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Title: Cartas de Inglaterra
Author: Queirós, José Maria Eça de, 1845-1900
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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Cartas de Inglaterra



Eça de Queirós


Cartas de Inglaterra


Porto
LIVRARIA CHARDRON
de Lello & Irmão--Editores
1905



  Obras de EÇA de QUEIROZ

  *O crime do padre amaro.* Quarta edição inteiramente refundida,
  recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva.
  1 grosso volume..................................................  1$200
  *Os Maias.* Segunda edição. 2 grossos volumes....................  2$000
  *A cidade e as Serras.*..........................................    800
  *O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume............................    500
  *O primo Basilio.* Quarta edição. 1 grosso volume................  1$000
  *A Reliquia.* Terceira edição. 1 grosso volume...................  1$000
  *Contos.* 1 volume...............................................    600
  *As minas de salomão.* 1 volume..................................    600
  *Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume...................    600
  *Revista de Portugal.* 4 grossos volumes......................... 12$000
  *A Illustre Casa de Ramires.* 1 volume...........................  1$000
  *Prosas Barbaras.* 1 volume......................................    600

  _No prélo:_

  *Echos de Paris*
  *S. Christovam* (inedito)


Porto--IMPRENSA MODERNA



I

Afghanistan e Irlanda


Os inglezes estão experimentando, no seu atribulado imperio da India, a
verdade d'esse humoristico logar-commum do seculo XVIII: «A Historia é
uma velhota que se repete sem cessar.»

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu
os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo
simplesmente uma copia servil, revelando assim uma imaginação exhausta.

Em 1847 os inglezes, «por uma razão d'Estado, uma necessidade de
fronteiras scientificas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio
russo da Asia...» e outras coisas vagas que os politicos da India rosnam
sombriamente, retorcendo os bigodes--invadem o Afghanistan, e ahi vão
aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e
vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do
serralho um velho emir apavorado; collocam lá outro de raça mais
submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes;
e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegraphado a victoria,
o exercito, acampado á beira dos arroios e nos vergeis de Cabul,
desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em
1880.

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias
indigenas, vão percorrendo o territorio, e com grandes nomes de _Patria_
e de _Religião_, prégam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias
feudaes correm com os seus troços de cavallaria, principes rivaes
juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o _homem vermelho_,
e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos
das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a entrada
da India... E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito
inglez, á volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se
espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das
torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa
barbara rola-lhe em cima e aniquila-o.

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do
exercito refugiam-se n'alguma das cidades da fronteira, que ora é
Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, põem o cerco, cerco lento,
cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n'essas guerras
asiaticas póde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India,
reclamando com furor _reforços, chá e assucar_! (Isto é textual; foi o
general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o
inglez, sem chá, bate-se frouxamente.) Então o governo da India,
gastando milhões de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa
fardos disformes de chá reparador, brancas collinas de assucar, e dez ou
quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos
transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos,
rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invasão
temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880.

Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras columnas de tropa
india, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a
quarenta milhas por hora; d'ahi começa uma marcha assoladora, com
cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e
uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manhã
avista-se Candahar ou Ghasnat;--e n'um momento, é aniquilado, disperso
no pó da planicie, o pobre exercito afghan com as suas cimitarras de
melodrama e as suas veneraveis colubrinas do modelo das que outr'ora
fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Candahar está livre!
Hurrah!--Faz-se immediatamente d'isto uma canção patriotica; e a façanha
é por toda a Inglaterra popularisada n'uma estampa, em que se vê o
general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com
vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros
bellos como Apollos, que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847;
ha-de ser assim em 1880.

No emtanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou
defendiam a patria ou morriam pela _fronteira scientifica_, lá ficam,
pasto de corvos--o que, não é, no Afghanistan, uma respeitavel imagem de
rhetorica: ahi, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas,
comendo as immundicies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando
os restos das derrotas.

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma
canção patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde
uma linha de prosa n'uma pagina de chronica...

Consoladora philosophia das guerras!

No emtanto a Inglaterra goza por algum tempo a «grande victoria do
Afghanistan»--com a certeza de ter de recomeçar d'aqui a dez annos ou
quinze annos; porque nem póde conquistar e annexar um vasto reino, que é
grande como a França, nem póde consentir, collados á sua ilharga, uns
poucos de milhões de homens fanaticos, batalhadores e hostis. A
«politica» por tanto, é debilital-os periodicamente, com uma invasão
arruinadora. São as fortes necessidades d'um grande imperio. Antes
possuir apenas um quintalejo, com uma vacca para o leite e dois pés
d'alface para as merendas de Verão...

Outra historia melancholica é a da Irlanda. Quem não conhece as queixas
seculares da Irlanda, da _Verde Erin_, terra de bardos e terra de
santos, onde uma plebe conquistada, resto nobre de raça celtica,
esmagada por um feudalismo agrario, vivendo em buracos como os servos
gothicos, vae desesperadamente disputando á urze, á rocha, ao pantano,
magras tiras de terra, onde cultiva, em lagrimas a batata? Todo o mundo
sabe isto--e, desgraçadamente, esta Irlanda de poema e de novella é, em
parte, verdadeira: além dos poucos districtos onde a agricultura é rica
como em qualquer dos uberrimos condados inglezes, além de Cork ou
Belfast, que têm uma industria forte--a Irlanda permanece o _paiz da
miseria_, bem representada n'essa estampa romantica em que ella está, em
andrajos, á beira de um charco, com o filhinho nos braços morrendo-lhe
da falta de leite, e o cão ao lado, tão magro como ella, ladrando em vão
por soccorro...

Os males da Irlanda, muito antigos, muito complexos, provêm, sobretudo,
do systema semi-feudal da propriedade.

O povo irlandez é numeroso, exageradamente prolifico (nem a emigração,
nem a morte, nem as epidemias, alliviam esta ilha muito cheia) e vive
n'uma terra pobre, de cultura estreita, apenas no seu terço trabalhada:
os proprietarios, lords inglezes ou escocezes, sempre ausentes das
terras, não admittindo a despeza d'um schelling para as melhorar, estão
em Paris, estão em Londres, comendo pecegos em janeiro, e jogando pelos
clubs o _whist_ a libra o tento: os seus procuradores e agentes,
creaturas vorazes, sem ligação com o solo nem com a raça, forçados a
remetter incessantemente dinheiro a SS. SS., interessados em conservar a
procuradoria, cáem sobre o rendeiro, levantam-lhe a renda, forçam-n'o a
vendas desastrosas, enlaçam-n'o na uzura, tributam-n'o feudalmente,
apertam-n'o com desespero como a um limão meio secco, até que elle verta
n'um gemido o ultimo penny. Se o miseravel este anno, fatigando o
torrão, sustentando-se de hervas seccas, economisando o lume quando ha
seis palmos de neve, consegue arrancar de si a somma que S. S., o Lord,
reclama para offerecer uma esmeralda á loura Fanny ou á pallida
Clementine, para o anno lá está enleado na divida, sem meios de comprar
a semente, com uma terra exhausta a seus pés...

Então o procurador, de lei em punho, vem, corre, penhora-o, vende-lhe o
catre, expulsa-o do casebre, atira-lhe mulher, creancinhas e avós
entrevados para as pedras do caminho... E ahi vae mais um bando de
desgraçados engrossar o lamentavel proletariado que povôa a «_verde ilha
dos bardos_». São milhares, são milhões! Esta população, com o ventre
vazio, os pés nús sobre a geada, volta-se então para a Inglaterra, a mãe
Inglaterra, que tem a Lei, que tem a Força, que tem a Responsabilidade:
a Inglaterra, commovida na sua fibra christã, volta-se para os seus
economistas, os seus politicos: estes individuos pousam as suas vastas
frontes nas suas vastas mãos, e arrancam das concavidades da sua
sabedoria pharisaica esta resposta, a tenebrosa resposta da meia edade
ás reclamações do soffrimento humano:

--Paciencia! o remedio está no ceu...

A Inglaterra, valendo-se capciosamente do clero catholico da Irlanda, e
da religiosidade da plebe, para a manter na resignação da miseria,
acenando-lhe com as promessas côr de ouro da bemaventurança--é um
salutar espectaculo!

Sejamos, porém, justos: a Inglaterra manda tambem, aos milhões de
esfomeados, farinha e dois ou tres schellings: e o _Punch_ faz-lhes a
honra de lhes dedicar pilherias.

De tudo isto que resulta? Que o irlandez, vendo a fome no seu lar, a
Inglaterra occupada com o dr. Tanner, o _Punch_ muito divertido, e o ceu
muito longe--faz uma trouxa dos seus andrajos, vae á villa mais proxima,
apresenta-se ao comité dos _Fenians_ ou á secção de _Mollie Maguire_ e
diz simplesmente:--_Aqui estou!..._

Estas duas associações secretas são terriveis e completam-se uma pela
outra. Os _Fenians_, que estiveram um momento desorganizados, mas que
têm hoje a prosperidade de uma instituição publica, são uma seita
politica, com o fim claro de conquistar a independencia da Irlanda: o
seu meio é uma futura insurreição, batalhas á luz do dia, um esforço
heroico de raça que sacode o estrangeiro.

É evidente, portanto, que a Inglaterra não tem nada a temer d'esta
associação: uma esquadra no canal de S. Jorge, dez mil homens
desembarcados, e os _Fenians_ serão, no estylo da canção, _como a herva
dos campos depois que passou o ceifador_, um estendal de cousas sem
vida. Mas não é assim com _Mollie Maguire_; esta constitue puramente uma
conspiração: os seus estatutos, os seus fins, a sua organização, os seus
chefes, tudo está envolvido n'um mysterio, que é o terror na Irlanda; só
são claros os seus crimes. Ha um proprietario duro que levantou a renda?
Uma noite, ou elle ou o seu procurador apparecem á beira de um caminho,
com duas balas na cabeça. Quem foi? Foi _Mollie Maguire_: foi ninguem,
foi a Miseria, foi a Irlanda. Ha um senhorio, um agente, que fez uma
penhora? Á meia noite, a sua casa começa a arder, e é n'um momento uma
ruina fumegante. Quem foi? _Mollie Maguire_. Houve um burguez
especulador que comprou o casebre de um proprietario penhorado? No outro
dia lá está no fundo de uma lagôa, com um pedregulho ao pescoço. Quem
foi, coitado? _Mollie Maguire_. Todos os dias, n'estes ultimos mezes,
são assim, dois, tres d'estes crimes--que têm em Inglaterra o nome de
_agrarios_. Os tribunaes, a policia, já se não fatigam em devassas e em
autos: para quê? _Mollie Maguire_ é intangivel, _Mollie Maguire_ é
impessoal.

E se houvesse um magistrado tão desgostoso da vida que quizesse
descobrir d'onde viera a bala, o pedregulho ou o fogo--teria certamente,
horas depois, o que tanto parecia desejar: um punhal atravez do peito.
São verdadeiramente os processos do Nihilismo militante: nem falta a
esta seita aquella vaga exaltação mystica que complica o Nihilismo. Se
_Mollie_ (Mollie é o diminutivo de Maria) não é uma divindade, é pelo
menos uma degeneração fetichista da divindade: é a tenebrosa padroeira
das desforras da plebe, aquella em quem os desgraçados abandonados de
Deus, do Deus official, do Deus da Missa, encontram soccorro, amizade,
força--uma sorte de encarnação feminina do diabo do Sabbath, confidente
dos servos e dos feiticeiros da meia-noite.

A estas duas associações deve juntar-se uma terceira, legal essa,
fallando alto nas praças, com jornaes, com taboleta, vivendo sob a
protecção da Constituição, respeitada da policia, e que se chama a _Liga
da Terra_. O seu fim é promover, por meio de _meetings_ e
representações, uma vasta agitação, um impulsivo movimento da opinião,
que force o parlamento inglez a reformar o systema agrario. Mas é
realmente uma associação legal? São os seus fins tão honestamente
moderados, tão estreitamente constitucionaes como se diz? Todo o mundo
duvida. Na Irlanda, sempre que dois homens se reunem, conspiram: quando
se sentem quatro, apedrejam logo a policia:--que será então quando
reconhecerem que são duzentos mil? Além d'isso, as reclamações d'esta
associação são de um vago singular: nada de pratico, nada de realisavel:
apenas os velhos gritos sentimentaes da aspiração humanitaria. E, ao
mesmo tempo, os homens, que a dirigem, são espiritos positivos e
experimentados. Ha aqui uma contradicção assustadora. Sente-se que os
chefes d'este movimento, sabendo bem que da Inglaterra nada têm a
esperar, estão simplesmente, sob as apparencias da legalidade,
organisando a insurreição. Formular um programma pratico para o
parlamento votar, seria, na opinião d'elles, ocioso e pueril: as
declamações verbosas em que se falle muito de _legalidade_, _ordem_,
_parlamentarismo_ bastam--para illudir a policia... E não é duvidoso
que, n'um certo momento, _Fenians_, _Mollie Maguire_ e _Liga da Terra_
formarão um só movimento--o da revolta desesperada.

Este era o estado da Irlanda ha dois mezes, quando se deu o caso
inesperado do _bill de compensação_. Este projecto de lei apresentado
pelo ministro Gladstone (parte por um sentimento liberal de justiça,
parte para agradecer os fortes serviços dos irlandezes nas ultimas
eleições) não trazia certamente um remate aos males da Irlanda; mas,
coarctando os abusos dos senhores, difficultando a arbitrariedade das
«expulsões», modificando a legislação barbara das penhoras, alliviava o
trabalhador irlandez do ferreo calcanhar feudal que o esmaga. O _bill_
passou entre os applausos da camara dos communs: mas escuso de
acrescentar que a camara dos lords, essa augusta e gothica assemblêa de
senhores semi-feudaes, o regeitou com horror, como obra execravel do
liberalismo satanico!

Veem d'ahi o resultado: os agitadores da Irlanda, os seus prophetas, os
seus chefes apossaram-se com enthusiasmo d'esta regeição da camara dos
lords--e utilisaram-n'a tão habilmente, como Antonio utilisou a tunica
ensanguentada de Cesar. Foram-n'a mostrando á plebe indignada, por
campos e aldeias, gritando bem alto: «Aqui está o que fizeram os lords,
os vossos amos, os vossos exploradores! A primeira proposta justa, em
bem da Irlanda, que se lhes apresenta, repellem-na! Querem manter-vos na
servidão, na fome, no opprobrio das velhas edades, no estado da raça
vendida! Ás armas!»

E desde então a Irlanda prepara-se ardentemente para a insurreição:
apesar dos cruzeiros que vigiam a costa, todos os dias ha desembarques
de armas; o dinheiro, os voluntarios affluem da America; pelos campos
vêm-se grupos de duzentos, trezentos homens, de espingardas ao hombro,
fazendo exercicios como regimentos em vesperas de campanha; ainda que
seja agora a epoca das colheitas, a população não está nos campos, está
nos _meetings_, nos clubs; e os tribunos, os agitadores, prodigalizam-se
sem repouso. Não falta, decerto, a estes homens nem coragem, nem aquella
eloquencia pathetica que faz passar nas multidões o _arrepio sagrado_.
Um d'elles, Redathd, exclamava ha dias:

--Dizem-nos a cada momento: sêde justos, pagae ao lord, pagae ao
senhorio! E citam-nos a palavra divina d'aquelle que disse: _Dae a Cesar
o que é de Cesar!_ Houve só um homem, Brutus, que deu a Cesar o que a
Cesar era devido, um punhal atravez do coração!

Esta brutalidade tem grandeza. Agora imagine-se isto lançado a uma
multidão opprimida, com os gestos theatraes d'esta raça violenta, de
noite, n'um d'estes sinistros descampados da Irlanda, que são todos
rocha e urze, ao clarão d'archotes, dando aquella intermittencia de
treva e brilho que é como a alma mesma da Irlanda--e veja-se o effeito!

Em Inglaterra, mesmo, os optimistas consideram a insurreição quasi
inevitavel para os frios do outomno. E o honesto John Bull prepara-se:
já o ministro do interior está em Dublin, e é eminente a declaração da
_lei marcial_... N'este ponto, radicaes e conservadores são unanimes: se
a Irlanda se levanta, que se esmague a Irlanda! Sómente John Bull
declara que o seu coração ha-de chorar emquanto a sua mão castigar...
Excellente pae!

O jornal o _Standard_, o veneravel _Standard_, tinha ha dias uma phrase
adoravel. «Se, como é de temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve
a si e á Inglaterra»--exclamava o solemne _Standard_,--«é doloroso
pensar que no proximo inverno, para manter a integridade do imperio, a
santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, nós teremos de ir,
com o coração negro de dôr, mas a espada firme na mão, levar á Irlanda,
á ilha irmã, á ilha bem amada, uma necessaria exterminação.»

_Exterminação_ é muito: e quero crêr, que está alli, para rematar com
uma nota grave, uma nota d'orgão, a harmonia do periodo. Mas o
sentimento é curioso e raro: e seria um espectaculo maravilhoso vêr, no
proximo inverno, John Bull percorrendo a Irlanda, cheio de ferocidade e
afogado em ternura, com os olhos a escorrer de lagrimas e a sua bayoneta
a pingar de sangue...--Ainda as fataes necessidades de um grande
imperio! Volto ao meu desejo: um quintalejo, uma vacca, dois pés
d'alface... E um cachimbo--o cachimbo da paz!



II

Ácerca de livros


Outubro chegou, e com este mez, em que as folhas cáem, começam aqui a
apparecer os livros, folhas ás vezes tão ephemeras como as das arvores,
e não tendo como ellas o encanto do verde, do murmurio e da sombra.

Estamos, com effeito, em plena _Book-Season_, a estação dos livros.

Estes dous mezes, setembro e outubro (e elles merecem-no porque como
côr, luz, repouso, são os mais simpathicos do anno) têm accumulado em si
as mais interessantes _seasons_, as _estações_ mais fecundas da vida
ingleza.

A _London-Season_, a celebre estação de Londres, quando a Aristocracia,
maior e menor, os _dez mil de cima_, como se dizia antigamente, o
_folhado_, como se diz agora, recolhe dos parques e palacios do campo
aos seus palacetes e jardinetes de Londres--passa-se em abril, junho e
julho, verdade seja. Mas essa é uma vã e ôca estação de trapos, de luvas
de vinte botões, de lacaios, de champagne, de batota e de _cotillon_.
Emquanto que as outras!...

Olhem-me para estas sabias, uteis, viris, solemnes _seasons_, que
abundam n'estes dourados mezes de setembro e outubro. Isto sim! Aqui
temos, por exemplo, a _Congress-Season_, a estação dos congressos.

Que espectaculo! Toda a verde superficie da Inglaterra está então, de
norte a sul, salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação.
Ha-os de metaphysicos e ha-os de cosinheiros.

Aqui, duzentos individuos carrancudos e descontentes elaboram uma nova
ordem social; além, uma multidão de sabios, acocorados, semanas
inteiras, em torno de um objecto escuro, não pódem chegar á conclusão se
é um tijolo vilmente recente ou uma laje da camara nupcial da rainha
Ginevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina
definitiva da engorda do leitão--esse amor!

Os congressos mais notaveis este anno fôram--o de medicina em Londres, a
que assistiram _mil e tresentos_ congressistas medicos e cirurgiões dos
dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometteu á humanidade, para
d'aqui a annos, a suppressão das epidemias pelas vaccinas; o da _British
Association_, a grande Sociedade das Sciencias (congresso annual
celebrado este anno em York) em que o presidente, sir John Lubbock, esse
amavel sabio que tem passado a existencia a estudar as civilizações
inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploraveis
oligarchias de abelhas--occupou-se d'esta vez, dando um balanço á
sciencia durante os ultimos cincoenta annos, a mostrar algumas das
estupendas habilidades d'esse outro ephemero insecto, o Homem: e emfim o
congresso annual da Egreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos,
dignitarios ecclesiasticos, theologos, doutores em divindade, este largo
clero anglicano, o mais douto e litterario da Europa. N'este, entre
outros assumptos discutiu-se a _Influencia da Arte na vida e no pensar
religioso_: mas, quanto a mim, o resultado mais nitido foi o revelar
incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminue
de um terço todos os dez annos, ao passo que o espirito de religiosidade
cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia
mais desprendido das fórmas caducas e pereciveis das religiões.

N'este momento ha outros congressos--o dos Metallurgistas, o das
Sciencias Sociaes, o dos Telegraphistas, o Archeologico, o dos
Gravadores, o dos... emfim, centenares. Até o dos _Browninguistas_. Não
sabem o que são os _Browninguistas_? Uma vasta associação, tendo por fim
estudar, commentar, interpretar, venerar, propagar, illustrar, divinisar
as obras do poeta Browning. Isto, mesmo n'este paiz de arrebatados
enthusiasmos intellectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem
duvida, com Shelley, Shakspeare e Milton, um dos quatro principes da
poesia ingleza: mas tem o inconveniente de estar vivo. Elle proprio
assiste, materialmente, com o seu paletot e o seu guarda chuva, ao
congresso de que é objecto espiritual e assumpto: e fatalmente, pelo
effeito mesmo da sua presença, a admiração litteraria tende a tornar-se
idolatria pessoal, e os _shake hands_ que elle distribue começam
naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que elle
escreveu. Por isso mesmo que o divinisam, o amesquinham: não é então o
grande poeta de Inglaterra, é o idolo particular dos _Browninguistas_,
deixa assim de ser um espirito fallando a espiritos--para ser apenas um
manipanso aterrorizando supersticiosos.

Mas, continuando com as _estações_, temos ainda a _Yachting-Season_, a
estação nautica, das regatas, das viagens em _yacht_. Hoje em Inglaterra
ter um _yacht_ é, como entre nós montar carruagens, o primeiro dever
social do rico ou do enriquecido, uma das fórmas mais triviaes do
conforto luxuoso. Um _yacht_ não é só um frágil e airoso barco de
cincoenta toneladas e vela branca; póde ser tambem um negro e poderoso
vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. N'este
ultimo caso, em logar de bordejar gentilmente em redor das flôres e das
relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar n'essas prodigiosas
paisagens marinhas do alto Norte da Escossia, vae dar a volta ao mundo,
carregado de biblias para os pequenos patagonios e de champagne e d'amor
para as lindas missionarias, vestidas de marinheiras. A vida de _yacht_
tem os seus costumes especiaes, a sua etiqueta, a sua phraseologia, a
sua moral propria, e sobretudo a sua litteratura. A litteratura de
_yacht_ é vasta--William Black, o autor das _Azas Brancas_, do _Nascer
do Sol_, da _Princeza de Thude_, o seu romancista official: um
paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua penna todo o vigor do
pincel d'um Jules Breton.

Temos igualmente n'este mez a _Shooting-Season_, a estação da caça ao
tiro, que abre no 1.º de setembro com uma solemnidade tal, e no meio de
um interesse publico tão intenso, tão fremente--que me dá sempre ideia
do que devia ter sido nas vesperas da Grande Revolução a abertura dos
Estados Gerais. Peço perdão d'esta abominavel comparação--mas a carne é
fraca, e eu considero esta estação sublime. É n'ella que se caça o
_grouse_, e é durante ella que se come o _grouse_. Não sabem o que é o
_grouse_? É um passaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençôe!)
nos _moors_, ou descampados da Escossia... Agora deixem-me repousar um
momento, e ficar aqui, n'um extasi manso, pensando no _grouse_, com as
mãos cruzadas sobre o estomago, o olho enternecido, lambendo o labio...
Não imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve fallar nas coisas
boas sem veneração. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos
o exemplo quando, tendo mencionado n'um dos seus livros o _ortolan_,
esse outro delicioso passaro, acrescentou--que o peitinho gordo do
_ortolan_ é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais
perturbador que os lilazes, e o sabor da sua febra melhor que o sabor da
verdade. Póde-se dizer o mesmo do _grouse_.

Continuando, temos a _Burglary-Season_, a estação dos assaltos e roubos
ás casas. Esta começa tambem em setembro, quando a gente rica sai de
Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um
velho e somnolento guarda-portão. Os salteadores de Londres, corpo
social tão bem organisado como a propria policia, procede então
systematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos
meios scientificos no arrombamento e no saque d'essas propriedades
abarrotadas de cousas ricas...

Temos a _Lecture-Season_, ou estação das conferencias. O seu nome
explica-a e seria longo detalhar-lhe a organisação. Basta dizer que
n'esta estação não ha talvez um bairro em Londres (quasi podia dizer uma
rua), nem uma aldeia no resto do paiz, em que se não veja, cada noite,
um sujeito, com um copo d'agua, dissertando sobre um assumpto, deante
d'uma audiencia compacta, attenta, interessada e que toma notas. Os
assumptos são _tudo_--desde a ideia de Deus até á melhor maneira de
fabricar graxa. E os conferentes são _todo o mundo_--desde o professor
Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sóbe á
plataforma a contar as suas impressões de viagem ás ilhas Fidji, ou as
aptidões curiosas que observou no seu cão...

Ha ainda outras estações que basta enunciar: a _Hunting-Season_, a
estação da caça á raposa (isto é todo um mundo); a _Cricket-Season_, a
estação em que se joga o cricket,--e em que se vêm d'estes edificantes
espectaculos: doze cavalheiros, vindos do fundo da Australia, outros
doze partindo dos altos da Escossia, e encontrando-se em Londres a jogar
ao desafio uma tremenda partida que dura tres dias, na presença
arrebatada de um povo em delirio!

Temos tambem a _Angling-Season_, a estação da pesca á linha, instituição
nobilissima a que a humanidade deve o salmão e a truta. É o _sport_
favorito da alta burguezia culta, da magistratura, dos homens de
sapiencia, d'aquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as
responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solemne
respeitabilidade e de alto ceremonial--pesca á linha. Talvez por isso,
de todos os _sports_ inglezes, a pesca á linha é um dos que têm
produzido uma litteratura mais consideravel--tão consideravel que a sua
bibliografia, a simples enumeração dos seus tratados, occupa um livro de
duzentas paginas! Ahi observo com respeito a noticia de um ponderoso
estudo sobre a _Pesca á linha entre os Assyrios_...

Só esta semana a litteratura da pesca á linha nos deu já dois livros,
segundo as listas: _A carteira de um pescador á linha_, _Pela beira dos
rios_.

Temos ainda a _Traveling-Season_, a estação das viagens, quando o famoso
_touriste_ inglez faz a sua apparição no continente. N'esta epoca
(setembro e outubro) todo o inglez que se respeita (ou que, não podendo
em sua consciencia respeitar-se, pretende ao menos que o seu visinho o
respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os paizes do sol,
do vinho e da alegria. Os anjos (se o não sonharam, como diz João de
Deus) devem assistir então, do seu terraço azul, a um espectaculo bem
divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover--e d'ahi
successivamente partirem longos formigueiros de _touriste_, riscando de
linhas escuras o continente, indo alastrar os valles do Rheno,
negrejando pela neve dos Alpes acima, serpenteando pelos vergeis da
Andaluzia, atulhando as cidades da Italia, inundando a França! Tudo isto
são inglezes. Tudo isto traz um _Guia do Viajante_ debaixo do braço.
Tudo isto toma notas. Isto ás vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma
amiga da cunhada, uma conhecida d'esta amiga, sete filhos, seis creados,
dez cães, e outros cães conhecidos d'estes cães; e isto paga por tudo
isto sem resmungar! Não: não digo bem, resmungando sempre. Esta viagem
de prazer passa-a quasi sempre o inglez a praguejar (mentalmente--porque
nem a Biblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).

A verdade é que o inglez não se diverte no continente; não comprehende
as linguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras,
_toilettes_, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar;
tem a vaga crença de que os lençóes nas camas d'hotel nunca são limpos;
o vêr os theatros abertos ao domingo e a multidão divertindo-se amargura
a sua alma christã e puritana; não ousa abrir um livro estrangeiro
porque suspeita que ha dentro cousas obscenas; se o seu _Guia_ lhe
affirma que na cathedral de tal ha seis columnas e se elle encontra só
cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o paiz que percorre,
como um homem a quem roubaram uma columna; e se perde uma bengala, se
não chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compôr
uma carta para o _Times_, em que accusa os paises continentaes de se
acharem inteiramente n'um estado selvagem e atolados n'uma putrida
desmoralisação. Emfim o inglez em viagem, é um ser desgraçado. É
evidente que eu não alludo aqui á numerosa gente de luxo, de gosto, de
litteratura, de arte: fallo da vasta massa burgueza e commercial. Mas
mesmo esta encontra uma compensação a todos os seus trabalhos de
touriste quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como
esteve aqui e além, e trepou ao Monte Branco, e jantou n'uma
_table-d'-hote_ em Roma e, por Jupiter! fez uma sensação dos diabos,
elle e as meninas!...

Que mais estações temos ainda? A _Speech-season_, a estação dos
discursos, quando, nas ferias do parlamento, todos os homens publicos se
espalham pelo paiz discursando, perante enormes _meetings_, sobre os
negocios publicos. É uma das feições mais curiosas da vida politica em
Inglaterra...

Ha outras muitas _estações_ em setembro e outubro, mas não me lembram
agora. E emfim, para não ser injusto, devo mencionar tambem o Outomno.


De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante é a
_Book-Season_, a estação dos livros.

Isto não quer dizer que fóra d'esta estação (outubro a março) se não
publiquem livros em Inglaterra--longe d'isso, Santo Deus! Como não quer
dizer que fóra da _London-Season_ se não dance, ou fóra da
_Travelling-Season_ se não viaje. Significa simplesmente que as grandes
casas editoras de Londres e d'Edimburgo reservam, para as lançar n'esta
epocha as suas _grandes novidades_. Um livro de Darwin, um estudo de
Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de Georges Meredith
serão evidentemente guardados para a _estação_. De resto, durante todo o
anno não s'interrompe, não cessa essa publicidade phenomenal, essa
vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo
pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta
de papel impresso em inglez.

Não sei se é possivel calcular o numero de volumes publicados
annualmente em Inglaterra. Não me espantaria que se pudessem contar por
dezenas de milhares. Aqui tenho eu deante de mim, no numero de ontem do
_Spectator_, a lista dos livros lançados esta semana: NOVENTA E TRES
OBRAS! E isto é apenas a lista do _Spectator_. Apenas o que se chama
aqui _Litteratura Geral_. Não se contam as reimpressões; nem as edições
dos classicos, em todos os formatos, desde o in-folio, que só um
Hercules póde erguer, até ao volume miniatura, cujo typo reclama
microscopio, e em todos os preços desde a edição que custa 50 libras,
até á que custa 50 réis: não se contam as traducções de livros
estrangeiros, sobretudo as litteraturas da antiguidade: não se conta,
emfim, essa incessante producção das Universidades, essa outra levada de
gregos e latinos, de commentarios, de glossarios, de in-folios, que
lançam de si, aos caixões, as imprensas de Clarendon.

Ha n'esta litteratura geral uma especie de que o inglez não se farta--a
litteratura de viagens. Já não fallo nos romances: isso não constitue
hoje uma producção litteraria, é uma fabricação industrial.

Na vida domestica ingleza, a novela tornou-se um objecto de primeira
necessidade como a flanella ou as fazendas de algodão; e, portanto, toda
uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por
grosso, e tão depressa quanto a penna póde escrever, arremessando para o
mercado as paginas mal seccas no ancioso conflicto da concorrencia.

Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é tambem consideravel, e de
resto bem explicavel n'uma raça expansiva e peregrinante, com esquadras
em todos os mares, colonias em todos os continentes, feitorias em todas
as praias, missionarios entre todos os barbaros, e no fundo d'alma o
sonho eterno, o sonho amado de refazer o Imperio Romano. Isto produziu
um outro typo de industrial das lettras--o prosador viajante.

Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o
homem que visitava paizes longinquos, se achava em aventuras
pittorescas, á volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a penna e
ia revivendo esses dias n'uma agradavel rememoração de impressões e
paisagens. Hoje não. Hoje emprehende-se a viagem unicamente para se
escrever o livro. Abre-se o mappa, escolhe-se um ponto do Universo bem
selvagem, bem exotico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um
diccionario. E toda a questão está (como a concorrencia é grande) em
saber qual é o recanto da terra sobre que ainda se não publicou livro!
Ou, quando o paiz é já toleravelmente conhecido, se não terá ainda
alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir
trezentas paginas de prosa...

Quem hoje encontrar em algum intrincado ponto do Globo um sujeito de
capacete de cortiça, lapis na mão, binoculo a tiracollo, não pense que é
um explorador, um missionario, um sabio colligindo floras raras--é um
prosador inglez preparando o seu volume.

Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens
publicados em Londres n'estas _duas ultimas semanas_.

É claro que eu não os li, nem sequer os enxerguei. Copio os titulos,
sómente, da lista de dous jornaes de critica: o _Atheneum_ e a
_Academy_. Note-se que estes livros são quasi sempre bem estudados: dão
o traço e a linha que pinta, a paysagem com a sua côr e luz, a cidade
com o seu movimento e feições; são graphicos e são criticos; têm a
geographia e têm a observação; e mais ou menos fazem reviver com o
detalhe caracteristico, o povo visitado, na sua vida domestica, a sua
religião, a sua agricultura, o seu _sport_, os seus vicios, a sua arte
se a tem. Calcule-se, pois, a importancia d'esta litteratura, que se
torna assim um inquerito sagaz, paciente, correcto, feito ao Universo
inteiro.

Aqui está, com os titulos traduzidos, o que se publicou n'estes quinze
dias: _A minha jornada a Medina_--_Entre os filhos de Han_--_Nas aguas
salgadas_--_Longe, nos Pampas_--_Sanctuarios de Piemonte_--_O novo
Japão_--_Uma visita á Abyssinia_--_Vida no oeste da India_--_Pelo
Mahakam acima, e pelo Barita abaixo_--_A cavallo pela Asia
Menor_--_Scenas de Ceylão_--_Atravez de cidades e prados_--_No meu
Bungaló_--_As terras dos Matabeles_--_Fugindo para o sul_--_Terras do
sol da meia-noite_--_Peregrinações na Patagonia_--_O Soudan
egypcio_--_Terra dos Maggiyres_--_Atravez da Siberia_--_Notas do mundo
do Oeste_--_Caminhos da Palestina_--_Norsk, Lapp e Finn_ (onde será isto
Santo Deus?!)--_Guerras, peregrinações e ondas_ (que titulo, Deus
piedoso!)--_A linda Athenas_--_A peninsula do Mar Branco_--_Homens e
casos da India_--_A bordo do «Rapoza»_--_Sport na Crimêa e
Caucaso_--_Nove annos de caçadas na Africa_--_Diario de uma preguiçosa
na Sicilia_--_A leste do Jordão_...

Ainda ha outros, ainda ha muitos--e em quinze dias!

Seria curioso dar parallelamente a lista de poemas, livros de poesias,
odes, balladas, tragedias, annunciados ou já publicados na primeira
quinzena da estação; mas não tenho paciencia em revolver todo esse
lyrismo. Ha uma «grande sensação»: o livro de Dante Rosseti, um dos
mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóes.

Não menos espessas, nem menos compactas são as listas dos livros de
Theologia, Controversia, Exegese, etc.,--exhalando de si uma melancholia
de cemiterio. Em metaphysica ha o costumado sortimento--macisso e vago,
como diria Herbert Spencer. Em historia, biographia, critica, as listas
bibliographicas vêm riquissimas... Emfim, ao que parece, é uma
formidavel e grandiosa _estação de livros_. Aos romances, nem alludo:
montões, montanhas--e monturos!

Uma pastora meio-selvagem das Ardennes, que nunca vira outro espectaculo
mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia
trazida das suas serranias a Pariz, quando no boulevard passava, com a
tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzella fez-se
branca como a cêra, e só poude murmurar n'uma beatitude suprema:

--Jesus! tanto homem!

Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridiculo d'esta pastora, e
balbuciando, com a bocca aberta, como se chegasse tambem das Ardennes:

--Jesus! tanto livro!

Mas não é este grito, como o da pastora, natural?

O beduino do deserto d'Oeste, que, passando a Serrania Lybica, avista
pela primeira vez, immenso, lento, enchendo um valle, o rio Nilo,
exclama espantado:

--Allah! tanta agua!

A agua é a sua preoccupação: todas as tristezas das areias que habita
vêm da falta da agua: mais que ninguem sente as maravilhas que a agua
produz; e no seu grito ha uma timida reprehensão a Allah! «Tanta agua
aqui, e tão pouca lá d'onde eu venho!...»

Assim eu venho... Mas o resto da comparação complete-a, antes, o leitor
astuto.



III

O INVERNO EM LONDRES


Eis ahi o inverno. Já todos os dias o encontro, e, agora mesmo, lhe ouço
fóra, na rua, sob a nevoa tristonha d'esse fim d'outubro, a voz dolente
e vaga: não é o velho semi-deus de attributos mythologicos, com a barba
em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o
classico feixe de lenha a tiracollo: é um rapagão enfarruscado, de
casquete e chicote em punho, que vae conduzindo uma carroça negra com um
forte _percheron_ aos varaes, pelo macadam já endurecido da geada, e
soltando de porta em porta, o seu pregão melancholico: _Coals! coals!_
(carvão! carvão!)

Estão, pois, findos os dias purpureados do lindo outomno inglez! Nada
iguala o encanto suavizador e meigo dos meados d'outubro nestes condados
do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pittorescas margens do Severn,
ou ainda ao longo do Avon, riba que a memoria de Shakspeare torna quasi
sagrada, ou pelas collinas amaveis de Surrey, é o mais belo, o mais util
repouso que póde ter o espirito sobresaltado, cançado dos livros, ou do
duro movimento da vida.

Tem-se aqui alguma coisa d'aquella paz etherea, que os poetas pagãos
sonhavam nas perspectivas ineffaveis dos Elysios: sómente a natureza
particular do Norte, as linhas da architectura saxonia, o arranjo das
culturas, dão a feição romantica e elegiaca que falta á paysagem latina.

Caminha-se n'uma luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento
quasi magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado
e adormecido sob as grandes ramagens das arvores seculares e
aristocraticas, solemnes, isoladas, immoveis n'um recolhimento
religioso, leva a alma insensivelmente para alguma cousa de muito alto e
de muito puro: ha um silencio de uma extraordinaria limpidez, como o que
deve haver por sobre as nuvens, um silencio que não existe na paysagem
dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas muito forte
parece fazer um vago rumorido, um silencio que pousa no espirito com a
influencia de uma caricia. E a cada momento são fundos encantadores de
paysagem, de um vaporisado azul, com alguma torre d'Abbadia coberta de
heras, que surge d'entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se
entreveem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a historica
architectura de um castello, de bandeira feudal na torre, que de repente
apparece n'uma elevação, com os seus terraços de marmore escuro, os
grandes prados onde pastam ou repousam os animaes de luxo, os faiscantes
meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da
profundidade dos arvoredos...

D'aqui a dias, porém, por collina e valle, só haverá a triste nevoa
humida que dura mezes, ou a neve redemoinhando ao vento...

Esta monotonia, que começa escurecendo os campos desde novembro, vae
causar este anno uma innovação excellente nos costumes sociaes da
Inglaterra. Vae haver, de dezembro a maio, uma _estação d'inverno_ em
Londres.

Como sabem, Londres só é habitado desde os começos de maio até aos
primeiros dias quentes de agosto. O resto do anno, Londres é a cahida
Palmyra ou a tenebrosa planicie do deserto da Petrêa. Ficam lá, é
verdade, entre tres a quatro milhões de humanidade: mas é uma humanidade
subalterna, feita de barro villão, sem valor social em Inglaterra: é a
humanidade que não tem castellos, nem parques de tres legoas, nem o seu
nome no _Livro d'Ouro_, nem _yachts_ de luxo para bordejar nas costas da
Escossia; é a humanidade que não tem nas arterias o famoso _sangue
normando_, esse sangue invejado, mais precioso que o de Christo, cantado
por todos os poetas da côrte, e que foi importado pelos brutamontes
cobertos de ferro, e pelludos como féras, que acompanhavam a estas ilhas
Guilherme da Normandia; é emfim a humanidade que Carlos Stuart, o
Bem-amado, chamava a _canalha_, e que o grande sacerdote da _Bella
Helena_, o pobre Offenbac, designava, com tanto criterio, pelo nome de
_vil multidão_:--é o trabalhador, o artifice, o artista, o professor, o
philosopho, o operario, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.

É esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade
superior, os _dez mil de cima_, como aqui tão pittorescamente se diz,
partem para os seus castellos, as suas _villas_ á beira mar, ou os seus
_yachts_.--Londres, apenas habitado pela turba abjecta, torna-se sobre a
face da terra, como a lamentavel Cacilhas. Nenhum _gentleman_ que se
respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que
esteve em Londres em janeiro: correria o risco de ser tomado por um
tendeiro, ou, peior, por um philosopho, um poeta, um d'esses seres
rastejantes, vis como o lixo, sem castello e sem matilha de cães, que
nenhuma _Lady_ quereria ter no seu «rol de visitas».

Se um _gentleman_, tendo negócios instantes em Londres, é forçado a vir
a este deserto de plebeus, guarda um _incognito_ severo; não chegará
talvez a pôr barbas postiças; mas só se arrisca pelas ruas no fundo
escuro de um cupé com os _stores_ descidos, e o paletot rebuçando-lhe a
face. Todavia uma aventura tão poderosa poucos a ousam!

Pois bem, tudo isto se vae reformar! E este anno será moda passeiar em
Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall-Mall, em pleno janeiro,
na espessura dos nevoeiros. Esta revolução consideravel foi, como todas
as fecundas revoluções, tramada, prégada, popularisada pelas mulheres.

Havia longos annos que estes anjos soffriam com impaciencia a
melancholia da vida do campo, durante o longo inverno saxonio. Ainda,
nos primeiros tempos, depois de deixar as glorias de Londres e os
esplendores da _season_, a existencia era toleravel. Havia as regatas
elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois
vinham as festas da abertura da caça; seguia-se a epocha dos _yachts_,
as viagens ás costas da Noruega, ás Hebbidas, ás praias elegantes da
Normandia; depois, quando a côrte está na Escossia, vinha a caça do
veado, os bailes de _gellies_ das montanhas... Emfim, vivia-se.

Mas, com a chegada de dezembro, da neve, uma formidavel lei social, a
_fashion_, obrigava os _dez mil de cima_ a recolherem-se aos seus
castellos, á solidão do campo. E ahi começava para as damas o tedio
memoravel!

Quando se não tem um _chateau_ e parque como os de Inglaterra, póde
parecer um sonho de paraizo o viver n'essas faustosas residencias, entre
maravilhas d'arte, accumuladas por gerações, com mobilias de duzentos
contos, um serviço de sessenta criados, vinte cavallos na cocheira e um
parque de trez legoas, um parque de romance, para passeiar sobre a neve
dura quando o ceu brilha claro. Mas a desgraçada dama, desde o seu
primeiro dente acostumada a tantos explendores, já lhes não encontra
encanto; uma simples corrida, n'um velho fiacre de Londres, de loja em
loja, é-lhe cem vezes mais doce.

Depois, a vida do castello é de um vasio pardo e tristonho. Os homens,
esses, de manhã, teem a caça, os galopes furiosos, devorando prados,
saltando sebes atraz de uma raposa espavorida, ao grito barbaro de
_hally-hó!_ Depois á noite, tomado o banho e vestida a casaca, tem o
grog forte no _fumoir_. Mas as desgraçadas damas? Todas bebem grog--mas
raras são as que caçam. O dia é-lhes lugubre. Uma burgueza, em
Inglaterra, tem sempre uma occupação, mesmo nas existencias ricas:
borda, pinta em porcellana, faz camisas para os pequenos Patagonios,
ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memorias ou
corresponde-se com um Theologo sobre pontos difficeis de doutrina. Mas
um dama das _dez mil_ não faz nada; os seus grandes talentos, a
_toilette_, a graça de receber, a intriga politica, o brilho da
conversação, o _chic_ esthetico, cousas em que prima, não lhe servem no
isolamento relativo do castello, sob as torrentes da chuva. O seu palco
natural é o salão de Londres. Alli no campo, nas longas galerias onde
pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou
Poitiers, ou, se os avósinhos nunca invadiram a França, as bandeiras
compradas no antiquario da esquina, _Mylady_ boceja; ou estendida n'um
sofá, na sua _robe-de-chambre_ de brocado branco de Genova, com uma
novella cahida no regaço, olha os flocos de neve empoando os grandes
carvalhos do parque...

Depois vem a noite. É o peior. Os homens que fizeram talvez cinco legoas
de galope atraz das rapozas, ou que se estiveram adestrando em jogos
athleticos, têm somno. De gardenia na casaca e perola negra na camisa,
estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo
_Nocturno_ de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, são
tão inuteis para a _flirtation_, o espirito, a intriga, o amor, como se
fossem empalhados.

Debalde as pobres damas fizeram uma _toilette_ de duzentas libras:
debalde resplandecem, ás mil luzes de cêra, os seus hombros de deusas.
De nada valle. O _gentleman_ anceia por deixar a sala, ir reconfortar-se
com o seu _brandy and soda_, estirar aquelles membros que a raposa
cançou, em lençóes bem perfumados e bem _bassinés_, e ressonar forte.

Esta situação era intoleravel.

E os homens mesmo soffriam. Galopar n'um cavallo de preço sobre a terra
dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manhã de brisa fria--tem
encanto. Mas póde-se isso comparar á delicia de ir tagarelar para o
_club_, ter todas as noites trez ou quatro bailes, fazer phrases sobre a
questão do Oriente, e ceiar com Miss Fanny, n'um quente _boudoir_ de
veludo, emquanto fóra a plebe patinha na lama de Londres?! Não, não se
póde comparar.

E por isso veio o momento psychologico, como diz esse illustre homem de
prosa, o snr. De Bismarck, em que _ladies_ e _lords_ concordaram que o
inverno no campo era bom para os lobos; e que para pares de Inglaterra,
Londres era preferivel. E ahi está como se vae ter esta cousa inesperada
na vida ingleza--_o inverno em Londres_.

E, todavia, Deus sabe que elle não é agradavel, esse inverno de Londres!
De manhã, ao acordar, tem-se deante da janella uma sombra opaca,
espessa, parda, arripiadora e sinistra: é necessario fazer a barba, com
o gaz flammejando; almoça-se com todas as velas do candelabro accesas, e
a carruagem que nos conduz é precedida de um archote. Ao meio dia esta
decoração de inverno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações
odiosas, ganha um amarello de óca e começa a exalar um vapor fetido.
Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso humido sobre a pelle, os
edificios que nos cercam apparecem com as linhas vagas e chimericas das
cidades malditas do Apocalypse, e o estrondo de Londres, este rude,
tremendo estrepito, que deve lá em cima incommodar a corte do ceu,
adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor n'um subterraneo.

Depois, á noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso,
molle gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama, em
lama mal liquida, que escorre, pinga, vem babada de um ceu negro.

O gaz parece côr de sangue; como todo o mundo, para combater esta nevoa
gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, ha nas ruas um vago vapor
de alcool, que passa nos halitos: isto excita, irrita, impelle a turba
ao vicio. O ruido intoleravel das ruas, a pressa da multidão violenta, o
rude flammejar das vitrinas dão uma acceleração brutal ao sangue, uma
vibração quasi dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se
com impeto, deseja-se com furor; a besta humana inflamma-se: quer-se
alguma coisa de forte e de animal, a lucta, o excesso, a gula, o
abrasado do _cognac_, a paixão. Londres n'uma noite de inverno, exhala
violencia e crime. E póde-se affirmar que em cada uma das tipoias, que,
aos milhares e aos milhares, passam como flechas, n'um relampejar rubro
de lanternas, vae um cidadão ou uma cidadã commettendo ou preparando-se
para commetter, com excepção da preguiça, um dos sete peccados mortaes.

De uma coisa se póde ter a certeza: é que não ha de faltar, aos que vão
fazer o seu inverno a Londres, _assumpto de cavaco_. Além dos livros que
se annunciam, dos escandalos que não hão-de faltar, das modas que sempre
se inventam, a politica, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa
na Irlanda; processo por alta traição dos chefes da _Liga da Terra_,
deputados da Irlanda; nova guerra no Afghanistan, onde Cabul se
insurreccionou; toda a Africa do Sul em rebellião; complicações
sinistras do lado do Oriente; desintelligencias estridentes entre os
radicaes no poder... Emfim, um encanto.

Era em circumstancias identicas que o famoso Granville, o homem das
_Memorias_, olhando n'um começo de primavera para todos os lados do
horizonte politico e social, e não vendo (em 1830) senão presagios
negros de revolta, guerra, crises e perigos para a patria, dizia,
banhado em jubilo, quasi em extasi:

--Meu Deus, que deliciosas noites se vão passar no Club!



IV

O NATAL


O Natal, a grande festa domestica da Inglaterra, foi este anno
triste--d'essa tristeza particular que offerece, por um dia de calma
ardente, a praça deserta de uma villa pobre, ou d'essa melancholia que
infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado,
n'uma sala a que se não voltará mais...

O que nos estragou o Natal, não fôram decerto as preoccupações
politicas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebellião do
Transvaal em que os Boeres debutaram por exterminar o 94 de linha, um
dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que
ameaça ensanguentar toda a Africa do Sul n'uma guerra de raças; nem a
situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo
comité revolucionario da _Liga Agraria_--seriam inquietações
sufficientes para tirar o sabor tradicional ao _plum-pudding_ do Natal.
As desgraças publicas nunca impedem que os cidadãos jantem com appetite:
e miserias da patria, emquanto não são tangiveis e se não apresentam sob
a fórma flammejante de obuzes rebentando n'uma cidade sitiada, não
tirarão jámais o somno ao patriota.

Não; o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal
como este que passamos, com um sol de uma pallidez de convalescente,
deslizando timidamente sobre uma immensa peça de seda azul desbotada, um
Natal sem neve, um Natal sem casacos de pelles, parece tão insipido e
tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de
fogueiras e descantes, se houvesse no chão tres palmos de neve e cahisse
por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!

Para comprehender bem o encanto da neve d'este famoso Natal inglez,
basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias que o têm
popularizado.

O assumpto não varia na paysagem repetida: é sempre a mesma entrada d'um
parque, de apparencia feudal, por vesperas do Natal, antes da
meia-noite; o ceu pesado de neve suspensa parece uma gaze suja: e a
perder de vista tudo está coberto da neve cahida, uma neve branca, fôfa,
alta, que faz nos campos um grande silencio. Junto á grade do parque,
uma mulher e duas creanças, atabafadas nos seus farrapos, com lampeões
na mão, vão cantando as lôas; e ao fundo, entre as ramagens despidas,
ergue-se o massiço castello, com as janellas flammejando, abrasadas da
grande luz de dentro e da alegria que as habita.

E toda a poesia do Natal está justamente n'essas janellas resplandecendo
na noite nevada.

Felizes aquelles para quem essas portas difficeis se abrem. Logo ao
entrar na ante-camara os tectos, as humbreiras, os espaldares das
cadeiras, os tropheus de caça, apparecem adornados das verduras do
Natal, das ramagens sagradas do carvalho celtico; e pelas paredes, em
lettras douradas ondeiam os disticos tradicionaes--_Merry Christmas!
Merry Christmas! alegre Natal! alegre Natal!_ E o mesmo grito se repete
nos _shakehands_ que se dão ao hospede.

Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica
faz parecer de ouro os cabellos louros, e de prata as barbas brancas.

Tudo está enfeitado como n'uma paschoa sagrada: dos retratos dos avós
pendem ramos de flôres de inverno, as flôres da neve, e todas as pratas
da casa scintillam sobre os aparadores, n'uma solemnidade patriarchal.
Dos grandes lustres balança-se o ramo symbolico do _mistletoe_, o ramo
do amor domestico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua
ramagem! Quem assim as surprehender tem direito a beija-las n'um grande
abraço! Tambem, que voltas sabias, que estrategia complicada, para
evitar o ramo fatidico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam,
e a cada momento é sob o _mistletoe_ um grito, um beijo, dois braços que
prendem uma cinta fugitiva...

E o piano não se cala n'estas noites! É alguma velha canção ingleza, em
que se falla de torneios e cavalleiros, ou uma dança da Escossia, que se
baila com o gentil ceremonial do passado.

E por corredores e salas, as creanças, os bébés, com os cabellos ao
vento, vestidos de branco e côr de rosa, correm, cantam, riem, vão a
cada momento espreitar os ponteiros do relogio monumental, porque á
meia-noite chega Santo Claus, o veneravel Santo Claus, que tem trez mil
annos de edade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem
caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões,
apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amavel Santo
Claus! por um tempo tão frio, n'aquella edade, deixar a cabana de
algodão que elle habita no paiz da Legenda, e vir por sobre ondas do mar
e ramagens de florestas trazer a estes bébés o seu Natal!

Tambem, como elles o adoram, o bom Claus! E apenas elle chegar, como
correrão todos, em triumpho, a puxal-o para o pé do lume, a esfregar-lhe
as decrepitas mãos regeladas, a offerecer-lhe uma taça de prata cheia de
hidromel quente--que elle bebe d'um trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe
os alforges. Quantas maravilhas!...

Mas d'estes personagens que apparecem pelas consoadas, o meu predilecto
é _Father Christmas--o papá Natal_.

Esse, porém, só póde ser admirado em toda a sua gloria, quando se abre a
sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da meza--que
lhe põe em torno, com os crystaes e os pratos, um amavel brilho
d'aureola caseira. Bem vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!

O respeitavel ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de
neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e
jovial, esgarça a bocca n'um riso de felicidade sem fim, e as suas
enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as creanças o
querem abraçar, e elle não se recusa, porque é indulgente.

E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarchal riso se escancara;
as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e
alli está, bonacheirão e veneravel, com a importancia de um deus tutelar
e amado, como a encarnação sacramental da alegria domestica.

E no emtanto fóra, na neve, as pobres creanças cantam as lôas: e com que
vigor as cantam! É que ellas sabem que não serão esquecidas: e que
d'aqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de
toda a sorte de cousas bôas, peças de carne, empadas, vinho, queijos--e
mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se
enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os vêr
esvaziados no regaço dos pobres.

Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O
Natal com uma lua côr de manteiga a bater n'uma terra tepida de
Primavera torna-se apenas uma data no calendario. O lume não tem poesia
intima; não ha lôas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco
insipido; não se colhe o _mistletoe_. Não ha mesmo a alegria de abrir a
janella e pôr no rebordo, dentro d'uma malga, a ceia de migalhas do
Natal para os pardaes e para os outros passarinhos que tanta fome
soffrem pelas neves. Emfim, não ha Natal! Foi o que succedeu este anno...

Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o
essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto e se
se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente
indifferente que nos castellos as damas bocejassem.

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume
do salão chegue a aquecer--quando se considere que lá fóra ha quem
regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma codea de dois dias. É
justamente n'estas horas de festa intima, quando pára por um momento o
furioso galope do nosso egoismo--que a alma se abre a sentimentos
melhores de fraternidade e de sympathia universal, e que a consciencia
da miseria em que se debatem tantos milhares de creaturas, volta com uma
amargura maior. Basta então vêr uma pobre creança, pasmada deante da
_vitrine_ de uma loja, e com os olhos em lagrimas para uma boneca de
pataco, que ella nunca poderá apertar nos seus miseraveis braços--para
que se chegue á facil conclusão que isto é um mundo abominavel. D'este
sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas,
o egoismo parte á desfilada, ninguem torna a pensar mais nos pobres, a
não ser alguns revolucionarios endurecidos, dignos do carcere--e a
miseria continúa a gemer ao seu canto!

Os philosophos affirmam que isto ha-de ser sempre assim: o mais nobre de
entre elles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando,
ameaçou-n'os, n'uma palavra immortal, _que teriamos sempre pobres entre
nós_. Tem-se procurado com revoluções successivas fazer falhar esta
sinistra profecia--mas as revoluções passam e os pobres ficam.

N'este momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os
servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de
Leicester está retirando annualmente, do trabalho duro que elles fazem,
_quatrocentos contos de reis de renda_! É verdade que a Irlanda está em
revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscava a visitar o
seu ducado da Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no
craneo.

E o resultado? D'aqui a vinte annos os trabalhadores de Leicester
estarão de novo a soffrer a fome e o frio--e o filho do duque de
Leicester, duque elle mesmo então, voltará a arrecadar os seus
quatrocentos contos por anno.

Não é possivel mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter
um proletariado faminto n'uma burguezia farta; mas surge logo das
entranhas da sociedade um proletariado peior. Jesus tinha razão: haverá
sempre pobres entre nós. D'onde se prova que esta humanidade é o maior
erro que jámais Deus cometeu.

Aqui estamos sobre este globo ha doze mil annos a girar fastidiosamente
em torno do Sol e sem adiantar um metro na famosa _estrada do progresso
e da perfectibilidade_: porque só algum ingenuo de provincia é que ainda
considera _progresso_ a invenção ociosa d'esses bonecos pueris que se
chamam machinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas
e difusas que se denominam _systemas sociaes_.

Nos dois ou trez primeiros mil annos de existencia trepámos a uma certa
altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo n'uma
cambalhota secular.

O typo secular e domestico de uma aldeia Arya do Himalaia, tal como uma
vetusta tradição o tem trazido até nos, é infinitamente mais perfeito
que o nosso organismo domestico e social. Já não fallo de gregos e
romanos: ninguem hoje tem bastante genio para compôr um côro d'Éschylo
ou uma pagina de Virgilio; como escultura e architectura, somos
grotescos; nenhum millionario é capaz de jantar como Lucullus;
agitavam-se em Athenas ou Roma mais ideias superiores n'um só dia do que
nós inventamos n'um seculo; os nossos exercitos fazem rir, comparados ás
legiões de Germanicus; não ha nada equiparavel á administração romana; o
_boulevard_ é uma viella suja ao lado da Via Áppia; nem uma Aspasia
temos; nunca ninguem tornou a fallar como Demosthenes--e o servo, o
escravo, essa miseria da Antiguidade, não era mais desgraçado que o
proletario moderno.

De facto, póde-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu
veneravel pae--o macaco: excepto em duas coisas temerosas--o soffrimento
moral e o soffrimento social.

Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inutil: afogal-a n'um
diluvio. Mas afogal-a toda, sem repetir a fatal indulgencia que o levou
a poupar Noé; se não fôsse o egoismo senil d'esse patriarcha borracho,
que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje
gosariamos a felicidade ineffavel de _não sermos_...



V

Litteratura de Natal


Uma das cousas encantadoras que nos traz o Natal, são esses lindos
livros para creanças, que constituem a _litteratura de Natal_.

Não falo desses extraordinarios volumes dourados publicados pelos
editores francezes, em encadernações decorativas como fachadas de
cathedraes, que custam uma fortuna; contém um texto que nunca ninguem lê
e são offerecidos ás creanças, mas realmente servem para obsequiar os
papás. Os pobres pequenos nada gosam com esses monumentos typographicos;
apenas se lhes permite vêr de longe as gravuras a aço, sob a
fiscalização da mamã, que tem medo que se deteriore a encadernação; e o
resplandecente volume orna d'ahi por deante a jardineira da sala, ao
lado do candieiro vistoso.

Em Inglaterra existe uma verdadeira litteratura para creanças, que tem
os seus classicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado,
editores e genios--em nada inferior á nossa litteratura de homens
sisudos. Aqui, apenas o bébé começa a soletrar, possue logo os seus
livros especiaes: são obras adoraveis, que não contém mais de dez ou
doze paginas, intercaladas de estampas, impressas em typo enorme, e de
um raro gosto de edição. Ordinariamente o assumpto é uma historia, em
seis ou sete phrases, e decerto menos complicada e dramatica que _O
Conde de Monte-Christo_ ou _Nana_; mas emfim tem os seus personagens, o
seu enredo, a sua moral e a sua catastrophe.

Tal é, para dar um exemplo, a lamentavel tragedia dos _Tres velhos
sabios de Chester_: eram muitos velhos e muito sabios; e para discutirem
cousas da sua sabedoria, metteram-se dentro de uma barrica, mas um
pastor que vinha a correr atráz de uma ovelha, deu um encontrão ao
tonel, e ficaram de pernas ao ar os tres velhos sabios de Chester!

Como estas ha milhares: a _Cavallgada de João Gilpin_ é uma obra de genio.

Depois, quando o bébé chega aos seus oito ou nove annos,
proporciona-se-lhe outra litteratura. Os sabios, a barrica, os
trambulhões, já o não interessariam; vêm então as historias de viagens,
de caçadas, de naufragios, de destinos fortes, a salutar chronica do
triumpho, do esforço humano sobre a resistencia da natureza.

Tudo isto é contado n'uma linguagem simples, pura, clara--e provando
sempre que na vida o exito pertence áqueles que têm energia, disciplina,
sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espirito da creança para o
paiz do maravilhoso:--não ha n'estas litteraturas nem fantasmas, nem
milagres, nem cavernas com dragões de escamas de ouro: isso reserva-se
para a gente grande. E quando se falla de anjos ou de fadas é de modo
que a creança, naturalmente, venha a rir-se d'esse lindo sobrenatural, e
a consideral-o do genero _boneco_, como os seus proprios carneirinhos de
algodão.

O que se faz ás vezes é animar de uma vida ficticia os companheiros
inanimados da infancia: as bonecas, os polichinellos, os soldados de
chumbo. Conta-se-lhes, por exemplo, a tormentosa existencia d'uma boneca
honesta e infeliz: ou os soffrimentos por que passou em campanha, n'uma
guerra longinqua, uma caixa de soldados de chumbo. Esta litteratura é
profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a
creança--mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos
e miserias atravessaram aquelles seus amigos, os guerreiros de chumbo,
cujas bayonetas torcidas ella todos os dias endireita com os dedos: e
assim póde ficar depositado n'um espirito de creança um justo horror da
guerra.

As lições moraes que se dão d'este modo são innumeraveis, e tanto mais
fecundas quanto sahem da acção e da existencia dos sêres que ella melhor
conhece--os seus bonecos.

Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze annos:
popularisações de sciencias; descripções dramaticas do universo; estudos
captivantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e
descobertas; a historia; e, emfim, em livros de imaginação, a vida
social apresentada de modo que nem uma realidade muito crúa ponha no
espirito tenro securas de misanthropia, nem uma falsa idealisação
produza uma sentimentalidade morbida.

É no Natal, principalmente, que esta litteratura floresce. As lojas dos
livreiros são então um paraizo. Não ha nada mais pittoresco, mais
original, mais decorativo, que as encadernações inglezas; e as estampas,
as côres leves e aguadas, offerecem quasi sempre verdadeiras obras
d'arte, de graça e d'_humour_.

Não sei se no Brazil existe isto. Em Portugal, nem em tal jámais se
ouviu fallar. Apparece uma ou outra d'essas edições de luxo, de Pariz,
de que fallei, e que constituem ornatos de sala. A França possue tambem
uma litteratura infantil tão rica e util como a de Inglaterra: mas essa
Portugal não a importa: livros para completar a mobilia, sim; para
educar o espirito, não.

A Belgica, a Hollanda, a Allemanha, prodigalisam estes livros para
creanças; na Dinamarca, na Suecia, elles são uma gloria da litteratura e
uma das riquezas do mercado.

Em Portugal, nada.

Eu ás vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres
creanças. Creio que se lhes dá Filinto Elysio, Garção, ou outro qualquer
desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação pela
leitura.

Isto é tanto mais atroz quanto a creança portuguesa é excessivamente
viva, intelligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portuguezes,
só começamos a ser idiotas--quando chegamos á edade da razão. Em
pequenos, temos todos uma pontinha de genio: e estou certo que se
existisse uma litteratura infantil como a da Suecia ou da Hollanda, para
citar só paises tão pequenos como o nosso, erguer-se-hia
consideravelmente entre nós o nivel intellectual.

Em logar d'isso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos,
sepultamol-a sob grossas camadas de latim! Depois do latim accumulamos a
rhetorica! Depois da rhetorica atulhamol-a de logica (de logica, Deus
piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!

Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal litteratura infantil penetraria
facilmente nos nossos costumes domesticos e teria uma venda proveitosa.
Muitas senhoras, intelligentes e pobres, se poderiam empregar em
escrever essas faceis historias: não é necessario o genio de Zola ou de
Thackeray para inventar o caso dos _tres velhos sabios de Chester_. Ha
entre nós artistas, de lapis facil e engraçado, que commentariam bem
essas aventuras n'um desenho de simples contorno, sem sombras e sem
relevo, lavado a côres transparentes... E quantos milhares de creanças
se fariam felizes, com esses bonitos livros--que, para serem populares e
se poderem despedaçar sem prejuizo, devem custar menos de um tostão!

Eu bem sei que esta ideia de compôr livros para creanças faria rir
Lisboa inteira. Tambem, não é a Lisboa que eu a offereço. Lisboa não se
occupa d'estes detalhes.

Lisboa quer cousa superior; quer a bella estrophe lyrica, o rico drama
em que se morre de paixão ao luar, o _fadinho_ ao piano, o saboroso
namoro de escada, a endeixa plangente, a bôa facadinha á meia noite, o
discurso em que se cita o Golgotha, a andaluza de cuia--emfim, tudo o
que o romantismo portuguez inventou de mais nobre. Educar os seus filhos
intelligentemente, está decerto abaixo da sua dignidade.

Mas, emfim, se estas linhas animassem ahi no Brazil, ou entre a colonia
portugueza, um escriptor, um desenhista e um editor, a prepararem alguns
bons livros, bem engraçados, bem alegres, para os bébés--eu teria feito
ao imperio um serviço colossal, que não sei como me poderia ser
recompensado.

Uma bôa fazenda, de rendimento certo, n'uma provincia rica, com casa já
mobilada e alguns cavallos na cavallariça, não seria talvez de mais. Se
a gratidão do governo imperial quizesse juntar a isto, para alfinetes,
um ou dois milhões em ouro, eu não os recusaria. E se me não quizessem
dar nada, bastar-me-hia então que um só bébé se risse e fôsse alguns
minutos feliz. Pensando bem--é esta a recompensa que prefiro.



VI

Israelismo


As duas grandes «sensações» do mez são incontestavelmente a publicação
do novo romance de Lord Beaconsfield, _Endymion_, e a agitação na
Allemanha contra os Judeus. Litterariamente, pois, e socialmente o mez
pertence aos israelitas. Este extraordinario movimento anti-judaico,
esta inacreditavel ressurreição das coleras piedosas do seculo XVI é
vigiada com tanto mais interesse em Inglaterra quanto aqui, como na
Allemanha, os judeus abundam, influindo na opinião pelos jornaes que
possuem (entre outros o _Daily Telegraph_, um dos mais importantes do
reino), dominando o commercio pelas suas casas bancarias e em certos
momentos mesmo governando o Estado pelo grande homem da sua raça, o seu
propheta maior, o proprio Lord Beaconsfield. Aqui, decerto, estamos
longe de vêr desencadear um odio nacional, uma perseguição social contra
os judeus; mas ha sufficientes symptomas de que o desenvolvimento firme
d'este Estado israelita dentro do Estado christão começa a impacientar o
inglez. Não vejo, por exemplo, que o que se está passando na Allemanha,
apesar de exhalar um odioso cheiro d'auto-de-fé, provoque uma grande
indignação da imprensa liberal de Londres: e já mesmo um jornal da
auctoridade do _Spectator_ se vê forçado a attenuar, perante os graves
protestos da colonia israelita, artigos em que descrevera os judeus como
uma corporação isolada e egoista, á semelhança das communidades
catholicas, trabalhando só no mesmo interesse, encerrando-se na força da
sua tradição e conservando sympathias e tendencias manifestamente hostis
ás do estado que os tolera. Tudo isto é já desagradavel.

Mas que diremos do movimento na Allemanha? Que em 1880, na sabia e
tolerante Allemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os
professores Strauss e Hartmann, vivos e trabalhando, se recomece uma
campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador
Maximiliano estivesse ainda, do seu acampamento de Padua, decretando a
destruição da lei Rabbinica e ainda prégasse em Colonia o furioso
_Grão-de-Pimenta_, geral dos dominicanos--é facto para ficar de bocca
aberta todo um longo dia de Verão. Porque emfim, sob fórmas civilizadas
e constitucionaes (petições, _meetings_, artigos de revista, pamphletos,
interpellações) é realmente a uma perseguição de judeus que vamos
assistir, das boas, das antigas, das Manuelinas, quando se deitavam á
mesma fogueira os livros do Rabbino e o proprio Rabbino, exterminando
assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.

E é curioso e edificante espectaculo vêr o veneravel professor Virchow,
erguendo-se no parlamento allemão, a defender os judeus, a sabedoria dos
livros hebraicos, as synagogas, asylo do pensamento durante os tempos
barbaros--exactamente como o illustre legista Roenchlin os defendia nas
perseguições que fecharam o seculo XV!

Mas o mais extraordinario ainda é a attitude do Governo allemão:
interpellado, forçado a dar a opinião official, a opinião d'estado sobre
este rancôr obsoleto e repentino da Allemanha contra o judeu, o governo
declara apenas, com labio escasso e secco, «_que não tenciona por ora
alterar a legislação relativamente aos israelitas_»! Não faltaria com
effeito mais que vêr os ministros do imperio, philosophos e professores,
decretando, á D. Manuel, a expulsão dos judeus, ou restringindo-lhes a
liberdade civil até os isolar em viellas escuras, fechadas por correntes
de ferro, como nas judiarias do _Ghuetto_. Mas uma tal declaração não é
menos ameaçadora. O estado dá a entender apenas que a perseguição não
ha-de partir da sua iniciativa: não tem, porém, uma palavra para
condemnar este estranho movimento anti-semitico, que em muitos pontos é
presentemente organisado pelas suas proprias auctoridades.

Deixa a colonia judaica em presença da irritação da grossa população
germanica--e lava simplesmente as suas mãos ministeriaes na bacia de
Poncio Pilatos.

Não affirma sequer que ha-de fazer respeitar as leis que protegem o
judeu, cidadão do imperio; tem apenas a vaga tenção, vaga como a nuvem
da manhã, de as não alterar _por ora_!

O resultado d'isto é que n'uma nação em que a sociedade conservadora
fórma como um largo batalhão, pensando o que lhe manda a «ordem do dia»
e marchando em disciplina, á voz do coronel,--cada bom allemão, cada
patriota, vae immediatamente concluir d'esta linguagem ambigua do
governo que, se a côrte, o estado-maior, os feld-marechaes, o senhor de
Bismarck, todo esse mundo venerado e obedecido não vêem o odio ao judeu
com enthusiasmo, não deixam, todavia, de o approvar em seus corações
christãos... E o novo movimento vae certamente receber, d'aqui, um
impulso inesperado.

Que digo eu? Já recebeu. Apenas se soube a resposta do ministerio, um
bando de mancebos, em Leipzig, que se poderiam tomar por frades
dominicanos mas que eram apenas philosophos estudantes, andaram
expulsando os judeus das cervejarias, arrancando-lhes assim o direito
individual mais caro e mais sagrado ao allemão: o direito á cerveja!

Mas d'onde provem este odio ao judeu? A Allemanha não quer, de certo,
começar de novo a vingar o sangue precioso de Jesus. Ha já tanto tempo
que essas cousas dolorosas se passaram!... A humanidade christã está
velha e, portanto, indulgente: em desoito seculos esquece a affronta
mais funda. E infelizmente hoje já ninguem, ao lêr os episodios da
Paixão, arranca furiosamente da espada, como Clovis, gritando, com a
face em pranto:

--Ah, infames! Não estar eu lá com os meus Francos!

Além d'isso, este movimento é organizado pela burguezia, e as classes
conservadoras da Allemanha são muito juridicas, para não approvarem, no
segredo do seu pensamento, o supplicio de Jesus. Dada uma sociedade
antiga e prospera, com a sua religião official, a sua moral official, a
sua litteratura official, o seu sacerdocio, o seu regimen de
propriedade, a sua aristocracia e o seu commercio--que se ha-de fazer a
um inspirado, a um revolucionario, que apparece seguido d'uma plébe
tumultuosa, prégando a destruição d'essas instituições consagradas á
fundação de uma nova ordem social sobre a ruina d'elas e, segundo a
expressão legal, _excitando o odio dos cidadãos contra o Governo_?
Evidentemente puni-lo.

Pede-o a lei, a ordem, a razão de Estado, a salvação publica e os
interesses conservadores. É justamente o que a Allemanha, com muita
razão, faz aos seus socialistas, a Karl Marx e a Bebel. Ora, estes maus
homens não querem fazer na Allemanha contemporanea uma revolução, de
certo, mais radical que a que Jesus emprehendeu no mundo semitico. É
verdade que o Nazareno era um Deus: para nós, certamente, humanidade
privilegiada, que o soubemos amar e comprehender:--mas em Jerusalem,
para o doutor do templo, para o escriba da lei, para o mercador do
bairro de David, para o proprietario das cearas que ondulavam até
Bethlem, para o centurião severo encarregado da ordem--Jesus era apenas
um insurrecto.

E se Bismarck estivesse de toga, no pretorio, sobre a cadeira curul de
Caiphás, teria assignado a sentença fatal tão serenamente como o dito
Caiphás, certo que n'esse momento salvava a sua patria da anarchia. Os
conservadores de Jerusalem foram logicos e legaes, como são hoje os de
Berlim, de S. Petersburgo ou de Vienna: no mundo antigo, como agora,
havia os mesmos interesses santos a guardar. Que diabo! é indispensavel
que a sociedade se conserve nas suas largas bases tradicionaes: e
outr'ora, como hoje, a salvação da ordem é a justificação dos supplicios.

É possivel que este goso, que nós, conservadores, temos hoje, de
triturar os Messias socialistas, encarcerar os Proudhon, mandar para a
Siberia os Bakounine, e crivar de multas os Felix Pyat--venha a custar
caro a nosso netos. Com o andar dos tempos, todo o grande reformador
social se transforma pouco a pouco em Deus: Zoroastro, Confucio,
Mahomet, Jesus, são exemplos recentes! As fórmas superiores do
pensamento têm uma tendencia fatal a tornar-se na futura lei revelada: e
toda a philosophia termina, nos seus velhos dias, por ser religião.
Augusto Comte já tem altares em Londres; já se lhe reza. E assim como
hoje exigimos capellas aos Santos Padres, aos que foram os auctores
divinos, os nobres criadores do catholicismo, talvez um dia, quando o
socialismo fôr religião do Estado, se vejam em nichos de templo, com uma
lamparina na frente, as imagens dos Santos Padres da revolução: Proudhon
de oculos, Bakounine parecendo um urso sob as suas pelles russas, Karl
Marx apoiado ao cajado symbolico do pastor d'almas.

Como a civilização caminha para o oeste, isto passar-se-ha ai para o
seculo XXVIII, na Nova Zelandia ou na Australia, quando nós, por nosso
turno, fôrmos as velhas raças do Oriente, as nossas linguas idiomas
mortos, e Pariz e Londres montões de columnas truncadas como hoje
Palmyra e Babylonia, que o zelandez e o australiano virão visitar, em
balão, com bilhete de ida e volta... Logicamente, então, como são
detestados hoje na Allemanha os herdeiros dos que mataram Jesus--só
haverá repulsão e odio pelos descendentes de nós outros, que estamos
encarcerando Bakounine ou multando Pyat. E como toda a religião tem um
periodo de furor e exterminio, esses nossos pobres netos serão
perseguidos, passarão ao estado de raça maldita e morrerão nos
supplicios... _C'est raide!_


Mas voltemos á Allemanha.

Ainda que o Pedro Ermita d'esta nova crusada constitucional seja um
sacerdote, o Revd. Streker, capellão e prégador da côrte, é evidente que
ella não tira a sua força da paixão religiosa. As cinco chagas de Jesus
nada têm que vêr com estas petições que por toda a parte se assignam,
pedindo ao governo que não permitta aos judeus adquirirem propriedades,
que não sejam admittidos aos cargos publicos, e outras extravagancias
gothicas! O motivo do furor anti-semitico é simplesmente a crescente
prosperidade da colonia judaica, colonia relativamente pequena, apenas
composta de 400.000 judeus; mas que pela sua actividade, a sua
pertinacia, a sua disciplina, está fazendo uma concorrencia triumphante
á burguezia allemã.

A alta finança e o pequeno commercio estão-lhe igualmente nas mãos: é o
judeu que empresta aos Estados e aos principes, e é a elle que o pequeno
proprietario hypoteca as terras. Nas profissões liberais absorve tudo: é
elle o advogado com mais causas e o medico com mais clientella: se na
mesma rua ha dois tendeiros, um allemão e outro judeu--o filho da
Germania ao fim do anno está fallido, o filho d'Israel tem carruagem!
Isto tornou-se mais frizante depois da guerra: e o bom allemão não póde
tolerar este espectaculo do judeu engordando, enriquecendo, reluzindo,
emquanto elle, carregado de louros, tem de emigrar para a America á
busca de pão.

Mas se a riqueza do judeu o irrita, a ostentação que o judeu faz da sua
riqueza enlouquece-o de furor. E, n'este ponto, devo dizer que o allemão
tem razão. A antiga legenda do israelita, magro, esguio, adunco,
caminhando cosido com a parede, e coando por entre as palpebras um olhar
turvo e desconfiado--pertence ao passado. O judeu hoje é um gordo. Traz
a cabeça alta, tem a pança ostentosa e enche a rua. É necessario vêl-os
em Londres, em Berlim, ou em Vienna: nas menores cousas, entrando em um
café ou occupando uma cadeira no theatro, têm um ar arrogante e ricaço,
que escandalisa. A sua pompa espectaculosa de Salomões _parvenús_
offende o nosso gosto contemporaneo, que é sobrio. Fallam sempre alto,
como em paiz vencido, e em um restaurante de Londres ou de Berlim nada
ha mais intoleravel que a gralhada semitica. Cobrem-se de joias, todos
os arreios das carruagens são de oiro, e amam o luxo grosseiro e
vistoso. Tudo isto irrita.

Mas o peior ainda, na Allemanha, é o habil plano com que fortificam a
sua prosperidade e garantem a sua influencia--plano tão habil que tem um
sabor de conspiração: na Allemanha, o judeu, lentamente, surdamente,
tem-se apoderado das duas grandes forças sociaes--a Bolsa e Imprensa.
Quasi todas as grandes casas bancarias da Allemanha, quasi todos os
grandes jornaes, estão na posse do semita. Assim, torna-se inatacavel.
De modo que não só expulsa o allemão das profissões liberais, o humilha
com a sua opulencia rutilante, e o traz dependente pelo capital; mas,
injuria suprema, pela voz dos seus jornaes, ordena-lhe o que ha-de
fazer, o que ha-de pensar, como se ha-de governar e com que se ha-de bater!

Tudo isto ainda seria supportavel se o judeu se fundisse com a raça
indigena. Mas não. O mundo judeu conserva-se isolado, compacto,
inacessivel e impenetravel. As muralhas formidaveis do templo de
Salomão, que fôram arrasadas, continuam a pôr em torno d'elle um
obstaculo de cidadelas. Dentro de Berlim ha uma verdadeira Jerusalem
inexpugnavel: ahi se refugiam com o seu Deus, o seu livro, os seus
costumes, o seu Sabbath, a sua lingua, o seu orgulho, a sua seccura,
gosando o ouro e desprezando o christão. Invadem a sociedade allemã,
querem lá brilhar e dominar, mas não permittem que o allemão meta sequer
o bico do sapato dentro da sociedade judaica. Só casam entre si; entre
si, ajudam-se regiamente, dando-se uns aos outros milhões--mas não
favoreceriam com um troco um allemão esfomeado; e põem um orgulho, um
coquetismo insolente em se differençar do resto da nação em tudo, desde
a maneira de pensar até á maneira de vestir. Naturalmente, um
exclusivismo tão accentuado é interpretado como hostilidade--e pago com
odio.

Tudo isto, no emtanto, é a _lucta pela existencia_. O judeu é o mais
forte, o judeu triumpha. O dever do allemão seria exercer o musculo,
aguçar o intellecto, esforçar-se, puxar-se para a frente para ser, por
seu turno, o mais forte. Não o faz: em logar d'isso, volta-se
miseravelmente, covardemente, para o governo e peticiona, em grandes
rolos de papel, que seja expulso o judeu dos direitos civis, porque o
judeu é rico, e porque o judeu é forte.


O Governo, esse esfrega as mãos, radiante. Os jornaes inglezes não
comprehendem a attitude do sr. de Bismarck, approvando tacitamente o
movimento anti-judaico. É facil de perceber; é um rasgo de genio do
chanceller. Ou pelo menos uma prova de que lê com proveito a Historia da
Allemanha.

Na meia idade, todas as vezes que o excesso dos males publicos, a peste
ou a fome, desesperava as populações; todas as vezes que o homem
escravisado, esmagado e explorado, mostrava signaes de revolta, a egreja
e o principe apressavam-se a dizer-lhe: «Bem vemos, tu soffres! Mas a
culpa é tua. É que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda não castigaste
sufficientemente o judeu.» A populaça então atirava-se aos judeus:
degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de supplicios;
depois, saciada, a turba reentrava na tréva da sua miseria a esperar a
recompensa do Senhor.

Isto nunca falhava. Sempre que a egreja, que a feudalidade, se sentia
ameaçada por uma plébe desesperada de canga dolorosa--desviava o golpe
de si e dirigia-o contra o judeu.

Quando a besta popular mostrava sêde de sangue--servia-se á canalha
sangue israelita.

É justamente o que faz, em proporções civilizadas, o sr. de Bismarck. A
Allemanha soffre e murmura: a prolongada crise commercial, as más
colheitas, o excesso de impostos, o pesado serviço militar, a decadencia
industrial, tudo isto traz a classe media irritada. O povo, que soffre
mais, tem ao menos a esperança socialista; mas os conservadores começam
a vêr que os seus males vêm dos seus idolos.

Para o calmar e occupar, o que mais serviria ao chanceller seria uma
guerra, mas nem sempre se póde inventar uma guerra, e começa a ser grave
encontrar em campo a França preparada, mais forte que nunca, com os seus
dois milhões de bons soldados, a sua fabulosa riqueza, riqueza
inconcebivel, que, como dizia ha dias a _Saturday Review_, é um
phenomeno inquietador e difficil d'explicar.

Portanto, á falta d'uma guerra, o principe de Bismarck distrahe a
attenção do allemão esfomeado--apontando-lhe para o judeu enriquecido.
Não allude naturalmente á morte de Nosso Senhor Jesus Christo. Mas falla
nos milhões do judeu e no poder da Synagoga. E assim se explica a
estranha e desastrosa declaração do governo.


Da outra «sensação», o romance de Lord Beaconsfield, _Endymion_, não me
resta, n'esta carta, espaço para rir. Figuram n'elle, sob nomes
transparentes, Beaconsfield, elle proprio, Napoleão III, o principe de
Bismarck, o cardeal Manning, os Rothchilds, a imperatriz Eugenia,
duquezas, lords, marechaes... emfim um ramalhete de flôres, pelo qual o
editor Longman pagou _cincoenta e quatro contos de reis_ fortes.

Jovens de lettras, meus amigos, ponde vossos olhos n'este exemplo de
ouro! Sê prudente, mancebo; nunca, ao entrar na carreira litteraria,
publiques poema ou novella sem a antecipada precaução de ter sido
durante alguns annos--primeiro ministro de Inglaterra!



VII

A Irlanda e a Liga Agraria


É necessario fallar da Irlanda, fallar da _Liga Agraria_, fallar de
Parnell...

Ha seis mezes que este homem, esta associação, essa ilha inquieta, são o
cuidado supremo, a preoccupação pungente da Inglaterra e de tudo o que
em Inglaterra pensa, desde os homens de Estado até aos caricaturistas. E
dentro em breve o sentimento europeu, o sentimento universal, vae-se
exaltar pela _questão da Irlanda_, como outr'ora pela _questão da Polonia_.

A questão da Polonia! oh saudosos dias passados! Foi esse um dos meus
primeiros enthusiasmos! N'esse tempo, ser polaco era synonimo de ser
heroe: e a fórma mais usual da paixão, n'uma alma de vinte annos, não
consistia no desejo de se subir ao balcão de Julieta, mas de partir e ir
tomar as armas pela Polonia. Em Coimbra, sempre que nos reuniamos mais
de quatro amigos, faziamos logo esse projecto, gritando:--_Viva a
Polonia!_ Os jornaes transbordavam de poemas á Polonia e de injurias ao
Urso do Norte! Empenhavam-se batinas e compendios para soccorrer a
Polonia, em subscripções enthusiasticas. Em beneficio da Polonia eu
representei muito melodrama em que ora, virgem trahida e vestida de
branco, soluçava com as minhas tranças soltas--ora, traidor, soltando
gargalhadas cynicas, cravava um ferro no peito de Condé!

Por fim não eramos mais insensatos do que o povo de Paris em 1848,
marchando em procissão a reclamar do governo provisorio a libertação da
Polonia. «Mas é uma guerra com a Russia, é um conflicto europeu!» diziam
os prudentes. E os enthusiastas respondiam: «Não tem duvida; a França é
o Messias, é a salvadora dos opprimidos: a França é o Christo das
nações; sendo necessario, deve morrer por ellas.»

Mas desde 1848 muita agua tem passado sob as pontes, como dizem em
Paris: e mesmo muito sangue.

Por estes tempos de _opportunismo_ e de _naturalismo_, a pobre Irlanda
não inspirará jámais o culto piedoso que votamos outr'ora á Polonia.

De resto a Polonia e a Irlanda constituem dois casos differentes. É
certo, porém, que vistos de longe, atravéz da nevoa lacrimosa da
sentimentalidade, offerecem similitudes. A Irlanda póde talvez
considerar-se uma Polonia constitucional: ha aqui como na Polonia uma
raça opprimida, cujo solo foi dividido entre os grandes vassalos, as
familias historicas da nação conquistadora, e que desde então tem
permanecido em servidão agraria. Sómente na Irlanda o arbitrario e os
abusos, que esta situação origina, são recobertos pelo regimen
parlamentar de um bello verniz de legalidade: e a Irlanda soffre as
miserias de um paiz vencido e explorado--mas dentro das fórmas
constitucionaes.

O irlandez parece-se com o polaco em certos pontos: são ambos
arrebatados, imprudentes, espirituosos, generosos e poetas. Como o
Polaco, o irlandez catholico odeia o conquistador, sobretudo por elle
ser heretico de nacionalidade, misturando com o odio politico o
conflicto de religião. Como na Polonia, ha na Irlanda a legenda
patriotica da independencia, das revoltas suffocadas, dos agitadores
heroicos, legenda que falla á imaginação popular tanto como a mesma
religião, inspirando eguaes fanatismos, de tal sorte que o irlandez é
tão devoto dos seus santos como dos seus patriotas; como o polaco
despreza o russo, assim o irlandez olha o anglo-saxonio como um barbaro
e um estupido e tem por elle toda a antipatia desdenhosa que uma raça de
improvisadores póde ter por uma raça de criticos e de analistas. Na
ordem social, como na ordem domestica, ha entre a Polonia e a Irlanda
outras curiosas afinidades. A ultima táctica da Irlanda, mesmo, é
imitada da Polonia: a Irlanda vae apelar para a Europa e é Victor Hugo
quem fallará em nome dela, n'um manifesto com o titulo de Opressor e
Oprimido.

Mas a Inglaterra realmente não se parece com a Russia: nem mesmo atravéz
da nevoa da sensibilidade, atravez da paixão pela causa da Irlanda, o
mais esclarecido dos liberalismos póde ser confundido com o mais boçal
dos despotismos. E todavia a Inglaterra, para não perturbar os
interesses tyrannicos d'um milhar de ricos proprietarios, deixa na
miseria quatro milhões de homens. Tem todo o territorio irlandez
occupado militarmente. Apenas um patriota começa a ter influencia na
Irlanda, prende o patriota. Quando a eloquencia dos deputados irlandezes
se torna inquietadora, abafa-a, quebrando sem escrupulos uma tradição
parlamentar de seculos. Vae governar a Irlanda pela _Lei marcial_, como
qualquer czar. E, para suspender os planos da _Liga Agraria_, viola os
segredos das cartas.

Esta questão da Irlanda apresenta-se tão complexa, tão confusa como o
proprio chaos antes da grande façanha de Jehovah. Na Irlanda começa por
haver tres nações distinctas com interesses contradictorios: os
irlandezes catholicos, os irlandezes protestantes ou _orangistas_, os
inglezes e proprietarios escocezes. A questão da propriedade é sem
duvida a essencial: mas existem outras, a questão religiosa, a questão
policial, a questão judicial, a questão municipal, etc., etc. E sobre
cada uma d'estas questões é difficil achar dois irlandezes de accordo.
Cada aldeia se torna assim um campo de batalha: e, como são eloquentes e
sarcasticos, o grande fluxo labial, a paixão do epigramma amplificam e
azedam as dissensões.

Mesmo dentro da egreja catholica, que deveria conservar a tradicção da
Unidade--tumultua a discordia: o clero parochial está em lucta com os
dignitarios episcopaes: e é raro que o clero de um condado não divirja,
de sentimentos e de predica, com o clero do condado visinho. No mundo
dos patriotas revolucionarios não existe uma harmonia melhor: a _Liga
Agraria_ não aceita os _Fenians_, e os _Fenians_ abominam as tendencias
parlamentares dos _Home-rulers_: e dentro mesmo do partido dos
_Home-rulers_ ha democratas e conservadores. É um numeroso conflicto por
toda a pobre Irlanda.

Os irlandezes dizem, porém, que se lhes fosse dada a autonomia, horas
depois de declarada a Republica Irlandeza, todas estas questões se
resolveriam de per si e o paiz seria como um mar que amansa e fica em
equilibrio.

Até agora, porém, essa falta de unidade é adduzida justamente como
evidencia dos perigos que teria essa autonomia.

Os inglezes pensam sinceramente que no momento em que a Irlanda sahisse
de sob a tutela do bom senso e do saber inglez, no instante que essa
raça impressionavel, excitada, fanatica e pouco culta fosse abandonada a
si mesma, começaria uma guerra civil, uma guerra religiosa, differentes
guerras agrarias, que bem depressa fariam da Verde Erin um montão de
ruinas n'uma poça de sangue.

Se os irlandezes se não entendem bem sobre os _males da Irlanda_, os
inglezes comprehendem-se menos ácerca dos _remedios para a Irlanda_. E a
confusão em que se está provém principalmente da abundancia da
discussão. Não ha villota, ou mesmo aldeia d'Inglaterra, que não tenha
um jornal do tamanho da _Gazeta de Noticias_, com oito paginas e typo
cerrado. E d'alto a baixo esta vastidão de papel, desde que começou a
agitação da Liga Agraria, é occupada por estudos e artigos sobre a
Irlanda. Multiplique-se isto pelas tres ou quatro mil gazetas que a
pobre Inglaterra nutre sobre a sua epiderme: juntem-se-lhe os artigos
dos Semanarios, dos Quinzenarios, das Revistas e dos Magazines, os
pamphletos, as brochuras, os ensaios inumeraveis como as estrellas do
céo, os livros e tratados de toda a sorte, os discursos do parlamento,
as arengas dos _meetings_, as conferencias, os sermões, as controversias
publicas, as lições, emfim, toda essa colossal litteratura que nestes
ultimos mezes tem tomado por assumpto a Irlanda.

E digam-me se, com todo este mundo de informação, de discussão, de
theorias, de projectos, de systemas, de opiniões, de imaginações,--não é
natural que o cerebro da Inglaterra esteja, n'esta questão da Irlanda,
perfeitamente desorganisado. O meu está. Mas n'este cahos mental tenho
illustres companheiros: o grande Carlyle costumava dizer que a
sinceridade e a elevação de alguns patriotas irlandezes era a _unica
coisa nitida e clara_ que elle conseguia distinguir no escuro tumulto da
confusão irlandeza...

Ha tambem outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora
da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietaria, os _land-lords_
indignam-se e reclamam o auxilio da policia ingleza quando os
trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionaria--comer!

Aqui está, por exemplo, Sua Graça o Duque de Leicester, para não citar
outros de nomes menos sonoros: os seus rendimentos na Irlanda sobem a
_quatrocentos contos de reis_--e o infeliz tem ainda uns duzentos contos
mais das suas propriedades na Inglaterra! Este fidalgo, escuso talvez
dizel-o, não soffre frio e não passa fome: por outro lado, a população
de rendeiros que trabalham as suas terras, e que com o seu suor e o seu
esforço lhe arrancam do sólo este rendimento,--a unica cousa que
realmente tem é fome e frio. Mas este anno tiveram mais fome e mais frio
que de costume: e lá foram em farrapos, e com os pés nús sobre a neve,
supplicar a Sua Graça, o Duque de Leicester, que lhes fizesse uma
diminuição de dez por cento nas rendas--exageradas, absurdas e
devoradoras. Sua Graça respondeu (pela bocca dos seus administradores,
naturalmente: por sua propria bocca um Duque inglez nunca falla senão
com outro Duque) respondeu que as suas circumstancias não lhe permittem
essa liberalidade--e que a repetição d'uma tal supplica não podia ser
tolerada.

E os rendeiros de Sua Graça lá voltaram de cabeça baixa, para o frio e
para a fome.

Direi de passagem que se o pedido, em logar de ser feito pelos seus
rendeiros da Irlanda, partisse dos seus rendeiros da Inglaterra, Sua
Graça apressar-se-hia a satisfazel-o rasgadamente. É porque a Irlanda é
um paiz conquistado, e, quando o proletario se queixa, a policia fila-o
pela gola: mas, em Inglaterra, quando o operario inglez ergue a sua voz
de leão, a policia fica immovel, os Duques empallidecem, e o edificio
monarchico e feudal treme nas suas bases.

Mas, a proposito de Sua Graça o Duque de Leicester (gozemos o mais tempo
possivel esta illustre companhia: _quand on prend du Duc on n'en saurait
trop prendre_) deixem-me dizer-lhes em resumo quaes são as relações
agrarias entre um proprietario, um _land-lord_, e os seus rendeiros.


O sólo, é claro, pertence ao lord. Por que titulo não sei; talvez uma de
suas avós, n'uma noite que estava mais decotada, attrahisse o
inconstante olhar do amavel Carlos II, nos saráus galantes da
Restauração: d'esse olhar provém, acaso, esta bella propriedade. O
alegre Stuart era tão generoso! tinha-se vivido tão pobremente, tão
tristemente sob a dictadura puritana do Cromwell!... Depois, se Carlos
II tinha pouco dinheiro, (o desgraçado recebia uma mesada do rei de
França!) não lhe faltavam terras na Irlanda. Trez leguas de pastos, ou
de terreno aravel, por um beijo e os seus acessorios, não é caro para um
Stuart. E para uma fraca dama ou para seu esposo é um famoso negocio.
Note-se, por Deus, note-se que eu estou fazendo estas supposições sobre
um typo de Lord abstracto. Nem toda a minha sympathia pelos
trabalhadores irlandezes me levaria a suspeitar das purissimas senhoras
da Casa de Leicester...

Como proprietario do sólo, pois, o Lorde arrenda-o ás familias que de
geração em geração vivem nas suas terras: o irlandez prende-se ao sólo
como uma arvore pelas raizes, e muitas vezes prefere morrer a abandonar
um torrão arido que o não nutre. A emigração irlandeza para a America
sáe principalmente da população operaria das cidades. Ora, nos
contractos de renda, o homem de trabalho está absolutamente á mercê do
senhor da propriedade.

O valor das rendas é puramente arbitrario. Não ha typo de renda, baseado
sobre a avaliação das terras; existe o que se chama a avaliação de
Griffith, feita ha mais de trinta annos por o agronomo d'esse nome; mas
esta avaliação, equitativa e favoravel ao trabalhador, não é jamais
aceitada pelos proprietarios. N'isto está a origem de todas as miserias
da Irlanda; as rendas, absurdamente elevadas, absorvem todo o producto
da terra, e o rendeiro escassamente póde viver, muito menos economizar.

Além do sólo, o proprietario deve fornecer a habitação e os instrumentos
de trabalho: se na fazenda não existe casa, ou se ella necessita
reparações, o _land-lord_ dará naturalmente alguma madeira, uma
mão-cheia de prégos, um molho de colmo, para que o trabalhador erga a
cabana miseravel, muito inferior, como conforto, aos curraes dos nossos
gados; e a esta generosidade regia o _land-lord_ juntará talvez um velho
arado e um ferro de enxada. Mas estes dons são adiantamentos que elle
sobrecarrega com preços duplos ou triplos do seu valor, e de que se faz
embolsar por prestações trimestraes.

Não é possivel ser mais grandioso ou mais nobre.

Aqui está, pois, o rendeiro de posse de um tecto, de um terreno e de
ferramenta. Parece que só lhe resta começar a cultivar.

Assim seria, se não fosse na Irlanda. Mas a natureza, mãe fecunda e
amante, comporta-se aqui ainda peior que os lords: se a natureza tivesse
assento na camara dos pares de Inglaterra, não seria mais aspera, mais
hostil ao pobre e mais avara de si mesma. A natureza, quando não se
apresenta ao trabalhador irlandez sob o aspecto de sólo pedregoso,
mostra-se sob o aspecto de pantano.

Offerece-lhe de um lado um penedo, do outro um charco.

E diz-lhe com a sua ternura de mãe:

--Escolhe. De qual preferes tirar tu os meios de subsistencia?

O pobre irlandez o que preferiria era ir-se embora: mas como por toda a
parte encontraria um proprietario egual, os mesmos pedregulhos e
identicos lamaçaes--fica. E é então que se apresenta de novo a
generosidade do Lord. Sua Graça está pronta (porque Sua Graça é
compassiva) a escoar o pantano, a desempedrar o sólo, a fazer
melhoramentos na terra. Sua Graça vae mesmo mais longe: Sua Graça (Deus
o recompense!) offerece a semente. E mais ainda: Sua Graça (que as
bençãos do ceu o vistam!) dá os adubos.

E aqui está um rendeiro feliz, que tem a casa, os instrumentos, a
semente, os adubos... Sómente Sua Graça marca os preços que lhe convém
aos melhoramentos feitos, á semente e aos adubos: e no fim do anno a
renda que era originariamente de dez está em vinte e cinco! Como os
terrenos são pobres, os invernos abominaveis, o pobre rendeiro não póde
pagar: dirige-se então ao agiota--ou ao Lord mesmo. E desde esse momento
está n'uma rede de dividas, lettras, colheitas empenhadas, juros
accumulados, protestos, o demonio--de que jámais se poderá desenredar. O
resultado é previsto: o Lord (pelo seu agente) penhora-o, apossa-se do
grão que está nos celleiros, do gado que está nos curraes, do pequeno
bragal que está na arca, das arrecadas da mulher, das enxergas--e
expulsa-o da casa e da propriedade--da casa que elle talvez construiu,
da propriedade que elle com o seu trabalho melhorou! Tal qual como na
meia edade.

Estas expulsões, que se chamam _evictions_, são o terror irlandez. Que
ha-de fazer um miseravel com mulher, creanças, ás vezes uma avó
entrévada, que se vê d'uma hora para a outra no meio de uma estrada, por
um terrivel inverno, sem um farrapo para se cobrir, sem uma codea de
pão, sem casa, sem destino e sem esperança? E note-se que isto passa-se
em regiões como as da Irlanda, pouco habitadas, com um casal de legua em
legua.

Esta falta de vizinhos torna estas expulsões mais terriveis. Quantas
milhas a caminhar sob a chuva ou sob a neve, com as creanças chorando de
fome, os doentes levados n'uma padiola, até que se encontre algum
rendeiro mais feliz que ainda tem um canto de cabana onde azyle a
familia errante! Mas por pouco tempo--porque todos são pobres, todos
estão endividados, todos ameaçados da expulsão...

E durante esse tempo Sua Graça banqueteia-se, bebe _Chateaux Margaux_ de
6$000 reis a garrafa, caça, etc.--e aluga a fazenda, d'onde expulsou o
miseravel n.º 1, ao rendeiro n.º 2. Sómente o n.º 2, como a encontra
melhorada pelo antecedente, paga-a mais cara: e depois de explorado,
sugado, expremido, durante dois ou trez annos, é expulso--para dar logar
ao n.º 3. Este infeliz passa pelo mesmo processo de trituração, _et sic
per omnia_...

E as expulsões são inevitaveis, porque, com a altura absurda das rendas,
é impossivel que o rendeiro as possa pagar--e viver.


Isto, como comprehendem, é apenas um vago contorno da realidade,
apontada nas suas feições essenciais.

Descendo-se a detalhes--vê-se então uma horrorosa tréva de injustiça e
miseria.

Mas como pódem taes cousas passar-se no seculo XIX, e ao lado do povo
inglez?

Como permitte uma nação tão justa a existencia de tanto
oprobio?--dir-me-hão.

Justamente essa pergunta a fazia Victor Hugo ha dias a Parnell, o chefe
da _Liga Agraria_, na sua celebre entrevista. E eu responderei com as
palavras de Parnell.

Taes cousas passam-se no seculo XIX. E o povo inglez não as sabia: pelo
menos eram-lhe contadas de tal modo que, em logar de piedade, só sentia
colera.

E isto é exacto. Os males da Irlanda eram conhecidos pela voz dos seus
agitadores. Mas estes homens, desde O'Connell cometteram sempre o erro
de misturar as queixas d'um proletariado opprimido ás aspirações
d'independencia nacional: de sorte que a Inglaterra não attendia á
reclamação dos trabalhadores pela irritação que lhe causavam as
exigencias dos patriotas. O povo inglez não póde ouvir fallar em que a
Irlanda se separe, e se constitua em republica: mas está prompto a
ordenar que se lhe dê um justo regimen de propriedade.

O erro dos Fenians foi confundir a questão nacional com a questão
agraria: o rendeiro miseravel apparecia então aos inglezes com o aspecto
de um rebelde á União; e envolvendo-os ambos no mesmo odio, porque lhes
suppunha identicas ambições, suffocou sem discernimento, a voz que só
pedia pão e a voz que reclamava autonomia.

E todavia o povo inglez sentiu sempre instinctivamente que a Irlanda
soffria. Muitas vezes pediu para ella uma reforma das leis agrarias.
Era, porém, um pedir vago, sem cohesão: mais a expressão de
sensibilidades feridas do que a intimação da vontade nacional.

De sorte que os parlamentos, sahidos das classes que têm interesse em
manter a Irlanda na miseria, contentavam-se em fazer reformas de
detalhes, reformas insignificantes e imperceptiveis, para dar uma
satisfação á compaixão ingleza: e o regimen antigo ficava inatacado como
d'antes. Mas isto bastava para que alguns humanitarios dissessem com um
suspiro de allivio: «Emfim lá se fez alguma coisa pela Irlanda!» De
facto não se tinha feito nada.

Era, pois, necessario que a questão da propriedade fôsse separada da
questão da independencia: que se fizesse um movimento legal dentro da
constituição, com o fim exclusivo de terminar os abusos dos
_land-lords_, calando toda a ideia de arrancar a Irlanda ao Reino Unido.
Então haveria a certeza de que o povo inglez, vendo a questão agraria e
os seus horrores, isoladamente, no seu relevo proprio, desembaraçada das
declamações rebeldes e das agitações separatistas--determinasse dar a
tantos males, e tão antigos, um remedio radical. Foi isto que tentou a
_Liga Agraria_.

Esta carta é longa: e apresentando esta formidavel entidade--a _Liga
Agraria_, eu devo fazer como o illustre Ponson du Terrail, quando
introduzia um novo personagem, o heroe providencial, n'um fim de
folhetim: deixar a historia das suas façanhas, das suas virtudes e da
sua belleza, com o interesse suspenso, até ao folhetim seguinte. Não se
esqueçam que ficamos no momento em que, n'este palco da Historia
Irlandesa subitamente apparece ao fundo, misteriosa e grave, a _Liga
Agraria_.



VIII

Lord Beaconsfield


I

Recomeçando hoje estas CARTAS DE INGLATERRA--que eu não podia escrever
de Lisboa, onde estive alguns mezes gozando os ocios de Tityro, _sub
tegmine fagi_, á sombra d'essa faia constitucional que se chama o
Gremio--devo memorar, ainda que tarde, a morte de Benjamin Disraeli,
Lord Beaconsfield, ocorrida no dia 19 de maio, pela madrugada, em
Londres, na sua casa de Curzon Street. A doença de Lord Beaconsfield,
uma complicação de gotta, asthma e bronchite, arrastou-se cruel e longa;
o mal porém foi debelado e Lord Beaconsfield succumbiu realmente á
fraqueza, á fadiga dos setenta e sete annos e uma existencia tão
episodica, tão cheia, tão emotiva, que ella ficará como o seu melhor
romance, bem superior em estylo e interesse a _Tancredo_ ou a _Endymion_.

Desde o primeiro dia, Lord Beaconsfield perdeu logo a esperança de se
restabelecer; mas passou a encarar a morte como encarára sempre as suas
derrotas politicas: com uma coragem desdenhosa e fria e um ar de facil
superioridade. Durante a doença, aos accessos agudos da dôr, respondia
elle com esses sarcasmos mordentes e rebrilhantes, que tinham sido
sempre a sua desforra querida perante um adversario mais forte.

No dia 18, á noite, cahiu pouco a pouco n'uma somnolencia comatosa, e
assim permaneceu até ao romper da manhã; momentos antes de morrer,
agitou-se, ergueu-se, ainda dilatou o peito, lançou os braços ao
ar--como costumava fazer nos grandes debates da camara; depois recahiu
sobre o travesseiro, estendeu as mãos a Lord Rowton e Lord Barrigton,
seus secretarios, e murmurou debilmente: _Estou vencido!_--E ficou como
adormecido para sempre. E, considerando que, n'esse momento, toda a
Inglaterra, o mundo inteiro, esperavam anciosamente noticias d'aquelle
quarto de Curzon Street, onde expirava o homem que sessenta annos antes
era um pobre escrevente de cartorio--póde-se dizer que n'esta carreira
tão feliz a morte mesma foi feliz.

O seu proprio funeral teria agradado á sua imaginação--a certos lados
delicados da sua imaginação de artista. O testamento que deixou não
permitiu que se celebrassem funeraes publicos na Abbadia de
Westminster--disposição estranhavel n'um homem que mais que tudo amou a
pompa e os grandiosos ceremoniaes; mas não teve tambem o lugubre
scenario da morte, os crepes, as plumas negras, as tochas, os fumos, as
caveiras bordadas--tudo isso que deveria ser tão antiphatico ao seu
luminoso espirito. Foi sepultado no seu querido Castello d'Hughenden, no
meio das arvores do seu parque, por uma fresca manhã de maio, na capella
toda ornada de flôres como para uma alegria nupcial; o caminho que lá
levava ia por entre jasmineiros e rosaes; em vez do dobre dos sinos de
Westminster teve o gorgeiar das suas aves; e o caixão, seguido pelos
principes de Inglaterra, por todos os embaixadores, pela aristocracia
que ella governára--desapparecia sob corôas, ramos e molhos de
_primroses_, que a rainha Victoria mandára, com estas palavras escriptas
pela sua mão: «As flôres que elle amava.»

Depois, ao outro dia, em todas as cathedraes da Inglaterra, em cada
capella rustica, o clero fez do pulpito o elogio de Lord Beaconsfield;
nas universidades, nos institutos, nas academias, os professores
commemoraram aquella carreira soberba; pelas platafórmas dos _meetings_,
nas assembléas commerciais, em qualquer parte onde se juntam homens,
alguma voz se ergueu a honrar os seus serviços e o seu genio; Lord
Granville, na camara dos lords, na camara dos communs Gladstone,
fizeram, em sessão solemne, o seu panegyrico publico; e durante dias,
toda a imprensa ingleza, a imprensa de todo o mundo civilisado (excepto
a de Portugal, infelizmente) vieram cheias do seu nome, da commemoração
dos seus livros, da sua pittoresca historia.

E assim Lord Beaconsfield desappareceu--como fôra o desejo de toda a sua
vida--n'um rumor de apotheose.


E todavia nada parece mais injustificado que uma tal apotheose. Lord
Beaconsfield, por fim, foi um homem de estado que fez romances. Ora os
seus romances, como obras d'arte, já começam a apparecer, a esta geração
de sciencia e d'analyse, tão falsos, tão ficticios como as novellas
lyrico-religiosas do visconde d'Arlincourt; e como homem d'estado o nome
de Lord Beaconsfield não fica decerto ligado a nenhum grande progresso
na sociedade ingleza. Crear o titulo de Imperatriz das Indias para a
rainha de Inglaterra, roubar Chypre, restaurar certas prerogativas da
corôa, tramar o _fiasco_ do Afghanistan, não constituem de certos
titulos para a sua glorificação como reformador social: por outro lado,
escrever _Tancredo_ ou _Endymion_, não basta para marcar n'uma
litteratura, que teve contemporaneamente Dickens, Tackeray e Georges Eliot.

Como succede, depois d'isto, que a Inglaterra, paiz tão pratico, tão bem
equilibrado, se deixe levar em um tal arranque de admiração pelo homem
que foi a personificação, a encarnação de tudo quanto é contrario ao
temperamento, ás maneiras, ao gosto inglez? É que Lord Beaconsfield,
mais que nenhum outro contemporaneo, impressionou a imaginação
ingleza--e na fria Inglaterra, como sob céos mais calidos, são grandes
as influencias da imaginação.

Podia-se ás vezes sorrir das suas phantasticas obras d'arte, protestar
contra as suas theatraes combinações politicas, mas atravéz de protestos
e sorrisos a sua propria personalidade nunca deixou de maravilhar e de
fascinar. Qualquer inglez, medianamente educado, a quem se pergunte a
sua opinião sobre Lord Beaconsfield dirá: _Foi um homem extraordinario!_

Extraordinario--é como elle se nos representa, agora que se vê o
conjunto da sua existencia, que não parece ter sido um producto natural
dos factos ou das occasiões, mas uma creação subjectiva da sua propria
vontade, e como um enredo de romance talhado pela sua penna. Senão
veja-se. Tendo nascido judeu--tornou-se o chefe de uma aristocracia
saxonia e normanda, a mais orgulhosa da terra; começando em um obscuro
circulo litterario e vegetando algum tempo em um cartorio de
Londres--veiu a ser o mais famoso primeiro ministro de um grande
imperio; não possuindo senão dividas--bem cedo se tornou o inspirador
das grandes fortunas territoriais; homem de imaginação, de poesia, de
phantasia, foi o idolo das classes médias de Inglaterra, as mais
praticas e utilitarias que jamais dirigiram uma nação commercial; sem
religião e sem moral, governou um protestantismo que não concebe ordem
social possivel fóra da sua estreita religião e da sua estreita moral;
confessando o seu desprezo pela omnipotencia da sciencia moderna--foi o
grande homem de uma sociedade que quer dar a todo o progresso uma base
puramente scientifica: emfim, sendo o _menos inglez possivel_, tendo um
modo de ser e de sentir quasi estrangeiros, dirigiu annos e annos a
Inglaterra, o paiz mais hostil ao espirito estrangeiro, e que conhecia
bem que não era comprehendida pelo homem que a governava. Tudo isto
parece paradoxal--e a existencia de Lord Beaconsfield foi com effeito um
perpetuo paradoxo em acção. Para realizar tudo isto era necessario que o
seu genio, por um lado, por outro a sua habilidade, fossem grandes. E
realmente em dons pessoais nada lhe faltou: prodigiosa finura de
espirito, uma vontade de aço, uma coragem serena de heroe, uma infinita
veia sarcastica, um fogo ruidoso de eloquencia, o absoluto conhecimento
dos homens, a luminosa penetração no fundo dos caracteres e dos
temperamentos, um poder subtil de persuasão, um irresistivel encanto
pessoal,--e tudo isto envolvido (como n'uma athmosfera luminosa) por
alguma coisa de brilhante, de rico, de largo, de imprevisto, que era ou
fazia o effeito de ser o _seu genio_.


Eu por mim começo por admirar a sua propria apparencia. Diz-se que fôra
formoso como um Apollo--e que isto concorrera muito para os seus
primeiros triumphos: agora, já tão velho, era apenas pittoresco.

A sua grande testa sobre a qual cahiam aquelles dous extraordinarios
caracóes parallelos, o seu olhar recolhido e como concentrado em
pensamentos muito fundos, o nariz de pura raça israelita, a bocca
descahida na sua eterna curva sarcastica, o beiço inferior muito recurvo
e muito pendente, e a sua estranha pera de Mephistopheles--constituiam
uma d'estas physionomias que se sente que vão ficar na galeria da
historia e que servirão a futuros historiadores para explicar um destino
e um genio. Em novo, e quando as modas romanticas o permittiam,
vestia-se de setim e velludo, recobria-se d'um luxo de medalhões e
joias, as suas proprias calças tinham bordados d'ouro. Agora era mais
sobrio de _toilette_: usava apenas esses casacos compridos como tunicas,
a que os homens de origem judaica são particularmente affeiçoados, e o
seu unico adorno eram os bellos ramos que lhe enchiam o peito. Um
jornalista francez, n'um dia de crise politica em que Lord Beaconsfield
devia fazer um discurso decisivo, encontrou-o momentos antes, n'um dos
salões da camara, occupado a encher d'agua o tubosinho de crystal que
por traz da botoeira da casaca conservava frescas as suas rosas. Todo o
homem está n'este traço.

De raça oriental, teve sempre o amor do fausto, das pedrarias, dos ricos
tecidos, da pompa; os seus romances transbordam de descripções de
palacios, de festas perante as quaes as mais ricas galas de Salomão são
como desbotados scenarios de theatro de feira; o seu estylo resente-se
d'este gosto: é um sumptuoso estofo, com recamos de ouro, cravejado de
joias, scintillante e espesso, cahindo em belas pregas ao comprido da
idéa. O dinheiro, o ouro, preoccuparam-n'o sempre, menos pela sua
influencia social, que pelo mero esplendor da sua amontoação. Os seus
heroes possuem fortunas tão prodigiosas que seriam impossiveis nas
condições economicas do mundo moderno; Lothario, o famoso Lothario,
querendo dar um presente de annos a uma senhora catholica, offerece-lhe
uma cathedral toda de marmore branco, que elle mandou construir e que
dedicou á santa do nome d'ella; o seu custo excederia decerto dois mil
contos fortes. Confessemos que é _chic_. Pois bem; presentes d'estes
dava-os Lothario todos os dias. O banqueiro Sidonia, uma das mais
curiosas creações de Lord Beaconsfield, dando ao seu amigo Tancredo uma
carta de credito para os banqueiros da Syria, redige-a d'este modo:
«Pague á vista ao portador tanto ouro quanto seria necessario para
reconstruir os quatro leões de ouro massiço que ornavam a porta direita
do templo de Salomão.» Tambem muito _chic_.

Estou certo que um dos grandes prazeres de Lord Beaconsfield era poder
manejar os milhões de Inglaterra. Todos os seus ministerios custaram
caudalosos rios de dinheiro; gastava o ouro como a agua,--e dava-se ao
luxo de realisar por si, e á custa do seu paiz, as larguezas epicas do
seu banqueiro Sidonia. Mesmo quando estava no poder, estava ainda no
romance.


As linhas da sua biographia são conhecidas. Seu pae era um d'estes
litteratos mediocres e trabalhadores que vão desenterrando e
colleccionando atravéz de _in-folios_ e bibliothecas casos curiosos e
archaicos de historia e de litteratura.

Benjamin Disraeli nasceu por isso entre os livros--litteralmente entre
os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli offerecia o espaço de
uma boceta, e no quarto da creança, entre a accumulação vetusta dos
calhamaços, havia apenas espaço para uma cadeira e para um berço. O
velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu
filho rompeu com a synagoga, e todos os Disraeli se fizeram christãos.
Benjamin tinha então dezessete annos, e o seu padrinho na pia baptismal
foi um certo Samuel Rogers, notavel por ser ao mesmo tempo um dos mais
ricos banqueiros da _City_ e um dos poetas mais elegiacos do seu
tempo--e notavel ainda por não ficar na historia, nem como banqueiro,
nem como poeta, mas como um requintado _gourmet_, o grande Lucullus de
Londres, que deu os mais celebres, os mais finos jantares da Europa.

Assim marcado com o rotulo christão, Benjamin Disraeli largou a caminhar
pela vida fóra, mas foi encalhar bem depressa n'um cartorio de
tabellião--onde se diz que, durante dous annos, este moço orgulhoso, que
já então se considerava um semi-deus, redigiu procurações e testamentos.
Com a mesma penna, porém, ia escrevendo _Vivian Grey_: e da tempestuosa
sensação que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, á
parte algumas fugitivas scintillações de um genio ainda desequilibrado,
é no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os
gostos escandalosos e intrigantes da sociedade d'então, pondo em scena
todas as individualidades marcantes de Londres, politicos, _dandies_,
rainhas da moda, poetas, especuladores.

O melhor resultado de _Vivian Grey_, foi tornar Disraeli Junior (como
elle então se assignava) o favorito de Lady Blenington e do conde
d'Orsay, as duas dominantes figuras de Londres d'essa época, e que
tinham _de sociedade_ o mais selecto, mais intelligente, mais apetecido
salão de Inglaterra.

Estes dous formavam um typo destinado a reinar. Lady Blenington era uma
mulher de graciosa e olympica belleza, de uma extrema audacia de
caracter e de alta energia intellectual. O conde d'Orsay, esse era o
homem que durante vinte annos governou a moda, o gosto, as maneiras, com
a mesma indisputada auctoridade com que hoje o principe de Bismarck
arbitra na Europa.

Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido
aprovados pelo conde d'Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nação
que hoje, sem auctorização secreta do principe de Bismarck, organisasse
uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas
embaraçadoras, tinha uma filha: e o bello d'Orsay, não sei porque, nem
elle o soube jámais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com
Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua
resplandecente mãe, a pobre condessa d'Orsay foi como uma pallida
lampada bruxoleando entre dous astros. Fez então uma cousa sensata e
espirituosa: apagou-se de todo, desappareceu. E o conde d'Orsay e Lady
Blenington, livres d'aquella senhora que entristecia, regelava as salas
com o seu ar honesto e frio, começaram então a scintillar
tranquillamente, como constellações conjunctas no firmamento social de
Londres. E Londres curvou-se deante d'esta nova e original situação
domestica, como se curvava deante de uma nova sobrecasaca do conde
d'Orsay, ou deante de uma decisão litteraria de Lady Blenington.

Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heroes d'este
salão--onde desde logo se mostrára com esse ar de tranquilla
superioridade, de correcto desdem, que foi um dos segredos da sua força.
Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao marmore da chaminé,
n'uma pose d'Apollo melancholico, abandonando-se á caricia ambiente dos
olhares das damas que viam n'elle a encarnação radiante do poetico
Vivian Grey. As pessoas mais intimas, começando por Lady Blenington, já
lhe chamavam sempre _Vivian, querido Vivian_. O conde d'Orsay fizera-lhe
o retrato a sepia--honra que elle dava raramente, e a mais appetecida
n'esse curioso mundo.

Todos estes triumphos de Disraeli Junior não deixavam de surprehender
Disraeli Senior. Um dia, dizendo-lhe alguem que seu filho estava
compondo um romance, em que entravam duques, e toda a sorte de grandes,
o velho e laborioso litterato exclamou:--Duques, senhores! Mas meu filho
nunca viu um sequer!

Viu muitos depois, viu-os todos--e governou-os com uma vara de ferro.
Mas n'esse tempo o bello Disraeli Junior era ainda radical, ou tomára ao
menos essa attitude. Meditava mesmo a sua _Epopêa da Revolução_, a sua
unica obra em verso, uma vaga rhapsodia que eu nunca li, mas de que os
criticos mais benevolos fallam como d'um volume de duzentas paginas, sem
uma só linha toleravel. E, cousa curiosa, este homem tão fino, tão
sceptico, tão experiente, nunca perdeu a candura quasi comica de se
considerar um grande poeta como Virgilio ou como Dante, e a esperança
phantastica de que as gerações futuras poriam a _Epopêa da Revolução_ ao
par da _Eneida_, ou da _Divina Comedia_.

Apesar de poeta abominavel e de perfeito dandy--ou talvez por isso
mesmo--Benjamin Disraeli era reconhecido n'esse tempo como um dos chefes
do movimento da _Joven Inglaterra_.

A _Joven Inglaterra_ consistia n'um grupo de rapazes, ardentes e
aristocratas, que se tinham embebido da Revolução atravéz da
litteratura; fallavam muito da Humanidade e queriam sobretudo um _burgo
pôdre_ que os nomeasse deputados; cultivavam pelos salões o amor
platonico, quereriam vêr o povo feliz comtanto que estivessem elles no
poder para promover essas felicidades, e (traço decisivo das suas
maneiras e da sua _pose_) quando se escreviam uns aos outros tratavam-se
por _my darling--meu amor_!

Tinham ainda outros distintivos: usavam o cabello á _nazarena_,
mostravam a coragem (enorme n'esse tempo) de admirar o odiado Byron, e
procuravam elevar e aperfeiçoar a arte da cozinha em Inglaterra!

No emtanto, Benjamin Disraeli já estava bem decidido a sacudir o seu
radicalismo--quando fosse necessario aos interesses da sua careira. E
essa carreira via-a elle então, apesar de desconhecido e pobre, tão
claramente triumphante no futuro como se a tivesse deante dos seus olhos
escripta, parte por parte, n'um programma.

Em pleno reinado dos _tories_, é caracteristica já a sua resposta a Lord
Melbourne, primeiro-ministro então, que lhe perguntava o que elle
tencionava fazer.

--Ser eu o primeiro-ministro d'aqui a pouco--respondeu o dandy com as
suas grandes maneiras á Vivian Grey.

Lord Melbourne viu n'esta resposta uma odiosa e insolente jactancia. E
assim parecia, quando, tempo depois, Disraeli, já deputado por Wycombe,
fez o seu primeiro discurso--e o viu suffocado pelas gargalhadas e pelos
apupos. Como não podia dominar o tumulto, calou-se, dizendo apenas estas
palavras mais:

--Hoje não me quisestes ouvir. Um dia virá em que eu me farei escutar!

E um dia veio em que não só a camara dos communs, mas a Inglaterra, todo
o continente, a terra civilizada escutavam com anciedade as palavras que
iam cahir dos seus labios, e que traziam comsigo a paz ou a guerra na
Europa.


II

A reputação de salão que gozava Lord Beaconsfield, levou algum tempo a
transformar-se em popularidade; mas a sua popularidade, apenas obtida,
penetrou rapidamente a enorme massa trabalhadora, e tornou-se em poucos
annos essa vasta e ressoante nomeada, que fez o seu nome familiar, quasi
domestico, em toda a parte onde se falla inglez, na mais rude aldeia de
pescadores de Cornwall, no _bush_ d'Australia, entre os mesmos
montanhezes barbaros das _Highlands_, e que, quando elle se dirigia ao
congresso de Berlim, attrahia ás estações do caminho de ferro as
populações da Allemanha a contemplarem o _grande inglez_. E este
reconhecimento de gloria constitue um dos phenomenos mais curiosos da
carreira de Lord Beaconsfield; porque, em geral, não se avalia bem a
difficuldade portentosa de obter uma fama, mesmo mediocre.

Não ha nada tão illusorio como a extensão de uma celebridade; parece ás
vezes que uma reputação chega até aos confins de um reino--quando na
realidade ella escassamente passa das ultimas casas de um bairro.

No momento de sua prodigiosa voga, o velho Alexandre Dumas ficou
assombrado de que o magistrado de uma villa visinha de Paris, homem
illustrado, de resto, não soubesse com que letras se escrevia esse
glorioso nome de Dumas!

E se nós pudessemos reduzir a numeros as proporções das glorias
contemporaneas, ficariamos aterrados perante a grotesca mesquinhez dos
resultados. Nós outros jornalistas, criticos, artistas, homens de estudo
e de curiosidade litteraria, julgamos quasi impossivel que haja alguem
na Europa que não tenha lido Victor Hugo, ou que, pelo menos, não
conheça esse nome de syllabas faceis, que ha meio seculo fere, a grande
estrondo, o ouvido humano; pois bem, póde-se dizer que fóra de França
apenas cinco mil pessoas talvez terão lido Victor Hugo--e que não
passará decerto de dez mil o numero de creaturas que lhe saibam o nome,
incluindo mesmo a vasta massa democratica de que elle é o epico
official. E já isto constitue um famoso progresso--desde o tempo em que
Voltaire ambicionava ter _cem leitores_!

A conhecida alegoria da fama, cantando o nome d'um varão com as suas cem
bocas, applicadas ás suas cem tubas, e voando de um a outro confim do
universo--é uma das imagens mais descaradamente falsas que nos legou a
Antiguidade. Esse estrondear das cem tubas morre como um suspiro dentro
da área humilde d'um corrilho ou d'uma _coterie_: e nada viaja com uma
lentidão egual á da Fama. Um fardo de fazendas gasta quatro dias a vir
de Londres a Lisboa--e os nomes de Tennyson, Browning, Swinburne, os
tres grandes poetas da Inglaterra, e que ha quarenta annos são a sua
mais pura gloria, ainda cá não chegaram. É verdade que todo o mundo
necessita flanellas--e nem todo o mundo supporta poesia.

Mas uma celebridade não encontra só difficuldades em transpôr a
fronteira--acha-as sobretudo e quasi insuperaveis em fixar a atenção da
grande turba dos seus concidadãos. Principalmente n'um paiz como a
Inglaterra, em que a aspera lucta pela existencia, a soffrega
preoccupação do pão diario, o feroz conflicto da concorrencia, não
permitem esses pachorrentos vagares, os vagares portuguezes ou
hespanhóes, em que se está de barriga ao sol, prompto a olhar, a admirar
o menor foguete que estala nos ares.

Em Inglaterra, o duque de Wellington era de certo popular--porque ganhou
a batalha de Waterloo, e portanto, segundo a crença contemporanea,
salvára a Inglaterra da invasão. Gladstone é conhecido em cem cidades e
mil aldeias, porque alliviou a nação dos seus grandes impostos. Mas
estes fórmam as excepções; as outras celebridades inglesas, ou sejam
politicos como Lord Salisbury, ou philosophos como Spencer, ou poetas
como Browning, ou artistas como Herkomer--permanecem profundamente
ignorados da grande massa do publico. São reputações de salão, de
academia, de club, de redacção de jornal.

Ora, Lord Beaconsfield realmente nunca fez coisa alguma para se tornar
popular e sempre lembrado; nunca ligou o seu nome a uma grande
instituição, a um grande beneficio publico, a uma campanha victoriosa.
Tudo, ao contrario, n'esta original personalidade parecia destinal-o á
impopularidade: a sua origem, os seus gestos e habitos anti-inglezes, a
sua poderosa veia sarcastica, a sua oratoria requintada e subtil, o
gongorismo metaphysico das suas concepções litterarias, e certos lados
muito accentuados do seu fundo semitico. E a isto accrescia que, para a
grande maioria da nação, elle representava um _parvenu_ de auctoridade
oligarchica, surdamente hostil á ideia de democracia e de soberania
popular.

A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a
primeira é a sua idéa (que inspirou toda a sua politica), de que a
Inglaterra deveria ser a potencia dominante do mundo, uma especie de
Imperio Romano, alargando constantemente as suas colonias, apossando-se
dos continentes barbaros e _britannizando-os_, reinando em todos os
mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo,
impondo as suas instituições, a sua lingua, as suas maneiras, a sua
arte, tendo por sonho um orbe terraqueo que fôsse todo elle um imperio
Britannico, rolando em rythmo atravez dos espaços.

Este ideal, que tomou o nome de _imperialismo_ nos dias de gloria de
Lord Beaconsfield, é uma idéa querida a todo o inglez; os mesmos jornaes
liberais que com tanto furor denunciavam os perigos d'esta politica
romana, no fundo gozavam uma immensa satisfação de orgulho em
proclamarem a sua inconveniencia. Havia tanta prosapia britannica em
conceber um tal Imperio, como em o condemnar, e em dizer, com um ar de
nobre renunciamento: «Não nos convém a responsabilidade de governar o
mundo!»

Lord Beaconsfield, sendo a encarnação official d'esta idéa imperial,
tornou-se naturalmente tão popular como ella. Foi considerado então como
o instrumento da grandeza exterior da Inglaterra, como o homem que a
fazia dominante e temida, que mantinha alta e reluzindo terrivelmente
aos olhos do mundo a espada de John Bull. Gladstone, Bright, a grande
escola liberal, conhecida pela _escola de Manchester_, era agora
accusada de ter, com a sua politica de abstenção só occupada de
melhoramentos materiaes, de finanças, de civilização interna--deixado
definhar, morrer o prestigio inglez na Europa.

E ai vinha agora aquele extraordinario judeu, apoiado na riqueza, na
prosperidade interior que lhe tinham legado os liberaes, collocar de
novo a Inglaterra á frente das nações, fazendo ressoar ao longe e ao
largo a sua voz de leão...

Todo o paiz andou durante annos inchado com esta grandiosa filaucia, que
Lord Beaconsfield ia sempre entretendo com os seus discursos bellicosos,
as ameaças theatraes, as concentrações de frotas, um constante movimento
de regimentos, invasões aqui e além, a occupação de Chypre, a quasi
absorpção da propriedade do isthmo de Suez, sempre algum lance brilhante
em que a Inglaterra apparecia entre os fogos de Bengala da sua
eloquencia, como a senhora do mundo. E John Bull adorava isto, apesar de
vêr que a espada da Inglaterra, depois de flammejar um momento nos ares,
era invariavelmente recolhida á bainha; apesar de comprehender que o
dinheiro se gastava como a agua das fontes; apesar de sentir que os
impostos cresciam; apesar de perceber que a Inglaterra estava tomando
sobre os hombros responsabilidades desproporcionadas com a sua força.

Depois, um dia, o grande senso pratico da Inglaterra viu claramente a
necessidade de brilhar menos aos olhos do mundo--e de se occupar da
machina interior, que começava a desarranjar-se: pôz fóra o grandioso
Beaconsfield, e chamou o pratico Gladstone--o homem que reconstitue as
finanças, que allivia os impostos, que faz as grandes reformas
interiores... Mas, apesar de tudo, Beaconsfield ficou como o typo do
estadista que mais que nenhum outro amou e desejou a grandeza imperial
da patria.

A esta causa de popularidade deve juntar-se outra--a _reclame_. Nunca um
estadista teve uma _reclame_ igual, tão continua, em tão vastas
proporções, tão habil. Os maiores jornaes de Inglaterra, da Allemanha,
da Austria, mesmo da França, estão (ninguem o ignora) nas mãos dos
israelitas. Ora o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord
Beaconsfield como um judeu--apesar das gotas d'agua christã que lhe
tinham molhado a cabeça. Este incidente insignificante nunca impediu
Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impôr pela sua
personalidade a superioridade da raça judaica,--e por outro lado nunca
obstou a que o judaismo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo
apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo, é o
dinheiro judeu que lhe paga as suas dividas; depois é a influencia
judaica que lhe dá a sua primeira cadeira no parlamento; é a ascendencia
judaica que consagra o exito do seu primeiro ministerio; é emfim a
imprensa nas mãos dos judeus, é o telegrafo nas mãos dos judeus, que
constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador,
como escriptor, como heroe, como genio!


Como romancista, Lord Beaconsfield nunca escreveu propriamente um
romance tal como nós modernamente o comprehendemos. Alguns dos seus
romances são pamphletos em que os personagens constituem argumentos
vivos, triumphando ou succumbindo, não segundo a logica dos
temperamentos e as influencias do meio, mas segundo as necessidades da
controversia ou da these. Outros fórmam verdadeiras allegorias como as
tem a pintura decorativa nas muralhas dos monumentos publicos. N'um dos
mais celebres, _Lothair_, ha um mancebo ideal, encarnação do espirito
inglez, que ama successivamente tres mulheres: uma italiana casada com
um americano, bella creatura de perfil classico e fórmas de Deusa, que
representa a Democracia; uma ardente rapariga de cabellos negros e
revoltos, sempre em extasi, que é a personificação da Egreja Catholica;
e emfim uma doce e loura donzella, séria, grave e terna, que symboliza o
Protestantismo. Depois d'hesitar entre estas tres paixões--decide-se,
como um bom inglez, por casar com o Protestantismo, quero dizer, com a
loura, conservando um culto vago e secreto pela Democracia, quero dizer,
pela soberba americana de perfil marmoreo. Moral: a felicidade d'um povo
está na posse d'uma forte moral christã, alliada a um uso moderado da
liberdade. Isto dava um excelente e apparatoso _fresco_ na sala d'um
parlamento. E Lord Beaconsfield accentua os detalhes allegoricos com uma
tal ingenuidade, que faz por vezes sorrir; assim, por exemplo, a
americana, isto é, a Democracia, apparece sempre em _soirées_ e festas
vestida á grega, com uma estrella de brilhantes na fronte, como a cabeça
da _republica_ nas moedas francezas de cinco francos!

O meio, em que os seus romances se passam, tem quasi sempre um ar
feerico: tudo são, como disse ha pouco, palacios d'um fabuloso e sombrio
luxo, festas como as não tiveram os Medicis, fortunas de banqueiros, de
duques, perante as quaes os Cresus, os Monte-Christos, os Rothchilds,
todos os ricaços da lenda ou da realidade apparecem como despreziveis
pelintras.

A linguagem d'estes personagens corresponde ao esplendor das suas
moradas e ao nebuloso dos seus destinos. _Misses_ de dezoito annos,
habitando prosaicamente Belgrave Square, fallam aos seus namorados com a
pompa allegorica do _Cantico dos Canticos_; e quando (o que é frequente)
dois brilhantes espiritos como Sidonia ou Mrs. Coningsby conversam,
veem-se, cruzando rapidamente d'um a outro labio, as imagens rutilantes,
os luminosos conceitos, como se as duas creaturas se estivessem
recitando um ao outro numeros do _Intermezzo_ ou sonetos de Petrarcha.

Esta linguagem, de resto, convem ás idéas, aos sentimentos, ás aventuras
que elle atribue aos seus typos principaes; tudo o que é humano e real
fica absolutamente de fóra d'essas transcendentes creações: fallando
como poetas, comportam-se naturalmente como chimeras.

O seu mais famoso heroe, Tancredo, vae a Jerusalém e á Syria com este
fim: _penetrar o mysterio asiatico_. Não percebem? É facil. Sendo
Jerusalém e as planicies da Syria o unico ponto do Universo em que Deus,
em tempos, conversou com o homem, em que appareceram os prophetas e os
Messias, em que das sarças, do murmurio dos rios e do echo dos desertos
surgiram as Leis Novas, dando á humanidade destinos novos--o moço
Tancredo parte, para que lá, n'esses logares, Deus lhe falle, um raio de
luz o divinize, uma religião lhe seja revelada, e tendo partido de
Londres como simples lord, possa regressar a Regent Street, como Messias
e regenerador de sociedades!

E (perguntar-me-hão) o que succede a Tancredo na Syria? O que succede a
todos os personagens de Lord Beaconsfield, que nas primeiras paginas
partem para sobrehumanos destinos, como os antigos cavalleiros da Tavola
Redonda: succede-lhe que casa com uma linda e honesta menina, e que tem
muitos filhos no meio de muita felicidade...

E o _mysterio asiatico_? Parece que o não achou. Mas descobriu coisas
curiosas e de rara fabula: por exemplo, um povo pagão, onde reina uma
bella sacerdotisa de Apollo, que celebra ainda hoje nobres cultos
hellenicos, e que se namora de Tancredo. Mas Tancredo, cavalleiro
christão, depois de a defender da invasão d'um outro povo, que adora
idolos infames, foge, foge á desfilada, deixando a classica rainha a
gemer de amor aos pés da estatua d'Astarte. Depois elle mesmo está para
ser rei do Libano. Emfim, uma grandiosa e rutilante salsada. E tudo isto
se passa ahi por 1855, no tempo da Exposição de Paris.

Mas que prodigioso talento, que arte, que amplidão d'imaginação para pôr
de pé, em todo o seu brilho, este desordenado monumento d'Idealismo!


Com effeito, que artista fino e por vezes poderoso!

Apesar d'este abuso do gongorismo na ficção, do vago e ao mesmo tempo do
amaneirado das suas concepções, d'estes enredos e d'estes personagens
que por vezes parecem uma mystificação--os seus romances nunca deixam
d'interessar, direi mesmo, nunca deixam de captivar. Atravessa-os sempre
um enthusiasmo sincero--em que se sente o amor poetico com que elle
segue os seus generosos heroes, as suas bellas mulheres, n'esses
destinos fóra da realidade. Depois a sua fina sensibilidade, o seu
idealismo um pouco convencional, mas de grande _elan_, os requintes d'um
gosto supremo--levam-no a dotar os seus personagens, e a acção em que
elles se movem, de uma tal belleza espiritual, de uma tão alta nobreza
de costumes, que os olhos enlevam-se, a imaginação namora-se d'esse
mundo ficticio, d'essa humanidade de poema, onde nada existe de vulgar
ou de baixo, e onde brilham fórmas maravilhosas e transcendentes do
pensar, do sentir e do viver.

Isto dá-lhe uma qualidade encantadora: é _luminoso_. Personagens,
paizagens, interiores, o proprio movimento da aventura--tudo está
banhado n'uma luz serena e graciosa. Pintando as cousas fóra da verdade
social, não tendo de lhe apresentar as sombras tristes, exclue dos seus
vastos quadros tudo o que na vida é duro, brutal, feio, máu,
estupido--as fórmas varias da baixeza humana.

Escrevia para uma sociedade rica, nobre, litteraria, requintada--e
mostra-lhe um mundo d'ouro e crystal, girando n'uma bella harmonia,
batido de uma luz côr de rosa...


Tenho insistido n'este lado _não real_ dos livros de Lord Beaconsfield.
Todavia, um homem d'estes, antigo _dandy_, critico, estadista, habituado
a governar, observador por necessidade, não podia deixar de ter
accumulado uma grande experiencia dos caracteres e da sociedade; e essa
experiencia deveria necessariamente transparecer nas suas pinturas da
vida. E lá está com effeito. Por entre as suas grandes creações
symbolicas, de indisciplinada imaginação (_Tancredo_, _Lothair_,
_Sibyl_) move-se todo um mundo real, de uma vida exacta e forte, figuras
de carne, postas de pé com um singular vigor de desenho e côr. São os
seus personagens secundarios, os seus politicos, os seus intrigantes, os
seus homens de lettras, as suas mulheres da moda, os seus lords
elegantes. Todos estes typos fôram copiados do natural. Londres
conhecia-os, dava-lhes logo os nomes; e o escandalo d'estes retratos foi
mesmo uma das grandes causas do successo de Lord Beaconsfield. Mas,
mesmo para quem não frequenta a sociedade de Londres, e não conhece os
originaes, estes typos interessam--porque _vivem_.

Ordinariamente são apenas esboços, mas magistraes; e apparecendo assim
em destaque, ao lado de creações de pura imaginação, descomedidamente
poeticas e de contornos fluctuantes, esses typos reaes adquirem um
relevo maior, como perfis da verdadeira humanidade, mostrando-se por
entre o nebuloso de uma mythologia.

São elles os que interessam, e da vasta galeria de Lord Beaconsfield só
elles ficarão lembrados.


Seria impossivel, n'este estudo ao correr da penna, feito só de
impressões, marcar todos os traços de uma individualidade tão complexa
como a de Lord Beaconsfield.

Poucos homens têm produzido um tão curioso conflicto de apreciações:
diz-se d'elle que foi um grande homem de estado, e diz-se tambem que foi
apenas um charlatão; a critica tem-n'o apresentado como um romancista de
genio--e como um máu alinhavador de novellas! Homem de partido, soffreu
em politica e em litteratura, ora a idolatria, ora o rancor da
parcialidade partidaria. Uma coisa porém tinha a seu favor: é que todos
os mediocres o detestavam.

É difficil, de resto, separar n'elle o politico do romancista: sempre
fez politica nas obras d'arte, que se tornavam assim resoantes
manifestos das suas idéas de estadista--e fez romance no governo, que
parecia muitas vezes um _scenario de drama_, sobre o qual elle estava de
penna na mão, combinando os lances d'effeito. Seja como fôr, a
Inglaterra perdeu nele um dos seus genios mais pittorescos e mais
originaes.


Individualmente foi um _feliz_. Tendo, em novo, lançado o plano da sua
vida futura, como quem prepara um enredo de romance, realisou-o
plenamente em todos os pontos, n'um continuo triumpho. Foi formoso, foi
amado, foi rico, teve a melhor esposa de Inglaterra (como elle dizia),
deixou uma vasta obra litteraria, foi o confidente escolhido da sua
rainha, governou a sua patria, pesou nos destinos do mundo, e findou
n'uma apotheose. Foi então absolutamente, ininterrompidamente, ditoso?
Não. Este homem triumphante viveu acompanhado d'um secreto, d'um
pequenino, d'um ridiculo desgosto: nunca pôde fallar bem francez!



IX

Os inglezes no Egypto



I

O que resta d'Alexandria.--A estreia d'Arabi Paxá.--Algemas ao café.


Até ha cinco ou seis semanas Alexandria podia ser descripta no estylo
convidativo dos _Guias de viajantes_ como uma rica cidade de 250.000
habitantes, entre europeus e arabes, animada, especuladora, prospera,
tornando-se rapidamente uma Marselha do Oriente. Nenhum _Guia_, porém,
por mais servilmente lisonjeiro, poderia chamar-lhe interessante.

Apesar dos seus dois mil annos de edade, de ter sido, depois de Athenas
e Roma, o maior centro de luxo, de lettras e de commercio que floresceu
no Mediterraneo, a velha cidade dos Ptolomeus não possuia hoje nenhum
monumento do seu passado, a não contarmos, ao lado d'um velho cemiterio
mussulmano, uma coluna erigida outr'ora por um prefeito romano em honra
de Diocleciano, conhecida pelo sobrenome singular de _Pilar de Pompeu_,
e mais longe, estendido n'um areal, um obelisco pharaonico do templo de
Luxor, que gosava a grotesca alcunha de _Agulha de Cleopatra_. E esta
mesma reliquia está agora em Londres, no aterro do Tamisa, pousada n'uma
peanha de bronze, allumiada pela luz electrica, aturdida pelo estrondo
dos comboyos...

Os bairros europeus d'Alexandria quasi recentes (ha cincoenta annos,
antes de Mehemet-Ali dar o impulso á sua reedificação, a grande
metropole que espantava o califa Omar estava reduzida a uma aldeia
vivendo da pesca e do commercio d'esponjas) compunham-se principalmente
d'uma vasta praça, a famosa _praça dos Consules_, orgulho de todo o
Levante, e de ruas largas, com nomes francezes, estuque francez nas
fachadas, taboletas francezas nas lojas, cafés francezes, lupanares
francezes--como um _faubourg_ de Bordéus ou de Marselha transportado
para o Egypto e empenachado aqui e além de palmeiras.

A parte arabe da cidade não tinha nenhum pittoresco oriental: eram
arruamentos quasi direitos, com casebres lavados a cal e terminando em
terraço, pousados n'um solo, meio de terra e meio de areia, que a menor
brisa do mar espalhava em nuvens pelo ar.

Cidade feia á vista, desagradavel ao olfacto, reles, insalubre,
Alexandria visitava-se á pressa, ao trote de uma tipoia, e depressa se
apagava da memoria, apenas o comboio do Cairo deixava a estação, e se
ausentavam, entre as primeiras culturas do Delta, ao longo dos canaes,
as filas de ibis brancos, os mais velhos habitantes do Egypto, outr'ora
deuses, ainda hoje aves sagradas...

Todavia, tal qual era, Alexandria, com a sua bahia atulhada de paquetes,
de navios mercantes e de navios de guerra; com os seus cáes cheios de
fardos e de gritaria, os seus grandes hoteis, as suas bandeiras
fluctuando sobre os consulados, os seus enormes armazens, os seus
centenares de tipoias descobertas, os seus mil cafés-concertos e os seus
mil lupanares; com as suas ruas, onde os soldados egypcios, de fardeta
de linho branco, davam o braço á marujada de Marselha e de Liverpool,
onde as filas de camelos, conduzidos por um beduino de lança ao hombro,
embaraçavam a passagem dos _tramways_ americanos, onde os _sheiks_, de
turbante verde, trotando no seu burro branco, se cruzavam com as
caleches francezas dos negociantes, governadas por cocheiros de
libré--Alexandria realizava o mais completo typo que o mundo possuia de
uma cidade levantina, e não fazia má figura, sob o seu céo azul ferrete,
como a capital commercial do Egypto e uma Liverpool do Mediterraneo.

Isto era assim, ha cinco ou seis semanas. Hoje, á hora em que escrevo,
Alexandria é apenas um immenso montão de ruinas.

Do bairro europeu, da famosa _praça dos Consules_, dos hoteis, dos
bancos, do escriptorios, das companhias, dos cafés-lupanares, resta
apenas um confuso entulho sobre o solo, e aqui e além uma parede
enegrecida que se vae alluindo.

Pela quarta vez na historia, Alexandria deixou de existir.

Tratando-se do Egypto, terra das antigas maldições, póde-se pensar, em
presença de tal catastrophe, que passou por alli a colera de
Jehovah--uma d'essas coleras de que ainda estremecem as paginas da
Biblia, quando o Deus unico, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta
do peccado, corria de entre as nuvens a cicatrizal-a pelo fogo, como uma
chaga viva da Terra. Mas d'esta vez não foi Jehovah. Foi simplesmente o
almirante inglez Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra, e usando
com vagar e methodo, por ordens do governo liberal do Sr. Gladstone, os
seus canhões de oitenta toneladas.

Seria talvez deshonesto, de certo seria desproporcionado, o juntar aos
nomes dos homens fortes que n'estes ultimos dous mil annos se têm
arremessado sobre Alexandria e a têm deixado em ruinas,--aos nomes de
Caracalla, o pagão, de Cyrillo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor,
e de Ben-Amon, o sanguinario--o nome de Sr. William Gladstone, o
humanitario, o paladino das nacionalidades tyrannizadas, o apostolo da
democracia christã. Mas se por um lado, evidentemente, a politica do
snr. Gladstone não é um producto de pura ferocidade pessoal, como a de
Caracalla, que fez arrasar Alexandria, porque um poeta d'essa cidade
finmente dada ás letras o molestára n'um epigramma--por outro lado esta
brusca aggressão de uma frota de doze couraçados, cidadellas de ferro
fluctuando sobre as aguas, contra as decrepitas fortificações de
Mehemet-Ali, este bombardeamento d'uma cidade egypcia, estando a
Inglaterra em paz com o Egypto, parece-se singularmente com a politica
primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia
n'isto:--ser forte, cahir sobre o fraco, destruir vida e empolgar
fazendas. D'onde se vê que isso a que se chama aqui a _politica imperial
d'Inglaterra_, ou _os interesses da Inglaterra no Oriente_, póde levar
um ministro christão a repetir os crimes d'um pirata mussulmano, e o
snr. Gladstone, que é quasi um santo, a comportar-se pouco mais ou menos
como Ben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes não ser ministro
d'Inglaterra! E foi o que pensou o veneravel John Brigth, que, para não
partilhar a cumplicidade d'esta brutal destruição d'uma cidade
inoffensiva, deu a sua demissão do Gabinete, separou-se dos seus amigos
de cincoenta annos, e foi modestamente occupar o seu velho banco de
oposição...


Tudo o que se prende immediatamente com a aniquilação de Alexandria, é
de facil historia, sobretudo, traçando-se só as linhas principaes, as
unicas que pódem interessar quem está moral, e materialmente, a tres mil
legoas do Egypto e das suas desgraças.

No principio de junho passado, o almirante inglez Sir Beauchamp Seymour
achava-se nas aguas de Alexandria, commandando uma formidavel frota, e
tendo ancorada ao seu lado uma esquadra franceza com o pavilhão do
almirante Conrad. A França e a Inglaterra estavam alli com morrões
accesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos
ultimos dous annos no Cairo, de penna atraz da orelha, fiscalisando, de
camaradagem, as finanças egypcias: porque sabem, de certo, que, tendo o
Egypto (endividado até ao alto das pyramides para com as burguezias
financeiras de Pariz e Londres) omittido o pagamento de alguns
_coupons_,--a França e a Inglaterra, protegendo maternalmente os
interesses dos seus agiotas, installaram no Cairo dous cavalheiros, os
srs. Coloin e Blegniéres, ambos com funcções de secretarios de fazenda
no ministerio egypcio, ambos encarregados de colher a receita, geril-a e
applicar-lhe a parte mais pingue á amortisação e juros da famosa divida
egypcia!

De sorte que as duas bandeiras, de Inglaterra e da França, eram na
realidade dous enormes papeis de credito, içados no tope dos couraçados.
No almirante Seymour e no almirante Conrad reappareceram os dous
burguezes, Coloin e Blegnières. E na bahia de Alexandria, perante o
Egypto, um dos grandes fallidos do Oriente, as frotas unidas das duas
altas civilisações do Occidente representavam simplesmente a usura armada.

Isto era assim na realidade. Officialmente, porém, os couraçados estavam
alli fazendo uma demonstração naval, de facto realisando uma intervenção
estrangeira--porque se tinham dado casos no Egypto e o Khediva
declarara-se _coacto_. Todos os que conhecem a historia contemporanea de
Portugal e de outros curiosos paizes constitucionaes sabem o que
significa esta deliciosa phrase: _El-rei está coacto!_ Isto quer dizer
que Sua Magestade se acha em palacio, cercado de uma populaça carrancuda
que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um páu, e vem
impor esta fórmula prodigiosamente desagradavel para El-rei: diminuição
de auctoridade regia e augmento de liberdade publica...

Se El-rei conserva por traz do palacio alguns regimentos fieis, enverga
n'esse momento a farda de generalissimo, e manda acutilar o seu povo: se
desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então
El-rei _declara-se coacto_, e pede a um rei visinho, mais forte e menos
atarantado, que lhe mande uma divisão, a _restabelecer a ordem_--isto é
a assegurar a Sua Magestade a sua somma intacta d'autoridade regia,
dispersando a tiro a tentativa de liberdade publica. Isto hoje,
realmente, já se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é
ainda um methodo muito decente de acalmar os descontentamentos nacionaes.

O Khediva, esse excellente e pacato moço, tinha sido victima de um
_pronunciamento_ planeado, á maneira hespanhola, mas posto em scena á
moda turca. Um coronel, Arabi-bey, que em breve ia ser o famoso
Arabi-Pachá, apresentou-se com outros officiaes no palacio, e depois do
_salamalek_, que na etiqueta turca consiste em beijar devotamente a aba
da sobrecasaca do Khediva, como nós em Lisboa beijamos a tunica de Santo
Antonio, lembrou a Sua Alteza a necessidade de fazer reformas, algumas
puramente militares e em proveito dos coroneis, outras politicas, para
bem da grande populaça fellah, e tão largas que constituiam uma mudança
de regimen. Sua Alteza escutou, murmurou aquellas phrases sobre o _amor
da nação, a felicidade dos subditos_, que o ceremonial indica nas
occasiões d'atrapalhação regia e pareceu tão satisfeito com o interesse,
que aquelles officiaes tomavam pela prosperidade do valle do Nilo, que
os recompensou á maneira oriental--convidando-os a um banquete. Em torno
da festiva mesa a cordealidade foi grande, o _champagne_ espumou contra
as prescripções do Alcorão, e entre o sabor das truffas e o aroma dos
ramos, o futuro do Egypto appareceu côr de rosa... O café foi servido
nos jardins: e quando d'um lado entravam os escudeiros com os licores,
do outro surgiram beleguins com algemas. Arabi e os seus camaradas,
levando ainda na bocca o ultimo charuto que lhes offerecera Sua Alteza,
foram conduzidos ás palhas do carcere.

Não ha nada mais delicioso--nem mais turco.

A Europa toda, a quem agrada a energia, applaudiu com estrepito a
energia de Sua Alteza!



II

A desforra de Arabi.--Reformadores e coroneis.--O programma
fellah.--A conferencia de Constantinopla.--A confusão do
Grão-Turco.--As esquadras.


O Khediva teve em seguida, alguns tranquillos dias de triumpho.

Ao abrir o seu _Times_ ou o seu _Journal des Débats_ (porque este
principe é illustrado) elle podia regosijar-se, vendo que esses dous
ponderosos orgãos da opinião européa o consideravam um potentado
energico e cheio de nervo, como cabe a um descendente do grande
Mehemet-Ali, vivamente zeloso dos seus direitos, sabendo manter a ordem
nos seus estados com duas mãos de ferro, digno emfim da sympathia das
potencias.

Uma manhã porém, o palacio appareceu cercado de tropas--doze mil homens
com dezoito peças d'artilharia--supplicando que Sua Alteza soltasse
Arabi e lhe confiasse o ministerio da guerra. E davam esta razão,
honrosa para a logica árabe: que, approvando o exercito as reformas de
Arabi-Bey, entendia que elle as executaria muito mais confortavelmente
sentado na poltrona de ministro da guerra do que estirado nas palhas do
carcere.

O Khediva, que acabava talvez de saborear no _Times_ mais uma
glorificação da sua energia, concordou e declarou até que sempre
respeitara Arabi. Alli mesmo, sobre o joelho, o nomeou Pachá:--e
Arabi-Pachá passou da enxovia para o poder, ao som das bandas marciaes...

Em taes circumstancias um caudilho europeu lança o seu programma tão
ruidoso, tão brilhante, subindo tão alto no céo do progresso, como os
foguetes que estalam n'esse dia--e de que ordinariamente, como dos
foguetes, fica apenas um tição apagado. E estamos tão acostumados a
isto, aqui n'estas regiões privilegiadas, onde a locomotiva silva, que
as gazetas sisudas começaram a desconfiar de Arabi, desde que o não
viram adeantar-se com o seu programma nas mãos. Não o tinha.

Em paiz mussulmano, sob a lei do Alcorão, não os ha: nem era de resto
natural que um soldado egypcio (como disse, com uma gôche e
desnecessaria ironia, o snr. Gambetta) tivesse encontrado por acaso
_principios de oitenta e nove ineditos_ nos sarcophagos dos Pharaós.
Não, de certo. Mas Arabi trazia tres ou quatro ideias que, se houvesse
uma Europa decente, que lhe permittisse a realisação, podiam ser o
começo de um novo Egypto, um Egypto possuindo-se a si mesmo, um Egypto
governando-se a si mesmo, um _Egypto para os Egypcios_--não uma raça
escrava enfeudada á familia de Mehemet-Ali, muito menos um refeitorio
franco para os esfomeados europeus.

A meu vêr, o que impediu sempre que Arabi fosse um reformador--era o ser
elle um coronel fellah, filho de fellah, nascido n'uma d'essas tristes
aldéas, montões de choças feitas de lama secca, que negrejam ao comprido
do Nilo. Tendo vivido na abjecta miseria dos fellahs--a peior que existe
sobre a terra--elle, mais que ninguem, tinha direito a erguer-se em nome
dos longos aggravos do fellah. Mas, ao mesmo tempo, Arabi era um soldado
que ganhara os seus postos nas prolongadas guarnições do Alto Egypto e
nas campanhas do Soudan, que voltára de lá com todo o orgulho da farda,
e todo o pedantismo do sabre, não só repassado de militarismo, mas
enfrascado em militança--e, portanto, prompto, desde que a sua voz
resoava tão alto, a pôl-a ao serviço das pretenções do exercito... Elle
representava, por origem e por profissão, as duas grandes classes do
povo egypcio--o soldado e o fellah;--e desde o momento em que entre os
egoistas, os voluptuosos, os escravos e os interesseiros, elle pareceu
ser o unico homem no Egypto que se arriscava, de bom grado, pelas suas
ideias, ao exilio e á enxovia,--tornou-se bem depressa, e naturalmente,
chefe do _partido popular_ que queria as grandes reformas nacionaes, e
pela mesma occasião caudilho do _partido militar_, que só appetecia
vantagens de classe. Assim, em Arabi, o patriotismo confundia-se
infelizmente com a insubordinação.

Nas suas reformas encontravam-se, n'uma triste mistura, ao lado de idéas
largas, liberaes, contendo a revindicação dos direitos do trabalhador,
as mais especiosas exigencias do quartel, revelando o official
revoltado. Era com o mesmo enthusiasmo, e como se as duas cousas
tivessem egual valor na obra da regeneração do Egypto--que elle pedia
uma constituição parlamentar, e augmento de soldo e subida de posto para
os coroneis seus camaradas. Que aconteceu? Que na Europa, aquelles que
desejavam a continuação do regimen khedival (empreza financeira d'onde
sahiam grossos dividendos) fizeram tanto ruido em torno das escandalosas
pretenções da tropa, que não deixaram escutar os justos pedidos do povo,
e desacreditaram facilmente Arabi, escondendo o seu bom lado de
patriota, pondo em relevo o seu mau lado de coronel turbulento.

Toda a revolução dirigida por coroneis é justamente suspeita ao nosso
moderno espirito europeu; mas Arabi é um egypcio; e no Egypto, onde o
povo fellah, apesar de tão intelligente como qualquer das nossas plebes,
é pouco mais que uma irresponsavel horda de escravos, e onde o exercito
constitue a classe culta--a obra de progresso tem necessariamente de ser
feita pelo soldado. Na Europa, porém, não se sabe isto--ou, antes,
finge-se que não se sabe. As exigencias da tarimba puzeram na sombra as
reclamações da cabana--e Arabi perdeu na Europa a auctoridade que podia
ter como chefe dos fellahs por fallar de espada na mão, d'entre um
quadrado de soldados...

De certo, Arabi não é um Mazzini, nem um Luiz Blanc. É um arabe do
antigo typo, que apenas leu um livro--o Alcorão. Mas, como homem, possue
qualidades de intelligencia, de coração, de caracter, que não ousam
negar aquelles mesmos que o estão combatendo tão brutalmente. E como
patriota, está á altura dos grandes patriotas: havia certamente muito
egypcio no Egypto que abominava o sordido regimen khedival e soffria de
vêr o rico valle do Nilo devorado pelo estrangeiro, como outr'ora pelos
gafanhotos;--mas esses limitavam-se a curvar tristemente os hombros,
invocando o nome de Allah.

Este é o primeiro que entendeu que Allah, apesar de grande e forte, não
póde attender a tudo, e que, portanto, se resolveu a tirar a espada em
nome do fellah, contra a oppressão colligada dos pachás turcos e dos
agiotas christãos.

Quaes eram, por fim, as reformas de Arabi, esse monstro de sedição?

Arabi queria, em primeiro logar, o fim da auctoridade absoluta do
Khediva, e o Egypto governado por uma Assembléa eleita; e, como
consequencia d'esse novo regimen, uma reforma radical no uso dos
dinheiros publicos, que até ahi iam parte para a côrte do Khediva, parte
para o harem do Sultão, senhor suzerano do Egypto, parte para as
cohortes cerradas de funccionarios estrangeiros, parte, uma grande
parte, para pagar os _coupons_ de divida em Pariz e Londres, ficando tão
pouco para as necessidades do paiz, que havia dois annos que quasi se
não dava soldo ao exercito!

Arabi não negava a divida externa, contrahida por esse esplendido
perdulario Ismail-Pachá, mas reconhecida pela nação e garantida pela sua
honra:--sómente não admittia que a França e a Inglaterra estivessem
installadas no Cairo, á bocca dos cofres, esperando a chegada do
imposto, para empolgar uma parte leonina; de tal sorte, que, para
satisfazer a voracidade do credor europeu, esmagava-se com tributos o
fellah, que, por mais que se esfalfasse dia e noite, tinha por fim de
recorrer ao usurario europeu. Cousa estupenda! A Europa apresentava-se
officialmente como credora, e, para se fazer embolsar, fornecia
secretamente o agiota!...

Mas o ponto delicado das reformas de Arabi era quando tocavam com a
situação dos estrangeiros no Egypto. Havia ahi pretenções monstruosas.
Arabi exigia que se abolisse o privilegio pelo qual os estrangeiros
estabelecidos no Egypto e enriquecendo no Egypto não pagam imposto. O
desalmado queria que não houvesse esses tribunaes de excepção para os
estrangeiros, que, sob o nome de _tribunaes mixtos_, distribuem duas
justiças--uma de mel para o europeu, outra de fel para o arabe. Emfim,
esse homem fatal pretendia que os empregos publicos não fossem dados
exclusivamente a estrangeiros--e que se não pagassem annualmente, como
se pagavam, mais de _trez mil contos_ de bom dinheiro egypcio, a
francezes, inglezes e italianos repoltreados em sinecuras em todas as
repartições do valle do Nilo, e quasi todos tão uteis ao estado como
aquelle inglez que, com uma carta de recommendação de Lord Palmerston,
foi nomeado coronel do exercito egypcio e ao fim de nove annos, depois
de ter recebido perto de oitenta contos de soldos, ainda não tinha visto
o seu regimento e _ainda mesmo não tinha uniforme_!

Taes eram, em resumo, as abominaveis idéas de Arabi, e não se imagina
facilmente a apopletica indignação que ellas causaram á França
republicana e á livre Inglaterra. Arabi foi considerado uma féra. Na
Bolsa de Pariz, no _Stock-exchange_ de Londres, onde os fundos egypcios
tinham descido, pedia-se com energia a suppressão immediata d'esse
iniquo aventureiro.

Os gritos estridentes dos estrangeiros no Egypto, ameaçados nas suas
pessoas e nos seus privilegios, enterneciam a Europa.

As potencias occidentaes _trocaram as suas vistas_, segundo a hedionda
phrase diplomatica, e concordou-se que o Egypto _estava em anarchia_. O
Khediva, esse já se declarara _coacto_, e urgia _descoactar_ rapidamente
esse amavel principe, tão doce ao estrangeiro. A Inglaterra e a França,
pois, (paizes que dizem ter interesses superiores no Egypto) mandaram as
suas esquadras ás aguas de Alexandria, para aterrar Arabi. Póde-se
perguntar até que ponto seis couraçados, sem tropas de desembarque e
ancorados n'uma bahia, conseguiriam atarantar um ministro da guerra,
seguro no Cairo, a dez horas de caminho de ferro, cercado de vinte mil
homens de tropas regulares, apoiado por quatro milhões de população
fellah, alliado aos grandes chefes beduinos, e sanctificado pela
approvação religiosa dos Ulemas...

Hoje, aquelles mesmos que aconselharam essa manifestação, como o
_Times_, confessam com o rubor nas columnas, que foi uma insensatez. Em
todo o caso fez-se--e acompanhada de um documento, um papelucho
diplomatico que, pelo comico intenso do seu conteúdo, parecia arrancado
a alguma farça descabellada de Labiche. Esse escripto, apresentado
gravemente pelos consules de França e Inglaterra, intimava o Khediva a
que demitisse Arabi, o exilasse para o Alto-Egypto, para além das
cataractas, conservando-lhe, para o não descontentar de todo, as suas
honras de pachá e os seus soldos de coronel! Não sentis aqui, amigos,
toda a folia de um _vaudeville_? De um lado o Khediva abandonado, em
palacio, envolvido por uma revolução victoriosa, refugiado na equivoca
fidelidade de alguns ajudantes de campo e de alguns eunucos; do outro
lado Arabi tendo por si o exercito, a nação, o deserto e as mesquitas. E
a Europa suggere áquelle Khediva que desterre para a Nubia este Arabi!
Conheceis cousa alguma que mais reclame a _verve_ do chorado Offenbach?
Os jornaes inglezes hoje confessam tambem entre dentes que o papelucho
era estupido. Se o era! E estão d'ahi a vêr o resultado: Arabi encolheu
os hombros, adjudicou-se mais o ministerio da marinha, e substituiu
alguns dos outros ministros, antigos familiares do Khediva, por homens
seus, gente de nervo e de arranque.

Perante esta resposta dada ao seu _ultimatum_, a Europa ficou, se me é
licito este dizer irreverente--_de orelha murcha_. E então tomou a
decisão das grandes crises; delegou diplomatas que se sentaram em torno
de uma mesa de panno verde, e enterraram pensativamente a cabeça entre
os punhos. Chamou-se a isto a _Conferencia de Constantinopla_. O seu
fim, todo louvavel, era _resolver a questão do Egypto_.

E ainda lá está, fina e subtil, a resolver! Alexandria ardeu, deixou de
existir; o canal de Suez é patrulhado por canhoneiras inglezas; o
general Sir Garnet Wolseley marcha sobre o Cairo; a terra do Egypto é
terra britannica--e ella ainda lá está, a resolver!

Quanta habilidade n'aquella assembléa! N'aquella assembléa quanta
auctoridade! Ainda lá está...

Ainda lá está, á margem das aguas doces do Bosphoro, em torno da mesa de
panno verde, com a cabeça enterrada entre os punhos!...

Depois de reunida a _Conferencia_, a Europa, naturalmente, lembrou-se
que o Egypto é ainda uma dependencia dos estados do Sultão, paga tributo
ao Sultão, e que portanto ao Sultão competia ir restabelecer a ordem nos
seus agitados dominios.

Questão obscura e embrulhada, esta das relações do Egypto com a Turquia.

É o Khediva um principe vassallo? A diplomacia hesita. Por um lado, os
Khedivas succedem-se por hereditariedade, têm exercito, armam marinha,
cunham moeda, declaram guerras, fazem tratados; por outro lado, pagam
tributo. Mas constitue elle uma affirmação de vassalagem de pachá a
sultão? É uma simples offerta de principe mussulmano ao chefe do Islam,
como o presente que o rei catholico de Hespanha manda todos os annos ao
papa? É uma prestação annual da tremenda somma, porque Mehemet-Ali e
depois Ismail-Pachá compraram aos Osmanlis a sua independencia? É
simplesmente um _pourboire_?... Seja como fôr, o tributo existe--e,
fundado n'elle, a Europa appellou para o Sultão. Arabi, bom crente,
devia venerar o Sultão; o Sultão, bom pae, podia exterminar Arabi. E
aqui começa a famosa comedia das vacillações do Sultão.

Por um lado, o Sultão desejaria mandar tropas ao Egypto, occupal-o sob o
pretexto de o tranquillisar e refazer d'elle uma provincia turca, um
pachalato dependente do serralho, tal qual era antes de Mehemet-Ali,
quando na riqueza do valle do Nilo estava o verdadeiro thesouro dos
califas; por outro lado, porém, o Sultão não queria desembarcar no
Egypto como cabo de policia da Europa, pela razão de que, prevendo este
caso, os _ulemas_ da mesquita d'El-Azhar, o grande centro religioso e o
grande centro lettrado do Islam, o Vaticano e a Sorbona do Oriente,
possuindo no mundo mussulmano uma auctoridade igual á de um Concilio no
mundo catholico,--tinham declarado que se o Sultão, em nome da Europa
christã, pegasse em armas contra gente mahometana, tornava-se _ipso
facto_ apostata, e _ipso facto_ perdia o califado. Por um lado tambem o
Sultão, tendo, ao que se diz, recebido de Arabi promessas de depor o
Khediva e proclamar em seu logar Helim-Pachá, que é em Constantinopla o
conselheiro e o favorito do serralho--conspirava com Arabi contra o
Khediva; mas por outro lado, tinha noticia das intelligencias de Arabi
com o scherif de Meca, que, sendo o descendente directo de Mahomet,
possue mais que o Sultão direitos ao califado, e é n'esta santa
pretensão apoiado por todas as tribus da Arabia; e, receiando assim que
Arabi se tornasse o auctor de um scisma no islamismo, o Sultão procurava
minar-lhe a influencia crescente--e conspirava com o Khediva contra
Arabi. Por um lado ainda, uma vaga revolução constitucional em paiz
mussulmano era odiosa ao Sultão; mas, por outro, a maneira como Arabi,
alma d'esse movimento, estava tratando d'alto parte da Europa colligada,
lisongeava profundamente o seu coração turco. Emfim, este miserando
chefe dos crentes não sabia onde havia de dar com a sua cabeça
imperial... Não se pense, por este dizer ligeiro, que eu não respeito o
Sultão: Abdul-Hamid não é um califa do antigo typo, embrutecido pelo uso
de tres mil mulheres,--mas, segundo a expressão do principe de Bismarck,
«um dos espiritos mais finos da Europa». Ora, o principe de Bismarck é
um entendedor; ainda que, a meu vêr, duas cousas estragam esta famosa
finura: primeira o ser excessiva, de modo que Abdul-Hamid, a maior parte
das vezes, tropeça e fica enredado na engenhosa complicação dos seus
proprios fios; depois o estar ao serviço, não de idéas praticas, mas de
fantasias mysticas, como a que se lhe attribue de renovar, na ordem
espiritual e em seu proveito, o imperio prophetico de Mahomet.

Emfim, instado pela Europa a intervir no Egypto, e não querendo que a
Europa interviesse, porque isso seria a perda do seu pingue tributo
annual, o Sultão decidiu-se a enviar Dervich-Pachá, uma velha raposa
podre de manhas, com a missão de fazer reentrar Arabi no aprisco dos
humildes. Mas apenas Dervich-Pachá começava esta operação, eis que o
Sultão inquieto, vendo Arabi e o scherif de Meca de mãos dadas sobre o
tumulo do Propheta, remette a Arabi a grande ordem do Medjidieh, a mais
nobre condecoração turca, o favor supremo que póde cahir das mãos do
califa, acompanhada de uma florida carta de amizade e d'uma esplendida
placa de diamantes.

Isto tudo dá a medida da confusão do Grão-Turco.

Arabi, assim glorificado pelo califa, resplandeceu aos olhos do mundo
mussulmano com um prestigio maior; Dervich-Pachá, um instante aturdido,
redobrou de duplicidade:--e foi então entre Dervich, e Arabi, e o
Khediva, e o Sultão, e as potencias, e os consules, e os pachás, e os
coroneis, uma intriga tão emaranhada que eu prefiriria fazer-lhes um
resumo lucido dos vinte e cinco volumes das _Façanhas de Rocambole_, do
que penetrar na espessura inextricavel d'este embroglio
turco-europeu--uma d'essas intrigas fastidiosas que devem enervar, fazer
chorar de séca e de fadiga a Providencia, se ella, como affirmam
philosophos que estão na sua intimidade, é obrigada a observar
minuciosamente todos os successos humanos! Quanto o homem com a sua
tolice deve, por vezes, fazer bocejar Deus!

Durante estes successos, emquanto a Europa chafurdava no atoleiro
diplomatico, as duas esquadras de França e de Inglaterra, lá continuavam
deante de Alexandria _manifestando_. Do romper do sol ao occaso,
immoveis nas aguas calmas, com as camisolas da marujada seccando nas
vergas, alli estavam _manifestando_...

Os officiaes repousavam de vez em quando d'esta rigida attitude de
_manifestação_ arranjando um _pic-nic_ em terra, indo fazer um _robber_
de _whist_ ao club inglez, ou organisando, sob as sombras dos jardins de
Ramleh, honestas partidas de _cricket_.



III

Episodio oriental.--Mussulmanos e christãos.--Uma estrumeira
social.--Opiniões de mesa redonda.--Os funccionarios europeus do
Cairo.--As dividas d'Ismail-Pachá.--O dia 11 de junho.


Achando-se as cousas assim, amanheceu o dia 11 de junho, que d'ora em
deante na historia--n'esse curto instante de notoriedade humana, que
emphaticamente se chama a _historia_--será conhecido por este
gallicismo: _o massacre de Alexandria_.

O primeiro episodio oriental que eu vi, ao desembarcar ha doze annos em
Alexandria, foi este: no caes da alfandega, faiscante sob a luz torrida,
um empregado europeu--europeu pelo typo, pela sobrecasaca, sobretudo
pelo bonnet agaloado--estava arrancando a pelle das costas d'um arabe,
com aquelle chicote de nervo d'hippopotamo, que lá chamam _courbach_, e
que é no Egypto o symbolo official da auctoridade.

Em redor, sem que esse espectaculo parecesse desusado ou escandaloso,
alguns arabes transportavam fardos; outros empregados agaloados, de
chicote na mão, davam ordens por entre o fumo do cigarro...

Saciado ou cançado, o homem do _courbach_, que era um magrisella, atirou
um derradeiro pontapé á anatomia posterior do arabe--como quem, ao fim
d'um periodo escripto com _verve_, assenta vivamente o seu ponto
final--e, voltando-se para o meu companheiro e para mim, offereceu-nos,
de bonnet na mão, os seus respeitosos serviços. Era um italiano, e
encantador. A esse tempo o arabe (como quasi todos os fellahs, um
soberbo homem de formas esculpturaes) depois de se ter sacudido como um
Terra-Nova ao sahir d'agua, fôra-se agachar a um canto, com os olhos
luzentes como braza, mas quieto e fatalista, pensando de certo que Allah
é grande nos céos e necessario na terra o _courbach_ do estrangeiro.

Quando, no dia 11 de junho, eu li esses telegrammas, repassados de
panico, em que se annunciava á Europa que a população arabe massacrava
os europeus nas ruas da Alexandria,--não sei porque revi logo o cáes da
alfandega, o italiano serviçal de bonnet agaloado, o _courbach_
estalando nas costas escuras do arabe. Isto não é trazido como
allegoria, para dizer que as relações dos europeus e dos egypcios se
reduziam a estas duas attitudes--um braço com manga de panno fino
erguendo o _courbach_, e um dorso semi-nú esperando a sova: muito menos
quero insinuar que o massacre do dia 11 foi a tardia vingança d'estas
brutalidades burocraticas...

O Egypto não é a Serra Leoa; e o crescente ainda não anda tão de rastos
que consinta em ser systematicamente espancado pela cruz. Mas a verdade
é que no Egypto um qualquer empregado europeu da alfandega, das docas,
ou dos caminhos de ferro, que não ousaria erguer a mão para um carrejão
europeu,--retalha a pelle d'um egypcio, tão naturalmente e com tanta
indifferença como se sacode uma mosca importuna.

É que o europeu d'Alexandria considerava o fellah egypcio como um sêr de
raça infima, incivilisavel, mero animal de trabalho, pouco differente do
gado; e se tivesse o estylo de La Bruyère, descrevel-o-hia como La
Bruyère descrevia os aldeãos do tempo de Luiz XIV, «vultos escuros,
curvados sobre a terra e tendo a vaga apparencia de seres humanos...»

N'estas condições de desprezo, usa-se facilmente o _courbach_ e
invariavelmente a insolencia...

E note-se que o europeu não tinha muito mais respeito pelo egypcio das
classes superiores ou cultas. Qualquer amanuense de consulado julgaria
da sua dignidade d'europeu não ceder o passo ao mais velho e nobre
scheik, senhor de dez tribus e descendente do propheta; e o mais
insignificante empregado dos telegraphos, leitor do _Figaro_, não
nutriria senão desdem pelos sabios doutores da Universidade d'El-Azhar,
que não vão ao café ler o _Figaro_, e pouco sabem de telegraphia.

Mas este absurdo desprezo por uma nobre raça, a quem a civilisação tanto
deve, não se manifestava só entre os europeus de Alexandria, colonia de
alluvião, formada pelos detritos das populações do Mediterraneo: não
ouvimos nós ainda ha dias o proprio snr. Gambetta declarar das alturas
da tribuna da camara franceza, esse Sinai da burguezia, que o povo
egypcio só podia ser governado a chicote?...

A complicada abundancia da nossa civilisação material, as nossas
machinas, os nossos telephones, a nossa luz electrica, tem-nos tornado
intoleravelmente pedantes: estamos promptos a declarar desprezivel uma
raça, desde que ella não sabe fabricar pianos de Erard; e se ha algures
um povo que não possua como nós o talento de compor operas comicas,
consideramol-o _ipso-facto_ votado para sempre á escravidão...

Por outro lado, os egypcios olhavam para o europeu como para a ultima e
mais terrivel praga do Egypto, uma outra invasão de gafanhotos,
descendo--não do céo, onde ruge a colera de Jehovah, mas dos paquetes do
Mediterraneo, com a sua chapeleira na mão--a alastrar, devorar as
riquezas do valle do Nilo. E este prejuizo não é especial ás classes
incultas: o pachá mais bem informado, educado em França, lendo como nós
a _Revista dos Dous Mundos_, nunca reconhecerá o que o Egypto deve á
energia, á sciencia, ao capital europeu; para elle, como para o ultimo
burriqueiro das praças do Cairo, o europeu é mais que o intruso--é o
_intrujão_.

O arabe de modo nenhum se julga inferior a nós; as nossas industrias, as
nossas invenções não o deslumbram; e estou mesmo que, do calmo repouso
dos seus harens, o grande ruido que nós fazemos sobre a terra, lhe
parece uma vã agitação. Elle sente por nós o pasmo misturado de desdém
que póde sentir um philosopho, vendo trabalhar um pelotiqueiro. O
pensador diz comsigo que não é capaz de equilibrar uma espingarda sobre
o nariz, e lamenta-o; mas consola-se reflectindo que o saltimbanco não é
susceptivel de ligar duas idéas. Assim, o mussulmano admira um momento o
nosso gaz, os nossos apparelhos, os nossos realejos, todo o nosso genio
mecanico; depois cofia a barba, sorri, e pensa comsigo: «Tudo aquillo
prova paciencia e engenho, mas eu tenho dentro em mim alguma cousa de
melhor, e superior mesmo ao vapor e á electricidade--é a perfeição moral
que me dá a lei de Mahomet.»

De resto, nós o sabemos pelas xacaras da nossa mocidade, sempre o
crescente detestou a cruz; e póde-se imaginar quaes são os seus
sentimentos, agora que a cruz, em logar de o combater como paladino, o
explora como agiota.

Se em cidades como Damasco ou Beyrouth o europeu _touriste_ inoffensivo,
que passa com a bolsa aberta, excita olhares e murmurios de odio,
sómente porque tudo n'elle é differente, desde os dogmas da sua religião
até á fórma do seu chapéo--calcule-se o que se dá em cidades como
Alexandria e como Tunis, onde o europeu não é _touriste_ amavel que
distribue gorgetas, mas o agenciador soffrego que vem instalar-se alli
como em terra que conquistasse para arredondar depressa um peculio, sob
a bandeira do seu consul.

Accrescente-se que no Egypto o europeu apparecia aos olhos do arabe com
o caracter odioso de um privilegiado.

Uma cousa parecia intoleravel--é que o europeu empolgasse todos os
logares, todos, desde as gordas sinecuras até os diminutos empregos de
cem francos por mez.

Vagava um obscuro posto de carteiro ou de telegraphista--e concorriam,
de um lado um arabe honesto e activo, do outro um sacripanta de
nacionalidade grega ou malteza. A quem se dava o emprego? Ao sacripanta.

Este systema, fecundo a principio, quando o Egypto era uma barbara
provincia turca, e os europeus chamados eram homens de saber especial e
de integridade, começou no tempo de Mehemet-Ali, que tentava fazer uma
nação sobre as ruinas do velho pachalato, e que convidava para essa obra
a sciencia e o capital europeu: continuou depois com Said-Pachá, esse
delicioso _bon-vivant_, tão francez que passava os dias a fazer
_calembourgs_, e que não admittiria em torno de si, e nas repartições do
estado, senão cavalheiros capazes de apreciar o _Charivari_; mas a
grande invasão de empregados europeus consumou-se no tempo de
Ismail-Pachá,--que acceitava tudo o que vinha da Europa, os
especialistas e os vadios, os que traziam uma idéa e os que só traziam
dividas...

O Egypto renovou então a velha lenda do El-Dorado. Quem em Pariz, ou em
Londres, ou em Roma, se via filado pelos credores, com a derradeira
sobrecasaca a coçar-se nos cotovellos, e sem poder voltar ao seu _club_,
por dever dez francos ao porteiro, obtinha de um diplomata ou de um
principe uma carta de recommendação para o Khediva e tomava o paquete de
Alexandria.

Lá, nos primeiros dias, tinha o hotel pago por Sua Alteza--ao fim do mez
emprego dado por Sua Alteza. Qualquer cousa: se era um velho tenor de
sala, já sem voz, nomeava-se coronel de cavallaria; se era um militar
desacreditado, despachava-se inspector das escolas. Quem não podia
alcançar uma carta para o Khediva, ia rojar-se aos pés do consul. Quem
não ousava apresentar-se ao consul, empregava as influencias
transversaes do paço, as mais poderosas--os eunucos, os cosinheiros, as
dançarinas... O emprego vinha, facil e pingue. E o fellah pagava toda a
malta.

Mas o peior ainda eram os funccionarios superiores, que as potencias
installavam no interior da administração egypcia--tão ciumentas umas das
outras, que, se, por exemplo, a França conseguia accommodar um francez
na directoria geral das finanças, logo a Inglaterra, para contrabalançar
essa parcella de influencia, empurrava um inglez para dentro do
estado-maior da marinha; e por seu turno a Italia, já desconfiada,
mettia á força um filhote de Roma na direcção da instrucção publica.
Alguns d'estes cavalheiros tinham de certo habilidades de especialistas;
mas a sua abundancia mesmo enredava o movimento da machina
administrativa. Está hoje provado que o Khediva, cedendo a estas
pressões, era obrigado a ter _seis empregados para fazer o simples
trabalho de um_! Todo este mundo formava um estado no estado.

Nas suas repartições de finança, nos seus tribunaes, nos seus estados
maiores, nas suas commissões, em todos os recantos da sua administração,
o Egypto só via faces estrangeiras, só escutava linguas estrangeiras, só
sentia interesses estrangeiros; e o dinheiro egypcio mantinha esta
cohorte, que só estava alli para annullar a influencia egypcia. E eram
ao menos uteis?... O consul-geral dos Estados Unidos conta, n'um livro
recente sobre o Egypto, que jantara um dia no Cairo com seis empregados
superiores, todos estrangeiros, cujos ordenados sommados subiam
annualmente a perto de _cem contos_! Nas suas repartições, a
correspondencia, a escripturação, a contabilidade, tudo era feito em
lingua arabe: _e nenhum d'elles sabia o arabe_!


Não havia talvez sobre a terra peior população que a de Alexandria. Essa
cidade, que fôra outr'ora o refugio do saber e do luxo do oriente,
tornara-se nos nossos dias, sob o Khediva Ismail-Pachá, o barril de lixo
da Europa meridional. Todo o refugo humano da Grecia, das ilhas do
Archipelago, da Italia, da Sicilia, de Marselha (e Deus sabe quanto
estas bellas paragens classicas abundam em meliantes!) se esvasiava
instinctivamente sobre Alexandria, alastrava-a, tornava-a sob o seu
bello céo azul-ferrete uma fetida estrumeira social.

Bastava atravessar uma rua, para comprehender o conjuncto dos costumes.

A cada esquina, um _café-cantante_ atulhado d'uma malta enxovalhada, que
berra, cachimba, emborca aguardente, emquanto sobre o tablado, por traz
da ribalta, uma matrona despeitorada e caiada vae rouquejando um
estribilho obsceno... De dez em dez casas um lupanar, separado apenas da
rua por uma simples cortina... Por toda a parte o jogo: um sacripanta
traz uma pequena roleta, um banco, e no meio da rua installa a batota;
em redor apinham-se logo outros sacripantas, e d'ahi a momentos a
policia tem de acudir, porque corre sangue...

O viajante de gosto e de educação tinha de fugir bem depressa d'esta
atmosphera, refugiar-se n'algum quieto café mussulmano, á beira d'agua
tranquilla. Ahi ao menos só havia arabes que fumavam gravemente o seu
_chibouk_, fallavam entre si com pollidez, comportavam-se com dignidade.

Ah! estou d'aqui a vêr a primeira mesa redonda a que me sentei em
Alexandria!

Era presidida por um grego de pelle livida, de suissas reluzentes como
verniz de sapatos, com um grilhão de ouro sobre o collete denotado e
brilhantes, talvez verdadeiros, n'uma camisa de oito dias! Que intrujão!
que bandido! Como aquillo rolara por todas as trapaças, todos os
deboches do littoral levantino! O bom era ouvil-o fallar do Egypto como
de um paiz conquistado, terra de ilotas que tinha obrigação de o vestir,
de o calçar, de lhe encher a bolsa a elle, e aos outros que o applaudiam
em torno da mesa redonda, todos europeus, agenciadores, empregadotes,
simples vadios, todos de grilhões de ouro no relogio, de collarinho
decotado, o carão resudando vicio, o fallar parlapatão, galãs de
espelunca...

--_L'arabe, monsieur_, dizia-me este equivoco personagem, n'um francez
do Pireu, _ce n'est qu'une infecte canaille_!

O infecto canalha eras tu, livido grego!

É evidente que o que tornou Arabi mais popular no Egypto, foi a sua
hostilidade aos estrangeiros. _O Egypto para os egypcios!_ Esta phrase,
todo um programma, calou fundo no animo do povo inteiro.

O Egypto para os egypcios--não para os empregados estrangeiros, nem para
os agiotas estrangeiros...

Ah! esta questão dos credores! A famosa questão da divida egypcia! Em
que gastou Ismail-Pachá esses centenares de milhões que a Europa lhe
emprestou, e que o pobre fellah está pagando? Em primeiro logar, na
realisação de uma idéa economica--o converter o Egypto, que é um paiz
agricola, n'uma nação industrial. O Egypto produzia o assucar--porque o
não refinaria? Possuia o algodão--porque o não teceria? E ahi começou, á
força de milhões, a cobrir as margens do Nilo d'essas colossaes
fabricas, de que hoje só restam ruinas;--ruinas de ferro enferrujado e
de madeira podre, tão miseraveis e tão tristes, ao lado das bellas
ruinas graniticas dos templos pharaonicos, representando, como ellas, a
servidão de um povo, mas, pela sua fealdade, não podendo ao menos
servir, como ellas, nem para assumpto de uma aquarella...

A outra causa da ruina do Khediva foi a sua prodigalidade. Quem não
conhece essa lenda illustre? Quem se não lembra das festas do canal de
Suez? Ahi cada verba se contou por milhões. Dois milhões para a
illuminação do Cairo. Quatro milhões para o banquete de Ismailia.
Despezas com os dois mil convidados durante quinze dias no Cairo e no
Canal--setenta milhões!... Para o champagne bebido n'essas semanas de
bambocha--dous milhões! O fellah pagava.

Eh! E eu que estou aqui a fallar--tambem o bebi, esse champagne que era
no fundo o suor do fellah espumante e assucarado! Tambem eu fui hospede
de Ismail-Pachá, á custa do fellah! Tambem eu... Calemo-nos, cubramos a
fronte de cinzas, imploremos o perdão do fellah!


O resultado d'estas fantasias industriaes, d'estes luxos de Salomão, foi
que o Egypto se achou devendo á Europa centenares de milhões, por que
pagava um juro de _sete por cento_, e, como burgueza prudente que zela
os seus interesses, a Europa tinha pouco a pouco tomado conta da
administração do Egypto...

Quando Arabi quiz modificar este systema, que convertia o povo egypcio
n'uma horda de servos trabalhando para os financeiros de Pariz e
Londres--as esquadras de França e Inglaterra appareceram logo, pedindo o
desterro de Arabi, e o licenceamento do exercito, que era o instrumento
e a força do partido nacional. Os arabes viram n'isto um odioso abuso da
força, a Inglaterra e a França querendo manter á bala os interesses dos
possuidores dos titulos da divida egypcia e os privilegios dos intrusos.

Desde esse momento Arabi tornou-se um libertador; e o Khediva, que as
esquadras vinham proteger contra Arabi, passou a ser o renegado, o traidor.

Esta era a situação no dia 11 de junho. Alexandria tornara-se uma
fornalha de excitação. Nas mesquitas prégava-se com furor a cruzada
contra o christão: nos bazares fallava-se do estrangeiro como do cão
maldito, da ave de rapina, peior que o gafanhoto que devora a seara nos
campos ferteis do Nilo; e, ou fôsse o fanatismo que despertasse, ou
fôsse a miseria que se queria vingar--todo o bom mussulmano se armava.

N'estas circumstancias, de uma chufa de botequim póde nascer uma guerra
de raças. E, pouco mais ou menos, assim succedeu. Na manhã do dia 11, na
rua das Irmãs, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglez, por um
velho habito, deu chicotadas n'um arabe; mas, contra todas as tradições,
o arabe replicou com uma cacetada. O inglez fez fogo com um revólver.
D'ahi a pouco o conflicto entre europeus e arabes, em pleno furor,
tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas--até que, por
ordens telegraphadas do Cairo, a tropa, até ahi neutral, acalmou as
ruas. E o resultado, bem inesperado, mas comprehensivel, desde que se
sabe que os arabes só tinham cacetes e que os europeus tinham
carabinas--foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos
arabes dizimados. Os jornaes têm chamado a isto o _massacre dos
christãos_: eu não quero ser por modo algum desagradavel aos meus irmãos
em Christo, mas lembro respeitosamente que isto se chame a _matança dos
mussulmanos_.



IV

A fuga dos europeus.--O grande sonho inglez.--O «casus belli».--A
vespera do bombardeamento.


Esta _matança de christãos_--para continuarmos a dar-lhe a sua alcunha
diplomatica--puxou bruscamente a attenção do mundo que lê jornaes para o
Egypto, e por isso devem ahi ter presentes e vivos--sem que se torne
necessario o rememoral-os, detalhe a detalhe--todos os episodios que
n'uma semana se desencadearam uns sobre os outros, com uma barafunda de
melodrama: a indignação excessiva e tumultuosa da Europa, excitada pelo
clamor e pelos gritos da imprensa ingleza; o desordenado panico que se
apossou dos europeus residentes no Egypto; e o facto, estranho mesmo
n'essa terra de classicos exodos, de uma colonia de mais de _cem mil_
almas abandonando de repente o solo, onde, desde gerações se
estabelecera, deixando occupações, interesses, empregos, casa e fazenda,
precipitando-se apavorada para os caes de embarque, apinhando-se em
paquetes, em navios de carga, em barcaças, em qualquer cousa que pudesse
fluctuar na agua, e fugir da terra funesta, pagando a peso de ouro o
direito de se agachar n'um buraco de porão; a maneira magistral como a
Inglaterra, pelos officiaes da sua armada, organisou e policiou esta
nova fuga dos hebreus; emfim, a chegada a Alexandria do Khediva, que
perdera toda a auctoridade no Cairo, e colhia a opportunidade de vir
abrigar os restos esfrangalhados da sua realeza sob os canhões do
almirante Seymour.

Arabi-pachá, que se tornára, de facto, dictador, correu tambem a
Alexandria--e o seu primeiro passo foi estabelecer tribunaes marciaes,
para julgarem os _massacradores_ do dia 11.

Note-se que se não tratava, nem por sombras, de punir os europeus que
tinham mandado _tresentos_ mussulmanos d'esta terra de miserias para o
paraiso de Allah; mas sómente os mussulmanos suspeitos de terem posto
mãos violentas sobre christãos. Ainda assim, os jornaes inglezes
bradaram logo que não se podia ter confiança na justiça, na
imparcialidade dos magistrados egypcios, tão hostis ao estrangeiro como
á populaça--e que taes julgamentos não passavam d'uma farça, onde os
réus, que se mostravam um momento á Europa carregados de ferros
postiços, eram depois, por traz dos bastidores, acclamados como bons
patriotas.

Arabi-pachá propoz então que esses tribunaes se compuzessem de juizes
arabes e de officiaes inglezes. Isto indicava um desejo vivo, quasi uma
sofreguidão de justiça. E, com effeito, se o partido nacional agora todo
poderoso, se não mostrasse severo--corria o perigo de passar por
cumplice; e se as suas refórmas tinham já inspirado tanta antipathia á
Europa--o que seria se a elle se pudessem plausivelmente attribuir taes
attentados?

De resto, para um mussulmano orthodoxo e fino como Arabi, toda a
violencia contra o estrangeiro, contra o hospede, constitue a mais negra
violação da lei santa. Arabi era sincero. Mas a Inglaterra não acceitou
as suas propostas...

A Inglaterra não acceitou. A Inglaterra estava armada a bordo dos seus
couraçados. E, todavia, mais que nenhuma outra nação ella soffrera com
os tumultos d'Alexandria: o seu consul, brutalmente espancado, achava-se
á morte; alguns dos officiaes da esquadra tinham recebido no uniforme,
que é o orgulho da Grã-Bretanha, a lama e as pedradas da populaça
egypcia; a maior parte dos europeus assassinados eram de nacionalidade
ingleza; contra a Inglaterra se prégara a guerra nas mesquitas, nos
bazares, e até sob a tenda beduina...

Mas a Inglaterra, generosa e paternal, queria esquecer essas injurias.
Pudera!

É que não lhe convinha reconhecer as atrocidades do dia 11 como um mero
e casual episodio de fanatismo mussulmano, a que algumas grilhetas e
algumas cordas de forca poriam definitivamente termo; nem lhe convinha
descer dos seus couraçados unicamente para ir a um tribunal ajudar a
sentenciar dez ou doze facinoras.

O que á Inglaterra convinha, era attribuir a este conflicto local a
magnitude de uma anarchia nacional, e offerecer ou impor o seu
prestimo--não para castigar os tumultos de um bairro, mas para pacificar
todo um paiz em desordem. E assim ella rejubilava com a chegada d'esse
dia tão appetecido, tão pacientemente esperado desde o começo do seculo,
tão anciosamente espiado desde a abertura do canal de Suez, em que teria
emfim um pretexto para assentar na terra do Egypto o seu pé de ferro,
essa enorme pata anglo-saxonia, que, uma vez pousada sobre territorio
alheio, seja um rochedo como Gibraltar, uma ponta de areia como Aden,
uma ilha como Malta, ou todo um mundo como a India--nenhuma força humana
póde jámais arredar ou mover.

Já se não tratava de libertar o Khediva coacto, de defender as
algibeiras dos portadores do emprestimo egypcio. Um interessse mais
alto, ligado com os destinos do Imperio, levantava-se, dominava tudo.

_O Egypto estava em anarchia_: logo competia á Inglaterra, paladino da
civilisação, restabelecer lá a ordem, impedil-o de recahir no estado
barbaro.

_O Egypto estava em anarchia_: logo competia á Inglaterra, como grande
potencia oriental, defender essa parte preciosa da terra egypcia--o
canal de Suez, e evitar que elle cahisse nas mãos de Arabi ou de outro
dictador mussulmano, hostil aos beneficios da civilisação.

É o que pouco mais ou menos respondia a Inglaterra, e bem alto, para que
o mundo ouvisse--quando Arabi-pachá lhe propoz uma alliança judicial
para punir o crime mussulmano do dia 11.

--Não, dizia John Bull, não se trata do dia 11! Esqueçamos o dia 11.
Esqueçamol-o, como se elle fosse apenas o dia 7. A questão é outra. _O
Egypto está em anarchia._ É necessario salvar a civilisação!

E estas nobres palavras significavam, despidas dos seus atavios
humanitarios, que a Inglaterra, sob o pretexto de pacificar o Egypto,
desembarcaria em Alexandria, occuparia por motivo de operações militares
Port-Said e Suez, as duas portas do canal, e depois--depois nunca mais,
n'esses pontos estrategicos do caminho da India, se arriaria a bandeira
ingleza!

E, feito isto, ficava realisado o grande sonho britannico:--posse
absoluta da estrada das Indias; John Bull fazendo sentinella a todas as
portas succesivas que conduzem ao seu imperio do Oriente: á entrada do
Mediterraneo, Gibraltrar e o seu rochedo inexpugnavel; no Mediterraneo,
Malta e Chypre, duas ilhas, dois collossaes depositos de guerra: á
entrada do canal, Port-Said; ao fim do canal e á bocca do Mar Vermelho,
Suez; á beira do Golfo Persico, Aden; e d'ahi por deante as suas
esquadras varrendo os mares...

Deante d'esta esplendida opportunidade se achou a Inglaterra, depois das
carnificinas de Alexandria; e, tendo logo declarado _officialmente_ o
Egypto em anarchia, sem perda de um momento, começou a armar-se.

E, no meio de tudo isto--a Europa? Oh! a Inglaterra convidava, com
bellos ademanes de desinteresse, a Europa a partilhar com ella a honra
de pacificar o Egypto! Mas sabia bem que nenhuma das potencias moveria
um soldado: nem mesmo a França, que tinha uma frota na bahia de
Alexandria e collaborára nas manifestações platonicas; a França,
governada por uma democracia burgueza que enriquece, e tornada toda ella
uma vasta casa de negocio, não quereria por cousa alguma perturbar
aquella paz tepida e doce em que amadurece o Milhão.

Além disso, as potencias já tinham resalvado a sua dignidade,
sentando-se em torno da mesa verde da conferencia, á beira das aguas
luminosas do Bosphoro, meditando com a cabeça entre os punhos a solução
da questão egypcia. E, emquanto ao resto, estavam-se observando, armadas
até os dentes, desconfiadas, ciumentas, odiando-se, mas immobilisadas
reciprocamente pela propria magnitude dos seus armamentos.

A França receia a Allemanha; a Turquia teme a Russia; a Austria está
contida por ambas; a Italia necessita a benevolencia de todas; e cada
uma por seu turno treme do snr. de Bismarck, o hediondo papão, o Jupiter
trovejante do Olympo diplomatico, que, no seu retiro de Varzin,
torturado por toda a sorte de males, passa parte do tempo sob a
influencia da morphina...

De resto, que todas appeteciam os despojos do Egypto, só o póde duvidar
quem ignore os instinctos de pilhagem, de gatunice, de pirataria, que
alberga sempre a alma d'um povo civilisado; mas nenhuma das potencias é,
como a Inglaterra, uma ilha cercada d'um mar agitado, onde se move a
maior frota da terra; e, apertadas no estreito continente, hombro contra
hombro e espada contra espada, nenhuma dellas ousaria dar um passo para
o lado do Egypto, com receio que o vizinho lhe saltasse ás guellas.
Limitavam-se, por isso, cheias de rancor, a trocar phrases de
diplomatica doçura, sentadas á mesa da _conferencia_.

Quando, deante d'uma casa fechada, os que lhe appetecem as riquezas,
discutem, de penna na mão, a melhor maneira de lá entrar--a vantagem
pertence toda áquelle que, em logar d'uma penna, se muniu d'um machado e
atira de subito a primeira machadada á porta. Foi o que fez a
Inglaterra. Emquanto os outros faziam planos _pro-forma_ em cima d'uma
carteira--ella fez fogo sobre Alexandria.

Sómente não se póde atacar uma cidade inoffensiva sem um pretexto. E a
Inglaterra foi, á falta de outro melhor, forçada a apresentar um tão
máu, que, como dizia a _Associação dos Positivistas Inglezes_, no seu
protesto contra a invasão do Egypto, a sua puerilidade só consegue
augmentar a sua immoralidade.

Perante os armamentos da Inglaterra, Arabi-pachá, se lhe não
comprehendia as intenções espoliadoras, devia pelo menos concluir que
era contra elle, contra o partido que elle dirigia, e contra as idéas
que elle encarnava, que a Inglaterra se estava preparando; e, muito
naturalmente, na espectativa de um ataque, organisou a sua defesa,
artilhando os fortes de Alexandria, e erguendo baterias novas pela costa.

Foi contra isto que a Inglaterra protestou; e foi d'isto que fez um
_casus belli_--declarando que, se as obras dos fortes não cessassem,
ella destruiria os fortes!... Sem estar em guerra com o Egypto, ella
considerava-se no direito de reunir deante de Alexandria uma frota
ameaçadora; mas não admittia que as auctoridades de Alexandria
concertassem sequer as brechas das velhas fortificações de Mehemet-Ali!

E que explicações estupendas o snr. Gladstone dava á Europa para
justificar o _casus belli_! As baterias que Arabi ergue (dizia elle), os
novos canhões que monta, _põem em perigo os couraçados inglezes_! E os
couraçados não punham em perigo os fortes? Mas ao lado da esquadra
ingleza estavam navios de guerra francezes, allemães, italianos, gregos,
austriacos--tão expostos ás balas de Arabi como os que hasteavam o
pavilhão britannico: e esses não se julgavam _em perigo_!

Que diria a Inglaterra se o commandante de algum dos couraçados
francezes ou allemães, que por vezes vêm ancorar nas aguas de Portsmouth
ou de Southampton--mandasse de repente prohibir ao governador de uma
d'essas praças a continuação das obras de defesa que ahi se vão
incessantemente aperfeiçoando, sob o pretexto de que taes baterias
_poderiam fazer mal_ ao navio de seu commando?... Com tal precedente, os
almirantes inglezes, que honram frequentemente o humilde porto de Lisboa
com a presença dos seus pavilhões--estariam auctorisados a exigir a
destruição da torre de S. Julião, do Bugio e de Belém! Dir-se-hia que
não é de prever que o portuguez, pacato e bonacheirão, faça fogo--muito
menos sobre couraçados inglezes. De accordo. Mas que ganharia
Arabi-pachá em mandar de surpreza algumas balas á esquadra ingleza--e
portanto ás outras que estavam no mesmo ancoradouro--senão o attrahir
sobre si, e o seu partido, e o seu paiz, a pavorosa vingança da Europa
inteira, injuriada em todos os seus pavilhões?

Arabi fez uma cousa fina: cedeu, promettendo interromper os trabalhos de
defesa. E a Inglaterra ficou desapontada. Esta submissão de Arabi
desmanchava o seu engenhoso plano.

Alguns jornaes mais cynicos e impacientes chegavam a aconselhar que se
não respeitasse a palavra d'um vil mussulmano--e que se fosse
_bombardeando_! O trabalho então da frota foi vigiar incessantemente as
fortificações, na esperança de descobrir algum sapador, d'enxada ao
hombro, que desmentisse a promessa d'Arabi. De noite, os couraçados
projectavam sobre a costa longos e vivos raios de luz electrica,
movendo-os lentamente ao longo das baterias, pesquizando anciosamente os
menores recantos, procurando o mais leve vestigio de trabalho--fosse
elle um cesto de pedras esquecido; e assim foi que uma noite--noite
venturosa para o governo do snr. Gladstone!--a esquadra descobriu dois
soldados limpando um velho canhão! Que allivio para a Inglaterra!
Immediatamente o almirante Seymour mandou este _ultimatum_ a
Toulba-pachá, governador da cidade:--dentro em vinte e quatro horas os
fortes deveriam ser entregues ás tropas inglezas, ou toda a linha de
couraçados abriria fogo sobre Alexandria. A isto, realmente, só se póde
responder a grande palavra de Cambronne em Waterloo.

Lamento que Arabi a não dissesse: era a segunda vez na historia que John
Bull a receberia em plena face.

A vespera do bombardeamento foi dramatica. O almirante Seymour fez sahir
da bahia todos os navios mercantes; e, depois, com a usual etiqueta,
convidou os navios de guerra de outras nações a fazerem-se ao largo,
levando para fóra da linha de fogo a neutralidade das suas bandeiras.
Essa longa procissão de couraçados de toda a Europa, deixando lentamente
as aguas da Alexandria, para que a Inglaterra pudesse livremente
commetter o seu attentado--é descripta pelos correspondentes inglezes
como cheia de solemnidade e de ceremonial. As salvas succediam-se; uns
aos outros cortejavam-se os pavilhões dos almirantes. Os ultimos a sahir
foram os navios francezes, os alliados na _manifestação_, que, honra
lhes seja, não quizeram ser alliados no crime:--e a tricolor afastou-se
tambem, saudada pelo almirante Seymour, entre os _hurrahs_ de despedida
da marinhagem e o estridor da _Marselhesa_. A tarde estava bella; tudo
era luz na bahia; os minaretes d'Alexandria branquejavam no azul...
Magnifico espectaculo, sem duvida:--sómente que pensariam d'elle os
milhares de pobres arabes, de mulheres e de creanças, que o contemplavam
das alturas da cidade, e sobre os quaes ia cahir no dia seguinte bala,
metralha e bomba?

Por fim, a noite desceu e estrellou-se; á beira da agua calma luziam as
luzes d'Alexandria; tudo ficou em silencio na bahia.

Estavam a sós, frente a frente, sob a paz dos ceus, uma grande esquadra
ingleza e a cidade inoffensiva que ella, na madrugada seguinte, para
satisfazer a sofreguidão mercantil de um povo de lojistas, ia friamente
arrasar.



V

Depois do bombardeamento.--Os incendios.--As responsabilidades.--Uma
Alexandria ingleza.--A invasão.--A attitude da Europa.


O almirante Seymour, dias antes, tinha declarado que em duas breves
horas desmantelaria os fortes de Alexandria. Ao cabo, porém, de nove
compridas horas ainda não fizera calar as baterias egypcias; e ainda
justamente uma bomba vinha escavacar a camara do commandante do
_Inflexivel_.

Sir Beauchamp Seymour reconheceu, nos seus despachos para o almirantado,
«que os melhores artilheiros da Europa se poderiam orgulhar de uma tão
bella resistencia». Mas nem coragem, nem reductos, nem muralhas de
granito prevalecem contra esses negros monstros que desfeiam os mares--o
_Monarcha_, o _Alexandra_, o _Soberbo_, o _Sultão_, o _Invencivel_, o
_Minotauro_, e tantos outros que lá estavam, movediços castellos de
ferro, servidos pelas forças combinadas do vapor, da hydraulica, da
electricidade, devastadores como um cataclysmo e exactos como uma sciencia.

Pobres fortalezas de Mehemet-Ali! Foi a velha fabula da panella de barro
contra que tombou a panella de bronze. Ao anoitecer, eram apenas montões
de ruinas fumegando em silencio...

Estava consummada a façanha! Na bahia, agora, tudo cahira n'uma grande
paz; a noite descera calma e escura; os enormes couraçados repousavam;
da cidade vencida não vinha o menor ruido; só n'um ponto de terra o
palacio de Rasel-tin ardia ao abandono. Foi então que o eloquente
correspondente do _Standard_ telegrahou para o seu jornal esta phrase
que merece fama:--_A situação não póde ser mais satisfactoria!_

Pelo meio da noite, porém, da parte de Alexandria, onde ficava a _Praça
dos Consules_, começou a erguer-se um vasto clarão. Alli, evidentemente,
havia um incendio. Mas como? Porque?

O almirante Seymour lavaria d'ahi as suas mãos--se tivesse a bordo a
bacia de Poncio Pilatos. Elle concentrára escrupulosamente o seu fogo
sobre os fortes: uma ou outra bomba poderia ter cahido nos bairros
arabes--e nada mais legitimo, nem de mais salutar terror; mas a parte
européa de Alexandria fôra poupada... E todavia, era lá que o incendio
se estendia avermelhando, aquecendo o ceu; e de outros pontos visinhos
iam subindo na noite altas labaredas. Diabo! A situação já não era tão
satisfactoria...

Ao outro dia houve um tempo muito nublado, com um mar muito forte. Os
couraçados, por precaução, fizeram-se ao largo. Quando, horas depois,
vieram retomar as suas posições de combate, Alexandria, deante d'elles,
ardia toda como uma monstruosa fogueira. Positivammente, não era nada
satisfactoria a situação!

Não era. Arabi-pachá abandonára Alexandria, levando o grosso do
exercito. E a população mussulmana, enfurecida por nove horas de
bombardeamento, sem policia para a conter, com os _ulemas_ a excital-a,
tomada da cobiça da pilhagem, e inflammada pela furia das represalias,
correra aos bairros europeus,--e incendiou, saqueou, matou, destruiu;
matou pela raiva de matar, porque até pobres cavallos de carruagem
appareceram esquartejados; destruiu pela raiva de destruir, porque se
acharam nas ruas, aos pedaços, vestidos de senhoras, relogios de sala e
oculos de theatro...

Ferocidades de fanatismo, que se arremessa n'uma vingança indiscriminada
sobre tudo o que lhe represente a raça, os costumes, as idéas que elle
odeia--sobre os homens e sobre os espelhos. Isto não se dá só em paiz
mussulmano. Sempre que os parizienses invadiam as Tulherias, rasgavam á
ponta de sabre o setim das poltronas...

Collocou-se a população de Alexandria, por taes excessos, fóra da
humanidade? Os inglezes dizem que sim; eu digo que nós teriamos feito o
mesmo, nós europeus, christãos e podres de civilisação. Se, quando os
allemães estavam bombardeando Pariz--os parizienses vissem no centro da
sua cidade um bairro exclusivamente allemão, compacto, monumental,
luxuoso, erguido pelo dinheiro que o allemão ganhára a explorar a
França,--resistiriam os parizienses, os mais civilisados dos mortaes, a
besuntal-o de petroleo e fazel-o flammejar por uma bella noite de inverno?

A resposta é facil, lembrando-nos que, quando por seu turno o snr.
Thiers, esse homunculo de estado, bombardeou Pariz, os parizienses
apressaram-se a destruir o palacete do snr. Thiers.

Foi Arabi que ordenou o incendio de Alexandria? Não, evidentemente.
Arabi não é um patriota selvagem, do typo d'esse Rostopchin que queimou
Moscou: é um fellah fino e sagaz, que sabe que na Europa, na Inglaterra
sobretudo, onde affectamos todos uma sensibilidade humanitaria, nada
desacredita mais que uma fria crueldade. Basta observar a attitude
polida, quasi paternal que elle toma com os prisioneiros inglezes--o
guarda-marinha Chair, por exemplo.

Quando este official foi levado ao acampamento arabe, Arabi disse-lhe
logo, depois d'um _shake-hands_.

--Escreva a sua mãe, conte-lhe que está entre mãos leaes, e tire-a
d'inquietações...

Isto era de certo sincero--mas sobre tudo habil: e uma tal palavra voou
direita ao coração de todas as mães inglezas. Desde os conflictos
d'Alexandria, o empenho d'Arabi tem sido proteger os europeus que ainda
restam nas villas do interior. Os _cadis_ que não evitaram o massacre
dos empregados do caminho de ferro do Delta, foram decapitados. A elle
se deve a tranquillidade do Cairo, onde existe uma enorme massa de
propriedades e riquezas européas. Que ganharia Arabi em destruir esta
prospera cidade egypcia, no começo da campanha e com o seu exercito
intacto? Apenas a fama d'um monstro boçal.

Á Inglaterra cabe a responsabilidade da catastrophe. As bombas do
almirante talvez, com effeito, não tivessem arrasado mais que alguns
casebres arabes; mas á imprevidencia do governo se deve a ruina
d'Alexandria.

Desde o meiado de junho, o mais experiente, mais auctorisado dos seus
agentes diplomaticos, o snr. E. Malet, consul geral do Egypto, não
cessou de bradar--que se o bombardeamento era inevitavel, Sir Beauchamp
Seymour devia ter tropas de desembarque, para occupar a cidade, apenas
os fortes fossem destruidos, e impedir assim que, no caso provavel de
Arabi se retirar para o interior, ella ficasse á mercê d'uma plebe
semi-barbara...

Nada d'isto se fez.

Sir Beauchamp Seymour bombardeou, arrasou, repelliu virtualmente
d'Alexandria a Arabi, a unica força que continha uma populaça de cem mil
fanaticos--e, depois, ficou a bordo do seu couraçado, vendo
tranquillamente arder, deante de si, uma das mais ricas cidades do
Mediterraneo.

Por outro lado, a quem aproveitava o incendio? Á Inglaterra. O pretexto
de que os fortes _punham em perigo os couraçados britannicos_, só a
auctorisava, perante os escrupulos da Europa, a destruir os fortes, não
a occupar a cidade. Agora, porém, que ella estava em chammas, abandonada
á anarchia, á pilhagem, ao ataque das hordas beduinas que corriam do
deserto--agora ella tinha o direito--mais, ella tinha o dever!--de
desembarcar e ir salvar de uma total aniquilação tanta riqueza, tão
esplendido centro de commercio!...

Generosa Inglaterra! E desembarcou logo, aquartelou tropa, plantou
bandeira. Tinha deante de si um monte de ruinas, e em poucos dias foi
dando fórma a uma Alexandria nova, já com feição ingleza e administrada
á ingleza.

Os incendios foram dominados; as ruas desentulhadas; estabeleceu-se uma
policia terrivel, que executava summariamente os ladrões e os
incendiarios; abasteceu-se a cidade: a alfandega reabriu as portas; em
substituição das lojas destruidas, armaram-se barracões de venda; o
machinismo judicial foi posto em movimento; reparou-se a fabrica do gaz,
a cidade foi reilluminada; os bancos voltaram a funccionar.

E, como era necessaria uma auctoridade, em nome de quem se reorganisasse
a vida municipal, os inglezes, que apenas estão alli (diziam elles) como
um corpo de policia, foram buscar o Khediva a uma casa dos arredores,
onde elle se refugiara durante o bombardeamento, e installaram-n'o
solemnemente no palacio de Ras-el-tin, palacio meio ardido, onde elle é
uma auctoridade meio morta!...


Desde este momento, a situação tornou-se muito definida, muito simples.
Os inglezes possuiam, governavam Alexandria, tão naturalmente como se
ella estivesse situada no condado de Yorkshire; e de fronte
d'Alexandria, n'essa especie de isthmo arenoso que a liga á terra do
Delta, estava Arabi n'um acampamento entrincheirado, governando d'ahi
todo o valle do Nilo e o deserto até o mar. Os inglezes recebiam
incessantes reforços de casa e da India. Arabi chamava á guerra contra
os inglezes todo o povo fellah. A Inglaterra preparava uma invasão.
Arabi organisava uma grande defesa nacional. Nada mais claro. A questão
é entre a Inglaterra, procurando estabelecer um protectorado sobre o
Egypto, arrancar-lhe as cidades estrategicas que dominam o canal, e
Arabi-pachá, um patriota, que quer o Egypto para os egypcios, que receia
a protecção do estrangeiro como a peior desgraça de um paiz fraco, e que
entende que, pelo facto de que Alexandria, Port-Saïd e Suez se acham
desgraçadamente no caminho da India, não é motivo para que se tornem
guarnições inglezas. E dos dous lados, grande enthusiasmo.

Em Londres, onde acabou a _season_ e começa a monotonia das praias de
banhos, o partir para conquistar o Egypto passou a considerar-se uma
feliz aventura. Se o ministerio da guerra o consentisse--toda a mocidade
de ouro, ou apenas de latão dourado, se alistaria, porque é do mais
requintado _chic_ ir dar cabo de Arabi!

O duque de Connaugth, um dos filhos de S. M. a Rainha, faz parte da
expedição, e o duque de Teck, seu cunhado, não sendo militar, partiu,
diz-se, como simples empregado do correio. Os officiaes dos regimentos
de guardas, essa pura nata da aristocracia e flôr da finança, tiveram a
ventura de vêr os seus luxuosos regimentos, de ornamentação monarchica,
expedidos para o Egypto; sómente este natural prazer foi em parte
estragado pela severidade do ministerio da guerra, que, como se tratava
de uma campanha e não de um torneio, não consentiu que esses
gentis-homens fôssem seguidos por equipagens, creados de librés, tendas
de luxo e caixas de vinho de Champagne.

Um d'estes officiaes exprimiu alto a sua indignação, porque o
estado-maior só lhe consente tres cavallos de sella, dous creados de
quarto e cinco malas de bagagem!

Por outro lado, ao comprido do Nilo toda a população fellah se declarou
por Arabi; como por elle se declararam as classes lettradas, as
mesquitas, os _ulemas_, os _coptas_, os proprios principes parentes do
Khediva. Os _mudirs_, governadores de provincias, pagam-lhe a elle os
impostos. Os _scheiks_ do deserto mandam-lhe a sua cavallaria.

E este ardor é tanto maior, quanto Arabi-pachá foi de ha muito
prophetisado; já a sua inesperada entrada no governo se considerou um
advento divino; e este rebelde (como outros rebeldes que tão
gloriosamente fizeram o seu caminho na terra e no ceu) é Messias!

Uma antiga prophecia mussulmana annuncia que no seculo decimo terceiro
da Hegira nascerá á beira de um grande rio um homem de raça vil, por
nome Ahmet, que se revoltará, e restaurará o esplendor do Islam; ora, os
arabes estão no século XIII da Hegira, e Arabi, cujo nome é Ahmet, cuja
origem é _fellahina_, tendo nascido n'uma aldêa á margem do Nilo,
revoltou-se contra o seu califa. Assim, elle reune o duplo prestigio de
um Spartacus e de um Christo.

Concentrada a questão entre uma poderosa nação invasora e um patriota
que defende o seu solo--a Europa tomou logo a sua tradicional attitude:
isto é, murmurou algumas palavras de branda admoestação, e depois recuou
para longe, a observar como um braço forte sabe usar da sua força, a
estudar como se consuma a espoliação de um fraco.

Nos ultimos quinze annos a Prussia roubou a Dinamarca, e depois foi pela
Allemanha saqueando reinos e grãos ducados; em seguida, desmembrou a
França; mais tarde a Russia espatifou a Turquia; ha dous annos,
subitamente, a Republica Franceza cahiu sobre Tunis, e empolgou esse
desventurado estado barbaresco. Em cada um d'estes casos a Europa
comportou-se como um coro das operas d'antiga escola, quando membrudo
barytono, ahi pelo quarto acto, erguia o ferro sobre o tenor gentil e
magrizela: o côro adeanta-se, modula uma larga phrase, agita os braços
em cadencia, faz o commentario amargo da acção, brada talvez:
_suspendei_! Depois, afastando-se em grande compostura, deixa á bocca da
scena o tyranno barbudo sondando tranquillamente com a ponta da lamina o
interior do galã...


Não fallemos mais na Europa. Não ha, nunca houve _Europa_, no sentido
que esta palavra tem em diplomacia. Ha hoje apenas um grande pinhal de
Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos
outros, tremem uns dos outros, e, por um accordo tacito, permittem que
cada um por seu turno se adeante--e assalte algum pobre diabo que vegeta
ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas
do Direito Internacional, allumiadas por Ortolan e outros lumes,
rouba-se de carabina alta, e rompem a cada momento brados de povos
assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia
estar coberta d'estes avisos em lettras gordas: _Beware of
pick-pockets!_ Cautela com os salteadores.

A pequena propriedade politica tende a acabar. Toda a terra vae em breve
reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietarios... Hontem,
era Tunis--porque a França necessita proteger a fronteira da Argelia.
Hoje, é o Egypto--porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da
India. Amanhã, será a Hollanda--porque a Allemanha não póde viver sem
colonias. Depois, a Servia--por motivos que a seu tempo a Austria dirá.
Mais tarde, a Rumania--porque a Russia é forte. Depois a Belgica--porque
sim. Depois...

Este assumpto é lugubre. Voltemos ao valle do Nilo!



VI

Situação dos exercitos.--O Nilo, a secca, os areaes.--Os perigos de
um «Jehad».--O septicismo mussulmano.--O mundo ingleza-se.--Filaucias
de John Bull.


  Postos estão frente a frente
  Os dois valorosos campos...

Esta melancolica chacara que, se bem me recordo, chora as desgraças de
Alcacer-Kibir--serve para pintar graphicamente a situação estrategica de
inglezes e egypcios, desde que se abriu a campanha.

Para comprehenderem bem, imaginem um grande A. O triangulo interno da
lettra é o Delta--essa terra amada dos deuses, tão rica, que ella, só
por si, outr'ora alimentou o imperio romano; ao alto da lettra, na
ponta, está o Cairo--de sorte que um poeta persa poude dizer gentilmente
que o Delta é um leque verde fechando sobre um botão de diamante, que se
chama o Cairo. Á base da perna direita do A fica Alexandria, e ahi
permanece uma parte do exercito inglez, defendido pelas fortificações de
Ramleh--e tendo deante de si, a tiro de peça, o grande campo
entrincheirado de Arabi-pachá, que se chama Kraf-Daonar, contendo 18 mil
egypcios, enormes parques de artilharia, e fechando a marcha pelo Delta.
A outra parte do exercito inglez, commandada pelo proprio general em
chefe Sir Garnet Wolseley, dirigiu-se por mar á base da perna esquerda
do A, que é, pouco mais ou menos, Ismailia, e d'ahi subiu por essa linha
até Kassassine, onde parou e se fortificou; achando-se igualmente a
pouca distancia, outro enorme campo entrincheirado, onde Arabi tem
quinze mil homens, que se chama Tel-el-Kebir. E estes quatro campos,
postos frente a frente, e observando-se, constituem até hoje a guerra do
Egypto.

Para chegar, pois, ao Cairo, seu objectivo militar e politico, Sir
Garnet precisa tomar as posições egypcias de Kraf-Daonar, se quizer ir
pelo Delta--e as de Tel-el-Kebir, se tentar avançar pelo deserto.

Até hoje os quatro campos limitam-se a trocar entre si, em certas
escaramuças, algumas languidas balas. Os jornaes de Londres,
naturalmente, noticiam estes tiroteios de vanguarda com um tremendo
apparato de lettras de palmo, mappas lithographados e largos rufos de
prosa--fazendo maior alarido do que se tivesse sido pelejada de novo a
batalha de Waterloo; mas isto é simplesmente para promover a venda do
numero.

Os egypcios, entrincheirados, em seus campos contam com poderosos
alliados: do lado do Delta confiam no Nilo, o velho e bondoso Nilo, que
não poderá deixar de ser fiel áquelles que ha seculos nutre, e que,
dentro em pouco, inundando as terras do Delta; e ajudado pelos
engenheiros d'Arabi, que certamente obstruirão os canaes, terá
convertido n'um immenso estendal de lamas inatravessaveis esse caminho
do Cairo, o mais favoravel para os inglezes, pois seria como marchar
n'uma rica e infindavel granja, entre pomares, jardins, frescuras e
celleiros cheios... Do lado do deserto, os egypcios contam com o sol,
com a secca e com a areia. Póde-se imaginar o que soffrerão essas tropas
do frio Norte, marchando em areaes abrasados n'uma reverberação de luz
que estonteia, sob um calor tão torrido, que o _metal dos estribos
cresta os botins_, e tendo para beber só agua barrenta, que é necessario
ferver primeiro! Já as insolações, as dysenterias, a nostalgia, dizimam
os regimentos--e como o commissariado inglez, sempre mau, encontra aqui
difficuldades de transporte, as tropas de S. M. a Rainha Victoria _já
tem soffrido fome_! Ah! custa caro o caminho das Indias!

Além d'estes alliados que elle possue na natureza, Arabi espera ainda
nas tribus beduinas, e n'essas hordas errantes d'arabes a cavallo que
estão chegando do lado de Tripoli a combater o _cão estrangeiro_, e que,
se diz, constituem um reforço de trinta mil homens...

Por seu lado, os inglezes contam apenas comsigo. E isto não é pouco.
Como diz a sua celebre canção de guerra--_elles têm os navios, têm o
dinheiro, e têm os homens_. Têm tambem essas magnificas tropas indias,
que riem do sol, da secca, e das areias d'Africa. E isto levou Sir
Garnet a declarar que a campanha estaria finda no dia 15 de setembro. É
verdade que nós estamos a 7 de setembro, e elle, entrincheirado em
Kassassine, tendo deante de si a barreira formidavel de Tel-el-Kebir,
ainda está pedindo reforços. Mas isto prova só que esse raio de guerra,
tendo habitos differentes dos de Cesar, _chegou, viu, e reflectiu_.
Demos-lhe mais um mez; demos-lhe tres largamente; o certo será que ao
fim d'este anno, Arabi, os seus campos, o seu exercito, a sua bella
aspiração a uma nacionalidade egypcia, tudo isso se terá esvaido--como
se esvae uma nuvem n'esse secco céo africano.

Os inglezes poderão soffrer revezes, perder milhares d'homens, gastar
milhões de libras; mas, tendo uma vez compromettida a honra da sua
bandeira, com um fim d'engrandecimento imperial, não embainharão a
espada antes de ter installado na cidadella do velho Cairo, ao som do
_God save the Queen_, um governador inglez.

Evidentemente o snr. Gladstone falla apenas de _restabelecer a ordem e
restaurar o Khediva_. Meras locuções diplomaticas. O _Times_, que é o
verbo d'Inglaterra, esse falla, sem rebuço, em _protectorado_. E ha
muitos inglezes, ainda menos reservados que o _Times_, que dizem redonda
e seccamente--_conquista_.

Mesmo quando o snr. Gladstone, que é a seu modo um democrata dentro dos
limites do Evangelho, e o seu illustre collega Lord Granville, que é um
jurista e um diplomata, quizessem, em respeito ao liberalismo, á Europa,
ao direito internacional e a outras cousas vagas, deixar o Egypto
reorganisar-se a si mesmo--sahindo elles de lá com as mãos vasias,
depois de terem supprimido Arabi e o seu turbulento partido--a
Inglaterra inteira, em massa, protestaria contra este philosophico
desinteresse...

Ha alguem ahi assaz ingenuo para suppôr que John Bull, essa torre de
senso pratico, consentiria em que se lhe dizime o exercito, em que se
lhe gaste o dinheiro como elle gasta a agua das fontes, em que se lhe
augmente o _income-tax_--só para que o Khediva, esse amavel moço,
continue a fumar o _narghilé_ do poder sob as sombras dos jardins de
Choubra? John Bull não ficará satisfeito senão com este resultado
macisso e duradouro--um _Egypto inglez_, tendo dentro do seu territorio,
como um corredor de casa particular, o canal de Suez, caminho das
Indias. Um ministerio que, depois de ter enterrado nos areaes da Africa
milhões de libras e milhares de vidas, não lhe der isto--receberá no
mesmo instante, na parte posterior da sua individualidade, o bico da
bota de John.

Mas se Arabi, derrotado, conseguir levar o Scherife de Méca a proclamar
contra a Inglaterra um _jehad_--que é uma guerra santa, uma crusada, um
levantamento em massa do mundo mussulmano?

Bons espiritos, em Inglaterra, dizem ser este um grande perigo--pois que
só na India ha cincoenta milhões de mahometanos. Eu não creio, porém,
que haja aqui motivo para John Bull empallidecer. E lamento-o! Porque é
d'um bello pittoresco essa idéa d'um _jehad_ com o seu ceremonial--o
Scherife de Méca desenrolando o estandarte verde de Mahomet, os doutores
do Islam assignando todos o _fetva_ fatal, e logo, de cada canto da Asia
e d'Africa, a torrente dos crentes precipitando-se em nome de Allah!
Bello motivo d'ode--a que não corresponde nenhuma realidade...

Em primeiro logar, nunca se fez! O crescente tem sido muitas vezes
humilhado pela cruz, o Islam tem recebido na face a mão da Europa
christã, o Califa tem fallado repetidamente em proclamar um _jehad_--e
todavia o estandarte do Propheta continuou enrolado nos sacrarios de
Méca. E a minha opinião é que se elle fôsse um dia desenrolado--haveria
apenas um pedaço de panno verde mais, fluctuando ao vento do ceu.

E querem que lhes diga porque? Porque penso que os mussulmanos estão a
esta hora tão scepticos como nós outros, os christãos. Nas areias do
deserto, como nas nossas praças allumiadas a gaz--já não será facil
encontrar mil homens de boa vontade, que peguem em armas em nome do seu
Deus.

De certo todo o bom mussulmano, a certas horas do dia, se orienta para o
lado de Méca e se prostra nas reverencias rituaes: pura questão de
educação, de boas maneiras, de habito, como nós outros tiramos o chapéu
ao passar por um calvario de aldeia. Ou então, superstição vaga, vago
terror nervoso, como o de certos philosophos e positivistas das minhas
relações, que sempre, ao saltar da cama, fazem o signal da cruz.

Dentro do Alcorão vê-se já o caso melancolico de uma lei divina ir
cahindo em desuso. O Sultão recebe a jantar os embaixadores, e bebe com
elles _champagne_: a policia do Cairo prende os santos _derviches_
vagabundos, e já não é respeitado o jejum do Ramazan.

Como o nosso Evangelho, a palavra de Mahomet vae-se tornando objecto de
poesia, de commentario, de controversia. Ha Renans no Islam; e o verbo
divino, uma vez analysado, deixa de inspirar a fé que leva á morte.

O mundo mussulmano está no seu seculo decimo-terceiro, na sua plena meia
edade, e certamente ha muito beduino sob a tenda, tão crente, tão
penetrado de Mahomet, como aquelles corações simples, que, ainda ha
pouco no deserto dos nossos claustros, choravam ao ler a paixão de
Jesus; mas não creio que mesmo esses patriarchas deixassem os seus
oasis, os seus rebanhos, os seus harens, para virem gratuitamente, sem
outro pret a não ser o sorriso das houris nos jardins do Paraizo,
supportar o fogo dos canhões Krupp. E emquanto ás classes cultas de
Constantinopla, do Cairo, de Smyrna, de Tunis, essas acreditam tanto na
promessa das houris, como nós outros, aqui em Regent-Street, nas palmas
verdes da Bemaventurança e no côro dos Serafins...

Por todo o universo a religião desapparece das almas; e apenas lá fica
essa vaga religiosidade, feita em parte do abalo que deu ao nosso
coração uma tão longa sujeição ao sobrenatural, em parte do confuso
terror que impera n'este grande universo que nos cerca, tão simples e
tão mal comprehendido. N'este estado negativo, de passividade na duvida,
não se gera facilmente um impulso d'acção forte. Um _jehad_ no Islam é
tão impraticavel--como uma cruzada no Christianismo. Pedro Ermita hoje
iria acabar na policia correcional, por perturbador da ordem publica e
das relações internacionaes; e os fanaticos que, ainda hoje, ás portas
das mesquitas do Cairo, bradam contra o _touriste_ estrangeiro as
injurias aconselhadas pela boa doutrina, são immediatamente levados para
a enxovia, por _fazerem alarido nas ruas_!

Mahomet, nas suas mesquitas, Christo, nas nossas capellas, vão
singularmente envelhecendo; o nosso Messias vae-se cobrindo pouco a
pouco do pó que levanta o forte arado da razão, lavrando um mundo novo;
e o propheta do Islam, tendo perdido a força da sua unidade, subdividido
em mil prophetas menores que presidem a mil seitas differentes, mal póde
resistir á lenta avançada da civilisação occidental. E com Christo e
Mahomet, que eram os principios militantes e vivos das suas religiões,
desapparece o que n'essas religiões havia de vivo e de militante. Resta
Deus, resta Allah. Sublimes abstracções, incapazes de inspirar amor ou
heroismo.

O que mais faz amar a Divindade é a quantidade de humanidade que ella
encerra. Clovis batia-se por Jesus, que tinha um peito de homem como o
d'elle, e n'esse peito humano cinco chagas abertas; Soliman morreria
feliz por Mahomet, que era como elle um guerreiro, e como elle amava a
belleza.

Mas quem se vae bater por Deus, por Allah, essas entidades tão vastas
que enchem todo o ceu, e tão pequenas que não bastam a satisfazer o
nosso coração, que nos são subalternas, porque são feitas á nossa
imagem, e são no fundo a nossa propria alma alargada até ao infinito com
todas as suas fraquezas?!

De resto, é possivel que eu esteja aqui attribuindo a fortes corações de
Meca e do deserto os scepticismos litterarios de _Pall-Mall_ e do
_Boulevard de la Madeleine_. Que sabemos nós do que se passa dentro do
Islam? Tão pouco como os lettrados da mesquita d'El-Azhar sabem o que
por cá vae dentro do nosso confuso catholicismo.


Mas, mesmo que se effectuasse um _jehad_, seria apenas motivo para a
Inglaterra gastar mais alguns milhões e sacrificar mais alguns
regimentos. Nem o Alcorão, nem o famoso estandarte verde, nem o proprio
Mahomet, que voltasse á terra a desfraldal-o, impediriam que John Bull
se estabeleça no Egypto...

Já lá está, nunca mais de lá sahirá!

Estão em toda a parte, esses inglezes! O seculo XIX vae findando, e tudo
em torno de nós parece monotono e sombrio--porque o mundo se vae
tornando inglez. Por mais desconhecida e inedita nos mappas que seja a
aldeola onde se penetre, por mais perdido que se ache n'um obscuro
recanto do Universo o regato ao longo do qual se caminhe--encontra-se
sempre um inglez, um vestigio de vida ingleza!

Sempre um inglez! Inteiramente inglez, tal qual como sahiu da
Inglaterra, impermeavel ás civilisações alheias, atravessando religiões,
habitos, artes culinarias differentes, sem que se modifique n'um só
ponto, n'uma só prega, n'uma só linha o seu prototypo britannico.
Hirtos, escarpados, talhados a pique, como as suas costas do mar, ahi
vão querendo encontrar por toda a parte o que deixaram em Regent-Street,
e esperando Pale-Ale e _roast-beef_ no deserto da Petrea; vestindo no
alto dos montes sobrecasaca preta ao domingo, em respeito á egreja
protestante, e escandalisados que os indigenas não façam o mesmo;
recebendo nos confins do mundo o seu _Times_ ou o seu _Standard_, e
formando a sua opinião, não pelo que vêm ou ouvem ao redor de si, mas
pelo artigo escripto em Londres; impellindo sempre os passos para a
frente, mas com a alma voltada sempre para traz, para o _home_;
abominando tudo o que não é inglez, e pensando que as outras raças só
podem ser felizes possuindo as instituições, os habitos, as maneiras que
os fazem a elles felizes na sua ilha do Norte!

Estranha gente, para quem é fóra de duvida que ninguem póde ser moral
sem ler a Biblia, ser forte sem jogar o _cricket_, e ser _gentleman_ sem
ser inglez!

E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se
_desinglezam_. Ha raças fluidas, como a franceza, a allemã, que, sem
perderem os seus caracteres intrinsecos, tomam ao menos exteriormente a
forma da civilisação que momentaneamente as contêm. O francez no
interior da Africa adora sem repugnancia o _manipanço_, e na China usa
rabicho. O inglez cahe sobre as idéas e as maneiras dos outros, como uma
massa de granito na agua: e alli fica pesando, com a sua Biblia, os seus
_clubs_, os seus _sports_, os seus prejuizos, a sua etiqueta, o seu
egoismo--tornando-se na circulação da vida alheia um encommodativo tropeço.

É por isso que, nos paizes onde vive ha seculos, é elle ainda o
_estrangeiro_.

Em toda a parte onde domine e impere, todo o seu esforço consiste em
reduzir as civilisações estranhas ao typo da sua civilisação
anglo-saxonia. O mal não é grande quando elles operam sobre a Zululandia
e sobre a Cafraria, n'essas vastidões da Terra Negra, onde o selvagem e
a sua cubata mal se distinguem das hervas e das rochas, e são meros
accessorios da paizagem: ahi encontram apenas uma materia bruta, onde
nenhuma anterior fórma de belleza original se estraga, quando elles a
refundem para a fazer á sua imagem. Vestir o desventurado rei negro
Cetewayo, como elles agora fizeram, de coronel de infanteria, obrigar os
chefes dos Basutos a saber de cór os nomes da familia real ingleza, são
talvez actos de feroz despotismo, mas não deterioram nenhuma primitiva
originalidade de linha ou de idéa. Para Cetewayo, que andava nú, uma
fardeta, mesmo de infantaria, não faz senão vestil-o; e é indifferente
que dentro do craneo dos Basutos haja só formulas de invocação ao
_manipanço_, ou tambem nomes de principes da casa d'Hanover.

Mas quando elles trabalham sobre antigas civilisações como a da India,
onde existem artes, costumes, litteraturas, instituições, em que uma
grande raça pôz toda a originalidade do seu genio--então a politica
anglo-saxonia repete pouco mais ou menos o attentado sacrilego de quem
desmantellasse um templo buddhico, bello como um sonho de Buddha, para
lhe dar na sua reconstrução as linhas hediondas do _Stock Exchange_ de
Londres; ou ainda de quem se fôsse ao marmore divino da Venus de Milo, e
tentasse, á força bruta de martello e cinzel, dar-lhe o feitio, as
suissas e a sobrecasaca de lord Palmerston! A expansão do inglez para o
Oriente, seu objectivo imperial, seria toleravel, mesmo aos nervos de um
artista--se elle se contentasse em levar para lá os seus tecidos, as
suas machinas, os seus telegraphos, os seus railways, deixando depois
que essas raças usassem esse colossal material de civilisação em se
desenvolverem no sentido do seu genio e do seu temperamento. Que por
todos os modos se forneça á santa cidade de Hydrabad gazometros e
illuminação--mas, por Deus! que se não mettam á força bicos de gaz
dentro dos seus templos, se isso offende os seus ritos e repugna ao seu
gosto! Que a India, por exemplo, seja coberta de caminhos de ferro,
fornecidos pelos industriaes de Northumberland e pagos pelo
indio--excellente! Mas ao menos que as aldêas onde elles passam, essas
aldêas que os mesmos inglezes descrevem como pequenos paraizos de paz,
de trabalhos simples, de costumes doces, de frugalidade, de frescura, de
belleza moral, não sejam tornadas tão tristes como as tristes parochias
de Yorkshire, introduzindo-se logo lá o _policeman_, o deposito de
cerveja, a capella protestante de tijolo, o livreiro de Biblias, o
vendedor de _gin_, a fumaraça de uma fabrica, a prostituição e a
_workhouse_!...

Mas deixemos isto. É facil maldizer da Inglaterra. Basta abrir os livros
dos seus grandes homens, desde Thackeray, o artista, que com um tão frio
rancor lhe fez a satyra sangrenta, até Carlisle, o philosopho, que
passou a existencia a fulminal-a com uma tumultuosa colera de propheta...

Da Inglaterra póde-se dizer que--ao contrario da generosa França--as
suas virtudes só a ella aproveitam e os seus vicios contaminam o mundo.

É á Inglaterra que se deve o egoismo crescente que nos vae petrificando
o coração--esse egoismo tão particularmente inglez, que faz com que em
Hyde-Park, no seu centro de luxo, trezentas pessoas, em torno de um
lago, vejam uma pobre criança afogar-se, sem que nenhuma se encommode a
tirar o charuto da bocca para lhe estender uma taboa! É á Inglaterra que
devemos esta crescente hypocrisia que invade o mundo, e que faz com que
em Londres, nos cartazes que annunciam as peças de Sardou ou Dumas, se
ajunte esta estupenda declaração: _adaptada ás justas exigencias da
moralidade ingleza_;--emquanto que, na rua, por baixo d'esses mesmos
cartazes, rola, sem cessar, a mais vil torrente que o mundo viu de
bebados e de prostitutas!

Mas deixemos as maculas da Inglaterra: a lista é longa;--quero só
alludir a um outro abominavel defeito que ella sempre teve, e que agora
desenvolveu em proporções intoleraveis:--a sua espantosa filaucia, a sua
ruidosa basofia, o seu tremendo ar _mata-sete_!

É sobretudo n'este momento, desde o começo da guerra do Egypto, que os
que, como eu, amam a Inglaterra, soffrem de lhe vêr estes extravagantes
modos de valentão de romance picaresco. Os telegrammas que os
correspondentes dos jornaes enviam das operações da guerra, sobretudo os
commentarios dos proprios jornaes, seriam lamentavelmente grotescos, se
não fossem odiosamente impertinentes. Os francezes (que não são
modestos) puzeram trinta mil allemães fóra de combate na batalha de
Gravellote, e todavia não fizeram a decima parte do alarido, da
gloriola, do espalhafato com que os inglezes celebravam a escaramuça de
Ramleh, onde os egypcios perderam _quarenta e tantos homens_! Parece
faltar-lhes o sentimento da proporção das cousas. Um correspondente do
_Daily News_ annunciava, ha dias, como um feito heroico, digno de ir á
posteridade, o terem alguns soldados em marcha dado um pedaço de pão de
munição a um arabe que morria de fome á beira de um caminho! Era espanto
de encontrar dentro de peitos inglezes um resto de piedade humana? Não.
Queria provar que nenhum exercito no mundo faz a guerra com uma tão
profunda clemencia!

Ou celebrem o aspecto physico dos regimentos ou a afinação das bandas de
musica, a pontaria dos artilheiros ou a fórma dos capacetes, os talentos
do Estado Maior ou a excellencia da bolacha de munição, vem logo em
lettras gordas, a phrase tola--_o que ha de melhor no mundo_!

Faz uma vedeta ingleza fogo sobre uma vedeta egypcia e depois recolhe á
trincheira? Logo este facto é declarado _tão nobre pelo heroismo como
habil pela prudencia_!

Os córos que se entoam em torno do general Wolseley, pertencem á pura
farça.

Eu quero crêr que elle é um grande homem--ainda que por ora nada mais
fez que debandar uma pobre horda de negros armados de flechas que
vegetavam junto a não sei que rio d'Africa; mas que se póde pensar
quando se lê, no _World_ e em outros papeis, que elle é o _maior general
do seculo_? Onde vive um certo Moltke? Quando existiu um chamado Napoleão?

O melhor, mais bem feito, mais importante jornal de Londres, a _Pall
Mall Gazette_, envergonhado de tudo isto, explica, com a sua usual
habilidade, que estas fanfarronadas não são destinadas á Europa, mas ao
Egypto «para levantar o moral das tropas!» Têm pois esses regimentos em
campanha nos areaes da Africa, diante d'um inimigo formidavel, vagares
para ler as gazetas? Recebe cada soldado raso, com o seu rancho da
manhã, um numero do _Times_? A respeitavel _Pall Mall_ blaguêa. Para
animar, recompensar as tropas, lá estão as proclamações dos generaes.
Ahi, sim, a emphase deve correr em torrentes: e quando um desgraçado
homem depois de ter marchado todo um dia, com fome, com sêde, com os pés
em sangue na areia e um ceu de fogo nas costas, volta á noite ao
acampamento, estendido n'uma maca com duas balas no corpo--não é muito
que se lhe diga que elle é o primeiro soldado do mundo!

É também «para levantar o moral das tropas» que o _Times_ e o
_Spectator_, fallam, de mão na cinta, e suissa ao vento, de «impor á
Europa a vontade da Inglaterra?»

Não; é mera fanfarronada.

E não é só nos jornaes. Entre-se n'um club, n'um restaurante,
converse-se com um conhecido, entre duas chavenas de chá--e vem logo a
mesma jactancia de roncador: «Vamos dar cabo de tudo. Temos dinheiro a
rodo. Cá, ao pulso inglez, nada resiste... E se o mundo respinga,
quebram-se-lhe as ventas!...»

A Inglaterra perdeu as suas boas maneiras.

É forte, de certo--mas falla da sua força com a brutalidade de um
Hercules de feira que esbogalha os olhos e mostra os musculos; é rica,
de certo--mas falla do seu dinheiro com a grosseria d'um ricaço que
abarrota fazendo tinir as libras na algibeira...

Onde está a famosa _self-possession_ da Inglaterra, a sua tranquilla
dignidade? John Bull tornou-se Ferrabraz. Ora uma muito velha banalidade
ensina-nos que não ha verdadeira força sem serenidade e que sem modestia
não ha verdadeira grandeza.



X

O BRASIL E PORTUGAL


Os jornaes inglezes d'esta semana têm-se occupado prolixamente do
Brazil. Um correspondente do _Times_, encarregado por esta potencia de
ir fazer pelo continente americano uma «vistoria social» definitiva
deu-nos agora, em artigos repletos e massiços, o resultado do seu anno
de jornadas e de estudos.

O ultimo artigo é dedicado ao Brazil: eu, que nunca visitei o imperio,
não tenho naturalmente auctoridade para apreciar essas revelações
(porque o correspondente toma a attitude de um revelador) sobre a
religião, a cultura, os productos, o commercio, a emigração, o caracter
nacional, o nivel de educação, a situação dos portuguezes, a dynastia, a
Constituição, a republica, _et de omni re braziliensi_ e não posso
transcrevel-as tambem porque ellas enchem, no _Times_, vasto como é,
mais espaço que o proprio Brazil occupa no territorio da America do Sul.
Esse artigo excitou o interesse e os commentarios da _Pall-Mall Gazette_
e de outros jornaes, e ahi se rompeu a fallar do Brazil com sympathia,
com curiosidade, com essas admirações ingenuas pela sua rutilante flora,
esse pasmo quasi assustado pela sua vastidão, que decerto tiveram nossos
avós, quando o bom Pedro Alvares Cabral, largando a procurar o Preste
João, voltou com a rara nova das terras entrevistas do Brazil...

Devendo mostrar-lhes a opinião presente da Inglaterra sobre o Brazil,
d'esses artigos floridos, escolho o do _Times_, annotando e glosando o
trabalho do seu enviado. (É d'este modo respeitoso que se deve fallar
sempre de um correspondente do _Times_).

Começa, pois, o grande jornal da _City_ por dizer--«que a descripção do
vasto Imperio do Brazil com que foi fechada a serie das _cartas sobre o
continente americano_, deve ter feito transbordar o sentimento de
admiração pelo explendor, etc...» Seguem-se aqui naturalmente vinte
linhas de extasi. É, em prosa, a aria do 4.º acto da _Africana_: Vasco
da Gama, de olhos humidos e coração suspenso no enlevo de tanta flôr
prodigiosa, de tão raros cantos d'aves raras...

Depois vem o espanto classico pela extensão do Imperio: «Só o simples
tamanho de um tal dominio (exclama) na mão de uma diminuta parcella da
humanidade é já em si um facto sufficientemente impressionador!»

E todavia esta admiração do _Times_ pelo gigante é misturada a um certo
patrocinio familiar, de ser superior,--que é a attitude ordinaria da
Inglaterra e da imprensa ingleza para com as nações que não têm duzentos
couraçados, um Shakspeare, um _Bank of England_, e a instituição do
_roast-beef_... N'este caso do Brazil, o tom de protecção é raiado de
sympathia...

Depois o artigo rompe de novo n'um hymno: «A Natureza no Brazil não
necessita do auxilio do homem para se encher de abundancias e se cobrir
de adornos!... Para seu proprio prazer planta, ella mesma, luxuriantes
parques! E não ha recanto selvagem que não faça envergonhar as mais
ricas estufas da Europa...» Isto é decerto exacto: mas o _Times_,
receiando que os seus leitores viessem a suppor que a natureza do Brazil
está de tal modo repleta, tão indigestamente attestada, que não
permitte, que se recusa com furor a receber no seu ventre empanturrado
uma semente mais sequer--apressa-se a tranquillisal-os: «Mas (diz este
sabio jornal judiciosamente) ainda que a Natureza dispense bem todo o
trabalho do homem, que outros solos menos generosos requerem para se
abrir em flôres e fructos,--_não o repelle todavia_». Isto socega os
nossos animos: ficamos assim certos que nenhum fazendeiro, nos distantes
cafesaes, ao atirar á terra, a _terra mãe_, com a enxadada fecundadora a
semente inicial, corre o risco atroz de ser por ella atacado á pedrada
ou a golpes de bananeira... Nem outra cousa se podia esperar da doce e
pacifica Ceres.

Tendo assim floreado, de penacho oratorio ao vento, o _Times_ investe
com as ideias praticas. E começa por declarar, que, segundo o copioso
relatorio do seu correspondente, «o que surprehende na America do Sul
(se exceptuarmos aquella tira de terra que constitui a Republica do
Chili, e alguns bocados da costa do enorme imperio do Brazil) é a
grandeza de tais recursos comparada á desapontadora magreza dos
resultados». Seria facil responder com a escassez da população. O
_Times_ de resto sabe-o bem, porque nos falla logo d'essa população nas
republicas hespanholas, mas não a acha escassa; o que a acha é torpe!...
A pintura que nos dá do Perú, Bolivia, Equador e consortes é ferina e
negra: «Essa gente vive n'uma indolencia vil, que não é incompativel com
muita arrogancia e muita exagerada vaidade! D'esse torpor só rompe, por
accesso de frenesi politico. Todo o trabalho ai emprehendido para fazer
produzir a natureza é dos estrangeiros: os naturaes limitam-se a
invejal-os, a detestal-os por os verem utilisar opportunidades que elles
mesmo não se quizeram baixar a usar!» Isto é cruel: não sei se é justo:
mas entre estas linhas palpita todo o rancor de um inglez possuidor de
maus titulos peruanos. «E se o nosso correspondente (continua o artigo)
offerece de alto o Brazil á nossa admiração, não é em absoluto, é
relativamente, em contraste com os paizes que quasi o egualam em
vantagens materiaes, como o Perú e o Rio da Prata, mas onde a discordia
intestina devora e destroe todo o progresso nascido da actividade
estrangeira. O Brazil é portuguez e não hespanhol: e isto explica tudo.
O seu sangue europeu vem d'aquella parte da Peninsula Iberica em que a
tradicção é a da liberdade triumphante, e nunca supprimida.» O _Times_
aqui abandona-se com excesso ás exigencias rythmicas da phrase: parece
imaginar que desde a batalha de Ourique temos vindo caminhando n'uma
larga e luminosa estrada de ininterrompida democracia!...

Mas, emfim, continúa: «Quando o Brazil quebrou os seus laços coloniaes
não tinha a esquecer feias memorias de tyrannia e rapacidade; nem teve
de supprimir genericamente todos os vestigios de um máu passado.» Com
effeito; pobres de nós! nunca fômos de certo para o Brazil senão amos
amaveis e timoratos.

Estavamos para com elle n'aquella melancolica situação de um velho
fidalgo, solteirão arrasado, desdentado e tropego, que treme e se baba
deante de uma governanta bonita e forte. Nós verdadeiramente é que
eramos a colonia: e era com atrozes sustos do coração que, entre uma
_Salvè Rainha_ e um _Lausperenne_, estendiamos para lá a mão á esmola...

O _Times_ prossegue: «Ainda que independente, o Brazil ficou portuguez
de nacionalidade e semi-europeu de espirito. Pelo simples facto de se
sentir portuguez, o povo brazileiro teve, e conserva, o instincto do
grande dever que lhe incumbe: tirar o partido mais nobre da sua nobre
herança... Sejam quaes tenham sido os erros de Portugal, não se póde
dizer que se tenha jámais contentado com o mero numero das suas
possessões, sem curar de lhes extrahir os proventos...» O _Times_ aqui
dormita, como o secular Homero.

E justamente o que nos preoccupa, o que nos agrada, o que nos consola é
contemplar _simplesmente o numero_ das nossas possessões: pôr-lhes o
dedo em cima, aqui e além, no mappa; dizer com voz de papo, _ore
rotundo_: «Temos oito; temos nove: somos uma nação colonial, somos um
povo maritimo!...» Emquanto a _extrahir-lhes os proventos_, na phrase
judiciosa do _Times_, d'esses detalhes miseraveis não cura o pretor, nem
os netos de Affonso de Albuquerque!... Mas prossegue o _Times_: «O
imperio colonial de Portugal talvez tenha sido outr'ora caracterisado
por desfortuna--quasi nunca por estagnação.» _Talvez_ é bom: com o
imperio do Oriente no nosso passado, que é um dos mais feios monumentos
de ignominia de todas as edades... Continuemos.

«Da origem d'onde o Brazil deriva a sua actividade, deriva tambem (o que
não é menos importante) o respeito pela opinião da Europa. O vadio das
ruas de Lima, de Caracas ou de Buenos-Ayres nutre um soberano desprezo
pelos juizos que a Europa possa formar das suas tragi-comedias
politicas... Não tem consciencia de cousa alguma, a não ser do seu
_sangue castelhano_... Sente decerto o inconveniente de ser expulso do
credito e das bolsas da Europa... Mas avalia esta circumstancia apenas
pelos embaraços momentaneos que ella lhe traz. O financeiro brazileiro,
porem, esse presta uma tão respeitosa attenção ao _temperamento_ das
bolsas de Pariz e Londres, como ao da mesma praça do Rio de Janeiro...»

O _Times_ vê n'este symptoma a consideração que o Brazil tem pela
opinião da Europa.

Mas, onde o _Times_ se engana é quando pretende que o Brazil deve ao seu
sangue portuguez esta bella qualidade de obedecer aos juizos do mundo
civilisado. Não ha paiz no universo, onde se despreze mais, creio eu, o
julgamento da Europa, que em Portugal: n'esse ponto somos como o vadio
das ruas de Caracas, que o _Times_ tão pittorescamente nos apresenta:
porque eu chamo desdenhar a opinião da Europa não fazer nada para lhe
merecer o respeito. Com effeito, o juizo que de Badajoz para cá se faz
de Portugal, não nos é favoravel, nós sabemol-o bem--e não nos
inquietamos! Não fallo aqui de Portugal como Estado politico. Sob esse
aspecto gosamos uma razoavel veneração. Com effeito, nós não trazemos á
Europa complicações importunas; mantemos dentro da fronteira uma ordem
sufficiente: a nossa administração é correctamente liberal; satisfazemos
com honra os nossos compromissos financeiros.

Somos o que se póde dizer um _povo de bem_, um _povo bôa pessoa_. E a
nação vista de fóra e de longe, tem aquelle ar honesto de uma pacata
casa de provincia, silenciosa e caiada, onde se presente uma familia
commedida, temente a Deus, de bem com o regedor, e com as economias
dentro de uma meia... A Europa reconhece isto: e todavia olha para nós
com um desdem manifesto. Porque? Porque nos considera uma nação de
mediocres: digamos francamente a dura palavra--porque nos considera uma
_raça de estupidos_. Este mesmo _Times_, este oraculo augusto, já
escreveu que Portugal era, intellectualmente, tão caduco, tão casmurro,
tão fossil, que se tornára um paiz bom para se lhe passar muito ao
largo, e _atirar-lhe pedras_ (textual).


O _Daily Telegraph_ já discutiu em artigo de fundo este problema: Se
seria possivel sondar a espessura da ignorancia luzitana! Taes
observações, além de descortezes, são decerto perversas. Mas a verdade é
que n'uma epocha tão intellectual, tão critica, tão scientifica como a
nossa, não se ganha a admiração universal, ou se seja nação ou
individuo, só com ter proposito nas ruas, pagar lealmente ao padeiro, e
obedecer, de fronte curva, aos editaes do governo civil. São qualidades
excellentes, mas insufficientes. Requer-se mais: requer-se a forte
cultura, a fecunda elevação de espirito, a fina educação do gosto, a
base scientifica e a ponta de ideal que em França, na Inglaterra, na
Allemanha, inspiram na ordem intellectual a triumphante marcha para a
frente; e nas nações de faculdades menos creadoras, na pequena Hollanda
ou na pequena Suecia, produzem esse conjunto eminente de sabias
instituições que são, na ordem social, a realização das fórmas
superiores do pensamento.

Dir-me-hão que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em
cada parochia, e de exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos
tortulhos. Bom Deus, não! Eu não reclamo que o paiz escreva livros, ou
que faça arte: contentar-me-ia que lesse os livros que já estão
escriptos, e que se interessasse pelas artes que já estão creadas. A sua
esterilidade assusta-me menos que o seu indifferentismo. O doloroso
espectaculo é vêl-o jazer no marasmo, sem vida intellectual, alheio a
toda a ideia nova, hostil a toda a originalidade, crasso e mazorro,
amuado ao seu canto, com os pés ao sol, o cigarro nos dedos e a bocca ás
moscas... É isto o que punge.

E o curioso é que o paiz tem a consciencia muito nitida d'este torpor
mortal, e do descredito universal que elle lhe attrahe. Para fazer
vibrar a fibra nacional, por occasião do centenario de Camões, o grito
que se utilizou foi este:--Mostremos ao mundo que ainda vivemos! que
ainda temos uma litteratura!

E o paiz sentiu asperamente a necessidade de affirmar alto, á Europa,
que ainda lhe restava um vago clarão dentro do craneo. E o que fez?
Encheu as varandas de bandeirolas, e rebentou de jubilo a pelle dos
tambores. Feito o que--estendeu-se de ventre ao sol, cobriu a face com o
lenço de rapé, e recomeçou a sésta eterna. D'onde eu concluo que
Portugal, recusando-se ao menor passo nas lettras e na sciencia para
merecer o respeito da Europa intelligente, mostra, á maneira do vadio de
Caracas, o despreso mais soberano pelas opiniões da civilização. Se o
Brazil, pois, tem essa qualidade eminente de se interessar pelo que diz
o mundo culto, deve-o ás excellencias da sua natureza, de modo nenhum ao
seu sangue portuguez: como portuguez, o que era logico que fizesse era
voltar as costas á Europa, puxando mais para as orelhas o cabeção do
capote...

Mas, retrocedendo ao artigo do _Times_, a conclusão da sua primeira
parte é que «em riqueza e aptidões o Brazil leva gloriosamente a palma
ás outras nacionalidades da America do Sul». Todavia, o _Times_ observa
no Brazil circumstancias desconsoladoras: «Doze milhões de homens estão
perdidos n'um estado maior que toda a Europa: a receita publica, que é
de doze milhões de libras esterlinas, é muitos milhões inferior á da
Hollanda e á da Belgica: com uma linha de costa de quatro mil milhas de
comprimento, e com pontos de uma largura de duas mil e seiscentas
milhas, o Brazil exporta em valor de generos a quarta parte menos que o
diminuto reino da Belgica.»

O _Times_, todavia, tem a generosidade de admittir que nem a densidade
de população, nem o total das receitas, nem a cifra das exportações
constituem a felicidade de um povo e a sua grandeza moral. A Suissa, que
tem dois milhões de habitantes e justamente os mesmos dois milhões de
libras de receita, vive em condições de prosperidade, de liberdade, de
civilisação, de intellectualidade bem superiores á tenebrosa Russia com
os seus oitenta milhões de libras de receita, e os mesmos oitenta
milhões em homens. «Todavia, continúa o _Times_, se a escassez da
população, de rendimento e de commercio, não collocam o Brazil n'um
estado de adversidade, são uma prova que faltam a esse povo algumas das
qualidades que fazem a grandeza das nações. Que os colonisadores
portuguezes, apenas apoiados pelo pequeno throno portuguez, tivessem
feito da metade do novo mundo, que lhes concedeu o papa Alexandre, mais
que os colonisadores hespanhoes que tiravam a sua força da grande nação
de Hespanha, é uma cousa que prova a favor do sangue portuguez comparado
com o sangue castelhano, andaluz ou aragonez. Mas que as conquistas
feitas no Brazil á natureza sejam tão insignificantes, e tão vastos os
espaços que permanecem não só inconquistados mas desamparados--indica
que são analogos os defeitos da colonia hespanhola e da colonia
portugueza...»

O resto do artigo é mais serio; e eu devo transcrevel-o sem interrupção.
«O Brazileiro não é, como o peruano ou boliviano, altivo de mais, ou
preguiçoso de mais para se dignar reparar nos meios de riqueza e de
grandeza tão prodigamente espalhados em torno de si. Não; o brazileiro
tem energia sufficiente para ambicionar e para calcular. A sua attenção
está fixa nas ferteis regiões do interior. Desejaria bem vêr a rede dos
seus rios navegaveis cobertos de barcos e vapores. Succede mesmo que,
nos pontos mais ricos da costa, o habitante queixa-se que uma excessiva
porção dos impostos com que é sobrecarregado vae ser gasta em collossaes
trabalhos emprehendidos em vantagem de remotas e incultas regiões que
nunca ou, ao menos, só d'aqui a longos annos, poderão aproveitar com
elles. Mas, em todo o caso, o Brazil sente em si força sufficiente para
dar ao seu vasto territorio os beneficios de uma sabia administração.»

O _Times_ aqui tem um pequeno periodo, alludindo á nobre ambição que têm
os brazileiros de fazer tudo por si mesmos, vendo com aborrecimento as
grandes obras entregues á pericia estrangeira, e preferindo os esforços
da sciencia e do talento nacionaes, ainda mesmo quando elles falham,
custando ao paiz milhões perdidos... Depois prossegue:

«Mas emquanto o brazileiro se mostra assim, em theorias politicas e
administrativas, ancioso por fomentar elle mesmo, por elle mesmo fazer
todas as obras dos seus cinco milhões de milhas quadradas--ás suas mãos
repugna o agarrar o cabo da enxada, ou tomar a rabiça do arado, que é
justamente o serviço que a natureza reclama d'elle. N'um continente, que
depois de tres seculos e meio continúa a ser um torrão novo, a grandeza
das Republicas ou dos Imperios depende exclusivamente do trabalho manual.

«Italianos, allemães, negros, têm sido, estão sendo importados para
fazerem o trabalho duro que repugna aos senhores do solo. Mas,
inaclimatados, em certos districtos, elles nunca poderiam labutar como
os naturaes dos tropicos. Nem mesmo nas provincias mais temperadas do
Imperio jámais os immigrantes trabalharão resolutamente--até que o
exemplo lhes seja dado pela população indigena, senhora da terra. O
brazileiro ou tem de trabalhar por suas mãos, ou então largar a rica
herança que é incompetente para administrar. Á maneira que o tempo se
adianta, vae-se tornando uma positiva certeza que todos os grandes
recursos da America do Sul entrarão no patrimonio da humanidade.»

O _Times_ aqui embrulha-se. Prefiro explicar a sua ideia, a traduzir-lhe
a complicada prosa; quer elle dizer que o dia se approxima em que a
civilisação não poderá consentir que tão ricos solos, como os dos
Estados do Sul da America, permaneçam estereis e inuteis, e que, se os
possuidores actuaes são incapazes de os fazer valer e produzir, para
maior felicidade do homem, deverão então entregal-os a mãos mais fortes
e mais habeis. É o systema de expropriação por utilidade de civilização.
Theoria favorita da Inglaterra e de todas as nações de rapina...


Continúa depois o artigo, com ferocidade: «No Perú, na Bolivia, no
Paraguay, no Equador, em Venezuela... em outros mais, os actuaes
occupadores do solo terão gradualmente de desapparecer e descer áquella
condição inferior, que o seu fraco temperamento lhes marca como destino.
(Nunca se escreveu nada tão ferino!) O povo brazileiro, porém, tem
qualidades excellentes e a Inglaterra não chegará promptamente á
conclusão de que elle tem de partilhar a sorte de seus febris ou
casmurros visinhos... Mas, dadas as condições do seu solo, o Brazil
mesmo tem a escolher entre um semelhante futuro ou então o trabalho, o
duro esforço pessoal, contra o qual até agora se tem rebellado. Se o seu
destino tivesse levado os brazileiros a outro canto do continente, nem
tão largo, nem tão bello, poder-se-hia permittir-lhes que passassem a
existencia n'uma grande somnolencia. Mas ao brazileiro está confiada a
decima quinta parte da superficie do globo: essa decima quinta parte é,
toda ella, um thesouro de belleza, riquezas e felicidades possiveis; e
de tal responsavel--o brazileiro tem de subir ou de cahir!»

E com esta palavra, á Gambetta, termino. Já se alonga muito esta carta
para que eu a sobrecarregue de comentarios á prosa do _Times_. No seu
conjuncto é um juizo sympathico. O _Times_, sendo, por assim dizer, a
consciencia escripta da classe media da Inglaterra, a mais rica, a mais
forte, a mais solida da Europa, tem uma auctoridade formidavel; e
escrevendo para o Brazil, eu não podia deixar de recolher as suas
palavras--que devem ser naturalmente a expressão do que a classe media
da Inglaterra pensa ou vae pensar algum tempo do Brazil. Porque a prosa
do _Times_ é a matéria-prima de que se faz em Inglaterra o estofo da
opinião.

E reparando agora que, por vezes n'estas linhas, fui menos reverente com
o _Times_--murmuro, baixo e contricto, um _peccavi_...



XI

A festa das creanças


A mais engraçada festa das creanças de que me lembro, foi em Inglaterra,
na casa de campo dos meus amigos Birds, no paiz de Cornwall. Era uma
mascarada reproduzindo em miniatura a côrte de el-rei Arthur e dos
cavaleiros da Tavola Redonda. E o que tornava interessante a
ressurreição d'este mundo heroico e gentil, popularizado por Tennyson, é
que nós estavamos alli justamente na região de Cornwall, onde viviam,
entre saráus e batalhas, Arthur, a sua rainha Guinevra e os doze
valentes da Tavola. A pouca distancia do parque dos Birds, n'uma collina
coberta de carvalheiras, a tradição colloca os paços de Arthur e a
maravilhosa e sombria cidade de Caerleon. O rio em que pescavam trutas
era o velho Usk. Nas suas frescas margens erguera-se outr'ora o
mosteiro, onde o irmão de Percival, uma noite, da janella da sua cella,
viu passar n'uma nuvem côr de rosa, entre aromas de junquilhos, o vaso
do Santo Graal cheio de sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. E das
varandas da sala de jantar, podiam avistar-se em dias claros, lá ao
longe, na costa, e entre as rochas, as ruinas d'esse castello de
Tintagil, que apparece em todas as balladas do rei Arthur, negro e
triste junto ao mar de Cornwall.

A côrte começou a reunir-se cedo, á hora do lunch, no grande salão
branco, sobre o jardim. Era o filho dos Birds quem esplendidamente
recebia, vestido de rei Arthur. O primeiro personagem da lenda que
chegou, acompanhado pela sua governante, foi o feiticeiro Merlino, um
adoravel bébé, gordo e embezerrado com a corôa de hera, uns cabellos
louros e umas enormes barbas propheticas enchendo-lhe a bochecha côr de
rosa. Depois, seguidos das mamãs, vieram entrando todos os outros
figurões da romantica chronica, cavalleiros de cinco annos armados e
emplumados, mongesinhos nedios, bispos quasi de mama com os seus baculos
nos braços, bardos rabugentos, mesteirais vestidos de seda, e fadas mais
lindas que as fadas. As tres rainhas mysticas do Walhalla chegaram por
ultimo, gravesinhas, todas tres pela mão, cobertas de véos negros,
escoltadas por um grande lacaio empoado.

Pouco a pouco o salão ficou animado como o velho Caerleon n'uma manhã de
torneio. O pequeno Bird, de Rei Arthur, com seu manto bordado d'ouro, os
cabellos frisados sahindo em anneis de sob a corôa carregada de pedras,
passeava magestoso, entre os seus irmãos de armas. Uma senhora,
encantada, quiz dar-lhe um beijo. Elle repeliu-a asperamente, como teria
feito o casto Rei Arthur. Mais orgulhoso do que elle, só o bravo
Lancelote do Lago, a quem tinham pintado um buço, e que revestido de
armas negras, com uma longa pluma escarlate ondeando-lhe desde o elmo
até ás esporas d'ouro, não tirava a mão da espada. E o que parecia
ensoberbece-lo mais era a sua faxa de gaze branca, passada sobre a
couraça, e feita em rigida obediencia á epopéa, d'um véo da rainha
Guinevra. Essa era a grande belleza do saráu, a rainha Guinevra, uma
irlandezasinha com as duas tranças negras e os olhos verdes como os
prados d'Erin. Séria e fria, envolta na pesada capa de setim azul,
conservava-se no meio de um sofá, immovel, com um sorriso que lhe punha
uma covinha no queixo, indifferente aos madrigaes, insensivel ás proezas
dos cavalleiros, e sempre de olhos baixos, ou por ella os bardos firam
as harpas, ou por ella se batam os vassalos junto ao mar de Cornwall.

Um escudeiro annunciou o lunch, tocando uma buzina de prata, tal qual
como no Caerleon. E pelo corredor, aos pares, toda a côrte seguiu á sala
de jantar o rei Arthur, que levava pela mão, com uma graça solemne, a
linda rainha Guinevra. Depois, mas não sem alguma confusão, em que
necessariamente as mamãs tiveram de ser energicas com os cavalleiros,
ficou completa a Tavola Redonda, ornada de baixellas e flôres. E nada
faltava do que mandam as poeticas chronicas.

Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos Genios, lá se achava o
velho feiticeiro Merlino, a quem a governante, para elle comer com
limpeza a sua sopa, tirára as barbas propheticas. Não havia um javali
assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto _roast-beef_. Mas o rei
Arthur levantava o seu copo d'agua, misturada de uma gota de Bordeus,
com a nobreza com que o outro, ha tantos centos de annos e n'aquella
mesma collina, erguia a taça de hydromel em dias de victoria. De resto a
sala, com o seu tecto de carvalho lavrado, tinha o severo apparato
d'outras éras e através da janella lá estavam, como nos versos da _Morte
d'Arthur_, as ruinas do Castello de Tintagil, negro e triste junto do
mar de Cornwall.

A Côrte mostrava tanto apetite como á volta de uma batida aos lobos nos
bosques, que avisinham o Usk. Até as fadas devoravam. Sir Galahad, esse
que possuia a força de mil, porque o seu coração era virgem, já por duas
vezes reclamára _pudding_ de batatas, batendo furiosamente com o garfo
sobre o seu murrião de prata, posto ao lado da mesa entre os crystaes.

Fôra preciso, por causa da sua magnifica tunica de setim verde, atar um
guardanapo ao pescoço do cavalleiro Bors, essa radiante flôr de bravura
christã. No meio de toda a alegria o forte Percival, incommodado com a
sua armadura, permanecia manso e corado com o ar de estar pensando (como
o outro Percival) em se recolher ao mosteiro de Wik. Depois, de repente
e inexplicavelmente, rolou abaixo da cadeira, entornando todo o molho
nos joelhos do intrigante Modred, o mais violento cavalleiro da Tavola.

Modred despropositou e arrepelou os cabellos d'ouro de Percival. A tia
do heróe acudiu assustada, e então, como o famoso Lancelote do Lago se
estava tornando turbulento, foi arrancado da Tavola Redonda
ignominiosamente, nos braços d'um escudeiro, aos berros.

Depois do lunch, a côrte de el-rei Arthur voltou ao saráu a regozijar-se
com danças. Saráu delicioso! Havia dois monges extraordinarios, de
bureis brancos, tão pequenos e tão tropegos que as senhoras tinham de os
segurar pelos braços nas quadrilhas e que queriam constantemente dançar,
mais joviaes que os cavalleiros, promptos a atirar-se sempre aos
bracinhos das camponezas toucadas de flôres.

O puro Sir Galahad, já sem broquel e sem murrião, galopava doidamente
com uma ligeira fada, chegada n'essa manhã da Bretanha, das florestas de
Broceliande. Um bardo, com a corôa de folhas de carvalho enterrada até
aos olhos, chorava por ter perdido a sua harpa. Havia tambem um principe
do Mar do Norte, um castellão de Erin e o bravo cavalleiro Bors, que se
tinham refugiado a um canto, por detraz d'um sophá, onde sentados no
chão continuavam na sua divertida merenda com bolos, dando gritos,
quando as senhoras queriam pôr cobro áquella gula tão impropria de
paladinos christãos.

No corredor o pae Bird teve de suster um rechonchudo abbade, que
arregaçava as vestes sacerdotaes e ia, furioso, sovar o intrigante
cavalleiro Modred. E não foi possivel realizar a parte mais picante da
lenda, fazendo com que Lancelote do Lago cortejasse Guinevra. O bravo
Lancelote (bem differente do outro) parecia de coração duro e sem gosto
pelo sorrir das damas. Terminou mesmo por ter uma hedionda perrice, e
cahiu nos joelhos da mamã, com duas grossas lagrimas nas pestanas e a
sua bella penna escarlate cahida no chão, como n'uma tarde de derrota.

Cedo os bébés começaram a estar cançados. Eu mesmo, no meio da festa,
tive de levar ao collo o veneravel bispo de Blackburn com a sua mitra e
com o seu rico baculo. Os seus doces olhinhos azues fechavam-se de
somno. Deitei-o no sophá, junto da mais pequenina das rainhas do
Walhalla, que já alli dormia sob o véo negro, com os cabellos d'ouro
soltos e o lyrio do Paraiso entre as mãosinhas cruzadas...

E o santo bispo candidamente adormeceu ao lado da mystica rainha.



XII

Uma partida feita ao «Times»


É ao mesmo tempo lamentavel e piccaresco o caso succedido ao _Times_.
Este nobre in-folio diario, que inspira orgulho a todo o inglez
sinceramente patriota, e que aos olhos respeitosos do estrangeiro
apparece como uma das mais fortes columnas da sociedade ingleza, como a
propria consciencia da Inglaterra posta em lettra redonda; este augusto
periodico que nunca, desde a sua fundação, citou o nome d'um collega,
nem jámais se abaixou a uma controversia, pelas mesmas razões de
inflexivel etiqueta que vedariam a Luis XIV argumentar com Colbert; esta
austera gazeta que preferiria despedaçar as suas magnificas machinas a
consentir que ellas imprimissem um _bon-mot_, uma pilheria, uma linda
bagatella ou uma jovial anecdota; este papel tão pudico que evita o nome
de Zola, como uma indecencia--o _Times_, emfim, o venerando _Times_, foi
ultimamente victima de uma d'essas _partidas_, como nós dizemos,
_facecias em acção_, como dizem os Americanos, que são ao mesmo tempo
nefandas e patuscas, que nos abrazam a face de indignação e nos arrancam
aos labios um sorriso, que nos fazem vituperar publicamente o farçante e
saborear secretamente a farça, como se vissemos um rabo de papel pregado
ao manto d'el-rei, ou sobre os cabellos em caracoes da imagem do Senhor
dos Passos--um chapéu alto.

Todas as pessoas que teem folheado esses vastos lençóes de materia
impressa que constituem um numero do _Times_, sabem que a quinta pagina
é ordinariamente destinada á publicação dos discursos pronunciados por
homens eminentes da politica, da litteratura, da sciencia, da arte, em
_meetings_, comicios, banquetes, inaugurações, _conversazioni_, em todos
esses ajuntamentos de _ladies and gentlemen_ onde a Inglaterra dá vazão
ao seu tumultuoso fluxo labial!... O _Times_ é famoso por estas
reproducções. Não são resumos, nem extractos: são as arengas, palavra a
palavra, especialmente tachygraphadas para o _Times_ por um pessoal
experimentado, com as interrupções correctamente transladadas, os
murmurios religiosamente marcados, sem que lhes falte um _meus
senhores!_, sem que ficasse perdido um _oh!_ ou um _ah!_ e revistas,
esmiuçadas, zeladas como se tivessem cahido dos labios de Socrates ou de
Christo prégando outro Evangelho.

Este simples serviço custa por anno ao _Times_ milhares de libras--mas
dá-lhe a vantagem de ser elle a acta official do verbo publico da
Inglaterra. Todos os jornaes da Europa assim o reconhecem: quando se
discute um discurso do Sr. Gladstone, uma conferencia do professor
Huxley ou uma predica do arcebispo de Canterbury, tem-se presente, como
texto sagrado, o texto do _Times_. Um orador póde negar a incorrecção de
um adjectivo, a violencia de uma apostrophe, quando a apostrophe ou o
adjectivo tenham apparecido nos resumos rapidos de outro jornal: nunca,
quando hajam apparecido nas columnas infalliveis do _Times_. Sabe-se a
despeza, o desvelo, a minuciosidade, empregada para obter a exactidão--e
essa exactidão nunca é contestada.

Quando o Sr. Gladstone, na campanha eleitoral da Escocia, soltou essa
famosa invectiva contra o imperio dos Hapsburgos,--o protesto cortez do
embaixador d'Austria era fundado em citações do _Times_. Um orador que,
querendo deixar um monumento solido da sua arte, publique os seus
discursos em volumes--collige-os do texto seguro do _Times_. O _Times_
tem aqui o valor d'uma reproducção photographica. Insisto n'isto, para
tornar mais vivo o horror da facecia.

Ha semanas Sir William Harcourt, o ministro do interior, fez um discurso
em Manchester, discurso consideravel, muito annunciado, muito esperado,
tocando todas as questões que inquietam agora a Inglaterra, a anarchia
da Irlanda, o tratado de commercio com a França, a intervenção no
Egypto, a criação do Governo Municipal de Londres, outras coisas graves
ainda.

Esta arenga, tachygraphada pelo pessoal do _Times_ em Manchester,
telegraphada para os escriptorios do _Times_ em Londres, foi composta,
lida pelos revisores, revista pelo secretario de Sir William Harcourt,
verificada, comprovada, relida ainda, e, emfim definitivamente
installada na sua pagina... E aqui se colloca a facecia.

Mas é necessario primeiro, para maior indignação e maior goso, conhecer
Sir William Harcourt. De todos os membros do ministerio Gladstone, Sir
William é o mais austero. Já a sua apparencia intimida: grosso,
membrudo, de hombros compactos, com a face imperiosa, pallida, rapada,
Sir William tem as linhas solemnes e marmoreas do busto de um Cesar.

E dentro d'esta fórma romana habita um espirito rigido de doutrinario:
liberal (em comparação com o marquez de Salisbury, que é quadradamente
feudal), Sir William representa no Governo a tradicção, a formula
_whig_. É o contrapeso conservador d'este ministerio radical: está alli
como um bloco de granito constitucional para impedir que os outros
ministros, Chamberlain, Sir Charles Dilke, os discipulos de Stuart Mill,
se adiantem muito pela grande estrada da Revolução: e tem por isso essa
ampla solemnidade de maneiras, essa cadencia pomposa de expressão, de
quem se honra em guardar as coisas supremas--a corôa, a egreja, a
aristocracia territorial, os privilegios, a integridade do imperio... É
um solemne. Mesmo abotoado n'um paletot, parece embrulhado n'uma toga. É
moroso, massudo, incapaz de sorrir, tem essa especie de magestade
official que faz lembrar ao mesmo tempo Guizot e um elephante.

E quando a gente o contempla no parlamento, grave, rispido, vestido de
negro--não o póde conceber nas attitudes triviaes da vida, fumando um
cigarro n'um sophá, com uma perna por cima da outra, muito menos de
joelhos, com uma linda mão de mulher entre as suas, murmurando coisas
ternas e tontas...

E é isto que torna atroz e deliciosa a facecia... O discurso solemne
d'este solemne estadista estava, pois, paginado, pronto para passar ás
machinas, quando aproveitando um momento em que a policia interior dos
escriptorios do _Times_ casualmente afrouxára de vigilancia, _alguem_,
um monstro, um scelerado, subtilmente, pé ante pé, foi ao discurso,
arrancou-lhe dez ou doze linhas, e substitue-as por outras, compostas de
ante-mão, perfida e habilmente compostas! E que linhas! meu Deus! como
posso eu, conservando-me casto, explical-as aos leitores da _Gazeta de
Noticias_?


Essas linhas intercaladas no severo discurso do severo ministro eram
(tremo de dizel-o) eram linhas eroticas! Era um grito convulsivo de
desordenada lubricidade; era o ruido d'uma besta agitada por todas as
furias de Venus; era como esse rouco e secco bramar dos veados, nos
bosques, sob a calma do estio; era a balbuciação ebria dos Faunos da
fabula, do deus Priappo, dos Satyros caprinos que vagueavam pelos
pendores sagrados do monte Olympo, ululando, trincando a brancura dos
lyrios, violando o coração das rosas, arremessando-se com pulos ferozes
de bodes ao entreverem, entre as ramagens dos olmos, as claras nymphas
das aguas... Era tudo isto, e era ainda mais.

E, para requinte de facecia, isto não destoava, não chocava, apparecendo
bruscamente e sem ligação, como um monturo immundo entre roseas flôres
de rhetorica. Não: tinha sido _encaixado_ com uma habilidade diabolica.
Sir William Harcourt estava accusando os conservadores de affectarem uma
patriotica melancolia em presença dos suppostos perigos, que sob o
regimen liberal correm os grandes principios da ordem monarchica, a
integridade mesma da Inglaterra. E aqui perguntava-lhes, naturalmente
n'um natural movimento de oratoria: «Porque são esses gemidos? Porque é
essa exageração de tristeza publica? Decerto a questão da Irlanda e a do
Egypto são graves: mas o governo de Sua Magestade sabe que as soluções
proveitosas e gloriosas não tardarão... Nós estamos tranquillos. Eu, por
mim, sinto-me na disposição de quem, depois de cumprir um dever
official, tem para o recompensar o sorriso sereno e approvador da
consciencia, etc., etc.»

E justamente aqui as linhas perversas entravam naturalmente traçadas,
desenvolvendo mais esta affirmação de contentamento intimo, mostrando a
exuberancia de espirito d'um ministro galhofeiro, que, em presença do
glorioso estado da cousa publica, admitte que o regosijo da nação tome a
fórma excentrica mas justificavel, de uma tremenda bambochata, de um
regabofe de estalar tudo... Sir William prosseguia (comprehendem bem que
eu dou só expressões aproximativas e atenuadas; traduzir á lettra o que
appareceu publicado no _Times_ seria arruinar para sempre os creditos da
_Gazeta de Noticias_) Sir William prosseguia: «Eu, por mim, estou
contente. Acho-me até capaz de uma bella folia! Porque não nos daremos
com effeito a uma rica patuscada, com vinhaça e mulherinhas? Oh, as
mulherinhas! Senhoras que me escutaes, arremessae chapéus e vestidos, e
toca a pandegar e a bater um rico batuque!... _Evohé!_ Viva o deboche!
Olé, _champanhe_! Abracemo-nos, deliremos!...» Isto é só para dar ideia:
o que se lia no _Times_ tinha outra crueza d'expressão, outro arranque
d'orgia!...

Imaginem o effeito ao outro dia, quando milhares de numeros do _Times_,
contendo esta abominação, penetraram n'esses recatados interiores
inglezes, onde (segundo aqui dizem) habita o typo superior da familia
christã. O _Times_, o mais caro dos jornaes, é a folha querida da
aristocracia, da alta burguezia, da grande finança. Não se comprehende
um _gentleman_ inglez, do padrão classico, sem ter logo pela manhã
percorrido conscienciosamente o seu _Times_: é como o coração mesmo da
Inglaterra, que elle sente um momento entre as mãos e onde verifica cada
dia, com orgulho, um accrescimo de força, uma pulsação maior de
vitalidade. Ordinariamente é ao almoço que se lê o _Times_: e n'essa
manhã, vendo-se na quarta pagina, em lettras grossas, O DISCURSO DE SIR
WILLIAM HARCOURT EM MANCHESTER, corria-se naturalmente a elle com
curiosidade, já pelo interesse nacional, já pela sympathia que inspira
Sir William, o seu nome historico, a solida pureza dos seus principios,
a sua alta posição...

Imaginem-se então as scenas! Aqui é uma velha e devota duqueza, cheia de
enthusiasmo pelas questões sociaes, que se aconchega na sua rica
poltrona de tapeçaria, para melhor saborear a nobre oratoria de Sir
William--e que de repente estaca, encara o _Times_, limpa as lunetas,
imaginando ter lido mal, torna a percorrer o periodo, passa a mão
tremula pela face, procura anciosamente o seu frasco de saes, volta
ainda a verificar se a não enleia uma allucinação, e, arremessando emfim
para longe a gazeta immunda, sae da sala a passos offendidos, pensando
comsigo que são esses os resultado de um seculo de democracia, de
materialismo e de libertinagem!

Além é um casal de noivos, que, aninhados no mesmo sophá ao pé do fogão,
com os braços entrelaçados, precorrem o _Times_, menos para saber da
questão no Egypto, do que para ler o _compte-rendu_ de outros casamentos
elegantes ou as noticias de Paris, onde tencionam ir findar a sua lua de
mel; mas encontram o discurso de Sir William, dão-lhe um olhar
distrahido, quando de repente lhes salta d'entre as linhas o jorro
immundo das apostrophes eroticas!

N'outra casa é uma fresca e loura creaturinha de desoito primaveras,
puro lyrio domestico, que faz a leitura do _Times_ a um velho tio
general, tolhido de gotta, reliquia veneranda das guerras peninsulares;
o velho escuta, pouco attento á politica do dia que detesta, mas muito
ao encanto d'aquella voz d'oiro ao seu lado; de repente, porém, o pobre
anjo gagueja, pára, faz-se da côr d'uma rosa, treme, a sua vergonha é
tal que lhe saltam as lagrimas dos olhos, e foge, deixando o immundo
_Times_ nas mãos do general assombrado:--ou então, caso peior, a doce
rapariga, na sua candura de flôr d'estufa, não comprehende, imagina que
_aquillo é politica_, continua a ler com a sua voz d'oiro,--e o
veneravel tio ouve de repente sahir dos labios de botão de rosa, feitos
só para murmurar o que ha de mais casto na musica de Weber, um enxurro
torpe de babugens lubricas.

É medonho! E uma feição curiosa do incidente é que este negro attentado
só foi descoberto nos escriptorios do _Times_ ás onze horas da manhã:
isto é, quando o jornal já estava distribuido em Londres, levado pelos
trens de madrugada para toda a provincia, e pela mala de Dover para toda
a Europa! A administração do _Times_ telegraphou logo a todos os seus
agentes no mundo, para suspender a distribuição _e comprar por todo o
preço_ os torpes numeros já espalhados.

Só estes telegrammas custaram perto de _dois contos de reis_. Mas o
melhor é que apenas se soube a historia da catastrophe, e que o _Times_
comprava por todo o preço o numero maldito--esse numero tornou-se logo
um valor, um papel de credito, base de especulação, com cotações no
mercado, eguaes, se não superiores, aos fundos de muita nação
civilisada. Eu sei d'um restaurante que toma regularmente quatro numeros
do _Times_--e que vendeu os seus exemplares immundos a duas libras cada um.

Realizaram-se, porém, ganhos maiores. O _Times_ não regateia, paga. E
até hoje diz-se que em comprar essa fatal edição tem gasto já perto de
_quarenta contos_.

O autor da facecia ainda se não descobriu. É sem duvida, um monstro, e
seriamente merece a tremenda sentença com que decerto os tribunaes
inglezes o demoliriam, se elle apparecesse. Mas, por outro lado,
considerando que quarenta contos são apenas um somma minima para a
fortuna do _Times_, e que esta gazeta austera leva o seu pedantismo e a
sua empolada _pruderie_ a sustar, como obscena, a menção sequer dos
livros de Zola e de outros realistas,--eu não posso deixar de pensar,
com laivos de regosijo, que a Providencia tem armas obliquas e terriveis!

Nunca, decerto, desde a invenção da imprensa, aconteceu um jornal
publicar, na sua melhor pagina, em letras salientes, doze linhas
immundas de desbragada obscenidade; e ser o _Times_, o primeiro que o
fez, o _Times_, o mais pesado, mais moroso, mais solemne, mais
pedagogico, mais reverente de todos os jornaes que têm existido desde a
invenção da imprensa--é, digam o que disserem, divertido.

E, terminando, peço ás almas caritativas e justas uma bôa risada á custa
do _Times_.



  INDICE

                                    Pag.
  Afghanistan e Irlanda.............   1
  Ácerca de livros..................  15
  O inverno em Londres..............  33
  O Natal...........................  45
  Litteratura de Natal..............  55
  Israelismo........................  63
  A Irlanda e a Liga Agraria........  77
  Lord Beaconsfield.................  95
  Os inglezes no Egypto............. 125
  O Brasil e Portugal............... 207
  A festa das creanças.............. 223
  Uma partida feita ao _Times_...... 231





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Cartas de Inglaterra" ***

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