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Title: Chronica de el-rei D. Affonso Henriques
Author: Galvão, Duarte, 1446-1517
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica de el-rei D. Affonso Henriques" ***

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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LI)


Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

POR

DUARTE GALVÃO


_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1906



Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador

_Mello d'Azevedo_



Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo

(VOLUME LI)


Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

POR

DUARTE GALVÃO


_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147

LISBOA

1906



PROLOGO


A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador
de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições;
agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que
apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram
convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o
livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de
fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma
offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras.

Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos.
As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e
porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o
reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados.

A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da
palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente,
guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na
funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por
antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha
de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto
mui antigo que o chronista soube approveitar.

É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do
fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio
Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos
de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais
e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não
devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo.
Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual
maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira
como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos
que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção.

Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no
dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
CXXVII).

==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517
«carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e
de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado
del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.

El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a
Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle
tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade.
E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia
abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez
voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara
Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas
Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano,
seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos
negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro
lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das
calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os
Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o
anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo
del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o
escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio
de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460,
ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores
Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem
del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis,
seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mór
importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui
sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina.

_Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle
qualificado por Damião de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina
João Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se
modernamente:

_Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso
Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo
da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu
original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida
á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel
Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC.
XXVI._==fol.

«Nesta Chronica, que Duarte Galvão _diz_, que fez de novo (são palavras
de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua
noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que
Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção,
como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a
attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido
Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel,
assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da
materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa
de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar
escritos alhêos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se
ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão
sómente lhe _apurára a lingoagem antiga em que estava escrita_.»

«E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará
conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão
a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio
a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte
da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a
escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de
outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de
Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim:

«Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques,
que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual
elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava,
como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio
desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes,
Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór
da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como
prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do
Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita
Chronica==.

Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias
desta Chronica. A marcada B--12--8 tem no final a data 1568. Bello
exemplar é a B--4--2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca
a B--4--4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi
doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII
possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas
notas e explicações do texto.

Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os
taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes
codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não
lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em
Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.

Antes d'isto a publicação da _Monarquia Lusitana_, pòde suppôr-se,
tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso
Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos
continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da
impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se
encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão.

Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto
(1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes.



Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
Galvão


A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela
1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.

«O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana,
«se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma
_copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos».

A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da
asserção de que a copia fiel gozou da luz publica.

No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo
seguinte:--«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a
verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor,
senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia
entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a
passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando
e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente
o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque
examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.

Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o
parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio
para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a
Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não
ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe
pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu
Duarte Galvão.»

Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação
dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada
teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente
e delicado. São suas palavras:

«Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão,
e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em
fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se
conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a
negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece
que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo
riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr.
Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia
Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»...

A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada.

Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que
riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber
quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que
El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da
Monarchia Portugueza.

Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis
de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle
dedicado um capitulo inteiro ao texto e á _refutação_ das fabulas da
_Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a
substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original.

Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido
incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão
Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos
Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias
de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o--1824). Ahi
encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e
encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais
franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz
idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes
Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto
devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e
verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez».

Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da
narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza
nos metteria para a qual não temos forças.

Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da
Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de
D. Affonso Henriques--seu casamento com D. Fernando Peres de Trava,
Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem
já era casada) a usurpou,[2]--suas desavenças com seu filho e guerras
que contra elle suscitou,--a jornada que por causa do exito de uma
destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;--a prisão a que D. Affonso
Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com
o Papa:--todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado,
como fortemente combatido.

Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida
justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D.
Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no
Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa--1825),
assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como
ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma
Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto
nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos
que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui
entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto
d'um dos nossos antigos Chronistas.

Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de
Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que
temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia
julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações
d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo
d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada,
nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella
contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda
ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera
motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes
se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do
offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a
verdade de toda a narrativa de Galvão.

Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas
allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva
salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa
mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão
d'infamias á propria _irmã_ dessa mesma princêza, com quem igualava em
nobreza!

Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D.
Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe
morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo
para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua
legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que
poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos
com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso
V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo
citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de
Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos
portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para
certificar-se do que era verdade.

Sobre o Bispo _negro_ não deixa de parecer especiosa a explicação que
offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:--

«Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de
Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se
compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a
mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de
Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de
quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a
despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de
Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma _D.
Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge
nunca depôz o habito dos _Negros_ como então chamavão aos que
professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra
vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os
mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um _Bispo Negro_, para não
dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo».

Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.

Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos
allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura.

A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada
sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de
Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje
existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos
tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes
illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e
coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua
intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os
Codices que se guardavão na Torra do Tombo.

A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia
daquelles tempos.

Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas
Manuscriptas. A maior parte são compilações.

Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e
algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.

Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura.

_G. Pereira._



CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO
HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL,

COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu
Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA

Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR

POR MIGUEL LOPES FERREYRA

LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA.

M. DCC. XXVI.

_Com todas as licenças necessarias_.



SENHOR


Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do
Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques
decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo
Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os
grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D.
Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior
admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a
sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que
desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas
dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V.
Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister.

_Miguel Lopes Ferreira._



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

*FERNÃO TELLES DA SILVA*

Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso
Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador
extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e
Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico,
e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.


Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso
Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa
Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os
Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos
em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa
Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o
mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não
póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça
este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio
tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para
lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes
experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de
toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como
desejo.

Criado de Vossa Excellencia

_Miguel Lopes Ferreira_



MIGUEL LOPES FERREIRA

AO LEITOR


Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa
de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se
conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez
tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão
falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e
dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai
deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de
El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos
á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu
filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór
do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e
Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando
em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha
passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da
sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos
maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da
mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de
Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra
passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos
encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a
malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a
tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior
continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural,
cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes
descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na
Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no
segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me
aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras,
que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem,
elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição
errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que
a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index
para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente
lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis,
e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão
rara como desejada.

_Vale._



PROLOGO

DO AUTHOR

Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel
nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal,
seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte
Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande
louvor destos mesmos Reis de Portugal.


Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida
obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem
de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem
por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é
proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que
obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto
no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós
necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa
fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os
Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo
maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para
regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e
exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para
obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida,
nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e
perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes
do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis
vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de
os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua
Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por
elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si
mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para
se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos
Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na
Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o
genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro
mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de
seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui
pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por
infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de
serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre
mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta
parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus
grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo
se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de
vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas
concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser
Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos
nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande
emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem
parecer adulação o que digo.

Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão
claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella
precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me
o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu
serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado
fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua
Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e
cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros,
em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e
desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não
leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do
que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da
Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes
Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui
dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e
prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande
maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das
Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito
por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas,
terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes
sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre
Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande
parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio,
poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer
vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes,
grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos
primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo
parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle
em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se
fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes,
outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava
feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua
honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita
parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte
de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que
sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas
mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos,
para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados
depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca
houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo
Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo
por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando
logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos
Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita
universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor
disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo
ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás
confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo
grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de
muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da
Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e
proseguimentos de seus maravilhosos effectos.

Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui
singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse
poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não
aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que
poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com
sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com
todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma
necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui
afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos
Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa
dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca
não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar,
e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso
serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas
para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está
conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta
graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem
faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum
prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo
mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa
leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e
contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que
foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram,
pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar,
que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e
serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo
amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais
para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher
atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais
serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se,
assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre
outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo
descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia
estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra
que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras
cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de
muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama,
e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como
quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e
difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e
falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre
mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu,
e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo,
que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de
obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo
fazer, me não pude, nem soube negar.



LICENÇAS

DO SANTO OFFICIO


Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do
Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de
impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual
não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.

_Rocha.--Fr. R. de Allencastre.--Cunha.--Teixeira.--Silva.--Cabedo._


DO ORDINARIO


_Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso
da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada
Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento
do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da
dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da
mesma Ordem nestes Reinos, &c_.


Illustrissimo e Reverendissimo Senhor


Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso
Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro
Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira,
dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que
zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias
daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com
maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube
despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros,
capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim,
em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos,
com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar
sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas
batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só
Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus
Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e
senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados
tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha,
porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez
largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a
sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido
sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso
Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos
exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou
com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma
fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca
tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a
espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E
sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos
o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi
constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar
rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe
embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre
empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi
singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar,
e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a
todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da
Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos
despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os
soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos,
porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a
vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os
merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque
não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital
de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe
consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de
que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que
nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham
entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra
em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou
de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo
este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as
cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de
Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice
adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de
sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes,
uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com
a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a
outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a
respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo
a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá
tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem
foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso
augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica
Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de
todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e
magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus
gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real
preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal,
realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir
por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e
Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de
Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua
Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente
o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome
da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre
louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A
Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».

Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do
Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é
mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este
Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que
por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade,
um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o
meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de
1726.

_Fr. José de Sousa_.


Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e
depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.

_D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.


DO PAÇO


_Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular
da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e
Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_.


SENHOR


Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques,
que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes
Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos
Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não
posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na
composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o
que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e
tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste
Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem
escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N.
Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.

_D. Jose Barbosa C.R._


Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e
despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem
isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.

_Pereira.--Galvão.--Teixeira.--Bonicho._



_Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques,
primeiro Rei de Portugal_



CAPITULO I

_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
Condado com certas condições_.


Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de
eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me
áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que
assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira
dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que
não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão
louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu
esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal,
fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto
cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu
immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado
pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são
por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D.
Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do
Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o
procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado
recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de
Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino
de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa
Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui
devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e
outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por
ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas
santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes
senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França,
e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste
Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei
Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por
El-Rei D. Affonso recebidos.

Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não
menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas
campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra
dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias,
por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e
assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo
El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus
nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra
contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma
chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que
depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador,
donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira,
cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D.
Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa,
dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello
de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a
terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle
ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado
chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique
o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse
doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse
um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de
cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E
ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a
conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e
seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados
perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não
querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de
Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o
dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe
aprouvesse, como de cousa sua propria.



CAPITULO II

_Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
donde se chamou Portugal_.


Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis
de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou
Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de
Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo
Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso
mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora
é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado
Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos
Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos,
e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de
Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha;
porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D.
Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de
Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de
Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi,
que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que
foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D.
Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi,
era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja,
por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal,
pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e
Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em
tanto gráo illustrados.



CAPITULO III

_Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que
foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_.


Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha
del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz
mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da
sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe
que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para
o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho
grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo
com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam
que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso
Senhor de mil noventa e quatro.

Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e
veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe
desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha
prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego;
porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de
modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D.
Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu
que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser
minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o
Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria,
de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança,
com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão
fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em
Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos
amor, e cuidado como se fora são.

E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos,
lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz,
e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu
sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe
logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em
outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger
a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia
poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será
são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e
criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos
da Fé».

Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre,
como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas
cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente
áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela
Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora
mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi
posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda
aleijão, como se nunca tivera nada della.

Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu
muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando,
e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi
sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade,
que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa
deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o
Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser
ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei
ser seu nacimento como disse.



CAPITULO IV

_Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu
filho ante que falecesse_.


Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador
da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez
a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em
ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo
Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez,
(1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem,
conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque
Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de
Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de
Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de
Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por
filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe
foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo
de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em
mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que
assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com
os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual
tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo
continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e
vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto
aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado
preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu
primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles
lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que
El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de
modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em
tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla
muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.

«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar
com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e
sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas
palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves
filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de
alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos
sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego,
porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho
more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura
para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu
direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu
regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste
principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi
como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão
de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de
seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam
todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça,
nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só
palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma
braçada.

«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e
direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e
mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os
outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam
soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e
estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo,
e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo
Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha
poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o
que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e
portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de
toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um
palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu
coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê
companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze
gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te
façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te
torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante,
ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa
Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha
benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita
honra prosperada».



CAPITULO V

_Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
Dona Tareja_.


Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes,
e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi
no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle
faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito
annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse
mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e
perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se
ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por
isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem
perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse
enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de
Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não
poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei
D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do
Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha
Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a
Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara
com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D.
Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com
ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D.
Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que
chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um
Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que
havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D.
Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem
de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao
Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.



CAPITULO VI

_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
sua mãi com elle_.


Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher,
e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes
vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe
furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da
Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a
seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de
presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos
mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando
quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o
Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me
queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua
mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou».
Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate,
ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso
filho, se mais poder que nós».

Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em
Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para
peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á
batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e
trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior
poder temos que elle».

A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do
campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com
D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e
quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi».
Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu
padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não
fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu
comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa
mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a
peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».

Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu
padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou
logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais
entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para
sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O
Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi
preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra,
e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso
que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas
pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores
em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a
Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso
sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de
Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante
dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.



CAPITULO VII

_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
Rei Mouro cercar Coimbra_.


Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não
queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D.
Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em
que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que
Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que
seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta
fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse
vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe
podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia,
aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella,
e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder
contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella
ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da
prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D.
Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para
o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um
lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali
esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os
outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande
peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que
El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e
sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode
a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e
prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e
mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi
logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se
levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que
os tinham.

Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com
aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro
veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de
todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias
combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda
de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e
pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial
havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em
quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e
sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da
peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar,
e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se
perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade
abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo
por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e
valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias
por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).



CAPITULO VIII

_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_.


A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado
Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle
houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe
havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto
conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada
que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou
o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla
estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se
tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o
grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e
nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem
levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei,
e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se
poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua
reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que
vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram
ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella
Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu
primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como
era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era
leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com
ella.

Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado
virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal
Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão
boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que
grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a
Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras
que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado
de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada
dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e
Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem
providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que
a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse
caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo
sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer
trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que
tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que
vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim
parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui
para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem
rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes
onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando
El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de
D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e
depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa
mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera
fazer.



CAPITULO IX

_Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez,
e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas
Moniz_.


Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com
toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio
partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou
a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de
El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então
tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve
grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto,
que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não
haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito
serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo
estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa
defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o
senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto
á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi
como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a
graça de Deos».



CAPITULO X

_Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
Guimarães_.


Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir
ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera
a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua
molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei
estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua
molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se
todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço
onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a
El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então
D. Egas Moniz, e disse.

«Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu
Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua
pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na
Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se
lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando
o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me
ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos
cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa
desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que
vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago
aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver
por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e
por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe
apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago
tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de
muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me
pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se
diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».

Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera
manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres
que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão
de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui
nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam
de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar
enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita
honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo
que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o
despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e
depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua
molher, e filhos tornar para Portugal.



CAPITULO XI

_Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella
se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto
juntou gente, e foi tomar Leiria_.


Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre
de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que
ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a
receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora
cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque
sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para
sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe
estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua
vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as
mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande
gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais
merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que
sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães,
onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra
tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes,
começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para
sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus,
passáram alguns dias.

E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem
proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos
seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra
dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo
rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui
bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou
andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de
Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e
fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o
Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no
Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D.
Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada
pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para
Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de
despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a
era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.



CAPITULO XII

_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
daquelle tempo_.


Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e
Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas
terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,
e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que
a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor
empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de
nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum
serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem
guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e
vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de
Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas
rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas
Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a
segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a
maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e
dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se
chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe
defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa
gente, que era bastante para peleijar com elle.

E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a
poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio,
e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio
grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a
morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem
mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e
se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de
mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser
queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D.
Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.
Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo
fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal,
ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento
baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado
Cavalleiro.

Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S.
Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas
possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e
seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas
suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão
santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e
menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos,
conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta
a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas
honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e
nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os
passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas
para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o
enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia
deixar de ser.



CAPITULO XIII

_Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que
com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
sentaram seus arraiaes um á vista do outro_.


Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D.
Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão
honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que
ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D.
Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas
que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou
a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe
Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos
vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova,
mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor,
mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida,
que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á
terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar
muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes
barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos
Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre
os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e
vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o
que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O
Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes,
foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de
servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar,
que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma
Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as
Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus
arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor
de mil cento e trinta e nove (1139).



CAPITULO XIV

_Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe
D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez
sobre esso_.


Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros
sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui
grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao
Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella,
e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e
cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra
de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda
valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu
desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de
Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a
todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca
achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha».
Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e
posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe
pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos
ajuntados, assi começou.

«Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e
desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua
santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando
nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda
poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando,
que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e
nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não
podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade
nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem
lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos
quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com
estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos
poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do
que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos
Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da
ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos
mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela
Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos,
pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e
furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos
Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por
poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com
liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia
tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por
nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu
desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e
a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a
quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e
feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais
desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e
nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle
salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais
seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal,
morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a
nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem
se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a
Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste
mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle
sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de
Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos
de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão,
e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que
merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que
nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão
ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós,
e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que
Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e
muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que
nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre
segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e
muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça
venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta
tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio,
faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a
lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de
nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai
com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como
nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de
Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como
sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e
vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de
confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de
saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque
com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde
me faça mester vossas mãos, e ajuda».

Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado
esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um
coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser
trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam,
responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia,
elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde
elles decendiam.



CAPITULO XV

_Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques,
posto na Cruz como padeceo por nós_.


Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em
seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a
elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que
pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas
ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos
seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires
tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te
apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes
desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa
Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na
Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por
onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se
partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e
disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas
obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em
mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares
prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te
servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os
quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e
pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda
piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo
da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem
fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».

E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se
a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando
foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e
então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse,
e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo
que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande
prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação
do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre
outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo:
«Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma
duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar
de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe
D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser
conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e
merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por
ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S.
Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados,
e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto
atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e
faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão
virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas
cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de
escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada
fama.



CAPITULO XVI

_Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para
peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.


Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e
esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás
trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos
levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e
commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria.
Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira
meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez
outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma
das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de
outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de
cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com
elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves,
que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço
Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D.
Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.

Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados,
correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus
nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado,
e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas
dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos
resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem,
não havia poder maior que os não temesse.

Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de
gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e
grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande
multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor,
nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e
honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua
geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa,
que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles
disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós
consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para
peleijar». Respondeo elle e disse:

«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por
sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me
contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso
irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels
imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não
são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui
esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé
somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue,
como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará
vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é,
será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos:
«Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua
graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito,
e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei,
e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto
pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que
pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o
levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real,
por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil
cento e trinta e nove (1139).



CAPITULO XVII

_Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu
batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento
della_.


Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe
foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os
senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares
ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham
contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu
Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez
assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia
diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo
com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á
segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos
Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D.
Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a
El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas
as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das
azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados
Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros.

Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui
grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração
muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se
topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente
peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia
tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com
pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D.
Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como
nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros
afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se
não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi
vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e
mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres
pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a
vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz
Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes.

Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza
deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando
Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros
Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo
Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a
maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente
de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo
com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles
cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não
passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e
se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual
segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o
que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta
vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e
menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita
contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e
a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores
da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo
Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram;
porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que
disse.



CAPITULO XVIII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em
suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova
que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.


Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,
como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem,
e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos
naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que
lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no
Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,
pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada
um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido
por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo
que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas
puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi
contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo
sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta
dinheiros, e desta maneira se trazem agora.

Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com
mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e
gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros
era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram
Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando
El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e
disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da
Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes
Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e
tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo
como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito
sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão,
outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar
de cativeiro.

Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada
vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do
Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o
Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.
Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo
Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão
glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por
elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,
e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei
como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.
Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da
primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.



CAPITULO XIX

_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou
matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
Christo_.


Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão,
de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do
Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo
enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o
qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do
serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de
Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima
persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais
cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,
que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o
qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S.
Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam,
os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e
ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já
velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de
vagar.

Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que
seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S.
Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho
minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano
com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado
o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o
tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto
crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum
que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se
Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente
cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por
então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o
lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de
convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de
tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não
caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz
haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.

Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo
vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci,
morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e
animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma
lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto
guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma
sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então
mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do
mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o
Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo
barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido
seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi
sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e
sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui
grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh
Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,
venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo
morto».



CAPITULO XX

_Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S.
Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar
se tornou para Coimbra_.


Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento
e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a
que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por
Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos,
que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando
nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o
Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que
fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem
com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os
guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o
seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o
trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um
Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do
Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle
disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando
aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.

El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham
falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo
lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em
que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os
Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de
Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em
seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando
lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N.
Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade
de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando
El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer
que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por
então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.



CAPITULO XXI[4]

_Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei
Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou
com o Bispo_.


Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se
enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho
tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e
muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de
Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados
para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo
assim comprir fosse interdito posto em todo o reino.

Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar
as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo:
«Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse
bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo
algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de
seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava
achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha
mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo.

Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua
terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos
no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo».
Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?»
Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus
dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei
quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir
um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo
respondeu: «Hei nome Martins».--«E teu pai como se chamava».--Colleima
disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o
officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na
Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo
Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle
«eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei:
«Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo
m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo,
com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo.

Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe
o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé.



CAPITULO XXII

_Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso
Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.


A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques
assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu
naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella
prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de
exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal
modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar
de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que
o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha
de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na
mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada
Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso
faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda
que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem
nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais
devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre
porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser,
porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.

Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para
muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja
louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão
póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer
assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio
que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as
gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua
navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de
Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então
neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre
Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em
mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim
que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo
Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois
lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os
bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu
geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso
que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as
fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem
mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao
misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e
constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever
com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?

Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão,
por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo
Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja
por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como
é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve
cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e
prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos
por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que
por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste
mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se
conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se
fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo
condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei
fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e
conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os
males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os
similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei
D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que
não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos,
por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não
nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.



CAPITULO XXIII

_Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de
sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou
em Coimbra_.


Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso
Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua
mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo
Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe
enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de
quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de
Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal
perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e
disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em
desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse
El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela
nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem,
segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem
a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra
viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu
não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia
escapar.»

Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande
receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal
teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde
El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois,
Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma
para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros?
Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês,
dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse
o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar
a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros
cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos
como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por
obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração
humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal,
e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente
distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem
como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra
doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes
mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.»

Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás
bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da
cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da
guisa que ante manhã andou duas legoas.



CAPITULO XXIV

_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
passou_.


Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros:
«Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui,
e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei:
«Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a
grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo
era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal
em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e
como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a
espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,»
querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com
elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este
Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei:
«Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois
assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou
cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me
queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa
mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que
descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem
prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis
uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja
excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós
por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa
Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui
não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe
aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e
ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e
disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o
serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado
ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se
todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:
«Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu
houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que
tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e
para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito
mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o
Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que
El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão
seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo
faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em
que lugar.

Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais
encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião
delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal
pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este
escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a
esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de
Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com
El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,
e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe
reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não
pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro
nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o
Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu
lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós
vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é,
ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o
seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando
a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado
por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe
outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a
El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui
honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois
este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas
que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.

E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra
quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu
escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.

Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.



CAPITULO XXV

_Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio
tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou
Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos
Mouros_.


El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso
Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear
Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou
muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a
Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria,
a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos
Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de
Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no
Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo
para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que
El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e
vir á batalha com elles.

Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta
annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio
homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D.
Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande
pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de
Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em
quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande
pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre
ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão
boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui
bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do
Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior
a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no
Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não
podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a
Coimbra.



CAPITULO XXVI

_Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e
assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
Anrique de Lara_.


Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de
Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a
Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para
ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos
peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto
nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de
andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de
Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito
de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre
esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal
Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que
todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal
ficasse sempre aos Reis de Portugal.

Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra,
foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D.
Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes
respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta
linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher
nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em
parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas
virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste
cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e
quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado
por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não
achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como
foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que
cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo
depois para tomar a Villa de Santarem.



CAPITULO XXVII

_Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.


Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por
Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento
quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo
já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito
que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma,
por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a
milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da
parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a
fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por
elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao
meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte
contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual
falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado
assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui
magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e
não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a
Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro
estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto,
era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que
os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do
outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente
fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos,
com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que
lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e
temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á
morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte
do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre
chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli
haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não
menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e
aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma
maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de
muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D.
Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra,
que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus
lugares.

Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a
grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe
El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a
outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se
podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era
tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a
pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem
Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que
parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa
foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como
quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia
tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta
cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande
perigo, e receo.



CAPITULO XXVIII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
teve com os seus para ir sobre ella_.


Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre
Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava,
como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu
grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se
rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas
com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este
negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa
furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e
assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de
grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em
segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que
fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua
bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o
fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto,
que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe
pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.

El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia,
fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo
primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com
grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em
seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um
dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas,
e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e
contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer,
mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em
tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem,
nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e
vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha
regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com
aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou
disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio
tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante
sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e
como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que
disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu
cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a
cabeça, sem o merecer».



CAPITULO XXIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_.


Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e
alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que
lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a
falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha
grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi
como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha
ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito
afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade
que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que
esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda
feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o
comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros
não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em
Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e
foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse
dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em
diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias,
que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a
seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro
saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava,
tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da
li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo
del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres,
que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era
vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.

Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi
contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle
Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S.
Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem
quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da
sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada».
E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto,
logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa
del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle
Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de
todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos
Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.

Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo
tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora
revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar
graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com
livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli,
os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram
posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver,
segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve
que fosse sempre depois, e agora neste tempo.



CAPITULO XXX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
Santarem, e das rezões que disse a todos_.


Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até
noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que
está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou
El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe
uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais
verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos
trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de
que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade
de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de
a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que
parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera
de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em
que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e
valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e
tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que
vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não
menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza
tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença
deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a
noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se
esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez
esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem
não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da
gente.

Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos
nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai
as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta
entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja
matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam
pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a
homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade,
todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que
Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e
hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos
do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que
vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que
lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro
receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe
esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e
peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por
mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com
vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me
aparte de vós, como vejo que fareis por mi».

Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para
ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre
si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer,
apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com
nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor,
nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa
pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria
perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria
nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que
tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi
diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh
amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais
Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu
desta vez em ella morra».



CAPITULO XXXI

_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
Santarem, e dos sinais que pareceram_.


Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,
aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as
tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram
aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de
Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete
annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito
mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio
correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir
no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a
Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar
aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,
appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que
foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia
semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo
acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os
Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho
del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da
Estremadura era.

Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle
encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do
muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com
os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia
seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum
sentimento.

Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com
grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus
Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui
devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem
força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé,
mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua
infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria
a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que
ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para
teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e
por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu
santo nome seja sempre hi louvado.



CAPITULO XXXII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
Santarem, e foi entrada, e tomada_.


Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam
que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais
desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando
naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre
Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas
della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem
Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto
que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que
cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou
em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no
lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi
nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito
de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo
muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos
leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que
as velas poderiam adormecer.

E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto,
e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma
aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo
havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e
de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a
escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo
levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não
sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar,
e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como
desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda
ahi_. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e
tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro
tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a
cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto
a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo
ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda
correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os
Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e
entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais
crecesse.

D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de
Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria
Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando
aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que
não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas
partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.

Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam
entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos
nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo
Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do
ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada
da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e
deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes
mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se
trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas
que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e
cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado
que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou
El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas,
com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos.

Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já
dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter,
acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se
acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e
moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que
parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que
escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e
ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos,
tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de
grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos,
primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido,
filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D.
Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e
outros nobres homens.



CAPITULO XXXIII

_Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e
El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_.


Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della,
escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto
mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada,
e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido,
segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que
seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles
mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar
El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se
aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos
cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é
cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo
chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de
sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e
da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e
todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa,
mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.

El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide,
leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito
prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe
acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos
Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e
conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder
em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar
quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e
misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar
tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas
maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar
neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as
portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação,
e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora,
como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer:
mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa
fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo».
Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de
Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa
Eyrea Martyre que a ella veio ter.



CAPITULO XXXIV

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,
e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.


Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se
disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava
de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas
para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do
vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma
vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo
seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de
Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo
que se segue.

Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor
guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade
por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas
forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas
estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a
D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e
apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se
por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no
mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo
moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os
infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar
terra á rocha de Sintra.

Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com
elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande
frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a
causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava,
vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles
responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem
guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta
frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura
não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem
de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido
pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao
outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.

Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que
traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no
sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por
lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe
por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou
mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons
movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a
Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles
eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam
servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas
honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não
mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das
principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita
guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que
suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles
haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera
sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e
oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por
Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como
Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como
elles bem veriam.

Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram
concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo
tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e
assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a
Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está
o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes
tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco
perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e
estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste
cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos
Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos,
edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.
Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á
honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora
é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos
muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de
Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada
a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca
velha.

Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos
vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil
cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com
grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos
Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço,
passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes
difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo
grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria
debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este
fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos
corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.

Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi
pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais
fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,
peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer
antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,
paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação
por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar
seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão
grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e
trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.



CAPITULO XXXV

_Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de
Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.


Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso
Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e
com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e
depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram
feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo
sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi
consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando
logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao
Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem
Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e
outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e
disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a
Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve
de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei,
e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi
todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»

Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem
o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho,
e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois
partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a
Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver
Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo
cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei
de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder
de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho
disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo,
offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar
em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles
izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente
com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi
se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na
terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e
Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada
Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e
chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e
pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os
Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe
Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor
daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe
Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella
frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar
terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais
com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer,
que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de
ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em
dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita
honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns
destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que
foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou
por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em
linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a
fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o
nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em
Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria
por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por
alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial
de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os
Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua
gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus
temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo
mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante
Deos se alcança.



CAPITULO XXXVI

_Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo
quando a Cidade de Lisboa foi entrada_.


Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos
naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se
a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é
chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão
chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto
naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado
naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus
Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de
Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro
Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente
diremos.

Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e
mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro
deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que
por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e
misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos,
e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos
de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles
mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi,
e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui
jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito
esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo,
ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara,
começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera
pelos merecimentos deste Cavalleiro.

E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e
louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta,
por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro
Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de
Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas
vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre
com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.



CAPITULO XXXVII

_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
de Lisboa muito ferido morrera_.


Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste
Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da
Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo
alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito
velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,
dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o
meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui
junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não
deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e
vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou
desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro
Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com
palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas
vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se
levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o
Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova
a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando
veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da
noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer,
como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro
dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram
todos muitos louvores a N. Senhor.



CAPITULO XXXVIII

_Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que
Deos por elle fazia_.


Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda
benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o
serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura
uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas
mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra,
em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre,
louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e
deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que
tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della
aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e
tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma,
que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem
boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo,
levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N.
Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram,
tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum
abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e
achava-se logo remediado.



CAPITULO XXXIX

_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e
quem foi o primeiro Bispo della_.


Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle
era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada
esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens
temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem
em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles,
que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido,
segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza
da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é
muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos,
e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e
regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então
foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito
boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei
logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da
eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a
Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e
outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões,
indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado
veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas
duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta
Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N.
Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas
começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou
de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa
viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem
mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes
indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa
Maria dos Martyres.



CAPITULO XL

_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_.


E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de
Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães
Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a
Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com
elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem
um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei
sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle
dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe
que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser
caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido;
aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo
para o Moesteiro.

Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da
Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial
poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os
seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego
Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi
tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi
vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam
não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de
mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um
Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual
assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei
então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia
nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a
poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro
Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que
estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida
del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada
de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo
seguintes á sua tomada.



CAPITULO XLI

_Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura,
e Alem do Tejo_.


Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse,
logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e
quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e
Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram
de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve
assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas
gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros,
tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares
até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros
pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que
El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de
combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando
muitos Christãos, e levando muitos delles cativos.

El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz
levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então
fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e
pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos
os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja
tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155).
Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas
terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui
bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem
defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande
prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos
contra Mouros dera.



CAPITULO XLII

_Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona
Mofalda_.


Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido
cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só
filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento
de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro,
e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado
Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu
logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que
foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a
outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a
terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe
Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito
cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde
D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D.
Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se
partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros,
levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez
dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D.
Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para
elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui
luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados
Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam
com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D.
Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e
o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e
outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o
Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e
gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram
logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez
grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido,
e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para
onde haviam de comer.

Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com
elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas,
e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram
grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas
pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que
se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do
Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o
Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então
El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com
o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que
dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em
quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no
trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o
concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento;
no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros
de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de
D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu
nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D.
Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o
Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e
então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como
manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua
filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas
as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e
Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde,
e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham
partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante
consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua
gente, e Corte.



CAPITULO XLIII

_Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo
El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.


Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por
aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que
lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e
estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e
cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio
recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse
sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua
gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e
Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa
socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella,
e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons
Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e
estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das
frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e
sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para
soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos.
Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente,
começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se
acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se
puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra
Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até
ir recado aos do arraial.

El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos
Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos
homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos
seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova
desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta
torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que
ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e
vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o
Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que
ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal
cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no
campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos,
quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por
quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz
para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes
pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do
que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis
ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre
contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em
deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei
Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço,
mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão
desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos,
poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus
corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo,
haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço,
nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que
como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de
Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por
sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o
contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso
poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle
impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos
sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver
se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus
ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui
acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou
de morto me não partir do campo».

Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande
confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e
esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles
aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes
não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem
logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais
que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço,
e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir
nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados,
antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo,
que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe,
que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que
começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que
voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e
assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns
contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram
vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e
desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que
fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração,
e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava.
Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no
alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam.
Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a
grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem
todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela
boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não
acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o
desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo
perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os
leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve
dello, e assi houve a Villa de Palmella.



CAPITULO XLIV

_Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D.
Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D.
Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_.


Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei
D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se
della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem
sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que
se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve
della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi
Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em
sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por
ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes
para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e
fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os
Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que
El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por
seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu
Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e
então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião
ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com
elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca
Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando.
Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos
vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella,
e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.

«Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é,
disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem
buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram
todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso
como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando
Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e
El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da
Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára
bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo
topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a
perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a
ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se
cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de
quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem
poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi
dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma
perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas
mãos do que eu cuidava.»

Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o
viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de
ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo
valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa,
entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o
dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo
tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando
consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da
perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si,
fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse
a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa
álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra,
que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se
disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se
tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que
lhe prazia.

Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem,
El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui
bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a
menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis
antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis
annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e
discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo
menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna,
foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão,
segundo atraz nesta Estoria se contem.



CAPITULO XLV

_Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as
maldições dos pais, e mãis aos filhos_.


O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D.
Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que
ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com
muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou
Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o
nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de
reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por
onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis,
segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a
semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas
que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por
ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que
mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos,
porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo
ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter
injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na
terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem
os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça,
e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural
reverencia, e amor.

E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes
maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens,
e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais,
e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos,
que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por
humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada
ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e
mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho:
«Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam,
e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos,
leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de
que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a
rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas
paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com
elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é
desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos
filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por
esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para
fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo,
em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como
filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos,
se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos
que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e
estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos
seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou
maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na
fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.



CAPITULO XLVI

_Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
os desbaratou e venceo_.


Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens,
e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para
Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da
perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de
Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa
poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias,
tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer
grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou
grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e
atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por
onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava,
destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a
escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.

El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era
mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e
não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes
dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era
bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros,
concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e
por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se
sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que
eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa
vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz,
e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na
Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.»
Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já
prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes
havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso
como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual
por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se
quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle
queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de
tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada
desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado
El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar,
e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos,
(1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como
El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com
elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão
da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou
de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte
quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda
del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio
então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e
depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de
muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.

Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei
D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D.
Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e
esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que
tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a
outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos,
que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello
muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D.
Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver
prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes
soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que
mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que
o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que
de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui
trazido.



CAPITULO XLVII

_Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o
foram buscar_.


Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques
foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente,
e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa
era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque
tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram
feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e
trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação,
vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente
jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e
foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e
desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a
Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso
Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o
acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito
prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli
mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em
desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o
tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento
tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda
sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes
merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado,
e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do
acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro
lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com
muito prazer a salvamento.



CAPITULO XLVIII

_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.


Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar
fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e
aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o
qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer
sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que
era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era
estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de
Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era,
arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com
rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem
até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D.
Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e
escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e
rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a
principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais
honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle
aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos,
foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado
de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N.
Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de
S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle
santo Corpo, mas não lhe foram dadas.

Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou
com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias
honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle
lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara
ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam
ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do
Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta
a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o
qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás
aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e
depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como
quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór,
e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado
Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa
milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e
então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho,
lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S.
Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca
mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por
muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste
glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro
da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).



CAPITULO XLIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho
seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre
ello disse_.


Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com
El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do
Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D.
Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra
cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento
da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria
cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns
Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns
do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho
tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com
El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não
estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em
Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi
falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu
cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por
sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em
pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu
cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D.
Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo
traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a
segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de
ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos
entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora
commeces, e o faças.»

Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as
mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me
encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e
Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade,
e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja
vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto
porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe
prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e
quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir
com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia;
esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no
feito da guerra, que havia de começar.



CAPITULO L

_Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_.


Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi
assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de
assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e
outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o
Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em
tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de
Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus
Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros
Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao
meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa
vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção,
e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e
Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que
sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos
ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo
El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa
partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter
continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu
sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito
mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N.
Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda
de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos
lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi
passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se
despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio
beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a
Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.



CAPITULO LI

_Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
os Mouros peleijasse_.


Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o
Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais
folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que
se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de
Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e
passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a
cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que
chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e
todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por
sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar
folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros
nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja,
pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou
chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia
as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam
tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de
gente, que para sua defensão lhe fazia mister.

O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados
de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178)
e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram
de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os
Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho,
contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e
Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui
desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de
Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar
tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e
pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os
Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando
muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir
contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e
outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos
amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço.
Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão
aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o
Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa
com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu
ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas
tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha,
pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de
menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar,
que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade
fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e
que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas,
e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que
soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei
por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo
vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N.
Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle
que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos
encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer,
nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram
de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam
todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos,
não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram
todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos
somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto
em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua
ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai
logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em
que lugar ha de ir, e estar».



CAPITULO LII

_Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_.


Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o
haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira
fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira
reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e
trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O
Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram
hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero
Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e
D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de
Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda,
com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro
das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde
D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé
pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros
quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição
acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia,
foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous
mil, e os mais com a carruagem como dito é.

Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que
fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque
naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os
Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas,
foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes,
e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e
assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os
Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os
Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos
derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo
campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os
Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo
algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço
Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a
gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D.
Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e
antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui
brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o
esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde
estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem
mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada
peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo
D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de
Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes
que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e
leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo
parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e
com o pendão em terra.

Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu
pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado
começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles
matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a
pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram
de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por
tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram
tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e
despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em
muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros,
feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue,
segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra
muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros,
tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual
acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e
outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e
outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos
foram delle mui contentes.



CAPITULO LIII

_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi
sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.


Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua
defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que
de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que
nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram
della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a
Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que
não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um
Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e
chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam,
corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e
aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a
combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto
esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam
por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem
poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os
haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,
fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a
tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e
começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo
cumpria.

Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros,
tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos
que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial
cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e
avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta
que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe
pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que
estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda
via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois
de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,
que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros
por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos
Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante
vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:
_Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram
que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como
era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até
mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo
partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs
elle o milhor que podessem direito a Beja.

Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que
tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa
Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em
que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que
vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre
achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas
pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle
tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero
Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por
nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais
tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a
mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais
Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e
passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de
Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o
Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros
de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a
Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo
fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas
passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem
se não o Ifante D. Sancho.

Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e
uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor
aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos
chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar
por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e
mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista
dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes,
especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo
essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham
para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram
acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um
Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com
elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do
arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande
esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como
quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo
grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,
havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o
fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações
encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este
incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem
elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão
acerca viam já o pó da gente dos Christãos.

Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem
mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com
a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço
que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de
haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam
sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e
foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os
dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da
Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou
seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a
outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam
fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com
muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e
bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.

Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N.
Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e
setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos
Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e
depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e
entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor,
mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a
Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos
Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami
Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e
prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas
Roupinho.



CAPITULO LIV

_Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas
Roupinho Alcaide do Castello_.


Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja,
de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam
a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é
Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente
das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos,
até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro,
que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle
Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o
podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle
se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle
meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o
roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram
pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e
que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia
haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente,
e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o
mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o
Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram
logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão
profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e
feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o
combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos
por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.

       *       *       *       *       *

«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos
rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a
Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito
prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos,
que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda
que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até
que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do
caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós
ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»

E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues
ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar
onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu
ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e
desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem
remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros
muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a
El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer
e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com
elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na
batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços,
e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas
Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio,
era de mil cento e oitenta annos (1180).



CAPITULO LV

_Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
tomou delles nove Galés_.


Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou
aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi
andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome
João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella
Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este
recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e
fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com
os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus
officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e
outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e
por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto
que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa,
e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes
daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e
como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de
Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal
continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua
guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem
contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo,
houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram
aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que
os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na
era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho.
Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a
qual como era rezão foi recebido.



CAPITULO LVI

_Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei
D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_.


Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo
muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior,
escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde
o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao
redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés
para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle
os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em
serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o
recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante,
e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar
que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do
que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam
Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes
com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para
Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e
contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados,
com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre
ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá.

Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de
mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e
tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D.
Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois
achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as
nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer,
se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito
espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais
foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles
o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era
de mil e cento e oitenta annos (1180).



CAPITULO LVII

_Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
que veio a soccorrer seu filho_.


Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para
sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e
Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo
trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida
pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem
Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande
danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso
Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe
mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a
Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo
diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em
memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para
entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha,
e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis
Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e
vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo
um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era
do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em
esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á
Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte
de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta
feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta
da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como
quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum
tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro
dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo
quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o
Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer
outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.

O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo
comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de
Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de
defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de
Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra
de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar
a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o
abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em
que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de
redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde
lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta
feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou
Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta
aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando,
tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por
desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e
combater o palanque.

Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma
parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o
arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros
maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que
partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e
repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta
sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram
tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates,
desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando
El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho,
ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres
dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós.
Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso
seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e
ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos
em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos
dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com
todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não
foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o
palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em
todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer,
então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal
medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que
começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos,
a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e
desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes
dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do
Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se
chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua
gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo
todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles
grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli
vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido
Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.

Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os
seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata,
e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com
pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos,
entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor.
Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém
por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca
Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem
lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e
destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e
estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram
Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos
mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se
partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador
Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.



CAPITULO LVIII

_Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira,
com D. Felippe Conde de Frandes_.


Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve
alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o
Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito,
juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas
cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de
Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita
de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu
cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que
parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que
nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito
cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso,
de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona
Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e
outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á
Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se
com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens
principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela
Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com
muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e
assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu
estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito
honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns
Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de
linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte
e tres annos.



CAPITULO LIX

_De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
escritas_.


Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D.
Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por
tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o
visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia
de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o
nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o
Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes
antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na
Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos
Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos
postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos
tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa
sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção
de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D.
Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o
Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu
tempo.

Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por
ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a
segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que
todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que
mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação,
sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas
vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso
Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra
os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou
por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados
de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do
culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa
Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo
aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não
tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.

E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao
Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar
herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de
enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em
orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui
amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes
batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos
contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e
outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo
elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de
Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no
Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto
com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E
em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim
Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia
treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não
contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas,
que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na
Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde
Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer,
Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui
fortes, e grandes.



CAPITULO LX

_Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em
que se finou, e onde foi sepultado_.


Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus
feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e
esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum
tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no
modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi
para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que
se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja
louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o
meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João
Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra,
Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja,
que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras
daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer
deve ser havido.

Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos
modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei
que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu
Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de
Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por
morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des
então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei
quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco
annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos
aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a
perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N.
Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe
tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé.

Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo
de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de
Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui
sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus
Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo
enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas
mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de
fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro
Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.


     DEO GRATIAS



INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS


A


Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christãos, e abrazou muitos
Santuarios.

Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco
com grande perda.

Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha
del-Rei D. Affonso Anriques.

Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tareja
com o Conde D. Anrique.
  É vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques.

Affonso Anriques (D.) Quando naceo.
  É entregue a Egas Monis para ser seu Aio.
  É apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijão
    com que naceu.
  Acompanhou a seu pai defunto até o lugar onde o sepultáram.
  Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D.
    Reymão por lhe tomar Lião, mas logo se reconciliáram.
  Peleja com seu Padrasto, e é vencido.
  Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com elle
    a sua Mãi.
  Alcança a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castella
    chamado Emperador.
  É cercado em Guimarães por D. Affonso de Castella.
  De como levantou o cerco.
  Conquista Leiria, e Torres novas.
  Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros.
  Sentio muito a morte de Egas Monis.
  Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeças de
    Rei.
  É despersuadido pelos Soldados a não commetter a batalha do campo de
    Ourique, mas elle os anima para o conflito.
  Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo da
    batalha.
  Antes da batalha é levantado Rei.
  Dá-se a batalha, e sae vitorioso.
  Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas.
  É informado do lugar onde está o Corpo de S. Vicente Martyr.
  Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não acha.
  Toma Leiria aos Mouros.
  Faz doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches sómento no espiritual.
  Caza com Dona Mofalda.
  Intenta tomar Santarem.
  Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os Mouros de Santarem.
  Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem.
  Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa.
  Escala esta Villa, e se fez Senhor della.
  De que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta Villa.
  Ordena cercar Lisboa.
  Exhorta aos estrangeiros que chegáram na Armada para a conquista de
    Lisboa.
  Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita.
  Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo.
  Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi?
  Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, e
    Serpa.
  Dos filhos que teve.
  Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, que
    vinha com procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mofalda
    filha do mesmo Rei.
  Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros.
  Conquista Badalhouse.
  Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lião, e sahindo a
    pelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas de
    Badalhouse.
  Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdade
    concede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando.
  Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quando
    se celebrou este acto.
  Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar.
  Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo.
  Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado por
    Almiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata.
  Acções illustres, que obrou.
  Annos, que viveo.
  Dia, e anno da sua morte, e onde está sepultado.

Alanquer é conquistado por D. Affonso Anriques.

Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D.
Affonso Anriques.
  Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos.

Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques.

Almada, diversos nomes que teve.

Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho,
e é desbaratado.

Arronches é tomado por São Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra.

Auzery Alcaide mór de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a dita
Villa.

Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome.


B


Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques.
  No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por esta
    causa é prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recupera
    outra vez Badalhouse.

Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D.
Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mãi do
mesmo Rei.
  A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamado
    Emperador.
  A do Campo de Ourique.
  A de junto de Palmella.
  A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho.
  A de Beja alcançada pelo mesmo Infante.
  A de Santarem onde é destruido Almiramolim Emperador de Marrocos.

Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno.
  É cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, e
    levantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho.

Bernardo (S.) Estando em França soube por illustração Divina o voto que
fizera á sua Religião D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem.


C


Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques.

Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que
ajudou conquistar Lisboa.
  Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes.

Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda.


D


Daciano Martyrizou a S. Vicente.

D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na batalha de Ourique.


E


Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques.
  Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a um
    lugar, onde achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão com
    que nacera, e assim sucedeo.
  Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fez
    levantar o cerco de Guimarães.
  Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pela
    menagem que lhe tinha feito em Guimarães.
  É livremente despedido pelo dito Rei.
  É recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou de
    Castella.
  Da sua morte, e onde está enterrado.

Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques.

Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou
com o Conde D. Reymão de S. Gil de Proença.

Evora é conquistada por D. Affonso Anriques.


F


Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-Rei
D. Affonso Anriques.

Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D.
Anrique.
  Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugal
    por elle contra El Rei D. Affonso Anriques.
  É prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques.

Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urraca filha de D. Affonso
Anriques.
  Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes.
  Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques.

Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Mós.
  Alcança uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés.
  Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto.


G


Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros.

Gonçalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique.
  Achou-se na conquista de Santarem.
  Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde de
    Barcelona D. Reymondo.
  Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a
    seiscentos homens de cavallo.

Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo
que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente
quando chegou a Lisboa.

Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S.
Vicente de Fóra por D. Affonso Anriques, e não permanece.

Guimarães é cercada por El-Rei de Castella D. Affonso.
  Levanta o sitio por persuasão de D. Egas Moniz.

Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra é
eleito Bispo de Lamego.


I


Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal
no logar donde está a Igreja Parochial dos Martyres.

Ismar (El-Rei) com quatro Reis é vencido na batalha de Ourique sendo o
numero dos inimigos muito superior ao dos Christãos.
  Toma Leiria.

Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. Affonso
Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.


J


João (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-Rei
D. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellona
assistindo este com procuração do filho.
  Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.


L


Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques.
  É tomada por El-Rei Ismar.

Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques.
  Em que dia, e anno foi ganhada.
  Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros.

Lourenço Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique.
  Achou-se na conquista de Santarem.
  Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens.


M


Martim Moniz filho de Egas Moniz Capitão de uma Az na batalha do Campo
de Ourique peleja valerosamente.
  Morre na batalha.

Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na batalha de Ourique.
  É mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de
    Santarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Rei
    para poder ser conquistada.
  Acha-se na conquista de Santarem sendo já Guarda mór del-Rei.
  Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho.

Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy
onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona.

Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes
informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr
S. Vicente.

Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. Affonso
Anriques.

Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo
filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento.

Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaes
Cavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa.

Mosteiro de S. Vicente de Fóra. Nelle, antes de ser fundado, pôs o seu
arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa.
  Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei.

Moura é conquistada por D. Affonso Anriques.


O


Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques.


P


Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonio
quando foi conquistado por D. Affonso Anriques.
  É prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-Rei
    Ismar.

Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em
uma batalha aos Mouros de Badajós.

Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques
quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.

Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na
conquista de Santarem.

Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e
cincoenta cavallos.

Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista de
Santarem.
  Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D.
    Reymondo.
  Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.

Porto de Mós é cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. Fuas
Roupinho.

Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D.
Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja.
  Porque tomou este nome?


R


Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
a receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
  Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que se
    compunha de duzentos e cincoenta cavallos.

Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procuração de seu filho a Dona
Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este
cazamento.

Roberto (D.) Daião da Sé de Lisboa faz que o Prior da Igreja de Santa
Justa lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na Sé.


S


Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Fernão Mendes.

Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foi
jurado em Coimbra.
  É mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroço
com que recebeo esta ordem, e o que executou.
  Alcança uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha.
  Alcança outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja.
  É cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos com
    quatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccorrido
    por El-Rei seu pai é desbaratado com todo o exercito.

Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriques
determinou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir.
  É escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques.
  Porque tem este nome.
  É cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. Affonso
    Anriques.

Serpa é conquistada por D. Affonso Anriques.

Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D.
Affonso Anriques quiz tomar Santarem.


T


Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal como
Condado.
  Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava,
    e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmão de Vermuy Paes.
  É prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. Affonso
    Anriques.

Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D.
Felippe Conde de Frandes.
  Como foi conduzida para aquelle Condado.

Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches.
  Faz-lhe doação D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches sómente no
    Espiritual.
  Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, e
    lhe põe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres.
  Faz oração com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista de
    Santarem.

Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos.

Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques?
  O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos.

Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques.

Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade.


U


Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza
com o Conde D. Reymão de Tolofa.

Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei de
Lião.

Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã de D. Diogo o bom Senhor
de Biscaya cazou com El-Rei de Lião D. Fernando.


V


Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.

Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D.
Anrique.
  Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja.

Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado.
  O seu Corpo é trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foi
buscar D. Affonso Anriques, e o não achou.
  Como foi achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa.

Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa.



TRASLADO DO JURAMENTO DEL-REI D. AFFONSO ANRIQUES

O qual se conserva no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça


Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Comitis Henrici, nepos
magni Regis Alfonsi, coram vobis bonis viris, Episcopo Bracharensi, &
Episcopo Colimbriensi, & Theotonio, reliquisque magnatibus officialibus
vassalis Regni mei in hac Cruce aerea, & in hoc libro Sanctissimorum
Euangeliorum juro cum tactu manuum mearum, quod ego miser peccator, vidi
hisce oculis indignis verum Dominum nostrum JESUM Christum in Cruce
extensum in hac forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Tagum, in
agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & aliis quatuor Regibus Maurorum
habentibus secum infinita millia, & gens mea timorata propter
multitudinera, erat fatigata, & multum tristis, ia tantum, ut multi
dicerent esse temeritatem inire bellum, & ego tristis de eo quod
audiebam, caepi mecum cogitare, quid agerem, & habebam unum librum in
meo papillione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, & Testamentum
JESU Christi. Aperui illum, & legi victoriam Gedeonis, & dixi intra me:
Tu seis Domine JESU Christe, quia pro tuo amore suscepi bellum istud
contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & meis fortitudinem,
ut vincamus illos blasphemantes tuum nomen, & sic dicens dormivi supra
librum, & videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: Adefonse,
confide, vinces enim, debellabisque Reges istos infideles, conteresque
potentiam illorum, & Dominus noster ostendet se tibi. Dum haec video,
accedit Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubiculo,
dixitque: Surge domine mi. Adest homo fenex, vultque te alloqui.
Ingrediatur, dixi, sic fidelis est. Ingressus ad me, agnovi esse illum,
quem in visione videram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto,
vinces, & non vinceris. Dilectus es Domino, posuit enim super te, &
super semen tuum post te oculos misericordiae fuae usque in sextam
decimam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata
ipse respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod dum
audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorii mei, in quo vixi
sexaginta sex annis inter infideles, fervatus favore altissimi,
egrediaris extra castra, solus sine arbitris, ostendere tibi pietatem
suam multam. Parui, & reverenter in terra positus, & nuntium, &
mittentem veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum expectarem,
secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, & ense, & scuto armatus,
egressus sum extra castra, vidique subito a parte dextra, orientem
versus, micantem radium, & paulatim splendor crescebat in maius, & dum
oculos ad illam partem efficaciter pono, ecce in ipso radio clarius sole
signum Crucis aspicio, & JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, &
altera parte multitudinem juvenum candidissimorum, quos Sanctos Angelos
fuisse credo. Quam visionem dum video, deposito ense, & scuto,
relictisque vestibus, & calceamentis, pronus in terram me projicio,
lacrymisque abundè missis, caepi rogare pro confortatione vassalorum
meorum, dixi que nihil turbatus. Quid tu ad me Domine? Credenti enim
Fidem vis augere? Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam
ego, qui a fonte baptismatis te Deum verum Filium Virginis, & Patris
Aeterni agnovi, & agnosco. Erat autem Crux mirae magnitudinis, & elevata
a terra quasi decem cubitos. Dominus suavi vocis sono, quem indignae
aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam Fidem augerem hoc modo
apparui tibi, fed ut corroborem co tuum in hoc conflitu, & initia Regni
tui supra firmam petram stabilirem. Confide Alfonse, non folum enim hoc
certamen vinces, sed omnes alios in quibus contra inimicos Crucis
pugnaveris. Gentem tuam invenies alacrem ad bellum, & fortem, petentem,
ut sub Regis nomine in hac pugna ingrediaris; nec dubites, sed quidquid
petierint, liberè concede. Ego enim aedificator, & dissipator Imperiorum
& Regnorum sum: volo enim in te, & in semine tuo Imperium mihi
stabilire, ut deferatur nomen meum in exteras gentes; & ut agnoscant
successores tui datorem Regni, insigne tuum ex pretio, quo ego humanum
genus emi, & ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & erit mihi
Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate dilectum. Ego ut haec
audivi, humi prostratus adoravi dicens: Quibus meritis, Domine, tantam
mihi annuntias pietatem? Quidquid jubes faciam, & ut in mea prole, quam
promittis oculos benignos pone, gentemque Portugallensem salvam custodi,
& si contra eos aliquod paraveris malum, verte illum potius in me, & in
successores meos, & populum quem tanquam unicum filium diligo, absolve.
Annuens Dominus inquit: Non recedet ab eis, neque a te unquam
misericordia mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & elegi eos
in messores meos in terris longinquis: haec dicens disparuit, & ego
fiducia plenus, & dulcedine redii in castra, & quod taliter fuerit, juro
ego Aldefonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia hisce manibus
tacta. Idcirco praecipio successoribus meis in perpetuum futuris, ut
scuta quinque in crucem partita, propter Crucem, & quinque vulnera
Christi, in insigne ferant, & in unoquoque triginta argenteos, & super
serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc sit memoriale nostrum in
generatione nostra: & si quis aliud attentaverit, a Domino sit
maledictus, & cum Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta
Colimb. III. Kalend. Novembris. Era M. C. LII.

Ego Aldefonsus Rex Portugaliae


_I. Colimb. Episcop.--I. Bracharens. Metropol.--T. Prior.--Ferdinandus
Petri Curiae Dapif.--Petrus Pelag. Curiae Signifer.--Velascus
Sancij.--Alfonsus Menen. praef. Ulis.--Gondisalvus de Sousa procur.
Imn.--Pelagius Menen. procur. Visen.--Suer. Martin. procurar.
Colimb.--Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_.


_Cuja significação em Portuguez é a seguinte_


Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande
Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e
Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz
de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos,
que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor
JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu
exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a
Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos
milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava
atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam
alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que
ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda
um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo,
abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem
sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta
guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos
meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas
estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um
homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem
confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás
sua potencia, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou
João Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu,
porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe
respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que
no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom coração, vencereis, e
não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre
vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua
misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a
successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá.
Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a
campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos,
guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do
Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.
Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o
Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som,
na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela
sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente,
um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora
se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de
repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol,
e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia
grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos
Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e
lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito
em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse
sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura
accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os
inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos
conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim
vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da
terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas
orelhas indignas ouviram, me disse. Não te apareci deste modo para
accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e
fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso,
porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que
pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e
esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de
Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede
facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e
quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo
meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que
teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas
Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui
comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado
por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o
adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande
misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me
prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que
tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim,
e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho.
Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará delles, nem de ti
nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes
searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.
Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade
me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D.
Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos.
E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em
honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco
Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por
timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o
tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito
do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a
presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e
cento e cincoenta e dous.

Eu El-Rei D. Affonso.


_João Metropolitano Bracharense.--João Bispo de Coimbra.--Theotonio
Prior.--Fernão Peres Vedor da Casa.--Vasco Sanches.--Affonso Mendes
Governador de Lisboa.--Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e
Minho.--Payo Mendes Procurador de Viseu.--Sueiro Martins Procurador de
Coimbra.--Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_.


Fim Da Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques



INDICE DOS CAPITULOS


I--Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
Condado com certas condições.

II--Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
donde se chamou Portugal.

III--Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique,
que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo.

IV--Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a
seu filho ante que falecesse.

V--Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
D. Tareja.

VI--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
sua mãi com elle.

VII--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso
de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
Rei Mouro cercar Coimbra.

VIII--Como El Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco.

IX--Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre
Guimarães, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso
fez D. Egas Moniz.

X--Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
Guimarães.

XI--Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de
Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual
apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria.

XII--Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
daquelle tempo.

XIII--Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar,
que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
sentaram seus arraiaes um á vista do outro.

XIV--Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao
Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que o Principe
fez sobre esso.

XV--Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso
Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós.

XVI--Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes
para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei.

XVII--Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de
Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande
vencimento della.

XVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida
acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli
acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que
ahi foram tomados.

XIX--Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e
mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
Christo.

XX--Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de
S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo
achar se tornou para Coimbra.

XXI--Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a
El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso
passou com o Bispo.

XXII--Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El Rei D. Affonso
Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados.

XXIII--Como o Papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a
prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles
se passou em Coimbra.

XXIV--Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
passou.

XXV--Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique
veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e
tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar
Leiria aos Mouros.

XXVI--Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz,
e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
Anrique de Lara.

XXVII--Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou.

XXVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
teve com os seus para ir sobre ella.

XXIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
hora lhe foi revelado lá em França, onde estava.

XXX--Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
Santarem, e das rezões que disse a todos.

XXXI--Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
Santarem, e dos sinais que pareceram.

XXXII--Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
Santarem, e foi entrada, e tomada.

XXXIII--Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para
Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa
Santarem.

XXXIV--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a
tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.

XXXV--Do que El-Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade
de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes
Estrangeiras.

XXXVI--Dos milagres que Deus mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que
morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.

XXXVII--Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
de Lisboa muito ferido morrera.

XXXVIII--Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos
milagres que Deus por elle fazia.

XXXIX--De como El Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa
Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della.

XL--De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem.

XLI--Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na
Estremadura, e Alem do Tejo.

XLII--Dos filhos que El Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha
Dona Mofalda.

XLIII--Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e
venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.

XLIV--Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e
El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El-Rei
D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.

XLV--Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar
as maldições dos pais, e mãis aos filhos.

XLVI--Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
os desbaratou e venceo.

XLVII--Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que
o foram buscar.

XLVIII--Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa.

XLIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D.
Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe
sobre ello disse.

L--Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.

LI--Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
os Mouros peleijasse.

LII--Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve.

LIII--Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e
foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre
ella.

LIV--Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D.
Fuas Roupinho Alcaide do Castello.

LV--Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
tomou delles nove Galés.

LVI--Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado
del-Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os
seus.

LVII--Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
que veio a soccorrer seu filho.

LVIII--Como cazou Dona Tareja filha del-Rei D. Affonso Anriques a
derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.

LIX--De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
escritas.

LX--Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era
em que se finou, e onde foi sepultado.



OBRAS PUBLICADAS


I--Historia do Cerco de Diu, por _Lopo de Sousa Coutinho_, 1 volume. 400

II--Historia do Cerco de Mazagão, por _Agostinho Gavy de Mendonça_, 1
volume. 400

III--Ethiopia Oriental, por _Fr. João dos Santos_, 2 grossos volumes.
1$500

IV--O Infante D. Pedro, chronica inédita por _Gaspar Dias de Landim_, 3
volumes. 700

V--Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Fernão
Lopes_, 1 volume. 400

VI--Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Fernão Lopes_, 3 volumes. 1$200

VII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Fernão Lopes_, 7 volumes. 2$800

VIII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Gomes Eannes d'Azurara_, VOL. I,
II e III (VIII, IX e X). 1$200

IX--Dois Capitães da Índia, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume. 400

X--Arte da Caça de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes.
800

XI--Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes.
1$200

XII--Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume. 400

XIII--Chronica d'El-Rei D. Affonso V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes.
1$200

XIV--Chronica d'El-Rei D. João II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes.
1$500

XV--Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume.
500

XVI--Chronica d'El-Rei D. Sebastião, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2
volumes. 1$000

XVII--Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoça_, 2 volumes. 800

XVIII--Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL I a
X. 3$800

XIX--Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _João Tavares de
Vellez Guerreiro_, 1 volume. 600

XX--Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvão_, 1
volume. 600


EM PUBLICAÇÃO

Historia Tragico-maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL XI

Cancioneiro Geral, por _Garcia de Resende_.



NOTAS

[1] Duarte Galvão morreu em 1517.

[2] Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmão impossado de sua mulher,
casou com uma filha d'esta e do Conde D. Henrique. Assim o diz o Conde
D. Pedro (em seu Livro de Linhagens) e assim o repete Duarte Galvão. A
este peccado, accrescentão, se deve a fundação do Mosteiro de Sobrado.

[3] No anno de 1505 se escreveo esta Chronica.

[4] Os capitulos XXI a XXIV da presente edição, foram os cortados na de
1726.





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