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Title: Chronica d'El-Rei D. Affonso III
Author: Pina, Rui de, 1440-1521
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica d'El-Rei D. Affonso III" ***

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Team. This eBook is based on images generously provided by the
Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt).



BIBLIOTHECA

DE

*Classicos Portuguezes*

Proprietario e fundador

_MELLO D'AZEVEDO_



BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES


Proprietario e fundador--MELLO D'AZEVEDO

(VOLUME LIV)


CHRONICA

D'EL-REI D. AFFONSO III

POR

RUY DE PINA



ESCRIPTORIO

147=RUA DOS RETROZEIROS=147

LISBOA

1907



CHRONICA

DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE

D. AFFONSO III

QUINTO REY DE PORTUGAL,

COMPOSTA

POR RUY DE PINA,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA

A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY

D. JOAOO V.

NOSSO SENHOR.

POR MIGUEL LOPES FERREYRA



LISBOA OCCIDENTAL

Na Officina FERREYRIANA.

M.DCC.XXVIII.

_Com todas as licenças necessarias_.



SENHOR

Continuando com a edição das Chronicas dos Senhores Reis de Portugal,
gloriosos Predecessores de V. Magestade, continuo tambem na precisa
obrigação de as offerecer a V. Magestade. Nesta do Senhor Rei D. Affonso
III verá V. Magestade os caminhos que buscou a Providencia Divina para
que empunhasse o Scetro um Principe, que para ter menos esperanças do
trono se achava cazado em França, e verá V. Magestade a felicidade, com
que soube estabelecer nos seus descendentes a Monarchia, que acrescentou
com Estados novos, e que soube segurar com a total expulsão dos
Africanos. Sirva-se V. Magestade de amparar o meu zelo com a sua Real
benignidade, para que animado com tão soberano favor possa dar á luz as
Chronicas que faltam. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos
annos como dezejamos.

_Miguel Lopes Ferreira_



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

*D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*


Quinto Conde da Ericeira, do conselho de Sua Magestade, Sargento mór de
Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo
Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo Senhor da
Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa Christina de
Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de Frazão, S. Payo
de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas
na Ordem de Christo. Academico da Academia Real da Historia Portugueza,
e um dos cinco Censores della.

Meu Senhor aonde não chega a confiança propria, é necessario buscar o
amparo alheio. É tão elevada a Magestade, que nem ainda obsequioso me
atrevo a chegar a ella: e por esta cauza procuro o patrocinio de V.
Excellencia para que com a sua pessoa consiga o que por mim não posso.
Espero que V. Excellencia se digne de me fazer esta mercê, porque a
continuação dos seus estudos, e a grande livraria que tem junto a sua
erudição, justamente me desculpa para lhe pedir a protecção para um
livro, que como de Historia da Patria precede a todos na lição, e porque
sendo offerecido a Sua Magestade pela mão de V. Excellencia terá a
acceitação que dezejo. Deus guarde a V. Excellencia muitos annos.

Criado de V. Excellencia

_Miguel Lopes Ferreira_



*AMIGO LEITOR*

Não me podes accuzar de falto de palavra, pois vês que te dou agora a
Chronica del-Rei D. Affonso III que foi o Quinto Rei desta Monarchia. De
serem breves as narrações das suas vidas, e summamente compendiadas as
noticias dos seus governos, não tenho eu a culpa, tem-na os Chronistas
que, ou não quizeram, ou não souberam. Tudo podia ser, porque a falta em
semelhante materia procede umas vezes de não haver quem informe, e
outras de não escreverem, o que todos sabem. Donde nasce que deste
principio experimentamos o dano, porque desprezaram escrever o que era
sabido, e desta sorte padecemos uma involuntaria ignorancia. Cazou este
Principe em França donde esteve, e assistiu alguns annos, e sendo
impossivel que não fizesse naquelle tempo acções dignas da sua pessoa,
ou na paz, ou na guerra, tudo ficou sepultado em um profundo silencio,
de que são reos os que escreveram primeiro. Ainda depois de nomeado
Governador de Portugal, e ainda depois de ser Rei não houve aquelle
cuidado nas penas dos Chronistas, que merecia a sua politica, que não
foi nesta grande arte inferior aos maiores. Lê, e espera que brevemente
te busque com a Chronica de seu filho o famoso Rei D. Diniz.

_Vale._



LICENÇAS

DO

SANTO OFFICIO


Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e
depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
sem a qual não correrá. Lisboa Occidental o primeiro de Outubro de 1726.

_Fr. Lancastre. Cunha. Teixeira. Silva. Cabedo._


DO ORDINARIO

Vista a informação, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e
depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726.

_D. J. A. L._


DO PAÇO

_Approvação do Doutor Manuel de Azevedo Soares, Cavalleiro professo na
Ordem de Christo, do Dezembargo de Sua Magestade, Desembargador da Casa
da Supplicacão, Juiz dos Contos do Reino, e Caza, Academico da Academia
Real da Historia Portugueza, &c._


SENHOR

Esta Chronica del-Rei D. Affonso III que pertende imprimir Miguel Lopes
Ferreira assás recomendação tinha em o nome de seu Author para facilitar
a licença que se pede: porque sendo Ruy de Pina Chronista de tão grande
opinião, por ella só, ficavam approvadas as suas obras, sendo superfluos
todos os encomios com que justamente se podiam encarecer.[1] Não falta
com tudo quem affirme que nem todas as obras, que se divulgam por suas,
o são. E se em alguma póde ter lugar a conjectura de que o não seja, é
esta uma dellas ao que parece; porque sem passar do Capitulo terceiro,
se encontra uma inverosimilidade, certamente muito alhea do entendimento
de tão grande homem. Diz que sabendo a Condessa de Bolonha Mathilde, que
seu marido era obedecido por Rei pacificamente, e não sabendo nada do
seu cazamento, confiando, que se elle a visse, a trataria, e honraria
como sua verdadeira mulher, aprestara Naos, e que bem acompanhada, e com
um filho, que se disse ter do dito seu marido, se embarcara para este
Reino, e chegando a Cascaes donde soubera logo, que elle estava em
Friellas, e cazado com outra mulher, recebendo grande indignação, e
tristesa, arrependida de ter vindo, especialmente depois de saber da
condição da segunda mulher, tomando parecer, mandára dous Cavalleiros
principais dos que trazia comsigo, para que participassem a El-Rei a sua
vinda, e a sua queixa; e pela reposta, que trouxeram, se voltara para
França, deixando o filho, segundo diziam uns, e que por certa lembrança
achara, o havia levado comsigo, e que depois o mandara a este Reino, com
outras mais circumstancias, que se referem no dito Capitulo. Não reparo
em que faça menção de filho, e nem ainda que a Condeça tomasse a
resolução de vir a este Reino sem premeditar as contingencias do
successo, como se foi assim, lhe mostrou a experiencia, porque muitos
Historiadores seguiram aquella tradição com circumstancias mais
inverosimeis; cujo erro se acha novamente refutado com demonstrações, e
authoridades evidentes, pelo eruditissimo Academico o P. D. Joseph
Barbosa.[2] Reparo sómente em que se diga, que a Condeça não sabia nada
do cazamento de seu marido, porque demais de se affirmar o contrario por
muitos Historiadores, sendo aquelle cazamento tão escandaloso, e sendo a
grandeza dos delinquentes, a que mais vulgariza os seus delictos,[3]
como é crivel o ignorasse a Condeça; e mais por ser entre pessoas de tão
alta jerarquia; com instrumentos de dote publicos, e havendo tão pouca
distancia para a noticia, como de Portugal a França. Quando ainda os
segredos dos Principes, mais reconditos, estão sugeitos á infidilidade
dos mesmos a que se confiam,[4] se obrigava a um tal excesso, o seu
affecto, sendo deste inseparavel a desconfiança,[5] como é verosimil, se
lhe ocultase a sua offensa.[6] Disto sem duvida se origina o pouco
credito, que tem muitas historias, porque devendo ser a verdade o seu
essencial fundamento,[7] notando-se-lhes algum erro em parte
regularmente perdem a fé de todo.[8] E ainda que pelo Historiador a que
foram commettidas as memorias deste Monarcha na Real Academia, que V.
Magestade instituio para que resuscitassem na memoria dos seculos
futuros, aquelles heroes, que sendo na vida esclarecidos, os escureceu a
morte, sepultando-os nas tenebrosas urnas de um ingrato esquecimento[9]
se restituirá de todo á verdade aquelle successo, conforme a empresa da
mesma Academia: com tudo sendo na opinião de Santo Augustinho util que
se publiquem livros repetidos sobre a mesma materia, com diversidade de
estylo,[10] ainda me parece se póde conceder a licença, que se pede,
sendo V. Magestade servido, porque sempre ficará illesa a fama do Author
da Historia, na opinião dos que o conhecem, distinguindo na obra o que
póde ser parto do seu entendimento. Lisboa Occidental 20 de Julho de
1727.

_Manoel de Azevedo Soares_.


Que se possa imprimir visto as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e
depois de impressa torne á mesa para se conferir, e taxar, e sem isso
não correrá. Lisboa Occidental, 7 de Agosto de 1727.

_Pereira. Oliveira. Teixeira._


[Nota de rodapé 1: Super vacanci laboris est laudare conspicuos. Symach.
I*. 3. Epistol. 48.]

[Nota de rodapé 2: Catalog. Chronolog. das Rainhas de Portugal á n.
241.]

[Nota de rodapé 3: Dum in imis est quispiam, ejus quodam modo vitia
delitescunt; cum vero ad dignitatis culmen ascendit in superficiem mox
erumpunt, et quæ fuerant catenus inaudita jam per ora rumigeruli populi
trita vulgantur S. Petr. Damian. Epist. 20 ad Cadol. Qui magno imperio
præditi, in excelso ætatem agunt, eorum facta cuncti mortales novere.
Salust.]

[Nota de rodapé 4: Areana Regu ipsi predunt Satellites Gruterus.
Florileg. c. 2]

[Nota de rodapé 5: Vel alieni amoris æmulus, quod frequentissimum est in
amore vitium. Guillielm. Castellus apud Textor. in Epithet.]

[Nota de rodapé 6: Ita Zelotipus in omnes ahorum gressus assiduo
intentus totidem suspicionum umbras producit, quoties illos è loco
moveri animadvertunt Picinel. mund. Symbol. 1. 16. n. 66.]

[Nota de rodapé 7: Non ostentationi, sed fidei, veritati que componitur
Plinio Jun. 1. 6. Epist. 16. lux et evangelium veritatis Cassan. catal.
glor. mund. p. 10. consid. 46.]

[Nota de rodapé 8: Et si per currantur horum historicora scripta, tacite
reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in uno,
in cæteris fide perdant. Menoch. cos. 112. v. 71. Paris. consil. 23. n.
253.]

[Nota de rodapé 9: Historia reru que gestarum descriptio, tubæ clangor,
quo jam olim mortui velut e sepulcro excitati, in mediu producuntur.
Nicetas. Quia hoc quotidianu, et vulgare est, multi famosi in vita, et
clari post obitu, sunt incogniti, et obscuri. Petraca de prosper.
fortun. Dialog. 117.]

[Nota de rodapé 10: Utile esse plures libros a pluribus diverso stilo,
de eisdem quæstionibus fieri, ut ad plurimos res ipsa perveniat ad alios
quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quæstion. de Trinit. c. 3.]



_Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Affonso III quinto Rei
de Portugal_


CAPITULO I


_Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como accrecentou os
Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque_


Por falecimento del-Rei Dom Sancho deste nome o segundo, a que disseram
Capello, porque delle não ficou herdeiro do Reino legitimo descendente,
que o succedesse, foi alevantado, e obedecido por Rei na Cidade de
Lisboa o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino
de Portugal por sucessão direitamente pertencia, em idade de trinta e
oito annos na era de mil e duzentos e quarenta e sete, (1247) o qual
era, filho legitimo del-Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito
Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger como devia elle veo
de Bolonha a este Reino de Portugal, e o governou, e defendeo dous
annos, não se chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por mandado
do Papa, como na Coronica del-Rei Dom Sancho claramente se disse, e
depois que o dito Rei Dom Affonso Reinou durando os primeiros annos de
seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com a Rainha Dona
Breatiz, sua sobrinha, filha del-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de
Castella, se intitulou sómente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, e
trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, e bordadura dos
Castellos, assi como os outros Reis de Portugal até este tempo
trouxeram, segundo eu Coronista o vi nos sellos pendentes de algumas
suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e as achei na Torre do Tombo
destes Reinos, de que por o officio sou Guarda-mór.

Porque depois que com a dita Rainha Dona Breatriz lhe foram dadas as
Villas, e Castellos do Reino do Algarve, elle foi o que primeiro se
intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Escudo, e
Quinas os Castellos dourados em campo vermelho, que logo elle, e depois
os outros Reis de Portugal que delle decenderam sempre atégora
trouxeram, e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por muitos
sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são Castellos por
esta rezão, que disse, ou pelos de Riba de Coa, que a este Reino
creceram, ou se eram com folões, ou bandeiras, que se dizem as Armas do
Condado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos ditos Castellos,
a que digo, e afirmo que não podem ser Castellos pelos de Riba de Coa,
porque El-Rei Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e houve
depois que Reinou, como em sua Coronica se dirá, nem menos pareçam, que
sejam por respeito das Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto
que em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem podiam ficar depois
de sua morte á Coroa Real do Reino de Portugal, quanto mais que a
honestidade, e rezão contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de
Bolonha, por memoria da Condeça sua molher de que contra direito, e em
desprezo della se apartou, e nunca depois a quiz ver, por onde é mui
certo que sómente são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como
disse.

Os quais Castellos, posto que na primeira doação del-Rei de Castella
ficam del-Rei Dom Affonso, seu genro a seus filhos, estão por numero
certo, e assinados, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas por
aquelle numero certo, porque naquelle tempo El-Rei de Castella lhe deu
os mais que ganhasse, como ganhou sem os declarar, assi que estes
Castellos são postos na Orla, não por numero certo, mas o que nella em
boa proporção bem podesse caber, e porém El-Rei Dom Affonso logo como
Reinou, e assi depois que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e
prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo da Justiça, por a
qual a muitos mal feitores, que foram prezentes, e em seus crimes
comprehendidos, deu suas devidas penas, com medo das quaes outros se
foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e inteira equidade, e
proveo o povo em inteira Justiça, e sua real Caza, e Fazenda com
singular regra, e louvada ordenança, e fez muitas boas, e novas
povoações em muitas partes do Reino, que eram despovoradas, e mandou
lavrar, e aproveitar os termos de muitas Villas, e Castellos para
repairo, e culto da terra, que dos tempos passados estava mui
denificada, e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além dos
feitos grandes darmas de sua conquista do Algarve, no fim desta sua
Coronica em soma particular estão declaradas.



CAPITULO II


_Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em França
a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella_


Este Rei Dom Affonso sendo casado com Dona Matildes Condessa de Bolonha
em França, elle a leixou no dito Condado, e se veo a Portugal, como na
Coronica del-Rei Dom Sancho seu irmão é declarado, e depois de sua vinda
a poucos annos casou outra vez com a Rainha Dona Breatiz, filha bastarda
del-Rei de Castella, a qual elle houve em Dona Mayor Guilhelme de
Gosmão, sua manceba, a que foi muito afeiçoado, e a que fez mui firmes,
e grandes doações de muitas Villas, Castellos, e rendas de Lugares no
Reino de Castella, para depois de sua morte ficarem á dita Rainha D.
Breatiz sua filha, e a seus filhos herdeiros para sempre, porque,
segundo parece pelas palavras do testamento que o dito Rei Dom Affonso
fez, elle antre todolos filhos, e filhas que teve, a esta Rainha Dona
Breatiz, sua filha mostrou elle querer mór bem, e a que mais se devia
por serviço e beneficios, e soccorros que della em suas tribulações mais
que doutro algum tinha recebidos, e a que mais desejou galardoar, e dar
muito do seu se pudera, o qual casamento del-Rei, e da Rainha Dona
Breatiz, quando se concertou, e se fez foi assás maravilha dos homens
que o sabiam, assi pela grandeza do dote delle, não sendo a Rainha filha
legitima, como principalmente por casar em tempo, que a Condessa, sua
primeira molher ainda era viva, e sobre este passo se acha por lembrança
que um privado del-Rei Dom Affonso havendo este casamento por estranho,
e muito contrairo a sua conciencia lhe disse que não fizera bem em casar
com a rainha Dona Breatiz, pois sabia que era cazado com a Condessa de
Bolonha, com quem já se muito contentára, e honrára de cazar, e que
El-Rei lhe respondera, que se não espantasse do que tinha feito; porque
ao outro dia ainda cazaria com outra molher, se com ella lhe dessem
outra tanta terra, porque mais acrescentasse em Portugal.



CAPITULO III


_Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu marido a
não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez_


E passados alguns annos depois que El-Rei Dom Affonso partiu de Bolonha
a Condessa sua molher, soube lá o falecimento del-Rei Dom Sancho, e assi
como o Conde seu marido pacificamente era alevantado, e obedecido por
Rei de Portugal, e não sabendo nada do cazamento del-Rei, e confiando
que elle se a visse a trataria, e honraria como a verdadeira sua molher,
que era, fez-se logo prestes, e em Naos bem aparelhadas, e de
Cavalleiros, e nobre gente, e doutras gentes bem acompanhada, e com um
seu filho, que se diz que tinha de seu marido, partio de sua terra, e
veo ancorar ante a Villa de Cascais, cinco legoas de Lisboa, onde
perguntando ella, e os seus por El-Rei onde era? Foi logo certificada
que El-Rei estava em Frielas, duas legoas de Lisboa, cazado já com outra
molher, com as quaes novas a Condessa recebeo muita torvação, e grande
tristeza, e pezou-lhe muito de sua vinda, e assi aos de sua companhia,
especialmente depois que soube o estado, e condição da segunda molher,
que era filha del-Rei de Castella.

E tendo concelho ácerca do que neste caso faria, acordaram, que antes de
tudo era bem que fossem a El-Rei dous seus Cavalleiros principaes, que
vinham com ella e delle eram bem conhecidos e a que por seus serviços,
que nas guerras de França lhe tinham feitos, e por outros merecimentos,
queria grande bem, e que estes lhe fizessem saber da vinda da Condessa,
e assi o nojo, e espanto que por seu cazamento tinha com rezão recebido,
e soubessem delle finalmente a detreminação de sua vontade. Estes
Cavalleiros em chegando a El-Rei foram logo delle por seu conhecimento
mui bem recebidos, mas depois que lhe propuzeram a Embaxada da Condessa
com a graveza, e estranhamentos, que ella mandou, e disseram o mortal
sentimento, e deshonra em que estava, e lhe pedia que por comprir sua
bondade, e conciencia a recebesse no Reino, e tratasse por sua molher
como merecia.

El-Rei avendo-se delles por escandalizado, por ouzarem de lhe trazer em
tal tempo tal mensagem com o rostro irado lhes disse, que de não
perderem as vidas com suas cabeças cortadas os relevava naquella ora o
grande bem que lhes queria, e os muitos serviços que lhe tinham feitos,
e que porém não fizessem ante elle mais detença, antes que logo se
tornassem á Condessa, e lhe dissessem que não saisse em seu Reino, mas
que delle logo sem nenhuma delonga se partisse, e se tornasse para sua
terra donde viera, que se o assi não fizesse elle teria com ella tal
maneira de que lhe muito pezaria.

Com esta reposta chea de tanta aspereza, e fóra de toda a humanidade, os
Cavalleiros se tornaram para a Condessa, a qual maravilhada, e
atemorizada da sem rezão, e indignação del-Rei, e das mais cousas, que
elles em seu cazo mais passaram, e lhe contáram; mandou fazer prestes
suas naos, e embarcou nellas, e se tornou para Bolonha, e o tempo que a
Condessa veo a Cascais se diz, que ella trazia um filho seu, e del-Rei
Dom Affonso, como já disse, cujo nome, vida, nem feitos não achei
declaradamente escritos, porque uns dizem, que quando a Condessa se
partio de Cascais, que o leixou em terra, para que o levassem a seu pai,
dizendo que não quizesse Deos, que com ella tornasse cousa del-Rei, e
por outra certa lembrança achei, que ella tornou a levar seu filho
comsigo, e que depois o mandou a Portugal, onde El-Rei o mandou bem
criar, e que saio muito bom Cavalleiro, e mui amado del-Rei, e dos
Nobres do Reino, e que foi cazado com uma filha do Ifante Dom Pedro de
Castella, que era a mais fermosa molher Despanha; mas qual era este
Ifante Dom Pedro, e sua filha, e os nomes delles, e em que tempo
cazaram, e que terra tiveram, e o que se delles fez depois eu o não
soube.

A Condessa como chegou á sua terra manifestou logo sua querella a seus
parentes, que eram Nobres, e grandes homens no Reino de França, por cujo
concelho, e ajuda, ella se enviou logo querelar ao Papa, que então era
em França, noteficando-lhe largamente todo o que com seu marido passára
no Reino de Portugal, pedindo a Sua Santidade que com suas Excommunhões,
e Cençuras mandasse apartar El-Rei Dom Affonso seu marido, da Rainha
Dona Breatiz, que como Christãos, não podiam cazar, como cazaram; e
mandasse que recebesse a ella para ter a honra, dinidade, e terras que
de direito, como sua verdadeira molher lhe pertencia. E o Papa
maravilhado da novidade por seu Breve o enviou muito estranhar a El-Rei
Dom Affonso, e lhe rogou, e amoestou com palavras catholicas, e mui
honestas, que logo se apartasse do segundo cazamento, e quizesse estar
pelo primeiro, conforme a justiça, e petição da Condessa, e porque
El-Rei não satisfez com efeito aos mandados Apostolicos, o Papa enviou
sua comissão ao Arcebispo de San-Tiago, porque lhe mandou que outra vez
requeresse, e amoestasse El-Rei Dom Affonso ácerca de seu apartamento, e
quando logo o não fizesse, que o citasse, e emprazasse, que a quatro
mezes parecesse em pessoa perante elle em sua Côrte, para ser ouvido com
a Condessa, e estar a todo comprimento de Justiça, e o Arcebispo fez
inteiramente todo o que neste cazo o Papa lhe mandou, mas El-Rei não foi
á citação em pessoa, mas cresse que mandaria seu Procurador por elle
sobre este negocio. Foi na Corte do Papa ordenado processo, e foi por
elle tanto procedido que em favor da Condessa, e contra El-Rei foi dada
sentença do apartamento seu, e da Rainha Dona Breatiz, e porque não
obedeceram a ella, foi pelo Papa posto antredito em todo o Reino que
durou muitos annos, acabados os quaes andando a era em mil e duzentos
sessenta e dous (1262), a Condessa de Bolonha Dona Matildes faleceo em
França, por morte, que em Portugal foi logo sabida.



CAPITULO IV


_Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com El-Rei
Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhos que della
houvesse_


Logo todos os Prelados, e Nobres homens, e povo do Reino enviaram
sopricar ao Papa, e pedir-lhe que pois a dita Condessa era falecida
mandasse alevantar o antredito que no Reino por muitos annos era posto,
e quizesse dispenssar sobre o cazamento del-Rei com a Rainha Dona
Breatiz, porque ambos como marido, e molher podessem licitamente viver,
e ficassem lidimos os filhos, que já tinham havidos, e os que dahi por
diante ouvessem, para com sua despensação poderem direitamente soceder
no Reino de Portugal, depois da morte del-Rei seu padre, e assi quizesse
revogar todalas doações que El-Rei Dom Sancho Capelo em fraude, e
detrimento da Coroa de Portugal em suas necessidades tinha feitas ao
Ifante Dom Affonso de Molina, e a outras quaesquer pessoas, por quam sem
cauza, e contra direito eram, a que o Papa em todo logo satisfez, sobre
que mandou passar suas Provisões Apostolicas, que vieram a este Reino, e
estão em guarda na Torre do Tombo, sómente se acha que pela legitimação
do Ifante Dom Diniz filho primeiro, e erdeiro, porque nacera em vida da
Condessa de Bolonha, El-Rei Dom Affonso seu pai deu em especial, muita
parte de seu thesouro.

El-Rei Dom Affonso houve da Rainha Dona Breatiz sua molher estes filhos,
a saber o Ifante Dom Diniz, que foi depois seu herdeiro, e sucessor, e
nasceo em Lisboa dia de São Diniz, a nove dias de Outubro de mil
duzentos sessenta e um annos (1261), e por a devação deste Santo, em
cujo dia nasceu, elle mandou depois fazer o seu Moesteiro de São Diniz
de Odivellas, onde se mandou sepultar, como em sua Coronica direi mais
inteiramente. E ouve mais o Ifante Dom Affonso, que foi Principe mui
honrado, e de grande estima, e teve neste Reino boas Villas, e
Castellos, e terras, e foi cazado com Dona Violante, filha do Ifante Dom
Manoel de Castella, e da Ifante Dona Costança Daragão, de que houve um
filho barão, e tres filhas, que foram grandemente cazadas em Castella,
de que na Coronica del-Rei Dom Diniz farei mais larga declaração; e
assim houve mais El-Rei Dom Affonso da Rainha Dona Breatiz a Ifante Dona
Branca, que sendo mui moça, foi recebida por Senhora do Moesteiro de
Lorvão, assi como o fora a Rainha Dona Thareja, sua tia que nelle jaz, e
o reformou, como já tenho dito, e depois do falecimento del-Rei Dom
Affonso seu pai, ella foi recebida por Senhora das Olgas de Burgos, onde
sem cazar faleceo, e ahi jás sepultada; e della porém se acha que um
Cavalleiro dito o Carpiteiro houve um filho, que houve nome Dom João
Nunes do Prado; e este foi Cavalleiro da Ordem de Calatrava, e depois
foi Mestre della, quando Dom Garcia Lopes, que era Mestre, foi por seus
desmerecimentos privado de Mestre.

E com tudo esta Ifante Dona Branca foi Princeza de mui louvadas
virtudes, e teve em Castella boa terra, e neste Reino boa fazenda,
porque ella foi senhora de Montemór-o-Velho, por doação del-Rei seu pai,
que em seu testamento lhe leixou mais dez mil livras, que são quatro mil
cruzados, e assi foi senhora de Campo Maior, que El-Rei Dom Diniz seu
irmão lhe deu em sua vida, e El-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de
Castella, seu avô tambem lhe leixou em seu testamento muito dinheiro, e
alguns dizem que ella jás em Lorvão, mas eu vi Cartas e Provisões, que
ella nos derradeiros dias de sua vida passou para Portugal, feitas
dentro no Moesteiro das Olgas de Burgos, onde tambem recolheo algumas
filhas do Ifante Dom Affonso de Portugal seu irmão. E assi houve mais
El-Rei Dom Affonso a Ifante Dona Costança sua filha, a qual a Rainha
Dona Breatiz sua madre levou comsigo a Sevilha, quando foi ver El-Rei
Dom Affonso seu pai, e lá faleceo, e foi trazida a Alcobaça, onde jás
sepultada. E houve mais um filho bastardo, que houve nome Dom Fernando,
que foi Cavalleiro da Ordem do Templo, e jás sepultado em S. Bras de
Lisboa.



CAPITULO V


_Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este
casamento_


Pelo cazamento del-Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Breatiz muitas
Villas, e terras do Reino de Castella creceram, e se ajuntaram a este
Reino de Portugal, e destas as que são na Comarca de Riba Dodiana, a
saber Moura, Serpa, Mourão, Noudar, Olivença, Campo Maior, e Ouguela,
direi na Coronica del-Rei Dom Diniz, porque em seu tempo elle por
concordias, e por escambos as houve, e depois atégora sempre
pacificamente, e sem contradição foram, e são pussuidas por a Coroa de
Portugal, mas porque é claro, e mui notorio que por bem do dito
cazamento, ainda creceram mais ao Reino de Portugal, o Reino do Algarve;
de que este Rei Dom Affonso nova, e primeiramente se intitulou, e por
cujo respeito em ladeo a borla dos Castellos ás Quinas de Portugal, como
atraz já toquei, para dizer os principios que teve, para boa declaração
dos que esto virem farei meu fundamento um pouco mais alto, que será
verdadeiro, e breve, como se segue.

El-Rei Dom Fernando de Castella deste nome o segundo, depois de ter
pacificos os Reinos de Castello, e de Lião, que nelle a segunda vez se
ajuntaram, ganhou dos Mouros a Cidade de Cordova, na era de mil e
duzentos e trinta e cinco annos, (1235) na qual tomada foi com El-Rei
Dom Fernando Dom Payo Correa, natural de Portugal, Mestre da Ordem
Daviz, que é a de San-Tiago em Castella, por mui principal e de grande
Caza, e mui esforçado guerreiro contra os imigos da Fé, e porque El-Rei
Dom Fernando desejou muito de cobrar a Cidade de Sevilha, e assi a terra
Dandaluzia, que toda era de Mouros, tornando-se para Castella leixou por
Fronteiro contra ella Dom Payo Correa em São Lucar Dalbayda, e um Dom
Rodrigo Alveres das Asturias, em Alcalá da Guardara, donde com muitas
gentes que tinham, e com a guerra aturada, que faziam, poseram a Cidade
de Sevilha em tanta estreiteza que o Rei della lhe deu gram soma de
ouro, por tregoa de um anno, qua os ditos Freires lhe outorgaram, dentro
do qual os Mouros com fundamento de se proverem por muitos annos,
semearam todo o pão, e sementes que tinham de que esperavam haver
novidades, com as quaes recolhidas lhes pareceo que se segurariam, e
manteriam por vinte annos, ainda que nelles fossem guerreados, e
cercados, o qual os ditos Fronteiros notificaram logo a El-Rei Dom
Fernando, e o avizaram, que para ter esperança de cobrar em breve a
Cidade antecipasse logo a guerra contra os Mouros, ou a colheita das
ditas novidades para si mesmo, o qual logo El-Rei satisfez, e com grande
poder, que ajuntou por mar, e por terra, veo cercar a Cidade, e depois
de estar dezaseis mezes sobre ella, com cerco bem afrontado a tomou, ca
se deu por partido, com segurança das vidas, e fazendas em dia de São
Clemente, vinte e dous dias de Novembro, na era de mil duzentos quarenta
e oito annos, (1248) treze annos depois da tomada de Cordova; e o dito
Rei Dom Fernando, por mais segurança da terra, não sahio mais de
Sevilha, e ahi faleceo no anno de mil duzentos e cincoenta e dous, tres
annos e meio depois da tomada de Sevilha, e ahi jás sepultado.[1]

E foi logo alevantado, e obedecido por Rei de Castella, e de Lião,
El-Rei Dom Affonso seu filho, sogro deste Rei Dom Affonso Conde de
Bolonha; e o meio tempo que houve antre a tomada de Cordova, e Sevilha,
e em que o Mestre Dom Payo Correa, era Fronteiro em Andaluzia contra os
Mouros, elle guerreando e correndo as terras dos imigos, que eram a sua
frontaria conjuntos, entrou pela Lusitania junto do campo Dourique, que
dentro era da conquista de Portugal, Reinando ainda Dom Sancho Capello,
e por força de armas o dito Mestre tomou em desvairados tempos as Villas
de Aljustrel, e de Mertola, que eram de Mouros, as quaes a requerimento
do dito Rei Dom Sancho, e por mandado del-Rei Dom Fernando de Castella,
seu primo com Irmão, foram entregues ao dito Rei Dom Sancho por
pertencerem a Portugal, o qual por sua devação, e pelas almas de seu pae
e de sua mãi segundo diz em sua doação, e assi por comprir ao dito
Mestre Dom Payo Correa, que era seu servidor, as deu logo á Ordem de San
Tiago, cujas hoje são.


[Nota de rodapé 1: Está beatificado por Santo.]



CAPITULO VI


_Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de
conquistar o Algarve, que era dos Mouros_


Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes logares da conquista de
Portugal, até se ganhar o Algarve, passaram dous tempos em que reinaram
dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. Fernando, em cujo tempo o
dito Mestre tomou primeiramente Tavilla, e Silves e alguns outros
Lugares do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom Affonso seu
filho, que reinando em Castella depois de fazer sua doação para sempre a
El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu filho
se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, em que tambem foi o dito
Mestre como Vassallo, e Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde
de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre Dom Payo Correa
ganhou dos Mouros Aljustrel, como é dito, se acha, que estando ainda no
dito Lugar, elle como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando
conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Portugal, que toda
era de Mouros, para saber se o poderia fazer, e como o faria, teve
concelho com seus Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi
porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da terra do Algarve,
como porque era mui povorada, e os Mouros della tinham pelo mar seu
grande soccorro e ajuda Dafrica.

Mas o Mestre, cujo coração era já favorecido da vontade de Deos, prepoz
entender na conquista, e não a leixar, e para esso falou apartado com
Garcia Rodrigues, Mercador, que de contino tratava neste Algarve com os
Christãos, e com os Mouros suas mercadorias, e secretamente lhe disse
que seu desejo era com a ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos
Mouros esta terra do Algarve se podesse, para que então havia singular
disposição pelo desvairo, e discordia em que sabia que estavam os Reis,
e Senhores, que os senhoreavam, mas que o não commettia porque não
sabia, nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da terra, e por
tanto lhe rogava pois elle esto tudo sabia que lhe dicesse seu parecer
verdadeiro, como delle por Christão, e bom homem confiava. E Garcia
Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para esso tão bom
concelho, e tanto esforço, e tal aviamento, que o Mestre apartou logo
alguns seus corredores por maneira dalmogavaria, para que fossem
adiante, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra pela Torre
Dourique, e andaram de noite mui attentadamente por os Mouros não
aventarem delles alguns sentimentos; e o primeiro Lugar a que chegaram
foi á Torre Descoubar, que por estar despercebida, e sem algum receo de
Christãos prouve a Deos, que sem muita força, nem perigo foi logo
tomada, donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não com menos
alegria, que pressa fez prestes seus Cavalleiros, que nas armas trazia
assás costumados, e bem ensinados, com que logo partio, e com suas guias
que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e dahi sem muita
detença cobrou mais o Lugar Dalvor, que é antre Silves e Lagos, e destes
Lugares ambos depois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos
Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Lugares comarcãos.

Sentindo-se os Mouros do Algarve mui perseguidos, e assás denificados do
Mestre, elles sobre consultação, que antre si fizeram, lhe commetteram,
que selle quizesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com Tavilla por
os Lugares Destombar, e Alvor, que tinha tomados, e a conciração, que os
Mouros tiveram foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, e
mais juntos do Cabo de São Vicente, onde a terra era então mais povorada
se podia fazer, e fazia mais dano, que de Cacella, que era mais no fim
da terra, e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lugar forte, e
de grande povoração os Mouros, e visinhos, e moradores delle poderiam
mais facilmente lançar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve
muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os Lugares tomados, e
cobrou para si Cacella, que era Lugar forte, e bom, onde se fez logo
prestes, e sahio com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne.

E como quer que até li os Mouros eram antre si em grandes desconcertos,
como atraz se disse, porém á necessidade, e perigo em que a ida do
Mestre os poz, os fez logo amigos, e concordes para com iguaes corações
defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sabendo os Mouros de Farão e
Tavilla, e assi os dos outros Lugares de redor, como o Mestre era fóra
de Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram tambem os de
Loulé para que todos no dia seguinte tivessem ao Mestre o passo, e
pelejassem com elle, os quaes ao outro dia sobre este acordo se
ajuntaram, e partindo foram dormir contra a serra a um logar que dizem o
desbarato, e deste ajuntamento, e acordo não sendo sabedor o Mestre
passou de noite mui secretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu
caminho direito, que vem para Tavilla, porque as suas escutas que iam de
diante sentiram os Mouros naquelle lugar onde jaziam, o Mestre não quiz
mais abalar, e ali de noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o
Mestre com sua singular, e costumada destreza de guerra ordenou suas
gentes em batalhas, e guiados de sua bandeira, que levavam tendida não
andaram muitos passos que logo não houveram vista dos Mouros, que jaziam
em um valle escuro, os quaes vendo a pouca gente dos Christãos em
comparação da muita sua que tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande
esperança de haverem victoria.

E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, em que logo achou
grande esforço, e mui perigosa resistencia, pelo qual antre todos se
travou mui crua e bem ferida batalha, em que a victoria por grande
espaço esteve em balança, mas em fim não podendo os Mouros já soffrer
aos Christãos nem ás mortes, e feridas, que de suas mãos recebiam,
volveram-lhe as costas, e com desacordada fogida, cada um procurou de
salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros muitos mortos, e
feridos, e os que escaparam acolheram-se a um Lugar, que chamam _o
Furadoiro_, que vem donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem
do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da fronta não ficaram sem
sua parte de dano, mas este não acho escrito quanto seria, sómente que o
Mestre e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da batalha não
seguiram o alcanço dos Mouros, e se recolheram.



CAPITULO VII


_Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram com
elle batalha em que foram vencidos_


Os Mouros de toda a terra, por este destroço, e desbarato, que houveram
mostraram muito nojo, e grande tristeza, em especial os de Tavilla,
porque tinham imigos tão fortes junto comsigo, os quaes naquella ora
juntos em seu concelho diceram: «Estes christãos não temem, antes nos
menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa muita fraqueza, ou
por nossa grande dezaventura sempre somos delles vencidos, mas agora
porque elles eram seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de
nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, nem acordo para nossa
vingança, ajuntemo-nos outra vez, e sem medo os vamos commetter e sem
duvida nós os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos da terra,
que é nossa».

E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e ardis, não foi nem
podia ser avisado, partio do lugar, onde fora a batalha para Cacella, e
vindo por seu caminho direito, que dizem _o Almargem_, junto do qual os
Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltearem, e o Mestre já não
trazia toda sua gente, que salvou da peleja, porque alguma leixara no
monte, em que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem alguns seus,
que passavam pela ribeira, e porém em chegando ao logar do Salto, onde
os Mouros os esperavam, elles sahiram a elle tão de supito, e o
commetteram com tantas gritas, e forças, que o poseram em muita
torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre e aos seus por força se
recolherem a um monte alto, que é junto de Tavilla, a que depois
chamaram _a Cabeça do Mestre_, donde pela fortaleza do lugar se
defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais sua aventagem.

Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, antes por todalas
maneiras de fazer mal os combatiam, trabalhando com todas forças por
lhes cobrar o monte, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam o
Mestre, que se não sobreviera a noite que os apartou elle, e os seus se
despunham, e estavam em mortal perigo, e os Mouros apartados do combate
lançaram-se ao pé do monte alongados da vista dos Christãos, logo com
determinação de ao outro dia tornarem á peleja, mas elles neste primeiro
proposito não perseveraram, porque praticando antre si sobre as gentes
que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o perigo, que nesso corriam
alevantaram-se, e foram-se tristes para os logares donde partiram, o que
assi fizeram sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite passada
já tinha avisada sua gente, que leixara em Cacella para que e viessem
socorrer, como logo vieram com fundamento de dar batalha aos Mouros se o
esperassem, quando soube que eram partidos alegre, e a seu salvo se foi
para Cacella.



CAPITULO VIII


_Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento
cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres,
e o Mestre tomou Tavilla_


Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus
comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos
que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já
cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a
pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas
passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o
São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente
de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição
para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que
pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha
deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste
tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados,
mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado
fim de sua empreza lhe eram neccessarias.

E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e
da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que
era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu
desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao
lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao
que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que
escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições,
não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer
paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer
dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou
dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas
e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais
que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.

Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a
cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla,
passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa,
e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da
ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação
nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de
Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que
era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua
vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já
muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os
homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto
estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem
siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos
imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa
Villa».

Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande
honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos
mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram
tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo
que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com
que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se
ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o
principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar,
e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos
como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que
pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua
ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não
possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes
destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».

Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança
pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que
em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e
pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se
recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em
que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como
elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que
Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda
do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas
de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e
ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e
quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu
rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e
leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre
vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me
basta, pois é em serviço de Deus».

E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle
se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom
homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram,
dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas
partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim
por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu
palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da
virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como
Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de
suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro
testemunho.

Durando a peleja dos Christãos chegou seu recado ao Mestre que era em
Cacella, donde com grande trigança logo partio com desejo de os
soccorrer, porque bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem medo,
nem outro seu desfalecimento, ou haviam de viver, ou morrer, e seguiu o
caminho porque elles vieram, e sem contradição, nem defeza dalguma
pessoa entrou pela Villa, e praça della, e tão intento, e acezo ia no
dezejo que levava de soccorrer aos Chrystãos, que passando por ella não
lhe lembrou, que dessa vez livremente, e sem perigo a podia tomar se
quizera, e quando chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus
Cavalleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio feito houve com os
Mouros, que ainda topou mui crua peleja, onde matou tantos, que os ossos
delles foram depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e aos
outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazendo nelles grande
estrago até á Villa, cujas portas os Mouros acháram fechadas, porque os
visinhos, e gentes que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao
soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual seria sua
determinação como soubesse parte do cazo.

E por esso cerraram bem suas portas, que não quizeram abrir aos seus que
vinham fogindo, e sómente lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que
está contra a mouraria, sobre que deu o Mestre e os ferio tão rijo, e
com tanta braveza, que não tendo elles acordo para se defenderem, nem de
cerrar a porta entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou a
Villa, e apoderou-se della dentro da qual, e fóra della o Mestre, e os
seus fizeram nos Mouros grande estrago. E era neste tempo senhor de
Tavilla Abenfalula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pelejas, se
ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E esta batalha, e os
Cavalleiros mortos, e a Villa tomada foi tudo a nove dias de Junho de
mil e duzentos e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo foi
apoderado da Villa, e a leixou com boa segurança, com alguma gente
darmas tornou ás Antas onde os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por
elles muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes sospiros os
mandou apartar dantre os corpos dos Mouros que elles mataram, e cheos
todos de muito sangue das grandes feridas de que morreram, os fez levar
á Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em Egreja da
Envocação de Nossa Senhora mandou logo fazer um grande Moimento de
pedra, em que se pintaram sete Escudos, todos com as vieiras de
San-Tiago, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues com elles
foram todos sete sepultados, e seus nomes são estes, Pedro Rodrigues
Commendador mór, Mem do Vale, Durão Vaz, Alvaro Gracia, Estevam Vaz,
Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram
depois havidos em grande reverencia, e devação, e piedosamente não era
sem cauza, porque como Martyres espargeram seu sangue, e como fieis
Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu Christo N. Senhor.



CAPITULO IX


_Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque
partidos a leixou dos Mouros_


O Mestre Dom Payo Correa por tomar Tavilla dos Mouros, como é dito, por
ella ser Cabeça, e a principal cousa do Algarve, foi mui alegre, e deu
por esso muitas graças a N. Senhor, e porque sentio que elle com sua
graça, e ajuda nesta sua empreza sempre o favorecia, não quiz estar por
longo tempo ocioso, mas fez prestes suas gentes, e depois de leixar
Tavilla em boa guarda, e segurança, sahio della, e foi sobre Selir, e o
tomou por força, e assi Alvor outra vez, dahi foi logo cercar Paderne,
que era Castello mui forte, e tinha boa Comarca, que é antre Albofeira,
e a Serra, e estando em cerco sobre elle apartou de si algumas gentes,
que mandou ao termo de Silves, onde tomaram outra vez a Torre Destombar,
que já fora sua, e Abenafaam, que era Rei daquella terra estava em
Silves, quando soube que os Christãos tomaram Estombar, crendo que seria
hi o Mestre, ajuntou tambem as mais gentes que pode, e sahio com
proposito de vir sobre elle, e dar-lhe batalha. Da qual cousa sendo o
Mestre logo avizado alevantou o cerco de sobre Paderne, e por caminho
desviado se veio lançar sobre Silves, e o Rei Mouro indo para Estombar,
como soube que na terra não havia outras gentes, salva as que tomaram, e
defendiam, receando-o ser acommettido dalgum ardil do Mestre, fez logo
volta com grande trigança sobre Silves, onde o Mestre lhe tinha feita
cilada, que sabendo de certo recolhimento que o Rei Mouro havia de fazer
lhe tomou todalas portas da Cidade, em cada uma das quaes pôs gentes
assás que as guardasse, e El-Rei Abenafaam, quando ao recolher achou
embargo, e resistencia em todalas portas, commetteo de por força entrar
pela porta, que dizem _Dazoya_, que lhe pareceo mais despejada, que
todalas outras, onde se encontrou com o Mestre, que de fóra tinha a
guarda della.

E em um campo junto da Villa em que está a Egreja de Santa Maria das
Martes houveram ambos mui travada, e ferida peleja, em que o Mestre pola
pouca gente que comsigo tinha se vio em grande pressa, porque os Mouros
eram muitos, e mui juntos, e feriram-no mui rijamente, e punham todas
suas forças por cobrar a entrada da porta, que o Mestre defendia, e
procuravam os Mouros de se meter debaixo da Torre Dazoia que é saída em
arcos para fóra, por tal que os Mouros de cima os defendessem, mas não o
poderam fazer, e porque os Mouros de dentro quando viram o Rei Mouro á
porta, e com grande avantagem de gente sobre o Mestre, sahiram alguns
cuidando de o meter, e salvar por ella, e ao recolher, que quizeram
fazer, foram dos Christãos tão apertados, que de volta se meteram com
elles dentro na Cidade, e não sem crua peleja, e grande perda de homens
de uma parte, e da outra, que ali ficaram mortos.

E segundo se diz, mais Christãos morreram nesta entrada, que em outro
Lugar do Algarve que se tomasse, e El-Rei Mouro vendo que a Cidade era
já por aquella porta entrada, andou correndo a cavallo em torno della
experimentando todolos lugares convenientes para sair, e quando não
achou remedio quiz-se lançar por um postigo da treição do alcacer, que
era seu apozentamento, onde morava, e porque o achou empedido commetteo
outra porta em que tambem achou contradição, pelo qual já como
desesperado da honra, e da vida ferio apressadamente seu cavalo das
esporas, e fogio, e passando por um pego do rio afogou-se nelle, onde
depois o acharam morto, e deste cazo accidental chamam áquelle Lugar _o
pego de Benefaam_. Os Mouros que na Cidade ficaram vivos, se acolheram
ao alcacer, e mostravam suas forças para o defender, mas o Mestre não o
quiz combater, antes lhes deu segurança, que vivessem na Villa se
quizessem, e aproveitassem suas Cidades, e com obediencia, e tributos
lhe conhecessem aquelle Senhorio, que conheceram a El-Rei Mouro, e elles
Mouros assi o concordaram, e foram do partido contentes, e esta maneira
se diz que o Mestre sempre teve nos Lugares do Algarve, que tomou, cujos
alcaceres não combateo, e deu segurança aos Mouros porque as Villas
fossem milhor aproveitadas, e senão despovorassem, e não tardou muito
que nesta cidade foi fundada Sé, e Egreja Catedral, e Bispo della a que
foi dada toda a jurdição Ecclesiastica daquelle Reino.



CAPITULO X


_Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que
houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do
Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado_


Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, que a guardassem, e
defendessem, e a proveo das outras cousas que a ella eram necessarias,
se partio, e tornou a poer o cerco que alevantara de sobre Paderne, e
porque logo os Mouros se não quizeram dar a bom partido que lhe
cometiam, elle os combateo, e por força tomou a Villa e o alcacere sem
os receber a concordia, nem algum partido de piedade, antes por dous
bons Cavalleiros que lhe ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros
da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente desta Villa de
Paderne, cujos grandes edeficios ainda parecem, alguns dizem, por sua má
disposição se mudou depois á Villa de Albofeira, que o Mestre Daviz
depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apontado.

Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo Correa Mestre
de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous
tempos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Castella, e depois em
tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que
até qui se ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom
Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente
consta, que este Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e
para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos
darmas mui asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do
Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso
seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu
de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por
segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos
Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei Dom Affonso Conde de
Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de
Castella, e a maneira porque depois seu marido, e ella houveram este
Reino do Algarve é a seguinte.

El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha
del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos
Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da
conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela parte do Campo
Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os
Mouros Despanha já não tinham livre alguma propria conquista dezejando
acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a
Deos em semelhante guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a
qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um
dezejo e tenção conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu
marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em
Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como
aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe
tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e havendo depois
tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e
rezões que seu dezejo e necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a
cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei
seu marido, e seu, que désse a elles, e a seus netos, que cada dia
creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o
Mestre de San-Tiago eram já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal,
que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom
Diniz, que a poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já
eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não
eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na
del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.

Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por Reaes
condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça
de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em todo
satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente,
e selada de seu selo de chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação
ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D.
Diniz seu filho, e a todolos filhos, e filhas que delles decendessem
para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos
Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal condição que o sobredito
Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito
Rei Dom Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros,
quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além desta
doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom
Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no
Algarve, porque lhe notificou esta doação, que tinha feita, e lhes
mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a
vista, e conversação da Rainha sua filha pola grande afeição que a ella
tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella
quizera, pelo qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei Dom
Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão
honrada, e tão dezejada doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo
Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito
conhecimento, e grande amizade.

E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do
Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu bisavô
El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e
posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos Castellos douro em campo
vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e
trazem, segundo atraz brevemente dice.



CAPITULO XI


_Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve,
tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D.
Payo Correa_


E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte
verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande
diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo
ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do
Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu
caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim,
que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór,
que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito
Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes
percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da
Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a
lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu
Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por
esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito
esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa,
que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso
de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa
de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez
sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com
sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes
concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes
estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a
saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do
muro da Villa até a porta, que agora dizem dos _Freires_, e o segundo
combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos
Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico
homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar
outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram _de João de Buim_,
e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado
outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate
del-Rei.

E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros
Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom
Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom
João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e
por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão
aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e
afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque
perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar,
El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no
mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios
fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal,
que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem
no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os
Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por
mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o
ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e
atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates
que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que
bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim
esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei
para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na
Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.

E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era
acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto
já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no
dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e
como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre
de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por
mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles
Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros
salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir
aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não
deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que
tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era
dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes
vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso
anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que
(posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que
sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o
contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do
Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa
para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo,
de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser
escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.

El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa
delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a
conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do
alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a
todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque
já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram
sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não
fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e
El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse
nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem
pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e
outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e
que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e
estancias, que lhe foram ordenadas.

E o concerto que El-Rei fez com os Mouros foi, que elles Mouros da Villa
lhe fizessem, dessem e pagassem juntamente aquelle mesmo foro, e
serviço, e todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu Rei
Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas cazas, vinhas, e Cidades
assi como dantes as tinham, e que El-Rei os amparasse, e deffendesse
assi de Mouros como de quaesquer outras gentes, e nações, que lhe mal, e
nojos quizessem fazer, e que aquelles que para alguns Lugares de Mouros
se quizessem ir, que livremente com todas suas cousas o podessem fazer,
e andassem com El-Rei quando lhe comprisse, e que lhe fizesse por esso
bem, e mercê. E por esta maneira cobrou El-Rei a Villa de Farão no mez
de Janeiro de mil duzentos e setenta (1270).



CAPITULO XII


_Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur tomou o
Mestre de San Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração que se
fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem_


Como El-Rei cobrou a Villa de Farão, como é dito, logo a poucos dias
elle, e o Mestre foram com suas gentes cercar a Villa de Loulé, e sem
prolongado cerco, ainda que fosse com dano dos Christãas em breve a
cobrou; e porque o Mestre de San-Tiago trazia em sua companhia bons
Cavalleiros, e mui esforçados, destes se acertavam, que nos combates das
Villas, e pelejas dos Mouros que por sua bondade não receavam de
commetter, muitos morriam, e havendo El-Rei desso piedade, e sentimento
se diz, que em acabando de tomar esta Villa de Loulé dice ao Mestre, que
lhe pezava muito de tão bons Cavalleiros como eram os seus, morrerem
assi nestes combates, por quanto eram homens singulares, escolheitos, e
que o Mestre lhe respondeo.

«Senhor não vos anojeis das mortes destes, que acabaram suas vidas em
seu proprio officio, e de tanto seu merecimento, pois é em serviço de
Deos, e por honra, e louvor de sua Fé, e se o haveis, porque são
Cavalleiros eu posso logo fazer outros tantos». E de Loulé cavalgou o
Mestre, e correndo a terra dos imigos contra o Cabo, houve avizo certo
que muitos Mouros juntos iam a via Daljazur, e uns dizem, que este
ajuntamento faziam para com outros consultarem sobre o que fariam por
Silves, e Tavilla, e os outros Lugares, que eram tomados, e outros
affirmam que iam para uma voda para que eram convidados, e esta parece a
cauza, e rezão mais conforme, porque os Mouros Daljazur sahiram a uma
legoa a receber os do Cabo, e uns, e outros vinham mais de festa, que de
guerra, ca muitos delles foram achados sem armas, e com elles saltou o
Mestre de que matou, e cativou os que quiz, e alguns que se quizeram
salvar na Villa para que foram fogindo perseguidos do Mestre não tiveram
acordo de çarrar as portas, por quaes o Mestre entrou de volta com
elles, e tomou o Lugar sem algum partido dos Mouros.

E Dalbofeira se acha por mais certa opinião, que em tempo deste Rei foi
tomada dos Mouros por o Mestre Daviz Dom Lourenço Affonso, e assi parece
rezão, porque elle foi sempre, e é hoje da dita Ordem. E por estes
lugares, que dos Mouros se tomaram se acabou de conquistar toda a terra,
que nós os Portuguezes chamamos Algarve, mas para deste nome não virem
duvidas, e confuzão aos que as Estorias antigas Dafrica, e Despanha
lerem, é de saber, que Algarve é nome Arabico, e o Reino, e Senhorio,
que os Mouros chamavam do Algarve era mui grande, e de grandes
potencias, porque começava no Cabo de São Vicente, e seguia pela costa
Despacha até Almiria, e pela banda Dafrica se estendia até Tremecem, em
que entravam Fez, e Cepta, e Tangere, que diziam de Benamarim, porque os
Lugares, que os Reis de Portugal até agora tem na parte do Algarve
daquem már, que é em Hespanha são estes, a saber, Estombar, Alvor, Villa
nova de Portimão, Cacella, Paderne, Tavilla, Farão, Loulé, Silves, e
Albufeira, Aljazur, e Alcoutim, e Castro Marim, e Lagos, e destes alguns
são Lugares novos, que em tempo dos Reis de Portugal novamente depois se
fizeram, e reformaram.

E destes Lugares do Algarve depois que os El-Rei Dom Affonso houve a seu
poder, e Senhorio se acha, que com suas Galés, e outros muitos navios
fez sempre de continuo crua guerra aos Mouros Dafrica, que em seus
corpos e fazendas recebiam grandes danos e prezas, e El-Rei Dom Affonso
por seu grande esforço, e bons feitos, tinha antre os Reis principais
Christãos mui louvado nome, pelo qual se acha que o Papa por esta
honrada fama del Rei lhe mandou por meo dum Frei Payo, Ministro da
ministração dos Freires de San-Tiago rogando-lhe que em remissão de seus
peccados, quizesse tomar a Cruz de Jesu Christo contra os Mouros dultra
már, que tiranamente tinham a Caza Santa em desprezo da Fé, e da
Religião e que El-Rei respodeo, que se El-Rei de França a esta conquista
passasse em pessoa, que lhe prometia, que elle tambem com a sua
passasse, salvo se alguma outra guerra, ou tamanha necessidade o
impedisse, porque o não podesse fazer, e por esso ambos não foram,
porque o derradeiro Rei de França, que por recobrar a Caza Santa passou
a ultra már, foi El-Rei São Luis de França primo com irmão deste Dom
Affonso de Portugal, filhos de duas Irmãs, quando levou comsigo a Rainha
Dona Margarida sua molher, e elle, e dous Irmãos seus foram dos infieis
prezos, e cativos na grande, e crua batalha, que ouveram com o gram
Soldam, junto com Damiata do Egypto, como em outras partes já dice, o
que foi muito antes do tempo deste requerimento do Papa, segundo está na
Coronica de França, e em outras mais largamente se contem.



CAPITULO XIII


_Como o Reino do Algarve por divisões que houve foi posto em terçaria de
Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez_


Como El-Rei de Portugal foi em posse pacifica, o Mestre Dom Payo Correa
se tornou a seu Mestrado, e deu conta a El-Rei Dom Affonso de Castella
de todo o que era passado, o qual para mais firmeza, e maior seguridade
das condições com que a El-Rei seu genro fizera sua doação do Algarve,
houve por bem, que o dito seu genro as prometesse, e segurasse com
menagem, e juramento em sua propria pessoa, para que o dito Rei Dom
Affonso de Castella enviou a Portugal com seu poder abastante ao Ifante
D. Luis seu irmão, que diceram de Pontes, filho del-Rei Dom Fernando, e
da Rainha Dona Joana sua segunda molher, filha do Conde Dom Simão de
Pontes, e sobrinha del-Rei Dom Luis de França, o qual álem de tomar
del-Rei de Portugal todas as seguridades conforme as condições de sua
doação, ainda o dito Ifante para maior seguridade, e mais honesta escuza
del-Rei D. Affonso de Castella, para os de seu Reino, que o reprendiam,
e acuzavam por tal doação, quiz que todas estas Villas e Castellos
fossem, como foram logo entregues a João de Boim, e Pedro Annes, seu
filho, Vassallos e naturaes del-Rei de Portugal, que eram pessoas de
limpo e nobre sangue de grandes cazas, para que por elles os tivessem de
fieldade com menagem de juramento que fizeram, que quando el-Rei de
Portugal não comprisse a condição dos cincoenta Cavalleiros, que a
El-Rei de Castella em sua vida havia de dar, que elles com suas pessoas,
e com as ditas Villas e Castellos servissem a El-Rei de Castella, e
comprissem inteiramente tudo o que El-Rei de Portugal era neste cazo
obrigado a cumprir.

E porque El-Rei de Portugal não foi desta terçaria do Reino do Algarve
muito contente, e dice por outros desvairos que houve com Castella sobre
partições, e termos dos Reinos, foram estes Reis desacordados de que
El-Rei de Castella se sentia mais aggravado, mas por meo da Rainha Dona
Breatiz, que como virtuosa, e prudente procurou logo antre elles boa
paz, e concordia, vieram logo por Embaxadores a Portugal o dito Dom Payo
Correa Mestre de San-Tiago, de que já dice, e Dom Martim Nunes, Mestre
da Cavallaria do Templo nos tres Reinos Despanha, e Dom Affonso Garcia,
Adiantado mór no Reino de Murcia, os quaes pozeram antre elles taes
convenças, com que perderam todo o dezamor, e escandalo, que antre elles
havia, e ficou assentado, que El-Rei de Portugal livremente, e para
sempre despozesse de todalas terras, e Villas, e couzas do Algarve todo
o que quizesse sem embargo de todalas outras promessas e condições que
antre elles fossem postas, salvo da ajuda dos cincoenta Cavalleiros de
que o não revelou, e com esto os Embaxadores se tornaram, e acharam
El-Rei de Castella em Badalhouse, que logo enviou suas provizões ao dito
João de Boim, e Pedro Anes seu filho, porque lhe mandou que entregassem
a El-Rei Dom Affonso seu genro todalas Villas e Castellos do Algarve, e
se elle fosse fallecido, que as entregassem a El-Rei Dom Diniz seu
filho, e lhas alevantou com todalas crauzolas, e solenidade, e todo
preito, e menagem, que por quaisquer obrigações, e couzas do Algarve
tiveram feito a elle, ou a outrem em seu nome, e por Carta asselada
feita em Badalhouse Mercoles dezaseis dias andados de Fevereiro da era
de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e sobscrita por o Secretario
Millão Paes, que por mandado del-Rei a fez escrever.



CAPITULO XIV


_Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu neto
a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre_


E porque a este tempo o Ifante D. Diniz herdeiro filho del-Rei de
Portugal, posto que fosse moço era já em idade para poder caminhar,
El-Rei, e a Rainha seus padres acordaram de o enviar, como enviaram
muito honradamente a Castella a visitar El-Rei Dom Affonso seu avô, para
lhe ter em mercê a doação, e avenças passadas, e assi para lhe pedir
relevamento das mais obrigações, e serviço dos cincoenta Cavalleiros, e
assi com mui nobre companhia chegou a Sevilha onde achou El-Rei, que o
recebeo, e agazalhou com muitas festas, e honras, e com sinaes de grande
amor, a quem o Ifante Dom Diniz passados os comprimentos, e visitações,
e bem ensinado da instrução, que levava pedio por mercê a El-Rei seu
avô, que daquella obrigação dos cincoenta Cavalleiros, e assi de
qualquer outra que tocasse ao Algarve, quizesse para sempre relevar a
El-Rei Dom Affonso seu padre, e a elle, e aos que delle decendessem, na
qual cousa segundo a Coronica de Castella conta, El-Rei esteve algum
pouco suspenso, e com os grandes de seu Reino quiz poer o caso em
Conselho, no qual por só Dom Nuno de Lara com rezões que pareciam
onestas, e de bem de seus Reinos ouve alguma contradição, mas os outros,
que logo conheceram a vontade del-Rei, que era satisfazer em todo a seu
neto, todos lhe aprovaram, e louvaram, e sobre este assento andando o
Ifante Dom Diniz com El-Rei seu avô foram a Jaem, donde houve por bem
que o Ifante se tornasse, como tornou a Portugal, e lhe mandou dar uma
carta que trouxe para El-Rei seu padre, escrita em pergaminho em
palavras Castelhanas, e asselada de seu selo pendente das Armas de
Castella, e de Lião, que tornadas fielmente em Portuguez por mim
Coronista, que a propria Carta vi, diziam nesta maneira.

«Saibam quantos esta Carta virem, como eu Dom Affonso pola graça de Deos
Rei de Castella, e de Toledo, e de Lião, de Galiza, de Sevilha, de
Cordova, de Murcia, e de Jaem, quito para sempre a vós Dom Affonso per
essa mesma graça Rei de Portugal, e do Algarve, a menagem que fizestes a
mim por carta, ou por cartas, e a Dom Luis meu irmão, em meu nome, para
fazer a mim comprir os preitos, e posturas, e as convenças, que foram
postas antre mim, e vós, e Dom Diniz, e os outros vossos filhos, e
vossos herdeiros, por rezão dos cincoenta Cavalleiros, que a mim deviam
ser feita em meus dias pelo Algarve, a qual ajuda, e os quaes preitos, e
posturas, e menagens em qualquer maneira que fossem feitas assi por
Cartas, como sem Cartas, eu quito para sempre a voz, e Dom Diniz, e aos
outros vossos filhos, e herdeiros que nunca por esso a mim, nem a outrem
por mim, vós nem elles, nem outrem por vós sejaes, nem sejam teudos de
nhuma couza por rezão dos Castellos, nem da terra do Algarve, que vos
dei, e outorguei, que se alguma Carta, ou Cartas parecer, ou parecerem
sobre a menagem, ou menagens, ou sobre preitos, ou posturas, ou avenças,
ou sobre o serviço, ou ajuda que a mim devesse ser feito, ou feita pelos
Castellos, ou pola terra do Algarve, que desdaqui em diante nunca
valham, e sejam quebrados, e de nhuma formidão, e renuncio, e quito todo
o direito, e toda demanda, que eu haveria, ou haver poderia por esta
Carta, ou por essas Cartas contra vós ou contra Dom Diniz, ou contra os
outros vossos filhos, ou vossos herdeiros, ou contra os Cavalleiros que
tivessem, ou tiveram os Castellos do Algarve em tal guiza, que nunca a
mim essa Carta, ou Cartas possa nem possam preitar, nem a outrem por
mim, nem a vós, nem Dom Diniz, nem a vossos filhos, nem a vosssos
herdeiros, nem aos sobreditos Cavalleiros empecer, e em testemunho da
sobredita couza, dou a vós sobredito Rei de Portugal e do Algarve esta
minha Carta aberta asselada de meu selo de chumbo, que tenhais em
testemunho, feita a Carta em Jaem por nosso mandado Sabbado sete dias do
mez de Maio de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e eu Milão Peres
a fiz escrever».



CAPITULO XV


_Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para El-Rei
D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser desobedecido, e
como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se acrecentarem a
Portugul os Lugares de riba Dodiana_


Com esta Carta, e com grandes davidas que o Ifante D. Diniz recebeo
del-Rei Dom Affonso seu avô se tornou a Portugal com que El-Rei seu
padre foi muito alegre, e com elle veo o Mestre Dom Payo Correa, que
depois de tornado a Castella não soube mais delle, nem o que depois fez,
salvo que no fim de seus dias se recolheo á Villa de Ucles, que era
Cabeça do Convento do seu Mestrado de San-Tiago em Castella, onde se diz
que bem, e catolicamente acabou sua vida já velho a dés dias de
Fevereiro de mil e duzentos setenta e cinco annos, (1275) e que mandou
que morto o trouxessem a Tavilla, que elle ganhara dos Mouros, de que
escondidamente foi ahi trazido, e sepultado na Egreja de Santa Maria
antre o Altar mór, e a parede da Egreja.

E passados depois alguns annos andando a era de mil duzentos e setenta e
um, havendo contenda na jurdição do Imperio de Roma, que vagara por
morte de Federico o segundo, que foi mao, e erege Emperador dos Romãos,
e grande perseguidor das cousas da Santa Egreja, alguns Eleitores
elegeram a Rodufo Conde de Cambra, irmão del-Rei de Inglaterra, e outros
elegeram, e chamaram logo para o Imperio este Rei Dom Affonso de
Castella, o qual mui poderoso de armas, e gentes, e assi mui abastado de
riquezas, depois que leixou em Castella jurado por Rei, e seu sobcessor
ao Ifante D. Fernando de Lacerda seu filho primogenito, logo passou em
França esperando de ser logo no dito Imperio sem contradição confirmado
por o Papa Gregorio decimo, ao tempo em Lião Sola nova de França fez
Concilio geral, onde o dito Rei D. Affonso achou já eleito e confirmado
o dito Rodufo com quem competia, e agravando-se desso ao Papa, que
encontrou na Villa de Belicaudo em França junto com Avinhão, finalmente
confortado de Sua Santidade, e rogado, que por se evitar cisma, e
guerras antre os Christãos, que renunciasse o direito que no dito
Imperio tinha, e elle o fez, e tornou-se em Espanha onde achou falecido
de peste o dito Ifante Dom Fernando, seu filho maior, que por assossego
da sobceção de Castella, e de Lião sobre que os Reis de França, e de
Castella competiram, fora cazado com a Ifante Dona Branca filha del-Rei
S. Luis a que pertencia ter direito nos ditos Reinos Despanha por ser
filho da Rainha Dona Branca filha del-Rei Dom Affonso o noveno, que
venceo a batalha das Navas de Toloza, e desta Ifante Dona Branca o dito
Ifante Dom Fernando tinha já havido dous filhos, a saber Dom Affonso, e
Dom Fernando de Lacerda, a que muito mais claramente dizem da guedelha,
porque este apelido de Lacerda não é de alguma geração, nem memoria
passada dos seus progenitores de uma parte, nem da outra, mas sómente
lhe foi posto nome aventicio, porque o dito Ifante Dom Fernando, que
primeiramente se chamou de Lacerda, quando naceo trouxe do ventre da
Rainha Dona Violante Daragão sua madre uma guedelha de cabelos nos
peitos a que chamam Lacerda, e este Dom Affonso por contrato do
cazamento, e por direito comum pertencia mais a sobcessão de Castella
que outro algum.

Mas ao tempo que o dito Ifante Dom Fernando faleceo era tambem em
Castella o Ifante Dom Sancho seu irmão lidimo, que a auzencia del-Rei
Dom Affonso seu padre, e por morte do irmão tomou logo posse da
governação, e defenção do Reino, em que trabalhou de ser como singular
Principe, porque resistio com batalhas, e grandes forças aos Reis de
Grada, e Marrocos, que entraram em Espanha, e não consentio que Dom
Affonso de Lacerda seu sobrinho fosse jurado, nem obedecido por
sobcessor de Castella, e El-Rei Dom Affonso em chegando de França,
procurou logo que o dito Ifante Dom Sancho por todolos Estados do Reino
fosse, como foi jurado, e havido por seu sobcessor, sem embargo doutro
juramento, que ao dito Ifante Dom Fernando por si, e por seus filhos, e
sobcessores era feito, e a Rainha Dona Violante molhar del-Rei Dom
Affonso de Castella anojada por se denegar a sobcessão a seus netos, e
principalmente a Dom Affonso o primeiro com receo que houve de os
matarem em Castella, se foi com elles para El-Rei Dom James deste nome o
primeiro, e dos Reis Daragão o decimo, que era padre della, donde enviou
pedir a El-Rei Dom Affonso seu marido depois que veo de França, que pois
elle por si ganhara dos Mouros o Reino de Murcia, que o désse ao Ifante
Dom Affonso seu neto, com que para sua honra, e estado seria satisfeito,
e renunciaria por esso todo o direito que tivesse na sobcessão de
Castella, no que El-Rei levemente, e com san vontade consentia, mas o
Ifante Dom Sancho em todo o contrariou, que com ameaças de morte, que
fez não leixou ir ao Papa os Embaxadores que El-Rei seu padre sobre esso
lhe mandava, dizendo que como o Ifante Dom Fernando seu irmão falecera,
logo o Deos leixara por herdeiro de todolos Reinos, e couzas de que
El-Rei seu padre era Rei, e Senhor.

E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos remedear esta denegação
do Ifante seu filho, e para que seu neto houvesse toda via o Reino de
Murcia, fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, a que o
Ifante Dom Sancho requereo com muitas rezões, que faziam por elle, que
por alguma maneira não consentissem no requerimento del-Rei, e assi
descontente o Ifante antes de se tomar alguma concruzão, se foi para
Cordova, e El-Rei depois de declarar aos povos as muitas cauzas, e
razões porque de direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonso seu
neto, os Procuradores para no cabo responderem com madura deliberação,
como elle requeria, pediram espaço dalgum tempo, para lhe tornarem
reposta, os quaes sem lha darem se foram logo com medo ajuntar com o
Ifante Dom Sancho em Cordova, onde sendo delle bem recebidos,
concordaram, que por quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria
ajuntamento dos mais principaes Lugares, e grandes do Reino, elles dahi
a certo tempo fossem, como foram ahi juntos, salvo os Concelhos
Dandaluzia, que sempre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes assi
juntos em Valhadolid era hi o Ifante Dom Sancho filho del-Rei, e o
Ifante Dom João seu irmão, e o Ifante Dom Manoel seu tio, e Dom Lopo
Senhor de Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas praticas, e
apontamentos, que antre si fizeram leixaram todos a determinação da
sentença ao dito Ifante Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou
a sentença, e dice, que por quanto El-Rei Dom Affonso seu irmão matara o
Ifante Dom Fadrique tambem seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos
Cameyros seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, que perdesse
por esso a justiça, e porque se dezaforaram os Fidalgos, e os Concelhos
com dano, e perda delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe
pagassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera más moedas, que
não houvesse do Reino preitas, nem serviços, nem martineguas, nem moedas
foreiras, e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar Rei de
Castella, e de Lião.

E preguntados os Procuradores, e povos se aprovavam esta sentença,
respondeo por todos um Diogo Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos
parecia bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as rezões que
dicera, e mais por a prodigalidade del-Rei Dom Affonso, que para o
resgate do Emperador de Constantinopla dera das rendas de Castella
cincoenta quintaes de prata, e mais por dar o Algarve a seu genro El-Rei
Dom Affonso de Portugal, e lhe quitar ajuda, e o serviço dos cincoenta
Cavalleiros em que era obrigado, e porém que lhe parecia couza honesta,
se ao Ifante Dom Sancho assi bem parecesse, que elle em vida del-Rei seu
Padre senão chamasse Rei, no que o Ifante consentio; e com esto a
obediencia de todos os Lugares logo foi alevantada a El-Rei, salvo a de
Sevilha, onde El-Rei se recolheo; e perseguido de muitas necessidades
enviando rogar, e encomendar aos Prelados, e pessoas de auctoridade do
Reino, que pozessem concordia, e boa paz antre elle, e seu filho, elles
segundo alguns dizem o não fizeram, antes o contrariavam.

Com esta tamanha necessidade enviou a pedir ajuda a El-Rei Dom Affonso
seu genro, que por em tempo de tanta fortuna ser agardecido ás boas
obras, e graças que delle tinha recebidas, lhe mandou trezentos
Cavalleiros Portuguezes pagos á sua custa por muito tempo, que por
honra, e serviço del-Rei o fizeram de maneira em Castella, que sua fama,
e bom nome será sempre lembrada, e as Coronicas Despanha, que eu vi dão
desso craro testemunho, e destes trezentos Cavalleiros de Portugal, que
vieram, e andaram em serviço del-Rei Dom Affonso, creo que se tomou a
opinião errada, que em alguns livros vi, em que tem, que a obrigação de
que este Rei Dom Affonso relevou a El-Rei de Portugal seu genro, e a
El-Rei Dom Diniz seu neto, era de trezentos Cavalleiros com que era
obrigado de o ajudar, e servir quando lhe comprisse, a tal sentença, e
opinião são errados, porque a obrigação, que El-Rei Dom Affonso, e
Ifante Dom Diniz seu filho tomaram por a sobcessão do Algarve, do que
foram relevados, era sómente de cincoenta Cavalleiros, que em vida
del-Rei Dom Affonso de Castella, contra todolos Reis Despanha lhe haviam
de dar, e a verdade desto eu Coronista verdadeiramente a vi nas proprias
doações, quitações, e privilegios assellados, e auctorizados, que
sobresso se concederam, os quais estão no Castello de Lisboa, na Torre
do Tombo de Portugal, de que eu sou Guarda mór, e outros semelhantes
deve haver nos Cartorios de Castella.

E porém a guerra, e desavença antre El-Rei Dom Affonso de Castella, e o
Ifante Dom Sancho seu filho durou muitos annos, nem cessou, salvo por
morte del-Rei, em cuja vida padeceo muitas necessidades, e foi sempre
perseguido de mui contrairas fortunas, por as quaes meteo por sua ajuda
em Espanha Abençaf Rei de Marrocos, e seus filhos a que se diz, que
antes de entrarem empenhou sua Coroa por sessenta mil dobras, o qual com
grandes gentes, e poder de Mouros correo a terra dos Christãos, e sem
aproveitarem ao dito Rei de Castella fazendo primeiro nellas muitos
danos, e estragos se volveo em Africa, como na Coronica de Castella esto
milhor, e com mais particularidade se declara.



CAPITULO XVI


_Do falecimento del-Rei D. Affonso de Portugal, como antes de seu
falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro_


A este tempo chegada a era de mil duzentos setenta e oito, (1278) El-Rei
Dom Affonso de Portugal sendo já velho de setenta annos, e perseguido de
dores, e paixões de velhice, por descançar em alguma parte dos
trabalhos, e cuidados do Reino, ao Ifante Dom Diniz seu filho, que era
de dezoito annos, e não era cazado, deu-lhe Caza em Lisboa a dezaseis
dias de Junho do anno sobre dito, e de seu assentamento alem doutras
couzas, lhe ordenou logo mais em dinheiros quarenta mil livras de moeda
antiga, que valiam a respeito dos preços, e valor do ouro, e da prata
dagora dezaseis mil cruzados, porque naquella tempo, segundo é bem
verificado, uma livra valia vinte soldos, e duas livras e meia faziam
cincoenta soldos, que valiam um maravedi douro, que no preço, e pezo
eram os maravedis douro como agora são os cruzados, e ducados.

E do dia que El-Rei deu assi Caza ao Ifante seu filho, e a nove mezes
primeiros seguintes, tendo já feito em mui inteiro acordo seu solene
Testamento, arrependido de seus peccados recebendo como bom Catholico, e
fiel Christão todolos Sacramentos para bem de sua alma, em Lisboa a
vinte dias de Março de mil e duzentos setenta e nove, (1279) acabou sua
vida, e deu sua alma a Deos, em idade de setenta annos, dos quais Reino
trinta e dous, e foi logo soterrado no Moesteiro de São Domingos de
Lisboa, que elle novamente fez, e depois na era de mil e duzentos e
oitenta e nove, foi tresladado seu corpo ao Moesteiro Dalcobaça, pela
Rainha Dona Breatiz sua molher, que ficou viva, e se mandou depois
enterrar com elle no dito Moesteiro Dalcobaça, onde ambos jazem.

Este Rei Dom Affonso fez de novo o dito Moesteiro de S. Domingos de
Lisboa, o qual começou aos tres annos primeiros depois que foi Rei, e o
acabou em déz annos, e assi fez o Moesteiro de Santa Clara de Santarem,
e povorou, e fez a Villa Destremoz, e reformou, e povorou a Villa de
Beja, que dos tempos dos Mouros era de todo destroida, mas não fez a
torre grande do Castello, por que esta fez seu filho, El-Rei Dom Diniz,
e assi deu bons foraes a muitos Lugares do seu Reino, e em umas grandes
fomes, que nelle houve em seu tempo, se acha que uzou de grande piedade
com seus vassalos, a que proveo com devidos mantimentos, trazidos de
muitas partes de fóra do Reino á custa de suas rendas, e a penhor das
ricas joias de seu tesouro, e foi o primeiro que se intitulou Rei de
Portugal, e do Algarve, e que primeiro por esta cauza poz a bordadura
dos Castellos, como atraz é já dito.


DEO GRATIAS



INDEX

DAS COUSAS NOTAVEIS


*A*


Abenafaam Rei mouro é vencido na batalha de Silves onde morreo afogado
em um rio pag. 40 a 42

Affonso III (D.) Onde, e quando foi levantado Rei de Portugal, pag. 16.
Foi casado segunda vez com Dona Breatiz sua sobrinha, filha natural
del-Rei D. Affonso X de Castella, pag. 17. Foi o primeiro que se
intitulou Rei de Portugal e dos Algarves, e pôz no Escudo além das
Quinas os Castellos, pag. 17. Foi muito amante da Justiça, e grande
reedificador, pag. 18. Sendo casado com Dona Matildes, Condessa de
Bolonha a deixou, e vindo a Portugal se recebeu com sua sobrinha Dona
Breatiz, pag. 19. Não admitte a Embaixada dos Cavalleiros que vieram a
Portugal com a Condessa Dona Matilde para que a recebesse em sua
companhia, antes partem injuriados da sua presença, pag. 21.
Estranha-lhe o Papa este procedimento, e lhe manda intimar censuras pelo
Arcebispo de S. Tiago, e não cede da sua pertinacia pag. 23. Dos filhos
que teve de Dona Breatriz, pag. 24. Amou muito a sua filha a Infanta
Dona Branca a quem deu a Villa de Monte-mór-o-velho, e em testamento lhe
deixou mais de dés mil livras, pag. 25. Das diversas terras que juntou á
Corôa com o casamento de Dona Breatiz, pag. 26. Como alcançou o Reino do
Algarve, e se intitulou Rei delle, pag. 45. Conquista gloriosamente a
Villa de Faro, pag.^s 46 a 50. E' exhortado pelo Papa para conquistar a
Terra Santa, pag. 53. Manda trezentos Cavalleiros em soccorro de seu
sogro, que lho pedira por estar dessapossado do Reino, pag. 63. Em que
dia e anno morreo, pag. 65. Onde foi enterrado, e para que parte foi
tresladado o seu corpo, pag. 66. Edificios que fez, ibi.

Affonso X (D.) De Castella, teve de Dona Mayor Guilhelme de Gusmão sua
manceba e Dona Breatiz que cazou com D. Affonso III de Portugal, pag.
19. Amou excessivamente a esta filha e lhe deu um grande dote quando se
recebeo com aquelle Principe, ibi. Deixou a sua neta a Infanta Dona
Branca, grande copia de dinheiro, pag. 26. Sucedeu nos reinos de
Castella, e de Lião a seu Pae D. Fernando, pag. 28. Doa a El-Rei D.
Affonso III o Reino do Algarve, e com que condições, pag. 45. Concede á
petição de seu neto o Infante D. Diniz a izenção dos cincoenta
Cavalleiros com que doara a seu pae o Reino do Algarve, pag. 56 e 57.
Sendo eleito Emperador dos Romanos, parte a França para ser confirmado
pelo Papa, e acha já de posse do Imperio a Rodulpho, e volta para
Castella, pag.^s 59 e 60. Por ter morto seu irmão o Infante D. Fadrique,
e a seu sogro D. Simão Rodrigues Cameiros é dessapossado do Reino por
sentença de seu irmão o Infante D. Manuel, pag. 62. Pede soccorro a seu
genro D. Affonso III para rebater esta violencia, e lho manda, pag. 63.

Affonso (Infante D.) Filho de Affonso III de Portugal, e Dona Breatiz,
casou com Dona Violante filha do Infante D. Manuel de Castella, e da
Infanta Dona Constancia de Aragão, pag. 25.

Affonso Garcia (D.) Adiantado-mór do Reino de Murcia, é mandado por
Embaixador de Castella a pacificar ao seu Principe com D. Affonso III,
pag. 55.

Albofeira. E' conquistada esta Villa por D. Lourenço Affonso Mestre de
Aviz, pag. 52.

Algarve. Como foi conquistado por D. Payo Corrêa, e das gloriosas
vitorias que alcançou dos Mouros, pag.^s 29 a 32. Com que condições foi
doado por El-Rei de Castella a El-Rei D. Affonso III de Portugal, pag.
45. Que terras comprehendia quando era possuido dos Mouros, e quaes
sejam as que tem depois que o dominaram os Portuguezes, pag. 52.

Aljustrel. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, e depois de ser entregue
a D. Sancho II de Portugal, o deu este Principe á Ordem de San-Thiago,
pag. 28 e 29.

Aljuzur. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, pag. 52.

Alvaro Garcia. Cavalleiro de San-Thiago, é morto pelos Mouros em Tavira,
e honorificamente sepultado, pag. 39.

Alvor. E' couquistado por D. Payo Corrêa, pag. 40.

Arcebispo de San-Thiago. E' mandado pelo Papa que admoestasse a D.
Affonso III que largasse a Dona Breatiz por estar viva sua primeira
mulher a Condessa Dona Matilde, e que repugnando o emprazasse para que
em quatro mezes apparecesse pessoalmente na sua prezença, pag. 23.


*B*


Beja. Foi reformada, e povoada por D. Affonso III, pag. 60.

Beltram de Caya, cavalleiro alentado é morto pelos Mouros em Tavira, e
como foi honorificamente sepultado, pag. 39.

Branca (Rainha Dona) filha del-Rei D. Affonso Noveno que venceo a
batalha das Navas de Toloza, foi mãe de S. Luis Rei de França, pag. 60.

Branca (Infanta Dona) filha de Affonso III de Portugal, e da Rainha Dona
Breatiz se recolheo no Mosteiro de Lorvão, e foi Senhora das Olgas de
Burgos onde sem cazar faleceo, pag. 25. Possuio grandes terras em
Castella, como em Portugal, ibi.

Branca (Infanta Dona) filha de S. Luis Rei de França, foi mulher do
Infante D. Fernando de Lacerda, filho primogenito de D. Affonso X de
Castella de quem teve dous filhos, pag. 60.

Breatiz (Rainha Dona) filha natural de D. Affonso X de Castella, foi
casada com seu tio D. Affonso III de Portugal, pag. 17 e 18. Mandou
tresladar o corpo de seu marido para o Convento de Alcobaça, onde foi
enterrada, pag. 66.


*C*


Campo Maior. Foi dada esta Villa por El-Rei D. Diniz a sua irmã a
Infanta Dona Branca, pag. 24.

Castellos. Os que se vêm no Escudo das Armas de Portugal, foram postos
por D. Affonso III, quando lhe foi dado em dote o Algarve, e não por
serem do Condado de Bolonha, pag. 17.

Constança (Infanta Dona). Filha de D. Affonso III e Dona Breatiz, foi
com sua mãi a Sevilha a ver seu pai, que assistia naquella Cidade, onde
faleceo, e foi conduzida ao Convento de Alcobaça, e nelle está
sepultada, pag. 26.

Cordova. Quando foi esta cidade ganhada por El-Rei D. Fernando de
Castella, pag. 26.


*D*


Infante D. Diniz. Foi filho primogenito de D. Affonso III de Portugal, e
D. Breatiz, que depois sucedeo no Reino a seu pai, pag. 24. Onde e
quando naceo, ibi. Edificou o Mosteiro de Odivelas onde está sepultado,
ibi. Sendo Rei deu a sua irmã a Infanta Dona Branca a Villa de Campo
Maior, pag. 24. Parte a Castella para pedir a seu avô D. Affonso X,
exima ao Reino de Portugal da obrigação dos cincoenta Cavalleiros com
que lhe doara o Algarve, e depois de algumas contradições o alcança,
pag. 56. Em que dia e anno lhe fez casa seu pai, pag. 56. Edificou a
Torre do Castello de Beja, ibi.

Diogo Affonso. Alcaide-mòr de Toledo aprova em nome de todos os
Procuradores que estavam juntos em Valhadolid a determinação do Infante
D. Manoel com a qual dessapossou do Reino de Castella a seu irmão D.
Affonso X, pag. 62.

Duram Vaz. Cavalleiro insigne é morto pelos Mouros em Tavira, e como foi
enterrado, pag. 39.


*E*


Estevão Vaz, Cavalleiro famoso morre em Tavira, e como foi
honorificamente sepultado, pag. 39.

Estremoz. Foi edificada esta Villa e povoada por D. Affonso III, pag.
66.


*F*


Fadrique (Infante D.) Foi morto por seu irmão D. Affonso X de Castella,
e por este motivo foi dessapossado do Reino por determinação de seu
irmão o Infante D. Manoel, pag. 62.

Faro. Como, e quando foi conquistada esta Villa por D. Affonso III, pag.
47 a 50.

Fernão Lopes (D.) Prior do Esprital assistio com D. Affonso III na
conquista de Faro, pag. 48.

Fernando (El-Rei D.) De Castella, quando tomou Cordova? pag. 27. Em que
anno conquistou a cidade de Sevilha, pag. 28. Quando morreo. ibi.

Fernando (D.) Filho natural del-Rei D. Affonso III, foi Cavalleiro da
Ordem do Templo, e aonde está sepultado? pag. 26.

Fernando de Lacerda (Infante D.) Filho primogenito de D. Affonso X de
Castella, é jurado por sucessor da Coroa quando seu pai passou a França
a coroar-se por Emperador dos Romanos, pag. 59. Foi cazado com Dona
Branca filha de S. Luis Rei de França, ibi. Morreo de peste, pag. 60.
Teve dous filhos, e como se chamaram, ibi. Porque tomou o appelido de
_Lacerda_, ibi.


*G*


Gregorio X roga a D. Affonso X de Castella que por evitar algum scisma
se recolha ao seu Reino, quando vinha a coroar-se Emperador dos Romanos
por já estar de posse desta dignidade Rodulpho Conde de Cambra, irmão
del-Rei de Inglaterra, pag. 60.

Garcia Lopes (D.) Sendo privado de Mestre da Ordem de Calatrava lhe
sucedeo João Nunes do Prado, pag. 24.

Garcia Rodrigues. Deu os meios a D. Payo Correa para haver de conquistar
o Algarve, pag. 30. Morre alentadamente em Tavira com mais seis
companheiros acometidos por um grande numero de Mouros, pag. 37 e 38.


*J*


João de Avinhão (D.) Chançarel assistio com D. Affonso III na conquista
de Faro, pag. 48.

João de Boim. Assistio no lanço de um muro na tomada da Villa de Faro,
que ao depois tomou o seu nome o lugar que tinha ocupado, pag. 48. Tomou
entrega de todos os lugares do Algarve conquistados por ordem del-Rei de
Castella para em seu nome os entregar a seu genro D. Affonso III, e
quando se celebrou este ajuste, pag. 54.

João Nunes do Prado, Cavalleiro da Ordem de Calatrava de que foi Mestre,
foi reputado filho da Infanta D. Branca filha del-Rei Affonso III de
Portugal, e de um Cavalleiro chamado o Carpiteiro, pag. 25.


*L*


Livra. Que valor tinha uma e duas e meia, pag. 65 Quarenta mil assinou
para renda do Infante D. Diniz seu pai D. Affonso III, ibi.

Loulé é conquistado por D. Affonso III pag. 50

Lourenço Affonso (D.) Mestre de Aviz assiste com El-Rei D. Affonso III
na conquista de Faro, pag. 48. Conquistou a Villa de Albufeira, pag. 52.

Luis (São) Primo com irmão del-Rei D. Affonso III de Portugal foi o
ultimo Rei de França que passou á conquista da Terra Santa, e que
successo teve nesta empreza, pag. 53.

Luis (Infante D.) é mandado por seu irmão D. Affonso X de Castella a
Portugal a firmar as condições com que doara a seu genro D. Affonso III
o Reino do Algarve, pag. 54. Quem foram os pais deste Infante, ibi.


*M*


Manoel (Infante D.) irmão de D. Affonso X de Castella pronuncia em
Valhadolid sentença em presença de muitos Procuradores de Cidades contra
este Principe, para que não lhe obedeçam os povos, se intitule Rei seu
sobrinho D. Sancho, pag. 62.

Martim Nunes (D.) Mestre da Cavallaria do Templo, veio por Embaxador de
Castella a concordar o seu Principe com El-Rei D. Affonso III, pag. 55.

Matilde, (Dona) Condessa de Bolonha sabendo que era morto D. Sancho II
parte de França em uma Armada, e chegando a Cascaes não é admitiida por
seu marido D. Affonso III por estar cazado com Dona Breatiz pag. 21.
Volta para França, e se queixa ao Papa do procedimento de D. Affonso III
o qual sendo advertido pela Pontifice a que largasse a Dona Breatiz, e
não obedecendo se poz interdito em todo o Reino, pag. 23. Onde, e quando
morreo esta Condessa, ibi.

Mayor Guilhelme de Gusmão (Dona) foi manceba de D. Affonso X de
Castella, de quem teve Dona Breatiz, que cazou com D. Affonso III de
Portugal, pag. 19.

Mem do Valle é morto pelos Mouros em Tavira, e de como foi
honorificamente sepultado, pag. 39.

Mertola. Foi conquistada por D. Payo Correa, e depois foi dada por D.
Sancho II á Ordem de San-Tiago, pag. 28.

Monte mór o Velho. Esta Villa foi doada por El-Rei D. Affonso III a sua
filha a Infanta Dona Branca, pag. 25.

Mosteiro. O de São Domingos de Lisboa, e de Santa Clara de Santarem,
foram fundados por El-Rei D. Affonso III, pag. 66.


*N*


Nuno de Lara (D.) Oppõem-se com fortes razões a El-Rei D. Affonso de
Castella, para que não conceda a seu netto o Infante D. Diniz a izenção
dos cincoenta Cavalleiros com que lhe doava o Reino do Algarve, pag. 56.


*O*


Odivellas. Mosteiro de Religiosas Bernardas foi fundado pelo Infante D.
Diniz onde está sepultado, pag. 25.


*P*


Paderne. E' conquistada esta Villa por D. Payo Correa, pag. 43.

Papa. Admoesta a D. Affonso III que largue Dona Breatiz por estar viva
sua primeira mulher, e não obedecendo interditou o Reino todo, pag. 22 e
23. Por morte de Dona Matilde levanta o interdito, e dispensa em que os
filhos que tivera D. Affonso III de Dona Breatiz vivendo Dona Matilde
pudessem suceder no Reino, pag. 24. Pede por Fr. Payo Ministro dos
Freyres de San-Tiago a El-Rei D. Affonso III que conquiste a Terra
Santa, pag. 53.

Payo, (Fr.) Ministro da ministração dos Freires de San-Tiago, é mandado
pelo Papa para que exhorte a El-Rei D. Affonso III a conquistar a Terra
Santa, pag. 53.

Payo Correa, (D). Mestre da Ordem de San-Tiago assistio á Conquista de
Cordova, e Sevilha com El-Rei D. Fernando de Castella, pag. 27 e 28.
Conquistou as Villas de Aljustrel, e Mertola, pag. 28. Como conquistou o
Algarve, e das vitorias que para este fim alcançou dos Mouros, pag. 29 a
32. Toma Tavira com grande mortandade dos Mouros, pag. 39. Conquista
Selir, e Alvor, pag. 40. Alcança uma famosa vitoria de Abenafaam em
Silves, e conquista esta Cidade, pag. 40 e 41. Toma Paderne, pag. 43.
Foi o principal instrumento para que El-Rei D. Affonso III tomasse as
Villas de Faro, e Loulé, pag. 46 a 49. Veio por Embaxador del-Rei de
Castella a concordar este Principe com D. Affonso III, pag. 55. Onde, e
quando morreo, pag. 59. Onde está sepultado, ibi.

Pedro Estaço. Defende um lanço do muro na tomada de Faro, pag. 47.

Pedro Rodrigues, Commendador mór, é morto pelos Mouros em Tavira, e como
foi enterrado, pag. 39.

Portugal. Esteve interdito alguns annos pelo Pontifice, por não querer
D. Affonso III deixar a Dona Breatiz sendo viva a sua primeira mulher
Dona Matilde, pag. 23.


*R*


Rodulpho. Conde de Cambra irmão del-Rei de Inglaterra, é eleito por
Emperador dos Romanos por alguns Eleitores, pag. 59.


*S*


Sancho II de Portugal deu á Ordem de San-Tiago as Villas de Aljustrel, e
Mertola, pag. 29.

Sancho (Infante D.) Filho legitimo de D. Affonso X de Castella toma
posse do governo por morte de seu irmão D. Fernando de Lacerda, pag. 60.
Foi valeroso Principe, ibi. E' jurado por sucessor do Reino, pag. 61.
Convoca os Concelhos em Valhadolid para que não consintam que seu pai dê
o Reino de Murcia a seu neto D. Affonso, e o consegue, pag. 62.

Selir. E' conquistado por D. Payo Correa, pag, 40.

Sevilha. Em que dia, e anno foi conquistada por El-Rei D. Fernando de
Castella, pag. 28. Nesta Cidade morreo este Principe, e quando, ibi.

Simão Rodrigues dos Cameiros, Sogro del-Rei de Castella D. Affonso X é
morto por este Principe, cauza porque o desapossaram do Reino, pag. 62.

Silves. Cidade no Algarve é conquistada por D. Payo Correa do poder dos
Mouros, e como ficaram tributarios a Portugal, pag. 42.


*T*

Tavira. Em que dia, e anno foi tomada por Payo Correa com grande
mortandade dos Mouros, pag. 39. Na Igreja de Santa Maria desta Villa
está sepultado D. Payo Correa, pag. 59.


*U*


Ucles. E' cabeça do Convento do Mestrado de San-Tiago em Castella, pag.
59. Neste lugar morreo D. Payo Correa, ibi.


*V*


Violante (Rainha Dona), mulher de D. Affonso X de Castella receosa de
que matassem a seus netos, partio com elles para Aragão a amparar-se de
seu pae El-Rei D. Jayme, pag. 6l. Pede a seu marido que dê a seu neto D.
Affonso o Reino de Murcia, o que não alcançou, pag. 6l.

Violante (Dona), filha do Infante D. Manoel de Castella, e da Infanta
Dona Constança de Aragão, cazada com D. Affonso, filho de D. Affonso III
de Portugal, e da Rainha Dona Breatiz, pag. 25.


FIM



INDICE DOS CAPITULOS

I--Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como acrecentou os
Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque 16

II--Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em
França a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella 19

III--Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu
marido a não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez 20

IV--Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com
El-Rei Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhes que
della houvesse 24

V--Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este
casamento 26

VI--Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de
conquistar o Algarve, que era dos Mouros 29

VII--Do accordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram
com elle batalha em que foram vencidos 33

VIII--Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que
fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete
Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla 35

IX--Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque
partidos a leixou aos Mouros 40

X--Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que
houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do
Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado 43

XI--Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o
Algarve, tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o
mestre D. Payo Correa 46

XII--Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur
tomou o Mestre de San-Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração
que se fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem 51

XIII--Como o Reino do Algarve por divizões que houve foi posto em
terçaria de Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez 54

XIV--Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu
neto a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre
56

XV--Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para
El-Rei D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser
desobedecido, e como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se
acrecentarem a Portugal os Lugares de riba Dodiana 58

XVI--Do falecimento del-Rei Dom Affonso de Portugal, como antes de seu
falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro 65





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica d'El-Rei D. Affonso III" ***

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