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Title: A Fome de Camões
Author: Leal, António Duarte Gomes, 1848-1921
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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A FOME DE CAMÕES



Gomes Leal



A FOME DE CAMÕES

(POEMA EM 4 CANTOS)


LISBOA

EDITORES

Empreza Litteraria Luso-Brazileira de A. Souza Pinto
e
Livraria Industrial de Lisboa & C.ª

MDCCCLXXX

1880--Typ. Occidental, rua da Fabrica 66--Porto



CANTO PRIMEIRO

TRAGEDIA DA RUA


      Quando no mundo o Genio abandonado
      expira á fome e ao frio, indignamente,
      um livido remorso ensanguentado
      sacode o mundo tenebrosamente.
      Como o arrepio d'um terror sagrado,
      alguma cousa grita intimamente:
      como uma voz terrivel que suspira
      nas cordas vingativas d'uma Lyra.

      E essa Lyra é só feita d'ameaças.
      Essa Lyra é só feita de vinganças.
      Essa Lyra só falla de desgraças,
      d'antigos crimes, de crueis lembranças.
      Essa Lyra espedaça e quebra as taças,
      calla os festins, e faz parar as danças,
      e essa Lyra ai! da tragica innocencia
      é a Lyra terrivel da Consciencia.

      E a Lyra diz: O que fizeste, ó mundo!
      das grandes almas unicas, sagradas,
      das grandes frontes d'um sonhar profundo
      que eram as frontes as mais bem amadas?
      O que fizeste d'esse abysmo fundo
      de vontades mais rijas do que espadas,
      d'esses simples e santos corações
      que faziam chorar as multidões?

      O que fizeste d'essas linguas d'ouro
      que sabiam pregar como os prophetas?
      Como enxugaste o seu comprido chôro?
      Como arrancaste as ponteagudas settas?
      O que fizeste, ó mundo! do thesouro
      que vós homens mortaes chamais poetas:
      mas cujo nome d'harmonias bellas
      só o sabem as Cousas e as Estrellas?

      Deitaste ao lodo, á rua, e aviltamento
      esses que adora a Natureza inteira,
      esmagaste entre as pedras o talento,
      os seus craneos quebraste, na cegueira!
      As suas cinzas espalhaste ao vento!
      Profanaste os seus louros na poeira!
      E repousam sem lastimas nem lousas
      os que viam as lagrimas das Cousas!...

      Por isso me ouvirás em toda a parte
      como um soluço e um grito vingador,
      n'uma alta torre, atraz d'um baluarte,
      entre os festins, nas convulsões do amor.
      Na paz, ou levantando o estandarte
      da guerra, escutarás a minha Dôr.
      Por que eu, ó mundo! guarda-o na lembrança,
      --Eu sou a Lyra, e a minha voz Vingança!

      E o mundo escuta, indefinidamente,
      a voz da Lyra a protestar terrivel.
      Ouve-a na sombra, ou pelo sol poente,
      se o vento dobra o cannavial flexivel,
      ouve-a nos sonhos, ouve-a intimamente,
      n'uma continua musica inflexivel,
      até que emfim vencido n'esta liça
      o mundo clama: Faça-se a Justiça!--

      Era uma noute livida e chuvosa,
      ermas as ruas, ermas as calçadas.
      Nada cortava a solidão brumosa,
      nem ais d'amor, nem gritos de facadas.
      Das nuvens colossaes acastelladas
      sómente a meia lua silenciosa,
      boiava em morto ceu ermo d'estrellas,
      como um navio que perdeu as vellas.

      Quem é que cruza á chuva e á ventania,
      á meia noute, as ruas solitarias?
      És tu santa Miseria, que de dia
      foges da luz do Sol, o pai dos párias?
      Ou és tu Fome ou Vicio, que sem guia,
      vaes nas noutes sem lua, mortuarias,
      provocar o Deboxe e os estrangeiros
      á baça luz dos tristes candeeiros?

      Ó Destino! ó Destino!--eu sei a historia
      de muitas das tragedias soluçantes,
      de muito nome que esqueceu a Gloria,
      de muitos prantos que cairam d'antes!
      Sei que riscam teus dedos flammejantes,
      como uma sina má, muita memoria,
      e que nada ha maior e mais escuro
      do que o brilhante e o bronze do teu muro!

      Mas não quero contar o drama agora
      do Brilhante, do Leque, e do Farrapo,
      da meretriz que no bordel descóra,
      do amor do Charco, do histrião, do sapo;
      nem a farça de sangue a toda a hora,
      do Ouro e do Velludo--o rico trapo,
      nem a sina immoral sinistra e crua
      da historia diabolica da Rua.

      Um dia eu contarei a extranha lenda
      ó Destino! dos teus encantamentos,
      seguirei, passo a passo, a tua senda
      ó Miseria! e direi os teus tormentos.
      Para que a alma da Ralé aprenda,
      contarei os crueis temperamentos,
      Direi o Incesto a amamentar os filhos,
      e o Parricida a esvasiar quartilhos.

      Um dia accenderei a selva escura
      das almas que suffocam á nascença,
      das noutes só riscadas d'amargura,
      como um phosphoro risca a treva densa.
      E com a ponta d'um brilhante duro
      marcar-te-hei ó tragica Doença
      que vais, limpando as lagrimas internas,
      fazer um _toast_ á Morte nas tabernas.

      Um dia evocarei os teus mysterios,
      ó tragedia da Rua e os teus segredos,
      mais funestos que os tristes cemiterios,
      mais profundos que os bastos arvoredos:
      direi sonhos, desejos quasi ethereos,
      desejos que teem azas nos degredos,
      d'uma alma que ama o Azul, o Azul almeja,
      como a agulha da torre d'uma egreja.

      Um dia esfiarei todo o rosario
      da Innocencia e da Fome aventureira,
      do Luxo, do Egoismo solitario,
      do Genio soluçante na trapeira,
      da Virtude embrulhada em seu sudario,
      pedindo esmolla á sua irmã rameira,
      e o Crime dando bailes d'apparato,
      em quanto o Justo expira no grabato.

      Descobrirei as contas da Avareza
      junto ao esquife d'uma virgem bella,
      o Tedio bocejando á lauta meza,
      a Fome da mansarda na janella,
      a Inveja ululando contra a preza,
      como uiva á lua a lugubre cadella,
      e o Suicidio, nas manhãs geladas,
      espedaçando o craneo nas calçadas.

      Um dia cantarei a ladainha
      da Desgraça e da Forma triumphante,
      da Espada que tilinta na bainha,
      da Mascara que ri e passa avante,
      da Fome que ergue as mãos e se definha,
      do Leque, da Batina, e do Brilhante
      das lagrimas mortaes do eterno Entrudo,
      das miserias do Cancro e do Velludo.

      Por que tem muito que cantar o imperio
      e o inferno da Carne e dos desejos,
      porque é eterno e livido o mysterio
      da Morte. São eternos os almejos.
      Por que ha lagrimas do berço ao cemiterio,
      ha lagrimas no Amor e até nos beijos,
      prantos communs e de grotescos traços
      nas miserias dos reis e dos palhaços.

      Porque tem muito que cantar as scenas
      ó Rua! das extranhas odysseas
      das tuas festas, procissões serenas,
      do negro sangue que te agita as veias.
      Por que ha remorsos, lagrimas e penas
      entre os motins e os frenesins das ceias.
      Por que n'esta funesta e eterna farça.
      ai! tanto chora o actor como o comparsa.

      Por que ha bastantes corações vencidos,
      altos desejos que não mais voaram,
      sinistros ais e intimos gemidos
      lagrimas mudas que se não choraram.
      Sim, ha soluços que não são ouvidos,
      lagrimas mortas que se congelaram,
      n'uma miseria, um abandono nobre
      como um enterro n'uma rua pobre!

      Porque ninguem conhece onde termina
      o tregeito que rí, soluça, engana,
      porque a eterna Mascara domina,
      e é uma esfinge cada face humana.
      Porque a Morte em nós ceifa uma ruina,
      quando nos rouba na aza deshumana,
      e esta mulher que ri com tanta graça,
      é talvez uma lagrima que passa!

      Mas agora eu só conto o Irrevogavel,
      mais monstruoso do que um sonho ardente,
      conto a historia funesta, inexoravel,
      do Genio morto á fome, indignamente.
      Quero narrar o que é o innarravel!
      fazer sentir o que jámais se sente,
      fazer chorar o choro masculino
      Do Genio contra a noute do Destino!

      O Genio é um archanjo refulgente
      que enrista a lança contra a escura Sorte,
      tem no seu gesto uma expressão potente,
      que diz: eu quero! e empallidece a Morte.
      Para o Vulgo porem vil inclemente,
      e o Destino esse cego antigo e forte,
      é um guerreiro tragico e proscripto,
      e a fronte tem como um luar maldito.

      Este vulto, portanto, que caminha
      altas horas, ao frio das nortadas,
      é Camões que de fome se definha
      nas ruas de Lisboa abandonadas.
      É Camões a que a Sorte vil mesquinha
      faz em noutes de fome torturadas,
      elle o velho cantor d'heroes guerreiros!...
      vagar errante como os vis rafeiros.

      Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
      o seu amparo e seu bordão no mundo,
      morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
      no seu peito deixando um vacuo fundo.
      Hoje pois triste, velho, sem abrigo,
      faminto, abandonado e vagabundo,
      tenta esmollar tambem pelas esquinas.
      Ó lagrimas!.. Ó glorias!.. Ó ruinas!..

      Mas não estende o valoroso braço,
      que outr'ora trabalhou entre os guerreiros,
      a mão recusa-se a suster o passo
      dos transeuntes raros, sobranceiros.
      A Fome roe-o, curva-o o cançasso.
      Cospem-lhe a neve, a chuva, os aguaceiros.
      Ó calçadas fataes! nas enxurradas
      vae muito fel de lagrimas choradas.

      Ó Capitães! Ó Capitães egoistas!
      duras velhas mais duras que o granito!
      ha caso mais sublime às vossas vistas
      que mais vos deva merecer um grito,
      mais negro, mais cruel para os artistas,
      mais sagrado, dramatico, infinito,
      que mais abale os nobres peitos francos
      que um Genio pobre e de cabellos brancos!?...

      O Genio continua á ventania
      a errar pelas ruas silenciosas,
      como um espectro que dissipa o dia,
      como as grandes estatuas dolorosas.
      Assim a noute vaga, na agonia
      dos martyres das noutes trabalhosas,
      até que o sol jorrou pelas viellas,
      e ensanguentou os olhos das janellas.

      Começam-se a ouvir esses rumores
      das capitaes egoistas acordadas,
      a musica dos carros chiadores
      que chegam das aldeias retiradas.
      Recomeçam as pombas seus amores
      sobre as brancas egrejas penduradas,
      e nas torres dos astros companheiras,
      a palpitar, nas glorias, as bandeiras.

      Começam-se a ouvir as matutinas
      musicas da cidade, e as alegrias
      dos gallos com as notas crystallinas
      dos sinos com extranhas simphonias.
      O sol lava de glorias as collinas
      as torres, os beiraes, as gelosias,
      e como a moça que um amante beija
      avermelham-se os vidros d'uma egreja.

      Dos passaros retinem os gorgeios
      nas arvores, nas pontas dos eirados,
      os vis riachos, os lodosos veios,
      correm ralhando, ao sol, precipitados,
      os cavallos remordem os seus freios,
      vão passando aldeões para os mercados,
      e atraz dos lentos carros os boieiros
      veem sombrios, graves, e trigueiros.

      Somente ao Genio uma tristeza enorme
      entenebrece todos os ruidos,
      como um sombrio coração que dorme,
      que já não tem nem sonhos, nem gemidos!
      Só sente uma saudade extranha, informe,
      como aroma dos tempos revolvidos,
      das grandes selvas, sombras e palmeiras
      quando o sol desce as ingremes ladeiras.

      Os aldeões tisnados dos trabalhos,
      recomeçando as horas das fadigas,
      recordam-lhes os épicos carvalhos
      a sombra, os bois, as sestas tão amigas!
      Fazem lembrar-lhe as curvas dos atalhos,
      a ermida, a fonte, os fenos, e as cantigas,
      que elle escutara, pelas luas claras,
      ás louras raparigas nas ceáras!

      Lembram-lhe a India, os templos monstruosos,
      com seus deuses terriveis, singulares,
      as arvores de fructos venenosos,
      as bastas selvas, os gentis palmares!
      Lembram-lhe os tigres ruivos, sequiosos,
      que vão beber a rios como a mares,
      e pelas noites immortaes, eternas!
      o luar nas figueiras das cisternas

      E elle quizera achar-se em alto monte,
      em cima tendo os astros por juizes,
      dizendo adeus ao sol no horisonte,
      acabar os seus dias infelizes:
      na boa terra Mãe deitar a fronte
      e entre as vegetações, entre as raizes,
      misturar sua vida e acerbas dores
      com as almas das plantas e das flores!

      Para o velho cantor eram fugidos
      ai! como luz que para sempre expira,
      os bellos tempos jovens e lusidos,
      as mulheres ideaes que o Amor inspira!
      Rotos, á chuva, os tragicos vestidos,
      posta de parte, empoeirada a lyra,
      achava-se hoje n'uma rua, ó mundo,
      velho, faminto, pobre, e moribundo!

      Sem ousar mendigar, como um vadio,
      vaga nas ruas da Cidade egoista.
      A tarde chega, o bello sol fugiu.
      A noute vem, que o coração contrista.
      Irrompe a lua sobre a verde crista
      d'um monte ao longe, e no lagedo, ao frio,
      o Genio cae emfim, hirto e sem falla,
      como um cadaver que se deita á valla.

      N'este momento uma mulher gigante,
      que pareceu sair d'um pesadello,
      pallida e triste, qual saudade errante,
      deixando ao vento as ondas do cabello,
      tão magra como a Sombra, o seu semblante
      toldado d'um desgosto immenso e bello,
      chegou-se ao Genio hirto e abandonado,
      como a visão d'um sonho torturado.

      E disse-lhe: Bem perto d'esta rua
      dar-te-hão, ó mendigo, uma guarida,
      não dormirás á lividez da lua
      e terás leito onde acabar a vida.
      Se a Sorte t'esmagou, a Sorte crua,
      ergue a cabeça pallida e abatida,
      e ri contente, ó triste, para a eça,
      que em breve vai findar a tua peça!

      A mulher ajudou a levantal-o.
      Cingiu o braço ao Genio moribundo.
      A Morte que passava em seu cavallo
      deu-lhe um sorriso livido e profundo.
      --O teu semblante, ó velho, dá-me abalo,
      disse a mulher. Não é vulgar no mundo!
      Dize-me pois que cousas tenebrosas
      te hão cavado essas rugas dolorosas!

      «Eu fui--o Genio disse--um malfadado
      cantor d'heroes e feitos dos antigos!
      Amei tudo que é grande e desejado,
      e terrivel luctei contra inimigos!
      Sentei-me no castello derrocado,
      no deserto solar, cruzei os p'rigos!
      E com saudade emfim d'estas collinas,
      quiz expirar-lhe, um dia, entre as ruinas!

      «Ninhos fizeram no meu peito amores,
      como andorinhas sobre as cathedraes!
      Conheço o aroma das malditas flores!
      Sei os soluços dos compridos ais!
      Sobre o deserto pallido das Dôres,
      ninguem como eu peregrinou jamais!
      E pelas noutes regeladas, cruas,
      chorei com fome, errando, pelas ruas!

      «Porém que porta negra agora abriste?
      Que aspecto é este morto e desolado?
      Acaso o inferno depois d'isto existe?
      Acaso é pesadello desmanchado?»
      --Cala-te! disse a Sombra magra e triste,
      Cala-te, ó Genio immenso, desgraçado!
      E com sorriso d'expressão fatal
      a Sombra concluiu--É o hospital!



CANTO SEGUNDO

No Grabato do Hospital


      É alta a noute. A lampada vacilla,
      como um pranto, na vasta enfermaria.
      Um marmoreo suor frio scintilla
      sobre a fronte do Genio, na agonia.
      O Genio vae morrer; sobre a pupilla
      treme-lhe um pranto á luz bassa e sombria,
      mais triste do que o luto d'uma sina,
      e um soluço atravez d'uma ruina.

      Junto do leito uma mulher extranha,
      com grandes olhos tristes e parados,
      contempla-lhe o suor frio que o banha,
      e abraça-o com seus braços descarnados.
      Como um sol que se põe n'uma montanha,
      são frios os seus olhos encovados,
      hirta, severa, tragica a postura,
      como imagem d'antiga sepultura.

      «Já viste--diz-lhe o Genio--ó mulher triste!
      que me olhas com teus olhos impassiveis,
      morrer no mundo alguem? Acaso viste
      as lagrimas da morte irremissiveis!
      Acaso, ao magro peito já cingiste
      uns braços que emfim caem insensiveis,
      alguns braços d'irmão que te apertaram,
      e que até ás entranhas te gelaram?

      «Já conheceste as grandes despedidas
      as despedidas sepulchraes, eternas?
      Já sabes quanto doe irem-se as vidas,
      formas, e almas que nos foram ternas?
      Sabes o fel das lagrimas vertidas,
      ou o sangue das lagrimas internas,
      n'um rosto amado, uns olhos, um cabello,
      que a alma sabe que não torna a vêl-o?!»

      Ai! sim--a Mulher diz--com voz gelada
      que pareceu sair d'entre saudades,
      calcadas como lyrios n'uma estrada,
      terriveis como pallidas verdades.
      «Eu cruzei já os reinos e as cidades
      do luto, e da miseria desolada,
      e vi magoas, e gentes fallecer
      que ninguem viu, nem tornará a vêr!»

      E continuou a olhal-o fixamente
      com o seu olhar tragico e marmoreo,
      e um suspiro vibrou profundamente,
      dolorido, no vasto dormitorio.
      Como atravez d'um sonho incoherente,
      n'este sonho da vida transitorio,
      O Genio leu, no seu olhar parado,
      todo o luto e terror do seu Passado.

      «Ah! já sei quem tu és,--o Genio clama--
      na rapida scentelha d'um delirio.
      Tu és a Musa que apregôa a fama,
      a Musa meu amor e meu martyrio!
      Foste tu que accendeste em mim a chamma!
      N'essas palpebras roxas como um lyrio,
      na pallidez, nos labios desbotados,
      vejo a Musa dos genios desgraçados!

      «Tu és a Musa sim d'esses errantes
      e tristes peregrinos do Ideal,
      d'esses loucos e extranhos viajantes
      que andam á busca d'uma flôr fatal,
      d'uma flôr de tons ricos, scintilantes,
      d'uma camelia azul e boreal:
      até que morrem n'uma praia nua,
      ou nos gelos, a um raio azul da lua!

      «Foste tu que inspiraste sempre os cantos
      que eu dediquei á Gloria e á Natureza!
      Ah! foste tu que me enxugaste os prantos,
      e ao luar me fallaste de tristeza.
      Desci comtigo ao reino dos espantos!
      Comtigo á tarde fui pela deveza!
      Comtigo á noute fui, pelas florestas,
      apanhar _boas noutes_ e giestas!

      «Comtigo eu devassei esses segredos,
      das raizes, das Cousas, das Origens,
      do germinar dos lyrios e arvoredos,
      e fiz aos astros soluçar as virgens.
      Comtigo fui, nas pontas dos rochedos,
      debruçar-me do abysmo nas vertigens,
      e andei errante pelo mundo á tôa,
      como folha que vai n'uma lagôa!

      «Mas hoje gela-me o suor na testa
      e convulsa-me o corpo um calafrio.
      Desejo, sonho, amor, nada me resta!
      Nada sacode meu cadaver frio!
      Comtigo não irei pela floresta!
      Não mais irei comtigo pelo rio!
      por que o sopro vital em mim expira,
      como as cordas que estallam d'uma lyra!

      «Não sou a Musa,--disse a Sombra,--não!
      Mas tenho visto os prantos dos amantes,
      e a desolada e livida expressão
      dos seus gestos, nos ultimos instantes.
      As cristallinas lagrimas brilhantes
      tenho aparado n'esta magra mão;
      cerrado os olhos com meus frios dedos,
      e escutado os seus ultimos segredos!»

      E, continuou a olhal-o fixamente,
      com o seu olhar tragico e marmoreo,
      e um suspiro vibrou profundamente
      dolorido, no vasto dormitorio.
      Como atravez d'um sonho incoherente,
      n'este sonho da vida transitorio,
      o Genio leu, no seu olhar parado,
      todo o luto e terror do seu Passado.

      «Ah! já sei quem tu és,--o Genio brada--
      Conheço-o agora em teu olhar funesto.
      Leio-o na tua fronte amargurada,
      e na expressão sinistra do teu gesto.
      Tu és uma saudade aos pés calcada,
      o lyrio d'um desgosto extranho e mesto,
      tu és a prole da Lagrima e da Dôr.
      --És o sinistro e monstruoso Amor!

      «Mas não és esse Amor doce e sereno,
      nascido da Belleza, o Amor antigo,
      irmão das Graças, lyrico e pequeno
      amando o rizo, o campo, e o sol amigo!
      És o Amor desolado como um threno,
      terrivel como o açoute d'um castigo,
      e empunhando na dextra ensanguentada
      um ramo de cyprestes e uma espada!

      «Como eu soffri das largas cicatrises,
      que abriste no meu peito, sem piedade!
      Como eu cantei meus sonhos infelises!
      Como eu te amei ao sol da mocidade!
      Como inda sinto as pontas das raizes
      do amor que alimentei, e com saudade
      lembram-me as tardes que ia nos caminhos,
      pensando em ti, sentindo teus espinhos!

      «Mas hoje mocidade, vida alento,
      tudo se foi, para não mais voltar!
      Vae dissipar-se tudo, como ao vento,
      do fim da tarde o fumo azul d'um lar
      Já sinto fluctuar-me o pensamento
      como uma flôr aquatica n'um mar,
      e nas paginas do livro dos meus ais
      a Sombra pôr o triste _nunca mais_!»

      «Não sou o negro Amor, irmão da Pena
      --a Sombra disse--e não empunho espada,
      mas tenho visto a tenebrosa scena,
      da tragedia da Vida mallograda.
      Tenho visto a blasphemia que condemna,
      a lagrima que queima ensanguentada,
      a lagrima que gela e que não corre,
      como um desejo qu'estacou, e morre!»

      E continuou a olhal-o fixamente
      com o seu olhar tragico e marmoreo,
      e um suspiro vibrou profundamente
      dolorido, no vasto dormitorio.
      Como atravez d'um sonho incoherente,
      n'este sonho da vida transitorio,
      o Genio leu, no seu olhar parado,
      todo o luto e terror do seu Passado.

      «Conheço-te afinal,--n'um grande brado
      o Genio diz.--Tu és a velha Gloria,
      mas a Gloria do genio amaldiçoado,
      a Gloria das lagrimas da Historia!
      És a Gloria do genio e do soldado
      que expira soluçando e sem memoria,
      n'um doloroso e livido arrepio,
      como um cadaver que regeita o rio.

      «Deves ter visto as penas penetrantes,
      como os bicos agudos do espinheiro,
      as desvelladas noutes soluçantes,
      mais negras do que o rosto d'um guerreiro,
      e as tristes magras mãos febrecitantes
      que te buscam a ti, n'um derradeiro
      esforço d'anciedade e de desdita,
      com a blasphemia e a lagrima maldita!

      «Illusão! Illusão! sonho que encerra
      em si a pobre humanidade inteira,
      louros que faz buscar a morte e a guerra
      nuvem que foge, á hora derradeira!
      Gloria! nome vão, a quem a Terra
      busca, e só palpa a livida caveira,
      como pallidas flores das illusões,
      que esmagaram os pés das procissões!

      «Gloria! nome vão! sonho e chimera,
      iris triumphante de vistosas côres,
      verme lusente que vagueia na hera,
      sonho d'estio entre luar e flores!
      Ó giesta gentil da Primavera,
      amendoeira da manhã d'amores,
      por que nos gelas do Destino á beira,
      como a chuva que molha uma bandeira!?

      «Gloria! esphinge eterna que dominas
      com teu olhar prophetico do Incerto,
      que nos fazes sonhar verdes collinas;
      na poeira da areia do deserto,
      Harmonia longiqua, mas que perto,
      cremos ouvir, marchando entre ruinas,
      e que de repente nos fulmina e estalla,
      como um conviva que morreu na salla!

      «Como eu te procurei por val e monte,
      e me rasguei nas lanças dos espinhos!
      Como eu vi teus acenos no horisonte
      a ensinar-me as veredas e os caminhos!
      Como eu te vi um dia n'uma ponte,
      n'um zimborio, n'uns campos entre ninhos,
      e outra vez, n'uma lua socegada,
      a galopar nas pedras d'uma estrada!

      «Vi-te ainda outra vez, ao vento frio
      d'uma tremenda e lugubre procella.
      Estendias-me a mão, entre o assobio
      do nordeste e das ondas, branca e bella.
      Bem te vi, eras tu, e foi aquella
      santa energia, que hoje já fugiu,
      foi esse teu olhar que hoje desmaia,
      que exhausto e salvo me atirou á praia!

      «Mas só hoje te vejo claramente!
      Só hoje, fundo, n'esses olhos leio!
      Tardaste muito em vir, Sombra inclemente!
      Já muito tarde o teu auxilio veio!
      Desalentado, pallido, doente,
      nenhum alento me commove o seio!
      Podes levar, ó Sombra! o teu thesouro.
      Não val tanto suor teu verde louro!»

      «Não sou Amor, nem Musa, nem Gloria,
      --a Sombra disse--nem talentos faço.
      Mais terrivel, funesta é minha historia!
      Mais duro e horrendo o peso do meu braço!
      Não colho os louros; sitios onde passo
      traçam sulcos de sangue na memoria.
      Ah! mil vezes terrivel é meu nome
      tenebroso e profundo!... Eu sou a Fome.»

      «A Fome!--o Genio clama--dando um grito,
      como um soluço ultimo estridente.
      A Fome me conduz para o infinito!
      A Fome é meu final, o meu poente!
      Foi isto que ganhou meu braço ardente,
      foi isto que ganhou meu estro escripto!
      a agonia e o suor n'um mundo ingrato,
      desillusões, e a enxerga d'um grabato!

      «Ó illusões, ó nuvens peregrinas,
      horas da mocidade já fugidas!
      illusões ó princezas perseguidas
      galopando em phantasticas collinas,
      ó brancas cathedraes de pedra erguidas
      com as santas, á tarde, purpurinas
      vegetações, florestas, ideal
      recebei meu adeus no hospital!»

      «Como tu, tenho visto,--disse a Fome--
      pender muita cabeça veneravel,
      muito craneo de genio, muito nome,
      que eu lancei no abysmo do insondavel.
      Muitos que a gloria céga e que consomme
      d'uma selvagem sede insaciavel,
      tenho cingido como a tristes noivos,
      e hoje estão nas raizes, e entre os goivos!

      «Muitos tenho apertado entre meus dedos
      que se hão finado n'um febril delirio,
      e teem-me dito os ultimos segredos,
      com suas bocas lividas de lyrio.
      Dormem alguns á sombra d'arvoredos;
      mas outros para mais mortal martyrio,
      ninguem lhe importa em seu desprezo fundo
      onde estão os seus ossos sobre o mundo!

      «Gigantes craneos de candente lava
      teem repousado no meu magro peito!
      Bem lindos corpos onde a morta crava
      seus dentes, dormem sob o ceu perfeito!
      Mas, quando um genio como tu, no leito
      mata ao abandono a geração escrava,
      pelo universo, cumplice sombrio,
      corre um remorso, como um calafrio.

      «Por isso eu vim colher-te, inda tremente
      logo que expires, ó Genio, sem confortos,
      a lagrima de marmore imponente,
      que se gela nas palpebras dos mortos.
      Por que quero levar como presente
      aos principes, aos povos absortos,
      e aos astros a lagrima marmorea,
      que n'um grabato derramou a gloria!

      «Mas, se acaso na terra e sobre os mares
      ninguem avaliar este teu pranto,
      acima irei das nuvens e dos ares
      dos astros, dos planetas, do Espanto:
      mais acima das Dores e dos Pezares,
      da Justiça sublime ao throno santo,
      ás solemnes e eternas regiões,
      pedir justiça ao pranto de Camões.»

      Dizendo isto a Sombra descarnada
      debruçou-se do Genio sobre o leito.
      Camões morria já: hirta e gelada
      a Fome lhe crusou as mãos no peito:
      e a lagrima marmorea, regellada,
      lagrima que infunde pavido respeito,
      então colheu do rosto moribundo,
      --como um frio protesto contra o mundo.



CANTO TERCEIRO

O Lençol do Genio


      O conde Vimioso em seu solar
      dá uma ceia a nobres e senhores;
      Estalam as risadas pelo ar.
      Pelos copos espumam os licores.
      A Gula e a Carne ali gosam a par:
      falla-se em caças, touros, e d'amores:
      e riem d'entre as suas pedrarias
      marquesas que hoje estão em galerias.

      N'isto um extranho velho entra na salla,
      hirto e solemne, como um quadro antigo;
      seu porte triste pelos peitos cala,
      seu ar hostil é como d'inimigo.
      Os risos param, emmudece a falla,
      como ao ver um remorso, ou um castigo.
      Calam barões fallando de corseis,
      e as damas com as mãos cheias d'anneis.

      E o velho disse:--Extranho é meu pedido!
      Extranho sim! no meio d'uma festa:
      mas venho por um morto protegido,
      e este pedido os labios não me cresta!
      Para um Genio de que hoje nada resta,
      para um Genio da fome consummido,
      um Genio infeliz! um apagado sol,
      venho pedir a esmolla d'um lençol!

      O lugubre pedido n'um momento
      fez em todos roçar um calafrio:
      figurou-se-lhes o gesto macilento
      da morte, ao longe, em seu corcel sombrio:
      figurou-se-lhes a Febre, o Passamento,
      e a Doença em seu catre humido e frio,
      e as damas, os barões, e os cavalleiros
      perderam os sorrisos zombeteiros.

      Porém o Conde dominando o gelo
      do terror que estragava a sua ceia,
      e desmaiava o busto grego e bello
      da mulher por quem todo se incendeia,
      com um riso que tem do orgulho o sello
      bradou ao velho cujo serio odeia:
      Que genio é esse então, bom velho honrado,
      que comparais ao sol já apagado!?

      Todos riram. Um riso irresistivel
      omnipotente, intrepido, animal,
      pela sala estallou, bronco e terrivel,
      como um insulto e a folha d'um punhal,
      O rude velho tragico, impassivel,
      deixou passar aquelle vendaval,
      depois n'um rir, de eronico respeito,
      os longos braços encruzou no peito.

      Zombai--o velho disse--altos senhores!
      e magnificas damas scintillantes,
      nas ricas pedrarias, plumas, flores,
      mais brancas do que os vossos diamantes!
      Zombai ao pé dos vinhos, dos licores,
      das baixellas lavradas, dos amantes,
      d'esta cousa tão comica e sem nome...
      d'um Genio pobre e que morreu de fome!

      E o velho riu--Ah! de que serve, é certo,
      um Genio infeliz? um portador, de lyra!?
      de que serve dos Prantos no deserto
      um instrumento que uns sons doces tira?!
      Um Genio é lava que importuna ao perto,
      e um grande craneo que o talento inspira,
      se com seu canto consolou as almas....
      que coma o louro e as triumphantes palmas!...

      Ah! que servem andar como pharoes,
      como Moyzés a conduzir um povo,
      alvoroçando as almas para os soes,
      n'um canto heroico, original e novo?
      Se com os prantos d'estes rouxinoes
      que alvoroçam e turbam, me commovo,
      talvez vos choque e ás almas verdadeiras,
      que não façam crescer as sementeiras!

      E o velho riu. As glorias do Passado
      dos heroes e dos feitos d'outra edade
      nos castellos, no mar illimitado,
      hoje fazem sorrir a mocidade!
      As glorias d'avós só tem o lado
      poetico de dar solemnidade
      e grandes tons magnificos, imponentes,
      nas sallas, entre as tellas de parentes!

      Elle, o Genio, cantou esses combates
      dos homens, e das forças do insondavel
      da eterna Dôr, naufragios, e os embates
      terriveis do que é fragil e mudavel!
      Castigou com a satyra os dilates
      do arbitrario, do injusto, e miseravel.
      Foi poeta, philosopho, e guerreiro.
      Só nunca conseguiu ser um toureiro!....

      E o velho sorriu amargamente,
      com um sorriso caustico, sombrio,
      n'um riso superior em que se sente
      uma alma forte que jámais falliu.
      O Conde então, bradou-lhe secamente,
      com um grande ar todo solemne e frio:
      «Antes de tudo dir-me-has primeiro,
      se és fidalgo, peão, ou cavalleiro!

      «E narra-nos depois, meudamente,
      a mim, aos cavalleiros e senhores,
      e ás preciosas damas, que ao presente
      t'escutam, piedosas sempre ás dôres:
      narra-nos essa historia surprehente
      d'esse genio infeliz, e esses horrores,
      que trazes, como vejo, na lembrança,
      com mais respeito que a dos pares de França.

      De novo tudo riu. Toda a sonora
      e ampla salla echoou com as risadas.
      Viam-se rir as boccas côr d'aurora
      das magnificas damas decotadas.
      Duquezas louras, tranças côr d'amora,
      com bellas mãos, macias, delicadas,
      abafavam o riso em transparentes
      lenços lacerados entre os dentes.

      O velho ergueu-se em toda a magestade
      e bradou n'uma voz terrivel, dura,
      que fez cessar de prompto a hilaridade,
      pelo tom nunca ouvido de amargura:
      --«Ah! infeliz, indigna Humanidade
      mil vezes infeliz! se a Creatura
      sempre se risse assim do que é sublime
      ou quando o mundo se infamou n'um crime!

      Ah! infeliz mil vezes! se o que é nobre
      e o que é infame, ignobil, monstruoso,
      sob o Azul sagrado que nos cobre
      tivesse o mesmo aplauso victorioso!
      Maldito e excomungado fosse o pobre!
      e maldito o Destino criminoso!
      por trabalhar ainda para o mundo
      com um suor inutil e infecundo!

      «Maldita fosse a Vida e o ardente beijo
      do Amor que produziu a Creação,
      maldito o Sonho e as azas do Desejo
      maldito o Pranto, a Ancia, e a Aspiração!
      Despenhada mil vezes sobre um brejo
      de insondavel miseria e humilhação
      o mundo se abysmasse n'um inferno
      do implacavel, ancioso gelo eterno!

      «Maldito fosse tudo o que suspira,
      maldita a Dôr, mais o soluço Humano,
      maldita a Alma e a lagrima da Lyra,
      maldito tudo quanto é grande e insano!
      Que sobre o mundo horrivel, onde gyra
      a serpente da Idea no oceano
      da treva, o derradeiro homem horrendo
      expirasse, ainda rindo, e maldizendo!

      «Agora, quanto a mim, ó altas damas
      magnificas, divinas, scintillantes,
      e cujos bellos olhos teem mais chammas
      do que os olhos dos rigidos brilhantes,
      antes d'ouvirdes os funestos dramas
      da fome, horrorisai-vos, sabei antes
      que eu sou só um plebeu vil que trabalha,
      e que saio das ondas da canalha!

      «Senti tambem em mim o fogo ardente
      da Lyra perpassar-me pela fronte,
      e amei tudo o que é justo e que é potente,
      e meus irmãos chamei ao bosque e ao monte.
      Nos desertos castellos do Occidente,
      ás nuvens côr de sangue do horisonte,
      tambem eu fui sentar-me nas collinas,
      a chorar sobre as glorias e as ruinas!

      «Mas o Genio infeliz, o vulto immenso
      o heroe cantor vencido pela morte
      esse que me perturba, quando penso
      no implacavel da tyrana Sorte,
      esse que já entrou no bosque denso,
      que já partiu o muro bronzeo e forte,
      que em breve vão deitar na escura valla,
      esse, só de eu fallar... treme-me a falla!»

      O velho então contou a trabalhosa
      lenda do Genio, a musa, e seu destino,
      a intuição da Natureza rumorosa
      da flor, da sombra, e rio crystallino.
      Como o Sol pae das plantas, e da rosa,
      penhasco alcantillado e voz do sino,
      Vegetações, florestas, nuvens, ventos,
      e cellulas, raizes, pensamentos;

      tudo que é vida que tem alma e sente,
      tudo que é flor suave e tem perfume,
      tudo que é aza e corta o ar luzente,
      tudo que é astro, brilha ou que tem lume,
      tudo que foge liquido e corrente,
      tudo que em corpo e alma se resume,
      tudo que é bello como o sol na alfombra
      ou fundo e triste como a voz da Sombra,

      todo esse vasto Todo verde e bello,
      toda essa santa Natureza enorme,
      o luar como a folha d'um cutello,
      o minerio que crêem que só dorme,
      as heras nas ruinas do castello,
      os mulluscos e a larva humilde e informe,
      tudo isso bello ou feio que se ostenta,
      tem voz, tem alma, chora e se lamenta!

      Mas que o Genio no meio d'isto tudo
      soffre mais, porque entende estes lamentos!
      Elle traduz a Dor d'isso que é mudo,
      e resume os geraes desolamentos!
      Não tendo contra a Sorte um outro escudo
      que não sejam seus fortes pensamentos,
      passa curvado n'um pesar profundo,
      --sentindo em si o mal de todo o mundo!

      E todos escutavam silenciosos
      damas, barões, religiosamente,
      os sentidos geraes mysteriosos
      das palavras do velho extranho e ardente.
      E cuidavam ouvir os mil chorosos
      e soluçantes ais, longinquamente,
      das subterraneas Cousas infelizes:
      os ais da planta e os choros das raizes!

      Elle pintou depois o Genio, quando
      deixou prender seu forte coração
      nos sorrisos d'um gesto puro e brando,
      e vagou na torrente da Paixão.
      Como feridos rouxinoes cantando,
      os seus versos resavam da afflição,
      das tragedias, desgraças e dos brados
      dos tristes corações despedaçados.

      E as palavras sentidas, violentas
      do plebeu calavam pelos peitos,
      e sentiam-se ouvir como os tormentos
      dos grandes corações santos desfeitos.
      Parecia-se sentir as suarentas
      e desvelladas noutes sobre os leitos
      diamantes separados, solitarios,
      mais gelados que os leitos funerarios!

      Desenhou-o depois triste e exilado,
      por todo o mundo errante peregrino,
      vagando como heroe, como soldado,
      açoutado do vento do Destino:
      e o seu rude pezar fundo e divino
      da grande viuvez do ente amado,
      pondo-o nas rochas tragico e proscripto,
      de braços levantados ao Infinito.

      E todos escutavam, surprehendidos,
      essas desgraças barbaras sepultas
      no mysterio do olvido, e esses gemidos
      e essas sagradas lastimas inultas.
      Barões e cavalleiros commovidos
      enxugavam as lagrimas a occultas,
      e as pallidas senhoras soluçantes
      alagavam com prantos os brilhantes.

      Depois pintou o horror da tempestade
      e o assobio dos ventos nas procellas,
      dos naufragios a lugubre verdade,
      um navio sem mastros e sem vellas.
      E o Genio do mar na immensidade,
      á fria claridade das estrellas,
      entre as ondas, os ventos, os espantos,
      salvando o grande o livro dos seus cantos.

      Depois mostrou-o pallido, quebrado,
      no fundo d'uma lugubre enxovia,
      no declinar da vida, envergonhado,
      preso pela Injustiça, e Cobardia.
      Pintou ao fundo tragico e assentado,
      na misera masmorra humida e fria,
      o Desespero torvo e macilento,
      irmão magro e infernal do Desalento.

      E do plebeu nas phrases singulares
      sentia-se o glacial dos luares frios,
      os rugidos dos ventos pelos mares,
      o desfazer das taboas dos navios:
      as fundas despedidas, e os pesares
      dos adeuses nos carceres sombrios,
      e um vento a soluçar como um açoite
      do Destino, rasgando a eterna noite.

      E todos escutavam, surprehendidos,
      essas desgraças barbaras sepultas
      nos mysterios do olvido, esses gemidos
      e essas sagradas lastimas inultas!
      Barões e cavalleiros commovidos
      enxugavam as lagrimas a occultas,
      e as pallidas senhoras soluçantes
      banhavam com seus prantos os brilhantes.

      Depois contou as noutes innarraveis
      da Miseria, e da Neve as ladainhas,
      sobre os gelos os grandes miseraveis,
      em attitudes tragicas, mesquinhas.
      Desenhou os carvalhos formidaveis
      em lugubres lençoes, as andorinhas
      fugidas, procurando outros paizes.
      E sempre! sempre a Fome! e os Infelizes!

      Depois narrou a rude lucta immensa
      com todas as potencias da Desgraça,
      e o Genio atravessando a névoa densa,
      como um espectro livido que passa:
      as lagrimas da Fome e da Doença,
      e o mendigar do escravo sobre a praça,
      pedindo supplicante á turba e ao mundo
      esmola para um Genio moribundo.

      Pintou a morte d'esse escravo amigo,
      e o Genio inda mais triste e no abandono
      da força d'esse servo, seu abrigo,
      dos amigos, dos nobres, e do throno.
      E o terrivel guerreiro do inimigo
      pintou em noutes lividas, sem somno,
      velho, dobrado, pelas névoas cruas,
      faminto á chuva, e ao vento, pelas ruas.

      Pintou depois, chorando, a ultima scena
      e da tragedia o derradeiro acto,
      e essa cabeça pallida, serena,
      no frio travesseiro d'um grabato.
      Desenhou esse hospicio, uma gehena,
      onde vai terminar muito apparato,
      e depois, ai! depois, fria e fatal
      a desolada lagrima final!

      Quando acabou, sentia-se na salla
      o ruido dos choros suffocados,
      e os soluços e as lastimas que exala
      a Dôr nos corações muito abalados.
      O Conde estava em pé, hirto, e sem falla,
      hirtos, sem falla, em pé, os convidados,
      e as damas atiravam soluçantes,
      ás plantas do plebeu os seus brilhantes.

      «Guardai--o velho disse--altas senhoras!
      as vossas bellas joias preciosas,
      que já de nada servem n'estas horas
      ao que morreu, sem vossas mãos piedosas.
      Prendei-as novamente ás tranças louras,
      que o cantor, n'estas horas luctuosas,
      para ir enterrar-se, á luz do sol,
      carece só da esmola d'um lençol!

      O Conde deu uma ordem. N'um momento
      um nitido lençol pagens trouxeram.
      Ao pegar-lhe no rosto macilento
      do plebeu as lagrimas correram.
      «Eu chóro--bradou elle--esse talento,
      esse craneo que as lagrimas arderam,
      e que em premio do genio que trabalha
      só teve por esmolla esta mortalha!

      «Este lençol váe ser o teu sudario
      ó grande Genio! que rollaste á praia
      da Morte, desgostoso e solitario,
      mais branco do que a lua que desmaia.
      Quando soar teu sino funerario,
      e no teu craneo a campa rasa caia,
      chorai damas, barões, n'um chôro fundo
      a maior alma que deitou o mundo!

      Essas faces chorai, as quaes araram,
      as lagrimas do abandono e da desgraça,
      as quaes como carvões rubros queimaram,
      ou como um vento d'areal que passa:
      este craneo chorai, de cuja taça
      as lagrimas de sangue s'entornaram,
      e este lençol sabei damas, barões
      vai embrulhar o corpo de Camões!

      E novamente as lagrimas correram,
      e os soluços de novo rebentaram,
      as côres novamente se perderam,
      e os convivas em pé se levantaram:
      os lacaios o passo suspenderam,
      muitas damas mimosas desmaiaram,
      como caiem as lagrimas internas
      nas funeraes separações eternas.

      O velho ia a sair. Porem o Conde
      o deteve e bradou:--«Que nome é o teu
      ó homem singular, onde s'esconde
      um peito que é mais nobre do que o meu?
      Por que reinos cruzaste? Dize aonde
      aprendeste, ó phantastico plebeu!
      a fallar das extranhas afflicções,
      d'um modo que sacode os corações...?!»

      O velho então ergueu-se, em toda a altura
      do seu corpo potente e agigantado,
      e deixou ver a athletica figura,
      de sorte que pareceu ter-se elevado.
      E então, n'um tom terrivel d'amargura,
      que deixou todo o mundo alvoroçado,
      bradou num ai, n'um grito, extranho e novo
      --Sou o Pranto do Povo e volto ao Povo!



CANTO QUARTO

A Lagrima de Marmore


      Essa lagrima immovel que se gela
      sobre as palpebras roxas dos finados,
      e que eu já vi rollar funesta e bella
      nas faces de dous entes bem amados,
      o que é que ella nos diz? que nos revella
      de profundos desejos decepados,
      d'inauditas ou intimas desgraças,
      que são as flores funebres das Raças?!

      O que é que ella nos diz, que nos remove
      até ao mais profundo das entranhas,
      triste como flor onde não chove,
      no cume inacessivel das montanhas?!
      Dirá ella um desejo que já houve,
      cheio de dôr e aspirações extranhas,
      e expirou e morreu n'um mundo falso
      como um amor ao pé d'um cadafalso!?...

      Quando a Fome colheu do moribundo
      a lagrima de marmore dorida,
      poz-se logo a caminho pelo mundo
      e foi vendel-a aos Principes da Vida.
      Mas alguns, num desdem fino e profundo,
      riram da triste offerta nunca ouvida:
      outros tiveram um horror absorto
      ao verem uma lagrima d'um morto!

      Lembrou-se então d'um Principe potente
      que vive n'um payz todo de gelo,
      que ama tudo que é gélido, inclemente,
      e frio como a folha d'um cutello.
      Penetrou no palacio refulgente,
      todo cheio de marmore e ouro bello,
      e onde elle desvellava insomnias cruas
      no meio de milhões d'espadas nuas.

      Quando o Cesar cruel viu esse pranto
      de que gostou seu genio monstruoso
      á Sombra disse--Acho um secreto encanta
      n'este gélido objecto curioso!...
      Deixa-a ficar que causará espanto
      ao meu povo selvagem tenebroso,
      e assim lhe ensine n'um terror mortal
      como é que gela a lagrima final!

      Porém da noute no silencio frio
      quando o Cesar dormia no seu leito
      esta lagrima ao Principe sombrio
      infundia-lhe um tragico respeito.
      Das visões no terrivel desvario
      via da Morte o ultimo tregeito:
      e as caveiras sem olhos, nem narises,
      de todos os sinistros infelizes!

      E a lagrima implacavel e severa
      accusava-o de todos os seus crimes
      dos seus instinctos tragicos de fera,
      dos mortaes que dobrava como vimes,
      dos irmãos e dos Paes que elle prendêra,
      e das almas viris, fortes, sublimes,
      a quem seu braço sem cessar enterra
      pelas entranhas humidas da terra!

      E o Despota na lagrima parada
      lia a lenda de todos que sem nome
      sobre a neve, ou na mina bronzeada
      tinham morrido esqualidos de fome:
      via os prantos da plebe esfarrapada
      que n'um suor esteril se consome:
      e os clamores formidaveis, justiceiros,
      dos prantos de milhões de mineiros!...

      Fugiu logo do leito insupportavel,
      e por todo o palacio vaga errante.
      De manhã chama a Sombra miseravel
      e entrega-lh'a, com mão febrecitante:
      Leva d'aqui--lhe grita--esse implacavel
      tormento, que é mais frio que um brilhante,
      porque de prantos tenho um cemiterio
      no gelo excepcional do meu imperio!

      Lembrou-lhe então á Fome ir offertal-o
      de Roma ao mais sinistro inquisidor.
      Deixa á porta o seu pallido cavallo.
      Penetra cheia d'um mortal terror.
      Quando o sicario a viu sentiu abalo
      e disse á Fome--Eu gosto d'esta flor
      que florece nos mortos, como lyrios
      que gelaram nos olhos dos martyrios!

      Porem da noute no silencio enorme,
      a fixidez da lagrima impassivel
      olhava-o como um olho frio e informe,
      e accusava-o de tudo que ha de incrivel,
      Accusava-lhe a alma, antro desforme;
      e estendia-lhe então n'um sonho horrivel
      de eternos prantos um gelado mar
      --como uma immovel solidão polar.

      E ao bandido lembravam-lhe as torturas
      dos que vira morrer nos seus flagicios,
      de todas as sinistras creaturas
      a quem passara a esponja dos supplicios.
      E as disformes e energicas figuras,
      com blasphemias, gritavam-lhe os seus vicios,
      e entre injurias, mostravam, justiceiras
      os braços calcinados das fogueiras.

      Envia de manhã chamar a Fome,
      e á Sombra grita com sorriso duro,
      podes levar a lagrima sem nome,
      e esconde-a bem no antro mais obscuro.
      Como uma pedra que o abysmo some
      faze que ella se suma; e no futuro
      não me tragas jamais estes espelhos
      dos que morreram contra os Evangelhos!

      Quando a Fome largou os dous sicarios
      foi procurar o rei dos mais banqueiros,
      que era tambem senhor dos usurarios,
      cujos navios eram aos milheiros.
      O palacio valia os mil erarios
      dos principes mais ricos estrangeiros.
      E as suas sallas tinham cem figuras
      das mais raras e nuas esculpturas.

      Quando o banqueiro viu a extranha offerta
      disse n'um tom ironico e orgulhoso,
      «A vida d'um poeta é pobre e incerta!
      Mais mesquinho o seu pranto angustioso!
      Comtudo, como a fome vil te aperta,
      guardarei este pranto curioso,
      e na alcova a porei, como memoria
      de que vai tudo Ouro, e nada a Gloria!

      Porem, de noute no silencio fundo,
      a lagrima impassivel fixa, dura,
      recordava-lhe os prantos que no mundo
      fizera derramar a sua usura.
      E n'um estar immovel e profundo,
      como um espectro d'uma sina escura,
      todos choravam, n'este pesadello,
      --inconsolaveis lagrimas de gelo!

      Levantou-se o banqueiro torturado
      e mal a aurora avermelhou a terra,
      chamou a Fome, e livido, aterrado,
      disse á Sombra--«Confessa-me o que encerra
      esse impassivel pranto amargurado
      que não sei o que tem me gela e aterra,
      tendo eu só n'estas salas cem figuras
      das mais ricas marmoreas esculpturas?»

      «Não sei--a Sombra disse:--Teem-me dito
      o mesmo, muitos grandes assassinos.
      É que esse pranto foi talvez o grito
      do Genio contra o injusto dos destinos.
      É que o Genio é o açoute do Infinito
      contra os crimes, e os grandes desatinos,
      e mesmo sob os goivos mortuarios
      regela ainda as almas dos sicarios!

      Depois d'isto ninguem mais quiz o pranto!
      Todos riam do extranho d'essa offerta.
      Uns fugiam da Fome com espanto.
      Outros julgavam-lhe a razão incerta.
      Uma virgem, porem, d'um rosto santo
      bradou, a face de rubor coberta:
      --Eu amei d'um poeta a fronte amada!
      Ai! quem déra essa lagrima gelada!

      «Porem nada te dou, por que sou pobre,
      a ti que és pobre como eu sou tambem.
      Sobe acima do azul que a todos cobre,
      acima dos Despresos, do Desdem.
      Sobe acima da Dôr que é grande e nobre,
      mais acima dos astros, mais além
      do Egoismo, da Inveja, e da Cubiça,
      e vai leval-a ao throno da Justiça!

      Então a Sombra abandonou o mundo,
      e ergueu-se logo acima das espheras,
      longe da Besta d'Ouro e Vicio immundo,
      para longe dos Tempos e das Eras,
      perto do abysmo do insondavel fundo,
      onde teem corpo as lucidas chimeras:
      montada n'um cavallo horrendo e feio,
      sem estribos, sem redeas, e sem freio.

      Quando ella contemplou em baixo a terra,
      humillimo planeta grão d'areia
      preza do Tempo e insaciavel Guerra
      e onde a raça dos mortaes ondeia,
      ella que nada já commove e aterra,
      que nenhum pranto d'um estranho anceia,
      sentiu brotar no secco coração
      a rubra e extranha flor da Indignação.

      Ella atravez passara d'almas, vidas,
      e dos martyres lugubres descalços,
      das jovens mães crueis infanticidas,
      das illusões e dos sorrisos falsos,
      atravez das eternas despedidas,
      dos crimes, dos incestos, cadafalsos,
      e de todos os crimes e desgraças
      que são os fructos tragicos das Raças.

      Ella atravez passara d'essas almas
      aonde em prantos s'escreveu _jámais_,
      das grandes solidões das neves calmas,
      atravez das galés, dos hospitaes,
      atravez das blasphemias e dos ais,
      das glorias, dos triumphos, e das palmas,
      e atravez sempre! sempre! do gemido
      do Genio eternamente perseguido.

      Por isso quando foi perto do throno
      da terrivel Justiça, da Immutavel,
      ia ainda indignada do abandono
      em que se afunda o Genio inconsolavel.
      Como os nordestes varrem pelo outomno
      as roseiras, assim ella implacavel,
      tinha varrido toda a piedade
      contra a dura e egoista Humanidade.

      Mal a viu a Justiça disse--ó Fome
      o que é que trazes da sombria Terra?
      Trazes um ai do que morreu sem nome?
      Sonho de virgem que teu braço enterra?
      Trazes um riso que o infeliz consomme?
      Ultimo beijo em que um amor s'encerra?
      Trazes um grito, um desalento fundo?
      Trazes um pranto de que riu o mundo?

      Trago mais que isso replicou sombria
      a magra Fome, apresentando o pranto:
      --Eu trago-te esta lagrima tão fria
      como o gume da Espada justo e santo.
      Eu trago-te este pranto d'agonia,
      e que a ti mesmo causará espanto,
      pranto que gelou como uma esperança,
      pranto que clama um grito de vingança!

      A Fome então narrou, succintamente,
      a historia da lagrima marmorea.
      Narrou toda essa vida descontente,
      toda essa tragedia tão sem gloria;
      seu genio, seu destino, e febre ardente
      do Bello, e de gravar-se na memoria,
      e esse pranto tão triste e tão profundo,
      que só o quiz uma mulher no mundo!

      Ao acabar ergueu-se ferozmente
      a Justiça em seu throno, commovida,
      e clamou com um brado omnipotente
      tal que as origens abalou da Vida:
      «--Eu juro pelo sangue do innocente,
      por mim, por esta lagrima caida,
      pelo Ceu, pela Dôr, e pelo Espaço,
      por minha espada, e força de meu braço;

      por tudo que ha de justo e de terrivel,
      por tudo que ha de santo e d'implacavel,
      pelo pranto que cae no Invisivel,
      e o soluço que rolla no insondavel,
      que não destruo ó mundo, ó insensivel,
      planeta! essa vida miseravel,
      por ter havido uma mulher que quiz
      um desolado pranto d'infeliz!

      «Mas já que o não quizeste ó Terra fria,
      quero-o eu, de continuo, na presença!
      Quero tel-o de noute, quer de dia,
      como um sonho constante em que se pensa!
      Quero ter esta lagrima sombria,
      para um dia lavrar tua sentença!
      Quero tel-o ante mim, como lembrança:
      para lembrar-me de que sou Vingança!

      «Quero tel-o ante mim, ah! como um grito,
      que me recorde os tristes que sem nome
      hão estendido os braços no Infinito,
      na sêde de Justiça que os consome!
      Quero tel-o ante mim, como o afflicto
      brado do Genio que morreu á fome,
      e que vos prove d'esta espada os brilhos,
      de que vós, ó Poetas, sois meus filhos!»

      Assim disse a Justiça. E desde então
      ante ella jaz o pranto eternamente,
      para provar que se não verte em vão
      a lagrima, na terra, do innocente:
      que a natureza é mãe, e o Genio irmão
      do espirito dos astros refulgente
      e que a Justiça sopra a sua ira
      nas cordas vingadoras d'uma Lyra.

      Eu não sei se entendestes o sentido
      Occulto e justo d'esta allegoria,
      se fiz ondular bem a vosso ouvido
      os tenebrosos sons d'esta agonia?
      E vós, ó tristes! tristes! que haveis ido
      tranzidos repousar na valla fria,
      esquecidos, inglorios, sem um pranto
      a lagrima acceitai d'este meu canto!

      Acceitai este canto, como preito
      craneos de lava que não orna o louro!
      e emfim morrestes, porque o vosso peito
      bateu nas pedras, d'entre as nuvens d'ouro.
      Acceitai n'esta lagrima o respeito,
      vós que encontrastes só riso e desdouro!
      e que em vez do festim do que trabalha,
      não tivestes nem louros, nem mortalha!

      Acceitai n'esta lagrima o protesto
      de muitas gerações de rebellados
      contra o abandono insolito e funesto
      do mundo silencioso aos vossos brados!
      Em vez do riso, insulto, e do doesto,
      acceitai nossos pezames irados,
      e n'este canto, ó mortas existencias!
      os protestos de muitas Consciencias!

      E tu, ó mundo, aprende-o! D'ora avante
      não mates mais o Genio que irradia!
      Não s'ergam nunca mais ao ceu distante,
      Contra ti, magros braços d'agonia!
      Por que hoje, sabe-o bem! fixa e brilhante,
      está clamando e bradando noute e dia,
      acima d'Odios, Prantos, e Cubiça,
      a lagrima marmorea ante a Justiça.


FIM.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Fome de Camões" ***

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