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Title: A Harpa do Crente - Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta
Author: Herculano, Alexandre, 1810-1877
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA.

     *     *     *     *     *

LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n.º 55._



A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.


PRIMEIRA SERIE.


LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n.º 55._



*A Semana Sancta.*


A S. Ex.ª O MARQUEZ DE RESENDE.


_Em testemunho de amisade e veneração_

                        Offerece o Auctor.



A Semana Sancta.

                  Der Gedanke Gott weckt einen
                  furchterlichem Nachbar auf,
                  sein Name heisst Richter.
                              _Schiller._


                  I.

      Tibio o sol entre as nuvens do occidente
      Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
      Vai a hora da tarde!--O oeste passa
      Mudo nos troncos da lameda antiga,
      Que já borbulha á voz da primavera:
      O oeste passa mudo, e cruza a porta
      Ponteaguda do templo, edificado
      Por mãos rudes de avós, em monumento
      De uma herança de fé, que nos legaram,
      A nós seus netos, homens de alto esforço,
      Que nos rimos da herança, e que insultamos
      A cruz e o templo e a crença de outras eras:
      Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
      Que sabemos tão bem rojar seus ferros
      Sem nos queixar, menospresando a Patria
      E a liberdade, e o combater por ella.

      Eu não!--eu rujo escravo; eu creio e espero
      No Deus das almas generosas, puras,
      E os despotas maldigo.--Entendimento
      _Bronco_, lançado em seculo fundido
      Na servidão de goso ataviada,
      Creio que Deus é Deus, e os homens livres!


                  II.

      Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
      Irei pedir aos tumulos dos velhos
      Religioso enthusiasmo, e canto novo
      Hei-de tecer, que os homens do futuro
      Entenderão:--um canto escarnecido
      Pelos filhos dest' épocha mesquinha,
      Em que vim peregrino a vêr o mundo,
      E chegar a meu termo, e repousar-me
      Depois á sombra de um cypreste amigo.


                  III.

      Passa o vento os do portico da Igreja
      Esculpidos umbraes: correndo as naves
      Sussurrou, sussurrou entre as columnas
      De gothico lavor: no orgam do coro
      Veio em fim murmurar e esvaecer-se.

      Mas porque sôa o vento?--Está deserto,
      Silencioso ainda o sacro templo:
      Nenhuma voz humana ainda recorda
      Os hymnos do Senhor. A natureza
      Foi a primeira em celebrar seu nome
      Neste dia de lucto e de saudade!
      Trévas da quarta feira eu vos saudo!
      Negras paredes, velhas testemunhas
      De todas essas orações de mágoa,
      Ou esperança, ou gratidão, ou sustos,
      Depositados ante vós nos dias
      De uma crença fervente, hoje enlutadas
      De mais escuro dó, eu vos saudo!
      A loucura da cruz não morreu toda
      Apoz dezoito seculos!--Quem chore
      Do sofrimento o Heróe existe ainda.
      Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--
      Pelo Amigo do povo, assassinado
      Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
      Envilecidas, barbaras, e servas.


                  IV.

      Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
      Que no espaço entre o abysmo e os ceus vagueas,
      D'onde mergulhas no oceano a vista;
      Tu que do trovador na mente arrojas
      Quanto ha nos ceus esperançoso e bello,
      Quanto ha no inferno tenebroso e triste,
      Quanto ha nos mares magestoso e vago,
      Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma
      A harmonia celeste e o fogo e o genio,
      Que dêm vida e vigor a um carme pio.


                  V.

      A noite escura desce: o sol de todo
      Nos mares se afogou: a luz dos mortos,
      Dos brandões o clarão fulgura ao longe,
      No cruzeiro somente e em volta da ara:
      E pelas naves começou ruído
      De compassado andar. Fiéis acodem
      A visitar o Eterno, e ouvir queixumes
      Do vate de Sion. Em breve os monges
      Lamentosas canções aos ceus erguendo,
      Sua voz unirão á voz desse orgam,
      E os sons e os écchos reboaráõ no templo.
      Mudo o côro depois, neste recinto
      Dentro em bem pouco reinará silencio,
      O silencio dos tumulos, e as trevas
      Cubrirão por esta área a luz escassa
      Despedida das lampadas, que pendem
      Ante os altares, bruxuleando frouxas.
      Imagem da existencia!--Em quanto passam
      Os dias infantís, as paixões tuas,
      Homem, qual então és, são debeis todas:
      Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
      Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo
      Gemido do remorso, a qual lançar-se
      Vai, com rouco estridor, no antro da morte,
      Lá onde é tudo horror, silencio, noite.
      Da vida tua instantes florescentes
      Foram dous, e não mais: as cãas e rugas,
      Breve, rebate de teu fim te deram.
      Tu foste apenas som, que o ar ferindo
      Se esvaíu pelo espaço immensuravel.

      E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro
      Cortou a penedia; e o canto enorme.
      Polido alveja alli no espesso panno
      Do muro collossal, que ha visto as eras
      Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:
      A faia e o sobro no caír rangeram
      Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
      Lá na cimo pousou: restruge ao longe
      De martellos fragor, e eis ergue o templo,
      Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

      Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento,
      Se esváe, como da cerva a leve pista
      No pó se apaga ao respirar da tarde,
      Do seio dessa terra em que és estranho
      Saír fazes as moles seculares,
      Que por ti, morto, fallem: dás na idéa
      Eterna duração ás obras tuas!
      Tua alma é immortal, e a prova a déste!


                  VI.

      Anoiteceu:--nos claustros resoando
      As pisadas dos monges ouço: eis entram;
      Eis se curvaram para o chão beijando
      O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a!
      Igual vos cubrirá a cinza um dia,
      Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
      É a pedra do tumulo. Se-lo-ia
      Mais se do justo só a herança fora;
      Mas tambem ao malvado é dada a campa.

      E o criminoso dormirá quieto
      Entre os bons sotterrado!--Oh não! em quanto
      No templo ondeam silenciosas turbas,
      Exultarão do abysmo os moradores,
      Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles,
      Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
      Vendo o que julga que orações apagam
      Vicios e crimes, e o motejo e o riso
      Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
      Vendo os que nunca ao infeliz soltaram
      De consolo palavra, ou de esperança:
      Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes
      Os frios restos que separa a terra,
      Um punhado de terra, a qual os ossos
      Destes ha-de cubrir em tempo breve,
      Como cubriu os seus, qual vai sumindo
      Nos mysterios da campa a humanidade.

      Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos
      Do templo na amplidão: só lá no fundo
      De affumada capella, o justo as preces
      Ergue pio ao Senhor, as preces puras
      De um coração que espera, e não mentidas
      De labios de impostor, que engana as turbas
      Com seu meneio hypocrita, calcando
      Na alma lodosa da blasphemia o grito.
      Então exultarão os bons, e o ímpio,
      Que passou, tremerá. Em fim, de vivos,
      Da voz, do respirar o som confuso
      Vem-se verter no sussurrar das praças,
      E pela galilé só ruge o vento.
      Em trevas não ficou silenciosas
      O sagrado recinto: os candieiros,
      No gelado ambiente ardendo a custo,
      Espalham debeis raios que reflectem
      Das pedras pela alvura; o negro mocho,
      Companheiro do morto, horrido pio
      Solta lá da cornija; pelas fendas
      Dos sepulchros deslisa um fumo espesso,
      Ondêa pela nave--esvái-se: um longo
      Suspiro não se ouviu!--Olhai! lá se erguem
      De umas espectros palidos, medonhos,
      A quem baço clarão da luz dos mortos
      Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem
      Radiosos espiritos que o premio
      Da virtude, nos ceus, hão recebido:
      Alli treme ante o pobre o rico, e o forte
      Ante o humilde, que nelle os olhos fita
      Severo:--oh que tormento! infernaes dores
      São doces para o máu, a par do aspecto
      Do bom, que mudo lhe recorda os crimes.
      Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas
      Ainda habita o remorso. Embalde, espectro,
      Te curvas ante as aras que insultaste:
      Debalde imploras o perdão celeste.
      Expiraste: o perdão morreu comtigo.
      Infeliz para sempre, a mão levanta
      A essa fronte gelada; entre teus olhos
      De azulado fulgor ampla rajada
      Toca--eterno signal que no perverso
      Do cherubim da morte a dextra estampa:
      Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua
      Volveu-se em maldicção: luz de esperança
      Para ti apagou-se: o abysmo evoca
      O filho seu; despenha-te no abysmo!


                  VII.

      Vaga meditação onde arrojaste
      Minha imaginação!--ás horas mortas
      De alta noite, no templo solitario,
      E em congresso de mortos, quando o espanto
      Os resguarda co'as azas acurvadas
      Da vista do que vive!--Alli corria
      Minha mente, qual vaga a mente do homem,
      Que em febre ardente desvairou por sonhos,
      Onde se ajunctam troços de existencias,
      Em nebuloso quadro; ou como ondea,
      Entre a esperança e o susto, o moribundo,
      A quem do passamento o véu já cinge
      A amarellada fronte, e a quem já pesam
      Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa
      Do anjo da morte o resonante grito.


                  VIII.

      Mas troa a voz do monge, e no meu seio
      O coração bateu. Eia, retumbem
      Pela abobada aguda os sons dos psalmos,
      Que em dia de afflicção ignoto vate
      Teceu, banhado em dôr: talvez foi elle
      O primeiro cantor que em varias cordas,
      Á sombra das palmeiras da Idumea,
      Soube entoar melodioso um hymno.
      Deus inspirava então os trovadores
      Do seu povo querido, e a Palestina,
      Rica dos meigos dons da natureza,
      Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo.
      Virgem o genio ainda, o estro puro
      Louvava Deus somente, á luz da aurora,
      E ao esconder-se o sol entre as montanhas
      De Bethoron:--agora o genio é morto
      Para o Senhor, e os cantos dissolutos
      Do lodoso folguedo os ares rompem,
      Ou sussurram por paços de tyrannos,
      Assellados de putrida lisonja,
      Por preço vil, como o cantor que os tece.


                  IX.


            _O Psalmo._

      Quanto é grande o meu Deus!... Té onde chega
            O seu poder immenso!
      Elle abaixou os ceus, desceu, calcando
            Um nevoeiro denso.
      Dos cherubins nas azas radiosas
            Sentado elle voou:
      E sobre turbilhões de rijo vento
            O mundo rodeou.
      Se lança á terra o olhar, a terra treme,
            E os mares assustados
      Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
            Da sua mão tocados.
      Se pensou no Universo, ei-lo patente
            Todo perante o Eterno:
      Se o quiz, o firmamento os seios abre,
            Abre os seios o inferno.
      Dos olhos do Senhor, homem, se podes,
            Esconde-te um momento:
      Vê onde encontrarás logar que fique
            Da sua vista isento:
      Sobe aos ceus, transpõe mares, busca o abysmo,
            Lá teu Deus has-de achar;
      Elle te guiará, e a dextra sua
            Lá te ha-de sustentar:
      Desce á sombra da noite, e no seu manto
            Involver-te procura;
      Mas as trévas para elle não são trévas;
            Nem é a noite escura.
      No dia do furor, em vão buscáras
            Fugir ante o Deus forte,
      Quando do arco tremendo, irado, impelle
            Setta em que pousa a morte.
      Mas o que o teme dormirá tranquillo
            No dia extremo seu,
      Quando na campa se rasgar da vida
            Das illusões o véu.


                  X.

      Callou-se o monge: sepulchral silencio
      Á sua voz seguiu-se: e um som soturno
      De orgam partiu-o; som que assemelhava
      O suspiro saudoso, e os ais de filha,
      Que chora solitaria o páe, que dorme
      Seu ultimo, profundo e eterno somno.
      Harmonias depois soltou mais doces
      O instrumento suave; e ergueu-se o canto,
      O lamentoso canto do propheta,
      Da patria sobre o fado. Elle, que o víra,
      Sentado entre ruinas, contemplando
      Seu avíto esplendor, seu mal presente,
      A quéda lhe chorou: lá na alta noite,
      Modulando o Nebel, via-se o vate
      Nos derrubados porticos, abrigo
      Do immundo stellio e gemedora poupa,
      Extasiado--e a lua scintillando
      Na sua calva fronte, onde pesavam
      Annos e annos de dor: ao venerando
      Nas encovadas faces fundos regos
      Tinham aberto as lagrymas: ao longe,
      Nas margens do Kedron, a rãa grasnando
      Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
      Era Sion!--o vasto cemiterio
      Dos fortes de Israel. Mais venturosos
      Que seus irmãos, morreram pela patria;
      A patria os sepultou dentro em seu seio:
      Elles, em Babylonia, as mãos em ferros,
      Passam de escravos miseranda vida,
      Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesá-los,
      A dextra lhe vergou. Não mais no templo
      A nuvem repousára, e os ceus de bronze
      Dos prophetas aos rogos se amostravam,
      O vate de Anathoth a voz soltára
      Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
      Ameaças, promessas, tudo inutil;
      De ferro os corações não se dobraram.
      Vibrou-se a maldicção: bem como um sonho
      Jerusalem passou: sua grandesa
      Somente existe em derrocadas pedras.
      O vate de Anathoth, sobre seus restos,
      Com tal lamento se doeu da patria:
      Canto de morte alçou: da noite as larvas
      O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
      Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
      Do portico do templo erguia um pouco,
      Alvejando, a caveira:--era-lhe alivio
      Do sagrado cantor a voz suave
      Desferida ao luar, triste, no meio
      Da vasta solidão que o circumdava:
      O propheta gemeu: não era o estro,
      Ou o vivido júbilo que outrora
      Inspirára Moysés: o sentimento
      Fui sim pungente do silencio e morte,
      Que da patria lhe fez sobre o cadaver
      A elegia da noite erguer, e o pranto
      Derramar da esperança e da saudade.


                  XI.

            _A Lamentação._

      Como assim jaz e solitaria e quêda
      Esta cidade outrora populosa!
      Qual viuva ficou e tributaria
            A senhora das gentes.
      Chorou durante a noite: em pranto as faces
      Sosinha, entregue á dôr, nas penas suas
      Ninguem a consolou: os mais queridos
            Contrarios se volveram.
      As amplas ruas de Sion são ermas,
      E cubertas de relva: os sacerdotes
      Gemem: as virgens pallidas suspiram
            Involtas na amargura.
      Dos filhos de Israel nas cavas faces
      Está pintada a macilenta fome;
      Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
            Um pão de infamia eivado.
      O tremulo ancião, de longe, os olhos
      Volta a Jerusalem, della fugindo;
      Vê-a, suspira, cáe, e em breve expira
            Com seu nome nos labios.
      Que horror!--as proprias mães os seus filhinhos
      Despedaçaram: barbaras quaes tygres,
      Os sanguinosos membros palpitantes
            No ventre sepultaram.
      Grande Deus, nosso opprobrio olha piedoso!
      Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,
      Servos de servos em paiz estranho;
            Adoça nossos males!
      Acaso serás Tu sempre inflexivel?
      Esquecèste de todo a nação tua?
      O pranto dos hebreus não Te commove?
            És surdo a seus lamentos?


                  XII.

      Doce era a voz do velho: o som do Nablo
      Sonoro: o ceu sereno: clara a terra
      Pelo brando fulgor do astro da noite:
      E o propheta parou: erguidos tinha
      Os olhos para o ceu, onde buscava
      Um raio de esperança e de conforto:
      E elle calára já, e ainda os ecchos,
      Entre as minas sussurrando, ao longe
      Iam os sons levar de seus queixumes.


                  XIII.

      Chôro piedoso, o chôro consagrado
      Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!
      Oh margens do Jordão, paiz tão lindo,
      Que fostes e não sois, tambem suspiro
      Doído vos consagro!--Assim fenecem
      Imperios, reinos, solidões tornados!...
      Não:--nenhum deste modo: o peregrino
      Pára em Palmyra e pensa: o braço do homem
      A sacudiu á terra, o fez dormissem
      O seu ultimo somno os filhos della--
      E elle o veio dormir pouco mais longe:
      Mas se chega a Sion treme, enxergando
      Seus lacerados restos. Pelas pedras,
      Aqui e alli dispersas, ainda escripta
      Parece vêr-se uma inscripção de agouros,
      Bem como aquella que aterrou um ímpio
      Quando, no meio de ruidosa festa,
      Blasphemava dos ceus, e mão ignota
      O dia extremo lhe apontou de crimes.
      A maldicção do Eterno está vibrada
      Sobre Jerusalem!--Quanto é terrivel
      A vingança de Deus! O Israelita,
      Sem patria, e sem abrigo, vagabundo,
      Odio dos homens, neste mundo arrasta
      Uma existencia mais cruel que a morte,
      E que vem terminar a morte e inferno.
      Desgraçada nação!--aquelle solo
      Onde manava o mel, onde o carvalho,
      O cedro e a palma o verde, ou claro ou torvo,
      Tão grato á vista, em bosques misturavam:
      Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
      Crescimento espontaneo entre as roseiras,
      Hoje, campo de lagrymas, só cria
      Humilde musgo de escalvados cerros.


                  XIV.

      Ide vós a Mambré:--lá, bem no meio
      De um valle, outrora de verdura ameno,
      Erguia-se um carvalho magestoso:
      Debaixo de seus ramos, largos dias
      Abrahão repousou: na primavera
      Vinham os moços adornar-lhe o tronco
      De capellas cheirosas de boninas,
      E corêas gentis traçar-lhe em roda.
      Nasceu com o orbe a planta veneravel,
      Viu passar gerações, julgou seu dia
      Final fosse o do mundo, e quando airosa
      Por entre as densas nuvens se elevava,
      Mandou o Nume aos aquilões rugíssem.
      Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
      Murcharam-se caíndo, e o rei dos bosques
      Servio do pasto aos tragadores vermes:
      Deus estendeu a mão:--no mesmo instante
      A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
      Da Palestina os platanos frondosos
      Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
      O armento, em vez de relva, achou nos prados
      Somente ingratas, espinhosas urzes.
      No Golgotha plantada, a Cruz clamára
      Justiça: a seu clamor horrido espectro
      No Moriah sentou-se; era seu nome
      Assolação--e despregando um grito,
      Caíu com longo som de um povo a campa.
      Assim a herança de Judah, outrora
      Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
      Do tempo que já foi, e que ha passado
      Como hora de prazer entre desditas.

      Minha Patria onde existe?
                               É lá somente!

      Oh lembrança da Patria acabrunhada
      Um suspiro tambem tu me has pedido:
      Um suspiro arrancado aos seios d'alma
      Pela offuscada gloria, e pelos crimes
      Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
      Da mais illustre das nações da terra!

      A minha triste Patria era tão bella,
      E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
      E o sabio e o homem bom acolá dormem,
      Acolá, nos sepulchros esquecidos,
      Que a seus netos infames nada contam
      Da antiga honra e pudor e eternos feitos.

      O escravo portuguez agrilhoado
      Carcomir-se-lhes deixa juncto ás lousas
      Os decepados troncos desse arbusto,
      Por mãos delles plantado á liberdade,
      E por tyrannos derrubado em breve,
      Quando patrias virtudes se acabaram,
      Como um sonho da infancia.
                                O vil escravo
      Immerso em vicios, em bruteza e infamia
      Não erguerá os macerados olhos
      Para esses troncos, que destroem vermes
      Sobre as cinzas de heróes, e, acceso em pejo,
      Não surgirá jámais?--Não ha na terra
      Coração portuguez, que mande um brado
      De maldicção atroz, que vá cravar-se
      Na vigilia e no somno dos tyrannos,
      E envenenar-lhes o prazer nos braços
      Das prostitutas vís, e em seus banquetes
      De embriaguez, lançar fel e amarguras?

      Não!--Bem como um cadaver já corrupto,
      A nação se dissolve: e em seu lethargo
      O povo, involto na miseria, dorme.


                  XV.

      Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
      Terei de erguer á Patria hymno de morte,
      Sobre seus mudos restos vagueando!
      Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta
      Minhas preces e lagrymas:--se em breve,
      Qual jaz Sion, jazer deve Ulissea:
      Se o anjo do exterminio ha-de riscá-la
      Do meio das nações, que d'entre os vivos
      Risque tambem meu nome, e não me deixe
      Na terra vaguear, orpham de Patria.


                  XVI.

      Cessou da noite a grão solemnidade
      Consagrada á tristeza, e a memorandas
      Recordações:--os monges se prostraram
      A face unida á pedra: a mim, a todos
      Correm dos olhos lagrymas suaves
      De compuncção. Atheu, entra no templo;
      Não temas esse Deus, que os labios negam,
      E o coração confessa: a corda do arco
      Da vingança, em que a morte se debruça
      Frouxa está; Deus é bom; entra no templo.
      Tu para quem a morte ou vida é fórma,
      Fórma sómente de mais puro barro,
      Que nada crês, mas nada esperas, olha,
      Olha o conforto do christão: se o calis
      Da amargura a provar os ceus lhe deram,
      Elle se consolou: balsamo sancto
      Dentro no coração a fé lhe entorna
      "Deus piedade terá!"--Eis seu gemido:
      Porque a esperança lhe sussurra emtorno:
      "Aqui--ou lá--a Providencia é justa."

      Atheu, a quem o mal fizera escravo,
      Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
      No dia da afflicçâo emmudeceste
      Ante o espectro do mal. E a quem alçaras
      O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
      Não altera por ti?--Ao ar, que some
      Pela sua amplidão as queixas tuas?
      Aos rochedos alpestres, que não sentem,
      Nem sentir podem teu gemido inutil?
      Tua dôr, teu prazer existem, passam,
      Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
      Nas angustias da vida, o teu consolo
      O suicidio é só, que te promette
      Rica messe de goso, a paz do nada!--
      E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso,
      No limiar da morte indo assentar-te!
      Alli grita uma voz no ultimo instante
      Do passamento: a voz atterradora
      Da _Consciencia_ é ella: e has-de escutá-la
      Mau grado teu: e tremerás em sustos,
      Desesperado aos ceus erguendo os olhos
      Irados, de travez, amortecidos--
      Aos ceus, cujo caminho a Eternidade
      Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
      Para guiar-te á solidão das dores,
      Onde maldigas teu primeiro alento,
      Onde maldigas teu extremo arranco,
      Onde maldigas a existencia e a morte.


                  XVII.

      Calou tudo no templo: o ceu é puro:
      A tempestade ameaçadora dorme.
      No espaço immenso os astros scintillantes
      O Rei da creação louvam com hymnos,
      Não ouvidos por nós, nas profundezas
      Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
      Ante milhões de estrellas, que recamam
      O firmamento, ajunctará seu canto
      Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
      Mortal, no meio da harmonia etherea,
      No concerto da noite? Oh, no silencio,
      Eu pequenino verme irei sentar-me
      Aos pés da Cruz, nas trévas do meu nada.
      Assim se apaga a lampada nocturna
      Ao despontar do sol o alvor primeiro:
      Por entre a escuridão deu claridade,
      Mas do dia ao nascer, que já rutila,
      As torrentes de luz vertendo ao longe,
      Da lampada o clarão sumiu-se inutil
      Nesse fulgido mar, que inunda a terra.

_Lisboa_--1829.



*NOTAS.*



NOTAS.


Eis o poema da minha mocidade: são os unicos versos que conservo desse
tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje
me dissessem: faze um poema de quinhentos versos ácerca da Semana Sancta,
eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo: entretanto
eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. Não é esta a primeira das
minhas contradiccções, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia,
que não seja a ultima.

Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da
juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do
christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal
objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta não saíu semelhante á Semana
Sancta da Religião. O que é esta, de feito?--Um poema representado, um
drama, cuja essencia é um facto universal, o maior de todos; o que veio
mudar idéas, civilisação, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu
forças para o tractar? Não por certo; porque até hoje só houve um
Klopstock; talvez só um haverá até a consummação dos seculos.

Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanças do fucturo; chorei
sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos
infernos; saudei o sol, e as trévas da noite; em tudo, e em toda a parte
busquei inspirações, menos onde as devia buscar; por que acima da minha
comprehensão estava o meu objecto--a redempção, e as suas consequencias.
Foi disto justamente que eu não tractei; e era disto que eu devia tractar,
se o podesse ou soubesse fazer.

Porque, pois, não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade
no caminho da fogueira! Porque publíco um poema falho na mesmissima
essencia da sua concepção!

Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque não ha poeta,
que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trévas o
fructo das suas vigilias.


[Pag. 9.]

      _A loucura da Cruz não morreu toda_

"Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est".

_Paul. Ad Corinth. 1.--1._


[Pag. 15.]

                        _ignoto vate_
      _Teceu_

Ainda que os Psalmos se attribuam geralmente a David, ha ácerca disso muita
incertesa, e o que, ao menos, parece indubitavel é que alguns lhe não
pertencem, por fallarem no captiveiro de Babylonia, e trazerem allusões a
épochas mais recentes. Verdade é que se chegou a crer heretica semelhante
opinião; mas os Padres gregos, e com elles Sancto Hilario, e S. Jeronymo,
julgam absurdo attribui-los todos a David. Esdras voltando do captiveiro
foi quem reuniu estes hymnos, e nessa collecção é provavel fizesse entrar
todas os poesias hebraicas deste genero lyrico e religioso.


[Pag. 16.]

      _E ao esconder-se o sol entre as montanhas
      De Bethoron_

Bethoron inferior, cidade situada perto de Gadara ou Gazara e de Bethel, e
todas ellas em uma serie de montanhas no extremo da Tribu de Ephraim, ao
occidente de Jerusalem. Cumpre não a confundir com a outra Bethoron ou
Bethra, a quatro milhas de Jerusalem para o norte, no caminho de Sichem ou
Naplusa.


[Pag. 16.]

_O Psalmo._

Commota est, et contremuit terra: fundamenta montium conturbata sunt, et
commota sunt, quoniam iratus est eis.

Ascendit fumus in ira ejus: et ignis à facie ejus exarsit: carbones
succensi sunt ab eo.

Inclinavit coelos et descendit: et caligo sub pedibus ejus.

Et ascendit super cherubim, et volavit: volavit super pennas ventorum.

_Psalm. 17--v. 8--9--10--11._

Quò ibo a spiritu tuo? et quò à facie tua figiam?--

Si ascendero in coelum, tu illic es: si descendero in infernum, ades.

Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris:

Etenim illuc manus tua deducet me: et tenebit me dextera tua.

Et dixi: Forsitan tenebrae conculcabunt me: et nox illuminatio mea in
deliciis meis.

Quia tenebrae non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur:
sicut tenebrae ejus, sicut et lumen ejus.

_Psalm. 138--v. 7--8--9--10--11--12._

------- arcum suum tetendit et paravit illum.

Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit.

_Psalm. 7--v. 13--14._


[Pag. 18.]

      _------ e um som soturno
      Do orgam partiu-o:_

O orgam é um instrumento propriissimo para acompanhar os hymnos religiosos.
Os protestantes, apartando-se da communhão romana, e fazendo voltar o culto
quasi á simplicidade primitiva, conservaram nos seus templos este
instrumento, cujos sons melodiosos, e ao mesmo tempo severos, se adaptam
tão bem ás idéas que suscitam os cantos da Igreja. O primeiro orgam, que se
viu no occidente da Europa, foi o que mandou, em 758, Constantino
Copronymo, imperador de Constantinopola, a Pepino, pae de Carlos-Magno.
Depois o seu uso se tomou quasi exclusivo nos templos.


[Pag. 18.]

      _Modulando o Nebel_

O _Nebel_, que os gregos traduzem por _Psalterion_ ou _Nablon_, era entre
os hebreus um instrumento proprio da musica religiosa, como entre os
christãos o orgam. A sua fórma triangular, e o ser instrumento de cordas,
fez com que na Vulgata se vertesse a palavra hebraica _Nebel_, umas vezes
por lyra, outras por cythara, sem ser nenhuma das duas cousas. Veja-se a
Dissertação de Calmet ácerca da musica dos hebreus.


[Pag. 18.]

      _Do immundo Stellio_

O Stellio é o lagarto da 1.ª especie, ou a salamandra de Lacepede.
_Stellio_ manibus nititur et moratur in aedibus regis. _Prov. 30 v.
28_--Migale, et chamaeleon, et _stellio_, et lacerta, et talpa. _Levit.
11--v. 30._


[Pag. 19.]

      _Nas margens do Kedron a rãa grasnando_

A torrente de _Kedron_, que passa entre Jerusalem e o monte Olivete, ao
oriente da cidade, sécca inteiramente no estio, e no hynverno as suas aguas
são torvas e avermelhadas. D'ahi o seu nome, que sôa como--_torrente da
tristeza_--. Alguem lhe chamou--_torrente dos cedros_, tomando a palavra
hebraica _Kedron_ pelo plural grego _Kedron_.


[Pag. 19.]

      _O vate de Anathoth_

Jeremias era natural de Anathoth cidade sacerdotal na Tribu de
Benjamim.--Verba Jeremiae filii Helciae, de sacerdotibus qui fuerunt in
Anathoth, in terra Benjamim. _Jer. 1--1._


[Pag. 19.]

      _Entre o povo infiel, de Eloha em nome_

_Eloha_ ou _Elah_--Nome de Deus em hebraico, ou antes chaldaico, e palavra
assás commum na Biblia. O auctor do Genesis usa do plural _Elohim_ ou
_Elahim_ para significar, ora o _Deus uno_, ora os deuses dos pagãos.
Consulte-se Volney, _Recherches sur l'histoire ancienne._ Cap. 17.


[Pag. 19.]

      _Inspirára Moysés_

Allusão ao cantico depois da passagem do mar roxo.


[Pag. 20.]

_A Lamentação._

Quomodo sedet sola civitas plena populo!--Facta est quasi vidua Domina
Gentium: princeps provinciarum facta est sub tributo.

Plorans ploravit in nocte, et lachrymae ejus in maxillis ejus: non est qui
consoletur eam ex omnibus caris ejus: omnes amici ejus spreverunt eam, et
facti sunt ei inimii.

Viae Sion lugent, eò quod non sint, qui veniant ad solemnitatem: omnes
portae ejus destructae: sacerdotes ejus gementes: virgines ejus squallidae,
et ipsa oppressa amaritudine.

_Threni c. 1--v. 1--2--4._

Omnis populus ejus gemens, et quaerens panem: dederunt pretiosa quaeque
piro cibo ad refocilandum animam.

_C. 1--v. 11._

A Egypto dedimus manum, et Assyriis ut saturaremur pane.

_Oratio Jerem. 6._

Jacuerunt in terra foris puer, et senex.

_Threni c.--v. 21._

Manus mulierum misericordium coxerunt filios suos: facti sunt cibus earum
in contritione filiae populi mei.

_Thren. 4.--v. 10._

Recordare Domine quid acciderit nobis: intuere et respice opprobrium
nostrum.

Haereditas nostra versa est ad alienos; domus nostrae ad extraneos.

Servi dominati sunt nostri: non fuit qui redimeret de manu eorum.

Quare in perpetuum oblivisceris noatri? derelinques nos in longitudine
dierum?

_Orat. Jer. v. 1--2--8--10._


[Pag. 22.]

      _Bem como aquella que atterrou um ímpio._

Baltasar rex facit grande convivium optimatibus suis mille; et unusquisque
secundùm suam bibebat aetatem.

Praecepit ergo jam temulentus ut afferrentur vasa aurea et argentea, quae
asportaverat Nabuchodonosor pater ejus de templo, quod fuit in Jerusalem,
ut biberent in eis rex et optimates ejus, uxoresque ejus, et concubinae.
Tunc allata sunt vasa aurea et argentea, quae asportaverat de templo, quod
fuerat in Jerusalem: et biberunt in eis rex, et optimates ejus, uxores et
concubinae illius. Bibebant vinum el laudabant deos suos aureos, et
argenteos, aereos, terreos, ligneosque et lapideos. In eadem hora
aparuerunt digiti, quasi manus hominis scribentis contra candelabrum in
superficie parietis aulae regiae: et rex aspiciebat articulos manus
scribentis. Tunc facies regis commutata est, et cogitationes ejus
conturbabant eum; et compages renum ejus solvebantur, et genua ejus ad se
invicem collidebantur. Haec est autem scriptura, quae digesta est: _Mane_,
_Thecel_, _Phares_. Et haec est interpretatio sermonis: _Mane_: numeravit
Deus regnum tuum et complevit illud. _Thecel_: appensus es in statera, et
inventus es minus habens. _Phares_: divisum est regnum tuum, et datum est
Medis, et Persis.

_Danielis Proph. c. 5--v. 1 a 6--25 a 28._


[Pag. 23.]

      _Hoje, campo de lagrymas, só cria
      Humilde musgo de escalvados cerros._

Varios passos, cem vezes citados, de Tacito e de outros escriptores
gravissimos da antiguidade, nos provam que a Judea foi um paiz feracissimo.
Os viajantes modernos no-la descrevem como uma região arida e inculta. O
despotismo, que ha seculos tem opprimido a Syria, e a rapacidade dos
arabes; são em grande parte causa da aniquilação da agricultura na
Palestina; porém a sua esterilidade não se póde attribuir, por certo, a uma
causa politica. Os sectarios do Crucificado não podem deixar de vêr neste
phenomeno os effeitos da maldicção de Deus sobre a terra que bebeu o sangue
do _Filho do Homem_.


[Pag. 23.]

      _Ide vós a Mambré:_

O valle de Mambré estava situado juncto de Kariath-Arbé [Hebron] na tribu
de Judah, e ao Meio-dia de Jerusalem. O carvalho ou terebintho de Abrahão,
que, segundo o testemunho de S. Jeronymo, ainda existia no tempo de
Constantino, o tornava notavel. Ácerca desta arvore célebre existem muitas
tradições entre os Judeus; e até para os christãos dos primeiros seculos
era o valle de Mambré um logar de devoção e romagem. Sozomeno nos descreve
o _Valle de Terebintho_ como um sitio de festivas reuniões, e foi a sua
narração quem suscitou este pedaço de Poema.


[Pag. 23.]

                              _na primavera
      Vinham os moços adornar-lhe o tronco_

Aqui [em Mambré] ha um logar que hoje chamam Terebintho, distante de
Chebron, que lhe fica ao meio-dia, 15 stadios, e de Jerusalém quasi
250.--Os habitantes deste sitio, no tempo do estio, fazem uma feira a que
concorrem os vizinhos do valle, e ainda povos mais remotos, como os
Palestinos, os Arabes, e os Phenicios. _Sozom. Histor. Eccles._


[Pag. 24.]

      _No Golgotha plantada a cruz clamára_

O monte Golgotha ou Calvario foi o logar onde crucificaram J. C.--Esta
palavra significa: _Logar onde repousam os craneos dos mortos._


[Pag. 24.]

      _No Moriah sentou-se:_

O monte Moriah, onde estava o templo de Salomão, levantava-se no meio de
Jerusalem, e ficava-lhe ao norte o monte Sion. Diz-se que neste logar
estivera Abrahão para sacrificar seu filho.--_Calmet Diction._



A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.


SEGUNDA SERIE.


LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n.º 55._



*A Arrabida.*


A RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES,

ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA,

      _Em testemunho da sincera amizade,_

                        Offerece o Auctor.



A Arrabida.

[1830.]


                  I.

      Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
      Salve, oh terra de paz, deserto sancto,
      Onde não chega o sussurrar das turbas!
      Sólo sagrado a Deus, podesse o bardo
      Ser um dos teus, e não voltar ao mundo!


                  II.

      Suspira o vento no alamo frondoso;
      As aves soltam matutino canto;
      Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
      Nos rochedos da concava bahia:
      Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro,
      Insondado oceano, e o ceu ceruleo
      Se abraçam no horizonte: immensa imagem
      Da eternidade e do infinito, salve!


                  III.

      Oh, como surge magestosa e bella,
      Com viço da creação, a naturesa,
      No solitario valle!--E o leve insecto,
      E a relva, e os matos, e a fragrancia pura
      Das boninas da encosta estão contando
      Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
      Com mão profusa, no regaço ameno
      Da solidão, onde se esconda o justo.

      E lá campeam no alto das montanhas
      Os escalvados pincaros, severos,
      Quaes guardadores de um logar que é sancto:
      Atalaias que ao longe o mundo observam,
      Cerrando até o mar o ultimo abrigo
      Da crença viva, da oração piedosa,
      Que se ergue a Deus de labios innocentes.

      Sobre esta scena o sol verte em torrentes
      Da manhan o clarão; a brisa esvae-se
      Por esses matos de alecrim florído,
      Embalsamando o ar de brando aroma:
      O rocío da noite á rosa agreste
      No seio derramou frescor suave,
      E 'inda existencia lhe dará um dia!

      Formoso ermo do sul, outra vez, salve!


                  IV.

      Negro, esteril rochedo, que contrastas,
      Na mudez tua, o placido sussurro
      Das arvores do valle, que verdecem,
      Ricas d'encantos, co'a estação propicia;
      Suavissimo aroma, que manando
      Das variegadas flores, derramadas
      Na sinuosa encosta da montanha,
      Do altar da solidão subindo aos ares,
      És digno incenso ao Creador erguido;
      Livres aves, vós filhas da espessura,
      Que só teceis da natureza os hymnos;
      O que crê, o cantor, que foi lançado,
      Estranho ao mundo, no bulicio delle,
      Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
      Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
      E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
      O sol, e uma só vez pura saudar-lha.

      Comvosco eu sou maior: mais longe a mente
      Pelos seios dos céus se immerge livre,
      E se desprende de mortaes memorias
      Na solidão solemne, onde, incessante,
      Em cada pedra, em cada flor se escuta
      Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
      A dextra sua em multiforme quadro.


                  V.

      Escalvado penedo, que repousas
      Lá no cimo do monte, ameaçando
      Ruina ás matas de alecrim e murta,
      Que nesta encosta ondeam, meneadas
      Pelo vento do sul, foste já lindo,
      Já te cubriram cespedes virentes;
      Mas o tempo voou, e nelle involta
      A tua formosura: as grossas chuvas,
      Despedidas das nuvens, se arrojaram
      Sobre ti, oh rochedo, arrebatando
      A terra e o viço, que te ornava o cimo.
      Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te:
      Tua alvura passou: tão negro és hoje,
      Quanto de mar erguido escuras vagas.

      Cáveira da montanha, ossada immensa,
      É tua campa o ceu: sepulchro o valle
      Um dia te será. Quando sentires
      Rugir com som medonho a terra ao longe,
      Na expansão dos volcões, e o mar bramindo,
      Lançar á praia vagalhões cruzados;
      Tremer-te a larga base, e sacudir-te
      Do vasto dorso, o fundo deste valle
      Te váe servir de tumulo: e os carvalhos
      Do mundo primogenitos, e os freixos,
      Arrastados por ti lá da collina,
      Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra
      Te cubrirá o dorso sinuoso:
      Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
      Do seu puro candor hão-de adornar-te:
      E tu, ora medonho, e nú, e triste,
      Ainda bello serás, vestido e alegre.

      Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
      Dos tumulos cair; quando uma pedra
      Os ossos me esmagar, se me fôr dada,
      Não mais reviverei: não mais meus olhos
      Verão o pôr do sol, em dia estivo,
      Se em turbilhões de purpura, que ondeam
      Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
      Váe provar que um Deus ha a estranhos povos,
      E alem das ondas tremulo sumir-se;
      Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
      Com torrentes de luz inunda as veigas:
      Nem mais verei o refulgir da lua
      No irrequieto mar, na paz da noite,
      Por horas em que véla o criminoso,
      A quem íntima voz rouba o socego,
      E em que o justo descança, ou, solitario,
      Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.


                  VI.

      Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
      Das aguas, então quêdas, do oceano,
      Eu tambem o louvei, sem ser um justo:
      E meditei--e a mente extasiada
      Deixei correr pela amplidão das ondas.

      Como abraço materno, era suave
      A aragem fresca do caír das trévas,
      Em quanto, involta em gloria, a clara lua
      Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
      Tudo calado estava: o mar somente
      As harmonias da creação soltava,
      Em seu rugido; e o freixo do deserto
      Se agitava, gemendo e murmurando,
      Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
      O pranto me correu, sem que o sentisse,
      E aos pés de Deus se derramou minha alma.


                  VII.

      Oh, que viesse o que não crê, comigo,
      Á vecejante Arrabida, de noite,
      E se assentasse aqui sobre estas fragas,
      Escutando o sussurro incerto e triste
      Das movediças ramas, que povoa
      De saudade e de amor nocturna brisa;
      Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,
      E ouvisse o mar soando:--elle chorára,
      Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
      E adorando o Senhor detestaria
      De uma sciencia van seu vão orgulho.


                  VIII.


      É aqui neste valle, ao qual não chega
      Humana voz e o tumultuar das turbas,
      Onde o nada da vida sonda livre
      O coração, que busca ir abrigar-se
      No futuro, e debaixo do amplo manto
      Da piedade de Deus: aqui serena
      Vem a imagem da campa, como a imagem
      Da patria ao desterrado: aqui, solemne,
      Brada a montanha, memorando a morte.

      Essas penhas, que, lá no alto da encosta,
      Negras, despidas, dormem solitarias,
      Parecem imitar da sepultura
      O aspecto melancholico, e o repouso
      Tão desejado do que em Deus confia.
      Bem semelhante á paz, que se ha sentado
      Por seculos, alli, nas serranias,
      É o silencio do adro, onde reunem
      Os cyprestes e a cruz o céu e a terra.

      Como tu vens cercado de esperança,
      Para o innocente, oh placido sepulchro!
      Juncto das tuas bordas pavorosas
      O perverso recúa horrorisado:
      Após si volve os olhos; na existencia
      Deserto árido só descobre ao longe,
      Onde a virtude não deixou um trilho.
      Mas o justo chegando á meta extrema,
      Que separa de nós a eternidade,
      Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta.
      O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
      Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
      Que peregrino vagueou na terra,
      Sem encontrar um coração de fogo,
      Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
      Ignota, por lá busca; e quando as eras
      Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe
      Tardios louros, que escondêra a inveja,
      Elle não erguerá a mão mirrada,
      Para os cingir na regelada fronte.
      Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,
      Ao pé da sepultura, é som perdido
      De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
      O despertar um pae, que saborea,
      Entre os braços, da morte o extremo somno,
      Já não é dado ao filial suspiro:
      Em vão o amante, alli, da amada sua
      De rosas sobre a c'roa debruçado,
      Rega de amargo pranto as murchas flores
      E a fria pedra: a pedra é sempre fria,
      E para sempre as flores se murcharam,


                  IX.

      Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma,
      Aspirando o futuro além da vida,
      E um halito dos ceus, gemer, atada
      Á columna do exilio, a que se chama,
      Em lingua vil e mentirosa, o mundo.
      Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
      Dos sonhos meus. A imagem do deserto
      Guarda-la-hei no coração, bem juncto
      Com minha fé, meu unico thesouro.

      Qual pomposo jardim de verme illustre,
      Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
      Comparar-se, oh deserto?--Aqui não cresce
      Em vaso de alabastro a flor captiva,
      Ou arvore educada, por mão do homem,
      Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro,
      E lhe decepe os troncos. Como é livre
      A vaga do oceano, é livre no ermo
      A bonina rasteira, e o freixo altivo:
      Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças:
      Humana voz. Se baqueou o freixo,
      Deus o mandou; se a flor pendida murcha,
      É que o rocio não desceu de noite,
      E da vida o Senhor lhe nega a vida.

      Ceu livre, terra livre, e livre a mente,
      Paz íntima, e saudade, mas saudade
      Que não doe, que não mirra, e que consola
      São as riquezas do ermo, onde sorriem
      Das procellas do mundo os que o deixaram.

      Ahi, na branda encosta, hontem de noite,
      Alvejava por entre as azinheiras
      Do solitario a habitação tranquilla:
      E eu vagueei por lá: patente estava
      O pobre alvergue do eremita humilde,
      Onde jazia o filho da esperança,
      Sob as azas de Deus, á luz dos astros,
      Em leito, duro sim, não de remorsos,
      Oh, com quanto socego o bom do velho
      Dormia!--A leve aragem lhe ondeava
      As raras cãas na fronte, onde se lia
      A bella historia de passados annos.
      De alto choupo atravez passava um raio
      Da lua--astro de paz, astro que chama
      Os olhos para o ceu, e a Deus a mente--
      E em luz pallida as faces lhe banhava:
      E talvez neste raio o Pae celeste
      Da patria eterna lhe enviava a imagem,
      Que o sorriso dos labios lhe fugia,
      Como se um sonho de ventura e gloria
      Na terra de antemão o consolasse.
      E eu comparei o solitario obscuro
      Ao inquieto filho das cidades;

      Comparei o deserto silencioso
      Ao perpétuo ruido que sussurra
      Pelos palacios do abastado e nobre,
      Pelos paços dos reis; e condoí-me
      Do cortesão suberbo, que só cura
      De honras, haveres, gloria, que se compram
      Com maldicções e perennal remorso.
      Gloria!--A sua qual é?--Pelas campinas,
      Cubertas de cadaveres, regadas
      De negro sangue, elle segou seus louros;
      Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva,
      Ao som do choro da viuva, e do orpham;
      Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
      Os homens--seus irmãos--flagella e opprime.
      Lá o filho do pó se julga um nume,
      Porque a terra o adorou: o desgraçado
      Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
      Nunca se ha-de chegar, para traga-lo,
      Ao banquete da morte, imaginando
      Que uma lagem de marmore, que esconde
      O cadaver do grande, é mais duravel
      Do que esse chão sem inscripção, sem nome,
      Por onde o oppresso, o misero, procura
      O repouso, e se atira aos pés do throno
      Do Omnipotente, a demandar justiça
      Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.


                  X.

      Oh cidade, cidade, que trasbordas
      De vicios, de paixões, e de amarguras!
      Tu lá estás, na tua pompa involta,
      Suberba prostituta, alardeando
      Os theatros, e os paços, e o ruido
      Das carroças dos nobres, recamadas
      De ouro e prata, e os praseres de uma vida
      Tempestuosa, e o tropear contínuo
      Dos férvidos ginetes, que alevantam
      O pó e o lodo cortesão das praças;
      E as gerações corruptas de teus filhos
      Lá se revolvem, qual montão de vermes
      Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
      Branqueado sepulchro, que misturas
      A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,
      Honra, infamia, pudor, e impudicicia,
      Ceu e inferno, que és tu?--Escarneo ou gloria
      Da humanidade?--O que o souber que o diga!

      Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
      A imagem desse povo, que reflue
      Das moradas á rua, á praça, ao templo,
      Que a noite sorve, e que vomita o dia,
      Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
      Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
      Absurdo mixto de baixesa extrema
      E de extrema ousadia; vulto enorme,
      Ora aos pés de um vil despota estendido,
      Ora surgindo, e arremessando ao nada
      As memorias dos seculos que foram;
      E depois sobre o nada adormecendo.

      Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
      Em joelhos, nos atrios dos tyrannos,
      Onde, entre o lampejar de armas de servos,
      O servo popular adora um tigre?
      Esse tigre é o idolo do povo!
      Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe
      O ferreo sceptro: ide folgar em roda
      De cadafalsos, povoados sempre
      De victimas illustres, cujo arranco
      Seja como harmonia, que adormente,
      Em seus terrores, o senhor das turbas.
      Passae depois. Se a mão da Providencia
      Esmigalhou a fronte á tyrannia;
      Se o déspota caíu, e está deitado
      No lodaçal da sua infamia, a turba
      Lá vai buscar o sceptro dos terrores,
      E diz--é meu--; e assenta-se na praça;
      E involta em roto manto, e julga e reina.
      Se um ímpio, então, na affogueada boca
      De volcão popular sacode um facho,
      Eis o incendio que muge, e a lava sobe,
      E referve, e trasborda, e se derrama
      Pelas ruas além: clamor retumba
      De anarchia impudente, e o brilho de armas
      Pelo escuro transluz, como um presagio
      De assolação; e se amontoam vagas
      Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
      Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos,
      Cava fundo da Patria a sepultura,
      Onde, abraçando a gloria do passado
      E do futuro a ultima esperança,
      As esmaga comsigo, e ri morrendo.

      Tal és cidade, licenciosa ou serva!
      Outros louvem teus paços sumptuosos,
      Teu ouro, teu poder:--sentina impura
      Da corrupção, eu não serei teu bardo!


                  XI.

      Cantor da solidão, eu me hei sentado
      Juncto do verde cespede do valle;
      E a paz de Deus do mundo me consola.

      Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo,
      Um pobre conventinho. Homem piedoso
      O alevantou ha seculos, passando,
      Como orvalho do ceu, por este sitio,
      De virtudes depois tão rico e fertil.
      Como um pae de seus filhos rodeado,
      Pelos matos do outeiro o vão cercando
      Os tugurios de humildes eremitas,
      Onde o cilicio e a compuncção apagam
      Da lembrança de Deus passados erros
      Do peccador, que reclinou a fronte
      Penitente no pó. O sacerdote
      Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
      E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
      Do que espirando perdoava, o Justo
      Que entre os humanos não achou piedade.

      Religião! do misero conforto,
      Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
      O longo agonisar de uma saudade,
      Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,
      Tu consolas aquelle, que ouve o verbo,
      Que renovou o corrompido mundo,
      E que mil povos pouco a pouco ouviram.
      Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
      O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
      Da desgraça no dia ajoelharam
      No limiar do solitario templo.
      Ao pé desse portal, que veste o musgo,
      Encontrou-os chorando o sacerdote,
      Que da serra descia á meia-noite,
      Pelo sino das preces convocado:
      Ahi os viu ao despontar do dia,
      Sob os raios do sol, ainda chorando.
      Passados mezes, o burel grosseiro,
      O leito de cortiça, e a fervorosa
      E contínua oração foram cerrando
      Nos corações dos miseros as chagas,
      Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
      Aqui, depois, qual halito suave
      Da primavera, lhes correu a vida,
      Até sumir-se no adro do convento,
      Debaixo de uma lagem tosca e humilde,
      Sem nome, nem palavra, que recorde
      O que a terra abrigou no somno extremo.

      Eremiterio antigo, oh se podesses
      Dos annos que lá vão contar a historia;
      Se ora, á voz do cantor, possivel fosse
      Transsudar desse chão, gelado e mudo,
      O mudo pranto, em noites dolorosas,
      Por naufragos do mundo derramado
      Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis,
      Broncas pedras, fallar, o que dirieis!

      Quantos nomes mimosos da ventura,
      Convertidos em fabula das gentes,
      Despertariam o eccho das montanhas,
      Se aos negros troncos do sobreiro antigo
      Mandasse o Eterno sussurrar a historia
      Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
      Para um leito formar, onde velassem
      Da magoa, ou do remorso as longas noites!
      Aqui veio talvez buscar asylo
      Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
      Despenhado nas trévas do infortunio:
      Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,
      Ou pela morte convertido em cancro
      De infernal desespero: aqui soaram
      Do arrependido os ultimos gemidos,
      Depois da vida derramada em gosos,
      Depois do goso convertido em tedio.
      Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram
      Suas vestes mortaes, nenhum vestigio
      Resta dos nomes seus.--E isso que importa,
      Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes
      Elle contou, para as pagar com gloria?

      Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,
      Que dos montes além conduz ao valle,
      Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
      Como um pharol de vida, em mar de escolhos:
      Ao christão infeliz acolhe no ermo,
      E consolando-o, diz-lhe: a patria tua
      É lá no ceu:--abraça-te comigo:
      Juncto della esses homens, que passaram
      Acurvados na dôr, as mãos ergueram
      Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
      Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
      Vem derramar seu coração afflicto:
      É do deserto a historia a cruz e a campa;
      E sobre tudo o mais pousa o silencio.


                  XII.

      Feliz da terra, os monges não maldigas;
      Do que em Deus confiou não escarneças!--
      Folgando segue a trilha, que ha juncado,
      Para teus pés, de flores a fortuna,
      E sobre a morta crença, em paz descança.
      Que mal te faz, que goso vae roubar-te
      O que ensanguenta os pés nas bravas urzes,
      E sobre a fria pedra encosta a fronte?
      Que mal te faz uma oração erguida,
      Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
      E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
      Oh, não insultes lagryimas alheias,
      E deixa a fé ao que não tem mais nada!...

      E se estes versos te contristam--rasga-os.
      Teus menestreis te venderão seus hymnos,
      Nos banquetes opiparos, em quanto
      O negro pão repartirá comigo,
      Seu trovador, o pobre anachoreta,
      Que não te inveja as ditas, como aos bardos
      Do prazer dissoluto eu não invejo
      Essas crôas, que ás vezes cingem frontes,
      Onde, por baixo, se escreveu--_Infamia!_--



*A Voz.*



A Voz.


         É tão suave ess'hora,
      Em que nos foge o dia,
      E em que suscita a lua
      Das ondas a ardentia;

         Se em alcantís marinhos
      Nas rochas assentado,
      O trovador medita,
      Em sonhos enleiado!

         O mar azul se encrespa
      Co' a vespertina brisa,
      E no casal da serra
      A luz já se divisa.

         E tudo em roda cala,
      Na praia sinuosa,
      Salvo o som do remanso,
      Quebrando em furna algosa.

         Alli folga o poeta
      Nos desvarios seus;
      E nessa paz que o cerca
      Bemdiz a mão de Deus.

         Mas despregou seu grito
      A alcyone gemente,
      E nuvem pequenina
      Ergueu-se no occidente;

         E sóbe, e cresce, e immensa,
      Nos ceus negra fluctua,
      E o vento das procellas
      Já varre a fraga nua.

         Turba-se o vasto oceano,
      Com horrido clamor:
      Do vagalhão nas ribas
      Expira o vão furor.

         E do poeta a fronte
      Cubriu véu de tristesa:
      Partiu-se á luz do raio
      Seu hymno á naturesa.

         Feia alma lhe vagava
      Um negro pensamento,
      Da alcyone ao gemido,
      Ao sibillar do vento.

         Era blasphema idéa,
      Que triumphava em fim:
      Mas voz soou ignota,
      Que lhe dizia assim:

         "Cantor, esse queixume
      Da nuncia das procellas,
      E as nuvens, que te roubam
      Myriadas de estrellas;

         E o fremito dos euros,
      E o estourar da vaga,
      Na praia, que revolve,
      Na rocha, onde se esmaga;

         Onde espalhava a brisa
      Sussurro harmonioso,
      Em quanto do ether puro
      Descia o sol radioso,

         Typo da vida do homem,
      É do universo a vida;
      Depois do afan repouso,
      Depois da paz a lida.

         Se ergueste a Deus um hymno
      Em dia de amargura;
      Se te amostraste grato
      Nos dias de ventura,

         Seu nome não maldigas,
      Quando se turba o mar:
      No Deus, que é pae, confia,
      Do raio ao scintilar.

         Elle o mandou:--a causa
      Disso o universo ignora--
      E mudo está:--seu nume,
      Como o universo, adora!"

     *     *     *     *     *

         Oh sim: torva blasphemia
      Não manchará seu canto!
      Brama procella embora;
      Pese sobre elle o espanto;

         Que de su' harpa os hymnos
      Derramará o bardo,
      Aos pés de Deus, qual oleo
      De recendente nardo.

_Leça da Palmeira 1835_



*A Victoria e a Piedade.*



A Victoria e a Piedade.


      Eu nunca fiz soar meu canto humilde
              Nos paços dos senhores:
      Eu jámais consagrei hymno mentido
              Da terra aos oppressores.
      Mal haja o trovador que vae sentar-se
              Á porta do abastado,
      O qual com ouro paga a alhêa infamia,
              O cantico aviltado.
      O filho das canções, da gloria o bardo
              Não manchou o alaude;
      O ingenho seu ha consagrado á Patria;
              Seu canto é da virtude.
      Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste
              Nos dias de afflicção,
      Qual solto vento em areal deserto,
              Livres teus cantos são.
      No despontar da vida, do infortunio
              Murchou-me o sopro ardente:
      Pela terra natal, na flor dos dias,
              Eu suspirei ausente.
      O solo do desterro, ah, quanto ingrato
              É para o foragido;
      Ennevoado o ceu; arido o prado;
              O rio adormecido!
      Eu lá chorei, na idade da esperança,
              Da patria a dura sorte:
      Esta alma encaneceu;--e antes de tempo
              Ergueu hymnos á morte.
      E que infeliz ha hi, a quem não ria
              Da sepultura a imagem?
      Alli é que se afferra o porto amigo,
              Depois de ardua viagem.

      Mas, quando o pranto me queimava as faces,
              O pranto da saudade,
      Deus escutou dos profugos as preces,
              Teve de nós piedade.
      Armas!--bradaram do desterro os filhos:
              Bem-disse-os o Senhor:
      E vencer ou morrer juncto com elles
              Jurou o trovador.
      Pelas vagas do mar correndo affoutos,
              Á gloria nos votámos;
      E, nos campos nataes, pendão invicto
              Os livres, nós, plantámos.
      Fanatismo, ignorancia, odio fraterno;
              De fogo céus toldados;
      A fome, a peste, o mar avaro, as hostes
              De innumeros soldados;
      Um futuro sem raio de esperança;
              Ouvir o vão lamento
      De infante, a vida incerta conduzido
              Por mão do soffrimento;
      Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo
              Em regelado inverno;
      Eis contra o que, por mezes de amargura,
              Nos fez luctar o inferno.
      Mas constancia e valor tudo ha vencido:
              Ganhou-se eterna gloria;
      E dos tyrannos apesar, colhemos
              Os louros da victoria.

      Teça-se, pois, o cantico subido
              Aos fortes vencedores.
      Livres somos!--Sumiram-se qual fumo
              Da Patria os oppressores.
      Sobre essa encosta, sobranceira aos campos,
              De sangue ainda impuros,
      Onde o canhão troou, por mais de um anno,
              Contra invenciveis muros,
      Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
              Pedir inspirações
      A amiga noite, o genio que me ensina
              Suavissimas canções.

      Reina em silencio a lua, o mar não brame,
              Os ventos nem bafejam.....
      Mas que ossadas são estas, que na encosta,
              Aqui e alli, alvejam?
      Esses?--São ossos vís, que não resguarda
              O sussurrar da gloria;
      Herdeiros só das maldicções das gentes,
              Das maldicções da historia:
      São os restos dos homens, que luctaram,
              Valentes no seu crime,
      Contra nós, contra a mão da Providencia,
              Que os maus derruba e opprime.
      Mas quem porá padrão que aos evos conte,
              Seus feitos derradeiros!
      Quem dirá--aqui dormem portuguezes;
              Aqui dormem guerreiros--?
      Quem virá na alta noite erguer por elles
              Resas de salvação?
      Quem ousará pedir para o vencido
              Um ai de compaixão?
      Virão, acaso, alevantar seus filhos
              O pranto solitario,
      Pelo que lhes legou de avós o nome
              Involto em vil sudario?
      Será a esposa, que lhes cubra as cinzas
              Com oração piedosa?
      Não!--nenhuma ousará dizer, chorando,
              Eu fui do escravo esposa.
      Será a amante?--Em tremedaes a pura
              Rosa nascer não sabe:
      A mais bella paixão não é de servos;
              Vil goso só lhes cabe.
      De mãe o amor tentára, unicamente,
              Sobre os corpos gelados,
      Vir chorar a esperança, em flor colhida,
              De seus annos cansados:
      Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito
              Do rude velador;
      Da noite os medos; de armas, já sem donos,
              Nas trévas o esplendor.

      Quem, pois, consolará gementes sombras,
              Que ondeam juncto a mim?
      Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
              Seu perdão de Elohim?
      Eu:--o christão:--o trovador do exilio,
              Contrario em guerra crua,
      Mas que não sei cuspir o fel da affronta
              Sobre uma ossada nua.
      O misero pastor desceu dos montes,
              Abandonando o gado,
      Para as armas vestir, dos céus em nome,
              Por phariseus chamado.
      De um Deus de paz hypocritas ministros
              Os tristes enganaram:
      Foram elles, não nós, que estas caveiras
              Aos vermes consagraram.
      Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
              Que do Senhor no templo,
      A virtude insultando, ao crime incitas,
              Dás do furor o exemplo!
      Sobre os restos da Patria, tu bem creste
              Folgar de nosso mal,
      E, sobre as cinzas de cidade illustre,
              Soltar riso infernal.
      Tu, no teu coração insipiente,
              Disseste--Deus não ha!--
      Elle existe, malvado!--e nós vencemos:
              Treme.... que tempo é já.
      Mas esses, cujos ossos espalhados
              No campo da peleja
      Jazem, exoram a piedade nossa;
              Piedoso o livre seja!
      Eu pedirei a paz dos inimigos,
              Mortos como valentes,
      Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
              Culpados de innocentes.
      Perdoou, expirando, o Filho do Homem
              Aos seus perseguidores:
      Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes!
              Perdão--oh vencedores!
      Não insulteis o morto. Elle ha comprado
              Bem caro o esquecimento,
      Vencido adormecendo em morte ignobil,
              Sem dobre ou monumento.
      Que resta aos desditosos?--Somno eterno,
              Da Patria a maldicção,
      A justiça de Deus, tremenda, ignota,
              E a humana execração.
      Mas nós, saibamos esquecer os odios
              De guerra lamentavel;
      É generoso o forte, e deixa ao fraco
              O ser inexoravel.
      Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
              No seio agasalhou!
      Elle é mudo:--pedi-lo já não póde;
              O da-lo a nós deixou.
      Da lei a espada puna o criminoso,
              Que vê a luz dos céus:
      O que legou á terra o pó da terra,
              Julga-lo cabe a Deus.
      E vós, meus companheiros, que não vistes
              Nossa inteira victoria,
      Não precisaes do trovador o canto;
              Vosso nome é da historia.
      Eu do vencido consolei a sombra;
              Eu perdoei por vós.
      Filhos da infamia os desgraçados eram;
              Ricos de gloria nós.

_Porto--Agosto de 1833_


NOTA.

Este fragmento, que segue, e que servirá para intelligencia dos precedentes
versos, pertence a um livro já todo escripto no entendimento, mas de que só
alguns capitulos estão trasladados ao papel. A guerra da restauração de
1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo.
Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de
_D. Branca_, do _Camões_, de _João Minimo_; o Sr. Lopes de Lima, e outros:
mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de
bronze, os sete mil de Mindello não tiveram um cantor; e apenas eu, o mais
obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de
tanta riquesa poetica. Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca
valia, não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos
nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais
é que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de
regra, tanto como poesia de politicos.

            _Fragmento._

O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr
ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do
fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu
clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos
feridos, o som das armas caindo-lhes das mãos, o gemido doloroso e longo da
sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os
dentes me rangeram de cólera, e a lagryma envergonhada de soldado me
escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes
cairam nesse dia! Eu ia amaldiçoar os cadaveres dos vencidos, que ainda por
ahi jaziam; porém pareceu-me que elles se alevantavam e me
diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos
vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de
expirarem, as idéas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma só, como
tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os
umbraes do outro mundo. Então oreí a Deus por elles: antes de irmão de
armas eu tinha sido christão; e Jesu-Christo perdoára, entre as affrontas
da Cruz, aos seus assassinos. A idéa de perdão parecia me consolava da
perda de tantos e tão valentes amigos. Havia nessa idéa torrentes de
poesia; e eu te devi então, oh crença do Evangelho, talvez a melhor das
minhas pobres canções.

(_Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap...._)



A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.


TERCEIRA SERIE.


LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n.º 55._



*Deus.*



Deus.


      Nas horas do silencio--á meia-noite--
              Eu louvarei o Eterno!
      Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
              E os abysmos do inferno.
      Pela amplidão dos céus meus cantos soem,
              E a lua prateada
      Pare no gyro seu, em quanto pulso
              Esta harpa, a Deus sagrada.

      Antes de tempo haver, quando o infinito
              Media a eternidade,
      E só do vacuo as solidões enchia
              De Deus a immensidade,
      Elle existiu--em sua essencia involto;
              E, fóra delle, o nada:
      No seio do Creador a vida do homem
              Estava ainda guardada:
      Ainda então do mundo os fundamentos
              Na mente se escondiam
      Do Omnipotente, e os astros fulgurantes
              Nos céus não se volviam.

      Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
              Das mãos sáe do Senhor:
      Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
              Uma primeira flor:
      Sobre o invisivel eixo range o globo:
              O vento o bosque ondêa:
      Retumba ao longe o mar: da vida a força
              A naturesa ancêa!

      Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
              Ou cantar teu poder?
      Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
              Fonte de todo o ser,
      No dia da creação; quando os thesouros
              Da neve amontoaste;
      Quando da terra nos mais fundos valles
              As aguas encerraste?!

      E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
              Com dextra poderosa,
      Fez, por lei immutavel, se librassem
              Na mole ponderosa?
      Onde existia então? No typo immenso
              Das gerações futuras;
      Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
              Na terra e nas alturas!

      Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
              Do raio, e do trovão!
      Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
              Da tarde a viração!
      Por sua Providencia nunca, embalde,
              Zumbiu minimo insecto;
      Nem volveu o elephante, em campo esteril,
              Os olhos, inquieto.
      Não deu Elle á avezinha o grão da espiga,
              Que ao ceifador esquece;
      Do norte ao urso o sol da primavera,
              Que o reanima e aquece?
      Não deu Elle á gazella amplos desertos,
              Ao cervo o bosque ameno,
      Ao flamingo os paues, ao tigre um antro,
              No prado ao touro o feno!
      Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
              Consolação e luz?
      Acaso, em vão, algum desventurado
              Curvou-se aos pés da cruz?
      A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio,
              No dia da afflicção,
      Quando pesa sobre elle, por seus crimes,
              Do crime a punição.

      Homem, ente immortal, que és tu perante
              A face do Senhor?
      És a junça do brejo, harpa quebrada
              Nas mãos do trovador!
      Olha o negro pinheiro, campeando
              Dos Alpes entre a neve:
      Quem arranca-lo de seu throno ousára,
              Quem destruir-lhe a seve?
      Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
              Extremo Deus mandou!
      Lá correu o aquilão: fundas raizes
              Aos ares lhe assoprou.
      Suberbo, sem temor, saíu na margem
              Do caudaloso Nilo,
      O corpo monstruoso ao sol voltando,
              Medonho crocodilo.
      De seus dentes em roda o susto móra:
              Vê-se a morte assentada
      Dentro em sua garganta, se descerra
              A boca affogueada.
      Qual duro arnez de intrepido guerreiro
              É seu dorso escamoso;
      Como os ultimos ais de um moribundo
              Seu grito lamentoso:
      Fumo e fogo respira quando irado:--
              Porém, se Deus mandou,
      Qual do norte impellida a nuvem passa,
              Assim elle passou!

      Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
              Perdoa ao teu cantor!
      Dignos de ti não são meus frouxos cantos;
              Mas são cantos de amor.
      Embora vís hypocritas te pintem
              Qual barbaro tyranno;
      Mentem, por dominar, com ferreo sceptro,
              O vulgo cego e insano.
      Quem os crê é um ímpio!--Arrecear-te
              É maldizer-te, oh Deus:
      É o throno dos despotas da terra
              Ir collocar nos céus.
      Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
              Dos males da existencia
      Tranquillo, e sem terror, á sombra posto
              Da tua Providencia.

_Plymouth--Setembro de 1831._



*A Tempestade.*


A ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO.


            _Alma affinada pelas harpas de anjos;
            Rei das canções--entenderás meu hymno!_


                                          O Auctor.



A Tempestade.


      Sibilla o vento:--os torreões de nuvens
              Pesam nos densos ares:
      Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
              Pela extensão dos mares:
      A immensa vaga ao longe vem correndo,
              Em seu terror involta;
      E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
              A tompestade sólta.
      Do sol, no occaso, um raio derradeiro,
              Que, apenas fulge, morre,
      Escapa á nuvem, que, appressada e espessa,
              Para apaga-lo corre.
      Tal nos affaga em sonhos a esperança,
              Ao despontar do dia,
      Mas, no acordar, lá vem a consciencia
              Dizer que ella mentia.

      As ondas negro-azues se conglobaram;
              Serras tornadas são,
      Contra as quaes outras serras, que se arqueam,
              Bater, partir-se vão.

      Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume,
              Da naturesa açoite!
      Tu guias os bulcões, do mar princesa;
              E é teu vestido a noite!
      Quando no pinheiral, entre o granizo,
              Ao sussurrar das ramas,
      Vibrando sustos, pavorosa ruges,
              E assolação derramas,
      Quem porfiar comtigo, então, ousara
              Da gloria e poderio;
      Tu que fazes gemer pendido o cedro,
              Turbar-se o claro rio?

      Quem me dera ser tu, por balouçar-me
              Das nuvens nos castellos,
      E vêr dos ferros meus, em fim, quebrados
              Os rebatidos élos!
      Eu rodeára, então, o globo inteiro:
              Eu sublevára as aguas:
      Eu dos volcões, com raios accendêra
              Amortecidas fráguas:
      Do robusto carvalho e sobro antigo
              Accurvaria as frontes;
      Com furacões, os areaes da Lybia
              Converteria em montes:
      Pelo fulgor da lua, lá do norte
              No polo me assentára,
      E víra prolongar-se o gelo eterno,
              Que o tempo amontoára.
      Alli eu solitario, eu rei da morte,
              Erguêra meu clamor,
      E dissera: sou livre, e tenho imperio:
              Aqui, sou eu senhor!

      Quem se poderá erguer, como estas vagas,
              Em turbilhões incertos;
      E correr, e correr--troando ao longe--
              Nos liquidos desertos!
      Mas entre membros de lodoso barro
              A mente presa está!....
      Ergue-se em vão aos céus:--precipitada,
              Rapido, em baixo dá.

      Oh morte!--amiga morte!--é sobre as vagas,
              Entre escarceus erguidos,
      Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
              Meus dias aborridos:
      Quebra duras prisões, que a naturesa
              Lançou a esta alma ardente;
      Que ella possa voar, por entre os orbes,
              Aos pés do Omnipotente:
      Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
              Desça, e estourando a esmague;
      E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
              Solta, sem rumo vague!

      Porém, não!--Dormir deixa os que me cercam
              O somno do existir:
      Deixa-os; vãos sonhadores de esperanças
              Nas trévas do porvir.
      Dôce mãe do repouso--extremo abrigo
              De um coração oppresso--
      Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
              Negas no seio accesso,
      Não despertes--oh não--os que abominam
              Teu amoroso aspeito;
      Febricitantes, que se abraçam, loucos,
              Com seu dorido leito!
      Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,
              Calumniada morte;
      Tu, que entre os braços teus lhe dás azilo
              Contra o furor da sorte;
      Tu que esperas ás portas dos senhores;
              Do servo ao limiar;
      E eterna corres, peregrina, a terra,
              E as solidões do mar,
      Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
              Já filhos teus nasceram:
      Um dia acordarão desses delirios,
              Que tão gratos lhes eram.
      E eu, que vélo na vida,--e já não sonho,
              Nem gloria, nem ventura;
      Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes,
              O calis da amargura;
      Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
              De quanto ha vil no mundo,
      Morrer sentindo inspirações de bardo,
              Do coração no fundo;
      Sem achar sobre a terra uma harmonia
              De alma, que a minha entenda;
      Porque seguir, curvado ante a desgraça,
              Esta espinhosa senda?

      Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa
              Fragor da tempestade;
      Psalmo de mortos, que retumba ao longe;
              Grito da eternidade!....

      Pensamento infernal!--Fugir cobarde
              Ante o destino iroso?
      Lançar-me, involto em maldicções celestes,
              No abysmo tormentoso?
      Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me
              Nas lagrymas da terra;
      Guardarei minha estancia attribulada,
              Com meu desejo em guerra.
      O fiel guardador terá seu premio,
              O seu repouso, em fim;
      E atalaiar o sol de um dia extremo
              Virá outro apoz mim.
      Herdarei o morrer!--Como é suave
              Benção de pae querido,
      Será o despertar; vêr meu cadaver,
              Vêr o grilhão partido.

      Um consolo, entretanto, resta ainda
              Ao pobre velador:
      Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
              Doce amisade e amor.
      Tudo o mais é Sepulchro, branqueado
              Por embusteira mão;
      Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
              Remorso ao coração.
      Passarei minha noite a luz tão meiga,
              Até o amanhecer;
      Até que suba á patria do repouso,
              Onde não ha morrer.

_A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Março de 1853._



*O Soldado.*



O Soldado.


            I.

      Veia tranquilla e pura
      Do meu paterno rio:
      Dos campos, que elle rega,
      Mansissimo armentio:

      Rocío matutino:
      Prados tao deleitosos:
      Valles, que assombram selvas
      De sinceiraes frondosos:

      Terra da minha infancia:
      Tecto de meus maiores:
      Meu breve jardimzinho:
      Minhas pendidas flores:

      Harmonioso e sancto
      Sino do presbyterio:
      Cruzeiro venerando
      Do humilde cemiterio,

      Onde os avós dormiram,
      E dormirão os paes;
      Onde eu talvez não durma,
      Nem rese, talvez, mais:

      Eu vos saúdo!--E o longo
      Suspiro amargurado
      Vos mando.--É quanto póde
      Mandar pobre soldado.

      Sobre as cavadas ondas
      Dos mares procellosos,
      Por vós já fiz soar
      Meus cantos dolorosos.

      Na proa resonante
      Eu me assentava mudo,
      E aspirava ancioso
      O vento frio e agudo;

      Porque em meu sangue ardia
      A febre da saudade,
      Febre que só minora
      Sopro de tempestade;

      Mas que se irrita, e cresce,
      Quando é tranquillo o mar;
      Quando da Patria o céu
      Céu puro vem lembrar,

      Quando, lá no occidente,
      A nuvem vaporosa
      A frouxa luz da tarde
      Tinge de côr de rosa;

      Quando, qual globo em brasa,
      O sol vermelho crece,
      E paira sobre as aguas,
      E em fim desapparece;

      Quando no mar se estende
      Manto de negro dó;
      Quando ao quebrar do vento,
      Noite e silencio é só;

      Quando sussurram meigas
      Ondas que a nau separa,
      E a rapida ardentia
      Em torno a sombra aclara.


            II.

      Eu já ouvi, de noite,
      No pinheiral fechado,
      Um fremito soturno
      Passando o vento irado:

      Assim o murmurio
      Do mar, fervendo á prôa,
      Com o gemer do afflicto,
      Sumido, accorde soa:

      E o scintillar das aguas
      Gera amargura e dôr,
      Qual lampada, que pende
      No templo do Senhor,

      Lá pela madrugada,
      Se o oleo lhe escacêa,
      E a espaços expirando,
      Affrouxa e bruxulêa.


            III.

      Bem abundante messe
      De pranto, e de saudade,
      O foragido errante
      Colhe na soledade!

      Para o que a patria perde
      É o universo mudo;
      Nada lhe ri na vida;
      Móra o fastio em tudo;

      No meio das procellas;
      Na calma do oceano;
      No sopro do galerno,
      Que enfuna o largo panno;

      E no entestar co'a terra
      Por abrigado esteiro;
      E no pousar á sombra
      Do tecto do estrangeiro.

      E essas memorias tristes
      Minha alma laceraram;
      E a senda da existencia
      Bem agra me tornaram:

      Porém nem sempre ferreo
      Foi meu destino escuro;
      Sulcou de luz um raio
      As trévas do futuro:

      Do meu paiz querido
      A praia ainda beijei;
      E o velho castanheiro
      No valle ainda abracei!

      Nesta alma regelada
      Surgiu ainda o goso;
      E um sonho lhe sorriu
      Fugaz, mas amoroso.

      Oh, foi sonho da infancia
      Desse momento o sonho!
      Paz e esperança vinham
      Ao coração tristonho.

      Mas o sonhar que monta
      Se passa, e não conforta?
      Minh'alma deu em terra,
      Como se fosse morta,

      Foi a esperança nuvem,
      Que o vento some á tarde.
      Facho de guerra acceso
      Em labaredas arde!

      Do fratricidio a luva
      Irmão a irmão lançára;
      E o grito: _ai do vencido!_
      Nos montes retumbára.

      As armas se hão cruzado:
      O pó mordeu o forte:
      Caiu: dorme tranquillo:
      Deu-lhe repouso a morte.

      Ao menos, nestes campos
      Sepulchro conquistou;
      E o adro do estrangeiro
      Seus ossos não tragou.

      Elle herdará, ao menos,
      Aos seus honrado nome:
      Paga de curta vida
      Ser-lhe-ha largo renome.


            IV.

      E a balla sibillando,
      E o trom da artilharia,
      E a tuba clamorosa,
      Que os peitos accendia;

      E as ameaças torvas,
      E os gritos de furor,
      E desses, que expiravam,
      Som cavo de estertor;

      E as pragas do vencido,
      Do vencedor o insulto,
      E a palidez do morto,
      Nu, sanguento, insepulto,

      Eram um cháos de dores,
      Em convulsão horrivel,
      Sonho de accesa febre,
      Scena tremenda e incrivel!

      E suspirei:--nos olhos
      Me borbulhava o pranto;
      E a dor, que trasbordava,
      Pediu-me infernal canto.

      Oh, sim!--maldisse o instante,
      Em que buscar viera,
      Por entre as tempestades,
      A terra em que nascêra.

      Que é, em fraternas lides,
      Um canto de victoria?
      É um prazer mesquinho;
      É triumphar sem gloria.

      Maldicto era o triumpho,
      Que rodeava o horror,
      Que me tingia tudo
      De sanguinosa côr!

      Então olhei saudoso
      Para o sonoro mar;
      Da nau do vagabundo
      Meigo me riu o arfar.

      De desespero um brado
      Soltou, impio, o poeta.
      Perdão!--chegára o misero
      Da desventura á meta.


            V.

      Terra infame!--de servos aprisco,
      Mais chamar-me teu filho não sei:
      Desterrado, mendigo serei;
      De outra terra meus ossos serão!

      Mas a escravo, que pugna por ferros,
      Que herdará só maldicta memoria,
      Renegando da terra sem gloria,
      Nunca mais darei nome de irmão!

      Largo o mundo ahi 'stá ante o livre;
      Que este mundo é a patria do forte:
      Sobre os plainos gelados do norte,
      Luz do sol tambem mana do céu:

      Tambem lá se erguem montes, e o prado
      De boninas, em maio, se veste;
      Tambem lá se menêa um cypreste
      Sobre o corpo que á terra desceu!

      Que me importa o carvalho da encosta?
      Que me importa da fonte o ruido?
      Que me importa o saudoso gemido
      Da rollinha sedenta de amor?

      Que me importam outeiros cubertos
      Da verdura da vinha, no estio?
      Que me importa o remanso do rio,
      E, na calma, da selva o frescor?

      Que me importa o perfume dos campos,
      Quando passa de tarde a bafagem,
      Que se embebe, na sua passagem,
      Na fragrancia da flor do alecrim?

      Que me importa? Pergunta do inferno!
      É meu berço!--A minh'alma está lá!
      Que me importa?.... esta boca o dirá?!
      Maldicção, maldicção sobre mim!

      Combatamos!--O ferro se cruze,
      Assobie o pelouro nos ares;
      Estes campos convertam-se em mares,
      Onde o sangue se possa beber!

      Larga a valla!--que, apoz a peleja,
      Nós e elles seremos unidos!
      Lá, vingados, e do odio esquecidos,
      Paz faremos.... depois do morrer!


            VI.

      Assim, entre amarguras,
      Me delirava a mente!--
      E o sol ía fugindo
      No termo do occidente.

      E os fortes lá jaziam
      Co'a face ao céu voltada;
      Sorria a noite aos mortos,
      Passando socegada.

      Porém, a noite delles
      Não era a que passava!
      Na eternidade a sua
      Corria, e não findava.

      Contrarios ainda ha pouco,
      Irmãos em fim lá eram!
      O seu thesouro de odio,
      Mordendo o pó, cederam.

      No limiar da morte,
      Assim tudo fenece!
      Inimisades callam,
      E até o amor esquece!

      Meus dias rodeados
      Foram de amor outr'ora;
      E nem um vão suspiro
      Terei, morrendo, agora:

      Nem o apertar da dextra
      Ao desprender da vida:
      Nem lagryma fraterna
      Sobre a feral jazida.

      Meu derradeiro alento
      Não colherão os meus?
      Por minha alma atterrada
      Quem pedirá a Deus?

      Ninguem!--Aos pés o servo
      Meus restos calcará;
      E o riso do despreso
      Vaidoso soltará.

      O sino luctuoso,
      Não lembrará meu fim:
      Preces, que o morto affagam,
      Não se erguerão por mim!

      O filho dos desertos,
      O lobo carniceiro
      Ha-de escutar alegre
      Meu grito derradeiro!

      Oh morte!--o somno teu
      Só é somno mais largo:
      Porém, na juventude,
      É o dormi-lo amargo.

      Quando na vida nasce
      Essa mimosa flor,
      Como a cecem suave,
      Delicioso amor:

      Quando a mente accendida
      Crê na ventura e gloria:
      Quando o presente é tudo,
      É inda nada a memoria;

      Deixar a cara vida,
      Então, é doloroso;
      E o moribundo á terra
      Lança um olhar saudoso.

      A taça da existencia
      No fundo fezes tem;
      Mas os primeiros tragos
      Doces--bem doces--vem.

      E eu morrerei agora,
      Sem abraçar os meus,
      Sem jubiloso um hymno
      Alevantar aos céus?

      Morrer!--E isso que importa?
      Final suspiro, ouvi-lo
      Ha-de a patria. Na terra
      Eu dormirei tranquillo.

      Dormir?--Só dorme o frio
      Cadaver, que não sente;
      A alma vôa, e se abriga
      Aos pés do Omnipotente.

      Tambem eu para o throno
      Accorrerei do Eterno:
      Crimes não são meu dote;
      Erros não pune o inferno.

      E vós entes queridos,
      Entes que tanto amei,
      Dando-vos liberdade
      Contente acabarei.

      Por mim livres chorar
      Vós podereis um dia,
      E ás cinzas do soldado
      Erguer memoria pia.

_Porto--Julho de 1832._



*D. Pedro.*



D. Pedro.


      Pela encosta do Libano, rugindo,
              O nóto furioso
      Passou um dia, arremessando á terra
              O cedro mais frondoso;
      Assim te sacudiu da morte o sopro
              Do carro da victoria,
      Quando, ebrio de esperanças, tu sorrias,
              Filho caro da gloria.
      Se, depois de procella em mar de escolhos,
              A combatida nave
      Vê terra e o vento abranda, o porto aferra,
              Com jubilo suave.
      Tambem tu demandaste o céu sereno,
              Depois de uma ardua lida:
      Deus te chamou:--o premio recebeste
              Dos meritos da vida.
      Que é esta? Um ermo de espinhaes cortado,
              D'onde foge o prazer:
      Para o justo ella existe além da campa:
              Teme o ímpio o morrer.

      Plante-se a acacia, o symbolo do livre,
              Juncto ás cinzas do forte:
      Elle foi rei--e combateu tyrannos--
              Chorae, chorae-lhe a morte!
      Regada pelas lagrymas de um povo,
              A planta crescerá;
      E á sombra della a fronte do guerreiro
              Placida pousará.
      Essa fronte das ballas respeitada,
              Agora a traga o pó:
      Do valente, do bom, do nosso Amigo
              Restam memorias só;
      Mas estas, entre nós, com a saudade
              Perennes viverão,
      Em quanto, á voz de patria e liberdade,
              Ancear um coração.
      Nas orgias de Roma, a prostituta,
              Folga, vil oppressor:
      Folga com os hypocritas do Tibre;
              Morreu teu vencedor.
      Involto em maldicções, em susto, em crimes
              Fugiste, desgraçado:
      Elle, subindo ao céu, ouviu só queixas,
              E um choro não comprado:
      Encostado na borda do sepulchro,
              O olhar atraz volveu,
      As suas obras contemplou passadas,
              E em paz adormeceu:
      Os teus dias tambem serão contados,
              Covarde foragido;
      Mas será de remorso tardo e inutil
              Teu ultimo gemido:
      Do passamento o calis lhe adoçaram
              Uma filha, uma esposa:
      Quem, tigre cru, te cercará o leito,
              N'essa hora pavorosa?
      Deus, tu és bom:--e o virtuoso em breve
              Chamas ao goso eterno,
      E o ímpio deixas saciar de crimes,
              Para o sumir no inferno?
      Alma gentil, que assim nos has deixado,
              Entregues á alta dôr,
      Anjo das préces nos serás, perante
              O throno do Senhor:
      E quando, cá na terra, o poderoso
              As Leis aos pés calcar,
      Juncto do teu sepulchro irá o oppresso
              Seus males deplorar;
      Assim, no Oriente, de Alboquerque ás cinzas
              O desvalido indiano
      Mais de uma vez foi demandar vingança
              De um despota inhumano.

      Mas quem ousára á patria tua e nossa
              Curvar nobre cerviz?
      Quem roubará ao lusitano povo
              Um povo ser feliz?

      Ninguem! Por tua gloria os teus soldados
              Juram livres viver.
      Ai do tyranno que primeiro ousasse
              Do voto escarnecer!
      N'esse abraço final, que nos legaste,
              Legaste o genio teu:
      Aqui--no coração--nós o guardámos;
              Teu genio não morreu.
      Jaz em paz: essa terra, que te esconde,
              O monstro abominado
      Só pisará ao baquear sobre ella
              Teu ultimo soldado.

      Eu tambem combati:--nas patrias lides
              Tambem colhi um louro:
      O prantear o Companheiro extincto
              Não me será desdouro.
      Para o Sol do Oriente outros se voltem,
              Calor e luz buscando:
      Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso,
              Cá ficarei chorando.

_Porto--Novembro de 1834._





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Harpa do Crente - Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta" ***

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