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Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Author: Camões, Luís Vaz de, 1524-1580
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II" ***

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
impresso em 1843.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
particular quanto à acentuação.

Nesta versão electrónica, em texto simples, não é possível representar
alguns caracteres usados no livro impresso. Usamos como substituto desses
caracteres os seguintes marcadores:

[~e] = e com til por cima, corresponde aproximadamente a "em";

[~u] = u com til por cima, corresponde aproximadamente a "um";


      *      *      *      *      *



                          CLASSICOS PORTUGUEZES.

                                 TOMO II.

                                  CAMÕES.

                                    II.



PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
Rua Racine, 28, junto ao Odeon.



OBRAS COMPLETAS

DE

LUIS DE CAMÕES,

CORRECTAS E EMENDADAS

PELO CUIDADO E DILIGENCIA

DE

J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.


TOMO SEGUNDO.


LISBOA.

ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
3, quai Malaquais, près le pont des Arts.

1843



PREFAÇÃO.


Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos
os povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras.
Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor
da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos
violento segundo as diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se
elevar acima de seus iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes,
excitárão as almas nobres a tentar grandes empresas; e as façanhas dos
heroes impellirão depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros,
elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem
muito as letras n'um povo indigno de historia. Assim que bem se póde dizer
que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros:
testimunhas Grecia e Roma.

Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a
todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças
e meios não somente sustentou longas e terriveis guerras, mas não contente
de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo
mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e
sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido
o seu imperio até aos ultimos confins da terra, excitando a admiração das
gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia
por espaço de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da
grandeza e gloria humana: até que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo
do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde
a illustre nação devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago
e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou
no abysmo, donde até hoje não ha podido mais levantar-se.

Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem
nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos
feitos militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando
o chão propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no
decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas
primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o
primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo
algumas obras, como um Tratado entitulado _Dos principaes deveres da
Milicia_, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em
Portugal João III. E no decimo quarto produzírão ja um tão sazonado fructo,
como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por
Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da
qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): _Per giudizio di molti e mio
particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste genere....
Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella
varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse
stato scritta._ E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que
fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: _Este livro fué el primero
de Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido
principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se
han compuesto._

No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão
Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos
noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520.

No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte _O Leal Conselheiro_, que se
conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um _Da
Misericordia_, outro _Do Regimento da justiça e Officiaes della etc_. Seu
irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente
do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras
politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em
Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e
dedicou a seu irmão Dom Duarte _Cicero de Officiis_, e _Vegetius de re
militari_. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi
elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas
poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja
então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte

                      ODE

      De pungentes estimulos ferido
    O Regedor dos ceos e humilde terra,
    Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
            Effeitos da sua íra.

      A peste armada destruir teu povo
    A um seu leve aceno vôa logo:
    Estraga, fere, mata sanguinosa,
            Despiedada e crua.

      Despenhada no abysmo da ruina,
    Fugir pretendes aos accesos raios,
    Qual horrida phantasma, porém logo
            Desfallecida cahes.

      O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
    Mas inda muito mais os teus errores
    Que provocar fizerão contra ti
            Contagião mortal.

      Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
    Da penitencia com as bastas ágoas,
    Ja que revel e surda te mostraste

            A seus mudos avisos.
      Então verás ornada a nobre frente,
    Como nos priscos tempos que passárão,
    De esclarecidos louros, sinal certo
            De teus almos triumphos.

Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara
começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes,
escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação
da monarchia.

No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente
introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes.
Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, _O
Palmeirim de Inglaterra_, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o
attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: _Esta palma de
Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella
otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que
la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro,
Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es
muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal.
Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande
arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro
dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de
Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni
cata, perescan_. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o
Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas
d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos
costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se
avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como
Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime,
que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a
trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta
sons menos harmoniosos e suaves.

Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer,
mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas
poesias lyricas. E começaremos por observar que se nenhum escritor foi mais
desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido
tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo
este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e
poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as
penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á
luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção
dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de
muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos
damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando
sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para
nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he,
cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E
se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o
devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que
pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim
desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas
com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim
se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao
prelo. De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso
poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o
gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias
bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique
superior o de nenhuma outra nação estranha.

Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma
sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria,
quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72:

                        SONETO

      Quando de minhas mágoas a comprida
    Maginação os olhos me adormece,
    Em sonhos aquella alma me apparece,
    Que para mim foi sonho nesta vida.

      Lá n'uma soidade, onde estendida
    A vista pelo campo desfallece,
    Corro apos ella; e ella então parece
    Que de mim mais se alonga, compellida.

      Brado: Não me fujais, sombra benina.
    Ella, os olhos em mim co'um brando pejo
    Como quem diz que ja não pode ser,

      Torna a fugir-me: tórno a bradar: _Dina_...
    E antes que diga _mene_, acordo, e vejo
    Que nem um breve engano posso ter.

Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia
e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse
pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes,
confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas
dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou _Lugentes campi_, que
o nosso Franco Barreto traduzio: _Campos sem luz_, e nós diremos: _Campos
da Saudade_. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este
maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem
será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos.

Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a
este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem
quizer comparar umas com outras.

Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos
estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma
natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado
florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo
as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no
mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos
Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa. Pindaro,
Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por
modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro!
Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico
ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em
todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás
materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e
muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que
hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores
summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta
opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª,
9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára
viciada.

No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de
a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma,
para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de
Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os
cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns
para os outros: _Donde vem a Pedro fallar gallego?_ e Manoel de Faria e
Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na
praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de
razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes
para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos,
passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não
mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico.

Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que
emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico,
dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: _Oxalá pudera humilhar
a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!_
Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre
Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as
cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se
tem razão.

Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava
pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não
tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no
julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas
para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a
pintura, uma imitação da natureza, segue-se necessariamente que os melhores
poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da
natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente
a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da
natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura
Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes
poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores.
Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria
tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico,
lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava
melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he
permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de
quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.

Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia
seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra
ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o
throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril
pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe
o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se
propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle.

    _Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae._

Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim
o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica.

                     _L'Églogue quelquefois
    Rend dignes du Consul la campagne et les bois._

E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem
sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não
possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios.

Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha
e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro
amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de
tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e
elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção,
até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as
transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o
estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e
figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara
vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem
vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar
do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:

                         _Ipsae te, Tityre, pinus,
      Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant._

      Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,
      Estes mesmos arbustos te chamavão.

e não se hade consentir a Camões dizer:

    Canta agora, pastor, que o gado pasce
    Entre as humidas hervas socegado,
    E lá nas altas serras onde nasce,
    O sacro Tejo á sombra recostado
    Com seus olhos no chão, a mão na face,
    Está para te ouvir apparelhado;
    E com silencio triste estão as Nymphas
    Dos olhos destillando claras lymphas?

Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma
cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª

Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle
foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que
desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo
esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador
sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza
da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto
puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta
Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia
domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este
juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa
facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a
outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas
Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos
olhos.

Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres
deste modo:

                        AGRARIO.

      Vós, semicapros deoses do alto monte,
    Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
    E vós, deosas do bosque e clara fonte,
    E dos troncos que vivem largos anos;
    Se tendes prompta um pouco a sacra fronte
    A nossos versos rusticos e humanos,
    Ou me dai ja a capella de loureiro,
    Ou penda a minha lyra d'um pinheiro.

Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador

                        ALICUTO.

      Vós, humidas deidades deste pégo,
    Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;
    Vós, Nereidas do sal em que navego,
    Por quem do vento a furia pouco temo;
    Se a vossas sacras aras nunca nego
    O congro nadador na pá do remo,
    Não consintais que a musica marinha
    Vencida seja aqui na lyra minha.

Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão que são
demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples,
a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes
demos ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores.
Vejamos com que despejo entrão na lide.

                        AGRARIO.

      Pastor se fez um tempo o moço louro
    Que do pae as carretas move e guia;
    Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro,
    Que o seu claro inventor alli tangia.
    Io foi vacca, Jupiter foi touro
    Mansas ovelhas junto d'ágoa fria
    Guardou formoso Adonis, e tornado
    Em bezerro Neptuno foi ja achado.

A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o pescador a
seguinte, exaltando a sua profissão.

                        ALICUTO.

      Pescador ja foi Glauco, e deos agora
    He do mar, e Protêo phocas guarda;
    Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora
    Do amoroso prazer, que sempre tarda.
    Se foi bezerro o deos que cá se adora,
    Tambem ja foi delphim. Se se resguarda,
    Vê-se que os moços pescadores erão,
    Que o escuro enigma ao primo vate derão.

Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora
recebe as suas finezas.

                        AGRARIO.

      Formosa Dinamene, se dos ninhos
    Os implumes penhores ja furtei
    Á doce philomela, e dos murtinhos
    Para ti (fera!) as flores apanhei;
    E se os crespos madronhos nos raminhos
    Com tanto gosto ja te presentei,
    Porque não dás a Agrario desditoso
    Um só revolver d'olhos piedoso?

Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo
os preceitos do canto amebeo, ou alternado.

                        ALICUTO.

      Para quem trago d'ágoa em vaso cavo
    Os curvos camarões vivos saltando?
    Para quem as conchinhas ruivas cavo
    Na praia, os brancos buzios apanhando?
    Para quem de mergulho no mar bravo
    Os ramos de coral vou arrancando,
    Senão para a formosa Lemnoria,
    Que co'um só riso a vida me daria?

Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperação de
ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa.

                        AGRARIO.

      Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
    D'átras nuvens vestido, horrido e feio,
    Ennegrecendo á vista o ceo superno,
    Quando os troncos arranca o rio cheio;
    Raios, chuvas, trovões, um triste inferno
    Que ao mundo mostra um pallido receio:
    Tal o amor he cioso a quem suspeita
    Que outrem de seu trabalho se aproveita.

                        ALICUTO.

      Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
    Furor lançando flammas e bramidos,
    Quando as pasmosas serras traz diante,
    Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;
    A braços derribando o ja nutante
    Mundo co'os elementos destruidos;
    Assim me representa a phantasia
    A desesperação de ver um dia.

Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as
estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção.
Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do
alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as
furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o
mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento
não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se
lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas
figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte,
que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo está
toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento
traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra
etc._ A differença está em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_,
diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta
_nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto
não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e
palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de
pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se
espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se
estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque
não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o
devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar
os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento.
Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o
que inda ha pouco era rio caudaloso.

                        AGRARIO.

      Minha alva Dinamene, a primavera
    Que os deleitosos campos pinta e veste,
    E rindo-se uma côr aos olhos gera,
    Que em terra lhes faz ver o Arco celeste;
    As aves, as boninas, a verde hera,
    E toda a formosura amena agreste
    Não he para os meus olhos tão formosa,
    Como a tua, que abate o lirio e rosa.

                        ALICUTO.

      As conchinhas da praia, que presentão
    A côr das nuvens, quando nasce o dia;
    O canto das Sirenas, que adormentão;
    A tinta que no murice se cria;
    O navegar por ondas, que se assentão
    Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
    Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
    Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.

                        AGRARIO.

      A deosa, que na Lybica lagôa
    Em fórma virginal appareceo,
    Cujo nome tomou, que tanto sôa,
    Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo:
    Garços os tem; mas uma, que a corôa
    Das formosas do campo mereceo,
    Da côr do campo os mostra graciosos.
    Quem não diz que são estes os formosos?

                        ALICUTO.

      Perdoem-me as deidades, mas tu diva
    Que no liquido marmore es gerada,
    A luz dos olhos teus, celeste e viva,
    Tens por vicio amoroso atravessada:
    Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva
    De luz o dia, baixa e socegada
    Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego,
    E com toda esta luz sempre estou cego.

Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em
Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio
igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as
duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler
muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que
ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de
Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o
estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais
nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos
de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem
capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o
merecimento e preço das obras dos grandes homens.

Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que
um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da
nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e
com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o
verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos
ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se
recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte,
aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os
louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que
parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a
selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como
oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões
do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros
mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.

Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á
de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do
homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de _Obras
Attribuidas_, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta
edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem
propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era
excellente.

Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno
Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões,
que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma
composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não
podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso
confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos
que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não
para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas
para divertimento particular.

E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas
peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor
(nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle,
se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por
consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas
heroicos e lyricos de Hespanha.

Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como
Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos
talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina, tanta
facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da
paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a
penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe
impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque
nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos
escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a
militar.

Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio
tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas
desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação
subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira
parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda;
que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da
antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça,
tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria,
que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas,
brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada
póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do
nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor
cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e
vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas:
na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que
assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia
resurgir os mortos.



VIDA DE LUIS DE CAMÕES.


Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que
nasceo Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades
disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em
tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o
primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte
mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de
Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porém depois reparando que o
poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, ia caminhando para os
seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e
computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo
55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois
comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de
Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar
a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli
presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem
seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se
tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu
nascimento.

Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui
pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e
verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util;
como o sol, que então dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima
do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos
com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua
genealogia.

A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu
Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas
regalias. Vasco Pires de Camões, ultimo representante desta familia,
fôra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a
seu partido, quando aspirava á coroa de toda a Hespanha. Mas, como se
malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e
passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por
seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do Sardoal e Punhete,
Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e herdades, que em
Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de
Portalegre e membro do seu conselho.

Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão
mor das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo
depois a capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua
honra e valor. E della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a
inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na
guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da
successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes
seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as
armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom
Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as
herdades de Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em
Alemquer.

João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser
Vassallo de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes
serviços que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com
Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo
Gomes da Silva e irmão de João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João
1.º, fôra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste
matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, desposando a Guiomar da
Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas de Camões, que
casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E
destes nasceo o nosso poeta.

Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa
memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser
insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se
empenhárão em lhe dar uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto
se vião faltos de meios, na esperança de que viria a ser o bordão de sua
velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores
estudos, de mui tenra idade o mandárão para a Universidade que de
Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então
restituida a Coimbra por João III, e florescia em todas as sciencias sob
a direcção e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que
este Rei com largos premios de toda a parte attrahíra. Com tão felizes
disposições e tão sabios preceptores, não podia Luis de Camões deixar de
fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi.

Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio
das Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo
com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E
desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu
primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se
entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em
todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se
infere, foi feito quando voltava de férias, ja ferido de outra paixão.

Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se
apartasse daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo
de seus cuidados, se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida.
Restituido á patria, cheio de tão saudosas lembranças, ahi escreveo
aquella maviosa Canção que principia:

    Vão as serenas ágoas
    Do Mondego descendo etc.

Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava
Amor preparando novo assumpto. Fazia então o principal ornamento
do paço uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara
belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de
maior Petrarca. Vio-a Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e
123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido
de amores. Des de então não soube mais parte de si; e ufano de se ver
vencido de tão peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a
maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava que este passo, o mais
notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella
Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda não
satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel
subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel
saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia.
Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores erão puramente
Platonicos; mas disso não ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez
se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor
insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que
manifesta na Canção 15 onde diz:

    Des que com gentil arte
    Vestís de flores bellas
    A terra, que tocais co'a bella planta,
    Quantas vezes com vê-las,
    Quiz n'uma dessas flores transformar-me!
    Porque vendo pisar-me
    Desse candido pe, que a neve espanta,
    Póde ser que na flor mudado fòra
    Que deo a Juno irada a linda Flora.

não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira
por que Marte foi gerado.

Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim,
amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco
acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa,
Egloga 3.ª) que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida,
foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão
sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo
estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas
vizinhanças do Zezere, se infere da Canção 13. Depois ou porque este
desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido
Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo
depois do princípio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu
pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval
com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de
Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte recebêra
aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel,
mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como
elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª

    Agora exprimentando a furia rara
    De Marte, que nos olhos quiz que logo
    Visse e tocasse o acerbo fructo seu.
    E neste escudo meu
    A pintura verão do infesto fogo.

Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras
amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que
para fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que
o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como
dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de
Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir,
arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava
a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro
impedimento se deixou ficar em terra; e não veio a sahir para o seu
destino, senão dous annos depois, no de 1553, como consta de outro
assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa:
e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de
quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no
mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão
anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que
disse na despedida, forão (como se ve de uma carta que de Goa escreveo)
as de Scipião Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_.

Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse
aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso
alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o
acompanhou o poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente
refere na Elegia 3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do
seguinte anno de 1554 chegárão as naos do Reino, em que ia Dom Pedro
Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se divulgou a triste noticia
das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do
Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como
verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as
consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a
Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma
carta com data de Janeiro de 1555.

E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que
nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo:
_Emfim, Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços
que nessa terra me armavão os acontecimentos, como com vir para esta,
onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a
cella de um frade prégador_. Mas esta felicidade e socego não lhe durou
muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro
Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que não era
affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e
tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa no seu
commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na
China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo
Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela
fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que
miseravelmente soffrêra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma
opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandára preso e capitulado
para o reino. E nem um nem outro fazem menção do desterro. Manoel
Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal
Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este
Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de
Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião
festejado a successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou
por zelo da justiça, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno
de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em
tudo isto não ha de verdadeiro, senão que Luis de Camões foi desterrado
por Francisco Barreto, como passâmos a demonstrar.

Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei
Dom Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle
voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a
Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em
que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se
prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa
occasião se fizerão, como testimunha ocular. Logo não foi Luis de Camões
provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos
defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro Mariz, nem
sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como
conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em
Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno,
como dissemos. Tambem he falso que Luis de Camões, voltando de Macao a
Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que
perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime,
não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o
podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo
ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de
1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e
capitulado para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro
Barreto, indo por governador de Çofala, e desejando levar a Luis de
Camões na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movêra a isso,
dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque
se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua
plena liberdade.

Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel
Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das
Redondilhas, que andão nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na
India_.

Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi
reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se
poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que
nos fundamos são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a
seus contemporaneos, assim porque muitos havião sido testimunhas do
mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao
mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena
constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que
para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa;
prova evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a
tivessem, não andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um
fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das
Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas
que se davão deste desterro, o attribuio a esta; que tão innocente foi a
vida de Camões, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pôde
descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse um tal castigo. Mas além
desta razão, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta
Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos
ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, começa
Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel
segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e
se dahí passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer
alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não
apparece cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos
inclinâmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia
necessaria aquella recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda
esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra
escritas na mesma occasião; porque só duas teve o poeta, de
escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser
desterrado: em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das
mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de
lá vierão em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira
occasião de certo não foi escrita, nem tambem depois do desterro, por
ser em estilo jocoso e não fazer menção alguma destes acontecimentos,
que tanto o magoárão. Acresce mais que na mesma carta parece alludir á
enfatuação e soberba do governador, quando diz: _Principes de condição,
ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem
com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde
não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca_. Ora se o
segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por
causa desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em
Goa o que tão secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de
que se Luis de Camões quizesse publicamente satyrizar a Francisco
Barreto, certo he que lhe assentára mais de rijo a espada do ridiculo,
que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se
Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse algum outro crime de
que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar conforme as leis; nem
um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando tivesse merecido um
tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em tantos
lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81.

    E ainda, Nymphas minhas, não bastava
    Que tamanhas miserias me cercassem,
    Senão que aquelles que eu cantando andava
    Tal premio de meus versos me tornassem!
    A trôco dos descansos que esperava,
    Das capellas de Louro que me honrassem,
    Trabalhos nunca usados me inventárão,
    Com que em tão duro estado me deitárão.

e na Canção XI:

    Emfim, não houve trance de fortuna,
    Nem perigos nem casos duvidosos,
    Injustiças daquelles, que o confuso
    Regimento do mundo, antigo abuso,
    Faz sobre os outros homens poderosos,
    Que eu não passasse, atado á fiel columna
    Do soffrimento meu, que a importuna
    Perseguição de males em pedaços
    Mil vezes fez á força de seus braços.

e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136,
compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no captiveiro
de Babylonia:

    A pena deste desterro,
    Que eu mais desejo esculpida
    Em pedra ou em duro ferro etc.

Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi mesmo:

    No grão dia singular
    Que na lyra em douto som
    Hierusalem celebrar,
    Lembrai-vos de castigar
    Os ruins filhos de Edom.
    Aquelles que tintos vão
    No pobre sangue innocente,
    Soberbos co'o poder vão,
    Arrazá-los igualmente:
    Conheção que humanos são.

Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha duvida,
porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma
sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as
leis do Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou
peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79,
fallando com as Tagides:

    Olhai que ha tanto tempo que cantando
    O vosso Tejo e os vossos Lusitanos
    A fortuna me traz peregrinando,
    Novos trabalhos vendo e novos danos.

e Est. 80:

    Agora com pobreza aborrecida
    Por hospicios alheios degradado.

Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se vê da
Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em
expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque
se assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer:

    Aqui me achei gastando uns tristes dias,
    Tristes, forçados, maos e solitarios,
    De trabalho, de dor, e de ira cheios.

porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, serião
_forçados_, porque a servia por gôsto, nem _solitarios_, porque não
havia de ir só á guerra, nem _cheios de ira_, porque esta só póde
nascer de alguma injúria ou violencia soffrida.

Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns
annos e recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª

    Aqui minha ventura
    Quiz qu'uma grande parte
    Da vida que não tinha se passasse,
    Para que a sepultura
    Nas mãos do fero Marte
    De sangue e de lembranças matizasse.

E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a duvida, não
só porque isso mesmo consta do remate della

    Canção, neste desterro viverás,
    Voz nua e descoberta,
    Até que o tempo em eco te converta.

mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como
ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se
sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia.

De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi
existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o
poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido
crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a
este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha
de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e
trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu
merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua
vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto
havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver
perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que
não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de
gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de
Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das
suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou,
deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e
calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria
boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz
nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:

    Trabalhos nunca usados me inventárão,
    Com que em tão duro estado me deitárão.

Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque,
tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa
cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a
nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide,
censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição
que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos
ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a
Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo
daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer
a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido?

Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou
algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que
exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma
fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e
que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle
Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal,
fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque
isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz:

    Agora da esperança ja adquirida
    De novo mais que nunca derribado.

Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a
nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda
a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como
Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi
recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est.
128, onde diz, fallando do rio Mecom:

    Este receberá placido e brando
    No seu regaço os Cantos, que molhados
    Vem do naufragio triste e miserando,
    Dos procellosos baixos escapados,
    Das fomes, dos perigos grandes, quando
    Será o injusto mando executado[1]
    Naquelle, cuja lyra sonorosa
    Será mais affamada, que ditosa.

Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou
por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase
do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que
tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para
Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado
de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a
innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja
administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe
dirigio a Epistola que começa: _Como nos vossos hombros tão constantes
etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o
exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu
proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da
calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da
India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa)
escreveo outra sobre o desconcerto do mundo.

Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na
precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!

    O Valor e o Saber pedindo vão
    Ás portas da cubiça e da vileza!

Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do
Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia
amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe
movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão,
que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da
Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no
governo de Francisco Barreto, diz:

    A piedade humana me faltava
    A gente amiga ja contraria via
    No perigo primeiro; e no segundo
    Terra em que pôr os pés me fallecia,
    Ar para respirar se me negava.

Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui
grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores
tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e
que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem
fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando
a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe
emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo
embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens,
recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso
requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura.

Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão
perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem
nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de
maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu
valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de
tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para
terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E
nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como
dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para
Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a
Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando
meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu
intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus,
como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela
honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão
passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos
ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados,
que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida:
do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e
satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria
e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos
cruzados foi vendida.

Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso
de Luis de Camões_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do
Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço,
cheia de erudição e philosophia.

No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que
chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha
todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se
restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que
ainda não podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Camões que nella
encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas
succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua
guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle
expressamente nos diz (Egloga XI):

      Tinha lá para mim que a vida tinha
    Mais socegada cá e mais segura
    Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.
      Foi de outro parecer minha ventura:
    Discordias sos achei, achei dureza
    Em lugar de socêgo e de brandura.
      Achei as boas leis da natureza
    Vencidas do interesse, e a gente cega
    Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.
      Dizem que quando o mar bonança nega,
    Correndo vai aquella nao mor p'rigo.
    Que á desejada terra mais se chega.
      Assi me aconteceo a mi comigo:
    Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
    Triste ao perto, e tratado como imigo.

E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O
escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama,
poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os
commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido
necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou
cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos
contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de
não louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e
não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de
publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de
succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois
que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim
do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar
aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78):

                   Mas oh cego!
    Eu que commetto insano e temerario
    Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego,
    Por caminho tão arduo longo e vario!
    Vosso favor invoco, que navego
    Por alto mar com vento tão contrario,
    Que, se não me ajudais, hei grande medo
    Que o meu fraco batel se alague cedo.

e depois (Estancia 83):

    Pois logo em tantos males he forçado
    Que se vosso favor me não falleça,
    Principalmente aqui, que sou chegado
    Onde feitos diversos engrandeça.
    Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado
    Que não o empregue em quem o não mereça,
    Nem por lisonja louve algum subido,
    Sob pena de não ser agradecido.

Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama
posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria,
cuidou em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque
dous annos esteve sem sahir com elle á luz.

Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina,
sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia
originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque,
estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de
1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do
poeta, ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte
revelação: _Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que
poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas
suas cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas._ E no
mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vão impressas, as tinha elle
emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande
familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da
Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho
dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe
fizesse as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de
toda a duvida que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys,
e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82):

              Porque eu, Saturno e Jano,
    Jupiter, Juno, somos fabulosos,
    Fingidos de mortal e cego engano;

a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias 108 e
seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II,
Estancia 12) são obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade não
he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he
permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente!

Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572
sahio finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como
queria o poeta, mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e
póde ser que os muitos e notaveis erros de impressão que desfigurão as
duas edições que nesse mesmo anno se fizerão, procedessem de que
desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, não quizesse
cansar-se com a revisão das provas.

Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe
fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita
de tirar para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na
Corte. Mas se assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque
no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que
parece) com um exemplar do seu Poema, por occasião de uma setta que o
Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se
dignasse dar-lhe algum premio, se não por justiça, ao menos por
caridade, como se vê dos seguintes versos:

    Estes humildes versos, que pregão
    São destes vossos Reinos com verdade,
    Tenhão, se não merecem galardão,
    Favor sequer da Regia Magestade:
    Assim tenhais de quem ja tendes tanto,
    Com o nome e reliquia, favor santo.

E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os
monstros[2] que se havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e
pouco depois o arrastárão a sepultar comsigo a patria nos campos de
Alcacerquivir, tão célebres por essa desgraça nossa, se enraivecêrão contra
o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar áquelle Principe,
tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades rezar no côro, e tiverão
arte para inutilizar a mercê feita; de sorte que o infeliz, cansado de
andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que
jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$
reis em 15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della.
Por outra parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os
commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus
foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte,
não obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava
mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte:

    Oh inimigos maos da natureza,
    Que injuriais a propria geração!
    Degenerantes, baixos! Que fraqueza
    De esforço, de saber e de razão
    Vos fez que a clara estirpe, que se préza
    De leal, fido e limpo coração,
    Esqueçais dessa sorte? Mas respeito,
    Que este dos nobres he o menor defeito.

E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido
a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de
Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o
sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de
Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia
todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em
quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que
desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes
achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus
eris._ E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella
incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no
mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza.

Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores
contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos
Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha
tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete
Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa
tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me
não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis.
_Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses
versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e
agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso
me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a
pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar_. Sabía este
Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos
sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma
esmola.

Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom
Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão
levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse
testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava
homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e
magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma
Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios
promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não
convertesse o canto em chôro.

Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito
peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco
depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe
morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus
dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á
sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que
morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois
da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como
todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por
caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida
que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa
casa, ahi achão mortalha e sepultura.

Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido
sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos
tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do
pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da
justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates
contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte
debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade
de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos
tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi
mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não
abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e
depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em
degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia,
cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a
submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer
elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o
que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte
muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em
cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas,
conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o
merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas
pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que
não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder
comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras
de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de
Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a
impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a
Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o
denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre
Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que
mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um
folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:

_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden
de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el
Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y
judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y
profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico
ornamento de la Academia Española en este genero de Letras._

Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos
aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja
com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este
grande homem e todos os que o ousárão louvar:

_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento
no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa
cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son
enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los
celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á
entender su engaño..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del
Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios
contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y
á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le
persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á
imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden
viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió
en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba
escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la
representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por
quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los
Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista._

_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si
bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por
ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un
Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria
de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo
ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á
una mano publican la excelencia de sus obras._

Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima
censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo
mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos
de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas
as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre
Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e
inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com
calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não
sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de
derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez
umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes
se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer
outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta,
cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua
natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu
Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas
cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a
Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V:

    Quando uma noute estando descuidados
    Na cortadora prôa vigiando.

Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia!
Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião
indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão
vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume
dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes
não se devem perder) ter sempre de noute vigias de prôa. E quem assim sabia
a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões?

Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria
nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação,
e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem
recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas
impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della
como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que
quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos
vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o
perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos
Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo
cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos
possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas
que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males
particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era
conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem
dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e
populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de
homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos
Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha
algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para
que os cidadãos que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel
(Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste
desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os
Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de _nação barbara e
inculta_, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por
lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias
se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus
compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem
apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil
preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos
ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem
lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse.

Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros,
que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e
grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da
fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na
conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os
amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos
perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna
conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da
morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer,
que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna
representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me
ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males,
pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi
ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e
desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou
em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della,
como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos
parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que
nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira
aquellas palavras: _Ingrata patria, não possuirás meus ossos_. Porque
julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua
patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na
sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento,
vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom
Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma
carta onde se lião estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e
aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de
morrer nella, quiz tambem morrer com ella._

Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta
Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos
com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em que Dom Gonçalo
Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e
nella gravar este letreiro:

                  AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES,
                         PRINCIPE
                  DOS POETAS DE SEU TEMPO.
               VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE,
                      E ASSI MORREO
                     ANNO DE MDLXXIX.
              ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR
             DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE
               NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA.

Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da
Camara o seguinte Epitaphio:

    _Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus,
      Hic jacet heroe carmine Virgilius.
    Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam.
      Unam nobilitant Mars et Apollo manum.
    Castalium fontem traxit modulamine: at Indo
      Et Gangi telis obstupefecit aquas.
    India mirata est, quando aurea carmina, lucrum
      Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit.
    Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense:
      At plus, dum calamo bellicosa facta refert.
    Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam:
      Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.
    Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni
      Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._

Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu
correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e
quando a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse
licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um
tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da
Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta,
talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão
grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno
de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio
os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida
erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de
tão insigne varão.



RIMAS.



RIMAS.


SONETOS.


I.

    Em quanto quiz fortuna que tivesse
    Esperança de algum contentamento,
    O gosto de hum suave pensamento
    Me fez que seus effeitos escrevesse.
      Porém temendo Amor que aviso désse
    Minha escriptura a algum juizo isento,
    Escureceo-me o engenho co'o tormento,
    Para que seus enganos não dissesse.
      Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
    A diversas vontades! quando lerdes
    N'hum breve livro casos tão diversos;
      (Verdades puras são, e não defeitos)
    Entendei que segundo o amor tiverdes,
    Tereis o entendimento de meus versos.


II.

    Eu cantarei de amor tão docemente,
    Por huns termos em si tão concertados,
    Que dous mil accidentes namorados
    Faça sentir ao peito que não sente.
      Farei que Amor a todos avivente,
    Pintando mil segredos delicados,
    Brandas iras, suspiros magoados,
    Temerosa ousadia, e pena, ausente.
      Tambem, Senhora, do desprêzo honesto
    De vossa vista branda e rigorosa,
    Contentar-me-hei dizendo a menor parte.
      Porém para cantar de vosso gesto
    A composição alta e milagrosa,
    Aqui falta saber, engenho, e arte.


III.

    Com grandes esperanças ja cantei,
    Com que os deoses no Olympo conquistára;
    Depois vim a chorar porque cantára,
    E agora chóro ja porque chorei.
      Se cuido nas passadas que ja dei,
    Custa-me esta lembrança só tão cara,
    Que a dor de ver as mágoas que passára,
    Tenho por a mór mágoa que passei.
      Pois logo, se está claro que hum tormento
    Dá causa que outro na alma se accrescente,
    Ja nunca posso ter contentamento.
      Mas esta phantasia se me mente?
    Oh ocioso e cego pensamento!
    Ainda eu imagino em ser contente?


IV.

    Despois que quiz Amor que eu só passasse
    Quanto mal ja por muitos repartio,
    Entregou-me á Fortuna, porque vio
    Que não tinha mais mal que em mi mostrasse.
      Ella, porque do Amor se avantajasse
    Na pena a que elle só me reduzio,
    O que para ninguem se consentio,
    Para mim consentio que se inventasse.
      Eis-me aqui vou com vário som gritando.
    Copioso exemplario para a gente
    Que destes dous tyrannos he sujeita;
      Desvarios em versos concertando.
    Triste quem seu descanso tanto estreita,
    Que deste tão pequeno está contente!


V.

    Em prisões baixas fui hum tempo atado;
    Vergonhoso castigo de meus erros:
    Inda agora arrojando levo os ferros,
    Que a morte, a meu pezar, t[~e]e ja quebrado.
      Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
    Que Amor não quer cordeiros nem bezerros;
    Vi mágoas, vi miserias, vi desterros:
    Parece-me que estava assi ordenado.
      Contentei-me com pouco, conhecendo
    Que era o contentamento vergonhoso,
    Só por ver que cousa era viver ledo.
      Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo,
    A Morte cega, e o Caso duvidoso
    Me fizerão de gostos haver medo.


VI.

    Illustre e digno ramo dos Menezes,
    Aos quaes o providente e largo Ceo
    (Que errar não sabe) em dote concedeo,
    Rompessem os Maometicos arnezes;
      Desprezando a Fortuna e seus revezes,
    Ide para onde o Fado vos moveo;
    Erguei flammas no mar alto Erythreo,
    E sereis nova luz aos Portuguezes.
      Opprimi com tão firme e forte peito
    O Pirata insolente, que se espante
    E trema Taprobana e Gedrosia.
      Dai nova causa á côr do Arabo Estreito;
    Assi que o Roxo mar, daqui em diante
    O seja só com sangue de Turquia.


VII.

    No tempo que de amor viver sohia,
    Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
    Antes agora livre, agora atado,
    Em várias flammas variamente ardia.
      Que ardesse n'hum só fogo não queria
    O Ceo porque tivesse exprimentado
    Que nem mudar as causas ao cuidado
    Mudança na ventura me faria.
      E se algum pouco tempo andava isento,
    Foi como quem co'o pêzo descansou
    Por tornar a cansar com mais alento.
      Louvado seja Amor em meu tormento,
    Pois para passatempo seu tomou
    Este meu tão cansado soffrimento!


VIII.

    Amor, que o gesto humano na alma escreve,
    Vivas faiscas me mostrou hum dia,
    Donde hum puro crystal se derretia
    Por entre vivas rosas e alva neve.
      A vista, que em si mesma não se atreve,
    Por se certificar do que alli via,
    Foi convertida em fonte, que fazia
    A dor ao soffrimento doce e leve.
      Jura Amor, que brandura de vontade
    Causa o primeiro effeito; o pensamento
    Endoudece, se cuida que he verdade.
      Olhai como Amor gera, em hum momento,
    De lagrimas de honesta piedade
    Lagrimas de immortal contentamento.


IX.

    Tanto de meu estado me acho incerto,
    Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
    Sem causa juntamente chóro e rio;
    O mundo todo abarco, e nada apérto.
      He tudo quanto sinto hum desconcêrto:
    Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio;
    Agora espero, agora desconfio;
    Agora desvarío, agora acérto.
      Estando em terra, chego ao ceo voando;
    N'hum'hora acho mil annos, e he de geito
    Que em mil annos não posso achar hum'hora.
      Se me pergunta alguem, porque assi ando,
    Respondo, que não sei: porém suspeito
    Que só porque vos vi, minha Senhora.


X.

    Transforma-se o amador na cousa amada,
    Por virtude do muito imaginar:
    Não tenho logo mais que desejar,
    Pois em mim tenho a parte desejada.
      Se nella está minha alma transformada,
    Que mais deseja o corpo de alcançar?
    Em si somente póde descansar,
    Pois com elle tal alma está liada.
      Mas esta linda e pura semidea,
    Que como o accidente em seu sojeito,
    Assi com a alma minha se confórma;
      Está no pensamento como idea;
    E o vivo e puro amor de que sou feito,
    Como a materia simples busca a fórma.


XI.

    Passo por meus trabalhos tão isento
    De sentimento grande nem pequeno,
    Que só por a vontade com que peno
    Me fica Amor devendo mais tormento.
      Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
    Temperando a triaga co'o veneno,
    Que do penar a ordem desordeno,
    Porque não mo consente o soffrimento.
      Porém se esta fineza o Amor sente
    E pagar-me meu mal com mal pretende,
    Torna-me com prazer como ao sol neve.
      Mas se me vê co'os males tão contente,
    Faz-se avaro da pena, porque entende
    Que quanto mais me paga, mais me deve.


XII.

    Em flor vos arrancou, de então crescida,
    (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte
    Donde fazendo andava o braço forte
    A fama dos antiguos esquecida.
      Huma só razão tenho conhecida
    Com que tamanha mágoa se conforte:
    Que se no Mundo havia honrada morte,
    Não podieis vós ter mais larga vida.
      Se meus humildes versos podem tanto
    Que co'o desejo meu se iguale a arte,
    Especial materia me sereis.
      E celebrado em triste e longo canto,
    Se morrestes nas mãos do fero Marte,
    Na memoria das gentes vivireis.


XIII.

    N'hum jardim adornado de verdura,
    Que esmaltavão por cima várias flores,
    Entrou hum dia a deosa dos amores,
    Com a deosa da caça e da espessura.
      Diana tomou logo h[~u]a rosa pura,
    Venus hum roxo lyrio, dos melhores;
    Mas excedião muito ás outras flores
    As violas na graça e formosura.
      Perguntão a Cupido, que alli estava,
    Qual de aquellas tres flores tomaria
    Por mais suave e pura, e mais formosa.
      Sorrindo-se o menino lhes tornava:
    Todas formosas são; mas eu queria
    Viola antes que lyrio, nem que rosa.


XIV.

    Todo animal da calma repousava,
    Só Liso o ardor della não sentia;
    Que o repouso do fogo, em que elle ardia,
    Consistia na Nympha que buscava.
      Os montes parecia que abalava
    O triste som das mágoas que dizia:
    Mas nada o duro peito commovia,
    Que na vontade de outro posto estava.
      Cansado ja de andar por a espessura,
    No tronco de huma faia, por lembrança,
    Escreve estas palavras de tristeza:
      Nunca ponha ninguem sua esperança
    Em peito feminil, que de natura
    Somente em ser mudavel t[~e]e firmeza.


XV.

    Busque Amor novas artes, novo engenho
    Para matar-me, e novas esquivanças;
    Que não póde tirar-me as esperanças,
    Pois mal me tirará o que eu não tenho.
      Olhai de que esperanças me mantenho!
    Vêde que perigosas seguranças!
    Pois não temo contrastes nem mudanças,
    Andando em bravo mar, perdido o lenho.
      Mas com quanto não póde haver desgôsto
    Onde esperança falta, lá me esconde
    Amor hum mal, que mata e não se vê.
      Que dias ha que na alma me t[~e]e posto
    Hum não sei que, que nasce não sei onde;
    Vem não sei como; e doe não sei porque.


XVI.

    Quem vê, Senhora, claro e manifesto
    O lindo ser de vossos olhos bellos,
    Se não perder a vista só com vellos,
    Ja não paga o que deve a vosso gesto.
      Este me parecia preço honesto;
    Mas eu, por de vantagem merecellos,
    Dei mais a vida e alma por querellos;
    Donde ja me não fica mais de resto.
      Assi que alma, que vida, que esperança,
    E que quanto for meu, he tudo vosso:
    Mas de tudo o interêsse eu só o levo.
      Porque he tamanha bem-aventurança
    O dar-vos quanto tenho, e quanto posso,
    Que quanto mais vos pago, mais vos devo.


XVII.

    Quando da bella vista e doce riso
    Tomando estão meus olhos mantimento,
    Tão elevado sinto o pensamento,
    Que me faz ver na terra o Paraiso.
      Tanto do bem humano estou diviso,
    Que qualquer outro bem julgo por vento:
    Assi que em termo tal, segundo sento,
    Pouco vem a fazer quem perde o siso.
      Em louvar-vos, Senhora, não me fundo;
    Porque quem vossas graças claro sente,
    Sentirá que não póde conhecellas.
      Pois de tanta estranheza sois ao mundo,
    Que não he de estranhar, Dama excellente,
    Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas.


XVIII.

    Doces lembranças da passada gloria,
    Que me tirou fortuna roubadora,
    Deixai-me descansar em paz hum'hora,
    Que comigo ganhais pouca victoria.
      Impressa tenho na alma larga historia
    Deste passado bem, que nunca fôra;
    Ou fôra, e não passára: mas ja agora
    Em mi não póde haver mais que a memoria.
      Vivo em lembranças, morro de esquecido
    De quem sempre devêra ser lembrado,
    Se lhe lembrára estado tão contente.
      Oh quem tornar pudéra a ser nascido!
    Soubera-me lograr do bem passado,
    Se conhecer soubera o mal presente.


XIX.

    Alma minha gentil, que te partiste
    Tão cedo desta vida descontente,
    Repousa lá no Ceo eternamente,
    E viva eu cá na terra sempre triste.
      Se lá no assento Ethereo, onde subiste,
    Memoria desta vida se consente,
    Não te esqueças de aquelle amor ardente,
    Que ja nos olhos meus tão puro viste.
      E se vires que póde merecer-te
    Alg[~u]a cousa a dor que me ficou
    Da mágoa, sem remedio, de perder-te;
      Roga a Deos que teus annos encurtou,
    Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    Quão cedo de meus olhos te levou.


XX.

    N'hum bosque, que das Nymphas se habitava,
    Sibella, Nympha linda, andava hum dia;
    E subida em huma árvore sombria,
    As amarellas flores apanhava.
      Cupido, que alli sempre costumava
    A vir passar a sésta á sombra fria,
    Em hum ramo arco e settas, que trazia,
    Antes que adormecesse, pendurava.
      A Nympha, como idoneo tempo víra
    Para tamanha empresa, não dilata;
    Mas com as armas foge ao moço esquivo.
      As settas traz nos olhos, com que tira.
    Ó Pastores! fugi, que a todos mata,
    Senão a mim, que de matar-me vivo.


XXI.

    Os Reinos e os Imperios poderosos,
    Que em grandeza no mundo mais crescêrão;
    Ou por valor de esfôrço florecêrão,
    Ou por Barões nas letras espantosos.
      Teve Grecia Themistocles famosos;
    Os Scipiões a Roma engrandecêrão;
    Doze Pares a França gloria derão;
    Cides a Hespanha, e Laras bellicosos.
      Ao nosso Portugal, que agora vemos
    Tão differente de seu ser primeiro,
    Os vossos derão honra e liberdade.
      E em vós, grão successor e novo herdeiro
    Do Braganção Estado, ha mil extremos
    Iguaes ao sangue, e móres que a idade.


XXII.

    De vós me parto, ó vida, e em tal mudança
    Sinto vivo da morte o sentimento.
    Não sei para que he ter contentamento,
    Se mais ha de perder quem mais alcança.
      Mas dou-vos esta firme segurança:
    Que postoque me mate o meu tormento,
    Por as aguas do eterno esquecimento
    Segura passará minha lembrança.
      Antes sem vós meus olhos se entristeção,
    Que com cousa outra alguma se contentem:
    Antes os esqueçais, que vos esqueção.
      Antes nesta lembrança se atormentem,
    Que com esquecimento desmereção
    A gloria que em soffrer tal pena sentem.


XXIII.

    Chara minha inimiga, em cuja mão
    Poz meus contentamentos a ventura,
    Faltou-te a ti na terra sepultura,
    Porque me falte a mi consolação.
      Eternamente as águas lograrão
    A tua peregrina formosura:
    Mas em quanto me a mim a vida dura,
    Sempre viva em minha alma te acharão.
      E se meus rudos versos podem tanto,
    Que possão prometter-te longa historia
    De aquelle amor tão puro e verdadeiro;
      Celebrada serás sempre em meu canto:
    Porque em quanto no mundo houver memoria,
    Será a minha escriptura o teu letreiro.


XXIV.

    Aquella triste e leda madrugada,
    Cheia toda de mágoa e de piedade,
    Em quanto houver no mundo saudade
    Quero que seja sempre celebrada.
      Ella só, quando amena e marchetada
    Sahia, dando á terra claridade,
    Vio apartar-se de huma outra vontade,
    Que nunca poderá ver-se apartada;
      Ella só vio as lagrimas em fio,
    Que de huns e de outros olhos derivadas,
    Juntando-se, formárão largo rio;
      Ella ouvio as palavras magoadas,
    Que puderão tornar o fogo frio,
    E dar descanço ás almas condemnadas.


XXV.

    Se quando vos perdi, minha esperança,
    A memoria perdêra juntamente
    Do doce bem passado e mal presente,
    Pouco sentira a dor de tal mudança.
      Mas Amor, em quem tinha confiança,
    Me representa mui miudamente
    Quantas vezes me vi ledo e contente,
    Por me tirar a vida esta lembrança.
      De cousas de que apenas hum signal
    Havia, porque as dei ao esquecimento,
    Me vejo com memorias perseguido.
      Ah dura estrella minha! Ah grão tormento!
    Que mal póde ser mor, que no meu mal
    Ter lembranças do bem que he ja passado?


XXVI.

    Em formosa Lethea se confia,
    Por onde vaidade tanta alcança,
    Que, tornada em soberba a confiança,
    Com os deoses celestes competia.
      Porque não fosse avante esta ousadia,
    (Que nascem muitos erros da tardança)
    Em effeito puzerão a vingança
    Que tamanha doudice merecia.
      Mas Oleno, perdido por Lethea,
    Não lhe soffrendo Amor que supportasse
    Duro castigo em tanta formosura,
      Quiz a pena tomar da culpa alhea:
    Mas, porque a Morte Amor não apartasse,
    Ambos tornados são em pedra dura.


XXVII.

    Males, que contra mim vos conjurastes,
    Quanto ha de durar tão duro intento?
    Se dura, porque dure meu tormento,
    Baste-vos quanto ja me atormentastes.
      Mas se assi porfiais, porque cuidastes
    Derribar o meu alto pensamento,
    Mais póde a causa delle, em que o sustento,
    Que vós, que della mesma o ser tomastes.
      E pois vossa tenção com minha morte
    He de acabar o mal destes amores,
    Dai ja fim a tormento tão comprido.
      Assi de ambos contente será a sorte;
    Em vós por acabar-me, vencedores,
    Em mim porque acabei de vós vencido.


XXVIII.

    Está-se a Primavera trasladando
    Em vossa vista deleitosa e honesta;
    Nas bellas faces, e na boca e testa,
    Cecens, rosas, e cravos debuxando.
      De sorte, vosso gesto matizando,
    Natura quanto póde manifesta,
    Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,
    Se estão de vós, Senhora, namorando.
      Se agora não quereis que quem vos ama
    Possa colher o fructo destas flores,
    Perderão toda a graça os vossos olhos.
      Porque pouco aproveita, linda Dama,
    Que semeasse o Amor em vós amores,
    Se vossa condição produze abrolhos.


XXIX.

    Sete annos de pastor Jacob servia
    Labão, pae de Raquel, serrana bella:
    Mas não servia ao pae, servia a ella,
    Que a ella só por premio pertendia.
      Os dias na esperança de hum só dia
    Passava, contentando-se com vella:
    Porém o pae, usando de cautella,
    Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.
      Vendo o triste Pastor que com enganos
    Assi lhe era negada a sua Pastora,
    Como se a não tivera merecida;
      Começou a servir outros sete annos,
    Dizendo: Mais servíra, senão fôra
    Para tão longo amor tão curta a vida.


XXX.

    Está o lascivo e doce passarinho
    Com o biquinho as pennas ordenando;
    O verso sem medida, alegre e brando,
    Despedindo no rustico raminho.
      O cruel caçador, que do caminho
    Se vem callado e manso desviando,
    Com prompta vista a setta endireitando,
    Lhe dá no Estygio Lago eterno ninho.
      Desta arte o coração, que livre andava,
    (Postoque ja de longe destinado)
    Onde menos temia, foi ferido.
      Porque o frecheiro cego me esperava,
    Para que me tomasse descuidado,
    Em vossos claros olhos escondido.


XXXI.

    Pede o desejo, Dama, que vos veja:
    Não entende o que pede; está enganado.
    He este amor tão fino e tão delgado,
    Que quem o t[~e]e, não sabe o que deseja.
      Não ha cousa, a qüal natural seja,
    Que não queira perpétuo o seu estado.
    Não quer logo o desejo o desejado,
    Só porque nunca falte onde sobeja.
      Mas este puro affecto em mim se dana:
    Que, como a grave pedra t[~e]e por arte
    O centro desejar da natureza;
      Assi meu pensamento por a parte,
    Que vai tomar de mi, terreste e humana,
    Foi, Senhora, pedir esta baixeza.


XXXII.

    Porque quereis, Senhora, que offereça
    A vida a tanto mal como padeço?
    Se vos nasce do pouco que eu mereço,
    Bem por nascer está quem vos mereça.
      Entendei que por muito que vos peça,
    Poderei merecer quanto vos peço;
    Pois não consente amor que em baixo preço
    Tão alto pensamento se conheça.
      Assi que a paga igual de minhas dores
    Com nada se restaura; mas devêsma
    Por ser capaz de tantos desfavores.
      E se o valor de vossos amadores
    Houver de ser igual comvosco mesma,
    Vós só comvosco mesma andai de amores.


XXXIII.

    Se tanta pena tenho merecida
    Em pago de soffrer tantas durezas;
    Provai, Senhora, em mi vossas cruezas,
    Que aqui tendes huma alma offerecida.
      Nella experimentai, se sois servida,
    Desprezos, desfavores e asperezas;
    Que móres soffrimentos e firmezas
    Sustentarei na guerra desta vida.
      Mas contra vossos olhos quaes serão?
    He preciso que tudo se lhes renda;
    Mas porei por escudo o coração.
      Porque em tão dura e aspera contenda
    He bem que, pois não acho defensão,
    Com meter-me nas lanças me defenda.


XXXIV.

    Quando o sol encoberto vai mostrando
    Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
    Ao longo de huma praia deleitosa
    Vou na minha inimiga imaginando.
      Aqui a vi os cabellos concertando;
    Alli co'a mão na face, tão formosa;
    Aqui fallando alegre, alli cuidosa;
    Agora estando quêda, agora andando.
      Aqui esteve sentada, alli me vio,
    Erguendo aquelles olhos, tão isentos;
    Commovida aqui hum pouco, alli segura.
      Aqui se entristeceo, alli se rio:
    E, em fim, nestes cansados pensamentos
    Passo esta vida vãa, que sempre dura.


XXXV.

    Hum mover de olhos, brando e piedoso,
    Sem ver de que; hum riso brando e honesto,
    Quasi forçado; hum doce e humilde gesto,
    De qualquer alegria duvidoso:
      Hum despejo quieto e vergonhoso;
    Hum repouso gravissimo e modesto;
    Huma pura bondade, manifesto
    Indicio da alma, limpo e gracioso:
      Hum encolhido ousar; huma brandura;
    Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno;
    Hum longo e obediente soffrimento:
      Esta foi a celeste formosura
    Da minha Circe, e o magico veneno
    Que pôde transformar meu pensamento.


XXXVI.

    Tomou-me vossa vista soberana
    Adonde tinha as armas mais á mão,
    Por mostrar a quem busca defensão
    Contra esses bellos olhos, que se engana.
      Por ficar da victoria mais ufana,
    Deixou-me armar primeiro da razão.
    Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão,
    Que contra o Ceo não val defensa humana.
      Com tudo, se vos tinha promettido
    O vosso alto destino esta victoria,
    Ser-vos ella bem pouca está entendido.
      Pois, indaque eu me achasse apercebido,
    Não levais de vencer-me grande gloria,
    Eu a levo maior de ser vencido.


XXXVII.

    Não passes, caminhante. Quem me chama?
    H[~u]a memoria nova e nunca ouvida,
    De hum que trocou finita e humana vida
    Por divina, infinita, e clara fama.
      Quem he, que tão gentil louvor derrama?
    Quem derramar seu sangue não duvida,
    Por seguir a bandeira esclarecida
    De hum capitão de Christo que mais ama.
      Ditoso fim, ditoso sacrificio,
    Que a Deos se fez e ao mundo juntamente!
    Pregoando direi tão alta sorte.
      Mais poderás contar a toda a gente
    Que sempre deo na vida claro indicio
    De vir a merecer tão santa morte.


XXXVIII.

    Formosos olhos, que na idade nossa
    Mostrais do Ceo certissimos signais,
    Se quereis conhecer quanto possais,
    Olhai-me a mim, que sou feitura vossa.
      Vereis que do viver me desapossa
    Aquelle riso com que a vida dais:
    Vereis como de Amor não quero mais,
    Por mais que o tempo corra, o damno possa.
      E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes,
    Como em hum claro espelho, alli vereis
    Tambem a vossa angelica e serena.
      Mas eu cuido que, só por me não verdes,
    Ver-vos em mim, Senhora, não quereis:
    Tanto gôsto levais de minha pena!


XXXIX.

    O fogo que na branda cera ardia,
    Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo,
    Se accendeo de outro fogo do desejo
    Por alcançar a luz que vence o dia.
      Como de dous ardores se encendia,
    Da grande impaciencia fez despejo,
    E remettendo com furor sobejo,
    Vos foi beijar na parte onde se via.
      Ditosa aquella flamma que se atreve
    A apagar seus adores e tormentos
    Na vista a quem o sol temores deve!
      Namorão-se, Senhora, os Elementos
    De vós, e queima o fogo aquella neve
    Que queima corações e pensamentos.


XL.

    Alegres campos, verdes arvoredos,
    Claras e frescas águas de crystal,
    Que em vós os debuxais ao natural,
    Discorrendo da altura dos rochedos:
      Sylvestres montes, asperos penedos
    Compostos de concêrto desigual;
    Sabei que sem licença de meu mal
    Ja não podeis fazer meus olhos ledos.
      E pois ja me não vêdes como vistes,
    Não me alegrem verduras deleitosas,
    Nem águas que correndo alegres vem.
      Semearei em vós lembranças tristes,
    Regar-vos-hei com lagrimas saudosas,
    E nascerão saudades de meu bem.


XLI.

    Quantas vezes do fuso se esquecia
    Daliana, banhando o lindo seio,
    Outras tantas de hum aspero receio
    Salteado Laurenio a côr perdia.
      Ella, que a Sylvio mais que a si queria,
    Para podê-lo ver não tinha meio.
    Ora como curára o mal alheio
    Quem o seu mal tão mal curar podia?
      Elle, que vio tão clara esta verdade,
    Com soluços dizia (que a espessura
    Inclinavão, de mágoa, a piedade):
      Como póde a desordem da natura
    Fazer tão differentes na vontade
    Aos que fez tão conformes na ventura?


XLII.

    Lindo e subtil trançado, que ficaste
    Em penhor do remedio que mereço,
    Se só comtigo, vendo-te, endoudeço,
    Que fôra co'os cabellos que apertaste?
      Aquellas tranças de ouro que ligaste,
    Que os raios do sol t[~e]e em pouco preço,
    Não sei se ou para engano do que peço,
    Ou para me matar as desataste.
      Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
    E por satisfação de minhas dores,
    Como quem não t[~e]e outra, hei de tomar-te.
      E se não for contente o meu desejo,
    Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores
    Por o todo tambem se toma a parte.


XLIII.

    O cysne quando sente ser chegada
    A hora que põe termo á sua vida,
    Harmonia maior, com voz sentida,
    Levanta por a praia inhabitada.
      Deseja lograr vida prolongada,
    E della está chorando a despedida:
    Com grande saudade da partida,
    Celebra o triste fim desta jornada.
      Assi, Senhora minha, quando eu via
    O triste fim que davão meus amores,
    Estando posto ja no extremo fio;
      Com mais suave accento de harmonia
    Descantei por os vossos desfavores
    _La vuestra falsa fe, y el amor mio._


XLIV.

    Por os raros extremos que mostrou
    Em sábia Pallas, Venus em formosa,
    Diana em casta, Juno em animosa,
    Africa, Europa e Asia as adorou.
      Aquelle saber grande que juntou
    Esprito e corpo em liga generosa,
    Esta mundana máchina lustrosa,
    De sós quatro elementos fabricou.
      Mas fez maior milagre a natureza
    Em vós, Senhoras, pondo em cada h[~u]a
    O que por todas quatro repartio.
      A vós seu resplandor deo sol e l[~u]a:
    A vós com viva luz, graça e pureza,
    Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio.


XLV.

    Tomava Daliana por vingança
    Da culpa do pastor que tanto amava,
    Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava
    O êrro alheio, e perfida esquivança.
      A discrição segura, a confiança
    Das rosas que o seu rosto debuxava,
    O descontentamento lhas mudava;
    Que tudo muda huma aspera mudança.
      Gentil planta disposta em sêcca terra;
    Lindo fructo de dura mão colhido;
    Lembranças de outro amor, e fé perjura,
      Tornárão verde prado em serra dura;
    Interêsse enganoso, amor fingido,
    Fizerão desditosa a formosura.


XLVI.

    Grão tempo ha ja que soube da Ventura
    A vida que me tinha destinada;
    Que a longa experiencia da passada
    Me dava claro indicio da futura.
      Amor fero e cruel, Fortuna escura,
    Bem tendes vossa fôrça exprimentada:
    Assolai, destrui, não fique nada;
    Vingai-vos desta vida, que inda dura.
      Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
    E porque mais sentisse a falta della,
    De imagens impossiveis me mantinha.
      Mas vós, Senhora, pois que minha estrella
    Não foi melhor, vivei nesta alma minha;
    Que não t[~e]e a Fortuna poder nella.


XLVII.

    Se somente hora alguma em vós piedade
    De tão longo tormento se sentíra,
    Amor sofrêra mal que eu me partíra
    De vossos olhos, minha Saudade.
      Apartei-me de vós, mas a vontade,
    Que por o natural na alma vos tira,
    Me faz crer que esta ausencia he de mentira;
    Porém venho a provar que he de verdade.
      Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento
    Lagrimas tristes tomarão vingança
    Nos olhos de quem fostes mantimento.
      Desta arte darei vida a meu tormento;
    Que, em fim, cá me achará minha lembrança
    Sepultado no vosso esquecimento.


XLVIII.

    Oh como se me alonga de anno em ano
    A peregrinação cansada minha!
    Como se encurta, e como ao fim caminha
    Este meu breve e vão discurso humano!
      Mingoando a idade vai, crescendo o dano;
    Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha:
    Se por experiencia se adivinha,
    Qualquer grande esperança he grande engano.
      Corro apoz este bem que não se alcança;
    No meio do caminho me fallece;
    Mil vezes caio, e perco a confiança.
      Quando elle foge, eu tardo; e na tardança,
    Se os olhos ergo a ver se inda apparece,
    Da vista se me perde, e da esperança.


XLIX.

    Ja he tempo, ja, que minha confiança
    Se desça de huma falsa opinião:
    Mas Amor não se rege por razão;
    Não posso perder, logo, a esperança.
      A vida si; que huma aspera mudança
    Não deixa viver tanto hum coração,
    E eu só na morte tenho a salvação:
    Si: mas quem a deseja não a alcança.
      Forçado he logo que eu espere e viva.
    Ali dura lei de Amor, que não consente
    Quietação n'hum'alma que he captiva!
      Se hei de viver, em fim, forçadamente,
    Para que quero a gloria fugitiva
    De huma esperança vãa que me atormente?


L.

    Amor, com a esperança ja perdida
    Teu soberano templo visitei:
    Por signal do naufragio que passei,
    Em lugar dos vestidos, puz a vida.
      Que mais queres de mi, pois destruida
    Me t[~e]es a gloria toda que alcancei?
    Não cuides de render-me; que não sei
    Tornar a entrar-me onde não ha sahida.
      Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança,
    Doces despojos de meu bem passado,
    Em quanto o quiz aquella que eu adoro.
      Nellas podes tomar de mi vingança:
    E se te queres inda mais vingado,
    Contenta-te co'as lagrimas que chóro.


LI.

    Apollo e as nove Musas, descantando
    Com a dourada lyra, me influião
    Na suave harmonia que fazião,
    Quando tomei a penna, começando:
      Ditoso seja o dia e hora, quando
    Tão delicados olhos me ferião!
    Ditosos os sentidos que sentião
    Estar-se em seu desejo traspassando!
      Assi cantava, quando Amor virou
    A roda á esperança, que corria
    Tão ligeira, que quasi era invisibil.
      Converteo-se-me em noite o claro dia;
    E se alguma esperança me ficou,
    Será de maior mal, se for possibil.


LII.

    Lembranças saudosas, se cuidais
    De me acabar a vida neste estado,
    Não vivo com meu mal tão enganado,
    Que não espere delle muito mais.
      De longo tempo ja me costumais
    A viver de algum bem desesperado:
    Ja tenho co'a Fortuna concertado
    De soffrer os tormentos que me dais.
      Atada ao remo tenho a paciencia
    Para quantos desgostos der a vida;
    Cuide quanto quizer o pensamento.
      Que pois não posso ter mais resistencia
    Para tão dura quéda, de subida,
    Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento.


LIII.

    Apartava-se Nise de Montano,
    Em cuja alma, partindo-se, ficava;
    Que o pastor na memoria a debuxava,
    Por poder sustentar-se deste engano.
      Por huma praia do Indico Oceano
    Sôbre o curvo cajado se encostava,
    E os olhos por as águas alongava,
    Que pouco se doião de seu dano.
      Pois com tamanha mágoa e saudade,
    (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro,
    Por testimunhas tómo ceo e estrellas.
      Mas se em vós, ondas, mora piedade,
    Levai tambem as lagrimas que chóro,
    Pois assi me levais a causa dellas.


LIV.

    Quando vejo que meu destino ordena
    Que, por me exprimentar, de vós me aparte,
    Deixando de meu bem tão grande parte,
    Que a mesma culpa fica grave pena;
      O duro desfavor, que me condena,
    Quando por a memoria se reparte,
    Endurece os sentidos de tal arte
    Que a dor da ausencia fica mais pequena.
      Mas como póde ser que na mudança
    D'aquillo que mais quero, estê tão fóra
    De me não apartar tambem da vida?
      Eu refrearei tão aspera esquivança:
    Porque mais sentirei partir, Senhora,
    Sem sentir muito a pena da partida.


LV.

    Despois de tantos dias mal gastados,
    Despois de tantas noites mal dormidas,
    Despois de tantas lagrimas vertidas,
    Tantos suspiros vãos vãamente dados,
      Como não sois vós ja desenganados,
    Desejos, que de cousas esquecidas
    Quereis remediar mortaes feridas.
    Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados?
      Se não tivereis ja longa exp'riencia
    Das semrazões de Amor a quem servistes,
    Fraqueza fôra em vós a resistencia.
      Mas pois por vosso mal seus males vistes,
    Que o tempo não curou, nem larga ausencia,
    Qual bem delle esperais, desejos tristes?


LVI.

    Naiades, vós que os rios habitais,
    Que os saudosos campos vão regando,
    De meus olhos vereis estar manando
    Outros que quasi aos vossos são iguais.
      Dryades, que com setta sempre andais
    Os fugitivos cervos derribando,
    Outros olhos vereis, que triumphando
    Derribão corações, que valem mais.
      Deixai logo as aljavas e águas frias,
    E vinde, Nymphas bellas, se quereis,
    A ver como de huns olhos nascem mágoas.
      Notareis como em vão passão os dias;
    Mas em vão não vireis, porque achareis
    Nos seus as settas, e nos meus as ágoas.


LVII.

    Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança:
    Todo o mundo he composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.
      Continuamente vemos novidades,
    Differentes em tudo da esperança:
    Do mal ficão as mágoas na lembrança,
    E do bem (se algum houve) as saudades.
      O tempo cobre o chão de verde manto,
    Que ja coberto foi de neve fria,
    E em mi converte em chôro o doce canto.
      E afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudança faz de mor espanto,
    Que não se muda ja como sohia.


LVIII.

    Se as penas com que Amor tão mal me trata
    Permittirem que eu tanto viva dellas,
    Que veja escuro o lume das estrellas,
    Em cuja vista o meu se accende e mata;
      E se o tempo, que tudo desbarata,
    Seccar as frescas rosas, sem colhellas,
    Deixando a linda côr das tranças bellas
    Mudada de ouro fino em fina prata;
      Tambem, Senhora, então vereis mudado
    O pensamento e a aspereza vossa,
    Quando não sirva ja sua mudança.
      Ver-vos-heis suspirar por o passado,
    Em tempo quando executar-se possa
    No vosso arrepender minha vingança.


LIX.

    Quem jaz no grão sepulchro, que descreve
    Tão illustres signaes no forte escudo?
    Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo:
    Mas foi quem tudo pôde e tudo teve.
      Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve:
    Poz na guerra e na paz devido estudo.
    Mas quão pezado foi ao Mouro rudo,
    Tanto lhe seja agora a terra leve.
      Alexandro será? Ninguem se engane:
    Mais que o adquirir, o sustentar estima.
    Será Hadriano grão Senhor do mundo?
      Mais observante foi da Lei de cima.
    He Numa? Numa não, mas he Joane.
    De Portugal Terceiro sem segundo.


LX.

    Quem póde livre ser, gentil Senhora,
    Vendo-vos com juizo socegado,
    Se o menino, que de olhos he privado,
    Nas meninas dos vossos olhos mora?
      Alli manda, alli reina, alli namora,
    Alli vive das gentes venerado;
    Que o vivo lume, e o rosto delicado,
    Imagens são adonde Amor se adora.
      Quem vê que em branca neve nascem rosas
    Que crespos fios de ouro vão cercando,
    Se por entre esta luz a vista passa,
      Raios de ouro verá, que as duvidosas
    Almas estão no peito traspassando,
    Assi como hum crystal o sol traspassa.


LXI.

    Como fizeste, ó Porcia, tal ferida?
    Foi voluntaria, ou foi por innocencia?
    He que Amor fazer só quiz exp'riencia
    Se podia eu soffrer tirar-me a vida.
      E com teu proprio sangue te convida
    A que faças á morte resistencia?
    He que costume faço da paciencia,
    Porque o temor morrer me não impida.
      Pois porque estás comendo fogo ardente,
    Se a ferro te costumas? He que ordena
    Amor que morra, e pene juntamente.
      E t[~e]es a dor do ferro por pequena?
    Si; que a dor costumada não se sente;
    E não quero eu a morte sem a pena.


LXII.

    De tão divino accento em voz humana,
    De elegancias que são tão peregrinas,
    Sei bem que minhas obras não são dinas;
    Que o rudo engenho meu me desengana.
      Porém da vossa penna illustre mana
    Licor que vence as águas Caballinas;
    E comvosco do Tejo as flores finas
    Farão inveja á cópia Mantuana.
      E pois, a vós de si não sendo avaras,
    As filhas de Mnemosine formosa
    Partes dadas vos t[~e]e ao mundo claras;
      A minha Musa, e a vossa tão famosa,
    Ambas se podem nelle chamar raras,
    A vossa de alta, a minha de invejosa.


LXIII.

    Debaixo desta pedra está metido,
    Das sanguinosas armas descansado,
    O Capitão illustre e assinalado
    Dom Fernando de Castro esclarecido.
      Este por todo o Oriente tão temido,
    Este da propria inveja tão cantado,
    Este, em fim, raio de Mavorte irado,
    Aqui está agora em terra convertido.
      Alegra-te, ó guerreira Lusitania,
    Por est'outro Viriato que criaste,
    E chora a perda sua eternamente.
      Exemplo toma nisto de Dardania;
    Que se a Roma com elle anniquilaste,
    Nem por isso Carthago está contente.


LXIV.

    Que vençais no Oriente tantos Reis,
    Que de novo nos deis da India o Estado,
    Que escureçais a fama que hão ganhado
    Aquelles, que a ganhárão de infieis;
      Que vencidas tenhais da morte as leis,
    E que vencesseis tudo, em fim, armado,
    Mais he vencer na patria, desarmado,
    Os monstros e as Chimeras que venceis.
      Sôbre vencerdes, pois, tanto inimigo,
    E por armas fazer que sem segundo
    No mundo o vosso nome ouvido seja;
      O que vos dá mais fama inda no mundo,
    He vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
    Tantas ingratidões, tão grande inveja.


LXV.

    Vossos olhos, Senhora, que competem
    Com o sol em belleza e claridade,
    Enchem os meus de tal suavidade,
    Que em lagrimas de vê-los se derretem.
      Meus sentidos prostrados se submetem
    Assi cegos a tanta magestade;
    E da triste prisão, da escuridade,
    Cheios de medo, por fugir, remetem.
      Porém se então me vêdes por acêrto,
    Esse aspero desprêzo com que olhais
    Me torna a animar a alma enfraquecida.
      Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto!
    Que dareis co'hum favor que vós não dais,
    Quando com hum desprêzo me dais vida?


LXVI.

    Formosura do Ceo a nós descida,
    Que nenhum coração deixas isento,
    Satisfazendo a todo pensamento,
    Sem que sejas de algum bem entendida;
      Qual lingoa póde haver tão atrevida,
    Que tenha de louvar-te atrevimento,
    Pois a parte melhor do entendimento,
    No menos que em ti ha se vê perdida?
      Se em teu valor contemplo a menor parte,
    Vendo que abre na terra hum paraiso,
    Logo o engenho me falta, o esprito míngoa.
      Mas o que mais me impede inda louvar-te,
    He que quando te vejo perco a lingoa,
    E quando não te vejo perco o siso.


LXVII.

    Pois meus olhos não cansão de chorar
    Tristezas não cansadas de cansar-me;
    Pois não se abranda o fogo em que abrazar-me
    Pôde quem eu jamais pude abrandar;
      Não canse o cego Amor de me guiar
    Onde nunca de lá possa tornar-me;
    Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
    Em quanto a fraca voz me não deixar.
      E se em montes, se em prados, e se em valles
    Piedade mora alguma, algum amor
    Em feras, plantas, aves, pedras, agoas;
      Oução a longa historia de meus males,
    E curem sua dor com minha dor;
    Que grandes mágoas podem curar mágoas.


LXVIII.

    Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos,
    Porque a guarde sobpena de enojar-vos;
    Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos
    Fara que fique em lei de obedecer-vos.
      Tudo me defendei, senão só ver-vos
    E dentro na minha alma contemplar-vos;
    Que se assi não chegar a contentar-vos,
    Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.
      E se essa condição cruel e esquiva
    Que me deis lei de vida não consente,
    Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte.
      Se nem essa me dais, he bem que viva,
    Sem saber como vivo, tristemente;
    Mas contente estarei com minha sorte.


LXIX.

    Ferido sem ter cura perecia
    O forte e duro Télepho temido
    Por aquelle que na agua foi metido,
    E a quem ferro nenhum cortar podia.
      Quando a Apollineo Oraculo pedia
    Conselho para ser restituido,
    Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido
    Por quem o ja ferira, e sararia.
      Assi, Senhora, quer minha ventura;
    Que ferido de ver-vos claramente,
    Com tornar-vos a ver Amor me cura.
      Mas he tão doce vossa formosura,
    Que fico como o hydropico doente,
    Que bebendo lhe cresce mór seccura.


LXX.

    Na metade do ceo subido ardia
    O claro, almo Pastor, quando deixavão
    O verde pasto as cabras, e buscavão
    A frescura suave da agua fria.
      Com a folha das árvores, sombria,
    Do raio ardente as aves se amparavão:
    O módulo cantar, de que cessavão,
    Só nas roucas cigarras se sentia.
      Quando Liso pastor n'hum campo verde
    Natercia, crua Nympha, só buscava
    Com mil suspiros tristes que derrama.
      Porque te vás de quem por ti se perde,
    Para quem pouco te ama? (suspirava)
    E o eco lhe responde: Pouco te ama.


LXXI.

    Ja a roxa e branca Aurora destoucava
    Os seus cabellos de ouro delicados,
    E das flores os campos esmaltados
    Com crystallino orvalho borrifava;
      Quando o formoso gado se espalhava
    De Sylvio e de Laurente por os prados;
    Pastores ambos, e ambos apartados,
    De quem o mesmo amor não se apartava.
      Com verdadeiras lagrimas Laurente,
    Não sei, (dizia) ó Nympha delicada,
    Porque não morre ja quem vive ausente;
      Pois a vida sem ti não presta nada.
    Responde Sylvio: Amor não o consente:
    Que offende as esperanças da tornada.


LXXII.

    Quando de minhas mágoas a comprida
    Maginação os olhos me adormece,
    Em sonhos aquella alma me apparece,
    Que para mi foi sonho nesta vida.
      Lá n'huma soidade, onde estendida
    A vista por o campo desfallece,
    Corro apoz ella; e ella então parece
    Que mais de mi se alonga, compellida.
      Brado: Não me fujais, sombra benina.
    Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo,
    Como quem diz, que ja não póde ser)
      Torna a fugir-me: torno a bradar: _Dina_...
    E antes que diga _mene_, acórdo, e vejo
    Que nem hum breve engano posso ter.


LXXIII.

    Suspiros inflammados que cantais
    A tristeza com que eu vivi tão ledo,
    Eu morro e não vos levo, porque hei medo
    Que ao passar do Letheio vos percais.
      Escriptos para sempre ja ficais
    Onde vos mostrarão todos co'o dedo,
    Como exemplo de males; e eu concedo
    Que para aviso de outros estejais.
      Em quem, pois, virdes largas esperanças
    De Amor e da Fortuna, (cujos danos
    Alguns terão por bem-aventuranças)
      Dizei-lhe, que os servistes muitos anos,
    E que em Fortuna tudo são mudanças,
    E que em Amor não ha senão enganos.


LXXIV.

    Aquella fera humana que enriquece
    A sua presunçosa tyrannia
    Destas minhas entranhas, onde cria
    Amor hum mal, que falta quando crece;
      Se nella o Ceo mostrou (como parece)
    Quanto mostrar ao mundo pretendia,
    Porque de minha vida se injuria?
    Porque de minha morte se ennobrece?
      Ora, em fim, sublimai vossa victoria,
    Senhora, com vencer-me e captivar-me:
    Fazei della no mundo larga historia.
      Pois, por mais que vos veja atormentar-me,
    Ja me fico logrando desta gloria
    De ver que tendes tanta de matar-me.


LXXV.

    Ditoso seja aquelle que somente
    Se queixa de amorosas esquivanças;
    Pois por ellas não perde as esperanças
    De poder n'algum tempo ser contente.
      Ditoso seja quem estando ausente
    Não sente mais que a pena das lembranças;
    Porqu'inda que se tema de mudanças,
    Menos se teme a dor quando se sente.
      Ditoso seja, em fim, qualquer estado,
    Onde enganos, desprezos e isenção
    Trazem hum coração atormentado.
      Mas triste quem se sente magoado
    De erros em que não póde haver perdão
    Sem ficar na alma a mágoa do peccado.


LXXVI.

    Quem fosse acompanhando juntamente
    Por esses verdes campos a avezinha,
    Que despois de perder hum bem que tinha,
    Não sabe mais que cousa he ser contente!
      E quem fosse apartando-se da gente.
    Ella por companheira e por vizinha,
    Me ajudasse a chorar a pena minha,
    E eu a ella tambem a que ella sente!
      Ditosa ave! que ao menos, se a natura
    A seu primeiro bem não dá segundo,
    Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.
      Mas triste quem de longe quiz ventura
    Que para respirar lhe falte o vento,
    E para tudo, em fim, lhe falte o mundo!


LXXVII.

    O culto divinal se celebrava
    No templo donde toda criatura
    Louva o Feitor divino, que a feitura
    Com seu sagrado sangue restaurava.
      Amor alli, que o tempo me aguardava
    Onde a vontade tinha mais segura,
    Com huma rara e angelica figura
    A vista da razão me salteava.
      Eu crendo que o lugar me defendia
    De seu livre costume, não sabendo
    Que nenhum confiado lhe fugia;
      Deixei-me captivar: mas hoje vendo,
    Senhora, que por vosso me queria,
    Do tempo que fui livre me arrependo.


LXXVIII.

    Leda serenidade deleitosa,
    Que representa em terra hum paraiso;
    Entre rubis e perlas doce riso,
    Debaixo de ouro e neve côr de rosa;
      Presença moderada e graciosa,
    Onde ensinando estão despejo e siso
    Que se póde por arte e por aviso,
    Como por natureza, ser formosa;
      Falla de que ou ja vida, ou morte pende.
    Rara e suave, em fim, Senhora, vossa,
    Repouso na alegria comedido;
      Estas as armas são com que me rende
    E me captiva Amor; mas não que possa
    Despojar-me da gloria de rendido.


LXXIX.

    Bem sei, Amor, que he certo o que receio;
    Mas tu, porque com isso mais te apuras,
    De manhoso mo negas, e mo juras
    Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.
      A mão tenho metida no meu seio,
    E não vejo os meus damnos ás escuras:
    Porém porfias tanto e me asseguras,
    Que me digo que minto, e que me enleio.
      Nem somente consinto neste engano,
    Mas inda to agradeço, e a mi me nego
    Tudo o que vejo e sinto de meu dano.
      Oh poderoso mal a que me entrego!
    Que no meio do justo desengano
    Me possa inda cegar hum moço cego?


LXXX.

    Como quando do mar tempestuoso
    O marinheiro todo trabalhado,
    De hum naufragio cruel sahindo a nado,
    Só de ouvir fallar nelle está medroso:
      Firme jura que o vê-lo bonançoso
    Do seu lar o não tire socegado;
    Mas esquecido ja do horror passado,
    Delle a fiar se torna cobiçoso:
      Assi, Senhora, eu que da tormenta
    De vossa vista fujo, por salvar-me,
    Jurando de não mais em outra ver-me;
      Com a alma que de vós nunca se ausenta,
    Me tórno, por cobiça de ganhar-me,
    Onde estive tão perto de perder-me.


LXXXI.

    Amor he hum fogo que arde sem se ver;
    He ferida que doe e não se sente;
    He hum contentamento descontente;
    He dor que desatina sem doer;
      He hum não querer mais que bem querer;
    He solitario andar por entre a gente;
    He hum não contentar-se de contente;
    He cuidar que se ganha em se perder;
      He hum estar-se preso por vontade;
    He servir a quem vence o vencedor;
    He hum ter com quem nos mata lealdade.
      Mas como causar póde o seu favor
    Nos mortaes corações conformidade,
    Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?


LXXXII.

    Se pena por amar-vos se merece,
    Quem della estará livre? quem isento?
    E que alma, que razão, que entendimento
    No instante em que vos vê não obedece?
      Qual mor gloria na vida ja se offrece,
    Que a de occupar-se em vós o pensamento?
    Não só todo rigor, todo tormento
    Com ver-vos não magôa, mas se esquece.
      Porém se heis de matar a quem amando,
    Ser vosso de amor tanto só pretende,
    O mundo matareis, que todo he vosso.
      Em mi podeis, Senhora, ir começando,
    Pois bem claro se mostra e bem se entende
    Amar-vos quanto devo e quanto posso.


LXXXIII.

    Que levas, cruel Morte? Hum claro dia.
    A que horas o tomaste? Amanhecendo.
    E entendes o que levas? Não o entendo.
    Pois quem to faz levar? Quem o entendia.
      Seu corpo quem o goza? A terra fria.
    Como ficou sua luz? Anoitecendo.
    Lusitania que diz? Fica dizendo...
    Que diz? Não mereci a grã Maria.
      Mataste a quem a vio? Ja morto estava.
    Que discorre o Amor? Fallar não ousa.
    E quem o faz callar? Minha vontade.
      Na Corte que ficou? Saudade brava.
    Que fica lá que ver? Nenhuma cousa.
    Que gloria lhe faltou? Esta beldade.


LXXXIV.

    Ondados fios de ouro reluzente,
    Que agora da mão bella recolhidos,
    Agora sôbre as rosas esparzidos
    Fazeis que a sua graça se accrescente;
      Olhos, que vos moveis tão docemente,
    Em mil divinos raios incendidos,
    Se de cá me levais a alma e sentidos,
    Que fôra, se eu de vós não fôra ausente?
      Honesto riso, que entre a mór fineza
    De perlas e coraes nasce e apparece;
    Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse!
      Se imaginando só tanta belleza,
    De si com nova gloria a alma se esquece,
    Que será quando a vir? Ah quem a visse!


LXXXV.

    Foi ja n'hum tempo doce cousa amar,
    Em quanto me enganou huma esperança:
    O coração com esta confiança
    Todo se desfazia em desejar.
      Oh vão, caduco e debil esperar!
    Como, em fim, desengana huma mudança!
    Que quanto he mor a bem-aventurança,
    Tanto menos se crê que ha de durar.
      Quem ja se vio com gostos prosperado,
    Vendo-se brevemente em pena tanta,
    Razão t[~e]e de viver bem magoado.
      Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado,
    Não o magôa a pena, nem o espanta;
    Que mal se estranhára o costumado.


LXXXVI.

    Dos antigos Illustres, que deixárão
    Hum nome digno de immortal memoria,
    Ficou por luz do tempo a larga historia
    Dos feitos em que mais se avantajárão.
      Se com suas acções se cotejárão
    Mil vossas, cada huma tão notoria,
    Vencêra a menor dellas a mor gloria
    Que elles em tantos annos alcançárão.
      A gloria sua foi: ninguem lha tome:
    Seguindo cada qual varios caminhos
    Estatuas mereceo no heroico Templo.
      Vós honra Portugueza e dos Coutinhos,
    Clarissimo Dom João, com melhor nome
    A vós encheis de gloria, a nós de exemplo.


LXXXVII.

    Conversação doméstica affeiçoa,
    Ora em fórma de limpa e sãa vontade,
    Ora de huma amorosa piedade,
    Sem olhar qualidade de pessoa.
      Se despois, por ventura, vos magôa
    Com desamor e pouca lealdade,
    Logo vos faz mentira da verdade
    O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa,
      Não são isto que fallo conjecturas
    Que o pensamento julga na apparencia,
    Por fazer delicadas escripturas.
      Metida tenho a mão na consciencia,
    E não fallo senão verdades puras
    Que me ensinou a viva experiencia.


LXXXVIII.

    Esfôrço grande, igual ao pensamento,
    Pensamentos em obras divulgados,
    E não em peito timido encerrados,
    E desfeitos despois em chuva e vento;
      Ánimo da cobiça baixa isento,
    Digno por isto só de altos estados,
    Fero açoute dos nunca bem domados
    Povos do Malabar sanguinolento;
      Gentileza de membros corporaes
    Ornados de pudica continencia,
    Obra por certo da celeste altura:
      Estas virtudes raras e outras mais,
    Dignas todas da Homerica eloquencia,
    Jazem debaixo desta sepultura.


LXXXIX.

    No mundo quiz o Tempo que se achasse
    O bem que por acêrto, ou sorte vinha;
    E por exprimentar que dita tinha,
    Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse.
      Mas porque o meu destino me mostrasse
    Que nem ter esperanças me convinha,
    Nunca nesta tão longa vida minha
    Cousa me deixou ver que desejasse.
      Mudando andei costume, terra, estado,
    Por ver se se mudava a sorte dura;
    A vida puz nas mãos de hum leve lenho.
      Mas, segundo o que o Ceo me t[~e]e mostrado,
    Ja sei que deste meu buscar ventura
    Achado tenho ja que não a tenho.


XC.

    A perfeição, a graça, o doce geito,
    A Primavera cheia de frescura,
    Que sempre em vós florece; a que a ventura,
    E a razão entregárão este peito;
      Aquelle crystallino e puro aspeito,
    Que em si comprehende toda a formosura;
    O resplandor dos olhos e a brandura,
    Donde Amor a ninguem quiz ter respeito;
      S'isto que em vós se vê, ver desejais,
    Como digno de ver-se claramente,
    Por muito que de Amor vos isentais;
      Traduzido o vereis tão fielmente
    No meio deste espirito onde estais,
    Que vendo-vos sintais o que elle sente.


XCI.

    Vós, que de olhos suaves e serenos,
    Com justa causa a vida captivais,
    E que os outros cuidados condemnais
    Por indevidos, baixos e pequenos;
      Se de Amor os domesticos venenos
    Nunca provastes, quero que sintais
    Que he tanto mais o amor despois que amais,
    Quanto são mais as causas de ser menos.
      E não presuma alguem que algum defeito,
    Quando na cousa amada se apresenta,
    Possa diminuir o amor perfeito:
      Antes o dobra mais; e se atormenta,
    Pouco a pouco desculpa o brando peito;
    Que Amor com seus contrarios se accrescenta.


XCII.

    Que poderei do mundo ja querer,
    Pois no mesmo em que puz tamanho amor,
    Não vi senão desgôsto e desfavor,
    E morte, em fim; que mais não póde ser?
      Pois me não farta a vida de viver,
    Pois ja sei que não mata grande dor,
    Se houver cousa que mágoa dê maior,
    Eu a verei; que tudo posso ver.
      A Morte, a meu pezar, me assegurou
    De quanto mal me vinha: ja perdi
    O que a perder o medo me ensinou.
      Na vida desamor somente vi,
    Na morte a grande dor que me ficou:
    Parece que para isto só nasci.


XCIII.

    Pensamentos, que agora novamente
    Cuidados vãos em mi resuscitais,
    Dizei-me: E ainda não vos contentais
    De ter a quem vos t[~e]e tão descontente?
      Que phantasia he esta, que presente
    Cad'hora ante os meus olhos me mostrais?
    Com huns sonhos tão vãos inda tentais
    Quem nem por sonhos póde ser contente?
      Vejo-vos, pensamentos, alterados,
    E não quereis, de esquivos, declarar-me
    Que he isto que vos traz tão enleados?
      Não mo negueis, se andais para negar-me;
    Porque se contra mi 'stais levantados,
    Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.


XCIV.

    Se tomo a minha pena em penitencia
    Do error em que cahio o pensamento,
    Não abrando, mas dóbro meu tormento,
    Que a tanto, e mais, obriga a paciencia.
      E se huma côr de morto na apparencia,
    Hum espalhar suspiros vãos ao vento
    Não faz em vós, Senhora, movimento,
    Fique o meu mal em vossa consciencia.
      Mas se de qualquer aspera mudança
    Toda vontade isenta Amor castiga,
    (Como eu vejo no mal que me condena)
      E se em vós não se entende haver vingança,
    Será forçado (pois Amor me obriga)
    Que eu só da culpa vossa pague a pena.


XCV.

    Aquella que, de pura castidade,
    De si mesma tomou cruel vingança
    Por huma breve e subita mudança
    Contrária á sua honra e qualidade;
      Venceo á formosura a honestidade,
    Venceo no fim da vida a esperança,
    Porque ficasse viva tal lembrança,
    Tal amor, tanta fé, tanta verdade.
      De si, da gente e do mundo esquecida,
    Ferio com duro ferro o brando peito,
    Banhando em sangue a fôrça do tyrano.
      Oh ousadia estranha! estranho feito!
    Que dando breve morte ao corpo humano,
    Tenha sua memoria larga vida!


XCVI.

    Os vestidos Elisa revolvia,
    Que Eneas lhe deixára por memoria;
    Doces despojos da passada gloria;
    Doces quando seu fado o consentia.
      Entre elles a formosa espada via,
    Que instrumento, em fim, foi da triste historia;
    E como quem de si tinha a victoria,
    Fallando só com ella, assi dizia:
      Formosa e nova espada, se ficaste
    Só porque executasses os enganos
    De quem te quiz deixar, em minha vida;
      Sabe que tu comigo te enganaste;
    Que para me tirar de tantos danos
    Sobeja-me a tristeza da partida.


XCVII.

    Oh quão caro me custa o entender-te,
    Molesto Amor que, só por alcançar-te,
    De dor em dor me tens trazido a parte
    Donde em ti odio e íra se converte!
      Cuidei que para em tudo conhecer-te
    Me não faltava experiencia e arte;
    Mas na alma vejo agora accrescentar-te
    Aquillo que era causa de perder-te.
      Estavas tão secreto no meu peito,
    Que eu mesmo, que te tinha, não sabia
    Que me senhoreavas deste geito.
      Descubriste-te agora; e foi por via
    Que teu descobrimento e meu defeito,
    Hum me envergonha e outro me injuria.


XCVIII.

    Se despois de esperança tão perdida,
    Amor por causa alguma consentisse
    Que inda algum'hora breve alegre visse
    De quantas tristes vio tão longa vida;
      Hum'alma ja tão fraca e tão cahida
    (Quando a sorte mais alto me subisse)
    Não tenho para mi que consentisse
    Alegria tão tarde consentida.
      Nem tamsomente o Amor me não mostrou
    Hum'hora em que vivesse alegremente,
    De quantas nesta vida me negou;
      Mas inda tanta pena me consente,
    Que co'o contentamento me tirou
    O gôsto de algum'hora ser contente.


XCIX.

    O raio crystallino se estendia
    Por o mundo da Aurora marchetada,
    Quando Nise, pastora delicada,
    Donde a vida deixava se partia.
      Dos olhos, com que o sol escurecia,
    Levando a luz em lagrimas banhada,
    De si, do fado, e tempo magoada,
    Pondo os olhos no Ceo, assi dizia:
      Nasce, sereno sol, puro e luzente;
    Resplandece, purpurea e branca aurora,
    Qualquer alma alegrando descontente;
      Que a minha, sabe tu que desde agora
    Jamais na vida a podes ver contente,
    Nem tão triste nenhuma outra pastora.


C.

    No mundo poucos annos e cansados
    Vivi, cheios de vil miseria e dura:
    Foi-me tão cedo a luz do dia escura,
    Que não vi cinco lustros acabados.
      Corri terras e mares apartados,
    Buscando á vida algum remedio ou cura:
    Mas aquillo que, em fim, não dá ventura
    Não o dão os trabalhos arriscados.
      Criou-me Portugal na verde e chara
    Patria minha Alemquer; mas ar corruto,
    Que neste meu terreno vaso tinha,
      Me fez manjar de peixes em ti, bruto
    Mar, que bates a Abássia fera e avara,
    Tão longe da ditosa patria minha.


CI.

    Vós, que escuitais em Rimas derramado
    Dos suspiros o som que me alentava
    Na juvenil idade, quando andava
    Em outro em parte do que sou mudado;
      Sabei que busca só do ja cantado
    No tempo em que ou temia ou esperava,
    De quem o mal provou, que eu tanto amava,
    Piedade, e não perdão, o meu cuidado.
      Pois vejo que tamanho sentimento
    Só me rendeo ser fábula da gente,
    (Do que comigo mesmo me envergonho)
      Sirva de exemplo claro meu tormento,
    Com que todos conheção claramente
    Que quanto ao mundo apraz he breve sonho.


CII.

    De amor escrevo, de amor trato e vivo;
    De amor me nasce amar sem ser amado;
    De tudo se descuida o meu cuidado,
    Quanto não seja ser de amor captivo:
      De amor que a lugar alto voe altivo,
    E funde a gloria sua em ser ousado;
    Que se veja melhor purificado
    No immenso resplandor de hum raio esquivo.
      Mas ai que tanto amor só pena alcança!
    Mais constante ella, e elle mais constante,
    De seu triumpho cada qual só trata.
      Nada, em fim, me aproveita; que a esperança,
    Se anima alguma vez a hum triste amante,
    Ao perto vivifica, ao longe mata.


CIII.

    Se da célebre Laura a formosura
    Hum numeroso cysne ufano escreve,
    Huma angelica penna se te deve,
    Pois o Ceo em formar-te mais se apura.
      E se voz menos alta te procura
    Celebrar, (oh Natercia!) em vão se atreve:
    De ver-te ja a ventura Liso teve,
    Mas de cantar-te falta-lhe a ventura.
      No ceo nasceste, certo, e não na terra:
    Para gloria do mundo cá desceste:
    Quem mais isto negar, muito mais erra.
      E eu imagino que de lá vieste
    Para emendar os vicios que elle encerra,
    Co'os divinos poderes que trouxeste.


CIV.

    Esses cabellos louros e escolhidos,
    Que o ser ao aureo sol estão tirando;
    Esse ar immenso, adonde naufragando
    Estão continuamente os meus sentidos;
      Esses furtados olhos tão fingidos
    Que minha vida e morte estão causando;
    Essa divina graça, que em fallando
    Finge os meus pensamentos não ser cridos;
      Esse compasso certo, essa medida
    Que faz dobrar no corpo a gentileza;
    A divindade em terra, tão subida;
      Mostrem ja piedade, e não crueza,
    Que são laços que Amor tece na vida,
    Sendo em mi sofrimento, em vós dureza.


CV.

    Quem pudéra julgar de vós, Senhora,
    Que huma tal fé pudesse assi perder-vos?
    Se por amar-vos chego a aborrecer-vos,
    Deixar não posso o amar-vos algum'hora.
      Deixais a quem vos ama, ou vos adora,
    Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos?
    Mas eu sou quem não soube merecer-vos,
    E esta minha ignorancia entendo agora.
      Nunca soube entender vossa vontade,
    Nem a minha mostrar-vos verdadeira,
    Indaque clara estava esta verdade.
      Esta, em quanto eu viver, vereis inteira;
    E se em vão meu querer vos persuade,
    Mais vosso não querer faz que vos queira.


CVI.

    Quem, Senhora, presume de louvar-vos
    Com discurso que baixe de divino,
    De tanto maior pena será dino,
    Quanto vós sois maior ao contemplar-vos.
      Não aspire algum canto a celebrar-vos,
    Por mais que seja raro, ou peregrino;
    Pois de vossa belleza eu imagino
    Que só comvosco o Ceo quiz comparar-vos.
      Ditosa esta alma vossa, a que quizestes
    Pôr em posse de prenda tão subida,
    Qual esta que benigna, em fim, me déstes.
      Sempre será anteposta á mesma vida:
    Esta estimar em menos me fizestes,
    Se antes que ess'outra a quero ver perdida.


CVII.

    Moradoras gentis e delicadas
    Do claro e aureo Tejo, que metidas
    Estais em suas grutas escondidas,
    E com doce repouso socegadas;
      Agora esteis de amores inflammadas,
    Nos crystallinos paços entretidas;
    Agora no exercicio embevecidas
    Das télas de ouro puro matizadas;
      Movei dos lindos rostos a luz pura
    De vossos olhos bellos, consentindo
    Que lagrimas derramem de tristura.
      E assi com dor mais propria ireis ouvindo
    As queixas que derramo da Ventura,
    Que com penas de Amor me vai seguindo.


CVIII.

    Brandas águas do Tejo que, passando
    Por estes verdes campos que regais,
    Plantas, hervas, e flores, e animais,
    Pastores, Nymphas, ides alegrando;
      Não sei, (ah doces águas!) não sei quando
    Vos tornarei a ver; que mágoas tais,
    Vendo como vos deixo, me causais,
    Que de tornar ja vou desconfiando.
      Ordenou o destino, desejoso
    De converter meus gostos em pezares,
    Partida que me vai custando tanto.
      Saudoso de vós, delle queixoso,
    Encherei de suspiros outros ares,
    Turbarei outras águas com meu pranto.


CIX.

    Novos casos de Amor, novos enganos,
    Envoltos em lisonjas conhecidas;
    Do bem promessas falsas e escondidas,
    Onde do mal se cumprem grandes danos;
      Como não tomais ja por desenganos
    Tantos ais, tantas lagrimas perdidas,
    Pois que a vida não basta, nem mil vidas,
    A tantos dias tristes, tantos anos?
      Hum novo coração mister havia,
    Com outros olhos menos aggravados,
    Para tornar a crer o que eu vos cria.
      Andais comigo, enganos, enganados;
    E se o quizerdes ver, cuidai hum dia
    O que se diz dos bem acutilados.


CX.

    Onde porei meus olhos que não veja
    A causa de que nasce o meu tormento?
    A qual parte me irei co'o pensamento,
    Que para descansar parte me seja?
      Ja sei como se engana quem deseja
    Em vão amor fiel contentamento;
    E que nos gostos seus, que são de vento,
    Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
      Mas inda, sôbre o claro desengano,
    Assi me traz esta alma sobjugada,
    Que delle está pendendo o meu desejo.
      E vou de dia em dia, de anno em ano,
    Apoz hum não sei que, apoz hum nada,
    Que quanto mais me chego, menos vejo.


CXI.

    Ja do Mondego as águas apparecem
    A meus olhos, não meus, antes alheios,
    Que de outras differentes vindo cheios,
    Na sua branda vista inda mais crecem.
      Parece que tambem forçadas decem,
    Segundo se detem em seus rodeios.
    Triste! por quantos modos, quantos meios,
    As minhas saudades me entristecem!
      Vida de tantos males salteada,
    Amor a põe em termos, que duvida
    De conseguir o fim desta jornada.
      Antes se dá de todo por perdida,
    Vendo que não vai da alma acompanhada,
    Que se deixou ficar onde t[~e]e vida.


CXII.

    Que doudo pensamento he o que sigo?
    Apos que vão cuidado vou correndo?
    Sem ventura de mi! que não me entendo;
    Nem o que callo sei, nem o que digo.
      Pelejo com quem trata paz comigo;
    De quem guerra me faz não me defendo.
    De falsas esperanças que pertendo?
    Quem do meu proprio mal me faz amigo?
      Porque, se nasci livre, me captivo?
    E pois o quero ser, porque o não quero?
    Como me engano mais com desenganos?
      Se ja desesperei, que mais espero?
    E se inda espero mais, porque não vivo?
    E se vivo, que accuso mortaes danos?


CXIII.

    Hum firme coração posto em ventura;
    Hum desejar honesto, que se engeite
    De vossa condição, sem que respeite
    A meu tão puro amor, a fé tão pura;
      Hum ver-vos de piedade e de brandura
    Sempre inimiga, faz-me que suspeite
    Se alguma Hyrcana fera vos deo leite,
    Ou se nascestes de huma pedra dura.
      Ando buscando causa, que desculpe
    Crueza tão estranha; porém quanto
    Nisso trabalho mais, mais mal me trata.
      Donde vem, que não ha quem nos não culpe;
    A vós, porque matais quem vos quer tanto,
    A mim, por querer tanto a quem me mata.


CXIV.

    Ar, que de meus suspiros vejo cheio;
    Terra, cansada ja com meu tormento;
    Agua, que com mil lagrimas sustento;
    Fogo, que mais accendo no meu seio;
      Em paz estais em mim; e assi o creio,
    Sem esse ser o vosso proprio intento;
    Pois em dor onde falta o soffrimento,
    A vida se sostem por vosso meio.
      Ai imiga Fortuna! ai vingativo
    Amor! a que discursos por vós venho,
    Sem nunca vos mover com minha mágoa!
      Se me quereis matar, para que vivo?
    E como vivo, se contrarios tenho
    Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa?


CXV.

    Ja claro vejo bem, ja bem conheço
    Quanto augmentando vou o meu tormento;
    Pois sei que fundo em água, escrevo em vento,
    E que o cordeiro manso ao lobo peço;
      Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço;
    Que a tigres em meus males me lamento;
    Que reduzir o mar a hum vaso intento,
    Aspirando a esse ceo que não mereço.
      Quero achar paz em hum confuso inferno;
    Na noite do sol puro a claridade;
    E o suave verão no duro inverno.
      Busco em luzente Olympo escuridade,
    E o desejado bem no mal eterno,
    Buscando amor em vossa crueldade.


CXVI.

    De cá, donde somente o imaginar-vos
    A rigorosa ausencia me consente,
    Sôbre as azas de Amor, ousadamente
    O mal soffrido esprito vai buscar-vos.
      E se não receára de abrazar-vos
    Nas chammas que por vossa causa sente,
    Lá ficára comvosco e, vós presente,
    Aprendêra de vós a contentar-vos.
      Mas, pois que estar ausente lhe he forçado,
    Por senhora, de cá, vos reconhece,
    Aos pés de imagens vossas inclinado.
      E pois vêdes a fé que vos offrece,
    Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado,
    E dar-lhe-heis inda mais do que merece.


CXVII.

    Não ha louvor que arribe á menor parte
    De quanto em vós se vê, bella Senhora:
    Vós sois vosso louvor: quem vos adora
    Reduz somente a este o engenho e arte.
      Quanto por muitas damas se reparte
    De bello e de formoso, em vós agora
    Se junta em modo tal, que pouco fôra
    Dizer que sois o todo, ellas a parte.
      Culpa, logo, não he, se vou louvar-vos,
    Ver incapazes todos os louvores,
    Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos.
      Seja a culpa de vossos resplandores;
    E a que elles t[~e]e vos dou, só para dar-vos
    O mor louvor de todos os maiores.


CXVIII.

    Não vás ao monte, Nise, com teu gado;
    Que lá vi que Cupido te buscava:
    Por ti somente a todos perguntava,
    No gesto menos placido que irado.
      Elle publíca, em fim, que lhe has roubado
    Os melhores farpões da sua aljava;
    E com hum dardo ardente assegurava
    Traspassar esse peito delicado.
      Fuge de ver-te lá nesta aventura,
    Porque se contra ti o tens iroso,
    Póde ser que te alcance com mão dura.
      Mas ai! que em vão te advirto temeroso,
    Se á tua incomparavel formosura
    Se rende o dardo seu mais poderoso!


CXIX.

    A violeta mais bella que amanhece
    No valle por esmalte da verdura,
    Com seu pallido lustre e formosura,
    Por mais bella, Violante, te obedece.
      Perguntas-me porque? Porque apparece
    Em ti seu nome, e sua côr mais pura;
    E estudar em teu rosto só procura
    Tudo quanto em beldade mais florece.
      Oh luminosa flor! Oh sol mais claro!
    Unico roubador de meu sentido,
    Não permittas que Amor me seja avaro.
      Oh penetrante setta de Cupido!
    Que queres? Que te peça por reparo
    Ser neste valle Eneas desta Dido?


CXX.

    Tornae essa brancura á alva assucena,
    E essa purpurea côr ás puras rosas;
    Tornae ao sol as chammas luminosas
    De essa vista que a roubos vos condena.
      Tornae á suavissima sirena
    D'essa voz as cadencias deleitosas:
    Tornae a graça ás Graças, que queixosas
    Estão de a ter por vós menos serena:
      Tornae á bella Venus a belleza;
    A Minerva o saber, o engenho, e a arte;
    E a pureza á castissima Diana.
      Despojae-vos de toda essa grandeza
    De dões; e ficareis em toda parte
    Comvosco só, que he só ser inhumana.


CXXI.

    De mil suspeitas vãas se me levantão
    Trabalhos e desgostos verdadeiros.
    Ai que estes bens de Amor são feiticeiros,
    Que com hum não sei que toda alma encantão!
      Como serêas docemente cantão
    Para enganar os tristes marinheiros:
    Os meus assi me attrahem lisongeiros,
    E despois com horrores mil me espantão.
      Quando cuido que tomo porto ou terra,
    Tal vento se levanta em hum instante,
    Que subito da vida desconfio.
      Mas eu sou quem me faz a maior guerra,
    Pois conhecendo os riscos de hum amante
    Fiado a ondas de Amor, dellas me fio.


CXXII.

    Mil vezes determino não vos ver,
    Por ver se abranda mais o meu penar:
    E se cuido de assi me magoar,
    Cuidai o que será, se houver de ser.
      Pouco me importa ja muito soffrer,
    Despois que Amor me poz em tal lugar;
    E o que inda me doe mais he só cuidar,
    Que mal sem esta dor posso viver.
      Assi não busco eu cura contra a dor,
    Porque, buscando alguma, entendo bem
    Que nesse mesmo ponto me perdi.
      Quereis que viva, em fim, neste rigor?
    Somente o querer vosso me convem.
    Assi quereis que seja? Seja assi.


CXXIII.

    A chaga que, Senhora, me fizestes,
    Não foi para curar-se em hum só dia;
    Porque crescendo vai com tal porfia,
    Que bem descobre o intento que tivestes.
      De causar tanta dor vos não doestes?
    Mas a doer-vos, dor me não sería,
    Pois ja com esperança me veria
    Do que vós que em mi visse não quizestes.
      Os olhos com que todo me roubastes
    Forão causa do mal que vou passando;
    E vós estais fingindo o não causastes.
      Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
    Quando vos vir queixar porque deixastes
    Ir-se a minha alma nelles abrazando.


CXXIV.

    Se com desprezos, Nympha, te parece
    Que podes desviar do seu cuidado
    Hum coração constante, que se offrece
    A ter por gloria o ser atormentado.
      Deixa a tua porfia, e reconhece
    Que mal sabes de amor desenganado;
    Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece,
    Crescendo em mi de ti mais desamado.
      O esquivo desamor, com que me tratas,
    Converte em piedade, se não queres
    Que cresça o meu querer, e o teu desgosto.
      Vencer-me com cruezas nunca esperes:
    Bem me podes matar, e bem me matas;
    Mas sempre ha de viver meu presupposto.


CXXV.

    Senhora minha, se eu de vós ausente
    Me defendêra de hum penar severo,
    Suspeito que offendêra o que vos quero,
    Esquecido do bem de estar presente.
      Traz este, logo sinto outro accidente,
    E he ver que se da vida desespero,
    Perco a gloria que vendo-vos espero;
    E assi estou em meus males differente.
      E nesta differença meus sentidos
    Combatem com tão aspera porfia,
    Que julgo este meu mal por deshumano.
      Entre si sempre os vejo divididos;
    E se acaso concordão algum dia,
    He só conjuração para meu dano.


CXXVI.

    No regaço de mãe Amor estava
    Dormindo tão formoso, que movia
    O coração que mais isento o via;
    E a sua propria mãe de amor matava.
      Ella, co'os olhos nelle, contemplava
    A quanto estrago o mundo reduzia:
    Elle porém, sonhando, lhe dizia
    Que todo aquelle mal ella o causava.
      Soliso que, graduado em seus amores,
    De saber de ambos mais teve a ventura,
    Assi soltou a dúvida aos pastores:
      Se bem me ferem sempre sem ter cura
    Do menino os ardentes passadores,
    Mais me fere da mãe a formosura.


CXXVII.

    Este terreste caos com seus vapores
    Não póde condensar as nuvens tanto,
    Que o claro sol não rompa o negro manto
    Cum suas bellas e luzentes côres.
      A ingratidão esquiva de rigores
    Opposta nuvem he, que dura em quanto
    Nos não converte o Ceo em triste pranto
    Suas vãas esperanças, seus favores.
      Póde-se contrapôr ao ceo a terra,
    E estar o sol por horas eclipsado;
    Mas não póde ficar escurecido.
      Póde prevalecer a vossa guerra;
    Mas, a pezar das nuvens, declarado
    Ha de ser vosso sol, e obedecido.


CXXVIII.

    Huma admiravel herva se conhece,
    Que vai ao sol seguindo de hora em hora,
    Logo que elle do Euphrates se vê fóra,
    E quando está mais alto, então florece.
      Mas quando ao Oceano o carro dece,
    Toda a sua belleza perde Flora,
    Porque ella se emmurchece e se descora:
    Tanto co'a luz ausente se entristece!
      Meu sol, quando alegrais esta alma vossa,
    Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,
    Cria flores em seu contentamento.
      Mas logo, em não vos vendo, entristecida
    Se murcha e se consume em grão tormento:
    Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa.


CXXIX.

    Crescei, desejo meu, pois que a Ventura
    Ja vos t[~e]e nos seus braços levantado;
    Que a bella causa de que sois gerado
    O mais ditoso fim vos assegura.
      Se aspirais por ousado a tanta altura,
    Não vos espante haver ao sol chegado;
    Porque he de aguia Real vosso cuidado,
    Que quanto mais o soffre, mais se apura.
      Ánimo, coração; que o pensamento
    Te póde inda fazer mais glorioso,
    Sem que respeite a teu merecimento.
      Que cresças inda mais he ja forçoso;
    Porque se foi de ousado o teu intento,
    Agora de atrevido he venturoso.


CXXX.

    He o gozado bem em água escrito;
    Vive no desejar, morre no effeito:
    O desejado sempre he mais perfeito,
    Porque t[~e]e parte alguma de infinito.
      Dar a huma alma immortal gôzo prescrito,
    Em verdadeiro amor, fôra defeito:
    Por modo sup'rior, não imperfeito,
    Sois excepção de quanto aqui limito.
      De huma esperança nunca conhecida,
    Da fé do desejar não alcançada,
    Sereis mais desejada, possuida.
      Não podeis da esperança ser amada;
    Vista podereis ser, e então mais crida;
    Porém não, sem aggravo, comparada.


CXXXI.

    De quantas graças tinha a natureza
    Fez hum bello e riquissimo thesouro;
    E com rubis e rosas, neve e ouro,
    Formou sublime e angelica belleza.
      Poz na boca os rubis, e na pureza
    Do bello rosto as rosas, por quem mouro;
    No cabello o valor do metal louro;
    No peito a neve, em que a alma tenho accesa.
      Mas nos olhos mostrou quanto podia,
    E fez delles hum sol, onde se apura
    A luz mais clara que a do claro dia.
      Em fim, Senhora, em vossa compostura,
    Ella a apurar chegou quanto sabia
    De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


CXXXII.

    Nunca em amor damnou o atrevimento;
    Favorece a Fortuna a ousadia;
    Porque sempre a encolhida covardia
    De pedra serve ao livre pensamento.
      Quem se eleva ao sublime Firmamento,
    A estrella nelle encontra, que lhe he guia;
    Que o bem que encerra em si a phantasia
    São humas illusões que leva o vento.
      Abrir se devem passos á ventura:
    Sem si proprio ninguem será ditoso:
    Os principios somente a sorte os move.
      Atrever-se he valor, e não loucura.
    Perderá por covarde o venturoso
    Que vos vê, se os temores não remove.


CXXXIII.

    Doces e claras águas do Mondego,
    Doce repouso de minha lembrança,
    Onde a comprida e perfida esperança
    Longo tempo apos si me trouxe cego,
      De vós me aparto, si; porém não nego
    Que inda a longa memoria, que me alcança,
    Me não deixa de vós fazer mudança,
    Mas quanto mais me alongo, mais me achego
      Bem poderá a Fortuna este instrumento
    Da alma levar por terra nova e estranha,
    Offerecido ao mar remoto, ao vento.
      Mas a alma, que de cá vos acompanha,
    Nas azas do ligeiro pensamento
    Para vós, águas, vôa, e em vós se banha.


CXXXIV.

    Senhor João Lopes, o meu baixo estado
    Hontem vi posto em grao tão excellente,
    Que sendo vós inveja a toda a gente,
    Só por mi vos quizereis ver trocado.
      O gesto vi suave e delicado,
    Que ja vos fez contente e descontente,
    Lançar ao vento a voz tão docemente,
    Que fez o ar sereno e socegado.
      Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto
    Ninguem diria em muitas: mas eu chego
    A espirar só de ouvir a doce fala.
      Oh mal o haja a Fortuna, e o moço cego!
    Elle, que os corações obriga a tanto;
    Ella, porque os estados desiguala.


CXXXV.

    A Morte, que da vida o nó desata,
    Os nós, que dá o Amor, cortar quizera
    Co'a ausencia, que he sôbre elle espada fera,
    E co'o tempo, que tudo desbarata.
      Duas contrárias, que huma a outra mata,
    A Morte contra Amor junta e altera;
    Huma, Razão contra a Fortuna austera;
    Outra, contra a Razão Fortuna ingrata.
      Mas mostre a sua imperial potencia
    A Morte em apartar de hum corpo a alma,
    O Amor n'hum corpo duas almas una;
      Para que assi triumphante leve a palma
    Da Morte Amor a grão pesar da ausencia,
    Do tempo, da Razão, e da Fortuna.


CXXXVI

    Árvore, cujo pomo bello e brando
    Natureza de leite e sangue pinta,
    Onde a pureza, de vergonha tinta,
    Está virgineas faces imitando;
      Nunca do vento a ira, que arrancando
    Os troncos vai, o teu injúria sinta;
    Nem por malícia de ar te seja extinta
    A côr que está teu fructo debuxando.
      E pois emprestas doce e idoneo abrigo
    A meu contentamento, e favoreces
    Com teu suave cheiro a minha gloria;
      Se eu não te celebrar como mereces,
    Cantando-te, se quer farei comtigo
    Doce nos casos tristes a memoria.


CXXXVII.

    O filho de Latona esclarecido,
    Que com seu raio alegra a humana gente,
    Matar pôde a Phytonica serpente
    Que mortes mil havia produzido.
      Ferio com arco, e de arco foi ferido,
    Com ponta aguda de ouro reluzente:
    Nas Thessalicas praias docemente
    Por a nympha Penea andou perdido.
      Não lhe pôde valer contra seu dano
    Saber, nem diligencias, nem respeito
    De quanto era celeste e soberano.
      Pois se hum deos nunca vio nem hum engano
    De quem era tão pouco em seu respeito,
    Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?


CXXXVIII.

    Presença bella, angelica figura,
    Em quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado;
    Gesto alegre de rosas semeado,
    Entre as quaes se está rindo a Formosura:
      Olhos, onde t[~e]e feito tal mistura
    Em crystal puro o negro marchetado,
    Que vemos ja no verde delicado
    Não esperança, mas inveja escura:
      Brandura, aviso, e graça, que augmentando
    A natural belleza co'hum desprezo,
    Com que mais desprezada mais se augmenta:
      São as prizões de hum coração, que prêzo,
    Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
    Como faz a serêa na tormenta


CXXXIX.

    Por cima destas águas forte e firme
    Irei aonde os Fados o ordenárão,
    Pois por cima de quantas derramárão
    Aquelles claros olhos pude vir-me.
      Ja chegado era o fim de despedir-me;
    Ja mil impedimentos se acabárão,
    Quando rios de amor se atravessárão
    A me impedir o passo de partir-me.
      Passei-os eu com ânimo obstinado,
    Com que a morte forçada gloriosa
    Faz o vencido ja desesperado.
      Em qual figura, ou gesto desusado,
    Póde ja fazer medo a morte irosa
    A quem t[~e]e a seus pés rendido e atado?


CXL.

    Tal mostra de si dá vossa figura,
    Sibela, clara luz da redondeza,
    Que as fôrças e o poder da natureza
    Com sua claridade mais apura.
      Quem confiança ha visto tão segura,
    Tão singular esmalte da belleza,
    Que não padeça mal de mais graveza,
    Se resistir a seu amor procura?
      Eu, pois, por escusar tal esquivança,
    A razão sujeitei ao pensamento,
    A quem logo os sentidos se entregárão.
      Se vos offende o meu atrevimento,
    Inda podeis tomar nova vingança
    Nas reliquias da vida que ficárão.


CXLI.

    Na desesperação ja repousava
    O peito longamente magoado,
    E, com seu damno eterno concertado,
    Ja não temia, ja não desejava;
      Quando huma sombra vãa me assegurava
    Que algum bem me podia estar guardado
    Em tão formosa imagem, que o traslado
    N'alma ficou, que nella se enlevava.
      Que credito que dá tão facilmente
    O coração áquillo que deseja,
    Quando lhe esquece o fero seu destino!
      Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente;
    Pois, postoque maior meu damno seja,
    Fica-me a gloria ja do que imagino.


CXLII.

    Diversos dões reparte o Ceo benino,
    E quer que cada huma alma hum só possua;
    Por isso ornou de casto peito a Lua,
    Que o primeiro orbe illustra crystallino;
      De graça a Mãe formosa do Menino,
    Que nessa vista t[~e]e perdido a sua;
    Pallas de sciencia não maior que a tua:
    T[~e]e Juno da nobreza o imperio dino.
      Mas junto agora o largo Ceo derrama
    Em ti o mais que tinha, e foi o menos
    Em respeito do Autor da natureza.
      Que a seu pezar te dão, formosa dama,
    Seu peito a Lua, sua graça Venos,
    Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza.


CXLIII.

    Gentil Senhora, se a Fortuna imiga,
    Que contra mi com todo o Ceo conspira,
    Os olhos meus de ver os vossos tira,
    Porque em mais graves casos me persiga;
      Comigo levo esta alma, que se obriga
    Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra,
    A dar-vos a memoria, que suspira
    Só por fazer comvosco eterna liga.
      Nesta alma, onde a fortuna póde pouco,
    Tão viva vos terei, que frio e fome,
    Vos não possão tirar, nem mais perigos.
      Antes, com som de voz trémulo e rouco
    Por vós chamando, só com vosso nome
    Farei fugir os ventos, e os imigos.


CXLIV

    Que modo tão subtil da natureza
    Para fugir ao mundo e seus enganos!
    Permitte que se esconda em tenros anos
    Debaixo de hum burel tanta belleza!
      Mas não póde esconder-se aquella alteza
    E gravidade de olhos soberanos,
    A cujo resplandor entre os humanos
    Resistencia não sinto, ou fortaleza.
      Quem quer livre ficar de dor e pena,
    Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria,
    Na mesma razão sua se condena.
      Porque quem mereceo ver tanta gloria
    Captivo ha de ficar; que Amor ordena
    Que de juro tenha ella esta victoria.


CXLV

    Quando se vir com água o fogo arder,
    Juntar-se ao claro dia a noite escura,
    E a terra collocada lá na altura
    Em que se vem os ceos prevalecer;
      Quando Amor á Razão obedecer,
    E em todos for igual huma ventura,
    Deixarei eu de ver tal formosura,
    E de a amar deixarei depois de a ver.
      Porém não sendo vista esta mudança
    No mundo, porque, em fim, não póde ver-se,
    Ninguem mudar-me queira de querer-vos.
      Que basta estar em vós minha esperança,
    E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se,
    Para dos olhos meus nunca perder-vos.


CXLVI.

    Quando a suprema dor muito me aperta,
    Se digo que desejo esquecimento,
    He fôrça que se faz ao pensamento,
    De que a vontade livre desconcerta.
      Assi de êrro tão grave me desperta
    A luz do bem regido entendimento,
    Que mostra ser engano, ou fingimento,
    Dizer que em tal descanso mais se acerta.
      Porque essa propria imagem, que na mente
    Me representa o bem de que careço,
    Faz-mo de hum certo modo ser presente.
      Ditosa he, logo, a pena que padeço,
    Pois que da causa della em mi se sente
    Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheço.


CXLVII.

    Na margem de hum ribeiro, que fendia
    Com liquido crystal hum verde prado,
    O triste pastor Liso debruçado
    Sôbre o tronco de hum freixo assi dizia:
      Ah Natercia cruel! quem te desvia
    Esse cuidado teu do meu cuidado?
    Se tanto hei de penar desenganado,
    Enganado de ti viver queria.
      Que foi de aquella fé que tu me déste?
    D'aquelle puro amor que me mostraste?
    Quem tudo trocar pôde tão asinha?
      Quando esses olhos teus n'outro puzeste,
    Como te não lembrou que me juraste
    Por toda a sua luz que eras só minha?


CXLVIII.

    Se me vem tanta gloria só de olhar-te,
    He pena desigual deixar de ver-te;
    Se presumo com obras merecer-te,
    Grão paga de hum engano he desejar-te.
      Se aspiro por quem es a celebrar-te,
    Sei certo por quem sou que hei de offender-te;
    Se mal me quero a mi por bem querer-te,
    Que premio querer posso mais que amar-te?
      Porque hum tão raro amor não me soccorre?
    Oh humano thesouro! oh doce gloria!
    Ditoso quem á morte por ti corre!
      Sempre escrita estaras nesta memoria;
    E esta alma viverá, pois por ti morre,
    Porque ao fim da batalha he a victoria.


CXLIX.

    Sempre a Razão vencida foi de Amor;
    Mas, porque assi o pedia o coração,
    Quiz Amor ser vencido da Razão.
    Ora que caso póde haver maior!
      Novo modo de morte, e nova dor!
    Estranheza de grande admiração!
    Pois, em fim, seu vigor perde a affeição,
    Porque não perca a pena o seu vigor.
      Fraqueza, nunca a houve no querer;
    Mas antes muito mais se esforça assim
    Hum contrário com outro por vencer.
      Mas a razão que a luta vence, em fim,
    Não creio que he razão; mas deve ser
    Inclinação que eu tenho contra mim.


CL.

    Coitado! que em hum tempo chóro e rio;
    Espero e temo, quero e aborreço;
    Juntamente me allegro e me entristeço;
    Confio de huma cousa e desconfio.
      Vôo sem azas; estou cego e guio;
    Alcanço menos no que mais mereço;
    Entaõ fallo melhor, quando emmudeço;
    Sem ter contradiçaõ sempre porfio.
      Possivel se me faz todo o impossivel;
    Intento com mudar-me estar-me quedo;
    Usar de liberdade, e ser captivo;
      Queria visto ser, ser invisivel;
    Ver-me desenredado, amando o enredo:
    Taes os extremos são com que hoje vivo!


CLI.

    Julga-me a gente toda por perdido,
    Vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
    Andar sempre dos homens apartado,
    E de humanos commercios esquecido.
      Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
    E quasi que sôbre elle ando dobrado,
    Tenho por baixo, rustico, e enganado
    Quem não he com meu mal engrandecido.
      Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento,
    Honras busque e riquezas a outra gente,
    Vencendo ferro, fogo, frio e calma.
      Que eu por amor sómente me contento
    De trazer esculpido eternamente
    Vosso formoso gesto dentro da alma.


CLII.

    Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura
    Quiz dar de seu poder claros signais,
    Se quizerdes ver bem quanto possais,
    Vêde-me a mi que sou vossa feitura.
      Em mi viva vereis vossa figura
    Mais propria que em purissimos crystais,
    Porque nesta alma he certo que vejais
    Melhor que em hum crystal tal formosura.
      De meu não quero mais que o meu desejo,
    Se acaso por querer-vos mais mereço,
    Porque o vosso poder em mi se asselle.
      Do mundo outra memoria em mi não vejo:
    Com lembrar-me de vós, delle me esqueço,
    Com triumphardes de mi, triumpharei delle.


CLIII.

    Criou a natureza Damas bellas,
    Que forão de altos plectros celebradas;
    Dellas tomou as partes mais prezadas,
    E a vós, Senhora, fez do melhor dellas.
      Ellas diante vós são as estrellas,
    Que ficão com vos ver logo eclipsadas.
    Mas se ellas t[~e]e por sol essas rosadas
    Luzes de sol maior, felices ellas!
      Em perfeição, em graça e gentileza,
    Por hum modo entre humanos peregrino,
    A todo bello excede essa belleza.
      Oh quem tivera partes de divino
    Para vos merecer! Mas se pureza
    De amor vai ante vós, de vós sou dino.


CLIV.

    Que esperais, esperança?  Desespéro.
    Quem disso a causa foi?  H[~u]a mudança.
    Vós, vida, como estais?  Sem esperança.
    Que dizeis, coração?  Que muito quero.
      Que sentis, alma, vós?  Que amor he fero.
    E, em fim, como viveis?  Sem confiança.
    Quem vos sustenta, logo?  Huma lembrança.
    E só nella esperais?  Só nella espero.
      Em que podeis parar?  Nisto em que estou.
    E em que estais vós?  Em acabar a vida.
    E ténde-lo por bem?  Amor o quer.
      Quem vos obriga assi?  Saber quem sou.
    E quem sois?  Quem de todo está rendida.
    A quem rendida estais?  A hum só querer.


CLV.

    Se como em tudo o mais fostes perfeita,
    Foreis de condição menos esquiva,
    Fôra a minha fortuna mais altiva,
    Fôra a sua altiveza mais sujeita.
      Mas quando a vida a vossos pés se deita,
    Porque não a acceitais, não quer que eu viva:
    Ella propria de si ja a mi me priva;
    Que, porque me engeitais, tambem me engeita.
      Se nisso contradiz vossa vontade,
    Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim
    Á minha profundissima tristeza.
      Pois ella não mo dá, porque piedade
    Tenha deste meu mal, mas porque em mim
    Possais assi fartar vossa crueza.


CLVI.

    Se algum'hora essa vista mais suave
    Acaso a mi volveis, em hum momento
    Me sinto com hum tal contentamento,
    Que não temo que damno algum me aggrave.
      Mas quando com desdem esquivo e grave
    O bello rosto me mostrais isento,
    Huma dor provo tal, hum tal tormento,
    Que muito vem a ser que não me acabe.
      Assi está minha vida, ou minha morte
    No volver de esses olhos; pois podeis
    Dar co'huma volta delles morte, ou vida.
      Ditoso eu, se o Ceo quer, ou minha sorte,
    Que ou vida, para dar-vo-la, me deis,
    Ou morte, para haver morte querida!


CLVII.

    Tanto se forão, Nympha, costumando
    Meus olhos a chorar tua dureza,
    Que vão passando ja por natureza
    O que por accidente hião passando.
      No que ao somno se deve estou velando,
    E venho a velar só minha tristeza:
    O chôro não abranda esta aspereza,
    E meus olhos estão sempre chorando.
      Assi de dor em dor, de mágoa em mágoa,
    Consumindo-se vão inutilmente,
    E esta vida tambem vão consumindo.
      Sôbre o fogo de amor inutil ágoa!
    Pois eu em chôro estou continuamente,
    E do que vou chorando te vás rindo.
      Assi nova corrente
    Levas de chôro em foro;
    Porque de ver-te rir, de novo chóro.


CLVIII.

    Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo,
    Quando menos temia esta partida;
    E se a minha alma vai entristecida,
    Nos olhos o vereis com que vos vejo.
      Pequenas esperanças, mal sobejo,
    Vontade que razão leva vencida,
    Presto verão o fim á triste vida,
    Se vos não tórno a ver como desejo.
      Nunca a noite entretanto, nunca o dia,
    Verão partir de mi vossa lembrança:
    Amor, que vai comigo, o certifica.
      Por mais que no tornar haja tardança,
    Me farão sempre triste companhia
    Saudades do bem que em vós me fia.


CLIX.

    Vencido está de amor               Meu pensamento
    O mais que póde ser,               Vencida a vida,
    Sujeita a vos servir e             Instituida,
    Oferecendo tudo                    A vosso intento.
    Contente deste bem                 Louva o momento,
    Ou hora em que se vio              Tão bem perdida;
    Mil vezes desejando,               Assi ferida,
    Outras mil renovar                 Seu perdimento.
    Com esta pretenção                 Está segura
    A causa que me guia                Nesta empreza
    Tão sobrenatural,                  Honrosa, e alta.
    Jurando não querer                 Outra ventura,
    Votando só por vós                 Rara firmeza,
    Ou ser no vosso amor               Achado em falta.


CLX.

    Divina companhia, que nos prados
    Do claro Eurotas, ou no Olympo monte,
    Ou sôbre as margens da Castalia fonte
    Vossos estudos tendes mais sagrados;
      Pois por destino dos immoveis fados
    Quereis qu'em vosso número me conte,
    No eterno templo de Belorofonte
    Ponde em bronze estes versos entalhados:
      Soliso (porque em seculos futuros
    Se veja da belleza o que merece
    Quem de sábia doudice a mente inflama)
      Seus escritos, da sorte ja seguros,
    A estas aras em h[~u]a mão offrece,
    E a alma em outra á sua bella dama.


CLXI.

    Á la margen del Tajo, en claro dia,
    Con rayado marfil peinando estaba
    Natercia sus cabellos, y quitaba
    Con sus ojos la luz al sol que ardia.
      Soliso que, cual Clicie, la seguia,
    Lejos de sí, mas cerca della estaba:
    Al son de su zampoña celebraba
    La causa de su ardor, y así decia:
      Si tantas, como tú tienes cabellos,
    Tuviera vidas yo, me las llevaras
    Colgada cada cual del uno dellos.
      De no tenerlas tú me consolaras,
    Si tantas veces mil, como son ellos,
    En ellos la que tengo me enredaras.


CLXII.

    Por gloria tuve un tiempo el ser perdido;
    Perdíame de puro bien ganado;
    Gané cuando perdí ser libertado;
    Libre agora me veo, mas vencido.
      Vencí cuando de Nise fuí rendido;
    Rendíme por no ser della dejado:
    Dejóme en la memoria el bien pasado;
    Paso agora á llorar lo que he servido.
      Servia al premio de la luz que amaba;
    Amándola esperábale por cierto;
    Incierto me salió cuanto esperaba.
      La esperanza se queda en desconcierto;
    El concierto en el mal que no pensaba;
    El pensamiento con un fin incierto.


CLXIII.

    Revuelvo en la incesable fantasía
    Cuando me he visto en mas dichoso estado,
    Si agora que de Amor vivo inflamado,
    Si cuando de su ardor libre vivia.
      Entonces desta llama solo huia,
    Despreciando en mi vida su cuidado;
    Agora, con dolor de lo pasado,
    Tengo por gloria aquello que temia.
      Bien veo que era vida deleitosa
    Aquella que lograba sin temores,
    Cuando gustos de Amor tuve por viento.
      Mas viendo hoy á Natercia tan hermosa,
    Hallo en esta prision glorias mayores,
    Y en perderlas por libre hallo tormento.


CLXIV.

    Las peñas retumbaban al gemido
    Del misero zagal, que lamentaba
    El dolor que á su alma lastimaba,
    De un obstinado desamor nacido.
      El mar, que las batia, su bramido
    Con los retumbos dellas ayuntaba;
    Confuso son el viento derramaba,
    En cavernosos valles repetido.
      Responden a mi llanto duras peñas,
    Ai de mí! (dijo) la mar brama y gime;
    Los ecos suenan de tristeza llenos:
      Y tú, por quien la muerte en mí se imprime,
    De oir las ansias mias te desdeñas;
    Y cuando lloro mas, te abrando menos.


CLXV.

    En una selva al dispuntar del dia
    Estaba Endimion triste y lloroso,
    Vuelto al rayo del sol, que presuroso
    Por la falda de un monte descendia.
      Mirando al turbador de su alegría,
    Contrario de su bien y su reposo,
    Tras un suspiro y otro, congojoso,
    Razones semejantes le decia:
      Luz clara, para mi la mas escura,
    Que con esse paseo apresurado,
    Mi sol con tu teniebla escureciste;
      Si allà pueden moverte en esa altura
    Las quejas de un pastor enamorado,
    No tardes en volver á dó saliste.


CLXVI.

    Orfeo enamorado que tañia
    Por la perdida Ninfa que buscaba,
    En el Orco implacable donde estaba,
    Con la arpa, y con la voz la enternecia.
      La rueda de Ixion no se movia,
    Ningun atormentado se quejaba;
    Las penas de los otros ablandaba,
    Y todas las de todos él sentia.
      El son pudo obligar de tal manera,
    Que en dulce galardon de lo cantado,
    Los infernales Reyes condolidos,
      Le mandáron volver su compañera,
    Y volvióla á perder el desdichado;
    Con que fueron entrambos los perdidos.


CLXVII.

    Eu cantei ja, e agora vou chorando
    O tempo que cantei tão confiado:
    Parece que no canto ja passado
    Se estavão minhas lagrimas criando.
      Cantei; mas se me alguem pergunta, quando?
    Não sei; que tambem fui nisso enganado.
    He tão triste este meu presente estado,
    Que o passado por ledo estou julgando.
      Fizerão-me cantar manhosamente
    Contentamentos não, mas confianças:
    Cantava, mas ja era ao som dos ferros.
      De quem me queixarei, se tudo mente?
    Porém que culpas ponho ás esperanças,
    Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros?


CLXVIII.

    Ai amiga cruel! que apartamento
    He este que fazeis da patria terra?
    Ai! quem do amado ninho vos desterra,
    Gloria dos olhos, bem do pensamento?
      His tentar da fortuna o movimento,
    E dos ventos crueis a dura guerra?
    Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra
    Levantado de hum vento e de outro vento?
      Mas ja que vós partis, sem vos partirdes,
    Parta comvosco o Ceo tanta ventura,
    Que se avantaje áquella qu'esperardes.
      E só desta verdade ide segura,
    Que fazeis mais saudades com vos irdes,
    Do que levais desejos por chegardes.


CLXIX.

    Campo! nas syrtes deste mar da vida,
    Apos naufragios seus taboa segura;
    Claras bonanças em tormenta escura,
    Habitação da paz, de amor guarida;
      A ti fujo: e se vence tal fugida,
    E quem mudou lugar, mudou ventura,
    Cantemos a victoria; e na espessura
    Triumphe a honra da ambição vencida.
      Em flor e fructo de verão e outono;
    Utilmente murmurão claras ágoas;
    Alegre me acha aqui, me deixa o dia.
      Amantes rouxinoes rompem-me o sono
    Que ata o descanso: aqui sepulto mágoas
    Que ja forão sepulcros de alegria.


CLXX.

    Ah minha Dinamene! assi deixaste
    Quem nunca deixar pôde de querer-te!
    Que ja, Nympha gentil, não possa ver-te!
    Que tão veloz a vida desprezaste!
      Como por tempo eterno te apartaste
    De quem tão longe andava de perder-te?
    Puderão essas ágoas defender-te
    Que não visses quem tanto magoaste?
      Nem somente fallar-te a dura morte
    Me deixou, qu'apressada o negro manto
    Lançar sôbre os teus olhos consentiste.
      Oh mar! oh ceo! oh minha escura sorte!
    Qual vida perderei que valha tanto,
    Se inda tenho por pouco o viver triste?


CLXXI.

    Guardando em mi a Sorte o seu direito.
    Em verde me cortou minha alegria.
    Oh quanto feneceo naquelle dia,
    Cuja triste lembrança arde em meu peito!
      Quando mais o imagino, bem suspeito
    Que a tal bem tal desconto se devia,
    Por não dizer o mundo que podia
    Achar-se em seus enganos bem perfeito.
      Pois se a Fortuna o fez por descontar-me
    Aquelle gôsto, em cujo sentimento
    A memoria não faz senão matar-me;
      Que culpas póde dar-me o pensamento,
    Se a causa qu'elle t[~e]e de atormentar-me,
    Tenho eu de soffrer mal o seu tormento?


CLXXII.

    Cantando estava hum dia bem seguro,
    Quando passava Sylvio, e me dizia:
    (Sylvio, pastor antiguo que sabia
    Por o canto das aves o futuro)
      Liso, quando quizer o fado escuro,
    A opprimir-te virão em hum só dia
    Dous lobos; logo a voz e a melodia
    Te fugirão, e o som suave e puro.
      Bem foi assi; porque hum me degolou
    Quanto gado vacum pastava e tinha,
    De que grandes soldadas esperava.
      E por mais damno o outro me matou
    A cordeira gentil, qu'eu tanto amava,
    Perpétua saudade da alma minha.


CLXXIII.

    O ceo, a terra, o vento socegado,
    As ondas que se estendem por a areia,
    Os peixes que no mar o somno enfreia,
    O nocturno silencio repousado;
      O Pescador Aonio que, deitado
    Onde co'o vento a água se meneia,
    Chorando, o nome amado em vão nomeia,
    Que não póde ser mais que nomeado,
      Ondas, (dizia) antes que Amor me mate,
    Tornae-me a minha Nympha, que tão cedo
    Me fizestes á morte estar sujeita.
      Ninguem responde; o mar de longe bate;
    Move-se brandamente o arvoredo;
    Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita.


CLXXIV.

    Ah Fortuna cruel! ah duros Fados!
    Quão asinha em meu damno vos mudastes!
    Com os vossos cuidados me cansastes,
    E agora descansais co'os meus cuidados.
      Fizestes-me provar gostos passados,
    E vossa condição nelles provastes:
    Singelos em hum'hora mos levastes,
    Deixando em seu lugar males dobrados.
      Quanto melhor me fôra que não vira
    Os doces bens de Amor? Ah bens suaves!
    Quem me deixa sem vós, porque me deixa?
      De queixar-te, alma minha, te retira:
    Alma, de alto cahida em penas graves,
    Pois tanto amaste em vão, em vão te queixa.


CLXXV.

    Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento
    Vos hei de ver tão tristes e aggravados?
    Não bástão meus suspiros inflammados,
    Que sempre em mi renovão seu tormento?
      Não basta consentir meu pensamento
    Em mágoas, em tristezas e em cuidados,
    Senão que haveis de andar tão maltratados,
    Que lagrimas tenhais por mantimento?
      Não sei porque tomais esta vingança,
    Mostrando-vos na ausencia tão saudosos,
    Se sabeis quanto póde huma esperança.
      Olhos, não aggraveis outros formosos,
    Tornando hum puro amor em esquivança,
    Pois ficais por esquivos desdenhosos.


CLXXVI.

    Lembranças, que lembrais o bem passado
    Para que sinta mais o mal presente,
    Deixae-me, se quereis, viver contente,
    Morrer não me deixeis em tal estado.
      Se de todo, comtudo, está do Fado,
    Que eu morra de viver tão descontente,
    Venha-me todo o bem por accidente,
    E todo o mal me venha por cuidado.
      Que muito melhor he perder-se a vida,
    Perdendo-se as lembranças da memoria,
    Pois fazem tanto damno ao pensamento.
      Porque, em fim, nada perde quem perdida
    A esperança t[~e]e ja daquella gloria
    Que fazia suave o seu tormento.


CLXXVII.

    Quando os olhos emprégo no passado,
    De quanto passei me acho arrependido;
    Vejo que tudo foi tempo perdido,
    Que tudo emprêgo foi mal empregado.
      Sempre no mais damnoso mais cuidado;
    Tudo o que mais cumpria, mal cumprido;
    De desenganos menos advertido
    Fui, quando de esperanças mais frustrado.
      Os castellos que erguia o pensamento,
    No ponto que mais altos os erguia,
    Por esse chão os via em hum momento.
      Que erradas contas faz a phantasia!
    Pois tudo pára em morte, tudo em vento,
    Triste o que espera! triste o que confia!


CLXXVIII

    Ja cantei, ja chorei a dura guerra
    Por Amor sustentada longos anos;
    Vezes mil me vedou dizer seus danos,
    Por não ver quem o segue o muito que erra.
      Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra;
    Vós que fazeis á morte mil enganos,
    Concedei-me ja alentos soberanos
    Para que diga o mal que Amor encerra:
      Para que aquelle, que o seguir ardente,
    Veja em meus puros versos hum exemplo
    De quanto em glorias promettidas mente.
      Qu'inda qu'em triste estado me contemplo,
    Se neste assumpto me inspirais, contente
    Darei a minha lyra ao vosso templo.


CLXXIX

    Os meus alegres, venturosos dias
    Passárão, como raio, brevemente;
    Movem-se os tristes mais pezadamente
    Apos das fugitivas alegrias.
      Ah falsas pretenções! vãas phantasias!
    Que me podeis ja dar que me contente?
    Ja de meu triste peito a chamma ardente
    O tempo reduzio a cinzas frias.
      Nellas revolvo agora erros passados;
    Que outro fructo não deo a mocidade,
    A quem vergonha e dor minha alma deve
      Revolvo mais de toda a mais idade,
    Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados,
    Para que leve tudo o tempo leve.


CLXXX.

    Horas breves de meu contentamento,
    Nunca me pareceo, quando vos tinha,
    Que vos visse mudadas tão asinha
    Em tão compridos annos de tormento.
      As altas tôrres, que fundei no vento,
    Levou, em fim, o vento que as sostinha:
    Do mal, que me ficou, a culpa he minha,
    Pois sôbre cousas vãas fiz fundamento.
      Amor com brandas mostras apparece,
    Tudo possivel faz, tudo assegura;
    Mas logo no melhor desapparece.
      Estranho mal! estranha desventura!
    Por hum pequeno bem que desfallece,
    Hum bem aventurar, que sempre dura!


CLXXXI.

    Onde acharei lugar tão apartado,
    E tão isento em tudo da ventura,
    Que, não digo eu de humana criatura,
    Mas nem de feras seja frequentado?
      Algum bosque medonho e carregado,
    Ou selva solitaria, triste e escura,
    Sem fonte clara, ou placida verdura;
    Em fim, lugar conforme a meu cuidado?
      Porque alli nas entranhas dos penedos,
    Em vida morto, sepultado em vida,
    Me queixe copiosa e livremente.
      Que, pois a minha pena he sem medida,
    Alli não serei triste em dias ledos,
    E dias tristes me farão contente.


CLXXXII.

    Aqui de longos damnos breve historia
    Verão os que se jactão de amadores:
    Reparo póde ser das suas dores
    Não apartar as minhas da memoria.
      Escrevi, não por fama, nem por gloria,
    De que outros versos são merecedores,
    Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores
    A quem de mi logrou tanta victoria.
      Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto
    Que em número me fez, alheio de arte,
    Dizer do cego Amor, que me venceo.
      Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto;
    E dando a penna á mão, esta só parte
    De minhas tristes penas escreveo.


CLXXXIII.

    Por sua Nympha Céphalo deixava
    A Aurora, que por elle se perdia,
    Postoque dá principio ao claro dia,
    Postoque as roxas flores imitava.
      Elle, que a bella Procris tanto amava,
    Que só por ella tudo engeitaria,
    Deseja de tentar se lhe acharia
    Tão firme fé, como ella nelle achava.
      Mudado o trage, tece hum duro engano;
    Outro se finge, preço põe diante;
    Quebra-se a fé mudavel, e consente.
      Oh subtil invenção para seu dano!
    Vêde que manhas busca hum cego amante
    Para que sempre seja descontente!


CLXXXIV.

    Sentindo-se alcançada a bella esposa
    De Céphalo no crime consentido,
    Para os montes fugia do marido;
    E não sei se de astuta, ou vergonhosa.
      Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa,
    Da cegueira obrigado de Cupido,
    Apos ella se vai como perdido,
    Ja perdoando a culpa criminosa.
      Deita-se aos pés da Nympha endurecida,
    Que do cioso engano está aggravada;
    Ja lhe pede perdão, ja pede a vida.
      Oh fôrça d'affeição desatinada!
    Que da culpa contr'elle commettida,
    Perdão pedia á parte que he culpada!


CLXXXV.

    Seguia aquelle fogo, que o guiava,
    Leandro, contra o mar e contra o vento;
    Quebravão-lhe ondas o animoso alento,
    Por mais e mais que Amor lho renovava.
      Com sentir ja que quasi lhe faltava,
    Sem nada esmorecer, no pensamento
    (Não podendo fallar) de seu intento
    O fim ao surdo mar encommendava.
      Ó mar, (dizia o moço só comsigo)
    Ja te não peço a vida; só queria
    Que a d'Hero me salvasses: não me veja:
      Este defunto corpo lá o desvia
    D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo,
    Pois no meu maior bem me houveste inveja.


CLXXXVI.

    Os olhos onde o casto Amor ardia,
    Ledo de se ver nelles abrazado;
    O rosto onde com lustre desusado
    Purpurea rosa sôbre neve ardia;
      O cabello, que inveja ao sol fazia,
    Porque fazia o seu menos dourado;
    A branca mão, o corpo bem talhado,
    Tudo aqui se reduz a terra fria.
      Perfeita formosura em tenra idade,
    Qual flor, que antecipada foi colhida,
    Murchada está da mão da morte dura.
      Como não morre Amor de piedade?
    Não della, que se foi á clara vida;
    Mas de si, que ficou em noute escura.


CLXXXVII.

    Ditosa penna, como a mão que a guia
    Com tantas perfeições da subtil arte,
    Que quando com razão venho a louvar-te,
    Em teus louvores perco a phantasia.
      Porém Amor, que effeitos varios cria,
    De ti cantar me manda em toda parte,
    Não em plectro belligero de Marte,
    Mas em suave e branda melodia.
      Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo,
    Voando se levanta e te pregoa,
    Agora que ninguem te levantava.
      E porque immortal sejas, eis Apolo
    Te offerece de flores a coroa,
    Que ja de longo tempo te guardava.


CLXXXVIII.

    Espanta crescer tanto o crocodilo
    Só por seu limitado nascimento;
    Que, se maior nascêra, mais isento
    Estivera de espanto o patrio Nilo.
      Em vão levantará meu baixo estilo
    Vosso Pontifical, novo ornamento;
    Pois no ventre o immortal merecimento
    Vo-lo talhou, para despois vesti-lo.
      Tardou, mas veio; que a quem mais merece
    Vir o premio mais tarde he sempre certo,
    Inda que vez alguma venha cedo.
      Os ceos, que do primeiro estão mais perto,
    Mais devagar se movem. Quem conhece,
    Sôbre aquelle segredo, este segredo!


CLXXXIX.

    Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante,
    Com qu'a celeste máchina sustenta;
    Honrou a Homero o engenho, com que intenta
    Grecia do quarto ceo passá-lo avante;
      Coroou claro Amor de amor constante
    A Orpheo, na paz firme e na tormenta;
    Inspirou a Fortuna, em tudo isenta,
    A Cesar, de quem foi hum tempo amante;
      Exaltaste tu, Fama, a gloria alta
    De Alcides lá no monte em que resides;
    Mas Castro, em quem o Ceo seus dões derrama,
      Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta,
    Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides,
    Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama.


CXC.

    Despois que vio Cibele o corpo humano
    Do formoso Atys seu verde pinheiro,
    Em piedade o vão furor primeiro
    Convertido, chorava o grave dano.
      E, á sua dor fazendo illustre engano,
    A Jupiter pedio, que o verdadeiro
    Preço da nobre palma e do loureiro
    Ao seu pinheiro désse, soberano.
      Mais lhe concede o filho poderoso
    Que, crescendo, as estrellas tocar possa,
    Vendo os segredos lá do ceo superno.
      Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso
    Quem se vir coroar da rama vossa,
    Cantando á vossa sombra verso eterno!


CXCI.

    Pois torna por seu Rei e juntamente
    Por Christo a governar aquella parte
    Onde se t[~e]e mostrado hum Numa, hum Marte
    O famoso Luis, justo e valente;
      O Tejo espere ver de todo o Oriente,
    Onde tão raros dões o Ceo reparte,
    Render a tanto esfôrço, aviso e arte,
    Mil palmas, mil tributos novamente.
      Os que bebem no Gange, os que no Indo,
    A quem pouco valêrão lança e escudo,
    O render-se terão por bom partido.
      O Euphrates temerá, seu nome ouvindo;
    Que para delle ver vencido tudo,
    Ja vio do braço seu tudo vencido.


CXCII.

    Agora toma a espada, agora a pena,
    Estacio nosso, em ambas celebrado,
    Sendo, ou no salso mar de Marte amado,
    Ou n'água doce amante da Camena.
      Cysne sonoro por ribeira amena
    De mi para cantar-te he cobiçado;
    Porque não podes tu ser bem cantado
    De ruda frauta, nem de agreste avena.
      Se eu, que a penna tomei, tomei a espada,
    Para poder jogar licença tenho
    Desta alta influïção de dous Planetas;
      Com huma e outra luz delles lograda,
    Tu com pujante braço, ardente engenho,
    Serás pharo a Soldados e a Poetas.


CXCIII.

    Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente
    Em minha perdição se conjurárão:
    Os erros e a Fortuna sobejárão;
    Que para mi bastava Amor somente.
      Tudo passei; mas tenho tão presente
    A grande dor das cousas, que passárão,
    Que ja as frequencias suas me ensinárão
    A desejos deixar de ser contente.
      Errei todo o discurso de meus anos;
    Dei causa a que a Fortuna castigasse
    As minhas mal fundadas esperanças.
      De Amor não vi senão breves enganos.
    Oh quem tanto pudesse, que fartasse
    Este meu duro Genio de vinganças!


CXCIV.

    Cá nesta Babylonia donde mana
    Materia a quanto mal o mundo cria;
    Cá donde o puro Amor não t[~e]e valia;
    Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
      Cá donde o mal se affina, o bem se dana,
    E póde mais que a honra a tyrannia;
    Cá donde a errada e cega Monarchia
    Cuida que hum nome vão a Deos engana;
      Cá neste labyrintho onde a Nobreza,
    O Valor e o Saber pedindo vão
    Ás portas da Cobiça e da Vileza;
      Cá neste escuro caos de confusão
    Cumprindo o curso estou da natureza.
    Vê se me esquecerei de ti, Sião!


CXCV.

    Correm turbas as águas deste rio,
    Que as rapidas enchentes enturbárão;
    Os florecidos campos se seccárão;
    Intratavel se fez o valle e frio.
      Passou, como o verão, o ardente estio;
    Humas cousas por outras se trocárão:
    Os fementidos fados ja deixárão
    Do mundo o regimento, ou desvario.
      Ja o tempo a ordem sua t[~e]e sabida;
    O mundo não; mas anda tão confuso,
    Que parece que delle Deos se esquece.
      Casos, opiniões, natura, e uso,
    Fazem que nos pareça desta vida
    Que não ha nella mais do que parece.


CXCVI.

    Vós outros, que buscais repouso certo
    Na vida, com diversos exercicios;
    A quem, vendo do mundo os beneficios,
    O regimento seu fica encoberto;
      Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto
    Novas honras e cegos sacrificios;
    Que, por castigo igual de antiguos vicios,
    Quer Deos que andem as cousas por acêrto.
      Não cahio neste modo de castigo
    Quem poz culpa á Fortuna, quem somente
    Crê que acontecimentos ha no mundo.
      A grande experiencia he grão perigo:
    Mas o que a Deos he justo e evidente
    Parece injusto aos homens e profundo.


CXCVII.

    Para se namorar do que criou,
    Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura.
    Vêde que tal seria esta feitura
    Que para si o seu Feitor guardou!
      No seu alto conceito te formou
    Primeiro que a primeira criatura,
    Para que unica fosse a compostura
    Que de tão longo tempo se estudou.
      Não sei se digo em tudo quanto baste
    Para exprimir as raras qualidades
    Que quiz criar em ti quem tu criaste.
      Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste
    Huma só, tres tão altas dignidades,
    Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste.


CXCVIII.

    Desce do ceo immenso Deos benino
    Para encarnar na Virgem soberana.
    Porque desce o divino a cousa humana?
    Para subir o humano a ser divino.
      Pois como vem tão pobre e tão menino,
    Rendendo-se ao poder da mão tyrana?
    Porque vem receber morte inhumana
    Para pagar de Adão o desatino.
      He possivel que os dous o fructo comem
    Que de quem lhes deo tanto foi vedado?
    Si; porque o proprio ser de deoses tomem.
      E por esta razão foi humanado?
    Si; porque foi com causa decretado,
    Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem.


CXCIX.

    Dos ceos á terra desce a mor Belleza,
    Une-se á nossa carne, e a faz nobre;
    E, sendo a humanidade d'antes pobre,
    Hoje subida fica á mor riqueza.
      Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
    Que, como ao mundo o seu amor descobre,
    De palhas vis o corpo tenro cobre,
    E por ellas o mesmo ceo despreza.
      Como? Deos em pobreza á terra dece?
    O qu'he mais pobre tanto lhe contenta,
    Qu'este somente rico lhe parece.
      Pobreza este Presepio representa;
    Mas tanto por ser pobre ja merece,
    Que quanto mais o he, mais lhe contenta.


CC.

    Porque a tamanhas penas se offerece
    Por o peccado alheio, e êrro insano,
    O Trino Deos? Porque o sogeito humano
    Não póde co'o castigo que merece.
      Quem padecerá as penas que padece?
    Quem soffrerá deshonra, morte e dano?
    Quem será, se não for o Soberano
    Que reina, e servos manda, e obedece?
      Foi a fôrça do homem tão pequena,
    Que não pôde soster tanta aspereza,
    Pois não sosteve a Lei que Deos ordena.
      Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza
    Por amor puro; que a mortal fraqueza
    Foi para o êrro, e não ja para a pena.


CCI.

    Despois de haver chorado os meus tormentos,
    Quer Amor que lhe cante as suas glorias.
    Canto de huma belleza os vencimentos,
    De hum longo padecer chóro as memorias.
      Porém, se as minhas penas são victorias,
    Por a causa, a meus altos pensamentos;
    Dilatem-se em larguissimas historias
    Estes meus gloriosos rendimentos.
      Mova-se em todo o mundo unico espanto
    De qu'he, por a belleza qu'eu adoro,
    Do que cantado tenho premio o pranto.
      Contente offreço a amor tão triste foro:
    Que se chôro não ha como o meu canto,
    Não sei canto melhor qu'este meu chôro.


CCII.

    Onde mereci eu tal pensamento
    Nunca de ser humano merecido?
    Onde mereci eu ficar vencido
    De quem tanto me honrou co'o vencimento?
      Em gloria se converte o meu tormento,
    Quando vendo-me estou tão bem perdido;
    Pois não foi tanto mal ser atrevido,
    Como foi gloria o mesmo atrevimento.
      Vivo, Senhora, só de contemplar-vos;
    E pois esta alma tenho tão rendida,
    Em lagrimas desfeito acabarei.
      Porque não me farão deixar de amar-vos
    Receios de perder por vós a vida;
    Que por vós vezes mil a perderei.


CCIII.

    De frescas belvederes rodeadas
    Estão as puras águas desta fonte;
    Formosas Nymphas lhes estão defronte,
    A vencer e a matar acostumadas.
      Andão contra Cupido levantadas
    As suas graças, que não ha quem conte:
    D'outro valle esquecidas, d'outro monte,
    A vida passão neste socegadas.
      O seu poder juntou, sua valia
    Amor, ja não soffrendo este desprêzo,
    Somente por se ver dellas vingado;
      Mas, vendo-as, entendeo que não podia
    De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo,
    E ficou-se com ellas desarmado.


CCIV.

    Nos braços de hum Sylvano adormecendo
    Se estava aquella Nympha qu'eu adoro,
    Pagando com a boca o doce foro,
    Com que os meus olhos foi escurecendo.
      Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo
    Que a maior formosura do teu côro
    Em hum poder tão vil perca o decoro
    Que o merito maior lhe está devendo?
      Eu levarei daqui por presupposto
    Desta nova estranheza que fizeste,
    Que em ti não póde haver cousa segura.
      Que, pois o claro lume, o bello rosto
    Áquelle monstro tão disforme déste,
    Não creio qu'haja Amor, senão Ventura.


CCV.

    Quem diz que Amor he falso, ou enganoso,
    Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
    Sem falta lhe terá bem merecido
    Que lhe seja cruel, ou rigoroso,
      Amor he brando, he doce, e he piedoso:
    Quem o contrário diz não seja crido;
    Seja por cego e apaixonado tido,
    E aos homens, e inda aos deoses odioso.
      Se males faz Amor, em mi se vem;
    Em mi mostrando todo o seu rigor,
    Ao mundo quiz mostrar quanto podia.
      Mas todas suas iras são d'Amor;
    Todos estes seus males são hum bem,
    Qu'eu por todo outro bem não trocaria.


CCVI.

    Formosa Beatriz, tendes taes geitos
    N'hum brando revolver dos olhos bellos,
    Que só no contemplá-los, se não ve-los,
    Se inflammão corações e humanos peitos.
      Em toda perfeição são tão perfeitos,
    Que o desengano dão de merecê-los:
    Não póde haver quem possa conhecê-los,
    Sem nelle Amor fazer grandes effeitos.
      Sentirão, por meu mal, tão graves danos
    Os meus, que com os ver cegos e tristes
    Ficarão sem prazer, co'a luz perdida.
      Mas ja que vós com elles me feristes,
    Tornai-me a ver com elles mais humanos,
    E deixareis curada esta ferida.


CCVII.

    Alegres campos, verdes, deleitosos,
    Suaves me serão vossas boninas,
    Em quanto forem vistas das meninas
    Dos olhos de Ignez bella tão formosos.
      Dos meus, que vos serão sempre invejosos
    Por não verem estrellas tão divinas,
    Sereis regados d'águas peregrinas,
    Soprados de suspiros amorosos.
      E vós, douradas flores, por ventura
    Se Ignez quizer fazer de meus amores
    Exp'riencias na folha derradeira,
      Mostrai-lhe, para ver minha fé pura,
    O bem que sempre quiz, formosas flores;
    Qu'então não sentirei que mal me queira.


CCVIII.

    Ondados fios de ouro, onde enlaçado.
    Continuamente tenho o pensamento;
    Que quanto mais vos sólta o fresco vento,
    Mais preso fico então de meu cuidado;
      Amor, d'huns bellos olhos sempre armado,
    Me combate co'as fôrças do tormento,
    Provando da minha alma o soffrimento
    Que á justa lei da paz trago obrigado.
      Assi que em vosso gesto mais que humano
    Amo a paz juntamente e o perigo;
    E em amar hum e outro não me engano.
      Muitas vezes dizendo estou comigo
    Que, pois he tal a causa de meu dano,
    He justa a guerra, he justa a paz que sigo.


CCIX.

    Amor, que em sonhos vãos do pensamento
    Paga o zêlo maior de seu cuidado,
    Em toda condição, em todo estado,
    Tributario me fez de seu tormento.
      Eu sirvo, eu canso; e o grão merecimento
    De quanto tenho a Amor sacrificado,
    Nas mãos da ingratidão despedaçado
    Por prêza vai do eterno esquecimento.
      Mas quando muito, em fim, cresça o perigo,
    A que perpetuamente me condena
    Amor, que amor não he, mas inimigo;
      Tenho hum grande descanso em minha pena,
    Que a gloria do querer, que tanto sigo,
    Não póde ser co'os males mais pequena.


CCX.

    Nem o tremendo estrépito da guerra
    Com armas, com incendios espantosos
    Que despachão pelouros perigosos,
    Bastantes a abalar huma alta serra,
      Podem pôr medo a quem nenhum encerra,
    Despois que vio os olhos tão formosos,
    Por quem o horror nos casos pavorosos
    De mi todo se aparta e se desterra,
      A vida posso ao fogo e ferro dar,
    E perdê-la em qualquer duro perigo,
    E nelle, como phenix, renovar.
      Não póde mal haver para comigo,
    De qu'eu ja me não possa bem livrar,
    Senão do que me ordena Amor imigo.


CCXI.

    Fiou-se o coração, de muito isento,
    De si, cuidando mal que tomaria
    Tão illicito amor, tal ousadia,
    Tal modo nunca visto de tormento.
      Mas os olhos pintárão tão a tento
    Outros que vistos t[~e]e na phantasia,
    Que a razão, temerosa do que via,
    Fugio, deixando o campo ao pensamento.
      Ó Hippolyto casto, que de geito
    De Phedra tua madrasta foste amado,
    Que não sabia ter nenhum respeito;
      Em mi vingou Amor teu casto peito:
    Mas está deste aggravo tão vingado,
    Que se arrepende ja do que t[~e]e feito.


CCXII.

    Quem quizer ver d'amor huma excellencia
    Onde sua fineza mais se apura,
    Attente onde me põe minha ventura,
    Porque de minha fé faça exp'riencia.
      Onde lembranças mata a larga ausencia,
    Em temeroso mar, em guerra dura,
    A saudade alli'stá mais segura,
    Quando risco maior corre a paciencia.
      Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado,
    Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdição,
    Ou em sublime e próspera ventura;
      Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado;
    Que até na dura morte me acharão
    Na lingua o nome, e n'alma a vista pura.


CCXIII.

    Los ojos que con blando movimiento
    Al pasar enternecen la alma mia,
    Si detener pudiera solo un dia,
    Pudiera bien libraria de tormento.
      Deste tan amoroso sentimiento
    El importuno mal se acabaria;
    Ó tambien su accidente creceria
    Para acabar la vida en un momento.
      Oh! si ya tu esquivez me permitiese
    Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso,
    A manos de tus ojos yo muriese!
      Oh si los detuvieras! cuan dichoso
    Seria aquel momento en que me viese
    Vida en ellos cobrar, cobrar reposo!


CCXIV.

    No bastaba que amor puro y ardiente
    Por términos la vida me quitase;
    Mas que la muerte así se apresurase
    Con un deshumanisimo accidente?
      No pretendió mi alma, aunque lo siente,
    Que el riguroso curso se atajase,
    Porque nunca morir se exprimentase
    Desamado el que amó tan dulcemente.
      Mas vuestra voluntad tan poderosa
    Con esas gracias vuestras ordenaron
    Crueldad asi imposible, ó nunca oída.
      Aquel frio desden, y la amorosa
    Furia, de un golpe solo, me quitaron
    Con dós contrarias muertes una vida.


CCXV.

    Ayudame, Señora, á hacer venganza
    De tal selvatiquez, de tal rudeza,
    Pues de mi poquedad, de mi bajeza
    Osado á ti elevaba la esperanza.
      Á esa tu perfeccion, que no se alcanza,
    Á esas sublimes cumbres de belleza,
    Donde una vez llegó naturaleza,
    Mas de volver perdió la confianza.
      Aquello que en ti miro contemplando,
    (Que apenas contemplarlo me consiente)
    Contemplándolo mas, menos lo espero.
      Si gloria de mi pena en ti se siente,
    Derrama en mí tus iras, desamando;
    Que al ofenderme mas yo mas te quiero.


CCXVI.

    O claras águas deste blando rio,
    Que en vos al natural estais pintando
    El frondífero adorno con que alzando
    Se vá á los cielos este bosque umbrio;
      Así las lluvias, así el Austro frio
    Jamás puedan veniros enturbiando,
    Que os vais del seco estio preservando
    Con socorreros deste llanto mio.
      Y cuando en vos Marfisa se mirare,
    Mi figura, cual veis desfallecida,
    Ante sus claros ojos puesta sea.
      Y si por mí de vos los apartare,
    De verme alli mostrándose ofendida,
    En pena de no verme no se vea.


CCXVII.

    Mil veces entre sueños tu figura,
    O bella Ninfa, claramente veo;
    Y cuando mas la miro, mas deseo
    Gozar libre de sueños su hermosura.
      En tanto que este dulce engaño dura,
    Vivo en la vana gloria que poseo:
    Mas cuanto allí se eleva mi deseo,
    Viene a caer despierto en sombra escura.
      Duéleme el despertar por contemplarte;
    Que si bien sé te huelgas de no verme,
    Huélgome de ser ciego por mirarte.
      Mas si quiero de engaños mantenerme,
    Y tú quieres me pierda por amarte,
    Sin gran ganancia no podré perderme.


CCXVIII.

    Mi gusto y tu beldad se desposaron,
    Terceros por mi mal mis ojos fueron:
    Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron
    Un hijo hermoso á quien amor llamaron.
      Tan fuera de compás le regalaron,
    Que cuando mas alegres estuvieron,
    Sin entender el mal que produjeron,
    Perdidos por amores se miraron.
      La beldad desposada deste duelo,
    Vino á parir un monstro con dós alas;
    La madre es la soberbia, el niño el zelo.
      Oh madre que á tu hijo en todo igualas!
    Quien mortal hace al inmortal abuelo,
    Y al padre mortal da inmortales zalas?


CCXIX.

    Si el fuego que me enciende, consumido
    De algun mas suelto Aquario ser pudiese;
    Si el alto suspirar me convertiese
    En aire por el aire desparcido;
      Si un horrible rumor siendo sentido,
    La alma á dejar el cuerpo redujese;
    Ó por estos mis ojos al mar fuese
    Este mi cuerpo en llanto convertido;
      Nunca podria la fortuna airada,
    Com todos sus horrores, sus espantos,
    Derrocar la alma mia de su gloria.
      Porque en vuestra beldad ya transformada,
    Ni del Estigio lago eternos llantos
    Os podrian quitar de mi memoria.


CCXX.

    Que me quereis perpétuas saudades?
    Com qu'esperanças inda me enganais?
    O tempo, que se vai, não torna mais,
    E se torna, não tornão as idades.
      Razão he ja, ó annos, que vos vades,
    Porque estes tão ligeiros que passais,
    Nem todos para hum gôsto sois iguais,
    Nem sempre são conformes as vontades.
      Aquillo a que ja quiz he tão mudado,
    Que quasi he outra cousa; porque os dias
    T[~e]e o primeiro gôsto ja damnado.
      Esperanças de novas alegrias,
    Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado,
    Que do contentamento são espias.


CCXXI.

    Oh rigorosa ausencia desejada
    De mi sempre, mas nunca conhecida!
    Saudade, n'outro tempo tão temida,
    Como em meu damno agora exprimentada!
      Ja rigorosamente começada
    Tendes vossa esperança em minha vida;
    Mas tanto, que ja temo que opprimida
    Sejais com ella cedo, ou acabada.
      Os dias mais alegres me entristecem;
    As noites, com cuidados as desconto,
    Em que sem vós sem conto me parecem.
      Eu desejando espero, e os annos conto;
    Mas com a vida, em fim, elles fallecem:
    Nem basta á carne enfêrma esprito pronto.


CCXXII.

    Ay! quien dará á mis ojos una fuente
    De lágrimas que manen noche y dia?
    Respirara si quiera la alma mia,
    Llorando lo pasado, y lo presente.
      Quien me diera apartado de la gente,
    De mi dolor siguiendo la porfia
    Con la triste memoria y fantasia
    Del bien por quien mal tanto así se siente!
      Quien me dará palabras con que iguale
    El duro agravio que el amor me ha hecho,
    Donde tan poco el sufrimiento vale?
      Quien me abrirá profundamente el pecho,
    Dó está escrito el secreto que no sale,
    Con tanto dolor mio, á mi despecho?


CCXXIII.

    Con razon os vais, aguas, fatigando
    Por llegar dó sereis bien recebidas;
    Y en aquel mar inmenso convertidas,
    Que ya de tantos dias vais buscando.
      Triste de aquel que siempre anda llorando
    Las vanas esperanzas ya perdidas,
    Y con dolor las lágrimas vertidas
    Nunca al fin pretendido van llegando!
      Vosotras sin traer derecha via,
    Al término llegais tan deseado,
    Por mas que os embarace el gran rodeo;
      Mas yo siempre afligido noche y dia,
    Por un camino, que no llevo errado,
    Jamás puedo llegar donde deseo.


CCXXIV.

    Oh cese ya, Señor, tu dura mano!
    No llegues tanto al cabo con mi vida;
    Baste el estar por ti tan consumida,
    Que ya no se halla en ella lugar sano.
      Ay estraña hermosura! ay deshumano
    Hado, á que nunca puedo hallar salida!
    Si tú de tu piedad no eres movida,
    Roto el hilo vital verás temprano.
      Un blando desamor, un amor blando,
    Bien basta para un hombre tan perdido,
    Que de su mal ningun remedio espera.
      Y si estimas en poco el ver cual ando,
    Aqui me tienes ante ti rendido:
    Viva tu gusto, mi esperanza muera.


CCXXV.

    Dulces engaños de mis ojos tristes,
    Cuan vivo despertais mi pensamiento!
    Aquello que pudiera dar contento,
    En sombra de pintura lo volvistes.
      De blando sobresalto enternecistes
    Con vista arrebatada el sentimiento;
    Mas no le asegurastes un momento
    Aqueste vano bien que le ofrecistes.
      Veo que la figura era fingida,
    Y no aquella que en sí mi alma esconde,
    Aunque en esto se llega al natural:
      Así escucha mi llanto, así responde,
    Así se condolece de mi vida,
    Como si fuera el propio original.


CCXXVI.

    Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste,
    Como si alguno alegre yo esperara?
    Como, o Tajo, al pasar esa tu clara
    Agua, no la alteraste, y no me hundiste?
      El paso me cerraste, el pecho abriste,
    O mi ventura, de mi bien avara!
    Á Dios, montañas de hermosura rara;
    Á Dios, mi corazon, que no partiste.
      Si adonde quedas en dichosa suerte
    No bebieres las aguas del olvido,
    En tanto bien no quieras olvidarme.
      Cantando mi dolor llora mi muerte;
    Porque hasta el hueco monte sin sentido
    Suelta su ronca voz por consolarme.


CCXXVII.

    Levantai, minhas Tagides, a frente,
    Deixando o Tejo ás sombras nemorosas;
    Dourai o valle umbroso, as frescas rosas,
    E o monte com as árvores frondente.
      Fique de vós hum pouco o rio ausente,
    Cessem agora as lyras numerosas,
    Cesse vosso lavor, Nymphas formosas,
    Cesse da fonte vossa a grã corrente.
      Vinde a ver a Theodosio grande e claro,
    A quem 'stá offrecendo maior canto
    Na cithara dourada o louro Apolo.
      Minerva do saber dá-lhe o dom raro,
    Pallas lhe dá o valor de mais espanto,
    E a Fama o leva ja de pólo a pólo.


CCXXVIII.

    Vós, Nymphas da Gangetica espessura,
    Cantae suavemente, em voz sonora,
    Hum grande Capitão que a roxa Aurora
    Dos filhos defendeo da noite escura.
      Ajuntou-se a caterva negra e dura,
    Que na Aurea Chersoneso affouta mora,
    Para lançar do charo ninho fóra
    Aquelles que mais podem que a ventura.
      Mas hum forte leão, com pouca gente,
    A multidão tão fera como necia,
    Destruindo castiga e torna fraca.
      Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente
    Mais do que Leonidas fez em Grecia,
    O nobre Leoniz fez em Malaca.


CCXXIX.

    Alma gentil, que á firme eternidade
    Subiste clara e valerosamente,
    Cá durará de ti perpetuamente
    A fama, a gloria, o nome e a saudade.
      Não sei se he mor espanto em tal idade
    Deixar de teu valor inveja á gente,
    Se hum peito de diamante, ou de serpente,
    Fazeres que se mova a piedade.
      Invejosa da tua acho mil sortes,
    E a minha mais que todas invejosa,
    Pois ao teu mal o meu tanto igualaste.
      Oh ditoso morrer! sorte ditosa!
    Pois o que não se alcança com mil mortes,
    Tu com huma só morte o alcançaste.


CCXXX.

    Debaixo desta pedra sepultada
    Jaz do mundo a mais nobre formosura,
    A quem a morte, só de inveja pura,
    Sem tempo sua vida t[~e]e roubada,
      Sem ter respeito áquella assi estremada
    Gentileza de luz, que a noite escura
    Tornava em claro dia; cuja alvura
    Do sol a clara luz tinha eclipsada.
      Do sol peitada foste, cruel morte,
    Para o livrar de quem o escurecia;
    E da lua, que ante ella luz não tinha.
      Como de tal poder tiveste sorte?
    E se a tiveste, como tão asinha
    Tornaste a luz do mundo em terra fria?


CCXXXI.

    Imagens vãas me imprime a phantasia;
    Discursos novos acha o pensamento;
    Com que dão á minha alma grão tormento
    Cuidados de cem annos n'hum só dia.
      Se fim grande tivessem, bem sería
    Responder a esperança ao fundamento:
    Mas o fado não corre tão a tento,
    Que reserve á razão sua valia.
      Caso e Fortuna pódem acertar;
    Mas se por accidente dão victoria,
    Sempre o favor da Fama he falsa historia.
      Excede ao saber, determinar:
    Á constancia se deve toda a gloria:
    O ânimo livre he digno de memoria.


CCXXXII.

    Quanta incerta esperança, quanto engano!
    Quanto viver de falsos pensamentos!
    Pois todos vão fazer seus fundamentos
    Só no mesmo em qu'está seu proprio dano.
      Na incerta vida estribão de hum humano;
    Dão credito a palavras que são ventos;
    Chórão despois as horas e os momentos,
    Que rírão com mais gôsto em todo o ano.
      Não haja em apparencias confianças;
    Entendei que o viver he de emprestado;
    Que o de que vive o mundo são mudanças.
      Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
    Somente amando aquellas esperanças
    Que durão para sempre com o amado.


CCXXXIII.

    Mal, que de tempo em tempo vás crescendo,
    Quem te visse de hum bem acompanhado!
    A vida passaria descansado,
    Da morte não temêra o rosto horrendo.
      Se os vãos cuidados fôra convertendo
    Em suspiros que dão outro cuidado,
    Oh quão prudente, oh quão affortunado
    A capella do louro irá tecendo!
      Tempo he ja de esquecer contentamentos
    Passados, co'a esperança que passou,
    E de que triumphem novos pensamentos.
      A fé, que viva n'alma me ficou,
    Dê ja fim aos caducos ardimentos
    A que o passado bem se condemnou.


CCXXXIV.

    Oh quanto melhor he o supremo dia
    Da mansa morte, que o do nascimento!
    Oh quanto melhor he hum só momento,
    Que livra de annos tantos de agonia!
      De alcançar outro bem cesse a porfia;
    Cesse todo applicado pensamento
    De tudo quanto dá contentamento,
    Pois só contenta ao corpo a terra fria.
      O que do seu fez Deos seu despenseiro,
    T[~e]e mais estreita conta que lhe dar:
    Então parece rico o ovelheiro.
      Triste de quem no dia derradeiro
    T[~e]e o suor alheio por pagar,
    Pois a alma ha de vender por o dinheiro!


CCXXXV.

    Como podes (oh cego peccador!)
    Estar em teus errores tão isento,
    Sabendo que esta vida he hum momento,
    Se comparada com a eterna for?
      Não cuides tu que o justo Julgador
    Deixará tuas culpas sem tormento,
    Nem que passando vai o tempo lento
    Do dia de horrendíssimo pavor.
      Não gastes horas, dias, mezes, anos,
    Em seguir de teus damnos a amisade
    De que despois resultão mores danos.
      E pois de teus enganos a verdade
    Conheces, deixa ja tantos enganos,
    Pedindo a Deos perdão com humildade.


CCXXXVI.

    Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
    Qualquer alma farão segura e forte;
    Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,
    T[~e]e do confuso mundo o regimento.
      Effeitos mil revolve o pensamento,
    E não sabe a que causa se reporte:
    Mas sabe que o que he mais que vida e morte
    Não se alcança de humano entendimento.
      Doctos varões darão razões subidas;
    Mas são as exp'riencias mais provadas:
    E por tanto he melhor ter muito visto.
      Cousas ha hi que passão sem ser cridas:
    E cousas cridas ha sem ser passadas.
    Mas o melhor de tudo he crer em Christo.


CCXXXVII.

    De Babel sôbre os rios nos sentámos,
    De nossa doce patria desterrados,
    As mãos na face, os olhos derribados,
    Com saudades de ti, Sião, chorámos.
      Os orgãos nos salgueiros pendurámos,
    Em outro tempo bem de nós tocados;
    Outro era elle, por certo, outros cuidados;
    Mas por deixar saudades os deixâmos.
      Aquelles que captivos nos trazião
    Por cantigas alegres perguntavão:
    Cantai (nos dizem) hymnos de Sião.
      Sôbre tal pena, pena tal nos dão,
    Pois tyranicamente pretendião
    Que cantassem aquelles que choravão.


CCXXXVIII.

    Sôbre os rios do Reino escuro, quando
    Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão,
    Lagrimas nossos olhos derramárão,
    Por ti, Sião divina, suspirando,
      Os que hião nossas almas infestando,
    De contino em error, as captivárão;
    E em vão por nossos Psalmos perguntárão;
    Que tudo era silencio miserando.
      Dizendo estamos: Como cantaremos
    As acceitas canções a Deos benino,
    Quando a contrarios seus obedecemos?
      Mas ja, Senhor só Santo, determino,
    Deixando viciosissimos extremos,
    Os cantos proseguir de Amor Divino.


CCXXXIX.

    Em Babylonia sôbre os rios, quando
    De ti, Sião sagrada, nos lembrámos,
    Alli com grã saudade nos sentámos,
    O bem perdido, miseros, chorando.
      Os instrumentos musicos deixando,
    Nos estranhos salgueiros pendurámos,
    Quando aos cantares, que ja em ti cantámos,
    Nos estavão imigos incitando.
      Ás esquadras dizemos inimigas:
    Como hemos de cantar em terra alhea
    As cantigas de Deos, sacras cantigas?
      Se a lembrança eu perder que me recrea
    Cá nestas penosissimas fadigas,
    _Oblivioni detur dextra mea._


CCXL.

    Aponta a bella Aurora, luz primeira,
    Que a grã nova nos deo do claro dia:
    Vesti-vos, corações, ja de alegria,
    E recebei da vida a Mensageira.
      Da humana Redempção nasce a Terceira:
    Alegra-te, Divina Monarchia;
    Da terra terás cedo a companhia,
    Do ceo verás tambem a nossa feira.
      De tal obra se espanta a natureza,
    Confuso fica de temor o inferno,
    Vendo a que nasce isenta da defeza.
      Lei geral era posta desde eterno;
    Mas o Senhor da Lei toda limpeza
    Para o Sacrario seu guardou Materno.


CCXLI.

    Porque a terra no ceo agasalhasse,
    O ceo na terra Deos agasalhou:
    Lá não cabendo, cá se accommodou,
    Porque lá, de cá indo, se alargasse.
      Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse,
    Por o homem a ser homem Deos chegou:
    Seu divino poder tanto humanou,
    Porque o humano em divino se tornasse.
      Vêde bem o que deo e recebeo:
    Não se perca hum bem tanto da memoria:
    Deo-nos a vida, a morte padeceo.
      Trocou por nossa pena a sua gloria;
    Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo;
    Porque amor foi auctor desta victoria.


CCXLII.

    Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo.
    Para quem? Para o genero he humano.
    Que faz delle? Hum remedio soberano.
    Para que? Para a culpa e triste pranto.
      E que obra? Reduzir Lusbel a espanto.
    Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano.
    Que foi? A morte deo com hum engano.
    Tanto pôde? Sem falta pôde tanto.
      Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo.
    A que desce? A subir a creatura.
    Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo.
      He escada para ir lá? E a mais segura.
    Quem o obrigou? De amor só se venceo.
    Que amava este Feitor? Sua feitura.


CCXLIII.

    Oh Arma unicamente só triumphante,
    Propugnaculo só de nossas vidas,
    Por quem forão ganhadas as perdidas
    Com que o Tartaro horrendo andava ovante!
      Sigua-se esta bandeira militante
    Por quem são taes victorias conseguidas,
    Por quantas almas, della divertidas,
    No Ponente errão cá, lá no Levante.
      Oh Arvore sublime, e marchetada
    De branco e carmesi, de ouro embutida,
    Dos rubis mais preciosos esmaltada,
      E de trophéos mais claros guarnecida!
    Á vida a morte vimos em ti dada,
    Para qu'em ti se désse á morte a vida.


CCXLIV.

    Aos homens hum só homem poz espanto,
    E o poz a toda a humana natureza;
    Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza,
    Porqu'antes que nascesse era ja Santo.
      Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto,
    Qu'entre os nascidos houve a mor alteza;
    Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza,
    Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto.
      Aquella voz foi elle sonorosa,
    No concavo dos Orbes resonante,
    E que a Carne inculpavel baptizou;
      Quem do mor Pae ouvio a voz amante;
    Quem a subtil pergunta industriosa
    Com sincera resposta socegou.


CCXLV.

    Vós só podeis, sagrado Evangelista,
    Angelico abrazado Seraphim,
    E na sciencia mais alto Cherubim,
    Do que he mais sabio Amor ser Coronista.
      Divina e real Aguia, cuja vista
    Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim,
    De Jacob mais querido Benjamim,
    Quem mais campêa de Joseph na lista.
      Apostolo, e Propheta, e Patriarca,
    Ao Principe dos Ceos o mais acceito,
    Qu'em seu seio dormindo então mais via.
      A quem o mesmo Deos por irmão marca;
    Quem por filho da Mãe unica feito,
    Em corpo e alma goza o claro dia.


CCXLVI.

    Como louvarei eu, Seraphim santo,
    Tanta humildade, tanta penitencia,
    Castidade, e pobreza, e paciencia,
    Com este meu inculto e rudo canto?
      Argumento que ás Musas põe espanto,
    Que faz muda a grandiloqua eloquencia.
    Oh imagem, qu'a Divina Providencia
    De si viva em vós fez para bem tanto!
      Fostes de Santos huma rara mina;
    Almas de mil a mil ao ceo mandastes
    Do mundo, que perdido reformastes.
      E não roubaveis só com a doutrina
    As vontades mortaes, mas a Divina;
    Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.


CCXLVII.

    Ditosas almas, que ambas juntamente
    Ao ceo de Venus e de Amor voastes,
    Onde hum bem que tão breve cá lograstes,
    Estais logrando agora eternamente;
      Aquelle estado vosso tão contente,
    Que só por durar pouco triste achastes,
    Por outro mais contente ja o trocastes,
    Onde sem sobresalto o bem se sente.
      Triste de quem cá vive tão cercado,
    Na amorosa fineza, de hum tormento
    Que a gloria lhe perturba mais crescida!
      Triste, pois me não val o soffrimento,
    E Amor para mais damno me t[~e]e dado
    Para tão duro mal tão larga vida!


CCXLVIII.

    Contente vivi ja, vendo-me isento
    Deste mal de que a muitos queixar via:
    Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria
    Discordia e semrazão, guerra e tormento.
      Enganou-me co'o nome o pensamento:
    (Quem com tal nome não se enganaria?)
    Agora tal estou, que temo hum dia
    Em que venha a faltar-me o soffrimento.
      Com desesperação, e com desejo
    Me paga o que por elle estou passando,
    E inda está do meu mal mal satisfeito.
      Pois sôbre tantos damnos inda vejo
    Para dar-me outros mil hum olhar brando,
    E para os não curar hum duro peito.


CCXLIX.

    Deixa Apollo o correr tão apressado,
    Não sigas essa Nympha tão ufano:
    Não te leva o amor, leva-te o engano
    Com sombras de algum bem a mal dobrado.
      E quando seja amor, será forçado;
    E se forçado for, será teu dano.
    Hum parecer não queiras mais que humano
    Em hum sylvestre adôrno ver tornado.
      Não percas por hum vão contentamento
    A vista que te faz viver contente;
    Modera em teu favor o pensamento.
      Porque menos mal he, tendo-a presente,
    Soffrer sua crueza, e teu tormento,
    Que sentir sua ausencia eternamente.


CCL.

    Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,
    Nos valles, e nos montes, teus louvores
    Sempre te cantem musicos pastores
    Nas manhãas frias, nas ardentes sestas.
      E neste Templo donde manifestas
    E repartes agora teus favores,
    Com Psalmos, hymnos, e com varias flores
    Sejão celebres sempre as tuas festas.
      Estes te offreção pés, ess'outros mãos;
    D'aquelles pendão sôbre os teus altares
    Monstros do mar, de servidão prisões.
      Que eu cuidados, enganos e affeições,
    Muito maiores monstros, e milhares
    Te deixo aqui de pensamentos vãos.


CCLI.

    Vi queixosos de Amor mil namorados,
    E nenhuns inda vi com seus louvores;
    E aquelle que mais chora o mal de amores,
    Vejo menos fugir de seus cuidados.
      Se das dores de Amor sois mal tratados,
    Porque tanto buscais de Amor as dores?
    E se tambem as tendes por favores,
    Porque dellas fallais como aggravados?
      Não queirais alegria achar alg[~u]a
    No Amor, porque he composto de tristeza,
    Na fortuna que acheis mais agradavel.
      Nella e nelle achei sempre a mesma l[~u]a,
    Em quem nunca se vio outra firmeza,
    Que não seja a de ser sempre mudavel.


CCLII.

    Se lagrimas choradas de verdade
    O marmore abrandar podem mais duro,
    Porque as minhas que nascem de amor puro
    Hum coração não rendem a piedade?
      Por vós perdi, Senhora, a liberdade,
    E nem da propria vida estou seguro.
    Rompei desse rigor o forte muro,
    Não passe tanto avante a crueldade.
      Ao prezar de desprezos dae ja fim:
    Não vos chamem cruel; nome devido
    A quem se ri de quem suspira e ama.
      Abrandai esse peito endurecido,
    Por o que toca a vós, ja não por mim,
    Que eu aventuro a vida, e vós a fama.


CCLIII.

    Ja me fundei em vãos contentamentos,
    Quando delles vivi todo enganado
    De hum phantastico bem, e de hum cuidado,
    De que só cuidão cegos pensamentos.
      Passava dias, horas e momentos,
    Deste enleio de amores tão pagado,
    Que tinha só por bem-aventurado
    Quem só por elles mais bebia os ventos.
      Mas agora que ja cahi na conta,
    Desengana-me quanto me enganava;
    Que tudo o tempo dá, tudo descobre.
      O Amor mais caudaloso menos monta.
    Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava,
    Aquelle que de amores he mais pobre.


CCLIV.

    Em huma lapa toda tenebrosa,
    Adonde bate o mar com furia brava,
    Sôbre h[~u]a mão o rosto, vi qu'estava
    Huma Nympha gentil, mas cuidadosa.
      Igualmente que linda, lastimosa,
    Aljofar dos seus olhos distillava:
    O mar os seus furores applacava
    Com ver cousa tão triste e tão formosa.
      Alguma vez na horrivel penedia
    Os bellos olhos punha com brandura,
    Bastante a desfazer sua dureza.
      Com angelica voz assi dizia:
    Ah! que falte mais vezes a ventura
    Onde sobeja mais a natureza!


CCLV.

    Se em mim, ó alma, vive mais lembrança
    Que aquella só da gloria de querer-vos,
    Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos,
    E de ver-vos tambem toda a esperança.
      Veja-se em mi tão rustica esquivança,
    Que possa indigno ser de conhecer-vos;
    E, quando em mor empenho de aprazer-vos,
    Vos offenda, se em mi houver mudança.
      Confirmado estou ja nesta certeza:
    Examine-me vossa crueldade,
    Exprimente-se em mi vossa dureza.
      Conhecei ja de mi tanta verdade;
    Pois em penhor e fé desta pureza
    Tributo vos fiz ser o que he vontade.


CCLVI.

    Ilustre Gracia, nombre de una moza,
    Primera malhechora en este caso
    Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso,
    Sugeto digno de immortal coroza;
      Si en medio de la Iglesia no reboza
    El manto á vuestro rostro tan devaso,
    Por vos dirán las gentes recio y paso:
    Veis quien con el demonio se retoza.
      Puede mover los montes sin trabajo;
    Con palabras el curso al agua enfrena;
    Por las ondas hará camino enjuto.
      Averguenza su patria y rico Tajo,
    Que por ella hombres lleva, mas que arena,
    De que paga al infierno gran tributo.


CCLVII.

    Qual t[~e]e a borboleta por costume,
    Qu'enlevada na luz da acesa vella,
    Dando vai voltas mil, até que nella
    Se queima agora, agora se consume:
      Tal eu correndo vou ao vivo lume
    D'esses olhos gentis, Aonia bella;
    E abrazo-me, por mais que com cautella
    Livrar-me a parte racional presume.
      Conheço o muito a que se atreve a vista,
    O quanto se levanta o pensamento,
    O como vou morrendo claramente;
      Porém não quer Amor que lhe resista,
    Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento,
    Qual em gloria maior está contente.


CCLVIII.

    Lembranças de meu bem, doces lembranças
    Que tão vivas estais nesta alma minha,
    Não queirais mais de mi, se os bens que tinha
    Em poder vêdes todos de mudanças.
      Ai cego Amor! ai mortas esperanças
    De qu'eu em outro tempo me matinha!
    Agora deixareis quem vos sostinha;
    Acabarão co'a vida as confianças.
      Co'a vida acabarão, pois a ventura
    Me roubou n'hum momento aquella gloria,
    Que, quando tão grande he, tão pouco dura.
      Oh se apoz o prazer fôra a memoria!
    Ao menos estivera a alma segura
    De ganhar-se com ella mais victoria.


CCLIX.

    Formosos olhos, que cuidado dais
    Á mesma luz do sol mais clara e pura;
    Que sua esclarecida formosura,
    Com tanta gloria vossa, atraz deixais;
      Se por serdes tão bellos desprezais
    A fineza de amor que vos procura,
    Pois tanto vêdes, vêde que não dura
    O vosso resplandor quanto cuidais.
      Colhei, colhei do tempo fugitivo
    E de vossa belleza o doce fruto;
    Qu'em vão fóra de tempo he desejado.
      E a mi, que por vós morro, e por vós vivo,
    Fazei pagar a Amor o seu tributo,
    Contente de por vós lho haver pagado.


CCLX.

    Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes,
    En lágrimas tratais la noche el dia,
    Mirad si es lágrima esta que os envia
    Aquel sol por quien vos tantas vertistes.
      Si vos me asegurais, pues ya la vistes,
    Que es lágrima, será ventura mia;
    Por empleadas bien desde hoy tendria
    Las muchas que por ella sola distes.
      Mas cualquier cosa mucho deseada,
    Aunque viendo se esté, nunca es creida;
    Y menos esta, nunca imaginada.
      Pero della aseguro, si es fingida,
    Que basta ser por lágrima enviada,
    Para que sea por lágrima tenida.


CCLXI.

    T[~e]e feito os olhos neste apartamento
    Hum mar de saudosa tempestade,
    Que póde dar saudade á saudade,
    Sentimentos ao proprio sentimento.
      Em dor vai convertido o soffrimento,
    Em pena convertida a piedade;
    A razão tão vencida da vontade,
    Qu'escravo faz do mal o entendimento.
      A lingua não alcança o qu'a alma sente.
    E assi, se alguem quizer em algum'hora
    Saber que cousa he dor não comprehendida,
      Parta-se do seu bem, porque exprimente
    Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra
    Partir-se do viver para ter vida.


CCLXII.

    A peregrinação d'hum pensamento,
    Que dos males fez hábito e costume,
    Tanto da triste vida me consume,
    Quanto cresce na causa do tormento.
      Leva a dor de vencida ao soffrimento;
    Mas a alma está, de entregue, tão sem lume,
    Qu'enlevada no bem que haver presume,
    Não faz caso do mal qu'está de assento.
      De longe receei (se me valêra)
    O perigo que tanto á porta vejo,
    Quando não acho em mi cousa segura.
      Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!)
    Qu'entendimentos presos do desejo
    Não t[~e]e remedio mais que o da ventura.


CCLXIII.

    Acho-me da fortuna salteado;
    O tempo vai fugindo presuroso,
    Deixando-me da vida duvidoso,
    E cada instante mais desesperado.
      Trocou-se o meu descuido em tal cuidado,
    Que donde a gloria he mais, he mais penoso.
    Nem vivo de perder-me receoso,
    Nem de poder ganhar-me confiado.
      Qualquer ave nos montes mais agrestes,
    Qualquer fera na cova repousando,
    T[~e]e horas de alegria: eu todas tristes.
      Vós, saudosos olhos, que o quizestes,
    (Pois com tormento Amor me está pagando)
    Chorai, como que vêdes, o que vistes.


CCLXIV.

    Se no que tenho dito vos offendo,
    Não he a intenção minha de offender-vos;
    Qu'inda que não pretenda merecer-vos,
    Não vos desmerecer sempre pretendo.
      Mas he meu fado tal, segundo entendo,
    Que, por quanto ganhava em entender-vos,
    Não me deixa atégora conhecer-vos,
    Por a mi proprio m'ir desconhecendo.
      Os dias ajudados da ventura
    A cada qual de si dão desenganos,
    E a outros soe da-lo a desventura.
      Qual destas sirva a mi, dirão os danos
    Ou gostos que eu tiver, em quanto dura
    Esta vida, tão larga em poucos anos.


CCLXV.

    Doce contentamento ja passado,
    Em que todo o meu bem só consistia,
    Quem vos levou de minha companhia,
    E me deixou de vós tão apartado?
      Quem cuidou que se visse neste estado
    Naquellas breves horas d'alegria,
    Quando minha ventura consentia
    Que d'enganos vivesse meu cuidado?
      Fortuna minha foi cruel e dura
    Aquella que causou meu perdimento,
    Com a qual ninguem póde ter cautella.
      Nem se engane nenhuma creatura;
    Que não póde nenhum impedimento
    Fugir o que lh'ordena sua estrella.


CCLXVI.

    Sempre, cruel Senhora, receei,
    Medindo vossa grã desconfiança,
    Que désse em desamor vossa tardança,
    E que me perdesse eu, pois vos amei.
      Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei,
    Pois n'outro amor ja tendes esperança.
    Tão patente será vossa mudança,
    Quanto eu encobri sempre o que vos dei.
      Dei-vos a alma, a vida e o sentido;
    De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora.
    Prometteis, e negais o mesmo Amor.
      Agora tal estou, que de perdido,
    Não sei por onde vou, mas algum'hora
    Vos dará tal lembrança grande dor.


CCLXVII.

    Se a fortuna inquieta e mal olhada,
    Que a justa lei do Ceo comsigo infama,
    A vida quieta, qu'ella mais dasama,
    Me concedêra honesta e repousada;
      Pudéra ser que a Musa, alevantada
    Com luz de mais ardente e viva flama,
    Fizera ao Tejo lá na patria cama
    Adormecer co'o som da lyra amada.
      Porém, pois o destino trabalhoso,
    Que m'escurece a Musa fraca e lassa,
    Louvor de tanto preço não sustenta;
      A vossa, de louvar-me pouco escassa,
    Outro sogeito busque valeroso,
    Tal qual em vós ao mundo se apresenta.


CCLXVIII.

    Este amor, que vos tenho limpo e puro,
    De pensamento vil nunca tocado,
    Em minha tenra idade começado,
    Tê-lo dentro nesta alma só procuro.
      D'haver nelle mudança estou seguro,
    Sem temer nenhum caso, ou duro fado,
    Nem o supremo bem, ou baixo estado,
    Nem o tempo presente, nem futuro.
      A bonina e a flor asinha passa;
    Tudo por terra o inverno e estio deita;
    Só para meu amor he sempre Maio.
      Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
    E qu'essa ingratidão tudo me engeita,
    Traz este meu amor sempre em desmaio.


CCLXIX.

    A formosura desta fresca serra,
    E a sombra dos verdes castanheiros,
    O manso caminhar destes ribeiros,
    Donde toda a tristeza se desterra;
      O rouco som do mar, a estranha terra,
    O esconder do sol pelos outeiros,
    O recolher dos gados derradeiros,
    Das nuvens pelo ar a branda guerra:
      Em fim, tudo o que a rara natureza
    Com tanta variedade nos offrece,
    M'está (se não te vejo) magoando.
      Sem ti tudo me enoja, e me aborrece;
    Sem ti perpetuamente estou passando
    Nas mores alegrias môr tristeza.


CCLXX.

    Sustenta meu viver huma esperança
    Derivada de hum bem tão desejado,
    Que quando nella estou mais confiado,
    Mor dúvida me põe qualquer mudança.
      E quando inda este bem na mór pujança
    De seus gostos me t[~e]e mais enlevado,
    Me atormenta então ver eu qu'alcançado
    Será por quem de vós não t[~e]e lembrança.
      Assi que, nestas redes enlaçado,
    A penas dou a vida, sustentando
    Huma nova materia a meu cuidado.
      Suspiros d'alma tristes arrancando,
    Dos silvos d'huma pedra acompanhado,
    Estou materias tristes lamentando.


CCLXXI.

    Ja não sinto, Senhora, os desenganos,
    Com que minha affeição sempre tratastes,
    Nem ver o galardão, que me negastes,
    Merecido por fé ha tantos anos.
      A mágoa chóro só, só chóro os danos
    De ver por quem, Senhora, me trocastes;
    Mas em tal caso vós só me vingastes
    De vossa ingratidão, vossos enganos.
      Dobrada gloria dá qualquer vingança,
    Que o offendido toma do culpado,
    Quando se satisfaz com causa justa;
      Mas eu de vossos males e esquivança,
    De que agora me vejo bem vingado,
    Não a quizera tanto á vossa custa.


CCLXXII.

    Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse
    Essa grã perfeição e gentileza,
    Logo deo por sentença, que a crueza
    Em vosso peito amor accrescentasse.
      Determinou, que nada me apartasse,
    Nem desfavor cruel, nem aspereza;
    Mas qu'em minha rarissima firmeza
    Vossa isenção cruel se executasse.
      E, pois tendes aqui offerecida
    Est'alma vossa a vosso sacrificio,
    Acabai de fartar vossa vontade.
      Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida;
    Acabará morrendo em seu officio,
    Sua fé defendendo e lealdade.


CCLXXIII.

    Eu vivia de lagrimas isento,
    N'hum engano tão doce e deleitoso,
    Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso
    Não valião mil glorias hum tormento.
      Vendo-me possuir tal pensamento,
    De nenhuma riqueza era invejoso;
    Vivia bem, de nada receoso,
    Com doce amor e doce sentimento.
      Cobiçosa a Fortuna, me tirou
    Deste meu tão contente e alegre estado;
    E passou-se este bem, que nunca fôra:
      Em trôco do qual bem só me deixou
    Lembranças, que me mátão cada hora,
    Trazendo-me á memoria o bem passado.


CCLXXIV.

    Indo o triste pastor todo embebido
    Na sombra de seu doce pensamento,
    Taes queixas espalhava ao leve vento,
    Co'hum brando suspirar d'alma sahido:
      A quem me queixarei, cego, perdido,
    Pois nas pedras não acho sentimento?
    Com quem fallo? A quem digo meu tormento?
    Que onde mais chamo, sou menos ouvido.
      Ó bella Nympha, porque não respondes?
    Porque o olhar-me tanto m'encareces?
    Porque queres que sempre me querelle?
      Eu quanto mais te busco, mais te escondes!
    Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
    Assim que co'o mal cresce a causa delle.


CCLXXV.

    Dizei, Senhora, da belleza idêa,
    Para fazerdes esse aureo crino,
    Onde fostes buscar esse ouro fino?
    De qu'escondida mina ou de que vêa?
      Dos vossos olhos essa luz Phebêa,
    Esse respeito, de hum Imperio dino?
    Se o alcançastes com saber divino,
    Se com encantamentos de Medéa?
      De qu'escondidas conchas escolhestes
    As perlas preciosas Orientais,
    Que fallando mostrais no doce riso?
      Pois vos formastes tal, como quizestes,
    Vigiai-vos de vós, não vos vejais,
    Fugi das fontes; lembre-vos Narciso.


CCLXXVI.

    Na ribeira do Euphrates assentado,
    Discorrendo me achei pela memoria
    Aquelle breve bem, aquella gloria,
    Que em ti, doce Sião, tinha passado.
      Da causa de meus males perguntado
    Me foi: Como não cantas a historia
    De teu passado bem, e da victoria
    Que sempre de teu mal has alcançado?
      Não sabes, que a quem canta se lhe esquece
    O mal, indaque grave e rigoroso?
    Canta pois, e não chores dessa sorte.
      Respondi com suspiros: Quando crece
    A muita saudade, o piedoso
    Remedio he não cantar, senão a morte.


CCLXXVII.

    Chorai, Nymphas, os fados poderosos
    Daquella soberana formosura.
    Onde forão parar? na sepultura?
    Aquelles Reaes olhos graciosos?
      Oh bens do mundo falsos e enganosos!
    Que mágoas para ouvir! Que tal figura
    Jaza sem resplandor na terra dura
    Com tal rosto e cabellos tão formosos!
      Das outras que será! pois poder teve
    A morte sôbre cousa tanto bella,
    Que ella eclipsava a luz do claro dia.
      Mas o mundo não era digno della,
    Por isso mais na terra não esteve,
    Ao ceo subio, que ja se lhe devia.


CCLXXVIII.

    Senhora ja desta alma, perdoae
    De hum vencido de Amor os desatinos,
    E sejão vossos olhos tão beninos
    Com este puro amor, que d'alma sae.
      A minha pura fé sómente olhae,
    E vêde meus extremos se são finos;
    E se de alguma pena forem dinos,
    Em mim, Senhora minha, vos vingae.
      Não seja a dor que abraza o triste peito
    Causa por onde pene o coração,
    Que tanto em firme amor vos he sujeito.
      Guardae-vos do que alguns, dama, dirão,
    Que sendo raro em tudo vosso objeito,
    Possa morar em vós ingratidão.


CCLXXIX.

    Doce sonho, suave e soberano,
    Se por mais longo tempo me durára!
    Ah quem de sonho tal nunca acordára,
    Pois havia de ver tal desengano!
      Ah deleitoso bem! ah doce engano!
    Se por mais largo espaço me enganára!
    Se então a vida misera acabára,
    De alegria e prazer morrêra ufano.
      Ditoso, não estando em mi, pois tive
    Dormindo o que acordado ter quizera.
    Olhae com que me paga meu destino!
      Em fim, fóra de mim ditoso estive.
    Em mentiras ter dita razão era,
    Pois sempre nas verdades fui mofino.


CCLXXX.

    Diana prateada, esclarecida
    Com a luz que do claro Phebo ardente,
    Por ser de natureza transparente,
    Em si, como em espelho, reluzia,
      Cem mil milhões de graças lhe influia,
    Quando me appareceo o excellente
    Raio de vosso aspecto, diferente
    Em graça e em amor do que sohia.
      Eu vendo-me tão cheio de favores,
    E tão propinquo a ser de todo vosso,
    Louvei a hora clara, e a noite escura,
      Pois nella déstes côr a meus amores:
    Donde collijo claro que não posso
    De dia para vós ja ter ventura.


CCLXXXI.

    Em quanto Phebo os montes accendia
    Do ceo com luminosa claridade,
    Por conservar illesa a castidade
    Na caça o tempo Delia despendia.
      Venus, qu' então de furto descendia
    Por captivar de Anchises a vontade,
    Vendo Diana em tanta honestidade,
    Quasi zombando della, lhe dizia:
      Tu vás com tuas redes na espessura
    Os fugitivos cervos enredando;
    Mas as minhas enredão o sentido.
      Melhor he (respondia a deosa pura)
    Nas redes leves cervos ir tomando,
    Que tomar-te a ti nellas teu marido.


CCLXXXII.

    N'hum tão alto lugar, de tanto preço,
    Este meu pensamento posto vejo,
    Que desfallece nelle inda o desejo,
    Vendo quanto par mi o desmereço.
      Quando esta tal baixeza em mi conheço,
    Acho que cuidar nelle he grão despejo,
    E que morrer por elle me he sobejo
    E mór bem para mi, do que mereço.
      O mais que natural merecimento
    De quem me causa hum mal tão duro e forte,
    O faz que vá crescendo de hora em hora.
      Mas eu não deixarei meu pensamento,
    Porque inda qu'este mal me causa a morte,
    _Un bel morir tutta la vita honora._


CCLXXXIII.

    Quantas penas, Amor, quantos cuidados,
    Quantas lagrimas tristes sem proveito,
    De que mil vezes olhos, rosto e peito,
    Por ti, cego, me viste ja banhados;
      Quantos mortaes suspiros derramados
    Do coração por tanto a ti sujeito,
    Quantos males, em fim, tu me tens feito,
    Todos forão em mi bem empregados.
      A tudo satisfaz (confesso-te isto)
    Huma só vista branda e amorosa
    De quem me captivou minha ventura.
      Oh sempre para mi hora ditosa!
    Que posso temer ja, pois tenho visto,
    Com tanto gôsto meu, tanta brandura?


CCLXXXIV.

    Posto me t[~e]e fortuna em tal estado,
    E tanto a seus pés me t[~e]e rendido!
    Não tenho que perder, ja de perdido,
    Nem tenho que mudar, ja de mudado.
      Todo bem para mi he acabado:
    D'aqui dou o viver ja por vivido;
    Que aonde o mal he tão conhecido,
    Tambem o viver mais será'scusado.
      Se me basta querer, a morte quero,
    Que bem outra esperança não convem:
    E curarei hum mal com outro mal.
      E pois do bem tão pouco bem espero,
    Ja que o mal este só remedio tem,
    Não me culpem em qu'rer remedio tal.


CCLXXXV.

    Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes,
    Y en lágrimas pasais la noche y dia,
    Mirad si es llanto este que os envia
    Aquella por quien vos tantas vertistes:
      Sentid, mis ojos, bien esta que vistes;
    Y si ella lo es, oh gran ventura mia!
    Por muy bien empleadas las habria
    Mil cuentos que por esta sola distes.
      Mas una cosa mucho deseada,
    Aunque se vea cierta, no es creida,
    Cuanto mas esta, que me es enviada.
      Pero digo, que aunque sea fingida,
    Que basta que por lágrima sea dada,
    Porque sea por lágrima tenida.


CCLXXXVI.

    Que póde ja fazer minha ventura,
    Que seja para meu contentamento?
    Ou como fazer devo fundamento
    De cousa que o não t[~e]e, nem he segura?
      Que pena póde ser tão certa e dura,
    Que possa ser maior que meu tormento?
    Ou como receará meu pensamento
    Os males, se com elles mais se apura?
      Como quem se costuma de pequeno
    Com peçonha criar por mão sciente,
    Da qual o uso ja o t[~e]e seguro:
      Assim de acostumado co'o veneno,
    O uso de soffrer meu mal presente
    Me faz não sentir ja nada o futuro.



ECLOGAS


ECLOGA I.


INTERLOCUTORES.

UMBRANO, FRONDELIO, AONIA.

    Que grande variedade vão fazendo,
    Frondelio amigo, as horas apressadas!
    Como se vão as cousas convertendo
    Em outras cousas várias e insperadas!
    Hum dia a outro dia vai trazendo
    Por suas mesmas horas ja ordenadas;
    Mas quão conformes são na quantidade,
    Tão differentes são na qualidade.
      Eu vi ja deste campo as várias flores
    Ás estrellas do ceo fazendo inveja;
    Adornados andar vi os pastores
    De quanto por o mundo se deseja;
    E vi co'o campo competir nas côres
    Os trajes, de obra tanta e tão sobeja,
    Que se a rica materia não faltava,
    A obra de mais rica sobejava.
      E vi perder seu preço ás brancas rosas
    E quasi escurecer-se o claro dia
    Diante de h[~u]as mostras perigosas,
    Que Venus mais que nunca engrandecia.
    As pastoras, emfim, vi tão formosas,
    Que o Amor de si mesmo se temia;
    Mas mais temia o pensamento falto
    De não ser para ter temor tão alto.
      Agora tudo está tão differente,
    Que move os corações a grande espanto;
    E parece que Jupiter potente
    Se enfada ja d'o mundo durar tanto.
    O Tejo corre turvo e descontente,
    As aves deixão seu suave canto,
    E o gado, inda que a herva lhe fallece,
    Mais que da falta della se emmagrece.
                FRONDELIO.
      Umbrano irmão, decreto he da natura,
    Inviolavel, fixo e sempiterno,
    Que a todo bem succeda desventura,
    E não haja prazer que seja eterno:
    Ao claro dia segue a noite escura,
    Ao suave verão o duro inverno;
    E se ha cousa que saiba ter firmeza,
    He somente esta lei da natureza.
      Toda alegria grande e sumptuosa
    A porta abrindo vem ao triste estado:
    Se hum'hora vejo alegre e deleitosa,
    Temendo estou do mal apparelhado.
    Não vês que mora a serpe venenosa
    Entre as flores do fresco e verde prado?
    Ah! não te engane algum contentamento;
    Que mais instavel he que o pensamento.
      E praza a Deos que o triste e duro fado
    De tamanhos desastres se contente;
    Que sempre hum grande mal inopinado
    He mais do que o espera a incauta gente:
    Que vejo este carvalho que queimado
    Tão gravemente foi do raio ardente.
    Não seja ora prodigio que declare
    Que o barbaro cultor meus campos are.
                UMBRANO.
      Em quanto do seguro azambujeiro
    Nos pastores de Luso houver cajados,
    Como valor antiguo, que primeiro
    Os fez no mundo tão assinalados,
    Não temas tu, Frondelio companheiro,
    Qu'em algum tempo sejão sobjugados,
    Nem que a cerviz indomita obedeça
    A outro jugo qualquer que se lhe offreça.
      E postoque a soberba se levante
    De inimigos a torto e a direito,
    Não crêas tu que a fôrça repugnante
    Do fero e nunca ja vencido peito,
    Que desde quem possue o monte Atlante
    Adonde bebe o Hydaspe t[~e]e sujeito,
    O possa nunca ser de fôrça alheia,
    Em quanto o sol a terra e o ceo rodeia.
                FRONDELIO.
      Umbrano, a temeraria segurança
    Qu'em fôrça, ou em razão não se assegura,
    He falsa e vãa; que a grande confiança
    Não he sempre ajudada da ventura.
    Que lá junto das aras da esperança,
    Némesis moderada, justa e dura,
    Hum freio lhe está pondo e lei terribil,
    Que os limites não passe do possibil.
      E se attentares bem os grandes danos
    Que se nos vão mostrando cada dia,
    Poras freio tambem a esses enganos
    Que te está figurando a ousadia.
    Tu não vês como os lobos Tingitanos,
    Apartados de toda cobardia,
    Mátão os cães do gado guardadores,
    E não somente os cães, mas os pastores?
      Pois o grande curral, seguro e forte,
    Do alto monte Atlas não ouviste
    Que com sanguinolenta e fera morte
    Despovoado foi por caso triste?
    Oh triste caso! oh desastrada sorte,
    Contra quem fôrça humana não resiste!
    Que alli tambem da vida foi privado
    O meu Tionio, ainda em flor cortado!
                UMBRANO.
      Em lagrimas me banha rosto e peito
    Desse caso terrivel a memoria,
    Quando vejo quão sabio e quão perfeito,
    E quão merecedor de longa historia
    Era esse teu pastor, que sem direito
    Deo ás Parcas a vida transitoria.
    Mas não ha hi quem d'herva o gado farte,
    Nem de juvenil sangue o fero Marte.
      Porém, se te não for muito pezado,
    (Ja qu'esta triste morte me lembraste)
    Canta-me desse caso desastrado
    Aquelles brandos versos que cantaste,
    Quando hontem, recolhendo o manso gado,
    De nós-outros pastores te apartaste;
    Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia,
    Não te podia ouvir como queria.
                FRONDELIO.
      Como queres renove ao pensamento
    Tamanho mal, tamanha desventura?
    Porqu'espalhar suspiros vãos ao vento,
    Para os que tristes são, he falsa cura.
    Mas, pois te move tanto o sentimento
    Da morte de Tionio, triste e escura,
    Eu porei teu desejo em doce effeito,
    Se a dor me não congela a voz no peito.
                UMBRANO.
      Canta agora, pastor, que o gado pace
    Entre as humidas hervas socegado;
    E lá nas altas serras, onde nace,
    O sacro Tejo á sombra recostado,
    Co'os seus olhos no chão, a mão na face,
    Está para te ouvir apparelhado;
    E com silencio triste estão as Nymphas
    Dos olhos destillando claras lymphas.
      O prado as flores brancas e vermelhas
    Está suavemente presentando;
    As doces e solícitas abelhas,
    Com susurro agradavel vão voando;
    As candidas, pacíficas ovelhas,
    Das hervas esquecidas, inclinando
    As cabeças estão ao som divino
    Que faz, passando, o Tejo crystallino.
      O vento d'entre as árvores respira,
    Fazendo companhia ao claro rio;
    Nas sombras a ave garrula suspira,
    Sua mágoa espalhando ao vento frio.
    Toca, Frondelio, toca a doce lira;
    Que d'aquelle verde alamo sombrio
    A branda Philomela entristecida
    Ao mais saudoso canto te convida.
                FRONDELIO.
      Aquelle dia as águas não gostárão
    As mimosas ovelhas; e os cordeiros
    O campo enchêrão d'amorosos gritos.
    E não se pendurárão dos salgueiros
    As cabras, de tristeza; mas negárão
    O pasto a si, e o leite a os cabritos.
    Prodigios infinitos
    Mostrava aquelle dia,
    Quando a Parca queria
    Princípio dar ao fero caso triste.
    E tu tambem (ó corvo) o descobriste,
    Quando da mão direita em voz escura,
    Voando, repetiste
    A tyrannica lei da morte dura.
      Tionio meu, o Tejo crystallino,
    E as árvores que ja desamparaste
    Chórão o mal de tua ausencia eterna.
    Não sei porque tão cedo nos deixaste!
    Mas foi consentimento do Destino,
    Por quem o mar e a terra se governa.
    A noite sempiterna,
    Que tu tão cedo viste
    Cruel, acerba e triste,
    Sequer de tua idade não te dera
    Que lográras a fresca primavera?
    Não usára comnosco tal crueza,
    Que nem nos montes fera,
    Nem pastor ha no campo sem tristeza.
      Os Faunos, certa guarda dos pastores,
    Ja não seguem as Nymphas na espessura,
    Nem as Nymphas aos cervos dão trabalho.
    Tudo, qual vês, he cheio de tristura:
    Ás abelhas o campo nega as flores,
    Como ás flores a aurora nega o orvalho.
    Eu que cantando espalho
    Tristezas todo o dia,
    A frauta que soia
    Mover as altas árvores tangendo,
    Se me vai de tristeza enrouquecendo;
    Que tudo vejo triste neste monte:
    E tu tambem correndo
    Manas envolta e triste, ó clara fonte.
      As Tagides no rio, e na aspereza
    Do monte as Oreádas, conhecendo
    Quem te obrigou ao duro e fero Marte;
    Como em geral sentença vão dizendo,
    Que não póde no mundo haver tristeza
    Em cuja causa amor não tenha parte.
    Porqu'elle, enfim, dest'arte
    Nos olhos saudosos,
    Nos passos vagarosos,
    E no rosto, que Amor com phantasia
    Da pallida viola lhe tingia,
    A todos de si dava sinal certo
    Do fogo que trazia;
    Que nunca soube amor ser encoberto.
      Ja diante dos olhos lhe voavão
    Imagens e phantasticas pinturas,
    Exercicios do falso pensamento;
    Ja por as solitarias espessuras
    Entre os penedos sós, que não fallavão,
    Fallava e descobria seu tormento.
    Em longo esquecimento
    De si, todo embebido,
    Andava tão perdido,
    Que quando algum pastor lhe perguntava
    A causa da tristeza que mostrava,
    Como quem para penas só vivia,
    Sorrindo, lhe tornava:
    Se não vivesse triste, morreria.
      Mas como este tormento o sinalou,
    E tanto no seu rosto se mostrasse,
    Entendendo-o ja bem o pae sisudo,
    Porque do pensamento lho tirasse,
    Longe da causa delle o apartou;
    Porque, emfim, longa ausencia acaba tudo.
    Oh falso Marte rudo,
    Das vidas cobiçoso!
    Que donde o generoso
    Peito resuscitava em tanta gloria
    De seus Antecessores a memoria,
    Alli, fero e cruel, lhe destruiste,
    Por injusta victoria,
    Primeiro que o cuidado, a vida triste.
      Parece-me, Tionio, que te vejo,
    Por tingires a lança cobiçoso
    Naquelle infido sangue Mauritano,
    No Hispanico ginete bellicoso,
    Que ardendo tambem vinha no desejo
    De atropellar por terra ao Tingitano.
    Oh confiado engano!
    Oh encurtada vida!
    Que a virtude opprimida
    Da multidão forçosa do inimigo
    Não pôde defender-se do perigo:
    Porqu'assi o Destino o permittio;
    E assi levou comsigo
    O mais gentil pastor que o Tejo vio.
      Qual o mancebo Euryalo enredado
    Entre o poder dos Rutulos, fartando
    As íras da soberba e dura guerra;
    Do cristallino rosto a côr mudando,
    Cujo purpureo sangue, derramado
    Por as alvas espaldas, tinge a serra;
    Que como flor, que a terra
    Lhe nega o mantimento,
    Porque o tempo avarento
    Tambem o largo humor lhe t[~e]e negado,
    O collo inclina languido e cansado:
    Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprito
    A quem to tinha dado;
    Qu'este he somente eterno e infinito.
      Da congelada boca a alma pura,
    Co'o nome juntamente da inimiga
    E excellente Marfida, derramava.
    E tu, gentil Senhora, não te obriga
    A pranto sempiterno a morte dura
    De quem por ti somente a vida amava?
    Por ti aos ecos dava
    Accentos numerosos;
    Por ti aos bellicosos
    Exercicios se deo do fero Marte.
    E tu ingrata o amor ja n'outra parte
    Porás, como acontece ao fraco intento:
    Que, emfim, emfim, dest'arte
    Se muda o feminino pensamento.
      Pastores deste valle ameno e frio,
    Que de Tionio o caso desastrado
    Quereis nas altas serras que se conte;
    Hum tumulo, de flores adornado,
    Lhe edificai ao longo deste rio,
    Que a vela enfreie ao duro navegante:
    E o lasso caminhante,
    Vendo tamanha mágoa,
    Arraze os olhos d'ágoa,
    Lendo na pedra dura o verso escrito,
    Que diga assi: _Memoria sou, que grito_
    _Para dar testimunho em toda parte
    Do mais gentil Esprito
    Que tirárão do mundo Amor e Marte_.
                UMBRANO.
      Qual o quieto somno aos cansados
    Debaixo de algum'árvore sombria;
    Ou qual aos sequiosos encalmados
    O vento respirante e a fonte fria:
    Taes me forão teus versos delicados,
    Teu numeroso canto e melodia:
    E ainda agora o tom suave e brando
    Os ouvidos me fica adormentando.
      Em quanto os peixes humidos tiverem
    As areosas covas deste rio,
    E correndo estas águas conhecerem
    Do largo mar o antiguo senhorio;
    E em quanto estas hervinhas pasto derem
    Ás petulantes cabras, eu te fio
    Que em virtude dos versos que cantaste
    Sempre viva o pastor que tanto amaste.
      Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta,
    E dos montes as sombras se accrescentão;
    De flores mil o claro ceo se esmalta,
    Que tão ledas aos olhos se presentão;
    Levemos por o pé desta serra alta
    Os gados, que ja agora se contentão
    Do que comido t[~e]e, Frondelio amigo:
    Anda; que até o outeiro irei comtigo.
                FRONDELIO.
      Antes por este valle, amigo Umbrano,
    Se t'aprouver, levemos as ovelhas;
    Porque, se eu por acêrto não me engano,
    De lá me sôa hum eco nas orelhas:
    O doce accento não parece humano.
    E, se em contrário tu não m'aconselhas,
    Eu quero descobrir que cousa seja;
    Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja.
                UMBRANO.
      Comtigo vou, que quanto mais me chego,
    Mais gentil me parece a voz que ouviste,
    Peregrina, excellente; e não te nego
    Que me faz cá no peito a alma triste.
    Vês como t[~e]e os ventos em socêgo?
    Nenhum rumor da serra lhe resiste:
    Nenhum passaro vôa, mas parece
    Que, do canto vencido, lhe obedece.
      Porém, irmão, melhor me parecia
    Que não fôssemos lá; que estorvaremos;
    Mas sobidos nest'árvore sombria,
    Todo o valle de aqui descobriremos.
    Os çurrões e cajados, todavia,
    Neste comprido tronco penduremos:
    Para subir fica homem mais ligeiro.
    Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.
                FRONDELIO.
      Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres:
    Subirás sem trabalho e sem ruido;
    E despois que subido lá 'stiveres,
    Dar-me-has a mão de cima; que he partido.
    Mas primeiro me dize, se o puderes
    Ver, donde nasce o canto nunca ouvido;
    Quem lança o doce accento delicado.
    Falla; que ja te vejo estar pasmado.
                UMBRANO.
      Cousas não costumadas na espessura,
    Que nunca vi, Frondelio, vejo agora:
    Formosas Nymphas vejo na verdura,
    Cujo divino gesto o ceo namora.
    Huma de desusada formosura,
    Que das outras parece ser Senhora,
    Sôbre hum triste sepulcro, não cessando,
    Está perlas dos olhos destillando.
      De todas estas altas semidêas,
    Qu'em tôrno estão do corpo sepultado,
    Humas, regando as humidas arêas,
    De flores t[~e]e o tumulo adornado;
    Outras, queimando lagrimas Sabêas,
    Enchem o ar de cheiro sublimado;
    Outras em ricos pannos, mais avante,
    Envolvem brandamente hum novo infante.
      Huma, que d'entre as outras se apartou,
    Com gritos, que a montanha entristecêrão,
    Diz, que despois que a morte a flor cortou
    Que as estrellas somente merecêrão,
    Este penhor charissimo ficou
    Daquelle, a cujo imperio obedecêrão
    Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
    Até o remoto mar da Taprobana.
      Diz mais, que se encontrar este menino
    A noite intempestiva, amanhecendo,
    O Tejo, agora claro e crystallino,
    Tornará a fera Alecto em vulto horrendo.
    Mas que, a ser conservado do Destino,
    As benignas estrellas promettendo
    Lh'estão o largo pasto de Ampelusa,
    Co'o monte que em mao ponto vio Medusa.
      Este prodigio grande Nympha bella
    Com abundantes lagrimas recita.
    Porém, qual a eclipsada clara estrella,
    Qu'entre as outras o ceo primeiro habita:
    Tal coberta de negro vejo aquella,
    A quem só n'alma toca a grã desdita.
    Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver
    Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer.
                FRONDELIO.
      Oh triste morte, esquiva e mal olhada,
    Que a tantas formosuras injurías!
    Áquella deosa bella e delicada
    Sequer algum respeito ter devias.
    Esta he, por certo, Aonia filha amada
    Daquelle grã Pastor, qu'em nossos dias
    Danubio enfreia, manda o claro Ibero,
    E espanta o morador do Euxino fero.
      Morreo-nos o excellente e poderoso,
    (Que a isto está sujeita a vida humana)
    Doce Aonio, d'Aonia charo Esposo.
    Ah lei dos fados, aspera e tyrana!
    Mas o som peregrino e piedoso,
    Com que a formosa Nympha a dor engana,
    Escuta hum pouco. Nota e vê, Umbrano,
    Quão bem que sôa o verso Castelhano.
                AONIA.
      Alma, y primero amor del alma mia,
    Espíritu dichoso, en cuya vida
    La mia estuvo en cuanto Dios queria!
      Sombra gentil de su prision salida,
    Que del mundo á la patria te volviste,
    Donde fuiste engendrada y procedida!
      Recibe allá este sacrificio triste,
    Que te offrecen los ojos que te vieron;
    Si la memoria dellos no perdiste.
      Que, pues los altos Cielos permitieron,
    Que no te acompañase en tal jornada,
    Y para ornarse solo á ti quisieron;
      Nunca permitirán, que acompañada
    De mi no sea esta memoria tuya,
    Que está de tus despojos adornada.
      Ni dejará, por mas que el tiempo huya,
    De estar en mí con sempiterno llanto,
    Hasta que vida y alma se destruya.
      Mas tú, gentil Espíritu, entretanto
    Que otros campos y flores vas pisando,
    Y otras zampoñas oyes, y otro canto;
      Agora embevecido estés mirando
    Allá en el Empireo aquella Idea,
    Que el mundo enfrena y rige con su mando;
      Agora te posuya Citherea
    En el tercero asiento, ó porque amaste,
    Ó porque nueva amante allá te sea;
      Agora el sol te admire, si miraste
    Como vá por los Signos, encendido,
    Las tierras alumbrando que dejaste:
      Si en ver estos milagros no has perdido
    La memoria de mí, ó fué en tu mano
    No pasar por las aguas del olvido;
      Vuelve un poco los ojos á este llano,
    Verás una, que á ti con triste lloro
    Sobre este mármol sordo llama en vano.
      Pero si entraren en los Signos de oro
    Lágrimas y gemidos amorosos,
    Que muevan el supremo y santo coro;
      La lumbre de tus ojos tan hermosos
    Yo la veré muy presto: y podré verte;
    Que á pesar de los hados enojosos
    Tambiem para los tristes hubo muerte.


ECLOGA II.


INTERLOCUTORES.

ALMENO e AGRARIO.

    Ao longo do sereno
    Tejo, suave e brando,
    N'hum valle d'altas árvores sombrio
    Estava o triste Almeno
    Suspiros espalhando
    Ao vento, e doces lagrimas ao rio.
    No derradeiro fio
    O tinha a esperança,
    Que com doces enganos
    Lhe sustentára a vida tantos anos
    N'h[~u]a amorosa e branda confiança;
    Que quem tanto queria,
    Parece que não erra, se confia.
      A noite escura dava
    Repouso aos cansados
    Animaes esquecidos da verdura;
    O valle triste estava
    Co'huns ramos carregados,
    Qu'inda a noite fazião mais escura.
    Offrecia a espessura
    Hum temeroso espanto:
    As roucas rãas soavão
    N'hum charco de água negra e ajudavão
    Do passaro nocturno o triste canto:
    O Tejo com som grave
    Corria mais medonho que suave.
      Como toda a tristeza
    No silencio consiste,
    Parecia que o valle estava mudo.
    E com esta graveza
    Estava tudo triste,
    Porém o triste Almeno mais que tudo:
    Tomando por escudo
    De sua doce pena,
    Para poder soffrella,
    Estar imaginando a causa della;
    Qu'em tanto mal he cura bem pequena.
    Maior o he o tormento,
    Que toma por allívio hum pensamento.
      Ao rio se queixava
    Com lagrimas em fio,
    Com que as ondas crescião outro tanto.
    Seu doce canto dava
    Tristes águas ao rio,
    E o rio triste som ao doce canto.
    Ao sonoroso pranto,
    Que as águas enfreava,
    Responde o valle umbroso.
    De tanta voz o accento temeroso
    Na outra parte do rio retumbava;
    Quando, da phantasia
    O silencio rompendo, assi dizia:
      Corre suave e brando
    Com tuas claras ágoas,
    Sahidas de meus olhos, doce Tejo;
    Fé de meus males dando,
    Para que minhas mágoas
    Sejão castigo igual de meu desejo:
    Que, pois em mim não vejo
    Remedio, nem o espero;
    E a morte se despreza
    De me matar, deixando-me á crueza
    Daquella por quem meu tormento quero;
    Saiba o mundo meu dano,
    Porque se desengane em meu engano.
      Ja que minha ventura,
    Ou a causa qu'a ordena,
    Quer qu'em pago da dor tome o soffrella;
    Será mais certa cura
    Para tamanha pena
    Desesperar d'haver ja cura nella.
    Porque se minha estrella
    Causou tal esquivança,
    Consinta meu cuidado
    Que me farte de ser desesperado,
    Para desenganar minha esperança:
    Pois somente nasci
    Para viver na morte, e ella em mi.
      Não cesse meu tormento
    De fazer seu officio,
    Pois aqui t[~e]e hum'alma ao jugo atada:
    Nem falte o soffrimento,
    Porque parece vício
    Para tão doce mal faltar-me nada.
    Oh Nympha delicada,
    Honra da natureza!
    Como póde isto ser,
    Que de tão peregrino parecer
    Pudesse proceder tanta crueza?
    Não vem de nenhum geito
    De causa divinal contrário effeito.
      Pois como pena tanta
    He contra a causa della?
    Fóra he do natural minha tristeza.
    Mas a mi que m'espanta?
    Não basta (ó Nympha bella)
    Que podes perverter a natureza?
    Não he a gentileza
    De teu gesto celeste
    Fóra do natural?
    Não póde a natureza fazer tal:
    Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste;
    Porém, porque tomaste
    Tão dura condição, se te formaste?
      Por ti o alegre prado
    Me he penoso e duro;
    Abrolhos me parecem suas flores.
    Por ti do manso gado,
    Como de mi, não curo,
    Por não fazer offensa a teus amores.
    Os jogos dos pastores,
    As lutas entr'a rama,
    Nada me faz contente:
    E sou ja do que fui tão differente,
    Que quando por meu nome alguem me chama,
    Pasmo, porque conheço
    Qu'inda comigo proprio me pareço.
      O gado, que apascento,
    São n'alma os meus cuidados;
    As flores, que no campo sempre vejo,
    São no meu pensamento
    Teus olhos debuxados,
    Com qu'estou enganando o meu desejo.
    Do frio e doce Tejo
    As águas se tornárão
    Ardentes e salgadas,
    Despois que minhas lagrimas cansadas
    Com seu puro licor se misturárão;
    Como quando mistura
    Hyppanis co'o Exampêo sua água pura.
      Se ahi no mundo houvesse
    Ouvires-me algum'hora,
    Assentados na praia deste rio;
    E d'arte te dissesse
    O mal que passo agora,
    Que pudesse mover-te o peito frio!..
    Oh quanto desvario,
    Qu'estou imaginando!
    Ja agora meu tormento
    Não póde pedir mais ao pensamento,
    Qu'este phantasiar, donde penando
    A vida me reserva.
    Querer mais de meu mal será soberba.
      Ja a esmaltada Aurora
    Descobre o negro manto
    Da sombra, que as montanhas encobria.
    Descansa, frauta, agora,
    Pois meu escuro canto
    Não merece que veja o claro dia.
    Não canse a phantasia
    D'estar em si pintando
    O gesto delicado,
    Em quanto traz ao pasto o manso gado
    Esse pastor, que lá só vem fallando.
    Callar-me-hei somente;
    Que o meu mal nem ouvir se me consente.
                AGRARIO.
      Formosa manhãa clara e deleitosa,
    Que, como fresca rosa na verdura,
    Te mostras bella e pura, marchetando
    As Nymphas, espalhando teus cabellos
    Nos verdes montes bellos; tu só fazes,
    Quando a sombra desfazes triste e escura,
    Formosa a espesura e a clara fonte,
    Formoso o alto monte e o rochedo,
    Formoso o arvoredo e deleitoso,
    E emfim tudo formoso co'o teu rosto
    D'ouro e rosas composto e claridade;
    Trazes a saudade ao pensamento,
    Mostrando em hum momento o roxo dia,
    Com a doce harmonia nos cantares
    Dos passaros a pares, que voando
    Seu pasto andão buscando nos raminhos,
    Para os amados ninhos que mantém.
    Oh grande e summo bem da natureza!
    Estranha subtileza de pintora,
    Que matiza em hum'hora de mil côres
    O ceo, a terra, as flores, monte e prado!
    Oh tempo ja passado! quão presente
    Te vejo abertamente na vontade!
    Quão grande saudade tenho agora
    Do tempo que a pastora minha amava,
    E de quanto prezava a minha dor!
    Então tinha o amor maior poder,
    Quando em hum só querer nos igualava;
    Porque quando hum amava a quem queria,
    Logo eco respondia d'affeição
    No brando coração da doce imiga.
    Nesta amorosa liga concertavão
    Os tempos, que passavão com prazeres.
    Mostrava a flava Ceres por as eiras
    Das brancas sementeiras ledo fruto,
    Pagando seu tributo aos Lavradores;
    E enchia aos pastores todo o prado
    Pales do manso gado guardadora.
    Hião Zéphyro e Flora passeando,
    Os campos esmaltando de boninas;
    Nas fontes cristallinas triste estava
    Narciso, qu'inda olhava n'água pura
    Sua linda figura e delicada:
    Mas Eco, namorada de tal gesto,
    Com pranto manifesto, seu tormento
    No derradeiro accento lamentava.
    Alli tambem se achava o sangue tinto
    Do purpureo Jacintho; e o destrôço
    De Adonis bello moço; morte fêa
    Da bella Cytherêa tão chorada;
    Toda a terra esmaltada destas rosas.
    Hião Nymphas formosas por os prados;
    E os Faunos namorados apos ellas,
    Mostrando-lhes capellas de mil côres,
    Ordenadas das flores que colhião:
    As Nymphas lhe fugião espantadas,
    As faldas levantadas, por os montes.
    Via-sea água das fontes espalhar-se;
    Vertumno transformar-se alli se via;
    Pomona, que trazia os doces fruitos;
    Alli pastores muitos, que tangião
    As gaitas que trazião, e cantando
    Estavão enganando as suas penas,
    Tomando das Sirenas o exercicio.
    Ouvia-se Salicio lamentar-se;
    Da mudança queixar-se crua e fêa
    Da dura Galathêa tão formosa:
    E da morte invejosa Nemoroso
    Ao monte cavernoso se querella,
    Que a sua Elisa bella em pouco espaço
    Cortou inda em agraço. Ah dura sorte!
    Oh immatura morte, que a ninguem
    De quantos vida t[~e]e jamais perdoas!
    Mas tu, tempo, que voas apressado,
    Hum deleitoso estado quão asinha
    Nesta vida mesquinha transfiguras
    Em mil desaventuras, e a lembrança
    Nos deixas por herança do que levas!
    Assi que se nos cevas com prazeres,
    He para nos comeres no melhor.
    Cada vez em peor te vás mudando:
    Quanto v[~e]es inventando, qu'hoje approvas,
    Logo á manhãa reprovas com instancia.
    Oh perversa inconstancia e tão profana
    De toda cousa humana inferior,
    A quem o cego error sempre anda annexo!
    Mas eu de que me queixo? ou eu que digo?
    Vive o tempo comigo? ou elle tem
    Culpa no mal que vem da cega gente?
    Por ventura elle sente, ou elle entende
    Aquillo que defende o ser divino?
    Elle usa de contino seu officio,
    Que ja por exercicio lhe he devido:
    Dá-nos fructo colhido na sazão
    Do formoso verão; e no inverno,
    Com seu humor eterno congelado,
    Do vapor levantado co'a quentura
    Do sol, a terra dura lhe dá alento,
    Para que o mantimento produzindo,
    Estê sempre cumprindo seu costume.
    Assi que não consume de si nada,
    Nem muda da passada vida hum dedo:
    Antes sempre está quedo no devido,
    Porqu'este he seu partido e sua usança;
    E nelle esta mudança he mais firmeza.
    Mas quem a Lei despreza, e pouco estima,
    De quem de lá de cima está movendo
    O ceo sublime e horrendo, o mundo puro,
    Este muda o seguro e firme estado
    Do tempo, não mudado de verdade.
    Não foi naquella idade d'ouro claro
    O firme tempo charo e excellente?
    Vivia então a gente moderada;
    Sem ser a terra arada dava pão;
    Sem ser cavado o chão as fructas dava;
    Nem águas desejava, nem quentura;
    Suppria então natura o necessario.
    Pois quem foi tão contrário a esta vida?
    Saturno, que, perdida a luz serena,
    Causou, qu'em dura pena, desterrado,
    Fosse do ceo lançado, onde vivia;
    Porque os filhos comia, que gerava.
    Por isso se mudava o tempo igual
    Em mais baixo metal: e assi descendo
    Nos veio, emfim, trazendo a este estado.
    Mas eu, desatinado, aonde vou?
    Para onde me levou a phantasia?
    Qu'estou gastando o dia em vãas palavras?
    Quero ora minhas cabras ir levando
    Ao Tejo claro e brando; porque achar
    No mundo qu'emendar, não he d'agora:
    Basta que a vida fóra delle tenho:
    Com meu gado me avenho, e estou contente.
    Porém, se me não mente a vista, eu vejo
    Nesta praia do Tejo estar deitado
    Almeno, que enlevado em pensamentos,
    As horas e os momentos vai gastando:
    Vou-me a elle chegando, só por ver
    Se poderei fazer que o mal que sente,
    Hum pouco se lhe ausente da memoria.
                ALMENO.
      Oh doce pensamento! oh doce gloria!
    São estes por ventura os olhos bellos,
    Que t[~e]e de meus sentidos a victoria?
      São estas, Nympha, as tranças dos cabellos,
    Que fazem de seu preço o ouro alheio,
    Como a mi de mi mesmo só com vellos?
      He esta a alva columna, o lindo esteio,
    Sustentador das obras mais que humanas,
    Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio?
      Ah falso pensamento, que me enganas!
    Fazes-me pôr a boca onde não devo,
    Com palavras de doudo, ou quasi insanas!
      Como a alçar-te tão alto assi me atrevo?
    Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás?
    Levas-me tu a mi, ou eu te levo?
      Não poderei eu ir onde tu vás?
    Porém, pois ir não posso onde tu fores,
    Quando fores, não tornes onde estás.
                AGRARIO.
      Oh que triste successo foi de amores,
    O que a este pastor aconteceo,
    Segundo ouvi contar a outros pastores!
      Tanto emfim, por seu damno se perdeo,
    Que o longo imaginar em seu tormento,
    Em desatino Amor lh'o converteo.
      Oh forçoso vigor do pensamento,
    Que póde em outra cousa estar mudando
    A fórma, a vida, o siso, o entendimento!
      Está-se hum triste amante transformando
    Na vontade daquella, que tanto ama,
    De si a propria essencia transportando.
      E nenhum'outra cousa mais desama,
    Que a si, se vê qu'em si ha algum sentido,
    Que deste fogo insano não se inflama.
      Almeno, que aqui 'stá tão influido
    No phantastico sonho, que o cuidado
    Lhe traz sempre ante os olhos esculpido,
      Está-se-lhe pintando, de enlevado,
    Que t[~e]e ja da phantastica pastora
    O peito diamantino mitigado.
      Em este doce engano estava agora
    Fallando como em sonho, mas achando
    Ser vento o que sonhava, grita e chora.
      Dest'arte andavão sonhos enganando
    O pastor somnolento, que a Diana
    Andava entre as ovelhas celebrando;
      Dest'arte a nuvem falsa, em fórma humana,
    O vão pae dos Centauros enganava:
    (Que Amor quando contenta, sempre engana)
      Como este, que comsigo só fallava,
    Cuidando que fallava, de enleado,
    Com quem lhe o pensamento figurava.
      Não póde quem quer muito, ser culpado
    Em nenhum êrro, quando vem a ser
    Este amor em doudice transformado.
      Amor não será amor, se não vier
    Com doudices, deshonras, dissensões,
    Pazes, guerras, prazer e desprazer;
      Perigos, linguas más, murmurações
    Ciumes, arruidos, competencias,
    Temores, nojos, mortes, perdições.
      Estas são verdadeiras penitencias
    De quem põe o desejo onde não deve,
    De quem engana alheias innocencias.
      Mas isto t[~e]e o amor, que não se escreve
    Senão donde he illicito e custoso;
    E donde he mais o risco, mais se atreve.
      Passava o tempo alegre e deleitoso
    O Troiano pastor, em quanto andava
    Sem ter alto desejo e perigoso.
      Seus furiosos touros coroava,
    E nos álamos altos escrevia
    Teu nome (Enone) quando a ti só amava.
      Os álamos crescião, e crescia
    O amor qu'elle te tinha: sem perigo,
    E sem temor, contente te servia.
      Mas despois que deixou entrar comsigo
    Illicito desejo e pensamento,
    De sua quietação tão inimigo;
      A toda a patria poz em detrimento
    Com mortes de parentes e de irmãos,
    Com crú incendio, e grande perdimento.
      Nisto fenecem pensamentos vãos:
    Tristes serviços mal galardoados,
    Cuja glória se passa d'entre as mãos.
      Lagrimas e suspiros arrancados
    D'alma, todos se pagão com enganos:
    E oxalá forão muitos enganados!
      Andão com seu tormento tão ufanos,
    Que gastão na doçura d'hum cuidado
    Apos huma esperança muitos anos.
      E talha tão perdido namorado,
    Tão contente co'o pouco, que daria
    Por hum só volver d'olhos todo o gado.
      Em todo povoado e companhia,
    Sendo ausentes de si, se vem presentes
    Com quem lhes pinta sempre a phantasia.
      Co'hum certo não sei que andão contentes,
    E logo hum nada os torna, ao contrário,
    De todo ser humano differentes.
      Oh tyrannico Amor, oh caso vario,
    Que obrigas a hum querer que sempre seja
    De si contínuo e aspero adversario!
      E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja,
    Senão quando do seu despôjo amado
    Sua inimiga estar triumphando veja.
      Quero fallar com este, qu'enredado
    Nesta cegueira está sem nenhum tento.
    Acorda ja, pastor, desacordado.
                ALMENO.
      Oh porque me tiraste hum pensamento,
    Que agora estava aos olhos debuxando,
    De quem aos meus foi doce mantimento?
                AGRARIO.
      Nesta imaginação estás gastando
    O tempo e vida, Almeno? Perda grande!
    Não vês quão mal os dias vás passando?
                ALMENO.
      Formosos olhos, ande a gente e ande;
    Que nunca vos ireis dest'alma minha,
    Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande.
                AGRARIO.
      Quem poderá cuidar que tão asinha
    Se perca o curso assi do siso humano,
    Que corre por direita e justa linha?
      Que sejas tão perdido por teu dano,
    Almeno meu, não he por certo aviso;
    He só doudice grande, grande engano.
                ALMENO.
      Ó Agrario meu, que vendo o doce riso,
    E o rosto tão formoso, como esquivo,
    O menos que perdi foi todo o siso.
      E não entendo, desque sou captivo,
    Outra cousa de mi, senão que mouro:
    Nem isto entendo bem, pois inda vivo.
      Á sombra deste umbroso e verde louro
    Passo a vida, ora em lagrimas cansadas,
    Ora em louvores dos cabellos d'ouro.
      Se perguntares porque são choradas,
    Ou porque tanta pena me consume,
    Revolvendo memorias magoadas;
      Desque perdi da vida o claro lume,
    E perdi a esperança e causa della,
    Não chóro por razão, mas por costume.
      Jamais pude co'o fado ter cautella;
    Nem houve nunca em mi contentamento,
    Que não fosse trocado em dura estrella.
      Que bem livre vivia e bem isento,
    Sem qu'ao jugo me visse submettido
    De nenhum amoroso pensamento!
      Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido
    Tão fóra d'amor tinha, que me ria
    De quem por elle via andar perdido.
      De várias côres sempre me vestia;
    De boninas a fronte coroava;
    Nenhum pastor cantando me vencia.
      A barba então nas faces me apontava;
    Na luta, na carreira, em qualquer manha,
    Sempre a palma entre todos alcançava.
      Da minha idade tenra, em tudo estranha,
    Vendo (como acontece) affeiçoadas
    Muitas Nymphas do rio e da montanha;
      Com palavras mimosas e forjadas,
    De solta liberdade e livre peito,
    As trazia contentes e enganadas.
      Mas não querendo Amor, que deste geito
    Dos corações andasse triumphando,
    Em quem elle criou tão puro affeito;
      Pouco a pouco me foi de mi levando
    Dissimuladamente ás mãos de quem
    Toda esta injuria agora está vingando.
                AGRARIO.
      Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem
    O princípio e o fim; que Nemoroso
    Contado tudo isso, e mais, me tem.
      Mas (quero-to dizer) se este enganoso
    Amor he tão usado a desconcertos,
    Que nunca amando fez pastor ditoso;
      Ja que nelle estes casos são tão certos,
    Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa
    Te chorão valles, montes e desertos?
      Vejo-te estar gastando em viva fragoa,
    E juntamente em lagrimas; vencendo
    A grã Sicilia em fogo, o Nilo em ágoa.
      Vejo que as tuas cabras, não querendo
    Gostar as verdes hervas, se emmagrecem,
    As tetas aos cabritos encolhendo.
      Os campos, que co'o tempo reverdecem,
    Os olhos alegrando descontentes,
    Em te vendo, parece, se entristecem.
      De todos teus amigos e parentes,
    Que lá da serra vem por consolar-te,
    Sentindo na alma a pena, que tu sentes,
      Se querem de teus males apartar-te,
    Deixando a choça e gado vás fugindo,
    Como cervo ferido, a outra parte.
      Não vês que Amor, as vidas consumindo,
    Vive só de vontades enlevadas
    No falso parecer d'hum gesto lindo?
      Nem as hervas das águas desejadas
    Se fartão; nem de flores as abelhas;
    Nem este Amor de lagrimas cansadas.
      Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas,
    Chorou Phebo de Daphne as esquivanças,
    Regando as flores brancas e vermelhas?
      Quantas vezes as asperas mudanças
    O namorado Gallo t[~e]e chorado
    De quem o tinha envolto em esperanças?
      Estava o triste amante recostado,
    Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso,
    Que o falso Amor lhe tinha destinado.
      Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso,
    Na fonte de Aganippe destillando,
    Se fazião de lagrimas hum vaso.
      O intonso Apollo o vinha alli culpando,
    A sobeja tristeza perigosa
    Com asperas palavras reprovando.
      Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa
    Nympha, que tanto amaste, descobrindo
    Por falsa a fé, que dava, e mentirosa;
      Por as Alpinas neves vai seguindo
    Outro bem, outro amor, outro desejo;
    Como inimiga, emfim, de ti fugindo.
      Mas o misero amante, que o sobejo
    Mal empregado amor lhe defendia
    Ter de tamanha fé vergonha ou pejo;
      Da falsífica Nympha não sentia
    Senão que o frio do gelado Rheno
    Os delicados pés lhe offenderia.
      Ora se tu vês claro, amigo Almeno,
    Que d'Amor os desastres são de sorte,
    Que para matar basta o mais pequeno,
      Porque não pões hum freio a mal tão forte,
    Qu'em estado te põe, que sendo vivo,
    Ja não se entende em ti vida nem morte?
                ALMENO.
      Agrario; se do gesto fugitivo,
    Por caso de fortuna desastrado,
    Algum'hora deixar de ser captivo;
      Ou sendo para as Ursas degradado,
    Adonde Boreas t[~e]e o Oceano
    Co'os frios Hyperboreos congelado;
      Ou donde o filho de Climene insano,
    Mudando a côr das gentes totalmente,
    As terras apartou do trato humano;
      Ou se ja por qualquer outro accidente
    Deixar este cuidado tão ditoso,
    Por quem sou de ser triste tão contente;
      Este rio, que passa deleitoso,
    Tornando para traz, irá negando
    Á natureza o curso pressuroso.
      As cabras por o mar irão buscando
    Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura
    Das hervas os delfins apascentando.
      Ora se tu vês, n'alma quão segura
    Deste amor tenho a fé, para qu'insistes
    Nesse conselho e prática tão dura?
      Se de tua porfia não desistes,
    Vae repastar teu gado a outra parte;
    Qu'he dura a companhia para os tristes.
      Huma só cousa quero encomendarte,
    Para repouso algum de meu engano,
    Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte:
      Que s'esta fera, qu'anda em traje humano,
    Por a montanha vires ir vagando,
    De meu despôjo rica e de meu dano,
      Comos vivos espritos inflammando
    O ar, o monte e a serra, que comsigo
    Continuamente leva namorando;
      Se queres contentar-me, como amigo,
    Passando, lhe dirás: Gentil pastora,
    Não ha no mundo vício sem castigo.
      Tornada em puro marmore não fôra
    A fera Anaxarete, se amoroso
    Mostrára o rosto angelico algum'hora.
      Foi bem justo o castigo rigoroso:
    Porém quem te ama (Nympha) não queria
    Nódoa tão feia em gesto tão formoso.
                AGRARIO.
      Tudo farei, Almeno, e mais faria
    Por algum dia ver-te descansado,
    Se s'acabão trabalhos algum dia.
      Mas bem vês como Phebo ja empinado
    Me manda que da calma iniqua e crua,
    Recolha em algum valle o manso gado.
      Tu nessa phantasia falsa e nua,
    Para engano maior de teu perigo,
    Não queres companhia mais que a sua.
      Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo;
    E ficarás melhor acompanhado.
                ALMENO.
      Elle comtigo vá, como comigo
    Me fica acompanhando o meu cuidado.


ECLOGA III.


INTERLOCUTORES.

ALMENO e BELISA.

    Passado ja algum tempo que os amores
    D'Almeno, por seu mal, erão passados,
    Porque nunca Amor cumpre o que promette;
    Entr'huns verdes ulmeiros apartado,
    Regando por o campo as brancas flores,
    Em lagrimas cansadas se derrete:
    Quando a linda pastora, que compete
    Co'o monte em aspereza,
    Co'o prado em gentileza,
    Por quem o pastor triste endoudecia,
    Por a praia do Tejo discorria
    A lavar a beatilha e o trançado:
    O sol ja consentia
    Que sahisse da sombra o manso gado.
      Ja acordado daquelle pensamento
    Que tão desacordado sempre o teve,
    Vio por acêrto o bem, que incerto tinha.
    E porque donde amor a mais se atreve,
    Alli mais enfraquece o entendimento,
    Não lhe soube dizer o que convinha.
    Como homem que á aprazada briga vinha,
    A quem de fóra engana
    A confiança humana,
    E despois, vendo o rosto a quem resiste,
    Treme, e teme o perigo e não insiste;
    Ja se arrepende, a audacia lhe fallece:
    Dest'arte o pastor triste
    Ousa, receia, esforça e enfraquece.
      E tendo assi ja attonito o sentido,
    Cometteo com furor desatinado,
    E tirou da fraqueza coração.
    Comettimento foi desesperado:
    Qu'huma só salvação t[~e]e hum perdido,
    Perder toda a esperança á salvação.
    As mágoas, que passárão, se dirão:
    Mas as qu'ella dizia,
    Lembrando-lhe que via
    As águas murmurar do Tejo amenas,
    Remetto a vós, ó Tagides Camenas;
    Qu'eu, de mágoa, não posso dizer tanto;
    Porqu'em tamanhas penas
    Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto.
                BELISA.
      Que alegre campo e praia deleitosa!
    Quão saudosa faz esta espessura
    A formosura angelica e serena
    Da tarde amena! Quão saudosamente
    A sesta ardente abranda, suspirando,
    De quando em quando o vento alegre e frio!
    No fundo rio os mudos peixes sáltão;
    Os ceos se esmaltão todos d'ouro e verde,
    E Phebo perde a fôrça da quentura.
    Por a espessura levão, passeando,
    O gado brando ao som das çanfoninas,
    Pizando as finas e formosas flores,
    Os Guardadores, que cantando o gesto
    Formoso e honesto das pastoras qu'amão,
    Por o ar derramão mil suspiros vãos.
    Hum louva as mãos, louva outro os raios bellos,
    Outro os cabellos d'ouro, em som suave:
    E a amorosa ave leva o contraponto.
    Mas oh que conto e saudosa historia
    Que na memoria aqui se m'offerece!
    Se não m'esquece, ja deste lugar
    Ouvi soar os valles algum dia,
    E respondia o eco o nome em vão
    N'hum coração, _Belisa_ retumbando.
    Estou cuidando como o tempo passa,
    E quão escaça he toda alegre vida;
    E quão comprida, quando he triste e dura.
    Nesta 'spessura longo tempo amei:
    Se m'enganei com quem do peito amava,
    Não me pezava de ser enganada.
    Fui salteada, emfim, d'hum pensamento,
    Que hum movimento tinha casto e são.
    Conversação foi fonte dest'engano
    Que, por meu dano, entrou com falsa côr.
    Porque o amor na Nympha, que he segura,
    Entra em figura de vontade honesta.
    Mas que me presta agora dar desculpa?
    Pois se houve culpa, foi do firme amor
    Só, n'hum pastor, que nunca sol nem l[~u]a,
    Ou serra alg[~u]a, desde o Ibero ao Indo,
    Outro tão lindo vírão, tão manhoso.
    Nest'amoroso estado, e fé que tinha
    Nest'alma minha tão secretamente,
    Vivi contente, amando e encobrindo.
    Elle fingindo mentirosos danos,
    Que são enganos que não custão nada;
    Tendo alcançada ja no entendimento
    A fé e intento meu só nelle pôsto;
    (Que logo o rosto mostra os corações,
    E as affeições co'os olhos se praticão
    Que mais publicão muito, que palavras)
    Com suas cabras sempre á parte vinha,
    Ond'eu mantinha os olhos do desejo.
    Tu, manso Tejo, e tu, florído prado,
    Do mais passado, emfim, que aqui não digo,
    Sereis, m'obrigo, testimunho certo;
    Pois descoberto vos foi tudo e claro.
    Oh tempo avaro! oh sorte nunca igual!
    Quão grande mal quereis á humana gente!
    Porque hum contente estado assi trocastes?
    Vós me tirastes do meu peito isento
    O pensamento honesto e repousado,
    Ja dedicado ao côro de Diana;
    Vós n'huma ufana vida me puzestes,
    E alli quizestes que gozasse o dano
    Do doce engano, que se chama amor,
    Com cujo error passava o tempo ledo:
    E vós tão cedo me tirais hum bem,
    Que Amor ja tem impresso n'alma minha,
    Despois qu'a tinha envolta em esperanças;
    E com lembranças tristes me deixais?
    Mal me pagais a fé que sempre tive.
    Mas assi vive quem sem dita nace.
    Mas ja a face alegre o sol esconde;
    E não responde alguem a tantas mágoas,
    Senão as ágoas, que dos olhos sahem.
    As sombras cahem; vão-se as alimarias,
    Fartas das várias hervas, seu caminho;
    Buscão seu ninho os passaros sem dono:
    Ja por o sono esquecem o comer.
    Quero esquecer tambem tão doce historia,
    Pois he memoria que traz mor cuidado.
    Isto he passado; e se me deo paixão,
    Os dias vão gastando o mal e o bem;
    E não convém querer-me magoar
    Do qu'emendar não posso ja com mágoas.
    Nas claras ágoas deste rio brando,
    Que vão regando o valle matizado,
    Este trançado lavar quero emfim;
    Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança
    Desta mudança, qu'esquecer não sei:
    Bem qu'eu verei mudar a opinião,
    Pois homens são: a quem o esquecimento
    Depressa faz mudar o pensamento.
                ALMENO.
      Se a vista não m'engana a phantasia,
    Como ja m'enganou mil vezes, quando
    Minha ventura enganos me soffria;
      Parece-me, que vejo estar lavando
    Huma Nympha algum véo no claro Tejo,
    Que se m'está Belisa figurando.
      Não póde ser verdade isto que vejo;
    Que facilmente aos olhos se figura
    Aquillo que se pinta no desejo.
      Oh acontecimento, qu'a ventura
    Me dá para mor damno! Esta he, certo;
    Que não he d'outrem tanta formosura.
      Se poderei fallar-lhe de mais perto?
    Mas fugir-me-ha. Não póde ser; qu'o rio
    Para acolá não t[~e]e caminho aberto.
      Oh temor grande! oh grande desvario,
    Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente
    Assi m'está tornando, e o peito frio!
      De quanto me sobeja, estando ausente,
    Que para lhe fallar sempre imagino,
    Tudo me falta quando estou presente.
      Oh aspecto suave e peregrino!
    Pois como? tão asinha assi s'esquece
    Huma fé verdadeira, hum amor fino?
                BELISA.
      Oh altas semideas! pois padece
    Em vosso rio a honra delicada
    De quem tamanha fôrça não merece:
      Ou seja por vós, Nymphas, preservada;
    Ou em arvore alguma, ou pedra dura
    Me deixai velozmente transformada.
                ALMENO.
      Ah Nympha! não te mudes a figura:
    Nem vós, deosas, queirais qu'eu seja parte
    De se mudar tão rara formosura.
      Porqu'a quem falta a voz para fallar-te,
    E a quem falta o despejo da ousadia,
    Tambem faltarão mãos para tocar-te.
                BELISA.
      Que me queres, Almeno, ou que porfia
    Foi a tua tão aspera comigo?
    Minha vontade não to merecia.
      Se com amor o fazes, eu te digo,
    Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo,
    Não póde ser amor, mas inimigo.
      Não es tu de saber tão falto e rudo,
    Que tão sem siso amasses, como amaste.
                ALMENO.
    Onde viste tu, Nympha, amor sisudo?
      Porque ja não te lembra que folgaste
    Com meus tormentos tristes, e algum'hora
    Com teus formosos olhos ja m'olhaste?
      Como t'esquece ja (gentil pastora)
    Que folgavas de ler nos freixos verdes
    O que de ti 'screvia cada hora?
      Porqu'a memoria tão á pressa perdes
    Do amor que me mostravas, qu'eu não digo,
    Se o vós, ó altos montes, não disserdes?
      E como te não lembras do perigo,
    A que só por m'ouvir t'aventuravas,
    Buscando horas de sesta, horas d'abrigo?
      Co'a maçãa da discordia me tiravas;
    Qu'a Venus, qu'a ganhou por formosura,
    Tu, como mais formosa, lha ganhavas.
      E escondendo-te logo na'spessura,
    Hias fugindo, como vergonhosa
    Da namorada e doce travessura.
      Não era esta a maçãa d'ouro formosa
    Com qu'encoberta assi d'astucia tanta
    Cydippe s'enganou por cubiçosa,
      Nem a que o curso teve d'Atalanta;
    Mas era aquella, com que Galathêa
    O pastor captivou, como elle canta.
      Se más tenções puzerão nodoa fêa
    Em nosso firme amor, d'inveja pura,
    Porque pagarei eu a culpa alhea?
      Quem desta fé, quem dest'amor não cura,
    Nunca teve sujeito o coração;
    Queo firme amor com a alma eterna dura.
                BELISA.
      Mal conheces, Almeno, huma affeição;
    Que s'eu desse amor tenho esquecimento,
    Meus olhos magoados to dirão.
      Mas teu sobejo e livre atrevimento,
    E teu pouco segredo, descuidando,
    Foi causa deste longo apartamento.
      Vês as Nymphas do Tejo, que mudando
    Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto
    N'outra mais dura fórma traspassando.
      Hum só segredo meu te manifesto:
    Que te quiz muito em quanto Deos queria;
    Mas de pura affeição, d'amor honesto.
      E pois de teus descuidos e ousadia
    Nasceo tão dura e aspera mudança,
    Fólgo; que muitas vezes to dizia.
      Fica-te embora, e perde a confiança
    De ver-me nunca mais, como ja viste:
    Que assi se desengana huma esperança.
                ALMENO.
      Oh duro apartamento! oh vida triste!
    Oh nunca acontecida desventura!
    Pois como, Nympha? assi te despediste?
      Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!)
    Nesta sylvestre e aspera rudeza
    Tão branda e excellente formosura?
      Tua nunca entendida gentileza,
    E teus membros assi se transformárão,
    Negando-se-lhe a propria natureza?
      Dest'arte os teus cabellos se tornárão
    (Deixando ja seu preço ao ouro fino)
    Em fôlhas, que a côr t[~e]e do que negárão?
      S'este consentimento foi divino,
    Consinta-me tambem que perca a vida,
    Antes que a mais m'obrigue o desatino.
      Pois se a fortuna sempre embravecida
    Em meu tormento tanto se desmede,
    Não viva mais hum'alma tão perdida.
      E vós, feras do monte, pois vos pede
    Minha pena o remedio derradeiro,
    Fartae ja de meu sangue vossa sêde.
      E vós, pastores rudos deste outeiro,
    Porque a todos, emfim, se manifeste
    Que cousa he amor puro e verdadeiro;
      Á sombra deste funebre cypreste
    Me fareis hum sepulcro sem arrêo
    De boninas que o prado ameno veste.
      As desusadas musicas de Orphêo
    Aqui me cantareis; e desta sorte
    Não haverei inveja ao mausolêo.
      E porqu'a minha cinza se conforte,
    Em vossos metros doces e suaves
    As exequias direis de minha morte.
      Alli responderão as altas aves,
    Não módulas no canto nem lascivas,
    Mas de dor ora roucas, ora graves.
      Não correrão as águas fugitivas,
    Alegres por aqui, mas saudosas,
    Que pareça que vem dos olhos vivas.
      Nascerão por as praias deleitosas
    Os asperos abrolhos em lugar
    Dos roxos lirios, das pudicas rosas.
      Não trarão as ovelhas a pastar
    De redor do sepulcro os guardadores;
    Pois nada comerião de pezar.
      Virão os Faunos, guarda dos pastores,
    Se morri por amores, perguntando;
    Responderão os ecos: _Por amores_.
      Dos que por aqui forem caminhando,
    Hum epitaphio triste se lerá,
    Qu'esteja minha morte declarando.
      E no tronco de huma árvore estara,
    N'huma rude cortiça pendurado
    Escripto co'huma fouce, e assi dirá:
      _Almeno fui, pastor de manso gado,
    Em quanto o consentio minha ventura,
    De Nymphas e pastores celebrado.
      Se algum dia, por caso, na 'spessura
    Se perder o amor e a affeição,
    Tirem a pedra desta sepultura,
      E em figura de cinza os acharão._


ECLOGA IV.


INTERLOCUTORES.

FRONDOSO e DURIANO.

    Cantando por hum valle docemente
    Descião dous pastores, quando Phebo
    No reino Neptunino se escondia:
    De idade cada qual era mancebo;
    Mas velho no cuidado, e descontente
    Do que lh'elle causava parecia.
    O que cada hum dizia
    Lamentando seu mal, seu duro fado,
    Não sou eu tão ousado,
    Que o pretenda cantar sem vossa ajuda:
    Porque se a minha ruda
    Frauta deste favor vosso for dina,
    Posso escusar a fonte Caballina.
      Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso;
    Em vós tenho Calliope e Thalia;
    E as outras sete irmãas, co'o fero Marte;
    Em vós deixou Minerva sua valia;
    Em vós estão os sonhos do Parnaso;
    Das Pierides em vós s'encerra a arte.
    Com qualquer pouca parte,
    Senhora, que me deis d'ajuda vossa
    Podeis fazer qu'eu possa
    Escurecer ao sol resplandecente:
    Podeis fazer que a gente
    Em mi do grão poder vosso s'espante;
    E que vossos louvores sempre cante.
      Podeis fazer que cresça d'hora em hora
    O nome Lusitano, e faça inveja
    A Esmirna, que d'Homero s'engrandece.
    Podeis fazer tambem que o mundo veja
    Soar na ruda frauta o que a sonora
    Cithara Mantuana só merece.
    Ja agora me parece,
    Que podem começar os meus pastores
    A cantar seus amores.
    Porqu'inda que presentes não estejão
    As qu'elles ver desejão,
    Mudança de lugar, menos d'estado,
    Não muda hum coração do seu cuidado.
      Ja deixava dos montes a altura,
    E nas salgadas ondas s'escondia
    O sol, quando Frondoso e Duriano,
    Ao longo d'hum ribeiro, que corria
    Por a mais fresca parte da verdura
    Claro, suave e manso, todo o ano,
    Lamentando seu dano,
    Vinhão ja recolhendo o manso gado.
    Hum estava callado,
    Em quanto hum pouco o outro se queixava;
    Apos elle tornava
    A dizer de seu mal o que sentia;
    E em quanto este fallava, aquelle ouvia.
      Vinhão-se assi queixando aos penedos,
    Aos sylvestres montes e á aspereza,
    Que quasi de seus males se doião.
    Alli as pedras perdião a dureza;
    Alli correntes rios estar quedos,
    Promptos ás suas queixas, parecião.
    Somente as que podião
    Estes males curar, pois os causavão,
    O ouvido lhes negavão,
    Por perderem de todo a esperança:
    Mas elles, que mudança
    D'amor com tantos damnos não fazião,
    Com ellas fallando inda, assi dizião:
                FRONDOSO.
      Isto he o que aquella verdadeira
    Fé, com que t'amei sempre, merecia,
    Sem nunca te deixar hum só momento?
    Como (cruel Belisa) t'esquecia
    Hum mal, cuja esperança derradeira
    Em ti só tinha pôsto o seu assento?
    Não vias meu tormento?
    Não vias tu a fé, com que t'amava?
    Porque não t'abrandava
    Est'amor, que me tu tão mal pagaste?
    Mas pois ja me deixaste
    Co'a esperança de ti toda perdida,
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Se os males que por ti tenho soffrido
    (Oh Silvana, em meus males tão constante!)
    Quizesses que algum'hora te dissera;
    Inda que, qual durissimo diamante,
    Fôra o teu cruel peito endurecido,
    Creio que a piedade te movêra.
    Ja agora em branda cera
    Os montes são tornados e os penedos;
    E os rios, qu'estão quedos,
    Sentírão meus suspiros, minhas queixas.
    Tu só, cruel, me deixas,
    Qu'es mais, que montes e penedos, dura,
    E fugitiva mais qu'a fonte pura.
                FRONDOSO.
      Ond'está aquella falla, que sohia
    Só com seu doce tom, que me chegava,
    Avivar-me os espiritos cansados?
    Onde está o olhar brando, que cegava
    O sol resplandecente ao meio dia?
    Ond'estão os cabellos delicados,
    Que ao vento espalhados
    Escurecião o ouro, a mi matavão;
    E a quantos os olhavão,
    Causavão tambem novos accidentes?
    Porque, cruel, consentes
    Qu'outro goze da gloria a mi devida?
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Nenhum bem vejo, que a meu mal espere,
    Se não fosse esperar que morte dura
    Me venha emfim a dar a saudade.
    Vejo faltar-me a tua formosura;
    A vontade me diz que desespere,
    Contradiz-me a razão esta vontade.
    Diz qu'em huma beldade,
    Em quem mostrou o cabo a natureza,
    Não ha tanta crueza,
    Qu'hum tão constante amor desprezar queira,
    E fé tão verdadeira;
    Mas tu, que de razão jamais curaste,
    Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste.
                FRONDOSO.
      A quem, Belisa ingrata, t'entregaste?
    A quem déste, cruel, a formosura,
    Qu'a meu tormento só, só se devia?
    Porqu'huma fé deixaste, firme e pura?
    Porque tão sem respeito me trocaste
    Por quem só nem olhar-te merecia?
    O bem que t'eu queria,
    E que não perderei se não por morte,
    Não he de maior sorte,
    Que quanto a cega gente estima e preza?
    Só a tua crueza
    Foi nisto contra mi endurecida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Levaste-me o meu bem n'hum só momento;
    Levaste-me com elle juntamente
    De cobrá-lo jamais a confiança:
    Deixaste-me em lugar delle sómente
    Huma contínua dor, hum grão tormento,
    Hum mal, de que não póde haver mudança.
    Tu, qu'eras a esperança
    Dos males que, cruel, tu me causaste,
    De todo te trocaste,
    Com Amor conjurada em minha morte.
    Porém se a minha sorte
    Consente que por ti seja causada,
    Morte não foi mais bem-aventurada.
                FRONDOSO.
      Não nasceste d'alguma pedra dura;
    Não te gerou alguma Tigre Hyrcana;
    Não te criaste, não, entre a rudeza,
    A quem, cruel, sahiste deshumana?
    No ceo formada foi tal formosura,
    Onde a mesma brandura he natureza.
    Pois, logo, essa dureza
    Donde teve princípio, ou a tomaste?
    Porque, dura, engeitaste
    De hum verdadeiro amor, que tu bem vias,
    A fé, que conhecias,
    Por outra de ti nunca conhecida?
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Vai-se co'o seu pastor o manso gado,
    Porque d'amor entende aquella parte,
    Qu'a natureza irracional lh'ensina.
    O rustico leão sem algum'arte,
    Do natural instincto só ensinado,
    Aonde sente amor, logo se inclina.
    E tu, que de divina
    Não tens menos queVenus e Cupido,
    Porque sequer co'o ouvido
    Hum amor verdadeiro não soccorres?
    Ah! porque te não corres
    De que o leão te vença em piedade,
    Se não te vence Venus na beldade?
                FRONDOSO.
      A mi não me faltava o que se preza
    Entre os celestes deoses, que formárão
    A tua mais que humana formosura:
    Em mi os voluntarios ceos faltárão;
    Em mi se perverteo a natureza
    D'huma cruel formosa creatura.
    Mas, pois, Belisa dura,
    Que do mais alto ceo a nós vieste,
    E em teu peito celeste
    Hum tal contrário pôde aposentar-se,
    Não he contrário achar-se
    Tamanha fé tão mal agradecida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Por ti a noite escura me contenta;
    Por ti o claro dia m'aborrece;
    Abrolhos me parecem frescas flores;
    A doce Philomela m'entristece:
    Todo contentamento m'atormenta
    Com a contemplação de teus amores;
    As festas dos pastores,
    Que podem alegrar toda a tristeza.
    Em mi tua crueza
    Faz que o mal cada hora vá dobrando.
    Oh cruel! até quando
    Ha de durar em ti tal pensamento,
    E a vida em mi, que soffre tal tormento?
                FRONDOSO.
      Fugiste d'hum amor tão conhecido,
    Fugiste d'huma fé tão clara e firme;
    E seguiste a quem nunca conheceste,
    Não por fugir d'amor, mas por fugir-me;
    Pois bem vês, quanto eu tinha merecido
    Esse amor que tu a outro concedeste.
    A mi não me fizeste
    Alguma sem razão; que bem conheço
    Que tanto não mereço:
    Fizeste-a áquelle bem firme e sincero
    Que sabes que te quero,
    Em lhe tirar a gloria merecida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Cresce cad'hora em mi mais o cuidado,
    E vejo qu'em ti cresce juntamente
    Cad'hora mais de mi o esquecimento.
    Oh Silvana cruel! porque consente
    Esse peito formoso e delicado
    Que s'esqueça hum tão aspero tormento?
    Tal aborrecimento
    Merece hum capital teu inimigo:
    Não eu, que só comtigo
    Estou contente, e nada mais desejo,
    Se algum'hora te vejo.
    Tu es hum só meu bem, huma só gloria,
    Que nunca se m'aparta da memoria.
                FRONDOSO.
      Olhos, que vírão tua formosura;
    Vida, que só de ver-te se sostinha;
    Vontade, qu'em ti'stava transformada;
    Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha,
    Tão unida comsigo, quanto a pura
    Alma co'o debil corpo está liada;
    E que agora apartada
    Te vê de si com tal apartamento,
    Qual será seu tormento?
    Qual será aquelle mal que t[~e]e presente?
    Maior he que o que sente
    O triste corpo em última partida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Regendo em outro tempo o manso gado,
    Tangendo a minha frauta nestes vales,
    Passava a doce vida alegremente:
    Não sentia o tormento destes males;
    Menos sentia o mal deste cuidado;
    Que tudo então em mi era contente.
    Agora não somente
    Desta vida suave m'apartaste.
    Mas outra me deixaste,
    Que ao duro mal que sinto ca no peito,
    Me t[~e]e ja tão affeito,
    Que sinto ja por gloria a minha pena,
    Por natureza o mal, que me condena.
                FRONDOSO.
      Juntamente viver compridos anos,
    Os fados te concedão, que quizerão
    Ajuntar-te com tal contentamento.
    Pois os bens para ti todos nascêrão,
    Nascêrão para mi todos os danos,
    Logra tu tua gloria, eu meu tormento.
    Nenhum apartamento,
    Belisa, me fara deixar d'amar-te;
    Porqu'em nenhuma parte
    Poderás nunca estar sem mi hum'hora.
    Consente pois agora,
    Qu'em pago desta fé tão conhecida,
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Veja-t'eu, crua, amar quem te desame,
    Porque saibas que cousa he ser amada
    De quem tanto aborreces e desprezas.
    Veja-t'eu ser ainda desprezada
    De quem tu mais desejas que te ame,
    Porque sintas em ti tuas cruezas,
    Sintas tuas durezas,
    E quanto póde o seu cruel effeito
    N'hum coração sujeito.
    Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora,
    Espero qu'algum'hora
    Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te,
    Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te.
                FRONDOSO.
      Mil annos de tormento me parece
    Cad'hora que sem ti, sem esperança
    Vivo de poder mais tornar a ver-te.
    A vida só me dá tua lembrança;
    A vida sôbre tudo m'entristece;
    A vida antes perdêra, que perder-te.
    Mas eu se, por querer-te
    Hum bem qu'em ti só t[~e]e seu firme assento,
    Padeço tal tormento,
    Qu'esperará de ti quem te desama,
    Ou quem ao menos te ama
    Com algum falso amor, ou fé fingida?
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Então, cruel, verás se te merece
    Com tamanho desprêzo ser tratada
    Hum'alma, que d'amar-te só se preza.
    Mas como poderás ser desprezada,
    Se o menos qu'em ti fóra se parece,
    Póde abrandar dos montes a aspereza?
    Porque se a natureza
    Em ti o remate poz da formosura,
    Qual será a pedra dura,
    Qu'a teu valor resista brandamente?
    Que fará a fraca gente,
    Se ao humano parecer não se defende,
    E a mesma Venus deosa ao teu se rende?
                FRONDOSO.
      E pois fé verdadeira, amor perfeito,
    Tormento desigual e vida triste,
    Junta com hum contino soffrimento,
    E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste,
    Não puderão mover teu duro peito
    A mostrares sequer contentamento
    De ver o meu tormento;
    Antes tudo soberba desprezaste,
    E a outrem t'entregaste
    Por nada me ficar em qu'esperasse,
    Senão quando acabasse
    A vida, a pezar meu, ja tão comprida,
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Longo curso de tempo, e apartado
    Lugar a hum coração, que vive entregue,
    Não podem apartar de seu intento.
    Porque foges, cruel, a quem te segue?
    Não vês que teu fugir he escusado,
    Pois sem mim não estás hum só momento?
    Nenhum apartamento,
    Inda que a alma do corpo se m'aparte,
    Poderá ja ausentar-te
    Dest'alma triste, que continuamente
    Em si te t[~e]e presente.
    Torna, cruel; não fujas a quem t'ama:
    Vem a dar vida, ou morte a quem te chama.
      A noite escura, triste e tenebrosa,
    Que ja tinha estendido o negro manto,
    D'escuridade a terra toda enchendo,
    Fez pôr a estes pastores fim ao canto,
    Que ao longo da ribeira deleitosa
    Vinhão seu manso gado recolhendo.
    Se aquillo, qu'eu pretendo
    Deste trabalho haver, que he todo vosso,
    Senhora, alcançar posso;
    Não será muito haver tambem a gloria
    E o louro da victoria,
    Que Virgilio procura e haver pretende,
    Pois o mesmo Virgilio a vós se rende.


ECLOGA V.

_Falla hum só pastor._

    A quem darei queixumes namorados
    Do meu pastor queixoso e namorado?
    A branda voz, suspiros magoados,
    A causa porque n'alma he magoado?
    De quem serão seus males consolados?
    Quem lhe fara devido gasalhado?
    Só vós, Senhor famoso e excellente,
    Especial em graças entr'a gente.
      Por partes mil lançando a phantasia,
    Busquei na terra estrella, que guiasse
    Meu rudo verso; em cuja companhia
    A santa piedade sempre andasse
    Luzente e clara, como a luz do dia,
    Que o rudo engenho meu m'allumiasse;
    E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo
    Ainda além cumprido o meu desejo.
      A vós se dem, a quem junto se ha dado
    Brandura, mansidão, engenho e arte,
    D'hum esprito divino acompanhado,
    Dos sobrehumanos hum em toda parte:
    Em vós as graças todas se hão juntado;
    De vós em outras partes se reparte.
    Sois claro raio, sois ardente chama;
    Gloria e louvor do tempo, azas da fama.
      Em quanto eu apparelho hum novo esprito,
    E voz de cysne tal, que o mundo espante,
    Com que de vós, Senhor, em alto grito
    Louvores mil em toda parte cante;
    Ouvi o canto agreste em tronco escrito,
    Entre vaccas e gado petulante:
    Que quando tempo for, em melhor modo
    Ha de m'ouvir por vós o mundo todo.
      As vãas querellas, brandas e amorosas,
    Sejão de vós tratadas brandamente;
    Verdades d'alma pouco venturosas,
    Sahidas com suspiro vivo e ardente:
    Em vossas mãos s'entregão valerosas,
    Porqu'ao futuro vivão entr'a gente,
    Chorando sempre a antigua crueldade,
    Para mover as almas a piedade.
      Ja declinava o sol contra o Oriente,
    E o mais do dia ja era passado,
    Quando o pastor co'o grave mal que sente,
    Por dar allívio em parte a seu cuidado,
    Se queixa da pastora docemente,
    Cuidando de ninguem ser escutado.
    Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia
    As mágoas que cantou; e assi dizia:
      Ou tu do monte Pindaso es nascida,
    Ou marmor te pario formosa e dura:
    Não póde ser que fosse concebida
    Dureza tal de humana creatura:
    Ou quiçá qu'es em pedra convertida,
    Ou tens da natureza tal ventura;
    Porém não fez em ti boa impressão,
    Só de marmor tornar-te o coração.
      Ja, ja com minha voz rouca e chorosa
    A gente mais austera moveria;
    E com esta corrente lagrimosa
    Os tigres em Hyrcania amansaria.
    Se não fosses cruel, quanto formosa,
    Meu longo suspirar t'abrandaria:
    Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,
    Que fazem senão mais endurecer-te?
      Se deixáras vencer a crueldade
    De tua tão perfeita formosura;
    Hum pouco víras bem minha vontade,
    E víras a fé minha, limpa e pura,
    Por ventura, que houveras ja piedade,
    E tivera eu quiçá melhor ventura:
    Mas nunca achou igual tua belleza,
    Se não se foi em ti tua dureza.
      Ja hum peito abrandára, que não sente,
    Este meu grave mal, segundo he forte;
    Se descêra do inferno ao Polo ardente,
    A piedade movêra a propria morte.
    Pois se huma gotta d'agua brandamente
    Torna brando hum penedo, duro e forte,
    Tantas lagrimas minhas não farão
    Hum pequeno sinal n'hum coração?
      Na testa fonte viva tenho d'ágoa,
    Que por meus olhos tristes se derrama;
    E no peito de fogo viva fragoa,
    Que tudo em si converte, tudo inflama:
    Amor em de redor, por maior mágoa,
    Voando mais accende a ardente chama.
    Se queres ver se ardentes são seus tiros,
    Ólha se são ardentes meus suspiros.
      Quando grita e rumor grande se sente,
    Porque fogo se ateia em casa, ou torre,
    De pura compaixão vai toda a gente,
    Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre.
    Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,
    E com a ágoa dos olhos se soccorre;
    Que quem me abraza, outra ágoa me defende,
    Porque com esta o fogo mais se accende.
      Quando vemos que sahe lá no Oriente
    O sol, seu curso antigo começando,
    Formoso, intenso, puro, refulgente,
    O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;
    Quando de nós s'esconde no Ponente,
    E em outras terras sahe, allumiando,
    Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,
    Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro.
      Caminha o dia todo o caminhante,
    E, emfim, lhe chega a noite, em que descança;
    Trabalha na tormenta o navegante,
    Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança;
    Recobra o fructo fertil e abundante
    Da terra o lavrador, se nella cança:
    Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
    Tormento espero só, só crua morte.
      D'ouvir meu damno as rosas matutinas,
    Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;
    Com meu suspiro ardente as côres finas
    Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem.
    Co'a roxa aurora as pallidas boninas,
    Em vez de se alegrarem, s'entristecem:
    Deixão seu canto Progne e Philomena;
    Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.
      Responde o monte concavo a meus ais,
    E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;
    Os indomitos feros animais,
    Sem humano sentir, mostrão sentido:
    Mas em ti minhas dores desiguais
    Nunca movem o peito endurecido:
    Por muito que te chame, não respondes;
    E quanto mais te busco, mais t'escondes.
      Naquella parte donde costumavas
    Apascentar meus olhos e teu gado;
    Alli donde mil vezes me mostravas,
    Qu'era o pastor de ti mais desejado,
    Vezes mil te busquei, por ver se davas
    Algum breve descanso a meu cuidado.
    Busco-te em vão no valle, em vão no monte,
    Qual o ferido cervo busca a fonte.
      Este lugar de ti desamparado,
    Com cujas sombras frias ja folgaste,
    Agora triste, escuro he ja tornado;
    Que todo o bem comtigo nos levaste.
    Eras tu nosso sol mais desejado;
    Não temos luz, despois que nos deixaste.
    Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
    Qual he o Josué que te detém?
      Despois que deste valle t'apartaste,
    Não pasce ja algum gado, com seccura;
    Seccou-se o campo, des que lhe negaste
    Dos teus formosos olhos a luz pura;
    Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,
    Quando menos, que agora, aspera e dura;
    Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
    Ás cabras pasto e leite a os cabritos.
      Sem ti, doce cruel minha inimiga,
    A clara luz, escura me parece:
    Este ribeiro, quando a dor m'obriga,
    Com meu chorar por ti contino crece.
    Não ha fera, a que a fome não persiga;
    Algum prado sem ti ja não florece:
    Cegos estão meus olhos; nada vem,
    Porque não podem ver seu claro bem.
      O campo, como d'antes, não s'esmalta
    De boninas azues, brancas, vermelhas;
    Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta
    As candidas pacíficas ovelhas:
    Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta
    As doces e solícitas abelhas:
    Com lagrimas, que manão dos meus olhos,
    A terra nos produz duros abrolhos.
      Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,
    Se restituir-lhe queres a alegria:
    Alegrarás o valle, o campo, o gado,
    E aquelle espelho teu da fonte fria.
    Torna, torna, meu sol tão desejado,
    Faras a noite escura, claro dia;
    E alegra ja esta vida magoada,
    Em que só tua ausencia he Parca irada.
      Vem, como quando o raio transparente
    Deste nosso horizonte, qu'escondido,
    Deixa hum certo temor á mortal gente,
    Causado de ver o Orbe escurecido;
    E quando torna a vir claro e luzente,
    Alegra o mundo todo entristecido:
    Que assi he para mi tua luz pura
    Claro sol, como a ausencia noite escura.
      Mas tu 'squecida ja do bem passado,
    E do primeiro amor, que me mostraste,
    Teu coração de mi t[~e]es apartado,
    Não menos que do valle t'apartaste.
    Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?
    Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?
    Onde o meu êrro viste, ou desvario,
    Que pôde merecer-te hum tal desvio?
      Bem vês que por Amor se move tudo,
    E que delle não ha quem seja isento;
    O mais simple animal, mais baixo e rudo,
    O demais levantado pensamento:
    Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo
    Tambem lá t[~e]e d'ardor seu movimento.
    Pois as aves, que no ar cantando vôão,
    Não menos humas d'outras s'affeiçôão.
      A musica do leve passarinho
    Que sem concêrto algum sólta e derrama,
    De hum raminho saltando a outro raminho,
    Mostra que por amor suspira e chama.
    Em quanto no secreto amado ninho
    Não acha aquelle, que só busca e ama,
    No canto, a nós alegre, triste chora,
    Porque teme perder a quem namora.
      A fera, que he mais fera, e o leão,
    Sempre acha outro leão, sempre outra fera,
    Em quem possa empregar huma affeição,
    Que o conversar no peito seu lhe gera:
    Tambem sabe sentir sua paixão,
    Tambem suspira, morre, desespera;
    Acena, salta, brada, ferve e geme;
    E não temendo a nada, a Amor só teme.
      O cervo, qu'escondido e emboscado,
    Temendo ao cobiçoso caçador,
    Está na selva, monte, bosque, ou prado,
    Alli donde anda e vive, vive amor.
    De temor e d'amor acompanhado,
    Com justa causa amor t[~e]e e temor:
    Temor a quem para feri-lo vinha,
    Amor a quem ja, ja ferido o tinha.
      Pois se a fera insensivel, que não sente,
    Tambem sente d'Amor a frecha dura,
    Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente,
    Que procede da tua formosura?
    Porqu'escondes a luz do sol á gente,
    Que nesses olhos trazes bella e pura?
    Mais pura, mais suave, mais formosa,
    Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.
      Póde ser, se me visses, que sentiras
    Ver liquidar hum peito em triste pranto;
    E bem pouco fizeras, se me viras,
    Pois eu só por te ver suspiro tanto:
    As mágoas, os suspiros, que m'ouviras
    Te puderão mover a grande espanto,
    A dor, a piedade, a sentimento,
    E a mais, que para mais he meu tormento.
      Os pensamentos vãos, que o vento leve:
    O suspirar em vão tambem ao vento;
    Hum esperar á calma, á chuva, á neve,
    E nunca poder ver-te hum só momento;
    Tormento he, que somente a ti se deve.
    E se póde inda haver maior tormento,
    Quem te vio, e se vê de ti ausente,
    Muito mais passará mais levemente.
      Faz mossa a pedra dura em sua dureza
    Com a ágoa que lhe toca brandamente;
    Abranda o ferro forte a fortaleza,
    Se lhe toca tambem o fogo ardente:
    Em ti só desconheço a natureza;
    Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,
    Ja teu peito cruel fôra desfeito
    Das ágoas e das chammas do meu peito.
      Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
    Alegra toda a terra, vendo o dia;
    Quando Phebo apparece no horizonte,
    Manifesta tambem grande alegria;
    Contente pasce o gado ao pé do monte,
    Contente a beber vai na fonte fria:
    Está tudo contente, alegre tudo;
    Eu só, só pensativo, triste e mudo.
      Se ja d'alma e do corpo tens a palma,
    E do corpo sem alma não tens dó,
    Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,
    Pois sem alma não vive o corpo só.
    Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,
    Na affeição, no querer eu sou hum só:
    Não acharás vontade tão captiva;
    Nem outra como a tua tão esquiva.
      Se te apartas por não ouvir meu rôgo,
    Onde estiveres te hei d'importunar:
    Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo,
    Comtigo em toda parte m'has d'achar;
    Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo,
    Emquanto eu vivo for, hão de durar;
    Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte,
    Que não se ha de soltar em vida, ou morte.
      Neste meu coração sempr'estaras,
    Emquanto a alma estiver com elle unida:
    Tambem o meu esprito possuirás
    Despois que a alma do corpo for partida.
    Por mais e mais que faças, não faras
    Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:
    Impossivel sera qu'eternamente
    Ausente estês de mim, estando ausente.
      Cá m'acompanhará vossa memoria,
    Se o rio, que se diz do esquecimento,
    Da minha não borrar tão longa historia,
    Tão grave mal, tão duro apartamento.
    Até quando vos veja entrar na gloria,
    Viverei n'hum contino sentimento:
    E ainda então vereis (s'isto ser possa)
    Esta minh'alma lá servir a vossa.
      Aqui com grave dor, com triste accento,
    Deo o triste pastor fim a seu canto:
    Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
    Seus olhos começárão novo pranto:
    Mil vezes parar fez no ar o vento,
    E apiedou no ceo o coro santo:
    As circumstantes sylvas s'inclinárão,
    Condoidas das mágoas qu'escutárão.
      Com h[~u]a mão na face, reclinado,
    Tão enlevado em sua dor estava,
    Que, como em grave somno sepultado,
    Não via que ja o sol no mar entrava.
    Berrando andava em roda o manso gado,
    Que o seguro curral ja desejava:
    Nas covas as raposas, e em seus ninhos
    Se recolhem os simples passarinhos.
      Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto
    O mocho com funesto e triste canto:
    Ao som delle o pastor ergueo o rosto,
    E vio a terra envolta em negro manto.
    Quebrando então o fio de seu gôsto,
    E o fio não quebrando de seu pranto,
    Por não se descuidar de seu cuidado,
    Levou para os curraes o manso gado.


ECLOGA VI


INTERLOCUTORES

AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador.

    A rustica contenda desusada
    Entr'as Musas dos bosques, das areias,
    De seus rudos cultores modulada;
      A cujo som attonitas e alheias
    Do monte as brancas vaccas estiverão,
    E do rio as saxatiles lampreias;
      Desejo de cantar. Que se movêrão
    Os troncos ás avenas dos pastores,
    E ja sylvestres brutos suspendêrão.
      Não menos o cantar dos pescadores
    As ondas amansou do fundo pégo,
    E fez ouvir os mudos nadadores.
      E se por sustentar-se o moço cego
    Nos trabalhos agrestes a alma inflama,
    O que he mais proprio no ocio e no socêgo;
      Mais maravilhas dando á voz da fama,
    No mesmo mar undoso e vento frio
    Brazas roxas accende a roxa flama.
      Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio,
    Cuja frondente coma ja cobrio
    De Luso todo o gado e senhorio;
      E cujo são madeiro ja sahio
    A lançar a forçosa e larga rede
    No mais remoto mar que o mundo vio;
      E vós, cujo valor tão alto excede,
    Que, a cantá-lo com voz alta e divina,
    A fonte do Parnaso move a sêde;
      Ouvi da minha humilde çanfonina
    A harmonia, que vós ja levantais
    Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina.
      Mas se agora que affabil m'escutais,
    Não ouvirdes cantar com alta tuba
    O que vos deve o mundo, que dourais;
      E se os Reis avós vossos, que de Juba
    Os Reinos debellárão, não ouvis
    Que nas azas do excelso verso suba;
      Se não sabem as frautas pastoris
    Pintar de Toro os campos semeados
    D'armas e corpos fortes e gentis;
      Por hum Moço animoso sustentados,
    Contra o indomito Rei de toda Hespanha,
    Contra a fortuna vãa e injustos fados:
      Hum Moço, cujo esfôrço, brio e manha,
    Do Olympo fez descer o duro Marte,
    E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha;
      Se não sabem cantar a menor parte
    Do sapiente peito e grão conselho,
    Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te;
      Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho,
    Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas,
    Porque a elle se affeitem como a espelho;
      Saberão bem cantar, em nada vãas,
    D'Alicuto as contendas e d'Agrario;
    Hum d'escamas coberto, outro de lãas.
      Vereis, Duque sereno, o estylo vário,
    A nós novo, mas n'outro mar cantado
    De hum, que só foi das Musas secretario:
      O pescador Sincero, que amansado
    T[~e]e o pégo de Prochyta co'o canto
    Por as sonoras ondas compassado.
      Deste seguindo o som, que póde tanto,
    E misturando o antigo Mantuano,
    Façamos novo estylo, novo espanto.
      Partira-se do monte Agrario insano
    Para onde a fôrça só do pensamento
    Lh'encaminhava o lasso pêzo humano.
      Embebido em hum longo esquecimento
    De si, e do seu gado e pobre fato,
    Apos hum doce sonho e fingimento,
      Rompendo as sylvas horridas do mato,
    Vai por cima d'outeiros e penedos,
    Fugindo, emfim, de todo humano trato.
      Ante os seus olhos leva os olhos ledos
    Da branca Dinamene, qu'enverdece
    Só co'o meneo valles e rochedos.
      Ora se ri comsigo, quando tece
    Na phantasia algum prazer fingido;
    Ora falla; ora mudo s'entristece.
      Qual a tenra novilha, que corrido
    T[~e]e montanhas fragosas e espessuras,
    Por buscar o cornigero marido;
      E cansada nas humidas verduras
    Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro,
    Ja quando as sombras vem cahindo escuras;
      E nem co'a noite ao valle seu primeiro
    Se lembra de tornar, como sohia,
    Perdida por o bruto companheiro:
      Tal Agrario chegado, emfim, se via
    Onde o grão pégo horrisono suspira
    N'huma praia arenosa, humida e fria.
      Tanto que ao mar estranho os olhos vira,
    Tornando em si, de longe ouvio tocar-se
    De douta mão não vista e nova lira.
      Fez-lhe o som desusado desviar-se
    Para onde mais soava, desejando
    D'ouvir e conversar, e de provar-se.
      Muito não tinha proseguido, quando
    Em a concavidade d'hum penedo,
    Que pouco a pouco fôra o mar cavando,
      Topou hum pescador, que prompto e quedo,
    N'huma pedra assentado, brandamente
    Tangendo, faz o mar sereno e ledo.
      Mancebo era d'idade florecente,
    Pescador grande do alto, conhecido
    Por o nome de toda humida gente:
      Alicuto se chama: que perdido
    Era por a formosa Lemnoria;
    Nympha que t[~e]e o mar ennobrecido.
      Por ella as redes lança noite e dia;
    Por ella as ondas tumidas despreza;
    Por ella soffre o sol e a chuva fria.
      Co'o seu nome mil vezes a braveza
    D'irados ventos amansou co'o verso,
    Que remove das rochas a dureza.
      E agora em som de voz, suave e terso,
    Está seu nome aos ecos ensinando
    Por estylo do agreste som diverso.
      Ouvindo Agrario, attonito, affroxando
    Da phantasia hum pouco seu cuidado,
    Suspenso esteve os numeros notando.
      Mas Alicuto, vendo-se estorvado
    Por hum pastor da musica divina,
    O rosto levantou bem socegado,
      E disse assi: Vaqueiro da campina,
    Que vens buscar ás arenosas praias,
    Onde a bella Amphitrite só domina?
      Que razão ha, pastor, para que saias
    A este nosso escamoso e vil terreno
    Dos teus floridos myrtos e altas faias?
      Pois s'agora o mar vês brando e sereno,
    E estender-se estas ondas por a areia,
    Amansadas das mágoas, com que peno,
      Logo verás o como desenfreia
    Eolo o vento por o mar undoso,
    De sorte que Neptuno se receia.
      Responde Agrario: Oh musico e amoroso
    Pescador! eu não venho a ver o lago
    Bravo e quieto, ou vento brando e iroso;
      Mas o meu pensamento, com que apago
    As flammas ao desejo, me trazia
    Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago:
      Até que a tua angelica harmonia
    M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas
    A tua perigosa Lemnoria.
      Mas se de ver-me cá no mar t'espantas,
    Eu m'espanto tambem do estylo novo
    Com que as ondas horrisonas quebrantas.
      Porém se com verdade o louvo e approvo,
    Desejo de o provar contra o sylvestre
    Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo.
      E tu, que no tocar pareces mestre,
    Bem julgarás se ha clara differença
    Entr'o canto maritimo e o campestre.
      Não ha (disse Alicuto) em mi detença:
    Alvorôço antes ha, por mais que veja
    Que a tua confiança só me vença.
      Mas, porque saibas que nenhuma inveja
    Os pescadores temos aos pastores
    Do som que pelo mundo se deseja,
      Toma a lyra na mão, que os moradores
    Do vitreo fundo vendo estou juntar-se
    Para ouvir nossos rusticos amores.
      Bem vês por essa praia presentar-se
    Nas conchas vária côr á vista humana;
    E o mar vir por entr'ellas e tornar-se.
      Socegada do vento a furia insana,
    Encrespa brandamente o ameno rio,
    Que seu licor aqui mistura e dana.
      Estepenedo concavo e sombrio,
    Que de cangrejos ves estar coberto,
    Nos dá abrigo do sol, quieto e frio.
      Tudo nos mostra, emfim, repouso certo,
    E nos convida ao canto, com que os mudos
    Peixes sahem ouvindo ao ar aberto.
      Assi se desafião estes rudos
    Poetas, nos officios discrepantes;
    Nos engenhos porém subtis e agudos.
      Eis ja mil companheiros circumstantes
    Estavão para ouvir, e apparelhavão
    Ao vencedor os premios semelhantes.
      As bem sonantes lyras se tocavão;
    Agrario começava, e da harmonia
    Os pescadores todos s'admiravão;
    E dest'arte Alicuto respondia.
                AGRARIO.
      Vós semicapros deoses do alto monte,
    Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
    E vós, deosas do bosque e clara fonte,
    E dos troncos que vivem largos anos;
    Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte
    A nossos versos rusticos e humanos,
    Ou me dae ja a capella de loureiro,
    Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro.
                ALICUTO.
      Vós humidas deidades deste pégo,
    Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;
    Vós, Nereidas do sal em que navego,
    Por quem do vento as furias pouco temo;
    Se ás vossas sacras aras nunca nego
    O congro nadador na pá do remo,
    Não consintais, que a musica marinha
    Vencida seja aqui na lyra minha.
                AGRARIO.
      Pastor se fez hum tempo o moço louro,
    Que do sol as carretas move e guia;
    Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro,
    Que o seu claro inventor alli tangia.
    Io foi vacca; Jupiter foi touro:
    Mansas ovelhas junto d'ágoa fria
    Guardou formoso Adonis; e tornado
    Em bezerro Neptuno foi ja achado.
                ALICUTO.
      Pescador ja foi Glauco, e deos agora
    He do mar; e Protêo Phocas guarda.
    Nasceo no pégo a deosa, que he senhora
    Do amoroso prazer, que sempre tarda.
    Se foi bezerro o deos, que cá se adora,
    Tambem ja foi delfim. Se se resguarda,
    Vê-se que os moços pescadores erão,
    Que o escuro enigma ao primo Vate derão.
                AGRARIO.
      Formosa Dinamene, se dos ninhos
    Os implumes penhores ja furtei
    Á doce Philomela; e dos murtinhos
    Para ti (fera!) as flores apanhei;
    E se os crespos madronhos nos raminhos
    Com tanto gôsto ja te presentei,
    Porque não dás a Agrario desditoso
    Hum só revolver d'olhos piedoso?
                ALICUTO.
      Para quem trago d'ágoa em vaso cavo
    Os curvos camarões vivos saltando?
    Para quem as conchinhas ruivas cavo
    Na praia, os brancos buzios apanhando?
    Para quem de mergulho no mar bravo
    Os ramos de coral vou arrancando,
    Senão para a formosa Lemnoria,
    Que co'hum só riso a vida me daria?
                AGRARIO.
      Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
    D'atras nuvens vestido, horrido e feio,
    Ennegrecendo á vista o ceo superno,
    Quando os troncos arranca o rio cheio;
    Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno,
    Que ao mundo mostra hum pallido receio:
    Tal o amor he cioso, a quem suspeita
    Que outrem de seus trabalhos se aproveita.
                ALICUTO.
      Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
    Furor lançando flammas e bramidos,
    Quando as pasmosas serras traz diante,
    Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos:
    A braços derribando o ja nutante
    Mundo, co'os elementos destruidos:
    Assi me representa a phantasia
    A desesperação de ver hum dia.
                AGRARIO.
      Minha alva Dinamene, a primavera,
    Que os deleitosos campos pinta e veste,
    E rindo-se huma côr aos olhos gera,
    Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste;
    As aves, as boninas, a verde hera,
    E toda a formosura amena agreste
    Não he para os meus olhos tão formosa,
    Como a tua, que abate o lirio e rosa.
                ALICUTO.
      As conchinhas da praia, que presentão
    A côr das nuvens, quando nasce o dia;
    O canto das Sirenas, que adormentão;
    A tinta, que no Murice se cria;
    O navegar por ondas, que se assentão
    Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
    Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
    Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.
                AGRARIO.
      A deosa, que na Lybica lagôa
    Em fórma virginal appareceo,
    Cujo nome tomou, que tanto sôa,
    Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo:
    Garços os t[~e]e; mas huma, que a corôa
    Das formosas do campo mereceo,
    Da côr do campo os mostra graciosos.
    Quem diz, que não são estes os formosos?
                ALICUTO.
      Perdoem-me as deidades; mas tu, diva,
    Que no liquido marmore es gerada,
    A luz dos olhos teus, celeste e viva,
    T[~e]es por vício amoroso atravessada:
    Nós petos lhe chamâmos; mas quem priva
    De luz o dia, baixa e socegada
    Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego;
    E com toda esta luz sempre estou cego.
      Assi cantavão ambos os cultores
    Do monte e praia, quando os atalhárão;
    A hum pastores, a outro pescadores.
      E quaesquer a seu Vate coroárão
    De capellas idoneas e formosas,
    Que as Nymphas lhes tecêrão e ordenárão:
      A Agrario de murtinhos e de rosas;
    A Alicuto d'hum fio de torcidos
    Buzios, e conchas ruivas e lustrosas.
      Estavão n'ágoa os peixes embebidos
    Com as cabeças fóra; e quasi em terra
    Os musicos delfins estão perdidos.
      Julgavão os pastores que na serra
    O cume e preço está do antigo canto;
    Que quem o nega, contra as Musas erra.
      Dizem os pescadores que outro tanto
    T[~e]e na sonora frauta, quanto teve
    O monte pastoril da antigua Manto.
      Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve
    Molhava n'ágoa amara, e compellia
    A recolher a roxa tarde e breve:
      E foi fim da contenda o fim do dia.


ECLOGA VII.


INTERLOCUTORES.

SATYRO I. SATYRO II.

    As doces cantilenas, que cantavão
    Os semicapros deoses, amadores
    Das Napêas, que os montes habitavão,
      Cantando escreverei: que se os amores
    A sylvestres deidades maltratárão,
    Ja ficão desculpados os pastores.
      Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão
    O claro Apollo e Marte hum ser perfeito,
    Em quem suas altas mentes assinárão;
      Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito,
    Bem sabe onde se salva, pois pretende
    Levantar com a causa o baixo effeito.
      Em vós minha fraqueza se defende;
    Em vós instilla a fonte do Pegáso,
    O que o meu canto por o mundo estende.
      Vêdes que as altas Musas do Parnaso
    Cantando vos estão na doce lira,
    Tomando-me das mãos tão alto caso.
      Vêdes o louro Apollo, que me tira
    De louvar vossa estirpe, e escurece
    O que a vosso louvor meu canto aspira.
      Ou por me haver inveja me fallece,
    Ou por não ver soar na frauta ruda
    O que a sonora cithara merece.
      Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda,
    Em quanto Progne triste o sentimento
    Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda;
      E em quanto Galatea ao manso vento
    Sólta os cabellos louros da cabeça,
    E Tityro nas sombras faz assento;
      E em quanto flor aos campos não falleça,
    (Se não recebeis isto por affronta)
    Fará que o Douro e o Ganges vos conheça.
      E ja que a lingua nisto fica pronta,
    Consenti que a minha Ecloga se conte,
    Em quanto Apollo as vossas cousas conta.
      No cume do Parnaso, duro monte,
    De sylvestre arvoredo rodeado,
    Nasce huma crystallina e clara fonte,
      Donde hum manso ribeiro derivado,
    Por cima d'alvas pedras mansamente
    Vai correndo suave e socegado.
      O murmurar das ondas excellente
    Os passaros incita, que cantando
    Fazem o verde monte mais contente.
      Tão claras vão as ágoas caminhando,
    Que no fundo as pedrinhas delicadas
    Se podem, huma e huma, estar contando.
      Não se verão em derredor pizadas
    De fera ou de pastor, que alli chegasse,
    Porque de espesso monte são vedadas.
      Herva se não verá, que alli criasse
    O monte ameno, triste ou venenosa,
    Senão que lá no centro as igualasse.
      O roxo lirio a par da branca rosa,
    A cecem pura, a flor que dos amantes
    A côr t[~e]e magoada e saudosa;
      Alli se vem os myrtos circumstantes
    Que a crystallina Venus encobrírão,
    Escondendo-a dos Faunos petulantes.
      Hortelãa, mangerona, alli respirão,
    Onde nem frio inverno, ou quente estio,
    As murchárão jamais, ou sêccas vírão.
      Dest'arte vai seguindo o curso o rio,
    O monte inhabitado e o deserto
    Sempre com verdes árvores sombrio.
      Aqui huma linda Nympha, por acêrto
    Perdida da fragueira companhia,
    A quem este lugar era encoberto;
      Cansada ja da caça vindo hum dia,
    Quiz descansar á sombra da floresta,
    E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria.
      A novidade vendo manifesta
    Do sítio, e como as árvores co'o vento
    As calmas defendião da alta sesta;
      Das aves o lascivo movimento,
    Qu'em seus modulos versos occupadas
    As azas dão ao doce pensamento;
      Tendo notado tudo, ja passadas
    As horas da grã sesta, se tornou
    A buscar as irmãas, no centro, amadas.
      Despois que largamente lhes contou
    Do não visto lugar, que perto estava
    E tanto por extremo a namorou,
      Que ao outro dia fossem, lhes rogava,
    A lavar-se em aquella fonte amena,
    Que tão formosas ágoas destillava.
      Ja tinha dado hum giro a luz serena
    Do grão pastor d'Admeto, e já nascia
    Aos ditosos amantes nova pena,
      Quando as formosas Nymphas em porfia
    Para o lugar do monte caminhavão,
    Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria.
      D'huma os louros cabellos s'espalhavão
    Por o formoso collo sem concêrto,
    E com mil nós suaves s'enlaçavão;
      Outra, levando o collo descoberto,
    Por mais despejo em tranças os atára,
    Havendo por pezado o desconcêrto.
      Dinamene e Ephyre, a quem topára
    Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão
    Seus delicados corpos n'ágoa clara;
      Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão
    Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa,
    Destras nos arcos mais que quantas tirão;
      A linda Daliana, com Belisa,
    Ambas vindas do Tejo, que como ellas
    Nenhuma tão formosa as hervas pisa:
      Todas estas angelicas donzellas,
    Por o viçoso monte alegres hião,
    Quaes no ceo largo as nitidas estrellas.
      Mas dous sylvestres deoses, que trazião
    O pensamento em duas occupado,
    A quem de longe mais que a si querião,
      Não lhes ficava monte, valle ou prado,
    Nem árvore, por onde quer que andavão,
    Que não soubesse delles seu cuidado.
      Quantas vezes os rios, que passavão,
    Detiverão seu curso ouvindo os danos,
    Que aos proprios duros montes magoavão!
      Quantas vezes amor de tantos anos
    Abrandára qualquer vontade isenta,
    Se em Nymphas corações houvesse humanos!
      Mas quem de seu cuidado se contenta,
    Offereça de longe a paciencia;
    Que Amor d'alegres mágoas se sustenta.
      Que o moço Idalio quiz nesta sciencia
    Que se compadecessem dous contrários.
    Diga-o quem tiver delle experiencia.
      Indo os deoses, emfim, por montes varios
    Exercitando os olhos saudosos,
    Ao crystallino rio tributarios;
      Topárão dos pés alvos e mimosos
    As pizadas na terra conhecidas,
    As quaes forão seguindo pressurosos.
      Mas, encontrando as Nymphas que despidas
    Na clara fonte estavão, não cuidando
    Que d'alguem fossem vistas ou sentidas,
      Deixárão-se estar quedos, contemplando
    As feições nunca vistas, de maneira
    Que vissem, sem ser vistos, espreitando.
      Porém a espessa mata, mensageira
    Da cilada dos dous, com o rugido
    Dos raminhos d'huma aspera aveleira,
      Manifestando claro o escondido,
    Todas huma alta grita levantárão,
    Que o monte pareceo ser destruido.
      Assi despidas logo se lançárão
    Por a espessura tão ligeiramente,
    Que mais que o proprio vento então voárão.
      Qual o bando das pombas quando sente
    A rapida aguia, cuja vista pura
    Não obedece ao sol resplandecente;
      Empresta-lhe o temor da mortedura
    Nas azas novo alento; e, não parando,
    Veloz rompendo o ar fugir procura:
      Dest'arte as deosas timidas, deixando
    De seu despôjo os ramos carregados,
    Nuas por entre as sylvas vão voando.
      Mas os amantes ja desesperados,
    Que para as alcançar, emfim, se vião
    Nada dos pés caprinos ajudados;
      Com amorosos brados as seguião.
    Hum só (que o outro ainda não tomava
    Folego algum da pressa que trazião)
    Desta sorte sentido se queixava:
                SATYRO PRIMEIRO.
      Ah Nymphas fugitivas,
    Que só por não usar humanidade
    Os perigos dos matos não temeis!
    Para que sois esquivas?
    Qu'inda de nós não peço piedade,
    Mas dessas alvas carnes, que offendeis.
    Ah Nymphas! não vereis
    Que Eurydice, fugindo dessa sorte,
    Fugio do amante, e não da fera morte?
    Tambem assi Eperie foi mordida
    Da vibora escondida.
    Olhae a serpe occulta na herva verde.
    Quem o rigor não perde, perde a vida.
      Que tigre, ou que leão,
    Que peçonhenta fera venenosa,
    Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo?
    D'hum brando coração,
    Que preso dessa vista rigorosa
    De si para vós foge, andais fugindo?
    Olhae que em gesto lindo
    Não se consente peito tão disforme;
    Se não quereis que tudo se conforme.
    Posto que bellas n'ágoa vos vejais,
    Á fonte não creais,
    Que vos traz enganadas por vingança
    Desta nossa esperança, que enganais.
      Mas ah! que não consinto
    Que nem palavra minha vos offenda,
    Postoque me desculpe a mágoa pura.
    Digo, Nymphas, que minto:
    Pois mal póde haver nunca quem pretenda
    Negar-vos essa rara formosura.
    Se amor de tanta dura
    Por tanto mal tão pouco bem merece,
    Não estranheis, minh'alma se endoudece:
    Que se doudices falla d'improviso
    Sem tento e sem aviso,
    Queira Deos, que dureza tão crescida
    Me não prive da vida além do siso.
      Cousas grandes e estranhas
    Por o mundo t[~e]e feito e faz natura,
    Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão.
    Nas Libycas montanhas
    As Scitales são feras, de pintura
    Tão singular, que só co'a vista encantão.
    As hienas levantão
    A voz tão natural á voz humana,
    Que a quem as ouve, facilmente engana.
    E vós (ó gentis feras) cujo aspeito
    O mundo t[~e]e sujeito,
    Tendes de natureza juntamente
    A vista e voz de gente, e fero o peito.
      Das amorosas leis,
    Com que liga natura os corações,
    Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura?
    Como? E não vos correis
    D'haver em vós tão duras condições,
    Que possão mais que a próvida natura?
    Se vossa formosura
    He sobrenatural, não he forçado
    Que assi tenha tambem o peito irado:
    Antes ao puro Amor, em cuja mão
    Os corações estão,
    Por vossa gentileza tão formosa
    Lhe deveis amorosa condição.
      Amor he hum brando affeito,
    Que Deos no mundo poz e a natureza,
    Para augmentar as cousas que creou.
    De Amor está sugeito
    Tudo quanto possue a redondeza:
    Nada sem este affecto se gerou.
    Por elle conservou
    A causa principal o mundo amado,
    Donde o pae famulento foi deitado.
    As cousas elle as ata e as confórma
    Com o mundo, e reforma
    A materia. Quem ha que não o veja?
    Quanto meu mal deseja sempre fórma.
      Entre as plantas do prado
    Não ha machos e femias conhecidas,
    Que junto huma da outra permanece?
    Não estão carregados
    Os ulmeiros das vides retorcidas,
    Onde o cacho enforcado amadurece?
    Não vêdes que padece
    Tanta tristeza a rôla por a morte
    Da sua amada e unica consorte?
    Pois lá no Olympo, a quantos captivou
    Cupido e maltratou?
    Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella,
    Que ja na sua téla o debuxou.
      Ah caso grande e grave!
    Ah peitos de diamante fabricados,
    E das leis absolutos naturais!
    Aquelle amor suave,
    Aquelle poder alto, que forçados
    Os deoses obedecem, desprezais?
    Pois quero que saibais,
    Que contra o fero Amor nunca houve escudo:
    Costume he seu tomar vingança em tudo.
    Eu vos verei lançar em hum momento
    Suspiros mil ao vento,
    Lagrimas, triste pranto e nova dor
    Por quem tenha outro amor no pensamento.
      Mais quizera dizer
    O desditoso amante, que ajudado
    Se via então da mágoa e da tristeza;
    Mas foi-lho defender
    O outro companheiro, como irado
    Com tão disforme e aspera dureza.
    Aquillo que a rudeza
    D'huma sciencia agreste lh'ensinára,
    Disse, qual se em tal ponto despertára
    D'horrendo sonho com pezado grito.
    O mais que alli foi dito,
    Vós, montes, o direis, e vós penedos;
    Qu'em vossos arvoredos anda escrito.
                SATYRO SEGUNDO.
      Nem vós nascidas sois de gente humana,
    Nem foi humano o leite que mamastes,
    Mas de alguma disforme fera Hyrcana:
    Lá no Caucaso horrendo vos criastes:
    Daqui trouxestes a aspereza insana;
    Daqui os calidos peitos congelastes.
    Sois Esphinges nos gestos naturais,
    Que de humanas os rostos só mostrais.
      Se vós fostes criadas na espessura,
    Onde não houve cousa que se achasse,
    Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura,
    Qu'em seu passado tempo não amasse,
    Nem a quem a affeição suave e pura
    Nessa presente fórma não mudasse;
    Porque não deixareis tambem memoria
    De vós em namorada e longa historia?
      Olhae como, na Arcadia soterrando
    O namorado Alpheo su'ágoa clara,
    Lá na ardente Sicilia vai buscando
    Por debaixo do mar a Nympha chara.
    Assi tambem vereis passar nadando
    Atys, que Galatêa tanto amára,
    Por onde do Cyclopea grande mágoa
    Converteo do mancebo o sangue em ágoa.
      Virae os olhos, Nymphas, á Erycina
    Espessura; vereis alli mudar-se
    Egeria, e em fonte clara e crystallina
    Por a morte de Numa distillar-se.
    Olhae que a triste Byblis vos ensina,
    Com perder-se de todo e transformar-se
    Em lagrimas, qu'emfim puderão tanto,
    Que accrescentarão sempre o verde manto.
      E s'entre as claras ágoas houve amores,
    Os penedos tambem forão perdidos.
    Olhae os dous conformes amadores
    Lá no monte Ida em pedra convertidos:
    Lethêa, por cahir em vãos errores
    De sua formosura procedidos;
    Oleno, porque a culpa em si tomava,
    Por escusar a pena a quem amava.
      Tomae exemplo, e vêde em Cypro aquella,
    Por quem Iphis no laço poz a vida.
    Tambem vereis em pedra a Nympha bella,
    Cuja voz foi por Juno consumida,
    E, se queixar-se quer de sua estrella,
    A voz extrema só lhe he concedida.
    E tu tambem, ó Daphnis, que trouxeste
    Primeiro ao monte o doce verso agreste!
      Tamanho amor lhe tinha a branda amiga,
    Que em inimiga, emfim, se foi tornando:
    Porque outra Nympha estranha ja o sogiga,
    Suas magicas hervas vai buscando.
    Olhae a quanto a crua dor obriga!
    Por vingar-se, assi irada transformando
    O foi em pedra. Oh dura confusão!
    Despois lhe pezaria; mas em vão.
      Olhae, Nymphas, as árvores alçadas,
    A cuja sombra andais colhendo flores,
    Como em seu tempo forão namoradas;
    Do qu'inda agora o tronco sente as dores.
    Vereis, entre as de fructo matizadas,
    Como a côr das amoras he de amores:
    O sangue dos amantes na verdura
    Testimunha de Tisbe a sepultura.
      E lá por a odorifera Sabêa
    Não vêdes que de lagrimas daquella,
    Que com seu pae se junta e se recrêa,
    Arabia s'enriquece, e vive della?
    Lembrai-vos da verde árvore Penêa,
    Que foi ja n'outro tempo Nympha bella,
    E Cyparisso angelico mancebo;
    Ambos verdes com lagrimas de Phebo.
      De Phrygia vêde o moço delicado
    No mais alto arvoredo convertido,
    Que tantas vezes fere o vento irado;
    Galardão de seus erros merecido:
    Pois, da alta Berecynthia sendo amado,
    Por huma Nympha baixa foi perdido;
    E a deosa, a quem perdeo do pensamento,
    Quiz que tambem perdesse o entendimento.
      O subito furor lhe figurava
    Que as árvores e os montes se cahião;
    Ja dos pudicos membros se privava,
    Que os horrores a tanto o constrangião;
    Ja indignado no monte se lançava:
    De sua morte as feras se doião.
    Dest'arte perdeo Atys na espessura,
    Despois de tantas perdas, a figura.
      Lembre-vos quando as gentes celebravão
    Em Grecia as grandes festas de Liêo,
    Onde as formosas Nymphas se juntavão,
    E os sacros moradores do Licêo.
    Todos em doce somno se occupavão
    Por o monte, despois que anoiteceo;
    Mas o deos do Hellesponto não dormia;
    Que hum novo amor o somno lh'impedia.
      Mas ella emfim, os braços estendendo,
    Em ramos se lhe forão transformando;
    Em raizes os pés se vão torcendo;
    E o nome Loto só lhe vai ficando.
    Vêde, Napêas, este caso horrendo,
    Que vos está de longe ameaçando.
    Assi tambem daquella, a quem seguia
    O sacro Pan, a fórma se perdia.
      Que vos direi de Filis, pois perdida
    Da saudosa dor com que vivia,
    Á desesperação emfim trazida
    Do comprido esperar de dia em dia,
    Por desatar do corpo a triste vida
    Atava ao collo a cinta que trazia.
    Mas o tronco sem fôlha por o monte
    Rhodope abraça o lento Demophonte.
      Nas boninas, tambem vereis Jacinto,
    Porquem Phebo de si se queixa em vão;
    Vereis o monte Idalio em sangue tinto
    Do neto de seu pae, da mãe irmão.
    Chora Venus a dor do moço extinto,
    Maldiz o ceo e a terra, com razão;
    A terra, porque logo não se abrio;
    O ceo, porque tal morte permittio.
      E tu, constante Clycie, a quem fallece
    A fé de teus amores enganosos,
    No louro amante, que de ti s'esquece,
    S'esquecem os teus olhos saudosos.
    Nenhum alegre estado permanece;
    Que são do mundo os gostos mentirosos;
    E á tua clara luz, por quem suspiras,
    Ainda agora em herva os olhos víras.
      Trago-vos estas cousas á lembrança,
    Porque s'estranhe mais vossa crueza
    Com ver que a criação e longa usança
    Vos não perverte e muda a natureza.
    Dou as lagrimas minhas em fiança,
    Qu'em tudo quanto está na redondeza,
    Cousa d'Amor isenta, se attentais,
    Em quanto vos não virdes, não vejais.
      Ja disse, que d'Amor sempre tiverão
    As cousas insensiveis pena e gloria.
    Vêde as sensiveis como se perdêrão.
    E dir-vos-hei das aves larga historia:
    As penas, qu'em su'alma se soffrêrão,
    Nas azas lhes ficárão por memoria;
    E aquelle altivo e leve movimento
    Lhes ficou do voar do pensamento.
      O doce rouxinol e a andorinha,
    Donde lhes veio o ir-se transformando,
    Senão do puro amor que o Thracio tinha,
    Qu'em poupa ainda a amada vai chamando?
    Clama sem culpa a misera avezinha,
    Que n'areia de Phasis habitando,
    Do rio toma o nome; e quando clama,
    Cruel á mãe, ao pae injusto chama.
      Vêde a que engeitou Pallas por fallar,
    (Que dos amores he maior defeito)
    E aquella, que succede em seu lugar,
    Ambas aves; de amor usado effeito;
    Huma, porque fugia ao deos do mar;
    Outra, porque tentára o patrio leito:
    E Scylla, que a seu pae poz em perigo,
    Só por ser muito amiga do inimigo.
      E Pico, a quem ficárão inda as côres
    Da purpura Real, que antes vestia;
    Esaco, que o seguir de seus amores
    O trouxe a ver tão cedo o extremo dia:
    Ou vêde os dous tão firmes amadores,
    Que amor aves tornou na praia fria.
    Do Rei dos ventos era genro o triste;
    Mas contra o fado, emfim, nada resiste.
      Estava a triste Halcyone, esperando
    Com longos olhos o marido ausente;
    Mas os ventos indomitos soprando,
    Nas ágoas o affogárão tristemente.
    Em sonhos se lh'está representando;
    Que o coração preságo nunca mente:
    Só do bem as suspeitas mentirão,
    Mas as do mal futuro certas são.
      Ao pranto os olhos seus a triste ensaia;
    Buscando o mar com elles hia e vinha:
    Quando o corpo sem alma achou na praia.
    Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha!
    Ó Nereidas do Egêo, consolai-a,
    Pois este pio officio vos convinha.
    Consolai-a; sahi das vossas ágoas;
    Se consolação ha em grandes mágoas.
      Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando
    Das avezinhas mansas e amorosas?
    Pois tambem teve Amor natural mando
    Entr'as feras montezes venenosas.
    O leão e a leoa, como, ou quando
    Taes formas alcançárão temerosas?
    Sabe-o da deosa Dindymene o templo,
    E a que a Adonis o dava por exemplo.
      Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia;
    Mas o grão Nilo o diga, pois a adora.
    Que fórma teve á Ursa, saber-se-hia
    Do Pólo Boreal, onde ella mora.
    O caso d'Acteon tambem diria
    Em cervo transformado; e melhor fôra
    Se dos olhos perdêra a vista pura,
    Que em seus galgos achar a sepultura.
      Tudo isto Acteon vio na fonte clara,
    Onde a si d'improviso em cervo vio:
    Que quem assi dest'arte alli o topára,
    Que se mudasse em cervo permittio.
    Mas, como o triste Principe em si achára
    A desusada fórma, se partio.
    Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando;
    E, tendo-o alli presente, o vão buscando.
      Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava;
    Que a voz humana ja perdida tinha.
    Qualquer delles por elle então chamava,
    E a multidão dos cães contr'elle vinha.
    Hum cervo acude a ver (qualquer gritava)
    Acteon, donde estás? acude asinha,
    Que tardar tanto he este? (repetia)
    _He este, he este_, o eco respondia.
      Quantas cousas em vão estou fallando
    (Oh Napêas esquivas!) sem que veja
    O peito de diamante hum pouco brando
    De quem meu damno tanto só deseja.
    Pois, por mais que de mi me andais tirando,
    E por mais longa emfim que a vida seja,
    Nunca em mi se verá tamanha dor,
    Que Amor a não converta em mais amor.
      Aqui (formosas Nymphas) vos pintei
    Todo d'amores hum jardim suave;
    D'ágoas, de pedras, d'árvores contei,
    De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave.
    Se este amor, que no peito aposentei,
    Que dos contentamentos t[~e]e a chave,
    Por dita em tempo algum determinasse
    Que de tão longos damnos vos pezasse,
      Quanto mais devagar vos contaria
    De minha larga historia e não alheia?
    E com quanta mais ágoa regaria,
    Que o rio, de contente, a branca areia?
    Novo contentamento me seria
    Formar de meu cuidado a nova ideia:
    E vós, gostando deste estado ufano,
    Zombarieis então de vosso engano.
      Mas com quem fallo ja? que estou gritando,
    Pois não ha nos penedos sentimento?
    Ao vento estou palavras espalhando;
    A quem as digo, corre mais que o vento.
    A voz e a vida a dor m'está tirando,
    E o tempo não me tira o pensamento.
    Direi, emfim, ás duras esquivanças
    Que só na morte tenho as esperanças.
      Aqui, sentido, o Satyro acabou,
    Com huns soluços que a alma lhe arrancavão.
    Os montes insensiveis, que abalou,
    Nas ultimas respostas o ajudavão.
    Então Phebo nas ágoas se encerrou
    Co'os animaes que o mundo allumiavão;
    E co'o luzente gado appareceo
    A candida pastora por o ceo.


ECLOGA VIII.


PISCATORIA.

_Sereno._

    Arde por Galatêa branca e loura
    Sereno pescador pobre, forçado
    D'huma estrella, que quer á míngoa moura.
      Os outros pescadores t[~e]e lançado
    No Tejo as redes: elle só fazia
    Este queixume ao vento descuidado:
      Quando virá (formosa Nympha) hum dia,
    Em que te possa dar a conta estreita
    Desta doudice triste e vãa porfia?
      Não vês, que me foge a alma e que m'engeita,
    Buscando em hum só riso d'essa boca,
    Nos teus olhos azues mansa colheita?
      Se ao teu esprito alg[~u]a mágoa toca,
    Se d'amor fica nelle huma pégada,
    Que te vai, Galatêa, nesta troca?
      Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada:
    Não ta demandarei: dá-me por ella
    Huma só volta d'olhos descuidada.
      Se muito te parece, e minha estrella
    Não consentir ventura tão ditosa,
    Dou-te as azas do Amor perdidas nella.
      Que mais te posso dar, Nympha formosa,
    Inda que o mar d'aljofar me cubríra
    Toda esta praia leda e graciosa?
      Amansão-se ondas, quebra o vento a ira:
    Minha tormenta só nunca socega;
    O meu peito arde em vão, em vão suspira.
      Anda no romper d'alva a nevoa cega
    Sôbre os montes d'Arrabida viçosos,
    Em quanto o solar raio lhes não chega.
      Eu, vendo apparecer outros formosos
    Raios, que a graça e côr ao ceo roubárão,
    Se os olhos cegos vi, vejo saudosos.
      Quantas vezes as ondas se encrespárão
    Com meus suspiros! quantas com meu pranto
    As fiz parar de mágoa e me escutárão!
      Se na fôrça da dor a voz levanto,
    E ao som do remo, que ágoa vai ferindo,
    Perante a lua meu cuidado canto;
      Os maviosos delfins m'estão ouvindo;
    A noite socegada; o mar callado:
    Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo.
      Estranhas, por ventura, o mar cercado
    Da fraca rede; a barca ao vento solta;
    E hum pobre pescador aqui lançado?
      Antes que o sol no ceo cerre huma volta
    Se póde melhorar minha ventura,
    Como a outros succede, n'ágoa envolta.
      Igual preço não he da formosura
    D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia,
    Mas hum amor, que para sempre dura.
      Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia;
    Verás teu nome na mimosa areia.
    Nunca sôbre elle o mar com furia saia!
      Vento algum atégora o não salteia:
    Tres dias ha que escripto aqui o deixou
    Amor, e o veda a toda fôrça alheia.
      Elle com suas mãos proprio ajudou
    A escolher estas conchas, affirmando
    Que o sol para ti só as matizou.
      Hum ramo te colhi de coral brando:
    Antes que o ar lhe désse, parecia
    O que de tua boca estou cuidando.
      Ditoso se o soubesse inda algum dia!


ECLOGA IX.


PISCATORIA.

_Palemo._

    Despois que o leve barco ao duro remo,
    Onde menos das ondas se temia,
    Atou o pescador pobre Palemo;
      Em quanto as negras redes estendia
    Seu companheiro Alcão na branca arêa,
    E Lico as longas cordas envolvia;
      De cima d'huma rocha, a qual rodêa
    O mar, quebrando nella de contino,
    Começou a chamar por Galatêa.
      Deixa o molle licor e crystallino,
    (Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja
    Enxugar teu cabello d'ouro fino.
      Inda que t[~e]e de ti tão grande inveja,
    Não temas que te queime o rosto brando:
    Basta para abrandar-se que te veja.
      Não te detenhas mais, vem ja cortando
    Com teu candido peito as brancas ondas,
    Escumas menos brancas levantando.
      Dar-te-hei (com condição que não t'escondas
    De mi lá nessas humidas moradas,
    E que algum'hora, branda me respondas)
      Mil conchas n'hum cordão verde enfiadas,
    Todas d'huma feição; não d'huma côr,
    Pois dellas são azues, dellas rosadas.
      Indaque seja pobre pescador,
    Não sei se em desprezar-me muito acertas,
    Pois rico do amor teu me fez Amor.
      Para ti n'outras praias mais desertas
    Irei pescar por entre pedras duras,
    Que sempre verde musgo t[~e]e cobertas,
      As pardas ostras, onde gottas puras
    De fresco orvalho, dentro endurecidas,
    Não podem da cobiça estar seguras.
      Porque deixas de vir? porque duvídas?
    Por ventura d'algum meu companheiro?
    Inda as redes ao sol t[~e]e estendidas.
      Toda a noite pescárão, e primeiro
    Querem dormir a sesta nesta praia,
    Que o barco polo mar levem ligeiro.
      Eu, vigiando aqui como atalaia,
    Te chamarei, até que de cansado
    Hum dia desta rocha abaixo caia,
      Deixando este lugar tão infamado
    Com minha morte, que dos marinheiros
    Com o dedo de lá será mostrado.
      Dirão os naturaes e os estrangeiros:
    Alli morreo Palemo. Ai triste historia!
    Guardae a nao de alli, ventos ligeiros.
      Antes que tal succeda, vê que gloria
    Alcanças com deixar aos navegantes
    Da tua ingratidão esta memoria.
      Da nossa differença não te espantes:
    Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso,
    Qual eu agora sou, tal era d'antes.
      Tambem eu entre as hervas achar posso
    Aquella, a quem o ceo deo tal virtude,
    Que muda n'outro ser este ser nosso.
      Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude,
    Inda que vá a morar lá nessas ágoas,
    Não temas que a mudança em mi o mude.
      Serão as vivas ondas vivas frágoas,
    Em que estarei ardendo noite e dia,
    Se não tiveres dó de tantas mágoas.
      As horas naturaes da pescaria
    Não vês que vão passando? Como as passas?
    Quem deste passatempo te desvia?
      Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças
    Dar em vão tantos gritos: vem; iremos
    Ambos a levantar as verdes naças.
      Ambos os anzoes curvos cobriremos
    De mentirosas iscas, com que os peixes
    A todo prazer nosso prenderemos.
      Assi d'Amor cruel nunca te queixes,
    E dessa formosura as mais formosas
    Nymphas do mar azul vencidas deixes;
      Que venhas (pois por ti com saudosas
    Lagrimas vou gastando a vida e alma)
    A tirar-me esperanças duvidosas.
      A praia está callada, o mar em calma;
    Por cima desta rocha brandamente
    Zephyro respirando a desencalma.
      Aqui não sinto cousa certamente
    Porque deixes de vir, como sohías,
    Senão, que não es tu disso contente.
      Se desgostas das grossas pescarias,
    Marisco appetitoso aqui não falta,
    Ja sejão luas cheias, ja vazias.
      Polos pés desta rocha dura e alta
    Irei eu despegando huns como pés
    D'hum pequeno animal, que nella salta.
      E vivos te darei (se delles es
    Amiga) mil cangrejos vagarosos,
    Que verás ir andando de revés.
      Não te darei ouriços espinhosos,
    Porque te quero tanto, que receio
    Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos.
      Faz d'aqui perto o mar hum largo seio,
    Onde de ameijoas lisas, sem trabalho,
    Podemos apanhar hum cesto cheio.
      Mas além de tudo isto hum crespo galho
    De vermelho coral te darei logo,
    Que por dita arrastou o meu tresmalho.
      Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rógo;
    Que nem tu a meus rogos tens respeito,
    Nem eu, por mais que grite, desaffógo.
      Hum coração em lagrimas desfeito
    Como ja não te abranda? quem encerra
    Crueza tal em tão formoso peito?
      Não reina Amor no mar, como na terra?
    Bem sabes que mil vezes ja venceo
    A Neptuno teu Rei em clara guerra.
      Sua formosa mãe onde nasceo,
    Senão no proprio mar em que te banhas?
    Onde Thetis por Péleo em fogo ardeo?
      Se das pedras nascesses nas montanhas,
    Se com leite de tigres te criáras,
    Mais duras não tiveras as entranhas.
      Apparecêras tu, e então tornáras
    Logo a esconder-te, logo, se quizeras
    Nas ondas, que de ti me são avaras.
      Com h[~u]a mostra só que de ti deras,
    A vida, que me foge em não te vendo,
    Co'os teus formosos olhos detiveras.
      Então víras os meus, donde correndo
    De lagrimas se vem dous largos rios,
    Que o mar tambem em si vai recolhendo.
      Ah nescio pescador! que desvarios
    Me deixo aqui dizer! a quem os digo!
    A surdas ondas ja, ja a ventos frios.
      Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo
    O barco vejo: ai! ei-lo combatido.
    Ellas e elles o levão ja comsigo.
      Olhos, que lá me tendes o sentido,
    A culpa he vossa só, que me não vêdes.
    Mas, pois o pescador anda perdido,
      Perca-se o barco seu, percão-se as redes.


ECLOGA X.


PISCATORIA.

_Meliso._

    Encheo do mar azul a branca praia
    Meliso pescador de mil querellas;
    Meliso, que por Lilia arde e desmaia.
      Despois que á luz da lua e das estrellas,
    Sôbre dura fatexa o barco pôsto,
    As redes recolheo, remos e velas:
      Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto
    Te move a me negar, vendo qual ando,
    Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto?
      Se tu queres que pene desejando,
    Se queres que no mar em fogo viva;
    Ardendo sempre estê, sempre penando.
      Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva)
    Que não merece ser tão mal tratada
    Hum'alma desses olhos tão captiva.
      Vives dos meus cuidados descuidada:
    Coitado de quem traz a duvidosa
    Vida no mar e terra aventurada!
      Bem podes com razão ser piedosa
    Com quem não quer mor bem, que bem quererte,
    Não sendo tão cruel como es formosa.
      Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te
    A meus cansados olhos, que de tantas
    Lagrimas são movidos, sem mover-te.
      Se tu me vences, e se tu m'encantas
    Com tua doce falla, doce riso,
    Porque foges de mi? porque te espantas?
      Lembre-te a formosura de Narciso,
    E qual pago lhe deo seu desamor:
    Ólha que com amor disto te aviso.
      Mas quando essa crueza tanta for,
    Que mereça do ceo novo castigo,
    Qual herva será digna de tal flor?
      Amor que me persegue, Amor que sigo,
    Me faz d'hum grave mal andar temendo;
    D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo.
      Quanto mais ledo ja te estive vendo
    Aqui as mansas ondas esperando,
    Que por chegar a ti vinhão correndo,
      E da molhada areia despegando
    Com a candida mão roxas conchinhas,
    A fórma do teu pé nella deixando?
      Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas,
    Muitas te trago aqui, postoque temo
    Que menos o terás por serem minhas.
      Hum temor tal me chega a tal extremo,
    Que, vencido d'hum triste esquecimento,
    No mar me cahe da mão o duro remo.
      E quando a branca vela sólto ao vento,
    Tão descuidado vou do fiel leme,
    Que me leva a perder meu pouco tento.
      Mas quem arde por ti, quem por ti treme,
    Os seus maiores riscos não receia,
    Os teus que sente mais, muito mais teme.
      Despois que te não vi, (não sei que creia
    Desta tardança tua e morte minha)
    Sendo a lua vazia, he quasi cheia.
      O tempo, que nos gostos passa asinha,
    Detem-se neste mal da saudade,
    Por me dobrar a dor que d'antes tinha.
      Não desprezes, ó Lilia, huma vontade,
    Que por te contentar tudo despreza,
    Tudo julga, sem ti, por pouquidade.
      Se pretendes amor, ja tens certeza
    Que não podes ser nunca mais amada
    Dos que vencidos traz tua belleza.
      Se por ventura estás affeiçoada
    A gentil parecer, a bom engenho,
    A ninguem nestas partes devo nada.
      Se fazes caso d'honra, ólha que venho
    De geração d'honrados pescadores;
    Se de riqueza, barco e redes tenho.
      Por erros julgarás estes louvores;
    E oxalá não os julgues por doudice!
    Mas quem siso quer ter não tenha amores.
      E mais tudo foi pouco quanto disse,
    Pondo os olhos no muito que meu fado
    Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.
      Aconteceo-me hum caso desusado,
    (Inda que d'huma cousa n'outra salto)
    Digno, por ser de amor, de ser contado.
      Pescando hontem á tarde no mar alto,
    Suspenso nessa rara formosura,
    A quem com mil lembranças nunca falto,
      Comecei a cantar: Lilia, mais dura
    Que a mais inculta rocha rodeada
    Do mar, de cujo encontro está segura;
      Mais alva que jasmins, e mais córada
    Que purpureas serejas polo Maio;
    Mais loura que manhãa desentrançada;
      Não vês... dizer queria que desmaio,
    Quando (cousa que mal me será crida)
    No mar, vencido d'hum, do barco caio?
      Alli tivera fim a triste vida,
    Se d'hum brando delfim, que me escuitava,
    Não fôra, por ser tua, soccorrida.
      Parece que tambem vencido estava
    Do mal, de que me via andar vencido,
    Quem em tamanho risco m'ajudava.
      Trouxe-me sôbre si adormecido,
    Nadando ao som das ondas mansamente,
    Até que me sentio em meu sentido.
      Livre deste mortal, bravo accidente,
    Tal foi o espanto meu, tal meu temor,
    Que d'outro me livrei escaçamente.
      Mas logo o amoroso nadador
    Me poz junto do barco, que tão perto
    Esteve de ficar sem pescador.
      O sol era de todo ja coberto,
    Quando eu, entrando nelle, sahi fóra
    Do perigo, onde tive o fim tão certo.
      Porém outro maior me cansa agora,
    De que mal sahirei, se te não vir
    Amanhecer aqui co'a nova aurora.
      Não póde ella tardar em descobrir
    As suas louras tranças dasatadas,
    Das quaes as tuas bem se podem rir.
      Pois por cima das ondas, acordadas,
    As Halcyoneas ouço lamentar-se,
    Do seu antigo damno inda lembradas.
      E sinto o fresco orvalho derramar-se
    Mais congelado e frio; e Venus bella
    Polo Oriente ja vejo levantar-se.
      Bem podes, Lilia, competir com ella,
    E com Pallas e Juno em gentileza;
    Em amor não, pois elle nasceo della:
      Desterrou-o de ti tua aspereza,
    Que desterra de mi prazer e vida,
    Deixando em seu lugar mágoa e tristeza.
      No silencio da noite, que convida
    A descanso commum, tanto me cança,
    Que não sei se remedio ou morte pida.
      Se tu quizesses dar-me huma esperança
    De te servir de mi ou tarde, ou cedo,
    Nunca me negaria o mar bonança.
      Polas inchadas ondas, que põe medo,
    Eu só, sem mais ajuda, levaria
    Sempre á fôrça de braço o barco quedo.
      Tão seguro por ellas andaria,
    Como polo seu campo o lavrador
    No mais quieto, claro e bello dia.
      Ólha que não ha destro pescador,
    Que mais manhoso as redes desencolha,
    Nem os tortos anzoes isque melhor.
      Os peixes deixarei em tua escolha:
    Aquelles de que fores mais amiga,
    Nunca te faltarão de fôlha a fôlha.
      Não sei, Lilia formosa, que mais diga,
    Que mova amor em ti, que mova mágoa;
    Sei que mágoa, e que amor a mais obriga.
      Mas antes que o sol dê naquella frágoa,
    Onde meus ais dilata a triste Ecco,
    Vou-me segurar mais o barco na ágoa,
      Porque de baixa mar não fique em sêcco.


ECLOGA XI.


INTERLOCUTORES.

ANZINO e LIMIANO.

    Parece-me, pastor, se mal não vejo,
    Que ja te vi mais ledo andar outr'hora
    Nos largos campos do famoso Tejo.
                LIMIANO.
      Podia ser; que muito tempo fóra
    Andei desta ribeira, patria minha,
    Onde triste me vez andar agora.
      Tinha lá para mi, que a vida tinha
    Mais socegada cá e mais segura,
    Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha.
      Foi d'outro parecer minha ventura:
    Discordias sós achei, e achei dureza,
    Em lugar de socêgo, e de brandura.
      Achei as boas leis da natureza
    Vencidas do interesse; e a gente cega,
    Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.
      Dizem que quando o mar bonança nega,
    Correndo vai aquella não mor prigo,
    Que á desejada terra mais se chega.
      Assi m'aconteceo a mi comigo;
    Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
    Triste ao perto, e tratado como imigo.
                ANZINO.
      Sempre (podes-me crer este segredo)
    Desejei de te ver; mas com desgôsto,
    Inda te não quizera ver tão cedo.
      Prestando para cousas de teu gôsto,
    Como camaleão não mudo côres;
    Qual he meu coração, tal he meu rosto.
                LIMIANO.
      Não são logo assi, não, outros pastores,
    Que de promessas vãas te fazem rico,
    E nunca fructo dão: tudo são flores.
      Mas desejo saber com quem pratíco,
    Porque não caia em falta, e porque entenda
    A quem tamanho amor devendo fico.
                ANZINO.
      Antes que tempo nisso se dispenda,
    Busquemos hum lugar mais fresco e frio,
    Que da calma, que cahe, bem nos defenda.
                LIMIANO.
      Vamos alli, que alli bosque sombrio
    Nos dara fresco abrigo, assento o prado,
    Formosa vista o valle, o monte, o rio:
      O rio, que verás tão socegado,
    Que te parecerá que se arrepende
    De levar ágoa doce ao mar salgado.
      Nem cabra, nem ovelha alli offende
    Herva, folha, nem flor, ou ferro duro:
    A planta polo ar livre se estende.
      Verás cahindo em gottas crystal puro
    No vão d'huma caverna carcomida,
    Por entre o musgo molle, verde-escuro.
                ANZINO.
      Quem traz á saudade a alma rendida,
    A saudade busca, onde descansa;
    Maso descanso della encurta a vida.
      Com tudo, quem do ceo na terra alcansa
    Poder gozar-se desta liberdade,
    Que mais deseja ter? que mais o cansa?
      Affirmo-te de mi esta verdade,
    Que muitos valles vi, muitas ribeiras;
    Mas esta me dobrou a saudade.
      Oh que viçosas murtas! que oliveiras!
    Que freixos! como estão d'hera cingidos!
    Quantas voltas lhes dá de mil maneiras!
      Os lirios junto d'ágoa bem nascidos
    Quanta graça que t[~e]e entre as boninas,
    Sem ordem, com mais graça, entremetidos!
      Vem encrespando as ágoas crystallinas
    A branda viração; a fôlha treme;
    O movimento apenas determinas.
      A rôla seu amor suspira e geme;
    Escondida se queixa Philomella:
    Parece que do campo inda se teme.
      Espanta a quem se atreve, ver aquella
    Rocha por cima d'ágoa pendurada
    Como ja se não deixa cahir nella.
      Ó ribeira do Lima, celebrada
    De mil brandos espritos sempre sejas,
    Sempre de brandas Nymphas povoada.
      Fujão longe de ti duras invejas;
    Peçonha de pastores, morte sua:
    Tudo sintas amor, tudo amor vejas.
      De dia o claro sol, de noite a lua,
    Em teu favor inspirem de maneira,
    Que sempre fertil seja a praia tua.
      Tornando, emfim, á prática primeira,
    Por dar-te, como queres, de mi conta,
    Larga ta quero dar e verdadeira.
      Apartar-te do gado leva em conta;
    Que, pois com elle fica o pegureiro,
    Que te detenha hum pouco, pouco monta.
      O meu nome he Anzino: fui vaqueiro
    Na grã serra da Estrella, que não tive;
    Não sei se natural, ou se estrangeiro.
      Hum pastor me criou, que ja não vive;
    De todos por seu filho era julgado;
    E eu tambem neste engano hum tempo estive.
      Até que delle soube ser achado
    Em huma anzina envolto em pobres panos;
    E daqui veio, que Anzino fui chamado.
      Neste meu desengano outros enganos
    Fundou de novo a pouca dita minha,
    Com que o vim a servir mais de sete annos.
      Tinha muito de seu, e mais não tinha
    De filhos, que huma filha bem formosa,
    Á qual por morte delle tudo vinha.
      Conversação doméstica e damnosa,
    Na livre formosura e tenra idade,
    Em ambos accendeu chamma amorosa.
      Como ella de mi soube esta verdade,
    Com outro amor, com outros exercicios,
    Nella ganhei de novo outra vontade.
      Amor mestre me fez de mil officios
    Para meio do fim que desejava;
    E delle sinal davão mil indicios.
      Tecia alvos cestinhos, quando andava
    Com as vaccas no prado: á noite hum cheio
    De fructa, outro de flores lhe levava.
      Nas mangas muitas vezes e no seio
    As nozes lhe levei com as castanhas,
    Quer do souto do pae, quer d'outro alheio.
      Nos intricados bosques, nas montanhas,
    Por seu amor as feras perseguia,
    Fôrças agora usando, agora manhas.
      Vivos os mansos cervos lhe trazia;
    Vivas medrosas lebres fugitivas:
    Ligeireza de pés não lhes valia.
      Mas, se lhe dava as mansas feras vivas,
    Mortas lhe dava as que por natureza,
    Sem domar-se, são bravas, ou esquivas.
      Certo dia achei eu n'huma aspereza,
    Sem mãe, hum cervo branco e pequenino;
    Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza.
      Ou ja criação seja, ou ja destino,
    Tanto que não o vê, geme e suspira.
    Como menos fara o triste Anzino?
      Tangia mal na frauta, mal na lira;
    Despois tão bem tangia, qu'era espanto
    A quem antes d'amor tanger m'ouvíra.
      Ouvia celebrar sempre em meu canto
    Ulina a sua rara formosura:
    (Tal nome t[~e]e aquella, a que amo tanto.)
      Contava-lhe meus males por figura:
    Ficava eu, de medroso, frio e mudo;
    Ficava ella suspensa; a historia escura.
      Assi com tal temor, com tal estudo,
    Amor fui grangeando longamente,
    Á conta deste amor perdendo tudo.
      Ella, dos meus desejos innocente,
    O mesmo amor me tinha, tanto, digo;
    Que no ser era todo differente.
      Praticava seus gostos só comigo;
    Seus desgostos tambem, seus pensamentos,
    Com rara graça e com saber antigo.
      Outras vezes, confusa nos intentos,
    Os modos me notava, e me dizia:
    Entre irmãos de que servem comprimentos?
      Eu quizera, Senhora, (respondia)
    Que soubesses de mi, qu'irmão não sendo,
    Não com menos amor te serviria.
      Tornou-me: Essa resposta não entendo:
    O que não quiz o ceo, queres que seja?
    Que castellos no vento andas fazendo?
      Se me queres ver leda, não te veja
    Soltar essas palavras ociosas:
    Materia mais honesta nos sobeja.
      Dizendo assi, nascião-lhe outras rosas
    Naquellas proprias suas, sôbre a neve
    Das suas faces mais que o sol formosas.
      Destas quebras comigo algumas teve;
    Cujas fôrças amor quebrava logo
    N'outra conversação mais branda e leve.
      Cresceo desta maneira o vivo fogo,
    Que ardendo dentro na alma encurta a vida;
    Cujo principio foi hum brinco, ou jôgo.
      Mas ella neste tempo era pedida
    De muitos a seu pae em casamento;
    Nova dor para mi, mortal ferida!
      Elle lhe nomeava mais de cento:
    Delles paternamente lhe rogava
    Hum escolhesse a seu contentamento.
      Com mil razões fingidas s'escusava,
    Sendo só a razão, não ser contente;
    Com que desgôsto ao pae, gôsto a mi dava.
      Estando nós por huma sesta ardente
    Á sombra d'huns madronhos repousando,
    Affastados da casa e mais da gente,
      Ja d'huma e d'outra cousa praticando;
    Soltou com hum suspiro estas palabras:
    Desde hontem para cá em mi não ando.
      Logo que nosso pae tornou das labras,
    Me disse que assentára de casar-me
    Com Tityro, pastor de muitas cabras.
      Que não buscasse causas d'escusar-me,
    Como por muitas vezes ja fizera,
    Pois tinha muitas mais de contentar-me.
      Que afóra esta tenção, que a sua era,
    O mesmo seus parentes lhe dizião,
    A quem de seus intentos conta dera.
      As ágoas, que dos olhos me corrião,
    Em quanto elle me disse o que te digo,
    Por mi, que fiquei muda, respondião.
      Com seu chôro abrandou ao pae amigo;
    Qu'emfim, deixando-a menos magoada,
    Lhe disse que fallasse isto comigo.
      Assi me disse; e que determinada
    Estava a qualquer mal que lhe viesse.
    Antes que ser com Tityro casada.
      Que por mais de mil cabras que tivesse,
    Jamais esta vontade mudaria;
    Que buscava saber, não interesse.
      E que de melhor mente casaria
    Com hum qualquer pastor, pobre de gado,
    Se nelle as partes visse, que em mi via.
      Por extremo de mi lhe foi louvado
    O pensamento seu; e sem detença
    Tal resposta lhe dei acautelado:
      Se a dar meu parecer me dás licença,
    Hum pastor te darei de qualidade,
    Que em nada de mi tenha differença;
      Nem de menos saber, nem mais idade;
    Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto:
    Da fazenda não sei a quantidade.
      Se esse me fazes bom, daqui protesto
    De não receber outro por marido:
    Me respondia com sembrante honesto.
      Pois sabe (respondi) que ja admittido
    Me tens com gôsto teu por teu esposo;
    Que com dar-te-me dou o promettido.
      Não pude dizer mais, de vergonhoso,
    Nem ella me deixou com ouvir tal,
    Suspeitando de mi amor vicioso.
      Logo me respondeo: Ah desleal!
    Ah deshonesto irmão! isso pretendes?
    Mas não irmão, imigo capital.
      O ceo, que com injusto amor offendes,
    Tome, cruel, de ti justa vingança,
    Antes que de tamanho error t'emendes.
      Andavas-me enganando na esperança
    Com esses falsos e indevidos meios
    Ao sangue nosso e minha confiança?
      Fizeste verdadeiros os receios,
    A que confusamente me levavas
    De sombras enganosas com rodeios.
      Desejo no teu peito agasalhavas
    Tão torpe, tão infame, tão alheio
    Do puro amor, a que obrigado estavas?
      Não te desculpes, não; que ja não creio
    Lagrimas, nem palavras, nem desculpas
    De quem imaginou caso tão feio.
      Timido respondi: De que me culpas?
    Se ouvido me não dás, não tens razão;
    Acaba de me ouvir o fim das culpas.
      T[~e]e-me, Ulina, por teu, não por irmão:
    Se me não queres crer esta verdade,
    De teu pae saberás se minto, ou não.
      Por filho me criou: a flor da idade
    Gastei em o servir por teu respeito:
    Ólha o que te merece esta vontade.
      Se com ser isto assi tenho êrro feito
    Em grangear-te; que a ti só desejo;
    Eis este ferro aqui, eis este peito.
      Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo,
    Pondo os olhos no chão, formosa e branda;
    E cuido qu'inda assi nos meus a vejo.
      Disse-me: Em que revoltas o amor anda!
    No bem, como no mal, tambem me enleia:
    Inda agora o senti, ja reina e manda.
      Como queres, Anzino, qu'eu te creia
    Cousa que nem sonhada foi tégora?
    Não sabes de quem ama, o que receia?
      Fallarei com meu pae: fica-t'embora:
    No desengano seu teu bem consiste;
    Da palavra que dei não estou fóra.
      Com isto me deixou alegre e triste.
    O comêço ja ouviste de meu dano,
    Amigo Limiano: o fim amargo,
    Em que não serei largo, escuita agora.
    Fulgencia, outra pastora, que vizinha
    Era d'amada minha e grande amiga,
    (Não sei como isto diga que não moura)
    Pastora branca e loura, que na serra
    Era a segunda guerra dos pastores,
    Por mal dos meus amores me quiz bem.
    Fundava-se porém em casamento;
    E deste fundamento lhe nascia,
    Que, como me não via, o valle, o monte,
    O bosque, o rio, a fonte rodeava.
    Em busca minha andava aquella sesta;
    Entrou pola floresta, onde nos vio;
    E tudo nos ouvio quanto fallámos,
    Entre huns espessos ramos escondida.
    Cruelmente ferida dos ciumes,
    Foi-se a fazer queixumes (descobrindo
    Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina.
    Eis logo desatina o triste velho;
    Eis que sem mais conselho a filha entrega,
    Que com chôro se nega e com palabras,
    Ao simple guarda cabras, por esposa.
    Ah hora desditosa! ah sorte dura!
    Daquella formosura desusada,
    De tantos desejada, e de mi tanto
    Servida com espanto e puro amor,
    Quizeste, por mais dor, enriquecer
    Quem não sabe entender o preço della?
    Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste,
    Como te não abriste; e no teu centro
    Me não cerraste dentro, estando vivo,
    Porque mal tão esquivo não sentíra?
    Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido!
    Para me ver perdido me criaste?
    Porque me não deixaste no deserto?
    Menos crueza, certo, então usáras,
    Inda que me deixáras (não te aggraves)
    Ás cruas feras e aves da montanha.
    Não vês que o ceo estranha isso que tratas?
    Não vês que a ti te matas cobiçoso?
    Na porta o novo esposo tropeçou;
    Na casa não entrou co'o pé direito:
    Gritou sobolo teito a noite inteira
    A ave, qu'he mensageira de fins tristes.
    O mesmo vós sentistes, cães da aldeia,
    Quando por má estreia, juntos todos,
    Com differentes modos huiviastes.
    Serranas, qu'esperastes nestas vodas
    Cantar alegres todas Hymeneos,
    Dos vossos alvos seios, alvas flores,
    Em lugar dos licores mais custosos,
    Por cima dos esposos derramando;
    Ou vendo estar bailando, estando quedas,
    Ao som das gaitas ledas no terreiro
    O moço tão ligeiro á maravilha,
    Que quasi o pé não trilha o junco mole;
    Qual será que console a triste amiga,
    A quem a fôrça obriga do pae duro,
    A quem o Amor puro obriga tanto,
    Que n'hum contino pranto se consume?
    Assi do grande cume da esperança
    Com subita mudança derribado,
    Me poz em tal estado a triste nova,
    Como sabe por prova quem bem ama.
    Levou a leve fama a minha dor
    A Sincero pastor, meu grande amigo,
    Que com rogos comsigo me levou,
    Do monte, onde me achou, ja noite escura,
    Chorando a desventura em que me via.
    As vaccas, vindo o dia, derramadas,
    De mi desamparadas, vem bramando,
    Sinal n'aldeia dando em seu bramido
    De qu'era ja perdido o pastor seu.
    Tamanha pena deo á bella Ulina
    (Bella, porém mofina) a pena minha,
    Sôbre quantas ja tinha no seu peito,
    Que mais do triste leito não s'ergueo.
    Seu pae adoeceo tambem de nojo:
    Da morte foi despojo ao dia quinto.
    A dor que daqui sinto he sem medida.
    Pois m'apartou da vida, a vida acabe,
    Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa.
    Fulgencia, que foi causa destes males,
    Des que montes e valles descobrio,
    Despois que me não vio em toda a serra,
    Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais,
    Que della nunca mais novas souberão.
    Emfim, tal fim tiverão meus amores.
    Chorárão os pastores juntamente
    D'Ulina descontente a triste sorte,
    Do pae a breve morte, e de Fulgencia
    A vingadoura ausencia de seu êrro;
    De mi este destêrro em que me pôs.
      Mas mais chorastes vós, meus olhos tristes,
    Quando de vossa luz, sem a do dia,
    Por terras tão estranhas vos partistes.
      Cuido que meia noite então seria;
    Cantando os gallos ja na triste aldeia,
    Chorava só quem della se partia.
      Casa de meus suspiros sempre cheia,
    (Disse eu, quando passei pela de Ulina)
    Tal fructo colhe quem amor semeia!
      Fortuna, a mi cruel, sempre benina
    Em tudo seja áquella, que em ti mora,
    Indaqu'em outros braços se reclina.
      Fica-te aqui, minha alma, fica embora,
    Que, pois assi o quiz fado inimigo,
    Jamais te não verei dia nem hora.
      Dalli nos ricos campos dei comigo,
    Que das ágoas do Tejo são regados;
    Onde te vi mais ledo, como digo.
      Por ver se posso agora a meus cuidados
    Achar algum repouso, algum socêgo,
    Atravessando vou montes e prados.
      Passei as claras ágoas do Mondego,
    Das Lusitanas Musas charo ninho;
    As do Douro despois em turvo pégo.
      Daqui continuando meu caminho,
    Espero ver a casa aos ceos acceita,
    Na terra que da nossa aparta o Minho.
      Onde vou visitar na urna estreita
    Os santos ossos do Varão divino,
    Que pretendeo do Mestre o mão direita.
      Assi, d'hum lugar n'outro de contino,
    O bem que ja cantei, chorando venho;
    Tornei-me de vaqueiro, peregrino:
      Tal hábito me vês, tal vida tenho.
                LIMIANO.
      Anzino, he breve o dia
    Para poder contar
    O que sinto de tua desventura.
    E sei bem qu'erraria,
    Se quizesse louvar
    O grave estylo teu, tua brandura.
    Aquella formosura,
    Por quem alegre fôras;
    Que tu ledo cantaste,
    E que despois choraste
    Tão triste, qu'ind'agora triste choras;
    Vivendo eterna nella,
    Será mágoa commum, e louvor della.
      As mágoas deixo enfim;
    Tambem louvores deixo,
    Por grandes ellas, elles por pequenos.
    Tu, por amor de mim,
    (Dir-te-hei de que me queixo)
    Repousa hoje comigo, quando menos:
    Assi vejas serenos
    Esses teus tristes lumes.
    Abranda a dura mágoa,
    Que tira fontes de ágoa
    Do fogo em que chorando te consumes;
    Dar-te-hei conta mais larga
    Da vida que aqui passo tão amarga.
      E mais saber desejo
    Se a fama nos engana,
    Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos,
    Com todos os do Tejo,
    E com fato e cabana,
    Reside ja nos campos Africanos;
    Onde mil soberanos
    Triumphos, delle dinos,
    Lh'ordena a fatal sorte,
    Com grande estrago e morte
    Dos brutos mal nascidos Sarracinos,
    Que de si despejados
    Os curraes deixão ja cheios de gados.
      Que sendo assi, te digo
    Que não espero mais
    Nesta para mi sempre ingrata terra.
    Quem traz guerra comsigo
    Entre seus naturais,
    Não deve d'estranhar estranha guerra.
    Sem mi de serra a serra
    (O ceo assi o queira)
    Logrem meus inimigos
    Os valles e pacigos
    Desta, donde nasci, fresca ribeira;
    Na qual (se não m'engano)
    Inda será chorado Limiano.
                ANZINO.
      Limiano, ja bem tenho entendido
    Quanto sentes meu mal; mas eu te digo
    Que o teu mal he de mi menos sentido.
      Ácerca de ficar hoje comtigo,
    Farei pois (ja qu'assi nos detivemos)
    Tudo o que tu quizeres, como amigo.
      E, pois o dia ja passado temos,
    Vamos-nos mais chegando para o gado;
    E lá nas outras cousas fallaremos.
      Todavia de funda e de cajado
    Te vai apercebendo a som de guerra;
    Que não foi tal pastor cá do ceo dado,
      Para não dar ao ceo tão larga terra.


ECLOGA XII.


INTERLOCUTORES.

DELIO, ALCIDO, GALASIO.

              DELIO.
      Agora, Alcido, em quanto o nosso gado
    Pasce diante nós manso e seguro,
    Sentemos-nos aqui neste abrigado.
      Logremos este sol sereno e puro,
    Que livre se nos dá, antes que venha
    A noite fria com seu manto escuro.
      O rico com seu ouro lá se avenha;
    Não se farta a cobiça co'a riqueza:
    Mais arde o fogo quando t[~e]e mais lenha.
      Com pouco se contenta a natureza.
    Quem isto bem olhasse, certifico
    Que não fugisse tanto da pobreza.
      O sol tambem m'aquenta, como ao rico;
    A fonte ágoa me dá, fructos a terra:
    Com pouco mantimento farto fico.
      Ah! que a má vaidade nos faz guerra!
    (Para que gasto tempo em mais palabras?)
    Os olhos da razão esta nos cerra.
      Alcido, tens ovelhas, e tens cabras,
    De que tiras da lãa, tiras do leite;
    E não te faltão campos em que labras.
      Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te
    De fallar claro e sem lisongerias:
    Não hajas medo tu, qu'eu as affeite)
      Tu cantavas amor, amor tangias;
    Faltava a tua frauta; agora he muda:
    Que mal te mudou tanto em poucos dias?
                ALCIDO.
      Muda-se a idade, Delio; e se se muda
    Com ella a condição, nada m'espanto;
    O gôsto m'ajudou, ja não m'ajuda.
      Se ja cantei amor, se amor não canto,
    Culpas do tempo são, que vai mudando
    O meu cantar alegre em triste pranto.
      O tempo, que tão leve vai voando,
    Delio, não torna mais; e assi fugindo,
    Mil claros desenganos nos vai dando.
      Pouco a pouco se veio descobrindo
    O mal d'huma esperança vãa e incerta,
    Que me deixou chorando, e foi-se rindo.
      Quem nasce sem ventura, ou quem acerta
    De fazer fundamento em peito alheio,
    De mil contas que faz nenhuma he certa.
                DELIO.
      Pois se isso entendes tu, donde te veio
    Sentir tão de verdade as sem-razões,
    Não sendo d'outra cousa o mundo cheio?
                ALCIDO.
      Não queres tu que sintão corações
    Obrigados com dor a sentimento,
    Vendo a razão vencida d'affeições?
                DELIO.
      Emfim, todas as cousas querem tento:
    Encobre a dor, e guarda-te d'extremos;
    Que sempre trazem arrependimento.
      Ao nosso doce canto nos tornemos:
    Das nossas Nymphas, bellas inimigas,
    Crueza e formosura celebremos.
                ALCIDO.
      Como cantarei eu novas cantigas
    Em terra tão esteril, cheia d'ira,
    Que nega flores, e que nega espigas?
      Pendurei n'hum salgeiro a minha lira:
    Ouvi-la ao som do vento he h[~u]a mágoa:
    Em lugar de tanger, geme e suspira.
      A Amarilia pintei, pintada trago-a
    Aqui neste meu seio, e tambem chora:
    Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe ágoa.
      Mas vejo vir Galasio.
                DELIO.
                            Venha embora.
    Galasio, queres tu cantar comigo?
                GALASIO.
      Eu nunca me roguei: menos agora.
                DELIO.
      Cantaremos d'Amor cruel imigo,
    Ou brando e amoroso, em razão pôsto,
    Tyranno e cego, e cego até comsigo?
                GALASIO.
      Cada qual cante do que for seu gôsto;
    Quer mimos, quer rigores d'Amor fero;
    Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto.
                ALCIDO.
      Em quanto vós cantais, recolher quero
    O gado; que são horas de ordenhar:
    Á noite na malhada vos espero.
                GALASIO.
      Isso não: has d'ouvir para julgar
    Qual de nós melhor canta e melhor sente.
                DELIO.
      Eu ja não cantarei, sem apostar.
      Aposto o meu rafeiro, que Valente
    Se chama, e com razão; que o lobo affasta,
    Se não cantar mais branda e docemente.
                GALASIO.
      Hum cervo manso aposto.
                DELIO.
                              Isso não basta:
    Põe mais hum par da cabras.
                GALASIO.
                                 Deos me guarde;
    Porque, Delio, este gado he da madrasta.
                ALCIDO.
      Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde?
    Ora cantae sem preço e sem inveja;
    E seja logo, porque ja he tarde.
                DELIO.
      Learda minha, branca mais que a neve,
    E muito mais corada que a grãa fina;
    S'inda Amor a vencer-te não se atreve,
    Que fara quem d'Amor por ti se fina?
    Eu morro; e tu meu mal julgas por leve?
    Não vês tu como ja me desatina?
    Ai triste! que me vem valles e montes,
    Regados de meus olhos feitos fontes.
                GALASIO.
      Marfida, branca mais que o branco leite;
    Vermelha muito mais que a rosa pura;
    Assi descuido em ti nunca suspeite,
    Assi me trates inda com brandura;
    Que a cabana, que a vida e a alma engeite
    Por ti, quando tu mais que marmor dura.
    Testimunhas serão montes e valles,
    A quem dou larga conta de meus males.
                DELIO.
      Quando a minha Learda desencolhe
    Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado,
    O sol, de pura inveja, se recolhe,
    Corrido de se ver menos dourado.
    Livre pastor não ha, que bem os olhe,
    Sem se achar logo nelles enlaçado.
    Ai! não soltes, Learda, os teus cabellos,
    Pois tanto prendem quantos ousão vellos.
                GALASIO.
      Os tristes corações se tornão ledos,
    Ouvindo de Marfida o doce canto;
    Os furiosos ventos estão quedos;
    Não guia o claro sol seu carro em tanto.
    Converte-se a dureza dos penedos
    Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto,
    Vencido dessa voz, doce Marfida;
    Mas tu nunca d'Amor foste vencida.
                DELIO.
      O campo de verdura vejo pobre;
    O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio;
    Da sua leve folha a terra cobre
    O bosque, que foi ja verde e sombrio.
    Mas se Learda o rosto seu descobre,
    Logo desapparece o tempo frio:
    Comsigo a primavera traz Learda.
    Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda!
                GALASIO.
      A triste Progne ja despareceo;
    A toda flor o frio foi imigo;
    A doce Philomela emmudeceo,
    Rouca de lamentar seu mal antigo.
    Mas venha por aqui quem me venceo
    Com hum só volver d'olhos; qu'eu m'obrigo,
    Que as aves tornem logo a seus amores,
    E os campos se matizem de mil flores.
                DELIO.
      A viva chamma, aquelle vivo ardor,
    Que brando sinto ja pelo costume,
    De noite dá de si tal resplandor,
    Que os pastores vem delle a tomar lume.
    Pasmados ficão, vendo em mi d'amor
    O fogo, que me queima e não consume:
    E tu, por quem eu ardo noite e dia,
    Quando vês tal ardor ficas mais fria!
                GALASIO.
      Eu sempre chóro, e tanto ja chorei,
    Vencido da grã dor que n'alma tinha,
    Que mil vezes de lagrimas fartei
    Meu gado, quando a fonte a buscar vinha.
    Chorando as duras pedras abrandei;
    Mas nunca a ti, cruel imiga minha,
    Que, vendo que por ti m'estillo em ágoa,
    Nenh[~u]a mágoa tens de minha mágoa.
                DELIO.
      Quando vires, Learda, o nosso Lima,
    Que lá vai de meu chôro acompanhado,
    Tornar com suas ágoas para cima,
    De seu curso esquecido, costumado;
    Então embora julga, então estima
    Que tenho n'outra parte o meu cuidado.
    Mas deixarão os rios de correr,
    Primeiro que deixe eu de te querer.
                GALASIO.
      Estas serras, Marfida, por certeza
    De minha firme fé só quero dar-te:
    Quando com espantosa ligeireza
    Daqui correr as vires a outra parte,
    Então cuida que falta em mi firmeza,
    Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te.
    Mas mudar-se daqui bem podem ellas,
    E eu não mudar de mi graças tão bellas.
                ALCIDO.
      Se esta vontade minha não deseja
    A vossos versos dar justos louvores,
    Hora nunca na vida alegre veja.
      Acceitae meu desejo, meus pastores:
    Mais vos não póde dar quem traz o esprito
    De todo entregue a damnos, mágoas, dores.
      Mas porque dê de vós público grito
    A leve fama, como vêdes, deixo
    O vosso canto e o meu juizo escrito
      No liso tronco deste verde freixo.
    Delio neste lugar doce cantou
    Com Galasio, que doce respondia:
    Hum Learda, Marfida outro louvou,
    Com inveja de qual melhor diria.
    Alcido, que o seu canto bem notou
    Por ver quem a victoria levaria,
    Como livre juiz, deo por sentença,
    Que não havia entr'elles differença.


ECLOGA XIII.

_Phyllis._

    Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto
    Aquelle passarinho canta ou chora,
    Chamarei Corydon com triste pranto.
      Se entre vós, bellas plantas, amor mora
    (Plantas, ja vós amastes) tende mágoa
    De mi, pois que m'ouvis queixar agora.
      Ai cruel Corydon! cruel a frágoa
    Em que vivo por ti! Não tens piedade
    Dever meu peito fogo, os olhos ágoa?
      Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade!
    Ai triste! E que farei? Em poucos dias
    Mudaste tu de mi tua vontade.
      A Phyllis ja deixaste, a quem trazias
    No formoso verão formosas fruitas,
    Sinal do grande bem que me querias?
      Sabes, cruel, que tenho causas muitas
    Para te convencer, de que queixar-me;
    Por isso vás fugindo e não me escuitas.
      Puderão os teus rogos abrandar-me:
    Os meus (triste de mi!) mais te endurecem.
    Ja não acho em que possa confiar-me.
      Aquelles doces versos ja t'esquecem,
    Que tu nos lisos álamos cortavas,
    Onde com teus enganos inda crescem?
      Arder por meu amor nelles mostravas:
    Eu, crendo que era assi, não entendia
    Quanto fingiste amar, quão pouco amavas.
      Tristes meus fados forão, triste o dia
    Em que nasci: coitada de mi triste,
    Qu'em mágoa se tornou minha alegria!
      Logo que a tua Galatêa viste,
    Vi eu deste meu mal grandes agouros;
    E tu da parte esquerda hum corvo ouviste.
      E não t[~e]e Galatêa mais thesouros,
    Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja
    Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros.
      Á negra violeta t[~e]e inveja
    O branco lirio, porque tal não tem
    O cheiro, que vencido não se veja.
      Tityro arde por mi; Tityro, a quem
    Mil Nymphas dão capellas de mil flores;
    Mas elle a mi só chama, a mi quer bem.
      Eu desprézo por ti muitos pastores,
    E tu por Galatêa me desprezas!
    Tal pago dás, cruel, a meus amores?
      Em que te mereci tantas cruezas,
    Quantas usas comigo? Por ventura
    Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas?
      Prouvera a Deos que tão isenta e dura
    Me víras para ti, que nunca víras
    Em mi sinal d'amor, ou de brandura!
      S'eu fugíra de ti, tu me seguiras;
    Por mi ardêras, não por huma ingrata,
    Por quem choras em vão, em vão suspiras.
      Bem me vinga de ti, pois te maltrata:
    Mas eu te quero tanto, que desamo
    (Por mais que tu me mates) quem te mata.
      Respondem-me estes montes, quando chamo
    Por ti com triste voz; Ecco responde
    Das lagrimas, movida, que derramo.
      E tu não me respondes, nem sei onde
    Te leva esse desejo; mas bem sei
    Que amor e desamor de mi t'esconde.
      Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei
    Remedio a tanto mal? O fogo puro
    Em que m'abrazo, com que abrandarei?
      Ja fugíra daqui por mais que duro
    Fosse o deixar o ninho em que nasci:
    Mas não ha contra Amor lugar seguro.
      A morte só (mil vezes isto ouvi
    Á nossa Celia) por remedio espere
    Aquelle que a Amor fez senhor de si.
      Então, porque de todo desespere,
    Este cego, a quem cegos nós seguimos,
    A mi por ti, e a ti por outra fere.
      S'eu morrêra no ponto em que nos vimos,
    Não víra tanto mal. Mas que da sua
    Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos.
      Eu me queixo de ti, e tu da tua
    Galatêa te queixas; e não vês
    Que mais piedosa te he, quando mais crua.
      Sendo tu tão cruel, (tão cego es!)
    Queres achar piedade? Como queres
    Que te creião teu mal, se o meu não crês?
      Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres,
    Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes,
    Ou ledos ambos, si: mais não esperes.
      Selvas, que n'outro tempo nos cobristes
    Com frescas sombras lá do ardor de cima,
    Dizei, se a Corydon dizer ouvistes:
      Primeiro ha de tornar o brando Lima
    As ágoas de crystal á fonte clara,
    Que no meu peito novo amor s'imprima.
      Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara,
    Me ha de deixar a mi a propria vida.
    Mas quem, por não deixar-te, a não deixára!
      Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida
    A tenho a teu querer; tu della ordena
    Como, doce amor meu, fores servida.
      Por ti me será branda a dura pena;
    Por ti suave a dor, leve o tormento,
    A que m'inclina o fado, ou me condena.
      Ah falso Corydon! teu pensamento
    Era enganar-me: dada a fé me tinhas;
    E a fé co'as palavras leva o vento.
      Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas
    O vento vai levando. O sol he pôsto.
    Porque, ligeira luz, te não detinhas,
      Em quanto em meu queixume achava gôsto?


ECLOGA XIV.


INTERLOCUTORES.

ERGASTO, DELIO, LAURENO.

                ERGASTO.
      Agora, ja que o Tejo nos redeia,
    Neste penedo, donde mansamente
    Murmurando se quebra a branda veia,
      Espera, Delio, até que do Occidente
    D'azul deixe a ribeira matizada
    O sol, levando o dia a outra gente.
      Entretanto daqui verás pintada
    A praia de conchinhas d'ouro e prata,
    E a ágoa dos mansos sopros encrespada.
      Verás como do monte se desata
    A vagarosa fonte por penedos,
    Que pouco a pouco cava e desbarata;
      E como move os frescos arvoredos
    Favonio, que de flores pinta o prado;
    E como s'estão rindo os campos ledos.
      Ditoso o que do Ceo foi tão amado,
    Que no campo alcançou passar a vida,
    Livre de pena, livre de cuidado.
      O rouxinol na vara, que vestida
    De verdes folhas, sombra faz ao rio,
    Lhe canta o doce verso sem medida.
      Agora ao pé d'hum alamo sombrio
    Vê como dous carneiros s'offerecem,
    Os cornos inclinando, a desafio.
      Como ao que vence todos obedecem
    E folgão de o ver fóra de perigo;
    E outros com face esquiva o aborrecem.
      Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo
    Lavra os campos do pae, e se contenta,
    Nos seus mólhos atando o louro trigo!
      Este a furia do mar não exprimenta,
    Nem corre, por achar a pedra rica,
    A estranha praia, que outro sol aquenta.
      Onde, quando a esperança o fortifica
    Em adquirir mais ouro e mais riqueza,
    Ouro, esperança, e vida a muitos fica.
      Este vive quieto na pobreza;
    E deste confiarei que a anteponha
    A quanto o mundo mais procura e préza.
      Comendo em mesa vil, não s'envergonha:
    Antes bebe nas mãos a fonte pura,
    Qu'em precioso metal cruel peçonha.
      Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura,
    Inda conversa aqui com os humanos
    A Justiça, fugindo á gente impura!
      Quem visse bem tão claros desenganos,
    E quanto mal nos vicios se apparelha,
    No campo gastaria bem os anos.
      Ao dia a nossa vida se assemelha,
    Porque quando no mar o sol se banha
    Se costuma tingir de côr vermelha.
      Assi, se olharmos bem, sempre se ganha
    Lá no occaso da mal gastada vida
    Rubicunda vergonha em mágoa estranha.
                DELIO.
      A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida,
    Nunca sabe de nós ser tida em preço:
    Só despois que se perde he conhecida.
      E desta vida os bens, qu'eu não mereço,
    Quando os perco e o mal da outra ja m'espera,
    Com grandes mágoas d'alma os reconheço.
      Oh se em ditosa sorte me coubera
    Por favor ou destino das estrellas,
    Qu'entre pastores, eu pastor vivêra!
      Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas
    Cantar da linda Nise, nas quaes arde
    Teu peito, sempre ufano d'arder nellas.
      Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde;
    Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte,
    E despois vos recolha, sôbre a tarde.
      Nãovos verei saltar junto da fonte,
    Cabras minhas, ja meu querido gado,
    Nem da rocha pender no verde monte.
                ERGASTO.
      Consente agora, ó Delio, que chorado
    Em triste verso seja apartamento,
    Que assi me deixa triste e magoado.
                DELIO.
      Não: que se dobrará meu sentimento.
    Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça
    Partida, que lembrada he só tormento,
      Canta aquelle Soneto, que começa:
    _Quantas vezes do fuso s'esquecia_.
    Que digas hum dos teus, não sei se o peça.
                ERGASTO.
      Se com m'ouvir, a dor se te allivia,
    Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno,
    Que a cantar vezes mil me desafia.
      Cantando venceo ja Tityro e Almeno:
    E eu, inda que sei certo ser vencido,
    Apostar a cantar com elle ordeno.
                LAURENO.
      Ergasto, pois o tempo se ha offrecido,
    Celebremos amor e formosura,
    Emquanto o gado á sombra está acolhido.
                ERGASTO.
      Postoque ja a victoria tens segura,
    Não cantarei sem preço, porque saia
    Mais ledo quem cantar com mais brandura.
                LAURENO.
      Eu hum vaso porei de lisa faia,
    Divina obra de Alceo, que celebrado
    Será sempre por claro nesta praia.
      A vide, de que em roda está cercado,
    Os roxos cachos cobre; e primor teve
    Em pôr no meio a Dama e Pan cansado.
      Parece que a beija-la o deos se atreve,
    E que ainda dos beijos mal soffridos
    Inclinado lhe foge o tronco leve.
                ERGASTO.
      Outro vaso porei d'hera cingido,
    No qual Orpheo das aves esquecidas
    E dos suspensos bosques he seguido.
      Não cuido que de faia são sahidas
    De tal arte, lavor de tal maneira:
    Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas.
      Esta, das que me deo, foi a primeira;
    Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda,
    Ouvindo-me cantar nesta ribeira.
      Ouvio-m'então, estando desta banda;
    E dando-ma, dizia-me: Este seja
    O premio, Ergasto, dessa Musa branda.
                LAURENO.
      Delio o nosso cantar pondere, e veja
    Qual dos dous a voz dá mais docemente;
    Que huma tal causa tal juiz deseja.
                DELIO.
      Se o meu juizo cada qual consente,
    Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço;
    Tu responde, Laureno, juntamente:
      E eu fico que nenhum perca o seu preço.
                ERGASTO.
      Alcida, que na côr o leite puro,
    E a rosa da manhãa deixas vencida,
    Culpa he dos olhos teus, nelles o juro,
    Est'amor de qu'estás tão offendida.
    Castiga-os com me verem; qu'eu seguro
    Que a vingança será delles sentida:
    Nem temas tu d'os meus alegres serem,
    Vendo tristes taes olhos por me verem.
                LAURENO.
      Violante minha, cuja côr iguala,
    Mas antes vence os cravos, vence a neve;
    Desta dor, que atéqui minha alma cala,
    Teu amoroso riso a culpa teve.
    Se só por viver della e por amá-la,
    Julgas que algum castigo se me deve,
    A ver-te sempre rindo me condena,
    Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena.
                ERGASTO.
      Com a mãe, que maçãas colhendo andava,
    Inda pequena, a bella Alcida vinha:
    Eu os ramos da terra ja tocava,
    Ja facil para amar o tempo tinha.
    Não sei que fogo ou neve se passava
    Daquelles olhos seus a est'alma minha,
    Que me deixárão pôsto em tal extremo,
    Que até de cuidar nelles ardo e tremo.
                LAURENO.
      No bosque a Violante vi hum dia,
    Doce princípio destas doces dores;
    A flor cahia nella, e parecia
    Dizer cahindo: Aqui reinão amores.
    Humilde em tanta gloria ella se ria,
    E errando hião sôbre ella as várias flores:
    Eu, que vencido fui d'hum error cego,
    Áquelle honesto riso est'alma entrego.
                ERGASTO.
      Pastores deste bosque, que buscais,
    Anoitecendo, o lume por costume;
    Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais,
    Que destes meus suspiros leveis lume.
    Accesos sahem d'alma os doces ais
    No ardor, que pouco a pouco me consume;
    Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito,
    Accendérão jamais hum frio peito.
                LAURENO.
      Pastores, que buscais na sombra amada
    A fonte, por fugir o ardor do estio,
    Vinde a mi, porque d'ágoa destillada
    Por meus olhos, se sólta hum largo rio;
    Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada,
    Fartá-la ja de lagrimas confio.
    Mas com chôro de tanta quantidade
    Não movo aquelles olhos a piedade.
                ERGASTO.
      Se quando a minha Alcida est'alma visse
    Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada;
    Se quando a grave dor fóra sahisse
    Entre suspiros mil rôta e quebrada,
    Sequer com brandos olhos m'admittisse,
    Ficando de vergonha mais córada;
    Ditoso fôra, vendo-a, juntamente
    Com ser mais bella, deste amor contente.
                LAURENO.
      Se á vista de Violante derramadas
    As lagrimas d'amor, que vive nellas,
    Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas
    Lhe ficassem de dor ambas estrellas,
    E as rosas entre a neve semeadas,
    Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas;
    Ditoso me fizera. Hora ditosa,
    Se a víra ser mais bella e ser piedosa!
                ERGASTO.
      Claros olhos, que ao sol fazeis inveja,
    Que brandos vos mostreis ja vos não peço;
    Mas que poder-vos ver paga me seja,
    Se por tamanho amor tanto mereço:
    Armados d'esquivança então vos veja
    Cheios d'hum não sei que, com que pereço;
    Que doce me será tal esquivança.
    Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança!
                LAURENO.
      Olhos, que vos moveis tão docemente,
    Que traz vós todo o mundo ides levando,
    Eu não sei se tomais do ceo luzente
    O movimento seu, se lho estais dando:
    Sei certo (e não m'engano,) sei somente
    Que a vós de mi minh'alma ides passando:
    Mas não posso entender como deixais
    Ao descuido o que vós em vós levais.
                ERGASTO.
      Por mais que a minha soberana Alcida
    (Minha não, porque só sua belleza
    Vem a ser minha em ser de mi querida)
    Me trate vezes mil com aspereza;
    Huma só vez que della acho admittida
    Minha pequena vista na grandeza
    Da luz do rosto seu, sinto tal gloria,
    Que de todo o penar perco a memoria.
                LAURENO.
      Quando a minha mais que unica Violante
    (Se minha póde ser a que he tão sua)
    Aquella santa luz hum breve instante
    Me deixa ver, por mais que a veja crua;
    A vista tanto em mi vejo a diante,
    Que não he muito, não, que m'attribua
    A soberba de ser hum'aguia nova,
    Que do ceo no ôlho claro a vista prova.
                DELIO.
      Pastores, que alcançar pudestes tanto
    Com vossa branda Musa, que ja nesta
    Idade renovais o antigo canto;
      Para vosso louvor, que verso presta?
    Qu'hera digna será? que louro dino
    Qu'em premio a cada qual adorne a testa?
      Em parte paga Amor, se de contino
    Por dentro a cada hum gasta os espritos,
    Pois co'o divino canto o faz divino.
      Nós veremos por annos infinitos
    Nos altos troncos destas faias bellas
    Os nomes vossos por memoria escritos.
      De unicas flores mereceis capellas:
    T[~e]e Alcida e Violante sós taes flores;
    E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas.
      Os vossos premios recolhei, pastores:
    Cada qual igualmente o seu merece;
    E ambos d'Apollo os mereceis maiores.
      Recolhamos o gado; que anoitece.


ECLOGA XV.


INTERLOCUTORES.

SOLISO e SYLVANO.

              SOLISO.
      De quanto alento e gôsto me causava
    A vista da manhãa resplandecente,
    Com que toda a tristeza s'alegrava;
      Que quando vinha o sol claro e luzente,
    Bem claro então em mi se conhecia
    Huma nova alegria differente;
      Tanto agora me offende o novo dia,
    Vendo que me não mostra a formosura,
    De que só me mantinha e só vivia.
      E não me quiz deixar triste ventura
    Esperanças de mais tornar a vella!
    Oh destino cruel! oh sorte dura!
      Oh querida Natercia! oh Nympha bella,
    Em quem, emfim, mostrou a natureza
    O mais que se podia esperar della!
      Se lá no assento da maior alteza
    Te lembras de quem viste cá na terra,
    Para te magoar sua tristeza;
      Lembre-te de contino a cruel guerra,
    Que contínua me faz tua lembrança,
    Esquecido do gado, valle e serra.
      Lembre-te que perdi a confiança
    De ver os olhos teus, e juntamente
    De todo o bem d'Amor toda a esperança.
      Lembre-te que por ti de mi ausente
    A crystallina fonte me he nojosa,
    Com que ja n'outro tempo fui contente.
      Que por ti a manhãa clara e formosa
    Males cada momento me accrescenta;
    Sendo-me em outros dias deleitosa.
      Por ti o puro sol me descontenta;
    Com seu canto m'offende a Philomella:
    Mas, porque nelle chora, me contenta.
      Por ti, Natercia pura, Nympha bella,
    Na verdura suave deste prado
    Os males multiplico só com vella.
      Por ti não curo ja do manso gado:
    Com o mesmo qu'então meu bem crescia,
    Agora vai crescendo o meu cuidado.
      Não sou ja, ja não sou quem ser sohia;
    Mudou-se-me a vontade co'a ventura;
    Mudou-se co'os tormentos a alegria;
      Trocou-se o claro dia em noite escura:
    Nem he muito que tudo se mudasse,
    Pois se mudou a tua formosura.
      Não via outro reparo, que cuidasse
    Poder aproveitar ao meu tormento,
    Nem outra gloria alguma em qu'esperasse,
      Senão em quanto o triste pensamento
    Se punha a contemplar tua beldade,
    Sem lhe lembrar tão longo apartamento.
      Agora que me falta a claridade,
    Que de ver-te a minha alma recebia,
    Ficando-me só della a saudade;
      Qual ficará hum'alma, que sabía
    Somente desta gloria contentar-se?
    Gloria de que gozar não merecia!
      Qual poderá ficar quem com lembrar-se
    Mortalmente do bem qu'he ja passado,
    Só t[~e]e por melhor vida á morte dar-se?
      E qual se póde ver quem hum cuidado
    Sostem, que he só da dor certa morada,
    E nelle vive só desesperado?
      Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada,
    Hum'alma que te via; e em te vendo
    O fio lhe cortou a Parca irada?
      A causa deste mal eu não a entendo:
    Só entendo que, perdida essa luz pura,
    Por perdida a não ver, vivo morrendo.
      Vejo que me roubou fortuna escura
    Hum bem por quem meu mal me contentava:
    Lembra-te tu de tanta desventura.
      Lembra-te tu, que só de ti'sperava
    Remedio aos males meus; e então verás
    Qual ficou quem em ti só confiava.
      Lembre-te adonde estou, adonde estás,
    E que tudo sem ti cá m'aborrece:
    Dest'arte o estado meu entenderás.
                SYLVANO.
      Não sei por que razão nos amanhece
    Este dia dos outros differente,
    Com que toda a alegria s'entristece.
      O manso gado vejo, que contente
    Buscando hia nos campos a verdura,
    E dos rios a limpida corrente:
    Agora triste errar pola espessura,
    Alheio d'herva verde e d'ágoa fria;
    Sinal d'alguma grande desventura.
      Suspensa está das aves a harmonia;
    E em certo modo mostra que lá chora
    A mesma sequidão da penedia.
      A candida, rosada, bella aurora,
    Que sempre os altos montes vem dourando,
    Com hum pallor mortal se mostra agora.
      Está-se nestas hervas enxergando
    Tão triste côr, que della se conhece
    Que algum mal se nos vai apparelhando.
      Emfim, vejo que tudo s'entristece;
    A causa ignoro. O ceo piedoso queira
    Que menos seja o mal, do que parece.
      Porque, desde que habíto esta ribeira,
    Não m'acórdo de a ver tão carregada,
    Nem de a ouvir murmurar desta maneira.
      Não m'acórdo que visse outra alvorada
    Tão confusa sahir, como esta vejo,
    De profunda tristeza acompanhada.
      Agora aqui tomára quem sem pejo
    A causa, se a soubesse, m'ensinasse,
    Para satisfazer a meu desejo.
      Porque não posso eu crer que resultasse
    D'alguma baixa causa hum tal effeito,
    Que até nos duros montes se enxergasse.
      O coração cá dentro no meu peito
    M'assegura, que tanta novidade
    Não traz a origem de commum respeito.
      Mas, por entre a confusa claridade,
    Lá vejo vir Soliso com seu gado:
    Delle espero entender toda a verdade.
      Mas não posso cuidar neste cuidado,
    Que nos olhos não mostre onde me chega
    A dor de o ver de dores traspassado.
      Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega,
    Não he muito que passe hum tal tormento;
    Porque todo mal dá, todo bem nega.
      Em quanto este pastor o pensamento
    Logrou, sem qu'em amores o empregasse,
    Senão só em buscar contentamento;
      Festa não se fazia em que faltasse
    A sua frauta, qu'elle assi tangia,
    Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse.
      Ja agora não he aquelle que sohia;
    Vejo-o na condição todo mudado;
    Mudada tambem delle está a alegria.
      Não cura ja do seu querido gado;
    Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores;
    Aborrece-lhe a gente e o povoado.
      Não lhe lembrão as festas dos pastores;
    Apartando se vai pola espessura,
    Enlevado somente em seus amores.
      Contenta-se da noite triste e escura;
    Odio t[~e]e com o sol puro e luzente.
    Quem vio nunca tamanha desventura?
      Com esta vai passando tão contente,
    Que diz que, quando o mal mais o atormenta,
    Se gôsto sentirp óde, então o sente.
      Neste bosque huma Nympha se aposenta,
    Por quem elle na vida anda morrendo;
    E he causa desta dor que lhe contenta.
      E segundo o que delle agora entendo,
    Se a vista não m'engana o pensamento,
    Ou de vãa phantasia estou pendendo;
      Quando fôra maior o grão tormento,
    Que Soliso padece, não pudera
    Igualar-se com seu merecimento.
      Quero chegar-me a elle, em quanto espera
    Que vá descendo o vagaroso gado:
    Saberei delle o que saber quizera.
      Venho, Soliso, a ti com hum cuidado,
    Que todo m'entristece; e com grão medo
    De grão mal sôbre nós inopinado.
      Vês tu como está agora este arvoredo
    Triste e pezado, lugubre e sombrio?
    Como o vento parece que está quedo?
      Vês a commum corrente deste rio
    Que ora tanto se pára, ora anda tanto,
    Deixando de seu curso o certo fio?
      Vês como a Philomella deixa o canto,
    Com que incita os pastores namorados,
    E multiplica Progne o triste pranto?
      E vês, emfim, por todos esses prados
    Desmaiadas as hervas, que sohião
    Viçoso pasto dar aos nossos gados?
      Todos estes sinaes, que não se vião
    Nas Auroras a esta antecedentes,
    Algum damno mortal nos annuncião.
      Eu não sinto o que seja: se o tu sentes,
    Não te seja o dizer-mo mui penoso;
    E entenderei por ti taes accidentes.
                SOLISO.
      N'outro tempo me fôra deleitoso
    Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te;
    Mas todo gôsto agora me he nojoso.
      Bem quizera poder communicar-te
    A causa deste horror; mas antes quero
    Anojar-me a mi proprio, que anojar-te.
      Porém ja sinto o fado tão severo,
    Que quanto mais me ponho a declará-lo,
    Mais então d'entendê-lo desespero.
      E se acaso o entender para contá-lo,
    Se quero começar, quer a ventura
    Á fôrça de soluços atalhá-lo.
      Que despois que me falta a formosura
    Daquella illustre Nympha, que contente
    Pudera bem fazer a noite escura,
      Foi-me faltando o esprito juntamente:
    Em suspirar só gasto a noite e dia,
    Sem me fartar de ver-me descontente.
                SYLVANO.
      Novidade maior em mi sería
    O espantar-me de ver-te estar queixando,
    Que o ver em ti desejos d'alegria.
      Responde-me ao que t'hia perguntando
    Da causa desta singular tristeza:
    Não gastes todo o tempo lamentando.
                SOLISO.
      Sempre em ti conheci huma dureza,
    E austera inclinação, que bem declara
    Quão conforme he teu nome á natureza.
      Porque se o meu tormento t'alcançára,
    O mor bem para ti o mor mal fôra;
    E todo o mal maior te contentára.
      Deixa que chore quem com gôsto chora:
    Deixa-me lamentar meu triste fado;
    Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora.
      Tu não trazes agora outro cuidado
    Mais que buscar no valle a sombra fria,
    Quando te offende o sol mais empinado.
      Coitado de quem passa a noite e dia
    Porfiando em morrer, e a sorte dura
    Em fugir-lhe co'a morte só porfia!
      Oh formosa Natercia! a excelsa altura
    Do glorioso Olympo andas pizando;
    E eu ausente da tua formosura!
                SYLVANO.
      Qu'he isso, que do ceo estás fallando?
    Parece-me que ja não es Soliso,
    Ou que de puro amar vás delirando.
                SOLISO.
      Quem ja perdeo aquelle doce riso,
    Que siso produzia e dava vida,
    Não he muito que perca a vida e siso.
                SYLVANO.
      Declara-me que cousa tens perdida,
    De que tanto te queixas; que ao que sento,
    Natercia destes valles he partida.
                SOLISO.
      Quão livre falla aquelle que o tormento
    Alheio vê de fóra, mas não sente
    Onde chega tamanho sentimento!
      A gloria qu'eu perdi não me consente
    Palavras naturaes, razões expertas,
    Que possão declarar a dor presente.
      Mas nesse teu error vejo que acertas;
    Porque com nenhum mal deve turbar-se
    Quem só delle esperanças logra certas.
                SYLVANO.
      A quem, Soliso meu, de declarar-se
    Com outro em casos taes falta vontade,
    Nunca faltão razões para escusar-se.
      Não sei donde te vem tal novidade;
    Pois negando-me agora o que te peço,
    Suspeito que me negas a amizade.
      Se pola que te guardo te aborreço,
    Sabe que só hum cego entendimento
    Ás amizades faz perder o preço.
      Eu te deixarei só com teu tormento;
    Mas não sem dor de ver que tanto a peito
    Tomes hum tão damnoso pensamento.
                SOLISO.
      Outra he, certo, a razão, outro o respeito
    Que negar-te me fez o que pedias:
    Não creias que de ti tão mal suspeito.
      Bem sei que o meu descanso pretendias;
    E a mesma confiança faz negar-te
    O que destes sinaes saber querias.
                SYLVANO.
      Não queiras mais, Soliso, prolongar-te;
    Pois pende o gôsto meu da tua vida:
    Se corre risco, dá-me delle parte.
                SOLISO.
      De todo a sinto ja desfallecida
    Nas lembranças daquella breve historia,
    Que foi para meus males tão comprida.
      Ja me vence a tristissima memoria
    Da gloria que presente me animava.
    Quem pudera voar traz tanta gloria!
      Natercia qu'estes montes alegrava,
    E que á casta Diana fez inveja,
    E que com sua vista o sol cegava;
      Aquella a quem render-se só deseja
    Aquelle que de bella mãe presume,
    E a quem as armas dá com que peleja;
      Natercia, que no mundo foi hum lume,
    Onde a belleza de maior estado
    Incendios aprendia por costume;
      Natercia, por quem ando acompanhado
    De mágoa tal, que só da morte dura
    Espero o feliz fim de meu cuidado;
      Ao ceo se foi co'aquella formosura,
    Qu'era mostra do ceo, gloria da terra;
    Qu'era o sogeito mor da mor ventura.
      Ja não fara no prado ás almas guerra
    Com a vista, senão com a lembrança;
    Guerra em que o damno mais cruel s'encerra.
      Ja de vê-la não tenhas esperança;
    Qu'esta vida trocou de mal cercada
    Por outra, em que do bem não ha mudança.
      E a causa vês aqui de que a alvorada
    Visses desta manhãa tão differente
    De outra qualquer, de ti mais ponderada.
      Dizer-te o mais não posso, porque sente
    Est'alma no que disse tal tormento,
    Qu'esta memoria apenas me consente.
      O espirito ja debil, sem alento,
    No pouco que te tenho referido,
    Nas azas se sostem do pensamento.
      Oh mundo! qual he aquelle tão perdido,
    Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano,
    Vendo-te todo em damno instituido?
      Deixas passar hum gôsto d'anno em ano,
    Porque, com nosso opprobrio e tua gloria,
    Nos faças mais patente o teu engano.
      Sempre assi vai comtigo a mor victoria,
    Deixando-nos somente por herança
    D'hum possuido bem triste memoria.
      Quem faz de ti alguma confiança,
    Sabendo ja que quem de ti confia,
    D'hum engano penoso emfim se alcança?
      Aquelle da belleza novo dia
    Cegaste, quando mais resplandecente
    Triumphos mil d'Amor nos promettia.
      De qual tigre cruel peito inclemente
    Não se rompe de mágoa, morta aquella,
    Que a tristeza mil vezes fez contente?
      Quem, que vê eclipsada a vista bella,
    Despois de visto haver sua beldade,
    E não sabe morrer por hir traz ella?
      Como não te applacou tão tenra idade
    Ao cortar do seu fio, ó Parca dura,
    Que agora o mundo matas de saudade?
      Deixae, deixae, pastores, a verdura;
    As frautas deixae ja, e os mansos gados;
    E chorae todos vossa desventura.
      E vós, sylvestres Faunos namorados,
    Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão
    O objecto mais gentil vossos cuidados.
      Nymphas, a quem os deoses concedêrão
    Destes sagrados bosques a morada,
    E em quem tamanhas graças escondêrão;
      Se aquella piedade costumada,
    De que mais vos prezais, não esquecestes,
    Que sempre foi de vós tão venerada;
      Se ja d'alheio damno vos doestes,
    Do vosso proprio vos doei agora,
    Pois com Natercia todo o bem perdestes.
      Oh Naiades! das ágoas sahi fóra;
    E de vós ágoa saia em mal tão forte,
    Pois de vê-lo tambem o monte chora.
      Oh Napêas! chorae a triste sorte
    Dos miseros pastores, a quem nega
    O fado por mais pena o mortal córte.
      Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega,
    Tomae todo o cuidado deste pranto,
    Pois sabeis onde a causa delle chega.
      Deixae, ó Amadryas, entretanto
    As plantas que guardais, por ajudar-me,
    Pois deixa a Philomella o doce canto.
      E vós, ó vida minha, pois curar-me
    Ja não podeis, deixae-me juntamente,
    Porque lembranças taes possão deixar-me.
      Mas se dellas morreis, morro contente.



CANÇÕES.


CANÇÃO I.

    Formosa e gentil Dama, quando vejo
    A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito,
    A boca graciosa, o riso honesto,
    O collo de crystal, o branco peito,
    De meu não quero mais que meu desejo,
    Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto.
    Alli me manifesto
    Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo
    Nas lagrimas que chóro;
    E de mi que vos amo,
    Em ver que soube amar-vos me namóro;
    E fico por mi só perdido de arte,
    Qu'hei ciumes de mi por vossa parte.
      Se por ventura vivo descontente
    Por fraqueza d'esprito, padecendo
    A doce pena qu'entender não sei,
    Fujo de mi, e acolho-me correndo
    Á vossa vista; e fico tão contente,
    Que zombo dos tormentos que passei.
    De quem me queixarei,
    Se vós me dais a vida deste geito
    Nos males que padeço,
    Senão de meu sogeito,
    Que não cabe com bem de tanto preço?
    Mas inda isto de mi cuidar não posso,
    D'estar muito soberbo com ser vosso.
      Se por algum acêrto Amor vos erra
    Por parte do desejo, commettendo
    Algum nefando e torpe desatino;
    E s'inda mais que ver, emfim, pretendo;
    Fraquezas são do corpo, qu'he de terra,
    Mas não do pensamento, qu'he divino.
    Se tão alto imagino
    Que de vista me perco, ou pecco nisto,
    Desculpa-me o que vejo.
    Porém como resisto
    Contra hum tão atrevido e vão desejo,
    Faço-me forte em vossa vista pura,
    Armando-me da vossa formosura.
      Das delicadas sobrancelhas pretas
    Os arcos com que fere Amor tomou,
    E fez a linda corda dos cabellos:
    E porque de vós tudo lhe quadrou,
    Dos raios desses olhos fez as settas
    Com que fere quem alça os seus a vellos.
    Olhos que são tão bellos
    Dão armas de vantajem ao Amor,
    Com que as almas destrue.
    Porém se he grande a dor
    Com a alteza do mal a restitue;
    E as armas com que mata são de sorte,
    Que ainda lhe ficais devendo a morte.
      Lagrimas, e suspiros, pensamentos,
    Quem delles se queixar, formosa Dama,
    Mimoso está do mal que por vós sente.
    Qual bem maior deseja quem vos ama,
    Qu'estar desabafando seus tormentos,
    Chorando, imaginando docemente?
    Quem vive descontente
    Não ha de dar allívio a seu desgôsto,
    Porque se lhe agradeça;
    Mas com alegre rôsto
    Soffra seus males, para que os mereça:
    Que quem do mal se queixa, que padece,
    O faz porqu'esta gloria não conhece.
      De modo que se cahe o pensamento
    Em alguma fraqueza, de contente,
    He porqu'este segredo não conheço.
    Assi que com razões não tãosomente
    Desculpo ao Amor de meu tormento,
    Mas inda a culpa sua lh'agradeço.
    Por esta fé mereço
    A graça qu'esses olhos acompanha,
    E o bem do doce riso.
    Mas ah! que não se ganha
    Co'hum paraiso, outro paraiso.
    E d'enleada assi minha esperança
    Se satisfaz co'o bem que não alcança.
      Se com razões escuso meu remedio,
    Sabe, Canção, que só porque o não vejo,
    Engano com palavras o desejo.


CANÇÃO II.

    A instabilidade da fortuna,
    Os enganos suaves d'Amor cego,
    (Suaves se durárão longamente)
    Direi, por dar á vida algum socêgo;
    Que pois a grave pena m'importuna,
    Importune meu canto a toda gente.
    E se o passado bem co'o mal presente
    M'endurecer a voz no peito frio;
    O grande desvario
    Dara de minha pena sinal certo;
    Que hum êrro em tantos erros he concêrto.
    E pois nesta verdade me confio,
    (Se verdade se achar no mal que digo)
    Saiba o mundo d'Amor o desengano,
    Que ja com a razão se fez amigo,
    Só por não deixar culpa sem castigo.
      Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma;
    Ja se tornou de cego razoado,
    Só por usar comigo semrazões.
    E se em alguma cousa o tenho errado,
    Com siso grande dor não vi nenhuma:
    Nem elle deo sem erros affeições.
    Mas, por usar de suas isenções,
    Buscou fingidas causas de matar-me:
    Que para derribar-me
    A este abysmo infernal de meu tormento,
    Nunca soberbo foi meu pensamento,
    Nem pretendeo mais alto levantar-me
    D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena
    Qu'eu pague seu ousado atrevimento,
    Saibão que o mesmo Amor, que me condena,
    Me fez cahir na culpa e mais na pena.
      Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia
    Que descêrão ao baixo pensamento,
    N'alma os aposentei suavemente;
    E pretendendo mais, como avarento,
    O coração lhe dei por iguaria,
    Que a meu mandado tinha obediente.
    Mas, como lhes esteve alli presente,
    E entendêrão o fim do meu desejo,
    Ou por outro despejo,
    Que a lingua descobrio por desvario,
    Morto de sêde estou pôsto em hum rio,
    Onde de meu servir o fructo vejo;
    Mas logo se alça se a colhê-lo venho,
    E foge-me a ágoa s'em beber porfio.
    Assi qu'em fome e sêde me mantenho:
    Não t[~e]e Tantalo a pena qu'eu sostenho.
      Despois que aquella, em quem minh'alma vive,
    Quiz alcançar o baixo atrevimento,
    Debaixo d'este engano a alcancei:
    A nuvem do contino pensamento
    Ma figurou nos braços, e assi tive
    Sonhando, o que acordado desejei.
    E porque a meu desejo me gabei
    De conseguir hum bem de tanto preço;
    Além do que padeço,
    Atado em huma roda estou penando,
    Qu'em mil mudanças me anda rodeando;
    Onde, se a algum bem subo, logo deço.
    E assi ganho, e assi perco a confiança;
    E assi de mi fugindo traz mim ando;
    E assi me t[~e]e atado huma vingança,
    Como Ixião, tão firme na mudança.
      Quando a vista suave e inhumana
    Meu humano desejo, de atrevido,
    Commetteo, sem saber o que fazia,
    (Que da sua belleza foi nascido
    O cego moço, que com setta insana
    O peccado vingou desta ousadia)
    Afora este penar, qu'eu merecia,
    Me deo outra maneira de tormento:
    Que nunca o pensamento,
    Voando sempre d'huma a outra parte,
    Destas entranhas tristes bem se farte,
    Imaginando como o famulento,
    Que come mais e a fome vai crescendo,
    Porque de atormentar-me não se aparte.
    Assi que para a pena estou vivendo:
    Sou outro novo Ticio, e não m'entendo.
      De vontades alheias, qu'eu roubava,
    E que enganosamente recolhia
    Em meu fingido peito, me mantinha.
    O engano de maneira lhes fingia,
    Que despois que a meu mando as sobjugava,
    Com amor as matava, qu'eu não tinha.
    Porém logo o castigo que convinha
    O vingativo Amor me fez sentir,
    Fazendo-me subir
    Ao monte da aspereza qu'em vós vejo,
    Co'o pezado penedo do desejo,
    Que do cume do bem me vai cahir:
    Tórno a subi-lo ao desejado assento;
    Torna a cahir-me: em vão, emfim pelejo.
    Sisypho, não t'espantes deste alento,
    Que ás costas o subi do soffrimento.
      Dest'arte o summo bem se m'offerece
    Ao faminto desejo, porque sinta
    A perda de perdê-lo mais penosa.
    Bem como o avaro, a quem o sonho pinta
    O achado d'hum thesouro, onde enriquece,
    E farta a sua sêde cobiçosa;
    E acordando, com furia pressurosa
    Vai o sítio cavar com que sonhava;
    Mas tudo o que buscava
    Lhe converte em carvão a desventura;
    Alli sua cobiça mais se apura,
    Por lhe faltar aquillo qu'esperava:
    O Amor assi me faz perder o siso.
    Porque aquelles qu'estão na noite escura
    Não sentirião tanto o triste abisso,
    Se ignorassem o bem do Paraisso.
      Canção, não mais; que ja não sei que diga:
    Mas, porque a dor me seja menos forte,
    Diga o pregão a causa desta morte.


CANÇÃO III.

    Ja a roxa manhãa clara
    As portas do Oriente vinha abrindo;
    Os montes descobrindo
    A negra escuridão da luz avara.
    O sol, que nunca pára,
    Da sua alegre vista saudoso,
    Traz ella pressuroso
    Nos cavallos cansados do trabalho,
    Que respirão nas hervas fresco orvalho,
    S'estende claro, alegre e luminoso.
    Os passaros voando,
    De raminho em raminho vão saltando;
    E com suave e doce melodia
    O claro dia estão manifestando.
      A manhãa bella, amena,
    Seu rosto descobrindo, a espessura
    Se cobre de verdura
    Clara, suave, angelica, serena.
    Oh deleitosa pena!
    Oh effeito d'Amor alto e potente!
    Pois permitte e consente
    Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja,
    O seraphico gesto sempre veja,
    Por quem de viver triste sou contente.
    Mas tu, Aurora pura,
    De tanto bem dá graças á ventura,
    Pois as foi pôr em ti tão excellentes,
    Que representes tanta formosura.
      A luz suave e leda
    A meus olhos me mostra por quem mouro,
    Com os cabellos d'ouro,
    Que nenhum ouro iguala, se os remeda.
    Esta a luz he que arreda
    A negra escuridão do sentimento
    Ao doce pensamento;
    Os orvalhos das flores delicadas
    São nos meus olhos lagrimas cansadas,
    Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento;
    Os passaros que cantão,
    Meus espiritos são, que a voz levantão,
    Manifestando o gesto peregrino
    Com tão divino som, que o mundo espantão.
      Assi como acontece
    A quem a chara vida está perdendo,
    Qu'em quanto vai morrendo,
    Alguma visão santa lh'apparece;
    A mim em quem fallece
    A vida, que sois vós, minha Senhora,
    A est'alma, qu'em vós mora
    (Em quanto da prisão s'está apartando)
    Vos estais justamente apresentando
    Em fórma de formosa e roxa Aurora.
    Oh ditosa partida!
    Oh gloria soberana, alta e subida!
    Se me não impedir o meu desejo;
    Porque o que vejo, emfim, me torna a vida.
      Porém a natureza,
    Que nesta pura vista se mantinha,
    Me falta tão asinha,
    Como o sol faltar soe á redondeza.
    Se houverdes qu'he fraqueza
    Morrer em tão penoso e triste estado,
    Amor será culpado,
    Ou vós, ond'elle vive tão isento,
    Que causastes tão largo apartamento,
    Porque perdesse a vida co'o cuidado.
    Que se viver não posso,
    Homem formado só de carne e osso,
    Esta vida que perco, Amor ma deo;
    Que não sou meu: se morro, o damno he vosso.
      Canção de cysne, feita em hora extrema,
    Na dura pedra fria
    Da memoria te deixo em companhia
    Do letreiro da minha sepultura;
    Que a sombra escura ja m'impede o dia.


CANÇÃO IV.

    Vão as serenas ágoas
    Do Mondego descendo,
    E mansamente até o mar não parão;
    Por onde as minhas mágoas
    Pouco a pouco crescendo,
    Para nunca acabar se começárão.
    Alli se me mostrárão
    Neste lugar ameno,
    Em qu'inda agora mouro,
    Testa de neve e d'ouro;
    Riso brando e suave; olhar sereno;
    Hum gesto delicado,
    Que sempre n'alma m'estará pintado.
      Nesta florída terra,
    Leda, fresca e serena,
    Ledo e contente para mi vivia;
    Em paz com minha guerra,
    Glorioso co'a pena
    Que de tão bellos olhos procedia.
    D'hum dia em outro dia,
    O esperar m'enganava:
    Tempo longo passei;
    Com a vida folguei,
    Só porqu'em bem tamanho s'empregava.
    Mas que me presta ja,
    Que tão formosos olhos não os ha?
      Oh quem me alli dissera
    Que d'Amor tão profundo
    O fim pudesse ver eu algum'hora!
    E quem cuidar pudera
    Que houvesse ahi no mundo
    Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
    Para que desde agora,
    Ja perdida a esperança,
    Visse o vão pensamento
    Desfeito em hum momento,
    Sem me poder ficar mais que a lembrança;
    Que sempre estará firme
    Até no derradeiro despedir-me.
      Mas a mor alegria
    Que daqui levar posso,
    E com que defender-me triste espero,
    He que nunca sentia
    No tempo que fui vosso,
    Quererdes-me vós quanto vos eu quero.
    Porque o tormento fero
    De vosso apartamento,
    Não vos dará tal pena
    Como a que me condena;
    Que mais sentirei vosso sentimento,
    Que o que a minh'alma sente.
    Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
      Tu, Canção, estarás
    Agora acompanhando
    Por estes campos estas claras ágoas;
    E por mi ficarás
    Com chôro suspirando;
    Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas,
    Como huma larga historia
    Minhas lagrimas fiquem por memoria.


CANÇÃO V.

    S'este meu pensamento,
    Como he doce e suave,
    D'alma pudesse vir gritando fóra;
    Mostrando seu tormento
    Cruel, aspero e grave,
    Diante de vós só, minha Senhora;
    Pudera ser que agora
    O vosso peito duro
    Tornára manso e brando.
    E então eu, que sempre ando
    Passaro solitario, humilde e escuro,
    Tornado hum cysne puro,
    Brando e sonoro, por o ar voando,
    Com canto manifesto
    Pintára a minha pena, e o vosso gesto.
      Pintára os olhos bellos
    Que trazem nas meninas
    O menino que os seus nelles cegou;
    Os dourados cabellos
    Em tranças d'ouro finas,
    A quem o sol os raios seus baixou;
    A testa que ordenou
    Natura tão formosa;
    O bem proporcionado
    Nariz, lindo, afilado,
    Que cada parte t[~e]e da fresca rosa;
    A boca graciosa,
    Que o querê-la louvar he ja 'scusado.
    Emfim, he hum thesouro;
    Perolas dentes, e palavras ouro.
      Víra-se claramente,
    (Oh Dama delicada!)
    Qu'em vós s'esmerou mais a natureza.
    Mas eu, de gente em gente,
    Trouxera trasladada
    Em meu tormento vossa gentileza;
    E somente a aspereza
    De vossa condição,
    Senhora, não dissera,
    Porque se não soubera
    Qu'em vós podia haver algum senão.
    E se alguem, com razão,
    Porque morres? dissesse, respondêra:
    Morro, porque he tão bella,
    Qu'inda não sou para morrer por ella.
      E quando, por ventura,
    Dama, vos offendesse,
    Escrevendo de vós o que não sento,
    E vossa formosura
    Tanto á terra descesse,
    Que a alcançasse humano entendimento;
    Sería o fundamento
    De tudo o qu'eu cantasse,
    Todo de puro amor;
    Porque o vosso louvor
    Em figura de mágoas se mostrasse.
    E aonde se julgasse
    A causa por o effeito, a minha dor
    Diria alli sem medo:
    Quem me sentir verá de quem procedo.
      Logo então mostraria
    Os olhos saudosos,
    E o suspirar que traz a alma comsigo;
    A fingida alegria;
    Os passos vagarosos;
    O fallar e esquecer-me do que digo;
    Hum pelejar comigo,
    E logo desculpar-me;
    Hum recear ousando;
    Andar meu bem buscando,
    E de o poder achar acovardar-me;
    E, emfim, averiguar-me
    Que o fim de tudo quanto estou fallando,
    São lagrimas e amores;
    São vossas isenções e minhas dores.
      Mas quem terá, Senhora,
    Palavras com qu'iguale
    Com vossa formosura a minha pena;
    E em doce voz de fóra
    Aquella gloria falle
    Que dentro na minh'alma Amor ordena?
    Não póde tão pequena
    Fôrça d'engenho humano
    Com carga tão pezada,
    Se não for ajudada
    D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano,
    Que fazendo-me o dano
    Vão deleitoso e a dor tão moderada,
    Emfim se convertesse
    No gôsto dos louvores qu'escrevesse.
      Canção, não digas mais; e se teus versos
    Á pena vem pequenos,
    Não queirão de ti mais; que dirás menos.


CANÇÃO VI.

    Com força desusada
    Aquenta o fogo eterno
    Huma Ilha nas partes do Oriente,
    D'estranhos habitada,
    Aonde o duro inverno
    Os campos reverdece alegremente.
    A Lusitana gente
    Por armas sanguinosas
    T[~e]e della o senhorio.
    Cercada está d'hum rio
    De maritimas ágoas saudosas.
    Das hervas qu'aqui nascem,
    Os gados juntamente e os olhos pascem.
      Aqui minha ventura
    Quiz que huma grande parte
    Da vida, qu'eu não tinha, se passasse;
    Para que a sepultura
    Nas mãos do fero Marte
    De sangue e de lembranças matizasse.
    Se Amor determinasse
    Que a trôco desta vida,
    De mi qualquer memoria
    Ficasse como historia,
    Que d'huns formosos olhos fosse lida;
    A vida e a alegria
    Por tão doce memoria trocaria.
      Mas este fingimento,
    Por minha dura sórte,
    Com falsas esperanças me convida.
    Não cuide o pensamento
    Que póde achar na morte
    O que não pôde achar tão longa vida.
    Está ja tão perdida
    A minha confiança,
    Que de desesperado,
    Em ver meu triste estado,
    Tambem da morte perco a esperança.
    Mas oh! que s'algum dia
    Desesperar pudesse, viveria.
      De quanto tenho visto
    Ja agora não m'espanto,
    Que até desesperar se me defende.
    Outrem foi causa disto,
    Pois eu nunca fui tanto
    Que causasse este fogo que m'encende.
    Se cuidão que m'offende
    Temor d'esquecimento,
    Oxalá meu perigo
    Me fôra tão amigo,
    Que algum temor deixára ao pensamento!
    Quem vio tamanho enleio,
    Que houvesse ahi'sperança sem receio?
      Quem t[~e]e que perder possa,
    Só póde recear.
    Mas triste quem não póde ja perder!
    Senhora, a culpa he vossa,
    Que para me matar
    Bastára hum'hora só de vos não ver.
    Puzestes-me em poder
    De falsas esperanças:
    E do que mais m'espanto,
    Que nunca vali tanto,
    Que visse tanto bem, como esquivanças.
    Valia tão pequena
    Não póde merecer tão doce pena.
      Houve-se Amor comigo
    Tão brando, ou pouco irado,
    Quanto agora em meus males se conhece.
    Que não ha mor castigo
    Para quem t[~e]e errado,
    Que negar-lhe o castigo que merece.
    Da sórte que acontece
    Ao misero doente,
    Da cura despedido,
    Que o Medico advertido
    Tudo quanto deseja lhe consente;
    O Amor me consentia
    Esperanças, desejos e ousadia.
      E agora venho a dar
    Conta do bem passado
    A esta triste vida e longa ausencia.
    Quem póde imaginar
    Qu'houvesse em mi peccado
    Digno d'huma tão grave penitencia?
    Olhae que he consciencia
    Por tão pequeno êrro,
    Senhora, tanta pena.
    Não vêdes que he onzena?
    Mas se tão longo e misero destêrro
    Vos dá contentamento,
    Nunca m'acabe nelle o meu tormento.
      Rio formoso e claro,
    E vós, ó arvoredos,
    Que os justos vencedores coroais,
    E ao cultor avaro,
    Continuamente ledos,
    D'hum tronco só diversos fructos dais;
    Assi nunca sintais
    Do tempo injúria alg[~u]a,
    Qu'em vós achem abrigo
    As mágoas que aqui digo,
    Em quanto der o sol virtude á l[~u]a;
    Porque de gente em gente
    Saibão que ja não mata a vida ausente.
      Canção, neste destêrro viverás,
    Voz nua e descoberta,
    Até que o tempo em ecco te converta.


CANÇÃO VII.

    Manda-me Amor que cante docemente
    O qu'elle ja em minh'alma t[~e]e impresso,
    Com presupposto de desabafar-me;
    E porque com meu mal seja contente,
    Diz que o ser de tão lindos olhos preso,
    Cantá-lo bastaria a contentar-me.
    Este excellente modo d'enganar-me
    Tomára eu só d'Amor por interêsse,
    Se não s'arrependesse,
    Com a pena o engenho escurecendo.
    Porém a mais me atrevo,
    Em virtude do gesto de qu'escrevo.
    E s'he mais o que canto que o qu'entendo,
    Invoco o lindo aspeito,
    Que póde mais que Amor, em meu defeito.
      Sem conhecer a Amor viver sohia,
    Seu arco e seus enganos desprezando,
    Quando vivendo delles me mantinha.
    Hum Amor enganoso, que fingia,
    Mil vontades alheias enganando,
    Me fazia zombar de quem o tinha.
    No Touro entrava Phebo, e Progne vinha;
    O corno de Acheloo Flora entornava;
    Quando o Amor soltava
    Os fios d'ouro, as tranças encrespadas,
    Ao doce vento esquivas;
    Os olhos rutilando chammas vivas;
    E as rosas entre a neve semeadas;
    Co'o riso tão galante,
    Que hum peito desfizera de diamante.
      Hum não sei que suave respirando,
    Causava hum admiravel, novo espanto,
    Que as cousas insensiveis o sentião.
    Alli as garrulas aves, levantando
    Vozes não ordinarias em seu canto,
    Como eu no meu desejo, s'encendião.
    As fontes crystallinas não corrião,
    D'inflammadas na vista linda e pura;
    Florecia a verdura,
    Que andando co'os divinos pés tocava;
    Os ramos se baixavão,
    Ou d'inveja das hervas que pizavão,
    Ou porque tudo ant'ella se baixava.
    Não houve cousa, emfim,
    Que não pasmasse della, e eu de mim.
      Porque, quando vi dar entendimento
    Ás cousas que o não tinhão, o temor
    Me fez cuidar qu'effeito em mi faria.
    Conheci-me não ter conhecimento:
    Porém só nisto o tive, porque Amor
    Mo deixou para ver o que podia.
    Tanta vingança Amor de mi queria,
    Que mudava a humana natureza
    Nos montes, e a dureza
    Delles em mi por trôco traspassava.
    Oh que gentil partido,
    Trocar o ser do monte sem sentido,
    Por o qu'em hum juizo humano estava!
    Olhae que doce engano!
    Tirar commum proveito de meu dano.
      Assi qu'indo perdendo o sentimento
    A parte racional, m'entristecia
    Vê-la a hum appetite submettida.
    Mas dentro n'alma o fim do pensamento,
    Por tão sublime causa, me dizia
    Qu'era razão ser a razão vencida.
    Assi que quando a via ser perdida,
    A mesma perdição a restaurava:
    E em mansa paz estava
    Cada hum com seu contrário em hum sogeito.
    Oh grão concêrto este!
    Quem será que não julgue por celeste
    A causa donde vem tamanho effeito,
    Que faz n'hum coração
    Que venha o appetite a ser razão?
      Aqui senti d'Amor a mor fineza,
    Como foi ver sentir o insensivel,
    E o ver a mi de mi proprio perder-me:
    E, emfim, senti negar-se a natureza;
    Por onde cri que tudo era possivel
    Aos lindos olhos seus, senão querer-me.
    Despois que ja senti desfallecer-me,
    Em lugar do sentido que perdia,
    Não sei quem m'escrevia
    Dentro n'alma co'as letras da memoria
    O mais deste processo,
    Co'o claro gesto juntamente impresso,
    Que foi a causa de tão longa historia.
    Se bem a declarei,
    Eu não a escrevo, d'alma a trasladei.
      Canção, se quem te ler
    Não crer dos olhos lindos o que dizes,
    Por o que a si s'esconde;
    Os sentidos humanos (lhe responde)
    Não podem dos divinos ser juizes,
    Senão hum pensamento
    Que a falta suppra a fé do entendimento.


CANÇÃO VIII.[3]

    Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente,
    Caso que nunca em verso foi cantado,
    Nem d'antes entre a gente acontecido.
    Assi me paga em parte o meu cuidado;
    Pois que quer que me louve e represente
    Quão bem soube no mundo ser perdido.
    Sou parte, e não serei da gente crido:
    Mas he tamanho o gôsto de louvar-me,
    E de manifestar-me
    Por captivo de gesto tão formoso,
    Que todo o impedimento
    Rompe e desfaz a gloria do tormento
    Peregrino, suave e deleitoso;
    Que bem sei que o que canto
    Ha d'achar menos credito qu'espanto.
      Em vivia do cego Amor isento,
    Porém tão inclinado a viver preso,
    Que me dava desgôsto a liberdade.
    Hum natural desejo tinha acceso
    D'algum ditoso e doce pensamento,
    Que m'illustrasse a insana mocidade.
    Tornava do anno ja a primeira idade;
    A revestida terra s'alegrava,
    Quando o Amor me mostrava
    De fios d'ouro as tranças desatadas
    Ao doce vento estivo;
    Os olhos rutilando lume vivo,
    As rosas entre a neve semeadas;
    O gesto grave e ledo,
    Que juntos move em mi desejo e medo.
      Hum não sei que suave respirando,
    Causava hum desusado e novo espanto,
    Que as cousas insensiveis o sentião.
    Porque as garrulas aves, entretanto
    Vozes desordenadas levantando,
    Como eu em meu desejo, s'encendião.
    As fontes crystallinas não corrião,
    Inflammadas na vista clara e pura;
    Florecia a verdura,
    Que, andando, co'os ditosos pés tocava;
    As ramas se baixavão,
    Ou d'inveja das hervas que pizavão,
    Ou porque tudo ant'elles se baixava:
    O ar, o vento, o dia,
    D'espiritos continuos influia.
      E quando vi que dava entendimento
    A cousas fóra delle, imaginei
    Que milagres faria em mi que o tinha:
    Vi que me desatou da minha lei,
    Privando-me de todo sentimento,
    E em outra transformando a vida minha.
    Com tamanhos poderes d'Amor vinha,
    Que o uso dos sentidos me tirava.
    E não sei como o dava
    Contra o poder e ordem da natura,
    Ás arvores, aos montes,
    Á rudeza das hervas e das fontes,
    Que conhecêrão logo a vista pura.
    Fiquei eu só tornado
    Quasi em hum rudo tronco d'admirado.
      Despois de ter perdido o sentimento,
    D'humano hum só desejo me ficava,
    Em que toda a razão se convertia.
    Mas não sei quem no peito m'affirmava
    Que por tão alto e doce pensamento,
    Com razão, a razão se me perdia.
    Assi que quando mais perdida a via,
    Na sua mesma perda se ganhava.
    Em doce paz estava
    Com seu contrário proprio em hum sogeito.
    Oh caso estranho e novo!
    Por alta e grande certamente approvo
    A causa, donde vem tamanho effeito,
    Que faz n'hum coração
    Que hum desejo, sem ser, seja razão.
      Despois d'entregue ja ao meu desejo,
    Ou quasi nelle todo convertido,
    Solitario, sylvestre e inhumano,
    Tão contente fiquei de ser perdido,
    Que me parece tudo quanto vejo
    Escusado, senão meu proprio dano.
    Bebendo este suave e doce engano,
    A trôco dos sentidos que perdia,
    Vi que Amor m'esculpia
    Dentro n'alma a figura illustre e bella,
    A gravidade, o siso,
    A mansidão, a graça, o doce riso.
    E porque não cabia dentro nella
    De bens tamanhos tanto,
    Sahe por a boca convertido em canto.
      Canção, se te não crerem
    Daquelle claro gesto quanto dizes,
    Por o que se lhe esconde;
    Os sentidos humanos (lhe responde)
    Não podem dos divinos ser juizes,
    Senão hum pensamento,
    Que a falta suppra a fé do entendimento.


CANÇÃO IX.

    Tomei a triste pena
    Ja de desesperado
    De vos lembrar as muitas que padeço;
    Vendo que me condena
    A ficar eu culpado
    O mal que me tratais, e o que mereço.
    Confesso que conheço
    Qu'em parte a causa dei
    Ao mal em que me vejo,
    Pois sempre o meu desejo
    A tão largas promessas entreguei;
    Mas não tive suspeita
    Que seguisseis tenção tão imperfeita.
      S'em vosso esquecimento
    Tão condemnado estou,
    Como os sinaes demostrão, que mostrais;
    Neste vivo tormento,
    Lembranças mais não dou
    Que as que desta razão tomar queirais:
    Olhae que me tratais
    Assi de dia em dia
    Com vossas esquivanças;
    E as vossas esperanças,
    De que vãamente ja m'enriquecia,
    Renovão a memoria;
    Pois com a ter de vós só tenho gloria.
      E s'isto conhecesseis
    Ser verdade mais pura
    Do que d'Arabia o ouro reluzente;
    Inda que não quizesseis,
    Essa condição dura
    Em branda se mudára facilmente.
    Eu, vendo-me innocente,
    Senhora neste caso,
    Bem no arbitrio o puzera
    De quem sentença dera,
    Com que o que he justo se mostrasse raso;
    Se, emfim, não receára
    Que a vós por mi, e a mi por vós matára.
      Em vós escrita vi
    Vossa grande dureza,
    E n'alma escrita está, que de vós vive:
    Não que acabasse alli
    Sua grande firmeza
    O triste desengano qu'então tive;
    Porque antes que me prive
    A dor de meus sentidos,
    Ao penoso tormento
    Acode o entendimento
    Com dous fortes soldados guarnecidos
    De rica pedraria,
    Que ficão sendo minha luz e guia.
      Destes acompanhado
    Estou pôsto sem medo
    A tudo o que o fatal destino ordene:
    Póde ser que cansado,
    Ou seja tarde, ou cedo,
    Com pena de penar-me, me despene.
    E quando me condene
    (Qu'he o que mais espero)
    Inda a penas maiores;
    Perdidos os temores,
    Por mais que venhão, não direi, não quero.
    Estou, emfim, tão forte,
    Que não pode mudar-me a propria morte.
      Canção, se ja não queres
    Crer tanta crueldade,
    Lá vae onde verás minha verdade.


CANÇÃO X.

    Junto d'hum sêcco, duro, esteril monte,
    Inutil e despido, calvo e informe,
    Da natureza em tudo aborrecido;
    Onde nem ave vôa, ou fera dorme,
    Nem corre claro rio, ou ferve fonte,
    Nem verde ramo faz doce ruido;
    Cujo nome, do vulgo introduzido,
    He Feliz, por antiphrasi infelice;
    O qual a natureza
    Situou junto á parte,
    Aonde hum braço d'alto mar reparte
    A Abassia da Arabica aspereza,
    Em que fundada ja foi Berenice,
    Ficando á parte, donde
    O sol, que nella ferve, se lh'esconde;
      O cabo se descobre, com que a costa
    Africana, que do Austro vem correndo,
    Limite faz, Arómata chamado:
    Arómata outro tempo; que volvendo
    A roda, a ruda lingua mal composta
    Dos proprios outro nome lhe t[~e]e dado.
    Aqui, no mar, que quer apressurado
    Entrar por a garganta deste braço,
    Me trouxe hum tempo e teve
    Minha fera ventura.
    Aqui nesta remota, aspera e dura
    Parte do mundo, quiz que a vida breve
    Tambem de si deixasse hum breve espaço;
    Porque ficasse a vida
    Por o mundo em pedaços repartida.
      Aqui me achei gastando huns tristes dias,
    Tristes, forçados, maos e solitarios,
    De trabalho, de dor, e d'ira cheios:
    Não tendo tãosomente por contrarios
    A vida, o sol ardente, as ágoas frias,
    Os ares grossos, férvidos e feios,
    Mas os meus pensamentos, que são meios
    Para enganar a propria natureza,
    Tambem vi contra mi;
    Trazendo-me á memoria
    Alguma ja passada e breve gloria,
    Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi;
    Por me dobrar dos males a aspereza;
    Por mostrar-me que havia
    No mundo muitas horas d'alegria.
      Aqui'stive eu com estes pensamentos
    Gastando tempo e vida; os quaes tão alto
    Me subião nas asas, que cahia
    (Oh vêde se seria leve o salto!)
    De sonhados e vãos contentamentos
    Em desesperação de ver hum dia.
    O imaginar aqui se convertia
    Em improvisos choros e em suspiros,
    Que rompião os ares.
    Aqui a alma captiva,
    Chagada toda, estava em carne viva,
    De dores rodeada e de pezares,
    Desamparada e descoberta aos tiros
    Da soberba Fortuna;
    Soberba, inexoravel e importuna.
      Não tinha parte donde se deitasse,
    Nem esperança alguma, onde a cabeça
    Hum pouco reclinasse, por descanso:
    Tudo dor lhe era e causa que padeça,
    Mas que pereça não; porque passasse
    O que quiz o destino nunca manso.
    Oh qu'este irado mar gemendo amanso!
    Estes ventos, da voz importunados,
    Parece que se enfreião:
    Somente o Ceo severo,
    As estrellas e o fado sempre fero,
    Com meu perpétuo damno se recreião;
    Mostrando-se potentes e indignados
    Contra hum corpo terreno,
    Bicho da terra vil e tão pequeno.
      Se de tantos trabalhos só tirasse
    Saber inda por certo que algum'hora
    Lembrava a huns claros olhos que ja vi;
    E s'esta triste voz, rompendo fóra,
    As orelhas angelicas tocasse
    Daquella em cuja vista ja vivi;
    A qual, tornando hum pouco sôbre si,
    Revolvendo na mente pressurosa
    Os tempos ja passados
    De meus doces errores,
    De meus suaves males e furores,
    Por ella padecidos e buscados,
    E (pôsto que ja tarde) piedosa,
    Hum pouco lhe pezasse,
    E lá entre si por dura se julgasse:
      Isto só que soubesse me seria
    Descanso para a vida que me fica;
    Com isto affagaria o soffrimento.
    Ah Senhora! Ah Senhora! E que tão rica
    Estais, que cá tão longe d'alegria
    Me sustentais com doce fingimento!
    Logo que vos figura o pensamento,
    Foge todo o trabalho e toda a pena.
    Só com vossas lembranças
    Me acho seguro e forte
    Contra o rosto feroz da fera morte;
    E logo se me juntão esperanças
    Com que, a fronte tornada mais serena,
    Torno os tormentos graves
    Em saudades brandas e suaves.
      Aqui com ellas fico perguntando
    Aos ventos amorosos, que respirão
    Da parte donde estais, por vós Senhora;
    Ás aves qu'alli voão, se vos virão,
    Que fazieis, qu'estaveis praticando;
    Onde, como, com quem, que dia e que hora.
    Alli a vida cansada se melhora,
    Toma espiritos novos, com que vença
    A fortuna e trabalho,
    Só por tornar a ver-vos,
    Só por ir a servir-vos e querer-vos.
    Diz-me o tempo que a tudo dará talho:
    Mas o desejo ardente, que detença
    Nunca soffreo, sem tento
    Me abre as chagas de novo ao soffrimento.
      Assi vivo; e s'alguem te perguntasse,
    Canção, porque não mouro;
    Podes-lhe responder; que porque mouro.


CANÇÃO XI.

    Vinde cá meu tão certo Secretario
    Dos queixumes que sempre ando fazendo,
    Papel, com quem a pena desaffógo.
    As semrazões digamos, que vivendo
    Me faz o inexoravel e contrário
    Destino, surdo a lagrimas e a rôgo.
    Lancemos ágoa pouca em muito fogo,
    Accenda-se com gritos hum tormento,
    Que a todas as memorias seja estranho.
    Digamos mal tamanho
    A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,
    A quem ja muitas vezes o contei,
    Tanto debalde como o conto agora.
    Mas ja que para errores fui nascido,
    Vir este a ser hum delles não duvido.
    E, pois ja d'acertar estou tão fóra,
    Não me culpem tambem se nisto errei.
    Se quer este refúgio só terei,
    Fallar e errar, sem culpa, livremente.
    Triste quem de tão pouco está contente!
      Ja me desenganei que de queixar-me
    Não s'alcança remedio; mas quem pena,
    Forçado lh'he gritar, se a dor he grande.
    Gritarei; mas he debil e pequena
    A voz para poder desabafar-me;
    Porque nem com gritar a dor se abrande.
    Quem me dará se quer que fóra mande
    Lagrimas e suspiros infinitos,
    Iguaes ao mal que dentro na alma mora?
    Mas quem pôde algum'hora
    Medir o mal com lagrimas, ou gritos?
    Direi, emfim, aquillo que m'ensinão
    A ira, e mágoa, e dellas a lembrança,
    Que outra dor he por si mais dura e firme.
    Chegae, desesperados, para ouvir-me;
    E fujão os que vivem d'esperança,
    Ou aquelles que nella se imaginão;
    Porque Amor e Fortuna determinão
    De lhes deixar poder para entenderem
    Á medida dos males que tiverem.
      Quando vim da materna sepultura
    De novo ao mundo, logo me fizerão
    Estrellas infelices obrigado:
    Com ter livre alvedrio, mo não derão;
    Qu'eu conheci mil vezes na ventura
    O melhor, e o peor segui forçado.
    E para que o tormento conformado
    Me dessem com a idade, quando abrisse
    Inda menino os olhos brandamente,
    Mândão que diligente
    Hum menino sem olhos me ferisse.
    As lagrimas da infancia ja manavão
    Com huma saudade namorada;
    O som dos gritos, que no berço dava,
    Ja como de suspiros me soava.
    Co'a idade e fado estava concertado:
    Porque quando por caso m'embalavão,
    Se d'Amor tristes versos me cantavão,
    Logo m'adormecia a natureza;
    Que tão conforme estava co'a tristeza!
      Foi minh'ama huma fera; que o destino
    Não quiz que mulher fosse a que tivesse
    Tal nome para mi; nem a haveria.
    Assi criado fui, porque bebesse
    O veneno amoroso de menino,
    Que na maior idade beberia,
    E por costume não me mataria.
    Logo então vi a image e semelhança
    Daquella humana fera tão formosa,
    Suave e venenosa,
    Que me criou aos peitos da esperança;
    De quem eu vi despois o original,
    Que de todos os grandes desatinos
    Faz a culpa soberba e soberana.
    Parece-me que tinha fórma humana,
    Mas scintilava espiritos divinos.
    Hum meneio, e presença tinha tal,
    Que se vangloriava todo o mal
    Na vista della: a sombra co'a viveza
    Excedia o poder da natureza.
      Que genero tão novo de tormento
    Teve Amor, sem que fosse não somente
    Provado em mi, mas todo executado?
    Implacaveis durezas, que ao fervente
    Desejo, que dá fôrça ao pensamento,
    Tinhão de seu proposito abalado,
    E corrido de ver-se e injuriado:
    Aqui sombras phantasticas, trazidas
    D'algumas temerarias esperanças;
    As bem-aventuranças
    Tambem nellas pintadas e fingidas.
    Mas a dor do desprêzo recebido,
    Que todo o phantasiar desatinava,
    Estes enganos punha em desconcêrto.
    Aqui o adivinhar, e o ter por certo
    Qu'era verdade quanto adivinhava,
    E logo o desdizer-me de corrido;
    Dar ás cousas que via outro sentido;
    E para tudo, emfim, buscar razões:
    Mas erão muitas mais as semrazões.
      Não sei como sabía estar roubando
    Co'os raios as entranhas, que fugião
    Par'ella por os olhos subtilmente!
    Pouco a pouco invisiveis me sahião;
    Bem como do véo humido exhalando
    Está o subtil humor o sol ardente.
    O gesto puro, emfim, e transparente,
    Para quem fica baixo e sem valia
    Este nome de bello e de formoso;
    O doce e piedoso
    Mover d'olhos, que as almas suspendia,
    Forão as hervas magicas, que o Ceo
    Me fez beber: as quaes por longos anos
    N'outro ser me tiverão transformado,
    E tão contente de me ver trocado,
    Que as mágoas enganava co'os enganos;
    E diante dos olhos punha o véo,
    Que m'encobrisse o mal que assi cresceo:
    Como quem com affagos se criava
    Daquella para quem crescido estava.
      Pois quem póde pintar a vida ausente,
    Com hum descontentar-me quanto via,
    E aquell'estar tão longe donde estava;
    O fallar sem saber o que dizia;
    Andar sem ver por onde, e juntamente
    Suspirar sem saber que suspirava?
    Pois quando aquelle mal m'atormentava,
    E aquella dor, que das Tartareas ágoas
    Sahio ao mundo, e mais que todas doe,
    Que tantas vezes soe
    Duras íras tornar em brandas mágoas?
    Agora co'o furor da mágoa irado,
    Querer, e não querer deixar de amar;
    E mudar n'outra parte, por vingança,
    O desejo privado d'esperança,
    Que tão mal se podia ja mudar?
    Agora a saudade do passado,
    Tormento puro, doce e magoado,
    Que converter fazia estes furores
    Em magoadas lagrimas d'amores?
      Que desculpas comigo só buscava,
    Quando o suave Amor me não soffria
    Culpa na cousa amada, e tão amada!
    Erão, emfim, remedios que fingia
    O medo do tormento, qu'ensinava
    A vida a sustentar-se d'enganada.
    Nisto huma parte della foi passada;
    Na qual se tive algum contentamento
    Breve, imperfeito, timido, indecente,
    Não foi senão semente
    D'hum cumprido, amarissimo tormento.
    Este curso contino de tristeza,
    Estes passos vãamente derramados,
    Me forão apagando o ardente gôsto,
    Que tão de siso n'alma tinha pôsto,
    Daquelles pensamentos namorados
    Com que criei a tenra natureza,
    Que do longo costume da aspereza,
    Contra quem fôrça humana não resiste,
    Se converteo no gôsto de ser triste.
      Dest'arte a vida em outra fui trocando;
    Eu não, mas o destino fero, irado;
    Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára.
    Fez-me deixar o patrio ninho amado,
    Passando o longo mar, que ameaçando
    Tantas vezes m'esteve a vida chara.
    Agora exprimentando a furia rara
    De Marte, que nos olhos quiz que logo
    Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.
    E neste escudo meu
    A pintura verão do infesto fogo.
    Agora peregrino, vago, errante,
    Vendo nações, linguagens e costumes,
    Ceos varios, qualidades differentes,
    Só por seguir com passos diligentes
    A ti, Fortuna injusta, que consumes
    As idades, levando-lhes diante
    Huma esperança em vista de diamante:
    Mas quando das mãos cahe se conhece
    Que he fragil vidro aquillo que apparece.
      A piedade humana me faltava,
    A gente amiga ja contrária via,
    No perigo primeiro; e no segundo,
    Terra em que pôr os pés me fallecia,
    Ar para respirar se me negava,
    E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.
    Que segredo tão arduo e tão profundo,
    Nascer para viver e para a vida,
    Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella!
    E não poder perdella,
    Estando tantas vezes ja perdida!
    Emfim, não houve trance de fortuna,
    Nem perigos, nem casos duvidosos,
    Injustiças daquelles que o confuso
    Regimento do mundo, antigo abuso,
    Faz sôbre os outros homens poderosos,
    Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna
    Do soffrimento meu, que a importuna
    Perseguição de males em pedaços
    Mil vezes fez á fôrça de seus braços.
      Não conto tantos males, como aquelle
    Que despois da tormenta procellosa,
    Os casos della conta em porto ledo;
    Qu'inda agora a fortuna fluctuosa
    A tamanhas miserias me compelle,
    Que de dar hum só passo tenho medo.
    Ja de mal que me venha não m'arredo,
    Nem bem que me falleça ja pretendo;
    Que para mi não val astucia humana,
    De fôrça soberana,
    Da Providencia, emfim, Divina pendo.
    Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo
    Para consolação de tantos danos.
    Mas a fraqueza humana quando lança
    Os olhos no que corre, e não alcança
    Senão memoria dos passados anos;
    As ágoas qu'então bebo, e o pão que como,
    Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo,
    Senão com fabricar na phantasia
    Phantasticas pinturas d'alegria.
      Que se possivel fosse que tornasse
    O tempo para traz, como a memoria,
    Por os vestigios da primeira idade;
    E de novo tecendo a antigua historia
    De meus doces errores, me levasse
    Por as flores que vi da mocidade;
    E a lembrança da longa saudade
    Então fosse maior contentamento,
    Vendo a conversação leda e suave,
    Onde huma e outra chave
    Esteve de meu novo pensamento,
    Os campos, as passadas, os sinais,
    A vista, a neve, a rosa, a formosura,
    A graça, a mansidão, a cortezia,
    A singela amizade, que desvia
    Toda a baixa tenção, terrena, impura,
    Como a qual outra alguma não vi mais...
    Ah vãas memorias! onde me levais
    O debil coração, qu'inda não posso
    Domar bem este vão desejo vosso?
      Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando,
    Sem o sentir, mil annos; e se acaso
    Te culparem de larga e de pezada;
    Não póde ser (lhe dize) limitada
    A ágoa do mar em tão pequeno vaso.
    Nem eu delicadezas vou cantando
    Co'o gôsto do louvor, mas explicando
    Puras verdades ja por mi passadas.
    Oxalá forão fábulas sonhadas!


CANÇÃO XII.

    Nem roxa flor de Abril,
    Pintor do campo ameno e da verdura,
    Colhida entre outras mil,
    Foi nunca assi agradavel á donzella
    Cortez, alegre e bella,
    De sua mãe cuidado e glória pura,
    Como a mi foi a inculta formosura
    Natural, que pudera
    A Saturno render na sua Esphera.
      Natural fonte agreste,
    Não lavrada d'Artifice excellente,
    Mas por arte celeste
    Derivada de rustico penedo,
    Não fez ja mais tão ledo
    Cansado caçador por sesta ardente,
    Quanto o cuidado a mi me fez contente
    Do ver tão descuidado,
    Que faz sereno a Jupiter irado.
      Fructa, que sem concêrto
    Naturalmente em ramos se pendura,
    Achada por acêrto;
    A quem pintada a vê de sangue e leite,
    Não lhe dara o deleite,
    Qu'essa graça me dá sem compostura,
    Ornamento da mesma formosura,
    E o toucado sem arte,
    Que tornára pastor ao bravo Marte.
      A manhãa graciosa,
    Que derramando sahe d'entre os cabellos
    A flor, o lirio, a rosa,
    Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio,
    Não faz o beneficio,
    Que faz a luz dos vossos olhos bellos
    A quem os vê tão puros e singelos;
    E esse innocente riso,
    Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.
      Outeiros coroados
    Das árvores que fazem a espessura
    Com os ramos copados
    Alegre, que mão destra os não cultiva,
    Graça tão excessiva
    Não t[~e]e na sua natural verdura,
    Quanta na d'esses olhos, clara e pura,
    Deposita a esperança,
    Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança.
      Dos simples passarinhos
    A musica sem arte concertada,
    D'entre os verdes raminhos,
    Tão suave não he, tão deleitosa
    A quem na selva umbrosa
    Com mente ouvindo-a está toda enlevada,
    Quanto a mi essa falla doce agrada,
    E o natural aviso,
    Que roubão a Mercurio sceptro e siso.
      De frescos rios ágoa,
    Que clara entre arvoredos se deriva,
    Cahindo d'alta fragoa,
    Esmaltando de perolas no prado
    O verde delicado,
    Com brando som aos olhos fugitiva,
    Não nos alegra quanto a graça esquiva
    D'essa luz soberana,
    Que faz cortez a rustica Diana.
      A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!)
    Vendo estás ja prostrado
    Saturno triste, Jupiter irado,
    Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,
    E Mercurio, e Diana, e toda estrella.


CANÇÃO XIII.

    Oh pomar venturoso,
    Onde co'a natureza
    A subtil arte t[~e]e demanda incerta;
    Qu'em sítio tão formoso
    A maior subtileza
    D'engenho em ti nos mostras descoberta!
    Nenhum juizo acerta,
    De cego e d'enlevado,
    Se t[~e]e em ti mais parte
    A natureza, ou arte;
    Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado,
    Pois em feliz terreno
    Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno.
      De teu formoso pêzo
    Se mostra o monte ledo,
    E o caudaloso Zezere t'estranha,
    Porque ólhas com desprêzo
    Seu crystal puro e quedo,
    Que com Pera os teus pés rodeia e banha.
    Em ti pintura estranha,
    A que Apelles cedêra,
    Enigmas intricados,
    E myrtos animados
    Vemos, que o proprio Escopas não fizera;
    Em ti, co'a paz interna,
    T[~e]e o santo prazer morada eterna.
      Os jardins da famosa
    Babel, tão nomeados,
    Por maravilha o mundo não levante,
    Inda que com gloriosa
    Voz, qu'estão pendurados
    Do instavel ar, a fama antigua cante:
    Nem haja quem s'espante
    Dos famosos d'Alcino;
    Nem as mais doutas pennas
    Cantem os de Mecenas,
    Cultor de todo engenho peregrino;
    Mas onde quer que vôe,
    De ti só falle a Fama, e te pregôe.
      Que s'era antiguamente
    De pomos d'ouro bellos
    O jardim das Hesperidas ornado;
    E, a pezar da serpente
    Que os guardou, só colhellos
    Pôde o famoso Alcides, d'esforçado;
    Tu, mais avantajado,
    Mostras a hum'alma casta
    Seguir o que deseja,
    Fugir da torpe inveja
    (Pomos d'ouro que o tempo não contrasta):
    Emfim, co'a caridade
    Vencer o Inferno, abrir a Eternidade.
      Por tanto da ventura,
    Para ti reservada,
    Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;
    Porque sejas figura
    Da gloria avantajada
    Delle mesmo, e qu'em ti se represente;
    Porqu'em quanto sustente
    O ceo, o mar e a terra,
    Seus feitos milagrosos,
    Mysterios mais gloriosos,
    Com que a morte das almas nos desterra,
    Por onde em nossas almas
    Com mais pompas triumpha e com mais palmas,
    .......................
      Goza, pois, longamente
    Teu venturoso fado,
    Da mãe do teu autor bem possuido:
    Qu'em ti, sempre contente
    De seu sublime estado,
    A alma dos seus alegra e o sentido.
    Cada qual preferido
    Nas grandes qualidades
    Ao sabio Nestor seja,
    Para que o mundo os veja
    Exceder as longuissimas idades;
    E com a longa vida
    Seja sua memoria ennobrecida.
      Canção, pois mais famosas
    Por ti não podem ser
    Deste monte as estancias deleitosas;
    Bem póde succeder
    Que aquelle que os teus numeros governa,
    Por querê-las cantar te faça eterna.


CANÇÃO XIV.

    Quem com sólido intento
    Os segredos buscar da natureza,
    Quanto d'Athenas préza,
    Entregue ao mar irado, ao leve vento:
    Em forjar meu tormento,
    Nova Philosophia,
    D'experiencias feita, Amor m'ensina.
    Das Leis do antigo tempo bem declina;
    Que Amor a natureza em mi varía;
    Donde escola de Sabios nunca vio
    Em natural sogeito
    Quanto Amor em meu peito descobrio.
      As aves no ar sereno,
    O gado de Proteo nas ágoas pasce;
    Vive o homem e nasce
    Neste mundo, qual mundo mais pequeno:
    Eu tudo desordeno,
    Em todos dividido;
    A boca no ar, na terra o entendimento:
    Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;
    O coração no fogo he consumido:
    Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce,
    T[~e]e effeito tão vário,
    Qu'em hum humor contrário o fogo cresce.
      Da vista Amor sohia
    Abrir ao coração segura entrada:
    Lei he ja profanada;
    Que quando a luz d'huns olhos me fería,
    Amando o que não via,
    Qual d'escopeta o lume,
    Primeiro o querer vi, que a causa visse.
    Quem o desejo co'a esperança unisse,
    Cego iria apos cego e vil costume;
    Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,
    Morta a esperança vejo,
    Onde sempre o desejo se sustenta.
      Em vão se considera
    Que hum semelhante a outro busca e ama,
    E que foge e desama
    Todo mortal a morte esquiva e fera:
    Sigo huma linda fera,
    Qu'esconde em vista humana
    Coração de diamante e peito d'aço,
    De meu sangue faminta; e satisfaço
    Com cruel morte a sêde deshumana.
    Assi que, sendo em tudo differente,
    Corro apos minha sorte,
    E se m'entrego á morte, estou contente.
      Cahe em maior defeito
    Quem cuida ser sciencia clara e certa,
    Que a causa descoberta
    Sempre produz a si conforme o effeito:
    Rendeo-me hum lindo objeito,
    Que, sendo neve pura,
    Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;
    Qu'esta formosa fera fugitiva,
    Com ser neve, do fogo s'assegura:
    Donde infiro por certo (e cesse a fama
    Vãa, mentirosa e leve)
    Que não desfaz a neve ardente chama.
      Bem no effeito se sente
    Cessar, cessando a causa donde pende;
    Que o fogo mais se accende,
    Estando á vista, donde mais ausente;
    Mas n'alma vivamente
    A trazem debuxada,
    De noite Amor, de dia o pensamento:
    E quando Apollo deixa o claro assento,
    Por entre sombras vejo a Nympha amada.
    Pois se sem luz Amor os olhos ceva,
    Cego, se não concede
    Qu'em nada a Amor impede a escura treva.
      Erra quem atrevido
    Pregôa ser maior que a parte o todo:
    Amor me t[~e]e de modo,
    Qu'estou n'hum'alma minha convertido:
    Desta gloria ha nascido
    O temor de perdê-la:
    E, postoque o receio a muitos finge
    Lá na imaginação Chimera e Sfinge
    De mal futuro, que urde imiga estrella,
    Vejo em mi, por incognito segredo,
    Quando estou mais contente,
    Que só do bem presente nasce o medo.
      T[~e]e-se por manifesto
    Parecer-se ao sogeito o accidente;
    Mas inda em mi se sente
    O pensamento, a côr, o riso, o gesto;
    E, tendo todo o resto
    Da vida ja perdido
    Neste tormento meu tão duro e esquivo,
    A gostos morto estou, a penas vivo.
    E, sendo morto ja, vive o sentido,
    Porque sinta que n'alma despedida
    Póde em meu mal unir-se
    O ficar e o partir-se, a morte e a vida.
      Destas razões, Canção, infiro e creio,
    Que ou se mudou em tudo a fórma usada
    Da natural firmeza,
    Ou tenho a natureza em mi mudada.


CANÇÃO XV.

    Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura,
    Que sempre na alma vejo?
    Ou me pinta o desejo
    O bem qu'em vão cad'hora m'assegura?
    Mal póde a noite escura,
    Amando a sombra fria,
    Mandar-me em sonho a luz formosa e bella,
    Que se não torne em dia,
    De seus luzentes raios inflammada.
    Oh vista desejada
    De graciosa Nympha e viva estrella!
    Que ha tanto que por este mar navego
    (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.
      Nesses formosos olhos, d'enlevada,
    Minh'alma se escondeo,
    Quando ordenava o Ceo
    Que vivesse comigo desterrada.
    Vós a mais certa estrada
    De ver a summa alteza,
    Do efeito a causa abris a est'alma minha.
    Assi mortal belleza
    Só della nasce, e nella se resume;
    Assi celeste lume
    Lá dos ceos se deriva, e lá caminha.
    Pois, como a Deos unir-me a vista possa,
    Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa?
      Se me quereis prender a parte a parte,
    Cabello ondado e louro,
    Tecei-me a rede de ouro
    Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte.
    Des que com gentil arte
    Vestis de flores bellas
    A terra em que tocais co'a bella planta,
    Quantas vezes com vellas
    Quiz n'huma d'essas flores transformar-me?
    Porque, vendo pizar-me
    D'esse candido pé, que a neve espanta,
    Póde ser que na flor mudado fôra
    Que deo a Juno irada a linda Flora.
      Mas onde te acolheste (ó doce vida!)
    Mais leve e pressurosa,
    Do que na selva umbrosa
    Cerva d'aguda setta vai ferida?
    Se para tal partida,
    Meus olhos, vos abristes,
    Cerrára-vos o somno eternamente,
    Antes que ver-vos tristes,
    Perdendo tão suave e doce engano!
    Agora, com meu dano,
    Vêdes, para mor mágoa, claramente,
    Neste bem fugitivo e somno leve,
    Que mal não ha mais longo, que hum bem breve.
      Ditoso Endymião que a deosa chara,
    Que a noite vai guiando,
    Teve em braços sonhando!
    Ah quem de sonho tal nunca acordára!
    Tu só, Aurora avara,
    Quando os olhos feriste,
    Me mataste cruel d'inveja pura.
    Mas se d'esta alma triste
    A negra escuridão vencer quizeste,
    Sabe qu'em vão nasceste;
    Que para desfazer-se a nevoa escura
    De meus olhos, importa estar presente
    Outro sol, outra aurora, outro Oriente.
      Se a luz de meu Planeta,
    Não m'aviva, Canção, branda e quieta,
    Qual flor de chuva, em breve consumida,
    Verás desfeita em lagrimas a vida.


CANÇÃO XVI.

    Por meio d'humas serras mui fragosas,
    Cercadas de sylvestres arvoredos,
    Retumbando por asperos penedos,
    Correm perennes ágoas deleitosas.
    Na ribeira de Buina, assi chamada,
    Celebrada,
    Porqu'em prados
    Esmaltados
    Com frescura
    De verdura,
    Assi se mostra amena, assi graciosa,
    Qu'excede a qualquer outra mais formosa;
      As correntes se vem, que acceleradas,
    As hervas regalando e as boninas,
    Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas,
    Por diversas ribeiras derivadas.
    Com mil brancas conchinhas a aurea areia
    Bem se arreia;
    Voão aves;
    Mil suaves
    Passarinhos
    Nos raminhos
    Acordemente estão sempre cantando,
    Com doce accento os ares abrandando.
      O doce rouxinol n'hum ramo canta,
    E d'outro o pintasirgo lhe responde;
    A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,
    O caçador sentindo, se levanta:
    Voando vai ligeira mais que o vento;
    Outro assento
    Vai buscando;
    Porém quando
    Vai fugindo;
    Retinindo,
    Traz ella mais veloz a setta corre,
    De que ferida logo cahe e morre.
      Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo,
    Co'o peito ensanguentado anda voando,
    Cibato para o ninho indo buscando;
    A leda codorniz vem ao reclamo
    Do sagaz caçador, que a rede estende,
    E pretende
    Com engano
    Fazer dano
    Á coitada,
    Qu'enganada
    D'huns esparzidos grãos de louro trigo,
    Nas mãos vai a cahir de seu imigo.
      Aqui sôa a calhandra na parreira;
    A rôla geme; palra o estorninho;
    Sahe a candida pomba do seu ninho;
    O tordo pousa em cima da oliveira:
    Vão as doces abelhas susurrando,
    E apanhando
    O rocio
    Fresco e frio
    Por o prado
    D'herva ornado,
    Com que o aureo licor fazem, que deo
    Á humana gente a indústria d'Aristeo.
      Aqui as uvas luzidas, penduradas
    Das pampinosas vides, resplandecem;
    As frondiferas árvores se offrecem
    Com differentes fructos carregadas:
    Os peixes n'ágoa clara andão saltando,
    Levantando
    As pedrinhas,
    E as conchinhas
    Rubicundas,
    Que as jucundas
    Ondas comsigo trazem, crepitando
    Por a praia alva com ruido brando.
      Aqui por entre as serras se levantão
    Animaes Calidoneos, e os veados
    Na fugida inda mal assegurados,
    Porque do som dos proprios pés s'espantão.
    Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa
    Da frondosa
    Breve mata,
    Donde a cata
    Cão ligeiro.
    Mas primeiro
    Qu'ella ao contrário férvido s'entregue,
    Ás vezes deixa em branco a quem a segue.
      Luzem as brancas e purpúreas flores,
    Com que o brando Favonio a terra esmalta;
    O formoso jacintho alli não falta,
    Lembrado dos antiguos seus amores.
    Inda na flor se mostrão esculpidos
    Os gemidos:
    Aqui Flora
    Sempre mora;
    E com rosas
    Mais formosas,
    Com lirios e boninas mil fragrantes,
    Alegra os seus amores circumstantes.
      Aqui Narciso em líquido crystal
    Se namora de sua formosura:
    Nelle as pendentes ramas da'spessura
    Debuxando-se estão ao natural.
    Adonis, com que a linda Cytherêa
    Se recrêa,
    Bem florido,
    Convertido
    Na bonina,
    Qu'Erycina
    Por imagem deixou de qual sería
    Aquelle por quem ella se perdia.
      Lugar alegre, fresco, accommodado
    Para se deleitar qualquer amante,
    A quem com sua ponta penetrante
    O cego Amor tivesse derribado;
    E para memorar ao som das ágoas
    Suas mágoas
    Amorosas,
    As cheirosas
    Flores vendo,
    Escolhendo,
    Para fazer preciosas mil capellas,
    E dar por grão penhor a Nymphas bellas.
      Eu dellas, por penhor de meus amores,
    Huma capella á minha deosa dava:
    Que lhe queria bem, bem lhe mostrava
    O bem-mequeres entre tantas flores:
    Porém, como se fôra mal-mequeres,
    Os poderes
    Da crueldade
    Na beldade
    Bem mostrou;
    Desprezou
    A dadiva de flores; não por minha,
    Mas porque muitas mais ella em si tinha.


CANÇÃO XVII.

    A vida ja passei assaz contente,
    Livre tinha a vontade e o pensamento,
    Sem receios d'Amor, nem da Ventura:
    Mas isto foi hum bem d'hum só momento;
    E á minha custa vejo claramente,
    Que a vida não dá algum de muita dura.
    No tempo em qu'eu vivia mais segura
    D'Amor e seu cuidado,
    Por me ver n'hum estado
    Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte;
    Não sinto por qual arte
    Me vejo entregue a elle de tal sorte,
    Qu'em quanto tarda a morte,
    A esperança do bem tenho perdida.
    Ai quão devagar passa a triste vida!
      Quantas vezes eu triste aqui ouvia
    O meu Felicio, e outros mil pastores,
    Queixar-se em vão de minha crueldade!
    E mais surda então eu a seus clamores,
    Que aspide surda, ou surda penedia,
    Julgava os seus amores por vaidade.
    Agora em pago disto a liberdade,
    A vontade e o desejo
    De todo entregue vejo
    A quem, inda que brade, não responde;
    Pois vejo que s'esconde
    Ja debaixo da terra este qu'eu chamo,
    Que he aquelle a quem amo,
    Aquelle a quem agora estou rendida.
    Ai quão devagar passa a triste vida!
      Que gloria, Amor cruel, com meu tormento,
    Que louvor a teu nome accrescentaste?
    Ou que te constrangeo a tal crueza,
    Que com tal pressa esta alma sujeitaste
    A hum mal, onde não basta o soffrimento?
    Mas se, Amor, es cruel de natureza,
    Bastava usar comigo da aspereza
    Que usas com outra gente:
    Mas tu como somente
    De ver-me estar morrendo te contentas,
    Quando mais me atormentas,
    Então desejas mais d'atormentar-me;
    E não queres matar-me
    Porque este mal de mi se não despida.
    Ai quão devagar passa a triste vida!
      Onde cousa acharei que alegre veja?
    A quem chamarei ja que me responda?
    Quem me dará remedio á dor presente?
    Não ha bem, que de mi ja não s'esconda;
    Nem algum verei ja, que a mi o seja,
    Porqu'está quem o foi da vida ausente.
    Eu alguma não vi tão descontente,
    Que Amor tão mal tratasse,
    Qu'inda não esperasse
    A seus males remedio achar vivendo:
    Eu só vivo soffrendo
    Hum mal tão grave e tão desesperado,
    Que tanto he mais pezado,
    Quanto a vida com elle he mais comprida.
    Ai quão devagar passa a triste vida!
      Suaves ágoas, dura penedia,
    Arvoredo sombrio, verde prado,
    Donde eu ja tive livre o pensamento;
    Frescas flores; e vós, meu manso gado,
    Que ja m'acompanhastes na alegria,
    Não me deixeis agora no tormento.
    Se do mal meu vos toca sentimento,
    Dae-me par'elle ajuda,
    Qu'eu tenho a lingua muda,
    O alento me vai ja desamparando.
    Mas quando (ai triste!) quando
    D'hum dia hum'hora me virá contente,
    Qu'eu te veja presente,
    Pastor meu, e comtigo est'alma unida?
    Ai quão devagar passa a triste vida!
      Mas não sei se he sobrado atrevimento
    Querer-se est'alma minha unir comtigo,
    Pois della foste ja tão desprezado.
    Amor me livrará deste perigo;
    Que despois que lá vires meu tormento,
    Creio que t'haverás por bem vingado.
    E s'inda em ti durar o amor passado,
    E aquella fé tão pura,
    Eu estou bem segura
    Que has lá de receber-me brandamente.
    Aprenda em mi a gente
    Quão cara huma isenção com Amor custa:
    A pena dá bem justa
    A hum'alma que lhe he pouco agradecida.
    Ai quão devagar passa a triste vida!



ODES.


ODE I.

    Detem hum pouco, Musa, o largo pranto
    Que Amor te abre do peito;
    E vestida de rico e ledo manto,
    Demos honra e respeito
    Áquella, cujo objeito
    Todo o mundo allumia,
    Trocando a noite escura em claro dia.
      O Delia, que a pezar da nevoa grossa,
    Co'os teus raios de prata
    A noite escura fazes que não possa
    Encontrar o que trata,
    E o que n'alma retrata
    Amor por teu divino
    Raio, por qu'endoudeço e desatino:
      Tu, que de formosissimas estrellas
    Corôas e rodeias
    Tua candida fronte e faces bellas;
    E os campos formoseias
    Co'as rosas que semeias,
    Co'as boninas que gera
    O teu celeste humor na primavera:
      Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio
    Suas sombras formosas;
    Para ti o Erymantho e o lindo Pylio
    As mais purpureas rosas;
    E as drogas mais cheirosas
    Desse nosso Oriente
    Guarda a felice Arabia mais contente.
      De qual panthera, ou tigre, ou leopardo
    As asperas entranhas
    Não temêrão teu fero e agudo dardo,
    Quando por as montanhas
    Mais remotas e estranhas
    Ligeira atravessavas,
    Tão formosa que a Amor d'amor matavas?
      Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos
    Furtos de purídades,
    Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos,
    As conformes vontades,
    Humas por saudades,
    Outras por crus indicios
    Fazem das proprias vidas sacrificios:
      Ja veio Endymião por estes montes
    O ceo, suspenso, olhando,
    E teu nome, co'os olhos feitos fontes,
    Em vão sempre chamando,
    Pedindo (suspirando)
    Mercês á tua beldade,
    Sem que ache em ti hum'hora piedade.
      Por ti feito pastor de branco gado
    Nas selvas solitarias,
    Só de seu pensamento acompanhado,
    Conversa as alimarias,
    De todo Amor contrárias,
    Mas não como ti duras,
    Onde lamenta e chora desventuras.
      Das castas virgens sempre os altos gritos,
    Clara Lucina, ouviste,
    Renovando-lhe as fôrças e os espritos:
    Mas os daquelle triste,
    Ja nunca consentiste
    Ouvi-los hum momento,
    Para ser menos grave o seu tormento.
      Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas
    D'hum tão fiel amante!
    Ólha como suspirão estas ondas,
    E como o velho Atlante
    O seu collo arrogante
    Move piedosamente,
    Ouvindo a minha voz fraca e doente.
      Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me,
    Pois minhas queixas digo
    A quem ja ergueo a mão para matar-me,
    Como a cruel imigo?
    Mas eu meu fado sigo,
    Que a isto me destina,
    E qu'isto só pretende e só m'ensina.
      Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana!
    Mas eu sempre porfio
    Cada vez mais na minha teima insana.
    Tendo livre alvedrio,
    Não fujo o desvario;
    Porque este em que me vejo
    Engana co'a esperança o meu desejo.
      Oh quanto melhor fôra que dormissem
    Hum somno perennal
    Estes meus olhos tristes, e não vissem
    A causa de seu mal
    Fugir, a hum tempo tal,
    Mais que d'antes proterva,
    Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva!
      Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo,
    Com mil mortes ao lado;
    E quando morro mais, então mais vivo!
    Porque t[~e]e ordenado
    Meu infelice fado,
    Que quando me convida
    A morte, para a morte tenha vida.
      Secreta noite amiga, a que obedeço,
    Estas rosas (por quanto
    Meus queixumes me ouviste) te offereço,
    E este fresco amaranto,
    Humido ja do pranto,
    E lagrimas da esposa
    Do cioso Titão, branca e formosa.


ODE II.

    Tão suave, tão fresca e tão formosa,
    Nunca no ceo sahio
    A Aurora no princípio do verão,
    Ás flores dando a graça costumada,
    Como a formosa mansa fera, quando
    Hum pensamento vivo m'inspirou,
    Por quem me desconheço.
      Bonina pudibunda, ou fresca rosa,
    Nunca no campo abrio,
    Quando os raios do sol no Touro estão,
    De côres differentes esmaltada,
    Como esta flor, que os olhos inclinando,
    O soffrimento triste costumou
    Á pena que padeço.
      Ligeira, bella Nympha, linda, irosa,
    Não creio que seguio
    Satyro, cujo brando coração
    D'amores commovesse fera irada,
    Qu'assi fosse fugindo e desprezando
    Este tormento, donde Amor mostrou
    Tão próspero comêço.
      Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa
    Natura produzio,
    Qu'iguale aquella fórma e condição,
    Que as dores em que vivo estima em nada.
    Mas com tão doce gesto, irado e brando,
    O sentimento, e a vida m'enlevou,
    Que a pena lhe agradeço.
      Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa,
    Aquillo que a alma vio
    Entre a doce dureza e mansidão,
    Primores de belleza desusada;
    Mas quando quiz voar ao ceo cantando,
    Entendimento e engenho me cegou
    Luz de tão alto preço.
      Naquella alta pureza deleitosa
    Que ao mundo s'encobrio;
    E nos olhos Angelicos, que são
    Senhores desta vida destinada;
    E naquelles cabellos, que soltando
    Ao manso vento, a vida me enredou,
    M'alegro e m'entristeço.
      Saudade e suspeita perigosa,
    Que Amor constituio
    Por castigo daquelles que se vão;
    Temores, penas d'alma desprezada,
    Fera esquivança, que me vai tirando
    O mantimento que me sustentou,
    A tudo me offereço.
      Amor isento a huns olhos m'entregou,
    Nos quaes a Deos conheço.


ODE III.

    Se de meu pensamento
    Tanta razão tivera d'alegrar-me,
    Quanto de meu tormento
    A tenho de queixar-me,
    Puderas, triste lyra, consolar-me.
      E minha voz cansada,
    Qu'em outro tempo foi alegre e pura,
    Não fôra assi tornada,
    Com tanta desventura,
    Tão rouca, tão pezada, nem tão dura.
      A ser como sohia,
    Pudera levantar vossos louvores;
    Vós, minha Hierarchia,
    Ouvíreis meus amores,
    Qu'exemplo são ao mundo ja de dores.
      Alegres meus cuidados,
    Contentes dias, horas e momentos,
    Oh quanto bem lembrados
    Sois de meus pensamentos,
    Reinando agora em mi duros tormentos!
      Ai gostos fugitivos!
    Ai gloria ja acabada e consumida!
    Ai males tão esquivos!
    Qual me deixais a vida!
    Quão cheia de pezar! quão destruida!
      Mas como não he morta
    Ja esta vida? como tanto dura?
    Como não abre a porta
    A tanta desventura,
    Qu'em vão com seu poder o tempo cura?
      Mas para padecê-la
    S'esforça o meu sogeito e convalece;
    Que só para dizê-la,
    A fôrça me fallece,
    E de todo me cansa e m'enfraquece.
      Oh bem affortunado
    Tu, que alcançaste com lyra toante,
    Orphêo, ser escutado
    Do fero Rhadamante,
    E co'os teus olhos ver a doce amante!
      As infernaes figuras
    Moveste com teu canto docemente;
    As tres Furias escuras,
    Implacaveis á gente,
    Applacadas se vírão derepente.
      Ficou como pasmado
    Todo o Estygio Reino co'o teu canto;
    E quasi descansado
    De seu eterno pranto,
    Cessou de alçar Sisypho o grave canto.
      A ordem se mudava
    Das penas que regendo está Plutão;
    Em descanso se achava
    A roda de Ixião,
    E em glória quantas penas alli são.
      De todo ja admirada
    A Rainha infernal e commovida,
    Te deo a desejada
    Esposa, que perdida
    De tantos dias ja tivera a vida.
      Pois minha desventura,
    Como ja não abranda hum'alma humana,
    Qu'he contra mi mais dura,
    E inda mais deshumana,
    Que o furor de Callirrhoë profana?
      Oh crua, esquiva e fera,
    Duro peito, cruel e empedernido,
    D'alguma tigre fera
    Lá na Hircania nascido,
    Ou d'entre as duras rochas produzido!
      Mas que digo, coitado!
    E de quem fio em vão minhas querellas?
    Só vós, ó do salgado,
    Humido Reino bellas
    E claras Nymphas, condoei-vos dellas.
      E d'ouro guarnecidas
    Vossas louras cabeças levantando
    Sôbre as ondas erguidas,
    As tranças gottejando,
    Sahindo todas, vinde a ver qual ando.
      Sahi em companhia,
    E cantando e colhendo as lindas flores;
    Vereis minha agonia,
    Ouvireis meus amores,
    E sentireis meus prantos, meus clamores.
      Vereis o mais perdido
    E mais infeliz corpo qu'he gerado;
    Qu'está ja convertido
    Em chôro, e neste estado
    Somente vive nelle o seu cuidado.


ODE IV.

    Formosa fera humana,
    Em cujo coração soberbo e rudo
    A fôrça soberana
    Do vingativo Amor, que vence tudo,
    As pontas amoladas
    De quantas settas tinha t[~e]e quebradas:
      Amada Circe minha,
    Postoque minha não, com tudo amada;
    A quem hum bem que tinha
    Da doce liberdade desejada,
    Pouco a pouco entreguei,
    E se mais tenho, mais entregarei;
      Pois natureza irosa
    Da razão te deo partes tão contrárias,
    Que sendo tão formosa,
    Folgues de te queimar em flammas várias,
    Sem arder em nenh[~u]a
    Mais qu'em quanto allumia o mundo a l[~u]a;
      Pois triumphando vás
    Com diversos despojos de perdidos,
    Que tu privando estás
    De razão, de juizo e de sentidos,
    E quasi a todos dando
    Aquelle bem que a todos vás negando;
      Pois tanto te contenta
    Ver o nocturno moço, em ferro envolto,
    Debaixo da tormenta
    De Jupiter em ágoa e vento sôlto,
    Á porta, que impedido
    Lhe t[~e]e seu bem, de mágoa adormecido;
      Porque não tens receio
    Que tantas insolencias e esquivanças
    A deosa, que põe freio
    A soberbas e doudas esperanças,
    Castigue com rigor,
    E contra ti se accenda o fero Amor?
      Ólha a formosa Flora;
    De despojos de mil suspiros rica,
    Por o Capitão chora,
    Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica,
    E foi sublime tanto,
    Que altares lhe deo Roma e nome santo.
      Ólha em Lesbos aquella
    No seu salteiro insigne conhecida;
    Dos muitos que por ella
    Se perdêrão, perdeo a chara vida
    Na rocha que se infama
    Com ser remedio extremo de quem ama.
      Por o moço escolhido,
    Onde mais se mostrárão as tres Graças;
    Que Venus escondido
    Para si teve hum tempo entre as alfaças,
    Pagou co'a morte fria
    A má vida que a muitos ja daria.
      E, vendo-se deixada
    Daquelle por quem tantos ja deixára,
    Se foi, desesperada,
    Precipitar da infame rocha chara:
    Que o mal de mal querida
    Sabe que vida lhe he perder a vida.
      Tomae-me, bravos mares;
    Vós me tomae, pois outrem me deixou.
    Disse: e dos altos ares
    Pendendo, com furor s'arremessou.
    Acude tu, suave,
    Acude, poderosa e divina ave.
      Toma-a nas azas tuas,
    Menino pio, illesa e sem perigo,
    Antes que nestas cruas
    Ágoas cahindo apague o fogo antigo.
    He digno amor tamanho
    De viver, e ser tido por estranho.
      Não: qu'he razão que seja
    Para as lobas isentas, que amor vendem,
    Exemplo onde se veja
    Que tambem ficão presas as que prendem.
    Assi o deo por sentença
    Nemesis, que Amor quiz que tudo vença.


ODE V.

    Nunca manhãa suave
    Estendendo seus raios por o mundo,
    Despois de noite grave,
    Tempestuosa, negra, em mar profundo
    Alegrou tanto nao, que ja no fundo
    Se vio em mares grossos,
    Como a luz clara a mi dos olhos vossos.
      Aquella formosura,
    Que só no virar delles resplandece;
    E com que a sombra escura
    Clara se faz, e o campo reverdece;
    Quando o meu pensamento se entristece,
    Ella e sua viveza
    Me desfazem a nuvem da tristeza.
      O meu peito, onde estais,
    He para tanto bem pequeno vaso;
    Quando acaso virais
    Os olhos, que de mi não fazem caso,
    Todo, gentil Senhora, então me abraso
    Na luz que me consume,
    Bem como a borboleta faz no lume.
      Se mil almas tivera
    Que a tão formosos olhos entregára,
    Todas quantas pudera
    Por as pestanas delles pendurára;
    E, enlevadas na vista pura e clara,
    (Postoque disso indinas)
    Se andárão sempre vendo nas meninas.
      E vós, que descuidada
    Agora vivereis de taes querellas,
    D'almas minhas cercada,
    Não pudesseis tirar os olhos dellas;
    Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas
    A dor que lhe mostrassem,
    Tantas huma alma só não abrandassem.
      Mas, pois o peito ardente
    Huma só póde ter, formosa Dama,
    Basta que esta somente,
    Como se fossem mil e mil, vos ama,
    Para que a dor de sua ardente flama
    Comvosco tanto possa,
    Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.


ODE VI.

    Póde hum desejo immenso
    Arder no peito tanto,
    Que á branda e á viva alma o fogo intenso
    Lhe gaste as nodoas do terreno manto;
    E purifique em tanta alteza o esprito
    Com olhos immortais,
    Que faz que leia mais do que vê'scrito.
      Que a flamma, que se accende
    Alto, tanto allumia,
    Que se o nobre desejo ao bem s'estende
    Que nunca vio, o sente claro dia;
    E lá vê do que busca o natural,
    A graça, a viva côr,
    N'outra especie melhor que a corporal.
      Pois vós, ó claro exemplo
    De viva formosura,
    Que de tão longe cá noto e contemplo
    N'alma, que este desejo sobe e apura;
    Não creais que não vejo aquella imagem
    Que as gentes nunca vem,
    Se de humanos não tem muita vantagem.
      Que se os olhos ausentes
    Não vem a compassada
    Proporção, que das côres excellentes
    De pureza e vergonha he variada;
    Da qual a Poesia, que cantou
    Atéqui só pinturas
    Com mortaes formosuras igualou;
      Se não vem os cabellos
    Que o vulgo chama de ouro;
    E se não vem os claros olhos bellos,
    De quem cantão que são de sol thesouro;
    E se não vem do rosto as excellencias,
    A quem dirão que deve
    Rosa, e crystal, e neve as apparencias;
      Vem logo a graça pura,
    A luz alta e severa,
    Que he raio da divina formosura,
    Que n'alma imprime e fóra reverbera;
    Assi como crystal do sol ferido,
    Que por fóra derrama
    A recebida flamma esclarecido.
      E vem a gravidade,
    Com a viva alegria
    Que misturada t[~e]e de qualidade,
    Que huma da outra nunca se desvia;
    Nem deixa de ser huma receada
    Por leda e por suave,
    Nem outra, por ser grave, muito amada.
      E vem do honesto siso
    Os altos resplandores
    Temperados co'o doce e ledo riso,
    A cujo abrir abrem no campo as flores;
    As palavras discretas e suaves,
    Das quaes o movimento
    Fara deter o vento e as altas aves:
      Dos olhos o virar
    Que torna tudo raso,
    Do qual não sabe o engenho divisar
    Se foi por artificio, ou feito acaso;
    Da presença os meneios e a postura,
    O andar e o mover-se,
    Donde póde aprender-se formosura.
      Aquelle não sei que,
    Que aspira não sei como,
    Qu'invisivel sahindo, a vista o vê,
    Mas para o comprender não lhe acha tomo;
    E que toda a Toscana Poesia,
    Que mais Phebo restaura,
    Em Beatriz, nem Laura nunca via:
      Em vós a nossa idade,
    Senhora, o póde ver,
    S'engenho, se sciencia e habilidade,
    Iguaes á vossa formosura der,
    Qual a vi no meu longo apartamento,
    Qual em ausencia a vejo.
    Taes azas dá o desejo ao pensamento!
      Pois se o desejo afina
    Hum'alma accesa tanto,
    Que por vós use as partes de divina;
    Por vós levantarei não visto canto,
    Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante:
    Que o nosso claro Tejo,
    Envolto hum pouco o vejo e dissonante.
      O campo não o esmaltão
    Flores, mas só abrolhos
    O fazem feio; e cuido que lhe faltão
    Ouvidos para mi, para vós olhos.
    Mas faça o que quizer o vil costume;
    Que o sol, qu'em vós está,
    Na escuridão dara mais claro lume.


ODE VII.

    A quem darão de Pindo as moradoras,
    Tão doctas como bellas,
    Florecentes capellas
    De triumphante louro, ou myrto verde;
    Da gloriosa palma, que não perde
    A presumpção sublime,
    Nem por fôrça de pêzo algum se opprime?
      A quem trarão nas faldas delicadas,
    Rosas a roxa Cloris,
    Conchas a branca Doris;
    Estas, flores do mar; da terra aquellas,
    Argenteas, ruivas; brancas e amarellas,
    Com danças e corêas
    De formosas Nereidas e Napêas?
      A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos,
    Em Thebas Amphion,
    Em Lesbos Arion,
    Senão a vós, por quem restituida
    Se vê da Poesia ja perdida
    A honra e gloria igual,
    Senhor Dom Manoel de Portugal?
      Imitando os espritos ja passados,
    Gentis, altos, Reais,
    Honra benigna dais
    A meu tão baixo, quão zeloso engenho.
    Por Mecenas a vós celebro e tenho;
    E sacro o nome vosso
    Farei, se alguma cousa em verso posso.
      O rudo canto meu, que resuscita
    As honras sepultadas,
    As palmas ja passadas
    Dos bellicosos nossos Lusitanos
    Para thesouro dos futuros anos,
    Comvosco se defende
    Da lei Lethêa, á qual tudo se rende.
      Na vossa árvore ornada d'honra e glória
    Achou tronco excellente
    A hera florecente
    Para a minha atéqui de baixa estima:
    Nelle, para trepar, s'encosta e arrima;
    E nella subireis
    Tão alto, quanto os ramos estendeis.
      Sempre forão engenhos peregrinos
    Da Fortuna invejados;
    Que quanto levantados
    Por hum braço nas azas são da Fama,
    Tanto por outro aquella, que os desama,
    Co'o pêzo e gravidade
    Os opprime da vil necessidade.
      Mas altos corações dignos d'Imperio,
    Que vencem a Fortuna,
    Forão sempre coluna
    Da sciencia gentil: Octaviano,
    Scipião, Alexandre e Graciano,
    Que vemos immortais;
    E vós, que o nosso seculo dourais.
      Pois, logo, em quanto a cithara sonora
    S'estimar por o mundo,
    Com som docto e jucundo;
    E em quanto produzir o Tejo e o Douro
    Peitos de Marte e Phebo crespo e louro,
    Tereis glória immortal,
    Senhor Dom Manoel de Portugal.


ODE VIII.

    Aquelle unico exemplo
    De fortaleza heroica e ousadia,
    Que mereceo no templo
    Da Fama eterna ter perpétuo dia;
    O grão filho de Thetis, que dez anos
    Flagello foi dos miseros Troianos;
      Não menos ensinado
    Foi nas hervas e Medica polícia,
    Que destro e costumado
    No soberbo exercicio da Milicia:
    Assi que as mãos que a tantos morte derão,
    Tambem a muitos vida dar puderão.
      E não se desprezou
    Aquelle fero e indomito mancebo
    Das Artes qu'ensinou
    Para o languido corpo o intonso Phebo;
    Que se o temido Heitor matar podia,
    Tambem chagas mortaes curar sabía.
      Taes Artes aprendeo
    Do semiviro Mestre e docto velho,
    Onde tanto cresceo
    Em virtude, e em sciencia e em conselho,
    Que Telepho, por elle vulnerado,
    Só delle pôde ser despois curado.
      Pois vós, ó excellente
    E illustrissimo Conde, do ceo dado
    Para fazer presente
    D'altos Heroes o seculo passado;
    E em quem bem trasladada está a memoria
    De vossos ascendentes, a honra e glória:
      Postoque o pensamento
    Occupado tenhais na guerra infesta,
    Ou co'o sanguinolento
    Taprobano, ou Achem, que o mar molesta,
    Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso,
    Que qualquer delles teme o nome vosso;
      Favorecei a antiga
    Sciencia que ja Achilles estimou;
    Olhae que vos obriga
    O ver qu'em vosso tempo rebentou
    O fructo daquell'Orta onde florecem
    Plantas novas, que os doctos não conhecem.
      Olhae qu'em vossos anos
    Huma Orta produze várias hervas
    Nos campos Indianos,
    As quaes aquellas doctas e protervas,
    Medêa e Circe, nunca conhecêrão,
    Postoque a lei da Magica excedêrão.
      E vêde carregado
    D'annos e traz a vária experiencia
    Hum velho, qu'ensinado
    Das Gangeticas Musas na sciencia
    Podaliria subtil, e arte sylvestre,
    Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre.
      O qual está pedindo
    Vosso favor e amparo ao grão volume,
    Qu'impresso á luz sahindo,
    Dara da Medicina hum vivo lume;
    E descobrir-nos-ha segredos certos,
    A todos os Antiguos encobertos.
      Assi que não podeis
    Negar a que vos pede benigna aura:
    Que se muito valeis
    Na sanguinosa guerra Turca e Maura,
    Ajudae quem ajuda contra a morte;
    E sereis semelhante ao Grego forte.


ODE IX.

    Fogem as neves frias
    Dos altos montes quando reverdecem
    As árvores sombrias;
    As verdes hervas crecem,
    E o prado ameno de mil côres tecem.
      Zephyro brando espíra;
    Suas settas Amor afia agora;
    Progne triste suspira,
    E Philomela chora:
    O ceo da fresca terra se namora.
      Ja a linda Cytherêa
    Vem, do côro das Nymphas rodeada;
    A branca Pasitêa Despida e delicada,
    Com as duas irmãas acompanhada.
      Em quanto as officinas
    Dos Cyclopas Vulcano está queimando,
    Vão colhendo boninas
    As Nymphas, e cantando,
    A terra co'o ligeiro pé tocando.
      Desce do aspero monte
    Diana, ja cansada da espessura,
    Buscando a clara fonte,
    Onde por sorte dura
    Perdeo Actêo a natural figura.
      Assi se vai passando
    A verde Primavera e o sêcco Estio;
    O Outono vem entrando;
    E logo o Inverno frio,
    Que tambem passará por certo fio.
      Ir-se-ha embranquecendo
    Com a frigida neve o sêcco monte;
    E Jupiter chovendo
    Turbará a clara fonte:
    Temerá o marinheiro a Orionte.
      Porque, emfim, tudo passa;
    Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
    E a nossa vida escassa
    Foge tão apressada,
    Que quando se começa he acabada.
      Que se fez dos Troianos
    Heitor temido, Enêas piedoso?
    Consumírão-te os anos,
    Ó Cresso tão famoso,
    Sem te valer teu ouro precioso.
      Todo o contentamento
    Crias qu'estava em ter thesouro ufano!
    Oh falso pensamento!
    Que á custa de teu dano
    Do sabio Solon crêste o desengano.
      O bem que aqui se alcança,
    Não dura por passante, nem por forte:
    Que a bem-aventurança
    Duravel, de outra sorte
    Se ha de alcançar na vida para a morte.
      Porque, emfim, nada basta
    Contra o terrivel fim da noite eterna;
    Nem póde a deosa casta
    Tornar á luz superna
    Hippolyto da escura sombra averna.
      Nem Thesêo esforçado,
    Ou com manha, ou com fôrça valerosa,
    Livrar póde o ousado
    Perithoo da espantosa
    Prisão Lethêa escura e tenebrosa.


ODE X.

    Aquelle moço fero
    Nas Pelethronias covas doctrinado
    Do Centauro severo;
    Cujo peito esforçado
    Com tutanos de tigres foi criado.
      N'ágoa fatal menino
    O lava a mãe, presaga do futuro,
    Para que ferro fino
    Não passe o peito duro
    Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro.
      A carne lh'endurece,
    Porque não seja d'armas offendida.
    Cega! pois não conhece
    Que póde haver ferida
    N'alma, e que menos doe perder a vida.
      Que donde o braço irado
    Dos Troianos passava arnez e escudo,
    Alli se vio passado
    Daquelle ferro agudo
    Do menino qu'em todos póde tudo.
      Alli se vio captivo
    Da captiva gentil que serve e adora;
    Alli se vio que vivo
    Em vivo fogo mora,
    Porque de seu senhor a vê senhora.
      Ja toma a branda lyra
    Na mão que a dura Pelias meneára;
    Alli canta e suspira,
    Não como lh'ensinára
    O velho, mas o moço que o cegára.
      Pois, logo, quem culpado
    Será, se de pequeno offerecido
    Foi todo a seu cuidado;
    No berço instituido
    A não poder deixar de ser ferido?
      Quem logo fraco infante
    D'outro mais poderoso foi sujeito,
    E para cego amante
    Desd'o princípio feito,
    Com lagrimas banhando o tenro peito?
      Se agora foi ferido
    Da penetrante ponta e fôrça d'herva;
    E se Amor he servido
    Que sirva á linda serva,
    Para quem minha estrella me reserva?
      O gesto bem talhado;
    O airoso meneio e a postura;
    O rosto delicado,
    Que na vista figura
    Que s'ensina por arte a formosura,
      Como póde deixar
    De render a quem tenha entendimento?
    Que quem não penetrar
    Hum doce gesto, attento,
    Não lhe he nenhum louvor viver isento.
      Aquelles, cujos peitos
    Ornou d'altas sciencias o destino.
    Se vírão mais sujeitos
    Ao cego e vão menino,
    Arrebatados do furor divino.
      O Rei famoso Hebreio,
    Que mais que todos soube, mais amou;
    Tanto, que a deos alheio
    Falso sacrificou.
    Se muito soube e teve, muito errou.
      E o grão Sabio qu'ensina,
    Passeando, os segredos da Sophia,
    Á baixa concubina
    Do vil Eunuco Hermia
    Aras ergueo, que aos deoses só devia.
      Aras ergue a quem ama
    O Philosopho insigne namorado.
    Doe-se a perpétua fama,
    E grita qu'he culpado:
    Da lesa divindade he accusado.
      Ja foge donde habita;
    Ja paga a culpa enorme com destêrro.
    Mas, oh grande desdita!
    Bem mostra tamanho êrro
    Que doctos corações não são de ferro.
      Antes na altiva mente,
    No subtil sangue e engenho mais perfeito
    Ha mais conveniente
    E conforme sogeito,
    Onde s'imprima o brando e doce affeito.


ODE XI.

    Naquelle tempo brando
    Em que se vê do mundo a formosura,
    Que Thetis descansando
    De seu trabalho está, formosa e pura,
    Cansava Amor o peito
    Do mancebo Peleo d'hum duro affeito.
      Com impeto forçoso
    Lhe havia ja fugido a bella Nympha,
    Quando no tempo aquoso
    Noto irado revolve a clara lympha,
    Serras no mar erguendo,
    Que os cumes das da terra vão lambendo.
      Esperava o mancebo,
    Com a profunda dor que n'alma sente,
    Hum dia em que ja Phebo
    Começava a mostrar-se ao mundo ardente,
    Soltando as tranças d'ouro,
    Em que Clicie d'amor faz seu thesouro.
      Era no mez que Apolo
    Entre os irmãos celestes passa o tempo:
    O vento enfreia Eolo,
    Para que o deleitoso passatempo
    Seja quieto e mudo;
    Que a tudo Amor obriga, e vence tudo.
      O luminoso dia
    Os amorosos corpos despertava
    Á cega idolatria,
    Que ao peito mais contenta e mais aggrava;
    Onde o cego menino
    Faz que os humanos crêão que he divino:
      Quando a formosa Nympha,
    Com todo o ajuntamento venerando,
    Na crystallina lympha
    O corpo crystallino está lavando;
    O qual nas ágoas vendo,
    Nelle, alegre de o ver, s'está revendo:
      O peito diamantino,
    Em cuja branca teta Amor se cria;
    O gesto peregrino,
    Cuja presença torna a noite em dia;
    A graciosa boca
    Que a Amor com seus amores mais provoca;
      Os rubins graciosos;
    As pérolas qu'escondem vivas rosas
    Dos jardins deleitosos,
    Que o ceo plantou em faces tão formosas;
    O transparente collo,
    Que ciumes a Daphne faz d'Apollo;
      O subtil mantimento
    Dos olhos, cuja vista a Amor cegou;
    A Amor que, com tormento
    Glorioso, nunca delles se apartou,
    Pois elles de contino
    Nas meninas o trazem por menino;
      Os fios derramados
    Daquelle ouro que o peito mais cobiça,
    Donde Amor enredados
    Os corações humanos traz e atiça,
    E donde com desejo
    Mais ardente começa a ser sobejo.
      O mancebo Peleo,
    Que de Neptuno estava aconselhado,
    Vendo na terra o ceo
    Em tão bella figura trasladado,
    Mudo hum pouco ficou,
    Porque Amor logo a falla lhe tirou.
      Emfim, querendo ver
    Quem tanto mal de longe lhe fazia,
    A vista foi perder,
    Porque de puro amor, Amor não via:
    Vio-se assi cego e mudo
    Por a fôrça d'Amor que póde tudo.
      Agora s'apparelha
    Para a batalha; agora remettendo;
    Agora s'aconselha;
    Agora vai; agora está tremendo;
    Quando ja de Cupido
    Com nova setta o peito vio ferido.
      Remette o moço logo
    Para ond'estava a chamma sem socêgo;
    E co'o sobejo fogo
    Quanto mais perto estava, então mais cego:
    E cego, e co'hum suspiro,
    Na formosa donzella emprega o tiro.
      Vingado assi Peleo,
    Nasceo deste amoroso ajuntamento
    O forte Larisseo,
    Destruição do Phrygio pensamento;
    Que, por não ser ferido,
    Foi nas ágoas Estygias submergido.


ODE XII.

    Ja a calma nos deixou
    Sem flores as ribeiras deleitosas;
    Ja de todo seccou
    Candidos lirios, rubicundas rosas:
    Fogem do grave ardor os passarinhos
    Para o sombrio amparo de seus ninhos.
      Meneia os altos freixos
    A branda viração de quando em quando;
    E d'entre vários seixos
    O liquido crystal sahe murmurando:
    As gottas, que das alvas pedras sáltão,
    O prado, como pérolas, esmaltão.
      Da caça ja cansada
    Busca a casta Titanica a espessura,
    Onde á sombra inclinada
    Logre o doce repouso da verdura,
    E sôbre o seu cabello ondado e louro
    Deixe cahir o bosque o seu thesouro.
      O ceo desimpedido
    Mostrava o lume eterno das estrellas;
    E de flores vestido
    O campo, brancas, roxas e amarellas,
    Alegre o bosque tinha, alegre o monte,
    O prado, o arvoredo, o rio, a fonte.
      Porém como o menino,
    Que a Jupiter por a aguia foi levado,
    No cêrco crystallino
    For do amante de Clicie visitado;
    O bosque chorará, chorará a fonte,
    O rio, o arvoredo, o prado, o monte.
      O mar, que agora brando
    He das Nereidas candidas cortado,
    Logo se irá mostrando
    Todo em crespas escumas empolado:
    O soberbo furor de negro vento
    Fara por toda parte movimento.
      Lei he da natureza
    Mudar-se desta sorte o tempo leve:
    Succeder á belleza
    Da Primavera o fructo; a elle a neve;
    E tornar outra vez por certo fio
    Outono, Inverno, Primavera, Estio.
      Tudo, emfim, faz mudança
    Quanto o claro sol vê, quanto allumia;
    Não se acha segurança
    Em tudo quanto alegra o bello dia:
    Mudão-se as condições, muda-se a idade,
    A bonança, os estados e a vontade.
      Somente a minha imiga
    A dura condição nunca mudou;
    Para que o mundo diga
    Que nella lei tão certa se quebrou:
    Em não ver-me ella só sempre está firme,
    Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me.
      Mas ja soffrivel fôra
    Qu'em matar-me ella só mostre firmeza,
    Se não achára agora
    Tambem em mi mudada a natureza;
    Pois sempre o coração tenho turbado,
    Sempre d'escuras nuvens rodeado.
      Sempre exprimento os fios
    Qu'em contino receio Amor me manda;
    Sempre os dous caudaes rios,
    Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda,
    Correm, sem chegar nunca o Verão brando,
    Que tamanha aspereza vá mudando.
      O sol sereno e puro,
    Que no formoso rosto resplandece,
    Envolto em manto escuro
    Do triste esquecimento, não parece;
    Deixando em triste noite a triste vida
    Que nunca de luz nova he soccorrida.
      Porém seja o que for:
    Mude-se por meu damno a natureza;
    Perca a inconstancia Amor;
    A Fortuna inconstante ache firmeza;
    Tudo mudável seja contra mi,
    Mas eu firme estarei no qu'emprendi.



NOTAS.



NOTAS.


Pag. 4. V. 4. _Que rompesse os Mahometicos arnezes_] Faria e Sousa.
_Rompessem os Mahometicos arnezes_] 3.ª ed. A primeira lição he viciosa,
a segunda correcta; e por isso e por ser mais antiga a adoptámos.


P. 14. V. 24. _Ha de acabar o mal destes amores_.] Todas as ed. Mas
o vício he manifesto, porque a tenção, desacompanhada da obra,
nada póde acabar. Corrigimos:

    Mas se vossa tenção com minha morte
    He de acabar o mal destes amores etc.


P. 29. V. 13. _Mas em vão não vereis, porque vereis_] Faria e
Sousa. _Mas em vão não vireis, porque achareis_] 3.ª ed. Adoptámos esta
lição, que he a do poeta.


P. 30. V. 10. _O pensamento da aspereza vossa_] Faria e Sousa.
_O pensamento e a aspereza vossa_] 3.ª ed. Porque rejeitaria Faria e
Sousa esta lição? ou que entenderia elle por _pensamento da aspereza_?
Seguimos a lição antiga, que he a verdadeira.


P. 34. V. 7. _Pois a parte maior do entendimento_] Faria e
Sousa. _Pois a parte melhor do entendimento_] 3.ª ed. Adoptámos a lição
antiga, porque por _parte maior_, se entende a maior porção.


P. 34. V. 9. _Se em teu valor contemplo a melhor parte_]
Faria, e 3.ª ed. Mas he vício, porque o poeta acaba dizer que a melhor
parte do entendimento se vê perdida no menos que ha na sua amada, e
não he possivel que não quizesse continuar no mesmo encarecimento.
Corrigimos:

    Se em teu valor contemplo a menor parte.


P. 34. V. 25. _Em feras mora, em aves, pedras ágoas_] Faria e
Sousa. _Em feras, plantas, aves, pedras, ágoas_] 3.ª ed. Só quem for
destituido de gosto poderá preferir aquella a esta lição.


P. 40. V. 19. _A mão tenho mettida no teu seio_] Faria e
Sousa, e 3.ª ed. He êrro: corrigimos:

    A mão tenho mettida no meu seio.


P. 69. V. 5. _Nunca do vento e ira, que arrancando_] Faria e
Sousa. He êrro; corrigimos:

    Nunca do vento a ira, que arrancando.


P. 70. V. 24.
    _Com que a morte forçada e gloriosa,
    Faz o vencido etc._] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:

    Com que a morte forçada gloriosa
    Faz o vencido etc.


P. 86. V. 24.
    _Pois se a fortuna o fez por descontar-me
    Esse desgosto etc._] Faria e Sousa. He lição viciosa, porque o
poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que
era tal, que era de razão, tivesse este desconto, porque se não dissesse
que no mundo podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora
desgosto ao que pouco antes chamou summa alegria. Corrigimos:

    Mas se a fortuna o fez por descontar-me
    Aquelle gosto etc.


P. 108. V. 15. _Ayúdame, Señora, á ser vingança_] Faria e
Sousa. He êrro. Corrigimos:

    Ayúdame, Señora, á hacer vinganza.


P. 111. V. 7. _Nem todos para um gôsto são iguaes_] Faria e
Sousa. He êrro, porque o poeta diz: Vós, ó annos, estes que passais tão
ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse _são_, era absurdo.
Corrigimos:

    Nem todos para um gôsto sois iguaes.


P. 113. V. 25. _Aunque en esta se llega al natural_] Faria e
Sousa. He êrro. Corrigimos:

    Aunque en esto se llega al natural.

Porque o sentido do poeta he que só n'uma cousa se aproxima ao natural o
retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o
seu pranto como se fôra o proprio original.


P. 114. V. 11. _En tanto bien no quieras olvidarte_] Faria e
Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja _olvidarme_.


P. 114. V. 21. _Cesse vosso louvor, Nymphas formosas_] Faria
e Sousa. He vicio, porque o poeta não diz ás Nymphas que deixem o seu
proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que estavão
lavrando. Corrigimos:

    Cesse vosso lavor etc.


P. 115. V. 22. _Fizeres que se mova a piedade_] Faria e
Sousa. _Fazeres que se mova a piedade_] 3.ª ed. Seguimos esta lição, que
he a verdadeira.


P. 120. V. 15. _Em Babylonia sôbre os rios_] Faria e Sousa.
Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve ler:

    De Babylonia sobre os rios etc.


P. 128. V. 13. _Ah! que falta mais vezes a ventura_] Faria e
Sousa; mas a lição do poeta he esta:

    Ah! que falte mais vezes a ventura.


P. 133. V. 28.
     _Que não póde nenhum impedimento
     Fugir do que lhe ordena sua Estrella._]
Lição vulgar. Mas o fugir está aqui por evitar: corrigimos:

    Fugir o que lhe ordena etc.


P. 134. V. 7. _Tão potente será vossa mudança_.] Lição
vulgar. He viciosa: corrigimos:

    Tão patente será etc.


P. 136. V. 28. _Não o quizera tanto á vossa custa_.] Lição
vulgar. He vicio, porque se entende a vingança. Corrigimos:

    Não a quizera tanto á vossa custa.


P. 138. V. 11. _Eu quanto mais te vejo, mais te escondes_.]
Lição vulgar. He absurda: corrigimos:

    Eu quanto mais te busco, mais te escondes.


P. 139. V. 20. _Que mágoas para ouvir! e que figura_.] Lição
vulgar. He viciosa: corrigimos:

    Que mágoas para ouvir! Que tal figura.


P. 144. V. 11.
    _Mas eu acostumado ao veneno,
    E uso de soffrer meu mal presente_.] Lição vulgar. He viciosa:
corrigimos:

    Assim de acostumado co'o veneno,
    O uso de soffrer etc.


P. 159. V. 3. _Ni dejarán, por mas que el tiempo huya_.]
Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. Corrigimos:

    Ni dejará, por mas que el tiempo huya.


P. 165. V. 12. _Seus cabellos_] Tod. as ed. Mas quem espalha
os cabellos, não são as Nymphas; he a manhãa. Nem as Nymphas podião ter
tantos e tão longos cabellos, que os espalhassem pelos montes.
Corrigimos: _Teus cabellos_.


P. 167. V. 9. _Gaitas, que bem se ouvião_] Faria e Sousa. _As
gaitas que trazião_] 3.ª ed. Adoptamos esta lição, que he a do poeta.


P. 175. V. 5.
    _Com palavras mimosas e forjadas
    Da solta liberdade e livre peito._] Todas as ed. Mas he vicio,
porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta
liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e
enganadas. Corrigimos:

    Com palavras mimosas e forjadas,
    De solta liberdade e livre peito etc.


P. 184. V. 20. _Assim me está tornando o peito frio._] Todas
as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz,
tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece
entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a
lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de
texto. Corrigimos:

    Assim me está tornando, e o peito frio.

Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que
fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina
lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o
poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar:
como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21:

      Desta arte a gente força e esforça Nuno,
    Que com lh'ouvir as ultimas razões,
    Removem o temor frio, importuno
    Que gelados lhe tinha os corações.

e no Canto I, Estancia 89:

    O temor grande, o sangue lhe resfria.

Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus effeitos
se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38:

    Que poz no coração um grande medo.

O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio,
como se ve nos seguintes exemplos:

    _Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra._
                               Eneida L. I, V. 96.

    _Solvite corde metum, Teucri._
                               ibi V. 566.

    _Diffugimus visu exangues._
                               ibi L. 2, V. 212.

    _At sociis subitâ gelidus formidine sanguis
    Diriguit: cecidêre animi._
                               ibi L. III, V. 259.

    _Gelidus Teucris per dura cucurrit
    Ossa tremor._
                               ibi L. VI, V. 54.

E além destes muitos e muitos outros puderamos citar.

Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no coração, como
diz o nosso Camões e disserão antes, e tem dito depois todos os grandes
poetas; com a autoridade do mesmo Camões se prova que, se no campo de
Aljubarrota, quando a trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o
sangue acudio ao coração dos Portuguezes, e por consequencia se lhes
concentrou alli o calor, não foi porque o temor fosse maior, mas, sim,
porque era muito menor, que o perigo. E portanto he viciosa a lição
vulgar, e a nossa verdadeira.


P. 187. V. 30. _E vós, pastores deste rudo outeiro_] Faria e
Sousa. _E vós, pastores rudos deste outeiro_] 3.ª ed. A lição do poeta
he esta.


P. 188. V. 30. _No tronco de alguma árvore sombria_] Faria e
Sousa. _E no tronco d'uma arvore sombria_] 3.ª ed. Esta he a lição
verdadeira.


P. 190 V. 3. _Em vós deixou Minerva o que valia_] Faria e
Sousa. _Em vós deixou Minerva sua valia_] 3.ª ed. Porque desprezaria
Faria esta lição?


P. 198. V. 15. _Porque saibas o que he ser amada_] Faria e
Sousa. _Porque saibas que cousa he ser amada_] 3.ª ed. Quem hesitará em
seguir a lição antiga?


P. 199. V. 23. _Se humano parecer não se defende_] Faria e
Sousa. _Que ao humano parecer não se defende_] 3.ª ed. Ambas estas
lições são viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta,
he esta:

    Se ao humano parecer não se defende.


P. 200. V. 13. _Porque segues em vão esse cuidado?_] Faria e
Sousa. _Não vés que teu fugir he escusado?_] 3.ª ed. A lição antiga he a
do poeta.


P. 200. V. 14. _Pois nunca estás sem mim algum momento_]
Faria e Sousa. _Que sem mim não estás um so momento_] 3.ª ed. Este verso
he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do poeta.


P. 201. V. 21. _A vós se dão, a quem junto se ha dado_] Faria
e Sousa. _A vós se dem, a quem junto se ha dado_] 3.ª ed. A lição
verdadeira he esta.


P. 202. V. 23. _E o mais do roxo dia era passado_] Faria e
Sousa. _E o mais do dia ja era passado_] 3.ª ed. O epiteto de _roxo_
aqui desnecessario parece introduzido por mão estranha.


P. 203. V. 14. _Que farão mais que mais endurecer-te?_] Faria
e Sousa. _Que fazem senão mais endurecer-te?_] 3.ª ed. Este verso he
muito mais natural e melhor que o outro.


P. 203. V. 23. _Um bronze ja abrandára que não sente_] Faria.
_Ja um peito abrandára que não sente_] 3.ª ed. Esta segunda lição he sem
duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso dizer do bronze
que he insensivel, esta expressão de _peito que não sente_, he nelle tão
frequente que não podemos deixar de a ter por sua.


P. 205. V. 6. _Em lugar de alegrar-se, se entristecem_]
Faria. _Em vez de se alegrarem, se entristecem_] 3.ª ed. Este verso em
harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor ser das
primeiras edições. Pelo que lhe damos a preferencia.


P. 211. V. 2. _Com rosto baixo, e alto pensamento_] Faria e
Sousa. _Co'o rosto baixo, e alto o pensamento_] 3.ª ed. Andando este
verso assim nas primeiras ed., tão impossivel parece que Faria o não
tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o primeiro.


P. 213. V. 1. _E vós, cujo valor em tanto excede_] Faria e
Sousa. _E vós, cujo valor tão alto excede_] 3.ª ed. Preferimos a lição
antiga, que he correcta, á emenda de Faria, que he viciosa.


P. 213. V. 17. _Contra o indomito Pãe de toda Hespanha._
Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim este
lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda
España, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los
sustentó contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razões que
oppor, a primeira he, que não era possivel que um poeta como Camões,
para exprimir cousa tão simples fizesse tal geringonça; a segunda he
appresentar o texto como o poeta o escreveo:

      _Se não sabem as frautas pastoris
     Pintar de Toro os campos semeados
     D'armas e corpos fortes e gentis,

       Por um moço animoso sustentados
     Contra o indomito Rei de toda Hespanha,
     Contra a Fortuna vãa, e injustos Fados._

Faria devia saber, e por certo não ignorava que ElRei Dom Fernando de
Castella foi feliz nas armas, razão por que o poeta lhe dá o epiteto de
indomito; e que reunio em si varias corôas, que d'antes erão separadas e
independentes, razão por que o poeta lhe chama rei de toda Hespanha. E
se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra _pae_, aqui
visivelmente introduzida por mão estranha, teria restabelecido no texto
a palavra _Rei_, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupára o
trabalho de o fazer agora.


P. 214. V. 13. _De si ja, não ja só do pobre fato_] Faria e
Sousa. _De si, e do seu gado e pobre fato_] 3.ª ed. Assim andava este
verso nas primeiras edições; e a verdade he mais antiga, que a mentira.
Restituimos a lição antiga. Porque por gado se entende bois etc., e por
fato, cabras.


P. 217. V. 11. _Do som que no Parnaso se deseja_] Faria e
Sousa. _Do som, que pelo mundo se deseja_] 3.ª ed. A lição de Faria nos
he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; e he de lá que
os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a desprezamos,
restituindo o verso como se lia nas primeiras edições; que he como o
poeta o escreveo.


P. 220. V. 1. _D'altas nuvens vestido_.] Todas as ed. Mas he
êrro das copias: deve ler-se:

    D'átras nuvens vestido etc.


P. 224. V. 31. _Quiz descansar á sombra da espessura_] Faria.
He êrro, porque espessura não rima com _manifesta_ e _sesta_.
Restituimos o verso, como andava nas primeiras edições:

    Quiz descansar á sombra da floresta.


P. 226. V. 1.
    _Sirene e Nyse que das mãos fugirão
    De Tegeo Pan_]
Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque não consta que Sirene
fugisse nunca das mãos de Pan. Restituimos:

    Syrinx e Nyse.


P. 234. V. 21. _Ja no indignado monte se lançava_] Faria e
Sousa. _Ja no indigno monte se lançava_] 3.ª ed. Uma e outra lição he
viciosa; a do poeta he:

    Ja indignado no monte se lançava.


P. 236. V. 3. _Ainda agora em herva as folhas viras_] Todas
as ed. Mas he êrro, porque o gira-sol, que he a flor em que foi
convertida Clycie, não víra as folhas contra o sol, nem tal disse o
poeta: o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada
em planta, segue com os olhos o seu amante; mas a ignorancia ou
descuido dos copiadores a _olhos_ substituio _folhas_. Restituimos:

    Ainda agora em herva os olhos viras.


P. 284. P. 4. _Com as mãos que maçãas colhendo andava._]
Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que nas
obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como
elle o escreveo he:

    Com a mãe que maçãas colhendo andava.


P. 289. V. 15. _Como o mesmo que então meu mal crescia._]
Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:

    Com o mesmo etc.


P. 302. V. 28. _Sabe, Canção, que só porque não vejo._] Todas
as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente assim:

    Sabe, Canção, que só porque o não vejo.


P. 304. V. 26. _Ma figurou nos braços, e assim a tive_] Todas
as ed. Mas aquelle _a_ está aqui de mais para o sentido e para o verso.
Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou ter
acordado. Corrigimos:

    Ma figurou nos braços, e assi tive.


P. 307. V. 3. _Dos montes descobrindo._] Todas as ed. Mas he
vicio de cópia; porque descobrir dos montes a escuridão he avistá-la de
lá; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manhãa, e a escuridão
ia descobrindo os montes. Corrigimos:

    Os montes descobrindo.


P. 308. V. 27. _Se mo não impedir o meu desejo._] Todas as
ed. Mas he êrro. O poeta está gozando a doce visão da sua amada, e
deseja morrer antes que se lhe desvaneça; mas ao mesmo tempo teme, que
esta gloria que está gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu
desejo, tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama:
Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana alta e subida! (a da
visão que está gozando) se esta lhe não impedir aquella. E a lição neste
lugar he:

    Se me não impedir o meu desejo.


P. 314. V. 25. _Á pena vem pequenos._] Todas as ed. O P.
Thomaz d'Aquino corrigio _penna_. Mal, porque estava bem o texto; e se
deve lêr _pena_.


P. 321. V. 24. _Pelo que em si se esconde._] Assim se lê este
verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio _em ti_. Mal, porque o
vicio inda ficou. A verdadeira emenda he:

    Pelo que a si se esconde.


P. 325. V. 21. Este verso diz Faria e Sousa se lia no
manuscripto:

    _Pelo que em si lhe esconde._

Mas foi êrro de quem o copiou: deve ler-se

    Pelo que se lhe esconde.


P. 329. V. 19. _Não tendo, não, somente por contrarios_]
Faria e Sousa. _Não tendo tãosomente por contrarios_] 3.ª ed. A lição
antiga he a verdadeira.


P. 331. V. 26. _Com que a fronte tornada mais serena Torna
os tormentos graves._] Todas as ed. Mas he vicio das copias; porque a
fronte, por mais serena que esteja não pode serenar as agitações do
animo. Corrigimos:

    Com que, a fronta tornada mais serena,
    Tórno os tormentos graves &c.


P. 336. V. 1. _Pouco a pouco invenciveis me sahião._] Todas
as ed. Mas he êrro grosseiro dos copiadores.

Corrigimos:

    Pouco a pouco invisiveis me sahião.


P. 339. V. 19. _Os olhos na que corre, e não alcança._] Todas
as ed. Mas he êrro palpavel das cópias. Sobre este lugar diz Faria:
_Mirese lo que me viene á embarazar sobre irme desembarazando de tantas
difficuldades destes poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que
corre. Qué es la que corre? Arriba queda providencia, y luego
consolacion, y despues flaqueza humana; y no hallo que ninguna destas
corre, si no es la flaqueza humana á la muerte; y ni asi lo entiendo
bien_. Mas não tem muito que entender: este lugar está corrompido, como
tantos outros que temos visto: a lição do poeta era _No que corre_: quem
copiou poz _Na que corre_. E o sentido he: Mas a fraqueza humana, quando
lança os olhos no que corre; isto he, no muito que corre com os olhos
d'alma, e não alcança, senão &c.


P. 360. Ode I.ª A primeira cousa que temos a observar nesta
Ode he: que a Estancia, que principia: _Para ti guarda o sitio fresco
d'Ilio_, e a outra logo seguinte que principia: _De qual panthera ou
tigre ou leopardo_, se achão em todas as edições depois da que começa:
_Por ti feito pastor de branco gado_, onde são absolutamente estranhas;
e procurando nós outro lugar onde pudessem caber, não achamos outro mais
proprio, que depois da 3.ª Estancia que começa: _Tu que de formosissimas
estrellas_: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que,
omittidas inteiramente, fica a Ode mais perfeita.


P. 361. V. 2. _Para ti no Erymantho o lindo Epilio_.] Assim
anda este verso nas primeiras edições. Faria e Sousa julga, com razão,
que está viciado, porque não ha no Erymantho lugar que se chame Epilio:
faz diversas conjecturas, e não sabe determinar-se. Nós julgamos que
deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos
chamavão Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo
que lhe dá aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim

    Para ti o Erymantho e o lindo Pylio


P. 361. V. 5. _Deste nosso oriente._] Todas as ed. Mas he
vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e não na
India, como se infere desta mesma Ode, onde diz:

    _Olha como suspirão estas ondas,_
    E como o velho Atlante
    O seu collo arrogante
    Move piedosamente
    Ouvindo a minha voz fraca e doente._

E portanto deve ler-se

    Desse nosso Oriente

como Faria diz que vira em um manuscripto.


P. 363. V. 12. _Meu infelice estado._] Todas as ed. Mas he
êrro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, propriamente
fallando: e a verdadeira lição está saltando aos olhos:

    Porque tem ordenado
    Meu infelice Fado &c.


P. 363. V. 19. _Humido inda do pranto._] Todas as ed. Mas he
vicio, porque os sacrificios e offrendas á Noute de noute devem ser
feitos; e este _humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso
Titão_ denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lição he a
que Faria diz encontrára n'um manuscripto:

    _Humido ja do pranto,_

o que dá a entender que era sobre manhãa.


P. 368. V. 13. _E assentareis meus prantos, meus clamores._]
Todas as ed. Mas a verdadeira lição deste lugar he a que nos dá o P.
Thomaz d'Aquino.

    E sentireis meus prantos, meus clamores.

Porque o poeta não chama as Nymphas para que venhão applacar os seus
prantos e clamores (que esse poder só tinha aquella, que os motivava);
chama-as para que os venhão ouvir, e para que vejão a que estado o tem
reduzido o seu amor, e a esquivança da sua amada.


P. 380. V. 19. _Ajuda quem ajuda contra a morte._] Todas as
ed. He vicio: corrigimos

    Ajudai quem ajuda &c.


P. 385. V. 17. _E grita que culpado._] Todas as ed. Mas deve
ler-se

    E grita qu'he culpado,

porque do modo que está, não faz sentido.


P. 388. V. 21.
     _Remette o moço logo
     Para onde estava a chaga sem socêgo._]
Todas as ed. Mas que he vicio, não ha duvida, porque a chaga devia elle
ter no corpo, e não podia correr para ella: correo para a chamma, isto
he, para a Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos

    Para onde estava a chamma sem socêgo.



INDEX.


                                                       Pag.
    PREFAÇÃO                                           VII
    VIDA DE LUIS DE CAMÕES                           XXXII

    SONETOS.

                                                       Pag.
    A chaga que, Senhora, me fizestes                   62
    A formosura desta fresca serra                     135
    A morte, que da vida nó desata                      68
    A peregrinação d'hum pensamento                    132
    A perfeição, a graça, o doce geito                  46
    A violeta mais bella que amanhece                   60
    Á la margen del Tajo, en claro dia                  81
    Acho-me da fortuna salteado                        132
    Agora toma a espada, agora a penna[4]               97
    Ah Fortuna cruel! ah duros Fados                    88
    Ah minha Dinamene! assi deixaste                    86
    Ai amiga cruel! que apartamento                     85
    Alegres campos, verdes arvoredos                    21
    Alegres campos, verdes, deleitosos                 104
    Alma gentil que á firme eternidade                 215
    Alma minha gentil que te partiste                   10
    Amor, com a esperança ja perdida                    26
    Amor he hum fogo que arde sem se ver                41
    Amor, que em sonhos vãos do pensamento             105
    Amor, que o gesto humano na alma escreve             5
    Aos homens hum só homem poz espanto                123
    Apartava-se Nise de Montano                         27
    Apollo e as nove Musas, descantando                 26
    Aponta a bella Aurora, luz primeira                121
    Aquella fera humana que enriquece                   38
    Aquella que de pura castidade                       48
    Aquella triste e leda madrugada                     13
    Aqui de longos damnos breve historia                92
    Ar, que de meus suspiros vejo cheio                 58
    Árvore, cujo pomo bello e brando                    69
    Ay! quien dará á mis ojos una fuente               112
    Ayúdame, Señora, á hacer venganza                  108
    Bem sei, Amor, que he certo o que receio            40
    Brandas agoas do Tejo que passando[5]               55
    Busque Amor novas artes, novo engenho                8
    Ca nesta Babylonia donde mana                       98
    Campo! nas syrtes deste mar da vida                 85
    Cantando estava hum dia bem seguro                  87
    Chara minha inimiga, em cuja mão                    12
    Chorai, Nymphas, os fados poderosos                139
    Coitado! que em hum tempo chóro e rio               76
    Com grandes esperanças ja cantei                     2
    Como fizeste, ó Porcia, tal ferida?                 31
    Como louvarei eu, Seraphim santo                   124
    Como podes (oh cego peccador!)                     118
    Como quando do mar tempestuoso                      41
    Con razon os vais, aguas, fatigando                112
    Contente vivi ja vendo-me isento                   125
    Conversação doméstica affeiçoa                      44
    Correm turbas as agoas deste rio                    98
    Crescei, desejo meu, pois que a Ventura             65
    Criou a natureza Damas bellas                       77
    Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste           114
    Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos           35
    De amor escrevo, de amor trato e vivo               52
    De Babel sôbre os rios nos sentamos                119
    De cá, donde somente o imaginar-vos                 59
    De frescas belvederes rodeadas                     102
    De mil suspeitas vãas se me levantão                61
    De quantas graças tinha a natureza                  66
    De tão divino accento em voz humana[6]              32
    De vós me parto, ó vida, e em tal mudança           12
    Debaixo desta pedra está metido                     32
    Debaixo desta pedra sepultada                      116
    Deixa, Apollo, o correr tão apressado              125
    Desce do ceo, immenso Deos benino                  100
    Despois de haver chorado os meus tormentos         101
    Despois de tantos dias mal gastados[7]              28
    Despois que quiz Amor que eu só passasse             3
    Despois que vio Cibele o corpo humano[8]            96
    Diana prateada esclarecida                         141
    Ditosa pena, como a mão que a guia[9]               94
    Ditosas almas que ambas juntamente                 124
    Ditoso seja aquelle que somente                     38
    Diversos dões reparte o ceo benino                  72
    Divina companhia que nos prados                     81
    Dizei, Senhora, da belleza idea                    138
    Doce contentamento ja passado                      133
    Doce sonho, suave e soberano                       140
    Doces e claras agoas do Mondego                     67
    Doces lembranças da passada gloria                  10
    Dos antigos Illustres que deixárão                  44
    Dos ceos á terra desce a mor belleza               100
    Dulces engaños de mis ojos tristes                 113
    Em Babylonia sôbre os rios quando                  120
    Em flor vos arrancou de então crescida[10]           7
    Em formosa Lethea se confia                         14
    Em huma lapa toda tenebrosa                        128
    Em prisões baixas fui hum tempo atado                3
    Em quanto Phebo os montes accendia                 141
    Em quanto quiz fortuna que tivesse                   1
    En una selva al dispuntar del dia                   83
    Erros meus, má Fortuna, amor ardente                97
    Esfôrço grande, igual ao pensamento[11]             45
    Espanta crescer tanto o crocodilo                   95
    Esses cabellos louros e escolhidos                  53
    Está o lascivo e doce passarinho                    16
    Está-se a Primavera trasladando                     15
    Este amor que vos tenho limpo e puro               135
    Este terreste caos com seus vapores                 46
    Eu cantarei de amor tão docemente                    2
    Eu cantei ja, e agora vou chorando                  86
    Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo                80
    Eu vivia de lagrimas isento                        137
    Ferido sem ter cura parecia                         35
    Fiou-se o coração de muito isento                  106
    Foi ja n'hum tempo doce cousa amar                  43
    Formosa Beatriz, tendes taes geitos                104
    Formosos olhos, que cuidado dais                   130
    Formosos olhos, que na idade nossa                  20
    Formosura do ceo a nós descida                      34
    Gentil Senhora, se a Fortuna imiga                  72
    Grão tempo ha ja que soube da Ventura               24
    Guardando em mi a sorte o seu direito               86
    He o gozado bem em agoa escrito                     66
    Horas breves de meu contentamento                   91
    Hum firme coração posto em ventura[12]              57
    Hum mover de olhos brando e piedoso                 18
    Huma admiravel herva se conhece                     65
    Illustre e digno ramo dos Menezes[13]                4
    Illustre Garcia, nombre de una moza                129
    Imagens vãas me imprime a phantasia                116
    Indo o triste pastor todo embebido                 138
    Ja a roxa e branca Aurora destoucava                36
    Ja cantei, ja chorei a dura guerra                  90
    Ja claro vejo bem, ja bem conheço                   58
    Ja do Mondego as agoas apparecem[14]                56
    Ja he tempo, ja que minha confiança                 25
    Ja me fundei em vãos contentamentos                127
    Ja não sinto, Senhora, os desenganos               136
    Julga-me a gente toda por perdido                   76
    Las peñas retumbaban al gemído                      83
    Leda serenidade deleitosa                           40
    Lembranças de meu bem, doces lembranças            130
    Lembranças, que lembrais o bem passado              89
    Lembranças saudosas, se cuidais                     27
    Levantai, minhas Tagides, a frente[15]             114
    Lindo e subtil trançado que ficaste                 22
    Los ojos que con blando movimiento                 107
    Mal, que de tempo em tempo vas crescendo           117
    Males que contra mim vos conjurastes                14
    Mi gusto y tu beldad se desposaron                 110
    Mil veces entre sueños tu figura                   109
    Mil vezes determino não vos ver                     62
    Moradoras gentis e delicadas                        54
    Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades            29
    Na desesperação ja repousava                        71
    Na margem de hum ribeiro que fendia                 74
    Na metade do ceo subido ardia                       36
    Naiades, vós que os rios habitais                   29
    Na ribeira do Euphrates assentado                  139
    Não ha louvor que arribe á menor parte              59
    Não passes, caminhante. Quem me chama?              19
    Não vas ao monte, Nise, com teu gado                60
    Nas cidades, nos bosques, nas florestas            126
    Nem o tremendo estrepito da guerra                 106
    N'hum bosque que das Nymphas se habitava            11
    N'hum jardim adornado de verdura                     7
    N'hum tão alto lugar de tanto preço                142
    No bastaba que amor puro y ardiente                108
    No mundo poucos annos e cansados                    51
    No mundo quiz o Tempo que se achasse                45
    No regaço da mãe Amor estava                        64
    No tempo que de amor viver sohia                     4
    Nos braços de hum Sylvano adormecendo              103
    Novos casos de Amor, novos enganos[16]              55
    Nunca em amor damnou o atrevimento                  67
    O ceo, a terra, o vento socegado                    87
    O culto divinal se celebrava                        39
    O cysne quando sente ser chegado                    22
    O filho de Latona esclarecido                       69
    O fogo que na branda cera ardia[17]                 20
    O raio crystallino se estendia                      50
    O claras aguas deste blando rio                    109
    Oh arma unicamente só triumphante                  122
    Oh cese ya, Señor, tu dura mano                    113
    Oh como se me alonga de anno em anno                25
    Oh quanto melhor he o supremo dia                  118
    Oh quão caro me custa o entender-te                 49
    Oh rigorosa ausencia desejada                      111
    Olhos, aonde o ceo com luz mais pura                77
    Ondados fios d'ouro onde enlaçado                  105
    Ondados fios d'ouro reluzente                       43
    Onde acharei lugar tão apartado                     91
    Onde mereci eu tal pensamento                      102
    Onde porei meus olhos que não veja                  56
    Orfeo enamorado que tañia                           84
    Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante[18]         95
    Os meus alegres, venturosos dias                    90
    Os olhos onde o casto amor ardia                    94
    Os Reinos e os Imperios poderosos[19]               11
    Os vestidos Eliza revolvia                          49
    Para se namorar do que criou                        99
    Passo por meus trabalhos tão isento                  6
    Pede o desejo, Dama, que vos veja                   16
    Pensamentos que agora novamente                     47
    Pois meus olhos não cansão de chorar                34
    Pois torna por seu rei e juntamente[20]             96
    Por cima destas agoas forte e firme                 70
    Por gloria tuve un tiempo el ser perdido            82
    Por os raros extremos que mostrou                   23
    Por sua nympha Céphalo deixava                      92
    Porque a tamanhas penas se offerece                101
    Porque a terra no ceo agasalhasse                  121
    Porque quereis, Senhora, que offereça               17
    Posto me tem fortuna em tal estado                 143
    Presença bella, angelica figura                     94
    Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes            143
    Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes[21]       131
    Qual tem a borboleta por costume                   129
    Quando a suprema dor muito me aperta                74
    Quando da bella vista e doce riso                    9
    Quando de minhas mágoas a comprida                  37
    Quando o sol encoberto vai mostrando                18
    Quando os olhos emprégo no passado                  89
    Quando se vir com agoa o fogo arder                 73
    Quando, Senhora, quiz Amor que amasse              137
    Quando vejo que meu destino ordena                  28
    Quanta incerta esperança, quanto engano            117
    Quantas penas, Amor, quantos cuidados              142
    Quantas vezes do fuso se esquecia                   21
    Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento           88
    Que doudo pensamento he o que sigo[22]              57
    Que esperais esperança? Desespéro                   78
    Que estilla a árvore sacra? Hum licor santo        122
    Que levas, cruel Morte? Hum claro dia[23]           42
    Que me quereis, perpétuas saudades?                111
    Que modo tão subtil da natureza                     73
    Que pode ja fazer minha ventura                    144
    Que poderei do mundo ja querer                      47
    Que vençais no Oriente tantos Reis[24]              33
    Quem diz que Amor he falso, ou enganoso            103
    Quem fosse acompanhando juntamente                  39
    Quem jaz no grão sepulcro, que descreve             30
    Quem póde livre ser, gentil Senhora                 31
    Quem pudera julgar de vós, Senhora                  53
    Quem quizer ver d'amor huma excellencia            107
    Quem, Senhora, presume de louvar-vos                54
    Quem ve, Senhora, claro e manifesto                  9
    Revuelvo en la incesable fantasía                   82
    Se a fortuna inquieta e mal olhada                 134
    Se algum'hora essa vista mais suave                 79
    Se as penas com que Amor tão mal me trata           30
    Se com desprezos, Nympha, te parece                 63
    Se como em tudo o mais fostes perfeita              78
    Se da célebre Laura a formosura                     52
    Se despois de esperança tão perdida                 50
    Se em mim, ó alma, vive mais lembrança             128
    Se lagrimas choradas de verdade                    127
    Se me vem tanta gloria só de olhar-te               75
    Se no que tenho dito vos offendo                   133
    Se pena por amar-vos se merece                      42
    Se quando vos perdi, minha esperança                13
    Se somente hora alguma em vós piedade               24
    Se tanta pena tenho merecida                        17
    Se tomo a minha pena em penitencia                  48
    Seguia aquelle fogo que o guiava                    93
    Sempre a razão vencida foi de amor                  75
    Sempre, cruel Senhora, receei                      134
    Senhor João Lopes, o meu baixo estado[25]           68
    Senhora ja desta alma perdoae                      140
    Senhora minha, se eu de vós ausente                 63
    Sentindo-se alcançada a bella esposa                93
    Sete annos de pastor Jacob servia                   15
    Si el fuego que me enciende, consumido             110
    Sôbre os rios do Reino escuro, quando              120
    Suspiros inflammados que cantais                    37
    Sustenta meu viver huma esperança                  136
    Tal mostra de si dá vossa figura                    71
    Tanto de meu estado me acho incerto                  5
    Tanto se forão, Nympha, costumando                  79
    Tem feito os olhos neste apartamento               131
    Todo animal da calma repousava                       8
    Tomava Daliana por vingança                         23
    Tomou-me vossa vista soberana                       19
    Tornae essa brancura á alva açucena                 64
    Transforma-se o amador na cousa amada                6
    Vencido está de amor Meu pensamento                 80
    Verdade, Amor, Razão, Merecimento                  119
    Vi queixosos de Amor mil namorados                 126
    Vós Nymphas da Gangetica espessura[26]             115
    Vós outros que buscais repouso certo                99
    Vós, que de olhos suaves e serenos                  46
    Vós que escutais em rimas derramado                 51
    Vós só podeis, sagrado Evangelista                 123
    Vossos olhos, Senhora, que competem                 33

    ECLOGAS.
                                                       Pag.
    A quem darei queixumes namorados[27]               201
    A rustica contenda desusada[28]                    212
    Agora, Alcido, emquanto o nosso gado               268
    Agora ja que o Tejo nos rodeia                     279
    Ao longo do sereno                                 160
    Arde por Galatea branca e loura                    240
    As doces cantilenas que cantavão[29]               222
    Cantando por hum valle docemente                   189
    De quanto alento e gôsto me causava                288
    Despois que o leve barco ao duro remo              242
    Encheo do mar azul a branca praia                  247
    Parece-me, pastor, se mal não vejo                 252
    Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto               275
    Passado ja algum tempo que os amores               179
    Que grande variedade vão fazendo[30]               145

    CANÇÕES
                                                       Pag.
    A instabilidade da fortuna                         303
    A vida ja passei assaz contente                    356
    Com fôrça desusada                                 315
    Formosa e gentil Dama, quando vejo                 300
    Ja a roxa manhãa clara                             307
    Junto d'hum secco, duro e esteril monte            328
    Manda-me Amor que cante docemente                  318
    Manda-me Amor que cante o que a alma sente         322
    Nem roxa flor d'Abril                              340
    Oh pomar venturoso                                 343
    Por meio de humas serras mui fragosas              352
    Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura           349
    Quem com solido intento                            346
    Se este meu pensamento                             311
    Tornei a triste pena                               326
    Vinde cá, meu tão certo secretario                 322
    Vão as serenas agoas                               309

    ODES.
                                                       Pag.
    A quem darão do Pindo as moradoras                 376
    Aquelle moço fero                                  383
    Aquelle unico exemplo[31]                          378
    Detem hum pouco, Musa, o largo pranto              360
    Fogem as neves frias                               381
    Formosa fera humana                                368
    Ja a calma nos deixou                              389
    Naquelle tempo brando                              386
    Nunca manhãa suave                                 371
    Póde hum desejo immenso                            373
    Se de meu pensamento                               365
    Tão suave, tão fresca e tão formosa                363

    NOTAS                                              395



    [1] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez
    duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque
    diz elle: _Deste modo de hablar parece que se infiere que á este
    naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella fortuna
    sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas
    en sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será
    ejecutado puede estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré
    sin poder averiguarlo_. Mas nem he isto por certo, nem de o não ser
    se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma
    que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza
    não ignorão que o verbo _ser_ tem duas accepções; a de _ser_ e a de
    _estar_: e se na significação propria de _ser_ denotaria, neste
    lugar, o principio da acção, na de _estar_, em que o tomou o poeta,
    denota o complemento e termo della. E sendo este uso tão frequente
    ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem tão
    lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas
    nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns
    leitores, julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia.

    [2] Os dous irmãos Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara,
    aquelle confessor, este escrivão da puridade, ou secretario intimo
    de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de longe ião preparando o
    jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz
    nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos,
    dirigio uma carta, onde se lia o seguinte:

    "Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão
    de sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo
    cuida, ou o bem commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior
    esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e
    fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os
    mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de
    Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e
    qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes
    ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e
    prudencia, que do modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde
    vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor
    guarde) que não houvessem por grandissima dita, se com isso se
    houvessem de ver livres do estado em que se vem."

    [3] _Esta Canção e a precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em
    sentença e dicção pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse
    a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passára a
    escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual fosse a elegida
    pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se
    vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da
    ultima Estancia desta:_

        _E porque não cabia dentro nella
        De bens tamanhos tanto,
        Sahe por a boca convertido em canto_

    _preferisse o poeta o daquell'outra:_

        _Se bem a declarei,
        Eu não a escrevo, da alma a trasladei._

    _por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja
    repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo
    e peregrino._

                                                      _Nota dos editores._

    [4] Conjectura Faria e Sousa que este Soneto fosse feito a seu avô
    Estacio de Faria, amigo de Camões, e como elle poeta e soldado.

    [5] Este Soneto anda impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu
    por seu.

    [6] Em resposta ao Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana."

    [7] Bernardes imprimio este Soneto como seu e é o 77 nas suas Rimas,
    aindaque os seus mesmos contemporaneos o julgavão de Camões,
    imprimindo-o na primeira ed. de suas Rimas.

    [8] A D. Rodrigo Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo
    conjectura Faria.

    [9] A Manuel Barata, famoso professor de Calligraphia no seculo XVI,
    publicando a sua Arte de escrever em 1572.

    [10] Á morte de D. Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os
    Mouros, junto a Ceuta em 1553.

    [11] A sepultura de D. Henrique de Menezes, septimo Governador da
    India, fallecido em Goa no anno de 1526.

    [12] Este he tambem hum dos Sonetos que Bernardes publicou por seus,
    e que Faria achou nos M. S. que continhão obras de Camões.

    [13] Diversos forão os cavalleiros deste apellido que servírão com
    distincção na India no tempo de Camões. Suppomos que o Soneto foi
    feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que passou á India com seu
    Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em que ia Camões,
    onde naturalmente contrahírão amizade; pois este fidalgo foi
    encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada
    no Estreito.

    [14] Tambem este Soneto anda nas Rimas de Bernardes.

    [15] A D. Theodosio de Bragança.

    [16] Tambem impresso entre os de Bernardes.

    [17] A D. Guiomar de Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo
    cahido de hum castiçal uma vela accesa que lhe queimou o rosto.

    [18] A D. João de Castro.

    [19] A D. Theodosio de Bragança.

    [20] A D. Luis de Ataïde, voltando pela segunda vez a governar a
    India, no anno de 1577. Bernardes tambem metteu este Soneto entre os
    seus.

    [21] Em um M. S. foi achado este Soneto com este titulo: _De Luis de
    Camões a uma Dama que lhe enviou uma lagrima entre dous pratos._
    Thomaz d'Aquino.

    [22] Este Soneto, diz Faria e Sousa, em um M. S. se entítula do
    Conde de Vimioso; e anda tambem impresso entre os de Bernardes e he
    o 79.

    [23] Na morte da Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua
    terceira Rainha D. Leonor.

    [24] Ao Viso-Rei D. Luis d'Ataïde.

    [25] A João Lopes Leitão, a quem se attribue o Soneto em louvor de
    Camões: "Quem he este que na harpa Lusitana."

    [26] A D. Leoniz Pereira, defendendo valerosamente a praça de Malaca
    de que era Capitão, contra o formidavel poder do Achem, em 1568.

    [27] A D. Antonio de Noronha.

    [28] A D. João de Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. João II.

    [29] A D. Antonio de Noronha.

    [30] Á morte de D. Antonio de Noronha e do Principe D. João, pae
    d'ElRei D. Sebastião.

    [31] A D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India,
    por occasião de haver Garcia da Orta, famoso Medico Portuguez,
    publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: _Colloquio dos
    Simples, e cousas medicinaes da India_.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II" ***

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