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Title: Pelo mundo fóra
Author: Carvalho, Maria Amália Vaz de, 1847-1921
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

                                             Rita Farinha (Nov. 2009)



Maria Amalia Vaz de Carvalho


PELO MUNDO FÓRA


LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira--editor
_50, 52--Rua Augusta--52, 54_
1896



PELO MUNDO FÓRA



Maria Amalia Vaz de Carvalho


PELO MUNDO FÓRA


LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira--editor
_50, 52--Rua Augusta--52, 54_
1896



LISBOA
Typographia e Stereotypia Moderna
_II--Apostolos--II_
1896



I


Não ha de certo ninguem, por pouco imaginativo e pouco phantasista que
seja, que não tenha architectado um complicadissimo e alegre sonho
dando-lhe por base o _prazer das viagens_. Aos homens é o interesse de
visitar cousas novas, de experimentar sensações mais vivas, que os
attrahe e chama; ás mulheres é o amor do desconhecido que lhes irrita a
insaciavel curiosidade.

Imaginamos todos que a ventura está justamente... onde nós não estamos.
E que seria facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um pouco longe,
em um logar d'onde ella nos sorri, d'onde ella nos acena, cariciosa...
traiçoeira.

Eu cedi tambem á estranha, á irresistivel suggestão. Fui-me por esse
mundo fóra em busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se parece com
aquelle fructo colhido em terras da Palestina--mimo e velludo por fóra,
cinzas escuras no interior.

Era bem natural que, para mim tão profundamente modelada pelo espirito
da França, o primeiro objectivo fosse a terra onde a civilisação
franco-latina se resume em synthese deslumbradora.

Chamava-me Paris. E Paris não era, já se vê, a cidade luxuosa e alegre
do _boulevard_, a cidade da permanente festa, do prazer que se elabora
de todos os requintes de uma decadencia, da phrenetica aspiração ao gozo
material da vida.

Paris era a terra sagrada d'onde brotára para a especie humana a
primeira scentelha da Liberdade.

Paris era a patria, pelo menos moral--d'aquelles espiritos de que a
minha alma colhêra, n'um vago extase fecundante, a flôr maravilhosa e
inspiradora.

Todos os que eu intellectualmente mais amára tinham ido alli receber a
consagração suprema da gloria ou da desgraça, ás vezes de ambas ellas.

Eram, no grande seculo classico, Pascal, Racine e Molière; eram, na
soberba Renascença franceza, Rabelais e Montaigne; eram depois, n'esse
seculo XVIII hoje tão calumniado, mas sempre tão grande, e que tão
indomitas energias acordara na alma do homem, Rousseau com a sua morbida
sensibilidade de ambicioso e de revoltado, que nós hoje comprehendemos
tão bem; era Voltaire, a sã ironia hoje desdenhada, mas que tão benefica
acção exerceu na treva do espirito humano; era Diderot, o profundo
precursor de todas as modernas theorias criticas, o homem que no seu
tempo moveu maior numero de idéas novas e suggestivas; era a pleiade
formidavel e fascinante da Revolução, a que na minha mocidade me dera
sensações de tão absoluto assombro, a que, desde Turgot e Mirabeau até
Robespierre, refizera em novos moldes o mundo moral e o mundo politico;
era, na cumiada mais alta e mais luminosa da montanha da Historia, essa
grande figura immortal, o Alexandre do seculo XIX, o heroe de Homero, o
phrenetico conquistador, que empobreceu talvez a França, que dizimou as
populações e crucificou as mães e as noivas, que sangrou do seu melhor
sangue as nações e as raças, mas que imprimiu na sua patria o cunho
epico, inapagavel, inolvidavel, com que ella ainda hoje espanta e
assombra o espirito dos estrangeiros! Parece dos tempos lendarios e é de
hontem esse homem soberbo e fatal--em cujo olhar profundo ha
reverberações do Olympo, e cuja fronte pensativa fez parar embevecidos,
silenciosos, os mais impassiveis e os mais frivolos--cuja figura nós
topamos a cada passo na Capital do Mundo.

Modernamente, quantos outros me chamavam, ainda mais queridos ao meu
coração, ainda mais intimamente e estreitamente identificados com todas
as recordações mais doces da minha vida intellectual... Era Michelet, o
poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida intensa que pullula em
creações immortaes; era Renan, a graça emballadora, ondeante e morbida,
que anesthesia e faz sonhar; e Taine, o vigor soberbo da idéa servido
por um temperamento possante de artista e de poeta, um Spinosa que
tivesse o pincel do Veronez para traduzir as visões do seu pensamento
altissimo; era Musset, o divino; era Sand, e Sainte Beuve, e Hugo, e
Lamartine: e cada um me attrahia por um lado ou por muitos lados da sua
sensibilidade e do seu genio, e cada um me dizia a palavra magica que
faz parar, suspenso, embevecido, um espirito de poeta e de artista,
humilde embora...

Eram mais, eram muitos mais, todos lidos, todos decorados com
enternecimento e apaixonado enlevo. Eram os que eu sempre amei desde que
abri os olhos d'alma, e a quem devo os prazeres mais ardentes, mais
refinados ou mais subtis da minha vida interior.

Todos alli me chamavam--côro de mortos que eu tinha a louca illusão de
encontrar ainda. Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do pae
Dumas havia de accentuar-se sympathicamente ao encarar com o meu
assombro extatico; que a voz mordente de Voltaire se amolleceria para
acolher em mim a mais fervente enthusiasta do espirito francez; que
Beaumarchais me contaria, entre risonho e caustico, uma nova travessura
de _Figaro_, uma nova paixão de _Cherubin_; que Molière, descendo do seu
pedestal marmoreo, me diria ao ouvido uma d'aquellas profundas reflexões
satyricas que elle não poupára ás _bas-bleus_ do seu tempo!

Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante as épocas, os seculos, os
periodos historicos.

O meu humilde espirito colhêra apaixonadamente scentelhas soltas de
todos esses espiritos; a minha memoria guardava reverente, em relicario
precioso, perfumes vagos de todas essas essencias raras! Amara-os tanto!
Sonhara-os tanto! O scenario onde elles se tinham movido interessava-me
tão profundamente!

Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia, para elle _real_, das suas
elegantes e pallidas heroinas; elle que era forte e bom, compadecido da
minha pequenez, não duvidaria apresentar-me a esse mundo mais humano,
mais verdadeiro que o outro em que tanto á vontade sabia mover-se.

A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e aristocratica rainha do
_faubourg_, aquella que amára tanto um portuguez, e que tivera no seu
abandono uma dignidade tão gentil e uma attitude de tão romanesco
encanto, ao vêr-me patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia o que
fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia, introduzir-me-hia,
carinhosa e maternal, no circulo estreito, exclusivo, selecto onde
viviam as suas eguaes.

Então, n'este ponto do meu sonho galopante, mais rapido que o trem que
me levava, mais vertiginoso que o scenario mudavel que me envolvia, eu
deixava o mundo da realidade sempre limitado, sempre condicional e
sempre estreito, por outro amplissimo, fascinador e deslumbrante.

A multidão prestigiosa das figuras de Balzac cercava-me n'uma especie de
circulo encantado. Todo o sortilegio poderoso com que esse grande
artista--o Napoleão da litteratura--actuou sobre o nosso tempo, descia
sobre o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o perigosamente.

Todos os meus gostos de observadora achavam alli a sua satisfação plena.
Esquecia, n'esse mundo de tão frisante _realidade_, de tão intensa vida,
tudo que o mundo actual tem de nauseante e de triste...

De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro da _Comedia humana_, é bem
mais assustador que Reinach e que todos os judeus modernos da Columna da
Bolsa; Vautrin tem um porte épico de criminoso que deixa a perder de
vista Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem que é de
Balzac como Hamlet é de Shakespeare, como Tartufo é de Molière, como D.
Juan é de Byron, é um politico, um diplomata, um perverso das altas
cumiadas sociaes, bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos pobres
pygmeus da terceira Republica; Lousteau, Claude Vignon, Emilio Blondet,
Nathan, os principes do jornalismo, os grandes criticos e os
manipuladores de _successos_ ou de derrotas litterarias, não podem
realmente comparar-se ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao proprio sr.
Rochefort.

E que pleiade encantadora de artistas e de sabios! Que lindas figuras
luminosas de pintores, de esculptores, de romancistas, de pensadores!
D'Arthez! Joseph Bridau! Camille Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal!

Em Miguel Christien transparece a integridade rigida, a consciencia
admiravel, a fogosa independencia de Armand Carrel; em D'Arthez a bella
alma, a vida modesta e simples, a magnificencia intellectual de um
Berryer...

E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados, os cinzeladores da
palavra, os manejadores soberbos ou do escalpello que abre as entranhas
humanas para extrahir d'ellas o segredo da vida, ou do pincel que rasga
janellas de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres da sciencia e da
arte, os grandes typos que constituiram essa sociedade imaginaria da
obra de Balzac, reflexo idealisado da outra que elle frequentava e
conheceu tambem.

Ao pé d'esse agrupamento sublime de figuras que o genio creou, e que
illuminam o talento, a gloria, a ambição ou a desventura, que ora se
contorcem como os personagens que Miguel Angelo pintou nos seus frescos
soberbos, sob o influxo de uma dôr tremenda, ora sorriem olympicamente,
como os retratos do Ticiano, surge uma legião adoravel de mulheres, em
quem a graça indefinivel da parisiense se allia ao eterno mysterio da
poesia feminina, mulheres que se vestem como duquezas modernas, e
sorriem, enygmaticas e suggestivas, como a Monna Lisa, eternamente
indecifravel, do pintor florentino.

Mulheres que sabem _ouvir_, que sabem comprehender, e julgar, e
consolar, e amar; mulheres que, sendo perversas, teem o encanto
diabolico da princeza de Cadignan e de Mme. Marneffe, e que, sendo
puras, se chamam Henriette de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres que
são ao mesmo tempo imaginarias e reaes; que ficaram representando na
historia um papel preponderante e caracteristico, como as inspiradoras
da Renascença italiana, como as amigas gregas de Socrates e de Platão.



II


O comboio levava-me, rapido, ferozmente rapido. Levava-me para longe do
meu ninho, dos meus filhos, de tudo que me faz a vida consolada e boa,
de tudo que me dá força para o trabalho, para a lucta, de tudo que enche
de bençãos a minha existencia laboriosa e triste...

Á paizagem arida, pedregosa, da Extremadura hespanhola succedia um
scenario mais animado, mais caracteristico. Aldêas que desde os tempos
hispano-arabes se conservam na mesma immobilidade barbara, sinos altos
de egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de velhos conventos,
ninhos de cegonhas nas arvores que pareciam correr commigo, sombrias
manchas de arvoredo que o vento torcia em attitudes de desesperada
supplica...

A grandeza alpestre dos Pyrenéos e a França, a França emfim!... Oh! que
jubilo estranho e mysterioso se mesclou então com a saudade que me ia
alanceando e cortando as raizes da alma!

A França! Como eu tinha levado annos a amar e a sonhar esse paiz entre
todos aureolado aos meus olhos da luz que vem de cima!

Outras que para lá partem levam projectos de requintada elegancia para
pôr em pratica. Irão ao Redfern, o alfaiate afamado da rua Rivoli, que
veste tão primorosamente as francezas de alto cothurno; irão ao Worth,
popularisado pelos romances modernos; á Laferrière, que veste as
actrizes de mais fama; ao Felix, que principescas encommendas acabam de
singularisar; comprarão na Virot o ultimo modelo de chapéo; receberão
_chez_ Lenthéric _des conseils de beauté_, que elle dá carissimos, _pela
hora da morte_, segundo a expressiva phrase portugueza, e que de resto
tão pouco aproveitam a quem os recebe; interrogarão anciosas a elegancia
avulsa da parisiense que passa, pedindo-lhe o segredo, que só ella tem,
de andar por sobre o solo molhado ou enlameado, sem macular de leve a
fimbria, gentilmente arregaçada, do seu simples, gracioso e bem posto
vestido escuro, que se amolda sobre um espartilho de mestra, com a
nobreza com que sobre o corpo de uma estatueta de Tanagra se amolda a
roupagem de linhas magistraes que o envolve sem encobril-o; o segredo de
collocar sobre a sua fina cabeça pequenina, lindamente penteada, ou
antes, lindamente despenteada, um minusculo chapéo, similhante a uma
borboleta ou a uma flôr, que o vento parece querer levar, e que não leva
nunca...

O Paris que as attrahe é o Paris da moda, da elegancia, do _chic_, do
_concours hippique_, da _avenue des Acacias_, do _vernissage_ e dos
pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe é o dos figurinos, das
lojas de modas, dos ourives da rua de _la Paix_, dos frequentadores do
_boulevard des Italiens_ e da _Madeleine_.

O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi tragica do _expresso_,
surgia ante meus olhos, era um Paris phantastico, _unreal_, feito,
construido, cimentado com o genio dos seus grandes artistas, dos seus
grandes poetas, dos seus historiadores, dos seus moralistas, dos seus
sabios, dos seus criticos, dos seus dramaturgos, dos seus romancistas
geniaes!

A França, a que minha alma aspirava, como aspira ás paizagens desoladas
da Palestina a alma dos grandes ascetas do christianismo, como aspiram á
mystica e penetrante atmosphera de Bayreuth os fanaticos da religião
wagneriana, era a França que desde Jean Goujon até Rodin, e desde o
Poussin até Puvis de Chavannes, e desde Froissart até Michelet, e desde
Mme. Laffayette até Georges Sand, e desde Balzac até Zola, e desde
Pascal até Renan--um, o catholico que se inclina sobre o abysmo da
duvida, outro, o sceptico que tem a uncção evangelista de um santo... e
desde Montaigne até Anatole France, e desde Racine até Bourget... os
finos psychologos do eterno feminino--e desde Ronsard até Victor Hugo, e
desde Marot até Verlaine, e desde a grande renascença do seculo XVI até
ao magnifico movimento do romantismo, têem enchido o mundo da arte, e da
poesia, e da realidade, e da ficção, de obras primas sem conta e sem
medida!...

De pequena tinham-me ensinado essa lingua tão clara, que milhares de
artistas forjaram, bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias
coruscantes, esmaltaram de riquissimas côres, metal precioso feito de
todos os metaes, e que tem qualidades de flexibilidade, de elegancia, de
sonoridade, de harmonia, de colorido, e de pujança absolutamente
incomparaveis e inimitaveis... De pequena tinham-me mettido nas mãos as
obras primas dos seus genios mais brilhantes, e eu sentia-me no intimo
da minha alma mais franceza ás vezes do que propriamente peninsular.

Ah! mas que melancholico foi o despertar do meu ambicioso, do meu doido
sonho!...

Atravessei, com uma rapidez que me deixou confusa e palpitante, o Paris
da minha evocação de vidente; estavam mortos os amigos que me tinham
alimentado com a medula do seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e,
vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera em que elles tinham
respirado, nas ruas em que elles tinham morado, no scenario que elles
enchiam do seu nome é que eu, pela primeira vez, ia sentil-os longe,
muito longe de mim, na incommensuravel distancia moral, que a
proximidade physica revelava de repente ao meu chimerico espirito de
sonhadora!

......................................................................

Senti então o que nunca julguei que sentiria n'esse paiz que eu reputava
positivamente a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia tão
violenta, tão dolorosa, que pensei morrer d'ella! Uma especie de
desaggregação intellectual, que deve ter nome na pathologia do cerebro,
mas que eu não sei scientificamente classificar--o que de resto não
admira nada!

Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em uma especie de assombro mudo,
em que a saudade de Portugal punha uma nota alanceadora, torturante.

O que os livros me tinham revelado foi como que varrido da minha
memoria; os sonhos que eu tinha edificado sobre a minha vinda a Paris,
desmoronaram-se em uma especie de estranho cataclysmo, e percorri a
linda capital da Europa civilisada, não como uma pessoa que de antemão,
e por muito os ter visto descriptos, conhecesse os seus encantos, as
suas bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu _pavé de bois_ se
exhalam de envolta com o cheiro penetrante da terra sempre humida e
sempre regada, a festa perenne das suas ruas e avenidas onde a miseria
não vem pôr a sua mancha livida, onde perpassa uma multidão sempre
garrida e sempre feliz, a perfeição nos seus theatros, a perversa poesia
das suas canções _fim de seculo_, a tenra verdura das suas arvores, tão
bem cuidadas que parece que de manhã cedo as lava todos os dias, a
esponja e sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros, a lindeza da
sua luz que á tarde se faz de um cinzento roseo como o das paizagens de
Corot, tão inexprimivelmente bellas... mas como um ser inteiramente novo
às impressões da vida extra-civilisada e que d'ella recebesse uma
especie de choque _estupidificante_!

Através de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente como um _cauchemar_,
era a saudade do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas, construida
em amphitheatro, sobre o Tejo amplo e azul, da bonhomia d'este nosso
viver um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo de parodia
involuntaria que ás vezes o desfigura e o desnacionalisa, da
familiaridade com que todos nos conhecemos, nos amamos através do
_debique_ permanente, em que andamos uns a respeito dos outros, da
tranquillidade um tanto adormecida do nosso espirito, do amor da casa
que distingue todo o bom lisboeta, da ausencia de ambição que,
exceptuando as alturas procellosas da politica, imprime o seu cunho
esterilisador, mas calmante, em todas as nossas almas serenas...

A lingua então, a musica da lingua patria, fazia-me uma falta dolorosa.
Tinha sêde de ouvir falar portuguez!

E preferia aos divertimentos que a engenhosa amabilidade do meu querido
hospedeiro me proporcionava, e ás excursões artisticas em que elle era
um _cicerone_ incomparavel, instruidissimo, _raffiné_, cheio de idéas
originaes e suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas em
Neuilly, na luz discreta da lampada Carcel, que um quebra-luz côr de
rosa fazia mais acariciadora e mais suave, e onde a familia
adoravelmente intelligente, e inolvidavel para mim, de um escriptor
portuguez, que é um artista da mais pura raça intellectual e da mais
ampla envergadura de engenho, me fazia uma especie de pequenina patria.
Alli a conversa tinha o tom preguiçoso da nossa conversa, os gostos
combinavam-se com os meus gostos, os nossos geitos especiaes de
portuguezas manifestavam-se a cada instante, e o que a graça feminil de
umas combinada com o genio nervoso e original de outros podiam dar de
delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se para me fazer esquecer a
patria, os filhos, os outros amigos ausentes!

Nem sabem--n'esse ideal cantinho do mundo onde vivem, um pouco alheados
da civilisação babylonica que os aperta, os cinge e os invade ás
vezes--elle, o artista laborioso e apaixonado mettido no seu trabalho
austero e impeccavel, como um monge na sua cella estreita, ellas, as
duas encantadoras irmãs, envoltas na grinalda viva de lindissimas flôres
humanas, que são para uma _tudo_, e quasi tudo para o coração
instinctivamente maternal da outra,--nem sabem o bem que me fizeram
n'uma d'estas crises absurdas que só os nervosos conhecem e das quaes o
mundo estupidamente ri!

Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella violenta nostalgia que
ameaçava inutilisar inteiramente o resultado moral da minha viagem,
_reaprendi_ a gosar Paris, não já o meu Paris ideal, especie de
babylonia construida em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris real,
tal como elle lentamente me foi sendo revelado pelo intelligente
_cicerone_ que eu tive a fortuna de ter no meu divagar de _touriste_.



III


Folheio ao acaso as notas escriptas a correr, na rapidez da minha
viagem, e transcrevo-as para aqui, na sua sinceridade frisante.

É, de resto, o unico merito que hoje podem ter as notas de viagem, o
temperamento pessoal do artista que _viu_, através das impressões que a
sua visão lhe deu. Mais nada. Tudo está dito, e não ha quem acorde uma
emoção nova, na alma do leitor _blasé_ pelo conhecimento da obra dos
grandes artistas que viajaram. O proprio Bourget, que é um mestre, cujo
unico defeito é ter vindo um pouco tarde, depois de muitos outros, está
reduzido a chamar _Sensações de Italia_ ao seu livro encantador de
viagem na terra classica da Arte. As sensações que a Italia lhe deu a
elle, eis unicamente o que o delicado escriptor se atreve a contar,
certo de que toda a essencia de poesia que d'esse maravilhoso e fecundo
solo se pode extrahir, outros a extrahiram antes d'elle por lá ter
passado.

A minha unica desculpa vem a ser esta: costumada a contar n'este mesmo
logar as impressões colhidas na leitura dos livros, porque me não
atreverei a completar, a ampliar, a desenvolver essas impressões
_livrescas_ com outras colhidas em diversos ramos de arte; mais
directas, mais reaes?...

......................................................................

--Acabo de sahir do Louvre, onde fui visitar as galerias da esculptura e
principalmente essa sala entre todas privilegiada e bemdita, onde a
_Venus victoriosa_, a Venus de Milo, esplende na sua sagrada formosura.

Chamava-me de longe, como um sortilegio poderoso exercido pelo Bello,
essa figura que eu tinha mil vezes visto em reproducções, em estampas,
em photographias, que me tinham dito ser a suprema divinisação do corpo
feminino, e que eu ia pela primeira vez contemplar na sua genuina pureza
marmorea.

A minha impressão, comquanto profunda, tem o seu quê de incerto e
duvidoso. Porque? Será porque a Venus não realisou o sonho que eu fizera
da perfeição ideal dos seus contornos e das suas linhas? Não. Ella é
realmente a belleza augusta, sobrehumana, ideal, como a proclamam
unanimes os que a tem visto e julgado.

Mas é que eu não tenho em mim enraizado como uma religião da infancia,
fazendo corpo com as minhas crenças, idéas e sentimentos, esse culto da
belleza physica que foi a feição primacial da civilisação dos gregos.

Para mim um _corpo divino_ é uma expressão litteraria, não é um dogma de
esthetica instinctiva.

Por isso, através da bella estatua procuro adivinhar, nas suas linhas
mais geraes, a extincta civilisação que ella representa, de que ella é
como que o remate e a flôr!

Como Taine diz tão bem, «todas as grandes cousas um pouco remotas
correspondem a sentimentos que já não temos.»

Precisamos de os reconstruir pela reflexão; e como ainda os menos
profundamente instruidos têem uma educação cosmopolita e multipla, em
que umas poucas de concepções de arte se ajustam e sobrepõem, como nós
temos, adquirida laboriosamente, ou bebida no ar que respiramos e nas
rapidas leituras que fazemos, uma noção, profunda ou elementar, de cada
uma das civilisações que antecederam a nossa, acabamos depois de algum
tempo de meditação por comprehender, com o espirito, não com a alma, o
sentimento que inspirou a obra de arte que estamos contemplando um pouco
inintelligentemente.

O _snobismo_ artistico consiste em fingir que se entende tudo á primeira
vista, mesmo as cousas mais avêssas ao nosso temperamento individual ou
nacional. Evitar esse _snobismo_ a todo o custo, deve ser o decidido
empenho de qualquer espirito honesto e sincero.

A Venus é, mesmo para o simples profano, uma esplendida revelação de
arte? É, de certo.

Não póde um corpo feminino ondular em linhas mais puras, não póde a
branca flôr do marmore palpitar com mais intensa vida.

Pela graça magestosa da sua mutilada attitude (que fazia ella quando
tinha os seus divinos braços, perguntam debalde os criticos especiaes da
arte grega!), pela serenidade ineffavel da sua posição, pela harmonia
absoluta das suas linhas esculpturaes, pelo rythmo inspirador do seu
corpo marmoreo,--a Venus de Milo, brotada do cinzel de desconhecido
artista, na hora mais feliz da arte da Grecia, logo depois de Phidias
lhe haver imprimido o sello supremo de sua grandeza, antes do escopro de
Praxiteles a haver impregnado de uma languida graça voluptuosa, de um
sensualismo requintado e enervante, que decahe mais tarde na imitação
anti-esthetica da Natureza, nos realismos da polychromia, na extincção
final do gosto e do puro ideal artistico: a Venus de Milo merece ser
considerada, como diz Paulo de Saint Victor, aquella Eterna Belleza que
Platão adorava, a _Venus victrix_ cujo nome Cesar dava por senha aos
seus soldados na vespera de Pharsalia, e em todo o caso a mais bella
interpretação, que os modernos possuem d'esse feminino eterno que a
Grecia tanto amou, que no mundo historico ella foi a primeira a amar, e
cujo culto poetico e sensual traduziu nos seus mythos divinos, nos seus
ritos magnificos, na sua arte incomparavel...

Comtudo, nós sómente possuimos truncados restos, fragmentos secundarios
da esculptura grega e não somos capazes, senão por _dilettantismo_ e por
curiosidade intellectual, de comprehender bem o culto apaixonado que ao
corpo humano foi consagrado pela Grecia.

É necessario avistar ao menos de longe essa raça simples, viril,
intelligente e bella, que foi de todas as raças a unica que poz a sua
concepção da felicidade humana em perfeito accordo com a sua concepção
das leis do Universo, que á realisação positiva de todos os seus
instinctos chamou Virtude, e á encarnação de todos os impulsos
naturalistas deu o nome de deuses; que tendeu ao aperfeiçoamento, e ao
desenvolvimento pleno da natureza humana na sua constituição politica,
no seu organismo social, nos seus costumes, na sua arte, na sua
religião; que fez deuses á similhança dos homens para os poder amar, e
que, chegada ao ponto culminante da sua perfeição artistica, esculpiu
homens á similhança de deuses para lhes render culto...

Que nos importa hoje, a não ser como exercicio d'arte, a belleza ideal
de um corpo de homem ou de um corpo de mulher?

Para nós a belleza tem outras regras bem mais complicadas, bem mais
subtis, e tão difficil nos é conceber um corpo sem defeito, movendo-se
na plena graça e na plena liberdade da sua harmonia muscular, como seria
á Grecia conceber o nosso moderno ideal do bello, todo em expressão, com
a alma atormentada e complexa que se revela principalmente através do
gesto, através do olhar, através da physionomia ardente e devastada...

Para a Grecia, porém, habituada a realisar a perfeição, não sómente no
marmore, que isso veiu mais tarde como complemento e como resultado,
senão na propria carne humana, e que seguia todos os processos pelos
quaes uma raça de homens se desenvolve, se robustece, se apura, se
requinta, até poder attingir a belleza suprema: que empregava não só a
eliminação systematica de todos os productos defeituosos, não só o
cruzamento forçado dos fortes e das bellas, mas tambem os exercicios
permanentes da força, e da graça robusta e livre, nos jogos do gymnasio,
na orchestrica, nas dansas guerreiras ou sacerdotaes, na educação,
emfim, do corpo levada ás mais minuciosas praticas que podem depurar-lhe
as formas e desenvolver-lhe as latentes energias--para a Grecia a
belleza physica é mais que uma virtude, é uma condição absoluta da vida
nacional.

Sem belleza, isto é, sem harmonia, não ha força; sem força como é que a
pequena Grecia venceria a poderosa Persia? Como é que ella chegaria a
ser o nucleo de extraordinaria civilisação, de que ainda hoje, apesar de
trinta seculos de mutilações continuas, a nossa alma se alimenta, nutre
e revigora?



IV


Mas quem nos diz a nós que a Venus de Milo, objecto de uma ardente e
justa admiração entre os modernos, não fosse no fim de contas uma
estatua vulgar no seu tempo?

Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja chronologia e cuja historia
chegaram até nós, descobertas pela paciente erudição, em alguns
fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero, de Quintiliano, não
faziam as suas obras mais preciosas senão em ouro, em prata, em marfim,
em materias firmes bem mais raras que o paros e o pentelico, de que hoje
se guardam nos museus os torsos mutilados, os fragmentos soltos, as
reconstituidas estatuas.

Ao pé do que se sumiu d'essa sublime estatuaria grega, flôr suprema
d'aquella civilisação de athletas, de gymnastas, de oradores e de
heróes, quantas attitudes para a «esculptura»! O que resta vale bem
pouco, e representa apenas como documento de uma éra extincta.

Mas pelo que resta, nós sabemos que o corpo bello, viril, robusto e são,
movendo-se livremente sob a claridade azul de um céo sem manchas, era o
ideal artistico d'esse povo que, mais feliz que nenhum outro, traduziu
integro e immaculado o seu sonho da vida, e--para quem é a vida, mais
que um sonho?--na religião, na arte, na poesia, nas paginas luminosas de
Homero, Eschylo e Platão, na fórma sublime da sua Acropole, ante a qual
Renan soltou aquelle melancolico e sublime grito de amor, nas frisas e
estatuas dos seus templos, nas ceremonias divinas e inspirativas do seu
culto, que ora são castas como a longa procissão das Panatheneas, ora
são soberbas de força e de pujança animal como as dansas e os jogos de
ephebos nús...

A Grecia amou a sobriedade, a correcção, a graça e a força.

E depois de percorrer um periodo longo e o progressivo da iniciação,
chegou ao ponto de combinar e fundir os extremos mais oppostos n'aquella
completa harmonia, que só uma vez se realisou na terra e que não torna
mais!

Que importa, porém, que não torne?

Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse sobre nós, astro longinquo
e puro hoje apagado e de que ainda vêmos o reflexo calmo, para que o
mundo ficasse eternamente ungido d'aquella graça mysteriosa, d'aquelle
divino _atticismo_ que em alguns raros eleitos resplandece e de que
todos temos o presentimento, a sêde, ou a avidez!

Por isso Renan, a alma mais accessivel á influencia do bello de que
talvez possa ufanar-se o nosso tempo, dizia no alto da _Acropole_ estas
palavras que traduzem um sentir universal que até alli não achára
expressão condigna:

--«Ó Natureza impeccavel! Oh! simples e verdadeira Belleza! Deusa cujo
culto significa sabedoria e razão! oh! tu cujo templo é uma lição eterna
de sinceridade e consciencia! chego bem tarde aos umbraes dos teus
mysterios; venho ao teu altar cheio de remorsos! Para te encontrar, que
infinito esforço eu fiz!

«A iniciação que, n'um sorriso, davas ao atheniense na primeira
infancia, só á força de reflexões e de esforços eu pôde conquistal-a!

«Tu só és moça! tu só és pura! tu só és sã! tu só és invencivel!»

Um outro critico profundo, que estudou a Grecia com o amor com que se
estuda a civilisação-mãe, de que todas mais ou menos dependeram depois,
diz que no caracter nacional d'essa raça se discriminam claramente os
tres traços fundamentaes que constituem a intelligencia de um artista.

Estes tres traços são a _delicadeza da percepção_, a _necessidade
absoluta da clareza_ e o _amor e culto da vida presente_.

O primeiro d'esses traços permittiu-lhes perceber as relações secretas
das cousas, deu-lhes o sentimento fino e raro das _nuances_, e a suprema
aptidão para construirem conjunctos de fórmas, de seres e de côres,
combinações de circumstancias e de elementos tão bem ligados entre si e
por tão estreita identidade de relações, que a sua creação de arte foi
tão _viva_ que excedeu no mundo imaginario a harmonia preestabelecida no
mundo real e verdadeiro.

Ao segundo deveram o sentimento da proporção que possuiram como nenhum
outro povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem pelo monstruoso e
pelo enorme,--que é a marca distinctiva do Oriente, do qual elles só
aproveitaram o bom,--o gosto dos contornos firmes e precisos. _O amor_ e
o _culto da vida presente_ bem o revelaram na sua religião sem mysterio
e sem _au delá_, na sua paixão pela belleza plastica, na sua sêde de
serenidade e de alegria, no seu antagonismo ingenito com a doença, com
as miserias physicas ou moraes, no seu encantamento absoluto, e que é
para nós immoral mas que para elles o não era, deante do corpo nú,
representação suprema da força, da graça, da saude e da belleza...

Uma raça tão maravilhosamente dotada, idealista e positiva a um tempo,
tinha por força de traduzir-se no esplendor das artes plasticas.

O espectaculo permanente dos bellos corpos nús, ou envoltos lassamente
na elegante e longa tunica que na altura do joelho se duplica e cahe
sobre os pés em pregas esculpturaes de inimitavel graça, a contemplação
habitual d'essa raça que se distingue pela nobreza simples das
attitudes, pela perfeição athletica da fórma, pela serenidade do aspecto
que as nossas mesquinhas ambições ou o nosso devastador pensamento não
tinham convulsionado,--tudo devia naturalmente produzir, pelo pendor
imitativo que caracterisa o espirito do homem, a maravilhosa floração de
artistas sublimes que ao principio tentaram e depois conseguiram
libertar a noção do bello da estreita prisão que o cingia e apertava,
fixar no marmore, no ouro, no marfim e no bronze a soberba visão da
força militante ou graça ingenua e pura!

Como é interessante seguir a evolução da arte grega desde o ponto em que
ella parece ainda pedir á inspiração hieratica do Egypto o molde
incorrecto que a liga e mumifica, até a hora em que Praxiteles arranca
do marmore a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia canta assim a
voluptuosa formosura:

«Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido admirar a propria imagem, e
após longa contemplação falou d'est'arte: Onde é que Praxiteles me viu
sem véos?... Não, Praxiteles não ousou violar-te com olhar sacrilego. O
que elle fez foi representar-te com o cinzel qual te havia sonhado!»

Ao principio, a architectura e a estatuaria, estreitamente unidas,
pareciam identificadas e inseparaveis; mas quando a estatuaria se
emancipou, não foram sómente as frisas e os baixos relevos dos templos,
as colossaes effigies da «cella» interior, que captivaram e deslumbraram
o olhar do povo grego, foram as soberbas figuras erguidas ao ar livre, a
Athenêa colossal de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as mulheres de
Carya, a Artémis divina em volta de cuja estatua as virgens da
Lacedemonia vêm tecer annualmente as suas dansas rituaes!

Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo, que representava cada
divindade com os attributos do seu poder, ou com os accessorios
significativos das transformações naturaes de que ellas todas eram a
concreta imagem; agora o que se revela ao fanatismo de belleza que
palpita na alma grega, são divinos corpos de mulheres em toda a
magnifica pujança da sua belleza creadora, em toda a graça adoravel da
sua feminina poesia.



V


A estatua deante da qual eu acabo de passar algum tempo, pedindo-lhe o
segredo do perdido Ideal que ella traduz, representa, como eu já disse,
esse momento fugitivo e bello da vida grega.

Esculpiu-a um desconhecido artista: mas não são totalmente desconhecidos
tambem para nós, os pobres oleiros que amassaram e modelaram as lindas
estatuas encontradas nos tumulos de Tanagra e não são tambem ellas a
poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel graça?

Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor: «Oh! bemdito seja o camponez
grego, cuja enxada exhumou a deusa enterrada ha dois mil annos em uma
leiva de trigo!... Graças a elle, a idéa do Bello ascendeu mais um gráu
sublime, o mundo plastico encontrou a sua Rainha!... A belleza ondula
d'essa cabeça divina e espraia-se em todo o corpo como uma luz!... Só a
lingua de Homero e de Sophocles seria digna de celebrar tão regia Venus!
Sómente a amplidão do rythmo hellenico poderia moldar, sem
deslustral-as, fórmas tão perfeitas!

«Por que palavras exprimir a magestade d'esse marmore triplamente
sagrado, a attracção mesclada de assombro que elle inspira, o ideal
supremo e ingenuo que revela?»

E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz assim:

«A fronte soberba, de linhas curvas, cingida pelas _bandelettes_ do
penteado, é tal qual a podiamos sonhar para séde de uma alma divina; o
collo direito e firme lembra o fuste de uma columna dorica, o seio de
virgindade eterna é digno de servir de modelo, como o de Helena, para a
taça dos altares!»

E, no emtanto, essa bella e pequenina cabeça, que uma graça ideal nimba
eternamente, não é tal como elle diz, séde _de uma alma divina_. A Venus
de Milo não pensa. N'aquella branca flôr marmorea uma alma vegetativa
sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das suas longas tragedias, que
sulcam de rugas profundas a fronte pallida das mulheres, que contorcem
em ancias, indomitas como o Oceano, a alma dos homens?

Quem lhe revelou, a ella, o segredo das nossas paixões que devastam, das
nossas luctas que ou disvirilisam ou depravam, das contradicções
medonhas de que erriçamos o nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos
debaixo dos nossos cançados pés? Que presentimento sequer tem ella--a
deusa inalteravel e serena--de tudo que a engenhosa imaginação dos que
vieram depois--deuses e homens--inventou para se torturarem e nos
torturarem?

Os dois mil annos que temos a pesar-nos sobre a cabeça e sobre o peito,
passou-os ella ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia.

O que ella representa é um momento risonho e curto da existencia humana;
um momento em que tudo é bello e harmonioso na terra e no céo, em que,
para imitar os deuses que crearam, os homens não precisam de deixar
mutilar as suas energias mais vivas, os seus instinctos mais naturaes;
um momento em que o amor é sagrado e puro como a fonte inexgotavel dos
sêres, e como tal tem culto e tem altares; um momento em que a Natureza
é benevola e sã, e em que da espuma dos mares da Jonia póde brotar a
flôr maravilhosa da eterna belleza, em que a inconstancia das ondas, a
perfida doçura das sereias, o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de
esmeralda collaboram em uma obra divina e produzem um symbolo
immortal...

       *       *       *       *       *

Que differença d'essa concepção propria á esculptura antiga e a nossa de
hoje, tão fundamentalmente opposta nos fins e nos processos!

E no emtanto a estatuaria franceza representa no seculo XIX um momento
glorioso da historia da arte! Mas desenganem-se. Póde a estatuaria
franceza moderna revelar um grande talento da parte de quatro ou cinco
ou mesmo mais individuos; não é, não pode já ser uma necessidade, uma
aspiração da raça, universal e irreductivel!

É um esforço de talento individual, não é o rebento vigoroso e vivaz em
que desabrocha finalmente a alma de um povo!

Depois da minha visita incompleta, mas cheia de interesse, ás galerias
da antiguidade classica, fui ao Luxemburgo vêr as estatuas francezas
modernas, e procurei, nos monumentos erguidos aqui ou alli, á memoria de
um artista querido ou de uma gloria nacional, o sello, a marca, pelos
quaes uma arte revela as intimas fibras de que é feita.

Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores! O marmore, branco de
mais, tinha a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue, púrpura viva,
circúla rico e livre, mas pareceu-me que a preoccupação da _expressão_
dominava absolutamente os artistas e que elles tinham quasi todos
perdido o segredo em virtude do qual um corpo humano, masculino ou
feminino, interessa por si só, pela harmonia das suas proporções, pela
liberdade com que jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso de cada
uma das suas linhas.

E voltei d'essa peregrinação artistica sempre mais convencida, de que a
esculptura é talvez a mais bella das artes, mas a que está em menos
harmonia intima com o nosso ideal da vida!

Que temos nós feito em um longo esforço de dezenove seculos, apenas
interrompido pelo movimento artificial, erudito e artistico, mas não
popular da Renascença?

Temos contrariado pertinazmente a acção da Natureza sobre os nossos
gostos, instinctos e paixões. O que é o christianismo na sua essencia
philosophica e na sua influencia social? Uma reacção violenta e
permanente contra essa noção pagã da existencia que fazia d'ella uma
festa perenne e magnifica; que fazia do corpo humano alguma cousa de
sagrado e de inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a servir;
que fazia dos instinctos naturalistas da nossa especie a lei suprema a
que céo e terra se subordinassem, pois que os deuses para serem amados
deviam ter e tinham as paixões que hoje fazem os homens criminosos.

O animal humano era realmente então o rei da creação, mas nenhuma das
suas forças enfraquecera ou diminuira, nenhuma das suas energias fôra
mutilada, nenhum dos seus instinctos domados, e elle movia-se livre,
feliz, triumphante e bello, em uma atmosphera de apotheose, que nenhuma
sombra vinha sinistramente obumbrar.

A antiguidade grega não é uma orgia, porque a orgia precisa de ter por
fundo a consciencia do peccado, e a Grecia em tudo que fez de
peccaminoso e de immoral aos nossos olhos, não violou nenhuma lei
divina, não foi de encontro a nenhum preceito dogmatico; pelo contrario,
obedecendo ao seu instincto, obedeceu á sua religião.

D'esta harmonia entre a lei moral, que então não existia senão
rudimentar, e a realidade physica, vem a sua immensa felicidade e o
encanto incomparavel da sua civilisação.

Para o christianismo, pelo contrario, o corpo é o involucro, amaldiçoado
as mais das vezes, de paixões condemnaveis, de instinctos que é
necessario a todo o custo dominar, subjugar, vencer.

Não é impunemente que a especie humana tem vivido acurvada durante
longos seculos a este jugo incomportavel.

Resente-se d'elles até a revolta dos atheus.

Por isso a nossa concepção da belleza physica, partindo de outras fontes
mais profundas e mais turvas, não podia ter nunca a incomparavel
claridade que tem o ideal grego. Os esculptores, que conservam na sua
alma o cunho indelevel que alli tem imprimido a civilisação christã, á
belleza do corpo humano prendem fatalmente considerações de ordem
complexa que não influenciaram a estatuaria antiga.

As mulheres teem a attitude languida de peccadoras nuas, a carne, que o
marmore quer fingir, e que tem d'ella ás vezes a flexibilidade, a
macieza, a vibratil poesia, tem tambem palpitações e solicitações
voluptuosas que a grave e simples belleza nunca deve suggerir aos que a
contemplam e que não suggeria aos contemporaneos de Phidias!

Isto não quer dizer que desde a antiguidade a esculptura seja uma arte
morta. E seria realmente sacrilego que tal avançasse, quem viu curvada,
em religioso assombro, a reproducção fiel d'essa _Noite_ de Miguel
Angelo, de uma tristeza tão tragica e sublime, e o grandioso _Moysés_ de
biblica magestade incomparavel, e o _Penseroso_, e o _San Jorge_ do
Donatello, cuja nobre attitude altiva faz passar um calafrio de
admiração pelos nervos ainda mais resistentes.

Mas quer dizer que a estatuaria é hoje uma arte destinada a satisfazer,
não a alma collectiva das multidões, mas o espirito culto dos
_dilettanti_ e dos artistas; uma arte em que o genio individual póde
manifestar-se sublimemente e lá está a _Porta de Bronze_ que Rodin anda
esculpindo que o diga, e lá estão os tumulos de Barrias, e lá está o
baixo relevo de Rude, e lá estão as innumeras estatuas, os innumeros
monumentos que enchem as praças e os museus affirmando que a França
d'este seculo possue uma intensa vitalidade artistica que a honra a deve
encher de justo orgulho. O proprio Falguière, um pouco amaneirado como
é, e dando ao marmore palpitações sensuaes e lubrica languidez, lá tem
no monumento erguido na _Escola das Bellas-Artes_ a Henri Regnault uma
figura de mulher deliciosa e viva, que faz estremecer de goso o
verdadeiro artista, isto para não fallarmos na sua formosa Diana por
quem consta que morreu de amor um pobre hysterico, dos muitos que andam
enchendo este triste mundo com o espectaculo das suas perversões
morbidas!

A arte moderna, a que inspira a todas as almas de hoje o mesmo spasmo de
agonisante prazer, é a musica. Essa sim, que é para nós o que a
estatuaria pura, augusta e simples foi para os athenienses, o que a
architectura gothica foi para as torturadas almas idealistas da idade
media, o que a pintura foi para os renascidos pagãos da Renascença
italiana, ébrios de côr, de luz, de vida. Essa sim, que é de nós todos,
e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, e nos consola e nos tortura, e
nos arranca a nós mesmos e nos leva ao Inferno e ao Céo.



VI


Visto que no outro capitulo fallei, não na inferioridade o que seria um
mal escolhido termo, mas na differença que distingue a estatuaria
moderna da estatuaria antiga, vou dizer alguma cousa a respeito de um
dos artistas mais palpitantemente _modernos_, mais caracteristicamente
diversos dos antigos que hoje possue a França e a quem de passagem me
referi nos meus anteriores artigos.

Este artista é Rodin. Os seus principios foram rudes e difficilimos,
como o de quasi todos os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles que
trazem comsigo um temperamento tão accentuadamente independente e tão
intransigentemente pessoal, que desnorteia todas as rotinas e
revoluciona todas as estheticas estabelecidas e todas as escolas
triumphantes.

Hoje Rodin é, elle proprio, um triumphador.

Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe a altiva independencia
artistica, chamam-lhe um dos primeiros, senão o primeiro esculptor do
seculo.

Nem sempre comtudo succedeu assim.

Quando elle primeiro apresentou no _Salon_ a sua figura denominada
«L'áge d'airain», que hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim do
Luxemburgo, a primeira impressão do Jury, diante da escrupulosa
exactidão de algumas partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario
o tinha modelado sobre um corpo vivo e real.

Como se um tal excesso realista e anti-esthetico não fosse a condemnação
de um artista e pudesse produzir outra cousa a não ser uma obra morta
logo á nascença.

Foi em 1877 que a figura da «Idade de bronze» foi mandada ao _Salon_. Em
1881 Rodin expunha o «S. João de bronze», «um anachoreta magro e
robusto, de musculatura devastada e solida, erguida sobre pés que a
marcha endureceu, torso nodoso, habituado a todas as intemperies, com um
gesto de prégador obstinado, que levanta a face illuminada e aberta dos
mysticos e dos colericos.»

Até 1885 Rodin, que ao pé do «S. João» expuzera tambem a «Creação do
homem», apresenta na grande nave do Palacio da Industria os bustos
expressivos e magistraes de Jean Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de
Victor Hugo, de Dalou, de Antonin Proust.

No emtanto o acontecimento magno que até o presente domina a carreira
artistica de Rodin é a concepção e a execução da «Porta», destinada ao
«Museu das artes decorativas», á qual me referi já n'estas mesmas notas.

Fiz, acompanhada do meu amavel _cicerone_ o trajecto longo que leva ao
«atelier» de Rodin.

Caminhámos pela rua da _Universidade_, atravez dos longos _boulevards_ e
das largas avenidas que se entrecruzam ou correm parallelamente nas
proximidades dos Invalidos.

É uma rua aristocratica e socegada; tem grandes palacetes e tem velhas
arvores.

Outras vezes surprehendem-nos entre esses vestigios de antigas
grandezas, pequenas casas graciosas com jardinsinhos á ingleza cuidados
e cheios de flores.

No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo de mau gosto,
americanismo revoltante erguido em plena Athenas moderna,--a physionomia
d'esta rua placida e tranquilla modifica-se bastante.

Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidraçados, mais altos do que as
muralhas, annunciam ao observador que entra n'um bairro de esculptores e
pintores.

Entrámos no n.^o 182.

Transposta a grande porta, que lembra o portão de uma das nossas
quintas, achámo-nos dentro de um cerrado bastante vasto, em que o chão é
musgoso e esverdinhado, em que ha recantos de herva alta e viçosa, e por
sobre os muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam
curiosamente...

A dois passos do vertiginoso movimento de Paris respira-se aqui uma paz
profunda, uma quasi solidão melancolica e doce.

Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore de fórmas diversissimas, de
côr frigida e branca, de arestas que brilham como aço ou como vidro ao
sol de abril, de veias azuladas em que parece gyrar um mysterioso
sangue...

Dormem na severa prisão cyclopica d'esses blocos brutaes corpos airosos,
leves, esbeltos de nymphas florentinas, bustos delicados de Eva
adolescente, divinas nudezas de que esses marmores são a primeira fórma
rude, fórmas delicadas em que o genio do artista accenderá uma chispa
mysteriosa de vida immortal.

Que deliciosas figuras de mulher um cinzel magistral arrancará d'essa
massa dura e informe!

Como elle saberá flexibilisal-a em membros de uma graça serpentina,
arredondal-a em braços que se abrem em uma curva deliciosa e suggestiva,
derramar, sobre niveas espaduas nuas, a vaga fluida e revolta de uma
cabelladura crespa e magnifica, entreabrir em um sorriso enygmatico
finos labios femenis, allumiar de ignota chamma o globo cavado de uns
olhos, desabrochar em molles curvas a flôr de um seio virginal...

Todas estas visões de um mundo increado nos são suggeridas pela vista
d'esse campo cheio de pedras enormes, que á tarde, na luz rosea e
violeta do crepusculo, parece--disse-nos alguem--uma charneca semeada de
gigantescos tumulos...

Sobre esse armazem de pedra ao ar livre abrem as portas baixas dos
«ateliers» de esculptores que alli vieram buscar a commodidade e a
solidão. Um d'elles é o atelier de Rodin, que eu ia visitar.

       *       *       *       *       *

Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. O mestre não
estava, e o discipulo, que trabalha com elle,--um rapaz do Norte, de
immensa distincção de aspecto,--nem sequer pôde mostrar-nos a esplendida
_Porta_, que estava no compartimento fechado contiguo áquelle em que nós
entrámos, para admirar alguns grupos de marmore, em que a poderosa
_griffe_ do grande esculptor se imprimira profundamente.

O talento de Rodin é tão pessoal, é tão inconfundivel a sua maneira,
que, depois de se ter visto um corpo humano modelado por elle, não
tornamos a confundir este poderoso manejador do cinzel com nenhum dos
seus contemporaneos celebres.

Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a originalidade de Rodin
destaca, comtudo, em uma energia indominavel.

E original é ainda o assumpto que elle escolheu para essa _Porta_
monumental, apesar de arrancado á Divina Comedia Dantesca. É uma
transformação da idéa do poeta, não é uma copia do seu pensamento, nem
um reflexo exacto da terrivel visão florentina.

Transcrevo de um critico eminente que fez a analyse da obra do esculptor
a descripção d'essa obra soberba, que eu tanto quizera ter visto.

Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal como elle apparece,
envolto no prestigio de uma sympathia merecida, aos seus admiradores que
se contam por milhares.

Rodin é baixo, atarracado e placido de aspecto.

A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por sobre o peito, enquadrando um
rosto friamente espiritual, um d'estes rostos de homem que valem
principalmente pela luz interior que os illumina, e que ora traduz a
serenidade silenciosa do trabalhador satisfeito com a sua obra, ora a
distracção absorvente do artista em lucta com as difficuldades ingentes
da execução manual, ora a preoccupação dolorosa do investigador
insaciavel em busca do novo e do perfeito. A fronte de mystico, um pouco
ogival na fórma, é vasta bastante para conter um cerebro potente de
pensador e de poeta.

O olhar e a voz estão em harmonia absoluta; olhar agudo, brilhante, que
concentra em si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se insinua, e
onde um toque de causticidade põe não sei que estranho realce...

Tal o artista de tenaz vontade, a quem a estatuaria moderna, complicada
e symbolica, revela os seus segredos mais subtis.

Como typo representativo da arte moderna, não o ha mais culto, mais
philosophico, mais apto para entender tudo e tudo realisar.

E porque elle é assim, absolutamente incompativel com o simples ideal
grego, é que procurou no grande poeta da Idade Média o assumpto da sua
obra definitiva e magistral, obra de metaphysico e de observador, ao
mesmo tempo que é obra de artista; representação tragica, complexa e
soberbamente executada, da Natureza e da Vida, em alguns dos seus
aspectos mais inquietadores.



VII


Tem seis metros de altura a famosa _Porta_. As estatuetas do alto,
alguns grupos dos paineis, e os baixos relevos inferiores estão
completos ou quasi completos, mas ha pela vasta officina, espalhadas no
chão, nos sofás, nas cadeiras, em _ètagères_, estatuetas de todas as
dimensões, em todas as posturas incoherentes, convulsas; de supplica, ou
desespero, de agonia ou de dôr, dando a impressão de um campo de batalha
em que os combatentes se conservassem todos vivos, ou de um cemiterio
que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de qualquer galvanismo
prodigioso...

O escriptor a que me estou referindo considera esta multidão de estatuas
um agrupamento humano tão significativo, tão eloquente, tão expressivo
em cada uma das suas mil attitudes, que só o apreciará quem o estudar
individuo por individuo, como se folheia um livro pagina por pagina,
como se lê uma partitura nota por nota, como se analysa um corpo fibra
por fibra...

É a _Porta do Inferno_, quer dizer a agglomeração n'um drama cheio de
movimento e de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das Paixões
inclementes que no homem vivem intensamente, dominando-lhe a vontade,
vencendo-lhe a razão, subjugando-lhe as resistencias, dobrando-o sob a
sua acção irreductivel, fazendo d'elle o instrumento inconsciente de uma
força da natureza que a sua intelligencia não comprehende, e que a sua
virtude não submette...

Sob o cinzel d'este artista genuinamente, apaixonadamente, sentidamente
_moderno_ que é Rodin, o poema do vate gibelino não conservou a côr
local, nem tão pouco o colorido catholico que o especialisa.

O esculptor despiu o seu symbolo de toda a significação italiana e
medievica, e sómente aproveitou a moldura que elle lhe prestava para
exprimir dentro d'ella os aspectos humanos e universaes, que o tempo não
transforma e que o meio não pode alterar.

A _Porta_ ainda está por concluir; sómente o enquadramento do poema
esculpido se póde julgar executado e completo.

As divisões principaes, todavia, já podem ser imaginadas.

Começando pela parte inferior da _Porta_ vê se que os baixos-relevos por
sobre os quaes se vae erguer a composição principal, têem nos paineis
centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas por todas as expressões da
Eterna Dôr.

Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas physionomias atormentadas,
uma dança vertiginosa de mulheres, de satyros e de centauros.

Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma _theoria_ de figuras apertadas no
estreito espaço, alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.

São as doces apaixonadas, as criminosas felizes da paixão illicita, os
amantes que a mesma angustia entrelaça, e as velhas, que já perderam o
que tinham de humano, e as creanças inconscientes, nascidas de pouco
tempo e já marcadas pela garra adunca da Vida, tentando em vão
prescrutar com os seus olhinhos cegos o limbo incolor onde os membros
rachiticos se lhes agitam convulsamente.

No alto, sobre o frontão ha tres homens que são a representação viva do
distico dantesco: _Lasciate ogni speranza_. Inclinam-se uns sobre os
outros na attitude da desolação inconsolada. Apontam com os braços
extendidos para um ponto ignoto, a região do irreparavel, do
horrendamente irreparavel.

Por debaixo d'elles á frente das multidões movediças, que constituem o
primeiro circulo do inferno, um poeta nú, sem nenhum dos distinctivos
que marcam uma época ou uma nacionalidade, medita, mas em uma postura de
repouso.

Os membros fortes são feitos para as longas caminhadas e para as luctas
asperrimas, o rosto inquieto e intrepido, que se crispa na obsessão de
uma idéa fixa, reflecte e repercuta a piedade, a indignação, a tristeza,
todas as sensações que excitam o pensador até ao enthusiasmo, e o
commovem até á lamentação dolorida e tragica.

Aos pés d'elle, sob o seu triste olhar meditativo passa em turbilhão
vertiginoso, cahe no espaço vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade
inteira, na sua teima feroz de viver, de viver atravez da lucta
dilacerante, de viver despedaçada, torturada, sangrenta, com espasmos
violentos de gozo que fazem soffrer mais do que as dôres, com agonias
d'alma que lembram arroubamentos de extase!..

Extraordinaria a concepção do Mestre! Dizem que esses esboços, esses
estudos, essas realisações plasticas bastam para provar a tenacidade de
trabalho do obreiro maravilhoso, a actividade genial de um creador de
seres vivos!

Cada figura isolada, cada grupo freneticamente enlaçado, cada
representação de uma das mil paixões que cingem nos seus tentaculos de
polvo o corpo fragil e a alma dolorida da pobre humanidade, affirma
victoriosamente não só a destreza magistral do estatuario, como tambem a
ardente visão do poeta e a comprehensão soberba do pensador.

Ha entre centenas de outros, cuja descripção acabo de ler enlevada, com
pena inconsolavel de os não ter chegado a vêr com os meus proprios
olhos, um que bastaria, segundo a mais exigente critica assegura, para
confirmar a grandeza de concepção, a força tranquilla e a doçura
melancholica d'este grande artista, que em fórmas asperas, atormentadas,
sem a molleza amaneirada de que hoje a estatuaria reveste o corpo
humano,--soube encerrar e traduzir o infinito das tormentas moraes e a
variedade horrorisante das dôres physicas.

Esse grupo é o de _Francesca e Paolo_, ou antes, tão supprimidas estão
todas as condições do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da parte
do artista em conservar os caracteres geraes e puramente humanos, este
grupo é o do amante e da amante, quer dizer do Amor.

Do Amor, não como a Grecia o pintou nos seus mythos risonhos, mas do
Amor ardente, apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, prodigo
em extasis e em torturas, em espasmos e em lagrimas, tal como a morbida
imaginação de hoje o concebeu e creou!...

O homem é alto e forte, esbelto e flexivel. A mulher, em pleno
desabrochar da puberdade, está sentada com tal ligeireza e tal meiguice
sobre o seu joelho esquerdo, que parece pesar apenas o que pesaria uma
ave.

A mesma doçura de contacto é perceptivel aos sentidos no gesto com que
elle, fazendo do braço um collar quente e caricioso, a prende a si,
emquanto que a outra mão lhe toca no corpo com delicada ternura... Essa
mão forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente nas cousas,
tem a leveza divina do contacto de uma flôr.

O abandono da amante é completo. Enlaça-o como uma liana, enrola-se
n'elle com um carinho em que ha a gratidão do amor feliz e a avidez
insaciavel de caricias; e com a mão que lhe fica livre d'este abraço
apaixonado toca femenilmente nos cabellos com um geito feito de timidez
e de graça pueril.

A cabeça do homem inclina-se, a cabecinha da mulher ergue-se para elle e
as duas boccas encontram-se em um beijo que é como que a união mystica
de dois seres!

A extraordinaria magia d'esse beijo consiste n'isto: é um beijo visivel!
Visivel na impressão violenta que contorce em uma attitude de sedenta
adoração o corpo do homem; visivel no arroubamento da mulher todo ardor
e todo graça!

É triste e deliciosa essa representação sublime e symbolica do amor
humano. Envolve-a como que o nimbo da tristeza que envolve aos nossos
olhos tudo que é bello, intenso de vida e condemnado á morte!...

Como vêm, a inspiração de Rodin participa do que mais agudo tem a
observação da vida real, da vida verdadeira em todas as suas
manifestações e fórmas physicas, e de tudo que mais alto e subtil tem a
poesia das cousas e que d'ellas se destaca como um perfume inebriante,
capitoso e perturbador!

O que elle principalmente traduz é o amor nas suas infinitas modalidades
tragicas ou divinamente bellas...

O amor dos nervos, o amor da carne e o amor da alma entrelaçados e
produzindo esse mixto doloroso, que embriaga como um filtro, que corróe
como um veneno, que contrahe como uma convulsão, que entontece os
sentidos e dá ao coração as revelações da infinita Dôr!

D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu para os modelar pela sua
mão genial de grande artista pensador, os criminosos que o amor
subverteu no abysmo infernal.

Elles exprimem o cançasso devastador da saciedade que já nada espera; o
phrenezi do extase que nada satisfaz; a ternura desbordante que a morte
ha de breve estancar; as fadigas as aspirações, os sonhos morbidos, as
angustias e as melancholias que essa paixão entre todas omnipotente
inflinge aos seus condemnados escravos.

O amor que Schopenhauer descreve como a astucia suprema da Natureza que
se recusa a morrer, e que a maior parte das vezes não passa de um
arrebatamento ephemero, de uma illusão rapida e momentanea; o amor que é
a impossivel aspiração que leva dois seres a quererem formar essa
Unidade mysteriosa que seria o supremo triumpho da Vida sobre a
Dôr,--aspiração que remata no tragico desengano e na fallencia absoluta
do Ideal sonhado, pois que nunca uma alma consegue penetrar
absolutamente outra alma, nunca dois entes estranhos conseguem ser
apenas um _ser unico_, e não ha agonia mais tragica do que esse luctar
angustioso para alcançar um impossivel bem,--o amor tal como á triste
lucidez dos nossos dias elle apparece, doloroso, violento e cheio de
ardentes lagrimas: eis a inspiração, senão unica, principal do grande
traductor plastico da sombria epopéa dantesca!

Como é triste, como representa bem o _Terror_ sentido perante as duras
revelações da Vida, a sua Eva admiravel que, levantando os dois braços
em um gesto de espavorida angustia, e como que esmagando com elles os
seios tumidos da humanidade futura, tapa com as mãos entrelaçadas os
olhos que tanta miseria têm de ver ainda na terra...

É triste, soberba e bella, rica sobretudo de maravilhosas interpretações
a concepção que Rodin fórma da estatuaria moderna. E por elle ser,
d'entre os esculptores modernos, o que mais frisantemente e
voluntariamente se afasta do ideal da Antiguidade, é que eu, em face da
Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena e pura, quiz levantar deante
dos olhos do leitor um esboço ao menos rude e tosco embora, d'essa
tragica _Porta do Inferno_, pela qual o esculptor nos faz penetrar na
gehenna das loucas paixões insaciadas, que erguem na sombra o seu brado
ululante de intraduzivel dôr...



VIII


Quando a gente de longe evoca a grande cidade do luxo, da vida
intelligente, da industria genial, pensa em tudo menos na belleza ideal
das suas arvores. A mim, vejam que estranha cousa!--foi isso que
positivamente me deslumbrou.

O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, nos jardins, nos parques,
nos bosques de Paris, é verdadeiramente delicioso e de um encanto
incomparavel e unico.

N'aquella fornalha tudo parece possivel menos o permanente idyllio que
as arvores representam, pois nem Cintra, essa orgia de verdura, me
consolou tanto a alma a este respeito como Paris. Vê-se que o culto da
arvore, a paixão da Natureza, vive em um canto do coração d'esse pagão
extra-civilisado, que se chama o parisiense. E depois será realmente
extra-civilisado como nós julgamos o parisiense genuino? Não haverá
n'essa immensa cidade cosmopolita, a par de uma minoria pequena de
artistas de talento, uma incontestavel multidão de almas ingenuas que
representam de boa fé toda a especie de comedia, desde o scepticismo _à
outrance_, até ao chauvinismo á Boulanger? Será verdade o que dizem
d'elle os que o pintaram com uma amargura tão acre, F. Flaubert e
Balzac, por exemplo?

Como quer que seja, sceptico ou sentimental, o parisiense adora as
arvores, as flores, a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.

Um passeio ao domingo, em Auteuil, em Saint Cloud, em Neuilly, nas
avenidas do Bois, bastaria para nos esclarecer a tal respeito. É que
tambem alli as arvores são incomparaveis. Ha alamedas longas e
deliciosas, em que o arvoredo de um verde um pouco ruço se recorta no
azul levemente grisalho do céo! Ha longe verduras em Auteuil, por
exemplo, que dão vontade de chorar, que penetram a alma de uma saudade
doce e amarga a um tempo, a saudade que Adão teve de certo do Paraiso,
de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se tão longos, tão calmos!
Quem dirá que alli, a dois passos, se desenrola a multipla fita dos
_boulevards_, onde a febre da vida é tão tentadora e tão intensa!
Auteuil parece ser o fim do mundo, tão sereno e vagamente adormecido é o
seu aspecto, tão ineffavel bucolismo se exhala da sua tranquilla
paizagem. Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem larguissimas
avenidas ao lado de arvoredos, com uns fundos longiquos, em que ha toda
a especie de cambiantes.

O ceu de um azul muito lavado, em que parece ter-se extendido um véu
diaphano de vapor, é bem differente do meu céu portuguez de uma côr tão
quente, ás vezes deslumbradora e excessiva! A agua parece crystallina,
ou sombreada de verde, de uma transparencia deliciosa ou de uma côr
glauca, atravéz das rendas do arvoredo, movediças e multicôres.

Abril tudo em flor, atira em flocos a sua neve perfumada aos troncos ha
pouco despidos; os castanheiros agitam os seus pennachos brancos; os
lilazes saturam a atmosphera do seu cheiro estonteador; ha uma expansão
risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, que se não encontra
infelizmente nos nossos paizes do Sul, onde o solo é tão fecundo, onde a
Natureza um pouco acariciada e auxiliada se desentranharia em maravilhas
de producção!

A nós basta-nos o sol ardente e a vida brutal de que as cousas palpitam
no nosso verão africano; não sabemos pelo trabalho incessante,
intelligente e methodico crear estes paraisos, onde repousa depois
ineffavelmente a frenetica actividade do homem do Norte.

A mim, filha de um paiz accidentado, esta paizagem plena, em que as
alamedas se desdobram lentas, magestosas _à perte de vue_, faz-me uma
impressão de deliciosa calmaria. Não me canso de olhar para as arvores,
as formosas arvores, enormes, colossaes, de um verde tenro, de um verde
ruço, de um verde _mauve_, de todas as gradações imaginaveis do verde, e
em que a nota do verde esmeralda, mais rara, apparece de vez em quando
como uma estridula fanfarra de côr.

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Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece todo entrecortado de manchas
negras de arvoredo--«Não ha cidade com mais arvores», digo eu
verdadeiramente abysmada ao meu companheiro e _cicerone_ que me
responde:--«Londres ainda tem mais!»

Só nós portuguezes, com uma terra maravilhosa, um céu esplendido, um
clima em que a flora de todas as zonas egualmente se domestica, somos
incapazes pela nossa inercia proverbial de ter esta abundancia adoravel
de arvoredo, de verdura massiça em torno de nós!

As alamedas de Saint Cloud, com os cimos verdes entrelaçados, formando a
abobada sobre a cabeça dos transeuntes, pareceriam um bocadinho de
floresta selvagem, se não fosse a invasão da burguezia e do povo vestido
de gala que ao domingo positivamente as inunda e banalisa, tirando ao
sonhador que alli foi acariciar a sua chimera intima todo o gozo que
elle podia beber na solidão.

Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena e dôce e luminosa de Abril,
se regressa a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao longo do Sena,
entre o renque fino e tenro dos choupos que se debruçam nas aguas do
rio, e os _chalets_ e os palacetes que espreitam do outro lado da
estrada do meio dos jardins coalhados de lilazes e de rosaes em flôr,
não ha coração por mais secco e positivo que resista ao encanto
embalador d'este passeio.

Surprehende-se uma pessoa a ser moça outra vez, moça e romanesca e a
arranjar na phantasia uma existencia que quereria ter vivido alli,
n'aquella paz tão proxima da infinda agitação, n'aquelle ermo tão
chegado ao borburinho de uma vida em festa.

Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do mundo e tão longe d'elle, a
minutos de distancia do _boulevard_ da Yvette Guilbert, a deusa da
_chansonnette_ moderna, da _Comedie_ e da sua classica e correcta
interpretação da arte, do _Chat Noir_ e da sua phantasia revoltada, e ao
mesmo tempo tão longe de tudo isto, no silencio do arvoredo em flôr, na
serenidade pantheista da dormente e calma Natureza, no seio inebriante
dos lilazes e das rosas que estillam voluptuosa lethargia de cada petala
da sua flôr avelludada e tenra...

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A vida para certos organismos de eleição só se comprehende n'estes dois
pólos contrarios. Ou tudo que a civilisação tem de mais quintessencial e
de mais extremo, ou tudo que a natureza tem de mais calmo e de mais
_permanente_.

Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro artista o ideal, mas que
poucos são os que as sabem ou querem reunir!...

Pensava eu estas cousas vagas, ao passar deante de _Bagatelle_, a casa
campestre e o lindissimo parque, que surdiram com tão vertiginosa
rapidez de uma aposta entre a infeliz e então leviana Maria Antonietta e
o Conde de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes--as casas e
os homens passam egualmente por ellas--pertence aos herdeiros do celebre
philanthropo William Wallace. A lembrança d'esse tempo, d'essa côrte,
d'essa mulher, cujo nome se fez prestigioso no martyrio, levaram a minha
imaginação para longe, para bem longe no passado.

Fazia justamente cem annos que tanto luxo tanto prestigio, tanta gloria
tradicional se tinham afogado tragicamente em ondas de sangue.

_Noventa e tres_, o anno fatal, surgia sangrento e tragico ante os meus
olhos, produzindo em mim aquelle espanto e aquella fascinação que eu
sempre sinto quando voluntaria ou involuntariamente o evoco.

Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz experimentar essa suprema
sensação da vida feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, ao lado
das pompas de Versailles, a deliciosa pastoral do Trianon; tambem ella,
despindo os pesados brocados e as sedas tecidas com ouro da côrte, quiz
enfiar, ligeira e garrida, o vestidinho de cassa, com o lenço castamente
cruzado sobre os seios opulentos; a sua imaginação romanesca de leitora
de Rousseau, de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer n'esta
delicia das experiencias contrarias que é o sol do _dilettantismo_, mas
nem porque viveu intensamente a vida e gozou tudo que ella tem de
melhor, desde a amisade até á arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem
menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles até á Guilhotina.

O ambicioso coração humano deseja tudo, a tudo aspira e tudo quer!

E para que, no fim de contas? lá o diz Pascal na sua phrase incisiva e
sombria: «o remate é sempre identico, qualquer que tenha sido a comedia
ou a tragedia que o antecedeu».

E aqui está como a vista do arvoredo de Bagatelle me levou para longe do
bucolismo, encontrado, onde meu Deus?... a dois passos da fornalha de
Paris!...

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A mais completa visão de arte e de magnificencia que ainda os meus olhos
tiveram, de que elles guardarão para sempre o reflexo illuminado, foi em
Fontainebleau que a recebi.

Fontainebleau está para Versailles como uma joia de Benevenuto está para
um vaso de macissa prata imperfeitamente burilado. Não ha comparação
entre os dois, e para um artista não ha hesitação na escolha.

Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica e enorme floresta
consagrada por tantas recordações artisticas, litterarias e historicas,
é tudo que póde haver de mais estranhamente bello.

Tem a poesia selvagem e a graça outoniça, e saudosa. Parece um paiz
devastado onde se deram lutas de titans, por onde passou o sopro de uma
tempestade cyclopica, onde a natureza estrebuxa em cataclysmos
tremendos, e faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce de um ninho de
verdura que abriga a alma dolente, e a envolve no filtro subtil das suas
essencias vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, quando as
arvores se revestem de toda a riqueza infinita de colorido d'esse
periodo divino, quando a pompa victoriosa das fortes verduras acres de
seiva se degrada e decompõe em tons expirantes de um encanto mysterioso,
em como que gangrenas vegetaes que desde o purpureo sangrento e o
amarello alaranjado vão até ao côr de lilaz e ao côr de malva,--o
outomno alli deve ser um poema de voluptuosa melancolia, d'estes que só
sabem saborear os que se deleitam na tristeza como em um nectar sagrado,
defezo ás profanidades do vulgo...

Não admira que n'essa floresta tenham vindo meditar e soffrer tantas
grandes almas desenganadas da illusão multiforme da vida.

Conta Michelet, que perguntando a uma mulher intelligente para onde ella
quereria fugir se uma grande dôr lhe désse a sêde, a necessidade de um
asylo no seio da Natureza, ella lhe respondera:--Para Fontainebleau.

--E se tivesse uma alegria enorme, uma alegria que lhe dilatasse a alma
até ao infinito, onde mais lhe agradaria estar:--Em Fontainebleau!

É que realmente aquella paizagem, como diria Amiel, representa todos os
_estados da alma_.

Por isso S. Luiz nas suas fundas dôres, quando as idéas e os sentimentos
do seu tempo agonisavam, dando-lhe um espectaculo que lhe pungia
atrozmente o coração, era alli na floresta sombria que ia rezar pedindo
a Deus conforto e paz.

Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse tédio dos Cesares, a quem
nada resistiu--que é de certo o estado de espirito que mais deve
approximar-se da infinita desolação de Satanaz, foge de Versailles, das
suas pompas, dos triumphos que os seus pintores lhe coloriam e que então
não eram mais que ironias diabolicas do passado orgulho, e vem procurar,
sob as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso, o silencio, o
adormecimento ás suas lancinantes dôres de rei... Francisco I,
desenganado d'esse sonho da Italia, que durante os seculos XV e XVI
perseguiu os reis da França, vem alli construir uma Italia franceza que
o console de haver perdido a outra, a que Miguel Angelo e Raphael,
Bramante e Donatello, Leonardo de Vinci e o Ticiano tinham feito tão
fascinadora e tão grande!...

É em Fontainebleau que Napoleão se despede do seu sonho homerico e
sublime, d'esse sonho de um Imperio Universal, que unificasse o mundo
civilisado sob um despota intelligente, e que lhe foi commum com
Alexandre, com Cesar, com Carlos Magno e Carlos V, com todos os grandes
capitães da historia, tão raros como os grandes poetas.

É alli que essa epopéa magestosa e tremenda se lhe desfaz nas tremulas
mãos que assignam a suprema abdicação do poder e da gloria.

Quantas recordações me suggere esse logar fatidico de Fontainebleau, ou
seja o palacio de fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, onde
talvez os Celtas, ascendentes dos francezes de hoje, colherão no tronco
dos annosos carvalhos o _qui_ das evocações druidicas.

E sahindo d'essas espheras da grandeza social para outra, mais ampla
talvez, mas menos visivelmente pomposa, é em Fontainebleau, que Georges
Sand e Musset dão aquelles ultimos passeios tão tristes, de uma
melancolia feita de tanta saudade, quando _elle_ já sabe que não podia
viver sem _ella nem com ella_, como diz a triste cantiga peninsular
quando _ella_ começa a perceber, que, Ashaverus femenil do amor, tem de
percorrer até ao fim o seu amargo e cru fadario, sem encontrar quem
satisfaça a sua sêde do infinito, sem poder parar n'essa caminhada atroz
em procura do _impossivel_!

Que fundo de paizagem tão triste para um fim de amor! Onde poderiam
elles encontral-o que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de mais
melancolia, de mais intensa e inexoravel saudade!...

Era alli ainda que Musset voltara mais tarde evocando em soluços
immortaes as melhores recordações do seu fatal amor.


Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misère
Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur
Quel chagrin t'a dicté cette parole amère
        Cette offense au malheur!

En est il donc moins vrai que la lumière existe
Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit
Est ce bien ta grand âme immortellement triste
        Est ce tu qui l'as dit?

Non, par ce pur flambeau dont la splendeur m'éclaire
Ce blasphème vanté ne vient pas de ton coeur
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
        Plus vrai que le bonheur

.....................................................
.....................................................


As estatisticas dirão quantas leguas quadradas tem a floresta; os
naturalistas saberão explicar quaes as diversas qualidades da sua flora,
e que essencias se distillam das suas varias resinas; eu sei sómente que
ella me encantou, como uma das mais bellas cousas que os meus olhos
ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a aldêa em que Millet e Rousseau
pintaram as suas télas melhores, e evoquei alli as figuras da
litteratura contemporanea que tem por fundo magestoso--bem mais
magestoso do que ellas são grandes!--a floresta divina de Fontainebleau.

A scena capital e magistral da _Sapho_ de Daudet é alli que se passa;
quando o pobre moço, empolgado pelo polvo terrivel que é para a mocidade
uma mulher perdida, tenta despegar-se d'ella, quer fugir-lhe para
recomeçar ao longe uma existencia calma e boa--em harmonia com as leis
sociaes, protectoras para quem as respeita, inexoraveis e implacaveis
para quem as despreza ou para quem as illude--e é vencido
irreductivelmente pela piedade que ella lhe inspira, por aquelle bramido
de animal, longo, constante, ininterrupto, com que _Sapho_ acorda e
sobresalta os écos de immensa solidão ao vêr imminente a ruptura de que
elle lhe fala, que elle com mil precauções lhe faz prever... Grande
quadro e de uma moral acre e dolorosa mas incontestavel, que os moços
deviam meditar, se é que os moços meditam, se é que a mocidade é
compativel com a previdencia e o calculo.

O parisiense tem a uma hora e meia de caminho de ferro essa grande matta
que é uma das maiores da Europa e a maior da França, por isso parte da
litteratura contemporanea a tem para theatro das suas scenas de
enthusiasmo, de paixão ou de desespero.

Os pintores vão alli procurar os effeitos maravilhosos da luz penetrando
na espessura, banhando-a em purpura, recortando em fundo de ouro a renda
delicada da sua folhagem, picando de pontos deslumbrantemente luminosos
os seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet arrancou-lhe em
paginas immortaes o segredo da religiosidade infinita que possuem as
velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas télas retalhos de paizagem
em que a alma das cousas palpita mysteriosamente.

A floresta de Fontainebleau educou uma geração de paizagistas, qual
d'elles mais penetrado da melancolica poesia da natureza. Que benefica
tem sido a sua calma e suggestiva influencia, que saudade eu tenho da
luz a que ella me appareceu, luz primaveril, que punha tons de um tenro
ineffavel em cada rebento, que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!

É perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, a que é preciso conduzir
o leitor. Deixemos, pois, a floresta e penetremos no palacio.



X


Nos seculos XV e XVI todos os principes, todos os poderosos da terra
tiveram um distinctivo commum que os caracterisa: o seu amor enthusiasta
das maravilhas da arte.

Sabe-se o que foi Lourenço de Medicis, esse Mecenas da litteratura
italiana, esse amante apaixonado e prodigo da erudição, da architectura,
da pintura, da estatuaria. Esse homem intelligente e sagaz, poeta elle
proprio, e apezar de humanista notavel, sacudindo com bastante
independencia o jugo do antigo que pesava demais sobre as musas da
Italia,--mereceu a gloria suprema de ficar immortal no marmore modelado
pela garra de Miguel Angelo.

O _Penseroso_, das estatuas do mestre uma das mais emocionantes, uma das
mais mysteriosamente e tragicamente bellas, teve por modelo o grande
homem florentino, cujo tumulo havia de adornar mais tarde. Leão X, Julio
II e Clemente VII, foram os papas mais doudos pela arte de que reza a
historia.

Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias a Leonardo Da Vinci; os
chefes da aristocratica Republica veneziana não hesitavam quando se
tratava de pagar com prodigalidade louca aos seus soberbos pintores. Mas
Francisco I, o rei da França a quem se deve a magica de Fontainebleau,
esse não sómente adorava a Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.

Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle acolheu na sua côrte o já
octogenario Leonardo Da Vinci.

--«Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a Benevenuto.--_Faço-te
conego_--exclamou deslumbrado para o italiano Rosso no dia em que este,
pela primeira vez o fez penetrar n'essa galeria esplendida, ainda hoje
chamada de Francisco 1.^o--em que o rei desenganado e cançado passou
depois quasi todos os ultimos annos da sua accidentada existencia. E a
promessa extravagante cumpriu-se tal como se fez. Rosso teve um logar de
conego na collegiada da Sainte Chapelle.

O que fizera elle para merecer tão piedosa distincção? Pintára o mais
estranho e luminoso carnaval de alegria e de côr, que ainda a imaginação
febril de um artista d'aquelle tempo de febre concebera e realizára.

Uma multidão pantagruelica em que ha de tudo: o bello e o horrendo, o
delicioso de graça, e o grotesco; figuras virginaes a que talvez
serviram de modelo para o pintor, e de encanto ephemero para o rei, as
doces raparigas que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou iam
buscar as amphoras cheias de agua crystallina das rochas, ás fontes de
Fontainebleau que Jean Goujon e Benevenuto vão fazer idealmente bellas.

No meio da immensa turba de mulheres e de homens, uma flora e uma fauna
inteiramente novas, a flora e a fauna que os navegadores e os
conquistadores da peninsula iberica acabavam, no fim das suas
aventurosas viagens, de revelar ao velho mundo attonito.

A delicia de Francisco I não teve limites ao entrar n'aquelle recinto
encantado em que o mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos mais
bellos!

Interrogador e curioso como era, cada quadro lhe suggeria uma pergunta e
uma investigação nova.

O mundo estranho de que o Rosso pintava algumas das maravilhas ineditas
fazia scismar o pagão devoto que Francisco I era, como todas essas
crianças grandes da Renascença.--Mas então mentia a Biblia quando
contava a creação do homem?

Essas raças, cujo segredo agora se desvendava pela vez primeira, não
eram tal, não podiam ser filhas do biblico Adão?

E a terra movia-se em torno do sol? Onde ficavam n'esse caso as palavras
de Josué?...

Depois contavam-lhe as magnificencias da Turquia, a magnanimidade de
Solimão, as maravilhas da civilisação arabe, tão superior em certos
pontos n'aquelle tempo á civilisação christã, e esta idéa de que o turco
não era finalmente o ante christo, o inimigo figadal de todo o bem e de
todo o bello, produzia um espanto infantil no animo de Francisco I.

Tempo encantador este de que a galeria de Fontainebleau ouviu as
conversações curiosas, mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais subtil,
mais refinado e mais credulo!...

Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, que foi Francisco I,--o
qual para contrapor aos seus vicios innumeros teve sómente a vibrante
sensibilidade para tudo que é bello;--surge a Margarida das Margaridas,
a encantadora, a diserta, a latinista, a intelligente rainha de Navarra.
N'aquelle tempo saber latim não é um requinte de pedantismo, é uma
exigencia da fina cultura.

Quem não soubesse latim não sabia nada, não tinha conhecimento nem da
poesia no que ella tem de mais perfeito e mais bello, nem da Historia no
que tem de mais suggestivo e de mais inspirador. Ora Margarida amava os
poetas e a poesia, e ajudava seu irmão a fazer a Historia,
aconselhando-o, auxiliando-o, inspirando-o, negociando por elle com os
diplomatas do tempo.

A sciencia, a erudição, a poesia enchem o espirito de Margarida; quem
lhe enche completamente a alma é o irmão, esse irmão grosseiro e
sensual, natureza que, a não ser o amor da arte, seria feita do barro
mais vil, e que mesmo salvo por esse amor, que é no fim de contas mais
uma sensualidade requintada do seu temperamento que uma aspiração
espiritualista, reflecte a omnipotencia dos seus instinctos animaes no
soberbo, no inolvidavel retrato que d'elle fez Ticiano, o maior
retratista do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda expressão
moral, a mobil physionomia, o caracter pessoal inconfundivel de cada um
dos seus modelos...

Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano retratou, domina e absorve o
coração delicado e subtil de Margarida.

Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, em que o sol entra a
flux, ao lado do rei seu irmão, analysando com elle as bellas pinturas
que fazem das paredes um kaleidoscopo tão curioso e illuminado, em que o
velho e o novo mundo se confundem, discutindo--com Budé seu
bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os dois irmãos du Bellay,
os celebres humanistas da Renascença franceza, seus favoritos e
commensaes,--um dialogo de Platão que tivesse acabado de lêr em grego,
um verso de Virgilio de que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar
subtil, servido na lingua de ouro do seculo de Augusto; uma apostrophe
de Cicero, nas suas Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma;
conversando com Marot, seu poeta e seu servidor, ácerca da medição e do
rythmo de um hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando a todos
elles, curiosamente, avidamente, informações ácerca do novo livro
extravagante que um physico e antigo tonsurado chamado Rabelais acabava
de dar á estampa em Lyão, contando as mirabolantes e inverosimeis
aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes de quem ninguem até
alli ouvira falar, e de Panurgio, o maior sacripante que de memoria de
homem fôra celebrado em lingua vulgar...

......................................................................

Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se o do mystico e apaixonado
Henrique II. Margarida eclypsa-se na sombra, e á musa dos poetas succede
a inspiradora dos artistas ébrios de enthusiasmo...

No céo da Renascença azul e ouro, é Diana quem desponta... A Salamandra,
emblema e symbolo do rei que arde continuamente na flamma impura do
desejo, sem jámais chegar a consumir-se, é substituida pela inicial de
Henrique enlaçada por dois crescentes symbolicos, e esta data assim
poeticamente indicada vale para a posteridade muito mais que a mais
rigorosa chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma amoroso
representa um grande amor, um estranho sentimento que participa do
mysticismo cavalleiresco e do sortilegio magico, do ideal mais puro e do
_envoûtement_ mais pavoroso.

Quem é esta esbelta Diana, ligeira, airosa e bella? Não o perguntem á
Historia, que essa, implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de uma
velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganças, esmagando os povos, que
a maldizem, com o peso das contribuições mais engenhosas, das que tiram
o sangue e a pelle á plebe opprimida que se lamenta em vão.

Perguntem-n'o á Arte, a magica divindade que transfigura tudo aquillo em
que toca. Responder-lhes-ha a Diana de Jean Goujon, encostada
familiarmente ao veado manso e bello que lembra o principe encantado das
lendas, ou mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime artista,
contemplando amorosamente o mesmo bicho symbolico, que approxima da
bocca finamente recortada da deusa a sua bocca de animal, como que a
pedir o beijo mysterioso que quebre o encanto que o tem encarcerado
n'aquella fórma inferior e que o restitua bello e victorioso á antiga
fórma humana.

Responde-lhes a Nympha de Benevenuto Cellini, ora entre as féras que
caçou e os galgos que as perseguiram, ora estendendo-se voluptuosa junto
á frescura das fontes, ora caminhando nua pelos campos, seguida pelo
cortejo das nymphas que ella, a Diana immortal, a inspiradora dos
eternos amores que não se extinguem, domina inalteravelmente pela altiva
elegancia e pelo magestoso porte regio.

De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, de corpo longo e
flexivel, que parecem copiar na pedra dura a fluidez das aguas
correntes, o baloiço ondeante das hervas altas, a voluptuosa
flexibilidade das lianas que se enredam e entrelaçam,--de todas estas
imagens que a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginação compõe uma só
figura, um só vulto, uma só imagem que as concretiza a todas.

É a mulher amada e triumphante, a Diana dos encantos invenciveis e
inviolados, a que pediu á deusa, sua madrinha o segredo dos filtros que
fazem parte do seu culto antigo, para ser eternamente amada, contra o
tempo, contra a fortuna, contra tudo...

A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. Ninguem como ella fez
da arte uma auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice dos seus
encantamentos de mulher. Que importa o que diz a historia de Diana de
Poitiers? Quem fala verdade é a Arte. De todas as mil illusões de que a
vida se faz e se compõe, só ella é mais intensa do que a realidade, e
mais verdadeira do que a verdade!



XI


Uma das excursões feitas por mim com mais prazer é a dos Museus, tanto
artisticos como historicos.

Deixo para mais tarde falar no que senti em frente de alguns quadros do
Louvre ou do _Museu de Madrid_ e vou falar agora da minha visita ao
museu Carnavalet. O palacio em que este museu está estabelecido
pertenceu a Madame de Sévigné e foi habitado por ella; d'aqui a
quantidade de recordações d'esta mulher encantadora, que o povoam e para
mim o tornam particularmente interessante.

Ha logo á entrada um busto d'ella que me fez parar enlevada em
contemplação de uma das physionomias mais espirituosas e mais
sympathicas que o Passado legou aos nossos dias.

O _nez carré_ de que ella fala nas suas cartas, e que tornaram celebre
os seus contemporaneos referindo-se tantas vezes a elle, lá está, mas
sem diminuir, antes accentuando o encanto da sua expressão. Os lindos
cabellos penteados ao _nome d'ella_, (porque aquelle penteado de
caracoes que enquadra tão graciosamente o rosto feminil ficou sendo
chamado _á Sevigné_) dão um caracteristico especial á sua bella cabeça
de juvenil matrona adoravel. O bom humor, a graça gauleza sorriem na
bocca espirituosa e finamente recortada.

A gente não se espanta, ao ver este lindo busto de mulher, de que o
original inspirasse verdadeiras e ardentes paixões, e que até aos
sessenta annos houvesse, não quem a requestasse á moda de Ninon ou de
Catharina da Russia, mas quem quizesse casar com ella, como quiz o duque
de Luynes, que por signal foi repellido.

Para mim, digo francamente, o _Museu Carnavalet_ é Madame de Sevigné e
não é mais nada. Este museu, extravagante contraste! está cheio de
recordações revolucionarias. Lá está uma reducção feita, creio que em
pedra, da Bastilha, lá está uma galeria, por signal detestavel, de
retratos dos vultos principaes da revolução.

Por debaixo da fileira de retratos em que figuram Mirabeau, Robespierre
e Marat, está a cadeira em que expirou Voltaire. A collocação pareceria
propositadamente feita, senão fosse antes uma necessidade de symetria,
pois que, encostada á mesma parede na outra extremidade da sala, está
tambem a cadeira em que expirou Béranger.

Entre Voltaire e os homens da Revolução a affinidade é vizivel para o
espirito, mas o pobre Béranger é que não vem aqui ao caso para cousa
alguma, de modo que a intenção philosophica que eu á primeira vista
attribui aos conservadores do museu ficou prejudicada pela segunda idéa
que elles tiveram de collocar a cadeira de Béranger em symetria com a de
Voltaire.

Uma conclusão apenas me atrevo a tirar: é que em França quem sahe do
vulgar morre _de cadeira_. Incommodissima maneira de dar a alma ao
Creador! Ainda bem que nem a Béranger posso aspirar, quanto mais a
Voltaire; isto augmenta as minhas probabilidades de morrer deitada na
propria cama, unica maneira pela qual me appetece sujeitar-me á sorte
commum de todos os mortaes.

Não venho, já se vê, fazer uma descripção miuda do _Museu Carnavalet_.
Além de não ter fixado tanta cousa que vi--e que vai desde os troços de
ruinas e dos barros romanos achados em diversas excavações recentes ou
antigas, desde truncados monumentos, ou fragmentarios tumulos,
pertencentes a epocas ainda anteriores ao dominio romano, até a centenas
de reliquias da Revolução--não acho que isso seja sufficientemente
interessante para o leitor, a quem não posso communicar impressões que
não recebi.

Ha, por exemplo, no _Museu_ uma collecção enorme de caricaturas da época
de Luiz Filippe, feitas, creio, que em barro. São hediondas. Tudo que
teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, burguez elle proprio
dos pés até á cabeça, alli está representado sob uma fórma que produz
_cauchemar_, á força de irritantemente feia.

Lembro-me por exemplo de uma cousa que me impressionou: uma ordem
autographa de Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda que cessassem
o fogo que estavam fazendo contra o povo. Ora, esta ordem--a ultima que
elle assignou como rei--encerra nada menos que a sua abdicação e a
sentença da sua morte e dos seus.

Acabada a resistencia, o monstro jacobino pôde refocilar-se á vontade no
sangue regio. Ninguem mais se levantou deante d'elle para obstar ao
direito da sua vingança secular.

       *       *       *       *       *

Tudo isso que em outro logar e em outra ordem de idéas me produziria a
maior impressão, alli apparecia-me inopportuno e deslocado.

Como aquelles objectos friamente classificados me pareciam estranhos ao
tempo de febre de que elles são as reliquias, por assim dizer,
mumificadas!... É preciso, para que certas recordações do passado nos
«empolguem», se apossem ardentemente de nós, que as evoque a imaginação
omnipotente e creadora de um Michelet ou de um Carlyle! De outro modo,
em vez de nos tornarem mais «vivo» o tempo a que se referem, parece que
o recuam indefinidamente nos limbos do passado.

Um «museu» tira a vida aos objectos que encerra; não os conserva.

Assim como o processo de enterramento dos egypcios, creado em odio á
morte, concorre para tornar mais saliente a idéa da morte, assim tambem
o desejo de conservar certas reliquias parece que lhes diminue a
realidade no passado. É possivel que eu exprima muito vagamente uma
cousa que sinto sem a saber muito bem traduzir, mas o leitor
intelligente, que tem visto muitos museus e tem talvez sentido esta
mesma desconsolação, comprehende perfeitamente o que ella significa!

Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet tirei-o eu de mim mesma,
evocando n'aquellas frias salas que percorri, acompanhada pelo
indispensavel guia, as figuras que outr'ora as encheram de animação e
vida.

Vi madame de Sevigné e o seu querido tio, o bom abbade de Livry, que tão
bem se sahiu da educação da sua querida e intelligente pupilla.

Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, que á moda do tempo, Ménage
e Chapelain, dirigiam cada um por seu lado á amavel e gentil Maria.
Ménage resolveu ensinar-lhe italiano e hespanhol, e resolveu, o que é
peior, apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante perdeu, já se vê,
o tempo e o feitio que não era de amoroso, como egualmente o perdeu um
homem que é o perfeito contraste d'elle, o cynico, o duellista, o
_donjuanesco_ Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame de Sevigné, a
odiou de morte, e depois de a odiar tornou a querer-lhe muito,
encontrando-a sempre de pedra pura os seus transportes, mas capaz de
apreciar o que havia de scintillante e caustico no seu espirito, de
intrepido no seu valor, de melhor no seu pouco bom caracter. Viuva com
vinte e dois annos, e em uma côrte licenciosa, em que ella propria se
mostra cheia de estranhas indulgencias para os peccados alheios--tudo
passou por ella sem lhe macular de leve a fimbria do seu vestido branco.

Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por isso implacavel para as paixões
que a cercam, e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais accidentado
romance.

Amiga extremosa de Fouquet, vê-se em riscos de sahir levemente
compromettida do processo do Intendente de finanças, em cujo cofre de
galantes segredos se encontram cartas d'ella. No emtanto essas cartas
são simples pedidos em favor de um ou de outro protegido da marqueza, e
se provam alguma cousa é a bondade, a generosidade do seu coração
prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava preciosamente esses
bilhetes formalistas é porque talvez no coração do galante financeiro a
formosa physionomia de madame de Sevigné tivesse produzido uma impressão
excepcional; mas isso não basta para comprometter uma mulher que as
primeiras pessoas da côrte, em influencia e em virtude, protegem ardente
e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo da Bretanha, e o duque de
Rohan-Chabot em casa d'ella, e por causa d'ella, armam uma especie de
briga que conclue por um encontro no campo, como todas as brigas
d'aquelle tempo. Nem por isso a fama de madame Sevigné soffre a mais
leve arranhadura. Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos que
inspira a sua «razoavel» e formosa pessoa!

O conde de Ludre esteve vae não vae a vencer as resistencias mysteriosas
d'aquelle coração de mulher que a precoce experiencia da vida endurecêra
para o amor.

Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle amor das cousas justas, rectas e
claras, que é em certas mulheres um preservativo efficaz contra os
desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo ardente do seu amor
materno, salvam-n'a d'essa tentação suprema, como a salvam do
prestigioso amor de Turenne, da côrte persistente do principe de Conti,
do amor claro ou disfarçado de tantos entre os melhores, entre os mais
queridos e os mais felizes em aventuras femininas.

No meio d'esse fogo que accende, a marqueza conserva-se alegre, calma,
gostando das anecdotas picarescas bem contadas, prompta a receber uma
confidencia escabrosa, comtanto que lh'a façam com espirito e bom humor;
indulgente para o amor da sua maior amiga pelo duque de la
Rochefoucauld, indulgente para as historias mais ou menos salgadas que
de todos os lados lhe vêem aos ouvidos, dotada d'aquella philosophia
tolerante que a mulher virtuosa tem como ninguem, porque sabe, como
ninguem, o preço da virtude.



XII


Insensibilidade? Não de certo. Amor bem entendido de mãe, e medo talvez
de soffrer mais do que soffrera já na sua curta experiencia da vida
conjugal, a que um duello infeliz--e por causa de uma mulher--tinha dado
fim.

Quem soube no amor maternal pôr tantos requintes de sensibilidade, tão
intensa paixão, tanta vida, tanta abnegação, tão louco enthusiasmo, o
que seria em outra ordem de sentimento em que taes excessos são quasi
naturaes? O que a salvou foi talvez o exagero da propria sensibilidade.
Teve medo de si. Sondou-se e percebeu de que loucuras seria capaz,
amando, aquella que da maternidade serena e calma soube fazer uma paixão
tempestuosa. Tendo bebido na infancia o amor dos grandes sentimentos á
Corneille, de que a propria Mlle. de Scudery, a feiissima Sapho fez na
sua obra vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada pelos seus mestres
Ménage e Chapelain nas extravagancias grandiosas da litteratura
hespanhola; tudo que provavelmente via em torno de si estava longe de
corresponder ao seu ideal de sacrificio eterno, de inalteravel
constancia. D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de se refugiar
no amor materno, extrahindo d'elle tudo que podia formar o alimento da
sua alma exigente, ambiciosa.

Depois ella viveu em uma quadra e em um meio em que o papel de
espectadora tinha o maximo interesse e podia satisfazer até mesmo um
espirito como o seu. Tudo que a cercava era digno de attenção e de
estudo. Tudo interessava, ensinava e dava ensejo para longas reflexões.

Em cima Luiz XIV--o Jupiter que ella viu sempre com olhos de adoração,
de quasi deslumbramento, olhos com que o seu tempo o viu tambem, com que
a posteridade continuaria a vêl-o, se o desastre final de sua obra lhe
não désse a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon não
tivesse revelado ao mundo, com a sua espionagem genial, o monstruoso
egoismo, o acanhado espirito, a mediocre envergadura intellectual d'esse
idolo com pés de barro;--Luiz XIV que o amor divino e divinamente
desinteressado da La Vallière envolvera em uma nuvem de olympico
prestigio. Abaixo d'elle,--tudo n'esse tempo ficava muito abaixo
d'elle--essa adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, branca, lyrial,
que a prematura morte embalsamada na eloquencia sublime de Bossuet, e a
vida cheia de graça, de encanto aristocratico e talvez de amor,
transformaram na figura impregnada da poesia mais subtil d'aquelle
periodo accidentado e romanesco. Em torno d'esses astros de primeira
grandeza gravitam milhares de satellites de um brilho fulgurante e
deslumbrador.

O amor e a guerra, como nos romances da cavallaria antiga, fazem d'essa
côrte alguma cousa de excepcional na Historia do mundo.

A guerra já se vê, não como a faziam Frederico da Prussia ou Napoleão,
mas a guerra pomposa que celebrou pomposamente Boileau; a guerra em que
os banquetes, as festas, os bailes se entremeiavam aos combates; em que
um cerco durava longos mezes, e cada marcha parecia uma cavalgada
festiva...

_Mademoiselle_, a _grande Mademoiselle_, apaixonada por Lauzun chorava
todas as lagrimas de seu corpo porque lhe não deixavam desposar o eleito
do seu coração; a epopéa gentil das Longueville, das Chevreuses, das
lindas e intrepidas heroinas da _Fronda_, andava ainda em todas as
memorias e em todas as imaginações. Hoje era Luiza de la Vallière a mais
doce martyr de um regio amor de que reza a Historia, que depois de pedir
humildemente perdão á sua rival coroada do escandalo que dera, fazia da
ceremonia da sua consagração a Deus um d'estes acontecimentos
palpitantes com que vibra uma geração inteira; amanhã é Montespan, a
altiva Wasthi, a sultana magestosa que toma posse do seu logar de
favorita com um impudor, uma soberba, uma pompa theatral, que
escandalisam, que emocionam, que fazem trabalhar as pennas todas da
côrte em _comptes rendu_ mais ou menos pittorescos, mais ou menos
eloquentes...

Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; a lucta theologica
entre Fénélon e Bossuet; o apparecimento de uma tragedia de Racine; a
publicação dos _Caracteres_ de La Bruyère; as _Maximas_ do Duque de
Larochefoucauld; o livro de Madame de La Fayette; um sermão do Pére
Bourdaloue; um conto de La Fontaine; os acontecimentos os mais sagrados
e os mais profanos, as leituras mais edificantes e as mais gaiatas, os
incidentes mais comicos e os mais tragicos--tudo se succede, tudo se
entrelaça, fazendo da existencia um espectaculo tão alegre, tão variado,
tão divertido, tão interessante, tão _atordoador_, que facil foi a
Madame de Sévigné resignar-se a não pôr na sua propria vida interesses
dramaticos, que outros se encarregavam de fornecer-lhe em profusão.

_Basta a curiosidade para encher a existencia_, disse algures
Fontenelle. Esta _maxima_ de egoista acha-se justificada pensando na
vida de madame de Sévigné.

Onde ha espirito mais eminentemente _curioso_ no sentido elevado e
espiritual da palavra do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade
femenina?

Ella tem a curiosidade intelligente de todos os phenomenos de ordem
moral e intellectual. Interessa-a o espectaculo das paixões humanas e
achou um theatro perfeitamente adequado ao genero de observações que
mais a divertem.

A côrte de Luiz XIV, antes que madame de Maintenon tivesse desdobrado
sobre ella o véo de hypocrita devoção em que tão cautelosamente se
embrulhára, é tudo que ha de mais proprio a interessar, a apaixonar um
observador, um moralista como Madame de Sévigné.

_Moi qui aime tant à faire des reflexions_, esta phrase vem mil vezes
nas suas adoraveis cartas. E que assumpto sempre vivo, sempre palpitante
para reflexões não é essa côrte, onde tudo que as paixões humanas têem
de mais ardente, de mais insaciavel, de mais caracteristico, de mais
desordenado, se manifesta sob os mais variados aspectos e nas fórmas
mais pomposas...

O amor sem outra lei que não seja a inconstancia e o capricho; a ambição
sem outra restricção e outro limite que não sejam os que fatalmente lhe
impõe a fraqueza humana; a inveja, a soberba, a cubiça mais desenfreada,
o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o mais cheio de aberrações
inexplicaveis, orgulho que principalmente se compraz nos excessos mais
abjectos do servilismo--e todos estes diversos sentimentos, uns simples,
outros complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, manifestados
atravez de caracteres em que ha ainda relevo, contorno accentuado,
individualidade inconfundivel, energia pessoal.

Póde haver espectaculo mais digno de interesse, contemplação que sem
talvez elevar o espirito o divirta e o instrua mais?

Não é, porém, o jogo complicado, brutal ou subtil do interesse e das
paixões pessoaes, o unico objecto de estudo para o espirito de madame de
Sévigné. Ella tem uma vasta leitura, uma aptidão para se interessar
pelos estudos mais aridos, quasi maravilhosa.

Quando a vida em Paris a cança, quando a sociedade habitual do seu salão
começa a enfastial-a um pouco, quando as graças de monsieur de
Coulanges, a extrema amabilidade de d'Haqueville (o qual é tão
extraordinariamente serviçal e de tal modo se multiplica para satisfazer
os seus amigos que lhe mereceu a ella a alcunha de _Les d'Haquevilles_)
lhe parece um tanto massadora, quando a gotta de M. de La Rochefoucauld
o faz dar gritos que lhe excitam demasiadamente a sensibilidade, quando
Le Père Bourdaloue a tem fatigado de predicas, quando emfim o _meio_
habitual em que ella se move tem perdido, pela continuação, um pouco do
seu interesse e da sua novidade, quando as salas que ella frequenta e
das quaes é o querido adorno mais precioso e raro, não offerecem
assumpto nenhum que a satisfaça, quando a côrte está em uma phase de
semsaboria estacionaria, sem incidentes e sem dramas, eil-a que parte
para Livry, ou para os _Rochers_, e ahi na paz deliciosa do campo, que
ella e La Fontaine são no seculo XVII os unicos a _sentir_, passeia
sósinha debaixo das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e _la fauvette_,
saboreia a graça primaveril do arvoredo em flor, e consagra a noite a
longas leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, Descartes, Racine,
La Fontaine, até Horacio, porque a encantadora marqueza sabia latim e
até o ensinou á filha.

       *       *       *       *       *

O que mais celebre torna deante da posteridade Mme. de Sevigné, o seu
amor pela filha, é a maior prova de quanto póde a illusão sobre um
cerebro, sobre um coração de mulher! Mme. de Grignan, _la plus belle
fille de France_, como lhe chamavam os que queriam por uma tocante
attenção lisongear o coração da mãe, não é realmente digna por motivo
nenhum da adoração que inspira. Pedante, interesseira, ambiciosa,
gastadora, ingrata sobretudo, ingrata para essa mãe adoravel cujo crime
unico foi preferil-a em tudo ao irmão, Carlos de Sevigné, tão sympathico
quanto ella é antipathica, tão dedicado quanto ella é egoista, tão
apaixonado pelas graças, virtudes e encantos da mãe, quanto ella parece
ser-lhes indifferente, Mme. de Grignan tem por unica virtude a de ter
inspirado essas deliciosas cartas, em que um periodo longo e
interessantissimo da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade,
com uma frescura, um pittoresco, uma animação que jámais serão
excedidos.

No final da minha visita ao museu, quando eu tinha achado prazer
infinito em evocar estas visões do passado, e muitas outras que não
podem caber no limitado espaço d'estas notas, o guia que não sei porque
tinha sympathisado commigo e com meu amavel companheiro, decidiu de si
para si que nós eramos dignos de ser apresentados ao conservador do
museu, Monsieur Cousin, que não sei se é parente do celebrado philosopho
do eclectismo.

Levou-nos, pois, a um gabinete reservado onde nos esperava uma
encantadora surpreza. Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena sala,
furtada a todas as vistas profanas, imaginem com quem?

Com madame de Grignan! Não madame de Grignan em carne e osso, que isso
não seria no fim de contas uma companhia por demais preciosa. Imagino
que a convivencia de _la plus belle fille de France_ não era tão
agradavel que a propria mãe, idolatra como era, não preferisse viverem
em casas separadas, quando madame de Grignan vinha a Paris tractar das
suas innumeras demandas, e discutir com juizes, advogados e procuradores
como uma verdadeira _madame Pimbêche_ que era.

Não, a maneira por que madame de Grignan se achava representada
n'aquelle gabinete escondido, era por meio de um esplendido retrato de
Mignard. A filha da encantadora marqueza apparece alli formosissima.
Cabellos de um louro fulgurante, veneziano, o louro de Ticiano, ou de
Palma Vechio; pelle branca, transparente, atravez da qual se sente gyrar
um sangue vivo e puro, olhos azues de uma belleza profunda e rara,
penteado levantado na frente e voluptuosamente entrelaçado de rubras
flôres de romeira e de flôres brancas de laranjeira.

No peito, completamente decotado, um ramo viçoso das mesmas flôres.

--Flôres de Provença, fez-me notar Mr. Cousin, com aquella nota
carinhosa na voz, que revela o namoro de um velho sabio, o namoro que o
seu homonymo Cousin teve pela duqueza de Longueville e pela de
Chevreuse!

--Flôres do meu Portugal, atalhei eu, que ao vêl-as tivera tanta saudade
do meu pequeno paiz longinquo.

Se a minha antipathia a Mme. de Grignan não fosse fundada e
irreductivel, tinha-a destruido de certo este adoravel retrato que a
representa verdadeiramente formosa, e o que é mais, seductora! retrato
que, apezar de ser de Mignard, parece feito na maneira ampla e superior
dos grandes mestres.

Assim a viu o pintor, assim a viu sua mãe, assim a vê em pensamento e
feliz enlevo o velho conservador, que se fechou com ella em um quarto e
que a não deixa avistar se não a raros profanos!

O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais me confirmou na eterna ironia
das cousas grandes ou pequenas!

Não posso deixar de confessar que, tirando as minhas evocações intimas,
a melhor impressão que de lá trouxe, deu-m'a o retrato da minha _inimiga
pessoal_.



XIII


Uma das horas mais commovidas da minha vida foi aquella em que entrei
nos _Invalidos_ para vêr o tumulo de Napoleão.

Sei bem que é esta uma excursão obrigada aos viajantes da agencia Cook,
aos _touristes_ prud'hommescos da provincia, aos _badauds_ de todas as
origens, procedencias e classes.

Mas terão esses porventura sufficiente poder para banalisar uma figura
como a do Imperador?

Depois, eu fui criada por uma mãe enthusiastica de gloria, no culto
quasi fanatico de Napoleão.

Para mim elle nunca foi, como para os meus compatriotas do principio do
seculo, o _ogre da Corsega_, o monstro peior que Nero e Caligula. Pelo
contrario. As manchas do seu caracter só muito mais tarde a historia
m'as fez conhecer. Na minha mocidade não me falavam senão nos
esplendores da sua fama e nos prodigios da sua heroicidade.

Tantas mudanças teem passado pela França desde que, em uma ilha
solitaria e longinqua do Oceano, o grande homem expirou, renegado e
abandonado por todos os seus, que eu receiava encontrar lá muito
esmorecida a sua memoria, muito apagados os vestigios de sua passagem.

Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita com insolito vigor n'essa
França de que ella foi a gloria ultima e inultrapassavel!

Havia n'essa occasião justamente em Paris a exposição dos quadros de
Meissonier, e essa exposição admiravel dominavam-n'a dois quadros, que
nunca mais podem ser esquecidos depois de uma vez terem sido vistos.

O primeiro quadro intitula-se _1807_. É Napoleão depois de _Friedland_,
triumphante, glorioso, acclamado.

O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio, monta o seu lendario cavallo
branco, rodeia-o um estado maior de marechaes deslumbrante e numeroso, a
cada titulo dos quaes esta ligado um nome retumbante de batalha e de
gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua velha guarda fanatisada e
invencivel acclama-o em gritos que positivamente se _ouvem_ na tela
palpitante de Meissonier.

É o momento culminante da epopeia grandiosa. Sobejam os assombros, os
crimes apparecem n'um esplendor de purpura que lembra menos a côr do
sangue do que a côr da aurora!

A tyrannia já se revela em mil symptomas da vida do conquistador e da
vida do imperante. Os povos já perguntam n'um brado ululante de angustia
em nome de que direito derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe
invadem os seus lares pacificos!

Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado das nações invadidas,
mais forte do que o choro convulso das mães a quem arrancam
continuamente os filhos, os mais bellos e os mais fortes,--é o clangor
bellico do clarim que avisa a França da suas victorias incontaveis!
Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz, estão em todas as
boccas, produzem em todos os cerebros o assombro, o respeito, o
enthusiasmo!

O segundo quadro--_1814_--é a retirada, é a derrota, é a melancolica
derrocada do sonho gigantesco e sobrehumano.

O heroe vem cançado, abatido e triste. Cavallo, cavalleiro, cortejo
militar, paizagem circumdante, tudo respira a mesma desolação e o mesmo
abandono!

A velha guarda ficou sepulta nos gêlos da inhospita Moscovia; os
marechaes cançados, são os mesmos que vão acceitar, suggerir a
_déchéance_ proxima....

Entre um anno, o da gloria soberba e unica, e outro, o da derrota
universal, quantos crimes de lesa-nação, de leso-direito, até de
leso-entendimento. Napoleão acabára por sentir aquella embriaguez dos
Cesares que os atirava ao crime e á loucura em virtude de uma attracção
irresistivel e fatal.

Vencera todos e perdera o segredo indispensavel de se vencer a si
proprio. D'aqui a ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo, o
suplicio _prometheano_ de Santa Helena!

Bastavam estes dois quadros para dar a Meissonier o logar eminente que
elle tem entre os pintores francezes. Accusam-n'o de ser minucioso em
demasia, de ter uma concepção acanhada da arte, de dar muito mais
attenção aos pormenores que á esthetica geral da sua obra; mas estes
dois quadros desmentem todas as accusações que lhe fazem os seus
detractores. Meissonier comprehendeu a verdadeira grandeza, a grandeza
epica, a que inspirou Homero e Camões; a que faz ainda hoje palpitar os
frios corações d'esta era de industrialismo e de interesse egoista.

O heroe que elle alli nos representa, tanto na hora estonteadora do
triumpho, como na hora tragica da derrocada, é o mais importante dos
_grandes homens_, no dizer de Carlyle, o que vale mais que todos os
outros, porque é aquelle a quem a vontade de todos se subordina em um
impeto de lealdade e adoração.

Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros famosos de que não posso
nem sei descrever o interesse, a expressão, a intensa vida suggestiva,
quando fui visitar nos _Invalidos_ o tumulo de preciosa pedra, em que as
cinzas de Napoleão estão guardadas.

Lá está elle cercado por doze silenciosas estatuas de marmore que
symbolisam victorias, e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito
conquistou.

Não houve nada de banalmente curioso na minha visita; era uma romaria
piedosa feita a um idolo da minha mocidade, á unica figura grandiosa que
a edade moderna póde apresentar em face das grandes figuras antigas que
se chamam Alexandre ou Cesar.

Em toda a parte o tenho visto; a sua figura que participa da Lenda e que
é da Historia, protege ainda a França como uma divindade tutelar contra
a onda da _mediocracia_ que avança. N'esse paiz onde hoje apenas soam
réles nomes de réles _politiqueiros_, echoa a pequena distancia um nome
que vale mais que todas as outras glorias modernas. Que valem Frederico
II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV, que valem Condé ou Turenne ou
Luxemburgo, que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme d'Orange,
ou Malbourough, que valem Walenstein ou Carlos XII ao pé d'este homem
estranho, homem do destino, que reuniu em si, a todas as qualidades
brilhantes do guerreiro, as qualidades solidas do administrador; que foi
legislador e soldado, que dominou e venceu a anarchia, que levou atravez
do mundo inteiro, do Sena até ao Neva e do Tejo até ao Vistula a idéa da
Revolução, de que elle foi a formula tangivel, o propheta feito homem, a
representação concreta e o visivel symbolo?!

É por isso que só na Antiguidade se encontram dois homens cuja missão
excedeu em importancia universal aquella que Napoleão representou na
Historia, e que esses dois homens são Alexandre e Cesar.

As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento intellectual da
Grecia e do mundo uma influencia enorme e decisiva:

Não é para mim falar das maravilhas estrategicas d'essas campanhas, das
quaes uma manobra celebre foi genialmente reproduzida por Napoleão em
Austerlitz; mas o que interessa á humanidade inteira e por mim póde ser
lembrado, é a impulsão gigantesca que a intelligencia do homem recebeu
quando o genio grego foi pela primeira vez profundamente penetrado pelo
genio do Oriente, quando os capitães e os soldados da guerreira
Macedonia venceram o amollecido imperio persa, e caminharam desde o
Danubio até ao Nilo, desde o Nilo até ao Ganges, vendo cada dia cousas
novas, sentindo cada dia impressões e suggestões até alli desconhecidas;
quando elles estremeceram ao sopro gelido que vem dos paizes que se
alastram ao longo do mar Negro, e foram quasi que asphyxiados, pelo
simoun ardente, pelos vendavaes de areia dos desertos do Egypto; quando
se assombraram deante das Pyramides que tinham resistido a vinte seculos
de velhice, e interrogaram em vão os obeliscos de Luqsor cobertos de
indecifraveis hieroglyphos, e as longas fileiras de esphinges mudas,
mysteriosas exhalando de si o pavor de um symbolo inexplicado! quando
admiraram as estatuas colossaes de reis que na aurora do mundo haviam
vivido e reinado, e se assentaram nos salões de Esar Haddon sobre os
thronos dos velhos reis da Assyria que enormes leões alados estavam
sombriamente guardando havia seculos e seculos...

Á Grecia revelaram-se então noções do Universo que ella ignorava;
maravilhas estranhas de uma civilisação que não fôra feita como a sua de
proporção e de harmonia, mas que esmagava pela grandeza, e que se
impunha pela força colossal.

Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que observadores eram os filhos
subtis da alada Grecia.

Tudo que elles então viram e estudaram foi aproveitado mais tarde nas
fórmas de uma civilisação nova, mixto do que a hellenica teve de mais
bello e a oriental de mais grandioso.

E que sensações deliciosamente novas lhe não daria essa paisagem que
elles então conheceram e na qual havia de tudo, desde os areaes sem fim
até aos Jardins do Industão; desde as miragens do deserto até ás densas
sombras das florestas profundas; desde as montanhas cuja crista se ia
perder no seio das nuvens, até ás redondas colinas esbrumadas em nevoa
de um tenue côr de rosa; desde o tigre real de salto felino e ondeante e
o elephante que em Arbelle fazia tremer a terra sob o peso gigantesco do
corpo desforme, até ao rhinoceronte e o hippopotamo, o camello, e o
crocodilo, do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem em que as arvores eram
palmeiras e tamarindos, oleandros e verdes myrtaes; em que os homens
tinham todas as côres e todos os trages; em que ao Persa acobreado
succedia o Syrio queimado do sol, e o Africano côr da noite...

Tudo isto era um encantamento e uma surpreza, tudo isto continha e
incluia em si resultados que assombraram o mundo.

Os conhecimentos exactos, as noções verdadeiras e positivas acêrca do
universo, podem bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre. Foi
então que se fez essa união fecunda e miraculosa do espirito hellenico e
do espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia, continham em
germen Alexandria e as suas escolas, os Arabes e a sua civilisação
ephemera mas deslumbrante...

Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o mundo até então descoberto;
tornando possivel a sua posterior christianisação.

Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se feito romano, e d'alli
veiu que sob o baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se christão.
Não havia já nem raças que mutuamente se dilacerassem, nem religiões que
umas ás outras se contradissessem, nem tribus que entre si se
combatessem... O Imperio novo estava maduro para receber o baptismo de
uma só religião, á qual as hordas barbaras viriam successivamente
submetter-se...

É ainda, por isso mesmo, que os que hoje vêem na Historia a logica
successão de causas e de leis produzindo a logica successão de
phenomenos que são resultados, vêem em Napoleão a força ao serviço da
idéa, o instrumento de uma grande transformação social obedecendo a uma
missão superior, e cumprindo-a de uma fórma perfeita. A Revolução
franceza sem Napoleão, não chegaria a ser um facto historico, egual nos
seus effeitos á proclamação do christianismo, superior nas suas
intenções á Reforma do seculo XVI.

Essa Revolução hoje tão calumniada pelos mesmos que lhe gosam os
resultados definitivos e os effeitos niveladores e libertadores,
acabaria, a não dar-se o apparecimento fatidico de Napoleão, em uma
anarchia ensanguentada da qual nem um principio se salvaria talvez.
Napoleão sahido do meio da turba, como que encarnando em si a alma do
povo, liberta da sua escravidão secular, fez da Revolução um facto, um
facto irreductivel, contra o qual nem a mais reaccionaria vontade pôde
nada. Em primeiro logar elle formulou em leis, as doutrinas
revolucionarias; o seu codigo civil tem resistido a todas as mudanças de
regimen politico que ha setenta e oito annos tem convulsionado a França
á superficie, sem terem comtudo alterado a sua constituição civil e o
seu regimen de propriedade; depois elle fez de uma Revolução local, que
tinha por origem primeira os abusos financeiros, uma Revolução universal
que levou o mundo a um dos periodos decisivos da sua marcha progressiva,
e que transformou completamente a organisação social de toda a Europa
moderna.

Os seus exercitos assoladores como eram, e não os defenderei mesmo
contra os que lhe chamam as hostes de Attila, os seus exercitos
semearam, sem o saber, sem o querer talvez, a semente da liberdade por
toda a parte onde levaram o lemma da usurpação e da tyrannia. Elles
passaram, e sob os pés d'essas legiões terriveis que espalhavam o
assombro e o pavor, ergueram-se por encanto instituições novas, e os
povos readquiriram a dignidade e a liberdade, ambas perdidas na abjecta
subserviencia ao despotismo sem grandeza das modernas dynastias.



XIV


As bellas theorias optimistas dos doutrinarios que haviam proclamado os
_Direitos do homem_, a Egualdade, a Liberdade e a Fraternidade, a
bondade innata da especie humana, o retrocesso á boa Natureza, o Culto
da razão humana como a religião melhor e a mais infallivel, tinham
produzido, ninguem sabia em virtude de que sortilegio hediondo, uma
horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns aos outros com delicia
selvagem e requintes de odio e covardia, ao pé dos quaes empallideciam
as descripções que o passado nos legou das suas peiores tragedias.

Ninguem atinava como de tão puras premissas tinham sahido tão horrendos
resultados; ninguem podia explicar como do bem se gerara tanto mal, como
do progresso das luzes se tinha feito tão negra escuridão, porque motivo
intenções tão sublimemente generosas tinham produzido tão monstruosos e
contradictorios effeitos.

A primeira embriaguez da liberdade sem restricções e sem limites, produz
sempre no homem esta demencia má. A Historia assim o diz, mas n'esse
tempo era apenas uma restrictissima minoria, a que sabia lêr a Historia
e colher as suas lições.

Imagine-se que Napoleão não tinha então surgido; que depois da orgia de
sangue que se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho e que se chamou
Directorio, não se erguia, mais alto que qualquer individualidade e
qualquer instituição, essa força disciplinadora, organisadora dos
partidos internos, subjugadora dos inimigos estranhos, tão poderosa, tão
efficaz, tão capaz de querer, tão profundamente inimiga da anarchia
mansa, que dissolve as nações e da anarchia brava que as esphacella.

A reacção mais desbragada e mais insolita tomaria então conta da França,
que n'esse momento decapitada, mutilada, exangue e sceptica, não achava
dentro de si nem uma energia redemptora, nem uma crença activa, nem uma
só fibra que não estivesse morbidamente combalida.

O sublime esforço de tantos genios humanitarios seria por um longo
periodo, que hoje não podemos calcular com acerto, inteiramente perdido;
da Revolução restaria apenas a memoria dos seus inexpiaveis crimes. E
porque havia rolado nos degraus da guilhotina a bella cabeça
precocemente embranquecida de Maria Antonietta, e porque o pobre e
burguez e inoffensivo Luiz XVI tinha expiado, como quasi sempre succede
em politica, os erros e as faltas dos seus antecessores, acontecia que
Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet teriam pensado,
escripto, meditado, trabalhado em vão.

Quem é que seria capaz de pacificar os partidos exasperados a não ser
esse homem superior a todo o seu tempo, superior á sua raça, e que pôde
congregar no mesmo fim:--fazer grande e gloriosa a patria commum;--os
vencidos e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados os que tinham
escapado por milagre ás proscripções jacobinas e os que as tinham
decretado, Fouché e Talleyrand, os filhos da antiga aristocracia
espoliada, e os triumphantes espoliadores que estavam na posse do que
fôra d'ella?...

E d'essa agglomeração de interesses contrarios, de ambições que se
excluiam, de classes que eram antagonicas por instincto e por
circumstancias, de adversarios que se odiavam mutuamente, quem tirou a
França poderosa, affirmativa, unificada pelo mesmo codigo de justiça,
enriquecida pelo mesmo regimen de propriedade, tendo conquistado a
egualdade civil para todos os seus filhos, vendo abertas todas as
carreiras para as individualidades que se distinguissem no seu seio,
consolidadas todas as conquistas, emfim, d'essa liberdade que ameaçara
suicidar-se, envenenando no seu sangue aquelles que d'elle haviam
sonhado nutrir-se?

       *       *       *       *       *

É este o papel cumprido por Napoleão na Historia, é esta a sua missão na
França; como foi sua missão no mundo espalhar, propagar os principios da
Revolução que elle, sem talvez o querer, representava como ninguem!

Os que o julgarem mais tarde hão de julgal-o assim, e hão de perdoar ou
escurecer, como succede com Cesar, como succede com Alexandre, os seus
erros e defeitos pessoaes, os quaes, feito o balanço final, que só o
futuro fará, foram talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram
para o inutilisar no momento em que o seu papel deixava de estar em
estreita harmonia com as circumstancias que necessitaram a sua
cooperação.

Ultimamente, porém, desenvolveu-se no mundo a febre de atacar ou
defender o caracter pessoal de Napoleão em _memorias_ numerosissimas, em
folhetos, em livros de historia, em pamphletos, em ensaios criticos,
etc., etc.

Quem deu o _branle_ a este movimento bibliographico extravagante, que
tem como heróe Napoleão, foi Taine em um dos seus volumes sobre as
_Origens da França Contemporanea_, em que traçou do grande homem um
retrato, por todos conhecido hoje, retrato á Rembrandt, cuja belleza
magistral não fere á primeira vista senão os verdadeiros entendidos,
quer dizer os psychologos e os observadores e moralistas.

Taine para desenhar Napoleão serviu-se do seu velho processo de
documentos miudinhos juxtapostos, que não é de certo o mais interessante
para o grosso publico. Interrogou as testemunhas oculares, os criados,
as damas de honor da Imperatriz Josephina, as pessoas que mais ou menos
estiveram na intimidade e no contacto directo de Napoleão. Ora, é bem
sabido _que não ha grande homem para o seu criado de quarto_, mas ainda
assim Napoleão excede tanto a craveira commum e Taine sabe de tal modo
vivificar os mortos documentos com que fórma o seu _dossier_ de
investigador, a sua imaginação auxiliou-o de tal modo, indo procurar nos
_condottieri_ do seculo XIV e XV, como Stendhal já fizera antes d'elle,
os antepassados cuja influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com
tão pittoresco relevo no grande aventureiro do seculo XIX--que mais
contribuem para a grandeza de Napoleão as accusações de Taine, que os
elogios de mediocridades incapazes de entenderem a verdadeira grandeza.

Já se vê que um homem como Napoleão não póde ser julgado pelo nosso
codigo moral. O seu potente cerebro, o maior de certo que a determinados
respeitos tem havido no mundo, não se deixa subordinar pelas leis
fatalmente restrictas, pelas quaes a simples humanidade tem de reger-se
para mutuamente se supportar.

A sua imaginação portentosa põe-n'o continuamente a dous passos do crime
ou da loucura; as suas paixões indomitas não conhecem regra, como não
conhece obstaculos a sua vontade inflexivel.

É em virtude d'estas faculdades extraordinarias que elle é capaz de
executar cousas que os outros nem em sonhos ousariam conceber.

Não admira que as _memorias_ do tempo lhe sejam muitas vezes contrarias.
Elle teve de subjugar muitas vontades, de se contrapôr a muitas
ambições, de humilhar naturalmente muitas vaidades, de excitar muita
inveja e muito despeito, para que os seus contemporaneos mais intimos
sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza excepcional de um destino que a
todos offuscava.

Mas o que ninguem póde negar-lhe é o poder singular de seducção que o
seu sorriso irresistivel, que o seu olhar de aguia exerciam. Venceu e
dominou todos os que se lhe approximavam, e os proprios imperantes, seus
inimigos, receberam, ao contacto d'aquella grandeza simples que o
distinguia, o choque electrico que se communicava fatalmente da alma
d'elle ás almas com que a sua estava em contacto.

O retrato de Taine indignou, porém, apezar da sua incontestavel belleza
artistica, apezar da sua expressão intensa de vida, dos toques _humanos_
que o fazem palpitar, os adoradores de um Napoleão imaginario, todo
virtudes burguezas de familia, e clemencia de _Moral em acção_ e um
escriptor francez para mim desconhecido, o Sr. Arthur Levy, acaba de
publicar um grande volume com o fim de contrapôr o verdadeiro Napoleão,
o que elle chama _Napoleon intime_, ao terrivel grande homem descripto
por Taine, e de contradizer o critico francez em todas as suas asserções
ácerca do caracter pessoal do Imperador.

Ora, o _Napoleon intime_ do Sr. Arthur Lévy é a mais falsa personagem
historica que póde imaginar-se, embora seja todo elle composto, como um
mosaico laboriosissimo, de pedacinhos de cartas escriptas por Napoleão,
e de pedacinhos de documentos de uma authenticidade incontestavel.

O que mais irrita o auctor do _Napoleon intime_ é a hereditariedade
italiana, que Taine tão logicamente lhe attribue. _Um burguez francez
dos quatro costados e com todas as virtudes médias e as qualidades
mediocres da burguezia francesa_ eis o que o Sr. Levy pretende fazer do
heroe das Pyramides e de Austerlitz e de Arcole e de Wagram!...

Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita, que a piedade de nacionaes e
estrangeiros visita quotidianamente em veneravel recolhimento,
poder-se-hia escrever segundo o criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre
a sepultura de um burguez de 1830 mandou gravar a familia consternada:

_Bom esposo, bom pae, bom filho e bom guarda nacional._

_Napoleon intime_ está escripto, é verdade, com grande copia de
referencias, de citações e documentos. Em primeiro logar, documentos e
citações truncadas nada significam. Depois, quando muito, elles poderiam
provar que uma das faces do multiplo caracter de Napoleão era essa que o
Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante: isto é, uma certa
fraqueza, que é frequente nos seres superiores para o seu _entourage_
mais intimo, para a familia, para a mulher, para os amigos, sempre que
os amigos lhe não resistiam.

O heróe de mil batalhas desde as campanhas da Italia e do Egypto até
essa admiravel campanha de França, a de mais superior estrategia,
segundo asseveram entendidos; o organisador, o administrador, o general
extraordinario em cuja visão se gravava toda a topographia de um paiz,
com os seus accidentes de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus
recessos, as suas planicies, os seus pontos mais fracos e os mais
fortes, e que fazia d'essa sciencia rara a applicação mais genial e a
mais pratica; o homem de mil occupações simultaneas, que deslumbrava,
pasmava, esfalfava os seus collaboradores subalternos; o violento, o
apaixonado, o teimoso, o tyranno; o organismo de uma delicadeza de
impressões, de uma violencia de impulsos, de um apuro de sensibilidade
excepcionaes; o que suggeria milagres e os fazia; o que subjugou e
seduziu uma nação inteira; a figura, emfim, _unica!_ em toda a Historia
moderna, que foi Napoleão, nem por um momento transparece nas paginas de
uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy lhe consagra
laboriosamente.

Napoleão antes queria, de certo, esse retrato ás vezes de um crú
realismo de toques, que Taine lhe consagrou, do que o monotono
panegyrico d'este seu incommodo admirador.

Aquelle que eu fui ver aos _Invalidos_ é talvez o Napoleão de Taine, o
do Sr. Levy, oh! esse é que affirmo com a infallibilidade da minha
intuição de mulher, que não é de modo algum.



Segunda parte



O fim do Paganismo

(GASTÃO DE BOISSIER)


A litteratura franceza da actualidade é pouco abundante em obras
fundamentaes de sciencia ou de historia, embora conte no seu seio dois
dos historiadores mais brilhantes dos modernos tempos Renan e Taine. Á
excepção, porém, d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas
principaes da sua educação intellectual á Allemanha e á Inglaterra e nos
quaes são profundamente sensiveis essas influencias estranhas--póde
dizer-se que a grande geração dos Michelet, dos Quinet, dos Auguste
Comte não deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem.

Continúa, porém, a escrever-se muito em França, e como as qualidades
eminentemente sociaveis d'esta nação privilegiada a tornam apta para o
seu grande papel de propagadora, de educadora dos espiritos, póde bem
accrescentar-se que nós os europêus do Occidente quasi tudo que sabemos,
o sabemos passado pelos livros da França.

Ou traduzidos para francez ou assimilados pelo espirito da França, é por
esse caminho que nos chegam todas as grandes idéas mais ou menos novas,
elaboradas ou transformadas pela raça anglo-saxonia, pela raça
germanica, ou pela raça slava.

Eu por mim lamento infinitamente que em Portugal a litteratura ingleza
por exemplo seja tão incompletamente conhecida. Tenho achado tantas
vezes um gozo incomparavel na leitura de escriptores inglezes, que não
posso deixar de sentir que esse intenso prazer intellectual não seja
mais universalmente partilhado. E é-o tão pouco que ha tempos uma amiga
minha--muito instruida e _grã ledora_ por signal--me affirmava ter
ouvido a um _homem de Estado_ portuguez, ministro, e não sei que mais,
se mais alguma cousa póde haver que ministro, na opinião _imparcial_ de
quem o é,--affirmar audaciosamente que para provar a inferioridade
mental da Inglaterra bastava dizer isto: _é que a Inglaterra não tinha
uma litteratura!_

Que a patria que viu nascer desde Chaucer e Spencer, até Shakespeare,
Milton e Byron, desde Bacon até Herbert Spencer, desde Addisson até
Macaulay, desde Richardson até Georges Elliot, desde Bunyan o inspirado
da Religião até Carlyle o inspirado da Historia--perdôe as heresias do
joven estadista, meu compatriota, cuja ignorancia me parece o estar
realmente predestinando para governar e dirigir a nossa metaphorica Náu
do Estado, por muitos annos e bons.

Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje, contra o meu costume, de
apresentar um livro francez tão erudito, tão profundamente e facilmente
elaborado, tão cuidadosamente feito sobre documentos authenticos, como
se o firmasse o nome de um inglez estudioso, ou de um sabio allemão.

O livro, chama-se _O fim do paganismo_ e deve-se á penna autorisada e
seria de Gaston Boissier da Academia Franceza, grande e sincero cultor
da antiguidade latina e autor de obras muito importantes sobre a
historia das lettras classicas.

A obra é enorme. Tem dous volumes macissos que tratam unicamente de
assumptos estreitamente ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso lê-se
com immenso agrado, porque é profundo sem ser pedante, é vivo sem ser
desordenado e está escripto com um sentimento intenso e profundo da
época que o inspirou.

Essa época é aquella em que as ultimas luctas religiosas se travaram no
Occidente entre o Paganismo que expirava e o Christianismo que irrompia
ardente, impetuoso, tumido de seiva, cheio de um longo futuro das
entranhas fecundas da humanidade.

Abre com o seculo IV pela conversão de Constantino, isto é, pela
christianisação do Imperio Romano, e fecha com a invasão dos barbaros e
com a destruição d'esse Imperio assombroso, que até ás vesperas da sua
completa anniquilação fez o espanto até d'aquelles mesmos que mais
soffreram d'elle, e que não podiam crêr que elle fosse destruido!

Ja se vê que nos é impossivel em um artigo, ou mesmo em uma série de
artigos, resumir este trabalho que representa longos annos de estudo e
de paciente investigação; que reflecte a leitura aturada do mais
enfadonho e difficil de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e a
de Roma decadente.

Não queremos, porém, deixar de anunciar este livro áquella classe de
leitores que amam sinceramente o estudo, e principalmente o estudo da
historia, um dos mais attractivos, um dos mais interessantes que existem
no mundo, porque é um d'aquelles que suggerem mais variedade de
pensamentos e mais extensa série de impressões intellectuaes.

A que logo se destaca d'esta obra monumental de que tivemos a paciencia
de lêr attentamente as mil e tantas paginas é esta: Como nas mais
diversas épocas, os homens, tendo attingido um certo gráu de
civilisação, se parecem entre si!...

Quantas similhanças frisantes, que identidade de pontos de vista
encontramos entre os homens que figuraram no IV seculo da nossa éra e os
homens de hoje!

Não admira, porém, isso tanto, logo que pensarmos que ha bastantes
similhanças entre a phase de civilisação que atravessamos e a d'esse
seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso imperio, ao fim
tragicamente melancolico de uma religião, á transição violenta e brutal
na distancia, mas menos violenta de facto do que a imaginámos, de um
regimen para outro que lhe era totalmente opposto.

Não é por uma historia systematicamente escripta, chronologicamente
ligada pelos factos, que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra tão
afastada de nós.

O auctor preferiu um methodo muito mais captivante e talvez um pouco
menos difficil.

Traça quadros differentes e livros completos em si. Fórma como que uma
galeria de figuras typicas, cuja influencia se tenha feito sentir pela
sua obra escripta ou pela sua acção directa sobre os contemporaneos.

Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre e analysa-lhes os livros,
as cartas, as poesias, etc. etc. Pede á historia do tempo que lhe
forneça os seus documentos mais incontestaveis e reconstrue com elles ou
uma physionomia de Imperador ou uma figura de Poeta, ou uma veneravel e
grandiosa imagem de Bispo ou de Doutor da nascente egreja.

Constantino, o imperador convertido, Julião, o imperador apostata, são
dois estudos de alto interesse historico e psychologico. Em ambos, o
auctor vê dois convertidos, dois fanaticos, um do christianismo que se
apossa da sua alma e a transporta em allucinações supremas, outro dos
velhos deuses, abandonados, cuja restauração prepara com paixão fogosa e
arrebatamento devoto.

Nem Constantino é o ambicioso que muitos historiadores têem imaginado e
descripto, nem Julião é o livre-pensador que Voltaire enthusiasticamente
applaudia.

São duas almas sinceras que usáram do poder illimitado que possuiam,
para imporem ás almas dos outros a fé que os transportava. Julião
vingava-se assim da oppressão em que o tinham tido longos annos e
associava á causa dos deuses vencidos a sua propria causa de opprimido e
de victima.

       *       *       *       *       *

No livro intitulado _O Christianismo e a Educação Romana_, Geston
Boissier, o erudito escriptor, traça o mais brilhante quadro d'essa
educação antiga, cujo poderoso encanto é tão penetrante, é tão subtil
que nunca mais ella deixou de ser a base da instrucção que o mundo tem
dado aos seus modernos filhos.

Foi por meio da educação, dada publicamente por mestres pagãos á
mocidade christã, que os dois cultos inimigos se fundiram no coração e
na imaginação da humanidade. Sem darem por isso, os christãos receberam
a influencia do paganismo expirante, por meio dos livros dos seus poetas
sublimes e dos seus admiraveis prosadores.

Quem bebera com o leite as inspirações de Homero e de Virgilio; quem
aprendera a bem pensar com Platão e a bem dizer com Cicero; quem
recebera a magistral lição da Philosophia e do Direito antigo; quem
formára o seu espirito por esses moldes incomparaveis, não podia mais
esquecer o mel de tão doce eloquencia, a graça de tão perfeita poesia e
a lição viril de tão alta sciencia philosophica!

S. Jeronymo, Santo Antonio, Santo Agostinho, os grandes doutores, os
grandes luminares do christianismo, estão todos penetrados, até á
medulla, d'essa influencia suprema e invencivel.

Foi, portanto, por meio da educação, que os dois elementos, o pagão e o
christão, se fundiram harmoniosamente.

É de um interesse profundo o quadro que Gaston Boissier desenha d'essa
educação romana, tão propria para formar chefes politicos e chefes
militares incomparaveis. Mas no seculo IV da éra christã essa educação
modificara-se muito, a ponto de já não parecer a mesma, nem ser capaz de
produzir os mesmos fructos. Um romano de grande familia não conhecia,
nos tempos aureos da vida d'esse imperio, senão dois officios: a guerra
e a politica. Aprendia no campo a guerra; a politica aprendia-a, não,
lendo Aristoteles ou Platão, mas assistindo diariamente ás sessões do
Senado.

Esta educação pratica de uma efficacia admiravel fazia então os valentes
capitães e os famosos dominadores politicos.

A Inglaterra contemporanea, de todos os paizes modernos o que mais se
parece com a Antiga Roma imperial, tambem cultiva a força viril dos seus
filhos nos mais variados _sports_ que a desenvolvam; na natação, na
nautica, nas corridas de cavallos, na lucta athletica, nos jogos da
gymnastica moderna,--mais sabia, embora menos esthetica do que a
antiga,--e tambem começa, de muito moços, a exercital-os na arte da
palavra, na educação que forma os oradores, os _debaters_, os grandes
parlamentares da eloquencia ou dos negocios.

Nas Universidades de Oxford e de Cambridge, ha _clubs_ especialmente
destinados á discussão dos negocios publicos, onde se propõem e se
debatem assumptos de interesse nacional e de politica geral.

Mais tarde, quando os professores gregos se estabeleceram em Roma, os
_grammaticos_ e os _rhetoricos_ tomaram conta da mocidade, ou nas
escolas publicas, ou no seio das grandes familias.

A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia, a musica, a rhetorica,
etc. Os Romanos, porém, de uma inaptidão esthetica tão justamente
reconhecida por Mommsen--não acceitaram com prazer, de quantas artes e
sciencias lhes trouxeram os seus educadores gregos, senão a grammatica e
a rhetorica. A philosophia affigurava-se-lhes um palavriado vão e
inutil; a geometria e as mathematicas só os captivavam pelas suas
applicações de utilidade pratica; eram para elles a arte de contar e de
medir.

A rhetorica, porém, essa arte de falar que tanta influencia produzia na
imaginação antiga, impoz-se-lhes fatalmente após as primeiras
reluctancias do instincto conservador, que detestava tudo que era
innovação.

Foi então que a educação dividida em dois ramos, fez da leitura e
explicação dos poetas, da critica e analyse das suas obras, a sua base
fundamental.

Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias gothicas a mais
_romana_ das nações, dá aos discipulos das suas universidades aquella
fórte educação classica que torna tão substancial e tão nobremente
florida ao mesmo tempo a eloquencia dos seus grandes oradores.


II

Sem podermos acompanhar o livro altamente instructivo de Gaston
Boissier, nos variados assumptos que elle trata, sem tentarmos resumir
os quadros magistraes da vida da antiguidade que elle traçou, n'essas
paginas tão ricas de informação e tão sobrias de côr, escolhamos, para
d'elles dar conta aos leitores, a quem este genero de trabalho interessa
particularmente, alguns dos seus capitulos mais notaveis.

A biographia de Tertuliano, um apologista do christianismo, que o mundo
moderno conhece apenas de nome, apesar da sua celebridade theologica não
póde, por exemplo, interessar-nos tanto como a _Conversão de Santo
Agostinho_.

Este Santo que conheceu até á saciedade, até á nausea, todas as delicias
da volupia pagã, este joven elegante, que frequentou com tamanha paixão
litteraria as escolas de Carthago, este christão que seguiu com enlevo
as procissões da _Mãe dos Deuses_, e que no theatro devorou avidamente
as peças ligeiras do reportorio antigo--interessa-nos pela violenta
crise mortal que determinou a sua conversão.

Elle mesmo nos confessou em um livro que será sempre avidamente lido
pelos prescrutadores insaciaveis do eterno abysmo humano, todas as
gradações, todos os cambiantes por que passou a sua alma sequiosa do
Infinito e que procurava estancar a sêde que tinha lá dentro de verdade
e de luz, correndo atraz de todas as sensações acres e pungitivas,
sondando com curiosidade inquieta todos os segredos da Paixão e do
Prazer.

Tanto mais meritorio é o sacrificio feito por Santo Agostinho, ao
renunciar ás delicias da litteratura pagã, ás graças da musa classica,
aos encantos da sociedade polida e culta, quanto era sincero e
apaixonado o amor que ella tinha por todos esses prazeres da
intelligencia e dos sentidos.

Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, elle atirou-se porém, com
ardente desejo de achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo das
Escripturas. Ao principio a barbaria christã revoltou o seu puro gosto.
Só mais tarde é que, através da fórma incorrecta d'essas traducções
hebraicas feitas por escrupulosos e ignorantes christãos, elle poude
perceber as correntes puras e limpidas, os mananciaes de vida interior,
as preciosas riquezas d'alma, que jorravam dos livros sagrados, e que
vinham renovar a alma humana, vazar em moldes novos as suas aspirações e
os seus sonhos, crear uma nova fórma de civilisação infinitamente mais
rica e mais complexa do que essa, que a formidavel depravação romana
tinha gasto com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos e nunca
vistos crimes!

Todo o capitulo consagrado a essa bella figura do christianismo
primitivo, a esse grande espirito que tanto concorreu para a organisação
definitiva dos seus dogmas, e em que Gaston Boissier conta as suas
luctas interiores e, finalmente, o triumpho soberbo da sua conversão é
de um interesse palpitante.

Teem sempre actualidade para aquelles que pensam os intimos combates de
uma consciencia sincera.

Aos que fôrem verdadeiramente _homens_ nada do que é humano póde ser
estranho; e onde é que a maravilhosa planta dá a sua flôr mais
desabrochada e mais perfeita do que n'esses typos luminosos, nos quaes o
genio concretisou todos os seus esplendores, a vontade, todas as suas
sublimes energias, a consciencia, todas as suas forças mysteriosas!...

Santo Agostinho é o homem que amou, que aspirou, que conheceu a vida,
que luctou e que venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias da
existencia limitada e mesquinha o que elle na sua alta consciencia
julgou ser a eterna verdade!

Subir tão alto pela acção do seu proprio entendimento é conter dentro de
si, em um momento cuja memoria não mais se anniquilla, fecundando
eternamente outras almas e outras existencias;--aquella porção de
_elemento divino_ que é dado á frágil humanidade realisar e encarnar em
si bem raras vezes.

São estas almas superiores as eternas bemfeitoras da nossa raça
imperfeita, tão grande pelo que sonha, tão mesquinha pelo que consegue
executar.

_As origens da poesia latina christã_, que compõem o livro 4.^o, no
segundo volume, são tambem cheias de interesse e novidade para quem não
está costumado--e quem o está hoje em dia?--a versar tão remotos
assumptos!

A litteratura christã nasceu como já dissemos da mistura que se fez
durante tres seculos da antiguidade profana e do christianismo.

Aos que conhecem e apreciam a litteratura dos grandes seculos da Grecia
e de Roma, deve incontestavelmente parecer mediocre, quasi
insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, onde o melhor era
imitado ainda assim, com inconsciente impudor, dos modelos antigos.

Mas muito embora ella não tenha valor litterario, ninguem póde negar-lhe
um grande valor historico.

O grande abalo moral que o Christianismo imprimira ás almas não tem
comtudo, um éco que lhe corresponda na poesia d'este tempo.

Era muito imperfeito o instrumento d'essa lingua latina em dissolução na
qual tantos povos varios tinham introduzido as suas locuções barbaras, e
que manejada por humildes artifices ignorantes as mais das vezes,
perdera o sabor e a graça ampla e perfeita da aurea latinidade.

Não póde pois ser classificada como uma obra de litteratura, a serie de
escriptos, que essa era,--no entretanto fecunda e na qual se estavam
surdamente e subterraneamente elaborando tantos elementos
novos--produziu e nos legou.

N'esse tempo cumpria-se justamente um dos maiores acontecimentos da
Historia.

O mundo estava sendo revolvido até ás suas entranhas mais profundas.

Havia dramas intimos em cada consciencia, parecidos com esse, de que
Santo Agostinho nos representa o mais elevado typo; havia luctas
dolorosas em cada familia; em uns a sêde do martyrio tinha
voluptuosidades violentas; em outros a plenitude da paz religiosa
attingia uma especie de beatifico esplendor. Que novas sensações de uma
intensidade inultrapassavel conheceram então as almas! Que fontes de
graça mysteriosa jorraram subitamente n'esses renovados corações! Os
crentes elevaram o espirito n'um extase até alli desconhecido. A vida
eterna abria as portas resplandecentes aos sequiosos do eterno _au de
lá_. Jesus Christo mostrava as chagas do seu corpo, e os estygmas do seu
martyrio affrontoso aos que sentiam subir na alma como uma maré
mysteriosa, o novo sentimento do amor, a divina emoção da piedade
fraternal, que subito fizera todos os homens irmãos, e todos os irmãos
soffrendo a partilha angustiosa da mesma agonia!

O Evangelho revelava as suas lendas cheias de graça, as suas parabolas
de idyllica innocencia, as suas lições de simples e ineffavel bondade,
aos saciados de uma civilisação dissoluta e abominavel!

Todos tinham um quinhão n'aquella herança preciosa!

Para todos havia pão e vinho n'aquella ceia symbolica, em que as almas
rejuvenescidas por um sopro de amor commungavam maravilhadas!

Não é, porém, na litteratura, mesmo nos mais rudes ensaios da
litteratura christã do tempo, que este mundo de emoções novas tem o seu
perduravel reflexo.

A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, desatou-se, abalada por
este impulso que a transfigurava e sacudia, em idéas, em typos, em
imagens, em lendas, que a Arte Christã em todos os seus periodos tem
largamente aproveitado. Em dois seculos, do segundo ao quarto seculo, a
imaginação christã elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram o
mundo moderno.

Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente pela alma popular, no
tempo do christianismo primitivo, são os thesouros mais ricos em que
essa imaginação se desentranhou.

A mais doce, a mais imaginosa poesia do christianismo encontra-se alli.
Todas as lendas que fizeram o encanto da nossa infancia, e que
emballaram tambem com o seu rythmo dulcissimo a risonha infancia da alma
moderna, são tiradas d'essa poesia anonyma, em que todas os almas
collaboraram em um enleio religioso, e em uma fé palpitante e
suggestiva, inconsciente dos prodigios que creava.

Essa é que é a verdadeira litteratura christã, aquella em que as forças
espontaneas que geram os mythos e os adornam com todas as flores da mais
variada poesia, se revelam com encantadora eloquencia.

       *       *       *       *       *

Passando em claro os capitulos consagrados a S. Paulino de Nola, um
santo gaulez que inspira uma sympathia patriotica a Gaston Boissier; o
capitulo que tracta da vida e das obras do poeta Prudencio; e muitos
outros que estão cheios de revelações sobre a quadra que descrevem, e em
que nós os leitores podemos reconstituir com intenso colorido esse
seculo estranho, em que um periodo da Historia da humanidade findava e
outro principia a destacar-se nitidamente--paremos deante do _Livro
quinto_ do 2.^o vol. que tem este titulo que é só por si um regalo para
os _gulosos_ de taes estudos: _A sociedade pagã nos fins do seculo IV_.

Mas percebo agora que cheguei ao fim do espaço de que posso dispôr. E
este capitulo de costumes,--em que uma sociedade aristocrata, culta,
amiga das lettras, fastienta até ao requinte, frivola até á dissipação,
muito occupada de elegancias mundanas, de convenções e de cerimonias,
muito sceptica, separada por um abysmo do mundo moderno cujos
representantes eram justamente os que compunham a seita que ella teimava
a desprezar como plebeia, humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem
parte d'ella homens de valor moral de Agostinho,--este capitulo, digo em
que uma sociedade tão parecida com a nossa com os mesmos preconceitos,
com os mesmos vicios, com a mesma despreoccupação do perigo está posta
de pé, com admiravel vigor, precisa de um artigo especial que muito
proximamente lhe consagrarei.


III

O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas modificações secundarias,
o methodo de Taine.

Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua
litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle
procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus
escriptores. Cada typo representativo--_representative man_, dizem os
inglezes--dá-lhe o segredo das idéas, dos sentimentos que predominavam
em uma determinada época.

Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do
quarto seculo, Gaston Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as cartas de
Aurelio Symmachus--personagem de que muitos dos seus leitores e dos
leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisação
da educação moderna, nunca de certo ouviram falar.

Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moço, e as cartas de Cicero
lançam uma grande luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram como
documentos admiraveis para que a moderna critica, tão erudita e tão
comprehensiva, reconstituisse através d'ellas a alma da Antiguidade.

Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito menos caracteristicas de
Symmachus o mesmo impagavel serviço.

N'aquelle tempo, tão proximo da hora em que Alarico viria bater ás
portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaçava a
sociedade antiga.

Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou
«nullos ou de pequena importancia.»

Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis dos grandes amadores da
_epistolographia_ no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas o minimo
rebate dos perigos que ameaçam o regimen que ia esboroar-se em sangue e
em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão agudo de
intelligencia, tão perspicaz, tão penetrante, e que tão activamente
collaborára na propaganda a que se deveu a Revolução, percebe levemente
a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle creára com a
sua palavra de fogo.

Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se
todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de
anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambição.

Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai
sorrir sinistramente e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai surgir um
mundo novo?

Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, quando, feitas todas as
conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem
reclama imperiosamente a solução prompta, radical do terrivel problema
da miseria--quem é que percebe nos salões de Paris, de Londres, de
Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidação está a chegar, e que uma
era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera
porventura os que teimarem em viver muito?

É da lei das sociedades não perceberem nunca claramente as
transformações que se estão elaborando no proprio seio d'ellas.

       *       *       *       *       *

Como quer que seja, a verdade é que o grande senhor romano, cujas cartas
nos interessam n'este momento, se não preoccupa absolutamente nada com
os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um
corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.

Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas
conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja
se vê, a moda e dominando os costumes.

É justamente a transformação que se opera na aristocracia europêa, entre
o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes
cargos honorarios na côrte imperial, como os fidalgos francezes de que
nos fala Saint-Simon--e dominam--o que tambem frequentemente lhes
succedia a elles--na administração interna das provincias romanas.

Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam
zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo.
O _pão_ e _espectaculos_, de que fala Juvenal, continuam a ser até á
final dissolução do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana.
Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradições antigas,
tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos
amigos que elle tinha em todo o mundo.

Na occasião de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle
uma somma equivalente a dois milhões de francos.

Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem
artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e
imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a
sua popularidade.

N'este ponto não podemos accrescentar que o mundo moderno tenha
similhanças com a sociedade antiga. Entre as nossas eleições
constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto
do povo, a differença não é realmente tão pequena como isso.

Os modestos banquetes, com que entre nós o eleito obsequeia os seus
eleitores não se parecem lá muito com esses prodigiosos espectaculos em
que sómente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como
Symmachus mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, cães da Escocia,
crocodilos do Nilo,--d'esse _verde_ Nilo, de que Cleopatra fôra a
serpente lasciva,--cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores
saxões, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo,
então conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!

Eis um traço de costumes que demonstra, mais que mil dissertações a
distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos
melhores:

Symmachus, para essa festa monumental, mandára vir como gladiadores os
prisioneiros saxonios, raça valente, sobre a qual contava para o pleno
successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de
bravo coração, não querendo servir para os prazeres do povo romano,
estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.

Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a
philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o
seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico,
enfureceu-se contra os desgraçados, e exclamou de muito boa fé: «Não
quero que me falem mais d'esses miseraveis, que são ainda mais perversos
que _Spartacus_.»

E esta exclamação de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse
do caracter e da sensibilidade antigos.

       *       *       *       *       *

O modo externo de viver em Roma differe pouco do já conhecido pelas
Cartas de Plinio. As regras de civilidade social têem-se, porém,
complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a
receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos,
investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.

A paixão das lettras é universal na sociedade elegante--tal como no
nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a
vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chôchos e a
cumprimentarem-se com effusão pelos seus talentos litterarios.

Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como
o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem
escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florença--os quaes, já se
entende, tratavam de imitar a antiguidade--ha banquetes em que se leva a
noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.

A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos
ricos, tem tres casas em Roma e quinze _villas_ nas mais bellas regiões
da Italia. Não se excede em luxo, em graça voluptuosa, em douta cultura,
em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avós
tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as
infinitas delicias.

       *       *       *       *       *

Não se imagine, porém, que só a sociedade pagã estava contaminada d'este
egoismo, d'esta preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa
indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha
saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem
conversára com as mulheres de espirito, lêra avidamente os deliciosos
poetas pagãos, bebêra emfim até á embriaguez essas «delicias de Roma»
contra as quaes se revoltava depois, é o proprio que nos conta o modo
porque os ociosos e os ricos de _ambos os cultos_ passavam a existencia.

«Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das
suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. Em
louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Começa a conversação e
não ha meios de acabar.

«Contam-se historias escandalosas. Morde-se e é-se mordido. Dilacera-se
quem não está, e adula-se quem ouve.»

Não parece a descripção de uma sala do nosso tempo?

Querem vêr agora o retrato de um abbade da Regencia?

«Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas.
Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as
damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma
toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o,
lamenta-se de não possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por
conseguir que lhe façam presente d'elle.

«Onde quer que a gente vá, é a primeira pessoa que encontra; sabe todas
as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe
faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos
em cada vez que as conta.»

Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro,
não é tal da Regencia como eu lhes disse. É de Roma no tempo de S.
Jeronymo e é elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta
agudeza espirituosa em uma das suas _Epistolas_!

       *       *       *       *       *

A differença exterior entre esta civilisação e a nossa é bem grande; os
caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que
vai da moral antiga á moral moderna; o elemento da _caridade_, essa base
fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prégado
pelos seus apostolos não penetrára profundamente nas almas, que a
religião antiga affeiçoára e modelára--mas apesar de tudo isso, quantos
quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas
figuras d'essa época que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixões
então dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais
desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e
mais humana, não conseguiram ainda amordaçar.

Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e
deslumbrante magnificencia--esquecida ou despreoccupada dos perigos que
a ameaçavam,--assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gráu
de civilisação e de riqueza material differente, mas não inferior ás de
Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear
cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, tão tenaz como a
christã, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, tão capaz
de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, e não tendo como ella
o seu fim exclusivo no Reino dos Céos, no Reino que não é d'este mundo,
avança subterraneamente, recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas
fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde o trabalho é uma
ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanças agonisam com fome
entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o
ar falta e onde a desesperança brama sinistramente--e se prepara
energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha
sociedade apodrecida!

O que queriam--não esses christãos degenerados e contagiados pelo
paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo--mas os grandes
christãos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos
amphiteatros e que escreviam com o sangue do coração os seus rudes
hymnos de adoração e de fé?

Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas
as iniquidades pagãs, que era a escravidão do miseravel e a apotheose do
mau rico!

O que quer hoje o socialismo triumphante?

A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o
sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel
proletario!

Não é verdade que esta similhança basta para dar ao livro um intenso e
profundo interesse?



Anthero de Quental

A SUA OBRA E A SUA MORTE



I


Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! Succedeu um tão silencioso
esquecimento ao pasmo, ao sobresalto da primeira noticia do seu
suicidio!... E no emtanto, se havia physionomia complexa, suggestiva,
capaz de interessar e de captivar o nosso espirito era a d'este poeta de
tão requintada e extrema delicadeza de inspiração e de pensamentos.

A primeira impressão que recebi da sua morte, foi tão violenta e
dolorosa que em vão tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no molde
imperfeito e rude de uma apreciação critica qualquer.

É hoje sómente, depois de volvido um mez ou mais sobre esse suicidio,
que devia enluctar as lettras portuguezas, que eu me atrevo a conversar
com os leitores a respeito d'elle.

O livro dos _Sonetos_, saudado na sua primeira apparição com sincero e
quasi religioso enthusiasmo, póde considerar-se como a completa
confissão d'aquella alma combalida, que procurou na Morte o extremo
refugio contra as luctas asperas do Pensamento, contra as chimeras
perseguidoras da Imaginação.

Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, d'onde a maior
parte da gente se colloca para julgar os homens e as cousas, Anthero não
era realmente um infeliz.

Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil qualidades invejaveis.

Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello talento incontestado; tinha
a sufficiente abastança para _não precisar viver d'elle_--o que eu pelo
menos considero o maior dos bens--tinha a adoração dos amigos (que lhe
chamavam _Santo Anthero_), o respeito dos estranhos, a par de uma
consciencia immaculada que no exercicio do bem encontrava permanente e
ineffavel consolo; tivera até na mocidade o raro dom de uma belleza de
Christo, espiritual, meiga e serena.

E, comtudo, apezar de tantas circumstancias que se reuniam para dever
tornar-lhe doce a vida, depois da leitura d'aquelles _sonetos_
magistraes, em que tão requintadas amarguras e tão estranhos supplicios
se crystallisavam, por assim dizer, em perolas maravilhosas, não havia
leitor que não sentisse esta interrogação desabrochar-lhe nos labios:
onde é que este homem tão tranquillamente e tão lucidamente desesperado
encontra a força de continuar a viver?

O suicidio do grande poeta responde agora, lugubre, mas coherente,
terrivel mas logico, á irresistivel pergunta.

O pessimismo de Anthero não era, como a maior parte dos que nós por ahi
conhecemos, um pessimismo pessoal, egoista, limitado ás contradicções e
ás tristezas do seu proprio destino.

Era um pessimismo philosophico, como o de Leopardi, como o de
Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle.

A sua concepção da vida, tão triste que faz horror e espanto, traduz-se
no soneto: _A Divina Comedia_, em que elle figura os homens erguendo
para os remotos céus os braços desesperados e apostrophando esses deuses
que só produziram a Dôr, a Paixão, o Peccado, as Illusões, as luctas
fratricidas.


«Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dôr nos evocastes?»
Mas os deuses com voz ainda mais triste,
Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?»


A Morte, não sob uma fórma repellente e odiosa, mas attrahente como
esphynge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua
cantilena de seducção á flôr das aguas de um verde glauco, a Morte,
revestida de um mysterioso encanto subjugador e estranho, paira por
sobre todas os paginas d'este livro, impregnando-as de subtil e
contagiosa tristeza.

Dir-se-hia que os _sonetos_ lhe são quasi inteiramente consagrados. É a
_ella_ que elle vê sempre, chamando-o, chamando-o baixinho,
entontecendo-o com as promessas do seu silencio eterno, da sua paz
profunda e vasta, do seu mysterio que ninguem soube ainda violar.

Anthero pensára tanto que o cérebro esgotado pedia emfim misericordia. A
sua ambição não fôra de vãs glorias, nem vãos triumphos; quizera
levantar uma ponta d'esse véo que esconde a eterna Verdade, além da qual
tantas gerações humanas têem sonhado com alguma cousa de inextinguivel e
de eterno.

E essa agonia intellectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus
versos, com uma potencia maravilhosa, e uma energia devoradora que
acabou por consumil-o!

_A illusão, o vasio universal_, que encarava ao sahir das suas
vertiginosas contemplações metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e
tremente. A vida não lhe dava o que elle queria; para áquem d'esse vasto
mundo invisivel que a sua alma de sonhador presentia e pelo qual ella
anciava, nada havia que lhe satisfizesse a sêde ideal. Por isso Anthero,
fugindo voluntariamente d'elle, foi buscar a sua amiga de todas as
horas, aquella que podia entregar-lhe a chave do eterno enygma que o
desesperava; a


       _«Morte! irmã do Amor e da Verdade»_


       *       *       *       *       *

A proposito do suicidio de Anthero, falou-se muito de tres suicidios
tambem famosos que o precederam; mas realmente, a não ser pela
notoriedade que os assignala, eu não sei que elles tenham comparação com
o d'este poeta. Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado nem Soares dos Reis
se mataram pelos motivos transcendentes que actuáram no animo de Anthero
de Quental.

Os tres mataram-se porque soffriam mais do que é dado aos seres humanos
soffrer sem procurarem no anniquilamento a paz invocada entre
supplicios.

Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados pela cegueira,
temperamento de hysterico para o qual a resignação era uma virtude
impossivel, matou-se para fugir ás trevas densas de uma lobrega morte em
que se sentia perdido!

Julio Cesar Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que não
satisfizera nenhuma das ambições da sua pobre alma delicada e sonhadora,
elle concentrava as affeições todas do seu coração, os ultimos sonhos da
sua phantasia, a esperança, a suprema gloria, no amor de um filho que se
suicidára com 19 annos!--deixando-o só. O infeliz enlouqueceu e matou-se
tambem...

Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mysterio. Quem sabe
que luctas intimas, que drama de paixão intensa e dolorosa esse suicidio
não veio rematar!

A morte de Anthero obedeceu a outro genero de impulsos. Não digo que
para ella não concorresse tambem o estado de miseria moral e de anarchia
mental em que via a sua patria (da qual havia pouco elle tinha
porventura esperado qualquer acto de energica reacção contra o destino),
mas a sua dôr era uma d'estas dôres de ordem aristocratica e rara, que
não se originam como as da maioria dos homens no coração, mas que emanam
do espirito cançado de cogitar em vão no mysterio impenetravel das
cousas...

Querem vêr os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites?
Ouvi este _soneto_ que é, como todos os outros, pagina solta de uma
confissão intellectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um
Amiel a escreveram tambem cada um, já se vê, na sua respectiva esphera,
um nos seus immortaes _Pensamentos_, outro no seu _jornal_ tão
caracteristico e tão pouco comprehendido:


Espectros que velais emquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e cançados
Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados,
Disputar dia a dia á mão dos fados
Uma parcella do saber augusto.

Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se até dormindo, com angustia immensa

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma, verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrença!


Foram estas as dôres que o mataram. A sua consciencia não achava repouso
em nenhuma das concepções do Universo em que alternativamente tentava
acolher-se.

Ora, dirigindo-se á meiga Virgem do Catholicismo elle a invocava com
infantil simplicidade; ora punha na _mão direita_ de Deus o seu coração
cançado, e lhe ordenava que alli _dormisse eternamente_; ora achava que
a Duvida tinha soprado sobre o mundo _um vento de ruina e de morte_, que
tudo emmurchecêra, que tudo apagára, deixando apenas uma humilde e
mysteriosa flôr desabrochar a medo no fundo da consciencia humana.

Aspirava ao _nirvâna_, á paz inconsciente; queria cahir n'aquelle _vacuo
tenebroso_ onde na _immobilidade indefinida termina o ser inerte,
ocioso_; e ao mesmo tempo a comprehensão atavica da eternidade catholica
torturava-lhe em horas de lucta o inquieto espirito.

Que aspiração intensa ao ideal, a d'este formoso espirito alado! Que
sublimes tormentos os seus, procurando sem descanço a verdade e a
luz!...

Mas sempre, em todas as phases d'esta interna lucta que talvez fizesse
sorrir alguns dos leitores dos _sonetos_ emquanto o suicidio do poeta
lhe não deu o seu fundo de lugubre realidade,--Anthero chamou pela
Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, os mais
doces, os mais apaixonados!

D'elle se pôde dizer que foi _um amante da Morte_, amante austero e
triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente

Por motivos inteiramente diversos dos seus, tambem Santa Thereza, a
apaixonada castelhana, chamou a Morte com aquelles mesmos arroubos de
extase que nos surprehendem e nos fazem estremecer a nós, pobres
creaturas feitas de carne melindrosa e fragil, a quem o soffrimento
repugna, e a sepultura com a sua podridão infecta repelle
formidavelmente.

Digam-me se ha em lingua alguma expressão de dôr mais completa do que a
d'este _soneto_ a que Anthero pôz o titulo de _Despondency_ por não
achar em portuguez um termo que rigorosamente correspondesse ao estado
de resignada e tranquilla desesperança que elle traduz:


Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram...

Deixal-a ir, á vella que arrojaram
Os tufões pelo mar na escuridade,
Quando a noite surgiu na immensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixal-a ir a alma lastimosa,
Que perdeu a paz e fé e confiança
Á morte quêda, á morte silenciosa...

Deixal-a ir a nota desprendida
De um canto extremo e a ultima esperança...
E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!


       *       *       *       *       *

Não ha por tudo isto motivos para espanto no suicidio de Anthero. Elle
não era, como já dissémos, um escriptor de officio, que de proposito
exacerbasse e cultivasse em si proprio o desespero e as lagrimas, para
as transformar em rhetorica _livresca_; não tinha tambem um vão amor de
gloria indesculpavel em quem sondava com tão penetrante e lucido olhar o
vasio de todas essas chimeras, a ephemera duração de tudo que é da
terra...

Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu
sentir tanta vez contradictorio e doentio, em versos de uma magia
dolorosa, de uma graça delicada e triste, de uma profundidade de
expressão inegualavel, e n'esses versos só uma nota era constante: _o
elogio da Morte_.

Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a de funebres flôres,
supplicou-lhe que o accolhesse no seu regaço frio, achando emfim que
depois do _mal de haver nascido_ não havia senão um bem: tornar ao Nada.



II


Quando o livro dos _Sonetos_ appareceu escrevi eu um estudo sobre elles,
que não tinha, já se vê, outro merecimento além de uma sinceridade
absoluta e de uma immensa sympathia.

Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o auctor d'essas bellas
poesias tão raras na nossa litteratura,--a qual como todas as
litteraturas meridionaes não pecca pelo _excesso de pensamento_--tivesse
consummido a vida, que tão bellas cousas podia dar-lhe, mettido em si
mesmo, n'aquella especie de meditação allucinada que se traduzia, é
verdade, em versos magnificos, mas versos que eram, como as perolas,
productos de uma dôr mortal.

E revoltava-me contra a solidão mental em que Anthero se concentrára,
contra as hesitações do seu querer, contra as fluctuações do seu
pensamento, contra o pessimismo bhuddico da sua doutrina, contra tudo
que fizera d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador nebuloso e
doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das
suas charnecas desoladas, ou dos seus sarçaes cheios de espinhos e de
reptis....

Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não quero deixar de offerecer aos
meus leitores, a carta, até hoje _absolutamente inedita_, que Anthero de
Quental me escreveu então, depois de ter lido os meus artigos que se
publicaram primitivamente no _Jornal do Commercio_ de Lisboa, e que hoje
estão incluidos no volume intitulado _Alguns homens do meu tempo_.

Ahi vae a formosa e eloquente carta:


«Porto, 24 de dezembro.

                                             Minha Senhora


Agradeço-lhe muito os seus artigos no _Jornal do Commercio_, e creia V.
que o não faço só por civilidade, ainda que não é cousa que se deva
desdenhar _par le temps qui court_. Não lhe direi que me agradaram os
seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-hei que me commoveram. Ha
n'elles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi
direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração d'essas
palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciação que fez das
doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente) _pessimistas_ e nos
receios que lhe inspiram as tendencias bhuddicas que começam a
manifestar-se por todos os lados, em sociedades que attingiram o _nec
plus ultra_ da civilisação, ou em individuos que attingiram o _nec plus
ultra_ do pensamento.

Tudo isso, é verdade, está ainda bastante obscuro e confundido com
elementos estranhos e até contradictorios, e por isso me não admira que
não possa ainda ser apreciado sem grandes apprehensões. O meu livrinho,
apenas aqui ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere a nota
exacta e sã, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos,
precisamente quando começava a pensar e a sentir alguma cousa que
realmente merecesse ser posta em verso.

Não podia elle, tão incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria
que fosse claro e amplo, dissipar aquellas apprehensões, antes era
natural que contribuisse para as radicar. Mas a minha convicção é que
taes apprehensões não são fundadas e que entre os sentimentos naturaes e
espontaneos do coração humano, entre o seu ideal de justiça, de harmonia
e de belleza, e o ponto de vista ascetico do Bhuddismo, não só não ha
contradicção verdadeira, mas que, pelo contrario, é só n'essa esphera
que elles encontram a sua mais perfeita expressão, libertos de muitas
illusões e de muitas imperfeições que lhe andam forçosamente misturadas,
e attingem a plena consciencia do que são e para que são. E seria
singular com effeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no
Bem a verdade suprema da existencia humana, pudesse collidir com
aquelles espontaneos impulsos da nossa natureza, que não são, no fundo,
senão fórmas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos
incompletos da nossa fundamental aspiração a esse mesmo Bem!

A, verdade é que a civilisação moderna chegou, no seculo actual, como a
civilisação antiga, no periodo do Imperio Romano, a um ponto em que, sob
pena de completa ruina, o problema metaphysico-psychologico tem de ser
sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao gráu superior da
mesma civilisação.

Hoje, como então, as questões metaphysico-psychologicas são a chave de
todas as outras questões porque, tendo o proprio progresso das
instituições e das idéas arruinado os antigos alicerces moraes da
sociedade, a grande questão, a questão vital e inadiavel não é já a do
aperfeiçoamento das instituições nem do augmento dos conhecimentos, mas
a da organisação theorica e pratica da vida moral, a creação da ordem
nas consciencias, em uma palavra a remodelação do _homem interior_, sem
o qual o outro homem, da sociedada e da vida pratica, por forte e sabio
que pareça é mais miseravel que o escravo mais embrutecido.

O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilisação poderosa
e complexa como nenhuma, só poderá ser equilibrado por um progresso
equivalente do ascetismo. Sem esse equilibrio a sociedade moderna, que
já hoje nos causa mais terror do que admiração, poderá continuar ainda
por algum tempo de poderosa, tornada formidavel, e, de formidavel,
bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto é, o homem moral, terá
morrido: e morto elle, tudo cahirá, por que só elle sustenta a grande
mólle social. A sociedade é, antes de tudo, um facto de ordem moral.

Mas não continuo com estas reflexões, porque desejo fazer d'ellas o
assumpto de um escripto, até a certo ponto em resposta aos artigos de V.
e que publicarei em fórma de carta, se V. levar isso a bem.

E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assignar-me
d'aqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo.--_Anthero de
Quental_»

       *       *       *       *       *

Esta carta tão bella na fórma, e tão profunda no pensamento, apresenta
porém a contradicção fundamental a que Anthero succumbiu.

O ascetismo é a contemplação mais inerte: o Bem demanda a actividade
mais incansavel, o esforço mais tenaz.

Como conciliar estes dois termos oppostos? Se para o extatico e
contemplativo pensador a quem o _nirvana_ sorri como o supremo fim da
sua ascensão ideal, cada homem não é mais do que um momento que toma
consciencia de si e logo passa, aquelle que na terra procura o Bem e
tenta pelo seu esforço creal-o, sabe que se dissolvem as fórmas em que a
consciencia se encarna, mas que ella, a sublime chamma não se apaga
jámais... Nós os passageiros de um dia que conseguimos por instantes
guardal-a no nosso seio mortal, passamos rapidos sim, mas não antes de a
transmittirmos áquelles que nos succedem sempre mais pura, e sempre mais
intensa...

O patrimonio real da humanidade é este: por este lhe vale a pena padecer
e luctar. Este não morre com as pobres gerações que se succedem como as
folhas das arvores, como as ondas do mar...

Não é pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica renuncia aos bens reaes da
vida que a sociedade tem de salvar-se. É pelo exercicio activo das suas
energias espontaneas, é pela fé na sua missão do bem, na sua ascensão a
qualquer eminencia moral, que ella ainda não antevê de longe, mas que
existe decerto, mas que deve existir, ou este instincto de progresso a
que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!...

A prova de que esse ascetismo a que Anthero recorre na sua bella carta é
esteril, é que elle, querendo salvar por este modo a sua clara
consciencia e o seu espirito genial, veiu acabar na morte voluntaria, no
suicidio banal dos vencidos e dos fracos!

Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não elle, tão grande, que tinha
razão, e essa razão, foi o seu acto extremo que m'a veiu dar.

Ninguem pensára mais alto e mais justo que esse homem de uma consciencia
tão delicada, de uma penetração philosophica tão subtil, e cujo
entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulações da
metaphysica e da psychologia.

E no emtanto elle não achou outra resolução ao problema que está
presentemente posto deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas e
dos individuos que pensam intensamente, senão a do suicidio silencioso.

É profundamente desoladora a phase do espirito humano que, de vez em
quando, se manifesta em factos como este.

Como escapar a este estado de descrença absoluta em qualquer destino
ulterior da nossa especie? Retroceder á boa Natureza, á primitiva
ignorancia dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro logar a
natureza não é boa, depois, quem _sabe_ póde porventura, e só por
effeito da sua vontade começar de um dia para o outro a _ignorar_?...

Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilisação particular, o
que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro,
no espirito d'elle, uma irritação doentia, uma penosa desesperação
resultante dos limites que este acha sempre á sua curiosidade
transcendente--cada sociedade que attinge esta perigosa eminencia, está
por esse mesmo facto, muito proxima da sua fatal degeneração.

Nenhuma civilisação se elevou mais alto nas abstracções do pensamento,
nos arrojos da metaphysica do que esse Bhuddismo em que Anthero de
Quental tentava encontrar a suprema paz da consciencia humana. E o que
tem elle produzido senão resultados negativos, e allucinações doentias?
A civilisação antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do
destino do homem divinisando-lhe as paixões, e fazendo a permanente
apotheose da força. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo
antigo se diluiu. A Edade Media teve uma comprehensão harmonica e
grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espirito e
tão pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem
um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime
esforço, respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença.

O mundo moderno quer achar na sciencia a chave do todo o eterno enygma
que até hoje se conserva inviolado, a explicação do universal mysterio
que o envolve e penetra, a resolução de todos os problemas complexos que
se têem accumulado deante do seu espirito em dois ou tres mil annos de
pensamento--e a sciencia impotente, incompleta, desconsoladora não tem
agua que sacie a nossa sêde, não tem piedade que unja a nossa lenta
agonia!

Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo inerte, ou pelo suicidio;
que é ainda uma victoria do espirito ultrajado sobre si mesmo!

E um véo de tristeza densa e plumbea envolve este mundo enorme, agitado,
convulso, atravessado de fios electricos que em minutos transmittem de
um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de
locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ebrio de
orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que é a realisação
mais completa da felicidade e do triumpho moral do homem; mas tremendo a
cada abalo subterraneo que revele quão minados estão os seus alicerces e
em que movediça areia assentam os seus edificios de Babel!

Comtudo ha uma affirmação, no meio de tantas duvidas e de tanta desordem
mental, que póde ser feita sem medo!

O Bem existe! A consciencia humana conhece-o mesmo quando o atraiçôa ou
o desdenha. É ella que o tem creado em seculos de lucta sublime! Os
humildes de coração são talvez os que estão mais perto das fontes vivas
d'onde elle promana, e é pela humildade e pela acceitação resignada do
seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre
humanidade definitivamente se salvará!

Por mais que amenos e veneremos a memoria de Anthero, não podemos pois
achar justo o seu suicidio.

Contentamo-nos em achal-o explicavel.



Anatole France


I


Conhece porventura o leitor este mestre do estylo, que é francez e
moderno, e podia ser grego e antigo?...

Conhece este discipulo de Renan, discipulo que dispõe de mais liberdade
moral e de mais fogo juvenil que o seu querido e respeitado mestre?

Anatole France é, como Renan, um _charmeur_, mas é mais do que elle--um
voluptuoso.

A sua philosophia, mais _Renanesca_ do que _Hegeliana_, move-se
phantasiosamente em um universo de illusões.

E as fulgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplendida imaginação,
reveste-as uma melancolia deliciosa e morbida, como se elle as evocasse
com a consciencia de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo
depois de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...

Um dos melhores livros que elle tem escripto, e cujas edições se
multiplicam com espantosa rapidez--apezar d'elle o ter no pensamento
dedicado aos delicados, aos _happy few_ de que fala desdenhosamente
Stendhal--chama-se _Thaïs_.

Thaïs é uma _lenda dourada_ dos primeiros seculos christãos, que entre
parenthesis estão sendo apetecivel mina de estudos litterarios, de
poesias, de erudição e de arte.

Tem o livro como personagens principaes Paphnucio, um anachoreta da
Thebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada pelos
duros cilicios, curtida pelos sóes causticantes do deserto, amachucada
nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes
areaes--e Thaïs, uma gloriosa e applaudida actriz de Alexandria, bella
como Venus, e intelligente como Aspasia, e prodiga de affagos como as
duas, em que esplendidamente se encarnára para enlouquecer e perder os
homens.

Paphnucio construira nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de
ramos de arvores e de lodo amassado.

Vivia alli na penitencia e na castidade; na contemplação e no ascetismo.
Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legiões de anjos, bellos
como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Thebaida
escondida; os demonios, com figuras de animaes immundos, vagavam uivando
em torno d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham escolhido para
morada o deserto--e tentavam em vão os santos ascetas.

Quando elles iam de manhã encher as suas bilhas do barro ao poço que os
dessedentava, viam as patas dos satyros e dos faunos travessos impressas
na movediça areia.

Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Thebaida era um campo de
batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os
maravilhosos combates do inferno e do céu.

Mas tão profunda era a virtude d'esses santos cenobitas que submettia ao
seu poder as proprias féras.

Quando um solitario estava para morrer, vinha um leão abrir-lhe a cova
com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este signal que Deus
o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmãos
espirituaes.

Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor.

Esta descripção do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das
suas visões, da Thebaida e dos allucinados combates que ahi as paixões
humanas travavam com a perfeição ideal, todo este symbolismo _humano_ e
comprehensivel está traçado com mão de mestre.

Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura de um _primitivo_, tanto
é certo que só o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a ineffavel
simplicidade.

Paphnucio nascera em Alexandria, de paes nobres, e fôra por elles
instruido na delicia das profanas lettras. Era de muito longe que elle
tivera de partir, para chegar á perfeição santissima da sua vida de
anachoreta christão.

Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça espiritual, ou por seu
aperfeiçoamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa
actriz chamada Thaïs.

Tão bella como a mais bella das suas visões esplendidas do Paraizo e
condemnada á eternidade das penas, á perdição infernal, á ignorancia
absoluta do bem!...

Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella e não a salvar, não tentar
salval-a ao menos!...

Paphnucio não pôde submetter-se a esta dura lei.

Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Thaïs
fazia as delicias e a admiração do povo, e vae arrancar ao inferno a sua
presa deslumbrante.

É necessario fazer notar que ainda bem Paphnucio não começára a
premeditar esta santa empreza, já os demonios que em figuras de chacaes
costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem comtudo lhe
penetrarem pela porta sempre aberta, se permittiram entrar por ella
dentro, deitando-se perto d'elle, familiarmente, como amigos velhos. Que
encontrariam os demonios na alma do velho cenobita para assim
procederem?...

A graça ironica, a commoção subtil com que estes quadros são traçados,
podem ser indicados pelo commentador, mas não podem ser fielmente
traduzidos por elle.

Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro de si força que baste a
dominar as indominaveis, as omnipotentes paixões humanas, e se considera
com direito de desafiar o Peccado e de o vencer, ha uma encantadora
figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque
lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um
pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amavel convivio
dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a
vasta natureza cheia de graças e de assombros.

As gazellas vêm apoiar a fina cabeça inquieta nos joelhos do santo: as
figueiras que elle trata dão grandes figos cheios de nectar cuja
contemplação é para elle um regalo innocente.

Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de
tanto zêlo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente está de
emendar o mundo, mais vale emendar-se a si proprio de todos os peccados
até d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.

Mas Paphnucio não o quer de fórma alguma attender; isto, seja dito de
passagem, com alegria dos chacaes seus inimigos antigos e agora seus
inopportunos familiares.

       *       *       *       *       *

Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão sómente de um longo cilicio,
ei-lo que se dirige para o Nilo--no designio de seguir a pé a margem
lybica até á cidade fundada por Alexandre.

Que deliciosa a narração d'esta romaria, feita pela lingua de ouro de
Anatole France! Ha phrases que cantam no ouvido como uma flauta da
Jonia!... ha imagens que se desdobram deante de nós como uma evocação de
magia!

Nem a traducção litteral poderia fazer presentir o encanto rythmico,
emballador, quasi morbido, de requintado que é, d'este estylo em que as
palavras se harmonisam em um concerto ideal, para formarem a mais suave,
e subtil, e suggestiva das musicas.

E emquanto assim se encaminha para Alexandria, Paphnucio foge das
cidades e das aldeias; tem medo de encontrar creanças a brincar na
soleira das portas, mulheres paradas á beira das cisternas, sorrindo
cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a
Samaritana já sorrira.

Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flôr, o
sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o
receio que sentia de enternecer-se deante da belleza ineffavel, do
divino mysterio das cousas...

Viu uma enorme sphinge egypcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a
a confessar o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou um eremita
bhuddico, todo nú, de barba branca a fluctuar-lhe em ondas no peito
curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão do seu _nihilismo_
absoluto, depois de lhe escutar as blasphemias de um scepticismo sem
fim, ainda tentou convertel-o à fé profunda que lhe abrazava o coração.

A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o _ibis_
mysterioso e hieratico retratava no liquido espelho do rio o seu longo
pescoço côr de rosa pallido; os salgueiros agitavam a múrmura folhagem
argentea; as cegonhas voavam no céu claro; e nos cannaviaes da margem
escutava-se o grito de outras aves aquaticas.

O valle perdia-se ao longe em ondulações verdes; as aguas palpitavam
como um seio de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o amor fremente
e creador parecia pullular em tudo, em tudo...

Paphnucio, porém, só pensava na cortezã esbelta e branca, de braços côr
de lyrio e olhos côr de violeta, que em Alexandria representava as
traições de Helena, os delirios de Phédra, o sacrificio da candida
Ephigenia, ante uma turba delirante, que a sua belleza embriagava e
perdia...



II


A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio avista Thaïs é no theatro
em que ella representava a immolação de Polyxena.


Tal contra a linda moça Polyxena
Consolação extrema da mãi velha
Porque a sombra de Achilles a condemna
Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...


Não se lembram do nosso Camões? Era justamente esse lance da epopéa
homerica que Thaïs traduzia pela mimica expressiva e perfeita, a qual,
na decadencia da Arte antiga, suppria agora na scena, viuva dos seus
grandes mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia de Euripedes e de
Menandro. Thaïs altiva e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, como
dava a todos que a contemplavam «o tragico estremecimento da sua fatal
belleza.»

Segue-se então a lucta travada entre o asceta e todas as seducções pagãs
que circumdavam a cortezã esplendida, para converter esta á religião dos
pobres, dos miseraveis e dos simples.

Thaïs fôra iniciada em pequenina por um escravo negro da Nubia, chamado
Ahmés, n'essa religião que reveste de tão voluptuosas delicias o
sacrificio e a dôr.

Tinha-a mesmo baptisado, em uma época de perseguições e de angustias, o
bispo proscripto de Cyreno, que pela Egreja soffrêra os mais horrendos
martyrios.

E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica lhe fôra contada
baixinho, pela voz queixosa e cantante do misero escravo negro, quando
Thaïs, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso que lhe abrigasse o
corpinho infantil, torturado de açoites, ia deitar-se á noite a um canto
do estabulo, entre animaes domesticos, com Ahmés perto d'ella--sentado
sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude
hereditaria da sua raça, e o rosto negro banhado n'aquella divina luz de
esperança e de misericordia com que a estrella de Bethlem tem, durante
dezenove seculos, inundado, casta e divina, os desherdados de todo o bem
terrestre.

Portanto, não a espantou em excesso a apparição do monge, depois de uma
vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe dar a
felicidade.

Só um momento, durante esses vinte annos de embriaguez hyper-aguda, ella
conhecêra a ephemera felicidade de amar. As lagrimas que chorou tinham
tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor
encontrára tudo--até a perdida innocencia e a divina puerilidade da sua
fé. A bella cortezã de Alexandria realizára o delicioso pensamento do
poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir
exultante:


             _Et l'amour m'a refait une virginité_


Mas subito esse homem, que de todos lhe parecêra diverso, appareceu-lhe
tal como os outros todos, e ella fugiu espavorida, para não vêr mais a
imagem da sua illusão que se partira.

Conheceu depois a gloria, os applausos, os enthusiasmos, as adorações
febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas.

Por ella os philosophos se fizeram crianças credulas; os voluptuosos
tiveram a coragem do suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos;
lagrimas, os egoistas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os politicos
esqueceram, para se demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e os
requintes que ha no prazer do mando.

E Thaïs, indifferente a todos e com todos brincando cruelmente,
conservava no fundo da sua alma a recordação indistincta e vaga d'esse
mundo mysterioso de que lhe tinham revelado o encanto.

Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha a sêde atormentadora do
desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as
loucas...

Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi que sem resistencia á rude
voz que a chamava para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir o
seu implacavel mestre deixou os banquetes em que a acclamavam, sob os
bellos e poeticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e
considerados da Alexandria, os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de
Serapis, os dandys do tempo, preoccupados como os de hoje, com a arte de
amestrar bellos cavallos e de enamorar bellas mulheres.

Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que
queimassem os seus thesouros de arte: os cofres de marfim, de ebano e
cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cahir corôas, grinaldas, collares
esplendidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as
tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as
estatuas de nymphas que pareciam animadas como mortaes: e o Eros eburneo
a quem se attribuiam maravilhosas e não sabidas virtudes, e que valia o
seu peso centuplicado em ouro.

Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de
purpura; as sandalias de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas
cinzeladas por industriosas mãos de escravos artistas; as theorbas, as
lyras:--todos os instrumentos da sua seducção complicada e subtil, todas
as bellas cousas que representavam as recordações de uma vida de luxo,
de opulencia e de amor... Não a prendeu a gloria de actriz estremecida;
chamavam-lhe a clara estrella, a doce lua do céu alexandrino, e o rude
solitario arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras e em
flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha e de amargura choradas
ao pé da Cruz.

--Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, arrastando-a comsigo ao
longo da costa--vê esse enorme mar azul. Nem toda a agua que elle tem
póde lavar as tuas manchas asquerosas!

E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia do mais impetuoso e
ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de
confessor, as ignominias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera
tão bello, Thaïs seguia-o docilmente sob o sol abrazador, e por cima dos
penhascosos caminhos, onde os seus pés nús, tão lindos, tantas vezes
cobertos de beijos, se desfaziam em sangue.

       *       *       *       *       *

Todas estas paginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a
humildade ineffavel da peccadora arrependida, estão escriptas com uma
paixão acre e flammejante.

Vê-se bem que o inferno e todas as suas furias estão dentro d'esse
orgulhoso coração de monge, que se julga acima do Peccado e que é
vencido pela força irreductivel de um Poder que elle negou.

Thaïs, não; essa arrependida e submissa é em Christo que pensa e a sua
alma anceia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em
lagrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou
á Magdalena, e que não consentiu que fosse lapidada a mulher adultera
pelos que não tinham direito de a julgar.

A ultima parte do livro está impregnada de uma ironia, delicada como
tudo que sae da penna de Anatole France, mas destoante da opulencia da
côr e de estylo que inspiram as duas primeiras partes.

Consiste toda ella na narração das penitencias a que Paphnucio se
entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar
Thaïs conduzida por elle a um convento de mulheres--não é tão puro nem
tão desinteressado como na sua illusão a respeito de si proprio elle
suppuzera até alli.

As penitencias ás vezes chegam a ser de um comico _voltaireano_.
Exemplo: a columna no alto da qual, mystico acrobata, elle se
encarapitou um tão longo espaço de tempo, que em volta d'este novo Simão
o _Stylita_ construiu-se uma grande cidade com todas as abominações mais
ou menos legalisadas, que ha sempre nos centros populosos.

Paphnucio dizia, porém, aos bispos e á brilhante clerezia, que
attrahidos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ella
operava sobre enfermos epilepticos, coxos, cégos, manetas etc., etc.,
vinham cumprimental-o e visital-o de muito longe:

--«Meus irmãos, a penitencia que me imponho é nada em comparação das
tentações que tenho, e cujo numero e força me espantam. Um homem visto
de fóra é pequeno, e do alto da columna a que Deus me elevou, vejo os
seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente,
o homem é immenso; é grande como o mundo porque o contém em si... Tudo
que se extende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas
barcas sobre o rio, essas aldêas, e o que descubro ao longo de campos,
de canaes, de areias, de montanhas, tudo isso é _nada_ ao pé do que eu
tenho aqui dentro! Ha no meu coração cidades innumeras e desertos sem
fim. E o mal, o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade,
cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu sósinho contenho um Universo
de pensamentos máus.»

Falava assim, accrescenta Anatole France, porque o _amor da mulher_,
como uma serpente, se lhe enroscára no seio.

       *       *       *       *       *

O final do livro, ou antes, a moral do livro é esta: Presente-se a
salvação da cortezã arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo
manchado, a saudade nostalgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta
de uma aspiração insaciada--e a perdição do apostolo orgulhoso, que déra
ao seu desejo, á sua paixão terrena, a fórma de um fanatico
proselytismo, e que tão rudemente falava ás gentes do Peccado e da
Virtude.

Que quer Anatole France provar? pergunta a critica conspicua, um pouco
escandalisada d'esta orgia de estylo, de descripções, de paizagens, de
_dilettantismo_ artistico.

Cá por mim imagino que elle não quiz provar nada.

Quiz fazer divagar a sua imaginação de poeta pelos desertos onde os
monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas
onde as actrizes bebem em taças de crystal as perolas diluidas de uma
adoração voluptuosa.

Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de
Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o
requinte da civilisação de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de
uma louca mulher d'aquelle tempo, tão bella que, em ella entrando na
sala do festim, coberta de flôres naturaes, parecia emprestar a estas a
sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.

Quiz--é este o sentido profundo e philosophico do seu livro--dizer-nos
que ás vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem
mais serpentes venenosas no coração pharisaico, incapaz de indulgencia e
de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de
uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, póde resgatar
grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita
nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e
austero...



Ernesto Renan

SUA OBRA, O SEU ESPIRITO, A SUA PHILOSOPHIA


I


Venho tarde para accrescentar qualquer cousa ao que n'este jornal de
certo se tem dito a esta hora da vida de Renan, e da sua morte. Venho
tarde para ajuntar, qualquer dado biographico, qualquer inedito
incidente aos já citados aqui por informadores habeis e intelligentes.

Mas venho cedo, talvez, para conversar com os leitores ácerca d'esse
espirito encantador, que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na
Europa culta uma lacuna imprehenchivel.

Não é, porém, meu intento fazer _obra de critico_, o que além de mais,
seria prematuro ainda. Tentarei apenas dar a impressão, que a minha
sensibilidade recebeu da leitura d'esse fino artista, d'esse poeta, que
tão bem se conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se a si sob o nome
_Léolin_, nos _Dramas Philosophicos_, dava do seu genio esta
adoravelmente exacta definição:


«O que é que eu faço no mundo? Contemplo e goso. Vou a toda a parte;
entro em todos os lugares e em todos comprehendo alguma cousa. Eis a
minha profissão. Procuro o Bello, devorado de sêde, que jámais saciei. A
verdade demanda maior dose de perseverança nos que a buscam; é por isso
que ella me foge, talvez.»


Não ha convivencia mais estreita, que a que tem largos annos existido,
entre mim, obscura e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia de
artista, um dos mais requintadamente perfeitos que a litteratura tem
possuido em todo o mundo.

É fóra de duvida que, para mim, o _hebraisante_, o erudito, o
epigraphista sagaz, o archeologo meticuloso, o decifrador de textos
assyrios, o _sabio_, emfim, que era Renan, me interessava mediocremente.
Admirava que um tão grande poeta tivesse a humilde ambição de ser apenas
um grande erudito; ambição que lhe era de resto cruelmente contestada
por terriveis homens calvos, de oculos azues com aros de ouro e nomes
impronunciaveis de terminações barbaras, que eu nunca tinha lido, e
julgo aqui entre nós, que sómente se tinham lido a si mesmos...

Esses, escreviam volumes _in folio_ para provarem que o _Sr. Renan não
conhecia os textos_, e o divino celta que tanta vez me fizera vibrar até
ás lagrimas com as notas da sua harpa mysteriosa--desesperava-se com a
incredulidade d'aquelles medonhos eruditos allemães, de que toda a gente
que se presa ignora a existencia, não atinando sequer com a arrevesada
pronuncia dos seus respectivos nomes...

O _hebraisante_ era-me pois indifferente, mas o historiador ficava de
pé, com a sua intuição extraordinaria da alma religiosa das multidões
extinctas; com a vida intensa que elle sabia dar aos personagens do
passado; com a sua visão clara e profunda das cousas que já foram; com o
magico poder de evocação que elle possuia, como Carlyle o possuiu, como
o possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de um modo inteiramente diverso
d'aquelles todos.

Um Michelet resuscitando periodos historicos de enthusiasmo fremente e
de doentia exaltação, saberá dar vida ás perturbações nervosas, aos
desfallecimentos e aos extases dos seus congeneres do passado.

Um Victor Hugo dará o nitido contorno das cousas, e até para o mundo da
allucinação levará o seu poder de descrever o incommensuravel, de
figurar o impossivel...

Um Carlyle tera a visão ardente de um mundo como foi o puritano, capaz
de produzir Cromwell; e saberá--desmontando peça a peça o machinismo
complicado d'esse caracter de allucinado e de batalhador, de perfido
conductor de homens, e de crente quasi fanatico--revelar-nos o segredo
da quadra estranha de que elle é o producto natural, a resultante
logica...

Renan saberá principalmente interpretar e traduzir problemas e
sentimentos moraes, estados de consciencia. Para elle, como para o
grande inglez que escreveu o _Culto dos heroes_, a historia, _é uma
cousa viva, uma **cousa** ineffavel e divina_, destinada a resuscitar
diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, as emoções
violentas ou delicadas, as luctas, as tristezas, as fraquezas e
heroicidades, dos nossos irmãos que morreram, das gerações que modelaram
fatalmente a nossa, e ás quaes devemos o que somos em bom e em mau.

       *       *       *       *       *

Quando a noticia da morte de Renan nos veio sorprehender dolorosamente a
todos, acabava eu de passar dois mezes no campo, em uma solidão quasi
absoluta, em uma isolação moral quasi selvagem, lendo apenas com intima
delicia, o mais arido talvez, por ser o mais erudito, de todos os livros
do grande exegeta: a sua longa _Historia do Povo de Israel_, cujo 4.^o e
5.^o volumes elle deixou para serem posthumamente publicados.

E depois de ter vencido aquelle primeiro impulso de preguiça, que um
espirito de mulher indolente não podia deixar de experimentar ante um
trabalho d'esta ordem--eu acabára por sentir-me irresistivelmente e
deliciosamente transportada áquelles tempos obscuros em que o semita
nomada, o soberbo vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro humano,
com a mais alta noção religiosa a que á nossa especie foi dado ainda
attingir, a noção de um _deus unico_, cujo espirito está em tudo, e ao
qual o vasto Universo obedece submisso!...

Assim como a Grecia creou a alta cultura intellectual, a philosophia, a
poesia, as artes plasticas; assim como Roma creou as fortes instituições
politicas, tendo o Direito por base; o semita creou a religião de que a
nossa alma se tem alimentado longos seculos, e que tão profundo cunho
lhe imprimiu, que ainda hoje o mais sceptico de entre os scepticos
demolidores do passado se não póde libertar da sua poderosa e absorvente
influencia!

Essa genese de monotheismo, que Renan intitulou a _Historia do Povo de
Israel_, é talvez de todas as suas obras aquella em que as soberbas e
multiplas faculdades do seu grande espirito tiveram melhor espaço para
se desenvolverem.

Nada mais bello, nada mais profundamente interessante para um espirito
que pensa, do que a evolução da idéa religiosa, seguida passo a passo,
com os seus periodos de impetuosa florescencia, com os seus
desfallecimentos e os seus eclypses, com os desdobramentos subitos de
sua apaixonada energia, com as acquisições moraes, tão laboriosamente e
dolorosamente feitas atravez de violencias spasmodicas e de paroxysmos
convulsionarios.

Sendo a civilisação moderna uma resultante da collaboração alternativa
da Grecia, da Judéa e de Roma, as origens da historia d'essa raça
mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente _Jahvê_ e _Jesus_ não podem
deixar de produzir uma ardente curiosidade em todo o espirito avido de
conhecimento e de luz moral.

Eu tinha-me pois, n'essa reclusão completa em que vivera, embriagado
longamente, voluptuosamente, da prosa, de Renan, capitosa e
perturbadora.

E quem como elle sabia, da lingua que fallava, extrahir effeitos de
harmonia, ao pé dos quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente
secundarios?

Falando do idioma hebraico, Renan diz em uma das bellas paginas da sua
_Historia do Povo de Israel_:


«Uma aljava de flechas de ouro, um grosso cabo de potentes contorsões,
um trombone de bronze, dilacerando o espaço com duas ou tres agudas
notas: eis o hebraico.

«Uma lingua d'estas não pode exprimir nem um pensamento philosophico,
nem um resultado scientifico, nem uma duvida, nem uma percepção do
infinito.

«As lettras dos seus livros serão contadas como numeros, mas serão
feitas de fogo como a chamma. Dirá poucas cousas essa lingua, mas as que
disser, serão martelladas sobre uma bigorna.

«Derramará ondas de colera, terá gritos de raiva contra os abusos do
mundo; clamará pelos quatro ventos do céo para que acudam ao assalto das
cidadellas do Mal. Como os instrumentos rituaes do santuario não servirá
para uso algum profano; nunca lhe será dado exprimir a alegria innata da
consciencia, a luminosa serenidade da Natureza; mas clamará a guerra
santa contra a injustiça, e o appello dos grandes panegyricos; será o
clarão das neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente que o genio
hellenico comporá, para a expressão das alegrias e das tristezas da
nossa alma um alaúde de sete cordas, o qual saberá vibrar unisono com
tudo que é humano, um grande orgão de mil teclas igual ás multiplas
alegrias da vida.

«A Grecia conhecerá toda as delicias, desde as dansas em côro nos
pincaros do Taygeto até ao banquete de Aspasia; desde o sorriso de
Alcibiades até á austeridade do Portico; desde a canção de Anacreonte
até ao drama philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados de Platão.»


Este admiravel, este soberbo trecho, que acabamos de traduzir
integralmente, em que o genio das duas linguas toma forma, em uma outra
lingua, nunca fallada com tal melodia e tal poder, quizera eu que fosse
posto como epigraphe á _Historia do Povo de Israel_, em que Renan
traduziu genialmente sob a divina inspiração do genio Grego, a alma
tumultuosa e sombria, agitada e sequiosa de justiça, dos prophetas da
raça semitica.

Oh! como elles renascem alli nas paginas do grande escriptor, os
fundadores de quanto ha de tremendo e de sombrio na religião que veio
depois a dominar o mundo!

Como alli se reflecte igualmente, na prosa divina do Mestre, a Grecia
que _sobre a Acropole_ lhe revelou o segredo dos seus primores! O
assumpto é o semita, mas a lingua em que essa sublime evocação se fez, o
magico instrumento, atravez do qual nós communicamos com o arido e
difficil assumpto, a inspiração adoravel, que presidiu a este trabalho
de reconstituição historico-religiosa, a arte plastica, com que elle é
genialmente modelado, tudo isso foi colhido pela alma de Renan, abelha
ébria de luz e de perfume e de succos balsamicos, no coração da Grecia!

É só ahi que a Belleza e a Razão têem a mesma fórma e a mesma essencia;
é só ahi que a Venus Amphytrite sorri á musa de Socrates e que a Poesia
e a Religião enredam voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade do
homem na mesma rede azul e ouro tecida de sonhos, que são symbolos e de
chimeras entontecedoras, que sao divinas verdades.

Mas quem leu sómente de Renan a _Historia do Povo de Israel_ ficará
conhecendo todo o genio complexo do escriptor?

Decerto que não. Elle é um grego pelo amor da belleza plastica, mas é um
celta pela sensibilidade doentia, pela delicadeza concentrada do seu
genio.

Os que desejarem conhecel-o, precisam de ler tudo que elle escreveu.

Precisam de seguil-o atravez dos meandros, alguns quasi inaccessiveis,
da sua _Historia das origens do Christianismo_.

Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo que ha no fundo d'este
temperamento de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos
inesperados d'esta imaginação de poeta, que em certas paginas,--como por
exemplo, no sonho de Leolino, na _Eau de Jouvence_, invocando a alma da
adorada irmã morta; nas paginas dulcissimas dos _Souvenirs de Jeunesse_;
na symphonia esplendida que se chama _La Prière sur l'acropole_; na
dedicatoria de um dos seus livros celebres; em trechos dos seus estudos
de _Historia Religiosa_;--attinge uma _virtuosidade_, um poder de
harmonia, excita uma emoção, faz vibrar tão intensamente os nervos do
leitor, que póde bem dizer-se que a lingua falada e escripta se
transforma sob os seus dedos de magico em musica transcendente que
parece vir d'além da terra, em musica que penetra no coração e o
desfallece de delicioso extase.



II


Este conhecimento da obra total do grande escriptor, que eu considero
imprescindivel em quem, com acerto e justiça, quizer falar d'elle, não o
tinham, estranho é dizel-o, senão com rarissimas excepções, os que em
França, no jornalismo, commemoraram luctuosamente o passamento de Renan.
A accusação que eu aqui deixo, fêl-a, com a sua graça incomparavel Julio
Lemaître no artigo que ao seu querido philosopho consagrou no _Jornal
dos Debates_. Porque Renan escreveu muito, escreveu immenso. Durante
cincoenta annos trabalhou dez horas por dia, o que é extraordinario.

E além das monographias scientificas e dos estudos especiaes que
publicára nas _Revistas_ e nos Jornaes de Sciencias, além da _Historia
das Origens do Christianismo_, que vae de _Jesus_ a _Marco Aurelio_, e
que se compõe de sete grossos volumes, além da _Historia do Povo de
Israel_ de que ha publicados tres volumes e para publicar dois, elle
passou as horas que não consagrava á sua principal tarefa, a escrever
toda a especie de artigos litterarios: _ensaios criticos_; _dialogos
philosophicos_ á maneira de Platão, como os que publicou em volume com o
titulo que acima démos; comedias e dramas á moda e na tradição de
Shakespeare como o _Prêtre de Nemi_, _L'eau de Jouvence_, _Caliban_,
etc. etc.; cartas que são celebres como aquella escripta _à un ami
d'Allemagne_, e outra a _Mr. Berthelot_; fragmentos de historia
religiosa; estudos de moral; trechos adoraveis como o consagrado a
Francisco d'Assis, o santo que teve a adoração de Michelet e de Renan,
etc. etc.

As mil faces do talento de Renan só as conhece o que leu essa obra
vastissima atravessada por uma flecha ideal de encanto e de magia; para
a saber apreciar devidamente, é comtudo, necessario mais do que havel-a
lido, porque então, n'esse caso estava a minha humilde pessoa, a qual se
recusa a tão elevada empreza.

Uma das accusações feitas a Renan, até pelos seus criticos mais
benevolos, é a de contradictorio e a de incoherente.

Baptisáram de _renanismo_ uma certa qualidade requintada e subtil de
duvida amavel, que acolhe todas as idéas, que acha em todas alguma cousa
de verdadeiro e muito de falso, que se balouça voluptuosamente entre
doutrinas adversas, que se inclina ora para uma ora para outra das mil
fórmas da vida sem se dar completamente a nenhuma d'ellas, que em cada
chimera acha um fundo de verdade, e em cada verdade acceita e
indiscutida um fundo de inanidade e de illusão, que ante a
Natureza,--Isis de mil faces,--se limita a comprehender e acceitar as
contradicções do Universo, explicando-as se póde, e admittindo a
legitimidade absoluta dos mais variados pontos de vista, sem ter nenhuma
das qualidades estreitas e limitadas do sectario ou do fanatico.

Ora esse modo de ser intellectual é tanto da nossa época, que Renan,
professando-o, não fez mais do que representar em uma condensação
superior de pensamento e de critica, a philosophia do seu tempo.

Que culpa teve elle de nascer justamente em um periodo da civilisação em
que estes caracteres da intelligencia são justamente os que assignalam o
_homem superior_, o artista consciente, o _representative man_ de uma
phase do pensamento humano.

De resto, querendo dizer a verdade toda, esse estado de espirito de
Renan, é-lhe commum com as intelligencias mais altas de todos os tempos.
Shakespeare, que foi tambem um _dilectando_ genial não dizia já que o
_homem è talvez feito do mesmo estofo que os seus sonhos_?

A interpretação dos phenomenos visiveis do mundo é feita por esses
espiritos, não de um modo racionalista e logico, mas consoante a
fugitiva inspiração do momento que passa.

A raiz de toda a realidade mergulha em um abysmo insondavel e obscuro,
em que elles gostam de debruçar-se, ora trementes de pavor, ora gelados
pela duvida...

Mas a justiça, que nem sempre fazem a Renan e que é necessaria
fazer-lhe, exige que se accrescente a esses traços por assim dizer
exteriores de seu talento esta qualidade fundamental que resalva o que
elles podiam ter de perigoso para os discipulos de sua philosophia.

Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, da qual não negou nunca a
existencia _necessaria_, embora lhe contestasse ás vezes nos caprichos
da sua ondeante palavra, cariciosa e triste, os resultados uteis, ou as
compensações interesseiras; essa cousa é a _moral_!

«A moral é a cousa séria e verdadeira por excellencia; basta ella para
dar um sentido e um fim á vida humana, diz elle no prologo dos seus
_Ensaios de Moral e de Critica_.

«Escondem-nos véos impenetraveis o segredo d'este mundo estranho, cuja
realidade se impõe a nós e nos esmaga; a philosophia e a sciencia
procuram eternamente, sem jámais a encontrarem, a fórmula d'esse Proteu
que a razão não limita e que a linguagem não exprime. Mas ha uma base
indubitavel que o scepticismo por mais completo não póde abalar, onde o
homem achará até ao termo dos seus dias o ponto fixo de todas as
incertezas; o bem é o bem; o mal é o mal. Para odiar um e amar outro,
não é necessario qualquer systema, e é n'este sentido que a fé e o amor,
que na apparencia não têem ligação alguma com a intelligencia, são o
verdadeiro fundamento da certeza moral e o unico meio que o homem possue
para comprehender alguma cousa do problema da sua origem e do seu
destino.»

Por estas palavras sinceras e que Renan honrou tão nobremente, em uma
longa existencia laboriosa, honesta e casta, consagrada ao trabalho
incessante, á desinteressada investigação da verdade, ás sondagens tão
difficeis da Historia,--por estas palavras se percebe bem claro, que o
renanismo não significa indifferença moral, mas sim benevola sympathia
por ideaes diversos, contemplação amorosa dos phenomenos que se succedem
em perpetua fluidez, em perpetua transformação, embevecimento perante as
mil fórmas alliciadoras com que a eterna illusão nos tenta, nos seduz,
nos anesthesia, para nos fazer aceitar o pesado encargo da vida...

A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia consiste na quantidade de
contrastes, de aspectos e de _nuances_ que n'ella se conciliam e n'ella
se contém. Os contrastes de um caracter são o sêllo da sua
individualidade, da sua vida exuberante e intensa. Os contrastes de
idéas cabendo em uma intelligencia dão a medida do seu grande valor.

As contradições que desnorteiam uma logica vulgar, não assustam por
exemplo o pensamento allemão de uma tão extraordinaria complexidade. A
concepção, a synthese magnifica de um Hegel envolve e concilia os mais
contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, em Renan, além da
influencia da Biblia, tão accentuada no seu modo dizer e de sentir, além
da influencia grega tão esplendidamente demonstrada na _oração sobre a
acropole_, que vem inserta nos adoraveis _Souvenirs de jeunesse_, actuou
de um modo profundo, decisivo a influencia da Allemanha.

Na sua moral Renan obedece á inspiração de Kant, na sua concepção do
Universo, Renan é Hegeliano. E senão vejamos esta phrase caracteristica:

«Deus é immanente no conjunto do Universo, e em cada um dos seres que o
compõem. Não se reconhece, porém, egualmente em todos. Reconhece-se mais
na planta que no rochedo, mais no animal que na planta, mais no homem
que no animal, mais no homem intelligente que no cerebro limitado, mais
em Socrates que no homem de genio, mais em Buddha que em Socrates, mais
em Christo que em Buddha.»

Eis o resumo de toda a theologia hegelina e _renanesca_.

Se accrescentarmos a isto a affirmação de que nenhuma vontade particular
se tem manifestado até hoje, nem poderá jámais manifestar-se na evolução
do Universo, ou na marcha da humanidade, mas que esse Deus, de que elle
nega a existencia pessoal, está por assim dizer em formação no tempo e
no espaço, á proporção que o mundo vai attingindo a consciencia sempre
mais perfeita de si proprio, e que o homem vai descobrindo as eternas
leis da verdade, da belleza, da virtude e do bem; de que o Universo tem
um fim idéal, aspira a um divino objectivo e não é nem póde ser a
resultante de uma agitação inane, inutil e vã; que a razão, reinando
mais e mais sobre a humanidade, acabará por _crear Deus_, creando o bem
absoluto, e a divina harmonia das cousas;--nós teremos completado a
philosophia de Renan, nem sempre original, e em todo caso pouco
consoladora para os humildes e para os pobres de espirito que em nada
collaboram para a formação definitiva d'esse Deus, que está em via de
apparecer vizivel aos homens que hajam attingido o mais alto ponto da
consciencia...

Esta philosophia reveste-se porém, das mais deliciosas fórmas, ella tem
para se desenvolver e para se reduzir a preceitos geraes, um instrumento
incomparavel, de uma graça que nenhum artista ainda egualou.

Esse instrumento, que é a prosa de Renan, é que o torna principalmente
querido entre os que lêem...

A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade doentia, a doçura
estranha, inspirada de algumas das suas phrases, tem tido sobre a minha
alma de mulher o poder inexplicavel de um sortilegio.



III


O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos
homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor
das tradições da raça, que se exalta até á poesia, uma fórma de
imaginação absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os
Celtas, a cuja raça Renan tanto se orgulhava de pertencer.

«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão se adornou de mais
seductoras côres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia
egualou esta, nos sons penetrantes, que vão até o coração. Os seus
cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa
tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanações do céu, que,
deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias
de outro mundo.

«Ninguem, como ella, saboreou jámais tão longamente essas volupias
solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se
cruzam simultaneamente todas as sensações da vida, tão vagas, e
profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem
que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.

A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raça celtica está
estreitamente ligada á sua necessidade de concentração... D'ahi esse
pudor delicioso, esse _não sei quê_ de velado, de requintado, de sobrio,
a egual distancia da rhetorica do sentimento tão familiar aos povos
latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos
allemães.

«Essa raça quer o infinito; tem sêde d'elle; procura-o a todo o preço,
para além da tumba, para além do inferno...»

Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a
_poesia das raças celticas_ são o segredo de mil particularidades
d'aquella fina sensibilidade de artista.

O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raça, podia egualmente
applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua
prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoções.

A estranha combinação que n'elle se fez de duas inspirações tão oppostas
e ambas tão pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da
poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento
assimilou de um modo tão feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada
que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas
flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento são
e de uma calma existencia, luctando com a noção pessimista que a
sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de
_dilettante_ e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal
democracia e de _lucta pela vida_ phrenetica; a hereditariedade de uma
mãe da Gasconha e de um pae bretão; até a estranha circumstancia de elle
ter ouvido--nos braços maternos e dos labios queridos de onde lhe
escorria o mel dos unicos beijos que não mentem,--contados com a mais
graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas
tradicções do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha,
isto por uma deliciosa voz ironica, que não acreditava n'ellas, e que
era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho
desmentido áquella poesia tecida em sonhos;--todos estes contrastes,
todas estas influencias contradictorias, composeram em não sei que
mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.

Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem
que não! Renan era muito do seu tempo para não ter d'elle a pontinha de
corrupção intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado,
levaria ao scepticismo dissolvente, á egoistica indisciplina que se
traduz pela satisfação de todas as paixões, ainda as mais funestas.

Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario,
quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena
despreoccupação de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido
recommendadas pelos padres que o creáram; elle, que era um santo na
moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso _diletante_ que se
comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando
como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um _nome vão!_
glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que
ha para o homem superior em morrer por _uma idéa_, necessariamente
falsa, pois que nunca a verdade póde estar em uma só face de qualquer
doutrina; recommendando a _moral_ como «a cousa por excellencia
verdadeira e séria» e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o
desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advirá dos
sacrificios feitos a essa abstracção sublime; negando a intervenção de
Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino;
sentindo e communicando aos que o lêem, as sensações mais dubias e as
mais contradictorias; vibrando ao influxo das idéas mais diversas, desde
o mysticismo até a transcendente ironia, tendo feito a viagem á roda do
mundo do pensamento, e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria,
egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas,
para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que
lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque
ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, os prophetas da feroz
Jerusalem!

Elle podia ser essa encarnação suprema do genio da critica moderna. Mas
os que não têem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da
vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em
actos as suas theorias?...

Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será o mais corrosivo dos
venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo
desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperança se afundava,
mysteriosa e lugubre nymphéa, no pantano glauco de uma negação
sombria,--seria a mais desorganisadora e a mais corruptôra das lições!

       *       *       *       *       *

Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia,
cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!

Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça--esse dom feminino, que elle
possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu
as suas idéas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de
uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia
ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.

Como havia em Rénan de tudo,--e é este o seu caracteristico mais
singular, e é este, em face da estricta logica, o defeito mais
reprehensivel da sua intelligencia--podia um admirador consciencioso e
delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie
de _Imitação_, menos ascetico, porém, mais perfumado das flôres do
Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro
para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos
tristes...

No prefacio dos seus _Estudos de Historia religiosa_, diz Renan pouco
mais ou menos isto mesmo.

Formúla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que
sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de _livro d'horas_,
para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mãos
patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.

Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto
estranho, é bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia a
liberdade que amplamente gozou; d'esse _dilettante_, d'esse mystico que
desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica;
d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais
finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prégou a inanidade
da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta
dos templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente doces os pés de
Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma fórmula de
scepticismo mais respeitosa que muitas orações, de um realismo por assim
dizer concreto e material...

       *       *       *       *       *

Se eu pude traduzir a impressão que elle me dava, impressão confusa e
deliciosa, indefinivel e querida, impressão que era ao mesmo tempo
receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me arrastada na corrente
d'aquelle feiticeiro perigoso; se eu pude dizer todo o amor com que lhe
quiz, e todas as restricções com que este sentir me subjugára, dou-me
por feliz, porque a fazer a critica da obra de Renan, a isso nunca eu
ousaria aspirar.



Oliveira Martins


I

Tres mezes decorreram já desde que a negra terra do cemiterio o encobriu
aos olhos dos que o amavam, e não está de molde o mundo moderno, que
tumultua desvairadamente anarchico para chorar os seus mortos ou para
commemorar os seus heróes!

Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade portugueza que a sua
alma soube tão bem estudar, comprehender, amar nos momentos typicos da
sua grandeza, chorar nos espasmos convulsivos ou no torpôr comatoso da
sua longa agonia, desde que elle morreu, já esta pobre patria, tão sua
amada, se tem deixado afundar mais alguns gráos no abysmo de uma
decadencia para que não ha cura.[1] Quasi todos o esqueceram, a elle, ao
grande melancolico que, durante mais de vinte annos, se não cansou de
avisar os despreoccupados, de accusar os cynicos, de analysar cruamente
ou desalentadamente o lento processo por que uma nação se desagrega e
esphacella e para quem a historia foi mais uma obra de moralista do que
um trabalho de laboriosa e minuciosa erudição.

Quasi todos o esqueceram, ou se recordam apenas do que mais ephemero e
contingente houve no seu espirito, e uma das coisas que mais dóe é este
silencio, mortalha peior que todas as mortalhas, que na hora seguinte ao
desapparecimento de um grande espirito lhe envolve nas funerarias dobras
o nome que parecia tão brilhante em vida!

Depois, mais tarde, é certo que a posteridade vinga esse nome da
indifferença da geração a que elle devia ser mais querido, mas isso não
impede que a impressão geladora de tão duro esquecimento faça soffrer
algumas almas raras que não esquecem o que amaram...

Para mim, a morte de Oliveira Martins foi um golpe dolorosissimo...

Feridos os dous por uma doença traiçoeira que se apresentava no
empobrecido organismo de ambos, egualmente ameaçadora de morte proxima e
que para elle tão cedo realizou a negra ameaça, ambos tinhamos partido
com differença de dias apenas para Cascaes.

Eram contiguas as casas que habitavamos, davam ambas para o lindo parque
que o fallecido Visconde de Gandarinha alli plantou luxuosamente.

A primavera tinha desdobrado pelo parque todo em viço e pela extensão
dos campos um enorme estendal das flôres mais frescas, mais vivas, mais
cheias de mimo e côr. Inundavam-nos as salas os lyrios amarellos, as
rubras papoulas, os malmequeres brancos e dourados, as verdes espigas,
toda essa divina e inoffensiva flóra dos campos que consola os doentes
sem os envenenar.

Através das rendas transparentes do arvoredo em que todos os tons, todas
as _nuances_ do verde se casavam em uma gamma opulenta e maravilhosa,
avistava-se, das janellas dos dous convalescentes, o mar, o grande mar
azul, em que Oliveira Martins lêra tão commovedoramente a lenda do nosso
destino nacional, a historia gloriosa e tragica da vida e da morte da
Patria Portugueza.

Barcos de véla passavam a cada instante, e elle sabia conhecer cada typo
de embarcação.

Cada véla que atravessava o mar longinquo, palpitando ao vento fresco de
abril, tinha para elle uma suggestão viva, uma lembrança saudosa ou
pittoresca.

A luz, a luz embriagante da primavera de Portugal, derramada em caudaes
da concava saphyra dos Céus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe aspirações
frementes de vida, de alegria, de trabalho, de actividade mental.

Ouvi-lo era um encanto.

Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo, que eu, era elle quem,
descendo a escada da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se na
pequenina sala onde eu quotidianamente esperava aquella visita
deliciosa.

E de sua voz lenta, cheia de pausas, de uma doçura como que abafada,
modulando-se em tons de intima melancholia, de acre desprezo, de
tolerante e passivo desdem, e ás vezes, raras vezes, de alegre e
despreoccupada ironia, ia preguiçosamente escorrendo toda uma
philosophia da Vida, triste sim, mas não desesperada nem crúa...

Mystico de temperamento, mystico de sentir, o seu scepticisrno das
coisas era temperado sempre por aquelle instincto tão raro na alma
penisular, positiva até na sua fé, o instincto do mysterio ambiante, o
presentimento de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha, domina,
nunca revelada, nunca explicada, nunca tangivel, mas tão impossivel de
definir como de eliminar...


«_There are more things in heaven and earth, Horatio.
Than are dreamt of in your philosophy._»


Estas palavras do Hamlet lembravam-me quando o ouvia discorrer de vagar,
sempre muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente no espaço, como
que vendo n'elle coisas que nós lá não viamos...

Falávamos de tudo. Mais, no emtanto, do presente que do passado. Era
nobre, glorioso, épico o passado? De certo!

Mas que importava, se estava inteiramente extincto para nós. O presente
causava á grande alma especulativa e triste de Oliveira Martins um tedio
inenarravel. Esta agonia sem grandeza; esta lucta de mesquinhos, de
baixos interesses, lembrando a germinação e o fervilhar de vermes na
putrefacção de um cadaver querido; esta inconsciencia de perigos
imminentes; esta ignorancia universal de todas as forças e elementos
que, ou conjugados ou antagonicos, hão de fatalmente ter uma influencia
capital no modo de ser organico da sociedade portugueza; este risonho
cynismo que anima as classes dirigentes e lhes inspira todas as
manifestações da sua actividade ou da sua inercia; este quadro desolador
de um paiz que lucta pela vida, é verdade, mas que perdeu todas as
energias materiaes ou ideaes, por meio das quaes uma vida se
conserva--arrancava-lhe expressões de uma tão inconsolada tristeza, como
eu me não recordo de as ter ouvido a mais ninguem.


II

Outras vezes, nas horas mais calmas, mais doces da conversação, quando o
crepusculo ia envolvendo a paizagem maritima, tão doce, suggestiva e
melancolica, em uma especie de ideal neblina azul--era pelo seu trabalho
passado que os olhos do grande morto se espraiavam.

Dizia-me então a commoção intensa, dolorosa, extenuadora, com que elle
_vivera_, por assim dizer, algumas scenas da sua Historia, revelando
essa profunda e hyper-aguda sensibilidade intellectual que é talvez a
feição predominante, a _faculté maitresse_ do seu genio...

Em momentos sagrados, d'estes que serão um eterno segredo entre o
artista que _sente_ e o Deus que o inspira, ou antes em momentos em que
o artista se sente um deus, isto é, um Creador, e em que o elemento
divino, de que o seu genio é a revelação suprema, o levanta acima de si
proprio e da sua pobre existencia ephemera, fugitiva, mortal, o grande
artista, que havia em Oliveira Martins, vivia seculos de gozo
extenuante, de volupia ideal incomparavel...

--«Sahía d'esses momentos alagado em lagrimas e como que exhausto,
envelhecido»--contava elle, deixando transparecer na palavra e no gesto
um vago assombro.

É por isto que o trabalho lhe exhauriu a mais pura seiva do seu sangue,
não porque fosse nem excessivo, nem brutalmente aturado, como por
exemplo o de Balzac.

Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, talvez sem dar por
isso, a evocar a memoria do querido amigo morto, de Anthero de Quental.
Oliveira Martins fôra o companheiro, o confidente, o amigo dilecto do
poeta dos _Sonetos_, em quem Souza Martins, n'um magistral estudo
psychico-pathologico, acaba de descobrir uma ascendencia scandinava, que
explica e justifica a essencia de sonho nebuloso e mystico de que o seu
talento parece haver sido elaborado.

Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria de Oliveira Martins. O
intimo drama d'aquelle coração e d'aquelle espirito ninguem melhor o
conheceu e interpretou.

A excessiva idealisação na esphera sentimental, o abuso do pensamento, a
acceitação simultanea das mais contrarias, das mais oppostas, das mais
irreductiveis theorias, a multipla concepção da vida que n'esse
desequilibrado de genio se transformou na loucura e na morte: tudo elle
analysava, estudava, esclarecia com aquella attenção paciente, com
aquella agudeza de intelligencia, com aquelle estranho dom de penetrar e
comprehender as almas mais diversas,--e até uma alma diversa segundo os
momentos, a influencia exterior, as crises morbidas, a propria
temperatura physica,--com aquella extraordinaria lucidez critica,
serena, impessoal que assignala os homens verdadeiramente superiores.

Para elle proprio--deixem me este orgulho de que aliás tenho recordação
escripta pela sua propria mão e confirmado pela sua sublime e dedicada e
heroica enfermeira, amiga e esposa--para elle proprio estas conversações
que o capricho de cada momento ia inspirando e movendo, se tinham
tornado um prazer subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes fazer
mais que suggerir, excitar, conduzir um pouco ao sabor da minha
curiosidade intellectual o rumo errante da sua palavra fascinadora...

Elle pensava alto, e gosava talvez de dar fórma concreta ás visões
fugitivas da imaginação, de prender o peso de uma definição verbal, á
aza subtil de uma idéa que ia esmaecer, volatilisar-se, fugir espaço em
fóra...

O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento de vida, como todos os
feridos por aquella doença atroz que escolhe os melhores e os mais
delicados organismos, para os fulminar em plena flôr de intelligencia e
vida--o ardente desejo de Oliveira Martins era partir para Castella e
estudar de perto o theatro de scenas que a sua mão magistral ainda
deixou esboçadas em rapidas notas. Escrever o seu livro sobre D. João II
e depois terminar por D. Sebastião,--o querido heroe lendario, o nosso
rei Arthur fielmente esperado durante seculos por tantas almas de fé,--o
cyclo da nossa vida nacional; que depois não tem feito mais que
arrastar-se, desprestigiada, desformisada, pervertida na fórma e na
essencia, até esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa: eis o sonho
concebido pelo escriptor glorioso e admiravel.

Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois de ir trabalhar em algum
eremiterio bem recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado de todo o
movimento social, que Oliveira Martins mais robustecido, e na apparencia
melhorado, deixou Cascaes.

Ha uma carta sua de Salamanca em que transparece do novo aquella
tristeza que na doença o acompanhou como um presentimento funereo. Não
resisto ao desejo de copiar alguns trechos d'ella:--«Ahi vão duas linhas
do viajante que pisa agora as terras de Santa Thereza.

«Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral tem um dedo que eu
hontem tive a honra de tocar.

«Dizia a Santa, ardendo em divino amor: _muero porque no muero_. Eu não
digo outro tanto, mas, em verdade, a vida não é realmente senão o desdem
de viver e de morrer. Morrer para quê? Para quê viver? Os hespanhoes
têem uma locução muito frequente e muito expressiva. É uma phrase, na
qual, como succede com a musica, cada um mette o que tem na idéa. _Quien
sabe?_ Quem sabe o que é viver? Quem sabe o que é morrer?»

N'esta fluctuação vaga do pensamento que se comprazia em ver sempre de
cada problema as duas faces contrarias, está em _raccourci_ muito do que
foi a philosophia particular de Oliveira Martins!

Da viagem a Hespanha voltou elle já ferido sem apello e sem possivel
cura pelo punhal traiçoeiro da Morte!

Ainda esperou contra todas as esperanças, ainda a paizagem agreste e
idyllica a um tempo do convento de Brancanes e cercanias o embriagou
como a ultima estrophe deliciosa d'esse poema da Natureza, que para a
alma d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias, côres, visões
divinas, philtros alucinantes e poderosissimos. E ainda como ultima
exhalação do seu querido espirito para o meu, algumas palavras me vieram
provar a força pertinaz da sua illusão e os extremos da sua delicada e
preciosa amizade.

«--Hontem, para provar a mão, comecei a trabalhar no meu _Principe
Perfeito_. Não imagina a alegria que me deu vêr que não tinha morrido
ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. Cumpra depressa a promessa da sua
visita...

«--Não ha calmante como a paizagem e os rumores do campo. Sente-se a
gente arvore. Aqui ha tudo. Solidão no meio de um campo habitado,
pomares nos valles, montes em volta, em frente o mar. Que mais se quer?
O convento onde estou é enorme; cabe aqui tudo. Ha terraços delirantes.
Ha arvores verdadeiras; uma matta a valer; pinheiros, sobreiros,
medronheiros. Venha depressa...»

É a ultima vez que a sua mão traçou linhas que me fossem dirigidas e eu
propria infelizmente, preza pela doença em Cascaes que nunca deixei, não
o tornei mais a ver.

Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas preciosas, porque duas
faces bem caracteristicas do espirito complexo de Oliveira Martins estão
aqui adoravelmente retratados. N'uma a ondulação melancholica e vaga do
seu sonho ante o mysterio da vida e o mysterio da morte. N'outra, na
ultima, o seu ardente amor pantheista da natureza viva, aquella paixão
fremente que o fazia dar uma alma á paizagem, communicar a sua fecunda
emoção ás arvores e ás cousas, sentir no seio d'ellas a communhão
mysteriosa que prende em uma cadeia de infinitos élos sem quebra, a
pedra á planta, a planta ao animal, o animal sem alma á alma infinita, á
alma Universal!


III

Deante da obra tão vasta e variada de Oliveira Martins não póde ainda a
critica lavrar qualquer juizo definitivo. É cedo de mais para que esse
tribunal pronuncie a sentença decisiva que tem de ficar gravada no
Pantheon das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel e austera
tem de addiar ainda o resultado da sua investigação, é licito a cada um
de nós dar a impressão intima que recebeu do trabalho devéras
extraordinario do escriptor que se finou.

Em primeiro logar a dualidade de aspectos que essa obra apresenta,
transforma-a em uma especie de problema altamente interessante para a
psychologia.

Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo, do sonhador
philosopho, do moralista desdenhoso, havia--estranha coisa, tão rara na
nossa raça simplista--um ser inteiramente contrario a esse, um espirito
positivo na analyse dos factos, rigoroso nas deducções do pensamento,
pratico na administração dos negocios, e em que uma rara sagacidade das
coisas se alliava a um methodo maravilhoso na classificação dos
conhecimentos positivos.

Estes dois homens tão diversos formaram um só, ás vezes coutradictorio
até ao enigma irritante, incomprehensivel ao entendimento médio,
illogico perante a opinião do vulgo. Separados, cada um d'elles formava
um conjuncto completo de qualidades harmonicas, uma força intellectual
de primeira grandeza. Juntos, havia momentos em que eram capazes de
desnortear, de entontecer até o espirito mais perspicaz e mais aberto ao
feliz dom da sympathia intelligente. Assim como o seu talento tinha
estas duas faces distinctas quasi inconciliaveis, pois que presuppõem
qualidades em absoluto antagonismo e temperamentos em radical opposição,
assim tambem a sua obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos. A
um d'esses ramos, o mais arido para mim, o que nada admira--pertencem os
seus tão notaveis artigos jornalisticos, quasi todos compilados nos
volumes _Politica e economia nacional_ e _Carteira de um jornalista_, os
seus opusculos e livros sobre o _Regimen das riquezas_, o _Socialismo_,
as _Eleições_ e até o seu magnífico projecto de _Lei de fomento rural_,
que póde bem chamar-se um programma completo de restauração patriotica,
uma especie de systema de hygiene applicado ao organismo exangue de um
paiz que, primitivamente destinado a uma existencia modesta e rudemente
tonica de trabalho rural, de obscura felicidade sem historia, se gastou
nos excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino que o fez viver, é
certo, e que lhe deu renome, mas que o condemnou á longa e incuravel
anemia de que todos morremos hoje aos poucos...

É como um homem verdadeiramente pratico que apparece aos nossos olhos, o
publicista, o deputado, o politico nem sempre feliz, embora sempre
perfeitamente intencionado do periodo que talvez mais do que nenhum
outro, elle quereria ter riscado da historia, aliás tão nobre da sua
vida. É sob essa face que elle assombrou muitas vezes não sómente os
espiritos da nossa terra mais chãos e mais positivos, mas ainda os
_homens de negocio_ estrangeiros com quem teve de tratar tantos
assumptos de importancia e que ficavam falando d'elle como de uma
intelligencia rapida, aguda e fria, absolutamente rara nas nações
peninsulares.

Se essas faculdades sem o auxilio de outras já são sufficientes para
assignalar o alto valor de um homem, o que fará quando a essas se
ajuntam em rarissimo connubio outras, mais altas, mais nobres, mais
reveladoras de uma grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!...
Quando o mesmo homem, que ha pouco parecia versar, com tanta segurança e
tão fino criterio, questões de que dependem o bem estar material e a
ordem administrativa e economica das nações, se revela de repente um
delicado artista vibrante e creador, um entendimento alado, capaz de
erguer-se ás cumiadas mais altas do Pensamento, um vidente para quem a
historia é uma continua revelação de reconditos segredos da alma, uma
evocação magica de figuras vivas, uma palpitante suggestão de moral e de
justiça?!...

Os que tiverem de pôr de pé deante da posteridade a figura inteira de
Oliveira Martins, têem de evocal-o sob estes dois aspectos e fundir
ambos na culminação intellectual a que elle attingiu.

Outros fizeram a historia com mais exactidão e mais verdade--se a
verdade historica é apenas a verificação rigorosa das datas e a
decifração lenta dos documentos coevos; outros fundiram em mais bronzeo
estylo as cogitacões do seu vasto pensamento; outros interrogaram com
mais paciente e minucioso escrupulo os monumentos do passado, legados
sob multiplas fórmas materiaes ou moraes, artisticas ou religiosas, á
geração sua contemporanea: poucos têem possuido, mais ardente e mais
vivo esse poder estranho de penetrar na alma de uma raça e de lhe
traduzir as aspirações occultas ou os sonhos realisados; de lêr a
summula completa dos destinos de uma nação na obra truncada que ella
tentou em vão consummar; de evocar em plena vibração de vida, em plena
intensidade de emoção communicativa os typos representativos de uma
época remota e finda; de emprestar a sua propria alma á alma dos mortos
e de os fazer resurgir do sepulchro, onde pareciam para sempre
esquecidos, á luz fremente do mais bello e claro dia.

Accusam-n'o com razão de contradicções, de inexactidões e erros de
facto, que um espirito inferior meticuloso podia facilmente corrigir ou
evitar. Sim. Tudo isso é verdade.

Mas escrevam, se são capazes, a Historia que elle escreveu,
interessem-nos apaixonadamente como elle nos interessou, dêem o vigor, o
relevo, a vida que elle deu aos personagens que evocava, façam de cada
um dos seus livros o drama agitado que elle fez, transformem a Historia
como elle a transformou, em uma prophecia, em um lamento, em uma licção,
em uma suggestão ardente, em uma saudade inconsolada do que foi e não
póde tornar a ser.

Outros narram precisamente os factos, elle commentou-os, esclareceu-os,
deu-lhes o sentido occulto, a amarga e profunda philosophia.

O nosso destino historico; o papel particular que aos portuguezes foi
distribuido n'essa tragedia épica da peninsula iberica, que deu mundos
ao mundo inconsciente; o preço atroz por que nós pagamos a posse d'esse
ideal que foi nosso um momento e que perdemos justamente por tel-o
realisado completo;--quem melhor o soube explicar, tornar claro aos
olhos ainda os menos penetrantes, tornar palpavel aos entendimentos
ainda os mais obtusos?


IV

Na obra que elle deixa tão grande, que revela uma capacidade e um
methodo de trabalho assombrosos, pois só assim se poderia escrever
tanto, longe de tudo ser perfeito ha muita coisa desegual, muita coisa
que elle não teria escripto se a necessidade quotidiana o não houvesse
por largos annos espicaçado,--porque é preciso que se saiba lá fóra que
este trabalhador incansavel foi um chefe de familia exemplar, e que,
ficando na quasi infancia orphão de pae, foi elle quem auxiliou
nobremente sua mãe a educar e formar uma familia numerosa de que até ao
ultimo instante foi desvelado amigo.

Deve tambem confessar-se que ha muito de injusto e de cruel nos juizos
que na, temeraria mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou a
respeito dos homens e das cousas. O seu _Portugal Contemporaneo_ foi
mais escripto sobre pamphletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do
que sobre documentos authenticos completados pelo austero e profundo
estudo do movimento liberal que iniciou para nós a éra moderna. Ha
capitulos na _Historia de Portugal_ que os seus livros posteriores,
ungidos tão docemente pelo amor dos heroes patrios, parecem negar,
contrariar, annullar inteiramente. Elle proprio teve de contradizer, na
maturidade do seu grande espirito, no qual um incessante progresso se
faz sentir, grande parte das theorias que primeiro enunciara e que tão
profundo ecco tiveram na sociedade portugueza e tão irremediavel
influencia exerceram no espirito pessimista e desenganado da
contemporanea geração. O culto dos heroes que elle acabou pregando e
exemplificando da maneira mais irresistivel, mais poderosa e mais bella,
foi elle--força é dizel-o, porque deante das cinzas de um grande morto,
a verdade impõe-se como um dever sagrado--foi elle quem quasi
completamente o destruiu na nossa alma, aliás disposta a derrubar todos
os idolos, a escarnecer todas as religiões!

Mas como estas maculas parciaes, mas como estes mesmos enganos do seu
entendimento que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, cultivando e
depurando, desapparecem no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam
amplamente e soberbamente esses senões secundarios, livros como a sua
_Civilisação Iberica_ tão admiravelmente traçada por um pincel de
artista e de pensador, como o seu volume _Os Filhos de D. João I_, feito
todo elle sob uma inspiração soberba da epopéa, como o seu _Condestavel_
tão bello, tão puro, em que a sua alma parece entender tão bem os mais
intimos segredos d'uma alma de extase e de fé, prenunciando d'este modo
a resignação ineffavel, a pacificação serena e alta, a submissa doçura
ao mysterio supremo, no qual todas as contradicções se conciliam, a
humilde piedade unctuosa da sua morte edificante, d'essa morte que
tantos balsamos verteu no dilacerado coração da esposa, que n'ella teve
a sua crucificação e a sua corôa, a sua maior dôr e o seu consolo mais
sublime!

Como em Nuno Alvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o
asceta e o santo! Que trechos aquelles em que elle, subindo a uma altura
onde não tinha subido ainda e que representa a culminação suprema a que
o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as visões, as
asceticas delicias em que a alma do santo Condestavel se dilata até aos
céus!

N'este livro, mais que em nenhum outro, o estylo de Oliveira Martins
póde ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades tão
varias!

É um estylo unico, inconfundivel, atormentado, desegual, feito de
imagens propriamente suas, de torneios de phrase inimitaveis e que o
põem a cem leguas do classicismo acceito e consagrado. Ora se levanta em
uma especie de somnambulismo vago a alturas ennevoadas e insondaveis,
ora cahe de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu;
á ironia trascendente de umas paginas oppõe o amargo pessimismo de
outras; á colera convulsa que o espectaculo das cousas lhe acorda no
coração, segue-se o desdem benevolo e superior de quem julga este mundo
todo illusorias apparencias, que umas nas outras se esvaem e se
transfiguram; o seu grande poder de suggestão vem menos dos vocabulos
empregados, menos dos epithetos escolhidos, do que da repercussão
indefinida e infinita que certas phrases que elle emprega nos accordam
na alma. Ás vezes, ha uma limpidez serena e correntia n'este estylo
magico; outras vezes, é obscuro erriçado de symbolos, enredado em
labyrinthos em que a mente se perde e desnorteia!

Se o estylo deve traduzir todas as _nuances_ de uma dada individualidade
e ser o transumpto claro e fiel de um temperamento artistico nunca houve
ninguem que tivesse um mais accentuado estylo do que Oliveira Martins!

De cada uma das _maneiras_ do escriptor eu queria dar idéa,
transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas não será melhor que
cada leitor procure na obra tão complexa e tão variada, aquillo que
melhor quadre ao seu gosto especial, á sua concepção artistica, á indole
do seu espirito...

Recommendo-lhe, porém, as ultimas paginas da mais transcendente e ideal
belleza da _Historia de Nun'Alvares_, as descripções que esmaltam ora
com o colorido brilhante de uma téla de Veroneze, ora com a melancolia
pungitiva de uma paizagem de Ruysdael, ora com a luz aeria, docemente
_unreal_ de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos
o mais admiravelmente escripto que o historiador nos legou.

Recommendo-lhe a analyse do caracter de Nuno Alvares, de João I, dos
_Inclytos Infantes_, principalmente de D. Pedro, paginas de uma
psychologia tão delicada, penetrante e subtil, em que o fundo mystico da
imaginação de Oliveira Martins se allia á sua profunda intuição dos
segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas
rapidas da Côrte de D. Fernando, ai de nós! tão parecida com a sociedade
de hoje que não sei mesmo dizer se não foi ella que serviu de modelo ao
artista para chegar a conseguir taes effeitos de realismo brutal e de
frisante e juvenalesca ironia!

Não farei comparações sempre inexactas entre Oliveira Martins e outros
escriptores que o precederam. Acho que essas comparações não são em
alguns casos mais do que erros palmares de critica que desconcertam e
irritam! Um escriptor que se parece com outro, é raras vezes um artista
de raça. Não póde um talento grande deixar de suppor uma personalidade
accentuada, forte, isto é, _differente_. De resto não conheço em
Portugal escriptor algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja
comprehensão das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.

Elle nunca poderá ser considerado como um _representative man_, nem do
tempo nem da raça a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade viva e
talvez o principal caracteristico do seu talento.

Á viveza, á meiguice, á sensibilidade vibrante do meridional, elle
juntava a profunda melancolia, o symbolismo vago, a fluctuação de sonho
do germano, e como elle tantas vezes se comprazia em lêr os vestigios de
antigas influencias ethnicas, no caracter dos seus personagens
historicos mais dilectos, póde tambem dizer-se que no seu genio tão
complexo, tão estranho, tão cheio de meandros, complicações e
antagonismos inconciliaveis se casam o poetico elemento celta, o
positivismo calculista do phenicio, a profundidade e o pessimismo
semita, a viva paixão do arabe, e o sentimento da Natureza que o barbaro
do Norte primeiro suggeriu ao coração seco do civilisado latino!


FIM



Antonio Maria PEREIRA--Editor


OBRAS

DE

Maria Amalia Vaz de Carvalho



_A arte de viver na sociedade_, 1 vol. br, 1$000 réis. Ricamente
encadernado 1$400.

_Pelo mundo fóra_, 1 vol. broch. 500 rs Encad. 700 rs.

_A aventura d'um polaco_, romance, traduzido de V. Cherbuliez, 2 vols.
broch. 400 rs. Encad. 600 rs.

_Raphael_, traduzido de Lamartine; 1 vol., edição de luxo illustrada e
ricamente encad. 3$200 réis.



OBRAS DE TEIXEIRA DE QUEIROZ

(BENTO MORENO)


*Comedia do Campo*, 4 volumes, broch. 2$000 rs.

*Os noivos*, 2.^a edição, com o retrato do auctor (no prélo).

*O Sallustio Nogueira*, 1 vol. br. 1$000.

*Novos contos*, 1 vol. br. 600 rs.

*D. Agostinho*, 1 vol. br. 600.

*Morte de D. Agostinho*, 1 vol. br. 600 réis. Encad. 800 rs.

*Arvoredos*, contos escolhidos, 1 volume illustrado, lindissima edição
em formato diamante, br. 800 rs. Encadernado em percalina, folhas
douradas, 1$100 rs.

*Amores, amores*... 1 vol. (no prélo).



Collecção Antonio Maria PEREIRA

A 200 RÉIS O VOLUME


VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS

DAS

LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS


Volumes in-8.^o de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente
edição em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, ou 300
réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias accresce
o porte do correio


*Volumes publicados*


N.^o 1--_Tristezas á Beira-Mar_, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 2--_Contos ao Luar_, por Julio Cezar Machado, 1 vol.

N.^o 3--_Carmen_, romance de Merimée, traducção de Mariano Level, 1 vol.

N.^o 4--_A Feira de Paris_, por Iriel, 1 vol.

N.^o 5--_A Mascara Vermelha_, romance historico de Pinheiro Chagas, 1
vol.

N.^o 6--_John Bull e a sua ilha_, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 7--_O juramento da duqueza_, romance historico por P. Chagas, 1
vol.

N.^o 8--_A lenda da meia-noite_, romance phantastico, por P. Chagas, 1
vol.

N.^o 9--_A joia do vice-rei_, romance historico, por Pinheiro Chagas, 1
vol.

N.^o 10--_Vinte annos de vida litteraria_, por Alberto Pimentel, 1 vol.

N.^o 11--_Honra d'artista_, romance de Octavio Feuillet, traducção de
Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 12--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade Coelho, 1
vol.

N.^o 13 e 14--_A aventura d'um polaco_, por Victor Cherbuliez, traducçao
de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol.

N.^o 15--_Os contos do tio Joaquim_, por R. Paganino, 1 vol.

N.^o 16--_As batalhas da vida_, contos por Guiomar Torrezão, 1 vol.

N.^o 17--_Noites de Cintra_, romance por Alberto Pimentel, 1 vol.

N.^o 18 e 19--_Em segredo_, romance traducção de Margarida de Sequeira,
2 vol.

N.^o 20 e 21--_A Irmã da Caridade_, por Emilio Castellar, traducção de
L. Q. Chaves, 2 vol.

N.^o 22--_Migalhas de historia portugueza_, por Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 23--_A Cruz de Brilhantes_, por A. Campos, 1 vol.

N.^o 24--_Contos_, do Affonso Botelho, 1 vol.

N.^o 25--_Contos phantasticos_, por Theophilo Braga, 1 vol.

N.^o 26--_O mysterio da estrada de Cintra_, por Eça de Queiroz e Ramalho
Ortigão, 1 vol.

N.^o 27--_O naufragio de Vicente Sodré_, romance historico de P. Chagas,
1 vol.

N.^o 28--_Vid'airada_, por Alfredo Mesquita, 1 vol.

N.^o 29--_O Bacharel Ramires_, por Candido Figueiredo, 1 vol.

N.^o 30 e 31--_Amor á antiga_, romance de Caiel, 2 vol.

N.^o 32--_As Netas do Padre Eterno_, por Alberto Pimentel

N.^o 33--_Contos_, de Pedro Ivo, 1 vol.



Requisições á Livraria do editor Antonio Maria PEREIRA

_50, 52--Rua Augusta--52, 54_, LISBOA



Antonio Maria PEREIRA--Editor

_Rua Augusta, 50 a 54--Lisboa_


*Maria Amalia Vaz de Carvalho*


Pelo mundo fóra      500
A arte de viver na sociedade, br.      1$000
A aventura d'um polaco (trad.), br.      400
Raphael, de Lamartine (trad.), enc.      3$200


*Teixeira de Queiroz*


Os noivos, 2.^a edição (com o retrato do auctor)      1$000
O Sallustio Nogueira      1$000
Morte de D. Agostinho, br.      600
Arvoredos, contos, 1 vol. illustrado      800
Comedia do campo, 4 vol.      2$100
Amores, amores... (no prelo)


*Wenceslau de Moraes*


Traços do Extremo Oriente 500


*Ramalho Ortigão*


A Hollanda, 2.^a edição      1$000
O culto da arte em Portugal      600
A instrucção secundaria      240
Hygiene da alma (trad.)      500


*Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão*


O Mysterio da estrada de Cintra, 3.^a edição      200


*Silva Pinto*


Philosophia de João Braz      500
N'este valle de lagrimas      500
A queimar cartuxos (no prélo)
Santos portuguezes      500


*Oliveira Martins*


Historia de Portugal, 2 vol.      1$400
Portugal contemporaneo, 2 vol.      2$000
Portugal nos mares      700
Historia da civilisação iberica      700
Historia da Republica Romana      2$000
Taboas de chronologia e geographia historica      1$000
A Inglaterra de hoje      600
Cartas peninsulares      600
Systhema dos mythos religiosos      800
A vida de Nun'Alvares      2$000
O Principe perfeito      2$000



Notas:

[1] Isto foi escripto como se vê tres mezes depois da morte de O.
Martins, n'um dos momentos mais deploraveis sob o ponto de vista
politico, que o Portugal moderno tem atravessado. As victorias de Africa
vieram n'esta hora como que alliviar o nosso espirito do pezo esmagador
que o opprimia, e desmentir, sob determinados aspectos, o pessimismo
absoluto que n'esta phase transluz. (Fevereiro, 1896).



Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pág.   31| Para __ encontrar   | Para te encontrar    |
  |#pág.   47| do musculatura      | de musculatura       |
  |#pág.   48| surprehem-nos       | surprehendem-nos     |
  |#pág.   57| __ rosto            | o rosto              |
  |#pág.   66| arvoredos'          | arvoredos,           |
  |#pág.   74| su as               | suas                 |
  |#pág.   74| Fran ça             | França               |
  |#pág.   79| rebento'            | rebento,             |
  |#pág.  121| deliciciosamente    | deliciosamente       |
  |#pág.  142| entranhas fecundos  | entranhas fecundas   |
  |#pág.  146| Santo Agostinha     | Santo Agostinho      |
  |#pág.  181| contante            | constante            |
  |#pág.  186| que que             | que                  |
  |#pág.  187| Imperio Romana      | Imperio Romano       |
  |#pág.  190| achaou              | achou                |
  |#pág.  195| seu o               | o seu                |
  |#pág.  219| _cousa sa_          | _cousa_              |
  |#pág.  221| qne                 | que                  |
  |#pág.  227| passsamento         | passamento           |
  |#pág.  230| _dile ctando_       | _dilectando_         |
  |#pág.  231| ex prime            | exprime              |
  |#pág.  232| difficies           | difficeis            |
  |#pág.  250| coi sas             | coisas               |
  |#pág.  252| fossse              | fosse                |
  +----------+---------------------+----------------------+

Variantes dos nomes próprios (à excepção dos indicados anteriormente)
foram mantidas de acordo com o original.





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