Home
  By Author [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Title [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Language
all Classics books content using ISYS

Download this book: [ ASCII | HTML | PDF ]

Look for this book on Amazon


We have new books nearly every day.
If you would like a news letter once a week or once a month
fill out this form and we will give you a summary of the books for that week or month by email.

Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11)
Author: Ortigão, José Duarte Ramalho, 1836-1915 [Editor], Queirós, José Maria Eça de, 1845-1900 [Editor]
Language: Portuguese
As this book started as an ASCII text book there are no pictures available.
Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11)" ***

This book is indexed by ISYS Web Indexing system to allow the reader find any word or number within the document.



made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.



[Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGÃO. EÇA DE QUEIROZ]

RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

3.º ANNO

Outubro a Novembro de 1873

VOLUME XX



Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. Proudhon.



SUMMARIO

Regresso. Explicações--Historia de uns pés--Modos de morrer. Os
Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos
do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua
organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni,
Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os
padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O
partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
politica, na sciencia, na religião. A tolerancia--Festa veneziana nas
aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.
Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados,
as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de
Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o
imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de
Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
philosophica dos pontapés nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.
Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo
physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia,
o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é
anemico--O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica--O
drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes
patrioticos.

Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de tres mezes--os mezes do
verão--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
que recomeçam a servir-se tambem as ostras.

Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não
teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

       *       *       *       *       *

Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que
desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca
das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o
interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua
hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria,
supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e
passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as
idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim
todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.
Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos
vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os
interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos
vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.
Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em
Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente:
vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um
sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos
de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns
milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da
recreio, com os seus amigos, comer um safio!

       *       *       *       *       *

Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a
estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós
adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos
esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima
nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á
sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente
recemnascido para a trincadeira nacional.

O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto
no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que
padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas
peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença
climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as
desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as
febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das
Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.
Cada um dá o que tem.

A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão
romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil
como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.
Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não,
porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal
maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é
formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.

De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol
canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.
conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis
velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal
maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os
engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações
suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a
mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a
Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A
patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das
podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com
louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de
«_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de
Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!»

Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos
prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do
gargarejo.

       *       *       *       *       *

No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.

Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do
auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.

No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.
Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado--nas
caixas das rebecas.

Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar,
os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as
malas.

Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
pedido as chaves dos pés!

Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está
deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito,
embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os
pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
momento, elle então, compadecido--levanta-se.

Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem
obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas
vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças
pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de
chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era
obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os
pés.

Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de
confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o
empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza
desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente
sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.

Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle
cantava nos pequenos palcos?...

Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um pé só.

       *       *       *       *       *

Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um
homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado
com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de
metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa
na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

Bem feita coisa!

       *       *       *       *       *

Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães
se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno
somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em
condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é
querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do
ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se
apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi,
para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!

       *       *       *       *       *

É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a
sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas
de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe
ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em
toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão
de bom gosto!

Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do
Padre Eterno.

       *       *       *       *       *

O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios
sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha
da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo
menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com
quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos
de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções,
o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com
nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.

Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha
deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á
phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das
phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias
e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus
leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
sob as folhas dos nenufares.

Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando
austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão
magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor
commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre
e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É
n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
systema nervoso da monarchia e da constituição.

Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
outra parte.

Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de
mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter
artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi
que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de
almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da
companhia?!

Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa
lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no
Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos
constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados,
agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na
humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito!

       *       *       *       *       *

O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente
da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.
O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
horas.

Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as
republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em
Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.

É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas
do que as republicas.

Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende
gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

       *       *       *       *       *

Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar
os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este
uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das
pratas.

       *       *       *       *       *

_Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_

Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos
desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr--taes como o
dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus
estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a
condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;
depois: _vinde commigo_.

Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne,
a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
entendimento e a alma das lepras mundanaes.

Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é
temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut
stercora_, como muito bem disse S. Paulo!

Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas
e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as
inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos
veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos
tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as
ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas
penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as
vossas alegrías celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum
meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._

       *       *       *       *       *

Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações
que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
_catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio
de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em
Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião
especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a
religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que
nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--_catholica_?
Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
religiões?...

Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo
no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no
Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o
espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da
sciencia?...

Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina
bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os
habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros
embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis
que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,
começava no emtanto--por festejar o S. João!

Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque
supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser
melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa,
então--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
de presumpção de merecimentos.

Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes
tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa,
e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!

       *       *       *       *       *

Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela
importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos
fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso
patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus
illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle
do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o
Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais
poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior
fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
«Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon
era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV,
filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos
trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os
dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,
lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca
fé, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a
pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio
do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os
romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda
começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de
emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e
escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os
padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está
fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado
do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil
ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção
de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião,
era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o
desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso
escriptor.

Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios,
eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja
esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito
aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para
conseguir o seu fim.

       *       *       *       *       *

Que pretende a associação catholica?

Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o
sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque
Portugal, é por emquanto independente e livre.

Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não,
porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte
n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se
satisfatoriamente moralisados e instruidos.

Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não,
pelas razões seguintes:

Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa
os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a
culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá
se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De
resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as
gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e
pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão
um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém
alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes
esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas
subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os
olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um
desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça
com o seu grosso marmeleiro argolado.

O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em
eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo
os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos
brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O
confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua
arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e
abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi
que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as
confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos
maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e
da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o,
inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a
moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento
terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação
catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem
discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de
velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
_Nação_, e quasi sempre é rico.

Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação
Catholica influe, aconselha ou dirige?

O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre
liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
ultramontano.

Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.
Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe
simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
o sr. conde de Samodães apparece.

       *       *       *       *       *

A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama
academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras
da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
inviolavel e de mais sagrado?

Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a
impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação
Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.
Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia
juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e
dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»


Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se
das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no
salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão
os homens?

Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os
murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos
que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não
poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça
valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de
Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata
por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da
_Illustração_ nem um album que se folheie ...

Estranha perplexidade!

Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela
seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer
fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve
dissertação sobre os novissimos do homem?»

Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos
assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o
claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões,
persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:

--«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu
parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»

       *       *       *       *       *

Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a
controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e
não os discutis.

No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios,
entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis
no racionalismo heretico.

No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de
fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
prostrar-vos na penitencia e na oração.

Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja
para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o
arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões
da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e
arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
bons.

Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de
uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de
consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
passando, esta palavra séria:

Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha
instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu,
para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa
ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações
mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a
consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração
do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a
moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade
é uma religião.

       *       *       *       *       *

Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos
os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não
concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente
incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e
os senhores liberaes tambem se não retiram.

Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia
continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
_Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem
theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir
para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como
elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa
operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um
_Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis
inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação
de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a
Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual
constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do
Porto!

Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as
circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé
portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não
afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires
hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não
mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem
desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a
ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre
os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas
aos seus adeptos.

Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
e sobresaltar o paiz.

É singular esta coincidencia:

O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os
paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação
allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja
catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a
distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...
Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não
supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade
como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja
apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das
garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção
dos poderes.

Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa
temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a
opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a
egreja catholica como um perigo para a liberdade!

No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a
receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
scientifico moderno.

Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a
religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como
producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo
invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a
philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do
progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.
Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o
estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da
corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós
pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução
scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os
nossos dias.

O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a
tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda
o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!

Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais
fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão
esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão
a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.
Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito
para o absoluto.

O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não
o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.
Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A
duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu
á mecanica e Lavoisier á chimica.

Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido
sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade
indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da
astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a
imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás
estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de
crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção
augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é
a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio
e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo
do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções
intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é
elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
liberdade; na religião o precursor da tolerancia.

Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este
serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão
individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão
larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar
de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um
estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da
rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das
cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um
systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
de adorações e de preces.

       *       *       *       *       *

Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de
mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que
deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte
n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
jubilo era indescriptivel.

Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de
Caparica.

O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor
uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem
escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como
os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam
desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que
chega.

Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez
correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.

Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
outra vez--os primeiros.

Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,
tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,
começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos
braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

Era immenso a bordo o desalento.

Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os
serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação
com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a
questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,
recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o
interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
chegado todos a terra--pelo avesso.

       *       *       *       *       *

Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de
sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado
jurisconsulto e procurador geral da corôa.

       *       *       *       *       *

É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições
especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos
escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é
a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso
filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa
phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas
presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que
necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
que condições, em que circumstancias, em que especial momento da
preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á
presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.

Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou
algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor
de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de
Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu
jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de
sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de
sua alteza.

E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a
necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.

A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo
modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:

«Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos
de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
Martens Ferrão de engonsos.»

       *       *       *       *       *

Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,
popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do
joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu
filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona
os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão
é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,
pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão
inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o
proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
complicada navegação da vida.

Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os
braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a
sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições
historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido
exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de
punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito
internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais
anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o
seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação
districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é
elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a
personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia
referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.
Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as
ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto
simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
neutra.

Como diziamos, pois, tal é--el.

       *       *       *       *       *

Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens
Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua
alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não!
É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão
candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!

Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,
quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
inexperiente e inerme d'_el!_ ...

Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que
se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para
a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém
não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha
outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a
mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos
de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!
Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de
Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!

Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei
geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam
sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra
Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma
velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles
sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso
Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o
medite!

De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na
perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos
_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!

Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios
possam preservar os principes dos perigos das suas ligações
clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
propria convivencia legal das mulheres legitimas!

Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são
sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações
custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o
aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no
champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e
para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não
obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem
haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua
mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas
decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta
mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças
dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do
soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com
uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.

       *       *       *       *       *

Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a
innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a
inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes
como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta
magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.

       *       *       *       *       *

Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para
dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,
uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem
a fazer-lhes directamente.

Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem
abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
supplementar de metterem as facas pela bocca.

... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e
comem as facas--sem peixe!

Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em
seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos
inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes
predilectos--os faqueiros.

       *       *       *       *       *

Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a
Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.

O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da
Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente,
escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e
de madame de Sevigné.

       *       *       *       *       *

O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador
Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir
na rebelião contra o governo da Alemanha.

D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
confortos policiaes.

O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a
tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas
tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.

E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes
na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
christandade!

Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades
chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de
Lambert.

       *       *       *       *       *

A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
constitucionalismo monarchico.

O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,
pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para
que missão o invoca.

Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior
aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida
da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu
povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do
propheta Samuel.

N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as
esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções
de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por
quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.
Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem
idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
jus regis qui vobis imperaturus est_.

Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente
que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a
personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para
que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos
assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos
convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da
miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe
escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e
um gibão roto nos cotovellos!

Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um
_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das
costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao
segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,
até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle.


Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou
a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os
pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de
baixo.

Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e
da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o
testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto
importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?

A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta
consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever
acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando
não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.
N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que
é? Pois bem! É a benzina!

       *       *       *       *       *

A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo
tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
authentico manifesto politico de um principe proscripto.

Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua
maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples traço
encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,--o que nos parece
de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.

Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida
dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de
dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio
da nossa raça! Que degeneração!

O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha
profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os
campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos
enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava,
com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação,
comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão
esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por
cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da
perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador,
o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o
acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle
nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta
Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde,
a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da
destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.

O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade
e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o
partido liberal portuguez.

Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles
não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles
combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos
do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não
vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios
da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram
simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto
sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos
interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa
exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela
existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não
teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao
jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles
tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a
maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte
do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_,
foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_,
figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
concentravam-se.

Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!

       *       *       *       *       *

Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de
menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria
sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da
rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito
justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira
Martins.

A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o
bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral
do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos,
não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no
estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá
nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.

A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a
orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
inteiramente fóra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.

O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente
se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade,
a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe
tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.

Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas
faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas
predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o
artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de
frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do
homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da
politica da sociedade moderna?

Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_?

Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
representativo?

Não nos parece.

O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas
correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais
altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução
por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas,
não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua
independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das
maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e
expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.

       *       *       *       *       *

É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata,
tão viva, tão humana:

«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram
ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza
da fabrica--_manufactura de algodão e de pobres_--não pode servir-nos. O
não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer
dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras
um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação
politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente
absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e
propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção
anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção
que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do
trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão
economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de
Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a
orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da
taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
se funde a feria?

A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não
fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas
para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de
familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem
quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador
recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde
resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a
roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é
então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A
industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario
destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
_fabrica_ ...»

       *       *       *       *       *

A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da
honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem
á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que,
pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela
sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós
tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.

       *       *       *       *       *

Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa
concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços
dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos
no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria
de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as
escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na
Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na
industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas
nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos
correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.

Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de
estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados
aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos
paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
medica.

A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito
exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas
academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.

Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres
todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes
destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua
disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás
mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas
preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção
superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á
mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação
commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das
raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram
immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.

A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de
capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres
se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.

       *       *       *       *       *

Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em
Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
dignarão responder-nos.

       *       *       *       *       *

O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do
presente inverno com um jantar _prié_.

Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre
fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa
para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o
perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.
marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o
homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de
barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação
finalmente, com a idealidade, com o espirito.

       *       *       *       *       *

Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar,
tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau,
procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos;
sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado
e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão
deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos
sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta
cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres--ellas
que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações,
as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
sobre um ramo de rosas.

Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade
indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
do gosto.

       *       *       *       *       *

Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um
pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se
ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão
deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o
illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente
preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne,
lhe pedira a palavra.

Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto
d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:

_Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.

       *       *       *       *       *

Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em
irem ... para a mesa!

Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam
bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
venciam batalhas, conquistavam reinos.

Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto
que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos
a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!

E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
quanto sois capazes de amar.

Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado
sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato,
contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos
titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das
refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o
estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás
salchichas com couve lombarda!

       *       *       *       *       *

Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes
dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão
monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções
do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres!

Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos
pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da
Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--não o
esqueçaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma
coisa tão facil, que se traz como as patronas!

É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não
representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
senhores! Em nome de D. Urraca!

       *       *       *       *       *

A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por
excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a
missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as
idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca
o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,
pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos
corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;--é o termo
technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma
fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de
transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e
approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e
fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a
tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros
publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio,
é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente--o cano.

       *       *       *       *       *

Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O
leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A
conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para
as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos
escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores
portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de
novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente
caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou
vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções
baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é
substituido pelo _mot d'ordre_.

Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não
tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não
tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu
tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual,
isto é--livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as
presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada
um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por
differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de
dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
á casa de correcção installada no convento das Monicas.

       *       *       *       *       *

Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições
publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.

Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é:
demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das
celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
analyse. Porque nós--talvez o não tenhaes comprehendido bem--nós não
somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que
pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do
tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de
cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No
exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um
perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe
de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a
gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
sua grande arma contra os tyrannos.

O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos
que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.

       *       *       *       *       *

De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.
Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para
conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no
nariz.

       *       *       *       *       *

Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da
historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de
todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.

Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que
eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide:

AOS MOLHADOS
POR UMA FRIA TARDE
NO PEGO DO MEXILHOEIRO
A GLORIA
RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS
Á
CONSTIPAÇÃO

INDEX

_Dos volumes d'esta chronica_

PUBLICADOS ATÉ HOJE


    I--Maio................... 1871

   II--Junho..................  »

  III--Julho..................  »

   IV--Agosto.................  »

    V--Setembro...............  »

   VI--Outubro................  »

  VII--Novembro...............  »

 VIII--Dezembro...............  »

   IX--Janeiro................ 1872

    X--Fevereiro..............  »

   XI--Março..................  »

  XII--Abril..................  »

 XIII--Junho a julho..........  »

  XIV--Julho a agosto.........  »

   XV--Setembro a outubro.....  »

  XVI--Novembro...............  »

 XVII--Dezembro...............  »

XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873

  XIX--Março a abril..........  »

   XX--Outubro a novembro.....  »


Nota. D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado
com o correspondente numero.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11)" ***

Doctrine Publishing Corporation provides digitized public domain materials.
Public domain books belong to the public and we are merely their custodians.
This effort is time consuming and expensive, so in order to keep providing
this resource, we have taken steps to prevent abuse by commercial parties,
including placing technical restrictions on automated querying.

We also ask that you:

+ Make non-commercial use of the files We designed Doctrine Publishing
Corporation's ISYS search for use by individuals, and we request that you
use these files for personal, non-commercial purposes.

+ Refrain from automated querying Do not send automated queries of any sort
to Doctrine Publishing's system: If you are conducting research on machine
translation, optical character recognition or other areas where access to a
large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the use of
public domain materials for these purposes and may be able to help.

+ Keep it legal -  Whatever your use, remember that you are responsible for
ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just because
we believe a book is in the public domain for users in the United States,
that the work is also in the public domain for users in other countries.
Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we
can't offer guidance on whether any specific use of any specific book is
allowed. Please do not assume that a book's appearance in Doctrine Publishing
ISYS search  means it can be used in any manner anywhere in the world.
Copyright infringement liability can be quite severe.

About ISYS® Search Software
Established in 1988, ISYS Search Software is a global supplier of enterprise
search solutions for business and government.  The company's award-winning
software suite offers a broad range of search, navigation and discovery
solutions for desktop search, intranet search, SharePoint search and embedded
search applications.  ISYS has been deployed by thousands of organizations
operating in a variety of industries, including government, legal, law
enforcement, financial services, healthcare and recruitment.



Home