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Title: Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)
Author: Pina, Rui de, 1440-1521
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)" ***

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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Fev. 2008)



BIBLIOTHECA

DE

CLASSICOS PORTUGUEZES

PROPRIETARIO E FUNDADOR

_MELLO D'AZEVEDO_



Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo


CHRONICA

DE

EL-REI D. AFFONSO V

POR

_Ruy de Pina_

VOL. III


_ESCRIPTORIO_

147--Rua dos Retrozeiros--147


LISBOA


1902



CAPITULO CXLI

     _De como se fez em Alcacere a coiraça para defensão e segurança da
     villa, e como D. Duarte, capitão, se houvera de perder_


El-rei entendeu logo no fazimento da coiraça d'Alcacere, por cuja mingua
quando tornou sobr'ella de Ceuta a não pôde soccorrer nem bastecer como
quizera; porque era mais afastada do mar, do que cumpria para navios sem
empedimento e contradição dos de fóra a poderem prover. E tanta ordem e
diligencia se poz n'isso ácerca da pedra cantaria e cal, e madeira, e
officiaes, e cousas a ella necessarias, e assi a gente de guarnição que
tudo defendesse, que com tudo prestes e enviado a Alcacere, a dita
coiraça se começou logo á segunda-feira de Ramos XXII dias de Março do
anno de mil e quatrocentos cincoenta e nove. Na qual obra D. Duarte, de
noite e de dia, para bom exemplo de todos assi servia e melhor que
qualquer outro pobre serviçal que hi andasse.

E em fim por fallecimento de cal; porque a obra se fundou maior e mais
forte do que primeiro cuidaram, a dita coiraça não se acabou senão
depois do S. João do dito anno, e foi ao tempo que D. Duarte era já bem
certificado dos ajuntamentos e apurações e convocações que El Rei de Fez
em suas terras e nas alheias fazia para vir outra vez sobr'elle como
ficara.

E porque para execução do proposito dos mouros era grande impedimento a
coiraça que se fazia de que eram já bem avisados, por deterem e
impedirem a obra com dano e mortes dos officiaes que a lavravam,
acordaram de enviar para isso secretamente certos alcaides, com mil e
quinhentos de cavallo, e outra muita gente de pé, para que dessem
n'elles e trabalhassem por desfazer a dita obra.

E com isto, porque D. Duarte com sua gente não leixava d'entrar e fazer
grandes cavalgadas e estragos nas terras dos mouros, acertou-se que um
dia desavisado do ardil dos alcaides, determinou entrar com a mais gente
que nunca entrara. E estando á noite dois veladores praticando sobre o
muro, aconteceu que por máo avisamento e pouco resguardo d'elles, com
vozes altas um descobriu ao outro a entrada de D. Duarte, declarando
logo por onde havia d'entrar, e os lugares a que havia d'ir, e tudo assi
apontado como que estivera á determinação do caso. E acertou-se que um
mouro almograve, que da lingoa dos christãos tinha bom conhecimento e
era mui ousado, vindo-se de noite lançar ao pé da barreira por escuta,
ouvio toda a pratica d'estes, com que apressadamente logo partio, e foi
logo avisar umas aldeias, de que tomaram um mouro mais despachado, que
indo com grande trigança dar aviso a Tanger, topou de recontro com os
mesmos alcaides que vinham sobre a coiraça, aos quaes o messageiro
contou o caso sobre que ia, havendo que era remedio que lhes Deus a tal
tempo enviava, e elles mui alegres com tal nova lhe prometeram grandes
honras e acrescentamentos; porque lhes pareceu que leixariam entrar D.
Duarte, e sem alguma fadiga o atalhariam e tomariam como quizessem, e
assi sem os trabalhos, mortes e despezas que se lhe aparelhavam, não
sómente impediriam a coiraça, mas cobrariam a villa em que não podia
ficar gente que a defendesse.

E vieram-se os alcaides ao logar d'Anexanuz onde estava um christão
captivo, natural da Villa de Lagos, a que chamavam o Talheiro, o qual
tinha muita amizade e pratica com um mouro, cujo nome era Azmede, que já
fôra em Tavila captivo, e sabendo bem o Talheiro o ardil e determinação
dos alcaides, pela qual a perdição de D. Duarte e da villa d'Alcacere
com toda a gente se não podia escusar, doendo-se d'isso como bom
christão e leal portuguez, tanto aperfiou com Azmede e tantas esperanças
lhe pôs na bondade e verdade dos christãos para sua honra e proveito,
que o houve de commover que de todo o que era concertado logo aquella
noite fosse como foi avisar D. Duarte. O qual estando para partir e
vendo tal aviso e sendo certificado por Antão Vaz, alfaqueque, que o
mouro era homem de credito e amigo dos christãos, pôs os giolhos em
terra, e as mãos alevantadas ao ceo deu muitas graças a Deus, e ao mouro
deu logo e prometteu e fez ao diante muito bem.

E ao outro dia mandou desaperceber os fidalgos e toda a gente que para a
entrada estavam já todos prestes, que por isso ficaram tristes e muito
mais descontentes de D. Duarte, e mostrando não ser menos irados contra
o mouro, assacando-lhe que por evitar o dano que a seus parentes estava
aparelhado, mais que por fazer bem a D. Duarte, se movera a tal aviso, e
uns o ameaçavam com a forca, e outros com o lume para o queimarem, mas o
mouro confiado no que certo sabia, tudo soffria rindo, dizendo que cedo
lhe dariam o contrario.

E sendo o capitão por elle avisado dos lugares em que as cilladas haviam
de jazer, mandou logo pela manhã descubrir a primeira, estando com toda
a outra gente a recado e percebido; os mouros como viram os
descobridores entenderam a verdade, e que tal descobrimento procedera
d'algum aviso que os christãos d'elles houveram, e que por isso não
sairam da villa, nem ousaram entrar em sua terra como tinham ordenado, e
sairam logo d'elles quatrocentos de cavallo em cavallos armados e
arreios, gente especial e mui concertada. Sahiu D. Duarte com até cento
e vinte de cavallo a lhes resistir, em especial a recolher os
descobridores que tinha enviados que vinham mui perseguidos, e n'isto se
travou de uma parte e da outra mui crua peleja, em que D. Duarte tanto
apertou com os mouros que os fez fugir, em que morreram alguns d'elles,
todos homens entr'elles de boa estima, e ao seguimento d'estes sahiu a
outra cillada maior em socorro dos primeiros que maliciosamente
mostravam ir fogindo por tirarem os christãos fóra, e fizeram todos uma
volta sobre os christãos, que por não poderem resistir a tamanha força
lhe deram as costas, e no encalço que foi curto, mataram dois e feriram
muitos.

E quiz Deus que na primeira esporada que D. Duarte n'elles deu lhe
quebraram as cabeçadas do cavallo, e em lh'as corregerem se deteve e
mandou deter a gente sua algum espaço, que deu causa que o encalço da
volta que os mouros sobre os christãos fizeram fosse assi curta, que
quasi os acharam á sombra dos muros a que com sua segurança se
acolheram; porque d'outra maneira segundo os mouros vinham azedos, e com
tanta sua avantagem, fôra sem duvida para os christãos grande perigo.

E n'este dia se lançou um moço christão com os mouros, a que descobrio o
aviso d'Azmede que deu causa a se elle vir de todo para Alcacere, onde
sendo mouro deu aviamento a muita guerra e damno de sua propria terra, e
este se chamou depois Mafamede de Alcacere, a que El-Rei D. Affonso e
depois El-Rei D. João seu filho por seus serviços fizeram muita mercê.



CAPITULO CXLII

     _De como a villa d'Alcacere foi de segunda vez cercada por El-Rei
     de Fez, e do que se passou n'este segundo cerco até que se
     alevantou_


Era D. Duarte de muitas partes avisado como El-Rei de Fez se aparelhava
grandemente para no começo do mez de Julho vir sobre a villa, e sendo
logo sobr'isso certificado que era já em Tangere, começou de concertar e
perceber suas cousas como para taes hospedes convinha.

E a uma segunda feira, dois dias de Julho do dito anno de mil e
quatrocentos e cincoenta e nove, apareceu El-Rei de Fez sobre a villa
com infindo poder de gente, e nações mui desvairadas, e com carriagens
d'alimarias espantosas, que cobriam toda a terra.

E nos dias passados tinha D. Duarte enviado pedir a El-Rei que lhe
mandasse trazer sua mulher D. Isabel de Castro, e seus filhos que eram
em Portugal, e como quer que segundo os recados que tinha havia muito
tempo que esperava por ella, acertou-se que em El-Rei de Fez e os outros
Marins e senhores começando de cercar Alcacere, a náo em que ella vinha
surgiu sobre o porto. E como D. Duarte houve d'ella conhecimento,
determinou com gente e fustas e bateis que para isso pôs em mui segura
ordenança, de a recolher, e elle a cavallo com outros, andaram na praia
resistindo aos mouros, até que muitos fidalgos a pé segura e
honradamente a meteram pelas portas da coiraça.

E certo não foi sem causa acertar ella tal dia em que chegasse; porque
segundo era de nobre sangue e de muitas bondades e virtudes, bem merecia
que em sua chegada a recebessem tamanhos reis e senhores dos mouros como
alli eram.

Desceu-se D. Duarte e levou sua mulher á egreja, onde em vigilia e por
devoção dormio aquella noite, e ao outro dia a meteu em um cubello do
castello, de que podia vêr os combates e afrontas da villa.

E com a ida de D. Isabel a Alcacere foi a gente toda mui leda, e
receberam muito esforço e ousadia, assi pelo repairo que os feridos e
doentes em suas curas d'ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas
com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de
pelejar; porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas d'homens
honrados, que guardada em todo sua honra e honestidade, sabiam bem
fallar e tratar os homens como mereciam.

D. Duarte como aquelle a que em seus feitos não fallecia grande devoção
e esforço, depois de se encommendar a Deos com muitas lagrimas e
palavras de bom christão e singular capitão de sua fé, fallou logo com
muita prudencia e segurança a todolos fidalgos e pessoas principaes da
villa, repartindo-lhe logo com muita alegria e despejo as estancias e
guardas que cada um havia de ter, e avisando-os em todo como para a
necessidade presente cumpria, em que prometia honra e victoria.

El-Rei de Fez e seu Marim e alcaides ordenaram seus combates á villa em
torno, providos de muitas e grossas artelharias, e d'espingardeiros e
besteiros sem conto, e d'escalas e mantas, e todo em grande cumprimento;
porque em tanto cargo e estima tomou o cobrar d'aquella villa d'este
segundo cerco, como todo o reino de cuja privação foi dos mouros
ameaçado, se d'esta vez a não tomasse. E d'alguns combates que os mouros
deram á villa e á coiraça juntamente, elles foram dos christãos com
tanto seu estrago e damno escramentados, que d'hi em diante já refusavam
e não se queriam chegar como sohiam. Dizendo a El Rei pela continua e
grande mortindade dos seus que os não mandasse assi chegar ao combate;
porque elle bem poderia fazer com seu grande poder, quando quizesse,
outra villa dez vezes maior que aquella, mas que fazer elle e renovar
outros tantos vassallos mouros quantos alli perdia não podia, cá era
officio que sómente pertencia a Deus. E com isto punham todos seu
esforço e esperança nas bombardas, que de dia e de noite nunca cessavam
de lançar pedras.

Era El-Rei de Portugal em Lisboa ao tempo que d'este cerco foi avisado,
para que com grande trigança mandou fazer prestes navios com gente,
mantimentos e armas, em que foram muitos fidalgos e pessoas principaes
do reino, alguns d'elles por especial percebimento, e os mais de suas
livres e louvadas vontades, em que entravam pessoas de todas edades, cá
os moços por ganhar e acrescentar honra, fugiam para este cerco, e dos
velhos por conservação da ganhada algum não queria ficar.

No meio tempo do cerco chegaram ao arraial dos mouros as suas bombardas
grossas, que por seu peso e grandeza e pela aspereza da terra faziam
suas jornadas vagarosas, e em sua chegada não fizeram os mouros menos
festa e alegrias que na sua Pascoa que então celebraram. Foram logo com
grande presteza e alegria assentadas, e dos tiros primeiros que fizeram
começaram nos muros e cubellos de fazer com sua furia tanto dano, que a
muitos de dentro com receio de maior mal já se mudavam as côres; porque
alguns cubellos foram em breve arrasados com os muros, que em todalas
partes tremiam, e faziam conta que se elles sendo derribados não os
defendessem, que a peleja de pessoas com pessoas tanto seria perigosa,
quanto a gente e poder dos mouros era desegual. Mas D. Duarte, cujo
coração, esforço e segurança, d'estes medos e d'outros maiores andava
sempre priviligiado, a tudo soccorria e repairava logo com tão
engenhosos remedios, que aos mouros enfraqueciam os corações, havendo
que tão prestes e diligente repairo eram obras de Deus mais que dos
homens. Especialmente porque claramente viam que a diligencia, trabalho
e resistencia dos christãos lhes parecia sobre forças humanas. Pelas
quaes cousas, e assi porque os mantimentos falleciam já aos mouros,
houve no arraial dos mouros grande rumor de alevantarem o cerco, de que
D. Duarte por mouros que na villa se lançavam foi certificado.

E D. Duarte e esses senhores e fidalgos que com elle eram, não fartos de
muita honra e louvor que tinham ganhado, escreveram ao Marim
apresentando-lhe com palavras assaz cortezes quão covardamente elle e
seu Rei se tinham havido n'aquelle cerco, do qual não se deviam assi
partir com tanto seu abatimento e deshonra, pedindo-lhe que avergonhados
disto tornassem renovar os combates, para que ficavam alimpando as
armas, que no sangue dos seus tinham já todas sujas.

El-Rei e o Marim mostrando ser d'esta carta mui anojados, responderam a
D. Duarte com palavras de grande descortesia e muita villeza,
reportando-se ao mal do palanque de Tangere, e que já fizeram ao Infante
tio do seu Rei cavar e alimpar os cavallos, e que assi faria a elles, a
quem D. Duarte largamente replicou, reprendendo como devia suas villezas
e cobardia.

E finalmente El-Rei de Fez com todo seu arraial se alevantou de sobre a
villa, dia de S. Bertholameu, XXIV dias d'Agosto de mil quatrocentos e
cincoenta e nove.

Durou este segundo cerco d'Alcacere outros LIII dias como o primeiro.
Foram lançadas na villa duas mil e quatrocentas e cincoenta e seis
pedras grossas, foram mortos dos christãos até XXV, e dos mouros muitos,
de que se não houve o numero certo. O que todo notificou logo D. Duarte
a El-Rei, estando em Santarem, que por o caso deu a Deus muitas graças,
e a elle muitos agardecimentos e louvores, e D. Duarte mandou logo para
o reino a gente que não era em Alcacere necessaria.



CAPITULO CXLIII

     _Como D. Duarte foi feito conde de Vianna, e El-Rei quisera outra
     vez passar em Africa para que se percebeu_


No mez d'Abril do anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta, por
prazer e consentimento d'El-Rei leixou D. Duarte por capitão d'Alcacere
Affonso Tellez, seu sobrinho, e se veiu a Lisboa onde achou El-Rei, que
d'elle e de toda sua côrte foi grandemente e com muita honra recebido, e
d'ali se foi El-Rei a Santarem, onde com solemne arenga de seus serviços
e merecimentos, e com devida cerimonia o fez conde de Vianna de Caminha.

N'este anno no mez d'Agosto falleceu de febre em Thomar D. Affonso,
marquez de Valença, filho maior do duque de Bragança, sem casar, de que
ficou um filho natural, D. Affonso, que depois foi bispo d'Evora. E
n'este tempo pelas praticas que El-Rei sempre tinha com o conde de
Vianna sobre a guerra d'Africa, a que El-Rei sobre todalas cousas do
mundo naturalmente era mais inclinado, desejando de a proseguir
determinou passar a Ceuta com dois mil cavallos e gente de pé a elles
conveniente, para d'alli como capitão, mais que como Rei fazer guerra
aos mouros.

E tendo sobr'isso conselho foi de todolos principaes muito em contrairo
aconselhado, em especial do Infante D. Fernando seu irmão, e do senhor
D. Pedro, que sobre isso lhe enviaram conselhos para o caso mui
excellentes, a que El-Rei não quiz dar credito, guiado já de seu
apetito, inclinando-se á só opinião do marquez de Villa Viçosa, que
sendo em tudo mui prudente, n'isto pareceu que desacordava. E tendo para
isso feita muita custa, com fundamento de todavia passar, desistio da
ida por causa de uma grande e perigosa doença de febre em que cahiu e
esteve á morte.

E n'este anno de mil quatrocentas e sessenta, lastimado o reino todo das
grandes e apetitosas despezas que El-Rei fazia, de que sua fazenda e as
de seus vassallos sem causa necessaria se destruiam, em umas côrtes que
em Lisboa sobr'isso se fizeram, lhe pediram que as temperasse e quizesse
ter mão mais firme nas cousas da corôa; com que sostevesse seu estado
como seus antecessores faziam, e não as dar com tanta soltura e sem
necessidade como dava, que se contentasse arrecadar dos vassalos os
antigos e velhos direitos, e não agravar seu povo com novos pedidos e
imposições. E para o melhor poder fazer, lhe outorgaram cento e
cincoenta mil dobras d'ouro, com que desempenhasse e pagasse as rendas
da corôa, que por tenças e por casamentos, ou por outras dividas e
obrigações tivesse dadas, com juramento que fez de nunca as mais dar,
mas isto nem sómente aquelle anno em que se prometeu se manteve; porque
na passagem em Africa que logo fez se desordenou tudo, e com muita mais
soltura por mal da corôa real.



CAPITULO CXLIV

     _De como falleceu o Infante D. Anrique, e de seus feitos, bondades,
     e virtudes_


E no mez de Novembro d'este anno falleceu em Sagres o Infante D. Anrique
com sinaes e cumprimento de fiel christão, em edade de cincoenta e sete
annos, cujo corpo foi logo soterrado na egreja da villa de Lagos.

E de hi no anno que vinha de mil e quatrocentos e sessenta e um, foram
seus ossos levados ao mosteiro da Batalha por o Infante D. Fernando, que
tinha adotado por filho, que foi por elles e os trouxe com grande honra
e muita cerimonia ao dito mosteiro, onde El-Rei acompanhado de toda a
nobre gente de Portugal e muitos prelados sahiu aos receber com solemne
procissão, e lhe fizeram honradas exequias.

O Infante D. Anrique foi em tudo Principe tão perfeito, que não é razão
que alguma de suas muitas e louvadas virtudes se especifiquem; porque
seria mingoar nas outras todas, que d'elle como de uma fonte clara e
perenal todas nasceram. Porém a que pareceu que em seus dias sobre todas
abraçou, foi inteira obediencia e firme lealdade a El-Rei, e em seu
coração houve sempre fervente amor e continua devoção para Deus, e uma
singular humanidade e nobreza para os homens, e um vivo esforço nunca
vencido com que em sua vida como magnanimo Principe e esforçado
cavalleiro sempre emprehendeu arduas e mui excellentes empresas,
especialmente contra inimigos da fé, por seu marivilhoso engenho e muita
prudencia e grandeza de coração, e com innumeraveis gastos de suas
rendas e fazenda, não receando infindos trabalhos, mortes, e perigos de
seus criados e servidores, que muitas vezes via morrer e padecer, depois
da tomada e descercos de Ceuta em que foi, mandou primeiramente navegar
e descobrir pelo mar Occeano, onde se acharam logo e povoraram as ricas
e fertiles ilhas da Madeira, que foram as primeiras que no mar Occeano
estes reinos tiveram, e assi d'hi em diante outras muitas de que elles e
a christandade toda muito bem e proveito recebem.

E assi o dito Infante como aconselhado e esforçado, já por divina
inspiração movido a isso, com respeitos de magnanimo Principe e mui
catolico christão, e como mui leal vassallo dos Reis e da corôa de
Portugal, desejoso do acrescentamento, gloria, e louvor d'elles,
suspirando pela santa, honrada e proveitosa conquista de Guiné, mandou
logo pedir e suplicar ao Papa Martinho quinto, na Egreja de Roma
presidente, que em nome de Deus cujo poder tinha, concedesse e fizesse á
dita corôa e herdeiros d'ella para sempre, como com acordo e approvação
do Sagrado Collegio dos Cardeaes fez e concedeu solemne e perpetua
doação, e lhe deu o senhorio proprio de todo o que na costa do dito mar
Occeano, nos mares a ella ajacentes dos marcos e cabos de Nam e do
Bojador contra o meio dia e oriente por elles e por seus sobcessores, e
por suas gentes pelos tempos em diante se achasse e descobrisse até os
Indios inclusivamente. A qual doação e concessão do dito Papa Martinho
depois o Papa Eugenio, e o Papa Nicoláo, e o Papa Sixto á suplicação
d'El-Rei D. Affonso, e d'El-Rei D. João seu filho confirmaram e
aprovaram com sua graça e poder, com muitas graças e benções e
liberdades aos Reis de Portugal presentes e futuros que a proseguissem,
e com grandes excumunhões, graves censuras e maldições a todolos
christãos que em qualquer maneira, sem prazer e consentimento dos ditos
Reis de Portugal contra ellas fossem, como nas Bulas Apostollicas que se
d'isso concederam mais perfeita e cumpridamente se contém, as quaes
sendo um divino favor e verdadeiro e ligitimo titulo para se a dita
navegação, descobrimento e conquista navegar e proseguir o dito Infante
logo primeiramente com o santo e virtuoso principio de tão aventurado
fim a emprendeu e proseguiu.

E com espantosos principios e meios de que era prasmado e nunca foi
vencido em sua vida, mandou adiante descobrir e tratar até a Serra Liôa
com muito proveito do reino. E depois de sua morte em tempo d'El-Rei D.
Affonso o quinto seu sobrinho, além do descobrimento do Infante se
descobriu a mina do ouro, em que agora é a cidade de S. Jorge, que
El-Rei D. João o segundo mandou novamente edificar, e assi se descobriu
mais por El-Rei D. Affonso até o Cabo de Santa Caterina, e depois de seu
fallecimento, como El-Rei D. João o segundo seu filho o sobcedeu, d'alli
mandou por annos descobrir até dobrarem o Cabo de Boa Esperança, e seus
descobridores chegaram até o Rio do Infante, e d'alli sendo seu
proposito não cessar até descobrir a India, por sua doença e morte, que
se logo seguiu, cessou seu descobrimento.

E como depois o sobcedeu e reinou após elle El-Rei D. Manuel o primeiro,
nosso Senhor, como Principe que em tudo quiz herdar a benção, reaes
costumes e claras façanhas de Reis e Principes tão gloriosos seus
antecessores, por seu mandado e com seus capitães, navios e gentes por
este caminho se desccobriram, trataram e navegaram, com grandes perigos
e muitas difficuldades, e innumeraveis despezas outras novas ilhas e
terras, e sobre tudo a Arabia e a Persia, e a India com todalas
especiarias, pedrarias, minas, riquezas, e thesouros orientaes que hoje
possue e tem com muita segurança e prosperidade, fazendo-se pacifico
Senhor de muitos Reis e senhores que sua paz e senhorio compraram com
ricos e cotedianos tributos, como em sua chronica fará menção, de que a
elle e á real corôa d'estes seus reinos de Portugal e aos herdeiros
d'ella, e a seus vassalos e naturaes se acrescentou, e com a graça de
Deus cada vez acrescentará mais bem, maior honra, gloria, e louvor, e
ricos, honestos e mui grandes proveitos, com os quaes pois seu principal
fim e intento é servir a Deus e divulgar e exalçar sua santa Fé sempre,
por isso seu grande poder será muito mais poderoso, e não sómente a
elles este bem e proveito será reservado, mas ainda de suas mãos e por
seu meio a christandade toda será participante, com que a fé de nosso
senhor será por isso mais conhecida, louvada, e exalçada, e as seitas,
idolatrias e forças dos imigos d'ella de todo minguadas e mui
quebrantadas, e esta esperança não está de todo em a esperarmos; porque
com prosperos e desejados effeitos tem ácerca d'isto muitas vezes
respondido, como em seus proprios tempos e lugares melhor se dirá, que
sempre se atribuiram á honra, memoria, louvor e merecimentos d'este
virtuoso Principe e Infante D. Anrique, como a causa e primeiro inventor
de tanto bem.

Foi mais o Infante nas roupas de seu corpo mui honesto e muito mais nas
palavras de sua bocca, e por maior sua perfeição foi em sua vida sempre
casto, e segundo o que se creu, virgem o comeu a terra, que dá piedosa
esperança de salvação de sua alma.



CAPITULO CXLV

     _De como falleceu o duque de Bragança, e sobcedeu sua casa e
     herança o marquez de Villa Viçosa, e como D. Fernando seu filho
     passou em Africa, e de vinda foi feito conde de Guimarães_


E no anno de mil e quatrocentos e sessenta e um falleceu D. Affonso,
duque de Bragança, cuja casa e titulo e herança sobcedeu D. Fernando,
marquez de Villa Viçosa, seu filho segundo; porque o marquez de Valença
seu filho maior era já sem filhos legitimos fallecido como já disse.

E entre os filhos que este segundo duque tinha, o maior era D. Fernando,
que por acrescentar em sua honra, tendo para a dita passagem dos
cavallos feita muita despeza, pediu a El-Rei licença para se ir a
Alcacere como foi no mez d'Abril do dito anno, com duzentos de cavallo e
mil homens de pé, em que entraram muitos fidalgos e outra nobre gente da
côrte. E d'Alcacere em companhia de D. Affonso de Vasconcellos, que
depois foi conde de Penella, e do conde D. Duarte, a que o duque seu
padre e elle tinham grande affeição, entraram muitas vezes em terra de
mouros, e foram correr até ás portas da cidade de Tangere, onde se
fizeram honrosos feitos d'armas, e de que trouxeram grande numero de
captivos e mui grandes cavalgadas. E fizeram outras cousas, em que D.
Fernando ganhou bom nome e muita honra, com a qual se tornou a estes
reinos logo no mez de Junho seguinte. E El-Rei por seus serviços e
merecimentos o fez primeiro conde de Guimarães, porque depois quando
casou com a duqueza D. Isabel filha do Infante D. Fernando, por honra de
tão honrado casamento foi em vida de seu padre feito e intitulado duque
da mesma Villa de Guimarães.



CAPITULO CXLVI

     _De como falleceu a Infante D. Caterina, sendo já concertada para
     casar_


N'este anno era tratado e concordado casamento entre a Infante D.
Caterina, irmã d'El Rei, com D. Carlos, Principe de Navarra e d'Aragão;
e porque o dito Principe falleceu, foi a dita Infante levada ao mosteiro
de Santa Clara de Lisboa, e sendo concertado depois casamento entre ella
e El-Rei D. Duarte de Inglaterra, ella adoeceu de febre, e com nome de
mui honesta e virtuosa Princeza falleceu no mesmo mosteiro, e foi seu
corpo trazido ao mosteiro de Santo Eloi de Lisboa, onde na capella da
mão direita jaz mui honradamente sepultada.



CAPITULO CXLVII

     _De como foi a ida d'El-Rei em Africa com os dois mil de cavallo, e
     do escallamento de Tangere_


E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e dois, se
principiou e ordenou a ida d'El-Rei em Africa, sobre o escalamento de
Tangere, que foi n'esta maneira.

Havia n'este tempo em casa d'El-Rei Diogo de Bairros e João Falcão,
homens mancebos e fidalgos, que desejosos d'acrescentar em suas honras
pediram a El-Rei licença, e lh'a deu, para irem ao soldo que El-Rei de
Fez então apregoara em seu reino contra outros mouros seus imigos e
reveis, os quaes para melhor seu aviamento se passaram a Andaluzia pedir
cartas ao duque de Medina Sidonia, com que o dito Rei de Fez tinha paz e
mostrança de singular amizade.

E o duque com respeito de serviço d'El-Rei não vendo para isso sua carta
se escusou, pelo qual conveiu a estes pedir a El-Rei que por sua carta
lh'o encommendasse, e em tanto porque o conde de Viana acertou d'entrar
de Alcacere em terra de mouros, foram estes com elle na entrada, onde
por caso Diogo de Bairros topou um João d'Escalona, de Tarifa, que já em
Tangere foram ambos captivos e em poder de um senhor. E praticando entre
si sobre um cano que era nos muros da cidade aberto e sahia para fóra,
se por elle haveria disposição de entrar n'ella gente: acharam que em
alguma maneira seria possivel, e com isto tornando-se estes a casa do
duque acharam cartas d'El-Rei, porque lhes revogou a licença e mandou
que logo se tornassem á sua côrte, o que cumpriram, e acharam El-Rei em
Cintra, onde a voltas da conta que lhe deram de sua jornada, tocaram na
pratica do cano para se entrar Tangere, que no coração d'El-Rei fez logo
muita impressão. E com isso os tornou a mandar providos de mercê e de
cartas para o conde de Viana, e asi para João d'Escalona, e para outro
Sancho Fernandez, de Tarifa, seu tio, que tinha um bregantim e era bom
piloto, que para o caso cumpria e se não podia escusar.

Passaram todos em Alcacere, e recontaram ao conde o proposito do cano de
Tangere com que iam, o qual anichillou de todo sua fantesia, e
concordaram que se não podia fazer, e acordado Diogo de Bairros d'outra
parte do muro por onde a cidade melhor se podia escalar e mais a
salvamento, depois de sobr'isso praticarem, foram por aviamento do conde
com boa dessimulação vêr o dito logar, e com quanto a cidade se velava,
porém todos tres por uma escada de corda subiram ao muro, por onde
andaram, e sem algum alvoroço nem sentimento colheram hervas d'elle, com
que se tornaram a Alcacere, e de hi a Portugal, e com elles João
d'Escalona, onde depois de a El Rei dizerem todo o que acharam e
experimentaram, ficou muito contente, e sobr'isso praticou logo com o
Infante D. Fernando seu irmão. E concordaram que para este caso haver
secretamente bom effeito, que o Infante com desejo de honra e outros
respeitos e obrigações que mostrasse ter para passar em Africa, pedisse
a El-Rei para isso licença, porque com esta mostrança este feito se
poderia melhor e mais encobertamente fazer, e assi se cumprio.

E porém a tenção propria e verdadeira d'El-Rei, em caso que logo a não
revelasse, foi ser tambem na passagem que outro si logo foi divulgada.
Em cujos percebimentos e apurações se seguiram tantos estrondos e
alvoroços que os mouros, e principalmente os de Tangere, como do dano de
tal passagem mais receosos foram de todo, e para todo logo avisados e
percebidos, o que El-Rei por o conde de Viana logo soube, pedindo-lhe
que para cousa tão feita como esta de Tangere em seus começos parecia,
com semelhantes estrondos a não desfizesse nem danasse, para que
abastaria não tanta gente como a de que se percebia, que pouca e pouca
podia dessimuladamente vir a Alcacere, e d'alli o feito se faria com
segurança e salvamento.

E a este siso não obedeceu o apetito d'El Rei, para que ajudou o conde
de Villa Real, que a este tempo estava na côrte, e com o conde de Viana
não era em muito accordo; porque envejoso da gloria e honra que se a
outrem aparelhava, por ter n'ella parte como por seu nobre e esforçado
coração sempre desejou, por seus meios e modos que por si e seus
parentes buscou, teve maneira que El-Rei o mettesse n'este feito, em que
lhe diziam não ser razão que por dito de dois homens elle com seu reino
se aventurasse, e que ante de o cometer convinha que tal pessoa como era
o conde de Villa Real com elles em pessoa fizesse juntamente a mesma
experiencia. E que El-Rei para ser desenganado era bem que estreitamente
lh'o encommendasse, especialmente que elle era tal que buscaria em
Tangere outros logares por onde a cidade melhor e mais seguramente se
cobrasse. Anichilando como suspeito o conselho do conde de Viana,
atribuindo-lh'o a cautelosas manhas com que á custa alheia queria sempre
ganhar honra e acrescentamento para si. E em fim, o conde de Villa Real
foi d'El-Rei para isso rogado, e elle acceitou a ida com encarecimentos
de receber morte e captiveiro por seu serviço, pedindo-lhe que, se
lembrasse em tal caso d'elle e de seus filhos. A, que El-Rei logo d'ante
mão satisfez concedendo-lhe liberalmente á custa dos bens de sua corôa,
mui grandes e duvidosos requerimentos que com elle trazia.

O conde de Villa Real partiu de Lisboa no anno de mil e quatrocentos e
sessenta e tres, com elle Diogo de Bairros e João d'Escalona, e no
caminho se ajuntou com elles João Falcão, e chegaram a Lagos onde a
condessa sua mulher estava parida de D. Fernando seu filho primeiro, e
d'alli a levou a Ceuta, e d'hi com achaque de buscar gente com que
poderosamente entrasse em terra de mouros passou em Tarifa, d'onde por
mar foi vêr o lugar do escalamento, a que não sahiu do mar, nem foi
n'elle por causa da muita tardança que fizeram os que primeiro sahiram.
A que se juntaram mais Lourenço de Caceres, adail, e Pedro Affonso, os
quaes acharam o lugar bem desposto e sem alguma mudança, e com isso se
foi o conde mui alegre a Gibaltar, que o anno passado fôra aos mouros
filhada, d'onde logo avisou El-Rei da boa desposição do feito, para o
qual ficou alli precebendo manhosamente a mais gente que pôde para a
passar a Ceuta, como passou, em que foram cento e cincoenta de cavallo e
quatrocentos de pé, com fundamento entre El-Rei e o conde já concertado,
que no dia que El-Rei por mar houvesse de ser no escallamento de
Tangere, a que havia de ir da banda de Castela, de um lugar que se diz
Bollonha, esse mesmo dia entrasse o conde por terra e fosse sobre a
cidade para soccorrer e ajudar os que n'ella subissem e entrassem, e
assi impedir qualquer soccorro que aos mouros da cidade de fóra viesse.
E porém na partida d'El-Rei e do Infante se pôs tanta dillação além do
tempo que tinham assignado, que o conde sem descobrir o caso não pôde
reter mais a gente estrangeira que sustinha, e a despediu.



CAPITULO CXLVIII

     _Da grande e danosa tormenta que El-Rei e o Infante passaram no
     mar_


El-rei e o Infante cuja passagem de todo era descoberta e divulgada,
sendo prestes partiram de Lisboa segunda feira sete dias de Novembro do
dito anno de mil e quatrocentos sessenta e tres, com vento algum tanto
contrairo para sua viagem, e á quarta chegaram a Lagos, e ahi recolheu
El-Rei o conde d'Odemira e o almirante, donde contra conselho de todolos
pilotos e mareantes, partiu com assaz fortuna de tempo, o qual carregou
tanto sobre a frota, que El-Rei para salvar sua pessoa foi aconselhado
que se acolhesse ao porto de Silves, o que erradamente não quiz fazer;
antes mandou guiar a prôa direita de seu navio, porque sem torcer nem se
deter seguisse sua viagem, e sobre a noite a tormenta se dobrou tanto,
que os navios todos correram grande risco de se perder, e os mais por
segurarem suas vidas alijaram com grande perda muita parte de suas
fazendas, salvo El-Rei, que não consentiu que do seu navio se alijasse
com medo cousa alguma. Perdeu-se n'esta tormenta o navio de D. Affonso
de Vasconcellos, cuja fazenda e muitos nobres homens se alagou, e as
pessoas por milagre se salvaram, e assi sossobrou de todo o mar uma
caravella, em que se perdeu grande fazenda de muitos.

E mais morreram Lourenço de Guimarães, e João Vogado, escrivães da
fazenda d'El-Rei, e Gonçallo Cardoso, escrivão da camara, e um rei
d'armas Portugal, com outros muitos e bons homens e muita fazenda, e
n'esta tormenta andou El-Rei com o Infante seu irmão até o sabado, que
só sem alguma outra companhia entraram no estreito, e havendo o conde D.
Duarte conhecimento d'El-Rei pela bandeira real e capitoa que o seu
navio trazia, foi-lhe fallar no mar, e com elle Pero d'Alcaçova que a
elle fôra enviado com o aviso e ardil de sua vinda, e depois de se
El-Rei lamentar pelo desaviamento de seu proposito, que era não poder
desembarcar da parte de Castella, e o conde o confortar mais que
reprender pelo erro que fizera, El-Rei e o Infante se partiram para
Ceuta, onde poucos e poucos recolheram ao domingo seus navios, e cada um
com grande perda e muito destroço, e assi o duque e seus filhos com
outros muitos fidalgos, que escapando da tormenta milagrosamente sahiram
todos em terra em camisas e descalços, e assi foram em romaria a Santa
Maria d'Africa, com que provocaram todos a grande devoção.



CAPITULO CXLIX

     _De como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere_


E depois d'El-Rei declarar sua tenção de tornar a Tangere, por cuja fim
alli viera, se partio para Alcacere d'onde enviou logo doze navios de
remo com gente escolhida para irem escalar a cidade, cujo capitão foi
Luiz Mendes de Vasconcellos, homem fidalgo, e nas cousas do mar bem
entendido, com fundamento de El-Rei com seu poder os socorrer á hora do
escalamento por terra, e porém o conde D. Duarte contradisse muito o
cometimento por mar, pelas incertidões e perigos que tem, mas não foi
crido, e Luiz Mendes todavia partio bem avisado do que á sahida do mar e
á entrada da cidade havia de fazer.

El-Rei e o Infante e o senhor D. Pedro seu primo, e o duque e condes e
toda a outra gente partiram por terra, e uma hora ante manhã chegaram
acerca de Tangere, e os que foram nos navios á hora do desembarcar
acharam o mar tão bravo, que não ousaram por aquella vez sahir em terra,
e ao recolher dos navios havendo os mouros da cidade vista d'elles pelo
aviso que já sobre si tinham, fizeram almenaras na cidade, e mandaram
poer fogo ás bombardas que pelo muro tinham. E porque aquelle era o
signal que se havia de fazer quando a cidade se entrasse, foi El-Rei e
todos os que com elle eram mui alegres, e assi abalaram logo rijamente e
não sem devida ordenança, mas não tardou muito que foram em conhecimento
da verdade, que todo seu prazer converteu em tristeza, e toda esperança
do feito em desesperação, e com tudo El Rei com a cara mui segura como
seu real coração era sempre nos perigos, foi com sua gente á vista da
cidade, que esteve olhando um pouco, e em se recolhendo disse contra
muitos, _não me leixastes crêr ao conde D. Duarte, por ventura se o
fizera esta vinda se empregara melhor_, e então se tornou logo a
Alcacere, e d'ahi para Ceuta, e com elle o Infante seu irmão.



CAPITULO CL

     _De como o Infante D. Fernando sem El-Rei entrou d'Alcacere e
     correu a terra aos mouros_


E porque veiu nova que o conde de Vianna e o conde de Guimarães queriam
fazer d'Alcacere uma entrada em terra de mouros, quiz o Infante ser
n'ella, e pediu licença a El-Rei, que para isso e para repartir e
affrouxar o apousentamento em Ceuta lh'a deu, e a El-Rei foi commettido
que fosse em pessoa, mas elle por algumas justas causas que apontou o
não houve por bem, e estimou por mais sua honra e serviço, antes em seu
nome ir um seu capitão tão poderoso, e tal pessoa como era o Infante.

E aos quatro dias do mez de Dezembro o Infante partiu d'Alcacere com
todolos senhores da hoste, salvo o duque e o conde de Villa Real, que
ficaram em Ceuta, e foi correr umas aldêas, que são na faldra da serra
de Benaminir, terra muito fragosa e muito povorada, onde segundo fama
vive a melhor gente de peleja d'aquella frontaria, de que mataram até
duzentos mouros, e trouxeram captivos duzentas e vinte almas com muito
gado e outro grande despojo, e se tornou a Alcacere, e dos christãos por
máo resguardo morreram até quinze.

Quiz o Infante haver, e houve para si o quinto d'esta cavalgada, com
muito aggravo do conde de Vianna, e não sem algum prasmo e geral
reprensão do mesmo Infante, que por seu alto sangue e real condição,
saindo d'Alcacere devia em caso que lhe pertencera fazer d'elle mercê ao
dito conde, quanto mais que os quintos da villa de direito e por doação
pertenciam ao dito conde, a quem El-Rei o compoz e satisfez depois com
dinheiro de sua fazenda.



CAPITULO CLI

     _De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de
     Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão_


E porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o
Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade
acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que para isso houve
foi n'esta maneira.

Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, não ficou
filho algum legitimo que o herdasse, e sómente lhe ficou um filho
bastardo, D. Fernando, que depois da morte d'El-Rei seu padre, por
favores e grandes riquezas que lhe leixou, herdou e teve o reino de
Napoles; era irmão d'El-Rei D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que
herdara este reino por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou,
de que houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de
Castella, de que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D.
Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se
chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por
haver liança para suas contendas, que em Castella e Aragão tinha, casou
com uma filha do almirante de Castella, de que tendo já filhos sobcedeu
por morte do dito Rei D. Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de
Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da
madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger,
pois a elle _in solidum_ por contracto pertencia, e porque o pae não
disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos, até que o dito
Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a
Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que foi
julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á Rainha sua
madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal que os
reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D. Fernando
filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e d'Aragão, de que os povos
foram mui tristes e anojados; porque D. Carlos era Principe de muitas
virtudes, e lhes dava esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de
Barcellona, com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a
El-Rei D. João, e a deram a El-Rei de França, que os deffendeu um tempo,
até que se concertou com El-Rei D. João, que pelo não guerrear lhe
leixou o condado de Roselhão pacifico, em que entrou Perpinhão, e
anojados d'isso os de Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D. Anrique de
Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se concertaram.

E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em sua
defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e famosas
vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor João Fernandez da
Silveira, que depois foi barão d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D.
Anrique enviados por El-Rei D. Affonso.

E porém os regedores de Barcellona buscando já por caminhos desesperados
alguma esperança de sua salvação, trataram secretamente com o dito
Senhor D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa
d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos d'Aragão quizesse
intitular-se d'elles, e assi receber logo em seu senhorio e poder o
principado de Catelonha com a cidade de Barcellona com cujo poder e
forças, se o coração e saber lhe não fallecesse, cobraria o mais que El
Rei D. João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo se
aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe
fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns
fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi
aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que não
sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e tão honrada que assi
livremente lh'offereciam, mas ainda que a devia trabalhar e requerer, e
com ella antes morrer, que viver nos desfavores e desprezos e mingoas em
que vivia. Com as quaes cousas movido o dito D. Pedro, determinou
aceitar a dita empresa, e por seus assinados e sellos assi o certificou
e segurou á dita cidade.

E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a Ceuta, onde
sobre concerto vieram armadas duas gallés de Barcellona, com mostrança
que vinham a seu trafego d'armada.

D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e quando tornou a
Ceuta achou hi as galés, de cujos patrões e regedores que n'ellas
vinham, foi de sua tenção certificado, que era logo o levarem, e depois
de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu irmão, e o conde
de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador Mór de Lisboa o quizesse
ouvir, elle com palavras de muita obediencia e autoridade disse a El-Rei
todo o movimento passado, e que a este fim eram vindas aquellas galés,
pedindo-lhe para isso licença, allegando-lhe muitas razões porque o
devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua
feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.

E leixadas muitas alterações que sobre isso houveram, El-Rei por então
não se pôde escusar, e lhe outorgou a dita licença; e porque o conde de
Villa Real tinha grande afeição pela muita honra mercê, que o Infante D.
Pedro em regendo sempre lhe fizera, offereceu e deu logo ao dito Senhor
D. Pedro, prata e bons corregimentos de casa, e depois lhe enviou
cavallos e gente d'armas, o que outro algum do reino não fez. E porém
começou El-Rei de dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com
fundamento de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera
de gentes e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande
paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava vêr-se com El-Rei D.
Anrique, de que receava que sua ida em Aragão sendo revellada receberia
total embargo, e com elle manifesta queda de tamanha honra como parecia
que se lhe aparelhava.

E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida,
presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir
remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite,
porque os patrões já mais não queriam esperar, se metteu nas galés e se
foi com elles, e a El-Rei leixou por escripto a causa porque assi se
partira, e a leal tenção que levava para sempre o servir. Mas n'esta
prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com peçonha
sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior jaz sepultado.



CAPITULO CLII

     _De como o escallamento de Tangere se commetteu a segunda vez pelo
     Infante D. Fernando sem consentimento d'El-Rei_


Estando El-Rei em Ceuta, algumas vezes commetteu entrar e ir sobre
Arzilla, com desejo e apparelhos de a tomar, e tantas contrariedades
recebeu para isso dos grandes invernos que logo sobrevinham, que nunca
seu desejo com seus commettimentos poderam vir a algum effeito, e da
derradeira vez d'Alcacere se tornou El-Rei para Ceuta, havendo que o
escallamento de Tangere era a elle desesperado; porque cria que aos
mouros era já descoberto, assi por christãos que captivaram, como por
mouros que fugiam, que todos lh'o diriam, em especial pela gente sua que
viram quando a primeira vez sobre a cidade foi amanhecer.

E porém em se partindo disse ao Infante seu irmão que por conselho e
accordo dos condes, que com elle eram, mandasse tentar a dita entrada ou
outra alguma, porque a cidade bem se podesse filhar, e se tal fosse o
avisasse; porque quando não viesse com toda sua gente e poder, ao menos
como cavalleiro, e com poucos, folgaria ser no feito.

O Infante sobr'isto mandou algumas vezes tentar e experimentar o dito
escalamento, que se achou e examinou estar ainda sem alguma innovação, e
para se fazer como cumpria, pelo qual determinou fazer-lo por si sem
El'Rei. Dizendo que do sentimento que algumas escutas dos mouros
haveriam de sua vinda, poderiam os de Tangere receber tal aviso, com que
o feito de todo se perdesse, e porém ante de sua partida, tendo conselho
com muitos e principaes homens que com elle estavam, Fernão Tellez lhe
disse que era presente:

«Senhor, n'esta determinação que tomaes, e em que nos pedis conselho,
ante de dizer meu voto, queria de vós saber primeiro duas cousas, a
primeira se houvestes licença d'El-Rei para só fazerdes o feito, e a
segunda se tendes para elle gente que vos abaste».

E o conde d'Odemira vendo que aquelles eram pontos sustanciaes e que em
todo contradiziam á vontade e proposito do Infante, pelo lisonjar para a
commissão de Mertola, e da Commenda Mór de Santiago, que lhe então
requeria e houve, respondeu logo a Fernão Tellez com palavras assi
irosas e asperas, em que o Infante consentio, que no exemplo d'este
aprenderam os outros o que no caso diriam.

E porém o Infante, porque a pergunta de Fernão Tellez ácerca da gente
lhe pareceu boa e necessaria, quiz saber de todos de que gente para o
feito se perceberia. Em que houve muitas sentenças, e com alguma o
commettimento do infante (por lhe não desprazerem) se desfazia,
anichillando em todo a resistencia e fraqueza dos mouros, salvo com a do
conde de Viana que disse:

«Senhor, eu não sei como estes senhores entendem isto que vos conselham,
não querendo para acabar este feito, uns dizem vinte, e outros ao mais
cento homens, pois eu Senhor não sou mais sandeu, e certifico-vos que me
pesaria ser dos quinhentos que o commetessem para o bem acabar; porque
quem bem consirar que por força ha-de lançar fóra de suas casas, e de
tal cidade como é Tangere, a cerca de tres mil homens de peleja que
n'ella vivem, e lhe haver de captivar suas mulheres e filhos, e roubar
suas fazendas, em cujo amor se criaram e vivem, a razão lhe ensinará a
gente que lhe cumprirá para vencer tantas forças, quanto mais que esta
gente não são alarves com cajados por armas, mas é bem armada, feroz e
ousada, e já se não hão d'espantar das mortes das mulheres e filhos;
porque já muitas vezes as viram e padeceram, por isso Senhor vêde bem
primeiro o em que vos meteis».

Mas o Infante pelo ardente desejo que para isso tinha, pospostas todalas
contradições, determinou de o fazer, de que alguns tiveram que o Infante
por seu mui nobre e alto coração com que sempre suspirou por grandes e
arduas empresas, não se contentava fazer nenhuma cousa, por boa e
façanhosa que fosse, sendo debaixo de mando e capitania d'outrem, ainda
que fôra um grande Imperador.

E porém Diogo de Bairros, e João Falcão tiveram maneira que logo El-Rei
fosse em Ceuta, como foi por elles de todo avisado, e de noite como
El-Rei houve o aviso, logo a grande pressa mandou diante o Chichorro com
vinte ginetes, para que o Infante sobresevesse em sua partida até sua
chegada, mas o Chichorro achou já o Infante partido, e El-Rei com grão
trigança partiu logo apóz elles acerca de sol posto com oito de cavallo
e muita gente de pé, que de cançada ficou em Alcacere. E assi apressou
seu caminho que ante manhã chegou aos medoõs que são junto de Tangere.

E porque não topou com seu irmão, que fôra por outro caminho e ficava
atrás, houve por sem duvida que elle era já dentro na cidade com o feito
prosperamente acabado, pela qual maginação elle e todos davam muitas
graças e louvores a Deus, e porém estando assi com os ouvidos álerta,
esperando a grita e rumor da cidade, chegou a El-Rei o marechal, que o
Infante mandara correr a cidade, por dessimular o escallamento a que com
tempo devido não podera chegar; porque como o Infante no caminho viu que
a noite lhe fallecia para n'ella chegar á cidade, lançou-se a duas
legoas em cillada, e por dissimulação mandou correr com fundamento de ao
outro dia tornar commetter o feito. Mas El-Rei com mostranças mais de
tristeza que d'alegria se tornou a Alcacere, mui cansado e todolos seus;
porque sem descer nem repousar andaram as maiores, nem mais fragosas
quinze legoas que podem assignar, e o Infante onde estava em cillada,
como soube da vinda e descontentamento d'El-Rei, partiu logo, e foi-se
tambem a Alcacere anojado do conde D. Duarte, de quem suspeitou que o
aviso d'El-Rei procedera. Mas o Infante não pôde escapar a uma grave e
aspera reprensão que El-Rei seu irmão lhe fez pela perigosa ousadia que
sem sua licença e contra seu mandado commettera.



CAPITULO CLIII

     _De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a
     terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento
     que houve_


Partiu-se El-Rei para Ceuta, com fundamento de se vêr com El-Rei de
Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante ficou em Alcacere, onde
pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo não desistir do mesmo
escallamento que havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle
lhe vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle de todo
desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte não fosse com
elle; porque além de não ser necessario, segundo elle sabia entoar suas
cousas, cresse que todo o merecimento do feito quanto se bem fizesse
havia de atribuir a si mesmo.

E a tenção de tal conselho bem parece que de inveja, ou d'alguma outra
paixão ia propriamente guiada e mais que da verdade, segundo a qual o
conde D. Duarte fôra para conselho e ajuda de tal feito mui necessario;
porque pelo acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado
por mui singular capitão.

Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se se
podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu, dizendo-lhe que
segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle tão contraira o havia
de todo por perdido, e porém o leixava nas mãos de Deus e nas suas, e
visse se por alguma maneira podia tomar o lugar; porque posto que lhe
prouvesse muito acertar-se no feito; porém muito mais lhe pesaria
perder-se, se sem elle se podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante
a Alcacere, sem o querer revelar em Ceuta, receando não se poder escusar
do conde D. Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de
requerer. E depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do
escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta e
quatro partiu d'Alcacere, e mandou levar quatro escadas, de que deu
cargo áquellas pessoas em que entendeu que havia saber e esforço para
isso.

E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do
feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o
cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á vista de todos um
espantoso cometa, que lançava de si muitos raios de fogo em figura de
dragão. Ali disse então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande coração:
«Oh! noite má, para quem t'aparelhas», que ficou em proverbio muito
tempo acostumado.

E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde
porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas ante manhã. E
logo Diogo de Bairros, e João Falcão como principaes movedores do feito,
pediram e requereram a alguns do conselho d'El-Rei e do Infante que hi
eram, que juntamente fossem com elles como testemunhas vêr como estava;
porque se por algum caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por
verdadeiros e livres da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo
pareceu bem acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as
escadas não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros descesse
do castello para fundo.

E aqui é de saber que este lanço de muro porque o escallamento era
ordenado, cerra no castello da parte do sertão em que ha cinco cubellos,
em fim dos quaes seguindo para fundo está uma torre que se chamava de
Gillahare.

E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte levadiça,
acordaram os christãos, que por quanto os mouros do castello sentindo a
gente no muro poderiam sahir pela ponte e impedir e damnificar os que
subissem pelas escadas, que a gente assi como subisse no muro, assi se
mettesse logo entre a dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos
mouros que do castello quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a
fundo para tomarem outra torre que está sobre um postigo, que se chama
de Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e
seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui livremente sem
perigo nem contradição dos mouros, e a segunda senhoreavam a escada do
muro para que a salvo podiam descer e entrar para a cidade.

E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no
muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E acertou-se que
a rolda dos mouros havendo já d'elles algum sentimento estava lançada
entre as ameas d'aquella parte, para differençar bem se eram os barbaros
da serra, que ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao pé do
muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço tomou para de sua duvida
se certificar, que dos christãos houveram sessenta lugar para subir, que
por pontos d'honra em taes tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram
guardar o que entre elles fôra concordado. Pelo qual João Falcão vendo
começos de tanto desmando, disse a João de Sousa que tomasse ou matasse
um mouro guarda que tinha ante si. E João de Sousa como fidalgo acordado
e de bom coração remetteu a elle, o qual da sombra da morte que comsigo
viu, acabou ser desenganado de sua duvida e começou de se poer em
defesa, e em João de Sousa correndo a lança nas mãos para lhe dar, o
mouro em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar,
d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com elles o damno
dos christãos que se aparelhava, e os christãos como os ouviram sem mais
outra consiração, crendo que outra sua grita ao menos para desmaio dos
contrairos aproveitaria muito, logo a deram com altas vozes, e não sem
grande estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros
acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa de tamanho
rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro porque os
christãos haviam de passar. Os quaes assi como viram os nossos estar no
muro, assi se tornaram e pozeram á porta da torre, de que podiam bem
defender aos christãos a passagem do muro para o não poderem descer para
a cidade; porque com sós paos sem outras armas, aos que por elle
passassem, segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo, e
assi o faziam, e os christãos não podendo já passar não leixavam por
isso de subir; porque o Infante era já ao pé do muro, que a uns por
amor, e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam não
podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e outros descendo
para fundo não podendo passar ficavam amontoados, sem poderem aproveitar
a si nem danar aos contrairos.

A cidade era já toda posta em armas e grande alvoroço, e como o alcaide
que se chamava Abrahem Benaamet foi por si certificado que nas outras
partes da cidade não havia outro commetimento nem affronta que muito
receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade de fogo, e
com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou metter no
pomar que era defronte d'onde os christãos estavam, matavam e feriam
muitos, e muitos em se revolvendo cahiam do muro entre elles, que
claramente eram logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello,
que sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no muro, ainda
que não foi sem grande peleja que sobr'isso houve, e foi de maneira que
do castello e de todalas partes, os mouros sem algum seu perigo faziam
um piadoso estrago nos christãos, porque sendo as escallas tomadas não
tinham algum remedio de salvação. O que todo bem visto por João de
Sousa, disse ao Infante de cima do muro, que não mandasse subir mais
gente; porque o feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o
Infante sobre esperança de tanta alegria, ouvindo recado tão certo e tão
triste, não menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de
troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo que o que
fosse de tão bons criados e servidores como já dentro eram, seria d'elle
até com elles morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór
de Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom esforço o
detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e nobre que fosse, em
caso que Portugal a perdesse, bem poderia cobrar outra tal e melhor; mas
não a elle que era tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para
sempre muita mingua e grande necessidade, e que não desse causa que
Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com
estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o Infante
obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se tornou para Alcacere.

E dos christãos entre mortos e captivos ficaram trezentos, todos os mais
homens escolhidos e especiaes, duzentos mortos e cento captivos, e dos
mortos foram principaes, D. Gonçalo Coutinho, conde de Marialva, e D.
Rodrigo seu filho bastardo, e Gomes Freire d'Andrade, e D. Jorge de
Crasto, filho de D. Alvaro, que depois foi conde de Monsanto, e D. João
de Eça, e João de Taide, e Pedro Coelho, e Rui Diaz Lobo, e Pero de
Sousa seu irmão, Fernão de Macedo, e Pedro de Macedo seu irmão, e Alvaro
de Sá, e Fernão Vaz Côrte Real, Rui Paes, e Pero Paes, filhos de Payo
Rodriguez, Contador Môr, e assi outros muitos e bons cavalleiros e
homens de nobre sangue e bom coração.

E dos captivos principaes, que aos cubellos se recolheram e preitejaram
com os mouros, foi D. Fernando Coutinho, marechal, Fernão Tellez, Ruy
Lopez Coutinho, João Falcão, e Diogo da Silva, que depois foi conde de
Portalegre, Garcia de Mello, D. Alvaro de Lima, filho do visconde D.
Lionel de Lima; e outros muitos até o dito numero, em cujos grandes
resgates além das mortes de tanta e tão nobre gente, o reino recebeu uma
durosa magua e grandissima perda, a qual testemunhou bem com os grandes
prantos e geraes lamentações que em todo elle por este caso se fizeram,
e na gloria da victoria que os mouros tinham, praticando e examinando se
entre os christãos mortos ou captivos seria hi o conde D. Duarte,
respondeu um velho e entre elles de grande auctoridade: «não busqueis hi
o conde D. Duarte; porque na grande desordenança dos christãos vi eu bem
que não andava hi».



CAPITULO CLIV

     _Como El-Rei foi d'este triste caso avisado em Ceuta, o dia que
     tinha concertadas vistas em Gibaltar com El-Rei de Castella, a que
     todavia foi, e o fundamento das ditas vistas_


Um Antão Vaz, alfaqueque, era n'este desastrado caso, e como viu o
triste sobcedimento d'elle, logo a grande pressa o veiu notificar á
condessa de Viana, que era em Alcacere, a qual logo com grande trigança
por mar e por terra o fez saber a El-Rei, cujos avisos, por impedimentos
que no caminho houveram, precedeu um outro, que o Infante em chegando a
Alcacere logo lhe enviou por um seu escudeiro, que chegou a El-Rei ante
manhã, na hora que estava de caminho para Gibaltar, onde por meio do
conde de Ledesma tinha vistas concertadas com El-Rei D. Anrique de
Castella que o já esperava.

E El-Rei não quiz desfazer sua ida, e porém despachou o conde de Viana,
que logo tornou ao Infante seu irmão ao confortar e desapassionar do
caso passado, que o cumpriu com muita prudencia e despejo, e de que o
Infante mostrou receber algum descanço e menos dôr.

El-Rei em partindo avisou o escudeiro, que até não ser no mar não
dissese nada do caso, por não commover a choro e tristeza os senhores
que em sua companhia tinha ordenados, que eram o conde de Guimarães, e
D. João seu irmão, o conde de Monsanto, o conde da Atouguia, o Prior do
Crato, e muitos outros do conselho, e gentis homens fidalgos de sua
casa, com os quaes El-Rei passou a Gibaltar, onde El-Rei de Portugal e
El-Rei de Castella tiveram suas praticas e concordias, cuja sustancia
foi requerer El-Rei D. Anrique liança a El Rei D. Affonso, para contra
os grandes de Castella, que com desleal alevantamento d'El-Rei D.
Affonso o moço seu meio irmão lhe queriam desobedecer, e que para ter
mais razão de o ajudar, queria que a Infante D. Isabel sua irmã casasse
com El-Rei D. Affonso; e D. Joanna que então era havida por sua filha, e
jurada por Princeza de Castella, casasse com D. João Principe de
Portugal. E sobr'isto fizeram acordos promettidos e jurados nas mãos de
D. Jorge, Bispo d'Evora, que depois foi Arcebispo de Lisboa e Cardeal.
Os quaes principalmente pela grande inconstancia do dito Rei D. Anrique,
e por impedimentos e contradições outras que se seguiram não houveram
effeito.

E não sómente sobre estes casos os ditos Reis fizeram esta vez estas
vistas; mas depois outras com muitas embaixadas, e porque d'ellas nunca
resultou conclusão que entre elles se executasse nem cumprisse, não
farei agora d'ellas nem depois muita menção.



CAPITULO CLV

     _De como El-Rei em pessoa correu o campo d'Arzilla_


Tornou-se El-Rei a Ceuta, onde foi aconselhado que por quanto a boa
fortuna n'esta jornada d'Africa então lhe não terçava á sua vontade,
consirada isso mesmo a perda da gente com outros inconvenientes assaz
efficazes, que sem mais fazer nem commetter outra cousa se devia de
tornar ao reino, e dar a seus vassallos algum pão de paz e descanso. E
porém El-Rei sem embargo de todo determinou correr primeiro o campo
d'Arzila, e vê-la, com desejo de a tomar, o que logo pôs em obra; porque
partiu logo para Alcacere, e de hi com o Infante passou a serra pelo
porto d'Alfeixe, e em amanhecendo deram em umas aldeias, que com o aviso
e mêdo da ida d'El-Rei eram já despovoradas, e porém correram legoa e
meia por outras partes, e n'aquellas principalmente que o Infante D.
Fernando barrejou mataram alguns mouros e captivaram muitos, e
arrancaram muito gado e outro despojo, com que já de noite passaram o
rio de Tagadarte, e junto com elle da banda d'Alcacere se alojaram
aquella noite. Na qual sobrevieram tantas chuvas, e tão aspera
tempestade com que a ribeira encheu de maneira, que se a não tiveram
passada e ficando alem d'ella, se dispunham a mui certo perigo; porque a
infinda gente dos mouros que logo cresceu deu d'isso ao diante claro
testemunho.

E por esta causa não pôde El-Rei vêr Arzilla, de que recebeu então gram
desprazer, e muito mais depois que soube que os mouros da villa indo
elle sobre ella tinham determinado dar-lh'a, e virem ao caminho
entregar-lhe as chaves, e tornou-se a Ceuta onde os cavallos e a gente
por mau trato, e por aspereza dos tempos lhe falleciam. E por isso logo
começou de declarar sua vinda e despedir a gente; e porém El-Rei não era
satifeito; porque em todo o tempo d'esta passagem se não vira em alguma
travada peleja de mouros, como elle desejava.



CAPITULO CLVI

     _De como El-Rei D. Affonso foi correr a serra de Benafocú, e como
     foi em grande perigo, e como mataram os mouros o conde D. Duarte, e
     a Diogo da Silveira, escrivão da poridade_


Estando El-Rei com este descontentamento, que de seu animo grande e
esforçado procedia, vieram por caso a Ceuta quatro mouros, que o
metteram em grande alvoroço de grande cavalgada e boa escaramuça, que
lhe dariam na serra de Benacofú, onde havia a mais guerreira gente
d'Africa. E El-Rei com um natural desejo que para isso tinha, e com
outra sêde já de vingança, fallou com Lourenço de Caceres, adail, que
foi vêr, e lhe disse o caminho que para aquelle podia levar.

Era em Ceuta o conde D. Duarte, e como quer que alli viera aforrado sem
cavallos, armas, nem gente para sómente despachar com elles seus
negocios, El-Rei mandou que fosse com elle, ao que obedeceu, e porém com
carregume e tristeza de sua morte, que a alma lhe adivinhava, e logo
publicamente o disse, que aquelle dia seria sua fim, especialmente
porque um Frei Luiz, D. Abbade do Mosteiro da Cerzeda, homem
estrangeiro, e de juizos d'astrologo mui certo lhe disse que havia de
morrer sob alheia capitania.

Partiu El-Rei com oitocentos de cavallo, e pouca gente de pé, e foi-se
alojar junto com o castello d'Almunhacar, onde repousou o outro dia
quasi todo, e o Infante D. Fernando seu irmão era já partido para
Portugal, e porém com El-Rei eram capitães e pessoas principaes o duque
de Bragança, o conde de Guimarães, e D. Affonso que depois foi conde de
Faram, seus filhos, e o conde de Villa Real, D. Affonso de Vasconcellos,
que foi depois conde de Penella, e o conde de Monsanto, e o conde de
Vianna, e D. Anrique seu filho, e outros muitos fidalgos e cavalleiros e
nobres homens com que partiu e entrou de noite na serra, que em todo
para os de pé era mui aspera e fragosa, quanto mais para cavallos tão
trabalhados, e como foi manhã repartiram-se as gentes em capitanias, e á
ventura começaram de correr a terra, e os mouros que por almenaras eram
já d'esta entrada avisados, uns embrenhavam suas mulheres e filhos nas
mattas e serras que ali ha mui fortes e com grande espessura, e outros
com muita braveza e esforço vinham travar escaramuças e pelejas, que por
uns e por outros houve em muitas partes mui bem pelejadas, em que dos
mouros entre mortos e feridos houve gram numero, e não sem muito dano
dos christãos, de que muitos em offender mouros e defender e salvar
christãos fizeram feitos mui assignados.

El-Rei andou pelo espigão da serra; porque a encavalgou por um de dois
espinhaços que ella faz, e sahiu por outro, e foi ter a uma grande
aldeia cabeceira das outras, onde comeu e repousou um pouco. E então
mandou a Lopo d'Almeida e ao adail, que com a gente necessaria levassem
a cavalgada ao pé da serra onde o esperassem, e d'ali abalou El Rei com
mais vagar do que o tempo e a terra requeriam, e de um cabeço em que se
pôs, mandou aos espingardeiros e besteiros e gente de pé, que por mór
despejo se fossem diante caminho de Tutuam, onde aquella noite havia de
repousar, e depois de passado um grande espaço ainda com passos
vagarosos seguiu sua viagem, e após elle sem muito alvoroço vinham
alguns mouros de cavallo, e sobresendo El-Rei disse: «Parece-me que
estes mouros na maneira em que vem mais quererão paz que peleja», com os
quaes esteve á falla, querendo d'elles saber se queriam ser seus como os
outros, a que os mouros pediram horas d'acordo e consulta com outros
seus visinhos, que em grande somma eram postos em um cabeço que El-Rei
já leixara; e porque a resposta tardava El-Rei abalou, e com seu
estandarte diante sobiu com os de cavallo a um cerro alto e de pedras e
barrocas mui fragoso; era na reguarda d'elle o conde de Villa Real e bem
detraz, e o conde de Guimarães pediu a El-Rei que por quanto o conde seu
cunhado ficava em grande perigo o mandasse com espingardeiros e
besteiros soccorrer, para que já se não acharam, e El-Rei lhe mandou
dizer que logo sem mais esperar se recolhesse a elle; mas o conde como
era esforçado e singular capitão, e nas manhas dos mouros assaz avisado,
mandou dizer a El-Rei que lhe despejasse o porto e se fosse embora;
porque elle por seu serviço se recolheria com sua honra e com dano dos
mouros.

E certamente como quer que o conde de Villa Real por sua bondade d'armas
outras vezes mereceu e ganhou grande honra e muito louvor, n'este dia em
especial o acrescentou muito mais; porque álém de se recolher como
cumpria a um singular capitão, indo como ardido cavalleiro, os imigos
nas voltas e esperadas que n'elles muitas vezes fez receberam muitas
mortes e damnos.

Estando El-Rei n'aquelle teso, a sua gente cada vez lhe mingoava mais, e
a dos mouros crescia contra elle em maior avantagem, e em vozes altas e
iradas disseram contra os christãos:

«Dizei a vosso Rei que não queremos com elle paz se não crua guerra, e
que saiba por estas barbas e cabeças que tocamos, que hoje é o dia da
nossa vingança»

E em se El-Rei decendo da serra carregaram os mouros logo sobr'elle, e
das ilhargas feriam mui mal os cavallos, a que El-Rei com quatrocentos
de cavallo que com elle seriam, fez com muita destreza tres voltas
curtas, em que além d'outros feriu e matou per si um mouro com muito
despejo e ardideza, e porque o perigo sobre El-Rei recrecia cada vez
maior, alguma gente sua esquecida da lealdade e defendimento que lhe
deviam, lembrando-se mais de sua propria salvação começavam de o
desamparar, e náo aproveitavam brados nem vozes, por bem que se n'elles
altamente afiasse a desleal vergonha com que em tal tempo leixavam seu
Rei com sua bandeira.

E vendo-se já El-Rei mui afrontado, sendo estreitamente aconselhado que
ao menos das serras se salvasse para o campo, chamou o conde D. Duarte e
disse-lhe:

«Conde, ficai com estes mouros, porque lhe conheceis melhor as manhas, e
acaudellai esta minha gente.»

E o conde lhe respondeu:

«Senhor, eu não quizera que em tal tempo me dereis este cuidado,
especialmente porque não tenho aqui minha gente que me conhece, cá pois
estes que são presentes e vossos, não obedecem a vosso mandado, menos
cumprirão o meu, porém pois que o assi haveis por vosso serviço, hei por
muito bem empregado a mi mesmo em qualquer trabalho e perigo que me
acontecer, até morte.»

E o conde não era em suas palavras enganado, por que como El-Rei moveu,
assi o fizeram todos após elle, sem o conde poder aproveitar em nada,
antes seu cavallo logo lhe foi morto, e elle ferido, sobre que acudiu o
conde de Monsanto seu cunhado, trabalhando de o poer em outro cavallo,
em que se acertaram os loros tão compridos, que o conde com a perna
direita nunca pôde vingar a sella, antes com a espora feriu o cavallo
nas ancas, que aos couces o lançou logo no chão.

O conde D. Duarte não vendo já esperança de sua vida, pediu ao conde de
Monsanto que salvasse a sua e o leixasse. E porém os mouros carregaram
sobre elle e leixaram alli seu corpo sem vida, e não sem primeiro
sentirem muita vingança de sua morte, sendo já primeiro junto com elle
morto um Nuno Martins de Villa-Lobos seu criado, que como bom recebeu
aquella morte por lhe querer soccorrer com seu cavallo de que se deceu.

E El-Rei com assaz afronta se recolheu por uma lomba a fundo, onde seu
estandarte nas mãos de Duarte d'Almeida, alferes, foi dos mouros muitas
vezes abatido, e fôra tomado se o esforçado acordo do alferes e valentia
de Ruy de Sousa o não salvaram.

Foram alli mortos Diogo da Silveira, escrivão da poridade, e Fernão de
Sousa, alcaide de Guimarães, e Luis Mendes de Vasconcellos, e Pero
Gonçalves, secretairo, e outros que acabaram como bons e leaes
cavalleiros.

Deceu El-Rei ao pé do monte ainda dos mouros bem perseguido, e quizera
fazer sobr'elles uma volta, para com elles em pelleja esprementar sua
fortuna, mas por força de nobres homens que hi eram, vendo a disposição
de tamanho perigo, o tiraram e passaram além de um rio, onde chegou a
elle o conde de Villa Real que sempre ficara de tras, que seu braço e
acordo escusou muito dano a El-Rei, que em publico lhe disse: «Conde a
fé ficou hoje toda em vós», e de hi contra vontade de muitos, El-Rei se
foi aquella noite alojar a Tutuam, e ao outro dia partiu para Ceuta. E
no caminho fez vir ante si D. Anrique de Menezes, filho do conde D.
Duarte, e o confortou com louvores da honrada morte de seu pae, e com
esperança de grande acrecentamento, que por seus serviços e merecimentos
lhe faria como fez, porque alli o fez conde, e lhe deu todalas mercês
que seu pae tinha. Verdade é que lhe tirou Vianna de Caminha, e lhe deu
depois Vallença com o titulo de conde d'ella, e depois o de Loulé.



CAPITULO CLVII

     _De como El-Rei se veiu a Portugal e foi em romaria, a Guadalupe, e
     se viu com El-Rei D. Anrique e com a Rainha, sua mulher_


Tanto que El-Rei despachou suas cousas em Ceuta, se partiu logo para o
reino, e veiu desembarcar a Tavilla, e de hi foi ter a Evora a Pascoa
d'este anno de mil e quatrocentos e sessenta e quatro. Passada a qual se
foi a Elvas, e d'hi com alguns senhores e fidalgos escolhidos,
secretamente se foi em romaria a Santa Maria de Guadalupe. E de hi para
concerto já praticado se foi ao lugar da ponte do Arcebispo, onde se viu
com El-Rei D. Anrique, e com a Rainha D. Joana sua irmã. E alli tiveram
as mesmas praticas e acordos de Gibaltar sobre casamentos e lianças, que
em fim não houveram effeito, porque a Infante D. Isabel de Castella,
contra vontade d'El-Rei D. Anrique, e por meio do Arcebispo de Tolledo
casou logo com D. Fernando, Principe d'Aragão e de Cicilia, que depois
reinaram pacificamente em Castella, e o Principe de Portugal casou com a
Senhora D. Lianor sua prima com irmã, filha maior do Infante D.
Fernando, que depois foi Rainha de Portugal.

N'este anno de mil e quatrocentos sessenta e quatro, no mez d'Agosto,
falleceu o Papa Pio, e sobcedeu após elle o Papa Paulo segundo.



CAPITULO CLVIII

     _De como houve em Castella grande devisão, sobre que houve vistas
     na cidade da Guarda com a Rainha irmã d'El-Rei_


E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e cinco houve em
Castella entre El-Rei D. Anrique e os senhores do reino grande
differença; porque alguns por vicios e erros que lhe punham, lhe
alevantaram a obediencia e a deram ao Infante D. Affonso, que em moço
alevantaram por Rei, sobre a qual cousa a Rainha D. Joana de Castella
para pedir ajuda e socorro contra os revés a El-Rei D. Anrique seu
marido, e assi ainda sobre os ditos e lianças veiu á cidade da Guarda em
Portugal. Onde El-Rei tambem veiu, e fez côrtes de todolos grandes e
povos de seus reinos, e todos a ellas vieram salvo o Infante D.
Fernando, que em vindo adoeceu na sua villa de Covilhã e não pôde estar
n'ellas, nas quaes a Rainha em nome d'El-Rei e seu requereu a dita
ajuda, com fundamentos e causas que pareciam de honra, razão e proveito,
mas em fim conhecida a condição variavel do dito Rei D. Anrique, e
outras cousas mui perjudiciaes a taes lianças, foi El-Rei aconselhado
que em tal discordia e empreza nem lianças se não antremettesse, da qual
cousa com a mais honestidade que pôde se escusou. Como quer que nos
primeiros movimentos sua tenção foi dar-lhe ajuda, para que antes
d'estas côrtes fez alguns percebimentos. E segundo o muito desejo que
para isso tinha, não fôra maravilha forçar as prudentes vozes e acordos
de seu conselho, se o dito Rei D. Anrique fôra dos seus vassallos mais
tempo desobedecido; mas falleceu logo o dito Rei D. Affonso seu irmão e
competidor, por cuja morte todalas rebeliões e alvoroços cessaram em
Castella; porque os cavaleiros desobedientes não tendo cabeça de seu
alevantamento, volveram logo a obediencia d'El-Rei D. Anrique.



CAPITULO CLIX

     _De como se concertou casamento entre o Principe D. João com a
     Senhora D. Lianor filha do Infante D. Fernando_


E as cousas que nos annos seguintes de mil e quatrocentos sessenta e
seis, sessenta e sete e sessenta e oito, n'estes reinos de Portugal
sobcederam, foi concerto que se fez do Principe D. João, filho d'El-Rei
D. Affonso com a Senhora D. Lianor, filha maior do Infante D. Fernando;
porque como quer que o dito Principe muitas vezes fôra d'El-Rei D.
Anrique requerido para casar com a Senhora D. Joana sua filha, Princeza
que então se dizia de Castella, e El-Rei D. Affonso era a isso
inclinado; porque no tempo d'este requerimento sobreveio o mau
sobcedimento do escallamento de Tangere, de que o Infante D. Fernando
ficou mui anojado e triste, e El-Rei D. Affonso seu irmão pelo confortar
e alegrar como era razão, e tambem porque a dita Senhora D. Lianor sua
filha por seu real sangue, muitas bondades, e gram perfeição era dina de
um grande Imperador, prouve-lhe que o casamento do Principe seu filho se
fizesse com ella. E que emquanto ambos cumprissem a idade necessaria
para contraer perfeito matrimonio, se houvesse a despensação Apostolica
como se houve do Papa Paulo. E porém ao tempo que a dita despensação
veio, que foi no anno de mil e quatrocentos e setenta, o Infante D.
Fernando era fallecido como se dirá.



CAPITULO CLX

     _De como o Infante D. Fernando passou por si em Africa, e tomou a
     cidade de Anafee_


E no anno de sessenta e nove, o Infante D. Fernando como era de mui
nobre coração, de que nunca sahia um louvado desejo d'acrecentar sua
honra e estado, especialmente na guerra dos mouros, que lhe já vinha por
legitima sobcessão, por licença e ajuda d'El-Rei seu irmão, com grande
frota e muita e boa gente passou em Africa onde dizem as praias, e sem
muita resistencia tomou a cidade d'Anafee, que é na costa do mar; porque
os mouros vendo sobre si tamanha frota, com tanto poder a que não podiam
resistir, por salvarem suas vidas desampararam a cidade, que foi logo
entrada e roubada; e porque era de grande cerca, cuja defensão seria mui
difficil, quizera o Infante manter com fronteiros o castello, e
finalmente depois de tudo bem consirado; porque na frota não ia gente e
mantimentos que podessem leixar e soprir á deffensão da cidade, e
bastecimento de tamanhas paredes, acordaram de em muitas partes a
desportilhar e derribar, e tornar-se o Infante ao reino, e assi o fez.

O infante D. Fernando depois d'esta vinda d'Anafee adoeceu, e foi sua
doença algum tanto perlongada, durando a qual afirmou de todo com El-Rei
seu irmão o casamento do Principe com sua filha. E concertou outro da
Senhora D. Isabel tambem sua filha ligitima com o conde de Guimarães,
que por maior ennobrecimento d'este casamento, El-Rei o fez duque da
mesma villa de Guimarães, sendo ainda vivo o duque de Bragança seu
padre, por cuja morte sobcedeu o titulo de dois ducados.



CAPITULO CLXI

     _Do fallecimento do Infante D. Fernando, e dos filhos que d'elle
     ficaram_


E no anno de mil e quatrocentos e setenta, a dezoito dias do mez de
Setembro, o dito Infante D. Fernando falleceu, e deu sua alma a Deos em
Setuvel, em idade de XXXVII annos, sendo El-Rei seu irmão e a Infante
sua mulher presentes, por cuja morte fizeram claros sinaes de grande dôr
e sentimento; foi seu corpo logo enterrado no mosteiro de S. Francisco
da observancia, que é junto com a dita villa, e de hi foram depois seus
ossos com muita honra, e grande solemnidade, treladados ao mosteiro da
Conceição de Beja, onde jazem em sua mui honrada sepultura, a qual a
Senhora Infante D. Briatiz sua mulher como Princesa em toda mui
virtuosa, juntamente com o dito mosteiro de novo fundou e edificou com
grandes suas despesas, e perpetuamente o dotou de muitas rendas e
singulares ornamentos.

Ficaram d'elle quatro filhos, e as duas filhas que já disse, e dos
filhos o maior houve nome D. João, a que El-Rei fez duque de Vizeu e de
Beja, e lhe deu a governança dos Mestrados de Christus e Santiago, com
todo o mais que o Infante seu padre tinha, e logo em moço falleceu, a
que em todo sobcedeu o filho segundo, que havia nome D. Diogo, salvo o
Mestrado de Santiago, que por prazer e consentimento da dita Infante foi
dado ao Principe, e este duque houve a fim que a Chronica d'El-Rei D.
João faz menção, e o terceiro filho houve nome D. Duarte, que o Principe
recolheu para si, e criando-o em sua casa com muita honra e grande amor
como proprio filho, falleceu em moço, e o quarto houve nome D. Manuel,
que por morte do duque D. Diogo o sobcedeu logo como se dirá. E depois
por seus merecimentos e boa ventura, por fallecimento de ligitimo
herdeiro que d'El-Rei D. João seu primo ficasse, subcedeo os reinos de
Portugal, em que viva muitos annos para os fazer como faz em titulos e
senhorios maiores, mais ricos e mais bem aventurados.

E tambem houve D. Simão, que em moço falleceu de sua doença natural.

E a XXII dias de Janeiro do anno de mil e quatrocentos setenta e um, em
Setuvel, depois de vir a despensação de Roma, o Principe D. João recebeu
por mulher por palavras de presente a Senhora Princesa D. Lianor,
entrando o Principe em idade de XV annos. E por a morte do Infante ser
ainda tão fresca, não se fizeram em seu recebimento as festas e prazeres
que em outro tempo fôra razão.



CAPITULO CLXII

     _De como tendo El-Rei determinado passar em Africa, convertia a
     armada contra os inglezes pela tomada, das náos de Portugal, e
     desistiu d'isso pela morte do conde Baroique, e se ordenou a ida
     sobre Arzilla_


E n'este anno e assi no passado determinou El-Rei de passar em Africa,
para que teve em pessoa, e assi mandou ter praticas e conselhos em
Lisboa nas casas do conde de Monsanto.

E o primeiro desejo e movimento d'El-Rei foi ir sobre Tangere. Mas
porque para cercar e combater tamanha cidade, por então não se achou no
reino o soprimento que era necessario, desistiu El-Rei d'este proposito,
e com fundamentos de bom conquistador, e com evidentes razões que lhe
foram apontadas, de que se tambem ao diante não perdia a esperança do
cobramento de Tangere, assentou ir sobre Arzilla, que logo por Vicente
Simões, homem nas cousas do mar bem esperto e entendido, e por Pero
d'Alcaçova seu escrivão da fazenda e de que muito fiava, mandou muitas
vezes espiar e vêr, assim no que cumpria para o ancorar e desembarcar do
mar como para o assento da terra. Em que com fingidos negocios com que
os mouros tratavam, acabaram de ser certificados de todo o que para uma
cousa e para a outra era necessario, de que perfeitamente avisaram
El-Rei, que logo mandou fazer no reino e fóra d'elle os percebimentos de
navios, armas e mantimentos para trinta mil homens, com que determinou
passar, e estando El-Rei já casi prestes, foi certificado que doze náos
grossas de seus reinos vindo em canal de Frandes foram tomadas, e suas
mercadorias roubadas por Facumbrix, cosairo, capitão e sobrinho do conde
Baroique, que a este tempo governava o reino de Inglaterra.

E sobre os agravos e lamentações que os mercadores e povo d'estes reinos
acerca de seus damnos e perdas fizeram a El-Rei, elle teve logo conselho
com os principaes de sua côrte. E assi o enviou pedir aos grandes e
senhores do seu reino, que lh'o enviaram por escripto. Dos quaes
sustancialmente foi pela mór parte aconselhado, que a armada d'Africa
que era voluntaria, e convertesse por muitas razões esta contra os
inglezes, que era obrigatoria e necessaria. E que fosse grossa e de
muito e boa gente, para que d'algum castigo d'estes nascesse receio aos
outros muitos, que a seus vassallos não fizessem no mar os males e
damnos que cada dia e sem emenda lhe faziam. Á qual parte El-Rei mais
inclinado, ordenou armar grossamente, e dava por capitão d'armada D.
João filho do duque, que depois foi Condestabre e marquez de
Montemór-o-Novo, e com elle carracas e muitas náos grossas, e outros
navios pequenos em grande numero.

E estando tudo já quasi prestes, veiu certidão a El-Rei estando em
Lisboa, no mez de Junho, que o dito conde Baroique, e o Rei porque
governava Inglaterra, eram em batalha mortos por El-Rei Duarte, que
depois pacificamente reinou, pelo qual El-Rei foi logo movido cessar da
dita armada, que para emenda e vingança do dito conde fazia, e a mudar
no primeiro proposito de passar em Africa, sobre que primeiro se
fundara. E que a entrega das náos e mercadorias de seus reinos
remedeasse como remedeou, e procurou por embaixadas, que com pessoas
d'autoridade a Inglaterra e a Borgonha muitas vezes depois enviou. E
assi mandou pelo reino suas cartas de percebimentos, com aviso que os
condes e senhores sómente levassem cavallos.



CAPITULO CLXIII

     _De como El-Rei levou comsigo o Principe seu filho, e como
     embarcaram, e com que gente e frota_


Determinou El-Rei a requerimento do Principe seu filho, e contra
conselho dos mais principaes do reino de o levar n'esta passagem
comsigo, e leixou por inteiro governador, e com nome de governador do
reino o duque de Bragança, que escusando-se por sua velhice de tal
cargo, se convidava para ir com elle á guerra dos mouros, porque seu
coração e devoção não enfraquecia; porque a ella foi sampre mui
inclinado. E porque El-Rei era sabedor que entre alguns grandes e
pessoas principaes de seus reinos, que para sua passagem eram
percebidos, havia odios e dissensões, e outros jaziam em publicas
excommunhões, El-Rei com a só pena que pôs de os não levar comsigo se
não se concordassem e asolvessem, elles por não ficarem se concordaram e
satisfezeram e se reconciliaram.

Encommendou El-Rei o cargo da gente d'entre Doiro e Minho, e da frota do
Porto ao duque de Guimarães, que se ajuntou com El-Rei em Lisboa no
começo do mez d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor Jesus
Christo de mil e quatrocentos setenta e um, em que El-Rei houvera de
partir, e por ventos que não terçavam de viagem, suspendeu sua partida
até dia da Asumção de Nossa Senhora, que é aos quinze dias do dito mez,
em que depois de elle e o Principe entrarem no mar com mui solemne
procissão, e com maravilhoso e grande triumpho, sobreveiu vento prospero
e desejado, com que partiu de Restello e chegou a Lagos, onde o já
esperavam os navios e gente do Algarve. E assi o conde de Valença que
viera d'Alcacere, com que sua real frota refez por todas numero de
quatrocentas e setenta e sete vellas, e até trinta mil homens. E alli
depois de ouvir missa, e para o caso uma devota pregação, e revellar a
todos sua ida sobre Arzilla, foram elle e o Principe com uma devota
procissão e grande estrondo de trombetas e manistreis altos e baixos,
mettidos nos bateis, e de hi aos navios que logo fizeram vella, que com
vento bonançoso chegaram d'Avante á dita villa d'Arzilla, onde sua frota
ancorou aos XX dias do dito mez, já sobre tarde, os mouros da qual como
de dia houveram vista d'ella; porque da passagem d'El-Rei tinham já
muitos avisos, adivinhando com receio seu mal, se começaram de prover
como para tal necessidade e afronta cumpria.



CAPITULO CLXIV

     _De como El-Rei tomou terra em Arzilla_


E no outro dia em amanhecendo, depois d'El-Rei ter conselho sobre sua
desembarcação e filhamento da terra, mandou apparelhar e armar os bateis
e caravellas pequenas, e barcas de carreto para logo na melhor
ordenança, e que mais fosse possivel tomarem terra. E como quer que o
porto era mui perigoso; porque o mar áquellas horas andava mui
alevantado, e quebrava com muita braveza em um arrecife de pedra que
tem, com entradas más de tomar, El-Rei todavia mandou com muito esforço
e presteza remar e tomar a terra, onde elle por maior esforço de todos
não quiz ser dos segundos, em que se perdeu uma galé com outras
caravellas e bateis, em que no mar morreram até oito fidalgos, e da
outra gente até duzentos, em que eram alguns bons cavalleiros e
escudeiros.

E porém no primeiro bote sairam logo com El-Rei muita gente, toda bem
armada, sem alguma contradição dos mouros em sua saida, e os outros que
na frota ficavam, com quanto viam ante os olhos sua clara perdição, não
receiavam por isso com uma perfiosa bondade d'entrar nos bateis e
caravellas, como se em um rio manso entrassem, até que aos tres dias com
a segurança e maior resguardo que foi possivel acabaram de sair em
terra.

E no dia em que El-Rei sahio, logo pôs cerco á villa em torno de mar,
cerrando e defensando seu arrayal com alta cava; porque o palanque que
levava, pela braveza do mar não podera logo sahir.

E das muitas e grossas bombardas que El-Rei levava, que com a tormenta
das náos se não podiam tirar, sairam sómente duas pequenas, que em duas
partes da villa foram logo ensejadas. E começaram apressadamente de
fazer seus tiros, e assi os espingardeiros e besteiros não cessavam de
combater, e porém sem fundamento de ordenado combate; porque o geral e
da maior affronta em que se punha toda a esperança da victoria, tinha
El-Rei reservado para depois que todas suas artilherias fossem
assentadas. E porém as bombardas desfizeram dois lanços do muro até o
meio, onde os mouros logo acudiram e repairaram com muito esforço e não
sem algum dano dos christãos, de que tambem com espingardas e bestas os
mouros eram mui danificados.



CAPITULO CLXV

     _De como a villa foi entrada, e o Principe foi armado cavalleiro, e
     morreram o conde de Marialva, e o conde de Monsanto e outros_


E aos XXIV dias do dito mez, que era dia de S. Bertolameu, pela manhã,
D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, a que a estancia e guarda do
castello era encomendada, enviou dizer a El-Rei que estava em sua tenda,
que o Alcaide da dita villa lhe queria ir falar sobre concerto, que era
tal que o devia aceitar. E ante de El-Rei dar final resposta, tendo
vontade de se concordar como aos mouros já escreveram e mandaram
requerer, vieram logo vozes emtoados por todos que a villa se entrava. O
que a vista propria d'El-Rei que a isso com muita trigança sahiu, fez
mui certo e verdadeiro; porque como o rumor correu que a villa era
entrada assi concorreu logo a gente do arraial aos muros, a que com
muitas escadas e engenhos que para isso eram ordenados, sem alguma certa
ordem de combate, logo com muita ardideza subiram e entraram á dita
villa por todalas partes.

E os mouros vendo-se entrados e perseguidos dos christãos, pelejando
bravamente uns se recolheram á misquita, e outros, os mais honrados ao
castello. E com os da misquita ante de ser vencida, houve de uma parte e
da outra mui crua e sangoenta peleja. Em que dos christãos entre outros
morreu principal e como ardido e valente cavalleiro, D. João Coutinho,
conde de Marialva, que com seu braço acompanhou primeiro seu corpo
d'outros corpos vazios d'almas imigas, e não sem grande tristeza que
El-Rei e o Principe e toda a côrte por sua morte tomaram, e não sem
causa; porque era mancebo, e senhor de grande e honrada casa, e em que
se vivera pareciam já virtuosos sinaes d'haver n'elle para o reino um
singular homem para armas e conselho.

E acabada a peleja da misquita, logo a gente recorreu ao castello, que
de todalas partes era mui forte e defensavel, cujo combate por esforço
d'El-Rei e do Principe, que eram presentes, foi com tanta força e
ardideza cometido, que logo antes de algumas escadas serem postas, os
christãos por lanças e páos com muita desenvoltura sobiam ás torres e
muros, de que os debaixo com uma louvada inveja de tanta honra,
esquecidos de todo perigo cometiam seus corpos com armas pesadas a mui
fracas toucas de linho, porque os allavam e subiam acima, onde nos muros
e torres que dos christãos se entravam, e depois no patim do castello
houve tão mortal peleja, como parecia claro nos muitos mortos e feridos
que em todas partes jaziam.

Alli no castello álém d'outros nobres christãos que com ferro morreram,
foi morto D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, camareiro-mór
d'El-Rei, que sua morte muito sentio; porque certo elle no campo e na
côrte, na paz e na guerra era por seu siso, discrissão e esforço, homem
mui principal. E em fim assi foram os mouros da villa e do castello
cometidos, que todos ficaram mortos e captivos sem alguma excepção, cujo
numero segundo comum orçamento seriam dos mortos até dois mil, e dos
captivos até cinco mil. E foi achado e tomado na villa mui grande e rico
despojo, que foi estimado a oitenta mil dobras d'ouro. Do qual todo
El-Rei fez aos tomadores escala franca, sem reservar para si quinto, nem
outro direito algum.

Acharam-se dentro cincoenta captivos christãos, a que a santa victoria
deu livre redenção. E El-Rei e o Principe, assi no entrar da villa, como
no soccorrer e prover das muitas pelejas e afronta dos combates, não
sómente por seu conselho e exforço usaram de oficios, que pareciam e
eram de aprovados capitães; mas ainda por seus braços cometeram e
acabaram feitos como ardidos e valentes cavalleiros, sem algum resguardo
nem tento do que a suas pessoas e dinidades reaes se deviam, e
certamente era grande gloria vêr aquelle dia na mão do Principe em idade
de XVI annos sua espada de bravos golpes torcida, e de sangue de infieis
em todo banhada, em cuja vista a mór parte da alegria era d'El-Rei seu
padre, que n'aquella victoria e perigo o tomou por parceiro, vendo que
em ajuda tão necessaria, e perigo tão conhecido não podera no mundo
escolher melhor companheiro do que gerara por filho.

E porém como El-Rei sentiu que o feito com desejado vencimento era de
todo acabado, foi logo á misquita dos mouros, onde sobre o corpo do
conde de Marialva achou já uma cruz, a qual por começo do serviço e
sacrificio, que a Deus n'ella ao diante se havia de fazer, logo beijou e
adorou, e depois de fazer oração, logo junto com o corpo morto do dito
conde, armou per si o Principe seu filho por cavaleiro, com palavras de
grandes louvores, e muitas bondades e merecimentos do mesmo conde. E
sendo ambos d'armas victoriosas vestidos, El-Rei no cabo de auto tão
devoto e tão glorioso, disse ao Principe, e não sem algumas lagrimas:

--«Filho, Deus vos faça tão bom cavaleiro como este que aqui jaz.»

E porque o conde D. João não tinha filhos, e por sua tão honrada casa,
por fallecimento de legitima sobcessão não ficar distinta ou minguada,
El-Rei em galardão de sua morte, e por sua vida e memoria para sempre
viva, fez conde de Marialva D. Francisco Coutinho seu irmão, que este
titulo e mercê aos Reis de Portugal e seus reinos sempre bem servio e
mereceo. E assi fez conde de Monsanto a D. João de Castro, filho do dito
conde D. Alvaro. E edificou a dita misquita em casa de oração da
avocação de Nossa Senhora, Santa Maria da Asumção; porque n'aquelle dia
partio de Lisboa para tomar a villa, e em tal dia partio El-Rei D. João
seu avô, quando tomou a cidade de Ceuta, e em tal venceu a batalha real,
e em tal dia falleceu, e em tal dia nasceu.



CAPITULO CLXVI

     _De como Mollexeque vinha socorrer Arzila, e fez pazes com El-Rei
     D. Affonso_


E n'esta villa foram tomadas e captivas duas mulheres e um filho de
Mollexeque, Senhor d'Arzila, gran senhor entre os mouros, que depois foi
Rei de Fez; e porém a este tempo que El-Rei chegou sobre Arzila, elle
era em Fez guerreando um Marim, que governava o Rei do dito reino, por
cuja morte ficou Rei. E sendo d'isso certificado, partiu logo a gram
pressa assaz poderoso, para soccorrer a villa se fosse possivel, e em
Alcacer Quibir foi certificado da expunação e entrada da villa, e
estrago e captiveiro de suas mulheres e filhos, e de todolos mouros
d'ella, d'onde enviou a El-Rei sua embaixada, cuja conclusão foi: Depois
de ambos partirem aquellas terras, segundo os antigos termos de suas
cidades e villas d'Africa, requeriam desejar com elle paz ou tregoa, que
com seu temor e grande necessidade lhe pedio, e para isso lhe desse
segurança para em pessoa lhe vir fazer reverencia, e com elle se
concertar, do que a El-Rei muito prouve, e sobre firmes seguranças que
lhe enviou, o dito Mollexeque veio com trezentos de cavallo a tiro de
bombarda da dita villa.

E porém elle com receios de cautellas e suspeitas de mouros, com quanto
El-Rei por dobrar na segurança lhe tornou a enviar sua direita monopla
d'armas, não quiz a suas vistas chegar. E d'ali porém se concertaram, em
que por contrato escripto tomaram concordia, sobre os termos e logares
que a um e a outro ficariam, de que arrecadassem suas pareas e tributos.
E assentaram tregoa por vinte annos que El-Rei lhe deu, a qual sómente
nas terras chãs se entendesse; porque sem quebramento d'ella a cada um
ficava livre faculdade para do outro poder tomar e conquistar seus
logares cercados; e d'ali se tornou Mollexeque.

E El-Rei como quer que d'outros senhores e grandes homens fosse para a
capitania e governança da dita villa requerido, fez capitão d'ella
juntamente com Alcacere, que já aos mouros tinha tomado, a D. Anrique de
Meneses, conde de Valença, a quem publicamente disse muitas virtudes e
merecimentos para isso, que faziam todos por muita sua honra e louvor.



CAPITULO CLXVII

     _De como El-Rei foi certificado que os mouros de Tangere tinham
     leixado a cidade, e do que sobr'isso logo proveu, e de como se foi
     a ella, e de hi para o reino_


El-rei em provendo as cousas da villa que cumpriam, com fundamento de se
volver para o reino, foi por dois mouros a gram pressa certificado que
os moradores da cidade de Tangere esquecidos da grande fortaleza d'ella
e de si mesmos, principalmente temendo que a mortindade e estrago de
Arzilla, de que por uma velha segundo se disse, foram avisados, não
viesse tambem sobre elles, a tinham desamparada de todo. A qual leixaram
vazia de suas pessoas e fazendas, e cheia de muito fogo, que as casas e
reliquias d'ella sem proveito dos christãos se destruissem e queimassem.

E após a primeira nova d'esta tamanha e não crida gloria, vieram logo
outros que sem duvida o confirmaram, pelo qual El-Rei com muita gente de
pé, e com os de cavallo que foi possivel, enviou logo á dita cidade D.
João, filho do duque, que depois foi marquez de Montemór, aos XXVIII
dias d'Agosto, dia de Santo Agostinho, que segundo se affirma foi já
bispo d'ella. E ao outro dia o dito D. João sem alguma contradição
entrou na cidade, em que achou certas bombardas grossas, e muita outra
artilharia e polvora, a que os mouros por desacordo e cegueira, ou por
causa de mais seu damno não poseram o fogo, e o punham andando ás palhas
e cousas pequenas das casas. Da qual cousa logo avisou El-Rei, que
alegre de tão bem aventurado sobcedimento, sem muito trespasso com o
Principe, e com a nobre gente de sua côrte, logo se foi á dita cidade,
em que entrou já sem o ardente desejo de sua destruição e vingança, em
que sempre vivia.

Foi-se logo á Mesquita que já era feita egreja, onde deu muitas graças e
louvores a Deos, e envestio de Bispo da cidade o prior de S. Vicente de
Fóra de Lisboa, que sendo da regra e Ordem de Santo Agostinho, por
promoção e auctoridade apostolica era já d'antes intitulado Bispo
d'ella, na qual esteve El-Rei XVII dias não se fartando de a vêr, dentro
dos quaes proveo as cousas que para boa governança d'ella cumpriam. E
fez e leixou por capitão e governador d'ella a Ruy de Mello seu Guarda
Mór, que depois foi conde d'Olivença, pessoa no reino tão principal que
o tal carrego, e outro de mais honra e mór perigo e peso, por muitas
causas e razões mui bem merecia.

E assi ennovou e accrescentou El-Rei o titulo que tinha, e se intitulou
nova e primeiramente por esta maneira: D. Affonso por graça de Deus Rei
de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa. E depois de
fazer muitas terras chãs dos mouros suas subjeitas e tributarias, e
notificar ao Papa e a todolos Reis e Principes christãos esta sua
excellente victoria, partiu-se com o Principe para Portugal aos XVII
dias do mez de Setembro, e logo ao outro dia seguinte foi no porto da
cidade de Silves. De maneira que El-Rei em XXXIII dias contados do dia
que partiu de Lisboa até este, começou e acabou prosperamente estes
tamanhos feitos, de que Deus foi muito servido, e seu estado e nome por
todo o mundo mui accrescentado e louvado.

E os christãos d'Andaluzia não receberam por isso menos prazer que
segurança, de que com festas para o mundo, e devotas procissões para
Deos deram claros signaes.

E de Silves se foi logo El-Rei e o Principe por mar á cidade de Lisboa,
onde foram com grande triunfo, e muitas festas e alegrias recebidos, o
que todo tambem por todo o reino com a notificação e certeza da victoria
por muitos dias se continuou.



CAPITULO CLXVIII

     _De como a Infante D. Joana filha d'El-Rei foi metida no mosteiro
     de Odivellas, e de hi ao mosteiro d' Aveiro, e de outras cousas que
     El-Rei fez_


A Infante D. Joanna filha d'El-Rei estava a este tempo em Lisboa, com
tão grande casa de donas e donzellas e officiaes como se fôra Rainha; e
porque fazia sem necessidade grandes despezas, e assi por se evitarem
alguns escandalos e perjuizos que em sua casa por não ser casada se
podiam seguir, El-Rei por conselho que sobr'isso teve, logo no mez
d'Outubro d'este anno a apartou, e em habito secular e com poucos
servidores a poz no mosteiro d'Odivellas em poder da Senhora D. Filipa
sua tia, em edade de XVIII annos. D'onde foi depois mudada para o
mosteiro de Jesus de Aveiro. Onde sem casar com nome de honesta e mui
virtuosa, acabou depois sua vida em idade de trinta e seis annos.

E n'este anno falleceu o Papa Paulo, e sobcedeu em Roma a cadeira de S.
Pedro o Papa Sixto quarto, a que El-Rei mandou com sua obediencia Lopo
d'Almeida.



CAPITULO CLXIX

     _Foi feito primeiro conde de Penella D. Affonso de Vasconcellos_


N'este anno em chegando El-Rei d'armada, fez em Lisboa novamente conde
de Penella D. Affonso de Vasconcellos seu sobrinho, o qual por sua nobre
linhagem e singulares serviços e grandes merecimentos, aquella e outra
maior dinidade, tinha já a El-Rei e ao reino bem merecida.



CAPITULO CLXX

     _Tomou o Principe D. João sua casa_


E no anno seguinte de mil e quatrocentos e setenta e dois, tomou o
Principe D. João sua mulher e casa na villa de Beja, onde era a Senhora
Infante D. Briatiz, e d'alli se veio á cidade d'Evora.



CAPITULO CLXXI

     _De como houve embaixadas e vistas entre El-Rei de Castella e de
     Portugal, e sobre que_


No qual anno, e assi no passado entre os Reis de Castella e de Portugal
houve de uma parte e da outra muitas embaixadas, ainda sobre lianças e
mudança de casamento d'El-Rei D. Affonso com a Princeza D. Joanna sua
sobrinha; porque como El-Rei D. Anrique de Castella soube que o Principe
D. João de Portugal era casado com a Princesa D. Lianor, e não podia já
casar com a Princesa sua filha, e viu que a Infante D. Isabel sua irmã
fôra contra seu prazer e auctoridade casada com El-Rei de Cecilia filho
d'El-Rei D. João d'Aragão, mandou fazer d'isso autos solenes, em que com
quanto pôde, por sua desobediencia a desherdou da herança de Castella. E
procurou de casar a dita Princesa D. Joana sua filha com El-Rei D.
Affonso, sobre o qual como disse, se passaram mui continuas embaixadas,
e por meio de D. João Pacheco, Mestre de Santiago, se concertaram
vistas, em que os Reis acompanhados de mui nobre gente se viram entre
Elvas e Badalhoce. Ás quaes vieram outrosi embaixadores do dito D.
Fernando Rei de Cecilia, e da Rainha D. Isabel sua mulher, para com
evidentes causas impedir o effeito do dito casamento. E finalmente no
caso e negocio intrevieram tantas duvidas, e com esperança de tantos
males e divisões de reino a reino, que El-Rei de Portugal tendo
sobr'isso muitas vezes conselho, nunca em vida d'El-Rei D. Anrique se
acharam taes meios, com que parecesse razão elle aceitar e concordar o
dito casamento. E tudo principalmente causava, ser a Rainha de Cecilia
intitulada por Princesa de Castella, de que tinha a mór parte dos
grandes e Senhores d'ella, em que o mal da guerra era tão certo como o
bem da victoria duvidoso. E porém depois da morte d'El-Rei D. Anrique,
El-Rei D. Affonso consentio no dito casamento, e entrou em Castella
intitulado Rei d'ella, como ao diante se dirá.



CAPITULO CLXXII

     _De como os ossos do Infante D. Fernando foram a estes reinos
     trazidos de Fez_


N'este anno sendo ainda em Fez os ossos do Infante D. Fernando, que lá
falleceu em um santo captiveiro como atrás fica, como quer que a El-Rei
D. Affonso por resgate e redenção das mulheres e filho de Mollexeque,
que foram captivas em Arzilla lhe fosse prometida uma grande somma
d'ouro, elle como Rei bom e piedoso denegou sempre todo outro partido e
interesse, salvo que por ellas lhe dessem os ossos do dito Infante, que
a este tempo eram em poder de Molley Belfagege.

E leixando muitas embaixadas e recados que sobre este concerto de uma
parte e da outra se passaram. Finalmente o dito Molley Belfagege enviou
a El-Rei a propria ossada do dito Infante, bem reconhecida por tal por
Molley Belfaca seu filho moço, e por Diogo de Bairros Adail Mór, que a
elle por este caso fôra algumas vezes embaixador. Os quaes por mar
chegaram com ella a Restello, e do navio foi tirada e trazida com grande
manificencia á cidade de Lisboa, e entrou pela porta de Santa Catherina,
onde com solemne procissão foi recebida, e alli pelo priol de S.
Domingos Mestre Affonso se fez um sermão para o caso mui conveniente e
devoto, em que houve palavras de tanta piedade e compaixão, que
commoveram as gentes a muitas lagrimas como se foram Endoenças.

E d'alli foram os ossos postos no mosteiro do Salvador, e de hi levados
ao mosteiro da Batalha, e postos com devidas exequias em sua ordenada
sepultura, na capella d'El-Rei D. João seu padre, onde segundo alguma
clara evidencia, Deos por merecimentos do dito Infante, e em signal de
sua bemaventurança fez alguns milagres. E certamente com a restituição
da ossada d'este bemaventurado Infante, por justas causas e mui claras
razões recebeu todo o reino prazer e alegria sem conto, e El-Rei dos
seus naturaes e estranhos não menos honra, gloria e louvor que das
prosperas expunações de Arzila e Tangere.



CAPITULO CLXXIII

     _Do fundamento que El-Rei D. Affonso teve para entrar em Castella
     por morte d' El-Rei D. Anrique_


E no fim do anno de mil e quatrocentos setenta e quatro, El-Rei D.
Anrique de Castella falleceu na villa de Madrid; foi seu corpo levado ao
mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, onde na capella maior á mão
direita jaz em sua real sepultura como parece, e da outra parte jaz a
Rainha D. Maria sua madre.

Fez El-Rei D. Anrique seu solemne e acordado testamento, em que declarou
a Princeza D. Joana por sua filha, e por Rainha herdeira dos reinos de
Castella. E a El-Rei D. Affonso por governador d'elles, pedindo lhe
finalmente que aceitasse a dita governança, e casasse com ella, o qual
testamento foi logo trazido a El-Rei D. Affonso, que estava em Extremoz,
no mez de Dezembro do dito anno de mil e quatrocentos e setenta e
quatro, sobre o qual El-Rei logo teve grande e geral conselho, para que
foram alli juntos com El-Rei e com o Principe todolos grandes e
principaes do reino.

E o Principe desejando que El-Rei seu padre com esperança de acrecentar
seus reinos de Portugal, aceitasse, e não se escusasse do casamento e
empresa de Castela, tinha suas fallas e maneiras com esses principaes, a
que revellava seu desejo, com que os commovia para que conselhassem
El-Rei seu padre e o esforçassem para isso. Porque depois de sua morte,
muitas vezes o Principe D. João seu filho sendo Rei, com aquella
onestidade e reverença que devia, acusava a negligencia ou não bom
conselho d'El-Rei seu padre; porque não censentira e aceitara os
primeiros cometimentos dos casamentos de Castella, El-Rei D. Affonso com
a Infante D. Isabel, e elle com a Princesa D. Joana, com que de uma
maneira ou d'outra foram d'Espanha pacificos Reis e Senhores.

E porém o conselho do Arcebispo de Lisboa, que depois foi Cardeal, e do
duque marquez de Villa Viçosa por causas muitas que allegaram, foi que
El-Rei em tempos de tanta devisão, e com tamanho pendor contrairo como
tinha, não devia entrar em Castella nem aceitar a empresa d'ella, e
leixala aos naturaes que a quizessem favorecer e soster. Pelo qual ante
de se tomar final assento, acordou El-Rei de enviar primeiro como enviou
a Castella Lopo d'Albuquerque, Camareiro-Mór, que depois foi conde de
Penamacor, a saber quantos e quaes eram os cavalleiros da valia da
Rainha D. Joana, e concertar-se com elles, e tomar d'elles certidão
d'obediencia para em sua segurança, se parecesse razão, El-Rei entrar em
Castella. E o dito Lopo d'Albuquerque, foi principalmente aderençado a
D. Affonso Carrilho, Arcebispo de Toledo, e ao marquez de Vilhena, e ao
duque do Infantado, que então era marquez de Santilhana, e ao duque e
duquesa d'Arevallo, e a outros muitos de sua parentella e valia. Os
quaes a este tempo eram todos declarados por a dita Rainha D. Joana, de
que trouxe a El-Rei autenticas certidões, e promessas de casando com
ella o servirem e obedecerem como a proprio Rei de Castella.



CAPITULO CLXXIV

     _Como El-Rei determinou todavia entrar em Castella, e dos
     requerimentos que logo enviou a El-Rei D. Fernando e á Rainha D.
     Isabel_


E com esta certidão com que o dito Lopo d'Albuquerque chegou a Évora, no
Janeiro de mil e quatrocentos setenta e cinco, determinou El-Rei,
pospostos outros muitos inconvenientes que com tudo se apontaram e se
offereceram, todavia aceitar como aceitou a empreza, e sem escusa entrar
em Castella, pelo qual mandou logo perceber os grandes e senhores,
prelados, fidalgos, e cavalleiros, e gente outra de seus reinos, para na
entrada do Maio logo seguinte serem em Arronches, por onde acordou
d'entrar.

E d'alli El-Rei por conselho que para isso teve, ante d'outro
proseguimento enviou Ruy de Sousa a El-Rei D. Fernando, e á Rainha D.
Isabel, que em Valhadolid estavam em festas e justas reaes,
notificando-lhe como por ser casado com a Rainha D. Joana filha legitima
d'El-Rei D. Anrique, os reinos de Castella lhe pertenciam, requerendo-os
e amoestando-os com as razões e protestações que n'isso cabiam, que se
fossem dos ditos reinos e lh'os leixassem livres. A que os ditos Rei e
Rainha, com outras razões que pareciam ser conformes a justiça e
honestidade, responderam e outrosi requereram que elle não entrasse nos
ditos reinos, que sómente a elles diziam que pertenciam. E em fim a
determinação do feito ficou entre os Reis não a boas razões, nem
justificação de Leis que apontassem, mas sómente a disposição e força
das armas como se fez, e ao diante se dirá.



CAPITULO CLXXV

     _De como El-Rei se foi a Arronches, por onde acordou d'entrar em
     Castella_


El-Rei se foi na entrada do mez de Maio a Arronches, e com elle o
Principe seu filho, a que deu as provisões que cumpriam para inteira
governança e regimento do reino de Portugal em que ficava, e assi outras
declarações secretas como por via de testamento, em que quiz e declarou
que todalas graças e doações, que durando esta empresa e necessidade de
Castella a quaesquer pessoas fizesse, que passassem de dez mil réis de
renda, não sendo aprovadas, consentidas, e assinadas juntamente pelo
dito Principe seu filho, fossem de nenhum valor, como cousas por
constrangimento e sem vontade outorgadas.



CAPITULO CLXXVI

     _De como a este tempo naceu o Principe D. Affonso neto d'El-Rei_


Estando El-Rei já prestes para d'Arronches mover com todo seu arraial,
veio a elle e ao Principe certidão, que a Princesa D. Lianor pario o
Infante D. Affonso em Lisboa, a XVIII dias de Maio de mil e quatrocentos
setenta e cinco. Com que todo o Reino mostrou geralmente muita gloria e
alegria. E por seu nacimento declarou logo El-Rei, sendo caso que o
Principe D. João seu filho em sua vida fallecesse, a tempo que elle
mesmo Rei tivesse outro filho lidimo da Rainha D. Joana sua esposa com
que havia de casar, que ao dito Infante D. Affonso sempre pertencesse e
viesse a sobcesão dos reinos de Portugal, e que para isso fosse logo
jurado e obedecido, como depois o foi com a devida cerimonia e
solemnidade, de que para uma cousa e para a outra se outorgaram e
fizeram provisões e escripturas autenticas.



CAPITULO CLXXVII

     _Da gente com que El-Rei entrou em Castella, e em que ordenança ia_


E com a gente que a El-Rei veiu e com elle se ajuntou em Arronches, e
com a do duque de Guimarães e do conde de Marialva, e de Ruy Pereira e
d'outros fidalgos, que atalhando pela comarca da Beira se foram ajuntar
com El-Rei já em Castella, se fez de gente numero certo, ao todo de
cinco mil e seiscentos de cavallo, e quatorze mil homens de pé, todos
bem armados e encavalgados, e providos d'artilharias, armas e tendas, e
de todo o mais que para guerra pertencia, e tudo em gram perfeição. E
com os que eram em Arronches partiu, e foi ter o primeiro arraial em
campo á fortaleza da Codiceira já em Castella, e de hi a Pedra Boa,
d'onde o Principe se despedio d'El-Rei seu padre, e se veiu a Portugal;
porque até alli sempre foi despachando o que lhe cumpria.

E a ordenança da hoste e batalhas d'El-Rei iam n'esta maneira: diante ia
logo Diogo de Bairros, Adail Mór com certos ginetes por descobridores. E
após elle o marechal D. Fernando Coutinho, com guias e outra gente
ordenada, por apousentador e assentador do arraial. E logo Vasco Martins
de Sousa Chichorro, capitão dos ginetes d'El-Rei em sua batalha. A quem
logo seguia o conde de Penamacôr, capitão da avanguarda d'El-Rei, após o
qual seguia logo a carreagem.

E a batalha real com suas reaes bandeiras tendidas iam no meio, na qual
El-Rei o mais do tempo ia. E porém ás vezes com certos ginetes andava
provendo de batalha em batalha, trazendo sempre de trás de si nas mãos
de um page um guião de sua divisa, que foi um rodizio de moinho com
gotas d'agoa derrador espargidas, que tomara pela Rainha D. Isabel sua
mulher. E na reguarda ia o duque por Condestabre; porque em caso que D.
João seu irmão tivesse o nome e servisse o officio nas villas e causas
judiciaes, porém sempre no campo a priminencia do officio ficou ao
duque.

E além d'estas batalhas eram outras ordenadas ás allas da batalha
d'El-Rei, em que iam de cada parte, D. Affonso conde de Faram, e D.
Anrique de Menezes conde de Loulé, e D. Affonso de Vasconcellos conde de
Penella, e o conde de Monsanto, e outros.



CAPITULO CLXXVIII

     _De como El-Rei chegou a Prazença, onde publicamente foi jurado por
     Rei, e esposado com a Rainha D. Joana, e d'outras cousas_


E n'esta ordenança sem algum recontro nem rebate contrairo chegou El-Rei
á cidade de Prazença, onde o já esperava a Rainha D. Joana. E com ella o
duque e duqueza d'Arevallo, que eram senhores da dita cidade, e com
elles o marquez de Vilhena e o conde d'Oronha, e outros muitos senhores,
e pousou El-Rei com a Rainha dentro na fortaleza, onde por alguns dias
houve grandes festas e prazeres, nos quaes se consultou a maneira do
recebimento d'El-Rei com a Rainha, e seu alevantamento por Rei, o que se
fez em um alto e mui rico cadafalso posto na praça da cidade, em que
El-Rei e a Rainha ambos juntamente estiveram.

E alli depois de feita publicamente a solemnidade dos esposoiros, como
em tal caso cumpria, logo com cerimonias de trombetas e reis d'armas em
altas vozes foram pelos senhores que eram presentes, e com outros muitos
com suas procurações, alevantados e jurados por Reis de Castella, e por
taes lhes beijaram as mãos, e se tomaram d'isso publicos estromentos. E
d'alli em diante se intitulou El-Rei D. Affonso, Rei de Castella e de
Lião e de Portugal, etc., e chamou á Rainha esposa, com a qual então nem
depois nunca consumou o matrimonio, por defeito de despensação que não
tinha nem nunca houve. E por galardão do trabalho que Lopo d'Albuquerque
tomara no concerto d'esta entrada e casamento, El-Rei o fez alli conde
de Penamacôr.

E de Prazença fez El-Rei tornar D. João Galvão, Bispo de Coimbra, com
sua gente por fronteiro da comarca da Beira, e Pero d'Albuquerque por
capitão do Sabugal e Alfaiates.



CAPITULO CLXXIX

     _De como El-Rei D. Affonso e a Rainha se foram á cidade de Touro, e
     como El-Rei D. Fernando veiu sobre elle com todo seu poder_


E feita consulta do mais que se faria, moveu El-Rei logo com a Rainha em
arraial caminho d'Arevalo, em que foram sempre de noite e de dia com
grandes resguardos de segurança, especialmente atravessando por terra
d'Alva, onde com muita gente d'armas era o duque, que por obrigação de
sangue que entre si tinham, sempre seguio a parte de El Rei D. Fernando.

Em Arevalo estiveram poucos dias, d'onde El-Rei se foi á cidade de
Touro, por concerto que tinha de lha dar como deu João d'Ulhoa, dentro
da qual El-Rei com toda sua gente se alojou. E em chegando se pôs cerco,
e deram fortes combates ao castello da cidade que achara contrairo, em
que a mulher de Rodrigo d'Ulhoa estava por El-Rei D. Fernando e a Rainha
D. Isabel, que como Reis esforçados, e por darem de si bom exemplo aos
que em tantas differenças bem os servissem, cometeram de vir socorrer e
descercar o dito castello, e chegaram a meia legoa de Touro, de gentes e
artilharias muito mais poderosos que El-Rei D. Affonso.

E assentaram seu arrayal ao longo do Doiro acima da cidade. Mas o cerco
do dito castello estava em todo tão percebido e com estancias tão armado
e afortalezado, que El-Rei D. Fernando por escusar no cometimento uma
perda certa por victoria tão duvidosa, não quiz cometer o combate. E
depois d'estar alli alguns dias, em que do conde de Marialva D.
Francisco Coutinho, e de Diogo Fernandes d'Almeida, e do conde de Faram,
e d'outros fidalgos e cavalleiros, El-Rei D. Fernando recebeo muitas
vezes em sua gente e carriagens muito dano e perda, com rebates que
estes de dia e de noite, como nobres e esforçados cavalleiros lhe davam,
assi logo do arraial como depois ao alevantar d'elle, El-Rei D. Fernando
como triste e anojado alevantou seu arraial e se foi a Valhadolid, com
pouca esperança de conseguir o efeito de sua empresa; porque a gente por
desfallecimento de dinheiro, que já não tinham, se partia d'elle, e do
descerco de Touro, que não acabara nem cometera, deu causa que nos
corações dos castelhanos enfraquentou muito seu partido.

E a opinião, ou mais certa verdadeira sentença dos sesudos e bons
guerreiros, foi que se El-Rei D. Affonso se soubera approveitar da
bonança n'este tempo, e sobre este desfavor e quebra d'El-Rei D.
Fernando o perseguira, e por cerco ou batalha o apertara, que de
necessidade d'esta vez o lançara fóra de Castella, onde sem resistencia
na maior parte ficara Rei pacifico.

A mulher de Rodrigo d'Ulhoa vendo-se já desesperada de socorro,
soffrendo primeiro muitos combates e minas, e resistindo sempre como boa
e virtuosa dona, com segurança de sua pessoa e fazenda fez partido, com
que entregou o castello a El-Rei, que o deu logo ao dito João d'Ulhoa
seu irmão d'elle.



CAPITULO CLXXX

     _De como El-Rei D. Affonso se foi a Çamora, e de hi querendo ir
     descercar o castello de Burgos tomou Baltanas, e prendeo o conde de
     Benavente_


E n'este tempo João de Porras, cavalleiro principal de Çamora, andava em
trato de fazer vir a dita cidade a serviço e obediencia d'El-Rei D.
Affonso; porque o Marechal que tinha a fortaleza por El-Rei D. Fernando,
elle tambem o commovia, porque era seu genro.

E El-Rei D. Affonso fez João de Porras vedor de sua casa, por prazer e
consentimento de Pero de Sousa, que o dito officio tinha. E como El-Rei
foi do trato de Çamora seguro e certificado, se foi logo a ella com a
Rainha, onde foram em tudo com muitas cerimonias e grandes triunfos
recebidos e obedecidos. E alli era já o Arcebispo de Toledo com El-Rei
D. Affonso. E porque tinha o castello de Burgos um cavalleiro chamado
Sarmento, em que era estreitamente cercado por El-Rei D. Fernando, cujo
contrairo estava, determinou El-Rei D. Affonso de o ir descercar e
prover. Pelo qual partio logo assaz poderoso de Çamora, onde leixou a
Rainha, e por sua guarda Lopo d'Almeida, e por sua aia a Camareira Mór,
D. Briatiz da Silva sua mulher.

Foi-se El-Rei a Arevallo, onde por calmas e muitas fruitas, e pós, e
outro máo trato que alli houve lhe morreu muita gente, porque esteve
alli muitos dias recebendo avisos dos de Burgos, e consultando se
cometeria, ou como cometeria o dito descerco; porque para tudo havia
muitas razões e mais duvidas. E finalmente acordou descercal-o, para que
partio e foi a Pena Fiel, que era do conde d'Oronha, onde tambem por
receios e dificuldades, que recreciam maiores, sobreseve alguns dias,
nos quaes foi avisado que o conde de Benavente sabendo de sua ida a
Burgos, se viera com quatrocentas lanças á Villa de Baltanas, oito
legoas de Pena Fiel, para d'alli lhe dar rebates, e com dano dos
d'El-Rei D. Affonso fazer de sua honra, pelo qual El-Rei determinou de
secretamente o ir cercar e tomar por força, e para maior dessimulação
d'isso, temendo de ser o conde de Benavente avisado, mandou diante e de
dia por outro caminho desviado o conde de Penamacôr com a gente de sua
guarda, e em sua companhia Ruy Pereira da Feira, e D. Diogo de Crasto.

E como foi de noite partio El-Rei por o caminho direito de Baltanas, e
porém na mesma noite vieram-se ajuntar não longe da villa a que iam,
d'onde o conde de Penamacôr se adiantou com seus ordenados, e em
querendo amanhecer se pôs em corrida, e chegou com pouca gente sobre a
dita villa, além da qual por se o conde não sair, se pôs logo em
batalha, a que o conde de Benavente com quanto na villa tinha mais
gente, crendo que era cillada não quiz sair, e se pôs em ordenança de
defesa, avisando do caso outra sua gente que era acerca, por dois de
ligeiros cavallos, que enviou para logo lhe socorressem.

E porém se o conde de Benavente ante da chegada d'El-Rei que tardou
muito, dera no conde de Penamacôr, claro é que o desbaratara, e tivera
d'elle certa victoria; porque tinha mais gente e mais folgada, e assi os
cavallos e muitos espingardeiros e artilharias. Mas El-Rei sendo duas
horas de sol chegou com muita gente, e assi com escadas e artilharias
sobre a villa, e depois de comerem, mandou fazer signal de combate, que
de todalas partes se deu á villa mui rijo e mui afrontado, em que a
gente toda era a pé, salvo El-Rei que de uma parte para a outra andava a
cavalo. E leixou de fóra a cavallo D. Troillos, filho do Arcebispo de
Toledo com gente d'armas, e ginetes para segurar rebates e torvações do
campo.

O conde de Benavente como era gram senhor e esforçado cavalleiro, tinha
comsigo muita e boa gente d'armas, e assi espingardeiros e outra muita
artilharia, com que fez muito dano aos d'El-Rei, e entre os mortos que
de sua parte alli foram, foi o principal D. Alvaro Coutinho, filho maior
do Marichal, que entre as ameias subindo por uma escada foi morto. E
porém a villa foi com tanto aperto combatida e entrada, que o conde de
Benavente por segurar a vida, constrangidamente a veio em pessoa pedir a
El-Rei de cima do muro, e El-Rei per si mesmo em viva voz lh'a outorgou,
com que se deceo e deu á prisão. E a villa foi logo entrada e roubada
toda, de que se houve muito e rico despojo.

Dormio El-Rei alli aquella noite, e ao outro dia alegre e contente se
tornou a Pena Fiel, e trouxe preso o dito conde, cuja guarda encomendou
ao conde de Penela, que o teve emquanto não foi delivrado.



CAPITULO CLXXXI

     _De como El-Rei tomou Cantalapedra, e se tornou a Çamora_


Tornou El-Rei a ter conselho sobre o socorro do castelo de Burgos, e
como quer que para isso pelo bom sobcedimento de Baltanas tinha bom
tempo e disposição, foi dos portuguezes aconselhado que o não fizesse, e
tornou-se a Arevallo já no fim de Setembro. E d'alli por trato que já
achou concertado enviou o conde de Penamacor, e Ruy de Mello, e outros
fidalgos e cavalleiros a escalar e tomar como tomaram de noite a villa
de Cantalapedra sem algum perigo nem resistencia. E El-Rei sobreveio
logo com toda a outra gente, para se se pozera em defesa a combater e
tomar por força como a de Baltanas.

Houve-se El-Rei nobre e piadosamente ácerca das pessoas e fazendas dos
lavradores da villa. E leixou hi logo por capitão o dito Ruy de Mello, e
tornou-se a Arevalo, e depois quando por hi tornou caminho de Çamora,
onde veio invernar, leixou por capitão Bandarra, irmão do Bispo de
Coimbra.



CAPITULO CLXXXII

     _Do cuidado que o Principe D. João tinha em governar e defender
     Portugal, e como_


Sobre o Principe que tornou a Portugal carregaram muitos cuidados;
porque não sómente sobre seu justo juizo pendeo a governança do reino
nas cousas da justiça, mas ainda muito mais sobre seu coração e esforço
a defesa d'elle, nas afrontas da guerra. A qual pela ausencia d'El-Rei
D. Affonso seu pai, que levou comsigo a frol da gente e armas do reino,
crecia e se acendia muito nos estremos d'elle com roubos, mortes, fogo e
sangue, e com entradas de gentes contrairas, a que o Principe de noite e
de dia, e em armas sempre vestido socorria e resistia com muita viveza e
trabalho, não como Principe moço e novel, mas como ardido e velho
cavalleiro, que nos trabalhos e afrontas por longos tempos fôra
esprementado, e tanto era mais de louvar, quanto os imigos sendo mais, e
elle em todo com menos possibilidade para os contrariar, não sómente
muitas vezes defendeo em pessoa os reinos porque esperava, mas ainda os
estranhos offendia e guerreava continuamente por muitas maneiras.

E n'este mesmo anno com quanto pareceu que El-Rei D. Affonso levou do
reino tanto dinheiro, que por muito tempo lhe podera soprir, porém as
despesas de soldos e outras necessidades sobrevieram em tanto
crecimento, que a El-Rei conveio socorrer-se aos dinheiros dos Orfãos de
seus reinos, e a outros muitos emprestidos particulares, e por seus
officiaes foram logo tirados e levados a Castella. A cuja paga O dito
Principe depois que reinou, por descargo d'alma de seu pai, como bom e
piadoso filho satisfez quanto pôde com muito cuidado e amor.



CAPITULO CLXXXIII

     _De como o principe cercou a villa d'Ougela, e a tomou, e da morte
     de João da Silva_


N'este mesmo anno no mez de Junho estando o Principe em Extremoz,
Galindo, cavalleiro castelhano, e na extremadura de Castella bem
aparentado, tomou salteada e por máo recado dos visinhos d'ella, a villa
d'Ougela junto com Campo Maior, sobre que o Principe com a mais gente de
pé e cavallo que foi possivel, e com algumas artilharias logo acudiu, e
a cercou, em cujo cerco era do Principe capitão principal João da Silva
seu Camareiro Mór, nobre fidalgo, e de mui conhecido e esprementado
esforço.

E finalmente foi a villa assi afrontada, que aos contrairos que a tinham
conveio com risco de suas pessoas partirem-se d'ella e livremente a
leixarem. E em vindo o dito Galindo já sobre este concerto, com assaz de
gente para recolher os seus que saissem do cerco, sahio a elle o dito
João da Silva, e vindo cada um d'elles diante da sua gente de noite,
pessoa por pessoa, por acertamento se toparam junto com a dita villa, e
d'encontros tão mortaes se encontraram, que d'elles sós, falsadas as
armas d'ambos, ambos morreram sem outro dano algum se receber de cada
uma das ditas partes, e certo para um reino e para o outro a morte de
taes dois homens, por sua nobreza e valentia foi muito sentida e triste,
mas para suas honras e memorias assaz honrada e muito de louvar.



CAPITULO CLXXXIV

     _De como o Principe indo vêr-se com El-Rei D. Affonso seu padre,
     foi por elle avisado da traição da ponte de Çamora, e se tornou de
     Miranda do Doiro_


El-Rei D. Affonso como disse veio invernar a Çamora, d'onde muitos
portuguezes, e os mais sem vontade d'El-Rei se vieram a este reino, o
qual desejoso de vêr o Principe seu filho, e ter com elle conselho sobre
cousas que em tantas necessidades a seu estado e honra cumpriam, lhe
escreveu, que logo o fosse vêr a Çamora, o que o Principe depois de
prover as frontarias e cousas do reino com muita diligencia e obediencia
logo cumprio. E sendo já em Miranda do Doiro aforrado, para d'ali com
gentes d'El-Rei entrar seguramente, foi de mandado d'El-Rei avisado por
o Chicorro, capitão dos ginetes que passou o Douro a nado, que se
volvesse por causa da traição da ponte de Çamora, que foi brevemente
n'esta maneira.



CAPITULO CLXXXV

     _De como foi a dita traição, e da maneira que El-Rei D. Affonso
     sobre isto teve_


A dita ponte tem duas torres, uma na entrada da cidade, de que era
alcaide um Pedro de Mazaregos, e outra da outra parte, que tinha um
chamado Valdes, seu cunhado, dos quaes El-Rei fôra já avisado que se
segurasse, porque contra seu serviço tratavam com El-Rei D. Fernando. O
que El-Rei crendo que eram suspeitas falsas que d'elles lhe davam, não o
quiz remedear.

E no dia em que El-Rei havia de Çamora mandar a gente pelo Principe, foi
certificado pelo doutor Pareja, corregador da cidade, já de noite, como
gente grossa d'El-Rei D. Fernando sobre concerto da ponte era partida de
Vilhalpando contra Çamora. E o trato era sabendo da vinda do Principe,
que o leixassem com toda a gente meter e entrar na ponte, e que se
levantassem contra elles, e cerrassem ambas as torres, e os matassem ou
prendessem, e pela duvida que El-Rei D. Affonso contra os da ponte tinha
já concebida, conveio sem mais esperar poer-se logo a cavallo. E sendo
com elle o Arcebispo de Toledo e outros alguns, chegaram á ponte da
parte da cidade, e mandou a Pedro de Mazaregos que logo abrissem a torre
e lhe viesse fallar, o qual se escusou d'isso com taes palavras e
mostranças, por que El-Rei e os que com elle iam, claramente conheceram
ser traição. E como cousa já danada, logo assi de noite como iam sem
mais outro acordado proposito, tentaram de por força tomar a ponte, mas
pela forte resistencia e defesa que dentro houve, não poderam.

El-Rei e todolos outros mui tristes se volveram á cidade, que com
repique do sino grande, e com dobradas vozes de «traição, traição», foi
logo metida em temeroso alvoroço d'armas, e certamente consiradas bem as
circumstancias de muitas cousas que n'aquella noite concorreram, ella
geralmente a todos e em cada parte foi de grande temor e espanto; porque
a todos era notorio haver traição, e mui poucos sabiam em que pessoas e
de que maneira seria. E com este medo tão claro e segurança tão escura,
assi trabalhavam de se salvar os castelhanos dos portuguezes, como os
portuguezes dos castelhanos, sem haver de uns para os outros nenhuma
certa fiança, até que foi manhã, que a todos fez certos da clara
verdade.



CAPITULO CLXXXVI

     _De como El-Rei combateu a ponte, e do que se seguiu, e como El-Rei
     D. Affonso leixou Çamora, e se foi a Touro_


E no dia seguinte depois de amanhecer El-Rei se pôs em armas, e todolos
senhores principaes e fidalgos com elle para combate da ponte, e posto
que com toda ardideza e perigo, com espingardas e tiros outros, e bestas
e lenha, pez e fogo, á parte da dita ponte contra a cidade o deram mui
aturadamente e sem algum medo, em fim o damno todo ficou com os
d'El-Rei, a que com espingardas e tiros que de dentro furiosamente
jogavam, lhe feriram muitos senhores principaes e fidalgos, e mataram
alguns, de que os principaes feridos d'espingardas foram, o conde de
Villa Real, e D. João de Lima, que depois foi bisconde, e D. Rodrigo de
Castro filho do conde de Monsanto, e foi morto João Alvarez Pereira,
page d'El-Rei, e outros, pelo qual vendo El-Rei a perda tão manifesta, e
a esperança da victoria tão desesperada, afastou sua gente do combate, e
se recolheu á cidade. Onde dos castelhanos que seguiam seu partido foi
principalmente aconselhado que algumas pessoas suspeitas que n'ella
houvesse mandasse sem armas lançar fóra, e elle pois bem podia, a
mantivesse e a defendesse, e por alguma maneira não se saisse, e que o
damno e perigo da ponte poderia levemente remedear, mandando logo fazer
entre ella e a cidade um muro mais forte que a porta da mesma ponte, com
que os da cidade se fariam mais fortes contra a ponte, que os da ponte
contra ella, e mais que tinha a fortaleza certa e segura a seu serviço,
que para sua segurança era um fundamento mui principal.

E finalmente a torvação foi em todos tamanha, que este tão são e seguro
conselho nunca o quizeram entender, e se o entenderam não o quizeram
obrar, porque El-Rei desconfiando já dos castelhanos e acostando-se ao
conselho dos portuguezes, foi d'elles aconselhado que com a Rainha se
saisse, e não se fiasse já dos de Çamora, que havendo vista d'El-Rei D.
Fernando se sobre ella viesse, se volveriam contra elle, de que seria
mui difficil elle e todolos seus escaparem, pelo qual se partio El-Rei e
a Rainha caminho de Touro, onde estava João d'Ulhoa, que os recolheo com
tamanha fé e lealdade, como era a desconfiança que muitos levavam de
elle contra El-Rei e a Rainha fazer e usar do contrairo.



CAPITULO CLXXXVII

     _Dos percebimentos que o Principe fez em Portugal para ir socorrer
     a El-Rei D. Affonso seu padre, e como entrou em Castella_


E tornando ás cousas do reino de Portugal, o Principe da traição
cometida contra El-Rei seu padre foi muito anojado, e desejando de o
ajudar e socorrer não sómente como bom e piedoso filho, mas como amigo
poderoso e verdadeiro que era, volveu-se logo á cidade da Guarda, onde
teve conselho em que se determinou dar-se socorro a seu padre de gentes
e dinheiro do reino, quanto fosse possivel, e que o Principe fosse
socorre-lo em pessoa. Em cumprimento do qual fizeram logo para gente
apurações e percebimentos geraes, e para o dinheiro além do que se pôde
haver das rendas do reino, se tomou por certa recadação toda a prata das
egrejas e mosteiros, salvo a sagrada, callezes, custodias e relicairos,
e assi por imprestidos de pessoas particulares se houve alguma somma de
dinheiro. E não sem grandes dôres e gemidos do povo que o muito sentiam.

Cometeo o Principe e deu por autoridade d'El-Rei o inteiro regimento e
governança do reino á Princesa D. Lianor sua mulher. E com ella ordenou
e leixou pessoas d'autoridade e letras e bom conselho, com que nas
cousas do reino se aconselhasse, e proveo as fronteiras de capitães,
alcaides, e gentes como cumpria. E depois de feito isto, e ter sua gente
prestes, partiu da Guarda no mez de Janeiro de mil e quatrocentos
setenta e seis. E foi a Castello Rodrigo, e de hi entrou em Castella por
villa de S. Fellizes, que por estar contra serviço d'El-Rei seu padre a
combateo, e tomou por força, e foi toda roubada, e a leixou então por
si, em que foram alguns mortos e muitos feridos, e de S. Fellizes foi
junto com Ledesma, que com quanto era contraira deu ao arraial dinheiro,
mantimento e provisões em abastança. E d'alli no fim do mez de Janeiro
em tanto concerto levou sempre o Principe sua gente, que no caminho
nunca recebeo rota nem recontro, até que chegou á cidade de Touro, onde
El-Rei seu padre, depois de sair de Çamora, seguio e tratou em sua
propria pessoa as cousas da guerra muitas vezes, mais como cavalleiro
fronteiro, que como tamanho Rei, e tão poderoso como era.



CAPITULO CLXXXVIII

     _De como El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel se apoderaram de
     Çamora, e poseram cerco ao castello_


El-Rei D. Fernando com a Rainha sua mulher vieram-se logo a Çamora, a
que El-Rei D. Affonso com desejo de batalha foi dar vista duas vezes,
sem haver entre elles peleja. E El-Rei D. Fernando tambem veio dar outra
vista sem rota alguma entre elles, uma legoa de Touro. E depois vieram
seus corredores a Touro, a que o conde de Penamacôr sahio, e lhes seguiu
o encalço até junto com Çamora, d'onde sahio outra gente de refresco,
que prenderam e feriram o dito conde, e assi prenderam e feriram outros
fidalgos portuguezes. E porém El-Rei D. Fernando pôs logo cerco e
estancias mui fortes ao castello da cidade, que era seu contrairo. E a
determinação d'El-Rei D. Affonso era combater e romper as ditas
estancias, e soccorrer á fortaleza. E o proposito d'El-Rei D. Fernando,
a que tudo logo se revellava, era de lh'o resistir com todas forças e
poder, e a um Rei e ao outro não era escondido que n'este só ponto de
Çamora estava a esperança de todo o feito d'ambos; porque o que d'esta
contenda ficasse com melhoria, essa d'hi em diante teria sempre nos
debates de Castella, pois cada um de proposito ajuntava para isso todo
seu poder e valia, e assi foi e se seguio como se dirá.



CAPITULO CLXXXIX

     _De como El-Rei D. Affonso e o Principe cercaram Çamora da parte da
     ponte_


E o Principe em sua chegada a Touro foi d'El-Rei seu padre, e de toda a
sua côrte altamente e com muito prazer e alegria recebido; porque n'elle
estava toda sua e só esperança. E logo sem delação acordaram e quizeram
poer em obra dar nas estancias, e ir descercar o castello de Çamora, mas
porque da fortaleza e repairo das ditas estancias foram assim
certificados que sem perda de toda sua gente ou a mór parte d'ella se
não podiam combater, e em fim que o castello se não descercaria, El-Rei
acordou por melhor ir poer cerco á ponte da outra banda do rio, onde sem
algum seu risco o podiam ter, com affronta e necessidade d'El-Rei D.
Fernando e dos da cidade.

E assim supitamente se cumprio; porque depois de leixar o duque e o
conde de Villa Real em Touro em guarda da Rainha e da cidade, partiu
El-Rei com sua gente, e foi assentar seu arraial nas hortas de junto com
a dita ponte. E El-Rei e o Principe se alojaram no moesteiro de S.
Francisco, e a ponte com baluartes e cavas foi de todas partes cercada,
e assi continuamente combatida com pouco dano dos que eram dentro. E os
do castello que eram por El-Rei D. Affonso, tambem á sua vista assi
estavam, sem algum poder sair, nem d'elle receber falla, ajuda nem
soccorro.

Em durando este cerco, em uma ilha que se faz no Doiro, foram da parte
de Castella juntos por concerto de paz, o duque d'Alva, e o almirante, e
da parte de Portugal o sr. D. Alvaro, e Ruy de Sousa, e o licenceado de
Cidá Rodrigo, para todos praticarem e consultarem, se entre os Reis se
poderia tomar algum meio de paz e concordia, e em fim depois de muitos
debates e praticas, cada um teve em tamanho preço seu partido, que se
não pôde achar meio que parecesse bom para todos ficarem concordes.



CAPITULO CXC

     _De como se ordenou a batalha dos Reis entre Touro e Çamora_


E passados alguns dias vendo El-Rei D. Affonso o pouco que no cerco
aproveitava, e o muito trabalho e dano que sua gente recebia,
especialmente não se podendo prover a grande mingoa de mantimentos, que
dava causa sua gente mingoar, e a dos contrairos acresentar-se cada vez
mais, a uma sexta feira primeira de Março de mil quatrocentos e setenta
e seis annos, mui cedo pela manhã, El-Rei de Portugal alevantou
secretamente e de supeto seu arraial para a cidade de Touro, e porque
sabia que El-Rei D. Fernando havia de sahir como sahia após elle,
teve-se n'isso para segurança de tudo mui bom recado.

E porém a gente contraira assi como sahiu pela porta da ponte fóra, assi
sobreseve e não seguio El-Rei D. Affonso, e fez corpo até juntamente ser
toda recolhida fóra da ponte, receando que em outra maneira indo afiada,
fazendo El-Rei D. Affonso volta sobr'ella se despunham a grande perigo e
destroço, o que deu causa ser El-Rei D. Affonso com sua gente já mui
alongado, quando seus contrairos começaram de mover contra elle, o qual
sendo a duas leguas de Çamora, adiantou-se pelo fio a reter sua gente,
que a Touro se recolhia com tenção secreta de aquella noite dar de salto
em seiscentas lanças d'El-Rei D. Fernando, que sob a capitania do duque
de Villa Fremosa, seu irmão bastardo, estavam em Fonte Sabugo, mas o
Principe que por sua vontade e sem necessario constrangimento quiz
esperar e dar a El-Rei D. Fernando a batalha, avisou logo d'isso a
El-Rei seu padre, que não descontente d'isso chegou já ao campo junto
com Touro, onde a batalha se deu, e foi a tempo que as batalhas d'El-Rei
D. Fernando passavam já um porto de uma pequena serra que hi a cerca
estava, onde o conde de Loulé em voltas que fez foi ferido, e se foi a
Touro.

E El-Rei D. Affonso mui contente e alegre de não negar a batalha, para
que por um trombeta e arauto d'El-Rei D. Fernando era já desafiado, com
quanto tinham muito menos gente, porém elle e o Principe seu filho
fizeram rostro para lh'a dar com sua gente, de que muita era a Touro já
recolhida, e outra muita mais ficara na dita cidade com a Rainha e com o
duque e conde de Villa Real como se disse.

E sendo já o tempo mui curto para El Rei e o Principe concertarem e
repartirem sua gente em batalhas, como para tão chegada necessidade
cumpria, vendo as d'El-Rei D. Fernando já mui acerca e chegar-se com
muita pressa, fizeram logo de toda a gente não mais de duas batalhas.

A primeira e de maior numero foi a d'El-Rei D. Affonso, que com sua
bandeira real se pôs acerca do rio ao encontro da batalha em que era a
bandeira real, mas não a pessoa d'El-Rei D. Fernando, o qual por se
segurar como prudente dos revezes da fortuna em taes tempos, depois de
leixar sua batalha em ordenança, e encomendada sua bandeira a bons
cavalleiros e capitães, tornou-se atraz onde na reçaga ao tempo do
encontrar esteve em uma batalha pequena.

E a segunda batalha de menos gente, e porém cortezã e mui limpa foi a do
Principe, que com sua bandeira se pôs affastado á mão esquerda d'El-Rei
seu padre, um grande pedaço ao encontro de duas grandes batalhas que
contra a sua vinham ordenadas, e porque o Principe foi aconselhado que
tambem mandasse repartir a sua em outras duas batalhas, mandou logo
apartar de si contra o pé da serra com gente da sua guarda, Fernão
Martins Mascarenhas, seu capitão dos ginetes, com o qual porque em sua
batalha não havia tanta gente como se requeria, o Principe encomendou a
Gonçallo Vaz de Castello-Branco e a Ruy de Sousa, que com sua gente que
era muita e mui boa se ajuntassem, como logo ajuntaram com Fernão
Martins, e após elles porque cria que havia entr'elles algum desconcerto
e competencia sobre a capitania da gente, enviou logo a D. Pedro de
Menezes, que depois foi conde de Cantanhede, com que se refez uma boa
batalha.



CAPITULO CXCI

     _De como romperam as batalhas, e as do Principe venceram as
     d'El-Rei D. Fernando, e a d'El-Rei D. Fernando venceu a d'El-Rei D.
     Affonso, que se recolheu a Crasto Nunho, e do mais que se seguiu
     até fim da batalha_


E postas e ordenadas com espantosa vista as azes de uma parte e da outra
para encontrar, sendo já casi sol posto, El-Rei mandou dizer ao Principe
que com sua benção rompesse logo, o qual por lhe obedecer e cumprir o
que tanto desejava, depois de em ambas as batalhas se fazer pelas
trombetas sinal de batalha, elle e assi seus capitães com singular
destreza e maravilhoso esforço, deram assi rijamente nas batalhas
contrairas, que nem podendo ellas soffrer nem resistir tanta força, logo
uma após outra foram desbaratadas e postas em fugida.

E para aquella hora ante da peleja deu o Principe á sua gente por
apellido S. Jorge e S. Christovão, S. Jorge por padroeiro de Portugal, e
S. Christovão por devoção de Jorge Corrêa, commendador do Pinheiro, que
na mesma hora lh'o lembrou; era alferes do Principe que levava sua
bandeira Lourenço de Faria, homem fidalgo, que n'este dia e em todolos
outros por sua obediencia e esforço o fez como bom cavalleiro, e o
Principe por tal o reconheceu sempre.

E assi como as batalhas do Principe no desbarato fizeram a estas
d'El-Rei D. Fernando, assi a batalha grande d'El-Rei D. Fernando fez na
d'El-Rei D. Affonso, que sem alguma força nem resistencia a rompeu logo,
e destroçou com damno e mortes de muitos, e não foi sem causa ser assi,
porque na batalha do Principe era a frol dos fidalgos e nobre gente de
Portugal, que falleceram n'esta d'El-Rei D. Affonso, e mais na batalha
d'El-Rei D. Fernando vinha muita e mui grossa gente d'armas
encubertados, além dos ginetes, e mais lançaram diante de si uma gram
soma d'espingardeiros, que ao romper fizeram com seus tiros fronteiros
duvidar e enfiar os cavallos e a gente da batalha d'El-Rei D. Affonso.
Na qual sendo elle com sua bandeira dos dianteiros, acharam-se com elle
ao tempo do encontrar mui poucos, entre os quaes eram D. Gomez de
Miranda, Prior de S. Marco em Castella, e Bispo que depois foi de Lamego
em Portugal. E por tanto vendo-se em alguma maneira da victoria
desesperado, conveio-lhe volver e procurar por sua salvação,
parecendo-lhe que pois a sua batalha onde a mais força estava fôra
desbaratada, que a do Principe seu filho em que havia menos gente e de
que não havia vista nem recado, tambem seria perdida. Pelo qual havendo
já suas cousas por chegadas ao derradeiro estremo de desaventura, vendo
já diante entre si e a ponte de Touro muita gente contraira, crendo que
sem ser morto ou preso se não podia já á dita ponte recolher, foi
aconselhado por Pedralvares de Souto-Maior, conde de Caminha, e por João
de Porras, e por outros poucos que o sempre acompanharam, que por
aquella noite se acolhesse á fortaleza de Crasto Nunho, que estava por
elle, e assi o fez.

O Principe aquelle dia e hora não menos avisado que bem afortunado
capitão, como se viu com sua gente em segura e perfeita victoria, por se
lhe não seguir do longo encalço algum perigoso revés, logo a mais que
pôde recolheu para a sua bandeira. E porém alguns seus e pessoas
principaes esquentados e favorecidos do prospero vencimento que seguiam,
por não terem no seguimento o resguardo que deviam, no cabo do encalço
tornaram a ser mortos e presos, porque os castelhanos das batalhas
destroçados que fugiam, refizeram-se com uma batalha de El-Rei D.
Fernando, que acerca de uma legoa na reçaga estava, com que achando-se
muito mais fizeram sobre os portuguezes volta, os quaes sendo já
atalhados e cingidos da outra batalha grande, que desbaratara a El-Rei
D. Affonso, não se poderam salvar.

E porém o Principe depois do desbarato que fez, alli onde acabou de
recolher sua gente, esteve no campo em um corpo çarrado sem nunca mover
atrás sua bandeira, a que muitos da batalha vencida d'El-Rei D. Affonso
por seu bem e salvação se recolheram, com os quaes, e com outros que
fóra do tempo necessario sobrevieram de Touro, refez uma grossa batalha,
com que aquella noite ficou pacifico senhor do campo. No qual algum dos
Reis, cuja era a querela e esperança de vencer, não aturou nem esteve;
porque como disse tambem El-Rei D. Fernando não foi em pessoa propria na
sua batalha, que venceu a El-Rei D. Affonso, mas como era pratico
guerreiro, por vêr como as cousas de tamanha ventura sobcediam,
apartou-se fóra em uma batalha, e quando logo vio vencidas e
desbaratadas suas tamanhas e primeiras batalhas, pelas batalhas do
Principe que eram menos em gente, crendo que assi o seriam as outras
suas pelas d'El-Rei D. Affonso, foi aconselhado que se recolhesse como
recolheo, e se foi a Çamora. Pelo qual sua gente achando-se no campo sem
Rei, nem certo capitão que a regesse, com temor da batalha do Principe
que viam refeita, não sendo bem certificados do destroço d'El-Rei D.
Affonso, se refizeram tambem junto com ella em uma outra batalha de que
uns e outros não se viam tanto como ouviam; porque a este tempo a noite
era já casi çarrada, e todo o mal que de uma parte e da outra se fazia
era sómente de gritas e tocar de trombetas e atabales que nunca
cessavam.

Alli D. Vasco Coutinho, que depois foi conde de Borba, prendeu D.
Anrique, conde d'Alva de Liste, que vinha de contra Touro reconhecer a
batalha do Principe, não sabendo pela noite cuja era.

E alli um escudeiro que se dizia Gonçallo Pires, criado de Gonçalo Vaz
Pinto, trouxe ao Principe a bandeira real d'El-Rei D. Affonso, que por
força e como homem de bom coração a tomou a um Souto-Mayor, castelhano,
que a levava, e o prendeu sobre sua menagem, a qual não foi aquelle dia
tomada das mãos de Duarte d'Almeida, alferes pequeno, até que lh'as
primeiro não deceparam com outras infindas feridas, que no rosto e em
todo o corpo houve, de que escapou. E a tanto mal se estende o máo
sobcedimento das cousas, que este alferes, a que tanta honra e riqueza
após isto se devia, viveu depois aleijado e pobre, e não com galardão
dino de tal serviço. Nem ao escudeiro da bandeira carregou muito a
balança de sua satisfação; porque com a venturosa fidalguia e armas
honradas, que por isso lhe deram, houve sómente cinco mil reis de tença,
com que lhe foi forçado tomar a fouce e a enxada, por mais seguras e
proveitosas armas do sustentamento de sua vida, com que sem mais bem nem
favor, e com muita pobreza viveu e acabou.

E estando assi no campo juntas estas batalhas e ambas contrairas, a dos
castelhanos por estar sem Rei e duvidosos de sua ventura, e por terem o
recolhimento de Çamora mui longe, começaram entre si de ferver e se
afiar mostrando claros sinaes de destroço se foram cometidos. E porém
tomaram por conselho retraer-se e acolherem-se, sem cometer batalha nem
peleja se lh'a não desse, e assi o fizeram, e sem algum recado e com
muito desmando se acolheram a Çamora. Pelo qual achando-se o Principe só
no campo, e sem receber em sua pessoa nem sua gente rota nem destroço,
antes o tinha feito nos contrairos, houve-se por herdeiro e senhor da
propria victoria.

E porque os Reis esperavam para mais claro conseguimento, sua
determinação foi sobreser no campo, e não se partir d'elle tres dias.
Mas o Arcebispo de Toledo que no mesmo campo era com elle, publicamente
lhe disse que depois dos imigos partidos bem cumpria por os tres dias
estar no campo tres horas continuas, a razão de hora por dia, por
comparação que trouxe da Resurreição de nosso Senhor, que foi depois da
morte tres dias não todos inteiros, mas porque tomou de tres dias
tomando a parte por todo. E com este conselho que o Principe tomou do
Arcebispo, como de pessoa tão principal, e no semelhante auto e
cerimonias tão pratico e sabedor, depois d'estar no campo as tres horas
e mais, sem parecer n'elle gente contraira, elle com repoiso e regrada
ordenança abalou contra Touro. E ao entrar da ponte houve muita pressa;
porque até sua chegada a entrada se çarrou a todos, e por sua ordenança
entraram na cidade todos mui tristes e desconfortados, uns pelos filhos,
parentes e amigos que não viam, nem sabiam se na batalha foram mortos ou
feridos e presos, e todos pela dorosa privação d'El-Rei D. Affonso, que
ali não viam, nem por então saberem d'elle novas.

O Principe pela incertidão de seu padre, crendo pois alli não parecia,
que seria morto ou preso, foi sobre todos mais triste e anojado, e posto
aquella noite em grande pensamento, e não menos o foi El-Rei onde
estava, duvidando da vida e salvação do filho, de que a mór parte da
desaventura não falleceu á Rainha que estava no castello, até o outro
dia que o pae foi certificado da saude e prospera victoria do filho, e o
filho da salvação e saude do pae acolhido em Crasto Nunho. Na qual
fortaleza indo El-Rei tão só e desacorrido, o alcaide d'ella Pero de
Mendanha, por nação fidalgo castelhano, e no amor e lealdade bom e
verdadeiro português, o recolheu e lhe obedeceo com muita lealdade e
firmeza, e em caso tão triste e tão averso para El-Rei, elle e sua
mulher o agasalharam honradamente e confortaram com muito despejo,
dando-lhe em suas fortunas por emxemplos d'outros mui grandes
esperanças, até o outro dia, que com muita gente que o Principe mandou
de Touro El-Rei tornou a elle seguramente.



CAPITULO CXCII

     _De como o Principe se tornou a Portugal, e do que El-Rei D.
     Affonso fez por então em Castella_


Onde sobre conselhos que ácerca d'estes feitos El-Rei e o Principe
tiveram, foi acordado que o Arcebispo de Toledo se fosse como foi a
Tallavera e a suas terras, e com elle por sua segurança D. Garcia, Bispo
d'Evora, o que foi cousa mui dificil e de assás perigos, pelas muitas
terras de contrairos porque com tão pouca gente haviam de passar.

E como o Arcebispo ficou em salvo, o Bispo d'Evora com grande risco se
veio a Portugal á frontaria de riba de Odiana, que lhe foi encomendada.
E assi acordou que o Principe se tornasse a Portugal, o qual como era
Principe bom e piedoso, depois de prover e remedear com mercês e
visitações aos que de sua batalha foram presos e feridos, partio na
semana maior de Touro, e veio dormir a Crasto Novo, fortaleza que estava
por El-Rei seu padre, e ao outro dia passou a gente o rio em uma barca,
e os cavallos e bestas a nado, por um porto que se diz Rico Váo, e de hi
foi ter a Pascoa a Miranda do Doiro, e com elle o conde de Penella D.
Affonso de Vasconcellos, e assi pouca gente; porque os mais grandes e
senhores com todolos mais ficaram em Touro com El-Rei.

E ficando El-Rei D. Affonso em Touro, El-Rei D. Fernando veio logo
cercar mui poderosamente Cantalapedra, dentro da qual muitos fidalgos e
cavalleiros da côrte d'El-Rei D. Affonso, como desejosos de honra se
lançaram.

Foi o cerco em todo bem apertado, em que era por capitão Bandarra, e
depois á partida d'El-Rei D. Affonso para Portugal deixou Alonso Perez
de Biveiro, casado com D. Mecia de Menezes, portugueza, e de Touro
durando o cerco, foi El-Rei em pessoa lançar uma grossa cilada aos
cercadores, e soltou corredores que foram dar no arraial, que apoz elles
se soltou com tanto desmando, que se o duque de Bragança com outros ante
tempo se não descobriram cairam os contrairos na cillada, e se fizera
uma cousa muita assinada e de muita honra e serviço para El-Rei.

E n'este tempo sendo El-Rei D. Affonso certificado de um dia que a
Rainha D. Izabel, de Madrigal onde estava se havia de ir a Medina, sahio
de Touro aforrado com sós mil lanças sem carriagens, e foi secretamente
dormir a Crasto Nunho, e de hi ao outro dia por encubertas que levou, se
foi escondido lançar junto do caminho por onde a Rainha havia de passar,
cuja gente sahindo já fóra de Madrigal á vista das batalhas d'El-Rei,
essa que era fóra com pressa se tornou a recolher á villa, e outra
alguma de dentro não sahio mais, por onde pareceu claro, que fôra aviso
secreto que a Rainha d'alguma pessoa do arrayal d'El-Rei D. Affonso
recebera, e com isto desaviado se tornou El-Rei a Touro, não esperando
já nenhum bom effeito de sua empresa.



CAPITULO CXCIII

     _De como se ordenou a ida d'El-Rei em França, e se veio a Portugal
     com a Rainha D. Joana_


E n'este tempo porque El-Rei sentia já bem que seu poder nem ajuda dos
grandes de Castella, não lhe davam para sua demanda tão firme esperança
como cumpria, forçado de um vivo desejo de sua honra, enviou por seus
messegeiros requerer ajuda a El-Rei de França, que com El Rei D.
Fernando como só Rei d'Aragão então não estava d'accordo, e tinha por
meio de D. Alvaro d'Atayde feitas suas lianças com El-Rei D. Affonso,
como só e verdadeiro Rei de Castella. E a certidão d'isto trouxe o dito
D. Alvaro a El-Rei, estando em Touro. Pelo qual vencido principalmente
de seu apetite, sem muita certidão do poder tão estranho e tão duvidoso
como era o de França, desconfiado em todo do seu, determinou vir-se a
Portugal e de hi passar logo em França, crendo que o remedio e ajuda
para seu recurso, que tanto desejava, com sua ida e em sua pessoa se
faria mais facil, e ainda se lhe daria maior. E que os inconvenientes
que por ventura El-Rei de França pela guerra do duque de Brogonha
poderia para isso ter, elle na confiança de seu mui chegado sangue os
temperaria, com paz e assesego que entre ambos procuraria.

E como El Rei o determinou, assi o cumprio, e deixou nas outras
fortalezas gente e capitães de recado, e em Touro gente de guarnição, e
com ella por capitão o conde de Marialva D. Francisco Coutinho; porque a
este tempo João d'Ulhoa a quem pertencia era fallecido, e os filhos que
d'elle ficaram eram muito moços para tal encargo, a El-Rei casou o conde
com D. Maria d'Ulhoa sua filha, a que deu em casamento a villa de
Castel-Rodrigo, por morte de Vasco Fernandes de Gouveia que a tinha;
porque sem filho barão ligitimo tambem falleceu em Castella estando em
Touro.

E depois d'El-Rei prover as cousas de Castella como melhor pôde, se
partiu com a Rainha na entrada do mez de Junho, e seguramente veio a
Miranda do Doiro onde teve a festa do Corpo de Deus, na qual com a
cerimonia devida fez primeiro conde d'Abrantes Lopo d'Almeida, que era
Vedor da Fazenda, e lh'o tinha bem merecido. E de Miranda se foi a
Rainha á cidade da Guarda, e com ella o conde de Villa Real, que era
fronteiro mór d'aquella comarca, e o Bispo de Vizeu D. João d'Abreu. E
da Guarda se foi a Coimbra, onde o Principe se veio com ella ajuntar, e
a acompanhou até á villa d'Abrantes, onde depois esteve muito tempo,
como ao diante se dirá.

E El Rei se foi de Miranda á cidade do Porto, onde com elle se ajuntou
logo o Principe seu filho, e a Senhora Infante D. Beatriz com todolos
grandes e senhores principaes do reino. E d'alli foi enviado Pero de
Sousa notificar a El-Rei de França a ida d'El-Rei D. Affonso, que de
todo hi foi determinada. E sendo já concordado que por mór brevidade da
viagem fosse pelo mar do Ponente e saisse em Bretanha, mudou-se o acordo
para o mar de Levante; porque pelo outro mar Occeano poderia d'El-Rei D.
Fernando receber maior contradição, por rasão da frota de Galliza e
Biscaya, com que seria mais poderoso.



CAPITULO CLXIV

     _De como El-Rei partio de Lisboa para França, e da maneira em que
     foi até se vêr com El-Rei de França_


E com esta determinação se partiram, e ajuntaram todos a Lisboa, onde
XVI navios para a embarcação d'El-Rei foram logo prestes, dos quaes se
aparelhou uma urca para sua pessoa, em que embarcou no mez de Agosto com
dois mil e dozentos homens, em que iam quatrocentas e oitenta pessoas a
que em terra eram ordenadas encavalgaduras, álem d'outra gente de pé, e
com vento de viagem arribou em Lagos, onde Cullam, famoso cossairo
francês certificado já das amizades e lianças d'estes reinos com França,
andando poderoso no mar, veio alli fazer reverença a El-Rei, que o
recebeu com grande honra e mui graciosamente, e além do assinado serviço
que o dito Cullam lhe tinha já feito, em ser em sua ajuda no descerco de
Ceuta, quando então dos castelhanos e dos mouros, fôra juntamente
cercada como se dirá, ainda ficou de concerto andar d'armada em seu
favor contra Castella, para que se ajuntou com Pedro de Tayde, fidalgo
português, que com a náo grande que se dizia a Lopiana, e com outros
navios, de mandado d'El-Rei andaram tambem d'armada. Os quaes todos logo
de hi a poucos dias sendo El-Rei D. Affonso em França, ao Cabo de S.
Vicente aferraram quatro carracas de Genoa, e sendo já por força
entradas, em uma se acendeo fogo em um barril de polvora, em que deu um
tiro de fogo, de que todas as náos e carracas que eram encadeadas
arderam, com mortes e perda de muita gente, em que o dito Pedro de Tayde
tambem morreu.

E de Lagos passou El-Rei logo a Ceuta, que poucos dias havia que sendo
n'ella capitão Ruy Mendes Ribeiro, como nobre fidalgo e d'esforçado
coração a livrara de duas grandes afrontas e perigos em que foi posta;
porque juntamente foi cercado e combatido de castelhanos pela Almina, e
dos mouros pela Aljazira, e de todos com sua honra e grande louvor o
dito Ruy Mendes se livrou, com quanto o dito Ruy Mendez do cerco dos
castelhanos era muito mais afrontado, sendo dos mouros comettido que com
segurança sua para que lhe dariam seguras arrefens, lhes désse entrada
por dentro de Ceuta para darem nos ditos castelhanos e os matarem e
captivarem, e elle seria livre do cerco, elle dito Ruy Mendes, como
esforçado cavalleiro e bom christão, por não minguar em sua fé e esforço
o não consentio. O que El-Rei em pessoa lh'o agradeceo e estimou como
era razão.

E de Ceuta partio El-Rei, e sendo no mar através de Colybre, que era de
França, com proposito d'aportar em Marselha ou aguas mortas; porque o
vento não terçou bem sahio todavia e desembarcou em Colybre, d'onde
despedio os navios em que fôra de Portugal, e ali estava um capitão
d'El-Rei de França, de que El-Rei foi logo bem recebido, e depois
provido de bestas e cousas que cumpriam para ir, como foi por terra a
Perpinham. Onde El-Rei foi com grande honra e estado recebido, e elle e
todolos seus bem aposentados de graça, e por reverença e acatamento de
sua pessoa real, o capitão e governadores da villa mandaram soltar e
abrir os carceres a todolos presos que na cidade havia. E assi se fez
depois nos outros lugares de França por que El-Rei passou.

De Perpinham enviou El-Rei D. Francisco d'Almeida a El-Rei de França
notificar-lhe sua chegada, e assi de sua ida logo a elle, para que hi
tambem se proveo para El-Rei e para os de sua companhia de bestas para
encavalgaduras de suas pessoas, e carretas para fardagem, com que seguio
seu caminho á côrte d'El-Rei de França por Narbona e Mompiler e Befers e
Nimis, todas grandes cidades e villas de França em Languidoque.

E na cidade de Nimis deixou El-Rei a estrada romam, que vae a Avinhão, e
tomou outra da ponte de Santisprito, caminho da cidade de Lião. Na qual
por razão de corrução d'ares morbosos e pestenciaes de que estava
perigosa não entrou, e passou com sua gente adiante. E ante que a ella
chegasse, no caminho lhe veio fazer reverença o duque de Borbom,
acompanhado de grandes homens. E assi foi festejado e agasalhado em gram
perfeição em casa de Monseor de Sam Valher, que fôra casado com uma
filha bastarda d'El-Rei de França.

E passando El-Rei D. Affonso por Lião, e chegado a um lugar que dizem
Ruana, recebeo o primeiro recado d'El-Rei de França, fazendo-lhe saber
que com sua boa ida era mui alegre. E assi chegou á nobre cidade de
Burges em Berrí, que é na doce França, onde repousou alguns dias, nos
quaes de mandado d'El-Rei de França vieram a El-Rei D. Affonso para lhe
fazer companhia um senhor e um Bispo de Una, com que para prazer foi vêr
algumas cousas, em especial Moris Sagevia, fortaleza que o duque de
Berrí fez no canto de duas ribeiras, a mais gentil que ha em toda
França.

E ao outro dia foi á villa, que na historia antiga dizem se chamava
Ageosa Guarda, onde agora está uma grande e devota Abadia de S. Bento,
cujo Abade mostrou a El-Rei um mui rico e antigo livro da Historia de
Lançarote e Tristão, por ventura mais verdadeira do que cá se magina.



CAPITULO CXCV

     _Da primeira vez que El-Rei D. Affonso se vio com El-Rei de França
     em Tors em Toraina_


El-Rei de França era na cidade de Tors em Toraina, onde quiz que El-Rei
D. Affonso o visse e fosse bem aposentado. E depois de ter certo seu
aposentamento, El-Rei de França com uma fingida romaria, só se partio de
seu aposentamento que é junto da cidade, e leixou n'ella toda sua côrte
com o seu Minham Monseor d'Argentam, para elle com os Regedores da
cidade fazerem como fizeram a El-Rei um mui solemne recebimento,
entregando-lhe ás portas com palavras de grande veneração e muito
acatamento as chaves d'ella.

E El-Rei de França passados cinco dias veiu-se ao dito seu
aposentamento, que dizem Plesirdubues, e d'ali como de caminho
determinou vir vêr El-Rei D. Affonso á sua pousada. O qual sabendo já
isto, com os senhores de seu conselho praticou a maneira de cortesia que
em seu recebimento teria. E accordou-se em todas razões, e
principalmente consirado o tempo e necessidade d'elle, que fosse a maior
que guardado o seu estado se podesse fazer, e fosse a que lhe ensinasse
a hora e tempo em que se vissem ; porque entre os Reis não se podia dar
certa fórma de palavras nem cerimonias, que entre si dissessem e
fizessem em semelhantes autos.

E avisado El Rei D. Affonso do dia em que El-Rei de França o quereria ir
vêr, vistio-se em vestiduras onestas e reaes com proposito de a pé sahir
e o tomar na rua, ou ao menos nas escadas dos paços, mas El-Rei de
França de reavisado, pelo n'isso impedir mandou a El-Rei diante dois
seus parentes grandes senhores e mui gentis homens, os quaes em El-Rei
abalando para sair, cortezmente o detiveram, dizendo que repousasse;
porque El-Rei seu Senhor não viria tão asinha, e sendo El-Rei avisado
que El-Rei de França era já na rua, em cometendo para sair, tambem o
detiveram. E finalmente em querendo El-Rei forçar seus detimentos, elles
com muito acatamento lhe pediram, que d'onde estava em sua camara se não
movesse; porque a elles não cumpria elle o fazer d'outra maneira.

E El-Rei porque entendeu que seria ordenança praticada, folgou de lhes
comprazer, e porém como elles entenderam que El-Rei de França era
entrado na salla, deram logar que El-Rei D. Affonso saisse, e ambos os
reis se ajuntaram no meio da salla.

E El-Rei de França vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella
tirado um chapeo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto
de máo pano, e cinta uma espada d'armas muito comprida, com a guarnição
de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo
jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de
cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas
de muitas côres. E ambos os Reis com os barretes nas mãos se abraçaram
inclinados os giolos mui baixos. E tendo El-Rei de França assi abraçado
El-Rei, com os olhos no Ceo disse que dava muitas graças a Nossa Senhora
e a Monseor Sam Martim, porque a um tão prove homem como elle era
fizeram tanta mercê. Que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um
tamanho Rei, que elle sempre desejara tanto de vêr e ter por irmão e
amigo, e que porém elle não cresse que era vindo em reino estranho, mas
no proprio seu; porque assi se faria n'elle todo seu prazer e serviço,
como nos de Portugal.

E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual sobre quem
se cobriria e entraria primeiro houve entre ambos grandes e louvados
debates. E emfim El-Rei D. Affonso se deu por vencido, dizendo que havia
por melhor ser-lhe bem mandado, que cortês.



CAPITULO CXCVI

     _Do que El-Rei de França e El-Rei D. Affonso entre si acordaram
     para execução de sua ida_


E como entraram, depois de El-Rei de França perguntar a El-Rei por sua
disposição, e tocar em muitas cousas de prazer, em conclusão disse, que
por quanto as cousas da guerra sobre que era seu principal motivo
requeriam muita pressa e não padeciam dillação, que logo ambos com o
conde de Penamacôr seu camareiro-mór se apartassem, como apartaram todos
tres.

E entre as cousas sustanciaes em que falaram e em que tomaram conclusão,
foi ser necessario El-Rei D. Affonso ir em pessoa ao duque de Brogonha
pedir-lhe gente e ajuda contra Castella, e que em caso que pelas
differenças em que então andava com o duque de Loreina lh'a não podesse
dar, ao menos tomaria d'elle duque de Brogonha tal segurança para elle
Rei de França, sem receio de sua guerra mais livre e poderosamente o
poder ajudar. E para o fazerem todos em sua ajuda com menos cargo, a
todos cumpria justo titulo, que era dispensação Apostollica para El-Rei
D. Affonso poder casar com a Rainha D. Joana sua sobrinha, pois dos
reinos que a ella pertenciam, como seu marido se intitulara. E que logo
alli se apartassem quatro pessoas de cada parte, para em breve
consultarem e praticarem sobre a gente, dinheiro e cousas que para sua
empresa cumpriam, e porem tudo em boa ordem. E disse mais que por quanto
havia por certo que os castelhanos ás vezes folgavam vender fortalezas,
que elle sempre houvera por melhor e mais barato compra-las por
dinheiro, que por guerra, e que o dinheiro e sua pessoa com toda a gente
de seu reino, elle lh'a offerecia para isso e para todo o mais que a sua
honra e estado cumprisse.

E depois d'El-Rei D. Affonso lh'o remercear tanto quando tamanha
esperança para suas necessidades requeria, se sairam já de noite, e do
meio da salla onde se primeiro viram já com tochas se despedio d'elle
El-Rei de França. O qual enviou dizer depois a El-Rei D. Affonso, que
para elle convidar alguma gentil dama, como era usança e cortezia do seu
reino, lhe pedia que quizesse d'elle tomar em tanto cincoenta mil
escudos d'ouro. Mas El-Rei D. Affonso com palavras publicas de singular
agardecimento, e com respeitos secretos que a seu estado real cumpriam
se enviou por então escusar.

Aqui fez El-Rei de França conde d'Abranches D. Fernando d'Almada, filho
do outro conde Alvaro Vaz d'Almada, que morreu na batalha com o Infante
D. Pedro, como atraz fica.



CAPITULO CXCVII

     _De como foram a Roma embaixadores d'El-Rei de França e d'El-Rei D.
     Affonso requerer a despensação para poder casar com a Rainha D.
     Joana sua sobrinha_


E para cumprimento das conclusões em que ficaram, ordenou-se logo
embaixada ao Papa sobre o requerimento da despensação, em que d'El-Rei
D. Affonso foram embaixadores o conde de Penamacôr, e o doutor João
Teixeira, que depois foi Chanceller Mór, e Diogo de Saldanha, homem
prudente e de grande autoridade, que seguiu a parte da Rainha D. Joana,
e d'El-Rei de França foram o monseor de Sam Valher, e um grande letrado
governador do parlamento de Granobra, cabeça do Delfinado.

E juntos estes embaixadores acompanhados de muita e nobre gente, fizeram
seu caminho a Roma por terra, onde como pessoas que representavam
tamanhos dois Reis como era o de França e o de Castella e Portugal,
foram logo com grande honra recebidos.

E El-Rei D. Affonso aparelhou sua ida ao duque de Borgonha, que era em
campo sobre a cidade de Namsy em baixa Allemanha, contra o duque de
Lorreina com que tinha guerra. E ante de sua partida El-Rei de França
lhe disse, que por a pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha,
por ser muito orgulhoso, duvidava que tomando a cidade de Namsy sobre
que estava, e destruindo o duque de Lorreina, por seguir novidades
quereria entrar por França, e que com receios d'isto pelos segurar tinha
sua gente na frontaria, que daria causa elle lhe não poder dar tanta
ajuda, como sem isso faria. Porém que se por seu meio d'El-Rei D.
Affonso elles ambos ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por
casamentos dos filhos, como o duque por todalas razões devia querer,
elle em sua ajuda poeria a corôa de França com todo seu poder, e que
El-Rei D. Affonso devia requerer o duque que fosse com elle em pessoa;
porque era bom capitão, e tinha muita gente e singular artilharia, e que
sendo El-Rei D. Affonso d'estas amizades meio segurador, cada um d'elles
teria receio de as per si quebrar, pelo não ter por contrairo, com as
quaes muito cedo se faria pacifico Rei de Castella.



CAPITULO CXCVIII

     _De como El-Rei D. Affonso se foi vêr com o duque de Borgonha, e
     como logo se seguio a morte do dito duque_


N'esta confiança que El-Rei D. Affonso tomou de tudo assi acabar, partiu
no Novembro mui alegre, e com muita aspereza de neves e frios
incomportaveis chegou a Camansam e Almansa, lugares mais acerca do
arraial do duque, d'onde El-Rei por terra regellada e toda cuberta de
neve se foi vêr com o duque, e viram-se e abraçaram-se ambos a pé sobre
o meio de um grande rio todo tão regellado, que por elle seguramente
passavam bestas e carretas como por uma forte ponte, e d'alli se
tornaram ao arrayal do duque, que hi perto estava, onde o duque sobre as
cousas com que logo soube que El-Rei a elle ia, lhe disse que elle Rei
de Portugal era entrado com um homem, em que não havia virtude nem
verdade, dizendo-o por El-Rei de França, e que para o crêr não quizesse
logo outra prova, se não que tendo enviado a elle que no mundo era tal e
tão excellente Rei, e com requerimentos e mostranças de tanta paz, amor,
e liança, logo após elle mandara muita gente d'armas em ajuda do duque
de Lorreina seu inimigo e para contra elle. Porém que elle tinha ao
mesmo Rei de França em tão pouca estima, que com um só page, que
mostrou, ousaria dar-lhe batalha e esperar victoria. Mas pois que elle
Rei D. Affonso por assi lhe cumprir queria sua concordia, que por lhe
comprazer era d'ella contente, e lhe prometia leal e verdadeiramente,
não sómente de estar em toda paz e amizade que se entre elles podesse,
mas que elle faria cumprir a El-Rei de França todo o que em sua demanda
lhe tinha prometido e prometesse.

E com esta conclusão finalmente se partiram, para nesta sustancia do
lugar a que tornavam concordarem e firmarem suas capitullações.

E d'hi a poucos dias praticando El-Rei D. Affonso como isto se bem
faria, veio sobre o cerco do duque de Borgonha, e contra elle a mesma
gente d'armas d'El-Rei de França com outra muita do duque de Lorreina. E
o duque com quanto tinha muito menos gente e era de fome e de frios mui
trabalhada, não aguardou ser em seu arrayal combatido, mas sahio fóra a
esperal-os, e no campo lhes deu a batalha, em que foi desbaratado e
vencido com mortes e grande perda de sua gente, e querendo salvar-se por
uma ponte já um pedaço da peleja, achou contrairos que a guardavam. Dos
quaes pelejando sem ser então conhecido, a um domingo, bespora dos Reis
Magos do anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, foi morto, e
depois se conheceo no campo por os sinaes de seu corpo que um seu fisico
d'elle deu, e tambem por uma cellada rica que um seu page trazia, junto
da qual pareceu que jazia, como jazia o corpo do dito duque. Cuja morte
que logo a El-Rei D. Affonso foi notificada, pôs a elle e a todolos
portugueses em publico nojo e muita tristeza, com que deu suspeita aos
franceses de o haverem por contrairo, e esteve em condição para d'elles
receber por isso mais dano e perigo, que bom trato nem serviço.

E na morte e perda do duque de Borgonha acabou El-Rei D. Affonso de
verdadeira e sustancialmente perder toda esperança de seu desejo e
proposito; porque em sua vida do duque estava toda a obrigação para
El-Rei de França ajudar a El-Rei. E em sua morte foi o contrairo; porque
como por ella El-Rei de França se vio livre e desocupado dos receios que
do duque tinha, logo sem medo nem vergonha do que tinha prometido,
desamparou o negocio de Castella, e entendeo do seu proprio, que foi
haver e cobrar muitas terras da alta Borgonha e Picardia, que o duque
lhe tinha tomadas, e por seu fallecimento ficaram sem resistencia. E
porém El-Rei de França mandou logo recado a El-Rei D. Affonso,
pedindo-lhe com palavras de grande esperança, que em tanto se fosse,
como logo foi, aposentar-se em Paris, onde esteve até o Maio, que El-Rei
de França andou sempre em sua guerra, fazendo e acabando o que lhe
cumpria.



CAPITULO CXCIX

     _Da resposta que os embaixadores houveram em Roma ácerca da
     despensação que requereram_


Os embaixadores dos Reis que eram em Roma, com muita instancia e
efficacia requereram ao Papa Sixto quarto a despensação sobre que
principalmente foram enviados, em que por parte de El-Rei D. Fernando de
Napoles, por ser casado com uma irmã d'El-Rei D. Fernando de Castella, e
por outros senhores que favoreciam sua parcialidade, por causas de
eminentes e oferecidos danos que alegaram, houve para a despensação se
não conceder grande e total contrariedade. Porque o Papa por ventura
aconselhado n'isso catholicamente, consirando como El-Rei D. Fernando
com a Rainha D. Izabel sua mulher eram pacificos Reis de Castella, e
El-Rei D. Affonso era n'elles em forças e poder mui desigual, houve por
grande mal e perjuizo da christandade conceder a dita despensação, em
caso que parecesse razão por ser direito conceder-se, por não dar com
ella causa e titulo de uns e outros se guerrearem com mortes de
christãos, e guerras continuas que se não escusavam, o que o Papa devia
evitar especialmente; que ajuda d'El-Rei de França para El-Rei D.
Affonso sempre em Roma se houve por mui duvidosa.

E estando n'estas duvidas e debates chegou a Roma nova da morte do duque
de Borgonha, com que o Papa fazendo por ella o poder d'El-Rei de França
mui mais livre e despejado para sem contradição se quizesse poder dar
uma grande ajuda, houve o direito e justiça d'El-Rei D. Affonso para a
sobcessão de Castella por de mór efficacia, com fundamento do qual o
Papa tomou um meio, que mais verdadeiramente foi clara denegação, o qual
foi, que por quanto pelas razões alegadas, a El-Rei D. Affonso por si,
sem França, a dita despensação não se devia conceder, e que com a
inteira ajuda d'El-Rei de França era razão que se desse, que por tanto a
elle mesmo Rei de França se devia de dar tomando-a elle com seu cargo.



CAPITULO CC

     _Da conclusão que El-Rei D. Affonso tomou com El-Rei de França,
     quando com elle se vio a segunda vez_


Com esta resposta se vieram os embaixadores, que acharam El-Rei D.
Affonso já em Paris. D'onde enviou logo o conde de Penamacôr a El-Rei de
França, que era na cidade de Raz dar-lhe conta da embaixada. O qual
volveo logo, com determinação que os Reis ambos no mesmo Raz logo se
vissem, para onde El-Rei D. Affonso logo partio, e El-Rei de França a
cavallo e vestido casi na maneira da primeira vista o veio receber, e
foi com elle a seu aposentamento, que foi em uma mui grande e honrada
Abadia de Conegos Regrantes, em que El-Rei e toda sua gente se alojou.

Alli esteve El-Rei D. Affonso alguns dias, esperando a cautelosa e
inutil determinação, ou mais certo desesperação d'El-Rei de França, que
lh'a deu com certos apontamentos, que para discretos era clara escusa do
que se pedia, com que El-Rei D. Affonso se despedio para Portugal. E tão
mal despachado como a desaventura do tempo ordenou; porque assi como
vivendo o duque de Borgonha, El-Rei de França por ganhar sua paz,
ajudara de necessidade a El-Rei D. Affonso, assi por sua morte achando
muita da sua terra desocupada para a poder cobrar, não curou d'isso, nem
foi muito de culpar El-Rei de França por maiores promessas que fizera;
porque para dar gente e dinheiro a Rei estranho, com que para isso
ganhasse reino de empresa tão duvidosa, e leixar perder e não cobrar sua
propria terra, o direito e rasão que o a isso obrigasse seria escuro e
máo d'achar.



CAPITULO CCI

     _Como o Principe cercou a villa d'Alegrete e a tomou, e d'outras
     cousas que no reino se seguiram andando El-Rei D. Affonso em
     França_


E tornando ás cousas do reino de Portugal, tanto que El-Rei D. Affonso
partiu de Lisboa para França, o Principe D. João seu filho na entrada de
Janeiro se foi logo entre Tejo e Odiana, d'onde mandou continuar a
guerra contra Castella, em que se faziam grandes e danosas entradas. E
porque a villa d'Alegrete estando o Principe em Touro foi manhosamente
tomada por D. Affonso de Monroy, Mestre que se disse d'Alcantara, que a
esse tempo seguia o partido d'El-Rei D. Fernando, o Principe em que
havia reaes bondades e virtudes, e o esforço do coração não falecia, no
mez de Fevereiro de mil quatrocentos setenta e sete, lhe pôs tal cerco e
a mandou combater assi rijamente, que por partido se rendeo, e lhe foi
entregue com muita sua honra e louvor, e porém não sem dano e mortes dos
cercadores e cercados.

E durando o dito cerco d'Alegrete foi tambem posto estreito cerco em
Castella a Touro, e a Crasto Nunho, e a Cantallapedra, que ainda estavam
por El-Rei D. Affonso. E o Principe determinando de lhes soccorrer, fez
muita gente prestes que mandou com o almirante Lopo Vaz d'Azevedo, e com
Fernão Martins Mascarenhas capitão dos ginetes, e da villa de Pinhel
onde chegaram, se tornaram por serem certificados que o soccorro com que
iam, pela muita maior força dos cercos postos, se não podia por elles
dar sem seu manifesto perigo. E em fim os capitães cercados, Pero de
Mendanha, Alcaide de Crasto Nunho e Affonso Peres de Biveiro, capitão de
Cantallapedra como nobres fidalgos e leaes servidores, por partidos que
lhe fizessem nunca se deram, nem leixaram de ter as fortallezas até que
lhe foi mandado por El-Rei D. Affonso, andando em França, visto como os
não podia soccorrer que o fizessem, pelo qual a salvamento de suas
honras e pessoas entregaram as fortalezas. E com as bandeiras reaes de
Portugal tendidas, por Castella se vieram a estes reinos; porque assim
tomaram por partido.

E n'este anno de mil e quatrocentos e setenta e sete, houve o Principe
de Pedro Pantoja, cavalleiro castelhano, as fortalezas de Zagalla e
Pedra Bôa, que são do Mestrado d'Alcantara, junto com Albuquerque, em
que pôs seus alcaides e capitães, e por ellas lhe deu em Portugal a
villa de Santiago de Cacem, que é do Mestrado de Santiago. As quaes
fortalezas com outras rendas n'este reino, depois deu o Principe ao dito
D. Affonso de Monroy, porque seguisse e servisse a El-Rei D. Affonso seu
padre, como na guerra sempre serviu bem e fielmente até ás pazes. Outro
si porque no anno em que El-Rei D. Affonso entrou em Castella a
fortaleza de Noudal que é Mestrado d'Avis, por engano e astucia de
guerra se tomou, e a este tempo era em poder de Martim de Sepulveda,
fidalgo castelhano, o Principe por concerto o trouxe a seu serviço com
promesssas que lhe fez. As quaes depois com elle cumpriu, a
contentamento do dito Martim de Sepulveda segundo era obrigado. E sendo
El-Rei D. Affonso em França, o Principe fez côrtes geraes em
Mantemór-o-Novo, onde para estas necessidades da guerra lhe foi pelo
reino outorgado dinheiro, para que lançaram pedidos.



CAPITULO CCII

     _De como El-Rei D. Affonso desapareceu em França, e o Principe seu
     filho por seu mandado se alevantou por Rei em Portugal_


E volvendo a El-Rei D. Affonso que era em França, despedido elle de Ras
como atraz fica, se foi com sua gente a Ruão, onde esperando pelo
aviamento que se dava á sua embarcação, repousou muita parte do verão, e
d'alli se foi pelo rio abaixo até a Aynafrol, que é porto de mar, onde a
frota e cousas da armada para sua vinda se aparelhavam, e alli esteve o
mez de Setembro, no qual tempo sentindo elle que a esperança para as
cousas de Castella não lhe respondiam conforme a seu proposito, e que
não fôra por fallecimento de seu esforço, cuidado e diligencia, pois em
Portugal e Castela, e em Roma, em França e Borgonha, tinha procurado
todo o que para sua empresa pareceo conveniente e necessario, e todo lhe
falecera, vendo já cerrados todolos outros caminhos de que esperasse
conseguir desejado effeito, crendo que tantas contrariedades não podiam
ser sem vontade de Deus, determinou entresi como desconfiado já de
remedio leixar este mundo e seus debates, e sem ser conhecido ir-se a
Jerusalem, onde propôs servir a Deus, e para o cometer e fazer sem dos
seus ser sentido, custumou por alguns dias ir só em romaria ante manhã
junto com Aynafrol, e assi tambem retraido escrevia de sua mão algumas
cousas, que logo metia em um cofre de que trazia a chave, dando a
entender que por se haver de meter no mar em tempo de inverno fazia ou
reformava seu testamento.

E em fim um dia ante manhã, vinte e quatro dias de Setembro de mil e
quatrocentos e setenta e sete, El-Rei cavalgou como sohia, e levou
comsigo a cavallo Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, ambos seus moços da camara,
e a elle aceptos, e dois moços d'esporas. E mandou a Estevão Martins seu
capellão, que o fosse aguardar á estrada de hi meia jornada, onde logo
com elle se ajuntou. E d'hi fez tornar a Aynafrol um dos moços d'esporas
a que deu a chave do cofre que leixava, com mandado que o abrissem, como
abriram, em que leixava uma carta para El-Rei de França com remoques
dissimulados reportados á sua desaventura, em que tambem lhe dava conta
do fundamento que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque
assi lhe fizera voto de o fazer depois da morte da Rainha sua mulher,
sendo o Principe seu filho em idade para reger seus reinos como era,
pedindo-lhe amparo, favor, e ajuda para os seus que em seus reinos
ficavam. E outra carta para o Principe seu filho, em que lhe dava uma
triste conta da sua viagem, encomendando-lhe e mandando-lhe por sua
benção que logo se alevantasse e intitulasse por Rei. E outra d'esta
sustancia para todolos do reino, que como a proprio e verdadeiro Rei
obedecessem ao Principe. E outra para os seus que alli leixara, que
estivessem á obediencia e ordenança do conde de Farão, com que todos
foram tão tristes, e fizeram tão dorosos prantos como a razão ensina,
que em terras tão estranhas e em tanto desamparo, e a Rei tão amado
devia ser.

E as cartas escriptas e ordenadas para Portugal, enviou logo ao Principe
Antão de Faria, seu camareiro, que a esse tempo hi se acertou, e era lá
ido com visitação e outras cousas entre o pae e o filho secretas, e por
este apressado aviamento que ás cartas se deu, o Principe solenisou logo
seu alevantamento em Santarem no alpendere de S. Francisco, a dez dias
de Novembro de mil e quatrocentos e setenta e sete. O que não foi sem
muitas lagrimas e grande tristeza sua e de quantos hi eram.

E ante que o moço d'esporas d'El-Rei chegasse com a chave, já os
portugueses vendo sua desacostumada tardança eram por ella em
desesperado pensamento. Nem o foi menos o monseur de Lebret, que com
El-Rei para melhor ser aviado e servido sempre andava, acusando com
irosas e graves reprensões a negligencia dos portugueses, por leixarem
ir El-Rei assi só e de noite em terras alheias, nem elle se escusava de
muita magoa por não dar d'elle melhor conta.

E porém por todolos caminhos e por toda a terra com gente de pé e de
cavallo fez e mandou com muita trigança infindos avisos, dando voz que
El-Rei de Portugal que lhe fôra encomendado era fugido contra prazer e
serviço d'El-Rei de França. Pelo qual todolos franceses ouvida esta
fama, leixadas todas suas cousas seguiram ávante pelos caminhos de Roma,
em que não podiam errar; porque de uma parte corria o rio de Ruão, que
não podia passar, e da outra era o mar. Os quaes troteiros tanto que
d'El-Rei acharam nova, logo de uns em outros correram e seguiram com tão
apressurada diligencia, que a dois dias foram em continente com elle,
que de noite estava já aposentado em uma villagem, e jazia já, onde na
pousada e camara entrou com elle um gentil homem francês, e porque os
portugueses negaram El-Rei, conveio a elle por ser fóra da duvida
acorda-lo e reconhece-lo; porque El-Rei por dissimulação d'aquelle
apartamento, por não ser por caminhos em alguma differença conhecido,
não comia nem dormia apartado, mas com todos familiarmente, e tanto que
El-Rei foi conhecido, o francês com muito acatamento lhe pedio perdão
pelo espertar, dando a culpa aos seus pelo encubrirem, e lhe não dizerem
a verdade. E leixando-o na cama se sahio, e da parte d'El-Rei de França
fez logo ajuntar todo o lugar, por que mui sem rumor em toda a noite foi
guardado e velado, d'onde ainda que quizera já não podera sahir. E logo
n'aquella noite a gram pressa este gentil homem fez messegeiros, uns a
El-Rei de França, que por acertamento não era de hi longe, e outros a
Aynafrol aos portugueses e a Monseor de Lebret, detendo El-Rei na mesma
casa em que o achára, e fazendo-o mui bem servir.

O conde de Penamacôr com tanta sua magoa, como foi a culpa d'este caso
por ser a isso mais obrigado por ser seu camareiro mór, era já em
caminho em busca d'El-Rei, com determinação de nunca sem elle tornar a
Portugal, e pelo aviso que houve de ser já achado, foi logo com elle, e
porque o achou forte para sua tornada, avisou logo e enviou chamar o
conde de Farão, e D. Alvaro seu irmão e outros senhores aceptos, que
logo não com menos pressa que alegria o foram vêr, e d'elles e de uma
carta consolatoria que hi veio d'El-Rei de França, se leixou vencer para
tornar e desistir de seu proposito.



CAPITULO CCIII

     _De como El-Rei D. Affonso embarcou em França e se veio a Portugal,
     e se vio com o Principe seu filho_


E para embarcar, por algum pejo que teve dos que o conheciam, não tornou
a Aynafrol, mas por outro caminho em que por seu desporto todos os
principaes juntamente comiam e folgavam, vieram a uma angra do mar que
dizem a Oga, onde para a pessoa d'El-Rei estava já prestes uma carraca
que mandara fretar a Antona, e alli vieram logo de Aynafrol as outras
naus de França, para todos embarcarem como embarcaram, e fizeram logo
vella, e em poucos dias foram ancorar através d'Antona á ilha d'Oyque,
onde El-Rei houve rebate de novas de oitenta urcas d'allemães que vinham
contra franceses. E porém por ventos contrairos não poderam as urcas
entrar, e a El-Rei conveio sair da ilha não pela banda do Norte por onde
entraram, mas pelas agulhas que dizem logar mui perigoso.

E d'alli no mez d'Outubro fez vella, e com um pouco de temporal que
sobreveio uns navios em que vinham cavallos não poderam aguardar a
conserva, e vieram-se diante a Portugal, por que o Principe da vinda
d'El-Rei seu padre foi logo avisado, sendo havia muito pouco alevantado
já por Rei, como atrás disse.

Arribou El-Rei em Cascaes, onde logo foi certificado que o Principe seu
filho era já obedecido e intitulado por Rei, e foi surgir a Oeiras, e ao
outro dia sahio em terra, e no mesmo dia veio hi logo o Principe seu
filho, que em o vendo com lagrimas de tanto prazer e alegria, como foram
de paixão e tristeza as de Santarem, quando em sua vida e por sua
obediencia se alevantou por Rei. E com muita reverença com os giolhos em
terra lhe beijou as mãos, ás quaes com palavras de Principe tão
excellente, e filho tão bom e tão obediente como elle era, logo
renunciou e depôs o titulo de Rei, de que por cumprir seu mandado e por
haver sua benção mais que por cobiça de reinar se intitulara.

Com este despejo e bondade do Principe ficou El-Rei e todolos de sua
companhia muito descarregados e alegres, e El-Rei logo com razões e
causas muito de louvor quizera obrigar o Principe para não desistir do
nome de Rei e do hereditario cetro que já tinha, mas elle com outras de
não menos honestidade que merecimento, sempre se escusou, e como quer
que depois El-Rei lhe movesse e rogasse que todavia se chamasse e fosse
Rei de Portugal, e que elle se contentaria ser Rei dos Algarves com a
parte d'Africa, onde na guerra dos mouros folgaria servir a Deos e
n'ella acabar, o Principe pelo amor e grande acatamento que lhe tinha
nunca o quiz aceitar, e sempre o contrariou, de maneira que El-Rei D.
Affonso não leixou o nome inteiro de seus reinos, nem o Principe em sua
vida acrecentou o seu.

E d'alli d'Oeiras se veio El-Rei a Lisboa, e para o vêr vieram logo a
Princesa D. Lianor, e o duque e duquesa de Bragança, e assi todolos
senhores do reino, onde estiveram depois de Janeiro de mil e
quatrocentos e setenta e sete. E de Lisboa se foi El Rei a
Montemor-o-Novo, onde esteve o verão, e no fim d'elle se foi a Evora
durando ainda a guerra de Castella, que se continuava e fazia com muitas
entradas e grandes cavalgadas.

E n'este tempo depois da vinda d'El-Rei D. Affonso de França elle enviou
seus recados e messegeiros a Castella, para outra vez tornar entrar
n'ella, e casar publica e perfeitamente com a Rainha D. Joana, para que
já tinha boa disposição, com que muitos grandes de Castella se tornavam
a offerecer. Mas o Principe por causas justas que o a isso moveram,
amoestado e castigado dos enganos e pouca firmeza que n'elles se achou
da primeira entrada, o estorvou da segunda, e assi do casamento que
nunca consentio que por isso se fizesse.



CAPITULO CCIV

     _De como Lopo Vaz Torrão se alevantou com a villa de Moura por
     El-Rei de Castella, e do que se seguio_


N'este anno de mil e quatrocentos e setenta e oito, Lopo Vaz de
Castel-Branco, que por alcunha se dizia o Torrão, sendo alcaide mór da
villa de Moura, sem causa alguma e por induzimentos alheios que cegaram
e forçaram sua propria lealdade, se alevantou com a dita villa e
fortaleza por El-Rei de Castella, e contra El-Rei D. Affonso que o
criara, e chamou-se conde d'ella. Mas logo arrependido d'isso, assi por
sua propria inclinação como por ser amoestado de seus parentes, homens
principaes e mui leaes que no reino havia, tornou a alevantar-se por
Portugal, e desestio do titulo que individamente e por Rei e Senhor não
proprio tomara, e chamou-se como d'antes se chamava, mas o Principe que
d'este seu alevantamento primeiro foi muito sentido, não se segurando
nem fiando já d'elle para o segundo se, o fizesse, e assi por elle não
estar chão a seu serviço, teve o Principe maneira como João Palha e Mem
Palha irmãos, e Diogo Gil, e Ruy Gil os Magros, d'Evora, tambem irmãos,
e outros seus parentes manhosamente como fugidos e temorizados de
justiça se acolhessem, como acolheram ao Castello de Moura com o dito
Lopo Vaz, dos quaes em uma saida que fez a folgar, fiando-se d'elles o
mataram no campo, a que o Principe em pessoa logo accodiu e toda a côrte
após elle, e segurou a villa e a fortaleza, e a entregou á Infante D.
Briatiz como titor que era do duque D. Diogo seu filho.



CAPITULO CCV

     _De como se seguiu a batalha de Merida, em que o Bispo d'Evora,
     capitão mór, foi vencido_


A condessa de Medellym em Castella, D. Briatiz Pacheca, irmã do marquez
de Vilhena, com suas fortalezas e outras alheias que tinha, esteve
sempre a serviço d'El-Rei D. Affonso, e na entrada do anno de mil e
quatrocentos e setenta e nove, sendo certa que o Mestre de Santiago de
Castella D. Affonso de Cardenas, e outros capitães d'El-Rei D. Fernando
se dispunham para vir cercar suas fortalezas, enviou pedir ajuda e
soccorro a El-Rei D. Affonso, que determinou dar-lh'o por seus capitães
com quanto podesse, e para isso mandou por capitão mór D. Garcia de
Menezes, Bispo d'Evora, e com elle por capitães D. João de Menezes seu
irmão, e Diogo Lopes de Souza, e Affonso Telles, e outros que fizeram
setecentos de cavallo, sem alguns de pé de peleja.

E sendo o Bispo entrado em Castella; porque o dito Mestre de Santiago
era já de sua ida bem avisado, sabendo a pouca gente que levava,
determinou com sua gente que era muita mais e mais folgada, recebe-lo
com batalha no caminho junto com Merida; porque com o dito Mestre eram
outros capitães d'El-Rei e da Rainha de Castella, com mil e tresentos de
cavallo, e tres mil homens de pé para peleja, e podendo o Bispo escusar
a peleja, e sendo razão que a escusara, porém porque era de nobre sangue
e de esforçado coração, filho, neto, e irmão de singulares capitães
herdeiros já de louvadas victorias, houve por abatimento retraer-se sem
peleja. E determinou dar-lhe como deu a batalha, em que pela desegual
comparação de uma gente á outra, com quanto por ambas as partes foi bem
e mui ardidamente pelejada, finalmente o Bispo foi vencido, ferido,
derribado e preso, e com elle a maior parte de sua nobre gente foram
feridos e alguns presos.

E o Bispo posto já em poder de um escudeiro que o tinha preso, com
esperança de grande galardão que lhe prometeo, e depois deu, se
concertou com elle que o salvasse, e levasse como levou a Merida, onde e
assi em Medellym a que alguma gente que do destroço fugindo se acolheo,
se tornou a reformar, e sem esperar já soccorro se manteve muito tempo
cercado, soffrendo grandes perigos dos contrairos, mas muito maiores de
grandes doenças em que cahiam, fazendo sempre em armas coisas assinadas
de sua honra e louvor. E assi com nome d'esforçado se manteve todo o
verão, até o concerto das pazes que se logo fez, que foi n'esta maneira.



CAPITULO CCVI

     _De como se ordenaram e trataram as pazes entre Portugal e
     Castella, e por quaes pessoas, e com que condições e cousas
     sustancialmente_


N'este tempo depois do destroço do Bispo e ante d'elle havia já n'este
reino de gente, armas, e cavallos, e principalmente de dinheiro, que é o
sustancial nervo da guerra, manifestas necessidades, e estas mesmas com
outros maiores receios tambem não falleciam em Castella. Porque como os
grandes e senhores principaes d'aquelle reino, por sua natural condição
sempre sejam amigos de novidades e divisões, com quanto publicamente
desserviam El-Rei D. Affonso; porém por fazerem seus partidos mais
esforçados, nunca leixavam de trazer com elle praticas e cometimentos
secretos, para outra vez o retornarem com a Rainha D. Joana a Castella.
O que não ficava por saber a El-Rei D. Fernando, e á Rainha D. Isabel
sua mulher, que com toda sua prosperidade eram por isso postos em terror
e cuidado. Pelo qual por occultos meios de pessoas virtuosas e de santa
tenção, que entre os Reis e o reino cometeram as pazes, houve de uma
parte e da outra taes intelligencias, e para isso tão chegadas a
conclusão, que a Rainha D. Isabel por concerto se veio á villa
d'Alcantara em Castella, onde a Infante D. Briatiz de Portugal sua tia,
por prazer d'El-Rei D. Affonso e do Principe D. João, se foi vêr com
ella, e alli ambas tomaram assento de as pazes todavia se fazerem e
concordarem n'este reino de Portugal; porque assi se houve por mais
favor e mór honra d'El-Rei e de seus reinos, aos quaes a Infante com
esta determinada conclusão se tornou, para execução da qual o Principe a
que o negocio e cargo dos tratos e assentos das ditas pazes, por prazer
d'El-Rei seu padre foi em todo cometido, por concerto já praticado se
foi á villa das Alcaçovas d'entre Tejo e Odiana, onde veio por só
embaixador e procurador d'El-Rei e da Rainha de Castella o doutor
Rodrigo Maldonado, que vulgarmente se dizia de Tallaveira, que
juntamente com D. João da Silveira, barão d'Alvito, que foi só
procurador d'El-Rei e do Principe de Portugal, praticaram e concordaram
as capitulações das pazes, que foram perpetuas sem alguma limitação de
tempo, em que sustancialmente se tomaram estas conclusões principaes,
que se concordaram e capitularam na dita villa das Alcaçovas, a quatro
dias de Setembro de mil e quatrocentos e setenta e nove.

Primeiramente que El-Rei D. Affonso leixasse o titulo dos reinos de
Castella e Lião. E assi mesmo El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel
leixasse o titulo de Portugal, de que sem algum fundamento de direito em
seu ditado se intitulavam. E a Rainha D. Joana leixasse todolos titulos
de Castella e de Lião e de Portugal, de que se intitulava, e de hi em
diante não se chamasse Rainha, Princesa, nem Infante, salvo depois que
fosse casada, se casasse com o Principe D. João de Castella, como podia
ser e ao diante se dirá.

Outro si n'estas pazes encorporaram e reformaram os capitulos das pazes
antigas, feitos entre El-Rei D. João o primeiro d'estes reinos de
Portugal com El-Rei D. João o segundo de Castella quando outra vez
tiveram guerra. E além da aprovação das ditas pazes antigas, foi mais
concordada e firmada outra nova adição e capitulação, que esta nova
concordia especialmente requeria, em que sustancialmente foram
declaradas e determinadas estas cousas.

Que as cidades, villas e castellos que de um reino a outro fossem
tomadas, e assi os prisioneiros todos de qualquer sorte e condição que
fossem, se restituissem e entregassem, e soltassem livremente, e que os
Reis de Castella perdoassem como perdoaram em geral e especial a todos
seus naturaes, que depois da morte d'El-Rei D. Anrique por qualquer
maneira serviram e seguiram a El-Rei D. Affonso e ao Principe D. João
seu filho até a publicação das pazes, e assim lhes restituissem em
Castella todas suas villas, castellos, terras, lugares, e todalas
rendas, officios, beneficios, e cousas para os terem e possuirem
indistintamente, assi como os tinham e possuiam ao tempo que com os
ditos Reis e Principe se ajuntaram.

E por alguns cavalleiros e pessoas particulares se fizeram algumas
capitulações especiaes, as quaes por cautellozos e não proprios
entendimentos que lhes os Reis de Castella davam, nunca depois
perfeitamente se cumpriram, e assi os ditos Rei e Principe uns aos
outros se remetteram, perdoaram, e quitaram todalas mortes, danos,
malles, e roubos que em guerra ou tregoa de uma parte ou de outra por
qualquer maneira se fizeram, e que assi se derribassem como derribaram
as fortalezas que nos estremos dos reinos, de um reino e do outro
novamente se fizeram.

Outrosi que o senhorio de Guiné, que é dos cabos de Não e do Bojador até
os Indios inclusivamente, com todos seus mares ajacentes, ilhas, costas
descobertas e por descobrir com seus tratos, pescarias e resgates, e
assi as ilhas da Madeira, e dos Açores, e das Flôres, e do Cabo Verde, e
assi a conquista do reino de Fez ficasse _insollido_, e para sempre ao
dito Rei e Principe de Portugal, e a todos seus herdeiros e sobcessores
para sempre, e que as ilhas das Canarias logo nomeadas, com a conquista
do reino de Grada ficassem outrosi _insollido_ aos Reis de Castella, e a
seus sobcessores para sempre.

A qual capitulação, adoção e reformação nova, com todas estas cousas de
Guiné e conquitas mais declaradas, o Papa Sixto quarto a requerimento e
suplicação do Principe D. João depois de ser Rei, confirmou e ratificou
por sua Bulla, _ad perpetuam rei memoriam_, em que as ditas capitulação
e cousas de _verbo a verbo_ foram todas encorporadas, com penas e
excomunhões e maldições, aos que em qualquer maneira para sempre as
quebrantassem, além das outras conteudas nas Bullas das doações que os
outros Papas pozeram, concederam e declararam, quando d'este senhorio
primeiramente a requerimento do Infante D. Anrique fizeram doação a este
Rei D. Affonso, e a todos seus herdeiros e sobcessores para sempre, como
na morte do dito Infante D. Anrique brevemente atrás apontei.

Outrosi que para maior seguridade e firmeza das ditas pazes, o Infante
D. Affonso filho primeiro do Principe D. João de Portugal, tanto que
fosse em idade de sete annos casasse por palavras de futuro, e em idade
de quatorze annos por palavras de presente, com a Infante D. Isabel,
filha maior dos ditos Rei e Rainha de Castella, e além dos corregimentos
de sua pessoa, casa e camara, houvesse em dote quarenta contos ou
milhões de reaes, pagos em certo modo e tempo, em que os vinte contos
d'elle entravam em satisfação pelas despezas que El-Rei D. Affonso tinha
feitas na guerra, os quaes em todo caso este reino de Portugal sempre
havia d'haver, posto que os outros vinte contos por algum caso que
sobreviesse houvessem de ser restituidos a Castella.

E que d'hi a certo tempo nos contratos conteudo a dita Senhora D. Joana,
com todalas escripturas que tivesse, e se podessem haver ácerca do que
tocava á sua subcessão de Castella, e assi os ditos Infantes fossem
postos em terçaria na villa de Moura em poder da dita Infante D.
Briatiz, na qual estivessem até serem perfeitamente casados. Porque
outrosi foi acordado que o Principe D. João, filho dos ditos Rei e
Rainha de Castella, tanto que fosse em idade de sete annos casasse por
palavras de futuro com a dita Senhora D. Joana, e em idade de quatorze
annos casasse com ella por palavras de presente, e então se chamaria
Princesa, e haveria d'arras vinte mil florins d'Aragão, além das rendas
com que bem podesse manter seu estado, e que sendo caso que o dito
Principe aos ditos tempos com ella não se quizesse esposar e casar, que
então ella fosse livre da terçaria, e lhe fossem entregues suas
escripturas, e mais houvesse para si em Castella d'El-Rei e da Rainha
cem mil dobras d'ouro de banda, pagas em dois annos, ou a cidade de
Touro a penhor d'ellas, com suas rendas e jurdições sem descontar até
lhe serem pagas, e podesse então despoer de si o que quizesse.

E porém que a dita Senhora D. Joana logo se pozesse em terçaria, em
poder da Infante D. Briatiz com todalas ditas escripturas que fossem em
seu favor, ou entrasse em religião em um de cinco moesteiros, ou em
Santa Clara de Santarem, ou de Coimbra, ou no moesteiro de Christus
d'Aveiro, ou no Salvador de Lisboa, ou na Conceição de Beja, em cada um
dos quaes recebesse o habito, e estivesse um anno que se dizia da
aprovação. Acabado o qual de necessidade escolheria uma de duas cousas,
ou fazer inteira profissão, e ser freira professa no habito da ordem que
recebesse, ou ir-se pôr nas terçarias de Moura com os ditos infantes D.
Affonso e D. Isabel, para n'ellas estarem em poder da Infante D. Briatiz
até se cumprirem os tempos e cousas dos capitulos que para cada uma
d'ellas eram concordados, para que a dita Infante em sua vida e por seu
fallecimento a Senhora D. Fellipa sua irmã, ou D. Diogo duque de Vizeu,
e o Senhor D. Manuel seus filhos com seus alcaides e capitães e
cavalleiros fossem os sós e principaes mantedores e seguradores das
ditas terçarias, e n'ellas haviam de poer as guardas e officiaes á sua
vontade, sem os Reis nem Principe poderem a ellas ir durando o tempo
d'ellas, e para o melhor poderem fazer, houveram dos ditos Rei e
Principe autentica faculdade e licença para d'elles se desnaturarem. Por
tal que sem cahirem em caso, lhes fizessem cumprir todo o que por bem
dos ditos tratos e capitulações fossem obrigados, das quaes cousas todas
se fizeram capitulações e escripturas juradas e firmadas pelos ditos
Reis.



CAPITULO CCVII

     _Da publicação das pazes e das mais cousas que para cumprimento
     d'ellas se fizeram, principalmente ácerca da Excellente Senhora D.
     Joana_


E no fim do mez de Setembro d'este anno do nascimento de Nosso Senhor
Jesus Christo de mil quatrocentos e setenta e nove, as ditas pazes se
publicaram logo no dito lugar das Alcaçovas, e des hi por todolos reinos
de Portugal e Castela, onde de hi em diante se guardaram e cumpriram
inteiramente. E porém o titulo de Rainha e estado que a Senhora D. Joana
tinha, não lhe foi logo tirado até os seis dias d'Outubro logo seguinte;
porque então se cumpriam seis mezes que a dita Senhora D. Joana teve de
liberdade, para sem quebrantamento d'estas pazes se poder sair dos
reinos de Portugal, mas em tal caso não podia d'elles, nem d'El-Rei e do
Principe por alguma maneira receber ajuda nem soccorro, nem menos ser
por elles intitulada Rainha, Princesa nem Infante, e porque isto não
sobcedeo á dita Senhora em Castella como á sua honra, estado e desejo
cumpria, sendo forçado escolher um de dois meios que para ella eram
estremos de mortal sentimento, ou poer-se em terçaria ou entrar em
religião, ella escolheu por melhor entrar em religião. Pelo qual estando
ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dorosas
lamentações suas e de todolos seus, leixou o titulo de Rainha e tomou
nome de D. Joana, e despio seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e
vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a
corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe
d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu agravo e
magoa não lhe leixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos
cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assi
entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.

E na execução d'estas cousas porque a necessidade d'outras muitas assi o
requeria, o só e principal ministro era o Principe; porque El-Rei D.
Affonso seu padre de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se
escusou, e as leixou inteiramente á disposição e ordenança do filho, a
cuja vontade El-Rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e
sobjeito.

Mas se o Principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a
Senhora D. Joana, porventura mais do que por razão, piedade, e
temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do
casamento do Infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma
esperança da sobcessão de Castella, a desaventurada fortuna como crú
algoz do rigoroso e severo juizo Divino, pela culpa do Principe se a
tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos
innocentes Principe e Princesa, depois de novamente casados, sobre que
tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
Santarem, que contra a Senhora D. Joana foi o talho d'esta primeira sua
crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o
Principe D. João depois de ser Rei á vista da mesma Excellente Senhora
vio a supita e desastrada morte do Principe D. Affonso seu filho, e a
quem á primeira pareceo, que sendo vivo os reinos de Portugal sem os de
Castella lhe não abastariam, elle o vio logo morto, e de uma pouca de
terra para sempre sobjeito e contente, e a triste e innocente Princesa
sua mulher ante de bem casada se vio logo ser viuva, privada do
verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos, e ollandas
delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo
vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental
proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua
conversação, e servida por servidores alheios, comendo no chão e em
vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos
esposada cuberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e
trotões á vista de todos. E saindo logo d'elles viuva, cuberta de vaso e
almafega, em cima d'azemolas, escondida de todos.

Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes, soffrei-vos
um pouco, cá para outro mais proprio lugar estaes reservadas.

Nem a culpa do solemne, mas simulado e cautelozo juramento que El-Rei e
a Rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta Senhora com o
Principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e
sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceo que se fez, não
padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não
madura morte do Principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais
tempo d'aquelle em que com esta Senhora prometeram e juraram de o casar;
porque elle já então era casado com Madama Margarida, filha do Rei dos
romãos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes Principes de
que os Reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento
faziam, ficar algum ligitimo herdeiro descendente que os subcedesse e
herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados.



CAPITULO CCVIII

     _Da grande pestelença que sobreveio a estes reinos, e como se fez a
     profissão á Excellente Senhora D. Joana_


El-Rei D. Affonso e o Principe com toda a côrte se foram logo a Lisboa,
d'onde no Janeiro do anno que vinha de mil e quatrocentos e oitenta se
partiram, por causa da grande e mui crua pestenença que na cidade
sobreveio, a qual em todo este reino durou bem dezasete annos, que se
acabaram nos primeiros dias em que El-Rei D. Manuel nosso Senhor depois
começou de reinar, que foi no tempo em que como catholico Principe de
todo tirou e arrancou de seus reinos a velha lei de Moysés, e a errada
seita de Mafamede, lançando fóra d'elles os judeus que não quizeram ser
christãos, e assi os mouros, como infernaes ministros e discipulos
d'ellas.

El-Rei D. Affonso se foi a Viana d'Alvito, e o Principe e Princesa a
Beja, e a Excellente Senhora porque Santarem da mesma pestenença foi
logo contaminado, com gente d'armas que a sempre guardou, foi levada ao
mosteiro de Santa Clara d'Evora.

E porque o Principe no anno passado ante das pazes soube que certa
armada era ida de Castella resgatar contra sua defesa á Mina, armou
contra ella outra de que por uma vez foi capitão mór Jorge Corrêa,
comendador do Pinheiro, e da outra Mem Palha, homens honrados e bons
cavalleiros. Os quaes toparam na Mina os castelhanos, e assi os
cometeram que muito a seu salvo lhes tomaram sua frota, com muito ouro e
mercadorias, e trouxeram suas pessoas presos e captivos a Lisboa, que
por condição das pazes foram soltos, e o ouro que foi muita soma assi
como vinha em joias e arrieis foi levado a Beja, de muita parte do qual
o Principe fez mercê aos embaixadores de Castella, que depois a Moura
vieram sobre o concerto das terçarias.

E porque Evora no verão d'este anno começou corromper-se de pestenença,
foi logo d'ella tirada a Excelente Senhora, e levada com sua guarda ao
Vimieiro, onde o Principe veio, e d'alli a levaram ao mosteiro de Santa
Clara de Coimbra. E El-Rei D. Affonso se foi a Villa Viçosa, e de hi na
entrada do inverno a Coimbra, e o Principe após elle.

E porque n'aquelle mesmo tempo se cumpria o anno de aprovação, que á
Senhora D. Joana fôra dado para no cabo d'elle escolher, ou entrar em
terçaria em poder da dita Infante D. Briatiz, ou fazer profissão,
chegaram alli por embaixadores e procuradores d'El-Rei e da Rainha de
Castella o Prior de Prado, que depois foi o primeiro Arcebispo de Grada,
e o doutor Affonso Manuel, para serem no auto e execução de qualquer
d'estas cousas que a dita Senhora escolhesse.

E n'este tempo e na mesma cidade de Coimbra adoeceu El-Rei D. Affonso de
grande infermidade, de que esteve á morte, e a causa d'ella segundo seus
acidentes era sómente reportada a nojo e padecimentos que recebia por a
mudança e cousas da Excellente Senhora, para que era constrangido. A
qual forçada para dois estremos á sua alma tão amargosos e tristes, não
fiando nem segurando sua vida na entrada das terçarias, não por duvidar
da bondade, conciencia e virtudes da Infante D. Briatiz, mas receando-se
da continua conversação e familiaridade de castelhanos contrairos, que
não podia escusar, e assi movida por outros respeitos, escolheu por
melhor fazer de todo profissão no mesmo habito de Santa Clara que
trazia, e n'elle servir a Deos antes que tomar partido tão incerto, e
para sua vida e sua honra tão duvidoso. E na bespora do dia em que foi
ordenado a dita Senhora fazer profissão, foi no mosteiro tamanho pranto
de seus criados e criadas que alli ocorreram, como se a houveram de
soterrar. E com isto em alguma maneira foi de seu proposito revolta para
não fazer profissão, a que o Principe acudio, e assi a soube temperar
com esperanças de futuro bem, e com palavras assi brandas e prudentes,
que de todo a confirmou em despejadamente fazer a dita profissão, a qual
fez dentro no dito mosteiro, a quinze dias do mez de Novembro do dito
anno de mil e quatrocentos e oitenta.

E ao auto da dita profissão esteve o Principe sem El-Rei, e com elle
foram a ella presentes os ditos embaixadores de Castella, e todolos
grandes senhores, Prelados e fidalgos da côrte de Portugal, perante os
quaes depois de ser reconhecida por a mesma Senhora D. Joana, ella com
uma paciencia e segurança com que a muitos commovia a muitas lagrimas,
das mãos de Frei Diogo d'Abrantes recebeu o veo preto, na fórma, e com a
solenidade e cerimonias que a dita ordem manda. Do qual todos os ditos
embaixadores logo pediram publicos estromentos, que depois lhe foram
dados á sua vontade.

N'este tempo foi a cidade de Rodes cercada de turcos, e posta em grande
afronta, sendo Gram Mestre D. Frei Pedro d'Ahábusam, a cujo socorro foi
d'estes reinos D. Diogo Fernandes d'Almeida que trazia o habito da dita
Ordem, e era eleito para ser como foi Prior do Crato, e foi bem armado e
aparelhado, e no caminho e em Rodes ganhou muita honra, sendo ferido
pelejando com gallés, e fazendo ricas presas como homem de nobre sangue,
a que em todas suas cousas d'antes e depois nunca falleceu discressão,
bondades, e grande esforço de coração.



CAPITULO CCIX

     _De como se fizeram as entregas do Infante D. Affonso e da Infante
     D. Isabel nas terçarias de Moura_


E feita a dita profissão, o Principe se partiu de Coimbra, e mui
aforrado chegou a Beja onde era a Princesa sua mulher e o Infante D.
Affonso seu filho, que ainda não era de cinco annos.

E porque no mesmo dia se cumpria o tempo em que o dito Infante havia de
ser entregue em Moura em poder da Infante D. Briatiz como era sob
grandes penas capitulado, na mesma hora que o Principe chegou, logo por
prazer da Princesa o inviara mui honradamente a Moura. E não partiu
d'ante elles com menos dôr e saudade que se lhes levara os corações
d'ambos, e o arrancaram de sua propria carne, e não era sem causa;
porque alem de ser só filho ainda, n'elle havia em tudo tantas e tão
angelicas perfeições, que o privar de sua vista e conversação assi o
merecia. Mas por cumprirem o que como bons e verdadeiros Principes
deviam, posta a natural dôr que o contradizia, despensando com a
privação do filho pela piedade do reino, permitiram que o primeiro
caminho que seus mui tenros pés fizessem, fossem com risco de sua vida
ir tirar a guerra e a morte dos reinos, porque então já esperavam.

E com tanta aflição do corpo e d'alma, não havia quem a estes Principes
mais confortasse que a fé e verdade que a Deus e ao mundo sem cautella
sempre mantiveram com grande cuidado; porque n'estas que eram suas
proprias virtudes, para sua consolação e descanso ora buscavam ante
elles rasões e confortos, com que lhe alimpavam as reaes lagrimas, que
sua humanidade não podia escusar.

E como o Infante D. Affonso foi assi entregue, logo o Principe e a
Infante D. Briatiz, por Rodrigo Affonso e por Ruy de Pina notificaram
sua entrega, e a profissão da Senhora D. Joana á Infante D. Isabel e aos
Senhores de Castella que a traziam e com ella estavam na villa da Fonte
do Mestre, para ella vir e ser tambem entregue na dita terçaria, como
era capitulado. E feita a dita notificação, logo D. Affonso de Cardenas,
Mestre de Santiago, e D. Diogo Furtado de Mendonça, Bispo de Pallença, e
D. Affonso d'Afonseca, Bispo de Avyla, e outros senhores que com ella
eram se vieram a Freixinal.

E d'hi se emaderam mais e juntamente por embaixadores d'El-Rei e da
Rainha de Castella, aos outros que foram a Coimbra, o Bispo de Coria D.
João de Ortiga, e o licenceado d'Ilhescas, os quaes todos quatro sem a
Infante se vieram diante a Moura, onde com o Infante D. Affonso e com a
Infante D. Briatiz, eram já o duque de Vizeu D. Diogo, e o duque de
Bragança D. Fernando, e o conde de Faram D. Affonso, e o senhor D.
Alvaro, com outros senhores e fidalgos do reino, e por procuradores
d'El-Rei e do Principe D. João de Mello, Bispo de Silves, e D. João da
Silveira, barão d'Alvito, para todos concordarem e praticarem as
menagens, seguridades e desnaturamentos, e cousas que para entrega e
vinda da dita Infante D. Isabel cumpriam. Nas quaes por parte dos dois
derradeiros embaixadores de Castella, contra a opinião e voto dos outros
primeiros se moveram e apontaram de novo tantas duvidas e condições para
dilatarem a entrega da dita Infante, com que foi necessario ir algumas
vezes consulta ao Principe, que era em Beja; porque todo este negocio
sobre elle pendia, o qual anojado de suas importunações e injustas
delongas, finalmente enviou aos ditos embaixadores dois escriptos, com
duas palavras feitas de sua mão, e em um dizia _Paz_, e no outro
_Guerra_, e mandou que no Conselho onde os de um reino e do outro cada
dia se juntavam fossem os ditos escriptos apresentados aos ditos
embaixadores, e que logo em nome dos Reis seus Senhores escolhessem um
d'elles, qual quizessem, e que se tomassem o da guerra, que mais seria
d'ella contente por ser uma guerra, que de paz, que tantas guerras lhe
dava. E que se quizessem o da paz, que d'elle tambem lhe prazia sem mais
negociações das que já eram concordadas, e que para isso logo trouxessem
e entregassem a Infante.

Os quaes dois escriptos do Principe, com sua determinação tão perantoria
tiveram no Conselho tanta força, que os embaixadores todos sem mais
altercações se conformaram e acordaram a entrega da dita Infante, que
foi a onze dias do mez de Janeiro de mil e quatrocentos e oitenta e um,
a que a Infante D. Briatiz com toda a frol e gentileza de Portugal que
alli foi junta sahio, e a uma legoa de Moura junto com a quintã que
dizem da Coroada, e no meio de um ribeiro que alli corre, das mãos dos
ditos senhores e embaixadores de Castella recebeu a dita Infante D.
Isabel. E entregou a elles o Senhor D. Manuel seu filho, que com a gente
que á sua honra e estado cumpria, levaram á côrte dos Reis de Castella
em lugar do duque D. Diogo seu irmão, que por contrato das terçarias
houvera primeiro de ser entregue, mas por a este tempo o duque ser
doente, ficou por então até ser são, mas verdadeiramente assi foi muita
razão, e ainda pareceu quere-lo assi Deos, que o Senhor D. Manuel
primeiro fosse arrefens e segurança da paz e assessego dos reinos de
Portugal, pois elle por graça Divina primeiro os havia de sobceder com a
mesma paz e assessego como sobcedeu, e ao diante se dirá.

E porém o duque foi depois a Castella, e o Senhor D. Manuel tornou a
Portugal, como em seus tempos e lugares será declarado.

E porque a villa e fortaleza de Moura em que terçarias foram logo
ordenadas, e em que o Principe á sua custa para os Infantes mandou fazer
honrados aposentamentos, era nos verãos naturalmente muito doentia e
perigosa, requereu o Principe a El-Rei e á Rainha de Castella e á
Infante D. Briatiz, que para segurança das vidas e pessoas dos ditos
Infantes, houvessem por bem as ditas terçarias pelas mesmas condições se
mudarem á villa de Beja, que de seu sitio era sã e de bons ares.

E por algum consentimento, que com razão os ditos Senhores Reis e
Infantes logo para isso deram, o Principe mandou fazer grandes
percebimentos de pedraria e madeiras e officiaes, para no castello de
Beja se fazerem outros aposentamentos. E elle e a Princesa se foram de
Beja ter a Pascoa da Resurreição a Torres Novas, onde era El-Rei D.
Affonso. Mas porque a Infante D. Briatiz por conselhos e induzimentos
não verdadeiros, com que pareceu que foi enganada, mudou este proposito,
e com todo o grande perigo de Moura quiz ficar no primeiro de se não
mudar da dita villa, o Principe começou tomar d'ella alguns
descontentamentos, pelos quaes logo desejou desfazer ou mudar as ditas
terçarias em outra maneira.



CAPITULO CCX

     _Do socorro que pelo Bispo d'Evora foi enviado contra o Turco,
     quando tomou a cidade do Tranto em Italia_


E por quanto no anno passado de mil e quatrocentos e oitenta, o exercito
do Gran Turco com seus capitães passou em Italia no reino de Napoles, e
por força tomou na Pulha a cidade de Tranto com outras villas e
castellos, com grande e piadoso estrago de christãos, e D. Affonso duque
de Callabria, filho d'El-Rei de Napoles era já em cerco sobre a cidade
para a cobrar; o papa Sixto quarto, que então era presidente na Igreja
de Deos, por atalhar á destruição de Italia e Roma, que se aparelhava,
enviou pedir socorro e ajuda a todolos Reis e Principes christãos, para
que outorgou certas dizimas que mandou lançar pela clerezia, pela qual
El-Rei D. Affonso e o Principe seu filho estando em Torres Novas, por
obedecer ao Padre Santo em obra tão santa e tão piadosa, e que de seus
corações e legitima devoção não era alheia, depois de as dizimas serem
ordinariamente tiradas, e elles darem para isso toda outra ajuda
necessaria, enviaram para a dita expunação do Tranto e resistencia do
Turco o Bispo d'Evora D. Garcia de Menezes com grande frota, e muita e
mui nobre gente de seus reinos, que de caminho tocando em Barcellona
onde eram os Reis de Castella, foi a gente de Portugal e suas armas e
gentileza muito louvada. E de ahi foi a Ostia, porto de Roma, por onde
entrou pelo Tibre acima, e o Papa o recebeu e ouviu em S. Paulo, onde o
Bispo porque entre os bons oradores de Italia era singular orador, lhe
fez uma elegante, e para o caso mui louvada oração.

E em fim por acabar primeiro com o Papa seus feitos, e haver com o
bispado d'Evora, que tinha, o da Guarda que juntamente houve, fez alli,
e depois em Napoles indo já caminho do Tranto tanta demora, que não
sómente não foi onde era ordenado, mas ainda por sua longa estada lhe
adoeceo e morreu muita gente. E porque alli veio certa nova que pela
morte do Turco que então de peçonha morrera em Grecia, os que em seu
nome tinham a cidade de Tranto desesperados de soccorro, por partido se
deram ao dito duque de Calabria, o dito Bispo d'Evora cessou de sua ida.
E depois de despedir em Roma suas cousas, se veio a estes reinos depois
da morte d'El-Rei D. Affonso.



CAPITULO CCXI

     _De como o duque de Vizeu foi a Castella, e se tornou a Portugal o
     Senhor D. Manuel seu irmão_


E o duque de Vizeu tanto que de sua doença convalleceo, com estado de
grande Principe, e acompanhado de muitos fidalgos e d'outra muita
escolhida gente sua e d'El-Rei, indo-se á côrte dos Reis de Castella
como era concordado, adoeceu outra vez em Caceres, onde por mandado dos
ditos Reis tinha cargo de o acompanhar e servir D. Pedro Portocarreiro,
senhor de Palma. E de hi com algum melhoramento se foi a Madril, d'onde
o Senhor D. Manuel seu irmão que alli era, se despedio d'elle, e se
tornou a estes reinos a Moura.

O duque de Vizeu ficou para cumprir o tempo que era capitulado, e foi a
tempo que El-Rei de Castella então se partira socorrer e abastecer a
gram pressa a villa d'Alfama do reino de Grada, que o marquez de Callez
então tomara, e porém a Rainha vio o duque de Vizeu secretamente; porque
outra vista sua e recebimento publico se fez depois em Cordova, d'onde o
duque sahio a receber El-Rei o dia que n'ella entrou, vindo anojado e
descontente do cerco de Loxa, em que por aquella vez sua ida e victoria
não sobcedeo á sua vontade, porque foi pelos mouros feito em sua gente
grande destroço, e mataram-lhe o mestre de Calatrava, com outra nobre
gente.



CAPITULO CCXII

     _De como foi a morte d'El-Rei D. Affonso_


E depois da profissão da Excellente Senhora; porque El-Rei D. Affonso em
Coimbra foi em ponto de morte como disse, nunca mais foi alegre, e
sempre andou retraido, maginativo e pensoso, mais como homem que
avorrecia as cousas do mundo, que como Rei que as estimava. Pelo qual no
seguinte verão elle foi a Beja vêr o Principe seu filho e a Princesa D.
Leanor sua mulher, e alli tiveram o pae e o filho entre si praticas
secretas, em que El-Rei determinou querer no fim d'este anno se vivera
fazer côrtes geraes em Estremoz; porque em Lisboa e Evora morriam, e
leixar a inteira governança dos reinos ao Principe seu filho, e elle em
habitos honestos de leigo e não com obrigação de religião se retraer no
mosteiro de Varatojo junto com Torres Vedras, que elle de novo fundou
para alli servir a Deos e em sua vida temperar e remediar os odios e
dissenções que já entendia que por sua morte entre o Principe seu filho
e os da casa de Bragança se não podiam escusar, e cousa justa fôra
permitir então a bondade e misericordia de Deos este bem, porque tanto
mal depois se não seguia, e porém o Principe ficou em Beja para d'alli
continuadamente mandar visitar e prover o Infante D. Affonso seu filho,
e a Infante D. Isabel que eram na terçaria em Moura, como sempre fez.

E El-Rei D. Affonso na entrada d'Agosto se foi a Cintra, onde adoeceu de
febre muito aguda, de que o Principe sendo avisado, a gram pressa foi
logo com elle, que achou já em desposição mortal e sem esperança de
vida. Na qual El-Rei tendo feito seu testamento, e recebendo todolos
sacramentos alli acabou como bom e catholico christão, dando sua alma a
Deos a vinte e oito dias d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor
Jesu Christo de mil e quatrocentos e oitenta e um. E na propria casa em
que nasceo, ali morreu e acabou. Foi seu corpo logo metido em um ataude,
e posto sobre uma azemola que com cruzes, tochas, e clerigos foi pelo
conde de Monsanto, que hi era, e por outros fidalgos levado ao mosteiro
da Batalha, e enterrado na casa do cabido, onde jaz até haver sua
solemne merecida sepultura.



CAPITULO CCXIII

     _Das feições, bondades e virtudes d'El Rei D. Affonso_


Foi El-Rei D. Affonso Principe mais de grande que meã estatura, e em
todos seus membros bem feito e mui proporcionado, salvo que nos
derradeiros dias foi algum tanto envolto em carne, e por encuberta
d'isso costumava sempre vestiduras soltas; teve o rosto redondo, bem
povoado de barba preta, e em todalas outras partes do corpo muito
cabeludo, salvo na cabeça, em que depois de trinta annos começou de ser
calvo.

Foi Principe de mui granciosa presença, grande humanidade, e doce
conversação, mas foi em tanto extremo, que para Rei superior não foi
muito de louvar; porque com grande familiaridade que de si, contra sua
gravidade e estado real a muitos dava, além de lhe muitas vezes não
guardarem aquella reverencia e acatamento que deviam, tomavam ainda
atrevimento de lhe requerer, e elle vergonha de lhe não outorgar muitas
e maiores cousas do que os merecimentos nem honestidade, nem do que o
acrecentamento de patrimonio real requeriam, segundo todo Rei e Principe
é obrigado. Foi de grande memoria e maduro entender, e de sutil engenho,
remisso mais que trigoso nas graves execuções. Especialmente nas da
justiça que tocavam contra grandes pessoas, as quaes mais folgava de
dessimular ou temperar brandamente, que executal-as com rigor, e crê-se
que isto procedia de sua grande humanidade, e assi por assessego de seus
reinos. Suas palavras no que queria dizer eram sempre bem ordenadas, e
entoadas com mui gracioso orgão, e por pena, de seu natural escrevia
assi bem, como se por longo ensino e exercicio d'oratoria
artificialmente o aprendera; foi amador de justiça e de ciencia, e
honrou muito os que a sabiam.

Foi o primeiro Rei d'estes reinos que ajuntou bons livros, e fez
livraria em seus paços, e tambem foi o primeiro Rei que pelas praças e
lugares publicos das cidades e villas de seus reinos fez a todos mui
familiar sua vista, porque até seu tempo os Reis d'estes reinos assi
raramente o faziam, que quando alguma hora ante a face do povo sahiam,
concorria de todalas ruas tanta gente para os vêr, como se fosse uma
gram novidade, mas isto procedeo de sua humana condição, por as gentes
mais facilmente lhe poderem pedir mercê e requerer justiça, em cujo
despacho foi sempre mui liberal e atento.

Foi tão confiado de seu saber, que com dificuldade queria estar por
alheios conselhos se contradiziam sua vontade, especialmente nas cousas
da guerra dos mouros, em cujo proseguimento foi sempre tão aceso e
inclinado, que ácerca d'isso todo seu apetito lhe pareciam vivas razões;
foi Principe mui catholico e amigo de Deos, e mui fervente na fé; ouvia
continuada e mui devotamente os Officios Divinos, e pela mór parte sem
grandes pompas e cerimonias; deleitava-se com homens honestos religiosos
e de bom viver, e com elles apartado muitas vezes, ao seu modo
conversava, e com isto em seu tempo deu causa que muitos fingidamente
quizeram parecer de fóra melhores do que eram de dentro, e esta especie
de hypocrisia depois de sair das casas de Deos, entrou nas casas dos
homens, que a muitos aproveitou, de que não faço alguma especificação
por não ser odioso, pois não é necessaria.

Foi no comer, beber, e dormir mui regrado, e sobre tudo de mui louvada
continencia; porque havendo não mais de XXIII annos, ao tempo que a
Rainha sua mulher falleceu, sendo aquella idade de maiores pongimentos e
alterações da carne, tendo para isso muita desposição e despejo, foi
depois ácerca de mulheres muito abstinente, ao menos cauto.

Nos trabalhos do corpo que se lhe offereciam, ou elle por seu prazer
queria tomar, não era delicado, antes os soffria bem e como outro homem
robusto n'elles criado.

Folgou muito d'ouvir musica, e de seu natural sem algum artificio teve
para ella bom sentimento.

Foi esmolador e de mui piedosa condição. E na nobreza e liberalidade
teve sem medida tanta parte, que mais propriamente se podia dizer
prodigo que verdadeiro liberal, especialmente nas cousas da corôa do
reino, de que sem grandes merecimentos nem muita necessidade, mas por
sós manhas e praticas que com elle os grandes usavam, a desguarneceo e
minguou em não pouca parte. Poucas vezes e por poucas cousas recebia ira
nem senha, e as semelhantes cousas porque se lhe causava, em que a
consciencia o não contradizia, levemente as perdoava, e por ser Principe
de mui alto e esforçado coração, foi sempre zelador de emprender cousas
arduas, e prosegui-las por armas como cavaleiro, mais que de entender
como Rei no regimento civel e politico de reinos.

Viveu quarenta e nove annos, de que foi Rei os quarenta e tres. E
d'estes os XXXIII regeo persi o reino; porque dez annos primeiros de seu
reinado, por sua pouca idade regeo por elle o Infante D. Pedro seu sogro
e tio, como atraz fica.


FIM DO III E ULTIMO VOLUME



INDEX

1^o VOLUME


CAPITULO                                             PAGINA


I--Narração     12

II--Alevantamento d'El-Rei      14

III--De como começaram de entender nas cousas do reino e se viu o
testamento d'El-Rei      17

IV--Da vinda do Infante D. Anrique á côrte, e das cousas que se logo
acordaram      19

V--Como o Infante D. Fernando foi jurado por Principe, se El-Rei não
houvesse filho legitimo      21

VI--Primeiro consentimento da Rainha para El-Rei seu filho casar com a
filha do Infante D. Pedro      22

VII--Resposta do Infante D. Pedro á Rainha      23

VIII--Contradicção que houve em algumas pessoas no consentimento do
casamento d'El-Rei com a filha do Infante D. Pedro      24

IX--De como se fez o saimento d'El-Rei no mosteiro da Batalha      26

X--Como ante de se fazerem as primeiras côrtes em Torres Novas, se fez
uma conjuração contra o Infante D. Pedro      27

XI--Como se deu a obediencia e fizeram as menagens a El-Rei e se
praticou sobre quem regeria      29

XII--Concordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do
regimento      30

XIII--Da contradicção e mudança que houve n'este acordo      31

XIV--Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento de
El-Rei para a Rainha não dever reger      32

XV--Do meio que o Infante D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante D.
Pedro acerca do Regimento      34

XVI--Como a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao
Infante D. Pedro o alvará que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-Rei
     37

XVII--Como El-Rei se foi a Lisboa, onde o Infante D. João veiu a
primeira vez      39

XVIII--Do despacho que se deu aos embaixadores de Castella      40

XIX--Como a Rainha começou de reger e ser em seu regimento prasmada      42

XX--Fallecimento da Infante D. Filippa      43

XXI--Nascimento da Infante D. Joana      43

XXI--Praticas que o Infante D. Pedro teve sobre descontentamentos que
tinha da Rainha ácerca do regimento      44

XXII--Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João ambos se viram e
fallaram sobre o regimento      45

XXIII--Como a rainha lançou fora de sua casa certas donzellas por
suspeitas a ella, e affeiçoadas ao Infante D. Pedro      48

XXIV--Do alvoroço que se seguiu contra a Rainha pela execução dos
varejos de Lisboa      49

XXV--Ida do conde d'Arrayolos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como
não aproveitou      51

XXVI--Como o Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e assessegar as
uniões da cidade      54

XXVII--Como a Rainha mandou secretamente preceber os de sua valia que
viessem ás côrtes armados      56

XXVIII--Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João sobre estas cousas
se tornaram a vêr, e o que acordaram      58

XXIX--Como o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os
alvoroços que se ordenavam      60

XXX--Como se o Infante despediu da Rainha, e da falla que como
descontente lhe fez      61

XXXI--Como a Rainha com El Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que
se seguiu em Lisboa      62

XXXII--Acordo que o povo de Lisboa fez acerca do regimento      64

XXXIII--Como a cidade de Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro
pelos cubelos da alcaçova que tomou      65

XXXIV--Vinda do Infante D. João á cidade      67

XXXV--Como a Rainha escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego
d'elle      67

XXXVI--Declaração que Lisboa fez de o Infante D. Pedro só reger o reino
     68

XXXVII--Forma do acordo sobre o Regimento      70

XXXVIII--Notificação d'este acordo ao Infante D. João, que o approvou
72

XXXIX--Notificação do dito acordo á Rainha, que o contrariou, e assi aos
Infantes e ao reino      73

XL--Partida do Arcebispo D. Pedro fóra do reino      75

XLI--Como o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante
D. João, e o que se n'isso seguiu      77

XLII--Mandou a Rainha velar e afortalezar Alanquer, onde tinha El-Rei
81

XLIII--Dissensão que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro
e o Infante D. Anrique      81

XLIV--Embaixada dos Infantes á Rainha      83

XLV--Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para
Lisboa ás côrtes      85

XLVI--Entrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as côrtes
acceitou o Regimento      88

XLVII--Notificação do acordo passado á Rainha, que o não consentiu      91

XLVIII--Ida do Infante D. Anrique á Rainha para leixar vir El-Rei ás
côrtes, e lh'o tornarem      92

XLIX--Entrada de El-Rei em Lisboa para as côrtes      93

L--De como se apontou e aprovou não ser bem El-Rei se crear em poder da
Rainha      96

LI--Como a rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos
Infantes a ella como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irmão      101

LII--Como Lisboa cometeu de querer fazer uma estatua ao Infante D. Pedro
pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe respondeu
     104

LIII--Como a Rainha sobre suas cousas se querellou aos Infantes d'Aragão
seus irmãos, e da embaixada que enviaram      106

LIV--De como se entendeu na redempção do Infante D. Fernando, e do que
se seguiu      108

LV--Como a Rainha D. Lianor se partiu de Cintra para Almeirim contra
vontade de d'El-Rei e dos Infantes, e como se El-Rei foi a Santarem, e
do que se seguiu      113

LVI--Liança do Infante D. Pedro com o Condestabre e Mestre d'Alcantara
de Castella, contra os Infantes d'Aragão, e das ajudas que lhe deu      115

LVII--Conselhos que o Infante D. Pedro teve sobre o assessego e
segurança d'estas cousas, e como a Rainha fingidamente se concordou com
elle      117

LVIII--Como o conde de Barcellos desdisse muito á Rainha esta concordia
com o Infante, em caso que não fosse verdadeira      119

LIX--Como o Priol do Crato consentiu em receber a Rainha em suas
fortalezas      120

LX--Como o conde de Barcellos fez liança com os Infantes d'Aragão, e
como foi por isso muito prasmado      121

LXI--Como o Infante D. Anrique se viu com o conde de Barcellos seu irmão
para o concordar com o Infante D. Pedro      123

LXII--De como veiu a El-Rei embaixada de Castella, e como foi recebida
     124

LXIII--Como o Infante D. Anrique procurou de trazer o Priol do Crato a
serviço e prazer do Infante D. Pedro, e do que n'isso passou      127

LXIV--De como se a Rainha aconselhou sobre a ida para o Crato, e como
emfim posposto o conselho se partiu      128

LXV--Do que fizeram os da Rainha depois que souberam da sua partida 130

LXVI--De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do
que logo sobr'isso se fez      131

LXVII--Do que a Rainha fez depois de ser no Crato      134

LXVIII--Como falleciam os mantimentos á Rainha e ao Priol do Crato      135

LXIX--De uma embaixada d'El-Rei d'Aragão e de Napoles que veiu ao
Infante D. Pedro sobre os feitos da Rainha      136

LXX--De como o Regente determinou pôr cêrco ao Crato e ás outras
fortalezas do Priol, e a que pessoas os cêrcos foram encommendados      137

LXXI--Como El-Rei quiz vêr e viu o capitão na ordenança de guerra em que
vinha      139

LXXII--Como a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para
se bastecer, e do que fizeram      141

LXXIII--Da resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua
embaixada enviou a Roma requerer      142

LXXIV--Como em se accordando o cêrco do Crato soube o regente que a
Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia
seguiu, e do que se fez      144

LXXV--Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego
para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em
defeza, e do que se n'isso passou      148

LXXVI--Das côrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei com a Rainha
D. Isabel, filha do Infante D. Pedro      152

LXXVII--Como o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se
concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas porque ella não quiz
153

LXXVIII--Como a Rainha D. Lianor se foi á côrte de El-Rei de Castella, e
das embaixadas que vieram a Portugal      155

LXXIX--De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se
daria, fez côrtes geraes      157


2.^o VOLUME


LXXX--D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de
Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que houveram,
e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da Rainha      5

LXXXI--De como o Infante D. João falleceu, e que filhos d'elle ficaram
     10

LXXXII--De como falleceu o filho do Infante D. João que era Condestabre,
e como o filho maior do Infante D. Pedro foi d'aquella dinidade provido,
que foi causa e fundamento da morte do dito Infante D. Pedro      12

LXXXIII--De como foi a morte do Infante D.Fernando que era captivo em
Fez      14

LXXXIV--De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando já
para se tornar a Portugal      15

LXXXV--Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a
Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra os
Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar      19

LXXXVI--De como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a El-Rei a
primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como El-Rei
lh'o tornou a dar      22

LXXXVII--De como as filhas do Infante D. João foram casadas      25

LXXXVIII--Como El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem
pediu ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o leixou
     27

LXXXIX--Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante
D. Pedro depois que soube que já não regia, e para lançarem o Infante
fóra da côrte      29

XC--Como o Infante D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro
para seu favor, e assi o conde d'Abranches      34

XCI--Vinda do conde d'Abranches ás côrtes      35

XCII--De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D.
Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se seguiram
     37

XCIII--De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o
Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra o
dito Infante se seguiram      39

XCIV--De como El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas,
que tinha em Coimbra      41

XCV--Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante com
El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se damnavam mais
     43

XCVI--De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como
o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não
leixaria-o passar por sua terra      46

XCVII--Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em
caminho      48

XCVIII--Da resposta do duque ao Infante D. Pedro      49

XCIX--Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não
leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao Infante D.
Pedro enviou      51

C--De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque, e
se percebeu e partiu para isso      55

CI--De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a
cavallo      56

CII--De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra
o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu      58

CIII--D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou
não leixar o seu caminho      60

CIV--De como o conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que
desse no duque      62

CV--De como o duque não quiz esperar o Infante, e se salvou atravessando
secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante sobr'isso disse e
fez      63

CVI--Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez
contra o Infante      66

CVII--De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer
geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle      68

CVIII--Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre
o Tejo e Odiana      70

CIX--De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre,
sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou
destruição, e do conselho e determinação que o Infante sobr'ella teve 72

CX--Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição foram
dados      75

CXI--De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que foi
morrer      78

CXII--Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de
morrer um quando outro morresse      79

CXIII--Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre
se elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa porque não
houve effeito      81

CXIV--Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que
amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher      84

CXV--De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia
por meio de religiosos fez com El-Rei      85

CXVI--Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como
proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua morte
     87

CXVII--Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu
caminho até Rio Maior, e do conselho que hi teve      89

CXVIII--Como o Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as
pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa porque      94

CXIX--Como El-Rei proveu e segurou a cidade de Lisboa, para o Infante se
não recolher a ella      96

CXX--Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro
d'Alfarrobeira      97

CXXI--Como El-Rei chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como por
caso e sem deliberação se seguiu sua morte      99

CXXII--Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou
como esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha
     102

CXXIII--Da maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como
foi vilmente tratado e soterrado      104

CXXIV--Exclamação á morte do Infante D. Pedro      105

CXXV--Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro      110

CXXVI--Do que a Rainha fez com a nova da morte do Infante seu padre
113

CXXVII--Como a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e
do que se fez de seus filhos      114

CXXVIII--Como os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da
Rainha, e quão virtuosamente El-Rei o fez com ella      115

CXXIX--Como El-Rei fez aos Reis e Principes christãos uma geral
notificação da morte do Infante, e das respostas que houve, e da
embaixada do duque e duqueza de Borgonha, que sobre a morte do dito
Infante e sua desculpa foi principal      117

CXXX--De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque      119

CXXXI--De como foi o casamento da Imperatriz D. Lianor irmã d'El-Rei com
o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram      120

CXXXII--Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com
ella foram      124

CXXXIII--Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida,
e assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma      126

CXXXIV--Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando
secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles      128

CXXXV--Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa
publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou      133

CXXXVI--De como a Rainha pariu o Principe D. João e d'outras cousas a
que El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha D.
Joana com El-Rei D. Anrique de Castella      135

CXXXVII--Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D.
Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da Rainha D.
Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha      137

CXXXVIII--Como El-Rei outra vez acceitou a cruzada contra os turcos
quando fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou
em Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere      140

CXXXIX--Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por
El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde socorrer, e desafiou El-Rei
de Fez      150

CXL--Das cousas que passaram n'este cerco, até que de todo se alevantou
     153


3.^o VOLUME

CXLI--De como se fez em Alcacere a coiraça para defensão e segurança da
villa, e como D. Duarte, capitão, se houvera de perder      5

CXLII--De como a villa d'Alcacere foi de segunda vez cercada por El-Rei
de Fez, e do que se passou n'este segundo cêrco até que se alevantou      9

CXLIII--Como D. Duarte foi feito conde de Vianna, e El-Rei quizera outra
vez passar em Africa para que se percebeu      13

CXLIV--De como falleceu o Infante D. Anrique, e de seus feitos,
bondades, e virtudes      15

CXLV--De como falleceu o duque de Bragança, e sobcedeu sua casa e
herança o marquez de Villa Viçosa, e como D. Fernando seu filho passou
em Africa, e de vinda foi feito conde de Guimarães      19

CXLVI--De como falleceu a Infante D. Caterina, sendo já concertada para
casar      20

CXLVII--De como foi a ida d'El-Rei em Africa com os dois mil de cavallo,
e do escallamento de Tangere      21

CXLVIII--Da grande e danosa tormenta que El-Rei e o infante passaram no
mar      25

CXLIX--De como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere      26

CL--De como o Infante D. Fernando sem El-Rei entrou d'Alcacere e correu
a terra aos mouros      27

CLI--De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de
Ceuta para Barcellona e se intitulou Rei d'Aragão      29

CLII--De como o escalamento de Tangere se commetteu a segunda vez pelo
Infante D. Fernando sem consentimento d'El-Rei      33

CLIII--De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a
terceira vez pelo Infante D. Fernando e do desastrado sobcedimento que
houve      36

CLIV--Como El-Rei foi d'este triste caso avisado em Ceuta, o dia que
tinha concertadas vistas em Gibraltar com El-Rei de Castella, a que
todavia foi, e o fundamento das ditas vistas      42

CLV--De como El-Rei em pessoa correu o campo d'Arzilla      44

CLVI--De como El-Rei D. Affonso foi correr a serra de Benafocú, e como
foi em grande perigo e como mataram os mouros o conde D. Duarte, e a
Diogo da Silveira, escrivão da poridade      45

CLVII--De como El-Rei se veiu a Portugal e foi em romaria a Guadalupe, e
se viu com El-Rei D. Anrique e com a Rainha sua mulher      50

CLVIII--De como houve em Castella grande divisão, sobre que houve vistas
na cidade da Guarda com a Rainha irmã d'El Rei      51

CLIX--De como se concertou casamento entre o Principe D. João com a
Senhora D. Lianor filha do Infante D. Fernando      52

CLX--De como o Infante D. Fernando passou por si em Africa, e tomou a
cidade de Anafee      53

CLXI--Do fallecimento do Infante D. Fernando, e dos filhos que d'elle
ficaram      54

CLXII--De como tendo El-Rei determinado passar em Africa, convertia a
armada contra os inglezes pela tomada das náos de Portugal, e desistiu
d'isso pela morte do conde Baroique, e se ordenou a ida sobre Arzilla
56

CLXIII--De como El-Rei levou comsigo o Principe seu filho e como
embarcaram, e com que gente e frota      58

CLXIV--De como El-Rei tomou terra em Arzilla      59

CLXV--De como a villa foi entrada, e o Principe foi armado cavalleiro, e
morreram o conde de Marialva e o conde de Monsanto e outros      61

CLXVI--De como Mollexeque vinha socorrer Arzilla, e fez pazes com El-Rei
D. Affonso      64

CLXVII--De como El-Rei foi certificado que os mouros de Tangere tinham
leixado a cidade, e do que sobr'isso logo proveu, e de como se foi a
ella, e de hi para o reino      66

CLXVIII--De como a Infante D. Joana filha de El-Rei foi metida no
mosteiro d'Odivellas, e de hi ao mosteiro d'Aveiro, e d'outras cousas
que El-Rei fez      68

CLXIX--Foi feito primeiro conde de Penella D. Affonso de Vasconcellos
69

CLXX--Tomou o principe D. João sua casa      69

CLXXI--De como houve embaixadas e vistas entre El-Rei de Castella e de
Portugal, e sobre que      69

CLXXII--De como os ossos do Infante D. Fernando foram a estes reinos
trazidos de Fez      71

CLXXIII--Do fundamento que El-Rei D. Affonso teve para entrar em
Castella por morte d'El-Rei D. Anrique      72

CLXXIV--Como El-Rei determinou todavia entrar em Castella, e dos
requerimentos que logo enviou a El-Rei D. Fernando e á Rainha D. Isabel
     74

CLXXV--De como El-Rei se foi a Arronches, por onde acordou de entrar em
Castella      75

CLXXVI--De como a este tempo naceu o Principe D. Affonso neto d'El-Rei
     76

CLXXVII--Da gente com que El-Rei entrou em Castella e em que ordenança
ia      76

CLXXVIII--De como El-Rei chegou a Prazença onde publicamente foi jurado
por Rei, e esposado com a Rainha D. Joana, e d'outras cousas      78

CLXXIX--De como El-Rei D. Affonso e a Rainha se foram á cidade de Touro,
e como El-Rei D. Fernando veiu sobre elle com todo seu poder      79

CLXXX--De como El-Rei D. Affonso se foi a Çamora, e de hi querendo ir
descercar o castello de Burgos tomou Baltanas, e prendeo o conde de
Benavente      81

CLXXXI--De como El-Rei tomou Cantalapedra, e se tornou a Çamora      84

CLXXXII--Do cuidado que o Principe D. João tinha em governar e defender
Portugal, e como      84

CLXXXIII--De como o principe cercou a villa d'Ougela, e a tomou, e da
morte de João da Silva      86

CLXXXIV--De como o Principe indo vêr-se com El-Rei D. Affonso seu padre,
foi por elle avisado da traição da ponte de Çamora, e se tornou de
Miranda do Doiro      87

CLXXXV--De como foi a dita traição, e da maneira que El-Rei D. Affonso
sobre isto teve      87

CLXXXVI--De como El-Rei combateu a ponte, e do que se seguiu, e como
El-Rei D. Affonso leixou Çamora, e se foi a Touro      89

CLXXXVII--Dos percebimentos que o Principe fez em Portugal para ir
socorrer a El-Rei D. Affonso seu padre, e como entrou em Castella      90

CLXXXVIII--De como El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel se apoderaram
de Çamora, e pozeram cerco ao castello      92

CLXXXIX--De como El-Rei D. Affonso e o Principe cercaram Çamora da parte
da ponte      93

CXC--De como se ordenou a batalha dos Reis entre Touro e Çamora      94

CXCI--De como romperam as batalhas, e as do Principe venceram as
d'El-Rei D. Fernando, e a d'El-Rei D. Fernando venceu a d'El-Rei D.
Affonso, que se recolheu a Crasto Nunho, e do mais que se seguiu até fim
da batalha      97

CXCII--De como o Principe se tornou a Portugal, e do que El-Rei D.
Affonso fez por então em Castella      102

CXCIII--De como se ordenou a ida d'El-Rei em França, e se veio a
Portugal com a Rainha D. Joana      104

CXCIV--De como El-Rei partiu de Lisboa para França, e da maneira em que
foi até se vêr com El-Rei de França      w106

CXCV--Da primeira vez que El-Rei D. Affonso se vio com El-Rei de França
em Tors em Toraina      109

CXCVI--Do que El-Rei de França e El-Rei D. Affonso entre si acordaram
para execução de sua ida      111

CXCVII--De como foram a Roma embaixadores d'El-Rei de França e d'El-Rei
D. Affonso requerer a despensação para poder casar com a Rainha D. Joana
sua sobrinha      113

CXCVIII--De como El-Rei D. Affonso se foi vêr com o duque de Borgonha, e
como logo se seguio a morte do dito duque      114

CXCIX--Da resposta que os embaixadores houveram em Roma ácerca da
despensação que requereram      117

CC--Da conclusão que El-Rei D. Affonso tomou com El-Rei de França,
quando com elle se vio a segunda vez      118

CCI--Como o Principe cercou a villa d'Alegrete e a tomou, e d'outras
cousas que no reino se seguiram andando El-Rei D. Affonso em França
119

CCII--De como El-Rei D. Affonso desappareceu em França, e o Principe seu
filho por seu mandado se alevantou por Rei em Portugal      121

CCIII--De como El-Rei D. Affonso embarcou em França e se veio a
Portugal, e se vio com o Principe seu filho      125

CCIV--De como Lopo Vaz Torrão se alevantou com a villa de Moura por
El-Rei de Castella, e do que se seguio      127

CCV--De como se seguiu a batalha de Merida, em que o Bispo d'Evora,
capitão-mór, foi vencido      128

CCVI--De como se ordenaram e trataram as pazes entre Portugal e
Castella, e por quaes pessoas, e com que condições e cousas
sustancialmente      130

CCVII--Da publicação das pazes e das mais cousas que para cumprimento
d'ellas se fizeram, principalmente ácerca da Excellente Senhora D. Joana
     136

CCVIII--Da grande pestelença que sobreveio a estes reinos, e como se fez
a profissão á Excellente Senhora D. Joana      139

CCIX--De como se fizeram as entregas do Infante D. Affonso e da Infante
D. Isabel nas terçarias de Moura      142

CCX--Do socorro que pelo Bispo d'Evora foi enviado contra o Turco,
quando tomou a cidade do Tranto em Italia      146

CCXI--De como o duque de Vizeu foi a Castella, e se tornou a Portugal o
Senhor D. Manuel seu irmão      147

CCXII--De como foi a morte d'El-Rei D. Affonso      148

CCXIII---Das feições, bondades e virtudes d'El-Rei D. Affonso      150



Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pág.   10| sobre e porto       | sobre o porto        |
  |#pág.   21| cam                 | com                  |
  |#pág.   22| sebr'isso           | sobr'isso            |
  |#pág.   35| flcou               | ficou                |
  |#pág.   37| d'Alcere            | d'Alcacere           |
  |#pág.   42| auctorldade         | auctoridade          |
  |#pág.   43| Guimamarães         | Guimarães            |
  |#pág.   53| d'Anafce            | d'Anafee             |
  |#pág.   55| ti.ulos             | titulos              |
  |#pág.   63| EI-Rei              | El-Rei               |
  |#pág.  111| grandes o louvados  | grandes e louvados   |
  |#pág.  119| E Tornando          | E tornando           |
  |#pág.    I| D. Pedo             | D. Pedro             |
  +----------+---------------------+----------------------+


Os "n" e "u" que surgiram trocados no texto original foram corrigidos de
acordo com a ortografia da época.

El-Rei e El Rei são variantes da mesma palavra. Todas estas
variantes foram mantidas de acordo com o original.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)" ***

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