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Title: A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891)
Author: Abreu, Francisco Jorge de, 1878-1932
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891)" ***

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                          BIBLIOTHECA HISTORICA
                         (POPULAR E ILLUSTRADA)
                                   III

                               A Revolução
                                Portugueza

                             O 31 DE JANEIRO

                              *(Porto 1891)*
                                   POR
                              JORGE D'ABREU

      [Ilustração da capa: bandeira do Centro Democratico Federal]



                                  1912
                       EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID
                               ENCADERNADOR
                     _30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
                                 LISBOA



BIBLIOTHECA HISTORICA
(POPULAR E ILLUSTRADA)
III

A Revolução Portugueza

O 31 DE JANEIRO



    VOLUMES PUBLICADOS

    I--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, por _F. Mignet_, 1.º volume.

    II--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, 2.º volume.

    III--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por _Jorge
    d'Abreu_.

    NO PRÉLO

    IV--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 5 DE OUTUBRO
    (LISBOA 1910), por _Jorge d'Abreu_.

    V--A REVOLUÇÃO E A REPUBLICA HESPANHOLA (1868 A 1874), por _Victor
    Ribeiro_.



BIBLIOTHECA HISTORICA
(POPULAR E ILLUSTRADA)

A Revolução
Portugueza

O 31 DE JANEIRO

(Porto 1891)

POR

JORGE D'ABREU

Logotipo do editor

1912

EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID
ENCADERNADOR
_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
LISBOA



Composto e Impresso na Imprensa Libanio da Silva==Travessa do Falla-Só,
24--Lisboa



PALAVRAS DE UM SOLDADO

*ao presidente do tribunal de guerra, no acto do julgamento:*


... _Eu, meu senhor, não sei o que é a Republica, mas não póde deixar de
ser uma cousa santa. Nunca na egreja sentí um calafrio assim. Perdí a
cabeça então, como os outros todos. Todos a perdemos. Atirámos então as
barretinas ao ar. Gritámos então todos:--Viva! viva, viva a Republica!_...

        Do «Manifesto dos Emigrados da Revolução
        do Porto de 31 de Janeiro de 1891.»



O 31 DE JANEIRO

(Porto 1891)



CAPITULO I

O movimento de 31 de janeiro filia-se no "ultimatum" de 1890


A revolta militar de 31 de janeiro de 1891 caracterisou-se pela
precipitação com que foi decidida e a pouca ou nenhuma reserva com que
foi organisada. Durante mezes uma parte do paiz teve conhecimento quasi
minucioso de que se conspirava contra a monarchia e que na conspiração
entravam elementos de importancia recrutados na officialidade dos
regimentos que a guarneciam. No emtanto a explosão patriotica, que na
madrugada de 31 fez triumphar por algumas horas a bandeira verde e
vermelha, surprehendeu muita gente porque apenas uma insignificante
minoria não julgava extemporaneo o _rebentar da bomba_.

A causa unica do movimento podemol-a filiar no _ultimatum_ de 1890. Por
espaço d'um anno, a agitação popular, que essa chicotada diplomatica
provocara nos primeiros instantes--agitação que, no dizer de João
Chagas, trouxera pela primeira vez para a rua, a manifestarem-se,
«homens graves e de chapeu alto»--por espaço d'um anno, repetimos,
essa agitação minou profundamente diversas camadas sociaes e fez
augmentar por uma forma extraordinaria o descontentamento da nação, a
sua hostilidade contra o regimen monarchico e o soberano. Viu-se
claramente, n'esse momento grave da vida portugueza, que, ao
substituir-se o ministerio abatido pelo _ultimatum_, o novo governo
procurara antes de mais nada deitar uma escóra ao throno, desprezando em
absoluto as reclamações do povo, a sua grita sedenta de justiça.
Calcára-se a patria para sustentar no poder o monarcha brigantino. A
dignidade da nação, o seu anceio fervoroso de que o _ultimatum_
obrigasse a politica governativa a mudar de processos, a trabalhar com
seriedade, uma e outro foram espesinhados pelo empenho dos aulicos da
monarchia em precavel-a da marcha progressiva das ideias democraticas.
D'ahi o exodo para o partido republicano de muitos dos homens que até
então tinham tentado servir os partidos monarchicos com boa fé e dedicação.

Mais adeante desenvolveremos, na medida do possivel, esse periodo da
historia contemporanea, cujos incidentes, voltamos a affirmal-o, fizeram
germinar o pensamento da revolta e contribuiram directamente para que
ella rebentasse no Porto no dia 31 de janeiro de 1891. Por agora
limitaremos o nosso papel de modesto e desataviado chronista da
Revolução Portugueza a descrever o que occorreu em Lisboa mal se soube
da momentanea victoria das armas republicanas. É interessante recordar
as horas de mortifera espectativa que a capital soffreu, emquanto a
varias leguas de distancia um troço de valentes se fazia massacrar pela
chamada _guarda pretoriana_.


Nas vesperas da revolta, os jornaes de Lisboa ainda reflectiam quasi
toda a indignação e a celeuma causadas pelo _ultimatum_. A poucas horas
de ser iniciado o movimento, os _Pontos nos ii_ inseriam uma pagina
faiscante de Bordallo Pinheiro, intitulada _A maldita questão ingleza_.
As perseguições a differentes officiaes do exercito succediam-se com uma
pertinacia feroz. No dia 30 de janeiro, um jornal, alludindo á que fôra
movida ao alferes de caçadores 9 (aquartelado no Porto) Simões Trindade,
salientava o facto curioso d'esse official ter sido, em 27 d'aquelle
mez, mandado apresentar _immediatamente_ no quartel general da
respectiva divisão; depois, d'ahi, mandado seguir, _immediatamente_,
para o ministerio da guerra; d'aqui apresentado _immediatamente_ no
quartel general da 1.ª divisão, onde tinham acabado por lhe dar uma guia
afim de se apresentar, _immediatamente_ tambem, no regimento de
infantaria 24, aquartelado em Pinhel. Os jornaes do Porto, confirmando
esse furor persecutorio, accrescentavam que a violencia das auctoridades
militares incidia especialmente sobre os officiaes inferiores.

Surgiu a manhã de 31 e com ella principiaram a circular em Lisboa os
boatos alarmantes. Um d'elles, talvez o primeiro e o que mais
consistencia adquiriu desde logo no espirito do publico, dizia:


_No Porto, ás seis horas, os regimentos de caçadores 9 e infantaria 10 e
parte de infantaria 18, sahindo dos quarteis, dirigiram-se á praça da
Regeneração, soltando vivas á Republica. O movimento tende a
alastrar-se. A guarda municipal quiz oppôr-se-lhe; mas, depois d'uma
descarga dada por caçadores 9, e da qual morreram 12 soldados d'aquella
guarda, os outros adheriram aos revoltosos._


A seguir, correu que a primeira auctoridade militar do Porto pedira de
madrugada reforço á _guarda pretoriana_, mas que ella se recusara
peremptoriamente a combater as tropas sublevadas. Dizia-se tambem que
toda a guarnição se solidarisara com os insurrectos.

Estas e outras noticias, como é de comprehender, lançaram na capital uma
agitação indescriptivel. Os primeiros momentos foram, sem duvida, de
confusão e de panico. Ás 7 da manhã, o ministerio já estava reunido e
procurava, não sem difficuldade, tomar contacto com a situação. Ás 8,
eram chamados ao paço da Ajuda o presidente do conselho e o general
Moreira, commandante das guardas municipaes. D'um extremo ao outro da
cidade, desfilavam vertiginosamente as ordenanças, os correios, e a
população, despertada pelo annuncio retumbante d'esse golpe de audacia
republicana, espreitava curiosa a sequencia e o desfecho dos
acontecimentos.

Pouco depois das 8 horas, correu em Lisboa que um telegramma recebido no
jornal o _Seculo_ affirmava estarem occupados pelos insurrectos todos os
edificios publicos e que a população da capital do norte adherira em
massa á obra iniciada pelo exercito. Era o triumpho completo da
Revolução, o alvorecer radioso d'um novo regimen politico, interrompendo
na nossa historia o desenrolar corrosivo da tyrannia monarchica. O
governo, reunido, tentava com medidas successivas suffocar o incendio
que lavrava no Porto. Os regimentos de infantaria recebiam ordem de
partir para ali. O sr. Antonio Ennes, ministro da marinha, fazia-se
conduzir ao Arsenal e ahi, em conferencia com o commandante geral da
armada, exigia que os navios de guerra disponiveis seguissem sem demora
a investir a cidade revoltada. O ministerio fremia de impaciencia e de
terror. A familia real inquiria constantemente das diversas phases da
insurreição. Os elementos avançados principiavam a respirar a atmosphera
de liberdade trazida do Porto na lufada dos telegrammas optimistas.
A alegria desenhava-se em quasi todos os rostos.

Longas horas se passaram assim--horas de esperança, horas de espectativa
anciosa--durante as quaes os boatos nunca cessaram de fervilhar. Contava
no dia seguinte um jornalista que a confusão de momento era tal que os
mesmos alviçareiros que espalhavam a noticia da victoria decisiva dos
sublevados não tardavam d'ahi a instantes a divulgar o contrario. Para o
paço de Belem havia desde manhã cedo enorme affluencia de personagens
officiaes. «Desde os ministros, affirmou mais tarde um _reporter_, até
os simples fidalgos cavalleiros, dos quaes vimos dois, fardados, irem em
trem pôr-se ás ordens de D. Carlos, todos á porfia accorreram á regia
morada.» A guarda do paço era n'esse dia de infantaria 2. Mas, apesar do
reboliço que ia dentro do edificio, os soldados mostravam-se
despreoccupados e no local--cá fóra--pouco se sabia da revolução. Os
politicos, frequentadores da Arcada, andavam desvairados. Uns
asseguravam que a população portuense, dirigida por officiaes de
caçadores 9, arvorara a bandeira republicana no palacio da Bolsa; outros
que infantaria 8, de Braga, e o 14, de Vizeu, tinham adherido ao
movimento; outros ainda que a guarda municipal, fraternisando com os
revoltosos, se apressara a soltar João Chagas, que então expiava na
cadeia da Relação a condemnação imposta por um delicto de imprensa. Os
que pareciam melhor informados accrescentavam a tudo isto que na
madrugada de 30 de janeiro varios telegrammas cifrados haviam annunciado
aos dirigentes da politica democratica o _estalar da bomba_. De Lisboa,
por exemplo, tinham perguntado para o Porto: _Como vae o doente?_ Do
Porto tinham respondido: _Deve morrer ámanhã_...


Mas, ao começo da tarde, o optimismo cedeu o passo ao desalento. As
agencias officiosas principiaram a falar em suffocação da revolta e em
rendição de revoltados. Mudára a face das cousas. O paço animava-se, o
governo cobrava sangue frio. O commandante da divisão militar com séde
na capital do norte--o general Scarnichia--que na occasião se encontrava
em Lisboa, tratando junto do ministerio da guerra das transferencias dos
seus subordinados suspeitos de republicanismo, seguia ás 2 e 30 para o
Porto n'um comboio especial. Uma parte das tropas que, tendo recebido
ordem de marchar em soccorro da monarchia, já se agglomeravam nas
estações de caminho de ferro, regressava a quarteis. Suspendiam-se por
um mez as garantias em todo o districto do Porto e auctorisava-se a
suspensão dos _jornaes perigosos_ ali e no resto do paiz. Evidentemente,
a sublevação não lograra exito e o sangue derramado na manhã de 31
servira apenas a registar uma infructifera tentativa de reacção contra a
dynastia oppressora. A democracia fôra vencida pouco depois de ter
vencido. A atmosphera voltava a carregar-se de violencia, de jugo
tyrannico, e no horisonte já se descortinava que as represalias iam ser
ferozes. Uma gazeta das mais populares da epoca, reconhecendo que, uma
vez dominada a _sargentada_, o governo se apressaria sem duvida a
esmagar a mais insignificante velleidade de resistencia, escrevia vinte
e quatro horas apoz a derrota:


«Á mercê do arbitrio é difficil poder-se viver; aguardemos melhores dias
de liberdade e... calemo-nos.»


Extincto o clarão redemptor, a imprensa--salvo raras excepções--ou
vociferava tonitruante, enraivecida, contra os revoltosos, pedindo para
os vencidos o maximo do castigo--até a pena de morte--ou se curvava
resignada sob a ameaça do triumphador, disposta a supportar em silencio
a desforra cruel que os vencedores procurariam abertamente tirar dos
derrotados. O nucleo dirigente do partido republicano escrevia a poucas
semanas dos acontecimentos:


«O directorio cumpriu o seu dever, synthetisando as aspirações d'um
partido; em vez de appellar para aventuras anarchicas, recommendou á
imprensa republicana, aos conferentes e propagandistas a demonstração
calma e justificada d'esses principios. (Alludia aos que tinham sido
consignados no seu manifesto de 11 de janeiro de 1891).

«Acceitando o mandato de acção, conferido pelo ultimo congresso, o
directorio entendeu que consistia essa acção em repellir a mesquinha
subserviencia que envolvia o partido em accordos com os grupos
monarchicos e em conter as individualidades sem mandato, que,
trabalhando sem disciplina, compromettiam o partido, como em seguida os
acontecimentos o provaram.

«As revoluções são factos inherentes ao organismo social; não é um grupo
de homens que as fazem, como ou quando querem; mas compete a esse grupo
dar-lhes pensamento e direcção quando sobrevenham.»


Resumindo: o directorio entendia de boa politica não se responsabilisar
pela tentativa mallograda e condemnava-a pelo que ella se lhe affigurava
de desordenada e inopportuna. N'outra passagem do documento a que nos
referimos affirmava que «a nação inteira julgara immediatamente o
movimento de 31 de janeiro pela sua _inopportunidade_.» E no emtanto, a
poucos dias da revolta, o mesmo directorio tinha espalhado profusamente
esta opinião nitida e vigorosa:


«No momento que atravessamos não ha logar para demonstrações theoricas
nem para argumentar com os pedantocratas do constitucionalismo. Elles já
deram as suas provas. Para a crise extrema um supremo remedio».


Supremo remedio!... Que outro poderia ser, afinal, senão o iniciado na
manhã de 31?



CAPITULO II

O primeiro rebate do conflicto diplomatico anglo-portuguez


Precisemos os factos:

O _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890 teve como pretexto a expedição do
major Serpa Pinto na Africa Oriental. Antes d'ella já se falava
vagamente na possibilidade d'um conflicto anglo-portuguez e porque em
1889, nos fins do reinado de D. Luiz, tudo o que dependia da influencia
ou da acção ministerial se inclinava a hostilisar--ainda que mais ou
menos disfarçadamente--a Inglaterra e as cousas inglezas.

Parece assente que aquelle soberano, levado talvez por considerações de
ordem familiar, projectava lançar-se e lançar ostensivamente o paiz nos
braços do imperio allemão, quebrando todos os laços intimos que, desde
seculos, uniam a nacionalidade portugueza á Grã-Bretanha. D. Luiz e os
seus ministros queriam mais: queriam amarrar á Allemanha o destino do
nosso commercio vinicola e das nossas colonias--o primeiro ligado á
França e as segundas relacionadas quasi todas com o dominio inglez.
Tentou-se mesmo fazer derivar da França para a Allemanha a exportação
dos vinhos nacionaes, com a organisação em Berlim d'um certamen,
que, no fim de contas, nada deu de productivo.

[Ilustração: Quartel de infantaria 18, e campo da Regeneração, onde se
reuniram as tropas sublevadas na madrugada de 31 de janeiro]

Mas o primeiro rebate d'essa hostilidade appareceu de fórma inilludivel
em julho de 1889, quando o governo então no poder rescindiu o contracto
de 14 de dezembro de 1883 (o contracto para a construcção do caminho de
ferro de Lourenço Marques). Não diremos em absoluto que essa rescisão
fosse apenas inspirada no desejo de ferir homens e interesses da
Grã-Bretanha. A verdade, porém, é que muita gente quiz vêr logo no facto
o ensejo propicio para o trespasse da mencionada concessão a um grupo de
capitalistas allemães e essa suspeita surgiu clara e precisa na imprensa
a mais ponderada e suave de termos. A Inglaterra, pela bocca dos seus
orgãos jornalisticos, sentiu-se fundamente attingida com a medida tomada
pelo governo portuguez e não tardou que désse largas a uma celeuma até
certo ponto exagerada, mas comprehensivel em face das nossas manobras
secretas com a chancellaria germanica.

Os periodicos londrinos aconselharam acto continuo o governo inglez a
enviar a Lourenço Marques uma esquadra, com o fim, diziam ironicamente,
de «proteger os seus subditos ali ameaçados pela valentia de Portugal»,
e embora um ou outro d'esses mesmos periodicos indicasse vagamente a
arbitragem como um meio decente de liquidar o assumpto, o conjuncto
d'elles não desafinava na sua exigencia de que deviamos soffrer uma
punição significativa. Por alguns dias receiou-se, effectivamente, que o
governo inglez seguisse o conselho da imprensa exaltada. Mas, como ainda
não soara a hora para a diplomacia britannica nos mostrar que andavamos
por caminho errado, pretendendo, nos pactos de alliança internacional,
substituil-a pela Allemanha, as cousas foram atamancadas sem grande
dispendio de dignidade e as nuvens negras, que já carregavam e
entenebreciam o horisonte, perderam um pouco do seu aspecto ameaçador.

O partido republicano, tendo seguido com interesse patriotico a marcha
dos incidentes, não duvidou estigmatisar publicamente o projecto
desvairado da monarchia ao procurar enredar a nacionalidade na teia
emmaranhada d'um conflicto diplomatico. Os jornaes da epoca falam
pormenorisadamente da campanha que esse partido então fez não só contra
a projectada alliança luso-germanica mas, principalmente, contra a
entrega do caminho de ferro de Lourenço Marques a um grupo allemão.

Quando surdiu o _ultimatum_, ninguem hesitou em reconhecer que, se a
patada do colosso de além Mancha era brutal, mesmo brutalissima, á
monarchia e aos seus governos cabiam, entretanto, uma boa parte das
culpas. Opinião identica expressou-a mais tarde João Chagas ao tratar do
assumpto, de collaboração com o ex-tenente Coelho:


«Estava-se em principios de janeiro sob uma situação presidida pelo
sr. José Luciano de Castro e na qual detinha a pasta dos estrangeiros o
sr. Henrique de Barros Gomes, quando os jornaes começaram referindo-se
com insistencia á possibilidade d'um conflicto com a Inglaterra, a
proposito das pretenções d'esta nação sobre os territorios do Nyassa,
onde algumas expedições portuguezas de caracter scientifico operavam ao
tempo. O facto pareceu novo e surprehendeu, se bem que tivesse origem
antiga no plano de absorpção da Africa Austral e dos territorios
sertanejos de Moçambique, principiado a executar-se em 1888, pelo
tratado feito entre a Inglaterra e o potentado Lobengula no qual era
comprehendido o territorio dos Mashonas, reivindicado por Portugal; e
levado a cabo pelo tratado de 18 de maio de 1891, extorquido pelo
governo britannico á invalidez portugueza.

«O litigio, que veiu a liquidar-se desastrosamente pelo _ultimatum_ de
11 de junho de 1890, pode dizer-se, começou então. Durante dois
annos--forçoso é reconhecer para esclarecimento da historia e apuramento
de responsabilidades--a Inglaterra oppôz ás pretenções de Portugal o
_veto_ mais formal. Já em 1887, o marquez de Salisbury protestava contra
os tratados, assignados e publicados, de Portugal com a Allemanha e a
França, declarando não nos reconhecer o direito, que aquellas nações nos
attribuiam, de exercermos jurisdicção em territorios d'Africa, onde não
tinhamos occupação effectiva, e invocava, para justificar o seu
protesto, as decisões da conferencia de Berlim.

«Mais tarde, em 1888, sir James Fergusson pronunciava na Camara dos
Communs um discurso que fez impressão em Portugal, mas nem por isso
deixou de constituir uma negação severa, que o governo britannico
officialmente apoiou, dos direitos de soberania, invocados pelo governo
portuguez, sobre o sertão da Africa Oriental. Quando, apoz o tratado
feito pela Inglaterra com o regulo Lobengulo, o governo portuguez quiz
definir, por uma delimitação, a posse dos territorios da Africa Oriental
(outubro de 1888) o governo britannico, presentindo que não chegaria a
uma rapida conciliação, fez-lhe sentir, pelo ministro em Lisboa, sir
George Petre, que o estado das relações entre os dois governos, no que
se referia ás questões africanas, «estava longe de ser satisfatorio, e
que uma prolongação d'esse estado podia conduzir a uma seria quebra de
amizade entre os dois paizes.»


Em janeiro de 1889, o marquez de Salisbury queixava-se ao representante
de Portugal em Londres de que o governo lusitano tivesse feito partir
para a Africa e com _destino mysterioso_ (aos territorios do Nyassa) a
expedição do capitão tenente Antonio Maria Cardoso e avisava o diplomata
portuguez «de que as boas relações dos dois paizes não podiam por muito
tempo resistir ao perigo a que estavam sendo expostas». Essa expedição,
á data da queixa do marquez de Salisbury, acampava no Monte Melange e
luctava não só com as febres mas tambem com a falta de carregadores,
parte dos quaes havia fugido. E facto curioso: emquanto o ministro
inglez mostrava ao representante de Portugal apprehensões sobre o
objectivo principal da expedição, «que lhe parecia ser o territorio
occupado pelas missões e estações commerciaes inglezas», os indigenas da
região atravessada por Antonio Maria Cardoso desfaziam-se em queixas
contra os subditos britannicos, considerando-os d'uma tyrannia excepcional.

Em resumo: os inglezes, antes mesmo de occorrer o facto que mais tarde
invocaram como a causa directa do rompimento de relações com o nosso
paiz, já preparavam o golpe, aproveitando todos os ensejos de insinuar
na diplomacia portugueza a ideia de que cedo ou tarde rebentaria o
conflicto e de que este seria motivado essencialmente pela nossa
politica e a nossa acção na Africa Oriental. O _ultimatum_ de 1890
surprehendeu até certo ponto a população portugueza. O mesmo não
succedeu, por certo, aos governantes, que estavam fartos de saber que a
Grã-Bretanha só espreitava o momento favoravel de nos enviar essa ameaça
humilhadora.

[Ilustração: Elias Garcia]

Ha quem attribua ao ministro do gabinete progressista que mais de perto
lidou com a diplomacia ingleza intenções criminosas. Cremos, porém, que
isso é exagerado. O ministro em questão, o sr. Barros Gomes, deve antes
talvez ser accusado de incompetencia e inhabilidade. As cousas
ter-se-hiam naturalmente passado de modo diverso se, quando appareceu na
tela da discussão diplomatica a contestação da Inglaterra aos direitos
que Portugal affirmava ter em varios territorios da Africa Oriental, o
ministro, longe de empregar processos dilatorios, houvesse sem perda de
tempo sujeitado o litigio ao exame e decisão d'uma conferencia das
potencias signatarias do Acto Geral de Berlim. Por outro lado, como a
Inglaterra fundamentava a sua contestação em que esses territorios nunca
tinham sido occupados d'um modo effectivo por Portugal nem soffrido a
menor influencia civilisadora, ao governo da epoca incumbia
logicamente desmentir com actos, e não com palavras, os argumentos
utilisados pela poderosa Albion.

Mas o ministro culpado entendeu dever manter até quasi ás vesperas do
_ultimatum_ uma attitude de indecisão e de pusillanimidade e assim,
quando se iniciou a occupação definitiva dos territorios contestados,
lançando-se atravez d'Africa algumas expedições, todas ellas chocaram
innumeros obstaculos que precipitaram logicamente o desfecho da questão.
O ministro n'essa altura ainda quiz emendar a mão; era tarde, porém, e
os erros diplomaticos por elle commettidos não permittiam já que se
recorresse á arbitragem internacional. Portugal tinha que aguentar a pé
firme e sem esquiva tudo o que a Grã-Bretanha sobre elle fizesse desabar.



CAPITULO III

Serpa Pinto, á frente de 6000 homens, derrota os makololos revoltados


A expedição Serpa Pinto, já o dissemos, foi o rastilho que faz detonar a
ameaça contida no _ultimatum_. Contemos como o caso se deu:

A expedição tinha por mobil o affirmar a soberania de Portugal nos
territorios do Nyassa, que o nosso paiz reivindicava. Commandava-a
aquelle major do exercito e compunham-na varios funccionarios e
technicos. O engenheiro chefe da missão de estudo era o sr. Pereira
Ferraz. Em fins de 1899, Serpa Pinto, sahindo de Messanje em direcção a
Quelimane, entregou-lhe o commando da expedição, emquanto outro
funccionario, o sr. Themudo, seguia para Mupasso com parte da gente e as
embarcações transportando bagagens e mantimentos. O sr. Pereira Ferraz
acompanhado d'uns duzentos homens dirigiu-se para ali a encontrar o
seu collega de missão--disposto a acampar defronte de Mupasso para
seguir á risca as instrucções do commandante em chefe. Tratava-se, não é
mau repetir, de pacificar a região, que alguns pretos insubordinados
«animados por uma influencia estranha, tentavam revoltar contra nós».

Os effeitos d'essa attitude hostil não se fizeram esperar. Logo que a
expedição chegou em frente da aldeia dos makololos, viu-se fóra do
recinto da povoação varios homens armados e «dentro appareceram por cima
da palissada muitas cabeças, ao todo talvez uns duzentos negros promptos
a entrar em combate». O sr. Pereira Ferraz fez signaes para parlamentar
com o que parecia ser o chefe dos pretos, o qual lhe correspondeu
fazendo signal para que se approximasse. O sr. Ferraz queria dizer-lhe
que não ia disposto á guerra, portanto que deixassem passar a sua gente
e cargas e que lhe daria um presente.


«Não me deixou, porém--informa o mesmo engenheiro--o negro dizer nada
d'isso, pois logo que nos viu ao alcance das espingardas de pederneira
com que elle e os outros estavam armados, disparou sobre nós, fugindo
para dentro do recinto, pelo que, chamando alguns dos nossos, que eu
posso affirmar não passavam de 40, fizemos fogo sobre a povoação, que
elles abandonaram com perda de 6 homens e umas 12 barricas de polvora,
que explodiram no incendio que os landins lançaram ás palhotas da aldeia».


Por aqui se vê que os pretos tinham o firme proposito de aggredir a
expedição. Esta pouco depois era avisada de que os regulos Massêa,
Catanga, Molidima, Caberenguene e os filhos do Chipitura haviam reunido
e armado a sua gente e se tinham juntado a Melaure para baterem os
nossos. Estas informações aterradoras, note-se, foram ministradas á
expedição pelos inglezes Harry e George Petit, accrescentando-lhes que o
Melaure tinha comsigo muita gente, muita polvora e 6:000 espingardas. Um
e outro d'esses agentes britannicos correspondiam-se com aquelle regulo
e, tendo o sr. Pereira Ferraz convidado ambos, para maior segurança das
suas fazendas e vidas, a retirarem-se para a povoação portugueza de
Natumbe, a dois dias de viagem ao sul de Mupasso, pondo ás suas ordens,
para isso, as necessarias embarcações, responderam-lhe que preferiam
antes ir _to up_, sahindo logo no dia immediato em direcção ao norte,
tentando ainda assim e infructiferamente lançar o panico entre os
auxiliares portuguezes.

Os makololos, refeitos do primeiro embate, saltaram sobre a povoação
portugueza de Samoane e, em territorio nosso, destruiram o caminho
collimado e atravessaram n'elle espinheiros, dizendo que até ali tudo
lhes pertencia e que matariam quem se atrevesse a collimar um palmo de
terra d'ali para cima. Os indigenas de Samoane fugiram aterrados a
acolher-se á protecção do sr. Pereira Ferraz e este engenheiro julgou
mais prudente collocar-se em guarda e esperar reforços que pediu ao
governador de Quelimane.

[Ilustração: Encontro dos revoltosos com as tropas fieis ao Governo]

Foi depois d'sto que o major Serpa Pinto, accudindo com mais gente á
expedição e elevando o seu contigente a uns 6.000 homens armados,
marchou sobre os negros revoltados e travou com elles em Mupasso
sangrento combate. Os makololos deixaram mortos no campo uns 72 homens e
muitos prisioneiros importantes. A expedição poz-se novamente em marcha
apoz a victoria, que, diga-se desde já, teve no estrangeiro uma
extraordinaria resonancia. Na Africa Oriental e principalmente na região
sublevada o effeito não foi menor. O sultão Macanjira estabelecido nas
margens do Nyassa prestou vassalagem a Portugal. O chefe M'ponda
apressou-se tambem a imital-o; o regulo Malipuiri e outro visinho dos
makololos foram a Quelimane receber a bandeira portugueza. Mas,
emquanto isto succedia, o _Times_, dando conta do combate, fazia
affirmações d'este theor: que o major Serpa Pinto enganara o consul
inglez na região onde elle se travara, affirmando intenções pacificas,
mas que, decorrido algum tempo, levantara conflicto com os makololos,
fazendo n'elles grande morticinio e tomando-lhes duas bandeiras
britannicas recentemente dadas por aquelle consul. Os makololos,
julgando-se abandonados pelos inglezes, tinham então reconhecido a
dominação portugueza. O major Serpa Pinto, accrescentava o _Times_,
annunciara a intenção de conquistar o Chire até o lago Nyassa e
convidara os residentes inglezes a collocarem-se debaixo da protecção de
Portugal, tornando-os responsaveis pelas consequencias no caso de
recusa. A imprensa franceza, por seu lado, occupando-se da victoria
alcançada por Serpa Pinto, falava pouco mais ou menos n'estes termos: «a
acção do major portuguez poz termo á comedia que a Inglaterra andava
representando em Moçambique. Felicitamol-o por isso. Portugal deu um
excellente exemplo. Esperamos que outras nações o saberão seguir na
occasião opportuna para fazerem respeitar as espheras de influencia de
cada um, e não permittirem as continuas invasões da Inglaterra no
terreno alheio».

A informação relativa ao combate transmittida pelo consul britannico em
Zanzibar ao marquez de Salisbury, que se encontrava ao tempo em
Hatfield, foi logo noticiada na imprensa londrina com o commentario de
que lord Salisbury certamente não procederia com rapidez emquanto não
recebesse pormenores do facto; que pediria primeiro explicações a
Lisboa, e, se o governo portuguez lh'as não desse, chamaria a Londres o
diplomata sr. Petre. D'ahi a dias surgiu, com effeito, a primeira
reclamação da Inglaterra sobre a expedição Serpa Pinto. O marquez de
Salisbury dirigiu ao governo portuguez uma nota que foi entregue ao sr.
Barros Gomes pelo sr. Glynn Petre, ministro britannico em Lisboa. A
nota, diziam n'essa occasião os telegrammas de Londres, tinha a forma de
uma representação sobre a acção de Portugal na Africa do Sul e Oriental
e pedia que o nosso governo repudiasse os actos do agente portuguez no
districto da Zambezia. O marquez de Salisbury, affirmava-se, não usava
de ameaças; a nota continha uma exposição de varios factos que
asseverava terem occorrido e pedia a restauração do anterior _statu quo_
na região em litigio; o governo inglez não podia permittir que fosse
arriada a bandeira ingleza depois de arvorada por um representante
responsavel. Outras informações diziam que a nota vinha redigida em
termos correctos, embora o gabinete de Londres registasse,
impressionado, as noticias recebidas pelo bispo Smythies, ácêrca de
hostilidades a estabelecimentos inglezes por parte do major Serpa Pinto,
acontecimentos que, afinal, não constavam no nosso paiz. Serpa Pinto, na
verdade, objectava-se em Portugal, limitara-se a desembaraçar o caminho
á expedição Ferraz perturbada pelos makololos e mais nada.

Isto passava-se em 18 de dezembro de 1889. A nota do marquez de
Salisbury referindo-se exclusivamente ao supposto ataque da expedição
portugueza contra os makololos, e não fazendo menção alguma dos outros
assumptos pendentes entre a Inglaterra e Portugal sobre as suas
respectivas espheras de influencia na Africa do Sul e Oriental e pedindo
ao sr. Barros Gomes uma resposta prompta, o mais rapida possivel, e, no
caso do ataque se confirmar, a chamada a Lisboa do major Serpa Pinto; o
ministro portuguez dos negocios estrangeiros replicou que as informações
até á data recebidas não confirmavam as interpretações dadas pelo
gabinete inglez aos actos do major, que «repellira sómente o ataque
d'uma tribu hostil na bagagem da qual encontrara tres bandeiras
inglezas». O sr. Barros Gomes terminava por pedir uma demora afim de
poder communicar com o major Serpa Pinto. Entretanto, «para estar
preparado para qualquer contingencia», o governo britannico decidia
collocar as suas forças navaes proximo de Portugal. Persuadido de que «a
reunião de barcos de guerra inglezes no Tejo augmentaria
indefectivelmente a irritação dos portuguezes e entorpeceria a acção do
governo lusitano nas suas negociações para o arranjo da questão relativa
ao paiz do Nyassa», os couraçados britannicos receberam ordem de
reunir-se em Gibraltar e de ahi se manterem «em expectativa dos
acontecimentos futuros». Os navios destinados a essa empreza foram
escolhidos entre os que formavam a esquadra do Mediterraneo. Os
couraçados _Bendvor_ e _Colossus_, a 27 de dezembro, levantavam ferro de
Malta com destino a Gibraltar. Em Malta tambem se encontravam as
fragatas couraçadas _Agammenon_ e _Dreadnought_; em Edimburgo egualmente
se preparavam outros navios.

Em Portugal, no emtanto, percebiam-se os primeiros symptomas d'uma
reacção forte contra o regimen. A imprensa democratica clamava
altisonante que se a Revolução ainda se não tinha feito não era porque
«o terreno fosse safaro, ou porque as vozes republicanas não
encontrassem echo, mas apenas por motivos de ordem secundaria», que não
cabiam ao momento discutir. «Comtudo estava provado que a realeza
perdera o prestigio, que a dynastia de Bragança alienara todas as
sympathias, que as instituições tinham cahido no descredito e que, por
conseguinte, o povo desejava vida nova». E perguntava-se: «O que devemos
á dynastia? Que principio superior anda ligado á existencia d'essa
anachronica forma de governo? A Patria?... Oh! nós bem sabemos que,
quando Portugal se quiz emancipar do jugo da monarchia hespanhola, quem
mais conspirou contra a Patria foi o Bragança idiota, por quem os
ingenuos combatentes de 1640 andavam expondo a vida; sabemos como esta
funesta dynastia tem, pouco a pouco, em presentes de noivado e como
premio de serviços contra a nação, entregado as nossas colonias aos
inglezes; sabemos como, na hora do perigo para a nossa independencia,
para a nossa honra nacional, o sr. D. João VI fugiu covardemente para o
Brazil; sabemos como o pae do actual reinante (D. Luiz) escreveu umas
cartas criminosas a Napoleão III, no intuito de se formar em seu
proveito e da sua raça a união iberica. A Liberdade?... Não a suffocam,
porque não podem. O Bragança, que aqui implantou o systema
constitucional, fôra um despota no Brazil. Escorraçado de lá, como não
podia apresentar-se em frente da monarchia tradiccional representada por
seu irmão, em nome de outro principio deu-nos a constituição que, mais
tarde, seu filho rasgou á vontade, abafando os clamores angustiosos da
nação, com a intervenção das armas estrangeiras...»



CAPITULO IV

O governo progressista cede ante as exigencias da Grã-Bretanha


Os primeiros dias de janeiro de 1890 ainda reflectiram as benignas
razões dadas pelo sr. Barros Gomes ao governo inglez. Não se podia
exauctorar Pereira Ferraz e Serpa Pinto--dizia o ministro e diziam
alguns jornaes de Lisboa--prestando apenas credito ás informações dos
funccionarios britannicos. Era necessario ouvir os dois
expedicionarios e ouvir-lhes as allegações que, decerto, produziriam
sobre a sua attitude em tão melindroso assumpto. Uma parte da imprensa
acreditava até ingenuamente que a Inglaterra não tardaria a modificar o
tom aggressivo das suas notas diplomaticas, substituindo-o por outro de
feição conciliadora: «em primeiro logar, porque assim o quer o respeito
devido por cada nação a todas as outras; em segundo logar, porque, se
procurasse entregar á violencia a decisão d'um pleito em que devem ser
ouvidos e escutados os argumentos de parte a parte e em que a justiça ou
a equidade deve proferir sentença em unica instancia, não só concitaria
a nossa resistencia mas, porventura, tambem provocaria a indignação do
mundo». E essa parte da imprensa ia mesmo mais longe na sua ingenuidade:
«A Grã-Bretanha sabe que, embora sejam enormes as suas forças comparadas
com as nossas, poderia arriscar-se a revezes se desrasoadamente
accendesse a guerra na Africa...»

Ao abrir-se o parlamento, o rei D. Carlos, que, pela primeira vez, se
apresentava a desempenhar o seu papel constitucional de «chave de todos
os poderes», lendo o classico discurso da côroa, sublinhou estas
passagens, que a assembleia dos representantes da nação escutou com rara
e justificada avidez:


«Recentemente as patrioticas aspirações da nação ingleza e do governo de
sua magestade britannica, a dilatarem as suas vastas possessões na
Africa, encontraram-se em mais d'um ponto d'esse continente, com o firme
proposito de Portugal de conservar sob o seu dominio e de utilisar para
a civilisação os territorios africanos que primeiro foram descobertos e
trilhados pelos portuguezes, por elles foram revelados e abertos ás
missões do christianismo e ás operações do commercio e nos quaes as
auctoridades portuguezas teem praticado os actos de jurisdicção e
influencia consentaneos ao estado social dos seus habitantes, actos que
sempre bastaram para significar dominio incontestavel.

«Este encontro poz em relevo desaccordos de opinião entre o meu governo
e o de sua magestade britannica ácêrca das condições a que devem
satisfazer e dos titulos que teem de adduzir as soberanias europeias em
Africa, para serem reconhecidas pelas potencias, e d'esses desaccordos
resultou uma correspondencia diplomatica que ainda os não poude sanar e
que tambem houve de occupar-se de outras divergencias, posteriormente
suscitadas, sobre o modo de apreciar um conflicto, occorrido nas margens
do Chire, entre uma tribu indigena e uma expedição scientifica
portugueza. O meu governo, inspirando-se no sentimento nacional e
conformando-se com o voto unanime das duas casas do parlamento, tem
diligenciado convencer o de sua magestade britannica do direito que
assiste a Portugal de reger os territorios ao sul e norte do Zambeze
sobre que versa a mencionada correspondencia, limitando-se, durante o
incidente e em todos os seus termos, a manter dominios que sempre
reivindicou, e reiterar declarações que sempre fez. E n'esta attitude
persistirá com o apoio, que decerto lhe não ha de faltar, dos
representantes da nação, esperando conseguir uma equitativa conciliação
de todos os legitimos interesses, que promptamente restabeleça, como eu
desejo, o perfeito accordo entre os governos de duas nações ligadas por
vinculos de amizade e tradicções seculares».


Pura illusão! No dia 5 de janeiro, o ministro inglez em Lisboa,
rebatendo a asseveração do sr. Barros Gomes de que Serpa Pinto, travando
combate com os makololos, se limitara a «repellir o ataque d'uma
tribu hostil» escrevia-lhe notando que «essa asseveração não parecia ao
seu governo de muito peso, pois que a acção dos makololos, quer tivessem
ou não tomado a offensiva, fôra unicamente determinada pelo desejo de
proteger o seu territorio contra a invasão dos portuguezes». A questão
attingia, evidentemente, a sua phase aguda. O _Times_, referindo-se-lhe,
dizia que, se a Inglaterra não tomasse promptas providencias «para
apagar a impressão causada pelas incursões do major Serpa Pinto, toda a
região dos Lagos Africanos se incendiaria; os makololos tinham visto a
Inglaterra grosseiramente ultrajada; era necessario que a vissem
reivindicar claramente a sua honra». Por outro lado, o governo
portuguez, desejoso, sem duvida, de attenuar um pouco a irritação que o
da Grã-Bretanha denunciara na nota de 5 de janeiro, havia ordenado a
Serpa Pinto que recolhesse á metropole. Mas nem com isso o colosso
amorteceu a pancada.

O sr. Barros Gomes tentou então propôr a suspensão temporaria de
qualquer procedimento e submetter o litigio ao exame e decisão d'uma
conferencia internacional. Trabalho inutil. Á nota do dia 8 d'aquelle
mez, em que o sr. Barros Gomes lamentava que a Inglaterra nunca tivesse
reconhecido o direito historico constantemente affirmado por Portugal
aos territorios do Chire e do Nyassa, a essa nota, o ministro Petre
respondeu no dia 10 com um _memorandum_--guarda avançada da exigencia
formal. «O governo britannico, frisava esse documento, precisa saber se
foram ou não enviadas instrucções rigorosas ás auctoridades portuguezas
em Moçambique com referencia aos actos de força e ao exercicio de
jurisdicção que ali subsistem actualmente». E, quasi sem dar tempo a que
a sr. Barros Gomes digerisse o tom comminatorio do _memorandum_, o
ministro Petre entregou-lhe o famoso _ultimatum_ concebido n'estes termos:


_O governo de sua magestade britannica não pode acceitar como
satisfatorias ou sufficientes as seguranças dadas pelo governo
portuguez, taes como as interpreta. O consul interino de sua magestade
em Moçambique telegraphou, citando o proprio major Serpa Pinto, que a
expedição estava ainda occupando o Chire e que Kalunga e outros logares
mais no territorio dos makololos iam ser fortificados e receberiam
guarnições. O que o governo de sua magestade deseja e em que insiste é
no seguinte:_

[Ilustração: Alves da Veiga (1891)]

_Que se enviem ao governador de Moçambique instrucções telegraphicas
immediatas para que todas e quaesquer forças militares actualmente no
Chire e nos paizes dos makololos e mashonas se retirem. O governo de sua
magestade entende que sem isto as seguranças dadas pelo governo
portuguez são illusorias._

_Mr. Petre ver-se-ha obrigado, á vista das suas instrucções, a deixar
immediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação, se uma
resposta satisfatoria á precedente intimação não fôr por elle recebida
esta tarde; o navio de sua magestade «Enchantress» está em Vigo
esperando as suas ordens._


O _ultimatum_ tinha a data de 11 de janeiro. No mesmo dia o sr. Barros
Gomes entregava ao ministro inglez a resposta. Não a transcrevemos na
integra, dada a sua extensão. Registem-se comtudo os seus pontos
essenciaes. Abria pela declaração infantil de que o governo portuguez
julgava ter, com a sua nota do dia 8, satisfeito «por inteiro quanto
d'elle reclamava o de sua magestade britannica; antecipando-se á
segurança d'uma justa reciprocidade, que devia constituir o natural
preliminar das suas resoluções, apressara-se a enviar para Moçambique as
ordens mais terminantes no sentido de fazer respeitar desde logo, em
toda a provincia, o compromisso tomado, no intuito de facilitar a
realisação d'um accordo com a Grã-Bretanha, pelo qual o governo
portuguez sempre pugnara». A resposta do sr. Barros Gomes fechava assim:


_Na presença d'uma ruptura imminente de relações com a Grã-Bretanha e de
todas as consequencias que d'ella poderiam talvez derivar-se, o governo
de sua magestade resolveu ceder ás exigencias recentemente formuladas e,
resalvando por todas as formas os direitos da corôa de Portugal nas
regiões africanas de que se trata, protestando bem assim pelo direito
que lhe confere o artigo 12.º do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido
definitivamente o assumpto em litigio por uma mediação ou pela
arbitragem, o governo de sua magestade vae expedir para o governador
geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha. Aproveito a
occasião para renovar a v. ex.ª as seguranças da minha alta
consideração._


Resumindo: se a intimação era cathegorica, e a ameaça do governo inglez
resumava inilludivelmente o proposito de vexar, de humilhar o pequeno
paiz ao qual ella se dirigia, a resposta não podia ser mais
subserviente, apesar do fraco esboço de protesto com apoio no direito
internacional consignado nas ultimas linhas do documento. Ao pontapé
vibrado impiedosamente pela Inglaterra, Portugal offerecia uma curvatura
de espinha só propria d'um lacaio... Custa dizel-o sem disfarce, mas é a
verdade.

A noticia do _ultimatum_ foi divulgada em Lisboa poucas horas depois do
sr. Barros Gomes a ter recebido. No dia 12 de manhã, um jornal dos de
maior circulação exclamava, em typo graúdo, no logar mais saliente da
sua primeira pagina:


«O governo inglez, o philantropico e honesto governo inglez, recorreu,
emfim, ao argumento que lhe é usual nas discordias com os povos
pequenos. Recorreu ao argumento da força! O governo portuguez recebeu
uma intimação formal: ou dá promptas satisfações, n'um curto praso, que
deveria ter terminado ás 2 horas da manhã de hoje, ou marcha sobre
Lisboa a poderosa esquadra que está reunida em Gibraltar, com ordem de
bombardear a capital de Portugal! Lisboa, a nossa querida e formosissima
Lisboa, bombardeada pelos canhões da Inglaterra! A cidade de onde
partiram os descobridores audazes que deram ao mundo--e no mundo mais
que a nenhum outro povo, ao povo britannico--a America prodigiosa, e
essa Asia, onde a Inglaterra tem o seu grande imperio, e essa Africa,
por um ponto insignificante da qual se levanta o presente conflicto--a
cidade dos navegadores heroicos e generosos, destruida a tiros de peça
pelos couraçados da nação colonial por excellencia! É phantasticamente
horrivel!

«Que respondeu o governo? Salvou a sua honra, ou salvou a historia
d'esta immensa vergonha, e Lisboa d'esta immensa catastrophe? Nada
podemos averiguar. O ministerio esteve reunido até alta noite e do que
decidiu só hoje, provavelmente, haverá conhecimento. A hora não é de
recriminações. Aguardemos com serenidade e com firmeza o que o destino,
a imprevidencia dos homens e a rapacidade d'uma nação egoista e
desalmada nos preparam n'este momento solemne da nossa historia!»


Estava lançado o rebate. O povo, a genuina massa do povo, não tardaria a
entrar em scena, manifestando-se por uma fórma até então desconhecida
pelos serventuarios da monarchia--explodindo indignação e sincero
patriotismo. O partido republicano, firmando-se n'esse impulso da
opinião, adquiria novo alento e preparava-se para ulteriores trabalhos
de propaganda, mais forte, melhor orientada e, sobretudo, de maior
efficacia.



CAPITULO V

O protesto contra o "ultimatum" echoa de norte a sul do paiz


O domingo 12, isto é, o dia immediato ao da recepção do _ultimatum_,
consagrou-o a população lisboeta a commentar o acontecimento. Uma parte
da imprensa, fazendo o resumo do conflicto diplomatico que desfechara na
affronta despedida pela Grã-Bretanha, accrescentava que, emquanto o
ministro inglez sr. Petre entregava a intimação formal ao sr. Barros
Gomes, este recebia do governador de Cabo Verde um telegramma
communicando-lhe que entrara no porto de S. Vicente com carta de prego
um cruzador britannico; o nosso consul em Gibraltar avisava-o, por
seu turno, de que a esquadra do Canal lá estava concentrada, prompta ao
primeiro aviso; o consul em Zanzibar tambem telegraphava participando a
sahida para as costas de Moçambique de dez navios de guerra inglezes,
acompanhados de um transporte com carvão e mantimentos. Perante esta
situação, o governo consultara o conselho de Estado, que reunira sob a
presidencia do rei D. Carlos. No conselho tinham votado pela satisfação
ás exigencias da Inglaterra os srs. Barjona de Freitas, José Luciano de
Castro, conde de S. Lourenço, Barros Gomes e João Chrysostomo. O sr.
Antonio de Serpa manifestára-se pela arbitragem e por que só fossem
mandadas retirar as forças portuguezas do Chire depois da Inglaterra a
acceitar.

Á tarde, apesar da excitação popular já ser bem visivel, o rei D. Carlos
exhibiu-se em passeio na Avenida da Liberdade e seu irmão o infante D.
Affonso percorreu á desfilada varios pontos da cidade, mostrando-se um e
outro completamente alheiados do facto que enlutára a nação. Ao começo
da noite formaram-se grupos numerosos no Rocio e como do Colyseu da rua
da Palma sahisse, em certa altura, um cortejo de patriotas que soltavam
calorosos vivas á nação, ao exercito e á imprensa e morras ao governo e
á Inglaterra, os grupos addicionaram-se-lhes e uma enorme multidão
dirigiu os passos para a Sociedade de Geographia. Ahi, d'uma das
varandas, falou o sr. Luciano Cordeiro:

--A Inglaterra, trovejou, pode expulsar-nos pela força, mas o direito
subsiste! Precisamos protestar contra a pirataria britannica!...

Mas, da multidão, elevaram-se outras vozes:

--E contra o governo que nos atraiçoou! E contra os Braganças que nos
jungiram á Inglaterra!...

Depois, a grande massa dos manifestantes subiu á parte alta da cidade a
saudar a imprensa, que se collocára abertamente ao lado do povo,
verberando a affronta. As redacções do _Seculo_, _Revolução de
Setembro_, _Jornal da Noite_, _Jornal do Commercio_, _Debates_, _Correio
da Manhã_ e _Gazeta de Portugal_ foram alvo de manifestações de
sympathia. Á passagem em frente da redacção do _Dia_, alguns dos
populares deram palmas emquanto outros se limitaram a bradar: «Viva
Portugal! Abaixo a Inglaterra!». Em frente ao _Correio da Noite_
produziu-se uma manifestação hostil ao governo, manifestação que se
repetiu junto do _Reporter_ e que redobrou de violencia em frente das
_Novidades_, com morras ao sr. Emygdio Navarro, aos «progressistas
traidores» e gritos de: «Abaixo o _chalet_! Viva a Republica!»

Na rua Serpa Pinto, a multidão, lembrando-se do nome do official que
derrotara os makololos, rompeu em estrepitosas acclamações em sua honra.
O enthusiasmo attingiu proporções indescriptiveis. Do terceiro andar
d'uma casa habitada por uma modista, falou um academico convidando os
collegas a realisarem no dia seguinte um grande cortejo patriotico. Foi
delirantemente applaudido. Da rua Serpa Pinto, a massa popular avançou
depois sobre o theatro de S. Carlos e irrompeu na sala dando vivas á
patria e clamando contra a Inglaterra. Os _habitués_ da nossa Opera,--_a
jeunesse dorée_--tranzidos de pavor, não lhe oppuzeram a menor
resistencia. Dentro e fora do edificio os manifestantes gritavam:

--Hoje não é dia de espectaculo, é dia de luto!...

Sahindo de S. Carlos, alguem lembrou que o consulado inglez era na rua
das Flores. O rastilho propagou-se. N'um abrir e fechar d'olhos, a casa
do consul foi apedrejada, arrancando-se da parede o respectivo escudo.
Apedrejaram egualmente a residencia do sr. Barros Gomes. E, só quando a
policia interveiu, prendendo 61 dos populares, é que a mole se
desfez, mas preparando _in mente_ para o dia seguinte novas e incisivas
manifestações de antipathia á Grã-Bretanha e ao governo que promptamente
se lhe submettera. Entretanto, esse ministerio pedia a demissão, abalado
pelos primeiros symptomas da reacção nacional. Para mais o movimento de
protesto não se limitára a Lisboa. Repercutira de norte a sul do paiz,
revelando energias civicas que desnorteavam por completo a corôa e os
partidos da monarchia.


No dia 13 de janeiro, os estudantes da capital effectuaram uma reunião
na Escola Polytechnica, reunião a que compareceram os alumnos da Escola
Naval, da Escola do Exercito e do Collegio Militar. Presidiu o sr.
Hygino de Sousa e falaram varios oradores, todos elles estygmatisando
com violencia a affronta ingleza e aconselhando a _boycottage_ aos
productos da Grã-Bretanha. Um professor do lyceu de Lisboa, sr. Carlos
de Mello, tentou, n'um discurso habil, defender o sr. Barros Gomes, mas
a assembléa recebeu pessimamente as suas palavras e foi resolvido acto
continuo que a academia se dirigisse á camara dos pares a pedir ao
parlamento declarações terminantes que serenassem o espirito publico.
Assim se fez e um cortejo de mais de quinze mil pessoas, sahindo da
Escola Polytechnica, encaminhou-se para S. Bento.

Á entrada do Largo das Côrtes, do lado do mercado, um cordão de policias
pretendeu impedir a passagem aos manifestantes, mas o cortejo rompeu-o e
tudo passou. A guarda do palacio chamou ás armas e calou bayonetas. Em
frente do edificio, destacou-se do cortejo uma commissão que foi falar
ao presidente da camara. A policia dentro e fora do edificio era em tão
grande quantidade que Fialho d'Almeida soltou esta _boutade_:

--Os seios da representação nacional trazem hoje espartilho de guarda
civil...

Os aspirantes de marinha, receiando que a massa de povo aglomerada no
largo fosse maltratada pela força militar, formaram deante d'esta,
offerecendo-lhe como que uma barreira, e a sua attitude provocou uma
ovação extraordinaria, frenetica de enthusiasmo. D'ahi a momentos, a
commissão que se avistara com o presidente da camara voltou para junto
dos manifestantes, e communicou-lhes que o parlamento, tendo tomado em
consideração a _démarche_ patriotica da academia, occupar-se-hia, na
sessão seguinte, dos assumptos que interessavam a defeza e a integridade
do paiz. O cortejo andou depois a percorrer varias ruas da cidade,
pronunciando-se hostilmente em frente dos jornaes caracterisadamente
governamentaes e á noite repetiram-se as scenas da vespera, queimando-se
bandeiras inglezas, victoriando-se em delirio os nomes de Serpa Pinto,
Latino Coelho e outros democratas então em evidencia.

No dia 14, pelas seis e meia da tarde, sahiu do Café Aurea um grupo de
estudantes soltando vivas á patria, á liberdade, á independencia
nacional, ao exercito e á marinha. A esse grupo juntou-se na rua do Ouro
e praça de D. Pedro muito povo e á porta do Café Martinho o antigo
deputado progressista sr. dr. Eduardo de Abreu propoz à multidão que se
envolvesse em crepes a estatua de Camões. Dito e feito. Os manifestantes
enfiaram pela rua Nova do Carmo e o Chiado, explodindo sempre o maior
enthusiasmo, aos degraus do monumento subiram alguns individuos,
arranjou-se uma escada, passou-se o crepe em largas dobras rodeando a
estatua e rematando sobre a corôa de ferro ali deposta pelos estudantes
em 1880 e, no meio do mais respeitoso silencio, leu-se ao povo este
cartaz, que foi depois affixado:

[Ilustração: Na rua de Santo Antonio]


_Estes crepes, que envolvem a alma da patria, são entregues á guarda do
povo, do exercito e da alma nacional. Quem os arrancar ou mandar
arrancar é o ultimo dos covardes vendido á Inglaterra._


Uma prolongada e fremente salva de palmas acolheu a leitura d'este
protesto, simples e curto, mas d'uma eloquencia esmagadora e o cortejo
patriotico voltou, como nos dias anteriores, a percorrer as ruas de
Lisboa, gritando febrilmente o seu desejo de liberdade e a revolta
contra a ignominia com que a nação fôra aviltada. O ministerio
progressista já tinha sido substituido por um outro de feição
regeneradora, sob a presidencia do sr. Antonio de Serpa e em que
figuravam pela primeira vez o sr. João Arroyo na pasta da marinha,
João Franco na da fazenda e Vasco Guedes na da guerra. Um dos actos do
novo governo, mal subiu ao poder, foi o de procurar reprimir todas as
manifestações patrioticas inspiradas no _ultimatum_, mandando espadeirar
dezenas de populares que na noite de 14 de janeiro desciam o Chiado
desferindo as suas exclamações de odio á poderosa Albion. O inicio, como
se vê, não podia ser mais promettedor de brutalidade e arbitrio.



CAPITULO VI

Serpa Pinto, heroe africano, perde o prestigio


D'essa agitação imponente, d'essa inesperada revelação de civismo em
face da humilhação inflingida ao paiz, sahira, porém, uma ideia, que,
encontrando rapidamente o maior apoio em todas as classes manifestantes,
em breve se traduziu n'uma aspiração nacional. Referimo-nos á
subscripção da iniciativa dos alumnos da Escola Naval destinada á compra
de meios de defeza maritima. De toda a parte acudiram donativos, e
dentro de pouco tempo a commissão incumbida de os recolher e que tinha
como secretario o sr. dr. Eduardo de Abreu, desligado do partido
progressista e filiado, com Guerra Junqueiro, no partido republicano,
houve de fazer as suas reuniões no salão do theatro D. Maria e de ali
centralisar o trabalho que lhe estava affecto.

Ao mesmo passo organisava-se a Liga Patriotica do Norte collocada sob a
egide de Anthero de Quental; Alfredo Keil, imitando Rouget de Lysle,
compunha o hymno a _Portugueza_, para o qual o sr. Lopes de Mendonça
escrevia os versos e esse canto vulgarisava-se tanto ou mais que a
_Marselheza_; faziam-se diariamente conferencias publicas de
esclarecimento e de protesto; os nomes dos mais illustres
africanistas andavam em todas as boccas aureolados de ruidosa
celebridade. Houve mesmo uma epoca em que o de Serpa Pinto se ligou á
narrativa d'um incidente sul-africano com proporções de feito heroico.
Foi quando a imprensa deu publicidade á carta que elle dirigira ao
agente britannico Buchanan que o intimara a não avançar pelas terras dos
makololos, collocados sob a protecção do governo inglez. N'essa carta
dizia Serpa Pinto:


«Se na verdade os makololos estão debaixo da protecção do governo inglez
e por conseguinte lhe obedecem, estou certo de que a minha passagem será
facil e segura, porque o governo inglez, representado por v. ex.ª, só me
póde dar facilidades, sendo eu d'um paiz que sempre teve abertas, franca
e lealmente, as portas das suas colonias ás expedições scientificas
inglezas, prestando-lhes todo o auxilio e amparo; mas, em todo o caso,
se é verdade o que v. ex.ª, me diz, peço-lhe que convença os makololos
de que a minha expedição é pacifica e scientifica, que lhes diga que
pertenço a uma nação amiga da Inglaterra e que, portanto, não perturbem
a minha marcha, perturbação a que v. ex.ª, n'esse caso, não pode ser
considerado extranho; e assegurando-lhe que não posso consentir que um
chefe negro queira disputar-me a passagem, ou fazer-me o mais
insignificante insulto, asseguro, além d'isso, a v. ex.ª, que, se na
minha entrada no territorio makololo eu fôr atacado, tomarei
immediatamente a offensiva e acabarei de uma vez com essa causa
constante de perturbação n'esta parte do Chire.»


E n'outro paragrapho:


«Emquanto á intimação que v. ex.ª me faz de não continuar no meu
caminho, peço licença para lembrar a v. ex.ª que eu só recebo ordens
do governo de sua magestade fidelissima, de quem as recebo directamente
e, como não recebi ordem em contrario, continuarei, tenaz e
pacificamente, a minha jornada, arvorando uma bandeira de paz e só de
paz, mas prompto a repellir com energia quaesquer aggressões sem motivo
que me possam ser feitas».


Mas Serpa Pinto, longe de conservar esse favor popular, tornando-se o
proeminente defensor das reivindicações da grande massa, optou, em
breve, pelo serviço incondicional á corôa e essa attitude divorciou-o
completamente do nucleo democratico, que o encarara durante algum tempo
como uma das esperanças mais promettedoras. E, divorciado, perdeu o
prestigio. Quando morreu, dez annos mais tarde, estava em absoluto
esquecido. Continuemos, porém, a contar os episodios que caracterisaram
essa phase de agitação nacional, consequencia do _ultimatum_.

O sentimento da dignidade collectiva, despertando com extraordinaria
vehemencia, produziu em todas as classes, até mesmo na aristocratica,
uma reacção contra a Grã-Bretanha. O duque de Palmella, por exemplo,
tendo renunciado ás condecorações inglezas que possuia, collocou-se á
frente da commissão da subscripção patriotica; dos partidos monarchicos
desertaram alguns homens dos mais eminentes; surgiu, emfim, uma nova
imprensa, reflectindo, como diz João Chagas «não já os interesses
especiaes do partido republicano, mas as coleras e os enthusiasmos do
patriotismo, identificado com a republica para a missão commum da
desaffronta».

Fundou-se a _Patria_, jornal de estudantes de Lisboa, e, logo de
entrada, essa folha, feita um pouco _à la diable_, investiu
denodadamente contra o velho regimen, apaixonando em alto grau a
opinião. N'ella se revelaram, entre outros politicos militantes, Brito
Camacho e Hygino de Sousa. E a sua acção de propaganda foi tão intensa
que a ella se deveu, sem duvida, uma grande parte da tensão
revolucionaria mantida atravez do anno de 1890 e começo do anno seguinte.

Aqui tem cabimento referir que o directorio do partido republicano,
julgando azado o momento de sanccionar com a sua chancella a
recrudescencia do partido democratico, publicou n'essa occasião um
manifesto em que propunha a congregação dos esforços honestos no sentido
de se rejuvenescer Portugal não só confiando-o ao novo regimen como
protegendo-o internacionalmente por meio d'uma federação latina. Esse
manifesto concluia assim:


«Só a republica pode organisar o exercito e a marinha, fortificar
Lisboa, administrar as colonias e defender a nação affrontada. A
republica, no meio d'estes desastres publicos, está na consciencia de
todos como o recurso definitivo da nossa estabilidade nacional. Da
consciencia para os factos vae um momento. E esse momento approxima-se.»


Por outras palavras: o directorio comprehendia, ou convencia-se, n'essa
altura, de que a propaganda bem dirigida resultaria fatalmente na
liquidação, dentro de curto praso, das instituições que envergonhavam o
paiz. E se o trabalho no ambiente rubro dos centros politicos denunciava
então uma actividade excepcional, fóra, na rua, auxiliavam-no, ainda que
d'outro modo, as manifestações da grande massa, que não affrouxava em
protestar energicamente contra o _ultimatum_ e a cobardia da familia
brigantina.

Dois dias a fio, um cortejo composto exclusivamente de marinheiros
da armada appareceu n'alguns pontos de Lisboa, saudando
enthusiasticamente a bandeira da patria e dando vivas á independencia
nacional. O governo atemorisou-se com o facto e ameaçou os manifestantes
de os encarcerar durante trinta dias. Ao mesmo tempo, a policia recebeu
ordem de empregar maior violencia na dispersão dos grupos patrioticos.
Uma coisa e outra, porém, não impediram que a onda de indignação se
avolumasse e que frequentemente se produzissem incidentes demonstrando
que o divorcio entre a nação e a dynastia se accentuava cada vez mais.
N'um dos ultimos dias de janeiro, o Gremio Henriques Nogueira, tendo
dirigido caloroso convite ao povo de Lisboa, organisou uma manifestação
imponente que, em marcha correcta e digna pelas ruas da cidade, se
dirigiu ás legações de França e Hespanha a agradecer á opinião dos dois
paizes, a sympathia e a solidariedade moral dispensadas nas horas
lutuosas da affronta ingleza. O gabinete regenerador, entretanto--muito
embora todos os grupos politicos lhe tivessem offerecido apoio
incondicional no respeitante á questão anglo-lusa--fazia dissolver o
parlamento, collocando-se em verdadeira dictadura. O presidente do
conselho, sr. Serpa Pimentel, e o ministro dos estrangeiros, o sr.
Hintze Ribeiro, preparavam-se assim para negociar com a chancellaria
britannica o accordo final, sanccionando a expoliação contida no
_ultimatum_.

Em 11 de fevereiro, repetiram-se na capital, e com maior intensidade, as
scenas de agitação popular que haviam caracterisado os primeiros dias do
mez anterior. Motivou-as a prohibição d'um comicio no colyseu da rua da
Palma, em que se deveria «accordar nos meios de se enviar uma mensagem
de congratulação e agradecimento ao povo francez e hespanhol e de se
apreciar o pensamento e a opportunidade da liga portugueza
anti-britannica como base dos trabalhos da federação dos povos
latinos». Pouco antes, como corressem boatos de que o governo projectava
dissolver a camara municipal de Lisboa, o presidente d'essa corporação,
o sr. Fernando Palha, apressara-se a inquirir do chefe do governo os
motivos de tão arbitraria resolução, tomando ao mesmo passo varias
medidas tendentes a resistir-lhe caso ella fosse levada á pratica. O sr.
Serpa Pimentel, apesar do decreto de dissolução já estar lavrado,
receiou publical-o e respondeu ao sr. Fernando Palha que os boatos eram
insubsistentes, calculando que, recuando n'essa altura da situação,
poderia conjurar uma nova explosão de sentimentos patrioticos.

No dia 11, á tarde, quando o povo se encaminhava para o colyseu da rua
da Palma a assistir ao comicio, verificou-se que o governo não só
decidira obstar á sua realisação como á d'um cortejo organisado pelo
Gremio Henriques Nogueira, que se propunha, n'esse mesmo dia, collocar
uma corôa no monumento a Camões. A policia e a municipal que
estacionavam nas immediações do colyseu tinham modos provocadores. O
povo, porém, conservou-se tranquillo e só ás 3 horas, quando se
convenceu em absoluto de que a ordem do governo era irrevogavel, é que
formou um cortejo, acompanhando na retirada do local os oradores que
deviam falar no comicio: Jacintho Nunes, Manuel de Arriaga, Consiglieri
Pedroso e outros. Chegado esse cortejo ao Rocio, Manuel de Arriaga, no
intuito de fazer dispersar a multidão, subiu a um banco e dando um _viva
á patria_, disse:

--Povo: o governo sahiu da lei prohibindo a nossa reunião.
Conservemo-nos dentro d'ella, protestando contra os que a violaram.

O sr. Jacintho Nunes tambem proferiu algumas palavras no mesmo sentido.
O povo, enthusiasmado, applaudiu os dois oradores. Mas não foi
preciso mais para a policia iniciar as violencias e as prisões. As
correrias dos guardas lançaram no recinto largos minutos de panico.
Chamou-se ali, como reforço, um esquadrão de cavallaria. O povo
recebeu-o com demonstrações de sympathia e os soldados desfilaram
socegadamente, acompanhados dos vivas da multidão. Os primeiros presos
foram Manuel de Arriaga e Jacintho Nunes. Depois a leva, comprehendendo
uns 130 individuos, seguiu para o governo civil, d'onde, no dia
immediato, foi mandada para bordo do _India_ e do _Vasco da Gama_.

Assim que o facto constou na cidade, o commercio fechou meia porta e
quasi todas as associações realisaram sessões de protesto. Reappareceram
os incidentes tumultuosos, a população voltou a agitar-se, os jornaes
democratas abriram subscripções em favor dos presos e, ás ameaças de
novas e maiores violencias, o elemento popular respondeu approximando-se
mais e mais dos vultos então em evidencia no partido republicano. A
_Patria_, diario visado especialmente pelos serventuarios do regimen,
escrevia a poucas horas de perpetrado o arbitrio governamental:


«Consta-nos que da parte do governo ha todo o empenho em damnificar o
nosso jornal e que se tomam providencias tendentes a supprimir a
_Patria_ e bem assim prender os seus redactores. O publico fica de
sobreaviso, na certeza de que todos os dias sahirá o nosso jornal com o
nome que tem ou com qualquer outro, se lhe fôr inhibido usar o glorioso
nome de _Patria_ que o encima. Não é com ameaças, levadas ou não a
effeito, nem é com prisões ou detenções a bordo do _Africa_ que nos
farão desistir da tarefa que nos impuzemos, porque, uns presos, outros
virão, e quando esses forem presos outros virão ainda e a _Patria_
apparecerá implacavelmente e o governo d'este paiz ha de aprender que
não é com vilezas e processos de mão baixa que se combatem sentimentos
grandes e generosos, que só anceiam pelo bem estar do seu paiz.»

[Ilustração: João Chagas (1891)]


Mas os serventuarios do regimen não descançaram na tarefa de precavel-o
contra o progresso da democracia, tentando por todos os modos
estrangular os clamores do povo. Em 14 de fevereiro dissolveram a
Associação Academica de Lisboa, sob o pretexto de que ella, contrariando
os fins indicados nos seus estatutos, se «entregava a aventuras
politicas que tinham perturbado a ordem publica.» Ainda mais:
decidiram-se finalmente a publicar o decreto dissolvendo o primeiro
municipio do paiz, apprehenderam alguns jornaes da opposição, entraram
em conflicto com a commissão executiva da Subscripção Nacional,
reorganisaram a guarda municipal, gratificaram a policia e, por uma
série de medidas dictatoriaes, restringiram a liberdade de pensamento e
o direito de reunião.

Entretanto, caminhava-se a passos agigantados para a conclusão do
tratado anglo-portuguez, o famoso tratado que devia, por assim dizer,
ratificar o _ultimatum_ de 11 de janeiro e a perda subsequente do que
Portugal disputava á Grã-Bretanha.



CAPITULO VII

O partido republicano nasce da dispersão do reformista


Cabe agora dar aos leitores um rapido esboço das phases por que passou o
partido republicano desde 1880 até á eclosão da revolta do Porto. Esse
partido nasceu da dissolução do reformista, apoz o movimento de Cadiz
que tambem animou o mesmo ideal em Hespanha. Do partido reformista
sahiram Latino Coelho, Elias Garcia, Bernardino Pinheiro e Jacintho
Nunes que, acompanhados de Oliveira Marreca e os generaes Gilberto Rolla
e Sousa Brandão, fundaram o jornal _Democracia Portugueza_ á cabeça do
qual foi logo inscripto o primeiro programma partidario accentuadamente
democratico. Esse programma comprehendia:


_Egualdade civil e politica. Governo e taxação do povo pelo povo.
Suffragio universal e representação das minorias. Abolição do juramento
politico; de privilegios pessoaes; dos direitos de consumo para o
Estado; do recrutamento. Serviço pessoal; exercito reduzido á escola e
quadro; milicia nacional. Liberdade de consciencia; egualdade de cultos;
casamento civil; registo civil; liberdade de imprensa e de ensino;
julgamento pelo jury; liberdade pessoal; inviolabilidade do domicilio;
liberdade de associação; de reunião; de representação, excepto para a
força armada collectivamente. Poder legislativo de eleição; executivo
delegado d'este e que dirige os negocios geraes do Estado.
Descentralisação administrativa e autonomia das provincias ultramarinas.
Ensino obrigatorio. Economia na despeza publica. Direito de
resistencia aos actos da auctoridade, offensivos das leis. Justiça
democratica retribuida pelo Estado, revertendo para este os emolumentos;
jurados por eleição; juizes collectivos; ampliação da competencia dos
arbitros. Harmonia do codigo penal e do processo com a philosophia do
direito e o modo de ser da sociedade portugueza._


O programma foi obra, principalmente, de Latino Coelho e Elias
Garcia--este dirigindo a _Democracia Portugueza_ emquanto o jornal
arrastou a sua vida precaria. Os restantes redactores eram Osorio de
Vasconcellos, Teixeira Simões, Gomes da Silva, Ferreira Mendes, Caetano
Pinto e Feio Terenas. De camaradagem com estes nomes appareciam os de
Manuel de Arriaga, Nunes da Matta, Sousa Larcher, Homem Christo,
Magalhães Lima, Alves da Veiga, José Sampaio (Bruno), Emygdio
d'Oliveira, etc., etc. Hintze Ribeiro tambem gosou durante algum tempo a
fama de democrata e pode lêr-se na sua biographia que, quando estudante
em Coimbra, escreveu artigos inflammados para um jornal de Ponta
Delgada. Mas que admira, se da Universidade é que surdiram em todas as
epocas os elementos mais avançados, os propagandistas mais devotados, os
revolucionarios mais atrevidos... Quantos dos antigos ministros da
monarchia portugueza não foram, afinal, durante a sua passagem por
Coimbra, considerados as futuras escoras do partido republicano!...
Quantos!

Até 1880, esse partido apenas exerceu no paiz uma acção de simples
sentinella, quasi perdida na immensidade do deserto. Ainda não havia
despertado o sentimento civico entre os portuguezes como mais tarde
despertou, precipitando-os em reivindicações revolucionarias e a nação
mal dava pelos clamores do nucleo nascente que todo se esbofava na
imprensa e nas palestras da rua a demonstrar que o reinado de D. Luiz
cavava alguns metros mais no abysmo da nossa ruina. Em Lisboa, o partido
republicano dispunha d'uma modesta influencia eleitoral, que, no
emtanto, lhe permittia, uma vez por outra, travar lucta com os
monarchicos. No Porto, toda a propaganda democratica se reduzia a meia
duzia de homens--de alto valor, é certo, mas de fraco exito nas suas
tentativas para arrancar a capital do Norte á tradicção monarchica. Na
provincia, tudo se subordinava ao caciquismo e os republicanos ali eram
encarados como fautores da anarchia e da desordem. Finalmente, o proprio
nucleo democratico de que Lisboa se envaidecia antes de 1880, não
apresentava a resistencia e a solidez necessarias á conquista do poder
politico.


A celebração do tri-centenario de Camões, realisada n'quelle
anno--sacudindo o paiz inteiro n'uma rajada de patriotismo--deu corpo e
energia ao ideal republicano e transformou o nucleo existente n'uma
força respeitavel, digna de ser encarada pela monarchia como um inimigo
serio. Melhor do que nós o poderiamos fazer, o dr. Magalhães Lima vae
dizer aos nossos leitores da influencia decisiva d'essa apotheose na
democracia portugueza:


«O tri-centenario de Camões foi o primeiro capitulo da gloriosa jornada
que teve o seu desfecho em 5 de outubro de 1910. Nunca se viu cousa
semelhante em grandeza e sinceridade. O povo, o bom povo portuguez,
compenetrado da elevação da festa, e ainda mais de que a homenagem ao
immortal cantor das nossas glorias correspondia ao anceio d'uma
revivescencia futura, acorreu a ella cheio de enthusiasmo, ardoroso,
expandindo a maior alegria. A celebração do tri-centenario radicou
no espirito da nacionalidade a ideia carinhosa de que no auctor dos
_Lusiadas_ se symbolisavam as esperanças de melhores dias e talvez do
regresso a um passado opulento, viril, de inapagaveis tradicções.

«Mas a grandiosa homenagem não teve só esse condão. Despertou egualmente
a energia democratica, congregou em volta das figuras do partido
republicano, então em evidencia, os elementos dispersos, consolidou-os,
deu corpo á opinião publica, foi o ponto de partida da marcha politica
que, em successivas _étapes_, conseguiu, entre nós, pôr um ponto final
no regimen monarchico. Devemol-a essencialmente a Theophilo Braga, que
durante tres annos consecutivos fez uma propaganda intensissima para a
sua realisação. A commissão executiva da festa compunham-na elle,
Rodrigues da Costa, que representava ao tempo o jornal mais antigo, a
_Revolução de Setembro_; Pinheiro Chagas, Eduardo Coelho, Jayme Batalha
Reis, Ramalho Ortigão, Luciano Cordeiro, eu e o visconde de Juromenha,
mais tarde substituido pelo Rodrigo Pequito. Cada um de nós tomou a seu
cargo para a preparação da solemnidade o realisar um certo numero de
conferencias em que, divulgando a obra do epico, se orientava ao mesmo
tempo o espirito publico n'um ideal genuinamente patriotico.

«E a influencia exercida pela nossa acção foi tal que, apesar da
hostilidade que o governo progressista da epoca nos moveu, os _Lusiadas_
entraram em todos os lares e Camões, alcançando a maior consagração,
passou a ser como que o orago da massa popular. As edições da monumental
epopeia vulgarisaram-se por uma forma extraordinaria. Fizeram-se varias,
desde a mais modesta, ao alcance de todas as bolsas, até á de luxo,
regalo de privilegiados. Os nossos manifestos eram acolhidos com
verdadeira soffreguidão e conseguiam maior exito do que os decretos do
governo. Chamava-se ironicamente á commissão do tri-centenario o
_comité_ de Salvação Publica, mas essa ironia dava bem a medida da nossa
força e o que é mais: da impetuosidade da corrente democratica que
caracterisou sempre e profundamente a homenagem ao grande poeta.

«A celebração do tri-centenario fez expandir a ideia republicana que
muitos espiritos acalentavam em silencio. Em 1880 havia republicanos,
mas não havia conjugação de forças democraticas. O tri-centenario
promoveu-a. Antes de se prestar a homenagem ao poeta, já se palpava a
existencia de um ideal de liberdade e de justiça, o esboço d'uma reacção
decidida contra o regimen monarchico. Recordo-me, perfeitamente, que no
antigo _Commercio de Portugal_, ensaiando a verificação d'essa corrente
avassaladora, obtive um resultado bastante lisongeiro. Nos caixeiros,
mais talvez do que nas outras classes, encontrei elementos valiosos de
propaganda--parte dos quaes fundou e installou o Atheneu e mezes depois
da celebração do tri-centenario me auxiliou na fundação do _Seculo_.

«Glorificando o epico immortal, revestindo de excepcional imponencia
esse cortejo apotheotico do dia 10 de junho de 1880, Lisboa e, com ella,
as provincias, soffreram um abalo salutar, enveredando decisivamente no
caminho da destruição da tyrannia brigantina. A monarchia comprehendeu-o
e quiz impedil-o. O rei D. Luiz pretendeu encorporar-se no cortejo e o
governo não lh'o consentiu. Em summa, a influencia desprendida da festa
foi enormissima e fez-se sentir de modo flagrante no decorrer dos annos
e em diversos incidentes da vida interna da nacionalidade».


Em 1881, quando a imprensa republicana promoveu uma campanha justa e
violenta contra o celebre tratado de Lourenço Marques, a opinião vibrou
como nunca até ali vibrara. Alguns officiaes do exercito chegaram a
offerecer-se para, na impossibilidade do partido republicano se lançar
abertamente n'uma revolução, organisarem guerrilhas e d'esse modo
combaterem a monarchia. Crearam-se centros politicos, as associações de
classe tomaram um incremento irreprimivel e o povo passou a
interessar-se a valer pelas attitudes dos governantes. Apoz a celebração
do tri-centenario, o dr. Magalhães Lima propoz-se deputado por Lisboa,
ou melhor, pelo circulo 98, que comprehendia S. Paulo, Santos, Lapa e
Alcantara. A lucta foi renhida. Theophilo Braga propoz-se depois por
Alfama, Manuel de Arriaga pela Baixa e Elias Garcia pelo circulo 95
(Anjos). Durante annos foram estes os _candidatos chronicos_ dos
republicanos da capital. Travaram-se batalhas eleitoraes que ficaram
memoraveis. D'uma das vezes, disputando Magalhães Lima um circulo a
Hintze Ribeiro, Fontes, ao tempo presidente do conselho, viu-se forçado
a ir presidir a um comicio para _poder salvar a honra do convento_...

Comtudo, esse impulso progressivo experimentado em 1880 pelo ideal
democratico, soffreu um decrescimento apoz 1881, isto é, logo que a
questão do tratado de Lourenço Marques se apagou do espirito publico. E
essa decadencia, chamemos-lhe assim, chegou a ser tão accentuada que o
incomparavel jornalista Emygdio Navarro não duvidou um bello dia fazer
um appello ao estado maior do partido republicano convidando-o «a ir
religiosamente enterrar uma bandeira que parecia condemnada a não se
desfraldar jámais». O director das _Novidades_ supplicava a todos os
democratas que fossem uteis á patria, levando a sua dedicação, o seu
trabalho, a sua intelligencia aos arraiaes da monarchia, que os
receberia de braços abertos. Deram-se mesmo algumas deserções. O
jornalista portuense Emygdio de Oliveira cessou a publicação do diario
_Folha Nova_ e renunciou á politica republicana. Outros dos seus
correlligionarios acolheram-se a um novo gremio politico--a _Esquerda
Dynastica_--fundado e dirigido pelo sr. Barjona de Freitas, e durante
mezes, dada a crise de desorganisação que o minava, suppoz-se até que o
partido mais avançado se fusionára n'aquella facção conservadora.



CAPITULO VIII

João Chagas abandona enojado a imprensa monarchica


Mas sobreveiu o _ultimatum_ e esse conflicto diplomatico exerceu
egualmente consideravel influencia nas condições politicas da sociedade
portugueza. O patriotismo, offendido, encorporou-se nas fileiras
democraticas e engrossou-as. Brotaram da indignação do momento varios
jornaes que foram outros tantos pamphletos revolucionarios: a _Patria_,
de Lisboa, o _Rebate_, do Porto, fundado pelo sr. Eduardo de Sousa, o
_Ultimatum_, de Coimbra, fundado pelo sr. Antonio José de Almeida. Com
essa erupção jornalistica coincidiu a formação, na Universidade, d'uma
geração de propagadores do ideal, que apoz os dias luctuosos de 1890
publicou um manifesto vigoroso, aggredindo directamente o regimen
monarchico e reclamando a bem da patria uma mudança de instituições. A
policia não deixou circular esse documento, mas dois diarios
reproduziram-no immediatamente nas suas columnas. Assignavam o
manifesto, entre outros, estes estudantes:

[Ilustração: A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo
Ildefonso]


_Fernando Brederode, João de Menezes, Agostinho de Campos, Cunha e
Costa, Couceiro da Costa, Antonio José de Almeida, Pires de Carvalho,
Lomelino de Freitas, Antonio Cabral, Mario Monteiro, Augusto Barreto,
Silvestre Falcão, João de Freitas, Paulo Falcão, Francisco Valle, Julio
Paulo de Freitas, Malva do Valle, Evaristo Cutileiro, Luiz Soares de
Sousa Henriques, Affonso Costa, Manuel Galvão, Lucio Paes_
_Abranches, Julio de Mello e Mattos, Fausto Guedes, Bessa de Carvalho,
Alberto de Oliveira, Bernardo Leite, Carneiro de Moura, Antão de
Carvalho, Arthur Leitão e Virgilio Poyares._


É tempo de nos referirmos á entrada de João Chagas na scena politica,
facto que se produziu em 20 de fevereiro de 1890. O eminente publicista,
que até então trabalhara na imprensa monarchica, revoltado ou, melhor,
enojado com o espectaculo que presenceara durante os dias agitados que
se seguiram ao _ultimatum_, dirigiu n'aquella data esta carta ao
_Correio da Noite_:


«_Meu caro amigo_:--Não me convindo continuar a collaborar em jornaes da
imprensa monarchica, nos quaes, aliás, tenho tido apenas collaboração
litteraria, peço a v... me julgue desde hoje desligado da redacção
d'essa folha. Aproveito o ensejo para lhe agradecer as provas de
consideração que constantemente me tem dispensado.--Seu amigo e collega:
_João Chagas_.»


Egual declaração foi publicada no _Tempo_ e na _Provincia_ e no dia 21
um jornal republicano da manhã accrescentava, fazendo allusão ao facto:
«desde já affirmamos que João Chagas traz ao nosso partido toda a sua
intelligencia, toda a sua dedicação e todo o seu ulterior trabalho; é
uma adhesão valiosissima, que mostra bem o que ha de diamantino no
caracter do nosso amigo, que não hesita sacrificar interesses egoistas
nas aras sacrosantas da patria, cuja remodelação é incompativel com a
subsistencia do affrontoso regimen que nos vae explorando».

Na _Historia da Revolta do Porto_, que escreveu de collaboração com o
ex-tenente Coelho, João Chagas descreve assim os seus primeiros
passos na propaganda do ideal republicano:


«Em fevereiro de 1890, como um dos auctores d'esta obra, ao tempo joven
e fazendo um jornalismo sem paixão e sem ambições, se decidisse a
encetar o jornalismo politico e a adoptar a causa que era então de toda
a gente, reuniu-se a um, egualmente joven--tudo foi juventude n'esse
movimento!--alumno do curso de engenharia civil, Chrispiniano Fonseca,
que mais tarde veiu a morrer no Brazil, de febre amarella, sob a
republica de Floriano Peixoto; e tendo os dois concertado «que era
preciso fazer alguma coisa», como se dizia por essa grande epocha,
começaram por ir espionar a provincia do Algarve, onde certo dia se
affirmou com alarme que rebentara uma sedição militar e, havendo
reconhecido que tal sedição estava longe de ser um facto, voltaram as
vistas para outro lado e decidiram, apoz diversas machinações, que o que
havia a fazer era _propaganda_ muito activa e muito eloquente.

«D'este accordo partiu a ideia de fundar um jornal republicano, já se
vê, que tomasse a dianteira a todos os que já existiam e que, para a
nossa impaciencia, pareciam excessivamente deficientes.

«Alvitrou-se que se lançasse o jornal a publico o mais rapidamente
possivel, dentro de quinze dias, dentro de um mez--e quando se discutiam
as bases d'essa publicação imprevista e fulminante, lembrámos que um
jornal, tal como o sonhavamos, desencadeando uma tormenta de paixões
populares, só poderia nascer e cobrir-se de gloria no Porto, que até
então não dera grandes signaes de vida civica, mas que se nos
affigurava, pela sua tradicção e pelas nossas superstições, o unico
centro de população portugueza susceptivel de soltar o primeiro de
liberdade de que nos propunhamos ser os interpretes.

«Lisboa, inçada de uma população heterogenea, disseminada n'uma grande
área e dividida pelas opiniões mais diversas, foi posta de parte, como
pouco propicia para o exito do nosso emprehendimento, e adoptou-se o
Porto com enthusiasmo e esperança. Estes dois homens não dispunham,
porém, de uma moeda de cobre que lhes permittisse acalentar tão vasto
sonho, e, por outro lado, não tinham um nome que os auctorisasse a
lançar-se nas luctas politicas, em meio da confiança dos que iam ser
seus amigos e cumplices.»


Apesar d'isso, João Chagas poz-se a caminho da capital do Norte,
alcançou o concurso do velho democrata José Sampaio (Bruno) e em breve
formou-se uma modesta empreza com o capital sufficiente para a fundação
da ambicionada gazeta. O primeiro numero da _Republica_--tal era o
titulo do novo jornal--sahiu a 18 de abril de 1890 e, embora esse e os
numeros seguintes traduzissem ás claras o radicalismo das aspirações do
seu director, a verdade é que o diario logrou pouca vida e pouco tempo
depois suspendia a publicação. Em setembro do mesmo anno, João Chagas,
recebendo o auxilio efficaz de tres democratas, Dyonisio dos Santos
Silva, Joaquim Leitão e Alvarim Pimenta, voltou a insistir na creação
d'uma folha demolidora e fez sahir a _Republica Portugueza_, que acolheu
na sua redacção toda uma pleiade de velhos e jovens combatentes,
animados por egual do desejo de derrubar o regimen. O artigo de
apresentação inserto no primeiro numero dizia assim:


«A obra d'este jornal será inteiramente e desassombradamente
revolucionaria. Tanto vale dizer que será um jornal de combate e
dirá tudo o que fôr mister:

«a despeito da vontade pessoal do rei;

«a despeito da tyrannia dos governos;

«a despeito do odio e da antipathia dos homens e dos partidos que
exploram o paiz.»


No primeiro numero da _Republica Portugueza_ tambem foram estampados os
retratos do rei e de dois dos ministros, precedidos d'estas palavras:
_Pelourinho: Os tres de Inglaterra_. Nos outros logares do jornal
explodia a incitação á revolta, usando-se d'uma linguagem que nunca até
ali fôra empregada com tanta franqueza. D'aqui resultou o crear-se, pelo
estimulo do exemplo, uma atmosphera de decisiva batalha, que nem os
acontecimentos nem os homens haviam ainda preparado. Affirma-o João Chagas:


«A revolta de 31 de janeiro pode attribuir-se em grande parte ás
instigações directas d'esse jornal, o qual, por seu turno, se veiu a
publico, não foi senão em virtude de circumstancias que não se
produziriam sem o conflicto diplomatico anglo-portuguez. Por isso
reputamos esse conflicto a causa unica do movimento revolucionario do
Porto, que, sem elle, nem encontraria meio idoneo em que se consumasse,
nem agentes que o provocassem. Dar-se-hia outro, mais tarde, e em outras
circumstancias. Esse não».


Na _Republica Portugueza_ collaboraram José Sampaio (Bruno), Julio de
Mattos, Basilio Telles, Latino Coelho, Elias Garcia, Gomes Leal,
Heliodoro Salgado e, o que é mais interessante fixar, varios officiaes
do exercito--um dos quaes, em serviço na guarda municipal, teve um dia
ensejo de ver querellada a sua prosa. A par d'essa collaboração,
logo que a _Republica Portugueza_ viu a luz da publicidade, arremettendo
violentamente contra as instituições, appareceram um sem numero de
communicações «sob a forma de cartas e manifestos, de soldados, cabos e
sargentos da guarnição portuense, a principio, depois de militares das
guarnições da provincia, por ultimo de officiaes de todas as graduações
já do Porto já de Lisboa». E os que as enviavam ao jornal faziam-no de
modo tão explicito que, em certa altura, houve necessidade de destruir
uma boa parte da papelada, receiando-se que ella cahisse em poder dos
defensores do regimen e collocasse os signatarios em situação
compromettida. Como amostra da linguagem empregada n'esses documentos,
damos a seguir o trecho d'uma carta enviada n'essa occasião á _Republica
Portugueza_ por um grupo de officiaes transmontanos:


_Camaradas: A mãe-patria agonisa. É preciso que seus filhos a salvem sem
demora, porque a sua salvação é do nosso dever. Salvemos a patria
proclamando a Republica. Camaradas: Não ha tempo a perder._


D'aqui se deprehende facilmente que os acontecimentos de janeiro de 1890
não tinham apenas perturbado a massa generosa do povo, mas egualmente o
exercito, que se sentira molestado nos seus brios. Como toda a nação, o
exercito reclamava o desaggravo. E esse estado de animos não se revelava
simplesmente nas communicações dirigidas á _Republica Portugueza_, mas
tambem em dois orgãos da classe militar, o _Sargento_ e a _Vedeta_, que
deram á imprensa democratica um forte contingente para a sua propaganda
subversiva. O _Sargento_, por exemplo, exclamava com uma audacia que ia
a todo o genero de infracções disciplinares:

«O exercito aguarda o plebiscito da nação, sem as restricções, as
formulas e os sophismas constitucionaes; o plebiscito dos cidadãos
livres e honrados na urna livre e honrada; o plebiscito de protesto e da
representação nos comicios; ou o plebiscito da revolução nas barricadas.

«O povo é o poder legislativo; o exercito é o poder executivo. O povo é
a vontade; o exercito é a acção. O povo é a soberania; o exercito é a
força. O exercito não é uma guarda de suissos; o exercito não é uma
casta. O exercito é a nação armada e é a democracia armada».


A linguagem da _Vedeta_ não era menos arrojada e expressiva. A irritação
na classe militar augmentava de dia para dia, e porque o governo de
Hintze Ribeiro, sempre cuidadoso de rodear o throno do maior numero de
garantias, entrara a valer no caminho das repressões, transferindo
officiaes e mandando para o serviço do cordão sanitario, que então
guarnecia a fronteira, certos contingentes de corpos suspeitos de
rebeldia. Por outro lado, em agosto, o mesmo governo apresentava ao
parlamento o tratado com a Inglaterra e esse novo acto de vergonhosa
submissão ante a _fiel alliada_, longe de acalmar os espiritos, aguçara
extraordinariamente as ideias revolucionarias.

A medida ia a trasbordar... N'uma noite d'aquelle mez, um grupo de
segundos sargentos e cabos de infantaria e caçadores, sem que a sua
_démarche_ correspondesse a qualquer trabalho previo de alliciação,
apresentou-se na redacção da _Republica Portugueza_ e um d'elles,
Annibal Cunha, formulou o plano da rebellião. Tratava-se de fazer sahir
infantaria 18, para o que diziam contar com o apoio de grande numero dos
seus camaradas, depositando antecipadamente na alameda da Lapa, proxima
do quartel, uma certa quantidade de espingardas de velho typo,
existentes na arrecadação do regimento. As espingardas serviriam para
armar os cidadãos que fosse possivel ligar á aventura.

Exposto o plano, o grupo prometteu voltar ao jornal e voltou, com
effeito, desferindo então mais largos vôos, ampliando a esphera do seu
emprehendimento. Não era facil, porém, realisar na occasião qualquer
tentativa e, apoz acalorada discussão, foi decidido aguardar o regresso
ao Porto das tropas empregadas no cordão sanitario. Mas esse grupo,
tendo iniciado o contacto directo com os homens que propagavam pela
palavra e pela escripta o ideal republicano, não tardou que outros
militares o imitassem e, dentro de semanas, a redacção da _Republica
Portugueza_ passou a ser frequentada por dezenas de sargentos, cabos e
soldados da guarnição do Porto, todos dispostos a collaborar na obra da
revolução. Quer dizer: o _complot_ militar formava-se e avolumava-se
gradualmente, espontaneamente, sem que os dirigentes da politica
democratica para elle houvessem contribuido com o mais insignificante
pedido de concurso.



CAPITULO IX

O dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento


Comtudo, tornava-se necessario acceitar as adhesões que irrompiam cada
vez mais numerosas e inflammadas e canalisal-as, dando-lhes orientação
perfeitamente definida. João Chagas e a redacção da _Republica
Portugueza_ procuraram entender-se, para tal effeito, com o dr. Alves da
Veiga, que ao tempo gosava no Porto da situação d'um chefe de
partido e dividiram com elle as responsabilidades da conspiração. Até o
momento, os republicanos do Porto tinham-se limitado, na espectativa dos
acontecimentos, a agitar a opinião por meio da imprensa e dos clubs; o
directorio do partido, presidido por Elias Garcia, procurára iniciar um
movimento egualmente de caracter militar e delegára em Basilio Telles o
encargo de o secundar na capital do Norte. No emtanto, como de todos os
republicanos portuenses o dr. Alves da Veiga era o que dispunha de maior
actividade organisadora, foi elle que desde logo assumiu a chefia civil
da conspiração, continuando Basilio Telles a operar de concerto com o
directorio, extranho em absoluto a esta primeira phase dos
acontecimentos. E assim, em setembro de 1890, lançando mãos á obra, o
illustre jurisconsulto preparou nas provincias do Norte diversos
_comités_ revolucionarios que deviam secundar, no ensejo propicio, a
iniciativa do Porto.

[Ilustração: Capitão Leitão (1891)]

Restava encontrar quem reunisse á sua volta, e os estimulasse, os
elementos de lucta que se offereciam constantemente á redacção da
_Republica Portugueza_. Lançou-se os olhos sobre a figura gigantesca
de Santos Cardoso e o famoso director d'um semanario de combate--que se
propunha «pôr as calvas a descoberto»--embora soffrendo d'uma reputação
pouco cuidada, appareceu immediatamente como o homem de acção capaz de
aggremiar os officiaes inferiores da guarnição do Porto que se
entregavam á causa da revolta. E assim succedeu. A casa de Santos
Cardoso passou a ser o centro da conspiração dos sargentos. Mas o
director da _Justiça Portugueza_, não contente com isso, quiz ir mais
longe. Principiou a dirigir-se a varios officiaes, solicitando a sua
adhesão e a corresponder-se com o directorio, de quem recebia
communicações e mais tarde lhe conferiu um voto de confiança.


Em 17 de setembro, deu-se no Porto a unica manifestação tumultuosa que
precedeu na capital do Norte a revolta de 31 de janeiro. A sua
iniciativa partiu d'um grupo de estudantes, entre os quaes se contavam
Alberto de Oliveira e Eduardo Arttayette. Começou no café Suisso, na
praça de D. Pedro. Pouco antes, tinham sido queimados á porta do
estabelecimento varios jornaes do governo--como protesto contra a
apresentação do tratado de 20 de agosto--e davam-se vivas á Patria e
morras á Inglaterra, quando entrou no café o antigo republicano
Felizardo de Lima. Resoou uma enthusiastica salva de palmas, o estudante
Ernesto de Vasconcellos fez um discurso caloroso e alguem soltou este
grito:

--Para a rua!

Os manifestantes sahiram em massa do estabelecimento e encaminharam-se
para a rua dos Clerigos, tendo á frente, entre outros, João Chagas e o
dr. Julio de Mattos. O cortejo comprehendia individuos de todas as
classes sociaes e atroava os ares com vivas, morras e ruidosas salvas de
palmas. Dos Clerigos, os manifestantes foram á Cordoaria. Depois, em
frente da Relação, o estudante Eduardo de Sousa fez um discurso e o
cortejo encaminhou-se para a rua das Taypas, produzindo novas e
estrepitosas demonstrações deante do quartel de caçadores 9. Á porta e
ás janellas do quartel appareceram muitas praças agitando os _bonnets_.
Da rua das Taypas, os manifestantes dirigiram-se á rua do Triumpho,
entoando a _Marselheza_ e a _Portugueza_, então muito em voga. Em frente
do quartel de infantaria 10 reproduziram-se os applausos ao exercito e o
cortejo seguiu para a rua do Pombal, parando junto d'uma das casas
d'essa rua a acclamar o dr. Alexandre Braga, pae do illustre causidico
do mesmo nome. Alexandre Braga, assomando a uma janella, falou ao povo,
affirmando-lhe estar orgulhoso por encontrar nos moradores do Porto a
sua altiva e tradiccional energia.

A manifestação seguiu depois ao campo de Santo Ovidio, parando em varios
pontos do percurso para ouvir improvisados oradores. Um d'elles disse:

--O Porto precisa provar que ainda não perdeu o segredo das revoluções.

No campo de Santo Ovidio, as demonstrações patrioticas attingiram o
delirio. Alguns officiaes de infantaria 18 vieram até junto da multidão
pedir-lhe cordura. A seguir, a manifestação desceu pela rua do Almada e,
voltando á Cordoaria, passou pelo quartel da guarda municipal.
Immediatamente sahiu d'ali uma força de cavallaria e, carregando sobre a
multidão, que se refugiou no jardim, dispersou-a. Alguns individuos
responderam á pedrada, houve gritos subversivos e na refrega um
estudante ficou ferido nas costas. Reconcentrando-se, os manifestantes
desceram á rua dos Clerigos e vieram para a praça de D. Pedro. Ahi, os
soldados da guarda municipal, cravando as esporas nos cavallos,
carregaram novamente sobre o povo, acutilando-o a torto e a direito,
mettendo toda a gente debaixo das patas dos animaes, varrendo não só a
praça mas as ruas circumvisinhas e ferindo e prostrando grande numero de
pessoas. Os cafés do local foram logo fechados por ordem da policia.
Muitos feridos receberam curativo no hospital da Misericordia. No dia
immediato, a cidade reentrou no socego habitual; mas todos esses
incidentes que acabamos de relatar foram a origem d'uma nova excitação
que aggravou «a que já fundamente lavrava e havia de resolver-se no
movimento de 31 de janeiro».


Entretanto, os trabalhos para a organisação do _complot_ progrediam a
olhos vistos. Os organisadores já contavam com o concurso de varios
officiaes e porque alguns d'elles tinham apparecido nas redacções dos
jornaes republicanos, decididos, pelo menos na apparencia, a contribuir
para a derrocada da monarchia. E se é certo que no momento em que
rebentou a revolta, apenas tres d'elles conseguiram justa evidencia, a
verdade é que durante o periodo preparatorio da conspiração o numero de
officiaes que n'elle intervieram contavam-se por dezenas. Cada corpo da
guarnição do Porto, sem exclusão da guarda municipal, dava, pelo menos,
um contingente de tres officiaes, cujos nomes circulavam entre os
conspiradores e eram quasi do dominio publico. Os mais graduados eram
capitães. Por outro lado, nas provincias, onde Alves da Veiga organisara
_comités_ civis e militares, estes garantiam-lhe a sua plena adhesão. O
commandante d'uma das forças aquarteladas no Porto compromettia-se a
adherir ao movimento «caso não recebesse ordem em contrario do quartel
general». Santos Cardoso affirmava a todo o momento que o major Graça,
da guarda municipal, e que mais tarde havia de desempenhar um papel
decisivo na insurreição, mas para a suffocar, estava ao lado dos
revoltosos.

Nos quarteis, entre os officiaes, era corrente que se conspirava. As
noticias do facto transpiravam dia a dia e invadiam abertamente a
opinião. Nos cafés do Porto não se falava n'outra cousa e os agitadores
não se occultavam ao solicitar para a causa a adhesão de novos
elementos. «Crescia-se em audacia. Todos suppunham e se convenciam que
caminhavam realmente para um exito seguro». João Chagas, já na cadeia da
Relação, a cumprir a sentença imposta por um delicto de imprensa,
escrevia n'um artigo inserto na _Republica Portugueza_:


«Estou convencido a serio, porque pertenço ao grande numero dos
indisciplinados republicanos que querem a Republica--de que uma
revolução se fará dentro em breve, a mais nobre, a mais generosa, a mais
sympathica de quantas revoluções tem tentado um povo offendido, em nome
da sua dignidade e da sua honra.

«Quero-a, desejo-a, promovo-a e d'isso me ufano. Com a minha consciencia
vivo na mais perfeita beatitude. Da minha intelligencia faço o uso mais
nobre. Estou tranquillo por mim, porque pratico uma boa acção. Como
convencional, fiz commigo proprio um pacto que vae desde a liberdade á
morte. Ao serviço da minha causa puz todo o meu pensamento, todo o meu
sentimento, toda a minha acção. Quero, pois, a Republica por vingança,
por odio e por dignidade. Dias virão, cheios de alternativas, dias de
orgulho, talvez dias de infortunio--quem sabe?

«É todo um mundo a fazer! É toda uma sociedade a reformar! Vivemos sobre
lama. Os pés enterram-se-nos no solo. Quanto esforço, quanto trabalho,
quanta coragem para consolidar o chão que nos foge!... Pois bem!
Batidos, vencidos, eu, nós, os meus companheiros de combate,
recomeçaremos em qualquer ponto onde estejamos, aqui ou na terra
estrangeira, dando o nosso sacrificio pessoal, entregando a nossa
felicidade, a nossa vida á causa da patria e da liberdade. A opinião e a
historia condemnarão os que prevaricarem e, se algum de nós os julgar um
dia, dirá inexoravelmente como Manoel falando do rei de França: «Um
traidor de menos, não é um homem de menos».


As idéas de revolta inflamavam todos os corações. «Os estudantes das
escolas do paiz que já se tinham offerecido ao governo para constituir
um batalhão voluntario que fosse á Africa combater os inglezes e se
tinham visto recusados, entravam resolutamente no vasto campo da
rebellião. A mocidade academica de Coimbra, posta em contacto com os
revolucionarios do Porto, aprestava-se a tomar parte na lucta em
vesperas de travar-se. O grupo revolucionario academico--sessenta e
tantos estudantes--organisara-se secretamente e reunia-se para
exercicios de espingarda Kropatschek com o concurso dos sargentos de
infantaria 23. Formavam-se novos clubs republicanos. Nos logares os mais
publicos exhibiam-se opiniões revolucionarias. De toda a parte affluiam
exhortações e incitamentos em telegrammas e em bilhetes postaes. Todos
pediam que o movimento se iniciasse quanto antes. A impaciencia era
flagrante e, mal contida, expressava-se nos menores actos dos
conspiradores.

Alves da Veiga, tomando o pulso á agitação, ponderando os trabalhos até
então realisados e reconhecendo que o movimento necessitava á sua frente
d'um chefe militar prestigioso, abalançou-se a procurar esse official e
conseguiu a promessa formal do general Sebastião Calheiros, então
residente em Vianna do Castello. Resolvido o problema, obtida assim
uma direcção certamente efficaz no instante da revolta, aquelle official
poz-se a caminho de Lisboa, decidido a arranjar collaboradores, que o
auxiliassem em semelhante empreza. O contacto do general Calheiros com
varios dos elementos republicanos residentes na capital do paiz
prejudicou o bom andamento das cousas revolucionarias... É tempo de
descrever aos leitores, como esse facto, e outros que se lhe seguiram,
entravaram o movimento, tirando-lhe ao mesmo passo o caracter d'uma
acção conjuncta da democracia portugueza.



CAPITULO X

O Directorio recusa a sancção official á revolta


No mez de setembro de 1890, quando a redacção da _Republica Portugueza_
já concentrava um numero bastante regular de sargentos conspiradores, o
partido republicano soffreu uma dissidencia profunda. D'um lado ficou
Elias Garcia, congregando á sua volta toda a parte conservadora do
partido; do outro surgiu o tenente de caçadores Homem Christo, com todos
os radicaes. «O conflicto devia ter solução no congresso annunciado para
janeiro de 1891 e no qual os dois grupos travariam a batalha decisiva».
Apesar da dissidencia, porém, os republicanos do Porto continuaram a
entender-se com Elias Garcia, pois que este, como já tivemos ensejo de
referir, tambem trabalhava na organisação d'um movimento de caracter
militar e o seu delegado na capital do Norte, Basilio Telles, prestava
rasoavel concurso á actividade de Alves da Veiga. Santos Cardoso, por
seu lado, entrara na intimidade d'outros vultos em evidencia como
Bernardino Pinheiro e Theophilo Braga.

Em dezembro, Homem Christo, que não via com bons olhos a chefatura de
Elias Garcia e o contrariava em tudo que parecesse dimanar da sua
resolução pessoal, procurou-o e fez-lhe sentir a inconveniencia do
Directorio secundar a _sargentada_ do Porto. «A revolta de sargentos,
dizia elle a Elias Garcia, se vingar, vae ser funesta á disciplina do
exercito; mas não vinga, porque lhe falta o elemento intelligente e de
cohesão». Depois, logo a seguir, convidado por Jacintho Nunes, foi ao
Porto «estudar a situação». No Porto, Homem Christo procurou Alves da
Veiga e Rodrigues de Freitas, mas não lhes poude falar. Jacintho Nunes
propoz-lhe então uma conversa com Santos Cardoso. Homem Christo recusou,
porque odiava fundamente o director da _Justiça Portugueza_, mas depois
consentiu em procural-o, para averiguar até que ponto eram authenticos
os trabalhos revolucionarios. O encontro d'esses dois homens é assim
relatado por João Chagas, que foi quem apresentou Homem Christo e
Jacintho Nunes a Santos Cardoso:


«A entrevista não teve o menor effeito na obra que estava em via de
realisar-se e passal-a-hiamos em claro se o facto de termos assistido a
ella não nos permittisse formular uma impressão exacta da situação
reciproca dos dois homens--Santos Cardoso e Homem Christo--n'esse
curioso lance, mais tarde exposto e discutido nos tribunaes e na
imprensa. Homem Christo entrou em casa de Santos Cardoso munido de todas
as prevenções que o indispunham contra o director da _Justiça
Portugueza_. Por seu turno, Santos Cardoso recebeu-o como a um inimigo.

[Ilustração: Uma carga de cavallaria.]

«A memoria não nos soccorre de forma a podermos reproduzir, dez
annos volvidos, os termos exactos d'essa conferencia; mas a impressão
que nos deixou e que subsiste no nosso espirito é de que foi um acto
sobre o qual pesou uma profunda e mal contida irritação. Santos Cardoso,
com o seu ar fanfarrão de desafio e Homem Christo, com o seu duro e
implacavel desdem, estavam destinados a não entender-se. E foi o que
succedeu.

«Como o director da _Justiça Portugueza_, pallido, mas affectando
serenidade, a cofiar largamente a sua vasta pera, entrasse de enumerar
com aparato aquellas forças de todas as proveniencias, que já reputava
solidamente ao serviço da revolução, Homem Christo entrou, por seu
turno, de dar evidentes mostras de impaciencia, menos talvez porque
estivesse ali o homem que elle detestava, senão porque n'esse homem
detestado via o paisano a mover soldados, que de todo o tempo irritou o
espirito dos militares profissionaes. Não era realmente irritante que
aquelle adventicio, alheio a todo o saber e a todos os interesses
militares, se permittisse a impertinencia de dar sentenças a um militar
de profissão, sobre o que fossem regimentos, batalhões, companhias,
officiaes, soldados, parecendo ter a pretenção de usurpar com o seu
desplante a soberania dos chefes militares n'esse movimento feito por
sargentos que elle já parecia commandar?

«Na sua cegueira, embriagado com o que suppunha já a sua obra e com o
proprio ruido das suas palavras, Santos Cardoso não comprehendia até que
ponto se tornava antipathico ao seu interlocutor. E proseguia
inexgotavelmente, enunciando regimentos, guarnições, nomes de
officiaes... Friamente, como quem se vinga, Homem Christo impoz á sua
total ignorancia uma sabbatina cruel, reduziu-o a confessar-se em erro,
em equivoco, em mentira. Santos Cardoso embrulhava-se, mettia os pés
pelas mãos, já se agitava na sua cadeira, como procurando romper. É
certo que, finda essa penosa entrevista, Homem Christo o tivesse
maltratado, atirando-lhe ao rosto o epitheto de imbecil? Não o
recordamos e não cremos que essa palavra tivesse sido pronunciada em
termos d'elle a ouvir. Os dois homens despediram-se mesmo com cortezia.
O que recordamos com precisão é que, já na rua, Homem Christo disse:
«Vou ali falar com alguns rapazes» e que, poucas horas depois, como
tornassemos a encontral-o, accrescentou: «Isto não está tão mau como eu
pensava».


D'ahi a alguns dias, como houvesse no Porto apprehensões sobre o valor
do apoio que o Directorio dispensava ao movimento, João Chagas foi
incumbido de ir a Lisboa falar a Elias Garcia. Encontrou-o no Hotel
Atlantico, mas o chefe republicano, cauteloso e previdente, não quiz
desde logo sujeitar-se á conversa sobre tão melindroso assumpto e,
rasgando em duas metades um cartão de visita, entregou-lhe uma d'ellas
dizendo:

--Ás 8 horas, alguem lhe apparecerá com a outra metade d'este cartão. É
pessoa de confiança. Pode seguil-a.

Ás 8, com effeito, um emissario discreto conduzia João Chagas ao
Directorio, que estava reunido em casa de Bernardino Pinheiro e, uma vez
junto d'esse democrata, de Elias Garcia, Theophilo Braga e Sousa
Brandão, o director da _Republica Portugueza_ constatou que nenhum
d'esses homens hostilisava o movimento. Pelo contrario. A uma pergunta
directa de João Chagas, o Directorio respondeu que trabalhava para
secundar a revolta do Porto. E no fim, apoz animada conversa, ficou
assente que o general Sousa Brandão iria pessoalmente ao Norte
inteirar-se, _de visu_, da situação--o que fez, na realidade,
encontrando-se ali com os mais importantes elementos da conjura.


Em principios de janeiro reuniu em Lisboa o congresso do partido e
os amigos de Homem Christo triumpharam dos de Elias Garcia. O novo
Directorio, dias depois de eleito, fez circular pelo paiz um vigoroso
manifesto em que parecia dar alento aos revolucionarios, apontando-lhes
como unico caminho a seguir, perante o descalabro da monarchia, a
execução immediata do plano da conjura. «No estado actual da crise
portugueza--dizia uma passagem do manifesto, que era acompanhado d'um
novo programma partidario--só existe uma solução nacional, pratica e
salvadora: a proclamação da Republica. Só assim acabarão os interesses
egoistas que nos perturbam e vendem, só assim apparecerá uma geração
nova capaz de civismo e de sacrificios pela Patria». Mas, quasi a
seguir, o Directorio mostrou-se como que cheio de remorsos por haver
expendido doutrina tão francamente revolucionaria e, dedicando-se a
entravar os progressos, já inilludiveis, da conspiração do Porto, fez
publicar em 25 de janeiro uma circular em que dizia sem disfarce:


«Prevenimos os nossos correligionarios para que abandonem ao seu
isolamento egoista qualquer grupo perturbador que anteponha á magestade
dos principios o fetichismo de personalidades e aos interesses da
propaganda as vantagens dos lucros economicos».


E concluia:


«Aproveitamos este ensejo para lembrar ás dignas commissões a
necessidade de se proceder aos trabalhos do recenseamento eleitoral; e,
ao mesmo tempo, que todas as combinações importantes para a vida do
Partido serão communicadas e estabelecidas por um enviado especial do
Directorio, evitando assim as intervenções discricionarias de
individualidades sem mandato, que enfraquecem toda a auctoridade».


A circular visava, como se comprehende, a tirar aos conspiradores do
Porto «qualquer sombra de auctoridade official». E para que não restasse
duvidas sobre a sua significação, no dia 27, os _Debates_ publicavam um
artigo de Homem Christo, intitulado _Uma prevenção_, em que se attribuia
ao movimento o caracter d'uma _pavorosa_ urdida pelo governo e se
exclamava:


«Acautelem-se, pois, os republicanos com essas manobras. Revoluções
fazem-se. Não se dizem, nem se apregoam. Quando se dizem e quando se
apregoam, ou é desconchavo que faz rir, ou armadilha lançada aos
ingenuos e simples do mundo. E como ha muito ingenuo e muito simples,
sempre é preciso cuidado com taes armadilhas e artes de tratantes.
Cautela, pois».


Homem Christo vingava-se de Santos Cardoso e outras personalidades
implicadas no movimento, mas que lhe eram antipathicas, aggredindo-as
por essa forma indirecta e pretendendo _furar_ as probabilidades de
exito que, porventura, caracterisassem o projecto de revolta. Antepunha
á questão do partido uma questão de mero odio pessoal. E a esta
sacrificava tudo, indo até á denuncia publica e formal do que se tramava
na capital do Norte.



CAPITULO XI

A crise ministerial dos «vinte e sete dias»


Retrogrademos um pouco até á apresentação ao parlamento do tratado
anglo-luso. Este documento, tendo sido publicado no _Diario do
Governo_ em fins de agosto de 1890, levantara, como já dissémos n'outro
ponto, enorme grita de hostilidade. Os jornaes da opposição
classificaram-n'o acto continuo de: «certidão de obito passada por um
diplomata funebre a uma nação narcotisada por dois seculos de jesuitismo
e de inquisição e esterilisada por pouco mais de meio seculo d'um
constitucionalismo dissolvente e desmoralisador». Pela essencia do
tratado, Portugal não podia alienar os seus territorios africanos sem
previo consentimento da Inglaterra.

As associações mais importantes da capital pronunciaram-se altivamente
contra a ratificação de semelhante «hypotheca feita á Grã-Bretanha».
Convocaram-se comicios em diversas cidades do paiz, houve mesmo um no
Porto presidido pelo africanista Alvaro de Castellões, em que os
oradores, alguns monarchicos, tonitruaram contra o negociador do
tratado, o sr. Barjona de Freitas; de modo que no dia em que o ministro
Hintze Ribeiro se aprestou a ler o respectivo texto á camara dos
deputados, a esquerda parlamentar acolheu as suas primeiras palavras com
uma enorme pateada. A esta manifestação da esquerda corresponderam
ligeiras manifestações das galerias e a maioria rompeu em invectivas
contra a opposição, despedindo-lhe phrases como estas:

--Fóra pulhas!...

--Isso é indecente!... é de canalhas!

A opposição recrudesceu na gritaria e o tumulto generalisou-se. Serpa
Pinto, que era deputado governamental por Lisboa, subindo a uma coxia,
interveiu, clamando com intimativa:

--Nem mais uma palavra aqui, nem mais um pio!

--O que? O que diz? perguntou-lhe o padre Alfredo Brandão.

Serpa Pinto replicou:

--Nem mais um pio, sou eu que o digo.

O reverendo agarrou então o heroe pelas orelhas, sujeitando-o nos seus
dedos de ferro e a desordem tomou por momentos proporções inenarraveis.
Restabelecida a calma, o tratado foi enviado ás commissões incumbidas de
lhe dar parecer. Naufragara decisivamente por effeito do tumulto
parlamentar.


Ao cahir da tarde, esse tumulto repercutiu-se, sangrento, nas ruas de
Lisboa. O povo, que se agglomerara durante o dia no largo das Côrtes,
encaminhou-se ao terminar a sessão para os lados da Esperança. A policia
quiz dispersal-o e effectuou uma prisão que foi mal recebida pela grande
massa. Tanto bastou para que os guardas cahissem á cutilada sobre os
populares, travando-se lucta renhida, pois a multidão resistiu
corajosamente á ferocidade dos janizaros. A policia, por fim,
refugiou-se na esquadra de S. Bento, em frente das grades do largo das
Côrtes e d'ali disparou os revolvers sobre o povo, ferindo alguns
individuos e matando o operario fundidor Carlos Franco (_Antonio
Pardal_). O cadaver do infeliz foi transportado á casa mortuaria da
Misericordia e o povo acompanhou-o em cortejo dorido, convidando toda a
gente que encontrava no percurso a descobrir-se ante o «martyr
sacrificado ás iras governamentaes».

No dia seguinte declarava-se a crise ministerial. Por espaço de vinte e
sete dias, a corôa recorreu a todos os expedientes afim de constituir o
novo gabinete. Pretendia-se que o momento era azado para experimentar os
politicos que não pertenciam á rotação constitucional. De Roma veiu a
toda a pressa o sr. Martens Ferrão, mas nada conseguiu fazer. A situação
era grave, confessavam-n'o os proprios jornaes monarchicos. «Estamos
á mercê d'um movimento popular, que pode rebentar d'um instante para
outro e porque a irritação publica augmenta a olhos vistos». Chegou-se a
aventar a subida ao poder d'um ministerio de concentração, de que
fizessem parte representantes do partido republicano. A propria imprensa
democratica quasi que intimava os seus adeptos a tomarem conta das
pastas vagas. No estrangeiro a Republica Portugueza annunciava-se para
breve como um facto previsto, indiscutivel.

A 18 de setembro repetiram-se os conflictos populares. Apoz um incidente
motivado pela policia, no largo de Camões, de dois garotitos
inoffensivos, uma força da guarda municipal parou em frente do Café
Martinho, onde abancavam estudantes, jornalistas, militares, deputados,
gente, emfim de todas as classes, e sem previo aviso desfechou sobre
aquella mole desarmada, causando um mixto de panico e de colerico
assombro nas victimas de semelhante surpreza. Depois, a mesma força
andou em correrias selvagens pela avenida da Liberdade e arterias
proximas, espancando quem encontrava desprevenido. Quer dizer: apesar de
demissionario o gabinete regenerador, os serventuarios do regimen
recorriam ao emprego da brutalidade e da selvageria para aterrorisar o
povo e impedir o mais ligeiro gesto de censura ao regimen.

Por fim, a crise ministerial foi resolvida com a constituição d'um
gabinete extra-partidario da chefia do general João Chrysostomo e em que
eram ministros: da guerra, o presidente do conselho; do reino, Antonio
Candido; da justiça, Sá Brandão; da fazenda, Mello Gouveia; da marinha,
Antonio Ennes; das obras publicas, Thomaz Ribeiro; dos estrangeiros,
Barbosa du Bocage. Mas esta solução dada pela corôa á situação politica
do momento não logrou aquietar os animos e as primeiras providencias
decretadas pelo novo governo nada mais conseguiram do que intensificar
os odios que o throno já concitára á sua volta, e no paiz inteiro.

[Ilustração: Rodrigues de Freitas (1891)]

Iniciaram-se perseguições á imprensa e, para dar satisfação ás
reclamações inglezas sobre a rejeição do tratado de 20 de agosto,
approvou-se um _modus-vivendi_, pelo qual Portugal concedia á
Grã-Bretanha a liberdade de navegação no Chire e no Zambeze. Pela mesma
época fundou-se a chamada _Liga Liberal_, partido em que preponderou o
sr. Augusto Fuschini e que teve uma aura de sympathia, dadas as suas
apparencias revolucionarias. Falhou quasi a seguir, porque não passava,
afinal, d'uma liga de concentração de interesses conservadores. No
emtanto, a agitação popular ia crescendo, crescendo sempre, a
conspiração do Porto alargava mais e mais a importancia e o numero de
adhesões e nos fins de dezembro de 1890 já se perguntava sem disfarce e
em voz alta quando rebentava a revolta. A mocidade das escolas fremia de
impaciencia e de indignação. Guerra Junqueiro publicara o seu _Finis
Patriæ_ e as estrophes da bella poesia resoavam a todos os ouvidos como
notas vibrantes d'um canto guerreiro.

Em certa altura, Alves da Veiga apresentou-se em Lisboa e, ás
advertencias do novo Directorio, que lhe fez sentir a inopportunidade do
movimento em plena preparação effervescente, respondeu que da melhor
vontade se esforçaria por addial-o, mas que tal empreza não era facil,
porque a excitação dos elementos militares portuenses não admittia
delongas. E, a comprovar-lhe a affirmativa, deu-se um facto que marcou
por assim dizer a data da revolução, apressando-a, ou melhor,
precipitando-a. Referimo-nos a uma reunião de sargentos da guarnição do
Norte, effectuada a 24 de janeiro de 1891, n'uma casa da rua do
Laranjal. Essa reunião foi provocada por um acto do ministro da guerra,
que descontentou sobremaneira a classe. Os sargentos vinham desde muito
reclamando, por intermedio do seu orgão especial, contra a forma de
promoção; e as suas reclamações assumiram feição mais aggressiva, quando
a ordem do exercito publicada em 17 de janeiro de 1891 inseriu a
promoção ao posto de alferes de trez aspirantes,--promoção contraria á
lei, visto que por ella deviam beneficiar dois aspirantes e um 1.º
sargento.

O orgão da classe transpareceu logo esse descontentamento e um grupo de
sargentos da guarnição do Porto divulgou um protesto em que se dizia com
toda a clareza:


«Camaradas!

«Nós temos sido a pella de brinquedo dos governos nos ultimos tempos e o
nosso bom nome clama com energia para que termine este ultrage. Ha pouco
era um ministerio que, tendo-nos constantemente illudido com a promessa
de augmento de vencimento, só quando foi invadido pelo terror da agonia
é que se lembrou de que nós podiamos ser seu sustentaculo, e por isso
tentou corromper-nos, sacudindo nas nossas faces as migalhas da
toalha do orçamento. Agora é um gabinete presidido por um general,
que nós ingenuamente consideravamos nosso protector, nosso amigo
solicito e desvelado, que, tendo-nos promettido a escala de promoção por
antiguidade do curso, se curva ante as exigencias de uma aggremiação
politica em que militam muitos officiaes da arma scientifica,
respondendo com despreso á nossa ardente... e jubilosa expectativa.

«Unamo-nos todos: que haja uma só voz, um só pensamento, uma só vontade!
Só assim nos poderemos vingar impondo a nossa força e fazendo prevalecer
os nossos direitos contra a perfidia dos nossos _amigos_. Desviemos os
olhos d'este monturo pestilento, que exhala miasmas que nos asphyxiam e
volvamol-os para a alvorada que desponta no horisonte social... Tomemos
as armas nas mãos, e com fé e enthusiasmo saudemos o futuro, que elle
minorará a nossa sorte ingrata.»


Ao mesmo passo, tres sargentos-ajudantes da guarnição de Lisboa redigiam
e faziam imprimir a minuta d'uma petição que enviaram a todos os corpos
de infantaria e caçadores, a fim de ser assignada individualmente pelos
1.os sargentos d'esses corpos e remettida ao parlamento. A petição
solicitava que a promoção continuasse a ser regulada na razão de um
terço das vacaturas que occorressem no posto de alferes.

Recebido no Porto esse documento, os sargentos da guarnição
apressaram-se a reunir para o apreciar.



CAPITULO XII

«E as armas que nos foram entregues para defeza das instituições,
voltal-as-hemos contra ellas»


Á reunião na casa da rua do Laranjal--casa habitada por um individuo da
intimidade de Santos Cardoso--presidiu o alferes de caçadores 9, Simões
Trindade, homem da absoluta confiança da classe e que com ella cooperava
no movimento da revolta. Mas os sargentos presentes, não se contentando
com o subscreverem individualmente a petição enviada de Lisboa, foram
mais longe: approvaram a minuta d'um verdadeiro _ultimatum_, ameaçando o
governo com a sedição caso elle não respeitasse a lei no tocante ás
promoções. A ameaça continha entre outras esta phrase: «..._e as armas
que nos foram entregues para defeza das instituições voltal-as-hemos
contra ellas_».

O sargento-ajudante de infanteria 18 Arthur Ferreira de Castro, que
tambem tomara parte na reunião, conseguiu obter copia do documento e
entregou-o ao capitão do mesmo regimento Alexandre Sarsfield, que, por
sua vez, o passou ao coronel Lencastre de Menezes. Estava denunciado o
proposito dos sargentos e não tardou que o ministerio da guerra, tendo
conhecimento minucioso do que se discutira na assembléa da rua do
Laranjal e de posse de uma lista de officiaes inferiores que a ella
tinham assistido, desatasse a transferir quantos se lhe affiguravam
suspeitos de republicanismo.

Quer dizer: a traição do sargento-ajudante Arthur Ferreira de Castro não
só revelou ao governo a existencia da conspiração como, provocando as
immediatas represalias, contribuiu directamente para que os
revolucionarios apressassem a sua sahida e a levassem a cabo em
condições bastante tumultuarias. «Sem a denuncia do sargento
Castro--affirma uma testemunha dos acontecimentos--os sargentos do Porto
não se teriam precipitado e a revolta, que se daria um mez ou dois mais
tarde, teria tido provavelmente um chefe militar, um estado maior bem
mais numeroso, um plano mais intelligente e, seguramente, uma maior e
mais vasta repercussão. Não seria, então, uma revolta: seria uma
revolução, incendiando pelo menos metade do paiz e á qual era de
presumir que a outra metade adherisse, dada a disposição geral dos
espiritos para uma transformação politica, que um grande numero reputava
indispensavel e que os outros acceitariam sem protesto. Assim, foi um
homem, um homem só, obscuro, desconhecido, vindo do anonymato e da
treva, que subverteu a obra da redempção do anno de 91, entravando a
evolução politica da nação, fazendo parar com seus fracos pulsos a ideia
que já se precipitava na gloria de um futuro talvez maravilhoso,
mergulhando--quem sabe?--a bella Patria portugueza na desesperação de um
incerto destino ou de um outro, porventura, funestamente irremediavel».

Ordenadas as transferencias de sargentos compromettidos no movimento,
todos elles foram procurar Santos Cardoso e instaram energicamente para
que se não addiasse por mais tempo a sua eclosão. Santos Cardoso
entendeu-se com o dr. Alves da Veiga e este, convencendo-se de que não
havia maneira de protelar a revolta embora inopportuna, tratou de, em
curto espaço, ultimar os preparativos dando certa unidade aos elementos
que, fora do Porto, o deviam secundar no momento decisivo. Santos
Cardoso ainda tentou um derradeiro esforço junto dos sargentos mais
exaltados, mas estes, vendo nas evasivas do director da _Justiça
Portugueza_ um receio injustificado, puzeram a questão n'estes
termos: «Se no dia 30 de janeiro não resolverem fazer a revolução,
sahiremos para a rua á frente dos soldados».

Não havia que hesitar. No dia 30, Santos Cardoso e o dr. Alves da Veiga
decidiram o general reformado da arma de engenharia Correia da Silva a
tomar a direcção do movimento, mas o general só acceitou o encargo «até
ao momento em que algum official superior, em effectivo serviço,
apparecesse a assumir o commando das tropas revoltadas ou ainda se os
officiaes que se apresentassem á frente d'essas tropas concordassem em
que fosse elle o chefe».

D'ahi a uma hora, effectuou-se uma reunião em casa d'uns parentes do
general, na rua de Malmerendas, reunião para que foram convocados todos
os officiaes adherentes e os individuos da classe civil destinados á
execução do plano revolucionario. Á mesma hora realisava-se n'uma casa
da rua da Alegria uma reunião de cerca de setenta sargentos e estes,
receiando que o general Correia da Silva opinasse pelo addiamento da
revolta, foram á rua de Malmerendas demovel-o d'esse proposito.

O general ouviu-os e, por fim, concordou-se em que o movimento
rebentaria na madrugada. Faltava discutir o plano revolucionario. Para
isso marcou-se nova reunião, ás 10 da noite, na rua de Santa Catharina.
Talvez n'ella comparecesse maior numero de officiaes, visto que nem
todos os compromettidos tinham recebido o respectivo aviso e a primeira
reunião na rua de Malmerendas caracterisara-se pela falta de muitos
d'esses elementos.


«Para aproveitar o tempo que decorria até se realisar essa reunião,
entendera o general, bem como o dr. Alves da Veiga, que fossem
procurados alguns officiaes de superior graduação, convidando-os a
comparecer em casa d'um conhecido negociante do Porto. Esses officiaes
eram o coronel, o tenente-coronel e um major de caçadores 9, que se
recusaram a acceder ao convite. Lembrou-se, em vista da recusa d'estes,
o nome d'outro official, que, sem ter uma graduação superior, era
comtudo muito estimado entre os seus camaradas e gosava de um notavel
prestigio entre os seus subordinados. Este alvitre, porém, não foi
aceito; por consequencia, o general Correia da Silva ficaria, até
ulterior resolução e dependendo isso das circumstancias occorrentes, com
o commando em chefe das tropas revolucionarias».


Ás 10 da noite, na reunião da rua de Santa Catharina compareceram apenas
o general, o dr. Alves da Veiga, Santos Cardoso, diversos civis, alguns
sargentos, o capitão Leitão e um alferes da guarda fiscal. Os outros
officiaes compromettidos não compareceram, ou, melhor, não foram
convidados a comparecer. Durante alguns instantes, o general e o capitão
Leitão discutiram o plano revolucionario. O primeiro entendia que as
tropas deviam concentrar-se na praça da Batalha e tomar desde logo posse
do quartel general, do governo civil e do telegrapho, cujos edificios
estão reunidos n'aquelle local. O capitão Leitão desejava que a
concentração se fizesse no campo de Santo Ovidio e contrariava a
indicação do general, porque, dizia, os revolucionarios necessitavam
antes de tudo vencer uma difficuldade: a da sahida do quartel do
regimento de infantaria 18. A respectiva officialidade, quasi toda
residindo dentro do edificio, fôra, decerto prevenida, do proposito dos
sargentos pela denuncia do traidor Castro e trataria de oppôr-se a que
elles sublevassem as praças. Por conseguinte, só com a presença dos
outros corpos nas immediações do quartel é que infantaria 18 poderia,
quebrando os laços da disciplina, cooperar na insurreição. Quanto ao
quartel general, os revoltosos contavam que o sargento commandante da
guarda o submetteria sem difficuldade.

O general Correia da Silva insistiu mais do que uma vez na superioridade
do seu plano estrategico, mas Santos Cardoso, collocando-se ao lado do
capitão Leitão, fez vingar a ideia de se effectuar a concentração das
tropas no campo de Santo Ovidio. Assentou-se tambem em que alguns dos
civis presentes procederiam á detenção das auctoridades governamentaes,
mas com a condição de não exercerem sobre ellas a menor violencia, salvo
se isso se tornasse absolutamente indispensavel ao bom exito da causa.
Do mesmo modo se deveria proceder para com os officiaes que se não
solidarisassem desde logo com o movimento. Por ultimo: o general Correia
da Silva só seria chamado ao campo de Santo Ovidio, se depois das tropas
ali concentradas não apparecessem a commandal-as officiaes d'uma certa
graduação.

Dissolvida a reunião, o dr. Alves da Veiga e outros conjurados
encaminharam-se para a loja maçonica o _Gremio Independencia_, d'onde
deviam lançar as ordens necessarias para a execução do plano pouco antes
delineado. A essa hora, no Porto, a noticia de que dentro em pouco
rebentaria a revolta já se divulgara o bastante para que a maioria da
população a não ignorasse. Mostra-o o depoimento do ex-tenente Coelho,
consignado no livro que escreveu de collaboração com João Chagas. Vamos
transcrevel-o, porque evidencia egualmente a precipitação com que,
chegado o momento decisivo, se tocou a reunir nos arraiaes revolucionarios:


«Entrando o tenente Manuel Coelho, por um mero acaso, na noite de 30 no
Café Central, que era então um verdadeiro foco de conspiração, veiu
a saber que se preparava a revolução para a madrugada immediata de 31 em
circumstancias que é conveniente registar. Depois de haver trocado
algumas palavras com um seu camarada, tomou assento a uma das mezas do
café. D'ahi a pouco acercou-se-lhe o dr. João Novaes, que lhe disse:

[Ilustração: Levantando os feridos]

«--Já sabes que a revolução se projecta para a madrugada?

«--Não, respondeu-lhe; e até me surprehende muito a noticia, porque o
capitão Leitão me viu no quartel e de nada me falou.

«--Pois toda a gente diz isso ahi á bocca cheia. Sabem-n'o todos, até
mesmo a policia.

«--Não sei de nada, e quer-me parecer que, se a noticia tivesse algum
fundamento, certamente eu teria sido procurado.

«--Tens razão, com effeito, replicou o dr. João Novaes; mas corre o
boato com tal insistencia que me parece que elle tem fundamento. Mas
eu vou já sabel-o; vou falar ao dr. Alves da Veiga.

«O dr. João Novaes sahiu. Pouco depois entravam no Café Central o
tenente da cavallaria 6 Vaz Monteiro, destacado no Porto, e o tenente
Margarido de cavallaria da guarda municipal. Aquelle veiu immediatamente
sentar-se junto de Manuel Coelho, acercando-se de ambos este ultimo,
que, logo depois de cumprimentar, disse:

«--Então sabes o que para ahi corre?... Diz-se que n'esta madrugada se
vae fazer uma revolução republicana.

«--Não ouvi ainda falar de tal.

«E a rir replicou:

«--Ah! que tu tambem estás compromettido!

«--Não, não sei de nada, podes crêr...

«E explicou que, se sabia a noticia, era por causa do impedido d'um
official de infantaria 18 que o dissera no quartel a outras praças
d'aquelle regimento. Passados momentos, entrava de novo o dr. João
Novaes, que aproveitou o ensejo para dizer que, com effeito, estava
plenamente confirmado o boato e que o dr. Alves da Veiga lhe affirmara
que a revolução se iniciaria ás 3 horas da manhã, com a sahida dos
corpos revoltados. Entretanto, iam conversando Manoel Coelho e os
tenentes Vaz Monteiro e Margarido, em assumpto differente d'aquelle que
primeiro abordaram.

«Eram já dez e meia da noite e os freguezes do café começavam a rarear.
Preparava-se Manuel Coelho para sahir, quando notou que, do guarda-vento
envidraçado do café, um individuo, que apenas havia entrevisto, uma por
outra vez, falar com o capitão Leitão, lhe fazia signal de querer
transmittir-lhe qualquer communicação. Approximou-se d'esse individuo,
que lhe disse:

«--O sr. capitão Leitão manda-me aqui para dizer a V. que deseja
falar-lhe.

«--A mim? Sabe quem sou?

«--É o sr. tenente Coelho, não é verdade?

«--Com effeito. E onde está o sr. capitão Leitão?

«--No _Gremio Independencia_. Se o consente, acompanho-o.

«Seguiram os dois. As ruas estavam inundadas e a chuva persistente fazia
caminhar rapidamente. Emfim, chegaram á rua Fernandes Thomaz, esquina da
rua de Santa Catharina, tendo atravessado por uma das ruas lateraes do
mercado do Bolhão. Subiram a longa escadaria do edificio onde estava
installado o _Gremio Independencia_ e penetraram n'uma sala do segundo
andar, onde estava reunido um grande numero de individuos. Eram os
irmãos d'esse gremio, que tinham sido convocados pelo dr. Alves da
Veiga, com o fim de encobrir a concorrencia áquella casa, de outras
pessoas estranhas á associação.

«Á volta do bilhar, jogando, andavam dois homens, um dos quaes era o
capitão Leitão, trajando á paisana: grosso jaquetão de pelles, calça
clara unida á perna e chapéo desabado. No nariz, a sua luneta de vidros
escuros, que elle usava, mais que por outro motivo, pela necessidade de
occultar a fixidez do olho direito immobilisado, quasi completamente,
pela paralysia dos musculos da face. Muito embaraçado, olhou em redor e
disse:

«--O dr. Alves da Veiga está lá em baixo; vamos falar-lhe.

«Depôz o taco e desceram ao primeiro andar. N'um pequeno gabinete
interior, cuja forma se approximava do symbolico triangulo,
encontravam-se, cada um sentado á sua meza, Santos Cardoso e o dr. Alves
da Veiga. Em pé, e como esperando ordens, estava um homem ainda novo,
pequeno bigode, quasi um buço sombreando-lhe o labio, grandes olhos
vivos que pareciam prestes a sahir das orbitas, estatura menos que meã,
largos hombros, busto amplo, poisando em pernas robustas; era
Annibal Cunha, então cabo de infantaria 18, estudante da Escola
Polytechnica. O dr. Alves da Veiga estava com um lapis pondo signaes em
frente dos nomes registados no _Almanach Commercial_ e designados sob a
rubrica--_Regimento de infantaria n.º 10_.

«--É certo, perguntou Manuel Coelho, o que por ahi corre, da projectada
revolução para esta madrugada?

«Sim, era certo; não tinha podido ser de outro modo. Santos Cardoso, do
lado, affirmou com superioridade:

«--Estou a fazer os avisos.

«Com effeito, em cartões de visita, com o seu nome, escrevia--_pede a V.
para comparecer ás 3 da madrugada no campo da Regeneração_. E mettia
depois esses cartões em envelopes nos quaes escrevia o nome d'um
official, entregando-os a Annibal Cunha.

«O tenente Manuel Coelho retirou-se preoccupado. As circumstancias não
eram de natureza a fazer-lhe acreditar n'um triumpho. Todavia, era
forçoso acceitar os factos como elles se apresentavam. Era tarde para
discutir e inopportuno desobedecer».


Emquanto no _Gremio Independencia_ se passava isto que acabamos de
transcrever, varios republicanos em destaque, reunidos n'um gabinete do
Café Suisso, preparavam o manifesto que desde o inicio da revolta seria
lançado: _Aos camaradas do Norte e Sul de Portugal; aos cidadãos do
Porto; aos cidadãos portuguezes!_ Esse manifesto, composto e impresso na
typographia da _Republica Portugueza_--e cujos exemplares foram
destruidos ao ser um facto a derrota dos insurrectos--principiava assim:


«A força militar do Porto acaba de dar por findo o reinado do sr. D.
Carlos de Bragança. Proclamou a Republica. Não se trata d'uma simples,
d'uma transitoria revolta. Foi uma revolução que se fez».


Expunha a seguir, a traços largos, a situação do paiz, _situação
aviltante, deshonrosa, receiante_. Era um documento em que cada um dos
convivas d'essa historica ceia no Café Suisso puzera a sua «nota
pessoal, philosophica, ou anedoctica» e que surgira dos commentarios
calorosos, apaixonados, sobre o resultado do movimento que não tardaria
a rebentar.

Mas, emquanto os conspiradores davam a ultima demão aos preparativos da
revolta, as auctoridades civis e militares tomavam conhecimento d'uma
parte do plano concebido e concertavam os meios de o inutilisar. Ás 7 da
noite de 30, um amigo do governador civil, Joaquim Taibner de Moraes,
tendo ouvido a dois sargentos que infantaria 18 se insurreccionaria na
madrugada de 31 «por causa da transferencia d'um sargento ajudante», foi
avisal-o do caso e aquella auctoridade dirigiu-se immediatamente ao
quartel do Carmo, a prevenir o commandante da guarda municipal.

A conferencia foi rapida. N'ella ficou assente que o commandante da
guarda concentraria, sem grande apparato, toda a força de que pudesse
dispôr e que mandaria vigiar de perto os outros quarteis militares dados
como suspeitos. Combinado isto, o governador civil e o commisario da
policia procuraram o commandante interino da divisão--o general
Scarnichia marchara pouco antes para Lisboa--e esse commandante foi, em
pessoa, ao quartel de infantaria 18, onde, em face das suas ordens,
todos os officiaes passaram a exercer a maior vigilancia nas respectivas
companhias, «aguardando o que de anormal se preparava».

Por outras palavras: á meia noite de 30, as auctoridades civis e
militares do Porto sabiam perfeitamente o que estava planeado e
repousavam descançadas, suppondo ter providenciado de modo a impedir
qualquer tentativa de sedição. Comtudo é curioso registar que essas
providencias se haviam limitado á policia civil, á guarda municipal e ao
regimento de infantaria 18 e que aos commandantes de infantaria 10 e
caçadores 9 nada fôra communicado ou transmittido que lhes revelasse
_officialmente_ o proposito dos revolucionarios.



CAPITULO XIII

Vinte annos apoz a derrota...


A manhã do dia 30 surgira nevoenta, tristonha, açoitada pelo vento
agreste do inverno. D'ahi até a noite alta, a chuva cahiu a espaços
inundando a cidade e afastando das ruas do Porto a massa de transeuntes.
João Chagas, encurralado na cadeia da Relação, recebera á tarde a visita
de Alves da Veiga, que sombrio e preoccupado lhe dissera, falando do
movimento prestes a rebentar:

--Vae ser desastroso...

--Evite.

--É tarde...


Ao começo da noite, os soldados de guarda á cadeia e que estavam no
segredo da conspiração foram despedir-se de João Chagas:

--Vimos dizer-lhe adeus... até logo.

--Até logo.


Que se passou depois? Fala o brilhante jornalista, confiando ao auctor
d'esta narrativa as suas impressões da madrugada tragica:

«Já decorreram vinte annos sobre a derrota... Na vespera á noite, assim
que a treva obscureceu o ambiente, começaram para mim horas inquietas e
perturbadas. Sabia que a insurreição devia rebentar ás tres da
madrugada. Tirei o relogio do bolso. Eram oito horas. Distrahi-me em
coisas futeis, bebi café e fumei como um desesperado. Ainda, como
distracção e talvez para surprehender mais facilmente o primeiro rumor
d'essa arrancada decidida contra a monarchia, abri a janella. A noite,
humida, afogava a cidade. Houve um instante, já quando se approximava a
hora marcada para o rebentar do movimento, que suppuz aperceber o
barulho de carros á desfilada...

«Ás duas e meia, gelado pelo frio, comprehendi que se fazia um silencio
magestoso, o silencio do somno pesado. Mas d'ahi a pouco levantou-se um
clamor enorme e distingui gritos, brados, vivas, vozes confusas, retinir
d'armas. Depois, uns minutos de treguas, minutos terriveis de anciedade
e, _perto de mim_, o passo cadenciado d'uma força militar... Eu, que não
resava, fiz _in mente_ uma grande e ferverosa prece _por elles_. A força
não tardou a desapparecer e voltou a agitar-me a persuasão de que tudo
recahira em tranquilidade absoluta. Os minutos escoaram-se
dolorosissimos, augmentando a minha impaciencia, aguçando a minha
ignorancia do que occorria. Cheguei a ter a impressão de que essa
guarda-avançada dos insurrectos se submettia completamente e que a mesma
noite que a vira nascer a veria sepultar. Horrivel e febril essa
hesitação do meu espirito, sem outro horizonte que uma neblina glacial,
torturante e a galhofa das sentinellas que vigiavam o meu carcere.

«A fadiga e a commoção prostraram-me. Exhausto, renunciei a saber, a
indagar, a prescrutar. Tombei no leito, fechei os olhos e dormi. Quando
despertei, era manhã clara. A nevoa dissipara-se e a cidade surgia
cheia de luz. Corri á janella. O socego parecia completo. O dia
annunciava-se lindo, calmo. Mas não tardou que um homem de quem me não
lembro o nome, entrando na cella, me communicasse que a revolução estava
na rua, e, seguindo-o e enfiando a cabeça por umas grades de ferro,
presenciei effectivamente um dos episodios do combate. O movimento
estava realmente no seu auge. A fuzilaria crescia de minuto para minuto.
Convencido do triumpho, preparei-me para a sahida da cadeia... Não
tardariam decerto a vir-me buscar.

«O resto é por demais sabido. Ao começo da tarde, a bandeira
revolucionaria, que até então tremulara no edificio da Camara,
desappareceu com o estrondear do canhão. Esse trapo, que era a minha
esperança, sumira-se após um tiroteio pavoroso, encarniçado. Ao declinar
do dia, tive a sensação da derrota. Sobre a cidade cahia verdadeira
mortalha. Tornei de novo a estender-me no leito, dormi doze horas sem
interrupção e, quando despertei, reconheci-me excellentes disposições
para affrontar a tempestade que ia desencadear-se, impiedosamente, sobre
a minha cabeça...»


Vejamos o que á mesma hora succedia em Coimbra, onde, como em Santarem e
outras cidades do paiz, a organisação revolucionaria portuense contava
um auxilio efficaz.

Resolvido que a sedição se iniciaria ás 3 da madrugada de 31, Alves da
Veiga mandou a Coimbra Ricardo Severo com o encargo de communicar a
Silvestre Falcão: «que estivessem todos a postos, mas que só sahissem em
armas quando recebessem um telegramma em cifra, isto para evitar
impulsos temerarios.» Ricardo Severo desempenhou-se cabalmente da missão
e ás 10 da noite reuniam cerca de setenta rapazes na casa dos Arcos do
Jardim, onde moravam, alem de Silvestre Falcão, Augusto Barreto,
Guilherme Franqueira e Fernando Brederode.

Em primeiro logar, a assembleia nomeou um _comité_ dirigente, que ficou
constituido por Silvestre Falcão, Pires de Carvalho, Augusto Barreto,
Barbosa de Andrade e Antonio José d'Almeida. Depois, Malva do Valle foi
alugar o telegrapho, para se conservar até de manhã por conta do
_comité_ e operou-se a juncção do elemento academico com os outros
revolucionarios de Coimbra, combinando-se por ultimo o seguinte:

[Ilustração: José Sampaio (Bruno) (1891)]

Logo que Silvestre Falcão recebesse na Alta o telegramma cifrado de
Alves da Veiga, dez ou doze estudantes desceriam a ladeira do Pio até á
parte posterior do quartel de infantaria 23, onde receberiam as armas e
as munições destinadas a armar os conspiradores. Em seguida todos elles
atravessariam a cidade, descendo pelo Quebra-Costas e a rua Visconde da
Luz até o quartel. Ahi bastaria uma manifestação ao regimento, que, á
voz dos sargentos revoltados, viria para a rua em sedição. Removidos
todos os obstaculos que, porventura, se apresentassem á execução do
plano, os conspiradores iriam depôr a sua obra nas mãos de José
Falcão, que, informado de tudo, horas antes, puzera o seu esforço ao
serviço da Republica.

Um dos estudantes ainda lembrou a conveniencia de se destacarem grupos
armados para junto das residencias dos officiaes do 23, a fim de lhes
embargarem o passo, caso pretendessem sahir em direcção ao quartel, mas
Silvestre Falcão ponderou que isso era perigoso e podia provocar uma
série de assassinios e a assembleia revolucionaria decidiu «caminhar
temerariamente, lançando o exito da empreza aos azares da guerra».


Até á manhã clara, os estudantes conservaram-se reunidos na Alta
esperando o telegramma do dr. Alves da Veiga. Mas o telegramma não
chegou e assim que todos elles adquiriram a convicção de que o movimento
do Porto fôra mal succedido, dispersaram desalentados, ainda que
dispostos, no intimo, a renovar mais tarde a audaciosa tentativa.

E muitos d'elles a renovaram com effeito. As datas de 28 de janeiro e 4
e 5 de outubro, trouxeram á evidencia uma boa porção dos nomes dos
academicos conspiradores de 1891.



CAPITULO XIV

A alvorada triumphante: caçadores 9 inicia o movimento


Duas da madrugada...


Terminada a reunião na rua de Santa Catharina, os sargentos da guarnição
portuense que a ella tinham assistido dirigiram-se aos seus quarteis e
tomaram desde logo as providencias necessarias para a sahida das
forças no momento opportuno, preparando-a de modo que á rapidez de
execução se alliasse o affastamento da intervenção de qualquer official
que, pelo seu prestigio, conseguisse contrariar a revolta.

Caçadores 9 foi o primeiro regimento a dar o signal da sedição. As
companhias formaram na parada do quartel sob o commando dos sargentos e
emquanto dois d'elles, Galho e Bandarra, e algumas sentinellas
procuravam impedir que o coronel Malheiro, o official de inspecção e o
tenente ajudante saissem dos aposentos e se mostrassem aos soldados, o
1.º sargento Abilio[A] soltou o primeiro grito de _Viva a
Republica_!--calorosamente repetido por todos os seus subordinados.
Entretanto, apesar de todas as precauções tomadas pelos revoltosos,
o coronel e o tenente-ajudante appareceram na parada e o coronel,
dirigindo-se ao 1.º sargento, exprobou-lhe em phrases paternaes a sua
attitude:

--Tambem você, Abilio... e eu... que era tão seu amigo!

--Meu coronel--respondeu o interpellado--v. ex.ª dar-nos-hia grande
prazer se viesse commandar o regimento.

--Isso não...

--Nesse caso, v. ex.ª fica e nós sahimos.

O tenente-ajudante chorava que nem uma creança e pedia a todos os
sargentos que desistissem da sua audaciosa sortida, empregando os
maiores esforços n'esse sentido. O coronel Malheiro ainda tentou falar
ao regimento, para o demover do seu proposito e por ultimo exclamou para
o 1.º sargento Norberto, que, como mais antigo, commandava o corpo:

--Mande retirar essa gente para as casernas!

--Agora já é tarde, meu coronel; não pode ser...

E logo a seguir, o mesmo 1.º sargento deu as vozes do estylo:

--_Direita volver, ordinario marche_...

A intervenção do coronel Malheiro falhara por completo.


Caçadores 9, sahindo do quartel, subiu em boa ordem a rua de S. Bento e
dirigiu-se á cadeia da Relação, onde estacou. A guarda á cadeia,
fornecida por aquelle corpo, era commandada pelo alferes Malheiro. Desde
que nenhum dos officiaes, conhecidos como republicanos, que estavam
dentro do quartel, tinha querido assumir o commando do regimento, os
sargentos lembraram-se durante o trajecto de o offerecer áquelle
subalterno, que sabiam tambem professar ideias democraticas. E um
d'elles, abeirando-se da porta da casa da guarda, gritou para dentro:

--Ó sr. Malheiro, venha d'ahi...

O alferes não sahiu e a mesma voz tornou a insistir:

--Ó sr. Malheiro, tome o commando do regimento, porque o official de
inspecção não quiz acompanhal-o...

O alferes então accedeu ao convite e voltando-se para o sargento da
guarda recommendou-lhe que vigiasse bem o edificio da cadeia, não fossem
os presos aproveitar o ensejo para se evadirem. Ninguem se lembrou,
n'esse momento, que lá dentro estava João Chagas e que era natural
gosasse immediatamente da liberdade para collocar o seu nome, o seu
talento, o seu esforço individual e a sua energia ao serviço da
revolução. Pensou-se apenas--e n'isso o alferes Malheiro deu provas de
extraordinario sangue frio--em deixar guarnecida a prisão, com o receio
de que o menor descuido fizesse extravasar para as ruas do Porto a
grande massa de criminosos ali agglomerada.

Liquidado este incidente, caçadores 9 proseguiu a sua marcha em direcção
ao grupo de Santo Ovidio. Dentro de pouco reunia-se-lhe o de infantaria 10.

As condições topographicas do quartel que então alojava o segundo
d'aquelles regimentos permittiram que elle formasse na parada interior
sem que o official de inspecção desse por tal. Ás 2 e meia da madrugada,
um dos revoltados foi avisar o capitão Leitão, que morava proximo e que
não tardou a comparecer no edificio. Dirigiu-se logo á arrecadação, poz
um capacete na cabeça e tendo inquirido dos outros officiaes
compromettidos na conjura foi esperal-os para um caramanchão. Estava bem
longe de suppôr que uma vez chegado ao Campo de Santo Ovidio, teria que
assumir o commando superior das forças revoltadas...

Os minutos, no emtanto, iam decorrendo e como não apparecessem no
quartel outros officiaes republicanos, um sargento veiu convidar o
capitão Leitão a seguir immediatamente com as forças para o campo de
Santo Ovidio. Assim se fez e o regimento marchou em acelerado para o
local da concentração. Á entrada na rua da Rainha, encontrou o tenente
Coelho, que fora chamado ao quartel por um grupo de cabos. O tenente
Coelho conferenciou rapidamente com o capitão Leitão, trocou o kepi que
levava pelo capacete do 1.º sargento Vergueiro e assumiu o commando do
2.º pelotão de infantaria 10. No Campo de Santo Ovidio, os dois
regimentos formaram d'este modo: o de caçadores 9, em quadrado, proximo
da porta principal do quartel de infantaria 18; o de infantaria 10 em
dois circulos na outra extremidade do Campo.

Concluida a formatura, os soldados e os civis já então ali agglomerados
começaram a dar vivas ao regimento de infantaria 18 para o decidir a
cooperar na insurreição. Outras vozes elevaram-se:

--Viva a Republica!

--Viva o exercito!

--Abaixo a monarchia!

Momentos depois, o destacamento de cavallaria 6, alojado n'uma das
dependencias do quartel do 18, sahindo pela porta posterior do edificio,
veiu a galope formar em linha parallela á fachada. As saudações e os
vivas redobraram de intensidade. Ao mesmo tempo convergiam para o campo
as forças da guarda fiscal. O cabo João Borges apresentou-se á frente de
87 praças de infantaria e o 2.º sargento Silva commandando 24 praças de
cavallaria da mesma guarda. Quer dizer: ás 4 da manhã de 31 todas estas
forças estavam revolucionadas e só aguardavam a sahida de infantaria 18
para iniciarem marcha contra o inimigo monarchico, apenas
representado, dentro do Porto, pela guarda municipal e a policia civil.

Varios officiaes superiores tentaram, emquanto o 18 não appareceu no
local, fazer voltar aos respectivos quarteis as outras forças
sublevadas. O primeiro foi o major Graça, da _guarda pretoriana_.
Sahindo do quartel do Carmo, á frente de infantaria e cavallaria,
dirigiu-se ao Campo da Regeneração e chamando o commandante de caçadores
9 já ali estacionado, intimou o alferes Malheiro a render-se.

--Agora é tarde, respondeu o official revolucionario.

--Ainda não é...

Um cabo que ouvira a intimação exclamou:

--Se é militar, eu tambem o sou; se é portuguez egualmente o sou; mas
não posso soffrer esta tyrannia por mais uma hora!

O major Graça, em resposta, bradou:

--Querem então que haja derramamento de sangue, e sangue portuguez,
n'estes dolorosos momentos por que está passando a patria? Pois seja...

Um individuo da classe civil ia, n'esta altura, a arengar qualquer cousa
aos soldados, mas os militares oppuzeram-se, dizendo-lhe:

--Cale-se; aqui só a tropa tem voz activa.

O major Graça dispoz as suas forças nas ruas da Lapa e de Germalde e foi
dar ordens ao quartel de S. Braz. D'ahi a pouco entrou no Campo de Santo
Ovidio o sub-chefe do estado maior da divisão, tenente-coronel Fernando
de Magalhães. Encaminhou-se para o 2.º pelotão de infantaria 10 e
perguntou pelo seu commandante. Respondeu-lhe o tenente Coelho.

--Que estão a fazer aqui? disse o sub-chefe.--Mande retirar essa gente
para o quartel. Os senhores são uns doidos...

--Não é possivel, replicou o tenente. Estou sob as ordens d'um
capitão do meu regimento e, tendo sahido do quartel, insurrecionado,
para proclamar a Republica, já é tarde para recuar.

--Quem é esse capitão que commanda o seu regimento?

--O capitão Leitão.

E dizendo isto, o tenente Coelho apontou ao sub-chefe o sitio onde elle
se encontrava. Junto do commandante de infantaria 10, o sr. Fernando de
Magalhães empregou quasi as mesmas palavras:

--Mande recolher essa pobre gente a quem está a comprometter.

--D'aqui não sae ninguem, respondeu o capitão, a carta está jogada e
vamos até ao fim!...

A seguir, o tenente coronel ainda formulou novo conselho de retirada ao
alferes Malheiro, mas ninguem lhe obedeceu, como, de resto, tambem lhe
não obedeceriam se elle, em vez de meios suasorios, procurando impôr o
prestigio da sua personalidade, tivesse tentado outros processos mais
violentos.


Deixemos as forças revoltosas especadas no campo de Santo Ovidio e
cercadas por todos os lados pela guarda municipal e vejamos o que se
passava no quartel de infantaria 18. A insurreição d'este regimento não
fora levada a cabo com tanta facilidade como a de caçadores 9 e
infantaria 10, por causa das prevenções tomadas pelos officiaes. Um dos
sargentos do 18, que assistira á reunião na rua de Santa Catharina, ao
regressar ao quartel recebera ordem de detenção e só por um prodigio de
astucia é que, illudindo a vigilancia do official de inspecção,
conseguira dar conhecimento das deliberações tomadas na mesma reunião
aos sargentos de cavallaria 6. Ainda assim, á hora marcada para a
revolta, as companhias, á ordem dos officiaes superiores, começaram a
formar as casernas.

[Ilustração: Proclamação da Republica]

Presentindo o movimento, alguem quiz evital-o, mas inutilmente. D'uma
janella do primeiro pavimento, o tenente-ajudante arengou ás forças que
já estavam na parada, mas dois tiros disparados na direcção d'essa
janella cortaram-lhe o discurso. O coronel do regimento, Lencastre de
Menezes, mostrando uma indecisão extraordinaria, ordenou a varios
officiaes que sahissem do quartel a indagar que forças estavam formadas
no campo.

Decorrido algum tempo, os sargentos do 18 compromettidos na revolta,
julgando que nem todos os seus camaradas adheriam á insurreição e que a
sahida do regimento não se operaria sem um impulso energico,
soltaram gritos furiosos de traição!--e assim conseguiram arrastar um
grosso contingente de soldados--quasi duas companhias--para junto dos
revoltosos do 9 e do 10. Mas o portão do edificio voltou a fechar-se
sobre a sahida d'essa força e os instantes foram passando sem que o
regimento adoptasse uma attitude definida em conjunctura, como essa, tão
critica.

Era necessario, na verdade, tomar uma resolução. Apoz alguns momentos de
reflexão, em que os officiaes revoltados trocaram impressões sobre o
caso, infantaria 10 e caçadores 9, formando a quatro, encaminharam-se
para a parte posterior do quartel do 18 e estacionaram em frente da
egreja da Lapa. As forças da guarda municipal, sob o commando do major
Graça, retiraram prudentemente e, deixando livres as ruas que conduzem
ao campo de Santo Ovidio, foram estacionar para a praça da Batalha,
junto do quartel general e do telegrapho.

A multidão, que a cada instante crescia, misturava aos das tropas os
seus vivas atroadores. «No rosto de toda a gente havia a expressão d'uma
alegria indizivel. Por vezes, os mais enthusiasmados rompiam as fileiras
e iam abraçar um sargento ou um soldado, victoriando-os, acclamando-os.
Era tão quente o arrebatamento, tão ardente aquella ruidosa alegria que
a doce e consoladora esperança na victoria revolucionaria penetrava em
todos os corações, dissipando vagos receios que a longa inacção das
tropas fizera despertar.»


Tratava-se agora de invadir o quartel de infantaria 18 e impellir de
qualquer maneira esse regimento para a revolta. Os populares que se
tinham collocado na vanguarda das forças do 9 e do 10 fôram a uma
estação de incendios, que havia perto, trouxeram de lá dois machados e
abriram um rombo na porta do quartel do lado da Lapa, que o coronel
Lencastre de Menezes fizera pouco antes barricar. Soldados e populares
iam, certamente, a entrar de tropel no edificio e travar lucta com os
elementos hesitantes, quando o actor Miguel Verdial, tendo, n'um
relance, a visão da provavel carnificina--o quartel era habitado por
muitas familias--exclamou para os invasores:

--Suspendam, que eu vou parlamentar com o coronel.

Cá fóra, os vivas ao regimento de infantaria 18 eram calorosos e sem
interrupção.

Atraz de Miguel Verdial, entraram no quartel Santos Cardoso e outros
individuos da classe civil e por fim o capitão Leitão commandando uma
força dos dois regimentos revoltados. Santos Cardoso, gesticulando como
um possesso e ameaçando a officialidade do 18 de ser riscada do exercito
caso não adherisse á Republica, encaminhou-se para junto do coronel
Lencastre e disse-lhe:

--A esta hora estão quarenta e quatro regimentos sublevados, o
telegrapho na nossa mão, o rei a embarcar: não queira V. ex.ª ser a
unica nota discordante.

--Deixe-me, replicou o coronel, eu não sou republicano nem monarchico.
Sahirei d'aqui a pouco.

O capitão Sarsfield, que estava proximo, accrescentou:

--Visto que vae parte do nosso corpo, vamos tambem.

Por seu lado, o capitão Leitão tambem procurou convencer o coronel a
acompanhar os revoltosos. E, ao cabo d'alguns momentos, conseguiu
effectivamente d'elle essa promessa, que mais tarde, nos conselhos de
guerra, varios officiaes do 18 se empenharam em negar tivesse sido
feita. Emquanto isto se passava, uma força da guarda municipal
commandada por um tenente apparecia no largo da Lapa a enfileirar
ao lado de infantaria 10. Depois, por conselho do tenente Coelho,
punha-se novamente em marcha e seguia pela rua que ladeia á esquerda o
quartel do 18.

D'ahi a pouco, o capitão Leitão, sahindo d'aquelle edificio, voltava
para junto das forças sublevadas e communicava aos officiaes ás suas
ordens:

--O 18 vem já. Nós seguimos para a Praça Nova e lá o esperamos. O
commandante disse-me que vinha em breve: que estando elle e quasi todos
os officiaes presentes no quartel era necessario tomar certas medidas de
ordem e segurança e que convinha reunir o conselho administrativo antes
do regimento sahir.

Mas não era só o capitão Leitão que affirmava isto. Militares e civis,
todos quantos sahiam n'aquella celebre manhã do quartel de infantaria 18
asseveravam que o coronel Lencastre de Menezes não tardaria com as
forças do seu commando a juntar-se aos insurrectos. E faziam-no,
certamente, por terem ouvido ao official já citado palavras muito
nitidas a tal respeito. Mais tarde, nos conselhos de guerra,
pretendeu-se desmentir tudo isso, e embora tivesse sido aconselhado ao
capitão Leitão e aos outros reos que não aggravassem a sua situação com
accusações a officiaes superiores que não estavam mettidos no processo,
a verdade é que das acareações feitas em pleno tribunal militar resultou
o convencimento geral de que só por um mero acaso não soffreram o
castigo imposto a certos dos conspiradores outras creaturas de maior
patente e mais graves responsabilidades.

    [A] O 1.º sargento Abilio, hoje tenente n'um regimento de
    infantaria, apoz o mallogro da revolta de 31 de janeiro, deixou
    crescer a barba e prometteu á esposa que só a faria rapar no dia em
    que em Portugal fosse definitivamente proclamada a Republica. Quando
    rebentou a revolução de 4 e 5 de outubro, a esposa, que estava em
    Espinho, telegraphou-lhe para o Porto, anciosa, a pedir noticias. O
    1.º sargento Abilio dirigiu-se á estação da praça da Batalha e
    depositou um telegramma de resposta em que dizia: «_Estou bom; foi
    proclamada a Republica_». O empregado dos telegraphos recusou
    acceitar a communicação.

    --Porque não acceita? perguntou-lhe o antigo revolucionario do 31.

    --Porque ahi diz que foi proclamada a Republica e a noticia ainda
    não é _official_.

    --Bem... não ha duvida, redijo outro telegramma.

    E redigiu. A esposa, quando o recebeu delirou de contentamento e foi
    mostral-o a umas pessoas amigas. Mas estas, lendo o texto, não se
    contiveram que não observassem:

    --Seu marido mandou-lhe um telegramma de troça. Pois não é?...
    _Estou bom; vou fazer a barba_...

    --Não é troça, não... _Se elle vae fazer a barba_ é porque _já foi
    proclamada a Republica_!



CAPITULO XV

Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal


Já manhã clara, as forças revolucionarias sahiram das immediações do
quartel de infantaria 18 e dirigiram-se pela rua do Almada até á praça
de D. Pedro, onde deviam occupar os paços do concelho para se effectuar
a cerimonia da deposição do monarcha reinante e da proclamação da
Republica. Segundo a formatura ordenada pelo capitão Leitão, abria a
columna, tocando a _Portugueza_, a banda, quasi completa, de infantaria
10, com alguns musicos de caçadores 9, todos sob a direcção do musico de
1.ª classe Eduardo da Silva; seguia-se-lhe a guarda fiscal e depois as
praças d'aquelles dois regimentos, as do 9 antecedendo o 10. Conta um
chronista:


«Desde que as forças começaram a marchar, sentia-se desapparecer a
oppressão que invadira todos os espiritos n'essas longas tres horas em
que, fóra ou dentro do quartel, se tentara que o regimento de infantaria
18, devidamente commandado, viesse augmentar as forças da revolta. O que
se seguiria depois parecia não preoccupar os espiritos. Acreditava-se
firmemente que o regimento de infantaria 18 estava inclinado a apoiar a
revolta. Se assim fosse nenhuma duvida poderia offerecer a victoria
decisiva da Republica; não porque a força do regimento de infantaria 18
desse ás tropas insurreccionadas uma superioridade notavel sobre as da
guarda municipal, mas pela alta significação que teria não só para a
população civil mas para o quartel general o facto das tropas sublevadas
serem commandadas por um coronel e muitos officiaes. Era evidente que,
se esse acontecimento viesse a realisar-se, as adhesões seriam
innumeraveis. Ninguem teria duvida em acceitar os factos consumados; as
garantias de victoria eram indiscutiveis; a resistencia da guarda
municipal seria nulla, sem contestação; a ordem estava assegurada.

«Animadas d'uma doce esperança, as tropas revolucionarias, ladeadas
por immensa multidão, seguiram para a praça de D. Pedro. Ao longo
da rua do Almada, desfilava a columna em formação regulamentar e
disciplinadamente. As janellas estavam todas abertas, e os habitantes
que já tinham conhecimento de que a guarnição militar da cidade sahira
dos quarteis para proclamar a Republica recebiam a noticia com manifesto
aprazimento. E assim, á medida que as forças da revolta iam descendo a
rua, ás saudações erguidas pelo povo que as acompanhava, correspondiam
das janellas, gritando:

«--Viva a Republica!

«--Viva o exercito portuguez!

«Acenavam com lenços, davam palmas, n'uma grande expansão de alegria que
punha nos corações um suavissimo calor e nos labios um sorriso de
triumpho. Nunca tão espontanea e tão calorosa manifestação se produziu
na bella cidade do Norte. Nunca o Porto, a cidade do trabalho e das
grandes virtudes civicas, fez tão enthusiastica acclamação a um exercito
victorioso, porque nunca esteve mais identificado com a ideia que esse
exercito vinha proclamando. Na rua a multidão engrossava a cada momento,
e, quando as tropas revolucionarias dobravam a rua do Almada para entrar
na praça de D. Pedro, era difficil romper por entre a massa compacta que
se agglomerava...»

Chegadas as forças á praça de D. Pedro, formaram rodeando a mesma praça
pelos lados do norte, nascente e sul, começando a linha pela guarda
fiscal e terminando por caçadores 9. O esquadrão de cavallaria 6, que
tambem acompanhava a columna, estacou na rua occidental da praça.

Pouco passava das seis horas da manhã. As acclamações despedidas pelos
populares continuavam vibrantes, enthusiasticas. De repente, abriram-se
as janellas dos paços do concelho e alguns individuos da classe civil,
entre os quaes se destacava a figura herculea de Santos Cardoso,
appareceram a dar vivas á Republica, ao exercito e aos regimentos
sublevados. Um popular, armado de espingarda, foi buscar a bandeira do
Centro Democratico Federal 15 de Novembro; Santos Cardoso agitou-a
freneticamente sobre a multidão e depois fel-a arvorar no mastro que
sobrepujava o frontão do edificio. A guarda de honra nos paços do
concelho era feita por uma força de infantaria 10 commandada pelo 1.º
sargento Vergueiro.

Decorrido algum tempo, o dr. Alves da Veiga assomou a uma das janellas
da casa da Camara e proferiu um discurso, entrecortado pelos applausos
da multidão. Depois ia a ler os nomes das pessoas que deviam constituir
o governo provisorio, mas o actor Miguel Verdial arrancou-lhe o papel
das mãos e procedeu a essa leitura. Esses nomes eram os seguintes:


_Rodrigues de Freitas._

_Joaquim Bernardo Soares_ (desembargador).

_José Maria Correia da Silva_ (general de divisão).

_Joaquim Azevedo Albuquerque_ (lente da Academia Polytechnica).

_José Ventura dos Santos Reis_ (medico).

_Licinio Pinto Leite_ (banqueiro).

_Antonio Joaquim de Moraes Caldas_ (professor).

_Alves da Veiga._


Cada um d'estes nomes foi acolhido com vivas delirantes e estrepitosos.
Proclamado o governo provisorio, a maioria dos populares que tinham
entrado na casa da Camara desceu á praça a misturar-se com os soldados,
que, diga-se sem hesitações, já começavam a sentir os effeitos d'uma
immobilidade que afinal ninguem justificava. Na varanda dos paços do
concelho ondulavam dezenas de bandeiras azues e brancas. O nevoeiro, que
de madrugada amortalhara a cidade, dissipara-se lentamente.


O capitão Leitão, vendo que, em contrario do que lhe assegurara o
coronel Lencastre de Menezes, infantaria 18 não vinha juntar-se ás
forças revoltadas, e que os minutos corriam rapidos sem que no local
apparecessem outros officiaes além dos tres que desde o começo da
revolta lhe tinham francamente adherido, approximou-se do tenente Coelho
e disse-lhe:

--Estou a perceber isto perfeitamente; fomos trahidos: _são uns
infames_. Disseram-me que a guarda municipal adheria e não a vi no
campo; que o sub-chefe de estado maior tambem vinha e eu tambem o não
vi... Aqui acontece a mesma cousa. _São homens de pannos quentes._
Talvez haja motivo para demoras. Pelo sim pelo não continuarei a esperar...

Mas os soldados mostravam desejos de seguir para a frente e um popular,
approximando-se do capitão Leitão, observou-lhe que a guarda municipal
já estava occupando a praça da Batalha, na defensiva e que era urgente
desalojal-a d'ali para se occupar o telegrapho e o quartel general.
Outro popular aconselhou-o a fraccionar as forças do seu commando.

[Ilustração: A Bandeira da Revolta que foi hasteada na Camara Municipal]

--Ora, tenha juizo, replicou o valente official. Ninguem nos hostilisa.

E, voltando-se para o tenente Coelho, acrescentou:

--Vou tomar uma resolução definitiva: vou mandar seguir pela rua de
Santo Antonio, onde me apresentarei ao general; n'um caso ou n'outro
elle dará as suas ordens...

O tenente Coelho notou que a guarda da Camara tinha desapparecido e que
era conveniente não deixar o edificio á mercê da populaça. O capitão
Leitão concordou com a ideia e mandou para os paços do concelho uma
força do commando d'um sargento. Feito isto dispoz-se a marchar em
direcção á praça da Batalha. Antes, porém, reuniu com o tenente Coelho e
o alferes Malheiro uma especie de conselho conversando os tres
sobre a attitude que d'ahi por diante deviam adoptar as tropas
sublevadas perante as outras que não manifestavam adhesão ao movimento.
O tenente Coelho registou mais tarde, do seguinte modo, as ideias que
predominaram n'essa conferencia:


«O parecer de que as forças da revolta se dividissem em differentes
fracções que por diversas ruas convergiriam na praça da Batalha,
forçando a guarda municipal que ali se encontrava a abandonar o seu
posto, atacada de frente, de revez e de flanco foi posto de parte,
porque, apesar de tudo, se tinha como certa a adhesão d'essa força desde
que as tropas sublevadas manifestassem não abandonar o seu proposito. A
guarda municipal estava informada de que o regimento de infantaria 18
apoiava a revolução; vira com que ardentes acclamações eram saudadas as
forças revolucionarias; sentia-se, portanto, isolada do resto das tropas
da guarnição e das sympathias da população civil; demais entre aquella
guarda havia um grande numero de homens que tomara parte nos
preparativos da revolta.

O que havia, pois, a fazer era, do mesmo modo que a guarda municipal
procedera com as tropas sublevadas no campo de Santo Ovidio, procederem
tambem para com ella, aconselhando-a a abandonar a sua attitude
espectante e a adherir ao movimento insurreccional; o regimento de
infantaria 18 havia adherido, não era rasoavel nem patriotico que a
guarda municipal o não fizesse. As tropas sublevadas não tinham a menor
intenção de fazer derramar sangue de irmãos d'armas; não desejavam uma
lucta fratricida, tanto menos presumivel que, sem excepções, todo o
exercito se sentia impellido a resgatar o paiz da humilhante situação em
que se encontrava por virtude dos actos dos governos da monarchia,
que não se inspiravam nos sagrados interesses nacionaes.

«Não. A guarda municipal era com as tropas da revolta. Se estas não
tinham a commandal-as officiaes, cujas patentes e cujos nomes se
impuzessem, bem certo era que o regimento de infantaria 18, com o seu
coronel e com os seus officiaes, tinha adherido ao movimento
revolucionario e não havia que hesitar. Os tres officiaes que se
encontravam com as forças sublevadas, ali, não queriam reivindicar
nenhum direito de superioridade; contentavam-se bem com a satisfação da
sua iniciativa e, nem por si, nem pelos seus subordinados, reclamavam
nem outros postos nem outras honras. Se outras ideias germinavam no
espirito dos que não tinham até aquelle momento adherido á revolta, que
se desilludissem. Que o throno desapparecesse: mais nada. A nação
governar-se-hia sem profundas transformações. Ellas viriam depois. O
essencial era quebrar com a criminosa tradição. Por ella é que Portugal
vergava ao peso de tanta deshonra, por ella é que a vida social vinha
sendo insupportavel. Governar-nos-hiamos como irmãos, no mesmo
sentimento commum dos interesses individuaes, coincidindo com os da
Patria. Taes pensamentos animavam as tropas sublevadas. Não havia que
discutir.»


Resumindo: o capitão Leitão iria á frente das forças e ao chegar á praça
da Batalha procuraria parlamentar com o sub-chefe de estado maior,
Fernando de Magalhães, que os revolucionarios consideravam intelligente
e de caracter. Elle decidiria em ultima instancia se a superioridade
estava, na verdade, do lado dos sublevados e se a guarda municipal podia
ou não submetter-se-lhes sem hesitações. Era o appello honesto a um
arbitro de occasião, que gosava ao momento de justificado prestigio na
classe militar.



CAPITULO XVI

O choque sangrento--A guarda municipal desbarata os revoltosos


As forças do commando do capitão Leitão sahiram da praça de D. Pedro e
principiaram a subir a rua de Santo Antonio. Formavam uma columna «em
marcha de quatro», levando á frente a banda de infantaria 10;
seguia-se-lhe a guarda fiscal e iam depois caçadores 9 e aquelle
regimento. A guarda municipal formava ao alto da rua, no adro escalonado
de Santo Ildefonso, guardando a entrada da Batalha pelas ruas de Santa
Catharina, Santo Antonio, de Santo Ildefonso, de Cimo de Villa e viela
da Madeira. A entrada pelas ruas de Entreparedes e Alexandre Herculano,
vedavam-na cem praças fieis da guarda fiscal. No lado nascente do antigo
theatro de S. João formava cavallaria 6, cobrindo o edificio do quartel
general e governo civil.

Uma multidão immensa acompanhava as forças da revolta na marcha rua de
Santo Antonio acima e essa arteria do Porto tinha um aspecto quasi de
festa. A maior animação e alegria illuminavam-na. Do povo sahiam brados
enthusiasticos victoriando os sublevados. As senhoras que estavam ás
janellas agitavam freneticamente os lenços, soltavam vivas calorosos,
batiam as palmas n'um contentamento indescriptivel. A satisfação
dominava tudo e todos. A marcha das forças tinha o caracter
insophismavel d'um passeio triumphal, em que elles pareciam recolher os
applausos pela victoria alcançada rapidamente e sem embate sensivel.

Na altura da viela chamada dos Banhos, do lado direito da rua de Santo
Antonio, o povo que acompanhava os sublevados hesitou e recuou. O
capitão Leitão olhou para cima, e viu a guarda municipal em attitude
defensiva com as armas apontadas para a columna. Não ligou grande
importancia ao facto e, como a banda de infantaria 10 continuasse a
tocar, não ouviu que de Santo Ildefonso os cornetas tinham feito o
signal de _alto_--_meia volta_. Ia a proseguir na marcha quando
presenceou que dois soldados da guarda fiscal, sahindo da fórma, se
dispunham a disparar as armas contra a municipal. Correu para elles e
gritou-lhes:

--Não atirem!... A guarda não nos faz mal!...

[Ilustração: Basilio Telles 1891]

Os homens entraram na fórma e elle então, collocando-se á frente da
columna, levantou os braços, como pretendendo affirmar á municipal que a
attitude dos sublevados era pacifica. De nada valeu esse expediente. A
guarda, fazendo pontarias baixas, deu uma descarga que lançou o maior
panico nas forças da revolta e nos populares que pejavam a rua de Santo
Antonio. A marcha deteve-se. Uma commoção violenta agitou aquella massa
compacta. N'um segundo, ou em menos d'um segundo, produziu-se um grande
e precipitado movimento de recuo. Os populares, como por instincto,
penetraram nas fileiras da columna procurando um abrigo. Impellida
pela força collossal d'essa enorme multidão, a columna dissolveu-se,
desordenada e a breve trecho a rua de Santo Antonio ficou juncada de
corpos inanimados e dos despojos das victimas. O capitão Leitão, ferido
na cabeça, abrigou-se n'uma casa proxima, acompanhado de dois
corneteiros e d'uma praça da guarda fiscal e mandou fazer repetidos
toques de cessar fogo. Trabalho inutil. A guarda municipal, abrigada por
detraz de pedras continuou a alvejar a rua de Santo Antonio, respondendo
áquelles toques com tiroteio renhido.

Entretanto, no meio de todo esse panico, os soldados revoltados ou se
agrupavam junto de alguns portaes ou se deitavam no chão, offerecendo o
menor alvo possivel ao fogo da guarda. E, emquanto tiveram munições,
responderam com valentia ao ataque da força fiel ao regimen monarchico.
Esses heroicos combatentes eram principalmente da guarda fiscal e de
caçadores 9, porque o regimento de infantaria 10, estando no fundo da
rua de Santo Antonio ao começar o tiroteio, fôra forçado a recuar até á
casa da camara. E assim se sustentaram n'um ou n'outro ponto da rua,
quasi sempre expostos aos projecteis da municipal, atirando sobre os
adversarios com uma serenidade extraordinaria, desafiando impavidamente
a morte.

Em certa altura, ouviram-se na praça de D. Pedro os primeiros tiros da
artilharia. A bateria da Serra do Pilar intervinha na lucta para lhe pôr
o ponto final. Os revoltados até então escalonados na rua de Santo
Antonio desceram até ao edificio municipal e ahi se reuniram ás forças
do 10, que se tinham concentrado n'esse ponto desde o começo da refrega.
O capitão Leitão, havendo conseguido, depois de abandonar a casa onde se
abrigara, chegar por entre quintaes e escalando muros até á Praça Nova,
ainda procurou com as forças reunidas na casa da camara operar um
retorno offensivo sobre a guarda municipal. Mas não houve meio, ou
melhor, já era tarde para tentar a sortida. Pequenas fracções da guarda,
protegendo a bateria de artilharia postada nos angulos dos Loyos e de S.
Bento, começaram a atacar os sublevados encurralados nos paços do
concelho e um tiro de peça, arrombando a porta do edificio, mostrou
áquelles valentes que a situação se definia, irremediavelmente como a
derrota da Republica.

O capitão Leitão abandonou a casa da camara e d'ahi a pouco os outros
combatentes imitaram-n'o, terminando a lucta cerca das 9 da manhã.
Durara duas horas.

Por este relato é facil de vêr que a victoria alcançada pela guarda
municipal foi mais devida á excessiva _boa-fé_--chamemos-lhe assim--das
tropas revolucionarias do que á coragem dos soldados fieis á monarchia.
Se as forças revolucionarias houvessem marchado sobre a praça da Batalha
em disposição hostil, o resultado do choque sangrento teria sido, sem
duvida, bem diverso. O proprio capitão Leitão reconheceu isso mesmo no
conselho de guerra a que foi submettido:

--Se eu adivinhasse que tratava com tal gente--disse elle, referindo-se
ás forças do commando do major Graça--eu procederia d'outra forma e hoje
não me alcunhariam de imbecil. Eu avançava com a maior serenidade e nem
mesmo me passava pela mente que ia para um ataque. Suppunha-os
plenamente seguros e, como já disse, tinha razões para isso. Se eu
entendesse, se eu suspeitasse do que me esperava, não teria receio algum
de os atacar.

«Não era a guarda municipal, que de poucas forças dispunha, pois não
estava toda reunida (e nem mesmo que o estivesse) que derrotaria as
forças do meu commando. Cercal-a-hia, e isso sem grandes planos
estrategicos e forçal-a-hia a render-se, sem mesmo disparar um
tiro. E não se daria a grande desgraça que se deu. Eu envolvia a guarda
e ella não poderia resistir. Não lhes chamem, pois, valentes, porque o
não são. Estava espantado de um tal procedimento. «Eu não ia para
isto»--disse na casa onde entrei. E esta é a verdade; a prova é que
alguem que ouviu a minha phrase já aqui a referiu. Não digo isto para
declinar responsabilidades, porque não quero declinal-as...»

Incontestavelmente, a guarda municipal não poderia manter-se nas suas
posições; e, nem pelo numero nem pela dextreza, conseguiria offerecer
uma resistencia demorada. Alem d'isso, não estava suficientemente
instruida no manejo da espingarda Kropatschek, que só muito pouco tempo
antes da revolta lhe fôra distribuida; o serviço especial de policia, em
que era empregada, não lhe permittia evolucionar convenientemente em
combate. Pelo contrario; os seus adversarios, tendo passado pela
carreira de tiro em exercicios reiterados, estavam perfeitamente aptos
para se medir com ella e para a subjugar sem esforço sensivel ou grande
dispendio de munições. E a prova é que a guarda se conservou sempre na
defensiva, abrigada pelas varandas de pedra que guarnecem as escadas e
patamares que dão accesso á egreja de Santo Ildefonso e só mudou de
attitude quando a bateria de artilharia, rompendo o fogo contra o
edificio municipal, rematou a contenda.


Emquanto, na rua de Santo Antonio e na praça Nova se desenrolavam os
acontecimentos que acabamos de narrar, as guardas de revoltados que
haviam ficado nos quarteis impediam que ali entrassem os respectivos
officiaes não adherentes ao movimento e que o mesmo movimento
surprehendera ainda no leito ao romper da manhã de 31 de janeiro.
No quartel de caçadores 9, por exemplo, ficara uma força sob o commando
do sargento Galho, que mandara armar todas as praças que ali estavam,
collocando-as ás suas ordens. Instantes depois do regimento ter sahido
para a revolta, essa força avistando na rua de S. Bento um troço da
guarda municipal, fel-a dispersar com uma descarga. E desde manhã até ao
começo da tarde, todos os officiaes que tentaram penetrar no edificio
foram respeitosamente prevenidos pelo sargento Galho de que desfecharia
sobre elles a sua espingarda.

[Ilustração: Bombardeamento da Camara Municipal pelas tropas fieis ao
Governo]

Só ás tres horas é que esse valente militar se rendeu, abandonando o
quartel ao dominio dos vencedores. O capitão Almeida Soares que
havia tomado conta da guarda á cadeia da Relação, appareceu á porta
principal d'aquelle edificio e intimou o sargento a entregar-se-lhe.

--Não, respondeu o revoltado.

--Mas isso é uma loucura, insistiu o capitão. A insurreição já está
suffocada.

--V. ex.ª dá-me a sua palavra de honra?

--Dou.

Então o sargento Galho disparou a espingarda para o ar e franqueou as
portas do quartel ao capitão Almeida Soares.


Em infantaria 10 as cousas passaram-se d'outro modo. Ahi a guarda ao
quartel, composta d'um cabo e varios soldados conseguiu, ás primeiras
ameaças, que os officiaes não tentassem sequer empregar a sua
auctoridade hierarchica para a demover do proposito em que se
encontrava. Todos elles, percebendo a inutilidade de qualquer esforço
n'esse sentido, dirigiram-se á casa do commandante do regimento e só
mais tarde, quando a revolta se considerou completamente suffocada é que
conseguiram submetter a guarda do quartel e as praças que retiravam da
lucta que se travara.

Mas, facto digno de registo: tanto n'um como n'outro quartel não se
produziram violencias--aliás comprehensiveis n'um momento como esse de
fundamentada agitação e irresistivel anormalidade. Violou-se é certo, a
disciplina. Nem a revolução era possivel sem esse delicto. Mas ninguem
faltou ao respeito individual pelos officiaes que não quizeram adherir
ao movimento.



CAPITULO XVII

A noite negra do traidor Castro
O destino de trez officiaes


Relatados assim os factos que caracterisaram essencialmente a revolta,
desde o primeiro viva á Republica soltado pelo sargento Abilio até á
_reconquista_ dos paços do concelho pela guarda municipal victoriosa,
não é demais uma referencia embora ligeira ao homem que, atraiçoando os
seus camaradas, contribuiu de algum modo para que a noticia do movimento
se divulgasse prematuramente e o contrariasse em mais d'um ponto. Esse
homem, já o dissemos n'outro logar d'esta desataviada narrativa, foi o
sargento Castro.

«Tendo assistido á reunião da rua do Laranjal--contou elle em conselho
de guerra, depondo como testemunha accusatoria dos implicados na
revolta--vi, com espanto, que se tratava d'uma representação dos
sargentos ao governo, elaborada em termos taes, que era mais uma ameaça
do que um pedido. Á reunião presidiu o alferes Simões Trindade. Pretendi
tomar a palavra, para combater a forma como fora escripto esse
documento, mas a maioria dos assistentes abafou as minhas palavras e eu
retirei-me do local. _No dia seguinte ao da reunião, procurei o capitão
Sarsfield e narrei-lhe o succedido, para evitar que mais tarde me
calumniassem_...»

Mas a delação do sargento Castro não ficou por aqui. Provocando com essa
narrativa ao capitão Sarsfield as perseguições que as auctoridades
militares moveram dias antes da revolta aos officiaes inferiores da
guarnição do Porto, o traidor, na tarde do dia 30, voltou a avisar
aquelle capitão de que o movimento rebentaria na madrugada do dia
seguinte. Fez a denuncia e sahiu do quartel do 18, disposto a não tornar
a entrar lá dentro, porque receiava justamente que os seus camaradas de
regimento, sabedores do seu acto ignobil, lhe arrancassem a pelle. Ás 11
da noite, porem, como tivesse deixado ficar no edificio a guia de marcha
para Lisboa--o sargento Castro fora mandado apresentar com urgencia no
ministerio da guerra--arriscou-se a penetrar novamente alli e falou ao
capitão Fumega, que era o official de inspecção. O capitão, mal o viu,
aconselhou-o a que se retirasse, accrescentando:

--Olhe que a sua vida corre perigo... Alguns sargentos querem matal-o
por não haver adherido á conjura...

--Não tenho medo, respondeu o traidor, encaminhando-se para a secretaria.

Nessa dependencia do quartel estavam reunidos o coronel Lencastre de
Menezes e o capitão Sarsfield. O coronel dirigiu ao sargento Castro
conselho identico ao que já lhe dera o official de inspecção:

--O senhor desappareça do edificio, porque a sua presença aqui pode
provocar um conflicto grave...

--Vim buscar a guia de marcha, replicou o traidor.

--Isso é o mesmo... Diga onde quer que eu lh'a mande amanhã de manhã...

O sargento Castro obedeceu. E abandonando o quartel foi tomar café.
Depois como se fazia tarde, lembrou-se de ir dormir a uma hospedaria da
praça de Santa Thereza. Quando parou á porta, principiava a accentuar-se
nas ruas o movimento das tropas insurrecionadas. Tremeu de medo. O seu
acto infame seria, indubitavelmente castigado e castigado com rigor,
pelas forças que aclamavam a Republica. Receiando que o vissem e
lhe pedissem estreitas contas da delação foi para a esquadra dos
Carmelitas e alli supplicou que o não entregassem aos revoltados pelos
motivos acima expostos e que reproduziu entre lamentos cobardes ao
commandante da força policial.

Durante hora e meia, conservou-se recolhido n'esse abrigo, estremecendo
a cada ruido indicativo da victoria dos insurrectos. Passado esse tempo
veiu ordem do quartel do Carmo para toda a policia da esquadra dos
Carmelitas--como das outras esquadras--auxiliar as evoluções das tropas
fieis á monarchia. A esquadra ficou deserta. Cheio de terror,
sentindo-se isolado no transe mais angustioso da sua vida, o sargento
Castro acabou por tambem abandonar a esquadra e foi para o quartel do
Carmo, onde suppunha estar em maior segurança. Ahi, apresentou-se ao
official de inspecção e este vendo que elle ainda não tinha seguido para
Lisboa, apesar da ordem urgente que recebera, prendeu-o incommunicavel
e, no dia immediato, fel-o transportar para bordo da corveta _Sagres_.
Na corveta detiveram-no por vinte e quatro horas e só o puzeram em
liberdade quando o commandante do 18, intercedendo em seu favor,
informou as outras auctoridades militares do papel repugnante que o
prisioneiro desempenhara na insurreição...


Fechemos aqui a historia do traidor Castro e sigamos o destino dos trez
officiaes combatentes que se salientaram nas diversas phases do
movimento revolucionario. O capitão Leitão, acabada a lucta na casa da
Camara, refugiou-se nas proximidades do quartel de infantaria 10 e ás 8
da noite de 31 foi ao domicilio do tenente Coelho que ahi se acolhera
apoz a derrota. O tenente Coelho, surpreso, de o ver, exclamou:

--Como, pois tu aqui?

--É verdade, replicou o valente official. Que fazer agora?

--Meu caro, ou fugir ou apresentarmo-nos no quartel general. Para o caso
de nos expatriarmos é preciso dinheiro que eu não tenho...

--Nem eu. Comtudo, talvez um amigo m'o empreste.

--Pois bem, concluiu o tenente Coelho, se conseguires o dinheiro
necessario aos dois vem á minha casa ás duas da madrugada; se não
alcançares senão o sufficiente para ti, vae só e sê feliz...

O capitão Leitão sahiu e não tardou a apparecer ao seu companheiro de
lucta. Na madrugada de 1 de fevereiro, montou a cavallo e dirigiu-se a
Oliveira de Azemeis. «Aqui, dil-o uma testemunha presencial, apesar de o
reconhecerem, as auctoridades não o perseguiram e elle seguiu para
Albergaria-a-Velha, no intuito de comer alguma cousa. Quando chegou a
essa localidade, estava o padre, que tem a alcunha de _O Sopas_,
conversando com varios individuos ácerca dos acontecimentos do Porto.
Este padre tinha sido, durante doze dias, hospede de cama e meza do
capitão Leitão. Ao vêr o cavalleiro, exclamou:

--«É elle!...

«Alguem recommendou ao _Sopas_ que não denunciasse o fugitivo. Mas o
padre approximou-se acto continuo do cavalleiro e disse-lhe:

--«O senhor é o capitão Leitão!

--«Não, não sou, respondeu o interpellado.

«Mas, logo a seguir, commovido, fraco--havia muitas horas que não
comia--o capitão Leitão succumbiu e cahiu com uma syncope. O padre
procurou o administrador e este tomando conta do foragido, encerrou-o na
cadeia. Na prisão, o capitão Leitão teve nova syncope. Quando d'alli
sahiu, no meio da escolta que o devia acompanhar ao Porto,
dirigiu-se ao povo em phrases sentidas e a commoção que provocou foi tão
intensa, que muita gente derramou sinceras lagrimas.»

No trajecto de Albergaria-a-Velha para aquella cidade, o capitão Leitão
observou ao commandante da escolta:

--Sabe uma cousa... Não triumphámos na revolta de 31 porque fomos trahidos.

--Mas quem os atraiçoou no fim de contas... perguntou o commandante.

--Sou bastante generoso para não denunciar ninguem!

Na cadeia da Relação, o capitão Leitão mostrou-se por vezes
excitadissimo e nunca cessou de solicitar do respectivo director que lhe
consentisse vêr o filho--um rapazito de quatorze annos que ia alli
levar-lhe a comida. No dia 6 de fevereiro á tarde, satisfizeram-lhe o
desejo. E elle então, ao avistar a creança, ajoelhou, exclamando:

--Perdoa-me, assassinei-te!...


O tenente Coelho, esse, apresentou-se no dia 1 de fevereiro, no quartel
general, aqui entregou a sua espada ao sub-chefe de estado-maior, que
lhe deu voz de prisão e foi em seguida conduzido para o castello da Foz,
onde ficou custodiado á vista.

O alferes Malheiro, ao que depois se affirmou, tendo sido derrubado na
rua de Santo Antonio pelos populares que fugiam das descargas da guarda
municipal, acolheu-se á casa d'um amigo, d'onde mais tarde passou para
uma quinta do Douro e d'aqui para a Povoa do Varzim. Na Povoa embarcou
n'uma canoa de pesca para a Galliza e de Vigo seguiu mais tarde para a
America do Sul.


A maledicencia não poupou nenhum d'esses tres homens. Vendo-os
derrotados, entreteve-se a assacar-lhes varias infamias, como se
fosse necessario cobril-os de opprobrio para mais facil apotheose dos
vencedores. Os jornaes da epocha, porém, registam diversos documentos
que ao mesmo passo que evidenciam a qualidade dos manejos tecidos para
denegrir a situação dos tres officiaes, demonstram egualmente que todos
elles investiram de frente contra as insidias e calumnias espalhadas nos
orgãos da monarchia. Vejamos, em primeiro logar, esta carta do capitão
Leitão publicada, já depois de elle ter sido julgado e condemnado em
conselho de guerra:


«_Sr. redactor do «Seculo»_:--Informa o _Dia_ que minha esposa
supplicára do general Scarnichia commandante da 3.ª divisão militar, o
auxilio da rainha de Portugal em seu favor e que a soberana ia, com
effeito, conceder-lh'o bem como a meus dois filhos. Achando-me eu
separado ha annos da senhora de quem se trata, cumpre-me declarar em
vista de tal informação, que nem sou solidario com os seus actos nem
d'elles assumo a menor responsabilidade. Cumpre-me outrosim accrescentar
quanto a meus filhos que a situação d'estes é perfeitamente independente
da de minha esposa e se acham felizmente ao abrigo da regia
philantropia. Lamentando que um tal facto me obrigasse a vir á imprensa
desvendar um recanto da minha vida intima, etc.--_Antonio do Amaral
Leitão_.»


Trechos d'uma carta do tenente Coelho:


«_Sr. redactor do «Diario Popular»_:--Tive por acaso conhecimento de que
um jornal de Lisboa, no furor de fazer _reportage_, a proposito dos
lamentaveis successos do dia 31 de janeiro se refere a um incidente da
minha vida de estudante, deturpando-o e commentando-o de um modo
insultante para mim. Indigna-me a cobardia; porque é facil e pouco
perigoso insultar um preso que tem a absoluta impossibilidade de
desforçar-se. Não fui eu o unico a quem aconteceu aquelle incidente, mas
fui o unico que por elle respondi, sendo absolvido por unanimidade no
conselho de guerra respectivo. Outros mais felizes obtiveram as suas
cartas apesar de identicos incidentes.

[Ilustração: Tenente Coelho (1891)]

«Pois embora tivesse sido denunciado por um camarada, não deixei de lhe
perdoar o muito que soffri pelo muito que os dignos officiaes que
compunham o corpo docente da escola do exercito me beneficiaram a mim. E
desde que vesti a minha farda de official, desde janeiro de 1883, posso
erguer bem alta a cabeça, que na minha vida não ha uma acção que me
deslustre! Tenho por testemunhas toda a população de Villa Real, onde
sempre tenho vivido e os officiaes que commigo serviram em infanteria
13. Desafio quem quer que seja a desmentir as minhas palavras.
Transferido violentamente e violentamente exonerado de ajudante de
infanteria 13, como o prova o sr. conde de Villa Real, pelo simples
facto de eu ser progressista, partido em que trabalhei afanosamente, bem
podera ter ficado no mesmo logar se quizesse transigir com o partido
regenerador, como pode proval-o um dos homens mais honrados e illustres
d'esse partido, o sr. dr. Antonio de Azevedo Castello Branco. Mas não. O
meu dever era não abandonar o partido em que me alistára e assim o fiz,
apesar dos innumeros sacrificios que isso me custou.

«Tendo um grande amor ao trabalho e ao estudo, todo Villa Real sabe e
todos os que me conhecem testemunham como eu desde as 6 horas da manhã
até ás 6 ou 7 da tarde, áparte as horas em que cumpria os meus deveres
officiaes, leccionava varias disciplinas para angariar meios de
subsistencia para a minha numerosa familia sem me arredar um ponto da
linha recta da honra e da dignidade.--_Manuel Maria Coelho_.»


Uma carta do alferes Malheiro:


«_Sr. redactor do «Jornal de Noticias»_:--Tendo lido em diversos
periodicos que eu tentara alliciar a força da guarda do meu commando, a
fim de me acompanhar na revolta e que essa força não adheriu devido ao
procedimento energico do 2.º sargento Benigno, que disse não abandonar o
seu posto emquanto tivesse munições, tenho a declarar muito
terminantemente que são falsas taes versões.

«Na occasião em que se apresentou o regimento de caçadores 9 em frente
da cadeia, sahi do meu quarto e como visse grupos de soldados passeando,
intimei-os a recolher á casa da guarda, assistindo eu mesmo a essa
retirada. Disse-lhes, finalmente, que ninguem sahiria d'alli a não ser
ao brado d'armas. Tudo isto que declaro é a expressão da verdade,
podendo ser garantido pelo sargento que estava n'esse momento a meu lado.

«Nunca me passou pela imaginação a adhesão da força da guarda, pois
n'aquelle momento de exaltação não deixei de pensar em que se
tornava precisa a maior vigilancia sobre a cadeia. Seria leviano,
mas não tanto como o julgam aquelles para quem escrevo esta
declaração.--_Augusto Rodolpho da Costa Malheiro._»


Repetimos: a maledicencia não poupou nenhum dos tres officiaes que se
evidenciaram durante a revolta. Dias a fio bradou-se, á mistura com a
divulgação dos mais censuraveis boatos, que era necessario applicar aos
culpados todo o rigor das disposições penaes. Pouca gente, da affecta ao
regimen e á dynastia brigantina, ponderou que a genese do movimento
brotara exactamente dos erros e dos escandalos d'um e d'outra e que para
os accusadores serem realmente justos precisavam, antes de mais nada,
pensar nas suas proprias responsabilidades, ou nas dos partidos
politicos a que pertenciam.



CAPITULO XVIII

O dia seguinte ao da derrota


Suffocado o movimento, que fizera triumphar por algumas horas, a dentro
dos muros do Porto, a bandeira verde e vermelha, os serventuarios da
monarchia apressaram-se a enaltecer os talentos dos vencedores e a
amesquinhar o valor da organisação revolucionaria. Não ignoravam elles
que fóra d'aquella cidade se tinham dado occorrencias graves,
reveladoras da amplitude d'essa organisação e que para evitar maiores
complicações se mandara interromper a marcha d'algumas das forças
militares a caminho do fóco insurreccional.

«O mesmo regimento de infanteria 18--affirma-o um chronista da epoca--só
ás dez da manhã, terminado completamente o combate, finda
inteiramente a lucta, foi, a bandeira desfraldada, apresentar-se ao
quartel general. Um dos regimentos do Norte, que chegou a desembarcar na
estação de Campanhã, ahi mesmo levantou vivas á Republica. Muitas praças
do regimento de caçadores 5 que faziam a guarda ás prisões onde se
encontravam os revoltosos que não haviam conseguido fugir, diziam-lhes
que tinham feito mal em não prolongar a lucta até á sua chegada, porque
o regimento faria causa commum com a revolta...»

Na imprensa monarchica liam-se as cousas mais affrontosas para os
derrotados. Todos os que, durante os momentos victoriosos, tinham
receiado pela sua integridade pessoal, atropellavam-se no empenho de
accumular a _metralha accusatoria_ sobre os vencidos. Sacudiam-se
responsabilidades e ninguem queria ter a menor solidariedade com os
revoltosos. As mesmas corporações que no caso do triumpho republicano se
apressariam por certo a saudar o advento d'um novo regimen com o appoio
incondicional e festivo despejavam sobre o throno canastradas de
felicitações, algumas n'uma linguagem servil e, por isso mesmo, abjecta.


No dia 31, ao começo da tarde, o governador civil do Porto, Taibner de
Moraes, fez publicar um edital suspendendo «as formalidades que garantem
a liberdade individual», e o governo central acrescentou a isso a
suppressão da imprensa republicana ou d'aquella que não vociferasse
tonitruante contra o movimento e os seus promotores. A serie das
bajulações á monarchia victoriosa que, afinal, durante a insurreição,
não ganhara para o susto, foi aberta pela vereação portuense n'uma
mensagem que ella propria veio entregar a Lisboa, dizendo todas estas
enormidades:


«N'esse nefasto dia (o de 31 de janeiro) uma parte da guarnição,
esquecendo o juramento de fidelidade á sua bandeira e ás instituições
que nos regem e não menos o dever da disciplina e da manutenção da ordem
e da tranquilidade publica, praticou o maior dos attentados contra a
patria, que na occasião se podia commetter.

«Attentando contra a monarchia constitucional que é o mais seguro esteio
da independencia portugueza, nem ao menos se ponderaram as criticas
circumstancias em que nos collocam no actual momento as pretenções de
uma poderosa nação sobre o nosso dominio africano e a situação da
fazenda publica.

«E quando todo o cidadão que verdadeiramente ama o seu paiz sente o
impreterivel dever de não crear o menor embaraço nem levantar o menor
estorvo á melhor solução d'aquellas difficuldades e perigos é que uns
poucos de militares e um insignificante numero de individuos da classe
civil intentam, verdadeiramente obcecados, mudar a natureza das
instituições fundamentaes, abolir a monarchia e precipitar o paiz na
revolução á mão armada...»


A mensagem tinha os nomes dos srs. Oliveira Monteiro, Ribeiro da Costa e
Almeida, Leão da Costa, Anthero d'Araujo, Mendes Correia, Pinto de
Mesquita, Chaves de Oliveira, Christiano Vanzeller, Pires de Lima,
Teixeira Duarte, Lima Junior, Silva Moreira, Alves Pimenta, José Arroyo,
Fernando Bahia, Silva Tapada, Moreira Monteiro, Manuel da Silva Pinto,
Vieira d'Andrade, Pedro de Araujo e Tito Fontes.

A guarda municipal do Porto tambem recebeu a sua quota parte de
felicitações e... melhoria de rancho, pelo «denodo com que repellira os
insurrectos». Os jornaes da epoca estão pejados de documentos
interessantes, revelando o calor bajulatorio projectado sobre os
triumphadores do movimento. Um d'elles:


«Satisfeito com o exemplar comportamento e bravura que mostrou o corpo
da guarda municipal do Porto, no dia 31 de janeiro para conter os
desordeiros e fazer respeitar a lei e o governo do paiz e seguindo as
ideias do meu compadre e bom amigo João Pinto Ferreira Leite, tomo a
liberdade de remetter a v. ex.ª (o commandante da guarda) a quantia de
50$000 réis destinados para melhorar o rancho dos soldados da mesma
guarda.--_Januario Bastos_».


Outro, egualmente dirigido ao commandante da guarda municipal:


«_Meu bravo e glorioso camarada_: Felicito a v. ex.ª e felicito a
valente guarda municipal do Porto, hoje mais do que nunca, uma honra
para o nosso paiz, pela maneira corajosa por que acaba de arrancar da
beira de um abysmo a monarchia e a nação. Consinta v. ex.ª que o abrace
e este amplexo cinge toda a corporação da guarda municipal do
Porto.--_Christovão Ayres_».


Alguns dos membros do governo provisorio proclamado no edificio da
camara municipal, uma vez suffocado o movimento, publicaram egualmente
nas gazetas declarações terminantes repudiando a menor ligação com os
revoltosos. O sr. Joaquim Bernardo Soares, por exemplo, dizia na sua carta:


«Tenho sido sempre homem de ordem--nem o meu passado, nem as ideias
que tenho manifestado inalteravelmente com o maior desassombro,
podiam auctorisar um tal procedimento da parte d'aquelles que
imprudentemente lançaram o meu nome para o publico e com os quaes não
tenho relações de qualquer natureza nem sequer pessoalmente conheço.
Repillo, portanto, com a maior indignação, o abuso que do meu nome se
fez, sem que possa descortinar o motivo que o determinou».


O sr. Azevedo Albuquerque foi mais laconico:


«Declaro que não dei auctorisação para o meu nome figurar na lista dos
membros do governo provisorio proclamado na casa da camara do Porto; e
que não concorri nem directa nem indirectamente, para o movimento
revolucionario».


A declaração do sr. Rodrigues de Freitas, embora principiasse
por affirmar que o seu auctor «desde muito se manifestara
republicano-democrata e continuaria a professar firmemente as mesmas
ideias» quaesquer que fossem os derrotados ou os victoriosos, acrescentava:


«Não auctorisei ninguem, quer directa quer indirectamente, a incluir o
meu nome na lista do governo provisorio lida nos paços do concelho no
dia 31 de janeiro; e deploro que um errado modo de encarar os negocios
da nossa infeliz patria levasse tantas pessoas a tal movimento
revolucionario».


Por ultimo esta declaração do sr. José Ventura dos Santos Reis:


«Sabendo que o meu nome anda envolvido nos tristes acontecimentos que se
deram n'esta cidade no dia 31 do mez passado, cumpre-me declarar
cathegoricamente que não auctorisei absolutamente ninguem a incluir o
meu nome na lista do governo provisorio, que foi lida nos paços do
concelho; que fui completamente estranho a quaesquer preparativos ou
combinações que precederam as occorrencias d'aquelle dia».


Quarenta e oito horas depois da revolta, o governo fez publicar varios
decretos com o fim, dizia elle, de supprir as deficiencias da legislação
então vigente «provendo á necessidade de reprimir de prompto e punir com
severidade os attentados commettidos contra a ordem publica, segurança
do Estado e suas instituições». Por um d'esses decretos entregava á
exclusiva competencia dos tribunaes militares, o conhecimento e o
julgamento do crime de rebellião, aliás previsto e punido no codigo
penal portuguez. Na cidade do Porto, não faltavam edificios onde
podessem funccionar os conselhos de guerra nem cadeias onde acumular os
individuos presos como implicados na revolta. Mas o governo receiou que
a população se interessasse demasiadamente pelo espectaculo dos
julgamentos e assim decidiu que os conselhos de guerra reunissem a bordo
de navios de guerra.

Para esse effeito, collocaram no porto de Leixões o transporte _India_,
a corveta _Bartholomeu Dias_, e o vapor da Mala Real, _Moçambique_,
guarnecido com marinheiros da _Sado_. Como deposito de prisioneiros
juntaram a estes tres navios um velho pontão incapaz de navegar. Para o
_Moçambique_ foram mandados João Chagas, Santos Cardoso, o capitão
Leitão, tenentes Coelho e Homem Christo, as praças do regimento de
caçadores 9 e os civis: Miguel Verdial, Felizardo de Lima, Santos Silva,
o abbade de S. Nicolau (rev.º Paes Pinto), Eduardo de Sousa, Amoinha
Lopes, Thomaz de Brito, Barbosa Junior, Alvarim Pimenta, José Durão,
Pereira da Costa, Gomes Alves, Soares das Neves, Pinto de Moura, Pinto
de Vasconcellos, Aurelio da Paz dos Reis, Cervaens y Rodrigues,
Feito y Sanz e Simões d'Almeida. Para a _Bartholomeu Dias_ foram as
praças de infantaria 18 e 10; para o _India_, o alferes Trindade e
os revoltosos da guarda fiscal. Mais tarde, o tenente Coelho passou
do _Moçambique_ para aquella corveta. Dos chefes civis do movimento,
conseguiram expatriar-se o dr. Alves da Veiga, José Sampaio (Bruno) e
Basilio Telles.

[Ilustração: Santos Cardoso, preso a bordo]

Reunidos os conselhos de guerra, os julgamentos decorreram de tal modo
que ninguem se illudiu sobre a sorte que estava reservada aos
revoltosos. Sabia-se de antemão que sobre elles recahiria o peso d'uma
forte condemnação e que quaesquer que fossem os incidentes revelados
durante as sessões dos conselhos elles em nada alterariam a sentença já
lavrada.


«O tribunal--affirmou-se mezes depois no manifesto dos emigrados da
revolução--era uma tão evidente delegação do poder executivo que, em
plena audiencia, um dos julgadores, nem sequer resguardando o melindre
das conveniencias, declarou que não proseguiria n'um detalhe qualquer de
juridicas investigações, _em virtude de ordens superiores_.

«Foi decerto tambem em virtude d'essas ordens superiores que os
julgamentos se realisaram sobre o mar, acossado por uma invernia
excepcional. Foi em consequencia d'essas ordens que succedeu que, uma
tarde mais aspera, as vagas arrojaram contra os paredões do porto
(Leixões) ainda em via de construcção, desamparado e á mercê,
consequentemente, um dos navios ahi ancorados, persuadindo-se todos os
habitantes do Porto que a verminada carcassa desfeita fôra a d'um dos
pontões onde se mandara apodrecer os suppostos criminosos e
assistindo-se então ao tremendo exemplo d'uma população de mães e
esposas clamorosas accorrendo, em gritos de dôr, a olhar a perfida,
movediça sepultura, onde repousariam, emfim, seus desditosos filhos,
seus tristes esposos, a alegria das suas almas, as esperanças de
suas escuras existencias.

«Em virtude e consequencia d'essas ordens superiores foi que um dos
navios de guerra (pois que se transformaram os maritimos gloriosos do
glorioso Portugal passado em carcereiros dos que almejavam restituir a
patria ao seu antigo esplendor) se desprendeu uma noite de tempestade e,
com um condemnado a bordo, andou perdido, sem provisões e sem rumo, na
serração, pela clemencia infinita das aguas.»


Terminados os julgamentos, os conselhos de guerra condemnaram na pena de
prisão maior cellular (e, na alternativa, na de degredo): João Chagas,
Santos Cardoso, Verdial, capitão Leitão, os sargentos Abilio, Galho,
Silva Nunes, Castro Silva, Rocha, Barros, Pinho Junior, Fernandes
Pinheiro, Gonçalves de Freitas, Villela, Pereira da Silva, Folgado,
Figueiredo e Cardoso, os cabos João Borges, Galileu Moreira e Pires e o
soldado da guarda fiscal Felicio da Conceição. O tenente Coelho foi
condemnado a cinco annos de degredo. Aos restantes implicados couberam
penas variaveis de deportação militar, degredo e prisão correccional.

Os regimentos de caçadores 9 e infantaria 10 tambem soffreram castigo
exemplar: o governo dissolveu-os. E comtudo, em 1826, o primeiro de
esses corpos, tendo-se revoltado contra o marquez de Chaves, que
defendia o absolutismo do sr. D. Miguel, fôra aclamado fiel e até
comtemplado com augmento de soldo...



CAPITULO XIX

Para as despezas da revolta bastou um conto de réis


Uma das accusações graves feitas aos revolucionarios do 31 de janeiro
foi a de que o movimento só se levara a cabo para servir interesses
inconfessaveis e apoiar especulações financeiras. Envolveram-se durante
alguns dias os revolucionarios n'um circulo de malquerença e de odio,
attribuindo-se-lhes propositos realmente nefandos--como dizia o governo
nos documentos officiaes, classificando os incidentes do movimento. O
_Diario Illustrado_ chegou mesmo a affirmar:


«Elles (os revolucionarios) puzeram-se, conscientemente muitos,
inconscientemente alguns, ao lado dos inimigos da patria, serviram a
causa da Inglaterra, que nos quer expoliar em Africa; _serviram a causa
dos financeiros que pretendem explorar com onzenices as desgraças da
nossa situação_.»


Outro jornal, as _Novidades_, ia mais longe:


«D'onde veiu e para onde foi o dinheiro que se arranjara para a revolta?

«Houve ha um mez uma reunião no Porto onde foram dois delegados de
Lisboa. Ao contrario do que se tem dito, o accordo para a revolução foi
completo. Nem os de lá nem os de cá divergiram. No que não concordaram
os de cá com os de lá foi na forma da republica a proclamar, oppondo-se
os de Lisboa á federação com a Hespanha.

«O que é certo, porém, porque resulta de documentos encontrados, e
de depoimentos recolhidos, é que a isto se seguiu a subscripção aberta
em Lisboa para a revolta, que produziu rapidamente 20 contos que foram
levados ao Porto por dois sujeitos, um dos quaes tem uma alta graduação
burocratica. Esse dinheiro ficou nas mãos de Alves da Veiga.

«Escusamos dizer que não foi encontrado na busca que a policia fez. Nem
o dinheiro nem os papeis importantes, porque as gavetas foram já
encontradas tiradas dos moveis, espalhadas pelo chão e alguns dos papeis
que n'ellas ainda havia eram ou insignificantes ou rasgados.»

[Ilustração: Actor Verdial (1891)]


Em summa, as _Novidades_ diziam claramente que um dos chefes da revolta
recebera alguns contos de réis e com elles se locupletara.

Essa e outras accusações despertaram, como é natural, protestos
vehementes. Os jornaes republicanos, apesar da mordaça que o governo
lhes collocara apoz o 31 de janeiro, esforçaram-se o mais possivel por
quebrar os dentes á calumnia e apagar a serie de apodos com que a
imprensa monarchica mimoseava os revoltosos. E esse sentimento de
protesto conquistou tambem a grande maioria dos jornaes madrilenos,
porque um d'elles, o mais accentuada e tradicionalmente monarchico,
o jornal ultra-conservador a _Epoca_ fez côro com os collegas radicaes
que estygmatisaram a insidia cavilosa.

E comprehende-se que assim succedesse. Não era crivel que o exercito
portuguez--a parte d'esse exercito que se revoltara no 31 de
janeiro--pensasse em saquear a cidade do Porto, como egualmente a
imprensa monarchica pretendeu fazer acreditar. Admittir tal hypothese
seria o mesmo que admittir que a revolta, longe de visar á proclamação
da Republica, se limitava a favorecer o roubo d'umas tantas casas
commerciaes. Narrou-o mais tarde um dos revolucionarios que conseguiu
escapar á furia dos serventuarios do regimen, exilando-se em Hespanha:


«Emquanto a estupida imprensa officiosa de Portugal enxovalhava de tal
modo o exercito portuguez perante a Europa toda, por um momento occupada
quasi exclusivamente do que estava ocorrendo na nossa terra, o
jornalismo estrangeiro registava, ainda com os louvores mais rasgados,
que a revolução militar do Porto não se devera a nenhum baixo mobil, não
fora propulsionada por nenhum mesquinho interesse, antes, pelo
contrario, constituira, na solidariedade moral europeia, um caso honroso
para toda a humanidade e infelizmente raro, na historia d'um movimento
politico, combinado e ultimado pelo simples prestigio das convicções.

«E todavia a imprensa estrangeira ignorava que o traço particularmente
typico do movimento de 31 de janeiro foi o da sua essencia genuinamente
democratica; ignorava que nenhuma seducção poderia exercer em almas
populares o fascinamento das posições sociaes de elevados alliciadores,
pois que os não houve; ignorava que não sómente não existia caixa
alguma, pittoresca, estolidamente, denominada _da revolução_, mas
ainda que nem sequer o anonymo soldado recebera um real para sahir do
quartel; ignorava que na noite famosa que precedeu o acontecimento se
deixara bem assignalado que, na hypothese da victoria, nenhum dos
militares revolucionados teria a mais somenos promoção ou o mais
insignificante beneficio, de qualquer genero que fosse.

«Em tão novas condições se consumou este movimento politico de 31 de
janeiro de 1891 que elle fará a admiração das gerações portuguezas e
nobilitará o paiz, comprehendendo-o na esphera dos povos que sabem,
podem e querem, ao menos tentam pelejar e morrer pela consecução
desinteressada d'um ideal de justiça abstracta.

«A historia não ha-de ser commettida aos escribas da imprensa vendida
dos nossos tempos; e a historia ha-de considerar o movimento republicano
do Porto a uma altura que parece irrisorio talvez á tagarelice insensata
de certos portuguezes de hoje».


E tinha razão de sobejo o revolucionario emigrado. Tres dias depois de
suffocado o movimento, o presidente da edilidade portuense, n'uma nota
distribuida aos jornaes monarchicos, salientava o facto dos revoltosos
não haverem tocado no thesouro da camara emquanto occuparam o edificio
municipal. Na grande meza da sala das sessões repousaram, durante o
tiroteio entre os revolucionarios e as forças fieis, magnificos
tinteiros de prata. Pois ninguem lhes tocou, até que os empregados da
camara, uma vez liquidado o movimento, os arrecadaram em logar seguro.

A _Tarde_, jornal de Lisboa affecto ao antigo partido regenerador, bem
se esfalfou em asseverar que a muitos dos militares presos tinham sido
encontradas libras em ouro, o que provava que na madrugada de 31 de
janeiro se fizera larga distribuição de dinheiro. Outras gazetas
insinuaram egualmente que a revolução rebentara mais cedo do que fôra
determinado pelos seus organisadores, porque um dos sargentos
compromettidos tendo defraudado a caixa do respectivo regimento em
centenas de mil réis--gastos em alliciar os subordinados--não queria de
modo algum que em 1 de fevereiro de 1891 o obrigassem a prestar contas.
Afinal, tudo isto cahe pela base sabendo-se que o unico dinheiro que
serviu realmente a pagar despezas da revolta foi fornecido ao dr. Alves
da Veiga pelo negociante portuense José Ferreira Gonçalves e não
excedeu... um conto de réis. Não se dirá, por isso mesmo, que o
movimento custou caro!

Junte-se agora a essa quantia a de sete contos--em que se avaliou os
estragos causados pelas balas nos predios dos Clerigos, rua de Santo
Antonio e praça de D. Pedro--e vêr-se-ha que nunca se fez uma revolução
com tanta economia de numerario e tanta nobreza de procedimento da parte
dos que a levaram á pratica.


Mas se os revolucionarios dispenderam pouquissimo dinheiro em investir
contra o regimen monarchico, em compensação prodigalisaram os actos de
heroismo. N'outro logar d'esta narrativa, já assignalámos o ardor com
que a guarda fiscal e as tropas do 10 e do 9 sustentaram na rua de Santo
Antonio e na casa da camara as arremettidas da guarda municipal.
Devemos, no emtanto, registar dois casos typicos que a imprensa da epoca
descreveu pormenorisadamente e que qualificam nitidamente o valor dos
insurrectos.

Um d'elles é o d'um guarda fiscal--figura de athleta--que, installado
n'uma das janellas do Café Suisso, na praça de D. Pedro, ahi se manteve
desfechando ininterruptamente a sua espingarda sobre os defensores
da monarchia e só abandonou o posto quando lhe faltaram totalmente os
projecteis. Essa janela do café ficou crivada de balas, mas o guarda
fiscal em questão nunca perdeu o sangue frio e por espaço de horas
visou, certeiro, a guarda municipal. O segundo caso é a reproducção do
primeiro e occorreu n'outra janella do estabelecimento já citado, onde
se entrincheiraram quatro estudantes.

[Ilustração: Revoltosos presos a bordo do _India_]

Compare-se a attitude d'essas creaturas luctando serenamente,
imperturbavelmente, pelo ideal que se tinham proposto conduzir á
victoria com o de outras que no curto espaço de tempo que durou a
revolta se bandearam primeiro com os revoltosos e logo a seguir
manifestaram a sua adhesão ao regimen monarchico. Os exemplos
d'essa cobardia moral abundam. Respigamos ao acaso n'um jornal portuense
do dia 2 de fevereiro de 1891:


«C... proprietario d'um armazem de moveis e L... pharmaceutico, logo que
viram o caso mal parado (o triumpho momentaneo dos insurrectos) tiraram
das frontarias dos respectivos estabelecimentos os escudos com as armas
reaes; mas depois tornaram a collocal-os, porque perceberam que a
monarchia não fôra vencida na refrega.»



CAPITULO XX

Triste balanço: o das victimas da insurreição


Vinte e quatro horas apoz a liquidação do movimento, espalhou-se que o
numero de mortos na refrega não passara de doze--na sua maioria guardas
municipaes. Entretanto, na população portuense ficou durante muito tempo
a impressão de que esse numero não representava a verdade e que os
cadaveres de revoltosos sepultados nos cemiterios da capital do Norte se
tinham contado por centenas. O _Primeiro de Janeiro_, do dia immediato
ao da revolta, forneceu aos seus leitores esta lista de feridos
graves--muitos dos quaes vieram a fallecer dos ferimentos recebidos:


«_Recolhidos no hospital do Terço._--Manuel Canedo, soldado de
infantaria 10; Manuel Barreira, guarda municipal; Francisco Joaquim,
guarda municipal; Manuel Maria, soldado do 10; José Joaquim Teixeira,
guarda fiscal; João Manuel Gomes, guarda fiscal; Antonio Carneiro,
soldado do 18; Pedro da Rocha, soldado do 10; Manuel Cardoso, cabo
da municipal; João Nepomuceno, guarda fiscal; Antonio Pereira de
Almeida, civil; Francisco José e José Antonio Carneiro, municipaes; João
José Pereira de Azevedo Lobo e Joaquim Gomes, cabos da municipal; dr.
João Henrique da Rocha, redactor da _Luz_; Maria Custodia Alves,
costureira. Esta rapariga estava á janella da casa do sr. Henrique de
Mello quando rebentou o tiroteio e recebeu uma bala no pescoço.

«_Recolhidos no hospital da Misericordia._ Victorino da Assumpção e
Domingos da Cunha, guardas fiscaes; Antonio Joaquim, municipal;
Bernardino Gonçalves Losa, cabo da municipal; Albino Cardoso, guarda
fiscal; Julio Cordeiro, sargento do 18; João Aleixo, corticeiro; José
Manuel da Silva Monteiro, charuteiro; Joaquim Sant'Anna, pedreiro; João
de Castro, empregado forense; Antonio Gomes Junior, alfaiate; Manuel
Pereira da Fonseca, chapelleiro; Cosme Campos Cabral, estudante;
Marianna Rosa, serviçal.

«_Recolhidos no hospital militar._--Lemos Junior, cabo do 10; um soldado
do 9 e tres soldados da guarda municipal.»


Sobre o numero de mortos, dizia:


«_No hospital do Terço._--Um soldado da guarda fiscal.

«_No hospital da Misericordia._--José Joaquim d'Almeida, tamanqueiro;
João de Carvalho, trolha; um desconhecido e José Gustavo Adolpho Alves
de Almeida Guimarães.

«_Nas ruas_--Um desconhecido; Silverio d'Almeida Santos, guarda fiscal;
Taveira, 2.º sargento; Domingos Nogueira; João, entalhador e um
empregado do commercio, irmão do redactor da _Republica_ Jayme
Filinto.»


Evidentemente, esta lista era deficientissima. Tanto assim que d'ahi a
dias uma nota do commissariado geral da policia indicava como despojos
dos militares compromettidos no movimento:


«147 espingardas, 147 terçados, 1 espadim de official, 3 espadins de
musicos, 1 bainha de espada de cavallaria, 147 patronas, 176 cinturões
completos, 197 cananas, 14 cantis, 12 mochilas, 92 capacetes grandes,
parte dos quaes sem a corôa real, 13 bonets da guarda fiscal, 9
instrumentos musicos, uma corneta, dois tambores, 39 capotes, um capote
de official, 23 jaquetas, a maior parte das quaes pertencentes a
sargentos, 173 massos de cartuchame embalado com vinte tiros cada um,
227 massos com dez tiros e uma grande porção de balas soltas.»


Reproduzindo esta nota, não queremos dizer com isso que cada um dos
objectos acima enumerados tenha realmente correspondido a um morto pela
revolução. A nota, em primeiro logar, expressa por uma maneira bem
flagrante a intensidade do panico que se desenvolveu ao principiar o
recontro na rua de Santo Antonio. Por outro lado, muitos dos militares
que empunhavam esse armamento recolhido pela policia, tendo conseguido
escapar á fusilaria da municipal, abrigaram-se fóra do Porto e uma
grande porção d'elles fugiu para Lisboa. Em resumo: se não foram apenas
doze as victimas do movimento republicano--como se pretendeu affirmar no
dia seguinte ao da derrota--tambem não cremos que tivessem passado de
cincoenta os cadaveres enterrados nos cemiterios.


No dia 3, á meia noite, correu no Porto que o regimento de infantaria 3,
aquartelado em Santo Ovidio de camaradagem com o 18--fôra para ali
horas depois de suffocada a revolta--se insubordinara e pretendia sahir
á rua dando vivas á Liberdade e á Republica. A capital do Norte tornou a
viver momentos de angustiosa espectativa. Pelo espirito da população
portuense de novo perpassou a visão d'outros cadaveres empilhados no
Prado do Repouso... A guarda municipal, prevenida dos boatos correntes,
encaminhou-se sem demora para o Campo de Santo Ovidio. Ahi, reconhecendo
que nada tinha a fazer, evolucionou em varias direcções e por fim desceu
á Praça de D. Pedro, ostentando a _pose_ irritante adequada a
_salvadores da monarchia_. De madrugada recolheu ao quartel e a cidade
recuperou o socego.

[Ilustração: Antonio José de Almeida (1891)]

Nos dias immediatos, ainda os cemiterios receberam os corpos de algumas
das victimas da Revolução. Tratava-se de feridos graves operados nos
hospitaes e que não tinham resistido a amputações dolorosissimas, ás
trepanações e outros trabalhos cirurgicos. A par d'essa liquidação
funebre, a policia e as auctoridades militares procediam a uma outra: a
das creaturas que se lhes affiguravam suspeitas de republicanismo. Para
mais, nas buscas realisadas em diversas casas de revoltosos haviam sido
apprehendidos documentos provando a adhesão ao movimento não só de
quasi todos os officiaes inferiores da guarnição do Porto mas de dezenas
de militares residentes n'outros pontos do paiz. E assim, a rede lançada
pelos agentes da ordem procurou abranger o maior numero possivel de
elementos accusatorios, collocando ao mesmo tempo os presos politicos em
situação de esmorecerem de animo pelo effeito do tratamento que lhes
dispensavam.

Dil-o um testemunho insuspeito:


«Punge-me a triste situação em que se acham os revoltosos do 31 de
Janeiro. Aos presos apenas é dada uma triste açorda; não teem cama nem
uma enxerga ou maca, nem uma pouca de palha em que se deitem, nem uma
manta em que se embrulhem. Os que dispõem d'alguns recursos mandam ir
das suas casas roupas e enxergas, mas os restantes, que são o maior
numero, estão dormindo nas tabuas nuas, tiritando e morrendo com frio.»


Pelo que respeita á assistencia judiciaria foram os revoltosos mais
felizes. O curso do 5.º anno da Faculdade de Direito, n'um impulso de
vehemente generosidade, offereceu-se em massa para defender os réus,
explicando, porém, pela bocca do seu camarada dr. Lomelino de Freitas--o
porta-voz do bizarro offerecimento--que «a sua attitude não implicava de
modo algum profissão de fé politica nem approvação ou desapprovação dos
acontecimentos.»

Os republicanos que tinham conseguido abrigar-se em Hespanha, esses,
depois de socorridos pelo governo do paiz visinho, haviam recebido ordem
de se afastar da fronteira, internando-se--exactamente o contrario do
que succedeu mais tarde, estando no poder o sr. Canalejas e tentando o
ex-capitão de artilharia Paiva Couceiro restaurar a monarchia
brigantina.

A situação, em resumo, tornara-se difficil e penosa para todos os que,
não partilhando da subserviencia incondicional ao regimen monarchico, se
viam forçados a procurar no isolamento ou no exilio a tranquilidade que
o mesmo regimen lhes negava. O governo, no proposito firme de cortar as
azas á mais insignificante velleidade de resistencia, dissolvia os clubs
republicanos e punha a guarda municipal constantemente de prevenção. E a
sua furia contra as aggremiações democraticas attingiu taes proporções
que só n'um dia mandou fechar quatorze das que então existiam em Lisboa.



CAPITULO XXI

A serenidade d'uns e o desalento de muitos


Chegado o momento da justiça militar pedir contas dos seus actos aos
individuos presos por effeito da revolta, houve o maximo cuidado, nas
regiões officiaes, em impedir que os depoimentos dos _principaes
culpados_ salientassem o condemnavel procedimento de varias
personalidades consideradas sustentaculos do throno. Procurou-se assim
dar ao grande publico, á nação inteira e até ao estrangeiro, a impressão
falsissima de que a revolta de 31 de Janeiro brotára apenas dos cerebros
de meia duzia de tresloucados, creaturas apagadas e de nullo valor
social, sem ligação com outros elementos de superior importancia. Ao
mesmo tempo, a imprensa monarchica tentou insinuar, falsamente tambem,
que a maioria dos individuos presos como revolucionarios experimentára,
ao embarcar nos navios-prisões, o arrependimento do seu gesto nobre
e patriotico e só anceiava por alijar as responsabilidades que lhe
cabiam á face das leis.

Se é certo que no decorrer da instrucção do processo e mesmo durante o
julgamento em conselho de guerra alguns d'esses homens mostraram falhas
de animo e de coragem, devidas essencialmente á torturante atmosphera
moral que os agentes da monarchia lhes tinham creado, muitos houve--e
esses constituiram o maior numero--que evidenciaram não só incomparavel
dignidade como uma presença de espirito, uma serenidade verdadeiramente
heroicas.

João Chagas, por exemplo, conservou uma placidez digna de registo. Dil-o
um jornal da epoca:


«O brilhante escriptor não afasta de si todas as responsabilidades nem
as assume todas. Acceita as que tem e não as declina, antes entende que
deve ufanar-se d'ellas. Essas responsabilidades versam principalmente
sobre o que elle escreveu e sobre o que se publicou no jornal que
dirigia: a _Republica Portugueza_».


E como circulasse que no seu depoimento feito perante a auctoridade
militar, o illustre pamphletario commentára acremente a attitude dubia
de diversos individuos compromettidos na revolta, o mesmo jornal a que
acima nos referimos accrescentou dias depois:


«É inexacto que o depoimento de João Chagas contenha censuras. Elle
julga simplesmente que é nobre que responda cada qual corajosamente
pelos seus actos. É correcto. João Chagas mantem a serenidade e a
tranquilidade dos primeiros dias. Dorme pouco em virtude d'uma tosse que
contrahiu na frialdade humida da cadeia. Será visto por um medico. Um
amigo do fogoso jornalista, desejoso de lhe provar a consideração e
a estima em que o tem, fez-lhe, por intermedio do digno director da
cadeia, alguns offerecimentos que elle agradeceu e recusou. Consta até
que affirmou, mostrando desprendimento pela vida:

[Ilustração: Os prisioneiros a bordo]


--O ser condemnado pouco me importa. Estava um pouco cançado e o
governo, mandando-me prender, offereceu-me descanço por alguns annos».


D'uma vez, porém, a serenidade de João Chagas estremeceu ao de leve. Foi
no dia, em que já encarcerado a bordo, viu passar, a curta distancia do
local onde se encontrava, o famoso director da _Justiça
Portugueza_. Então, voltando-se para um companheiro de prisão, disse,
apontando Santos Cardoso:

--Estamos aqui a pagar as antipathias que aquelle homem provocou...


E já que falamos de Santos Cardoso: o seu depoimento confiado ao
instructor do processo não correspondeu ao que se esperava do seu
aspecto energico, quasi feroz. Mostrando-se muito abatido e desanimado,
declarou que não tomára parte activa no movimento insurreccional, que
nada soubera antecipadamente do _complot_ revolucionario e que apenas
sahira á rua na madrugada de 31 de Janeiro depois de ter ouvido tocar a
rebate na egreja da Lapa. Mais tarde descera á praça de D. Pedro e
assistira na camara á proclamação da Republica. Contou, n'esta altura,
um insignificante episodio occorrido dentro do edificio municipal. A seu
lado, na sala, encontrava-se no momento da proclamação, um individuo
envolto na bandeira do Club Democratico 15 de Novembro. Esse individuo,
pretendendo deslocar-se para ir á varanda, ensarilhou o cordel da
bandeira na espingarda d'um soldado e a arma cahiu no sobrado. A
multidão, receiando que a espingarda se disparasse, afastou-se
pressurosa do local...


Decorridos alguns dias apoz o depoimento, a esposa de Santos Cardoso foi
visital-o á prisão. O antigo director da _Justiça Portugueza_ soffreu
tal choque com essa visita, que chorou desabaladamente, lamentando a sua
situação e pedindo a todos que d'ella se apiedassem. «Ignorava, disse, a
responsabilidade em que incorria, tomando parte no movimento; do
contrario, não o teria feito». E quando teve conhecimento das
declarações de Homem Christo, prestadas á policia, declarações que
relatavam minuciosamente os seus trabalhos na preparação revolucionaria,
então o seu desanimo tornou-se mais profundo. Succumbiu.


O jornalista Eduardo de Sousa, que collaborara na _Republica Portugueza_
sob o pseudonymo de _Gualter_, esse, pretendendo fazer um depoimento
revelador d'uma virilidade intemerata, lançou a policia na peugada de
varios republicanos egualmente implicados no _complot_. A imprensa
noticiosa da epoca chegou a asseverar que a defeza desse reu servira
simplesmente a comprometter diversas personalidades, algumas das quaes
tinham sido presas ao mesmo tempo que elle. Cremos, porem, que muito se
exagerou a tal respeito e que a verdade do caso reside no proposito de
atrevido exhibicionismo que acima registamos.


O sargento Abilio, n'uma carta que escreveu ao juiz affirmou
desassombradamente: «sou culpado, mas ha superiores meus mais culpados
do que eu».


Depoimento de Dyonisio Ferreira dos Santos Silva: «Sou republicano desde
que me conheço, mas mais accentuadamente desde 11 de janeiro de 1890; no
emtanto, nunca fui socio de nenhum club democratico e nunca privei com
os homens dirigentes do partido republicano. Não sabia da revolta que se
preparava para 31 de janeiro e não podia, portanto, ter alliciado para
ella militares ou paisanos. Soube da sublevação horas antes de rebentar,
porque era esse o assumpto de todas as conversas nos cafés,
restaurantes, etc. Attribuo a minha prisão ao facto de ser pouco
conhecido na policia...»

Tambem declarou ter sociedade na empreza do jornal _Republica
Portugueza_; fôra presencear, como curioso, os successos do dia 31, mas
não tomára a menor parte n'elles, e sentia-se, por isso mesmo,
tranquillo, não receiando o resultado do seu julgamento.


Declarações do actor Verdial:« Não alliciei ninguem para a revolta;
sabendo que o movimento estava para rebentar, fui ao Campo da
Regeneração, onde collaborei nos episodios que ahi occorreram.
Parlamentei com o coronel Lencastre, commandante de infantaria 18, e
entrei depois na Camara Municipal, onde me conservei até o edificio ser
atacado pelas tropas monarchicas. Só me pesa uma cousa: a lembrança de
minha mulher e dos meus filhos. Comtudo, aguardo sereno, a sentença do
tribunal.»


Do abbade de S. Nicolau: «Tinha por costume recolher a casa todos os
dias, ás 7 da tarde, sendo falso que conspirasse na sombra contra as
instituições vigentes; para elle eram boas todas as formas de governo,
desde que os homens se inspirassem nos verdadeiros principios da moral e
da justiça. Desilludido com respeito aos processos governativos até aqui
seguidos, a Republica era para elle uma esperança, mas não a queria por
meio da anarchia; os comicios realisados no theatro do Principe Real, em
que figurara, deram-lhe certa notoriedade, sendo essa a origem das
desventuras por que estava passando. Não era homem de acção, porque
d'isso o impedia o seu caracter sacerdotal. Tendo ouvido falar no dia 30
a alguns individuos na revolta que se ia dar, sobresaltara-se com a
noticia e recolhera a casa. Na manhã seguinte, sahira para fins
religiosos, ouvindo então falar na reunião das tropas na praça de D.
Pedro. Ao avistarem-n'o, muitos populares ergueram-lhe vivas. Entrara no
edificio da camara, mas ao vêr que ali reinava a anarchia, afastara-se
do local, encaminhando-se novamente para o seu domicilio. Tinha
confiança em que justiça lhe seria feita...»


Alvarim Pimenta falou d'este modo: «Nunca commungara nos segredos dos
dirigentes do partido democratico; como um dos societarios da empreza
litteraria em que exercia o logar de administrador da _Republica
Portugueza_, fôra presencear os factos occorridos no Campo da
Regeneração e paços do concelho; mas não assistira ás reuniões
preparatorias da revolução ou se envolvera nos acontecimentos que se
deram.»


Do aspirante a medico naval Gomes de Faria, accusado de ter tentado
revoltar a guarnição da corveta _Sagres_: «Não tivera o minimo
conhecimento dos preparativos da revolta, pois não estava pessoalmente
relacionado com os individuos indicados como promotores d'ella; nunca
assistira nem fora convidado a assistir a reuniões preparatorias para a
sedição. Na madrugada de 31 de janeiro fora a sua casa o 1.º sargento
Abilio de caçadores 9 que o convidára a um passeio até Massarellos, afim
de ambos visitarem a corveta _Sagres_. Estranhara a proposta, recusára a
principio, mas, instado, terminára por acceder. Quando ia a sahir de
casa, acompanhado do sargento Abilio, este dissera-lhe que era melhor
vestir o uniforme de aspirante a medico naval, para ter mais facil
ingresso na _Sagres_. Achara natural a observação e vestira o uniforme.
Chegados ambos a Massarellos, dirigiram-se para bordo da corveta. Só
n'essa occasião é que o sargento Abilio lhe dissera que se tratava de
sublevar a tripulação para adherir á revolta que ia rebentar. Hesitou
quando soube o papel que lhe destinavam, mas sendo republicano convicto,
embora não fosse partidario dos meios violentos, não tivera forças
para retroceder; por isso fôra a bordo da _Sagres_ tentar, mas sem
resultado, sublevar a guarnição. Suppozera sempre não ter incorrido em
grande delicto; por esse facto não se homisiara, apesar de o terem
aconselhado a fazel-o.»


Por ultimo, o depoimento do commissario geral da policia: «Estava na
Praça de D. Pedro e viu alli chegarem os revoltosos. Receiando que elles
o prendessem, refugiou-se n'uma casa em obras proximo do restaurante
Camanho, onde trocou o fato pela blusa d'um operario. Depois subiu mais
um andar e d'ahi presenceou a lucta entre os republicanos e as tropas
fieis. Parte dos revoltosos destroçados na rua de Santo Antonio veiu em
debandada para a praça de D. Pedro, formando aqui tres pelotões
commandados pelo capitão Leitão e recolhendo mais tarde á casa da
camara. Tambem viu a fuga precipitada d'um troço de cavallaria da guarda
fiscal em direcção aos Clerigos e recorda-se dos nomes de varias pessoas
que se envolveram no movimento.»


Escusamos dizer que o commissario geral da policia do Porto não se fez
rogado para indicar ás auctoridades militares esses nomes, contribuindo
assim com a sua solicitude para augmentar o numero de presos existentes
a bordo dos navios fundeados em Leixões.



CAPITULO XXII

O julgamento dos revoltosos


Vamos terminar. Mas, antes de o fazermos, é de necessidade registar
algumas notas colhidas no decorrer dos conselhos de guerra que
sentenciaram os revoltosos. Ellas darão aos leitores d'esta modesta e
desataviada narrativa uma ideia clara da forma como se procedeu no
julgamento de todos esses homens e da attitude de alguns d'elles em
momento tão critico e tão grave.

[Ilustração: Dr. Affonso Costa (1891)]


_Depoimento do 1.º sargento Abilio:_

«Narrou pormenorisadamente todos os incidentes que caracterisaram a
revolta e perguntado por fim sobre as intenções com que entrára no
movimento, respondeu:

«--Sim, entrei no movimento para ajudar a depôr o rei D. Carlos, porque
sou republicano e tenho muitas razões para o ser. Não sou republicano de
evolução, porque, por ella nem d'aqui a um seculo, julgo, teremos a
republica em Portugal. O que reconheço é que fomos enganados, pois vi
muitas adhesões escriptas e sabia de outras feitas verbalmente e de
reuniões de camaradas meus e de outros de superior graduação.

«Sobre a sua prisão conta que foi o ultimo a retirar da casa da camara,
quando já não tinha munições. Refugiou-se n'um predio da rua do
Almada. Quando ali appareceram soldados da municipal a perguntar se
lá estava algum militar, o dono da casa perguntou-lhe o que queria que
dissesse. Elle apresentou-se. Os municipaes cruzaram ainda armas contra
elle, apesar de o verem só e desarmado. Deu-se á prisão.

«O auditor insistiu com o reu para que declarasse quaes eram os
militares que tinham relações com os auctores do movimento do Porto. O
reu respondeu simples, mas dignamente:

«--Não senhor, não digo...

«E acentuou:

«--Não quero acusar ninguem; quanto a mim, digo que foi da melhor
vontade que entrei no movimento e não declino a minha responsabilidade.
Na parada do quartel fui eu quem primeiro levantou um viva á Republica».


_Depoimento de Eduardo de Sousa (aspirante a medico naval):_

«Declarou francamente ser republicano e repudiou por completo o seu
depoimento escripto que lhe foi arrancado pela policia á força de ardis
e por outros meios egualmente condemnaveis. Declarou mais ter dado a
nota alegre na ceia que houve no café Suisso na vespera da revolta,
assim como outros deram a nota philosophica, etc. Quanto a essa ceia,
explica que era seu costume e dos demais convivas cear ali todas as
noites. Accrescentou que acompanhára o movimento das tropas na qualidade
de redactor da _Republica Portugueza_ E não na de _reporter_ como lhe
chamaram».


_Extracto da sessão do 2.º conselho de guerra (8 de março de 1891)_:

«... A parte mais interessante foi o promotor requerer acareação entre o
tenente de cavallaria 6, Vaz Monteiro, do destacamento aquartelado
no Porto, com o reu Thadeu Freitas, sargento de infantaria 10. Na
audiencia de hontem, Thadeu disse que o referido tenente affirmára ao
tenente Coelho que o esquadrão estava prompto a sahir para acompanhar os
revoltosos. Chamado o tenente Vaz Monteiro, este negou ter dito
semelhante cousa. Acareado com o sargento Thadeu continuou negando a pés
juntos. Thadeu confirmou, acrescentando que o tenente Vaz Monteiro
pedira senha ao tenente Coelho.

«Acareados ambos com este reu, Coelho disse não se recordar de
semelhantes palavras. Falara no Campo da Regeneração com o tenente Vaz
Monteiro, mas este apenas lhe observara: «Manuel, vae-te embora». Nada
mais. O sargento Thadeu disse que era verdade tudo que tinha affirmado e
que se o tenente Coelho dizia não ter ouvido as palavras do tenente Vaz
Monteiro não era porque as não ouvisse. O que o levava a proceder assim
era o seu cavalheirismo e a nobreza do seu bello caracter, que não
queria comprometter ninguem. Que bem sabia que o tenente Coelho era um
homem de honra e por isso comprehendia a sua negativa.

«O promotor requereu com urgencia auto de noticia das declarações
cathegoricas do sargento Thadeu para as enviar ao quartel general,
segundo o seu dever, a que não podia faltar. O incidente causou
impressão, sendo todos concordes em elogiar o procedimento do tenente
Coelho, que a ninguem quer comprometter».


_Depoimento de João Chagas:_

«Que o artigo da _Republica Portugueza_ sob o titulo _Terceira
meditação_ era seu e que o artigo que se seguia a esse o não era; sabia
bem de quem era, mas não o dizia. De resto, sendo elle director do
jornal, folgava em poder declarar que assumia, inteira e completa,
toda a responsabilidade dos artigos alli publicados. Inquirido sobre o
facto de ter incitado á revolta, declarou ter incitado á revolução que
não se dera, porque o movimento de 31 de janeiro não fôra um erro
politico, mas um erro de gramatica, um erro de palmatoria. Respondendo á
pergunta--se os artigos do seu jornal eram attentatorios das
instituições vigentes--disse que os membros do tribunal bem melhor do
que elle poderiam e deveriam saber de semelhante cousa.

«Era republicano e, como tal, não poderia, está bem visto, defender as
instituições que julgava não convirem á felicidade da sua patria. Uma
vez convencido d'isto, não recuaria deante de qualquer obstaculo ou
contratempo; a sua convicção, arreigada pela força da experiencia da
sociedade portugueza, era pela mudança do systema de governo. No
movimento de 31 de janeiro não tomara parte pelo motivo de estar preso
na cadeia da Relação, por causa da primeira querella do seu jornal,
depois da lei restrictiva de Lopo Vaz contra a imprensa democratica.

«Todas as suas declarações, feitas com um tom de franqueza e
sinceridade, proprias da sua nobreza de caracter, foram escutadas
attentamente e produziram sensação. Ao findar o seu interrogatorio,
travou-se entre elle e o auditor o seguinte dialogo:

«--Teve conhecimento antes, do movimento que havia de effectuar-se no
dia 31?

«--Sim, senhor.

«--Pode dizer-me, quem lh'o disse?

«--Não quero».


_Depoimento de Homem Christo_:

«Contrariara o movimento, como provava pelo artigo dos _Debates_ e pela
circular do Directorio em que figura o seu nome, pela sua ida ao
Porto para dissuadir Santos Cardoso e pela descompostura que por esse
motivo recebeu do mesmo Santos Cardoso.

[Ilustração: Conselho de guerra a bordo do transporte _India_]

«A sua qualidade de republicano d'alma e coração não era cousa que o
impedisse de vêr as cousas como ellas realmente são e lhe não
permittisse discernir o que convém á Patria e ao partido do que não
convém nem a uma nem a outro, e antes é prejudicial a ambos. A paixão
politica não o obceca a tal ponto».


_Depoimento do capitão Leitão:_

«--Em abono da verdade, disse o réu, e porque não me soffre o animo vêr
que um innocente está envolvido no movimento revolucionario preciso que
o tribunal tome conhecimento de que o espingardeiro de infantaria 10 não
tomou a minima parte na revolta. A accusação que sobre elle impende é
falsa. Reconheci perfeitamente todas as praças da minha companhia e
o espingardeiro não estava ali no acto da sublevação.

«A passagem mais curiosa do depoimento é, porém, a seguinte, com
referencia ao coronel Lencastre de Menezes:

«--O sr. coronel disse-me então: «Obste a que entre mais gente no
quartel e faça sahir os populares que estão dentro». Cumpri essa ordem e
depois de a cumprir voltei para junto do sr. coronel, ouvindo
distinctamente que elle dizia aos paisanos com quem falava: «Vão
descançados, que eu lá estou ás seis horas. Dou-lhes a minha palavra de
honra que não hostiliso o movimento.» Deram-se então muitos vivas ao
coronel do 18. Isto seriam quatro horas e um quarto, o maximo quatro
horas e meia. O coronel accrescentou ainda: «Preciso ordenar certas
providencias para guardar os reclusos do presidio e o cofre. Os senhores
já lá teem duas companhias e eu tenho pouca gente disponivel...»

«Eu entrei no movimento militar, continuou o capitão Leitão, por muitas
circumstancias e não foi só a ideia de ser ou não republicano que em mim
imperou; foi só pelo bem do meu paiz que trabalhei. Não sou monarchico,
mas já o fui. Comecei a carreira militar apoiando o partido regenerador
e em 1874, nas suas fileiras, procurei ser util ao meu paiz. Tambem
militei no partido progressista, no qual julguei antever uma regeneração
da minha patria. Dentro em pouco, percebi que tanto um como outro
d'esses partidos nada faziam em bem da nação. Quasi todos os annos
promettiam vida nova; mas não passavam d'isso; eram tudo apparencias
enganadoras.

«Afinal tudo isto me chegou a fazer crer e a convencer de que todos
nós--o paiz--estavamos fóra da lei e que eu, estando o paiz fóra da lei,
o estava egualmente. Eu não posso permittir nem admittir que a lei
seja por degraus. Eu julgo a lei superior a tudo e a todos e, portanto,
não admitto irresponsabilidades a ninguem. Eu, como capitão, aquelle
como coronel e este como general, todos teem deveres e obrigações e são
responsaveis pelo seu cumprimento. Ha, porém, uma unica excepção--o que
prova que a nossa lei não é egual para todos, (_exaltando-se_) não
é!--Ha um unico responsavel é o rei!

«Eu sempre tive um odio profundo ao inglez--desde que me conheço
(_exaltando-se_): os jornaes disseram que eu estava desanimado, mas não
ha tal: é mentira! Tinha um tio que se bateu contra os inglezes,
morrendo de 101 annos de edade. Como todos os velhos militares, gostava
de narrar os seus feitos ou os dos seus camaradas. Com as suas
historias, fez-me elle conceber esse odio, narrando-me algumas das
infamias e torpezas da tal raça. O que me custava mais é que, depois do
_ultimatum_, não terminassem ainda com essa alliança.

«O que eu queria e quero é um governo que traga a felicidade do paiz,
que tão humilhado está. Embora preso e vilipendiado como estou, espero
ainda a redempção. Considerar-me-hei feliz, se, com o que fiz, concorrer
de alguma forma para o bem da patria. Não receio nem temo o castigo: o
que fiz foi o principio de alguma cousa. Ficarei satisfeito, serei
feliz, se a semente, fructificar. No entretanto, nada receio, além de
que conto não cumprir a pena a que me condemnarem.»


Para se avaliar da maneira atrabiliaria como se lançou á conta de
dezenas de individuos as responsabilidades da sublevação, basta
reproduzir alguns trechos dos discursos de defeza proferidos nos
conselhos de guerra:


_Do Dr. Pires de Lima:_

«N'uma das guerras da religião foi cercada pelos catholicos uma cidade
protestante. Renderam-se os sitiados; e, conforme os usos barbaros
d'esses calamitosos tempos foram todos condemnados á morte pelos
invasores. Como na cidade tomada havia tambem muitos catholicos,
perguntaram ao legado do papa como os haviam de distinguir dos
huguenotes. «Matem-nos todos, respondeu o catholico varão; Deus lá os
separará.» O mesmo se fez agora. Fôra visto qualquer individuo
republicano na camara ou no campo da Regeneração? Prendam-n'o e
mandem-n'o para bordo. Mas elle está innocente: É o mesmo. O tribunal lá
os separará.»


_Do capitão Fernando Maia:_

«Acho extraordinario o que se fez aos soldados que ficaram no quartel
quer de guarda, quer nas casernas. Foi um desvairamento singular a
maneira como se procedeu. Que tumultuaria maneira de apreciar
criminalidades e avolumar o numero dos presos! Viu-se aqui, no tribunal,
bem clara e positivamente como tudo isso se fez. Prendeu-se a esmo.
Quantos estavam no quartel e não cahiram nas boas graças, foram presos e
de mais a mais ao engano, dizendo-se-lhes que era para averiguações,
ainda com receio de que a sua justiça valesse mais do que a disciplina!

«Onde está a nota dos que se apresentaram voluntariamente? Onde a
d'aquelles que nenhuma parte tomaram no movimento? Onde a relação das
armas limpas e intactas? Onde a d'aquelles que tinham licença para
dormir fóra? Se até appareceu aqui quem negasse a existencia d'essas
licenças, quando existem n'este tribunal os documentos officiaes que as
confirmam! Comprehende-se a irritação natural dos chefes contra os
subordinados rebeldes, mas o sentimento da justiça, e a natural
piedade para com os vencidos deviam preponderar para que se tratasse de
indagar devidamente as condições especiaes em que cada um se encontrava».


_Do mesmo official referindo-se a muitos dos acusados:_

«Reus! É quasi um sarcasmo qualifical-os assim, a todos esses que ahi
estão submissos, respeitosos e obedientes, a todos esses cujas
declarações sinceras, ingenuamente sinceras, commoveram profundamente
quantos as ouviram.

«E os sargentos? Apparece como principal figura o sargento Abilio. Todos
o ouviram aqui: todos apreciaram a franqueza, a nobreza das suas
declarações. Podia falar, podia comprometter muita gente; podia revelar
cumplicidades graves. A sua generosidade levou-o a repudiar até a defeza
primitivamente apresentada, comquanto referindo inteira verdade.

«E como é nobre o seu procedimento acerca dos soldados! «De nada sabiam,
disse elle: foram levados por mim: conheciam-me e obedeceram-me». Eis o
segredo de tudo quanto se passou. Essa influencia deviam tel-a os
officiaes; não é momento agora para apreciar as razões porque a não
tinham e tirar d'ahi as legitimas consequencias».


Os quesitos referentes aos reus e submettidos aos officiaes julgadores
foram em grande numero. Damos apenas os seguintes, relativos ás diversas
classes em que se dividiu a natureza dos crimes:

_Para os reus civis:_

«O crime da rebellião de que o reu é accusado no libello por, na
madrugada do dia 31 de janeiro do corrente anno, com outros individuos
e muitos militares dos corpos da guarnição da cidade do Porto e
outros militares, haver tentado destruir a fórma de governo
monarchico-representativo, pela qual é regida a nação portugueza,
apoderando-se do edificio da Camara municipal da mesma cidade, de uma
das varandas da qual foi proclamada a Republica e até lida uma lista dos
membros do governo provisorio, está ou não provado?

«A cumplicidade no crime de rebellião de que o reu é accusado no
libello, por haver por meio de propaganda em logares publicos
directamente aconselhado ou instigado a execução do mesmo crime,
consistente em se haver tentado destruir a fórma de governo
monarchico-representativo pelo qual é regida a nação portugueza, crime
este praticado na manhã de 31 de janeiro do corrente anno, em que os
meus auctores, apoderando-se do edificio da camara municipal da mesma
cidade, chegaram a proclamar a Republica d'uma das varandas do mesmo
edificio e a ler uma lista dos membros do governo provisorio, sendo que
sem esse conselho e instigação podia ter sido commettido o crime, está
ou não provado?»

_Para os réus militares:_

[Ilustração: Tumulo das victimas no cemiterio do Repouso, no Porto]

«O crime de revolta militar de que o réu é accusado no libello por, no
dia 31 de janeiro do corrente anno, cerca das 3 horas da manhã no
quartel d'aquelle regimento, na cidade do Porto, tendo sahido com outros
militares do mesmo regimento, em numero muito superior a quatro, das
respectivas casernas, desordenada e tumultuariamente, e tendo com os
mesmos militares, sem preceder toque previo, pegado nas suas armas e sem
auctorisação entrado em fórma, de commum concerto, se haver recusado a
obedecer as ordens do seu commandante, o coronel do regimento que os
intimou a dispersar, e sahindo depois do mesmo quartel incorporado com
outros em numero excedente a oito, sob o commando de alguns sargentos e
depois do alferes Augusto Rodolpho da Costa Malheiro, que se
lhes reuniu junto á guarda da cadeia da Relação, onde, com outras forças
revoltadas, persistindo na desordem e commettendo violencias, não haver
dispersado á voz dos superiores Fernando de Magalhães, tenente-coronel
sub-chefe do estado maior da divisão e José Maria da Graça, major da
guarda municipal, está ou não provado?

«O crime de revolta militar de que o réu F... n.º... de matricula e...
da companhia do batalhão n.º 3 da guarda fiscal é accusado, por têr na
madrugada de 31 de janeiro ultimo, cerca das 3 horas da manhã, sahido na
cidade do Porto, com muitos outros militares, todos armados, para a rua,
desordenada e tumultuariamente, e ter desobedecido a um dos seus
legitimos chefes, que o exhortou a entrar na ordem e seguir o caminho
legal: e ainda porque, juntando-se com muitos outros revoltosos, fez uzo
das armas contra tropas fieis, comettendo violencias e não despersando
ás intimações de seus legitimos superiores, persistindo na
desordem--está ou não provado?»


Antes de serem lidas as sentenças aos accusados, o capitão Leitão teve
ensejo de usar novamente da palavra--o presidente do tribunal
perguntara-lhe se tinha mais alguma cousa a allegar em sua defeza--e disse:

«--Eu, infelizmente, sendo o principal accusado sou o unico a quem não
foi permittida a defeza. A minha fé, porém, está de tal fórma arreigada
que não ha nada que a possa abalar. A fé desterra o medo, abala os
tyranos e vence. O que se passa commigo é uma monstruosidade e n'isto
sirvo-me das proprias palavras do sr. promotor. O sr. auditor, como
homem de brio, disse, quando aqui se tratou da questão da minha defeza,
que desde o momento em que o meu defensor (o quintanista de direito
Lomelino de Freitas) apresentasse documentos que o auctorisassem a
advogar, na conformidade com o que dispõe o regulamento de 26 de
dezembro de 1888, seria admittido.

«V. Ex.ª (_dirigindo-se ao auditor_) devia ter esclarecido o conselho de
guerra sobre este assumpto. É verdade que tive defeza que agradeço ao
sr. dr. Alvaro de Vasconcellos. Essa defeza não foi engeitada mas foi
emprestada. O illustre advogado empregou todos os esforços, embora não
tivesse em seu poder muitos dos apontamentos que possuia o sr. Lomelino.
O sr. dr. Vasconcellos disse que se achava coacto. Eu o estou egualmente
e protesto contra a perseguição que se me faz. Cortou-se-me a defeza,
apesar do meu defensor apresentar documentos legaes: aqui decidiu-se que
todos os advogados podessem defender os seus constituintes, desde o
momento em que apresentassem os necessarios documentos provando estar
para esse fim habilitados. Todos apresentaram esses documentos; uns mais
cedo, outros depois. Como o meu defensor não podesse apresentar logo os
seus documentos, resolveu-se que o sr. dr. Alvaro de Vasconcellos
tomasse a minha defeza até que elle os apresentasse. N'essa occasião, o
sr. promotor declarou que desejava dar a maior latitude á defeza e que
por isso, seria acceite o defensor que eu escolhera, logo que se
apresentasse devidamente auctorisado.

«Chegou o dia dos debates: o meu defensor apresenta documentos
devidamente authenticados, de fórma a ninguem os poder contestar e
negam-me a defeza! Admiro que o sr. promotor, assistindo a tal facto e
em vista da sua anterior declaração, não protestasse immediatamente
contra a violencia de que eu era victima.

«Estou coacto e apello, não para o conselho, que não me pode merecer
confiança, mas para a imprensa, para que esta faça demonstrar bem
alto este meu protesto. Apesar de tudo, a minha fé fica firme,
porque é sincera; ninguem a póde ferir. O que commigo se passa é
simplesmente odioso. Eu continuo incommunicavel, quando é certo que o
sr. auditor tinha levantado a minha excommunhão. Eu chamo-lhe assim,
porque isto não é mais que uma excommunhão. O eu continuar
incommunicavel é uma monstruosidade, como afinal, é tudo isto, segundo o
proprio sr. promotor o declarou. Eu ainda sou official, tenho direitos
que ninguem póde contestar. Estou coacto, tendo defeza emprestada,
quando eu só depositava confiança no defensor que escolhera. Eu tenho a
fazer uma referencia. O sr. promotor atirou umas pedradas contra o meu
regimento, que Deus haja, por quanto infanteria 10 já não existe. V.
Ex.ª (_dirigindo-se ao promotor_) disse que nós fôramos cobardes...

«_O promotor_--Eu não disse isso... Não dou mais explicações porque não
posso discutir com V. Ex.ª. O senhor póde apresentar novos argumentos
para a sua defeza e nunca discutir as minhas palavras.

«_O capitão Leitão_--Não quero discutir as palavras de V. Ex.ª Não
posso, porém, admittir que me chamem cobarde. Se não me deixam defender,
dêem-me ao menos o direito de protestar. Nós iamos em caminho do quartel
general...

«_O promotor (interrompendo)_--Eu não me referi nunca ao sr. capitão
Leitão. Referi-me á defeza; e demais não tenho que dar satisfações do
que aqui disse.

«_O capitão Leitão_--Eu então termino mais depressa. Quando me chegar a
minha vez, eu appellarei para tudo e até para a imprensa, para se
conhecer bem que não tive defeza, e desde já protesto contra todas as
violencias que se me fizeram».

Outro protesto não menos vibrante reproduzido na imprensa republicana:


«Em nome dos republicanos prezos a bordo do vapor _Moçambique_,
pedimos-lhe o favor de protestar perante o publico contra a ultima
violencia que se está commettendo comnosco na demora injustificada, e
por todos os motivos arbitraria, da leitura da sentença do primeiro
conselho de guerra. Sujeitos a todos os vexames, os officiaes militares
submettidos a um regimen contrario á lei e attentatorio da sua
dignidade, os prezos civis conduzidos como assassinos e salteadores, em
carros cellulares desde a Relação até Massarellos, e a pé, no meio d'uma
escolta, desde a Foz até Mattosinhos, depois de terem corrido graves
riscos na barra do Porto a bordo do vapor chamado _D. Luiz_, com um
tratamento vergonhoso na 2.ª camara do vapor _Moçambique_, apezar de nos
exigirem a cada um uma quantia sufficiente para um tratamento regular,
só nos faltava que o governo conservasse por tantos dias, como conserva,
suspensa a leitura da sentença do tribunal que nos julgou, sob o
pretexto ridiculo ou comico do receio de manifestações populares.

«O paiz avaliará um governo que não tem força para fazer julgar em terra
uns centos de accusados politicos e, por esse motivo, os conduz
violentamente para bordo de varios navios ancorados n'um porto que só
por cumulo d'irrisão se pode denominar «porto de abrigo», onde as
tempestades desencadeadas teem produzido os estragos que se conhecem e
posto em perigo imminente a vida de tantos homens, muitos dos quaes os
proprios accusadores officiaes declararam «innocentes» durante a
discussão da causa! O paiz julgará da força e do prestigio d'um governo
que conserva, durante oito dias, um tribunal em sessão permanente e
«secreta», só porque receia a discussão publica e as manifestações do
povo em cima d'uma sentença que o proprio governo vem declarando ha
muito ser a sentença mais levantada e mais patriotica de quantas se
poderiam lavrar e pronunciar na nossa terra.

«O paiz que julgue isso tudo. Nós protestamos, com toda a força do nosso
direito e da nossa justiça, contra a ultima violencia que se comette
comnosco.

«A bordo do _Moçambique_, 20 de março de 1891.--_João Paes Pinto_,
abbade de S. Nicolau; _João Chagas_; _Francisco Christo_.»


Por fim sempre appareceram as decantadas sentenças. Como se verá pelo
extracto que damos a seguir nada tiveram da _elevação_ e do
_patriotismo_ apregoados pelos defensores do regimen monarchico e antes
se caracterisaram por uma manifesta desegualdade na applicação das
diversas penas.


_No 1.º conselho de guerra:_

Santos Cardoso, condemnado a 4 annos de Penitenciaria seguidos de 8 de
degredo; 1.º sargento Abilio e 2.º sargento Galho, 6 annos de
Penitenciaria; João Chagas e 2.º sargento Manuel Nunes, 4 annos de
Penitenciaria e na alternativa de 6 annos de degredo; 2.º sargento
Castro Silva, 3 annos e 4 mezes de prisão maior cellular; 1.º cabo
Galileu Moreira e o actor Miguel Verdial, 2 annos de Penitenciaria;
Eduardo de Sousa, 2 annos de prisão correcional; Felizardo de Lima,
Amoinha Lopes e Manuel Pereira da Costa, 18 mezes de cadeia; 8 cabos, 1
corneteiro e 32 soldados, 3 annos de deportação militar; 8 cabos, 3
corneteiros e 23 soldados, 3 annos e 6 mezes de deportação; 1.os cabos
Arthur Carneiro e Rosas Pinto, 4 annos de deportação; o soldado Albino
Rodrigues e os corneteiros Jacintho Duarte e Sousa Vaz, 5 annos de
deportação.


_No 2.º conselho de guerra:_

Capitão Leitão, 6 annos de Penitenciaria, seguidos de 10 de degredo;
tenente Coelho, 5 annos de degredo; sargentos Joaquim Pinheiro, Thadeu
de Freitas, Pinto Villela e Hermenegildo Silva, 4 annos de
Penitenciaria; sargentos Raymundo de Carvalho, Alcoforado e Antonio
Maria, o musico Eduardo Correia, 3 aprendizes de musica, um mestre de
corneteiros, 12 cabos e 45 soldados, 3 annos de degredo; sargento Nunes
Folgado, 4 annos de Penitenciaria; sargentos Correia Mendes, Rodrigues
da Silva, Pinto Gomes, Botto Machado, Joaquim Moutinho, os musicos
Eduardo Silva, José Silverio, Eduardo Fortuna, Joaquim da Rocha, Manuel
Correia, Aurelio Silva, Jayme Lopes, o aprendiz Costa Rebello, 17 cabos
e 48 soldados, tambem 3 annos de degredo; 1.º cabo Thomaz Bastos, 5
annos de degredo; 2.os sargentos Alexandre de Figueiredo e Vasconcellos
Cardoso, 4 annos de Penitenciaria.


_No 3.º conselho de guerra:_

Sargentos Guilherme Rocha, Miranda de Barros, Pinho Junior e Alfredo
Fernandes e cabo João Borges, 4 annos de Penitenciaria, seguidos de 8
annos de degredo; 2.os cabos Ferreira Pires e Felicio da Conceição, 4
annos de Penitenciaria; 1 cabo e 5 soldados da guarda fiscal, 18 mezes
de prisão militar.


De todos os revoltosos condemnados á prisão maior cellular, apenas um,
cremos nós, o cabo Salomé, da guarda fiscal, chegou realmente a ser
internado na Penitenciaria de Lisboa. Os outros, como nas suas sentenças
havia a alternativa de uns tantos annos de degredo, foram
espalhados pelos presidios ultramarinos. D'um d'estes se evadiu mais
tarde João Chagas, aproveitando o concurso dedicadissimo d'um official
da marinha mercante portugueza. A evasão do illustre escriptor revestiu
pormenores rocambolescos. Indo parar a uma colonia franceza da Africa
Occidental, de lá se transportou a Paris onde viveu algum tempo na
intimidade doutros revoltosos emigrados. Breve, porém, sentiu a
nostalgia da patria e um bello dia abalançou-se a regressar ao Porto,
onde a espionagem policial o descobriu e o prendeu...


Agora que já decorreram muitos annos sobre os episodios que constituiram
a revolta de 31 de janeiro, não nos furtamos ao desejo de relembrar como
a classificaram então as individualidades que eram o sustentaculo do
throno. Se a revolta houvesse triumphado, por certo a linguagem
empregada teria sido muito outra. Mas não triumphou e a arrojada
tentativa d'um punhado de valentes foi assim qualificada:


«...lamentaveis acontecimentos que um bando de ambiciosos sem escrupulos
promoveu e por quem, infelizmente, alguns homens que vestiam a nobre
farda do exercito portuguez se deixaram arrastar n'uma lucta fratricida
contra os seus camaradas fieis, faltando ao seu sagrado juramento de
soldado e á sua nunca desmentida lealdade e disciplina, commettendo um
verdadeiro crime de lesa-patriotismo...»


Isto appareceu n'um documento official--o elogio tributado pelo general
da divisão do Porto ás praças da guarnição da cidade que não haviam
tomado parte na revolta. Ao mesmo passo, e tambem em documento
official, dirigia-se estas amabilidades á guarda pretoriana:


«Mais uma vez, a guarda municipal do Porto deu provas da sua
inquebrantavel lealdade, disciplina, bravura e coragem nunca
desmentidas. O dia de hontem (31 de janeiro) foi muito trabalhoso e de
grande risco para todos, mas foi um dia de gloria para esta guarda. A
ella, a mais ninguem, pode dizer-se sem receio de que alguem possa vir
affirmar o contrario, se deve a suffocação da revolta, que os corpos da
guarnição d'esta cidade, esquecidos dos seus deveres de honra, do
juramento que prestaram, e do que devem á nossa querida patria e á
dignidade propria, levaram a effeito, intentando derrubar as
instituições que felizmente nos regem e os poderes legalmente
constituidos, reconhecidos e respeitados pela grandissima maioria da
nação. Foi um acto da maior indisciplina que pode dar-se na familia
militar; ainda bem, porém, que outros militares fizeram baquear os
revoltosos, e certamente um rigorosissimo castigo cahirá sobre elles e
os fará então arrepender, se já não estão arrependidos, da erradissima
acção que praticaram».


Por outro lado, as camaras municipaes como que obedecendo a um _mot
d'ordre_ superior, felicitaram a monarchia pela victoria obtida e uma
d'ellas, em mensagem de maior requinte litterario, expressava-se d'este
modo:


«_Senhor._ Reconhecendo que as sociedades, obedecendo ás leis
biologicas, tendem a ser successivamente modificadas na sua organisação,
mas attento o grave e critico momento historico que a nossa querida
patria está atravessando, profundamente commocionada pelos irreflectidos
e criminosos acontecimentos que em 31 de janeiro findo enlutaram a
cidade do Porto e o paiz inteiro, a camara municipal d'este concelho,
interprete dos sentimentos que animam os povos que o constituem vem
depôr junto de vossa magestade como representante d'um paiz que caminha
na vanguarda das aspirações sociaes, o seu preito de dedicação e
fidelidade ao regimen monarchico e de felicitação a vossa magestade e a
toda a familia real, por ver n'este angustioso momento, junto de um dos
thronos mais dignos da consideração universal, reunida a grande massa da
nação, que só deseja ordem e inteira união de todas as classes para
debellar os males que a affligem e poder repellir os inimigos que tentam
sepultar a sua autonomia.»


Não faltaram elogios e homenagens aos triumphadores como se não poupou
os vencidos a toda a casta de imprecações. No momento da derrota ninguem
pensou em que a explosão revolucionaria podia reproduzir-se, apoz certo
lapso de tempo, e que essa reproducção podia ser acompanhada de
elementos de exito seguro. Todos trataram, na occasião, de mostrar á
dynastia brigantina um servilismo fóra do commum e aos pés do rei
cahiram dias a fio excessivas doses de lisonja que, por serem de
encommenda, nem ao proprio alvejado deviam illudir.

E comtudo a revolta do 31 de janeiro marcára uma _étape_ bem nitida no
caminho da modificação do regimen. Tão nitida, que pouco antes d'ella
ser julgada nos conselhos de guerra, como em outro logar referimos, o
manifesto dos emigrados portuguezes residentes em Madrid soltava este
grito de esperança, desferido com tanto enthusiasmo como se já o
illuminasse um clarão inapagavel de victoria:


«...Nós, orgulhosos, obscuros, altivos e humildes, porque cuspimos nos
homens indignos e imploramos a Deus justiceiro, entendemos que bate
o minuto em que urge gritar a um povo honrado, a um povo valente que não
póde ser mais: que não hade ser ainda; que é inevitavel, que é
irremediavel que é necessario, immediata e incontrariadamente, cavar
fundo, rasgar immenso, despedaçar largo, destruir vasto, já, já, agora,
agora, de maneira que a incomparavel vergonha se envergonhe, esta
incomparavel, esta inverosimil, esta unica e extraordinaria hediondez de
que uma nação inteira continue, inerte, tranquilla e triturada, sob as
patadas obscenas d'uma canalha que ella abomina muito menos do que ella
despreza.

«E, se os emigrados teem toda a esperança no paiz, o paiz não se hade
vexar envergonhado, dos seus filhos hoje proscriptos, antes com elles
deve e pode contar para todos os sacrificios que a salvação da patria em
perigo tem o direito de exigir dos cidadãos probos e dedicados. A grande
palavra de Danton, de que ninguem consegue partir do solo que embalou o
berço em que vagiu a infancia, levando a patria pegada ás solas dos
sapatos, tem-n'a presente constantemente os emigrados no espirito. Com
sobresaltada attenção espiam os successos; com a alma em susto,
forçados, a, raivosamente, cruzarem os braços, n'uma inefficacia
provisoria, assistem ao desesperador espectaculo do crescente
amesquinhamento do paiz, que, com fervoroso impeto, respeitam e amam.

«Mas, aguardando sempre, não se differenciam dos seus concidadãos,
injuriados pelo roubo das liberdades outr'ora conquistadas nem se
desinteressam das preoccupações que os agitam. Os de fóra continuam a
fazer causa commum com os que, a dentro de fronteiras, mal podem
expressar seus queixumes. Do exilio os alentam, da terra estrangeira
lhes clamam a esperança no futuro. Solde-se assim um pacto santo. Que a
ultima palavra que pronunciamos seja a que em breve, verbo
reformador, ascenda de todos os corações generosos e irrompa em todos os
puros labios, como a consummação, salutar e fecunda, da grande obra
iniciada a 31 de janeiro:

«Viva Portugal!

«Viva a Republica!»


Este manifesto era assignado, entre outros emigrados, por Alves da
Veiga, Basilio Telles, alferes Malheiro, Antonio Claro, Carlos Infante
da Camara, Annibal Cunha, José Sampaio, Alipio Augusto Trancoso e José
Tavares Coutinho.


A obra iniciada a 31 de janeiro... essa veiu a consummar-se quasi vinte
annos depois.

FIM



Indice


_Do TEXTO_

                                                                      Pag.

Palavras de um soldado                                                   3

Capitulo I--O movimento de 31 de Janeiro filia-se no «ultimatum» de
            1890                                                         7

   »    II--O primeiro rebate do conflicto diplomatico anglo-portuguez  14

   »   III--Serpa Pinto, á frente de 6.000 homens, derrota os
            makololos revoltados                                        20

   »    IV--O governo progressista cede ante as exigencias da
            Grã-Bretanha                                                27

   »     V--O protesto contra o «ultimatum» echoa de norte a sul
            do paiz                                                     34

   »    VI--Serpa Pinto, heroe africano, perde o prestigio              40

   »   VII--O partido republicano nasce da dispersão do reformista      48

   »  VIII--João Chagas abandona enojado a imprensa monarchica          54

   »    IX--O Dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento     62

   »     X--O Directorio recusa a sancção official á revolta            69

   »    XI--A crise ministerial dos «vinte sete dias»                   75

   »   XII--«E as armas que nos foram entregues para defeza das
            instituições, voltal-as-hemos contra ellas»                 82

   »  XIII--Vinte annos apoz a derrota                                  92

   »   XIV--A alvorada triumphante: caçadores 9 inicia o movimento      96

   »    XV--Proclama-se a Republica no edificio da camara Municipal    107

   »   XVI--O choque sangrento--A guarda municipal desbarata os
            revoltosos                                                 114

   »  XVII--A noite negra do traidor Castro--O destino de tres
            officiaes                                                  121

   » XVIII--O dia seguinte ao da derrota                               129

   »   XIX--Para as despezas da revolta bastou um conto de reis        138

   »    XX--Triste balanço: o das victimas da insurreição              144

   »   XXI--A serenidade de uns e o desalento de muitos                149

   »  XXII--O julgamento dos revoltosos                                156


_Das GRAVURAS_

Quartel de infanteria 18, e campo da Regeneração, onde se reuniram as
tropas sublevadas na madrugada de 31 de Janeiro                         15

Elias Garcia                                                            19

Encontro dos revoltosos com as tropas fieis ao governo                  23

Alves da Veiga (1891)                                                   31

Na rua de Santo Antonio                                                 39

João Chagas (1891)                                                      47

A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo Ildefonso          55

Capitão Leitão (1891)                                                   63

Uma carga de cavallaria                                                 71

Rodrigues de Freitas (1891)                                             79

Levantando os feridos                                                   87

José Sampaio (Bruno) (1891)                                             95

Proclamação da Republica                                               103

A Bandeira da Revolta que foi hasteada na camara Municipal             111

Basilio Telles (1891)                                                  115

Bombardeamento da Camara Municipal pelas tropas fieis ao governo       119

Tenente Coelho (1891)                                                  127

Santos Cardoso, preso a bordo                                          135

Actor Verdial (1891)                                                   139

Revoltosos presos a bordo do _India_                                   143

Antonio José de Almeida (1891)                                         147

Os prisioneiros a bordo                                                151

Dr. Affonso Costa (1891)                                               157

Conselho de guerra a bordo do transporte _India_                       161

O tumulo das victimas no cemiterio do Repouso, no Porto                167



      *      *      *      *      *

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IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leão).

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VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.

VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os Filhos de D. João I).

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III *A Revolução Portugueza--O 31 de Janeiro* por _J. d'Abreu_.

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IV--*A Revolução Portugueza--O 5 de Outubro* por _J. d'Abreu_.

V--*A Revolução Hespanhola* por _Victor Ribeiro_.

VI--*A Revolução Nihilista na Russia* por _Stepniak_.

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SOB A DIRECÇÃO LITTERARIA DE

VICTOR RIBEIRO

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I--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A Conquista do Reino).

II--_A Daudet_--*A Creança Abandonada*.

III--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Condestavel).

IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leão).

V--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (D. João I, o rei eleito do
povo).

VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.

VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os filhos de D. João I).

VIII--*A Vida dos Animaes* (Os cães).

IX--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Infante D. Henrique).

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