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Title: Luar de Janeiro
Author: Gil, Augusto César Ferreira, 1873-1929
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Luar de Janeiro" ***

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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



Augusto Gil

Luar de Janeiro



[Figura: Olhos Olhae a Direito]



Luar de Janeiro



AUGUSTO GIL


*Luar de Janeiro*


LISBOA

1909



Edição da empreza d'A Lanterna--Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa



Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
encontrou--já não quero como artista, porque a esse as influencias
ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações--mas
na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
caturra,--ou um simples.

Sabio, como o de Syracusa, é que não é...

Adeante.

Novembro de (1)909.

O auctor



De la musique encore et toujours

       *       *       *       *       *

Que ton vers soit la bonne aventure
Éparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym,
_Et tout le reste est litterature_.

Verlaine



Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
tête-à-tête--et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
page, celle que ce livre encore annonce et ordone--_tu sais, tu
comprends et tu pardonnes_...

Charles Morice.



_A Coelho de Carvalho_


     _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
     claridade dos seus talentos.


Luar de janeiro,
Fria claridade

Á luz delle foi talvez
Que primeiro
A bocca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina,
Luar que allumia
Mas que não aquece,
Photographia
D'alegre menina
Que ha muitos annos já... envelhecesse.

Luar de janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade...
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficasse apenas a amizade...

Luar das nevadas,
Algido e lindo,
Janellas fechadas,
Fechadas as portas
E elle fulgindo,
Limpido e lindo,
Como boquinhas de creanças mortas,
Na morte geladas
--E ainda sorrindo...

Luar de janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
--Nem o calor dum brazeiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada...

Luar dos poetas e dos miseraveis,
Como se um laço estreito nos unisse,
São similhaveis
O nosso mau destino e o que tens...

De nós, da nossa dôr, a turba--ri-se
--E a ti, sagrado ladram-te os cães!


[Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]



SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

_A João Barreira_


«Em Evora vi um menino...
...Que a dois annos não chegava
...Era de maravilhar»...

Garcia de Rezende. _Miscellanea._


Num convento solitario
D'Evora, cidade clara,
Claro celleiro de pão,
Existe uma imagem rara
Obra dum imaginario
Dos tempos que já lá vão...

É um menino Jesus,
De bochechinha brunida
Côr de maçã camoeza,
Mas no seu rosto transluz
Uma expressão dolorida
Que enche a gente de tristeza...

De tantissimas imagens
Nenhuma vi que mais prenda,
Que maior ternura expanda,
Com suas calças de renda,
Seu vestido de ramagens,
--E corôa posta á banda...

Gordo, nedio, bem trajado,
Deveria ser feliz,
Deveria estar sorrindo;
Mas o seu olhar maguado,
Tão maguado, tão lindo,
Que não o é, bem n'o diz...

Se não fosse por ser Deus
E o seu poder infinito
Ter sempre que o demonstrar,
Cá na terra e lá nos ceus,
Estenderia o beicito
--E desatava a chorar!...

Corre o tempo descuidado,
Passa uma hora, outra hora,
Atraz desta outras se vão
E, quem o vê, encantado,
Sem se poder ir embora
Numa perpetua attração...

Eu entrei com sol a pino.
Pouco depois da chegada
(Pouco a mim me pareceu)
Deixei de ver o Menino...
Não era a vista cançada,
--Foi a noite que desceu...

Mesmo assim lá ficaria
Absorto em muda prece
De quem mal sabe rezar,
Se o sacristão não viesse,
Com rodas de Senhoria,
Dizer-me que ia fechar...

Pudesse tel-o trazido
E não fosse eu rico, apenas
De phantasias, d'esp'ranças,
Punha-o num nicho florido
Por sobre as camas pequenas
Dum hospital de creanças...

Dum hospital modelar
Sustentado por meus bens,
Entre olaias e roseiras,
Cheio de sol, cheio d'ar,
E em que as boas enfermeiras
--Seriam as proprias mães...

A mais ampla enfermaria
Desse escolhido local
De bondade e soffrimento
--Era o fundo natural
Da funda melancolia
Do Menino do convento...



BALLADA DA NEVE


Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.

Verlaine


_A Vicente Arnoso_


Batem leve, levemente
Como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
Mas ha pouco, ha poucochinho,
Nem uma agulha bolia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate assim levemente
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?...
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve cahia
Do azul cinzento do ceu
Branca e leve, branca e fria...
--Ha quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a atravez da vidraça.
Poz tudo da côr do linho.
Passa gente e quando passa
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses signaes
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pézitos de creança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vel-os
Primeiro bem definidos,
--Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguel-os!...

Que quem já é peccador
Soffra tormentos, emfim!
Mas as creanças, Senhor,
Porque lhes daes tanta dôr?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim prêsa.
Cae neve na natureza...
--E cae no meu coração.



TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

_A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha


Oh Desgraça! vae-te embora,
Que esta linda criancinha
Andou no meu ventre e agora
Trago-a nos braços. É minha!...

Do berço, segue-me os passos;
Onde eu vou, seus olhos vão...
E quando a aperto nos braços
--Abraço o meu coração.

Quando o seu chôro receio,
Embalo-a, faço que acceite
A alegria do meu seio
Na brancura do meu leite...

E quando assim não descança,
Que tristezas me consomem!
--Mas antes chore em creança
Que depois, quando fôr homem...

Se ao dal-o ao mundo soffri
Tormentos, ancias mortaes,
Desgraça, vae-te d'aqui,
O que pretendes tu mais?!

Bate as azas, mas ao voares,
Não me apagues esta estrella.
Se alguem d'aqui precisares,
--Aqui me tens, em vez della!

Tocam ás ave-marias.
Foi-se o sol. Não vem a lua.
Luzinha que me allumias,
Que sorte será a tua?...

Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade tambem,
Que ao redor d'onde tu andes
Não fique pobre ninguem.

Que a todos chegue a ventura:
Toda a bocca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dôr, consolação...

Mas se o oiro é mau caminho,
--Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.

Iremos por esses montes
Altos e azues, como os céus...
Que onde ha fructos e onde ha fontes,
--Está a meza de Deus!

E, quando a neve cahir
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir...
(Acceitar o que nos derem!)

Andaremos á mercê
Dos genios bons, e dos falsos,
Leguas e leguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços...

E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pelle,
Porei o corpo de rôjos
--Passarás por cima delle!

Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o sol. Nasceu a lua.
Qual será o teu destino?
Que sorte será a tua?...

Se um crime tens de fazer,
Antes fique vago um throno,
Antes um palacio a arder,
--Do que uma enxada sem dono...

Se, porém, no teu destino,
Ha tão cruentos signaes,
Dorme, dorme, meu menino,
--Não tornes a acordar mais!



O NOSSO LAR

_A Antonio Arroyo_


«Sonhar a vida é apenas entretel-a.
Partamos della para nós, senão
Lá vae o coração para uma estrella
E fica a gente sem o coração!»

_GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_


Quem vir--como eu os vejo--decorrer
Annos e annos duma vida rasa
Em miseraveis quartos d'aluguer,

Frios no inverno e no estío em braza,
--A um amôr sonhado de mulher
Allía sempre o sonho duma casa...

O aspecto duma casa raro mente,
A côr, as linhas duma frontaria
Dão logo a perceber nitidamente,

Melhor do que um vizinho o contaria,
O genio e a indole da gente
Que nella tem o lar, a moradia.

Vejam esses _cottages_ tanto em moda
Entre os inglezes e os capitalistas,
Com grades no jardim, a toda a roda...

Impenetraveis ás alheias vistas...
Não abrem nunca uma janella toda...
São mudos, graves, individualistas.

E aquelles caixotões de pedra e cal
Que surgem ao formar-se um bairro novo,
No constante engordar da Capital,

(O que eu, aliás, muito aprecio e louvo...)
--Não mostram bem, com o seu ar banal,
A falta de caracter deste povo?

Quando uma santa e pobre rapariga,
Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
E a cujo coração o meu se liga,

Puder chegar a ser minha mulher,
Eu quero então que a nossa casa diga
Bondade e alegria de viver.

Terá um só andar. Grandes alturas
Causam vertigens, trazem ambições.
Os sonhos de riqueza e d'aventuras

Enchem as almas de desillusões.
A f'licidade vem ás creaturas
Da pacificação dos corações.

As portas sem degraus. Que sejam rentes
Da terra. Portas largas e rasgadas,
Convidativas, francas, attrahentes;

Ao rez da terra, para as aleijadas
e os tropegos velhinhos indigentes
Se não cançarem a subir escadas...

Amplas janellas para a natureza.
Que o sol na sua clara irradiação
Dissipe atravez dellas a tristeza;

Amplas--e baixas. Quem precise pão,
E o vir da rua sobre a nossa meza,
Que estenda o braço, que lhe lance a mão...

Ao lado um horto e um jardim fragrante,
Sem grades aguçadas para o céu.
A grade é agressiva, hostilisante,

E sempre a impressão cruel me deu
Dum dono que bradasse ao caminhante:
--Tudo isto aqui é meu, sómente meu...

Sem gradeamento. Um murosito apenas
Revestido de rosas de toucar,
De ariolas, de glicinias, de verbenas.

Muro d'onde os que forem a passar
Vejam lilazes, cravos, assucenas...
--E a paz, a doce paz do nosso lar.



O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

_Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_


I


Escrevo em testamento este poema
Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
O brilho rutilante duma gemma
Achada nos farrapos dum mendigo...

Ao vesperal crepusculo da vida
E sob o olhar da morte é que o componho;
Erguendo assim, por minha despedida,
O ultimo escalão dum alto sonho.

Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
Hade attingir a cúpula dos céus,
Direi ao mundo os derradeiros versos,
Porei o coração nas mãos de Deus!

E as mãos de Deus que os astros têm guiado
Como se leve pluma cada um fôra,
Hão de o sentir pesar, sollicitado
Pelo logar da terra onde ella móra...


II


...Sei lá pintar!
Se eu soubesse pintar, era pintor.

_Guedes Teixeira_


Na mais alta cidade portuguêsa
Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
A mais santa, a mais cheia de pureza
Das moças deste lindo Portugal.

Os seus olhos são tristes e suggerem
Todo um passado de resignação.
São tristes, certamente por não verem
O rosto incomparavel onde estão...

A voz é clara como as assucenas
E dolorida, candida, modesta.
É dolorida, porque sente penas
D'abandonar a sua bocca honesta...

O riso, que é em nótulas delidas
Vibra em seus labios tão rapidamente
Como um beijo d'amor, ás escondidas,
Na curva duma estrada em que vem gente...

A mão della, uma vez, poisou na minha;
Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
Que era o seu proprio coração que eu tinha
A palpitar dentro da minha mão...

Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
O sol abraza os longes da paizagem,
A sombra que em sua frente vae seguindo
É a luz--a abrir-se, p'ra lhe dar passagem...

Se passa, acalma os corações maguados
Como outr'ora as parabolas de Christo
Acalmavam a dôr aos desgraçados.
Acalma os corações?! Não... não é isto.

As estrophes d'amor, a quem o sinta,
Dão um trabalho cheio de tormento;
O tenebroso liquido da tinta
Apaga, rouba a côr ao sentimento.

Quiz celebrar dum modo original
As finas graças do seu corpo. Errei-as.
Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
Palavras! Sois a nevoa das ideias...



MELODIA CONFIDENCIAL

(De Albert Samain)

_A L.C._


      Num andamento
      Discreto, lento,
Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

      Vamos vogando
      No lago brando
E sem limites do silencio amigo...

      O ultimo e cavo
      Accorde do cravo
Ficou vibrando exclamativamente.

      E, em espiral
      Ascencional,
Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

      Na alcatifa macia
      Entrou na agonia
Uma rosa sedenta e abandonada,

      E a ambos nos invade
      A mistica vontade
D'entrar na morte, no não ser, no nada...

      Com seu docel vermelho
      Forrado d'oiro velho,
Que evoca velhas eras d'esplendor,

      O leito pesado,
      Como um deus concentrado,
Remembra obscuramente o nosso amor...

      Na atmosphera morna
      O teu corpo entorna
Um perfume subtil, sensual, complexo,

      Aroma inapagavel,
      Philtro informulavel
Gerado á chama clara do teu sexo.

      Teus olhos silentes
      E transparentes
Teem, no fundo, verdes melancolicos,

      E as brazas do fogão,
      Já quasi extinctas, dão
Clarões hypnotisantes e symbolicos...

      Amêmo-nos assim
      Com um amor sem fim,
Verdadeiro na carne e nas ideias;

      P'los dedos enlaçados
      Sejamos penetrados
D'amor, até ás mais miudinhas veias.

      Em extasis intensos
      Quedemo-nos suspensos
Por sobre a terra ironica e brutal

      Sem nada saber,
      Sem nada ver,
--Numa vida isolada e musical...

      Não fales. Não?
      Ou se o fizer's, então
Que seja de vagar, muito baixinho,

      Numa toada, leve
      Como o halito breve
Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho...



O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

_A Columbano_


     La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
     de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
     pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)


Sahira Santo Antonio do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um candido sermão sobre o peccado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite placida baixando...

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com arvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma legua das fartas, das puxadas.

Surprehendido por se vêr tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descançar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo...

O luar, um luar clarissimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade
O Menino Jesus baixou do céu,
Poz-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica d'agua murmurante
Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
Os rouxinoes ouviam-se distante.
O luar, mais alto, illuminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ella trazia ao hombro a cantarinha,
Elle trazia... o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguem os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquillo.
O menino, porém, ouviu e disse:
--Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?...

O santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
--Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada...

Uma risada limpida, sonora,
Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
--Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
--Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho...

--Tu não estás com a cabeça boa...
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo Antonio de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Córado como as véstes dos cardeaes,
Achou esta sahida redemptora:
--Se o Menino Jesus pregunta mais,
...Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquelle amôr sem casamento,
Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
São horas...
      --E abalaram p'r'ó convento.



UM GRÃO DE INCENSO

_A Lourenço Cayolla_


Entraste com ar cançado
Numa egreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
--E nem ao menos me viste...

Ficaste a rezar alli,
Naquella immensa tristeza.
Rezei tambem, mas a ti,
--Que aos anjos tambem se reza...

Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
--E a caridade te falta?...



A MÁSCARA

_A Santos Tavares_


Por acaso, parou na minha frente,
De _loup_ e dóminó de seda negra,
Uma mulher d'olhar resplandecente
E mento breve de figura grega.

Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas...

E os seus olhos doirados reluziram
Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
Aguçados e frios, das bainhas.

--Máscara, quem és tu?

--E tu quem és?...

--Um homem que te viu e te deseja...

E um riso vago, de desdem talvez,
Floriu na sua bocca de cereja.

Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

Em vibrações entrecortadas, sêccas,
Tiniam taças irisadas, cheias.
E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
Vibrava nas arcadas das rebecas.

Levei-a para o vão duma janella.
--Máscara, quem és tu?

--Para que insistes?...

Outro riso subiu da bocca della
Aos olhos enigmaticos e tristes.

E descobriu a face. No capuz
Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

Que differente porém do que eu supuz!

A gente nunca deve entrar com luz
Nos divinos recantos do misterio...



IN PROMPTUM PASTORAL

_A Amadeu de Freitas_


«Muito vence quem se vence
Muito diz quem não diz tudo,
Porque a um discreto pertence
A tempo fazer-se mudo.»

(_Copla do Infante D. Luiz_.)


Sob este céu creador
De manhã vergiliana,
Apetece ser pastor
E tocar frauta de cana;

Não, pastor d'autos d'amor,
D'eclogas frias e velhas,
Mas verdadeiro pastor
De verdadeiras ovelhas...

Não conhecer o talento
Nem nada do que se ensina.
Esta dôr do entendimento
É peor do que se imagina...

Guiar o meu coração
Num ingenuo christianismo.
Esta civilisação
É cheia de pessimismo...

Comer pão negro, pão duro,
Beber o leite das peáras.
Pão de centeio é escuro,
--Mas põe as almas ás claras...

Amar alguma pastora
Com palavras e com obras.
Estas senhoras d'agora
São mais falsas do que as cóbras...

E vêr crear com carinho,
Com cuidados infinitos,
Á companheira, um filhinho...
E ás ovelhas, borreguitos...



MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES


I

_A Celestino Steffanina_

     Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
     tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).


Semeador de iniquidades,
Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
Fumo que ao desfazer-se engrossa mais...

Oh minha vista o que é que foi que viste
Cá neste mundo impiedoso e rudo?

_Que só a vaidade existe_
--Em todos nós, e em tudo!...


II

_A Israel Anahory_

     Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
     palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
     escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).


Palavras são palavras... Nada dizem.
Teias d'aranha que jámais impedem
Que as ideias se escapem e deslizem...

Nescios os homens são quando procedem
Como quem a verdade sempre traja
E nunca della se encontrou despido...

Difficil é... o que mais simples haja
--Quanto mais o que fôr mais escondido!...

Para que uma verdade vá julgar,
Para que um sentimento vá sentir,
Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

      Mas por fim
      Nem assim...

O mais profundo pensamento
É sempre insubsistente e aerio,
Por que a todo o momento
--Se perde no misterio...


III

_A José Barbosa_


     Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
     mesmo que o que se hade fazer.


  Que é o que foi?
  --O mesmo que hade ser...

A vida é como o passo egual dum boi
Que vem dos campos ao anoitecer;
Com o seu lento e resignado aspeito,
Andou um passo, e logo um outro dá.

  _Tudo quanto foi feito
  De novo se fará_...


IV

_A Ladislau Patricio_

     Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
     e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)


O sabio tem os olhos da razão
Além desses que tu na fronte levas,
Oh nescio que sem guia e sem bordão
Vaes pela vida a caminhar nas trevas...

      (_E d'ahi? E depois?
      Se surge um incidente,
      Fere indistinctamente
Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_...)


V

_A Adelaide Gil, minha irmã_


     Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
     terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).


Mas o que é, afinal, a perfeição?
Como é que tudo, oh sabios, evolue
_Se as coisas todas caminhando vão
Para um egual e unico logar,
  Se o pó que as constitue
  Em pó se hade tornar_?


VI

_A Eduardo Graça_


     Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
     segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).


Socega, coração attribulado,
De toda a dôr se apaga todo o traço.
Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
_O seu tempo e tambem o seu espaço_...

  E queira Deus, coração,
  Que esta hora de anciedade
  E de pranto e d'afflicção
  --Nunca te cause saudade!...



A CANÇÃO DAS PERDIDAS

_A Vianna da Motta_


I


Quem por amôr se perdeu
Não chore, não tenha pena.
Uma das santas do céu
--É Maria Magdalena...


II


Minha mãe foi o que eu sou.
Eu sou o que tantas são.
Que triste herança te dou,
Filha do meu coração!


III


Meu pae foi para o degredo
Era eu inda pequena.
Se não morresse tão cedo,
Morria agora--de pena...


IV


E ha no mundo quem afronte
Uma mulher quando cae!
Nasce agua limpa na fonte,
Quem a suja é quem lá vae...


V


Aquelle que me roubou
A virtude de donzella
Se outra honra lhe não dou,
--É porque só tive aquella!...


VI


Nós temos o mesmo fado,
Oh fonte d'agua cantante,
Quem te quer, pára um boccado.
Quem não quer, pássa adeante...


VII


O meu amôr, por amal-o,
Poz-me o peito numa chaga:
Deu-me facadas. Deixal-o.
Mas ao menos não me paga!


VIII


Nem toda a agua do mar
Por estes olhos chorada
Daria bem a mostrar
O que eu sou de desgraçada!


IX


Como querem vêr contente
Este paiz desgraçado,
Se dão só livros á gente
Nas escolas do peccado...


X


Dormia o meu coração
Cançado de fingimento.
Bateste-me, e vae então
Acordou nesse momento.


XI


Se aquillo que a gente sente,
Cá dentro, tivesse vóz,
Muita gente... toda a gente
Teria pena de nós!



CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL


«Um mover d'olhos brando e piedoso
Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
Quasi forçado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso

       *       *       *       *       *

Um encolhido ousar; uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente soffrimento.

       *       *       *       *       *

Camões


Num quente e perturbante fim de tarde,
Cujo magnetico e profundo enlevo
Ainda agora em mim crepita e arde,
Como se fosse a tarde em que te escrevo,

Ergui os olhos distrahidamente,
A ver se já brilhava alguma estrella
No concavo do céu opalescente
--E vi, numa varanda, os olhos della...

Do episodio que acabo de contar-te
Tão simples, tão banal, que dá vontade,
Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
De lhe roubar um pouco de verdade,

Foi que este amor espiritual nasceu,
Nasceu, cresceu e se tornou eterno...
Repara, amigo, como olhando o céu
A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

Mas quem podia então adivinhal-o?
O olhar dessa mulher era tão lindo
Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
Descera a noite. A lua ia subindo...

Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
Dava em toda a varanda. Assim, eu via
As fórmas portuguêsas do seu rosto
Nitidamente, como á luz do dia.

E cá dentro de mim senti nascer
A dúvida, a incerteza, a hesitação
Sobre o que mais desejaria ser:
Se o noivo della, se o primeiro irmão...

Uma estrella cadente reluziu
Por sobre as torres da vizinha egreja,
Pensei commigo: Deus o decidiu:
É minha noiva que Elle quer que seja.

Não dizia ventura, mas desgraça,
A claridade do signal aereo.
(Na mesma direcção da egreja, passa
A rua que vae dar ao cemiterio...)

Porém, como querendo agradecer-me
A decisão que attribuira a Deus,
Inclinou-se de leve para ver-me
E os doces olhos demorou nos meus.

Sob a caricia desse olhar cinzento,
Que ao abaixar-se parecia negro,
O coração que me batia lento,
Mudou o andamento para alegro.

Uma hora decorreu. Outras passaram.
Passaram, foram-se; e naquelle enleio
Que tempo os nossos olhos conversaram!...
Estava a noite já em mais de meio.

Vinha dos montes uma brisa ardente.
O céu ganhára tons d'azul cobalto.
O luar cahia silenciosamente.
Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

Arrependidos, ou então, cançados
De se fitarem com demora em mim,
Os seus olhos piedosos e sagrados
Ao dialogo d'amor puzeram fim.

Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
Como se foram duas borboletas
Voando para duas assucenas.

Ergueu-se. O busto delicado e fino
Tinha os suaves, religiosos traços
Da Virgem num altar. Só o Menino
Faltava na doçura dos seus braços...

Num olhar impregnado de candura,
Disse-me adeus e recolheu. Depois...
A luminosa noite fez-se escura.
Calaram-se na sombra os rouxinoes.

Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
A madrugada sem que o conseguisse.
Quem um sonho tão limpido sonhára,
Inutil se tornava que dormisse...

Annos felizes neste amor gastei.
Vieram em seguida as horas más.
O que nellas soffri, o que passei,
Um dia, noutra carta, o saberás.



MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE


Dez da manhã. Vento da
serra. Tres graus negativos


_Mãos frias, coração quente_!
Quanta vez isto dizias
Com o teu ar sorridente,
Apertando-me as mãos frias...

Agora decerto o tenho
Num brazeiro, num vulcão.
O frio é tanto, é tamanho
Que a penna cae-me da mão...

Q'ria dizer-te o que penso
E o que faço e premedito,
Mas posso lá ser extenso
Com este frio maldito!

Tu perdoas certamente,
Tu não te zangas, pois não?
_Mãos frias, coração quente_
--Lá diz o velho rifão...



NOIVA

_A João da Silva_


«Anda a dôr dissimulada
Mas ella dará seu fruito.»

Crisfal


     «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

     (_Trecho duma carta_)


Tive noticias hoje a teu respeito:
«Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
E o coração tranquillo no meu peito
--Continuou a bater como batia...

Surpreso duma tal serenidade,
Todo eu, intimamente, me sondava:
Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
--E nem ciumes, nem saudade achava...

Saudades, não; que o teu amor antigo
Guardam-no as cinzas (neste coração)
Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
Que após centenas d'annos deram pão...

Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
A lei antiga como o proprio mundo
De que o prazer mal chega, já morreu,
E só a dôr nas almas cava fundo?

Causei-te longas horas d'amargura,
Não consegues voltar a ser feliz;
A chaga que te abri não terá cura,
E se curar--lá fica a cicatriz.

Á luz dum juramento que trahiste
Tu has de vêr-me toda a vida pois.
Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
E Deus casou-nos esse dia, aos dois...

Ciumes tambem não, por te venderes.
Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
Não descerias tanto entre as mulheres,
Seria mais humano o teu peccado.

Porém, embora a tua falta aponte,
P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
O sol desapparece no horisonte
--E a gente vê-o ainda a dar-nos luz...

Póde a desgraça erguer em frente a mim
Altas montanhas d'elevados cumes.
O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
Em claras noites de luar silente,
Ouvir vibrar alguma voz, cantando
Os versos que te fiz devotamente.

Versos para te ungirem os ouvidos
E os labios d'anemica e de santa,
Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
Que o povo humilde os acolheu e os canta.

Então, se te olhar bem, logo adivinha...
Logo sombriamente se convence
De que a tua alma se fundiu na minha
--E apenas o teu corpo lhe pertence.



DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

_Á Leo_


Ao charco mais escuso e mais immundo
Chega uma hora no correr do dia
Em que um raio de sol, claro e jocundo,
O visita, o alegra, o alumía;

Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
Nesta contínua e intérmina agonia,
Nem tenho uma hora só dessa alegria
Que chega ás coisas infimas do mundo!...

Deus meu, acaso a roda do destino
A movimentam vossas mãos leaes
Num aceno impulsivo e repentino,

Sem que na cega turbulencia a domem?!
Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
Olhae que é--_o coração dum homem_!...



JOANNINHA

_A Mayer Garção_


Descance de quando em quando...
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
Até faz pena! Não lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?...

Descance de quando em quando...
Erga os olhos do bordado
E veja quem vae passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, tão aturado,
--Não lhe faz bem certamente.

Erga a carinha tranquilla,
Erga esse rosto tão lindo
E veja os moços da villa
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo,
--E todos d'olhos em si...

Descance de quando em quando
E veja se escolhe algum;
Já é tempo d'ir pensando
Em casar. Não é assim?...
Se não lhe agrada nenhum,
--Diga se gosta de mim.

Desde os começos do outono
Que eu a trago no sentido,
Não como, não tenho sono,
Tudo me dá ralação?
Quer-me para seu marido?
--Diga que sim ou que não...



QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM...

_A Cassianno Neves_


Bocca talhada em milagrosas linhas,
A luz augmenta com o seu falar.

Esta manhã um bando de andorinhas
Ia-se embora, atravessava o mar.

Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
Um adeus suave que ella lhes dissera,

--E suspenderam todas a viagem,
Julgando que voltára a primavera...



A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA


     Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
     disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
     realidades da vida, teriam observado que... o viver do povo encerra
     em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
     machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
     theatraes.

     ... O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
     na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
     lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_


_A Manuel Penteado_


Buscava em algum assunto adrede
A versos que inculcassem novidade,
Quando uma intensa e irreprimivel sêde
Me fez voltar do sonho á realidade.

E pedi agua (já se vê) que veio
Consoante é d'uzo cá por entre o povo
Num pucaro de barro ingenuo e feio,
Servindo-lhe de salva um prato côvo.

Bebi o liquido dum trago só;
E dito o «Deus te pague» habitual,
Subi de novo a escada de Jacob
No heroico intuito de escalar o ideal...

Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
Que os rios erguem pela madrugada;
O olhar destingue-a, quando está distante,
E da que nos rodeia--não vê nada...

De que serve afinal tentar a gente
Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
Ha tanta coisa que os attráia e valha?...

A agua vinda neste vaso fragil
Que um ignorado artista modelou
Num gesto--já mechanisado e agil--
Á força d'imitar o que encontrou,

É um assunto cheio de belleza,
Cheio de claro e alto ensinamento.
Assim na branda fala portuguêsa
O désse eu, como o tenho em pensamento!...

A agua é como a esp'rança
Que a tudo se sujeita...
Onde quer que se deita
Lá fica humildemente acommodada,
Seja a concha da mão duma creança,
Ou a taça lendaria da ballada...

Tanto sacia
Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
(Que um só valia
O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
Como a que se toma
Na argilla porosa,
Alegre trabalho dum simples oleiro...

E é
Até
Bem mais saborosa
No barro suarento
Deixado á janella,
Que num opulento
Copo lavrado
Que seja pertença de rica baixella
E sonho gentil, cinzel phantasista
Dalgum grande artista
Dos raros d'agora, ou do tempo afastado...

Bichos humanos, féras em pé,
Sêde bondosos como a agua o é...

No luzente alcantil da magnitude,
Ou no áspero declive da pobreza,
Nunca cerreis o espirito á virtude,
Nunca fecheis os olhos á belleza.
Que todo o coração,
Desde o sabio de genio ao cavador,
Seja o Calix de paz e de perdão
Contendo a agua limpida e lustral
Dum irmanado e perpetuo amôr...

Agua que limpe a mácula do mal
E mitigue a miseria, a ancia, a magua
Desta cruenta e impiedosa guerra
Em que tantas creaturas se consomem.

      Nem só da agua
      Que vem da terra
      Tem sêde o homem...

Nasce uma fonte
Rumurejante
Na encosta dum monte;

E mal que do seio
Da terra brotou,
Logo o seu veio
Transparente
E diligente
Buscou e achou
Mais baixo logar...

E sempre descendo,
E sempre a cantar,
Vae andando,
Galgando,
Vencendo,
(Ou tenta vencer...)
Folha, raíz, areia, o que tolher
A sua descida...

Ao brotar da dura frágoa
--É uma lagrima d'agua...

Mas esse humilde fiozinho,
Que um destino bom impelle,
Encontra pelo caminho
Um outro que é como elle...

Reunem-se, fundem-se os dois,
Proseguem de companhia,
E fica dupla depois
A força que os leva e guia...

Junta-se aos dois um terceiro,
Outros confluindo vão,
E o regato é já ribeiro
E o ribeiro é rio então...

E nada agora o domina
Ao fiozinho da fonte.
Entre collina e collina,
Ou entre um monte e outro monte,

Caminha sem descançar,
Circula atravez do mundo
--Até á beira do mar
Omnipotente e profundo...

Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
A vaidade é uma amante enganadora)
Que o mais alto de vós se humilhe e desça
Como se humilde e pobre sempre fôra...

E que os demais desçam tambem de todo
O orgulho e mando sobre escravas gentes
Até ao valle, de lagrimas e lôdo
Onde a miseria brada e range os dentes.

E como as aguas que se vão juntando
E juntas, e cantando, vão descendo,
Reuni o choro derramado, quando
Atravessardes esse valle horrendo.

E o atoleiro que se havia feito
No val, dantesco, pútrido, sombrio,
Mudar-se-ha no irrigante leito
Dum fertilisador e claro rio;

E o rio, andando, andando, hade alargar
--Com biliões de lagrimas vertidas--
Num infinito e luminoso mar
De novas e amplas e cantantes vidas!

Outubro de 1909.



INDICE


Prefacio
Dedicatoria
Luar de Janeiro
Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
Ballada da Neve
Toada para as mães acalentarem os filhos
O nosso lar
O que o fogo poupou dum poemeto queimado
Melodia confidencial
O passeio de Santo Antonio
Um grão de incenso
A máscara
In promptum pastoral
Meditações sobre themas do Ecclesiastes
A canção das perdidas
Carta a um rapaz sentimental
Mãos frias coração quente
Noiva
De profundis clamavi ad te domine
Joanninha
Quando as andorinhas partiam
A parábola do pucaro d'agua



Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.





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