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Title: 13 Sonetos
Author: Forte, Arnaldo
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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+13+

ARNALDO FORTE



Tip. A AMERICANA--48, Rua da Horta Sêca, 50--Lisboa



ARNALDO FORTE


+13+

SONETOS


Edição do Autor


1921

DEPOSITO
Sociedade Editora Portugal-Brazil, Ltd.
58, RUA GARRETT, 60
LISBOA



DO AUTOR

CINZAS, 1908 (Fóra do mercado)
LUAR D'OUTONO, 1912 (Exgotado)



Encheste a minha vida d'amargura.
Encheste a minha vida de martyrios.
Enchi a tua vida de ternura,
E vou encher o teu coval de lyrios.



+Dia 13+


A sombra vae cahindo lentamente.
Cahindo, amortalhando devagar
A hostia ensanguentada do poente!
Ouvem-se ao longe as fontes soluçar...

A aragem murmura docemente.
Ha preces de novena pelo ar.
A natureza ás vezes tambem sente!
Ha tardes em que o ceu sabe chorar!

As velas assustadas, pela serra,
Paráram de moêr, fitando a Terra!
Passa um enterro... «É nova, vae tão cêdo!»

Falam maguas nos olhos de quem passa...
Anda no ar um vento de Desgraça!
Amor, as tuas mãos... eu tenho mêdo!


13--Março 1916



+A vida é uma walsa...+


Naquela walsa que dansamos, lenta e linda,
Num baile onde, ao acaso, um dia te encontrei,
Sem qu'rer, fiz-te chorar. Eu lembro-me ainda!
Foi toda a minha vida... a walsa que dansei!

Senti a tua alma entrar dentro da minha;
E ouvi teu coração falar muito baixinho.
E ainda pressenti que a tua alma tinha
Anceios de contar soluços de carinho.

Sentindo as tuas mãos nas minhas a queimar,
Eu disse-te orações... e ouvi-te murmurar
Palavras que de cór meu peito diz ainda!

Vejo-te assim; juntinha a mim, d'olhos fechados...
Eu sinto que nós dois andamos abraçados,
Dansando devagar, aquela walsa linda!


1916



+Fria+


Qu'importa o teu olhar sêja tão lindo,
E tenha a côr da luz que tem o dia?
Qu'importa o teu sorriso doce, infindo,
Se és fria, como a pedra, fria, fria!

Qu'importa esse teu corpo, se não sente!?
A alvura do teu colo sempre a arfar,
Se não tem o calor que dá á gente,
A força p'ra viver e para amar?!

Amor, no teu olhar eu tenho lido aos poucos,
Anceios exquisitos, sonhos loucos...
E és fria como a louza em cemiterio!

Envolta nesse manto de Beleza,
Quando olho dos teus olhos a frieza,
Eu quedo-me a scismar nesse misterio!


1916



+Teus olhos falam maguas...+


Os teus olhos maguados dizem tanto!
Aos meus olhos, sem qu'rer, teem contado
As maguas, os sorrisos, mais o pranto,
Que teus olhos maguados tem chorado.

Teus olhos maguados vão no berço
Do meu peito, e dormem de mansinho.
Teus olhos,--Padre-Nossos--são d'um terço,
Contas d'Amor, que eu rezo tão baixinho...

Teus olhos maguados são dois beijos.
São promessas, sonhos, são desejos...
E eu trago os olhos teus no coração.

São a luz da minh'alma entristecida;
Teus olhos maguados são a Vida,
E o sol da minha vida tambem são!


1916



+Violetas rôxas+


Inda tenho as florinhas inquietas,
Que beijaram teus seios pequeninos,
Atravez d'essas rendas indiscretas,
Sob entremeios brancos e tão finos!

Flor's que dos teus labios coralinos
Ouviram confidencias tão secretas,
E que teus dedos brancos, peregrinos,
Deitaram fóra... Pobres Violetas!

Perdidas pela sala e desatadas,
Encontrei-as, as pobres, requeimadas,
Ainda cheias desse teu encanto!

Mas lá 'stão inquietas e viçosas,
As que olharam teus seios vergonhosas...
Reviveram nas aguas do meu pranto.


1916



+A minha alma já morreu...+


Eu não te disse, Amôr? Minh'alma já morreu
Cançada de esperar teus olhos num anceio!
Cançada de rezar baixinho o nome teu.
A noite era tão linda! E o teu olhar não veio!

E o teu olhar não trouxe a sombra dum carinho
Á minha pobre alma exausta de sofrer!
Luar! Tanto Luar havia no caminho...
E a luz do teu olhar não quiz vê-la morrer!

O teu olhar matou-a! E não quizeste vir
Trazer-lhe uma grinalda branca do teu rir.
Ao menos murmurar baixinho uma oração!

Amor, sempre julguei que as tuas mãos pequenas,
Branquinhas como duas açucenas,
Viessem ageitar minh'alma no caixão!


1917



+Vendida+


Vendeste a tua boca, aquela que beijára
Purinha e a sorrir, meus versos a chorar.
Vendeste as tuas mãos, febris que eu apertára,
E outr'ora já por mim se ergueram a rezar.

Vendeste o teu olhar, e o corpo airoso e lindo,
Enlevo do meu sonho, a luz do meu viver.
Vendeste o teu sorrir, sorriso doce, infindo...
Que fôra para mim alivio de sofrer!

E nem sequer tens pena! És d'el' que te comprou!
Vender's a tua boca, aquela que beijou
Meus versos a chorar por ti n'uma paixão!

És minha? És d'ele? És minha á luz do sentimento!
Tu vives d'este amor. É meu teu pensamento.
És minha! Não vendeste ainda o coração.


1917



+Um peccado+


Silhuete do Amor, corpinho d'anfora, esguia!
Olhar sonhando a rir, promessas e desejos.
Braza a queimar, a arder, acesa á luz do dia...
Boca tão linda... e boca virgem dos meus beijos!

És a esfinge da Graça! O sonho do Noivado!
Uma oração trazida á Terra, pela Virgem!
E és tambem ainda um mixto do Pecado...
A figura do Amor na tela da Vertigem!

Tu sabes quem eu sou; e crê, quando te vejo,
Eu tenho a impressão do que seria um beijo,
Em frente do Senhor, á luz do coração!

Mas tu, sorris, e ris... e eu quêdo-me a scismar,
Como seria bela a vida a recordar,
Um longo beijo teu--Peccado, e Oração!


1920



+Envôlta no "manton" das rosas vermelhas...+


Hasde ser minha, eu quero, é quanto basta!
Um dia, quando fôr, não o procuro.
E é o desejo ardente que me arrasta,
Aquel' que hade fazer vibrar-te, eu juro!

Um dia, quando fôr... heide deixar
Nos seios que tu tens, beijos aos molhos!
Nodoas de lyrios roxos a sangrar...
E olheiras côr da noite nos teus olhos!

Não tenhas ilusões! Nunca a tua Raça
Me vencerá a mim por mais que faça!
Quero-te. Eu sinto a ancia de beijar!

Queimada pelo fogo dos meus beijos
Heide sentir-te louca de desejos...
Um dia, quando fôr... sem eu te amar!


1920



+Na Praia-Mar do Sonho+


Decerto tu já viste ao sol-poente,
O mar beijar a areia de mansinho.
Parado, a olha-la docemente,
Num grande sonho, louco, de carinho.

Depois é densa a treva. O mar é louco.
E briga com a areia, encapelado.
Embravecido cança, e pouco a pouco,
Soluça a grande dôr dum revoltado!

Assim, houve luar e noite escura,
N'aquela doce noite de amargura,
Misterio indefinido que profundo!

Assim, é a tu'alma p'ra minh'alma,
--Ó minha maré-viva e maré-calma,
Do grande mar, da Dôr em que me afundo!


1920



+A mascara loira+


Ó minha viciosa, esterica e perversa,
De linhas sensuaes; teu corpo éthérisado,
Tem frases de requinte, em lubrica conversa!
Tem lume de cigarro, loiro e opiado!

Teus olhos a boiar, são taças d'absynto.
E a tua silhuete loira e desgrenhada,
Tem risos de cristaes partidos, que eu bem sinto,
Em noites de volupia, á luz da madrugada!

Á noite, as tuas mãos, são gumes de punhal,
Depois de terem morto--alguem sem fazer mal...
Tua voz é o Fado... eu ouço-o quando passa!

No Mundo és o Drama, a Farça, és a Comedia!
Ás vezes tambem és--palhaço--na Tragedia!
És a figura loira e linda da Desgraça!


1921



+Abandono+


Decerto tu sentiste o abandono,
Que vae acompanhando o sol-poente,
Nas tardes tristes, lividas, do outono,
E quando chora o coração da gente!

Tardes pedindo ao sol a Extrema-Uncção,
Numa ancia doentia de mais luz!
Decerto tu sentiste a sensação,
De ajoelhar's em frente d'uma cruz!

Tu entraste á tarde na Egreja,
Á hora de resar's--bemdita seja,
A côr tão doentia do Outono!--

Tudo sentiste... e os olhos rasos d'agua!
Que pena não sentir's a minha magua!
A vaga incompreensão d'este abandono!


1921



+13 lyrios+

Atei-os com os fios d'oiro daquela taça de
crystal «bohème» que partiste...


Encheste a minha vida d'amargura.
Encheste a minha vida de martyrios.
Enchi a tua vida de ternura,
E vou encher o teu coval de lyrios.

São 13 os lyrios roxos que levei.
--Meus versos de saudade são p'ra ti.
Amor, num dia 13 te encontrei!
Num dia 13, Amor, eu te perdi.

Meu doce Amor perdido... heide te vêr,
Na luz que tem o céo ámanhecer,
Na côr do sol-poente em que reparo!

E o nome que tiveste, ó loira e linda,
Que certa rosa branca fala ainda...
Será p'la vida fôra o meu amparo!


13--Março 1921





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