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Title: Viriatho - Narrativa epo-historica
Author: Braga, Joaquim Teófilo Fernandes, 1843-1924
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Viriatho - Narrativa epo-historica" ***

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OBRAS COMPLETAS

ALMA PORTUGUEZA


VIRIATHO


ALMA PORTUGUEZA

Rhapsodias da grande Epopéa de um pequeno Povo

    I. VIRIATHO--Narrativa epo-historica.
    II. FREI GIL DE SANTAREM--Drama-lenda.
    III. LINDA IGNEZ--Tragedia classica
                  {1.ª A pallida Donzella.
         TRILOGIA {2.ª Morta e Rainha.
                  {3.ª A Vingança do Justiceiro.
    IV. OS DOZE DE INGLATERRA--Poema.
    V. O PEITO LUSITANO--Rhapsodias cyclicas das Navegações.
    VI. CAMÕES--Poema epo-lyrico.
    VII. GOMES FREIRE--Drama em cinco actos.



Alma Portugueza

VIRIATHO

Narrativa epo-historica

por

THEOPHILO BRAGA


PORTO
Livraria Chardron
Lello & Irmão, Editores

1904

Todos os direitos reservados.


Porto--Imprensa Moderna



A Alma portugueza caracterisa-se pelas manifestações seculares persistentes
do typo anthropologico e ethnico, que se mantêm desde as incursões dos
Celtas e luctas contra a conquista dos Romanos até á resistencia diante das
invasões da orgia militar napoleonica. São as suas feições:

A _tenacidade_ e indomavel coragem diante das maiores calamidades, com a
facil _adaptação_ a todos os meios cosmicos, pondo em evidencia o seu genio
e acção colonisadora;

Uma profunda _sentimentalidade_, obedecendo aos impulsos que a levam ás
_aventuras heroicas_, e á idealisação affectiva, em que o _Amor_ é sempre
um caso de vida ou de morte;

Capacidade _especulativa_ prompta para a apercepção de todas as doutrinas
scientificas e philosophicas, como o revelam Pedro Julião (Hispano), na
Edade Media, Francisco Sanches, Garcia d'Orta, Pedro Nunes e os Gouvêas, na
Renascença;

Um genio _esthetico_, synthetisando o ideal moderno da Civilisação
occidental, como em Camões, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o
_Homero das linguas vivas_.

O cantor das grandes Navegações foi quem teve a mais alta comprehensão do
genio nacional; a ALMA PORTUGUEZA achou no seu Poema a incarnação completa.
Quando Camões descreve nos _Lusiadas_, geographica e historicamente
Portugal, referindo-se á tradição da antiga Lusitania, relembra o vulto que
symbolisa a sua vitalidade resistente, diante da incorporação romana da
peninsula hispanica:

    Eis aqui, quasi cume da cabeça
    Da Europa toda, o reino _Lusitano_,
    Onde a terra se acaba, e o Mar começa,
    E onde Phebo repousa no Oceano.


    Esta é a ditosa Patria minha amada,
    Esta foi _Lusitania_...................


    D'esta o PASTOR nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguem virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.

                       (Cant. III, st. XX a XXII.)


    Deixo... atraz a fama antiga
    Que co'a Gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com VIRIATHO na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram.
    Tambem deixo a memoria, que os obriga
    A grande nome, quando a levantaram
    Um por seu Capitão, que, peregrino,
    Fingiu na _Cerva_ espirito divino.

                       (Cant. I, st. XXVI.)

No tempo do grande épico ainda se não tinha perdido o conhecimento da
relação de continuidade historica entre Portugal e a antiga Lusitania,
mais vasta e por isso mais violentamente retalhada pela administração
imperial romana. Esse conhecimento, embora confundido com as lendas
syncreticas dos falsos Chronicões, influiu na consciencia do nosso
individualismo ethnico e nacional. O esforço de _desnacionalisação_ de
Portugal pela politica da unificação _iberica_, veiu até reflectir-se
nos proprios historiadores patrios, levando-os a considerar Portugal uma
formação recente, adventicia, sem individualidade, e a Lusitania quasi
como uma ficção banal dos eruditos da Renascença! Mas o caracter
persistente do typo portuguez, a resistencia tenaz contra todos os
conflictos da natureza e pressões da vida, que tanto o distingue entre
os povos modernos, é a prova manifesta da raça lusitana como a
descreveram os geographos gregos e romanos. Nas luctas pela liberdade
territorial a Lusitania deixou nos historiadores greco-latinos o ecco da
sua resistencia indomavel, sobretudo no Cyclo das Guerras viriathinas,
que se reaccenderam ainda sob o commando de Sertorio.

Pela sua genial intuição teve Garrett a comprehensão d'este caracter
resistente e soffredor da nossa raça lusitana: «Os Portuguezes são
naturalmente soffredores e pacientes: muito arrochada hade ser a corda
com que de mãos e pés os atam seus oppressores, antes que rompam em um
só gemido os desgraçados. Um murmurio, uma queixa... nem talvez no
cadafalso a soltarão! Vendem-nos os desleaes pegureiros de quem nos
deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a
latido e mordedella de seus mastins; e nós vamos e nem gememos. Se um
clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surde, aqui os
clamores de _rebeldes_, os alcunhas de _demagogos_... e a nação (o
_rebanho_, direi antes) que se resigna e soffre, e continua a caminhar
para o exicio! Tal é, com as differenças de variados nomes e datas, a
historia de Portugal quasi desde que a revolução ou restauração
(restauração seria?) de 1640 fez da nação portugueza o patrimonio de
meia duzia de familias privilegiadas e de seus satelites e parasitos.»
(_Carta de M. Scevola_, 1830.)

Symbolisamos esta resistencia, vivificando o typo de VIRIATHO,
reconstruindo poeticamente as situações laconicas referidas nos
historiadores classicos; representamos artisticamente essa fibra que
ainda hoje pulsa em nós, e pela qual, perante a marcha da Civilisação se
affirma através dos cataclysmos politicos a ALMA PORTUGUEZA.

_Assuetum malo Ligurem_, disse Virgilio (_Georg._, II, 102) d'essa
poderosa raça, de que o Lusitano foi um dos ramos mais activos; as
terriveis desgraças que nos têm acompanhado desde a romanisação da
peninsula até á subserviencia ingleza, como acostumados ao mal, não nos
têm alquebrado: não apagaram a constituição da _Nacionalidade_, não
embaraçaram as iniciativas dos _Descobrimentos maritimos_; não abafaram
a expressão das altas capacidades _estheticas_. Pela expressão artistica
se fixou a lingua portugueza, orgão reconhecido da nacionalidade, cujo
sentimento se manteve pela idealisação poetica, em Camões. Seja ainda
esse recurso poetico o meio de acordar a consciencia do passado de um
Povo, no qual estão implicitos a sua rasão de ser presente, e o ideal do
seu destino futuro.

Um dos fins da Arte moderna é a representação da vida dos povos e dos
aspectos da natureza dos paizes longinquos, e tambem a evocação das
edades passadas, vencendo por este _exotismo_ o apagamento das
impressões de tudo quanto nos cérca; assim se inicia a phase esthetica
constructiva. Pela evocação da _Raça_ penetra-se o sentir da fibra
_nacional_, e por esta o drama das luctas das _Instituições_ que se
fundaram, o vinculo das _Tradições_, que foram germens e impulsos da
_missão historica_ e das _creações artisticas_ que reflectiram a
consciencia da collectividade.



VIRIATHO



I


No anno de DCIII da éra da fundação da Cidade de Roma, sendo Consules L.
Licinio Lucullo e A. Postumio Albino, acontecimento inopinado suscitou
nos espiritos um extraordinario alvorôço: O Senado fôra convocado
repentinamente, com urgencia, sem ser pela fórmula usual de um Edito,
mas pela peremptoria chamada nominal ordenada pelo velho e integerrimo
Catão, denominado o Censor.

A gravidade do acontecimento forçára por certo o venerando presidente do
Senado a simplificar essa fórmula da convocação? Algum grande crime
perturbava ou ameaçava o governo da Republica! A curiosidade era
immensa, e antecipadamente sabia-se que a voz austera de Marco Catão, o
Censor, se ergueria no Senado contra o patricio o mais opulento dos
romanos, que dispunha de riquezas bastantes para corromperem os juizes
aos quaes se confiasse o seu julgamento.

Galba! era este o nome que soava de bocca em bocca, mais com inveja do
que hostilidade, desde que o Tribuno do Povo Aulo Scribonio o citára
para comparecer em justiça pelas depredações e carnificinas que
praticára contra as Tribus e cidades tributarias da Lusitania, que como
Provincia senatorial estava sob a égide da lealdade romana.

Era de um crime contra a magestade do Povo romano, que versava a
accusação do Proconsul Servio Sulpicio Galba, ao qual fôra confiado o
governo e administração da Hespanha Ulterior, essa parte occidental da
peninsula em que se comprehendia a vasta Lusitania. Ninguem se atrevia a
pôr em duvida a valentia do tribuno militar, que fôra á Hespanha com a
missão especial de combater e submetter os Celtiberos; mas, sendo
conhecida no mundo a gloria do Senado, que, vae para quatro seculos,
dirige com um tino incomparavel as guerras de incorporação dos povos
barbaros, como poderá consentir que no exercicio d'essa missão
civilisadora lhe infamem a inviolavel auctoridade?

A voz de Catão ergueu-se no meio de um religioso silencio com a acuidade
de um látego de fogo:



--Como velho octogenario, ninguem comprehende como eu o poder dos
Costumes dos Antepassados representados hoje no Senado, como um tribunal
permanente, de acção executiva, e com consciencia das necessidades
publicas expostas pela palavra em discussão aberta. É d'esses Costumes
dos Antepassados que deriva a Soberania com que nós todos aqui
presentes, dando fórma á opinião publica, intervimos no organismo social
de Roma. Diante de mim, e entre os trezentos membros aqui reunidos, vejo
ainda os antigos chefes da Familia romana, os _Patres_, que pela edade
fôram os _Seniores_, os quaes deram o nome a este Tribunal sacrosanto de
_Senado_; tambem vejo os _Conscripti_, que a pouco e pouco fôram
chamados a completarem o numero, que a morte ou a extincção das familias
ia diminuindo. Emfim, aqui estamos constituidos tanto a _Ordem
senatorial_ como a _Equestre_, para deliberarmos sobre o que interessa á
Republica. D'entre vós, uns exercem um poder temporario, e outros são
_inamoviveis_ desde que se reconheceram os seus serviços, e por sua vida
incorruptivel são proclamados _Censores_. É pois no exercicio d'esta
dignidade que eu fallo e conto ser ouvido, porque foi confiada á
protecção da minha vigilancia essa uberrima provincia da Hespanha. Tendo
eu, como Censor, cooperado sempre, todos os cinco annos, pela confecção
do registo do Censo, na nomeação dos Senadores tirados dos antigos
magistrados, raro será aqui o Senador que não deva á minha confiança a
honra d'essa escolha confiada a Senadores _consulares_, a Senadores
_pretorianos_, segundo as magistraturas, e cargos curues, em que se
dignificaram. E tendo eu exercido este direito supremo dos Censores,
compete-nos mais um, que é o da exclusão dos _indignos_ do Senado...

Sentiu-se um vago rumor entre os trezentos membros da assembleia; Catão,
quasi sem notar que o seu longo exordio já fatigava a attenção, proseguiu:



--É esse direito, que hoje me traz aqui, apoiado pela propria
consciencia e pelo meu juramento. Eu bem sei que as attribuições dos
_Censores_ são constantemente diminuidas, e que virá tempo em que
desapparecendo esta magistratura, irromperão as guerras civis. Deixemos
o futuro, e perdoae as digressões proprias da provecta edade. Em
gravissimas circumstancias, sabidas por nós todos, foi Servio Sulpicio
Galba mandado á Hespanha como Pretor. E se a situação difficil reclamava
todas as virtudes militares para a magestade de Roma se mantêr illeza,
mais necessario era o espirito de uma intelligente politica, para
perpetuar por bons tratados o que a espada nem sempre conseguiu. Galba
deu primeiramente uma prova deploravel de militar incompleto, quando
invadindo a Lusitania, perdeu sete mil e quinhentos legionarios, indo
refugiar-se em uma situação ignobil em Carmona. Destemido, mas
inconsiderado, é este homem por isso perigoso para a Republica. E ainda
mais: é de um caracter falso, violando com descaro a palavra de um
Tribuno, que vale tanto como um tratado escripto, rebaixando perante o
mundo o poder romano sempre inquebrantavel, quando se trata de um dever
moral. É certo que as trinta e seis cidades tributarias da Lusitania,
sempre irrequietas e luctando pela sua autonomia e independencia local,
tambem violaram o tratado concluido com Attilio, infestando as Colonias
romanas, e as Cidades federadas e immunes, favorecidas com o regimen
municipal. N'esta angustia, em que Roma tinha de impôr a sua
auctoridade, bem comprehendera que já não devia empregar o systema da
devastação; mas Galba, desgraçadamente não comprehendeu este pensamento
governativo! Mandado á Hespanha, ahi chegou com um exercito cansado e
exhausto; em vez de limitar-se á defeza immediata dos subditos romanos,
encetou logo combates contra as tribus lusitanas, que nas suas
emboscadas continuas, em assaltos repentinos o fôram estafando e
enfraquecendo até encontrarem o momento azado em que se atreveram a
dar-lhe uma batalha campal, em que ficaram trucidados sete mil
legionarios. Os brios de Galba ficaram diminuidos perante a estupenda
calamidade; Galba teve de collocar-se na defensiva, aproveitando a epoca
das grandes invernias para se fechar cautelosamente nos quarteis de
Conistorgis! As Aguias romanas, como bem diria ahi qualquer poeta
satirico, estavam fechadas na capoeira.



O Senado permaneceu imperturbavel diante da ironia caustica do orador,
que continuou no mesmo espirito:



--E de facto Galba, durante essa inacção, chocava uma tremenda infamia!
Logo no principio da primavera do anno DCIII da fundação da Cidade
eterna, que ficará affrontosamente assignalado nos _Fastos Consulares_,
Galba poz-se em marcha para a Lusitania, devastando inconsideradamente
Cidades immunes ou federadas, estipendiarias ou contributas d'aquella
opulenta região, d'onde Roma tem haurido montanhas de prata. Esses povos
da Lusitania, embora tenazes e inquebrantaveis, pelo natural bom senso
reconheceram que era melhor gosarem os privilegios que Roma lhes
concedia, do que envolverem-se em uma guerra interminavel, que com
certeza visaria á sua destruição. Resolveram mandar a Galba enviados com
a declaração, que se confessavam arrependidos da revolta a que tinham
sido arrastados, e promptos a cumprirem integralmente o tratado firmado
com Attilio. A uma tal proposta, Galba manifestando-se benevolente, elle
mesmo respondeu aos enviados das tribus lusitanas: «Que era o primeiro a
reconhecer a força das circumstancias, que os obrigára pela tremenda
crise da fome e da miseria a quebrantarem a lei romana, e a
entregarem-se por vezes a incursões e rapinas em logares que gosavam
quasi os direitos da metropole. Mas, em vez de tomar directamente a
responsabilidade d'esses actos, e sabendo a causa intima que os motiva,
eu farei que finde a situação violenta das Cidades estipendiarias,
acabando com os tributos pezadissimos que as oneram, eximindo-as dos
pagamentos ás legiões romanas e ás provisões de viveres fornecidos ás
tropas em passagem. Para se effectuar isto, passareis á cathegoria de
Cidades municipaes, com o vosso territorio livre, sem pagamento de
tributos, com magistrados eleitos livremente, e fóra da jurisdicção do
governador da Provincia.» Diante d'esta perspectiva, Galba,
traiçoeiramente apontou as terras que lhes reservava, e que dividia em
tres cantões, e tratou de convocar para um determinado dia na margem
direita do Tejo as tribus lusitanas, exigindo como prova da mutua
confiança que se appresentassem desarmadas, para que em Roma se não
dissesse, que a generosa concessão do _Jus italicum_ era extorquida.



Catão, como que vencendo uma oppressão de momento, salientou o facto
monstruoso:



--Á convocação feita por Galba concorreram os povos confiados na palavra
que representava o poder romano; e logo que Galba apanhou as tribus
desmembradas e desarmadas na planicie para onde as convocára,
envolveu-as nas Legiões que subitamente se appresentaram fortificando a
linha dos Hastatos e Triarios com toda a Cavalleria, que atropellando a
multidão inerme, fez passar ao fio da espada para mais de trinta mil
pessoas, entre homens validos, velhos e crianças, e até mulheres! Nada
mais execrando, porque esta traição vilissima deslustra as victorias
romanas! E se este instincto traiçoeiro é a base da sua tactica de
guerra, é egualmente a feição do seu caracter no tempo de paz; e com
taes recursos se defenderá da justiça implacavel, perante a qual seja
chamado a responder, porque no meio de tantas carnificinas e
depredações, Galba apoderou-se de assombrosas riquezas, com que de certo
conta eximir-se de toda a pena. Mas a deshonra do individuo, ou o seu
castigo, não ressarce os males da Patria! O poder de Roma está n'este
momento abalado na Lusitania, que se debate em um levantamento geral
contra uma tão inaudita monstruosidade. E se eu, como Censor, accuso o
homem indigno, e defendo os meus clientes de Hespanha contra o
sanguinario e iniquo prevaricador, perante o Senado tambem reclamo que
um General intelligente com novas tropas vá promptamente restabelecer a
paz e o direito ás povoações alvoroçadas da Lusitania.



A voz de Catão, o Censor, fôra escutada com assombro. Elle tinha alliada
á veneração devida aos seus outenta e cinco annos de edade uma longa
vida intemerata, que triumphára brilhantemente de todas as calumnias,
com que por vezes procuraram minar o seu ascendente moral.

N'esta mesma sessão memoranda do Senado resolveu-se que immediatamente
fôsse mandado a Hespanha o Pretor Caio Vetilio com novas Legiões e
Cavalleria para reforçar o Exercito provincial. Determinou mais o
Senado, que Servio Sulpicio Galba e o Consul Lucio Licinio Lucullo
regressassem a Roma para prestarem contas estrictas pelos seus roubos,
expoliações e crueldades affrontosas.



II


O Tribuno da plebe Aulo Scribonio, estimulado pela accusação de Galba no
Senado, convocou o povo de Roma para o Forum, para pedir-lhe o
julgamento do Proconsul pelo crime de infanda traição. O concurso foi
enorme, tanto mais que desde muitos annos a competencia judiciaria dos
Concilios estava cerceada pela delegação d'esses poderes a um jury ou
Conselho perpetuo.

O Tribuno fallou á multidão, com nitidez e segurança:



--Sabeis que ao Senado, como corpo dirigente da Republica, pertencem os
poderes sobre o Culto, sobre a administração das riquezas do Estado e
principalmente a administração das Provincias. Competia-lhe por isto a
iniciativa da accusação de Galba; mas é obrigação do Tribuno impulsionar
a acção publica, sobretudo quando se trata do crime de alta traição,
como agora, em que é réo Servio Galba! Eis o facto na sua espantosa
crueza: numerosas cidades da Lusitania, que estavam na situação
angustiosa de estipendiarias, vexadas pelos pezados impostos extorquidos
pelos magistrados romanos, tinham requerido ao Senado para lhes ser
concedida em premio de sua fidelidade a situação de confederadas ou
immunes, podendo assim governar-se pelas suas leis consuetudinarias,
pelas suas magistraturas locaes, sem comtudo aspirarem ao goso dos
direitos politicos de cidadãos romanos. Era a base da pacificação da
Lusitania! O Proconsul Galba servindo-se da magestade do povo romano
garantindo esse pedido, convocou as povoações desarmadas para lhes
communicar o Edito do Senado que o legislava, e envolvendo-as nas suas
legiões trucidou traiçoeiramente para mais de trinta mil pessoas, em que
a par dos homens validos estavam velhos, crianças e até mulheres!



O povo permaneceu mudo, sem mostrar commoção alguma pelo quadro da
horrenda carnificina. O advogado Fulvio Nobilior, que fôra encarregado
da defeza de Galba, notou esta circumstancia da insensibilidade moral da
plebe. O Tribuno continuou:



--Para o julgamento d'este attentado contra a magestade do Povo romano,
bem sei, é preciso um exame dos factos, e por felicidade das nossas
instituições sempre perfectiveis, o processo de Galba será formado pelos
Questores, que appresentarão ao Concilio da plebe os seus quesitos,
sobre os quaes effectuareis a votação. O que outr'ora fôra um motivo de
discordia entre o Povo e o Senado é hoje uma harmonia social, por que se
reconhece, que assim como os negocios judiciaes carecem de sciencia
juridica para serem tratados, os assumptos de jurisdicção criminal não
pódem ser sentenciados senão mui reflectidamente. E se a lei tribunicia
Calpurnia avocou estas questões a um jury perpetuo, o Povo sem perder a
sua prerogotiva delegou este poder judiciario aos Questores. Que Servio
Sulpicio Galba seja processado pelo Conselho dos Questores, sendo as
suas conclusões appresentadas á vossa deliberação no mais breve lapso de
tempo.



Depois de se ter calado o Tribuno, appresentou-se diante do povo, que
enchia o Forum, o advogado Fulvio Nobilior, conhecido pela sua extrema
argucia, por um espirito sarcastico, que chegava a tocar as raias do
cynismo. O seu poder nos tribunaes consistia em fazer desvairar as
opiniões, em actuar nas consciencias suscitando a dissolução moral,
tornando ridiculos os sentimentos de piedade ou de humanidade. Era
sempre ouvido com interesse; a multidão comprehendia-o. Quando veiu á
barra, um rumor surdo foi o prenuncio de um grande silencio; o seu
discurso ficou memoravel:



--É accusado o Proconsul Servio Galba de latrocinios na Hespanha
Ulterior, n'essa região, que assenta sobre jazigos de ouro e prata, a
Lusitania! O que tem a fazer um homem culto entre gente barbara, senão
levantar do chão as joias que vê calcadas inconscientemente? Tambem da
Hespanha Citerior, acabado o seu governo de dois annos, regressa a Roma
o Consul Lucio Licinio Lucullo, carregado de assombrosas riquezas, e não
foi accusado de latrocinio, nem de rapinas ou extorsões. E por que,
tendo os dois magistrados seguido os mesmos processos administrativos? A
rasão é evidente. É por que Lucullo soube captar as sympathias,
compartilhando o seu ouro e prata, e gemmas preciosas com os patricios
influentes, que ahi têm assento no Senado; e para desviar a ideia dos
roubos, teve o pensamento de edificar um Templo á Deusa Felicidade, a
quem attribuiu a posse de tantas riquezas! Servio Galba só commetteu um
erro:--quiz tudo para si, dando apenas algumas migalhas aos legionarios,
que o acompanharam nas depredações! D'ahi o odio dos Tribunos da Plebe.
Mas, para que dispender aqui o tempo com uma moral especulativa, se
esses pretendidos roubos ou concussões fazem que Roma regorgite em
riquezas espantosas, trazidas d'essa Hespanha inesgotavel á avidez do
estrangeiro? Só lembrarei, que quando Roma se viu assaltada pelos
Gaulezes, difficil foi ajuntar mil libras de ouro para pagar a imposição
de guerra! E desde que fômos a Hespanha, sete annos antes da terceira
Guerra punica, 16:800 libras de ouro já se achavam no fundo do thezouro
romano! E no começo da Guerra social, o Erario regorgitava com 1:620$829
libras de ouro! Quem não comprehende que a riqueza de Roma não lhe vinha
do trabalho agricola e fabril, mas da guerra em paizes ricos? Foi esta
sempre a nossa politica. Combater, vencer, para civilisar, pagando-nos
por nossas mãos d'este beneficio. Desde que as Legiões romanas pisaram o
sólo da Lusitania, conheceu-se que o ouro nativo ahi abundava em
assombrosos filões, e em palhetas nas areias do Tejo! Nada mais claro
para um Governo intelligente:--submetter esse povo, fazendo-o trabalhar
ao serviço de Roma na exploração das minas de ouro e prata, e de
convertermos esses metaes em ornatos pessoaes, baixelas, e sobretudo em
moedas, que facilitam o commercio do mundo! Evidentemente Roma é a
civilisadora do orbe! Quando Scipião Africano veiu receber em Roma a
apotheose pelas suas victorias sobre os Carthaginezes e Iberos, entregou
ao Erario de Roma trezentas e dez arrobas de prata lavrada, pilhada em
outenta villas e cidades da Iberia! Mas não resam os Annaes romanos da
que o general reservou para si. E o seu successor, Lucio Cornelio
Lentulo? Tambem depositou no Erario mil e trezentas arrobas de prata
lavrada. É incalculavel a quantidade de arrobas de prata que os Consules
e Pretores, que administraram as duas Hespanhas, transferiram das suas
prezas para Roma. E os celebrados dinheiros de Osca? Porém, essa riqueza
só chegava ao Povo romano em alguma festa publica de apotheose; pelo
processo moderno, o povo é mais favorecido, porque essas riquezas
pilhadas na Iberia e na Lusitania são dispendidas em Roma pelos seus
detentores na vida faustosa com que tornam a Cidade a capital da
Civilisação do mundo. E depois, de quem tomou Galba as riquezas que está
espalhando em Roma? De ladrões despreziveis e abjectos, que occupam o
sólo da Lusitania, raça de escravos, impando de ignorancia e orgulho,
indignos do bello céo que os cobre. Eis ahi o crime. Expoliar ladrões,
do que possuem estólidamente, e enriquecer Roma, que mais será preciso
para a apotheose? Galba bem merece do Povo. Fique ao Senado a gloria de
condemnar o valente e magnanimo Proconsul pela affectada questão de
humanidade, da qual nada consta nos sublimes Annaes das nossas glorias
militares, que serão sempre o assombro do mundo! E, que justiça é esta,
que accusa Galba, e deixa no doce olvido o Consul Lucio Licinio Lucullo,
que passou tambem á Lusitania, trucidando os Vacceos a titulo de vingar
os Carpetanos, e mandando a um signal dado passar a fio de espada todos
os habitantes da cidade de Caucia? Se, como dizem os nossos
jurisprudentes, a Justiça é só uma, os historiadores tambem proclamam,
que ha uma só gloria militar:--Vencer! Se hesitarmos nos meios... Roma
perderá o imperio do mundo.



O Povo comprehendeu as cynicas palavras de Fulvio Nobilior; e até o
proprio Tribuno, cumprido o dever do seu cargo, concordava no fôro
intimo com essa doutrina, reveladora de uma crise da consciencia
nacional, em que se preparava para futuro não remoto a transformação das
instituições sociaes e politicas de Roma.



III


O Consul Vetilio partira a toda a pressa para a Hespanha Ulterior, a
reforçar o exercito provincial; temorosas noticias corriam pela Cidade, de
um levantamento geral das cidades da Lusitania, que visava a sacudir o jugo
de Roma, tornado odioso e incomportavel pela traição execranda de Galba. O
Senado confiava na valentia e intelligencia estrategica de Caio Vetilio,
sem desconhecer a resistente tenacidade inquebrantavel das tribus
lusitanas, que apoiavam a sua independencia individual em um territorio
livre, tendo por grito de guerra:

--Vencer ou morrer!

Presentimentos aziagos se espalhavam sobre o exito da expedição de Vetilio.
E emquanto espantosos successos se estariam passando longe, muito longe, na
parte occidental da Hespanha, no incendio da insurreição, o detestavel
Servio Sulpicio Galba vinha compellido á barra do Senado appresentar a
defeza dos crimes de que fôra accusado por Catão o Censor. Elle bem sabia
que deslustrára pela má fé a dignidade do Povo romano, mas confiava no
poder da sua eloquencia prestigiosa.

Galba receou por um momento a condemnação, e preparou a defeza espalhando
pelos Senadores e funccionarios de Roma os blocos de prata e ouro em barra,
que trouxera das minas da Peninsula, onde tinha para mais de quarenta mil
homens entregues ao trabalho forçado da exploração d'esses jazigos, que
rendiam vinte mil dracmas argenteas por dia. E como se não bastassem as
riquezas que espalhou com profusão pelos juizes, dirigiu-se-lhes ao
sentimento, appresentando-se no tribunal com os seus dois filhos. Lida a
accusação, foi-lhe concedida a palavra, escutada attentamente. Era um dos
casos mais emocionantes de Roma. Será condemnado? será absolvido? Faziam-se
apóstas, aproveitando esse lance para um jogo descarado. A palavra
eloquente de Galba era conhecida e admirada.

Perorando:



--Todos vós estaes bem lembrados, que sob o consulado de Licinio Lucullo e
de Aulo Postumio, um terror excessivo se apoderou dos Romanos por causa das
tremendas derrotas dos nossos legionarios na Hespanha, derrotas infligidas
pelos Celtiberos, por fórma, que não havia togados, nem pretorianos que se
inscrevessem para acudir á remota região em que fraquejava o Poder de Roma.
Scípião Africano revoltou-se contra tanta covardia, offerecendo-se para ir
combater e subjugar essas populações indomitas, que luctavam pela
independencia da sua terra. Passada a apparente pacificação, fui mandado
como Pretor á Hispania. Eu mesmo então vencido pelos Lusitanos em uma
batalha campal, consegui salvar-me com um troço de cavalleiros entre
penhascos! Ah, foi alli, n'essa extrema angustia que jurei, que prometti á
gloria dos Quirites o exterminio dos Lusitanos, d'essas tribus irrequietas,
que são hoje o unico embaraço para que a soberania de Roma se estenda
imperturbavel sobre toda a riquissima peninsula da Hispania. Lucio Minutius
veiu a toda a pressa acudir á minha situação desesperada. Bem sabeis com
que altivez e soberbia os Lusitanos e Celtiberos fallam contra o poder de
Roma; e a todos os Proconsules, que vão ás guerras da Hispania Citerior e
Ulterior, tem sido recommendado que a tantas bravatas estolidas se deve
responder com castigos tremendos e inolvidaveis; e sobretudo que os
Lusitanos apprendam á sua custa, que as Aguias romanas não soffrem ameaças
da vil preza. Não fiz mais do que seguir a politica traçada. Dirão que me
excedi na acção repressiva? Respondo, e ouça-me a historia: Emquanto
existir sobre o territorio da Hispania esse povo Lusitano, hade ahi
manter-se sempre vigoroso o instincto e o sentimento da autonomia. Roma
nunca ahi sustentará o seu imperio tranquillo, porque as tribus lusitanas
sonham com uma Patria livre! Por mais que as nossas divisões
administrativas retalhem o seu territorio, desmembrando-o, mais os
Lusitanos comprehendem a necessidade da Confederação das raças peninsulares
como condição para repellirem o jugo estrangeiro e affirmarem a sua
independencia! E se essa Confederação se chega a organisar, Roma terá no
extremo occidente um inimigo mais terrivel do que Carthago, e as guerras
contra os Lusitanos serão mais sangrentas do que as Guerras punicas. Foi
para destruir estes germens de Confederação, que eu convoquei á falsa fé os
Lusitanos para tratar das liberdades que Roma lhes concedia, e passei á
espada uns sete mil d'entre elles? Sim, parecerá cruento? Mas, do mal o
menos; sabei, que a Lusitania tende a unificar em uma mesma patria os
Carpetanos, os Vettões, os Vacceos e os Callaicos. Do Anas ao Mar
Cantabrico tudo é lusitano; e do Anas ao Cabo Sacrum, e tambem grande parte
da Betica, ou Tartessida, são regiões occupadas pelos Lusitanos, o _Povo
mais poderoso_ da Hespanha, como notam os geographos. Ahi veriamos formada
uma forte nação, cujo territorio terminava ao nascente dos Asturios e
Celtiberos, e comprehendendo a Callaecia, com todos os territorios do
Minio, do Durio até ao Tago, e mesmo a região transmontana. Do Cabo Sacrum
até ao Mar Cantabrico, toda esta parte occidental da Hispania constituindo
a Lusitania! comprehendeis agora o perigo que nos ameaça, e de que eu
consegui salvar o poder de Roma. Nós erradamente damos o nome de
_Celtiberos_ a povos que são lusitanos de raça; julgamol-os desunidos, e
apparentemente se mostram, até á hora do perigo. Se os Lusitanos chegarem
um dia a estabelecer uma Confederação, serão invenciveis e derrotarão os
invasores estrangeiros que tocarem o solo da amada Patria. É isto que
importa ter sempre presente á consideração dos politicos, que tentarem
dominar a Hispania, e governal-a enfraquecida para a exploração das suas
incalculaveis riquezas. Que o dito de Catão, _Delenda Carthago_, se
converta agora em _Finis Lusitaniae_! Mas, não quero acabar com uma phrase
de effeito; a rhetorica não entra aqui para nada. Importa mantêr a Hispania
dividida; não é em Citerior nem Ulterior, mas em LUSITANOS e IBEROS. Esses
dois povos são incompativeis entre si; o Ibero admira a auctoridade, a
força, e quer exercel-a impetuosamente, ao passo que o Luso ama a
independencia sem ruido nem apparatos. O Ibero é incapaz de se unir para a
defeza, e obedece passivamente a qualquer poder physico ou moral que se lhe
imponha; o Lusitano liga-se facilmente para a defeza, em revolta contra
todo o poder. Conheci pela experiencia estas differenças, e reconheci por
que fórma poderia fundar na Hispania o Poder indestructivel de Roma: acabar
com a Lusitania, e estender as populações ibericas. Chamado a Roma, por
causa dos sete mil trucidados, que outros augmentam até trinta mil, ficou
truncado o meu plano; mas estou convencido, que Roma, se não hoje, um dia
me fará justiça.



No seu discurso Galba concluia por ser preciso incendiar as principaes
cidades da Lusitania; passar á espada as povoações que se revoltaram;
transplantar os povos lusos, substituindo-os por tribus propriamente
ibericas; vender como escravos nos principaes mercados essas tribus
inteiras, que pelo seu orgulho embaraçam a acção do Poder romano na
Hespanha; arrasar os burgos e as citanias; estabelecer a pilhagem
systematica dos campos; decapitar todos os cabeças de motim, logo que
sejam agarrados ou pela força ou pela traição, e não bastando isto
ainda, retalhar a Lusitania pelo menos em tres trôços: ao norte,
constituindo em corpo á parte a CALLAECIA, ao centro a TARRACONIA, e a
sudeste a BETICA: logo que fique a LUSITANIA reduzida ao limite do Durio
ao Anas, em uma miseravel faixa de terreno, tapada pelo mar, nunca mais
terá resistencia, e mesmo chegará até a esquecer-se da pretendida
autonomia.

O discurso foi ouvido com assombro, não já como defeza, mas como um
plano de futuro governo para a incorporação completa da Peninsula
hispanica.

Quando estava para ser proferida a sentença sobre as responsabilidades
de Servio Galba, eccoaram por toda Roma as desoladoras noticias vindas
da Lusitania: a derrota formidanda de Vetilio! a morte ignominiosa do
general romano! O exercito reduzido a seis mil homens, refugiado na
cidade de Carpesso! E o poder de Roma ameaçado por um cabecilha, dizem
que outr'ora Pastor, outros affirmam que Salteador de estradas, outros
que é uma apparição maravilhosa d'esse Viriatho, que ha setenta e dois
annos acompanhára Annibal á Italia, e que combatendo em Cannas fôra
morto por Paulo Emilio!

Todas estas vozes corriam em Roma, e avolumavam-se, augmentando o
terror, e o prestigio do Cabecilha. É de crêr que influiram na sentença,
que absolveu a Servio Sulpicio Galba da inaudita carnificina dos trinta
mil lusitanos desarmados. E tambem se conta, que a morte inesperada de
Catão, o Censor, se explicava pelo desgosto de vêr a justiça avergada á
iniquidade triumphante, e diminuida a gloria de Roma ultrajada nos
annaes humanos.



IV


Em Roma não se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas
por Galba. Diante d'estes planos de forte administração, e pelas
doutrinas da politica de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil
individuos desarmados, convocados juridicamente pela auctoridade do
Pretor, e chacinados traiçoeiramente, pouca impressão fazia na alma do
povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha
decadente para a servidão. Mas o crime de Galba era d'aquelles que fazem
levantar as pedras! D'entre os montões de cadaveres, meio incinerados e
cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pôr termo á carnificina,
levantaram-se cautelosamente algumas das raras victimas, que a
casualidade resguardára dos golpes successivos que esmagavam aquella
multidão inerme; e esses desgraçados, fugindo por entre as trevas
cerradas, espalharam-se pelas montanhas e valles, e fôram, de povoação
em povoação, de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a
narrativa da tremenda catastrophe com que os romanos invasores queriam
extinguir os Povos Lusitanos.

Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tábida, rôtos e
estropeados, levados em um desvario de quem perdeu a rasão pela
enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e fôram dar ás grandes
cidades municipaes como Ollissipo, aos Conventos juridicos como Scalabis
e Jerabriga, narrando o espantoso successo. Por pobras e aldeias, por
casaes e villares, por citanias no alto dos montes, por toda a parte
correu o rumor sinistro da mortandade atrocissima e iniqua, e não houve
folego vivo que se não extorcesse em impetos de colera impotente, em
revolta moral contra o maior attentado que á luz do sol se tinha
praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam
de terra em terra repetindo a tragica narração, tornava-se contagioso, e
acordava um profundo instincto de revolta, que ia crescendo como uma
onda até rebentar em uma convulsão irreprimivel. Os Arevacos, os Tittes
e os Belli, povos que andavam sempre em mortaes conflictos, agora
achavam-se unidos no mesmo protesto. Rugidos de colera irrefreavel
irrompiam entre os Asturios, Callaecos, Vacceos e Carpetanos; estes
olhavam com anciedade quem daria começo a uma lucta, para a qual nada
estava preparado, a não ser um temperamento sempre resistente. Para o
sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam em um rancor exacerbado
pela inqualificavel traição de Galba, legitimo representante da fé
romana. Já sôavam no ár Cantigas de guerra, que levantavam as almas; e
até por essas povoações remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium,
Elbocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os
geographos romanos e naturalistas não queriam repetir por consideral-os
barbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam
casualmente da horrifica matança, já se formavam trôços de gente armada
com hozes, ou fateixas de arrêmeço, catanas grossas, pelo instincto
natural da defeza de seus lares.

Esses poucos foragidos levavam na palavra o incendio, que se espalhava
de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o
crime do governo de Roma. É certo que a população lusitana estava
cansada das recentes e inefficazes luctas; as cidades confederadas e
estipendiarias queriam o socego da sua vida laboriosa, supportando
sacrificios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa,
Salacia, Cetobriga eccoara imprevistamente o caso nefando da
carnificina, e lamentavam não existirem chefes que organisassem a
resistencia contra o brutal e monstruoso attentado. E se esta
impotencia, ao menos, assegurasse alguns annos de tranquillidade para o
sul da Peninsula! Outro Pretor que venha, diante da impunidade d'este,
até onde levará as depredações e os morticinios!

Os povos que gosavam das garantias de Municipio romano não queriam
mover-se para não decahirem dos privilegios que fruiam concedidos pelo
conquistador; os povos que participavam dos direitos do antigo Lacio
obedeciam á mesma tendencia egoista. Sómente entre os povos na situação
de tributarios poderia surgir um impulsivo instincto, mas impotente de
revolta. Nas cidades dos povos denominados Celticos e Iberos havia um
certo ciume contra a aspiração hegemonica dos Lusitanos; mas nem por
isso se ligou menos interesse ás narrativas dos foragidos da matança de
Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucobriga,
a Castraleuco, Arandis, Mirebriga, e os trabalhadores do campo
interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo; as festas
religiosas e as nupciaes suspendiam-se á chegada d'essas figuras
sangrentas, que pareciam phantasmas resurgidos do campo da matança para
virem reclamar a eterna vindicta.

Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quasi em delirio, alguns
d'elles cahindo no chão esgotados de sangue que ainda vertiam das
feridas, outros borbotando sangue pela bocca, aos gritos convulsivos com
que narravam o caso da mortandade.



--«O Pretor Servio Sulpicio Galba convocou para uma assembléa nas
campinas da margem direita do rio Tagus, os trez Conventos da Lusitania
Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis Cidades
estipendiarias, recommendando que viessem sem armas, porque se tratava
da distribuição de terras, do estabelecimento de novas Colonias, e de
elevar alguns Povos tributarios aos privilegios de Cidades Confederadas,
de Municipio romano e do antigo Lacio.

«Confiados nas palavras do Edito do Pretor, concorreram ao local que
lhes fôra aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras; e como
se fôsse para uma festa de paz e congratulação levaram comsigo suas
mulheres e filhos, e os anciãos mais venerandos das tribus, como
arrefens do seu animo pacifico.

«O Pretor ordenou que se ajuntassem na campina em que tinha mandado
plantar uma _Arvore de Maio_, junto da qual se devia assignar o pacto
perpetuo da concordia com as Tribus lusitanas.

«Emquanto se esperava o Pretor cercado da sua Cohorte, começaram a
apparecer quatro Legiões, que se formaram em _orbis_, estendendo em
ordem de batalha as suas tres fileiras, e envolvendo como em uma grande
muralha toda aquella multidão inerme! Ninguem suspeitava o intuito do
subito envolvimento.

«Os manipulos da Legião, com as suas bandeirolas fôram marcando os
logares, que á frente de todos occuparam os Hastarios; por traz d'estes
ficaram os Principes dispostos de modo a por entre elles poderem recuar
os que lhe estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os
_Triarios_, como barreira de resistencia.

«Depois d'isto appareceu a Cavalleria, correspondendo quinhentos
Cavalleiros a cada Legião, armados com o gladio hispanico de dois gumes.
Foi então que um gelido terror se apoderou d'aquelle povo indefenso. As
lanças e chuços dos Hastarios collocaram-se por um movimento repentino
em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos.

«O Pretor Galba não apparecia! Um presentimento de morte se estampou na
lividez de todos os rostos, quando viram por detraz dos triarios
moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas.

«Com certeza Galba planeára uma infamissima traição! Como fugir-lhe? As
mulheres, em lamentos atroadores, abraçavam os filhos, sem perceberem
ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudencia, esperando serenos as
ordens do Pretor.

«N'este momento de angustia pezados calháos fôram de longe arremessados
por catapultas contra aquella multidão compacta, esmagando alli algumas
centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade; os que
tentavam fugir fôram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos
Hastarios; os que se estreitavam uns aos outros n'um panico
inconsiderado abafavam-se.

«E emquanto iam chovendo os grandes calháos arrojados pelas catapultas,
cahiam sobre a multidão as _Falaricas_ ou lanças incendiarias, que os
Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos
arremessavam panellas de pez e estôpa ardendo, que os Cestrophendones
faziam cahir no meio da assembléa.

«E como se não bastasse tudo isto para destruir aquella gente desarmada,
os Fundibularios baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre
certeiras, coadjuvados pelos Arcubalistas.

«A multidão ainda se movia, embora não offerecesse resistencia alguma;
mas Galba, querendo terminar a sua hediondissima traição e vendo que o
sol já declinava, resolveu o final exterminio antes do descer da noite.
Os Cavalleiros recusavam-se á fadiga de passar á espada tantissima gente
inerme que ainda sobrevivia. Foi então que Galba se lembrou de como na
guerra de Macedonia, Paulo Emilio deveu a victoria decisiva ao emprego
da tactica dos Elephantes; e deu logo ordem a que os dez Elephantes
offerecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra
os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os
temerosos rebeldes Lusitanos.

«Os Elephantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas fôram
conduzidos para aquelle montão de gente, cuja carne e sangue formava com
a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez
Elephantes sentiam-se fracassar os ossos das victimas, e o sangue
respingava-lhes até aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas
que eram casualmente arrancadas na sua passagem.

«A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espêsso se erguia dos
valles fundos. Foi então, que ainda d'entre o montão dos cadaveres se
ergueu um vulto surrateiramente, e saltando ao pescoço de um Elephante,
o pezado animal cahiu redondamente morto em terra! As trévas iam-se
engrossando, e o vulto agil e escorreito foi assim saltando sobre cada
um dos Elephantes, que por seu turno iam cahindo mortos! Quem seria esse
vulto extraordinario, que sabia o segredo de dar a morte instantanea a
tão poderosos animaes, em cuja pelle não penetravam os mais pujantes
dardos? Quem quer que fôsse, elle sabia o segredo apprendido nas Guerras
punicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vertebra que toca no
craneo do Elephante fazia-o cahir fulminado instantaneamente. Assim
fôram mortos os dez Elephantes.

«A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandára lançar fogo ao montão
dos cadaveres entre os quaes fôram encontrados os dez Elephantes de
Massinissa, d'entre esses cadaveres escaparam-se alguns individuos que
se tinham occultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram
mortos: são esses os que andam de cidade em cidade da Lusitania e da
Turdetania pedindo vingança! Vingança! Vingança!»



Por valles e serras, e resoando de monte a monte, entoava-se um Canto de
guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espiritos
ainda os mais acabrunhados. O Canto podia mais do que a reflexão, e cada
povo accrescentava-lhe uma nova estrophe, como a aspiração do resgate. A
palavra poetica é alada, o pelo prestigio da tradição transpõe as edades
repercutindo-se na alma dos vindouros.

    *Baladro de guerra*

    Terra da Lusitania,
    Ensopada de sangue
    Por horrendo baldão!

    Chamou-nos o Romano
    Para a alliança de paz,
    Mata-nos á traição!

    Virus de iniquidade,
    D'esse fermento de odio
    Brote a destruição.

    Que a lança dos Quirites
    Se quebre, e em nossa frente
    Não se erga Legião!

    Quem sobrevive ao crime,
    E escuta estes lamentos
    Da atroz desolação;

    Quem perdeu lá seus filhos,
    Os paes, entes queridos,
    O esposo, o irmão;

    Que se revoltem todos,
    Peitos sejam escudos,
    Lanças raios na mão!

    Soffrimento e opprobrio,
    A morte e a vingança
    Forçam á união!

    Vós, Povos da Callaecia,
    De Oretania, Beturia,
    Cynesia região;

    Robustos Carpetanos,
    Tartessios, desmembrados
    Da Lusonia nação!

    Que o mesmo odio nos una,
    Vingae mortos, e os vivos
    Salvae da escravidão!

    Reviva a Lusitania,
    Ensopada no sangue
    Da romana traição.



V


De todas aquellas povoações até onde chegára o rumor da horrente
catastrophe, partiram homens audaciosos, movidos pela curiosidade para
observarem com os seus olhos os despojos que restavam; alguns não
voltaram mais aos seus lares, porque iam engrossando uma onda dos
revoltados contra tamanha traição. Os que regressavam espavoridos
contavam o assombro que lhes causára o vêr uma ampla campina coberta de
cadaveres incompletamente carbonisados, em volta dos quaes uivavam lobos
em numerosas alcateias, e aguias e abutres que esvoaçavam em bando sobre
a vasta presa, cujo fetido os attrahira de longe. As calmas estivaes
tornavam-se mais intensas, apressando a putrefação de tantos cadaveres;
as fortes nortadas levavam até muito longe os miasmas, e n'uma e n'outra
cidade da Lusitania appareciam ameaços aterradores da peste. Era a
perspectiva de uma mais horrivel devastação, porque se não via o látego
mortifero que flagellava os povos. Um pensamento de piedade pelos mortos
occorreu suscitado pelas calamidades:



--É certo que esses corpos insepultos reclamam dos vivos o cumprimento
de um dever sagrado! Em quanto lhes não dermos sepultura condigna, suas
almas andarão errantes diante de nós, perturbando-nos, perseguindo-nos
até acordarmos do nosso desdem egoista. Carecemos para propria segurança
de lhes darmos sepultura segundo o patrio e antigo costume, quando se
encontra um morto n'um ermo ou n'uma encruzilhada. Que cada cidade,
villar ou aldeia, faça suas peregrinações ao campo da matança, e
seguindo a tradição da piedade, cada um arroje uma pedra para cima dos
cadaveres até que se formem Montes Gaudios, que serão os tumulos
venerandos dos nossos desventurados conterraneos.

Segundo aquelle costume, vogou de cidade em cidade a ideia da funebre
peregrinação, e não eram ainda bem passadas duas luas quando por toda a
Lusitania se operára um movimento que ligava todas as povoações no mesmo
affecto. Os mortos podiam agora mais de que os vivos, porque por via
d'elles se uniam tribus até aquelle dia inconciliaveis, que iam visitar
o campo da matança e lançar suas pedras para erguerem bem alto os Montes
Gaudios, que deviam tornar-se não um simples monumento funerario, mas
uma como torre de protesto e de eterna revolta. Muitos povos dispersos
nas regiões de entre Durio e Minio, entre o Durio e o Tagus e mesmo os
que se achavam para lá da banda de Traz dos Montes, desde a foz do Anas
até ao Mar Cantabrico, adheriram á desolação dos Lusitanos, e mandaram
tambem peregrinações ao campo da matança para que os Montes Gaudios
attestassem aos vindouros que elles se consideravam formando parte
d'este valente e activo povo ribeirinho que dos seus portos de _Lez_ e
das suas bem trabalhadas _Lezirias_ tomára o nome nacional de
_Lusitania_. O ecco da grande catastrophe produzida pela perfidia impune
de Galba chegára egualmente aos confins dos territorios dos Asturios e
Celtiberos. Os Povos denominados Carpetanos, os Vettões, os Vacceos e
Callaecos, que sempre se tinham conservado apartados para o norte da
Hespanha esperando constituir uma Confederação e unidade política sob o
nome de Callaecia, agora sentiam-se dominados pela insondavel fatalidade
que arrastára os destemidos e independentes Lusitanos á maior das
ruinas; elles vierão em magotes vêr de perto a horrorosa mortandade, e
arrojar piedosamente mais pedras para os Montes Gaudios. Esses tumulos
cresciam, como attestando ao mundo, que eram innumeros os corações que
pulsavam por inultos mortos, e que os mesmos braços que arrojaram
aquellas pedras, serão os mesmos que arremessarão as suas lanças e
brandirão as pezadas lorigas contra o fautor da execranda iniquidade.

Assim se fôram formando bandos e numerosas guerrilhas, imperfeitamente
armadas, que clamavam por vingança; e vendo que muitas cidades alliadas
dos Romanos, e outras por temor ou covardia, não tinham vindo celebrar a
cerimonia dos Montes Gaudios, foi contra ellas que arremeteram na sua
ancia de vindicta. Passavam ja de dez mil os Lusitanos que se ajuntaram
em differentes guerrilhas, entregues á aventura e audacia de destemidos
Cabecilhas, que fôram descendo para o sul da Peninsula, devastando e
roubando quantos povos encontravam que estavam no goso do patronato
romano. Chegaram até á Turdetania, essa opulenta região banhada pelo
Betis, tendo por limite da parte do norte o curso do Anas; e levaram a
sua audacia até ao ponto de atacarem a importante fortaleza de Gades, ou
Gadir, como lhe chamaram os Phenicios. Não era sem rasão que os
viajantes phenicios, gregos e romanos diziam que os Lusitanos eram o
povo mais numeroso e valente entre as nações de toda a Iberia.



VI


A Hespanha Ulterior estava quasi completamente insurrecta. Passavam de
dez mil os Lusitanos revoltados contra o poder de Roma, e que juraram
sacudir o infame jugo. No seu Conselho armado decidira-se, que todo
aquelle que podesse sustentar-se a cavallo, embora velho ou doente, se
appresentasse para o combate; mesmo as crianças que podessem alevantar
um chuço ficavam obrigadas a incorporar-se nas turmas e milicias de cada
terra.

Era o começo de anno estival, e na _entrada de Maio_, em que se faziam
as dansas e cantares debaixo do verde pinheiro, e em que os homens
validos, os chefes de familia, effectuavam as grandes paradas das suas
forças defensivas. Parece que o ajuntamento d'aquella multidão enorme
respirava um ár de festa, uma alegria communicativa, em que a ideia de
morrer pela liberdade da sua terra dava uma exaltação delirante;
dir-se-hia que era a _Primavera sagrada_, em que novas colonias iam pelo
mundo para fundarem uma outra cidade. Verdadeiramente era uma entrada em
campanha, em que o costume vinha coadjuvar a necessidade. Viam-se homens
da estatura meã, e enxutos de carnes, de cabellos pretos e olhos
castanhos, ligeiros e ageis, capazes de resistir a todas as intempéries,
soffrendo todas as privações mas sempre alegres; traziam pendurados ao
pescoço, por correias, pequenos escudos de tamanho de quatro palmos, e
prezas á cinta umas compridas facas, a que se soccorriam em lances
decisivos, e ainda no combate pessoal. O braço era armado com uma lança
comprida, com uma ponta de bronze e um gancho ao lado, servindo para
ferir e prender aquelle que topasse na frente. Apenas lhes defendia o
corpo uma couraça de linho crú fortemente tecido, ou treu, sobre a qual
assentava uma cóta de malha tecida de arame, que nenhum dardo poderia
atravessar. Capacetes de couro com triplice cimeira cobriam-lhes as
cabeças, aparando com segurança os golpes dos montantes; outros
guerreiros traziam os cabellos compridos, como usam as mulheres,
cingidos com nastro na fronte, no momento das refregas; os peões
appresentavam-se com cnémides, saiaes negros, e chuços; outros com
bragas forradas de pele de cabra, ou safões. E os Cavalleiros, montavam
alazões e fouveiros, com estribos em fórma de concha feitos de madeira;
com mantos listrados formando quadrados variegados. Formavam grupos de
trez em trez, a que davam outr'ora o nome de _Trimarkisia_, indo um dos
Cavalleiros á frente no ataque, ficando mais atraz os outros dois para o
defenderem e substituirem. Reinava uma certa ordem n'essa multidão,
dividida em catervas de infantes ou peões, com alguns Cavalleiros nas
alas extremas: e os Hastarios, os Sagitarios, ou archeiros, os
Fundibularios, moviam-se com uma ligeireza extrema, tomando os
Cavalleiros como pontos de mira para se ajuntarem no sitio em que se
tornava mais urgente a defeza ou o ataque. Os Carros, ou Covões armados
de longos espetos, eram puxados a quatro cavallos, empregando-os para
romperem a ordem da infantaria inimiga, e para servirem de parapeito e
estacada defensiva detraz dos quaes os archeiros arrojavam os seus dardos.

Foi no meio de uma anciedade de lucta, que entre as Catervas lusitanas
correu a nova, de que já pisava terras de Hespanha o Consul Caio
Vetilio, com tropas frescas e aguerridas; o Senado encarregára-o de
reprimir o levantamento provocado pela infamissima traição de Galba,
que, deixando-o impune, tacitamente a approvava. Vetilio chegou a
Corduba, onde assentára o seu quartel general. Tudo se sabia no campo
lusitano, porque não faltavam esculcas e mensageiros, que davam conta
dos movimentos do velho Consul.

Em Corduba ia Vetilio ajuntando todas as tropas romanas, que estavam
como presidiarias, formando phalanges com as que trouxera de Roma, e
dando-lhes uma forte disciplina, que centuplicava a sua resistencia. Não
havia tempo a perder; a rapidez do ataque muitas vezes decide da sorte
da campanha, e Vetilio como general experimentado comprehendeu que tinha
de luctar com tribus de uma resistencia tenacissima, que se deixavam
matar, mas que não transigiam com a perda da liberdade da sua terra.

O territorio da Lusitania, que se conservára submisso, fôra, pela
traição de Galba, agitado por uma insurreição tremenda; com a maxima
rapidez e a marchas forçadas, o Consul Vetilio, no rigor do inverno,
transpozera os Pyrenneus, vencendo difficuldades insuperaveis, e
engrossando as novas Legiões com as tropas que nas provincias
pacificadas estacionavam em seus quarteis de inverno. Entrava na
Hespanha Ulterior com um grande exercito, maior do que aquelle com que
partira de Roma, e o exito da empreza fôra bem calculado--cahindo de
surpreza sobre as populações insurrectas, e impellindo-as á defensiva,
sem tréguas, sem lhes dar tempo para organisarem a resistencia.



VII


Vetilio deu ordem para que o seu exercito, de mais de dez mil homens
sahisse de Corduba, e seguindo em massa compacta pela Turdetania fôsse
ao encontro das tribus lusitanas; e fortificadas por uma severa
disciplina, contava que as tropas luctariam com vantagem contra Catervas
impetuosas, mas sem a cohesão de um bom e seguro commando, nem a lucidez
de um pensado plano estrategico.

E não se enganava. Ao segundo dia de marcha, Vetilio avistou ao longe,
em um valle immenso, grande numero de Carros de guerra, e Cavalleiros, e
por traz d'elles, negrejando, Catervas de peões, que pela direcção que
traziam, com certeza vinham sobre Corduba com intenção de assediar o
exercito romano, ahi na capital da Turdetania. Era o instante opportuno.
Vetilio manda organisar em columna todos os seus infantes: aos flancos
os seus Carros, com os projectis incendiarios; a Cavalleria mais atraz,
destinada a envolver as tribus lusitanas durante o ataque.

Desde que as tropas romanas fôram avistadas pelos Lusitanos, um grito
immenso como de alegria retumbou nos áres, como os renchilidos e apupos
ou atruxos com que se distinguiam as varias povoações lusonias; e
d'entre esse ruido escutava-se o ecco de cantos, de hymnos, que davam
uma animação indescriptivel ao movimento dos combatentes. Vetilio
contava com o enthusiasmo dos Lusitanos no primeiro assalto, e reservou
todas as suas forças para sustentar o pezo d'esse primeiro impeto. E a
carga dos peões lusitanos foi imponente, mesmo incomparavel. Valeu-lhe
ao Consul o sangue-frio que soube mantêr; e foi assim, que subitamente
reconheceu, que o exercito dos Lusitanos, tão numeroso como o seu, e que
não constava de menos de dez mil homens, não tinha cohesão entre si;
faltava-lhe a disciplina, e mais do que isso pela ordem de combate
descobriu que essa multidão compacta não tinha um general, que
sustentasse intelligentemente o commando. O numero extraordinario dos
combatentes lusitanos complicava a sua propria segurança, pela falta de
um chefe digno d'este nome. Este relance de Vetilio bastou para abranger
a situação, e no seu espirito entrou a segurança de que seria certa a
victoria. E tirando partido da situação comprehendeu que para vencer era
a melhor condição empenhar-se em uma batalha campal com todas as suas
tropas; por que embora os Lusitanos aguerridos apresentassem um egual
numero, faltava-lhes o commando, o que tornava perigosa a sua situação
em campo raso. As Legiões estavam então formadas com quatro mil infantes
de linha, que se dividiam em trinta manipulos ou companhias, manobrando
em campanha como a unidade tactica de uma divisão moderna. E esses
manipulos ou companhias, agrupavam-se em cohortes ou batalhões, em
numero de dez.

Passado o primeiro impeto de uma carga destemida de lanças, que os
soldados de Vetilio apararam rijamente nos seus escudos, o Consul
aproveitou-se da tactica aprendida nas guerras de Hespanha, e
mandando-os formar em _cunha_ rompeu as filas dividindo-as, mandando em
seguida as suas quadrigas a toda a carreira sobre os flancos, para
evitar que tornassem outra vez a reunir-se. Os Cavalleiros dispersos por
entre a multidão desorientada, trucidavam incessantemente os que
encontravam com um furor attonito, mal sabendo defender-se. A Legião
romana mais uma vez, sob o commando de um habil chefe, patenteava a
importancia da sua constituição estrategica. A lucta prolongou-se com
coragem da parte das tribus lusitanas, mas repentinamente ellas
reconheceram-se enfraquecidas, não por falta de valentia, nem de
bravura, mas pela imprevidencia com que entraram em campanha, sem um
chefe que as dirigisse e tivesse firmemente disciplinado.

Toda a lucta n'estas condições era uma temeridade estulta, um inutil
sacrificio. A batalha era agora insistentemente continuada por Vetilio;
milhares de cadaveres cobriam o solo recalcado, e o Consul pensava já em
aniquilar toda essa multidão lusitana que ainda resistia. O sol
declinava; prestes viria a noite, e era de força que o triumpho de Roma
ficasse definitivo. Os Lusitanos sem esperança, sentiam-se cansados; a
fome e a sêde hallucinava-os até ao desespero, e cercados no valle em
que tinham sido surprehendidos, só viam um unico refugio para escaparem
ao inevitavel destroço--renderem-se!

D'entre o campo dos Lusitanos fôram enviados a Vetilio quatro
emissarios, levando erguidos ao alto ramos de oliveira. O Consul
consentiu que chegassem á sua presença, e que appresentassem a mensagem;
um d'elles por nome Diálcon, fallou:

--Vimos aqui pedir a suspensão do combate, e a paz, rendendo-nos em
massa ao Poder de Roma!

O Consul mandou suspender as hostilidades; e perguntou com dureza aos
emissarios:

--Quem responde pela revolta contra a soberania de Roma?

--Nós todos, perdendo o direito de Povos livres; mas conservando sómente
a liberdade individual de cada lusitano.

--É muito! retorquiu-lhes o Consul.

--Se não quereis matar-nos, passando tudo á espada, só poderemos
acceitar a vida com a liberdade individual que pedimos. E é isso bem
pouco, diante do Poder de Roma; porque de hoje em diante podereis
mandar-nos habitar o territorio que á _grande e generosa_ Roma lhe
aprouver conceder-nos. Ahi em campos de concentração, nos conservaremos
quietos e submissos no cumprimento de todas as imposições.

Parecia mais que fallava um traidor do que um vencido; mas o escalavro
das forças lusitanas era estupendo e tudo justificava. O Consul Vetilio,
velho e astuto, determinou que os emissarios se retirassem, voltando na
madrugada para assignarem o pacto da rendição e submissão perpetua,
incondicional e peremptoria, vindo acompanhados de refens nobres, que
pela sua vida ficariam responsaveis pela tranquillidade das tribus
lusas. No resto da noite, Caio Vetilio ficou pensando nas consequencias
da sua incomparavel victoria, no prestigio que teria em Roma, no impôsto
de guerra que cobraria das populações subjugadas, dos escravos que o
acompanhariam na entrada triumphal na Cidade do Tibre! Os sonhos
acordados são mais bellos do que os que se tem dormindo, mas não são
menos fallaciosos.



VIII


Noite cerrada, quando os emissarios chegaram ao acampamento lusitano.
Eram esperados com trépida anciedade. Traziam alçados os galhos de
oliveira, denunciando de longe a concessão do armisticio e no seguinte
dia o assentamento da paz. Extenuadas de fadiga e famintas, as hostes
ouviram sem espanto as condições prévias impostas pelo Consul Vetilio.
N'aquella angustia desesperada apagavam-se as energias moraes, e
era-lhes mesmo indifferente que a Lusitania fôsse livre ou escrava. E
considerando a situação, trezentos lusitanos para trez mil romanos
patenteavam uma desproporcional desegualdade, que seria rematada loucura
defrontarem-se as forças.

Quando os emissarios accentuaram as palavras de Vetilio--submissão
perpetua e incondicional, com garantia de refens para a effectividade do
pacto--ouviu-se um rugido, como de uma féra que se vê subitamente preza.
Esse rugido não articulado, que nem mesmo era imprecação, infundiu uma
emoção terrifica e desconhecida. Olharam todos em volta da gente que se
atropellava junto do Conselho armado, e viram um homem bastante novo, de
menos de trinta annos, de estatura mediana, delgado, mas robusto e de
aspecto decidido. Fez-se um silencio inesperado, involuntario, por que
aquelle impeto de colera fizera suspender qualquer resolução repentina e
fatalmente covarde. O vulto pareceu crescer com a grandeza da commoção,
e aproveitando o momento unico, fallou:

--Para ser escravo de Roma não são precisos tratados, nem refens. Tudo
isso é um ludibrio. Todos nós sabemos como a grande e generosa Roma
cumpre os seus tratados. Seremos nós tão estupidos e indignos, que ainda
depois da inolvidavel traição de Servio Galba, e da sua impunidade,
confiemos n'uma potencia, que, não fallando já das riquezas, nos rouba a
nossa liberdade? E esse Consul, que está em campo aberto, com as suas
Legiões contra nós, que outro intuito tem senão a oppressão da
desmembrada Lusitania, e o animo exclusivo da rapinagem? Bem pouco tempo
ha decorrido sobre o estupendo morticinio, e já parece que ninguem aqui
se lembra do juramento feito sobre os despojos dos clamorosos
trucidados. O verbo do juramento foi--_Vencer ou morrer!_--Eu ainda não
perdi a esperança de vencermos...

Um rumor irrepressivel cortou a phrase do moço, que suscitára latentes
energias.

Elle continuou em um tom firme e de crença communicativa:

--Que loucura o confiar na fé dos Romanos! A tregua que nos concedem até
ámanhã é um torpe embuste; o Consul pançudo finge que nos outorga uma
paz generosa, simula a assignatura de um pacto para conseguir por esse
meio capcioso a entrega das armas pela nossa parte, e em seguida, como é
de uso, extermina-nos em massa, porque não quererá ser menos do que
Servio Sulpicio Galba. Tal é a sorte miseranda que vos espera a todos,
se...

Diante d'esta suspensão intencional e suggestiva, muitas vozes soltas
d'entre os grupos o interromperam:

--Que fazer? que fazer?

--Resistir!--exclamou promptamente o moço, confiado e sorridente: Nada
está perdido. Poderemos salvar-nos, e até mesmo...

--Falla! falla! Dize o que temos a fazer.

--Obedecer-me.

Ao ouvirem esta phrase incisiva e simples, mas com uma vibração
sobrehumana, que denunciava uma absoluta confiança em si,
entreolharam-se todos abalados, hesitantes, como que interrogando, quem
era e d'onde viera aquelle homem audacioso. Elle proseguiu:

--Comprehendo a vossa desconfiança; não me conheceis de figura, nem
mesmo esta estatura meã e magra se vos impõe, como o faria qualquer
colosso. Mas, quem aqui se recordar do nome de _Ouriato_, d'aquelle
pastor que conseguiu escapar da carnificina de Galba; d'aquelle que sabe
o segredo de dar morte instantanea aos elephantes africanos; d'aquelle
que andou de cidade em cidade proclamando a insurreição, a guerra santa
e a vindicta contra o invasor estrangeiro, contra a occupação dos
Romanos, que nos escravisam, reconhecerá que é um homem decidido que vos
offerece a salvação e talvez a victoria.

--Ouriato! Ouriato!--proromperam de todos os lados vozes de acclamação.

Este nome proferido n'aquelle lance extremo de um exercito prestes a
entregar-se, reaccendeu coragem nos animos abatidos; todos esperaram que
Ouriato completasse o seu pensamento, dando-lhe em um tacito
assentimento a certeza da inteira obediencia. O pastor fallou:

--Desde os mais tenros annos, eu trabalho na deambulação dos gados, que
vêm das regiões calmosas para a frescura dos dois Herminios, e d'aqui
dirigindo-os para os seus bostaes na epoca das invernias. N'este
serviço, em que se me tem confiado mais de vinte mil cabeças de gado, e
por que soube sempre defendel-o dos perigos das barrocaes, dos ursos e
da pilhagem dos romanos, cheguei a ser Maioral, ou chefe da Mésta! Bem
comprehendereis que, embora novo, eu devo conhecer como as palmas de
minhas mãos todos os territorios da nossa Lusitania, os seus montes, os
seus valles, covões, algares, cavernas profundas e passagens dos váos
das ribeiras e cachões dos caudalosos rios. É esse conhecimento o que
n'este momento me dá um poder unico e inesperado.

--Obedeçâmos a Ouriato! gritou a multidão entrevendo o plano de uma
retirada habil.--Obedeçamos-lhe cegamente!

Ouriato, fitando os principaes chefes dos terços, que se tinham
approximado, expoz com simplicidade:

--Aqui em frente de nós, passado aquelle outeiro, estende-se uma planura
vasta, revestida de uma relva fina e variegada como um tapete, que dá
vontade de retoiçar sobre ella! Ai de quem deixar ahi entrar os
rebanhos! Essa planura encantadora chama-se o Barrocal fundeiro. Todas
as suas ravinas fôram niveladas pelas neves do inverno, e sobre essa
face lisa aos primeiros adoçamentos da temperatura, desabrochou com uma
pasmosa vivacidade o nardo ou gervum, formando um espêsso e cerrado
tapete em que as raizes se entrelaçam rijamente! É um gosto deslisar
sobre esse vistoso relvado, que exhala um perfume estonteante; mas as
neves vão-se derretendo por debaixo d'elle, e infiltrando-se pela terra
mole e lodacenta; o tapete de verdura mantem-se então encobrindo todo o
Barrocal, conservando uma apparente planura! Gado que alli pise rompe
com o seu pezo o tecido forte das raizes do gervum, e abysma-se pelas
terras moles, d'onde não é possivel arrancal-o. Pois bem! é para ahi que
eu conseguirei attrahir o exercito de Vetilio; hade ficar como o
carrapato na lama.

O terror converteu-se em alegria, irrompendo uma gargalhada
estrepitante. Então levantaram Ouriato sobre os hombros, alguns dos
companheiros que com elle escaparam da carnificina de Galba; e á luz das
fogueiras do arraial, elle fitou as catervas que contemplavam o pastor
destemido. Brandindo no ár a foice roçadoira, que sempre o acompanhava,
Ouriato proferiu:

--Eu juro, mais do que pela minha vida, pela liberdade d'esta nossa
Lusitania, que salvarei o exercito, com tanto que me obedeçam, na
execução do plano. D'isso depende o exito completo.

Cavalleiros, peões, fundibularios, todos sem reserva ergueram os braços
dextros para o ár, como symbolo sacramental, bradando unisonos:

--Juramos obedecer-te! até á morte.

--Ouriato é o nosso chefe.

--Ouriato manda sobre nós todos; ninguem tem mais poder do que elle.

E collocando Ouriato sobre um grande escudo feito de coiro crú, quatro
valentes hastarios erguendo-o bem alto, levaram-o em redor do
acampamento em uma marcha solemne, parando de vez em quando para gritarem:

--Ouriato é o nosso chefe!

--Ouriato manda sobre nós todos.

--Obedeçâmos-lhe até á morte.

Á maneira que o nome de Ouriato ia resoando na calada da noite, tambem
na reminiscencia da soldadesca se acordava a vaga relação com o nome
glorioso de um valente lusitano, que em tempos não remotos acompanhando
Annibal, fôra combater os romanos até á propria Italia. Esse ainda
lembrado VIRIATHO, que no seu odio contra Roma transpozera os Pyreneos e
os Alpes, dizem que morrera na batalha de Cannas; mas o seu odio não
morreu, é redivivo. E por ventura não será Viriatho o que agora
reapparece na figura do Maioral da Mésta, do valente Ouriato? Como elle,
é um salvador que resurge, um vingador da liberdade da Lusitania?

Este prestigio espalhou-se entre a soldadesca, influindo por modo
absoluto na confiança do commando de Ouriato. E desde aquelle momento os
dois nomes identificaram-se, como synthetisando a missão do guerreiro
que votava a sua vida á defeza da Lusitania livre de todo o jugo
estrangeiro. Emquanto levavam o novo general em triumpho, e as
acclamações repercutiam por todo o acampamento lusitano, os chefes
depostos conformaram-se pela necessidade da situação desesperada a tudo
cumprirem. Acercaram-se do novo chefe, para receberem as
particularidades do plano da cilada sob a fórma apparente de retirada
urgentissima, logo ao primeiro alvor. Todas estas disposições fôram
organisadas aproveitando o costume dos generaes romanos de suspenderem a
marcha durante a noite.

As cohortes lusas, emquanto aguardavam o momento de se moverem, cantavam
coreadamente:

    *Acclamação de Viriatho*

    Ha setenta e dois annos
    Que falta aos Lusitanos
    Um braço que os defenda
    Da escravidão horrenda!

    Rumor incerto espalha,
    Que morreu na batalha
    Que se travou em Cannas
    Contra as Legiões romanas.

    É rumor não exacto;
    Não morreu Viriatho!
    Porque o odio não morre,
    E esse odio nos soccorre.

    Rejuvenesceu hoje!
    Viriatho nos arroje
    Á implacavel guerra
    Por esta livre Terra.

    Salvador desejado,
    Não debalde esperado,
    Vencerão seus tyrannos
    Por ti os Lusitanos.



IX


Acclamado chefe supremo, acceitou Ouriato desde esse momento o titulo de
Viriatho, que já não era um nome mas uma prestigiosa invocação, um grito
de guerra, que dava confiança e energia ás almas. O que Viriatho
assentou no Conselho armado com os chefes dos terços e catervas, de
essedarios e trimarkisios, sobre o seu plano estrategico, patenteou-se
d'ahi a poucas horas nos pavorosos effeitos.

Rompia a madrugada. Vetilio, em seu acampamento, esperava os emissarios
lusitanos para effectuar-se a rendição e a deposição das armas.
Alvorecia-lhe um dia de gloria: firmava de um modo estavel o dominio de
Roma na Hispania Ulterior, e antegostava a entrada triumphal na Cidade
eterna, ladeado de despojos riquissimos e prisioneiros. O sol erguia-se,
e Vetilio, estranhando a demora, entendeu tirar partido do caso
inopinado, que justificaria todas as atrocidades que ordenasse contra as
tropas que na vespera lhe tinham mandado pedir paz á custa da liberdade.
Ordenou logo o formar o exercito consular em acies, ao qual passou a
senha irrevogavel:

--Sem tréguas, nem quartel.

O exercito romano começou a mover-se e a avançar, e a pouco tempo de
marcha Vetilio viu negrejar fronteiros e estendidos um esquadrão de
Cavalleiros lusitanos, dispostos em ordem de batalha, e firmes sobre o
terreno como se esperassem o assalto. O Consul olhou desdenhoso para o
inimigo; não passariam de mil os Cavalleiros, que permaneciam impavidos,
como a vedar-lhe o horisonte.

--Sem chefes! para que lhes serve a resistencia? A victoria é minha.

E em seguida Vetilio deu ordem para que seguissem sempre para a frente
as quatro Legiões do exercito consular, abrindo caminho a Cavalleria,
começando a batalha por uma carga contra a linha fronteira dos lusitanos.

Viriatho, montado em um cavallo branco, deixou approximar até bem perto
a Cavalleria romana, que vinha á desfilada; e a um signal dado a linha
cerrada dos seus mil companheiros dividiu-se em duas, debandando cada
fragmento para seu lado, com uma rapidez de quem sabe trilhar por
combros e ribanceiras. Notou Vetilio o facto com surpreza, vendo
desapparecer escoteiramente os dois troços dos mil Cavalleiros, como se
dispersam os bandos de estorninhos ou de pardaes, cada qual como melhor
e mais ligeiramente podia. Não teve tempo para reconhecer se aquillo
seria covardia ou estrategia, por que pela fuga repentina dos
Cavalleiros descobriu diante de si uma extensa e larga planura
arrelvada, de uma verdura avelludada, e além no extremo d'ella o
exercito lusitano fazendo evoluções para dispôr-se em ordem de batalha.
Pareceu a Vetilio, que os mil Cavalleiros lhe fechavam o horisonte, para
não serem bem conhecidas as forças lusitanas, ou para lhes dar tempo a
escolherem um local em que melhor se defendessem; e sem pensar em dar
caça aos fugitivos, deixou a Cavalleria seguir no seu impeto, e apoz
ella as cohortes das Legiões, que em carreira vertiginosa avançaram por
sobre a verde planura, com o fito em esmagar por uma valente carga a
infanteria lusa.

As tropas que seguiam mais atraz dos triarios, os rorarios, os accensi,
os ferentarios, estacaram horrorisadas, quando viram pela planura verde
e extensa enterrarem-se os Cavalleiros, desapparecendo debaixo d'elles
os cavallos, outros sumindo-se completamente, e os manipulos dos
hastatos chafurdarem nos lodos que esguichavam do tapete da relva
formosissima! Caso nunca apontado nos annaes militares de Roma. Ninguem
conhecia um tão extraordinario phenomeno de terreno. A planura fôra
feita pelas neves do inverno, enchendo os medonhos barrocaes; a
superficie lisa era revestida pelas relvas espontaneas do gervum, cujas
raizes entrelaçando-se resistentemente formavam uma crosta que simulava
um solo que tremia, e sobre a qual podia passar sem perigo de romper-se
um viandante. Foi isso o que enganou Vetilio: por que alguns
guerrilheiros lusitanos corriam sobre certos pontos da patameira.
Viriatho, conhecedor de todos aquelles accidentes do territorio,
calculára bem, e fôra melhor coadjuvado. Uma grande parte do exercito
romano estava annullada ou perdida, atolada nas terras moles, e nos
barrancos occultos debaixo da capa traiçoeira da verdura do gervum. A
temerosa desgraça que ameaçara as tribus insurrectas, invertera-se agora
tornando irremediavel a derrota das Legiões consulares.

O exercito lusitano, proseguindo no cumprimento do plano estrategico de
Viriatho, dirigiu-se para Tribola. Pelo menos toda a Cavalleria ligeira
dos romanos ficou atolada nas lamas, e com ella a infanteria composta de
besteiros ibericos, germanos, gregos e asiaticos; e mesmo alguns
Centurios e Tribunos do commando das Legiões. Uma tremenda desgraça,
impossivel de prever, e por ser caso unico e excepcional, tanto mais
inevitavel até para um homem experimentado e cauto como Vetilio.

Pela retaguarda do exercito consular reappareceram os mil Cavalleiros,
soldurios de Viriatho, que tinham jurado acompanhal-o sempre em todos os
transes, e que entendiam as suas ordens pelos silvos de uma buzina, como
se usava na deambulação da Mésta. Viriatho reconheceu pela obesidade o
Consul Caio Vetilio, e elle mesmo por sua mão o arrancou dos lamaçaes em
que tinha preso o cavallo:

--Não me serves para escravo; és velho e pançudo. Ninguem dará por ti um
sestercio.

E tocando-lhe com a foice roçadoira no hombro, continuou Viriatho:

--Não te matarei, sem que te defendas.

Vetilio fitou attonito aquelle homem magro e enxuto de carnes, e vendo
que tudo para si estava acabado, atirou com a sua espada ao chão,
renunciando como caricata a qualquer tentativa de defeza. Um dos
soldurios de Viriatho atravessou o Consul com um dardo de lado a lado;
mas em Roma referia-se que Vetilio morrera sim, mas ás mãos do proprio
Viriatho.

O exercito consular, reconhecendo-se sem chefe, abandonou o campo e
tratou de pôr-se a salvo. Em marchas forçadas, os seis mil legionarios
que escaparam dirigiram-se para uma cidade do litoral chamada Carpesso,
na região da Tartessida. O Questor pretorial tratou de organisar-lhe a
defeza, fazendo em roda da cidade fóssos e trincheiras da terra
revolvida, com receio do assalto do destemido cabecilha lusitano ás
arcas do thesouro, ás bagagens, auxiliares e cavallos de remonta, que
por irem no couce do exercito não se encravaram na patameira.



X


Depois d'este feito, em que o exercito lusitano se viu salvo pela
astucia e coragem de Viriatho, a confiança no seu commando
centuplicou-lhe as forças, seguro de que elle o conduzirá á victoria, e
só elle saberá sustentar a independencia da Lusitania. Uma cousa veiu
acordar o resurgimento do acabrunhado povo, o impeto que suscitava esta
incomparavel victoria da astucia sobre a força bruta.

Quando Vetilio foi agarrado por Viriatho, os lictores que acompanhavam o
Consul com os feixes de varas peculiares da dignidade curul,
entregaram-as ao vencedor, como uma transferencia do poder supremo. O
Cabecilha mandou desamarrar os feixes de varas, e distribuiu-as pelos
seus soldurios, aos de maior confiança d'entre os mil Cavalleiros que se
lhe devotaram:

--Cada um de vós, irá por todos os Castros, Citanias e Herminios, cravar
no chão a vára do lictor, que eu entrego na fé celtiberica. Essa vara é
o symbolo da guerra accesa e contínua; onde ella se hasteia chama os
povos ás armas, e exige soccorro aos que combatem. Tal é o poder da
antiga tradição da nossa raça. E se a lança fincada no chão podia mais
do que um grito de guerra, a vara do lictor arrancada ao poder do Consul
romano hade alevantar todas as nossas tribus unindo-as n'uma só vontade,
para repellirem o invasor do seu territorio.

Cem soldurios partiram logo com as varas distribuidas dos feixes dos
lictores, e fôram craval-as nos herminios e montes povoados, como um
annuncio da inesperada victoria, e de que a guerra contra os Romanos
seria agora incessante. Foi assim a noticia levada muito longe, e de
longe vieram novos trôços e viveres, para reforçarem e abastecerem os
guerreiros lusitanos.

Ditalcon, um dos tres companheiros que andam junto a Viriatho, lembrou
ao Cabecilha um sacrificio de cavallos e prisioneiros ao deus Neton.
Viriatho com a sensatez, que era uma das suas forças, volveu-lhe
seccamente:

--Não ha tempo a perder; nem um inimigo como o romano se combate com
festanças.

Ditalcon calou-se ao repellão do espirito pratico do chefe.



XI


Em Roma tratava-se de organisar á pressa uma nova expedição á Lusitania,
para castigar os barbaros que assim annullavam o prestigio das suas
armas. Já apontavam como general o destemido Caio Plancio. Recrutou-se á
pressa Cavalleiros e infantes, dos mais válidos e experimentados das
campanhas na Africa.

No emtanto reina um vago terror; em Carpesso está fechado o resto do
exercito destroçado de Vetilio. Se o Questor pretorial terá sabido
manter o commando, e salval-o da audacia de Viriatho! Nada se sabe em Roma.

É certo que o Questor pretorial procedeu com tino, exigindo dos povos
alliados de Roma a contribuição de homens de armas, para reforçar o
exercito romano e fazer frente ao cabecilha. Conhecia os odios
instinctivos que havia entre os Iberos e os Lusitanos, e aproveitando
essa antinomia, mandou emissarios ás cidades celtibericas dos Tittos e
dos Bellos, para que, pelo dever da alliança, lhe enviassem um reforço
de cinco mil homens, e sem perda de tempo. O caso urgia-o, porque
Viriatho, obedecendo ao inveterado odio, que tornava irreconciliaveis as
duas raças, em vez de pôr assedio a Carpesso, estendeu-se em correrias
pela região da Carpetania, habitada pelos mais poderosos e ricos dos
povos celtibericos.

Toda essa região fertilisada pelas nascentes do Tagus e do Anas estava
já em poder do Caudilho lusitano; e quasi sem combate occupou a cidade
de Toletum, a opulenta capital, em que assentou o seu quartel e governo.
A cidade, reconhecendo o heroismo com que evitára o morticinio dos seus
habitantes e a rapina da soldadesca, celebrou festas publicas, de jogos
gymnicos, danças e cantares.

Prolongavam-se os festejos na cidade, quando vieram dizer a Viriatho,
que não longe passavam tropas, vindas dos lados do Ebro, que se dirigiam
para o sul da Betica. O general comprehendeu logo:

--Do lado do Ebro? É gente que vem das faldas do monte Idobeda. São
celtiberos, alliados dos Romanos.

Deu ordem a Tantalo que fôsse fazer um reconhecimento; e no entretanto
organisou as suas forças para ir-lhes ao encontro.

Eram effectivamente soldurios e ambactes das povoações celtibericas dos
Tittos e dos Bellos; fôram reconhecidos pelos seus trajos, de safões ou
anaxyrides, e apertados com cintos, que prendiam em volta do corpo os
sagos, tingidos com a côr roxa com que Roma veiu a distinguir os seus
escravos. Marchavam descuidados pisando as planuras da Carpetania,
seguros de que transpunham um territorio amigo, do mesmo sangue
celtiberico. No seu reconhecimento Tantalo não fôra visto, e por isso
sabendo Viriatho que esses alliados dos Romanos pouco passariam de cinco
mil combatentes, saíu-lhes ao encontro com uma presteza inaudita,
surprehendendo-os em um matagal de zimbro e giestas, em que os cercou
lançando o fogo em redor, e matando á espada todos os que intentavam
romper o cêrco. Não escapou um só d'esses alliados de Roma; e como não
houve quem levasse a Carpesso a desastrosa noticia da matança, o Questor
mais angustiado se viu com a tardança dos soccorros, acreditando que os
Tittos e os Bellos se teriam revoltado a favor de Viriatho.

O fogo da vastissima queimada destruira todos aquelles cadaveres;
Viriatho, aproveitando a mobilisação dos seus guerrilheiros, e para se
precaver contra a nova campanha que Roma estava organisando, dirigiu-se
para o paiz dos Vettões, que confinavam ao sul dos povos Lusitanos, para
confederal-os na defeza da sua autonomia contra o invasor estrangeiro.
Comprehenderam o perigo, e celebraram o pacto de alliança defensiva.
D'esse paiz montanhoso dirigiu-se para o territorio dos Vacceos, que o
Durius atravessa. Já pela sua capital Pallancia, pelas cidades de Cauca,
Septimanca e Rauda corria uma voz mysteriosa, em que o povo acreditava,
que se levantaria um filho de Lusonia para recuperar a liberdade da
terra invadida e roubada pelos Romanos. Contava-se que o maravilhoso
heroe apparecia nas batalhas montado em um _cavallo branco_, e que a
victoria era sempre sua. Viriatho convocou os homens bons das cidades,
narrou-lhes a derrota do exercito do Consul Vetilio, e, como o sangue
dos Lusitanos da infame traição de Galba fôra duramente vingado;
contou-lhes como assentára o seu arraial em Toletum, e como anniquilára
os cinco mil soldurios que os Tittos e os Bellos mandavam a Carpesso
soccorrer o exercito romano, que alli se accolhera destroçado. Contava
pois com a cooperação dos Vettões e dos Vacceos, para a grande empreza
de repellir do sólo da Patria o sangrento e expoliador estrangeiro.
Catão o antigo, e Tiberio Graccho bateram as tribus celtibericas, e
Servio Galba mentiu á fé dos Lusitanos, porque na Peninsula não
apparecera até então um general, que podesse dar cohesão a tantas forças
dispersas.

Viriatho foi comprehendido, e jurada a alliança defensiva, marcando os
Vettões e os Vacceos o prazo irrevogavel em que appresentariam as suas
forças em Toletum.



XII


Lembrado da sua vida de pastor, quando na deambulação dos gados do sul
para o norte, fugindo ás calmas, Viriatho dirigia a Mésta e sabia os
recessos onde defendel-os, occorreu-lhe á memoria um campo
entrincheirado em uma extensa planicie em que corre o rio Pavia, formado
de terra recalcada, resistente e quasi petrificada. Quantas vezes n'esse
asylo formado pelas gerações passadas, ahi estiveram seguros milhares de
rebanhos e manadas, quando algum perigo se arreceiava! O Cabecilha quiz
vêr outra vez esse vasto recinto de fortes muros de adobe, considerando
que na lucta em que se achava empenhada a sorte da Lusitania, por
ventura lhe seria necessario conhecer os seus recursos estrategicos.

Conhecedor de todas as verêdas e atalhos, facil lhe foi encurtar
distancias, e em poucos dias de jornada, elle e os taes companheiros
chegaram ao valle do Pavia, fechado na sua vastidão por pinheiraes
cerrados de um verde escuro que contrastava com a claridade do
horisonte. De longe ainda avistaram a vasta chã, contornada pelas
muralhas de terra em fórma de um poligno octogonal irregular, e uma
altura de setenta e cinco palmos nos seus muros e aterros. Eram outo
muros, tendo para mais de cento e quarenta palmos de espessura, fechando
um circuito de mais de trez a quatro mil passos; um largo fôsso o
circumvallava exteriormente.

Ao avançar para a grande muralha d'aquella fortaleza de terra, Viriatho
parecia cada vez mais pensativo; um plano estrategico lhe fulgurou na
mente:

--Ah! que se eu conseguisse encurralar no Poço da Cava um general romano
com os seus Legionarios todos. Eu lhe converteria o reducto defensivo em
ratoeira!

E descendo das alturas da Esculca por um declive suave, entrou Viriatho
na grandiosa Cava, que era como um enorme circo, dez vezes maior que o
de Roma. Ahi, no angulo das duas faces do quadrante noroéste via-se um
pequeno charco de agua nascente, que se tornava em uma lagoa com as
aguas das invernias. Os gados e pastores alli bebiam e se banhavam,
pelas fortes calmas; era uma vantagem inapreciavel, sempre aproveitada
pelos homens da Mésta. Cabia uma cidade dentro d'essas muralhas.

Viriatho esteve considerando por longo tempo este fundo do valle, regado
por duas ribeiras, abrigado por montes e collinas de um pendor brando.

--Quantas vezes do cimo da Esculca vigiei, olhando para longe, na defeza
dos rebanhos. Como esta Cava, conheço uma outra da mesma configuração
aonde me accolhi muitas vezes. Não está aqui ninguem que me tenha
acompanhado na transhumação dos gados e recolhido na Cava da Beira, quem
vem de Belmonte ao Fundão, por entre essas serras dos Herminios e da
Gardunha! Nada fica a dever a esta; mas como refugio desesperado nada ha
que eguale a Cava da Beira, um circumvallo inexpugnavel! Póde-se ahi
dormir no chão, tendo as estrellas do céo por cobertor; lá o somno é
mais agradavel que sobre as fôfas lãs da Salacia.

Contando com a presteza das armas romanas, Viriatho regressou a Toletum
para passar revista ao exercito engrandecido pelos contingentes dos
novos alliados, e marchar em seguida para a Carpetania; era para ahi que
lhe convinha attrahir o general romano.



XIII


As varas consulares espalhadas por todas as tribus, gentes e federações
da Hispania Ulterior, annunciando a victoria sobre Caio Vetilio, e a
necessidade de sustentar a guerra contra os Romanos, produziram um
effeito surprehendente em todos os espiritos, sobretudo nos Chefes das
Behetrias, ou Cidades confederadas, que até alli se tinham conservado
indifferentes nos seus castellos roqueiros, sem confiança no
levantamento do povo, por falta de um commandante prestigioso. E
comquanto esses chefes das varias Contrebias se entregavam á caça do
javali ou do urso, em luctas de mutuas rivalidades, ou se banqueteavam
opulentamente, os Pretores romanos iam estendendo a rêde das estradas
militares, conquistando ou destruindo Cidades, e firmando o seu poder
inabalavel. As varas dos lictores espetadas por todos os montes e
pequenos herminios, acordaram o sentimento vivo da independencia nacional.

As tribus lusitanas tinham estabelecido as suas cidades, villares e
casaes em volta de diversas montanhas, que eram como o centro da área de
defeza, e o refugio nos assaltos da guerra inimiga. Essas montanhas eram
cercadas de muralhas formadas por grandiosos blocos graniticos, e
escavadas em fundos subterraneos, em que se depositavam cereaes e
comestiveis, e com cisternas para guardar as aguas pluviaes, tendo além
d'isso um escadorio interior e reservado que dava escapula a grande
distancia, em geral á beira de um rio, para o caso de ser tomada a
fortaleza. Alli é que residia o presidente ou chefe das tribus que
viviam em volta do Castro; e pela contagem de todas as familias formavam
uma população de mais de dez mil individuos. Era a esse conjuncto, que
se dava o nome de Contrebia; os seus chefes ou regedores, eram
designados como _regulos_ e _duces_ pelos romanos, que comparavam estes
agrupamentos lusitanos com as phraetrias gregas. Como não havia ordem de
successão n'este poder presidencial, resultavam conflictos e rixas, que
se mantinham por odios de familias, e até de tribus que se hostilisavam,
aproveitando do enfraquecimento d'estas dissidencias o invasor romano.

Agora parecia, que uma intelligencia da missão dos Castellãos se
revelára subitamente com o conhecimento da derrota de Vetilio; e as
tribus, suscitadas pela vista das varas dos lictores, reclamavam que
sahissem da inacção; que prestassem o seu apoio ao extraordinario
Cabecilha, o vingador da matança de Galba. Constava que Viriatho, depois
da sua victoria se recolhera á cidade de Toletum, preparando-se para
novo combate ao Pretor que em breve chegaria de Roma com aguerrido
exercito; resolveram todos esses chefes dirigirem-se a Toletum, levando
ao pescoço os seus colares de ouro, como a insignia do poder senhorial;
os seus braceletes, e lanças de prata com que presidiam aos sacrificios,
e ao tribunal em que arbitravam sentenças sobre a vida e bens dos seus
clientes ou ambactes. Partiram de todos os principaes cantões da
Lusitania esses chefes acompanhados dos seus soldurios, ou guarda-costas
valentões, para conhecerem Viriatho e lhe fallarem deliberadamente sobre
a defeza e independencia do Territorio patrio.

Quando chegaram a Toletum, ainda Viriatho estava ausente, em uma
exploração do territorio em que uma grandiosa Cava se prestava a
imprevistos planos estrategicos, a que em futuro proximo teria de
recorrer. Mas esses optimates cantonaes fôram encontrar na cidade a que
se accolhera o exercito um grupo de homens, a que davam o nome
honorifico de _Anciãos_, EN, e cuja palavra era inspirada e _eloquente_,
por isso nas velhas linguas britonicas se exprimia por _D-eirim_. O
povo, pelo costume antigo, chamava _Endre_ a cada um d'esses homens, a
quem acatavam como depositarios de um maravilhoso poder espiritual. E de
facto os _Endres_ eram propriamente os Antigos das tribus, os que
conservavam a norma e sentido moral ou historico dos costumes; não
formavam um corpo sacerdotal, nem mantinham a estabilidade de qualquer
dogma theologico, mas possuiam um saber do passado, que os tornava
oraculos vivos, conselheiros em todos os momentos arriscados, e
conciliadores nas luctas intestinas e separatistas das varias tribus. Os
_Endres_ eram queridos do povo; despidos de toda a hypocrisia de classe
e de odios doutrinarios dos sacerdocios, mofavam com o seu bom senso dos
ritos e dogmas dos _Druidas_ das Gallias, que elles desprezavam como
macaqueadores das normas cultuaes da religião oriental dos Mobeds de
Mithra, que se propagava pela Europa. O caracter e ascendente moral dos
_Endres_ estabelecia-se espontaneamente, quando o povo reconhecia em um
Ancião das tribus o bom conselho, o saber pratico da vida, e o
conhecimento das Tradições do passado; era então considerado como unico
e como inspirado. Apontavam-se na Lusitania numerosos _Endres_,
venerandos pela sua edade e saber: uns conservavam de memoria as Runas,
ou propriamente as tradições locaes e da raça, e tendo na mão o ramo da
Azinheira coberto de _l'andras_, presidiam ao sorteio annual das terras,
evitando prudencialmente todos os conflictos; outros sabiam as Sagas, ou
narrativas históricas, as _Aravengas_, que recitavam nos banquetes dos
regedores cantonaes e nas festas consagradas a perpetuar successos
memoraveis das tribus; outros conheciam as Sentenças da moral gnomica,
Singvan, os aphorismos ou dictados, que exercem justa auctoridade nas
resoluções da vida, porque condensam em breves phrases, ás vezes em um
só verso, a experiencia de seculos; outros interpretavam o sentido dos
velhos Symbolos, resolviam os mais intrincados Enigmas, e penetravam a
materia numerica dos Quadrados magicos. D'entre todos esses _Endres_
destacava-se um, pelo saber maravilhoso reunido em sua mente
incomparavel; conhecia as mais vetustas tradições da terra da Lusitania,
quando ella ainda se estendia até á falda occidental dos Pyreneos, as
terras de _Lez_, que as convulsões do tempo fôram tornando cada vez mais
ribeirinhas; só elle recitava Poemas de mais de seis mil annos de
antiguidade; conhecia as cavernas e arcas cavadas nas rochas em que
estavam occultos thesouros; e o que mais assombrava, tinha o segredo da
leitura dos Quadrados magicos e dos Bastões runicos, que lhe davam uma
fé inabalavel na independencia e missão vindoura da Lusitania. Esse
_Endre_ chamava-se Idevor, e quando passava pelos povoados saudavam-o
com o titulo de _Sanctum Anderu_, e davam-lhe corôas feitas de ramos de
azinheira. Pela sua paixão pelas antiguidades e liberdade da Lusitania
se justifica o regosijo que em seu espirito provocou o apparecimento de
Viriatho! Como a derrota por elle infligida ao Consul Vetilio o encheu
de fervorosas esperanças! Idevor appresentou-se em Toletum com _Endres_
de varias terras, e pelas conversas que entre si tiveram, facil lhes foi
apurarem um conhecimento completo da personalidade do pastor _Ouriato_,
que o povo acclamava agora pelo titulo de Viriatho. E vendo a chegada
dos chefes das Contrebias, resolveram ir ao encontro d'elles, e
dirigil-os no intuito de prestarem todo o auxilio ao destemido cabecilha.



XIV


Toletum estava em festa; pela presença d'esses homens ornados de
collares de ouro e braceletes, e acompanhados de numerosos sequitos de
soldurios e ambactes. O pequeno grupo dos _Endres_ levando á sua frente
o venerando Idevor saíu a saudal-os á entrada da cidade, e juntos todos
fôram tomar a refeição ou consoada e libar grandes covilhetes de
cerveja. Á meza um dos castellões, Leucon, chefe de tribus celtibericas,
lançou a phrase:

--Dizem que Viriatho, o vencedor de Vetilio, é um simples pastor da
Serra, que apascenta gado alheio lá no Herminio maior, que separa as
duas Beiras?

Idevor percebeu uma vaga intenção de amesquinhar a capacidade militar do
vingador dos morticinios de Galba, e com a clareza de uma consciencia
pura, que de tudo se informára, respondeu:

--Eu conheço a vida d'esse valente pastor, desde o tempo em que o seu
nome era simplesmente Ouriato. Quantos aqui possuem gados, sabem qual é
o valor de um homem a cuja guarda se confiam para mais de vinte mil
cabeças de variados rebanhos, que elle tem de defender através das
marchas da deambulação, quando são levados das terras seccas, sem prados
e abrazadas pelas calmas, para as pradarias de serras chêas de
barrancos, de ursos e lobos e mesmo de salteadores. Este serviço dos
gados na sua transhumação está organisado na instituição da Mésta, que
dirige a juncção dos gados de todos os proprietarios; e n'este serviço
só chegam a _Maioraes_ aquelles moços que revelaram qualidades
singulares de intelligencia, coragem, ardil, e que pela valentia ou
astucia souberam salvar os rebanhos de perigos ou assaltos repentinos.
Ouriato chegou a _Maioral_ da Mésta em uma edade quasi de adolescente;
foi n'esse serviço violento da deambulação dos gados, e responsabilidade
de tantos valores, que elle provou além da valentia e disciplina, as
qualidades mais intemeratas de caracter. É verdadeiramente um homem: e,
pela resistencia ao soffrimento e ás contrariedades da sorte, é o typo
dos lusitanos. O que insurreccionou a sua alma contra os Romanos foi o
ter assistido á mortandade iniqua de trinta mil lusitanos ordenada por
Galba, de que escapou maravilhosamente; e hoje o seu poder sobre o
exercito provém-lhe de o ter salvado da rendição já combinada, e de no
barrocal da patameira ter destruido quasi metade do exercito romano,
desmoralisado pela morte do Consul Vetilio. Este homem é perante o povo
uma reapparição d'esse Viriatho, que os romanos chamavam o Principe da
Lusitania, e que indo combatel-os á Italia, soccumbiu na famosa batalha
de Cannas. Esta auréola maravilhosa é tambem uma força, e com ella
podemos contar, porque Viriatho será o libertador da Lusitania. Temos um
general consumado; o povo accode ao seu chamamento, falta só o apoio dos
chefes das Contrebias.

A ameaça das reprezalias romanas fez comprehender a todos esses
presidentes das cidades federadas, que tinham de dar o seu apoio a
Viriatho como recurso da propria segurança:

«Que seja entregue a Viriatho o _Collar de ouro_ como insignia do poder,
e para que lhe obedeçâmos como nosso egual.»

Foi geral o assentimento. Então Idevor, erguendo-se com um magestoso
aspecto, disse:

--Eu sei onde pára occulta uma Viria, que attesta essa epoca em que
todos os Estados da Lusitania estavam ainda unidos. É um _Collar de ouro
de tres Crescentes_! Representa a mutua solidariedade de raça, costumes
e Governo da Callaecia, da Betica em volta da Lusonia! Eu só guardava o
segredo d'esse thesouro incomparavel, muitas vezes receiando que elle se
extinguisse com a minha vida! Felizmente que se ergueu um homem, que
pelos seus feitos os outros julgam digno de receber a Viria! O _Collar
dos tres Crescentes_ está occulto em uma caverna do Herminio maior,
desde o tempo das invasões da Hespanha pelas hordas orientaes. Pouca
gente terá pisado as veredas que conduzem ás Cavernas lindissimas do
Cantaro Magro; mas no Covão do Boi, ao sul do Cantaro raso, existem umas
ruinas ou Catacumba descoberta, com menhires e potentes monolithos
sobrepóstos; do fundo da rocha d'onde se avista o bôjo do Covão Magro
com o singular especto de _uma enorme carranca_, é ahi que está excavada
na rocha uma Arca ou caixa em que se contém o _Collar de ouro dos tres
Crescentes_. Eu me presto a ir buscal-o, e dentro em poucos dias aqui
estarei de volta.

A revelação de Idevor foi recebida com acclamações de assombro; e os
chefes das Contrebias, pedindo-lhe que fôsse buscar o thesouro da raça,
bradaram:

--Seja dado a Viriatho o _Collar de ouro dos tres Crescentes_.

Carros com pipas de cerveja passavam pelas ruas, e taboleiros com fartes
de farinha de bolota á cabeça de moças com arrecadas de ouro nas orelhas
e grossas contas de ambar em volta de pescoço; formava-se o arraial para
a entrada de Viriatho.



XV


A chegada de Idevor a Toletum com a Viria dos tres Crescentes de ouro,
de que até então se fallára como fabula ou tradição confusa, coincidiu
com o regresso de Viriatho seguido da numerosa cavalgada dos seus
Soldurios, que o fôram esperar ao caminho, e dos tres companheiros que
lhe formavam a trimarkisia, Ditálcon, Andaca e Minouro. Estes tres
bravos eram do pequeno numero dos sobreviventes da mortandade de Galba,
e pela tremenda desgraça se achavam ligados ao agil pastor que matára os
dez elephantes africanos, e com elle andaram pelas cidades da Lusitania
insurreccionando os povos contra a devastação de Roma; vinculava-os uma
decidida dedicação áquelle em quem reconheciam espontaneamente o maximo
ascendente moral. Ditálcon era o mais velho, intelligente e reflectido,
capaz de desempenhar missões difficeis; Andaca, joven e phantasioso,
mostrava-se repentinamente enthusiasta ou desalentado, segundo as
pessoas com quem tratava; Minouro, tinha algumas qualidades d'estes dois
companheiros; mas predominava n'elle a solercia, ou antes a falta de
franqueza no caracter. A victoria e a acclamação de Viriatho ligou-os
mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem não tinham inveja. Quando
elles viram Idevor e o triplice Collar, disseram entre si:

--Para o Principe da Lusitania.

Viriatho fitou-os com seccura, e abaixou os olhos desdenhoso, com o
desgosto de que alguem suspeitasse que combatia por outra ambição que
não fôsse a liberdade da nossa Terra.

Os Chefes das Contrebias, avistando Viriatho, caminharam ao seu
encontro, saudando-o com gritos de alegria, e erguendo ao ár as suas
lanças de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e á entrega
dos gados da sua região aos Chefes da Mésta, e mesmo aos tribunaes á
sombra da carvalheira, onde davam as sentenças. E elles proprios, vendo
o sabio Idevor junto de Viriatho com o _Collar de ouro_ na mão, bradaram
com enthuziasmo:

--Lançae-lhe ao pescoço a Viria do Commando, aqui, agora, antes de
entrar na cidade.

Idevor obedeceu com jubilo, e lançou-lhe o Collar de ouro. Disse um dos
chefes das Contrebias:

--Agora, dignificado com a _Viria_, é que Ouriato ficará para sempre
sendo o nosso Viriatho.

Idevor, que conhecia as mais antigas tradições da raça, acudiu com ár
mysterioso:

--Se procurarmos o sentido mystico que se contém no nome de Viriatho,
vamos encontrar na palavra scythica _Vrindus_, que designa o Touro, o
totem da nossa antiga raça e civilisação dos Ligures, a relação com a
valentia do heroe e a sua missão religiosa do combate libertador.

Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se
ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada
Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi
ahi, que antes de destroçarem, pediram a Idevor, para que recitasse a
Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou _Collar
de ouro dos tres Crescentes_.

Idevor não se fez rogado, e começou em uma recitação quasi melodica o
poema em que era celebrado este Symbolo da Confederação primitiva dos
estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na
Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito
separatista com que enfraquecera a raça. Como os Aédos de Hellade,
diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava
idealmente as tribus lusas recitando o poema de:

    *CHRYSAÔR*

    Do Herminio Maior na immensa altura
    Vê-se o _Corgo das Mós_, que as nuvens fura,
    Formado por tres grupos de rochedos,
    Como irmãos que se apoiam firmes, quedos!
    Sobre o do centro, como em pedestal,
    Bloco estupendo, grandioso assenta;
    De um Gigante a cabeça representa,
    De longe contornando no horisonte
    Negro perfil de mysteriosa fronte.

    Das convulsões da Natureza activa,
    No calor de uma lucta primitiva,
    São taes blocos relêvos manifestos:
    Mas ha quem reconheça n'esses restos,
    No bloco e nos tres grupos de rochedos,
    Da Lusonia antiquissimos segredos:
    Governou esta terra um patriarcha,
    Théron, desde o norte ao sul a abarca,
    E aos extrangeiros a fronteira fecha.

    A seus tres filhos este Estado deixa:

    --Se a terra de Lusonia dividida
    Fôr entre vós, por certo enfraquecida
    Fica exposta ao assalto do estrangeiro,
    D'Africa, ou levantino aventureiro.
    Mas se a Lusonia unida se conserva,
    Não entra aqui indomita caterva;
    E grande, desde o Sacro Promontorio
    Até ao mar Cantabrico, este emporio
    Que vae dos Pyreneus té á vertente,
    Será da Hespanha o estado mais potente.--
    Do mundo era por toda a redondeza
    Théron, por causa da sem egual riqueza,
    De Chrysaôr por nome conhecido.
    Pelo pezo da edade amortecido,
    Chama os tres filhos; vieram reverentes,
    E um aureo _Collar de tres Crescentes_
    Lhes entregou, no seu momento extremo:

    --Dou-vos a insignia do Poder supremo.
    Os trez Crescentes d'este aureo Collar,
    Pela crença da religião lunar,
    As tres phases da Lua symbolisa.
    São a Lusonia integra, indivisa,
    Abrangendo a Tartéssida virente,
    Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente!
    Ah, se partirdes este Collar de ouro,
    Cae a soberania... escuro agouro.

    E receiando o temeroso evento
    O velho Chrysaôr exhala o alento.

    Deram os tres Irmãos ao pae amado
    Nas Cavernas do Cantaro Delgado,
    Sepultura em pyramides alpinas,
    Que têm o aspecto de um castello em ruinas.
    Ante o cadaver, na alta sepultura,
    Entre si, cada um dos Irmãos jura
    Não partir o _Collar dos tres Crescentes_,
    Mantendo unidas as lusonias Gentes.
    Em catacumba do Covão do Boi
    O Collar de Ouro escondido foi,
    Fixando, do local para lembrança,
    Aquelle d'onde a vista longe alcança
    Sobre o Cantaro Magro ingente bôjo
    Que de bruta _Carranca_ tem o antojo.
    Resguardado na Arca de um fraguedo,
    Os tres Irmãos em mutuo segredo
    Conservam da Lusonia, ora indivisa,
    Do Poder soberano essa divisa.
    Ha entre os tres Irmãos tanta harmonia,
    Que sentindo o que cada um sentia,
    Ou unidos no mesmo pensamento,
    Realisam o accordo em um momento,
    Um longe, na Callaecia laboriosa,
    Outro áquem na Tartéssida formosa,
    Ou já na Tarraconia grande e forte.

    Quanta prosperidade d'esta sorte
    De Lusonia engrandece os tres Estados,
    Rica de bens, dinheiros, e de gados!
    Mas a faina do Mar fôra esquecida,
    Trocada pelas da agricola vida!
    Ah! d'aqui a catastrophe resulta,
    Que a liberdade lusa atroz sepulta.

    Quantos Povos invejam com insania
    Os viçosos Jardins da Bastitania,
    E vêm pelos cantares dos Homerides
    Buscar o Elysio e os Jardins Hispérides,
    Crendo encontrar aqui o Velocino,
    Que reconhecem ser gado bovino!
    Aventureiros lá do mundo Asiano,
    Arribaram ao porto Gaditano,
    Affrontando do pélago o terror,
    Para roubar o gado a Chrysaôr!
    Heracles forte, o tyrio, vinha á frente,
    Doésta os tres Irmãos, soberbamente,
    Para um combate a corpo, singular.
    Terrivel o recontro, atroz o azar!
    Caiu dos Tres Irmãos o irmão mais velho,
    Heracles o esmaga sob um joelho!
    E a mesma dôr, que a vida lhe arrebata
    Aos outros dois Irmãos é a que os mata.
    Desde então a Lusonia sem commando,
    Viu-se roubada de estrangeiro bando,
    Que a invade, a devasta e a governa,
    Perdida a ideia da união fraterna!
    A aspiração moral ficou intacta!
    Do _Collar de ouro_ nunca se desata
    Nenhum dos Tres magnificos Crescentes;
    E á espera de outra Éra e novas gentes,
    Aguarda, ao fim do secular destrôço,
    Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço.

    ........................................

O sabio Idevor, dominado por uma commoção profunda, interrompeu a
recitação do Poema de _Chrysaôr_, que segundo a tradição contava
milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos
narravam as primeiras invasões no territorio hispanico, que antecederam
todos os documentos ou monumentos da historia.

Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e
vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o _Collar de
ouro dos tres Crescentes_, avançou para junto de Viriatho, e depois de
fazer uma vénia solemne lançou-lhe ao pescoço a Viria da triplice
soberania.



XVI


Emquanto os Cavalleiros decorados de Collares de ouro de um só Crescente
rodeavam o novo Caudilho lusitano, começou a ajuntar-se muito povo pelo
empenho de admirarem de perto o vingador, aquelle que soubera inflingir
a formidanda derrota ao exercito consular. E naturalmente aos gritos com
que se saudavam as varias regiões autonomas:--Viva a Callaecia! Viva a
Tartéssida!--começavam-se a organisar dansas peculiares dos montanhões e
dos ribeirinhos, vistosas e com caracter guerreiro, outras
surprehendentes pela agilidade dos pés e dos saltos, com um sapateado
rythmico, ululando phrases que tornavam mais delirante o enthusiasmo. A
dansa mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda
ou circulo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens
de mãos dadas, mas tendo cada um a lança, da qual lhe provinha o nome de
_Palotêo_ ou _Paulitos_, ora avançando, e já recuando ao compasso do
canto de um Côro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por
um simulacro de batalha.

No fim do animado palotêo, appareceu um grupo de mocetonas gaditanas,
formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braços e
pernas, dansando á moda da Tartéssida, e com seus adufes, dando-lhe um
aspecto religioso orgiastico, estonteante. Os Romanos, que vieram á
Hespanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas dansas das soalhas
ou castanholas metalicas, e memoraram em seus livros a _Betica crusmata_
e a _Tartessiaca aera_, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da
Cidade eterna. Proseguindo na sua dansa fôram as bailadeiras beticas
approximando-se do grupo em que estava Viriatho, dirigindo-lhe em Côro
em fórma de corranda:

    *A Canção da Viria*

    Onde ha fontes de agua pura,
       Vamos a sêde matar.

    Onde ha graça e formosura,
       Vamos com paixão amar.

                  *

    Onde ha um bravo que vence,
       Vamos-lhe a gloria acclamar!

    A Viriatho pertence
       De ouro o triplice Collar!

                  *

    Brilha n'esses tres Crescentes
       Do sol fulgor singular:

    Sigam os homens valentes
       Esta nova luz polar.

                  *

    Onde ha odios e vingança,
       Vamos a sêde matar!

    Da Patria livre a esperança
       Vamos com paixão amar.

                  *

    Siga o triplice Collar
       O que ser livre aspirar!

Terminadas as dansas e cantares do vistoso arraial, os Chefes das
Contrebias no meio de tanta alegria começaram a atirar pequenas moedas
de prata ás rebatinhas, que o povo em chusma corria a apanhar,
atropellando-se, em cambalhotas, em que cada um no meio de estrondosas
risadas mostrava a maior agilidade e presteza. Essas moedas eram quasi
todas de valor de um drachma, e cunhadas nas cidades lusitanas como
manifestação da sua autonomia. Viriatho notou n'aquelle espectaculo
divertido, que as turmas do povo, ao agarrarem as moedas, miravam-as no
verso e anverso, e em seguida guardavam umas com soffreguidão, e
arrojavam para longe com desdem as outras. Inquiriu do caso inesperado;
foi então, que Idevor lhe explicou essa manifestação espontanea e
significativa da alma popular, mostrando-lhe dois d'esses differentes
numismas de prata:

--Reparae n'esta moeda: De um lado está cunhada uma cabeça viril, em
cabello; tem barba, e um collar ao pescoço. Do outro lado, vêdes, um
cavalleiro a galope, com a lança em riste! Agora a outra moeda: em uma
face está impressa uma corôa de carvalho, e no reverso figura um Colono
conduzindo dois bois, como quem lavra a terra. O povo conhece esta
differença, e o que ella significa. Todas essas moedas do _Cavalleiro da
lança_, são por antigo costume cunhadas em Cidades livres e autonomas,
inscrevendo n'ellas o seu nome, como vereis em tantas que para ahi se
arrojam ás rebatinhas, como estas...

E Idevor foi mostrando ao acaso as moedas, e lendo os nomes de Toletum,
Alva, Bilbilis, Segovia, Segobriga, Carissia-Celsa, Sactabis, Toriasum,
Clunioo, Gili, Italica, Sacelli, Sagunto, Lastigi, Osca, Ilipla, Itvci.
E interrompendo o exame continuou:

--Roma emprega todos os meios para substituir estas moedas pelas do
_Colono conduzindo os bois_, com que representa o seu dominio, pela
corôa de carvalho, e a servidão dos povos submettidos como os bois ao
arado, as quaes faz circular nas suas cidades estipendiarias e municipaes.

--Comprehendo agora o sentimento do povo. Repelle o jugo do estrangeiro,
e só acceita o Cavalleiro da lança. É esse sentimento que me fortifica.



XVII


Os chefes das Contrebias, ao terminar das festas, saudaram um por um a
Viriatho, e lhe fôram contando na mão _cinco_ pequenas moedas de prata,
d'aquellas que pouco antes tinham arrojado á multidão. Era a expressão
symbolica do direito individual, em uma sociedade que se regia pela
communidade das terras lavradas, das pastagens, e dos celleiros do clan
para as colheitas agricolas.

O territorio lusitano pertencia exclusivamente ás tribus ou gentes,
sendo annualmente sorteadas pelas diversas familias as geiras que haviam
de cultivar. Sobretudo nas margens fertilissimas do Douro, e no cantão
dos Vacceos, é que este communismo tradicional se conservava na sua
maior pureza. Com o tempo introduziu-se o costume de cada familia
conservar como proprio o terreno de _cinco acres_, ou agra em que estava
a casa, o poço e a horta. Era o que o rifão popular allude ainda, quando
para significar a indigencia a exprime:--_Sem eira, nem beira, nem ramo
de figueira_.

Este terreno, que tambem na primitiva familia romana tinha o nome de
_Haeredium_, era o fundamento da estabilidade da familia, e, sempre
inalteravel, era um vinculo ao qual se incorporava qualquer cercado em
que se estabelecera um novo casal. Para que esse solar se mantivesse
sempre indiviso, a herança dos irmãos da mesma familia fazia-se
excluindo-os da propriedade da terra dando-lhes _cinco moedas de prata_.

Viriatho comprehendeu o sentido da offerta que lhe fizeram os chefes das
Contrebias. Nos territorios da Lusitania elles possuiam como seus
proprios e individuaes os solares dos Castros, Castrellos, Crôas e
Môrros, Cabêços e Citanias, Penhas e Cidadelhes; e a entrega das _cinco
moedas de prata_, significando a affirmação de independencia solarenga
no meio dos territorios communaes, n'este momento representava o
reconhecimento de uma suprema chefatura. Era o direito soberano de
_Chevage_.

Na bandeira branca dos Mil de Viriatho, e no escudo do valente
cabecilha, d'aquelle dia em diante ficaram representados os cinco
dinheiros, chamando-se-lhes por isso o Pendão das _Quinas_, o Escudo das
_Quinas_.



XVIII


Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram
afamados no mundo pela tempéra rija que sabiam dar ao ferro com que
fabricavam as armas hespanholas. O seu nome já era conhecido entre os
Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e
veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:

--Bem esperava vêr-vos, e saudar-vos! As espadas que temperâmos carecem
de braços firmes como os vossos.

Viriatho tocando-lhe com a mão no hombro, e avançando pela officina ao
ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas já frias,
volveu-lhe:

--Andergus! ás espadas que fabricaes póde-se-lhes chamar magicas, porque
tornam invencível o homem que as brande.

O espadeiro sorriu-se com orgulho, e começou a explicar a Viriatho o
valor das armas que se fabricavam n'aquelle fóco de uma antiga tradição
metalurgica:

--Sabereis, que os Romanos quando vieram á Hespanha combater os
Carthaginezes usavam ainda uma miseravel espada de cobre forjado a que
chamavam _Ligula_, a qual vergava com a força do golpe e que elles
durante o combate endireitavam com o pé. Quando os Romanos viram as
nossas espadas de ferro, adoptaram esse typo para o seu armamento, que
mandaram fabricar em Astorga, Valencia e a quantos armeiros encontraram
espalhados por essas Hespanhas. Mas, o segredo da tempera do aço só nós
os Espadeiros de Toletum o possuimos, e é esta a superioridade das
espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos poderam apanhar esse segredo.

Viriatho escutava com encanto e assombro a observação de Andergus, e
sentiu-se animado de uma intima confiança com aquella revelação: as
espadas lusitanas eram de aço. E Andergus appresentou-lhe uma espada:

--Vêdes! aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro
polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta
aguçada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a
baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se
entorta e fica vergada.

E calcando a espada debaixo do pé esquerdo curvou-a:

--É romana; cá está a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. Não conheceis
talvez o que querem dizer estas letras: _Ab urbe condita_, da fundação
de Roma, no anno _seiscentos e tres_.

--Ah! do anno da matança. Acudiu Viriatho.

--Agora vêde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro
como se fôsse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois
palmos, e de folha mais estreita. É mais leve, e incute o golpe mais
longe, porque a tempéra do aço dispensa a grossura, necessaria ao ferro
doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os
Romanos; elles não conhecem esta nossa vantagem.

No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraçando
Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:

--Não temeis que um dia vos roubem o segredo da tempéra do aço?

--Esse segredo está n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas.
É aqui n'esta região que sómente se póde dar ao ferro em brasa a dureza
impenetravel.

Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte,
exclamou com jubilo:

--Uma terra que tempéra com as suas forças occultas o ferro por essa
fórma unica, essa terra só póde ser pisada por homens livres
communicando ás suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mim alguma
cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.

Andergus fallou-lhe mysteriosamente:

--Não é só a agua e as areias auriferas do Tagus que dão ao ferro essa
força inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon;
este céo tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este céo
azul e profundo. Quando o metal está derretido, e á sua superficie a
calda reflecte esse azul ferrete do céo, é quando álgum influxo da
abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe tão assombrosa qualidade.

Andergus fallava com uma confiança absoluta em Viriatho, e n'aquelle
momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um
certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e
maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba,
confessou-lhe:

--Muito quizera forjar por minha mão uma Espada, que fôsse a vossa
companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor
romano. Não devo fazel-o; ha uma Espada heroica já consagrada por
victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e é
essa a que vos compete.

--Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.

--É a espada _Gaizus!_ devolveu promptamente Andergus: Não sei aonde
ella está occulta, mas ha por certo quem o saiba. É um talisman de
liberdade. Dizem que está enterrada, e creio que em chão lusitano, ou
com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e
Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada _Gaizus_ apparecer, e
vier á vossa mão, saberão os romanos o que é um raio...

Viriatho presentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas
Andergus fallava de uma tradição vaga, e nada mais podia adiantar. E
levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao pé das forjas,
das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros,
mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:

--Já podestes vêr a _Spatha_ e o _Gladius_, comparando-os com a nossa
Espada hispanica de aço puro, com uma nevrura ao meio ou especie de
quina; agora reparae para esta Espada curta, é a _Machoera_, á maneira
de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga.
Verdadeiramente lusitana é a _Rhanda_, a faca ou naifa de quasi dois
palmos, pendurada á cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos
trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram,
porque de ha muito deram em usar a _Rhanda_ pendurada ao lado direito.
Se nós fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor
pratico posso attestar, que a _Lancea_ romana é imitada da nossa lança
ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas
como a _Soliferrata_ são completamente de ferro. Mas, deixemos aos
homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos
seus roubos; aqui estão as _Tragulas_, com a sua ponta em fórma de
anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules
romanos.

--Tenho mais confiança na Falcata, uma gadanha que chega a dar os
resultados de uma boa espada.--Acudiu Viriatho, terminando o seu
pensamento:--Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos,
forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo.
Em Roma já se diz, que o mais destemido general não é capaz de fazer
virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperança de que ainda hão de
tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçôa.

Viriatho despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incude, quando
viu apparecer o vulto de Idevor, que o procurava. Pouco fallaram; mas um
movimento repentino de todos os terços e catervas lusitanas, postos em
marcha instantaneamente, era revelador de que já pisava terras da
Hispania Ulterior um general romano, um Pretor de confiança. Sobre os
escudos feitos de couro crú e cordas de tripa entretecidas de arâme, os
soldados lusitanos batiam pancadas rythmadas, a cujo som cantavam os
seus hymnos triumphaes e os clamores do Tripudio antes de entrarem em
combate. A marcha fazia-se a esta cadencia das Cetras, que resoavam com
estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os impetos
da acção.



XIX


A derrota de Vetilio era commentada em Roma por fórma que se ligava
pouca importancia á resistencia dos Lusitanos; attribuia-se a um defeito
da organisação do exercito. Dizia-se que o patriciado romano, temendo
que nas guerras longinquas os generaes conseguissem um grande prestigio
sobre as Legiões que commandavam, se tinha estabelecido, que em cada
Legião houvesse mais do que um chefe, sendo commandada por seis Tribunos
militares, que por turno se succediam. Lamentava-se que geralmente os
tribunos militares fôssem eleitos pelo povo e pelo senado, muitas vezes
entre a mocidade inexperiente e por favoritismo. Que, verdadeiramente,
era com os Centuriões que o general podia contar, por que esses sahiam
da fileira, chegavam ao commando dos manipulos pela sua bravura, e
conduziam as cohortes, até se elevarem a primipulos da Legião.

Era no Consulado de Publio Cornelio e de Caio Livio, quando foi nomeado
novo Pretor para governar e commandar o exercito que operava contra os
Lusitanos, o destemido Caio Plancio. Fôram-lhe entregues dez mil
Legionarios e mil e quinhentos Cavalleiros, para engrossar as tropas que
estavam recolhidas em Carpesso. O Pretor queria proceder com rapidez, e
mostrar a Roma desalentada, que elle submettia para sempre esse povo
irrequieto, que não se conformava com o jugo da Patria das Leis. Soube
que o exercito de Viriatho permanecia na Carpetania, e quiz ir ao seu
encontro, logo.

O Caudilho lusitano exultou de alegria, vendo aquella resolução
inconsiderada.

--Plancio obedece inconscientemente ao meu plano, vindo pisar um terreno
desconhecido. A victoria é nossa.

E assim que as suas vedetas lhe vieram dizer, que o exercito de Plancio
estava quasi á vista, Viriatho dispoz as suas tropas por fórma a
acceitar a batalha campal. Era com isso que contava o Pretor, fiado na
disciplina inflexivel dos seus Legionarios, sempre com vantagem sobre
tropas mal adestradas. Viriatho tomou immediatamente a offensiva
carregando com os seus hastarios sobre o exercito romano; mas esse
movimento impetuoso e apparentemente desvairado era um embuste. Plancio
acreditou na furia cega da gente lusitana, e quando travou o combate,
seguro de que em breve a teria derrotado, a um signal combinado todos os
guerrilheiros lusitanos viraram costas ao exercito pretoriano em uma
debandada rapida, vertiginosa e inesperada.

Plancio hesitou um momento sem comprehender aquelle exodio repentino:

--Fogem! Isto não é exercito; é um bando vil de cobardes. Não
deslustrarei o meu exercito perseguindo o bando fugitivo.

E deu ordem a que se destacasse promptamente um trôço de quatro mil
homens para dar caça ao lusitano.

Quando Viriatho comprehendeu pelo movimento dos manípulos a intenção do
Pretor, rejubilou, exclamando:

--Temol-o cahido na cilada.

E quando o trôço dos quatro mil, que ia em perseguição dos lusos, já
estava distante do exercito romano uma boa legua, Viriatho cáe em pezo
sobre elles, envolve-os e chacina-os com presteza, escapando apenas
aquelles que conveiu, para que levassem a tremenda impressão da
catastrophe a Plancio. Nunca as espadas temperadas com as aguas do
Tagus, que lhes dava toda a rijeza do aço, trabalharam com mais nitidez.
Caio Plancio sentiu-se ferido no seu prestigio, e a perda d'aquelles
quatro mil homens revelava-lhe a importancia do inimigo com quem tinha
de combater. Faltava-lhe já a frieza da rasão, e arrojava-se contra
Viriatho como o boi contra o panno vermelho. Viriatho tinha prevenido a
hypothese, de no caso de derrota, accolher-se aos fraguedos da Serra
d'Ossa; mas não lhe foi preciso, antes aproveitando a exaltação em que
Plancio se encontrava, seguiu avançando para o norte e transpoz o Tagus.

--Será Plancio tão inconsiderado que venha aqui á margem direita do rio?
Se elle tal faz, saberá o que é uma derrota fundamental; hade ter que
contar em Roma.

E Plancio, dementado pela furia que lhe produziu a mortandade dos quatro
mil legionarios, atravessou o Tagus para a sua margem direita.

Viriatho estava acampado em uma collina coberta de oliveiras; quando ao
sopé da montanha appareceu o exercito de Plancio, seis grandes matacães
graniticos fôram rolados do alto, precipitando-se e esmagando tudo
quanto encontraram diante. No meio do assombro e da desordem produzida
pelo espantoso successo, Viriatho deu ordem para uma carga de lanças,
proseguindo á espada a batalha campal, para mostrar ao general romano
que os lusonios tambem sabiam bater-se com tropas disciplinadas em campo
raso, em corpos de seis mil homens, em _linhas symetricas_ tanto para o
ataque como para a defeza, com a formatura em cunha, e protegendo-se
mutuamente.

Plancio, vendo que prolongar o combate seria tornar mais completa a
derrota, ordenou a retirada para a margem do Tagus, empregando todos os
seus recursos estrategicos para conseguir passar o rio; uma vez na
margem esquerda os que se salvaram, foram procurar refugio nas cidades
fortificadas, em que o poder romano se firmára na peninsula.

Em um festim em que Viriatho reuniu os chefes da campanha, e quando
entregava desinteressado aos seus guerrilheiros os despojos tomados ao
exercito de Plancio, entre as conclamações ruidosas dos Peltastas e
Cetrados exclamava sorrindo:

--O verão ainda agora vae em meio, mas já o exercito romano busca abrigo
nos seus quarteis de inverno.

--Emquanto elles cosem os rasgões que lhes fizeram as nossas adagas, não
deixemos que estas se enferrugem; vamos infligir o castigo a esses povos
que contra nós os auxiliaram, desde o Tagus ao Ebro.

E se bem o disseram melhor o cumpriram.

A noticia da derrota vergonhosa de Plancio produziu em Roma uma commoção
inconcebivel. Uns acreditavam que as minas de prata e as riquezas da
Lusitania ficariam para sempre estancadas, e exclamavam com rancor: É
preciso anniquillar esse povo barbaro, que assim se atreve a resistir
contra a civilisação da grande e generosa Roma. Que o Pretor Caio
Plancio seja chamado a Roma, para dar conta dos seus actos, d'esses
miserandos feitos com que infamou as armas romanas, cujo prestigio é a
base do poder da Cidade eterna.

E Plancio nem tempo teve para reorganisar o exercito com que se salvára
depois da derrota nas faldas do Monte-Veneris; chamado a Roma, para
apresentar-se diante do Senado, elle partiu menos seguro do que Galba;
não levava barras de prata e ouro para corromper os seus juizes, não lhe
deram tempo para isso. A narrativa da campanha na Lusitania era
inacreditavel, e por isso a sentença estava prevista,--a deposição e o
desterro, para que não se fallasse mais d'elle, e para que os futuros
generaes apprendessem no temeroso exemplo.



XX


Emquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra,
Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia,
até ao Ebro; veiu depois a léste até á Edetania, Contestania; e passando
por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretanía. Era um
reconhecimento dos territorios e das povoações! sabia aonde teria facil
refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor
estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam
contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando
Viriatho pisava já o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens
alemtejanos com uma mensagem; traziam a _Crantara_, a Lança
ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que
Viriatho sopezou a Lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a
fôram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmo quatro homens
com ella. Significava aquelle symbolo a convocação dos chefes militares
e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado.
Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da
Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios,
quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem
assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem
pelos latrocinos dos Romanos. No ádito sagrado das suas sepulturas é que
os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resoluções
irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages
da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão,
tendo um palmo em quadrado de diametro; é o unico em toda a peninsula
hispanica. É por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta
corporação hieratica não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos
sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas;
interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a
esse buraco escutava os eccos mysteriosos que só elle em uma
concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados
ao Conselho armado.

Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato
curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, até á chapada
de rochas schistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a Anta
veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes
columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre
quatro d'elles assentava uma vasta lage em fórma de mesa, como ára dos
sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura
dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabêço em que a Anta se
eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o.
Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de
todas as perseguições conservava a tradição das tribus lusonicas; era
elle que nas commemorações dos finados, annualmente, alli vinha depôr,
na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que
interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra
que os cobria.

O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam
alli representados os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos, os Callaicos,
os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se
preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras
esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos
hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido á
cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cóta de malha, e
nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos
heroicos, alguns offereciam á Divindade lançando sobre a mesa da Anta,
mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a Pedra furada,
ajoelhou e debruçou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se
um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo
tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que
pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou
com intimativa:

--Viriatho? Viriatho! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás ás
mãos dos Romanos!

Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o
depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraçal-o
pela consagração, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto,
como se, desde aquelle momento, se tornasse um sêr sobrehumano.
Disse-lhe Minouro:

--Agora em vez de um Pretor, póde Roma enviar-nos dois, para aparar
melhor o pezo da derrota.

Andaca, batendo-lhe no hombro:

--Mas, pelo seguro, a força do oráculo está em uma boa espada.

Viriatho apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a
com garbo, como fiado na sua tempéra e flexibilidade; mas com espanto
viu, que mão traiçoeira lh'a tinha destemperado, porque dobrava-se como
se fôsse uma lamina de chumbo:

--Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos!

Então Ditálcon, vendo a confusão que tomára o Cabecilha:

--Mesmo sem espada serás vencedor; o oráculo não mente.

Idevor tomou a espada torcida das mãos de Viriatho, e disse-lhe com
alegria:

--Esta acabou já o seu destino; serviu emquanto o teu impulso generoso
levantou o espirito de resistencia nas abatidas tribus lusitanas.
Inspiraste confiança! as populações seguem-te, porque vêem em ti o
restaurador da independencia, da liberdade, e do futuro glorioso da
Lusitania. A nossa Lusitania é imperecivel. Aqui na Anta da Candieira
guardara-se a Espada maravilhosa e invencivel, o _Gaizus_, escondido
para não ser tomado e empregado contra nós pelo invasor estrangeiro, e
sempre ignorado, por que até hoje não apparecera um filho d'esta terra
capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriatho! o testemunho
dos Antepassados proclama:--Nunca serás vencido! E é da sua sepultura,
d'este Cairn sacrosanto que eu tiro a Espada invencivel, o maravilhoso
Terçado que ahi se guardou até ao momento em que appareceste e te
patenteaste digno de servir o Peito lusitano.

Dizendo estas palavras, Idevor metteu o braço pela pedra furada, e como
revolvendo com a mão um thesouro invisivel, sacou com geito pelo buraco
da lage um montante de aço.

Abeirando-se de Viriatho:

--Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a
brandir pela Lusitania têm certa a victoria. Que ella passe de mão em
mão, e de edade em edade.

Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com
desvanecimento, e brandindo-a no ár, gritou:

--Hade ser livre a Lusitania.

A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era
uma _lamina curva_, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente,
e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a
curva por fórma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de
gume. O fio era tão resistente e cortante, que se fôsse a Espada
brandida com força decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse
visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo á
_Copide_ oriental, com que batalham os Argivos, ou á _Sicca_ dos Persas
e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta
que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma
tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade
que a tornava inquebrantavel. Não era indifferente a comparação com a
_Sicca_ dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera á
Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com
uma Espada de _Lamina curva_ matára o _Touro_, que symbolisava as
Crenças e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada começou a apparecer
com um caracter mysterioso! Pertenceria ella ás éras primitivas d'essas
espantosas luctas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com
uma cabeça de Dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os
desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de
mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel
que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fôra
temperada no sangue de um Dragão! A sua tempéra não será esse segredo
que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as
incrustações de ouro, não serão a prova de que as areias auriferas do
Tagus misturadas no ferro derretido é que lhe dão esse poder cortante o
incomparavel do aço.

Idevor, correndo a mão ao longo da lamina, descobriu sem esforço a face
lisa de uma vaga côr azulada, e que semelhava o cariz do céo; entregou-a
a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a á cinta do lado direito, dizendo:

--Esta Espada encontrou o braço digno de brandil-a no ár. Ella tem um
nome, como têm todas as Espadas dos Heroes; são como elles uma entidade,
com quem se consorciam; chama-se _Gaizus_, segundo as tradições
religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a
insignia da _Viria dos tres Crescentes_, que hoje usas como supremo
chefe, te dá a rasão do titulo de _Viriatho_, de agora em diante como
portador da Espada maravilhosa serás conhecido entre os que te
acompanharem até á morte pelo nome de _Porto-Gaizus_...

Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre
numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de _Gaizus_, e entre
os kimricos _Gaisus_, de _Hesus_ entre as hordas celticas, e _Gaisos_
entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no chão,
tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao ár livre e o
tribunal do julgamento. A Espada era a representação divina e o emblema
da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.

Viriatho espetou a Espada _Gaizus_ na terra, reunindo-se todos os
guerreiros em volta; e Idevor proferiu a

    *Benção da Espada*

    Fita de luz traça no ár o raio,
    Quando encastella nuvens a rajada:
         É assim esta Espada!

    Em botes de alto abaixo e de soslaio,
         Ou quando cáe a fundo
         Golpe seu iracundo!

                  *

    Contra os tyrannos firma a Liberdade,
    E fortalece a Confraternidade.
         Quem amal-a não hade?

    A Terra em que nascêmos ella cobre,
    Tal como um galho secular frondente
         Abriga a livre Gente.

    Como thesoiro que o valor redobre,
    Lampejando no punho de um heróe,
         Sempre sagrada foi.

                  *

    Espada de Justiça e de Equidade,
    De uma Patria o emblema, a magestade,
         Quem amal-a não hade?

                  *

    Se ella cahir do valoroso pulso
         Por traição ou por morte,
    Ao sumir-se no derradeiro corte,
    Da independencia guardará o impulso.

                  *

    Quem descobrir a lamina fulgente
         No revolvido chão,
         Cumprirá--a missão
    De tornar livre a soffredora Gente,
    Dando-lhe a consciencia de Nação.

E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho
armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pães de glande
de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os
picheis de céria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e
depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram
cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um

    *Coral de Tripudio*

    Terra da Patria!
    Querida terra,
    Liberta e altiva!
    Na paz, na guerra
    A alma idolatre-a,
    Para ella viva.

    Nosso chão patrio,
    Terra querida,
    Sempre liberta!
    De um mundo és átrio,
    Nunca vencida,
    Por ti--álerta!

    Terra sagrada
    Da Patria amada,
    Sê triumphante!
    Pequena e forte,
    Até á morte
    Avante! ávante!



XXI


Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que não tinha chegado a
devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos
campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que
aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que
vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas
de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao
pescoço, descalças de pé e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a
sementeira do linho. Ellas não se apavoraram com a passagem da
cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fôram-se
approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas,
que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam
ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. É
certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas
geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas
alternadamente uma Cantilena dos _Trabalhos do Linho_, que na sua emoção
fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava
uma d'ellas, como deitando o pé da cantiga:

    Quem anda a semear o linho,
    Bem sabe que hade viçar
    Para trabalhos passar.

    Tambem quem semêa amores
    Aqui, além, á ventura,
    Sem se arrecear de dôres
    Doce esperança procura;
    E nascem-lhe em vez de flôres
    Trabalhos para passar.

    Antes o linho semear
    Pelos vallados e encosta,
    Do que um olhar sem resposta,
    Desdens que são de matar;
    O amor que se não desgosta
    Não póde raíz deitar.

E emquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a
que cantava:

--Caenia! não descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.

E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um
timbre de arrancar a alma:

    Pelos trabalhos do linho
    Está-se a gente a entender:
    Nasce o amor para soffrer.

    D'entre abrolhos do caminho
    Quantas flôres a nascer!
    Foi quando vim a entender
    Que me davas com carinho
    Tua vontade e querer,
    Pondo fim ao meu soffrer.

A mesma voz que interrompeu a que levantára a cantiga:

--Aponia! não fiques para traz; ou tu já não és cantadeira de fama?

Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e
de paixão commovente:

    Bota uma flôr azulada
    O linho, estando a florir:
    Tem essa côr teu sorrir!

    Sabendo que eras amada,
    Segredaste de mansinho:
    --Para sempre!--Sonho lindo.
    Ainda te estou ouvindo...
    Foi pelo semear do linho,
    Ou mesmo na espadellada.
    Antes que o fio mais fino
    Chegue a fiar-se na roca,
    O que ouvi de tua bocca
    Fiou o nosso destino,
    Teceu o casto cendal
    Para o cortêjo nupcial.

Os cavalleiros, que se tinham atrazado da comitiva, atiraram com o
dinheiro que levavam para o grupo das raparigas; e mettendo-se a
caminho, a trote largo, iam dizendo:

--As mulheres fazem por nós o trabalho dos campos, em quanto por aqui
andamos empenhados n'esta guerra sem treguas.

--E eu que jurei não tornar mais a entrar em casa, a abraçar a mulher e
os filhos, em quanto não vir estes romanos escorraçados. Heide cumprir o
juramento, ainda que me arrebentem as saudades.

--Dá vontade de morrer por esta terra, quando bebemos estes áres, quando
nos banha esta luz de um céo tão azul! A cantiga das raparigas fez-me
vêr isto tudo, como até hoje eu nunca tinha visto.

E no trote largo em que iam, incorporaram-se na cavalgada, que foi
diminuindo á medida que cada um dos cavalleiros tomava a direcção do
solar em que residia.



XXII


Recebendo a Espada _Gaizus_, lembrou-se Viriatho das palavras do armeiro
de Toletum, lamentando que os indefessos mantenedores da liberdade da
Lusitania não a tivessem brandido. Esses grandes chefes da resistencia
da Hispania Ulterior estão mortos, e porque até agora não appareceram
homens com conhecimento da arte da guerra, é que Roma conseguiu dominar
em muitas cidades da Lusitania. Viriatho reconhecia a continuidade da
sua missão libertadora, e possuido d'essa solidariedade do sentimento,
disse para Idevor:

--Jazem nas suas sepulturas os dois irmãos e valentes cabecilhas
_Indibilis_ e _Mandonio_; e tambem o não menos denodado _Salondico_.

--Em logar d'elles,--atalhou o velho endre,--apparece um homem, sim, um
homem, que vale por todos tres; possue de um o genio da estrategia e a
energia do commando; de outro a lhaneza familiar e o trato superior com
os homens; do terceiro tem a integridade da sua palavra, que faz fé como
se fosse uma sentença. Por isso veiu ás suas mãos o _Gaizus_.

Por sua vez Viriatho, interrompendo os louvores de Idevor, accentuou em
poucas palavras o seu pensamento:

--Eu quero que esses tres nomes fiquem sempre memorados entre a gente
lusitana; e darei todos os passos para que lhe sejam consagradas sobre
as suas sepulturas tres estatuas funerarias.

Viriatho queria ligar ao sentimento da defeza da independencia da
Lusitania uma expressão visivel, que lhe servisse de apoio e mesmo de
estimulo; eram já mortos esses tres caudilhos, que tanto tinham luctado
contra os Romanos, e que agora jaziam obscuramente sepultados,
_Indibilis_ e seu irmão _Mandonio_, e o destemido _Salondico_.
Repetia-se na tradição os seus nomes, por que os feitos heroicos que
praticaram eram recentes, mas tudo passa; Viriatho reconhecia que a
recordação d'esses vultos extraordinarios era uma força com que podia
actuar nas almas. Ordenou que viessem da região septemtrional da
Lusitania tres blocos de granito, para serem esculpidas tres estatuas
sepulchraes, representando os heroes lusitanos, e para serem erectas
sobre os seus jazigos. Essa pedra rija e difficil de lavrar era a que
melhor symbolisava a resistencia dos tres Cabecilhas destemidos, e como
privativa de todas as construcções e monumentos da Vettonia, a que
melhor representava aquella parte da Lusitania mais ciosa da sua
liberdade. Realisou-se em breve a sua vontade.

A estatua de _Indibilis_, como o estylo d'essas esculpturas funerarias,
estava perfilada, de cabeça altiva, erecta e sem capacete ou gálea.
Todos aquelles que o conheceram dizem que é a sua imagem verdadeira,
barba espêssa e cabello curto, nariz aquilino com uma depressão a partir
da testa. Tem em volta do pescôço o collar ou torques simulando um
grosso crescente. O corpo reveste-o um saio ou gibão justo á cinta por
uma faixa ou balteus acolchetado pelas costas; a manga é curta, deixando
os braços nús pouco abaixo dos hombros, e acima da bucha do braço uma
armilha formada de tres braceletes. Os braços descem sustendo um sobre o
ventre o escudo redondo ou cetra, ornamentado com cordões delineando
contornos caprichosos; na mão direita tem segura a espada de lamina
curva, parecida com a _Sicca_ dos Thracios, de cabo curto terminando em
bola, e com a ponta tocando nas nádegas. Assenta sobre um cippo lavrado,
em que está inscripto o nome de _Indibilis_.

A estatua de _Mandonio_, trabalhada no mesmo estylo rude, mas primitivo,
semelhando as esculpturas do Egypto e da Chaldèa, mostra leves
differenças; o rosto oval tem uma expressão de audacia, de quem affronta
todas as difficuldades; o escudo que assenta sobre o ventre está
pendente do pescoço por correias sem abraçadeiras, tal como o clypeus
dos gregos; na mão tem uma arma curta de empunhadura simples, como faca
de ponta, que se alarga até ás guardas, como o pugio dos romanos. Tambem
as pernas núas emergem do pedestal ou cippo votivo, em que se lê o nome
de _Mandonio_.

A estatua de _Salondico_ tem as armilhas nos pulsos ou propriamente
manilhas; e na cabeça uma cervilheira de couro, que está cingida até
meio da face; a cetra não é redonda, appresenta a face concava, e
representa o enlaçamento de fitas de couro crú.

Antes de chegar á Lusitania um outro Pretor para substituir Plancio na
campanha, já estava consagrada esta piedosa homenagem aos tres
luctadores que tanto se sacrificaram pela liberdade da patria. Isso
acordou novas energias.



XXIII


Não podia ser indifferente a Viriatho aquella extraordinaria
fortificação defensiva do Castro da Colla, do Alemtejo, com suas torres
e muralhas do mais inaccessivel alcance. Examinou-a detidamente,
medindo-a a passos; e ahi na base do monte, para a parte do sul, em que
estavam seis sepulturas de generaes lusitanos, é que mandou erguer as
tres estatuas funerarias, por que já andavam esquecidos os nomes dos
guerreiros que guardavam.

As estatuas dos dois irmãos Indibilis e Mandonio ficaram a par uma da
outra, e diante d'ellas como formando um triangulo, a estatua de
Salondico. Na linha d'esta sepultura seguiam-se mais tres moimentos,
ignorando-se a quem pertenciam. Disse então Viriatho:

--Cubro-me de vergonha, quando noto que já ninguem se lembra do nome
d'esses bravos que ahi jazem, tendo combatido pela nossa terra.

--Temos um pouco esse defeito da ingratidão para os homens que nos
engrandecem.--Assim fallára um da trimarkisia; ao que um outro
accrescentou:

--Tu mesmo serás um dia esquecido, ou reduzido a personagem de conto de
velhas.

--Fica certo, que se alguma cousa se souber de ti, será pelo que
memorarem os Annaes romanos.

--Não lucto para ganhar fama! É só por uma ideia.--E Viriatho voltou á
sua preoccupação: Mas de quem serão essas tres sepulturas restantes?

--Talvez o saiba Idevor...

E consultado o velho endre, que era um verdadeiro poder moral que pela
tradição lusa unificava as almas, elle respondeu com simplicidade
promptamente:

--São tres caudilhos lusitanos que sempre combateram pela liberdade da
terra; aqui descansa _Edescon_; esta jazida é de _Alucio_; a do tôpo
cobre a _Istolacio_.

--Dá-me força o lembrar-me que eu continuo a sua missão.

Viriatho foi em seguida á exploração do Castro Verde, cuja posição
estrategica era defendida por sete fortes, um dos quaes era o
inconquistavel forte das Juntas, assim chamado pelo povo, por se achar
erecto na parte em que as ribeiras confluentes, Odemira e Mariscão se
encontram e confundem. Quando Viriatho, para subir a violenta escarpa do
forte das Juntas, chegou á margem da ribeira de Odemira, estava alli um
magote de lavadeiras com as pernas mettidas na agua esfregando a roupa e
cantando.

--É esta a feição da gente lusitana; do trabalho faz uma festa;
allivia-se da fadiga com os seus cantares.

E parou um instante a ouvir a

    *Canção das Lavadeiras*

    Já os linhos florescem,
    Já os dias crescem,
    E ainda não apparecem
        Os meus amores!

    Já as neves descem,
    Sem que as guerras cessem;
    Mas nunca me esquecem
        Os meus amores!

    Já os linhos se tecem,
    Mesmo as têas alvecem;
    Ah, se bem cedo viessem
        Os meus amores!

Aquella toada sentida communicava uma emoção saudosa, não tanto pela
lembrança da paz, agora perdida, como pelo genio do povo, que se
revelava n'essa dolencia. Viriatho, bebendo largos tragos da agua da
ribeira em uma quarta alemtejana, que lhe encheu uma das lavadeiras,
galgou a encosta asperrima, sem parar até ao cocuruto do forte das Juntas.

--Valentes pernas!

--Aquillo é que é homem! Disseram duas das lavadeiras que estavam
torcendo o bragal, e que o olhavam cá debaixo, emquanto a agua escorria.



XXIV


Ainda Viriatho se achava proximo da Anta da Candieira, voltando a
examinar a fortaleza da torre da Colla, nas campinas de Ourique, quando
lhe trouxeram a nova da chegada á Hespanha dos dois Pretores romanos
Claudio Unimano e Caio Nigidio, aos quaes o Senado confiára a missão
urgente de reprimir de vez os Lusitanos, apagando as manchas das
derrotas anteriores. Os dois Pretores combinaram o seu plano de ataque;
Unimano iria atacar o Cabecilha nas montanhas de Ourique, aonde sabia
que se encontrava por noticias dos espiões ibericos; repellindo-o diante
de si, levava-o de encontro contra Nigidio, que operava ao norte
confiado na antiga alliança dos Vacceos. Assim colhido entre os dois
exercitos romanos, destinados depois da victoria a occuparem a Hespanha
Citerior e Ulterior, a derrota de Viriatho parecia-lhes mais do que
certa, inevitavel.

Parece que o destino favorecia o Cabecilha, ferindo-se a batalha
n'aquella região sua conhecida e cheia de extraordinarios recursos
defensivos. Aquelle vasto terreno coberto de rochas schistosas ostentava
uma planura ou chapada, todo cercado de escombros e pequenos valles com
montados de azinheiras e carvalhos, espessos e escuros. Excellente para
repentinas emboscadas; mas o Pretor Unimano só pensára no seu apoio em
Evora, cidade do direito do antigo Latio.

Subindo aquelle terreno accidentado cheio de cêrros com espinhaços
inaccessiveis, avistava-se de longe a fortaleza a que o povo das
cercanias chamava--a cidade da Colla. Negrejava com a sua cantaria secca
sobre o ingreme cêrro, correndo-lhe em baixo ao sopé a ribeira de
Mariscão. Foi alli que Viriatho reuniu os troços da sua confiança,
dentro das muralhas que rodeavam a crista do cêrro. D'alli, do alto,
avistava-se o rio de Odemira, que recebe a poente as aguas do Mariscão,
junto do pégo do Sino. O Castello ergue-se abrupto, com as suas muralhas
construidas por fiadas de cantaria não lavrada, mas todas de um tamanho
egual; uma parte dos muros é a pique, outros inclinados para dentro,
formando um quadrilongo de mais de duzentas braças, com uma espessura de
vinte palmos. A fortaleza é dividida em outras duas internas, tendo ao
centro uma cisterna profunda com paredes rebocadas e de abobada; a um
lado está um rebaixamento que dá para uma extensa escadaria que leva á
margem da ribeira por onde se póde fazer uma rapida sortida. Em quatro
outros cabeços circumvisinhos, a meia legua de distancia, alevantam-se
outras quatro fortalezas, e mais adiante, coroando um comprido monte o
Castello velho, formado por uma gigantesca trincheira que abrange uma
área de mais de seiscentas braças. A batalha dada nas visinhanças da
Serra d'Ossa, tendo alli ao pé a Anta veneranda da Candieira, augurava
para os Lusitanos um resultado feliz.

Quando Claudio Unimano avançava sobre Viriatho, que simulára uma
retirada para a fortaleza da Colla, e lhe punha cêrco, contando tel-o
seguro, por alta noite o Cabecilha desceu com os seus pela escadaria
secreta da fortaleza que vem ter á ribeira de Mariscão; e sendo ao mesmo
tempo avisado por lumieiras, os guerreiros lusitanos, que estavam
recolhidos nas outras quatro fortalezas, cahiram quasi ao mesmo tempo
sobre o exercito romano de surpreza, e fizeram uma incalculavel
mortandade. Os estandartes da Republica e as insignias pretoriaes foram
tomados por Viriatho, que mandou espetar pelos cabeços dos montes em
redor as varas que formavam os feixes dos lictores, como fizera
anteriormente apoz a derrota de Vetilio. As bandeiras romanas foram
arrastadas diante do balsão das _Quinas_, produzindo um delirio de
bravura nas catervas lusitanas.

Quando a batalha estava já decidida, ainda mil Legionarios sustentavam
uma lucta isolada contra tresentos infantes lusos, desesperados e
seguros de os esmagar pelo seu numero bruto. A resistencia d'esses
poucos era tenaz, contando serem soccorridos; os romanos queriam n'essa
ultima refrega vender caro a victoria. De subito, apparece á frente dos
tresentos infantes o Cavalleiro que se destacava no tropel das batalhas
pelo seu _cavallo branco_, no qual se arrojava á frente de todos os
perigos. Os tresentos peões sentiram multiplicar-se-lhes a força e
gritaram:

--Olha como elle brande a _Colada_!

--A _Colada_ ao sol faisca; parece um raio.

O nome da espada _Gaizus_ era desconhecido entre os companheiros de
armas de Viriatho; chamavam á espada maravilhosa a _Colada_, por ter
sido guardada em uma sepultura do castro da Colla. Com esse nome
brilhará no futuro, quando um Campeador repellir com ella do solo da
Hespanha as hordas africanas. D'ahi veiu o vulgar proverbio: «_Todo
saldrá a la COLADA._»

Diante da espada _Gaizus_ alguns cavalleiros romanos que escaparam dos
mil destroçados fugiam a toda a brida pelas encostas e chapadas de
Ourique: um peão lusitano rapidamente atravessou um d'elles
desmontando-o, cortou-lhe a cabeça de prompto e seguiu ligeiro no mesmo
cavallo levando-a ao alto espetada na ponta da lança. Tamanho pavor se
apoderou dos outros cavalleiros, que não se atreveram a atacar o peão,
que seguiu seu caminho cantando. Ao tempo constava que o cavalleiro
morto se chamava Caio Minicio, da Legião decima-gemina.



XXV


Aproveitando o enthusiasmo e confiança das suas tropas pela derrota
estrondosa de Unimano, avançou Viriatho para o norte, transpondo a
margem direita do Tagus. Não havia tempo a perder; era urgente ir ao
encontro do Pretor Caio Nigidio. As esculcas trouxeram a Viriatho a
aterradora noticia de que esse segundo corpo do exercito romano vagava
pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casaes, roubando gados
e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a população
trabalhadora e pacifica. Era preciso sustar o passo a Nigidio, agora
enfraquecido pela impotencia de Unimano. Viriatho avançou a marchas
forçadas, contando a cada momento encontrar o exercito pretorial.

Proximo já das faldas dos grandes Herminios, vieram as esculcas trazer
ao cabecilha a noticia, de que Nigidio acampára o seu exercito dentro da
Cava, que já então começava a ser conhecida entre os povos das cercanias
pelo nome de _Cava de Viriatho_, gloriosos por saberem que alli o
Maioral da Mésta abrigava os gados, quando desciam da serra.

A alegria de Viriatho foi vivissima com a noticia do acampamento de
Nigidio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o
aquartelamento durante a noite, despreoccupado de toda a surpreza. Um
plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota
inesperada, impossivel de ser prevista pelo Pretor, que considerava a
Cava como uma _Castra aestiva_, para segurança do seu exercito. Qual
fosse esse plano, a ninguem o communicava, resolvendo logo partir para o
grande Herminio, acompanhado dos cavalleiros da trimarkisia, em marcha
forçada. Por ventura iria combinar qualquer feito com os maioraes que
constituem a Cabana da Mésta, seus antigos companheiros?

Viriatho chegára ao fim da tarde á povoação de Sedarça, logarejo na
encosta da Serra, em que passára a infancia. Tudo eram recordações, que
o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu resoar um
canto, e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de
uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em
uma larga certã de barro sobre brazas. Viriatho, que seguia sempre mais
adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto
rythmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma
historia triste, talvez com realidade; era a canção narrativa,

    *A Dobadoira*

    Estava á porta assentada,
    Dobando a sua meada
        A velhinha;
    Lenço branco na cabeça
    A madeixa lhe sustinha,
    E envolve-a como toalha:
        Com que pressa
    Sentada á porta trabalha!

        O sol doira
        Seu cabello,
    Que tem a côr da geada:
    Para passar o novello,
        A velhinha
    De vez em quando sustinha
    A gemente dobadoira,
    Em que anda branca meada.

    Na dobadoira que gira,
    Como a mente que delira,
    Nem já toda a attenção pondo;
    Nem no novello redondo,
        Augmentando
    Ao passo que o fio tira,
    Todo o seu cuidado emprega!
        Pobre e cega,
    Anciada, de quando em quando
    Com que tristeza suspira!

    Por vezes, o movimento
        Claro exprime
    Tumultuar do pensamento,
    Que no imo da alma a opprime
        E quasi oura!
    Muda angustia e paciencia
    Reflecte-as a intermittencia
        Do andamento
    Ao voltear da dobadoira.

    Fica-lhe na mão suspensa
        O novello,
    Concentrada não o enleia:
    Na orfã netinha pensa!...
        Vem-lhe á ideia
        Por sua morte:
    «Só, no mundo! entregue á sorte!
        Pobre neta...»
        Pezadello,
    Que tanto a velhinha inquieta.

                   *

    Não ouvindo a dobadoira,
    Que gemia intermittente,
    Cahindo da mão dormente
        O novello...
        Com disvello,
    A neta, cabeça loira,
        Vem á porta
    Vêr o que foi; com susto olha:
    Uma lagrima inda molha
    A face á velhinha morta.

No fim da canção uma das raparigas limpou as lagrimas; disse uma d'ellas:

--Tu, Nilliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares.

--É que eu conheci a velhinha cega, e tantas tardes a vi sentada á porta
a dobar.

Viriatho approximou-se da porta da choupana, e saudou as raparigas:

--É bem triste essa historia. O que é feito da pobre orfã?

--Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os
seus parentes tinham morrido nas guerras ou na escravidão dos romanos, e
Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale são as boas almas.
E se não fosse agora Viriatho, o que os romanos não fariam por essa
nossa terra...

--E nunca vistes Viriatho? Perguntou o cabecilha com bondade.

As tres raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de
terminado o cantar ou aravenga da _Dobadoira_, encetando uma conversa
intima, trocaram sorrisos maliciosos:

--Muito gostava de vêr esse homem de quem tanto se falla.

--E eu? E dizem que é um homem ás direitas; não é alto nem baixo, de côr
morena e olhos castanhos, cabellos fartos e tambem castanhos lisos;
barba espêssa e corredia; o rosto é oval, o nariz fino, e a bocca
mediana deixa vêr uns dentes alvos e eguaes, que é um encanto! Se o
visse conhecia-o.

--Parece que estás enamorada de Viriatho. Disse com malicia Nilliata.

--Eu nunca o vi, nem espero vêl-o. O que me faz gostar d'elle é a sua
coragem. Quem hade dizer, que um homem costumado aos duros trabalhos da
Mésta, delgado de perna, e pés pequenos, cá como os homens da nossa
terra, tem uma alma generosa, e audaz para sacudir os inimigos da patria!

Caenia fallava convencida.

Viriatho, que entrára na povoação adiante dos tres companheiros, ouvindo
as risadas das raparigas estacára para escutar o que diziam; em breve
conheceu de quem se fallava, e com um sorriso cheio de benevolente
carinho, disse para ellas:

--Fallar no máo, apparelhar o páo.

As raparigas olharam-o com surpreza e viram o homem como o tinham
representado: aquelle rosto oval e trigueiro, aquelles olhos castanhos
de um relance vivo e scintillante; o mesmo pé pequeno mas agil.

Disse a mais reservada das moças para a que era falladeira:

--Ahi tens o moço em quem pensavas. Dize-lhe que gostas d'elle.

--Todas nós devemos amar Viriatho, por que elle sabe defender a nossa
terra. (Volveu a Caenia a rapariga falladeira com decisão). Pois para
vencer o inimigo, Viriatho precisa do amor e da confiança de nós todos.
Mas para amal-o, como a mulher póde amar o homem, isso fia mais fino! Na
Lusitania, que mulher poderá merecel-o?

--Então não ha mulheres lusitanas que me queiram?--Interrompeu Viriatho
com malicia.

--Ai, meu senhor. Das mulheres da Lusitania só tenho ouvido exaltar uma
que é digna de vós, ou vós digno d'ella.

--E eu, que até hoje nunca tinha pensado em amar uma mulher! Queria
saber quem é essa, que tanto exaltas.

--Falla! dize quem é. Insistiram Nilliata e Aponia.

--Não é segredo. Todos sabem qual a belleza e ingenuidade de Lisia, a
filha de Idevor.

--Lisia? ainda tão nova; com pouco mais de dezeseis annos?

--Mas com um tino e juizo, que espanta; com uma graça invencivel; com
uma memoria vivissima dos Cantos e tradições da velha Lusitania. Dizem
até, que ella, pelos dons que possue, não é d'este mundo.

Outra das tres moçoilas, não menos linguareira, proseguiu na revelação
começada:

--É Lisia quem na Torre redonda de Achale, no começo do Anno estival
accende o Fogo novo.

--Ella tem o cuidado do Fogo consagrado a Samham ou _São Homem_, o
_Julgador dos Mortos_, que os não deixa esquecer.

--E como dedilha na Harpa de triplices cordas...

--E lê todas as letras gravadas no _Bastão dos Poetas_...

Viriatho ficou ferido de curiosidade; e pensando n'essa revelação
casual, disse para as tres moças:

--Eu conheço o pae de Lisia, e sei bem que elle é meu amigo a valer.

E dizendo-lhes um adeus com simplicidade, continuou a sua marcha á
chegada dos tres companheiros, subindo a encosta do grande Herminio.



XXVI


Apesar de declinar o sol, que se reflectia brilhante nas Penhas
Douradas, que estão voltadas na sua immensa altura para o Occidente,
Viriatho, calçado com as abarcas espartenhas, e de bornal ás costas,
caminhou para a Serra através dos precipicios seus bem conhecidos.
Dirigiu-se para o planalto da Torre, onde costumam reunir-se os Maioraes
da Mésta, quando fórmam Conselho entre si, para resolverem sobre a
transhumancia dos gados, sobre o abastecimento da _Arca do pão_, ou
sobre castigos dos cachopos. Viriatho ia tocando em certos pontos, como
Barros Vermelhos, Covão grande, Lagoa escura, n'uma buzina de corno um
signal, que era conhecido de todos os Maioraes; quando chegou, já noite
alta, ao planalto da Torre em fórma de estrella, pouco ou quasi nenhum
tempo esperou pelos Maioraes, que se appresentaram no local destinado á
comparencia da Cabana. Eram cinco os Maioraes que governavam os gados
lanar, cavallar, cabrum, porcum e vaccum; e quando se reuniam tinham a
_Mixta Jurisdictio_. Tal era o Conselho da _Mésta_, denominado entre
elles a Cabana. O primeiro que appareceu ao toque da buzina foi Edovius,
que governava a boiada; accudiu presuroso Togotes, que mandava nos
cavalhariços; não se fizeram esperar Uvarna, o maioral dos porqueiros,
Suttunus e Semesca. Todos elles se lembravam do toque da buzina de
Viriatho, e occorreu-lhes que era caso extraordinario. O Cabecilha
fallou-lhes sem preambulos:

--Convem-me que sejam apartados trezentos touros bravos, barrosos,
corpulentos, das manadas da Betica! Esses touros bravos hão de ser
guiados por vinte vaccas mandarinas, d'aquellas mais luzidias e
brincalhonas, e dentro em dois dias devem estar mettidos nos _Furados_...

--Nos dois extensos algares abaixo da povoação de Sarzedo?

--Ahi mesmo. E tambem se torna necessario, que vão mais atraz dos touros
bastantes cães de fila, d'esses que pela sua firmeza em impellir os
touros tem o nome de Maioraes.

Os cinco Maioraes da Mésta sorriram-se, comprehendendo o plano;
esfregavam as mãos, antevendo a audaciosa empreza, tentada por Viriatho;
e dirigindo-se ao antigo companheiro:

--Cá pela nossa parte não é que o plano hade falhar.

E descendo do planalto da Torre para as casas de suchão, em que se
abrigavam, passaram por um grupo de cachôpos, que estavam de vigia, e
para não terem somno trocavam suas Adivinhas. Dizia um:

    --Redondo é o curral,
    Vaccas pelo bostal,
    Lindo é o azagal,
    Cão peor que chacal?

Nenhum dos cachôpos dava com o sentido da adivinha. Viriatho ao passar
pelo rancho sorriu-se, dizendo para os Maioraes que o acompanhavam:

--Nos meus tempos de azagal tambem ouvi esta adivinha.

E fallando para os mancebos, explicou-lhes:

--Redondo curral, é o céo; Vaccas pelo bostal, são as nuvens espalhadas;
Lindo azagal, o sol; Cão peor que chacal, é o vento frio, que arrebata
as nuvens.

Uma franca risada dos moços foi o signal de assentimento. Viriatho veiu
descendo, tomando pelas veredas, passos e descansadoiros, canadas e
quinchorros, dirigindo-se para a povoação mais proxima do grande
Herminio, onde o esperavam os companheiros da Trimarkisia.

Os Maioraes da Mésta trataram logo de ir escolher as vaccas mandarinas
para em seguida ajuntarem os touros bravos que hão de entrar na
mysteriosa lide. Essas vaccas folionas, de côr branca da pellagem, são
dotadas de uma macieza de pelle e de uma corpulencia meã, chifres
pequenos, abertos e delgados, olhos pequenos, accesos, bem afflorados,
com pestanas brancas. Exercem sobre os touros um poder invencivel de
seducção, que os subjuga; com ellas é que os Maioraes os governam. Têm o
pescoço grosso e de farta barbella, que se recorta em curva e se
prolonga até ao peitoral; lombos largos e cauda curta, membros finos e
aprumados, ventre pequeno e ubere farto. Pelas suas fórmas graciosas
parecem-se com o typo do gado alvação. São brincalhonas tanto na
docilidade do curral como na vida aspera dos montes.

Os Maioraes da Mésta estavam seguros de conduzirem e entregarem a
Viriatho os trezentos touros bravos.



XXVII


A aldeia de Loriga foi para onde se dirigiu Viriatho, na falda da serra.
Diziam que era d'alli natural; mas outras povoações, como Folgosinho,
Ceia, Covilhã e Vizeu, tambem disputavam a gloria de terem sido seu
berço. Antes d'essas pequenas terras o adoptarem como filho, já elle
estava possuido do sentimento que o levou a dizer de toda a
Lusitania:--Esta é a ditosa patria minha amada. Viriatho sentia um
prazer intenso ao vêr os trabalhos da povoação pacifica; um grande
circulo de raparigas, com suas arrecadas e collares de ouro, e axorcas
nos braços e pernas, estavam occupadas em uma espadellada de linho. Ao
rithmo das pancadas iam cantando, porque na Lusitania o trabalho foi
sempre uma festa, e ao som de cantigas. Approximou-se para escutar a

    *Chacoula da Espadellada*

    Separa-se o linho
    Das suas aréstas,
    Nas espadelladas.
    Que alegres pancadas!
    E com gosto dadas.
    Trabalhos são festas:
    Quem olha a fadigas!
    Já pelo caminho
    Vem as raparigas,
    Soltando cantigas
    Das mais namoradas.

    Quem quizer saber
    Quantas conversadas
    Andam cá na villa,
    Sem maior quesila
    Póde conhecer,
    Vendo nas mãos d'ellas
    Como as espadellas
    São bem trabalhadas.

    Eu, por mim, sei de uma
    Que na espadella
    Tem um coração
    Feito pela mão
    De quem é só d'ella.
    Para conhecel-a,
    Bastará ahi vêl-a
    Sempre olhos no chão...

Mais adiante, em outro casal descendo a encosta por onde se estendia
Loriga, havia ruidosos signaes de alegria; era um Fiandão, uma festa em
que das povoações visinhas concorriam muitas raparigas para fiarem em
festivo ajuntamento todo o linho de uma casa. Era de uso concorrerem
tambem os moços namorados, que tocavam seus machêtes, cantando á porfia as

    *Endechas do Fiandão*

    Que vezes te vêjo
    No limiar da porta
    De pé a fiar!
    Eu, indo a passar,
    Cá de longe um beijo,
    Que mal me conforta,
    Enviava-te então;
    N'essa occasião,
    (D'isso não te accuso)
    Bem notei que o fuso
    Te cahiu da mão.

    Se te cáe o fuso
    Quando estás á porta,
    Será por cuidado,
    Imaginação,
    Que haja eu causado
    Com tanta paixão?
    Mas, isso que importa!
    Ou será ou não.
    Seja como fôr,
    Certos signaes são
    De ânimo confuso;
    Talvez falta de uso
    De occultar o amor,
    Pois te cáe o fuso
    Tanta vez da mão.

    Com que alegria,
    Ou satisfação,
    Levantára o fuso
    Que te cáe ao chão;
    Eu t'o entregaria
    Com a cortezia
    Que no amor é uso,
    Declarando então:
    --Eil-o, em homenagem
    D'esta vassalagem
    De leal coração;
    Para sempre agora
    Não cahirá, senhora,
    Mais da vossa mão.

Emquanto o moço cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os
olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirára. Por
casualidade cahiu o fuso da mão a uma d'ellas, e logo as risadas
animaram o Fiandão extraordinariamente.

Um outro cantador dedilhou no machête que trazia umas Coplilhas

    *Ao morder do fio*

    Que inveja me faz
    E tanto me toca,
    No fio do linho
    Que puchas da roca,
    Os beijos que dás!
    Presinto, adivinho,
    Se esse linho eu fosse,
    Como me era doce
    Sentir tua bocca!

    Tu segues fiando,
    De mim descuidada,
    Á bocca levando
    A linha delgada
    Que torces nos dedos!
    Do linho os segredos
    Tivera eu a posse,
    Que os sonhos provoca:
    Como me era doce,
    Se esse linho eu fosse,
    Sentir tua bocca!

    E emquanto na roca
    Tu passas fiando,
    No immenso desejo
    Que acorda o que vêjo
    E a mente traz louca,
    Ficarei sonhando:
    Se esse linho eu fosse,
    Como me era doce
    Morder-me tua bocca!

Estas coplilhas ainda provocaram mais ruido, procurando-se algum rubor
traiçoeiro. Ditálcon, que estava junto de Viriatho, enlevado na
contemplação d'aquelles costumes da serra, por que tinha ouvido fallar
muito na finura do fio lusitano, disse para o cabecilha:

--Isto é uma terra de poetas.

--E de apaixonados...

A phrase de Viriatho foi interrompida por um facto extraordinario;
n'aquelle momento chegava á sua presença um rancho de homens, que o
procuravam com anciedade:

--Nós somos gente da povoação de Gouvêa, que vimos...

O seu aranzel confundiu-se com este outro, mais atrapalhado:

--Nós somos gente da povoação de Manteigas, que tambem aqui vimos...

Viriatho impoz silencio a esse grupo de homens valentes, que vinham
armados de varapáos e mangoaes, e com lucidez apurou em poucas
perguntas, que eram povoações rivaes, que por causa das aguas de rega se
hostilisavam de longos tempos, havendo todos os annos grossa pancadaria
e até mortes. Os de Gouvêa não queriam que as suas aguas vertentes
fossem para os de Manteigas; estes não lh'as queriam pedir. Então
Viriatho sentenciou:

--Agora, que a nossa terra está invadida pelo inimigo estrangeiro, os
odios internos enfraquecem-nos. É de força unirmo-nos: Entre Manteigas e
Gouvêa haja paz para sempre. Em todos os comêços do Anno estival a
communa de Manteigas irá levar á de Gouvêa uma bilha de agua, em signal
da compra por que adquiriu a posse das suas regas.

--Bem julgado! gritaram todos.

E depois de terem bebido tigellas de zitho, e acclamado Viriatho,
voltaram alegres para as suas povoações, em que o symbolo da concordia
mutua se guardou no costume immemorial.



XXVIII


A noticia das devastações de Nigidio forçou Viriatho a reunir-se ás suas
catervas, e a attrahil-o para as campinas em volta da Cava; com solercia
foi evitando combates importantes, até ao momento em que os esculcas
vieram dizer-lhe que Edovius e os outros maioraes tinham encurralado
tresentos touros bravos dentro de um dos Furados, para onde os trouxeram
pelo engodo das vaccas mandarinas.

--Vieram tambem os cães de fila?

--Estão prezos no outro Furado.

Depois d'isto Viriatho esperava com anciedade o cahir da noite, certo de
que Nigidio recolheria o seu exercito dentro da Cava; Nigidio tambem
contava como estrategia, o conservar-se n'aquelle territorio em que
podia dar uma batalha campal pondo em acção toda a maravilhosa tactica
das Legiões. E não era mal pensado, desde que elle conhecia que o
exercito lusitano era incoherente, de guerrilheiros de disciplina
irregular.

A noite cahia, e como Viriatho se afastára com os seus têrços para
longe, o Pretor Nigidio deu ordem para que as Legiões se recolhessem
para dentro da Cava, certo de que no seguinte dia conseguiria envolver
Viriatho. Na escuridão da noite as sentinellas que vigiavam o
acampamento romano viam de vez em quando luzir umas lumieiras pelos
montes. Não suspeitavam o que seria. Era o signal combinado entre
Viriatho e os maioraes da Mésta; por essas lumieiras sabiam elles a
situação, e que era tempo para executar a estrategia.

Os touros bravos, em numero de tresentos, sahiram de um dos Furados,
attrahidos pelas vaccas mandarinas, sempre em marcha accelerada na
direcção da Cava. Os Maioraes, com extrema pericia guiavam aquella
immensa força bruta. Semesca encarregára-se de trazer uns vinte cães
furiosos da serra; e acompanhava a boiada mais atraz. Quando chegaram a
pouca distancia da Cava já se via a estrella boieira; foi esse o momento
escolhido. Viriatho fez açular os cães contra os touros, que os Maioraes
montados e com varas compridas dirigiram para dentro da Cava, tendo-lhes
na carreira cega retirado as vaccas mandarinas da dianteira. A furia dos
touros excedia quanto se imaginára; vendo luz no acampamento dos
romanos, para ahi se atiraram em um impeto irresistivel. Tudo cahiu
deante d'esse assalto de uma força de ariete. Os gritos de horror, a
confusão de vozes revelavam a enormidade da catastrophe. O que fizera
Galba com os dez elephantes africanos contra os trinta mil lusitanos
indefezos, agora Viriatho o repetia contra as Legiões romanas
arrojando-lhes na escuridão da noite tresentos touros dos mais bravos da
Betica, e impellidos pelos indomaveis cães dos Herminios. Os touros
destroçaram todo o acampamento; e quando Edovius e os outros Maioraes
entenderam ajuntar os touros e leval-os caminho da Serra, Viriatho
entrou na Cava com as suas catervas e foi passando á espada quantos
sobreviviam do exercito de Nigidio. Eram estes recursos extraordinarios,
que tornavam temivel Viriatho manobrando com um exercito sem disciplina,
e que em uma batalha campal não resistiria diante de uma bem organisada
Legião. Não era a primeira vez que os touros se empregavam como uma arma
de combate; mas em tamanho numero, e tão calculadamente, com o concurso
de boieiros experimentados, e produzindo um effeito tão completo só a
Viriatho compete uma tal gloria.

A insignia da Legião, que era uma Aguia poisada sobre uma rodela sem
ornatos no tope de uma comprida vara, appareceu calcada e recalcada; e
entre os corpos mortos viam-se esfrangalhados os balsões ou Vexillos das
Cohortes bordados a ouro com os numeros de cada uma e o nome da Legião.
Pelo chão revolvido e ensanguentado notavam-se as Signas ou bandeiras
dos Centurios; algumas ainda conservavam no alto da vara uma mão direita
como symbolo da fidelidade, ou uma corôa allusiva a alguma victoria.
Ainda agarrados aos seus pendões, jaziam Porta-Estandartes com as
cimeiras de cabeças de leões cujas pelles lhes pendiam das costas.
Cascos de ferro e de cobre, escudos de páo chapeados de ferro, cotas de
malha revestidas de couro ou guarnecidas de escamas de metal, couraças
de bronze, espadas de dois gumes, parazonios ou espadas curtas, dardos,
flexas, fundas juncavam todo o ambito da Cava, como se um torvellinho de
morte tivesse dispersado o acampamento de Nigidio.

Os despojos do exercito romano foram em grande parte dados aos Maioraes
da Mésta, em paga do seu trabalho e acerto. D'ahi veiu o apparecerem
ainda passados muitos annos, collares fixos ou torques, cistes de
bronze, dracmas de prata e armas romanas, por muitos logares
inaccessiveis dos Herminios.



XXIX


Entre os poucos legionarios do exercito de Nigidio que escaparam não
appareceu o general; fôra uma victima da tremenda catastrophe. Os chefes
do exercito de Viriatho resolveram prestar uma homenagem á Deusa-Mãe, do
culto chtoniano, _I-Ana_, ou _Anah_, levando em um carro puchado por
vaccas brancas, até as lesirias da margem do rio Pavia, a Pedra focal,
com que ella era representada na religião lunar da Lusitania. D'esse
culto primitivo, ficou a superstição de _revolver penedos_, junto dos
lameiros ou charcos, e a crença nas _Jans_ ou fadas, e nos juncaes
chamados _Omomi_, de que o povo fez a entidade do _Bom Homem_. A Pedra
focal foi conduzida com o respeito de quem via n'ella o symbolo da
fundação da familia, e no pleni-lunio dansava-se diante d'ella ao som de
sistros e adufes, tal como usavam as familias religiosas dos Cabiras,
Telchines e Dactylos. A Pedra focal era entre as tribus dos Germanos
tambem levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago.

No meio da festa apparatosa da Deusa-Mãe, todos os guerreiros do
exercito de Viriatho se approximaram da Pedra focal e collocando a mão
sobre ella fôram proferindo um juramento inquebrantavel:

--Nós combatemos pela liberdade da Lusitania, fonte da paz e da
segurança das nossas familias. E emquanto a Lusitania fôr pisada pelo
invasor romano, nós juramos combatel-o sempre, sem regressarmos a nossos
lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos
filhos até ao final triumpho, em que todos estamos empenhados.

A confiança na audacia e intelligencia de Viriatho é que motivava estas
resoluções extremas, que, se fosse necessario, seriam levadas até ao
suicidio. Viriatho começava a apparecer como um vulto maravilhoso, e
corriam vozes de que o toque das suas mãos dava saude. E quando o carro
era levado para a beira do rio com a Pedra focal, trouxeram ao encontro
de Viriatho um pobre homem hydropico, em extrema deformação, para que o
soccorresse com o seu poder e o livrasse de tanto soffrimento. Viriatho
attendeu o desgraçado doente:

--Para o teu mal ha um remedio infalivel nas aguas da Fonte de Ouguella.
Segue para lá quanto antes, e fica certo de que te curas.

--Senhor! disse o hydropico: Eu sou Bovecio; e prometto, quando voltar
curado, ser teu soldurio, acompanhar-te nos perigos e ainda além da morte.

Viriatho, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou:

--Não tem essas aguas sómente virtudes medicinaes; o pão amassado com
agua da Fonte velha de Ouguella fica mais leve e saboroso do que o
melhor pão de Avintes.

Um dos soldurios interveiu:

--Conheceis bem todas as riquezas d'esta nossa terra, porque a tendes
percorrido de norte a sul.

--Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas
fadigas da Mésta, quantas vezes fui eu ás aguas afamadas de Aljustrel,
lá no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por lá
encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes,
de sarna e até da lepra. O que sei dizer, é que de lá voltavam sempre
curados.

--São aguas santas!

--Santas, sim, mas é preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais...
Os banhos, esses são milagrosos.

--Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional
do Monte do Castello?

--Se conheço! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que
até se diz que não ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos
se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas
Thermas.

--Toda esta nossa Lusitania é rica de aguas milagrosas.

E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho
completou o seu pensamento:

--Como as aguas do Tagus não ha outras no mundo mais acerosas; nem as de
Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora
na Cava.



XXX


A _Guerra dos ladrões_, como chamavam em Roma á lucta heroica de um povo
defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia,
prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos
Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de
altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da
civilisação. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio
occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a
espalhar que Viriatho se rendera, que fôra agarrado; que seria trazido
para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade
cruenta irrompeu quando se viu que fôra encarregado Caio Lellio, que era
por todos cognominado o _prudente_, de partir rapidamente para a
Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se
desmoralisára. E tal era a importancia da missão, que Lellio partira
revestido da auctoridade de Proconsul. A situação era extremamente
grave; porque um dos generaes romanos, não se sabia se Unimano ou
Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira.
Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiança pela
clareza de intelligencia que possuia; não iria imprimir um impulso
decisivo ao _Bellum latronum_, mas ninguem como elle saberia informar o
Senado da situação da Lusitania e das condições que cedo ou tarde
conduziriam á victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato
eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas
qualidades não eram incompativeis com o espirito militar de um chefe
tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois
exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a
chegada de Gaio Lellio á Lusitania não produziu ruido; a sua obra
capital foi sustar promptamente o revês que se precipitava, reunindo os
dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o
provocava, com constantes escaramuças. Depois d'isto preparou as cousas
para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro
aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informações para o
Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por
outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber,
tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de
Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes,
escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados
pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul:



«Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania é habitada pela mais
poderosa das nações hispanicas; e que achando-se já subjugadas as
outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.

«Não provêm a sua força do numero dos seus habitantes, mas da sua
resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade
individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravidão.

«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram
com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e
conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não
aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta
invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo
vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o
trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas
para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no
intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que
votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes
e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros
ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes
eleitos apresentam-se na _entrada de Maio_ promptos para a campanha,
seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados,
soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem
incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho
me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma
guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o
exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição,
ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não
sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade
heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil
Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e
Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior
gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade
na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos
extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que
assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela
emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a
estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o
systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades
perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.

«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como
Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros,
adoptando para o seu exercito a _Espada hispanica_, que lhe tem
proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os
vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão
pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha
um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a
sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de
rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta
antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio;
muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico,
e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que
trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde.
O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe
titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles
ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero
para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que
empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a
união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão
primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha
revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que
acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta
credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por
aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em
um _Cavallo branco_, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro
invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha
prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando
ou a _Viria_, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um
guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto
este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento
de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma
representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que,
não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e
só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico.
Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general
romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual.
Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é
insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a
alcançar a gloria d'essa traição.»

Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas
passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas
romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as
Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica
romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos
anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio
Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate
dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos
uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.

O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os
acontecimentos atropellavam-se exigindo uma acção immediata. Para os
espiritos ambiciosos a missão de Lellio tambem fôra frustrada; era uma
derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu á corrente
da opinião: n'aquelle anno de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da
_Guerra dos Ladrões_, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo
Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmãos de afamadissimos
generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na
victoria de Pydna, e na destruição de Carthago. Fervia-lhes o sangue;
Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra
da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.



XXXI


A _Guerra viriathina_, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada
na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza
que lhe competia, preparando uma solução pratica. Usando de um direito
de negociar e concluir allianças com os povos estrangeiros, entendeu o
Senado que era tempo de propôr a Viriatho um tratado de mutuas
garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigações, e
designados sob o titulo de _Foedus aequum_. A lucta desesperada das
populações da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de
independencia local e pessoal, que Roma não podia apagar pela força das
suas legiões; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses
romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e
os individuos adquiriam o _Jus peregrinum_, gosando de uma protecção
legal em Roma sem dependencia de patronos.

Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a
difficuldade de poder submetter esta região hispanica ao regimen do
_Foedus iniquum_, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos
submettidos ao seu protectorado. A Lusitania não era um inimigo vencido,
nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto
desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na
Hispania Ulterior indicando a opportunidade do _Foedus aequum_.
Approveitava-se a occasião da partida de Quinto Fabio para a Lusitania:
elle seria o portador do tratado de alliança, ficando-lhe reservado o
arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso
o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A convenção
diplomatica não comprehendia sómente a segurança das pessoas e das
transacções entre os dois paizes; continha-se ahi um facto
capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro
da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou
rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execução do
tratado como soberano.

Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal
acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados
no governo sorriu-se com superioridade:

--Todas essas garantias estão apenas na letra; por que vós todos sabeis,
que embora pertença ao Senado a direcção das negociações com os
estrangeiros, nenhuma alliança poderá concluir-se sem que os Comicios
lhe prestem o seu assentimento ou ratificação.

A ideia diplomatica foi promptamente comprehendida. Na partida de Quinto
Fabio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteudo ignorava, e impondo-lhe a
clausula, que só o abrisse e cumprisse, quando e até aonde a marcha dos
acontecimentos o determinasse. Era ainda um habil modo do Senado
eximir-se a responsabilidades.

As forças que Lellio commandava em Hespanha estavam cansadas e
apavoradas; o Consul Quinto Fabio comprehendeu que era condição
impreterivel partir com algumas novas Legiões, para com ellas metter em
disciplina as que se consideravam exhaustas. Os exercitos romanos
estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grecia, da Macedonia, de
Carthago, achavam-se diminuidos e tambem debilitados por esforços
ininterruptos; os veteranos que regressavam á patria vinham semi-mortos,
e para nada se poderia contar com elles. De Pydna haviam chegado a Roma
as Legiões triumphantes; da destruição de Carthago regressava Scipião
com os seus bravos; mas nenhum legionario se quiz inscrever para
acompanhar Quinto Fabio para a guerra da Lusitania, justificando-se com
desdem que não desciam das altas façanhas contra nações grandes e
civilisadas, contra umas obscuras tribus miseraveis dos confins do
occidente e demais commandadas por um chefe de ladrões, (_Dux
latronum_). Por estes imprevistos embaraços, e pela situação apathica em
que se via Caio Lellio, a guerra lusitana afroixára; Viriatho, para não
cansar as suas Companhias e Terços aproveitou-se d'esta tregua forçada,
contando que nova epoca de lucta seria iniciada, cada vez mais
desesperada e cruenta da parte dos Romanos.



XXXII


Para que a inactividade passageira em que se via não prejudicasse o
perstigio que exercia sobre os seus homens de armas, resolveu Viriatho
ir consultar o velho Idevor á ilha sagrada de _Achale_, junto do
promontorio Cepressico, aonde se conservavam as tradições cultuaes
trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus Mil Soldurios, e
transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetobriga, aonde
o Sado desemboca no Oceano, deu ordem aos companheiros que alli o
esperassem durante tres dias.

D'alli, d'aquella bahia do Sado, partiu Viriatho em uma barca de couro,
com os trez Cavalleiros que sempre o custodiavam, em direcção ao
promontorio Cepressico de traz do qual parecia occultar-se a ilha de
_Achale_. Um d'esses companheiros, Ditálcon, dizia:

--Foi n'essa ilha que se refugiaram as familias lusitanas assombradas
pelo morticinio de Galba; junto do templo do Deus innominato,
encontraram alento para resistirem á calamidade que os aniquilava.

Minouro, ancioso por pisar aquella ilha mysteriosa de _Achale_, avivava
tambem as suas reminiscencias:

--Conta-se que outr'ora um Collegio sacerdotal de Druidas estava na ilha
Pelagia, situada ao norte, fronteira á costa de Ophiusa, chamada d'antes
Oestrymnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os Bardos, que
doutrinaram as tribus de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar Tenebroso
indo buscar o estanho ás ilhas Cassitérides, e voltavam confiados no
afamado pharol da torre de Brigantia. Mas, quem sabe onde está hoje essa
ilha Pelagia?

Andaca observou:

--Desappareceu, ou por mysterio ou força da natureza. O mar desfez essa
ilha, e aonde ella existiu é hoje um vastuo estuario coberto de _moliço_
e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prevêr que a Lusonia
tem tambem de desapparecer como a sua Ilha encantada. Aqui a nossa raça
foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os
Phenicios e Jonios, destruindo a nossa navegação no Oceano, mettendo a
pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu commercio os
Carthaginezes, que attrahiram sobre nós a pilhagem dos Romanos, que hoje
temos vencido, mas que não largam a prêza.

Emquanto a barca de couro seguia para a ilha de _Achale_, ia Viriatho
reconcentrado e silencioso, como absorto na alta missão da sua vida; ao
ouvir aquellas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso intimo da sua
intuição quasi prophetica, exclamou para os trez companheiros:

--Não serão sómente os Romanos que hão de pensar em submetter ao jugo as
tribus da Lusonia; outros povos ou outras raças virão do norte e do sul,
e se espalharão sobre este territorio julgando possuil-o pela força da
conquista. A Lusonia póde ser temporariamente vencida, mas _nunca
d'outrem subjugada_; não se extingue, porque a sua liberdade subsistirá
nas almas, e cedo ou tarde manifesta-se em espirito e renasce em
restauração gloriosa.

As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o
promontorio Cepressico, e appareceu repentinamente á vista a Ilha
sagrada de _Achale_.

--É alli, é alli que se guardam os thesouros salvos ás devastações e
rapinas dos Romanos; outros povos lançam os seus thezouros aos lagos
escuros, como melhor meio de defeza. Mas quem saberá da existencia
d'esta ilha mysteriosa? Ninguem; ninguem.

Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preoccupação que
desde aquella hora sabia aonde se guardava o chamado _Thesouro do Luso_.
A mesma ideia tornou-se uma obsessão para Ditálcon. A barca chegava já
ás rochas escarpadas da ilha de _Achale_, sobre a qual se erguia uma
Torre redonda de trez andares, como sentinella do Oceano tenebroso.

Erecta sobre o pequeno promontorio, a Torre redonda de uma
surprehendente elegancia, era construida de fortes blocos apparelhados
de pedra sêcca, tendo no cocuruto um tecto tambem de pedra em fórma
conica. Dos seus tres andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol
formadas em pequenas torres lateraes que terminam em ameias.

O interior é alumiado por seteiras geminadas, e a porta unica da entrada
está a uma altura do chão para a qual se sobe por uma escada movel que
se faz baixar quando é necessario. Como logar de refugio alli estão
depositadas as folhas plumbeas que têm impressos os titulos das
familias, e relações dos successos memoraveis, Crescentes e Virias de
ouro, Fibulas mamilares, Tiaras e Bastões de prata, insignias do
commando dos patriarchas. Alli na Torre redonda se conserva o Fogo
perpetuo consagrado a _Samham_, o _Julgador dos mortos_, cujos ritos se
celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos
Antepassados ahi residem as Gemmades (de _Genmaidh_, puro e casto)
mulheres formando uma como classe de Vestalato ou _Lucae dominicae_; e
alli comparecem os tocadores das Harpas triplices ou de tres cordas,
chamadas _Telyne_, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente
acompanhando os canticos de uma inspiração divina expressa pela palavra
_Awen_.

E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca:

--Não tem porto _Achale_?

N'isto roçou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando
em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de
communicação do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma
extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos,
que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.

Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com
um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao
seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram
conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre
redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos
Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos
nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava á cabeceira da
meza, como se fosse um _Brenn_ ou _Hegmon_ das tribus.

E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove
donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raça, cingidos os
cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas
ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e
cantando em unisono um côro que repetiam, foi o seu canto interrompido
por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra.
Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o
penetrou com uma vibração seductora e dominativa, e viu lentamente
descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graça e
frescura sobrehumana.

Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da
raça, e guarda das tradições mais augustas das tribus lusonias. Estava
vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os
Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de
ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o
alto da cabeça e vinha ás pontas das orelhas. Era uma Semnothêa, cercada
por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda
celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo
escadorio, e atravessando por entre o Côro das donzellas, que a foram
seguindo, tomou de uma ára a taça de ouro destinada ás symposias, e
chegando em frente de Viriatho, estendeu o braço desnudado, alvissimo e
de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taça de ouro:

--Bem vindo! Viriatho. Só para ti, e com a minha felicidade.

Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela belleza extrema que
alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taça da branca mão de Lisia e
extactico, paralysado no seu movimento, não a levou logo aos labios. No
rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria
desattendida a sua escolha? não a amaria o guerreiro de que tanto lhe
fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?

Tudo o amor adivinha; lê nas almas, e o silencio é a linguagem mais
expressiva da emoção ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de
tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo á hesitação
involuntaria de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos labios:

--Á tua saude! e _para sempre_.

Entrega em seguida a taça a Lisia, que com um rubor fascinante a levou
aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia,
murmurando com suavidade:

--Para sempre!

E emquanto se entreolhavam em um invencivel enlêvo, Idevor ergueu ambas
as mãos abençoando-os, lembrando-se de que aquella criança bella perdera
toda a sua familia na mortandade de Galba, e de que aquelle homem forte
surgira como o vingador e o libertador da Lusitania. Essas duas almas
fugiam uma para a outra. As nove donzellas que acompanhavam Lisia como
uma fórma não organisada do Vestalato, mas que poderiam ser comparadas
ás _Senae_ ou _Barrigenes_ gaulezas, cantaram um hymno de amor, ao som
de tetracordes, sobre a phrase que Viriatho e Lisia tinham trocado:

    Para sempre--no espaço
            A estrella
            Erma, bella,
    Fulgor vivo derrama:
    De paixão nunca lasso,
    O que fará quem ama?

    Para sempre--o sol flavo
            Solta a flux
            Vida, luz,
    Que o seu calor inflamma;
    Da attracção pura escravo
    O que fará quem ama?

    Para sempre--o Oceano
            Tudo alaga
            Com a vaga
    Que plangente rebrama;
    Da alma no doce engano,
    O que fará quem ama?

    Para sempre--sereno
            O luar
            Faz scismar,
    E mil saudades chama;
    No enlêvo mais ameno,
    O que fará quem ama?

    Para sempre,--e sem calma
            A paixão
            Na attracção
    Do enlêvo augmenta a chamma;
    E embala o engano da alma
    Para sempre em quem ama!

O hymno de amor desdobrava-se em um coral unisono no retornello--O que
fará quem ama?--deixando uma impressão mais que humana. Emquanto os
eccos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre redonda,
Lisia, de mãos dadas com Viriatho, foi percorrendo a sala á volta,
cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com sympathia. D'alli
subiram os dois para o terceiro e ultimo andar da Torre d'onde se
alcançava a extensão immensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um
céo sereno e sem nuvens.

--Como as nossas almas!--disse-lhe Lisia, apontando todo aquelle ambiente.

Alli, n'aquelle retiro ignorado do mundo e até aonde sómente Lisia tinha
accesso pela sua qualidade de Semnothêa, alli, de pé, junto de Viriatho,
e contemplando o Oceano profundamente placido n'aquelle dia,
confessou-lhe a noiva ingenua:

--Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como és. Como
Semnothêa e para que te entregue completamente a minha vontade, só me
falta uma prova de ti. Tens de responder a um Enigma.

--O coração que ama tudo adivinha.

Então Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:

    Vive sem ter corpo,
    No valle ou em gruta;
    Falla sem ter bocca,
    Sem ouvido escuta?

--Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando
pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo _Ecco_.

--Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei
que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.

E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriatho, e
atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:

--Para sempre!

E Viriatho, tomando-lhe as mãos ambas:

--Eu ouvia fallar de ti como uma apparição celeste, mas não tinha
esperança de chegar a vêr-te. N'esta vida de combates que levo, para a
independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como
consequencia da lucta, e então... morreria sem vêr-te.

--Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a
amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e
Virgem Semnothêa do Collegio sacerdotal, que através de todas as
perseguições e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada
de _Achale_, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida
com a independencia da Lusitania.

--É para mim muito mais do que a corôa de rei a escolha que de mim
fizeste para teu esposo.--Disse Viriatho, tomando as mãos de Lisia e
beijando-as trémulo.

Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou
com emoção e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo não
um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo,
fitando o mar como esquecido de si.

Lisia, com ternura e graça, perguntou-lhe:

--Quando te entreguei a taça de ouro, por que hesitaste em leval-a aos
labios?

--Dominou-me o espasmo de uma impressão divina.

--Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse
momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o
meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro
aos labios acceitando a minha escôlha; mas... só virei a ser a tua
Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado _quando um General romano te
pedir a Paz_.

--Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me á tua vontade,--para
sempre. A condição que revelas é um impossivel, por ventura para não te
destituires da hierarchia de Semnothêa? Virgem dos mysterios cultuaes,
nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura, e tirando
d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo
eu? deixa-me delirar um instante, para forçar um Pretor, um Consul a
_pedir-me a Paz_. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal não ter familia em
quanto não expulsar os Romanos da Lusitania.

Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibração de confiança em si,
para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a
condição quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a
presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que
trazia, metteu-o no dedo da mão esquerda de Viriatho, n'aquelle em que
se diz passar a vena-percordial.

E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se
tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho
d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o não
deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de
Lisia, que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguivel
raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as
vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no _Terçado_ e no
_Annel_ os Talismans que pelo poder da tradição formariam o Thezouro do
Luso.



XXXIII


No segundo dia em que Viriatho passou na ilha sagrada de _Achale_, o
velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre redonda, e ahi
ambos a sós, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento
mysterioso; fallava Idevor:

--«Tens a força material, n'essa Espada _Gaizus_, que te torna
invencivel: a força moral é a que não se extingue e mais se communica.
Já que o teu braço serve com lealdade a causa da Lusitania, é preciso
que o teu espirito seja apoiado pela Tradição da nossa raça; que a
conheças, por que a tua memoria sobreviverá n'ella, e que com ella
ligues em um vinculo affectivo todos os companheiros de armas que seguem
o teu commando. A tradição do passado é dolorosa, mas sublime; nós os
Lusos sômos um ramo d'essa grande raça navegadora que desceu do Norte
pela borda occidental da Europa, occupou as ilhas Britanicas, a orla
atlantica das Gallias, da Aquitania, e espalhando-se na Hispania, chegou
ás ilhas Mediterraneas e á alta Italia.

«Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os
amphibios, tirou d'esta qualidade os nomes de muitas das suas tribus,
que fórmam Ligas hanseaticas para protegerem a sua actividade mercantil,
vendendo os blocos de Ambar amarello que iam buscar aos mares do Norte.
Esse grande Povo, d'onde proviemos, encetou as audaciosas navegações do
Oceano atlantico, descobrindo ahi as Ilhas Afortunadas, tocando em um
ignorado continente que fica lá para as bandas do Oéste ou a terra dos
_Aymaras_, a quem communicou a sua civilisação e conhecimentos de
astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo persico,
e depois de estacionar na ilha de Dilmun, occupou a baixa Chaldêa,
dirigido por Oannes ou _Huan_, que na velha lingua designava o Sol, que
era o guia certo d'esses navegadores primeiros.

«Perdeu-se a noticia d'estas largas navegações; a raça foi atacada por
outras raças fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas,
armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que só conheciam
espadas de bronze; e essa raça corpulenta e loura, irrequieta e inculta,
bateu os Ligures, escravisou-os ou misturou-se com elles desnaturando-os
da sua pureza primitiva. Por mar os Phenicios e os Jonios do
Mediterraneo lançaram-se no esteiro das suas navegações e mettiam a
pique todos os baixeis liguricos que encontravam. N'esta longa lucta é
que os Ligures foram succumbindo; sobretudo na Hespanha, quando os
Iberos, vindos do norte da Africa, aqui entraram e monopolisaram o
commercio do estanho que iam buscar ás Ilhas Cassitérides.

«Outras raças vieram successivamente á occupação da Hespanha, e aqui
foram comprimindo a raça de _Lez_, o generoso povo da Lusonia,
empurrando-o para a faixa occidental, e como que procurando arrojal-o ao
mar Oceano. É no conflicto d'estas raças invasoras que a Lusitania tem
diminuido de territorio, e as suas tribus vão sendo desmembradas. Os
Romanos acharam-os já enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na
faixa que hoje occupâmos, á antiga invasão dos Celtas, e até agora nunca
confundidos nem incorporados pelos Iberos. É com esta força de
resistencia immanente na possa raça que deves contar; ella vale mais do
que muitos exercitos disciplinados, estes morrem mas esse sentimento é
inextinguivel. A Lusitania não é somente um territorio maior ou menor,
que nos aggrega; é uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jonios
roubaram-nos as nossas tradições poeticas, transportando para as
cabotagens do mar Mediterraneo as nossas aventuras temerosas passadas no
Atlantico, que se tornou para os seus geographos o _Mar Tenebroso_. Os
Phenicios afundaram os nossos baixeis e apoderaram-se dos nossos
Periplos e do nosso commercio. E depois de tanta devastação do
estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa
Roma votar-nos ao exterminio para assim firmar a sua posse pacifica da
Hespanha, segura de que o Ibero se considera honrado com a expoliação do
seu dominio. Hoje, Roma conta com a antipathia do Ibero para subjugar a
Lusitania: com o odio do Ibero contará mais tarde qualquer outra
potencia estrangeira para submetter a Lusitania, dando-se como
protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o véo do futuro?...»

Idevor explicára longamente este quadro do passado da raça dos Ligures,
e a situação sempre combatida das tribus da Lusonia, quando ella tocava
quasi os Pyrenneos, e mesmo as margens do Mediterraneo. Mostrára a
Viriatho as moedas autonomas das antigas cidades peninsulares, as armas
dos seus heroes, os collares do commando, por onde o Chefe ficou
conhecendo todos aquelles povos agora desmembrados entre os Celtiberos,
que pertenciam á unidade da Patria lusitana. Por este conhecimento
precioso Viriatho adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos
elles na defeza contra o Romano.

No terceiro e ultimo dia em que Viriatho se conservou na Ilha sagrada de
_Achale_, o velho endre subiu com elle ao terceiro andar da Torre
redonda, para _aventar_ rapidamente alguns traços do futuro:

--«Vês esse Mar immenso! esse Atlantico, que os baixeis liguricos
sulcaram destemidos outr'ora, e hoje o Phenicio monopolisa? Quando o
Luso se vir comprimido entre as raças que avançam de léste e o mar, que
hoje lhe serve de barreira defensiva, elle terá consciencia da sua
missão no mundo, sentirá em si renascer a antiga energia da raça, e
restabelecendo as grandes Navegações antigas fundará novos Imperios em
vastos continentes agora ignorados. É este o destino da Lusitania: será
a primeira das Nações, emquanto ella servir esta tradição, emquanto um
fiel alliado estrangeiro a não espoliar das suas descobertas...»

O endre não era bem comprehendido; o praso chegára, e a barca de couro
já fluctuava junto da lingueta de areia no porto de _Achale_. Viriatho
desceu da Torre redonda, acompanhado pelo endre e pelo côro das Virgens
á frente das quaes vinha Lisia; embarcou, chegando em breve á costa de
Cetobriga onde o esperavam com anciedade.

Lisia dissera-lhe á despedida:

--Agora tens o teu espirito iniciado para ires á _Pedra Virgem_, e lá
tomares conhecimento do antigo Poema de seis mil versos, gravados nos
Bastões dos Poetas. Não basta dar unidade ás tribus lusitanas pelo poder
da Espada: a Tradição conservada na Arvore d'Ogham, de que o ramo
inicial e mais caracteristico se denomina _Luis_, bem revela que os
destinos da _Lusonia_ se eternisarão pelo perstigio do seu Canto
nacional. Eu pedirei a Idevor, que te guie á Caverna das Inscripções
oghmicas, junto á margem do Durius, e lá te descubra o grande Poema da
raça, esse Pregão eterno do genio luso.



XXXIV


Apenas Viriatho se reunira aos seus Mil Soldurios, que o aguardavam
impacientes, correu a noticia de que o Consul Quinto Fabio Maximo
Emiliano, que fôra eleito n'aquelle anno de DCIX da fundação de Roma, já
pisava o solo da Hespanha, vindo commandar pessoalmente a guerra.
Considerava-se em Roma esse expediente como decisivo para assegurar o
dominio da peninsula embaraçado por umas miseraveis tribus que tinham a
ousadia de quererem ser livres.

Quinto Fabio sahiu de Roma descontente, porque sómente conseguira
completar duas Legiões novas para reforçar aquellas já cansadas de que
dispunha Caio Lellio. Conscio d'esta impotencia, o Consul comprehendeu
os conselhos prudentes de Lellio, não pensando em dar começo á campanha
sem se informar do territorio e dos costumes do temeroso inimigo, e
mesmo dos elementos hostis indigenas que poderiam coadjuval-o; de mais,
era conveniente desfazer as prevenções pessimistas que apavoravam as
tropas. Quinto Fabio não foi ao encontro de Viriatho; e como que fugindo
a uma conflagração, que poderia ser um desdouro para as armas romanas,
procurára ponto estrategico para collocar o seu exercito, a coberto de
qualquer surpreza do Cabecilha lusitano. Procurou a grande planicie
cortada pelo rio Betis, porque ahi existiam numerosas Colonias romanas,
que eram outras tantas guardas avançadas que lhe asseguravam a defeza.

Desceu até á extremidade oriental da Turdetania, aonde predominavam
povoações ibericas, para as quaes o jugo romano se tornava uma honra; e
ahi, na cidade de Orson ou Urso, assentou os seus arraiaes com toda a
segurança. A posição era de uma firmeza imperturbavel, porque se achava
rodeada por muitas Colonias militares importantes, taes como a
_Italica_, da parte continental ou interior, tendo apoio na cidade mais
opulenta e populosa de toda a Betica, _Hispalis_, emporio commercial
activo e rico, com um semi-circulo de fortalezas afamadas cheias de
provisões, que eram _Carmona_, _Astigi_, _Ucubi_ e _Tucci_. E como se
isto ainda não bastasse para garantir a protecção ao exercito, ainda
mais para o norte lá estava _Corduba_, a capital da Hispania ulterior,
para impedir qualquer incursão do inimigo. Quinto Fabio podia estar
seguro, porque com estes recursos era impossivel molestal-o do lado da
terra; pelo litoral tambem não era presumivel o perigo, antes pelo
contrario para uma eventualidade sinistra facilmente se refugiaria com o
exercito nas fortes muralhas de _Gades_, de _Carteia_ e de _Málaca_.

Por certo o exercito que Fabio veiu tomar do commando de Lellio estaria
em situação desesperada, para que elle assim procedesse estabelecendo o
seu arraial com uma exclusiva preoccupação defensiva. Dispostas todas as
forças nos seus quarteis, cada dia que passavam na inactividade era um
motivo de enfraquecimento e de indisciplina; para justificar essa
necessaria apathia, Quinto Fabio simulou uma excursão ou theoria ao
templo de Hercules Gaditano, para tornar propicio o Deus das povoações
ibero-phenicias, e offerecer-lhe um apparatoso sacrificio, para assim
lisonjear a credulidade d'esses povos e ligal-os aos interesses de Roma.
A ausencia do Consul impunha a necessidade ao seu logar-tenente de
manter a disciplina do exercito em operações continuas de adestração,
acostumando-o ás emboscadas e surprezas de um inimigo incansavel e
sempre empregando expedientes imprevistos. Nem por isso o animo da
soldadesca se alevantava, por que o conhecimento das derrotas anteriores
era um nefasto agouro; e além d'isso pobres mercenarios recrutados á
força por todas as colonias e conquistas romanas não eram impellidos por
um sentimento, como aquelles para quem morrer sobre o solo da Patria que
defendiam era uma gloria e um delicioso sacrificio.

Emquanto Fabio se demorava na excursão ao Templo de Hercules Gaditano,
evitava decentemente qualquer batalha com Viriatho, que se julgava muito
longe; e o seu exercito ia cobrando alento para o momento opportuno. E
não era o tempo perdido, por que o Consul conseguira, talvez pelas
indicações de Caio Lellio, travar relações com chefes de algumas cidades
dos Turdulos, dos Turdetanos, e principalmente das cidades Celticas, que
já se mostravam cansadas d'estas guerras prolongadas que estavam
embaraçando a entrada da civilisação romana na peninsula hispanica.

Viriatho não se temia do exercito de Fabio; conhecia que as duas Legiões
recem-chegadas de Roma eram maltrapilhos apanhados nos enchurros da
cidade, bisonhos despreziveis extranhos a todo o brio e espirito
militar; os que cá estavam não podiam esquecer os revezes a que
escaparam e as derrotas que lhes infligira com vontade. Mas, uma cousa
preoccupava o Cabecilha: as conferencias de Quinto Fabio com chefes
civis turdulos e turdetanos, as suas visitas apparatosas a cidades
Celticas, revelavam-lhe que o Consul procurava uma nova força não no
exercito, mas no descontentamento das povoações que naturalmente eram
antinomicas com a liberdade da Lusitania. E reconhecendo que toda a
demora na acção era um ensejo para Fabio se reforçar com este
antagonismo de raça, Viriatho decidiu ir atacar o arraial em que se
defendera o exercito romano, começando por se occultar pelas florestas
circumvisinhas da cidade de Orson.

Fez-se essa operação com extrema pericia, porque os Terços lusitanos
dirigiram-se de afastados pontos para a extremidade oriental da
Turdetania, e insensivelmente se internaram por Companhias nas cerradas
florestas d'essa vastissima planura.

Não se fez esperar o primeiro golpe; do exercito de Fabio saiu um
destacamento de uns quinhentos homens para ir buscar lenha á floresta
mais proxima da cidade de Orson; iam muitos carros puchados por bois e
por cavallos. Quando estavam abatendo os troncos, de todos os lados
surgiram os Companheiros de Viriatho, rapidamente, e tão certos no
plano, que esses quinhentos foram totalmente trucidados, sem que a nova
terrivel podesse ser levada a Orson.

A demora dos mateiros fez com que o logar-tenente de Fabio mandasse vêr
que extraordinario caso se dera; trouxeram-lhe a noticia do morticinio,
mas longe de suspeitar que um tal golpe só poderia ser dado pela audacia
de Viriatho, o logar-tenente alardeando conhecimento dos costumes da
Hespanha, exclamou:

--Foi uma partida de Salteadores, uma d'estas Quadrilhas que vivem do
roubo e depredações, tão constantes na Hespanha. Irei castigal-os, eu
mesmo.

E pondo-se á frente de uma Legião, dirigiu-se para a floresta proxima de
Orson, na ideia de que apanharia os Salteadores. Assim que dividiu as
forças para o cêrco e batida, sahiram-lhe das outras florestas os Terços
de Viriatho, que subitamente cáem sobre os manipulos romanos e os
destroçam completamente.

Os que conseguiram fugir levaram o terror ao exercito aquartelado em
Orson; e sob a tremenda impressão foram emissarios levar a Fabio, que
estava ainda em Gades, a nova espantosa, que o forçou a partir a toda a
pressa, e a vir tomar o commando do exercito para proceder conforme o
exigia a presença do inimigo.

O Consul estava bem industriado, e guardou-se de dar batalha campal a
Viriatho; fez como o Caudilho, respondia ás escaramuças com outras
escaramuças; não perdia gente, e tendo o seu exercito bem aprovisionado,
considerava estes pequenos assaltos em que ficavam no campo trinta,
cincoenta homens, como uma eschola em que adestrava os seus soldados á
indole especialissima d'esta guerra sem egual.



XXXV


Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indecisão da
campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiára o
Senado. Era momento azado para negociar a alliança, por que não tinha
sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o
Cabecilha, para impôr condições vergonhosas. Mandou um emissario a
Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz
e alliança com Roma nas bases do _Foedum aequus_ era uma solução honrosa
em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da
Lusitania.

Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a
perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade,
reconhecendo-o como _Principe da Lusitania_. E na sua linguagem franca e
rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o
diploma que lhe fôra confiado:

--Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania é o
empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliança com Roma, n'essa
base de egualdade politica, será effectivamente uma garantia para a
autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe ha uma
phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rómulo,
que foi chefe de ladrões e que teve habilidade para dar á sua quadrilha
a cohesão de um Estado entre as Cidades italicas.

«A Lusitania é constituida por cidades livres e trabalhadoras,
subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fóros; e
muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de
Salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de fallar, e sem
mais valor do que banaes comparações; mas o que eu repillo com todas as
véras de alma é o titulo de _Principe da Lusitania_. Não é a simpleza
dura do meu caracter ou isempção que me leva a recusar esse titulo; é o
conhecimento da tradição d'esta terra livre por que combato.»

«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em
que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano,
começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu
interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia
irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a
Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar
esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes,
para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes
meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros
que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da
liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania,
desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se
impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o
entregue ao assalto dos invasores.

«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a
Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra,
vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima
dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o
glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas
federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e
francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em
condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado
visa a outros fins, tem outros intuitos.»

O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do
Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A
incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos
generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem
audaz, mas não com a grandeza do caracter.



XXXVI


O tempo dispendeu-se n'estes preparativos de uma acção estrondosa e
decisiva, quando começaram as primeiras chuvas do inverno; o corriculo
do Consulado de Fabio estava terminado, e com elle o seu commando, em
verdade esteril e inglorio. Poderia considerar-se equivalente a uma
derrota surda. Em Roma fallava-se aggressivamente contra Quinto Fabio,
como deslustrando as tradições heroicas da familia Emiliana. Aconteceu
que n'esse anno de DCX foram eleitos Consules Servio Sulpicio Galba,
esse antigo Pretor que ordenára traiçoeiramente o morticinio dos trinta
mil Lusitanos, o qual se enriquecera com os latrocinios do seu governo
provincial, e Lucio Aurelio Cotta, que com elle compartilhava n'esse
anno o poder, e tambem era em Roma assás conhecido por uma avareza
sordida e insaciavel ambição de dinheiro.

A guerra da Lusitania appareceu para esses dois Consules como uma
venturosa espectativa; o commando do exercito facultava o exercerem em
nome da Republica todas as extorsões e vilezas. Ambos os Consules
disputavam entre si o commando da guerra contra Viriatho. Galba não
queria perder o ensejo que se lhe appresentava; era o meio de voltar á
Hespanha e de reconstituir a sua riqueza malbaratada ou perdida. Lucio
Cotta já sonhava em vir a ser o argentario mais preponderante de Roma.
Galba allegava:

--Já fui Pretor em Hespanha e governei a Provincia da Lusitania; conheço
aquelles territorios, aquellas gentes e os seus costumes. Sou temido, e
a lembrança do meu nome fará fugir diante das Legiões romanas todas
essas tribus de ladrões e barbaros. Só eu tenho no actual momento as
condições excepcionaes para commandar essa guerra que se vae tornando
uma vergonha. Os Lusitanos bem sabem que eu não me pago com palavras.

Os credores e parasitas de Servio Galba apoiavam aquellas pretensões
apparentemente plausiveis. Os partidarios de Lucio Cotta conclamavam:

--Ainda nos não esqueceu a accusação tremenda de Catão o Censor. O
governo de Galba na Lusitania infamou Roma com uma nodoa indelevel.
Galba é o unico homem a quem não póde ser confiado o commando da guerra
contra Viriatho, porque a sua presença levantaria na Hespanha as
proprias pedras contra Roma. Seria a prova de que Roma não civilisa os
povos barbaros como proclama ao mundo, mas rouba-os, devasta-os, por que
subsiste por esse expediente que a dispensa no seu exclusivismo militar
de toda a actividade agricola ou fabril. Galba por fórma nenhuma!

Esta questão foi debatida no Senado; até ahi, entre esses venerandos
patricios, sentados soberanamente nas suas cadeiras eburneas, se
dividiram as opiniões, uns por Galba, outros por Cotta. Mas quando se
discutia o assumpto, levantou-se o senador Scipião Emiliano, e erguendo
a mão intimativamente exclamou com nitidez:

--Em meu entender, nem Galba, nem Cotta merecem a confiança da Republica!

O Senado ficou no mais sepulchral silencio ao ouvir aquella phrase que
era quasi uma sentença. Scipião tinha grande auctoridade e ascendente
moral enorme depois que regressára da destruição de Carthago. Depois
continuou a phrase que mantivera em suspensão intencional:

--E não a merecem, porque um por ahi anda arruinado apoz a dissipação
das riquezas que roubou quando Pretor na Hispania; o outro, pelo
contrario, riquissimo pela sua proverbial avareza, só trataria de se
encher mais, servindo-lhe a guerra de pretexto para saciar os seus
ávidos interesses.

A voz de Scipião impôz-se a todos os espiritos, dominados pela coragem
com que formulára em pleno Senado o seu argumento. Para sahir d'aquelle
embaraço o Senado achou como unica tangente não melindrar a familia
Emiliana, prorogando o commando militar e consular de Fabio, e que como
Proconsul continuasse n'esse anno a guerra da Lusitania.

Substituir Quinto Fabio, quando elle já estava industriado na fórma da
guerra viriathina seria um erro perigoso; e a increpação do destruidor
de Carthago teve sua opportunidade, porque n'esse anno de DCX, passado o
inverno, o Proconsul preparou-se para dar uma batalha campal a Viriatho,
e justificar assim a anterior inercia.

Viriatho passára tambem esse inverno na Betica, porque conseguira tomar
ahi duas cidades em que assentou os arraiaes. Fabio, apesar de ter
augmentado enormemente o seu exercito, exigindo contingentes das varias
cidades alliadas dos Romanos, fiava-se mais nas informações que
conseguira obter de gente que andava nas hostes do Cabecilha. Era esse o
pensamento de Caio Lellio, sendo o caminho aproveitar o antagonismo da
raça iberica. E seguro de qualquer informação secretissima e por via que
nunca será conhecida, o Proconsul põe todo o seu exercito em campo e
ataca Viriatho com todas as regras da poliorcetica romana.

Viriatho não hesitou um momento, pondo-se em frente do inimigo que bem
conhecia; os seus Cavalleiros e infantes bateram-se desesperadamente, e
quanto mais destroçavam as forças romanas, novas reservas accudiam a
Quinto Fabio successivamente, por modo que Viriatho, conhecendo que lhe
fraquejava um flanco do seu exercito, ordenou a tempo uma retirada sob
_Bécor_, aonde as florestas, os rochedos e as ribanceiras intransitaveis
o punham a salvo do exercito romano, que foi perseguindo-o por algum
tempo. Viriatho deixou no campo muita da sua gente. Então, para vingar
as perdas que soffrera, e o furor que lhe provocára o desapparecimento
do Cabecilha em _Bécor_, foi Quinto Fabio com o seu exercito occupar as
duas cidades que até agora estiveram sob o poder do chefe lusitano,
dando ordem á soldadesca para o saque desenfreado, mandando em seguida
lançar-lhes o fogo, passando á espada folego vivo que encontrassem.

Quando Viriatho estava já seguro em _Bécor_ do inopinado golpe em que o
Proconsul levára vantagem, veiu-lhe um presentimento, que a ninguem quiz
communicar:--A fórma do ataque de Fabio revela-me que se aproveitou de
uma traição!

De repente chegou ao pé de Viriatho o seu companheiro Andaca:

--Sabei que os Turdulos e os Turdetanos depozeram as armas; e pediram
paz a todo o transe; assim perdemos esse vasto territorio, todo o
oriente da Betica.

N'isto chegou Minouro, o outro companheiro, e disse para Viriatho:

--Os Celticos, que confinam com a nossa terra lusitana, por causa d'esta
derrota voltaram-se para os Romanos, dizendo que querem pastorear os
seus rebanhos em paz por esse Alemtejo e Extremadura.

E emquanto Viriatho se mostrava apprehensivo, Andaca e Minouro
affastaram-se um pouco e segredaram:

--A Espada invencivel perdeu d'esta vez o encanto.

E sorriram-se n'uma intima perfidia com uma satisfação que só elles
ambos comprehendiam.



XXXVII


Depois da apparente victoria de Fabio, que muito bem sabia a quem devera
essa momentanea vantagem, recolheu-se o Proconsul á capital da Hispania
ulterior, á cidade de Corduba para ahi descansarem as tropas no rigor do
inverno. Viriatho reconheceu que avançára demais para sudéste da
peninsula, em que predominava o Ibero, e sentindo-se ahi sem apoio nas
populações, aproveitou a inactividade do Proconsul para levar o seu
exercito á Hespanha ulterior, onde era mais odiada a dominação romana,
chamando á revolta desde o Anas e o Betis até ao Promontório Trileuco,
todas as tribus e populações em quem girava o sangue lusitano.

As revelações que na ilha sagrada de _Achale_ Viriatho recebera do endre
Idevor, dando-lhe viva comprehensão d'esta Patria ideal, por cuja
unidade e autonomia batalhava; e o amor de sua noiva, a deslumbrante
Lisia, que o escolhera para esposo exigindo por condição que o Romano
_lhe pedisse a paz_, excitavam no valente Caudilho um heroismo
inquebrantavel, e mais do que isso inspiraram-lhe o poder mysterioso de
fallar ás almas, de estabelecer a harmonia dos sentimentos. A sua
palavra começou então a ter tanta força como a sua Espada; e pelas
terras por onde passava, deixava uma onda de insurreição, synthetisada
n'um grito:

--Uma só vontade nos una! Guerra ao Romano!

Viriatho dirigiu-se áquella região que vae das fronteiras dos Carpetanos
até ao paiz dos Edetanos, que fórma toda a parte oriental e occidental
da Celtiberia, aonde habitavam os Belitanos e os Titos, cujas Companhias
destroçára havia quatro annos, quando como alliados foram em auxilio do
Pretor Caio Vetilio. A presença corajosa de Viriatho alvoroçou a
população; o Cabecilha fallou-lhes com desassombro:

--Estaes resentidos de mim, e aqui me tendes se mereço a morte; mas
ouvi-me. Eu lucto pela independencia da vossa patria, que é a minha.
Vós, habitaes esta parte da Celtiberia, que tambem é Lusitania; porque
os povos que aqui vivem não são Iberos, são _Lusonios_ separados pelo
rio Ebro, sobre a sua margem direita. Estas duas raças são
inconciliaveis! se ellas se podessem unir por um pacto de alliança,
nunca n'esta peninsula hispanica se teriam estabelecido os Celtas
vagabundos; nem aqui entrariam os Phenicios, nem os exercitos
Carthaginezes occupariam o nosso solo. E como essa alliança nem pela
necessidade da defeza mutua póde trazer a um accordo Iberos e Lusitanos,
é por isso que as rivalidades entre os Carthaginezes e Romanos trouxeram
estes guerreiros a repellil-os do nosso territorio, mas a impôr-nos
cruamente o seu dominio, arrasando as nossas cidades, e roubando-nos
ignobilmente pêlos seus Pretores. Os Iberos foram acceitando o governo
ou propriamente o jugo dos Romanos; os Lusitanos, que em Roma pelo
testemunho dos seus generaes são considerados os mais valentes e
destemidos dos Povos celtibericos, são os que resistem ao estrangeiro,
os que aspiram a ter uma Patria livre. Deixemos para além do Ebro o povo
dos Iberos, que amam a auctoridade fortemente constituida; contemos só
comnosco, Lusitanos a quem o espirito da revolta os impelle a sacudir
todo o jugo e a cortar a mão que ousa domal-os. Desde o morticinio
truculento feito á falsa fé por Galba em trinta mil Lusitanos chamados a
uma assembleia pacifica, é que eu me insurgi contra essa clamorosa
infamia, e ha sete annos que sustento uma campanha em prol da Patria
livre infligindo derrotas successivas aos exercitos romanos. Em Roma
votou-se o exterminio, a aniquilação completa dos Lusitanos. Fabio já
teve um simulacro de victoria, porque encontrou no elemento iberico um
meio de derrotar-nos, esse inconciliavel antagonismo. Isso nos obriga á
união das populações e cidades da Lusitania. Vós, oh habitantes da
Belia, d'esta Edetania, limite oriental da Celtiberia, vós sois
Lusitanos, sem differença alguma, como o reconhecem mesmo os viajantes.
Sois descendentes dos _Lusonios_, que transpozeram ha seculos
immemoriaes os Pyreneos vindos da Aquitania, aonde existem ainda as
tribus dos _Elusatos_; essas tribus dos Lusones fixaram-se nos montes
que dividem os rios Jalon, Mosa, Henares e o Durio, estendendo-se até ao
Mediterraneo e Montes de Idugbeda; pelo occidente alargaram-se do alto
Durio até ao Tejo. Mas esta extensão primitiva da nossa Lusitania, que
podemos chamar _Lusitania oriental_, foi sendo dividida pelas invasões
estrangeiras, a começar pelos Iberos e Celtas, que a comprimiram para
oéste, forçando os Lusonios a concentrarem-se nas Beiras, na Extremadura
cistagana, e por todo o Alemtejo, formando hoje esta _Lusitania
occidental_ que começa no Promontorio Sacro até aos Callaicos. Juntemos
estas _duas Lusitanias_ e teremos o dominio da Hespanha, que só será
senhora do seu destino quando repellir todo o poder estrangeiro do seu
solo. Ahi estão as vossas cidades attestando pelos seus nomes, que ainda
pertenceis a essa patria primitiva, que nos une a todos: _Lusera_ e
_Luzes_, proximo de Jaen, estendendo-se até ao rio Tajuña; _Luzago_,
_Lucia_ e _Alustante_, proximo de Jalon; _Lucos_ e _Lucera_, na parte
meridional do Ebro. Foi por estarmos separados, que os estrangeiros nos
invadiram, e o Romano nos aniquila para se mantêr pela expoliação das
nossas riquezas. O isolamento das cidades é a fraqueza; a federação
cantonal é a garantia da independencia.»

A voz de Viriatho calou nos animos; os Belitanos reconheceram que se não
differençavam dos Lusitanos; e perdoando o castigo que o Cabecilha lhes
infligira quando iam em soccorro de Vetilio, bradaram erguendo ao alto
as mãos direitas:

--Uma só vontade nos una! Guerra ao Romano.

Com essa gente da Edetania veiu tambem o povo seu alliado da _Titulcia_,
a que chamavam os Titos, jurar o pacto defensivo. Mas aonde a voz de
Viriatho produziu um effeito vertiginoso, hallucinante, foi entre os
Arevacos, nas nascentes do Durio, que se firmavam na sua fortaleza
inexpugnavel de Numancia, visinha de _Luzon_.

--Bravos filhos da Lusonia! vós bem sabeis que todos os chefes militares
que luctaram contra os Carthaginezes, pela independencia da nossa terra,
e que coadjuvaram estes quando estavam em lucta de exterminio contra os
Romanos nas chamadas _Guerras Punicas_, bem estareis lembrados que esses
Chefes destemidos foram naturaes da Celtiberia, que na sua parte
oriental e occidental era propriamente a _Lusonia_. Não podemos
pronunciar o nome de Indortes, sem assombro; de Indibilis, Edescon e
Mandonio, sem que sintamos referver o sangue n'um impeto de coragem;
Carus e Alucio, e ainda Istolacio, embora da geração dos Celtas, são a
prova de que não nos falece o espirito de revolta e a capacidade do
commando. Mas se os Chefes são gigantescos, que diremos dos seus
Soldurios e até da fraternidade heroica que elevava os seus servos? Quem
se não recorda d'aquelle general lusitano, Tago, a quem Asdrubal deu a
morte? O feito do seu escravo, que lhe vingou a morte apunhalando
Asdrubal junto das aras em que estava sacrificando, mostrará a todos os
estrangeiros, qual é o vinculo que nos liga uns aos outros.»

Das partes dos Arevacos levantou-se um mancebo de aspecto robusto e
gestos decididos; era bem conhecido como filho de Salondico e
continuador da sua bravura, estando-lhe por isso confiado o governo da
fortaleza de Numancia. E batendo no peito como garantia de firmeza:

--Eu tambem repetirei: Uma só vontade nos una! e essa vontade seja a de
Viriatho conduzindo-nos á guerra contra o Romano, até o repellirmos da
Hespanha, tornando a nossa Patria livre. Diante de Numancia estacará o
poder das armas romanas! e se a fatalidade da guerra fôr contra nós,
morreremos ahi todos, mas morreremos livres.

Viriatho abraçou o mancebo denodado, que lhe dizia reconhecido:

--Tu consagraste a memoria de meu pae; por ti derramarei meu sangue
quando o determines.

O incendio da guerra santa prègada por Viriatho propagou-se para o norte
da peninsula, porque a Callaecia, a dos antigos, formára tambem parte da
Lusitania; numerosos bandos, partidos e guerrilhas foram mobilisados
pelos Callaicos; como estes, tambem se insurreccionaram os Vacceos e os
Vettões na Extremadura; os Turdulos e os Turdetanos desligaram-se de
Quinto Fabio Maximo; como em uma onda que vinha crescendo, correram a
engrossar esta corrente novas tribus movidas por um sentimento acordado
pelo espirito que fortificava o braço de Viriatho:--o ideal de uma
Patria, synthese da unidade da raça até alli desmembrada, e de uma
Tradição esquecida ou quasi perdida. Pela primeira vez a Lusitania teve
a consciencia da sua unificação ethnica ao acceitar o pacto federativo
contra o Romano, proposto por Viriatho como uma força defensiva. A
coragem do chefe lusitano era tão grande como a confiança no futuro da
Lusitania livre. Em todas as guerras da Hespanha nunca os Romanos
encontraram um levantamento de povos assim vasto e unanime; era uma
situação desesperada, que só por meios fóra dos processos conhecidos
poderia ser dominada.

Roma, na prosecução dos planos da sua politica absorvente, desconhecia a
coacção moral; quando não confiava na força das armas, recorria ao poder
do ouro, subjugando pela corrupção, e falhando os baixos expedientes,
alcançava sempre o exito descendo até á--traição. Ante o perigo da
constituição federativa dos Povos lusitanos, Roma entrevia o seu
triumpho na--morte de Viriatho. E nunca faltaram traidores.



XXXVIII


Esperando o momento azado para recomeçar as operações militares, Quinto
Fabio Maximo passára o inverno no seu quartel estabelecido na cidade de
Corduba, vendo que a espantosa revolução que irrompia entre as tribus
lusitanas chegava á maior intensidade quando justamente estava a
terminar o periodo do seu consulado. Elle presentia, que em Roma a sua
pretendida victoria era motivo de facecias; por que as noticias do
levantamento de tantos povos á voz de Viriatho, desde o Anas e Betis até
ao Promontorio Trileuco, patenteava que o chefe lusitano redobrára de
força e de prestigio depois da sua retirada para Bécor. Quinto Fabio,
sob a incerteza se seria chamado a Roma, se continuaria no commando da
Guerra viriathina, ou se outro Consul o viria substituir, passava os
dias em uma agitação moral que o perturbava profundamente, obrigando-o
ao esforço de occultar o seu estado de espirito, diante dos que o
rodeavam. Na inacção forçada da estação hyberna, ordenou certos
divertimentos, que os Consules, na sumptuosidade de vida que usavam na
Peninsula, tornavam uma caracteristica da grandeza romana.

A melhor parte do dia passava-se em um lautissimo e grandioso banquete,
em que á parte as iguarias, em que predominava o salmão cosido em vinho
branco, deliciava os convivas a parte espectaculosa, que se continuava
pela noite adiante. Durante o banquete resoavam as musicas proprias
chamadas _acroamata_, em que grupos de moços e raparigas ao som de
flautas e lyras cantavam desenvoltamente em meneios de dansas e
pantomimas, imitando situações dos mythos religiosos e das lendas
homericas. Eram sobretudo jovens syrias e gaditanas, que, ao som dos
cantos licenciosos mais fascinavam pelas dansas lascivas os convivas de
Quinto Fabio. E para fazer contraste com a belleza das fórmas,
appareciam de repente os _anões_ e _aleijados_, que em contorsões
violentas, procurando imitar os _equilibristas_, que formavam pyramides
e torres ambulantes, dando cambalhotas e guinchos estridentes,
suscitavam as mais estridulosas gargalhadas. Á variedade e profusão das
iguarias, correspondia a mudança dos divertimentos, destacando-se, pelo
seu poder hilariante, os _Imitadores_, que reproduziam o canto dos
gallos, e o dos rouxinoes, os zurros do jumento, o miar dos gatos
assanhados, macaqueando os gestos e a falla dos typos mais conhecidos da
cidade de Corduba e mesmo de alguns Centurios.

Quando Fabio estava cansado de rir de todas essas manifestações da
indignidade humana, das disformidades physicas e degradações moraes,
então mandava que se fizessem as recitações poeticas, e appareciam com
ramos de louro nas mãos os _Homeristas_, que ao som das lyras de sete
cordas e de cytharas declamavam episodios dos poemas do Cyclo homerico.
Já estavam os candelabros accesos na sala do banquete, quando entraram
os _Homeristas_, para recitarem alternadamente os cantos de um Poema, a
que deram o titulo de _Os Piratas tyrrhenos_; e em quanto declamavam,
figuras mudas em um intermedio dramatico iam representando todas as
situações descriptas:



«A bella e joven Neéra banhava-se descuidada nas ribas de Naxos.

«Apparecem subitamente os piratas do mar Tyrrheno e arrebatam-na, para a
venderem para algum gyneceo real.

      *      *      *      *      *

«Menéclida, seu velho pae, deplora a perda do encanto da sua velhice.

«O namorado de Neéra, encontra-o chorando, e persuade o velho para irem
consultar o Oraculo. Partem ambos com anciedade.

      *      *      *      *      *

«No mar os Piratas disputam entre si a posse de Neéra; e não se
entendendo no meio da sua lucta ameaçam de metterem o baixel a pique, e
morrerem todos.

«O piloto impõe-se aos remeiros, dizendo,--que é melhor ir offerecer a
cativa ao Rei de Coryntho, porque assim alcançavam um porto de refugio e
abrigo, quando fossem perseguidos ou batidos pelas tempestades do mar.

      *      *      *      *      *

«Neéra é offerecida ao monarcha: a formosura da cativa deslumbra-o.

«Coryntho está em uma grande desolação por uma terrivel peste asiatica e
a mortandade é enorme. O Rei consulta o Oraculo;--que responde: Que o
seu Estado ficará livre da peste logo que elle despose uma prisioneira.

      *      *      *      *      *

«Quando se faz o banquete das nupcias de Neéra, apparecem dois
forasteiros, o pae e o namorado de Neéra, desfigurados pelas fadigas das
jornadas, e por isso desconhecidos.

«Sentam os dois forasteiros á meza, e dão ao velho Menéclida uma lyra
para entoar um cantico. Como bom rhapsodo, desenvolveu em uma canção
saudosa o verso de uma tragedia de Sophocles:

    --_É preciso para ser feliz--viver no seu lar..._

«A cativa, agora rainha, conhece pelo canto a voz do pae, e vê na
physionomia do moço que o acompanha a expressão do namorado, dos seus
primeiros amores, Alcimo.

      *      *      *      *      *

«O moço diz ao rei que é esculptor, e que fizera as estatuas mais bellas
de Aphrodite para os templos de Héllade; e que se promptifica a fazer a
estatua de Neéra.

«O Rei quer a estatua da esposa, mas com uma condição: Que o artista
contemplando-a núa, logo que fôr terminada a obra elle morrerá, sendo
assim a sua morte o véo do pudôr.

«O moço acceita a condição resoluto: Neéra pasma, receiosa. Começa o
estudo das fórmas, das posições...

      *      *      *      *      *

«E quando os dois amantes sentiam mais ardente a paixão primeira, e
Alcimo achava impossivel reproduzir no marmore tanta belleza,
presentindo que a morte os separará para sempre, em um longo beijo assim
lhe segreda:

--Que a mesma morte nos una!

      *      *      *      *      *

«E de noite fugiram ambos do palacio, entrando em uma barca, das que
estavam varadas no porto de Coryntho: foram mar em fóra ao som da agua,
fallando dos seus amores, vogando perdidos, e ja muito longe, aos
primeiros alvores da alvorada, Alcimo cantava:

    Sobre o horisonte, quanto a vista alcança,
         Reluz vaga esperança:
    Branca vela! da salvação signal:
         --É o _Sonho do Ideal_.
    Succede á calmaria a viração,
         --Do Amor a aspiração,
    Que as nuvens da borrasca longe espalha!
         A vela branca assoalha.
    Nas auras fluctuando--esse estandarte
         Nos leva ás _regiões da Arte_.
    Que importa Syrtes ou parceis? agora
         Resplandece outra aurora,
    Um céo azul n'esses teus olhos! Vêl-o,
         E certo rumo--o _Bello_!
    Como busca outro clima uma andorinha,
         Que o calor adivinha,
         Fugimos! Crente, á prôa
         A alma para ti vôa...
    Pelo mar largo assim vamos os dois
         Devaneando... Depois,
    N'este enlevo sem fim, perdido o norte,
         Que seja o porto a morte!»

Apenas acabára a recitação dos _Homeristas_, já appareciam na sala os
Parasitos para dizerem chascos e graçolas; mas o Consul Quinto Fabio deu
ordem para que se retirassem.

--O que desejará agora o Consul? diziam uns para os outros. Talvez
alguma Tragedia? Que venha já immediatamente o Graeculo.

Quinto Fabio ouvira fallar n'uma crença que os Povos da Lusitania tinham
sobre os poderes maravilhosos de uma _Cerva branca_; constava-lhe que um
velho poema barbaro celebrava esse mysterio, pelo qual se explicava o
prestigio dos homens politicos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que
se lembrava de numerosas estrophes do Poema.

Disse-lhe o Consul:

--Tens a liberdade, se me recitares o Poema da _Cerva branca_.

--É o Poema de _Abidis_, do Principe fadado por _invencivel diante de
todos os perigos, e sempre subjugado pelo Amor_. N'esse poema está
symbolisado o genio da nossa raça lusitana: luctando indomavel até á
morte, mas deixando-se morrer de amor.

--Canta ou recita esse poema; e terás a liberdade.

O prisioneiro sentiu uma immensa alegria quando lhe tiraram as algêmas;
e começou em uma melopêa estranha, que absorveu a attenção dos convivas:

    *Rimo de Abidis*

    Ouviu negro vaticinio
    O rei Górgoris um dia:
    Que do seu throno dourado
    Um neto o despenharia!
    Mandou fechar n'uma torre
    Distante, redonda, esguia,
    A Princeza sua filha,
    Unica herdeira que havia.

    Triste, cativa a Princeza,
    Cantava de noite e dia,
    Para encher a soledade
    Nas angustias que soffria.
    Passa um Cavalleiro perto,
    A doce musica ouvia;
    Mas, como subir á Torre?
    Tão alta! quem poderia?
    Deixára soltar as tranças,
    E até á terra descia
    Seu fino e lindo cabello
    Por onde o moço subia.
    As noites eram auroras
    Da mais intima alegria,
    E as ausencias tornavam
    Cada vez mais negro o dia;
    Até que d'esses amores,
    Que ninguem suspeitaria,
    Ao cabo de nove mezes
    Formoso Infante nascia.
    Boas Fadas o fadaram,
    A qual mais dons lhe daria:
    --_Invencivel aos perigos_
    _Serà!_ uma fada dizia.
    _De amores sempre vencido_,
    Outra fada retorquia.
    Toma o rei Górgoris conta
    Do Infante apenas nado,
    Que traz o nome de Abidis
    No cinto em que é enfaixado.
    Sempre o negro vaticinio
    Ao velho rei é lembrado;
    Só pensa em salvar o throno,
    Leva ao crime tal cuidado.
    Em uma estreita azinhaga
    Deixa o neto abandonado,
    Por onde passa correndo
    Sua boiada, seu gado.
    Pelo poder do destino
    Não foi o Infante calcado!
    O velho rei recrudesce
    No odio ao neto votado,
    E manda lançal-o ao monte
    Certo de ser devorado
    Por algum lobo faminto
    Ou serpente do vallado.
    Foram dar com elle rindo
    Na relva fresca do prado,
    Lá por uma _Cerva branca_
    Com carinho amamentado!

    O velho rei mais raivoso
    Mandou arrojal-o ao mar,
    Crendo que as aguas profundas
    Hão de a criança afogar.
    A onda a que a arremeçaram
    Á praia a vem entregar!
    Então Górgoris conhece
    Que a Deusa Hertha o quiz salvar.
    _Estrella do Mar_ se chama
    A essa diva lunar,
    Que traz por sagrado emblema
    Uma _Cerva branca_ a par.

    Por causa da _Cerva branca_
    Veiu tanto odio a acabar.
    O rei Górgoris tem gloria
    De Abidis seu reino herdar:
    Como o neto, resistente
    Seu Imperio hade ficar,
    Annunciando-lhe a grandeza
    Aquella _Estrella do Mar_!

Aproveitando-se de uma pausa ou hesitação de memoria do prisioneiro,
disse-lhe o Consul Quinto Fabio:

--Já faço ideia do poder da _Cerva branca_; conta agora algum lance
d'esse invencivel Abidis, _sempre vencido de amores_.

--Ah! toda a historia de Abidis ou Amadis, é quasi inteiramente de
amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripecias
sempre de encantar. Começo por uma

    *Declaração de amor*

    Apalpando o lado esquerdo
    Não achei o coração!
    Na repentina surpreza,
    Com tamanha inquietação,
    Conheci que m'o furtaram,
    Não sei bem a occasião...
    Fui logo á procura d'elle
    Buscando o rasto no chão,
    Escutando attentamente,
    Se lhe ouvia a pulsação!
    Talvez esteja perdido
    Em remota solidão?

    Quando já sem esperança
    Cahia na decepção,
    Fui dar com elle fechado
    Em nevada, fina mão!
    Não me atrevi a exigil-o,
    E eu mesmo, sorrindo então,
    A quem assim m'o levára
    Tive de pedir perdão,
    Porque ha no amor a furto
    O philtro da tentação.

O Consul, como homem culto, estava interessado pelas rimas do
prisioneiro lusitano, que lhe pareciam barbaras mas impressionantes; e
disse-lhe:

--Prometti-te a liberdade; para que a obtenhas de vez, é preciso que
proclames em voz alta: «Viva o poder da grande e generosa Roma!»

O prisioneiro olhou desdenhosamente para Quinto Fabio, devolvendo com
secura, e como em um arranco de morte:

--Volto para o ergástulo.

E murmurando entre dentes com entranhado rancor, ao retomar as algemas:

--A _Cerva branca_ ainda hade dar bastante que fazer aos Romanos! Oh, se
hade!

A festa dos Acroamata era poucos instantes depois interrompida; chegára
uma ordem cathegorica chamando a Roma Quinto Fabio Maximo Emiliano, e
determinando-lhe a entrega immediata do commando do exercito consular ao
novo general Quinto Cecilio Metello.



XXXIX


Com ordem expressa do Senado de abafar a insurreição o mais depressa
possivel e de reduzir Viriatho aos seus incertos recursos, desembarcou
em Tarragona o Consul Quinto Cecilio Metello, que vinha acompanhado do
Pretor Quinccio.

Corria o anno de DCXI da fundação de Roma; Metello informou-se da
situação da Celtiberia, e sabendo que os Arevacos se tinham rebellado,
foi pôr cêrco a Numancia, de preferencia, para ahi contêr o cabecilha
Salondico, evitando que se unisse com Viriatho. N'esse anno memoravel
começou o grande cyclo da Guerra _numantina_, que durou dez annos,
terminando em DCXXI pelo suicidio heroico e espantoso dos vencidos. O
Consul Metello entregou o segundo corpo do exercito ao Pretor Quinccio,
encarregando-o de ir combater Viriatho, que estava proximo da margem
direita do Tagus.

Informado pelas suas esculcas, de que era procurado por Quinccio,
esperou-o até ser visto, simulando que se retirava para as proximidades
do _Mons Veneris_. O Pretor por inhabil ou por confiado avançou em
perseguição de Viriatho, o qual reproduzindo as mesmas manobras, cujo
effeito certo conhecia e com as quaes quatro annos antes derrotára
Plancio, fez do _Mons Veneris_ o seu abrigo; Quinccio continuou a
avançar, e o cabecilha lusitano precipitando-se repentinamente sobre as
Legiões romanas e envolvendo-as de subito por todos os lados, fez um tal
destroço e mortandade no exercito romano, que o Pretor só conseguiu
escapar em uma pavorosa debandada, e sempre perseguido até refugiar-se
no seu quartel de inverno em Corduba. Muitos estandartes romanos foram
arrancados das mãos dos hastarios; e estes despojos, testemunho da
victoria de Viriatho, foram mandados para a ilha sagrada de _Achale_
para serem collocados na Torre Redonda, consagrados como trophéos ao
Deus innominato.

Na sua fuga desvairada, o Pretor Quinccio dirigindo-se para Corduba
abriu passagem pelo paiz extremamente montanhoso dos Bastetanos, que se
estendia para o sul até ao monte Ilipala, confrontando ahi com os
Turdulos, ao occidente com os Oretanos, ao norte com os Lobetanos, e com
os Contestanos do litoral. Era principalmente aqui n'este territorio dos
Contestanos, que estava estabelecido o governo dos romanos, na cidade
denominada Nova Carthago. Viriatho não esqueceu esta circumstancia, e
não lhe bastando ter derrotado o Pretor Quinccio, submetteu a saque
todas as povoações alliadas ou relacionadas com o poder de Roma. O
Pretor fechou-se dentro das muralhas de Corduba, sem esperança de que o
Consul Quinto Cecilio Metello viesse soccorrel-o, por que achava-se
empenhado tenazmente nos combates em volta de Numancia, por fórma que
não se podia conjecturar o termo d'essa nova guerra; e apavorado no seu
reducto limitou-se a ordenar, que um ibero romanisado, como revela o seu
nome Caio Mario, que estava com uma Legião em Italica, policiasse as
cercanias de Corduba para o avisar da presença de Viriatho e evitar as
suas correrias. É certo que o Pretor Quinccio não pôz mais o pé fôra das
muralhas de Corduba.

O orgulho romano não podia conformar-se com esta humilhante derrota, e
com a situação vergonhosa de Quincio, dentro em Corduba desde o meado do
outomno de DCXI. Desde que despontou a estação favoravel para recomeçar
a campanha contra os Lusitanos, o Senado nomeou para esse commando o
novo Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano. Seria elle mais feliz do que
seu irmão para vingar o lustre das armas romanas obscurecido pela
audacia de Viriatho?

Desde que Serviliano fôra eleito Consul em DCXII, apoderou-se d'elle uma
ambição irrefreavel e unica: vencer Viriatho, appresental-o em Roma,
leval-o a pé e descalço no seu triumpho. Para estas esperanças o Senado
concedera-lhe extraordinarios recursos: duas novas Legiões além das
forças que estavam em Hespanha. E Serviliano podia sonhar com o
triumpho, porque contra um guerrilheiro sem exercito organisado, tinha
agora sob o seu commando um formidando exercito de sessenta mil homens,
e mil e seiscentos Cavalleiros.



XL


Serviliano não queria perder tempo, e iniciou a campanha na Betica, nas
cercanias de Jaen; o plano foi bem formado, porque Viriatho apenas pôde
pela rapidez das operações do Consul entrar em combate com um
contingente de seis mil homens.

Os tres companheiros de Viriatho, notando que o chefe reconhecia a
insufficiencia da sua gente para sustentar o combate com um exercito
disciplinado dez vezes mais numeroso do que o seu, entreolharam-se com
um ár de intelligencia, como se aquella situação desesperada proviesse
de uma combinação. Viriatho não succumbiu; antes o perigo o levava a
descobrir extraordinarios recursos. E de relance, comprehendendo a
situação, ordenou o seu plano:

--Manobrar com uma rapidez tal, que o exercito romano não possa
manter-se em disciplina e ordem de batalha.

E em vez de esperar o ataque, deu ordem a um assalto instantaneo, em que
toda a agilidade e bravura, que caracterisa os lusitanos, fôssem
praticadas por modo que a confusão se estabelecesse nas Legiões romanas,
e que as manobras usuaes não podessem ser executadas. Pôz á frente os
montanheses do Herminio acostumados ás correrias dos lobos e ás
montarias dos javardos, os quaes em berreiros descompassados--_Mata, que
é romano!_--investiram com impeto indomavel de féras contra os manípulos
de Serviliano. A espada e o punhal eram vibrados por uma e outra mão,
tendo abandonado o escudo, para se moverem mais denodadamente. O assalto
encheu de assombro os soldados romanos, que desconheciam esta
impetuosidade dos que elles chamavam barbaros; e sem poderem sustentar
aquelle recontro violento, foram recuando, suppondo que Viriatho,
empenhando a batalha só com seis mil homens, contava com outras forças
que viriam avançando, e que decidiriam da lucta.

Uma circumstancia salvou n'esse momento o exercito do Consul Serviliano:
inesperadamente appareceram no campo da batalha dez Elephantes africanos
e trezentos Cavalleiros bem equipados. Serviliano conheceu-os; era o
contingente que lhe mandava Micipsa, o rei da Numidia. Quando o Consul
projectava alcançar o commando da Guerra da Lusitania escrevera a
Micipsa pedindo-lhe em nome da Republica o auxilio dos seus Elephantes e
dos seus esbeltos Cavalleiros. Um pedido assim era uma ordem, e o Rei da
Numidia bem comprehendia que com o contingente de alguns Elephantes e
Cavallos, garantia a estabilidade do seu throno.

O auxilio não podia vir mais a tempo; e o exercito romano, reanimando-se
com o extraordinario reforço, toma a offensiva. A rapidez do ataque da
parte do exercito consular, servia para perturbar-lhe a disciplina, e
Viriatho, evitando o combate, foi attrahindo as hostes para os terrenos
anfractuosos seus conhecidos. Os Elephantes do rei da Numidia foram
caindo um a um, com aquelle golpe ignorado dos romanos, mas praticado
pelos lusitanos, quando com um aguilhão de ferro matam os seus bois
ferindo entre as vertebras cervicaes. O successo inesperado produziu um
estranho assombro; Serviliano pensa já na retirada, e Viriatho,
furtando-lhe as voltas, toma-lhe a dianteira, avançando com rapidez
incrivel por veredas que só elle conhecia, vindo occupar o arraial do
exercito consular, apenas guardado por alguns hastarios.

Quando o Consul Serviliano, com o exercito cansado dos caminhos fragosos
chegou já noite cerrada ao seu acampamento, achou o pequeno exercito de
Viriatho fortificado com os fóssos e trincheiras com que contava
defender-se, e viu-se constantemente inquietado pelos hastarios e
fundibularios lusitanos. Aproveitando a escuridão da noite e contando
com o cansasso dos soldados romanos, fatigados da retirada custosa,
Viriatho ordenou incursões repentinas e por lados sempre differentes no
acampamento romano. Serviliano perdera n'aquella jornada e incursões da
noite para mais de tres mil homens; e como as tropas se achavam sem
descanso e sem alimento desde a vespera, seria loucura o empenhar-se em
uma batalha campal, resolvendo recolher-se com o exercito á cidade mais
proxima, a Ituca, onde contava com viveres e as munições indispensaveis.



XLI


Viriatho não desvairou com a inesperada victoria. Reconheceu
promptamente que se salvára d'esta vez de um perigo evidente, e que para
luctar com Serviliano carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu
o exercito romano, de lançar fogo ao arraial, fazendo uma retirada
cautelosa e tratando com a maxima urgencia de ir buscar levas de
montanhezes ás serranias do Herminio, por que lhes reconhecera a
valentia impetuosa dos assaltos.

Serviliano, uma vez abastecido em Ituca, e refeitas as suas tropas pelo
descanso, debalde procurou Viriatho; convinha-lhe fixar o seu quartel de
inverno não longe, para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, e
avançou sobre a Beturia, essa parte montanhosa da Betica, entre a
planicie do Betis e o valle do Anas. Habitava ahi gente que se
confederara na grande insurreição suscitada por Viriatho; o Consul
occupou-a por conquista, avançando para o paiz dos Cuneos, castigando-os
pelo mesmo pacto, e fixando ahi na Cynesia o seu quartel de inverno.

No anno DCXIII, no comêço da estação propicia, iniciou Serviliano a nova
campanha contra Viriatho, avançando para o norte; quando ia em marcha
com o poderoso exercito, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros, que
andavam pela Cynesia, com uma partida de mais de dez mil homens. Eram
Curio e Apuleio, que por uma temeridade inaudita se atreveram a atacar
Serviliano. O Consul, com incomparavel vantagem, bateu a partida,
ficando morto no campo Curio com todos os seus despojos, e debandando
Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroçada. Serviliano
prosegue na impetuosa marcha, e reconquista a cidade da Baccia, toma
dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano,
Scandiam ou Escambola, Gemella e Obucula, fazendo ahi dez mil
prisioneiros, que vendeu como escravos, e mandando degolar uns
quinhentos individuos mais importantes, que considerava como partidarios
de Viriatho e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma,
que acoimava de barbaros os povos da Hespanha, querendo civilisal-os
pelas carnificinas e pelas depredações. Era a Lusitania, na sua parte
oriental e na occidental, que se atrevia a resistir contra este regimen
de latrocinios, batalhando pela sua liberdade.

Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar
Viriatho, derrotal-o! Sem isso não era possivel a submissão ou
pacificação da Hespanha. Nas suas marchas o Consul não encontrava o
Cabecilha lusitano; os seus espiões não davam noticia d'elle. Em quanto
os soldados se regosijavam, conclamando, que Viriatho estava cansado da
lucta; que perdera a esperança na causa da Lusitania; que já lhe faltava
gente e recursos, Serviliano conhecia bem a tactica do caudilho, e
suspeitava que Viriatho andaria por longe recrutando novos reforços. E
seguro de que só mais tarde o encontraria, o Consul, para ir entretendo
as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou
ás cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se
d'ella. Nem sequer mandou intimar a rendição aos habitantes de Erisane;
pôz logo o cêrco á cidade, e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se
abrissem fóssos, fazendo da terra revôlta uma alta trincheira detraz da
qual ficariam os hastarios, para que ninguem podesse fugir, e
forçando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se
guardava. De resto contava que os habitantes eram tambem uma rica
mercadoria de escravos, e um meio para quebrantar as outras cidades pelo
terror passando á espada alguns centenares. Serviliano procedia com
tranquilidade e segurança, por que uma cidade sem defeza, como Erisane,
não tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca
romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os
fóssos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem em
tropel esquadrões sobre esquadrões de cavalleiros, de longas grenhas,
com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em
chusmas de cavallerias, e que de cada pedra se formava um cavalleiro. A
violencia e rapidez da erupção, os gritos estridentes e a sanha
vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriatho! Como
conseguira o Caudilho introduzir-se sem ruido dentro de Erisane
n'aquella noite? E sem dar tempo a que Serviliano podésse metter em
fórma o exercito, que estava esparso e em descanso no acampamento, na
lisongeira espectativa do saque da cidade, Viriatho, com aquelles
movimentos que só elle sabia dirigir, lança-se com todos os seus bravos
Soldurios, e com os Terços mais firmes chacinando na massa desmembrada
do exercito de Serviliano, multiplicando a sua força sobre as hesitações
de espanto causadas pela instantanea surpreza.

O exercito romano, sem ensejo para entrar em ordem, vae abandonando o
terreno, vae recuando, sem plano; Viriatho, com a lucidez dos momentos
decisivos, vae-o impellindo para o desfiladeiro apertado entre dois
montes cobertos de penhascos, sem que o proprio Serviliano désse pela
audaciosa cilada. Logo que Viriatho conseguiu encurralar o grosso do
exercito consular, deu ordem a um trôço de companheiros para a um signal
sabido fazerem rolar do alto das duas montanhas aquelles penhascos
acavallados. Dispostas assim as cousas, mandou parlamentarios a Serviliano:

--«Que o Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, conhecendo a situação em
que se collocára o exercito romano n'aquelle desfiladeiro, devia
consideral-o perdido para o combate ou qualquer resistencia;

Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro signal sobre o
desfiladeiro os penhascos que alli negrejavam, esmagando todo o exercito
ahi comprimido;

Que, antes de proceder e de pôr as suas condições, mandava perguntar a
Serviliano que vantagens offerecia para que o exercito romano fôsse
salvo.»--

Os parlamentarios, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira,
não se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano:

--«Que da parte do Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, pelos poderes
que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregavam um Cinto de
ouro, como insignia de auctoridade soberana;

Que poderia Viriatho desde aquelle momento considerar-se _Rei da
Lusitania_, e fiel _Alliado de Roma_, sendo o seu primeiro acto a
assignatura de um Tratado de Paz e a dissolução do exercito.»--

Quando Viriatho leu essas condições sorriu-se com um superior desdem; e
sem demora tornou a enviar os Parlamentarios com os Cavalleiros romanos
que os acompanhavam, para dizerem a Serviliano:

--«Que das suas propostas só acceitava a Paz firmada pelo Consul e
ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o
reconhecimento da liberdade e independencia do Povo lusitano na sua
terra, e da propriedade dos fructos do seu trabalho.

Que a Lusitania nada queria de Roma; e quanto a elle Viriatho não
acceitava o titulo de Rei, mas unicamente a simples denominação de
_Amigo_, dada pelo Senado romano.»--

A mensagem de Viriatho não podia deixar de ser adoptada por Serviliano,
porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o Consul
comprehendia o intuito leal de Viriatho, porque aquelle mesmo homem, que
estando o exercito lusitano perdido recusou a Paz que Vetilio concedera,
era quem agora, tendo o exercito romano entregue ao seu arbitrio,
propunha como resultado da victoria uma simples clausula: um Tratado de
Paz assignado pelo Proconsul e ratificado pelo Senado e Povo romano. Era
nada menos do que a pacificação da Hespanha e o poder de Roma assentando
sobre o Direito em vez da espada.

O Tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes,
e Serviliano assignou-o como Proconsul; Viriatho firmou-o tambem
enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas
authenticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em
Roma, e o que ficava em poder de Viriatho, como garantia da Paz. N'esse
dia os dois exercitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de
Viriatho, até que o exercito proconsular deixasse de ser visto seguindo
em marcha para o seu quartel de inverno.



XLII


O sonho de Viriatho tornára-se uma realidade: a Lusitania livre, e Roma
vinculada pela Paz. O Caudilho contava com a pacificação geral, embora
algumas resistencias se manifestassem na Hespanha citerior; Roma era
sufficientemente politica para ratificar esta Paz sem apparencia de
impozisão. E emquanto Viriatho esperava a ratificação do Tratado pelo
Senado Romano, partiu pressurosamente para a ilha de _Achale_. Cumprira
a condição exigida por Lisia para a realisação do seu casamento.

Lisia sabia todos os terriveis accidentes da campanha de Serviliano, mas
não tinha chegado ainda á ilha sagrada a noticia da pacificação
inesperada. Do alto da Torre Redonda a semnothêa viu vogar para a ilha
uma barca de couro; o coração bateu-lhe agitadamente, sem se atrever a
conjecturar o que teria succedido. Mais proximo a barca, reconheceu a
figura de Viriatho. Desceu subitamente para ir esperal-o á lingueta de
areia.

Não se imagina a eloquencia da mudez de Viriatho e Lisia, quando se
deram as mãos e assim ficaram por alguns momentos. Avançando para a
Torre Redonda, ia-lhe dizendo Viriatho:

--Cumpriu-se o teu desejo.

--A Paz? Com Serviliano?!

--A Paz com Roma; assignou-a Serviliano, Proconsul e general.

Lisia fitava immovel o vulto de Viriatho, crendo um sonho o que
escutava. O valente cabecilha tirou d'entre a cota de malha de linho
retorcido a folha em que estava escripto o Tratado de Paz, em que Roma
reconhecia a liberdade e independencia da Lusitania. Lisia não pôde lêr
esse texto, porque a impressão da alegria tinha-lhe arrasado os olhos de
lagrimas. Viriatho entregou o Tratado ao ultimo dos Druidas Idevor, que
leu a clausula: _Haverá paz entre o Povo romano e Viriatho._

Lisia, lançando os braços em volta de Viriatho, exclamava:

--Temos uma Patria livre! A Lusitania é independente!

E beijando com candura as faces crestadas e as mãos de Viriatho,
continuou como se estivesse fallando em sonho:

--Já se póde constituir familia em uma Patria livre. Os nossos filhos
nunca serão escravos.

Viriatho, lançando-lhe o braço em volta da cinta delicada, e em attitude
reverente:

--Cumpri a condição que me exigiste: a imposição da Paz a Roma. Agora és
minha esposa.

--Para a vida e para a morte! volveu Lisia, como se alli mesmo se
consorciasse com o guerreiro á face do céo.

E Viriatho, tirando o braço direito da cintura de Lisia, tomou o Cinto
de ouro mandado pelo Proconsul Serviliano, como symbolo da realeza
offerecida, e cingindo-a com elle, disse com voz branda e quasi só
ouvida pela noiva:

--A este corpo gentil, que eu desejo e hade ser meu, prendo-o com esta
cadêa de ouro, trazida do campo da batalha para a paz da nossa casa. As
almas sempre estiveram identificadas pela mesma aspiração, pelo mesmo
soffrimento, e agora por uma simultanea alegria.

E mirando Lisia com interesse e carinho para vêr como bem lhe ficava o
Cinto de ouro, dizia em voz que só ella entendia:

--Mal sabes a significação d'este Cinto?

Lisia ficou attenta para ouvir contar a batalha em que fôra tomado como
despojo ao general romano.

--Foi-me offerecido por Serviliano com o titulo de _Rei da Lusitania_ e
_Alliado de Roma_, para assim salvar o seu exercito do desfiladeiro em
que o enclausurei.

--E acceitaste?

Recusei o titulo de rei, como uma vaidade pessoal e egoista, e só exigi
a Paz, o Tratado de Paz ratificado pelo Senado Romano.

--Mas o Cinto?

--Fiquei com elle para ser a minha primeira joia de nupcias.--E com um
sorriso cheio de bondade, continuou: Não deixará de ser o symbolo da
realeza, no logar em que agora brilha; por que tu, Lisia, ligando a tua
existencia á minha, ficaste verdadeiramente a rainha e senhora do meu
destino.

Lisia tirou o Cinto de ouro que a envolvia, e tomando da mão de Viriatho
o Tratado de Paz foi collocal-os sobre o altar do Deus Innominato. As
Virgens do Côro da Semnothêa acompanharam de canticos estas offerendas,
incertas sobre qual d'ellas substituiria no culto a Lisia, que ia deixar
os áditos mysteriosos da Torre Redonda pelos deveres austeros da vida de
mulher casada.

O regimen da Religião druidica ia-se obliterando; apenas na Ilha de
Hierna se conservava na sua pureza primitiva. Pelas outras partes do
Occidente europeu as perseguições fizeram que se dissolvesse a
hierarchia sacerdotal, degenerando os Druidas muitas vezes em adivinhos
e curandeiros, e as Semnothêas em bailadeiras dos festins e das praças.
Na Ilha de _Achale_ conservava-se um apagado vestigio cultual, não tanto
como doutrina theologica, mas como vinculo secreto que unificava as
vontades no ideal politico da libertação da Lusitania. Era por isso que
nenhum viajante fallando da Hespanha deu noticia da existencia do
Druidismo na peninsula. Lisia, a Semnothêa, casando com Viriatho,
realisava o ideal religioso servido pelo braço do guerreiro na aspiração
politica de uma Lusitania livre.

Depois que o caudilho saiu da Torre redonda, Lisia fallou adeparte com o
velho endre:

--Agora que está assignada a Paz com Roma e livre, livre a ditosa Patria
nossa amada, Viriatho virá pedir-te a minha mão de esposa. Muito
desejára que antes d'esse dia lhe descobrisses o sitio onde se guarda o
_Thesouro do Luso_, e lh'o patenteasses como depositario da Tradição,
que elle serviu com tanto desinteresse e valentia. Eu bem sei que tudo
se encontra na Caverna das Inscripções Oghmicas, que só tu sabes
_interpretar_, pondo em ordem mysteriosa os _Bastões dos Poetas_ ou
Vates, que por terem esse conhecimento da Floresta ou _Feadha_, são
chamados _Faithiste_.

--Sim, volveu o velho, é preciso ser _sagaz_ para lêr essas varas
_sagitarias_, feitas de _estêvas_, a que chamaram _Buchstave_, em que se
contam as _Sagas_ heroicas. A quem, senão a Viriatho entregarei o
Thesouro do Luso? Pela condição natural das cousas, Viriatho hade
sobreviver-me. Encanta-me o teu pedido, porque a entrega d'esse deposito
fica ligado ao destino affectivo da tua vida,--é o teu dote.

Lisia, beijando a fronte do endre encanecido, deu á intensidade do
sentimento a sincera expressão das lagrimas.

Seriam aquellas lagrimas enternecidas um presentimento?

Na vetusta tradição dos povos do norte anda sempre ligada á posse do
Thesouro a fatalidade tremenda,--a morte...



XLIII


Emquanto Viriatho se demorava na Ilha sagrada de _Achale_, no enlêvo
d'aquelle amor que o fortificára na sua missão heroica, os tres
Companheiros deixaram-se ficar no valle de Callippo á frente dos Mil
Soldurios, em uma inactividade impaciente e desgostosos por vêrem tão
repentinamente terminada a guerra contra os Romanos. Estavam acostumados
a uma vida agitada de aventuras, ao prazer do saque, ás grandes emoções
entre a posse de riquezas repentinas e a morte; custava-lhes a voltarem
bruscamente aos costumes da paz, ao respeito forçado da vida e da
propriedade. Preoccupados do mesmo pensamento, careciam de communicar
entre si os seus intuitos; tinham receio de serem espiados, de que os
Soldurios descobrissem em suas palavras qualquer hostilidade contra
Viriatho.

Então Ditálcon disse para os outros dois companheiros:

--Que vá cada um de nós por diversos caminhos ter á Caverna que está
entre o Promontorio Cepressico e o rio Callippo. Ahi, sem sermos vistos
nem ouvidos, poderemos fallar á vontade, e resolvermos sobre a situação
que nos espera.

Andaca e Minouro abraçaram o alvitre, e assentaram o dia do encontro na
Caverna das Fadas, ao alvorecer. Então teriam tempo para fallar á
vontade e á larga. Dos tres companheiros de Viriatho, Ditálcon era o
mais velho, e até muito separado em edade. Era um homem alto e enxuto de
carnes, de ossadura forte; e embora guerreiro destemido, nunca tinha
perdido o porte aldeão, e mesmo um certo amor pelos trabalhos da
lavoura. O rosto sobre o comprido e de faces cavadas, tinha uma carnação
rubra tostada, sobre que assentava um nariz afilado, e uma bocca
desdenhosa, a que dava um ár ironico um golpe que recebera na desastrosa
batalha de Tribola. Os olhos eram garços, entre o azul e verde,
lembrando pela fórma da cabeça o typo do africano branco berber. Fallava
cadenciadamente como sentindo a propria auctoridade, porque era ouvido
sempre attentamente, quando contava memorias de cidades destruidas, do
tempo das guerras carthaginezas; dizia-se que na mocidade viajára até á
Britania e á Gallia, e envolvia-se de uma atmosphera de oraculo,
pretextando ora descontentamento dos homens e das cousas, por fórma que
inspirava desalento em volta de si, ora acobertava os seus desanimos
repentinos com uma isempção de todas as honras e riquezas.

Minouro, que era muito mais novo do que Ditálcon, admirava-o
profundamente, e tratava-o pelo nome de--Mestre, lamentando que elle não
fôsse um Druida. Por uma lisonja petulante e insistente, veiu a
illaquear Ditálcon, levando-o na direcção e intuitos que lhe suggeria.
Minouro não era corpulento; era de uma estatura média que o não
destacava do commum da outra gente; mas a cara redonda, o nariz curto, e
os pequenos olhos que nunca fitavam de frente, denunciavam o typo do
pequeno ambicioso do poder, do intrigante que trabalha pelo ideal da sua
personalidade, servindo todos os partidos conforme as necessidades da
sua elevação. Era como um fermento putrido, exercendo uma acção
decomponente e incessante. Viriatho confiava em Minouro, pelo seu
caracter de homem pratico, e especialmente pela consideração que lhe
ligava Ditálcon.

O outro companheiro, Andaca, era mais phantasista, mas generoso; como
Minouro admirava tambem profundamente Ditálcon, acatando-o mesmo quando
este o censurava pela audacia das suas ideias, ou arrebatamento
impulsivo das suas determinações. Andaca era homem novo; destacava-se
entre os outros Cavalleiros pelos seus cabellos louros, que lhe cobriam
quasi a testa e que separava para um e outro lado em uma marrafa
caracteristica e inconfundivel. A barba era espêssa e tambem loura, a
qual com a tez fortemente córada e os olhos azues, faria crêr um typo da
Scandia perdido entre as tribus lusitanas de olhos e cabellos castanhos.
Era sobrio, e desinteressado; sonhava com os tempos do decahido
Druidismo, e teria sido um Bardo arrebatador para doutrinar os povos se
tivesse nascido em uma melhor epoca, menos perturbada ou mais crente.
Quando regressava dos combates e correrias em que se sentia viver,
era-lhe indifferente a distribuição dos despojos; não tomava parte nos
saques das cidades romanas, e quando depunha a espada e o escudo era
para estar deitado sobre a relva ou nas penedias, em decubito dorsal,
scismando como um vate. Minouro a pouco e pouco fôra influindo no seu
espirito, dominando-o, e pelo poder de o revocar á energia, exercia um
predominio completo sobre a sua vontade.

Partindo em direcções diversas, os tres Companheiros de Viriatho
encontraram-se ao alvorecer á bocca da _Caverna das Fadas_, alguns
estadios longe do mar, mas dentro da qual rebentavam as ondas nas
grandes tempestades da costa. Ahi, no escarpamento maritimo do
Promontorio Cepressico, é que se observava bem o trabalho das vagas, que
pelo agglutinamento das areias moventes de uma praia que se foi alteando
pelo decorrer dos seculos, formou com o calcáreo altissimos taludes, ou
dunas, defendendo o valle de Callippo. Mas por seu turno em toda a
extensão da costa desde o Promontorio Cepressico até ao rio Callippo, o
mar recomeçou o trabalho de erosão abrindo numerosas Cavernas,
destacando-se entre todas a mais profunda e mysteriosa, a _Caverna das
Fadas_. Contam as vozes do povo, que algumas d'essas Cavernas foram
abertas pela mão do homem, quando ainda elle não conhecia os metaes, e
viera descendo da primitiva estação que fizera em Scalabis, até por
estabelecimentos successivos chegar ao valle do Tago.

Na _Caverna das Fadas_ entraram os tres Companheiros de Viriatho
maravilhados pela extensão do subterraneo, em um solo plano e profundo
com abobada hemispherica, desembocando em uma galeria, aonde já os raios
do sol nascente não chegavam, e aonde se occultavam numerosos esqueletos
como em necrópole de uma remotissima edade. A curiosidade não os levou a
entrarem lá dentro; ahi, á bocca da Caverna, antes de começarem a
conversa para que vieram, não podiam eximir-se á observação de cousas
que parecia extraordinario o encontral-as n'aquella solidão ignorada de
todos.

Ditálcon, levantando do chão uns fragmentos de barro cosido, e
mostrando-os aos companheiros;

--Quem é que póde explicar como esta louça veiu parar aqui! Em Ilierna
eu vi louça egual em tudo a esta; e até na Bretanha...

--Seria um mesmo povo?--Inquiriu Andaca imaginoso; e levantando do chão
numerosas contas de côr esmeraldina e esverdeadas, que estavam
espalhadas pelo chão, como se formassem outr'ora vistosos collares,
continuou observando:--Mas estas contas desenfiadas tenho-as encontrado
em outras Cavernas da Lusitania, em que nos temos refugiado n'estas
correrias contra os Romanos. Quem tivesse tempo para ajuntal-as e formar
com ellas um collar para offerecer a Lisia por occasião do seu casamento
com Viriatho.

Ao proferir este nome, os tres Companheiros entreolharam-se subitamente,
suscitados pelo pensamento que alli os trouxera. E Minouro atacou o
assumpto:

--O casamento de Viriatho! É isso o que nos obrigou a virmos aqui. Elle
quer agora a Paz com Roma, para gosar tranquilamente a sua vida de
casado; e mandando cada um para sua casa, lá se vão os nossos commandos,
todo o nosso valimento, e mesmo os nossos recursos.

Ditálcon atalhou:

--Viriatho é sincero; elle não acceitou o ser Rei da Lusitania, como lhe
propoz Serviliano.

--Mas, depois de casado, não quererá elle dar á mulher um throno? e com
os filhos formar uma dynastia?

Andaca interveiu:

--Em todo o caso, nós somos uns instrumentos passivos dos planos ou das
ambições de Viriatho; e isto não deve, não póde ser.

Ditálcon, retomando a sua auctoridade e ascendente moral:

--A Paz com que Viriatho se lisongeia, é um engano. Roma ratifica a Paz
assignada por Serviliano, mas como vê Numancia em revolta, vae mandando
mais tropas para a Hespania citerior. Ainda n'este anno de DCXIII chegou
o Consul Quinto Pompeu Rufo, com Quinto Servilio Cepio para continuar
essa guerra desesperada que dura já desde DCXI. Os Numantinos não
succumbem; são dos que morrem mas não se rendem; elles são
verdadeiramente Lusitanos, e Roma sabe-o melhor do que ninguem. Por
isso, se vos faz falta a guerra, ahi a tereis, segundo as minhas
previsões, e eu sou homem para me ufanar de ter dito algumas verdades ao
mundo. Agora, o que aqui vos confesso é que estou cansado de guerras,
por uma causa sem fundamento.

--Sem fundamento!? Accudiram Minouro e Andaca, com surpreza.

--Sim; porque nós os Lusitanos nada temos com esse povo primitivo que
antecedeu na Peninsula o Ibero, que o veiu repellindo para as bordas do
mar. Viriatho sonhou esta divisão entre o Lusitano e o Ibero, quando
tudo isto é Celtiberico, e deve formar uma só patria, a que bastaria por
ora a constituição municipal que Roma nos impõe.

Minouro apoiando-se na affirmativa de Ditálcon:

--Eu vou-me convencendo d'isso; porque para sermos uma Nação lusitana,
como dizes, não temos differença de Raça; e pelo que tenho observado
n'estes nove annos de campanha pela Hispania citerior e ulterior, tambem
não vejo montanhas que limitem os nossos territórios, nem rios que nos
sirvam de fronteiras separativas. N'estas condições uma Patria lusitana
é uma creação de fórtes peitos, obra de homens, e sustentada apenas pelo
prestigio das suas espadas. Nós mesmos obedecendo a este impulso fizemos
do pastor _Ouriato_ o _Viriatho_ que não quiz o sceptro d'este novo reino.

Andaca, suggestionado pelo argucioso Minouro, e acreditando nas palavras
de Ditálcon:

--Para que esta Hispania unida entre na Civilisação moderna, como Roma
attingiu no mundo e como nol-a quer transmittir, só temos um passo a
dár, e digo-o com sinceridade: Renegar a Patria lusitana!

--No meio d'isto tudo, disse Ditálcon, em um dos seus momentos de
pessimismo que o atacava,--para mim só me bastam sete palmos de terra.

Andaca, passando com os dedos inconscientemente pela barba loura,
parecia que era impellido para o mesmo desalento; Minouro é que se
mostrou alegre:

--Deixemos vir para nós os acontecimentos. A tranquillidade de Viriatho
não será por muito tempo; nem me parece que a sua obra tenha
estabilidade. E recomeçando os Romanos a guerra, porque o Senado que
ratificou esta Paz é o mesmo que approvou a traição de Servio Galba ha
dez annos, Viriatho tem de vir a campo. E nós cá estamos para dirigirmos
as cousas como entendermos.

--Ficamos n'isso! Conclamaram os outros dois, levantando a mão direita.

O sol ia a pino; e montando silenciosamente os cavallos que andavam
pastando entre as ervas marinhas, dispersaram-se rapidamente em
direcções differentes, para reapparecerem desencontradamente no valle de
Callippo.



XLIV


Viriatho, regressando da ilha sagrada de _Achale_ para a companhia dos
Mil Soldurios, vinha alegre pela novidade que acabava de saber poucos
momentos antes:

--O Senado e o Povo romano ratificaram a Paz assignada por Serviliano! A
Lusitania está livre de hoje em diante. Não disputaremos nunca a Roma o
seu dominio entre os Povos ibericos; disfructe ahi á vontade as suas
conquistas e as suas exacções fiscaes. Que os seus Proconsules e
Pretores se enriqueçam rapidamente, e venham ahi remir-se pelo seu
governo das garras dos crédores que os empobreceram em Roma. A Lusitania
só quer que a deixem no seu trabalho, que é a sua festa permanente. Na
fé do Tratado depômos as armas; vou communicar esta resolução, que é da
parte dos Lusitanos o começo do cumprimento do glorioso Tratado, ao
Conselho armado, para que em seguida todos os Têrços e Companhias, que
andam ha nove annos empenhados n'esta campanha de libertação, voltem ás
suas terras.

Foram dadas e transmittidas todas as ordens necessarias para que o
Conselho armado se reunisse junto da Mamôa mais proxima. Quando Viriatho
fallou em dissolver o exercito, ouviu-se uma voz de entre os do
Conselho, observando:

--Tenho por perigoso esse desarmamento; porque Roma não cessa de mandar
tropas para a Hespanha, e está sustentando uma guerra sangrenta em volta
de Numancia. Ahi estão dois Consules temerarios Quinto Pompeu Rufo, e
Quinto Servilio Cepio, sustentando essa campanha. Nada mais facil do
que, sabendo esses generaes que o nosso exercito se licenceou, voltando
os Têrços a seus lares, um d'elles se lembre de vir fazer uma incursão á
Lusitania e nos apanhe isolados.

Viriatho ouviu attentamente a observação, e não foi immediatamente de
encontro a ella, antes parecia corroboral-a:

--É uma supposição plausivel, e tanto mais para recear, que um d'esses
Consules, Quinto Servilio Cepio hade querer vingar o irmão Serviliano
por ter assignado o Tratado de Paz; e além de tudo Cepio, segundo a voz
que corre, é considerado em Roma como um devasso, capaz de todas as
deslealdades pelo seu caracter perfido. Mas, Cepio tem de obedecer ao
Senado e Povo romano, e por isso estamos livres de qualquer traição,
como a que ha doze annos praticou Servio Galba contra a Lusitania. Hoje
não tratamos com Consul algum pessoalmente; é com Roma representada pelo
seu mais alto poder politico. Não temos direito a duvidar d'ella; o
Tratado aqui está escripto e assignado.

E em seguida passou as laminas de cobre em que o Tratado de Paz com os
Lusitanos estava assignado por Lellio e Servilio, os dois Consules
n'esse anno de DCXIV da Fundação de Roma; e cada um dos membros do
Conselho armado foi lendo detidamente e approvando:

--É a garantia de uma paz duradoura.

--Para que esse Tratado seja effectivo, continuou Viriatho, temos de
mostrar a Roma que confiamos na seriedade das suas Leis, e que pelo
nosso lado cumprimos o Tratado depondo as armas e voltando aos nossos
labores quotidianos.

--É assim mesmo! assim mesmo.

E approvada a resolução, foram enviados mensageiros para todos os povos
e terras que tinham luctado pela independencia da Lusitania; para os
Vettões, para os Vacceos e Callaicos; outros foram levar traslados do
Tratado de Paz para que fôsse lido na Celtiberia, na Carpetania e na
Oretania, na Betica e até ao Paiz dos Cuneos.

Ao saír do Conselho armado, disse ainda a mesma voz suspeitosa:

--Bem sei que a noticia do Tratado vae causar por todas essas terras uma
alegria immensa! É legitima. Porém vendo o exercito licenciado, e
sabendo quanto é difficil pôl-o de repente em pé de guerra, continuarei
dizendo, e oxalá me engane: Tenho por perigoso este desarmamento.

Quem assim fallava era o bravo Tantalo, que em toda aquella campanha
nunca hesitou em cumprir uma ordem de Viriatho.



XLV


Depois da sahida do Conselho armado disse Idevor para Viriatho:

--Não quizeste acceitar o titulo de _Rei da Lusitania_; o teu sentimento
puro revelou-te, que n'este solo lusitano não vegeta essa planta
parasitica da realeza. E demais, uma Realeza investida e sustentada por
uma potencia estrangeira! Só isso bastava para influir na degradação
moral de um povo. Em troca d'essa Corôa que renunciaste, ou que
desprezaste, mereceste que te seja entregue o _Thesouro do Luso_. Já
terás sabido que elle se guarda na Caverna das Inscripções ogmicas; a
rocha que domina essa Caverna é a _Pedra Virgem_, o penedo que falla,
porque tem na face lisa, ou _Peravana_, os sons _fan_, _phone_, ou
_vene_, que traduzem as Sagas venerandas das Edades passadas. Longa é a
jornada para a Caverna das Inscripções, lá na margem direita do Durio,
perto do Cachão da Rapa.

--Agora, que dei conta aos Chefes das Contrebias do Tratado de Paz com
Roma, podemos partir, ainda que seja para longe; vamos seguros e sós. Eu
sei todos os caminhos que nos levam ao Cachão da Rapa, e já vi com
assombro esses traços para mim incomprehensiveis gravados na Pedra
Virgem. Partamos.

E Idevor e Viriatho metteram-se a caminho. Já distantes e bem longe do
povoado, encontraram solitaria á beira de um caminho uma casa palhaça,
d'onde vinha o som rythmico do trabalho de um tear; de uma rocha que
estava perto manava um jacto de agua cristalina, que fazia gosto beber.
Emquanto matavam a sêde, escutaram a cantiga, que tomou para ambos o
valor de um vaticinio; cantava uma pobre mulher

    *Ao tear*

    Olha a tecedeira
    Como tece bem,
    Como a lançadeira
    Vae e vem ligeira;
    Sua mão certeira
    Que presteza tem!

    Lembra uma dansa
    O som do tear,
    De um sapatear
    Que jámais se cansa;
    Mas que é a bonança
    De um ditoso lar.

    Fosse eu a trama
    Da sua urdidura;
    Como o fio se acama,
    A sua ventura
    Seria segura;
    Feliz de quem ama!

    Cresce tanto a peça
    D'este branco panno,
    Que, com esta pressa,
    Se me não engano,
    Ainda este anno
    Cumpre-se a promessa!

Viriatho sorriu-se para o velho endre, que o comprehendeu, e proseguindo
o caminho, acharam-se naturalmente fallando no casamento de Lisia.

Depois de alguns dias de jornada, os dois peregrinos entraram na região
do Durio; seguiram pela margem direita, até chegarem á povoação de
Linhares, aonde repousaram. Alli, na voz do povo, ouviram fallar dos
Thezouros encantados, que estavam escondidos no fundo de uma caverna
escura, coberta por um enorme penedo em que se viam insculpidos grande
numero de Quadrados magicos. Ai do que se atrever a penetrar na caverna!
Os que lá entram, se não ficam alli immediatamente paralysados com um
somno lethal, ou perdem a falla ou cáem-lhe os dentes!

Apesar de todos os terrores, Viriatho e Idevor, logo ao nascer do sol,
caminharam para a margem do Durio. D'ahi a meia legua, avistam,
sobranceiro de um precipicio a uns vinte passos do rio, o enorme
penhasco, que o vulgo saudava com o verso: «A Pedra sagrada da esperança
do povo.» Ninguem sabia o que significava uma tal saudação. Idevor era o
depositario d'esse mysterio do passado.

Perto já do penhasco, em grande parte coberto de musgo, Idevor dirigiu
Viriatho para a parte em que estava a face lisa, da altura de dez
covados, e de quatro de largura, e ahi contemplaram patentes os
Quadrados, formando como pequenas janellas, com traços encruzados, e
enxadrezados, agrupados diversamente. O povo acreditava que essas letras
se renovavam todos os annos, no comêço da quadra estival. É certo que os
Quadrados estavam agora bem visiveis, e até se lhes notavam côres.
Idevor, contemplando aquelles caracteres indecifraveis, disse para
Viriatho:

--Esses Quadrados que vês, são como as _Lettras runicas_, que os nossos
antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do norte. Chamaram
_Ogum_, nome que se aproxima dos _Kova_, ou os hieroglyphos de um povo
amarello do extremo Oriente. Com o movimento das raças, esses caracteres
gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de arvores, a que
chamaram os _Bastões dos Poetas_; muitas vezes porém, nas largas
narrativas historicas, esses bastões runicos baralhavam-se, e para
restabelecer a sua ordem chronologica, ou as séries das Triades, era
necessario ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a
disposição primitiva d'esses traços ou letras. É o que acontece com este
rochedo que está diante de nós; repara bem: esses Quadrados gravados na
pedra fixaram para sempre a ordem em que se devem dispôr os Bastões
runicos, nos quaes estão escriptas as tradições da Lusonia.

--E aonde estão depositados esses _Bastões dos Poetas_?

--Dentro da Caverna a que se sobrepõe este penhasco. Mas, antes de tudo,
repara para estes Quadrados: uma linha figura o tronco da Arvore de
Ogham, e como ramos d'ella, cruzam-se outras linhas, que se distinguem
umas das outras apenas pela posição e agrupamento: a primeira letra é
figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois
travessões, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado
opposto ao primeiro grupo, recomeça-se da mesma fórma os caracteres, do
segundo grupo de letras; no terceiro, os traços são prependiculares ao
tronco; e no quarto esses traços são transversaes ou obliquos.

Os nomes d'essas vinte letras é tomado da arvore cujo nome começa pelo
som d'essa letra; é por isso que o termo _Feadha_, a planta, a arvore, a
floresta, significa tambem o symbolismo alphabetico, a sciencia, e o
vate ou _Faethiste_. Se não fossem os caracteres que ahi vês inscriptos
n'esse penhasco, seria impossivel conservar a ordem dos _Bastões dos
Poetas_, em que está escripto o Poema de seis mil versos, que se guarda
ahi dentro da Caverna.

E Idevor mostrou a Viriatho a ordem alphabetica, ou _Beith-Luis_, na sua
successão ogmica: *b*, *l*, *f*, *s*, *n*, *h*, *d*, *t*, *c*, *q*, *m*,
*g*, *ng*, *st*, *r*, *a*, *o*, *u*, *e*, *i*.

Era n'esta ordem que deviam ser dispostos os Bastões runicos. Idevor
procurou a entrada da Caverna, que era um pequeno corredor de accesso,
na vertente do despenhadeiro, que ia dar a um recinto ou vasta camara
revestida nas paredes e tecto por infiltrações stalactilicas. Parecia um
hypogeo sepulchral, a que as concreções stalagmiticas davam o aspecto de
estatuas mortuarias, envolvidas em sudarios brancos. Á medida que os
dois peregrinos avançavam pela assombrosa camara, os rumores dos passos
resoavam por outras galerias que se succediam apenas separadas por
grandes pedras; de vez em quando sentia-se esvoaçarem aves das trevas,
que alli hibernavam, e que para os crédulos pareciam as almas dos
antepassados. Sobre o pavimento estavam espalhados estilhaços de silex,
machados de pedra, ossos de animaes que pertenceram ao clima glaciario.
Avançando com precaução, Idevor chegou á entrada de uma segunda camara,
mais vasta e esplendida, pela sua estructura trabalhada pelas
infiltrações das aguas; era allumiada por uma fresta aberta nas fendas
da rocha, e ahi existia ao centro um bloco despegado do tecto da
caverna, formando uma ampla meza aquella lagem de fórma arredondada. E
em volta, junto da parede natural, achavam-se dispostas seis pedras,
como se fossem assentos patriarchaes; sobre ellas estavam estendidos, á
maneira de feixes de setas, os Bastões runicos, a que Idevor por vezes
alludira. O velho endre fallou para Viriatho:

--É n'estas varas que está escripto o _Poema da Lusonia_.

E foi tirando pela ordem ogmica os Bastões e collocando-os
combinadamente sobre a grande meza central; todos esses feixes formaram
outros tantos Quadrados, como os que acabavam de contemplar na face lisa
do Penedo do Cachão da Rapa. E depois de se acharem todos dispostos
convenientemente, disse Idevor:

--Agora posso lêr o velho Poema da raça de que provimos, e em que se
encerra o destino da _Lusonia_.

Viriatho approximou-se respeitoso, exclamando com jubilo:

--Esse Poema nacional é o verdadeiro _Thesouro do Luso_. O conhecel-o
enche todas as minhas ambições.

E Idevor, percorrendo um a um, nos seis grupos de varas, os Bastões
runicos em que se continham os seis mil versos da _Epopêa da Lusonia_,
observou:

--Levaria muitas horas a leitura ou recitação pausada dos versos d'esta
Epopêa; para o caso que nos interessa n'este momento basta um resumo
claro e verdadeiro. Escuta pois o Argumento da


EPOPÊA DA LUSONIA

«Um grande Mar glacial cobriu a Europa, a partir do pólo até ao Ural,
estendendo-se pelos territorios hoje occupados por nações, que
levantaram dolmens e construiram muralhas e cidades com os blocos
erraticos arrastados pelas neves, que deslisavam das altas montanhas.

«As neves eternas, descendo dos montes da Europa occidental, foram
espalhando em uma marcha lenta, que durou seculos, essas morenas, que
bordam as margens dos lagos, as costas do Oceano atlantico, onde se
desaggregaram das geleiras. Todos os grandes valles foram atulhados de
gelos, trasbordando sobre as planicies. Dos montes da Europa central se
estenderam esses enormes geleiros, alastrando-se, destruindo as especies
vegetaes, e repellindo diante de si os animaes gigantescos, que se
refugiavam nas cavernas ou procuravam outros climas. Nas clareiras, não
cobertas pelos gelos, conseguiram viver alguns animaes e pequenos grupos
humanos, em uma lucta com a intemperie da natureza; apparecem estações
humanas nas Gallias, Britania, Italia e Germania, e n'essas zonas
exundadas é que se foram creando as raças da Europa, que se iam
constituindo em Nações poderosas, com as suas linguas diversas, seus
costumes, religiões e sociedades differentes: taes os Hyperboreos,
formados pelos Proto-Scythas, Scythas, Sarmatas, Parthas, Germanos,
Gaulezes e Bretãos. Elles conheceram a grande Constellação austral da
_Ursa_, e iniciaram os trabalhos da Agricultura e da Navegação.

«As Estrellas da Grande Ursa, em numero de sete, assim como os bois que
pucham os carros pesados chamados _Teriones_, foram designadas
_Septemtriones_. O homem representou no céo os actos da sua vida
terrestre: o Sol fecundante da estação estival foi representado como o
_Touro_, ou o Deus Thor das gentes germanicas, e o mugido do trovão
_Tarana_, como do touro que berra. E a navegação, que se fazia de uns
para outros lagos, era tambem completada transportando os _Teriones_ as
barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa fórma dupla
de Navegação a esse povo aventureiro os _Gansos_, ou _Liguses_, os patos
dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raça de
Navegadores, os _Liguses_, ou Ligures, que constituiram Ligas ou Hansas
maritimas, protectoras das suas remotissimas viagens, transportando pelo
Atlantico e através da Europa os blocos de _Ambar_ amarello, e o estanho
das ilhas Cassitérides.

«Esses Povos da região septemtrional da Europa, que se chama a
Scandinavia, viveram longo tempo ás bordas do mar, e foram conhecidos
pelo nome dos _Homens da Agua_, que em suas linguas se exprimia pelas
palavras _Soma-lassed_, _Sabme-lassed_. Pela orla occidental da Europa
esse Povo veiu descendo para o sul, e occupou as regiões de Hibernia, da
Britania, e na Hispania esse Povo fundou o grande estado da _Lusonia_ ou
terras de Lez, que se denominaram Anda-_Lezia_, Cale-_lezia_ e _Lusi_tania.

«Pela sua audacia aventurando-se na exploração do Mar tenebroso, as
outras raças chamaram-lhes os _Atlantes_, de Atl, o nome da agua; e nas
suas rascas ou barcas de duas prôas, ajudadas a remos, a que chamaram
Kamares, estenderam as suas expedições pelas Ilhas perdidas no meio do
Atlantico, desceram ao longo da costa occidental da Africa, foram tocar
em um continente ou Mundo novo da Aymerica, penetraram o Mediterraneo
até ao Egypto, e subindo o Golpho persico, chegaram até á Chaldêa, e á
India.

«Esses Povos ribeirinhos, ou de _Lez_, e propriamente maritimos ou
Atlanticos, levaram os conhecimentos da Astronomia, fixados no seu
Zodiaco, ou Symbolismo zoomorpho das Constellações observadas no Anno
sideral, até esses Povos da America, do Egypto, da Chaldêa e da India.
Foi por isso que o Symbolo do _Touro_ é adorado no Egypto com o nome de
Ser-Apis, e na fórma _Shor_, o Bezerro de ouro, na Palestina; com o nome
de _Tauro_ o designaram os Chaldeos, os Syrios, e os Gregos. Por esse
Symbolo da Constellação do _Touro_ é que a Civilisação da raça
iniciadora dos Ligures se denominou _Turana_; todos esses Povos do
Oriente adoptaram o Zodiaco occidental, sem notarem que pela evolução
millenaria dos Equinocios, o Signo do _Touro_ deixou de coincidir com o
comêço do Anno estival.

«Contra a Raça ligurica veiu do Oriente a pressão de outros Povos. As
gentes do Iran, adorando o Fogo espiritual representado em Mithra,
reagiram contra a representação do Fogo terrestre ou o _Touro_, morto
por Mithra, ou contra o _Turan_. Na Europa, os Povos dos Celtas, e dos
Iberos, dos Jonios e dos Phenicios, dos Carthaginezes e dos Romanos,
foram gradativamente atacando a raça dos Ligures, e pelas invasões por
terra, e pela pirataria nos mares, quasi que apagaram o nome e a
Civilisação dos Ligures na Europa! Os Iberos, que atravessaram da Africa
quando a Europa ainda estava ligada a ella por um isthmo, repelliram-na
da vertente occidental dos Pyrenneos, em que se tinha apoiado na Edade
glaciaria, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas
louros e corpulentos atacaram-a nas Gallias trans-e-cisalpinas; os
Phenicios apoderaram-se dos Periplos das suas navegações atlanticas pela
pirataria; e os Jonios roubaram-lhe os seus Poemas em que celebravam as
temerosas Aventuras do Mar. As luctas guerreiras, e o imperio das
Civilisações militares fizeram esquecer a civilisação agricola e as
Navegações dos Povos liguricos. Entre o Occidente e o Oriente deu-se uma
separação, e esqueceram-se de que eram solidarios na História.

«Uma tréva immensa caíu sobre o mundo depois da Éra glaciaria; a força
bruta prevaleceu sobre a Sciencia, a Guerra de devastação e de conquista
sobre o trabalho pacifico da Agricultura. A Missão civilisadora dos
Ligures, iniciada na America, no Egypto, na Chaldêa, na India, ficará
interrompida para sempre?

«Diante da extensão e perstigio dos Imperios militares, parece que a
acção da força bruta é definitiva. Mas, a Rasão e a Paz hãode triumphar
um dia; o Occidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o
Oriente. É essa a missão e o futuro glorioso da Lusonia.

«Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da luctadora raça dos
Ligures, resistindo na Hispania contra os Iberos, contra os Celtas,
Persas, Phenicios, Carthaginezes e Romanos, hade um dia através de todas
as crises reorganisar-se outra vez como Nação, e o seu poder derivará do
regresso á primitiva capacidade da raça: Recomeçará as grandes
Navegações do Atlantico; hade reoccupar pelas suas colonias laboriosas a
America; fundará um vasto Imperio na India; dominará na Africa; e
primeiro que nenhum outro povo circumdará a Terra, affirmando outra vez
a supremacia pacifica como destino da Civilisação occidental. Sustentar
a autonomia da Lusitania é impellil-a para a realisação d'este
incomparavel destino,--alargando pela actividade pacifica a antiga Liga
hanseatica n'uma Confederação das Gentes, na solidariedade humana.»



Dentro da Caverna do Cachão da Rapa ia escurecendo; estava já terminada
a leitura ou exposição do Poema. Viriatho, cheio de esperança no futuro
da Lusitania, exclamou:

--Este ideal dá vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecivel.
Agora já posso morrer; e fosse esta Caverna, deposito de uma tradição
sagrada, a minha ignorada sepultura.

--Para que te deixas assaltar por presentimentos de morte? Eu ainda não
te desvendei todos os conhecimentos contidos n'esses Bastões dos Poetas,
ou _Sagitas_, que se arrojam ao ár, e conforme cáem voltadas para o
Oriente ou para o Occidente, assim nos dão os Pre-_Sagios_ venturosos ou
aziagos. Ha um conhecimento de incomparavel _sagacidade_: revela-o a
seta, que equilibrada sobre um ponto, trémula, oscilante, indica a linha
do Norte a Sul; mais poderosa do que aquellas que guardam as _Sagas_ das
Tradições dos Navegadores liguricos, ella os guiou seguros--por Mares
nunca de antes navegados!--Pela posse d'essa Vara chamada a _Seta de
Ouro_, realisará a Lusonia o seu alto destino.

E á medida que ambos se afastavam da Caverna, disse Viriatho, ao perder
de vista o penhasco das inscripções mysteriosas:

--Agora comprehendo eu o verso da saudação: «A Pedra sagrada da
esperança do povo.»



XLVI


A cerimonia do casamento de Viriatho com Lisia estava determinada para
dia certo. O cabecilha era esperado na Torre redonda de _Achale_, e já
sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da familia
apoiada n'esses mysterios cultuaes da memoria dos Antepassados. Lisia
entretinha o fogo, quando chegou Viriatho; o guerreiro aproximou-se de
Idevor, e disse com uma dominadora serenidade:

--Agora, que já temos uma patria livre, tambem quero render culto aos
meus Antepassados, e venho rogar-vos por isso, para que Lisia, vossa
filha adoptiva, me acompanhe n'este acto comendo commigo do mesmo pão
diante do mesmo fogo.

Idevor ergueu-se d'onde estava assentado, aproximou-se da Pedra focal, e
chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre
Redonda, proferiu a fórmula sagrada:

--Eu vos entrego, oh mancebo, a minha filha Lisia, trocando este lar
paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperança.

E pegando em Lisia pela mão, conduziu-a para Viriatho, como desligando-a
da religião domestica, e entregando-lh'a para que a iniciasse em um novo
culto da familia a que de ora em diante pertencia. Os dois esposos
olharam-se com ternura; os canticos das donzellas que acompanhavam Lisia
resoavam com a magestade de um sacramento, e n'aquelle dia entre festas,
banquete e recitação de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial
consuetudinario do casamento.

No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido;
sahiram da Torre Redonda os tres Companheiros de Viriatho, e a luzida
cavalgada que tinha de conduzir a noiva pôz-se a caminho. Lisia, vestida
de branco e com a lunula de ouro na cabeça, coberta com um véo, ia em um
carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavalleiros da Trimarkisia. E
adiante caminhava um arauto levando um facho accêso, que como symbolo
nupcial dava á cavalgada o prestigio do sentido religioso. Em todo o
percurso ou pompa, modulavam-se hymnos consagrados; e de toda a parte
vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com
flôres para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabeça,
augurando felicidades.

Ao aproximar-se de Viseu, tres raparigas robustas e esbeltas, trajando
vestidos garridos, com suas arrecadas de ouro, vieram collocar-se diante
do carro de Lisia, e foram seguindo-a cantando-lhe uma Canção de marcha
nupcial. Pelas suas vozes, como excellentes cantadeiras, bem conhecidas,
espalhavam alegria em volta de si; eram Caenia, Aponia e Nilliata, de
que Viriatho se recordou com jubilo. Fôra ao subir da serra dos
Herminios que ellas lhe fallaram de Lisia, e é com o mesmo encanto que
agora entôam a

    *Marcha nupcial*

    Bem vindo o par ditoso
    Para a nova morada!
       Do amor o laço forte
       Não o desata a morte.

    Pelo braço do esposo
    Lá vem a bem casada!
       Laço que a união celebra,
       Nem mesmo a morte o quebra.

    Como ao tronco ramoso
    A vide entrelaçada,
       Que outro laço mais ata?
       O filho que os retrata.

    Que encontre infindo goso
    N'esta união consagrada
       O par, que vem sorrindo;
       Par ditoso, bem vindo!

Estava a terminar o trajecto festivo, e começava a terceira parte da
cerimonia do casamento, em que a entrada da esposa em casa do marido se
fazia por um rapto, pelo qual este, sem que ella tocasse com os pés no
limiar da porta, a introduzia junto do lar, no novo culto domestico pela
sua auctoridade de chefe da familia, que assim a iniciava por sua
vontade. Era ahi que devia ser partido o pão entre ambos, diante do fogo
do lar, bebendo n'essa communhão para a vida e para a morte, unificando
as almas por um sacramento indissoluvel. Passou-se rapidamente este
acto, porque era immensa a multidão de gente de todas as terras da
Lusitania que esperavam os noivos na Cava de Viriatho aonde se formára
um esplendoroso arraial, em que se expozeram todas as riquezas naturaes
e industriaes da terra.

Alli se encontravam os Chefes das Contrebias, acompanhados dos seus
ambactes, com os presentes offerecidos aos noivos.

Conheciam-se logo entre a multidão jubilosa os principaes chefes dos
Castros e Citanias da Serra da Estrella; e diziam os curiosos:

--Olha o chefe do Cabêço do Crasto de Torvosello! E o do Crasto de
Tintinalho? O do castello de Reigoso!

--Não faltou o Chefe do Cabêço de Escarrigo; nem o de Videmonte; o de
Verdolhas, e de Tabeiró.

A gente de Traz os Montes tambem reconhecia os seus chefes:

--Lá está o de Castro de Avelãs. Olha o de Formil! Mais o de Fervença.

--Tambem o de Castro Samil! E o de Lambeiro branco! o de Soutello.

--Mais o de Rabal; e o de Alfaião.

A gente do Alemtejo mostrava certo orgulho ao apontar para os seus
chefes da Orca, de Castro Verde, da Colla, de Castris.

Do norte, da região callaica, viam-se os chefes das Citanias, como os
das de Briteiros, Tintinolho e Sabroso; o chefe da Corôa de Amonde; e o
do Môrro de Affife; o do Castrello de Neiva; o de Monte Ferroso; de
Laúndo, Guifães, da Roboreda. Era uma homenagem unanime de sympathia, de
reconhecimento a Viriatho pelo exito da violenta campanha de libertação
da patria commum.

Com as festas que por toda a Lusitania e Celtiberia se fizeram ao
conhecer-se o texto do Tratado de Paz, e ao regressarem a seus lares os
homens que ha tantos annos andavam na guerra da independencia, coincidiu
tambem a noticia de que em breves dias seria celebrado o casamento de
Viriatho com Lisia, a virgem semnothêa, aquella que sempre vaticinára a
liberdade da Lusitania.

Assim, cada uma das terras que contribuira com tantos sacrificios para
coadjuvar Viriatho no castigo da infamissima e sanguinaria perfidia de
Galba, resolveu mandar uma deputação para a representar nas festas
nupciaes do valente Caudilho. Essas deputações eram formadas de moços e
raparigas, vestidos com os trajos das suas provincias os mais vistosos e
caracteristicos, que iriam fazer os cortejos do esposo e da noiva, e
alegral-os com as suas dansas e cantares, durante os dias das bodas e
tornabodas; iam tambem os homens bons ou antigos com os presentes de
bois e novilhos, de vinho, cereaes, fructas e sequilhos, para que a nova
familia se iniciasse pela abundancia; e as mulheres, as mães, que fiavam
no lar, offertaram tambem as suas grandes têas de panno de linho e
bragal, meadas de linha alvissima e fina, boiões de mel, e aves sem
conto. Era uma homenagem com o sentido de uma contribuição nacional
espontanea áquelle que soubera unir as populações dispersas no mesmo
sentimento de uma Patria livre.

Para a cidade de _Vacca_, fundada pelos Turdulos, que está proxima das
fortes muralhas da Cava aonde Viriatho no anno DCVIII derrotára o Consul
Nigidio, é que se dirigiram todas as deputações para as festas do
casamento do Caudilho. Alli, n'aquella cidade, junto do rio Vaccua,
costumava Viriatho recolher-se temporariamente das fadigas da guerra;
era alli que tencionava viver tranquillamente o resto de seus dias no
remanso do lar com a adorada esposa, Lisia, que tanto o fortificára pelo
ascendente moral e confiança no futuro da Lusitania.

Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moços á frente de Viriatho, que
iam ao encontro da noiva, que vinha da Ilha sagrada de _Achale_,
acompanhada por seu pae Idevor e pelo grupo das donzellas de todas as
cidades lusitanas lá reunidas para essa marcha. Por onde Lisia passava
punham-lhe arcos de flôres e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos
e plantas aromaticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de
trigo, cantando seguidilhas de felicitação e augurando venturas.

Quando o cortejo chegou á margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se
mutuamente, e depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lisia
era concedida como esposa a Viriatho, o guerreiro passou o rio com
presteza, e como por encanto lançando o braço em volta da cinta de
Lisia, levantou-a do chão para cima do seu cavallo branco, partiu á
desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram
apoz elle, mas quando chegaram á cidade de Vacca já encontraram Viriatho
e Lisia juntos no balcão de pedra que dava entrada para a casa que fôra
construida para habitação dos noivos.

Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada, cheia de
dourados cachos de uvas, começaram os cantos e dansas; e depois da
chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho
endre, a quem beijaram a dextra, que alli diante de todos consagrou
aquelle consorcio unindo-lhes as mãos. Então, de braço dado, os dois
esposos dirigiram-se á Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam
expostos como em uma Feira franca todos os gados, cereaes, tecidos,
objectos de trem domestico e mais delicados presentes, que as populações
lusitanas offertavam a Viriatho como seu libertador. A vista d'essa
assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriatho era querido, e bem
explicava a confiança com que á sua bravura tinham ligado os seus
destinos aquellas terras, que elle conseguira libertar.

Viriatho e Lisia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos
os presentes, que representavam as riquezas das regiões lusitanas.
Reconhecia-se a região do Norte, entre Douro, Minho e Beira Alta, pela
abundancia dos seus milhos, pelo centeio da primavera e do verão, pelas
excellentes castanhas. A região montanhosa da Beira Baixa e
Traz-os-Montes, pelos seus nedios bois, carneiros e cabras das boas
pastagens das encostas e valles; e pelo seu trigo molle e centeio. A
região central da Extremadura até ao Tejo, mandava das suas extensas e
ferteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite
cordovil e vinhos generosos. A região do sul, Alemtejo e Algarve,
appresentava o trigo de inverno, os figos sêccos, tamaras, alfarrobas e
castanhas piladas, e porcos de uma creação afamada.

Viriatho, lembrado dos annos da campanha libertadora, não pôde olhar
para os cavallos em que vieram os chefes das Contrebias, sem confessar
quanto devia ás suas qualidades de resistencia excepcional. E
conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando:

--Este typo _galleziano_, de cavallos pouco corpulentos, e resistentes
ao trabalho, é commum ao Minho, ás Asturias, Vasconia e Navarra.

--E estes mais corpulentos, com grande aptidão para o trabalho de carga
e de tiro, fórmam uma _variedade castelhana_, que se encontra ahi pelo
Minho, Traz-os-Montes e Beira.

--Cá para mim, o typo da minha paixão é o betico-lusitano! Estes
cavallos das provincias do sul, são elegantes de fórmas e de postura. É
olhar para essa raça de Alter, das Lesirias do Tejo e do Alemtejo;
incomparaveis.

Em homenagem a ter Viriatho sido na sua mocidade pastor e chefe da
Mésta, grandes manadas de bois vieram á feira apparatosa, na
representação de cada provincia. Viriatho foi passando vagarosamente
diante das manadas, interrogando com enthusiasmo, e caracterisando com
os chefes das Contrebias as differentes raças.

--Estes bois vermelhos, amarellos e fulvos, isto é que é proprio para
trabalho! as vaccas são extremamente leiteiras. Quem não reconhece
n'este gado o Minho e a Galliza?

--Tambem pertence a esta raça galleziana, o barroso, lá do Gerez.

--Estes são da raça Maroneza, robustos, ligeiros, firmes no passo. São
ahi das regiões visinhas do Durio.

--Aqui agora os da raça mirandeza; é a que se acha mais espalhada, por
Traz-os-Montes, grande parte da Beira e da Extremadura. Tambem por aqui
se vêem as suas variedades, a _braganceza_, a mirandeza _ribeirinha_, a
_extremenha_. Isto sim, que é raça para trabalho violento!

--É por isso que se tem propagado tanto.

E proseguindo n'este passeio pela Cava, Viriatho e os chefes das
Contrebias foram notando os bois de _Arouca_, excellentes, soffredores,
de Lamego, Caramulo, predominando entre o Durio e o Vaccua. E elogiaram
a raça _ribatejana_, brava para campo e corridas; a _alemtejana_ e a
_algarvia_, docil, sobria, côr de castanho claro, e propria para
trabalho e engorda.

E na grandiosa feira em que se representava o genio de cada provincia,
viam-se tambem as raças ovinas, a _bordaleira_, que predomina do Minho
até ao Tagus; os _merinos_, de Campo Maior e Marvão, Moncorvo,
Mirandella e Villa Flôr; e as _estambrinas_. Estavam alli as cabras da
Serra da Estrella, do mais bello pêlo longo, e as de pêlo raro, todas
muito leiteiras. E os porcos _Bisare_, do Minho, Traz-os-Montes e Beira;
com os do Alemtejo, Extremadura, Algarve e margens do Tejo, chamados
_Romanice_.

Via-se alli representada a alfaia agricola, que estabelecia uma
transição para os productos industriaes. Era um encanto examinar a
perfeição dos arados, cangas, carros, engaços, sacholas, cêlhas, concas,
crivos. Destacavam-se mais adiante as louças de barro, de argilas
ocreas. Nos trabalhos textis, as linhas ou fios de cozer em meadas
alvissimas e novellos; rendas, cortinados, adamascados; as lãs de
Portalegre e da Guarda em cobertores; as estamenhas, cintas, pannos, de
trabalho domestico do Algarve: os bureis e baêtas listradas, da Covilhã
e de Viseu.

Mas o que mais attrahia a attenção de Lisia eram os trajos lusitanos,
que davam ao arraial um fulgor pittoresco, de côres e talhos: a Capa de
honra, de Miranda; o Gabinardo de Nisa; a Capinha de Barroso e Sobreira;
a Castreja de Laboreiro; a Jangadeira de Anha; a Camponeza de Perre,
Areosa, Meadella e Ovar; a Ceifeira alemtejana, maiata, poveira; era um
espectaculo commovente.

Grupos de mulheres vieram acercar-se de Lisia e offertaram-lhe com
alegria presentes especiaes: a roca de freixo ruge-ruge cheia de
ornatos; aventaes de Vianna; lenços bordados, segundo o costume, pelas
noivas de ao pé do rio Vaccua; rendas de malheiro, de Aveiro, Setubal e
Lagos, e rendas de bilro de Vianna, Villa do Conde, Peniche e Setubal.

As mulheres mais abastadas tambem lhe offertaram peças de ouro e prata
feitas pelos lavrantes de Gondomar e Fanzeres; eram argolas de beira
lisa, arrecadas, botões de amoras, brincos fusiformes, laças, corações
de filigrana de ouro.

Foi alli dentro da Cava que se armaram as mezas para o festim nupcial;
alli estavam as pipas do vinho palhete, e as fructas com abundancia. A
variedade dos trajos e as physionomias dos individuos que representavam
a nação desde os Gallaicos até aos Cuneos, davam uma impressão viva e
sympathica de um forte povo que tinha uma feição propria, e que queria
viver livre. As dansas eram continuadas, simulando combates, e saltos
espantosos. Homens e mulheres fórmam bandos, em frente uns dos outros,
alternando os versos da Canção, e um Côro dos homens antigos que as
presenceavam é que ia repetindo o refrem, em que soava o nome de Viriatho.

Foi á meza do banquete, que Viriatho se ergueu, junto de Lisia, e
tirando do seu pescôço a Viria ou Collar de ouro do commando, que até
áquelle dia trouxera, o collocou no pescoço da formosa esposa, abdicando
alli deante de todos do poder militar que lhe tinha sido confiado, e
confinando-se na vida pacifica do lar. D'alli em diante o symbolo da
guerra ficava uma joia, adorno da graça feminina; e a arma tornar-se-ia
utensilio de trabalho.

O banquete correu animado e sempre cordato, dentro das muralhas da Cava,
que era n'aquelle momento um arraial pacifico, nunca visto. Á medida que
os grupos se iam levantando da meza, na planura vasta da Cava
desenvolviam-se os jogos guerreiros, a vapulação, os saltos, os
sarilhos, as luctas athleticas, e ouviam-se brados acclamatorios:

--Viva a Callaecia!

--Viva a Vettonia!

--Vivam os Carpetanos!

--Vivam os Oretanos!

--Viva a Beturia!

--Viva a Cynesia!

N'aquelle momento Viriatho ergueu-se com uma taça de vinho rubro na mão,
e unificando todos aquelles gritos, que representavam o espirito
separatista das differentes terras, proferiu com a voz timbrada e sonora
acostumada ao commando:

--Viva a Lusitania!

A vibração d'aquella voz e d'aquelle nome produziu um delirio
indescriptivel; e d'entre aquelles gritos sinceros e fervorosos,
provocados por um intimo sentimento de Patria, destacou-se uma outra,
distincta e magestosa:

--Viva a Lusitania! e com ella Viriatho, symbolo da sua independencia.

As festas do casamento duraram outo dias, e n'esse decurso nunca
deixaram de chegar novas mensagens, e carinhosos presentes que se foram
accumulando na Cava. No meio d'aquella multidão alegre levantou-se um
rumor enthusiastico, vendo apparecer um formoso touro ladeado por cinco
campinos; seguia lento e magestoso, levando enfiadas nas pontas, brancas
regueifas de trigo, e em volta do pescoço grinaldas das mais
rescendentes flôres. Era o costume dos povos da Extremadura, nas suas
festas da entrada da primavera, que votavam a Viriatho esta sua
manifestação cultual. Por onde o touro passava, uns lançavam-lhe flôres,
outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de affecto, e a multidão
seguia atraz para presenciar a entrega d'aquella expressiva offerta a
Viriatho. Os chefes das Contrebias, que assistiam á apparatosa
cerimonia, approximaram-se de Idevor, insistindo com empenho:

--Explicae-nos o sentido religioso da _Festa do Touro_. Porque é que
encontramos por todo o territorio hispanico Touros de pedra, como esses
de Guisande? Que sentido historico terá a lenda do combate de Mithra com
o Touro atravessado pela sua espada, como se vê insculpido em tantas
rochas e monumentos?

Idevor accedeu promptamente ao empenho:

--«Um povo, que habita na latitude em que _o maior dia do anno é o dobro
do menor dia do inverno_, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos
trabalhos da Agricultura. Para elle o Sol representava-se-lhe á mente
como o Touro celeste: e no começo do Anno solar, na efflorescencia
estival, symbolisou essa Constellação pelo signo do _Touro_, a força
geradora, a potencia fecundante. Esse symbolo zodiacal do _Touro_,
conservou este nome entre todos os povos civilisados, como expressão de
um conhecimento astronomico; e foi tambem objecto de adoração. O nome de
_Thor_, o deus dos povos da Germania e da Scandinavia, designa o
_Touro_, tornado a propria imagem do deus. Os Cimbros e Teutonios, que
invadiram a Italia, juravam sobre o boi sagrado, que traziam comsigo.
_Thor_, o chefe de todos os deuses scandinavos, é representado com um
sceptro com cabeça de boi. Muitos nomes de povos e de logares foram
tomados d'este symbolo do _Touro_, como o monte Tauros, o _Darana_, ou
Atlas, os Tourisci e Taurini, e a região da Taurida. A Civilisação
d'este povo occidental foi propagada ao Oriente, e chamaram-lhe _Turan_,
pela representação do Touro, occupando o primeiro logar entre os quatro
Signos do Zodiaco, na casa em que marcam no Céo as Estações solsticiaes
e equinociaes.

«Contra esta civilisação do Occidente, que divinisára o Fogo material do
Sol, no _Touro_, combateu o Iran, symbolisando no joven Cavalleiro
cercado de raios luminosos, Mithra, o _Fogo vivente_ e espiritual. A
lucta do Iran e de Turan foi representada em um combate de Mithra
atravessando com a sua espada o Touro; era o antagonismo e o triumpho da
civilisação militar sobre a civilisação agricola, sacrificada diante das
invasões da força armada, da rapina organisada. A vinda dos Persas à
Hespanha foi uma consequencia d'essa lucta; Mithra tambem aqui venceu o
Touro, que representava as forças impetuosas da Natureza.

«Mas, apesar d'esse triumpho, podemos exaltar o Touro na sua morte, como
no velho hymno:==Do seu corpo nascem as plantas salutares que cobrem a
terra de verdura; do seu sangue vem o _vinho_, que produz a bebida
sagrada dos Mysterios, e dos seus tutanos o trigo que dá o alvo pão; do
seu espermen derramado provieram todos os animaes uteis.==O _Touro_ será
vencido pela _Espada_, mas esse triumpho só ficará effectivo quando os
vencedores por seu turno cultivarem a terra, levantarem cidades, abrirem
estradas e coadjuvarem pelo commercio a confraternidade dos Povos. Então
a _Espada_ desapparecerá, para que a _Cornucopia_, esse emblema da Força
do Touro, seja o symbolo da Abundancia e da riqueza inesgotavel,
restabelecendo no mundo a supremacia do Occidente.»

Mal acabára Idevor de esboçar o poema que se recíta em Hierna, do Touro
ou _Tarvos_, defendido pelas arvores cortadas para não ser agarrado,
quando se ouviram estrondosas gargalhadas a pouca distancia. Era um
desafio de bebedores:

«Ganhava a palma o que bebesse de um só folego um grande cangirão de
vinho.»

Só um vencera, sendo por isso acclamado com a gargalhada estrondosa.
Viriatho olhou, e reconheceu Bovecio.

--Bovecio! que eu vi hydropico, e que está agora são como um pêro, e faz
d'estas valentias!

Acenando-lhe com amisade, Bovecio veiu respeitoso, e murmurou submisso:

--Bebi na fonte de Ouguella. A vós, senhor, devo eu a saude e a vida.
Por vós a sacrificarei com orgulho.



XLVII


Estavam as festas do casamento no auge do fervor, quando se aproximou de
Viriatho Tantalo, que chegára repentinamente, e lhe communicava:

--Emquanto Quinto Pompeu Rufo está dirigindo o ataque contra os
Numantinos, Quinto Servilio Cepio destacou-se do exercito romano, e
descendo com algumas Legiões para a região Occidental da Hespanha,
rompendo hostilidades, quebranta assim o Tratado de Paz ratificado pelo
Senado! Acompanha-o Decio Junio Bruto, o que quer dizer, que é uma
campanha em fórma.

Viriatho encarou Tantalo com assombro, por vêr que a infamia de Cepio
era tão clamorosa como a carnificina feita por Galba, e apenas proferiu
a phrase:

--Ainda tenho a minha espada!

E aproximando-se de Lisia, tomou-lhe as mãos com anciedade:

--Vou partir. Sou informado n'este momento que o Consul Quinto Servilio
Cepio opéra com um exercito entre a Oretania e a Carpetania! Tenho de ir
sustar de prompto a este perigo, e impedir a deslealdade do Consul.

E aproveitando aquellas ultimas horas da festa do seu noivado, chamou os
Mil Soldurios que o acompanharam sempre durante os dez annos de campanha
contra os romanos, para que passassem palavra a todos os que alli
estavam, representantes da Vettonia, da Carpetania, da Oretania, da
Callaecia, da Beturia, da Cynesia, para que partissem para as suas
terras, que referissem a infamissima deslealdade de Cepio, e que
tivessem promptos para a primeira chamada os Terços e Companhias com que
faria frente ao Consul indigno que assim rasgava um Tratado solemne.

E depois de ter beijado a face de Lisia, n'uma despedida muda mas
melancholicamente expressiva, seguiu em marcha com os Mil Soldurios,
avançando em direcção aos Vettões para formar o seu primeiro nucleo de
resistencia.

Corriam a trote largo, quando ao passarem por um rio, em que os cavallos
foram dessedentar-se, uma pobre lavadeira que estava ahi á beira d'agua,
fitou Viriatho com um olhar compassivo:

--Como uma festa tão alegre do feliz casamento se interrompeu, sem
ninguem tal cuidar!

Os Soldurios não fizeram reparo do que dizia a pobre mulher, que lavava
á beira do rio; continuou murmurando:

--Elle _não morrerá em batalha_, isso é bem certo! Lisia ficará sempre
noiva.

Em breve os cavalleiros se afastaram da margem e precipitaram a
carreira, seguindo Viriatho na frente, com a impaciencia de ir
defrontar-se com o perigo. E a obscura mulher, continuando a lavar á
beira do rio, fallando comsigo, sem ser ouvida por ninguem, dizia na sua
credulidade:

--Na minha choupanasinha eu tinha dependurada a _Boliana_, para me
revelar a sorte de Viriatho. Emquanto Viriatho andou dez annos a fio nas
guerras contra os Romanos, a Boliana estava sempre verde. Só de hontem
para hoje é que reparei que a Boliana emmurchecia. Estou a vêr o seu
destino; mas a Espada de Viriatho é invencivel! e Viriatho não morrerá
em batalha! São a favor d'elle os agouros... só a Boliana é que está
emmurchecendo.

Ia a perder de vista a cavalgada, e lançando-lhe um olhar demorado,
murmurou a pobre mulher antes de continuar no seu trabalho:

--Estão-me a lembrar agora aquellas palavras da Canção do noivado!
Fallavam de morte, no meio de tanta alegria; não fui eu só que o notei,
quando cantaram:

    Laço que a união celebra,
    Nem mesmo a morte o quebra.

O povo tem a intuição das cousas; na sua inconsciencia apparece por
vezes como vidente.



XLVIII


Cepio, por cumulo de sua perfidia, sabendo que o exercito de Viriatho
fôra licenceado e que os Terços e Companhias tinham regressado ás suas
terras e provincias, levou o descaro affrontoso a talar o solo da
Lusitania para se encontrar com Viriatho desarmado.

No seu caminho, Viriatho topou com multidões de gente foragida das
cidades invadidas, saqueadas e incendiadas por Quinto Servilio Cepio.
Vendo-o passar, em grandes alaridos pediam soccorro, que acudisse a
tamanha calamidade; por que o Consul Cepio já estava alli perto, e
forçára, com medonhos suplicios, alguns aldeões a declararem o caminho
que Viriatho seguira, contando agarrar o general lusitano.

Viriatho, encobrindo a surpreza da noticia, e diante do perigo, resolveu
o plano a oppôr-lhe: retirar-se para o paiz dos Vettões, aonde tinha
gente firme e da maxima confiança. Era-lhe facil ahi um levantamento em
massa. E para não perder tempo, mandou emissarios aos Gallaicos, para
acudirem ao attentado inqualificavel com a maior presteza, porque desde
o crime de Servio Sulpicio Galba, não se vira perfidia mais clamorosa
como esta agora de Quinto Servilio Cepio.

No emtanto, o Consul procurava com o seu exercito Viriatho, e sabendo
que elle está próximo da Carpetania, com homens recrutados pelo caminho,
mal armados, com foices roçadoiras, machados, chuços e mangoaes, entende
que é essa a melhor occasião de atacar o caudilho lusitano e libertar o
dominio de Roma na Hespanha d'esse libertador patriota. Diante de um
exercito assim consideravel como o de Cepio, Viriatho, com um tino
pratico imcomparavel, reconheceu que seria rematada loucura acceitar
batalha em condições de tamanha desegualdade. E tirando da propria
difficuldade do momento os recursos para uma inesperada defeza,
descobriu no terreno aonde todo o exercito se perderia um ponto de que
soube aproveitar-se para a salvação. Recuando para um valle profundo,
para o qual dava entrada uma garganta estreita, por alli fez passar a
pouca tropa de que dispunha, embaraçando com os seus Mil Soldurios, que
o exercito romano se aproximasse e o envolvesse. Durante esta passagem
para o valle amplo, os Cavalleiros simulavam movimentos como quem se
preparava para uma batalha campal; e os Romanos suspeitando que Viriatho
os attrahira para alli, porque teria no valle um consideravel exercito
sobre que se apoiava, fizeram alta, temerosos da cilada, porque viam
através da estreita garganta estendidos ao longo do valle negrejarem os
vultos dos Terços lusitanos.

Viriatho prolongou esta situação espectante, para dar tempo a pôr fóra
de perigo as pequenas forças do seu commando. Conseguido isso com a
maior felicidade, Viriatho, a um signal dado, dispersou-se com os seus
Soldurios com uma rapidez inacreditavel, desapparecendo por entre os
anfractuosidades do terreno com surpreza dos romanos, que debalde
tentaram irem no encalço d'elles em perseguição. Cepio, desesperado por
aquelle acto heroico de Viriatho, que assim lhe patenteava a sua
superioridade militar, avançou pelo territorio dos Vettões,
queimando-lhes as ceáras, derrubando os casaes isolados e pondo a saque
as povoações, passando á espada todos os que encontrava armados, dando
caça ás guerrilhas que procuravam juntar-se a Viriatho.



XLIX


A malvadez com que o Consul Cepio procedia contra as povoações inermes,
chegando a mandar expôr nas praças pregados em cruzes os lusitanos que
lembravam o Tratado da Paz violada, fez reflectir Viriatho, forçando-o a
um acto de coragem e dignidade. Participou aos seus companheiros:

--Aos estragos que Cepio está praticando, não sendo possivel oppôr-lhe
já uma força armada, que ainda leva seu tempo a reunir, cumpre
oppôr-se-lhe n'este momento a força moral.

--A força moral? Objectou Minouro.--Em que consiste n'este transe a
força moral?

--Quero lembrar a Quinto Servilio Cepio, que temos um Tratado de Paz
assignado por seu irmão Serviliano, e ratificado pelo Senado e pelo
Povo. Que pela nossa parte ainda o não infringimos, e que acreditamos na
fidelidade de Roma no cumprimento das leis que ella a si se decreta. Que
tres dos meus mais leaes Companheiros vão d'aqui ao acampamento de Cepio
mostrar-lhe o Tratado de Paz, e declarar-lhe que á magestade d'elle
entregamos a nossa defeza.

E voltando-se para Ditálcon, Andaca e Minouro, que o contemplavam
silenciosos, disse-lhes com voz firme:

--A vós, como os meus maiores e mais leaes amigos, encarrego de irem ao
arraial de Quinto Servilio Cepio appresentar-lhe a respeitosa homenagem
dos Lusitanos; e em seguida ás declarações de confiança no Tratado de
Paz ratificado pelo Senado, mostrae-lhe esse diploma authentico, trocado
entre Roma e a Lusitania.

E entregou as laminas de cobre em que estava gravado o Tratado a
Ditálcon, o mais velho dos tres Companheiros, que partiram rapidos para
o acampamento romano, levando ramos de oliveira apanhados pelo caminho,
por servirem de parlamentarios que pediam paz, ou que iam com intenções
pacificas. Os tres companheiros iam conversando:

--Viriatho, com certeza, não sabe quem é Cepio, um dos maiores devassos
de Roma? E é com um sujeito d'estes que Viriatho se fia em força moral!

--O Consul não perde esta occasião; e bem tolo será se a não aproveitar
para vingar seu irmão Serviliano, forçado por Viriatho a assignar esta Paz.

--São passadas perdidas, estas; por que Cepio sabe que não temos gente,
e carrega sobre nós a valer. Oh, se carrega! Nem fôra elle tão estupido
como general para cobrir a sua inepcia com este lance.

--Póde ser que as passadas não sejam perdidas! Porque Cepio é homem para
entrar em negocio...

--Em negocio?

--Ha ás vezes combinações imprevistas, que dão novo rumo aos
acontecimentos.

--E esta occasião é asada para isso.

--O ponto está em sabel-a approveitar habilmente.

O dialogo entrecruzava-se, quando Ditálcon, Andaca e Minouro chegaram ao
acampamento romano. As vedetas e guardas avançadas avisaram de prompto;
Cepio mandou alguns Cavalleiros para acompanharem até á sua barraca os
parlamentarios enviados por Viriatho, imaginando que vinham
annunciar-lhe a rendição do Caudilho lusitano, ou em peior hypothese,
que Viriatho achando esta hostilidade incompativel com a dignidade
militar, lhe mandava o desafio provocando-o para um combate singular, em
campo aberto. Porém Cepio afastando da mente esta conjectura que não
lisongeava a sua covardia, reflectiu tacitamente:

--Se me apresentarem um tal doésto, recusarei dizendo: Que deixo esses
combates singulares aos gladiadores da arena, pagos para espectaculo do
povo, sempre ávido de divertimentos.

E mandando entrar á sua presença os tres parlamentarios, divisou-lhes
uma expressão de quem antes de fallar já se entendia.



L


Na ideia em que Cepio os achava, mostrou aos tres parlamentarios um
sorriso de affabilidade, e um trato verdadeiramente urbano:

--Direis a que vindes.

--Envia-nos Viriatho.--Assim começou Ditálcon, o mais velho e
auctorisado dos companheiros.

--Ouvirei attentamente.

--Envia-nos Viriatho a dizer-vos, que tendo recebido da grande e
generosa Roma o titulo extremamente honorifico de Amigo, é-lhe
moralmente impossivel, sem pécha de traição, o pegar em armas contra a
poderosa Republica. Isto pelo seu lado, dando como prova os factos de
estar dissolvido o Exercito lusitano, e ter deposto as armas
confinando-se na vida civil pelo seu recente casamento. Quanto a vós,
vendo como viestes talando a Lusitania, queimando cidades pacificas, e
ainda agora atacaes violentamente os Vettões e Gallaicos, lembra que
existe o Tratado assignado por vosso irmão e ratificado pelo Senado e
pelo Povo romano, no qual está garantida a paz e tranquillidade da
Lusitania. Pedia pois...

Cepio, mal podendo encobrir a colera:

--Não posso ouvir fallar n'esse Tratado _assignado por meu irmão_, sem
que o sangue se me revolva. Perco a cabeça. Ha certas occasiões em que a
honra nos prejudica para uma completa e perfeita vingança. Esta é uma
das taes.

--Mas, senhor, aqui trazemos o proprio Tratado authentico, para vêres...

Cepio tomou nas mãos o Tratado, olhando-o com desdem, e disse para os
tres com um sorriso acanalhado:

--Quando eu acompanhei á Hespanha o Consul Quinto Pompeu Rufo, que está
combatendo diante de Numancia, não foi para vir tomar os bellos áres da
Lusitania! Esse Tratado nada vale para mim.

--Violaes então a auctoridade da grande e generosa Roma!?

--Quem vos auctorisa a tão monstruosa suspeita?--redarguiu Cepio.

--A letra...

--Qual letra, ou qual careta! volveu Cepio com o seu ár pulha, que
combinava de vez em quando com a philaucia de Consul romano. E com ár
insolente e confiado continuou, affectando segredo de importancia:

--Os Tratados só têm a força que lhes dão as Espadas. Bem vejo que
Viriatho não está bem munido n'este momento, porque me manda lembrar o
Tratado. Mas o Tratado... o Tratado já não existe. Quereis saber? Aqui á
puridade, e só para nós...

Os tres parlamentarios aproximaram-se de Cepio, sentindo-se lisonjeados
pela confidencia que iria fazer-lhes:

--O Senado convenceu-se da indignidade de meu irmão, assignando esse
Tratado. Consegui eu mesmo isso; e o Senado concedeu-me secretamente a
faculdade de hostilisar Viriatho, mas sómente hostilisal-o...

Minouro fitava o Consul com o maximo interesse; Ditálcon parecia
abatido, e Andaca meditava. O Consul, olhando para elles, e pondo-lhes
as mãos pelos hombros, continuava:

--Meus amigos! Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me, que vem pelo
caminho o decreto do Senado mandando continuar a guerra da Lusitania.
Quereis vêl-as?

--Basta-nos a vossa palavra! disseram os tres.

--Nem podia deixar de ser assim,--proseguiu Cepio com enfatuado
desdem.--Accusarão os vindouros Roma de desleal nos seus Tratados, mas
nunca de um governo estupido! Pois era lá possivel que sustentassemos
uma guerra desesperada em Numancia, que pertence á primitiva unidade
lusitana, e que estivessemos de mãos atadas na parte occidental da
Hespanha pelo pacto imposto por um cabecilha, que para nós os romanos
nunca deixou de ser o _Dux latronum_!

--Com que, Roma decreta que se continue a Guerra da Lusitania? inquiriu
com assombro Ditálcon.

--Como acabaes de o ouvir.

--A nossa missão parece terminada,--disse Ditálcon, quebrantado o animo.

--Não a considereis terminada,--interrompeu Cepio, tornando a approximar
de si os tres emissarios.--Alguma cousa bem combinada se poderá fazer
ainda, e depende da vossa intelligencia. Quereis a paz da Lusitania?

--Queremos! accudiram os tres.

--A Paz da Lusitania, mas não a Paz de Viriatho! disse o Consul com
orgulho. D'essa tratemos aqui, partindo do ponto que Viriatho é o unico
embaraço d'ella, e que emquanto elle viver nunca Roma considerará a Paz
da Lusitania senão como uma affrontosa derrota.

--Mas Viriatho é querido do Povo, que o acompanha cegamente.

--É por isso que Viriatho é um perturbador. A sua obra é uma loucura!
Quer fazer uma Lusitania restaurada pela unificação de elementos de
raças ha tantos seculos extinctas, imaginando _Lusonios_, com quem nada
têm as gerações actuaes.

Ditálcon acenou com a cabeça, em signal de adhesão áquella ideia. E o
Consul, vendo que estava sendo comprehendido, voltou-se para Minouro:

--Nós não podemos andar aqui em balanços ao grado dos sonhos de
Viriatho; quer fazer uma Patria Lusitana, com um individualismo e
autonomia propria, quando entre Lusitanos e Iberos não existem
fronteiras separativas, nem de montanhas, nem de rios. É tempo de acabar
com estas utopias, tornando a Hespanha uma Iberia unida para acceitar a
civilisação de Roma e continuar no occidente a sua obra dominadora.

Minouro regosijava-se com aquellas vistas do Consul, que eram tambem as
suas. E Cepio, voltando-se para Andaca, e já com ár determinado a quasi
imperativo:

--Para attingir este grande ideal da civilisação romana, do direito, da
administração, da ordem publica, é de força que renegueis a Patria
lusitana.

E como Cepio notava que os tres estavam entre si de accordo, disse para
elles:

--Roma carece das capacidades e energias dos homens de Hespanha. Eu
vol-o garanto, Roma encarregou-me de vos conferir o titulo de Cidadãos
romanos, e as honras do Patriciado, com accesso aos altos cargos da
Republica, e uma somma correspondente de sestercios, se...

Os tres entreolharam-se, e querendo penetrar nas intenções de Cepio,
comprehenderam-se todos. Minouro interrompeu a suspensão silenciosa do
Consul:

--Effectivamente, Viriatho está-se tornando um embaraço.

--Quando se chega a certo gráo de popularidade, em dados homens torna-se
isso um perigo.

--Um acto decisivo vale por annos de lucta.

O Consul volveu então com frieza:

--Mantenho as propostas em nome da Republica romana: Impõe-se n'este
momento a necessidade da morte de Viriatho. Roma dá-vos o titulo de
Cidadãos romanos...

--Qual de nós ha-de...

--Dá-vos as honras do Patriciado.

--A morte de Viriatho impõe-se...

--Dá-vos o accesso aos altos cargos da Republica, e uma somma de
sestercios.

--Tiremos á sorte quem hade matar Viriatho.

O Consul estendeu o seu capacete, lançando dentro d'elle tres pequenos
seixos, sobre um dos quaes escrevera==Morte==. Cada um dos tres tirou a
sua pedra. A Minouro caiu aquella em que estava inscripto: ==Morte.==



LI


Era noite velha, quando Ditálcon, Andaca e Minouro regressaram ao
acampamento de Viriatho. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha
imaginára, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou rasões
politicas se debatiam na barraca do general romano, para lá se deterem.
De vez em quando occorria-lhe a conjectura de que Cepio, não
reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentarios, os teria mandado
passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como
refens para lhe impôr condições de rendição. N'esta prolongada
preoccupação de espirito, e sob a pressão dos inesperados
acontecimentos, que só poderiam ser contrabalançados pela energia e pela
astucia, Viriatho cahiu em um somno profundo, como aquelle em que se
fica immerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o somno
era agitado, como em homem costumado a estar álerta mesmo quando
descansava; e n'essa agitação, debatia-se Viriatho com um pezadello, um
sonho, que sem differença e por fatalidade coincidia com o que estava
prestes a acontecer. Na agitação d'aquelle somno dormido sobre a terra
recalcada poucas horas antes pelos cavallos, Viriatho sentia os passos
dos seus tres Companheiros, que se aproximavam silenciosamente da
barraca em que estava dormindo; um d'elles, Minouro, afastou o panno e
entrou escondendo de traz das costas um punhal de dois gumes. N'aquella
anciedade cataleptica, Viriatho quiz erguer-se, gritar, mas era
impossivel qualquer movimento; em seguida entrou Ditálcon, e Andaca
ficou quasi da parte de fóra, mas era ainda visto claramente. Sob o
terror do sonho que o opprimia, Viriatho viu Minouro curvar-se sobre
elle, e erguendo ao ár o braço com o punhal descarregar o golpe...

N'esse momento de extrema angustia acorda, e entre a illusão e a
realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoço; antes que o
sangue lhe embaraçasse a voz, Viriatho, abrindo os olhos attonitos, pôde
proferir as palavras:

--O meu maior amigo? Minouro...

Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e
respingaram pelos pannos da barraca, não deixaram que podesse mais
exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, até ao ultimo alento, passando
assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua
lealdade, não ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa,
que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.

A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurança; os tres Companheiros
da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens
recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram á desfilada
para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi
acordal-o, e dizer-lhe:

--Morreu Viriatho!

Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o
somno, deu ordem ao Cavalleiro:

--Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.



LII


Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua
presença era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava
luminoso e sereno, não apparecera; como faltavam tambem os seus tres
Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer
algum fôjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o
exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a
barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar
se estaria cahido por doença; o que estava mais perto levantou resoluto
o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da
relva, sobre póstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:

--Está morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!

Aquelle brado sôou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o
ár ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldurios e por
entre os Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de
Viriatho.

--Apunhalado Viriatho! Morto Viriatho!

Para a barraca do general correram todos aterrados. Não compareceram
Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os unicos que faltavam. Sem esforço
reconheceram que esses, a quem Viriatho considerava como os seus maiores
amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente,
emquanto elle dormia!

Corriam lagrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de
Viriatho n'esta campanha de dez annos pela independencia da terra lusitana.

A barraca foi desmantelada, e ficou patente aos olhos de todos o corpo
inanime de Viriatho estendido como se tivesse passado instantaneamente
do somno da vida para o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço
dado por mão certeira, a que teria succumbido rapidadamente e quasi sem
agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazia, e a seu lado,
estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencivel,
á qual attribuiam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se
atrevendo nenhum dos Soldurios a tomal-a na mão, diziam entre si:

--Agora comprehendemos as vozes que corriam: Viriatho não morreu em
batalha; assim lhe estava vaticinado.

--Mas o oraculo, que lhe parecia favoravel, deixára no vago a hypothese
atroz, de morrer apunhalado á traição pelos seus melhores amigos!

--Antes vencido e morto na refrega, no sacrificio voluntario da vida por
uma ideia, do que esta sorte miseranda.

E por todo o exercito, em grupos, que se formavam em tamanha desolação,
levantavam-se alaridos, prantos de terror e de magoa; bem reconheciam
que aquelle desastre era a perdição de todos, e que sem o chefe
prestigioso achavam-se á mercê do Consul romano, e para muitos annos
abafada a resistencia da Lusitania. Na angustia em que todos se viam, a
pouca distancia do exercito de Quinto Servilio Cepio, o desespero da
situação causava uma apathia, uma obnubilação para planear a defeza
urgente.

N'este momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriatho,
chegou Tantalo, um dos bravos em que mais confiava o Caudilho, e
collocando-lhe a espada entre as mãos, cruzada sobre o peito, exclamou:

--Morreu o teu corpo, mas permanece imperecivel o teu ideal. Esta Espada
transmittirá o esforço, truncado pela traição, áquelle que cedo ou tarde
servir a aspiração de uma Lusitania livre.

E voltando-se para o exercito, que parecia reanimado por estas palavras:

--O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriatho
as honras do funeral.

Emquanto se davam as ordens para realizarem de prompto, com a maior
solemnidade, a lugubre cerimonia, no arraial dos romanos levantavam-se
cantos de acclamação triumphal, que eccoavam de quebrada em quebrada:

--Acabou a Guerra da Lusitania. Morreu Viriatho! Morreu Viriatho.



LIII


No arraial de Quinto Servilio Cepio a inesperada noticia da morte de
Viriatho propagou-se com uma rapidez inaudita; perguntavam entre si os
Legionarios:

--Quem seria o valentão que se atreveu a ir atacar pessoalmente aquelle
colosso?

--Morreu em duello Viriatho!?

--Só por traição...

--Quem foi o romano astucioso?

--Quem teve essa gloria?

--Não ha gloria em matar á traição.

--Não foi nenhum romano; fôram lusitanos, e amigos de Viriatho.

--Custa a crêr.

--Elles estão ahi junto da barraca de Cepio para receberem o premio
promettido.

--Então, foi Cepio que os comprou? que os aliciou para a traição?

--Sim! Nada podendo pelas armas, alcançou pela astucia o que nunca
poderam conseguir Vetilio, Plancio, Nigidio, Fabio, Quinccio e
Serviliano. É velho o ditado, mas sempre verdadeiro: Quem não póde,
trapacêa.

E n'estas conversas entre os Legionarios, a curiosidade aguçava-se
estimulando alguns d'elles para irem vêr como eram as caras dos tres
miseraveis que tinham, ao serviço de Cepio, assassinado o general que
Roma tanto temia. Os Legionarios que passavam e encaravam com Ditálcon,
Andaca e Minouro, iam dizendo entre dentes:

--Ia jurar que aquelles homens não são lusitanos!

--Viste aquelle mais alto, e mais velho? Se não é um africano branco,
berber, mesmo ao pintar!

--E o outro? o loiro, parece celta.

--O da cara redonda é que se assemelha mais ao typo luso; mas assim
roliço, e puchando para a gordura... é com certeza ibero.

Afastaram-se á pressa, por que o Consul Quinto Servilio Cepio apparecera
á porta da sua barraca de campanha; alguns ouviram o som confuso das
palavras trocadas entre elle e os tres traidores, palavras atropeladas,
e d'entre as phrases destacando-se as que Cepio proferiu com accentuado
e esmagador desdem:

--Roma não tem por costume dar premio a soldados que estrangulam o seu
general.

As trombetas abafaram o resto da phrase, tocando á formatura das Legiões
e á parada geral do exercito. Emquanto esteve o exercito consular em
fórma, Cepio conferenciou com os Centurios, estabelecendo o plano a
seguir depois da morte de Viriatho:

«Primeiramente intimar ao exercito lusitano a rendição peremptoria e
incondicional; agora privado de chefe, é de todo impossivel a resistencia.

«Depois d'isto, que Decio Junio Bruto avance com uma parte do exercito
romano e penetre na região da Vettonia e vá ao encontro dos Callaicos,
que tratam de prestar soccorro ao exercito, conforme o pedido que lhes
fizera o Caudilho.



LIV


Os Cavalleiros romanos, que chegaram com a intimação affrontosa de Cepio ao
arraial lusitano, podéram vêr e contaram as cerimonias grandiosas que se
praticaram no Funeral de Viriatho. D'entre os Mil Soldurios que sempre o
acompanharam, uns encarregaram-se de vestil-o magnificentissimamente com as
mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava
os jogos celebrando as derrotas romanas. Amarraram-lhe os cabellos na
testa, como se fôsse para entrar em combate, pondo-lhe na cabeça a triplice
cimeira e o capacete de couro; pendente do pescoço o pequeno escudo
concavo, preso por corrêas, e em uma das mãos um punhal largo ou faca de
matto, estendida a seu lado uma lança de ponta de bronze e gancho para não
deixar fugir a prêza. Outros Soldurios acarretaram para cima de um alto
penhasco que estava na corôa da montanha, grandes mólhos de rama de
pinheiro, de faias e carvalhos, formando alli uma estupenda pyra, sobre a
qual, com veneração, fôram processionalmente collocar o corpo rigido de
Viriatho. Parecia um soberbo throno a pyra; e logo que cada um dos Mil
Soldurios foi junto do cadaver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em
grupos de duzentos, e póstos em frente uns dos outros, como quem vae entrar
em combate, esperando que fôsse lançado fogo á enorme pyra. A chamma
começou a atear-se, e assim que ella irrompeu intensa, principiaram as
dansas guerreiras em volta da pyra, em fórma agonistica, batendo os
escudos, floreando as lanças, brandindo as espadas e entrecruzando-se
vertiginosamente, como se esse tripudio sanctificasse mais o acto lugubre,
continuando ininterruptamente, incansavelmente, até que a ultima labarêda,
tendo combusto o corpo de Viriatho, se apagasse por não ter mais que
queimar.

E emquanto aquellas turmas de duzentos cavalleiros dansavam em volta da
pyra, dois outros grupos conservavam-se balançando-se como a accentuar o
rythmo de um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroismo de
Viriatho. O que esse Côro generoso e heroico vociferava, chegou na voz
dos tempos a penetrar na historia:


    ENDECHA FUNERAL

          PRIMEIRA TURMA:

    De obscura estirpe nascido,
    Fôra em criança pastor:
    Certo prenuncio e augurio
    Que um dia, por seu valor,
    Intelligencia e denodo,
    Guiaria o Povo todo.

          SEGUNDA TURMA:

    Nos transes mais arriscados,
    A astucia e penetração
    Dos seus planos de batalha,
    Descobria a salvação!
    Vimol-o em Tribula, quando
    Teve a Viria do commando.

          PRIMEIRA TURMA:

    Por trazer o Collar de oiro
    Não deixou de ser affavel!
    Dava a todos egualdade,
    Contra Roma era implacavel!
    Nas Legiões consulares,
    Mandava ao Orco aos milhares.

          SEGUNDA TURMA:

    Roma offereceu-lhe um dia
    Da Lusitania a Realeza!
    Simples, modesto no trato,
    Sceptro e purpura despreza,
    Fazer livre a Patria sonha;
    Por ella a morte é risonha.

Este grupo de Soldurios unindo-se, começaram uma carreira vertiginosa em
volta da pyra; e os que até áquelle momento andavam em volteio
ballucinante pararam subito, cantando por sua vez, divididos em duas filas:

          PRIMEIRA TURMA:

    Dominou pelas victorias!
    Mas nunca sua vontade
    Altiva se exerceu fóra
    Da Justiça e da Equidade.
    Sempre as prêzas repartia;
    Nada para si queria.

          SEGUNDA TURMA:

    Valente, audaz, destemido,
    No seu viver era sóbrio!
    Commodidades e luxo
    Tinha-os por vil opprobrio.
    Para a liberdade attreito,
    Tinha o duro chão por leito.

          PRIMEIRA TURMA:

    Triumphava nos perigos
    Pela astucia e pela audacia!
    Cansou Roma, a Paz lhe impondo
    Pela instante contumacia.
    Manietou os tyrannos
    Na campanha de dez annos.

          SEGUNDA TURMA:

    N'esses dez annos de lucta,
    Á sua voz tudo corre;
    Uniu-nos pela vontade
    Que a Patria lusa soccorre,
    A nossa Patria ditosa,
    Que, firme, libertar ousa!

          AS QUATRO TURMAS:

    E Roma, sempre vencida,
    Só achou o assassinato,
    Pela perfidia affrontosa
    Para vencer Viriatho!
    Vergonha á Cidade eterna,
    Que pela traição governa.

O Canto do soberbo Côro acabou pela estranha Vociferação, condemnando a
traição execranda de Roma contra Viriatho emquanto dormia. Areytos e
Tripudios funerarios acabaram simultaneamente; e emquanto se abriu uma
vastissima cova para arrojar as cinzas de Viriatho, procedeu-se ao
sacrificio das victimas consagradas aos manes do general insubstituivel.
Cortaram as dextras dos prisioneiros romanos, que eram quasi todos
iberos e levantinos, e foram mortos muitos cavallos. Dedicados amigos de
Viriatho combinaram entre si o suicidio religioso, para o acompanharem
além da morte, sendo alli enterrados sobre as cinzas d'aquelle com quem
contavam encontrar-se em um melhor mundo. Subitamente apresentou-se á
beira da cova Bovecio, e exclamou com voz firme:

--Ao bom conselho de Viriatho devi o voltar á vida, de uma doença
mortal. É de meu dever acompanhal-o na morte.

E vibrando em si proprio uma punhalada, cahiu borbotando sangue na larga
cova aberta. Muitos dos Soldurios de Viriatho, levados pela mesma
vertigem, proclamaram o suicidio religioso. Então Andergus, o espadeiro
de Toletum, propoz:

--Que se suicidem tantos amigos e companheiros de Viriatho, quantos os
annos que duraram os seus combates contra Roma.

Avançaram para ao pé de Andergus os Maioraes da Mésta, Edovius, Togotes,
Uvarna, Suttunus, Semesca, e alguns chefes de Contrebias, taes como
Aernus e Candiedo; e começaram entre si um duello desvairado, jogando-se
golpes de morte, cada qual procurando não ser o ultimo sobrevivente.
Andergus foi o primeiro a cahir por terra. Mas a cerimonia inaudita teve
de ser interrompida por um successo impressionante: dois Cavalleiros
romanos, em nome do general Quinto Servilio Cepio, apresentaram-se
intimando a rendição do exercito lusitano.

--Nunca!--bradaram os primeiros que ouviram a intimação affrontosa.

--Não se pactúa com um general que julga chegar á victoria pela traição.

E os que iam suicidar-se pela confraternidade heroica, decidiram:

--Morramos, sim, mas em lucta desesperada contra o infame Consul.

E n'aquelle momento, lançando a ultima pá de terra sobre a sepultura de
Viriatho:

--Para a frente! Tantalo, Tantalo seja o nosso general, para continuar a
campanha.



LV


Depois que Tantalo tomou o commando do pequeno exercito lusitano, alli
mesmo em conselho armado assenta o plano a seguir para evitar o combate
com Cepio:

--Temos dois recursos: ou debandar o exercito, indo cada um de nós
recolher-se a Numancia, e coadjuvarmos Salóndico, que resiste com
valentia a Quinto Pompeu Rufo; ou seguirmos em marcha sobre Sagunto, que
está em poder dos Romanos, é verdade, mas cujas cercanias acham-se
povoadas por Turdetanos.

--Para Sagunto! Para Sagunto.

A marcha fez-se com precipitação, de modo que Cepio, vendo que os
Lusitanos não se rendiam, e dando ordem para o ataque immediato,
encontrou o campo abandonado. Mandou circular em todas as direcções para
descobrir o caminho que os lusitanos seguiam; e facilmente lhes seguiu o
encalso, alcançando-os proximo das vertentes de Palancia e do Turia.

Tantalo não pôde evitar o combate; reconhecia que era impossivel a
victoria, mas a derrota certa havia de custar muito sangue aos romanos.
E voltando-se para os Soldurios, que no funeral de Viriatho se ajuntaram
dois a dois para luctarem em duello até cahirem mortos para acompanharem
ao outro mundo o seu chefe, exclamou:

--Agora é que vale a pena morrer. Continuamos ainda a glorificação de
Viriatho.

O arranque com que os Lusitanos receberam o ataque do exercito de Cepio
foi de molde, que o Consul, seguro da victoria, julgou melhor, ainda
assim, não se aventurar ás contingencias do momento; e antes de dar o
golpe decisivo, e dispostas todas as forças para o desfecho tremendo em
que seriam passados á espada, mandou dizer a Tantalo:

--Posso offerecer-vos a _Deditio_. Quero ser generoso com os bravos que
não temem a morte.

Tantalo explicou aos seus companheiros o que era a _Deditio_ concedida
pelo general romano:

--Se nos entregarmos como _Dedititios_, ficamos subditos de Roma, e como
taes ninguem nos poderá reduzir á condição de escravos vendendo-nos nos
mercados como bestas de carga. Como _Dedititios_ tem de nos ser dado um
territorio para habitarmos como Colonos.

A ideia de nunca serem escravos mais do que tudo sorriu áquelles
cansados lusitanos; e então Tantalo mandou entregar a sua espada a Cepio
como signal da rendição.

Cepio desejava apagar a mancha indelevel da deslealdade com que rasgou o
tratado de Paz, e procurando attenuar o odio da perfidia com que fez
assassinar Viriatho, deu aos trôços da gente que formava o exercito
lusitano o territorio extenso e fertil do valle banhado pelo Turia, para
o colonisarem pacificamente.

Passados dois annos, Decio Junio Bruto, denominado por antonomasia o
Callaico, por ter derrotado os quarenta mil gallegos que vinham em
auxilio de Viriatho, confirmou os privilegios d'aquelles dediticios, e á
cidade que haviam fundado e já se tornava florescente deu o nome de
_Valencia_, consagrando o heroismo dos destemidos lusitanos.



LVI


Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas não estava pacificada a
Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e
entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas
do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salóndico
resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de
Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptidão em inventar uma cilada.
Roma não o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente
Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio
Furio Philo, Quinto Calpurnio Pisão, até Cornelio Scipião Emiliano.

Pela indomavel bravura com que Salóndico sustentou Numancia, chegou a
correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mãos que estava a
Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde
está occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia
da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso
intuito, na rendição junto do Turia.

Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixarão inolvidavel o
anno de DCXIV; Lisia, sómente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da
campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de
Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o ár de
ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam,
lançaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma
rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente
lhe chamava:

--Sempre noiva! a Sempre noiva.

E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:

--O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!

O velho respondeu com firmeza:

--Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda
lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou
Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!

Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da
segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu
o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade
completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais
sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das _Pedras
baloiçantes_, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos
quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.

Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição
livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se
recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia,
para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por
tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas
verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:

--Viriatho está vivo? Viriatho estará morto?

E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por
cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como
no somnambulismo da concentração de uma saudade inconsolavel.



LVII


Contam-se maravilhas d'essa região dos Cynetas, na qual se ouve, segundo
dizem, o esturgir dos raios ardentes do Sol quando se afunda nas aguas
do Oceano, ao fim do dia. E tambem relatam viajantes audaciosos, que
esses blocos de ambar amarello, de impagavel belleza, que o mar arroja
ás praias, são a solidificação d'esses raios solares bruscamente
mergulhados nas aguas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais
deslumbrava os espiritos é a dos _Loghans_, os penedos baloiçantes, que
revelam o desconhecido a quem se aproxima d'elles e os interroga.

Logo que Lisia chegou ao paiz dos Cynetas, mandou que os seus ambactes
esperassem no povoado, dirigindo-se ella sósinha para os dois grandes
fraguedos sobrepóstos, que estavam no caminho do Promontorio Sacro, e se
avistavam de longe, como dois nimbos opacos e caliginosos no horisonte.
Aquelle aspecto infundiu-lhe um terror momentaneo; mas avançando sempre
chegou ao pé dos dois gigantescos penhascos, para os quaes se subia por
saliencias, como imperfeitos degráos formados pela erosão atmospherica.
Um d'esses penhascos, e o maior, estava assente no solo, cercado de
matagaes e dos pedregulhos que o tempo ia destacando d'elle, conforme o
fendiam os raios, a agua gelada nas suas cavidades, e as raizes de
mirrados arbustos. O outro penhasco apoiava-se sobre este, e apesar de
ser um megalitho espantoso, podia-se notar que fôra separado por uma
clivagem natural, e que tendo-se as juntas da estratificação corroido de
fóra para dentro, ficou um ponto que escapando ao phenomeno da erosão, é
aquelle em que oscilla levemente o Loghan ou calháo enorme.

Lisia, subira para o coruto do monolitho, que permanecia immovel;
sentou-se cansada, n'aquella solidão e amplidão immensa, contemplando o
már ao longe, e vendo o sol sumir-se no occaso. Depois enegreceu o ár,
as sombras da noite cobriram tudo em volta, e Lisia, comprehendendo a
situação da vida sem aquelle que tanto amava, ergueu-se resolutamente,
procurou o vertice do penhasco baloiçante, e interrogou:

--Está vivo Viriatho?

A rocha ficou immovel. Lisia quiz ainda repetir a pergunta, mas entrando
em um desespero de presentimento, inquiriu:

--Está morto Viriatho?

A rocha oscillou levemente para o lado esquerdo da posição em que se
encontrava Lisia. Ella, como se vibrasse em si um ultimo golpe, renovou
a pergunta, repetindo-se a mesma oscillação sinistra. Lisia ficou n'uma
immobilidade attonita, n'um lethargo inconsciente, como se tivesse
cahido d'aquella enorme altura, e alli jazeu a noite longa, insensivel
ás rajadas frias, prostrada em terra, debruços, como esmagada pela
impressão abrupta. A luz do sol é que a despertou; tinha voltado à vida,
não a do seu dourado sonho, que alli acabára, mas a do soffrimento que
não póde prolongar-se.



LVIII


No desmoronamento total da sua felicidade, Lisia lembrou-se de seu pae,
o velho druida; queria communicar-lhe a revelação tremenda, chorar com
elle a morte de Viriatho. Quando chegou á Ilha sagrada de Achale,
aquelle refugio quasi celeste pareceu-lhe um desterro, e a Torre redonda
consagrada ao Deus innominato appareceu-lhe como uma prisão erguida
sobre o mar. Idevor, logo que viu a barca de couro dirigir-se para a
Ilha, veiu receber Lisia com o côro das nove Donzellas, que volviam a
acompanhal-a a ella, a--sempre noiva.

Lisia conheceu a intenção; e abraçando o pae, em uma d'aquellas
angustias para que não ha lagrimas, proferiu apenas:

--Está morto Viriatho! Disse-o o Rochedo baloiçante.

--Tambem o sei!--devolveu o velho druida, encostando a cabeça da filha
sobre o peito.

--Quem vos trouxe a noticia?

--Veiu aqui Tantalo, o companheiro de Viriatho n'esses dez annos de
campanha gloriosa contra os Romanos; veiu entregar-me a Espada de
Viriatho, que conseguiu salvar...

--A Espada invencivel?

--A Espada sempre invencivel.

--Mas, Viriatho não morreu em batalha... Viriatho foi atraiçoado!... Foi
atraiçoado com certeza!

O velho druida, sustendo-a n'aquella hallucinação clarividente, disse
para Lisia:

--Atraiçoaram-no os seus tres melhores amigos, Ditálcon, Andaca e
Minouro! Comprou-os o Consul Quinto Servilio Cepio, o mais inhabil dos
generaes romanos; só assim teve a ignobil victoria.

--E a independencia da Lusitania, d'esta desditosa Patria nossa amada?

--Completamente perdida!--respondeu o druida desalentado.

--Perdida, mas não para sempre,--proferiu Lisia, com um accento de
vivacidade e esperança.--Quero vêr a Espada de Viriatho! é o que me
resta do Esposo com quem estive sempre espiritualmente unida.

E pae e filha encaminharam-se para o subterraneo da Torre redonda, em
que se guardava o thesouro da Lusitania. Lisia reconheceu a Espada:

--É esta, a mesma que eu lhe cingi no ultimo dia da festa do nosso
noivado, dizendo-lhe com um beijo:--Regressa vencedor! Viriatho cahiu
apunhalado quando dormia: não foi vencido em batalha, não. Não regressou
mais ao seu lar, aos braços da esposa que o esperava anciosa; veiu aqui
ter a sua Espada, que eu contemplo, que eu beijo...

E como se estivesse em um delirio suave, ao levar a Espada aos labios, o
brilho da lamina de aço reflectiu-se nos olhos grandes e rasos de
lagrimas, e operou-se no seu espirito uma miragem do futuro, como se
conta na velha lenda dos _Espelhos de Salvação_. E n'um arrebatamento
prophetico e assombrada, continuou fitando a lamina fulgente, exclamando:

--«Desvenda-se-me o futuro. Eu vejo, eu vejo... Vão passados sete annos.
Numancia ainda resiste corajosamente ao cêrco de Cornelio Scipião
Emiliano; e que loucura a do destemido Salóndico! quiz fazer uma sortida
ao acampamento romano, e lá ficou morto. Agora é que Numancia, sem
chefe, tambem está perdida. Numancia não se rende; os Romanos entram na
cidade e ficam assombrados diante do suicidio heroico da população.
Morreram livres.

E passando a mão delicada pela lamina da Espada, para restituir-lhe o
brilho empanado pela respiração offegante, tornou a contemplar o quadro
do futuro:

--«Não bastou a traição de Cepio, nem a queda de Numancia para assegurar
o dominio de Roma na Hespanha. É aqui na Lusitania que Sertorio vem
encontrar o espirito de revolta para resistir contra as facções que o
exilaram de Roma. É com o valor dos Lusitanos de que se rodêa, e que
sonham com a sua independencia, que Sertorio derrota os generaes que
Roma contra elle envia. Mas, ai! Empunhará a sua mão a Espada de
Viriatho, que lhe foi confiada... e tal como Viriatho, cae tambem
assassinado por um seu companheiro!...

Depois de um grande silencio, como se contemplasse acontecimentos
incomprehendidos, como são esses da queda do Imperio romano, das
invasões dos Barbaros do norte, das luctas contra os povos da Africa,
Lisia, passando a mão pelos olhos ennublados, contemplou novamente a
lamina scintilante:

«A Espada de Viriatho, longo tempo sepultada n'esta ruina immensa, está
outra vez descoberta; eil-a brandida por um braço vigoroso e joven. Uma
era nova se me ostenta! vêjo novos Symbolos, novos trajos; outra vez
desencadeamento de raças de encontro umas ás outras! N'esta lucta dos
dois Symbolos, a Cruz e o Crescente, eu vêjo a Espada de Viriatho nas
mãos do joven Cavalleiro sustentando a independencia d'este territorio
que vae do rio Minio ao Durio! É um pequeno trato da antiga Lusitania,
mas que importa! é o fóco d'onde irradiará o impulso para se
reconstituir a obliterada nacionalidade.

«Por quarenta annos a Espada de Viriatho é brandida pelo corajoso
Cavalleiro, que vae estendendo o territorio lusitano ao Monda; já chega
a Scalabis; conquista a bella cidade que está no lez do Tagus. Não virá
longe o dia, em que esse territorio alcance as fronteiras do Anas, e se
complete com a região dos Cynesios.

«A Lusitania revive, e ergue-se altaneira diante da Iberia, que procura
absorvel-a na sua unificação. A Iberia serve-se do meio ardiloso de uma
herança real, e recorre á invasão. Por entre a Ala dos valentes
Namorados vêjo a Espada de Viriatho empunhada por um novo Caudilho!
D'onde viria para a sua mão essa Espada? Eu vejo: entrega-lh'a o armeiro
de Scalabis, que a desenterrou do chão em que se transforma o ferro no
aço mais puro!»

Então Lisia, voltando a lamina refulgente, contemplou com mais assombro:

--«A Lusitania livre, depois de reconstituida no seu solo, reata a
tradição dos antigos navegadores liguricos, e lança-se á descoberta das
Ilhas do Mar Tenebroso, e tocando os dois continentes, vae fundar um
novo Imperio lá aonde o sol se alevanta! É ainda a Espada de Viriatho na
mão firme do seu Capitão _terribil_, que cimenta esse Imperio em bases
inabalaveis, em que se mantem por seculos! Para que prescrutar tanto o
futuro? A Lusitania revive...»

Lisia entregou a Espada de Viriatho ao velho druida para a guardar no
thezouro secreto da Ilha de Achale; e cansada da visão presciente caíu
em um somno cataleptico, em que ficou por muitas e muitas horas
extactica, inerte, semi-morta, insensivel. A dôr inconsolavel
divinisava-a; tinha na face uma expressão sobrehumana.



LIX


Lisia recobrou os sentidos, como se um golpe subito a ferisse; levou a
mão ao peito, e ergueu-se respirando com anciedade, olhando em volta de
si para descobrir que pezo enorme era o que a comprimia e abafava
mortalmente! Sempre a terrivel realidade, a perda irreparavel, a
desolação sem esperança. Lembrava-se do funeral de Viriatho, da fogueira
da gigantesca pyra, e da ventura inexprimivel de acompanhar o Esposo
confundindo-se com elle na mesma chamma, identificando o seu espirito no
mesmo ár ambiente, eternisando-se na energia restituida ao universo!

E pensando n'esta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do
suicidio, notando quanto mais felizes fôram aquelles Companheiros de
Viriatho que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte;
esses em um duello desvairado bateram-se sobre a sua sepultura até
cahirem exangues e ficarem alli enterrados conjunctamente, em um
sacrificio de amor, sob o mesmo solo! E ella, como esposa de Viriatho,
embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lisia considerava a vida
como uma degradação, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria
arrojar de si esta carga, tornada incomportavel pelo tedio da propria
existencia.

Começára a estação hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as
insomnias hallucinantes. Grandes tempestades passando por sobre a Torre
redonda da Ilha de Achale consolavam-a nos seus rugidos de colera e
desespero. Ondas alterosas e alvissimas arrojavam-se d'encontro ás
rochas sobre que estava assente o vetusto monumento.

Lisia começou a passar pela lembrança todos os lances do seu primeiro e
santo amor: como Viriatho lhe tomou as mãos no alto da Torre redonda,
como lhe poz o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consorcio a
Viria do commando; como a beijou suavemente, e o abalo subito em que as
festas do casamento fôram interrompidas pelas palavras:--Cepio rasgou o
tratado de Paz com a Lusitania!--e a brusca despedida de Viriatho para
nunca mais!...

Ao chegar a este ponto, a imaginação de Lisia obscurecia-se, cahia em
deliquio, em um goso de dôr destructiva. Arrancando-se a essa deliciosa
angustia, reflectiu:

--O noivado ficou interrompido. E porque não hade ser finalisado? A
noiva deve acompanhar o esposo; é pela morte que eu tenho de chegar á
vida infinda com Viriatho; tanta delonga estupida, que parece
irresolução covarde...

E logo que foi noite cerrada, desceu ao thezouro da Ilha sagrada, e
mesmo na escuridão, e com o tino de quem sonha acordado, tomou a faixa
de ouro com que Viriatho a cingira, apanhou tambem a Viria que o esposo
lhe lançára ao pescôço, e subindo apressadamente a escadaria, foi
galgando sempre até chegar ao ultimo andar da Torre redonda. A escuridão
era espessissima, cortada a intervallos pela luz fulva e instantanea dos
coriscos. Lisia sentia um goso inexprimivel n'esta harmonia entre a
tempestade exterior e a agitação convulsiva da sua existencia moral.
Cingiu com recolhimento e lentidão o Cinto de ouro; envolveu o pescôço
eburneo e esculptural com a Viria, aquella mesma com que Viriatho,
fazendo-a sua esposa, se entregára á vontade d'ella, e--_para sempre_.

E olhando para aquellas joias, que tanto lhe diziam, no momento em que
um relampago se reflectiu n'ellas, ainda murmurou:

--Assim eu estava, quando elle partiu para sempre; assim mesmo vou ao
seu encontro.

Caminhou resolutamente para o parapeito da Torre redonda, no baixo da
qual marulhavam as ondas arrebentadas nas restingas, deixando na
escuridão tetrica a claridade de uma extensa phosphorecencia; e sobre
esse sudario nitido da ardentia, precipitou-se com toda a sua insondavel
amargura a formosa semnothêa, sepultada nas aguas revôltas, que na
piedade immanente na natureza fizeram que o seu corpo não fôsse
profanado e nunca mais fôsse visto.



LX


Idevor não tardou a dar pela falta da filha; recompoz de prompto a scena
do seu desapparecimento, e longamente fitou o mar, para vêr se descobria
fluctuando o corpo d'aquella que ainda o prendia á vida. Não podia
conter-se no ambito estreito da Ilha sagrada de Achale; e escondendo
todos os signaes com que se podesse descobrir o thezouro da Lusitana,
abandonou a Torre redonda, já perturbado da rasão, dementado, exclamando:

--Ella vaticinou que a Lusitania renasceria! Aonde? Aonde? Aonde? N'esse
territorio que começa nas margens do Minio até ao Durio. É ahi, é ahi
que eu quero encher-me de esperanças. Ahi, na _Terra portucalense_,
ficará sepultada a Espada _Gaizus_, o talisman de Viriatho.

Depois da morte de Viriatho deu-se funda depressão no espirito das
tribus lusitanas, por effeito de um phenomeno astronomico inopinado:
appareceu no céo um cometa, ao qual pela fórma da sua cauda o povo
chamava a _Espada flammejante_, movendo-se em sentido retrogrado ou
oppôsto ao movimento das estrellas! Na crença popular ligavam o seu
apparecimento com a terrivel calamidade da morte de Viriatho, e
perguntavam a Idevor se a _Espada flammejante_ não seria por ventura a
espada _Gaizus_. O velho endre respondeu:

--Em breve deixará de vêr-se esse signal no céo; mas em um periodo de
setenta a setenta e seis annos será o seu reapparecimento. Então a
Lusitania luctará de novo e com vantagem pela sua independencia...

De certo Idevor fixava o periodo da reapparição do cometa retrogrado já
conhecido por algumas observações uranographicas dos velhos annaes da
raça navegadora; a revivescencia politica era apenas uma aspiração, uma
esperança que ficava germinando nas almas.

O pobre velho seguia pelos caminhos com os longos cabellos brancos
revôltos pelo vento e pela chuva, com os pés já ensanguentados, para as
margens do Minio, longe, muito longe. Os que o viam passar, diziam com
piedade:

--Anda como doido o velho endre.

E correndo agitado pelos caminhos e matagaes, parecia que ia em procura
de alguem, pela anciedade com que prescrutava em redor de si, ou fitava
o horisonte distante. E aos que o interrogavam, na carreira ininterrupta
e errante, respondia á pressa:

--Ando á procura da _Cerva branca_. É ainda a minha esperança; porque a
_Cerva branca_ hade um dia dar que fazer aos Romanos.

E o desgraçado velho seguia incansavel ao vento, á chuva, desgrenhado,
absorto no anciado delirio de encontrar a _Cerva branca_.

Entretanto Cepio contava com a glorificação do Triumpho na sua proxima
chegada a Roma por ter acabado habilidosamente com as guerras de
Viriatho. Aquelle que tinha derrotado os exercitos consulares durante
dez annos successivos, não morreu em combate, mas passou do somno para a
morte. Este transito não fôra previsto pelo Oraculo, e d'isso se
gloriava Cepio. Pensando em levar cativos lusitanos para lhe cercarem o
Carro triumphal, mandou agarrar o velho druida; quiz vêl-o pessoalmente.
A figura do ancião era imponente, pelas barbas esqualidas, pelo olhar
hallucinado, pela cabeça olympica; mas Cepio conheceu logo que Idevor
estava louco, pela preoccupação com que fallava:

--Ando á procura da _Cerva branca_. A Lusitania surgirá rediviva, lá do
Minio até ao Durio, só depois de apparecer a _Cerva branca_.

O vencedor romano não pôde obter do velho outras palavras; e mandando-o
embora com desdenhosa indifferença, disse para os que o rodeavam:

--Elle está dementado: crê no renascimento da Lusitania! Um doido assim
iria deslustrar-me o Triumpho.

O velho encarou o Consul, como a amaldiçoal-o:

--O Senado aproveitará a infamia, mas hade renegar-te; e serás
encarcerado! soffrerás o exilio! e as tuas filhas... serão arrastadas ao
prostibulo!

Cepio fez que não percebera o funesto agouro e correu com o velho.

E riram-se alvarmente da esperança no apparecimento da _Cerva branca_.
Ninguem comprehendia o sentido do estranho vaticinio; mas d'ahi a
setenta annos, Sertorio, que estava exilado e prófugo na Africa, em
consequencia das proscripções de Sylla, era chamado pelos Lusitanos, que
o fortificaram na lucta com o seu odio inextinguivel e com a sua
immorredoura esperança. As Guerras civis tinham sido previstas por
Catão, no discurso contra Galba, no senado, no anno de DCIII, como
consequencia da diminuição das attribuições dos Censores. Sertorio foi a
primeira victima; sabia o que era a perda de uma patria.

A _Cerva branca_ que lhe offereceram os Lusitanos quando o chamaram da
Lybia, seguia-o por toda a parte, coroada de flores, sem temor da
soldadesca; mostrava-a como um dom de Hertha, consultava-a como oraculo,
derrotando todas as legiões romanas, pelo prestigio tradicional da Cerva
branca sobre a multidão que o acclamára por chefe. Como Viriatho, vencia
todos os Consules, sendo como Viriatho tambem morto pela traição.


FIM





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Viriatho - Narrativa epo-historica" ***

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