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Title: A princeza na berlinda - Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza
Author: Castro, Urbano de, 1850-1902
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A princeza na berlinda - Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza" ***

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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



RATTAZZI A VOL D'OISEAU



URBANO DE CASTRO

CHA-RI-VA-RI



A PRINCEZA NA BERLINDA


RATTAZZI A VOL D'OISEAU

COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA


(SEGUNDA EDIÇÃO)


LISBOA
TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA
7, Rua da Paz, 7
1880



A PRINCEZA NA BERLINDA


Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:--nunca passei
pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer
isto. A _minha terra_, que era pequena no tempo de Garret, não me consta
que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco...
talvez!

       *       *       *       *       *

Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em
Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a
litteratura não corria pressurosa ao _Bragança_, cumulando-a de elogios
banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a
mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher,
amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres
dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!--Pois ha de
apparecer! exclamou ella--E convidou-a para jantar. E a litteratura
appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em
Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da
sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não
é difficil advinhar quem os comprava--eram os convivas dos seus
jantares--Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o
_foie gras_ de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel
o seu livro _Si j'etais reine_; beber o champagne da princeza, e não lhe
segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como _Nice la
Belle_. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas
abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que
é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto
não era muito difficil, a _manobra fraudulenta_, como diz o sr. Duc nos
livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa...

Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares
hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se
fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na
Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face
vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena
não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não
são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro...

E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma
notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com
esta gloria, embora de 2.^a ordem, lembrou-se um dia de querer uma
gloria de 1.^a sorte, e escreveu uma comedia que, depois de muito
applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no
theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um
calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada...

Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma
princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,--e porque não a
terá?--sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é
impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este--o
cumulo da selvageria:--_Patear uma princeza_...

Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... _Pas de chance_! No
hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de
elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de
luvas... _Pas de chance_!

       *       *       *       *       *

Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a
dar ao _Portugal à vol d'oiseau_.

--Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus
jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os
ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a
tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa,
que são meus commensaes?--pois enganam-se, são paginas para o meu livro!
Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me
obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que
dizer-lhes «_merci_»!

E escreveu _Le Portugal à vol d'oiseau_.

       *       *       *       *       *

Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado
excellentes amostras d'aquella famosa peça...

Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa
nobreza, por exemplo...

Venha primeiro o conde de ***

«--O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre
parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é
verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos
cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade.
Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva
vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo
paciente para parecer ainda mais novo?

Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde
de *** são mais negros do que o ebano.

Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o
proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros,
semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados
artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para
assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto
uma especie de pequeno crescente--não, eu nunca ousaria dizer chinó
fallando de tão perfeito cavalheiro--que se confunde graciosamente com
os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e
summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu
creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta
pasta de _raisiné breton_, uma risca d'uma delicadeza, d'uma puresa,
d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a
cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus
concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de
alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno
baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente
sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar,
a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu
proprietario.

Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que
não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de
praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida.

Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era
camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade,
no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes
da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos
extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de
percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho.

O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o
corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez
magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo
a sua untura quotidiana--facil presa--sem temer a troça dos graciosos
que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por
toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais
tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.»

Igual a isto só aquella celebre caricatura do _Antonio Maria_...
«_Dá-lhe cuspo_...»

       *       *       *       *       *

Agora o marquez de V. ***

       *       *       *       *       *

--«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de
V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma
curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria
do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére.
Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V.
*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem,
e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do
mundo.

Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo
o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de
_Leviathan_, tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e
baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de
cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os
olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da
libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita
nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem.

A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e
guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um
divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este
pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista
e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a
cerimonia terminou e a parte official do programma está cumprida, o
marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa
para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas
cozidas. Aqui deixam-o em paz--_é costume_.

Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves
penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso,
arriscaria talvez a minha corôa.

É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que
seria, Deus meu, se o não fosse!»

Realmente está parecido... O _Antonio Maria_ não o faz melhor...

       *       *       *       *       *

Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o
leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá
a honra de fallar dos nossos enterros.

Dêmos a palavra á princeza:

«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao
cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este
cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o
poderam explicar: acho porém esquisito.»

Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não
acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O
facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres
dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o
dictado:--_Cada terra com seu uso_... O que é deveras esquisito, é
querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes.
Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de
vista mais ridiculo nem mais acanhado.

Continua a auctora:--«Quando uma pessoa morre, a familia não envia
cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo
prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este
_cliché_: _Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de
consternação indizivel em que a familia está_...

Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação
indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer
annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe
permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de
cada um, como se faz nos outros paizes.

Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou
antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma
pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor
amigo.»

Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o
annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que
rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza
não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar
como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza.
Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:--hei de
mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco.

Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação.
Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo
quanto quizer... mas não são entrudadas...

A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios funebres
faltou-lhe ainda um. É este:--_não se fazem convites especiaes por
expressa determinação do finado_. Foi pena escapar. Que bella pagina
humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido!

       *       *       *       *       *

Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro
está cheio de exemplos do mesmo genero.

Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar
metade dos seus espantos... Qual metade!--nem a decima, nem a centesima,
nem a milesima parte...

Porque a verdade é esta:--sua alteza apenas transpoz a fronteira começou
a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu
acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até
hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o
feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em
terreno conhecido, que é como quem diria:--logo que a natureza permittiu
que o robusto menino visse a clara luz do dia...

Espanto! Espanto! sempre espanto!

Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus
quizer»--espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,--espanto: as
varinas carregam-se de oiro,--espanto: vae muita gente aos bastidores de
S. Carlos,--espanto: dizemos _um copo d'agua_ e não _un verre
d'eau_,--espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes
de Paris,--espanto: as nossas pulgas mordem,--espanto: o nariz do sr.
Minhava é enorme,--espanto: _pomme de terre_, chama-se
batatas,--espanto: uma _precieuse ridicule_ é uma tola... espanto!

Espanto, espanto, sempre espanto!

Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza?

Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:--«Uma vez,
tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que
estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse
perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu
espanto, ao ouvir estas palavras:--_Padre, nosso, que estaes nos céus
santificado_... Accreditarão agora que isto quer dizer em
portuguez:--_Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit,
santifié_...

Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos
portuguezes que Nosso Senhor os entenda?»

E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos.

       *       *       *       *       *

Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter
graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não
fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o
seguinte:--De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em
pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem
a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e
custa cada kilo... tres mil réis!»

--Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha
por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:--a primeira, é que o seu
livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada!

       *       *       *       *       *

O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa.
Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios
d'este mez.

Se duvidam, leiam.

       *       *       *       *       *

Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma
vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das
algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de
assentar os seus arraiaes--aqui--na patria de Camões, nas bochechas do
sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago,
incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira.
Procurara-a,--oh! se a procurara!--como o nauta procura o norte, como a
ave procura o ninho, como a féra o seu covil--mas, apesar de a procurar
com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada,
nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma!

O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37--e
muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca
assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em
pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a
disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou!

Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que
ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo
assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma
raiva... Mas a scelerada não apparecia!

--E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com
que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o
legendario:--_E pur si muove!_

Era para perder a cabeça.

       *       *       *       *       *

Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O
governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não
diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro
Archimedés, _toilette_ aparte, solta do fundo do seio um jubiloso
_Eureka!_

Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149,
fallando das batotas, diz a princeza:

Ha uma na rua do Alecrim.

Uma, rua das Gavias.

Uma, praça de Camões.

Duas, rua da Emenda.

Uma, rua de S. Francisco.

Uma, travessa de Santa Justa.

Tres ou quatro á Ribeira Velha.

--Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez
a sr.^a Emilia das Neves, obrigado meu Deus!

       *       *       *       *       *

E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah!
princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem...
chefe d'esquadra.

E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma
rusga. Duvidam?

Leiam.

«--Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de
industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros,
estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como
um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.»

A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até
escolheu uma bella noite, _une belle nuit_, para fazer a sua rusga!

Diz ainda sua alteza:--A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a
mobilia.

Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!

       *       *       *       *       *

Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.

       *       *       *       *       *

--_Camillo Castello Branco_, que parece o condemnado aos trabalhos
publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve
sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa.
A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de
uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de
formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos,
com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma
especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico.

Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram
infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um
fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel
como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê
do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda
remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór,
volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de
personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de
cera. Os seus principaes romances são: _Onde está a felicidade_, _Doze
casamentos felizes_, _O que fazem mulheres_, _Historia d'um homem rico_;
são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces
são invariavelmente os mesmos.»

       *       *       *       *       *

«--_Bulhão Pato_. É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos
rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o
direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e
um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta
sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação.

O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação
encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser
um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem
quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande
poeta. O seu poema, a _Paquita_, é uma imitação dupla do estylo
aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de
Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc.,
onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O
que escreve não traduz o que diz (_Sa plume ne traduit pas sa langue_).
Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente,
irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso
mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a
lamentar-se sem rima nem rasão.»

N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o _poeta da melena_
(_poète aux longs cheveux_).

       *       *       *       *       *

«--_Ernest Biestero_, o grande magro litterario de quem Castilho
dizia:--É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada!
O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios
volumes só para fazer a sua rapida enumeração.

Os seus dramas originaes, _Caridade na sombra_, _Moscovellos_, _Natureza
de alma_ (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis.
Deve accrescentar-se--segundo a chronica--que os seus dramas são
retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza!

Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da _Revista Contemporanea
de Portugal e Brazil_, que durou cinco annos, onde se acham associadas
todas as individualidades do _elogio mutuo_.»

       *       *       *       *       *

«--_Mendes Leal_ (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e
até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances
historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a
maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do
ultra-romantismo, e os _Dois renegados_, que passam por ser a fina flôr
da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes,
venenos e ciladas. O seu romance _Calabar_ é completamente tirado do
_Bateur d'Estrade_, de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume
no qual só uma poesia é digna de menção, a _Morte de Carlos Alberto_.
Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro,
e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as
mediocridades são muita vez empregadas.»

       *       *       *       *       *

Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da
princeza? Ahi vae uma amostra.

_Odio velho não cança_, o notavel romance de Rebello da Silva,
é:--_Odio, velho, vraô cauca_.

_O prato de arroz dôce_, de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:--_O
Porto de oroz dou_.

_As tempestades sonoras_, de Theophilo Braga, são:--_As tempos tades
sanoras_.

_Moços e velhos_, que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester,
apparece assim no livro:--_Mocosvellos_.

       *       *       *       *       *

Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um
capitulo do seu livro.

E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não
quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a
mexericos se presta.

Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro
não tem praso determinado para as suas representações pela excellente
rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e
directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros,
na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand.

--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor.

--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.»

Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte
entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da
vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no
mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não
será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de
viagens?

Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor
_Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e
_Lora_?

Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas
mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha
porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a
resolver:--Qual será a Lora?

Mysterio que só a princeza poderá decifrar.

       *       *       *       *       *

Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o
pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça
subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua
alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.

       *       *       *       *       *

No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto
pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os
sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_.
Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto,
recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua
insipida e soporifera comedia.

_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no
nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que
são pateadas.

Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em
todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas...
Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os
colchões... as pateadas...

Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto
parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso...
Chore--a lagrima é livre.

       *       *       *       *       *

Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos
bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos
bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza
que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem
maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções
tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse
citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou
pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter
pedido informações a toda a gente.»

       *       *       *       *       *

Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer
sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a
princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora
diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe
consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota
da rua dos Condes?

Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes
faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela
primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de
theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D.
Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre
que apparecia em scena alguma actriz.

Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se
para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:

--Esta...?

E o sujeito:

--Não sei...

Entrava a sr.^a Virginia:

--E esta...?

--Homem deixe-me...

Entrava a sr.^a Amelia Vieira.

--E esta...?

--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada...

O provinciano porém não se dava por vencido.

--E esta...? continuava elle sempre a perguntar.

De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo,
volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:

--Olhe este... com certesa...

A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como
elle, não ficou sabendo coisa nenhuma...

Ficou até sabendo menos que o provinciano...

       *       *       *       *       *

Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos
bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que
desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza?

E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas!
Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo
não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos...

Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu
talento...

Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre
embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das
suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas
circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação...

É realmente estar com azar.

Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de
todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos
isso sem a mais pequena difficuldade...

       *       *       *       *       *

Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S.
Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha
para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções
são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me
ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao
respeito.»

Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas
bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria
n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão...

       *       *       *       *       *

Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do
nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha.

«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros
mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais
pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de
Alcobaça.

Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se
particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a
expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades
d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não
tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem
unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.»

Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma
verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é,
princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com
alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro,
francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de
qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes
depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é
o tal diploma...

Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella,
a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do
que o monumental edificio da Batalha!

É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos
para alegrar os olhos dos _touristes_...

Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino
de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a
muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com
os olhinhos alegres!

       *       *       *       *       *

Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou
nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho.

Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy
estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D.
Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra,
nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico
e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de
conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro
produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos
compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro
da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste...
alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do
capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos
tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...

É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e
incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...

Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_...

       *       *       *       *       *

Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo
capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os
estrangeiros são recebidos em Lisboa.

Leiam:

       *       *       *       *       *

«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos
estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração
tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo.

Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas
de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido
cidadão portuguez.

1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente.

2.^o--Se é allemão, um bocado de pão.

3.^o--Se é americano, umas migalhas.

4.^o--Se é italiano, um copo de agua.

5.^o--Se é francez, não lhe dão nada.

Aqui está approximadamente a gradação de estima a que um estrangeiro
póde aspirar em Portugal.

Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que
Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os
productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes.
Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como
recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808.

Os allemães gosam de alguma consideração.

Os americanos do norte são antes temidos do que estimados.

Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos
portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente
estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que
chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez
fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.

Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente
detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou
cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos
os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em
sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação
de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia
transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos
a paes até ao primeiro imperio.»

       *       *       *       *       *

Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro
d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella
phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em
_eiro_.

Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da
rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe
dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_?

Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um
poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha
de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas
veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma
burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido
na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes,
que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se
lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito,
princeza!

       *       *       *       *       *

Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é
aquella.

Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.

Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas
linhas...

Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa,
detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa
saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por
isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que
ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto
quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a
platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui
despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua
vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação
que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face
da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a
França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu
fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em
França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a
todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de
Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza
de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em
Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me
desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão
simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que
os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os
estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam
abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e
enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas
veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das
minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada,
d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher!
Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a
pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos
cahirão sobre a tua cabeça.»

       *       *       *       *       *

Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de
esperteza saloia.

A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal.
Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa
terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se
abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de
classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde
cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua
rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal
tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por
dois dos seus despotas.

E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte
á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá
augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação.

       *       *       *       *       *

A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que
nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um
mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o
sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada
com tanta vontade... que o esborrachamos.

É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua?

       *       *       *       *       *

Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.

N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me
pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_...
que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos
innoffensivos e sem intenção...

Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz
em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa
alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem
desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti
pris_.

       *       *       *       *       *

Segue a biographia da princeza.



BIOGRAPHIA


Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa)
mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É
neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia
Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que
morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente
de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_
para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma
intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi
eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que
usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu
irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida
senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de
Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um
agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez
romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se
retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão
pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta,
nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era
realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi
comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não
tivesse meios, fez-se professora.

Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França,
e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi
pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a
dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das
estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás
grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o
futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da
segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos
reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um
vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe
disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda,
porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel.

Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades
do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas
esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na
historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a
mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma
nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que
estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas,
julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na
Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.

Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella
pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só
um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em
que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto
energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril,
tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer
consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa
ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei
voluntaria e seriamente.»

Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro
de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á
fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão
escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome
de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou
Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a
ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era
estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito
provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o
governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a
qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota:

«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do
territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M.
Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas
pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de
respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario
d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais
facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em
contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em
execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.»

Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão
III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris;
abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas
e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_,
etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um
malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une
des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_
uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal
regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi
n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o
casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas
decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de
que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu
constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de
volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na
Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em
duello.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A princeza na berlinda - Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza" ***

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