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Title: A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)
Author: Abreu, Francisco Jorge de, 1878-1932
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)" ***

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Bibliotheca Historica
(Popular e Illustrada)
IV



A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

por

JORGE D'ABREU


1912
Edição da casa Alfredo David
Encadernador
_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
LISBOA



Bibliotheca Historica
(Popular e Illustrada)
IV

A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO



VOLUMES PUBLICADOS

  I--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, por _F. Mignet_, 1.º volume.

  II--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, 2.º volume.

  III--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por _Jorge
  d'Abreu_.

  IV--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 5 DE OUTUBRO (LISBOA 1910), por _Jorge
  d'Abreu_.

  V--A REVOLUÇÃO E A REPUBLICA HESPANHOLA (1868 A 1874), por _Victor
  Ribeiro_.

NO PRÉLO

  VI--A REVOLUÇÃO NIHILISTA NA RUSSIA, por _Stepniak_.



Bibliotheca Historica
(Popular e Illustrada)
IV


A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

POR

JORGE D'ABREU

1912
Edição da Casa Alfredo David
Encadernador
_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_
LISBOA


Composto e impresso na Imprensa Libanio da Silva = Travessa do Falla-Só,
24--Lisboa



Falando aos leitores


_De todos os relatos que vieram á tona da imprensa portugueza sobre
episodios do movimento que implantou a Republica no nosso paiz,
conclue-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do
programma revolucionario que se cumpriram á risca. No emtanto, o
movimento triumphou. As longas horas de espectativa dolorosa, que uns
passaram a desafiar a morte e outros a contas com a torturante
ignorancia da verdade, desfecharam na manhã de 5 de outubro em delirante
estralejar da victoria--alcançada simultaneamente pelo esforço heroico
de meia duzia de patriotas e a inacção de centenares de descrentes. O
movimento triumphou apesar de tudo: da ausencia, no momento supremo, de
elementos de coordenação revolucionaria, do desanimo que bem cedo
invadiu quasi a totalidade dos dirigentes da campanha, da falta sensivel
de armamento destinado aos carbonários e outros civis._

_Na madrugada de 4 de outubro, á hora em que um troço de populares e de
soldados arrastava pela Rotunda o enthusiasmo dos primeiros momentos de
combate bem succedido, ainda n'uma casa dos lados da Sé duas creaturas
devotadissimas fabricavam bombas que um emissario da Revolução d'ahi a
pouco devia ir buscar. Mas o emissario não appareceu e um dos
«fabricantes» sahiu á rua a inteirar-se da situação. Cahiu logo nas
garras da policia... E como este, muitos outros incidentes occorreram na
madrugada celebre, mais proprios, sem duvida, a embaraçar a eclosão do
triumpho do que a facilital-a._

_É que se do lado dos revolucionarios havia quem supportasse, com fé
inquebrantavel, todos os obstaculos--e não poucos--que surgiram ante o
seu designio, do lado do inimigo a convicção da perda irreparavel da
monarchia enraizara-se profundamente, abalando, com diminutas excepções,
as consciencias as mais empedernidas. Parece que, mal soaram no silencio
tragico da noite os primeiros tiros de canhão, a maioria das creaturas,
ás quaes incumbia a missão de luctar pelo regimen extincto, teve a visão
clara da inutilidade do seu esforço[1]._

_A influencia moral desprendida do acto revolucionario, já em
precipitado desenrolar, ajudou muito a conquista da liberdade. A
presença da artilharia no campo revoltoso, a immediata adhesão do
«Adamastor» e do «S. Rafael» ao movimento, o bombardeamento do paço, a
fuga do rei e a derrota das baterias de Queluz contribuiram
innegavelmente, e em larga escala, para assegurar a victoria da
Republica; mas, a par d'esses factores, não é licito esquecer a molleza,
a inercia dos que constituiam o inimigo, uma e outra derivadas d'um
scepticismo que a monarchia, sem dar por isso, inspirava desde muito aos
proprios que a serviam._


_É cedo, porém, para entrarmos na enumeração e apreciação d'esses
factores. O nosso proposito, narrando o que vae lêr-se, é fixar, com o
melhor methodo possivel, os pormenores da sacudidela feliz que destruiu
a monarchia portugueza, as «étapes» do verdadeiro sonho durante o qual
se desmoronou a dynastia dos Braganças. É um pouco a historia da
organisação revolucionaria seguida logicamente do relatorio da batalha
de 4 e 5 de outubro. Aqui e ali resaltarão diversas notas confiadas por
authenticos conspiradores ao signatario d'estas linhas e que, se não
modificam a impressão geral do quadro da revolta que os leitores
conhecem, emprestam-lhe, comtudo, «nuances» absolutamente ineditas que é
justo e necessario pôr em lettra redonda._

_A historia da organisação revolucionaria--sabemol-o
perfeitamente--escreveram-na tres homens durante o periodo febril da sua
preparação. Um d'elles, Miguel Bombarda, destruiu, pouco antes de
morrer, o capitulo mais interessante, o que delineava, em traços
symbolicos, todo o plano de ataque ás instituições monarchicas. Liam-se
n'esse capitulo a força imponente dos elementos revolucionarios e a sua
distribuição pelos pontos vulneraveis; era o balanço, lucidissimo para
os iniciados e inintelligivel para os profanos, do grande exercito
democratico que se aprestara a investir contra a realeza. Miguel
Bombarda destruiu-o receioso de que viesse a cahir, apoz a sua morte, em
poder do inimigo._

_O outro capitulo escreveu-o João Chagas ao sabor da opportunidade, em
minusculos pedaços de papel, nas margens livres de cartas e telegramas e
até em bilhetes de visita. Era o resumo fidelissimo das assembleias
revolucionarias que antecederam o movimento, as «actas» das reuniões
secretas de militares, o registo palpitante das adhesões que dia a dia
faziam engrossar a legião republicana. Esse capitulo não foi destruido.
Atravessou o periodo mais acceso da lucta escondido n'um chapéu
feminino--o chapeu da esposa do illustre pamphletario--e só reviu a luz
do dia quando o governo provisorio já tinha iniciado a sua obra de
reorganisação politica._

_Ainda outro capitulo--o da implantação da Republica, lista dos actos,
das determinações que deviam succeder immediatamente á consagração
solemne do triumpho. Esse esteve, por instantes, condemnado a
desapparecer nas profundezas d'um syphão, transitou depois de algibeira
para algibeira e por fim encontrou refugio seguro na redacção d'um
jornal, a «Lucta»... a dois passos da policia._

_Qualquer d'esses capitulos, publicado isoladamente despertaria um real
interesse e daria margem não só a variadissimos commentarios como a uma
legitima exclamação de não menos legitimo espanto. Mas a nossa pretensão
é mais modesta. Na leitura do que vae seguir-se, encontrar-se-hão
simplesmente os elementos aproveitaveis á formação d'um quarto capitulo,
meramente subsidiario, não traçado por espirito de revolucionario--que o
não fomos--mas annotado por quem, durante o periodo de incerteza,
limitou a sua acção pessoal a tomar apontamentos, a ouvir informações, a
apreciar incidentes, a defrontar muita decisão, muita coragem, e,
sobretudo muito medo, muito pavor. De mistura com isto, repetimos,
apparecerão os depoimentos dos revolucionarios authenticos, dos que
jogaram a vida n'uma cartada de exito._

                                                                 J. DE A.

    [1] _Em 1891, por occasião da revolta do Porto, não succedeu assim.
    «Para o paço de Belem havia desde manhã cedo enorme affluencia de
    personagens officiaes»--dissemol-o no 31 de Janeiro.--«Todos á
    porfia accorriam á regia morada». Quasi vinte annos depois, no
    instante do perigo, fugiam d'ella..._



CAPITULO I

Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo regimen


A policia, que o defunto juizo de instrucção criminal empregava
especialmente na espionagem dos chamados agitadores da opinião, recebeu
um bello dia do final do reinado de D. Carlos o encargo de averiguar o
que projectava de sensacional o partido republicano, que uma denuncia
affirmava mover-se activamente n'uma conspiração surda, mas tremenda. Os
_bufos_ puzeram-se immediatamente em campo e, dentro de curto prazo,
davam ao chefe conta pormenorisada da sua missão. O relatorio d'essa
espionagem, que pretendia, se não estamos em erro, elucidar
policialmente o trama revolucionario do 28 de janeiro, é a documentação
mais perfeita sobre a incapacidade dos que essa mesma espionagem
exerceram. Um dos _bufos_ diz pouco mais ou menos isto:


    Na noite de... ás... horas, vi entrar na casa n.º... da rua de... um
    individuo magro, trigueiro, nariz comprido e de oculos, que se me
    constou ser empregado d'um judeu lá para os lados de... Sahiu da
    mesma casa ás... horas e tambem se me constou que assistiu com mais
    vinte e tantos individuos a uma reunião secreta.


Evidentemente, no relatorio do espião, faltam os dados essenciaes. É uma
cousa vaga, que nenhum chefe de policia podia acceitar de boa fé para
d'ella concluir que o revolucionario assim visado era um dos mais
solicitos republicanos de Alcantara. Mas servia ao momento para
justificar a verba ministerial applicada a esta e outras diligencias e
tudo conjugado, tudo espremido em volta d'outra informação policial que
descrevia um passeio de propaganda nocturna dado pelo sr. dr. Antonio
José de Almeida ás proximidades d'um cemiterio--onde conferenciara com
soldados e marinheiros--deu em resultado o supremo dirigente da
espionagem enveredar pelo caminho da phantasia, já que a verdade lhe não
era nitidamente facultada pelos vãos esforços dos seus subordinados.

Houve um momento em que a Parreirinha--ou a Bastilha, como
quizerem--suou em bica para achar o fio do _complot_. Pensou-se mesmo em
peitar uma creatura que se adivinhava intimamente ligada ao movimento
revolucionario e obter d'ella, com a promessa deslumbrante de farta
recompensa, as informações que os _bufos_ não conseguiam arranjar.
Apertou-se a rede da espionagem, principalmente sobre o rasto e os
menores gestos dos drs. Antonio José de Almeida e Affonso Costa e João
Chagas. Certa noite, o ex-ministro do interior, dirigindo-se para um
ponto da estrada da circumvalação onde projectava encontrar-se com
elementos republicanos, foi seguido por um _bufo_ que tinha jurado aos
seus deuses obter, custasse o que custasse, a revelação completa d'essa
conferencia secreta. Trabalho inutil. A meio da viagem, o _bufo_ perdeu
a pista do illustre caudilho da democracia e só logrou reavistal-o
quando elle já regressava, tranquilo e risonho, ao seu consultorio
medico. Pouco bastou para a Bastilha mandar enforcar o espião inhabil...


Em meio do seu desespero e da sua ignorancia, a policia teve um
sobresalto pavoroso. Outra denuncia, d'esta vez bem recheiada de
pormenores, assignalava ao juizo de instrucção criminal a organisação
d'um _complot_, cujo objectivo era não só a eliminação do dictador João
Franco, que se propunha á viva força consolidar e engrandecer o poder
real, mas o de derruir, n'um golpe de audacia, as instituições
monarchicas. Dizia-se que n'esta altura da conspiração os republicanos
não contavam simplesmente com o apoio e a collaboração dos dissidentes,
que, tendo começado por lançar a semente da revolta politica no cavaco
animado d'uma pastelaria da Avenida, já tratavam a serio d'uma mudança
de regimen. Dizia-se tambem que os chefes em evidencia, os organisadores
do movimento revolucionario--Antonio José de Almeida, Affonso Costa e
João Chagas--tinham procurado o auxilio d'uma parte dos libertarios,
homens de acção energica, dispondo de meios de combate essenciaes á
dispersão, no momento propicio, das forças defensoras da monarchia e que
essa fracção do partido anarchista portuguez promettera aos republicanos
uma parcella consideravel do seu esforço.

[Ilustração: D. Carlos I]

A bomba, o engenho destruidor, que é o pezadelo do que se convencionou
denominar uma sociedade regularmente constituida, passou então a ser a
sombra espectral das regiões policiaes. Descobrir a fabrica do
explosivo, desvendar o recanto solitario onde, dia a dia, homens sem
medo, sem hesitações, debruçados carinhosamente sobre pedaços de metal,
apparentemente insignificantes, jogavam a vida com um desprezo titanico,
era o sonho dourado do Cyro--o Cyro, que se gabava de conhecer todos os
anarchistas militantes--e d'uma longa theoria de famintos, que
espionavam para terem que comer.

Dois _accidentes de trabalho_, occorridos com pequeno intervallo um do
outro, ergueram aos olhos coruscantes da policia uma pontinha do veu. O
primeiro deu-se n'uma casa da rua de Santo Antonio á Estrella. Um
operario do Arsenal de Marinha e o professor de ensino livre Bettencourt
foram as victimas da explosão d'uma bomba--explosão provocada pela
imprudencia do operario ao tentar soldar o apparelho ao fogo d'uma
lampada. O segundo accidente alarmou a cidade na tarde d'um domingo
sombrio. As campainhas dos telephones vibraram apressadamente
communicando ás redacções dos jornaes a noticia do facto. Emquanto, a
poucos passos, na Avenida, uma banda regimental deliciava centenares de
pessoas descuidosas e a garridice feminina animava o quadro d'uns tons
voluptuosos, alguns revolucionarios, encafuados n'um modesto quarto de
estudante, na rua do Carrião, preparavam tranquillamente o exterminio da
guarda pretoriana. De repente, um estrondo formidavel sobresaltou a
visinhança. Viu-se sahir da janella d'esse compartimento acanhado e
inexpressivo uma lingua de fogo e d'ahi a momentos uns transeuntes mais
corajosos, um bombeiro voluntario e um policia defrontavam o espectaculo
commovedor de dois cadaveres mutilados em meio d'um armazem de bombas.

O Cyro, prevenido do facto, não tardou a apparecer no local,
esbofando-se por apprehender o alcance de tamanha revelação. Os nomes
dos dois mortos não figuravam na sua lista de anarchistas; o do preso
(Aquilino Ribeiro) que a judiciaria já fizera conduzir á esquadra
proxima e que evitara, n'um gesto de _gavroche_, o ser apanhado pela
machina photographica d'um _reporter_, tambem lhe não soava
familiarmente ao ouvido. O caso era de embatucar... Os outros chefes ao
serviço do juizo de instrucção perdiam-se egualmente em conjecturas.
Adivinhavam no desastre qualquer coisa de muito tragico e de muito
ameaçador para a segurança do regimen vigente, mas não ligavam a
occorrencia a outros incidentes de menor importancia, que, todos
arrumados methodicamente, poderiam talvez fornecer uma indicação preciosa.

Ao cahir da noite, quando a noticia do facto se divulgou pela Baixa e
pelos centros de palestra, o espanto e o terror invadiram e fizeram
emmudecer muita gente. A policia ainda tentou, com um _truc_ velho,
projectar alguma luz no inesperado acontecimento. Sem perda de tempo,
levou á Morgue o estudante preso no local da explosão e, collocando-o em
face dos corpos esphacelados dos seus dois camaradas, forcejou por
arrancar-lhe uma confissão plena. O sobrevivente do desastre
sensibilisou-se, é certo, á vista dos cadaveres, mas as lagrimas que no
momento derramou não lhe despegaram dos labios a denuncia apetecida. O
_truc_ não surtiu effeito.

Restava applicar á imprensa a mordaça do estylo. O dictador João Franco
fel-o sem rebuço, auxiliado por alguns jornaes que, longe de reagirem
contra esse costume intoleravel de consentir que o chefe do governo
ditasse pelo telephone as poucas phrases em que a noticia de qualquer
facto podia ser transmittida ao publico, se apressaram a recordar-lhe a
existencia d'uma lei, que era feroz armadilha para insubmissos. Quer
dizer: esses jornaes mettiam complacentemente, e até com certo jubilo, o
pescoço na canga da oppressão. Ainda não esquecemos o dialogo
telephonico travado na noite d'esse domingo melancholico entre o
presidente do conselho e a redacção d'um diario de Lisboa:

--V. ex.ª consente pormenores da explosão? perguntava o jornal.

--Não tenho nada com isso, respondia o primeiro ministro de D. Carlos...
os senhores bem sabem o que lhes compete fazer.

--Mas a lei de 13 de fevereiro?...

--Ah! sim, está em vigor...

--E... v. ex.ª applica-a?

--Naturalmente.

--Mas o publico precisa ser informado...

--Bem sei... mas eu nada tenho com isso... mandem ao governo civil. Vou
recommendar para ali que forneçam a todos os jornaes uma nota resumida
do caso.

E assim succedeu. Uma hora depois, os _reporters_ que tinham ido ao
bebedouro commum da informação officiosa regressavam com cinco
linhas--cinco linhas apenas, não exageramos--em que se registava, n'uma
linguagem quasi sybillina, a descoberta, por meio do desastre, do
fabrico de explosivos _para fins manifestamente criminosos_. Uns jornaes
publicaram essa nota na integra, sem resalvarem a proveniencia; outros,
mais escrupulosos, precederam-na d'outras linhas que a reduziam ao seu
justo valor; um unico teve a coragem de transgredir as ordens do
dictador, noticiando ao mesmo passo o nome d'uma das victimas da
explosão!...

O relato pormenorisado do acontecimento com as competentes gravuras
(photographias dos cadaveres na Morgue, _croquis_ do interior do quarto
de estudante e a reconstituição graphica da scena commovente) foi no dia
immediato exportado para o Brazil e inserto n'uma folha do Rio, afim de
que se não perdesse totalmente o trabalho do noticiarista, a presteza do
photographo e a habilidade do desenhador.



CAPITULO II

Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca


O proprio Aquilino Ribeiro--que, diga-se de passagem, é um
intellectual--descreveu mais tarde ao signatario d'estas narrativas como
occorrera o desastre da rua do Carrião.

--Aquillo foi assim--contou elle. Eu nunca tinha feito bombas, apesar
das minhas convicções já me terem enfileirado n'um grupo libertario.
Sabia que n'essa occasião, e mercê da preparação do movimento
revolucionario do 28 de janeiro, esse fabrico se alargara a diversos
pontos de Lisboa e mesmo fóra de Lisboa e dava-me intimamente com
diversos militantes e propagandistas da acção directa. Tinha até
cooperado na organisação do ataque aos quarteis e ás forças da
municipal, indo com Alfredo Costa e outros alugar quartos em varios
pontos estrategicos, d'onde projectavamos dynamitar essa legião fiel ao
regimen monarchico. Um bello dia o dr. Gonçalves Lopes pediu-me para
levar ao meu quarto dois caixotes com bombas. Hesitei, observando-lhe
que a dona da casa podia attentar no facto, mas elle desvaneceu-me todos
os receios, explicando-me que necessitava absolutamente transformar o
meu aposento n'um deposito eventual de explosivos.

[Ilustração: João Franco]

«Combinou-se o transporte dos caixotes do consultorio do dr. Gonçalves
Lopes, na rua do Ouro, para ali, mas, ou porque elle não me
pormenorisasse bem como a coisa devia ser feita, ou por outro motivo de
que me não recordo, o moço incumbido de os levar á rua do Carrião teve
de arripiar caminho e voltou com os caixotes para o consultorio. Grande
pasmo do dr. Gonçalves Lopes e, no dia seguinte, após uma breve
explicação que eu e elle tivemos no Suisso, os caixotes (cada um pesando
approximadamente sessenta kilos) tornaram a emprehender a viagem para o
meu quarto. Desde então, passei tambem a collaborar regularmente no
fabrico de explosivos.

«Vendo o dr. Gonçalves Lopes e o commerciante Belmonte, seu companheiro
na manipulação dos engenhos, carregarem umas tantas bombas, aprendi
facilmente a operação e no domingo do desastre em que nos reuniramos
para a continuar já me comportava ao lado de ambos como um _fabricante_
experimentado. Tinhamos carregado umas sessenta ou oitenta e faltava
ultimar muitas mais. O dr. Gonçalves Lopes parou a descançar e disse-me:

«--Você agora podia incumbir-se do resto...

«Eu não respondi de prompto e, ficando assente que á noite
recomeçariamos a operação, dispuzemo-nos, no emtanto, a carregar mais
tres para dar por finda a tarefa da tarde. Cada um de nós pegou n'uma
bomba vasia. Na minha frente estava o dr. Gonçalves Lopes e mais adeante
o seu companheiro. O dr. Gonçalves Lopes, descuidando-se um pouco nas
precauções que era de uso tomar em taes circumstancias, principiou a
martellar com força no engenho que tinha na mão. Ainda lhe recommendei
prudencia; mas elle sorriu-se, incredulo, do meu receio, e continuou o
trabalho. De repente, um grande estrondo atordoou-me sensivelmente. A
bomba do dr. Gonçalves Lopes explodira. Vi-o cahir esphacelado,
salpicando-me de sangue e vi o commerciante Belmonte avançar para mim,
soltando um grito como o d'um animal ferido de morte. Acolhi-o nos
braços, mas tive que o largar logo a seguir porque já agonisava.

«Foi um instante de dolorosissima atrapalhação. Dirigi-me a outro quarto
a lavar-me, porque estava negro como um carvoeiro e quando voltei ao meu
aposento pensei em fugir. Mas, como? O meu chapeu parecia um crivo, o
vestuario não inspirava confiança, as mãos e a cara denunciavam-me,
trahiam-me... Passeei uns segundos pelo quarto sem saber o que fazer e
quando percebi que gente estranha subia a escada, a inquirir do
estrondo, fui estupidamente esconder-me debaixo da cama. Os primeiros
minutos passei-os quieto e calado n'esse refugio d'occasião. Mas, logo
que ouvi a curta distancia os commentarios da policia e as interrogações
dos _reporters_, longe de procurar misturar-me com o meu amigo e os
nossos collegas--Aquilino Ribeiro era n'esse tempo collaborador da
_Vanguarda_--comecei a agitar-me e despertei a attenção do chefe
Ferreira. Estava apanhado.

[Ilustração: Attentado de 1 de Fevereiro.--Assassinato do Rei. D. Carlos
e Principe D. Luiz Filippe]

--Levaram-me para o governo civil e depois á Morgue. Assediaram-me de
interrogatorios. Pouco antes, com a explosão da rua de Santo Antonio, á
Estrella, tinham sido presas, por suspeitas, umas cem pessoas. Com a da
rua do Carrião, apesar da extensão enorme do fabrico das bombas em
Lisboa, restringi tanto o cerco da curiosidade policial, que o chefe
Ferreira apenas conseguiu incommodar um pobre homem em casa de quem foi
encontrado um cartão de visita com o meu nome. Depois; estive dois mezes
incommunicavel, durante os quaes só me queixei d'uma coisa: da má
qualidade da comida fornecida aos presos.

«Durante o periodo da incommunicabilidade procurei, naturalmente,
libertar-me da prisão. Fiz para isso, com a maior paciencia, variados
preparativos. Aproveitei o azeite que condimentava as minhas rações de
bacalhau para amaciar os gonzos e os ferrolhos do carcere. Com o miolo
de pão fiz prodigios de habilidade e de disfarce. Em summa, quando me
levantaram a incommunicabilidade já tinha quasi tudo organisado para a
evasão.

«Uns amigos prometteram-me auxilio. Era necessario arranjar um automovel
para me receber á sahida da esquadra do Caminho Novo e transportar-me a
logar seguro. Creio, porém, que os donos de dois d'esses vehiculos, aos
quaes os meus amigos se dirigiram, _os não puderam dispensar_ e uma
bella noite, quando consegui fugir do carcere, encontrei-me na rua, só,
exposto a uma chuva torrencial que me transformava n'um pintainho. Uma
vez transposto o muro do Posto de Desinfecção, contiguo á esquadra e
tendo-me deixado escorregar por uma guarita onde uns operarios guardavam
a ferramenta, atrevi-me a passar deante da sentinella da esquadra, como
se fôra um simples transeunte que recolhia a casa a deshoras.

«Fui á Estephania á procura d'um conhecido. Bati. Ninguem me respondeu.
Ou melhor, ninguem me abriu a porta. No trajecto, até lá, sempre debaixo
de agua, encontrei uma carruagem particular, vazia, mas o cocheiro,
quando lhe fallei em transportar-me, olhou-me de soslaio e respondeu com
uma evasiva. Que admira! A barba hirsuta dava-me certamente um aspecto
horrivel. Tinha sobre o casaco uma blusa com bolsos collados a miolo de
pão... As botas e as calças destilavam immensa lama... Da Estephania
dirigi-me á Praça da Figueira. Deram as oito da manhã e calculei que a
essa hora a policia, sabendo da minha fuga, já andasse pressurosa no
encalço do evadido. Na Praça comprei um molho de hortaliça e tratei de
occultar o rosto o mais possivel. Fui a casa do Alfredo Costa, á rua dos
Retrozeiros. Dormia ainda. Fui a outra casa. A pessoa que a habitava
aconselhou-me o esconderijo n'outro ponto. Não acceitei o conselho e
encafuei-me na taberna do João do Grão, na travessa da Palha.

«Ahi reparei as forças perdidas com essa noitada de anciedade, de
cançaço e de chuva, comendo _meia desfeita_ e tomando um litro de vinho.
Momentos depois, apparecia-me então o Alfredo Costa e eu entrava para
uma casa da maior confiança, conservando-me em Lisboa, escondido da
policia, durante dois mezes...»


Preso um dos _fabricantes_ de bombas, a policia volveu os olhos para
todos os amigos de Aquilino Ribeiro, calculando ser-lhe relativamente
facil capturar, acto continuo, o que ella appelidava os _cumplices das
vitimas_. Um dos alvejados pela perseguição da Bastilha, o dr. Alberto
Costa, tendo-se injustamente convencido de que o preso _falára_, abalou
para Hespanha. Deu-se a fuga de outros revolucionarios, as diligencias
policiaes arrastaram-se mollemente e com evidente desorientação e,
apezar de que o desasocego dos conspiradores era de molde a infundir
suspeitas aos menos precavidos, ainda d'esta vez a espionagem do juizo
de instrucção não logrou desenrolar o fio da meada. E que admira, se no
periodo de descuidosa imprevidencia em que o dr. Alberto Costa passeiava
nas ruas de Lisboa com uma maleta cheia de bombas e se divertia a bailar,
sobre uma cama que occultava uma caixa d'esses engenhos, os Argus da
Parreirinha nem por palpite o encaravam com desconfiança!...

O fabrico de explosivos não occupava simplesmente meia duzia de pessoas.
Absorvia os cuidados de diversos grupos. Generalisara-se por uma fórma
assombrosa e, dentro e fóra de Lisboa, trabalhava-se afincadamenteem
centenas de apparelhos destruidores. Cada dia que passava sobre as
arranhadelas da dictadura via surgir para a lucta novos combatentes e
novas dedicações. Então, não era só o partido republicano que protestava
contra o existente; os seus clamores de revolta echoavam na consciencia
de muitos monarchicos; a legião dos que, na primeira hora de enganadora
miragem, tinham acolhído o governo João Franco como o advento de um
Messias, esboroava-se a olhos vistos. A atmosphera em volta do throno
carregava-se progressivamente de indignação, de odio, de
intranquillidade e, a não ser D. Carlos, que nunca se sensibilisára com
a agitação da massa popular, e o ministerio franquista, que suppunha
governar a contento do paiz, todos os outros elementos argamassados
pelos favores do regimen sentiam, palpavam, futuravam, com maior ou
menor largueza de vistas, a derrocada imminente.

A preparação do 28 de Janeiro proseguia com alma, com actividade febril.
A compra de armamento e a sua introdução em Lisboa, atravez das
barreiras fiscaes, haviam tomado tal incremento que os proprios
organisadores do movimento se admiravam da cegueira da policia. As
reuniões secretas succediam-se vertiginosamente. Havia como que a ancia
de chegar ao fim da jornada revolucionaria, fazendo d'um só folego a
corrida heroica para o triumpho ou para a derrota.



CAPITULO III

Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de Janeiro


Quem, a dentro do partido democratico, teve a iniciativa da projectada
revolta? Não é facil responder, porque ella estava desde muito no animo
dos mais fogosos caudilhos d'esse partido. Entretanto, podemos
conjecturar que, sabendo João Chagas dos trabalhos revolucionarios que
alguns dos seus companheiros de lucta já tinham annos antes encetado,
procurasse aproveital-os, realisando ao mesmo tempo a approximação dos
republicanos e dos dissidentes, que a dictadura franquista hostilmente
arredara do contacto do rei Carlos. Os primeiros passos para o movimento
foram dados em casa do visconde da Ribeira Brava, de todos os amigos do
sr. Alpoim o que então se mostrava mais inclinado a abandonar a
monarchia. Conta elle o seguinte:


«Quando se tinham malogrado todos os esforços dos partidos para subjugar
o despotismo do rei e de João Franco fui procurado pelo infeliz Alberto
Costa, que me propoz tomar eu a iniciativa da revolta. Hesitei,
objectando que para isso me faltavam os elementos populares, que estavam
todos no partido republicano, e que sósinho nada poderia fazer.

[Ilustração: Manuel Buiça]

«--E se você se entendesse com o João Chagas?--retorquiu Alberto Costa.

«--N'esse caso estou certo de que fariamos alguma coisa de importante.

«Ficou logo aprazado um encontro com João Chagas, que se efetuou n'esse
mesmo dia, a dez de julho (1907) se não me engano, á meia noite, junto
do coreto da Avenida. Ahi assentámos nas linhas geraes do movimento
revolucionario, resolvendo-se nomear um _comité_ organisador. A primeira
reunião effectuou-se no dia seguinte, em minha casa, comparecendo a ella
Affonso Costa, Alexandre Braga, Egas Moniz, França Borges, Mascarenhas
Inglez, Marinha de Campos e Alpoim, tendo-se depois d'isso realisado
ainda uma entrevista entre José d'Alpoim e Antonio José d'Almeida.»


Na mesma reunião e em posteriores conferencias escolheram-se, para a
execução do plano revolucionario, dois _comités_: o civil composto pelos
srs. Bernardino Machado e Antonio José de Almeida, membros do
Directorio, e mais João Chagas, Affonso Costa e Augusto José da Cunha; o
militar formado por Candido dos Reis, José de Freitas Ribeiro, José
Carlos da Maia, Xavier Barreto, Sá Cardoso e Alvaro Pope. O primeiro
cuidado d'estes _comités_ foi o de aggregar os elementos que andavam
dispersos mas que se conservavam fieis á causa da democracia os que
restavam da mallograda revolta de 31 de Janeiro e se tinham preparado
para o movimento de 1896, que mal chegara a esboçar-se.

Houve divergencia entre os mais evidentes dos revolucionarios por causa
do plano a executar. Uma minoria, radicalissima na maneira de proceder,
não contrariava o projecto, delineado ao de leve, de se atacar o paço
das Necessidades e forçar o rei Carlos a um embarque consecutivo para o
estrangeiro. Os restantes queriam simplesmente limitar a revolta á
eliminação da monarchia com o menor dispendio de violencia. Por fim,
triumphou a parte moderada dos organisadores do movimento e
deliberou-se, em ultima analyse, fazer explodir a Revolução durante a
ausencia do monarcha em Cascaes, mesmo para que a sua estada em Lisboa
não influisse de qualquer modo na attitude que muitos dos officiaes, de
politica indefinida, por certo, adoptariam. Por outro lado, alguns dos
revolucionarios receiavam que um acto violento dirigido contra D. Carlos
creasse, no extrangeiro, difficuldades á futura Republica. Assentou-se,
portanto, em definitivo, que o movimento rebentaria quando o rei
estivesse fóra da capital. A Revolução, uma vez triumphante, prenderia
em Cascaes o soberano e a familia, e obrigal-os-hia a sahirem do paiz.

Mas, os trabalhos dos conspiradores alongaram-se mais do que seria
licito calcular, e, como a familia real regressasse, no entanto, a
Lisboa, houve precisão de concertar outro plano, que comprehendia,
novamente o assalto ao palacio das Necessidades. N'esta altura do
_complot_, um dos officiaes que os revolucionarios suppunham
inteiramente do seu lado commetteu uma traição e o plano soffreu grandes
modificações, recomeçando-se, n'outras bases, os trabalhos
indispensaveis á sua realisação pratica. Appareceram ainda difficuldades
de diversa natureza, contrariando fortemente a propaganda nos quarteis e
o aliciamento de elementos civis, e a situação só melhorou quando a
familia real partiu para Villa Viçosa, «simplificando bastante o
programma pela suppressão d'um dos seus numeros mais difficeis e
delicados...»


O plano da campanha, urdido por um official do estado-maior, passou
então a ser cuidadosamente preparado. A cidade foi dividida em diversos
sectores, comprehendendo cada um d'elles os pontos a atacar, isto é, os
pontos d'onde se calculava que surgiria, no momento supremo, a defesa do
regimen combalido. Cada quartel da municipal e de cavallaria era cercado
de uma verdadeira rede de dynamitistas que, conjugando a sua acção com
outros grupos de populares armados, procurariam impedir a sahida, para a
lucta, das forças declaradamente monarchicas. As esquadras de policia
tambem deviam soffrer o ataque dos populares; os officiaes de marinha e
outros elementos revolucionarios tomariam conta do _D. Carlos_ e do
quartel de Alcantara; a carreira de tiro em Pedrouços e todos os pontos
onde era relativamente facil encontrar armamento seriam egualmente
visados pela acção dos revoltosos.

Para o assalto aos quarteis das forças que constituiam propriamente a
guarnição de Lisboa, João Chagas organisára vários grupos de 30 a 60
homens de todas as classes--medicos, agronomos, engenheiros, advogados,
empregados do commercio, etc.--grupos que se distinguiam uns dos outros
por um emblema representando uma flor:--uma rodela de cartão aguarelado
que o revolucionario pendurava no forro do casaco e que só seria visivel
quando elle o abrisse perante um companheiro ou um chefe. Temos deante
de nós varias d'essas rodelas e uma nota escripta a lapis pelo punho de
João Chagas, que descrimina assim a formação das forças:


_Malmequer_, 60 homens.

_Rosa_, 30.

_Violeta_, 40.

_Cravo_, 60.

_Saudade_, 20.

_Crysanthemo_, 40.

_Papoula_, 30.


Total, 280 assaltantes para os quarteis das forças da guarnição. Cada
grupo tinha previamente conhecimento do regimento onde, no momento
opportuno, devia operar: isto com o fim de conhecer, tambem
antecipadamente, o quartel onde prestaria a sua coadjuvação. Os melhores
d'esses grupos eram os dirigidos pelo dr. Carlos Amaro, Sá Pereira, Saul
Simões Serio e Paulino de Freitas. Estavam armados de revolvers e
pistolas automaticas com cincoenta cargas cada.

Note-se incidentalmente que, n'essa época de preparação revolucionaria,
a propaganda entre militares conquistara talvez mais adeptos do que
annos depois, para o movimento que implantou a Republica. O numero de
officiaes adherentes era, sem duvida, maior. A dictadura franquista
despertára mais odios e sêde de liberdade do que a inacção, quasi
absoluta, do gabinete Teixeira de Sousa. A teia revolucionaria era,
innegavelmente, mais complicada. Comtudo, apesar das precauções tomadas
e da adhesão de elementos prestigiosos, a opinião auctorisada não
agourava bem do emprehendimento, exactamente por lhe parecer que havia
demasiada somma de creaturas na posse do grande segredo. É certo que na
constituição dos grupos de populares houvera o cuidado de erguer como
que uns compartimentos estanques, para impedir que, uma vez um d'elles
invadido pela onda da traição, os restantes se afundassem no mesmo
pelago. Mas não o é menos que a distribuição de armamento de toda a
especie fôra feita com excessiva antecipação--o que já não succedeu para
o movimento de 5 de outubro--e o corpo dirigente da organisação
revolucionaria admittia, pelas suas variadissimas ligações, uma maior
interferencia de indicações e de alvitres, nem sempre proprios a
favorecer o triumpho.

[Ilustração: Alfredo Costa]


A acção dos dissidentes na preparação do 28 de janeiro não ha duvida que
foi larga e abundante em peripecias. Os dissidentes e aquelles dos seus
amigos que entraram na revolta deram-lhe um apoio material efficaz. O
sr. Alpoim, quer em sua casa, ou na famosa pastelaria da
Avenida--conhecida como um baluarte dos monarchicos revoltados--ou ainda
na casa do visconde da Ribeira Brava, prodigalisava-se em insistente
propaganda contra o regimen, a dictadura Franco e até contra a
existencia do monarcha dos adeantamentos. Para o sr. Alpoim, como de
resto para toda a gente que ousava falar com franqueza, a franqueza
permittida pelo dictador, a suppressão de D. Carlos seria o golpe
decisivo n'uma situação como, então, se supportava, de intoleravel
arbitrio, de rancor, perseguição e delação ignobil. Não quer isto dizer
que o chefe da dissidencia progressísta aconselhasse a morte do rei como
um dos principaes numeros do programma dos revoltosos... Mas,
encarando-a como a solução do problema a liquidar, traduzia as
aspirações de muitos patriotas.

O sr. Alpoim, tendo palpitado o monarcha, convencera-se de que elle
ligara indissoluvelmente o seu destino ao destino politico do dictador.
O governo João Franco deslumbrara o espirito do rei Carlos,
mostrando-se-lhe como o unico capaz de confeccionar, para o livro do seu
reinado, uma pagina de certo relevo historico. O dictador era o ideal
para um soberano que, vivendo até então pouco menos que alheiado da
politica interna, resolvera d'um momento para o outro, assim como quem
acorda d'um sonho, interessar-se assiduamente pela mesma politica.
Eliminado o dictador, D. Carlos, se quizesse proseguir no seu proposito
de modificar o regimen da successão ministerial, teria fatalmente que
chamar ao poder o estadista ou estadistas que combatiam fortemente o
rotativismo.

Não é desasisado suppôr que só com esta esperança é que o sr. Alpoim não
adheriu desde logo á Republica. Veiu para a Revolução para trabalhar e
trabalhou. Mas, no fundo do seu pensar, talvez se convencesse de que o
movimento daria apenas em resultado o apeiar o governo João Franco do
pedestal que o monarcha lhe erguera nas columnas do _Temps_. De resto, o
sr. Alpoim confessou isso mesmo mais tarde n'estas linhas que recortamos
do seu antigo órgão na imprensa:


«O chefe dissidente, e outros seus correligionarios--não a dissidencia
progressista como partido--resolveram então collaborar com os
republicanos no intuito de aniquilar o regimen dictatorial que
assoberbava o paiz. Vinha a Republica? Tudo era preferivel, tudo, _fosse
o que fosse_, á continuação d'este estado de coisas que era um opprobrio
nacional.»


Decidido a trabalhar, tomou contacto com os chefes republicanos e
avistou-se com os elementos sem rotulo partidario que apoiavam o
movimento. Contribuiu immenso, e mais os seus amigos, para a compra de
armamento--e d'ahi o espalhar-se um boato insubsistente a que em breve
nos referiremos. A sua interferencia na collecta de fundos para o cofre
revolucionario exerceu-se com devotamento digno de registo. Os seus
amigos auxiliaram bastante a introducção do armamento em Lisboa e a
larga distribuição que d'elle se fez por diversos pontos estrategicos. E
se no dia primitivamente marcado para a explosão da revolta não a
iniciou com um arranco heroico sobre o ninho da realeza, é porque lhe
ponderaram a conveniencia de collaborar antes n'outro episodio não menos
importante. Por si, satisfazendo apenas o seu desejo ardente, o sr.
Alpoim teria defrontado, com as armas na mão, o monarcha provocador.

Dias antes do 28 de janeiro, Affonso Costa e João Chagas tentaram
filial-o no partido republicano. N'uma reunião em casa do visconde da
Ribeira Brava, a que tambem assistiu o dissidente Egas Moniz,
fizeram-lhe vêr que a hostilidade do paço contra o grupo politico da sua
chefia era invencivel e que, marchando elle para a Revolução, de mãos
dadas com os republicanos, forçoso se lhe tornava ingressar abertamente
na democracia. O sr. Alpoim, ás repetidas e persuasivas instancias que
lhe dirigiram n'esse sentido, respondeu:


«Que, sendo chefe d'um grupo politico, que tão dedicada e lealmente o
havia acompanhado sempre e onde havia um grande numero de individuos com
idéas adversas á Republica, não podia, sem praticar uma deslealdade,
abandonar esses amigos; que á causa da Revolução dava a sua pessoa; o
seu filho e o seu dinheiro. Estava prompto no momento da lucta a occupar
o ponto mais perigoso que lhe fosse distribuido; que nada queria, nem
pedia, como recompensa, á Republica, mas que não alterava a sua situação
politica.»


A seguir, perguntou ao visconde da Ribeira Brava o que tencionava fazer.

--Eu, meu caro Alpoim--retorquiu-lhe o visconde--já não volto para traz.


O inicio dos preparativos para o 28 de janeiro data de julho de 1907. Um
mez depois, Machado dos Santos, que collaborava com os officiaes de
marinha Serejo Junior e Soares Andréa n'um acanhado projecto de acção
anti-monarchica, foi abordado por Marinha de Campos e Mascarenhas
Inglez, que o convidaram a tomar parte no grande movimento organisado
pelos republicanos e os dissidentes. A principio desconfiado, Machado
dos Santos não tardou a acceder e em setembro, n'uma reunião effectuada
no escriptorio de Alexandre Braga, foi apresentado a João Chagas e
Candido dos Reis, que com aquelle illustre causidico, Serejo Junior,
Marinha de Campos e Alberto Costa, discutiam então a necessidade de
chamar o exército em auxilio da conjura. No relatorio que o triumphador
da Rotunda publicou em 1911 encontram-se estas passagens que
pormenorisam essa reunião:


«_Pad-Zé_ queria ir com 50 homens atacar a cidadela de Cascaes; Marinha
de Campos desejava sósinho agarrar a monarchia pelo pescoço e
apertar-lhe os gorgomilos. Candido dos Reis com a sua evangelica
paciencia deitava agua na fervura, aconselhava paternalmente a moderação
e João Chagas, contando os insuccessos de anteriores tentativas
revolucionarias, de que havia sido alma, dizia, com a auctoridade da sua
experiencia, que sem o exercito nada se devia tentar. «Mas o exercito é
nosso!» disse eu ingenuamente á illustre assembleia. Os sorrisos que
obtive em resposta convenceram-me do contrario.

«Chagas, o eterno sacrificado das revoluções frustradas, Chagas que,
melhor do que eu, melhor do que Candido dos Reis, conhecia os nossos
navios de guerra, por n'elles ter sido hospedado pela monarchia, Chagas
disse-me que não tivesse illusões, que era necessario trabalhar e
trabalhar muito para que alguma coisa se fizesse, e alvitrou uma
immediata convocação dos officiaes do exercito, para se saber se estavam
dispostos a sahir comnosco para a rua. Candido dos Reis encarregou-se de
os reunir e essa reunião ficou assente que se effectuaria tres dias
depois, para se conseguir que ella fosse bastante concorrida afim de
lhes dar uma impressão de força, que, reunidos em pequeno numero, os
officiaes não podiam ter.

«Chamando de parte o almirante, perguntei-lhe se os officiaes da marinha
com que contava estavam em commissão de embarque ou no quartel;
respondeu-me que poucos, muito poucos, estavam n'essa situação e que
d'um momento para o outro podiam ser transferidos e postos na condição
de nada nos poderem valer. Perguntei-lhe então se concordava na
organisação de fortes nucleos de marinheiros nas differentes unidades,
afim de podermos empregar os nossos officiaes no caso do governo os
deslocar das situações que tinham.

«Respondeu-me que isso seria optimo, mas que não via quem se quizesse
encarregar d'essa organisação, que achava perigosa para a pessoa que a
tentasse e que podia expôr o movimento a ser delatado pelo primeiro
tagarella de _camisola de alcaxa_ que aparecesse. Disse-me egualmente
que via inconvenientes pelo lado da disciplina, porque se o movimento
não lograsse exito havia de ser difficil mantêl-a a bordo e para a
conseguir muitos teriam que soffrer; comtudo concordava em que sem os
fortes nucleos de marinheiros nos diversos navios nunca a Revolução se
poderia levar a cabo.

«Ficou assente entre os dois que eu me incumbiria d'isso, declarando ao
almirante que me parecia que nenhum movimento os marinheiros deveriam
fazer sem a presença d'um official, limitando-se elles a passarem a
receber as ordens do official ou officiaes que fossem a bordo ou ao
quartel a uma hora combinada...»


D'ahi a dias, Machado dos Santos encetou a tarefa de alliciamento e,
dedicando-se especialmente aos frequentadores do bairro de Alcantara,
conseguiu juntar oitenta marinheiros, devotadissimos, que, por seu turno
se abalançaram, á conquista de novos camaradas, attrahindo-os
cuidadosamente á conjura.



CAPITULO IV

A policia descobre um dos fios do «complot»


Emquanto a preparação do combate proseguia sem desfallecimentos por
parte dos republicanos, dos dissidentes e d'uma fracção dos libertarios,
a policia, reforçada com uma nova remonta de espiões, espreitava anciosa
a agitação que percebia na sombra. De vez em quando, julgava apanhar uma
nesga de luz e ficava amarrada por instantes a um rasto sem valor. Para
não perder de todo o tempo e o feitio, vigiava impertinentemente as
creaturas em evidencia no partido republicano, sem seleccionar de entre
ellas as que conservavam realmente n'essa occasião estreitas ligações
com os revolucionarios. Marchava ás apalpadelas. Embasbacava ante o
menor grupo de transeuntes pacificos. Percorria os cafés, disfarçada em
padres, mestras, mendigos e moços de esquina, escutava ás portas,
farejava o ambiente e esquecia-se exactamente de topar com um dos muitos
caixotes de bombas que, em pleno dia, e ás costas de gallegos, se
entrecruzavam nas ruas de Lisboa.

Alcantara, os Loyos e até o Chiado, estavam minados de explosivos. No
Bairro Alto havia depositos d'armas que despertariam a inveja d'um
arsenal. Conspirava-se por todos os cantos, segredavam-se instrucções,
as reuniões secretas de officiaes tornavam-se mais frequentes, as lojas
dos armeiros esvasiavam-se como por encanto. Nada faltava para o bom
exito. De tudo se cuidara, até dos serviços de ambulancia e manutenção.
As offertas affluiam de todos os lados. (Um benemerito poz á disposição
dos conspiradores uma carroça cheia de chouriços).

A febre revolucionaria não diminuia. Approximava-se a data solemne.
Alguns dias mais e sobre Lisboa cahiria durante horas uma verdadeira
chuva de fogo...


É n'esse momento critico da organisação da revolta que a policia tem um
alegrão. Apanha, quasi sem dar por isso, um rasto de certa importancia e
desata a exploral-o com uma furia indescriptivel. Effectuam-se as
primeiras prisões de elementos revolucionarios conhecidos, tentando-se
assim fazer abortar, pela clausura dos chefes, o movimento projectado.
Contemos pormenorisadamente como isso se deu.

Alfredo Leal fôra incumbido de adquirir armamento para os 280
assaltantes dos quarteis, missão de que se desempenhou rebuscando as
casas de penhores, armeiros, etc. Como as ordens da policia eram
apertadas, fez essas compras pretextando umas encommendas da provincia
para confecção de panoplias e, ainda com o intuito de não despertar
desconfianças, munia-se sempre de dois recibos, um com desconto e outro
sem desconto, que era o destinado ao _freguez_. O dinheiro para esse
armamento forneceram-no, além do Directorio, José Relvas, que contribuiu
com uma importante quantia, o africanista João Baptista de Macedo e
outros individuos dedicados á boa causa.

Não tardou, portanto, que os armazens Leal, da Rua de Santo Antão,
ficassem transformados em arsenal, onde Alvaro Pope, João Chagas e José
Freitas Ribeiro analysaram detidamente o material destinado á revolta.
Esses armazens já tinham ao tempo uma fama revolucionaria, porque desde
muito eram o _rendez-vous_ dos insubmissos. Os conspiradores conheciam
as suas salas pelas _salas dos passos perdidos_... Para o movimento de
28 de Janeiro tambem serviram quasi diariamente ás reuniões de officiaes
do exercito de mar; para lá enviou o dr. Alberto Costa duas caixas de
bombas que mais tarde sahiram, a _pau e corda_, dos armazens para o
consultorio do dr. Gonçalves Lopes; ali se reuniram diversos cabos e
praças da guarda municipal aquartelada proximo das Necessidades, que
faziam então causa commum com os revoltosos, e os sete grupos de 40, 60
e 30 homens destinados ao assalto aos quarteis. A essas reuniões
assistiam sempre João Chagas, Alvaro Pope e Alfredo Leal. O proprietario
dos armazens chegou a mandar fazer caixas de embarque e n'esse
estabelecimento se encaixotaram as armas dos grupos populares, que
sahiram para o seu destino levando esta marca: _Telmo Bandeira, S.
Thomé_. E a policia, sempre ás aranhas...

Como descobriu ella, afinal, o tal fio da conspiração a que atraz
alludimos? D'este modo: ao chefe d'um dos grupos populares, Victor de
Sousa, aggregou-se mais um combatente, um policia, seu compadre e amigo,
de serviço, ao que parece, á porta do dictador. Iniciou-o no mysterio,
indicando, ao mostrar-lhe as armas já em sua casa na rua Luz Soriano,
que João Chagas e Alfredo Leal eram os incumbidos especialmente d'essa
distribuição de alta responsabilidade. Na madrugada seguinte era preso
Victor de Sousa. Alfredo Leal tinha ainda nos armazens grande quantidade
de armamento por entregar. Apesar do segredo em que a policia envolveu
aquella captura, Affonso Costa e João Chagas souberam-na a tempo e pelo
telephone avisaram o proprietario dos armazens para que puzesse a salvo
as armas restantes. Após o aviso, o visconde da Ribeira Brava correu á
rua de Santo Antão. Os armazens estavam cercados pela policia. Era
urgente proceder com habilidade e frustrar os designios do juizo de
instrucção.

Os armazens teem uma portinha que deita para as escadinhas de S. Luiz em
frente da entrada do Coliseu dos Recreios. A sahida das armas devia ser
feita por essa portinha, caso a policia não houvesse dado por ella...
como não deu. As armas foram enroladas, em tapetes e, constituindo tres
fardos, Alfredo Leal, seu filho José Saragga Leal e um criado de
confiança, transportaram-nas á calçada de Sant'Anna, onde o visconde da
Ribeira Brava as esperava mettido n'um _coupé_, para as ir occultar
provisoriamente na sua casa, em plena Avenida da Liberdade. O material
da revolta salvou-se, mas na madrugada seguinte Alfredo Leal era preso
no Dafundo. João Chagas, que na vespera jantara com elle na _Charcuterie
Française_, cahira em poder da policia ao sahir d'esse estabelecimento
da rua Nova do Carmo. Escusado será dizer que as buscas emprehendidas
nos armazens da rua de Santo Antão não deram o mais insignificante
resultado. No emtanto, o dictador fazia espalhar pouco depois que a
policia tinha ali encontrado armas e bombas em abundancia...


N'esta altura da narrativa cabe referir que muitos dos individuos, tanto
da classe civil como da classe militar, implicados na conspiração, só
foram sobejamente conhecidos do publico quando, insistindo na conjura,
se misturaram á organisação da revolta de 4 e 5 de outubro. Outros
houve, em compensação, que, vendo mallogrados os esforços applicados ao
28 de janeiro, abandonaram definitivamente os trabalhos revolucionarios
e foram surprehendidos pela proclamação da Republica n'um alheiamento
completo da agitação politica.

[Ilustração: D. Manoel II]

O almirante Candido dos Reis, cuja acção no _complot_ de 4 e 5 de
outubro teve uma evidencia excepcional, garantindo, além de tudo o mais,
pela sua figura de destaque, a adhesão de diversos officiaes do exercito
de mar e terra, no 28 de janeiro sobresahiu por uma forma inolvidavel.
Sob as suas ordens é que devia dar-se então o assalto ao _S. Gabriel_ e
ao quartel dos marinheiros; com elle conferenciaram muitas vezes o sr.
Alpoim e outros elementos da revolta; para elle estava naturalmente
destinado um papel preponderante, muito embora da sua acção individual
não dependesse, como de facto não dependia, pôr em andamento, com
determinado signal e no momento dado, o complicado mechanismo da
revolução; com elle estavam promptos a exercer acção decisiva alguns
officiaes dos quaes ninguem suspeitava e que á quasi totalidade dos
monarchicos pareciam indifferentes ou pelo menos indecisos.

Assim, a policia, prendendo alguns dos vultos do partido republicano
que, a bem dizer, não occultavam as suas _démarches_ revolucionarias,
deixava exactamente fóra da rêde de perseguições uma boa somma de
executores d'esse plano maduramente combinado e que, uma vez resolvido o
ataque formal ás instituições monarchicas, eram capazes de, readquirindo
certa autonomia, lançar fogo ao rastilho previamente preparado. É voz
corrente que o movimento do 28 de janeiro esteve para explodir antes
d'essa data e que n'aquelle mesmo dia soffreu de hora para hora diversos
adiamentos. Pois não andará longe da verdade quem affirmar tambem que,
se as prisões effectuadas na segunda quinzena de janeiro embaraçaram
fortemente a eclosão do movimento, só uma intervenção muito especial é
que impediu que, apesar de tamanho contratempo, a tentativa de revolta
se esboçasse com uma nitidez assombrosa.

Por mais do que uma vez, quando nos dirigentes da conspiração lavrava,
não diremos desanimo, mas comprehensivel reluctancia em impellir para o
campo de batalha a grande massa organisada dos revoltosos, houve
necessidade de refreiar com energia os impetos generosos de creaturas
ardentes, illuminadas, que não consentiam um minuto de reflexão sobre a
opportunidade da explosão revolucionaria. Essas creaturas tudo
sacrificavam ao desejo irreprimivel de combater a monarchia. E uma
d'ellas, ponderando-se-lhe um dia que, estando presos em quarteis da
municipal elementos de valor não só no partido republicano como na
organização do movimento, a menor agitação extemporanea, a menor revolta
imprudente, provocariam, sem duvida, a sua condemnação á morte, uma
d'ellas, repetimos, depois de pesar o argumento, replicou sem commover-se:

--Que importa!... São mais tres ou quatro cadaveres!...

Mas, retomemos o fio da narrativa. Presos e incommunicaveis dois dos
chefes da revolta, acompanhados d'outros individuos de menores
responsabilidades na empresa, não occorreu, como seria logico, uma
paragem na sua organisação. A idéa predominante, n'essa occasião, não
foi a de sustar os preparativos revolucionarios. Foi exactamente a
opposta: foi a de se dar pressa ao rebentar da bomba, porque todos ou
quasi todos se convenciam de que o dictador não perdoava aos inimigos
das instituições monarchicas. Para mais, n'essa altura do _complot_, o
governo João Franco, ainda que não possuisse na sua mão todos os fios do
trama revolucionario, sabia muito bem, por informações d'uma relativa
precisão de pormenores, que o movimento não era limitado a uma simples
insurreição de quartel nem a uma manifestação armada de meia duzia de
visionarios.

O governo João Franco sabia perfeitamente que na conjura entravam tropa
e a classe civil, que, se a primeira estava armada, a segunda não
sahiria á rua desprevenida e que a monarchia vivia sobre a ameaça
constante da fornalha republicana, para a qual a dictadura deitara o
melhor do seu combustivel.

Mas se o governo João Franco sabia tudo isto que o levava a acautelar-se
o melhor possivel contra a probabilidade de gravissimos acontecimentos,
ignorava, por outro lado, a fé que dominava o povo alliciado para a
revolta. O governo João Franco não fazia caso nenhum d'esse povo,
calculando erradamente que a massa soberana e anonyma só se moveria
tendo á frente os seus grandes idolos partidarios. Ignorava
absolutamente a importancia e a valentia d'essa massa e de quanto ella é
capaz, lançada decididamente no caminho da reacção ao despotismo. O povo
sem Antonio José, João Chagas, etc.--pensava o dictador--não se atreve a
protestar com as armas na mão. Uma vez presos esses homens, os
revolucionarios civis absteem-se da lucta e ficam só em campo os
militares, que uma serie de medidas urgentes e rigorosas recolhe
egualmente á inacção e ao silencio. Assim pensava o governo João Franco
alguns dias antes do 28 de janeiro e assim tinha pensado o juiz de
instrucção criminal, na parte referente a _fabricantes de bombas_,
quando a explosão da rua do Carrião lhe entrou pela porta dentro e
desauctorisou, por completo, a famosa lista negra do Cyro. Um e outro
viviam redondamente enganados.



CAPITULO V

Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28


A prisão do dr. Antonio José de Almeida contribuiu bastante para que a
febre revolucionaria augmentasse de modo consideravel. O dr. Affonso
Costa, que, absorvido pelo processo Djalme, andava um tanto afastado da
preparação da conjura, voltou a ella ainda com mais ardor. Os
conspiradores passaram a reunir-se n'uma casa da rua do Desterro,
pertencente ao sr. Luiz Grandella, fez-se nova acquisição de armamento
(parte d'elle fornecida pelos dissidentes) ultimaram-se as disposições
de ataque e de conquista e a data de 28 passou a ser mais anciosamente
esperada do que as que a tinham precedido na agenda dos revoltosos. O
_comité_ dirigente dos trabalhos era então composto de Affonso Costa,
visconde da Ribeira Brava, Alvaro Pope, Marinha de Campos, Ernesto Pope
e Arthur Cohen. Á casa da rua do Desterro foram dezenas e dezenas de
pessoas receber armamento, instrucções, etc. A senha de entrada era
_Jasmim_.

Não é facil, por variadas razões, reproduzir, na actualidade e na
integra, o plano do movimento. Já decorreram sobre elle alguns annos e
estamos certos de que n'esse projecto muita coisa havia que, a ser
cumprida rigorosamente, resultaria em fraco beneficio para o exito do
_complot_. Na revolta de 4 e 5 de outubro cremos mesmo que se emendou a
mão em varios pontos considerados essenciaes no plano do 28 de janeiro.
A experiencia ainda é, afinal, a grande mestra da vida.

Mas se não podemos dar muitos pormenores sobre o projecto da revolta, da
qual derivou logicamente o regicídio, é-nos licito, no emtanto, fixar
aquellas das suas bases que são do conhecimento da maioria dos
implicados na conspiração. Em primeiro logar, o exercito de terra e mar
só se sublevaria depois de vêr feitos certos signaes que lhe
communicariam a prisão do dictador João Franco. Quer dizer: a grande
orchestra do _complot_ não devia principiar o concerto sem que a batuta
do regente se movesse a romper a marcha...

[Ilustração: Teixeira de Souza]

A prisão do dictador devia ser levada a effeito por um grupo civil entre
as 4 e as 6 da tarde, quando elle, sahindo de casa, no alto da Avenida,
se dirigisse para o Terreiro do Paço. Preso, conduzil-o-hiam para bordo
d'um vapor de pesca, o _Dinorah_, d'onde o transportariam depois para
qualquer navio de guerra revoltado. Entretanto, Machado dos Santos e
Serejo Junior assaltariam o corpo de marinheiros; Soares Andréa tomaría
o Arsenal de Marinha, auxiliado pela respectiva guarda e um grupo civil;
Candido dos Reis iria a bordo do _S. Gabriel_, onde o 1.º tenente Branco
Martins teria á sua disposição grande parte da guarnição do navio e
muitos milhares de cartuchos; o visconde da Ribeira Brava, com um grupo
civil bem municiado, occuparia o Arco da Rua Augusta e todas as
platibandas dos ministerios que dominam as ruas da Prata, Augusta e Ouro
e embocaduras das ruas da Alfandega e Arsenal.

No ataque aos navios de guerra entraria, por conveniencia dos
marinheiros revolucionarios, o 2.º tenente de marinha Bernardo Alpoim,
que fizera n'alguns d'elles activa propaganda contra a dictadura
franquista. A sahida das forças da municipal aquarteladas no Carmo
estava cortada por uma rede de dynamitistas installados no Sacramento
(no Club dos Caçadores), na calçada do Duque, etc. A propria egreja do
Sacramento, onde os revolucionarios entrariam usando d'uma chave falsa,
serviria tambem a impedir que os janizaros do antigo regimen viessem cá
para fóra espingardear o povo. Proximo dos outros quarteis da municipal
e das esquadras de policia havia analogas disposições de ataque.

Os dissidentes tinham um logar marcado em especial: o elevador da
Bibliotheca. Aqui reunidos desde o começo da tarde, logo que pelo largo
do Pelourinho passasse um automovel conduzindo o dr. Affonso Costa,
deviam correr, armados, para a camara municipal, apossar-se d'ella
juntamente com aquelle estadista e outros individuos que o acompanhariam
e uma vez no edificio, proclamariam um governo provisorio. Essa passagem
do automovel conjugava-se com um signal dado no Tejo, que indicaria a
execução immediata d'outras manobras revolucionarias. Outro grupo
apossar-se-hia dos telegraphos e da rede telephonica. Em summa, mal que
fosse dada ordem para o rebentar do movimento, Lisboa vêr-se-hia
litteralmente enleiada n'um combate renhido, a menos que os defensores
da monarchia resolvessem momentaneamente não resistir aos revoltosos.

A prisão do dictador obstaria a que elle, sahindo da sua casa de
residencia, conseguisse communicar com os elementos militares de que
dispunha ou com qualquer dos seus collegas no gabinete. João Franco,
para que a sua acção não entorpecesse o que fôra planeado, devia
soffrer, acto continuo ao inicio da revolta, uma immobilisação rigorosa.
Não é facil asseverar até onde iria essa immobilisação, caso ella se
tivesse produzido; mas a verdade é que no espirito de todos havia a
noção clara de que o menor passo dado pelo dictador fóra das vistas dos
revolucionarios transtornaria, sem duvida, o exito da causa.


Na noite de 26 de janeiro era enorme a affluencia de conspiradores á
casa da rua do Desterro. De repente chega um aviso de que o edificio
estava cercado pela policia. Fecham-se todas as portas e Affonso Costa,
tomando a direcção da defeza, resolve resistir aos assaltantes,
exclamando no auge do enthusiasmo:

--Vamos a isto!... Será o inicio da Revolução!

Dentro de breves instantes verificou-se que o aviso não tinha
fundamento. Mas tornava-se necessario proceder com cautela e marcar
definitivamente a hora para o rebentar da revolta no dia 28. Escolheu-se
as 4 da tarde por ter a vantagem de coincidir com o maior transito das
ruas de Lisboa e a menor vigilancia nos quarteis da guarnição.

Na noite de 27, os conspiradores receberam na casa da rua do Desterro
uma carta anonyma, prevenindo-os de que se não abandonassem
immediatamente o edificio seriam denunciados á policia. A carta era,
evidentemente, d'um visinho medroso... Affonso Costa manda alugar outra
casa na rua de S. Julião, n.º 32 e, vestindo a farda de Marinha de
Campos, percorre varias ruas da cidade e entra em diversos portaes, sem
que a policia dê por tal...

«Essa noite (a de 27)--revelou-o mais tarde o visconde da Ribeira
Brava--foi tremenda de sensações! Alvaro e Ernesto Pope e Arthur Cohen
desenvolveram uma actividade inexcedivel. Os automoveis giravam
constantemente, percorrendo os postos, levando ordens e dando a ultima
demão nos preparativos do movimento. Essa noite, eu e Affonso Costa
passamol-a sem dormir, sentados os dois a uma meza, escrevendo em
pedaços de papel determinações que eram enviadas a todos os que dirigiam
grupos de combate, e ao mesmo tempo dando indicações para o fornecimento
de armas, que se encontravam no deposito principal. Sobre a madrugada
estavamos gelados. Entre essas ordens ha uma interessante para a
historia da Revolução. É a que enviámos a José d'Alpoim, concebida nos
seguintes termos:


    «O sr. José d'Alpoim, com os seus amigos, irá postar-se no elevador
    da Bibliotheca, para d'ali, na companhia de Affonso Costa e do povo
    assaltarem a Camara Municipal e ahi proclamarem a Republica. Pelo
    «comité» revolucionario, _Affonso Costa_ e _Ribeira Brava_».


Approximava-se o momento decisivo.



CAPITULO VI

A «ratoeira» do elevador da Bibliotheca insuccesso do «complot»


Todo o dia 28, desde as primeiras horas da manhã, foi passado n'uma
anciedade enorme indescriptivel. Os republicanos e os dissidentes, ainda
então á solta, sabiam perfeitamente que a policia os não desfitava e que
era uma questão de minutos, talvez, a perda da sua liberdade.

Proximo das 11 horas da manhã, o sr. Alpoim, que estava no centro da
dissidencia progressista, recebeu a ordem revolucionaria n'outro logar
transcripta, e ás 2 da tarde foi para o elevador da Bibliotheca com os
srs. João Pinto dos Santos, Egas Moniz, Cassiano Neves, Batalha de
Freitas e outros mais. Encafuaram-se todos n'um cubiculo, tendo á porta
uma vedeta que se revesava regularmente. Das 2 ás 4, nada occorreu ali
de anormal. Ás 4, os dissidentes, já então acrescidos de Marinha de
Campos e Alvaro Pope, esperaram que o _chefe da grande orchestra movesse
a batuta_. N'outros pontos de Lisboa, a scena era quasi identica. Estava
tudo a postos. Faltava apenas o signal combinado...

[Ilustração: Anselmo Braamcamp Freire
Presidente da Camara Municipal Republicana de Lisboa, antes da
proclamação da Republica]

Ao cahir da tarde, como se espalhasse o boato de que o movimento tinha
de soffrer novo adiamento de horas, Marinha de Campos, Alvaro Pope e o
visconde de Pedralva foram de automovel percorrer os quarteis,
transportando ao mesmo tempo armas e munições. Pouco depois, entrou no
elevador o tenente-coronel Amancio de Alpoim e communicou aos conjurados
que a revolta gorara e que era conveniente que abandonassem o edificio,
pois a policia já lhes andava no encalço.

Debandaram. Mas d'ahi a uma hora voltaram novamente a reunir-se na casa
do tenente Furtado, contigua ao elevador. Isso de nada serviu, porque
Alvaro Pope, que ali appareceu já noite fechada, tinha informações
identicas ás do tenente coronel Amancio de Alpoim. O movimento fôra mal
succedido, as tropas tinham sido postas de prevenção, as guardas dos
edificios publicos haviam sido reforçadas e o _comité_ revolucionario
ordenara definitivamente a _retirada_ das forças mobilisadas. O dr. Egas
Moniz, sabendo que o sr. Affonso Costa e o visconde da Ribeira Brava
tinham entrado no elevador, foi ao seu encontro. N'esse mesmo instante,
a policia principiava a cercar a casa do tenente Furtado. Era evidente
que se preparava para capturar o sr. Alpoim e os seus amigos, como d'ahi
a pouco capturou os srs. Affonso Costa, dr. Egas Moniz e visconde da
Ribeira Brava. Impunha-se a fuga.

O porteiro do edificio, informado do caso, communicou ao sr. Alpoim a
existencia d'uma sahida pelo lado da calçada de S. Francisco. Os
dissidentes aproveitaram-na, mas com dificuldade. A portinha era
estreita e o corredor que ali conduzia era lobrego e cheio de teias de
aranha. Os dissidentes desceram-no, cautelosamente, quasi roçando pelos
policias, que começavam então a invadir as escadas. Em baixo, novas
difficuldades e sobresaltos. A fechadura não servia desde annos e foi um
trabalhão para fazer girar a chave. Na calçada de S. Francisco não havia
um unico policia... O sr. Alpoim e alguns dos seus amigos foram ao
centro dissidente, no largo das Duas Egrejas. Ali souberam das prisões
effectuadas dentro do elevador da Bibliotheca. O visconde do Ameal
encaminhou-se logo para a estação do Rocio, d'onde fugiu para Villa
Franca e depois para Hespanha; o visconde de Pedralva imitou-o, e o sr.
Alpoim, mettendo-se n'um trem, foi para casa. Mas, calculando que ia
egualmente ser preso, passou, momentos antes da policia o procurar, para
a residencia do sr. Teixeira de Souza e no dia seguinte, á noite,
abrigou-se no palacete do sr. Henrique de Mendonça, d'onde se escapuliu,
em automovel, para o paiz visinho.

Quasi á mesma hora em que os dissidentes abandonavam a casa do tenente
Furtado, o dr. José d'Abreu corria ao Club dos Caçadores a convencer os
revolucionarios que ali se encontravam da inutilidade do seu esforço,
visto que o dr. Affonso Costa já tinha cahido nas garras da policia.
Egual prevenção era feita aos grupos capitaneados pelo engenheiro
Antonio Maria da Silva, professor Ferrão e tantos outros, que só
esperavam o signal combinado para luctarem com energia, coragem e
decisão em prol da liberdade politica. Depois, seguiram-se: o esboço de
ataque á esquadra do Rato, onde morreu um policia, a fusilaria na rua da
Escola Polytechnica e na rua Alexandre Herculano, a tentativa de ataque
á esquadra do Campo de Sant'Anna, os incidentes de Alcantara, etc.,
emfim varios episodios que mostraram claramente aos _profanos_
boquiabertos a extensão do movimento projectado.


Porque falhara? Já o dissemos: porque, dependendo em absoluto da prisão
do dictador e não tendo o grupo civil a isso compromettido levado a cabo
a sua missão, todos os elementos a postos se conservavam inactivos ou
procuraram escapar com presteza á desforra do governo franquista.
Todos... não dizemos bem. Affonso Costa, dentro do elevador da
Bibliotheca e cercado pela policia, puxou d'um revolver para resistir
até á ultima. O visconde da Ribeira Brava impediu-o de o desfechar.
Machado dos Santos, Serejo Junior e Helder Ribeiro pensaram, como ultimo
recurso, sublevar caçadores 2 e com esse regimento e o corpo de
marinheiros tentar a libertação dos chefes revolucionarios
encarcerados pela dictadura. Marinha de Campos alvitrou a sublevação da
fragata _D. Fernando_ e declarou-se prompto a fazel-o sem outro auxilio
de militares. Machado dos Santos tentou tambem approximar-se das
baterias de Queluz, onde os revolucionarios contavam um apoio fortissimo.

E descreve elle no seu relatorio de 1912:


«N'essa tragica noite tudo fugiu! O commandante audacioso d'um regimento
teria salvo o seu paiz. As portas do quartel de marinheiros estavam
completamente fechadas. Só o 2 de caçadores, que fôra reforçar a guarda
do paço (onde estavam officiaes nossos) o poderia ter feito. O terror
era grande na cidade. Encontro-me no Rocio com Candido dos Reis, Moura
Braz e Tito de Moraes, se não estou em erro; dirigimo-nos ao Club
Militar; o almirante Botto e um outro cujo nome me não occorre ouviram
Candido dos Reis tentar leval-os para o nosso lado. João de Freitas
Ribeiro gritava que uma dictadura nos não devia impôr um rei; os
almirantes e um capitão de mar e guerra que lá estava (cujo nome tambem
ignoro) ficaram mudos e quedos e nós retiramo-nos, ouvindo eu dizer a um
dos tenentes que comnosco se encontravam:

«--Almirantes de borra, que nem para um acto de dignidade servem!...

«Candido dos Reis (ainda não era almirante) dirigiu-se a casa do dr.
Bernardino Machado, levando-me em sua companhia; lá, falsas noticias nos
chegam, e, entre ellas, duas de calibre superior; infantaria 5 tinha-se
revoltado e tomado o Cabeço de Bolla e o 16 tinha-se batido contra a
guarda e vindo para a rua. Candido dos Reis ordena-me que vá averiguar
da verdade e, n'esse momento, chorando de raiva, lembro-me de ter sido
menos correcto com o dr. Bernardino Machado, o qual muito paternalmente
se não melindrou com isso, dizendo talvez no seu fôro intimo que eu era
um visionario e que, como tal, era muito desculpavel o meu estado de
exaspero. Ambos tínhamos razão; cada um via as coisas pelo seu prisma.
Elle estava informado do retrahimento dos officiaes e eu imaginava que
todos, até final, tinham obrigação de honrar os seus compromissos.»


Cumprindo a ordem de Candido dos Reis, Machado dos Santos encaminhou-se
para Campo de Ourique. Em volta do quartel de infantaria 16,
agglomeraram se muitos populares que affirmavam que o regimento tinha
sahido, _levando tudo adeante de si_. Machado dos Santos, incredulo,
approximou-se do edificio e perguntou á sentinella quem ia a commandal-o.

--Vá para o largo--foi a resposta que obteve.

E, quasi ao mesmo tempo, a guarda do quartel fez uma descarga de
fusilaría, seguida de alguns tiros espaçados que obrigaram o triumphador
da Rotunda a fugir até o largo da Estrella e depois até o Rato. Aqui
formava pacatamente o 16, commandado pelo respectivo coronel. Mais
adeante, em frente da casa do dictador, uma companhia d'aquelle
regimento fraternisava com um esquadrão da guarda municipal. Não havia
que duvidar; o 16 sahira do quartel, mas para defender a monarchia.


Em resumo; apesar do insuccesso palpavel da insurreição, é justo
consignar que, na noite de 28 de janeiro, muitas das creaturas n'ella
implicadas quizeram desobedecer á ordem do _comité_ revolucionario e
lançar-se corajosamente na revolta. Houve momentos de amargura, em que
esses homens attribuiram a responsabilidade do adiamento, _sine die_, da
insurreição, ás hesitações d'uns companheiros. Um grupo de sargentos de
artilharia chegou mesmo a propor a sedição do regimento 1 como inicio
immediato do movimento. Foi necessario que a vontade persuasiva de
alguns se impusesse fortemente para evitar um copioso derramamento de
sangue. O desejo de combater, a raiva que a contra ordem de revolução
provocara n'um grande numero de conjurados eram tamanhos que só por
milagre Lisboa não acordou a 29 de janeiro de 1908 mergulhada em
horrorosa chacina.

Felizmente, não succedeu assim. O dictador, tendo-se-lhe desenrolado
ante a vista turva uma boa parte da machinação revolucionaria, embrenhou
se, naturalmente, n'um amontoado de providencias de occasião. Primeiro
que tudo, collocou a mordaça do estylo na bocca da imprensa; ordenou uma
sahida de tropas que equivalia á declaração do estado de sitio, visto
que ellas é que fizeram na madrugada de 29 a policia da cidade; ordenou
rusgas; remetteu para os fortes grandes levas de presos; exhibiu a
cavallaria da municipal em diversos locaes para aterrar, para suffocar o
menor impulso de reacção; e no dia 29 preparou-se para completar a sua
obra de repressão com o famoso decreto que o ministro Teixeira de Abreu
levou a Villa Viçosa á assignatura do rei Carlos.

O governo franquista, não satisfeito com o ter lançado á tôa para
diversas prisões todas as creaturas que a policia encontrou nas ruas da
cidade, momentos depois do ataque á esquadra do Rato, aprestava-se a
expellir pela barra de Lisboa todos os politicos, todos os cidadãos que,
n'uma hora de legitima revolta contra um regimen de perfeita tyrannia,
tinham ousado preparar a queda logica, indispensavel, do throno dos
Braganças. Á atmosphera de pavôr immenso, que creara com essas
perseguições arbitrarias--o governo civil de 28 para 29 encheu-se
rapidamente de populares--queria sobrepôr uma verdadeira mortalha,
embrulhando no famoso decreto todas as individualidades que elle
suppunha, com bom ou mau fundamento, implicadas na conspiração.

Não o conseguiu, porém. E não o conseguiu, porque, mal o decreto foi
publicado no _Diario do Governo_ e antes que o dictador iniciasse a sua
applicação feroz, outra força, e extraordinaria força, com que elle
nunca sonhara, impediu a consecução dos seus designios. O regicidio
travou a corrida vertiginosa para a selvajaria que o gabinete João
Franco desfechara, pretendendo convencer o paiz de que assim cumpria uma
missão patriotica. O regicidio... sim, foi o regicidio que evitou um
authentico attentado brutal, anti-politico, libertou dos ferros da prisão
alguns dos organisadores da revolta de 4 e 5 de outubro e impediu que
muitos dos que implantaram a Republica em Portugal gemessem até essa
data gloriosa no desterro abrasador...



CAPITULO VII

O regicidio--Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?


Chegámos ao ponto menos esclarecido d'este periodo historico. Desde a
tarde de 1 de fevereiro de 1908, em que o rei Carlos e seu filho Luiz
Filippe baquearam no Terreiro do Paço sob as balas desferidas por um
reduzido numero de conjurados, tem-se dito tanta coisa sobre esse
acontecimento que e licito suppôr que a verdade ainda permaneça envolta
em denso veu. Não temos a pretenção de proferir a ultima palavra a tal
respeito; mas ouvimos mais do que uma vez a pessoas bem informadas
referencias ao caso, e essas referencias auctorisam-nos a considerar o
regicidio sob um aspecto muito diverso do que aquelle por que é
vulgarmente conhecido.

A propria policia, apesar de haver conseguido em dado momento obter um
ou dois depoimentos razoaveis, nunca tirou a limpo a veridica historia
do caso. E porque? Pela razão muito simples de que, tendo orientado as
suas diligencias n'um determinado sentido, d'essa orientação nunca se
desviou, apezar de errada. Teimou em ver no regicidio o acto de muitos
conspiradores, longamente deliberado, e d'ahi não se afastou, embora o
seguimento da instrucção do processo por mais de uma vez lhe indicasse o
contrario. Persistiu em ver sobre as cabeças dos regicidas uma
influencia especial, uma sugestão de politicos burguezes, sem coragem
para perpetrarem o acto e confiando esse encargo a creaturas exaltadas,
a libertarios decididos e energicos, e afinal, por aquillo que ouvimos
ás pessoas as quaes já alludimos, nada d'isso existiu senão para ser
utilisado no momento opportuno como uma arma de combate nas mãos dos
reaccionarios.

Comprehende-se perfeitamente que, após o insuccesso do 28 de janeiro e o
conhecimento das medidas ferozes preparadas pelo dictador, a opinião
soffresse immediatamente um accrescimo de odio contra esse governo que
não hesitava em immolar no altar da sua vingança diversos patriotas,
cujo unico crime era o de se terem eximido, ou procurado eximir-se, ás
suas prepotencias. Essa exaltação da opinião devia ter-se reflectido
mais fundamente nos elementos revolucionarios que para o movimento de 28
de janeiro haviam prometido o concurso d'uma acção efficaz sobre os
tyrannos do paiz. Quantos d'esses revolucionarios na madrugada de 31 e
no periodo de horas que decorreu até ao desembarque da familia real no
Terreiro do Paço, não pensaram n'outra coisa que aliás dominava o
espirito até dos mais conservadores: a necessidade de se eliminar o
dictador? Quantos? Essa eliminação estendiam-na naturalmente, sem
hesitações, ao monarcha dos adiantamentos, porque a verdade é que para
um revolucionario que pretendia supprimir uma situação de absolutismo
não bastava, de certo, fazer desapparecer o braço executor do regimen de
oppressão. Tornava-se imprescindivel liquidar a personificação
individual d'esse mesmo regimen. Esta é a verdade e já explica, de
certo, muitos dos episodios que caracterisaram a tragedia do Terreiro do
Paço.


Quem passasse n'aquelle ponto da cidade na tarde de 1 de fevereiro,
momentos antes do desembarque da familia real, ainda que totalmente
alheio ao que d'ahi a pouco se ia desenrolar, teria a impressão de que a
atmosphera, excessivamente carregada, por força desabaria em medonha
tempestade. No Terreiro do Paço havia relativamente poucos curiosos a
aguardarem aquelle desembarque. Em compensação, a policia, fardada e á
paisana, mobilisara-se á valentona, circulando desconfiadissima por
entre a assistencia.

O momento era solemne. As creaturas que palpitavam com frequencia a
opinião desde o insuccesso do 28 de janeiro, calculavam com fundamento
que alguma coisa se produziria, quanto mais não fosse uma manifestação
platonica de desagrado ao monarcha e ao seu primeiro ministro. Outras,
pelo contrario, não acreditavam n'uma explosão do odio popular e sorriam
desdenhosamente perante as menores apprehensões. Acreditavam demasiado
na indolencia do povo escravisado e no falso prestigio do soberano.

[Ilustração: Missão do Directorio no estrangeiro]

A policia, repetimos, a propria policia, que conhecia sufficientemente a
extensão do trama revolucionario, que afinal se não desfizera ao
mallogro da projectada revolução, tambem não tinha a noção do perigo que
ameaçava o throno. Esse perigo, voltamos a insistir, não derivava
simplesmente de uma combinação prévia feita entre meia duzia de homens
desejosos de reintegrar o paiz na normalidade. Nascera e progredira na
consciencia da maioria dos revolucionarios e até dos que não commungavam
nos segredos da revolta. Era uma coisa acceite em principio e se toda a
grande massa de povo soffredor possuisse a energia, a decisão prompta
dos poucos homens que collaboraram no regicidio, este acontecimento
teria sido da responsabilidade directa, não de cinco, como se affirma,
mas de cincoenta, de quinhentos, de cinco mil...


Ha um relatorio policial, elaborado tempos depois da morte de D. Carlos
e de seu filho, que pretende filial-a n'uma conjura mais radical nos
seus meios de acção do que a que preparou o 28 de janeiro. Fala-se ahi
de varios individuos, amigos do professor Buiça e de Alfredo Costa, como
implicados n'essa conjura e até quasi se assegura que o grupo decidido a
executar o monarcha e o principe comprehendia duas ou tres duzias de
homens, escalonados desde o Terreiro do Paço ás Necessidades para a
execução d'essa sentença lavrada em conciliabulo tenebroso.

Na realidade, para a nossa phantasia de meridionaes, não se percebia que
um acto de tanta repercussão mundial fosse praticado sem o apparato
scenico de muitas reuniões secretas, com as indispensaveis capas de
embuçados e o juramento terrivel prestado em meio d'um silencio
aterrador. E a policia influenciou-se d'essa phantasia, apesar de uma
das suas averiguações consignar claramente um facto que reputou
verdadeiro e de grande importancia para o esclarecimento do regicidio: o
cavaco animado travado entre cinco homens na madrugada de 1 de fevereiro
á esquina do Café Suisso. N'esses cinco homens contavam-se o professor
Buiça e Alfredo Costa. Os restantes, quem eram? Vivem ainda? A policia
chegou a conhecel-os? E que projectavam n'essa madrugada celebre?
Decidiam ali, em plena rua, o plano do regicidio, ou apromptavam-se para
um acto bem diverso?

O sr. José de Alpoim, que se occupou do assumpto pouco depois de
implantada a Republica Portugueza, procurando expurgal-o das falsidades
e das invenções dos reaccionarios, que durante dois annos o exploraram
sem pudor pela verdade, parece inclinar-se para esta hypothese, embora o
não diga claramente:

Os cinco revolucionarios que na madrugada de 1 de fevereiro um espião
policial surprehendeu em conciliabulo á esquina do Café Suisso (ou
outros cinco, mas comprehendendo tambem o Buiça e o Costa) projectavam
simplesmente eliminar o dictador. Subiram a Avenida com esse intuito,
esperando poder executal-o á sahida da casa onde elle morava. Por
qualquer circumstancia que não vale a pena mencionar, esse designio
falhou. Os cinco revolucionarios desceram novamente a Avenida,
dispersaram-se durante um pequeno espaço de tempo e voltaram a reunir-se
no Terreiro do Paço, ainda com a intenção de desfecharem as armas de que
estavam munidos sobre o primeiro ministro de D. Carlos. Essa tentativa
foi, como a antecedente, mal succedida; e elles então, não vendo o
dictador mas vendo chegar o rei, _resolveram n'um lance impulsivo
descarregar_ sobre a carruagem do monarcha.

Por outro lado, Alfredo Costa, vinte e quatro horas antes de consumado o
regicidio, dissera a alguem que no dia immediato se abalançaria a ir
_para a cabeça do touro_. Que quereria elle dizer com essa phrase
pittoresca? Referir se-hia já n'essa altura á probabilidade do rei
Carlos ser attingido pela sua Browning, ou pensava apenas no primeiro
ministro que submettera á assignatura do rei o famoso decreto da _morte
civil_ de dissidentes revolucionarios e republicanos? No emtanto, ha uma
coisa que o sr. Alpoim registou no artigo a que n'outro logar alludimos
e que é digno de relevo n'uma narrativa em que se fale do regicidio: o
acto não foi combinado antes do 28 de janeiro, pelo motivo bem simples
de que a revolta devia rebentar estando a familia real em Villa Viçosa;
a carabina utilisada pelo professor Buiça, comprada em casa do armeiro
Heitor Ferreira por um rapaz que não era o professor, só entrou na posse
d'aquelle revolucionario depois de reconhecido o mallogro do movimento
em que entravam republicanos e dissidentes.

Por ultimo, se é certo que o professor Buiça se dispoz antecipadamente a
morrer em prol da liberdade--prova-o o seu testamento, que a imprensa
publicou--se é geralmente sabido que no seu espirito fulgurou mais do
que uma vez a ideia de se exterminar o rei dos adeantamentos, idea
acceite não só por Alfredo Costa mas por outros tres homens fundamente
exaltados contra o regimen de absolutismo, não é menos certo que até o
momento do desembarque da familia real no Terreiro do Paço esse grupo de
destemidos tinha em mira liquidar o chefe do governo e, se este escapou
da chacina, a um quasi milagre o deve. Com um pouco menos de sorte, o
dictador teria perecido sob a fusilaria do grupo, a policia teria
despertado da molleza com que vigiava a integridade do monarcha, e a
tarde de 1 de fevereiro, longe de marcar uma _étape_ formidavel de
revolução, ficaria limitada á queda do gabinete João Franco, pela queda
mortal da sua cabeça dirigente.


Vejamos agora outro ponto do regicidio muito discutido até pelas
proprias testemunhas do acto: quem atirou primeiro sobre a carruagem
real? Foi Alfredo Costa ou o professor Buiça? Tentemos esmiuçal-o.


Assim que a familia real, vinda de Villa Viçosa, desembarcou na ponte
dos vapores do Sul e Sueste, o rei Carlos approximou-se do
tenente-coronel Dias, que dirigia no local o serviço da policia fardada,
e perguntou-lhe á queima roupa:

--_Isto_... como vae?

(_Isto_ era a situação da população lisbonense, o estado da opinião
publica após o famoso decreto de _morte civil_).

O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas,
quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:

--Meu senhor, _isto_ vae muito mal!...

D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao
primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mãos de contente pelo
que a publicação do tal decreto representava de força do ministerio e de
provocação altiva, ironica, de desafio insolente á _ralé insubordinada_.
Não sabemos o teor d'essa conversa; mas é de crer que o monarcha
houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel
Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo
differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa
altura, ainda desprezava a _agitação da escumalha_, considerando-a
incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.

D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estação do Sul e Sueste e
tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multidão formava alas pouco
compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da
fazenda, um homem que até então se conservara immovel e sereno do lado
da Praça do Commercio, olhou para um outro que se especára mais aquem e
transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabeça. O segundo fez um
gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua,
desembaraçou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando
uma carabina á capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o
professor Buiça, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos
agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco
pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa,
correndo por diante d'um antigo kiosque da Praça do Commercio,
conseguira alcançal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz
Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho,
tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos.
A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro
individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaçando-o com o ramo de
flores que tinha na mão, mas n'esse momento o panico já era enorme e,
dentro de segundos, o Terreiro do Paço transformava-se em verdadeiro
campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam á tôa e a
maioria dos populares fugia em diversas direcções, confusos, medrosos,
sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.

O resto é sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos,
hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e
uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar
revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio
inconcebivel não só sobre os dois homens que realmente tinham atacado a
carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade,
haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso
de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installação dos dois
corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia
commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de
Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, João Sabino da Costa.
Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da
Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda
impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares
capturados no momento do regicidio e que, repetimos, não tinham
responsabilidades effectivas na execução do monarcha dos adeantamentos.



CAPITULO VIII

Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu
acto


É natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da
chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros
de Buiça e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e não é
facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que
o futuro desvendará o que o presente não permitte conhecer em todos os
seus pormenores.

N'este caso especial, porém, o mysterio não pode ser, não deve ser
profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de
furiosa _reportage_, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o
segredo dos conspiradores. A quem não andou implicado em qualquer
movimento revolucionario é difficil affirmar que as cousas se passaram
de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informações precisas
sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a
esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da
verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma
distancia consideravel, que poucos ousariam transpôr.

Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no
instante da tragedia, sacudira com um ramo de flôres era um dos filhos
do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo
recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Paço e ao Arsenal
verificar a exactidão das noticias alarmantes que o telephone
transmittira á redacção do _Seculo_ (onde trabalhavamos), o primeiro
pormenor que alcançámos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de
que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava
até que esse _sportsman_ é que disparara primeiro que qualquer outro uma
carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente
esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco
Heredia emprestara um varino ao professor Buiça e lhe offerecera a
famosa arma, instrumento da execução. A propria policia, orientada no
mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle
nome tão citado pelos reaccionarios á bocca pequena. E mais do que uma
vez pelas redacções dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de
instrucção criminal passara um mandato de captura contra o pretendido
regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:


«Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, _nenhum_,
tomára parte no movimento; _nenhum_ se inscrevera; seu pae não os
implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia
qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo
d'Alpoim que, de combinação com seu pae, collaboraria n'um dos factos
mais graves da Revolução. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com
filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um
d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Paço e a escoria
clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusações! Chegou-se a
comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira
Brava procurou o ultimo juiz de Instrucção Criminal para lhe communicar
factos gravissimos a tal respeito!

«Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia, á hora em que o attentado se
commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E--o que
ninguem sabe!--a pessoa mais indignada foi a rainha sr.ª D. Amelia, que
recebeu sempre no Paço, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua
esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia
semelhante accusação e que ella propria dissera ao juiz de Instrucção
Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava
prompta a affirmar que não se achara entre os que assaltaram o coche
real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmação, estas palavras
da rainha; e, comtudo, ellas não desarmaram gente da côrte e politicos
que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de
pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do
Paço!»

[Ilustração: Luz d'Almeida Chefe da Carbonaria]

Mas não foi só o sr. Francisco Heredia que a opinião desvairada apontou
como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de
1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles
um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente,
teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de
clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San
Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a
investigações minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz
Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirára sobre um e
outro, e um dos agentes do juiz de instrucção encaminhou-se para o paiz
visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buiça. Baldado
empenho: o hespanhol já não vivia em San Sebastian e o seu rasto
perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a
rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a
semanas, fez um _croquis_, fixando-o bem nos seus traços physionomicos?
Não é possivel dizel-o com segurança. Pessoas que se nos affiguram bem
informadas desmentem redondamente esse boato, como antes já tinham
egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma
d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro
recomeçou a respectiva indagação policial:


--O X... que o juiz procura não é nem o filho do Visconde da Ribeira
Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fôra musico no
nosso theatro lyrico). Tambem não é, como para ahi se disse, o estudante
preso por causa da explosão na rua do Carrião, que ao tempo se achava
escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio
creio que o X... é outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco
conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um
acto semelhante á execução do monarcha dos adeantamentos.

«Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante
alguns mezes o X... do regicidio. Não por esse facto... Capturou-o,
conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de
leve que aferrolhava nos seus calabouços um authentico companheiro do
Buiça e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um
_croquis_ elucidativo. Eram cinco os do _complot_... Alfredo Costa, o
professor Buiça, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na
tragedia; os restantes escaparam...»


Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes
faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buiça e
Alfredo Costa á 1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no _Café
do Gelo_, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem
servido a _rendez-vous_ de estudantes e... estudantes de idéas avançadas.

Na vespera do regicidio, o professor Buiça, que tinha no café do Gelo o
seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado
de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres
conversaram demoradamente e ha todas as razões para crêr que só se
separaram na manhã de 1. Á 1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buiça
e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala
que deita para a rua do Principe. O professor Buiça bebeu uma cerveja e
Alfredo Costa serviu-se d'uma _omolette_. Na mesma sala, alem dos dois
revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da
Escola do Exercito. O professor Buiça desenvolveu um plano qualquer ao
seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a
palavra com gestos expressivos:

--A carruagem avança, disse elle, a carroça apparece, esbarra e eu
intervenho...

E ao affirmar a sua _intervenção_, o professor Buiça moveu os dois
braços de modo significativo, como se mettesse uma espingarda á cara.

--E nós? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?

--Vocês... procederão como a opportunidade indicar.

O outro calou-se e continuou a comer a _omolette_. O professor Buiça
piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:

--Estamos aqui, estamos em Timor...

O dr. Maximo Brou procurou desfazer essa apprehensão, argumentando
risonho com a belleza do dia--á 1 e 30 da tarde o sol inundava a cidade
de luz faiscante--mas o professor Buiça insistiu na previsão e d'ahi a
pouco um silencio melancholico amortalhou o ambiente. Ás 5 e tal, quando
o dr. Maximo Brou soube no Martinho que o rei Carlos fôra alvejado no
Terreiro do Paço, não poude conter-se, e recordando o que ouvira no
Gelo, exclamou para uns amigos:

--O Buiça não errou a pontaria!...


E não errara, com effeito. Até ha pouco, ainda se asseverava
convictamente que o primeiro regicida a atacar a carruagem real fôra o
Alfredo Costa e que o Buiça se limitara a secundar-lhe o gesto. Não
succedeu assim. O professor é que atirou primeiro, collocando-se no meio
da rua e visando serenamente o pescoço do rei Carlos que emergia da
capota do vehiculo. Depois, a policia postada do lado das arcadas do
ministerio da fazenda disparou sobre elle varios tiros de revolver,
emquanto mais adiante Alfredo Costa investia contra o lado direito da
carruagem.

Não admira, por isso, que o Buiça ficasse na chronica da execução como o
principal dos regicidas e que a opinião extrangeira o houvesse
immediatamente collocado em plano superior ao dos seus companheiros. De
resto, o nome do professor soou logo no dia 2 de fevereiro de modo
bastante suggestivo para o grande publico. Por outro lado, a
circumstancia de ter empunhado e desfechado uma carabina--arma que
exige, na sua utilisação, sangue-frio extraordinario; e a aureola que um
jornalista extrangeiro lhe teceu, evocando deante do seu cadaver na
Morgue uma vida de apostolado e de martyrio, o sacrificio da familia,
dos filhos votados á orphandade por amor da libertação do paiz; uma e
outra coisa concorreram egualmente para que elle alcançasse uma
supremacia de heroicidade que a historia futura indubitavelmente
conservará.

Mas, pergunta-se agora: os cinco homens que na tarde de 1 de fevereiro
se abalançaram ao regicidio tinham unicamente em mira supprimir um dos
seus semelhantes--o rei ou o dictador? O que previam afinal sobre as
consequencias do seu acto? Admittindo a hypothese de que pensavam apenas
em matar o dictador (e essa hypothese, repetimos, é a mais verosimil)
diremos que obedeciam naturalmente ao seguinte raciocinio:

[Ilustração: O Directorio da Revolução]

Attingido o primeiro ministro do rei Carlos, a policia, se os apanhasse
em flagrante, procuraria logicamente poupar-lhes as existencias,
esperançada em que qualquer d'elles, succumbindo cedo ou tarde ante o
juiz investigador, revelaria todos os pormenores do _complot_. Apoz a
suppressão de João Franco, rebentaria irremissivelmente a revolta e a
Republica, uma vez triumphante, veria com olhos differentes dos dos
monarchicos o arrojo e decisão de quem lhe facilitara a proclamação por
uma maneira tão notavel. O proprio Buiça, como n'outro logar registamos,
contava em que o degredo de Timor seria o mais provavel dos castigos que
sobre elle incidiria no momento opportuno.



CAPITULO IX

As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente


Falemos da carbonaria, a grande organisação secreta que representou um
papel importante na revolta de 4 e 5 de outubro. Tão importante, que
d'ella sahiram todos os grupos de populares armados que auxiliaram o
triumpho e um dos seus membros, da mais elevada cathegoria dentro da
associação vinculou indelevelmente o nome e os feitos á implantação da
Republica Portugueza.

A Carbonaria vinha de longe. Ha quem supponha, talvez, que ella nasceu
propositadamente para a preparação do 28 de janeiro. Não é exacto. Em
1893 já se falava vagamente na existencia d'essa organisação e em 1894
um bom nucleo de estudantes conimbricenses realisava nas margens do
Mondego, pela calada da noite, reuniões secretas com todo o cerimonial
mysterioso das chamadas _lojas revolucionarias_, independentes da
maçonaria regular.

A _gréve do grelo_, occorrida em Coimbra ahi por alturas de 1905-1906,
revelou pela primeira vez ao publico o funccionamento da Carbonaria
n'aquella cidade. Um jornal de Lisboa teve a idéa de entrevistar um dos
estudantes mandados sahir de Coimbra por essa occasião e elle, com uma
franqueza digna de nota, pôz a questão tal qual se lhe affigurava
veridica e irrefutavel. Explicou a interferencia que a Carbonaria
certamente poderia ter tido na agitação da população conimbricense, a
frequencia das reuniões no Choupal, estrada da Beira e para os lados de
Santa Clara, em recantos ignorados da policia e dos espiões monarchicos
e explicou... outras coisas mais. No dia seguinte, um grupo de
estudantes, alheio a essa organisação de insubmissos, apressou-se a
desmentir na imprensa as affirmações d'esse seu collega. A Carbonaria
sorriu, encolheu os hombros e o incidente não tardou a esquecer. E foi
bom que assim succedesse, para não reavivar as diligencias policiaes
effectuadas a proposito do apedrejamento proximo de Coimbra, do comboio
que transportava a Lisboa o negociador d'um famigerado convenio financeiro.


Mais tarde, Lisboa vê despontar _officialmente_ a Carbonaria para as
luctas politicas, embalada pela fé ardente, a tenaz propaganda de Luz
d'Almeida. É o momento em que a idéa inicial d'um nucleo forte,
aguerrido, de acção immediata e directa contra as instituições
monarchicas, apparece tomando corpo, adquirindo um relevo fóra do
commum. Da maçonaria regular, a que Luz d'Almeida já dava, n'essa época,
o melhor do seu esforço intelligente, sahe como que um filamento, que é
o rastilho a applicar a uma bomba monumental. Esse filamento avulta,
insinua-se vagarosamente na camada popular, contorce-se em evoluções
cautelosas e discretas e a Associação Carbonaria Portugueza, até então
uma sombra de resistencia nacional ao despotismo, á tyrannia do throno e
dos governantes deshonestos, começa a illuminar o futuro, projectando
sobre a treva que o envolve uma luz viva e inapagavel. A nova
aggremiação secreta não tem ainda aquelle nome. Tem outro bem differente
e não tarda a ser apadrinhada por um dos mais populares caudilhos
republicanos.

Luz d'Almeida multiplica-se na conquista de elementos revolucionarios. E
é curioso observar como esse homem calmo, d'uma calma que se confunde
com a indolencia, desenvolve uma energia rara, uma actividade
incomparavel. Conhecemol-o ha quinze annos, quando, ao lado d'um
companheiro inseparavel, Ferreira Manso, elle se demorava todas as
noites pelo Gelo em propaganda discreta, mas infatigavel. Sempre sereno,
sempre conciso, vagaroso no andar, conservando no rosto uma
impassibilidade caracteristica, o olhar incidindo certeiramente sobre o
pensamento de qualquer dos seus interlocutores, Luz d'Almeida é o typo
por excellencia do homem de acção que, uma vez lançado n'uma idéa de
combate, vae direito ao fim sem hesitações, sem pressas inuteis, sem
medo, sem precipitação. O gesto é sobrio e o vestuario tambem. Não faz
alarde da sua decisão nem da sua palavra persuasiva. É methodico,
correcto e cauteloso e, dentro d'essa couraça de apparente indifferença,
esboça os planos mais audaciosos, resolve as situações as mais difficeis.

Na primeira phase da Carbonaria é com o dr. Antonio José d'Almeida que
elle collabora assiduamente. A _Floresta_--o nome por que é então
conhecida a poderosa aggremiação secreta--conta a breve trecho milhares
de adeptos. Luz d'Almeida inicia-os dia a dia n'uma progressão
assombrosa. De sorte que, antes do 28 de janeiro, elle e o dr. Antonio
José d'Almeida adquirem a certeza absoluta de que é justificado confiar
ao elemento popular uma boa parte da execução da revolta. E se é certo
que na preparação d'aquelle movimento os grupos organisados de civis não
apparecem ainda, como na preparação do 4 e 5 d'outubro, totalmente
filiados na Carbonaria, não o é menos que a expansão da associação
secreta já é tão vasta e tende tão nitidamente a augmentar que Luz
d'Almeida, tres dias após o regicidio, inicia d'uma assentada cerca de
cincoenta conjurados.

Por essa altura, ao lado do vigoroso e tenaz propagandista, figuram
tambem dois revolucionarios de temperamento bem diverso, mas
devotadissimos ambos á causa da liberdade: Machado dos Santos e o
engenheiro Antonio Maria da Silva. As suas primeiras entrevistas
realisam-se no jardim de S. Pedro d'Alcantara. É ahi que esses tres
homens combinam de começo a forma de dar uma orientação absolutamente
pratica á Carbonaria, formando entre si o _Comité Alta Venda_ ou,
melhor, a cabeça dirigente da organisação secreta. Depois passam a
reunir em casa de Machado dos Santos, na rua José Estevão, casa que a
policia assalta uma bella noite, disfarçando esse assalto com uma proeza
de gatunos, e decidem levar aos quarteis a semente revolucionaria. É,
repetimos, no periodo de maior agitação popular provocada pela politica
nefasta do regimen monarchico. Rara é a noite em que se não inicia na
Carbonaria uma duzia de adeptos pelo menos.

[Ilustração: Innocencio Camacho
Membro substituto do Directorio, em effectividade]

As iniciações divergem no cerimonial. Ha iniciações rigorosas, com todos
os pormenores que constituem a bem dizer uma apertada _fieira_ e tambem
as ha _pró forma_, quando o adepto é sobejamente conhecido e inspira
absuluta confiança. Em qualquer dos casos, porém, o iniciado é sujeito a
um interrogatorio sobre as suas ideias politicas e aquillo de que se
julga capaz de executar no momento propicio. Muitos d'elles affirmam
desde logo as suas disposições para uma acção directa e individual;
outros limitam-se a prometter concurso efficaz n'uma acção collectiva. A
Carbonaria não repelle os que se declaram francamente incapazes d'um
acto isolado, mas que juram--o juramento é obrigatorio para
todos--auxiliar a communidade uma vez chegado o ensejo de luctar contra
a monarchia ou a tyrannia.


Em dado momento surge uma contrariedade. Machado dos Santos, tendo
escripto um artigo violento no _Radical_--jornal fundado e dirigido por
Marinha de Campos--é, dado o seu posto de commissario naval, levado a
conselho de guerra. Os juizes absolvem-no, mas como os inimigos dos
revolucionarios não descansam, conseguem em breve afastal-o de Lisboa,
desterrando-o para o ultramar. Esta contrariedade, porém, não impede que
a Carbonaria progrida a olhos vistos. O _comité Alta Venda_ decide abrir
a primeira _choça_ em Alcantara, bairro que sempre se evidenciou pelo
grande amor á causa, bairro revolucionario por excellencia.

O _comité_ recebe adhesões valiosas e a propaganda fructifica.
Marinheiros, contra-mestres, cabos, sargentos, artifices, operarios,
tudo acode á iniciação. Na conquista d'esses adeptos distinguem-se dois
homens: o _cabo Antonio_ (aliás sargento) e o artifice Carlos Freitas,
que um zelo excepcional caracterisa. Este revolucionario toma sobre os
hombros a ardua tarefa de desdobrar a _choça_ de Alcantara e funda outra
em Valle do Zebro, fornecendo ao _comité_ um plano da escola de torpedos
e varia documentação topographica.

Na _choça_ d'Alcantara, a direcção superior da Carbonaria possue
egualmente elementos civis de modelar actividade: entre muitos, Augusto
Rodrigues, chefe de _barraca_, e José Madeira. Da _choça_ de marinha
sahem elementos de propaganda para junto dos quarteis de infantaria 2 e
caçadores 2. É curiosa a forma por que esses elementos entram nos quarteis:


«A principio--reportamo-nos a uma informação do engenheiro Antonio Maria
da Silva--cada carbonario tinha um _primo_ no quartel; depois, conforme
a necessidade de repetir as entradas, assim ia augmentando o numero de
_primos_. Carbonario houve que, em pouco tempo, se tornou _primo_ de
toda a soldadesca. Naturalmente surgiram desconfianças por parte dos
officiaes, e estas avolumaram-se com a coincidencia do apparecimento
d'um folheto de Luz d'Almeida, intitulado _«Dialogo entre um medico
militar e um «magala»_, que foi largamente distribuido pelos elementos
militares.»


Principiam então as buscas nos quarteis, buscas rigorosas que lançam o
sobresalto no _comité Alta Venda_ por causa da dureza do castigo que os
iniciados certamente soffrem quando descobertos. Mas a dedicação dos
carbonarios é tão grande que os maiores escolhos são transpostos com
exito. Um exemplo: d'uma vez, o official de certo regimento revista a
caixa d'um _magala_ e o clarim que o acompanha na busca descobre o
interessante folheto de Luz d'Almeida. Não hesita; disfarça como pode a
comprometedora descoberta, apanha o folheto e occulta-o no
instrumento... O clarim tambem era carbonario. E assim se consegue que
esse _Dialogo_, d'uma propaganda utilissima, continue a espalhar pelas
forças militares a ideia da revolta, apesar da campanha que os jornaes
reaccionarios lhe movem sem treguas, apontando-o dia a dia ás attenções
e á revindicta do governo monarchico.


Tratando-se da Carbonaria e da sua acção nos movimentos revolucionarios
que caracterisam o ultimo periodo da vida monarchica portugueza, é
necessario, antes de proseguirmos na narrativa que vimos fazendo, abrir
um parenthesis que fixa um ponto de historia. Jà dissemos que Coimbra
antecedeu Lisboa na organisação d'essa força mysteriosa, que devia no 4
e 5 de outubro representar um papel importante. Podemos talvez falar do
assumpto ainda com maior precisão. A Carbonaria de Coimbra teve o seu
periodo aureo--digamos assim--de 1892 a 1894; a de Lisboa soltou os
primeiros vagidos em 1897, fundada por Heliodoro Salgado, Benjamim José
Rebello, Julio Dias, Sebastião Eugenio, José do Valle e varios
democratas de Alcantara, que constituiam o nucleo de resistencia da
chamada _Aliança Revolucionaria_. Pouco depois, a Alliança cedia o passo
á _loja irregular_ Obreiros do Futuro, installada na Rocha do Conde
d'Obidos n'uma casa pertencente ao Credito Predial e que foi alugada a
um dos carbonarios--a José do Valle se não estamos em erro--pelo sr.
José Bello, ao tempo administrador das propriedades d'aquella companhia.

Essa _loja irregular_ congregou durante largo tempo tudo o que Lisboa
possuia n'essa occasião de elementos avançados, radicalissimos. A ella
pertenceram os homens que mais tarde o juiz de instrucção criminal devia
encarcerar como implicados em incidentes da politica interna (que o
grande publico conheceu vagamente sob a designação de attentados
anarchistas) e d'ella sahiram resoluções vigorosas cuja descoberta o
_ex-irmão Hoche_ d'essa epoca pagaria por bom preço. Facto digno de nota
e que nos não cançaremos de repetir: a policia teve por vezes nas mãos,
fechados a sete chaves, os meios de esclarecer certos mysterios, de pôr
a nu intrincadas meadas revolucionarias. E não o fez porque? Porque,
para alcançar exito completo, bastava-lhe concatenar habilmente certas
informações. Tinha as informações, recebia denuncias que borboleteavam
em volta da verdade, mas como não dispunha de sangue-frio e de esperteza
sufficientes para as reunir, para as methodisar, disparatava
horrivelmente e, disparatando no começo, ia até final, cega, estupida,
laborando sempre no erro.

Occorre-nos n'este momento um incidente curioso a que é interessante
fazer referencia. A policia um dia--e quem diz policia diz juiz de
instrucção porque de certa altura por diante, desde que o Cyro e os seus
superiores hierarchicos se convenceram de que a engrenagem
revolucionaria não andava resumida aos tantos anarchistas que
enfileiravam na famosa _lista negra_, as diligencias importantes
passaram a ser encaminhadas com o auxilio de _personagens de
cathegoria_--a policia um dia, insistimos, ouviu falar em que um homem
de determinado appellido tomara parte saliente n'um facto que alarmou
Lisboa. Não quiz saber de mais nada. Lançou-se na pista d'um rapaz,
então ausente de Portugal, que usava do mesmo appellido, e forcejou
imbecilmente por trazel-o ás mãos, sem procurar obter a confirmação
absoluta da vaga denuncia. E tão cega, tão absorvida n'essa orientação
errada, que ainda pouco antes de ser implantada a Republica tentava
arrancar d'um prisioneiro politico a confissão de que esse tal rapaz
realmente preponderara na execução do facto alludido... O appellido
denunciado á policia era, effectivamente, o de um revolucionario ligado
intimamente a esse facto; o rapaz que a policia perseguia, embora de
appellido identico e amigo d'um outro que planeara o _complot_ de exito
indiscutivel, não entrara n'esse _complot_ e só d'elle tivera
conhecimento apoz a consumação do facto! É um pouco sybillino, mas é a
verdade...

[Ilustração: José Barbosa
Membro substituto do Directorio, em effectividade]

Outro caso pittoresco revelador da _argucia policial_: Certo dia os
espiões da _Bastilha_ descobriram a existencia d'um deposito de bombas
n'uma casa da Baixa. Prisões, buscas, etc., o juiz de instrucção poz em
scena todo o reportorio do costume. D'ahi a quarenta e oito horas, o
mesmo juiz, por effeito d'uma denuncia, mandou capturar um operario
extrangeiro, que se suspeitava ter no predio onde morava alguns
explosivos devidamente aprestados para uma acção decisiva. A noticia
d'essa captura lançou o alarme nos carbonarios que ainda andavam á
solta. A denuncia era fundada e d'esta vez a policia ia,
indubitavelmente, realisar uma diligencia de absoluto successo.
Tornava-se necessario afastar do predio suspeito as bombas
comprometedoras. Um grupo de homens decididos tomou sobre os hombros tal
encargo e, meia hora antes da policia passar a busca do estylo á casa do
operario, as bombas em questão eram transportadas para logar mais
seguro, atravessando impunemente diversas ruas de Lisboa.

No dia seguinte, o _ex-irmão Hoche_ chamou á sua presença o prisioneiro
e quasi lhe pediu desculpa de o ter incommodado _sem motivo_.

--Eu sempre me quiz parecer--disse o juiz ao operario anarchista--que o
senhor nada tinha com este caso das bombas... Vá descançado e trate de
não se misturar com os incidentes da nossa politica interna. A minha
opinião a seu respeito está formada.

O operario cumprimentou amavelmente o juiz e o juiz esfregou as mãos de
contente, murmurando para o _Sota da praça_:

--Eu bem dizia... este rapaz nada tem com o caso das bombas...



CAPITULO X

Os estudantes militares offerecem o seu concurso á Revolução


A explosão da rua de Santo Antonio á Estrella fez desapparecer a loja
Obreiros do Futuro, porque quasi todos os elementos que a compunham
deram entrada nos calabouços policiaes. Mas assim que a justiça libertou
esses carbonarios, a aggremiação secreta reviveu mais forte do que nunca
e ao lado da Associação Carbonaria Portugueza surgiu uma outra
associação retintamente anarchista, tendendo é certo para o mesmo fim
revolucionario, mas divergindo um pouco nos meios de acção e na
preparação e iniciação dos seus adeptos.


A carbonaria anarchista deu um contingente precioso para a revolução de
4 e 5 de outubro. E justo é dizel-o: _trabalhava_ quasi ás claras.
Alguns dos seus adeptos falavam de bombas e de dynamite como quem se
referia a objectos de uso corrente, a artigos de primeira necessidade. A
policia, entretanto, não ouvia nenhuma d'essas conversas e roçava pelo
perigo com uma inconsciencia extraordinaria. Uma noite, á meza de
determinado café de Lisboa que a tradicção popular apontava como _rendez
vous_ infallivel de exaltados, um anarchista conhecido propoz-se zombar
da espionagem da _Bastilha_. Sacou do bolso do casaco um rolo côr de
chocolate, mostrou-o aos convivas com o ar mais natural d'este mundo e
disse em voz alta, de modo a ser ouvido por um _bufo_ que abancára proximo:

--Sabem o que isto é? É _massa_ para um _foguinho de sala_.

Um dos assistentes duvidou e elle, então, exclamou a sorrir:

--Ah! sim, pois agora vou dizer a verdade... Isto é dynamite!...

Os convivas entreolharam-se receiosos, o _bufo_ espertou as orelhas e
durante alguns segundos fez-se o silencio das grandes occasiões. O
anarchista voltou á carga:

--Querem experimentar?...

O panico augmentou. Os assistentes, como movidos por uma unica mola,
recuaram os bancos d'um metro... O _bufo_ procurou abrigo n'uma outra
meza. O silencio e a anciedade eram de esmagar o mais animoso.
Percebia-se claramente que toda a freguezia do café queria pôr-se a
salvo, mas que toda ella tambem não queria passar por medrosa. O _bufo_,
esse, pingava suor por todos os póros.

O anarchista, sempre risonho e zombeteiro, pegou cautelosamente no rolo
de chocolate, raspou-o com a unha e destacando uma particula
insignificante collocou-a na pedra da meza. Depois accendeu um phosphoro
e approximou a chamma d'essa minuscula substancia ameaçadora. Houve uma
ligeira crepitação, a chamma lambeu por completo o ingrediente e em seu
logar ficou apenas um pó amarellado que o anarchista sacudiu com um
guardanapo. Nada mais... nem ruido, nem fumo, nem cheiro que se
percebesse sequer ao de leve.

A assistencia readquiriu a tranquilidade, o _bufo_ permitiu se um
sorriso de troça pelo medo que antes experimentára e toda a gente se
convenceu de que o anarchista mystificára o publico do café,
impingindo-lhe qualquer coisa inoffensiva por um dos mais terriveis
explosivos da actualidade. Toda a gente, sem exceptuar o _bufo_... E, no
emtanto, presados leitores, o rolo côr de chocolate era mais do que
sufficiente, quando applicado em circumstancias especiaes, para fazer
voar, feito em migalhas, um quarteirão da rua do Ouro!


Mas... prosigamos na narrativa da propaganda exercida pela Associação
Carbonaria Portugueza. O _comité Alta Venda_, uma vez bem minado o
bairro de Alcantara, passa a Belem e delega no pharmaceutico Abrantes o
encargo de reunir proselytos em infantaria 1, lanceiros 2 e cavallaria
4. As iniciações são ás dezenas entre soldados, cabos e sargentos. Os
officiaes, mais difficeis de conquistar, representam-se na Carbonaria em
reduzido numero. Os de cavallaria, então, possuem tal fama de
_thalassas_ que, durante um largo periodo, ninguem se atreve a
_palpital-os_. Em lanceiros 2 a organisação revolucionaria conta apenas
com um; em cavallaria 4 com dois e um d'elles em commissão fóra do
regimento. O resto permanece fiel á monarchia e ao monarcha.

Após Belem, funda-se uma _barraca_ exclusivamente destinada aos alumnos
militares--cadetes e aspirantes. É uma força disciplinada, consciente,
conhecendo bem o manejo das armas e que tem o merecimento especial de
ser o processo mais facil e seguro de alliciar futuros officiaes. Muitos
dos officiaes novos que mais tarde apparecem implicados na revolta de 4
e 5 de outubro procedem d'essa _barraca_ para onde haviam entrado quando
alumnos da Escola do Exercito. As entrevistas d'esses carbonarios com os
chefes do movimento realisam-se em regra no jardim do Campo de Sant'Anna
ou no jardim do Matadouro. Os alumnos da Escola do Exercito entendem-se
directamente com o ajudante de instructor, tenente de cavallaria José
Ricardo Cabral, e devem constituir, no momento opportuno, um batalhão de
_élite_ armado com as Mausers-Vergueiro existentes na Escola em numero
de quatrocentas. Os da Polytechnica entendem-se com um cadete que, por
seu turno, se relaciona intimamente com o tenente David Ferreira. Este
official distingue os conjurados pela maneira especial como elles lhe
fazem a continencia.

[Ilustração: A barricada na Rotunda]

Um episodio curioso: o maior numero de iniciações de estudantes
militares é feito n'uma casa da rua Paschoal de Mello, residencia d'um
guarda fiscal, dedicadissimo á ideia. N'esse predio a policia captura
tres paisanos filiados na Carbonaria e o irmão do dono da casa; mas não
fareja convenientemente essa _pepinière_ de revolucionarios e os briosos
estudantes que ali se reunem para conspirar conseguem escapar ao rigor
da _Bastilha_.

O plano de acção esboçado para essa legião ardente e generosa é simples,
mas arriscado. Ás tantas da noite marcada para o inicio do movimento, um
automovel deve levar à Escola do Exercito as munições de que os
estudantes necessitam; a chegada do vehiculo corresponderá para os
revolucionarios ao signal da insubordinação. Os audaciosos rapazes teem
que arrombar a casa das armas e conter quietos e calados os officiaes de
serviço e alguns estudantes reaccionarios; teem que proceder com cautela
para não despertar antes de tempo a atenção da guarda municipal
aquartelada em Cabeço de Bola; os estudantes da Polytechnica e do
Instituto Industrial aguardarão nas immediações da Escola do Exercito o
momento de se juntarem aos seus collegas...


Na tarde de 15 de julho de 1910--em que se suppõe azado o ensejo de
fazer rebentar a _bomba_--um grande nucleo de estudantes militares
organisa uma reunião no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos
restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos
Reis e declarar-lhe que estão todos promptos a iniciar o movimento,
sahindo á rua ainda que isolados. Á primeira vista, talvez esta
declaração pareça uma fanfarronada. Mas não é. Os estudantes
revolucionarios teem parentes, paes, irmãos, etc., em todos os corpos da
guarnição de Lisboa e não julgam crivel que a dedicação a um principio
absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos
estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com
as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declaração peremptoria e
energica do delegado e depois exclama commovido:

--E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, já m'o
repetiram hoje dezenas de creaturas!...

É que o almirante não supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da
revolta, como de resto o já não tinha supportado em 28 de janeiro de
1908. Convencido em absoluto de que a Revolução conta suficientes
elementos para triumphar, não comprehende como, possuindo-se esses
elementos, alguem hesite em lançar fogo ao rastilho da _bomba_...


Para a _barraca_ organisada com estudantes militares, o revolucionario
de _elite_ que é Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu
esforço individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a fé
viva do propagandista incançavel, apparece-nos pela primeira vez
collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase
elogiosa de João Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por
uma fórma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5
de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao
nosso lado o escuta, toma uma expressão inilludivel. «É preciso
salientar o papel que elle assumiu na revolução», diz-nos João Chagas,
«trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito».

Estas palavras na bocca d'um homem que, como João Chagas, as não
prodigalisa sem sinceridade, são o melhor diploma a qualificar a
actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima não
exerceu apenas a sua acção junto dos estudantes militares. Conquistou
para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos
quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro,
quando entre as forças acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa
incerteza, elle por là andou animando, encorajando e preparando o
terreno para um desenlace victorioso.


Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a fórma da
propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o
engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara,
disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a força
da sua fé e da sua coragem. O numero de adhesões cresce de maneira
assombrosa. Machado Santos faz prodigios; não descança, não trepida, não
hesita. Chega a expôr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin
Lamas. Após esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os
relatorios, o _comité Alta Venda_ conclue que esse bairro constitue um
baluarte inexpugnavel. É tempo de lançar as vistas para outros pontos.
Cabe a honra à infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa,
auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado José, hoje sargento por
distincção, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra
de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e
d'aquelle regimento. Em artilharia 1 é auxiliado por Armando Porphirio
Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio
Maria da Silva inicia o 2.º tenente José Carlos da Maia e varios outros.
Em engenharia, a propaganda é feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e
pelo Oliveira dos _bonnets_. Em infantaria 5 é o cabo Benevides; na
guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a
Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O
numero é assombroso e a qualidade é fina, excepcionalmente corajosa e
dedicada.


Fóra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem é intensissima. Malva
do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre,
Mario Malheiros e outros formam a _Junta Carbonaria da Região Central_
que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem já existem
nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de
Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino
Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, mercê dos
esforços de Estevão Pimentel que não tarda a trocar o conforto da sua
casa abastada pelas sensações e perigos do proselytismo; auxiliam-no
n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o
sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na
propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o
tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos
mais uma vez das informações do engenheiro Antonio Maria da Silva:

[Ilustração: José Nunes
Auctor de diversas bombas explosivas]


«Ainda no Norte é o caixeiro viajante Alvaro Mendes que estabelece 20
_choças_ carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por
causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em
Santarem é o capitão de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o
dr. Queiroz, secretario geral do governo civil. É Malva do Valle quem
impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz é tambem Estevão
Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram
denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o
_comité_ dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio
Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado
por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moysés Teixeira, Lorena
Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial menção a _barraca_
Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista
Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos
electricos.»


Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. É
esse caso que põe inesperadamente o juiz de instrucção criminal na pista
dos trabalhos da Associação Carbonaria Portugueza; é elle egualmente que
contribue para que na imprensa appareçam pela primeira vez vagas
indicações sobre a constituição organica das associações secretas. Vem a
proposito pormenorisal-o.



CAPITULO XI

Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»


O caso de Cascaes veiu a publico em meiados de outubro de 1909. Um
incidente sem importancia fez descobrir o cadaver de Nunes Pedro sobre
uns rochedos da Bocca do Inferno. Ao principio suppôz-se que esse homem
se suicidara, atirando-se de grande altura; mas a breve trecho
percebeu-se que o cadaver apresentava signaes d'uma aggressão violenta e
as auctoridades locaes apressaram-se a communicar a descoberta ao juizo
de instrucção criminal. Por outro lado, o então administrador do
concelho de Cascaes, sr. Fernando Castello Branco, tendo encontrado no
fato do morto uns papeis que alludiam ás relações da victima com varios
carbonarios, metteu-se logo no comboio e veiu a Lisboa conferenciar com
a policia. Horas depois, a policia ia de Lisboa a Cascaes investigar o
caso e iniciava uma serie de prisões, tendentes a demonstrar que a morte
do Nunes Pedro fôra planeada e executada por uma terrivel associação
secreta inexoravel para todos os que a atraiçoavam.

A primeira d'essas prisões, a do empregado do commercio Domingos
Guimarães, foi effectuada em Villar Formoso por um agente da policia
repressiva da emigração clandestina. Uma vez realisada, espalhou-se: 1.º
que o Nunes Pedro estava implicado no desapparecimento de cartuchame
armazenado na Alfandega de Lisboa; 2.º que esse desapparecimento fôra
provocado por uma indicação de varios republicanos, que assim se
preparavam e armavam para um proximo movimento revolucionario; 3.º que,
apenas descoberta a falta de cartuchame, esses republicanos, tinham
compellido o Nunes Pedro a fugir para Badajoz, e que elle dias depois de
se ter acoitado n'essa cidade hespanhola escrevera duas cartas uma a
Domingos Guimarães e outra ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes
dinheiro e ameaçando-os de denunciar á policia portugueza a falta do
cartuchame; 4.º que, em face d'essa ameaça, o Domingos Guimarães partira
para Badajoz a socegar o Nunes Pedro, que o trouxera a Lisboa disposto a
fazel-o embarcar para a Africa, mas que depois de se encontrarem os dois
na capital, o Nunes Pedro renovara a ameaça, decidindo então os
carbonarios supprimil-o.

Isto, repetimos, foi o que se espalhou ou melhor foi o que a policia
espalhou, mal teve nas mãos o empregado do commercio amigo da victima e
denunciado como um dos principaes fautores do famoso caso. Após Domingos
Guimarães, o juizo de instrucção criminal capturou outro empregado do
commercio chamado Manuel Martins Pereira Ribeiro, accusando-o de ter
acompanhado o Guimarães e o Nunes Pedro a Cascaes e de ter cumplicidade
na morte do segundo. Affirmou-se até n'essa occasião que o Nunes Pedro
fôra violentamente aggredido com uma bengala pertencente ao Ribeiro e
que este e o Guimarães haviam declarado á policia:


_... terem deliberado fazer desapparecer o Manuel Nunes Pedro, visto
este ser prejudicial, pois podia revelar o segredo das associações
revolucionarias segundo as ameaças de denuncia que já tinha feito..._


Outra informação policial entregue á imprensa periodica disse tambem que
o Pereira Ribeiro reconhecera como sua a bengala acima referida, que o
Nunes Pedro soffrera primeiro a aggressão dos seus companheiros de
passeio a Cascaes e a seguir é que fora precipitado sobre os rochedos da
Bocca do Inferno. Calculavam os aggressores que o mar, lambendo os
rochedos, afastaria o cadaver para bem longe, mas o plano falhara e o
cadaver lá tinha ficado no local, a compromettel-os e a comprometter a
vasta organisação secreta a que elles pertenciam... Isto, tornamos a
insistir, dizia a policia com o ar sorridente e orgulhoso de quem
descobre uma boa pista e se dispõe a esclarecer um mysterio de alto
cothurno.


Uma nova prisão veiu complicar ainda mais o romance da Bastilha: a d'um
outro empregado do commercio, Adelino Luiz Fernandes, primo em segundo
grau de Manuel Nunes Pedro. A policia teve-o enclausurado,
incommunicavel, durante 92 dias, interrogou-o altas horas da noite,
exerceu sobre elle varias violencias e, no entanto, as suas declarações
em nada depuzeram contra os revolucionarios que o juizo de instrução
apontava teimosamente como os eliminadores d'aquelle seu parente.
Adelino Luiz Fernandes confirmava o facto do Nunes Pedro ter fugido para
Badajoz a fim de se eximir a qualquer responsabilidade no
desapparecimento do cartuchame; confirmava o ter elle escripto de
Badajoz ao Domingos Guimarães e ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes
dinheiro e envolvendo esse pedido n'uma ameaça clara; dizia mais--que
Nunes Pedro regressara de Badajoz a Lisboa em 16 de outubro de 1909,
indo para um armazem do Poço do Bispo, onde se conservara dois dias; que
sabendo que o primo era socio do Centro Antonio José d'Almeida, falara
ao presidente do Centro, o professor Camello Neves expondo-lhe as
difficeis circumstancias em que se encontrava a viuva do Nunes Pedro e
que o professor, condoido da sorte da infeliz, lhe dera uma pequena
quantia, uns cinco mil réis. Mas se o Adelino Luiz Fernandes affirmava
tudo isto, dizia egualmente que nunca percebera nos accusados a intenção
de eliminarem o primo, nunca relacionara a sua morte com a ameaça que
elle enviara de Badajoz e que o Nunes Pedro, por mais do que uma vez,
lhe significara o desejo ardente de sahir de Lisboa com destino á Africa
Portugueza.

[Ilustração: Dr. Miguel Bombarda e Vice Almirante Candido dos Reis]

A policia, porém, enlevada na descoberta d'um fio tenuissimo que a
collocara na pista da Carbonaria, torceu a seu talante essas declarações
e desatou a prender mais gente: o commerciante Jorge Francisco de
Carvalho, que sabia da estada do Nunes Pedro no armazem do Poço do
Bispo; o commerciante Joaquim Francisco e o vendedor de leite Joaquim
Adrião Alves, compadre do Domingos Guimarães. Este ultimo declarou no
juizo de instrucção que o compadre, sendo seu hospede desde o começo de
outubro de 1909, sahira de Lisboa no dia 13, que regressara no dia 16,
que passara fóra de casa a noite de 18 (a noite do celebre caso), que no
dia 19 fôra procurado por tres individuos e que no dia 21 fôra preso em
Villar Formoso.

Ainda outra prisão: a do professor do Instituto Brigantino Artur Alvaro
Pereira de Sousa. A policia implicou com elle e tentou ligal-o á morte
do Nunes Pedro apenas pelo seguinte:

O professor estava a ler os jornaes que relatavam o caso e ao ver que os
suppostos criminosos, no dizer dos mesmos jornaes, tinham deixado no
fato do morto uns papeis compromettedores, exclamou: «Deram _bota_!».
Foi o sufficiente. D'ahi a pouco era preso e fortemente assediado pelo
juiz de instrucção.

Por ultimo, a policia ainda enclausurou um antigo cobrador do Centro
Antonio José d'Almeida, Manuel José do Espirito Santo Amaro. Com este
accusado succedeu um episodio interessante. O juiz, prevenindo-o de que
o ia confrontar com o professor Camello Neves, insinuou-lhe:

--Quando eu o acarear com esse homem, affirme que elle o encarregou de
comprar pistolas automaticas e de guardar alguns cartuchos de dynamite.

Mas o antigo cobrador, chegado o momento da confrontação, não
representou o papel que o juiz lhe distribuira e a policia, indignada,
perdendo a cabeça, expulsou o Amaro do gabinete do _ex-irmão Hoche_.


De toda esta trapalhada de averiguações, de capturas a esmo, de clausura
rigorosa, de incommunicabilidade por largos periodos ao sabor da
_Bastilha_, resultou serem enviados ao tribunal como intromettidos no
caso de Cascaes apenas estes individuos: Domingos Guimarães, Manuel
Martins Pereira Ribeiro, o professor Camello Neves, o commerciante
Pereira de Sousa, o vidraceiro Agapito Vieira e Silva, o alfaiate
Eduardo Filippe Amores e o commerciante Manuel Mendes. Todos esses
homens foram julgados dias depois de proclamada a Republica e todos
elles foram absolvidos. E apesar de que, n'esse julgamento, o delegado
se esforçou por demonstrar que o Domingos Guimarães é que assassinara o
Nunes Pedro e que os outros accusados tinham sido seus cumplices, a
defeza, apreciando o caso á luz d'um criterio desapaixonado, evidenciou
sem hesitação que o processo fôra simplesmente um _vomito negro_ do
antigo juiz de instrucção e que n'elle não se devia tocar pelo receio do
contagio. O processo, accrescentou a defeza, não podia merecer a menor
confiança; forjado na _Bastilha_, que a Republica destruiu, n'elle
figuravam como testemunhas individuos que tinham estado presos durante
largos dias de regimen inquisitorial e n'elle existiam declarações
arrancadas aos accusados por meio de torturas que um moderno Scarpia
puzera em pratica a altas horas da noite. A um d'esses accusados o juiz
de instrucção dissera até uma vez, insurgindo-se contra a negativa
formal que elle oppunha a certas affirmações de accusação:

--Ah! você não confessa!... Pois emquanto não confessar não lhe dou cama
nem comida, nem consinto que sua mulher o visite!...


Mas se o caso de Cascaes, espremido até ao maximo pelo juiz de
instrucção, deu simplesmente a embrulhada, que já assignalámos e que o
julgamento em fins de 1910 liquidou n'um sopro, serviu, no emtanto, á
policia para arrancar com furia extranha sobre a Associação Carbonaria
Portugueza. As chamadas diligencias sobre aggremiações secretas
constituem um documento interessante e bem elucidativo da argucia do
_ex-irmão Hoche_ e dos seus sequazes. Cada _primo_ que entrava nos
calabouços da _Bastilha_ soffria um interrogatorio cerrado, que
degenerava a breve trecho n'umas insinuações capciosas, n'umas falinhas
mansas destinadas a seduzir a victima.

--Ora vamos lá, dizia o juiz pondo nos labios o seu melhor sorriso...
confesse, diga tudo o que sabe. É melhor para si porque beneficia d'uma
esplendida attenuante quando chegar ao tribunal e é melhor para mim,
porque termino mais rapidamente as minhas indagações. Confesse...
porque, se o fizer, levanto-lhe a incommunicabilidade...

A sereia policial envolvia assim o carbonario n'uma rede de encantos, de
miragens deliciosas, babujava-o d'uma peçonha que o _Sota da Praça_
tambem distillava ao tocar-lhe a vez de _palpar_ o paciente. Em regra, o
carbonario resistia. E então os dois, reassumindo toda a ferocidade que
os caracterisava, soccorriam-se das ameaças, das violencias, para obter
a tal confissão que, no seu acanhado entender, _simplificava tudo_. Um
dia, o presidente do conselho de ministros, espicaçado certamente pelas
referencias dos jornaes que qualificavam de inutil o supremo esforço do
_ex-irmão Hoche_, e se insurgiam contra o largo periodo de clausura
rigorosa em que elle encerrava os presos das associações secretas,
chamou o juiz ao seu gabinete e inquiriu d'elle o estado do famoso
processo e quaes os resultados alcançados pela averiguação da
_Bastilha_. O _ex-irmão Hoche_, suppondo ingenuamente que o trabalho já
feito era merecedor d'um elogio dispensado pelo chefe do governo,
desentranhou-se logo em pormenores do que sabia sobre a organisação da
Carbonaria.

O ministro ouviu-o attento, fel-o repetir a affirmação de que a
vastissima organisação revolucionaria comprehendia muitos milhares de
homens e, assim que elle acabou, perguntou-lhe quantos dos filiados nas
associações secretas conseguira prender em trez mezes de diligencia
policial. O _ex-irmão Hoche_ citou um numero: duas ou tres duzias de
carbonarios... O ministro deu um pulo na cadeira:

--O que? Pois o senhor tem a pretensão de capturar toda a gente que
pertence a essas associações?... Convence-se que pode metter na cadeia
muitos milhares de homens?... Pare lá com isso!... Mande para o tribunal
os que já conseguiu enclausurar e dê por concluida a investigação!...

[Ilustração: Dr. Malva do Valle
Membro substituto do Directorio em effectividade]

O juiz assim fez. Não evitou o fiasco, mas livrou-se de ser
surprehendido pela implantação da Republica, ainda a prender e a
interrogar os revolucionarios da Associação Carbonaria Portugueza. Para
mais, n'essa altura das suas diligencias, já um bom nucleo de
aggremiados sob a direcção do _comité Alta Venda_ tinha esboçado uma
diversão aos cuidados e ás attenções da _Bastilha_ com a explosão de um
petardo na egreja de S. Luiz e promettia continuar a série até que o
_ex-irmão Hoche_ se capacitasse da improficuidade das suas tentativas.


Disse-se por mais do que uma vez que muitos dos individuos capturados
por causa dos trabalhos da Carbonaria, apenas chegados ás mãos do juiz,
se _descosiam_ sem a menor hesitação e procuravam com uma denuncia
completa readquirir a liberdade sob fiança. O engenheiro Antonio Maria
da Silva, interrogado a tal respeito dias depois da Revolução, oppoz um
desmentido formal a esses boatos:

«Effectuadas as primeiras prisões, vimos logo que os chefes das _choças_
e _cabanas_ eram poupados--systematicamente poupados. Isto significava
que se os presos não tinham fórma de resistir á pressão inquisitorial do
Scarpia azul e branco e se viam arrastados, como unica solução, até á
denuncia, escolhiam de preferencia os camaradas de menor
responsabilidade. De resto, já tinhamos previsto que esse meio era o
unico para forçar a sahida do _cul de sac_ asphyxiante constituido pela
instrucção criminal. Esses homens não foram delatores: foram martyres. E
quizera poder, n'esta hora de resgate, abraçal-os como bons camaradas
que sempre foram e que tiveram a honra de occupar a vanguarda do
sacrificio.»

Encarando essas prisões sobre outro aspecto: o juiz, effectuando-as,
tinha a impressão de que dava assim um golpe bem fundo na organisação
revolucionaria. Pois succedia exactamente o contrario. A Carbonaria
fortaleceu-se de maneira consideravel logo que o _ex-irmão Hoche_
desatou a perseguir os seus filiados. A cada noticia de tortura
inflingida aos carbonarios encerrados na _Bastilha_ correspondia, por
parte da vastissima aggremiação, um impeto irreprimivel de
solidariedade. E assim se explica como, decorridos tres mezes de
sobresaltos, de anciedade, provocados pelas _démarches_ da policia e
apezar do exilio necessario de Luz d'Almeida e de alguns dos seus mais
valiosos collaboradores, a Carbonaria, longe de vêr diminuida a sua
expansão, tinha alargado tanto a sua rêde de iniciações que os
dirigentes suppunham attingido o maximo grau de propaganda util e
efficaz e julgavam desnecessario proseguir na conquista de novos adeptos.


Passemos a outro capitulo da historia revolucionaria: a prisão de João
Borges no _armazem_ de bombas da rua dos Correeiros, prisão que
patenteou á policia o auxilio que os dynamitistas deviam prestar aos
republicanos revolucionarios. Passadas algumas horas sobre ella, que na
tarde d'um _domingo morto_, fez despertar, curiosa e receiosa, uma boa
parte da população lisboeta, recebeu-se na redacção d'um jornal
republicano esta missiva, que é opportuno recordar e transcrever:


    _Sr. redactor._--Como v. naturalmente sabe, o caso das _bombas_ é
    mais uma fantochada preparada «ad hoc», para inglez ver e surtir um
    effeito, que ainda ninguem attingiu, mas que innegavelmente dá
    tolice. Para mim é ponto assente que o João Borges e o juiz de
    instrucção vão feitos na manigancia; nem d'outra fórma se explica o
    sangue frio e a confiança de que está investido o tal Borges. Se não
    vae feito com o juiz, _um valente_ que pega assim em bombas á mão
    como se mexesse em batatas, então vae feito com elementos
    reaccionarios para fins que ninguem percebe.

    O facto do juiz de instrucção criminal pegar assim em bombas á unha,
    dá a nota de que sabia muito bem o quanto ellas tinham de
    inoffensivas.

    Se v., sr. redactor, fosse juiz d'instrucção, se fosse um Cyro, um
    _Sota da Praça_, ou outro qualquer Sherlock Holmes de fancaria, já
    teria perguntado ao tal Borges quem é que lhe offereceu 6 contos
    para desempenhar aquelle papel e quem é que lhe dava 1$500 réis por
    dia a elle e a algum outro dos que elle andou a convidar para a tal
    farçada.

    Em quanto o governo consentir um juiz d'aquella força e os
    reaccionarios dentro do paiz, ha de haver destas scenas. Quem é que
    come que na travessa da Palha, n'uma casa de meretrizes, se
    fabricavam bombas? Aquella só do _ex-irmão Hoche_...

    Se fossem bombas verdadeiras, aonde estava elle já?

    Que paiz este!... Quando veremos nós isto ás direitas?--De v.
    etc--_X_.


Commentemos esta carta, porque ella dá ensejo a desfazer umas _teias de
aranha_ que ainda velam o olhar indeciso de muito patriota.



CAPITULO XII

As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»


Em primeiro logar, rememoremos os factos... Foi, como já dissémos, na
tarde d'um _domingo morto_ que a policia commandada pelo juiz de
instrucção pôz em alvoroço a rua dos Correeiros, investindo contra o
deposito de explosivos que João Borges ali estabelecera. O juiz tinha ido
ao cemiterio acompanhar um enterro. Em meio da cerimonia funebre,
appareceu-lhe um guarda da judiciaria, enviado pelo chefe Ferreira, e
disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O juiz surpreendido, chamou o Cyro,
que andava proximo, e, largando o enterro, veiu até á travessa da Palha
com o ar preoccupado de quem trazia um mysterio na consciencia.

No _local do crime_, procedeu com o mais completo alheiamento da
gravidade das circumstancias. Subiu a escada do predio suspeito e teria
ido até ao quarto de João Borges sem dar por coisa alguma, quando o Cyro
lhe indicou o _criminoso_, que tambem caminhava em direcção ao aposento,
placido, sorridente, com aquelle ar de desimportado que tão nitidamente
o caracterisa. O juiz mandou-o prender e, assim que se encontrou dentro
do _deposito_, olhou em volta e teve um gesto de receio. As bombas
accumulavam-se em grande quantidade--eram ás duzias. Mas o João Borges,
que lhe seguia ironico os movimentos, apressou-se a socegal-o:

--Não tenha medo... estão descarregadas.

O mais modesto dos policias teria desconfiado n'esta altura que o
deposito dos explosivos tentava liquidal-o, deixando que elle proprio
provocasse a acção destruidora d'um d'esses engenhos. Mas o juiz não
pensou em tal. Para provar que era homem sem medo, sorriu-se como o João
Borges e, pegando n'uma bomba, revirou-a cuidadosamente nos dedos.
Depois ainda fez umas considerações de caracter philosophico sobre a
propaganda libertaria que o Cyro, valha a verdade, não percebeu, e sahiu
da rua dos Correeiros para se internar no seu gabinete da Bastilha, a
reflectir maduramente na descoberta, que, segundo confessou logo no dia
seguinte, lhe fôra indicada pelo presidente do conselho, pelo chefe do
governo.

A noticia da diligencia espalhou-se ao começo da noite por uma fórma
extraordinaria. A seguir á prisão de João Borges, a policia fez outras
capturas, quasi todas no mesmo local da primeira, e a _Bastilha_
principiou a trabalhar, avida e tenazmente, na descoberta dos cumplices
do proprietario de tanto cylindro metallico destruidor. Para os que
estavam no segredo do caso, a prisão de João Borges era uma consequencia
natural da sua _insouciance_. Desimportado como sempre fôra, admirava
até que ha mais tempo a policia o não tivesse incommodado e chamado a
capitulo. Mas, para a maioria, a diligencia policial envolvia um ponto
de interrogação que a carta n'outro logar reproduzida assignala por
maneira inilludivel.

[Ilustração: As forças revolucionarias na Rotunda]

No domingo á noite, nos centros de cavaco, o caso foi discutidissimo. E
como o juiz, n'uma nota para a imprensa, affirmasse que João Borges lhe
confessara ter fabricado explosivos para os utilisar logo que ao governo
Teixeira de Sousa succedesse um governo reaccionario, estabeleceu-se
immediatamente uma corrente de opinião que um dos commentadores
eventuaes do caso resumia d'este modo:

--A scena passou-se assim... O Teixeira de Sousa, por intermedio do
Alpoim e este por intermedio de um dos seus antigos companheiros de
lucta no 28 de janeiro, conseguiu que o João Borges, de boa fé,
arranjasse as bombas. Logo que soube que ellas estavam prestes a servir,
denunciou o fabricante ao juiz de instrução e com a declaração
attribuida ao João Borges de que as bombas só rebentariam sob as patas
de um ministerio reaccionario, faz o seu jogo no paço e consegue
facilmente convencer o rei D. Manuel de que, emquanto elle estiver no
poder, nada tem a receiar por parte dos elementos mais avançados;

Outra versão dava o João Borges identificado com a policia para armar
uma _pavorosa_ e d'essa, por influencia de diversos libertarios, se fez
echo a maioria dos jornaes. Mas em todas ellas surgia sempre esta
pergunta maliciosa que, no simples enunciado, lançava immenso veneno nas
intenções do revolucionario preso:

--Quem lhe deu o dinheiro para o fabrico das bombas? _Aquillo_ custa
caro... O João Borges não tem _cheta_...

Por outro lado, a maneira serena e até chocarreira como o preso encarava
a sua prisão, a attitude quasi de desafio que elle, ironico e
desdenhoso, lançava á policia, quando esta, atormentada e preoccupada, o
arrancava á esquadra do Caminho Novo para os interrogatorios no juizo de
instrucção, tudo isso chocava a opinião _seria_ e _pacata_,
predispunha-a pessimamente contra a victima da _Bastilha_. Se João
Borges, ao atravessar as ruas de Lisboa n'essa peregrinação estopante,
longe de se sorrir para os amigos e conhecidos, bem disposto, com o ar
de quem não teme as garras da auctoridade, evidenciasse uma gravidade de
compostura equivalente á gravidade da sua situação, então, sim, então é
que a opinião _seria_ e _pacata_ o olharia como um martyr da Ideia e o
lastimaria por não haver chegado ao fim da sua obra demolidora.

Ninguem ou quasi ninguem se recordava de que João Borges evidenciara
desde a sua apparição nos centros revolucionarios essa _insouciance_ do
perigo a que já nos referimos; ninguem ou quasi ninguem fazia reviver na
memoria esse traço nitido da sua individualidade e que João Borges, para
explicar ao primeiro curioso que o defrontasse o funccionamento de uma
bomba, raras vezes olhava primeiro em volta a verificar se algum _bufo_
o espreitava. E como não era natural que a pessoa ou pessoas que o
tinham auxiliado monetariamente no fabrico das bombas viessem n'essa
altura proclamar em publico e raso a verdadeira proveniencia do dinheiro
que a opinião _seria_ e _pacata_ via constantemente ao lado do tal ponto
de interrogação, as entrelinhas sobre João Borges, as phrases reservadas
a respeito do seu procedimento esvoaçavam de grupo em grupo, creando-lhe
uma atmosphera antipathica.

Ia longe o tempo em que a descoberta d'um deposito de bombas
correspondia ao silencio receioso da grande maioria e revestia um tal
caracter de coisa sensacional que poucos, muito poucos mesmo, se
atreviam a referir-se-lhe sem palavras de condemnação. Mas se esse tempo
já ia distante, o certo é que só uma infima parcella de revoltados
encarava desassombradamente a prisão de João Borges. O resto encolhia-se
n'uma prudente apreciação, vaga e indefinida... não fosse a historia
futura revelar que o dinheiro utilisado na compra dos materiaes
indispensaveis á confecção dos engenhos sahira do cofre da _Bastilha_,
da burra do sr. Antonio Centeno ou da caixa do Quelhas...

Dois ou tres jornaes acabaram por dissipar taes receios e desconfianças.
Dois ou tres artigos, um d'elles escripto por José Barbosa--um dos
membros do Directorio do Partido Republicano--rehabilitaram na grande
massa o fabrico dos explosivos e salientaram a coragem dos fabricantes.
E era justo que isso se fizesse. Não se comprehendia que, uma vez
lançados no caminho da actividade revolucionaria todos os homens que se
dicidiam em dado momento a auxiliar a implantação da Republica, os que
promoviam essa implantação na cupula d'uma chefia organisadora os
abandonassem á ferocidade da _Bastilha_ e os não soccorressem com o
incentivo de um elogio, que, até certo ponto, lhes podia dulcificar as
agruras do carcere. Se n'outras epocas de preparação da Revolta, os
acontecimentos se não desenrolaram com a mesma logica e os dirigentes
d'essa preparação procuraram, antes de se solidarisarem com graves
responsabilidades, afastar do seu campo de acção o menor indicio de
convivencia com libertarios, no caso de João Borges--justo é
consignal-o--a honestidade de consciencia sacrificou quaesquer
pensamentos de cobardia e os _bombistas_ tiveram a seu lado alguns dos
homens que lhes haviam solicitado a necessaria collaboração. E um
d'esses homens, assim que teve ensejo de transpôr triumphante os
humbraes da _Bastilha_, a sua primeira _démarche_ consistiu exactamente
em libertar as victimas do juiz de instrucção, os revolucionarios que
elle enclausurara por effeito do fabrico de explosivos. Tinha essa
divida a saldar e saldou-a primeiro que a qualquer outra.


Afinal, quem forneceu dinheiro ao João Borges para o fabrico das
bombas?... A _Joven Portugal_ (fracção da Carbonaria) por intermedio de
Manuel Bravo. As bombas, importadas do estrangeiro, durante a
organisação do 28, tinham _provado_ mal--eram verdadeiras bombas de
fancaria--e necessitava-se, para o novo movimento, de explosivos que
_cumprissem_. Recorrera-se então á industria nacional, em que se
occupavam não só aquelle revolucionario como outro de grande relevo em
toda a agitação politica comprehendida no periodo de 1907 a 1910--o
operario José Nunes. Falemos d'elle com alguma minucia, porque o merece.


Obrigado em 1908 a exilar-se em Africa para não cahir nas garras da
policia, por lá andou algum tempo, luctando desesperadamente contra o
clima, mas sem perder a confiança cega que possuia n'um proximo advento
da Republica. Assim, logo que poude regressar a Lisboa e foi readmittido
na Imprensa Nacional, continuou a trabalhar dedicadamente no fabrico de
explosivos, aperfeiçoando-se n'uma _arte_ que, para elle, já não tinha
segredos.

Um dia o actor Vieira Marques procurou-o e convidou-o a fazer parte d'um
grupo que se destinava a auxiliar _praticamente_ a Junta Liberal na sua
campanha de exterminio das ordens religiosas. Esse grupo, porém, não
tinha a menor ligação com a Junta, que ignorava, em absoluto, a sua
existencia. A Junta fazia a propaganda pela palavra e pela escripta; o
grupo em questão propunha-se fazel-a pelo facto. José Nunes, que aliás
não pertencia a nenhuma das divisões da Carbonaria, acceitou o convite e
assim nasceram os _Mineiros_ (seis individuos) dirigidos pelo
photographo Virgilio de Sá.

[Ilustração: Machado Santos]

As attenções do grupo fixaram-se principalmente em dois dos focos
occupados pela reacção: o convento do Quelhas e a capella da travessa
das Mercês. Tornava-se urgente destruil-os a ambos. José Nunes recebeu a
incumbencia de preparar os apparelhos indispensaveis a essa destruição.
O _engenheiro_ dos _Mineiros_ fabricou uma bomba enorme que mais tarde
esteve exposta no Museu da Revolução--bomba que, sendo destinada ao
Quelhas, devia, apoz a explosão, espalhar no ambiente grande quantidade
de gazes deleterios. O actor Vieira Marques, tres noites consecutivas,
aventurou-se a entrar na cerca do famoso convento, afim de escolher o
local mais apropriado á collocação do engenho destruidor--visto que os
_Mineiros_ queriam poupar á tragica sentença as numerosas creanças ali
internadas.

Para o ataque á capella da travessa das Mercês, José Nunes tambem
principiou a confeccionar outro apparelho de identico poder combativo. E
foi elle proprio que uma noite de novena entrou no templo, onde os
frades da Aldeia da Ponte haviam estabelecido o seu quartel-general, e
_reconheceu o terreno_. Mas nenhum dos dois projectos foi por deante,
porque n'esta altura do periodo revolucionario, o _engenheiro_ dos
_Mineiros_ recebeu convite do grupo _Vedeta_ (filiado na Carbonaria)
para lhe fabricar uma certa porção de bombas. O grupo _Vedeta_ era
dirigido por Carlos Kopke e Roque de Miranda. José Nunes devotou-se com
enthusiasmo á satisfação da encommenda e a Revolução triumphante
surprehendeu-o em meio do seu perigoso trabalho.



CAPITULO XIII

O «comité» executivo de Lisboa procede a um inquerito


Entramos agora no periodo preparatorio do movimento que implantou a
Republica. Esse periodo começa precisamente com o congresso republicano
reunido em 1908 em Setubal. No intervallo entre essa reunião e o
regicidio, o ministerio Ferreira do Amaral procurara consolidar as
instituições monarchicas conservando a politica interna n'uma inercia
caracteristica. O Directorio, calculando que a liquidação do dia 1 de
fevereiro actuara desfavoravelmente no espirito de muita gente e
suppondo que o momento não era azado para se iniciar um movimento serio
em favor da Ideia, aconselhava uma phase de tranquilidade e de treguas
que não podia servir de estimulo aos verdadeiros revolucionarios.

No Congresso de Setubal, a eleição do Directorio constituiu, como outras
deliberações da assembléa, uma grande surpreza para o publico. Na lista
vencedora incluiam-se nomes que poucos esperavam vêr proclamados. O
_comité Alta Venda_, tendo effectuado antes do congresso uma reunião
preliminar, decidira influir no acto eleitoral de modo que no Directorio
entrassem elementos de acção nitidamente revolucionaria e assim
succedeu. Como effectivos, a Carbonaria conseguiu vêr eleitos Bazilio
Telles e Euzebio Leão e como substitutos Malva do Valle, Leão Azedo,
Innocencio Camacho e José Barboza. Feita a eleição, João Chagas propoz e
o congresso approvou a nomeação d'um organismo incumbido de, junto do
Directorio, proceder aos trabalhos de preparação revolucionaria. Findo o
congresso, Innocencio Camacho e José Barboza entraram logo, por
circumstancias occasionaes, na effectividade dos cargos, e o organismo
acima referido ficou constituido por João Chagas, Antonio José d'Almeida
e Affonso Costa.

Antonio José d'Almeida, então ligado á Carbonaria, vasta rede de bons
elementos a que--como já tivemos ensejo de alludir--Luz d'Almeida
dedicara um esforço de gigante, assumiu a direcção dos trabalhos
revolucionarios entre a classe civil, trabalhos que não eram mais do que
a sequencia natural d'outros anteriormente effectuados, e, dentro em
pouco, começou a funccionar um _comité_ especial que aliás teve curta
existencia, porque Antonio José de Almeida, doente, foi forçado a partir
para Carlsbad e Luz d'Almeida, perseguido por causa das associações
secretas, expatriou-se. Da acção exercida pelo _comité executivo de
Lisboa_--o _comité_ nomeado em virtude da resolução do congresso de
Setubal--fala João Chagas n'estes termos:


«Uma vez constituido, o _comité_ procurou dar aos seus trabalhos um
caracter absolutamente pratico e passar em revista, digamos assim, os
elementos com que era possivel contar para o momento opportuno.

«No primeiro semestre de 1908 fizemos um inquerito minucioso ás forças
militares, para avaliar do estado da ideia republicana dentro dos
quarteis e dos navios de guerra. Necessitavamos ter uma noção nitida e
clara da situação, para proseguir com confiança na propaganda da
revolta. Esse inquerito resumi-o n'um relatorio que apresentámos ao
Directorio do partido e cujos topicos é interessante registar. Antes de
mais nada devo dizer que se notava por essa occasião no exercito uma
certa acalmia, uma tal ou qual espectativa, que embaraçava o
proseguimento dos nossos trabalhos. O ministerio Ferreira do Amaral
lançara no espirito de muitos officiaes a ideia de que a monarchia ia
variar de processos e que era provavel ou possivel a entrada do regimen
n'um caminho de regeneração patriotica. Esperava-se, esperavam elles, os
espiritos hesitantes, que um governo honrado puzesse termo á serie de
crimes commettidos desde longa data e não houvesse necessidade de mudar
de instituições para obter, para a vida nacional, a paz e a felicidade
que todos ambicionavam.

«No emtanto, a ideia republicana contava adeptos em todos os corpos da
capital e em muitos das provincias. Até no grupo de Queluz, que a
monarchia suppunha ser um dos seus fortes esteios, havia officiaes
decididos á revolta. Caçadores 5 e caçadores 2 estavam bem minados pela
ideia republicana. Artilharia e o estado maior, em summa o campo
entrincheirado, apresentavam muitos officiaes francamente democratas,
que só aguardavam o ensejo propicio de se manifestarem. E se nos
officiaes a semente fructificara lindamente, nos sargentos, nos cabos e
nos soldados a expansão do ideal assumira proporções extraordinarias.
Apenas os corpos de cavallaria se mostravam refractarios á boa doutrina,
conservando um respeito idolatra pela reacção, que só difficilmente se
podia remover. Mas repito: ainda n'esses tinhamos elementos de confiança.

«Na armada escuso dizer que, mais do que no exercito de terra,
encontravamos dedicações sincerissimas, verdadeiros heroes dispostos a
tudo para a victoria da Republica. Acode-me o nome d'um official, o
tenente Carlos da Maia, que, sendo immediato da _Limpopo_, empregada no
serviço da fiscalisação de pesca nas costas de Portugal, combinara
comigo telegraphar-me de todos os pontos onde o navio ia tocando, para
eu o poder prevenir a tempo do dia marcado para a revolução. E outros...»

[Ilustração: O acampamento na Rotunda]

Afastados de Lisboa Antonio José d'Almeida e Luz d'Almeida,
encontrando-se Eusebio Leão e Cupertino Ribeiro no estrangeiro,
Theophilo Braga e Basilio Telles no norte e José Relvas em Alpiarça
entregue aos trabalhos agricolas nas suas propriedades, o Directorio
apparece reduzido a José Barbosa e Innocencio Camacho e o _Comité
executivo de Lisboa_ a João Chagas e Candido Reis, visto que Affonso
Costa tambem sahira da capital por motivo de doença. Mas isso não impede
que a propaganda revolucionaria prosiga activamente. Sobe ao poder o
ministerio Teixeira de Sousa e esse facto, longe de provocar nos
organisadores da revolta pensamentos de tregua, intensifica-lhes a acção.

O pseudo liberalismo do ministerio regenerador, do ultimo ministerio da
monarchia, longe de contrariar a propaganda revolucionaria, favorece-a.
O sr. Teixeira de Sousa, por mais anodyno que se mostre á população
republicana, é sempre um inimigo, porque é sempre um defensor do throno,
um serventuario do velho regimen. Ninguem o julga capaz d'um _gesto_
formidavel, que obrigue o monarcha reinante a desprender-se dos braços
setinosos da reacção, a libertar-se d'essa influencia perniciosa que o
sr. Ferreira do Amaral mezes antes assignalara como emmaranhando a côrte
portugueza n'uma teia de fanatismo e despotismo. O sr. Teixeira de
Sousa, muito embora reconheça a necessidade de modificar o existente,
não é estadista para fazer a Republica. Tem de cuidar, antes de tudo, da
sustentação d'uma clientella partidaria, tem de procurar, n'um embate de
politica mesquinha, a liquidação absoluta dos seus adversarios
monarchicos e não é certamente com o cultivo sincero da massa popular
que elle se disporá a investir contra o clericalismo triumphante, a
satisfazer as justas aspirações dos liberaes.


Antes de 15 de setembro de 1909, produz-se um facto que determina uma
nova _poussée_ do movimento organisador da revolta. Em certa noite,
apparecem no Centro de S. Carlos onze tripulantes d'um navio de guerra
portuguez, manifestando desejos de falar a qualquer dos membros do
Directorio. São recebidos pelos srs. Guilherme de Sousa, vice-presidente
do Centro e Cordeiro Junior e Julio Maria de Sousa, da commissão
municipal republicana. Um d'esses homens fala sem rebuço: elle e os seus
camaradas tencionam insubordinar-se a bordo do _D. Carlos_, já estudaram
e adoptaram um plano de revolta e querem saber se o Directorio lhes
sancciona e apoia a tentativa. O sr. Guilherme de Sousa convida-os a
voltarem ao Centro no dia immediato e apressa-se a communicar o facto
aos dois membros do Directorio que n'essa altura servem assiduamente a
Revolução: José Barbosa e Innocencio Camacho.

A principio, um e outro d'esses republicanos receiam que a _démarche_
dos onze marinheiros constitua uma cilada. Mas como não seria de boa
pratica abandonal-os inteiramente á execução de qualquer projecto
sedicioso e o almirante Candido dos Reis já tinha posto Machado Santos
em contacto com os dois membros do Directorio, José Barbosa e Innocencio
Camacho resolvem: 1.º attender os marinheiros que expontaneamente veem
ao encontro dos seus planos revolucionarios; 2.º pedir a Machado Santos
que os assista no contacto com esses patriotas para lhes reconhecer a
identidade.

Tomam, para isso, certas medidas de precaução e combinam com o almirante
Candido dos Reis o avistarem-se com Machado Santos em determinada noite
na praça Luiz de Camões. D'ahi seguirão depois a estabelecer contacto
com os marinheiros. Mas para que ninguem suspeite da gravidade da
_démarche_, esse encontro com Machado Santos é feito com o ar
desembaraçado de velhos conhecimentos. Machado Santos é acompanhado até
o local por Luz d'Almeida para que tanto Innocencio Camacho como José
Barbosa reconheçam n'elle o enviado de Candido dos Reis. Os marinheiros
que surgem n'essa occasião a insistir n'uma tentativa de revolta já não
são apenas os representantes da guarnição do _D. Carlos_; teem, sim, a
delegação das guarnições de todos os navios surtos no Tejo. Da praça
Luiz de Camões, Machado Santos, José Barbosa e Innocencio Camacho e os
marinheiros seguem para casa d'um d'estes, no Conde Barão. Durante o
trajecto, Machado Santos, para obter a certeza de que elle e os dois
membros do Directorio não serão victimas d'um _guet-apens_, interroga
habilmente os marinheiros sobre os navios a que pertencem, o armamento
de que dispõe cada um dos barcos, etc., e pelas informações colhidas
convence-se e convence José Barbosa e Innocencio Camacho de que não ha
duvida em tratar lealmente com esses commissionados das forças navaes.

Uma vez entrados na tal casa do Conde Barão e prevenida a hypothese
d'uma surpreza policial, os marinheiros expõem o seu plano,
accrescentando que o tencionam pôr em execução d'ahi a poucas horas.
Contam poder sublevar 1.000 dos seus camaradas: 500 d'elles
desembarcarão a um signal dado e apoderar-se-hão do Arsenal do Exercito
para terem immediatamente á sua disposição armas e munições. (Diga-se
entre parenthesis: ao contrario do que o governo monarchico espalha com
insistencia, o _comité_ da Revolução tem a certeza, por informações
seguras de officiaes republicanos, de que as armas em deposito no
Arsenal não estão provisoriamente inutilisadas, mas possuem os
percutores e servem admiravelmente na primeira opportunidade). Os
marinheiros contam tambem, para os auxiliar na sua tentativa, com o
nucleo de civis formado pela Carbonaria e que comprehende 6.000 homens,
antigos soldados e marinheiros, aptos a manejar com acerto uma arma de
fogo.

[Ilustração: Ladislau Parreira]

Feito o ataque ao Arsenal, occuparão o palacio das Necessidades e,
tomando o rei e a familia como refens, obrigam d'esse modo as forças
fieis a conservar-se inactivas. É este o plano dos audaciosos patriotas,
que elles desenvolvem perante Machado Santos e os representantes do
Directorio com a mesma serena tranquillidade com que outros dos seus
camaradas propõem mais tarde a um dos dirigentes republicanos aprisionar
o sr. D. Manuel n'uma annunciada visita do soberano ao quartel
d'Alcantara. A tentativa, porém, é arriscada e torna-se necessario, para
que se não repita uma scena identica á da insubordinação de 1906, evitar
que os marinheiros a ponham em pratica, como elles dizem, no curto prazo
de vinte e quatro horas. José Barbosa e Innocencio Camacho falam, n'esse
sentido, aos briosos rapazes. Machado Santos impõe-se-lhes energicamente
e ao cabo de longa discussão os tres obteem a promessa de que o projecto
revolucionario será addiado para melhor ensejo, isto é para quando
estiverem concluidos os trabalhos encetados sob a égide do Directorio.
Mas tomam o compromisso formal de lhes preparar rapidamente o advento da
Republica, para que não supportem por muito tempo ainda o regimen de
suspeição e de incerteza de que se queixam amargamente. De caminho,
allude-se á _sabotage_ como um meio de modificar a situação em que os
marinheiros se encontram a bordo e por duas ou tres vezes o Directorio
recebe a noticia de que elles a praticam com exito.


Decorrem alguns dias e, tendo regressado a Lisboa os membros ausentes
d'aquelle organismo republicano e do _comité_ executivo de Lisboa, José
Barbosa e Innocencio Camacho narram-lhes o succedido e todos concordam
na urgencia da preparação decisiva do movimento. Entra-se a fundo na
materia. A propaganda do lado do elemento militar toma aspecto
differente n'um impulso energico e resoluto; a Associação Carbonaria
Portugueza alarga a esphera da sua intervenção junto dos grupos
revolucionarios civis.

Em 14 de junho de 1909 a Maçonaria effectua uma sessão magna, «convocada
expressamente para se deliberar sobre a opportunidade d'uma obra, que se
esboça vagamente ser a Republica, mas que não é revelada nos seus traços
intimos á quasi totalidade dos irmãos». N'essa reunião, fala o
grão-mestre, o sr. dr. José de Castro, para propôr a nomeação d'um
_comité_ incumbido de executar ou, melhor, de preparar a execução da
obra citada. A assembléa toma conhecimento da proposta e o grão-mestre
reserva-se o direito de nomear elle proprio o _comité_ cuja formação
deve até ao ultimo momento constituir assumpto da maior reserva.
Impõe-se o segredo rigoroso, porque, a dentro da Maçonaria, existem
elementos de pouca confiança n'um tão grave emprehendimento.

O _comité_, que toma o nome de Commissão de Resistencia, fica composto,
além do dr. José de Castro, por Simões Raposo, Machado Santos, Miguel
Bombarda, Francisco Grandella e Cordeiro Junior. O seu primeiro cuidado
é o de approximar-se do Directorio do partido republicano, o de
estabelecer contacto com esse organismo para conjugar com elle os
esforços tendentes ao derrubar da monarchia. O Directorio acceita sem
restricções a intervenção do Grande Oriente, e, prévio accordo, o
_comité_ maçonico trata de agrupar, de disciplinar, de aproveitar os
organismos revolucionarios já então creados e que trabalham n'um
isolamento de pouca ou nenhuma proficuidade. Essa aggregação é feita com
extrema cautela. O _comité_ chama ao seu ambiente os elementos de que o
proprio Directorio dispõe, os da Carbonaria, representada pelo
engenheiro Antonio Maria da Silva, os do grupo Accacia, representado por
Martins Cardoso e os da Joven Portugal, a que pertence, entre outros, o
dr. Carlos Amaro. E uma vez combinada a acção commum, diligenciam passar
á fieira todos os individuos que se lhes affiguram capazes d'um esforço
em prol da Republica.


Ventila-se depois a questão do dinheiro. Uma revolução, nos tempos
modernos, não se faz sem essa móla imprescindivel. Ha necessidade de
comprar armamento e de subvencionar outras despezas e o cofre do
Directorio republicano não tem o sufficiente para tal empreza. Logo que
se pensa a sério na realisação do movimento, constitue-se uma commissão
financeira, inteiramente separada da commissão administrativa do partido
e formada por Antonio José d'Almeida, Bernardino Machado, Magalhães
Basto e José Barbosa. Constituida a commisssão, trata-se de calcular o
que custará o movimento.

Quinhentos contos? Quatrocentos contos? Trezentos?...

As opiniões variam e um dia em que isso se discute com um certo calor,
Affonso Costa apresenta uma base orçamental um pouco mais modesta:
setenta contos. Faz um calculo identico ou approximado aos de João
Chagas e almirante Candido dos Reis. Setenta contos, na opinião de
qualquer d'elles, deve chegar para as despezas da Revolução. Falta fixar
o modo de obter essa quantia. Como? Sacando antecipadamente sobre a
Republica? É processo que não encontra quem o defenda. Um emprestimo? De
todos os alvitres estudados é este, afinal, o que concita um maior
numero de adhesões. Mas, ainda assim, a idéa não tarda a ser posta de
parte e a commissão financeira assenta que será relativamente facil
reunir cem contos por intermedio de 25 correligionarios dedicados, cada
um d'elles procurando obter quatro contos entre os seus amigos pessoais.

A commissão financeira, porém, nunca funcciona regularmente e, após
diversas hesitações, Eusebio Leão, José Relvas, José Barbosa e
Innocencio Camacho deliberam formar o cofre revolucionario apenas com os
donativos secretos. Essa deliberação obedece talvez á velha idéa de que
_dinheiro não falta_. E como _dinheiro não falta_, José Barbosa,
Innocencio Camacho, Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da
Silva, reunindo-se frequentemente no escriptorio do _Estado de S.
Paulo_, occupam-se dedicadamente da acquisição de espingardas, pistolas
e revolvers. Machado Santos e o engenheiro Antonio Maria da Silva
descobrem a breve trecho o que elles chamam a solução do problema.
Encontra-se á venda um lote de 33:000 espingardas de bom modelo que a
Suissa acaba de substituir no armamento do seu exercito. Cada uma sahe
pelo preço de 3$000 réis. É de graça... Pelos calculos feitos a
Revolução Portugueza necessita de 5:000 armas, o que equivale a uma
somma approximada de dezeseis contos de réis. Toca a comprar. _Dinheiro
não falta_... Innocencio Camacho e José Barbosa escrevem a Antonio José
d'Almeida, solicitando-lhe a incumbencia de effectuar a transacção.
Antonio José d'Almeida accede de bom grado e aguarda n'uma capital
europeia que em Lisboa se reuna o dinheiro indispensavel.

Mas os dias passam, o dinheiro não apparece e a transacção não se
effectua. Uma parte do lote suisso vae para o Paraguay, onde d'ahi a
mezes serve n'uma revolta de caracter partidarista, e Antonio José
d'Almeida regressa a Lisboa sem ter conseguido remediar de qualquer modo
o _fiasco_. Isto, comtudo, não entrava seriamente a organisação do
movimento. Mantendo-se a ideia de alimentar o cofre revolucionario com
os donativos secretos, os organisadores tratam de, com a maior reserva,
expedir umas cartas aos elementos republicanos de reconhecida abnegação
e, dentro de semanas, de dias até, começam a affluir diversas quantias
que Eusebio Leão, como thesoureiro, escriptura de maneira symbolica. O
cofre-forte da Revolta é uma mala de viagem que Eusebio Lião, cauteloso
e meticuloso, faz guardar todos os dias no estabelecimento de modas de
seu irmão Ramiro e sem que este o saiba... Á medida que o dinheiro
afflue, vae-se realisando a compra de armamento, por pequenas porções,
ficando depositario do material o negociante Martins Cardoso.

[Ilustração: A Bandeira da Revolução]

Esta colheita secreta de dinheiro dá origem a varios incidentes
curiosos. José Barbosa narra d'este modo um d'esses incidentes:


«Um dia Manuel Bravo foi ao meu escriptorio confiar-me para a Revolução
200$000 réis do negociante Alves de Mattos. No dia immediato procurou-me
o socio d'esse negociante, Alexandre Paes, e, falando com animação
desusada, queixou-se de que Alves de Mattos desdenhara do proposito em
que estava de contribuir para o cofre revolucionario e que, para provar
ao socio que tambem possuia bens de fortuna, subscreveria para o mesmo
cofre com 1:000$000 de réis. Mas, na realidade, só me confiou, deante do
socio, a decima parte d'essa quantia e sahiu do meu escriptorio
agitadissimo e monologando cousas phantasticas. Á noite tive noticia de
que enlouquecera. Dias depois succedeu-me ir ás 10 e 50 á estação do
Rocio aguardar, na companhia de João Chagas, a chegada d'um
correligionario que vinha do Porto. Mal o comboio parou, vejo o Paes
sahir alvoroçado d'uma das carruagens e, defrontando-me, desatou a
alludir, em altos gritos, ao supposto donativo de 1:000$000 réis que
queria fazer ao cofre revolucionario. Perto andava um cabo de policia e,
segundo me contaram depois, o infeliz já dentro do comboio havia
affirmado em alto e bom som essa contribuição generosa. A imprudencia do
louco podia custar-nos cara.»


A provincia tambem se desentranha em dedicações extraordinarias para
alimentar o cofre revolucionario. Estevão Pimentel, Manuel Alegre, Malva
do Valle, Ricardo Paes e os republicanos de Alhandra, Villa Franca,
Portalegre, Porto e do Algarve tambem fornecem muitas armas.
Independentemente da actividade de todos esses correligionarios, muitos
outros se armam á sua custa e armam os amigos, comprando revolvers e
pistolas em Hespanha, passando-as para Portugal dentro de malas de mão,
arriscando descuidosamente a liberdade. Do Brazil os organisadores do
movimento recebem, por egual, valioso auxilio monetario e ainda já
depois de proclamada a Republica vem a caminho de Lisboa determinada
quantia ali angariada por intimos de José Barbosa.

N'um determinado momento, o almirante Candido dos Reis foi percorrer a
provincia para avaliar com segurança da situação creada pela organisação
revolucionaria Acompanhou-o n'essa missão o official de caçadores sr.
Pires Pereira. No regresso, a impressão do illustre marinheiro era tão
favoravel ao desenlace feliz do movimento que foi decidido desde logo
apressal-o e sahir á rua dentro de breve espaço de tempo. Ninguem
duvidava do exito. Tudo corria ás mil maravilhas. Os elementos
revolucionarios manifestavam um ardor que era impossivel conter.



CAPITULO XIV

Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias


O _comité_ de resistencia formado pela Maçonaria reunia, no emtanto, em
casa e no escriptorio do dr. José de Castro, nos Makavencos, no Gremio
Lusitano, no Centro de S. Carlos, em casa do sr. Francisco Grandella,
etc. Dos trabalhos d'esse _comité_, conta-nos o sr. Simões Raposo o
seguinte:


«A partir de determinado momento, as reuniões do _comité_ de resistencia
e seus adherentes passaram a effectuar-se diariamente no centro de S.
Carlos, presididas pelo dr. Miguel Bombarda que, diga-se desde já, foi
sempre d'uma assiduidade notavel, d'uma dedicação sem limites.

«Ao cabo d'algum tempo de preparação o _comité_ principiou a organisar
as suas forças de combate, distribuindo-as segundo um plano
cuidadosamente traçado e marcando bem nitidamente o papel que cada um
dos grupos de revoltosos devia desempenhar no momento propicio. No
emtanto, as adhesões chegavam-nos, sempre no meio de caloroso
enthusiasmo, e todas as noites, n'um gabinete do Centro de S. Carlos,
soldados, cabos e sargentos, populares á mistura, affirmavam
peremptoriamente a necessidade da Revolução, dispostos até a verdadeiros
actos de loucura. Candido dos Reis não assistia a essas vibrações da
alma revolucionaria mas palpitava-as atravez d'uma porta que separava
duas salas do centro e assim andava perfeitamente orientado sobre a
marcha crescente da nossa propaganda».


N'essa altura já estava constituido o _sub-comité_ militar formado por
Candido dos Reis, Fontes Pereira de Mello, coronel Ramos da Costa e
capitão Palla. Fixou-se uma data para a Revolução: a de 15 de julho de
1910. Mas, chegado o momento soube-se com alvoroço que o segredo dos
conspiradores fôra descoberto e que as auctoridades militares iam tomar
providencias para impedir que a revolta estalasse. O movimento foi adiado.


«O adiamento--refere-nos o sr. José Barbosa--impressionou
desagradavelmente os officiaes que estavam no segredo do _complot_. No
dia immediato, vi alguns d'elles arrepelarem-se com sinceridade,
verterem até lagrimas de raiva por se ter contra-mandado a revolta.
Carlos da Maia, official de rara valentia, entrou no meu escriptorio
agitadissimo e colerico, disposto, apesar de tudo, a tentar uma
sublevação de marinheiros. Estes, por seu lado, tambem não cessavam de
solicitar, de pedir que apressassemos o inicio do movimento, do
contrario suicidar-se-hiam n'uma tentativa de exito improvavel, sahindo
á rua contra todas as indicações dos organisadores da Revolução. A
propaganda de alguns mezes aquecera-os ao rubro».


Depois de 15 de julho, multiplicaram-se as reuniões de officiaes em
diversos pontos da cidade--na redacção das _Cartas Politicas_ no Arco do
Bandeira juntaram-se por vezes vinte e mais representantes da guarnição
de Lisboa--fez-se outra compra de armamento e, aproveitando-se a energia
do nucleo de militares que desde o começo haviam mantido a mais completa
adhesão á Republica, produziu-se um trabalho galopante que fatalmente
devia aluir com rapidez as instituições monarchicas.


«A primeira quinzena de agosto--affirma João Chagas--foi empregada
n'essa corrida veloz para a revolução. E tão bem e tão utilmente ou
proficuamente se trabalhou que tornámos a fixar data para o desenrolar
do movimento: a noite de 19 para 20 d'esse mez. E fixámol-a, porque,
segundo a opinião dos officiaes de marinha que nos acompanhavam, era a
noite em que a bordo do _D. Carlos_ se dava um conjuncto de
circumstancias absolutamente vantajoso para a revolta. N'essa noite tudo
concorreria para que a victoria fosse alcançada sem grandes difficuldades.

«Comtudo, á ultima hora, alguem denunciou o movimento ao chefe do
gabinete regenerador. E succedeu o que todos sabem: ordem aos navios de
guerra para sahirem a barra, prevenções nos quarteis, a policia vigiando
rigorosamente a cidade, etc. O Teixeira de Sousa teve perfeito e
minucioso conhecimento do _complot_ e informaram-no com verdade do
caracter que o revestia. Mas, para não desmentir os boatos postos em
circulação de que o governo contava n'esse momento com um falso apoio
dos republicanos, calou-se e habilmente attribuiu as medidas de rigor
que tomára á necessidade de suffocar uma _intentona_ reaccionaria».


Este segundo adiamento, longe de fazer esmorecer os organisadores da
revolta, produziu effeito diametralmente opposto. N'uma reunião especial
no Centro de S. Carlos, levada a effeito no domingo 25 de setembro, a
que assistiram, entre outros, Candido dos Reis, o capitão Sá Cardoso e o
tenente Helder Ribeiro, o _comité_ de resistencia submetteu á apreciação
dos representantes do _comité_ militar um resumo das suas forças
disponiveis, com as indicações dos locaes em que deviam operar e da
funcção attribuída a cada grupo de revoltosos, e esses representantes
estudaram minuciosamente o trabalho da organisação civil que, diga-se em
abono da verdade, embora não tivesse sido reproduzido em cifra no papel,
era absolutamente incomprehensivel para os profanos. N'outra reunião
effectuada no consultorio do dr. Eusebio Leão, Candido dos Reis affirmou
aos membros do Directorio que havia elementos em quantidade sufficiente
para tentar a queda da monarchia e em successivas conferencias os
officiaes que a ellas compareceram affirmaram a mesma coisa, dando a
certeza de que a Republica em breve seria proclamada.


Precisamos voltar atraz para registar um pormenor de organisação, que
José Barbosa descreve n'estes termos:


«Em outubro de 1909 a propaganda tomou maior incremento. Na primeira
reunião do Directorio e da Junta Consultiva, realisada n'esse mez, como
os marinheiros continuassem a affirmar que se sublevariam a breve trecho
e fosse necessario entrar a fundo nos trabalhos de preparação da
revolta, puz a questão com toda a franqueza: o partido republicano, no
caso d'uma insurreição naval, não abandonaria os insurrectos e antes
lhes daria a sua solidariedade moral e material. O assumpto foi
debatido. Affonso Costa apoiou-me energicamente e todos concordámos em
que era indispensavel atacar o regimen monarchico n'um golpe decisivo. A
Junta Consultiva tambem se pronunciou pela acção immediata e d'ahi a
dias tomámos conhecimento do inquerito feito pelo _comité_ executivo aos
officiaes republicanos, iniciando-se logo após esse inquerito as
ligações entre os elementos que se suppunham isolados. João Chagas e
Candido dos Reis trabalharam n'essa altura com uma febre indescriptivel.
Dia a dia, João Chagas reunia nas _Cartas Politicas_ tres e mais
officiaes de marinha e do exercito de terra que, ao entrarem em
contacto, se surprehendiam immenso de ver ao lado da Republica camaradas
do mesmo regimento ou do mesmo navio que consideravam monarchicos
retintos ou pelo menos indifferentes.

«Essa operação aggregadora representa um esforço extraordinario.
Coincidiu com uma phase activissima da Carbonaria, que contava no seu
seio, por interferencia propagandista do engenheiro Silva, soldados,
cabos e sargentos de toda a guarnição da capital. Precisavamos em cada
regimento, ou em cada navio, relacionar os officiaes republicanos com as
praças adherentes. Procedeu-se cautelosamente a essa ligação, pondo
primeiro em contacto um official com um sargento e depois o sargento com
um determinado numero de cabos e soldados.»


O engenheiro Antonio Maria da Silva completa assim o relato de José
Barbosa:


«Os officiaes passam depois a entender-se directamente com os seus
subalternos e estão permanentemente em contacto com carbonarios, a quem
dão indicações e de quem colhem informações rigorosas para se
confeccionar o plano da revolta.

«Indigitam-se para o elaborar os officiaes: Sá Cardoso, Helder Ribeiro e
Aragão e Mello. É preciso, todavia, dar aos officiaes a certeza material
das forças de que dispomos, e eu fico encarregado de os pôr em contacto
com essas forças. Organisam-se, por isso, verdadeiras revistas
militares. Aos soldados são dadas as respectivas senhas. Uma d'ellas é:
_pontapé na bola_. A _bola_, já se vê, é a monarchia com o seu farto
recheio de escandalos: muito _bojuda_, _brigantinamente bojuda_. De uma
vez, Aragão e Mello e o carbonario Alberto Meyrelles assistem no jardim
da parada de Campo d'Ourique ao desfile de 150 homens de infantaria 16,
dizendo cada um d'elles ao passar: _pontapé na bola_... Alguns até
cantarolavam disfarçadamente a senha. Helder Ribeiro fica encantado com
os resultados colhidos. O tenente José Ricardo Cabral e o soldado
Domingos passam revista aos postos fiscaes; Helder Ribeiro e o
pharmaceutico Abrantes revistam infantaria 1, lanceiros e cavallaria 4,
o tenente Ochôa infantaria 2 e Americo Olavo, caçadores 5.

«No Rocio realisa-se uma revista em noite de musica. Um verdadeiro
escandalo nas barbas da policia. N'essa noite vão para o largo do Caldas
conferenciar diversos elementos revolucionarios. Aragão e Mello passa
ainda em revista engenharia. D'estas experiencias resulta, como não
podia deixar de ser, adquirirem os officiaes a certeza de que, com os
elementos de que dispõem, a revolução tem todas as probabilidades de
triumpho.»


Entretanto, os elementos da classe civil prodigalisavam-se em reuniões,
em conciliabulos secretos, onde a palavra Revolução animava, todos os
assistentes, impellindo-os até ao sacrificio da propria vida. A
atmosphera carregava-se dia a dia e de maneira que já ninguem pensava em
adiar o movimento nem em demorar-lhe a marcha fulgurante. Era
absolutamente necessario abrir a valvula, porque, de contrario, a
explosão inevitavel redundaria em prejuizo dos que, com tanto amor e
tanta coragem, haviam projectado a emancipação da nacionalidade. Candido
dos Reis e Miguel Bombarda sustentavam-se corajosamente na brecha. Das
provincias vinham noticias calorosas, que demonstravam a anciedade dos
republicanos pelo rebentar da revolta. Era necessario fixar uma data,
apressar, custasse o que custasse, o advento do novo regimen. O balanço
dado pelo _comité_ executivo de Lisboa ás forças de que o partido
dispunha garantia a certeza da victoria.

Essa impressão de anciedade era facilmente apprehendida por todos os
organisadores do movimento. Até mesmo os temperamentos mais calmos, os
homens cujo sangue-frio repellia imprudencias perigosas, sentiam bem de
perto a necessidade urgente de se fazer _qualquer coisa_, que puzesse
breve termo a uma tal situação.


No dia 25 de setembro, pela 1 hora da tarde, José Barbosa e Innocencio
Camacho encontraram-se no campo de Sant'Anna com o general Encarnação
Ribeiro. Á primeira pergunta que os dois lhe dirigiram--o movimento é
viavel?--o denodado militar respondeu-lhes com uma affirmação
cathegorica. Restava organisar o plano de combate.

--E em quantos dias se arranja esse plano? inquiriram José Barbosa e
Innocencio Camacho.

--O maximo, oito.

[Ilustração: Bombardeamento do Paço das Necessidades (Janella do quarto
do rei)]

Em face d'esta asseveração nitida, os organisadores do movimento
resolveram incumbir immediatamente a elaboração do plano ao general
Encarnação Ribeiro, capitão Sá Cardoso, official de marinha Aragão e
Mello e tenente Helder Ribeiro. Para a acção civil dividiu-se a cidade
de Lisboa em varios sectores, correspondendo essa divisão á importancia
dos diversos nucleos da Carbonaria. O papel d'esses elementos consistia
essencialmente em facilitar a revolta nos quarteis e evitar a
agglomeração da guarda municipal--o tradicional papão dos revoltosos. Os
chefes de grupo eram os srs. Rodrigues Simões, intransigente republicano
de velha data; Antonio Francisco Santos, dr. Carlos Amaro, com larga
folha de serviços á causa; professor Antonio Ferrão, um conjurado
impenitente; Alberto Meyrelles e um empregado da Companhia das Aguas de
nome Sousa. Todos os chefes eram acompanhados d'um certo numero de
revolucionarios, armados de pistolas, revolvers ou bombas de dynamite e
embora a sua acção parecesse á primeira vista apenas limitada ao
_incendiar do rastilho_, a verdade é que do seu exito dependia o exito
da insurreição e a grande massa de conspiradores assim disseminada pela
cidade arriscava-se, mais facilmente do que qualquer outra, a soffrer as
consequencias funestas de um primeiro embate com as forças fieis á
monarchia.

Ainda havia, segundo o plano elaborado pelos officiaes citados--plano
que se concertava admiravelmente com as indicações da organisação civil
do movimento--um certo numero de revolucionarios que se entenderiam, na
madrugada propria e nos diversos quarteis, com os elementos
reconhecidamente republicanos ali existentes. Eram elles o tenente Pires
Pereira, o barbeiro Andrade, José Madeira, o empreiteiro Oliveira, o
ex-sargento Carvalho, os srs. Godinho e Abrantes e os irmãos Lamas, de
Alcantara. Infantaria 5 devia atacar a força da guarda municipal
aquartelada no Carmo, recebendo de caçadores 5 metralhadoras e de
artilharia 1 as peças indispensaveis a um resultado seguro. O ataque
seria feito pelo largo de S. Roque, rua da Trindade e largo da
Abegoaria. Com infantaria 5 cooperaria o regimento de engenharia, que se
esperava sahisse do quartel sob o commando do tenente Alvaro Pope. O
quartel de marinheiros seria invadido pelo 1.º tenente Parreira,
acompanhado de alguns officiaes de marinha e d'um grupo de
revolucionarios de Alcantara. O almirante Candido dos Reis iria com
outros officiaes a bordo do _D. Carlos_ e dos outros navios de guerra
para, com a sua presença, a sua coragem e o prestigio do seu nome,
dissipar quaesquer hesitações de momento.

Os barcos que tinham sahido de Lisboa, ao falhar a tentativa
revolucionaria dos meiados de agosto--por effeito da denuncia que o
chefe do gabinete regenerador recebera de determinado governador civil
fundadamente alarmado com os preparativos de insurreição que
surprehendera na capital do seu districto--voltaram ao fundeadouro no
Tejo em meiados de setembro. Pouco depois, a marinhagem enviava ao
Directorio e ao _comité_ executivo de Lisboa delegados especiaes e
declarava peremptoriamente que não tornava a sair a barra emquanto não
fôsse proclamada a Republica ou se procurasse, pelo menos, tentar abalar
o regimen monarchico. Essa resolução era inadiavel. O cabo Antonio, um
marinheiro decidido e leal, chegou a dizer no Directorio a José Barbosa
e Innocencio Camacho:

--Temos que sahir para a revolta custe o que custar. Perseguem-nos a
bordo mais do que nunca e eu e os meus camaradas estamos resolvidos ao
ultimo sacrificio, mesmo a um fuzilamento provavel. Não é possivel
prolongar a situação...



CAPITULO XV

Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo


Dias depois, começou a correr a noticia de que os navios de guerra iriam
para Cascaes no começo de outubro e o almirante Candido dos Reis,
conferenciando de novo com o Directorio e o _comité_ militar,
ponderou-lhes a urgencia na fixação d'uma data para a revolta. Por outro
lado, o _comité_ de resistencia, conferenciando egualmente com o
Directorio, expôz-lhe claramente a situação e a impreterivel necessidade
de a liquidar. O Directorio pensou, e muito bem, que, embora estivesse
prompto a sanccionar a tentativa revolucionaria, precisava obter a
garantia de que o movimento, a realisar-se, não se desenrolaria
anarchicamente, mas sim com uma disciplina e uma ordem honrosas para a
collectividade democratica. Combinou-se então confiar essa affirmação
decisiva a um arbitro e o Directorio acceitou Candido dos Reis n'esse
posto de enorme responsabilidade moral. É justo accentuar que tal
exigencia do Directorio não representava desconfiança nos trabalhos do
_comité_ de resistencia. Em cada um dos membros d'essa organisação
republicana, como em cada um dos membros do _comité_, havia a convicção
inabalavel de que o movimento se iniciaria apesar de tudo e com
probabilidades de exito. A mais rudimentar prudencia, porém, aconselhava
que se averiguasse bem fundamente do estado dos elementos
revolucionarios dispostos ao combate e que n'um balanço seguro de forças
se baseasse a resolução definitiva do assumpto. N'outra reunião
effectuada no Centro de S. Carlos, Candido dos Reis proferiu perante o
Directorio a sua sentença arbitral.

--Individualmente, disse elle, eu, Candido dos Reis, simples soldado da
Revolução, entendo que mesmo anarchicamente ella deve fazer-se dentro
d'um curto praso. Não podemos admittir que a monarchia continue a
achincalhar-nos. Como arbitro, affirmo que, embora o movimento seja mal
succedido, não envergonhará, na derrota, o partido republicano.

Perante esta opinião, expressa energica e categoricamente, o Directorio
decidiu sanccionar a tentativa, dar-lhe, digamos assim, um caracter
official.

É interessante recordar que n'essa occasião em que o almirante Candido
dos Reis manifestava a sua _opinião technica_ ao Directorio do partido
republicano, um dos organisadores do movimento fez-lhe ligeira
observação sobre as probabilidades de triumpho. O almirante endireitou o
busto e n'um tom de voz que não admitia replica exclamou:

--Se me julgasse incapaz de assumir o commando das forças de marinha e
de as conduzir á victoria, dava um tiro na cabeça!...

Isto explica até certo ponto o _mysterio_ da sua morte, na madrugada de
4 de outubro, á hora exactamente em que principiava a ferir-se o
primeiro combate serio entre as forças revoltadas e os elementos
militares de que a monarchia até então ainda dispunha. Mas, não
antecipemos considerações sobre o fim tragico do almirante, visto que a
elle teremos de fazer referencia áparte.


A 30 de setembro, estando já resolvida a tentativa de revolta, um dos
membros do Directorio perguntou a Candido dos Reis qual a data que se
devia escolher para o _estalar da bomba_. Resposta do almirante:

--Os acontecimentos é que hão de fixal-a.

[Ilustração: José Carlos da Maia]

Essa data, no emtanto, não podia ser outra senão a de 4 de outubro, pois
que n'esse dia de manhã os barcos de guerra tinham ordem de mudar de
fundeadouro. A madrugada de 4, isto é, momentos depois de terminado o
banquete no paço de Belem, offerecido ao marechal Hermes da Fonseca,
estava naturalmente indicada para o começo da insurreição. De resto,
muito embora Candido dos Reis em 30 de setembro houvesse falado do caso
pela fórma vaga que acima registamos, verdade é que, dois dias antes, no
espirito do almirante já tinha perpassado a data de 4, apontando-a até
n'uma reunião a que presidira no dia 28 d'aquelle mez. Essa reunião fôra
convocada especialmente para o _comité_ de resistencia ouvir do _comité_
militar as indicações que, sobre a revolta, se lhe offerecesse apresentar.


No dia 1 de outubro, o engenheiro Antonio Maria da Silva e Machado
Santos reuniram-se no café Martinho e o primeiro, depois de communicar a
opinião de Candido dos Reis, de que o movimento se devia iniciar quanto
antes, ficou incumbido de prevenir os officiaes de marinha
revolucionarios para uma nova reunião de elementos militares no dia
seguinte, ás 4 da tarde, em pleno Chiado, no consultorio do dr. Eusebio
Leão. Era o dia 2, o dia marcado para a grandiosa manifestação que,
diga-se de passagem, não serviu apenas ao presidente dos Estados Unidos
do Brazil para avaliar com nitidez da expansão da idéa democratica entre
nós e para desfazer a má impressão provocada, á sua chegada á capital,
pelo _rapto_ imaginado e posto em execução pelo governo regenerador, mas
tambem para esclarecer os mais scepticos dos conspiradores sobre o
estado d'alma do elemento civil. Os milhares de manifestantes que na
tarde do dia 2 de outubro se agglomeraram em frente do paço de Belem e
nas arterias proximas mostraram bem claramente aos organisadores do
movimento que a Republica Portugueza era um facto e que a monarchia se
equilibrava a custo n'uma base tradicional, roída pela propaganda da
liberdade e pelos vicios inherentes ao antigo regimen.

Á reunião do Chiado compareceram uns quarenta officiaes. Entraram á
formiga no consultorio do dr. Eusebio Leão, emquanto, cá fora, na rua,
Innocencio Camacho, José Barbosa, Simões Raposo e outros revolucionarios
civis vigiavam attentamente pela segurança dos conspiradores militares.
Na reunião, os quarenta officiaes tomaram o compromisso solemne de se
insurreccionar, estabeleceram a _senha_ e o _signal de reconhecimento_,
cuja transmissão aos chefes de grupos populares seria feita por Miguel
Bombarda e depois de terem fixado definitivamente a madrugada de 4 de
outubro para o começo da Revolução, assentaram tambem decisivamente no
plano de combate, modificando n'alguns pontos o plano anterior, porque
os militares não queriam fornecer armas aos civis, receando desmandos e
vinganças pessoaes. Ficou por isso entendido o seguinte:

Engenharia, infantaria 5 e caçadores 5, sahindo dos seus quarteis,
dirigir-se-hiam para o Rocio, mandando-se depois a infantaria atacar o
quartel do Carmo, para obstar á sahida da municipal. Parte da marinha
desembarcava no Terreiro do Paço, apoderando-se do telegrapho e apoiando
as forças que deveriam estacionar no Rocio. Infantaria 2, caçadores 2 e
marinheiros do quartel d'Alcantara e parte da marinha dos navios cercava
o palacio das Necessidade para prender o rei. A artilharia dividia as
suas forças em duas fracções. Uma ia reunir-se a caçadores 2, ao palacio
das Necessidades e outra seguia para o largo de S. Roque, apoiando as
forças do Rocio e impedindo a communicação da guarda municipal pela rua
do Alecrim e praça Luiz de Camões. Os grupos civis, por sua vez, com
bombas e granadas de mão impediam em diversas ruas da cidade que as
forças da municipal evolucionassem para o ataque ás forças revoltadas.

_A senha_ e o _signal de reconhecimento_ eram _Mandou-me procurar?...
Passe, cidadão._ Candido dos Reis insistiu muito em que se adoptasse
_Mandou-me procurar?_ em vez de _Mandou-me chamar?_ por ser menos crivel
que um profano empregasse a primeira phrase de preferencia á segunda.

Ás 5 da tarde, Innocencio Camacho foi ao consultorio do dr. Eusebio Leão
e, logo que a reunião terminou, cêrca das 6, fechou a porta do
consultorio e seguiu para o Rocio a encontrar-se com José Barbosa afim
de lhe dar conta do que os quarenta officiaes, em ultima analyse, haviam
resolvido. Esqueceu-nos dizer que na mesma reunião se decidira que o
quartel general do _comité_ executivo de Lisboa e dos membros do
Directorio seria installado no estabelecimento de banhos de S. Paulo.


O dia 3 de outubro, uma segunda feira, amanhece prodigamente beijado
pelo sol. Todos os jornaes salientam a imponencia da manifestação da
vespera e o povo republicano prepara-se para repetil-a d'ahi a vinte e
quatro horas, quando o marechal Hermes da Fonseca, encaminhando-se para
bordo do _S. Paulo_, fizer na Camara Municipal as suas despedidas á
cidade de Lisboa. Projecta-se assim uma segunda parada das forças
democraticas, tão brilhante como a do dia 2, tão enthusiastica, tão
vibrante de commoção, tão anciosa de liberdade.

Antes do almoço, o marechal Hermes da Fonseca visita a Sociedade de
Geographia. É no regresso do illustre brazileiro ao paço de Belem que a
noticia tragica, a noticia sensacional, começa a circular primeiro nas
redacções dos diarios vespertinos e depois nos cafés, nos ajuntamentos
das ruas. «Um attentado contra o dr. Bombarda ... um louco desfechou
sobre elle tres tiros de pistola....» E a opinião alarma-se, a opinião
agita-se, um fremito de espanto e de pavor convulsiona d'um extremo ao
outro a capital, os jornaes são positivamente assaltados por creaturas
desejosas de saber pormenores, e em frente dos _placards_ agglomera-se
uma massa rumorejante, que ao dispersar lamenta sincera e doridamente o
succedido.

A caminho do hospital de S. José, para onde o ferido se fizera elle
proprio transportar, vae longa fila de intimos e de correligionarios. Os
primeiros que ouvem do dr. Bombarda a narração do attentado são, depois
dos seus collegas no corpo docente da Escola Medica, os srs. drs. Brito
Camacho e João de Menezes. O mallogrado professor fala-lhes sereno e
tranquillo e descreve sem a menor difficuldade como o caso se deu.
Estava no gabinete de consultas de Rilhafolles e o creado annunciou-lhe
a visita d'um antigo pensionista do hospital, o tenente de estado maior
Apparicio Rebello. Mandou-o entrar e assim que o teve em frente da sua
secretaria, manifestou-lhe, n'uma phrase amavel, a sua surpreza por
vêl-o restabelecido. O tenente não disse palavra. Tirou do bolso do
casaco uma Browning--este systema de pistolas vulgarisou-se em Portugal
com o 28 de janeiro e o regicidio--e alvejou o dr. Bombarda primeiro no
peito e a seguir no ventre. O eminente psychiatra ergueu-se
corajosamente da cadeira e ainda conseguiu deitar as mãos ao aggressor.
Mas este continuou a desfechar e só quando um dos guardas de Rilhafolles
o subjugou é que o dr. Bombarda poude dirigir-se á porta do hospital e
metter-se no mesmo trem que ali conduzira o tenente, ordenando ao
cocheiro que o levasse sem demora ao banco de S. José.


Examinado por tres dos seus collegas, resolve-se a soffrer uma operação
dolorosa. É o ultimo recurso á sciencia, recurso, aliás, de successo
problematico. Mas, antes, o dr. Bombarda tira do bolso uns papeis e
queima cuidadosamente um d'elles. É a lista da organisação civil da
revolta que não tarda a estalar, o registo das forças populares que
dentro em pouco serão chamadas a collaborar na implantação da Republica.
Ainda na vespera, ao concluir uma reunião de conspiradores, o grande
propagandista liberal pedira esse papel ao sr. Simões Raposo,
justificando o pedido d'este modo:

[Ilustração: Embarque da familia real na Ericeira]

--Eu guardo-o, porque estou menos arriscado que você a ser preso. Mesmo
no caso d'uma busca policial a Rilhafolles, escondo-o facilmente nas
folhas d'um livro da minha bibliotheca.

E o sr. Simões Raposo concordara com o alvitre porque, tendo
secretariado desde o começo dos trabalhos o _comité_ de resistencia,
conservara de memoria tudo o que o papel dizia e de um instante para o
outro recompol-o-hia sem grande difficuldade. Mas, prosigamos na
narrativa dos tragicos incidentes de 3...

Feito o singelo auto de fé, o sabio professor volta-se para os
operadores e colloca-se á sua inteira disposição. O trabalho dos
cirurgiões é demorado e extenuante. Dura longos minutos, porque os
projecteisda Browning perfuraram violentamente os intestinos e ha o
justo receio de uma peritonite fatal. Cá fóra, nas immediações do
hospital e da Escola Medica, a multidão de curiosos engrossa a olhos
vistos. Os _placards_ augmentam de momento a momento a anciedade do
publico com as informações sobre o estado do enfermo.

Ao cahir da tarde, não ha esperanças de o salvar. A opinião corrente é
de que o criminoso foi suggestionado pelo clericalismo. O dr. Bombarda
combatera desde annos distantes a reacção e o fanatismo e aventa-se a
hypothese de que elle succumbe a um manejo cruel d'esses seus dois
inimigos. A excitação popular é tão intensa que um padre, no Rocio,
passa um mau bocado, só porque alguem lhe ouviu dizer a respeito do
attentado:

--Foi bem feito!... Não se perde nada.

No Chiado e na Avenida da Liberdade ha correrias da policia, tentando
inutilmente abafar essa colera surda que estremece em ondas ameaçadoras.
De grupo para grupo, faiscam exclamações de desespero. Pensa-se
abertamente n'uma desforra retumbante. O povo liberal, que a essa hora
ainda não sabe que um grupo de homens decididos resolveu fazer dentro de
pouco a Revolução, prepara-se expontaneamente para _qualquer coisa_ que
o attentado decerto provocará. Os mais impulsivos gritam ás escancaras:

--Ah! os clericaes querem guerra!... Pois tel-a-hão!

Ninguem duvida. O assassinio do dr. Bombarda vae ser o ponto de partida
para uma lucta sem treguas entre liberaes e reaccionarios, tanto mais
accesa quanto é certo que o governo regenerador anda a burlar a opinião,
fingindo satisfazer-lhe as reclamações no tocante á expulsão dos
congreganistas de Aldeia da Ponte e do Barro.


Ás seis e minutos, o eminente democrata exhala o ultimo suspiro. Mas,
facto extranho: n'esse momento de verdadeira crise, quando se suppõe que
a agitação popular vae assumir um caracter gravissimo, aquecida ao rubro
pela noticia da morte, na atmosphera da cidade como que perpassa uma voz
mysteriosa mas incisiva, recommendando socego e prudencia. Alguns
jornaes republicanos recebem mesmo indicações n'esse sentido. Nada de
_placards_ que enfureçam o povo: nada de titulos berrantes que augmentem
o alarme e a indignação. Calma, muita calma... energia, sim, mas sem
furia. A Revolução está á porta. E, se o governo monarchico se assusta
com a attitude hostil do povo... toma as suas medidas de precaução e
embaraça, ainda que inconscientemente, a eclosão do movimento.

Entretanto, os organisadores da revolta escoam-se silenciosamente por
entre a multidão, dando a ultima demão aos preparativos. Previnem-se
amigos e companheiros do ideal, chamam-se urgentemente a Lisboa os
conspiradores que dias antes se tinham ausentado da cidade, ha
conciliabulos rapidos em diversos pontos, os chefes de grupo são
convocados para o Centro de S. Carlos a receberem armas e instrucções. A
esta reunião devia presidir o dr. Bombarda... O dr. Bombarda, estendido
n'um leito de morte, é substituido pelo sr. Simões Raposo. O material
revolucionario, que até então estivera quasi todo abrigado sob as vistas
cautelosas do sr. Martins Cardoso, é canalisado para aquella
aggremiação, a dois passos da policia e sem que a policia dê por isso.
Os massos com revolveres entram, sem recato, sem precauções, no
edificio... Nas salas do Centro allude-se ao movimento em tom tão claro
e expressivo que um dos revolucionarios que estaciona no largo, em
frente do theatro lyrico, galga apressadamente as escadas, a recommendar
maior discreção:

--Falem mais baixo!... Na rua ouve-se tudo...



CAPITULO XVI

No momento culminante, o desanimo invade os organisadores da revolta


A ultima reunião dos organisadores do movimento realisou-se na noite de
3 no terceiro andar do predio 106 da rua da Esperança, residencia da mãe
de Innocencio Camacho, que elle, nas vesperas, transferira para Cintra,
receioso de que os acontecimentos a envolvessem nas suas graves
consequencias.

Na tarde d'esse mesmo dia Innocencio Camacho e José Barbosa tinham ido
ao escriptorio do dr. Affonso Costa avisal-o, por incumbencia do
almirante Candido dos Reis, da data fixada para a revolta. O dr. Affonso
Costa ouviu attentamente a communicação ensaiando algumas vezes o
_santo_ e a _senha_ e depois limitou-se a puxar d'um _carnet_ e a
escrever ali o numero do predio da rua da Esperança. Sabia perfeitamente
o que se tramava, mas não calculava que o movimento rebentasse d'ahi a
horas. Marinha de Campos, que José Barbosa tambem prevenira do facto,
cumprindo egualmente uma determinação do almirante, metteu-se n'um
automovel com Alfredo Leal e foi a Cintra chamar o dr. Eusebio Leão, que
adoecera na vespera.


Ás 7 da tarde, emquanto o engenheiro Antonio Maria da Silva ia tratar de
arranjar uns doze automoveis que eram indispensaveis para o serviço de
communicações, João Chagas e José Barbosa foram jantar a um restaurante
da Baixa, pretendendo dar uma tregua á agitação que os dominava. O que
foi esse jantar não se descreve com facilidade. Decorreu tristemente,
quasi silencioso, pois que até João Chagas parecia n'esse momento avaro
da viveza e do espirito de brilhante _causeur_ que o caracterisam. «Mal
comemos, contou-nos mais tarde José Barbosa; e o pouco que ingerimos não
tinha o menor sabor».

Ás 8 os conjurados principiaram a affluir á rua da Esperança. Innocencio
Camacho appareceu mais cedo para abrir as portas e fazer as honras da
casa. Os outros eram, além dos revolucionarios representantes da armada
e de todos os corpos da guarnição da capital, Candido dos Reis, Affonso
Costa, José Relvas, José Barbosa, João Chagas e Antonio José d'Almeida.
Eusebio Leão, que viera de Cintra apesar da doença que o affligia, fôra
deitado n'um sophá e ardia em febre. A sala, onde só cabiam á vontade
dez pessoas, tinha apenas uma meza e sobre ella um candieiro de
petroleo. Em volta da meza perambulavam cerca de cincoenta conjurados. A
atmosphera era irrespiravel. Asphyxiava-se lá dentro.

Na reunião, Candido dos Reis falou com rara energia, accentuando
nitidamente que se não fosse capaz de collocar-se á frente dos
marinheiros e de os conduzir á victoria não tinha o direito de viver.
Examinou-se a situação. Os revolucionarios contavam em absoluto com
elementos de lanceiros 2, cavallaria 4, caçadores 2, infantaria 5 e
caçadores 5. De infantaria 16 comparecera á reunião apenas um alferes e
havia duvidas sobre se o regimento podia entrar desde logo na revolta.
Infantaria 1 não adheria, mas tambem não contrariava a acção conjuncta
dos militares e do povo. Dentro da sala, repetimos, abafava-se... Isso
não impedia, entretanto, que todos os conjurados se mantivessem n'um
estado de espirito que removia mentalmente quaesquer obstaculos que
surgissem ante o projecto de insurreição.

A reunião acabou ás 10 e 30, dando-se alguns dos officiaes presentes
_rendez-vous_ na rua do Livramento, depois de se fardarem
convenientemente. O movimento seria iniciado á 1 hora da madrugada com
uma salva de 31 tiros dada pelos navios de guerra fundeados no Tejo,
salva que teria o seu echo no quartel de artilharia 1. O Directorio e os
outros elementos de organisação installar-se-hiam, como já dissémos, no
balneario de S. Paulo, d'onde, uma vez iniciada a revolta, sahiriam para
Alcantara e ao encontro do monarcha João Chagas, José Relvas e Affonso
Costa. Tencionavam, n'essa altura, pegar em D. Manuel e mettel-o a bordo
d'um navio.

Dissolvida a reunião, José Barbosa foi ao Centro de S. Carlos,
encontrando ali tres officiaes de marinha que pediam armas. Como lhes
fosse respondido que no momento as não havia, retorquiram immediatamente:

--Não ha duvida. Voltaremos, fardados, a buscal-as!...

E voltaram. No Centro tambem estava o engenheiro Oliveira, que em
companhia de Alvaro Pope devia iniciar o ataque ao quartel de
engenharia. De tarde, falaram na necessidade de arranjar um _pé de
cabra_ para arrombar a porta d'um edificio militar. O empreiteiro
Oliveira, embora lhe repugnasse usar tal instrumento, tanto forcejou que
o obteve e á noite lá estava no Centro com o _pé de cabra_,
tranquilisando d'este modo a sua consciencia:

--Como é para servir a boa causa...

Candido dos Reis appareceu no Centro de S. Carlos ás 11 e 50. Combinou
com Simões Raposo que este iria a Belem aguardar o inicio da revolta, a
Belem, onde o pharmaceutico Abrantes, como já tivemos ensejo de
registar, organisára um nucleo fortemente combativo e que depois falaria
com elle na Rocha do Conde d'Obidos, dando-lhe Simões Raposo n'essa
occasião conta do que se passasse n'aquelle ponto da cidade. Candido dos
Reis ainda alludiu á morte do dr. Miguel Bombarda e elle e Simões Raposo
assentaram em que esse facto doloroso não influira de modo algum no
projecto da revolta, quer para a adiar, quer apenas para a modificar em
determinado sentido.

Proximo da meia noite, juntaram se no estabelecimento de banhos de S.
Paulo: Affonso Costa, José Relvas, Eusebio Leão, Innocencio Camacho,
José Barbosa, Antonio José d'Almeida, João Chagas, Joaquim Pessoa,
Celestino Steffanina, Ricardo Durão, Manuel Duarte, engenheiro Antonio
Maria da Silva, Malva do Valle, Marinha de Campos, Alfredo Leal, Simões
Raposo e Soares Guedes. Este revolucionario e Joaquim Pessoa tinham-se
incumbido de arranjar os barcos necessarios para o embarque de officiaes
e forças de marinha nos caes do Gaz e da Viscondessa. Não se faz ideia
da agitação moral que a todos dominou durante a longa hora em que esse
grupo de conjurados esperou que os navios ancorados no Tejo dessem o
signal para o começo da revolta. Ao soar a 1 hora da madrugada, nada se
percebendo, vindo do exterior, que lhes indicasse o cumprimento do que
momentos antes fôra decidido, a anciedade recrudesceu. Vinte minutos
depois, ouviam-se apenas tres tiros de peça; a seguir alguns tiros
isolados que muito pouco podiam significar para a satisfação do seu
espirito... Nada ou quasi nada do que fôra combinado se produzia. Os
factos succediam-se por modo a fazer desesperar os mais optimistas. Até
o primeiro regimento a sahir á rua era exactamente aquelle com que os
organisadores do movimento menos contavam: infantaria 16.


Não constitue segredo para ninguem que os organisadores do movimento
revolucionario tiveram um momento de desanimo, um momento em que
suppozeram tudo perdido. Foi durante o espaço de tempo que decorreu
entre a hora anteriormente marcada para o inicio da revolta e o
alvorecer do dia 4, quando um nucleo de republicanos se defrontava já
com uma fracção das forças fieis á monarchia. Esse momento, em que as
melhores energias sentiram um desfallecimento semelhante ao do 28 de
janeiro, marca uma _étape_ curiosissima da Revolução.

No estabelecimento de banhos de S. Paulo--já o dissemos concentrara-se
proximo da meia noite uma duzia de homens decididos e resolutos, tendo
cada um d'elles uma missão definida a cumprir. D'ahi, d'esse quartel
general, os revolucionarios partiriam ao signal combinado para diversos
pontos da cidade a executar o plano fixado. Aguardavam, portanto, esse
signal com a anciedade precursora dos grandes acontecimentos decisivos.
Mergulhados quasi na treva, dir-se-hia que continham a respiração para
evitar que do exterior surprehendessem o menor symptoma agitador. Um
relogio proximo bateu a uma da madrugada e todos os ouvidos se apuraram.
A incerteza, dominava-os. Escoaram-se alguns minutos que pareceram
seculos. Do grupo destacaram-se então tres ou quatro que foram percorrer
as immediações do balneario. Nada se percebia que denotasse o começo da
refrega e o desalento--uma interrogação insatisfeita--pairava no ambiente.

Á uma e vinte, os tiros de peça que soaram no Tejo deram o alarme.
Contaram-nos um a um. Não correspondiam ao que fôra planeado. Que se
passaria a bordo n'esse instante supremo? Que significava esse troar
d'artilharia que não tranquilisava os espiritos? Alguem aventou a ideia
de que os tiros constituiam um signal pedindo soccorro. Mas soccorro
para qual dos barcos de guerra? Evidentemente, um d'elles fôra atacado
pelos outros e solicitava para terra urgente auxilio.

A situação complicava-se. Para mais, logo a seguir a esse alarme tudo
recahira no silencio. A cidade dormia em plena paz. A curta distancia do
balneario vigiavam mollemente tres policias. Affonso Costa, Alfredo Leal
e Malva do Valle tomaram uma resolução: ir a Alcantara vêr o que se
passava. Sahiram de S. Paulo n'um automovel e recommendaram aos que
ficavam:

--Se dentro de vinte minutos não voltarmos, siga para o quartel de
marinheiros outro grupo...

Foi o que succedeu. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle não
regressaram ao balneario dentro do praso marcado e João Chagas e Antonio
José d'Almeida, enfiando n'outro automovel, abalaram pelo Aterro
adeante.


O silencio da madrugada ainda se não rompera com os echos do tiroteio. A
meio do Aterro, João Chagas e Antonio José d'Almeida encontraram um
official de marinha, que assistira, no 3.º andar da rua da Esperança, á
ultima reunião dos conjurados. Andava agitadissimo d'um lado para o
outro, como a procurar um ponto de embarque ou quaesquer amigos que já
se lhe deviam ter reunido. Falaram-lhe e elle não occultou a sua
decepção. Falhara tudo... O movimento liquidara n'um pessimo esboço de
insurreição.

O automovel andou mais uns metros e estacou em frente do quartel dos
marinheiros, do lado em que o edificio olha para o Tejo. As janellas do
quartel estavam illuminadas. Um grupo de populares avançou ao encontro
de João Chagas.

--Que ha?--perguntou-lhes o grande publicista.

--Nada... Absolutamente nada.

E um dos revolucionarios, apontando para o quartel, accrescentou:

--Ali parece ter havido qualquer coisa, mas agora está tudo em socego.

[Ilustração: João Chagas]

O automovel poz-se de novo em andamento e foi direito ao largo do
Calvario. O regimento de infantaria 1 avançava sobre Alcantara dividido
em duas porções. «Os soldados,--disse-nos João Chagas recordando os
episodios d'essa madrugada de perfeita desillusão--davam mostras d'um
cançaço extremo. Vinham derreados, sem ordem na marcha, moviam-se
somnolentamente como se a noticia da revolta lhes tolhesse a vontade.
Tinham o aspecto d'um corpo já derrotado, desfeito, por longos minutos
de ataque renhido».

Do largo do Calvario, o automovel foi á Praça d'Armas. «Suppunha--é
ainda João Chagas que o diz--ir encontrar n'essa altura a reproducção
d'uma d'essas revoluções francezas em que um bairro inteiro, iniciando o
movimento, dava abrigo aos elementos insurreccionados. Calculava que
n'esse reducto nos defenderiamos então até a ultima, depois de bem
barricados contra os ataques do inimigo monarchico. Mas não...
Alcantara, o bairro que eu sonhara para esse papel historico, parecia
dormir serenamente, confiadamente, como se não suspeitasse da imminencia
d'uma grave agitação».

Na Praça d'Armas, estacionava outro grupo de populares. João Chagas
formulou a eterna pergunta:

--Que ha?

A resposta foi desanimadora:

--Nada... absolutamente nada. No quartel dos marinheiros houve qualquer
coisa, mas agora está tudo em socego...

Era de desesperar. O socego do quartel dos marinheiros, após _qualquer
coisa_ de anormal, significava claramente que a revolta no edificio fôra
promptamente suffocada. Não havia que insistir. O movimento falhara e
quasi sem resistencia, sem um impulso de heroismo que o dignificasse na
agonia. O silencio no local dizia-o melhor que quaesquer outros
depoimentos. A menor tentativa de reacção, a produzir-se, teria sido
assignalada no momento pelo estalar de uma bomba, pela percursão d'um
gatilho, por um grito de triumpho ou de raiva...

O automovel rodou para o balneario de S. Paulo, a confirmar o insucesso
do _complot_.

João Chagas mandou parar o vehiculo a certa distancia do edificio para
não despertar suspeitas, mas, antes de entrar, foi abordado por um amigo
que o aconselhou a retirar-se, affirmando que a policia cercava o
balneario.

--E os outros?--inquiriu João Chagas, alludindo aos restantes
revolucionarios que tinham ficado no quartel general.

--Os outros sahiram por uma porta das trazeiras... A policia não os
apanhou.

Perfeita _debacle_. O quartel general dissolvia-se inoportunamente,
desaggregando-se de modo a difficultar qualquer acção de conjuncto.
D'ahi por deante não se podia pensar rasoavelmente em estabelecer
communicações entre os diversos agrupamentos compromettidos na revolta.
A acção individual teria que substituir-se á acção collectiva dos
organisadores do movimento.


Afinal, o desanimo, essa dispersão dos elementos dirigentes da revolta,
não tinham verdadeiramente rasão de existir. Á mesma hora em que o
Directorio do partido republicano, o _comité_ executivo de Lisboa e
outros companheiros de lucta andavam perfeitamente ás cegas pelas ruas
da cidade, pousando aqui e ali, indagando anciosamente o que havia,
conjecturando para d'ahi a pouco uma terrivel repressão monarchica--um
nucleo de populares, fardados e não fardados, arvorava destemidamente a
bandeira vermelha e verde e caminhava para o triumpho n'uma marcha
desordenada, é certo, mas com a mais intensa fé, a fé que só por si
basta na maioria dos casos a garantir o exito e a victoria. Á mesma hora
tambem Alcantara, o bairro de gloriosas tradições revolucionarias que a
João Chagas parecera momentos antes alheiado do movimento, inerme ou
somnolento, derrotava um regimento inteiro de cavallaria e continha em
respeito um outro de infantaria; e d'uma loja da rua do Livramento
sahia, disciplinado e forte, um grupo de officiaes de marinha e de
carbonarios, a iniciar sem hesitações nem precipitações um dos feitos
mais brilhantes do ataque á monarchia.



CAPITULO XVII

Uma parte das forças revolucionarias installa-se na Rotunda


Já dissemos que o primeiro regimento a insurrecionar-se na madrugada de
4 de outubro foi o de infantaria 16, exactamente aquelle que menos
confiança inspirava aos organisadores da revolta. Esse episodio inicial
do movimento merece que o pormenorisemos.

Ás 9 horas da noite, logo que no quartel de Campo d'Ourique soou o toque
do silencio, os soldados que sabiam do _complot_ metteram-se na cama
vestidos e equipados, fingindo que dormiam a somno solto para não
despertar a attenção dos camaradas. Entretanto o cabo Correia e um
soldado mais animoso invadiam as arrecadações das companhias, tiravam
d'ali todo o armamento a que poderam lançar mão e conduziam-no para as
casernas--levando a cabo essa tarefa com grandes precauções e riscos
quasi irremoviveis.

Em certa altura, quando o cabo Correia estava fechado n'uma d'essas
arrecadações, ouviu bater á porta. Sentiu-se perdido... Quem seria? Um
official? Um amigo? Foi abrir, resolvido a tudo. Era o telegraphista do
regimento que, segundo uma combinação previa, lhe ia mostrar um
telegramma do quartel general recebido n'aquelle mesmo instante e em que
se mandava que infantaria 16 estivesse de prevenção. Passava das 9
horas. A ordem chegava, pois, demasiado tarde. O telegramma, seguiu, por
esse motivo, para as mãos do official de inspecção e a escolha das armas
e munições continuou, sem interrupção, até final, ao mesmo tempo que o
soldado 1.008, fingindo que estava de guarda, percorria, armado, todas
as casernas, despertando todos os adeptos e avisando os soldados do
serviço de policia, tambem no segredo do _complot_, de que não fizessem
fogo contra quem pretendesse entrar no quartel.

Ás 12 e 45 da madrugada estava tudo a postos, tudo combinado e
preparado. O cabo Correia soltou da sua caserna, que era a mais afastada
da secretaria, um assobio forte e prolongado--o signal da rebellião--e
os soldados revolucionarios juntaram-se immediatamente na parada, onde,
em dado momento, ergueram um côro triumphal de vivas á Republica. Da
parada foram depois á secretaria. Tornava-se indispensavel prender
quanto antes os officiaes não adherentes e abrir as portas do quartel ao
elemento civil--setenta homens armados que, momentos antes, tinham
sahido do Centro de Santa Izabel. N'esse instante, o commandante de
infantaria 16, tendo dado pela revolta, descera á parada e obrigara um
soldado a bradar ás armas, ameaçando-o de revolver em punho. O soldado
obedeceu, mas em seguida fugiu, indo juntar-se aos camaradas sublevados.
O coronel encaminhou-se para a caserna da 3.ª companhia do 3.º batalhão
e estacou á porta. A fusilaria crepitou pela primeira vez. Uma bala
attingiu o commandante, matando-o instantaneamente. O capitão Barros,
que se postara á entrada da arrecadação da sua companhia, oppondo-se a
que os soldados se armassem, teve sorte egual...

Os outros officiaes, desvairados ou desorientados, fugiram com medo que
lhes succedesse o mesmo que ao commandante e ao capitão Barros. As
chaves dos portões ficavam dentro d'uma barretina e, como não fosse
possivel encontral-as nos primeiros momentos, Machado Santos, que tambem
avançara sobre infantaria 16 á frente d'um grupo de homens armados, teve
que esperar alguns momentos na rua sem poder entrar. Entretanto,
apparecia um cabo que, estando de guarda em Valle de Pereiro, abandonara
o serviço. Foi elle que abriu caminho a Machado Santos pela porta da
arrecadação regimental, e sem difficuldade, porque a respectiva
sentinella não resistiu. Os sediciosos encaminharam-se então, já
senhores do quartel, para a sala dos officiaes, onde encontraram o major
Dias, que não quiz adherir, e as chaves dos portões dentro da tal
barretina. O quartel não tardou a ser completamente franqueado aos
revoltosos civis.

Era preciso, no emtanto, ir a artilharia 1, porque demais a mais já
correra uma noticia aterradora, a de que alguns officiaes do 16 tinham
ido á rua da Estrella chamar a guarda municipal. Essa sahida de
infantaria 16 não se fez, porem, sem grande confusão. Machado Santos
gritava, os outros barafustavam e por fim lá se conseguiu iniciar a
marcha para Entre-Muros, indo á frente o heroico commissario naval. Por
todo o trajecto, feito a galope, soltaram-se vivas enthusiasticos á
Revolução e á Republica. Á porta do quartel de artilharia 1 estava o
capitão Sá Cardoso. Ouvira repetidos toques de reunir em accelerado e
sahira a esperar as forças revolucionarias de infantaria. Logo que
defrontou Machado Santos, desembainhou a espada e collocou-se a seu
lado. Segundos depois, a porta do quartel de Entre-Muros tambem era
arrombada.

Como ahi o official de inspecção e o major do regimento não quizessem
adherir, o capitão Sá Cardoso convidou-os a afastarem-se do local e os
dois officiaes promptamente obedeceram. Na parada já andava o capitão
Palla na faina de preparar as baterias revolucionarias, coadjuvado pelo
alferes Brandão, que adherira espontaneamente. O capitão Sá Cardoso
montou a cavallo e, antes de sahir do quartel de Entre-Muros, recebeu a
adhesão do tenente Quaresma de infantaria 16, tenente Garcia, que estava
afastado d'esse regimento, como aliás de todos os outros, por causa do
28 de janeiro e dos tenentes Santos e Paes, que tinham vindo
expressamente de infantaria 3 para tomar parte no movimento. Infantaria
16--diga-se de passagem--não tinha sargentos; assim os respectivos
logares foram occupados por cabos.

Prompta uma bateria, o capitão Sá Cardoso tomou o commando, coadjuvado
pelo alferes Brandão, indo a escoltar a artilharia uma parte de
infantaria 16 commandada pelo tenente Garcia. Essa bateria sahiu do
quartel de artilharia 1 a caminho das Necessidades, mas a meio da rua
Ferreira Borges foi surprehendida pela companhia da guarda municipal,
aquartelada na Estrella, que fez fogo sobre os revolucionarios. Houve da
parte d'estes uma breve hesitação, propria de quem nunca tinha entrado
em fogo; mas a resposta á aggressão não se fez esperar e tres tiros de
peça destroçaram os municipaes. Como alguns populares avisassem o
capitão Sá Cardoso de que as forças fieis á monarchia se haviam postado
nas embocaduras das ruas, promptas a fusilal-o e aos seus soldados,
aquelle official resolveu voltar atraz, a juntar-se ao grosso da
columna insurreccionada, que encontrou na rua de S. João dos Bemcasados.

Ahi, os officiaes conferenciaram e decidiram, após breve discussão, que
a columna marchasse para a Avenida. O capitão Sá Cardoso, na qualidade
de official mais antigo, tomou o commando superior e Machado Santos
passou a dirigir a guarda avançada de infantaria 16 e grupos civis. Na
altura das Amoreiras, a cauda da columna foi atacada d'uns quintaes ou
coisa parecida e respondeu com uma descarga de infantaria. No largo do
Rato houve novo alarme, mas da policia, que rapidamente foi desarmada
por Machado Santos. Na rua Alexandre Herculano, deu-se uma scena que nos
primeiros momentos não foi facil explicar: os revolucionarios foram ali
recebidos com enorme tiroteio e a columna, desmantelando-se, marchou em
debandada até á rua Castilho. N'esta rua, os capitães Sá Cardoso e Palla
e Machado Santos lá conseguiram juntar de novo os elementos dispersos e
as forças revolucionarias, ainda que no meio de grande confusão,
conseguiram chegar á Rotunda.

Uma vez no famoso acampamento, o capitão Palla arranjou definitivamente
a artilharia e Machado Santos e outros officiaes a infantaria; á
esquerda d'esta formou um pelotão de 40 atiradores civis. O capitão Sá
Cardoso fez uma fala aos soldados e populares que estavam ali reunidos,
mostrando bem a responsabilidade que pesava sobre todos. Entretanto, a
força de policia que estava na feira de Agosto, commandada pelo chefe
Antunes, tinha retirado prudentemente do local; ao acampamento iam
chegando mais populares e entre elles dois guardas municipaes; todos os
individuos que passavam na Rotunda eram obrigados a pegar em armas. Ás 4
da manhã, a cavallaria da guarda municipal tentou um ataque pela frente
do acampamento. Não fôra completamente destroçada na Avenida pelo grupo
civil incumbido de o fazer, muito embora Silva Passos e outros
conjurados arriscassem a vida n'essa denodada investida--e assim
conseguira chegar a cincoenta metros das forças sublevadas. Mas estas
responderam logo com fusilaria e tres granadas e os cavalleiros fieis ao
antigo regimen tiveram que retroceder com algumas perdas.


Passemos agora da Rotunda a Alcantara e vejamos o que succedia n'esse
bairro de verdadeiras tradições revolucionarias. O quartel general dos
elementos que estavam no segredo do _complot_ era a typographia da rua
do Livramento, pertencente ao industrial sr. Franklin Lamas. Ninguem
dirá ao vêr esse modesto artifice da revolta que a sua pallida e
rachitica figura de anemico disfarça, além d'uma vontade de ferro, uma
tenacidade organisadora fóra do commum. E, no emtanto, Alcantara
deve-lhe assignalados serviços de acção republicana, em que a ousadia e
a fé inquebrantavel venceram multiplos obstaculos á propaganda do Ideal.

Na noite de 3 de outubro, logo que ao bairro chegou a noticia de que o
movimento seria iniciado d'ahi a poucas horas, os elementos
revolucionarios correram a reunir-se no estabelecimento do sr. Franklin
Lamas, ao tempo em que os centros republicanos da freguezia eram
invadidos por populares que disputavam entre si as poucas armas até
então ali armazenadas. Á 1 e 8 da madrugada de 4, reportamo-nos á
precisão mathematica do relatório do 1.º tenente Parreira--sahiram da
typographia, além d'esse denodado official de marinha, os 2.os tenentes
Sousa Dias e Carlos da Maia, commissarios navaes Costa Gomes e Guilherme
Rodrigues, 1.º sargento Gonçalves dos Santos, 2.os contra-mestres
Armando Barata e Correia da Silva, 2.º sargento José Rodrigues, Franklin
Lamas, seu irmão Francisco Lamas, Joaquim Alves, Joaquim Vaz e outros
civis. Este disciplinado nucleo revolucionario encaminhou-se para o
quartel de marinheiros, onde entrou pela chamada porta do jardim.

[Ilustração: Moysés, o tambor dos revolucionarios]

Lá dentro, depois de desarmada a sentinella, o grupo arrombou a
arrecadação do armamento, que foi distribuido pelos populares que ainda
o não tinham, preparando-se tudo para a prisão dos officiaes que estavam
no edificio. Ainda no jardim do quartel e a caminho da parada de cima, o
grupo defrontou quatro d'esses officiaes que faziam uma ronda. O 1.º
tenente Parreira não hesitou. Dirigiu-se-lhes energicamente,
intimando-lhes a rendição e os quatro officiaes entregaram as armas,
dando pouco depois entrada n'um dos calabouços. A seguir o grupo
revolucionario subiu ás casernas, o 1.º tenente Parreira mandou
levantar e armar todas as praças e como o sargento da guarda se mostrasse
hesitante, o illustre official obrigou-o a entrar na formatura e mais
tarde mandou-o prender, por não lhe merecer confiança. Faltava
aprisionar os dois commandantes do corpo de marinheiros para se
effectivar a posse completa do quartel.

Formou-se então um nucleo incumbido de defender as sahidas do edificio e
os restantes revolucionarios procederam a varias buscas. «O primeiro a
descer--conta o 1.º tenente Parreira no seu relatorio--foi o 1.º
commandante que vinha só e armado e ficou entre portas á entrada do
corredor da porta principal». O heroico commandante dos revoltosos
intimou-o a render-se. Elle resistiu, primeiro agitando a espada e
depois disparando tiros de pistola, e um grupo desfechou, attingindo-o e
prostrando-o ferido. Acudiram os criados que o transportaram para os
seus aposentos particulares e os contingentes das differentes casernas
principiaram a juntar-se na parada, onde já então se encontrava o 2.º
tenente Tito de Moraes, que tomou logo a iniciativa de activar a
formatura das praças.

D'ahi a momentos os civis empregados nas buscas correram sobre o 2.º
commandante do corpo, obrigando-o a fugir até á parada de cima, onde o
1.º tenente Parreira o aprisionou, mettendo-o no calabouço com os outros
officiaes suspeitos. Arrombou-se depois o paiol da polvora, os cunhetes
foram trazidos para a parada e, assim que se municiaram cerca de 50
praças, esta força installou-se nas janellas da frente do quartel sob o
commando do commissario Costa Gomes, recebendo incumbencia de impedir a
sahida do esquadrão de cavallaria da municipal e defender essa face do
edificio.

Ás 2 e meia da madrugada, concluido o municiamento das praças, os
revolucionarios arrombaram a porta sul do quartel e sahiram para a rua
24 de Julho, onde pouco antes tinham formado outras forças e grupos
civis. O nucleo organisado no quartel dos marinheiros, depois de leve
contacto com uma diminuta força de cavalaria em reconhecimento, que
retrocedeu logo que ouviu dar vivas á Republica, marchou em direcção á
rua da Costa, pretendendo assim cumprir uma parte do plano estabelecido
e que consistia em cercar o palacio das Necessidades, conjugando a sua
acção com a da columna de infantaria 16 e artilharia 1 do commando do
capitão Sá Cardoso. Já dissemos que essa columna se viu impossibilitada
de exercer tal missão, por ter sido atacada pela municipal na rua Borges
Carneiro. O nucleo do quartel dos marinheiros tambem não poude chegar
até junto do palacio, porque, tendo a sua guarda avançada avistado na
passagem da linha ferrea forças de cavallaria 4 e infantaria 1, o 1.º
tenente Parreira mandou fazer alto, encarregando entretanto alguns civis
de explorarem a rua Vieira da Silva.

N'esse mesmo instante, appareceu um capitão que as forças fieis ao
antigo regimen haviam destacado como parlamentario. Sahiu a reconhecel-o
uma vedeta revolucionaria commandada pelo 2.º tenente Carlos da Maia.

--Que defende? perguntou-lhe esse official de marinha.

Resposta do capitão:

--Tenho muita pena, mas sou obrigado a vir aqui...

--Mas que principio defende? insistiu o commandante da vedeta.

--As instituições.

--Mas que instituições? Republica ou monarchia?

--A monarchia.

E logo a seguir, o capitão accrescentou, visivelmente embaraçado:

--Mas eu vou contar tudo ao meu tenente coronel...


D'ahi a pouco surgiu na frente dos revolucionarios um tenente de
infantaria. Logo que chegou á fala, declarou que tambem ia pedir
instrucções ao tenente-coronel; e como as vedetas espalhadas pela rua
Vieira da Silva affirmassem que as forças contrarias estavam egualmente
desenvolvidas para esse lado e a cavallaria e a infantaria fieis á
monarchia tomassem posições de combate, o 1.º tenente Parreira desistiu
de avançar sobre o palacio das Necessidades e decidiu preparar as coisas
para um inevitavel recontro sangrento. Mandou arrombar parte do tapume
proximo á passagem de nivel do caminho de ferro de cintura e dividiu as
forças de marinha em dois pelotões. Um, sob o commando do tenente Carlos
da Maia, desenvolveu-se em angulo recto, parte com as costas no tapume e
com as armas dirigidas para a passagem de nivel, e outra parte dentro da
cêrca e com a frente para oeste. O outro pelotão dividiu-se em duas
fracções commandadas respectivamente pelos tenentes Sousa Dias e Tito de
Moraes e formou com as costas para a parede norte da rua 24 de Julho,
dirigindo as armas obliquamente para a passagem de nivel, cruzando, por
conseguinte, os fogos com as forças que lhe ficavam fronteiras.

O 1.º tenente Parreira, tomadas estas disposições, ainda esperou um
pouco antes de abrir as hostilidades. Mas, continuando a notar
movimentos na cavallaria e infantaria adversas, resolveu tomar a
offensiva e deu a voz de fogo. A fusilaria crepitou com energia e
violencia durante minutos. Do lado opposto, responderam ao ataque com
umas descargas que causaram algumas baixas nas forças revolucionarias. A
seguir, como a cavallaria inimiga, desembocando na rua Fradesso da
Silveira, desobedecesse á intimativa do 1.º tenente Parreira para fazer
alto, os revolucionarios e os populares atacaram-na rudemente,
secundados pela _artilharia civil_ e a cavallaria, dispersando-se, bateu
em retirada, com cêrca de 50 baixas entre mortos e feridos. Não se
calcula o effeito desmoralisador que n'esse regimento fiel á monarchia
produziu a explosão de varias bombas. Os soldados precipitaram-se
immediatamente das montadas, originando uma confusão enorme, e emquanto
uns se refugiavam aqui e ali buscando abrigo contra aquella arma
poderosa que lhes parecia ser lançada do inferno, outros corriam para
junto dos populares revoltosos, pedindo que os poupassem e declarando
abandonar d'uma vez para sempre o serviço do antigo regimen.

Terminado o primeiro combate serio entre republicanos e monarchicos e em
que os revolucionarios de Alcantara déram sobejas provas da sua grande
coragem, o 1.º tenente Parreira dividiu a columna em dois pelotões,
recolhendo o primeiro ao quartel de marinheiros, pela rua Baluarte para
o guarnecer e defender, ficando ainda o tenente Carlos da Maia com o
segundo pelotão até final da debandada do inimigo. Esta força recolheu
mais tarde ao quartel pela porta sul, ao tempo em que um automovel que
apparecera no local conduzindo os srs. Antonio José de Almeida e Pires
de Carvalho se incumbia de levar ao hospital alguns revolucionarios
feridos e um morto.

[Ilustração: Brito Camacho]

Uma vez no quartel, o 1.º tenente Parreira mandou reforçar a defeza da
face do edificio que olhava para a guarda municipal de Alcantara, defeza
que continuou a ser dirigida pelo commissario Costa Gomes, e guarneceu a
parada do sul, de modo a impedir a vinda do inimigo pela rua 24 de
Julho. D'esta fórma, o quartel ficou constituido em verdadeiro baluarte,
defendido não só pelas forças de marinha, mas por grande numero de
populares, que n'essa occasião se lhes aggregaram e foram logo armados e
municiados.



CAPITULO XVIII

Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a lucta


Voltemos á Rotunda. Logo de manhã, Machado Santos, que então commandava
uma força destinada a proteger o acampamento de qualquer assalto dos
monarchicos pelas avenidas Fontes Pereira de Mello e Duque de Loulé,
prendeu o 1.º tenente Victor Sepulveda, palaciano de fresca data, e que
pouco antes sahira de casa attrahido pelo estrondear dos canhões.
Machado Santos, que o conhecia dos tempos em que elle, Sepulveda, tambem
conspirava contra a monarchia e se affirmava, pelo menos apparentemente,
d'um radicalismo feroz, perguntou-lhe que fazia ali n'aquelle ponto da
cidade. O 1.º tenente Sepulveda illudiu a pergunta e inquiriu por sua vez:

--Ah! és tu?... A marinha está aqui?...

Resposta de Machado Santos:

--Não: aqui estão artilharia 1 e infantaria 16. E tu, para onde vaes?

--Ora essa! Vou apresentar-me ao major general da armada. Dizem que ha
barulho...

--Barulho?...

E Machado Santos, desferindo uma gargalhada, accrescentou:

--É a Revolução que está na rua. E tu, com muita pena minha, és meu
prisioneiro.

O 1.º tenente Sepulveda esboçou um gesto de resistencia e ameaçou:

--Vê o que fazes! Eu...

--Dois civis armados para levarem este senhor ao commandante da columna!
ordenou Machado Santos.

--Então, eu...

--Conduzam este senhor ao capitão Sá Cardoso, repetiu Machado Santos, e
digam-lhe que é official de marinha e que acho conveniente conserval-o
preso.

Os dois civis acquiesceram e emquanto o 1.º tenente Sepulveda,
formulando nova ameaça, se dispunha a acompanhal-os, Machado Santos,
pondo-lhe a mão no hombro, disse, a sorrir de ironia:

--Adeus, meu irmão da Montanha!...

O palaciano de fresca data estremeceu como se fôra tocado por um ferro
em braza. A allusão de Machado Santos era mordente e devia ter-lhe
evocado n'esse momento de lucta sangrenta os seus trabalhos de
conspirador, a sua propaganda d'outros tempos contra o soberano e o
antigo regimen...

Pouco depois, o capitão Sá Cardoso mandava-o pôr em liberdade.


Referido este episodio, que não merecia relevo especial se o 1.º tenente
Sepulveda não tivesse, á ultima hora, assumido uma attitude de strenuo
paladino da monarchia e o seu nome não houvesse sido citado a proposito
da morte do almirante Candido dos Reis, prosigamos na narrativa do que
occorreu na Rotunda, ao alvorecer do dia 4.

Assim que rompeu a manhã, Machado Santos, muito embora as noticias
recebidas no acampamento fossem em extremo desanimadoras, desenvolveu
uma energia sem limites, vigiando tudo, tratando de tudo, sempre
incançavel e inattingivel pelo desalento. Ao contrario do heroico
official, os outros militares agaloados sentiam-se a pouco e pouco
invadidos pelo receio contagioso de que o movimento liquidasse n'um _31
de janeiro_ de peores e mais funestas consequencias.

Um alviçareiro dos muitos que irrompem no acampamento, anonymos alguns,
sobejamente conhecidos outros, affirma sem hesitações que _está tudo
perdido_. Lanceiros 2, infantaria 1 e a guarda municipal, que segundo o
plano revolucionario, não deviam ter sahido dos quarteis sem soffrerem
um ataque rude dos grupos de populares armados, andam pelas ruas de
Lisboa sem que ninguem os incommode e preparam-se, de certo, para
investir com os revoltosos acampados na Rotunda. A marinha não
desembarcou nem tomou conta dos telegraphos; e ha quem diga que acabou
de pôr um _ultimatum_: ou as forças de terra se rendem, ou ella
bombardeia a cidade e mette os navios no fundo. Outro alviçareiro, que
parece dar um recado de encommenda, confirma tudo isso e aconselha os
officiaes a não prolongarem a resistencia; de contrario, accrescenta, a
repressão será terrivel. Por ultimo, até a figura prestigiosa d'um
antigo combatente pelo ideal republicano manifesta opinião identica e
abandona o acampamento, onde momentos antes se mostrara corajoso e
enthusiasta.


O medo é contagioso, dizemos acima, e não ha duvida: esse contagio ganha
progressivamente os mais animosos e d'ahi a alguns minutos o capitão Sá
Cardoso convoca o conselho de officiaes e expõe-lhe a situação, tal como
elle a julga apprehender:

--Contra nós, cêrca de 3:000 homens, com as baterias a cavallo; a nossa
posição da Rotunda dominada pelas alturas como o Thorel, Graça, Penha,
S. Pedro d'Alcantara, etc. O inimigo tem quinze metralhadoras. Estamos
na imminencia d'um ataque simultaneo por todas as ruas e por todas as
alturas.

Todo o conselho--é o proprio capitão Sá Cardoso que o affirma--a começar
pelo official mais moderno, manifesta o parecer de que a situação é
desesperada e que a lucta provocará uma carnificina horrorosa. Todos os
officiaes estão desanimados. O capitão Sá Cardoso, terminada a reunião,
chama alguns sargentos de artilharia, diz-lhes nitidamente que o
movimento foi mal succedido e aconselha-os a voltar com as forças a
quarteis. As suas responsabilidades, accrescenta, são bem menores do que
as dos officiaes e estes teem que sahir do acampamento por outra fórma.
Um dos sargentos ainda lhe pergunta com as lagrimas nos olhos:

--Então, está tudo perdido?

[Ilustração: Proclamação da Republica e do governo provisorio na Camara
Municipal de Lisboa em 5 de outubro de 1910]

--Está, responde o capitão Sá Cardoso.

E afasta-se, dominado pela mesma commoção. N'esse instante supremo, em
que o desanimo dos officiaes combatentes podia ter conduzido
irremediavelmenteao insuccesso da tentativa revolucionaria, os civis dão
mostras de persistencia e fé inquebrantavel. Um dos populares
approxima-se d'um dos militares, que mais desalentado se mostra e
diz-lhe brutal, mas justamente:

--Quem quer chorar, vae para casa!... Mas não esteja aqui a enfraquecer
a coragem dos outros.

O capitão Sá Cardoso e o tenente José Ricardo Cabral vestem-se á paisana
e mettem-se n'um automovel. «Então, conta o primeiro d'esses officiaes,
Machado Santos acerca-se de nós, a querer convencer-nos a que fiquemos,
emquanto nós tentamos convencel-o a que nos acompanhe, para evitar uma
chacina. Elle, cheio de enthusiasmo, de bemdita loucura, teima em ficar
e nós partimos tristemente, convencidos de que, dentro em pouco, a
Rotunda será um horroroso mar de sangue».


A cidade, no emtanto, apesar de ter acordado na manhã do dia 4 de
outubro com a Revolução em plena actividade, conserva um aspecto
relativamente calmo, que é digno de registo. O tiroteio, que desde as
duas da madrugada se faz sentir aqui e ali, produz naturalmente uma
certa commoção e contribue para augmentar a anciedade do momento. Mas a
maioria dos habitantes continua a fazer a vida do costume, apenas
entrecortada pelos muitos boatos que circulam, pelas noticias, umas
falsas, outras verdadeiras, que lançam a confusão no ambiente. Ás 9 da
manhã, excepção feita das casas em cujas proximidades a lucta é accesa,
nas outras o ecco do movimento é fraco. Apparecem á hora habitual o
padeiro, o leiteiro, o homem do talho; a carroça do lixo arrasta-se
vagarosamente e recolhe os caixotes collocados ás portas; pelas janellas
ha cabeças curiosas que interrogam, surprehendidas, o azul do ceu.

Os grupos de revolucionarios, que horas antes não conseguiram executar o
programma da insurreição e se dissolveram mal a luz do sol illuminou o
quadro, tendem a reconstituir-se, cautelosa e prudentemente. Ha uma
falta sensivel de armamento; e, sobretudo, nota-se extraordinaria
difficuldade de communicações. A Rotunda fica no coração da cidade. O
quartel de marinheiros tambem não é muito distante. E no emtanto, pouca
gente sabe de verdade o que se passa n'uma e n'outro e sobre esses dois
fócos de rebeldia correm as mais desencontradas versões. Assim,
affirma-se que na Rotunda o capitão Palla commanda a artilharia e
elogia-se a precisão da sua pontaria. No quartel dos marinheiros,
accrescenta-se, está o almirante Candido dos Reis, e é elle quem dirige,
em chefe supremo da marinha revoltada, o ataque ás forças monarchicas
que rodeiam o palacio das Necessidades. Puro engano... Á hora a que
circulam taes boatos já Candido dos Reis cahiu morto na Azinhaga das
Freiras e o capitão Palla abandonou o acampamento da Avenida.


Entretanto, Machado Santos, apoz o abandono da Rotunda pelos outros
officiaes, convoca um conselho de sargentos de artilharia 1 e
pergunta-lhes se acceitam o seu commando.

--Estou decidido, diz elle, a não abandonar esta posição, custe o que
custar!...

Os sargentos respondem-lhe que morrerão combatendo até o ultimo momento
pela Republica. Machado Santos pede então um cavallo, monta e desde esse
instante é elle o unico dirigente dos revolucionarios concentrados no
alto da Avenida.

O sol doura o rio, onde se vêem passar, como a medo, pequenos barcos.
Para os lados do Rocio sente-se um movimento de tropas: fileiras de
soldados guarnecem a entrada da praça dos Restauradores. Machado Santos
dispõe as peças de artilharia, tomando as embocaduras do Rato, avenida
Fontes Pereira de Mello e avenida da Liberdade e colloca-as tambem no
parque Eduardo VII para defender o acampamento pelo lado norte.
Ao meio dia, n'um momento de treguas, os populares arranjam os
entrincheiramentos, que Machado Santos, elle proprio, considera
_platonicos_, mas que dão ás forças revoltosas a illusão perfeita d'um
forte abrigo contra as investidas dos monarchicos.

Na Rotunda já estão a essa hora uns quatrocentos homens, exhibindo
variado armamento. Estabelecem-se vedetas. A guarda das côrtes,
commandada por um sargento de infantaria 16, vem juntar-se aos
revoltosos. Apparecem outros destacamentos e praças isoladas que fugiram
dos respectivos corpos. Os viveres acodem em abundancia. Grupos de civis
vão de vez em quando ao Matadouro apprehender a carne ali abatida...
para que se não diga que a camara municipal a fornece de bom grado aos
revoltosos e é... seu cumplice.


A dispersão do quartel general revolucionario que, na madrugada de 4, se
installara no estabelecimento de banhos de S. Paulo, effectuara-se,
entretanto, por uma forma desanimadora. João Chagas e outros elementos
de organisação tinham abalado para os lados do Rocio e até que a manhã
clara lhes desse um vago indicio da situação, foram pousando aqui e ali,
hesitantes, indecisos, repugnando-lhes acreditar na derrota completa,
mas desalentados ao mesmo passo pela falta de noticias seguras, com a
ausencia de factos dos quaes dependia uma tal ou qual esperança de
victoria.

Primeiro estiveram n'uma casa da rua dos Correeiros, deposito d'aguas
mineraes; depois voltaram ao terceiro andar da rua da Esperança,
residencia da mãe de Innocencio Camacho e durante uma boa parte do dia 4
tentaram inutilmente approximar-se do acampamento da Rotunda. Ao cahir
da tarde, porém, João Chagas conseguiu passar do Rocio para a avenida
Fontes Pereira de Mello, ir a casa e a seguir áquelle fóco de
intensissima rebeldia. Mas o trajecto fel-o dominado pela ideia de que,
se os serventuarios da monarchia o reconhecessem, o victimariam sem
complacencia. Uma vez nas garras da municipal ou da policia, João Chagas
pagaria com a vida a sua temeridade. Tinha bem presente no espirito a
intranquilidade do sr. Malaquias de Lemos quando antes do 28 de janeiro
o trouxera encerrado no quartel dos Paulistas, e futurava logicamente
que, se o prendessem durante a revolta, lhe dariam destino egual ao de
tres desgraçados que no dia 5 appareceram fusilados n'outro quartel da
guarda pretoriana. Antes morrer do estilhaço d'uma granada que succumbir
a dentro d'umas grades de ferro, sem lucta, inerme, manietado por
algozes...

[Ilustração: João de Menezes]

Outros dos dirigentes revolucionarios percorreram na madrugada de 4 as
redacções dos jornaes, procurando anciosamente informar-se dos
acontecimentos. Outros ainda, como José Barbosa, Celestino Steffanina e
o engenheiro Antonio Maria da Silva, installaram-se no escriptorio do
primeiro á hora em que já havia correrias da municipal pelo Calhariz e o
Loreto e os soldados disparavam tiros para o ar, não tardando a occupar
as embocaduras das ruas, porque os grupos de civis os ameaçavam com
bombas. José Barbosa conta d'este modo essas horas de tragica anciedade:


«A madrugada ia rompendo e continuavamos sem saber positivamente o que
estava succedendo na cidade. Eu conservava em meu poder os papeis com os
nomes das pessoas que deviam constituir o governo provisorio e varias
indicações a cumprir logo que a Republica fosse proclamada. Relemol-os
até os fixarmos na memoria e preparámo-nos para os inutilisar logo que a
policia invadisse a casa. A anciedade era enorme. De positivo sabiamos
apenas que a guarda municipal cercara o telegrapho e não a marinha, como
fôra deliberado ao adoptar-se o plano revolucionario. Na estação do
Terreiro do Paço, todos os empregados que faziam serviço na madrugada de
4 eram republicanos e deviam retardar a transmissão dos telegrammas
officiaes. O engenheiro Silva conseguira, por meio d'umas trocas,
afastar n'esse momento os empregados que não tinham adherido ao
_complot_.

«De manhã, cedo, sahimos á rua a colher noticias. Na rua das Gaveas
encontrámos José da Costa Carneiro, que nos deu informações animadoras.
Mas surgiram outras, contradictorias, e a indecisão era manifesta.
Entrámos depois na pharmacia Durão, onde estacionavam alguns
revolucionarios. Necessitava-se antes de mais nada dar certas ordens,
restabelecer as communicações com os navios e o alto da Avenida,
reorganisar o quartel general. No Hotel Europe estavam José Relvas e
Eusebio Leão. Ambos haviam passado a noite entre os jornaes republicanos
e o consultorio do segundo. Fui ter com elles ao hotel e, depois de
almoçarmos, Relvas e eu fomos para a rua e mais tarde, na _Lucta_,
começámos a tomar as providencias que os factos impunham. Brito Camacho
procurava instantemente canalisar os elementos dispersos, impedir a
derrota e com uma calma que pouca gente, de certo, lhe conhece, com uma
coragem serena, imperturbavel, resolvia os problemas que de momento se
nos apresentavam.

«Em certa altura, discutimos o caso da morte de Candido dos Reis e
accordámos em mentir, affirmando que o vice-almirante vivia, para evitar
que o desanimo invadisse os elementos revolucionarios. Tratou-se da
interrupção das linhas ferreas e telegraphicas e de prevenir a hypothese
do governo monarchico receber qualquer auxilio da provincia, onde,
diga-se de passagem, a Carbonaria contava uma vasta rêde de ligações.
Silvestre Coelho, por indicação nossa, foi a Sacavem assegurar-se de que
a artilharia do forte estava disposta a obstar a qualquer avanço sobre
Lisboa de elementos fieis ao antigo regimen. E como em artilharia 3 os
revolucionarios tinham um camarada dedicado na pessoa do capitão
Figueiredo, em caçadores 6 havia dois ou tres officiaes declaradamente
republicanos e infantaria 15 estava por nosso lado, socegámos os mais
receiosos de um ataque vindo de fóra, explicando que as forças da
Revolução o não podiam temer e que tudo marchava para um triumpho
redemptor.

«Mas não limitámos a nossa acção a estas providencias. No Beato, no
Centro João Chagas, tinham-se concentrado 300 homens armados de
espingardas caçadeiras e praças da guarda fiscal. Indicámos-lhes a
conveniencia de descerem até ao Rocio, por um itinerario cuidadosamente
escolhido e se não se realisou esse avanço sobre as forças acampadas
n'aquella praça foi porque se reparou em dado momento que talvez esse
contingente de revolucionarios tivesse de desempenhar outra missão
importante no local da sua concentração. Emfim, ás quatro da tarde de 4,
a impressão era de que os acontecimentos se desenrolavam muito mais
favoravelmente para a Republica. Continuámos, no emtanto, a providenciar
no sentido de não se perder, com uma imprudencia ou um gesto de
desalento, o que até então fora feito á custa de muita dedicação. Jayme
Teixeira incumbiu-se de levar ao quartel de marinheiros uma communicação
tranquilisadora e outra communicação analoga foi enviada a Machado
Santos. N'uma e n'outra repetiamos que os revolucionarios estivessem
socegados porque não viria de fóra de Lisboa auxilio á monarchia. A
Machado Santos tambem o preveniamos da imminencia do ataque effectuado
pelas baterias de Queluz.»


No emtanto, Innocencio Camacho fôra a bordo dos navios insurreccionados
dar-lhes indicações seguras sobre o que se estava passando em terra.
Affonso Costa e Antonio José d'Almeida, depois de terem errado pelo
Hotel Central, a casa do dr. Augusto de Vasconcellos e outro ponto da
cidade, tinham ido parar a Algés, onde, a bem dizer, mal chegavam os
echos do tiroteio.



CAPITULO XIX

O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio


Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o
elemento popular _falhou_ na Revolução de 4 e 5 de outubro. E cita-se,
em abono d'esta asserção: 1.º o facto de não terem comparecido, na
madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam
acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos
navios de guerra; 2.º a circumstancia da guarda municipal ter conseguido
sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo
plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou,
pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do
momento.

A asserção não é fundada. O elemento popular não _falhou_. A Revolução,
se tinha de ser feita com o povo e com a tropa--o povo abrindo o caminho
á tropa--triumphou exactamente porque as melhores energias populares não
trepidaram no instante supremo. Os civis não compareceram, é certo, no
ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas não compareceram, e
isso já é do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em
contrario. De resto, a sua acção fez-se sentir efficazmente n'outro
ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra não dependia
absolutamente da sua presença ao lado do almirante. Para obstar á sahida
da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos
cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros não. Esses
grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuição dos
papeis revolucionarios: o de defrontar em _primeira mão_ a furia do
inimigo. Eram verdadeira _chair á canon_ e deviam iniciar o combate á
hora em que ninguem sabia ainda com precisão quaes os regimentos fieis á
monarchia e quaes os que adheriam á Republica.

[Ilustração: Governo Provisorio da Republica Portugueza]

Esses homens cumpriram o seu dever. Não obstaram completamente á sahida
da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e
o itinerario do inimigo soffreu modificações, mas conservaram-se firmes
no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a
todo o instante o risco de se lançarem na lucta antes d'um signal de
esperança e sem saberem se seriam ou não secundados. E uma vez
dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde
se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses
homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia
dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:

--Deve-se-lhes, principalmente, a força de fé indomavel que foi o
segredo da victoria e não ficar sendo a Revolução uma obra exclusiva do
heroismo militar.

E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos,
dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario
certamente não desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as
forças organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de
marinheiros e arrostaram o ataque da guarnição do paço das Necessidades;
foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado
official de marinha, o 2.º tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um
dos navios de guerra; os civis é que assaltaram o _D. Carlos_; na
madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as
forças militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos
distinguiram-se no arriscado serviço de communicações durante esse
periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreição
correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da
familia.

Contou-nos José Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na
madrugada de 4, apoz a dispersão do quartel general revolucionario,
quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do
Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mão, em frente
da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse
grupo de homens não ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento
para uma execução summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente,
enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.

Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria
nos diversos pontos da cidade. Pensava já em mandar um emissario
dedicadissimo á busca de noticias e não occultava o seu aborrecimento,
provocado pela falta de informações. De repente, apparecem no
acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situação.
Esses dois rapazes tinham ido a pé do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali
se conservaram, até á proclamação da Republica.

E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia
de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro,
expondo-se ás balas com uma coragem que por vezes roçou a mais
extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas
os civis não _falharam_ como se apregoa insistentemente. Foram os
obreiros humildes do movimento e só lhes resta, como premio de tanto
esforço e sacrificio, a orgulhosa consolação de terem sido os primeiros
a correr todos os riscos da aventura.

Folheemos agora uma pagina da Revolução, que, por muito discutida, nem
por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial.
Referimo-nos á acção do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas
do movimento, ao desanimo que o invadiu e á sua morte.

O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez
militares agaloados e um grupo de civis. Estes não compareceram no
local. Dos militares compareceram oito: o capitão de fragata Fontes
Pereira de Mello, o tenente de caçadores Helder Ribeiro e os tenentes de
marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Aragão e Mello, Monteiro
Guimarães, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o
tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, após a reunião da rua da
Esperança, fôra ao Centro de S. Carlos e de lá a casa d'umas pessoas de
familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se á meia noite
n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras
sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas,
dois revolvers, de que estavam munidos.

Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento
encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que
Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola
automatica. O tenente Helder Ribeiro é de opinião que elle não possuia
tal arma. «E--diz o arrojado official--a rasão é simples: quando quiz
carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle
tinha na mão. Cedeu-m'as, mas, como não servissem, trocámos ligeiras
impressões sobre a precipitação com que o armamento fôra distribuido aos
revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasião
outra arma que não esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu não
sahir á rua, como sahi, quasi desarmado».

Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente
Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se
para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes
revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.º
tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manhã:


«Esse vapor era o _Chire_, que eu procurei ao longo da muralha, apenas
ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns
individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se
de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: _Mandou-me procurar?_
Elles, porém, não me responderam o _Passe, cidadão!_ que os devia
denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher
prudentemente, e assim me conservei até que chegaram os meus collegas, a
quem o almirante, em breve, mandou embarcar no _Chire_.

«N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me
muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a
pouco voltaram, com esta estranha noticia: o _Chire_ tinha as caldeiras
apagadas... Houve um momento de quasi indignação e,--porque não
dizêl-o?--de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso
de boa vontade, accordámos em que nos tinhamos enganado no nome do
vapor--e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se
mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E,
um pouco ao acaso, fomos caminhando para o _Dinorah_, na esperança de
que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem
entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimarães e eu...

«--Um momento--interrompeu o jornalista entrevistador--Isso realisou-se,
é claro, depois do assalto?...

«--Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...

«--Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco
fazia a descripção geral d'essa jornada...

«--Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em
contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós
entrámos no _Dinorah_ sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o
passo...

«--E uma vez lá dentro...

«--Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e,
sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não
ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss.as que o vapor não está
navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro
que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...

«--E era certo?

«--Um pouco. O Monteiro trouxe debaixo a noticia de que na verdade o
_Dinorah_ não tinha ainda pressão, mas poderia abalar dentro de meia
hora... N'estas circumstancias os officiaes resolveram esperar. E como
os outros collegas tinham ficado no caes, o almirante mandou-me que os
avisasse de que o vapor era o _Dinorah_. Desembarquei, indo pela muralha
adeante, em procura dos officiaes. Não estavam já no mesmo ponto onde
pouco antes os deixara. Tinham achado prudente desviar-se um pouco,
porque ali começava a concentrar-se a guarda fiscal, e tinha os seus
perigos uma tal visinhança... Estavam junto da cancela da linha ferrea,
e, para provar que me não escapou o mais pequeno pormenor d'essa noite,
direi que já lá encontrei o Monteiro Guimarães, a quem o almirante
mandara com uma ordem identica e que chegou antes de mim, por eu ter
perdido alguns minutos procurando os officiaes na muralha. No momento em
que transmittia a ordem do almirante ouviram-se no rio os primeiros
tiros de peça... Em terra já tinhamos tambem percebido o ruido da
fusilaria.

«Quasi ao mesmo tempo ouvia-se, em artilharia 1, nove tiros...
Contámol-os, offegantes, e, n'um grande alvoroço, ficámo-nos depois á
escuta, esperando o resto.... Mas nada mais se ouviu, o que levou um dos
officiaes a exclamar: «Dir-se-ia o signal das forças fieis...» (Correra
entre os officiaes que o signal das forças monarchicas eram nove tiros
de artilharia...) Mas estava escripto que aquella noite seria para nós
de dolorosas surprezas... No mesmo instante appareceu-nos, vindo de
fóra, das ruas, um collega que nos deu noticias vagas, mas muito
desanimadoras...

«--Quem era esse official?--perguntou-lhe o jornalista.

«--O tenente Aragão e Mello, homem que foi a alma revolucionaria dos
navios, no periodo da organisação. Porque, creia isto: no trabalho de
preparação dos espiritos houve muita heroicidade, muita valentia que
mereciam historia. O perigo não existiu apenas dentro das horas de
combate; existiu tambem, e permanentemente, durante a obra de aliciação,
que se fez, dentro dos navios e dos quarteis, á custa de sacrificios
tremendos. O Aragão, destacadamente, arriscou tudo, expondo-se
temerariamente, n'uma quasi loucura! Era vigiado, olhado com
desconfiança, e para isso concorria a clara falta de disciplina com que
as praças se lhe dirigiam, n'um quasi «tu cá, tu lá» nascido das
reuniões... O Aragão foi-se do caes, e, incançavel, expondo-se sempre,
andou pelas ruas, entrou nos quarteis, a sondar os acontecimentos; soube
depois que voltou lá abaixo, porém em occasião em que já lá não estava
nenhum official.

«--Essa ultima affirmação vae contra outras, que dão o tenente Aragão
falando da muralha para Candido dos Reis, e dizendo-lhe: «Meu almirante,
basta de sacrificios! Infantaria 16 está fuzilando o povo!»

«--O Aragão não pode ter communicado com o almirante. Pelo menos não o
fez emquanto lá estivemos. Quem lhe falou foi o Helder que, a nosso
pedido, se dirigiu ao _Dinorah_ a levar as ultimas noticias, e as
resoluções d'um pequeno conselho de officiaes que reunimos n'essa
occasião para apreciar immediatamente os acontecimentos.»


Esse conselho decidira adiar o embarque por mais algum tempo até os
officiaes alcançarem noticias exactas sobre o que se estava passando
n'outros pontos de Lisboa. As suas resoluções, claro é, ficaram, no
emtanto, dependentes do arbitrio do almirante. O tenente Helder, depois
de conferenciar sobre o assumpto com Candido dos Reis, voltou para junto
dos seus camaradas da marinha e communicou-lhes que o almirante desistia
do embarque. É o proprio tenente Helder quem nos refere esse incidente
da revolta:


«--Carlos Candido dos Reis desanimara e no meio d'esse desanimo ouvi-o
proferir estas palavras:

«--Está tudo perdido... Não podemos effectuar o desembarque da marinha,
porque os dois vapores não vão junto dos navios de guerra; infantaria 16
conserva-se fiel á monarchia; artilharia 1 não adheriu; dos outros
regimentos não ha signal de cooperarem na revolta. Falhou a tentativa...
O melhor agora é todos nós voltarmos cada um para sua casa, mas de modo
que a policia não nos surprehenda.

«E voltando-se para mim e outros officiaes:

«--Os senhores podem desembarcar já. Eu ainda me demoro no vapor alguns
minutos...

«Insistimos com elle para que saltasse immediatamente em terra, mas o
almirante teimou em conservar-se a bordo do rebocador, e só sahiu de lá
quando dispersámos no Aterro...»


Momentos depois, Candido dos Reis, sempre inquieto e desanimado, estava
á porta da casa de banhos em S. Paulo. Sahindo do _Dinorah_, com a
obcessão,--chamemos-lhe assim--de que o movimento abortára, fôra até
ali, não esperançado em obter noticias que o reconfortassem, mas para
ouvir os outros revolucionarios e combinar com elles o partido a tomar
em taes circumstancias. Talvez se extranhe que o valoroso almirante
houvesse succumbido logo após a primeira contrariedade--elle, tão
energico, tão cheio de fé, tão dedicado á propaganda republicana, em
summa, tão devotado á organisação revolucionaria. Mas, Candido dos Reis
soffrera com o 28 de janeiro uma desillusão profunda e ao perceber que
falhara o assalto aos navios de guerra--esse assalto que elle julgava
indispensavel ao bom exito da revolta--não se conteve e exclamou, fóra
de si, n'um arranco de patriotica indignação:

--Já não ha portuguezes!...

Em S. Paulo, Alfredo Leal encontrou-o á porta do balneario, ao lado de
Soares Guedes, com os braços cruzados e em attitude pensativa. D'ahi a
pouco, appareceu no local o dr. Affonso Costa, que extranhou vêl-o ali,
á hora em que o programma revolucionario o mandava ir a caminho dos
navios de guerra. Candido dos Reis respondeu-lhe contristado:

É verdade, estou aqui porque perdi a esperança no movimento e não sei o
que devo fazer. O meu logar era no caes, ao pé da Companhia do Gaz, onde
devia encontrar-me com os officiaes. Mas em vez de preparativos da
revolta eu apenas observei as evoluções da policia e da municipal, e
tenho o presentimento de que está tudo perdido.

Todos trataram de o serenar a tal respeito, e o dr. Affonso Costa
aconselhou-o a metter-se no automovel com Alfredo Leal, a fim de
verificarem o que se passava nos principaes pontos revolucionarios.
Foram e nada notaram de animador. Logo adeante de S. Paulo encontraram
dois policias fardados, que pareceram desconfiar do automovel. Proximo
do quartel de marinheiros apenas havia grupos de seis ou sete populares.
No caminho da Estephania e de Arroyos esbarraram com piquetes de policia
e guarda municipal que investigaram o auto com olhares prescrutadores.
N'essa altura, Candido dos Reis voltou a mostrar-se desanimado,
expressando-se, pouco mais ou menos, n'estes termos:

[Ilustração: General Antonio do Carvalhal
Comandante da 1.ª Divisão Militar]

--Extranho isto. Em vez de agitação revolucionaria, só se vê a policia e
tropas de prevenção. Presinto que vamos ser assaltados e que terei de
dar um tiro nos miolos. Você, Leal, não acha ridiculo que eu vá acabar
n'uma esquadra de policia? Isso de forma alguma. Sahi para me bater, e
ou hei de morrer na revolução ou hei de liquidar a vida pelas minhas
proprias mãos.

Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis
insistiu na ideia do suicidio:

--Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...

Como era arriscado andar na rua áquella hora, Alfredo Leal aconselhou o
almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O
almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua
D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:

--Bem. Eu vou para casa de minha irmã, n'esta mesma rua, n.º 153. Você
vae saber o que ha de novo, e, se a revolução estiver em bom caminho,
mande-me prevenir.

Quando o automovel ia a parar á porta do n.º 155, a attenção do
almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava
aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido
dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram
hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por
fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar
em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta
atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando
apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espião da
policia?... Alfredo Leal ficou com a impressão de que se tratava
realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que
succedeu depois, conta-o elle d'este modo:


«Como achasse imprudente voltar no automovel á casa de banhos, resolvi
dirigir-me a casa de meu irmão, em Santos, e ali ordenei ao _chauffeur_
que seguisse para o local onde se combinára estacionar. Mal ouvi a
fuzilaria, parti, a pé, para uma casa da travessa da Palha em que se
reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de
encontrar o automovel do irmão de Innocencio Camacho, que ia para o
mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a
João Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura já o
tiroteio fôsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a
maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular
de confiança, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me
no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito
fui procurar um republicano de confiança e encarreguei-o de levar o
recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e
meia da manhã.

«Pode calcular-se a anciedade com que ficámos esperando o regresso do
emissario. Mais de duas horas passaram e o homem não chegava. Por fim,
já muito inquieto, resolvi descer á rua e tive a felicidade de esbarrar
com o emissario, que regressava todo afflicto. Não tive tempo de lhe
perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me
bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim
como se desempenhára da sua missão:

«--Quando cheguei á rua de D. Estephania, disseram-me ali que o
almirante tinha sahido ás 5 horas da manhã. Tratei então de saber onde
era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para lá.
Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui
encontrar no mais completo desolamento. Já lá tinha chegado a noticia de
que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fôra
removido para a _Morgue_».


O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a
entrada do almirante no n.º 153 da rua de D. Estephania e a apparição do
seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido
dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao
comprido e com os pés na direcção da estrada de Sacavem. Tinha o braço
direito afastado do corpo e proximo do antebraço uma pistola automatica.
No fato: uma bolsa de cabedal com 500 réis em prata, quatro nikeis de
100 réis e uma moeda de cinco réis nova em folha, e uma carteira com uma
nota de 5$000 réis e varios papeis...

A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do
almirante foi o trabalhador João Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo
na reconstrucção d'um muro proximo e passou no local ás 6 e um quarto da
manhã. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi á arrecadação do
material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma pá e voltou para o
amassadouro da cal, que era mesmo á esquerda. Candido dos Reis já estava
estendido no chão e agonizava. O trabalhador João Augusto da Silva
chamou então outros operarios, um servente requisitou a comparencia de
dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o
almirante succumbira ao ferimento recebido na cabeça, transportaram o
cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola
automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.

Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um _reporter_
sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente:
1.º que ás 6 horas e um quarto da manhã a Azinhaga das Freiras estava
deserta; 2.º que não ouvira nenhuma detonação durante o espaço de tempo
que medeiou entre a sua passagem á primeira vez no local e o encontro do
cadaver. Em contrario d'esta affirmação depôz a esposa d'um enfermeiro
residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:

--No dia 4 de outubro, cheguei á janella ás 6 da manhã, esperando a
leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro,
n'uma extensão de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que,
de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o
interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente á janella, vi
esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar
vasilha para o leite, e quando assomei á porta senti um estalido secco,
a que não liguei importancia, tanto mais que só vi fugir alvoroçadas
algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei
novamente á janella, e o sr. Leitão, fiscal do hospital d'Arroyos,
disse-me:

«--Está ali um homem morto. Parece-me que é tio d'uma empregada. Vou
chamal-a.

«No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci
á rua, e, ao vêr o corpo estendido no chão, exclamei:

«--É o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...»


Mas ou seja o que contou o trabalhador João Augusto da Silva, que o
almirante surgiu na Azinhaga das Freiras ás 6 e 30 da manhã e, mal ali
surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto é,
que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a
verdade é que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de
tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, só estava o
almirante. Mais ninguem. E sendo assim, é forçoso arredar da narrativa
do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de pé, a do suicidio. E
será admissivel essa hypothese? É. O almirante, depois de ter entrado na
casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal,
recolheu ao quarto de dormir, mas não enfiou logo na cama. Esteve um
pedaço a reflectir na situação, a ponderar no insuccesso do
movimento--que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se.
Mas a idéa de que tudo liquidára n'uma desastrada aventura não o deixava
pregar olho. Ás quatro da manhã, ouvindo o estrondear do canhão,
ergueu-se e vestiu-se. E é natural que, n'esse instante, tendo recebido
a impressão de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios
combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito
acudiu tambem a idéa de que os bravos assim lançados em declarada
rebellião já o tinham talvez considerado, por o não verem a seu lado, um
medroso, um covarde.

E então, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e decisão n'uma longa
preparação revolucionaria, como trabalharam Sá Cardoso, o capitão Palla,
Machado Santos e outros, sacudido por essa idéa, magoado porque o
pudessem suppôr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que já
era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e
30 da madrugada, elle, que estivera inactivo até esse momento, julgou
que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus
camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto é
uma hypothese que formulamos. Para nós, como para muita gente que seguiu
de perto a discussão jornalistica que apoz a revolução se estabeleceu
sobre o assumpto, a hypothese do suicidio é perfeitamente acceitavel.
Para outros não: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada
preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria
coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria,
desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparação
revolucionaria,--uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra,
o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.



CAPITULO XX

O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades


Deixámos os revolucionarios de posse do quartel de marinheiros na altura
em que, tendo destroçado as forças monarchicas em Alcantara, haviam
recolhido ao edificio e ali organisado uma defeza. Pouco depois,
amanheceu. «E então, relata o 1.º tenente Parreira, verificou-se que
pelo lado sul infantaria 1 estava occulta com as casas do caminho de
ferro e tapumes, desenvolvendo-se até á rua da Costa, acompanhada tambem
da guarda fiscal e d'alguma cavallaria 4. Ás 6 horas os navios, ainda a
leste, deram algumas salvas, içando nós no mastro da parada a bandeira
encarnada, para poder ser vista pelos navios. Ao mesmo tempo na rua
estabeleciam-se vedetas, que fizeram a apprehensão de varios artigos,
taes como uma carroça de pão da padaria militar e outra de carne que foi
levada para as cozinhas do quartel, bem como uma carroça de refrescos
que passava na occasião.

«Pelas 7 horas da manhã veiu um dos chefes de um dos grupos civis
informar que o _S. Raphael_ e _Adamastor_ tinham bandeira revolucionaria
içada, mas que a bordo do _Adamastor_ lhe haviam dito ser preciso um
official para commandar o _S. Raphael_, visto lá não haver official
algum, e o _Adamastor_ estar apenas commandado pelo tenente Cabeçadas
esperando ordens. Esta informação levou o tenente Parreira a ordenar ao
tenente Tito de Moraes que fosse tomar o commando do _S. Raphael_ e
indagasse o que succedera, o que elle fez, seguindo com 4 civis para o
Aterro, na intenção de tomar qualquer embarcação que lhe apparecesse ou
mesmo utilisar-se d'uma falua do Arsenal que ali estava ao serviço do
carvão e cujo encarregado se pôz á disposição dos revoltosos.

«Proximo das 9 horas veiu um sargento, que recolhia de licença,
communicar que tinha recebido ordem do commandante das forças fieis ao
regimen monarchico e que defendiam as Necessidades para da sua parte
intimar o commandante das forças de marinha a render-se no praso de 15
minutos, sob pena de mandar metralhar o corpo de marinheiros, ao que o
tenente Parreira respondeu, mandando armar o sargento e fazendo-o entrar
na linha de fogo.

«Algum tempo depois vimos o _S. Raphael_ seguir rio abaixo vindo fundear
em Alcantara em frente do quartel de marinheiros, e desembarcar uma
força com uma metralhadora e as munições precisas para guarnecer a gente
do quartel, e tambem os officiaes que faziam parte da guarnição do
navio, e que vieram presos para terra, sendo mettidos nos calabouços do
quartel.»


Mas, não prosigamos no desenrolar d'esta documentação sem uma referencia
demorada ás peripecias que precederam o desembarque dos marinheiros no
quartel de Alcantara e o bombardeamento do Paço das Necessidades. Como
já dissémos, ás 7 horas da manhã do dia 4, o tenente Parreira recebeu as
primeiras informações do que occorria a bordo dos navios revoltados: o
_Adamastor_ e o _S. Raphael_. Essas informações foram-lhe prestadas,
além de outros civis, por Estevão Pimentel, que já tinha estado a bordo
do _Adamastor_ e falara com o tenente Cabeçadas. Era forçoso ir tomar o
_S. Raphael_, não só porque o comando do barco devia ser exercido por um
official, mas porque os officiaes prisioneiros dos revoltosos se
esforçavam por convencer os seus aprisionadores a desistirem da
insurreição.

O tenente Parreira consultou os officiaes que o acompanhavam. O tenente
Tito de Moraes offereceu-se logo para ir desempenhar essa missão de
confiança e foi ao _Adamastor_, d'onde seguiu mais tarde para o _S.
Raphael_. Tomou conta do barco e quando os seus camaradas monarchicos
lhe manifestaram o receio de qualquer complicação, se o movimento,
porventura, não triumphasse, o distincto official pegou n'um papel e
n'uma penna e redigiu uma declaração honrada e firme que concentrava na
sua pessoa toda a responsabilidade do que de futuro succedesse.

Depois, ordenou aos officiaes do _S. Raphael_--que os marinheiros
revoltados tinham aprisionado--que se conservassem detidos até o momento
de irem para terra, e, assumindo o commando do cruzador, trouxe-o para
Alcantara. O _Adamastor_ preparava-se, no emtanto, para largar da boia e
ir occupar uma posição identica ao lado do _S. Raphael_. Á passagem do
_S. Raphael_ junto do _D. Carlos_, que ainda ostentava a bandeira azul e
branca, as poucas praças então a bordo do segundo d'esses cruzadores
proromperam em vivas á Republica. Um popular ainda lembrou ao tenente
Tito de Moraes:

--E se nós fossemos agora tomar o _D. Carlos_?

O denodado official hesitou uns segundos, mas depois replicou:

--Logo... fica para logo... Agora temos outro serviço a fazer.

[Ilustração: Proclamação da Republica Portugueza pelas Camaras
Constituintes]

Em Alcantara, no momento em que o tenente Tito de Moraes fazia
desembarcar do _S. Raphael_ os officiaes presos, cincoenta marinheiros
revoltados, uma metralhadora e alguns cunhetes de polvora, appareceu-lhe
n'um bote, em mangas de camisa, o commissario naval Marianno Martins,
que, sendo conspirador e não tendo recebido a tempo o aviso de
comparencia, resolvera no dia 4 de manhã dirigir-se a bordo d'aquelle
vaso de guerra, despindo a sobrecasaca do uniforme para que da majoria
general o não reconhecessem.

--Ás suas ordens, meu commandante!--disse Marianno Martins ao tenente
Tito de Moraes. Este agradeceu-lhe a collaboração n'um aperto de mão
cordealissimo e confiou-lhe, entretanto, o comando do cruzador. Marianno
Martins subiu a escada e quando se dispunha a entrar no barco olhou para
a fragata que transportava os seus camaradas prisioneiros e
perguntou-lhes, sem perceber no momento a situação em que todos elles se
encontravam:

--Então... vocês não ficam?

Um silencio doloroso acolheu a pergunta. Cortou-o um viva enthusiastico
á Republica soltado por um revolucionario e a fragata largou
immediatamente do _S. Rafael_.


No quartel dos marinheiros, porém, não havia a menor informação do que
se passara durante todo esse tempo na Rotunda ou em qualquer outra parte
da cidade. Só proximo do meio dia é que ali chegaram um dos membros do
Directorio, o sr. Malva do Valle, e Celestino Steffanina, expondo a
verdadeira situação das forças revolucionarias, que conheciam
pormenorizadamente por terem estado pouco antes no Alto da Avenida.


«Logo--conta o tenente Parreira--se impoz a juncção com as forças da
Rotunda, e julgando-se necessario inutilisar ou pelo menos enfraquecer,
desmoralisando-a, a brigada que defendia as Necessidades, foi ordenado o
bombardeamento do paço, que demorou algum tempo, e depois do corpo de
marinheiros estar debaixo de um intenso fogo das metralhadoras de
caçadores 2 e das restantes forças fieis á monarchia.

«O effeito d'este bombardeamento foi surprehendente, porque, levantando
o moral das nossas forças, provocou grande desanimo nas forças
contrarias. Ainda debaixo do fogo das metralhadoras tivemos a alegria de
ver entrar no quartel o medico Vasconcellos e Sá, cujo papel distribuido
não era ir para o corpo de marinheiros á 1 hora da noite, mas sim
esperar com automoveis o desembarque da gente dos navios na Rocha do
Conde de Obidos, ás 2 horas da manhã, desembarque que não se fez. Este
official, a quem não mandaram automoveis ao hospital da Marinha e que já
tinha feito seguir antes da 1 hora da noite os 4 enfermeiros com
ambulancias portateis para o Aterro e que se apresentaram depois no
corpo--apenas ouviu, no hospital, os tiros de peça, tentou seguir por
sua vez com um enfermeiro, deixando as ambulancias no Hospital da
Marinha e enfermeiros com ordem de as levarem para onde fosse preciso,
caso ainda apparecessem os automoveis promettidos. Não conseguindo
passar, em virtude de descargas das forças que a essa hora guarneciam o
Museu de Artilharia, voltou ao Hospital da Marinha, onde começou a fazer
operações e os curativos precisos nos feridos que vinham chegando, até
que finalmente, já cheio de impaciencia, conseguiu arranjar um automovel
que conduziu ambulancias, 4 enfermeiros e elle, medico, e, seguindo pelo
Aterro, atravessou as forças da municipal que estavam no Terreiro do
Paço, e, chegando ao quartel de marinheiros, entrou logo no exercicio
das suas funcções.

«Entretanto, ainda vieram emissarios de Machado Santos insistindo pela
juncção e informando que a passagem por terra para as bandas de Leste
seria de pouca segurança, pois as ruas a atravessar estavam guarnecidas
pela municipal e interceptavam a passagem. Ficou então assente em
principio que seguiriamos por mar, embarcando nos cruzadores, varrendo
as ruas da baixa com bombardeamento do mar e procurando desembarcar a
leste do Terreiro do Paço, no caso que fosse mais accessivel.»


O primeiro projectil dos navios revoltados que cahiu no paço das
Necessidades lançou um panico medonho nas creaturas que então velavam
pela integridade do sr. D. Manuel. O paço estava guarnecido de tropas
que se suppunha fieis ao antigo regimen. O quartel general entendera
que, antes de mais nada, devia proteger a residencia do soberano e
accumulara ali todos os elementos militares que não tinham tido
cabimento no Rocio. Estes defendiam o quartel general; o restante
guardava o palacio do rei. E durante horas esta situação de pura
defensiva manteve-se inalteravel, apenas fracamente entrecortada por um
esboço de ataque ao quartel dos marinheiros delineado como que a medo
pelas tropas acantonadas nas Necessidades.

O panico que o bombardeamento produziu no paço foi enorme. O rei correu
ao oratorio a implorar a intervenção divina, e emquanto uma meia duzia
de servidores--dedicados não ha duvida--se conservava álerta, disposta a
acompanhar o monarcha nas suas glorias ou nas suas vicissitudes, os
outros servos--a grande maioria--abandonavam precipitadamente o
edificio, possuidos do mais extraordinario pavor. Até as cozinhas do
paço se resentiram da fuga... Como os tiros da artilharia naval
continuassem a incidir sobre as paredes que ainda abrigavam essa côrte
em perfeita dissolução, o rei teve um impulso de decisão. Chamou o
official da guarda e disse-lhe:

--Telephona ao presidente do conselho...

Mas o apparelho não funccionava convenientemente e o sr. D. Manuel,
decerto obcecado pelo que alguns aulicos lhe tinham dito em tempos sobre
um provavel apoio da Gran-Bretanha á dynastia de Bragança, exclamou para
um cortezão:

--Se estiver no Tejo algum _destroyer_ inglez, que metta no fundo os
navios revoltados!...


D'ahi a pouco, os dedicados servidores do palacio tomavam resoluções
importantes sobre a situação. Convidaram o soberano a sahir do edificio,
onde já corria grave risco, e acompanharam-no ao extremo da Tapada. Ahi
deviam tomar logar em dois automoveis e partir para Mafra--o unico ponto
de confiança para o antigo regimen e que podia proporcionar-lhe um
reducto de certa consistencia.

[Ilustração: Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade]

Assim se fez. O rei enfiou para o automovel d'uma _garage_ particular,
que haviam chamado á pressa, e no mesmo vehiculo metteram-se tambem os
srs. conde de Sabugosa e marquez do Fayal, o primeiro vestindo ainda a
casaca com que na vespera assistira ao banquete offerecido no paço de
Belem ao marechal Hermes da Fonseca. No outro automovel seguiram os dois
unicos creados que não tinham fugido do paço com os primeiros effeitos
do bombardeamento. Até certa altura, os dois vehiculos foram escoltados
por uma força de cavallaria da municipal. Contou mais tarde o
commandante d'essa força que por um triz uma granada da artilharia naval
não desfez o automovel que conduzia o sr. D. Manuel. Foi n'um momento em
que esse vehiculo soffreu uma _panne_. Instantes depois da avaria ser
remediada e do automovel ter proseguido de novo a sua marcha, a explosão
do projectil juncou de estilhaços mortiferos precisamente o ponto onde o
rei aguardara, triste e silencioso, o concerto do carro.


As duas rainhas, entretanto, esperavam anciosamente noticias de Lisboa:
a sr.ª D. Amelia no Castello da Pena e a sr.ª D. Maria Pia no palacio da
villa de Cintra. No dia 4, ás duas horas da madrugada, o telephone havia
annunciado á criadagem da mãe do monarcha que a Revolução estalara em
Lisboa. Como ella dormia, ninguem a quiz despertar para tão sensacional
noticia. Só ás oito da manhã é que lhe disseram francamente a verdade. A
sr.ª D. Amelia mandou ligar para o paço da villa e a sr.ª D. Maria Pia
decidiu logo ir á Pena com a s.ª marqueza de Unhão e o sr. conde de
Mesquitella. Junto da nóra, a viuva do sr. D. Luiz procurou mostrar-se
serena, resignada, possuida ainda d'uma energia fóra do commum. Mas a
sr.ª D. Amelia não se conteve e como o telephone para o paço das
Necessidades continuava a funccionar pessimamente, lançou-se n'um
desespero indescriptivel. Deu ordens e contra-ordens, tentou communicar
o mais rapidamente possivel com o chefe do governo e, ao cabo de
inauditos esforços, lá conseguiu que de Lisboa lhe dissesem que o rei
tinha sahido de casa, a caminho d'um refugio seguro.

No dia 5 de manhã, as duas rainhas partiam de Cintra para Mafra. O sr.
D. Manuel esperava-as no convento, rodeado pelos servidores fieis:
condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, tenente coronel
Waddington, Vellez Caldeira e dr. Mello Breyner. Depois do almoço, que
ainda foi servido em Mafra, uns emmissarios que surgiram offegantes
vindos de Cascaes, noticiaram que a Republica já havia triumphado. Logo
a seguir, outro emmissario notificou que o _yacht Amelia_ se encontrava
na Ericeira tendo a bordo o sr. D. Affonso e que a familia real devia
embarcar sem perda de tempo, para evitar que os revoltosos ainda a
surprehendessem em territorio portuguez. Como o _yacht_ tinha poucos
mantimentos, o monarcha, a mãe e a avó arranjaram farneis e puzeram-se a
caminho d'aquella praia.


Antes da partida, a sr.ª D. Maria Pia mostrou alguma relutancia em
abandonar o paiz sem ter sido primeiro intimada a fazel-o pelo governo
republicano. Mas quando lhe mostraram a inconveniencia d'esse
procedimento, ella mergulhou n'um silencio perturbador, que manteve até á
entrada no _yacht_. No primeiro automovel seguiram para a Ericeira a
sr.ª D. Amelia, a condessa de Figueiró, D. Maria de Menezes e Vasco
Belmonte; no segundo a sr.ª D. Maria Pia, a marqueza de Unhão e o conde
de Mesquitella; no terceiro, o sr. D. Manuel, os condes de Sabugosa e S.
Lourenço, marquez do Fayal, Waddington e Mello Breyner. Atraz uma
escolta de cavallaria. Na Ericeira juntaram-se aos fugitivos os srs.
Serrão Franco e dr. Eduardo Burnay. O mar estava agitado e o embarque
tornava-se difficil.


Ainda assim, com a promessa d'uma forte recompensa, o sr. Serrão Franco
obteve que os tripulantes de dois barcos de pesca se decidissem a
transportar a familia real para bordo do _yacht_. No primeiro embarcaram
as duas rainhas; no segundo o monarcha. A bagagem da sr.a D. Amelia
consistia apenas n'uma mala de folha com alguma roupa branca; a do sr.
D. Manuel n'uma caixa com meia duzia de lenços. A mãe do monarcha, ao
attentar na pobreza dos dois barcos de pesca que iam servir de
_galeotas_ á familia desthronada, ainda exclamou:

--Não esperava isto dos portuguezes!... _C'est une infamie_.

O rei, esse, contentou-se em affirmar a sua abnegação pelo povo que até
aquelle momento suppozera governar e, chamando de parte o sr. Serrão
Franco, pediu-lhe que entregasse ao presidente do conselho uma carta, em
que asseverava não abdicar mas apenas eximir-se por algum tempo ao
tumultuar da nação. Essa carta, diz-se, nunca chegou ao seu destino. No
emtanto, os telegrammas de Gibraltar para os jornaes de Paris
reproduziram dois dias depois o seu texto quasi na integra. É um
documento sem valor politico e que demonstra simplesmente quanto o rei
andava illudido sobre a situação da monarchia e... dos monarchicos.

Feito o embarque, o _yacht_ poz-se logo em andamento, indo dar a volta
ás Berlengas para tomar o rumo. Eram 4 da tarde do dia 5 de outubro de
1910.



CAPITULO XXI

A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz


Entretanto, na Rotunda, dava-se esta circumstancia feliz, que muito
contribuiu para o exito do movimento: o elemento popular, longe de
desanimar com a falta de noticias seguras sobre os episodios da
Revolução occorridos n'outros pontos de Lisboa, mostrava-se de instante
para instante mais corajoso, mais decidido a combater até á ultima pela
causa republicana. Ás 7 da manhã do dia 4, Pinto de Lima, que estivera
no quartel de marinheiros e fôra testemunha do combate de Alcantara,
entrou na Rotunda resolvido a dar noticias d'essa acção triumphante dos
revolucionarios commandados pelo tenente Parreira.

[Ilustração: A Bandeira Nacional]

No meio do acampamento, Sá Cardoso, que de madrugada repellira com
energia o primeiro ataque da municipal, dava do alto do cavallo que
montava umas instrucções aos outros officiaes que até ali o tinham
acompanhado. Perto andava o capitão Palla. Mas como este vestia o
uniforme de serviço interno e Sá Cardoso ostentava o dolman azul-ferrete
com os galões do seu posto, todas as attenções derivavam naturalmente
para o arrojado conspirador, que de resto, como já tivemos ensejo de o
dizer, era, n'aquella occasião, o commandante em chefe da columna
revoltada. Machado Santos dirigia n'outro ponto do acampamento uma força
mixta de populares e soldados de infantaria 16. A confusão era enorme.
Pairava no ambiente a duvida, a duvida terrivel de que a sahida dos dois
quarteis, o d'aquelle regimento e o de artilharia 1, não fôra secundada.
Pinto de Lima abeirou-se de Sá Cardoso e disse-lhe pormenorisadamente o
que sabia do quartel dos marinheiros, solicitando-lhe ao mesmo tempo uma
nota sobre a situação exacta das forças da Rotunda para a levar ao
tenente Parreira. Sá Cardoso acquiesceu, pediu um lapis ao capitão Palla
e escreveu n'um pedaço de papel:


    Estou na Rotunda com os regimentos de infantaria 16 e artilharia 1,
    completos.

                                                          _Sá Cardoso._


Pinto de Lima desceu a Avenida e lá foi a Alcantara communicar ao
tenente Parreira essa informação. Pouco depois, Sá Cardoso, o capitão
Palla e os outros officiaes que os tinham acompanhado á Rotunda,
decidiam não prolongar a resistencia, considerando-a absolutamente
inutil. Essa resolução, comprehende-se, tem sido apreciada de diverso
modo. Uns vêem n'esse acto uma fraqueza moral, resultante da deficiencia
de communicações entre o acampamento e os diversos focos
revolucionarios. Outros, filiam-n'o no reconhecimento technico por parte
d'esses officiaes de que a posição da Rotunda era insustentavel. Pelo
que ouvimos a creaturas que seguiram bem de perto esses acontecimentos,
o abandono do acampamento foi simplesmente provocado pela falta de
cohesão, de unidade de todos os elementos compromettidos na Revolta. O
programma previamente combinado não foi executado nos seus pontos
essenciaes. Querem um exemplo? Ahi vae.

Tres grupos de revolucionarios civis deviam pouco antes de se iniciar a
insurreição cortar em trez pontos differentes os fios telephonicos que
punham em contacto o quartel general da 1.ª divisão e outros quarteis,
nomeadamente os da guarda municipal. O primeiro grupo, que devia operar
em determinado local da rua de Santo Antão não levou a cabo a sua missão
perigosissima porque esbarrou com uma porta fechada... quando contava,
afinal, vêl-a aberta a um signal de convenção. O segundo grupo, operando
no Rocio proximo da rua do Amparo, tambem não poude cumprir o encargo
que espontaneamente assumira, pela falta de meios de accesso a uma certa
dependencia de certo edificio. Faltou-lhe uma chave, em summa. O
terceiro, com posto marcado na rua Augusta, viu-se egualmente
impossibilitado de executar o plano, por um incidente imprevisto, um
d'esses incidentes que, parecendo insignificantes, ás vezes mudam por
completo a face das coisas.

Resultado pratico de tudo isto: o quartel-general da 1.ª divisão que,
pela previsão dos revolucionarios, não devia, no momento opportuno,
poder communicar com os outros quarteis e nomeadamente com os da guarda
municipal, teve tempo e tempo de sobejo para dar varias ordens e fazer
sahir á rua os elementos indispensaveis a uma defeza efficaz das
instituições monarchicas. E d'aqui já se deprehende o seguinte: Sá
Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes que ás 9 horas da manhã
do dia 4 abandonaram a Rotunda não cederam n'esse instante d'uma
psychologia extremamente complicada ao receio de combater, de entrar em
fogo. Quem, como o capitão Palla--sem contar o seu infatigavel trabalho
de preparação revolucionaria--se resolve a um acto grave da vida
arrastando para a revolta dezenas de homens confiados ao seu commando;
quem, como Sá Cardoso se decide a montar a cavallo e sahir para a rua á
frente d'uma massa indomita e sedenta de liberdade; quem faz isso
apoz longos mezes de agitação mal reprimida, d'um balanço demorado aos
prós e contras da aventura--não pode succumbir a um arrepio de medo,
muito embora o medo seja uma impressão contagiosa que se propaga com
rapidez e com rapidez se extingue.

Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes abalaram na madrugada
de 4 para a insurreição com a convicção profunda de que serviam uma
causa justa. Do quartel de artilharia 1 até á Rotunda, essa abalada foi
vertiginosa, febril, apenas entrecortada por tres escaramuças que os
revolucionarios liquidaram n'um prompto, n'um _elan_ de energia, de
coragem, de decisão. Não lhes fez mossa a attitude de muitas
mulhersinhas que, despertadas na tranquilidade domestica pelo fragor
d'essa correria desenfreada, appareceram então ás janellas lamentando em
ais doridos a sorte futura dos revoltosos... Foram para a Rotunda com a
certeza do triumpho e que não tardariam a ser secundados pelos
marinheiros ou pelas forças de outros regimentos affectos á Ideia.
Ainda, mais: com a quasi certeza de que a municipal se veria
impossibilitada nas primeiras horas do movimento de exercer a sua acção
offensiva em favor da monarchia. Mas d'ahi a pouco essa certeza e quasi
certeza eram chocadas pela realidade. A municipal manobrava á vontade
pelas ruas de Lisboa, os marinheiros não tinham desembarcado e os outros
regimentos, se se moviam, mostravam antes hostilidade aos republicanos
do que auxilio á sua iniciativa. Alvorecia a manhã de 4 e com os
primeiros raios do sol nascente arrefecia o enthusiasmo dos
conspiradores. Estes, que tinham entrado na Rotunda sob o impulso de uma
fé intensa, d'uma confiança cega na victoria, que ali tinham cahido como
uma avalanche imponente, destruidora, começavam agora a encarar a
situação com a frieza e a calma que se succedem a uma phase, mais ou
menos curta, de excitação e de loucura patrioticas. O mar tempestuoso da
revolta principiava a sentir os effeitos calmantes da reflexão technica,
da apreciação profissional...

O resto d'esta historia é conhecidissimo do publico. Os officiaes,
reunidos em conselho--e custou reunil-os, porque os incidentes que então
occorriam na Rotunda attrahiam a attenção ora d'um ora d'outro--os
officiaes, repetimos, foram unanimes em concordar que a aventura só por
milagre deixaria de liquidar n'uma verdadeira hecatombe. Decidiram o
abandono do acampamento. N'essa hora de desanimo nenhum d'elles se
recordou que momentos antes praticára actos de bravura e que a logica
lhes aconselhava manter até final a attitude delineada no começo da
insurreição. Viram apenas isto: a responsabilidade que assumiam,
contribuindo com a sua presença na Rotunda para que os homens, que até
ali haviam arrastado, continuassem a sacrificar-se pelo ideal
republicano. Pensaram que a sua sahida do acampamento corresponderia a
um dispersar immediato do povo fardado e não fardado.

E afinal não succedeu assim. Apoz essa sahida, alguns dos elementos
revolucionarios, que até então se tinham limitado a executar as ordens
dos chefes, tomaram a iniciativa de preencher a vaga do commandante
supremo da _columna da Rotunda_ e manifestaram a Machado Santos o desejo
de combater _á outrance_. Diziam elles: no acampamento encontram-se
ainda sargentos de artilharia 1 que conhecem o manejo das peças, que são
poderosos instrumentos de guerra; temos, portanto, o necessario para
resistir com vantagem a um ataque serio do inimigo. Machado Santos
concordou e, tendo entrado na Revolução com o proposito firme de lhe
dedicar a pelle, decidiu queimar o ultimo cartucho na defeza da posição
que o acaso lhe confiára.

D'ahi a pouco, algumas das peças de artilharia foram transportadas da
Rotunda para o Parque Eduardo VII, em volta do acampamento levantaram-se
uns modestos obstaculos a fingir de barricadas e os revoltosos
dispozeram-se a morrer dentro d'esse fraco reducto com uma coragem e um
desprendimento da vida dignos do maior elogio. Pode mesmo dizer-se que
n'essa occasião poucos, muito poucos, dos elementos revolucionarios
tinham a noção exacta do valor da posição onde combatiam e
parallelamente do heroismo que a defeza d'essa posição representava.

Poucos, muito poucos, reflectiram que, se a artilharia de Queluz os
atacasse a coberto de qualquer elevação de terreno, a Rotunda soffreria
fatalmente uma _razzia_ sangrenta, difficil de impedir.


Cêrca do meio dia, alguns populares, que, pelo seu armamento
insignificante, diminuto auxilio podiam prestar aos defensores da
Rotunda, desceram a Avenida, com o intuito de conquistar a adhesão das
forças acampadas no Rocio. Machado Santos sabia perfeitamente que
n'essas forças existiam elementos revolucionarios e pretendia
attrahil-os ao seu acampamento. Os populares executaram a manobra ao
abrigo das arvores das ruas lateraes, mas, uma vez chegados á praça dos
Restauradores, as metralhadoras romperam fogo e obrigaram-nos a
retroceder com perdas sensiveis. Desde então, nunca mais se fez
reconhecimento tão arriscado das forças inimigas e todos os elementos de
utilidade á causa revolucionaria julgaram mais prudente conservar-se
dentro da Rotunda, aguardando um _corps-á-corps_ que, se se produzisse,
provocaria um desastre irreparavel.

Á 1 e 30 da tarde, um vigia empoleirado n'uma figueira do parque Eduardo
VII surprehendeu dois officiaes que, de espada desembainhada, se
escoavam proximo dos muros da Penitenciaria. O vigia desceu da arvore e
communicou as suas suspeitas a um sargento de artilharia 1, commandante
d'uma das peças. O sargento visou o local e dentro de poucos instantes a
columna do commando do coronel Albuquerque, que comprehendia lanceiros
2, cavallaria 4, a bateria de Queluz e infantaria 2, soffria o primeiro
revez.

Paiva Couceiro, que veraneava ao tempo em Cascaes, tinha apparecido em
Sete Rios, onde estacionava a columna de ataque, pouco antes do meio
dia. O coronel Albuquerque, logo que elle se lhe apresentou,
explicou-lhe que o quartel general o incumbira de investir contra a
Rotunda e o quartel de artilharia 1. Paiva Couceiro extranhou que,
dispondo ainda o quartel general de cinco regimentos de infantaria, de
toda a guarda municipal, da engenharia e da guarda fiscal, destinasse
para o ataque aos revoltosos apenas uma fracção minima dos effectivos e
constituida na sua maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa
menos apropriada ao assalto de muros ou barricadas. Mas não expressou
alto e bom som o seu reparo e limitou-se a dizer ao coronel Albuquerque:

--Bem, n'esse caso, temos de escolher primeiro a posição da artilharia.

Lembrou-lhe a Penitenciaria, mas, logo a seguir, outro official informou
que d'uma propriedade á esquerda, entre a Penitenciaria e o _chalet_ do
sr. Henrique de Mendonça, se podia fazer fogo, com exito, sobre a
Rotunda. Paiva Couceiro, acompanhado por um official de cavallaria,
reconheceu a posição indicada e, achando-a excellente, para lá conduziu
a bateria, apoiada n'uma columna de infantaria 2. Mas quando ia
precisamente iniciar o ataque da artilharia contra o quartel de
Entre-Muros, rebentaram sobre as tropas monarchicas tres granadas
despedidas do Parque Eduardo VII, ficando logo feridos um capitão, um
cabo e varios soldados. Cahiram mortas algumas muares, tresmalharam-se
os cavallos e as parelhas dos armões que ainda não tinham descoberto
abrigo e mais de metade da força de infantaria 2, com umas tantas praças
da bateria, poz-se em fuga desordenada.

O duello de artilharia prolongou-se durante uns tres quartos de hora,
findos os quaes, Paiva Couceiro, suppondo que os revoltosos haviam
desamparado as peças collocadas nas immediações do quartel de
Entre-Muros, mandou sahir uma força de infantaria que se estendeu em
atiradores no terreiro livre do lado opposto. Não tardou, porém, que
essa força experimentasse baixas sensiveis. Infantaria 2 já estava então
reduzida a umas cincoenta praças, que Paiva Couceiro, cêrca das 3 da
tarde, tentou novamente conduzir ao assalto de artilharia 1. Baldado
empenho. O tiroteio dos revoltosos não abrandava e o commandante do grupo
a cavallo, reconhecendo que com tão poucos soldados não lograva o seu
objectivo, mandou pedir ao quartel general que lhe facultasse duas
companhias de infantaria de linha e uma da municipal para produzir novo
ataque á posição de Entre-muros. A resposta do quartel general, levada a
Paiva Couceiro pelo capitão Martins de Lima e tenentes Wanzeller e
Ramos, foi que a bateria cessasse immediatamente o fogo e descesse outra
vez á estrada de Sete Rios. Paiva Couceiro obedeceu e mandou seguir as
forças do seu commando pela azinhaga da Fonte, Luz, Campo Grande,
Arroyos, rua Nova da Palma até o Rocio, onde chegou noite fechada.
Depois, indo apresentar-se ao quartel general, Paiva Couceiro recebeu
ordem de collocar duas peças na embocadura da rua Augusta e as outras
duas na embocadura da rua do Ouro para obstar a um possivel ataque da
marinha.


Ao cahir da tarde, resolveu-se que todos os insurrectos que se
encontravam no quartel de Alcantara entrassem no _Adamastor_. Este barco
de guerra, para o embarque se fazer mais rapidamente, atracou ao vapor
_Guiné_, da Empreza Nacional, que estava encostado á muralha,
utilisando-se tambem uma falua do Arsenal e o rebocador _Cabinda_.
Apesar d'isso, a operação decorreu com alguma morosidade, pois a columna
comprehendia cêrca de 1.500 homens e levava outra vez para bordo grande
quantidade de munições e uma metralhadora. Emquanto se effectuava o
embarque, a face da frente do quartel era defendida por umas tantas
praças e civis sob o commando do commissario Costa Gomes; o lado sul era
protegido pelas baterias de bordo.

Ás 5 horas, o _S. Raphael_ largou pelo rio acima, ficando o _Adamastor_
para defender qualquer invasão do quartel de Alcantara pelas forças
contrarias, mas com ordem de seguir mais tarde para o Terreiro do Paço,
depois de receber a bordo o resto dos combatentes que ainda se
encontravam n'aquelle edificio. O _S. Rafael_ navegou sem ser
hostilisado e até com applauso dos barcos mercantes fundeados entre
Alcantara e a Alfandega. Ao passar no quadro dos navios de guerra, viu
que o _D. Carlos_ e a fragata _D. Fernando_ continuavam a ostentar a
bandeira azul e branca. Os seus tripulantes deram vivas á Republica,
esperando despertar assim a inacção dos tripulantes de aquelles dois
navios, mas essas acclamações não encontraram echo. E descreve então o
tenente Parreira:


«Sabendo-se que os correios e telegraphos estavam defendidos por forças
da guarda municipal e que o Rocio e quartel general estavam occupados
por um grande nucleo de forças de infantaria 5 e caçadores 5, pelo
menos, e que seria necessario desfazer essa barreira para a nossa futura
juncção ás forças da Rotunda, resolveu-se, embora já proximo da noite,
desalojar primeiro as forças dos correios e telegraphos, o que se fez
com os tiros de artilharia de pequeno calibre e metralhadoras,
seguindo-se-lhe uns tiros sobre o Rocio pela rua do Ouro com pontarias
baixas.

«Como já era noite, fundeámos em frente da Alfandega para continuarmos o
nosso intuito na manhã seguinte, ou n'essa noite, conforme as
circumstancias aconselhassem. Apenas fundeámos, foram a terra, no nosso
escaler, um dos chefes dos grupos civis acompanhado do commissario
Marianno Martins, a fim de colher informações seguras sobre o estado das
forças contrarias, e enviar um emissario ao acampamento da Rotunda,
avisando da nossa posição e do desembarque na madrugada seguinte. Tendo
colhido algumas informações favoraveis á ida do emissario para a
Rotunda, voltaram para bordo n'um vapor da alfandega, cuja guarnição se
poz á nossa disposição, rebocador este que foi d'um grande auxilio nas
acções que se seguiram».

[Ilustração: Manoel de Arriaga]


Pouco depois, o _Adamastor_, sahindo de Alcantara, ia fundear proximo do
_S. Rafael_, isto é, em frente do Terreiro do Paço. N'esse vapor da
Alfandega a que o tenente Parreira se refere, o commandante do
_Adamastor_, tenente Cabeçadas, mandou para bordo do _S. Rafael_ parte
dos marinheiros e populares armados que o pejavam. Quasi a seguir,
quinze tripulantes do _D. Carlos_, que tinham conseguido fugir d'esse
barco n'um escaler, apresentaram-se ao commandante do _Adamastor_ e
pediram-lhe armas para luctar contra os officiaes que ainda se
encontravam a bordo. O tenente Cabeçadas armou-os convenientemente e
embarcou os no vapor da Alfandega, acompanhados d'um sargento, d'outras
praças e paisanos, e aconselhou-os a irem no _S. Rafael_, antes de
tentarem o assalto do _D. Carlos_. Assim se fez. O tenente Carlos da
Maia tomou o commando superior de toda a força e, utilisando-se de novo
o vapor da Alfandega, decidiu-se a entrada violenta no cruzador ainda
não adherente. Como a guarnição do vapor mostrasse n'essa altura receio
de collaborar no assalto, o tenente Maia substituiu-a por praças de
marinha e, cêrca das 7 e 30 da noite, o barco largou do _S. Rafael_ em
direcção ao _D. Carlos_. Os projectores dos dois cruzadores revoltados
evolucionavam, no emtanto, de modo a favorecer a arriscada tentativa.


«A atracação--diz o documento official que descreve o assalto--fez-se a
primeira vez mal, e, repetindo-a, logo se avaliou da attitude como os
officiaes receberiam os invasores, porquanto, tendo-se respondido que
era um official que ia atracar, logo o commandante intimou a afastar-se
sob pena de se desfechar, o que bem se notou ser seu proposito por virem
muitos officiaes á borda do cruzador. É claro que se insistiu na
abordagem, subindo tumultuariamente as escadas do portaló, e sendo logo
recebidos a tiro, o que foi causa de tiroteio ainda de bordo do
rebocador; e, uma vez a bordo, continuou este, de parte a parte,
terminando rapidamente pela rendição dos officiaes e verificando-se em
seguida que da guarnição do _D. Carlos_ haviam ficado 4 officiaes
feridos, e dos atacantes apenas 2, sendo um civil e uma praça de
marinhagem. Immediatamente se mandaram desembarcar todos os officiaes, á
excepção do tenente Silva Araujo, com quem havia entendimento para a
revolução. Mandou-se tocar a postos de combate, preparando-se o navio
para a vigilancia da noite, tanto mais necessaria quanto era a bordo do
_D. Carlos_ conhecida a ordem do ataque dos torpedeiros, e sahida do
_Berrio_ para o canal do Barreiro.


Uma vez tomado o _D. Carlos_, de bordo do _Adamastor_ seguiram para ali
mais praças e populares armados e os tres barcos de guerra
insurrecionados não cessaram durante a noite de prescrutar as
immediações com os seus projectores, sempre com o receio d'um ataque dos
torpedeiros. (Falhara a arrojada tentativa do tenente Stockler para
revolucionar os officiaes e praças destacadas em Valle do Zebro.)



CAPITULO XXII

Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas casas


Pouco falta para concluirmos estas narrativas. Após o ataque da
artilharia de Queluz, as forças revolucionarias installadas na Rotunda
ainda despejaram umas granadas sobre o Rocio, não tanto com o proposito
de investir a valer com as tropas de infantaria que desde a madrugada de
4 ali haviam acampado, mas principalmente para as provocar, para as
obrigar a definir attitudes n'um momento, como esse, de anciosa
espectativa. Os commentarios da opinião teem incidido frequentemente
sobre o procedimento d'essas forças. Sabia-se que entre ellas se
encontravam officiaes dedicados á ideia republicana, como o tenente
Valdez e o alferes Gomes da Silva. E esperava-se a cada instante que
qualquer d'elles se decidisse a um acto corajoso de auxilio ou de
estimulo ás forças da Rotunda.

Na manhã de 4, ainda o capitão Sá Cardoso tentou realisar a approximação
dos dois nucleos militares escrevendo um bilhete ao tenente Valdez e
dizendo-lhe que esperava infantaria 5 pelo lado oriental da Avenida. Mas
aquelle official respondeu que para acceder ao pedido necessitava passar
com o diminuto numero de homens do seu commando pela frente das
metralhadoras de caçadores 5, d'um esquadrão da municipal e d'uma outra
companhia do seu regimento e desistiu de effectuar essa marcha
arriscada, aguardando que se produzisse um ataque dos revoltosos para
então fazer com elles causa commum.

Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caçadores 5 evolucionaram
dentro da area da defeza do quartel general. Ao começo da noite,
caçadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o
primeiro quarteirão, um pelotão do commando do alferes Gomes da Silva,
pertencente á companhia do capitão Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a
companhia do capitão Penha Coutinho, hoje em serviço na policia civica;
na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capitão May; na rua da
Betesga, a do capitão Reis com a guarda fiscal; na praça dos
Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em
que os grupos de populares, já reconstituidos convenientemente--passados
os primeiros instantes de desanimo--tratavam de incommodar as forças
monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando
tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:


«No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados.
Estabeleceu-se uma enorme confusão. Em vista da desmoralisação que
reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano,
metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e
tão disparatado que eu e os mais officiaes escapámos não sei como. Uma
bala sibilou-me aos ouvidos e roçou-me pela face. O largo limpou-se e eu
reconheci com alegria que facilmente qualquer força entraria no Rocio.
Como julgassem as forças extenuadas, ordenaram que alternassemos com a
guarda fiscal que então pairava na estação do Rocio. Foi assim que fomos
descançar para as trazeiras da mesma estação. Ali encontrámos um
empregado a quem contámos as nossas torturas e desejos e como lhe
manifestassemos as nossas intenções de fugir para a Rotunda pelo tunel,
d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de
Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel
virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do
pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas,
interrogado por nós sobre a existencia de quaesquer forças no trajecto,
respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadrão para
esses lados.

«Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos,
convencidos de que era inevitavel uma colisão entre as nossas forças e
as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisação das nossas
forças, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro
batalhão do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa
de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido,
tendo aproveitado naturalmente as varias confusões que se deram. Fingi
não dar por isso. Na nova posição soube que a artilharia de Queluz tinha
collocado uma peça na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava
dispondo outra no local que deixaramos. As informações que recebiamos
sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos
diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os
revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da
Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se não
ter dado preoccupava-me immenso.

«Nas nossas forças não havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O
moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na
Avenida, era mercê dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer
ataque. Na minha nova posição tornava-se facil a communicação com os
officiaes, o que até então me era impossivel, visto achar-me distante
d'elles. Esperançado, como sempre estive, da realisação do meu ideal,
principiei a palpál-os e durante toda a noite, emquanto o canhão ecoava
com estrondo no largo de Camões, não os larguei, reparando que quasi
todos desejavam ver terminada uma situação de incerteza, não encontrando
em nenhum d'aquelles a quem falei essa tão decantada fé monarchica. O
primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual,
depois das considerações que lhe fiz sobre a enormidade dos
acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do
sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava
são e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha
já achado o commandante abalado.»


Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via
diminuir-se-lhe a provisão de munições e não sentia que de fóra o
auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse ás dez horas
da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a
culminancia critica do movimento revolucionario. Havia lá dentro mais
gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio
commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave
quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a
explosão d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.

Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da
bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as
posições do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella
arteria incendiou-se casualmente e o clarão da enorme fogueira illuminou
por algum tempo o acampamento revolucionario, até então immerso na
obscuridade.


E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra
installara-se no Quartel General da 1.ª divisão e d'ahi seguia absorto
todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter
conferenciado com o general Gorjão e o seu collega da guerra, fôra para
casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo
revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos
dizer que vagabundearam por diversas casas amigas até o momento solemne
da proclamação da Republica.

Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de forças
militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A
artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem
resultado. Adivinhava-se n'essa occasião que a victoria não tardaria a
pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de
combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo
tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fóco da
contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus
adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa
concentração dos vultos em destaque na acção revolucionaria. Para ali
foram, ao começo da noite de 4, José Relvas, José Barbosa e outros que
até então haviam tentado, na redacção da _Lucta_, reatar as ligações
entre os revoltosos--interrompidas pela _debacle_ do balneario de S. Paulo.


«A rua do Carmo, contou-nos mais tarde José Barbosa, era, n'essa noite,
um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze
populares devidamente equipados protegeu-me e a José Relvas mais do que
uma vez, sempre que tentámos vir á rua orientarmo-nos sobre a marcha da
Revolução. E essa protecção foi tanto mais efficaz quanto é certo que
d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeças. Depois da
meia noite, installámo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos
distinctamente as operações dos navios de guerra e apercebiamos todas as
phases do tiroteio renhido entre as forças do Alto da Avenida e as do
Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes proporções, que
hesitámos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escuridão
deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois
para o meu quarto. Era preciso descançar; mas era impossivel! Da rua do
Ouro vinham até nós, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de
desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situação, ahi pela 1 e
30 da madrugada, não podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina
sahiu do Hotel Europa a colher informações.

«Entretanto, no Rocio, o elemento popular não cessava de atacar as
forças ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a
Revolução dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada
_artilharia civil_, isto é, as bombas explosivas. Utilisadas como
verdadeiras granadas de mão, posso affirmar, porque é a expressão da
verdade, que os revolucionarios não praticaram com ellas nenhum acto
inutil, não damnificaram qualquer propriedade, não as empregaram para
satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas
explosivas serviam para atacar as forças fieis ao antigo regimen e todas
as que foram lançadas com exito visaram, naturalmente, a que essas
forças não incommodassem sériamente os soldados da Republica.»


Ás 2 da madrugada, Paiva Couceiro foi chamado ao quartel general e o
chefe do estado maior ordenou-lhe que antes do romper da manhã
collocasse algumas das suas peças em posição conveniente para incommodar
as forças installadas na Rotunda, propondo para esse effeito o pateo do
Thorel. Antes, a força disponivel de cavallaria 4 e um esquadrão da
guarda municipal fizeram um reconhecimento de accesso pelas calçadas do
Garcia e de San'Anna. Ás 3 horas, Paiva Couceiro, a pedido de dois
officiaes da infantaria que guarnecia o norte do Rocio, collocou duas
peças na entrada da Avenida, junto das metralhadoras que ali estavam e
com as restantes seguiu para o pateo do Thorel, installando-se no jardim
do palacete do sr. Manuel de Castro Guimarães.

Emquanto isto se fazia, Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões
Raposo iam a bordo do _S. Rafael_ communicar ao tenente Parreira que
Machado Santos instava pelo immediato desembarque dos marinheiros. O
tenente Parreira, n'essa occasião, já havia ordenado o desembarque d'um
grande nucleo de civis, que sob o commando do capitão Nascimento, da
administração militar, devia impôr a rendição ás praças monarchicas que
guarneciam o Museu de Artilharia. O _S. Rafael_ suspendera para proteger
esse desembarque e tencionava collocar-se em frente do Terreiro do Paço,
bombardear o Rocio, enfiando os tiros pela rua do Ouro e rua Augusta e
depois effectuar o desembarque d'uma forte companhia de guerra,
constituida pelo maximo das forças disponiveis dos trez cruzadores
revoltados, sob as ordens dos tenentes Parreira, Sousa Dias, Maia e do
medico Vasconcellos e Sá, que se offerecera para commandar um pelotão.

A chegada a bordo de Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo
fez apressar os preparativos para o desembarque. O tenente Parreira
mandou prevenir os grupos populares que estacionavam no Rocio, ruas
Augusta e do Ouro, de que ia começar o bombardeamento, e o mesmo
emissario, Pinto de Lima, recebeu a incumbencia de communicar na Rotunda
a proxima juncção das forças revolucionarias. Pinto de Lima
desempenhou-se da primeira parte do encargo, isto é, da prevenção do
bombardeamento e ao passar no largo de S. Domingos, em direcção á
Rotunda, teve ensejo de falar a um major que commandava, a pequena
distancia do quartel general, um troço de tropas monarchicas e disse-lhe
o que se ia em breve passar.

--O que? retorquiu afflicto o major... A marinha vae bombardear-nos?
Diga isso ali ao coronel.

[Ilustração: Paiva Couceiro]

Pinto de Lima assim fez e o coronel mostrou não menos surpreza que o
outro official:

--Mas eu já adheri!... Para bordo já foi um official de caçadores!...

E logo a seguir, como quem toma uma resolução energica:

--É preciso mandar outro official ao _S. Raphael_... O senhor
acompanha-o n'essa missão?...

Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e lá foi rua Augusta
abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento,
dando vivas á Republica. Era o momento em que já vinham de bordo o
alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que
determinara a _démarche_ d'esse official revolucionario junto do tenente
Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:


«Cêrca das 6 e 30 da manhã de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os
officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e
que em presença d'esta deliberação desejava ouvir os seus officiaes.
Fez-se na corporação um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo
capitão Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinião
dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o
tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.

«Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do
Paço fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se
passava e dirigi-me a bordo do _S. Raphael_, aonde participei aos
tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caçadores 5 se tinham
negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para
desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. Não sem reparos
pela estranheza que esta communicação lhes causava, apesar de ser
conhecido de um d'elles como official implicado no movimento,
exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio não fariam fogo
sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar tão grande
responsabilidade, porque a resolução de ir a bordo havia sido tomada por
mim por entender propicio o momento de obter a submissão do quartel
general.

«Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel
general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e
parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o
quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo já
retirado caçadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, já
estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada
pela rua de S. Domingos...»

Approximava-se o momento da rendição. Não tardaria que a bandeira branca
do quartel general fosse substituida pela da Revolução triumphante.



CAPITULO XXIII

Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal


Pouco antes das 7 da manhã, o encarregado dos negocios da Allemanha
procurou o general Gorjão e pediu-lhe o armisticio de uma hora. O
general concedeu-lh'o e escreveu este papel, cujo original, pertencente
ao denodado republicano sr. Rodrigues Simões, figurou no Museu
Revolucionario:


        COMMANDO
        DA
        1.ª DIVISÃO MILITAR
        Gabinete do General


    _Eu abaixo assignado, commandante da 1.ª divisão militar, declaro
    que concederei um armisticio de uma hora a fim de que os
    estrangeiros residentes em Lisboa possam embarcar. Faço esta
    concessão por me ser pedida pelo Ex.mo Sr. Encarregado dos negocios
    da Allemanha._

        _Lisboa, 5 de outubro de 1910._

                                           _a) Manuel Rafael Gorjão._

                                                  General de divisão.


Assim que o diplomata allemão sahiu do quartel general em direcção á
Rotunda, escoltado por uma ordenança de cavallaria que desfraldava uma
bandeira branca, o povo, que se amontoava nas immediações, julgando que
se tratava da rendição das forças monarchicas, prorompeu em applausos
enthusiasticos. Era no momento em que o alferes Gomes da Silva e o
commissario naval Marianno Martins se faziam annunciar ao general
Gorjão. Este recebeu-os e Marianno Martins explicou-lhe:

--O official que me acompanha foi a bordo do _S. Rafael_ participar que
infantaria 5 e caçadores 5 se negam a fazer fogo sobre os marinheiros.
Desejo, portanto, saber em que condições v. ex.ª acceita a paz para eu
as transmittir ao meu commandante.

O general Gorjão encolerisou-se e, voltando-se para o alferes Gomes da
Silva, perguntou-lhe:

--Quem foi que lhe deu auctorisação para ir a bordo dizer tal coisa?

--Ninguem, explicou o official interpellado; fui a bordo, por minha
livre vontade, transmittir a resolução dos soldados de infantaria 5 e
caçadores 5.

O general tornou a vociferar furioso, exclamando que o alferes Gomes da
Silva fizera uma salsada, uma burla, que o havia desgraçado, pois
concedera apenas um armisticio para dar tempo a que os subditos allemães
embarcassem, e concluiu d'este modo:

--Não me rendo!... Ainda disponho de muitos soldados!...

O alferes interveiu logo:

--V. ex.ª tem essa impressão... mas eu affianço-lhe que já não tem
soldados!...

O general fitou-o demoradamente e depois, attentando no numero do bonet
de Gomes da Silva, insistiu:

--Demais, caçadores 5 tem sido fiel, continuará a ser fiel e com
soldados assim não me rendo!...

Nova replica do alferes, affirmando-lhe sob sua palavra de honra que
n'aquelle batalhão o general não dispunha d'uma unica praça. Para
terminar a discussão, Marianno Martins interveiu marcando o praso d'uma
hora para a rendição do quartel general. Findo elle, o _S. Rafael_
varreria as ruas Augusta e do Ouro com as suas peças.

--Façam o que entenderem, retorquiu o general, não me rendo... Ainda
tenho muita gente.


Cá fóra, o povo, enthusiasmado, continuava a dar vivas delirantes á
Republica e ao exercito, confraternisando com os soldados, que
disparavam as armas para o ar, evidenciando uma alegria doida. Cessara o
tiroteio entre os combatentes. O general, observando isto, reuniu o
conselho de officiaes, chamando para essa reunião todos os commandantes
de unidades, e falou-lhes n'estes termos:

--Tendo de tomar resoluções, convoquei os senhores. As circumstancias
são as seguintes: ordenou hontem este Quartel General ás forças que
guarneciam as Necessidades que se approximassem d'este local, e que, ou
por S. Roque ou por onde entendessem conveniente, tentassem obstar á
descida da artilharia revoltosa para S. Pedro de Alcantara, d'onde
constava que ella procuraria bombardear o Rocio. Apezar de repetidas
vezes transmittida, esta ordem não foi cumprida até agora. As baterias
de artilharia 3 encontraram cortada a ponte de Sacavem e não podemos por
conseguinte contar com ellas.

«O sr. general Sequeira informa-me que as munições de artilharia
armazenadas em Beirolas não podem d'ahi obter-se, porque o impedem
barricadas com fortes guarnições de paisanos armados. Não temos por isso
possibilidade de remuniciar a bateria a cavallo de Queluz, á qual apenas
resta um pequeno numero de tiros. Os srs. commandantes das forças de
infantaria do Rocio fizeram-me constar a fadiga das suas praças; e mais
tarde, sabendo-se que os marinheiros, senhores do Arsenal, procediam ao
desembarque para investir o Rocio, os mesmos srs. commandantes
informaram-me das más disposições dos seus soldados para fazerem fogo
contra os ditos marinheiros.

«Finalmente, ha cêrca de meia hora, apresentou-se me um representante da
Allemanha pedindo auctorisação para tratar com os revoltosos no sentido
de obter um armisticio, afim de que os seus nacionaes pudessem sahir a
salvo. Entendendo que não devia recusar, forneci para o effeito um
parlamentario com bandeira branca. Mas mal a bandeira branca sahiu o
portão d'este edificio, isso foi como que um signal de destroçar,
sahindo todas as praças das fileiras e misturando-se com os magotes de
povo que, a agitar bandeiras brancas, surgia pelas embocaduras das
diversas ruas. N'estas circumstancias...»

N'esta altura, Paiva Couceiro, que tambem assistia ao conselho,
levantou-se e interrompeu o general:

--N'estas circumstancias, disse elle, vista a exposição de V. Ex.ª, e
visto o espectaculo da quebra dos laços de disciplina que por esta
janella se avista concluo que V. Ex.ª já não tem soldados. Eu não o
abandono; mas V. Ex.ª é que já não precisa de mim. Sigo, pois, o meu
destino.

--Mas, observou o general Gorjão, ha de haver uma acta a assignar!...

--Acta?! exclamou Paiva Couceiro. Acta?! Isso é com V. Ex.ª. Comigo,
não. Combati hontem. Combati hoje. Estou prompto a combater ainda. Com
actas não tenho nada. E, com licença de V. Ex.ª, sigo, repito, o meu
destino para o Norte.

E Paiva Couceiro, cumprimentando, sahiu da sala. Cá em baixo, esperava-o
o tenente Rocha com a sua peça.

--Vamos para Queluz, disse-lhe Paiva Couceiro. E, com effeito, chamadas
as outras peças dos postos que occupavam, a bateria pôz-se a caminho.


Ás 8 e 30 da manhã, Machado Santos, avisado da concessão do armisticio,
recebia no acampamento da Rotunda o encarregado dos negocios da
Allemanha. Ás primeiras palavras trocadas, Machado Santos recusou o
pedido de treguas, allegando que a força estava do seu lado e que ao
general da 1.ª divisão é que pertencia render-se. O diplomata replicou
dizendo que nada tinha com as razões d'uma ou d'outra parte e insistindo
pelo armisticio ameaçou fazer intervir o governo do seu paiz no caso de
lh'o não concederem. Machado Santos limitou-se então a sorrir para o
engenheiro Antonio Maria da Silva que tambem se encontrava n'essa
occasião na Rotunda e disse-lhe:

--Ó Silva, faze de ministro dos estrangeiros da Avenida... Tomo absoluta
responsabilidade.

O diplomata allemão pedia uma hora para poder embarcar os seus
compatriotas. Foi-lhe concedida (das 8 e 45 ás 9 e 45 da manhã) mas com a
condição de não poderem as tropas inimigas retomar posições de que
tivessem sido desalojadas e não impedirem a adhesão das que quizessem
entrar no acampamento da Rotunda. Dada a resposta ao encarregado de
negocios, o engenheiro Silva convidou a ordenança de cavallaria que o
acompanhava a ficar com os revolucionarios e substituiu-a por uma
escolta da sua confiança.


A derrota da monarchia era um facto indestructivel. No Rocio e nos
outros pontos, onde momentos antes se combatia ardorosamente, chorava-se
de alegria. O espectaculo era de enternecer. O povo, longe de procurar
n'esse instante de predominio absoluto desforçar-se no inimigo,
perdoava-lhe generosamente as longas horas de angustia e de hostilidade
e confundia n'um abraço de sincero enthusiasmo vencedores e vencidos.
Poder-se-ha talvez suppôr que a circumstancia de apparecerem n'esse
momento entre as forças que acabavam de render-se á Republica officiaes
que se tinham compromettido a preparar-lhe o advento é indicação ou de
defecção ou de traição. Não é tal: surprehendidos, horas antes de se
iniciar o movimento, com umas medidas de prevenção com que não contavam,
esses officiaes sahiram dos quarteis, acompanhando, é certo, os seus
camaradas monarchicos, mas dispostos a evitar que as tropas do seu
commando chacinassem os revolucionarios.

E foi o que succedeu. Durante a noite de 4 para 5, alguns d'elles, como
o tenente Valdez, Gomes da Silva e Carvalhal Correia Henriques, apesar
de expostos no Rocio a um ataque vivissimo dos populares, conservaram
sempre uma attitude de disciplinada obediencia á Republica e impediram
por todos os meios ao seu alcance que infantaria e caçadores
massacrassem os elementos revolucionarios da classe civil. O general
Encarnação Ribeiro, n'essa noite de tragedia, tomando contacto com
diversos d'esses officiaes que elle conhecia das reuniões dos
conspiradores, assegurara-se plenamente d'essa attitude. O mesmo fizera
Pinto de Lima em especial junto dos elementos de infantaria 5,
considerados, como antes da revolução, republicanos. A organisação
revolucionaria não teve deserções. Os officiaes que não sahiram desde
logo a combater contra o regimen mantiveram até final da lucta uma
attitude que favorecia inteiramente a victoria da boa causa.

Dos outros, dos monarchicos, é egualmente justo consignar que á hora de
abaterem bandeiras ante a Republica triumphante não foram avaros em
reconhecer a magnanimidade do povo que com tanta rudeza haviam
hostilisado. Um d'elles confessou lealmente, minutos depois da rendição:

--Não sou republicano, mas agradeço a forma como os senhores me
trataram, permittindo-me que após a derrota eu regresse intacto para
junto dos meus. São muito generosos para com os vencidos! Obrigado!...

Uma revoada de enthusiastico applauso apagou as ultimas syllabas d'esta
declaração espontanea e honrada.


Machado Santos, entretanto, avistando do acampamento da Rotunda uma
grande multidão que subia a Avenida, calculou que era tempo de avançar
sobre o quartel general, deixando o entricheiramento sufficientemente
guarnecido. Á frente d'um batalhão de populares armados desceu até ao
Rocio e entrou no quartel general. Já lá estava José Barbosa que, em
nome do Directorio, apoiou a entrega do commando da divisão ao general
Carvalhal, antigo republicano, que Candido dos Reis indicara muitas vezes
como o successor logico do sr. Raphael Gorjão. O resto que se seguiu é
por demais conhecido para que nos detenhamos a narral-o.

[Ilustração: Busto official da Republica Portugueza]

Arvorou-se a bandeira republicana no quartel do Carmo; João Borges,
Estevão Pimentel e Manoel Bravo occuparam o telegrapho; duzentos civis
desembarcados dos navios de guerra tomaram o Museu d'Artilharia (que
fôra defendido por forças de engenharia e guarda-fiscal) e o Arsenal de
Exercito e marcharam depois para a Rotunda a juntar-se aos heroicos
revolucionarios ali installados; e cêrca das 9 horas da manhã, da
varanda da Camara Municipal soltavam-se aos quatro cantos do paiz a
proclamação solemne da Republica e a constituição do governo provisorio.

No governo civil, de que Celestino Steffanina e José Barbosa se
apossaram quasi sem esforço, não tardava a concentrar-se um nucleo de
forças republicanas para occorrer aos casos mais urgentes. O edificio
tinha até outro aspecto. Perdera n'esse momento o ar inquisitorial que
caracterisava a antiga Parreirinha. Tanto assim que um combatente da
Revolução, um sexagenario vigoroso, ao entrar d'ahi a horas no gabinete
do dr. Eusebio Leão, não se conteve e exclamou fremente de enthusiasmo:

--Agora, sim... já se respira á vontade!

As sombras negras dos policias, essas sombras que durante annos os
governos monarchicos tinham utilisado não para garantir a segurança do
cidadão, para auxiliar, para o coadjuvar, mas para o amachucar, para o
ferir nos dias de protesto ou de desespero, essas sombras execradas pelo
povo haviam desapparecido, haviam-se sumido como por encanto, ao
estridor do triumpho, ao soar o primeiro grito festivo consagrando a
conquista da Liberdade. Voltaram mais tarde, é certo; mas voltaram com o
accrescimo d'esses ornamentos vermelhos, que nos evocam a cada momento
esses longos minutos de lucta, strenua e heroica em que o sangue de uma
centena de sacrificados escreveu pelas ruas de Lisboa a pagina mais
brilhante da historia democratica.


Ao findar estas narrativas cabe-nos o dever de registar que do lado dos
elementos monarchicos houve a espaços, durante o periodo revolucionario,
o fulgurar de actos nobres, dignos, reveladores de verdadeira energia.
Não foram em quantidade sufficiente para que a balança pendesse
decisivamente em favor do antigo regimen. Mas bastaram para accentuar
que o sr. D. Manuel de Bragança, entre a enorme côrte que o servia e que
quasi por completo o abandonou no momento da derrota, ainda contava uma
boa meia duzia de dedicações sinceras. Um d'esses monarchicos liquidou,
no cano de um revolver, a carreira que abraçara e a existencia que lhe
sorria feliz; foi o tenente de marinha Frederico Pinheiro Chagas.

Ao lado, porém, d'esses homens que até á ultima deram provas de não ser
injustificada a confiança que o antigo regimen n'elles depositava,
surgem em destaque lamentável outras figuras, que, por medo, por
pusillanimidade, ou se retractaram no periodo da Revolução ou se
apressaram a bajular a Republica, logo que a Republica triumphou. D'um
monarchico sabemos nós que, occupando na monarchia um cargo proeminente,
cargo que lhe concitára as antipathias da população democratica, mal
defrontou na manhã de 5 de outubro um dos vultos preponderantes do
partido republicano, se apressou a affirmar que fôra sempre um
apologista da Ideia e que os incidentes desgraçados em que o antigo
regimen, para se defender, envolvera o seu nome, não tinham occorrido
sem o seu vehemente protesto.

Outro, um magistrado retintamente monarchico, servidor incondicional do
governo do sr. Teixeira de Sousa, perseguidor feroz dos republicanos,
que, porventura, cahiam na sua alçada, encontrámol-o dias depois de
proclamada a Republica na sala de visitas d'um venerando causidico
democrata, o dr. Manuel de Arriaga, asseverando-lhe que nunca defendera
outros principios que não fossem os do partido do povo. E accrescentava,
n'uma voz meliflua, implorador:

--Você sabe... accusam-me de ter procurado, no exercicio da minha
missão, aggravar intransigentemente a pleiade de homens honrados em que
você enfileira... É falso! Não sou monarchico e desgostar-me-hia
bastante o soffrer agora as consequencias d'uma accusação infundada.

O seu interlocutor sorriu ao ouvir estas palavras de subserviencia e
n'esse sorriso lia-se claramente a bondade de um coração diamantino que
se apiedava do terror cobarde do magistrado em questão...


E outros ainda, que ao perceberem que após trinta e seis horas de lucta
o antigo regimen se afundara definitivamente, compozeram uma attitude de
artificioso contentamento, exclamando ao mesmo passo:

--Até que emfim!... Ha quantos annos suspirava por este dia!...

Os mais apressados no reconhecimento da nova fórma de governo, esses,
então, como o momento era azado para distinguir ao primeiro golpe de
vista os adherentes dos não adherentes, não duvidaram pregar na
lapella do casaco uns laçarotes vermelhos, para que a _rajada
revolucionaria_--caso ella se manifestasse--os não subvertesse, os não
liquidasse.

Nas horas do combate encolheram-se a tiritar, calculando que a Revolução
os arrastaria pelos cabellos a uma chacina purificadora ou os penduraria
n'um candieiro. E, afinal, a Revolução não fez nada d'isso. A Revolução,
assim como teve um curto periodo de tiroteio sangrento, tambem se
caracterisou por diminutos instantes de delirio enthusiastico, mas
delirio inoffensivo, expansão de alegria desinteressada e generosa.
Ninguem assassinou, ninguem saqueou. A propria _artilharia civil_,
dispondo d'uma poderosa força destruidora, não commetteu excessos, não
praticou represalias. Applicou-se exclusivamente a atacar as forças do
antigo regimen, lançando as suas _granadas de mão_ sobre os cavalleiros
monarchicos, dispersando-os, derrotando-os mais pelo panico produzido
pelo ruido da explosão do que pelos effeitos contundentes da metralha.


Um episodio succedido na tarde do dia 4 de outubro dá bem a medida do
espirito de honestidade com que os revolucionarios sahiram então á rua a
combater contra a monarchia:

N'uma das avenidas de Lisboa modernamente rasgadas, á hora em que a
artilharia da Rotunda despejava sobre a de Queluz os seus tiros
certeiros... Um leiteiro que enfiava transido de medo para o portal de
uma casa rica é abordado por um popular armado que o intima a vender-lhe
uma porção de leite. O aspecto do revolucionario é de metter pavor: na
face ennegrecida lampeja uma decisão inquebrantavel; n'uma das mãos
agita uma pistola de grandes dimensões. O leiteiro estaca a tremer,
disposto já a abandonar toda a mercadoria, comtanto que lhe poupem a
vida. O revolucionario manda encher uma medida de lata, mas, quando se
dispõe a beber por ella o liquido que o ha de reconfortar, o leiteiro
observa-lhe que a policia não consente tal coisa, que isso é... contra a
postura.

--A policia... Mas onde está ella? replica o revolucionario n'uma
gargalhada escarninha.

E d'um trago sorve o liquido. O outro, morto por se safar, assim que lhe
restituem a medida de lata, prepara-se para uma correria desenfreada. É
de agradecer ao Deus creador o libertar-se do transe afflictivo apenas
com o dispendio d'uns decilitros de leite... Mas o revolucionario não o
consente. E, empunhando de novo a pistola com gesto ameaçador, obriga-o
a acceitar em pagamento umas moedas de cobre. Comprehende-se: esse homem
não fazia a Revolução para perpetuar os crimes da monarchia.


Quantos dos servidores do antigo regimen não procederam de modo diverso?
Quantos não beberam o leite, não o pagaram e até metteram na cadeia os
respectivos vendedores só pelo facto de lhes exigirem o pagamento?
Quantos?...


FIM



Indice


_DO TEXTO_

Falando aos leitores

    CAPITULO I--Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo regimen

    CAPITULO II--Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca

    CAPITULO III--Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de
    Janeiro

    CAPITULO IV--A policia descobre um dos fios do «complot»

    CAPITULO V--Marca-se a revolta para as 4 da tarde do dia 28

    CAPITULO VI--A «ratoeira» do elevador da Bibliotheca insuccesso do
    «complot»

    CAPITULO VII--O regicidio?--Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?

    CAPITULO VIII--Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria
    imediatamente ao seu acto

    CAPITULO IX--As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente

    CAPITULO X--Os estudantes militares offerecem o seu concurso á
    Revolução

    CAPITULO XI--Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»

    CAPITULO XII--As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven
    Portugal»

    CAPITULO XIII--O «comité» executivo de Lisboa procede a um inquerito

    CAPITULO XIV--Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas
    revolucionarias

    CAPITULO XV--Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano
    definitivo

    CAPITULO XVI--No momento culminante, o desanimo invade os
    organisadores da revolta

    CAPITULO XVII--Uma parte das forças revolucionarias installa-se na
    Rotunda

    CAPITULO XVIII--Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a
    lucta

    CAPITULO XIX--O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio

    CAPITULO XX--O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades

    CAPITULO XXI--A artilharia revolucionaria repelle o ataque das
    baterias de Queluz

    CAPITULO XXII--Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas
    casas

    CAPITULO XXIII--Proclama-se a Republica no edificio da Camara
    Municipal


_DAS GRAVURAS_

    D. Carlos I

    João Franco

    Attentado de 1 de Fevereiro--Assassinato do Rei D. Carlos e Principe
    D. Luiz Filipe

    Alfredo Costa

    D. Manuel II

    Teixeira de Sousa

    Anselmo Braamcamp Freire--Presidente da Camara Municipal Republicana
    de Lisboa antes da Proclamação da Republica

    Missão do Directório no estrangeiro

    Luz d'Almeida--Chefe da Carbonaria

    O Directorio da Revolução

    Innocencio Camacho--Membro substituto do Directorio, em
    effectividade

    José Barbosa--Membro substituto do Directorio em effectividade

    A barricada na Rotunda

    José Nunes--Auctor de diversas bombas explosivas

    Dr. Miguel Bombarda--Vice-almirante Candido dos Reis

    Dr. Malva do Valle--Membro substituto do Directorio em effectividade

    As forças revolucionarias na Rotunda

    Machado Santos

    O acampamento na Rotunda

    Ladislau Parreira

    A Bandeira da Revolução

    Bombardeamento do Paço das Necessidades (Janela do quarto do rei)

    José Carlos da Maia

    Embarque da familia real na Ericeira

    João Chagas

    Moysés, o tambor dos Revolucionarios

    Brito Camacho

    Proclamação da Republica e do governo provisorio na Camara

    Municipal de Lisboa em 5 d'Outubro de 1910

    João de Menezes

    Governo Provisorio da Republica Portugueza

    General Antonio do Carvalhal--Comandante da 1.ª Divisão Militar

    Proclamação da Republica Portugueza pelas camaras constituintes

    Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade

    A Bandeira Nacional

    Manuel de Arriaga--Antigo deputado republicano e 1.º presidente
    eleito da Republica Portugueza

    Paiva Couceiro

    Busto official da Republica Portugueza



BIBLIOTHECA HISTORICA

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VOLUMES PUBLICADOS

      I, II--*Historia da Revolução Franceza* por _F. Mignet_ 2 vols.
      III--*A Revolução Portugueza - O 31 de Janeiro* por _J. d'Abreu_.
      IV--*A Revolução Portugueza - O 5 de Outubro* por _J. d'Abreu_.
      V--*A Revolução Hespanhola* por _Victor Ribeiro_.

NO PRÉLO

      VI--*A Revolução Nihilista na Russia* por _Stepniak_.


BIBLIOTHECA DA INFANCIA
COLECÇÃO ILUSTRADA DE LEITURAS EDUCATIVAS
SOB A DIRECÇÃO LITERARIA DE
VICTOR RIBEIRO
Da Academia das Sciencias

VOLUMES PUBLICADOS

      I--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A Conquista do Reino).
      II--_A Daudet_--*A Creança Abandonada*.
      III--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Condestavel).
      IV--*A Vida dos Animaes* (No Paiz do Leão).
      V--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (D. João I, o rei
      eleito do povo).
      VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.
      VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os filhos de D.
      João I).
      VIII--*A Vida dos Animaes* (Os cães).
      IX--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (O Infante D. Henrique).
      X--*A Terra Portugueza* (Portugal Pitoresco).

NO PRÉLO

      XI--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (A vontade do Povo na
      Historia Portugueza).

Cada Volume em 8.º, ilustrado com esplendidas gravuras nitidamente
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