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Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
Author: Mascarenhas, Miguel J. T.
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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UM CONTO PORTUGUEZ



UM CONTO PORTUGUEZ

EPISODIO DA GUERRA CIVIL

A MARIA DA FONTE

POR

MIGUEL J. T. MASCARENHAS

PORTO

Typographia Lusitana

84--Rua das Flores--84

1873.



DEDICATORIA

A MEU FILHO

GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS


Dedico-te o meu unico livro.

Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n'elle
todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta
annos repletos de provações.

Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro
annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos
livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez»,
deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos
physicos, que me não  consentem atturados trabalhos de nenhum genero.

Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e
minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos
eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos
que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.

Guimarães, 12 de Agosto de 1873.

                                                        Teu pae muito amigo

                                                  Miguel J. T. Mascarenhas.



PROLOGO


Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.

Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por
escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa
de não compôr mais versos.

Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as
letras.

Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia,
como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr
em letra redonda a minha «letra de mão»?!

Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita
leitura,  de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita
audacia, que é o fructo da ignorancia.

Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas
obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...

Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...

Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais
eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e
imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que
dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o
bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.

Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o
prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder,
que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na
minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de
poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a
mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não
curo do concerto, para não desabar  o edificio. Se continuasse a apresentar
o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é
de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza:
morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas
as palavras.

Seria melhor?...

São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na
romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem
ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus
conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e
compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios
personagens.

Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura
pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e
da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem.
Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que
podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre
Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:

«Arranca o estatuario uma pedra d'essas  montanhas, tosca, bruta, dura,
informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na
mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois,
feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a
testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe
as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as
mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli
arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que
se póde pôr no altar.»

Guimarães, 12 de Agosto de 1873.

                                                  Miguel J. T. Mascarenhas.



PRIMEIRA PARTE

HONRA


  «No que o mundo chama _honra_ ha muitas vezes mais vaidade que virtude».

                                                   (DR. CORRÊA DE LACERDA).



UM CONTO PORTUGUEZ



I

TREZ DONZELLAS

      «....................
      Tres, sim. Não cuides
      Que te desgraças:
        Vês?
      Tres são as Graças,
      Tres, as Virtudes,
        Tres.»

              «_João de Deus_--FLOR DO CAMPO.»


Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846,
avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores
floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa,
das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O
donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem
posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada
posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga
para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam  essas feições
caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo
esta asserção--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.

Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho:
por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui
ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.[1]

D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira
fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta,
o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem
usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em
redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés
pequenissimos; mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que
todos--chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais
significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto
aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca,
ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes
que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam
em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de
trezentos mil cruzados em dote.

Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as
magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por
ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.

A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á
força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus
nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis
resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida,
e muito além do geral das senhoras portuguezas.

Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao
espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.

Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião
teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.

As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima,
estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito
parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão
similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os
nomes.

Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas;
fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de
fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam
abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.

Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças  religiosas, que tocavam
na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa
de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas
apparencias, a que ella sabia chamar _phantasias sagradas_.

Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim
dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a
rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á
boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi
correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e
voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas
da mesma classe.

A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas
dezoito primaveras.

Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo,
o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.

Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde
rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e
a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras,
como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria
d'aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que
pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera
embebidos os olhos, e a alma presa.

Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por
Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez
fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza.

Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco
certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os
rumores de que se faz echo.

Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e
de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo.
Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi
desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua
laboriosa e rude familia.

Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como
iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham,
aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato
da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição
humilde.

Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só
d'esta herança desdenham.

Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma
geração briosa, e heroica!

Porquê?

É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não
póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel
mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do
seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...

Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de
todas as classes sociaes.

Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a
muito.

Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem
testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes
aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?

Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que
decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer,
com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e
bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira
engastada em oiro purissimo.

O colloquio das tres donzellas, fôra assim:

--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel
Anna, o que tens tu?

--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela
interrogada, a falladeira Rosa.

--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses fidalga,
como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a
religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de
mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...

--Diz bem fidal... snr.^a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices...
mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas,
que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas.

--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?

--Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha
segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.

--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e
desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem
revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a
desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para
logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um
vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e
diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu
casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a
minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras
me assusta; e...

--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso.
Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas
graças, a nossa commum amiga?

--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco
algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a
necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de
Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.

--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do
Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos
preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.

--Se tu confessas que foram aprendidos, como  posso eu ter culpa das culpas
alheias?... Não é assim, minha senhora?

--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O
favor que me fazes de _tua senhora_, é que eu não queria receber. Chamai-me
só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e
proprio das nossas idades, como eu appetecia.

--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais
estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...

--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a
muito se fôres bem fadada por Deus.

--Vês, Rosinha, _minha vassalla_, que o mal da inveja tambem toca nas almas
como a da nossa Annitas!?

--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que _pensa o que diz_... mas é
muito de crêr que nem sempre _diga o que pensa_...

--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido...
Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente
reunida na serra de Guilhufe!...

--É muito povo, é, snr.^a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas,
as duas amigas da fidalga.

--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o
sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle
ajuntamento...

Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo,
respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a
outro--é... a «Maria da Fonte!»

    [1] Na _Historia da casa de Lara_, e n'um manuscripto, de 1676, do
    padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se
    escripto==_Avendanho_==; mas os modernos senhores do nome,
    assignam-se--_Abendanho_. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para
    Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de
    cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas
    manchadas de sangue, com a legenda: _Sine sanguine non est
    victoria_.



II

RUGIDO


  «Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se
  intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça
  todos esses remedios?»

                                               (_Vieira_--ARTE DE FURTAR.)


Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão
justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão.
Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D.
Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os
velhos senhores d'ella.

Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação,
que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção,
encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela
solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações
portuguezas.

Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio
florido, ainda ao brasido»--havia  lume no fogão. Em cima de uma mesa
circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e
postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de
pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos
em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas
gerações.

Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de
fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam
bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da
parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S.
Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor
portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D.
João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de
Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.

Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo
jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de
grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos
Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima
d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.

Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da
época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em
veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos
da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella
concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.

Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de  D. Maria da Gloria, e
verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo
portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a
nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito,
apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes,
castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar
imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.

Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os
desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se
acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma
vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente
sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de
mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus
pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.

Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita.
Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar
as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que
se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares,
sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores,
merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.

D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita era
uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza,
pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de
seus cinco filhos varões. Toda  entregue á direcção interna do seu casal,
só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o qual, as
pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma hora do
dia seguinte.

Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e
adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao
esposo.

A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á
cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--_fidalga das chaves_--dito pelo
povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha
fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam
unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si
do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo,
avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a
denominava--_chaveira dos pobres_,--em grata allusão ás immensas esmolas,
que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que
diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se
assemelhava á portaria d'um convento.

Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres
donzellas.

Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27
annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem
affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos;
sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas
com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras
lettras; e o seu verdadeiro  estudo principiou aos quinze annos de idade, e
teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de
seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento.

Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a
nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do
plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de
fidalgo orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos
titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o
litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo
dinheiro, o rei do mundo.

Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur
Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o
considerava do modo que já dissemos.

Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o
terreiro, ouviram-se badalar as _Ave-Marias_ no campanario da terra, o que
logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as
donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a
conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria
beijar a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a
benção ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um
respeitoso osculo.

As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos
velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de
Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas
visitas.

Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da
mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, acompanhado das
palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava
contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia.

Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos,
occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e
Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala,
onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos
dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo.
Rosa, e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria:
só tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes
imperativamente o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a
verdade--não desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se
esqueciam de lhe pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem
asperezas, que só em pó se desfazem.

Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com
Arthur o seguinte dialogo:

--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?

--Tenho que dar a v. ex.^a a desagradavel noticia de que o povo se agita em
desordem, começada por não sei que «_Maria da Fonte_» das proximidades de
Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de revolução, porque a
semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir os benésses a que
miram os curas da imprensa desenvolta.

--É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender aquelles que,
como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, da familia
liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que desejára, como
portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo?

--O povo diz, _que abaixo o ministerio e as contribuições_, e queima os
mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuições,
reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que incutiram
nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de
documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!

--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de
uma nação?!

--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da
gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo
de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da
invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem
a macula de fratricidas... Perdôe v. ex.^a o modo de vêr da moderna
eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas
de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.^a
manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem
sabe, que sou liberal...

--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade
de que V. S.^a é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões
interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um
soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu
preito. É V. S.^a  o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os
liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra
entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo
meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em
mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das
proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão
abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas
luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade
por ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...

--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes
transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem
abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.^a, que ainda confie no
futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente
devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos
cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções
partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e
de prosperidade.

Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de
Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o
terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.^mo Leopoldo de Moraes
Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.

Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro,
lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao
cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver
_escudeiros_ com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve,
e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a
maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e
lealdade.

Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil
contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos
ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os
homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo
criterio da imparcialidade.

Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse
entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e
perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o
chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica
occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse
com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que
Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.

D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas
de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio,
embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho
fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a
proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua
vontade.

Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto,
como se fôra a continuar a conversa interrompida.

O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre
ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a
Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que
o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se
disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria
de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava
entrada na sala, o Exc.^mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido
friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal
ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo
moço.

--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.^a meu presadissimo primo e senhor da
Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas
palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com
um ligeiro curvar de cabeça.

--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.^a em nome da soberania popular,
para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que
na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um
ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino.
A provincia do Minho, ao grito da heroina «_Maria da Fonte_,» está toda
revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da
corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas
condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente
do que V. Exc.^a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço;
logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram  a honra de
sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem
revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras
gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e
dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.^a,
que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos
salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete
dos sentimentos d'elles perante V. Exc.^a Não consenti que entrassem n'esta
sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes
só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a
mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se
dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a
que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que
fui encarregado.

Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou
Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor,
abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo,
que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como
possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e
laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho,
mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do
perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem.

Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as
armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos
domingueiros  a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as
espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e
convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as
animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o
podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:

--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me
meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo
tambem a v. ex.^a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas
importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da
patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui
soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o
povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos,
póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de
sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os
fidalgos e as pessoas illustradas.

«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu
poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens
prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo
eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não,
que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome
do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr.
meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para
tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho
aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á
sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas
familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre
dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos
interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice,
que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.^a
mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas
interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim
escaparem a algum _discurso_ dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e
meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até
ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da
verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v.
ex.^a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o
snr. Arthur Soares mando servir o chá.

--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois
do que v. ex.^a acaba de pronunciar...

--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v.
ex.^a... João, acompanha meu primo até ao portal.

Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo.
Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que
escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão
rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.

Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita,
caminhou este até ao pé  das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro
esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e
disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois,
cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura:
Deos vos proteja, minhas filhas!...



III

AO LUAR

      «Na minha terra, uma aldeia,
      Por noites de lua cheia,
      É tão bella! é tão feliz!...»
      .............................

        (_João de Lemos_--CANCIONEIRO.)


Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides
móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do
morgadio.

Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino.
Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais
que o rendimento.

Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que
todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre
casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e
parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos
innocentes. Deixára  Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade
de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a
formatura.

Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que
sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á
satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a
sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro
objecto, além da sua figura.

O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe
as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para
só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe
embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no
trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez,
para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados
fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as
suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem
quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só
accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo
desviava os olhos das suas façanhas.

Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo,
o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e
rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É
crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para
caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede.
E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja
moeda falsa que empobrece quem  a recebe; muito ao avêsso ia logrando
insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta
filha das apparencias.

Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo,
estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que
pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous,
algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares
deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de
Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.

Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das
janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao
chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o
luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o
povo recolhesse a suas casas.

--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos
interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei
em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as
havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.^a,
é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um
verdadeiro inimigo.

--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.^a
tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa alguma ás do meu
fidalgo primo.

--Não me parece tanto assim, snr.^a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida
Anna--O snr. Lencastre  é pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde
parecer...

--Estimavel; virtuosa e _carinhosa_, deves acerescentar, minha beatinha,
porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...

--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do
snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que
nunca me fizesse mal...

--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que
mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur
Soares.--Se não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do
que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vêr...

--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que o
pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem
córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e,
com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.

--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á
inexcedivel virtude de V. Exc.^a, e á que adorna as suas interessantes
discipulas, o que não obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo
embaraço que descobri em todas, na occasião a que V. Exc.^a se refere.

--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse
repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é
indiferente...

--Tens cousas...

--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O amor,
é toda a historia da  vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.^a D.
Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que antipathiso
solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me fez a honra
de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.^a D. Maria...

--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus
sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto
indisposta...

--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde
espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite,
atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.^a, snr.^a D.
Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma
das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite
de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o
murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia,
que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez
da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão.

--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não
gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a
franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás
lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não
tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito
reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de
um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é
meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados,
principalmente por V. S.^a, que é um  amigo d'esta casa, a quem meu pae
devéras estima.

--Não me accuso, snr.^a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade
nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.^a, porque me diz a alma que eu
era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me
conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da
Mesquita--póde V. Exc.^a crêl-o--seria o ultimo da minha vida.

--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas _ser eu_, a
dizer a V. S.^a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a
narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga
Rosa, deixo-os agora á vontade, para...

--Sou eu que me devo retirar, snr.^a D. Maria... E retiro-me com a
convicção bem formada de que _nunca mais_ as minhas palavras, dirigidas ao
snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e
mestra, porque hei de medital-as muito...

--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo
gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do
snr. de Lencastre.

Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos
os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor,
sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se
sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres
donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.

--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a
janella,--que a snr.^a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo,
fazendo  presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr.
Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada
vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que
devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é
o vêr que a snr.^a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que
a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a
pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que
V. Exc.^a tão de barato lhe concede!... Manifestar _ciumes_ ao snr. Soares,
minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!...

--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos
formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.^a
quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter!
Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas,
fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo
_afidalga-se_ com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias,
abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma
senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos
seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum
receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena,
só pouco edificante desde que V. Exc.^a entrou n'ella... Peço ao snr.
Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr.
meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.

--É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.^a me podia impôr...

--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo,
porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.^a, nobilissima snr.^a D. Maria
da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo
dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. Exc.^a, com o sobrinho do
senhor reitor... Se me interesso por alguem, não é de certo por V.
Exc.^a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir
aspirações mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que
podiam ensinar os mestres...

--Das lições de V. Exc.^a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente
Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido
á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes
acontecimentos, que lhe descobriram o coração.

--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por
inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...

--E o despreso, snr. meu primo?...

--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar
sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a
para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria
Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos _do mais
apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da
freguezia...

Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra
do insulto, e já o som  de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de
todos.

As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella,
a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido
Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e
dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo
respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado
fidalgo.

Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda
pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se
cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao
momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na
cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente
no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o
escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e
arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se
gasta a contal-o.

Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um
homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:

--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser
superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e
hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti,
canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão
vadio!...

Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se  o possesso, a passos
accelerados, não dando assim logar a maior castigo.

João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora
desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela
violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e
ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o
escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.

Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso
devia fazer d'aquella arma.

--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.

--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo
causa involuntaria das mágoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao
mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me
levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito
sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem,
terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima
do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e
poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!...
Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer
as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma
hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios
religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre
tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus,
snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a  V. Exc.^a esta arma
por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma
saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha
de... progressos... Adeus!...

--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que
obrigou Arthur a ficar como petrificado.

--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a
fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os
salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem
repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o
snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões,
mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr.
Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero
fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de
não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas
fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.^a póde estar presa
alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando
seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar _alguem_ com o
seu suicidio...

--Pois V. Exc.^a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que
deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, á
minha amiga e discipula Rosa...

Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.

Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço  de tempo, immovel, com
os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de
estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente
lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á
residencia do thio.



IV

MÃE E MADRE


      «Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em
      v. m. padrões de espirituaes exemplos.»

                                  (_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.)


Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa,
acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite,
defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora
das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra
na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco
Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos
rendimentos.

O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade
inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de
ferro.

Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam  em voz baixa umas ás outras,
o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito
respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes
renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras
pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido
precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde
podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz
septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora
abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de
seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e,
reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora.
Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da
abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a
horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade
domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de
minha esposa e prima D. Leocadia.

Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse
filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de
recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de
separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.^a sabe, a
maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno  ao destino que
ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é
incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o
roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma
inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem
salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem
sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!...
Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres
annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me,
quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo
Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia.
Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos
dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais
formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me
foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas
companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas
tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome,
que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta
villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste
creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições
mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos
ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo
misericordia, todo compaixão  para as fracas creaturas de que é pae
extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez
annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a
separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu
escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que
me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a
minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite
assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita
blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de
uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse
momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus
esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa
interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar
haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças
que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas,
que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira
attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e
Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente,
pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo
elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado
bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo  ao
principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a
sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade
propria dos annos ainda verdes.

Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre
abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas
noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com
golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para
lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente,
que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má
novidade o pozéra assim.

--Está muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo
matrimonio.

Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos
os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de
salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo
algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a
legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos
filhos do mais santo hymeneu.

--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente
pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das
grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda  cabeça da
respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma
auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça,
que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o
pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil
interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria
difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem
para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas
sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro
d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu
cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que
podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver,
podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho
adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida
do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido,
disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em
relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem
adoptava por seu filho.

Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das
cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro
lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia  de Joãosinho, fragil
e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal
affecto.

Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias
nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes
acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de
pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas,
tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar
verdadeira interpretação.

O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos,
por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da
existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as
trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos
dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da
extincção d'aquelle convento.

É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.

Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi
entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E
a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um
indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes
de João Vidal, o escudeiro.



V

UM LEVITA


      «Apostolo é o pae que se afadiga
      Só para que descance o filho amado;
      Apostolo é a rocha em que se abriga
      Ave agoureira e pobre desgraçado;
      Apostolo é a lagrima que amiga
      Cae pela face em peito amargurado;
      E esse monstro do Céu que solitario
      Correu o mundo á busca do Calvario.»

            (_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.)


Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde
Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e
estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no
Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos
proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome
Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.

Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas,
tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo,
quando mais farto era o anno, com o _avanço_ de seu alvitre, segundo o uso
e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro,  que não marcou limite ao juro
para os que o queriam e podiam dar.

É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do
Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia
baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e
tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em
resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e
ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios
prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos,
marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da
vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem
desastres, para os que o percorrem violentados.

Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho
um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o
cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos
os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e
para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam
fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não
conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae
alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem
reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno
rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um
estudante.

É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas
publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito
portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu
lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade,
e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua
aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes
proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o
fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que
todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que
era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um
estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas
objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles
felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de
homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro
prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles
uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter
Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias,
confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de
mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue
traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas
e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após  a
communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de
todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo
a séde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á
egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de
Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de
impurezas.

Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem
grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra
havida por mais terna: é assim o coração humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão
rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella,
como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com
todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só
teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada,
transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as
sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer
do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o
requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas
da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez
reparo  em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação
estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada.
Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi
orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario,
em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia
n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a
casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se
tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha
Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga á snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e
que lhe peço a mercê de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com
sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a
perguntas, disse:

--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá
já buscar meu pae?

--Para quê?!

--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso
curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a
passam meus paes... Já não quero ser... _padre_!

--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu
amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo
como diz  _aquelle_ seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me
faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria
proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor,
é que rompo o véu do meu coração!...

A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural
desfecho d'aquellas relações.

A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só
devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.

Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois
de scenas assim expansivas, é que nós não _ficamos_ pela continuação da
pureza no sentimento.

Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou
habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o
patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia
do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á
egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das
solidões,--á solidão d'alma!

Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os
paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o
ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa
Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou
tambem semi-morta.

Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de
Esporões.

Alvaro, era presbytero!



VI

CELIBATO


      «Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas
      vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que
      sabem a sciencia do céu!»

                                                  _Alex. Herc._--EURICO.


O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua
naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio
sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a
esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe
vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no
Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da
humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e
separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos
seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.

O soffrimento de um filho, não póde ser, por  muito tempo, estranho aos que
lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por
instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram
profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e
ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de
tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de
suas pesquizas.

--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come
quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á
cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a
escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe,
mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos
a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios,
desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda
tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos
tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro,
porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a
Deus por nós, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.

Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a
sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com
olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e
moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir
signaes  de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da
testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e
veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e
guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu
parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:

«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero
humano, o esteio da vida e o centro da piedade?

«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...

«Celibato puro!!...

«Para quê, decretar contra a natureza?!...

«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por
consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem,
a Tua existencia no mundo?...

«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do
bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»

O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que
fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou,
depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu
discipulo.

Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir
da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do
leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo
silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:

--Então de que mal padece a snr.^a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre
são muito fracas! Pois  a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses
quebrantos?! Será isso mimo?...

--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me
faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!...
Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, está
cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os
novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?!
Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda
horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o
seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem
mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o
que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa
parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor
de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a
voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o
sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e
titubeou a palavra:--Perdão.

--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes
reservou Deus a sua divina misericordia.  Sei tudo, e tambem o sabe tua
mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as
nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a
snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do
sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr
condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que
mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas
occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de
Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto
Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse
elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco
annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um
fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a
reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel,
muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que
estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre
reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva,
que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre...
Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros
sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido
o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei
eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque
tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que  preferiam a
morte, á quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico
e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via.
Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de
lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na
terra.

Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando
commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo,
fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das
cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na
cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome
de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira
de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e
Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a
existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo
acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua
residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo
pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de
beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á
pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous
sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de
Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam  a estima geral, ao
ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de
Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião
da Mesquita.

Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do
padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu,
commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e
mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:

«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a
uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu
patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo
dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar,
que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»

As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.

Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor,
pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das
lagrimas, e disse-lhe:

--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer?
Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa
terra, sim?

--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da
lembrança...

Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta
occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado
de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina  de treze mezes
de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com
agrado, mais aquella visita.

--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo,
depois de ter saudado a todos.

--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau
coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das
pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes
meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.

--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem,
muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...

--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha,
fez com que se beijassem os dous innocentes......

Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que
estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no
templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre,
que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu
involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu
amigo.

--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do
agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus
cuidados?

--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está
n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...

--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa
involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em
vez do perdão?!

--E as leis da egreja?!...

--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados
paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes
e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções
da sua vida?...

--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da
penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade!



VII

RAPTOS


      «Que póde valer á hebrêa
      Sentir n'alma chamma infinda?
      como a linda Ester ser linda,
      e amada como Rachel?
      Se o coração da judia
      se entre-abre do amor aos lumes,
      não lhe dá tempo aos perfumes
      o seu destino cruel.»

      (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM).

      «O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para
      espantos nem sequer para censuras.»

                                     (_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.)


Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da
Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de
outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos,
teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto,
que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada
palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.

A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado
governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro
de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo
supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa,
como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se
os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a
alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O
enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria
encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral.

Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar
bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua
quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo
inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem
os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os
portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na
luta.

Sebastião da Mesquita foi convidado por um general
estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel
de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico.
Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu
estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um
autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho
fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de
novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas
horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu
lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo
previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse
a esposa na vigilancia do seu casal.

Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e
anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião
da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel
cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao
maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo
Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão
addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se
aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela
traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte
da Liberdade.[3]

Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar
aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos
é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no
manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou
sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da
brigada.

No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde
tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da
fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da
chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma
conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:

--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me
com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a
nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu
illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em
não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o
conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia
em mim!...

--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo
n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.^a D.
Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só
deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.

--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da
snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe
chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...

--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não
desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora,
e pôr os criados de atalaia...

--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim,
ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as
sinto possuidas...

E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram
fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.

Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento
revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual
panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens
estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de
funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus
membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não
sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem
dado.

Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso,
indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se
de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião
era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do
palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo
de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando
sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam
a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte
de que o palacio estava cercado de tropa.

Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por
ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem,
quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades
alheias ao sexo chamado fragil.

Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra
qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de
Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas
as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes
se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de
resistir aos intentos de seus perseguidores.

Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar,
houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem
numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos
assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade.

As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.

A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais
leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita
estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança
condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas,
disse-lhes D. Isabel com voz severa:

--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos
abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...

Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio
occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D.
Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as
lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao
malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente
tranquillidade aos que a cercavam:

«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as
almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam
todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e
vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae
todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o
possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os
retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a
este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um
fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre.
Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor,
alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...»

Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente
caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de
seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o
incendio provocara.

A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o
toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.

Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da
residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados,
a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.

Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto,
brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor,
que D. Maria lhe legára.

    [2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais
    importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D.
    Miguel de Bragança.

    [3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O
    general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se
    das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas
    engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros
    do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada.
    Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas
    convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a
    ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas
    armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca
    vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os
    ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de
    nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os
    tyrannos estremecem e gelam de terror.

    .........................................................

    «Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços.
    Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos
    netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de
    valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade:
    e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre
    heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E
    ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino,
    em 8 de Dezembro de 1846.»

    (Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)



VIII

COMBATE


      «O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto
      na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo
      orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe
      importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se
      despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no
      momento dos seus amorosos ardores.»

                                                  (_A. Herculano_--EURICO.)


Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia
19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no
capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes
posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general
Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e
honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e
que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.

Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem
feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as
suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.

Travou-se combate.

No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a
brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:

--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa
justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride
nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado
pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa
carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar,
retiro-me eu immediatamente.

--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não
desisto do meu empenho em aprisionar o _manêta_.

--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é
sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não
creio que nos tornemos a encontrar.

Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.

Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de
Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17
mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem
aprisionado o seu aventureiro commandante.

Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João
Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção
a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda
sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde
suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua
mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se
silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára
seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais
profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da
Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu
e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas
consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O
velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á
esposa:

--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és
digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta
a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para
a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem,
hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são,
n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito.
Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe
agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com
agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e
por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho.
Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...

--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho
reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr
indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes,
despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As
minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a
demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me
apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o
abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr.
Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v.
exc.^a me causava.

--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.

Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se
agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do
combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do
general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell.

O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o
commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais
expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes
conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda
a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.

Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e
proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina,
declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer
infracção.

Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima
povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a
cavallo, que chegára alli á desfilada.

Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só
homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um
signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo,
em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a
familia.

Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar
satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de
todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!

Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom
Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria,
teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato
ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um
completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina.
Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os
pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que
apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão
seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da
donzella!

Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas
peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia,
narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos,
e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.

No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um
raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda
tristeza, mal que terminára a narrativa.

--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das
outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do
jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.



IX

AMOR


      AMOR é a palavra, o brado eterno
      Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,
      Que fez tremer as abobodas do inferno
      E o sol ficou da côr d'um moribundo:
      A primavera, estio, outomno, inverno,
      Terra, céu, alma pura, bicho immundo,
      Tudo ahi cabe á larga de tal modo
      Que n'essa concha Deus se fecha todo.»

            (_João de Deus_--FLORES DO CAMPO.)


Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de
Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as
viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um
sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e
Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro
jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.

A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal
da cidade do Porto.

A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos
ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com
magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente
encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na
vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4]

Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera
conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas,
ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para
evitar outra fuga como a de Rosa.

Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais
asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse
concedido o eden por homenagem.

Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a
que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua
virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o
seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que
elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma,
denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz
do dever e da consciencia.

Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço
com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera
das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais
frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras
vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue
ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa
constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa
sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga
moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que
ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito
ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na
vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que
d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este
estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento
procedimento do fidalgo primo.

Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus
instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem
ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado
e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade
soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava
entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse
prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia
facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os
seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de
sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella
rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.

Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de
amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse
sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos
os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da
alma, a inspiração de Deus!...

O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre
o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a
tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica:
amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!

Que terrivel lucta!

Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre
orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima,
dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões
humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel
peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter,
elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos
privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a
Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!

Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma
força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de
modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre
que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era
obrigado o seu fidalgo carcereiro.

Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle
escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.

Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa
destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga
da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e
vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim
disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na
ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça,
sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma
fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar
assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo
espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto,
mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para
a parte do palacio, occupada pela docil Anna.

Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos
sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem
que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da
Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de
proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as
janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e
amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as
borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de
setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a
encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D.
Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de
uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá
dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao
mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos
vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com
effeito de ouro do mais subido quilate.

Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os
arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés
um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o
embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este
modo:

«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de
instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!

«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu
sósinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame
obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita.

«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.^a.
Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em
bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da
Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil
instrumento no malvado que o sabe usar.

«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio
em Deus.

                                                                «_Arthur_».


Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de
felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o
fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que
ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus
subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita
dera-lhe animo para fallar:

--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!...
Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?

Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.

--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor
torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...

--Infame!...

--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor
governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da
alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá
transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz
tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e
augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura...
Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a
irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua
nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim
este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso
por mim!...

--Infame!...

--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma
paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes
como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar
para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as
differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua
formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os
seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me
fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão,
senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo
humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos,
todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos
seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes...
A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu
saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade
ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia
as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em
que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se
fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra,
uma singela esperança...

--Infame!...

--Oh! que é de mais!...

N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para
ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da
nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas,
na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado
por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor
d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.

O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para
recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante
resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que
se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a
ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria,
para lhe dizer com voz pausada e debil:

--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a
fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus
criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito,
mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que
tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima
vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este
_malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que
pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com
_lagrimas_ de sincero arrependimento...

--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o
primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o
considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus
remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca
deveria ter servido nas emprezas a que está vesado.

E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã.

Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram
seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha
e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido
na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.

--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e
pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens
n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a
todos os seus companheiros. Póde retirar-se.

Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos.
Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito,
levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem
acanhamento, e disse-lhe:

--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca
por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da
Gloria!...

Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só
d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma
hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de
perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a
barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer!

    [4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de
    Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços,
    fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz
    o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello
    romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da
    Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta,
    como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso _conto_, na
    parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas
    determinadas.



X

RELIGIÃO


      «O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar
      o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que
      permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»

                                     (_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.)


Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas
vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu
unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as
donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que
requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado,
e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados
estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um
relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era
arcebispo de Braga.

Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em
ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia
vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram
juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general,
ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese
bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre
por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a
precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de
Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da
Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas
horas em secreta e intima conferencia.

Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu
physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não
parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina
mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as
indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria
levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle
vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre
aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e
á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao
padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja
quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas
commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias
vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua
razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das
paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos
que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os
estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de
Arthur Soares.

Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu
arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita,
porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.

A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do
seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um
elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia
de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as
commentar mentalmente.

Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de
Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da
junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados
publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo
de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita,
em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto
sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo
pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos
realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao
exercito da junta do Porto.

N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca
de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas,
que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho
fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade
e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.

Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle
entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu,
ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não
encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando
susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em
pranto a seduzida Anna.

Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de
regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de
novo reunida.

Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de
todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria,
n'estes termos:

--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...

--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a
ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.

--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a
nobreza e honradez da tua resposta!...

Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e
caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.

--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?

A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...

O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora,
alçou assim a voz:

--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma
solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o
edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!..
Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe
faltou para resistir á seducção!...

Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era
o não admittirem réplicas.

N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente
do palacio, um extraordinario bulicio.

O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli
tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e
aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.

Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em
poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os
prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e
cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos
empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho
havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os
que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer
ao poder das leis.

A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira,
com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de
subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e
trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de
Lencastre.

--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o
logar do ajuste.

--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se
m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr.
tenente...

--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.

E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão,
onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero
resultado da busca a que procedera Arthur Soares.

--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu
prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e
peça-lhe a honra de ser sua esposa...

--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...

--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o
canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por
sua mulher legitima.

--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiança...

--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a
transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a
mentira... Para a capella, senhores!...

O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no
casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado
raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela
seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença,
em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o
sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.

Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de
muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da
estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario,
sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente,
d'esta vez, a sua respeitavel palavra.

O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no
triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros
estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços
sahiriam!

De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos
para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os
guardava. Estava domado o leão!..

Por quem?...

Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto,
da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até
ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e
silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da
veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]

Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia
popular, no palacio de Leopoldo.

O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:

«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»

    [5] O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da
    _intimação_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz.

    Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem,
    pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de
    pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e
    comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo,
    foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que,
    em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes,
    foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas
    verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença
    social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A
    sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado
    de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do
    Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_.

    «Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e
    pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría
    as victimas para as immolar?

    «Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como
    mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da
    Europa.

    «Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no
    funccionario como achamos no individuo.

    «Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação
    injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no
    amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)

    [6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara
    á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um
    sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo»
    de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz
    assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por
    diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»

    [7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo
    povo o castello de Vianna.


FIM DA PRIMEIRA PARTE



SEGUNDA PARTE

CRIME

      «Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»

                           (_Chron. de Cister_.)



I
ABYSMO


      «Ai do viandante que não vê caminho!
      ai do mesquinho sem a luz da fé!
      ai! que, na falta d'um amor sublime,
      triumfa o crime, do ludibrio ao pé!

          (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.)


Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos
ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou
papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o
trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar
pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«_Em
romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil_:»--escreveu com
muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.

João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em
parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o
escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe
devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no
livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do
escudeiro a Leopoldo.

A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio
mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D.
Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção,
a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios
de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua
mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já
reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.

Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o
preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi
preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer
seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o
captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de
tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir
é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de
seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de
soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e
cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo,
pelo desprêso a este votado.

Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da
Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se
conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções
intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre
_donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.

Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar,
em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços
habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo
daquella carta:


«Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido
constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa
intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que
_occultas razões_ determinaram a violencia do seu casamento com uma
_rapariga pobre_! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os
signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»


Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto
de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido
ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes
e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias,
porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que
esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o
velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio,
que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da
entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu
empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a
situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos
annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego
de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.

Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a
D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas
descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sofá, e vestida
com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra
discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento
Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as
commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:

--Consinta-me, snr.^a D. Anna...

--Snr.^a D. Anna!...

--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não
serei eu que o esqueça. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes
momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe
esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber
se v. exc.^a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em
harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá
v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do
mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?

--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes
aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê
esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta
sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um
lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu,
que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D.
Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde
moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os
modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos
serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano,
a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as
antiguidades, os _recocós_, as reliquias de toda a arte misturadas com
os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me _cérca_, de
que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e
que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e
nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...

--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que
significam, senhora D. Anna?...

--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...

--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de
condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer
o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas
palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar
bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente
nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que
eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.^a manifesta?...

--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo
Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para
onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de
fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...

--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim
depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a
cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V.
Exc.^a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado.
Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda
a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se não podem equiparar-se aos de seu
illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o
tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por
escripto, a auctorisação que lhe peço?

--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.

Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de
escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho
firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os
agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito
entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda
a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos
caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas
naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na
sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o
porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza,
dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a
conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o
favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa
para o interior do palacio.

Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da
consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.

--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira
collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com
direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.

--Ouvirei, senhor Leopoldo.

--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo
que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...

--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma
agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e
lealmente affeiçoado.

--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha
ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?...

--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.^a, devo suppor que
a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.

--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é
segredo para mim?...

--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D.
Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta
auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber
toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»

--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É
para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...

--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que
S. Ex.^ma esposa _não é pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, é
que eu vim pedir-lhe este escripto.

--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que não é authenticado
por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...

--A esposa de V. Exc.^a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna,
como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde
ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais
esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da
snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual,
sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa
alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do
liquidado e recebido por mim.

--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a não ha de
recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...

--Sempre ás ordens de V. Exc.^a, para o que fôr do meu brio.

Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente
do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu
antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo
ciume.



II

FIDALGUIA


      «É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou
      por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de
      seus antepassados.»

                                       (_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.)


A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.

Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas
as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram
nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo
leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas
paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as
delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos
desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a
que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou
barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava
nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com
soberbas razões, se devem orgulhar.

Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos
nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais
respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio
portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leão dos
mares_, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o
justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais
remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.

Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres
antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos,
e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este
logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos
heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os
Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de
seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da
patria.

Sabemos que á civilisação repugna a _conquista_, embora tenha de
conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa
fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria,
eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se
devem attribuir as suas heroicidades.

Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza
póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre
bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as
virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e
quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.

Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que
não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e
optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.

Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma,
reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem
distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra
companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu
que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára
infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e
levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar
para Anna um nascimento e um dote.

Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os
inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram.
Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a
qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido
diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de
terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas
boas, e os espiritos elevados.

Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir
d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os
sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado
voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com
obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia
de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava,
porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e
tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra
do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia,
podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a
existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.

Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita,
perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente,
e que havia tomado as suas importantes revelações na devida
consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario
protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de
tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.

Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia
de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto
puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava,
e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia,
ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com
o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho
movel, e disse-lhe:

--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É
dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres.
Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe
observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que
Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas
vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de
perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho
producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não
tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa
quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher
de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o
necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades,
que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar
a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De
certo te não recordas já d'aquella tua _doação_... Eras muito criança
ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...

Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são
abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços
e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por
Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo
chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:

--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!...
Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me
consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não
repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que
tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era
o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome
de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não
amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da
paternidade legal...

--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta
alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter
coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos
extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais
poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de
minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa
que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a
perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é
o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me
podia dar o céu?!...

--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu
Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este
indigno padre!...

Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos
mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se
passa no palacio de Sebastião da Mesquita.

Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este
verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda
se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram
salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os
quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando
com muita solemnidade a João Vidal:

--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que
devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em
poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves.
Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a
vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado,
e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o
carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a
revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado,
que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de
pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado,
aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe
igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela
religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas
mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser
perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu
pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que
orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel.
Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro,
que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as
especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a
leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de
Leopoldo...

--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu
amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.^a muito de
mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem
parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu
mais humilde criado...

--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o
quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e
não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta
é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em
ti o odio que tens a Leopoldo...

--Mas, senhor...

--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a
nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a
attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a
minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.

--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio,
e que parece soffrer bastante...

--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.

Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a
uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da
gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até
ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que
deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o
velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.

--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os
motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que
são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a
queixar-se de alguem d'esta casa?

--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por
ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força
de cuidados e attenções?!...

--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é
então que não frequenta esta casa como costumava?

--A minha doença...

--E como se chama a sua doença?...

--Ainda não consultei a sciencia, e...

--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos,
Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por
considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua
attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima
e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o
interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que
obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos
occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos
serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico
fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã
do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima
esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu
patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima...

--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que
me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por
ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...

--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos
nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e
pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei
faltar ao que devo a mim mesmo...

--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V.
Exc.^a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer
solteira, e...

--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas
minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria
melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas
despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e
valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho,
portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a
mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo...
O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?

--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o coração
dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são
perfeitamente iguaes os meus sentimentos...

--Agradeço a todas...

Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um
pouco enfadado, perguntou-lhe:

--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas
importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz
nas mãos, e ao demudado da sua côr?...

--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser,
sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma
quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o
muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella
contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e
peço que me desculpe o interrompel-o?...

--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de
Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei,
para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco
engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em
compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou
praticar... Lembro-lhe, porém, João, que _só eu_ tenho direito a regular
as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa
ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes
parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro
nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos
Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o
brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso
parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa
está sempre vago para os homens de bem.

--Agradeço de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e
que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da
phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de
cavalheiro...

--Venham as condições!

--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae
praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por
que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim...
Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao
snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei
para muito longe, para onde me não possa chegar...

--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu
para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...

--É a mulher de meu irmão, senhor!...

João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal,
que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.

Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:

--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao
_primo_ João do que resolver.



III

CIUME


      «................................
      Invejo-te, Camões, o nome honroso,
      Da Mente creadora o sacro lume,
      Que exprime as furias de Liêo raivoso,

      Os ais de Ignez, de Venus o queixume:
      As pragas do Gigante procelloso,
      O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»

       (_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._)


O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque
participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do
coração humano.

Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam
tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das
pessoas sujeitas ao ciume.

O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus
castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez
indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de
favores, que lhe minguaram a burra.

O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias
sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o
castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez,
fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com
toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a
desfórra de uma resposta.

Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O
primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias,
não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela
resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando
verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo,
o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina
nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.

Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria
da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.

Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D.
Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um
terrivel inimigo.

Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós
com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de
que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada
severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco
civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.

D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se,
attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle
sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste
senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo
aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos
livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do
Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre
os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.

Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:


«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura
licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle,
respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam:
Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a.
Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos
permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim.
Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e
femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só
carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o
que Deus ajuntou.»


Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou
pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro,
aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a
preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do
marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua
mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por
cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que
finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos
sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e,
juntando a acção ás palavras, disse:

--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens
de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e
conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella,
levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu,
pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se não é
por causa de adultério_, e casar com outra, commette adulterio: e o que
se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher
deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera._»

De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente
d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?

--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se
comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu
comprehenda?!...

--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de
lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...

--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento
entre nós...

--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os _nobres_
teem obrigação de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui,
escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_...
Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente
para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos
quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher _adultera_. Não lhe
parece?...

--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que
lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom
Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado
dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a
lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime
parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da
adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos
legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com
justiça?

--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_
corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_
controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinião sobre a
_igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_ é o _mesmo
crime_ da parte da mulher como da parte do homem?...

--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei
detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a
fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher
voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam
levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade
dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos
homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...

--Para quem não tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o
admiravelmente!... Dou á minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem
que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da
_letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do
homem nunca podem lançar no leito nupcial um _pequenino ladrão_... A
minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, não é assim?

--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus
exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios
lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora
tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que
encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno
egoista.

--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso é que se chama saber
defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das
defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...

N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram
interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a
introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram
differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a
testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia
a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão
adoptivo...

--O seu rôsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v.
exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora
explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a
noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_ é esse snr. Arthur
Soares!...

--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a
felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o
sei presar como elle merece.

--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por _um sério estudo_, o segredo
de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu
encontro, que estou já ancioso por começar as minhas _experiencias_...

D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e
a innocencia, são quasi sempre ingenuas.

Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares,
Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do _amor sem
desejo_, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube
gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a
manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.

--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz
da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil
crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro
de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre
impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança;
mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da
reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitação geral do seu dote pela
quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e
contar...

--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem
quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_
esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e
nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha
mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora,
que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.

--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção.
Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que é meu,
entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar
que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a
esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que
haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio
gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este
dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não
tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros
interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito,
e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu
dote.

--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v.
exc.^a um pequeno serviço.

--«A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»

A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como
interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de
comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o
«Conto portuguez».

Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria
da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada
a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como
seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em
que figuram agora mais dous actores:

--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho
encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peço-lhe licença para
apresentar-lhe o snr. João de...

--Conheço _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e
fiel pagem, _que só poderia entrar n'esta casa, como entrou_,
acompanhando a sua dona...

--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos
do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos
sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é
bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e
dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo;
é, finalmente, irmão de v. exc.^a...

--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da
Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...

--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas
duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dará
todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...

--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão...
Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a
face, para applicar n'ella a pena de Talião...

--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto
como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de
sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a
espontaneidade com que o abraço, mano João!...

--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder.
Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.^mo pae:
faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e
consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O
primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga
discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o
dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de
posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de
liquidar e receber...

Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria
ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao
ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se,
mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur
Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros
expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem,
abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:

--É á snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que
ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre
padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de
igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da
verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar
na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da
cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade,
porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu
padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo
n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de
infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do
Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo
isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia,
arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como
devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo
que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que
já era em seu poder...

--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae
sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o
encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?

--São, apenas, trinta mil cruzados.

--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil
cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que
possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter
meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo
Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?

--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da
parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.^a como de cousa sua, que
é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D.
Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou
obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria
II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para
reunir-me ao exercito.

--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de
encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr.
Arthur Soares?

--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na
jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na
qualidade de soldado do governo supremo do reino...

Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com
que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que
occupavam na sala os differentes actores.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma
das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas
cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava,
no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia
maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de
Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de
pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado
por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um
magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão
esquerda.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu
confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação,
dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com
raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da
verdade.

D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida,
avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca
clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.

Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as
vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.

João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de
quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia
prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só
dos movimentos dos que o cercavam.

D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a
confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso
procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas
suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as
mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna,
vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado,
chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus
bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da
Gloria.--Era bello aquelle grupo!

Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos.
De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com
passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que
teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida
nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:

--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece
ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher
com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são
da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na
esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade,
e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos
denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o
symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu
braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe
entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e
conversar em cousas de commum interesse...

E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou
conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o
irmão o salvava.



IV

O BERÇO DA MONARCHIA


      «Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca,
      de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo
      certissima a sua veneranda antiguidade.»

                                                      (O PANORAMA DE 1867.)

      «A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos
      antes da éra christã.»

                                                           (PADRE CARVALHO)


      «As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a
      cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de
      linho e  ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do
      tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda
      hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho
      adamascados, fabricados em Guimarães, que  em duração e primor d'obra
      por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos
      industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis
      por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no
      anno de 1835, seis contos de reis.»

                                                   (GEOGRAPHIA DE URCULLU.)


Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada
modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas
existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o
nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima
cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.

É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos
honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei
portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado
e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião
de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo
Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á
contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do
famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de
Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á
justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais
finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom
nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus
filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos
conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos
elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do
cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade
no perdão das injurias.

Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos
de Guimarães:

Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e
distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]

Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros
contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães,
pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e
oitenta.

João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor
do serrilhado na moeda.

Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes;
entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de
1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de
theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado
á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o
nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo
Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois
da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de
Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215.
Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira,
acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João
Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.

O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do
conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.

O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.

O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de
theologia na Universidade de Coimbra.

O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e
Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador
do Paço.

O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que
começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa,
de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de
Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da
meza da consciencia.

O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi
corregedor da côrte.

O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a
ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais
credito.

O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo
de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do
paiz.

O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel
Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_.

O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada,
pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade
de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas,
_que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava
este sujeito para o seu maior credito_.

O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e
lente na Universidade de Coimbra.

O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo
Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por
El-Rei D. Pedro II.

O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo,
desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei,
e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.

O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia,
Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem
de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.

O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na
dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo
de habito de Christo.

O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do
Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.

O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.

O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da
mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e
desembargador do Paço.

D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo
de Annel, do arcebispado de Evora.

D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.

O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.

O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.

O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado
em Lisboa.

Manoel Gonçalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que
foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.

Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho,
em _oitava rima_.

Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e
fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se
mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como
tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de
Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio,
antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.

Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o
exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma
cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim
Narizes.

Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e
residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso
fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando
seus filhos a continual-os.

Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval
pelejada com os turcos.

Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de
capitão de infanteria, batalhando pela patria.

Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os
turcos.

Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel
valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em
guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria,
sendo mestre de campo de um _terço de volantes_, e capitão duma
_companhia de cavallos com o titulo de couraças_. Celebradas as pazes
entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi
occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a
recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo,
governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres
Vedras, e de S. João da Carvoeira.

João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos
no Alemtejo.

Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de
Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa
d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.

Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e
cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e
no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas
guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este
rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «_em que lhe entregou, e
livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade
de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo
dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde,
e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e
parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das
mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se
forem suas proprias armas._»

Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da
Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça_, que acompanhou, com
grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na
tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde
fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap.
46.

Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D.
Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois
tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu
pae, honrando a patria.

Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18
annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de
Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.

Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão
da fortaleza de Maluco, na India.

Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor
e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de
hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de
El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.

Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, _que,
melhor que todos, realçou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo
viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e,
sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a
sua patria, _foi posto na bocca d'uma peça de artilheria_, sem que um
tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não
matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preço_. Vingou
suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor
de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram ás suas armas _tres
corôas e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro
4.º, capitulo 9.º

Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de
Chacel, na India.

Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no
tempo d'El-Rei D. Sebastião.

Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e
possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei
D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado,
embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os
turcos.

Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre
de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi
capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.

Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da
Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra
da India, _contra os infiéis_, onde acabou a vida.

João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do
morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas
guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.

João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou
mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a
patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus
filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.

Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu
pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais
valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão,
ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.

João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do
morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua
custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_,
acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D.
Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus
valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, _grandes mercês e
honras_.

Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião
á Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado,
_com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo
do habito de Christo.

Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para
a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de
Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.

Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do
precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na
India, pelejando com grande valor contra os turcos.

Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a
India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de
Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim_. Foi depois mandado, por El-Rei
D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.

Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India,
mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmão Pedro de Basto_, liv.
2.º cap. 13.º

Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim
Ferreira na façanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o
exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a
Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves
desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira,
e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros,
obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.

Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei
de Castella D. João 1.º, serviu, _por sua traça_, de poderoso
instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi
o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do
Sueiro, juncto á ponte de Servas_, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu
parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que
esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e,
aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de
cavallo_, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.

Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de
Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça,
deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para
servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór
de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.

André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a
mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de
Pernambuco.

Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem
o posto de capitão de infanteria.

João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua
quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por
seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de
artilheria, com grande nome e fama.

Sebastião Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos
capitães de cavallo de couraças_ com melhor nome no exercito.

Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao
posto de _tenente de mestre de campo general_.

Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.

Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos _privilegiados de Nossa
Senhora da Oliveira_.

João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que
promoveram a feliz acclamação de D. João IV.

João Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em
seguida á feliz acclamação, os gallegos deram_ na fronteira do Minho,
foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de
Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez _uma fugida
valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa
desgraça, morreu de veneno_.

João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em
que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de
campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu
terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua
mulata_.

Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo;
João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem;
José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos
de _capitães volantes_, no exercito da provincia do Minho.

Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.

Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e _ajudante de
cavallaria_.

Antonio de Andrade e Valle, que foi _ajudante de Infanteria_.

João de Sousa e Lima, que foi _alferes do mestre_ de campo de
infanteria.

Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.

Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio
de Barros, que foi _capitão de volantes_.

Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas
gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos
tudo, que respeita a Guimarães.

E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome
famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama,
Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa
do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita
no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego
e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e
musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas
mais eruditas do seu seculo.

Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios
e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores
de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da
mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta
a briosa raça de tão heroico povo.

E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na
actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão
admiravelmente fertil.

Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que
nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como
esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos
de nomear.

É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho,
residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e
de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes
teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.[10]

Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá
Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a
Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.[11]

É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro
cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.

São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os
senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de
Castro.

É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.

Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor
Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso
bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.

Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são
todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a
nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só
prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense,
tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta
por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense,
hoje como sempre, é por todos respeitada.

Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua
popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz
honrosa memoria.

Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de
Guimarães, tem desafiado a critica mordaz _dos fortes espiritos_ do
seculo, que a chamam _terra retrógrada_.

É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade
que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente
satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para
comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria,
muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.

Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas
n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um
certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam
o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no
presente.

O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que
nasceu na cidade do Porto.

Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores
para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes
capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes,
passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.

    [8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S.
    Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia
    de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado,
    por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir
    em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos:
    foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis
    desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso;
    tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio
    de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa,
    contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de
    Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas
    dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em
    Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.

    [9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por
    epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada
    a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada
    que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao
    espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma
    escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da
    ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa
    Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e
    Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no
    manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o
    titulo de _Sedatura Lusitana_ encontramos estes factos preciosos:
    «_Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era
    ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de
    certo que teve a Gil Vicente._» Isto já bastava para acreditarmos
    que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o
    manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil
    Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte
    de D. João II, D. Manoel e D. João III «_Gil Vicente, filho unico
    d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante_, e por tal
    foi sempre muito _estimado dos Principes e senhores de seu tempo.
    Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua
    muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram
    n'aquelle genero. Está sepultado em Evora._» O gráo de
    authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por
    que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue
    esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel
    Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi
    procurador em côrtes.»

    [10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil
    Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de
    medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa
    antiga seiva artistica de Guimarães.»

    [11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal»,
    drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi,
    e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos,
    em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C.
    M.



V

BABEL DE SABIOS


      «Alli se ajunta bando de casquilhos,
      A que o vulgo mordaz chama rafados;
      ..........................................
      Altercam mil questões; promptos contendem,
      Promptos decidem no que nada entendem.

                  (_Nicolao Tolentino de Almeida_)


--Antes queremos do de _Basto_, snr.^a Anastacia Mendes, do de Basto,
que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e
bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum _peixe_
fresco?...

--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor
_carninha_ do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado
Deus, ninguem _mistura_...

--Não quer dizer isso, snr.^a Mendes... O que o Andrade pergunta é se
deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie
dos _infusorios_...

--Dos _rotarios_, snr.^a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu é da
mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies
de viventes, que ha no mundo...

--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que
censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos _zoophytos_...

--_Medusas_, snr.^a Anastacia, _são medusas_...

--Não é tal, são _radiarios_...

--São _enthelmentes_...

--São _arachnides_...

--São _crustaceos_...

--São _annelides_...

--São _molluscos_...

--São _mammaes_...

--São _amphibios_...

--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios
falladores: a dos _insectos_, a dos _peixes_, e a das _aves_...

--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais
_peixote_ de todos os Peixotos do mundo?!...

--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que
não sabe lisongear os principes do... talento... _Bias_, um dos sete
sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um
tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...

--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os _meninos_ são
engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e _caluda_...
Chegou hontem _cousa_ de _arregalar_ o olho... Parece, pelo menos,
_varoneza_... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os,
de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a _Madanela_ da
procissão de passos..

--Bravo!...

--Bravissimo!...

--Excellente!...

--Soberbo!...

--Magnifico!...

--Surprehendente!...

--Bom achado!...

--Optima descoberta!...

--Venha essa phenis!...

--Appareça a bella!...

--Surja a estrella polar!...

--Dê entrada a feiticeira encantadora!...

--Queremos ouvir a cantadeira!...

--Venha a nós, a filha d'Eva!...

--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o
nôjo da vida... Deixe-me com os seus _eruditos_ hospedes, snr.^a
Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios...
Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa _ingenua_ patrôa, senhores
curiosos!...

--É arrebatadora!...

--Explendida!...

--Sublime!...

--Não busquem outros synonimos, amaveis _sabios_, que já consumiram
palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que _especie de animaes_
fico pertencendo agora?...

--Á dos Anjos!...

--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva
chamar-lhe?...

--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... _V.
Exc.^a_? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos
que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem
de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que
viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares;
outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes
de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como
são os seus, minha formosa?

--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais _espinhosas_...
Appellidos... Diga-me, meu caro snr. _encyclopedista_, os Bandeiras, e
os Mesquitas, serão dignos da minha... _formosura_?...

--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre
portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na _batalha do Touro_, que um
cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu
com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne,
El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão
n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no
leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido
de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o
mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V
passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia
dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os
mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia,
sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns
nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma
bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por
este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em
campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e
uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com
uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de
Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a...
uma leôa...

--Acho-os _encarnados_ de mais... A côr do _sangue_, apesar das _garras_
com que _V. Exc.^a_ me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa...
Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua _historica_
dissertação, creio que estavamos na altura dos... _animaes anjos_?...

--Distingo: existem anjos _animaes racionaes_, desde que a cubiça, ou o
amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo
peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um
moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua
patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a
quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a
primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que
eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o
cofre de todas as sciencias, e de Marte a _vazilha_ da intrepidez, me
declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... _V.
Exc.^a_!...

--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa
Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte
inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu
esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui
nada... Deixo a _moralidade_, á perspicacia do snr... Peixoto...
Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?

--Para em tudo lhe dar prazer, snr.^a... das anecdotas... Sem embargo do
seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia,
dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés
faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da
medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros
espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o
talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano
metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de
vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro
soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas
manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto
abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da
invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a
peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz
das bellas!...

--_Copia_ admiravelmente de _memoria_, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe
que, para _v. exc.^a_, só poderá servir de _espelho_ o lago em que
_Narcizo_ se namorava da sua esbelta figura...

--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que
levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me
com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que
reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz
emparelhar...

--É _nimiamente modesto_, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos
espelhos, contar-lhe-hei a origem dos _orgãos_... São uns instrumentos
de _vento_, compostos de _folles_, _teclado_, e grande numero de
_canudos_... Querem os _chins_, que a invenção de tal instrumento seja
devida ao seu imperador _Hoang-Ti_, que existio, antes de Jesus Christo,
2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar a
_v. exc.^a_ um _magnifico órgão_...

--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os _instrumentos_
possiveis?...

--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares
sagrados não pódem agradar aos... _materialistas_...

--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o
materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a
reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na
pessoa de minha... adversaria...

--Tambem é _diccionarista_?... A definição que acaba de fazer parece-me
_textualmente_ lida n'um dos modernos diccionarios...

--Serei tudo que quizer chamar-me, menos _plagiario_. São exclusivamente
minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia
innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem
descaradamente as minhas famosas theorias sobre...

--Sobre _principios elementares de mathematica_, talvez, em que és
fortissimo... Ora, acaba com a sécca, que nós tambem sômos gente, e
sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...

--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira...
Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do _Arco_?

--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...

--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim;
e como só se tiram as _caraças_ na occasião da ceia, querendo conservar
o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?

--Talvez aceite...

--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar
todos os teus intentos... Se fosse em _Villa Pouca_...

--O Arco é mais popular...

--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta,
é que tu não peças, _á tua Convidada_, qualquer remuneração pelo favor
que intentas fazer-lhe...

--Eu não costumo sustentar _assedio_ por muito tempo; costumo, sim,
tomar as praças _d'assalto_...

E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar
a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar
os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim
queria ultrajar.

O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle
momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:

--Se quizer, _senhor atrevido_, eu substituo esta senhora, para a
realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o _abraço_ entre nós,
ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que
não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que
d'elle se queria fazer auctor...

A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da
surpreza:--O snr. João?!....

--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo
que sou _filho d'alguem_...

A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após
uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse,
sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:

--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu
amante...

--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e
admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com
indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas
brincado nos labios da donzella.

Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos
que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor
que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos
attendido.

O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes
dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado.



VI

UM BAILE EM COSTUMES


      «David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da
      Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da
      dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de
      reconhecimento.»

      «O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças,
      que lhe ensinára Aspasia.»

      «O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança,
      para poder apparecer convenientemente nos bailes.»

                                                       (O PANORAMA DE 1837)


Abrira a nobilissima casa do _Arco_ os seus salões ao publico:
dizemos--_ao publico_--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era
prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro
do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade:
todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á
terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento,
isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto
fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condão de toda aquella
sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.[12]

São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do
ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do
meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o
arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada,
e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos,
olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a
pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos
os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem
construida escadaria de pedra.

N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram
permittidas as _caraças_, tendo-se distribuido bilhetes, para os que
assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a
reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes.

Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão
de luzes, se não sentia a falta do dia.

O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos
que lá devessem apparecer.

Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as
nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião
da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre.
Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.

Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.

Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de
Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta
encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus
grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e
raminhos de violetas.

Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de
botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que
lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada
um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada
sobre a esquerda.

Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro
magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho
empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis,
e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga
e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias
de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas
familias.

Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica
provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.

Dos grupos camponezes foi composta uma _tocata_, de rebecas, clarinetes
e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros
improvisos do seu _desafio_, concluiram assim:

      «Foi o velho rei David,
      o primeiro dançador;
      vamos nós tambem dançar,
      cada um com o seu amor.

      «Fazes mal, linda Maria,
      convidar em lar alheio;
      do temôr e d'altivez
      a virtude jaz no meio.

      «Não te pedi o conselho,
      e vem tarde a correcção;
      quem á festa convidou,
      agradece a minha acção.

      «O fidalgo que dá festa,
      incapaz é de ralhar;
      mas o sabel-o não deve,
      ser motivo p'ra abusar.

      «Digam todos que me ouvem,
      se eu me quiz entremetter;
      seja a resposta o signal,
      para a gente s'entreter...»

E começou o baile, vivo, animado, delirante.

Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos
os convidados, tinham logar as _intrigas_ ou, sem cheiro de gallicismo,
as mystificações.

A _vivandeira_, sempre pelo braço do _soldado_, fôra a que mais valente
se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos,
simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos
bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes,
conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da
agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal
resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e
audaz do militar seu companheiro.

A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:

--Porque não está aqui tua mulher?...

--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?

--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um
marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua,
casa sem telhado, _marido sem cuidado, de graça é caro_...»

E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur
Soares:

--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... _na
dôr de Maria_...

--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?...

--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor
cuidado...

--Porque talvez as desconheça...

--Não: é porque se não póde dividir _o __sentimento forte_...

--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...

--Não é culpado, mas é _causa de culpas_... Quando as conhecer, saiba
comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!

Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:

--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...

Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de
uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:

--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.^a uma
impertinencia: desejava _pagar-lhe o beneficio_ de me trazer a este
baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...

--Dizia minha avó, que _triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo
calla_... Mas como é para ser _pago_ um favor, venha de lá a tua
impertinencia...

--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «_Queimou-se a fôrca,
cahiu o tyranno_».

--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido
o atrevido que te ensinou...

--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...

--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que
te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a _fôrca_
pelo _punhal_, que é mais leve, _traiçoeiro_, e menos _apparatoso_...

O _careta_ vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse
ao _fidalgo antigo_, que estava ao seu lado:

--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta
vivacidade?

--Não é a viuva irmã do dono da casa?

--É. Que juizo fórmas da sua alma?

--Parece que não desgostaria de vêr continuar a _pernear_ os
_malhados_...

--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu
das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas
palavras...

A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do
companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os
salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde
Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. A
_vivandeira_, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e
dirigiu-se ao velho fidalgo:

--A tristeza de que v. exc.^a está possuido, procede do conhecimento da
_fuga inesperada_ de uma donzella, companheira de infancia de sua
exc.^ma filha, não é verdade?...

--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que
julga ter para me interrogar...

--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a
que me refiro... Se V. Exc.^a désse licença...

--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.

--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu
incognito... É só pedir, em nome _d'ella_, perdão a V. Exc.^a se algum
desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e
bemfeitora mão...

--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... É preciso obrigar esta mulher
a descobrir a cara...

--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da
casa...

--Quero-o eu!...

A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que
repentinamente conheceu a origem da altercação.

A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer _uma
impertinência_, foi a que primeiro a protegeu:

--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro,
tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou
burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha
filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a
descobril-o...

--Se V. Exc.^a quer, snr.^a condessa, eu levo comigo essa menina para o
convento...

--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa
do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.

--Mas, minha boa irmã, V. Exc.^a bem sabe que devemos ao primo e snr.
Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só
pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu
hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...

--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que
lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço
fazer distincção ao meu excellente irmão das _qualidades_ dos seus
convidados... V. Exc.^a não se considerou, para assim fallar, o dono
d'esta casa...

--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.^a aqui.

--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.

--V. Exc.^a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser,
no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?

--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de
Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções,
assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.

--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente
para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?

--A V. Exc.^a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço
habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a
especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á
sua habitação...

--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos
favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de
pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel,
concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o
não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre...
Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.^as o
accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa
bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi
repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este
baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora
mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em
conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!...
De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta
infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...

--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar,
a mulher que... que eu não conheço!...

E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella,
retirando-se vagarosamente.

O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas
scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.

As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.

    [12] Quando a snr.^a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de
    Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em
    casa do fallecido snr. do _Arco_. Constou ao povo, que o palacete
    estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr:
    os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado,
    titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse
    dos seus _tamancos_, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.



VII

TORMENTOS INTIMOS


      «Correu-me a vida outr'ora delirante,
      Tive faceis amores, ledas glorias,
      Julguei-me um dia amado e outro amante,
                  Sonhei promptas victorias,
      E vi, em limpo céu formoso e puro,
      Brilhante erguer-se o vulto do futuro.
                  Tumulto, agitação, rumor, bulicio
                  Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia
                  Paro e vejo o tremendo precipicio--
                                A vida, que vivia,
                  Era vida ficticia e descorada...
                  Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»

                               (SILVA LEAL JUNIOR.--PRIMAVERA.)


Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita,
depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de
lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria,
occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este
muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da
Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da
donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os
motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si
indelevel estigma.

Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se
mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a
donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa
do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se
relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade
importante, a da chegada á terra de uma _rapariga de truz_, que parecia
ser de _facil accesso_, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com
toda a minuciosidade.

Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára
muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era
effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa,
e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»

Depois que João conseguira fazer retirar os _petisqueiros_ adoradores de
Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar,
persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez,
com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente
irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira
do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus
paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o
seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal
arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a
existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D.
Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não
prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores,
resolvera fugir, e dar-se como _perdida_, embora tambem estivesse
resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais
arriscados perigos.

João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois
de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella,
que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua
fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as
reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle
via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella
queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os
amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel
que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia
de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia
um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos
da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento
sério.

Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra;
que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe
devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.

Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a
donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo
ácerca do que entre elles se déra.

No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada
defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de
Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás
_linhas_ do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da
causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem
elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se
secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.

Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que
era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle
affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o
convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era
certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa
estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder
os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira,
que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas
provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o
fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho
de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe
désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de
fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por
mortalha.

Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra
tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias
sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se
achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do
nosso tempo.

Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o
sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este
desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um
severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever,
movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de
servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular:
n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.

Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que
se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no
baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella,
perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda
innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da
que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu
natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento
contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.

Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças
physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no
futuro de sua filha Maria da Gloria.

Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de
uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é
cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos
remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores
resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.

O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do
berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava,
escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:


                                             «_Minha muito presada Maria_:

«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te
um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te
socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu
merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de
Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a
que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia
da minha escolha.

«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o
bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa
saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que
ella mais ama.

«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,

                                                              _Sebastião._»


D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho,
a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer,
com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua
discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por
Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava
ameaçada, com aquella ordem paterna.

O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor
exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia
praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda
assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial
egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas
penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de
que fôra peccador.

Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os
personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D.
Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia
pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no
respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.



VIII

A MULHER CAHIDA


      «A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos,
      e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de
      ignominia.»

                                  (_A. H._--Fragmento de um livro inedito.)


Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham
querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a
mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe
e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós
a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que
a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o
villipendio, que lhe dá em premio!

A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para
agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material
que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta,
porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós
córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de
umas certas condições sociaes, que nos imprimem a _legitimidade_:
levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente
religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por
seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e
de bruxa!

Existiram sempre _philosophos_, escassos de comprehensão, e mal avindos
com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o
vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!

A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em
todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que
a mulher não toma parte.

A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na
philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas
vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.

Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo
imperial.

Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades
nefandas, de que nos falla o Génesis?!

Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a
incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao
nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu
amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas
commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na
profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a
consolação humana!

A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da
infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que
passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da
infamia!...

Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...

Depois, a enxerga da caridade!...

Depois, a valla commum do cemiterio!...

Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no
seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...

E o _elegante seductor_?...

Passou a fazer novas _conquistas_; gastou o melhor do seu vigor e da sua
fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira
victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu _convenientemente a
esposa_, fez-lhe a _mercê_ do seu nome e, para vingar-se de uma
_affronta_, que _não podia_ ter o seu perdão, assassinou a mulher
adultera!...............................................................

Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de
que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra.
Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que
os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa,
causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu
mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio
as que não tinham mácula.

Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo
precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do
precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não
saber como fugir-lhe.

Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a
deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto.
A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio
da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.

O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente
pelos pulsos:

--Não esperava esta desfórra do seu _militar_, amavel _vivandeira_?!...

--Deixe-me... largue-me... acudam!...

--Não espante as pulgas, menina... _Esta boa terra dorme toda ás nove
horas_, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da
minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...

--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de
vida...

--É o que vamos a vêr...

E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher,
que não podéra seduzir.

Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira
por muito tempo.

Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se
repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua,
abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da
furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma
fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o
logo sem accordo de si.

--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A
mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e
fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a
proposito?!...

--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e
preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á
varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a
protecção de... seu irmão, senhora...

--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em
sua casa combinaremos o que deva fazer-se...



IX

O PERIGO DAS CARTAS


      «......e bem se manifesta,
      Que são grandes as cousas, e excellentes,
      Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

                            (_Camões_--LUSÍADAS.)


D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e
amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que
soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais
infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo
o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo
allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.

Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos
de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».

A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o
gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da
Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur
Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma
deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar.
Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:


                                             «_Meu presado irmão adoptivo_:

«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso
pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha
carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e _nós_ esperamos o snr. Arthur
_com a maior anciedade_.

                                                                   _Anna_.»


Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia
accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que
cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse
fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face
dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio,
sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.

Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe
das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.

As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam
soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a _incomprehensivel desgraça_
de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens
do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam
como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados,
por cada batalha que se perdia!

E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do
exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder
da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre
outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões
avultadas, _que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de
Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das
praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em
poder do inimigo_.[14]

O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi
escolhido um official para commandar uma força, que fosse em
conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em
Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate
dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente
guarnecidas em fórma.

Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que
occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez
da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram
atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando.
Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem
queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que
terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao
chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o
coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria
não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o
impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.

Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido
Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a
que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de _pulhas_, despojou
logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle
tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta
de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de
Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira
em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse
aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que
a encontrára perdida no logar da refrega...

Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de
chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...

Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo
de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com
desespêro a sorte do bondoso e bravo official.

    [13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de
    Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça
    da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e
    depois anniquilada por uma _incomprehensivel desgraça_; nem a
    conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa
    marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas
    descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa
    coragem!»

    [14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.



X

O CRIME


      «O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta
      era o seu maximo supplicio.»

                            (_Camillo Castello Branco_. MYSTERIOS DE FAFE.)


D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua
resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe
que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá
viessem todos ter com elle a Guimarães.

A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria
novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora
preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á
filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim
amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas
evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita,
os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um
enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a
ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do
incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a
donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse
força para resistir á vontade paterna.

Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu
aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em
Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a
donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua
completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo
escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no
modo de fazer-lhe a vontade.

Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e
dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em
Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta,
que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um
sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de
subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções
foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o
commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua
vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez,
como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte
contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que
febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do
começo d'uma alienação mental.

Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando
Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto
jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por
todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar
em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr
phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas
horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para
conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.

Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella
baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos
incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que
pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e
expondo ao ar a sua abrazada cabeça.

Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela
frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta,
e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um
mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse
inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus
crimes.

No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a
suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até
então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel,
para que esta ficasse junto da filha.

Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um
incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram
as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou
terrivelmente:

«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a
infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais
acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de
trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar
após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta,
que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar,
porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»

E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna,
apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e
enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...

A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da
suprema agonia, e cerrar os olhos.

Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta
um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado
ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já
muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas
em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao
tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um
pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu
mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a
com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais
terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo
tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:

--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso
eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que
era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser
de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o
prolongamento da vida que tens a viver!...

E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda
lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente
do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.

O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime
ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava
ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.

O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe
com brandura:

--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e
vingador!

Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez
Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota,
e tartamudeou:

--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor...
Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella
disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade
amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um
duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me
não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias
a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!...
Perdão!...

--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo
a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...

Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...


FIM DA SEGUNDA PARTE



TERCEIRA PARTE

REMORSO


      «Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem
      derramado sobre a terra...

                          (S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).



I

GRATIDÃO


      Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,
      Depois solta a prelenda.

               (_Filinto Elysio_--APOLOGO)


É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas
a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um
favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas
reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento,
mais ou menos proximo, de suas generosidades.

O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que
chamaremos, por antonomasia, o _verme do coração_.

Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da
regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das
suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, o homem
gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle
escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os
muitas vezes...........................................................
.......................................................................


Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da
segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos
restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida
nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio
consentimento de sua mãe, e que dizia assim:


                                          «_Exc.^ma e respeitavel senhora_:

«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um
ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo
inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.^a em
seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.^ma Snr.^a
D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma
impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á
recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e
amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.^ma
irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem
o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu,
accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura;
podendo V. Exc.^a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que,
finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae
dirigida á snr.^a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no
campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella
respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse
parar ás mãos _d'alguem_, que, por má interpretação, tenha ficado com
suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta
interceptada.

«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da
sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de
recolhimento ao ferido.

                                  «É de V. Exc.^a m.^o att.^o v.^or e cr.^o

                     «_O tenente da 2.^a comp.^a de voluntarios do Minho_.»


Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente
pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu
accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha,
perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr
segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.

--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira
coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?

--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e
senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais
solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de
nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de
Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza,
livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os
impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...

--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres
sacrificar-te?!...

--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur,
sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma
palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado,
gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só
dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação,
porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de
uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre
pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção
de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a
seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua
protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o
seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra
companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou
moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou
do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro
d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que
era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...

--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas,
filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu
amor... Meu primo já sabe d'esse facto?

--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe
occultasse.

--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com
Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem
sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as
acções que ennobrecem quem as pratica.

--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a
Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.

--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.

--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento,
não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é
a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta
a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha
salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as
terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de
uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me
o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça...
Vamos já ao quarto da Anna...

--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega,
que Deus tudo fará por melhor.

Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver
só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o
medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa
esposa.

As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um
pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D.
Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o
com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos
um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver,
pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em
delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella
que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com
a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo,
apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um
tremor violento se apoderou d'ella...

D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando,
simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a
filha.

Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria
da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.

O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão
o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados,
procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada
leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou
os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada
pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado
amante!

Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até
que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e
disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:

--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro
que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu
vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo,
até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»

Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o
limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam
ambas repentinamente.

Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto,
quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder,
se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.

Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o
cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam
já acompanhados do padre Alvaro e do medico.



II

MYSTERIO


      «Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S.
      Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do
      duque de Bragança.»

                                               (CHRONICA DO SECULO XV.)



Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham
ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da
infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e
os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento,
e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do
_extremoso_ marido.

Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma
das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D.
Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para
as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da
justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a
todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo
Sebastião da Mesquita.

Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de
tudo remediar, e assim o fez.

O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este
viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos
leitores.

Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no
quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime.
Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão
fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição
costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta
antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e
de se evitarem, no enterro, todas as pompas.

Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente
guardado por um dos romeiros.

Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das
consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas
palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram
ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza
a encobrir o crime.

D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança,
que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras,
entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado
firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma
a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria
vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa
fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a
exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.

No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local
d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o
padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para
concentrar a sua cólera.

Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:

--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará
infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por
que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me
não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está
doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe
muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...

E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres
estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.

--Este homem está effectivamente louco?!...

--Está, sim, snr.^a D. Maria da Gloria...

--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o
fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...

--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco
digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua
vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...

--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para
conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado...
Quero vingar a minha querida Anna...

--Desconheço-a, snr.^a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V.
Exc.^a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...

--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher _de raça_
quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado,
se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria
terror, não me dominando a ideia de vingança...

--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.^mo
pae?...

--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.

--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o
que Deus não quer...

--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela
dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...

Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e
triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela
voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D.
Anna e da loucura de Leopoldo.



III

BRIOS DE RAÇA


      «Se de imitar meu nome te gloreias,
                As façanhas me imita,
      Ou na Patria Nação, ou nas alheias,
                O meu valor te incita:
      Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,
      Se morar quéres, n'este honrado templo.»

                              (Filinto Elysio.)


Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.

Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido,
cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a
loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios
cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua
esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do
enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.

D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava
fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que
visitaram seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e
carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões
violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.

Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava
com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma
filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo
tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil
enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos
curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de
filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia
da loucura.

Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre
Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de
vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o
predispozéra para este dialogo:

--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram
fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me
que lhe falle do nosso Arthur...

--V. exc.^a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do
seu afilhado?...

--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me
fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho
soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas
tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças
superiores ao commum dos homens...

--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de impaciencia!... Que
desgraça pésa sobre meu filho?!...

--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia
seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães,
uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado
n'um recontro com as tropas da rainha...

Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo,
vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!

Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo
deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur
Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu
poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.

--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a
este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo
eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao
Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v.
exc.^a esta revelação do meu criminoso passado...

--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...

--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema
bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.^a D.
Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.^a fez mal em dar entrada
ao sentimento que nutre por elle...

--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e
eu amo-o!...

--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.^a quanto elle é
orgulhoso da sua raça?!...

--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...

--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre
pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar
pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira
augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu
filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de
encontro á vontade paterna...

--Quer, então, a minha morte?...

--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento
de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu
filho. Se V. Exc.^a soffresse a maldição paterna, não haveria posição
que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice
aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora,
e que dentro em pouco será pasto dos vermes...

--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente
e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...

--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é
justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para
com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu
criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.^a á
vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo
providencial que o pune...

--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais
cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de
certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias
do doente... Concede-me este pedido?

--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.

Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever,
foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra
n'estes termos:

--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te
dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a
levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais
tranquillo possivel...

--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda
muitos annos, para a nossa felicidade:

--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e
despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida
sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus
erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações,
que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de
casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na
companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa
casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que
então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me
insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por
mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos
que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a...
amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a
infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um
dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez
encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a
deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas
recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha
criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas
Rosa e Anna...

--Minhas irmãs!!...

--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...

--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida,
como?!...

--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e
dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre
lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa
dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel
ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças
encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos
tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos
a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas
por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi
assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo,
que eram gêmeas, e que eu era seu pae...

--E é á simples _ausencia_ de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama
_perdição_?!...

--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o
seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios
da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas
tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e
bem perdida!...

E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho
fidalgo.

D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima.
Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia
n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a
donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as
dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.

--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem,
pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.^a, meu respeitavel pae,
deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o
mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não
sobrevivería uma hora á sua deshonra...

--Como tu és boa, minha querida Maria!...

--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia
resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu
affecto... Agora, se V. Exc.^a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o
não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V.
Exc.^a com a senhora que foi mãe d'ellas...

--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha
querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior
attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os
homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa
gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o
apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma
questão de _raça_. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a
_casta_... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança
inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira
o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de
transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...

--Meu Deus! que pesada herança!...

--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive
de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes,
que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a
existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares
minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de
permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas
irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica
representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de
certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por
esposo o distincto fidalgo que te escolhi...

--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de
affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...

--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o
ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim
escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá
combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de
verdadeira raça...

Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do
velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de
Lencastre, e foi a bondosa _fidalga das chaves_ que respondeu ao marido:

--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado
primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a
minha palavra de _verdadeira fidalga_, que ninguem as tem mais
illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter
escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que
se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões,
para não deixar só no campo esta sensivel criança...

--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o
senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de
fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro,
que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve
artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha
esse nome magico...

--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...

--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.^a, snr.^a D. Maria da
Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse
seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser...
_seu marido_, porque... morreu!...

--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha
alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver
longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma
alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as
infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se
constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos...
Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais
insignificante gesto, que v. exc.^a não podesse presencear... Amei-o, e
hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um
nome que deve passar _immaculado_ á posteridade, continuando em mim uma
infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.^a que
diz de um Lencastre para meu esposo?...

--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...

--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha
herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha
irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...

Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este
inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a
donzella cheia de magestade.



IV

VISÃO


      «Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de
      repente, sem saber por quê nem d'onde vêem...

      «Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.

      «E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da
      Eternidade que vêem sobre mim.»

            (VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT--FRAGMENTO DE UM ROMANCE INEDITO.)


Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria,
veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma
invencivel força de pasmosa vontade.

Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal
proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro;
mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons
sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não
retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.

D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os
acontecimentos com a confiança das almas puras.

João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da
palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que
lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos,
dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.

D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao
tractamento do demente.

Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga
donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe
lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de
sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via
as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do
meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão,
pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de
um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um
futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser
o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de
Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua
mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que
fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o
perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o
completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por
escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com
Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela
voz da eternidade:

«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado
depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das
cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma
familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso
atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que
fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se
amerceie da tua alma,--escreve: «_Dou voluntariamente o meu
consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o
meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a
comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente
nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não
faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu
proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita._»

E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para
affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir
se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens
da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava...............
.......................................................................

Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo
prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.

Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a
sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o
acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um
sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora,
aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da
filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle
praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de
guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com
enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o
sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente,
sublime de eloquencia maternal.

No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe
lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não
conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita
estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da
enfermidade...

Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a
distincção de _humanas raças_...



V

TRES SOLDADOS POR AMOR


      «Tomai pensar mais solido e sizudo:
      O caminho segui que a honra indica;
      Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»

        (POESIAS DE ANTONIO JOAQUIM DE MESQUITA E MELLO).


Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho
parocho, por occasião dos _raptos_, e do incendio, da primeira parte
d'esta obra.

Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella
ainda apesar do seu definhamento.

Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas
oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de
frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.

A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor.

Trajam todos rigoroso lucto.

Ouviremos o que dizem João e Rosa:

--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.^a D. Rosa?...

--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou
muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser...
Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os
homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era
filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera
considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!...

--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc.^mo pae
falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria
muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu
nome, que v. exc.^a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu
juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado
poucos momentos depois de sua exc.^ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por
uma sublime inspiração, que a snr.^a D. Rosa havia de resurgir pura de
toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra
precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais,
porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como
sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a
Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas
virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era
preciso... Poucas horas depois, já seu exc.^mo pae não era d'este mundo!

--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom
amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.

--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.^a foi
rigorosamente executado. Admiro-a, snr.^a D. Rosa!... Como Deus lhe dá
forças para esmagar o coração!...

--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos
a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu
mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do
meu actual proceder...

--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta
inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor
aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.^a é
das que póde praticar todos os extraordinarios...

--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada
estima... Veja que apoucado poder é o d'esta _extraordinaria_ mulher...

--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente,
até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as
suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é
certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que
merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso
ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que
arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem...

--E como lhe ha de conceder _esperanças_, a mulher que o senhor salvou
da _perdição_, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a
_outro_ homem?!...

--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e
dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos
juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que
nem erro se póde chamar?...

--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade
de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!...
Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto
ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria
então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não
deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha
versatilidade?...

--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido
então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V.
Exc.^a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella
martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu
camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que
darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!...
Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...

Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr
a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:


    «_Exc.^ma Snr.^a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus_:

«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que
estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e
pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o
furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr
da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae
celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero
e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.^a,
não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos
soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro
amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da
eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos
um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.

«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo:
mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram
muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios
permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur.
Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais
formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como
indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle
aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da
bocca o nome de V. Exc.^a, proferido com igual respeito áquelle com que
por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com
poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do
que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem,
que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria
da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos...
Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.^a possa ser menos
feliz do que merece.

«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.^ma snr.^a
D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde
me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e
acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo,
pae e amigo.

                                                          _Padre Alvaro._»


N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na
residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto
o padre escrevera e João e Rosa conversavam.

João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração,
porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu
immenso amor.

Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.

Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a
companhia de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous
voluntarios, que eram o tenente João de Lencastre, e um elegante
sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio.

Arthur Soares, estava já completamente restabelecido.



VI

DENODO FEMININO


      «Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de
      Pelagio, e foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e
      musgos.....

      «O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que
      violentamente a agitava.»

                                                (_A. Herculano_--EURICO.)


A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia
em Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos
belligerantes entretinham-se em operações de pouca importancia, em
conservarem para os seus governos os territorios occupados pela força, e
não chegavam a travar uma lucta decisiva.

Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave
prejuiso da nossa nacionalidade.

O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D.
Miguel de Bragança, pedira a interferencia das nações signatarias do
tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e
dynastia da rainha.

Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da
intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella
sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e
que, se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e
Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os
milhares de calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.

No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar
que, após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em
força consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que
apenas pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que
amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da
snr.^a D. Maria II.

A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como
esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela
exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus
actos politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a
cercavam, aos quaes não se fartava de fornecer terriveis documentos para
a catechese, a imprensa licenciosa da opposição, cuja linguagem
desenvolta e ameaçadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais
resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braços dos que se lhe
mostrassem dedicados e leaes.

O certo é, que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, não
viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve
logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com
jubilo.

O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o
sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada
do commando do honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta
do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de
guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e
entregues áquelle general, que immediatamente os enviou ao Paço por um
dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços
ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que
desempenhou galhardamente.

A snr.^a D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto conveniente
procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações de
estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de
elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma
fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe
era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava
reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava
poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza
do attencioso mensageiro.

Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600
homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz
termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde,
que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica
_Polyphemus_.

N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da
força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso
pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur
Soares, o tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio,
fizeram desesperados esforços por conter os soldados, e tiveram de
sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasião em
que o peito de João de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da
pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento
Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior.
N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada,
e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservação de suas vidas,
e o poderem soccorrer o ferido, que tão denodadamente havia salvado um
d'elles.

Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob
as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella
Rosa!...

    [15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.



VII

OS ESPINHOS DA FLOR


      «Peço ao meu anjo da guarda,
      Se hei-de aqui ficar perdida,
      Que vá levar-te por sonhos
      Esta minha despedida.»

        (_V. de Castilho_--O ACALENTAR DA NETA.)


Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil
enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a
mulher que o salvára da demencia!...

Ouçamol-os:

--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é
encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar
da existencia ao seu lado...

--É um facto muito real e verdadeiro, _caro primo_, que hade ter por
desenlace o nosso casamento...

--Não posso crêr em tamanha ventura!...

--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o
seguimento das _nobres_ allianças da minha raça?... Não vê como já me
abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso
solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no
mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque
não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos...

--Tenha piedade, senhora!...

--Piedade?!... De quem, e porquê?!...

--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz
n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de
reparar... e bem conhece que não são de _assassino_ estes
soffrimentos...

--__A _ferida que fez n'um peito desleal_, diz o primo?!... Illude-se, e
é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.^a cravou ás punhaladas,
com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me
animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era
affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro
amor...

--Não brinque, prima, que me tortura!...

--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia
relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu _idolatrado_
Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V.
Exc.^a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de
nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães...
Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer
um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação,
imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui
o meu _muito amado_ Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal,
roubada no campo da gloria ao _meu idolo_ por um soldado do seu
commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente,
tornado ferrugem no seu punhal!...

--Misericordia, senhora, que me mata!...

--Não hade morrer, _senhor meu noivo_, em quanto não tiver bem esgotado
o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...

--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que
deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente
irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...

--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu
esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia _singular_...

--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo
no seu coração?...

--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do _unico_ homem que eu
amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da
minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e
saudosas á memoria de _Arthur Soares_, do amor da minha infancia, da
alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido
unir á minha... Que importa isto ao _meu futuro esposo_, ao viuvo de
_minha irmã assassinada_!...

--Cale-se, demonio!...

--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e _feliz noivo_, com a
fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca
da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas
particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi
elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para
esse fim, todos os seus haveres...

--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe
antes a morte como o supremo beneficio...

--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os
dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha...
Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda
em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique
sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:

      «LAGRIMAS D'ALMA

      «Vida ditosa da infancia amena,
      tornada pena, que me traz delirio!...
      Meu terno amante, meu poderoso rei,
      por amor fiquei n'um atroz martyrio!...

      Ignora o mundo que cruel mysterio,
      ao cemiterio casta virgem leva!...
      Nem _Elle_ sabe quanto hei penado,
      Arthur amado, que minha alma enleva!

      Aqui defronte do feroz tyranno,
      que deshumano duas vidas sóme,
      a irmã eu vingo, o amor vingando,
      Arthur amando com ardor sem nome!...

      Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
      puros anhelos, que gostosa tinha!
      Ai! que tormentos o presente encerra,
      na crua guerra da vingança minha!...

      Vida ditosa da infancia amêna,
      tornada pena, que me traz delirio!...
      Meu terno amante, meu querido d'alma,
      recebe a palma d'este cru martyrio!...»

O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado
executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria
estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher
_senhora_, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo
concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa,
ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e
por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe
enchia o peito.

Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo
n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima
alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.

O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:

«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero,
com a noticia da resolução que v. exc.^a tomara de ser fiel á vontade de
seu exc.^mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só
ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro
homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um
Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos
insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...

«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel,
deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe
interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven
sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que
era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre.
Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu
tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não
davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se
ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das
forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da
cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João
de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido
sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o
ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no
campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do
sargento: quem imagina v. exc.^a que descobrimos debaixo de um tal
disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.^ma irmã!...

«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a
nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos
nós!...

«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irmã não morreu; mas antes de
participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de
succedimentos anteriores.

«A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno
criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a
minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr
entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este
intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa
de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após
porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento.
Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu
nome, e a sua fortuna, á snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o
melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o
v. exc.^a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava
consagrar-me. Sua exc.^ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa,
até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve
occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe.
Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu
arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre
salvador da sua virtude.

«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como
elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela
senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder
de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irmã, a par de um genio viril,
um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do
meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma
resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.

«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do
mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao
ferimento do supposto sargento.

«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao
reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia
estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o
corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli
chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram
tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o
primeiro em que sua exc.^ma irmã recobrou o uso da falla,
consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente
ferida. Durante o periodo de prostração da snr.^a D. Rosa, não pude
conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só
instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo
idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.^ma
irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos
labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e
tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á
doente.

«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho
presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou
n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a
sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da
minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais
incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um
amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um
sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para
conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha
temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter...
Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um
novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como
fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo
a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe
havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês
agora em mim, Lencastre?...»

«O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que
póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a...

«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas
angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura
dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual
ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria
a...

«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.^a

                                                                _Arthur._»


A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque
electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes
ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...

Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se
fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e
uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.

O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:

--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na
sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado,
posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu
crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua
esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe
perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D.
Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta
localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos
deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a
familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos
de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um
cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna á habitação do
medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando
depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...

Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que
elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia
d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.

As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os
soluços.



VIII

A CONVENÇÃO DE GRAMIDO


      «O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era
      impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações.
      Perdemos tudo, mas salvamos a honra.»

                                            (O n.º 63 do _Espectro_)[16].


Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e
assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.

D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a
casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella
um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para
unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da
Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera,
durante a _visão_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D.
Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um
plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre.
Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente
rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela
apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que
era rogativa, escreveu com mão trémula.

Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade
do Porto, onde a revolução agonisava.

Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo
supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo
á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:

1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação,
incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos
governos alliados.

2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde
o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os
fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade
não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser
alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte
guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em
Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas
inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias
alliadas.

3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será
marcada pelas potencias alliadas.

4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os
portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das
potencias alliadas.

5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas
dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se
guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto
para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha
que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram
durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.

6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra,
sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade
sua.

7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do
reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.

8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o
governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos
officiaes do antigo exercito realista.

Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que
termina assim:

«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma
tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que
seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que,
durante a mesma guerra, possa ter recebido.

«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis
tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de
sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo
portuguez e do mundo civilisado.

«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e
honrosa. A junta vai dissolver-se.

«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam
comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a
gloria do povo portuguez.

«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por
tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso,
mais heroico, e mais nobre da terra.

«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a
rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e
felicidade do povo portuguez.»

Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.

Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel,
escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:

«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim.
Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o
tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual será
o meu futuro?!...

«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.^a D. Isabel e a v.
exc.^a um aposento no seu palacio.

                                                                 _Arthur_».

Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares
recebera outra d'este theor:

«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á
nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!

                                                                  _Maria_.»

Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver
sinceramente amado.

    [16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, não só por ter sido o
    papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e
    principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro
    jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões
    teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que
    só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que
    o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposição d'aquelle tempo,
    que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta,
    tributando o respeito devido á _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D.
    Maria II.



IX

BRIOS DE PLEBEU


      «Uns homens ha, que, na paixão ardente,
                            Immolam tudo seu,
      Menos a propria estima; e, felizmente,
                            D'esses homens sou eu:
      Sou, que de tudo o que no mundo prézo,
      Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»

                       [João de Lemos--CANCIONEIRO]


Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito
humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas
almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama
imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da
Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida
camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem
por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão
prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de
uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo
na alma, para não se exporem aos falsos juizos  do vulgo, nem serem menos
presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma
semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor,
seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.

Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par
do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou
Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores.
Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao
momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para
cogitar n'um procedimento digno de si.

Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur
hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de
homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle
entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes
que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações
ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que
acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera
deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.

Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem
longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio
de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe
soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu
affecto pela esperança de se tornar distincto no campo  da honra, e poder
assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer
tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do
coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.

Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da
Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos
demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na
residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e
filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os
communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem
commum.

As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso
debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste
pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e
chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento
de Arthur.

D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo,
educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por
um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as
conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas,
esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio
de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.

Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções
do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas
crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a
coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás
occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.

Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de
Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia
as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com
lagrimas na voz, e nos olhos:

--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer
mais...

--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez
degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu,
porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do
que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a
manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão
prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais
pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas
infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e
que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em
quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro
na morte o supremo bem!...

--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o
coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em
tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está
no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples
enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante...  Porque me
não ordena o que devo fazer?...

--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade
de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda
entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!...
Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os
heide aturar doentinhos!...

--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...

--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer,
quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr.
Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de
attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que
receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas
pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era
sempre a mesma rapariga aldeã, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ até á sua
altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um
_potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_...

--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...

--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me
diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem
bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma
palavra, que te faz mal fallar...



X

VIAGEM DA RAINHA


      «Foi então que se apossou da corôa.»

                    (A. HERCULANO--EURICO.)


      «Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica
      poesia verdadeira: uma não está sem a outra.»

                                        (V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.)


A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em
vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo,
esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos
bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o
throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi
então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que
pozeram em pratica a constituição.

Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os
odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do
estado;  pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos
officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando
o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos
empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos
individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma
verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado
_regenerador_, não desmentiu este nome redemptivo.[17]

Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos,
aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram
dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da
familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o
alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a
senhora D. Maria II, e a sua dynastia.

Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua
prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte
distincta que  tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz
principe proscripto.[18]

Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D.
Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.

.........................................................................

Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e
Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus
vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe
pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha
fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D.
Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo
contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para
resolverem qual d'elles devia  ter mais tempo no collo um robusto rapaz,
fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur
Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio.
João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão
diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á
rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria
e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer
á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão
innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas
as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official
escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram
destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta
revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade
o sonho precursor do seu casamento.

Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o
seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte
do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes
viajantes, e os cobria de flôres.

N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está
sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria
fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua
magestade, que logo o reconheceu:

--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o _tempo mais feliz_, a que
me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso
com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis
constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é
regra, soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as
qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as
honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence,
desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde
de Setubal... Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de
ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades
indispensaveis ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a
capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...

--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real
familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de
darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada
rainha a senhora D. Maria II!

--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as _Marias_ são dignas de
um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu costumo
apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento,
quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar á
residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a
palavra n'estes termos:

--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não
lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas
peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar
o meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher
corôada, que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos
desenganaram-me... Queriam _remediar o mal infallivel_ não sei com que
_medicinas preventivas_, que eu recusei formalmente, porque não tremo de
morrer no meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de
rainha...

--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...

--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas
vezes...

--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser
de vossa magestade o reino do céu!...


    [17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos
    a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições
    para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito
    contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava
    para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento,
    esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o
    credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa.
    Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo
    sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que
    louvamos.

    [18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.^a D.
    Maria II, a conhecida  poesia--O FUNERAL E A POMBA--da qual
    consignaremos aqui estes edificantes versos:

        Soldados, que ha vinte annos
        Com esforços sobre humanos
        Batalhaes por vossa fé,
        Soldados, eia, de pé!
        Respeitem-se aquellas mágoas,
        E do nosso pranto as agoas
        Lavem d'odio o coração;
        Não ha odios d'este lado,
        Nem se deshonra um soldado,
        Quando abraça seu irmão.

        Ponham-se treguas á guerra,
        E ninguém manche esta terra
        Ao pé de funérea luz;
        Soldados, olhai a cruz!
        Demos pranto a quem prantêa,
        Demos dôr á dôr alheia,
        Nos dois campos lucto egual!
        Nenhum, nenhum se envilece,
        Unidos na mesma prece,
        Junto á loisa sepulchral.

        Solemne melancolia,
        Seja n'hora da agonia
        Nosso tributo cortez;
        Que o tomem, que é portuguez!
        Portuguez d'aquelles peitos,
        Por tantos annos affeitos
        Na lealdade a soffrer;
        Portuguez que vem das eras,
        D'aquellas crenças sinceras
        _D'antes quebrar que torcer_.

        Que o tomem; e nós, soldados,
        Ao vêl-os tão consternados,
        Respeitemos-lhe a sua fé;
        Amigos, eia, de pé!
        Era o seu chefe, e bandeira,
        Diziam-n'a companheira
        De infortunio e proscripção;
        Comprehendemos, pois, seu grito,
        Nós, soldados do Proscripto,
        Vinte annos gemendo em vão!

        A cada um sua crença e dôres,
        Cada qual estreme as côres
        Do pendão que traz por si;
        Todo branco, é o nosso aqui.
        Mas, se d'elle voz sagrada
        Nos manda, por gloria herdada,
        Ou morrer ou triumphar,
        Tambem no alto do Calvario
        Outro estandarte, um sudario,
        Manda os tristes consolar.

        Porque é de arraial opposto,
        Não córa o tributo o rôsto,
        A quem o toma ou quem dá;
        Soldados, lucto de cá!
        É tributo á monarchia,
        Por dois campos n'um só dia,
        Cada qual por sua lei;
        Um faz honras á Rainha,
        Outro á Princesa, sobrinha
        D'aquelle que jurou Rei!»



EPILOGO



EPILOGO


São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da
Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante
menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.

O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares
de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D.
Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de
Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde
recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira
Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e
trocando phrases embalsemadas de felicidade.

É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial
da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está
ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes  da mãe de Arthur, e
lê esta passagem da Biblia:

«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito
de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são
capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado.
Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem
outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se
castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto,
comprehenda-o.»

A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do
padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a
dizer, em consternadora exclamação:

--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei
deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...

Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados
poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a
queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo
as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a
repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:

«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer
penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister
penitencia.»

Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur,
incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o
padre para a festa dos annos.

Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel.
Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no
capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais
algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.

Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre
Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita
d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto
d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das
criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.

As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela
presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma
carta tarjada de preto.

Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se
resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu
licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que
todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da
primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:


                                         «_Minha boa Maria e presada irmã_:

«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração;
nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto
para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da
sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!...
Mataram n'o  os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu
immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de
seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do
unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida
irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio
terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava
do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos
remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...

«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero
convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero
repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida...

«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por
minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.

«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae
evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer
falta, porque o remorso mata!...

«Adeus!

                                                          Tua infeliz irmã,

                                                                   _Anna_.»


Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas
do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de
si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas
uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa,
disse para a familia:

--Não esperavam, que a _velha_ fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza,
no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus _crianças_, que tive
segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes
apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez
presente... Perdão, senhor reitor... O nome de _criança_ foi uma
brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor
padre Alvaro...

O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas
suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o
encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras:

--_O remorso mata_... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes...
Arthur... meus filhos... até logo!......

N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o
que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.

Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.

Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar:

      «Vou chorar e cortar fêno,
      quem trabalha tambem sente:
      as paixões trazem veneno
      encoberto na semente.

      O nosso reitor, um santo,
      reza sempre, e tambem chora!
      N'um sepulchro verte o pranto
      sempre, sempre á mesma hora!...

      Ninguem foge ao sentimento,
      ninguem foge ao seu destino...
      Quem d'amor soffre o tormento,
      no Céu tem Amor Divino.»


    [19] É motivo de odios para os liberalões de má casta, o sustentar
    hoje a conveniencia da vida claustral!

    Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o
    progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção
    dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do
    nosso «conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade
    é essa que tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam
    abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o
    castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem
    questões impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos
    presenceado scenas vergonhosas, já alguem se lembrou de extinguir a
    camara popular?

    Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos
    escriptores liberaes de toda a Europa.

    Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender
    o _celibato forçado_ e somos desaffectos á _extincção das ordens
    religiosas_ e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida
    Liberdade.


FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA



Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura
em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.

Orgulha-me a fineza de um artista, que no _Reglamento de exposiciones
nacionales de bellas artes_, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim
classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães,
discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de
Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y
1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes
em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro
inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu
talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos
d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada
do verdadeiro merito.

Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um _cantinho_
na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...

De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o
seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!

Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna
d'Austria?[20]

Os seis mezes que s. s.^a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome
europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar _colleiras para
adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o
notavel artista_, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.

Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do
snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de
parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre
de fome.

Porto, 27 de agosto de 1873.

                                                _Miguel J. T. Mascarenhas_.


    [20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna
    d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da
    exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá
    mandou, foram premiados.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte" ***

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