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Title: Villa Nova de Gaia
Author: Vaz, João
Language: Portuguese
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RARIDADE BIBLIOGRAPHICA


GAIA

ROMANCE

POR

JOÃO VAZ



PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A
TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR NO ROMANCE COM FORMA ERUDITA NOS FINS
DO SECULO XVI

POR

THEOPHILO BRAGA



COIMBRA
IMPRENSA LITTERARIA
1868



VILLA NOVA DE GAIA

ROMANCE

POR

JOÃO VAZ

DE EVORA

PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A
TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE ANONYMO NO ROMANCE COM FÓRMA LITTERARIA

POR

THEOPHILO BRAGA


COIMBRA
IMPRENSA LITTERARIA
1868



TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR

NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO SECULO XVI


Não se póde conhecer a litteratura portugueza, ignorando o movimento das
litteraturas da edade media da Europa; como a formaçao das linguas, do
direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir
tanto como a litteratura a unidade da grande raça neo-latina. Quasi
todas as phases porque passaram as litteraturas italiana, franceza,
hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras poesias, nas
novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos decameronicos, no
romance popular, ou no sentimento da natureza despertado pela
Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na
litteratura portuguesa.

Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua
gaguez pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que
apparecem são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem
sabido avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas
côrtes provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo
XVI atiraram ao vulgo, recolhida em _folhas volantes_.

Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros
Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro
de Flores juntaram os romances que andavam _discarriados_. A _Silva de
varios romances_, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos
romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos
depois de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de
_Cancioneiro_, então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por
este tempo o _Cancionero de Romances_ é reimpresso em Portugal, sendo a
maior parte dos romances que cita já conhecida de Gil Vicente, e por
conseguinte do povo portuguez. O _Romancero do Cid_ de Escobar e a
_Primavera e Flor de Romances_ reproduziram-se tambem nos prelos
portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude,
tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não
sabia abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um
genio superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de
Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar
que o metro octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos,
e pôz em fórma de romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle
seguiu-se a turba dos poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de
la Vega, Segura, Timoneda vão reduzindo á fórma de romance todas as
historias do mundo, desde a Biblia e historia da Grecia e Roma até aos
Chronicons monasticos. O romance achou-se d'este modo despido da sua
natural _sencillez_; tornaram-no declamador, quando elle mal sabia
titubear, e se repetia nas grandes emoções; fizeram-no descriptivo, com
uma abstracção subjectiva, que o desnaturava. D'esta degeneração
inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o gosto com
tanta _Zaida y Adalifa_, como se queixa o _Romancero General_. O poema
de _Gaia_ de João Vaz, de Evora, pertence a esta épocha, e é um precioso
monumento que assignal-a na litteratura portugueza esta transformação. O
romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma octosyllabica,
ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema de
_Roncesvalles_ de Balbuena.

Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as _glosas_ dos poetas
palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas
galanterias.

No _Cancioneiro Geral_ sómente se encontra com fórma de romance umas
trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que
principiam:

      Eu era moça menina
      per nome dona Inez, etc.[1]

'Neste tempo a fórma do romance popular tinha sido despresada
completamente; na colleção de romances antigos, feita em Anvers em 1550,
encontramos o titulo de _Cancionero de Romances_, em que a palavra
Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a rudeza da
tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente se
encontra o _rymance_:

      Tyempo bueno, tempo bueno, etc.[2]

Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no
_Cancioneiro General_ de 1557: _Fonte frida, fonte frida_, e _Rosa
fresca, rosa fresca_, muitas e muitas vezes glosados pelos poetos
palacianos. O romance do _Tyempo bueno_, é algum troço conservado por
causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o
renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes
côrtes da Europa.

O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar
as anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas
cultistas a glosar os romances mais celebres da tradição. Na _Poetica
Española_ de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha
muchos años, que com[~e]çaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos,
metiendo cada dos versos en la seg[~u]da de las Redondillas. Y han sido
tan bien recebidas estas Glossas, que les han dado los musicos muchas
sonadas, y se cantan, y oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo
encontramol-o confirmado no _Cancionero Geral_ de 1511, conhecido em
Portugal, por isso que d'elle encontramos traduzidas por Frei João
Claro, monge de Alcobaça, a _Paraphrase do Padre Nosso_, da _Ave Maria_
e do _Te Deum laudamus_ de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos
_Ineditos de Alcobaça_ de Frei Fortunato de Sam Boaventura[3]. O romance
da _Bella mal maridada_ era glosado com predilecção pelos nossos
Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou o romance de Durandarte, aonde
começa _Oh Belarma, oh Belarma_, já glosado até ao decimo verso no
_Cancionero de Ixar_, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da _Floresta
de romances_[4].

A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a
prohibição das _folhas volantes_ pelo _Index Expurgatorio_ de 1581.



Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas,
João Vaz, completou a tradição dos amores de _Gaia_ por algum documento
escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se
encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no _Livro
velho das Linhagens_: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma
rainha, e fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão
que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer:
entom era rey Ramiro nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para
Gaia, que era seu castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa
molher e pesoulhe eude muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por
seus vassallos, e fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar
a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela foz cobriua de panos
verdes, em tal guiza que cuidassem que erão ramos, cá entonce Douro era
cuberto de huma parte e da outra darvores; e esse rey Ramiro vestiose em
panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu
filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o seu corno que todos
lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per antre as arvores,
fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a huma
fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do castello, e
fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a rainha
levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella
donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e
nem o conheceo, e el pediolhe dagoa pela aravia, e ella deulha por hum
antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo havia partido com
sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou o anel no
antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel na
mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella
respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non
negace, ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton
que achara hum mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que
bebece, e ella que lha dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce
por el, e se o hi achasse que lho adusese. A donzela foi por el, e
dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ella; e entonces rey
Ramiro foise com ella; e el entrando pela porta do paço conheceo-o a
rainha, e dicelhe--«Rey Ramiro quem te aduse aqui?»--E el lhe
respondeu--«ca o teu amor»--: e ella lhe dice que vinha a morrer, e el
lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o metese
na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela
pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou
Abencadão e derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a
rainha; e desque fizerão seu plazer, dice a rainha--«se tu aqui tivesses
rey Ramiro, que lhe farias?» O mouro então respondeo--«o que el a mi
faria: matal-o.» Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e
ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse--«es tu rey
Ramiro?»--e elle respondeo--«eu sou»--e o mouro lhe perguntou--«a que
vieste aqui?»--elrey Ramiro lhe disse entom--«vim ver minha molher que
me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de
ti»--e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me
tiveces em Mier que morte me darias?»--Elrey Ramiro era muito faminto e
respondeolhe assim--«eu te daria um capão assado e huma regueifa, e
fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de vinho
que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas
as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um
padrão, e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»--Então
respondeo Abencadão--«essa morte te quero eu dar.»--E fez abrir os
curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom estava; e começou rey
Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que
lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe
com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e el deceuse do
padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha,
e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á
espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa
fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e
quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora
amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a
dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas
della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e disselhe,
porque chorava, e ella disselhe--«choro por o mui bom mouro que
mataste»--e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra
que sa madre dissera, e disse ao padre--«padre não levemos comnosco mais
o demo»--Entom rey Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligoulha
na garganta, e anchorouha no mar, e dês aquella hora chamarão hi Foz
d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como
lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho
toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e
quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que
lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa fidalguia;
e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in
pace[5].

    [1] Fol. 221.

    [2] Cancion. Geral, fol. 217.

    [3] Vid. o meu Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204.

    [4] A edição da Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a
    celebre edição de Ferrara, e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363
    um soneto de Gongora, fazendo-o auctor do romance de Durandarte das
    velhas colleções hespanholas.

    [5] Mon. hist., II Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se
    encontra no Livro das linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist.,
    ibid. pag. 274-277) com algumas variantes na acção.

    Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a
    valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de _Gaia_, de
    que nos servimos para a presente edição.



BREVE
COMPOSIÇAM E TRATADO,


Agora novamente tirada das antiguedades de Espanha. Que trata de como el
Rey Almançor morreo em Portugal junto á cidade do Porto, onde chamão
Gaya, ás mãos del Rey Ramiro, & sua gente, donde tambem cobrou, & matou
sua molher chamada Gaya, que estava com este Mouro, da qual ficou este
lugar chamado de seu nome.

      *      *      *      *      *

Composto por João Vaz natural da Cidade de Evora, em verso de oitava rima.

_Dirigido a dom Miguel de Meneses, Marquez de Villa Real, &._

      *      *      *      *      *

Foy visto, & approvado, pello Padre Frey Manuel Coelho.

_Em Lisboa com todas as licenças necessarias._

_Por Antonio Alvares._ 1630.

      *      *      *      *      *


Soneto ao Marquez.

      A ti Varão insigne, & sinalado,
    Da generosa stirpe Lusitana,
    Author offerece este tractado,
    Sobre esta Hystoria Mauritania.
      Desse Rey Almançor desbaratado.
    Pella gente Galega, & Castelhana,
    Desse bom Rey Ramiro o esforçado,
    Dos quais Reys ambos, a Historia emana.
      Recebe pois Senhor esclarecido,
    A obra, que o Author te apresenta,
    Com amor, humildade, & cortesia.
      Como que se desculpa de atrevido.
    O que por paga toma, & se contenta,
    Por servir a tam alta Senhoria.



ARGUMENTO E DECLARAÇAM DA HISTORIA.


Em tempo que reynava em Galiza, & parte de Espanha, o animoso Rei Ramiro
que foy casado com h[~u]a Senhora chamada Gaya, tendo os Mouros
occupada: a demais: por ser em tempo que se avia perdido Espanha entre
outros Reys Mouros, reynava Almançor.

Estes dous Reys, avendo entre si batalhas, em h[~u]a captivou Ramiro
h[~u]a irmãa deste Almançor, a qual tinha por amiga; do que enojada
Gaya, tratou com Almançor a quisesse furtar, que ella daria ordem como
se fosse com elle, como deu, & a cobrou, & levou pera Portugal, que
estava de Mouros, & a foy pór junto da Cidade do Porto, & junto do Rio
Douro, sobre o lugar que agora chamão Gaya, onde Almançor tinha
fortaleza, & paços, dos quaes oje em dia se vem os alicerces, &
fundamentos. O que vendo Ramiro, ordenou demproviso tres Gales de
armada, & com ellas veo aportar, a Sam João da Foz, mea legoa do porto,
& sendo de noyte com ellas se entrou por o Rio Douro, sem serem sentidas
dos Mouros, & cobertas de ramos por não serem vistas, tanto que
amanheceo, Ramiro se pos em trajos de romeiro, & sayo em terra deixado
em sinal aos seus, que se ouvissem tanger h[~u]a buzina que consigo
levava lhe acudissem. E assi se foy guiando pera os paços deste Mouro, &
antes disso chegou a h[~u]a fonte, onde com elle veo ter h[~u]a Moura,
que vinha buscar hum pucaro de agoa, pera a mesma Gaya, o qual
falandolhe em Aravia lhe pedio o pucaro pera beber por elle, & lho deu,
& des que bebeo, tirando hum anel do dedo o deitou dentro, sem o ver a
Moura. Bebendo Gaya conheceo o anel que era de seu marido Ramiro, & o
mandou chamar, por ser já entam ido Almançor, & vendose, se abraçarão, &
tratarão de matar o Mouro, & se hirem ambos, & pera isso o meteo em
h[~u]a camara, pera que quando Almançor durmisse a sesta lhe desse
rebate; nisto veo Almançor da caça, & sentado á mesa pera comer, esta
Gaya lhe deu conta de Ramiro, & como vinha pera o matar, & assi o Mouro
mãdou vir ante si a Ramiro, & passadas antre si rezões, por fim, disse
Almançor, se eu Ramiro fora a tua casa pera te matar, que me fizeras?
respondei, mandarate levar a hum alto, & com esta bozina te fizera
tanger até que rebentaras, mandou Almançor, que isso lhe fizessem,
levado ao alto, começou a tanger, & logo a gente de Ramiro acudio, &
tomando os Mouros descuydados degolarão Almançor, & os mais, & foi
saqueada a terra, & dessa Gaya ficou o nome ao lugar de Gaya, da Cidade
do Porto.



ROMANCE DE GAIA


      Cantemos de Ramiro Rey de Espanha,
    E del Rey Almançor de Berberia,
    Quando por desventura tam estranha,
    No mais de Espanha entam Mouros avia,
    Com animo cruel, com cruel sanha,
    Cada qual um ao outro pretendia,
    Privar de sua fama, honra, estado,
    Com todas suas forças, e cuydado.

      Desse Ramiro digo o esforçado,
    Que deste nome tres com elle hão sido,
    Daquelle que com Gaya foy casado,
    Por quem tantos trabalhos ha sufrido,
    Da qual Gaya do Porto ha tomado;
    Em Portugal o mesmo apellido,
    Lugar junto do Douro em o Porto,
    Onde foy Almançor preso e morto.

      Por mãos deste Ramiro animoso,
    No que se satisfez de sua afronta,
    E lhe valeo em isso o ser manhoso,
    Segundo a historia o aponta,
    Que nam bastava ser Rey valoroso,
    Que força sem saber muy pouco monta,
    E os ardis he cousa muy notoria,
    Que sam causa urgente de victoria.

      Nem tratamos aqui das mais pendenças,
    E batalhas antre estes Reys avidas,
    Que forão muyto largas, e extenças,
    E em chronicas estão bem referidas,
    Só queremos tratar das differenças,
    Que antre estes Reys forão movidas
    Quando Ramiro ouve captivado
    A irmãa de Almançor, e deshonrado.

      Donde este Almançor tempo esperando,
    A molher a Ramiro ha furtado,
    No qual se foy emfim muy bem vingado,
    Ou estava no furto melhorado,
    De Gaya Almançor ficou gozando,
    E com ella ficou como casado,
    Assi que um peccado outro chama,
    E fazem na maldade calo, e cama.

      Vendose Almaçor com a tal presa,
    Como Aguia Real voou com ella,
    Logo que a furtou com ligereza
    Perdeo de vista os Reynos de Castella,
    E veo aqui portar nesta deveza
    Do Douro onde então estava aquella,
    Povoação, e paços, donde Gaya,
    A qual ahi está junto da praya.

      Ramiro tal ficou com esta nova,
    Que se lhe deu la onde era ausente,
    Que esteve em se meter em h[~u]a cova,
    Não querendo viver antre a gente,
    Não aver igual dor, he clara prova,
    Porque de si he quasi impaciente,
    Mas como he Christão, e Rey sabido,
    A Deos logo então se ha socorrido.

      Tanto, e mais chorava o seu peccado,
    Que toda esta mesma desventura,
    No que consiste o ser Christão chamado,
    E nisto está o seu remedio, e cura,
    Ramiro que em isto se ha fundado.
    Ver quam pouco na vida o gosto dura,
    A Deos se dedicou, o que Deos vendo,
    Neste caso quis logo ir provendo.

      E assi lhe inspirou que ordenasse,
    H[~u]a pequena, e secreta armada,
    De h[~u]as tres gales, e que guiasse
    Aonde sua Gaya era levada,
    E que como fiel bem confiasse,
    Que por elle seria hi cobrada,
    E o mesmo Almançor morto, e vencido,
    Porque Deos o havia permetido.

      Ordenou pois Ramiro com bom siso,
    As tres gales darmada pella posta,
    Com bonança vieram demproviso,
    A Portugal a demandar a costa,
    E por ella guiando sobre aviso,
    Calados sem falar, nem dar resposta,
    A Sam João da Foz forão surgidos,
    De noyte sem dos Mouros ser sentidos.

      Chegadas as gales a foz, e entrada,
    Daquesse Rio Douro caudaloso,
    Ahi parou então esta armada.
    Com perigo, por ser lugar fragoso,
    Da noyte era ja parte andada,
    O Ceo estava claro, e luminoso,
    O ar sereno, tudo socegado,
    O mar porem alli sempre he irado.

      E por se segurar determinarão,
    Tomar o Rio acima assi surgindo,
    Pella parte a dentro, se deytarão,
    Com os remos o Douro vão ferindo,
    E por fazer carreira deceparão,
    Mil arvores, que o Rio vam cobrindo,
    Que sem isso gales ir não podião,
    Até onde levalas pretendião.

      Era o arvoredo nessa idade,
    Muy sobejo, e crecido até a praya,
    Na parte donde agora he a Cidade,
    E na banda daquem chamada Gaya,
    De arvores muy gram variedade,
    De brozios, e louro, mirtos, faya,
    E com ser tudo fragoa, e penedia,
    Somente o arvoredo alli se via.

      Nesta parte de ca daquem do Douro,
    No mais alto outeyro, e o mayor,
    Ahi tinha seus paços el Rei Mouro,
    Aquelle a quem chamarão Almançor,
    Ahi tinha tambem o seu thesouro,
    Porque daquella terra era senhor,
    Contente e recreado alli vivia,
    Por ser terra de caça e monteria.

      Ahi vay h[~u]a cava como mina,
    Até o Rio feita entre dous valos,
    Que ainda agora se vè, e determina,
    Ser pera írem beber os seus cavalos,
    Tambem he cousa certa, e de crer digna,
    Que tinha outros Reys Mouros vassalos,
    Todos a este Rey obedecião,
    Porque em sua ley maldita crião.

      Alli se estava o Mouro aposentado,
    Donde o largo mar, cos olhos via,
    Dalli o via as vezes socegado,
    E outras quando bravo bem o ouvia
    Tambem estava alli fortalezado,
    Porque del Rey Ramiro se temia,
    Que quem deve, em fim sempre recea,
    Se tem um bon jantar, de haver ma cea.

      Alli gastava a vida com sabores,
    O Mouro Almançor muy namorado,
    Gozando dessa Gaya; e seus favores,
    Molher del Rey Ramiro o magoado,
    Mas o jogo, e caça, e os amores,
    O fazem do perigo descuydado,
    E entre tanto o tempo dá h[~u]a volta,
    Pesca o pescador nagoa envolta.

      Chegado pois Ramiro o muy prudente,
    Com suas tres gales apercebidas,
    De noite, ja que bem dormia a gente,
    Alli se preparão escondidas,
    E posto que vem feyto h[~u]a serpente,
    Ordena que não sejão alli sentidas,
    E seu furor resguarda pera quando,
    Se veja de Almançor ir triumphando.

      Alli gastada a noyte em socego,
    Quanto possivel era e importava,
    Tratavão do segredo em emprego,
    E do que tal empresa demandava,
    A lingoa de Arabigo, e Grego,
    Muy ao natural pronunciava,
    Só do aviso da terra tendo mingoa
    Por si se oferece ir tomar lingoa.

      Ficou porem por todos assentado,
    Que tocando Ramiro h[~u]a corneta
    Não fique em Gale nenhum soldado,
    Que logo o outeyro nam cometa,
    E com animo forte e esforçado,
    Contra os crueis Mouros arremeta,
    E todos juntos dando Sanctiago,
    Os Mouros ajam hum cruel estrago.

      Passada pois a noite, veo o dia,
    Ramiro toma trajos de romeiro,
    Deyxada toda sua companhia,
    Sobindo se vay so pello outeyro,
    A Deos so quis levar por sua guia,
    E em sua fe firme, e muy inteiro,
    E fazendo o sinal da Cruz no peito
    Aos paços do Mouro foy direito.

      Por ver se indo assi desconhecido
    A sua molher Gaya ver pudesse,
    Ou sendo Almançor a caça ydo,
    Ella com o seu Ramiro se viesse,
    O Phebo então mostrava aver nacido,
    Contra quem disse, se ora te aprouvesse,
    Com teu resplandor Phebo me ir mostrado,
    Este bem, que pretendo, e vou buscando.

      Assi se vay o triste de Ramiro,
    De pensamentos tais arrodeado,
    De pedra não seria mais de hum tiro,
    Que perto estava ja de povoado;
    Dizendo vay, se este bem acquiro
    Deste Mouro serey muy bem vingado,
    E por esta historia ser sabida
    Aqui se verá feyta h[~u]a ermida.

      E dando mais Ramiro h[~u]a passada
    Vio h[~u]a fonte dagoa muy fermosa,
    De rica pedraria fabricada,
    De agua muy delgada, e saborosa,
    A qual oje em dia he chamada,
    A fonte de Ramiro, sem mais glosa,
    A qual oje ahi está por memoria
    Em testemunho, e fe desta historia.

      Alli se assentou por ir cansado,
    Não, para descansar, que mal descansa,
    Aquelle que então ha começado,
    Trabalhar por o que depois alcança,
    E alli se despõe determinado
    Armar h[~u]a certos laços desperança,
    Esperando que và alguém à fonte,
    Que novas de Almançor lhe diga e cõte.

      Cuydando está Ramiro o que faria,
    Se espere alli, ou fosse proseguindo.
    Que só da sua armada se temia,
    Nam fossem os Mouros hi sentindo,
    Pello perigo grande que corria
    Em nam si ir primeiro descobrindo,
    A terra antes de se dar rebate,
    Por que milhor se desse o seu combate.

      Começou a dizer ja fenecera
    Com a morte que eu mesmo me daria,
    Se a esperança nam me entretivera,
    Dizendo espera a noyte, e mais hum dia,
    Tantas vezes me diz espera, espera
    Que ja cuydo que o faz de zombaria,
    Se me ouves esperança por esmola
    Te peço, ou me mata, ou me consola.

      Qual soe o mar fazer naturalmente,
    Nas marinhas que a elle sam chegadas,
    Quando vem com maré, e com enchente,
    Da qual sam de contino visitadas,
    Que com o ardor do sol quando he quente
    As taes agoas com sal sam congeladas,
    E se antes de o ser, hi tem vasante
    Não fica hi sal atras, nem adiante.

      Assi a magoas em o pensamento,
    Vam ao coraçam, e hi represadas,
    Tras maré de enchente o sentimento,
    E em agoas de sal, hi sam tornadas,
    E com força da dor, e do tormento,
    Por os olhos rebentão, e destapadas,
    Nas lagrimas vem tudo, e qu[~e] não chora,
    Da cova esta tal muy perto mora.

      Assi o bom Ramiro recordado
    Daquella pena e dor que o atormenta,
    Posto que a chorar está avesado,
    Como de novo agora o mal lamenta,
    E a presa da magoa se ha quebrado,
    Dos olhos outra fonte lhe arrebenta,
    E assi duas fontes alli correm
    Porque h[~u]a nacia deste homem.

      E assi era de ver esta porfia
    Com que cada qual dellas caminhava,
    Que se da fonte muyta agoa corria
    Ramiro pellos olhos mais deytava,
    Mil lastimas o triste alli dezia,
    Perguntay pera quem, ou aquem falava,
    Com dor a lingoa fala desatinos,
    E faz hom[~e]s chorar como meninos.

      H[~u]a Nimpha então fazendo aballo
    Là dentro em a fonte se banhava,
    E começou cantar por consolallo,
    Notou Ramiro entam o que cantava,
    Cantando (disse a Nimpha) a ti fallo.
    Ramiro là te ouvi aonde estava,
    Sou Nimpha, Esperança sou chamada,
    Espera que a boa ora te he guardada.

      Com esperança cação os caçadores,
    As aves em os laços enlaçadas,
    Com esperar recolhem os lavradores,
    O fruyto das sementes semeadas,
    E com canas tambem os pescadores,
    Com sedelas, e boyas, e chumbadas,
    O peyxe quando o comer engolem
    Com que por engano de anzoes cobrem.

      Neste conto Ramiro está enlevado
    E a Nimpha no mesmo ainda procede,
    Quando junto a elles ha chegado
    H[~u]a Moura da ley de Mafamede,
    Sapatinhas da cor de laranjado
    A medida do pé tres pontos pede,
    Escassamente a Moura foy sentida
    Quando a Nimpha na fonte foy somida.

      Na idade mostrava esta Moura
    Que ainda donzella ser devia,
    De gentil parecer tam branca e loura,
    Que nisso nada Moura parecia,
    Não sey a natureza, porque doura,
    De graça a que dà graça e bem fogia,
    Que bem sem graça he como está visto,
    Aquelle que nam cre na ley de Christo!

      Vestida vem de cor alionado
    De h[~u]a roupa de sede até o artelho,
    H[~u]a touca tonizil com hum trançado
    De fitas damarelo, e vermelho,
    Com hum cinto muy largo, e apertado
    Em tudo tras concerto, e aparelho
    Por isso de ser vista nam recea
    Mas em ver, e ser vista se recrea.

      Hum vaso dourado tras de gram valia,
    De muy ricos esmaltes esmaltado,
    Que ser cousa de Rey bem parecia,
    Segundo era rico, e bem obrado
    Cantando vem a Moura em Aravia;
    O tal cantar Ramiro ha notado,
    Damor era seu canto muy sobido,
    Porque se aqueyxava de Cupido.

      Alli sauda a Moura o bom andante,
    Ao seu modo em sua Aravia,
    Ramiro lhe responde em consoante,
    De Arabigo que bem o entendia,
    A Moura que o ve feito hum brivante,
    Posto que de nenhum modo o conhecia,
    Sospeyta por o ver tam bem criado
    Ser homem que seus trajos ha mudado.

      Pediolhe de beber o bom Romeyro,
    A Moura de cortês não lho negava,
    Mas o vaso encheo, e lavou primeiro,
    E com mesura lho apresentava,
    Ramiro lhe tirou o seu sombreiro,
    E o pucaro dagoa lhe tomava,
    Que ser de Almançor claro se via,
    Pellas letras, e armas que trazia.

      Ramiro, que em tal ventura se acha,
    Bebendo perguntou a quem servia,
    A Moura respondeu servia a Gaya,
    Pera quem hia buscar a agoa fria,
    Vede que trago amargo alli traga,
    Ver que sua molher tambem bebia
    Por jarros de Almançor seu enemigo,
    O qual ella ja tinha por amigo.

      Nam quis Ramiro mais saber do caso,
    Mas encobrindo a dor que nalma sente,
    Tornou encher na fonte o rico vaso,
    (Dizendo) de força he, seja paciente,
    Mas vagando vay ja aquelle prazo,
    Se minha esperança não me mente,
    Que presto se verá morto este Mouro,
    Perdendo sua fama, e seu thesouro.

      Consigo isto dezia o magoado
    Tirando dum anel no vaso o deita,
    Sem que fosse sentido, nem olhado
    Da Moura por nam ter disso sospeita,
    Por el Rey Almançor lhe ha perguntado
    A caçar deve ser ido, a cousa feyta,
    A caçar vay dos porcos, e veados,
    Que os seus là lhe tinham emprazados.

      A Moura se despede do Romeyro
    So por representar honestidade,
    Que alli se detivera o dia inteyro,
    Segundo que isso pede a mocidade,
    Sobindo vay a Moura pello outeiro,
    Ligeiro, e com gram vellocidade,
    Porque parece que hia ja tardando,
    E teme que o tardar lhe vão notando.

      Ramiro que na fonte soo ficava,
    Donde sua figura clara via,
    Consigo mesmo o triste alli falava,
    E elle mesmo assi se respondia,
    E sendo dantes aguia que voava,
    E que na nota a todos excedia,
    Agora com a dor que o aperta
    Parece que desvayra, e desconcerta.

      Se verdadeira es minha figura,
    (Dizia) tu figura jà es tal,
    Que como cousa que jà não tem cura,
    Se devem deyxar ao natural,
    Porque teu mal he mal que sempre dura,
    E que he sobre todos sem igual,
    Por isso, pois o tens, e o padeces
    Não sey como de todo nam faleces.

      A figura então lhe respondia
    Em voz, e em toada differente,
    Que serem duas cousas parecia,
    Cada h[~u]a por si distintamente,
    Ou fosse a esperança a qual seria,
    Que ja o reprendera de impaciente,
    Agora nisso mesmo lhe aponta,
    No que lhe respondeo, ou tanto monta.

      Deixemos a Ramiro por agora,
    Sobre seu mal soltar mil desatinos,
    Chore seu mal que com rezão o chora,
    Dè mil ays, dè suspiros muy continos,
    Até que Deos lhe traga aquella ora,
    Na qual, nem Mouros velhos, nem meninos
    Fiquem mais povoando aquella terra,
    E morra Almançor naquella guerra.

      Vamos saber da Moura o que passava,
    Quando sua senhora a agoa bebia,
    E se se alterava, ou perguntava,
    Cujo fosse o anel que dentro hia,
    Porque nisso Ramiro se fundava
    Em que o seu anel conheceria,
    E se lhe tinha amor de molher boa,
    No caso ella faria de pessoa.

      Bebeo pois a Rainha, e achando,
    O anel conheceo que de Ramiro era,
    E quanto pode em si dissimulando,
    Hum muy grande sospiro ahi dera,
    E confusa está imaginando,
    Porque via, e arte alli viera,
    Ou porque invenção, modo, e geito,
    E se era aquelle, ou contrafeito.

      Perguntou se achara alguem na fonte
    Ao tempo que ella agoa tomara,
    Dizendo que lhe diga, e lhe conte,
    Tudo o que ante ella se passara,
    Ou outra alg[~u]a cousa lhe aponte,
    Por onde o anel alli achara,
    E porque disso a Moura se espantava
    A Raynha contra ella se assanhava.

      A Moura que se vee ser innocente,
    Do caso que então mal entendia,
    Jura que não achou nenh[~u]a gente.
    A Raynha lhe disse que mentia,
    E com esta porfia differente,
    A Raynha em ira se encendia,
    Com hum Chapim lhe tira daremesso,
    Quis Deos se desviou, e foi avesso.

      Tornou a Moura então assegurouse,
    Dizendo que achara a hum Romeiro,
    Mas que não se acordava, e disculpouse,
    Da culpa de lho não dizer primeiro,
    A Raynha com isso aquietouse,
    Crendo ser seu marido verdadeiro,
    E ou fosse com fee, ou sem verdade,
    De vello mostrou ter grande vontade.

      Mandou pois a Raynha que o chamasse
    E que de sua parte lhe dissesse,
    Que fosse logo là, e não tardasse,
    E fosse confiado, e não temesse,
    E que em bom segredo lhe guardasse,
    O que do tal Romeiro entendesse,
    Que Almançor a caça era ido,
    Que podia fazer em seu partido.

      A Moura parte logo diligente,
    A cumprir o mandado da senhora,
    Ramiro que tornar a moura sente,
    Esforço (disse) se ha mister agora,
    E como vio a Moura vir contente,
    Alegrouse tambem naquella hora,
    Posto que o coração o convidava,
    Com outro desprazer que adevinhava.

      Chegando pois a Moura lhe dezia;
    Romeiro a Raynha Gaya manda,
    Te peça com amor, e cortesia,
    A vejas, que te espera na varanda.
    Que de verte gram gozo levaria,
    E de favorecer tua demanda,
    Que lhe queiras fazer aquesta graça,
    Antes que Almançor venha da caça.

      Que saibas que Almançor a caça he ido,
    Não percas ponto algum de tal ensejo,
    Ramiro que a mensagem ha ouvido,
    Ousado mostra logo o seu desejo,
    Cuidando que fazia em seu partido,
    Alegre sem algum receo, ou pejo,
    Tomando o bordão, disse senhora,
    Guiai, que em vossas mãos me ponho agora.

      E sem fazer demora obedecendo,
    Acompanhou a Moura com cautela,
    Perguntando se vão, e respondendo,
    A Moura a Ramiro, e elle a ella,
    No andar pausa as vezes vão fazendo,
    Ramiro vay soltando â Moura a trella,
    A Moura he cortesaã, e confiada,
    E demostrava ser muy namorada.

      A pratica damores he fingida,
    Da parte de Ramiro enganosa,
    A Moura vay damor presa, e vencida,
    Enganada merece a envejosa,
    Nos amores muy solta, e atrevida,
    O que dana, e afea o ser fermosa,
    Enganada merece h[~u]a tal dama,
    Quando de namorada quer ter fama.

      Pois trata de adquirir o que pretende,
    A ver sua senhora, e o deseja,
    Mormente, pois o sabe, e o entende,
    Mas todas sam feridas da enveja,
    O fogo da cobiça as acende,
    Que sempre h[~u]as com outras tem peleja,
    Sobre o negro amar, e ser amadas,
    E sam h[~u]as das outras desdenhadas.

      Junto vam jà dos paços, e castello,
    A Raynha andava passeando,
    Na varanda muy morta jà por velo,
    Ramiro os seus olhos levantando,
    Não pos duvida alg[~u]a em conhecelo,
    Nem elle della esteve duvidando,
    Sobindo pois Ramiro h[~u]a escada,
    A Raynha com elle està chegada.

      E como onde ha amor nam ha receo
    Sem receo de nada se abraçarão,
    Porque o seu prazer era tam cheo,
    Que remeteo por mais que o represaram,
    E estando assi neste enleo,
    Damor, dos olhos rios emanarão,
    De agoas que dizem ser salgadas
    Estas porem por doces sam julgadas.

      Qual Pyramo, e Tysbe se mostrarão,
    Amarse de verdade o que pedia,
    O vinculo de amor que professarão,
    Mais mostra de amor ser não podia,
    Que a que alli ambos demostrarão,
    Nem outra cousa delles se entendia,
    Mas como a molher bayla, ou dança,
    Logo sabe fazer h[~u]a mudança.

      Perguntoulhe então Gaya o que buscava
    Ou porque via, e arte alli viera,
    Alli Ramiro então se assentava,
    Como se em sua casa estivera,
    Assentado dizerlhe começava,
    O caso que a isto me trouxera.
    Se tu senhora o tens tambem sabido,
    Porque me julgaras por atrevido.

      Se venho por ventura a salvarte,
    O amor sobre tudo he cousa forte,
    Ao menos senão podes cobrarte,
    Consolarmeey em verte em minha morte,
    E se Deos conceder poder livrarte,
    Quero provar em isso minha sorte,
    A isso (como digo) venho agora,
    A cobrarte, ou morrer por ti senhora.

      Gaya sabiamente respondia,
    Fingindo ser leal, e verdadeira,
    Isso muy bem agora se faria,
    Se se tivesse modo, ou maneira
    De ser a nossa salvo, mas nam via
    Nem sabia caminho, nem carreira,
    Nem tu Ramiro mostras aparelho
    E nisso ha mister muy bom conselho.

      Ramiro lhe tornou aconselhado
    Estou senhora, e bem apercebido,
    Mas em só te levar nam sou vingado,
    Sem matar este Mouro fementido.
    E se de nos pode ser descabeçado,
    Em salvo te porà o teu marido
    Porque eu que a isso me aventuro,
    Nam he sem te poder por em seguro.

      Pois isso (disse) mandas que se faça
    Assi se fará bem, e sem perigo,
    Com o favor de Deos, e sua graça,
    A qual seja contigo, e comigo,
    Mas porque pode vir cedo da caça,
    Este Mouro cruel teu enemigo,
    Eu te direy o modo que teremos
    Pera a nosso salvo isto fazermos.

      Abrio logo h[~u]a camara dourada,
    De verão lhe servia de aposento,
    Onde nunca o Sol fazia entrada,
    E na sesta hia ter contentamento
    Que sò por sua mão era fechada
    Por lhe servir de seu recolhimento,
    Ahi o fez entrar, e sendo entrado,
    Deste modo, e maneira lhe ha falado.

      Aqui te ficaràs dentro metido,
    Se queres concluyr em este feyto,
    E se v[~e]s do caminho afligido
    Bem podes acostarte em este leyto,
    Aqui podes estar sem ser sentido
    Onde podes fazer de teu proveyto,
    Quando for tempo, e ora de acostarse,
    E aqui Almançor vier deytarse.

      Virà ora da caça encalmado
    A mesa tem jà posta esperando
    O comer està jà negociado
    Nam poderà jà ir muyto tardando
    E desque de comer ha acabado,
    O sono o vay logo convidando,
    E he certo vir logo a este pouso,
    A descansar a sesta, e ter repouso.

      Nisto deuse rebate, e nova certa,
    Que vinha Almançor da montaria,
    A camara fechou que estava aberta,
    E de Ramiro então se despedia,
    Tornou a seu estrado, e alerta
    Se pos a entender no que entendia,
    Com as damas laurando seda, e ouro
    Quando a esta hora chegou o Mouro.

      Acompanhado vem de caçadores,
    De monteiros de pe, e cavalleyros,
    E de cães como elles filhadores,
    Muytos Mouros de lança, e besteiros
    Vestidos de libreas, e de mil cores,
    Com bozinas, e cornos prazenteiros,
    Porem vinham muy surdos, e calados
    Por não acharem Porcos, e Veados.

      Descavalga Almançor muy diligente,
    Sobindo pera o paço, e aposento
    Ella que o vè vir tam descontente,
    Per si lhe foy fazer recebimento,
    Com passo perlongado, e differente,
    Lhe demostrou ter contentamento,
    Com sua boa vinda, e alvoroço,
    Deitandolhe os braços no pescoço.

      Almançor lhe pagou por esta via,
    Os afogos de amor na mesma ora,
    Fazendolhe h[~u]a grande cortesia,
    Dizendolhe vivaes minha senhora,
    E com este prazer, e alegria,
    Sem se fazer alg[~u]a outra demora,
    Se sentarão à mesa e assentados
    Serviramlhe seus pajes, e criados,

      No meo do comer os dous estando,
    Com grande gosto, festa, e alegria,
    O segredo esta mà lhe foy soltando,
    Dizendo, quero darte iguaria,
    Da qual bem sey que deves dir gostando,
    Por ser nova de gosto ta daria,
    No que conheceràs quanto te ama,
    Quem não dà por Ramiro em que a chama.

      Que dèras Almançor Rey poderoso,
    (Lhe disse) a quem Ramiro te entregàra,
    Que deras se te víras tão ditoso,
    A quem agora preso to mostrara,
    Não me estranhes mostrarte disto gozo,
    Que se com firme amor nam te amara,
    Na treyção de Ramiro consentira
    Que oje te matava neste dia.

      Que diremos de caso tam horrendo,
    De femea tam mà, tam fera, dura,
    Que coração tam duro, ha que vendo,
    Deslealdade tal em criatura,
    Nam deixa de ser duro amolecendo
    Avendo dò de tanta desventura,
    Num Rey que vem em trajos de romeiro,
    A tirar a molher de captiveiro.

      Ah falsa que te vas ao profundo,
    Como não temes que ha Deos verdadeiro?
    Que trocas por amor falso, e segundo,
    A teu Rey, e a teu marido, e amor primeiro,
    Por isso, e cousas taes vay mal ao mundo,
    Por isso vem a peste, e o captiveiro,
    E ha falta de paz na Christandade,
    Por falta de verdade, e lealdade.

      Se a verdade ca naceo na terra,
    Qual terra, ou quem ousa desterrala,
    Se tam natural he que lhe põe guerra?
    Quem ousa, ou pretende degradala?
    Se na verdade todo o bem se encerra,
    Qual he o que se poe a pedrejala,
    E sendo como he cousa tam forte,
    Que só ella he senhora sobre a morte.

      Ó se esta verdade se abraçasse,
    Alli onde parece claramente,
    Se cada hum a casa a levasse,
    Assi como quem leva hum bom parente,
    E se dentro no peito a conservasse,
    E o mesmo fizesse toda a gente,
    Servindolhe de peso, e medida,
    A Deos seria alegre nossa vida.

      Ó celeste virtude, ó lealdade,
    Qual ha antre as mais que milhor seja,
    De ti produz, e nace a castidade,
    Que todo o poder vence em peleja,
    Que cousa ha milhor na Christandade?
    Que cousa mais chegada à Igreja?
    Que cousa, porque Deos milhor se renda,
    E nos dè sua graça, e nos defenda.

      Almançor que o caso ha ouvido,
    Bem cre que esta Gaya isto dezia,
    Por folgar de falar no seu marido,
    Que tudo aquillo que era zombaria,
    Entam lhe disse, aqui està escondido,
    E sabe que matarte pretendia,
    E levarme consigo sem mais ordem,
    Mas eu quero ser tua, nam doutro homem.

      Confuso fica o Mouro, e muy turbado,
    Do caso, e perigo em que estivera,
    Que antes de muyto fora degolado
    Se esta mesma Gaya o quisera,
    Por outra parte està muy alterado,
    Festejando este bem que amor lhe dera,
    Trazendo a seu poder seu enemigo,
    Sem perda de batalha, e sem perigo.

      Oo cruel sobre todas as molheres,
    Tal fama queres ter, tal nomeada,
    Porque o teu Ramiro ja nam queres?
    Por estar com hum Mouro abarregada,
    Não te lembrão os filhos teus prazeres?
    Nem te acordas que es molher casada,
    E que fosse Christãa? nam sey agora,
    Antes parece que em ti, ley não mora.

      Das mais que forão màs calar se pode,
    Só desta sobre todas mà praguejo,
    Não sinto nellas mal que se acommode,
    A h[~u]a tal treição, a tal despejo,
    Por hum Mouro infiel cara de bode,
    Em quem foy por amor, e o desejo,
    Perde do bom Ramiro, a memoria,
    Perde honra, e fama, perde a gloria.

      Ramiro bem ouvia o que passava,
    Porque dalli estava muyto perto,
    E como a mà tudo lhe contava,
    E ja era em fim bem descuberto,
    Ja vedes em que estado o triste estava,
    Com que dor, agonia, em que aperto,
    Que saltos lhe daria nessa ora,
    O coração querendo saltar fora.

      Não quis mais Almançor comer bocado,
    Com festa de prazer, e alegria,
    Dizendo eu estou bem consolado,
    Não quero comer outra iguaria,
    E mais pois tenho hospede honrado,
    Rezam he que lhe guarde cortesia,
    E pois aqui està neste aposento,
    Vamoslhe fazer hum recibimento.

      Seu capitão da guarda entom chamando,
    Alli se lhe homilhou, e lhe ha mandado,
    Que com a sua guarda va guiando,
    Pera donde Ramiro està fechado,
    O triste de Ramiro està orando,
    A Deos que lhe socorra em tal estado,
    Porque muy claramente alli via,
    Que a morte à porta lhe batia.

      A porta desfechada num momento,
    Do numero de Mouros muy armados,
    Foy cheo todo aquelle aposento,
    Com alfanges, e braços remangados,
    Deos te valha Ramiro em tal tormento,
    Que os teus estão de ti muy alongados,
    E a tua armada está no Douro,
    E tu sò preso antre tanto Mouro.

      Vendo pois Almançor tal desatino,
    A seu contrario estar tam desarmado,
    E em abito vil de perigrino,
    Mostrouse disso muy maravilhado,
    Dizendo, eu nam sey, nem determino,
    Que este seja Ramiro esforçado,
    Mas se elle este he, e fez mudança,
    Bem pouco vai agora a sua lança.

      Alli Ramiro então lhe respondia,
    Algum ora foy ella nomeada,
    Antre Christãos, e antre a berberia
    Tambem em essa Veyga de Granada,
    Onde morreo muy gram cavallaria,
    E se perdeo a tua cavalgada,
    Agora, eu não venho a conquistarte,
    Porque venho de paz, e d'esta arte.

      A irmãa te furtey sendo casado,
    Tendoa por amiga sendo dama,
    No que occasião a ti te ey dado
    A quereres roubar minha honra, e fama,
    Por isso se causou por meu peccado,
    Chegares Almançor a minha cama,
    E nam sendo na terra, sem perigo,
    Me furtaste a molher que tens contigo.

      E pois fuy causador d'essas afrontas,
    O Reyno busque là outro herdeyro,
    Que jà não quero mais, que estas Contas,
    E andar neste trajo de Romeiro,
    Almançor lhe tornou, muy bem apontas,
    Mas v[~e]s Lobo em figura de Cordeyro,
    E jà nam te crerey o que disseres,
    Enemigo da honra das molheres.

      Perdoame Ramiro isto que digo,
    Que como a Rey que es devo tratarte,
    Mas estou desagora mal contigo,
    Desque de teu engano sobe parte,
    E pois que te meteste em tal perigo,
    Sem te valer o teu saber, e arte,
    Podes dizer que a ti em este feyto,
    Vieste ca fazer pouco proveito.

      Tua Gaya comigo, esta senhora,
    De ti Ramiro està pouco lembrada,
    E diz que oxalà que nunca fora,
    Contigo em algum tempo desposada,
    Se dizes que te ha sido traydora,
    Em esta tua machina ordenada,
    Com bem rezam to foy, pois tu has sido,
    O que foste pera ella mao marido.

      Por h[~u]a parte tenho sentimento,
    Do misero estado em que estàs posto,
    Mas que fazes tu neste aposento,
    Agora sem meu grado, e sem meu gosto,
    Porisso me nam dà de teu tormento,
    E de se te mudar em teu desgosto,
    O gosto que levavas tam profundo,
    Em me privar da vida deste mundo.

      Ramiro respondeo teu odio claro,
    Te Cega, e faz que julgues de ligeiro,
    Não deves de rezão ser tam avaro,
    E deves de ouvir partes primeiro,
    E por minha defesa te declaro,
    Que mal posso sem armas ser guerreiro,
    E a minha tenção foy, e he boa,
    E isto julgarà toda a pessoa.

      Vinha ver se acaso ver podia,
    Essa por quem eu tanto ey padecido,
    Pois jà ver, nem cobrala, nam podia,
    Por ir de meu estado despedido,
    E em ley de rezam se permitia,
    Vir vella, pois em fim sou seu marido,
    Que quanto he tratar de teu tormento,
    Nunca me veo tal ao pensamento.

      Esta mesma molher que nunca fora,
    De verme mostrou gram contentamento,
    Mil lagrimas chorando nesta ora,
    Cuydando neste nosso apartamento,
    E por tu Almançor vires de fora,
    Da caça, me meteo neste aposento,
    E se ella outra conta te ha dado,
    Innocente sou disso, e mal culpado.

      Almançor nam curando de argumento
    Nem rezões que Ramiro apontasse,
    (Lhe disse em final) que ao tormento,
    Desde entam alli se aparelhasse,
    Porque o que dezia era vento,
    E que da culpa nam se escusasse,
    Que o que a sua Gaya lhe contàra,
    Isto em verdade se passàra.

      Dizendo se em teu Reyno me acolheras,
    Como agora eu te ey acolhido,
    Com tençam de matarte, que fizeras?
    Respondeme se disso es servido,
    Que se pello perdam ainda esperas,
    O teu juyzo deves ter perdido,
    Que nam tenho rezam de perdoarte,
    Nem menos me mereces, que acabarte.

      Ramiro com bom animo esforçado,
    Lho tornou, pois em fim queres padeça,
    Sem nessa minha morte ser culpado,
    A justiça do ceo sobre ti deça,
    Pois julgas como homem apayxonado,
    Nem tomas parecer doutra cabeça,
    Mas ja que assi he, se eu te colhera,
    A ti Almançor mesmo isto fizera.

      Mandarate levar muy bem atado
    Sem te valer ser Rey, nem teus primores,
    Com dous algozes cada hum a seu lado,
    E pôr em o mais alto dessas torres,
    E com esta bozina a ser forçado,
    Tanger sem descançar, sofrendo as dores,
    E fosses despois disso enforcado,
    Como homem qualquer de baixo estado.

      Almançor ouvindo esta pendença,
    Que Ramiro contra elle imaginava,
    Em ira encendido, sem detença,
    Contra Ramiro, disse que mandava,
    Que nelle se execute a tal sentença,
    Porque do mesmo modo a confirmava,
    Juntandose pois gente infinita,
    De Mouros, o levarão com gram grita.

      No alto da muralha o puserão
    Atado, e ia com corda no pescoço,
    E alli a tanger o constrangerão,
    Com muy grande praser, e alvoroço,
    A esta festa todos concorrerão,
    Nenhum velho ficou, nem Mouro moço,
    Ao som da bozina, h[~u]s cantavam,
    Outros dando rizadas apupavam.

      Essas Mouras de honrra encerradas,
    E damas mais fermosas, e as feas
    Sobiam ao alto por escadas,
    Por verem dos eyrados, e açoteas,
    As mais Mouras, e Mouros amanadas,
    Vão, sò ficam os presos nas cadeas,
    Mas nas cadeas ouvem claramente,
    A festa, e clamor que vay na gente.

      Almançor ao som da alegria,
    Que por toda a Villa ha soado,
    De novo disse, que comer queria,
    E à mesa se pos logo assentado,
    E quantas vezes a bozina ouvia,
    Com gram gosto metia o bocado,
    E a Gaya cruel com elle estava
    Que a ira, e zombar o ajudava.

      A gente de Ramiro, que emboscada,
    Estava dahi perto donde ouvia,
    Os Mouros quando davam apupada,
    E vendo a bozina que tangia,
    Remetendo com ordem ordenada,
    Toda dentro na Villa se metia,
    Que as guardas que a villa então guardavam,
    Onde estava Ramiro então estavam.

      E dalli como Lobos indomados,
    Nos paços de Almançor deram de siso,
    Ao tempo que elle, e seus privados,
    Estavão com mais festa, e com mais riso,
    Aonde logo foram degolados,
    El Rey, e os mais Mouros demproviso,
    E a Gaya tambem às mãos tomada,
    E a villa sogeita, e saqueada.

      Essa Mourama junta como estava,
    Pera ver a Ramiro padecente,
    Que de nada então se percatava,
    Vendo entrar na Villa alhea gente
    E o furor, e esforço que mostrava
    Matando, e degolando cruelmente,
    Se põe a defender com seus traçados
    Mas logo foram hi desbaratados.

      E como hia já sentenciado
    Que não se desse vida a nenhum Mouro,
    De sangue hum gram rio ha manado,
    Que pellos matos foy sayr ao Douro,
    E em sangue as agoas se hão tornado,
    E perdeo por então a cor de louro,
    E o mar pellos Portos ha mostrado,
    Ter muyto sangue então derramado.

      Ramiro la do alto tudo vendo,
    A Deos pellas merces as graças dando
    Como livre se vio, se foy decendo,
    Vendo que o andavam os seus buscando,
    E como os seus o fossem conhecendo,
    A mão todos alli lhe então beyjando,
    Por seu Rey, senhor, e satisfeyto,
    Aos paços guiou, e foy direito.

      Dous filhos de Ramiro alli vinhão
    Filhos da mesma Gaya nesta armada,
    Que chegando Ramiro jà hi tinhão,
    A sua mesma mãy às mãos tomada,
    Os quais por animala lhe dezião,
    Que farião que fosse perdoada,
    Chegado pois Ramiro lhe rogaram,
    Por ella, e a vida lhe alcançarão.

      Em isto o bom Ramiro lhe contava
    A treyção que esta Gaya lhe urdira,
    Do que toda a gente se espantava,
    E como de seus laços se espedira,
    Que proposto à morte jà estava,
    Se Deos com seu favor não lhe acodira,
    Dando com discrição, e bom esforço,
    Que jà tinha o baraço no pescoço.

      Com tudo, pois pedis filhos amados,
    (Lhe disse) lhe perdoe, e dê a vida,
    Pois della quereys ser filhos chamados
    Mando que ninguem isso vos impida,
    E vão à vossa conta os seus peccados,
    Que por elles milhor fora punida,
    Pera ficar aviso às semelhantes
    Casadas com bõs Reys, e com infantes.

      Assolada a terra, e destroyda,
    E avida esta presa, e grão victoria,
    Ficou a soldadesca enriquecida,
    E com honra, e fama, e grãde gloria;
    Dos trabalhos passados esquecida,
    Sò deste bem presente tem memoria,
    Dando louvor a Deos toda a gente,
    Por victoria tal tão excelente.

      Foy este tal triumpho celebrado,
    Cuja fama correo o mar, e a terra,
    E logo o arrayal hy foy alçado,
    Decendendo do alto, e da serra,
    Nas galès se hão todos embarcado,
    Por terem concluido aquella guerra,
    Começando a remar os remadores,
    Ao som das trombetas, e atambores.

      A Gaya vay chorando amargamente,
    Pello Mouro Almançor que ja não via
    Ramiro, e os filhos de repente,
    Vendo quão pouco a vida agardecia,
    Mandarão na deitar em continente,
    No mar porque muy bem o merecia,
    Com h[~u]a grande pedra a ella atada,
    Alli fica esta Gaya margulhada.

      E com prospero vento, e bonança,
    Ramiro a seus Reynos ha tornado,
    Levando de Almançor a tal vingança,
    E victoria que Deos lhe avia dado.
    E dahi em diante a sua lança
    Ja mais Mouro algum ha aguardado,
    E sempre este bõ Rey lhes moveo guerra
    Ganhandolhes de Espanha muita terra.

      Aquelle Rey dos Reys omnipotente,
    Que na terra mercês lhe ha outrogado,
    O tenha em a gloria eternamente
    Com corôa da gloria coroado.
    E aos Reys Christãos que ao presente,
    Reynão, paz, e concordia aja dado
    Pellos quaes nesta liga assi ligado:
    Os immigos da Fè sejão domados.


LAUS DEO.



    Dr. CHAVES E CASTRO

    Apontamentos sobre alguns Processos Summarios, Summarissimos, e
    Executivos, e sobre o Processo para a exigencia dos Creditos
    hypothecarios, creado pela Lei hypothecaria de 1 de Julho de 1863--1
    volume. 1$000

    Estudos sobre a Reforma do Processo civil ordinario portuguez, desde
    a proposição da acção até á sentença da primeira instancia--1
    volume. 800


    THEOPHILO BRAGA

    Obras primas de Chateaubriand--Atala--Renato--Aventuras do
    Derradeiro Abencerrage com um estudo litterario--1 volume. 500

    Gaia, romance de João Vaz, publicado segundo a edição de 1630--Fol.
    200


    JUNQUEIRA FREIRE

    Inspirações do Claustro, 2.ª edição, com um juizo critico do Sr. J.
    M. Pereira da Silva, 1 vol. 600


    SEVERINO D'AZEVEDO

    Boas Festas a Manuel Roussado, broch. 100

    Segunda Carta de Boas Festas, broch. 100


    ARISTIDES DE BASTOS

    Elementos de Poetica para uso das escholas--brochura. 400


    J. MANOEL PEREIRA

    Principios de Geographia e Chorographia Portugueza--brochura. 120


    L. G. PERES FURTADO GALVÃO

    Addição ao Indice alphabetico da legislação hypothecaria e fórma de
    Processo para as exonerações, expropriações e preferencia das
    hypothecas--brochura. 200



Notas de transcrição.

No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no
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Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:

[~e] Resprenta um e com um til(~) por cima e que parece ser uma
abreviatura dos caracteres "em"

[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma
abreviatura dos caracteres "um"





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