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Title: Raios de extincta luz - poesias ineditas (1859-1863)
Author: Quental, Antero Tarquínio de, 1842-1891
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Raios de extincta luz - poesias ineditas (1859-1863)" ***

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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



_ANTHERO DE QUENTAL_


RAIOS DE EXTINCTA LUZ


POESIAS INEDITAS
(1859-1863)


COM OUTRAS PELA PRIMEIRA VEZ COLLIGIDAS

PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO

POR

THEOPHILO BRAGA


LISBOA
*M. GOMES, Livreiro-Editor*
70, _Rua Garrett_, 72
1892



RAIOS DE EXTINCTA LUZ



_TIRAGEM ESPECIAL_


_D'esta edição tirarem-se_:

4 Exemplares em papel das manufacturas imperiaes do Japão, numerados de
1 a 4.

16 Exemplares em papel Whatman, numerados de 5 a 20.



ANTHERO DE QUENTAL


RAIOS DE EXTINCTA LUZ


POESIAS INEDITAS
(1859-1863)

com outras pela primeira vez colligidas


PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO

POR

THEOPHILO BRAGA

LISBOA
*M. GOMES, Livreiro-Editor*
70, _Rua Garrett, 72_
1892



A

Wilhelm Storck, Oliveira Martins
Eça de Queiroz, Alberto Sampaio, Jayme Batalha Reis
Luiz de Magalhães, Joaquim de Araujo
João de Deus
D. Carolina Michaelis de Vasconcellos
Santos Valente, Alberto Telles
Antonio de Azevedo Castello Branco, José Ben Saude
F. Machado de Faria e Maia
José Falcão, Manuel de Arriaga
Anselmo de Andrade, Manuel Duarte de Almeida
etc., etc.

_a todos os que amaram e admiraram Anthero_

_C._



EXPLICAÇÃO PRÉVIA


A publicação d'este livro é um phenomeno litterario de alta importancia.
Compõe-se de uma collecção de _Poesias ineditas_ de Anthero de Quental,
na primeira phase artistica, de 1859 a 1863, quando o seu ideal era
ainda religioso, romantico e espiritualista. Phase ignorada do publico,
acha-se descripta pelo poeta na sua Autobiographia, quando allude á
«educação catholica e tradicional de um espirito naturalmente religioso,
nascido para crêr placidamente e obedecer sem esforço a uma regra
conhecida.»

Ao dar á publicidade o livro revolucionario as _Odes modernas_, em 1865,
accentuada poesia de combate, Anthero rasgou todas as composições
anteriores, para que não ficassem vestigios d'esse periodo
contemplativo. Dera então o maximo relêvo á «revolução moral e
intellectual», como o facto mais importante da sua vida, segundo
confessa na Autobiographia. Truncando as suas origens artisticas,
apagava uma pagina psychologica, tão cheia de verdade e naturalidade,
que a critica nunca poderia reconstruir.

Por uma casualidade feliz um companheiro de Anthero de Quental, que por
esse tempo frequentava a faculdade de medicina, copiára todas as poesias
romanticas: chamava-se Eduardo Xavier de Oliveira Barros Leite,
fallecido prematuramente em 1872. Por um enlace de familia, obtive por
occasião da sua morte o caderno das poesias que copiára, e que o proprio
auctor, que lhe sobreviveu vinte annos, mal suspeitava terem sido
conservadas. Guardei-as pois, como um valioso documento, onde estavam os
primeiros germens do talento poetico de Anthero de Quental;
publicando-as depois da sua morte desgraçada, restituimos-lhe á vida
subjectiva uma pagina luminosa e sympathica que faltava á sua obra e á
litteratura portugueza.

O titulo do livro, _Raios de extincta Luz_, tem a significação do seu
apparecimento posthumo, e o valor de exprimir um presentimento do poeta,
ao começar com este hemistychio a invocação escripta em 1860 para uma
colleccionação projectada.

Para completar este monumento, fizemos pesquizas por albuns
particulares, onde ainda encontrámos primorosos ineditos. Ao dr. José
Bernardino agradecemos a contribuição valiosa com que enriqueceu este
livro; e a Joaquim de Araujo os excerptos ineditos da traducção do
_Fausto_ e outras composições dispersas, que Anthero reservava para
incluir em uma futura edição das _Odes modernas_ e das _Primaveras
romanticas_. Manda o dever moral que se reconheça a cooperação do activo
e intelligente livreiro-editor Manuel Gomes, que ligou a sua iniciativa
á publicação das poesias ignoradas do excelso poeta. Incorporando-as
n'este volume, aqui ficam reunidas a primeira e a ultima maneira
artistica de Anthero de Quental, podendo agora ser julgada de um modo
definitivo a sua obra poetica completa.



ANTHERO DE QUENTAL

ESCORSO BIOGRAPHICO


Bem conhecida é esta alta individualidade, que se manifestou entre a
moderna geração com um extraordinario temperamento de luctador, e que de
repente caíu em uma apathia invencivel, em um desalento moral
progressivo, em uma decadencia physica precoce, e por ultimo no
desespero, que em 11 de setembro de 1891 determinou o suicidio. Quando
em tão breve espaço vemos essas bellas organisações litterarias, como
Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado e Anthero de Quental
truncarem a sua carreira pelo suicidio, não pode deixar de explicar-se
essa fatalidade pela nevrose que n'elles era o estimulo do seu talento e
o motor das suas desgraças. E essa mesma nevrose, que se manifestava
brilhantemente pela invenção imaginosa, pela graça delicada ou pela
inspiração poetica, nunca lhes deixára adquirir uma disciplina mental
que os levasse á analyse de si mesmos, nem uma subordinação moral que os
fortificasse contra o seu espontaneo pessimismo. A critica da acção
litteraria de Anthero de Quental está implicita n'esta caracteristica do
seu organismo.

Anthero de Quental nasceu na Ilha de S. Miguel em 1842, em uma familia
de morgados; n'aquella pequena ilha a falta de cruzamentos nas familias
aristocraticas tem determinado uma terrivel degenerescencia, que se
manifesta pela idiotia e pela loucura. Na familia de Anthero de Quental
existem casos d'esta terrivel _tare hereditaire_. A frequencia na
Universidade de Coimbra, desorientadora para as mais fortes
organisações, não deixou de actuar profundamente no espirito de Anthero
de Quental, lançando-o em uma dissolvente anarchia mental pelos habitos
das arruaças escolares e pelas leituras radicalistas que o levavam a uma
grande sobreexcitação. Foi n'esta crise da adolescencia que em Anthero
de Quental desabrochou o talento poetico e a paixão revolucionaria, que
deu origem a uma liga de espiritos emancipados de todo o
supernaturalismo e de toda a auctoridade temporal, que se denominou a
_Sociedade do Raio_. Este titulo provinha das imprecações que lançavam
ao espaço em occasião de trovoadas, provocando o raio para que os
fulminasse, como expressão de uma vontade individual no universo. As
perseguições contra a Polonia e as luctas pela libertação e unificação
da Italia, tambem acordaram o interesse de Anthero para as questões
politicas. As suas leituras favoritas eram os livros de Proudhon, de
Feuerbach, de Quinet e Michelet, e isso rapidamente, vivendo em uma
atmosphera de discussão permanente, de uma dialectica de sophismas,
aggravada por uma irregularidade de vida, que veiu mais tarde a
determinar a doença que o embaraçou na sua actividade. Anthero de
Quental vivia entre um grupo de estudantes que o divinisára,
considerando-o como um apostolo, um iniciador da humanidade. E elle
proprio chegou a acreditar n'aquella missão, e passados annos, em uma
carta autobiographica, definia-se como o porta-estandarte das idéas
modernas em Portugal.

N'este periodo da vida de Anthero era elle dominado por um condiscipulo
natural de Penafiel, chamado Germano Vieira de Meyrelles, a quem dedicou
a primeira edição das _Odes modernas_. Este Germano Meyrelles era um
typo rachytico e aleijado, dotado de um sarcasmo maligno, resultado da
sua imperfeição physica; exerceu no espirito de Anthero uma acção
corrosiva, privando-o de todos os enthusiasmos, e levando-o quasi á
apathia mental. Quando Germano Meyrelles morreu miseravelmente, deixando
duas crianças filhas naturaes, Anthero tomou conta d'ellas e educou-as
em sua companhia, deixando-lhes o remanescente da sua herança.

O talento de Anthero revelou-se pela poesia no jornal _O Academico_; em
1861, levado pela admiração do lyrismo de João de Deus, cultivou a fórma
do Soneto, que estava longe ainda da belleza que attingiu na sua ultima
phase pessimista.

As idéas politicas revolucionarias e negativistas de que se deixára
possuir determinaram a primeira alteração nas suas concepções poeticas.
Em 1865 publicou em Coimbra a collecção de poesias d'esta phase
revolucionaria com o titulo de _Odes modernas_; mas os productos da sua
actividade poetica, transição para as _Odes modernas_ e _Sonetos_, são
totalmente desconhecidos, porque Anthero de Quental rasgou todas as
composições que não se harmonisavam com o seu novo ideal revolucionario.
Um dos adoradores de Anthero de Quental, que o acompanhava nas tropelias
nocturnas, e que tambem morreu doido em 1872, Eduardo Xavier, colligira
em volume essas poesias da phase romantica; é essa collecção que
possuiamos que hoje publicamos, da existencia da qual o proprio Anthero
nem suspeitava.

A crise moral de Anthero começou propriamente em 1865, quando se achou
sósinho em Coimbra; o curso juridico a que elle pertencia acabára a
formatura em 1863; Anthero teve de repetir um anno, e ao terminar a
formatura em 1864, achou-se sem estimulos que o obrigassem a saír de
Coimbra. Vivia então solitario, meditabundo, desenfadando-se em
digressões nocturnas. Foi n'esse anno de 1865, que irrompeu a celebre
_Questão de Coimbra_; eu é que o estimulei a saír á estacada, dando
réplica ás insidias de Castilho.

Anthero publicou n'esse anno a carta _Bom senso e bom gosto_, que o
revelara ao paiz um polemista ardente, um estylista vigoroso, um
espirito possuido de uma alta inspiração. Anthero de Quental contrahira
perante o paiz e a geração moderna o compromisso de pôr em obra essas
generosas aspirações. De dia a dia tornava-se mais reparavel o seu
silencio, mais censuravel a falta de actividade litteraria. Anthero
soffria um profundo mal estar, que o não deixava entregar-se ao remanso
do estudo; saíu de Coimbra para ir viver em Penafiel com o seu amigo
Germano; depois foi para Guimarães para ao pé de Alberto Sampaio; foi
para o Algarve para o seu amigo Negrão; foi á America, a Pariz, aos
Açores, e por ultimo fixara-se mais algum tempo em Villa do Conde. Não
estava bem em parte alguma.

Os trabalhos litterarios não o seduziam; em Lisboa achou-se com José
Fontana, que se aproveitou do seu perstigio moral para a organisação do
partido socialista, e junto com outros rapazes, Eça de Queiroz, Jayme
Batalha Reis, inaugurou em 1871 as _Conferencias democraticas_ do
Casino, mandadas encerrar pelo ministro marquez d'Avila.

N'estes dous actos Anthero foi impellido, caindo outra vez na apathia de
onde nunca mais saiu, promettendo apezar de tudo vir a publicar um
_Programma para os trabalhos da Geração moderna_. Por occasião da
encyclica de Pio IX proclamando o Syllabus, e por occasião da revolução
de Hespanha em 1868, Anthero de Quental publicou dous opusculos, mais
para mostrar as suas aptidões de folliculario do que a vista clara e o
seguro juizo dos acontecimentos. A sua doença moral tornava-se uma lesão
physica, accentuando-se a sua doença nervosa em 1874.

Na impossibilidade de toda a ordem de trabalho, mas carecendo de occupar
a imaginação no meio dos seus soffrimentos, Anthero de Quental ia dia a
dia burilando um ou outro soneto, em que dava expressão ao estado moral
em que se achava; os amigos foram colligindo estes sonetos, vindo ao fim
de algum tempo Oliveira Martins a formar um precioso volume de que elle
mesmo foi o editor carinhoso. Fez a esse livro uma introduccão vaga
sobre intenções buddhicas e intuições nirvânicas, mas não nos deu a nota
viva do poeta. Os _Sonetos_ de Anthero produziram uma forte impressão,
não só pela profundidade dos sentimentos como principalmente pela
perfeição esmeradissima da fórma; porque os versos das _Odes modernas_,
na expressão das paixões revolucionarias, eram pouco plasticos, e
revelavam mais o philosopho do que o artista.

Nos _Sonetos_ Anthero transfigurara-se. O Dr. Storck, que acabava de
traduzir em bellos versos para a lingua allemã a obra completa de
Camões, ao receber um exemplar dos _Sonetos_ de Anthero fez a alta
consagração de os traduzir para essa lingua eminentemente philosophica.
Para acompanhar a sua traducção pediu o Dr. Storck a Anthero algumas
notas biographicas; em carta de 14 de Maio de 1887 escreveu o poeta uma
especie de Autobiographia que vem junto dos _Sonetos_. É um documento
importante, não pelos dados biographicos, que são vagos e exagerados,
mas pelo alcance psychologico, porque pelas phrases com que Anthero se
glorifica dando-se como o estylísta dotado com o _dom da prosa
portugueza_ e o _porta-estandarte das ideias_ em Portugal, vê-se que
obedecia a uma certa vesania mental, que lhe motivava fundas decepções e
terriveis desalentos. N'esta phase de espirito, Anthero caiu debaixo da
influencia de Oliveira Martins, que não foi mais saudavel do que a de
Germano Meyrelles. Oliveira Martins tinha sido um dos seus
collaboradores na organisação democratica e socialista em Lisboa, quando
publicava a _Republica_ e o _Pensamento social_; mas um dia abandona o
seu ideal, e filia-se em um esgotado partido monarchico a que pretendeu
ir levar vida nova. Foi esta apostasia uma desillusão para Anthero;
soffreu-a calladamente, pedindo aos amigos que lhe não fallassem n'isso.
Vivia então em absoluto isolamento em Villa do Conde, onde era visitado
como um pontifice. Em Janeiro de 1890 deu-se o facto brutal do
_Ultimatum_ do governo inglez sobre a questão africana; da natural
reacção do sentimento nacional contra este acto de selvagismo
diplomatico, nasceu no Porto o movimento de agremiação da _Liga
patriotica do Norte_.

Para dar aos espiritos uma certa unificação moral, lembraram-se do nome
de Anthero de Quental; foram buscal-o a villa do Conde, e conseguiram
interessal-o pelo movimento nacional. Prezidiu a alguns comicios e a
sessões preparatorias da _Liga patriotica do Norte_; mas o poeta não
conhecia a mechanica das assembléas parlamentares, foi facilmente
envolvido por todos aquelles que procuravam desnaturar um movimento tão
saudavel, e por fim quando a _Liga patriotica_ se dissolveu com o mais
escandaloso fiasco, Anthero de Quental retirou-se á sua impotencia,
ferido com um desalento mortal. A data do seu testamento em 9 de
setembro de 1890 revela que elle já pensava em acabar com a existencia.
A dissolução dos caracteres dos seus contemporaneos de Coimbra mais o
desalentava; partira para a ilha de S. Miguel em Julho de 1891, e a
falta de interesse e o tedio de aquella solidão augmentada pela
mesquinhez da vida de Ponta Delgada, determinou a fatal resolução de 11
de setembro, em que se suicidou com dous tiros de rewolver na bocca. Foi
uma existencia verdadeiramente desgraçada; não se revelou com a pujança
que possuia. Herdeiro de uma terrivel nevrose, não teve a ventura de
deparar uma doutrina moral, uma philosophia que lhe fortificasse o
espirito; pelo contrario, as suas leituras de Schopenhauer, e a cultura
do ideal pessimista em que se enlevava artisticamente, incutiram no seu
espirito a ideia do suicidio que involuntariamente se tornou effectiva.
A sua obra é mais um documento psychologico do que um producto
esthetico; e n'este sentido será estudada e confrontada com a de outros
genios egualmente desgraçados.



CARTA AUTOBIOGRAPHICA

*DIRIGIDA AO PROFESSOR WILHELM STORCK*

Traductor dos _Sonetos completos_


                        Ponta Delgada (ilha de S. Miguel, Açores),
                        14 de maio de 1887.

Ex.^{mo} Snr.


Só agora me chegou ás mãos a sua estimada carta de 23 de abril ultimo,
pelo facto de me encontrar, ha dois mezes, n'esta ilha (que é a minha
patria) trazido aqui por urgentes negocios de familia. A demora das
communicações com o continente explica este atrazo.

Agradeço a v. ex.^a as amaveis e para mim tão honrosas expressões de sua
carta, e nada me póde ser, como poeta e como homem, mais grato do que o
apreço que um tal mestre e critico manifesta pelas minhas composições,
ao ponto de querer ser meu interprete e introductor junto do publico o
mais culto do mundo e que mais direito tem a ser exigente. Discipulo da
Allemanha philosophica e poetica, oxalá que ella receba com benignidade
essas pobres flôres, que uma semente sua, trazida pelo vento do seculo,
faz desabrochar n'este solo pouco preparado. Qualquer que seja a sua
fortuna, toda a minha gratidão é devida ao bom e gentil espirito, que
generosamente me toma pela mão, para me apresentar.

As informações biographicas e bibliographicas que v. ex.^a me pede,
podem reduzir-se ao seguinte: nasci n'esta ilha de S. Miguel,
descendente de uma das mais antigas familias dos seus colonisadores, em
abril de 1842, tendo por conseguinte perfeito 45 annos. Cursei, entre
1856 e 1864, a Universidade de Coimbra, sendo por ella bacharel formado
em Direito. Confesso, porém, que não foi o estudo do Direito que me
interessou e absorveu durante aquelles annos, tendo sido e ficando um
insignificante legista.

O facto importante da minha vida, durante aquelles annos, e
provavelmente o mais decisivo d'ella, foi a especie de revolução
intellectual e moral que em mim se deu, ao sahir, pobre creança
arrancada do viver quasi patriarchal de uma provincia remota e immersa
no seu placido somno historico, para o meio da irrespeitosa agitação
intellectual de um centro, onde mais ou menos vinham repercutir-se as
encontradas correntes do espirito moderno. Varrida n'um instante toda a
minha educação catholica e tradicional, cahi n'um estado de duvida e
incerteza, tanto mais pungentes quanto, espirito naturalmente religioso,
tinha nascido para crêr placidamente e obedecer sem esforço a uma regra
reconhecida. Achei-me sem direcção, estado terrivel de espirito,
partilhado mais ou menos por quasi todos os da minha geração, a primeira
em Portugal que sahiu decididamente e conscientemente da velha estrada
da tradição.

Se a isto se juntar a imaginação ardente, com que em excesso me dotara a
natureza, o acordar das paixões amorosas proprias da primeira mocidade,
a turbulencia e a petulancia, os fogachos e os abatimentos de um
temperamento meridional, muito boa fé e boa vontade, mas muita falta de
paciencia e methodo, ficará feito o quadro das qualidades e defeitos com
que, aos 18 annos, penetrei no grande mundo do pensamento e da poesia.

No meio das cahoticas leituras a que então me entregava, devorando com
egual voracidade romances e livros de sciencias naturaes, poetas e
publicistas e até theologos, a leitura do _Fausto_ de Goethe (na
traducção franceza de Blaze de Bury) e o livro de Rémusat sobre a nova
philosophia allemã exerceram todavia sobre o meu espirito uma impressão
profunda e duradoura: fiquei definitivamente conquistado para o
_Germanismo_; e, se entre os francezes, preferi a todos Proudhon e
Michelet, foi sem duvida por serem estes dois os que mais se resentem do
espirito de Alem-Rheno. Li depois muito de Hegel, nas traducções
francezas de Vera (pois só mais tarde é que aprendi allemão); não sei se
o entendi bem, nem a indepencia do meu espirito me consentia ser
discipulo: mas é certo que me seduziam as tendencias grandiosas
d'aquella estupenda synthese. Em todo o caso o Hegelianismo foi o ponto
de partida das minhas especulações philosophicas, e posso dizer que foi
dentro d'elle que se deu a minha evolução intellectual.

Como accommodava eu este culto pelas doutrinas do apologista do Estado
prussiano, com o radicalismo e o socialismo de Michelet, Quinet e
Proudhon? Mysterios da incoherencia da mocidade! O que é certo é que,
revestido com esta armadura mais brilhante do que solida, desci confiado
para a arêna: queria reformar tudo, eu que nem sequer estava ainda a
meio caminho da formação de mim mesmo! Consummi muita actividade e algum
talento, merecedor de melhor emprego, em artigos de jornaes, em
folhetos, em proclamações, em conferencias revolucionarias: ao mesmo
tempo que conspirava a favor da União Iberica, fundava com a outra mão
sociedades operarias e introduzia, adepto de Marx e Engels, em Portugal
a Associação Internacional dos Trabalhadores. Fui durante uns 7 ou 8
annos uma especie de pequeno Lassalle, e tive a minha hora de vã
popularidade.

Do que publiquei por esse tempo, ahi vae o que ainda posso lembrar. O
meu primeiro folheto é do anno de 1864. Intitula-se: _Defeza da Carta
Encyclica de S. S. Pio IX contra a chamada opinião liberal_. É um
protesto contra a falta de logica com que as folhas liberaes atacavam o
_Syllabus_, declarando-se ao mesmo tempo fieis catholicos. O auctor,
glorificando o Pontífice pela belleza da sua altitude intransigente em
face do seculo, via n'essa intransigencia uma lei historica, resava
respeitosamente um _De profundis_ sobre a egreja condemnada pela mesma
grandeza da sua instituição a cahir inteira mas não a render-se, e
atacava a hypocrisia dos jornaes liberaes.

O meu ultimo folheto é de 1871. Intitula-se: _Carta ao ex.^{mo} marquez
de Avila e Bolama, sobre a Portaria que mandou fechar as Conferencias do
Casino lisbonense_. As Conferencias Democraticas tinham sido fundadas
por mim com o concurso de homens moços (que quasi todos têm hoje nome na
politica) e eram muito frequentadas pelo escol da classe operaria.
Pareceram perigosas ao governo, que arbitrariamente as mandou fechar. O
meu folheto parece que concorreu, segundo se disse, para a queda do
ministerio, que, de resto, não podia durar muito, sendo dos chamados de
transição. É uma diatribe, mas eloquente.

Entre esses dous extremos, colloca-se a famosa _Questão Litteraria_ ou a
_Questão de Coimbra_, que durante mais de 6 mezes agitou o nosso pequeno
mundo litterario, e foi o ponto de partida da actual evolução da
litteratura portugueza. Os _novos_ datam todos de então. O Hegeltanismo
dos Coimbrões fez explosão.

O velho Castilho, o Arcade posthumo, como então lhe chamaram, viu a
geração nova insurgir-se contra o sua chefatura anachronica. Houve em
tudo isto muita irreverencia e muito excesso; mas é certo que Castilho,
artista primoroso mas totalmente destituido de idéa, não podia presidir,
como pretendia, a uma geração ardente, que surgia, e antes de tudo
aspirava a uma nova direcção, a _orientar-se_ como depois se disse, nas
correntes do espirito da época. Havia na mocidade uma grande fermentação
intellectual, confusa, desordenada, mas fecunda: Castilho, que a não
comprehendia, julgou poder supprimil-a com processos de velho pedagogo.
_Inde irae_. Rompi eu o fogo com o folheto _Bom senso e Bom gosto, carta
ao ex.^{mo} A. F. de Castilho_. Seguiu-se Theophilo Braga, seguiram-se
depois muitos outros, _la melée devint génerale_. Todo o inverno de 1865
a 66 se passou n'este batalhar. Quando o fumo se dissipou, o que se viu
mais claramente foi que havia em Portugal um grupo de 16 a 20 rapazes,
que não queriam saber da Academia nem dos Academicos, que já não eram
catholicos nem monarchicos, que fallavam de Goethe e Hegel como os
velhos tinham fallado de Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e
Proudhon, como os outros de Guizot e Bastiat; que citavam nomes barbaros
e sciencias desconhecidas, como glottica, philologia etc., que
inspiravam talvez pouca confiança pela petulancia e irreverencia, mas
que inquestionavelmente tinham talento e estavam de boa fé e que, em
summa, havia a esperar d'elles alguma cousa, _quando assentassem_.

Os factos confirmaram esta impressão: os 10 ou 12 primeiros nomes da
litteratura de hoje sahiram todos (salvos 2 ou 3) da Escola Coimbrã ou
da influencia d'ella. O Germanismo tomara pé em Portugal. Abrira-se uma
nova éra para o pensamento portuguez. O velho Portugal ainda conservado
artificialmente por uma litteratura de convenção morrera
definitivamente. D'esta especie de revolução fui eu o porta estandarte,
com o que me não desvaneço sobre maneira, mas tambem não me arrependo.
Se a uma ordem artificial se seguia uma especie de anarchia, é isso
ainda assim preferivel, porque uma contem germens de vida, e da outra
nada havia a esperar. Pertence ainda a essa epoca o folheto: _Dignidade
das Lettras e Litteraturas officiaes_.

Durante o anno de 1867 e parte de 68 viajei em França e Hespanha e
visitei os Estados Unidos da America. No fim d'esse anno de 68 publiquei
o folheto: _Portugal perante a Revolução de Hespanha_. Advogava ahi a
União Iberica por meio da Republica Federal, então representada em
Hespanha por Castellar, Pi y Margall e a maioria das Côrtes
Constituintes. Era uma grande illusão, da qual porém só desisti (como de
muitas outras d'esse tempo) á força de golpes brutaes e repetidos da
experiencia. Tanto custa a corrigir um certo falso idealismo nas cousas
da sociedade!

O meu _Discurso sobre as causas da decadencia dos Povos peninsulares nos
seculos XVII e XVIII_, embora pizasse um terreno mais solido, o terreno
da historia, resente-se ainda muito da influencia das ideias politicas
preconcebidas, da critica historica com _tendencias_. É do anno de 1871.

N'esse anno e no seguinte tomei parte activa no movimento socialista,
que se iniciava em Lisboa, e tanto n'essa cidade como no Porto escrevi
bastante nos jornaes politicos. Incidentemente publiquei n'um pequeno
volume, uma serie de estudos com o titulo de _Considerações sobre a
Philosophia da Historia litteraria portugueza_. Creio que é, ainda
assim, o que fiz de melhor, ou pelo menos, de mais razoavel em prosa.
Confesso sinceramente que dou muita pouca importancia a todos esses meus
escriptosinhos de occasião, e até, ás vezes, preciso de certa força de
reflexão para me não envergonhar de ter publicado tanta cousa pouco
pensada. E todavia era applaudido! Porque? Em primeiro logar, creio eu,
porque os que me applaudiam não pensavam, ainda assim, mais nem melhor
do que eu. Em segundo logar, porque me concedeu a natureza o dom da
prosa portugueza, não da prosa de convenção, arremedando o estylo dos
seculos XVI e XVII mas de uma prosa que tem o seu typo na lingua viva e
falada hoje, analytica já nos movimentos da phrase, mas na linguagem
ainda e sempre portugueza. Isso agradou, porque era o que convinha e, em
summa, acabei por ser citado como modelo da prosa moderna! É certo porém
que tudo aquillo são escriptinhos de accasião e que, em prosa, não
produzi ainda o que se chama _uma obra_, isto é, uma cousa original,
pessoal e aprofundada. Ha muito tempo que sei escrever, mas foi
necessario chegar aos 45 annos para ter que escrever. Por isso, deixemos
toda essa farragem que não cito senão para corresponder ao desejo de v.
ex.^a na materia bibliographica. E passemos aos versos.

Além da collecção de sonetos que v. ex.^a conhece, publiquei ainda mais
dois volumes. Um, de 1872, com o titulo de _Primaveras Romanticas_
contêm os meus _Juvenilia_, as poesias de amor e phantasia, compostas na
sua quasi totalidade, entre 1860 e 65, que andavam dispersas por varias
publicações periodicas, e que só em 72 reuni em volume, juntamente com
mais alguma cousa posterior, do mesmo caracter e estylo. Talvez a melhor
maneira de caracterisar esse volume será dizer em francez que é _du
Heine de deuxième qualité_. Como muitas pessoas, por cá, têm achado essa
semelhança, por isso a indico. A 2.^a secção dos _Sonetos completos_ que
não contêm senão composições d'esse periodo dará a v. ex.^a uma idéa
sufficiente do fundo e do estylo d'aquella poesia; assim como a 3.^a
secção lhe dará idéa das _Odes modernas_, cuja 1.^a edição appareceu em
1865. Não sei bem como caracterisar este livro: não é certamente
mediocre; ha n'elle paixão sincera e elevação de pensamento; mas além de
declamatoria e abstracta, por vezes aquella poesia é indistincta, e não
define bem e typicamente o estado de espirito que a produziu. O que ella
representa perfeitamente é a singular alliança, a que atraz me referi
já, do naturalismo hegeliano e do humanitarismo radical francez. Acima
de tudo é, como dizem os francezes, _poesia de combate_: o pamphletario
divisa-se muitas vezes por detraz do poeta, e a egreja, a monarchia, os
grandes do mundo, são o alvo das suas apostrophes de nivelador
idealista. N'outras composições, é verdade, o tom é mais calmo e
patenteia-se n'ellas a intenção philosophica do livro, vaga sim, mas
humana e elevada. A novidade, o arrojo, talvez a mesma indeterminação do
pensamento, apenas vagamente idealista e humanitaria, fizeram a fortuna
do livro, junto da geração nova, o que prova pelo menos que _veiu no seu
momento_: é tudo quanto poderei dizer. Correspondem a este cyclo os
sonetos comprehendidos na 3.^a secção dos _Sonetos completos_, muitos
dos quaes já entraram nas _Odes modernas_. Em 1874 teve este livro uma
2.^a edição muito correcta e contendo varias composições novas que
considero, tal como é e com todos os defeitos inherente á propria
essencia do genero, como definitiva.

N'esse mesmo anno de 1874 adoeci gravissimamente, com uma doença nervosa
de que nunca mais pude restabelecer-me completamente. A forçada inacção,
a perspectiva da morte visinha, a ruina de muitos projectos ambiciosos e
uma certa acuidade de sentimentos, propria da nevrose, puzeram-me
novamente e mais imperiosamente do que nunca, em face do grande problema
da existencia. A minha antiga vida pareceu-me vã e a existencia em geral
incomprehensivel. Da lucta que então combati, durante ou 5 ou 6 annos,
com o meu proprio pensamento o meu proprio sentimento que me arrastavam
para um pessimismo vacuo e para o desespero, dão testemunha, além de
muitas poesias, que depois destrui (subsistindo apenas as que o Oliveira
Martins publicou na sua introducção aos _Sonetos_) as composições que
perfazem a secção 4.^a (de 1874 a 80) do meu livrinho. Conhece-as v.
ex.^a, não preciso commental-as. Direi sómente que esta evolução de
sentimento correspondia a uma evolução de pensamento. O naturalismo,
ainda o mais elevado e mais harmonico, ainda o de um Goethe ou de um
Hegel, não tem soluções verdadeiras, deixa a consciencia suspensa, o
sentimento, no que elle tem de mais profundo, por satisfazer. A sua
religiosidade é falsa, e só apparente; no fundo não é mais do que um
paganismo intellectuel e requintado. Ora eu debatia-me desesperadamente,
sem poder sahir do naturalismo, dentro do qual nascera para a
intelligencia e me desenvolvera. Era a minha atmosphera, e todavia
sentia-me asphixiar dentro d'ella. O Naturalismo, na sua fórma empirica
e scientifica, é o _struggle for life_, o horror de uma lucta universal
no meio da cegueira universal; na sua fórma transcendente é uma
dialetica gelada e inerte, ou um epicurismo egoistamente contemplativo.
Eram estas as consequencias que eu via sahir da doutrina com que me
creara, da minha _alma mater_, agora que a interrogava com a seriedade e
a energia de quem, antes de morrer, quer ao menos saber para que veiu ao
mundo.

A reacção forças moraes e um novo esforço do pensamento salvaram-me do
desespero. Ao mesmo tempo que percebia que a voz da consciencia moral
não pode ser a unica voz sem significação no meio das vozes innumeras do
Universo, refundindo a minha educação philosophica, achava, quer nas
doutrinas, quer na historia, a confirmação d'este ponto de vista. Voltei
a ler muito os philosophos, Hartmann, Lange, Du Bois-Raymond e, indo ás
origens do pensammento allemão, Leibnitz e Kant. Li ainda mais os
moralistas e mysticos antigos e modernos, entre todos a _Theologia
Germanica_ e os livros buddhistas. Achei que o mysticismo, sendo o
desenvolvimento psychologico, deve corresponder, a não ser a consciencia
humana extravagancia no meio do Universo, á essencia mais funda das
cousas.

O naturalismo appareceu-me, não já como a explicação ultima das coisas,
mas apenas como o systema exterior, a lei das apparencias e a
phenomenologia do Sêr. No _Psychismo_, isto é, no Bem e na Liberdade
moral, é que encontrei a explicação ultima e verdadeira de tudo, não só
do homem moral mas de toda a natureza, ainda nos seus momentos physicos
elementares. A _monadologia_ de Leibnitz, convenientemente reformada,
presta-se perfeitamente a esta interpretação do mundo, ao mesmo tempo
naturalista e espiritualista. O espirito é que é o typo da realidade: a
natureza não é mais do que uma longiqua imitação, um vago arremedo, um
symbolo obscuro e imperfeito do espirito. O Universo tem pois como lei
suprema o bem, essencia do espirito. A liberdade, em despeito do
determinismo inflexivel da natureza, não é uma palavra vã: ella é
possivel e realiza-se na santidade. Para o santo, o mundo cessou de ser
um carcere: elle é pelo contrario o senhor do mundo, porque é o seu
supremo interprete. Só por elle é que o Universo sabe para que existe:
só elle realiza o fim do Universo.

Estes pensamentos e muitos outros, mas concatenados systematicamente,
formam o que eu chamarei, embora ambiciosamente, a minha philosophia. O
meu amigo Oliveira Martins apresentou-me como um buddhista. Ha, com
effeito, muita coisa commum entre as minhas doutrinas e o Buddhismo, mas
creio que ha n'ellas mais alguma coisa do que isso. Parece-me que é esta
a tendencia do espirito moderno que, dada a sua direcção e os seus
pontos de partida, não pode sair do naturalismo, cada vez em maior
estado de banca rota, senão por esta porta do psychodynamismo ou
panpsychismo. Creio que é este o ponto nodal e o centro de attracção da
grande nebulose do pensamento moderno, em via de condensação. Por toda a
parte, mas sobretudo na Allemanha, encontram-se claros symptomas d'esta
tendencia. O occidente produzirá pois, por seu turno, o seu Buddhismo, a
sua doutrina mystica definitiva, mas com mais solidos alicerces e, por
todos os lados, em melhores condições do que o Oriente.

Não sei se poderei realizar, como tenho desejo, a exposição dogmatica
das minhas idéas philosophicas. Quizera concentrar n'essa obra suprema
toda a actividade dos annos que me restam a viver. Desconfio, porém, que
não o conseguirei; a doença que me ataca os centros nervosos, não me
permitte esforço tão grande e tão aturado como fôra indispensavel para
levar a cabo tão grande empreza. Morrerei, porém, com a satisfação de
ter entrevisto a direcção definitiva do pensamento europeu, o Norte para
onde se inclina a divina bussola do espirito humano. Morrerei tambem,
depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de
pensamentos tão irmãos das mais intimas aspirações da alma humana e,
como diziam os antigos, na paz do Senhor!--Assim o espero.

Os ultimos 21 Sonetos do meu livrinho dão um reflexo d'esta phase final
do meu espirito e representam symbolica e sentimentalmente as minhas
actuaes idéas sobre o mundo e a vida humana. É bem pouco para tão vasto
assumpto, mas não estava na minha mão fazer mais, nem melhor. Fazer
versos foi sempre em mim cousa perfeitamente involuntaria; pelo menos
ganhei com isso fazel-os sempre perfeitamente sinceros. Estimo este
livrinho dos _Sonetos_ por acompanhar, como a notação de um diario
intimo e sem mais preoccupações do que a exactidão das notas de um
diario, as phases successivas da minha vida intellectual e sentimental.
Elle fórma uma especie de autobiographia de um pensamento e como que as
memorias de uma consciencia.

Se entrei em tão largos desenvolvimentos biographicos, foi por entender
que, sem elles, se havia de perder a maior parte do interesse que a
leitura dos meus _Sonetos_ pode inspirar. Os criticos allemães acharão
talvez interessante observar as reacções provocadas pela inoculação do
Germanismo, no espirito não preparado de um meridional, descendente dos
navegadores catholicos do seculo XVI. Poderá essa ser mais uma pagina,
embora tenue, na historia do Germanismo na Europa, e porventura parecerá
curiosa aos que se occupam de psychologia comparada dos povos.

Ao bom e amavel espirito que me introduz, a mim neophyto, n'esses
grandes circulos do pensamento e do saber, tributo, além de muita
sympathia, indelevel gratidão.

E sou de v. ex.^a com a maxima consideração

criado m.^o obrg.^o

_Anthero de Quental_.



A OBRA POETICA DE ANTHERO DE QUENTAL


1. _Sonetos de Anthero_. Editor Sténio. Coimbra, Imprensa Litteraria,
1861. In-8.^o de XII e 23 pag. Contém 21 Sonetos, dos quaes 16 foram
incorporados nos _Sonetos completos_; os 5 restantes ficam incluidos nos
_Raios de extincta Luz_. O prologo é uma apresentação em verso por
Santos Valente. A carta a João de Deus sobre a theoria do Soneto foi
reproduzida no vol. II do _Circulo camoniano_.

2. _Beatrice_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1863. In-8.^o grande,
de 40 pag. Este poemeto, formado de trechos lyricos, está incorporado
nas _Primaveras romanticas_.

3. _Fiat lux_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1864. In-8.^o grande,
de 16 pag. Extremamente raro, por que foi rasgado pelo auctor poucos
dias depois de publicado. Fica incorporado este poemeto nos _Raios de
extincta Luz_.

4. _Odes modernas_. Coimbra. Imprensa da Universidade, 1865. In-8.^o
grande, de 160 pag. O texto termina a pag. 150, sendo as ultimas 10 pag.
occupadas por uma nota.

----Segunda edição (Contendo varias composições ineditas). Porto, 1875.
In-8.^o pequeno, de 186 pag. N'esta foi cortada a carta dedicatoria a
Germano Meyrelles, e bem assim a dedicatoria dos Sonetos _A Ideia_, a
Camillo Castello Branco; os versos que começam: «Como a serpente larga a
pelle antiga» (pag. 100), _Á Irlanda_ (pag. 121), e as duas quadras
sobre Mahomet e o Christo (pag. 133).

5. _Primaveras romanticas_ (Versos dos vinte annos). Porto, Imprensa
Portugueza, 1871. Com retrato photographico. In-8.^o grande, VII e 202
pag. Uma grande parte d'estes versos fora primeiramente publicada no
_Seculo XIX_, jornal de Penafiel, em 1864, e outros com o pseudonymo de
Carlos Fradique Mendes. (Vid. n.^o 2).

6. _Sonetos_ (Bibliotheca da Renascença, I). Porto, Imprensa Portugueza,
1881. In-8.^o pequeno, de 32 pag. e 4 não numeradas. Contém 28 Sonetos
colligidos por Joaquim de Araujo.

7. _Sonetos completos_. Publicados por J. P. de Oliveira Martins. Porto,
Livraria Portuense de Lopes e C.^a--Editores. 1886. In-8.^o pequeno; 48
pag. de introducção por Oliveira Martins, e 126 de texto.--Contém a
collecção dos _Sonetos_ da Bibliotheca da Renascença, e todos os Sonetos
dispersos pelas outras obras de Anthero, á excepção de 5 Sonetos
desprezados (Vid. n.^o 1) e do Soneto _Accusação_ (Aos homens de sangue
de Versalhes em 1871), que vem nas _Odes modernas_, a pag. 167 (Vid.
n.^o 4).

----Segunda edição. Porto, 1891. Accrescentada com a traducção allemã do
Dr. Wilhelm Storck, e algumas versões italianas.

8. _Cadencias Vagas_. Separata dos versos colligidos por Joaquim de
Araujo para o volume dos _Raios de extincta Luz_. Lisboa, Typographia da
Academia real das Sciencias, 1892. In-16.^o, VIII e 72 pag. (Tiragem
restricta).

9. _Raios de extincta Luz_. Poesias ineditas (1859-1863) com outras pela
primeira vez colligidas. Publicadas e precedidas de um Escorso
biographico por Theophilo Braga. Lisboa. M. Gomes. Livreiro-Editor, 70,
Rua Garrett (Chiado), 72. Typographia da Academia real das Sciencias,
1892. In-16.^o, de XLVIII pag. de introducção, e 258 pag. de texto.
Entram n'esta collecção as seguintes:

*Folhas avulsas*:

I. _Poesia_ de Anthero de Quental recitada na noite de 13 de maio de
1862, no Theatro Academico, por A. Fialho Machado.

II. _A Gennaro Perrelli_, Ao artista e patriota italiano. Imprensa
Litteraria (Sem data).

III. _Á Italia_. Poesia de Anthero, recitada no Theatro Academico por A.
Fialho Machado, na noite de 22 de outubro de 1862. Coimbra, Imprensa
Litteraria.

IV. _Zara_. Poesia. Imprensa portugueza. Porto. Folha solta, com
restricta tiragem para as pessoas da familia do Dr. Antonio Joaquim de
Araujo.

V. _A casa do Coração_. Impressa sobre um fundo lithographado, com o
retrato de Anthero, e distribuida no Saráo da Liga das Artes Graphicas,
no Porto, em honra do illustre morto.

       *       *       *       *       *

ORDEM PARA UMA EDIÇÃO DEFINITIVA DAS OBRAS POETICAS COMPLETAS DE ANTHERO


I. _Raios de extincta Luz_ (1859 a 1863).
II. _Primaveras romanticas_ (1863 a 1865).
III. _Odes modernas_ (1865 a 1871).
IV. _Sonetos completos_ (1860 a 1884).



I

PALAVRAS ALADAS



PALAVRAS ALADAS


Raios de extincta luz, eccos perdidos
De voz que se sumiu no espaço absorta--
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Não sabe a folha já mirrada e secca,
Que um sôpro do tufão levou revolta,
Que outro sopro talvez desfaça em breve--
Não sabe a triste o ramo onde nascera,
A seiva que a nutriu, quando inda bella,
O tronco que adornou com verde galla,
E onde entre irmãs folgou por tarde amena?
Soltos do tronco, sem calor, sem vida,
Filhos orphãos que um seio não aquece,
Um seio maternal ebrio de affectos,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada,
Lembrar e vir na mente o tempo antigo
Em que bella, vestindo pompa e gallas,
Brilhou rica de seiva e luz e vida;
Se na mente sonhar a pura essencia
Que animara esse pó ahi revolto;
Se corpo der á sombra fugitiva,
E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio;
Se alguem souber do canto o sentir intimo,
Oh, esse ha de entender a vida, a crença
D'essa alma que animara outr'ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica
Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me;
Se livre, por tyrannos não comprado,
Pulsar um coração, esse commigo
Hade a aurora saudar do _novo dia_;
Se uma alma recordar a eterna patria
Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa
Commigo a Deus n'um hymno hade elevar-se.

Aos mais será mysterio o canto e a lyra,
Á Liberdade, a Amor e a Deus votada:
E já, soltos do tronco onde medraram,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha.

Coimbra, Novembro, 1860.



II

LAÇO D'AMOR



A poesia _As Estrellas_ appareceu pela primeira vez publicada na segunda
parte da _Beatrice_ (p. 27 a 31), mas sem titulo, e com a epigraphe
_Excelsior_. O poeta leu-m'a em 1861 com o titulo _As Estrellas_, como
uma das suas melhores Odes. No manuscripto que possuo tem a
data:--_Figueira, Setembro_--1860; não apresenta variantes apreciaveis
da edição do 1863, por isso a não reproduzimos.

_T. B._



LAÇO D'AMOR

_Ao amigo Santos Valente enviando-lhe para o seu Album a poesia AS
ESTRELLAS_


Que heide dar de melhor? Ai, n'estes tempos
De pobres affeições, de tibias crenças,
--Fonte que os sóes do estio tem seccado--
Aonde ha fé tam viva, que trasborde,
Enchendo um peito n'outro peito amigo?
Que esperanças cá da terra ha hi tam firmes,
Tam ricas de futuro, que dois sêres
Possam firmar-se n'ellas sem receio
E abandonar-se todo ao seu arrimo,
Qual braço de mulher em braço de homem?
E quem pode encontrar-se em egual via,
E ir, com norte egual, seguir seu rumo
Quando tantos caminhos vão cruzando
N'estes tempos o mundo do espirito?
Ah, n'este sec'lo, amigo, solitario
Cada qual segue triste a sua estrada,
Caminheiro de um dia, e silencioso,
Contando, como o avaro, os tristes restos
Das suas illusões, das suas crenças,
A si pergunta o que ficou de tudo;
Olha as bandas longiquas do horizonte
E de novo interroga, em desalento,
Se o futuro lhe guarda alguma esp'rança,
Se o abysmo é o termo da jornada?!

Se lá de longe em longe alguma tenda,
Se uma fonte que ensombra alta palmeira.
Lhe alveja no deserto; se inda um pouco
Lhe repousa a cabeça afadigada,
Não faz, crente no Deus que o tem guiado,
A oração da noite, a acção de graças
E, antes que cerre as palpebras, medita...

No repouso só busca o esquecimento:
Dorme o somno agitado de uma noite
Sob a tenda que o acaso lhe depara;
De manhã, sem levar uma saudade,
Sem as deixar tambem, eil-o seguindo
Do fatal peregrinar a longa via.

Que lhe importa o passado ou o futuro?
P'ra dôr que soffre em si tudo é presente,
Aqui, ali, em toda a parte o punge...
Quem lhe dera esquecer, não recordar-se...

Orações? são incenso cujo aroma
É de lagrimas... e as d'elle se hão seccado!
Orgulhoso na dôr, da dôr o orgulho
Fal-o erguer solitario e silencioso,
Como se ergue o granito no deserto
Ermo, nú... se medita... e só comsigo.

Assim vae cada qual seguindo o rumo
Que o accaso ou o fado lhe depara:
Quem se pode encontrar? que laço estreito
Ha que os aperte? Idéa ou sentimento
Aonde em crença egual juntos communguem?
........................................
........................................
........................................
Com tudo Deus existe! e nós, seus filhos,
--Ingratos--se n'uma hora o olvidámos,
Dentro temos a voz de eterno brado!
Quem pode renegar seu pae? Nós somos
Como esse Adão occulto no arvoredo
Que não quer responder a _quem_ o chama:
Porém se a voz do pae clamou tres vezes,
Não pode resistir--«Eis-me presente.»--

Dissidentes no mais, Deus nos reune:
No impio, ou crente, em todos Deus existe
E todos chama a si, e a todos ama.
Nós somos como rios que descendem
De varia serra, e em vario leito correm:
Mas, que importa? essas serpes tortuosas,
Após rodeios mil, após mil voltas,
Vão todas dar no mar; some-as o Oceano.

Que importa a crença varia e o vario affecto?
Este laço de amor a todos une:
--Existe um Deus que é Pae; somos seus filhos.

Coimbra, Maio, 1861.



III

FORÇA--AMOR



FORÇA--AMOR


O que destroe os mundos,
E dá que os mar's frementes,
Em volta aos continentes,
Cavem abysmos fundos;

A mão que faz que a noite,
Sem luz, amor, encanto,
Se envolva em negro manto
Aonde o mal se acoite;

Que pôs no olhar o brilho,
E deu ao labio o riso,
Á planta o pomo liso.
Seio de mãe ao filho;

O que é verbo da vida,
Do amor, da luz, do affecto,
O que sustenta o insecto
E a planta desvalida;

E disse á nuvem branca
--Em densas trevas morre,
E disse ao vento--corre,
Assola, espalha, arranca;

Quem faz da vida morte,
De puro incenso, fumo;
E deixa, em mar sem rumo,
O homem luctar co'a sorte;

Se é Deus... oh! não! não pode
Do amor o foco immenso,
Que abraza em fogo intenso,
Se á mente nos acode;

Não pode o sôpro d'elle
Mandar a morte e o pranto,
Em vez do doce encanto,
Que immenso amor revele!

Algum genio das trevas,
--Espirito infecundo--
Espalha sobre o mundo
Estas vinganças sevas.

Não elle; o Deus suave!
D'aquelle seio immenso,
Só manda á terra o incenso
E o balsamo que a lave!

........................................
........................................

--«Estranhas ver a morte?
De vida andas repleto:
O Deus, o Deus do affecto
Tambem é o Deus forte:

Poeta! és tu que ignoras
--Envolto em sonho aéreo--
O revolto mysterio
De mais revoltas horas!--

Dezembro, 1860.



IV

PAZ EM DEUS



PAZ EM DEUS

     ...pax hominibus bona voluntate.


O Deus que me creou pôz-me no peito
Um thesouro tão rico de esperança,
Que não ha quem m'o roube ou quem m'o gaste;
E pôz-me n'alma fonte tão perenne
D'aquelle Eterno-Amor, que de lá desce,
Que não ha sol ou calma que m'a seque.

A fonte que nasceu em solo árido
Se um dia murmurou, morreu no outro;
Mas a que vem dos montes, que o céo tocam,
Descendo lentamente e sem ruido,
Té que brota entre as flores da campina,
Essa não morre com a luz de um dia...
Fonte de puras aguas abundantes,
Traz do céo sua origem. Lá se esconde,
Entre nuvens, o foco que a alimenta:
Eterna, como o céo d'onde partira,
E serena, como elle, a paz e a vida,
Como elle, tem no seio e d'elle manam.

Assim d'aquelle amor. Constante e puro,
Que ardor ou calma ou sol pode seccal-o?
Que pó da terra conspurcar-lhe o brilho?

A maldade dos homens não te mancha,
Oh minha paz, oh minha pomba candida!
Na terra o caçador te aponta a flecha,
E o tiro parte em vão. Como tocar-te,
Se tão alto voaste, e o dardo apenas
Mediu a meia altura que levavas?
A flecha cae na terra... ao céo tu foges!

Vae pomba immaculada! irei comtigo
Abrigar-me tambem no seio eterno,
Quando um dia o Senhor julgar que é finda
A missão que me deu de aqui servil-o.
Aqui fica-me a esp'rança que me alente,
Fica a luz que me guia, o Amor, a crença.

E foi Deus quem me deu o meu thesouro,
Como á ave que vôa deu a penna,
Que a libra pelo espaço; e ao olho morto
Do ancião, a luz que aponta melhor mundo.

Na assembléa dos homens, se um, olhando-me
Disser--«Aquelle é rei»--irei prostrar-me
Diante do Senhor, abrindo o espirito
Á voz que dentro d'elle Deus murmura;
E Deus vendo-me puro na consciencia
Dirá--«Ergue-te em paz: não és culpado»--!

Se sentir dentro d'alma alguma f'rida
Vertendo sangue e fel, em dor extrema,
Buscarei no Senhor o meu alivio:
E o Senhor, pondo um dedo sobre a chaga,
Dirá--«Fica-te em paz: estás curado»--!

Oh minha doce paz! por ti se cumpram
Os decretos do Eterno: tu me escuda
Dos tiros que a maldade em mim dispara;
A força do leão põe-me na mente,
A mansidão da pomba dentro d'alma.
Oh pomba ingenua, pomba immaculada,
Filha do céo ao céo voemos juntos.

Janeiro, 1861.



V

N'UMA NOITE DE PRIMAVERA



N'UMA NOITE DE PRIMAVERA

(*DO POEMA VASCO*)


1.^o FRAGMENTO

Esta quadra d'amor quanto nos punge,
Com tão doce pungir! Como sorrindo
Nos mata de desejos; nos esmaga
Sob o peso infinito dos anhelos,
Que esta vida e mil outras não fartaram!
Esta quadra d'amor, com seus sorrisos,
Quanto nos punge o peito, ai, quanto mata!

Tal é a essencia do Amor; tal Deus ha posto
Um veneno no mal, na flôr um áspide!
Prazer e dôr, sereis talvez um unico,
Unico sêr, que nos penetra e abraza
N'um fogo que nos doe, mas que é tão doce?
Punhal, que ferindo o peito, nos consola,
Mas, que a affagar nos vae roubando a vida,
Antegosto do que é o céo e o inferno?
Será isto o amor? será?... quem sabe?

Talvez! Se é laço universal e unico
Deve o bem como o mal juntar n'um todo;
Se é vida é tambem morte; se é saudade,
É desejo tambem; e se algum anjo
O creou, ha demonio que o perturba;
Se é um sol que nos brilha dentro d'alma,
Tambem queima e devora, tambem mata!
E é isto amor? será! será! quem sabe?

De vida mais completa é antegosto,
De melhor existir que além começa:
Talvez! então o amor será a morte?
Triste noiva, é mistér esp'rar-lhe a vinda
Para amar e gozar e viver muito?!
Celebre-se o hymeneo sobre uma campa:
Aguarde-se a hora extrema, como aurora
De um bem, que além da vida só começa;
E contando os momentos como sec'los,
O primeiro dos dias seja o ultimo...
Mas será isto amor? será!... quem sabe?

Talvez!... Mas quando a lousa funeraria
Rangendo, cobre um corpo estremecido:
Quando a terra só pode dar-lhe os osc'los,
Que inda ha pouco lhe davamos convulsos,
Que vem, que vem aos olhos? Vem só lagrimas
E ao peito vem só dôr! O lucto, o pranto
Se assentam sobre as campas, não a esp'rança!
E será isto amor? será!... quem sabe?

Mas as lousas são frias. Quem pernoita
Na deveza onde só o eterno somno
Se dorme... não! ninguem por lá pernoita!
As dôres, como gazes, se evaporam;
No ambiente da vida os ais não podem
Muito tempo eccoar; ha tanta lagrima,
Tantas consolações para os que soffrem!
Não duram, não!... a mão que enchuga o pranto
Beija-se... e mais... e mais... encontra-se a alma
Com quem se casa a pobre solitaria:
E a outra! a outra lá! partiu-se o laço...
E é isto amor? será! será?... quem sabe?

Feliz do que viaja em mundo novo!...
Triste do que ficou sobre uma lousa
Assentado a chorar: o que é da esp'rança?
Nunca sahiu da campa voz amiga
A consolar a dôr! Fica-lhe apenas
Um premio, triste premio! o das lagrimas:
Esse--se foi constante--hade cingir-lhe
A fronte com a c'roa... do martyrio...
E será isto amor? será!... quem sabe?
........................................


2.^o FRAGMENTO

........................................
Será! será! Que importa, se é tão doce,
Se mata com um sorriso, entre caricias!
Vae, razão fria! vae... isto ou aquillo
Que importa seja o amor?! É sempre bello
--Um momento sequer--gozar a vida.

É bello o amor; é bella a vida; é bello
Tudo aonde o Senhor a mão ha posto...
E o Senhor fez o mundo! e a ti, ó noite,
Noite de primavera, deu-te estrellas,
Que são almas no espaço a procurar-se;
A ti, mulher, a ti deu-te o mysterio
De matar ou dar vida... e a mim, sim!--creio--
Inda hade dar-me uma hora de ventura!
........................................
Oh! dae-me a taça do veneno doce,
Que mata embriagando! Dae-me prestes
Uma taça de amor aonde libe!...

Abril, 1861.



VI

PSALMO



PSALMO

(CXXXII DE DAVID)

    Do amor he santo o laço!
    O forte ao fraco ajude:
    Ao irmão mais fraco escude
    Do irmão mais forte o braço.


E a graça do Senhor virá sobre elles:
Virá, bem como um oleo perfumado,
Que na fronte de Arão cahido, escorre,
Que inunda a barba toda, e vem descendo
'Té que a fimbria da tunica lhe beija.

Virá, bem como o orvalho sobre o monte
Sacrosanto de Hermon, e sobre o cimo,
O cimo de Sion, que Deus amara:
Porque sobre as justas frontes
Dos irmãos que estreita o amor,
--Mais que o orvalho sobre os montes--
Desce a graça do Senhor.

Novembro, 1860.



VII

Á BEIRA-MAR



Á BEIRA-MAR

*O CREPUSCULO*


Oh! vem Maria! sobre a rocha erguida
Em asp'ra costa, sobranceira ao mar,
Vamos sósinhos ver as brancas ondas
Sobre os rochedos, em cachões, saltar!

Alli, bem juntos, ao cahir da tarde,
De mãos trocadas a fallar de amor,
Quero, ao contar-te mil segredos d'alma,
Ver-te nas faces virginal pudôr.

É proprio o sitio, é propicia a hora,
Incerta, dubia entre sombra e luz;
Já descem trevas pelos fundos valles,
Inda algum brilho sobre o mar reluz:

Inda no dorso das inquietas ondas
Dourada fita tremeluz, além;
Mas, já ao longe, da campina os viços,
Envolvem sombras que dos montes vêm.

Gigante immenso de esplendor e brilho,
O sol, um instante, viu-se alli nutar;
Depois cançado, declinando rapido
A lassa fronte repousou no mar.

Semelha ao entrar-lhe pelo seio tumido,
Que de mil fógos inda foi tingir,
Medalha de ouro, que em caldeira immensa,
A pouco e pouco visse alguem fundir.

Em tanto a sombra vae descendo os montes
E envolve as terras mysterioso véo;
Já se divisa, vergonhosa e timida,
Pallida estrella tremular no céo:

Como em teu seio, pura virgem, nasce
Ligeira magoa de fugaz pezar,
Que vae crescendo, e transmudada em lagrimas
Te vem dos olhos nos crystaes brilhar:

Como nos brota dentro de alma, e lavra
A pouco e pouco no veloz crescer,
Algum affecto que em paixão tornado
Nos vem no peito com fulgor arder:

Assim da estrella nasce o brilho, e cresce
A pouco e pouco pelo céo de anil;
Ponto luzente, no começo apenas,
Por fim brilhante, entre saphiras mil.

Soidão callada pela terra alarga-se
Preludio augusto da _nocturna voz_;
Em doce enlevo, scisma o homem statico
Em Deus, comsigo meditando a sós.

Hora saudosa de incerteza mystica,
De lucta harmonica entre sombra e luz.
Por ti nos desce sobre o seio ardente
A santa crença que p'ra Deus conduz!

Hora em que é grato no regaço amigo
De alguma esperança de melhor porvir,
Olvidar magoas de um presente incerto,
E, esp'rando, e crendo, n'essa fé dormir.

Em que amor gera dentro de alma os laços
Que as almas ligam com estreito nó,
E que no arroubo de amoroso rapto
Funde dois sêres n'uma vida só.

E eu tambem quero sentir n'alma os intimos
Celestes gosos que esta hora tem;
Em livro aberto lêr um nome augusto
Que em lettras de ouro vejo escripto além.

E no regaço da mulher amada,
Que é minha esp'rança de melhor porvir,
Quero estas magoas ir depôr e apenas
Guardar um peito para amor sentir.

E antes que as terras illuminem fógos,
Com a luz divina que o Senhor lhe deu;
E antes que morram esses brilhos ultimos
Do sol nas dobras do nocturno véo;

Quero ao soido gemedor das ondas
Casar as magoas d'este immenso amor,
Ardente e puro, como aquelles lumes
Candentes fócos de vivaz fulgor.

Quero nas horas do crepusculo ameno
Sobre o rochedo sobranceiro ao mar,
Aos pés da virgem que escolheu minha alma
Ler-lhe nos olhos confissões sem par.

Figueira da Foz, 1860.



VIII

ASPIRAÇÃO



ASPIRAÇÃO


Porque é que minha alma anceia
De visões e magoas cheia,
Porque ao longe devaneia
Minha mente sem cessar?
Porque á tarde, em fins do dia,
Ao cahir da maresia,
Vou sobre a costa bravia
Magoas carpir sobre o mar?

Porque se me opprime o peito
--Já de ha muito á magoa affeito--
N'esse momento imperfeito,
Mixto de trevas e luz,
Quando tudo, ao longe e ao perto,
Se veste de um brilho incerto
E eu, d'esta alma no deserto,
Só diviso a paz na Cruz?

Porque ao murmurio das fontes,
Quando a sombra desce os montes,
Fito o olhar nos horizontes
E fico mudo a scismar!
Porque á noite, á lua cheia,
«Por noites da minha aldeia»,
Chóro e riu e devaneia
Meu agitado pensar?

Oh! quem é que assim me inspira
Á mente que me delira,
Ao coração que suspira
Allivios, consôlo e paz?
Quem faz que além d'esta vida
Veja uma outra promettida
E anceie essa patria querida,
Não esta patria fallaz?

Não vem de mim nem da terra
--Que tal ouvir não encerra--
O que este peito descerra
N'um hymno de tanta fé:
Eu scismo ás vezes de amores,
Porém são outros ardores,
Outros são os seus fervores,
Outro amor que este não é...

Eu tenho sonhos de gloria,
Que me acodem á memoria
Como a visão illusoria,
Que brilha e que se desfaz:
De ouro e nome tenho sêde;--
Do poder aspiro á séde...
Mas toda esta gloria cede
Á _gloria_ de luz e paz!

Oh! trasborda-me este affecto,
Que aqui dentro anda secreto,
Como de vaso repleto
Trasborda puro o licor!
Oh! inunda-me este oceano
De um amor tão sobre-humano,
Tam puro de todo o engano...
Que nem sei se é isto amor!

Oh! embala-me esta esp'rança,
Aonde a alma me descança
Em pura e santa bonança,
Tão bafejada de Deus,
Que não pode--eu bem o vejo--
Descender-me este desejo
Senão da patria que invejo...
Oh! esta esp'rança é dos céos!

És tu oh Deus que me chamas!
És tu Senhor que me inflammas
N'aquellas ardentes chammas,
Que me dão tão pura luz!
És tu, oh Pae! que da altura,
Olhando a minha amargura,
Me estendes a mão segura,
A mão que a ti nos conduz!

Sim! minha alma te pressente!
Guiada por luz ingente
D'esse fanal que não mente,
Já p'ra ti desprende o vôo...
Oh! quem tem essa luz querida,
Não tem outra promettida,
Não pode amar outra vida...
Senhor! eu busco-te... eu vou!

Coimbra, 1861



IX

A PYRAMIDE NO DESERTO



A PYRAMIDE NO DESERTO


Além na solidão, sobre os desertos,
Tu só te ergues altiva e apontas céos;
E deixas, sobranceira ás tempestades,
Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Tu só! Quem te creou? Mysterio immenso
Ao nascer te encobriu, te envolve o sêr...
E agora eis-te, rival das serranias,
Como ellas condemnada a não morrer.

Tu só! Além, na extrema do horizonte,
Passa o Arabe no auge do furor,
Luz-lhe na mão o alfange, o olhar fuzila,
Vão com elle em tropel morte e terror!

Mas lá surge do accaso arroxeado,
Ao mando de medonho furacão,
Nuvem de ardente pó que rue sobre elle,
Que o sepulta em deserto, árido chão.

Mas tu sorris ás furias da tormenta,
Não temendo arrostal-a inda uma vez,
E ella, a que troou pelos espaços,
Vem tremendo morrer-te ahi aos pés.

Do cimo sublimado, erguido ás nuvens,
Vês os sec'los nascer, ruir no pó;
E em meio da ruina dos imperios
Ficas tu, ó gigante, eterno e só!

Além, n'esse deserto a quem assombras,
Que vidas, que paixões se hão revolvido!
E a todas o deserto, qual sudario,
Nas dobras da mortalha ha envolvido.

Tu podes apontar ao viajante
Um nome ou um logar na solidão:
Dizer--Alli, Palmira foi cidade--
--Aqui, foi um heroe Napoleão.--

Tu só podes dizel-o. Quem mais sabe,
Que pó envolve agora o que morreu?
Quem pode differençar, n'um mar infindo,
Um pó de um outro pó que o envolveu?

Só tu! Na solidão, sobre os desertos,
Tu só te ergues altiva, e apontas céos;
E deixas, sobranceira ás tempestades,
Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Coimbra, Dezembro, 1859.



X

DESALENTO-CONFORTO



DESALENTO


_A Sorte, amigo, a sorte é dura ás vezes!
Agora nos affaga e nos alenta;
E logo nos opprimem seus revezes...

Após leda bonança vem tormenta;
Succede a noite escura ao claro dia,
E ao rapido prazer a magoa lenta!

Assim de minha ardente phantasia
Aos sonhos perfumados de venturas
Que a beijar-me a fronte eu já sentia,

Ai! seguiram-se tristes amarguras
Que a vida a pouco e pouco vão comendo;
Deixando espinhos só onde as verduras
Eram brandos aromas rescendendo_!

Alberto Telles


CONFORTO

(*PARAPHRASE DO SONETO ANTECEDENTE*)


A Sorte só p'ra o fraco é dura ás vezes!
P'ra o forte, que a virtude e crença alenta,
P'ra esse não ha sortes nem revezes...

Porque após da bonança vem tormenta,
Porque a noite succede ao claro dia,
É força definhar em magoa lenta?

Não! que aos males, que gera a phantasia,
O sabio oppõe as intimas venturas
Da virtude e da fé que em si sentia.

Não chores mais, poeta, as amarguras
Que só os bens da terra vão comendo:
A consciencia é jardim onde as verduras
Mil perfumes p'ra o céo vão rescendendo.



XI

A SENDA DO CALVARIO



A SENDA DO CALVARIO

     Ave, Christus!


Deixae, deixae passar o homem forte,
      O ungido do Senhor;
Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte
      Tambem é cruz de amor!

Deixae! na praça o povo agglomerado
      Vomita a injuria alli;
E elle, sereno o rosto e resignado,
      Olha o céo, e sorri.

Sorri... não fero riso de despreso
Que ao passar pelo labio perde o encanto,
Mas riso que transluz por entre o pranto
Ao que da cruz de amor arrasta o peso.

Sorri... Que mais importa ao homem forte
      Ou despreso ou louvor,
Se da estrella seguiu, que foi seu norte,
      O magico pallor?
Tem dentro, como em erguida fortaleza,
A fé, voz que lhe vae bradando--«Avante!
É teu premio o opprobrio do ignorante,
De tal morte morrer, tua grandeza!--»

E diz, vendo a consciencia onde serena
      Lê a imagem de Deus,
E do futuro vendo a praia amena:
      --«Posso subir aos céos!
Posso agora, depondo em terra o peso
Da missão dolorosa d'esta vida,
Buscar a patria minha promettida,
D'onde o divino amor transluz acceso.--»

Ai pode! Heroe, e martyr, deixa a terra,
      Que é cumprida a missão:
O Mundo o teu preceito guarda e encerra
      Na mente e coração...
Morres tu; mas a idéa que deixaste
Não morre, como a luz em fim do dia,
Nem o fogo do céo que em ti ardia,
Nem o exemplo sublime, que legaste!

Oh, martyr! cada lagrima chovida
      N'essa senda de dôr,
Conquista mais um espirito p'ra vida,
      Para a luz do Senhor;
E um dia (e talvez cedo venha o dia)
De cada dôr que ahi te curva agora,
Nascerá qual da noite nasce a aurora
Um mundo de verdade e de harmonia!
........................................
Deixae, deixae passar o homem forte,
      O ungido do Senhor;
Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte,
      Tambem é cruz de amor!

S. Miguel, Julho de 1859.



XII

A JOÃO DE DEUS



A JOÃO DE DEUS

DEPOIS DE LER A SUA POESIA


    Fique em silencio eterno a minha lyra;
    Pomba do céo tu vae; Deus te bem fade,
    N'esta alma em teu logar guardo a saudade,
    Se a essencia sobrevive á flor que expira.
    ........................................


Foi o canto do cysne, o canto derradeiro
D'aquella augusta voz que se esvaiu no ar;
Adeus da terna amante ao seu amor primeiro
Que eterno ella julgou, mas cedo viu findar;
Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente
--N'uma hora apenas--vê, qual sombra na corrente,
Morrer-lhe as illusões co'a morte d'esse amor
E triste se envolveu no vêo de uma erma dôr.
Soffreu da soledade... E onde ha hi um peito
Que não soffra tambem, ainda ao mal affeito?

Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou,
Depois que ao longe e triste o ecco se finou
D'aquella _unica voz_, que ainda repetia
A sua voz, bem como, á tarde em fins do dia,
A nuvem que passou reflecte um raio ao sol,
Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol.
Soffreu quando da sorte a mão pesada veiu
Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu alli
A ancia que animára o arfar d'aquelle seio,
Seio que só bateu--poesia!--amor!--por ti!

E elle então disse: «Aqui deponho a minha lyra:
Se esta alma a outros céos, a outra patria aspira,
Se esta ancia infinita não posso aqui fartar,
Que val'--ecco sem voz--que val' o meu cantar?
Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia,
Cuja aurora immortal, em luz, em poesia,
Me hade envolver, e assim levar-me áquelle céo.
Céo do que amou, creu, esperou e soffreu.
Emtanto--esp'rando--viva em silencio profundo,
Deixando em vão rugir,--qual voz do mar--o mundo;
Aqui guardo a saudade, esse talisman só,
Como da flor já secca inda se guarda o pó.--»

Cobriu o rosto após co' manto da tristeza;
O sol d'aquelle céo fugiu ao longe... além...
E a noite sem luar, sem brilho, sem belleza
Ao negro que hia lá veiu ajuntar tambem.
........................................
........................................
Poeta, essa não é tua missão. Curvar-se
Um momento é do homem; porém não prostrar-se
Gemendo em desalento, e face contra o chão,
Como quem acceitou da dôr a escravidão.
Poeta é quem tem fé, quem busca no futuro
A crença que lhe nega este presente impuro:
Não quem deixa cahir a lyra, não quem vae
Pedir ao desalento abrigo e amor de pae.
É virtude soffrer, nunca perder a crença;
É ter esp'rança tal que a dôr mais crua vença;
É não pedir seu premio aos homens, mas a Deus,
E passar n'este valle, o olhar fito nos céos.

Tal é tua missão:--Luctar! O soffrimento,
Ao pé do eterno bem, o que é mais que um momento?

Coimbra, Março, 1861



     _Como a poesia de João de Deus citada na epigraphe da p. 73, não
     foi incorporada nas collecções das_ Flores do Campo _e_ Folhas
     Soltas, _transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos
     nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da
     primeira estrophe_.



ADEUS


_Fique em silencio eterno a minha lyra_;
Vae, effluvio de Deus! _Deus te bem fade:
N'esta alma, em teu logar_ fica _a saudade,
Se a essencia sobrevive á flôr que expira.

Dizer-te adeus! não pude; quando occorre
Tal voz ao labio, o labio empallidece,
Como a nota da lyra nos fallece
Ante a lua que cae, e o sol que morre:

Ante o sôpro que varre o cedro e o vime,
Ante o sublime aspecto do oceano,
Ante a esposa do martyr sobrehumano,
Ante tudo o que é grande e que é sublime.

Embora!... quando a lampada crepita
Já falta d'oleo, languida esvoaça;
A nuvem estala; ruge a onda e passa,
Guarda silencio a abobada infinita_.

João de Deus



XIII

PER AMICA SILENTIA LUNAE



PER AMICA SILENTIA LUNAE


    Guardai in alto.........................
    ........................................

    Dante, _Inf._ C. 1.^o


I


Eu amo a noite ás horas socegadas
Que o Senhor manda á terra, como balsamo
A tanta dôr que a punge, e o sol do dia
Parece escarnecer com tanto brilho,
Nem sabe respeitar; quando o silencio
Com manto protector envolve os tristes,
Os que choram saudades; quando o orvalho
Refresca o seio á flôr, e em cada balsa
A viração prepassa suspirando;
Quando é mais puro o ár, mais doce a brisa,
Mais sumidos, mais vagos os rumores,
E detraz da montanha, saudosa
Como a virgem dos sonhos, surge a lua.


II


Eu amo então a noite.--Paz e esperança
A quem soffre, buscando algum allivio;
Ao feliz exultando de alegrias
A lembrança de Deus a quem as deve;
A quem descreu de achar inda na terra
Ventura que lhe foge... o olvido ao menos;
A toda a crença um exultar de affectos;
A todo o desconforto, uma esperança;
A toda a natureza, amor e vida;
Eis o thesouro santo que nos abre
--A nós e ao mundo--a noite, eis seu tributo.

É doce então abrir os seios d'alma
Aos effluvios do céo: flor que hão crestado
Ardentias do sol, e ainda timida
Palpitando entre o susto e a esperança,
Retoma agora aos poucos novo alento
Ao sentir-se segura, e abrindo o calix
Estremece de amor a cada gôtta
Dos orvalhos do céo: como que a vida
Solta de tanto laço que a comprime,
Como gaz que ao calor se ha dilatado,
Se expande livre agora e cresce e absorve
Em si mil harmonias, mil poderes
Que esse universo tem: como as correntes
Occultas, que os oceanos communicam,
A natureza e o espirito permutam
Sympathias e forças, em que a alma
Mais cresce e mais comprehende, e mais abrange,
E n'este permutar de força e força
Quasi na vida universal se funda.


III


Passa a lua; do alto olhando a terra
Procura o triste por lhe dar allivio;
Prepassa a viração e busca do ermo
A florinha minada que refresque;
Corre manso o regato, e banha a erva
Que um pé calcou, e o sol deixou crestada;
Tremúla a estrella, symbolo de esperanças,
Enviam-se harmonias as espheras;
Tudo amor, tudo affectos communica;
E o espirito do homem busca livre
Da sob'rana harmonia a eterna fórmula,
Do eterno amor o fóco, a patria sua.

Lembranças de um viver já pressentido,
Ou memorias--talvez--de uma outra vida,
Que nos relembra vaga, e como em sonhos,
E sobre o fundo d'esta se destacam
Como pela penumbra um vulto incerto...
Aspirações, memorias, ou saudades,
O que nos enche o peito e nos enleva
Como um sonho de amor--e mais ainda--
Senão este mysterio do futuro,
Esta attracção do sêr a vida nova,
Que se foge e se busca e nos revela
A vida universal, então sentida
Mais forte na harmonia do Universo?


IV


Busca-se, anceia-se, e o alvejar da campa
Mais que o sorriso de uma amante é doce;
A lembrança da morte mais que a esp'rança
Do poder ou da gloria nos enleva;
Terrores, incertezas se dissipam,
E sem saudade, sem temor se anhela
Mais mundo, mais espaço, e viver novo!


V


E quem pode temer? Teme o que um dia
Sonhou na mente uma ambição terrena
E mais não vê por todo esse universo,
E além d'elle não vê sublime e grande:
O, que engolfado nos prazeres do mundo,
Esqueceu o seu Deus e seus destinos
Nem sonha mais ventura além da campa:
O que pungido por cruel espinho
De uma duvida atroz, sente a cada hora
Cahir-lhe a uma e uma cada crença
De sobre alma, deixando-a erma e nua,
Como as humidas prégas de um sudario,
Aos poucos desdobrado, deixam vêr-se
Os descarnados membros do cadaver.


VI


Mas quem se assenta ás horas do mysterio,
Entre as flôres do prado, ou sobre a encosta
Da collina virente e olhando a lua
Que banha em luz a esphera crystallina,
Inveja quem habita n'esses mundos...
E fita o olhar por esse espaço, e cuida
Sondar-lhe o infinito; quem anhela
Desvendar-lhe os mysterios e buscando
A região que se sonha e não se avista
Dal-a por patria á sua alma... oh! esse
A viagem não teme, antes anceia,
Quebrada a fórma d'este sêr, alar-se
Em busca de outra mais perfeita, e sempre
De degráo em degráo, de esphera em esphera,
--Metempsycose eterna!--sublimar-se
Na progressão d'este ascender constante
Da parte ao todo, do mortal principio
Em busca de um futuro inattingivel,
Porém melhor cada hora, e a cada passo.

E quem pode temel-a, essa viagem,
Quando fitando o olhar no alto, avista
Banhado em luz o espaço immenso e puro,
Patente e franca a estrada do Universo,
E como que visivel o infinito?
Quando tudo no céo e pela terra
Parece, como irmão, dar-nos confiança
Em nós e em si para seguir avante?
Quando se sente palpitar no seio
Não só já a mesquinha vida propria
Mas todo o grande sêr do que é creado?
Quando nas aras do Universo, o espirito
Communga, como irmão, na mesma crença,
Com tudo quanto vive, e a mais aspira,
Ah! quem pode temer, noite de encanto,
Noite pura e sagrada ao Deus de affecto,
Protegido por tua luz amiga,
A aspiração dos immortaes destinos.
Um pouco mais ao peregrinar constante,
A entrevista do infinito e do homem?


VII


Por ti, noite de amor, por ti nos desce
Tanta ventura ao seio; e como o orvalho
Que o pó da terra ressequido e árido,
Que o vento impelle, fixa sobre o sólo
E como que consola e allivia,
Assim como teu effluvio o triste espirito
Que incerto das paixões refoge á duvida,
N'uma crença fixaste--a crença eterna
Do amor universal, todo harmonias,
Porque és affectos toda! Em cada balsa
Descanta um rouxinol; a cada rosa
Uma brisa osculou; em cada fonte
Brilha um raio da lua; em cada peito
Murmura um ecco que de amor só falla!

Mosteiro da Batalha, 1861.



XIV

NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE



NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE

(C. C. P. P.)


Este é o livro das vinganças nobres,
O inferno dos que têm o céo na terra:
Nem vingança; justiça.
            --Oh vós que as lagrimas
Trazeis sempre nos olhos, sem que sequem,
Lazaros no banquete da existencia,
Oh filhos do dever! lêde este livro,
Porque atravez de um mundo de miserias,
Do largo perigrinar chegando ao termo,
Heisde ouvir, lá das bandas do futuro,
A grande voz do Christo, a voz eterna,
Erguer-se sobre os filhos da verdade:

«--Felizes dos que soffrem--terão premio:
Feliz do pobre e triste, orphão de affectos,
Será rico: no céo seu pae o espera!»

Coimbra, Dezembro, 1861.



XV

DANTE--DIVINA COMEDIA



DANTE--DIVINA COMEDIA

(PURGATORIO, CANTO VI)


Oh Italia aviltada! Oh não sem rumo
      No meio da tormenta!
E era esta a rainha das provincias?
      Hoje... cloaca informe!
Outr'ora mal bradasse:--«Patria, Patria!»
      Um cidadão, um filho,
Alma nobre--acolhias-l'o no seio
      No seio que lhe abrias!
Agora espreita cada um o peito
      Do visinho e olha o gladio:
E os que estreita no cinto o mesmo muro
      E o mesmo fôsso... comem-se!
Alonga, alonga, oh triste, pelas praias
      Teus olhos macerados;
Desce-os, desce, infeliz, ao proprio seio...
      A paz! onde a encontraste?

Julho, 1862.



XVI

MOMENTOS DE TEDIO

SONETOS



MOMENTOS DE TEDIO



I

     Sinite parvulos ad me venire


Ventura! aurora d'outro eterno dia--
Amor--Verdade--Bem--Quanto desprende
Seu vôo cá da terra e quanto estende
Azas no céo, só busca esta harmonia,

E as alturas fechadas! tudo esfria
E morre, lá por cima, e não se entende...
Certo é que o fructo só p'ra terra pende,
Parece que p'ra terra a luz se cria!

Ha tanto quem sem lucta espere havel-a!
Sem se erguer, quêdo o mundo, cuide vêl-a...
Talvez, se assim quedasse, a possuisse!

Chama-se isto voar! Toda essa altura
Dava-a bem por uma hora de ventura...
Antes minha alma não voasse... e visse!

Coimbra, Novembro, 1862.



II

A UM CRUCIFIXO

(_Primeira elaboração do Soneto de p. 20 dos_ Sonetos Completos)


     Dieu n'est pas! Dieu n'est plus


Ha mil annos, oh Christo, ergueste os magros braços,
E clamaste da cruz: «Ha Deus!» e olhaste, oh crente,
O horizonte futuro, e viste em tua mente
O alvor _do céo_ banhar _de luz_ esses espaços!

Porque morreu sem ecco o ecco de teus passos?
E de tua palavra (oh Verbo!) o som fremente?
Morreste! ó dorme em paz: não volvas, que descrente
Arrojáras de novo á campa os membros lassos!...

_Ha mil annos! ha mil! Que é d'ella a tua esp'rança?
Ainda, como então, Amor--traduz--Vingança,
E é o int'resse glacial das almas o sudario_!

_Ainda_, como então, víras o mundo exangue?
E ouvíras perguntar: «De que serviu o sangue
Com que regaste, oh Christo, as urzes do Calvario?!»

Coimbra, Novembro, 1862.

       *       *       *       *       *


VARIANTE DO 2.^o TERCETO


Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario.



III

DECOMPOSIÇÃO


«Eu não sou dos que a patria só adoram»
Como adora o regato a propria serra:
Deus n'uma gleba apenas não se encerra;
Se visita esses mundos, que demoram

De céo a céo, tambem cafres o imploram.
Mas deixae que uma lagrima sincera
Possam os olhos dar, olhando-a, á terra
De onde a primeira vez aos céos se foram.

Sim, vêr-te, Portugal! eu chóro ao ver-te!...
Como ao Leão gigante do Occidente
Lhe cáe a garra, e em nada se converte!...

Não é isto o que eu chóro: o que me dóe,
É como aquella juba omnipotente,
Em pennas de pavão se decompõe!...

Coimbra, Janeiro, 1863.



IV

NIHIL


Homem! Homem! mendigo do Infinito!
Abres a bocca e estendes os teus braços
A vêr se os astros cáem dos espaços
A encher o vacuo immenso do finito!

Porque sóbes á rocha de granito?
Porque é que dás no ár tantos abraços?
E cuidas amarrar com ferreos laços
Um reflexo da sombra de um esp'rito?

Vê que o céo, por escarneo, a luz nos lança!
Que, á tua voz, a voz da immensidão
Responde com immensa gargalhada!

A idéa fechou a porta á esp'rança,
Quando lhe foi pedir gazalho e pão...
Deixou-a cara a cara com o Nada!!...

Maio, 1863.



V

QUINZE ANNOS

(_Primeira elaboração do Soneto de p. 30 dos_ Sonetos Completos)


Eu amo a vasta sombra das montanhas
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossaes de aranhas.

D'ali o nosso olhar vê tão extranhas
Coisas, por esse céo! e tão ardentes
Visões _amostra_ o mar de ondas trementes
E as estrellas, d'ali, vê-as tamanhas.

Amo a grandeza _tenebrosa e_ vasta:
A grande idéa como _um grande fruito_
De _um_'arvore colossal que _isto_ domina;

Mas tu, criança, sê tu boa... e basta,
Sabe amar e sorrir... _mulher, é muito_...
Mas a ti só te quero pequenina...

Coimbra, 18 de abril de 1863.



VI

SARCASMOS


Está deserta a estrada do Infinito,
É apenas o cêo do nada espelho,
A eternidade é fossil: Deus é velho,
E o homem olha o céo de fito em fito!

A cruz de Christo está feita um palito,
Embrulham-se caminhos no Evangelho;
Cada qual dá a Deus o seu conselho:
Nem já é Verbo o verbo... é só um _Dito_!

Nada d'isto me dá a mim cansado;
Mas morrer Satanaz tambem de frio...
Mas não haver já mal que se combata...

Não poder já ao demo um condemnado
Render a alma immortal... por desfastio...
É isto o que me dóe, o que me mata!...

Maio, 1863.



XVII

AMOR DE FILHA



AMOR DE FILHA

(NO ALBUM DE UMA SENHORA)


    ...........o sangue é vida,
    e as Mães a fonte d'ella...

    João de Deus


Ainda a trabalhar, dedos formosos!
Nem tanto affinco: Deus tambem não quer
Que se cumpra o preceito tanto á letra;
Preceito é trabalhar, não que se estraguem
Esses formosos dedos de mulher.

Já o sol se escondeu atraz da serra,
E o bordado não céssas de bordar;
Quando abri de manhã esta janella,
Já lá estavas no posto, de olhos roxos,
Como se foram roxos de chorar!

Forte trabalho! não me enganas, bella!
Bem sei eu quem te dá tamanho ardor...
Pois nem um olhar a quem passou na rua,
Dizendo:--É bella! e olhando-te? nem isso?...
Ai tanto trabalhar! só por amor...

Que importa o que passou? no peito um nome
Te domina, e na mente uma imagem só...
Feliz cabeça, que hade ornar em breve
O bordado gentil em que trabalhas
Com esse affinco, que causou meu dó.

Feliz! sim; que lhe guarda aquelle peito
Largo e rico thesouro de affeição;
Pois magoar estes olhos, e estes dedos
Formosos estragar--homem ditoso--
Só faz o amor que vem do coração!...

Tu, que talvez repouzes no ocio brando,
(Se não corres talvez de flôr em flôr)
Vê tu que sacrificios immerecidos!...
Mas um menino cego é quem nos vence,
Que a isto e a mais obriga o louco amor!
........................................

Mas, não! Quem lá no fundo, meio occulto
Entrevejo na sombra, como quem
Teme do dia a luz--luz orgulhosa,
Luz que ao feliz afaga, ao triste afflige--
Quem triste e só, se occulta mais além?

Quem, se o dia findou, recebe o beijo
E outro recebe logo que é manhã?
Quem--emquanto a alampada nocturna
Alumia a vigilia--sente em sonhos
Uma lagrima de amor molhar-lhe as cans?

Perdão, mulher! e mais que mulher, filha,
Perdão! louco julguei e impio tambem,
Que tinhas outro amor: como se possa
Ter uma filha amor ou pensamento
Que todo não pertença a sua mãe!

Feliz, quem--pobre--tem um tal arrimo;
Quem--cega--pode vêr uma tal luz:
Quem--cega e pobre e triste e desprezada--
Tem uma mão de filha que piedosa
Té aos degráos do tumulo a conduz!...
........................................

É nobre o teu trabalho, mulher bella--
Bella d'aquella luz que vem dos céos,
A quem nas áras da fiel piedade
Sacrifica illusões da mocidade
E segue o seu caminho crente em Deus!

Nem mais um riso, amigos! Respeitemos
O que ella faz ali com tanto ardor;
Não são enfeites vãos, do prazer socios,
É o pão de uma mãe que ali grangêa,
Trabalha por amor... mas outro amor.

Trabalha e enchuga o pranto á velha enferma:
Trabalha noite e dia; é Deus que o quer:
Que importa á filha, quando a mãe lhe soffre,
Que o sol nasça ou decline, ou que se estraguem
Os seus formosos dedos de mulher?

Coimbra, 1862.



XVIII

GARGALHADAS



GARGALHADAS

(NO ALBUM DO SEU CONDISCIPULO DR. JOSÉ BERNARDINO)


     _Risum teneatis_!


Bem é fallar de tristezas
Por estes tempos de risos,
Em que passa a Gargalhada
Na face dos paraisos,

E, como o vento do pólo
Forte--mas triste, mas frio--
Que leva as folhas co'as flores,
Como as enchentes do rio.

É o nivel da egualdade
Desde a rocha até á flor,
Desde o amor da virtude
'Té á virtude do amor.

Como os remoinhos de pó
Que a gente vê, a tremer,
Sob-la tarde, nas estradas,
Como demonios correr;

Como a espuma batida
Que a rocha escarra no mar
E a onda depois atira,
Com escarneo, por esse ár;

Como os grôus em debandada
Ao partir-se-lhe a cadeia:
E o torvelinho que atira
No deserto os grãos de areia;

Como tudo, emfim, que geme
No abraço dos turbilhões
E, de olhos postos no inferno,
Lança ao céo as maldições:

Folhas mortas e flores vivas,
Pó da terra e diamantes,
Aguas correntes e charcos,
Os de perto e os mais distantes;

Vozes profundas da terra,
Vozes do peito gementes,
De envolto as feras bravias
Com as aves innocentes;

Como as palhas assopradas
Depois das malhas, na eira,
Ou gottas de agua rolando
De alta náo na larga esteira--

Tudo partido, enlaçado,
Em desesp'rados abraços,
Ruindo pelas quebradas,
Rolando pelos espaços,

Nos _paraisos perdidos_
E--agora--feitos desertos,
Como legião de demonios
Rugindo infernaes concertos;

Tudo vae, se rasga e parte,
Como em cidade assaltada,
Sob esses tufões gelados
Da tormenta--Gargalhada!

Das tormentas! Que sem conto
São esses ventos de morte;
E d'um ao outro horizonte;
E d'um modo e d'outra sorte.

Os suões do céo humano
E os simúns do seu deserto;
O que a gente vê ao longe,
O que a gente sente ao perto;

A gargalhada do sabio,
Que se chama... indagação;
A gargalhada do sceptico,
Que tem nome... negação:

A gargalhada do santo,
Que tem nome--fé e crença;
A gargalhada do impio,
Que se chama... indifferença:

A gargalhada da historia
Que se chama... Revolução:
E a gargalhada de Deus,
Que tem nome... Escuridão;

Eil-as 'hi vêm, as tormentas,
De todos os horizontes,
Subindo de todos vales,
Descendo de todos montes.

Eil-as 'hi vêm: já espectros,
Já como lavas ruindo:
Já nuvem, já mar, já fogo,
Mas sempre, sempre cahindo,

Desde a França... e são revoltas;
Da Allemanha... e são idéas;
Desde a America... e são fardos;
E da Russia... e são cadeias;

De Inglaterra... e são carvões
De fumo enchendo os pórtos;
Do Oriente... e são os sonhos;
E da Italia... Christos mortos;

Da Hespanha... e são traições,
Á noite, por traz dos brejos,
--Mão na faca e mão nas costas--
E _dê cá_... e são bocejos.

É d'estes lados que sopram...
E são os ventos assim...
Levando os cedros do monte
Como os lyrios do jardim...

       *       *       *       *       *

E, comtudo, no meio da _alegria_
Terrivel, que enche o espaço como o ecco
Das grandes trovoadas--e debaixo
De tantos ventos e de tantos climas,
A Alma--a flor do Paraiso antigo--
Lyrio bello do valle--peito humano,
A Sulamite da Sião celeste--
A Psyche triste e palida, que vaga
Nas praias do infinito--a Alma, oh homens,
Em meio do folgar que vae no mundo,
Cada vez chora mais e mais soluça,
E mais saudosa--a eterna expatriada!--
........................................
........................................

É que o rir do leão sempre é rugido--
E isto, que sae da bocca tenebrosa
Do mundo--e o mundo escuro diz Progresso,
E Força, e Vida, e Lei--isto é soluço
Que sae do peito condemnado,--e quando
Vae a sahir, para illudir o misero,
Diz á bocca: «Olha tu como nós rimos»...
Mas não é mais que o arranco da agonia!
Nem pode ser.--Aquelle riso enorme
Quando sae é co'o ruido das tormentas
E, como as grandes aguas, vae rolando,
E esmaga... e não consola!
            É como a orgia
Que cuidando folgar... se está matando!
E como esses que dizem dos rochedos
Que _brincam_ com as ondas... quando as partem!

Não é o riso bello da Harmonia,
É apenas gargalhada de Possessos!
Ha dentro d'este mundo algum demonio,
Que o obriga a torcer assim a bocca
Lá quando mais se agita e mais lhe dóe!
Senão, olhae e vêde essa alegria
--Quer seja Idéa ou Força ou Arte, ou seja
A Industria ou o Prazer--de qualquer lado
Que rebente dos labios--vêde como
Faz frio a quem a vê! como entristece
Vêr o gigante louco dar-se beijos
Como em mulher formosa... e ao longe, ao longe
Todo o campo alastrado de flôr's mortas!
........................................
........................................

      Mas basta! A luz doirada
      Um dia hade surgir!
      E a venda, d'esses olhos,
      Por fim tambem cahir!

      E a Gargalhada immensa
      Fechar a horrivel bocca!
      E ser canto suave
      Essa atroada rouca!
      Então!..................
      ........................
      ........................
      ........................

            Alma, que sonhas?
      Que louco desvairar!...
      _Então!!_... Mas--Hoje--esta hora...
      É toda p'ra chorar!

Coimbra, Novembro, 1863.



XIX

Á ITALIA



Á ITALIA

POESIA RECITADA NO THEATRO ACADEMICO POR A. FIALHO DE MACHADO

_na noite de 22 de outubro de 1862_


Italia e Portugal! que duas patrias!
Ambas tam bellas, tam amadas ambas!
Uma, a patria do berço; outra a das almas:
Uma, a das artes; outra a dos combates!

Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito,
As estreite, a final.--Ha quanto tempo
Eu quizera juntar-vos, pelas frontes,
Beijar-vos, bem unidas, soluçando,
Como quem, tendo pae, mãe encontrasse.

Portugal! nobre filho de guerreiros!
Viste, primeiro, o sol da liberdade,
Mais feliz, não maior e nem mais digno
Que tua irmã, a Italia.--Ella, entretanto,
Chorava, olhando o céo, negro de nuvens!

Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombros
A toga negra, já como sudario:
O seu corpo partido em dez retalhos:
O extrangeiro assentado nos seus lares...
E não se via sol no céo da Italia!

Dizei-me vós, se pode o grande rio
Existir, sem que as fontes o basteçam?
Se pode quem nasceu fadado ás glorias,
Esquecido morrer? Se os fortes netos
De Mario e de Catão, ir assentar-se
Sosinhos sobre o tumulo dos fortes
--Olhos no chão e pulsos algemados?
Se é possivel que exista um povo--um povo!--
Sem ser livre, e sem sol o céo da Italia?!

      O céo da Italia!... esse céo
      Tem, por sol, a liberdade!
      Riqueza... de claridade...
      Mas se foi Deus quem lh'a deu?!

      O que Deus dá é sagrado!...
      'Stava o povo escravisado
      E par'cia, de esquecido,
      Prostrar-se tam compungido
      Ante os pés de seu Senhor?!

      Pois bem! a esse povo escravo
      Bastou-lhe o brado d'um bravo
      Para se erguer,--eil-o em pé!
      E aos tyrannos, aos senhores,
      Aos fortes, cheios de fé,
      Bastou-lhes ouvir os clamores
      D'essa turba esfomeada

      Para deixarem a espada...
      Raia a nova claridade,
      A aurora da liberdade,
      D'um proscripto no palor!

      O povo toma as espadas,
      Meias gastas e olvidadas,

      Sobre as campas dos avós:
      E, ainda vestido de dó,
      Com esforço sobrehumano,
      Ergue os hombros... e o tyranno
      Treme... nuta... eil-o no pó!...

      Quem derruba, sobranceiro,
      Altos colossos por terra?
      Quem é que faz d'uma guerra
      A festa do mundo inteiro?

      Um homem?
            Não!
                  A Justiça!...
      Deus!--o unico juiz
      Dos povos na grande liça!

      Só Deus!--
            Elle dá ao triste
      Allivios... não odios vís!
      A essa Italia que hoje existe
      Segredou-lhe, em quanto oppressa,
      Como sagrada promessa,
      Em vez de iras da vingança,
      Estas palavras d'esperança:

      «Tudo tem allivio á magoa:
      A flôr murcha, a gotta d'agua;
      Cruz, o moribundo exangue;
      Um filho, a fera mais seva;
      Amor, o martyr; a treva,
      Um raio de claridade...
      E o povo, que é vida e sangue,
      Não hade ter liberdade?!»



XX

A GENNARO PERRELLI



A GENNARO PERRELLI

AO ARTISTA E AO PATRIOTA ITALIANO


A arte é como a luz: brilha do alto,
Mas quer livre brilhar: do Deus do bello
Ella é religião: seu templo immenso
Quer sacerdotes mas rejeita o bonzo.
E o artista é como astro gravitando
Em céo e espaço livre: acaso o servo
Pode entoar um canto de ventura?

      Só a mão, que não aperta
      Grilhão de escravo, disperta
      Na arte tal magestade,
      Tal sentir e tal verdade--
      Vêde essa fronte inspirada
      Do artista, allumiada
      Ao clarão da liberdade!



XXI

GUITARRILHA DE SATAN



     Estes versos appareceram pela primeira vez publicados com o
     pseudonymo de _Carlos Fradique Mendes_.



GUITARRILHA DE SATAN


Estranha apparição
Que em minhas noites vejo,
Ó filha do desejo!
Ó filha da soidão!

Não sei qual é o teu nome,
E d'onde vens ignoro:
Sei só que tremo e choro
Como de frio e fome!

Que por fundir comtigo
Suspiros, ais, rugidos,
Déra ideaes queridos,
Deuses e fé que sigo.

Sim! dera as prophecias
E os cultos salvadores,
E os Golgothas e as dôres
E as Biblias dos Messias!

Por ti minh'alma clama,
Corre a meus braços breve,
Sejas de fogo ou neve,
Sejas cristal ou lama!

Se és Beatriz, sou Dante;
Sou santo, se és divina;
Se és Laïs ou Messalina,
Sou Nero, ó minha amante!

1869.



XXII

SERENATA



     D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta
     por este communicada a J. de Araujo: «A... _Serenata_ nunca foi
     impressa que eu saiba, embora não seja de modo algum inédita, pois
     tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de
     um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá
     muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios
     musicaes em bellas noites de verão.»

     Storck traduziu esta poesia. Ácerca da traducção escrevia-lhe D.
     Carolina Michaëlis, em maio de 1891: «A. de Q. recebeu a sua
     traducção da _Serenata_, a qual lhe agrada extraordinariamente.
     Antepõe-na ao original d'elle, e diz que lhe sôa como uma canção
     allemã.»



SERENATA


Cahiu do céo uma estrella,
Ai, que eu bem a vi tombar!
Era a noite pura e bella,
Murmurava ao longe o mar...

Era tudo extase e calma,
Perfume, encanto, fulgor...
Só no fundo da minha alma
Que desconforto e que dôr!

Dorme e sonha, minha bella,
Emballada ao som do mar...
Cahiu do céo uma estrella,
Triste do que a viu tombar!

Era uma estrella cahida,
Uma entre tantas, não mais!
Era uma illusão perdida,
Era um ai entre mil ais!

E has de viver torturado,
Louco, incerto coração,
Só por um astro apagado,
Por uma morta illusão?

Dorme e sonha, minha bella...
Como chora ao longe o mar!
Cahiu do céo uma estrella,
Ai de mim que a vi tombar!

1873.



XXIII

O POSSESSO



O POSSESSO

(_Commentario ás_ Litanies de Satan)



I


Não creio em ti, Deus-Padre omnipotente,
Creador d'esse espaço constellado,
Que do Cahos e o Nada conglobado
Arrancaste o Universo refervente;

Não creio em ti, Deus-Filho, em cuja mente
Foi o Bem inefavel feito e nado;
E não creio no Espirito gerado
Do eterno Amor, como uma chamma ardente;

Saibam-n'o a terra e os céos: do Crédo antigo,
Cheio de Graça e Fé, refugio e abrigo,
Benção da noite e prece da manhã,

Só creio no Peccado ineluctavel,
Na Maldição primeira inexpiavel,
E no eterno reinado de Satan!



II


Quando o Tedio, com plumbeo capacete,
Esmaga a fronte ao homem desolado,
E o Fausto pensador vê a seu lado
A Negação sentada ao seu bufete,

Seu labio é vil tres vezes, se repete
Preces vãs e esconjuros, humilhado:
O nome de Homem, tragico e sagrado,
Só a quem desafia a Deus compete!

É grata a maldição á alma robusta
Do que nenhum pavor divino assusta,
E no Vasio ergueu seu templo e altar...

Mais fecundo que o Céo, creou o Inferno
A blasfemia.--Honra, pois, e preito eterno
A Satan, que nos deu o blasfemar!

1873.



XXIV

EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL



EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL


Quem vos fez, céo profundo e luminoso,
Terra fecunda, poderoso oceano,
E a ti deu vida, coração humano,
Que és todo um céo e um mar mysterioso,

Bem sabia que o céo, o mar, a terra,
Tinham de ser só carcere e gehena;
Que havia a vida ser só lucto e pena,
E campo, o coração, de eterna guerra.

Por isso o estranho artifice sombrio,
Que, concebendo o plano da obra ingente,
Ironico talvez, talvez demente,
Logo se arrependeu e o confundiu;

Não deu seu nome, como o archonte epónymo,
Á obra de sua mente e sua mão:
O Creador furtou-se á Creação...
E sendo um máo auctor ficou--anonymo.

1879.



XXV

NA SEPULTURA DE ZARA



     Estes bellos versos não eram destinados á imprensa, e appareceram
     publicados em uma revista de Lisboa, sem consentimento do auctor ou
     da familia da menina cuja morte pranteiam. Anthero recusara-se a
     imprimil-os, como se vê da seguinte carta que appareceu entre os
     papeis de Eduardo Coimbra e que a mãe do mallogrado moço, a sr.^a
     D. Anna Coimbra offereceu com varios outros documentos ao mais
     querido amigo de seu filho:


«_Villa do Conde, sabbado.

                                  Meu joven poeta


     São reservados, e pertencem ao nosso Joaquim os versos a que
     allude. É claro que sem licença d'elle não devem imprimir-se.
     Deixe-os no tumulo da desditosa criança, que lá fallam melhor aos
     que a estremeceram. Se porém combinarem trasladal-os para qualquer
     publicação, addiccione o meu amigo ao nome da pobre Zara o do
     desolado irmão. Para elle foram feitos, a elle serão dedicados.

     E nada mais por hoje, meu amado poeta


                                          Seu do C._

                                                 Anthero de Q.»



ZARA

A JOAQUIM DE ARAUJO


Feliz de quem passou por entre a magoa
E as paixões da existencia tumultuosa,
Inconsciente, como passa a rosa,
E leve, como a sombra sobre a agua.

Era-te a vida um sonho. Indefinido
E tenue, mas suave e transparente...
Acordaste, sorriste... e vagamente
Continuates o sonho interrompido.

1881.



TRADUCÇÃO ALLEMÃ

DE WILHELM STORCK


Glückselig wer vorüberging am Weh
Des Lebens und der Leidenschaft Getose
Unwissend, wie vorübergeht die Rose,
Und flüchtig, wie der Schatten ob der See.

Dein Leben war ein Traum, begriffen kaum
Und leicht und Lieblichkeit D'u trankest;
Du wachtest auf und lacheltest und sankest
Züruck in Deinen unterbroch'nen Traum.

Münster, abril, 91.



XXVI

GLOSA CAMONIANA



     Dous ou tres dias antes da morte de Eduardo Coimbra (8, outubro,
     84) escreveu Anthero esta bella quadra junto do leito, em que o
     moço poeta, quasi agonisante, lhe pedia «um improviso» para a
     carteira-album que pouco antes mandara comprar. Essa carteira
     offereceu-a a mãe do poeta em recordação dolorosa, ao fiel amigo,
     que rubricára n'ella o seu nome, junto do de Anthero, e que dias
     depois lhe entregava a chave do caixão do pobre Eduardo.



GLOSA CAMONIANA

(NA CARTEIRA DE EDUARDO COIMBRA)


Pés em chagas, seguimos pela via
Dolorosa, em demanda da Verdade;
Mas achal-a entre os homens ninguem hade...
_Triste o que espera_! _triste o que confia_!

1884.



XXVII

AS FADAS



     Estes versos foram escriptos em Lisboa, para a collecção--_Thesouro
     poetico da infancia_, que o proprio auctor coordenou. Foram lidos
     no dia immediato a João de Deus, «que delles se mostrou
     satisfeito», como Anthero escrevia a um amigo. «Para mim, poeta de
     genero apocalyptico, foi um verdadeiro _tour de force_.»



AS FADAS


As fadas... eu creio n'ellas!
Umas são moças e bellas,
Outras, velhas de pasmar...
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, á beira do mar...

Algumas em fonte fria
Escondem-se, emquanto é dia,
Sáem só ao escurecer...
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder...

O vestir... são taes riquezas,
Que rainhas, nem princezas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu...

Quando a noite é clara e amena
E a lua vae mais serena,
Qualquer as póde espreitar,
Fazendo roda, occupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flóres
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes d'algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areaes,
Vive junto ao mar, sósinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos baptisados reaes.

Morgana é muito enganosa;
Ás vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir...
Ora festiva, ora grave,
E vôa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titania, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja gloria
Enche as paginas da historia
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas tem mando nos áres;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquella vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha do condão.

O que ellas querem, n'um pronto,
Fez-se alli! parece um conto...
Mesmo de fadas... eu sei!
São condões que dão á gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre creancinha
Se quiz ser sua madrinha,
Uma fada... ai, que feliz!
São palacios, n'um momento...
Belleza, que é um portento...
Riqueza, que nem se diz...

Ou então, prendas, talento,
Sciencia, discernimento,
Graças, chiste, discrição...
Vê-se o pobre innocentinho
Feito um sabio, um adivinho,
Que aos mais sabios vae á mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não hade rir.
Querem ellas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende... Cautela!
A mais risonha, a mais bella,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga aggressiva,
É serpente que alli está!

E têm vinganças terriveis!
Semeiam cousas horriveis,
Que nascem logo no chão...
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com azas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente...
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer...
É-se morcego ou veado...
E anda-se assim encantado,
Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradas
Fôr, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o céo,
Deve com geito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
Até ao chão o chapéo.

Porque a fortuna da gente
Está ás vezes sómente
N'uma palavra que diz;
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado,
Mas sem somno, inda acordado,
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um bello dia,
Me quizesse a mim fadar...

O que seria? um thesouro?
Um reino? um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palacio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quizesse,
Pedir tambem que me désse
Um condão, para falar
A lingua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos...
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Commigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a vêr...

E que ámanhã acordasse
E me achasse... eu sei? me achasse
Feito um principe, um emir!...
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando...
Deixa-me já, já dormir!



XXVIII

O SOL DO BELLO



O SOL DO BELLO

RECITADA NA NOITE DE 13 DE MAIO DE 1862, NO THEATRO ACADEMICO, POR A.
FIALHO MACHADO


O sol do bello a todos alumia!
Sua auréola cinge cada fronte
Bem como o rei do dia, mal desponte,
Dá luz egual a todo o sêr creado!
Este baptismo santo envolve e lava
Todos na mesma onda inspiradora!
Queima com a mesma chamma abrasadora!
Orvalha em egual pranto derramado!
Juntas as almas, que o sentir enlaça,
Commungam, como irmãs, na mesma taça!

Vê-os, agora, artista.--Elles estendem-te
Os seus braços e o affecto é que os impele!
Esse braço, que vezes mil repele
O laço, que em vão, tenta escravisal-o...
A corrupção hypocrita de tantos...
Que sabe resistir a quem o opprime...
É esse que, n'um impeto sublime,
Se ergue a ti, se ergue ao irmão para estreital-o.
É que a alma, que não verga á tyrannia,
Curva-se, livre, ao bello que a alumia!

Sim! aquelles que do alto de um _vão throno_
--Mal firme throno que estremece ao vento--
Pedem, como tributo de um momento,
Respeito, amor, affecto á mocidade,
(Mas pedem como quem ordena a escravos)
Não são esses aqui os respeitados!
Não são esses que são aqui amados!
Não escuta voz de imperio a liberdade!
Mas quem de amor nos labios traz doçura
Esse é que leva a flor de uma alma pura!

Pura e nobre! Embora, despeitados,
Lhe chamem louco e frio a esse peito...
Não se acreditam vozes de despeito.
Frio! quem diz que é frio o peito moço?
Que o sentimento é extincto n'estas almas?
Dil-o a _velhice_ que não tem no seio
Nem uma voz de amor, nem um anceio,
A dar ao bello, que arrebata o nosso:--
Dil-o quem a deseja corrompida...
Porém na mocidade habita a vida!

A vida! sim! Bem como em cofre de ouro
Se guarda o que ha melhor, o que ha mais puro,
Deu-lhe o Senhor a guarda do futuro,
Confiou-lhe em deposito essas gemas
--O amor, a fé, o bello, a liberdade!
O amor! o que nos dá sentir profundo!
A fé! a que nos mostra melhor mundo!
A liberdade! a que espedaça algemas!
O bello! a nossa flammula brilhante!
E sobre tudo, a voz que brada--avante!



XXIX

IBERIA



     (_Do_ Seculo XIX, _de Penafiel, n.^o 20, 1864_).



IBERIA


I


Flor dos povos! oh tu que inda te embalas,
E inda em botão, aos ventos do futuro!
Que tens por vazos e jardins e salas
Toda a vasta extensão do tempo escuro!
E frontes gloriosas a adornal-as,
A fronte da historia, o grande auguro!
Lirio que saes do seio á humanidade
Como filha melhor--Fraternidade!

Deixa que escreva aqui teu nome todo,
E já d'aqui aspire teu perfume!
E, arredando co'as mãos o frio lodo
Do presente, me aqueça a esse teu lume!
Deixa beijar-te em sonho, e d'este modo
Trazer-te unida ao seio, que consumme
Esta ancia ardente de destino novo,
E este fogo roubado ao seio do povo!

Porque te vemos só quando sonhamos...
E, irmã! só nos sorris em nosso somno...
E, a dormir, doce amiga, te beijamos!
Tu--só em nossas almas--tens teu throno
Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos,
E, como um cão fiel segue o seu dono,
Trazemos ante o olhar tua lembrança,
E caminhamos cheios de confiança!

Fraternidade! esta palavra é suave,
Como antegosto de melhor destino!
Como a onda de um Ganges que nos lave!
E como a pósse de um penhor divino!
Como o vôo sereno de uma ave
Que, sendo apenas ponto pequenino,
Emtanto faz, transpondo ao longe um monte,
Sonhar com melhor céo e outro horisonte!

O grande céo! o céo da humanidade!
Onde os povos serão constellações,
E, destillando a luz da liberdade,
Serão astros e estrellas as nações!
Onde hade o grande laço da egualdade
Reunir a vontade e os corações!
Cobrindo-os, a dormir, os mesmos céos,
Terão todos tambem o mesmo Deus.

Não vejo outro Evangelho de ouro escripto
Dentro no homem,--nem sei que outro areal,
Outro cabo, outro monte de granito,
Do grande navegar surja a final!
Guiados pelo instincto do infinito
É para lá que os povos--náo real!--
Hão a prôa virar lá quando um dia
Marearem pela bussula harmonia!


II


Hãode então, como irmãos, reconhecer-se
Os amigos--ha tanto tempo ausentes!
Hão então (caso novo e estranho!) ver-se
Face a face as nações, sem que dementes
As entranhas se rasguem! e hade lêr-se
Um protocolo, em letras de ouro, ingentes,
Escripto, sem emenda e sem errata,
Por mãos do amor--o grande diplomata!


III


Elle é quem concilia as differenças,
Quem nos concilios hade erguer a voz,
Tirando nova ideia e novas crenças
Das esfriadas cinzas dos avós!
E, sem trabalhos, e sem dôres immensas,
E sem rios de sangue e pranto após,
Rasgando o ventre á velha liberdade
Sairá á luz a joven Egualdade!

É doce vêr assim, á luz da esperança,
Pelo futuro dentro, as cousas bellas...
Prevêr do céo humano essa mudança,
Que em sóes converte as minimas estrellas!
Do passado infeliz eis a vingança!
E dos _mortos_ as faces amarellas,
Córando de ventura e de alegria,
Hãode surgir, emfim, á luz do dia!


IV


E nós tambem, tambem commungaremos
Na grande communhão das novas gentes:
Tambem os nossos braços ergueremos
--Braços livres de jovens impacientes--
E o cinto d'este _Velho_ quebraremos,
De aonde a espada e o sceptro estão pendentes,
(Já tão gastos!) lançando-os á ribeira...
Para o coroar de palmas e oliveira!

Hespanha--irmã! que boda alegre a nossa!
Como hãode então teus seios palpitar!
Que ribeira de lagrimas tão grossa
Teu branco véo de noiva hade estancar!
Como hade parecer pequena poça
Para os _banhos_, então, o grande mar!
E entornar-nos volupia nos desejos
O mixto de odio antigo e novos beijos!

........................................

Mas tu 'stás presa!... e nós... 'stamos dementes!
Separa-nos o abysmo! os teus algozes...
A _cruz de Ignacio_... e as garras inclementes
Dos _leões_ orgulhosos e ferozes...
E a estupidez do _povo dos valentes_,
D'estes pardaes de atroadoras vozes...
Entre nós nos cavaram oceanos...
Sejam-lhe ponte os corpos dos tyrannos!

Porque beijas teus ferros, pobre louca,
E cuidas 'star beijando cousa santa?
E, tendo em tuas mãos cousa tão pouca,
Tão tenue como a capa de uma santa,
Pensas avassalar a terra amouca,
E te ergues com vaidade e _gloria_ tanta?
Oh! tu, cuidando os orbes abraçar,
Só ruinas abraças--Throno e Altar!

Lembre-te a voz do Cid! a atroadora
Voz que se ouvia ao longe nos combates!
Porque tu estás feita psalmeadora
No côro das egrejas--porque bates
No peito, em vez de erguer dominadora
A tua mão em meio de combates,
E livre e bella, oh Hespanha, olhar os céos
Procurando por lá teu novo Deus!


V


Como nos amaremos, doce amiga!
Como então amaremos! que noivado
O nosso não será!... Não tem a espiga
No campo côr melhor, nem mais doirado
Esplendor, do que tu, bella _inimiga_.
Hasde vêr a ventura... quando o estrado
Do leito nupcial fôr Liberdade,
E fôr docel o céo--Fraternidade.



XXX

VERSÕES E IMITAÇÕES



EXCERPTOS DE UMA TRADUCÇÃO DO FAUSTO



I

*DEDICATORIA*


Ainda uma outra vez, imagens fluctuantes,
Vos ergueis ante mim, como outr'ora radiantes
Ante mim, que vos fito em vago enleio incerto!
Voaes... mas eu hesito em vos retêr agora...
Assusta o meu olhar a luz da vossa aurora,
E teme as illusões, meu coração desperto!

Que aérea multidão! que virginaes choreas!
Meu velho coração, pois que inda te incendeias
Não é melhor ceder? sim, sim, rejuvenesce!
D'entre as nevoas surgi, visões do tempo antigo!
Sim, levae-me tambem no vosso bando amigo,
Levae-me aonde ha luz e cantos, e alvorece!

Reconheço entre vós as sombras fugidías
De outro tempo melhor, de mais alegres dias:
Meu coração evoca imagens adoradas...
Susurra em torno a mim voz de saudoso encanto:
É o primeiro amor, que passa como um canto
De antigas tradições vagamente escutadas...

E as lagrimas, tambem, correm silenciosas!
O lamento dorido, as magoas saudosas,
Renovam-se; desperta a dor que dormitava...
Sim, a dor, ante mim, mostra-me os dias idos,
E nomeia-me os bens, sob meus pés fundidos,
Quando em minha illusão julguei que os abraçava!

Almas a quem cantei, não me ouvireis agora!
O circulo fiel dos amigos d'outr'ora
Desfez-se como a voz d'este canto primeiro!
Rodeia-me hoje a turba: o seu applauso é triste:
Quem folgou de escutar-me, em tempo, se inda existe
Disperso erra no mundo, ah! n'um mundo estrangeiro...

Como a saudade então, uma longa saudade,
D'esse reino encantado, onde ha paz e verdade,
Me falla ao coração n'uma queixa sumida!
Meu canto sobe e desce, incerto e fluctuante,
Sobe e desce indeciso e com tom murmurante,
Bem como uma harpa eólea aos ventos suspendida.

E tremo sem saber porquê, e lentamente
Sinto o pranto nascer, correndo docemente,
Ungindo o coração que embala e adormece...
O que tenho, o que sou, mal o vejo a distancia...
É a nuvem no mar, é um sonho de infancia...
Só, á luz da saudade, o passado apparece!



II

*NA CATHEDRAL*


_Officios; orgão e canto._ MARGARIDA _no meio da multidão. O_ ESPIRITO
RUIM _por detrás d'ella_.


O ESPIRITO RUIM

  Como foste, como eu te conheci,
  E como estás mudada, Margarida!
  Que pensamento é que te traz aqui?
      Ainda adormecida,
  Tua alma ha pouco, lembras-te? buscava,
  Esta sombra do altar--mas não chorava,
  Não, não chorava as lagrimas que choras!
  Rezar era então brinco de criança,
      Para ti, innocente...
      Lias nas tuas Horas
  As tuas orações--e docemente
  Sorria a Deus tua infantil confiança...
        Margarida!
  Quantas ruinas em tão curta vida!
  Que pensamento occulto te tortura?
      E, no teu coração,
  Que peccado te roe essa alma impura?
  Não rezes: Deus não te ouve a oração!
  Rezas por tua mãe? por ti foi morta,
  Sim, morta lentamente, a infeliz!
  Olha o sangue espalhado á tua porta...
      De quem é elle, diz?
  E escuta! n'esse seio criminoso
      O que é que já se move?
  Sim, o que é que se agita, e te commove
  Com um presentimento doloroso?


MARGARIDA

Ai de mim! ai de mim! quem podesse livrar-me
D'esta turba cruel de negros pensamentos!
Vejo-os de toda a parte e a todos os momentos,
Erguer-se em volta a mim, correndo a torturar-me!


CÔRO E ORGÃO

      Dies irae, dies illa
      Solvet saeclum in favilla.


O ESPIRITO RUIM

  Cae sobre ti a colera do céo!
  Sôa a trombeta! as campas se quebrantam!
      A terra estremeceu,
      Os mortos se levantam.
  Tambem teu miseravel coração,
      Que dormia desfeito,
  Já renasce das cinzas, já o chamam
  Para os fogos eternos que se inflammam...
      Teu pobre coração
  Estala-te tambem dentro do peito!


MARGARIDA

  Oh! quem me dera ao menos d'aqui fóra!
  Esta musica faz-me uma afflicção!
  Este orgão parece alguem que chora...
      Parte-me o coração!


CÔRO E ORGÃO

      Judex ergo cum sedebit,
      Quidquid latet apparebit,
      Nil inultum remanebit.


MARGARIDA

      Que oppressão! que quebranto!
      A abobada estremece!
      Estas pedras, parece
      Que querem desabar!
      Soffocam-me de espanto
      Estes tectos escuros!
      Affrontam-me estes muros!
        Mais ar! mais ar!


O ESPIRITO RUIM

Esconde-te infeliz! e onde irá occultar
Seu peccado e vergonha essa alma deshonrada?
      Mais ar? pedes mais ar?
      Ai de ti desgraçada!


CÔRO E ORGÃO

    Quid sum miser, tunc dicturus,
    Quem patronum rogaturus
    Cum vix justus sit securus?


O ESPIRITO RUIM

  Os justos no céo de horror e desgosto...
  De ti, de te vêr, desviam o rosto...
  Estende o inferno as mãos para aqui...
        Ai, de ti!


CÔRO E ORGÃO

    Quid sum miser, tunc dicturus.


MARGARIDA

    Visinha, dê-me os seus saes.
                    (Cae desmaiada)



III

*A CANÇÃO DO REI DE THULE*


Era uma vez um bom rei
Em Thule--essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o calix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leaes
Não tinham outra alegria:
E só por elle bebia,
Nos seus banquetes reaes.

Chegada a hora da morte
Poz-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte
Seus reinos á beira-mar.

Deixava um rico thesouro,
Palacios, villas, cidades:
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de ouro.

No castello da deveza,
N'aquellas salas sem fim,
Mandou armar uma meza
Para um ultimo festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fieis cavalleiros,
Para os brindes derradeiros
No castello á beira-mar.

Então, vasando-o de um trago,
E com entranhada magoa,
Poz nas ondas o olhar vago
E atirou com a taça á agua.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram:
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais em vida!

1870-71.



A DÔR

(DO POETA HUNGARO SANDOR PETÖFI)


O que é a Dôr? Um mar. E a alegria?
Pérola occulta n'esse mar fremente.
Quantas vezes a pérola encantada,
Entre as rochas profundas sepultada,
Se dissolve esquecida, lentamente,
E nunca chega a vêr a luz do dia?

1881.



A CASA DO CORAÇÃO

IMITADO DO ALLEMÃO

(_No Album da filha de João de Deus_)


O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se vêr,
N'um a Dôr, n'outro o Prazer.

Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a Dôr...

Cuidado, Prazer! Cautella,
Canta e ri mais devagar...
Não vá a Dôr acordar...



ESTANCIAS

IMITADAS DO ALLEMÃO


Rebentam flores mil das minhas lagrimas,
E só serpentes nascem dos meus cantos;
É que os meus cantos são envenenados,
E só puros, só doces os meus prantos.

       *       *       *       *       *

Se queres conhecer o homem e o mundo,
Não desvies de ti o olhar profundo;
Mas foge de te ouvir e de te vêr,
Se a ti mesmo te queres conhecer.

1887.



ROMANCE DE GOESTO ANSURES

(POSTO EM LINGUAGEM MODERNA)


No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.
Seis donzellas encontrára,
Seis donzellas encontrei;
Para ellas caminhára,
Para ellas caminhei;
Chorando a todas achára,
A todas chorando achei;
Logo ali lhes perguntára,
Logo ali lhes perguntei,
Quem foi que ousou maltratal-as,
Tratal-as de tão má lei?

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.
Uma d'ellas respondera:
--Cavalleiro, não o sei...
Mal haja, mal haja a terra
Que tem máo e fraco rei,
Que se eu as armas vestira,
Por minha fé, que não sei
Se homem ousára levar-me,
Levar-me de tão má lei...
Com Deus ide cavalleiro,
Ide com Deus, que não sei
Se onde me fallaes agora
Nunca mais vos fallarei.

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.
Eu então lhe replicára:
--Por minha fé, não irei;
Antes olhos d'essa cara
Bem caros os comprarei;
A longas terras distantes
Só por seguir-vos me irei;
Por caminhos dasvairados
Atraz de vós andarei;
Linguas moiras de aravias
Por vós eu as fallarei;
Moiros se me apparecerem
A todos os matarei.

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.
N'isto o moiro que as guardára,
Perto d'ali encontrei:
Se elle bem me ameaçára,
Eu melhor o ameacei;
Um tronco secco esgalhára,
Um tronco secco esgalhei;
Com elle a todos matára,
A todos desbaratei;
As donzellas libertára,
Todas sim as libertei;
Aquella que me fallára
Com ella me casarei.
No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.



XXXI

SONETOS DESPREZADOS



     Incorporamos aqui os Sonetos IV, X, XVI, XVII e XX, da collecção de
     Coimbra, de 1861, não incluidos no volume dos _Sonetos completos_.



A M. E.


Terra do exilio! Aqui tambem as flores
Têm perfume e matiz; tambem vicejam
Rosas no prado, e pelo prado adejam
Zéfiros brandos suspirando amores:

Tambem cá tem a terra seus primores;
Pelos vales as fontes rumorejam;
Tem as moitas seus sôpros, que bafejam,
E o céo tem sua luz e seus ardores.

Em toda a natureza ha amor e cantos,
Em toda a natureza Deus se encerra...
E comtudo esta é a causa de meus prantos!

Eu sou bem como a flor que não descerra
Em clima alheio. Que importam teus encantos?
Não és, terra do exilio, a minha terra.



AD AMICOS

PROPTER SOLATIUM


Renasço, amigos, vivo! Ha pouco ainda
Disse ao viver: «_Afunda-te no nada_!»
E já, bem vêdes, surjo á luz dourada,
--No labio o rir, no peito esp'rança infinda!

Ah, flor da vida! flor viçosa e linda!
Envolto na mortalha regelada
Do _só_ pensar--perdão!--foste olvidada...
Flor do sentir e crêr e amar... bem vinda!

A vida! como a sinto, ardente, immensa!
Não unica! tomando a immensidade!
Livre! perante Deus surgindo forte!

Que amor! que luz! que pira vasta, intensa!
Plenitude! harmonia! realidade!
Mas melhor que tudo isto é sempre a morte!



A Q. M. Q.


Fica-te em paz! não pode a mão do homem
Partir o seio á arvéloa queixosa,
Quando o canto soltar, e a voz chorosa
Erguer lá contra as magoas que a consommem.

Respeito o teu sacrario: embora tomem
Por orgulho o respeito; eu colho a rosa
Mas não a flor modesta e melindrosa,
Que se occulta entre as mais... e que as mais somem.

Mais que amor tenho crença: essa existencia
Pede-me um culto por quem dera a vida,
Por que dou esta dôr, que aqui se encerra.

Mulher! mulher! de que valera a essencia,
A essencia pura, a uma alma que é descrida?
Fica-te em paz: fique eu com minha guerra!



IGNOTO DEO


Corre aos braços da mãe o filho amado;
--Por olvidar, volvendo a sua historia--
Corre á mente do inf'liz doce memoria;
Corre á luz de um olhar o olhar buscado;

Vem o alivio animar peito magoado;
Corre o forte a buscar na morte a gloria;
Desfeita do viver sombra illusoria,
Foge o espirito livre ao seu anciado.

Tudo busca quem o ama: a luz dourada
Busca do seu viver, como no escuro
Quem avista uma luz lhe vae ao encontro.

Só tu, ventura! uma vez sonhada;
Só tu, sombra de _amor_! que em vão procuro,
Só tu, foges de mim, só não te encontro!



IGNOTO DEO


Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquelle
Que tanta vez peccou, porém, contrito
Tanta vez tem erguido a ti o grito
Da aguia que o tufão no alto compelle.

E a aguia soffre tambem, como ave imbele,
E mais que ella (que põe mais alto o fito)
Mas da aguia que luctou, o brado afflicto,
Senhor! o teu ouvido não repelle.

Eu não caio, meu Deus, sem ter luctado;
Fraco sou, por que sou de barro e limo,
Porém, na tua _Lei_ medito e scismo.

E eu sou teu filho! A um filho desgraçado
Que hade um pae recusar? Oh, dá-me arrimo,
Estende-me tua mão por sobre o abysmo.



XXXII

FIAT LUX!

(POEMETO)



FIAT LUX!

     Et terra erat inanis et vacua.


Tinham os astros já mil annos,--tinham
Talvez cem mil--ou tinham um minuto--
(Pois quem sabe contar horas ou seculos
No relogio--que tem o firmamento
Por quadrante,--e algarismos, sóes e estrellas?)

'Stavam ha muito ali.
                  O velho Cahos,
O oleiro do infinito, que entre as duas
Mãos--o tempo e o espaço--os amassára,
Cansou por fim tambem de fazer mundos,
Não tendo já mais barro, nem mais raios
Com que o barro pintar.

                  Ora, limpando
As mãos, que estavam sujas do trabalho,
E esfregando uma palma contra a outra,
Soprou depois os restos, sem vêr onde,
Por esse abysmo além.

                  Oh pó de mundos!
Migalha dos banquetes do Principio!
Triste parto das sombras, atirado
Sobre o berço de luz do firmamento!
Morcêgo horrivel, meio tonto e cego,
Cahido no salão de lustres de astros!

O pó soprado, informe bola escura,
Como filho engeitado, que se esconde
Pela sombra dos muros, foi rolando
Pelos cantos do espaço, involto em trevas...
Que o não vissem os sóes.

       *       *       *       *       *

                  E foi descendo,
Extranho, negro, horrivel, monstruoso.
E, quanto era maior a treva, ainda
Mais o medo crescia que o olhassem...
E mais o horror de si o endoudecia...
E mais girava, immenso já de inchado
De terror e delirio!

                  Os grandes astros
Como um viveiro immenso de fulgores
Atiravam, de sol em sol, as notas
Do eterno concerto...

       *       *       *       *       *

                    E foi rolando,
Vertiginoso e bebado de horrores!

O feio, ebrio da mesma fealdade!
O mal, possesso do seu mal! As trevas
Cheias de medo de se vêr tão negras!

E o firmamento arfava n'um delirio
De harmonia e ventura! O espaço ardente
Suava luz--girando no infinito--
Pelos póros do céo... que são estrellas.

       *       *       *       *       *

Oh! como a ave da noite eterna, ao vêr-se
Dentro do dia eterno... endoidecia!
Como rolava tonta a um lado e ao outro
Batendo as duas azas--Sombra e Espanto,--
Por todo esse infinito já não via
Um só buraco que a escondesse!

       *       *       *       *       *

                        O Abysmo
--Escravo, mas heroe--chorava mudo...
E engulia os soluços.
                  Despojado,
Que lhe havia elle dar?

                  Os outros riam.

       *       *       *       *       *

Oh! a belleza é cruel! A altura é fria!
E impiedosa e feroz! A ave aérea
Não tem dó do insecto! A virgem branca
Pisa o negro reptil! o louro infante
Crucifica o morcêgo! Os astros de ouro
Viram a Terra assim... e não choraram!

       *       *       *       *       *

Um riso louco, então, feito de raios
Infinitos de luz, encheu o espaço!
O giro das espheras cambaleava
E estorcia-se, doido, em grandes frouxos
De hilaridade e brilho! E o écco eterno
Que em vez de voz, repete os esplendores,
Confuso co'as mil ondas tumultuosas
Parecia tempestade de harmonia.

Todo o céo se inclinava, incendiado
N'uma aurora boreal prodigiosa,
Vendo o truão horrivel do infinito!

       *       *       *       *       *

Foi então que o Abysmo, o triste escravo
Dos senhores da luz--partido, oppresso
Co'a immensa dôr d'aquelle rir,--não pôde
Suster-se mais.

            Ouviu-se desde baixo
Vir subindo um suspiro--e quantos éccos
Da antiga confusão ha 'hi no espaço:
E todas as tristezas que ficaram
Dos combates de outr'ora: e os soffrimentos
De quantas luctas houve, antes do tempo:
E essas mil dôres, e essas mil torturas,
Que custou cada sol: todo esse inferno
De negrumes, que o céo lançou, despindo-os,
Quando quiz ser só luz... de ais e gemidos
Quando quiz ser só canto... a parte infame
Que na injusta partilha coube ao Abysmo...
Tudo isto, no suspiro do captivo,
--Triste, mas grave; queixa, mas não súpplica...
Antes accusação,--na voz debaixo
Tudo isto ali subiu!

       *       *       *       *       *

              Os grandes astros
Enfiaram de pasmo e emudeceram!
E, se em seios de luz ha 'hi remorsos,
Sentiram-no n'essa hora...

       *       *       *       *       *

                        Então abriram-se
As portas do silencio--e, como um sôpro
Que agitasse as espheras, voz sem timbre
(Se ha ouvir...) se ouviu: «_Quem faz chorar o Abysmo_?»

       *       *       *       *       *

Oh! o grande bem e a grande formosura,
Que tendo a estrella e o céo, inclina a face
Para a grande abjecção! A Aurora immensa,
Que quer saber quem escurece a Treva!
A ventura sem fim, que se conturba
Porque a desgraça soffre!

                      O Abysmo horrivel
Sentiu que seus mil males vacillavam,
Sobre a base da eterna injúria, e se íam
Co' esse sôpro de amor.--E estranho, e pávido,
Duvidou se soffria e teve, em sonho,
Como visões do céo d'onde o lançaram...
E quasi perdoou...

                  'Stava adorando!

       *       *       *       *       *

Oh, gotta de piedade, que adoçaste
Aquelle oceano de injustiça! Oh, lagrima
Teda feita de bem!... Bebeu-te o Abysmo!

       *       *       *       *       *

E a Terra informe viu.

                    Como o silencio
De algum poço--que o fundo das montanhas
Guarda velado pela treva--pode
Ouvir, cheio de horror, o écco primeiro
De uma pedra descendo: como o centro
Da mina pode vêr o alvião primeiro
Que a abre de par em par,--assim a Terra
Viu a coisa sem nome que descia
Pelo infinito abaixo.

       *       *       *       *       *

                    Olhou transida.
Era uma Mão--que parecia treva,
Tanto brilhava! E vinha-se alongando
Com cinco dedos--cinco continentes
De luz--fixa, sem côr, indefinivel,
Leviathan de brilho, pelo ether
Descia--e as ondas de harmonia erguiam-se
Como em tormenta de espleddor--horrivel...
Tanto era bello!

                  Ao longe, ao longe, ao longe,
'Té aonde a visão abre os espaços,
A orla do infinito radiava.

       *       *       *       *       *

E cada sol, e cada estrella, vendo
Aquella Mão descer, dizia--_Certo
Que me vem afagar_!--E estremecia.

E a Mão passou em face das estrellas...
Mas não as viu.--Passou o grande côro
Dos sóes... e não os viu.--A via-lactea...
E não a viu.--E foi seguindo ávante.

       *       *       *       *       *

Lá onde o escuro é tanto que suffoca
O tempo, no nevoeiro esquecimento,
Onde em vaga fronteira se confundem
O sêr e o não sêr--lá para o extremo,
É onde a Mão já ía...

       *       *       *       *       *

                        E os grandes astros,
De sol em sol, de um horisonte ao outro,
Inquietos, através do ether immenso,
Lançavam vozes de ouro, perguntando
«_Onde vae o Senhor_?»

       *       *       *       *       *

                        E a Mão descia.

Já não havia mais. Tinha chegado
Por defronte da Terra. E n'essa hora
Dois infinitos--um de horror, e o outro
Infinito esplendor, se contemplaram.

       *       *       *       *       *

E os astros de ouro pelo céo disseram:
«_Eis que Deus vae brincar tambem co'a Terra_!»
E a Mão estava.

            E a Terra negra olhava-a,
Como um selvagem um espelho; o susto
Co'o prazer inefavel combatiam-se
Lá dentro... e a massa informe estremecia.

Convulsa se agitava. Fascinada
Parecia recuar... e approximava-se!
E, n'um ultimo esfôrço, dando um salto
Enorme, por fugir--cahiu no centro
D'aquella Mão.

       *       *       *       *       *

            E os astros murmuravam
Aos sóes: «_Certo que Deus a precipita_!»

       *       *       *       *       *

Mas a Mão não se abriu para lançal-a.
Os grandes dedos sobre a massa horrivel
Se fecharam. Pareciam, sobre o corpo
Tenebroso, que tinham apertado,
Cinco chagas de luz.

            E consultaram.

       *       *       *       *       *

Os cinco dedos entre si disseram:
«_Que havemos nós fazer a isto_?» E todos
Immoveis ali estavam.

                  E entre os dedos
D'onde--bem como um sapo entre os dois seios
De uma virgem--a Terra olhava o espaço,
Pareceram-lhe ao longe os grandes astros
Como pontinhos negros.

                        Um segundo
Roubado á eternidade é quanto basta,
Quer se seja morrão, quer seja estrella.

       *       *       *       *       *

Então a grande Mão abriu-se e disse
Á Terra: _Vae_!--E como aguia sublime
Desde os Alpes se atira, a Terra ergueu-se,
Levando um vôo immenso entre as estrellas!

       *       *       *       *       *

Viam-se-lhe luzir no dorso negro
Cinco traços de luz! Leito de brilho
Aonde os cinco dedos se poisaram!
E lepra de esplendor!

       *       *       *       *       *

                  Rolou no espaço.

E os astros entre si se consultaram:
«_Dar-lhe-hemos nós logar_?»

                        E o Sol altivo
Fallou e disse:--Eu vejo-lhe no dorso
Uma mancha de luz--a _Natureza_!

E a Lyra disse:--Eu vejo-lhe outra fórma
Resplendente--é _Idéa_!

                  E Vesper disse:
--Eu vejo-lhe um signal de affago--é _Alma_!

E Venus disse:--Eu vejo reluzir-lhe
Uma cicatriz de luz--é _Amor_!

                              E disse,
Então, o Sete-estrello:--Eu adoro-lhe
Como o sitio de um beijo do Eterno...
--É _Immortalidade_!

       *       *       *       *       *

                  E o côro immenso
Abriu-se e deu logar á Terra escura,
De cuja face cinco grandes f'ridas
Gottejavam a luz--a _Natureza_,
Que tem de Deus a força; a _Idéa_, filha
Da immensidade d'elle; a _Alma_, eterna
Como seu sêr; o _Amor_, que é olhar d'elle;
E a _Immortalidade_ luminosa,
Que é o berço onde n'elle repousámos.

       *       *       *       *       *

........................................
........................................
........................................
E, agora, oh Terra! que és, entre mil rodas,
Uma roda do carro--vae rolando
E desprende, ao rodar por sobre o tempo,
Tuas cinco faíscas prodigiosas,
Pela estrada do Sêr--a Eternidade!

Bussaco, Outubro de 1863.



XXXIII

OMBRA



OMBRA

(DA ANTHERO DE QUENTAL)


Quando Cristo sentì che la sua ora
Giunta era alfine, a quei che lo cercavano
Grave, calmo, sereno appresentossi.
Venia la turba in arme! Ma di tanti
Non un sol si attentó muovere il passo
E por la mano in su il figliuol dell'uomo.
Tutti con bassi gli occhi, a Gesú innanzi
Inerme, nascondean l'armi. Ma quegli,
Che il doveva tradir, fattosi presso,
Lo strinse fra le braccia mormorando
_Dio ti salvi Maestro_! E, siccome era
Pattuito, baciollo in sulla faccia.
Cosí gli altri avanzandosi, lo presero.
Ma Gesú, gli occhi al ciel, senza vederli
Li perdonava e li seguia sereno.
Era scabro il cammino. In cima a un monte
Saliano; e da' due fianchi e giuso al basso,
Su la terra era notte. E, quando al fine
Aggiunser la più eccelsa erta del colle,
Di repente fu visto illuminarsi
Uno de' lati d'una blanda e dolce
Luce; ma immensa. E quanta terra in quella
Dal monte all' oceàn capia, su cui,
Dall'alto riflettendosi, la viva
Face splendea, si rischiarava tutta
Da valle a monte, e risalia la bianca
Luce a mezzo l'azzurro arco del cielo.
E puro somigliava albor lunare
O da quel lato rinascente aurora.
Ed era questo il lume che su Giuda
Non risplendea,

            Dall' altra parte intanto
Era tenebra fonda e parea come
Di quei triste il delitto ella ascondesse
Tutt' all' ingiro, in procellosa notte
Biancicante di neve all' orizzonte.
Cosí, divisa in due parti la terra,
Involta questa rimanea nell' ombra.

........................................

Fu da quest' ombra che la chiesa nacque.

Domenico Milelli, _Rottami_, p. 39. 1890.

FIM



INDICE


Dedicatoria

     Explicação prévia
     Escorso biographico de Anthero de Quental
     Autobiographia de Anthero
     Bibliographia

     I--Palavras aladas
    II--Laço de amor
   III--Força--Amor
    IV--Paz em Deus
     V--N'uma noite de primavera
    VI--Psalmo
   VII--Á beira-mar
  VIII--Aspiração
    IX--A Pyramide no deserto
     X--Desalento--Conforto
    XI--A senda do Calvario
   XII--A João de Deus
  XIII--Per amica silentia lunae
   XIV--Na primeira pagina do Inferno de Dante
    XV--Dante--Divina Comedia
   XVI--Momentos de Tedio (Sonetos)
          I. Sinite parvulos
         II. A um Crucifixo
        III. Decomposição
         IV. Nihil
          V. Quinze annos
         VI. Sarcasmos
  XVII--Amor de filha
 XVIII--Gargalhadas
   XIX--Á Italia
    XX--A Gennaro Perrelli
   XXI--Guitarrilha de Satan
  XXII--Serenata
 XXIII--O Possesso (Sonetos)
  XXIV--Epigramma transcendental
   XXV--Na Sepultura de Zara
          Versão do Dr. Storck
  XXVI--Glosa camoniana
 XXVII--As Fadas
XXVIII--O sol do Bello
  XXIX--Iberia
   XXX--Versões e imitações
        Excerptos de uma traducção do _Fausto_:
          I. Dedicatoria
         II. Na Cathedral
        III. A canção do Rei de Thule
        A Dôr, imitação de Petöfi
        A casa do Coração (do allemão)
        Estancias (do allemão)
        Romance de Goesto Ansures (ao moderno)
  XXXI--Sonetos desprezados
 XXXII--Fiat lux! (Poemeto)
XXXIII--Ombra, versão italiana de Domenico Milelli



_Acabado de imprimir_
EM 10 DE JUNHO DE 1892
_commemorando o 312.^o anno_
DA MORTE DE CAMÕES

       *       *       *       *       *

NA TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
para
*M. GOMES*, LIVREIRO-EDITOR
estabelecido na
Rua Garrett (Chiado), 70-72
LISBOA.



M. GOMES, Livreiro-Editor

_70, RUA GARRETT (CHIADO), 72--LISBOA_

Livreiro de Suas Magestades e Altezas


EDIÇÕES


Visconde de Condeixa

     O Mosteiro da Batalha, 1 vol. gr. in folio illustrado com 26
     heliogravuras 13$500


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L. A. Palmeirim

     Os excentricos do meu tempo, 1 vol.


Alfredo da Cunha

     Endeixas e Madrigaes, 1 vol. de poesias

     Cartonado


H. Lopes de Mendonça


     A morta, drama em verso 1 vol.


José de Lacerda

     Flor de pantano, 1 vol. de poesias


Antonio Vianna

     José da Silva Carvalho e o seu tempo, 1 gr. vol. e _fac-similes_


ULTIMAS NOVIDADES

_em livros francezes, italianos, hespanhoes, allemães e inglezes que põe
á venda no mesmo dia da publicação, sobre litteratura e todos os ramos
das sciencias_

       *       *       *       *       *

Assignaturas de jornaes, pelos preços do estrangeiro, para o que tem
montado serviço especial

       *       *       *       *       *

COMMISSÕES

Encarrega-se de quaesquer que lhe incumbam para o que tem
correspondentes especiaes em todos os paizes.





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