perdido, e morto, peor que morto, se heide no exilio agonisar de
saudades d'aquella creancinha...

--Eu olharei por ella--consolou o marquez--Se não vier tão depressa
quanto eu desejo, sr. Leite, creia que heide conseguir mandar-lhe sua
filha, logo que ella esteja creada.

--Não mande, sr. marquez...--acudiu Domingos Leite.

--Que não mande?! Porque não?..

--Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com
minha filha...

--Pois vm.ce não é rico?

--Eu tinha bom officio, e os grandes salarios que v. ex.ª me dava.
N'este momento deixei de ser o escrivão do civel da côrte e o secretario
do mordomo-mór. Sou um assassino sem patria. Verdade é que meu pae, o
cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que sahisse da forja e
descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda
trabalha: mas eu não sei se elle enviará a um filho apregoado assassino
o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apezar das suas
supplicas...

--Mas...--atalhou o marquez--O sr. Leite, desde que casou, tem parte no
grande patrimonio de...

--De Maria Isabel?--acudiu com vehemente repugnancia o
secretario--D'essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu
desdouro. E quando eu pensava que a minha honra havia de sahir depurada
d'este fogo que me devora desde a noite em que vi o cadaver do padre,
afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto á desgraça de
perder uma mulher que adorava, tres grandes infortunios: não terei de
hora ávante patria, nem filha, nem meios de que viver com honrada
independencia. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr.
marquez. Aqui mesmo, se v. ex.ª me permitte, escreverei a meu pae, a fim
de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas
mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso
que eu diga a meu pae que tenho um grande crime; mas que em minha
consciencia não perdi o direito de lhe supplicar a esmola que os
encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.

O marquez enxugava as lagrimas, emquanto Domingos Leite Pereira
escrevia, parando a cada palavra a penna, á espera que as palpebras
embebessem o jorro das lagrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o
extremoso pai:

--Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não
posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a
v. ex.ª buscar e falle-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte
de angústia, sr. marquez! Eu queria que ella me não esquecesse; e, a não
ser v. ex.ª, quem lhe fallará de seu pai!..

--Vá com a certesa de que heide mandar buscar a sua filha muitas vezes,
e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vêl-o
hoje á noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do
seu velho e inutil amigo.

Debalde o esperou.


IX

Elle disse que não teria animo de se despedir da filha. Animo de partir
sem vêl-a é que elle não teve.

Sahindo do palacio do marquez seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e
travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos tôrvos e
cheios de lagrimas, entre os dous caminhos. Em uma d'essas paragens de
dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta,
mão na ilharga, consciencia tranquilla no aspecto ridente.

Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe offegante:

--Ámanhã sahiremos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te.

--Então que ha?

--Uma ordem de prisão é o que vae haver contra nós. Fecha-se ámanhã a
devassa.

--E para onde vamos? já resolveste?

--Para Hespanha.

--Está claro. O meu dinheiro são oitenta cruzados; mas tu vaes assombrar
Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros.

--Eu tenho de meu ainda menos do que tu--respondeu Domingos Leite com
severidade--Escrevi a meu pae pedindo-lhe alimentos; se elle m'os não
der, veremos em que trabalho a Providencia m'os depára.

--A Providencia, amigo Leite,--replicou o folião--não tem n'este mundo
secretario das mercês conhecido, a não ser o padre santo. Este anda ás
avessas com portuguezes, e não me parece que deva ser assaz amigo de
quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um
portuguez pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas
não esmoreças se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e
bordão de peregrino. Lá está em Madrid minha mãe. Se ella me reconhecer
e não tiver pejo de me haver gerado, não nos hade faltar boa meza em
casa de meu padrasto o desembargador do Paço Francisco Leitão...

--Não percamos tempo--interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom
jovial do interlocutor--Á noite, serei em tua casa, e de manhã partiremos.

--Olha lá, Domingos Leite,--volveu Roque, cingindo-lhe o braço pelas
espaduas--conselho de amigo que anda cá n'este vale de lama ha quarenta
e oito annos...

--Que é?

--Não deixes a mãe de tua filha á matroca, com lastro de vinte mil
cruzados na falua, e vinte e dois annos de edade, e com mais tentações
no rosto que todas as moiras juntas em noite de S. João. Convento com
ella, ouviste?

Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois
segundos:

--Que me importa isso a mim? Sabes que, ha um anno, vivo ao lado da mãe
de minha filha, como se entre nós se mettesse a pedra que separa duas
sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu despreso.
O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro não a lavava da mancha
indelevel de donzella que foi as delicias d'um padre. Eu sentia por ella
alguma coisa mais implacavel que o odio: era o nôjo. Que me faz a mim já
agora que essa mulher cave com as proprias mãos mais um palmo no seu
abysmo de lôdo?

--Palavrorio!--replicou o quadrilheiro--Se tua mulher te não fosse leal,
enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez á mulher por causa de outro
clerigo da casta do padre Luiz da Silveira. (_Nota 11.ª_) Contava-me o
caso minha avó, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas
adulteras.

--Acabemos esta semsaboria...--cortou Domingos Leite com trejeitos
desabridos--Cuida de ti, e não entrevenhas nas coisas alheias da tua
alçada...

--Intervim de mais...--murmurou Roque estomagado do repellão--Cá vou
tratar de mim, amigo Leite... Sempre será bom que me não ponham a prumo
no logar onde eu puz o padre de bruços, por intervir de mais nas coisas
alheias da minha alçada. Até á noite.

Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua
impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfação
das palavras rudes; mas Roque da Cunha estugára o passo, como quem ia
mais preoccupado da devassa que da offensa.

Este incidente carregou mais a treva d'aquella alma. Zoavam-lhe
estridores metalicos na cabeça, e confragia-se-lhe a fronte crivada de
dores como se esgarçassem por ella os espinhos mordentes de uma corôa. A
revezes, parava, porque o respirar lhe dava afflições, ou o pavimento se
lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, á Porta do
Salvador, sentou-se no escabello do pateo, e arquejou largo espaço,
olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha,
se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da
Cunha.

N'este comenos, entrava Maria Isabel, vinda de fóra, com a creancinha
pela mão.

Estremeceu dando de rosto com o marido. Leite Pereira, ao vêl-a, ainda
se esforçou por evital-a; mas a filha corrêra contra elle, com os braços
abertos, balbuciando palavras cariciosas. O pae sentou-a sobre os
joelhos, e rompeu em alto choro, que a menina acompanhava em gritos,
affagando-lhe as faces e beijando-lh'as com ternissima anciedade.

N'isto, levantou-se de golpe, aconchegou do seio a filha, e subiu
acceleradamente as escaleiras.

Seguiu-o Maria Isabel, sinceramente consternada, dizendo-lhe palavras
maviosas; e, quando elle entrava no seu quarto e fazia menção de se
fechar por dentro, a mulher, arrostando o perigo de soffrer o embate da
meia-porta, rompeu de poz o marido, e, pondo-se de joelhos, exclamou:

--Se podes ser mais feliz com a minha morte, peço-te que me acabes de
uma vez!.. Eu já não posso com o teu despreso; tenho procurado viver por
amor desta creança; hoje creio que ella já não precisa de mim, visto que
tu a amas, e a Virgem do céo attendeu os meus rogos. Desde que me
abandonaste, não cessei de pedir a Deus que te voltasse o coração para a
nossa filha, embora eu fosse a odiada. Agora que o meu querido anjo tem
o teu amparo, peço a Deus que me tire d'este supplicio; peço-te a ti que
me dês uma morte bem rapida, de modo que eu não possa vêr na minha
agonia de morte esta menina a chorar!...

Domingos Leite, que havia sentado a filha sobre o leito, ouviu a
exclamação de Maria Isabel, fitando-a com terrivel immobilidade de
olhos. E, quando ella acabou a supplica, e parecia de mãos postas
esperar a morte, o marido, avançando para ella os dois passos
interpostos, disse-lhe com serena voz:

--Levante-se e escute-me!

Ella ergueu-se encarando-o espantada, e abeirou-se do leito em que a
menina, de pé e tremente, relançava olhares espavoridos entre o pae
e a mãe.

--Sou obrigado a desterrar-me, senhora!--disse elle pausadamente--Á
mulher, que fez da sua mocidade o opprobrio do marido, e que fez do
marido um assassino, é preciso que eu n'esta hora lhe diga que ámanhã a
justiça me pedirá contas da vida d'um homem que devia morrer, visto que
elle matára a honra da mulher de Domingos Leite. Vou homisiar-me, e não
mais voltarei a Portugal, porque vae commigo a ignominia que lá fóra me
hade espedaçar...

--Ó Domingos...--exclamou Maria Isabel--Ó filho do meu coração, leva-nos
comtigo!..

--Não me atormente com interrupções frivolas!--obstou elle mal
assombrado--Deve saber, senhora, que eu vou sahir de sua casa
extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que hontem recebi
dos meus ordenados. Hade encontrar de portas a dentro tudo que seus paes
lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude accrescentar com os meus
recursos. Se alguem na sua presença me alcunhar de homicida, não me
defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da
patria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue,
senhora, porque eu fui cinco annos seu marido, e não toquei em um
cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta creança tivesse a
necessaria intelligencia para me ser testemunha da minha pobre honra,
por essa parte illesa! Oxalá que depois da minha morte esta menina
podesse dizer que seu pae foi um desgraçado sem nodoa na sua probidade!..

Fez uma dilatada pausa, porque os soluços lhe cortavam as palavras,
emquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braços, lhe ajoelhava outra vez.

--Não serve de nada essa humildade, senhora!--volveu elle com desalento
e desesperação--Levante-se; peço-lhe que se levante, se alguma pena tem
de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa mãe... que ame esta creança,
que reduza a sua existencia em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu
lá do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique á minha filha.
Expie a sua culpa, formando-lhe o coração com as virtudes que até as
mães pessimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faça
tudo que entender preciso para que sua filha não leve com um pouco de
ouro um grande cabedal de infamia a seu marido. Vigie-lhe os passos da
mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, não tenha de apartar-se
d'ella com o ferrete de assassino na fronte. Não tenho mais que lhe
pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe.

--Não, não te deixamos...--tornou a esposa--Ó Angela, ó minha querida
filha, pede com as mãos erguidas a teu pae que nos deixe acompanhal-o!

A creança ajoelhou, supplicando:

--Deixe, deixe, meu pae!..

Domingos Leite poz na mulher um olhar enfurecido, fez arremêço de
indignação, e bradou:

--Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim,
como heide eu dar-lhe vida de esposa, fazel-a minha companheira do
desterro, quando a justiça me persegue porque eu lhe matei o amante?

E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a
filha, travou d'ella com impeto phrenetico, ergueu-a á altura dos
labios, e murmurou:

--Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!..

E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de
uma cadeira, bradou-lhe:

--Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar só a ella?..

--Meu Deus!--exclamou a mãe.

--Diga, diga!--instou elle com crescente vehemencia--Fica-lhe tudo,
riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Angela... Não deixa?

--Não posso, não posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!..

--Que a mate!.. Olhe que eu não tenho sangue nas minhas mãos, mulher!..
Veja-as, que estão limpas... eu levo sobre a consciencia o peso de uma
enorme vergonha; não levo o peso de um cadaver, percebeu-me?... Pois
cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as d'um
carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu anno e meio n'esta mesma
casa, sem vêr a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu
aqui, e d'aqui sahia todas as manhãs com apparencias de feliz, para que
o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de...

Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de
Angela, parecia indeciso sobre a intelligencia da creança.

--Ó infindo tormento!--clamou Domingos Leite apertando a cabeça, e
debruçando-se prostrado sobre o leito.

N'este lance, Maria aproximou-se do marido, poz-lhe a mão no hombro, e
murmurou:

--Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha.

--O quê?! bradou elle, erguendo-se.

--Leva a creança. Queres ir com teu pae, Angela?

A menina deteve-se a responder, olhando para ambos alternadamente.

--Queres ir commigo, filha?--perguntou o pae.

--E a mãe tambem vae?--disse a menina assustada e irresoluta.

--Eu vou-me embora, e nunca mais volto--tornou o pae--Não me tornas a
vêr. Queres ir com o teu pae?

--E não torno a vêr a mãe?

--Hasde vêr, menina--acudiu Maria Isabel engulindo as lagrimas--Tu
depois has de pedir ao pae que me deixe ir vêr-te, sim?.. pedes, filhinha?

Angela, sem perceber a profundesa do trance que ali se passava,
abraçou-se na mãe, chorando. Domingos Leite cruzou os braços
contemplando mãe e filha que se estreitavam num abraço convulso como o
estorcer de suprema angustia. Volvidos alguns segundos, disse com o
desanimo d'alma emfim sossobrada:

--Irei só. Tu ficas, Angela. Deus não quer que o anjo de innocencia vá
nos braços d'um pae homicida mendigar o pão de estranhos. Não deves ter
quinhão do meu castigo, pobre menina!... Agora, peço de novo á sua
compaixão... Maria Isabel... que leve sua filha, e me deixe só...

A esposa sahiu com vacilantes passos, levando a menina á força. Domingos
Leite volveu de novo a beijal-a, e impelliu-a brandamente para fóra do
quarto. Depois, correndo a lingua da chave, voltou-se para um Senhor
Crucificado, e disse mentalmente:

--Forças, meu Deus! Guardae-me os maiores tormentos para o desterro, e
dae-me alento n'este lance!


X

Quando se divulgou em Lisboa que o escrivão do civel, secretario do
mordomo-mór, desapparecera com Roque da Cunha, duas opiniões se formaram
ácêrca do successo estrondoso.

Quanto a Domingos Leite, dizia-se que, tendo o santo officio, no começo
d'aquelle anno de 1647, aferrolhado nos seus carceres alguns sujeitos
amigos do escrivão, este, receando sorte egual, se evadira. A
criminalidade dos réos presos era suspeita do _peccado infame_ (veja
_Larraga_, passim); porém, o delito que o vulgo attribuia ao marido da
Traga-malhas era de menos impudica especie: dizia-se que o fugitivo
andava gafado de herezia, e dava noticia de livros lutheranos
procedentes de Hollanda. Os propagadores do boato, querendo explicar a
fuga simultanea de Roque da Cunha, asseveraram que elle se passara a
Madrid, onde vivia sua mãe, D. Vicencia Corrêa, loureira famosa de
Lisboa, antes de ser casada com Francisco Leitão, o Guedêlha, que tinha
sido do conselho de Portugal em Madrid, de boas avenças com o usurpador,
e, como renegado incontricto, lá se ficara contraminando a restauração
do reino. (_Nota 12.ª_)

Poucos dias passados, avultou mais acirrante explicação da fuga, que
necessariamente ressumou do tribunal ou das testemunhas da devassa.

Affirmava-se que Domingos Leite matara o padre Luiz da Silveira,
coadjuvado pelo facinoroso meirinho Roque. A causa da morte fundavam-a
na jactancia do padre em ter corrompido quando muito moça a sua
discipula, que depois casou com Domingos Leite Pereira. Accrescentavam
os mais imaginosos que o padre lhe escrevera depois de casada, e ella
dera a carta ao marido. Sahia então um dos mais enfronhados em segredos
de palacio, e explicava que el-rei, por não affrontar a memoria do
clerigo, julgando racionavel a indignação do marido, avisara ao marquez
de Gouvêa para que este obrigasse Domingos Leite a expatriar-se. A voz
commum, afinal, era que o escrivão do civel da côrte ia caminho de Roma
a negociar sua absolvição, e que Roque da Cunha estava em Madrid,
vendendo barata a Filippe IV, por intermedio de D. Vicencia, a damnada
alma.

Pelo que respeita ao matador de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira,
a opinião publica ferira certeiramente o alvo. A esposa do desembargador
do paço, bem segura da indulgencia do marido, quando Roque lhe escreveu,
noticiando a sua chegada a Madrid, não renegou o fructo de suas
entranhas, ou por escrupulos de velha temente ao diabo com quem andara
muito mana quando rapariga, ou por medo á lingua do filho, que desde os
dezoito annos se emancipara envergonhando-a com suas turbulencias e
gandaices.

A filha da celebrada Barbara, em cujo bordel, na rua dos Cabides, os
abastardados fidalgos de D. Sebastião, velavam as armas com que se
infamaram em Alcacer-Quibir, orçava então cêrca dos oitenta annos; e,
não obstante edade tão avêssa de aspirações, era ardentissima
faccionaria de Castella, e gosava-se de ser o cabresto de seu marido, o
doutor Guedêlha, em cuja casa reunia os fidalgos portuguezes que ficaram
em Hespanha, depois da acclamação do duque de Bragança, ou lá se
foragiram, depois do supplicio dos conjurados de 1641.

Roque, historiando á mãe, na presença de Diogo Soares e do Conde de
Figueiró, o motivo da sua fuga em companhia de Domingos Leite Pereira,
não allegou fraudulentamente designios politicos: acingiu-se á verdade,
calculando que seria bastante recommendação para ambos o terem
apunhalado Luiz da Silveira, muito conhecido do ex-secretario Diogo
Soares, no tempo em que a recovagem da correspondencia de Madrid com o
arcebispo D. Sebastião de Mattos era desempenhada habilmente pelo padre.
Sabia-se lá que o confidente delatara os conjurados. A nova da sua morte
mysteriosa, receberam-na os fidalgos expatriados jubilosamente, e não
menos grata lhes foi a presença dos vingadores das victimas do traidor.
Além d'isso, o desforço do marido de Maria Isabel foi encarecido como
feito de fidalgos espiritos; e tanto que, o velho Francisco Leitão, que
só sahia do seu palacio para o d'el-rei, foi pessoalmente visitar
Domingos Leite, e apresentar-lhe o habito de cavalleiro da ordem de
Christo, com que a magnanimidade de Filippe IV o agraciava pelos motivos
honrosos que o desterravam.

Quando o desembargador procurou o brioso portuguez na estalagem, estava
com o fugitivo um homem entre cincoenta e sessenta annos, vigoroso,
encorpado, vestido de baeta, e coberto de tabardo de borel.

--Pelo vestido, parece-me portuguez do Minho do nosso Portugal, este
homem:--disse Leitão a Domingos Leite.

--É meu pae; chama-se Antonio Leite; é de Guimarães, cuteleiro de
officio. Avisei-o de minha fuga, pedindo-lhe meios para subsistir em
Madrid. O meu pobre pae veio trazer-m'os, e volta para a sua forja.

--V. m.ce não precisava de pedir recursos a alguem, sabendo que estão
aqui portuguezes. E voltando-se para o cuteleiro, proseguiu:--Bom pae,
escusa de mandar dinheiro ao seu honrado filho, que nada lhe hade faltar
em Madrid.

--Mercês, meu senhor--respondeu Antonio Leite--mas, em quanto eu poder
lidar na officina, o meu Domingos, querendo Deus, hade viver do que é
seu. Só tenho este filho; e, graças ao Senhor, ainda sinto braços para a
bigorna. Oxalá que o rapaz nunca me sahisse de casa; que, a esta hora,
não andaria por terras alheias...

--_Terras alheias!_...--objectou o velho ministro de Filippe III.--Não é
terra alheia Hespanha; hespanhoes todos nós somos...

--Nemja eu!--acudiu o cuteleiro--nem meu filho o hade ser, sem a minha
maldição. Tanto eu como elle nascemos na rua de Infesta, em Guimarães,
onde tudo é portuguez, desde que lá nasceu e se baptisou o primeiro rei
de Portugal.

Francisco Leitão espirrou uns jactos de riso zombeteiro, e regougou por
entre os insultos do catharro caquetico:

--Estas abusoens do povo, filhas da ignorancia, ainda mal que nos trazem
divididos os filhos do mesmo tronco visigodo, e teimam em fazer nação um
retalho de Castella, que já valeu muito sobre o mar, mas que pouco monta
em terra firme. Meu honrado homem de Guimarães, dou-vos de conselho que
não façais alardo do vosso patriotismo em Madrid, agora principalmente
que tendes cá o filho, bem acolhido nos braços dos seus compatriotas,
quando os compatriotas de lá o exterminam, e o enforcariam, se o
houvessem ás mãos...

--Mas, sr. desembargador--interrompeu o vimaranense--o meu filho não tem
crime de ir á forca; á forca devia ir o outro que...

--Meu pae--atalhou Domingos Leite, obstando referencias á causa do
homicidio--o sr. desembargador não me accusa, para que meu pae me
defenda. Isso pertence á justiça, que não se hade ver embaraçada com a
minha defeza.

--Nem v. m.ce com a condemnação--accrescentou o ex-conselheiro de
Portugal em Madrid.--Se em Lisboa os desforços das almas nobres são
punidos como os crimes dos facinorosos de profissão, el-rei nosso senhor
Filippe IV galardoa Domingos Leite Pereira com o habito da ordem de
Christo, e admira-se que o duque de Bragança tão indignamente
remunerasse a intelligencia do secretario do marquez de Gouvêa, alentado
villão que se lhe vendeu pela mesma causa, que ainda se hade vender a
el-rei de Hespanha.

--O sr. marquez de Gouvêa--observou Domingos Leite--não se vendeu.

--Então deu-se de graça como quem não achou comprador?--replicou o
sarcastico Guedêlha, casquinando a sua asperrima risada.--Está v. m.ce
bem informado. D. Manrique, filho do castelhano conde de Portalegre, não
se vendeu: atraiçoou o rei que lhe deu a coroa de marquez. Mais infame,
por consequencia, que os vendidos; que estes tem a desculpa da
necessidade subornada pelo ouro; em quanto o marquez de Gouvêa se
infamou gratuitamente.

Pereira Leite submetteu a replica ao respeito devido á provecta edade do
conselheiro, e desviou a pratica incommoda, pedindo licença para não
acceitar a mercê do habito de Christo.

--Porque não?--sobreveio o desembargador.

--Porque as honras, sem a procedencia dos serviços, não lisongeam o
agraciado, nem grangeam a consideração publica. Eu, como v. s.ª sabe,
sou pobre. Está aqui meu pae de quem me soccorro, falta-me posses para
me ostentar, e contentamento para me prezar em mais do que valho.
Digne-se v. s.ª ponderar a sua magestade a minha situação qual ella é. O
meu prazer, se algum posso haver n'este mundo, é a obscuridade, a
solidão, o chorar tudo quanto perdi, e mais que tudo uma filha, que era
toda a minha vida, e brevemente me será a morte...

--Sei isso;--interrompeu Francisco Leitão--já tudo nos contou Roque da
Cunha; e minha mulher disse logo que a sua filha hade vir para a nossa
companhia; e, desde menina, hade pisar as alcatifas do paço.

--Beijo as mãos de v. s.ª e de sua illustrissima esposa--disse commovido
e grato Domingos Leite, desafogando em esperanças a saudade que lhe
apertava o coração.

--Havemos de gizar o melhor modo--prosegiu o ministro--de trazer sua
filha a Madrid, quer a mãe queira, quer não queira. V. m.ce tem um
amigo capaz de tudo que é difficil. Se Roque da Cunha tentar trazer-lhe
sua filha, vae a Portugal, e só não voltará, se os carrascos do duque de
Bragança tiverem grande faro e grande sêde de sangue. Entretanto, se me
deixa dar-lhe um conselho de amigo, de ancião, e de homem, que ha
cincoenta annos lida com o capricho dos reis, digo-lhe que acceite o
habito de Christo, e não perca azo de ajoelhar a sua magestade,
agradecendo-lh'o. Lembre-se, emfim, sr. Domingos Leite, que D. João de
Bragança, podendo rasgar a sua devassa, como rasgou tantas outras de
inimigos pessoaes que se lhe venderam, ordenou ao mordomo-mór que lhe
impozesse o desterro, como quem diz: «escolher entre o exterminio e o
patibulo!» Bom amigo! raça de Bragança pura! couce de quartão gallego em
quem o affaga, e orelha cahida ao ver o látego na mão do potreiro...
Conhecemos de ha muito quem são os Braganças: por uma linha coito
damnado, pela outra o lavrador de Veiros que não se tosquiou, desde que
o bastardo de Pedro I lhe pegou da filha para fabricar em ella uma
vergontea ducal. Ora bem... estou cansado de taramelar, meu amigo e sr.
Leite. Vou-me com Deus, e cá deixo á apreciação do seu espirito
intelligente estas phrases que, bem espremidas, hão de estillar muito
succo. Medite-as, e... seja esperto, porque o facto de ser infeliz não o
força a ser inepto. Sem mais. Escuso dizer-lhe que o deixo na obrigação
de me visitar. Minha mulher quer conhecel-o, e perguntar-lhe por certas
fidalgas das suas relações. O nosso grande amigo D. Rodrigo da Cunha ha
quatro annos que foi dar contas a Deus do logro que pregou ao povo,
fazendo cumplice das suas tramoias o braço do Senhor Crucificado. Quem
diria que um prelado de tantas lettras havia de socorrer-se de tamanhas
trêtas! E aquillo feito por um politico, derrancado pelo mimo com que
el-rei nosso senhor o tratou a elle e a toda a parentella! Emfim, adeus;
que eu, se começo a bacharellar, não despego d'aqui. Eu lhe contarei
quem são os faccionarios do duque de Bragança; e, se Deus quizer, cêdo o
convencerei de que o fidalgo mais facil de vender Portugal a Castella é
esse a que lá chamam rei. (_Nota 18.ª_)

Na ausencia de Francisco Leitão, o cavalleiro da ordem de Christo olhou
para a cara espantada do pae, e disse tristemente:

--Por desgraça, este inimigo de Portugal disse verdades horriveis. Eu
sei que ha torpezas reconditas nas secretarias dos ministros de D. João
IV: e, se essas são sabidas em Madrid, o edificio de 1640 hade vir a
terra, derribado pelos mesmos que o levantaram. Ainda assim Deus sabe
que eu desejo morrer debaixo das suas ruinas. Prouvera ao ceo que eu não
estivesse em Madrid no dia em que a nossa querida terra hade ser juncada
de cadaveres do povo; do povo sómente; que os fidalgos esses hão de ter
novas cedulas em aberto como no tempo...

--Em que teu avô morreu na hoste do sr. D. Antonio--atalhou o pae--e eu,
se Deus até lá me der vida, não hei de ver soldados hespanhoes no
castello de Guimarães. Domingos!--proseguiu o artifice com
vehemencia--não me ponhas essa venera ao peito; deixa-me primeiro fechar
os olhos; e, depois, cá te avêm com a tua vida; que eu não veja isso,
nem ouça lá dizer aos meus visinhos que tu és castelhano.

--Não ouvirá, meu pae...--refutou o filho.--Mas attenda á minha situação
de foragido, em meio dos encarniçados inimigos dos bons portuguezes. Se
eu campar de patriotismo em Madrid, de certo não terei amigo que me
avise para fugir d'este reino para outro. Procederei de modo que não dê
suspeitas a Portugal nem a Hespanha, até que um dia possa ir
obscuramente morrer á casa onde nasci...

--Irás, meu filho--atalhou o cuteleiro, debulhado em lagrimas--Eu d'aqui
vou direito a Lisboa, e irei lançar-me aos pés de el-rei...

--Não dê similhante passo--despersuadiu Domingos Leite.--Dois homens
unicamente poderiam dominar o animo de D. João IV. Um, o mordomo-mór,
rogou e foi seccamente desattendido; o outro é o alcofa do rei, Antonio
Cavide, o secretario de estado, que me odeia, porque eu ousei censurar
ao ouvido de quem me denunciou, que um ministro da sua polpa andasse
negociando com as açafatas do paço os amores do seu rei. Desista do seu
intento, que é humildade e abjecção inutil. O que eu lhe rogo é que vá
ver minha filha....

--Não!--objectou o velho tregeitando um gesto de indignado.

--Porque, meu pae?

--Porque terei de ver a mãe! Não hei de ver essa mulher que te fez
desgraçado! A creança não tem culpa; é verdade; mas, se eu lá for, parto
a cabeça da mãe contra uma parede!

E, dizendo, estirava os ligamentos das mãos e arqueava os dedos, como se
entre elles sentisse a cabeça da nora.

N'este comenos entrou Roque da Cunha, galhardeando capa e sombreiro
novos, espada no telim, meias de seda, gibão de passamanes, calças
golpeadas, e um tregeitar de corpo que denotava estar lá dentro uma alma
espanejando-se em jubilos.

--Soube agora mesmo--exclamou com alvoroço o filho de D. Vicencia--que
estava aqui teu pae. Venha de lá esse abraço!--proseguiu Roque,
estreitando ao peito o cuteleiro, que se deixou abraçar impassivelmente.

--Este é o meu amigo Roque--interveiu Domingos apresentando-lh'o.

--Ah!--disse o velho, abaixando a cabeça, sem lhe desfitar os olhos onde
se espelhava a desagradavel impressão que lhe incutira o aspeito do
cumplice de seu filho.

--E amigo como poucos!--confirmou Roque--Amigo como nenhum! Amigo como
eu só sei ser, quando os homens cá me chegam ao coração.

--Sim, senhor...--balbuciou Antonio Leite, forcejando por sopezar a
antipathia que os gestos e maneiras do homem lhe oppunham aos
transportes de gratidão, proprios da conjunctura.

--Teu pai está sorumbatico, ó Leite!--observou Roque, despeitado da
recepção fria do velho.

--Está triste...--explicou o filho.

--Porque?!--volveu o jovial enteado de Francisco Leitão, fazendo
posturas gymnasticas e reviravoltas.--Triste devia o nosso velhote
estar, se em vez de vir a Madrid visitar um filho, cavalleiro da ordem
de Christo, o houvesse de ir visitar a Lisboa, ao Limoeiro, d'onde
alguns cavalleiros costumam sahir para dar cavallaria aos carrascos. Por
que está v. m.ce triste? Diga lá! Cuida que em Hespanha não medra a
melhor gente de Portugal? Tem medo que o seu filho soffra privações em
uma nação, onde é recebido nos braços de um desembargador do paço, e
coberto com o manto de cavalleiro que el-rei Filippe IV lhe manda,
sabendo que Domingos Leite Pereira foi o discursador fogoso nos tumultos
de Evora, e um dos mais estrondosos gritadores da acclamação do duque de
Bragança?...

--Legitimo rei dos portuguezes--accrescentou o cuteleiro, baixando
reverentemente a cabeça.

--Isso agora--replicou Roque da Cunha--é questão que nem v. m.ce nem eu
decidiremos, em quanto não tivermos gráo de doutores de Salamanca.
Deixemos esse officio a quem toca. V. m.ce faça partazanas na sua
officina; e eu, em quanto não tiver officio, preferirei não fazer nada a
fazer legitimos reis, que é coisa que não sei fabricar. Sr. Leite, sabe
que mais?... Seu filho nada deve ao duque de Bragança. Se teve bom
officio, maiores serviços prestou seu filho ao duque, e maiores premios
devia D. João á sabedoria de Domingos Leite. A final, pagou-lhe como era
de esperar de um aventureiro que subiu de duque a rei, e desceu de rei a
villão, desprezando o amor provado dos amigos e galardoando o odio
solapado dos inimigos, para firmar sobre consciencias vendidas a
segurança do throno, de cuja legitimidade e firmeza tanto crê elle como
eu. Chegada a occasião de provar que estimava Domingos Leite, não só
pelo que lhe devia, mas tambem pela honra do seu delicto, que fez o seu
rei? Ordena-lhe que se desterre voluntariamente, que se despoje do seu
officio, que perca a patria e o pão, sob pena de ser preso, julgado,
sentenciado e talvez inforcado, porque as testemunhas da devassa o
culpam, de cumplicidade na morte de um clerigo torpe. E sabe v. m.ce a
rasão que tem o duque para querer fingir-se justiceiro na morte do
clerigo? é porque elle preza os traidores, e premeia-os á conta de os
ter sempre á volta de si. Ora, como o padre Silveira lhe delatou os
fidalgos em 1641, quer agora o tal chamado rei honrar-lhe a memoria,
exterminando este honrado moço, a fim de que elle não possa defender-se;
porque, se Domingos Leite entrasse em julgamento, havia de sahir
absolvido na consciencia do povo, embora o levassem do tribunal para o
oratorio.

Com quanto Antonio Leite não objectasse ao longo arrasoado de Roque da
Cunha, o silencio do velho não desapprovava nem assentia; todavia, os
modos grutescos do amigo de seu filho cada vez lhe azedavam mais a
invencivel repugnancia.

Quando, emfim, o alegre e palavroso neto da Barbara da rua dos Cabides
se despediu para ir visitar homisiados portuguezes chegados recentemente
a Madrid, Antonio Leite disse ao filho:

--Tenho má fé com este homem, Domingos!...

--Porque, meu pai?!.. Não vê que elle me deu provas de amisade tamanhas,
que por amor de mim perdeu a patria e o officio que tinha?

--_Provas de amisade..._--murmurou o artifice--Maiores te daria eu, se,
antes de resolveres matar o padre, me contasses a tua vida. Bom amigo
seria o que te aconselhasse a não o matar...

--Então?... que me aconselharia meu pai?!

--Já t'o dei a perceber logo que me contaste as tuas desgraças. Eu, se
fosse tu, fazia de conta que não tinha mulher. Tirar a vida a um homem
sem rasões muito fortes, não se conforma com a minha rasão. Se elle
fosse teu falso amigo, ou te desinquietasse a companheira, vá; mas, se
nem ella era tua mulher nem elle sabia que tu a pretendias, mal
aconselhado andaste; e, se foi este amigo que te aconselhou, máo amigo
foi. Dizes tu que não puzeste a mão no padre: que foi Roque da Cunha
quem o matou. Peor, peor! Quem mata um homem, que o não offendeu de
longe nem de perto só por ser agradavel a um amigo, e anda depois, á
laia d'este, contente e prazenteiro, olha que não é a primeira vez que
mata, nem lhe custou muito essa prova que deu. Tens um máu amigo,
Domingos... Acautella-te d'elle.

--Não seja injusto...--voltou o filho com menos calor do que era de
esperar em defeza de um amigo calumniado--Conheço ha onze annos Roque da
Cunha, e achei-o sempre leal e serviçal até pôr o seu braço
desinteresseiro em desaggravo da minha honra. Não foi elle que se me
offereceu para matar o padre; fui eu quem antecipadamente o obrigára por
juramento a correr commigo todos os perigos...

--E dize-me cá--interrompeu Antonio Leite--este homem era bem procedido
quando te amistaste com elle? Vivia com honra?

--Não tenho que ver com o que elle era...--respondeu Domingos Leite
froixamente, lembrando-lhe o assassinio do pai de Miguel de
Vasconcellos, a denuncia de Mathias de Albuquerque, os insultos que este
general recebera á entrada da Torre de Outão, e outras malfeitorias que
não sobreviveram á memoria dos contemporaneos.

--Não tens que ver com o que elle era?--repetiu tristemente o
velho--Pois, filho, muito te convem estar de sobreaviso para o que elle
hade ser.

Estas palavras, proferidas torvamente, impressionaram o espirito já
preparado a recebel-as sem constrangimento da rasão, bem que ao animo
reconhecido de Domingos Leite doêsse o consentir em tão austeras
demasias. É uma sancta verdade não haver alliança de estima honesta
entre dous homens pactuados por um feito criminoso. O affecto de
Domingos Leite Pereira a Roque da Cunha era tão simulado ou sobreposse,
quanto os remordimentos de um e o despejo do outro se distanceavam entre
si. O coração--que desbordava de lagrimas, scismando na filha
estremecida, e, ás vezes, vibrava de angustia, pensando que a esposa
poderia vingar-se dando a outro a belleza desprezada--não entraria aos
lodaçaes, onde as grandes angustias se atordoam e atrophiam,
imparceirado com Roque da Cunha.

Domingos Leite era muitissimo desgraçado, quando seu pai o deixou, indo
a Guimarães vender o prediozinho que representava trinta annos de
economias.


XI

Chamava a cada hora pelo pai a inconsolavel Angela.

A mãe acariciava com beijos o rosto da filha; e, soluçando, dizia-lhe
que o pai não tardaria.

A menina adoeceu de molestia que a mãe attribuiu a saudade. Maria Isabel
desvellou as noites de joelhos á beira do leito; e, invocando o
testemunho ou a piedade da Virgem do ceo, protestava suicidar-se, assim
que sua filha morresse.

Quando Angela se amodorrava em lethargia febril, Maria Isabel escrevia
ao marido a historia por minutos da doença da filha. Cada pagina
terminava por nova supplica de as levar para si, a não ser que a creança
expirasse, que então nada lhe pediria a não ser o perdão.

A desventurada amava o marido n'aquellas horas escurissimas. As
derradeiras palavras d'elle, ao despedir-se, compungiram-na
profundamente, por que gemiam na alma onde o desalento amolentára os
espinhos do odio. O natural despeito de se ver desprezada, por espaço de
anno e meio, pôde menos que a consciencia de haver matado o porvir
d'aquelle homem, tão prosperado e ditoso n'outro tempo! Alanciavam-na
remorsos de o ter enganado, e pensou que a Providencia a punia,
pondo-lhe o marido no desterro e a filha na sepultura.

Angela resurgia salva da perigosa enfermidade, quando Maria Isabel,
fechando a longa relação com a fausta nova da convalescença,
sobrescriptou a carta para Madrid.

N'aquelle tempo, cartas enviadas a Hespanha eram revistadas e rasgadas
quando não davam margem a suspeitas. Todo o portuguez que demorasse
então em Castella peccava por traidor á patria ou criminoso foragido á
justiça. Domingos Leite Pereira fôra arrolado na classe dos ultimos.

Tanto que o seu confessor lhe disse que o marido não recebia as cartas,
Maria Isabel, soffreando o pejo, recorreu pessoalmente ao marquez de
Gouvêa, levando comsigo a menina. O velho mordômo-mór recebeu-a com
benevolencia. As lagrimas em rosto formoso ensinam a delicadeza e afinam
almas compadecidas. Entretanto, o marquez não se prestou a transmittir
as cartas, receando molestar a irritabilidade de el-rei.

--Mas que mal fez meu marido a el-rei?--perguntou Maria Isabel.

--Não fez mal directamente a el-rei; uzurpou-lhe simplesmente o direito
de castigar. Quem mata um homem sem poder allegar que o fez em justa
defensão de sua vida, dá a entender que o faz desconfiado da lei.

--Então o sr. D. João IV persegue meu marido?

--Não, senhora; permitte que a justiça cumpra o seu dever.

--E, se eu fosse com a minha filha lançar-me aos pés da rainha?

Sorriu-se o marquez em ar de reprovação do alvitre, lembrando-se que D.
Luiza de Gusmão impedira que el-rei se deixasse apiedar das deplorações
da duquesa de Caminha, quando já se estavam carpintejando as peças do
cadafalso. Alem d'isso o mordomo-mór sabia que o nome da mulher de
Domingos Leite chegára ao aposento da rainha com o labeo de prostituida
a um padre. Não revelou o que lhe passava na mente, e fez apenas um
gesto negativo.

--Mas el-rei não me trataria com desabrimento?--proseguiu ella.

--Não, com certeza. El-rei tractou mui urbanamente a sr.ª duqueza de
Caminha, quando lhe foi pedir o perdão do marido.

--Mas não perdoou...

--É verdade; porém, são muito diversos os pedidos e as causas. Que lhe
quer vossa mercê pedir?

--Que deixe vir meu marido para Portugal.

--E não seria melhor buscar meios de elle ser julgado e
absolvido?--replicou o fidalgo.

--Não conheço ninguem... e tenho vergonha de fallar aos juizes!...

--Acho justa essa repugnancia...--assentiu o marquez--todavia, se quer
fallar a el-rei, maior lhe deve ser o pejo.

Maria, apóz breve pauza, em que ponderou a replica judiciosa do
mordomo-mór, insistiu ainda chorando:

--Se V. Ex.ª se compadecesse de nós...

--Em que posso mostrar-lhe que me compadeço das suas magoas?..

--Se V. Ex.ª tivesse modo de fazer chegar a minha filha á presença
d'el-rei nosso senhor com um requerimento meu...

--Heide pedir licença a sua magestade, e espero alcançal-a. Dar-lhe-hei
a resposta. Porém, suppondo que el-rei lhe nega audiencia ou lhe
indifere o requerimento, dou-lhe um conselho. Vá para Madrid com sua
filha. Seu marido de certo a não repulsará, se a senhora abrir o caminho
ao perdão por intermedio da filha que elle adora. Se acontecer achal-o
colerico, haja-se com discreta paciencia, dispensando-se de viver em
commum com elle. Vossa mercê é bastante rica. Tanto lhe faz viver em
Lisboa como em Madrid. Quadra-lhe o conselho?

--Sim, sr. marquez--assentiu Maria Isabel muito reanimada--E V. Ex.ª
protege a minha ida?

--Heide conseguir que não lhe impeçam a passagem nas fronteiras, e
dar-lhe-hei uma carta que esta menina hade entregar ao pai.

--E como heide encontral-o em Madrid?

--Antes de vinte e quatro horas saberei de Gaspar de Faria onde seu
marido se alojou. Se chegar a ir, e reconciliar-se, recommendo-lhe com
muita instancia que môva Domingos Leite a sahir de Hespanha. El-rei tem
bons amigos em Madrid que lhe relatam pensamentos, palavras e obras dos
portuguezes que lá vivem. Já cá é notorio que Domingos Leite, dominado
pelo seu funesto amigo Roque da Cunha, concorre ás cazas mais suspeitas
dos maquinadores da nossa escravidão. Sobre queda couce, diz o ditado.
Não é assim que elle hade ter por si el-rei e os juizes. Por estas e
outras rasões lhe aconselho, como bom amigo que ainda sou de seu marido,
que em vez de ir a el-rei, passe a Hespanha; e depois, se Domingos Leite
a quizer attender e á carta que eu lhe hei de dar, vão para França ou
para Roma.

Nesta conjuntura entrou o secretario Antonio de Cavide, que fitou com
ares de assombrado o bello rosto e garbosa compostura da dama desconhecida.

Maria Isabel, erguendo-se, disse á filha que beijasse a mão do sr.
marquez, e sahiu.

--Quem é esta gentil fada?!--perguntou Antonio de Cavide--Eu nunca vi
mais guapa mulher!

--É a esposa de Domingos Leite Pereira.

--Oh!... é esta!?. Olha o maganão do padre Luiz com que cilicios se
penitenciava! Bem me dizia el-rei que a mais bonita mulher de Lisboa,
segundo ouvira ao juizo competente do sr. marquez, era a Traga-malhas...
Que diria sua magestade, se a visse?

--Que diria, e que pensaria!..--accrescentou o mordomo-mór, sorrindo com
a malicia commum dos dois fidalgos.

--Eu sei cá!..--tornou o secretario de estado franzindo o
sobr'ôlho--Talvez desculpasse o clerigo, e perdoasse aos ciumes ferozes
do marido...

--Esta é joia mais de preço que a condessa de Villa Nova!..

--Upa, upa!

--E vai muito alem da açafata?

--Da Justa Negrão? Upa, upa! sr. marquez!

--Vem a ponto uma pergunta: a D. Justa está contente no mosteiro de
Chellas?--perguntou o marquez.

--Está resignada desde que eu lhe mostro a filha de mez a mez.

--E el-rei continua a ver a menina?

--Levo-lh'a ao palacio de Alcantara todas as terças feiras. El-rei é
doido pela pequena, e chama-lhe a sua querida infanta: mas a creança,
que fez agora trez annos, tem uns ares tristes que fazem scismar.

--Adivinhará as lagrimas da mãe?--aventou o marquez--Ou seria concebida
em estação amargurada...

--Lá como ella foi concebida não sei; são segredos de alcôva; mas a
historia das damas dos reis não me fez conhecer uma só que se carpisse
de ser mãe...

O mordomo-mór derivou a palestra em outro rumo, receando molestar o
pundunor do ministro lançarote de el-rei.

Era Antonio de Cavide tanto das entranhas de D. João IV que, se o leitor
leu em a _Nota 6.ª_ o testamento do rei, trasladado dos apontamentos
originaes, veria as referencias com que o seu real amigo o recommenda á
consideração da rainha. Arguiam-no os aulicos de ser o medianeiro dos
amores illicitos do monarcha. Da açafata D. Justa Negrão segredava-se na
côrte que fôra elle o corruptor á custa de infames alliciações,
necessarias a vencer a indifferença e até a reluctancia da criada do
paço. Fôra ainda Antonio Cavide o agente da profissão de D. Justa no
convento de Chellas, e em caza d'este secretario se estava creando a
filha d'esses amores, em que a victima violentada ganhára vestir a
mortalha monastica, volvidos dois annos, mais que longos, para o regio
fastio de sua magestade (_Nota 19.ª_)

Este secretario de estado, raramente referido nos historiadores do
reinado de seu real amo, exercia attribuições, segundo parece, nas
coisas secretissimas do rei, não lhe sobrando vagar para as do estado.
Ainda assim, do testamento do monarcha deprehende-se que nenhum homem
gosou como elle a confiança do rei até á hora final. Rodados vinte e
seis annos, achamos Antonio Cavide condemnado á morte, na regencia de D.
Pedro, como conjurado na tentativa de rebellião a favor de Affonso VI,
prezo na Ilha Terceira. E dado que dois modernos historiadores[3]
nos dêem Antonio de Cavide executado em Lisboa em 1673 é bem
de ver que não colheram idoneas informações de escriptores coevos.
Carlos II de Inglaterra, enviando, a rogos de sua esposa D. Catharina de
Bragança, um navio a Lisboa com embaixador expresso, a pedir o perdão do
velho secretario de D. João IV, logrou salval-o do patibulo; mas,
decorrido breve termo, Cavide morreu com suspeitas de empeçonhado por
insinuação do regente.


XII

Maria Isabel, querendo passar a Castella, offereceu os seus predios da
Tanoaria a varios compradores que lh'os haviam desejado; mas a alienação
dos bens seria nulla sem consenso do marido, e nulla tambem em quanto
elle não houvesse respondido á justiça, que o esbulhára dos seus direitos.

Recorreu a dama ao mordomo-mór, que não antevira o embaraço, nem podia
removêl-o. A consternada senhora sahiu do gabinete do marquez,
desattendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o
resultado da intervenção de um ministro mais influente no real animo. O
mordomo-mór lembrara-se de Antonio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de
D. João IV.

Seguiu d'alli, com a filha, para o paço da Ribeira, e entrou no Arco de
Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim
porque debaixo d'aquelle arco havia entrada franca de serventia para uma
casa onde estava uma roda, como a das portarias monasticas, e sobre a
roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo
que a campainha tocasse, D. João IV enviava alguem a reconhecer a
pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquelle
meio menos ordinario.

Estava o rei com Antonio de Cavide na sua pomposa bibliotheca de musica,
situada na porção do palacio chamada o _Quarto do Forte_, quando ouviu
tanger a sineta.

--Vá ver quem é--disse o rei sorrindo--Olhe que não vá ser algum burro
lazarento...

Emquanto o secretario de estado vai e volta, saibamos que allusão é
aquella do burro lazarento, visto que Diogo de Paiva e Andrade no'l-a
transmittiu nas suas _Memorias_, por vezes citadas n'este livro. Foi que
uma vez entrara um jumento vadio no recinto da sineta, e começou a
trincar a corda no intento provavel de a comer. Ora como a sineta
repicava tão ligeira quanto a fome do tangedor esgarçava no cordel, D.
João IV, que estava só, e extranhára o pressuroso dos toques, desceu
pessoalmente á casa da roda, e perguntou quem era. Como ninguem lhe
respondesse, mandou averiguar se a pessoa que tocára já teria subido á
saleta de espera. O enviado voltou annunciando a sua magestade que
encontrara um burro muito magro. El-rei ordenou logo que o levassem ás
cavallariças reaes, com recommendação de o tratarem fartamente; e
accrescentou; «Semelhante pretendente não póde ter outro requerimento.»

Não me consta que D. João IV, em toda a sua vida, dissesse ou fizesse
coisa de tanto espirito. A não ser coevo de sua magestade aquelle burro
faminto, morreriam ambos ignorados, sendo digna de escriptura a
lembrança que os dois tiveram.

Voltou no entanto Antonio Cavide com ridentissimo semblante, e disse:

--Mal pensava eu, real senhor, quando ha pouco tentava pintar o esbelto
rosto da mulher de Domingos Leite, que ella tão perto estava de
desmentir na presença de vossa Magestade a pallida copia que eu fiz!...

--Foi ella que tocou?!--acudiu o rei entre alegre e maravilhado.

--Ella, meu senhor, acompanhada da filha. Pede audiencia; e, apezar de
coberta de lagrimas, nunca houve orvalho que aljofarasse mais purpurinas
rosas!..

--Estou a ver se me falla em verso, Cavide!--disse o rei escondendo a
custo a commoção da curiosidade--Mande-as entrar na primeira sala.

O secretario de estado correu o reposteiro da sala de espera e disse a
Maria Isabel:

--Sua magestade houve por bem admittir a vossa mercê á sua real
presença; queira entrar n'esta sala, e esperar el-rei nosso senhor.

A esposa de Domingos Leite com difficuldade se sustinha nas pernas,
chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito
como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se d'ella olhando-a com
susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapeçarias e colgaduras
de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quaes lampejavam
contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de
tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes,
jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos
jardins do paço da Ribeira, redomas de christal, relogios de Inglaterra
com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas
n'aquelle palacio, que já então pompeava primasias sobre as mais
esplendidas côrtes da Europa, graças á baixella da duquesa de Mantua,
que nunca lhe foi restituida.

Posto que o tapete abafasse as passadas d'el-rei, Maria Isabel ouviu-o
nas palpitações do coração; e já estava em joelhos, quando um sumilher
da cortina correu o reposteiro com um ringido de aço estridente que,
digamol-o assim, aggravava mais o terror do lance.

D. João IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da
ampla porta; e, n'este conflicto, a filha do burguez João Bernardes
Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante
que cobria a cabeça da menina.

Orçava então o rei pelos quarenta e tres annos. Não obstante as bexigas,
que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava
vivacissima a graça dos olhos azues, mais risonhos que os labios, nos
escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da
violenta caracterisação de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo
de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de
inclemencias de tempo, quando nas monterias da tapada de Villa-Viçosa
dispendia selvaticamente os melhores annos da existencia. Dá a perceber
o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no _Portugal Restaurado_, que
D. João era tão desregrado na alimentação que anticipara a caduquez do
corpo. O historiador aulico, se lhe dessem trella, e alforria no
pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que
rustico e sujo, communicar-nos-hia a intemperança do espadaúdo sugeito,
cevando-se nas lubricidades que adelgaçam as mais maçorras e rijas
compleições.

Não se pense, porem, que o rei de Portugal n'aquelle dia trajasse
immundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hydropesia.
Vestia um _pourpoint_ (gibão) de panno preto, refegado no peito, sem
guarnições até baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da
camisa derrubada sobre a gola d'aquella vestimenta que muitas vezes
usava, da vil droga chamada estamenha. (_Nota 20.ª_)

Os cabelos loiros, mas tosquiados quasi rentes, descampavam-lhe a
fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a
sciencia phrenologica de Spurzheim não fosse um lôgro nas cabeças da
raça dos braganças, não collaboradas.

Calçava meia de sêda escura e sapato de veludo com um simples botão, sem
os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e até
os pecuniosos da classe média se ajaesavam.

Como já vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e
perturbadissima a entrada d'el-rei.

Caminhando a passo vagaroso para ella, D. João IV parou a pequena
distancia, e disse-lhe:

--Levantae-vos, senhora!

E como ella permanecesse em joelhos e anciada, o rei insistiu:

--Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adoração.
Vamos! a pé!

Sua magestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa,
mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do
quadrupede da sinêta; mas não o arguamos de canhêstro ou pecco de
phrases, dado que, a respeito da sua eloquencia, o referido conde da
Ericeira nos diga que não costumando o rei a empregar as _palavras mais
polidas, usava d'ellas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia
fazia estudo do que em outros podera ser defeito_.[4]

D'esta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de
mero homem em presença da mulher que ultrapassava toda a bellesa imaginada.

Maria Isabel, apesar de ter meia face vellada no rebuço do
capotilho--descortezia que ella ignorava por desconhecer ceremonias
palacianas--deixava metade do rosto aos deleites da admiração, e a outra
metade á curiosidade dos desejos, como diria na sua rhetorica farfalhuda
Antonio Cavide.

Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado,
acercou-se mais o rei, e poz a mão na face de Angela, dizendo:

--És muito galante, menina!

A mãe relançou a vista menos timida á face de D. João, e, como lhe
encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a creança, absôrta
na contemplação do rei.

--Sentae-vos, senhora--continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando
de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguem lhe
espreitava tão insolita cortezia ou tamanho abatimento da magestade.

--Se vossa magestade não quer ouvir-me de joelhos, peço que me deixe
supplicar de pé a sua misericordia--balbuciou Maria.

--Sentae-vos e dizei. Tudo que o rei poder fazer-vos sem gravame da
justiça e direito de seus vassallos, ser-vos-ha feito. Vindes pedir-me
que absolva vosso marido de um crime publico? não sou eu quem hade
sentencial-o ou absolvel-o.

--Não peço tanto a vossa magestade, meu Senhor...

--Que quereis então?

--Ir com minha filha para Madrid.

--Quereis ir para Domingos Leite?--perguntou o rei com estranhesa.

--Sim, real Senhor.

--É elle que vos chama?

--Saberá vossa magestade que eu, desde que elle partiu, nunca mais tive
noticias suas.

--Apezar d'isso, quereis ir... Quem vos priva?

--Quiz vender parte dos meus bens, e a justiça não m'o permitte nem
permittirá ainda que meu marido assigne os contractos.

--Porque é essa a lei dos criminosos--volveu gravemente o rei--Vindes
pedir-me que submetta a lei á minha vontade particular? O que não posso
fazer como homem, n'este caso, tambem o não posso fazer como principe.
Eu não subordino a justiça: sou-lhe subordinado. Porém, como homem,
poderei prestar-vos um serviço, se o quizerdes acceitar. Dar-vos-hei
meios para irdes a Castella; e emquanto lá os carecerdes, remediar-vos-hei.

Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarcha. Brilhavam-lhe as
lagrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo
timido de vassallo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha.

--Eu queria--murmurou ella--levar a meu marido o que herdei de meus
paes; mas agradeço a vossa magestade a esmola que me offerece.

--Não é esmola; é emprestimo. Quando a sentença remover os estorvos que
vos privam de vender os bens, então me pagareis. Entretanto, sabeis se
vosso marido vos receberá graciosamente?

--Não sei, meu senhor...

--Ouvi dizer que elle, desde a morte de certa pessoa, vos não fallára
mais. É verdade?

--Sim, meu senhor.

--E esse despreso não impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira,
porque a vossa sorte me está prendendo extraordinariamente a attenção.
Amaes Domingos Leite?

Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embaraço:

--Casei com elle por paixão, e foi a paixão que me cegou...--e aqui
reteve-se vexada e confusa.

--Sei o que vos custa a dizer:--acudiu o rei--passae adiante, Maria Isabel.

A suavidade com que D. João proferiu os dois nomes parecia arrasar uma
alta barreira, erecta entre os desiguaes interlocutores. Aquelle tom de
benevola confiança--o vêr ella seu nome na memoria d'el-rei--deu-lhe
umas largas á alma, uns assomos de vaidade, um desafôgo analogo ao dos
pulmões que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadiço.

--Dizei,--proseguiu elle--O desamor com que Domingos Leite recusou
perdoar-vos uma culpa, que devia ser attenuada pela innocencia com que a
praticastes, foi causa a que a vossa paixão se desvanecesse... Errei o
meu juiso?

--É verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em acceitar o seu
galanteio; mas não o seria... se não fosse tão innocente.

--Ainda assim, é compaixão ou amor que vos resolve a procural-o em
Hespanha?

--É esta creança que chora por elle; e é a afflicção que eu sinto quando
me lembro das afflicções com que meu marido se separou da filha...

--E de vós, não?!--redarguiu elle com perfida admiração.

--Parecia querer perdoar-me n'essa hora...

--Bem. Perguntae-lhe se vos perdôa. Se elle vos disser que sim, ide, e
contae commigo. Lembro-vos, comtudo, que em Madrid Domingos Leite é
recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e
que o sr. D. Filippe IV, attendendo aos merecimentos de tal façanha, o
honrou com o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Não sei se elle
vos acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se
derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão
mal considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu
marido.

--Esse boato é uma calumnia, senhor!--exclamou ella com os olhos sêccos
e o rubor nas faces.

--Não m'o digaes a mim, que eu já vol-o disse. Li o processo com o maior
empenho; quiz salvar vosso marido; já vêdes que se alguem duvida da
vossa innocencia de esposa, não sou eu. Como quer que seja, em materia
tão melindrosa, não sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza.
Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e dê a carta ao meu
secretario de estado Antonio Cavide, que elle a fará entregar
directamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-ha entregue.

--Ah!--suspirou a formosa--se o meu nome anda tão infamado em Madrid,
meu marido não me responde... Elle desprezava-me, quando toda a gente
ignorava a minha desgraça; que fará agora que é maior deshonra para elle
reconciliar-se commigo!..

--Quem sabe? O coração humano faz mudanças de que não sabemos dar causa
nem rasão. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje,
que amanhã Antonio Cavide, ou alguem com recado seu, irá procurar vossa
carta.

E, voltando-se para a menina, perguntou:

--Como te chamas, linda?

--Angela--respondeu a creança.

--Criada de vossa magestade--accrescentou a mãe muito desvanecida da
regia curiosidade.

--Pois que dizeis que é minha criada--volveu D. João IV--minha criada
fica sendo desde hoje, e virá exercer o seu officio, quando a edade lh'o
permittir. No emtanto, o seu nome será registrado no livro das açafatas
da rainha, desde já.

--Ajoelha a sua magestade, e pede-lhe licença para lhe beijar a
mão--disse Maria Isabel com transporte.

O rei colheu a menina nos braços, e disse:

--Eu é que lhe beijo estas duas rosas do rosto, que fazem lembrar os
cherubins. Uma reflexão--proseguiu o rei de subito--não diga Maria
Isabel a seu marido que eu nomeei sua filha criada do paço. Seria muito
dolorosa para mim semelhante nova dada a um homem, que não póde ser
galardoado emquanto não fôr absolvido. Tendes entendido?

--Esteja vossa magestade segurissimo de que eu não direi que fallei a
vossa magestade.

--Ainda melhor, ainda melhor. Nem uma palavra que prenda commigo.

Maria levantou-se indecisa se lhe cumpria despedir-se ou ser despedida
d'el-rei.

--Quereis sair? Esperae,--disse D. João--que eu vou mandar-vos o meu
secretario de estado para vos acompanhar á liteira.

--Vim a pé, real senhor.

--Ah! sim? Não obstante, esperae.

Sahiu o rei, beijando outra vez Angela, e deteve-se breves minutos com o
secretario, que sahiu a dar ordens a um pagem, que as foi transmittir a
um moço da estribeira.

Voltou Cavide outra vez á presença do amo.

D. João IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa
fronte, clamava enthusiasta:

--Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquez... Não ha dama no paço
que lhe ganhe!.. Oh! que soberba creatura! tem musica na voz a
feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada!

Cavide ria-se e esfregava as mãos.

--Isto não é para rir, meu caro!..--obstou o rei--Querem vêr que eu
estou apaixonado!..

N'este lance grave, que as expressões do rei e a cara do valido tornavam
ridiculo, o pagem disse por detraz do reposteiro que o moço da
estribeira enviára dizer que a liteira das açafatas estava no pateo do
norte.

--Vá! ordenou o rei ao secretario.

Antonio Cavide entrou na sala, onde ficára Maria Isabel, e inclinando a
cabeça, disse:

--Sigam-me vossas senhorias.[5]

E, descendo ao pateo onde estava a liteira com lacaios de libré da casa
real, deu a mão a Maria Isabel para ajudal-a a subir.

--Eu vim a pé...--gaguejou a mulher de Domingos Leite, não percebendo o
convite do fidalgo.

--Sei isso; mas sua magestade manda conduzir na competente liteira a sua
açafatasinha e mais sua mãe, muito minha senhora.

E, ao mesmo tempo que dizia isto mui galãmente, tomou Angela nos braços,
e sentou-a no almadraque inferior; depois, offereceu o hombro á mãe,
fechou a portinhola, e disse ao lacaio da frente:

--A casa de suas senhorias é na Porta do Salvador.

A liteira partiu com as cortinas fechadas. O instincto do pejo imprimira
aquelle impensado impulso ao braço da mulher do expatriado.

E D. João IV, que de uma janella que abria sobre o terreiro, presenciára
o fecharem-se as cortinas da liteira, dizia depois a Cavide:

--Aquelle recato pagára-lh'o eu com milhões, se o meu coração não
valesse mais que elles!...

O confidente ouviu isto com a maior circumspecção.

O castigo supremo dos validos é não poderem escancarar sinceras
gargalhadas nas faces dos reis.


XIII

Vellou a noite inteira Maria Isabel.

Figuravam-se-lhe visões, ora terriveis, ora deslumbrantes.

Sentia o que quer que fosse de interior transfiguração de seu ser.
Contemplava-se e via-se mudada virtualmente. A scena do paço, a sala
explendorosa, o rei, a _senhoria_ do secretario, a açafata, a liteira
armoreada, a libré, e sobretudo os conselhos do rei, aquellas phrases
umas vezes meigas, outras vezes tristes, o seu nome tres vezes proferido
pelos regios labios, tudo, que ainda sonhado lhe seria deleitoso, era,
em realidade, sobejo estimulo a que a noite lhe corresse não dormida.
Mas, por entre as fulgurações da imaginação febricitante, dava-lhe
tremuras um pavor indefinivel, se a idéa de ter cahido na graça do rei
lhe impunha o dever de se lhe dar cegamente, e sem resistencia de rasão,
de religião ou de pudor, como as mulheres que se vendem.
Contradiziam-lhe estes sustos do pejo as palavras de D. João IV,
aconselhando-a a consultar a vontade do marido, quanto a ir para sua
companhia. Depois, como a revirar-lhe esta pudica justificação dos reaes
intentos, occorria-lhe a lembrança de ter ouvido dizer a Domingos Leite
que D. João IV nos seus amores, quando duque, não se estremava dos moços
do monte em bruteza; que nenhuma das suas affeiçoádas lhe conhecera
coração. E d'ahi umas explosões luminosas de vaidade, a mulher em todo o
seu elasterio de vangloria, tanto mais acrisolada quanto se vira
repudiada do marido... Muitas expressões do soberano soavam-lhe ainda
nos ouvidos, quando a luz da seguinte manhã lhe alvoreceu no quarto; e,
entre todas, estas principalmente: ..._Não sei se elle_ (o marido) _vos
acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou
em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal
considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu
marido_.

--Decerto, não quero!...--dizia ella de si comsigo--Ainda que elle, por
amor á filha, me deixe ir, hade querer que eu me esconda para que me não
vejam; e talvez que me mande embora depois de lá ter a filha. Além
d'isso, se eu lhe disser que o rei me dá o dinheiro para lá viver, elle
reprova que eu o acceite, e pergunta-me como foi que eu procurei e
obtive este favor...

Alvoroçada por tantissimas idéas incongruentes, sentou-se ao bofete para
escrever tantas vezes quantas se levantou, depondo a penna, por não
atinar com o expediente mais natural, ou, digamos antes, mais artificial
da carta.

N'esta conjunctura, appareceu a menina a recordar-lhe as impressões da
vespera, a fazer-lhe repetir as palavras que o rei lhe dissera, a pedir
explicações dos dizeres que não percebêra. Depois vieram as criadas
sobresaltadas, e Maria Isabel contou-lhes á sua anciosa curiosidade que
a sua Angela era açafata, que o secretario de estado lhes déra senhoria,
que el-rei tivera a menina sobre os joelhos, que a beijára muitas vezes;
e de tudo pedia segredo ás môças, por certos motivos, os quaes motivos
as criadas, em conciliabulo de cosinha, explicavam tão compridamente que
não deixavam nada a desejar.

Assim foi correndo o dia, até que, ao cahir da noite, se annunciou a um
lacaio de Maria Isabel uma pessoa que sua senhoria esperava.

O secretario particular do rei, annunciando-se incognito, a hora tão
impropria, começava o acto mysterioso da sua interferencia; não
obstante, a mãe da açafata, quando se lhe deu a noticia, disse com
desenvoltura propria de fidalga, affeita a visitas de tal porte:

--Hade ser o secretario de estado Antonio de Cavide.

Momentos depois, o cortezão beijava os dedos da mulher de Domingos
Leite, affagava a sr.ª Dona Angelasinha, a quem sua magestade enviava um
beijo, e terminava por dizer que vinha receber a carta que havia de ir
para Hespanha na manhã do dia seguinte, conforme as ordens dadas por
el-rei ao correio-mór.

--Ámanhã!--disse Maria Isabel--Já ámanhã!... Mas eu ainda não
escrevi...Como hade ser?

--Ainda tem v. s.ª muito tempo. Eu voltarei mais tarde, ou mandarei um
escudeiro procurar a carta--remediou o secretario.

--Jesus!--murmurou ella, com ademanes de afflicta.

--Que tem a sr.ª D. Maria?--volveu Cavide.

--Não sei... não sei em que termos heide escrever a meu marido...

--Comprehendo o seu embaraço... que em verdade é justificadissimo. Devo
dizer-lhe, senhora minha, que o que passou entre el-rei meu amo e v.
s.ª, me não é de todo estranho. Tambem eu, pensando durante a noite no
segredo que é mister haver, respeito á mercê que el-rei lhe faz, mal
posso ligar a ida de v. s.ª para Hespanha sem que seu marido conheça a
origem dos recursos, e até a real intervenção na remessa da carta. O sr.
D. João IV, meu amo, d'esta vez não conciliou a generosidade de seu real
animo, com a circumspecção que lhe é habitual. Quer-me parecer que v.
s.ª deu todo pezo ás considerações que sua magestade lhe fez, e eu
tambem tive a honra de ouvir-lh'as. Desde que o sr. Domingos Leite,
fugindo para Castella, deu ansa á calumnia que denigre a reputação de
sua mulher, parece, até certo ponto, que protestou diante do mundo não
receber mais em sua companhia uma esposa, que lá e cá--malditas
linguas!--passa por ter faltado á honra conjugal.

--Mentira!--interrompeu Maria Isabel assomada.

--Mentira atroz--assentiu Cavide--Sabe-o el-rei, sei-o eu, sabem-no os
ministros em cuja alçada corre a devassa; mas os praguentos querem que
as atoardas se propaguem bastante aleivosas para que lhes seja mais
farto o sêvo da maledicencia. A nossa questão não é a calumnia; é
sabermos como v. s.ª hade affrontal-a, como seu marido hade desfazêl-a,
se lhe quizer perdoar; emfim, como a sr.ª D. Maria, minha senhora, hade
illibar-se perante o mundo. Aqui é que bate o ponto. Por isso dizia eu
agora que comprehendo os embaraços em que v. s.ª hade achar-se no modo
de escrever a seu marido.

--Tem v. s.ª rasão.--confirmou Maria Isabel--Pensei n'isso tudo que me
disse, e estive duas horas a começar cartas e a rasgal-as, porque tudo
me parecia máo... não sei como heide sahir d'este aperto!...

--Peço venia para lhe dar um conselho...--disse Antonio Cavide,
erguendo-se, aproximando-se d'ella mais á puridade, e abaixando o tom da
voz.

--Faz-me v. s.ª um grande beneficio, se me aconselhar.

--Auctorise-me a sr.ª D. Maria a consultar el-rei, meu amo. Parece-me
que nenhuma deliberação lhe cumpre tomar sem ouvir o parecer de sua
magestade...

--Nem eu me atrevo a pensar coisa alguma em contrario das ordens d'el-rei.

--Mas--volveu o valido, depois de estar alguns minutos recolhido,
passando por sobre os dentes a unha do pollegar como se corresse um
teclado--Mas, se v. s.ª me promette segredo inviolavel com juramento...

--Prometto...--balbuciou Maria Isabel, tremula de alvoroço, entre
receosa e anciada de curiosidade, com os brilhantes olhos postos nos
beiços do secretario.

--Promette-me nunca, em tempo algum, em quaesquer circumstancias de sua
vida, revelar propriamente a el-rei o que lhe vou dizer?

--Sim... prometto...--affirmou ella.

Antonio de Cavide pegou da mão de Angela, e apontando-lhe um cofre de
madre-perola que estava sobre um contador no extremo da sala, disse-lhe:

--Vá a menina buscar aquella alfaia que desejo vel-a.

E, emquanto a menina foi, inclinou os labios ao ouvido de Maria Isabel,
e segredou-lhe:

--El-rei quer-lhe como não quiz a ninguem n'este mundo. A vontade do meu
real amo é que v. s.ª não vá para Hespanha; e eu, que conheço quanto
el-rei soffreria, se a sr.ª D. Maria partisse, rogo-lhe encarecidamente
que não vá.

A menina já estava ao pé do secretario com o cofre, quando Maria Isabel,
proferidas as ultimas palavras, pegou de enfiar e tremer a ponto que
Angela lhe disse assustada:

--Que tem, minha mãesinha, que está tão amarella?

E, ao mesmo tempo, o subtil alcayote, examinando os embrexados da caixa
japoneza, resmuneava:

--Que formoso lavor! que linda coisa!.. É alfaia do tempo do sr. rei D.
Manuel. Cá tem a esphera armilar! Bellissima joia!..

E, lançando de soslaio a vista a D. Maria, murmurou como se conversasse
com as figuras chinezas embutidas no cofre:

--Não cuidei que lhe dava novidade; nem que a novidade, se o fosse, a
inquietasse tanto! Seria triste se eu a magoava, pensando que lhe trazia
o maior contentamento que pode dar-se á primeira fidalga da côrte
portugueza.

Angela ouvia e não percebia as palavras, quando a mãe, abraçando-se
n'ella com estremecido affôgo, resudava nas palpebras cerradas uma, ou
talvez duas lagrimas que deviam ser--oh materialidade!--a cristalina
seiva das fibras do pudor, as quaes viriam a depauperar-se em resultado
d'aquelle perdimento de vida.

--Aqui tem, minha açafatasinha--ajuntou o secretario de estado,
entregando o cofre a Angela--Esta caixa cheia de perolas e diamantes não
valeria tanto como as duas lagrimas que sua mãesinha tem nos olhos. E eu
bem sei o coração em que ellas vão cahir e doer...

Maria Isabel permanecia com a face apoiada na mão, o cotovello no braço
da cadeira, os olhos velados pelas sedeudas pestanas, e com uma lagrima
que, derivando, se quedára tremula no canto dos labios.

Antonio Cavide ergueu-se e caminhou para onde tinha o chapéo emplumado.
Pegou d'elle, e sacudindo-o, á maneira de leque, entre as mãos, veiu ao
pé de Maria Isabel, que se havia levantado.

--Recebo as determinações da sr.ª D. Maria Isabel, minha senhora.
Mandarei ou virei em demanda da carta, quando se dignar ordenar-m'o.

--A carta?...--perguntou ella--Pois não me aconselhou que não escrevesse?

--Não ousei tanto, minha senhora; aconselhei-a tão sómente a que me
permittisse consultar el-rei meu amo; porém, depois do segredo que
confiei á sua honra, quanto aos sentimentos de sua magestade, e depois
de assistir á magua que taes sentimentos lhe occasionaram, receio que v.
s.ª não queira que o seu destino dependa da vontade d'el-rei...

--El-rei decerto não quer a minha desgraça...--balbuciou ella.

--Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do
céo lhe invejassem...

Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com
a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento.

E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da
cabeça de Angela, figurou-se-lhe vêr o rosto do marido, perdido por
ella, e, áquella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha.

Ai! aquella mãe e esposa presentiu que havia de escorregar á voragem das
deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem á
flor do seu pégo de lama uma corôa de rei!


XIV

Na correntesa dos referidos casos passados em Lisboa, Domingos Leite
Pereira, desmentindo os informadores de D. João IV, vivia pouco menos de
obscuro, nos arrabaldes de Madrid, gastando restrictamente o que seu pae
lhe enviava com grande resguardo e difficuldade.

Ideára elle que sua mulher, quer por compaixão, quer a rogos de Angela,
lhe escrevesse, dizendo-lhe, ao menos, que a filha chorava. Esta dôr
filial quizera elle que lhe fosse desafogo ás suas.

Mentira o rei quando affirmára que Domingos Leite se pavoneava de
desmacular sua honra de marido, matando directa ou indirectamente o
padre. Nunca elle articulou o nome da mulher, nem consentira de boa
feição que lhe alludissem aos motivos da fuga. A Roque da Cunha rogava
que não deslustrasse o nome de sua innocente filha, divulgando as
affrontosas desventuras da mãe.

Mostrava-se muito commiserada da tristesa e soledade de Domingos Leite,
D. Vicencia Corrêa. Convidava-o miudas vezes a passar com ella, e
acintemente reunia em sua casa os filhos da marqueza de Montalvão, o
conde de Figueiró, Diogo Soares, o senhor de Regalados, e outros dos
muitissimos portuguezes que juraram fidelidade a Filippe IV. A fidalguia
rodeava-o de attenções, sem o desengolpharem da sua tristesa, nem,
sequer, o moverem à cortez condescendencia de negar a legitimidade de D.
João IV. Roque reprovava-lhe a ingratidão, a falta de tino politico, e o
perigo em que elle se expunha de não ter amigos em Portugal nem em
Castella. Respondia então o desterrado que os recursos de seu pae tanto
lhe davam um pão negro em Madrid como em qualquer outra parte do mundo;
e que tanto lhe fazia estar ali como em outro ponto da terra, pois, fóra
de Portugal, toda a terra lhe era exilio.

E accrescentava:

--Olha, Roque... Fui menos infeliz do que esperava, porque te vejo
contente em Madrid.

--Contentissimo--confirmou o enteado do desembargador--Tenho cem escudos
da junta dos portuguezes, cincoenta de meu padrasto, o nobilissimo
Guedelha; serei brevemente nomeado criado do paço; e, quando Portugal
voltar ao que era em 31 de novembro de 1640, uma das boas commendas do
teu marquez de Gouvêa, ou d'outro quejando rebelde, será minha!

--Bem fallado!--disse, sorrindo, Domingos Leite--Eu, no teu logar, ia
requerendo uma boa commenda em Hespanha, na incertesa do reviramento que
desejas em Portugal. Bem sabes quantas investidas tentam ha sete annos
os hespanhoes contra a nossa milagrosa independencia. Pergunta-o aos
melhores cabos de guerra: ao duque de Feria, ao marquez de Castroforte,
ao conde de Monterey, ao marquez de Mollingen, ao marquez de Torrecusa...

--_Et c½tera_...--atalhou Roque da Cunha--Espera-lhe pela volta. O duque
está sem dinheiro e sem gente. Se não fosse o judeu Jeronymo Dias, não
haveria fôlego dinheiroso que lhe desse vinte cruzados pelas lettras de
cambio.

Esta replica era tristemente verdadeira. Quando D. João IV necessitou
comprar em Amsterdão petrechos de guerra, ninguem lhe quiz honrar a
firma; por maneira que as lettras foram apregoadas na praça, para serem
protestadas. N'esta conjunctura, o hebreu expulso, Jeronymo Dias da
Costa, resgatou do opprobrio o nome do rei e talvez a honra da patria,
pagando as lettras e abrindo os seus thesouros á causa da independencia
da nação, que lhe queimava os parentes. E tão grandemente qualificou D.
João IV este serviço, que despachou Jeronymo Dias com a patente de seu
ajudante, honra que o successor na corôa confirmou em Alexandre e Alvaro
Nunes da Costa, filhos do hebreu; mas, no seguinte reinado, D. João V
não consentiu que o emprego se desse ao neto por ser judeu, _como se seu
pae e avós fossem christãos_, diz com ironica elegancia D. Luiz da
Cunha.[6]

Domingos Leite não redarguia triumphantemente aos argumentos de Roque,
senão recorrendo-se dos factos mais eloquentes que as hypotheses.

Todavia, o animo abatido e desvigorisado para contendas politicas
esquivava-se a disputações.

Em horas de desalento, a só no seu retiro, escrevia cartas ao marquez de
Gouvêa, todas alheias da guerra travada entre as duas nações no mais
alto ponto de encarniçamento. Eram lastimas de pae, por onde se
transluzia a esperança de apiedar com ellas D. João IV. Taes cartas ou
não chegaram ao conhecimento do mordomo-mór, ou o estadista meticuloso
as inutilisou, por entender quanto seria malogrado o intento com el-rei.
O marquez espiava os passos surdos de Antonio Cavide, e usava traças de
lhe explorar o recesso da alma, durante o postre de um jantar bem
lardeado de taças. Se o fidalgo farejára um segredo, cuja revelação iria
angustiar o desterrado, nobre e caritativo era o silencio; e boa prova
de amisade seria têl-o afastado do reino por modo que ignorasse sua
deshonra, e o derradeiro golpe lhe não fosse vibrado por mão de um amigo.

Em frustradas esperanças de perdão ou sequer de resposta, ás suas
cartas, passaram tres acerbos mezes na vida erma e desconfortada do pae
de Angela.

Em começo do mez de abril de 1647, appareceu em Madrid um portuguez,
foragido ao santo officio; e, sabendo acaso que Domingos Leite Pereira
estava ali homisiado e pobre, bem que de leve se conhecessem, procurou-o
para lhe offerecer quinhão da sua abundancia.

Francisco Mendes Nobre, que assim se chamava o christão-novo,--e então
orçava por vinte e cinco annos--conhecia de vista Maria Isabel; e, como
residisse perto do Salvador, muitas vezes vira a menina com sua mãe.

Consolação immensa para o saudoso pae ir ali um enviado da Providencia
fallar-lhe de sua filha, da sua bellesa, dos anneis dos seus cabellos,
da côr dos seus mantos, da graça do seu andar, e até da pallidez das
facesinhas, onde parece que as lagrimas haviam arado o frescor da puericia!

Domingos Leite chorou nos braços d'este quasi desconhecido que de
sobresalto lhe senhoreára o coração.

E Francisco Mendes, captivo da expansão de Domingos Leite, animou-o a ir
secretamente a Portugal buscar a filha, facilitando-lhe recursos
abundantes para a empresa, e dinheiro em Madrid para subsistencia de
ambos, a não querer Domingos Leite acompanhal-o para Hollanda. Alem
d'isso, deu-lhe duas chaves de dois predios em Lisboa, dizendo-lhe:

--Tem vm.ce esta chave que é da minha casa na rua dos Vinagreiros, e
est'outra da casa em que eu morava na rua das Olarias.[7]
Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas
sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, vá
esconder-se na outra: isto é no caso de que o santo-officio as não haja
sequestrado; mas presumo que não, por que eu, apenas soube que um meu
parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portatil dos
meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de
S. Lourenço, que é um honrado christão velho, desde que o hebreu Lafeta
conquistou foros de christão mais velho que o proprio Christo.
(_Nota 21.ª_)

O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu
amigo, despenhava-o da esperança na ultima paragem da perdição.

Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu designio.

--O diabo arma-as!--contraveio Roque--Não vás, doido! Tu não sabes onde
te vaes metter... Olha que em Lisboa já se sabe que és cavalleiro de
Christo em Hespanha, e que os ministros de Filippe IV são teus amigos.

--Mal os conheço...

--Porque foges d'elles, ingrato! e foges d'elles porque a tua perdição
te chama a Portugal.

--O que Deus quizer. Não me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me
prenderem, se me matarem, é-me indifferente acabar de um golpe ou
agonisar n'esta arrastada tortura da saudade. Um favor te peço.

--Que vá comtigo? Nego-me. Matei um homem, por que a tua honra m'o
exigiu; deixar-me agora matar, porque és um fraco, um piegas, que não
póde viver sem a filha, isso é que não assigno.

--Espera, homem, que eu ainda te não disse o que pretendia--replicou bem
humorado Domingos Leite.

--Dize lá, então.

--Quero que obtenhas uma ordem para que o marquez de Molinguen,
governador das armas em Badajoz, me dê passo franco para Portugal.

--Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres?

--Não. Achei aqui um portuguez que me soccorreu, um christão-novo.

--E despresas os soccorros dos christãos-velhos! Ora queira Deus que o
tal judeu te não leve ao calvario como fizeram ao seu rei. Como se chama
elle?

--Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella.

--E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha?

--E para meu pae que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos
dominicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha deshonra,
revelei-t'os; os da consciencia alheia não devo, nem posso.

--Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a
perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena?

--Não. O juro das esmolas recebe-se no ceu.

--A pagal-os lá, todas as burras judaicas da Hollanda vazaria eu
a juro de 200 por cento ao mez!--volveu cascalhando Roque, e
accrescentou:--Quando partes?

--Logo que me obtenhas a ordem para o general.

--Vou tratar d'isso. Entretanto, pensa, Domingos Leite! Que plano levas?

--Por emquanto, nenhum.

--Raptas a pequena, e foges?

--Não: se poder convencerei Maria Isabel a deixar-m'a.

--Se o conseguires, serás feliz; mas duvido que a mãe te dê a pequena.
Se tua mulher quizer acompanhar-te, vem?

--Não.

--Bom será isso; que, se a trazes, depois que a devassa esclareceu a
morte do padre, tão infamada está ella em Portugal como em Hespanha.

--Sei o que devo á minha dignidade, Roque. O rubor das minhas faces não
hade aquecer a dos meus amigos.

--É o que todos desejamos. Vou em teu serviço. O mais tardar ámanhã,
terás a ordem do ministro valido D. Luiz de Haro.


XV

Na noite de 10 de abril de 1647, por volta das onze horas, chegou
Domingos Leite aos arrabaldes de Lisboa, os quaes, do lado da Senhora da
Graça, eram povoados de quintas, cujas casas, debruçadas pelos outeiros
da serra de Almofala, o luar froixo d'aquella noite amarellecia
tristemente.

Ahi descavalgou Domingos Leite, despediu o arrieiro que o conduzira
desde Moira, e esperou o repontar da manhã, hora em que as trinta e oito
portas de Lisboa se franqueavam.

Com a gualteira do ferragoulo encapuzada, entrou de involta nas récovas
das vitualhas, e desceu, estugando o passo, pela ingreme calçada da
senhora da Graça, metteu por beccos ainda desertos, e parou na rua dos
Vinagreiros. Abriu a porta, depois de examinar a numeração da casa, e
fechou-se por dentro, com a certeza de que ninguem o vira. Subiu
tateando no escuro das escadas até ao quinto andar, que sobranceava os
telhados visinhos; abriu as janellas, respirou com offegante prazer o ar
do Tejo, que, áquella hora matinal, emquanto as adufas não resfolegavam
a peste interior das casas, era saudavelmente respiravel. Entre as
setenta e duas torres de Igrejas procurou a de S. Thomé, porque d'ali
perto estava a Portaria do Salvador, e nesse sitio lampejava aos
primeiros raios do sol um zimborio que era o da caza onde áquella hora
devia estar dormindo a sua Angela. A manhã era d'abril, o ceo azul, o
Tejo formoso; n'aquelle ar da patria resoavam-lhe os cantares que só
percebem almas volvidas do desterro. Estes jubilos eram-lhe revesados de
tristezas amarissimas, ao lembrar-se que a tão donairosa e poetica
Lisboa lhe seria apenas uma paragem de horas com perigo da sua
liberdade; porém, o anhelante desejo de ver a filha, o evadir-se com
ella, e a solidão do proscripto dulcificada pela convivencia da creança,
davam-lhe alento e alternativas de exultação.

Previra Domingos Leite que na casa de Francisco Mendes Nobre, com toda a
certeza, não moravam fadas lareiras que lhe cosinhassem o jantar. Esta
racional hypothese, não vulgar nos personagens das novellas, preveniu-o
fora de portas, indusindo-o a comprar dois pães saloios, com que
substituiu frugal e alegremente os dois repastos do dia. E, como as suas
horas eram muitas e vagarosas, examinou os repartimentos da casa do seu
recente amigo e bemfeitor, maravilhando-se da belleza dos adornos, do
aroma feminil que recendia das alfaias, e disposição graciosa dos
objectos, posto que se estivesse em tudo revelando um abandono subito e
desordenado. Deprehendêra Domingos Leite que d'aquelle recinto fugira ao
mesmo tempo a timida amante do christão novo, e essa devia ser a formosa
mulher que elle, um momento, vira em Madrid, quando se despedira de
Francisco Mendes.

Assim que escureceu, e antes que o luar apontasse, Domingos Leite sahiu.
As noites da Lisboa d'aquelle tempo eram apenas alumiadas pelas lampadas
dos oratorios vazados entre as adufas. Os quadrilheiros rondavam em
magotes, receosos dos turbulentos fidalgos cujas delicias eram investir
com elles e soval-os, se os pilhavam repartidos. Facil, por tanto, foi a
Domingos Leite entrever de longe os vultos suspeitos, e furtar-se a
seguro, por bêccos conhecidos, até se avisinhar da Portaria do Salvador.

Quando alli chegou, todas as janellas e portas de sua caza estavam
fechadas. Nos trez andares, e ao travez das trinta janellas, não
translusia claridade de luz; mas, por entre os resquicios de um frestão,
ao rez da rua, no quarto dos criados, viu Domingos Leite que havia luz,
e a espaços ouviu o ruido de passos.

Temendo que os criados já fossem outros, hesitou em dar signal; mas,
porque a noite se adiantasse, e o medo de ser conhecido pelos
transeuntes o obrigasse a fugir por vêzes da visinhagem da casa,
resolveu bater no postigo e proferir o nome do escudeiro, que o servia
desde que elle entrára no paço da duqueza de Mantua, na qualidade de
môço da capella.

--Bernardo!--murmurou Domingos Leite tocando subtilmente no postigo.

--Quem está ahi?--acudiu alvorotado o velho escudeiro, afigurando-se-lhe
a vóz do amo.

--Eu: não me conheces? Abre depressa: mas não faças rumor--disse elle
collando os labios ao frestão.

O criado abriu o postigo, reconheceu o amo e exclamou:

--Nossa Senhora da Graça! é vossa mercê, sr. Domingos Leite?!

--Sou... abre-me a porta; mas que não se ouça lá em cima.

--Aqui estou eu sosinho e mais ninguem--murmurou Bernardo.

--O que? e minha filha? e... tua ama?--exclamou Domingos Leite conturbado.

--Eu vou abrir, eu vou abrir.

Recolhido ao quarto do escudeiro, que o abraçava pelos joelhos, perguntou:

--Onde está minha mulher?

--Hade haver quinze dias que sahiu de caza.

--Para onde?

--Não sei dizer a vossa mercê.

--Como não sabes?! iria para Hespanha?

--Não, senhor. Está em Lisboa; mas não sei onde está. Tudo que havia em
casa, ficou como estava. A senhora levou tão somente dois bahús com
vestidos seus e da menina. Despediu os criados que eramos tres; e fiquei
eu só para ter conta na casa; levou uma criada, e a preta que creou a
menina, e despediu as outras. Deixou-me dinheiro para um mez, e disse-me
que, no mez que vem, cá mandaria entregar-me egual mezada á que me
deixou. Eu desconfiei que a minha ama e menina teriam ido recolher-se em
algum convento; mas quero cuidar que, se fosse isso, a senhora m'o diria
para que eu podesse saber d'ella e da minha ama pequena, que tantas
vezes chorou aqui n'este quarto por vossa mercê...

--Viste-a sahir de casa?--atalhou Domingos Leite.

--Não, meu senhor. Sahiram tão de madrugada que eu apenas dei tento da
sahida ouvindo o tropel dos machos da liteira.

--Da liteira da casa?

--Não, senhor. Logo que vossa mercê sahiu de Lisboa, d'ali a dias, minha
ama mandou-me vender os machos, o cavallo, a liteira, a cadeirinha, e
tudo mais.

--Quem vinha a esta casa depois que eu me retirei?--perguntou mais
tranquillo Domingos Leite, abraçando, contra a opinião do criado, a
hypothese do convento.

--Apenas aqui entrou trez vezes...

--Quem?

--O sr. Antonio de Cavide...

--Oh!--exclamou o marido de Maria Isabel, arregaçando as palpebras, como
se os olhos tumidos de terror ou ira não coubessem nas orbitas--Que
dizes tu? Antonio Cavide? o secretario d'el-rei? conhecel-o bem?

--Se conheço, senhor!... e mais eu nunca o vi aqui entrar senão ao fim
da tarde, entre lusco-fusco...

--Dize-me o que sabes...--clamou desabridamente Domingos Leite, batendo
no hombro ao amedrontado escudeiro.

--Não sei mais nada, meu amo... Ah!.. outra coisa... depois que o Cavide
aqui veio, as criadas disseram-me que a menina era açafata do paço...

--O que? açafata!?.

--Sim, meu senhor, e por signal todos começamos a tratar a menina por
_senhoria_ e _dom_, porque a mãe assim o ordenara ás criadas...

--Que mais, Bernardo, que mais?--soluçava em violento arquejar Domingos
Leite, com os pulsos fincados nas fontes e os olhos espavoridos na cara
atribulada do criado.

--Nada mais sei.

Quedou-se alguns minutos em silencioso anceio; e de subito disse ao criado:

--Que ninguem saiba que estou em Lisboa...

--Ó meu amo!--volveu Bernardo--permitta Deus que a morte me colha, se
alguem o souber de mim...

--Fecha as portas, que eu vou sahir; mas não durmas, que eu talvez tenha
de voltar aqui esta noute. Vai ao meu quarto, e...

--Não tenho as chaves do quarto de vossa mercê.

--Arromba a porta e traze de lá os meus pistoletes para aqui; se eu
voltar esta noite, dar-m'os-hás pelo postigo, logo que eu te der signal,
e te chamar.

--Onde vai o meu amo!... pelas chagas de Christo, pense no que vai
fazer...--rogou o velho de mãos erguidas.

Domingos Leite encarou-o de ruim aspecto, e interrogou:

--Que cuidas tu que eu vou fazer?! Então sabes onde está essa mulher?
Dize, Bernardo! Ordeno-te que m'o digas!..

--O Senhor dos Paços da Graça me tolha esta lingua se eu sei onde está
minha ama.

Domingos Leite sahiu em direitura ao _Bairro da Marinha_, que assim
chamavam á parte da cidade convisinha do Tejo. Ahi, contiguo ao convento
dos _hybernios_ ou dominicanos irlandezes, era o palacio do marquez de
Gouvêa, somente habitado durante o inverno.

Soavam onze horas no relogio do paço da Ribeira, quando Domingos Leite
aldravava no portão do mordomo-mór, com o desassombro do seu tempo de
secretario. Fallou o porteiro pelo postigo, e disse que o sr. marquez
estava na cama. Instou Domingos Leite por lhe fallar, dando-se a
conhecer ao pavido porteiro, que levou a noticia ao fidalgo.

Ergueu-se o marquez sobresaltado, e foi receber Domingos Leite,
ordenando ao porteiro que escondesse dos mais criados a vinda d'aquelle
infeliz a Lisboa.

--Vossemecê aqui?!--exclamou o mordomo-mór.

--É verdade--respondeu Domingos Leite com semblante em apparencia
socegado--venho perguntar a V. Ex.ª se me sabe dizer onde está Maria
Isabel.

O marquez olhou-o compassivamente, deteve-se silencioso, apoiou a fronte
entre os dedos entrelaçados, deu um gemido de sincera magua, e murmurou:

--Fuja, desgraçado; saia de Lisboa... A que veio aqui?

--Buscar minha filha. Não disse eu tantas vezes em minhas cartas a V.
Ex.ª que morria de saudades d'ella? Venho buscal-a; mas, não a achando
nem a mãe na casa onde ficáram, pergunto a V. Ex.ª onde estão.

Apoz longo silencio do interrogado e rapida mutação no aspecto de
Domingos Leite, o marquez, dados alguns passeios na sala, perguntou:

--Contenta-se com levar sua filha, sr. Leite?

--É minha filha unicamente que eu quero levar.

--Vou esforçar-me pelo conseguimento d'esse desejo.

--Beijo as mãos de V. Ex.ª; mas devo ignorar onde ella está?

--Poderia sabêl-o, se tivesse pela mãe todo o desprezo que ella merece.

--Prostituiu-se? Bem vê V. Ex.ª que eu lhe faço esta pergunta com a
maior serenidade. Não vê?

--Desconfio que não.

--Creia, sr. marquez; se eu tirar a minha filha do abysmo em que está
Maria Isabel, visto-me de gala... Mas como foi este rapido despenho da
malfadada, por quem eu me perdi?

--Jure-me que hade ser homem de bem!

--Juro a V. Ex.ª que heide ser homem de bem até o provar no patibulo,
onde os malfeitores ouvem o pregão da sua infamia.

--Que está ahi a imaginar patibulos! Os homens de bem não vão aos
patibulos.

--Isto foi um modo figurado de fallar. Deus hade permittir que eu não
expie na forca as devassidões da barregan de... De quem? ainda V. Ex.ª
me não disse de quem...

--De D. João IV--respondeu serenamente o fidalgo.

--Veja, sr. marquez, que esse augusto nome não me colheu de assalto. Eu
tinha-o suspeitado, logo que um meu criado me disse que Antonio de
Cavide frequentava a casa da mulher perdida.

Nos beiços de Domingos Leite crispava o que quer que fosse analogo a um
sorriso, como se as dôres lancinantes da nevralgia facial lhe vibrassem
os musculos labiaes. O marquez contemplava-o. E elle, sem poder
exprimir-se, exercitava com as mãos e cabeça uns gestos significativos
de torvação.

--Sr. Leite...--disse o mordomo-mór, tocando-lhe affavelmente na mão
esquerda com que elle comprimia o coração.

--Sr. marquez...--respondeu muito abatido Domingos Leite.

--Força e alma!

--Sinto que tenho ambas as cousas... e demais! Antes Deus me fizesse
mais fraco.

Passados momentos, proseguiu:

--Parece incrivel, mas é atrozmente verdade, que eu peço e desejo que V.
Ex.ª me conte como ella se perdeu... Não foi por necessidade, que eu
tudo que ella tinha lhe deixei. Não foi por paixão, por que o rei não
tem as graças fulminantes que prostrem n'um estrado ou n'um leito real a
mulher de alguma honestidade. Então que foi? um longo trabalho de
seducção? uma cadeia de perfidias que deram de si a posse pela violencia
imprevista? Não pode ser. Ha trez mezes que eu sahi do reino, e ha
quinze dias que a rameira se mudou para o real bordel... Como foi isto
então, sr. marquez? Faça de conta que refere a historia a um estranho,
que afinal se hade rir do marido, e achar que o rei não tinha obrigação
de ser mais honrado que o padre Luiz da Silveira...

Domingos Leite, n'este ponto do seu lento e sinistro discorrer,
desfechou uma risada estridula que fez frio na espinha dorsal do
fidalgo; e logo abruptamente continuou com a maxima gravidade:

--Mas quem diz aos reis que elles são mais invulneraveis que os padres?

--Falle baixo!--acudiu o marquez chegando-lhe a mão tremente até aos
beiços--Sr. Leite, olhe que ha muita gente n'esta casa... Peço-lhe que
me não exponha, e peço-lhe que se não precipite irremediavelmente...

--Eu fallarei baixinho, sr. marquez--replicou Domingos Leite, quasi em
segredo--Perdoe-me V. Ex.ª estas explosões; são relampagos sem raio. Eu
não faço mal a ninguem. Sou um proscripto... um proscripto da laia de
João Lourenço da Cunha, que lá em Castella usava pontas de ouro. Ora eu,
que sou pobre, heide usal-as... da sua natural materia...

E riu rispidamente, esfregando com phrenesi as mãos nos joelhos, com
umas figurações de louco.

--Valha-me o ceo!--tornou o marquez de Gouvêa--Cuidei que o infortunio
de muitos, em casos desta natureza, lhe daria o exemplo do que é a
verdadeira dignidade de um marido...

--Qual é? o despejo?

--Não: é o desprezo.

--E por ventura que sinto eu senão o desprezo por ella? Mas a mim é que
eu não posso desprezar-me tambem, sr. mordomo-mór! De uns homens, como o
conde D. Gregorio Castello Branco, sei eu que não só não desprezam mas
até acatam suas mulheres, se D. João IV houve por bem diffamar-lh'as.
Não sei se esta tolerancia é cortezia apprendida na frequencia da côrte.
Eu... bem sabe V. Ex.ª que sou da arraia miuda, e creio ainda que me
seria mais airoso ter uma esposa honesta que ter-m'a no seu leito el-rei
nosso senhor...--E ria-se!

--Meu amigo--redarguiu tanto ou quanto impacientado o
mordomo-mór--desculpo-lhe o desabafo das ironias, e até lhe desculparia
as mais aceradas injurias a quem quer que fosse; mas não é assim que o
seu destino hade melhorar, sr. Leite. Respeitemos a fatalidade e
remediemos o que poder ser.

--Diga V. Ex.ª, meu nobre amigo.

--Sua mulher, querendo ir para Castella unir-se a seu marido com sua
filha...

--Ella!.. ella unir-se a mim?

--Ou subjeitar-se ao despreso, com tanto que podesse aliviar-lhe a
desgraça levando-lhe a menina, sua mulher, repito, quiz vender os bens;
mas a justiça impediu-lh'o. Consultou-me sobre solicitar d'elrei a
licença; eu desapprovei-lhe semelhante recurso; ella menospresou o meu
conselho, e fallou ao rei. Mal sei o que passou entre ambos. O que facil
me foi saber de pessoa competente foi que el-rei, por intermeio de
Antonio Cavide, é hoje o que o sr. Leite sabe. Agora que de fugida lhe
disse o que me affligiu grandemente referir-lhe, vamos ao ponto, vamos
satisfazer o motivo que o trouxe a Portugal. Quer sua filha?

--Sim, sr. marquez.

--E, obtida ella, retira-se sem estrondo, sem escandalo?

--Immediatamente.

--Pois então vá o sr. Domingos Leite para sua casa, e ámanhã dê-me ponto
onde eu o encontre ás dez da noute. Não venha aqui. Onde se alojou?

--Na caza deshabitada de um amigo.

--Aonde?

--Na rua dos Vinagreiros. Seria difficil a V. Ex.ª achar de noute o
numero da porta.

--Espere... Ás nove em ponto o meu coche hade estar nas teracenas.
Vossemecê vai aforrado, entra, e lá me encontra. Então lhe darei noticia
das minhas diligencias de ámanhã. Entretanto, se eu antes d'essa hora
tiver precisão de lhe dar aviso, como hade ser?

--Em casa de Maria Isabel está um criado a quem V. Ex.ª pode mandar
qualquer aviso, que elle irá communicar-m'o.

--Tranquillize-se, sr. Leite, seja homem; sem isso não pode lograr a
satisfação de ser pae extremoso.

Domingos Leite curvou-se até beijar a mão do marquez, e sahiu.


XVI

Esperava-o Bernardo com o ouvido collado ao postigo.

Domingos Leite entrou no quarto do criado, sem sensivel mudança no
rosto. Palavra, que denunciasse as revelações do marquez, não proferiu
alguma. Bernardo perguntou-lhe a mêdo se descobrira a paragem da
senhora. Respondeu que não: disse verdade.

Conversaram ácerca de Angela. O pai perguntava coisas tão
insignificantes que parecia futilissimo, se não fosse desgraçado em
extremo. O criado insistiu outra vez em lhe recontar o caso de ser a
menina açafata. Transtornaram-se as feições do amo. Ouviu-lhe o
escudeiro um ringir de dentes asperrimo, e um como rugido estrangulado
nos gorgomillos. Ás duas horas da noute, Domingos Leite pediu ao criado
alguns sobejos da sua ceia. Sentia-se esvaecer de fraqueza. Comeu e disse:

--Aqui tens meio cruzado pela ceia e pelo repouso de duas horas.

--Ó meu amo!--exclamou Bernardo--vossa mercê falla serio ao seu velho
criado?!

--A ceia deu-te a soldada de tua ama e a casa em que me abrigas d'ella
é. Tu vendes-me parte do que é teu.

--Não o intendo, senhor.

--Deixa-me encostar a cabeça, que ha quatro noutes que não durmo e hei
medo de insandecer. Antes de romper a manhã, acorda-me.

Pouco depois, Domingos Leite, sopitado em lethargia de febre, sonhava
alto, pronunciando vozes que gelavam de pavor o criado. Eram apostrophes
em que o nome suavissimo da filha se envolvia com expressões indecentes
e epithetos que entram sem rebuço nos alcouces. De mistura, estallavam
ameaças de sangue, e a palavra _rei_ soava bem distincta por entre as
objurgatorias que a precipitação tornava inintelligiveis.

O escudeiro, mais supersticioso em sonhos que esperto em tirar
inferencias da vida real, compoz com as phrases soltas que ouviu a
desgraçada situação de seu amo. Chorou então copiosamente ajoelhado á
beira do catre.

Á hora em que devia chamal-o, o amo adormecera serenamente e a febre
remittira. Bernardo pediu conselho ao seu retábulo do Senhor dos Passos,
sobre deixal-o descançar ou espertal-o d'aquelle tão curto dormir.
Figurou-se-lhe que a vontade divina lhe inspirava que deixasse o infeliz
restaurar forças para succumbir depois de muitas e acerbas batalhas.

Era já nado o sol havia muito, quando Domingos Leite espertou. Bernardo,
entre receios e lagrimas, disse-lhe que o não chamara, porque á hora
aprazada adormecera seu amo, depois de arder em febre agitadamente.

--Mas porque choras tu?--perguntou Domingos Leite.

--Porque choro, senhor!... Ai! quem o viu, quem o viu, meu querido senhor!

E abraçou-se n'elle, abafando-lhe os gritos no seio.

O infeliz deixava-se abraçar, e murmurava:

--É verdade, Bernardo!... quem me viu!... O que era eu ha sete annos!
Tão festejado, tão alegre, tão rico, tão esperançado... E agora!...
sabes tu lá quanto eu sou digno de compaixão!...

Não tinha o ceo beneficio maior a dar-lhe que o d'aquella torrente de
lagrimas...

--Como heide eu sahir d'aqui a tal hora?--disse elle ao criado.

--Se não tivesse grande precisão de sahir, que mal estaria aqui vossa
mercê?--e proseguiu com risonho modo--Se ficar, paga-me o alimento e a
dormida...

--Ficarei--conveio Domingos Leite--Olha, Bernardo se eu podesse ver a
cama de minha filha... o berço, aquelle berço em que ella ás vezes
dormia no meu quarto...

--Lá está ainda debaixo do leito de vossa mercê. Nunca mais entrou
alguem na sua alcôva. A menina muitas vezes pediu á mãe que a deixasse
lá entrar; mas a senhora--isto vi eu!--indo uma vez a entrar, para fazer
a vontade á filhinha, assim que deu com os olhos nas coisas como vossa
mercê as deixou, rompeu em tal choro que sahiu d'ali quasi nos meus braços.

Domingos Leite interrompeu-o asperamente.

--Cala-te, homem... O nome d'essa mulher nunca mais o pronuncies na
minha presença, se me estimas!

Pareceram rapidas as horas d'aquelle dia a Domingos Leite.

Encerrou-se no seu quarto, lendo e rasgando papeis tirados dos seus
contadores, memorias da sua mocidade, extractos das suas leituras,
escriptos politicos com que seu talento ganhara a estima do marquez de
Gouvêa, bilhetes de João Pinto Ribeiro e do desembargador João Sanches
de Baena, de incumbencia ou de agradecimento de serviços prestados
arriscadamente ao duque de Bragança.

A espaços, o escudeiro encontrava-o com a face debruçada sobre os
braços, amparando-se no bofete. Quedava-se o velho soffreando a
respiração para o ouvir dormír; e ás vezes confundia os soluços com o
alto respirar d'um somno irrequieto. Outras vezes achava-o curvado sobre
o espaldar do berço, com os olhos marejados a embevecerem-se na
almofada, em quanto o leitosinho se balouçava movido pela mão.

Neste lance temia o velho que seu amo enlouquecesse, parecendo-lhe muito
mulherengo aquelle acto de estar um homem acalentando um berço vasio.

Ahi pelo meio da tarde, o guarda-portão do marquez de Gouvêa procurou o
escudeiro de Domingos Leite, e, com muito resguardo, o encarregou de
levar um papel lacrado a seu amo.

Bernardo fôra prevenido desta mensagem. Acceitou carta, sem dizer ao
portador que seu amo estava ali.

O contheudo era a prorogação do encontro para a noite do seguinte dia,
visto que nada podia resolver sem mais algumas horas de actividade.

O mordomo-mór não tinha descançado. Vamos no encalço d'este leal amigo
de Domingos Leite Pereira.

A hora desacostumada na manhã d'aquelle dia fôra em seu coche acordar o
secretario d'estado Antonio de Cavide. Relatou-lhe, tão ingenuo quanto
imprudente, a vinda clandestina do marido de Maria Isabel, de proposito
para levar a filha comsigo a Madrid, e continuou:

--Tem V. S.ª[8] occasião de fazer grande serviço a el-rei, á
sua amante, á filha de Domingos Leite, a este desgraçado homem e a mim.
Tantos favores a tantas pessoas em pouco esforço estão. Consiga V. S.ª
que Maria Isabel me entregue a menina que eu lhe prometto sahir Domingos
Leite de Portugal na mesma hora em que eu lh'a restituir. Por este modo,
evitamos que o marido exasperado publique o destino da mulher; evitamos
dissabores a el-rei; evitamos grandes pesares e talvez remorsos a essa
mulher, finalmente resgatamos a menina de uma situação pouco exemplar.

--Diz V. Ex.ª optimamente--obtemperou Antonio Cavide--Vou vestir-me, e
saio em direitura para Alcantara a procurar Maria Isabel. Não sei se
poderei vel-a, porque el-rei está hoje a caçar na tapada do palacio, e a
sua _Diana_ deu agora em querer segurar a tréla dos falcões--ajuntou o
velhaco sorrindo--No entanto, aguardarei __ o ensejo de me ver a só com
ella. V. Ex.ª conhece o genio de el-rei. Se eu lhe digo que o temerario
Domingos Leite, affrontando a justiça, ousou metter-se em Lisboa, temos
na rua os corregedores todos com a sua matilha de esbirros na piugada do
pobre homem, que será aperreado depois do que nós sabemos...

Aqui arregaçou o secretario outro riso infame e prosseguiu:

--O melhor será que ella diga a el-rei que de seu moto proprio envia a
pequena ao pai. El-rei não lh'o impede, porque a presença da creança o
estorva; e as coisas feitas assim ficam excellentemente feitas.

--Muito bem--concordou contentissimo o mordomo-mór--A que horas calcula
V. S.ª poder responder-me?

--Ás duas da tarde devo estar de volta de Alcantara. O Domingos Leite
está hospede de V. Ex.ª?

--Não, sr--respondeu ingenuamente o marquez--disse-me que se recolhera á
rua dos Vinagreiros, e eu fiquei de me encontrar com elle á noite, ou
avisal-o hoje de qualquer nova.

--Pois eu vou satisfazer a V. Ex.ª; entretanto, esse infeliz que tenha
cuidado sobre si, porque de Madrid tem vindo confidencias a el-rei muito
aggravantes para Domingos Leite e para o tal Roque da Cunha, que
assassinou o padre Silveira. Eu ouvi dizer a Gaspar de Faria Severim
que, precisando de um fino espião em Madrid, o patife mais ajustado ao
intento era o tal Roque da Cunha; e sua magestade, que conhece os mais
egregios malandrins de Portugal e conquistas, approva o alvitre.
Domingos Leite que se precate... Isto revéllo eu muito á puridade a V.
Ex.ª por saber quanto esse desafortunado homem lhe é agradavel, e os
bons serviços que elle fez na restauração, escrevendo e fallando nas
juntas do padre Nicolau da Maya.

Retirou-se o marquez muito agradecido e esperançado no bom exito da sua
discreta ideia.

Antonio Cavide foi sem detença a Alcantara, apeou á porta do palacio
real, e soube que elrei estava almoçando. Perguntou se sua magestade era
sosinho; e, como lhe respondessem affirmativamente, deixou o côche, e
foi a pé em demanda de um palacete contiguo ao mosteiro das religiosas
do Calvario.

Residia ahi Maria Isabel Traga-malhas com sua filha, criadas e pagens. A
visinhança não a presumia theuda do monarcha. O fausto do viver
justificava-o naturalmente a fama dos seus teres. Dizia-se que a
desgraça do ex-escrivão do civel, seu marido, fôra causa d'aquella
retirada para longe do concurso da gente, e que o avisinhar-se de
mosteiro tão rigoroso era já indicio de profunda piedade a que se
acolhiam enormes desgostos. Isto resava a opinião publica que resa
sempre bem.

D. João IV recebia Maria Isabel, a horas mortas, por uma porta do
extremo da tapada. Ás vezes, passavam-se dias inteiros sem que sua
magestade alvorotasse os gamos e veados da floresta; outras vezes, o
real caçador, com a escopeta atravessada sobre as pernas, e a fronte
pendida ao seio da sua _Diana_, como dizia o secretario, ouvia os
gorgeios dos rouxinoes emboscados nos olmedos e espinheiros. A opinião
publica não dizia isto: era Antonio Cavide, e mais algum fidalgo da
intima confiança do rei, que o segredavam entre si.

Annunciou-se o ministro a Maria Isabel. Sahiu a recebêl-o a
açafatasinha, e d'ahi a pouco a mãe com semblante de quem se espantava e
assustava da visita.

Expoz Cavide a sua mensagem, segundo o plano convencionado com o
marquez. Interrompera-o ella com exclamações, com esterismos, já
corando, já empalidecendo; quando, porém, o expositor chegou ao ponto
essencial, aconselhando a entrega da menina, Maria Isabel replicou
inflexivelmente que não dava sua filha, e que ninguem lh'a arrancaria
dos braços.

Desanimou o agenciador, receando desvaliar-se aos olhos de el-rei nos
olhos da sua amante. Pediu perdão de a ter aconselhado, beijou-lhe
mesureiramente a mão, e ergueu-se para sahir.

Perguntou-lhe, ao retirar-se, Maria Isabel se seu marido se alojára na
casa do Salvador. Respondeu Cavide que lhe constava estar Domingos Leite
na rua dos Vinagreiros.

Antes de duas horas da tarde, o marquez sabia que as diligencias do
secretario se malograram. Tergiversou entre desenganar e esperançar
Domingos Leite. Venceu-se alfim do mais generoso pensamento, resolvendo
ir pessoalmente fallar com Maria Isabel, calculando reduzil-a com o
vaticinio das funestas consequencias da sua recusação.

Quando ás quatro horas da tarde a procurou, a dama era fóra de casa,
posto que a sua aia dissesse estar de cama com subito incommodo. Maria
Isabel, sem prevenir o seu real amante, nem usar grandes resalvas de
honestidade, entrou no atrio do palacio com Angela pela mão, e foi
conduzida reverentemente ás salas.

D. João IV, mais contente que sobresaltado da inesperada visita, foi
receber a gentil comborça ainda mal enchuta das lagrimas. Referiu ella
com entrecortadas vozes, sem pejo da filha, e quasi deitada nos braços
do rei, o que passára com Antonio Cavide, e concluiu mostrando-se
receosa e até certissima de que Domingos Leite, não lhe tirando a filha,
seria capaz de matal-a. Era sincera no seu terror.

Tranquillisou-a o rei; e, sem medear tempo, mandou chamar Antonio
Cavide. Apartou-se com elle, e deu-lhe ordens rapidas. Ao cahir da
noute, o secretario d'estado entrava em Lisboa, a tempo que o marquez,
por palpite de maior desgraça, sabendo que o valido fôra chamado a
Alcantara, o estava esperando no seu palacio.

Cavide, vendo o mordomo-mor na sua sala de espera, acercou-se d'elle, e
disse-lhe ao ouvido:

--Não ha tempo a perder. V. Ex.ª saiba corresponder a esta
confidencia... Domingos Leite que se esconda, que fuja, porque vai ser
preso. Adeus. Vou procurar o conde de Odemira; vou cumprir ordens
d'el-rei. O amor é o diabo, sr. marquez, o amor é o diabo! Estas Dalilas
tosquiam o nosso Sansão, e queira Deus que o templo se não alúa sobre
elle e sobre nós...

--Biltre!--disse de si comsigo o marquez.

Era noute cerrada.

O mordomo-mór só confiou de si o melindroso aviso. Disfarçou-se com a
maior precaução, e foi á porta do Salvador.

Domingos Leite esperava ainda alguma nova, quando o escudeiro abriu a
porta ao desconhecido, que se intitulou enviado da pessoa que já ali
tinha mandado recado a seu amo.

Esquivava-se a dar-lhe entrada, quando Leite Pereira reconheceu a vóz do
marquez. Subiram para o primeiro sobrado. A terrivel noticia revelava-se
no aspecto do consternado fidalgo. Domingos comprehendeu-o.

--Nada feito, sr. marquez?

--Nada feito. Serei breve porque o tempo urge. Cavide fallou a Maria
Isabel na entrega da filha. Foi repellido. Quiz eu experimentar a
condição d'essa mulher. Procurei-a; mas não estava em caza. Devia estar
com el-rei. Perto da noute soube que o conde de Odemira ia ser
encarregado da sua prizão.

--Ainda bem!--exclamou Domingos Leite--Quero ser prezo!

--Não diga absurdos, que me faz arrepender de lhe votar tamanha amisade!
Quer ser preso! para que?

--Direi entre ferros quem é o rei de Portugal!

--Não dirá nada entre ferros, porque ha mordaças. De sobra sabia
Francisco de Lucena quem era D. João IV, e nada disse, morrendo
innocentissimo, e D. João IV de sobra sabia que Lucena morria
innocente... e deixou-o morrer. (_Nota 22.ª_) Não me conteste nem
resista, que perde o unico amigo que tem no reino. Fuja sem demora. Vá
para Madrid, se não prefere antes ir para França. Eu, á força de idear
traças de lhe restituir sua filha, heide conseguil-o cedo ou tarde.
Espero commover o rei, pintando-lhe a dor do infeliz marido e pae...

--De modo nenhum!--obstou Domingos Leite com azedume--Peço-lhe que me
não avilte, sr. marquez! Deixe-me morrer com dignidade! Não quero a
misericordia do tyranno, do adultero, do devasso, que eu por entre
punhaes de castelhanos e de portuguezes acclamei em Evora. Não quero
d'esse homem senão um saldo de contas que se hão de liquidar...

--_Sio!_--atalhou o marquez, tapando-lhe a bôcca, e sopesando os
cabellos que se lhe irriçavam de terror na fronte gelada.--Cale-se,
mentecapto!... cale-se! que, senão, eu maldigo a hora em que vim aqui!..

--Perdão, meu nobre amigo!--volveu Domingos Leite--Se v. ex.ª se
arrepende de vir aqui, repêso me sinto eu tambem de o haver procurado.
Entretanto, como v. ex.ª se me figura traspassado de um certo horror de
cumplicidade nos meus propositos de vingança, o meu dever é preserval-o
de susto, retirando-me ámanhã para Castella.

--Ámanhã não, hoje, é urgentissimo que seja hoje; porque, ao raiar da
manhã, esta casa póde ser rodeada de quadrilheiros.

--Em tal caso vou retirar-me para outra casa que tenho, e sahirei d'ella
ao romper do dia.

--Vae para a rua dos Vinagreiros?

--Não, senhor marquez... E, quando fosse, quem denunciou o meu
esconderijo da rua dos Vinagreiros?!

--Fui eu por imperdoavel imprudencia a Antonio de Cavide. Cuidei que o
tinha compadecido, e hoje receio que elle dirija para lá e para aqui ao
mesmo tempo os aguasis.

--Vá v. ex.ª descançado que não heide ser encontrado aqui nem lá.

--Meu amigo do coração!--clamou o mordomo-mór abraçando-o--Adeus! adeus!
fie de mim o seu futuro, o seu perdão, e a entrega da sua querida filha!


XVII

Aos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de
Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justiça dos corregedores de
dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta
á busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi
preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda
compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braços, confessou que
Domingos Leite, ás duas horas da noite passada, se havia refugiado em
uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A
horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e não
encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um
visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manhã, havia
dado tento de estropear de cavallo, depois que a porta da rua se
fechára. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da côrte, alvitrou
que Domingos Leite devia ter partido para Guimarães, sua terra natal.

Incontinenti se despediram postilhões para o Minho.

Fr. Francisco Brandão é o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que
nos relata estes passos: ..._Tres vezes veio o réo sobredicto_ (Domingos
Leite) _a este reino, ainda que da primeira não consta que fosse com o
mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasião
primeira, e foi tal a desgraça sua que com apertadas dilligencias em
Lisboa e Guimaraens se não pôde descobrir nem aprisionar; que a ser assi
é veresimil que desculpára as persumpçoens do passado e não incorrêra
etc._[9]

Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. João IV prevenia
Antonio Cavide que era forçoso, logo que Domingos Leite estivesse em
ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para
mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declarações
escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher,
lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive
assacado á pessoa sacratissima do rei e á innocencia da esposa.

Baldaram-se as prevenções. Duas semanas passadas, a espionagem de
Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado
que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabel recobrou-se
dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effusões
sanguinarias, o marquez estudava traças de apiedar o rei, e o rei, com
grande magua da ciosa Luisa de Gusmão, raras horas passava fóra da
tapada de Alcantara.

No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir
sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma idéa de
vingança, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz
atrocissima.

Confidenciou o seu pensamento de matar D. João IV, ao hebreu Francisco
Mendes. Este discreto moço oppugnou-lhe o desvairado intento com
argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e lá
pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingança do remorso nas
consciencias do rei e da collareja real.

Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para
Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa
a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor
da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe
seguissem.

Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por
que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em
Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha,
violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.

Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao
desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez
que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir
ameaças de morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou:

--Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas
vezes eu tenho dito cá muito commigo: «Se Maria Isabel fosse minha
mulher, o duque de Bragança, que me deshonrou, havia de morrer tres
vezes ás minhas mãos, visto que o padre Luiz morreu uma, não me tendo
feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo
de vingança te não houvesse passado ardente pela alma como um raio da
justiça divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmão do marquez de
Porto Seguro, me disse: «E que faz esse brioso Domingos Leite que não
espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os serviços,
tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do
bêcco da Madragôa! Que faz esse homem de honrados figados que matou um
padre, pela innocente rasão de ter amado uma mulher primeiro do que
elle!» E esta, meu querido amigo, é a linguagem de Diogo Soares, do
conde de Figueiró, de Francisco Leitão, e até... queres que te diga
tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes,
quando tal soube, disse: «É bem feito que o mateiro de Villa Viçosa faça
os seus vassallos veados, já que alguns d'elles entenderam que o melhor
rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. É bem
feito que Domingos Leite receba alvará de Cornelio _tacito_ para
dignamente escrever os Fastos do seu real amo!...» Aqui tens ouro fio o
pezo que está fazendo na opinião de Castella o teu infortunio. Ora
imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu não direi ámanhã a D. Luiz
de Alencastre: «Pode v. ex.ª dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos
Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis
devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma!»

--Melhor é que não digas nada,--observou glacialmente Domingos Leite--Eu
tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. João IV,
não me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presença dos
verdugos...

--Dos verdugos!--acudiu Roque--Se te expozesses ao alcance da corda ou
do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingança com gloria e
reputação de sensato, é mister que o homem morra, e que tu fiques a
ouvir-lhe gargantear o _de profundis_. Alem de que, se a tua heroica
idéa fermentar, eu heide ser ouvido, e sócio da aventura...

--Não quero cumplices--disse Domingos Leite.

--Nem amigos? Dize isso aos outros: não o digas a Roque da Cunha, réo de
homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que
Deus conserve á _porta inferi_, esperando a alma de cantaro de D. João
de Bragança. Amigo,--proseguiu, abraçando-o, e recuando o peito para lhe
vêr de fito o rosto--Se queres só para ti a gloria de matar o amante de
tua mulher, justo é que a tenhas; não serei eu que a dispute á coragem e
ao pundonor da tua justiça; porem, quando essa conjunctura venha a
realisar-se, Roque da Cunha hade estar á tua beira; por modo, que se a
desaventura te fizer cambapé, ambos nós tombemos ao mesmo abysmo. Quem
te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe.

--Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittido escolher? A morte; o
adormecer, e não acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha
execravel situação.

--Temos sesão de fraquesa? Vá lá! Os leões tambem tremem suas maleitas.
Não me assusta esse desalento... Ámanhã, quando eu aqui voltar á tua
charneca, heide achar essa alma remoçada, e o plano feito. Medita, que
eu tambem vou escogitar o meu traçado. Espero que o meu seja o mais
acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que
escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira,
ouve lá o que eu te digo: Tens nas tuas mãos o destino de Portugal! E
serás um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser.

Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle
que ás vezes se lhe pintava infernalmente necessario á sua existencia.

N'aquella noite infinita, a ira, a paixão, fora-lhe exulcerada pelas
zombeteiras declamações de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame,
e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio
que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a
phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. João
IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era
e seria sempre sua vida,--engolphando-se na treva que todos os passos
lhe negrejava pelo futuro alem,--pareceu-lhe que matar o rei, e
deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais
brilhante e redemptora solução de sua desgraça.

Aclarava o dia seguinte, e já Roque da Cunha batia á porta da casa
campestre de Domingos Leite.

Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem
bom, um consolador christão, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella
insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e
patibulos. O unico homem competente á sua desesperação era Roque.
Abraçou-o com arrebatada ternura, e exclamou:

--Heide matal-o!

--Isso sabia eu...--disse o outro friamente.--Resta saber como.

--Pensaste?

--A noite toda. São cinco horas e meia. Bem sabes que é meu costume
levantar-me ás dez, quando durmo o somno do justo. Não dormi nada.
Estive com Diogo Soares até ás onze, com o conde de Figueiró até á meia
noite, com D. Luiz de Haro até á uma, com meu padrasto até ás duas, e
d'ahi em diante commigo só, e agora comtigo para te dizer o que vais
ouvir...

--Toda essa gente--interrompeu Domingos Leite--está, por tanto, no
segredo dos meus projectos?...

--Assim como estava no segredo das tuas desventuras.

--Vamos lá, dize, que eu já me não embaraço com pequenas miserias. Que
vens annunciar-me? que plano trazes?

--Plano de grande artifice. Não é meu: dou o pai á creança: é de Diogo
Soares. O duque de Bragança não póde ser morto face a face, nem dentro
do paço, nem na rua, nem nas passagens que elle costuma fazer de um
palacio para outro, com grande escolta. Quanto elle é covarde sabêm'ol-o
nós, desde que inventámos n'elle um rei legitimo; e, depois que a vida
lhe esteve a pique das espadas do conde de Armamar e do marquez de Villa
Real, hade ter bom olho quem o vir sósinho ao alcance de um tiro, ou
quem o descobrir a dez leguas de distancia de um arraial. Covarde como
todos os infames, diz o conde de Figueiró. Observei eu ao ministro
Soares que tu, homem de bizarra condição, não quererias matar o duque de
cilada. Replicou Soares perguntando-me se o duque, empolgando-te a
esposa, te matára o coração com a vizeira levantada, ou se te não ferira
com a mais abominavel perfidia. Não tinha replica sensata a pergunta.
Traição por traição. Seguiu-se discutir a traça da morte. Diogo Soares
pediu meia hora de meditação. Apanhou a calva fronte entre as mãos,
espremeu os miolos, e decretou o seguinte: A procissão de Corpus-Christi
cahe este anno no dia 20 de junho. Iremos para Lisboa, sem perda de
tempo. São hoje 24 de abril. Devemos partir d'aqui no fim do mez. Soares
tem amigos seguros em Lisboa, que nos hãode alojar sem risco. Alugaremos
casas em uma das ruas por onde a procissão hade passar. Estas casas hão
ter outras e outras contiguas que tambem allugaremos. Abriremos
communicações entre ellas, de modo que façam frente para duas ruas.
Suppõe tu... proseguiu Roque traçando no papel a planta das casas ...
Aqui tens tu tres moradas de casas, vês?

--Sim.

--Imagina que estamos na extrema da parochia de S. Nicolau. A entrada
d'este primeiro predio é por este bêcco. Sabes como se chama?

--Não.

--É o bêcco de Pero Ponce de Leão, que vai dar aqui ao Terreiro de traz
da capella mór de S. Nicolau. Percebes?

--Percebo...

--Bem. Aqui n'este Terreiro principia a rua dos Torneiros. Ella aqui
vai... Ora agora, este outro predio, como vês, fica no ultimo canto da
rua dos Torneiros, e faz face para a Fancaria e bêco do Ourinol.
Comprehendes?

--Sim.

--A outra casa, como vês, está no meio das duas.

--É claro.

--A procissão, ao recolher da Sé, vem aqui ter da rua dos Torneiros.
Quando aqui passar, temos o rei pela frente; e, quando entrar na
Fancaria, têmol-o de costas, não é assim?

--É.

--N'esta casa, que olha para a Tornearia, abrimos uma seteira; e aqui,
no angulo que fronteia com a Fancaria, abrimos duas, uma no primeiro
sobrado, e outra no segundo. A do primeiro andar, como vês, é que mais
geito nos dá para a pontaria, porque a rua aqui é larga. Deu-se o tiro
nas costas do rei, suppomos. Nada mais facil que o escapar-se a gente.
Esta casa d'onde sahiu o tiro está trancada com alavancas. O povo
naturalmente quer arrombar a casa, d'onde sahiu o estrondo, não é assim?
Mas emquanto se arromba a porta, passamos nós para esta casa do meio,
pela communicação interior que temos aberta, e d'aqui passamos a estas
que estão no beco de Pero Ponce, mettemo-nos ao meio da multidão,
vestidos de atafoneiros, vamos sahir ao postigo de Nossa Senhora da
Graça, cavalgamos á noite fechada, e passem por lá muito bem. Que te
parece?

--Tudo isso é de Diogo Soares?

--É.

--E as casas tambem?

--As casas!..

--Não digo as casas que pintaste; pergunto se são d'elle e estão
devolutos os trez predios representados n'estas linhas.

--Entendo o gracejo. Queres dizer que não estão á nossa espera trez
casas com taes condições...

--Quer-me parecer...

--Esse milagre pertence á alçada do dinheiro.

--Não contes commigo, que sou pobre.

--Conto eu...

--Com quem?

--Commigo.

--É el-rei de Hespanha que me dá recursos para me eu desaffrontar?
Regeito-os.

--Não é el-rei de Hespanha: sou eu. Tudo que se gastar não será um terço
do que te devo. Esqueces-te de que as tuas algibeiras em solteiro eram
as minhas? Saldaremos contas depois. Approvas o plano ou tens outro?

--Tenho outro.

--Dize lá.

--Esperar el-rei, á entrada ou sahida da casa de Maria Isabel, e matal-o.

--E depois?

--Morrer, ou ás minhas proprias mãos, ou ás do carrasco.

--Acho isso bastante antigo;--volveu o outro motejando--parece-me grego
ou romano; mas é tolo, consente á minha amisade que t'o escreva assim na
fronte, é romanamente e gregamente tolo esse plano.

--O que tu quizeres. Devo dizer-te que assim mataria o padre, se elle
houvesse sido amante de minha mulher.

--Onde mora tua mulher?

--Não sei.

--A quem o vais perguntar?

--Lá verei.

--Não verás nada; não acharás ninguem que t'o diga. Não se espera um rei
á porta de uma amante. Os reis não entram nem sahem pelas portas, nem
pelas janellas, nem pelas trapeiras das amantes. E o duque de Bragança,
desde que D. Francisco Manuel lhe bateu no pateo da condessa de Villa
Nova de Portimão (tu sabes que o pobre poeta está preso na Torre Velha
ha quatro annos..) nunca mais andou n'estes cazos como homem em quem as
pranchadas de uma espada não são brincadeira. A tal respeito, vem de
molde informar-te, segundo as informações que teve Diogo Soares, que a
sr.ª Maria Isabel não recebe o amante em sua casa; é recebida no palacio
de Alcantara. Ninguem sabe quando; mas sabe-se por onde. O pavilhão e as
colgaduras do seu camarim amoroso são as arvores da tapada; é o que os
passarinhos lá cantam uns aos outros.

Domingos Leite fez um gesto de indignação, e disse:

--Isso é vil!..

--Que é vil?!

--A minha desgraça deve poder mais que o teu genio zombeteiro!

--Não zombo, Domingos!.. Tracto de obstruir com a irrisão as veredas por
onde tu queres ir a uma desgraça infallivel. Matares o rei frente a
frente!.. Sabes lá o que isso é?.. Corto a cabeça se fores capaz, se
quer, de o encarar com um pensamento homicida!

--Essa!...--atalhou Domingos Leite.

--Bravos cavalleiros eram os fidalgos inimigos de D. João II; valentes e
expostos á morte andavam os duques de Bragança e Vizeu; muitas
occasioens se lhes ageitaram de matar o rei; e, chegado o lanço de o
apunhalarem, retrahia-se-lhes o braço gelado da covardia que incute na
alma o olhar de um homem que se chama _rei_--coisa fantastica mas
terribilissima como a palavra _diabo_ ás creanças que o temem. Poderoso
de braço e coração era o duque de Vizeu, e ali se deixou cravejar de
punhaladas de D. João II...

--Depois de agarrado pelas costas...--ajuntou Domingos Leite.

--Pelas costas são agarrados todos aquelles que os reis querem matar,
Domingos Leite... (_Nota 23.ª_) Eu não percebo o que seja vingança, se a
desaffronta custa a vida de quem se vinga. Morrer eu, sem provar o
nectar dos deuses! morrer, fechar os olhos, não ver... não palpar a
victima! Então, antes eu queria perdoar-lhes christãmente, e deixar-me
acabar de paixão; que assim pelo menos havia de ter dois frades que
espalhassem cá por baixo que eu estava no ceo; mas passar da vingança á
forca! Domingos Leite, deixa-me abraçar-te, e dizer-te que tu não és
parvo! Não deves dar a tua cabeça ao algoz como prova de que não podes
viver sem o amor e a fidelidade de Maria Isabel Traga-malhas. Que mates
o rei ou mates o ultimo criado das cavallariças reaes, isso que monta,
se a tua questão não é a morte, é a vingança! E, depois, homem, ouve lá
isto: Se tentares publicamente contra el-rei, ainda que nem de leve o
firas, sabes que desde a masmorra até ao cadafalso hasde ser arrastado
nas ruas; e que no Pelourinho te hão de decepar as mãos; e mutilado, com
horrendissimas agonias, te hão de levar muito de vagar até á forca; e
que tua filha hade ser herdeira da tua infamia até á terceira geração,
privada dos bens, por que tudo que houver sido teu hade ser confiscado
para a camara real?... Pensaste n'isto? viste a tua querida Angela entre
ti e o rei e o carrasco?...

Domingos Leite passou vertiginosamennte a mão pela fronte, e murmurou:

--Jesus!...

Invocára o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava
perdido! Quem sabe como lá soou nos juizos de Deus aquella invocação!
Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena
magestade do seu Creador!


XVIII

Roque da Cunha negociava com os ministros de Filippe IV, em nome de
Domingos Leite, a morte do uzurpador. Encomiando o caracter audaz do seu
amigo, encarecia-o tambem como grato e affeiçoado ao rei de Hespanha;
sendo que a facção planeada timbrava tanto de pessoal como de politica.
E, do mesmo passo, entre-mostrava que o ex-escrivão do civel da côrte,
pelo facto de haver sido tão liberalmente remunerado, creara
necessidades de pompas, que el-rei de Castella poderia de antemão
assegurar-lhe em Madrid, com promessas de maiores vantagens, restaurado
Portugal.

Exposto isto ao valido por Francisco Leitão, o secretario das mercês
nomeou Domingos Leite em uma commenda de Christo de lotação de duzentos
cruzados e brindou o medianeiro com quatrocentos escudos e um officio na
casa real. Quanto á partilha do espolio de Portugal, Diogo Soares, desde
logo, magnanimamente nomeou seu secretario Domingos Leite, com meio
vencimento, até se abancar na respectiva secretaria.

Roque apressurava n'este em meio a sahida para Lisboa recolhendo no seu
alforge afivelado de moscovia de prata provimento de quartos e pelouros,
e frascos de peçonha com que as balas deviam ser hervadas. Da parte de
Filippe IV recebeu, por mão do desembargador Guedelha, Domingos Leite
uma escopêta de primoroso artificio, ao mesmo tempo que lhe entregava o
alvará da mercê da commenda de Santa Maria de Valdestillas, e carta de
passagem e recommendação muito instante ao marquez de Mollinguen.

Em 6 de maio de 1647 estavam Domingos Leite e Roque da Cunha, na
Ameixoeira, uma legua distante de Lisboa, em casa de Bento Rodrigues
Taveira, amigo de Diogo Soares.

Haviam ambos cortado as barbas, antes de entrar em Portugal. Roque
trajára-se com a simplicidade de mercador, e fallava uma linguagem
estrangeirada com mescla de termos hollandezes.

Nos primeiros dias concorreu á Ameixoeira um negociante de sola, chamado
Serges, de origem allemã, cujo avô, em tempo d'el-rei D. Manuel, se
estabelecêra em Lisboa com privilegio de sapateiro. Serges era espião de
Castella em Lisboa, onde, áquelle tempo, amealhava grossos haveres. Ao
tempo que os regicidas sahiam de Madrid, era o sagaz mercador avisado
por expresso afim de se avistar com elles em casa do fugitivo partidario
dos Filippes, na Ameixoeira.

Apresentou-lhe Roque a planta das casas escolhidas por Diogo Soares para
a emboscada. Devia ser Serges o alugador das casas, sob color de querer
armazenar n'ellas os seus generos, logo que lhe chegasse de fóra a carga
extraordinaria que encommendára, prevenindo-se para o consummo da grande
guerra e para a contingencia dos bloqueios. Assim explicava o mercador
aos inquilinos dos tres ou quatro prédios o interesse grande que punha
em alugar as casas pelo dôbro da sua renda. Tão minucioso é n'esta
relação o manuscripto consultado, que não lhe esqueceu dizer-nos ser o
proprietario das casas Gomes Freire, fidalgo de Beja.

O plano de Diogo Soares foi levemente alterado, segundo deprehendemos da
descripção particularisada do _Ms._ que reza assim: «A morada de casas
que primeiro alugou Simão Serges está em um bêcco fronteiro á Capella
mayor de S. Nicolau; e por um passadiço sahe a outro bêcco que desemboca
na Tinturaria e cinge por aquella parte a Tornoaria; e além d'estas
alugou mais tres moradas, umas que dizem para a Tinturaria, e outras que
fazem a revolta da rua dos Torneiros, e as ultimas no recanto d'esta
rua, que faz desegualdade a outro canto de Quebra-Costas.»

Conseguido o despejo dos quatro prédios, Domingos Leite e Roque da Cunha
alojaram-se no Bêcco de Ponce de Leão, na noite de 20 de maio, sem
encontro que lhes desfalcasse a coragem. Serges proveu-os dos viveres
necessarios, ferramenta e tudo que os dispensasse de sahirem.

O trabalho interior de demolir e construir communicação de umas para
outras casas era pezado para mãos mimosas e não callejadas na alavanca e
picarêta. Como os planos dos sobrados eram desiguaes, ao romperem as
paredes mestras tiveram de escadear a passagem d'uns aos outros, e
cobrir os envazamentos com tal artificio que, se os procurassem na
primeira casa, não se lobrigassem vestigios de passagem para a
immediata. Quanto ao melhor local para abertura de setteiras, escolheram
uma esquina que dominava toda a rua dos Torneiros e parte da Correaria,
resolvendo descarregar sobre o rei pelas espaldas; e abriram outra,
conforme o plano de Madrid, para, em conjunctura melhormente
proporcionada, lhe atirarem de frente.

Estes preparativos estavam concluidos em 15 de junho, com poucas ferias
de repouso, e nem o minimo ruido que motivasse a curiosidade dos visinhos.

Em algumas das noites decorridas, Domingos Leite quiz sahir com o
disfarce de atafoneiro; mas Roque embargava-lhe o passo com reflexões de
prudencial severidade. Figurara-se-lhe possivel vêr, acaso, a filha
estremecida. Escutando o coração, o pae de Angela decifrava no vago
terror que lá lh'o innoitecia que nunca mais havia de vêl-a!
Enganava-se. Tinha de vêl-a um instante, e esse seria o derradeiro e unico.

Todavia, se Domingos Leite, na noite de 19 de junho, se confundisse na
multidão que enchia o Terreiro do Paço, veria Maria Isabel e Angela,
recostadas nos almadraques de uma liteira, a gozarem o espectaculo das
columnas resplendentes de lampadarios de christal que era costume
accenderem-se n'aquella praça, na do Rocio, e em todas as ruas
percorridas pela procissão do Corpo de Deus. Depois, iria no rasto da
litteira pela rua Aurea, pela dos Mercadores, dos Ourives da prata, dos
Escudeiros, dos Odreiros, da Almada, das Portas de Santa Catharina, de
S. José, com os seus trinta palacios estrellados de luminarias, e pela
Calçada do Combro, onde o palacio do Monteiro-mór excedia os mais
sumptuosos na bellesa da illuminação. Por todas estas ruas abobadadas de
esteira, com figurações christãs e pagãs nos remates de cada cunhal,
poderia Domingos Leite seguir a litteira de sua mulher, vêr a espaços o
rosto alegre da filha, debruçada na portinhola perguntando á mãe a
significação das estranhas figuras debuxadas nos guadalmecins e paineis
que tapizavam as paredes e balcões das sacadas. E, depois, ahi por volta
da meia noite, seguil-a-hia ao longo do bairro da Marinha, estrada de
Alcantara, até que, apagado o clarão dos lustres que alumiavam, se
acingisse á liteira e apunhalasse a esposa, e sobraçasse a filha, e a
devorasse de beijos, e morresse n'aquelle extasis!

Mas, a essa hora de tumultuosa alegria, Domingos Leite, depois de ceia,
encostou os cotovellos á meza, apoiou a barba entre as mãos, e disse a
Roque da Cunha:

--Parece-me que foi Leonidas, na vespera da passagem das Thermopilas,
que disse aos trezentos companheiros da sua funesta façanha, depois de
jantar: «hoje aqui jantamos, e iremos cear ao reino de Plutão.» Onde
iremos nós cear ámanhã?

--D'aqui trez leguas: á estalagem da Povoa de D. Martinho, onde ainda ha
um velho Malaga, que os portuguezes bebem para matar a sêde do sangue de
castelhanos--respondeu Roque sorrindo.

--Vamos marcar os nossos postos--volveu o commendador de S. Maria de
Valdestillas.

--Estão marcados.

--Ainda não. Onde hasde tu estar quando eu atirar ao rei?

--Aonde? aqui.

--Não quero. Ao pé de mim, não. Se eu for agarrado, quero ver-me
sósinho, face a face do algoz. Se o homem morrer, e eu me evadir, não
disputarei o teu quinhão de gloria n'este feito. Dirás em Madrid, e eu
confirmarei, que tu estavas ao meu lado, com o pé na beira do meu
abysmo, com o pescoço exposto ao mesmo esparto, com as mãos debaixo do
mesmo cutello. A hora é excellente para sahires d'aqui por entre o povo
que enche as ruas. Os cavallos, a esta hora, devem estar na Ameixoeira,
segundo combinamos com o marquez de Molinguen. Vai tu pernoitar á
Ameixoeira, e ámanhã, por volta do meio dia, parte com elles e espera-me
no Postigo da Senhora da Graça. Se eu lá não estiver antes das tres,
foge, porque então estarei preso ou morto.

--Mas...

--Não questionemos. Isto é resolução feita e inalteravel. Tenho-te dito
que não quero cumplices; e, se guardei para esta hora o declarar-t'o
formalmente, foi por evitar contestações então, e agora muito mais, que
é tarde para discutir. Vamos. A pé e sahir. Dá cá um abraço. Até ámanhã
de tarde, ou... até... nunca mais. Viverei ou morrerei agradecido á tua
dedicação. Ingrato e atrozmente egoista seria eu, se arriscasse a tua
cabeça n'um desaggravo da minha honra. Se eu morrer, se me não vires
mais, dize ao rei d'Hespanha que o alvará da commenda com que nobilitou
minha resalva de assassino o desfiz em buchas para a escopêta com que me
elle brindou. E adeus!

Roque da Cunha abraçou-o sem commoção sensivel. Para esta frieza
concorria a crua rigidez de sua compleição e a esperança do bom exito da
entrepreza. Se Domingos Leite lograsse penetrar-lhe nas cavernas do
peito, veria lá dentro assomos de jubilo. Desde que o dia 20 de junho se
aproximava, Roque meditava absôrto e pávido no trance do tiro, nos
paroxismos do rei, no torvelinho do povo, na grita de milhares de vozes,
no arrombarem-se as portas, na linha de alabardeiros cintando as ruas,
na sua propria cara a delatar o crime, nos crimes impunes da sua
proterva historia--em fim, na forca.

Se um homem n'estas condições ousaria prever que um historiographo
portuguez, seculo e meio depois, escreveria d'elle: _... cheio de
confusão e honra_!

Pois houve! O leitor verá que n'esta sua, tão sua e minha querida terra,
temos historiadores que denominam a incestuosa mulher de Pedro II
_rainha prudentissima_ (veja o sr. conselheiro Antonio José Viale, na
sua _Historia_) e Roque da Cunha _homem cheio de confusão e honra_.
(Veja Roque Ferreira Lobo na sua _Historia da acclamação de_ D. João IV.)


XIX

Ás dez da noute sahira Roque. Ás onze já Domingos Leite, vestido de
feitio que nenhum traço arguia o aparaltado do escrivão do civel, parava
no largo da Porta do Salvador, contemplando a casa immersa em trevas,
que nenhum pontinho luminoso interceptava. Que fazia alli?

Fantasiára que o seu velho criado lá estaria, não obstante lhe dizer
Roque da Cunha que a justiça lhe dera tractos até saber onde o amo se
escondia; e, sendo assim, de certo o expulsaria Maria Isabel.

Ajustou-se á frontaria da caza, e tocou no postigo da fresta, chamando
Bernardo.

N'este lance, pessoa que elle não vira em uma janella a refrigerar-se na
aragem da noite, disse com voz senil:

--Ahi não mora ninguem.

Domingos estremeceu; mas, cobrando animo com a probabilidade de
segurança de nenhum perigo, perguntou:

--Sabe dizer-me onde está um homem que aqui morava ha coisa de dois mezes?

A pessoa interrogada não respondeu; retrahiu-se da janella, e fechou-a.
Domingos Leite, ouvindo o bater das portadas, não podia perceber a
descortezia ou qualquer outro sentimento de quem quer que fosse, e
principiava a censurar-se da indiscreta pergunta, quando uma porta rodou
vagarosamente, e voz tremula de dentro disse anciadamente:

--Entre, entre depressa...

Domingos reconheceu a voz de Bernardo.

O velho colheu-o nos braços suffocado por convulsos gemidos, e cahiu de
joelhos exclamando:

--Ai meu amo que vem entregar-se á morte!..

--Não venho... não te assustes... Deixa-me subir ao teu sobrado e
conversar comtigo, meu pobre amigo...--murmurou o amo.

O velho precedeu-o na subida da ingreme escada, pedindo-lhe que fallasse
baixinho, porque no segundo andar estava gente ainda a pé.

--Foi certo darem-te tratos, Bernardo?--perguntou Domingos Leite
sentando-se no unico tamborete da pobre quadra.

--Quem lh'o disse, meu senhor?

--Soube-se em Madrid.

--Foi verdade. Aqui estão as costuras nos dedos. Descarnaram-me os
ossos. Eu já não podia com as dôres quando disse que vossa mercê tinha
uma caza nas Olarias; mas disse porque me bacorejava o coração que meu
amo não estava lá...

--Meu infeliz amigo!...--atalhou Domingos com os olhos aguados--E não
voltaste para casa de... Maria Isabel?

--Fui ter-me com ella...

--Aonde?

--A um palacete em Alcantara, onde me disseram que ella morava umas
pessoas da justiça em casa do corregedor, e por tal signal que...

--Por signal que...

--O melhor é calar-me, sr. Leite; mas... a fallar verdade...

--O quê? podes fallar... Disseram-te que era uma mulher perdida...

--É verdade, e não me mentiram, queira vossa mercê perdoar-me...

--Fallaste-lhe?

--Sim, sr. Fallei-lhe com mais lagrimas que vozes. Disse-lhe que o
senhor seu marido passára uma noite na caza do Salvador; que estivera no
quarto a embalar o berço... N'isto, a menina que estava alli a ouvir-me,
rompeu a chorar que cortava o coração, e a clamar que queria ver seu
pai; que queria ir com o seu Bernardo ver o seu paizinho; que a mãe era
muito má em não a deixar ir, e outras coisas, meu amo, que faziam chorar
as pedras. E vai a mãe, neste entrementes, pega por um braço da filha
com arremessão, e tira por ella lá para o interior da casa. Eu fiquei
estarrecido, a ouvir os gritos da menina lá dentro, até que chegou um
escudeiro, e me mandou sahir d'alli por ordem da fidalga. «Pois sim, eu
vou; mas vá vossê dizer á senhora que o seu velho criado não a offendeu;
e que eu vim cá para lhe dar conta das alfaias da sua casa, ou saber se
alguma lhe falta, que de certo não fui eu que a tirei.»--Foi o escudeiro
com o recado, e voltou logo dizendo que a fidalga não queria saber de
contos; que me puzesse na rua. Tornei-lhe a mandar pedir que ao menos me
mandasse entregar a minha árca onde eu tinha o meu fato e as minhas
economias. O escudeiro, talvez porque tambem era pobre e me viu a
chorar, teve pena de mim e tornou lá dentro. D'ahi a pouco voltou e
disse-me que ia commigo para me dar a minha arca. Veio com effeito, e
pelo caminho fora, de Alcantara até aqui á rua, e depois lá no meu
quarto, contei-lhe tudo que se tinha passado; e elle que não sabia de
nada, porque sahiu do palacio real de Belem para ir servir aquella
fidalga por ordem do sr. Antonio Cavide, disse-me então o que vossa
mercê, pelos modos, já sabe...

--Sei... E então, meu Bernardo, estás muito pobre?

--Não, meu amo. Ainda tenho dinheirinho do que vossa mercê me dava
quando era solteiro; mas, como estou muito acabado e não posso trabalhar
com as mãos desde que m'as quebraram na tortura, não tenho remedio senão
viver com muito pouco, para não ter de ir pedir por portas. E vossa
mercê tem mingua de dinheiro? Eu tenho alli quinze moedas de ouro de
quatro cruzados cada uma; se vossa mercê as quer, assim Deus me salve
como eu lh'as dou com todo o meu coração...

--Não preciso; obrigado, meu querido amigo, obrigado... Disseste-me que
minha filha chorava--volveu Domingos Leite, depois de longo silencio e
profundo recolhimento.

--Se chorava!.. quando me viu e conheceu, corria para mim com os
bracinhos abertos; mas a mãe botou-lhe a mão ao braço, e puxou-a para
si. Assim que eu contei a passagem do berço, e da tristeza com que o
paisinho da menina olhava para elle, as lagrimas saltaram-lhe como
punhos; e a mãe lançava-lhe de esguelha uns olhos furiosos, que pareciam
querel-a espedaçar...

--Ai!.. se eu a visse...--murmurou Domingos Leite.

--Como hade vossa mercê vel-a, meu senhor!... Não pense n'isso, porque
tenho ouvido dizer que, se o apanham, a sentença menor que tem o meu amo
é degredo perpetuo, se não lh'a derem peor... A que veio a Lisboa, sr.
Domingos Leite? que peccados o trazem aqui?...

--Sabel-o-has, quando fôr tempo...--respondeu Leite serenamente--Escuta,
Bernardo: sabes que tenho pai?

--Pois não sei!..

--Chama-se Antonio Leite, vive em Guimarães, e tem officina de
cutelleiro na rua Infesta. Agora, jura-me que cumprirás o que te vou pedir.

--Não é mister jurár, senhor!

--Se acontecer eu ámanhã ser preso ou morto...

--Sancto nome de Jesus!--clamou Bernardo.

--Não me interrompas com lastimas que não remedeiam o meu destino...
Attende, meu amigo... Se acontecer eu amanhã ser preso ou morto, parte
logo para Guimarães, procura meu pai na rua Infesta, e dize-lhe que eu
morri ou vou morrer, sacrificando a vida infamada á honra de a perder em
desaffronta de um grande ultrage. Não tens aqui papel e tinta. Se
tivesses, escrever-lhe-hia: mas, ámanhã, por esta hora, se eu estiver
preso ou morto, vai e dize-lhe, se te não lembrar mais nada, que D. João
IV era o amante da mulher de seu filho. Mas, se eu não estiver preso nem
morto, e algum acontecimento explicar o mais que eu te não digo, pede-te
o teu pobre Domingos Leite que leves comtigo á sepultura o segredo que
adivinhares.

Bernardo queria debalde replicar; mas as palavras eram-lhe estranguladas
nos soluços.

N'este conflicto, Domingos Leite abraçou o velho; e, desprendendo-se-lhe
dos braços, desceu as escadas subtilmente.

Eram já desertas as ruas, quando entrou na casa do Becco de Ponce Leão;
e, atravessando os outros predios até ganhar o sobrado, cuja janella
esquinada dominava as ruas dos Torneiros e parte da Fancaria, abriu o
alforge de moscovia, e tirou os frascos de peçonha, e um caixotinho com
quartos e balas. Hervou o pelouro e os zagalotes, mergulhando-os
cautelosamente no toxico: sevou a cravina de polvora, metteu as balas
calcando-as com a vareta sobre a bucha (_Nota 24.ª_) introduziu as doze
costas ou quartos, lascou, antes de escorvar, com a lamina de uma agumia
o rebordo da caçoleta, azeitou o gatilho, experimentando-o, encheu a
escorva, bateu na culatra tres punhadas afim de sevar plenamente de
polvora o ouvido, e trez vezes fez pontaria em diversas direcções. Feito
isto, apagou o candil, abriu de manso as portadas da sacada, e ao
lampejo tremulo de algumas luminarias que vasquejavam, esteve examinando
as duas ruas confluentes; depois, retrahindo-se, abocou a escopeta a
dois alvos, que, naturalmente, se lhe figuraram o corpo sacratissimo de
sua magestade. Esta phrase, um tanto descabidamente faceta, corresponde
ao esgar de riso ferino que lhe refegou os beiços, vibrando os musculos
faciaes.

Ás trez horas da manhã começaram a repicar os sinos da bazilica de santa
Maria Maior, e logo todas as torres saudaram a jubilosa arraiada da
vetusta metrópole. Já se ouviam as charangas de atabales e clarins que,
nas ruas comvisinhas do templo, annunciavam a sahida da procissão, mais
matutina que o sol. Aquelle tão comprido dia de junho era mister
começal-o ao arrebol da manhã para que o tempo não escasseasse ás
alegrias do povo.

Domingos Leite, escutando a resonancia estridula dos clarins e o tanger
festivo dos sinos, foi ao passado buscar memorias da sua alma
despedaçada, e todas viu em um relance afflictivo de olhos. Tambem elle
tinha acordado alegre ao ruido d'aquellas musicas quando era moço e
rico, feliz e amado. Tambem elle n'aquellas manhãs de luz e flores
folgava de madrugar, e passeiar as ruas de Lisboa, respirando o acre das
espadanas e rosmaninho que verdejava o transito, por debaixo dos doceis
e grinaldas. Ainda no anno anterior, sahira elle áquella hora, depois de
uma noite mal-dormida, com a filhinha pela mão, e entrara na bazilica,
ensinando a creança a pedir a Deus por si e por elle.

Quanto mudado, ó desventura! Que voragem entre o secretario do marquez
de Gouvêa e o determinado assassino de D. João IV! Como elle se
contemplava na escuridade profunda de sua alma ao reflexo do gentil, do
invejado mancebo que fôra! Que horrendissimo doer não seria o do seu
espirito, quando a cabeça lhe cahía para o peito, e as mãos
enclavinhadas e tremulas comprimiam o pescoço, como se quizesse impedir
que aos ouvidos lhe chegasse o regosijo d'aquellas toadas!

E áquella mesma hora, Maria Isabel, despertada pelos repiques do
mosteiro do Calvario, saltava alegremente d'entre as cortinas
adamascadas do leito, chamava a aia que a penteasse, e ordenava que lhe
vestissem Angela.

--Então d'onde vai ver a procissão, sr.ª D. Maria Isabel?--perguntou a
aia com a confiança de criada antiga e quinhoeira dos segredos da ama.

--Vou para o palacio do Galvão, no Rocio, ou para casa do senhor da
Trofa, na Rua dos Torneiros: ainda não sei.

--No Rocio é mais bonito...--volveu a aia.

--Mas eu prefiro a Rua dos Torneiros.

--Eu bem sei porque, minha senhora...

--Ah! sabes? és muito esperta!... Ora dize lá...

--É porque el-rei passa mais chegadinho á caza do senhor de Trofa que á
do Galvão... Adivinhei?

--Parece-me que sim...--assentiu Maria Isabel com uma despejada
denguice--Tenho passado estes dias tão aborrecida...

--Pois, sim, sim... Não sahe de caza a minha senhora... passa as noutes
sósinha... Quando se vai embora a rainha para Lisboa?

--No principio do inverno.

--Que praga!.. E a sr.ª D. Maria Isabel, por amor d'ella, nem ás
janellas vai! Tambem não sei por que razão el-rei tem medo que a rainha
desconfie... Sempre ouvi dizer que o rei se lhe dava pouco dos ciumes
d'ella. Acho que o sr. D. João IV o que receia é que a vejam os fidalgos
que se ajuntam em Alcantara emquanto sua magestade cá está... Se alguem
tem ciumes, não é a rainha, é o rei...

Sorriu-se lisongeada Maria Isabel, e murmurou:

--És tola, és tola... Quem trocaria eu n'este mundo por el-rei?

--Isso lá, minha senhora--replicou a aia--tem-se visto d'essas trocas...
Bem podia V. S.ª gostar mais dos condes que eu por ahi vejo a passear no
largo do que de el-rei; apesar de que sua magestade está ainda muito
fresco, e parece um mancebo... Como vai V. S.ª vestida á procissão?

--Levo saia de seda verde com barras pretas de velludo; gibão de tafetá
azul, com cossoletes de ouro.

--E que manto leva?

--O de seda verde.

--O branco vai-lhe melhor sobre o gibão azul.

--Vai? pois levarei o branco.

--E chapins? os azues com rubis?

--Não; os verdes com diamantes.

--Eu acho os outros tão lindos!.. Ainda me lembra o contentamento com
que V. S.ª calçou outros da mesma côr, faz agora dois annos, quando foi
a esta mesma procissão com seu marido... Lembra-se?

Maria Isabel não lhe respondeu. A aia, affeita a lidar com os caprichos
da senhora, absteve-se de repizar no assumpto desagradavel, posto que
Maria Isabel, algumas vezes, ouvisse fallar indifferentemente do marido.

--A que hora vai a senhora para a rua dos Torneiros?

--A cadeirinha hade estar prompta ás nove horas.

--Por que não vai no coche do ministro Cavide, que lh'o offereceu?

--Não me appetece andar em côches alheios. Heide comprar um quando me
parecer.

--Faz V. S.ª muito bem... não sei como el-rei lh'o não tem dado...

--Não quero. Sou bastante rica. Posso ter côche sem dever favores ao rei.

A conversação foi cortada pela vinda de Angela, que já estava vestida e
encantadoramente galante com o seu gibão escarlate de passamanes de
prata, saia de trez barras com debruns de lhama de ouro, chapins altos
de setim branco e tacão escarlate, volante de rendas na cabeça, ondeando
por sobre as espiraes de tranças louras que lhe deslizavam nas espaduas
meio nuas.

Ás 9 horas entraram Maria Isabel e a filha na cadeirinha. Pouco depois,
sahia D. João IV do palacio de Alcantara, em côche, com o manto de
grão-mestre da ordem de Christo, precedido dos reis d'armas, e seguido
do principe D. Theodosio, e cento e cincoenta cavalleiros das ordens
militares, em cavallos pomposamente ajaesados.

El-rei ia só e melancolico; mas, no rosto carregado, relampedejou-lhe um
clarão de alegria, quando, ao passar pela cadeirinha que ao longe
conhecera, viu aquella formosa face cujo primeiro verniz de pudor se
desbotára nos beijos do padre Luiz da Silveira.

A melancolia de el-rei quer o meu manuscripto legitimal-a com estes
catholicos dizeres: «No oratorio da quinta de Alcantara tinha sua
magestade commungado, esteve em oração mais do que costumava, e sahindo,
disse á rainha, nossa senhora: Eu vou com grande trabalho. E dizem que,
havia tempos, lhe tinham dito que em uma procissão do corpo de Deus o
haviam de matar; e el-rei respondêra que junto ao sanctissimo sacramento
lhe não podia succeder mal.» Ainda bem!

Se estes pios casos de commungar, e sahir mal disposto, e meditativo no
sinistro vaticinio, assombraram o real semblante, ainda bem que o
langoroso olhar da Traga-malhas espancou o profeta de máo agouro, e
abriu nos labios do rei commungado um sorriso que radiou nas bochechas
dos seus vassallos.

Por volta das onze horas, Domingos Leite, espreitando o concurso de
povo, que já tomava os lados das ruas, notou que a seteira baixa que
abrira para o lado da Fancaria era a melhormente azada para desfechar
sobre o rei, visto que alli a multidão, abrindo uma especie de clareira,
obrigada pelo aperto do cunhal das duas ruas confluentes, deixava a
descoberto o palio, ao qual devia seguir-se a familia real. Regeitou,
portanto, o plano traçado de dísparar pela seteira alta, que dava sobre
a rua dos Torneiros, parecendo-lhe quasi impossivel de ponto elevado,
por mais firme que pozesse o fito, acertar no rei.

Assim, pois, que os atabales estrondearam no topo da Fancaria, Domingos
Leite pegou da cravina, e foi ajoelhar rente com a seteira baixa. O dia
era ardentissimo; e, elle, sentindo as mãos geladas, friccionava uma na
outra receando que o dêdo do gatilho fizesse tremer a escopeta, e
desviar o tiro. Era o frio do terror; era a honra convencional dos
homens subjugada pelo ingenito respeito á vida humana.

Entreviu a passagem dos cavallos á destra, cobertos de telizes de
velludo escarlate com as armas de Bragança em relevo de ouro, levados de
redea por lacaios com a libré real. Passou S. Jorje, cabeceando a sua
plumagem do murrião, cavalgado sobre o cavallo que resfolegava involto
no cairel cravejado de diamantes e variada pedraria. Seguia-se o pagem
do sancto general, a disputar com o amo a posse das riquezas do oriente
e das concavidades do oceano em perolas e rubis e esmeraldas. Deslizaram
os trinta e sete estandartes dos officios com as insignias de cada um; e
logo as cento e cincoenta cruzes das confrarias com variegadas roupetas.
Depois, as bandeiras das parochias. Em seguida, as irmandades do SS.
Sacramento, que eram trinta e oito com opas escarlates. Principiavam
agora as communidades religiosas, que eram quarenta, psalmeando
alternadamente uns cantares como responsorios funeraes nos ouvidos de
Domingos Leite. Succediam as congregações de clerigos regulares; os
tribunaes com os seus presidentes de catadura sombria, os magistrados de
toga, os cavalleiros de Christo, de S. Thiago e S. Bento de Avis com os
mantos capitulares. Depois a cleresia e o cabido. Agora os coros da
musica dilecta do rei; depois os bispos mitrados, e os turiferarios
bamboando as nuvens fumosas dos incensos.

N'este ponto, Domingos Leite encostou a face á parêde para descobrir do
esconso o palio. Avistou-lhe as franjas de ouro do sobre-ceo atravez da
nebrina dos perfumes; e por entre as varas, e por sobre a espadua do
arcebispo eleito, viu a fronte de D. João IV.

Elle temia e tremia do quebranto de sua alma, chegado aquelle
indeclinavel trance; mas a presença altiva do tyranno que lhe tirava o
pão, a patria, e a filha, engolphando-lhe tudo na devassidão da esposa,
sarjou-lhe o coração, repuchou-lhe o sangue em jactos ardentes ao
cerebro, queimou-o em sedes de fera, deu-lhe as facinorosas deleitações
do scelerado.

Estava já o palio a dez passos de distancia da caza. Domingos Leite
afastara-se para apoiar a extremidade da caravina no envasamento
inferior da seteira. Desconfiára do tremor do pulso e da vertigem dos
olhos. Ajoelhou, levantou o feixo, e ajustou o dedo ao gatilho. Já o
rei, desviado apenas dous passos do palio, se mostrava a descoberto...
Mas, no mesmo instante, Domingos Leite viu duas damas que encobriam o
rei. É que D. Maria de Arrayolos e a camareira-mór, curvando-se para
levantarem do chão um panno de seda que cahira da mão ao principe D.
Theodosio, quando enxugava o suor, ficaram, por momentos, quasi á frente
do rei, forçadas pela deslocação de alguns fidalgos que, ao mesmo tempo,
tentaram, abaixando-se, evitar ás duas senhoras a cortezia de levantar o
panno. Ainda Domingos Leite, tenteando pontaria, esperou clareira por
onde coubesse uma bala; teve-a n'um relance; mas a certeza de cravar
algum dos doze quartos nas senhoras que ladeavam D. João, paralisou-lhe
o dedo do gatilho.

Restava feril-o pelas costas, ao desandar para a rua dos Torneiros.
Subiu acceleradamente ao sobrado de cima, onde abrira duas seteiras na
sacada angular, que olhava para duas ruas.

Apenas entrou no sobrado e correu a mirar a volta que a procissão ia
rodando da Fancaria para a Rua dos Torneiros, antes de descer os olhos
sobre a rua, pol-os maquinalmente nas balaustradas de uma caza
fronteira, e viu Maria Isabel, e ao lado d'ella uma creança, uma visão
da alma ingolphada em Deus... Era Angela, a sua filha!

E, cravando n'ella os olhos, e arquejando em angustia que o lacerava com
delicias, e ouvindo o coração que chamava por Angela, sentiu-se cahir,
largar a arma, dobrar os joelhos, ajoelhar, ajoelhar de mãos postas,
cobrir-se de lagrimas, e ouvir como dos labios de um estranho:
«Salva-me, ó filha, salva-me!»

E D. João IV passou, olhando de soslaio para Maria Isabel, que
ajoelhára, e encostára a fronte ás mãos, formando graciosamente um docel
para resguardo do sorriso que as outras damas devassavam, e que ella
muito se rejubilava que lh'o vissem.....................................
........................................................................

Ás duas horas, Domingos Leite, com o disfarce que tinha vestido, chegou
ao postigo da Graça.

Roque da Cunha, avistando-o de longe, foi desprender os cavallos que
escarvavam impacientes em uma barroca socavada entre dois combros de
piteiras, e sahiu com elles á estrada chã.

--Morreu?--perguntou Roque.

--Não.

--Não?... Que me dizes?... Feriste-o? Não acertaste?..

--Não lhe atirei.

--Oh!..--exclamou Roque da Cunha--Que diabo fizeste então?..

--Nada... Vamos embora, se te não escandaliza um covarde na tua
companhia...

--Eu ia agora perguntar-te se lhe não atiraras por covarde... Porque me
não deixaste estar comtigo, Domingos Leite!.. Com que cara entraremos em
Madrid!...

--Pois vai só, e deixa-me...--replicou Domingos Leite.

--Fazes-me uma grande compaixão!... Que lagrimas são essas...

--São umas lagrimas que eu ainda tinha no coração, e só podia choral-as,
vendo minha filha!... Foi minha filha que salvou o rei...

--Vamos, que eu ouço tropel de cavallos na calçada da Graça...--disse
Roque da Cunha--Conhecer-te-hiam?..

--É impossivel...

Cavalgaram, e deram de esporas. Na assomada de um dos outeiros de
Alvalade pararam, e olharam na direcção de Lisboa. Ninguem os seguia.
Era uma cavalhada de campinos, que voltavam da procissão do Triumpho, e
recolhiam aos seus cazaes.


XX

Diogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos
enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do
Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra
trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19
de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo
d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges,
áquella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa,
passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias.
O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal
respeito: «N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos
esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com elle Domingos Leite, e
que lhe contou o que passára; e é de saber que na mesma tarde foi visto
em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em
ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra.»

Ao mesmo tempo, Bernardo, que passára a noite e o dia em oração, quando
viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se
contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu
fervorosas graças ao Senhor, porque attendera ás suas preces.

O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com
frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo
Soares, rindo da historia pueril da visão da menina que paralisára o
braço do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com
emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes
podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a
phrase, qual a recebêra, a Domingos Leite.

O frustrado regicida volvêra-se á vida solitaria com a sua dôr
exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas.
Quem mais lhe carregava a mão no peccado da mulher era D. Vicencia,
filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam
satyras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe
outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para
ir ao inferno matar o diabo.

Na correnteza d'estas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia
de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem
dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda o
impedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuita, que
sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira.

Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D.
João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de
Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera,
como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado
pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no
assassinio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicario, vendido ao
marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar.

No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid
pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um
clerigo ou frade de inculcada virtude e erudição theologica, por parte
das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas
personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o
algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o
reino, fôra fr. Diogo Seyner espião de Castella em Portugal, e tambem um
padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as
denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto ás intenções
de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com
quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avençaram
politicamente com a theocracia da omnipotente roupêta. Ainda n'aquelle
anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita
flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de
batalha, depois de as ter já usado no exercito portuguez. Este
sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos
a repellir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias
portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando
as duas nações, visto que nenhuma era sua.

Com este se intendêra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha.

A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous terços menos
da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de
homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuação
em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino.
Enviava-lhe como comêço de gratificação trez mil cruzados, e promessa de
ao diante o ir premiando com dinheiro á medida dos seus serviços e
habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse
perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina.

Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a
verdade é que o infame não deu ansa a que os seductores provassem os
dotes de corrupção: rendeu-se logo.

Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez,
disse-lhe com mysterioso recato:

--Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em
Portugal, quando lá fôr para o salvar da morte.

O padre não obteve illucidações d'estas vagas palavras.

Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a maxima ponderação, sem
todavia suspeitar de qual dos fidalgos homisiados poderia proceder a
tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de
Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de
todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava
quando Maria Isabel lhe dizia:

--Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle...

O _elle_ substituia a palavra que tanto repugnava ao rei como á princeza
do seu economico serralho.

Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o
expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho
do que a ella na sua belleza.

Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite
deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os
apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as
censuras de Roque da Cunha, não á covardia de homem, mas á
pusillanimidade de pai.

Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicidio; porém, lá
vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a
cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a
Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria
Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella,
fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o
amparo de Francisco Mendes Nobre.

Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu:

--A final, vejo que não és marido, nem homem: és pai.

--Queres dizer que não sou honrado?--acudiu Domingos Leite.

--Não... mas ha quem duvide que o sejas...

--Se o duvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se ha
covardes que façam de ti pelourinho de injurias, que venham depois de ti
ou junctamente.

--Os meus cincoenta annos perdoam os teus vinte e seis--disse
serenamente Roque--Entretanto bom é que saibas, amigo Leite, que nenhum
homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me
insulte. Se não estivessemos sós, dar-me-hías uma satisfação. Assim...
ninguem irá dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha
vilta do marido de Maria Isabel. Estás perdoado, porque és fraco, fraco
do coração onde tens muitas lagrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem
duas vezes expoz por ti a vida, e não se esquiva de a expor terceira vez.

--Não exporás, Roque. Não ha para quê. O meu intento já sabes que não é
matar o rei; é resgatar minha filha.

--E, se te descobrirem, se te agarrarem...

--Serei julgado como assassino, sentenciado á morte, e morrerei, sem
denunciar que o matador foste tu.

--Mercês... A justiça sabe quem matou, provavelmente... A minha questão
é outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sahir de Hespanha. A
nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputação como a minha. Os
enviados a matar D. João fomos dois: o covarde não póde ser só um. Se
vaes a Lisboa, irei comtigo: dar-me-has agazalho no teu escondedouro, e
eu te ensinarei modo de passarmos a Hollanda, com tua filha, sem
tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequencias do odio,
e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragança servir
para nós. Se queres roubar a pequena á mãe, eu te ajudarei. Os estorvos
que t'o empecerem, derrubal-os-hei. Se quizeres que eu estrangule os
gritos no pescoço de Maria Isabel em quanto foges com tua filha, ninguem
lhe ouvirá um soluço. Se nada quizeres de mim, ao menos dá-me em Lisboa
um valhacoito d'onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja.
Que mal te faz que eu vá comtigo?

--Vem, meu amigo, que eu estou tão longe de t'o impedir, que t'o
agradeço--respondeu Domingos Leite abraçando-o extremosamente.

Accordaram na partida para 18 de julho.

Communicou Roque á Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra
voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou á traição, consoante se
lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia
com elle sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada
de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e não a
Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.

Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas
acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta
chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos
Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem
d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebêra dinheiro;
e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e
liberalidades de D. Vicencia.

No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira.

Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Ha muito
para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois
que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro,
presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho,
declarando que sonhára uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se
via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que,
uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e,
abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quizesse entregar
á justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca
edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse: _Uno de vos outros és
traidor_. E apontando em particular para o Cunha, disse: _Tu tienes
ojos de traidor_!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com
o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpção que d'elle
trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande
cegueira--prosegue Brandão--que, tendo as presumpções tão vivas, não
melhorasse partido, sendo-lhe facil!..»[10]

Se prestamos mediana fé á perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a
traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a
relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar
as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro
cuidadosamente aconchegava do leito.

Ás vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da victima
exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse
de si como ao mais abjecto scelerado. «Grandes foram as cautelas de
Cunha--confirma fr. Francisco Brandão--para assegurar bom animo ao
companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quizesse entrar em
Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a
Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se
assegurar d'elle, receoso de que o matasse com as suspeitas.[11]

Á quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas
e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem
das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada
de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite
abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de
allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o
presistirem alli, sem esperanças de remedio, era perder tempo, e talvez
perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o
enviaria, a não querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o.

--E para que vá mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com
os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados...--ajuntou Roque.

--Oh!--exclamou Domingos Leite gracejando--Ninguem dirá que vaes do
desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!...

--Ahi t'os deixo como refens...

--Mal de mim se este dinheiro fosse o abono da tua lealdade, Roque! Se
tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não
taxem de ladrão quando me prenderem.

Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia.
Domingos Leite interpretou a primeira supposição, e emendou as palavras
duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:

--É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como
quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho,
d'aqui cinco leguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se ámanhã
cedo me mandares o cavallo, e elle não fôr aleijado. Devo lá chegar por
noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de
dar grandes voltas.

Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:

--Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu
cavallo, se m'o não quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a
terra, que hontem já o não sentia entre os acicates...

--Não deixes o dinheiro!--instou Leite Pereira.

--Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o?
Adeus, até ámanhã.

Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:

--Não me vendas... visto que estás rico!

Roque sahiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope,
caminho dos Pegoens. «Não me vendas...» dissera o desgraçado.
Assizadamente escrevia depois o frade: _Ha muito para reparar na força
do destino que o chamava_...


XXI

Decorrêra o restante d'aquelle dia 28 de julho, e parte do seguinte sem
novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de
um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, não
encontrando cavallo que comprasse ou alugasse em Gaifões, passara a
Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe
enviava a elle o cavallo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha.

Domingos Leite sentiu-se captivo d'esta deferencia; mas, apenas montou,
conheceu que o cavallo estava por tanta maneira escalavrado que só muito
a passo alcançaria vencer as seis leguas, que o distanciavam da Povoa de
D. Martinho, até á noute do dia seguinte. O arrieiro que o guiava
recommendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavallo vivo á Povoa.

--Não havia em Rilvas uma besta que se vendesse?--perguntou Domingos Leite.

--Havia um cavallo de comer tres leguas por hora, que se vendia por
trinta cruzados.

--Porque o não disseste á pessoa que te mandou com este?

--Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem fallei com
essa pessoa que vossemecê diz.

O cavallo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e n'elle
cavalgára caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a
remessa do seu e o bilhete á aldeia onde ficára o seu companheiro.

Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a
cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora
dos povoados, sem saber a razão porquê.

--Andam soldados na estrada real?--perguntou Leite.

--Que eu saiba, não, senhor.

Reparou na precaução o cavalleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos
encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brandão: _Ha muito
para reparar na força do destino que o chamava_.

Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns
segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu
avante, dizendo entre si:

--Que pensaria de mim Roque da Cunha se está innocente nas minhas
suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!...

Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da
Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero
Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para
negocio da maior urgencia. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente
espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido
pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a
nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, começando por
implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em
uma tentativa contra a vida de sua magestade; porém, accrescentava que
se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a
Deus sua alma purificada de remorsos.

Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:

--Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.

Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores
sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a
reincidencia no intento que o trazia a Portugal.

Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria
Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o
infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a
viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas.
Mas não era Roque o homem amoldado á observancia do mysterio que tal
acto requeria.

Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem
á sua presença o fidalgo mais possante de sua côrte, Luiz da Silva
Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha,
conde de Odemira. Contou-lhes o que passára com Roque da Cunha, e
enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os
conduzisse.

Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse
entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as
conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, á escolha do seu secretario;
que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se
desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar
semelhante ordem.

Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do
seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro
annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendação de se
apressar S. Senhoria a recebel-o.

Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates
de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o
rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas.
Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa então odiava-o de
instincto, sem saber precisar aquelle rancor tão desnatural em sua edade.

O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.

--Minha senhora--disse elle entre melancolico e solemne--ordena el-rei,
meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente
para ao romper da manhã sahirem de Lisboa...

--Para onde?!--interrompeu Maria Isabel.

--Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes.

--Mosteiro!...

--Sim, senhora minha.

--Não quero!--bradou a dama.

Sorriu-se o fidalgo, e disse:

--Quer el-rei, nosso senhor.

--Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento?

--Ignoro. Segredos de sua magestade. Não discutamos inutilmente: é
sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se
dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, ás tres horas da manhã
está o meu coche á porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a
caleça que nos hade levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo
se tem ordens a dar-me...

A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao
passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar
d'entre o reposteiro a senhora que não o via.

Quando ella ás onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com
as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahús, entrava
Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, áquem do Tejo, trez
leguas distante de Lisboa.

Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com
a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em
menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:

--Eu já não te esperava...

--Tambem eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer
companhia ao meu na immortalidade das cavalgaduras heroicas e pôdres...
Quem está por aqui na locanda?

--Ninguem afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as redeas, que eu
recolho o cavallo.

E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do
alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada.

Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallariça,
frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços
de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito ás costas, emquanto o
conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.

Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os
olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:

--Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer
n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que
eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.

D'ahi a momentos, á porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos
armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de
Odemira, que, voltado ao preso, disse:

--Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.

_E com grande silencio o levaram a Lisboa_, diz o manuscripto.

Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o
apertaram nas roscas de aço dos seus musculos, sabiam que a mulher
d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D.
João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentia que
sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, não podemos,
não poderá ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia.
Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles são. Querem
que Deus deva saber o que fez. Saberá.

Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto
nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo ás estrellas a
luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra
existencia.

Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do
conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a
altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome
da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra.

Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica! _Entrou na casa
do conde de Odemira_, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo
referido, _com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos
contrabandos d'el-rei D. João que cumplice dos maiores servidores do rei
de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os
mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na
confissão com o companheiro que o deu á prisão, e com a primeira
confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o
exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na
mesma rectificação de quanto sem as maiores violencias havia confessado;
imperfeita virtude no maior defeito!_

Em um d'esses interrogatorios, _sem as maiores violencias_ (quer dizer
que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:

--Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o
sagrado corpo de sua magestade?

--Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do ceo, que me
levou para si os olhos e a alma.

D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiçada de
aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio
corpo de D. João de Bragança.

Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em
Lisboa a noticia.

As turbas correram á porta do carcere pedindo que lhe entregassem
Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros,
clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre
Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos
voluntarios, ebrios de civismo.

Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de
peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antonio Leite que seu
filho morria em desaffronta de sua honra.

Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.

Eis a sentença integralmente trasladada da original, e publicada em 1833
pelo desembargador Gouvêa Pinto:[12]


SENTENÇA

Que se proferiu contra Domingos Leite Pereira Escrivão da Correição do
Civel da Côrte, por querer atreçoadamente matar a El-Rei o Senhor D.
João o IV.

Acordam em Relação etc. Visto estes Autos, que pela calidade, e
detestação do caso, prova d'elle se fizeram summarios.

Mostra-se que o Reo _Domingos Leite Pereira_, sendo natural d'este
Reino, e Proprietario do Officio de Escrevão do Civel da Corte, se
passou d'elle para o de Castella no anno passado, a titulo de um seu
homezio, e estando em Madrid, foi n'elle despachado com o Habito de
Christo, e outras mercêz, e d'aly com ordem de certos Ministros de
El-Rei de Castella foi mandado a este Reino para matar a El-Rei Nosso
Senhor, dando-lhe para este effeito quatrocentos escudos e uma
espingarda com quartos, e um pelouro e dous vasos de peçonha para os
poder ervar, e Cartas do mesmo Rei de Castella para o Marquez de
Molenguem, Governador das Armas da Cidade de Badajoz, o deixar passar
livremente.

Mostra-se que vindo o Reo com animo de efectuar o sobredito, chegou a
esta Cidade com outro companheiro em seis do Mez de Maio do anno
prezente aonde andou escondido té os vinte dias do Mez de Junho, dia da
Procissão geral do _Corpo de Deus_, em que determinava dar á execução o
seu damnado, e abominado intento, para cujo effeito, por meio do dito
seu companheiro alugou tres moradas de cazas no principio da Rua dos
Torneiros, por onde havia de passar a dita Procissão, e n'ella
acompanhando o dito Senhor, na forma do costumado pelos Senhores Reis
d'este Reino, com tal apercebimento que uma das ditas casas ficassem com
a dita porta para outra rua diferente por onde facilmente, depois do
caso feito podesse escapar sem ser tomado, rompendo com uma alavanca de
ferro as ditas trez moradas de cazas, para mais facil expedição da sua
fugida.

Mostra-se, que no dito dia da Procissão ao tempo que o dito Senhor
chegou á dita rua, e casas, e o Reo com a mesma rezolução, e deliberação
do animo, o estava esperando em um buraco, que para o mesmo effeito
abriu nas ditas cazas, com a dita espingarda nas mãos carregada dos
ditos doze quartos, e um pelouro ervado com a dita peçonha, e tanto que
a Real Pessoa do dito Senhor, elle mesmo confessa, que se lhe
representou uma _Superior Magestade do Ceo_, que lhe fez cahir das mãos
a dita espingarda sem poder executar o intento, que de antes tinha, e no
mesmo dia se sahiu desfarçado das ditas cazas, deixando n'ellas a dita
espingarda, e alavanca, e vazos de peçonha; e se foi ao postigo de Nossa
Senhora da Graça aonde o dito seu companheiro o estava aguardando com
dous cavallos, que já alli tinha preparados para sua fugida, e n'elles
se tornaram ambos para Madrid.

Mostra-se, que ahi se tornou o Reo a vêr com os mesmos Ministros de
Castella, que o haviam mandado dando-lhe outras desculpas de não
effectuar o promettido por sua parte, e elles acceitando-lhas o tornaram
a mandar ao mesmo effeito, com os mesmos passaportes, e promessas de
aventejadas mercêz, dando-lhe mais dous mil cruzados em dinheiro; e
partindo o Reo com o mesmo intento, e deliberação, e o dito seu
companheiro, o mandou diante a esta Cidade a buscar cazas aonde se
podessem agazalhar, e que o fosse esperar ao Lugar da Povoa de D.
Martinho, para que ambos podessem entrar mais escondidos na Cidade.

Mostra-se, que o companheiro do dito Reo, uzando de melhor concelho
_revelou tudo aos sobreditos Ministros da Justiça_, do dito Senhor em os
trinta e um dias do Mez de Julho, em que o Reo chegou ao dito logar da
Povoa, o entregou n'ella á prizão, e o Reo no mesmo dia fez inteira e
plenaria confissão do seu damnado e deliberado intento, contestando em
tudo o acima referido; e que fazendo-se diligencia, e visturia nas ditas
cazas se acharam furadas, na forma referida, e n'ellas os dois vasos de
peçonha, escondidos no proprio lugar, que o Reo declarou, um d'elles
ainda cheio, outro já diminuto, pelo que elle havia tirado, para ervar
os ditos quartos e pelouro.

Não mostra o Reo por sua parte descarga alguma em sua defeza, sendo-lhe
dado vista, e Procurador para allegar de sua justiça e direito.

O que tudo Visto, e o mais dos Autos, disposição de direito em tal caso,
declaram ao dito Reo, por traidor aleivoso, parrecida, assassino, e
haver incorrido no detestavel crime de Leza Magestade de primeira
cabeça, e como a tal o condemnam, e mandam, que com baraço, e pregão
pelas ruas publicas, e costumadas seja levado á rasto á forca, aonde
sendo-lhe primeiro decepadas as mãos no Pelourinho morra enforcado de
morte cruel, e o seu corpo seja posto em uma fugueira e n'ella feito em
pó, e em cinza, para que d'elle não fique memoria; e o condemnam outro
sim em perdimento de seus bens para o Fisco, e Camara Real, e que seus
descendentes hájam as penas, que por direito lhes são impostas: e esta
Sentença se não publicará sem primeiro se dar conta ao dito Senhor, na
fórma de suas ordens: e pague o R. os Autos. Lisboa 12 de Agosto de
1647.--Marcham, Monteiro, Beja, Marz.º, Stacio, Porto.

      --------

Ao alvorejar da manhã de 21 de Agosto de 1647, sahiu o regicida do
oratorio, onde permaneceu tranquillo, já orando, já conversando
affectuosa e christãmente com o sacerdote. Se algumas vezes orava com
fervor de lagrimas, e o padre lhe asseverava que nosso Senhor Jesus
Christo, pai de misericordias, lhe perdoava, o padecente respondia que
estava pedindo a Deus lhe tirasse d'este mundo uma filha que tinha, e cá
ficava sob o pezo da ignominia de seu pai.

Apontava o sol, quando os algozes entravam no recinto a tosquiar-lhe a
cabeça, a vestir-lhe a alva, e enroscar-lhe no pescoço e cintura a corda
por onde haviam arrastal-o. Levado, á beira do padre, até ao atrio do
Limoeiro, ahi mandaram-o estender-se sobre um esteirão, ao qual
aprezilharam as cordas da garganta e da cinta, de geito que, ao
repuxal-as, o não molestassem de modo que a vida perigasse.

As ruas desbordavam de povo que ululava gritos de colera, e premia os
flancos da escolta.

Chegado ao Pelourinho, mandaram-no erguer, conduziram-no pela corda a um
patamar de taboado, no centro do qual estava um cepo de madeira escura
pintalgado ainda do sangue dos conjurados de 1641 e de Francisco de
Lucena. Domingos Leite estendeu os braços no cepo, e o carrasco
decepou-lhe as mãos de dois golpes. A forca da Ribeira hasteava-se a
distancia de duzentos passos. Do Pelourinho ao patibulo o suppliciado
revelou enormes dores nos estorcimentos dos braços que jorravam sangue
em jactos fumegantes. O frade da agonia, lavado em lagrimas,
murmurava-lhe tudo que o homem pode dizer em honra de Deus e esperanças
do ceo.

Chegou o instante da piedade humana: o carrasco, balouçando-se-lhe nas
espaduas, quando o corpo se inteiriçava pendente do triangulo, fez um
gesto significativo de ter cumprido a justiça d'el-rei D. João IV.

Faltava ainda o complemento da sentença.

O verdugo cortou a corda. O cadaver baqueou no tablado. E logo dois
ajudantes do executor o esquartejaram em quatro partes que encravaram
com cavilhas de ferro em uns altos postes arvorados em quatro pontos da
cidade, os quaes ahi estiveram expostos até que a podridão aconselhou o
queimal-os, e arrojal-os ao Tejo.

Assim acabou Domingos Leite Pereira, o mancebo ardente que se devotára
ao duque de Bragança com patriotico desprezo da vida, e o marido brioso,
que respeitára em si o esposo trahido, e odiára no rei o adultero
infamador de sua honra.


CONCLUSÃO

Pelo que é de Domingos Leite Pereira está tudo concluido.

Mas a narrativa não pode parar aqui.

Ficam-lhe no mundo a filha, a esposa, o pai... e o traidor.

Oh! Roque da Cunha viu aquella tragedia, viu a cabeça esqualida no poste
da rua dos Torneiros, e ficou debaixo do ceo, para onde o frade apontava
com o Christo, quando o padecente tiritava nas horrentes dores da
mutilação!..

Vamos rastrear os destinos de Angela, visto que a Providencia a não
levou d'esta vida, quando o padecente lh'o rogava no oratorio. E, se no
rastro escuro ou luminoso da amada e innocente creatura, resvalarmos aos
lodaçaes, pode ser que lá topemos os personagens repugnantes de cujo
destino o leitor nos pede conta.

O livro hade chamar-se A FILHA DO REGICIDA. (_Nota final._)


FIM



NOTAS


NOTA 1.ª

Diogo de Alvarado foi grande tangedor de _tecla_, que é o mesmo que de
_orgão_. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e
agilidade no tanger d'aquelle instrumento. Quarenta e trez annos exerceu
o officio na capella real no tempo dos Philippes, e ainda trez no
reinado de D. João IV. Está sepultado na egreja de Nossa Senhora dos
Martyres, onde tem este epitaphio: _Sepultura de Diogo de Alvarado
tangedor de tecla na capella real 43 annos, e de sua mulher, o qual
falleceu em 12 de fevereiro de 1643_. «Memorias (ineditas) de Diogo de
Paiva de Andrade.» Estas _Memorias_ referem-se á antiga egreja arrazada
pelo terremoto de 1755. D'este musico não encontramos outra noticia, nem
d'elle a teve o cardeal patriarcha D. Frei Francisco de S. Luiz na
_Lista de alguns artistas portuguezes_. (Lisboa, 1839).

A referencia que acima se faz a _Guerreiro_, intende com o padre
portuguez Francisco Guerreiro, mestre da capella da Sancta Igreja de
Sevilha, o qual, como elle mesmo refere no seu _Itinerario da Terra
Sancta_, estando em Veneza por agosto de 1588, ahi mandara imprimir os
seus livros de musica.


NOTA 2.ª

Esta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua
Nova, deparou-n'ol-a um manuscripto que possuimos intitulado MEMORIAS
COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE. D'estes nomes e appellidos
houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande theologo e mui sizudo padre
que decerto não ferragearia os escandalos que enxameam nas MEMORIAS. O
sobrinho, mais mundanal, e auctor do _Casamento perfeito_, seria o
collector de biographias, um tanto airadas, entre as quaes está a do
amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660.


NOTA 3.ª

_Memorias_ citadas. Concordam com a supposição de Manuel Faria e Sousa
nos _Commentarios ás rimas_ de Luiz de Camões, e nomeadamente á
_Canção_ VII e ao _Soneto_ LXXVII.


NOTA 4.ª

O fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de
Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da côrte de Madrid, e
recompensado por Filippe III largamente; porém, como pedisse uma graça
que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e
inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a
cobiça fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se
enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a
casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se a
_Historia Genealogica da Casa Real_, T. 5.º, pagina 270). Em seguida,
como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a
successão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se a _Historia
Genealogica da Casa Real_, T. 2.º, livro 3.º pagina 521). Como lhe não
rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiçados, fez uns
_Estatutos da Ordem de Avis_ em que constituiu visitador geral das ordens
militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como
elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte
visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se
locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa
heroes de 1640! Quem os quizer contar leia a _Historia da
Acclamação_ etc., por Roque Pereira Lobo.


NOTA 5.ª

Pedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relação para
sua casa, que era um palacio na Ribeira. Este palacio, depois de 1640,
passou a um dos conjurados, de appellido _Noronha_, e era dos marquezes
de Angeja, quando o terremoto de 1755 o alluiu. Pedro Barbosa de Luna
era de Vianna do Minho.


NOTA 6.ª

O receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciação do fundador da
dynastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autographo, que
possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro
Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu o _Testamento
delRey D. João IV_ no tomo IV das _Provas da Historia Genealogica da
casa real_ por D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o
reputou da lavra do monarcha, tem rasão, se formar bom conceito da
intelligencia do testador; quem porém vir os traços fundamentaes d'esse
documento, duvidará que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui
está o traslado textual do testamento escripto do punho de D. João IV:

«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por
herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho
como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade
declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha
minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda
durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores
ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e
Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaçalos e
porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o
que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha
testamenteira e que faça pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer
que me comvém.

«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora
para onde se tresladarão os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e
os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas
decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella
minha alma e duas pello Princepe e Infanta.

«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a
cada hum tocar e peço ao Princepe lhe conserve as doaçoens que tenho
feito, e espero delle o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não
defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça
ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil
cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias
cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque
destes ha muitos que são meus criados mando que seião (sejam)
preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a
Rainha se informara delle para saber quaes são os mais benemeritos e
trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.

«De Antonio cabide tenho inteira satisfação pello modo e zello com que
sempre mecervio e asim peço a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo
com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfação, e
por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela
inteira conta o dou por quite e livre e que este lhe cirva de quitação.
Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que
esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago
para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e
ordens e se impetrarão do Papa os breves necessarios e asim mais as
villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo,
que logo os faço villas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens
de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doaçõns
pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas
satisfaça emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua
casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns
intentos de que tudo sabe Antonio Cabide pesso a Raynha informada delle
siga minha mesma vontade.[13] Tenho tratado casar minha
filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido
Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha
lhe pesso siga nelles meus proprios intentos.

«A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cerviço meu das
Rendas da casa de Bragança dous mil cruzados, a D. Maria minha filha
mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado.

«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que
meu Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma
instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos
meus bens se acrecentem.

«Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas
acçõens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por
entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do
dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma
couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observancia
della conserva as Monarchias máis que as armas e asim encomendo ao
Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta acção.

«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido
com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza,
Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os
mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu
filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O
conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta
doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe
meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe
entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me
cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a
Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como
homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.

«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella
nomeará quando lhe parecer.

«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de
meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da
publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o
Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os
entreguem a Rainha.

«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se
conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando
que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do
Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella
Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a
Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a
Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando
outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha
logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire
nunca das rendas da capella.

«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com
Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com
que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.

«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da
qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte
Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.[14]

«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno
declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais
jurisdição que a que tem os capitaens de Africa. _Fim do testamento._»

Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos
rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do
secretario de estado Pedro Vieira da Silva. E depois, se poder, acredite
em D. Antonio Caetano de Sousa (_Hist. Genealog. da Casa Real_, tomo
VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a
maior parte ou todas as _Relaçoens_ anonymas das campanhas entre
Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim de _ter
contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons
successos de suas armas_. O linhagista da casa de Bragança não satisfez
o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no
fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.

Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente
expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa
excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica.
Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no
tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não
deixou o terremoto sequer um livro!

O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do
ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.


NOTA 7.ª

Remechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha
vinte annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos
damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do
manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por
Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:

O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda
que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia
irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e
carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com
immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes
inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu
a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro
que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija
entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que
havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!--replicou a
mulher de D. João II--hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade
ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este
lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro
Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e
ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo
Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante
D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal
Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II que era
terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este
devia ser avô da noiva regeitada.


NOTA 8.ª

A rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao pé do Paço da Côrte Real,
e seguia até ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Paço. N'esta rua se
arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto ao _Sancto
Antonio de frei Bartholomeu dos Martyres_, sabe-se o seguinte para
explicar o texto: em casa humilde nasceu n'esta rua o veneravel
arcebispo de Braga frei Bartholomeu dos Martyres; e na fachada da casa
onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo
Antonio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete.
Este Santo Antonio era festejado todos os annos á custa dos devotos da
rua, e conservou sempre lampadario acceso, de noite e dia, porque toda a
freguezia dos Martyres se apegava com o milagroso Sancto nas suas
necessidades.


NOTA 9.ª

É notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na
tradição, e consignado nas _Memorias_ colligidas por _Diogo de Paiva de
Andrade_. «D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi
preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor
geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse
que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpára ao conde sem
causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro,
este o avisára que cazasse com ella; e, tendo em resposta que só para
amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve
votos de que sahisse publicamente na procissão do _Auto da fé_; porém, o
principe D. Theodosio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro
que, se não mudasse de proposito, deitaria fogo á Inquisição; do que,
sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira
que o principe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veiu a
publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisição. Disse-se que
o principe era muito avesso ás baixas manhas do inquisidor, e não
aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos
máus portuguezes que padeceram em 1641.»

D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral
formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissima _Historia de
Portugal_ (tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando
escreveu: «mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus
estudos em sentido mystico, etc.». Se Diogo de Paiva não desfazia no
genio pacifico do primogenito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral,
bispo da Guarda, protesta contra o ascetico fanatismo do principe; e já
o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez
chacota da magreza, dizendo-lhe que _só um embalsamado podia trazer-lhe
a noticia de que elle seria principe do outro mundo_, referindo-se ao
Brazil. Era mais _calemburista_ que asceta o irmão de Affonso VI,
quer-nos parecer.


NOTA 10.ª

O palacio dos duques de Aveiro que tambem foram depois marquezes de
Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belem, em seguimento ao
supplicio de D. José Mascarenhas. O marquez D. Manrique da Silva, cujo
secretario foi Domingos Leite, era quarto avô do ultimo duque de Aveiro,
e habitou o palacio de Pedroiços, no local onde ainda hoje se vê afogado
em cazinholas um padrão commemorativo do delicto.


NOTA 11.ª

«D. Maria de Castello Branco, filha de D. João de Castello Branco,
alcaide-mór da villa de seu appellido, cazou com Fernão Cabral,
alcaide-mór de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clerigo com tanta
loucura, que trocou em odio o amor conjugal, e persuadiu o dito clerigo
que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por elle
foi sentenciada a morrer morte natural por justiça sem lhe valer a
grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e illustres
parentes». _Memorias de Diogo de Paiva de Andrade._

Não marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no
meado do seculo XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a
mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D.
João I fizera alcaide-mór de Azurara. Computando o lapso das gerações
poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente,
determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz
Castello Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha,
almirante, que viveu no começo do reinado de D. Affonso V. De um dos
filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o
descobridor do Brazil.


NOTA 12.ª

Estas miudesas do meu _M. S._são corroboradas com a seguinte noticia
extractada das _Memorias de Diogo de Paiva de Andrade_: «Vicencia
Correia, chamada depois _Dona_ Vicencia, foi filha de uma grande
alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em
Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o
exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem
divertida por industria da mãe e habilidade propria, e vivendo de
mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e
d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de
amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta
estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos,
comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro
que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto
publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina.
Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas
lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro
da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em
Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos
grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o
nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua
litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»

Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que
appareceram em Madrid, por 1637, assignados pelo _Manuelinho de Evora_,
que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça
desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intitulada
_Quadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro_.
Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de
Vasconcellos, Francisco Leitão,[15] o conde do Prado e Thomaz Dibio, o
marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide,
Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao
leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em
Portugal pela sua dedicação.

Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:

      _Este livro ensina os modos_
      _De roubar os povos todos._

Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:

      _Nos bofes fel e vergonha;_
      _E em ser ladrão atrevido_
      _Sahi a meu pai cuspido._

Vai Francisco Leitão com esta lettra:

      _Nasci de quem nasci,_
      _Cazei com quem cazei,_
      _E o prazo renovei_

E á margem: _Filius meretricis_.

Vae o conde do Prado e diz este mote:

      _A missa ouço em S. Roque,_
      _Beijo o chão antes que acabe,_
      _A tenção só Deus a sabe._

Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:

      _As palavras são de um sancto;_
      _Mas as obras joeiradas_
      _São malicias refinadas._

O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:

      _Desterrado y ocioso,_
      _Miro solo la destresa_
      _Con que hurta su Altesa._

E diz D. Jorge de Mascarenhas:

      _Com capa de zelo vosso_
      _Muito dinheiro ajuntei,_
      _Sem elle e sem vós fiquei_

Mathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em
camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:

      _Mentir, calar, e fingir_
      _Verbos de que tenho usado_
      _Me pozeram n'este estado._

O mote de Mathias de Albuquerque diz:

      _Sem tiro e golpe de espada_
      _A Pernambuco larguei,_
      _São e rico me fiquei._

Mote do conde da Vidigueira:

      _Estes como eu fugiram,_
      _E escaparam por taes modos,_
      _Que eu vim a pagar por todos._

Diz o bispo do Porto:

      _Sou de geração humilde;_
      _Mas mui sagaz e astuto_
      _Com duas pedras de p..._

Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é um _calemburgo_ que
finge estar no tempo presente, modo indicativo do verbo _deputar_. Diz a
glossa: _Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e
dispondo á sua vontade_.

Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao
leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido pelo
_Manuelinho de Evora_.

A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do
genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da
restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos
secretarios do _Manuelinho_.


NOTA 18.ª

Provavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros
conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se
manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois,
encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o
casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse
enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo
Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal
o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a
superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com
alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha
teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho
e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas
castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital
dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta
foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do
poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas
veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia,
teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador
hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas,
relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que
n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum
traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á
Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.»
_Historia de Portugal_, tomo 6, pagina 106 e seguintes.


NOTA 19.ª

Narra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve
fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de
uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas
professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado
Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta
Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de
el-rei seu pae a receber as instrucções da Madre Michaella Margarida de
Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei
D. João IV,[16] fundadora do dito mosteiro de Carnide em
1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito
esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de
morrer: «_Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes
carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção
acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como
eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai,
que fica com grande sentimento de vos não vêr._» (Traslada os legados do
rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na
edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca
a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu
apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este
mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina.
Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia,
respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro
esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços
assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os
sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava
quarenta e nove annos de edade» _Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e
seg._Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos
contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o
rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.


NOTA 20.ª

«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser
seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata,
lhe disse: _vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que
podesse ter outro similhante_. E assim era, porque sempre se vestiu de
estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus
cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram». _Carta
de Luiz da Cunha ao Principe D. José._


NOTA 21.ª

Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação
necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei
D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João
Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar
Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na
cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda
outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro.
É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da
fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta
administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei
D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de
Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro
casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor
de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá
chamavam por alcunha o _conde da barba rapada_. Os filhos d'este
assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando
segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e
melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de
Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de
Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou
com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte
Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha.
D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos
mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um
genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez
familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas
genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.


NOTA 22.ª

«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João
IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo,
conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de
estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar
por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não
devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era
devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os
descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua
innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens,
em que eu tive alguma parte estando em Madrid.» _Carta de D. Luiz da
Cunha ao Principe D. José._Esta carta muito notavel e pouco lida,
publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo: _Obras
ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha,
etc._Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva
que _escaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o
sentido e intelligencia dos periodos_. É exactissima a censura. Possuo a
mesma carta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que
envergonha as incurias do editor da impressa.

O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça
explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao
secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os
manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655).
Intitula-se: _Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se
suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D.
Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela
lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal_. É
attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os
conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta
que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como
vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e
soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e
assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com
que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante
elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo
isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é
ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito.
Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e
estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo
tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão
assim a parecer.

«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora
lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles
como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime
quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas
não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes
algum favor, o tenham por mercê.

«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram
comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o
respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque
a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos
digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos
mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a
lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar
ousadia a maiores.

«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o
castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles
todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e
defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem,
matar».

Assim predispunha o secretario das mercês o animo do rei contra os
conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando
com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o
cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D.
Rodrigo Calderon.


NOTA 23.ª

Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI
portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia
dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os
estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o
duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez
homens _para testemunhas_ do feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do
Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais
valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas
suas _Memorias_: _foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo
e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz
matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz_. Eis aqui a
singular missão da _testemunha_!

E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do
covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance:
Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide)
foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D.
Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve
n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam
culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não
queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o
accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com
ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse:
«que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra
Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».


NOTA 24.ª

Não é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas.
Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D.
Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de
Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais
espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de
vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será
exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas
as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar
calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os
tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a
expor n'elle a vazilha até que o sumo se engrosse a modo de unguento que
será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na
madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol,
hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto
por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes
de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais
desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são
sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito
peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares
sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão
metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber
commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da
vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de
hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco
por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja,
situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha
haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do
mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se
encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na
vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada
sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a
bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e
a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da
altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos
até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda
brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o
que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos
sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão
a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a
peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo
da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o
fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe
o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar
as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida,
que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o
mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de
outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á
vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o
sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona,
sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços
de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros
de rato e de gato».

É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que
mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e
rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada
patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos
importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois
manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o
Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as
balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para
offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as
alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O
outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII,
é: _Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle,
Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo
cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens
d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do
snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo
general, e Governador das Armas da mesma provincia_.

Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do
cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia
era mais investigada que hoje.


NOTA FINAL

As pessoas lidas na historia patria estão affeitas a encontrar, n'este
caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante
de Domingos Leite, chamado _Manoel da Cunha_, e não _Roque da Cunha_,
como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios á
novella com aggravo da historia. É injustiça que me fazem. Todos os
historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por
negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho
presentes o conde da Ericeira, (_Portugal restaurado_) Fr. Claudio da
Conceição, (_Gabinete historico_) D. Antonio Caetano de Sousa (_Historia
Genealogica da Casa Real Portugueza_), Roque Ferreira Lobo, (_Historia
da acclamação de D. João IV_) Ferdinand Denis, (_Portugal Pittoresco_)
João Baptista de Castro, (_Mappa de Portugal_) o sr. Viale, (_Resumo da
historia de Portugal_) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas,
(_Historia de Portugal_). Dizem todos invariavelmente que o delactor de
Domingos Leite era _Manuel Roque_, porque todos invariavelmente se
guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do
successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e
nomeadamente as relações escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador
laborioso encontraria, ácerca d'este assumpto, afóra a citada noticia de
_Fr. Francisco Brandão_ impressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma
de _Antonio de Sousa de Macedo_, e outra de _D. Francisco Manuel de
Mello_. São duas peças declamatorias: rethorica em barda, e muita
pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do
chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela
ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite
Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa,
claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de
Guimarães n'este trecho da sua relação: _Foi o executor da maquina...
Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de
Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto_. E em outra
passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da
primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fôra procurado em
Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanços o
nomeia _Roque da Cunha_, e em um d'elles, por signál, a critica de
Brandão desmerece grandemente dos creditos alcançados n'outros
escriptos. Senão, vejam: _Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a
sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o
entregou á justiça, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares
do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capella real ha
particular confraria, accudiu á vingança merecida contra os legitimos
reis d'esta corôa_.


FIM DAS NOTAS


    [1] O pai d'estes fidalgos, tão acceitos a D. João IV, foi D. João
    da Silva, conde de Portalegre parcialissimo de Philippe 2.º de
    Hespanha, como filho que era de castelhano, contra D. Antonio Prior
    do Crato, e contra D. Catharina, duqueza de Bragança. É esse mesmo o
    auctor _Dell'unione del regno de Portogallo alla corona di
    Castiglia_, publicado com o pseudonimo de _Conestaggio_. Não admira
    que os filhos de tão faccioso castelhano se não bandeassem com os
    patriotas de 1640; espanta, porém, que D. João IV os chamasse ao seu
    despacho.

    [2] Escuso dizer ao leitor que todas estas ruas e bêcos
    desappareceram no terremoto de 1755. Ha memoria d'ellas em João
    Baptista de Castro (_Mappa de Portugal_) e outros topographos de
    Lisboa.

    [3] O sr. M. Pinheiro Chagas, _Historia de Portugal_, tomo 6, pag.
    291, e o sr. A. José Viale no _Novo epitome da Historia de Portugal_
    pag. 158. Veja _Monstruosidades do tempo e da fortuna_ por fr.
    Alexandre da Paixão, _Ms._ da Bibliotheca do Porto--e Vida de
    Affonso VI escripta no anno 1684, Porto, 1873.

    [4] _Port. Rest._ T, 2. pag, 906.

    [5] O tratamento de _senhoria_ foi juridico para as donas, moças da
    camara e açafatas, por alvará de 17 de maio de 1777, quando já de
    antes a _excellencia_ era o tratamento usual. Na côrte de D. João
    IV, a lisonja e a urbanidade não hesitariam tratar de senhoria as
    açafatas, e as amantes do rei em perspectiva.

    [6] Carta ao principe D. José.

    [7] Em _Nota_ que hade ser posta como confirmação d'estas miudezas
    verá o leitor que não tem rasão para se maravilhar da omissão dos
    historiadores, salvo se lhe não é desconhecido um opusculo de fr.
    Francisco Brandão, chronista-mór do reino, opusculo publicado
    anonymamente em 1647, com este titulo: _Relação do assassinio
    intentado por Castella contra a Magestade d'el-rei D. João IV, nosso
    Senhor, e impedido miraculosamente_.

    [8] Os secretarios de estado tiveram _excellencia_ de juri desde a
    lei de 29 de janeiro de 1739. Os mordomos-móres já recebiam
    _excellencia_ no tempo de D. João IV. Em 1648 o padre Antonio Vieira
    tractava de _vossa-mercê_ em cartas o secretario de estado Pedro
    Vieira da Motta.

    [9] Relação do assassinio intentado por Castella contra a Magestade
    d'el-rei D. João IV, nosso Senhor e impedido miraculosamente. Lisboa
    1647.

    [10] _Relação do assassinio intentado por Castella contra a
    Magestade de El-rei D. João IV nosso Senhor, e impedido
    miraculosamente._ Lisboa, 1647.

    [11] _Obra citada._

    [12] Ao meu erudito amigo, o sr. Innocencio Francisco da Silva devo
    o favor do traslado, cuja orthographia se transcreve fielmente.

    [13] O sr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, escriptor tão
    elegante quanto vernaculo, no seu estimavel livro intitulado: LES
    CONTEMPORAINS, etc. a pag. 549 nos dá noticia de outro filho,
    bastardo de D. João IV, nos seguintes termos: _Un document officiel
    passé par le_ Rei d'Armas Portugal _á la famille des_ Braganças _de
    Cette, gentilshommes de la province du Minho, pour leur permettre de
    porter les armoiries du duc D. Alphonse I., donne à Jean IV un autre
    fils illegitime, non reconnu, appellé Alphonse Fayão, qui fut cure
    (abbade) de Baltar. Nous avons lu ce document qui constate l'origine
    de cette famille, la seule en Portugal qui porte le nom de Bragance.
    Le dernier descendant est M. Emmanuel Leite de Bragança Correia.
    Sousa dans l'histoire de la maison royale ne fait point mention de
    ce fils de Jean IV; mais le document officiel est positif á cet
    égard_.

    Até aqui o nosso eminente escriptor Antonio Augusto Teixeira de
    Vasconcellos.

    O representante d'esse filho illegitimo de D. João IV, o sr. Manoel
    Leite de Bragança Correia, é actualmente... administrador do correio
    de Felgueiras. Não nos parece que esteja dignamente collocado este
    fidalgo tão consanguineo do sr. D. Luiz I. Aviso aos seus reaes
    parentes. A direcção do correio de Felgueiras deve render 480 réis
    por dia.

    [14] Tinha escripto, antes de Italia, França, que riscou.

    [15] Não se confunda com Francisco de Andrade Leitão desembargador
    do Paço, que fez o discurso da acclamação de D. João IV.

    [16] Este imperador da Allemanha havia morrido em 1619, depois de
    ter abdicado em seu primo Fernando, quando o imperio era dilacerado
    pelos turcos e pela revolta dos bohemios. Presumimos que a freira de
    Carnide fosse filha illegitima do imperador, porque, á mingua de
    legitimos, abdicára no primo.



Notas de transcrição:

Na edição original as notas 13 a 17 no fim do livro não aparecem;

A formatação das notas no final do livro foi normalizada;

No corpo do livro as notas 5 a 8 estavam mal identificadas, tendo sido
corrigidas nesta transcrição.

Na nota 6.ª perto do final aparecia erradamente 1 de _setembro_ de 1755
como a data do grande terremoto. Foi corrigida a data para 1 de
_novembro_ de 1755.

As erros apontados na errata contida no final do livro (transcrita
abaixo) foram corrigidos nesta edição.

ERRATAS

Pagina 38, linha 22, onde se lê: sua _estola_, leia-se: sua _estofa_.

» 41, linha 9, onde se lê: _o cauteloso_, leia-se: _como cauteloso_.

» 53, linhas 14 e 15, onde se lê: _um feito, que_, leia-se _a um tal
feito; que_.

» 81, linha 8, onde se lê: nos _traz_, leia-se: nos _trazem_.

» 123, linha 25, onde se lê: _corfirmou_, leia-se: _confirmou_.

» 161, linha 31, onde se lê: _cavalgamos a noite_, leia-se: _cavalgamos
á noite_.

» 186, linha 28, onde se lê: elle _tremia_ e tremia, leia-se elle
_temia_ e tremia.





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