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Title: Poesias
Author: Herculano, Alexandre, 1810-1877
Language: Portuguese
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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



POESIAS



IMPRENSA NACIONAL



POESIAS

POR

A. HERCULANO


SEGUNDA EDIÇÃO



LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS
AOS MARTYRES, N.^o 73
M DCCC LX



LIVRO PRIMEIRO

A HARPA DO CRENTE.



A SEMANA SANCTA.


    Der Gedanke Gott weckt einen furchlerlichen Nachbar auf. Sein Name
    heisst Richter.

                                                          Schiller.


I.

Tibio o sol entre as nuvens do occidente,
Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
Vai a hora da tarde!--O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que á voz da primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o atrio
Ponteagudo do templo, edificado
Por mãos duras de avós, em monumento
De uma herança de fé, que nos legaram,
A nós seus netos, homens de alto esforço,
Que nos rimos da herança, e que insultamos
A cruz e o templo e a crença de outras eras;
Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
Que sabemos tão bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Patria
E a liberdade, e o combater por ella.

Eu não!--eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os despotas maldigo.--Entendimento
Bronco, lançado em seculo fundido
Na servidão de goso ataviada,
Creio que Deus é Deus e os homens livres!


II.

Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
Irei pedir aos tumulos dos velhos
Religioso enthusiasmo, e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entenderão; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
Em que vim peregrino a ver o mundo.
E chegar a meu termo, e reclinar-me
Á branda sombra de cypreste amigo.


III.

Passa o vento os do portico da igreja
Esculpidos umbraes: correndo as naves
Sussurrou, sussurrou entre as columnas
De gothico lavor: no orgam do côro
Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.


IV.

Mas porque sôa o vento?--Está deserto,
Silencioso ainda o sacro templo:
Nenhuma voz humana ainda recorda
Os hymnos do Senhor. A natureza
Foi a primeira em celebrar seu nome
Neste dia de lucto e de saudade!
Trévas da quarta feira eu vos saúdo!
Negras paredes, mudos monumentos
De todas essas orações de mágua,
De gratidão, de susto ou de esperança,
Depositadas ante vós nos dias
De fervorosa crença, a vós que enlucta
A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.
A loucura da cruz não morreu toda
Após dezoito seculos!--Quem chore
Do soffrimento o Heroe existe ainda.
Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.


V.

Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,
D'onde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador á mente arrojas
Quanto ha nos céus esperançoso e bello,
Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,
Quanto ha nos mares magestoso e vago,
Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o genio,
Que dêm vida e vigor a um carme pio.


VI.

A noite escura desce: o sol de todo
Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
Dos brandões o clarão, fulgura ao longe
No cruzeiro sómente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
Á morada de Deus, a ouvir queixumes
Do vate de Sião. Em breve os monges,
Suspirosas canções aos céus erguendo,
Sua voz unirão á voz desse orgam,
E os sons e os ecchos reboarão no templo.
Mudo o côro depois, neste recincto
Dentro em bem pouco reinará silencio,
O silencio dos tumulos, e as trévas
Cubrirão por esta área a luz escaça
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.

Imagem da existencia!--Em quanto passam
Os dias infantis, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são debeis todas.
Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai com rouco estridor no antro da morte,
Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dous, e não mais: as cans e rugas,
Logo, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,
Murmurou, esqueceu, passou no espaço.

E a casa do Senhor ergueu-se.--O ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme
Pulído alveja alli no espesso panno
Do muro colossal, que éra após éra,
Como onda e onda ao desdobrar na areia,
Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.
O ulmo e o choupo no cahir rangeram
Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
Lá no cimo pousou: restruge ao longe
De martellos fragor, e eis ergue o templo,
Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento
Se esvái, como da cerva a leve pista
No pó se apaga ao respirar da tarde,
Do seio dessa terra, em que és estranho,
Sair fazes as moles seculares,
Que por ti, morto, falem; dás na idéa
Eterna duração ás obras tuas.
Tua alma é immortal, e a prova a déste!


VII.

Anoiteceu.--Nos claustros resoando
As pisadas dos monges ouço: eis entram;
Eis se curvaram para o chão, beijando
O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!
Igual vos cubrirá a cinza um dia,
Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia
Mais, se do justo só a herança fòra;
Mas tambem ao malvado é dada a campa.

E o criminoso dormirá quieto
Entre os bons sotterrado?--Oh não! Em quanto
No templo ondeiam silenciosas turbas,
Exultarão do abysmo os moradores,
Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,
Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
Vendo o que julga que orações apagam
Vicios e crimes, e o motejo e o riso
Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
Vendo os que nunca ao infeliz disseram
De consolo palavra ou de esperança.
Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes
Os frios restos que separa a terra,
Um punhado de terra, a qual os ossos
Destes ha-de cubrir em tempo breve,
Como cubriu os seus; qual vai sumindo
No segredo da campa a humana raça.


VIII.

Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos
Do templo na amplidão: só lá no escuro
De afumada capella o justo as preces
Ergue pio ao Senhor, as preces puras
De um coração que espera, e não mentidas
De labios de impostor, que engana os homens
Com seu meneio hypocrita, calando
Na alma lodosa da blasphemia o grito.
Então exultarão os bons, e o í­mpio,
Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,
Da voz, do respirar o som confuso
Vem confundir-se no ferver das praças,
E pela galilé só ruge o vento.

Em trévas não ficou silenciosas
O sagrado recincto: os candieiros,
No gelado ambiente ardendo a custo,
Espalham debeis raios, que reflectem
Das pedras pela alvura; o negro mocho,
Companheiro do morto, horrido pio
Solta lá da cornija: pelas fendas
Dos sepulchros deslisa fumo espesso;
Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo
Suspirar não se ouviu?--Olhae! lá se erguem.
Sacudindo o sudario, em peso os mortos!

Mortos, quem vos chamou? O som da tuba
Ainda do Josaphat não fere os valles.
Dormí, dormí: deixae passar as eras...


IX.

Mas foi uma visão: foi como scena
D'imaginar febril. Creou-se, acaso,
Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
A mão de Deus o íntimo ver da alma,
Que devassa a existencia mysteriosa
Do mundo dos espiritos? Quem sabe?
Dos vivos ja deserta, a igreja torva
Repovoou-se, para mim ao menos,
Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras
Leito commum na somnolencia extrema
Buscaram. O terror, que arreda o homem
Do limiar do templo ás horas mortas,
Não vem de crença van. Se fulgem astros,
Se a luz da lua estira a sombra eterna
Da cruz gigante (que campeia erguida
No vertice do timpano, ou no cimo
Do corucheu do campanario) ao longo
Dos inclinados tectos, afastae-vos!
Afastae-vos d'aqui, onde se passam
Á meia-noite insolitos mysterios;
D'aqui, onde desperta a voz do archanjo
Os dormentes da morte; onde reune
O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
O bom e o mau, o ignorante e o sabio,
Quantos, emfim, depositar vieram
Juncto do altar o que era seu no mundo,
Um corpo nú, e corrompido e inerte.


X.

E seguia a visão.--Cria ainda achar-me,
Alta noite, na igreja solitaria
Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
Eram ha pouco um fumo que ondeiava
Pelas fisgas do vasto pavimento.
Olhei. Do erguido tecto o panno espesso
Rareava; rareava-me ante os olhos,
Como tenue cendal; mais tenue ainda,
Como o vapor de outono em quarto d'alva,
Que se libra no espaço antes que desça
A consolar as plantas conglobado
Em matutino orvalho. O firmamento
Era profundo e amplo. Involto em gloria,
Sobre vagas de nuvens, rodeiado
Das legiões do céu, o Ancião dos dias,
O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno
Parava o tempo, a immensidade, a vida
Dos mundos a escutar. Era esta a hora
Do julgamento desses que se alçavam
Á voz de cima sobre as sepulturas?


XI.

Era ainda a visão,--Do templo em meio
Do anjo da morte a espada flammejante
Crepitando bateu. Bem como insectos,
Que á flôr de pego pantanoso e triste
Se balouçavam--quando a tempestade
Veiu as azas molhar nas aguas turvas,
Que marulhando sussurraram--surgem
Volteando, zumbindo em dança douda,
E lassos, vão pousar em longas filas
Nas margens do paul, de um lado e de outro;
Tal o murmurio e a agitação incerta
Ciciava das sombras remoinhando
Ante o sopro de Deus. As melodias
Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas,
Com frémito infernal se misturavam
Em cahos de dôr e jubilo.
                          Dos mortos
Parava, emfim, o vortice enredado;
E os grupos vagos em distinctas turmas
Se enfileiravam de uma parte e de outra.
Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos
Ficou, unica luz, que se estirava
Desde o cruzeiro ao portico, e fería
De reflexo vermelho os largos pannos
Das paredes de marmore, bem como
Mar de sangue, onde inertes fluctuassem
De humanos vultos indecisas fórmas.


XII.

E seguia a visão.--Do templo á esquerda,
Méstas as faces, inclinada a fronte,
Da noite as larvas tinham sobre o sólo
Fito o espantado olhar, e as dilatadas
Baças pupillas lhes tingia o susto.
Mas, como zona lucida de estrellas,
Nessa atmosphera crassa e afogueada
Pela espada rubente, refulgiam
Da direita os espiritos, banhado
De inenarravel placidez seu gesto.
Era inteiro o silencio, e no silencio
Uma voz resoou--Eleitos vinde!--
Ide precítos!»--Vacillava a terra,
E ajoelhando eu me curvei tremendo.


XIII.

Quando me ergui e olhei, no céu profundo
Um rastilho de luz pura e serena
Se ia embebendo nesses mares de orbes
Infinitos, perdidos no infinito,
A que chamâmos o universo. Um hymno
De saudade e de amor, quasi inaudivel
Parecia romper desde as alturas
De tempo a tempo. Vinha como involto
Nas lufadas do vento, até perder-se
Em socego mortal.
                  O curvo tecto
Do templo, então, se condensou de novo,
E para a terra o meu olhar volveu-se.
Da direita os espiritos radiosos
Já não estavam lá. Chispando a espaços,
Qual o ferro na incude, a espada do anjo
O mortiço rubor mandava, apenas,
D'aurora boreal quando se extingue.


XIV.

Proseguia a visão.--Da esquerda ás sombras
Anciava o seio a dôr: tinham no gesto
Impressa a maldicção, que lhes seccára
Eternamente a seiva da esperança.

Como se vê, em noite estiva e negra,
Scintillar sobre as aguas a ardentia,
D'umas frontes ás outras vagueiavam
Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos,
E ao estalar das lousas, grito immenso
Subterraneo, abafado e delirante,
Ineffavel compendio de agonias,
Misturado se ouviu com rir do inferno,
E a visão se desfez. Era ermo o templo:
E despertei do pesadelo em trevas.


XV.

Era loucura ou sonho? Entre as tristezas
E os terrores e angustias, que resume
Neste dia e logar a avi­ta crença,
Irresisti­vel força arrebatou-me
Da sepultura a devassar segredos,
Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--

A justiça de Deus visita os mortos,
Embora a cruz da redempção proteja
A pedra tumular; embora a hostia
Do sacrificio o sacerdote eleve
Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja
Rodeiam trevas, solidão e medos,
Que a resguardam co'as asas acurvadas
Da vista do que vive, a mão do Eterno
Separa o joio do bom grão, e arroja
Para os abysmos a ruim semente.


XVI.

Não!--não foi sonho vão, vago delirio
De imaginar ardente. Eu fui levado,
Galgando além do tempo, ás tardas horas,
Em que se passam scenas de mysterio,
Para dizer:--Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--

Vejo ainda o que vi: da sepultura
Ainda o halito frio me enregela
O suor do pavor na fronte; o sangue
Hesita immoto nas inertes veias;
E embora os labios murmurar não ousem,
Ainda, incessante, me repete na alma
Íntima voz:--Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»--


XVII.

Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto
O coração bateu. Eia, retumbem
Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos,
Que em dia de afflicção ignoto vate
Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle
O primeiro cantor que em varias córdas,
Á sombra das palmeiras da Iduméa,
Soube entoar melodioso um hymno.
Deus inspirava então os trovadores
Do seu povo querido, e a Palestina,
Rica dos meigos dons da natureza,
Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.
Virgem o genio ainda, o estro puro
Louvava Deus sómente, á luz da aurora,
E ao esconder-se o sol entre as montanhas
De Bethoron.--Agora o genio é morto
Para o Senhor, e os cantos dissolutos
De lodoso folguedo os ares rompem,
Ou sussurram por paços de tyrannos,
Assellados de putrida lisonja,
Por preço vil, como o cantor que os tece.


XVIII.

O PSALMO.

Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega
      O seu poder immenso!
Elle abaixou os céus, desceu, calcando
      Um nevoeiro denso.
Dos cherubins nas asas radiosas
      Librando-se, voou;
E sobre turbilhões de rijo vento
      O mundo rodeiou.
Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,
      E os mares assustados
Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
      Da sua mão tocados.
Se pensou no Universo, ei-lo patente
      Ante a face do Eterno:
Se o quiz, o firmamento os seios abre,
      Abre os seios o inferno.
Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,
      Esconde-te um momento:
Vê onde encontrarás logar que fique
      Da sua vista isento:
Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,
      Lá teu Deus has-de achar;
Elle te guiará, e a dextra sua
      Lá te ha-de sustentar:
Desce á sombra da noite, e no seu manto
      Involver-te procura...
Mas as trévas para elle não são trévas.
      Nem é a noite escura.
No dia do furor, em vão buscáras
      Fugir ante o Deus forte,
Quando do arco tremendo, irado, impelle
      Setta em que pousa a morte.
Mas o que o teme dormirá tranquillo
      No dia extremo seu,
Quando na campa se rasgar da vida
      Das illusões o véu.


XIX.

Calou-se o monge: sepulchral silencio
Á sua voz seguiu-se. Uma toada
De orgam rompeu do côro. Assemelhava
O suspiro saudoso, e os ais de filha,
Que chora solitaria o pae, que dorme
Seu ultimo, profundo e eterno somno.
Melodias depois soltou mais doces
O severo instrumento: e ergueu-se o canto,
O doloroso canto do propheta,
Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,
Sentado entre ruinas, contemplando
Seu avito esplendor, seu mal presente,
A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,
Modulando o Nebel, via-se o vate
Nos derribados porticos, abrigo
Do immundo stellio e gemedora poupa,
Extasiado--e a lua scintillando
Na sua calva fronte, onde pesavam
Annos e annos de dôr. Ao venerando
Nas encovadas faces fundos regos
Tinham aberto as lagrymas. Ao longe,
Nas margens do Kedron, a ran grasnando
Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
Era Sião!--o vasto cemiterio
Dos fortes de Israel. Mais venturosos
Que seus irmãos, morreram pela patria;
A patria os sepultou dentro em seu seio.
Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,
Passam de escravos miseranda vida,
Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,
A dextra lhe vergou. Não mais no templo
A nuvem repousára, e os céus de bronze
Dos prophetas aos rogos se amostravam.
O vate de Anathot a voz soltára
Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
Ameaças, promessas, tudo inutil;
De bronze os corações não se dobraram.
Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho
Jerusalem passou: sua grandeza
Sómente existe em derrocadas pedras.
O vate de Anathot, sobre seus restos,
Com triste canto deplorou a patria.
Hymno de morte alçou: da noite as larvas
O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
Do portico do templo erguia um pouco,
Alvejando, a caveira.--Era-lhe allivio
Do sagrado cantor a voz suave
Desferida ao luar, triste, no meio
Da vasta solidão que o circumdava.
O propheta gemeu: não era o estro,
Ou o vívido jubilo que outr'ora
Inspirára Moysés: o sentimento
Foi sim pungente de silencio e morte,
Que da patria lhe fez sobre o cadaver
A elegia da noite erguer e o pranto
Derramar da esperança e da saudade.


XX.

A LAMENTAÇÃO.

Como assim jaz e solitaria e quèda
Esta cidade outr'ora populosa!
Qual viuva ficou e tributaria
      A senhora das gentes.
Chorou durante a noite; em pranto as faces,
Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas
Ninguem a consolou: os mais queridos
      Contrarios se tornaram.
Ermas as praças de Sião e as ruas,
Cobre-as a verde relva: os sacerdotes
Gemem; as virgens pallidas suspiram
      Involtas na amargura.
Dos filhos de Israel nas cavas faces
Está pintada a macilenta fome;
Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
      Um pão de infamia eivado.
O tremulo ancião, de longe, os olhos
Volve a Jerusalem, della fugindo;
Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira
      Com seu nome nos labios.
Que horror!--ímpias as mães os tenros filhos
Despedaçaram: barbaras quaes tigres,
Os sanguinosos membros palpitantes
      No ventre sepultaram.
Deus, compassivo olhar volve a nós tristes:
Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,
Servos de servos em paiz estranho.
      Tem dó de nossos males!
Acaso serás Tu sempre inflexivel?
Esqueceste de todo a nação tua?
O pranto dos hebreus não Te commove?
      És surdo a seus lamentos?


XXI.

Doce era a voz do velho: o som do Nablo
Sonoro: o céu sereno: clara a terra
Pelo brando fulgor do astro da noite:
E o propheta parou. Erguidos tinha
Os olhos para o céu, onde buscava
Um raio de esperança e de conforto:
E elle calára já, e ainda os ecchos,
Entre as ruinas sussurrando, ao longe
Íam os sons levar de seus queixumes.


XXII.

Choro piedoso, o choro consagrado
Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!
Oh margens do Jordão, paiz formoso
Que fostes e não sois, tambem suspiro
Condoído vos dou.--Assim fenecem
Imperios, reinos, solidões tornados!...
Não:--nenhum deste modo: o peregrino
Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem
A sacudiu á terra, e fez dormissem
O seu ultimo somno os filhos della--
E elle o veio dormir pouco mais longe...
Mas se chega a Sião treme, enxergando
Seus lacerados restos. Pelas pedras,
Aqui e alli dispersas, ainda escripta
Parece ver-se uma inscripção de agouros,
Bem como aquella que aterrou um í­mpio
Quando, no meio de ruidosa festa,
Blasphemava dos céus, e mão ignota
O dia extremo lhe apontou dos crimes.
A maldicção do Eterno está vibrada
Sobre Jerusalem!--Quanto é terri­vel
A vingança de Deus! O Israelita,
Sem patria e sem abrigo, vagabundo,
Ódio dos homens, neste mundo arrasta
Uma existencia mais cruel que a morte,
E que vem terminar a morte e inferno.
Desgraçada nação!--Aquelle solo
Onde manava o mel, onde o carvalho,
O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,
Tão grato á vista, em bosques misturavam;
Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
Crescimento espontaneo entre as roseiras,
Hoje, campo de lagrymas, só cria
Humilde musgo de escalvados cerros.


XXIII.

Ide vós a Mambré.--Lá, bem no meio
De um valle, outr'ora de verdura ameno,
Erguia-se um carvalho magestoso.
Debaixo de seus ramos largos dias
Abrahão repousou. Na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traçar-lhe em roda.
Nasceu com o orbe a planta veneravel,
Viu passar gerações, julgou seu dia
Final fosse o do mundo, e quando airosa
Por entre as densas nuvens se elevava,
Mandou o Nume aos aquilões rugissem,
Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques
Serviu de pasto aos tragadores vermes.
Deus estendeu a mão:--no mesmo instante
A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
Da Palestina os platanos frondosos
Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
O armento, em vez de relva, achou nos prados
Sómente ingratas, espinhosas urzes.
No Golgotha plantada, a Cruz clamára
--Justiça!»--A tal clamor horrido espectro
No Moriá surgiu. Era seu nome
Assolação.--E despregando um grito,
Cahiu com longo som de um povo a campa.
Assim a herança de Judá, outr'ora
Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
Do tempo que já foi, e que ha passado
Como hora de prazer entre desditas.
...................................


XXIV.

Minha Patria onde existe?
                          É lá sómente!
Oh lembrança da Patria acabrunhada
Um suspiro tambem tu me has pedido;
Um suspiro arrancado aos seios d'alma
Pela offuscada gloria, e pelos crimes
Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
Da mais illustre das nações da terra!

A minha triste Patria era tão bella,
E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
E o sabio e o homem bom acolá dormem,
Acolá, nos sepulchros esquecidos,
Que a seus netos infames nada contam
Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
O escravo português agrilhoado
Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas
Os decepados troncos desse arbusto,
Por mãos delles plantado á liberdade,
E por tyrannos derribado em breve,
Quando patrias virtudes se acabaram,
Como um sonho da infancia!...
                              O vil escravo,
Immerso em vicios, em bruteza e infamia,
Não erguerá os macerados olhos
Para esses troncos, que destroem vermes
Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,
Não surgirá jámais?--Não ha na terra
Coração português, que mande um brado
De maldicção atroz, que vá cravar-se
Na vigilia e no somno dos tyrannos,
E envenenar-lhes o prazer por noites
De vil prostituição, e em seus banquetes
De embriaguez lançar fel e amarguras?

Não!--Bem como um cadaver já corrupto,
A nação se dissolve: e em seu lethargo
O povo, involto na miseria, dorme.


XXV.

Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
Terei de erguer á Patria hymno de morte,
Sobre seus mudos restos vagueiando!
Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta
Minhas preces e lagrymas:--se em breve,
Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;
Se o anjo do extermi­nio ha-de risca-la
Do meio das nações, que d'entre os vivos
Risque tambem meu nome, e não me deixe
Na terra vagueiar, orpham de Patria.


XXVI.

Cessou da noite a grão solemnidade
Consagrada á tristeza, e a memorandas
Recordações:--os monges se prostraram,
A face unida á pedra. A mim, a todos
Correm dos olhos lagrymas suaves
De compuncção. Atheu, entra no templo;
Não temas esse Deus, que os labios negam,
E o coração confessa. A corda do arco
Da vingança, em que a morte se debruça,
Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.
Tu para quem a morte ou vida é fórma,
Fórma sómente de mais puro barro,
Que nada crês, e em nada esperas, olha,
Olha o conforto do christão. Se o calis
Da amargura a provar os céus lhe deram,
Elle se consolou: balsamo sancto
Piedosa fé no coração lhe verte.
--«Deus compaixão terá!--Eis seu gemido:
Porque a esperança lhe sussurra em torno:
--Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»

Atheu, a quem o mal fizera escravo,
Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
No dia da afflicção emmudeceste
Ante o espectro do mal. E a quem alçáras
O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
Não altera por ti?--Ao ar, que some
Pela sua amplidão as queixas tuas?
Aos rochedos alpestres, que não sentem,
Nem sentir podem teu gemido inutil?
Tua dôr, teu prazer existem, passam,
Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
Nas angustias da vida, o teu consolo
O suicidio é só, que te promette
Rica messe de goso, a paz do nada!--
E ai de ti, se buscaste, emf­im, repouso,
No limiar da morte indo assentar-te!
Alli grita uma voz no ultimo instante
Do passamento: a voz atterradora
Da consciencia é ella. E has-de escuta-la
Mau grado teu: e tremerás em sustos,
Desesperado aos céus erguendo os olhos
Irados, de través, amortecidos;
Aos céus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
Para guiar-te á solidão das dôres,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.


XXVII.

Calou tudo no templo: o céu é puro,
A tempestade ameaçadora dorme.
No espaço immenso os astros scintillantes
O Rei da creação louvam com hymnos,
Não ouvidos por nós nas profundezas
Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
Ante milhões de estrellas, que recamam
O firmamento, ajunctará seu canto
Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
Mortal no meio da harmonia etherea,
No concerto da noite? Oh, no silencio,
Eu pequenino verme irei sentar-me
Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada.
Assim se apaga a lampada nocturna
Ao despontar do sol o alvor primeiro:
Por entre a escuridão deu claridade;
Mas do dia ao nascer, que já rutíla,
As torrentes de luz vertendo ao longe,
Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,
Nesse fulgido mar, que inunda a terra.



A VOZ.


É tão suave ess' hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleiado!

O mar azul se encrespa
Co'a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz ja se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Alli folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cérca
Bemdiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente:

E sóbe, e cresce, e immensa
Nos céus negra fluctua,
E o vento das procellas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor

E do poeta a fronte
Cubriu véu de tristeza:
Calou, á luz do raio,
Seu hymno á natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.

Era blasphema idéa,
Que triumphava emfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

         -----

--«Cantor, esse queixume
Da nuncia das procellas,
E as nuvens, que te roubam
Myriadas de estrellas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Em quanto do ether puro
Descia o sol radioso,

Typo da vida do homem,
É do universo a vida;
Depois do afan repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hymno
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pae, confia,
Do raio ao scintillar.

Elle o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»--

         -----

Oh sim, torva blasphemia
Não manchará seu canto!
Brama a procella embora;
Pése sobre elle o espanto;

Que de sua harpa os hymnos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual oleo
Do nardo recendente.



A ARRABIDA.


I.

Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
Salve, oh patria da paz, deserto sancto,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a fragil hera,
E a romagem do tumulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promette
No transito chamado o viver do homem.


II.

Suspira o vento no alamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantís na base carcomida:
Eis o ruí­do de ermo!--Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu ceruleo
Se abraçam no horisonte.--Immensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!


III.

Oh, como surge magestosa e bella,
Com viço da creação, a natureza
No solitario valle!--E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrancia pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.

E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados pincaros, severos,
Quaes guardadores de um logar que é sancto;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o ultimo abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de labios innocentes.

Sobre esta scena o sol verte em torrentes
Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se
Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados
Desses thronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocío da noite á branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E 'inda existencia lhe dará um dia.

Formoso ermo do sul, outra vez, salve!


IV.

Negro, esteril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o placido sussurro
Das arvores do valle, que vecejam
Ricas d'encantos, co' a estação propicia;
Suavissimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ares,
És digno incenso ao Creador erguido;
Livres aves, vós filhas da espessura,
Que só teceis da natureza os hymnos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho ao mundo, no bulicio delle,
Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.

Comvosco eu sou maior; mais longe a mente
Pelos seios dos céus se immerge livre,
E se desprende de mortaes memorias
Na solidão solemne, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.


V.

Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Rui­na ao roble secular da encosta,
Que somnolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cubriram cespedes virentes;
Mas o tempo voou, e nelle involta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o sólo fustigando
Tritura a tenra lanceolada relva,
Durante largos seculos, no inverno,
Dos vendavaes no dorso a ti desceram,
Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
Que, maculando virginal pureza,
Do pudor varre a aureola celeste,
E deixa, em vez de um seraphim na terra,
Queimada flor que devorou o raio.


VI.

Cáveira da montanha, ossada immensa,
É tua campa o céu: sepulchro o valle
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a terra ao longe,
Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,
Lançar á praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste valle
Te vai servir de tumulo; e os carvalhos
Do mundo primogenitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da collina,
Comtigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cubrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nú e triste,
Ainda bello serás, vestido e alegre.


VII.

Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
Dos tumulos cahir; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me fôr dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,
Se em turbilhões de purpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
Vai provar que um Deus ha a estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que véla o criminoso,
A quem íntima voz rouba o socego,
E em que o justo descança, ou, solitario,
Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.


VIII.

Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
Das aguas, então quêdas, do oceano,
Eu tambem o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.

Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cahir das trévas,
Emquanto, involta em gloria, a clara lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
Tudo calado estava: o mar sómente
As harmonias da creação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando,
Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
O pranto me correu sem que o sentisse,
E aos pés de Deus se derramou minha alma.


IX.

Oh, que viesse o que não crê, comigo,
Á vecejante Arrabida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povôa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,
E ouvisse o mar soando:--elle chorára,
Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
E adorando o Senhor detestaria
De uma sciencia van seu vão orgulho.


X.

É aqui neste valle, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da patria ao desterrado; aqui, solemne,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitarias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancholico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante á paz, que se ha sentado
Por seculos, alli, nas cordilheiras
É o silencio do adro, onde reunem
Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra.

Como tu vens cercado de esperança,
Para o innocente, oh placido sepulchro!
Juncto das tuas bordas pavorosas
O perverso recúa horrorisado:
Após si volve os olhos; na existencia
Deserto árido só descobre ao longe,
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando á meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueiou na terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Elle não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,
Ao pé da sepultura, é som perdido
De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pae, que saboreia
Entre os braços da morte o extremo somno,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, alli, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Réga de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria,
E para sempre as flores se murcharam.


XI.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um halito dos ceus, gemer atada
Á columna do exilio, a que se chama
Em lingua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guarda-la-hei no coração, bem juncto
Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre,
Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor captiva,
Ou arvore educada por mão de homem,
Que lhe diga--és escrava» e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano é livre no ermo
A bonina rasteira e o freixo altivo!
Não lhes diz--nasce aqui, ou lá não cresças»
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocío não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Céu livre, terra livre, e livre a mente,
Paz intima, e saudade, mas saudade
Que não dóe, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procellas do mundo os que o deixaram.


XII.

Alli naquella encosta, hontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitario a habitação tranquilla:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre alvergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, á luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto socego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeiava
As raras cans na fronte, onde se lia
A bella historia de passados annos.
De alto choupo através passava um raio
Da lua--astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente--
E em luz pallida as faces lhe banhava:
E talvez neste raio o Pae celeste
Da patria eterna lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dos labios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e gloria
Na terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitario obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpetuo rui­do que sussurra
Pelos palacios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortezão suberbo, que só cura
De honras, haveres, gloria, que se compram
Com maldicções e perennal remorso.
Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,
Cubertas de cadaveres, regadas
De negro sangue, elle segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viuva e do orpham;
Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
Os homens, seus irmãos, flagella e opprime
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a terra o adorou: o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
Nunca se ha-de chegar para traga-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lagea de marmore, que esconde
O cadaver do grande, é mais duravel
Do que esse chão sem inscripção, sem nome,
Por onde o oppresso, o misero, procura
O repouso, e se atira aos pés do throno
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.


XIII.

Oh cidade, cidade, que trasbordas
De vicios, de paixões, e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa involta,
Suberba prostituta, alardeiando
Os theatros, e os paços, e o ruido
Das carroças dos nobres, recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropeiar continuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortezão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
Branqueado sepulchro, que misturas
A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,
Honra e infamia, pudor e impudicicia,
Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloria
Da humanidade?--O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
A imagem desse povo, que reflue
Das moradas á rua, á praça, ao templo;
Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo mixto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil despota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memorias dos seculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.

Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
Em joelhos nos atrios dos tyrannos,
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre?
Esse tigre é o idolo do povo!
Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe
O ferreo sceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De victimas illustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passae depois. Se a mão da Providencia
Esmigalhou a fronte á tyrannia;
Se o despota cahiu, e está deitado
No lodaçal da sua infamia, a turba
Lá vai buscar o sceptro dos terrores,
E diz--é meu»; e assenta-se na praça,
E involta em roto manto, e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na affogueada bôcca
De volcão popular sacode um facho,
Eis o incendio que muge, e a lava sóbe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarchia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presagio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos
Cava fundo da Patria a sepultura.
Onde, abraçando a gloria do passado
E do futuro a ultima esperança,
As esmaga comsi­go, e ri morrendo.

Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder:--sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hymnos!


XIV.

Cantor da solidão, vim assentar-me
Juncto do verde cespede do valle,
E a paz de Deus do mundo me consola.

Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou ha seculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sitio,
De virtudes depois tão rico e fertil.
Como um pae de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugurios de humildes eremitas,
Onde o cilicio e a compuncção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do peccador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo
Que entre os humanos não achou piedade.


XV.

Religião! do misero conforto,
Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
O longo agonisar de uma saudade,
Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,
Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitario templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia á meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Ahi os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do sol, ainda chorando.
Passados mezes, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos miseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual halito suave
Da primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lagea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no somno extremo.

Eremiterio antigo, oh, se podesses
Dos annos que lá vão contar a historia;
Se ora, á voz do cantor, possivel fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por naufragos do mundo derramado
Sobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis,
Broncas pedras, falar, o que dirieis!

Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fabula das gentes,
Despertariam o eccho das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a historia
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágua, ou do remorso as longas noites!
Aqui veiu, talvez, buscar asylo
Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
Despenhado nas trévas do infortunio;
Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os ultimos gemidos,
Depois da vida derramada em gosos,
Depois do goso convertido em tedio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestigios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lagrymas do triste
Elle contou, para as pagar com gloria?


XVI.

Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo valle,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um pharol de vida em mar de escolhos:
Ao christão infeliz acolhe no ermo,
E consolando-o, diz-lhe--a patria tua
É lá no céu: abraça-te comigo.»
Juncto della esses homens, que passaram
Acurvados na dôr, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
Vem derramar seu coração afflicto:
É do deserto a historia a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silencio.


XVII.

Feliz da terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças!
Folgando segue a trilha, que ha juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna,
E sobre a morta crença em paz descança.
Que mal te faz, que goso vae roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lagrymas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...

E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestreis te venderão seus hymnos,
Nos banquetes opiparos, emquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anachoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quaes às vezes
Está gravada uma inscripção d'infamia.



MOCIDADE E MORTE.


Solevantado o corpo, os olhos fitos,
As magras mãos cruzadas sobre o peito,
Vêde-o, tão moço, velador de angustias,
Pela alta noite em solitario leito.

Por essas faces pallidas, cavadas,
Olhae, em fio as lagrymas deslisam;
E com o pulso, que apressado bate,
Do coração os éstos harmonisam.

É que nas veias lhe circula a febre;
É que a fronte lhe alaga o suor frio;
É que lá dentro á dor, que o vai roendo,
Responde horrivel íntimo ciclo.

Encostando na mão o rosto acceso,
Fitou os olhos humidos de pranto
Na lampada mortal alli pendente,
E lá comsigo modulou um canto.

É um hymno de amor e de esperança?
É oração de angustia e de saudade?
Resignado na dor, saúda a morte,
Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?

É isso tudo, tumultuando incerto
No delírio febril daquella mente
Que, balouçada á borda do sepulchro,
Volve após si a vista longamente.

É a poesia a murmurar-lhe na alma
Ultima nota de quebrada lyra;
É o gemido do tombar do cedro;
É triste adeus do trovador que expira.


DESESPERANÇA.

«Meia-noite bateu, volvendo ao nada
Um dia mais, e caminhando eu sigo!
Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...
Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!

Qual tufão, que ao passar agita o pégo.
Meu placido existir turvou a sorte.
Halito impuro de pulmões ralados
Me diz que nelles se assentou a morte.

Em quanto mil e mil no largo mundo
Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso,
E julgo ouvir as preces por finados,
E ver a tumba e o fumegar do incenso.

Se dormito um momento, acórdo em sustos;
Pulos me dá o coração no peito,
E abraço e beijo de uma vida extincta
O ultimo socio, o doloroso leito.

De um abysmo insondado ás agras bordas
Insanavel doença me ha guiado,
E disse-me:--no fundo o esquecimento:
Desce; mas desce com andar pausado.»

E eu lento vou descendo, e sondo as trévas:
Busco parar; parar um só instante!
Mas a cruel, travando-me da dextra,
Me faz cahir mais fundo, e grita:--ávante!»

Porque escutar o transito das horas?
Alguma dellas trar-me-ha conforto?
Não! Esses golpes, que no bronze ferem,
São para mim como dobrar por morto.

«Morto! morto!--me clama a consciencia:
Diz-m'o este respirar rouco e profundo.
Ai! porque fremes, coração de fogo,
Dentro de um seio corrompido e immundo?

Beber um ar diaphano e suave,
Que renovou da tarde o brando vento,
E converte-lo, no aspirar contínuo,
Em bafo apodrecido e peçonhento!

Estender para o amigo a mão mirrada,
E elle negar a mão ao pobre amigo;
Querer uni-lo ao seio descarnado,
E elle fugir, temendo o seu perigo!

E ver após um dia ainda cem dias,
Nús d'esperança, ferteis de amargura;
Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,
E só, bem lá no extremo, a sepultura!

Agora!... quando a vida me sorria:
Agora!... que meu estro se accendêra;
Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,
Como se enlaça pelo choupo a hera,

Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;
Varrer-me o nome escuro esquecimento:
Não ter um eccho de louvor, que affague
Do desgraçado o humilde monumento!

Oh tu, sêde de um nome glorioso,
Que tão fagueiros sonhos me tecias,
Fugiste, e só me resta a pobre herança
De ver a luz do sol mais alguns dias.

Vestem-se os campos do verdor primeiro:
Já das aves canções no bosque ecchoam:
Não para mim, que só escuto attento
Funereos dobres que no templo soam!

Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,
Irei tão cedo repousar na terra?!
Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;
Um louro só... e meu sepulchro cerra!

É tão bom respirar, e a luz brilhante
Do sol oriental saudar no outeiro!
Ai, na manhan sauda-la posso ainda;
Mas será este inverno o derradeiro!

Quando de pomos o vergel for cheio;
Quando ondeiar o trigo na planura;
Quando pender com aureo fructo a vide,
Eu tambem penderei na sepultura.

Dos que me cercam no turbado aspecto,
Na voz que prende desusado enleio,
No pranto a furto, no fingido riso
Fatal sentença de morrer eu leio.

Vistes vós criminoso, que hão lançado
Seus juizes nos trances da agonia,
Em oratorio estreito, onde não entra
Suavissima luz do claro dia;

Diante a cruz, ao lado o sacerdote,
O cadafalso, o crime, o algoz na mente,
O povo tumultuando, o extremo arranco,
E céu, e inferno, e as maldicções da gente?

Se adormece, lá surge um pesadelo,
Com os martyrios da sua alma acorde;
Desperta logo, e á terra se arremessa,
E os punhos cerra, e delirante os morde.

Sobre as lageas do duro pavimento
De vergões e de sangue o rosto cobre.
Ergue-se e escuta com cabellos hirtos
Do sino ao longe o compassado dobre.

Sem esperança!...
                  Não! Do cadafalso
Sóbe as escadas o perdão ás vezes;
Porém a mim... não me dirão:--és salvo!»
E o meu supplicio durará por mezes.

Dizer posso:--existi: que a dor conheço!
Do goso a taça só provei por horas:
E serei teu, calado cemiterio,
Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.

Se o furacão rugiu, e o debil tronco
De arvore tenra espedaçou passando,
Quem se doeu de a ver jazendo em terra?
Tal é o meu destino miserando!

Numen de sancto amor, mulher querida,
Anjo do céu, encanto da existencia,
Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.
Por ti me salve a mão da Providencia.

Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!
Um beijo ardente aos labios teus voára:
E neste beijo venenoso a morte
Talvez este infeliz só te entregára!

Se eu podesse viver... como teus dias
Cercaria de amor suave e puro!
Como te fôra placido o presente;
Quanto risonho o aspecto do futuro!

Porém, medonho espectro ante meus olhos,
Como sombra infernal perpetuo ondeia,
Bradando-me que vai partir-se o fio
Com que da minha vida se urde a teia.

Entregue á seducção em quanto eu durmo,
No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!
Quem velará por ti, pomba innocente?
Quem do perjurio poderá salvar-te?

Quando eu cerrar os olhos moribundos
Tu verterás por mim pranto saudoso;
Mas quem me diz que não virá o riso
Banhar teu rosto triste e lachrymoso?

Ai, o extincto só herda o esquecimento!
Um novo amor te agitará o peito:
E a dura lagea cubrirá meus ossos
Frios, despidos sobre terreo leito!...

Oh Deus, porque este calix de agonia
Até as bordas de amargor me encheste?
Se eu devia acabar na juventude,
Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?

Virgem do meu amor, porque perde-la?
Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?
Tua suprema paz com goso ou dores,
Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?

Não haver quem me salve! e vir um dia
Em que de minha o nome ainda lhe désse!
Então, Senhor, o umbral da eternidade,
Talvez sem um queixume, transposesse.

Mas, qual flor em botão pendida e murcha,
Sem de fragrancias perfumar a brisa,
Eu poeta, eu amante, ir esconder-me
Sob uma lousa desprezada e lisa!

Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?
Em te adorar que fui, senão insano?...
O teu fatal poder hoje maldigo!
O que te chama pae, mente: és tyranno.

E se aos pés de teu throno os ais não chegam;
Se os gemidos da terra os ares somem;
Se a Providencia é crença van, mentida,
Porque geraste a intelligencia do homem?

Porque da virgem no sorrir poseste
Sancto presagio de suprema dita,
E apontaste ao poeta a immensidade
Na ancia de gloria que em sua alma habita?

A immensidade!... E que me importa herda-la,
Se na terra passei sem ser sentido?
Que val eterno vagueiar no espaço,
Se nosso nome se afundou no olvido?


O ANJO DA GUARDA.

«I­mpio, silencio! A tua voz blasphema
Da noite a paz perturba.
Verme, que te rebellas
Sob a mão do Senhor,
Vês os milhões d'estrellas
De nitido fulgor,
Que, em ordenada turba,
A Deus entoam incessantes hymnos?
Quantas vezes apaga
Do livro da existencia
Um orbe a mão do Eterno!
E o bello astro que expira
Maldiz a Providencia,
Maldiz a mão que o esmaga?
Acaso pára o cantico superno?
Ou apenas suspira
O moribundo,
Que se chamava um mundo?
Quem vai pôr uma campa sobre os restos
Desse inerte planeta,
Que o destructor cometa
Incinerou na rapida passagem?
E tu, átomo obscuro,
Que varre á tarde a aragem,
Sóltas do seio impuro
Maldicção insensata,
Porque o teu Deus te evoca á eternidade?
Que é o viver? O umbral, a que um momento
O espirito, surgindo
Das solidões do nada
Á voz do Creador, se encosta, e attento
Contempla a luz e o céu; d'onde desata
Seu vôo á immensidade.
Geme acaso o passarinho
De saudade,
Quando as azas expande, e deixa o ninho
A vez primeira, a mergulhar nos ares?
Volve olhos lachrymosos
Aos mares tormentosos
O navegante, quando aproa ás plagas
Da patria suspirada?
Porque morres?! Pergunta á Providencia
Porque te fez nascer.
Qual era o teu direito a ver o mundo;
Teu jus á existencia?
Olha no outono o ulmeiro
Que o vendaval agita,
E cujas tenues folhas
Aos centos precipita.
São a folha do ulmeiro o nome e a fama,
E o amar dos humanos:
Ao nada do que foi assim se atiram
No vortice dos annos.
Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,
Que somem mil ruí­dos.
E a voz da terra o que é, na voz immensa
Dos orbes reunidos?
Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
Comprehender a amargura,
Com que te chóro, oh alma transviada!
Eu, que te amei do berço, e qual doçura
Ha no affecto que liga o anjo ao homem,
Rindo despiras esse corpo enfermo,
Para te unir a mim, para aspirares
O goso celestial de amor sem termo!
Alma triste, que mesquinha
Te debruças sobre o inferno,
Ouve o anjo, pobresinha;
Vem ao goso sempiterno.
Resigna-te e espera, e os dias de prova
Serão para o crente quaes breves instantes.
Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,
Fendendo o infinito co' as asas radiantes.
Depois, das alturas teu terreo vestido
Sorrindo veremos na terra guardar,
E ao hymno de Hosanna nos córos celestes
A voz de um remido iremos junctar.»


A GRAÇA.

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O ferreo pé da dor,
E o hymno da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim! és tu, que na infantil idade,
Da aurora á frouxa luz,
Me dizias:--acorda, innocentinho,
Faze o signal da cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses annos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e purpura descendo
Co' as roupas a alvejar.
És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,
Juncto ao bosque fremente,
Me contavas mysterios, harmonias
Dos céus, do mar dormente.
És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sósinho erguia
Ao Deus tres vezes sancto.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

  Sinto a tua voz de novo,
  Que me revoca a Deus:
  Inspira-me a esperança,
  Que te seguiu dos céus!...


RESIGNAÇÃO

«No teu seio reclinado
Dormirei, Senhor, um dia,
Quando for na terra fria
Meu repouso procurar;

Quando a lousa do sepulchro
Sohre mim tiver cahido
E este espirito affligido
Vir a tua luz brilhar!

No teu seio, de pesares
O existir não se entretece;
Lá eterno o amor florece;
Lá florece eterna paz:

Lá bramir juncto ao poeta
Não irão paixões e dores,
Vãos desejos, vãos temores
Do desterro em que elle jaz.

Hora extrema, eu te saúdo!
Salve, oh trevas da jazida,
D'onde espera erguer-se á vida
Meu espirito immortal!

Anjo bom, não me abandones
Neste trance dilatado;
Que contrito, resignado
Me acharás na hora fatal.

E depois... Perdoa, oh anjo,
Ao amor do moribundo,
Que só deixa neste mundo
Pouco pó, muito gemer.

Oh... depois... dize á mesquinha
Um segredo de doçura:
Que na patria o amor se apura,
Que o desterro viu nascer.

Que é o céu a patria nossa;
Que é o mundo exilio breve;
Que o morrer é cousa leve;
Que é _principio_, não é _fim_:

Que duas almas que se amaram
Vão lá ter nova existencia,
Confundidas n'uma essencia,
A de um novo cherubim.»



DEUS.


Nas horas do silencio, á meia-noite,
      Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
      E os abysmos do inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,
      E a lua resplendente
Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa
      O hymno do Omnipotente.

Antes de tempo haver, quando o infinito
      Media a eternidade,
E só do vacuo as solidões enchia
      De Deus a immensidade,
Elle existia, em sua essencia involto,
      E fóra delle o nada:

No seio do Creador a vida do homem
      Estava ainda guardada:
Ainda então do mundo os fundamentos
      Na mente se escondiam
De Jehovah, e os astros fulgurantes
      Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
      Das mãos sólta o Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
      Sua primeira flor:
Sobre o invisi­vel eixo range o globo:
      O vento o bosque ondeia:
Retumba ao longe o mar: da vida a força
      A natureza anceia!

Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
      Ou cantar teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
      Fonte de todo o ser,
No dia da creação; quando os thesouros
      Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
      As aguas encerraste?!

E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
      Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
      Na mole ponderosa?
Onde existia então? No typo immenso
      Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
      Na terra e nas alturas!

Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
      Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
      Da tarde a viração!
Por sua Providencia nunca, embalde,
      Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
      Os olhos inquieto.
Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,
      Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
      Que o reanima e aquece?
Não deu Elle á gazella amplos desertos,
      Ao cervo a amena selva,
Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,
      No prado ao touro a relva?
Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
      Consolação e luz?
Acaso em vão algum desventurado
      Curvou-se aos pés da cruz?
A quem não ouve Deus? Sómente ao impio
      No dia da afflicção,
Quando pésa sobre elle, por seus crimes,
      Do crime a punição.

Homem, ente immortal, que és tu perante
      A face do Senhor?
És a junça do bréjo, harpa quebrada
      Nas mãos do trovador!
Olha o velho pinheiro, campeiando
      Entre as neves alpinas:
Quem irá derribar o rei dos bosques
      Do throno das collinas?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
      Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raizes
      Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, saíu na margem
      Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
      Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto habita;
      Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
      A bôca affogueada:
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
      É seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
      Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado;
      Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
      Assim elle passou!

Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
      Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,
      Mas são hymnos de amor.
Embora vís hypocritas te pintem
      Qual barbaro tyranno:
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
      O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Receiar-te
      É maldizer-te, oh Deus;
É o throno dos despotas da terra
      Ir collocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
      Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
      Da tua Providencia.



A TEMPESTADE.


Sibilla o vento:--os torreões de nuvens
      Pésam nos densos ares:
Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
      Pela extensão dos mares:
A immensa vaga ao longe vem correndo,
      Em seu terror envolta;
E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
      A tempestade solta.
Do sol no occaso um raio derradeiro,
      Que, apenas fulge, morre,
Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,
      Para apaga-lo corre.
Tal nos affaga em sonhos a esperança,
      Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciencia
      Dizer que ella mentia!
As ondas negro-azues se conglobaram;
      Serras tornadas são,
Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,
      Bater, partir-se vão.

Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,
      Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
      E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhaes, entre o granizo,
      Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
      E assolação derramas,
Quem porfiar comtigo, então, ousára
      De gloria e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
      Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me
      Das nuvens nos castellos,
E ver dos ferros meus, emfim, quebrados
      Os rebatidos élos!
Eu rodeára, então, o globo inteiro;
      Eu sublevára as aguas;
Eu dos volcões com raios accendêra
      Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
      Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areiaes da Lybia
      Converteria em montes;
Pelo fulgor da lua, lá do norte
      No polo me assentára,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
      Que o tempo amontoára.
Alli, eu solitario, eu rei da morte,
      Erguèra meu clamor,
E dissera:--sou livre, e tenho imperio;
      Aqui, sou eu senhor!»

Quem se podéra erguer, como estas vagas,
      Em turbilhões incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
      Nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
      A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
      Rapido, em baixo dá.

Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,
      Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
      Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
      Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar, por entre os orbes,
      Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
      Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
      Solta, sem rumo vague!

Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
      O somno do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
      Nas trévas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
      De um coração oppresso,
Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
      Negas no seio accésso,
Não despertes, oh não! os que abominam
      Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
      Com seu dorído leito!
Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,
      Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo
      Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas ás portas dos senhores,
      Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
      E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
      Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delirios,
      Que tão gratos lhes eram.
E eu que vélo na vida, e já não sonho
      Nem gloria, nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,
      O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
      De quanto ha vil no mundo,
Sanctas inspirações morrer sentindo
      Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
      De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
      Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
      Fragor da tempestade,
Psalmo de mortós, que retumba ao longe,
      Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde
      Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldicções celestes,
      No abysmo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me
      Nas lagrymas da terra;
Guardarei minha estancia atribulada,
      Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
      O seu repouso, emfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
      Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
      Bençam de pae querido.
Será o despertar, ver meu cadaver,
      Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda
      Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
      Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulchro branqueado
      Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
      Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
      Até o amanhecer;
Até que suba á patria do repouso,
      Onde não ha morrer.



O SOLDADO.


I.

Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio,
Dos campos, que elle réga,
Mansi­ssimo armentio.

Rocio matutino,
Prados tão deleitosos,
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos,

Terra da minha infancia,
Tecto de meus maiores,
Meu breve jardimzinho,
Minhas pendidas flores,

Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio,
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio.

Onde os avós dormiram,
E dormirão os paes;
Onde eu talvez não durma,
Nem rese, talvez, mais,

Eu vos saúdo! e o longo
Suspiro amargurado
Vos mando. É quanto póde
Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.

Na prôa resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e dura
Quando é tranquillo o mar;
Quando da patria o céu
Céu puro vem lembrar;

Quando, no extremo occaso,
A nuvem vaporosa,
Á frouxa luz da tarde,
Na côr imita a rosa;

Quando, do sol vermelho
O disco ardente crece,
E paira sobre as aguas,
E emfim desapparece;

Quando no mar se estende
Manto de negro dó;
Quando, ao quebrar do vento,
Noite e silencio é só;

Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rapida ardentia
Em tôrno a sombra aclara.


II.

Eu já ouvi, de noite,
Entre o pinhal fechado,
Um fremito soturno
Passando o vento irado:

Assim o murmurio
Do mar, fervendo á prôa,
Com o gemer do afflicto,
Sumido, accorde sôa:

E o scintillar das aguas
Gera amargura e dor,
Qual lampada, que pende
No templo do Senhor,

Lá pela madrugada,
Se o oleo lhe escaceia,
E a espaços expirando,
Affrouxa e bruxuleia.


III.

Bem abundante messe
De pranto e de saudade
O foragído errante
Colhe na soledade!

Para o que a patria perde
É o universo mudo;
Nada lhe rí na vida;
Mora o fastio em tudo;

No meio das procellas,
Na calma do oceano,
No sopro do galerno,
Que enfuna o largo panno,

E no entestar co' a terra
Por abrigado esteiro,
E no pousar á sombra
Do tecto do estrangeiro.


IV.

E essas memorias tristes
Minha alma laceraram,
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:

Porém nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trévas do futuro.

Do meu paiz querido
A praia ainda beijei,
E o velho e amigo cedro
No valle ainda abracei!

Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso,
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.

Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperança vinham
Ao coração tristonho.

Mas o sonhar que monta,
Se passa, e não conforta?
Minh' alma deu em terra,
Como se fosse morta.

Foi a esperança nuvem,
Que o vento some á tarde:
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!

Do fratricidio a luva
Irmão a irmão lançara,
E o grito: _ai do vencido!_
Nos montes retumbara.

As armas se hão cruzado:
O pó mordeu o forte;
Cahiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.

Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou,
E o adro dos estranhos
Seus ossos não guardou.

Elle herdará, ao menos,
Aos seus honrado nome,
Paga de curta vida
Ser-lhe-ha largo renome.


V.

E a bala sibilando,
E o trom da artilharia,
E a tuba clamorosa,
Que os peitos accendia,

E as ameaças torvas,
E os gritos de furor,
E desses, que expiravam,
Som cavo de estertor,

E as pragas do vencido,
Do vencedor o insulto,
E a pallidez do morto,
Nú, sanguento, insepulto,

Eram um cá'os de dores
Em convulsão horrivel,
Sonho de accesa febre,
Scena tremenda e incrivel!

E suspirei: nos olhos
Me borbulhava o pranto,
E a dor, que trasbordava,
Pediu-me infernal canto.

Oh, sim! maldisse o instante,
Em que buscar viera,
Por entre as tempestades,
A terra em que nascera.

Que é, em fraternas lides,
Um canto de victoria?
É delirar maldicto;
É triumphar sem gloria.

Maldicto era o triumpho,
Que rodeiava o horror,
Que me tingia tudo
De sanguinosa côr!

Então olhei saudoso
Para o sonoro mar;
Da nau do vagabundo
Meigo me riu o arfar.

De desespero um brado
Soltou, ímpio, o poeta.
Perdão! Chegára o misero
Da desventura á meta.


VI.

Terra infame!--de servos aprisco,
Mais chamar-me teu filho não sei:
Desterrado, mendigo serei;
De outra terra meus ossos serão!

Mas a escravo, que pugna por ferros,
Que herdará deshonrada memoria,
Renegando da terra sem gloria,
Nunca mais darei nome de irmão!

Onde é livre tem patria o poeta,
Que ao exilio condemna ímpia sorte.
Sobre os plainos gelados do norte
Luz do sol tambem desce do céu;

Tambem lá se erguem montes, e o prado
De boninas, em maio, se veste;
Tambem lá se meneia o cypreste
Sobre o corpo que á terra desceu.

Que me importa o loureiro da encosta?
Que me importa da fonte o ruido?
Que me importa o saudoso gemido
Da rollinha sedenta de amor?

Que me importam outeiros cubertos
Da verdura da vinha, no estio?
Que me importa o remanso do rio,
E, na calma, da selva o frescor?

Que me importa o perfume dos campos,
Quando passa da tarde a bafagem,
Que se embebe, na sua passagem,
Na fragrancia da rosa e aleli­?

Que me importa? Pergunta insensata!
É meu berço: a minha alma está lá...
Que me importa... Esta bôca o dirá?!
Minha patria, estou louco... menti!

Eia, servos! O ferro se cruze.
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!

Larga a valla! que, após a peleja,
Todos nós dormiremos unidos!
Lá vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos... depois do morrer!


VII.

Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente;
E o sol ia fugindo
No termo do occidente.

E os fortes lá jaziam
Co'a face ao céu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.

Porém, a noite delles
Não era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e não findava.

Contrarios ainda ha pouco,
Irmãos, emfim, lá eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o pó, cederam.

No limiar da morte
Assim tudo fenece:
Inimizades calam,
E até o amor esquece!

Meus dias rodeiados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vão suspiro
Terei, morrendo, agora,

Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida,
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida!

Meu derradeiro alento
Não colherão os meus.
Por minha alma atterrada
Quem pedirá a Deus?

Ninguem! Aos pés o servo
Meus restos calcará,
E o riso ímpio, odiento,
Mofando soltará.

O sino luctuoso
Não lembrará meu fim:
Preces, que o morto afagam,
Não se erguerão por mim!

O filho dos desertos,
O lobo carniceiro,
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!

Oh morte, o somno teu
Só é somno mais largo;
Porém, na juventude,
É o dormi-lo amargo;

Quando na vida nasce
Essa mimosa flor.
Como a cecem suave,
Delicioso amor;

Quando a mente accendida
Crê na ventura e gloria;
Quando o presente é tudo,
E inda nada a memoria!

Deixar a cara vida,
Então, é doloroso,
E o moribundo á terra
Lança um olhar saudoso.

A taça da existencia
No fundo fézes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces, bem doces, vem.

E eu morrerei agora
Sem abraçar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos céus?

Morrer, morrer, que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Irei dormir tranquillo.

Dormir? Só dorme o frio
Cadaver, que não sente;
A alma voa a abrigar-se
Aos pés do Omnipotente.

Reclinar-me-hei á sombra
Do amplo perdão do Eterno;
Que não conheço o crime,
E erros não pune o inferno.

E vós, entes queridos,
Entes que tanto amei,
Dando-vos liberdade
Contente acabarei.

Por mim livres chorar
Vós podereis um dia,
E ás cinzas do soldado
Erguer memoria pia.



A VICTORIA E A PIEDADE.


I.

Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
      Nos paços dos senhores!
Eu jámais consagrei hymno mentido
      Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
      Á porta do abastado,
O qual com ouro paga a propria infamia,
      Louvor que foi comprado.
Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro
      Prostitue o alaúde!
Deus á poesia deu por alvo a patria,
      Deu a gloria e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
      Livre o poeta seja,
E em hymno isento a inspiração transforme,
      Que na sua alma adeja.


II.

No despontar da vida, do infortunio
      Murchou-me o sopro ardente;
E saudades curti em longes terras
      Da minha terra ausente.
O solo do desterro, ai, quanto ingrato
      É para o foragido,
Ennevoado o céu, arido o prado,
      O rio adormecido!
Eu lá chorei, na idade da esperaça,
      Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu; e antes de tempo
      Ergueu hymnos á morte:
Que a morte é para o misero risonha,
      Sancta da campa a imagem...
Alli é que se afferra o porto amigo,
      Depois de ardua viagem.


III.

Mas quando o pranto me sulcava as faces,
      Pranto de atroz saudade,
Deus escutou do vagabundo as preces,
      Delle teve piedade.
«Armas!--bradaram no desterro os fortes,
      Como bradar de um só:
Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os
      Indissoluvel nó.
Com seus irmãos as sacrosanctas juras,
      Beijando a cruz da espada,
Repetiu o poeta:--Eia, partamos!
      Ao mar!»--Partia a armada.
Pelas ondas azues correndo afoutos,
      As praias demandámos
Do velho Portugal, e o balsão negro
      Da guerra despregámos;
De guerra em que era infamia o ser piedoso,
      Nobreza o ser cruel,
E em que o golpe mortal descia involto
      Das maldicções no fel.


IV.

Fanatismo brutal, odio fraterno,
      De fogo céus toldados,
A fome, a peste, o mar avaro, as turbas
      De innumeros soldados;
Comprar com sangue o pão, com sangue o lume
      Em regelado inverno;
Eis contra o que, por dias de amargura,
      Nos fez luctar o inferno.
Mas de fera victoria, emfim, colhemos
      A c'roa de cypreste;
Que a fronte ao vencedor em í­mpia lucta
      Só essa c'roa veste.
Como ella torvo, soltarei um hymno
      Depois do triumphar.
Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra
      Bem triste é o acordar!
Nessa alta encosta sobranceira aos campos,
      De sangue ainda impuros,
Onde o canhão troou por mais de um anno
      Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
      Pedir inspirações
Á noite queda, ao genio que me ensina
      Segredos das canções.


V.

Reina em silencio a lua: o mar não brame,
      Os ventos nem bafejam;
Rasas co' a terra, só nocturnas aves
      Em gyros mil adejam.
No plaino pardacento, juncto ao marco
      Tombado, ou rota sebe,
Aqui e alli, de ossadas insepultas
      O alvejar se percebe.
É que essa veiga, tão festiva outr'ora,
      Da paz tranquillo imperio,
Onde ao carvalho a vide se enlaçava,
      É hoje um cemiterio!


VI.

Eis de esforçados mil inglorios restos,
      Depois de brava lida;
De longo combater atroz memento
      Em guerra fraticida.
Nenhum padrão recordará aos homens
      Seus feitos derradeiros:
Nem dirá:--aqui dormem portugueses;
      Aqui dormem guerreiros.»
Nenhum padrão, que peça aos que passarem
      Resa fervente e pia,
E juncto ao qual entes queridos vertam
      O pranto da agonia!
Nem hasteada cruz, consolo ao morto;
      Nem lagea que os proteja
Do ardente sol, da noite humida e fria,
      Que passa e que roreja!
Não! Lá hão-de jazer no esquecimento
      De deshonrada morte,
Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,
      Não os dispersa o norte.


VII.

Quem, pois, consolará gementes sombras,
      Que ondeiam juncto a mim?
Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
      Seu perdão de Elohim?
Eu, o christão, o trovador do exilio,
      Contrario em guerra crua,
Mas que não sei verter o fel da affronta
      Sobre uma ossada nua.


VIII.

Lavradores, zagaes, descem dos montes,
      Deixando terras, gados,
Para as armas vestir, dos céus em nome,
      Por phariseus chamados.
De um Deus de paz hypocritas ministros
      Os tristes enganaram:
Foram elles, não nós, que estas cáveiras
      Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
      Que do Senhor no templo,
Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,
      Dás do furor o exemplo!
Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste
      Folgar de nosso mal,
E, entre as ruinas de cidade illustre,
      Soltar riso infernal.
Tu, no teu coração insipiente,
      Disseste:--Deus não há!»
Elle existe, malvado; e nós vencemos:
      Treme; que tempo é já!


IX.

Mas esses, cujos ossos espalhados
      No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
      Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
      Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
      Culpados de innocentes.


X.

Perdoou, expirando, o Filho do Homem
      Aos seus perseguidores:
Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;
      Perdão, oh vencedores!
Não insulteis o morto. Elle ha comprado
      Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
      Sem dobre ou monumento.
É tempo d'olvidar odios profundos
      De guerra deploravel.
O forte é generoso, e deixa ao fraco
      O ser inexoravel.
Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
      No seio agasalhou!
Elle é mudo: pedi-lo já não póde;
      O dá-lo a nós deixou.
Além do limiar da eternidade
      O mundo não tem réus,
O que legou á terra o pó da terra
      Julgá-lo cabe a Deus.
E vós, meus companheiros, que não vistes
      Nossa triste victoria,
Não precisaes do trovador o canto;
      Vosso nome é da historia.


XI.

Assim, foi do infeliz sobre a jazida
      Que um hymno murmurei,
E, do vencido consolando a sombra,
      Por vós eu perdoei.



A CRUZ MUTILADA.


Amo-te, oh cruz, no vertice firmada
      De esplendidas igrejas;
Amo-te quando á noite, sobre a campa,
      Juncto ao cypreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
      As preces te rodeiam;
Amo-te quando em prestito festivo
      As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
      No adro do presbyterio,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
      Guias ao cemiterio;
Amo-te, oh cruz, até, quando no valle
      Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
      Do assassinado o pó:

      Porém quando mais te amo,
      Oh cruz do meu Senhor,
      É se te encontro á tarde,
      Antes de o sol se pôr,

      Na clareira da serra,
      Que o arvoredo assombra,
      Quando á luz que fenece
      Se estira a tua sombra,

      E o dia ultimos raios
      Com o luar mistura,
      E o seu hymno da tarde
      O pinheiral murmura.

         -----

E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas
Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua
Detraz do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Oh mutilada cruz, falam de um crime
Sacrilego, brutal e ao í­mpio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quasi derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbyterio rustico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, annunciando o instante
Da _Ave-Maria_; da oração singela,
Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem
Se mistura nos canticos saudosos,
Que a natureza envia ao céu no extremo
Raio de sol, passando fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injuria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!

         -----

Foi da sciencia incredula o sectario,
Acaso, oh cruz da serra, o que na face
Affrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miseria e na dôr constante has sido
Por bem dezoito seculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tyranno,
Bradando--_esmola!_ a um--_piedade!_ ao outro.

Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras
Symbolo eterno de uma crença eterna;
Se a n­ossa fé em ti fosse mentida,
Dos oppressos de outr'ora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opprobrio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do céu, e elles te insultam,
Esquecidos das lágrymas perennes
Por trinta gerações, que guarda a campa,
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se
De que, se a paz domestica, a pureza
Do leito conjugal bruta violencia
Não vae contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludibrio
Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;
Que por ti o cultor de ferteis campos
Colhe tranquillo da fadiga o premio,
Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura
Lhe diga:--é meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundancia: a ti, escravo,
O trabalho, a miseria unido á terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Emquanto, em dia de furor ou tedio,
Não me apraz com teus restos fecunda-la.»

Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasphemar, tu te elevaste
Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:--
Mentira!» E o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança scintillava, a medo,
E viu as faces do senhor retinctas
Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente
Da liberdade annunciára a vinda.

         -----

Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, emfim, o seu paiz querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se á luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, juncto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram annos,
Ha um como fulgor sereno e sancto.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
O tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pae. Nas largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam para o tumulo suaves,
Rodeiados de affecto, e quando á terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lagrymas, bençãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tyrannos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um pi­ncaro grani­tico, açoutado
Pelas azas do vento e ennegrecido
Por chuvas e por soes. Para ameigar-te
Este ar humido e gelido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do estio
No ardor canicular nunca disseste:--
Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro
O despresado fruct­o! O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do inverno,
E Deus creou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o teu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adórnava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeiavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.
Que te importava? As arvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circumdar-te de hymnos.
Affagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
E esperavas o tumulo. O teu tumulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,
Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,
Ellas nas fauces dos volcões descessem.
Então para essa campa flores, bençãos,
Ou de saudade lagrymas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pedíras á ingrata raça humana,
Ao pé de ti no seu sudario involta.

         -----

Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de soffrer aos teus remidos,
Oh redemptora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e accusação perenne
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, á noite,
Quando a procella no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz accusadora
Sobrelevar á voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Christo, do divino martyr,
Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu trance final:--Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infamia.
Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes
Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irman: segue-a sem susto
No caminho dos seculos. Da terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho
Trará da tua liberdade o dia.»

Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga historia
Recontando do Golgotha, lembrando-lhes
Que só ao Christo a liberdade devem,
E que impio o povo ser é ser infame.
Mutilado por elle, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a divida não paga
Ficará, oh tremenda accusadora,
Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Christo o nome passará na terra.

         -----

Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perenne testemunho
Da avita crença, os montes, a espessura,
O mar, a lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.

Della no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é sancto
Este rochedo nú, e um hymno pio
A solidão lhe ensinará e a noite.

Do cantico futuro uma toada
Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepusculo nas azas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saúdar-te.

         -----

      Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
      E que, lá no occidente,
Ultima vês seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Rochedo, que descanças
No promontorio nú e solitario,
Como atalaia que o oceano explora,
      Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vario,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao sol a prumo que o devora,
      Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas tenues flores se evapora
      Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
      Oh mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
      Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a terra,
Esparzes tua luz ameigadora
      Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Debalde o servo ingrato
      No pó te derribou
      E os restos te insultou,
      Oh veneranda cruz:

      Embora eu te não veja
      Neste ermo pedestal;
      És sancta, és immortal;
      Tu és a minha luz!

      Nas almas generosas
      Gravou-te a mão de Deus,
      E, á noite, fez nos céus.
      Teu vulto scintillar.

      Os raios das estrellas
      Cruzam o seu fulgor;
      Nas horas do furor
      As vagas cruza o mar.

      Os ramos enlaçados
      Do roble, choupo e til,
      Cruzando em modos mil,
      Se vão entretecer.

      Ferido, abre o guerreiro
      Os braços, sólta um ai,
      Pára, vacilla, e cáe
      Para não mais se erguer.

      Cruzado aperta ao seio
      A mãe o filho seu,
      Que busca, mal nasceu,
      Fontes da vida e amor.

      Surges, symbolo eterno
      No céu, na terra e mar,
      Do forte no expirar,
      E do viver no alvor!



LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.



A PERDA D'ARZILLA.

(1549).


Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.

Como tocheiros com brandões accesos,
      De um féretro ao redor,
Cuja vermelha luz o horror da morte
      Só faz sentir melhor,
Taes as nocturnas almenáras fulgem
      Nas torres d'atalaia,
Pelos outeiros, que circumdam muros
      De povoação na praia.

         -----

      Arzilla, a guerreira.
        Lá jaz na afflicção,
        Que a rendeu aos mouros
        Elrei dom João.
      Tomar-te-ha Deus contas,
        Rei fraco e prasmado,
        De tão grande vilta,
        De teu grão peccado.
      Maldiz-te nos mares
        Valente fronteiro,
        Que na sé de Ceuta
        Se armou cavalleiro;
      Que dez aduares
        Em Tanger queimou,
        E em muros d'Alcacer
        Dez elches matou:
      Que era hoje d'Arzilla
        Temido adaí­l,
        E a quem tu mandaste
        Fugir como vil.

         -----

      Vêde-o lá na gavia
        Da negra galé,
        De braços cruzados,
        Immovel, em pé;
      E a náu que arfa e voa
        Na fremente via,
        Ferindo na esteira
        Fugaz ardentia;
      E d'Africa as praias,
        Que a ré vão fugindo,
        E as vagas, que rolam,
        Distantes mugindo.
      Em roda o silencio:
        No céu noite escura:
        E o peito do triste
        Confrange a amargura.

         -----

      Do veterano as faces
        O salso pranto réga:
        Nos africanos montes
        Saudoso os olhos préga.
      Sente no seio as ancias
        D'incomportavel dor,
        E ás vezes range os dentes
        Em trances de furor.
      Um cantico á su' alma
        A indignação inspira:
        Vai sussurra-lo ao longe
        Aura que branda espira.


O CANTO DO ADAÍL.

  Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
  Quando o esculca, saído da villa
Da manhã ao primeiro fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;
  Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
  Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendão português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:
  Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,
Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
  Porque, rico de presa formosa,
Já voltou nobre alcaide christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:
  Nossa estrella era então esplendente;
Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
  Portugal, oh leão do occidente,
Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
  Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!
  E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
  Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de féros no mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,
  Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
  As galés do arrais mouro são fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.
  Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!
  Mercadores!--deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
  Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de nós combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.
  Para nós os castellos d'avante;
Para nós a arrombada e bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
  Para nós o machado e montante;
Para vós a bombarda e arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;
  Para nós o tombar derradeiro
Sobre o ferreo esporão das galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!
  O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa será;
E em seus labios--_Arzilla!_--ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.

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E elles, os fortes d'Asia, não vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a náu d'elrei ao infamado Tejo
      Veio aportar:
E o adaíl depôs as armas rotas,
      Não no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram mouros
      Costas voltar.

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E tomando o bordão de peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
      De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
      Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,
      Féretro antigo
O adaí­l procurou. De um rei soldado
      Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
      Lhe dirigiu:
Maldicção para alguem pedia ao morto;
      Mas nada ouviu!
Então, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
      Do rei extinto.
Expirára ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_--
      A Affonso Quinto.



A ROSA.


      Pura em sua innocencia.
      Entre a sarça espinhosa,
Purpurea esplende, inda botão intacto,
      Na madrugada a rosa.

      É da campina a virgem
      A pudibunda flor;
Em seus efluvios matutina brisa
      Bebe o primeiro amor.

      O sol inunda as veigas:
      Calou-se o rouxinol;
E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,
      Desabrochou-a o sol.

      O sôpro matutino
      No seio seu pousára:
Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,
      Que a linda rosa amára.

      Bella se ostenta um dia;
      Saúdam-na as pastoras;
Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;
      Voam do goso as horas.

      Lá vem chegando a noite,
      E ella empallideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
      A rosa emmurcheceu.

      Desce o tufão dos montes,
      Os matos sacudindo;
Desfallecida a flor desprende as folhas,
      Que o vento vai sumindo.

      Onde estará a rosa,
      Do prado a bella filha?
O tufão, que espalhou seus frageis restos,
      Passou: não deixou trilha.

      Da sarça a flor virente
      Nasceu, gosou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
      Seu fado escuro importa?

      Nenhum, nenhum por ella
      Gemeu saudoso á tarde;
Não ha quem juncte as derramadas folhas,
      Quem amoroso as guarde.

      Só da manhan o sôpro,
      Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a innocencia
      Em seu botão sorria,

      Juncto do tronco humilde
      O curso demorando,
Veio depositar perdão, saudade,
      Queixoso sussurrando.

      De quantas és a imagem,
      Oh desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto
      Tem murmurado o amor!



O MENDIGO.


I.

O sol passa nos céus:--sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
        Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
        Do opprobrio o pão.

Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:
        E elle chorou:
E em seus andrajos para choça alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos
        Encaminhou:

Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso
        Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados,
Convidava os fiéis a erguer as preces
        Da Ave-Maria.

Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
        E uma oração,
A oração do infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
        Sua afflicção.

Para o velho a existencia é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
        Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
        Dos seus amores.

A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo
        Ante o altar-mór:
Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo
      Era a sua dor.

Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,
      Qual prado o léste.
Deus o inspirou; sperança é filha sua,
Doce esperança, que os mortaes só deixa
      Sob o cypreste.

Voltou á choça, e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
      Que é quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,
      Os olhos cerra.


II.

Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da náu; colhido o panno
      Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
      Os mares fende.

Correndo árvore secca avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando á noite
      Em seu fadario;
E pelas trévas branquejando a escuma,
Que da prôa espadana, imita as prégas
      D'alvo sudario.

Envolto no gibão amplo e felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso
      Véla encostado;
Que, se não mentem calculos, o porto
Proximo está, dos lassos navegantes
      Tão suspirado.


III.

O vento vai quebrando, e já rareiam
Grossos montões de acastelladas nuvens:
      Diurno alvor
Traça no céu d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
      Cerulea côr.

Surge o sol radioso e inunda as vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
      Mais amplo é já:
Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:--terra!
      Ei-la acolá!»

Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!
      Como é formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,
E lá no extremo os pincaros da serra
      Erma e saudosa!

De indicas mérces, de ouro carregada
Aproa á terra, com celeuma alegre,
      A náu pujante;
E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue á patria
      O navegante.


IV.

É meia noite:--os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada
      E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado
      Cahir tambem.

E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,
      Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes terras
A miseria o levou: mudada sorte
      Feliz o traz.

Quantas vezes presága a mente do homem
Véla como um propheta, em quanto o somno
      Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
      Grata se accende!


V.

Nos gonzos ferrugentos range a porta
Do tugurio do pobre adormecido,
      E descuidado;
Que do mendigo o umbral patente é sempre,
Nem carece de estar, como o do rico,
      Aferrolhado.

O bom do velho ao sobresalto acorda,
E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,
      E o pranto é mudo;
Mas breve um grito e o soluçar e os beijos
E o sonho que passou e a voz do sangue
      Lhe dizem tudo.

Não mais sob o carvalho ao velho honrado
Esmoladora mão o peregrino
      Estenderá:
Meigos lhe sorrirão extremos dias,
E as suas cinzas filial gemido
      Consolará.



O BOM PESCADOR.


O sol rubro, em leito
De nuvens descendo,
Tremente, crescendo,
No mar se ia a pôr.

Sentado no barco,
Que a onda embalava,
Scismando cantava
O bom pescador.

A paz da sua alma
No olhar exprimia,
E a voz traduzia
Scismar do cantor:

E o canto sereno
Levava-lho a brisa,
Que á tarde deslisa
Com meigo frescor.

         -----

«Acabem de todo
No prado as boninas,
E em vastas campinas
Não surja uma flor;

Dispa-se o ameeiro
Da folha viçosa,
E o Tejo em lodosa
Mude esta azul côr;

O vento gelado
Só reine e as procellas;
Das vivas estrellas
Se apague o fulgor:

O sol radioso
Em nuvens se envolva,
E á terra não volva
Seu grato calor;

Que do horrido inverno,
Comtigo, oh serrana,
Na minha choupana
Rirei do furor!

Não pensa se as veigas
Se vestem de relva,
Se está nua a selva
Do lindo verdor;

Nem ouve os rugidos
Do vento inquieto
Quem, sob o seu tecto,
Se abriga no amor.

Nasci, eduquei-me
N'um mundo mais nobre,
Agora sou pobre,
Sou um pescador.

Ás bordas do abysmo
Chegou-me a ventura;
Medí delle a altura,
Descí sem pavor.

Co'a dita se enlaça
Humilde existencia,
Se do homem a essencia
O orgulho não fôr.

Emquanto de paços,
De ferteis devesas,
Emfim, de riquezas
Eu pude dispor,

O somno tranquillo
A mim não descia,
Que o ferro temia
Do vil salteador.

Na minha alma, immersa
Em noite e amargura,
Pesava bem dura
A mão do Senhor!

Agora misturo
Do rude oceano
Nas vagas, ufano,
O honrado suor;

Agora sereno
Vem dia após dia,
E a noite sombria
Não cerca o temor;

Porque entre teus braços,
Esposa querida,
Me esqueço da lida
Do mar bramidor.

Da vida no sonho
Que importa vil ouro,
Se tu és thesouro
Perpetuo de amor;

Se ainda em teus labios,
Oh cara consorte,
Virá doce a morte
Minha alma depor?

Nas ribas fragosas,
Que os ventos castigam,
E as ondas fustigam
Com longo fragor,

Ao pé da ermidinha,
Nesse adro tão só,
Envoltos no pó,
Sem goso, sem dôr,

Tranquillos, obscuros,
Privados de luz,
Á sombra da cruz
Do Deus Redemptor,

De ti só lembrados,
Em triste oração,
Os restos serão
Do teu pescador.



TRISTEZAS DO DESTERRO.

(FRAGMENTOS).


       Erit tristis et moeretis.
                         Isaias.


I.

Terra cara da patria, eu te hei saudado
D'entre as dores do exilio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei-te o choro
Da saudade longi­nqua. Sobre as aguas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontorio erguido,
D'onde o insulano audaz contempla o immenso
Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
Não sentida uma lagryma fugiu-me,
E devorou-a o mar. A vaga incerta,
Que róla livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, irá depo-la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma acceita: é quanto póde
Do desterro enviar-te um pobre filho.

No silencio da noite, em sólo estranho,
Patria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste céu achatado, tristemente
Com luz mortiça e pallida, não ricos
De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
Pela sombra ameni­ssima, que chama
Do affastado oriente o sol no occaso,
No teu profundo céu has-de tu vê-los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita-os delles, desgraçada patria!

Já se acercava o tenebroso inverno;
Vinha fugindo a rapida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
Juncto de mim passou: em suas azas
Tambem mandei o filial suspiro.

Pelo dorso das vagas rugidoras
Eu corri de além mar para estas plagas.
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
Seu rijo sopro refrescou-me as veias.
.....................................


II.

Que ferreo coração esquece a terra,
Que lhe escutou os infantís vagidos,
E lhe bebeu as lagrymas primeiras,
Preludio a tantas que no curto espaço
Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece
O tecto paternal, embora adeje
Ao redor delle o medo de tyrannos?
Quem não deseja misturar, na morte,
Com a gleba nativa o pó de extincto,
E murmurar seu ultimo suspiro
Alli, onde primeiro a luz diurna
O allumiou na rapida passagem
Entre o nada e o morrer, chamada a vida?
Ai, que és tu existencia?! Um pesadelo,
Um sonho mau, de que se acorda em trévas,
Na valla dos cadaveres, em meio
Da unica herança que pertence ao homem,
Um sudario e o perpetuo esquecimento.
A infancia é dormir placido: inquieta
A mocidade é, já; mas entre dores
Vem o amar e esperar, e a crença ardente,
E affectos sanctos consolar quem dorme:
Pouco a pouco, porém, sobre a jazida
Do sonhador, do mal se assenta o anjo,
E as imagens ridentes da ventura
Co' as negras asas dispersando ao longe,
Com duro pé o coração lhe opprime.
Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo
Veio assentar-se, e o juvenil enleio
De affectos puros em dormir sereno
Affugentou de mim. Vagueei nos mares;
Peregrinei na terra: em toda a parte
O pé maldicto me esmagou o peito,
E da patria a saudade, em sonho triste,
Immovel, do viver me tece a noite.
..................................


III.

Solidão, solidão, quem diz que existes
Onde não soa tumultuar das turbas
Mentiu-te a essencia! Solidão e morte
São uma idéa só; um pensamento
Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,
Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
E a larangeira em flor, e as harmonias
Que a natureza em vozes mil murmura
Na terra em que eu nasci, embora falte
No concerto immortal a voz humana,
Que um ermo assim povoará meus dias.
Mas aqui!... Que me importa o murmurio
Dos que passam? Que vale essa campina
Humida e verde, e no gelado pégo
Raio do sol que se refrange turvo?
É o desterro solidão e morte
Para o poeta: embora estranha lingua
Lhe revele o pensar, o intimo verbo
Que em ar vibrado traduziram labios,
Se o céu, o til, o arroio, o prado, a selva
Não tem para lhe dar um pensamento
De poesia e de amor?
                    Não! Tudo é pallido,
Tudo é morto e sósinho e silencioso
Como um sepulchro e um cemiterio!
                                 E ainda
Campas e adros inspiram, quando hi dormem
Nossos irmãos e paes, porque tem lagrymas
Que desopprimem a alma; tem memorias,
Tem uma cruz, em tôrno á qual sussurram
Preces, que alli vamos guardar, qual guarda
O avaro em ferreo cofre os seus thesouros,
Para os contar hoje, ámanhan e sempre
Emquanto vivo for.
                  E cá? O engenho
Nem crê, nem sente bafejar-lhe um canto
O crepusculo, a lua, a aragem fresca,
O arrebol da manhan, ou céu sereno
Por noite escura recamado de astros.

Harpa meridional, porque, no extremo
Da terra patria, o trovador errante
Não deixaste partir só com seus males?
Porque vieste, oh filha do occidente,
Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas
De céu septentrional? Tu, pobresinha,
Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,
Sem haver mão que te vibrasse as cordas,
Jazesses esquecida, ainda soáras
Com incerta harmonia. Ás horas meigas
Em que o dia se esvai, placida a brisa,
Que espira do oceano e encrespa as vagas,
Passaria por ti, e te agitára,
E murmuráras som que respondera
Trémulo, fraco, á flauta dos pastores
Sussurrando suave entre as quebradas
Da montanha selvosa. E aqui? És muda;
És muda, que essas cordas carcomiu-t'as
Este ar gelido e turvo, e qual o engenho
De teu dono, no viço da existencia,
Envelheceu, envelheceste, oh harpa!
...................................


IV.

Berço do meu nascer, sólo querido,
Onde crescí e amei e fui ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!

Quando, aterrado ante o minaz aspecto
Do anjo de Deus, tremente vagueiava
Nosso primeiro pae em volta do Éden,
Não lhe tecia tanto de amarguras
A vida o duro affan com que trocava
Pelo pão o suor co' a avara terra;
Não era tanto o traspassar-lhe os membros
O hiberno sopro do aquilão, queimar-lh'os
O sol estivo, e o magoar, errante,
Os pés feridos nos tojaes bravios
Pelas sendas que abria em ermos valles,
Como as saudades de passados tempos,
Dessa infancia viril, em que surgira,
Para viver e amar, do barro inerte;
Não o pungia tanto o mal presente
Como a recordação dos claros dias
De innocencia e de paz que alli vivêra.
A primavera eterna, as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O frémito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;
Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos
Vingadora a memoria inexoravel.
Por entre a bruma da estação chuvosa
Passavam-lhe de abril perfumes, galas;
Sob estuoso sol vinha a saudade
Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio
E o ramalhar dos platanos copados.
Por tenebrosas noites de procella,
Quando a torrente e o vendaval bramiam,
Cria d'entre o fragor ouvir romperem
Os matutinos canticos das aves,
E ver no pégo reflectir-se a lua.
Longe, assim, do seu berço, o criminoso
Com dura punição remia o crime:
Mas para o consolar na senda agreste,
Em cujo termo o esperava a morte,
O severo juiz deixára ao triste
De uma esposa querida o seio casto,
Onde aspirar o amor, olhos que o pranto
Misturassem co'o seu. Perdendo a patria
Perdia encantos só de natureza
Formosa e juvenil. As harmonias
Dos corações, os misticos affectos
Não lhe truncou a espada flammejante
Do cherubim ao repelli-lo do Éden:
Para elle a patria renasceu no exilio.

Eu, prófugo como elle, o Éden nativo
Perdí; e perdí mais. Despedaçados
Os affectos de irmão, de amante, e filho
Restam-me na alma qual buída frecha,
Que no peito ao cravar-se estala e deixa,
Cahindo, o ferro na ferida occulto.
...................................


V.

Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria
Me reflecte, alta noite, a tua imagem
Por entre um véu de involuntario pranto!

Quão triste cogitar em mim desperta
A imagem cara! Á noite, o bom do velho
As bençams paternaes de Deus co' as bençams
Sobre minha cabeça derramava,
E ao começar o dia; e ellas desciam
A um coração exempto de remorsos
Onde encontravam filial piedade.
E agora? É-lhe mysterio o meu destino.
Qual o seu para mim o exilio occulta.
Saciado, talvez, de dor e affrontas
Dorme já sob a campa o somno eterno?
Suas trémulas mãos não mais lançar-me
Virão a bençam da piedade? O extremo
Arranco seu não roçará meus labios?
Ah, se um dia raiar para o proscripto
O suspirado alvor do sol da patria,
E se entre nós de um í­mpio as mãos ergueram
A barreira da morte, ai delle, ai delle!
E tambem, ai de mim!........................
...................... Mas se 'inda um filho
Houver digno de o ser, eu criminoso
Terei quem me deplore; mãos que plantem
No adro deserto onde jazer maldicto
Um cypreste, uma flor, e quem deponha
Aos pés do throno do juiz supremo
Por mim, uma oração fervente e pia.
...................................


VI.

Arvores, flores, que eu amava tanto,
Como viveis sem mim? Nas longas vias,
Que vou seguindo peregrino e pobre,
Sob este rude céu, entre o ruído
Dos odiosos folgares do sicambro,
Do monotono som da lingua sua,
Pelas horas da tarde, em varzea extensa,
E ás bordas do ribeiro que murmura,
Diviso ás vezes, em distancia, um bosque
De arvoredo onde bate o sol cadente,
E vem-me á idéa o laranjal viçoso
E os perfumes de abril que elle derrama,
E as brancas flores e os dourados fructos,
E illudo-me: essa varzea é do meu rio,
Esse bosque o pomar da minha terra.
Aproximo-me; o sonho de um momento
Então se troca em acordar bem triste,
Como surge e se esvai por entre as nevoas
Vulto indeciso nos cantares d'Ossian.
É uniforme e torva esta verdura,
Acre o cheiro que exhala este arvoredo,
Mal-assombrado o rio, humido o valle,
Frio do sol o raio derradeiro
Espirando neste ar denso e pesado,
Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,
E rouba aos olhos horisonte immenso.

Ai, pobres flores que eu amava tanto,
Por certo não viveis! O sol pendeu-vos
Mirradas folhas para o chão fervente:
Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,
E morrestes. Morrestes sobre a terra,
Que por cuidados meus vos educára.
E eu? Talvez nestes campos estrangeiros
Minha existencia o fogo da desdita
Faça pender, murchar, ir-se mirrando
Sem que torne a ver mais esses que amava,
Sem que torne a abraçar a arvore annosa,
Que se pendura sobre a limpha clara
Lá no meu Portugal, onde a frescura
Da ribeira perenne, da floresta
Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!
..........................................


VII

Eu já vi n'uma ilha arremessada
Ás solidões do mar, entre os dous mundos,
Vestigios de volcões que hão sido extinctos
Em não-sabidos seculos. Scintillam,
Aqui e alli, nos areientos plainos,
Onde espinhosas sarças só vegetam,
Restos informes de metaes fundidos
Pelas chammas do abysmo, entre affumadas
Pedras que em parte amarellece o enxofre,
Que a lava em rios dispersou, deixando
Só delle a côr em lascas arrancadas
Das entranhas dos montes penhascosos.
A natureza é morta em todo o espaço
Que ella correu, no dia em que, rugindo,
Da cratéra fervente, á voz do Eterno,
Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,
A engoliu e passou, qual sumiria
De soçobrada nau celeuma inutil.
Tal é meu coração. Bem como a lava
É o desterro ao trovador. Meus olhos
Hão-de esquecer as lagrymas; que a seiva
Do vivido sentir vai-se queimando
Ao suão mirrador de atroz saudade,
Que excede tudo em dor; excede a de orpham,
De viuva, de mãe que sobre o berço
Vê jazer morto o pallido filhinho.
E porquê? Porque ahi ha inclinar-se
Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se
Com suspiros e prantos desses restos,
Que vão quedos dormir em adro antigo,
Onde os avós já dormem; onde ha patria,
Ha fami­lia, ha irmãos.--Cá, tudo é ermo,
E a dor está no coração do prófugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dor aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem,
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada, qual cobra peçonhenta,
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.

E depois, o morrer em leito alheio;
Despedir-se de um sol que não é esse,
Que, na infancia, nos fez florir os prados,
Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;
Volver em torno os olhos moribundos
E não ver uma lagryma; inclinar-se
E não achar um seio feminino,
Ou de esposa ou de mãe, onde repouse
A fronte accesa por ardente febre;
E pensar entre as ancias derradeiras,
Que será terra estranha a que nos trague;
Que será til do norte o que proteja
Nosso humilde moimento, a verde gleba,
Onde de pinho a cruz por dous invernos
Apenas luctará co'a negra nuvem
Do esquecimento eterno, unica herança
Do que expirou no exilio!
                         Amarguradas
São taes cogitações para o que sente
No seio em ondas trasbordar-lhe a vida.
Quaes, porém, não virão ao pobre velho,
Que, arrancado das bordas do seu tumulo,
Foi por cima dos mares arrojado
Para juncto do umbral de um cemiterio,
Onde não achará paternos ossos,
Para ao pé delles se deitar morrendo?!
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VIII.

Quando nos luz o sol no céu da patria,
Embora sobre nós verta a desdita
Torrentes de amargura, ha um consolo:
É o altar e a oração. Ao desterrado
Nem sequer isso resta. O templo alheio
É como ermo de Deus; como que param
Nesse craneo de marmore arqueado
Do gigante edificio as tristes preces
Em lingua estranha proferidas. Gelidas
E duras são do pavimento as lageas
Para quem sabe certo não o escutam
Mortos que muito amou; que nesse tecto
Vai bater frouxa uma oração discorde
Entre mil orações.
                  «É falso! É impio!--
A razão o dirá--De Deus o templo
É o mundo. No cimo das montanhas
O nome do Senhor sussurra em sopro
Do vento que passou rasgando as asas
Pelo cardo bravio; a gloria delle
Di-la o rolo do mar correndo á praia;
É o seu hymno o canto da avesinha
No salgueiro que pende e se balouça
Sobre o arroio do valle, e é do regato
O murmurinho o cantico nocturno
Mandado pela terra silenciosa
Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos
Que pelos céus harmoniosos gyram.
Esses montões de cinzeladas pedras
De columnas e torres, que se elevam
Como as mãos junctas de quem resa, apenas
São um memento da oração, um marco
Posto no ermo da vida, que nos lembre
Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,
Que é senhor e que é rei, que é pae e entende
O vento, o mar, os astros, a avesinha,
O sussurrar do arroio humilde, e as preces
De milhões d'orbes em milhões de li­nguas.»

Ao brado da razão só não se dobra
O coração do desterrado!
                         Embora
Sob as asas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo: o amor por elle
Nasce, cresce, vigora-se enredado
Com os beijos de mãe, com sorrir meigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O pôr do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.

Quando isso tudo se converte em sombra,
Que em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissimo ou phantasma
Á meia-noite visto, á luz da lua,
Ao longe entre arvoredo: quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trévas
Pela antena da nau do vagabundo;
Quando a dor sua em olhos de ente vivo
Não achou uma lagryma piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrymas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,
Não sobre seio que as esconda e enchugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus soçobra e morre
Entre o bramir de maldicções e pragas.

Oh, do desterro o mal supremo é este!
É o seccar-se o coração; mirrar-se
Como a sarça do monte em fins d'estio;
É o descrer, e o blasphemar do Eterno.
Se aos céus levanta o desgraçado os olhos,
É que primeiro os pôs lá no futuro,
E, bem que tenue luz, um fulgorzinho
Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro:
Mas quando se ergue um muro intransitavel
Entre nós e a ventura; quando ao longe
Pelos campos da vida é tudo pallido
E perece a esperança, então a mente
Recúa com horror, e dando em terra,
Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,
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O MOSTEIRO DESERTO.


I.

No mosteiro vai fundo o silencio;
Um silencio que gera terror;
Só nos tectos, que banha o luar,
Sólta o mocho seu pio de horror:

Só o vento que gyra nos pateos,
E se engolfa na escada ogival,
Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
Que ladeiam normando portal.

Meia noite. E na crasta deserta
Não reboam os ecchos do sino,
Que, vagando, murmuram nas cellas:--
São as horas do officio divino.»

Meia noite! Bem como na torre
Voz de bronze dormente parece,
Tal o monge, na dura jazida,
Priguiçoso do templo se esquece.

Monge, o brado nocturno do sino
Ao resar não te chama, é verdade;
Mas talvez já no topo do côro
Somnolento te espera o abbade.

         -----

Nada quebra o remanso da noite
Pelas gothicas, vastas arcadas:
Nem de quicios ranger vagaroso,
Nem murmúrio de lentas passadas.

«Está só o mosteiro?--
                      Este grito
Repetiram-no os ecchos inteiro;
E, bem como em resposta á pergunta,
Retumbou:
         --Está só o mosteiro!»

         -----

    Pouco ha inda, na alta noite
    Passava no espaço a lua,
    Dos ulmos a cima ondeava
    Negra, qual ora fluctua:

    Mas tenebroso silencio
    Não ía, como ora vai:
    Bradava o sino da torre
    Aos monges dizendo:--orae.»

    E pelos vidros córados
    Reverberava fulgor;
    De passos no longo claustro
    Soava tenue rumor.

    Depois, lá dentro na igreja,
    Em côro alterno rompia
    O canto lento dos monges,
    Que ás vozes do orgam se unia:

         -----

Porém, como se ao sopro do archanjo
A trombeta final retumbasse,
E da vida o tumulto na terra
Ao terrivel signal expirasse,

Assim do orgam calou a harmonia,
E dos córos os hymnos calaram,
E os fulgores das lampadas frouxos
Das vidraças não mais transudaram.


II.

É que o filho dos ermos, renegando
      Das tradições antigas,
Desceu a pelejar na ardente arena
      Das facções inimigas.
Amar, soffrer, orar era a existencia
      Que lhe talhára a sorte;
Enxugar muitas lagrymas na terra,
      E repousar na morte;
Realisar té onde é dado ao homem
      Esse typo ideal,
Que nos legou o Salvador, tomando
      Nossa veste mortal.

         -----

E não o quiz. Sacrilego, do pobre
      A herança, que a piedade
Confiára ao ministro de uma crença
      Que é toda caridade,
Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,
      No altar impio da guerra,
E, abrindo o manto, sacudiu irado
      A assolação á terra.

         -----

      De noite no bosque,
      Na gandra deserta,
      No viso do monte,
      Do valle na aberta,

      Á luz das estrellas
      As armas fulgiam,
      E ouviam-se ao longe
      Corceis que nitriam:

      Horrendo propheta
      O abutre passava,
      E sobre as encostas
      Calado pairava:

      Depois, na alvorada,
      Com gritos sem fim
      Saudava do sangue
      Vizinho o festim.

         -----

      E á voz das trombetas,
      Ao trom dos canhões,
      Ao som das passadas
      De vinte esquadrões;

      E em meio do fogo,
      Do fumo alvacento,
      Em rolos ondeando
      Nas asas do vento,

      De agudas baionetas
      A renque brilhante
      Tremente avançava,
      Ao brado de--ávante!»

      E ao baço ruí­do
      Dos leves ginetes,
      No plaino calcando
      Da relva os tapetes,

      Os ferros cruzados
      Luctavam tinindo,
      Peões, cavalleiros
      De involta ruindo,

      E a ferrea granada
      Nos ares zumbia,
      E aos seios das alas
      Qual raio descia.

      E aos ares, revolta,
      A terra espirrava,
      E o globo encendido
      Um pouco se alçava,

      E prenhe de estragos,
      Com fero estampido,
      Mandava mil golpes,
      Em rachas partido.

         -----

      E as horas passavam
      Em scenas de morte;
      E o abutre mirava
      Os trances do forte.

         -----

Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
Pelo pinhal da encosta ou na campina,
Nesse dia de atroz carnificina,
Negros uns vultos vagueiar se viam:
A cruz do Salvador na esquerda erguida,
Na dextra o ferro, preces blasphemando,
«Não perdoeis a um só!--feros bradando,
Entre as fileiras rapidos corriam:
      E era o monge que bradava,
      E era o monge que corria,
      E era o monge que, blasphemo,
      Preces vans a Deus fazia;
      Vans que, á tarde, nesse plaino
      No sangue d'irmãos retincto,
      Só restava o moribundo,
      O cadaver só do extincto.
      E por gandras e por montes,
      Aterrados, perseguidos,
      Em desordenada fuga
      Retiravam-se os vencidos.
      E os vencidos eram esses
      Que a esperança da victoria
      Arrastára, miserandos,
      A uma guerra i­mpia, sem gloria!
Lá dos gritos de raiva baldada
Restrugia o confuso clamor,
E o gemido do mau desgraçado
Na alma oppressa gerava terror.

         -----

Cáia em pó o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se não treme ante as nuas cáveiras,
Que insepultas verá branquejar!


III.

Surge a luz da alvorada. Podessem
Dessas campas geladas que vejo
Os bons monges dos tempos antigos
Surgir vivos á voz de um desejo!

E que ao longo das vastas arcadas
Se escutassem seus passos serenos,
Como se ouve o tranquillo regato
Sussurrar nestes campos amenos!

Quem então não curvára ante o velho?
Quem a bençam da mão descarnada,
Como a bençam do céu, não pedíra
Da virtude ao poder confiada?

Quem ousára soltar no deserto
Estridente clangor da trombeta,
E fazer scintillar pela noite
A cruel decisiva baioneta?

Quem ousára o sorriso do insulto
Juncto ao negro edificio soltar,
E com goso, na mente, por terra
Suas grimpas jazendo pintar?

Mas ha muito que os bons se finaram;
Mas ha muito que ás dores fugiram,
E depois, nesses velhos sepulchros
Quantos maus inquietos dormiram!

Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes
Pereceram: ninguem o dirá.
O que o sabe os julgou; e do abysmo
Nem um ai o cantor tirará.

Mas, oh harpa, transmitte as saudades
Do que foi em legado ao porvir,
E o presente, que em breve ha-de o olvido
Com o seu amplo manto cubrir.

Contarão as canções do poeta
Tão-sómente do claustro o segredo.
Vai a hera vestir estas pedras:
Cahirá este annoso arvoredo.

Sim, virá a segure insensata
Da montanha o senhor derribar!
Rei deste ermo, que os curos insultas,
Tu serás o ludibrio do mar.

Bem antigo é teu cepo. Tu viste
O mosteiro da encosta crescer;
Viste o colmo do humilde retiro
Em arcadas, em torres volver.

Tambem nasce o regato na origem
Pobre e puro: cem valles passou;
Vai já rico, mas turvo e suberbo;
Que a torrente desceu e o turbou.

         -----

Como esta aura suave suspira
Pelos bosques, e as ramas meneia!
Como a limpha murmura na fonte,
Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.

Cala, oh ave! Que importam teus cantos?
Quem vens tu saúdar, cantor do ermo?
É aos mortos? Aos gosos mais puros
Pôs-lhe a lousa, na terra, já termo.

Tua voz costumava o eremita
Nos bons tempos folgando sentir:
Era imagem do céu, que entre as dores
Do desterro lhe vinha sorrir.

Mas depois affligiu o malvado
Da avesinha innocente a cantiga;
Tal os olhos affeitos a trévas
A cerrar-se luz subita obriga.

Nunca ao i­mpio na dor deu consolo
Meigo som de cadente gorgeio.
Que harpa eolia lhe adoça o azedume
De que seu coração está cheio?

Ai do mau, cuja vida travada
Vai de sustos mandados do céu!
Nunca o sol a acorda-lo tranquillo
Em seu brilho dos montes desceu.

Mas duas vezes ai delle, se na alma
Não lhe soa uma voz pavorosa,
Que o atterre, quando o ermo o rodêa,
Ao passar da procella ruidosa!


IV.

É tão doce esta vaga saudade,
Na soidão das montanhas colhida,
Para quem entre mil tempestades
Transitou pelos campos da vida!

Foge a luz: é sol-posto: na aldeia
Dá o sino esse triplo signal,
Com que o espirito, erguendo-se a Deus,
Diz ao dia seu ultimo val;

E o pastor, que o rebanho guiava
Á malhada, descendo do outeiro,
Parou lá, e ajoelhou descuberto
Juncto ao velho sósinho pinheiro.

Gloria a Deus! A oração do crepusculo
Pelo tronco elevado se ergueu.
E a guia-la ante o throno do Eterno
Sancto archanjo das preces desceu.

Ao piedoso pastor no chão duro
Brando a noite o repouso trará
E por certo em seu leito da morte
Mais tranquillo inda o somno será.

         -----

A estas horas, talvez, nos combates
Um atheu expirante caíu:
Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!
O seu grito final já se ouviu!

A luz foge-lhe aos olhos: a espada
Apertou: ainda a tenta esgrimir:
Não a sente: conhece que morre,
Sem, comtudo, deixar de existir.

Não o crê: abre os olhos a custo:
Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:
Fecha-os breve; e no extremo soluço
Pensa e existe, e a existencia maldiz.

E o atheu, que era grande na terra,
Uma campa terá magestosa;
E ao pastor naquelle adro da aldeia
Cubrirá uma gleba relvosa.

         -----

Como o atheu e o pastor, nas batalhas
Mil e mil sem alento caíram;
Mil e mil, que em seu sangue este solo,
Nas fraternas discordias, tingiram!

Essas scenas de pranto e de lucto
Quem as trouxe a esta terra querida?
Foi o monge, que em animos rudes
Instillou o furor fratricida.

Que pediamos nós? Ver abrir-se
Ante nós da familia o larario,
E dormir juncto aos ossos paternos
Somno extremo n'um pobre sudario:

Sim, poder, ao mandar-nos a morte
Nossos corpos aos vermes ceder,
Ao sol bello, e tão bello, da infancia
Com saudade, inda os olhos volver.

Respondeu-nos da balla o sibilo;
Respondeu-nos o brado da guerra!
Combatemos. Pertencem na patria
A qualquer sete palmos de terra.

Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da lucta
Sabe Deus qual a sorte será:
Mas á sombra do teixo da infancia
O proscripto infeliz dormirá.

         -----

Cáis em pó o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se não treme ante as núas caveiras,
Que insepultas verá branquejar!



A VOLTA DO PROSCRIPTO.


I.

      Já suave a sorte dura
      Mostra a face ao desterrado:
      Porque surge ainda a amargura
      Em seu rosto carregado?

      Vento amigo ao patrio solo
      Pelo mar guia o proscripto,
      E um sorriso de sonsolo
      Não lhe luz no rosto afflicto?

      Corta a proa o mar fremente;
      O cantor lá se assentou
      E sua torva e altiva frente
      Sobre a dextra reclinou.

      Vem-lhe idéa após idéa,
      Já tristonha, já serena;
      Que no gesto lhe vaguêa
      Ora o goso, logo a pena.

      Coração affeito á mágoa
      Da esperança desconfia:
      Desalenta, e em viva frágoa,
      É-lhe negra a noite, e o dia.

      Mas se, emfim, lhe tece a sorte
      Á existencia um aureo fio,
      E vencendo o mar e a morte
      O conduz ao patrio rio,

      A que mais agora aspira
      O mancebo trovador?
      É por gloria que suspira?
      Não lhe ri propicio o amor?

      Não vê perto a terra cara,
      Que chorou de dor absorto,
      E nos braços dos que amára
      Não terá paz e conforto?

      Mas silencio!--A fronte erguendo,
      Elle os olhos poz nos ceuz,
      E a canção da alma rompendo
      Sussurrou nos labios seus.

II.

«Rasga as ondas do pégo indomado
Leve barca: já freme o galerno:
Susta as iras o rabido hynverno:
Torna á patria infeliz trovador.

Como bate no seio ancioso
Coração que opprimiu a amargura,
Quando meiga sorrí a ventura,
Quando volve esperança de amor!

Esperança, e sómente esperança
Cabe áquelle que os mares correu,
Quem lhe diz que 'inda não o esqueceu
A donzella por quem suspirou?

Quem lhe diz não irá n'outros laços
Venturosa encontra-la e infiel,
E que a voz do remorso cruel
Para a ingrata tremenda soou?

Quem lhe diz não irá murchas rosas
Tão-sómente encontrar sobre a lousa,
Onde a amada tranquilla repousa,
onde vá juncto della expirar?

Esperança, e sómente esperança
Cabe áquelle que os mares correu:
Ella só resta áquelle que o ceu
Longos dias de dor fez passar

Eu traguei estes dias de lucto;
Encarei muitas vezes a morte;
Pude o louro colhêr dado ao forte:
Tambem myrto de amor colherei?

Ou o arbusto que outr'ora plantára,
Que por mim cultivado crescêra,
Que entre angustias jámais me esquecêra
Esquecido por ella acharei?

Como além desse cabo, que esconde
Verdes aguas do meu patrio Tejo,
A alma levam saudade e desejo!
Como atraz a compelle o terror!

Ledo o nauta saúda a guarída
Aonde incolume o vento o ha guiado,
E alegrou esse olhar carregado
Com que insulta do mar o furor.

Feliz nauta, em teu seio tranquillo
Pulsa em paz coração baixo e rude;
Fado amigo negou-te o alaúde:
Deu-m'o a mim:--para prantos m'o deu.

Nunca, pois, surgirá uma aurora
Em que nelle resoe a alegria,
E em que o triste, que a dor opprimia,
Erga um hymno de jubilo ao céu?

Nunca rir-me propicia a ventura
Sobre a terra verão estes olhos?
Será sempre cuberto de abrolhos
Agro trilho que á morte conduz?

Ou nas trévas da minha existencia
Surgirá inda um dia radioso,
Como, ás vezes, em céu tenebroso
Rompe o sol com torrentes de luz?»


III.

      Já no porto a leve barca
      Longa esteira desdobrou,
      E ao clarão final do dia
      Ferreo dente ao mar lançou.

      Eis as plagas da saudade;
      Eis a terra de seus sonhos;
      Eis os gestos tão lembrados;
      Eis os campos tão risonhos!

      Eis da infancia o tecto amigo;
      Eis a fonte que murmura;
      Eis o céu puro da patria;
      Eis o dia da ventura!...


IV.

Foi o cantor feliz?--Em breves dias
Viu-se cruzar errante incertos mares.
Sob o tecto paterno anciada noite
Elle passou; e o somno socegado
Não lhe cerrou os olhos lachrymosos.
Conta-se que o seu amor fôra trahido,
E que mirrado achou de amor o myrto,
Que deixára viçoso, e que saudára
Desde além do oceano em seu deli­rio.
Sobre a proa outra vez indo assentar-se,
Não entoou um hymno de alegria.
Com ar sinistro e torvo e os labios mudos
Correu co' a vista as ondas inquietas,
E, porventura, a idéa que as passára
Nas asas da esperança, e que a esperança
Tinha expirado ao limiar do goso,
Mais lhe turbou a fronte carregada.
O misero sorriu-se. Em tal sorriso
O passado e o futuro estava impresso,
E da sua alma a dolorosa noite.


V.

Não mais o trovador no lar da infancia
Repousará talvez: talvez sua harpa
Durma pendente em solitario tronco
Do pinheiro bravio, onde a desfaça
O sôpro do aquilão. Ao desditoso
Sonho de gloria e amor tinha emballado;
Mas foi sonho, e passou, e uma existencia
Nua d'encantos despregou-se ante elle.
Quem o consolará?--De fogo essa alma
Consolo não terá, nem quer consolo.
A maldicção de Deus vestiu-lhe a vida
De padecer e lagrymas. Ignoto
Será ao mundo que surgiu na terra
O genio de um cantor, bem como planta
Morta apenas saída á flor do solo,
Ou como a aragem da manhan, que passa
Antes de o sol nascer, em dia estivo.

E que importa essa gloria ao dono della?
Esse fructo do Asphaltite que encerra
Senão cinza em involucro formoso?
Que é o eccho de um nome, que não soa
Senão sobre o sepulchro do que impresso
Na fronte o trouxe, em meio de amarguras,
Por vezes de ignominias?
                         «Vive, oh triste,
Esquecido do mundo, e esquece o mundo!
Nas solidões profundas da tua alma,
Vazia das paixões que a assassinaram,
Some os cantos que della transudavam
Para correr n'um seculo sem vida,
Sem virtude e sem fé, e em que desabam
As crenças todas do passado, e é sonho
A constancia e o amor.»
                        Palavras estas
Extremas foram do proscripto. Longe,
Em praia estranha abandonando a barca,
Qual o seu fado foi ninguem mais soube.



N'UM ALBUM.


Quando o Senhor envia
O trovador ao mundo,
Faz devorar a essa alma
Fel amargoso e immundo;

Porque lhe diz:--Poeta,
Vai conhecer a terra;
Prova dos seus deleites;
Prova do mal que encerra.

Desses e deste esgota
As taças muitas vezes,
Embora de uma e d'outra
Aches no fundo fézes:

E quando bem souberes
Que tudo é sonho vão;
Que é nada a dor e o goso,
Sólta o teu hymno então.»

E o pobre desterrado
Vem seu mister cumprir.
Nasce: homens e universo,
Tudo lhe vê sorrir;

E o seu balbuciar
Um canto é d'innocencia:
Mas outro foi seu fado;
Guia-o a providencia.

É cherubim precíto
Qu' inda entrevê o céu,
Mas através da vida,
Mas através de um véu.

Em turbilhão d'affectos,
Seu íntimo viver
Rapido lhe devora
Sperança, amor e crer.

Do goso nos deli­rios
Debalde busca o amor;
Saudade melancholica
Pede debalde á dor.

Depois, desanimado,
Pára a pensar em si,
Acha no seio um ermo,
E tristemente ri.

É desde aquelle instante
De um acordar atroz,
Que ao condemnado lembra
Do que o mandou a voz.

Então entende e cumpre
Seu barbaro destino;
Então é que elle aprende
A modular um hymno.

Virgem, ao que assim passa
Por meio do existir,
Calcando os frios restos
Do crer e do sentir,

Não peças te revele
Sua alma na poesia,
E dê aos pensamentos
O encanto da harmonia;

Porque lá, nesse abysmo,
Não resta uma illusão:
Só ha perpetua noite,
E injuria e maldicção.

Não entenderas, virgem
Ainda innocente e pura,
O canto que surgira
Dessa alma gasta e escura.

Deixa-o seguir seu norte,
Cumprir missão cruel;
Deixa-o verter o escarneo;
Deixa-o verter o fel;

Deixa-o cuspir em faces
Onde não ha pudor,
E ao mundo, ebrio de si,
Rindo ensinar a dor.

As sanctas harmonias
De cantico innocente
Sabe-as o alvor do dia
Quando rompe do oriente;

Murmura-as o regato;
Vibra-as o rouxinol;
Vem no zumbir do insecto,
No prado, ao pôr do sol;

Vivem no puro affecto
Da filial piedade,
Nos sonhos e esperanças
Da juvenil idade.

Esta poesia é tua:
Eu já a ouvi e amei;
Mas hoje nem a entendo,
Nem repeti-la sei.

Assim, meu nome só
Escreverei aqui;
Som vão, intelligivel
Apenas para ti;

Extincto candelabro
Do templo do Senhor,
Que por algumas horas
Deu luz, teve calor;

Lenda de sepultura,
Que fala em gloria e vida,
E esconde ossada infecta
Dos vermes corroída;

Pinheiro solitario,
Que o raio fulminou,
E que gemeu tombando,
E não mais murmurou.
*/



A FELICIDADE.


Era bello esse tempo da vida,
Em que esta harpa falava de amores:
Era bello quando o estro accendiam
Em minha alma da guerra os terrores.

Nesse tempo o balouço das vagas
Me era grato, qual berço da infancia;
E o sibillo da bala harmonia
Semelhante á de flauta em distancia.

Eu corri pelos campos da gloria,
D'entre o sangue colhendo uma palma,
Para um dia a depor aos pés dessa
Que reinou largo tempo nesta alma.

Mas qual ha coração de donzella,
Que responda a um suspiro de amor,
Quando vibra nas cordas sonoras
Do alaúde de pobre cantor?

Triste o dom do poeta!--No seio
Tem volcão que as entranhas lhe accende;
E a mulher que vestiu de seus sonhos
Nem sequer um olhar lhe compr'hende!

E trahido, e passado de angustias,
Ao amor este peito cerrara,
E, quebrada, no tronco do cedro
A minha harpa infeliz pendurara.

Um véu negro cubriu-me a existencia,
Que gelada, que inutil corria;
Meu engenho tornou-se um mysterio
Que ninguem neste mundo entendia.

E embrenhei-me por entre os deleites;
Mas tocando-o, fugia-me o goso;
Se o colhia, durava um momento;
Após vinha o remorso amargoso.

Esqueci-me do Deus que adorara;
O prestigio da gloria passou;
E a minha alma, vazia de affectos,
No limiar do porvir se assentou:

Meus pulmões arquejaram com ancia,
Buscando ar na amplidão do futuro,
E sómente encontraram, por trévas,
De sepulchros um halito impuro.

Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;
Eu te achei, oh milagre de amor!
Outra vez vibrará um suspiro
No alaúde do pobre cantor.

Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés de mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.

Se na terra este amor de poeta
Coração ha que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar

Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma immensa de um rei da harmonia;

Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,
E no olhar que me lanças a furto,
E no encanto de um mudo suspiro,

Para mim és tu hoje o universo:
Soa em vão o bulicio do mundo;
Que este existe sómente onde existes:
Tudo o mais é um ermo profundo.

No silencio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos céus,
Eu direi ao Senhor:--tu m'a déste:
Em ti creio por ella, oh meu Deus!»



OS INFANTES EM CEUTA.

DRAMA LYRICO EM UM ACTO.

(1415)


_O infante D. Duarte._
_O Infante D. Pedro._
_O Infante D. Henrique._
_Gulnar_, filha do wali de Ceuta.
_Lobna_, escrava.
_Haleva_, escrava.
_Um pagem._
_Um sobrerolda._
_Côro de cavalleiros portugueses._
_Côro de cavalleiros mouros._
_Côro de escravas, e de eunuchos negros._



SCENA I.


    Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses.
    D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D.
    Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os
    cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado
    falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o
    principe.


D. DUARTE.

Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
Cruzaremos de novo além do Estreito!
Os inimigos timidos refogem
Da conquistada Ceuta.
Pelas campinas pallidas, ao longe,
Das altas torres espraiando os olhos,
Não se vê alvejar lá no horisonte
Um albornoz mourisco.
Folgue o que volta á patria enriquecido
Pela ganhada gloria: folgue aquelle
A quem coube o desterro entre estes muros,
Por conservar erguida
Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
O estandarte real: morrendo, é martyr:
Seu nome eterno viverá na historia.
Folgae, meus cavalleiros!


CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
Para o velho homem d'armas d'elrei,
Que ha trinta annos nos diz:--combatei!»
Sem jámais a armadura largar!

Sob o forro do elmo pulido
Nossa fronte, senhor, se enrugou,
E estes peitos robustos quebrou
Dos arnezes conti­nuo pesar!

      Bem vinda a hora
      Em que voltemos,
      E emfim saudemos
      O nosso lar;
      Em que possamos
      No patrio rio
      O sol do estio
      Ver scintillar;
      E, dos sinceiros
      Entre a espessura,
      Da guerra dura
      Ir repousar!


CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

    Parti vós, cavalleiros:
    A Portugal tornae;
    E o nosso nome ás bellas
        Donzellas
        Lembrae!
     Dizei-lhes que, se ás lides
     Votámos peito e braços,
     Por ellas suspiramos,
        E amamos
        Seus laços;
     E que destes labios
     Palavra amorosa
     Por moura formosa
     Jámais sairá.
     Opprobrio e vergonha
     Ao que as esquecer!
     Infamia ao que arder
     Por filha d'Allah!


    D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio
    dos cavalleiros.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Infamia, dizeis vós?


D. DUARTE.


    Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente
    da scena.



                    Por Deus, calae-vos!
Ignoram vosso amor esses guerreiros.
Da patria elles falavam:
Não a trahir juravam.
E vós? Vós que sois filhos
D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,
Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,
Vosso nome manchastes
Com um affecto ignobil...


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que ousaes dizer, senhor!


D. DUARTE.

Sim, ignobil affecto! Amor gerado
Entre rios de sangue, ao lampejarem
Cruzados ferros, no aduar mourisco
Á viva força entrado.
Conduziu-vos, dissestes-me, o combate
A suberbo palacio. Alto repouso
Era de morte ahi: seus defensores
Tinha-os o ferro português ceifado,
Duas mouras formosas,
Vencidas do terror, na fuga anciosas,
Cahindo a vossos pés pediram vida,
Liberdade, honra, e vós...


D. PEDRO.

                           Assegurámos-lhes
Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos
D'elrei de Portugal, e cavalleiros!
Era o nosso dever.


D. DUARTE.

                 E era-o cederdes
A um amor insensato; o prometterdes
Pelas nocturnas trévas conduzi-las
Ás naus que vão partir?


D. HENRIQUE.

Será rouba-las
Á falsa crença do koran...


D. DUARTE.


    Com vehemencia.


                             E a infamia
Lhes gravareis depois nas frontes puras?
Isso é torpe! Isso é vil!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

                          Senhor infante!


D. DUARTE.


    Com ardor.


Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva
A armada partirá.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.


    Com inquietação.


                  Zombaes?


D. DUARTE.

                           Ouvi-me!
É o mandado d'elrei...


    Dirigindo-se aos cavalleiros.


      Meus velhos guerreiros,
      As armas tomae,
      E á praia fremente
      Os passos guiae;
      Que as náus já fluctuam:
      Não tarda o partir.
      Nos mares a aurora
      Veremos surgir.


CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.


    Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.


      Virgem! Esperança!
      Estrella do mar,
      Ouvi nosso orar;
      Mandae-nos bonança!
      Salvae-nos, salvae-nos!
      E á patria levae-nos!


    Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.


      Á patria levae-nos!...


D. DUARTE.

      Guerreiros novéis
      As armas vestí,
      E os muros de Ceuta
      De lanças cubrí­.
      Bandeira da serpe,
      Bandeira d'elrei,
      No alcacer, nas torres
      Guardae, ou morrei!


CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.


    Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.


      Contentes saudamos
      Os dias de guerra:
      Ser dignos da terra
      Da infancia juramos.
      O braço não treme!...
      O peito não teme!...


    Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:


      O peito não teme!...


D. DUARTE.

      Restam bem poucas horas:
      Salvos estaes infantes!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Sabe um amor immenso
      Horas fazer de instantes.


D. DUARTE.

      Que!? Ousarieis 'inda?...


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Nós ousaremos tudo!


D. DUARTE.

      Não! Filial piedade
      Vos servirá d'escudo!


    Com gesto supplicante.


      Pela memoria sancta
      De nossa mãe querida,
      Que na feral jazida
      Tal crime assombrará,
      Afugentae qual sonho
      Esse insensato amor,
      Que o odio, que o furor
      Do céu accenderá!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Mas deste amor profundo
      Quem nos libertará?


D. DUARTE.

      Vêde quem sois, e o mundo
      Como vos julgará!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Duas formosas almas
      Por nós a fé ganhou.


D. DUARTE.

      Antes por vós o sangue
      De Aviz se deshonrou.


UM PAGEM.


    Entrando apressado.


Principe, elrei vos chama.


D. DUARTE.

                           Ide; eu vos sigo.


    Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe,
    D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.


Oh meu Pedro, oh meu Henrique,
Louco intento abandonaes?!
Não passar de Ceuta as portas
Hoje, aqui, vós me juraes?!


    Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro



D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor, do sceptro herdeiro,
Vossos irmãos mandaes...
De Ceuta as ferreas portas
Não cruzaremos mais!


D. DUARTE.

Basta-me tal promessa!
Só mentem desleaes.



SCENA II.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.


D. HENRIQUE.


    Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.


A promessa ha-de cumprir-se!
Nobre infante, vae seguro!


D. PEDRO.


    Com hesitação.


Mas de Ceuta o erguido muro
Como além, hoje, transpôr?...


D. HENRIQUE.


    Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.


Vedes vós, lá em baixo, esse vulto
Amplo e negro da torre de Fez,
Que inda ha pouco o mais forte pavez
Do vencido muslim se ostentou?


D. PEDRO.

Vejo; e lembram-me as portas robustas
Que a acha d'armas a custo desfez;
E que nesse momento se fez
Um silencio que instantes durou...


D. HENRIQUE.

E parámos; e ouvimos ao longe
Tinir d'armas, correr de corceis,
E o confuso bradar d'infiéis,
Restrugindo os seus gritos de dor...


D. PEDRO.

Subterraneo caminho os salvava
Das espadas dos nossos fiéis,
Quando inuteis alfanges, broqueis
Lhes tornára profundo terror...


D. HENRIQUE.

O que ao mouro no trance tremendo
De destino cruento remiu,
Esta noite, a quem nunca mentiu
De mentir uma vez salvará.


D. PEDRO.


    Com grande jubilo.


Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!
Outras portas o amor nos abriu;
Nossa estrella dos céus nos sorriu;
O caminho, o caminho é por lá!


D. HENRIQUE E D. PEDRO.

      Noite placida e formosa,
      Noite grata a um vivo affecto,
      Para nós no torvo aspecto
      Te deslisa almo prazer!

      Bella noite silenciosa,
      Sê propicia ao nosso intento;
      Com teu véu cobre o momento
      Do partir e do volver!



SCENA III.


    Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de
    Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto.
    No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro
    de donzellas arabes cantando ao som de harpas.


CÔRO.

      Dorme, dorme desgraçada!
      Dorme, filha do wali!
      Possa o somno sobre ti
      O consolo derramar.

      Quando dormes é teu gesto
      Brando e meigo qual de huri;
      Mas vingança nelle ri
      Ferozmente ao despertar.


GULNAR.


    Erguendo-se lentamente.


Oh, como é doce o som de vossas harpas,
Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes
Um pouco minha dor. Senti correrem
Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,
Repentino terror veio enxuga-las.
Meu pae... Que diz Levi?


CÔRO.

                         Oh Deus!


GULNAR.

                                  Entendo:
Não tenho que esperar?..


CÔRO.

      Delira. Golfa o sangue
      Da profunda ferida,
      Por onde foge a vida
      Do inerte corpo exangue.


GULNAR.


    Com gesto ameaçador, e erguendo-se.


      Oh, basta! Inulto,
Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho
Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!
Lobna e Haleva onde estão?



SCENA IV.

LOBNA E HALEVA.


    Entrando apressadamente assustadas.


LOBNA.

                         Eis-nos, princesa!
Os espias voltaram: tumultuando
Na marinha de Ceuta homens, ginetes,
Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,
Proas á terra: o esquife após o esquife
Entre a praia e as galés cruzando as ondas;
Tudo do amir christão mostra a partida.


GULNAR.

O tigre português volta ao seu antro!
Mas Ceuta...


    Com amargura.


             Profanada e serva és Ceuta!
O que te amou qual pae jaz moribundo
No seu leito de dor. Foi por salvar-te
Pérola rica do Moghreb. Inutil
O sangue se verteu! Oh, sem vingança
Não ficaremos nós: nós ambas orphans,
Eu desterrada e tu escrava. O nobre
Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora
Não veja mais a luz. Mas trema o fero
Amir de Portugal! Gulnar, a filha
Do vencido wali, ha-de vinga-lo.
Lobna e Haleva esta noite...


HALEVA.


    Hesitando.


      E quem vos disse
Que elles hão-de voltar?..


GULNAR.

                           O juramento:
O juramento seu!.. Já não sois servas,
Bellas filhas do Caucaso; sois socias
Da implacavel Gulnar. A vós a gloria
De tornar mais cruel su' hora extrema.
Quanto ardente paixão tem de ternura
Quantas fascinações ha no amor virgem:
Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,
O pranto, o resistir tem de deli­rio;
Tudo, tudo empregae! Raio de morte,
Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.


    Erguendo as mãos.


      Escuta, emfim, meu pranto,
      Dos impios vencedor:
      Manda, propheta sancto,
      O anjo exterminador.

      Chore a roubada prole
      O português amir:
      Que o sangue me console
      Antes de o sol surgir.

      Cercae-os vós de goso:
      Sintam que é bom viver:
      Será mais horroroso
      Meu brado:--Ide morrer!»

      Vem, oh terrivel hora,
      Hora do meu folgar,
      Hora em que vingadora
      Triumphará Gulnar.


    Dirigindo-se ao côro.


      Ide; patente
Do alcacer seja o ádito: silencio
Profundo reine em toda a parte: os gritos
Dos moribundos só... hão-de quebra-lo!
Vingança a Bensalá.


CÔRO.

                    Vingança á patria!


GULNAR.


    A Haleva e Lobna com gesto terrivel.


Em breve me vereis!...



SCENA V.

LOBNA E HALEVA.


    Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois
    correm a lançar-se nos braços uma da outra.


HALEVA.

      Ai, como foi mesquinha
      A nossa escura sorte!
      Porque a terrivel morte
      Os tristes conduzir?


LOBNA.

      Oh, se Gulnar os víra,
      De sangue inda banhados,
      Vencidos, humilhados,
      A nossos pés cahir!


HALEVA.

      Que lhes valêra? Sangue,
      Sangue só quer a hyena:
      A cólera a aliena:
      Não póde perdoar!


LOBNA.

      Haleva, minha Haleva,
      De susto eu titubeio:
      Tu imagina o meio
      De as victimas salvar.


HALEVA.

      Miseras! Só nos resta,
      Em festa sanguinosa,
      Sob a traidora rosa
      O aspide esconder.


LOBNA.

      Que importa a pobre escrava
      De susto e de amor trema?
      Embora chore e gema,
      Cumpre-lhe obedecer.


HALEVA E LOBNA.

      Sólta o suave canto
      Captivo rouxinol,
      Quando o nascente sol
      Derrama seu fulgor;

      E as aves vem, correndo,
      Pousar no umbroso til,
      Onde com arte vil
      As prende o caçador.

      O canto da avesinha
      Foi nosso amor fatal!
      E elles... destino igual
      Lhes reservou o amor!



SCENA VI.


    Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se
    alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha
    das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da
    torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena,
    onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano
    inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte
    inscripção:==_Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy
    eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415
    annos._==É noite.


D. DUARTE.


    Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.


      Viste-los vós?...


SOBREROLDA.

                      Jura-lo
      Posso. Dous cavalleiros:
      Negras armas: cavallo
      Negro ambos. Ligeiros
      Voam... Ouví!...


    D. Duarte chega ás ameias escutando.


                  Ao largo
      Ainda soa o tropel.


D. DUARTE.


    Áparte com afflição e despeito.


      Oh pensamento amargo!
      Oh receiar cruel!


    Ao sobrerolda.


      E os homens d'armas?


SOBREROLDA.

                     Velam:
      Não falta um só.


    Escutando para a campanha.


                 Dir-se-hia,
      Ao seu correr, que anhelam
      Voltar antes do dia.


D. DUARTE.

      Não mais...


    Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.


             Para a barreira
Cem lanças o adail
Conduza: da dianteira
Todos; que valem mil!
E eu lá serei em breve:
E elles hão-de seguir-me.
Sabe-lo elrei não deve.
Ai do que ousar trahir-me!


    O sobrerolda sai.


Sob o seu gesto candido
O engano se escondia!
Era uma idéa perfida
Que na alma lhes surgia,
Quando de Ceuta as portas
Juravam não transpôr!
Creram que a noite lobrega
Seu crime esconderia!
Perante o céu, oh miseros,
Que importa a noite, o dia,
Se de ira se ha turbado
A face do Senhor?


    Pausa: com terror.


      Mas se a suprema cólera
      Terrivel já descesse!...
      Se, em vez do goso vívido,
      A morte os acolhesse!...


    Erguendo as mãos.


      Meu Deus perdoa aos tristes;
      Cede á fraterna dor!

      Oh minha mãe, da placida
      Morada da ventura,
      Guia-me os passos tremulos
      Por esta noite escura,
      Para salvar teus filhos,
      Filhos de tanto amor!



SCENA VII.


    A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas
    arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna
    e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam
    os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da
    esquerda.


LOBNA.

No seu rapido gyro foge a noite
Ligeira e socegada:
Fulgor da madrugada
Em poucas horas subirá d'oriente.
Não poderam voltar!... Respiro...


HALEVA.


    Aproximando-se da gelosia.


                                  Escuta!
Ouviste um silvo agudo?
É o signal!...


LOBNA.

               Eu tremo...
Porém não... Quedo é tudo;
Salvo um ruído sussurrando ao perto,
De almogavar talvez...


HALEVA.

                       De dous ginetes
O tropeiar parece... Elles!... São elles!
Sobre trajos de ferro espadas tinem!
Não ha que duvidar...


LOBNA.

                      Oh! desfalleço!


    Ouve-se um sibillo já perto.


HALEVA.

Ei-lo o triste signal, signal de morte!
Á sua esquiva sorte
Não poderão fugir! Meu Deus!


LOBNA.

                             Patente
Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos
Suspeitassem de nós!


HALEVA.

                     Ei-los! Silencio!



SCENA VIII.


    D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que
    recuam aterradas.


D. PEDRO.

      Lobna!


D. HENRIQUE.

             Haleva!


D. PEDRO.

                    O juramento
      O momento é de cumprir!
      De partir não tarda a hora:
            Ha-de a aurora
      Refulgir-nos juncto ao mar.


D. HENRIQUE.

      Sobre os rapidos corceis
      Nós fieis vos guiaremos
      Aonde achemos mil delicias
            Nas caricias
      De que amor nos vai cercar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Vinde! a noite nos protege:
      Dorme tudo pela aldeia;
      E este braço não receia,
      Quando cumpre, o pelejar.

      Vinde ser enlevo d'almas,
      Sob um céu meigo e sereno;
      Que nunca ha-de o sarraceno
      Como nós saber amar!


LOBNA.


    Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.


      Fugí breve, oh desgraçados,
      Que cercados sois da morte!
      Queira a sorte que um momento
            Seu intento
      A cumprir tarde Gulnar!


HALEVA.

      De ninguem serdes sentidos,
      Já perdidos, ainda creis!
      Mal sabeis vos esperava
            Quem velava
      Para em vós um pae vingar!


LOBNA E HALEVA.

      Triste umbral haveis cruzado,
      Do wali ultimo abrigo,
      Que no extremo do perigo
      Jaz a ponto d'expirar.

      Por seu sangue a feroz filha,
      Que essas portas franqueiou,
      Vingativa aos céus jurou
      Vosso sangue derramar.


D. PEDRO.

      A perfidía em recompensa
      Só achou o nosso ardor?!
      Desleaes! Porque o furor
      De mulher cruel servir?


D. HENRIQUE.

      Porque a vida nos pedieis,
      No olhar terno amor pedindo,
      Quando os golpes retinindo
      Era livre inda o fugir?


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Porque em noite deliciosa
      De deli­rios seductores,
      Generosos vencedores
      Só pensaveis em trahir?!


LOBNA.

      Uma idéa tenebrosa
      De Gulnar surgiu na mente
      Nessa noite, em que estridente
      Veiu a espada aqui luzir:


HALEVA.

      «Ide:--disse-nos--sois bellas:
      Fascinae os nazarenos,
      Talvez possa assim, ao menos,
      Da vingança a senda abrir!»


LOBNA E HALEVA.

      A leôa do deserto
      Entre as cervas se escondia:
      Seu aceno constrangia
      Pobre escrava a amor fingir.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.


    Com vivacidade e despeito.


      Era pois um falso affecto?!...


LOBNA.

      Foi-o só um breve instante...


HALEVA.

      Hoje puro, hoje constante


LOBNA E HALEVA.

      Far-nos-ha por vós morrer.


D. PEDRO.


    Pondo a mão sobre o punho da espada.


      Que ella venha, pois, e a cerquem
      Seus escravos traiçoeiros!
      Portugueses, cavalleiros
      Somos nós: ha-de tremer!


D. HENRIQUE.

      Sabe o forte nos combates
      Se este braço é prompto e duro;
      O covarde, que no escuro
      Fere só, o ha-de saber!


LOBNA E HALEVA.


    { Oh, fugi; que ainda é tempo,
    { Antes de ella aqui volver!
    {
  4 {  D. PEDRO E D. HENRIQUE
    {
    { Partiremos! Dentro em breve
    { Nos vereis aqui volver!


    O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela
    gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que
    vão a sair, param e escutam.


CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, _fóra_.

Gloria ao sancto propheta que aos impios
A cerviz insolente vergou,
E do amir português crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!


LOBNA E HALEVA.

      Bateu funerea hora...
      Morreu nossa esperança!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Resta-nos a vingança...
      Sangue por sangue... Embora!



SCENA IX.


    Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão
    collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita,
    encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.


GULNAR.


    A Lobna e Haleva.


      Fugir?!... É tarde, infames!
      Vós me trahieis, vís!
      Tremei! Gulnar velava...
      E eu sou vosso juiz!


    Aos infantes.


      Deponde inuteis ferros,
      De Ceuta vencedores!
      Lá fóra meus guerreiros...


    Apontando para os eunuchos.


      Alli meus vingadores.


LOBNA.                         HALEVA.

      -------------^-------------

«Ide trahi-los--          Para trahi-los
I­mpia,disseste...         Nos escolheste!..
Mui facil creste          Se nos venceste
Fingir amor.              Foi por temor.


LOBNA E HALEVA.

      Morrer com elles
      É grata pena...
      Feroz hyena,
      Temos-te horror.


D. PEDRO.                 D. HENRIQUE.

      -------------^-------------

Aos teus escravos,          Os teus escravos
Mulher infida,              Com mortal lida
Mais larga vida             A nossa vida
Deixa gosar!                Tem de comprar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Que nunca o susto
      Nos fez no p'rigo
      O ferro amigo
      Abandonar.


    Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.


GULNAR.

      Da louca audacia,
      Da van affronta
      Vingança prompta
      Gulnar vai ter.


    O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.


      Mas qual ruí­do
      Confuso soa?
      Porque reboa
      Voz do adail?!...


    Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.


      Hussein!.. O ferro
      Retine!.. Gritos!
      Gemer d'afflictos!
      Sons de anafil!..


    Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar
    fica suspensa.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Que escuto?! Lá bradaram:
      --São Jorge! Ávante, ávante!»
      Oh jubiloso instante!
      Restruge o pelejar.


GULNAR.


    Acenando aos eunuchos.


      Morram os i­mpios! Morram!
      Servos, rasgae seu peito.
      Sintam, emfi­m, o effeito
      Dos odios de Gulnar.


    Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos
    apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das
    donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de
    assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros
    fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem
    por entre os eunuchos e os dous infantes.



SCENA X E ULTIMA.


    Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros:
    côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena,
    e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar,
    recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva
    refugiam-se juncto dos infantes.


CÔRO DE DONZELLAS.

      Que horri­vel espectaculo!
      Por toda a parte a morte...


CÔRO DE GUER. MOUROS.               CÔRO DE CAVALLEIROS.

             ---------------^---------------

Ferros inuteis, ide-vos:          Cede o agareno timido:
Cumpra-se a nossa sorte!          Honra ao valor do forte!


Depondo os alfanges no chão.      Brandindo as armas.



D. DUARTE.


    Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e
    correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.


      Vivos ainda, e incólumes!
      Graças te dou, Senhor!
      Laços de um impio amor
      Vinha-lhes eu partir...
      E a morte ia-os ferir!..
      Graças, oh meu Senhor!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.


    Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.


      Foste enganado, e salvas-nos!..
      Perdoa, nobre infante!
      Foi de delirio instante,
      Que ao erro nos levou.


LOBNA E HALEVA.

      Agita ancioso o seio
      Insolito pulsar;
      Mas d'horrido receio
      Não é este agitar!


D. DUARTE.


    Abraçando successivamente os irmãos.


Pedro, Henrique, sois salvos! Invenci­vel
A espada portuguesa,
Mais uma vez, terrivel,
A barbara fereza
Dos infiéis domou.
O perfido punhal,
Da vingança guiado, em vão se alçou...


GULNAR.


    Adiantando-se.


Vencestes, nazarenos!
Folgae na vossa gloria...
Seguí facil victoria.
Puní­-me! Eis-me captiva...
Do vosso amir na prole
Vingar meu pae eu quiz...
Pensando-o era feliz:
Agora infeliz sou.
Morrer é a esperança,
Que o fado me deixou.


CÔRO DE CAVALLEIROS.


    Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.


Pune, oh principe, infames traidores:
Lava a affronta do sangue real!
Dos covardes, em trance fatal,
Tinja as faces da morte o pallor!


CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.


    Com gesto supplicante.


Por piedade, dos teus seguidores
Não escutes o voto lethal!
Generoso, o seu odio infernal,
Por piedade, não ouças, senhor!


D. DUARTE.


    Aos cavalleiros.


Silencio!


    Aos mouros.


          Livres sois.


    Aos cavalleiros.


                    Nunca aos vencidos
Sangue pediu meu pae. Eu serei digno
Filho do vosso rei.


    A Gulnar.


                    Mulher, és livre.


GULNAR.

      Tua clemencia hypocrita,
      Tyranno, vem mui tarde!
      Pensas apagar, barbaro,
      Fogo que immortal arde?!

      Dá-me Ceuta, a miserrima:
      Torna-me um pae que expira:
      Foge das praias d'Africa
      Serva, que mal respira!

      Foras assim magnanimo:
      Grata Gulnar te fora:
      Sem isso, um favor unico,
      Prompto morrer te implora!


CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS.     CÔRO DE CAVALLEIROS.

             ---------------^---------------

Turba-te a dor e a cólera,     Da perfida a van cólera
Filha de Bensalá:              Inutil brame já:
A tua raiva indomita           Do seu cruel proposito
É van e inutil já!             Ella nos vingará.


    Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz
    baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte
    mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.


D. DUARTE.


    Tomando pela mão as duas escravas.


      Não!... Innocentes victimas
      D'impios não deveis ser!
      O vosso amor ingenuo
      Cumpre-vos esquecer;
      Mas a vingança barbara
      Não vos entregarei.
      A Portugal seguindo-nos


    Olhando para os infantes com aspecto severo.


      Eu vos protegerei!


LOBNA E HALEVA.

      Só ir nos concede
      O fado inhumano
      Além do oceano
      De amor expirar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Nest'hora solemne
      Do peito no arcano
      Nosso amor insano
      Juramos calar.


D. DUARTE.

      Da nossa clemencia
      Aprenda o africano
      A ser nobre e humano,
      E o que é perdoar.


GULNAR.

      Do meu odio immenso
      Cruel desengano!..
      Feroz lusitano
      Se ri de Gulnar!


CÔRO DE CAVALLEIROS.

      Risquemos da mente
      O perfido engano;
      Que o principe humano
      É bello imitar.


CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.

      A nobre clemencia
      Do heroe lusitano
      Áquem do oceano
      Sempre ha-de lembrar.



LIVRO TERCEIRO

VERSÕES.



O SECCAR DAS FOLHAS.

(_Millevoye_).


Das ruinas destes bosques
O outomno alastrou o chão:
A selva perdeu seus mimos;
Os rouxinoes mudos são.

No bosque, amigo da infancia,
Triste um joven vagueiava;
Na sua aurora a doença
Para o sepulchro o inclinava.

«Adeus floresta querida!
Vestes lucto por meu fim?
Como te cai folha e folha
A morte me segue assim.

Intima voz, que revela
Seu fado extremo aos mortaes,
Me diz:--vês cahir as folhas?
São essas só: não ha mais!

Sobre esta pallida fronte
O torvo cypreste ondeia,
Como o que, pharol de mortos,
Sobre campas se meneia.

Antes da vide na encosta,
Antes da relva no prado,
Os dias da juventude
Terão para mim murchado!

Minha linda primavera
Qual a van sombra passou!
Eu morro: o euro gelado
Da vida a seiva mirrou.

Cáe, oh passageira folha;
Vem esta senda cobrir;
Esconde ao pranto materno
Logar onde vou dormir.

Mas se vier minha amante,
Involta em véu luctuoso,
Ao pôr do sol, na lameda,
Dar-me um suspiro saudoso,

Com o teu leve rugido
Desperta, oh, desperta o morto;
Que assim sua sombra tenha
Ainda allivio e conforto!»

Disse: afastou-se, e não volve:
Ultima folha cahiu:
Era o signal: seu sepulchro
Sob o carvalho se abriu.

Mas sua amante não veio:
E só do valle o pastor
Quebrou com som de passadas
Repouso do trovador.



A NOIVA DO SEPULCHRO.

(_Imitado do inglez_).


I.

Juncto da raia d'Hespanha,
  Em monte calvo e deserto,
  Vê-se um vulto negro ao longe,
  Castello é, vendo-se ao perto:
Mas castello derribado,
  De bons tempos, de outras eras,
  Hoje abrigo escuro e triste
  De reptis e bravas feras.
Foram formosos e fortes
  Esses muros derrocados,
  Por onde trepam as heras;
  Que cingem bastos silvados.
A voz delrei nelle tinha
  Nobre alcaide dom Sueiro;
  Nobre por sua linhagem,
  Nobre por bom cavalleiro.
Noivados, torneios, festas,
  Ninguem sem elle fazia:
  Ninguem, sem o convidar,
  Ajustava montaria;
Que nunca da sua bésta
  Viróte partiu em vão;
  Como nunca os justadores
  O viram perder o arção.
Mulher, que elle muito amara,
  Lh'a roubara a sepultura;
  Mas por este golpe o alcaide
  Não mostrou grande tristura.
Até corria entre o povo
  Um mysterio de maldade...
  Suppunham uns ser mentira;
  Criam outros ser verdade.
Mas o que? Cubria a terra
  Esse caso mysterioso;
  E só o povo sabía
  Ser viuvo o que era esposo.


II.

Cedo se ergue dom Sueiro;
  Cavalga no seu cavallo,
  E para caçada alegre
  Passa áquem do extremo vallo.
Por essas margens do Lima,
  Debaixo de puro céu,
  O nobre senhor alcaide
  Á rédea solta correu.
Veredas segue torcidas,
  Até descubrir o outeiro,
  Que revestem pela encosta
  O zimbro, a urze e o pinheiro.
Soam sonoras buzinas,
  Ri do dia o lindo alvor,
  E no meio da paizagem
  Uma brilha e outra flor.
Dom Sueiro o seu cavallo
  Incita com ferrea espora;
  Que no logar aprazado
  Deve estar dentro de um' hora.
Nada lhe põe embaraço;
  Nem resonantes ribeiros,
  Nem as chans apaúladas,
  Nem escarpados outeiros.
Mas ao sair da floresta,
  Ainda perto do rio,
  Viu ir formosa donzella
  Buscando do ermo o desvio.
Celestes são seus meneios:
  Não mortal, anjo parece:
  Da sua tez a brancura
  Alva açucena escurece.
O seu corcel dom Sueiro
  Fez parar. Já se esquecera
  Da caçada; e que no monte
  Em breve estar promettera.
--Dizei-me vós, oh donzella,
  Quem sois, que nunca vos vi;
  Que por minha alma vos juro
  Sois já senhora de mi.»
Resposta nenhuma teve,
  Que ella não lhe respondia,
  E, sempre guiando ao valle,
  A curva senda seguia.
--Não me fugireis assim:
  Bofé que não fugireis!
  Um momento, um só momento,
  Dom Sueiro escutareis!»
Disse: desmonta, e persegue-a,
  Nos braços para a estreitar;
  Mas ella furta-lhe o corpo,
  E elle abraça o subtil ar.
--Dizei-me vós, oh donzella,
  Pela vossa alma dizei,
  De que procede tal susto,
  Que a meu pesar vos causei?
Que, pelos céus o asseguro,
  É verdadeiro este amor.
  Não me fujaes, bella dama:
  Não ha de que ter pavor.
De esposo, se vós quereis,
  Dar-vos-hei, contente, a mão:
  Sereis dona de um castello,
  Dona do meu coração.»
--Dom Sueiro, oh dom Sueiro--
  Tornou a dama formosa--
  Eu sei quem és, qual teu nome,
  E eu seria tua esposa:
Mas como crer nos teus dictos,
  Dictos de homem fraudulento?
  Conheço tuas perfidias,
  E qual é teu vil intento.
Dês que morreu dona Dulce,
  A tua infeliz mulher,
  A linda Elvira roubaste
  Para teu ludibrio ser.
Com promessas refalsadas
  Enganaste uma innocente.
  Quem crerá juras de um ímpio,
  Que só jura quando mente?
Ella te creu, desditosa!
  Porém não te creio eu:
  Nem, qual de Elvira o destino,
  Será o destino meu.
E como soffrera, esposa
  Tua sendo, uma rival?
  Folgáras tu nos meus zelos;
  Folgáras della no mal?
Ousáras tu, dom Sueiro,
  A pobre Elvira expulsar,
  E dias de angustia e pejo,
  Misera, vê-la tragar?--
«Oh, voto a Christo, que sim!--
  O nobre alcaide atalhou:
  E desfazer-se de Elvira,
  Com mil pragas, protestou.
--Mas dizei vós, dama linda,
  Quem sois? quem são vossos paes?
  Que eu vos direi de mim tudo,
  Se tudo me perguntaes.--
«Nunca!--tornou a donzella:--
  Quem eu sou não te direi.
  Nada te devo por ora:
  Quando dever pagarei.
Mas pódes estar seguro,
  Que, bem que nobre senhor.
  Não é que o meu o teu sangue
  Sangue de maior primor.--
«Pois sim, querida, pois sim!--
  Dom Sueiro proseguia;
  E algum signal de ternura
  Á bella dama pedia.
«Não, oh não, meu cavalleiro!
  Quando a mim te vir ligado
  Tua serei; que antes disso
  Fôra horroroso peccado.--
«Porém dizei-me, oh donzella,
  Onde vos hei-de encontrar?
  Que, pela cruz, ahi juro
  Nossas nupcias celebrar.--
«Oh, que não será de dia;
  Que mal de nós julgarão!--
  Tornou a dama--e os praguentos
  Certo de mim se rirão.
É pela noite que eu voto;
  De noite no cemiterio,
  Quando soar doze vezes
  O sino do presbyterio.
Sob o teixo solitario,
  Onde ninguem nos não veja;
  E aonde nunca chegar-se
  Quem passar ousado seja.--
«Vivam meus lindos amores!--
  Interrompeu dom Sueiro:--
  Sob o teixo, á meia noite?...
  Veremos quem vae primeiro.--
«Sim!--volveu ella--a ess' hora.
  Nenhuma fôra melhor;
  Porém, da tua palavra
  Que me darás em penhor?--
«Minha paixão em seguro
  Do que promettí te dou:
  Nunca promessas mentidas
  Fez quem devéras amou.
Curvando o joelho, eu juro
  Teus grilhões sempre rojar:
  Meu corpo e alma são teus;
  E o tempo o ha-de provar.--
«Basta!--a donzella lhe disse.--
  Dom Sueiro, sou contente.
  São meus teu corpo e tu' alma:
  Meus serão eternamente.--
Dicto isto, ao longo do rio
  Ligeira a senda seguiu,
  E elle aos outros caçadores
  Alegre se reuniu.


III.

Já da larga montaria
  O folguedo se acabava,
  E dom Sueiro ao castello,
  Ao seu castello voltava.
Arde-lhe na alma o desejo
  Com as imagens do goso,
  E róe-lhe idéa damnada
  O coração criminoso.
Infeliz e linda Elvira,
  Nos dias da juventude,
  Perdera nos braços delle
  Flor de innocencia e virtude.
Mas gosos faceis não duram;
  Breve após o tedio chega:
  Elvira é já enfadonha:
  Novo amor o alcaide cega.
Cumpre de si afasta-la:
  O caso difficil é:
  Ajunctará crime a crime?
  Elle outro meio não vê.
Emfim decidiu-se: a morte
  Em aurea taça lhe deu.
  Nobre senhor, folgar pódes,
  Teu crime a terra escondeu!
Era noite: e dom Sueiro
  Para o adro ermo partia.
  Logar, horas ou remorsos,
  Nada terror lhe infundia.
Brilha a lua em seu crescente:
  Passa a noite silenciosa;
  E só lhe quebra o socego
  O mocho e a fonte ruidosa.
Ao cabo o adro elle avista:
  No meio o teixo lhe avulta:
  Não deu meia noite ainda;
  A dama ainda se occulta.
Mas troa o sino! Uma!... Duas!...
  Contou; contou: mais dez são:
  E uma donzella, de branco,
  Surge da lua ao clarão,
E está debaixo do teixo.
  Para lá o alcaide corre.
  Não enganou seus desejos
  Essa por quem elle morre.
Porém que é isto? Recúa?
  Para trás a face vira?
  Sim; que não era a donzella,
  Mas o phantasma de Elvira.
«Maldicto!--clamou o espectro--
  Pune a traição o traidor.
  Negro o sepulchro te espera.
  De teu mal és só o auctor.
Pensa, monstro, emquanto é tempo;
  Que não tardará teu fim.
  Teu nome apagou-se. Agora,
  Recorda-te bem de mim!--
Não disse mais; e esvaeceu-se.
  Dom Sueiro, espavorido,
  Fugiu: sem volver os olhos,
  Sem parar, sempre ha corrido.
Brilha a lua em seu crescente:
  Passa a noite silenciosa;
  E só lhe quebra o socego
  O mocho e a fonte ruidosa.
Á porta do seu castello
  Já dom Sueiro chegava.
  Alli, vestida de branco,
  Do bosque a donzella estava.
«Mal-hajas tu, cavalleiro:--
  Apenas o viu lhe disse:--
  O ter de mulheres medo
  É signalada pequice.
Fui eu que fiz de phantasma:
  Teu valor conhecer quiz.
  Tremer como tu tremeste
  É só proprio de homens vís.--
As faces do nobre alcaide
  De vermelho se tingiram;
  Mas voltou logo a ternura;
  Passados sustos fugiram.
«Vinde a meus braços, querida!
  Vinde: não vos detenhaes,
  Digna de ser minha esposa
  Só vós sois, e ninguem mais.
Neste sitio, hoje vos juro
  Amor firme e puro e ardente:
  Em corpo e alma sou vosso;
  Sê-lo-hei eternamente.»--
«Em corpo e alma!?--ella clama,
  Com uma voz sepulchral.--
  Certo será graciosa
  Nossa união conjugal!»
Então, qual bravo terçol,
  Que em sua presa poz mira,
  Ao mesquinho dom Sueiro,
  Abrindo os braços, se atira.
«Arredo! Filha do inferno!--
  Grita o alcaide.--Isto o que é?»
  Ai!... olhou... É dona Dulce,
  Não a donzella, quem vê.
Com os braços descarnados
  Ella o collo lhe estreitou,
  E os labios apodrecidos
  Aos labios delle chegou.
Mortal halito de serpe
  Seu halito assemelhava:
  Sua figura era horrivel:
  Tocada apenas gelava.
«Deixa-te agora de medos:--
  Disse o espectro a dom Sueiro.--
  Que é da audacia que mostravas,
  Audacia de cavalleiro?
Tremes?... De quê, assassino?
  Antes devêras tremer,
  Quando envenenaste Elvira,
  E a tua pobre mulher.
Meu amor e meus encantos
  Pouco tempo te prenderam:
  Em mim do sepulchro os vermes
  Por tua mão se pasceram.
Depois, a amar-me tornando,
  Repetiste um crime horrivel...
  Teu amor é frouxo sempre;
  Teu odio sempre terrivel!
Mas agora, odiada ou grata,
  Não sairei de teu lado:
  Nada quebra no outro mundo
  Dos mortos negro noivado.
Alma e corpo me cedeste:
  O corpo aqui dormirá:
  Porém tua alma comigo
  Mais longe se acolherá!»
Não lhe respondeu o alcaide,
  Que a morte empallidecera,
  E, ao som de arranco profundo,
  No chão, extincto, batera.
Mas contam 'inda os pastores,
  Que á meia-noite vagueia
  Nas margens do ameno Lima,
  Que murmurando serpeia;
E que, gritando e gemendo,
  O seguem duas figuras,
  Ambas com brancos vestidos
  E tisnadas cataduras.



O CANTO DO COSSACO.

(_Béranger_).


Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!
Chama-te em altos sons tuba do norte.
Prestes no saque, intrepido nas brigas,
Dá, guiado por mim, asas á morte.

Os teus jaezes não arreia o ouro;
Mas de meus feitos o terás em paga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Tuas rédeas me entrega a paz que foge.
Ei-los por terra os europeus baluartes!
Meus aureos sonhos realisa agora;
Terás repouso na mansão das artes.

Volve a terceira vez ao Sena inquieto,
Que te lavou sangrento, e a sede apaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,
Entre o choro de mi­seros humanos:
--Cossacos, vinde ser de nós senhores!
Servos seremos, por ficar tyrannos.»

E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes;
Que eu hei tomado minha lança e adaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De um enorme gigante vi o espectro
Nosso campo correr co' a vista ardente;
E, gritando:--meu reino outra vez surge!»--
Mostrar com a acha d'armas o occidente.

A sombra era immortal do rei dos Hunos;
D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De que serve seu brilho á velha Europa?
Que lhe presta o saber para salvar-se?
Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la,
Debaixo de teus pés vão levantar-se.

Templos, palacios, leis, memorias, usos,
Na correria extrema, e pisa e estraga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus pés esmaga.



O CAÇADOR FEROZ.

(_Burger_).


Sua buzina tocára
  O conde, altivo senhor:
  «De pé, de cavallo, álerta!--
  Disse; e monta o corredor.
O nobre animal relincha:
  Pula e parte; e a turba após.
  Ei-los vão! Quem era o conde?
  Era o _caçador feroz_.
Por estevaes e por sarças,
  Por campinas cultivadas,
  Voam rapidos. Resoam
  Motejos, gritos, risadas.
O sol que vinha rompendo
  Em luz as veigas banhava,
  E do zimborio do templo
  O lanternim scintillava.
«_Tlim, tlão!_--convocando á missa,
  Tangia o sagrado sino;
  E involto nos sons de um orgam,
  Do côro se ouvia o hymno.
Duas sendas lá se cruzam;
  E a turba chegára lá.
  Da direita um cavalleiro,
  E outro da esquerda está.
Nedio ginete, qual neve
  Alvo, guiava o primeiro;
  O segundo, á rédea solta,
  Esporeava um fouveiro.
Quem taes cavalleiros eram
  Creio certo adivinha-lo,
  Bem que ainda com certeza
  Não me atreva a declara-lo.
Da direita ao cavalleiro
  Fulgia o rosto formoso;
  Porém no olhar do da esquerda
  Fulgor havia horroroso.
«Bem vindos sois, cavalleiros;
  Bem vindos á montaria!
  Qual prazer, no céu, na terra,
  Ao nosso se igualaria!--
Assim disse o conde, e rija
  Palmada na côxa deu.
  Atirando pelos ares
  A grande altura o chapeu.
«O som da tua buzina--
  Tornou logo o da direita--
  Nem aos canticos do côro
  Nem do sino ao som se ageita.
Ruim caçada te espera!
  Atrás te cumpre voltar.
  Contra ti a ira celeste
  Não queiras desafiar.»
«Nobre conde monteae--
  Prestes o outro atalhou--
  Que importa a bulha do côro,
  E se o sino badalou?
Deixae ao povo o seu medo:
  Que para a relé foi feito.
  Não são palavras sandías
  Das que merecem respeito.--
«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,
  Um heroe és quanto a mim.
  Só padre-nossos empecem
  A algum caçador ruim!
Que tem missas, que tem resas
  Com o montear, sandeu?
  Se medo queres metter-me,
  Falhou o calculo teu.--
Disse o conde. Ávante correm:
  Vão por campinas e outeiros.
  Sempre da direita e esquerda
  Estão os dous cavalleiros.
Eis, lá em distancia, um cervo
  Branco transpõe a assomada,
  Tendo de pontas galhosas
  A erguida fronte adornada.
Então o conde a buzina
  Com mais alento assoprou,
  E tudo, a pé, a cavallo,
  Com mais rapidez voou.
Ora dos que por diante,
  Ora dos que de trás vão,
  Um ou outro rebentado
  Fica no meio do chão.
E o conde:--Cahem? No inferno
  Baqueiar podesseis vós!
  Os que desalentam fiquem:
  Sem elles bem vamos nós.--
N'uma seara guarida,
  Fugindo, o cervo buscou:
  O pobre dono do campo,
  Triste, ao conde se chegou:
«Meu bom senhor--clamou elle--
  Compaixão, meu bom senhor!
  Ah, poupae mesquinhos fructos
  De um abundante suor.--
Da direita o cavalleiro
  O conde amoestou então:
  Cortezes eram seus dictos,
  Cortezes e de razão:
Mas, atiçando-o o da esquerda
  Á maldade perpetrar,
  Desprezou o da direita
  Para o maldicto o enredar.
«Fóra cão!--ao camponez
  Grita o conde esbravejando--
  Quando não, com mil diabos,
  Soltar-te a matilha mando.
Álerta, socios! O açoute
  Pelas orelhas chegae-lhe;
  E que sou fiel ás juras
  Dessa maneira provae-lhe.»
Dicto e feito. O conde salta
  Por cima os vallos fronteiros;
  E atrás delle, estrepitando,
  Homens, cavallos, balseiros.
O tropel, com grita horrenda,
  Pisa e destroe a seara;
  Que ninguem do lavrador
  Dorido choro escutára.
Pelo estridor acossado,
  Que já bem perto sentia,
  O cervo os crueis intentos,
  Veloz fugindo, illudia.
Através de montes, valles,
  Perseguido e não tomado,
  Manhoso se foi metter
  Entre um rebanho de gado.
Entrando do campo ao bosque,
  Saindo do bosque ao claro,
  Seguiram-no os cães, e em breve
  Lhe acharam da pista o faro.
Cheio de angustia o pastor,
  Por seu rebanho temendo,
  Por terra se arremessou
  Aos pés do conde, tremendo.
--Deixae meu pobre rebanho;
  Senhor, tende dó de mi:
  De muitas tristes viuvas
  O gado retouça aqui.
Cada qual das pobrezinhas
  Tem das rezes uma só:
  Eis toda a sua riqueza:
  Senhor, tende dellas dó.»
Da direita o cavalleiro
  O conde amoestou então:
  Cortezes eram seus dictos,
  Cortezes e de razão:
Mas a maldade do conde
  Sempre atiçava o da esquerda,
  E elle, o bom ludibriando,
  Corria á ultima perda.
«Cão! A mim oppôr-te queres?
  As contas vou-te eu fazer.
  Quem me déra entre essas vaccas
  Comtigo as taes velhas ver;
Que seria o mais suave
  Prazer do coração meu
  Montear-vos, mais que fosse
  Pelas campinas do céu.
Álerta, socios, ávante!
  Cães, avança! csê! perdido!--
  E os cães no que acham mais perto
  Saltam com fero latido.
O pegureiro por terra
  Cái em seu sangue banhado,
  E sanguento o gado fica
  Todo alli atassalhado.
Á morte escapou a custo
  O veado, que fugia
  Cada vez menos ligeiro,
  N'uma floresta sombria.
Cuberto de escuma e sangue,
  Perdida a respiração,
  Do bosque em meio salvou-se
  No alvergue de um ermitão.
Segue-o o tropel incançavel:
  Estala o açoute incessante:
  Soam buzinas; retinem
  Os gritos de--abóca! ávante!»
O solitario piedoso
  Da cabana então saíu,
  E ao conde, com brando gesto,
  Taes palavras dirigiu:
--Senhor, deixa teus intentos,
  E o sacro asylo venera:
  A creatura ao céu se queixa;
  Delle teu castigo espera.
Aos bons avisos, oh conde,
  Cede pela ultima vez;
  Quando não, na perdição,
  Certo, abysmado te vês.»
Cuidadoso o da direita
  Ao conde correu então:
  Cortezes eram seus dictos,
  Cortezes e de razão.
Mas o da esquerda atiçando
  Nelle o animo damnado,
  Do bom apesar do aviso,
  Ai, do mau foi enganado!
«Perdição?! Disso me rio,
  Não cuideis que eu tenha susto.
  No terceiro céu que fôra
  Me escapára o cervo a custo.
Que me importa a ira divina?
  Vae-te prégar ao deserto.
  Teus sermões a montaria
  Não farão falhar, por certo.--
Assim disse o conde. O açoute
  Sacode; as buzinas soam.
  «Csê! abóca!..--Ui! de diante
  Homens e cabana voam.
De trás corceis, homens fogem:
  Sons e gritos de caçada
  Se esvaecem de repente
  Da morte na paz gelada.
Pávido o conde olha em roda:
  Tóca a buzina... não soa:
  Grita... em vão: nada ouve: o açoute
  Vibra: mas no ar não toa.
Para um e para outro lado
  O seu cavallo esporeia...
  Nem para trás voltar póde,
  Nem àvante se meneia.
Então escurece emtorno:
  Cada vez mais de ennegrece:
  Qual sepulchro fica: ao longe
  Bramir triste o mar parece.
Lá troa voz de trovão!
  Que era o que dizia a voz?
  Era a sentença do conde,
  Sentença medonha e atroz.
«Genio infernal, atrevido
  Contra Deus, homens e feras!
  Das creaturas os gemidos
  Resoaram nas espheras.
Tuas maldades e insultos
  Alto pedem punição,
  Onde da vingança o facho
  Ondeia erguido clarão.
Malvado, foge; que os monstros
  Do inferno te vão seguir,
  Para que sejas exemplo
  Aos tyrannos do porvir!»
Qual d'aurora boreal,
  Flavo pallido fulgor
  Tingiu então na floresta
  Das folhas a verde côr.
Immovel, pasmado, mudo,
  Gelado o conde ficou;
  Trépida angustia dos ossos
  Á medulla lhe chegou.
Frio susto pela frente
  Contra elle arroja o terror:
  Pelas costas o persegue
  O trovão atroador.
O susto o gela; o céu ruge...
  Da terra vai-se elevando
  Negra agigantada mão,
  Ora abrindo, ora fechando.
Pelos cabellos da fronte,
  Ai, quer o conde prender!..
  Elle atrás o rosto volta;
  Nem mais o pôde volver.
Em roda chammeja a terra
  Verde, azul, vermelho fogo:
  Delle um mar rodeia o conde:
  Surge o inferno em peso logo.
Lá dos abysmos profundos
  Sáem mil mastins raivosos,
  Que, pelo averno açodados,
  Se tornam mais furiosos.
Toma alento o conde, e foge:
  Por montes, por campos vai,
  Do seio arrancando a espaços
  Do espanto terrivel ai:
Mas por todo o largo mundo
  Atrás delle ruge o inferno,
  De dia do orbe no centro,
  De noite no ar superno.
Ficou-lhe a face voltada,
  Por mais que ávante corresse,
  Sem que dos horridos monstros
  Os olhos tirar podesse.
Eis como a caçada foi
  Do tropel desenfreiado,
  A qual até nossos dias
  Tão constante tem passado,
Que, muitas vezes, durante
  As horas da noite escura,
  Ainda ao dissoluto causa
  Do medo o horror e amargura
De bastantes caçadores
  Podia a boca dize-lo,
  Se antes não lhes conviesse
  Calado comsigo te-lo.



O CÃO DO LOUVRE.

(_Delavigne_).


Tu que passas, descobre-te! Alli dorme
      O forte que morreu.
Dá ao martyr do Louvre algumas flores;
      Dá pão ao seu lebreu.
Da batalha era o dia. O canhão troa:
E o livre corre á morte, e juncto delle
      O seu cão vai:
A mesma bala ambos feriu: o martyr
Não deploreis: o amigo seu que vive
      Só pranteai!
Tristonho, sobre o forte elle se inclina,
Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda
      Põe-se a latir;
E do seu companheiro no combate
Sobre o cadaver sanguinoso o pranto
      Deixa cahir.
Essa gleba guardando onde repousam
As cinzas dos heroes, nada o consola
      No seu gemer;
E ao que o ameiga triste repellindo,
«Oh, que não és meu dono!--o cão parece
      Tentar dizer.
Quando sobre as grinaldas de perpetuas
O matutino alvor da aurora o orvalho
      Faz scintillar,
Os olhos abre vívidos, e pula
Para affagar seu dono, que elle pensa
      Ha-de voltar!
Quando da noite a viração as c'roas
Fez ranger sobre a cruz do monumento,
      Desanimou:
Elle quizera que seu dono o ouvisse;
E ladra e uiva; mas o adeus de á noite
      Lá lhe faltou!
O inverno chega, e a neve, com violencia,
Cái, e branqueia, e esconde esse gelado
      Leito de morte:
Ei-lo que sólta um lugubre gemido,
E busca, alli deitando-se, ampara-lo
      Do frio norte.
Antes que os membros lhe entorpeça o somno,
Mil tentativas para erguer a campa
      Inuteis faz:
Depois comsigo diz, como hontem disse,
--Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»
      E dorme em paz.
Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras,
E seu dono entre as balas encontradas
      Cahir ferido:
E ouve-o que o chama com sibillo usado;
E ergue-se e corre após uma van sombra,
      Dando um bramido.
É alli que elle espera horas e horas,
E saudoso murmura: alli pranteia,
      E morrerá.
O seu nome qual é? Todos o ignoram.
O que o sabía, o dono seu querido,
      Nunca o dirá!..
Tu que passas, descobre-te! Além dorme
      O forte que morreu.
Dá ao martyr do Louvre algumas flores,
      E esmola ao seu lebreu.



LEONOR.

(_Burger_).


Ralada de ruins sonhos
  Já desperta está Leonor,
  E 'inda agora os céus d'oriente
  Da manhan tingiu o alvor.
«Guilherme, és morto?--ella exclama--
  Ou trahiste a pobre amante?
  Se vives, porque retardas
  De te eu ver feliz instante?»
Nas tropas de Friderico
  Tempo havia que partíra
  Para a batalha de Praga,
  E cartas delle quem vira?
Mas a imperatriz e o rei[1],
  De guerras, emfim, cansados,
  Depondo os animos feros,
  De paz faziam tractados.
Já aos seus lares tornavam
  Ambas as hostes folgando.
  Cingem frentes ramos verdes;
  Vem atabales rufando.
E por montes e por valles
  Velhos e moços chegavam,
  Dando brados de alegria,
  A encontrar os que voltavam.
«Boa vinda! Adeus!--diziam
  As filhas, noivas, e esposas.
  E Leonor? Nenhum dos vindos
  Lhe faz caricias saudosas.
Por Guilherme ella pergunta;
  Por qual estrada viria.
  Vão trabalho; vans perguntas:
  Novas delle quem sabia?
Não o vê. Passaram todos...
  Em furioso devaneio,
  Ei-la arranca as negras tranças;
  Fere crua o lindo seio.
Sua mãe, correndo a ella:
  «Valha-me Deus!--lhe bradou.--
  Minha filha, pois que é isso?!»
  E entre os braços a apertou.
«Minha mãe, perdeu-se tudo!
  O mundo, tudo perdi:
  De nada Deus se condoe...
  Oh dor, oh pobre de mi!--
«Ai! Jesus venha á minha alma!
  Filha, um padre-nosso resa.
  Deus é pae: sempre nos ouve:
  Nunca a humana dor despreza.--
«Minha mãe, inutil crença!
  Que bens me tem feito Deus?
  Padre-nossos!.. padre-nossos!..
  Que importam resas aos céus?--
«Ai! Jesus venha á minha alma!
  Pois não é quem resa ouvido?
  Busca da igreja o consolo
  Verás teu pesar vencido.--
«Mãe, oh mãe, esta amargura
  Nenhum sacramento adoça:
  Não sei nenhum sacramento,
  Que aos mortos dar vida possa.--
«Filha, quem sabe se, ingrato,
  Elle ás promessas faltou;
  E lá na remota Hungria
  Novo amor o captivou?
Se, mudavel, te abandona,
  Do crime o premio terá:
  Do ultimo trance na angustia
  O remorso o punirá.--
«Morreu-me, oh mãe, a esperança.
  Perdido... tudo é perdido!
  Morrer, tambem, só me resta.
  Nunca eu houvera nascido!
Foge, oh sol resplandecente!
  Manda a noite e os seus terrores...
  Deus, oh Deus, que nunca escutas
  O gemer de humanas dores.--
«Meu Senhor! A desditosa
  Não pensa o que a lingua exprime.
  Não julgues a filha tua:
  Nem te lembres do seu crime.
Vans paixões esquece, oh filha:
  Cogita no goso eterno,
  No sangue que te remiu,
  E nos tormentos do inferno.--
«O que é goso eterno, oh mãe,
  E o inferno em que consiste?
  Com Guilherme ha goso eterno,
  Sem Guilherme o inferno existe.
Sem elle, que a luz fugindo,
  Se troque em nocturno horror;
  Sem elle, no céu, na terra
  Só conheço acerba dor!»
Assim no sangue e na mente
  Furia insana lhe fervia:
  Cruel chamando ao Senhor,
  Mil blasphemias repetia.
Desde o sol brilhar no oriente
  Até que o céu se estrellava,
  As mãos, louca, retorcia,
  O brando seio pisava.

         -----

Porém ouçamos!.. A terra
  Pisa um cavallo lá fóra!..
  E pelos degraus da escada
  Tinem sons d'espada e espóra...
Ouçamos! Batem na argola
  Pancadas que mal feriram...
  E através das portas, claro,
  Estas palavras se ouviram:
«Oh lá, querida, abre a porta.
  Dormes? Estás acordada?
  Folgas em riso? Pranteias?
  De mim és 'inda lembrada?--
«Guilherme, tu?! Na alta noite?
  Tenho velado e gemido.
  Quanto padeci!.. Mas, d'onde
  Até 'qui tens tu corrido?!--
«Nós montamos á meia-noite
  Só. Vim tarde, mas ligeiro,
  Desde a Bohemia, e comigo
  Levar-te-hei, por derradeiro.--
«Oh meu querido Guilherme,
  Vem depressa: aqui te abriga
  Entre meus braços; que o vento
  Do bosque as crinas fustiga.--
«Rugir o deixa nos matos.
  Sibilla? Sibille embora!
  Não paro... que o meu ginete
  Escarva o chão... tine a espóra...
Nosso leito nupcial
  Dista cem milhas d'aqui.
  Sobraça as roupas... vem... salta
  No murzelo, atrás de mi.--
«Além cem milhas, me queres
  Hoje ao thalamo guiar?
  Ouve... o relogio ainda soa:
  Doze vezes fere o ar.--
«Olha em roda! A lua é clara:
  Nós e os mortos bem corremos.
  Aposto eu que n'um instante
  Ao leito nupcial iremos?--
«Mas dize-me, onde é que habitas?
  Como é o leito do noivado?--
  «Longe, quedo, fresco, breve:
  De oito taboas é formado.--
«Para dous?--«Para nós ambos.
  Sobraça as roupas: vem cá.
  Os convidados esperam:
  O quarto patente está.--
Sobraçada a roupa, a bella
  Para o ginete saltou,
  E ao seu leal cavalleiro
  Co' as alvas mãos se enlaçou.
Ei-los vão! Soa a corrida.
  Ei-los vão, á fula-fula!
  Ginete e guerreiro arquejam:
  A faisca, a pedra pula.
Ui, como, á direita, á esquerda,
  Ante seus olhos se escoam
  Prado e selva, e do galope
  Sob a ponte os sons ecchoam!
«Tremes, cara? A lua é pura.
  Depressa o morto andar usa.
  Tens medo de mortos?--«Não.
  Mas delles falar se escusa.--
«Que sons e cantos são estes?
  O corvo alli remoinha!
  Sons de sino? Hymnos de morte?
  É morto que se avizinha!--
Era de feito um saimento,
  Que andas e esquife levava:
  Aos silvos de cobra em pégo
  Seu canto se assemelhava.
«Um enterro á meia-noite,
  Com psalmos e com lamento,
  E eu a minha noiva levo
  Ao sarau do casamento?
Vinde, sacristão e o côro,
  O ephitalamio entoai-nos;
  Vinde, abbade, e antes que entremos
  No leito, a bençam lançai-nos.--
Cala o som e o canto: a tumba
  Some-se: finda o clamor
  A seu mando; e o tropel voa
  Na pista do corredor.
Sempre mais alto a corrida
  Soa. Vão á fula-fula.
  Ginete e guerreiro arquejam:
  A faisca, a pedra pula.
Como á dextra e esquerda fogem
  Montes, bosques, matagaes!
  Como á dextra e esquerda fogem
  Cidades, villas, casaes!
«Tremes, cara? A lua é pura.
  Depressa o morto usa andar.
  Temes os mortos, querida?--
  «Ai, deixa-os lá repousar!--
«Olha! Ao redor de uma forca
  Dançar em tropel não vês
  Aereos corpos, que alvejam
  Da luz da lua através?
Oh lé, birbantes, aqui!
  Birbantes, acompanhai-me!
  Vinde. A dança do noivado
  Juncto do leito dançai-me.--
E os vultos vem após logo,
  Ruído immenso fazendo,
  Como o furacão nas folhas
  Seccas do vergel rangendo.
E resoando a corrida
  Ei-los vão, á fula-fula.
  Ginete e guerreiro arquejam:
  A faisca, a pedra pula.
Para trás fugir parece
  Quanto o luar allumia;
  Para trás suas estrellas
  Sumir o céu parecia.
«Tremes, cara? A lua é pura.
  Depressa o morto andar usa.
  Temes os mortos, querida?--
  «Ai, delles falar se escusa!--
«Murzelo, o gallo ouvír creio!
  Breve a areia ha-de correr...
  Murzelo, avia-te, voa;
  Que sinto o ar do amanhecer!
Nossa jornada está finda:
  Ao leito nupcial chegámos:
  Ligeiro os mortos caminham:
  A méta final tocámos.--
D'uma porta ás grades ferreas
  Á rédea solta chegaram,
  E de fragil vara ao toque
  Ferrolho e chave saltaram.
Fugiram piando as aves:
  A corrida, emfim, parára
  Sobre campas. Os moimentos
  Alvejam; que a noite é clara.
Peça após peça, ao guerreiro
  Cáe a armadura lustrosa
  Em negro pó impalpavel,
  Qual de isca fuliginosa.
Sua cabeça era um craneo
  Branco-pallido, escarnado:
  Nas mãos tem fouce e ampulheta,
  Triste adorno de finado.
Alça-se e arqueja o ginete:
  I­gneas fai­scas lançou,
  E debaixo de seus pés
  Abriu-se a terra, e o tragou.
Dos covaes surgem phantasmas:
  Feio urrar os ares corta:
  Bate incerto o coração
  Da donzella semimorta.
Ao redor danças de espectros
  Em remoinho passavam:
  Canto de medonhas vozes
  Era o canto que cantavam:
«Aflliges-te? Oh, tem paciencia!
  Não fosses com Deus audaz.
  Teu corpo pertence á terra:
  Á tua alma o céu dê paz.--

[1] Maria-Theresa d'Austria e Friderico de Prussia.



A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.

(_Lamartine_).


      Tu cujas azas tremulas
      O meu olhar tornava;
      Cujo trinado harmonico
      Meus dias alegrava,
      Ai, já não ouves!--Chamo-te,
      E é vão este chamar!
      Chegou a estação gelida;
      Foi para te matar.

Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos,
      Companheira leal
      Tu me foste, avesinha;
Meiga entre as meigas, desprezando os campos,
Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha
      No movel cannavial.

A ti, affeita a mim, affiz-me em breve.
      Meu unico recreio
      Era brincar comtigo.
Ao veres-me encerrar no pobre alvergue
Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo
      Volvia em brando enleio.

Meu amor te suppria a liberdade;
      Meus passos traduzias,
      Meu gesto, meu falar;
Repetias-me o nome em teus modilhos;
      Punhas-te a chilrear
      Quando sorrir me vias.

Oh, que par! Que viver sereno e sancto!
      Estavamos tão bem!
      Nosso parco alimento
Com a ponta da agulha eu mourejava,
E dizia scismando:--o meu sustento
      É o delle tambem.»
Sementes varias dava-te co' a alpista,
      E, qual ramalhetinho
      Feito na orla do prado,
Á 'splendida gaiola atar me vias,
Para debique teu, de herva um punhado,

      De alface um tenro olhinho....
      Se ao menos fosse licito
      Saberes que pranteio!..
      Ai, foi em dia identico,
      Que teu adejar veio
      Fazer brilhar o jubilo
      Neste triste aposento,
      Onde em saudosa magua,
      Sósinha te lamento!



INDICE.

LIVRO I

A HARPA DO CRENTE


                                        PAG.
A Semana Sancta.                          3
A Voz.                                   35
A Arrabida.                              41
Mocidade e Morte.                        63
Deus.                                    81
A Tempestade.                            87
O Soldado.                               95
A Victoria e a Piedade.                 111
A Cruz mutilada.                        121



LIVRO II

POESIAS VARIAS.


A Perda d'Arzilla.                      137
A Rosa.                                 147
O Mendigo.                              151
O Bom Pescador.                         159
Tristezas do Desterro.                  165
O Mosteiro deserto.                     185
A Volta do Proscripto.                  201
N'um Album.                             211
A Felicidade.                           217
Os Infantes em Ceuta.                   221



LIVRO III

VERSÕES


O Seccar das Folhas.                    273
A Noiva do Sepulchro.                   277
O Canto do Cossaco.                     293
O Caçador feroz.                        297
O Cão do Louvre.                        311
Leonor.                                 315
A Costureira e o Pintasilgo morto.      327





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