Home
  By Author [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Title [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Language
all Classics books content using ISYS

Download this book: [ ASCII | HTML | PDF ]

Look for this book on Amazon


We have new books nearly every day.
If you would like a news letter once a week or once a month
fill out this form and we will give you a summary of the books for that week or month by email.

Title: Um novo mundo
Author: Cabral, Guilherme Read
Language: Portuguese
As this book started as an ASCII text book there are no pictures available.
Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Um novo mundo" ***

This book is indexed by ISYS Web Indexing system to allow the reader find any word or number within the document.



of public domain material from Google Book Search)



                              UM NOVO MUNDO

                                    POR

                            Guilherme Read Cabral



                                   FUNCHAL
                           TYPOGRAPHIA «ESPERANÇA»
                           32--Rua do Principe--32

                                    1895



A MEUS NETOS


_Se este pequeno trabalho, embora de phantasia, na parte romantica, não
fosse elaborado sobre bases scientificas, alargadas pela imaginação, mas
com verdades reveladas por exploradores e escriptores modernos de
notavel capacidade; eu não lh'o dedicava._

_Quando tiverem mais idade, saberão descriminar a realidade do que é
ficção, como poderá fazer todo o leitor intelligente e approveita
algumas noções pouco vulgarisadas._

_Funchal, em 23 de junho de 1895._

                                                            _O author._



UM NOVO MUNDO


Atravessando, ha pouco, a França, em direcção á Allemanha aonde me
chamavam negocios importantes, demorei-me vinte e quatro horas em Lyon.

Acabava de entrar em um dos magnificos _restaurants_ d'esta cidade,
quando tomou logar a uma meza proxima á minha, um individuo que pediu
café e charutos.

Aquella voz despertou-me recordações de um amigo de collegio, reputado
morto havia seis annos. Ergui instinctivamente a vista de cima do jornal
que estava começando a ler e encarando com elle, exclamei, levantando-me
e dirigindo-me para o seu lado, «é impossivel que não seja Luiz de....!»

--Carlos! exclamou elle, por seu turno.

Um abraço removeu todas as duvidas, se algumas já podessem existir.

--Aonde, não me dirás tu, tens estado desde que foste dado como victima
dos teus exercicios natatorios; e qual a razão do teu mysterioso
desapparecimento?

--Não é este o logar, retorquiu elle, para te contar uma historia quasi
inacreditavel, mas verdadeira. É um caso extraordinario, unico, desde a
existencia do mundo.

Vem a minha casa; só ahi, te posso fazer essa revelação.

Em quanto vamos pelo caminho, quero informar o leitor de algumas
particularidades d'este meu amigo intimo e condiscipulo.

Desoito annos mais completos, tanto no moral como no physico,
dificilmente se encontram.

A elegancia de formas, a correcção das linhas do rosto, e a elasticidade
de membros, reunidos a grande vigor muscular, estavam em perfeita
harmonia com a nobreza de sentimentos e bondade do coração.

Nada sociavel, era conhecido pelo «misanthropo.»

Era-lhe indifferente o juizo que formavam do seu caracter, com tanto que
o deixassem entregue aos estudos scientificos e á pintura. Destes
trabalhos, um só divertimento o distrahia: era a natação, e n'este
exercicio ninguem o igualava: conservava-se tanto tempo debaixo d'agua
que parecia ter uma organisação priviligiada.

Só tu me comprehendes, dizia elle, e só comtigo me abro.

Quer, admirando os esplendores dos ceus, ou mergulhando a vista nas
aguas do Oceano, dizia com desprezo--«misera humanidade, que nunca
saberás o que são, e para que são, aquellas centenas de milhões de
astros que rolam séculos sem fim no espaço, obedecendo a leis
immutaveis. Frageis creaturas que somos! Nem ao menos, no nosso proprio
planeta, sabemos o que existe no seio da terra, nem o que occultam os
oceanos com oito e dez mil metros apenas de profundidade!

A sciencia diz-nos que o astro da noite é um planeta sem vida, destinado
a illuminar-nos de noite e a regular, por uma forma mysteriosa e por
isso contestada, varios phenomenos da vida animal e vegetal e o curso
das aguas dos oceanos. Diz-nos que os mais astros do nosso systema
plenetario são fragmentos apenas d'aquella massa colossal em fusão, o
sol, e que, por infinitamente mais pequenos, esfriaram no decurso de
séculos, em quanto que o astro rei, tarde ou nunca esfriará, porque é a
luz e a vida d'esses pedaços que elle cuspiu para o espaço e que, pela
força centrifuga e centripeta, giram perpetuamente em orbitas
inalteraveis.

Tão admiravel, como incomprehensivel; e mais incomprehensivel ainda,
essa infinidade d'estrellas, bastas como as areias das praias, que são
outros tantos soes, illuminando os seus mundos, invisiveis para nós;
soes de todas as côres e, talvez, de natureza differente.

Que espectaculo não deve ser o do Universo aos olhos do creador!

Depois, voltando-se para o Oceano, dizia: Carlos! Eu quando profundo
mais do que ninguem estas aguas, vejo o sufficiente para julgar da
riqueza da flora e da fauna dos mares que augmenta á proporção que
descemos aos seus recessos aonde nunca chegaremos.

Apenas a sonda nos traz um ou outro spécimen das opulencias submarinas.

Wyville Thompson, no Challenger, em 1873, investiga os mares do
Atlantico e do Pacifico e descobre nas grandes profundidades peixes
privados do orgão visual. D'aqui deduziu a sciencia que essa faculdade
se fazia desnecessaria aonde havia perpetua escuridão, por isso que os
raios solares penetravam a pequena distancia da superficie.

Seguem-se a expedição ingleza do Valerous em 1875, e a Scandinava do
Vortigen em 1876; e em 1877 e 78, a Americana do Blake.

Em 1880 e 82, o navio francez, Le Travailleur, profunda o golpho da
Biscaia, o Mediterraneo e o Atlantico; e em 1883, Le Talisman, munido de
apparelhos mais aperfeiçoados e sob a direcção de Alphonse de Wilne
Edwards, sonda os mares do Atlantico.

É n'estas derradeiras explorações que a sciencia, até então na persuasão
que a vida organica, devido á pressão e falta de claridade, não podia
existir a mais de 560 metros da superficie, revela-nos que, na
profundidade de 4500 metros, a pressão nada influe sobre a vida animal,
e que, pelo contrario, os seres que habitam o fundo dos mares, trazidos
pelas rêdes automaticas á superficie, chegados que são a certa altura, é
a propria falta de pressão que lhes dilata os olhos, lhes escancara
extraordinariamente a bocca, fazendo expellir as entranhas, ou os esmaga
e desfaz, á semelhança do que succede ao areonauta quando sobe a regiões
aonde a atmosphera rareia e por falta de compressão, golfa-lhe o sangue
pelos olhos, nariz, ouvidos e bocca.[1]

Conheceu-se então que a claridade do sol, nulla n'aquellas
profundidades, é substituida pela phosphorescencia animal.

As estrellas do mar, da especie _Ophiacanthia Spinosa_, transmittem uma
luz brilhante esverdeada.

Outros muitos viventes, em perpetuo movimento, levam a toda a parte uma
luz phosphorecente natural. Os olhos de certos peixes são dotados
d'ella, e serve-lhes de pharol nas suas perigrinações, illuminando as
aguas, menos abundantes de vida, e attraindo seres de que se alimentam,
do mesmo modo que o nosso pescador se vale da luz do candeio.

Ainda mais; longe, como se supponha, de que a vida organica, por falta
de luz, deveria ser destituida de côr, conheceu-se que as côres são,
pelo contrario, vivissimas e espantosa a sua variedade n'aquelles
grandes abysmos.

A sciencia está longe de nos dizer a ultima palavra; mas o que nos
ensina é já bastante para imaginar o que deverá ser a vida n'aquelles
recessos das aguas.

O homem descobriu o meio de se elevar á região das aguias; mas jamais
romperá a crusta do globo a devassar os segredos das suas entranhas,
não! que Deus não o fez dos metaes preciosos ahi amontoados, mas sim do
barro da superficie, ao qual, por affinidade de condições, está
eternamente agrilhoado. Assim discorria Luiz de.... a quem vamos escutar
a historia mais singular, mais extraordinaria até hoje conhecida.

--Eis-nos chegados, me disse elle, abrindo uma grade de ferro que
separava a casa de um jardim esmeradamente cultivado e rescendente de
perfumes das flôres que até a propria frente do edificio cobriam.

--Parece-me um ninho de fadas, Luiz! Vaes-me apresentar, sem duvida, á
divindade d'este sanctuario d'amor!

--Nada d'isso; Carlos! retorquio elle com um sorriso repassado de
amargura. Nas minhas horas vagas procuro distrair-me com as singellas
producções da terra, já que as de um mundo que não é do homem, só vivem
nas minhas recordações.

--Sempre com o pensamento no ignóto; no impossivel; Luiz! Nem os annos
poderam mudar a tua original natureza!

--Do ignóto! dizes tu! e um novo sorriso, mas d'esta vez ironico,
assomou-lhe aos labios.

Abriu-me então uma sala adornada de quadros soberbos, mas da mais
requintada phantasia.

--És o primeiro, e serás o ultimo a penetrar n'este recinto, Carlos!

Era um elegante _atelier_ de pintor.

Luiz fôra sempre distincto na pintura para a qual tinha um talento
natural; porem a mais caprichosa imaginação reinava em tudo quando eu
estava vendo.

A téla reproduzia o trabalho; a fadiga, deixe-me assim dizer, de um
cérebro febril e exaltado.

--Estes quadros são provavelmente, a reproducção fixa d'esses teus
sonhos d'outróra?

--Não senhor! É da realidade!

Voltei-me para elle, e o meu olhar obrigou-o a dizer-me:

--«Sem duvida, julgas-te na presença de um mentecapto!»

--Em quanto te tinha como phantasista, ou para melhor dizer,--o
nephelibata da pintura--não passavas de originalismo, mas quando me
queres impôr que tudo isto é verdadeiro, francamente, não me parece que
estejas no teu juizo perfeito.

--D'essa maneira, de que me serve contar-te a historia representada
n'estes quadros?

Ter-me-has na conta de um improvizador, e não sei mesmo, se de intrujão.

--Tudo, menos isso, Luiz!

Conheço demais a seriedade do teu caracter: mas não haverá no teu
espirito uma illusão, filha dos teus insaciaveis desejos de penetrar
os mysterios vedados á nossa investigação?

--Não, Carlos! Estes quadros são as memorias vivas do que me foi dado ver!

--O que homem! O centro da terra, e o fundo dos mares?

Agora começo a duvidar da tua sanidade intellectual! Como queres tu que
eu tenha por realidade, este quadro, por exemplo, em que vejo a tua
figura, pois evidentemente o é, com o trajo de banho que usavas, olhando
com pasmo um espaço enorme illuminado, segundo julgo, a luz electrica;
arcarias cristallinas a perder de vista, um lago sem fim que parece de
prata liquida, um arvoredo exótico, esplendido, e junto de ti,
encarando-te como em extasis, uma rapariga gentilissima, linda como pode
ser um anjo!

Que matizado tapete é este que se desenrola em toda a extensão do
quadro? Nunca a Persia produziu uma maravilha igual. E esta claridade,
suave como a da lua, que penetra, sem produzir sombras, todos os pontos
mais reconditos d'este phantastico recinto!

Pois tudo isto é real!

--É! respondeu-me elle; imperativamente.

Havia um tom d'authoridade n'aquella affirmativa que me fez emmudecer.

--Senta-te; me disse elle, e escuta-me. Por mais extraordinarios que te
pareção os acontecimentos que vou narrar, peço-te que me tenhas na
conta de verdadeiro. O mundo dava-me por doudo varrido, bem sei; e é por
isso que este segredo morreria comigo se o acaso nos não aproximasse
mais uma vez na vida.

--Descança, Luiz, lhe respondi: serei mudo como o tumulo.

--Não me opponho a que divulgues a minha singularissima aventura, pois
poderá servir de proveito, com tanto que supprimas a minha individualidade.

Sabes, continuou elle, quanto eu lamentava não poder arrancar ao seio
das aguas e ao centro da terra os seus mysterios! Pois bem! Um dia,
precisamente a vespera d'aquelle em que desappareci, tinha-me lançado ás
aguas, mergulhando a grande profundidade, como era meu costume, para
admirar as plantas da costa submarina e a variedade de peixes que o
pescador não apresenta no mercado.

De subito; pareceu-me distinguir um rosto humano e uns olhos que me
espreitavam com curiosidade e interesse.

Veio-me á idea a lenda das sphinges, meio corpo de mulher e meio de
peixe, ideia tão repellente, quanto attractiva era a espressão d'aquelle
rosto.

Era-me, porém, precizo ganhar a superficie para renovar os pulmões de
ar.

Quando desci pela segunda vez, o mysterioso ser tinha desapparecido.

Não sei que influencia exercêra sobre mim tão singular apparição.

Queria profundar aquelle mysterio e temia-o ao mesmo tempo.

Não se me tirava da imaginação: sentia-me fatalmente arrastado para a
borda do mar, mas, por cautella, armei-me de punhal que cozi pela
bainha, ao fato de banho.

Nada me assegurava que fosse um ser inofensivo, e devia ir preparado
para o peior.

Quando cheguei á maxima profundidade, la estava o ente mysterioso; não,
como na vespera, em distancia, mas proximo.

Corpo mais gentil, rosto mais seductor, não podia existir.

A Sphinge desappareceu immediatamente da minha imaginação. Fiquei como
enfeitiçado!

O mysterioso, como deves lembrar, tinha sobre mim um poder magico. Não
senti, senão já tarde, a necessidade de respirar: um desfallecimento
apoderou-se de mim, era a asphyxia: perdi os sentidos, mas não sem
perceber que estava sendo impetuosamente impellido para o fundo.

Quando os recuperei, achei-me acolá, aonde me vês, extendido sobre uma
alfombra de fino musgo matizada pela Alternánthera e outras flôres
lindissimas de variadas côres, e, curvada sobre mim, estava a mais
encantadora e sympathica creatura imaginavel.

Puz-me de pé:--Olhei maravilhado para ella e para tudo que me rodeava.

Uma abobeda descommunal, cristalina, reflectindo a luz suave que vês
n'aquelte quadro e illuminando soberbas arcarias perdidas na distancia,
brancas como jaspe; e, sem se conhecer os limites, um lago que parecia
de azougue, reproduzindo na sua superficie refulgente de aguas
adormecidas, as sumptuosas naves e a vegetação esplendida d'esta
archicathedral.

Miragem admiravel!

Passado o primeiro momento de espanto voltei-me para a minha companheira
a pedir-lhe me dicesse, se não era ella a Eva legendaria, perpetuada
atravez dos séculos, tal como Deus a pozera no paraiso, e se o que
estava vendo não fazia parte do proprio Eden.

Não só conservou-se calada, mas demonstrou surpreza quando fallei.

Repeti a minha pergunta em outras linguas, e sempre a mesma mudez.

Rodeava-a um bando de cabras. Tomando de cima do enflorado tapete uma
concha, que primeiramente passou pelas aguas limpidas de um arroio que
corria perto de nós, mugiu uma cabrinha alva de neve e offereceu-me
aquella rustica taça, acenando-me para beber do precioso leite.

Seria ella muda?

Embora o fosse, a minha admiração da sua belleza attractiva redobrava de
momento para momento.

Tomei, reconhecido, as suas mãos nas minhas e ella abraçou-me sem
constrangimento. Uni-a a mim e beijei-a.

A expressão de amor com que ella me olhava era mais eloquente do que
quanto podesse exprimir a palavra.

Sobre nós espraiavam-se as largas e magestosas folhas da Muza, cujos
esplendidos cachos de côr dourada beijavam o chão.

A Passiflora, com seus fructos roxos, e outras trepadeiras lindissimas
em flôr, enlaçavam-se aos troncos.

Palmeiras elegantissimas, com seus differentes fructos, erguiam-se
magestosas. A Vanilla, com suas perfumadas e deliciosas bages, arvores
de fructo de que não tinha conhecimento, a Vanda, a Begonia, e outras
plantas ornamentaes que n'aquelle ambiente tépido e inalteravelmente
tranquillo, floresciam como nas nossas estufas na maxima perfeição.

Afastando-se então, por momentos, ella preparou uma refeição composta de
leite, fructos varios, entrando n'este numero os da Muza, das Palmeiras,
e outro que tomei pela fruta pão de que ouvira já fallar, e o côco. A
fruta pão cortava ella com a lamina afiada de uma concha alongada, prova
evidente de que não possuia instrumento algum proprio para estes usos.

Indicando então o côco, perguntei-lhe, por meio de gestos, como lograria
ella fender e separar o tegumento filamentoso e resistente d'aquelle
encouraçado fructo.

Estendendo então a mão, ella tirou d'entre o massiço esponjoso da relva
um machado.

Examinei-o: era de Silex!

Fez-se-me, instantaneamente, luz.

Estava no interior do globo, e tinha diante de mim uma descendente do
homem primitivo, d'essa raça da idade da pedra; d'esse genesis da
humanidade em que a vontade e o pensamento ainda se não traduziam pela
palavra.

E que importava; se eu tinha a existencia ligada áquella creatura divina!

N'aquelle modelo, ainda cinzelado pela mão de Deus, eu via a typica
puresa das obras do Creador, até mesmo na ingenuidade da alma.

O angulo frontal, levemente accentuado, reforçava, com a engraçada
saliencia das sobrancelhas, o brilho e expressão dos olhos.

Eu lia n'elles o seu pensamento, como, atravez das aguas cristalinas
d'um ribeiro, se distingue os seixos e os lichens do fundo.

A cutiz assetinada e côr de perola tornava-a adoravel.

Cahi-lhe aos pés, como ante uma divinidade. Parecia-me vir das proprias
mãos de Deus, pura como um anjo.

Chegou-me a fronte junta ao seio: olhou-me com inexprimivel amor, e um
beijo d'aquelles castos labios foi o sello de uma paixão intensa,
inextinguivel, Carlos, no meu coração dilacerado por uma dôr infinita.»

N'este ponto o meu pobre amigo levou as mãos á face como para desvenecer
uma visão. Eu já não punha em duvida a veracidade da narração.

Releva-me, continuou elle, esta fraqueza, Carlos; mais adeante saberás a
sua causa.

Apertei-lhe silenciosamente a mão: comprehendêra que elle a tinha
perdido, e que o tempo não apagára aquella immensa saudade.

--«Depois d'admirar a grandiosa magnificencia de tudo quanto me rodeava,
ella encaminhou-me para outro ponto.

No nosso caminho ficava uma arvore singular: os ramos despidos de
folhagem e o tronco offereciam as disposições artisticas de um
candelabro. Querendo examinal-a de perto fui-me approximando, quando, de
repente, sinto-me bruscamente desviado por ella: o seu gesto fez-me
conceber a idea de um perigo qualquer.

Então, fez-me comprehender que o contacto d'aquella arvore era fatal.

Seria dotada de electricidade? Teria a força da pilha galvanica?

O brilho metallico do tronco e ramos nús fazia-o suppôr.

Chegamos a um campo de verdura aonde pastava o rebanho de cabras.
Approximaram-se de nós os animaes e affagaram-nos, mansos como cordeiros.

A vida animal no seio da terra!

Ella! unico exemplar da raça humana! Estes animaes, procreando-se n'este
extraordinario meio!

Como explicar este phenomeno?

Occorreu-me então o que tinha succedido a Pompea e Herculanum,
submergidas pelas lavas, deixando os edificios intactos; e os lagos
subterraneos, grandes como mares, que se encontram no continente Americano.

E quem sabe; dizia eu se, nos tempos primitivos, em que as convulsões do
globo, necessariamente mais activas e violentas do que presentemente,
devido ao gradual resfriamento do globo; um cataclysmo, invertendo uma
parte da crusta ainda plastica e mais delgada, apanhou, no reviramento,
uma d'aquellas grutas, unicas habitações então do homem, excluindo assim
uma familia da face da terra, dando-lhe porem accesso ao interior?

Era natural que esses seres tivessem armazenado fructos para seu
sustento e resguardado, junto de si, seus animaes domesticos da
perseguição e voracidade d'outras especies bravias, explicando assim a
existencia das cabras e da vegetação que ahi se encontrava.

Ou, teria essa familia tido accesso para esse maravilhoso espaço formado
pela dilatação dos gazes por occazião das erupções volcanicas, como
frequentemente succede e de que os lagos subterraneos e algares são
exemplo, até que, por uma convulsão, ficou-lhe vedada a sahida, e esses
seres condemnados a viver no interior do globo? Por qualquer d'estas
formas se podia explicar a presença da vida animal e vegetal n'este meio.

Mas, o que se não explica, pensava eu, é o estado de completo isolamento
em que vive esta joven de uns deseseis annos.

Quem eram seus progenitores, e o que era feito d'elles?

Como, porém, fazer-lhe comprehender o meu pensamento?

Tive uma idea feliz.

Servi-me das cabras para esse fim. Peguei n'um cabrito, indiquei-lhe o
macho e a fêmea que eram os pais; comparei-a ao filho, e assim formulei
em mimica a minha pergunta.

A intelligente rapariga levou-me então a um ponto aonde se tinha dado um
desabamento medonho: blocos enormes de pedra amontoavam-se em
desordenada confusão, percebendo-se porém ainda, vestigios de ter
havido n'aquelle sitio passagem para fóra da grande gruta.

Ella, adoptando a minha phraseologia figurada, explicou-me, apontando
para as duas cabras que me tinham servido de typo, que, quando ella era
ainda pequena, os seus tinham sahido por aquella abertura: que pouco
depois houve um grande tremor de terra, dando-se então aquelle
desmoronamento, e que nunca mais voltaram.

O que determinaria o seu afastamento d'aquelle Eden aonde nada lhes
faltava?

Haveria, do outro lado das ruinas, mais recintos habitaveis e habitados;
ou teriam elles, em exploração de subterraneos escusos e medonhos,
succumbido á fome, ficando nas profundidades da terra um unico individuo
d'essa especie? Ella!

Um dia; mas que digo eu se aqui não havia divisão de tempo, senão a que
poderia dar o isochronismo?

Uma vez, melhor direi, convidou-me a um passeio no lago e conduziu-me a
uma enseada aonde fluctuava uma enorme concha de tartaruga em que
cabiamos á vontade.

Empunhando então uma pá, ramo d'uma planta qualquer, e dando-me outra,
pozemo-nos a caminho, passando por baixo d'arcarias de formas
caprichosas. Pude então examinar de perto a extructura d'esta vasta
crypta de granito em que sobresahia a mica branca argentina de
extraordinario brilho, rajada de veios magnificos de mica preta, de
feldspatho e quartz, com malhas de porphyro e semeado de palhetas de
ouro e prata,--um mosaico soberbo,--chamando-me particularmente a
attenção, uns caracteres que mais pareciam obra de arte levada ao maior
apuro d'execuçâo; circulos que, começando n'um ponto microscopico,
augmentavam progressivamente, conservando a curvatura das linhas n'uma
distancia e perfectibilidade mathemathica; hieroglyphos que dirieis
letras chinezas, um conjuncto em summa, de que dá uma ideia, ainda que
vaga, o Kalaidoscopo.

A presença do ouro levou-me a perguntar-lhe se o havia em maior quantidade.

Fez-me comprehender que, a seu tempo, me condusiria aonde existia muito.

Uma enorme tartaruga appareceu então á flôr d'agua e tomando,
provavelmente, o nosso batel por um seu semelhante, seguiu-nos sempre.

Varios peixes passaram junto a nós como conscios de inteira segurança.

Perguntei-lhe se ella se alimentava d'elles.

Pareceu-lhe extraordinaria a minha pergunta, e o gesto de repugnancia
que o acompanhou certificou-me que nenhuma carne ou peixe entrava na sua
alimentação.

Ja nos faziamos entender perfeitamente: não podia ter professora que
mais se insinuasse nos meus sentidos, nem mais habilitada.

O amor tem a linguagem de todos os povos e não preciza de interprete:
essa hade ser eternamente, e tambem unicamente, universal; e os olhos
d'ella fallavam mais alto que a mais quente e affectuosa palavra até
hoje inventada pelo homem.

A existencia de differentes especies de peixe n'estas aguas veio
confirmar a minha idea da inversão de uma parte da crusta, e absorpção,
durante esse extraordinario processo, das aguas do Oceano, e, de envolta
com ellas alguns individuos marinhos no sorvedouro.

Quando regressamos, ella guiou-me para uma gruta artificial formada por
algumas Musas dispostas em circulo a cujos troncos se enlaçavam,
artisticamente, trepadeiras em flôr.

Ella tinha o sentimento do bello!--ahi estava a prova.

Aquelle massiço de verdura, coroada pelas largas folhas da Musa, vedavam
a claridade: era o unico ponto aonde não penetrava a luz senão brandamente.

Fetos de singular belleza e o _Asparagus plumosus_ desenvolviam-se
n'aquella quasi escuridão, perfeitamente.

O que determinaria n'ella aquella escolha de plantas para ornamentar
a sua camara de repouzo?

Não seria o conhecimento da sua natureza, propensa aos logares sombrios?

Anoitecêra para nós.

Ao acordar, vi uma refeição preparada.

Uma grande concha com leite, fructas diversas e, o que mais me
surprehendeu, uns tuberculos assados.

Satisfazendo á minha curiosidade sobre este ponto, levou-me, em seguida
á refeição, a um algar aonde o calor augmentava á proporção que
progrediamos, e quando chegavamos ao fim, vi uma abertura incandescente.
Estava explicada aquella singularidade, demonstrando igualmente que
estavamos muito proximos de uma communicação com o centro da terra, que
lhe proporcionava assim um forno natural e sempre esquentado.

Os selvagens da Oceania, por occasião do descobrimento das diversas
ilhas, na falta de utensilios de toda a qualidade, abriam covas no chão,
enchiam-as de pedras levadas a alta temperatura, e deitavam sobre ellas
as suas iguarias que cobriam com folhagem e terra: era d'este modo que
cozinhavam.

Com esta alimentação simples, sentia-me agil e sem a enervação que
produzem as carnes e outras substancias que o homem, á proporção que se
hia civilizando, ou, para melhor dizer, asselvajando nas suas luctas com
as féras, adquirindo com o cheiro do sangue, o instincto do bruto; ou,
apertado pela fome, o habito de se alimentar das suas victimas, do mesmo
modo que ellas, quando vencedoras, se refocilavam nas carnes do homem.

As enfermidades a que está sujeita a humanidade eram desconhecidas a
esta raça primitiva; assim colligi da sua ignorancia da mais leve
indisposição. A que attribuir esta admiravel conservação da especie
humana, condemnada a viver nas entranhas da terra, em quanto que a
humanidade, exposta a intemperies desconhecidas n'este meio; entregue a
todos os prazeres e excessos que o progresso lhe proporciona, é victima
de mil soffrimentos?

Á sobriedade unicamente? ou contribuiria tambem a invariavel egualdade
de temperatura?

Quanto tempo levamos entregues ao mais acrisolado amor, sem nenhuma das
perturbações que ordinariamente succedem, por uma falsa idea da vida e
das pessoas, não sei!

Deveriam ter passado muitos mezes, pelas alternativas que constituiam as
unicas divisões do tempo; mas séculos que fossem, nunca uma saudade do
grande mundo me viria lançar uma sombra na vida.

Couza alguma tinha quebrado este encanto! Era a felicidade completa!

Uma vez, remechendo a areia da praia, notei a presença de ouro em pó.

O meu reparo levou-a a significar-me que havia em grande distancia muito
d'aquelle metal, e dando-lhe a entender que o desejava ver, fez-me saber
que depois do descanço me conduziria a essa região aurifera.

Effectivamente, quando acordei, encontrei-a amontoando uma quantidade de
fructas em uma grande concha de tartaruga que o nosso batel deveria
levar a reboque, preza por uma especie de cipó.

Comprehendi logo que era para uma longa viagem por mar.

Pozemo-nos a caminho por esse extenso e tranquillo lago, descançando de
quando em quando para admirar aquelles soberbos cimbres até que se
apresentou um arco abatido e, curvando-nos, penetramos por um estreito e
extenso canal que conduzia a outra gruta de dimensões infinitamente
menores, mas de deslumbrante effeito. Estavamos debaixo de uma montanha
de ouro que, por occasião de estar toda aquella massa em fusão, ahi se
formára como acontece, em ponto, relativamente, pequenissimo, nas nossas
fundições, deixando aquellas paredes lisas e como burnidas.--O nosso
batel aportou então a uma praia de ouro em pó. Extendi-me sobre aquelle
areal: as proprias aguas, pelo reflexo, pareciam de ouro liquido:
mergulhei n'ellas; quiz banhar-me na'quelle mar de ouro.

Peguei em punhados de area, e fiz-lhe comprehender que, se carregassemos
o nosso batel d'aquelle pó e podessemos ganhar a superficie da terra,
teriamos uma riqueza e couzas muito bonitas.

--Como isto? perguntou ella, tirando-me do cinto o cinzelado punhal com
cabo de marfim que ella admirava frequentes vezes?

Muito mais! lhe fiz entender; e, com a extremidade ponteaguda do ferro,
comecei a burilar um palacio, carruagens tiradas a quatro magnificos
cavallos, homens, senhoras elegantemente vestidas, cavalleiros e
cavalleiras, navios á vella e a vapor etc.

Ella, depois de examinar com muda, mas visivel surpreza, aquellas
producções do genio do homem, cahiu em profunda melancolia.

Olhava para mim, e eu lia no seu meigo e limpido olhar tudo quanto se
passava no fundo da sua alma. Ella comparava, evidentemente, o meu viver
d'outrora com o presente, a nossa quasi nudez com aquellas esplendidas
toilettes, a vida e movimento do grande mundo com a solidão que nos
cercava, e dizia no seu intimo; porque sequestrei eu este moço,
privando-o de todas essas grandezas que acaba de me mostrar?

Porque o não reconduzi á superficie do oceano quando elle
desfaleceu, em logar de o trazer para o interior da terra, para este
ermo, para esta sepultura da vida?

Era o remorso que germinava já, desconhecido até então no seu espirito!

Enlacei-a nos braços; cobri-a de beijos; e convenci-a que tudo quanto
deixára traçado n'aquellas paredes aurifulgentes nada era comparado com
o seu amor; que sem ella, eu não voltaria, mas queria que ella me
reconduzisse ao Oceano e que fosse commigo gozar a vida no meio que o
Creador tinha destinado á humanidade.

Então ella, apontando para uma mulher elegante que eu desenhára, conheci
que despertava n'ella o sentimento do ciume.

Em vão quiz banir essa idea, e então fez-me comprehender a
impossibilidade de satisfazer o meu desejo; que nas profundidades do mar
estava o tempo que precizava estar, mas que, em chegando aonde havia um
grande clarão, suffocava, e não podia avançar mais.

Caso extraordinario! Creada n'aquelle meio, carecia da pressão como os
viventes das grandes profundidades.

Quando me salvou, chegava, provavelmente, até onde a sua organisação lhe
permittia, e então occorreu-me que, sentindo já os effeitos da asphyxia,
como era que não me afogára conservando-me, certamente mais tempo
n'aquelle elemento, do que gastaria se tivesse podido remontar á
superficie?

Teria eu, afundando mais, e entrando n'essa zona aonde a pressão das
aguas é já sensivel, adquirido aquella propriedade singular de que ella
era dotada?

Só assim explicava a minha extranha salvação.

Tinhamos regressado e repousado das fadigas d'aquella viagem.

Descrevia já, sem sombra de uma alma attribulada por sentimentos
dolorosos, o que eu na gruta aurifera lhe mostrei.

Então, voltei novamente á minha insistencia para trocarmos aquelle meio
por outro melhor; que a camada d'aguas que ella supponha de impossivel
percurso, transpunha-se em tão pouco tempo que os seus effeitos
asphyxiantes não eram para temer.

Uma sombra espalhou-se-lhe pelo rosto: apontou para o seu rebanho de
cabras, unicas companhias de tantos annos, e duas perolas que eu recebi
nos labios trahiram a sensibilidade d'aquelle coração: ella presentia,
quem sabe, que em outro qualquer meio que não fosse aquelle, a
felicidade não podia ser completa.

Um dia, o profundo silencio que nos cercava foi subitamente interrompido
por um ruido longinquo, semelhante ao do trovão e, augmentando de
intensidade, pareceu a detonação de mil canhões disparados a um
tempo, e senti, não os effeitos d'um tremor de terra, mas uma trepidação
propria do meio em que me achava, mas que, na superficie do globo,
deveria ser um violento abalo, partindo do centro para as extremidades.

Venha d'ahi me acenou ella, como adivinhando o interesse que me deveria
proporcionar o phenomeno maior do globo, e colhendo algumas folhas da
viscosa Wygandia Macrophilia, salpicou-as de um pó vitrio que conheci
ser producto vulcanico e que facilmente adheria á viscosidade da folha
até formar uma camada uniforme.

Era, evidentemente, um isolador.

Assim armada, quebrou um ramo da arvore electrica que segurou na mão
direita, e com a esquerda conduziu-me a passo apressado.

Em pouco estavamos á entrada de uma especie de corredor estreito e
escuro, cujas paredes eram de lava preta, lisa como vidro.

O ramo que ella colhera, illuminava perfeitamente o caminho que terminou
em uma vasta galeria tenebrosa que a claridade electrica illuminava mal.

Esta galeria estava innundada de vapores quentes.

Então ella collocou-me junto a uma abertura practicada na parede, d'onde
eu deveria observar o que se passava do outro lado.

Um enorme lago de uma materia betuminosa em ebullição extendia-se diante
de mim.

Era lava em fusão.

Derepente, da abobeda amollecida pela evaporação aquosa do lago,
desprende-se uma verdadeira montanha para dentro da massa fervente.

O que que então succedeu foi espantoso. Senti estremecer o chão debaixo
dos pés.

Espadanaram jactos enormes de lava que foram lamber a crusta superior
com resaltos prodigiosos, ao tempo que uma onda colossal, partindo do
centro para os lados, e refluindo de tres quartos de circulo, foi
despenhar-se, com horrivel fracasso, pelos rebordos d'essa parte
accessivel á formidavel maré, n'um abysmo d'aguas inferior áquella bocca.

Volumes de vapor desenvolveram-se então com incrível velocidade,
irrompendo por uma garganta medonha e, chegando a certa altura, pareciam
recalcados com violencia. Impellidos novamente debaixo com força
irresistivel, attacavam a crusta do globo com prodigiosos esforços,
acompanhados de estampidos e vibrações do sólo muito sensiveis, até que,
os gazes, assim reprimidos, fizeram explosão na face da terra o que
evidenciou a livre corrente ascencional.

Ella, então, encaminhou-me para outro ponto mais elevado da galeria e,
por uma fenda da espessa parede que me separava da chaminé, vi
passar na sua ascensão por essa garganta, rios de lava incandescente, e,
redobrando d'intensidade, quando chegou ao rubro, converter-se em areas
e escorias, ao principio abrazadas e declinando, gradualmente, da cor
avermelhada, para o preto.

Houve então uma intermittencia, quando comecei a ouvir um borbulhar de
materias crassas e subir, lentamente, pezadamente, um lodo espêsso que
expellia de si um cheiro nauseabundo.

Finalmente, cessou de todo o movimento volcanico, e as fontes d'agua
que, durante a erupção, tinham seccado, começaram novamente a correr.

Eu tinha sido mudo expectador das evoluções de um volcão em actividade,
desde as repetidas cargas de vapores accumulados e o rompimento da
crusta, até á ascensão das ondas lodosas vomitadas dos ultimos recessos
do abysmo, derradeiro acto d'aquelle espantoso drama passado nas
entranhas da terra.

Em quanto durou esta scena, terrifica de ver e ouvir, o calor tornára-se
intenso e asphyxiante: sentia-me verdadeiramente torrado, porém a
anciedade que experimentava d'observar este extraordinario phenomeno era
superior a todos os soffrimentos physicos.

Quando abandonei o meu posto d'observação, a minha companheira tinha
desapparecido.

Pode-se imaginar o horror da minha situação, vendo-me só n'aquellas
trevas, sem poder attinar com o caminho que me reconduziria áquelle Eden
aonde passára os melhores tempos da minha existencia.

Quiz chamal-a; mas como? se ella não tinha nome!

Dei um grito, e pareceu-me que mil gritos respondiam de todas as direcções.

Era simplesmente o écho da minha voz resoando nas abobedas d'aquelle
vasto e deserto labyrintho.

O effeito foi tão assustador que me não atrevi a repetil-o. Julguei-me
perdido, sepultado em vida, e perdida para mim, essa creatura por quem
daria a felicidade eterna.

Estendi as mãos para apalpar um objecto que me podesse servir de apoio.

Encontrei o vacuo!

Receoso de dar um passo em falso, não me buli.

Então, é que comprehendi todo o horror da minha situação.

Nem ao menos, podia caminhar ás apalpadellas.

Derepente, pareceu-me distinguir um ponto luminoso semelhante á
claridade electrica da gruta cristallina.

Seria alguma fenda que communicasse com ella?

Deliberei-me arrostar todos os perigos. Tudo era preferivel a morrer,
lentamente, em meio de trevas eternas, e morrer, a peior das mortes;
pela fome.

Sondando o terreno, passo a passo, e servindo-me das mãos como d'escudo,
fui caminhando na direcção d'aquella diminuta estrella em ceu tétrico,
unica esperança que me restava.

O ponto luminoso hia augmentando, e na mesma proporção, diminuia a minha
agonia.

Reconheci que procedia do ramo que nos havia servido de guia em meio da
tenebrosa escuridão da caliginosa noite do centro do globo.

Avancei reanimado: iria ter luz ao menos, mas se ella me tivesse
desamparado, de que me serviria, se o contacto d'esse facho sem o
isolador, era fatal!

Desamparado! repetia eu, de mim para mim!

Não! não é possivel! mil vezes não! Ella era o meu anjo da guarda!

Teria ella fugido espavorida d'aquelle espectaculo medonho e aterrador,
e, esquecendo-se do perigo, tocado, com a mão desarmada, no fatal ramo?

Iria eu encontral-a morta?

Esta idea tornou-me louco!

Ja não tacteava o caminho; avancei, sem precaução para a luz n'um
dilirio atroz. Tropecei e cahi: faltaram-me as forças para me
erguer:--arrastei-me como um reptil.

Na minha anciedade de chegar, pareceu-me que a luz se afastava!

Gritei doudamente, e as cavernas da terra repercutiam o grito que me
chegava sinistramente aos ouvidos.

Sentia que se me esgotavam as forças, e confesso-te que me senti
repassado d'horror.

Mas a luz ainda lá estava: logo, o seu afastamento era uma illusão das
minhas faculdades.

Ergui-me, caminhava já mais desembaraçado; uma quasi imperceptivel
claridade permittia-me ver que não tinha obstaculo na minha frente, e ao
passo que avançava o caminho via-se distinctamente.

Guiado pela luz electrica, entrei alvoraçado n'uma gruta e cahi de
joelhos ante o corpo inanimado d'aquelle ente adorado.

Morta! meu Deus! exclamei, respondendo ás minhas apprehenções.

E os echos de novo repetiram: Morta!

Abracei aquelle corpo, uni o meu rosto ao seu, e soluçando,
gritei--Perdida!... Perdida para sempre!

E os mesmos malditos échos repetiram,--Perdida!... Perdida para sempre!

Horrorisado, tomei-a nos braços para fugir d'alli.

Unindo-a então a mim, senti-lhe bater o coração.

Pousei-a novamente no chão:--um regato d'agua gelada, corria ao pé,
enchi as mãos do precioso liquido e banhei-lhe o rosto.

Reabriu os olhos, sorriu-se, e lançou-me os braços ao pescoço.

Deixei passar alguns momentos, e empregando os unicos meios
communicativos, comprehendi que, não podendo mais supportar o calor do
volcão, se afastára, procurando o refugio da gruta, unico logar
supportavel, e que ahi perdera os sentidos, quasi asphyxiada pelas
emanações mephyticas dos ultimos paroxismos do vulcão.

Não sabia já exprimir a minha alegria.

Nunca sentira uma commoção tão forte: era a reacção do martyrio porque
acabava de passar.

Cahi de joelhos, ergui as mãos ao ceu, e agradeci a Deus!

Qual não foi a minha surpreza, quando a vi junta a mim, na mesma postura!

Eu tinha-lhe feito comprehender a existencia de um Ente superior que
creára as maravilhas que nos cercavam, a quem deviamos tambem, a
existencia; e aquella creatura, mesmo dos profundos abysmos do globo, o
estava adorando!

Admiravel inspiração que acompanha a humanidade desde a infancia do
mundo, sem excepção de raças, embora com difinições diversas!

Depois, ergueu-se, lançou-me um olhar radiante de fé, armou-se do
isolador e, empunhando o facho electrico, precipitou-se fóra da gruta
levando-me pela mão.

Adivinhára que eu devia estar morto de fome, e effectivamente cahia de
fraqueza: havia muitas horas que tinhamos estado privados de todo o
alimento.

Quando entramos na esplendorosa habitação da fada destas regiões
subterraneas, parecia-me ter voltado novamente á superfície do globo,
tal o contraste entre aquelle paraiso e as galerias caliginosas do
interior.

Proseguindo nas minhas investigações, observei uns pontos, superiores em
brilho ao cristal.

Examinando-os bem, conheci serem gemmas de grande valor encrustadas na
rocha.

Ella, vendo o meu empenho em arrancar uma pedra d'estas, gesticulou-me
para desistir d'uma tentativa inutil.

Procurou então d'entre os seixos, um que lhe pareceu satisfazer ao seu
designio, e pegando no machado de silex, partiu o seixo, apresentando-me
um magnifico brilhante como nenhum soberano da Europa, ou Rajah da
índia, possue.

Era um thezouro de que me não queria apartar; mas aonde guardal-o e para
que, se eu me via condemnado a viver e morrer nas entranhas da terra!

Apoderou-se então de mim um pavor indiscriptivel: aquella idea
esmagava-me, e cahi n'um estado de verdadeira prostracção moral.

Reparei n'ella.

Parecia estar lendo o que se passava no meu espirito, e a melancholia
impressa n'aquelle rosto d'anjo dissipou instantaneamente esse doloroso
sentimento para dar logar a outro mais doloroso ainda.

Teria eu coragem de me separar d'ella, mesmo quando se me offerecesse
occazião?

Não! mil vezes, não!

Aquelle ente era para mim, tudo!

A par d'ella, que valor tinha o grande mundo para mim?

Nenhum! E sem ella, era a morte.

A minha mocidade, passada no isolamento, não me preparára para este
mesmo meio, embora extraordinario?

La, nunca conhecêra a felicidade que agora gozava.

Para que imaginar o mal, aonde não havia senão o bem?

Um raio de verdadeira alegria fulgurou certamente no meu olhar, porque o
seu illuminou-se tambem.

A tempestade tinha passado.

Ella tinha evidentemente, e nem podia deixar de o ter, o sentimento do
bello, comparando o seu brilhante Eden com os antros medonhos que
tinhamos percorrido por occasião da erupção volcanica.

Cingindo-me com um braço, levou-me para a enseada aonde se achava o
nosso barco, e, convidando-me a entrar, tomou tambem assento, e
começamos a padejar, costeando, d'essa vez, a margem do lago.

D'ahi, cêrca de uma hora, entramos n'uma bahia, e pouco depois, deparo
com um espectaculo magestoso.

Um portico enorme abria-se na nossa frente.

Columnas colossaes de systematica egualdade e do mais formoso pórphyro
encorporadas umas nas outras, formavam, como nas celebres grutas de
Fingal, a entrada d'aquelle vasto recinto em que entramos.

O mais formoso templo do mundo não tinha tão rica collecçâo de marmores,
polidos pela acção da agua que as banhava, cahindo-lhes pela face como
um véo diaphano.

Era uma maravilha! e para que fosse completa, os reflexos d'aquella
variedade de cores sobre as limpidas aguas do interior, davam-lhes a
apparencia d'um pavimento de mosaico altamente polido.

Preocupava-me a mysteriosa faculdade que ella possuia de poder dispensar
a renovação do ar nas grandes profundidades.

Era evidente que eu tinha attravessado essa zona e que, á propria
pressão das aguas, devêra a existencia.

Lembrava-me bem, sentir-me desfallecer, e que, necessariamente, teria
succumbido se não é entrar n'um outro meio, que só podia ser; ou ganhar
a superficie, o que era já impossivel por ter perdido completamente as
forças; ou então, submetter os pulmões a uma influencia que inutilizava
as faculdades para que foram destinados.

Ficavam, por outra, dotados de faculdades duplas, á semelhança da
tartaruga, da phoca, da rã e d'outros amphybios.

Discorrendo por esta forma, achei muito natural que ao homem não fosse
negado o que o Creador concedêra a animaes tão inferiores como eram
aquelles.

Queria conhecer essa nova vida que me permittia observar, á vontade, e
sem a imperiosa necessidade de voltar amiudadamente á superfície do mar,
differentes peixes desconhecidos e plantas marinhas, sobretudo os coraes
magnificos cujas dimensões, eu já tinha podido notar, augmentavam na
razão da profundidade.

Ainda mais; se essa faculdade era douradoura, como parecia ser, podia
até descer ao fundo do Oceano e admirar a vida dos mares na sua
maxima profundidade, vida que as recentes investigações declaravam
riquissima, e dever ser de surprehendente effeito.

Communiquei-lhe os meus desejos.

A fixidez do seu olhar parecia penetrar no mais intimo do meu pensamento.

Temeria ella abrir a porta da gaiola ao passarinho?

Munindo-se, porém, do seu isolador, e partindo uma vara da arvore
electrica, pozemo-nos a caminho, internando-nos por uma passagem
subterranea e escura, guiados unicamente pela luz do nosso facho.

Chegados a certo ponto, resvalei: ella, que me segurava pela mão, com
este movimento, cambaleou, e deixou escapar o ramo que cahiu junto a
mim, mas felizmente sem me tocar. Senti porém um entorpecimento em todo
o corpo, o cérebro enervado, a vista perturbada e sem poder distinguir
os objectos.

Apenas percebi que estava sendo conduzido por ella, e só recuperei o
pleno uzo da razão no seio das aguas.

Este incidente não permittiu orientar-me sobre a mysteriosa sahida para
o mar.

Olhei para todos os lados; o facho só illuminava n'um certo raio; a
terra tinha desapparecido.

Estavamos n'uma zona de mar quasi deserta de vida: raros peixes
appareciam, e esses, pela sua marcha rapida e em linha recta, procuravam
outras regiões, preferindo aquelle caminho menos frequentado, como
querendo evitar seus adversarios.

Desciamos lentamente quando principiei a distinguir, abaixo de mim, uma
claridade comparavel á aurora.

Á proporção que afundavamos, augmentava, até que a prespectiva
assemelhava-se á que deve disfructar o areonauta, passando em balão e
d'alto sobre uma vasta cidade illuminada, com a differença que, em vez
da sua luz brilhante, e do movimento de uma população, via uma
phosphorecencia n'uma extenção enorme e um formigueiro indescriptivel;
um cruzar e recrusar de seres de todas as dimensões, feitios e côres,
que naturalista algum seria capaz de classificar.

Era precisamente esse movimento continuo o motor d'aquella claridade que
permittia ver-se perfeitamente o leito do Oceano, com os seus bosques e
os seus prados, e, por entre esta agglomeração de objectos diversos, a
vida animada d'esse campo, ora accidentado, ora extendendo-se em planicie.

Quando eu contemplava o extranho e maravilhoso quadro que me ficava
inferior, um monstro de proporções enormes, semelhante a um
crocodilo, os olhos em braza e de fauces abertas, avançava rapidamente
para nós.

Istinctivamente, levei a mão ao punhal, como se uma arma tão fragil
podesse penetrar as placas rijas d'aquelle encouraçado, cuja bocca era
um abysmo prestes a engulir-nos ambos d'um só trago;--um sorvedouro!

Horrorisei-me!

Ella, pelo contrario, conservou-se tranquilla, e, no momento em que eu
lhe via as fauces escancaradas, a meio metro de distancia, estendeu o
braço e tocou-lhe com a sua vara.

Não foi precizo mais: as fauces fecharam-se, cerraram-se-lhe os olhos e,
fulminado pela electricidade, desappareceu nas profundidades.

Ficava explicado o movimento brusco e expressão de horror que empregou
para me afastar da arvore de apparencia metallica no primeiro dia.

Aquella arma era terrivel, rapida nos seus effeitos e unica a empregar
em semelhante conjunctura, em que o perigo não era inferior ao dos
campos da India. Os mares tambem tinham os seus tigres, as suas
panthéras e os seus leões.

Assim nos conservamos muito tempo admirando aquella vida animada,
aquellas florestas illuminadas e aquelles prados constellados de luz.

Á proporção que desciamos, hia este quadro tomando novo aspecto.

A floresta de coraes, sobre a qual pairavamos, parecia um vasto viveiro
d'aves, umas abrindo passagem por entre a ramada, outras, e estas eram
os peixes voadores, saltando de ramo em ramo.

Aproximando-nos mais, pareceu-me ver ninhos nos ramos e avesinhas
abrindo de vez em quando, as azas e o bico como fazem os implumes ao
approximar-se a mãe trasendo-lhes de comer.

Não queria acreditar os olhos: apalpei-as: eram effectivamente aves do
mar, uns bivalvos que se abriam e fechavam á maneira da borboleta: esta
pequena concha, encrustada na ramagem e terminando n'uma das
extremidades em bico, illudia perfeitamente.[2]

Embrenhamo-nos então na floresta illuminada por uma multidão assombrosa
de especies e de côres em constante movimento.

Os coraes eram uma maravilha.

O coral preto, sobre tudo, cujo tronco dois homens não abrangiriam, com
a sua folhagem fina e arrendada á imitação de filigrana, era de
surprehendente belleza. A seus troncos, altamente polidos, nenhum
mollusco podia adherir, o que o tornava distincto de todos os mais.

O coral vermelho de troncos nús e nodosos, e o branco em gigantesco
leque com as suas multiplas ramificações alvas de neve, formavam um
conjuncto que ultrapassava a explendida vegetação das mattas virgens da
America.

Estas duas ultimas qualidades offereciam um aspecto singular, com as
suas encrustações de parasitas animaes e vegetaes de variadissimas
especies: conchas diversas, esponjas, serpulas, vermes e insectos
microscopicos que ahi tinham adherido, construindo suas instancias,
consoante a sua natureza.

Pouzamos então sobre um banco de coral animal, essa construcção
produzida por myriades de seres microscopicos, e que, no decurso de
seculos, chegam á superfície dos mares formando ilhas.

Ostras de grandes dimensões, como jámais foram vistas em maiores
alturas, adheriam áquelle chão escarlate em cujas fendas existiam
pérolas, das quaes, uma só, faria uma fortuna.

Então, recordei-me do que escreveu um sabio.--«O mar tem maiores
riquezas do que a terra».

O fundo do Oceano dividia-se em grandes malhas:--uma de arvoredo, outra
de erva ursina compacta, campos d'esponjas finissimas sobre as quaes
se estendiam, como em fofa cama, animaes marinhos de differentes
especies ruminando, como manadas de gado bovino, as colheitas feitas em
pastagens proprias ao seu sustento.

Alguns d'estes animaes eram pachydermes de gigantescas proporções:
olhavam-nos perfeitamente indifferentes, o que não pouco me
tranquilisou, porque contra uma colligação e attaque em massa, era
impotente a electricidade.

Outras malhas eram de campos d'algas de extraordinaria altura.

As suas palmas eram grandes bolhas d'ar que conservavam as hastes
perfeitamente verticaes, e algumas que se desprendiam da planta mãe
pareciam fléchas despedidas do arco em direcção á superficie.

Outras malhas eram d'um lyrio lindissimo, produzindo um effeito
extraordinariamente bello.

Uma planta era muito curiosa: dava flores que eram procuradas por um
pequeno peixe para lhe sugar, provavelmente, um mel, ou substancia
qualquer, á imitação da abelha.

Estas flôres, porém, com o contacto, envolviam o peixinho nas dobras do
seu calice, ficando prisioneiro.

É n'este momento que um outro peixe de proporções maiores e de
marcha indolente que estivera de espreita, engulia a flôr e a sua
victima, e d'este modo, sem conflicto, e sem trabalho, provia ao seu
sustento.

Nunca poderia imaginar que no fundo do mar existissem parazitas como na
superficie do globo, vivendo á dispensa do trabalho d'outros e com todo
o cynismo.

Grandes crustaceos, mettidos em furnas escuras, expelliam raios de luz
dos olhos, e estes focos chammejantes possuiam o poder da attracção. O
crustaceo, perfeitamente immovel no seu esconderijo, tinha menos
trabalho do que a aranha na sua teia, pois apenas dava-se ao encommodo
d'abrir a bocca, na qual o magnetizado peixe se precipitava.

Era o processo do sapo!

Que affinidade em tudo entre estas naturezas tão diversas; a vida da
terra e a vida do mar, até mesmo nos contrastes!

A par dessas malhas floridas e de vegetação esplendida, havia tambem
malhas de um lodo, como carbonato de cal, residuos de conchas e detritos
animaes. Á sua superficie deslisava uma quantidade de peixe miudo, e
d'entre as camadas lodoçentas, surgiam de quando em quando, cabeças de
serpentes, reptis, bichos informes e annelidos.

A immobilidade das aguas n'esta profundidade era completa:--as plantas
mais delicadas e flexiveis não tinham o mais ligeiro movimento.

Couza singular! Esperando achar um frio intenso n'aquelles abysmos aonde
a acção calorifera do sol não podia chegar, assim como não penetrava ahi
a sua luz, havia uma temperatura superior á das aguas nas regiões da
superficie, e quando pousei no chão, achei o solo com um calor que não
esperava.

Seria devido á menor espessura da crusta?

O que é natural, é que, sem aquella temperatura, a vida, sobretudo a
vegetal, não poderia ser tão florescente e bella como era.

Estavamos n'esta contemplação quando sentimos uma forte vibração nas
aguas, seguida de um rugido espantoso.

Presenti, immediatamente, um acontecimento grave.

Irrompiam de dentro da erva ursina de que se revestia grande parte do
fundo, myriades sem conto de pequenos peixes correndo, como espavoridos,
em todas as direcções, e enchendo o espaço que nos circundava de uma
verdadeira chuva de fogo.

Reptis enormes, até então occultos nas depressões lodocentas, sairam das
lamas e tomaram a fuga.

Conhecendo o instincto animal, mais agudo do que o do homem, comprehendi
que tivera logar uma violenta commoção subterranea.

Não tardou que grandes pachidermes, com seus filhos, e outros peixes
desconhecidos, passassem por nós, tomando todos uma direcção que nos
advertia que o perigo estava d'onde vinham, e não para onde hiam.

Succederam-se novas trepidações, cada vez mais violentas, e estampidos
que se approximavam, sem que podessemos atinar de que lado procediam.

O desamparo em que os povoadores marinhos deixaram o ponto aonde nos
achavamos, levando comsigo a claridade que só provinha da sua
phosphorescencia, era o único indicio de que estavamos no fóco do perigo.

Restava-nos só a que nos ministrava a vara electrica, mas a sua luz
tinha um raio muito limitado e não nos deixou perceber que nos
avizinhavamos de um campo d'algas.

De repente, o sólo rompeu-se com horroroso estampido: as aguas,
repellidas com espantosa força, impelliram-nos para esse perigoso meio,
ficando com os movimentos embaraçados e prezos entre aquellas liaças que
pareciam enlaçar-nos como serpentes.

Tentei cortal-as com o punhal, mas cada novo movimento só servia para
nos envolver mais.

O volcão, que ao principio, vomitou immensas columnas de cinsas
acompanhadas de linguas de fogo que sahiam d'entre aquellas massas
enormes, começou a expellir pedras que, arrojadas perpendicularmente,
vinham cair na cratéra, impedindo a livre expulsão das materias
volcanicas, de que resultou serem estas cuspidas em todas as direcções.
A pequena distancia que nos separava do fóco, expunha-nos a sermos
alcançados por aquella metralha, sem lhe poder fugir.

A nossa situação tornou-se então assustadora.

N'este ponto, Luiz não poude proseguir:--a commoção embargava-lhe a falla.

Percebi que estavamos chegados á parte mais pungente da narrativa, e
disse-lhe:--«se te parece, guarda o resto para logo; adivinho uma
catastrophe que te amargurou a vida».

--«É verdade, Carlos!--Eu amava aquella creatura com delirio;
concentráva n'ella todas as minhas affeições e, para a não perder,
renunciaria para sempre o estrellado ceu e os campos verdes da terra,
ainda mesmo que tivesse mil ensejos de me emancipar do seu interior.

Uma pedra, Carlos, d'esse maldito volcão, e da minha, ainda mais maldita
curiosidade, bateu-lhe em cheio no peito.

Cahiu-me morta nos braços.

Quando eu a depositava no chão para renovar a tentiva de cortar as
algas, e conduzil-a, sem saber para aonde; estas, desprendendo-se
subitamente das raizes, arrebataram-me irresistivelmente em sentido
ascencional:

As grandes bolhas d'ar eram como boias que subiam com espantosa rapidez,
porém, de repente, em certa altura, arrebentaram, deixando-me entregue
aos meus proprios recursos para alcançar a superficie. Percebi
immediatamente que a falta de pressão fôra a cauza d'aquella explosão,
devendo por tanto não estar longe da superficie.

Com que difficuldade, porém, lá cheguei! Á proporção que se encurtava a
distancia, a necessidade de respirar era cada vez mais forte.

Sentia já a asphyxia; redobrei de esforços: era uma lucta entre a vida e
a morte.

Quasi morto, achei-me á flôr da agua: estava salvo, mas aonde; meu Deus!
Em pleno mar!

Então deitei-me de costas sobre as aguas para descançar.

Quanto tempo estive n'esta posição, sustentando-me machinalmente, não
sei:--Os raios solares cegavam-me: cerrei os olhos e apoderou-se de mim
um lethargo.

Tinha perdido o conhecimento de todo!

Quando voltei a mim, achei-me estendido sobre o convez d'um navio.

De bordo tinham avistado um corpo boiando á tona d'agua e deitando uma
lancha ao mar tiraram-me ainda a tempo.

O meu primeiro pensamento foi para ella: tornei a fechar os olhos para
não ver os habitantes da terra: a saudade do paraiso que tinha deixado
para minha perdição, e a dôr que me enlutava a alma, não me permittiam
outro sentimento, outro desejo, senão o da morte.

Levaram-me então para a camara.

Ouvia dizer aos meus salvadores «cahiu, necessariamente, ao mar sem que
se tivesse dado por isso a bordo; ou não o poderam salvar por ser talvez
de noite.

Resolvi-me approveitar estes juisos para não ter que revelar os
acontecimentos extraordinarios que precederam a minha mysteriosa
apparição sobre as aguas.

Não tinha outro meio senão alimentar essa idea quando tivesse de
responder ás suas perguntas.

O meu estado d'apathia, tomado por uma extenuação de forças, livrou-me
da necessidade de recorrer a subterfugios, até que uma nova fatalidade
me separou d'aquella boa gente.

Sobrevindo um temporal, fomos arrojados sobre as costas de... morrendo
no naufragio toda a tripulação.

Mais uma vez, devi a vida aos meus recursos natatorios, e pude ganhar
uma praia sobre a qual as ondas me depositaram.

O sinisto deu-se de noite, e eu ignorava completamente aonde me achava.

Uma luz guiou-me os passos para uma casa, não muito distante; ahi bati.

--Um naufrago! respondi eu a alguem que viera á porta.

--Queira esperar, me responderam de dentro.

Momentos depois, foi esta aberta e appareceu-me um sujeito idoso que me
mandou entrar, recebendo-me com evangelico carinho e commiseração.

Todo enxarcado e com frio! exclamou elle.

A primeira cousa que preciza é de uma vestimenta completa.

A maneira porque lhe agradeci convenceu-o, certamente, de que não fazia
parte da tripulação do navio naufragado.

Fui conduzido a um elegante quarto e provido de tudo quanto precisava
para me tornar um habitante da terra, menos no comprimento e desalinho
do cabello que tinha crescido extraordinariamente.

Conduzido á casa de jantar aonde estava servida a ceia, quiz o meu
hospitaleiro conhecer os promenores do naufragio.

Eu tinha sabido o sufficiente para o orientar sobre todos os pontos
precizos concernentes ao navio e sua procedencia etc.

Dá'me licensa, continuou elle, com sorriso malicioso, que lhe pergunte,
se o fato que lhe mandei é o que lhe compete, pois entro em duvida
se é rapaz ou rapariga. Como não tenho familia, não lhe pude ministrar
outro.

Logo vi qual a causa da sua duvida, mas não sabia bem como sair-me
d'aquella difficuldade e recorri ao expediente de dizer que era voto que
fizera, porém que, tendo cessado a cauza, lhe pedia me proporcionasse os
meios de reivindicar os meus fóros de homem.

Avisado o nosso consul do succedido, veio-me buscar no seu trem: escrevi
ao meu procurador, impondo-lhe silencio absoluto em relação á minha
existencia, e ordenando-lhe me mandasse as minhas rendas, devendo d'ahi
por diante remettel-as para aqui.

--E não voltas?

--Não! Escolhi esta cidade, muito afastada do mar que nunca mais
tornarei a ver: avivar-me-hia, atrozmente, o meu soffrimento.

Morri para o mundo; assim como o mundo morreu para mim.

Não conheço aqui ninguem e ninguem me conhece.

Não receio, por tanto, ser importunado sobre a minha vida passada que se
encerra n'este aposento.

O meu fiel amigo e constante companheiro, é este, referindo-se a um
formoso danois que pousára a cabeça sobre os seus joelhos.

Abro para ti uma excepção: sempre que queiras aqui apparecer, vem; que
és tambem uma grata recordação da minha mocidade.

Era já alta noite: abracei-o, e regressei ao hotel.

Ao acordar no dia seguinte entrei em duvida se teria sonhado, tão
extraordinario era tudo quanto ouvira e presenceára na vespera.

Hia a sair em procura de Luiz de..., quando o creado do hotel me
preveniu que apenas me restava o tempo precizo para almoçar e partir
para a estação do caminho de ferro.

Tive, pois, de desistir, levando comigo impressões que me ficarão
gravadas para sempre na memoria.


FIM.

    [1] Nas aguas da Madeira quando os pescadores se servem de linhas
    para a pesca em grande profundidade não é raro apanhar um peixe
    muito semelhante nas formas ao peixe espada e que offerece uma
    resistencia tenaz, até que se lhe separa o corpo da cabeça, vindo
    esta preza ao anzol.

    Julgam elles que no estrebuchar do peixe é este comido por tubarão,
    porém não se pode admittir que, em todos os cazos, haja um cetaceo
    d'estes á mão para devorar o peixe.

    O que determina aquella separação é ficar o corpo, na parte menos
    consistente, que é o ventre, esmigalhada por falta de pressão quando
    arrancado ao meio de que carece para a sua integridade, partindo no
    ponto vertebral aonde os tecidos, por aquelle rompimento, deixaram
    ficar a espinha dorsal sem o necessario apoio.

    [2] O naturalista chama a este mullusco.--Avicula--e encontram-se
    exemplares d'elle nos muzeus.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Um novo mundo" ***

Doctrine Publishing Corporation provides digitized public domain materials.
Public domain books belong to the public and we are merely their custodians.
This effort is time consuming and expensive, so in order to keep providing
this resource, we have taken steps to prevent abuse by commercial parties,
including placing technical restrictions on automated querying.

We also ask that you:

+ Make non-commercial use of the files We designed Doctrine Publishing
Corporation's ISYS search for use by individuals, and we request that you
use these files for personal, non-commercial purposes.

+ Refrain from automated querying Do not send automated queries of any sort
to Doctrine Publishing's system: If you are conducting research on machine
translation, optical character recognition or other areas where access to a
large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the use of
public domain materials for these purposes and may be able to help.

+ Keep it legal -  Whatever your use, remember that you are responsible for
ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just because
we believe a book is in the public domain for users in the United States,
that the work is also in the public domain for users in other countries.
Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we
can't offer guidance on whether any specific use of any specific book is
allowed. Please do not assume that a book's appearance in Doctrine Publishing
ISYS search  means it can be used in any manner anywhere in the world.
Copyright infringement liability can be quite severe.

About ISYS® Search Software
Established in 1988, ISYS Search Software is a global supplier of enterprise
search solutions for business and government.  The company's award-winning
software suite offers a broad range of search, navigation and discovery
solutions for desktop search, intranet search, SharePoint search and embedded
search applications.  ISYS has been deployed by thousands of organizations
operating in a variety of industries, including government, legal, law
enforcement, financial services, healthcare and recruitment.



Home