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Title: A Neta do Arcediago
Author: Castelo Branco, Camilo Ferreira Botelho, 1825-1890
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Neta do Arcediago" ***

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produced from scanned images of public domain material


    Notas de transcrição:

    No livro impresso a partir do qual foi feita esta transcrição,
    existia um grave erro de impressão na página 179, no parágrafo
    que começa com a frase: "Não obstante a escaramuça, a cohorte
    estendia por longe o terror." Este erro de impressão tornava
    ilegível o parágrafo, pelo que foi corrigido de acordo com uma
    edição das obras completas de Camilo de 1984.

    Foram ainda encontrados diversos erros de impressão, que por
    não terem qualquer impacto na interpretação do texto, foram
    corrigidos sem qualquer nota.

      *      *      *      *      *


                           A NETA DO ARCEDIAGO.



                           A NETA DO ARCEDIAGO.

                                   POR

                         CAMILLO CASTELLO-BRANCO.


                             SEGUNDA EDIÇÃO.


                                  PORTO,
                    EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
                   Rua dos Caldeireiros, n.os 18 e 20.
                                  1860.



PORTO: 1860--TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA,
Rua do Almada, 641.



A NETA DO ARCEDIAGO.



I.

UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.


Convém, primeiro, saber quem é este cavalheiro, que salta garbosamente
d'uma carruagem com uma dama vestida de branco, defronte do theatro de
S. Carlos, em Lisboa, em uma noite de fevereiro de 1838.

Por não apurar impaciencias, diga-se tudo já. Este cavalheiro é Luiz da
Cunha e Faro. Aquella dama é... Nem tanta bondade! Não se póde dizer,
por ora, quem é a dama. Se o leitor é esperto, como supponho, ha de
adivinhal-a logo, e, de certo, fica muito contente da sua penetração.

Luiz da Cunha e Faro tem vinte e cinco annos. É um homem feio, segundo a
opinião masculina, que se acha em harmonia com a sua. Não era esta,
porém, a opinião das mulheres. Algumas que por capricho, em publico, o
desdenhavam como feio, desmentiam-se em particular... Não digo que
fossem todas; mas tambem não é preciso o suffragio de todas para a
reputação d'um homem feio.

A que chamam v. ex.as feio? Feio é o demonio, dizia minha avó. São e
escorreito é o essencial--dizem as velhas, quando as illusões da
formosura não tem nada a fazer com ellas, nem, por isso mesmo, ellas
teem direito a optar entre o feio e o bonito.

Luiz da Cunha era trigueiro; tinha a pelle bronzeada da cara pegada aos
ossos, que lhe sahiam, principalmente os malares, em proeminencias
cadavericas. Os bordos das orbitas muito salientes contribuiam muito
para que o brilho dos olhos negros e grandes luzisse mais na escuridade
das cavernas, debroadas sempre d'um annel bastante escuro para destacar
da côr geral de azeitona. O nariz era notavel pela ausencia total do
cavalete. A bôca não se lhe via, coberta pelo bigode espêsso, que se não
encaracolava nas guias, e cahia em luzentes recurvas sobre ambos os
labios. Ora aqui está o que é um homem feio.

Perguntava muita gente a razão physiologica da côr africana de Luiz, tão
diversa da alvura ingleza de seu pae João da Cunha e Faro, que, por esse
tempo, contava quarenta e cinco annos, e passava ainda por um dos bellos
homens de Lisboa.

Pouca gente respondia physiologicamente a tal reparo, porque muito pouca
sabia que Luiz da Cunha era filho d'uma mulata.

Agora é que ninguem poderá allegar ignorancia. Eu tenho a honra de
responder á curiosidade, que foi longo tempo a mortificação de pessoas
muito sizudas.

Sabia-se geralmente que o nascimento de Luiz fôra uma das multiplicadas
aventuras amorosas do fidalgo, seu pae; mas a outra metade productora, o
complemento da machina, em que o mysterioso artefacto se fabricára, isso
é que os amigos intimos de João da Cunha e Faro ignoravam.

O leitor não perderia muito ignorando tambem. Ainda assim, se não
quizerem passar ao capitulo segundo, tambem nada perdem, e ficam sabendo
tanto como eu.

João da Cunha frequentára a universidade de Coimbra, quando era mania
dos fidalgos deixarem medrar seus filhos na seva opulenta d'uma fidalga
estupidez. Em quanto seu irmão mais velho estudava veterinaria para se
não deixar enganar em compras de cavallos, João da Cunha estudava
mathematicas para se distinguir na carreira militar.

Cursava o segundo anno, com admiravel aproveitamento, quando chegou a
Coimbra um moço brazileiro, filho de portuguez, casado com uma mulata,
filha d'um rico fazendeiro de café, e fabulosamente rica, segundo era fama.

A intenção do brazileiro era formar-se em naturaes para
scientificamente explorar os vastos terrenos do Mexico, onde seu sogro
desenterrára o mais grosso do seu cabedal.

E, com effeito, matriculou-se, ao mesmo tempo que sua mulher, desejosa
de cultivar o espirito, recebia em casa lições de francez, e inglez.

Ricarda chamava-se ella. Não lhes quero dizer que era bonita, porque
receio que zombem da minha franca ingenuidade; porém, não chegue este
capitulo ao fim, converta-se-me esta penna em sovela, se eu não gostasse
da senhora D. Ricarda, e a não amasse com o delirio de João da Cunha.

Pois elle ousou?... Ousou... Miserias inherentes ao peccado original! O
primeiro homem cahiu, e bem forte devia ser esse primeiro homem, sahido
das mãos do Creador, com toda a substancia e rigidez d'uma obra
perfeita, com todas as harmonias e segredos para desmanchar o sortilegio
da tentação!... Como não cahiria o academico, degenerado pelas fraquezas
de tantas gerações que vieram até elle, desde o Eden?

Que tinha, pois, Ricarda de seductora?

O que ella tinha! Sabem o que é ter um coração de lume, lume que não se
esconde, em quanto ha olhos que o dardejem em lavaredas electricas?
Sabem o que é o nervo optico, ferido d'esse galvanismo da alma, que se
lhe côa nas fibras, que se communica aos musculos, que se injecta na
pupilla vertiginosa, que se lança fóra do corpo em scintillas
contagiosas, até vos pegar uma febre, que se não cura com a quina? Sabem
o que é a voluptuosidade da mulher dos tropicos? Não crêem que o sol, a
prumo, se infiltra n'ella, e a queima desde os quatorze annos, com uma
sêde insaciavel de gosos ternos, morbidos, e elanguescidos como a
requebrada cantilena d'uma carioca?

Ricarda, além de tudo isto, tinha cousas de encantar. Dizia uma cousa
singela com tantos artificios de graça, de meiguice, e de cansaço, que
mais valiam as simples palavras d'ella, que os beijos mais suavemente
chilreados de uma europêa. As perolas, que tão lindo lhe faziam o
sorriso brando, raro se mostravam, porque, se os olhos diziam tudo, o
sorriso não lhe vinha auxiliar os gestos. E a flexibilidade das fórmas?
Que donaire, que gentileza, que perfeição de estudo, ou que
naturalidade tão caprichosa em enriquecêl-a!

Bem haja, pois, João da Cunha, que adorou a omnipotencia do Creador, sem
perguntar ao abbade de Salamonde a gravidade da culpa, adorando a mulher
do seu proximo, de mais a mais, seu contemporaneo. Bem haja, digo eu
meio resolvido a rasgar este periodo, se o leitor, por uma sobrenatural
revelação, me não diz que bem póde ser que o academico não esteja
condemnado pela mesma razão que Magdalena foi salva. Amar muito! Sem
esta virtude, Deus sabe se a acta das santas nos faria menção da
dedicada galilea!...

Não quero inculcar a santidade de João da Cunha. Creio até que o homem
nunca se lembrou d'estas honras posthumas, e a universidade, com quanto
produza grandes doutores para a mitra, ainda não deu um para a igreja. O
mathematico era capaz de renunciar á canonisação se lhe pedissem a troco
o sacrificio de abjurar o amor, que o trazia tão longe da sciencia, e
tão avêsso ás obrigações academicas, que, antes de Paschoa, tinha
perdido o anno por faltas, e dissera incriveis disparates em duas
lições, que o desacreditaram.

João da Cunha soubera insinuar-se na confiança do brazileiro. Era sua
visita em vespera de feriado. Fallava francez com Ricarda, e solvia, em
mathematica, as difficuldades que o obtuso marido não vencia.

Seria impertinencia alongar de sobejo este episodio, que não vem ao
essencial da nossa historia. O leitor, amigo da concisão, quer que eu
lhe diga se aquella mulher de fogo se conservou incombustivel, como o
amiantho, na presença do estudante. Não, senhores. Fosse pelo que fosse,
a brazileira parece que não tinha ideias muito claras a respeito dos
deveres conjugaes. Seu marido, allucinado pela sciencia, retirou-se cá
de baixo para tão alto que não podia vêr a terra onde sua mulher
vacillava ao pé de um abysmo. Acordou, uma manhã scismando n'um _x_, que
o fizera adormecer ás duas horas. Chamou sua mulher, que o costumava
saudar em francez do quarto proximo. D'esta vez não ouviu lingua alguma
das que se entendem no globo. Entrou no quarto para contemplal-a no
somno feliz de quem não estuda mathematica. Achou um leito vazio.
Correu a casa toda, chamando-a, com sobresalto, que não era ainda o da
certeza. Nem a criada encontrou! Volveu ao quarto de Ricarda. Reparou
que sobre a commoda não estava um cofre de marfim. Era o adereço de
Ricarda: os seus brilhantes que valiam uma fortuna; os mais ricos
diamantes que deram as Minas Geraes; as melhores pedras do Novo-mundo, o
valor de quatro dotes opulentos!

Desde esse dia, o brazileiro não tornou ás aulas. Sabe-se que foi curado
d'uma congestão cerebral. Viram-no, dous mezes depois, sahir de Coimbra,
sem estender a mão aos amigos, compadecidos do seu infortunio. Passára
por entre elles sem os vêr. Reputaram-no doudo, e vingaram inutilmente a
affronta que o enlouquecêra, execrando o infame João da Cunha que lhe
roubára sua mulher.

Mas, um dia, dez mezes depois, passára o brazileiro na rua do Ouro, em
Lisboa, e vira n'uma taboleta de ourives um annel com uma esmeralda,
cravejada entre doze brilhantes.

--Quanto pede por este annel?--perguntou elle.

--Dous contos de reis.

--Comprou as pedras separadas, ou o annel?

--Comprei o annel.

--Ha muito tempo?

--Ha dous mezes.

--O vendedor era portuguez?

--Creio que sim.

--Garantiu-lhe a legitima venda de que era seu? Creio que me não
entende... Tem a certeza de que este annel não fosse um roubo?

--O cavalheiro que m'o vendeu é um fidalgo.

--Conhece-o?

--Conheço, sim...

--Desculpe estas perguntas, porque eu quero comprar o annel, e não o
faria sem a certeza de que ámanhã me fizessem as perguntas que eu lhe fiz.

Pouco depois, o ourives recebia dous contos de reis por um annel que
comprára por cincoenta moedas. Contente da veniaga, esquecêra-se da
reserva que lhe fôra pedida, quando o comprou, a respeito do vendedor. A
alegria fizera-o indiscreto e expansivo. Dous contos de reis era
dinheiro para trinta Judas, e demais o ourives não sabia o valor do
segredo.

--Visto que me comprou o annel, vou dizer-lhe quem m'o vendeu; mas v.
s.ª guarde segredo, não porque seja um furto; mas porque é um melindre.
Este annel foi-me vendido por um dos primeiros fidalgos de Lisboa; mas o
homem pediu o segredo do seu nome, para que o não julguem em más
circumstancias. A v. s.ª posso dizer-lhe o nome...

--De certo póde, mesmo porque eu estou em vesperas de embarcar para o
Brazil, que é o meu paiz.

--Lá me pareceu logo que v. s.ª era brazileiro... Por cá não ha quem dê
assim dinheiro por uma obra de gosto... Pois, senhor, o ex-possuidor
d'este annel foi Antonio da Cunha e Faro, e quem aqui m'o vendeu, com
ordem sua, foi seu filho João.

--Penso que conheci em Coimbra esse cavalheiro--disse com mal fingida
serenidade o marido de Ricarda.

--Póde ser, porque segundo ouvi dizer, o tal senhor João da Cunha estuda
em Coimbra.

--Pensei que esse sugeito não estava em Lisboa.

--Ha quinze dias de certo estava; se quer fallar com elle para ir seguro
do que lhe digo, ainda que eu lhe prometti de não dizer quem me vendeu o
annel, póde v. s.ª procural-o em casa de seu pae no Campo Grande.

--Não duvido da sua palavra.

O brazileiro passou a noite d'esse dia encostado ás arvores fronteiras
do palacete de Antonio da Cunha. De madrugada vira entrar um embuçado,
que se lhe afigurou João da Cunha. Ao escurecer d'esse dia viu sahir o
mesmo vulto suspeito, e seguiu-o. No Campo Pequeno viu-o entrar numa
sege de praça, que desappareceu pela estrada transversal.

Na noite immediata, a pouca distancia da sege, que esperava João da
Cunha, estava um cavalleiro encoberto pelo muro da quinta do conde das
Galveas. A sege partiu e o cavalleiro seguiu-a de longe, para que o
tropel do cavallo se não tornasse suspeito.

A meia legua, na azinhaga de Campolide, parou a sege. João da Cunha
entrou n'um largo portão, que se abriu no momento em que elle apeava.
Caminhou por debaixo de uma extensa parreira, que formava uma fresca
abobada de folhagem á entrada da casinha campestre, em que morava Ricarda.

O brazileiro de certo não viu a casinha, porque o portão fechára-se nas
costas de João da Cunha. O boleeiro entrára com a sege n'uma cavalhariça
a cincoenta passos distante do portão. O marido de Ricarda adquirira
aquella imperturbavel paciencia, que vem depois dos frenezis da
vingança. Quasi um anno de meditação e estudo na desforra, que mais
convinha á sua honra, era sobeja reflexão para não perder com uma
imprudencia a victoria que, tão depressa, lhe deparára o acaso do annel.

Retrocedeu para Lisboa.

No dia seguinte passou, a pé, defronte do portão onde entrára João da
Cunha. Estava fechado. Circuitou o baixo muro que marcava a pequena
quinta. Trepou no lanço que lhe pareceu mais accessivel. Não viu alguem.
As janellas da casa, á hora do calor, estavam fechadas com persianas
verdes interiormente corridas. Desceu para subir outra vez ao muro que
fechava a quinta na parte mais remota da casa. Saltou dentro. Os cães de
fila acorrentados ladraram; mas o aviso não inquietou ninguem.

O brazileiro embrenhou-se n'um caramanchão, enxugando o suor que lhe
empastava a camiza. Permaneceu ahi cinco horas.

Ás nove ouviu o rodar da sege; ouviu ranger os gonzos do portão; ouviu
abrir-se, mais perto, a porta e janellas como se até alli não vivesse
ninguem n'aquella casa, cujo aspecto risonho bem poderia ser mentiroso.

Minutos depois ouviu passos distantes, que faziam rumorejar a folhagem.
E estes passos eram cada vez mais proximos. Viu dous vultos. Eram já
distinctas as suas palavras:

--E quando partiremos, João?--perguntava Ricarda.

--Logo que eu te veja convalescida de modo que possamos viajar sem perigo.

--Pois eu não estou boa?

--Ainda não. Faz ainda ámanhã um mez que soffreste muito... para fazeres
completa a minha felicidade... Um filho teu, Ricarda!...--O brazileiro
ouviu o ciciar tremulo d'um beijo.

--Mas que podemos recear agora? Vamos embora de Portugal. Consegui que
vá comnosco a ama de leite do nosso Luizinho. Não nos falta nada...
Olha, João, eu não posso assim viver tão fugida do mundo. Não temos
necessidade d'isto. Se queres que eu assim viva, obrigas-me a crêr que
eu pratiquei um grande crime, pelo qual devo ser proscripta da vida.

--E não vivo eu tambem proscripto da sociedade, para viver comtigo só?

--Não ha comparação. De dia vives com os teus, de noite comigo. Eu
queria que tu viesses aqui passar sósinho, com o coração cheio de
saudades, as horas aborrecidas d'estes longos dias... Vive sempre ao pé
de mim, João, e eu viverei contente em toda a parte.

--Pois partiremos, minha filha. Mas é necessario fugir, porque meu pae
de certo me não deixa sahir de Portugal. A morte de meu irmão morgado
veio tolher o meu futuro. Meu pae quer entregar-me a administração da
casa que me pertence, e eu, habituado a obedecer-lhe desde creança,
acho-me prêso de braços quando é preciso ser mau filho...

--Ser mau filho!...--atalhou Ricarda com resentimento.--Antes ser mau
com a pobre mulher que não sentiu os braços prêsos para ser má esposa...
não é assim?

João da Cunha sentára-se no banco de pedra fronteiro ao caramanchão, em
que o brazileiro retrahia o halito para não perder uma palavra, em
quanto a longa distancia lhe não permittisse uma pontaria infallivel de
pistolas que lhe oscillavam nas mãos convulsas.

--Parece-me que estás cançado de mim...--continuou Ricarda, offendida
pelo silencio de João á ultima pergunta, que lhe custára a ella uma dôr
de coração, um desgosto amargo do seu amor proprio.

--Cançado de ti... Não, Ricarda... O amor não se cança assim. Não tenho
tido, desde o primeiro dia em que me viste, uma pequena desigualdade
comtigo. Tudo o que te prometti foi pouco para o grande sacrificio que
me fizeste; mas, se te não dou mais, é porque mais não póde dar o
coração. Podésses tu ser minha esposa... podésse eu convencer-te...

--De que me amas? Não é assim que se convence uma mulher... O que eu
quero é a tua alma... Não me lembrou nunca ser tua mulher, como se diz
da que se dá por obrigação de casamento, para ser assim mais feliz...
Não fallemos n'isto... Essa palavra esteve para ser a minha morte... não
poderá nunca trazer-me felicidade. Ainda que eu hoje fosse viuva, não
quereria ser tua mulher, João.

--Porque?!

--Porque me obrigarias um dia a ser criminosa, como fui...

--De que modo te obrigaria eu a seres criminosa?!

--Considerando-me apenas uma companheira de casa, a quem não é obrigação
fazer carinhos, porque a mulher casada é uma posse sem disputa, é uma
roseira que dá uma flôr, e sécca para nunca mais reverdecer... Eu sei
que fui muito amada, muito estremecida por...

--Por teu marido...

--Sim... mas, dous mezes... e, ao cabo de dous annos, esse homem dava-me
a importancia que se dá a um socio d'uma casa commercial, e dizia-me que
não vira ainda as suas lições, quando eu me sentava ao seu lado com
receio de ser grosseiramente despresada com o seu silencio. Todas as
tuas qualidades pessoaes me não fariam impressão nenhuma, João, se
aquelle homem me soubesse ao menos mentir.

--Foi preciso que elle te despresasse para eu te possuir o coração.

--Foi... Pois tu crês que a mulher se degrada por prazer, sem que a
violentem a isso?! Quem faz a mulher desgraçada e despresivel na sua
desgraça é o homem. Tenho pensado muito no que fui para explicar o que
sou...

--E, se elle te amasse hoje, Ricarda?

--Se me amasse hoje, despresal-o-ía, porque não poderia amar outro
homem, depois que te conheço.

--E se eu te despresasse?

--Se me despresasses, morreria, matava-me.

--Não morrerás, minha filha...

João da Cunha abraçou-a com vehemente transporte. Colou-lhe os labios
ardentes no collo de encantadora nudez, sorvendo-o em beijos deleitosos.
Ella deixou-se inclinar para o seio d'elle, como desmaiada em ebriedade
de ternos deliquios. Toda esmorecida e alquebrada, os proprios
olhos, sempre fogo, pareciam apagar-se, para que a morbidez das
palpebras, pendendo amortecidas, dissessem ao sequioso amante que
aquelles olhos se fechavam para não verem o passado, e deixavam ao
coração, estreme de remorsos, o goso das delicias do momento.

O marido de Ricarda deu um passo para distinguir os vultos entre as
frondes da amoreira. O prazer devêra têl-os aturdidos para não ouvirem
esse passo, e dous que se seguiram. Aquelles braços não se desenlaçavam.
O extasis poderia ser apenas um extasis de dous amantes que se perdem
nas altas regiões do puro espirito; mas o brazileiro, na sua phantasia
allucinada, imaginou um crime, que deveria deixar-lhe a elle um remorso
eterno, se o não interrompesse com a morte.

Duas balas voaram de duas pistolas. Ouviu-se um grito. Ricarda levára a
mão ao seio. João da Cunha corrêra atraz d'um vulto que rompia a direito
as murtas do caramanchão em precipitada fuga. Mas, já perto do
assassino, sentiu uma dôr agudissima no hombro direito e esvahimentos de
cabeça.

A este tempo, o brazileiro era preza de dous enormes cães, que o filaram
no momento que elle lançava a mão a uma viga da parreira por onde
descêra. Os cães laceravam-no, saltando-lhe ao peito. O indefeso moço
arremessára as pistolas inutilmente aos cães, que redobravam de furor.

Os criados de João da Cunha, ouvindo os tiros, correram na direcção.
Encontraram o cadaver de Ricarda, e alguns passos distante, seu amo que
dizia em voz desfallecida: «matem esse assassino, que me matou.»
Correram onde latiam os cães. Viram um homem encostado ao muro
defendendo-se dos saltos d'elles com as pernas, que retiravam sempre
cravejadas por uma nova dentada. Não seria preciso o braço d'outro
assassino, se a lucta se demorasse entre as feras e o brazileiro quasi
morto de cansaço, e derramamento de sangue. A missão dos cães acabou
quando principiou a dos homens. Duas choupadas no peito abriram mais
larga fenda ao sangue. Mataram-no sem resistencia.

..........................................................................

Eu esbocei com repugnancia este quadro. Será demasiada fidelidade
dizer-vos que a sepultura do brazileiro foi os oito palmos de terra,
onde cahiu morto? Ainda bem que os cães o não devoraram a pedaços como
um passatempo durante a noite. Ricarda foi enterrada no cemiterio, de
noite, de combinação com o parocho. Os criados conduziram á sege João da
Cunha, que não quiz retirar-se sem reconhecer o assassino.

Dizem que beijára as faces mortas de Ricarda, e derramára algumas
lagrimas, que lhe fazem muita honra.

A sege que o conduziu, tornou a Campolide para transportar ao palacete
do Campo-Grande um menino d'um mez nos braços da ama.

João da Cunha beijando o neto que seu filho lhe entregava, na supposição
de que o ferimento era mortal, dizia lá comsigo:

--Parece filho de mulata! Bem me disseram a mim de Coimbra que meu filho
fugira com uma!

João da Cunha foi curado em poucos dias. A bala quebrára-lhe a clavicula
direita e sahira sem ferir algum vaso importante. O enfermo deixou-se
tratar, e não consta que tentasse romper o apparelho para se escoar de
sangue.

--Queria viver para o seu filho.--É como elle explicava o desejo da vida.

Isto passou-se em 1813; e o romance começa em 1838.

Já sabem que o filho de Ricarda é Luiz da Cunha e Faro, que apeou á
porta do theatro de S. Carlos.



II.

O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.


João da Cunha era, pouco mais ou menos, o que são todos os homens. O seu
coração, viuvo do amor de Ricarda, vestiu lucto um anno. O choque fôra
muito forte, para que a mais robusta organisação se não resentisse,
longo tempo. A convivencia, com homens que não conheciam os precedentes
da sua mysantropia, não a procurava. Vivia só, com seu pae, e com seu
filho. Recordava a ephemera felicidade de alguns dias, rematados por uma
hora de sangue. Ora, estas recordações, por que foram muito repetidas,
pouco a pouco enfraqueceram, e o coração familiarisou-se com ellas. O
que primeiro fôra terror, veio, depois de um anno, á brandura das
reminiscencias que não mortificam, porque o tempo é o principio gerador
de imagens novas que desfazem sempre as impressões das velhas. O ferro
abre profundos sulcos no cortix da arvore: depois, as fibras da camada,
vigorosa de nova seiva, passam por cima, e deixam como signal uma cizura
imperceptivel.

Dous annos depois da catastrophe, João da Cunha não fugia das aventuras
que o perseguiam. Riqueza, talento, e fidalguia, afóra os dotes
physicos, auctorisavam-no a não deixar aos vinte e dous annos uma
carreira que encetára com tão má fortuna.

Do seu coração, repartido por muitas paixões passageiras, nunca usurpou
a seu filho a maior parte.

Em quanto elle crescia em corpo e extraordinaria penetração, o pae, que
não sabia sêl-o, alargava-lhe os desejos, adivinhando-lh'os, e prohibia
á ama, aos mestres, e ao avô a mais ligeira contrariedade ás
vontades caprichosas do menino.

Luiz, aos doze annos, era um despota com os criados, com os mestres, e
tratava o pae como se trata um irmão, quando não ha a recear a correcção
paterna. João da Cunha gostava da desenvoltura do pequeno, e ufanava-se
de leval-o, como maravilha, á sociedade dos homens e mulheres do grande
mundo, que lhe achavam muito sal nas suas respostas, e não córavam ás
galhofeiras liberdades do pequeno Ismael, como lhe chamavam, alludindo á
desconhecida Agar, que o sol da Africa bronzeára.

Luiz era tanto mais caro a seu pae, quanto a sua intelligencia, com
pequeno esforço, aproveitava nas irregulares lições dos mestres
soffredores. Aos quinze annos, o filho de Ricarda era homem, e, como
homem, as puerilidades, as folias que o entretinham até aos quatorze,
trocaram-se em ar reflexivo, em consciencia de si proprio, e até em
certo respeito ao pae, supposto que este lhe não invectivasse as
licenças, que os de fóra lhe censuravam.

--Eis-aqui o que é o espirito!--dizia João da Cunha ao seu capellão, que
muitas vezes agourára mal da livre educação dada a Luiz--Assim que
chegou á idade da razão, ahi está meu filho obedecendo espontaneamente
ao instincto dos deveres. Não o vê tão pensador n'uma idade em que a
imaginação trabalha sempre?

--Não duvido que pense--respondeu o padre, solemnisando a resposta com
um sorvo de rapé--mas, se v. ex.ª me dá licença, parece-me que seu filho
pensa em alguma loucura.

--Essa é boa! O padre que razão tem para tanta severidade com meu filho?

--Que razão tenho? Ora ouça v. ex.ª Seu filho namora a filha do
merceeiro que mora ao lado.

--Deixe-se d'isso, padre; o meu filho apenas tem dezeseis annos, e ella
ainda é mais nova.

--Isso não é razão, e desculpe-me v. ex.ª a liberdade de replicar. Deus
sabe as intenções com que me intrometto em cousas, que não são de todo
estranhas ao meu ministerio. Eu quando fallo é com documentos na mão.

--Alguma cartinha de namoro... Isso são rapaziadas sem consequencia.

--Não é cartinha de namoro.

--Algum cordão de cabello, ou alguns suspensorios com a firma do
rapaz... Isso faz rir.

--Não é cordão nem suspensorios.

--Então acabe lá com isso, padre! Que é?

--É uma escada de corda que sobe ao segundo andar d'aquella casa.

--E sabe se elle faz uso d'essa escada?!

--Ha quinze noites seguidas que sobe ás duas horas da noite e desce ás
quatro.

--O rapaz é capaz de quebrar uma perna!

--E eu receio que o pae da rapariga seja capaz de lh'as quebrar ambas.

--N'esse caso, encarrego-o de o reprehender; mas não lhe diga que eu o sei.

--Parece-me que lhe não fará grande abalo ainda que v. ex.ª o saiba. Seu
filho não o teme, nem lhe reconhece direitos sobre a liberdade de subir
e descer escadas de corda.

--Está enganado.

--Oxalá que sim. Eu de mim reprehendi-o já, e elle respondeu-me se eu
fazia o favor de lhe ir segurar a escada para que ella não balançasse
quando elle descia, com grave risco das suas pernas, que ficavam
enleadas nas cordas transversaes. Aqui está o que é uma zombaria que não
parece d'um menino de dezeseis annos! V. ex.ª ri-se? Ora, queira Deus
que não chore ainda...

--Pois que quer que eu faça, padre?

--Que o castigue com severidade, ou o faça entrar no collegio dos Nobres
para ser castigado longe dos seus olhos. V. ex.ª perde seu filho. Está
cavando um manancial de desgostos, que não remediará... Elle ahi vem...
Se quer, retiro-me, para v. ex.ª lhe fallar.

--Pois sim, retire-se.

Luiz entrou apertando a mão ao pae, que lh'a estendeu com a familiar
etiqueta d'amigo.

--Vem cá, Luiz. Tu és um homem, e é preciso fallarmos como homens. Sei
que sobes por uma escada de corda ao segundo andar d'aquella casa...

--Então, de certo sabe tambem que desço...--atalhou com sorriso ironico
o filho de Ricarda.

--Responda-me com seriedade. Sabe que eu posso fazêl-o retirar d'esta
casa, logo que o menino proceda de modo que mereça ser castigado?

--V. ex.ª póde tudo; mas eu queria saber o que fiz que mereça castigo.

--Assim é que deve responder-me. Sei que se introduz em casa do merceeiro.

--É verdade, meu pae. Não nego senão o que não faço. Foi o padre Joaquim
que lh'o disse?

--Não sei quem foi... É isto verdade?

--É verdade; mas o padre Joaquim merece dous bofetões.

--O padre Joaquim é seu amigo. Se o menino observar os conselhos d'elle,
ha de ter um proceder exemplar; e, se os não attender, obriga-me a
castigal-o asperamente, bem contra minha vontade. Não quero que se diga
que um filho de João da Cunha escala as janellas dos visinhos. O peor
que póde acontecer-lhe, meu filho, é ser surprendido n'essa casa, e olhe
que de certo o não respeitam para o deixarem descer tranquillamente como
subiu.

Pouco depois, Luiz da Cunha sahiu do quarto de seu pae, e passando pelo
capellão deu-lhe um abraço, que o fez impertigar-se com a grave
compressão das costellas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o
mais prestes que podia dos braços tenazes do seu discipulo de latim.

As correcções paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite d'esse
dia, á hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e
içou-se para a varanda. Pouco depois que entrára, o logista, avisado por
quem quer que foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu
precipitadamente, e quando descia, na altura do primeiro andar, o
robusto confeiteiro levantou os ganchos da escada, e deixou-a pender
para o centro da terra, em plena condescendencia com as leis da gravitação.

O filho de João da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da
policia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e não é bem
liquido se tambem elle debaixo do capote trazia uma escada de corda.

Luiz da Cunha desmanchou algumas articulações, cuja collocação o fez dar
ao diabo a filha do confeiteiro. O pae ameaçou com um chicote o seu
pundonoroso visinho; mas, pelos modos, o minhoto não era homem de
transigir pelo mêdo d'uma arrogancia dos actos dos Sousas e Faros. A
rapariguinha nunca mais appareceu na janella, e, no fim da semana
immediata, casou com o caixeiro, rapaz dos suburbios de Guimarães, muito
fino, que é hoje capitalista, e não foi ainda codilhado por governo
nenhum. Já vêem que a filha do confeiteiro não perdeu nada, visto que o
marido não a encontrou lesada physica nem moralmente. Estes é que são os
felizes. Não sabem nada de psycologia, nem de anatomia: não descriminam
imperfeições da alma nem do corpo.

João da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o,
quando o viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre
capellão ao collegio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou
no collegio, onde os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima,
habitual-o á casa, para se dispensarem da outra ponta do dilemma.

Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram.
Eram os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no docil, e
persuadiram-se que lhe tinham inoculado o amor do estudo, e o
esquecimento das liberdades por que fôra, aos dezeseis annos, encerrado
no collegio.

João da Cunha, maravilhado da mansidão de seu filho, visitou-o,
indemnisando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no
collegio. Luiz não se mostrou magoado com as asperezas, nem lisongeado
com os carinhos. Estava melancolico, e dizia o padre Joaquim, sempre
agoureiro aziago, que o menino meditava uma nova loucura, fosse ella
qual fosse.

Prophecia de padre Joaquim era infallivel. N'essa noite, Luiz cortou em
tiras os lençoes e o cobertor. Saltou para a cêrca. Partiu a cabeça ao
hortelão com um fundo de garrafa dos aguilhões do muro, quando o
indiscreto gallego lhe agarrou uma perna para a não deixar seguir o
destino da outra.

Luiz recolheu-se a casa de José Bento de Magalhães e Castro.

Este senhor José Bento é uma pessoa que nós conhecemos da FILHA DO
ARCEDIAGO. É justamente aquelle que casou com Rosa Guilhermina, em 1825;
que comprára n'esse anno o fôro de fidalgo, e fizera a sua nova
residencia em Lisboa, por isso que os invejosos no Porto tinham a
petulancia de rir-se da pedra d'armas que elle fizera lavrar no seu
palacete do Reimão.

Em Lisboa fôra bem recebido, particularmente por João da Cunha e Faro,
que, segundo dizem, lhe vendêra cara a consideração. D. Rosa Guilhermina
era bem acolhida na roda que torce o nariz aristocratico aos que chegam
sem garantias d'algum conspicuo de linhagens. A maledicencia dizia que
João da Cunha não era indifferente á mulher do senhor José Bento. Tanto
não ouso eu dizer, e a calumnia é mancha que não pega nos meus romances.
Pêcos de imaginação, sim; mas arreados de phantasias que desdouram o meu
proximo, isso nunca.

Luiz, sempre acceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do
collegio, surprendeu-a com um abraço estouvado. Pediu-lhe que não
dissesse nada ao pae, e o deixasse sentar praça em marinha, que era a
sua vocação. D. Rosa prometteu-lhe tudo, e avisou João da Cunha, que, a
essas horas, recebia a fatal nova da fuga do filho. A filha do arcediago
pedia-lhe uma entrevista, antes de encontrar-se com Luiz. O fim era
combinarem o meio de o levarem com brandura a entrar em casa, onde de
certo a violencia o não levaria. João da Cunha annuiu, e o filho de
Ricarda foi recebido com affabilidade por seu pae.

Não era já possivel domal-o com violencias nem com afagos. Luiz da Cunha
tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia é necessario
acreditar na vida tragica de certos homens, que nos compadecem, que nos
nauzeam, e que nos assombram!

João da Cunha, certo da sua inefficacia paterna, resumiu a sua
auctoridade ensinando o filho a salvar as apparencias, porque os
escandalos eram atroadores, e promettiam-lhe uma vergonhosa expulsão das
casas honestas. O merceeiro visinho, não obstante a sua coragem, passou
pelo desgosto de curar-se d'uma dura carga de pau com que o amante de
sua filha, auxiliado por campinos embriagados em noite de tourada, o
mimosearam dentro do seu proprio balcão. Toda a importancia de João
da Cunha foi necessaria para torcer a justiça, visto que o logista
era affecto em extremo á politica vigente, o que provára mais d'uma vez
com o cacete na mão. Um outro pae, que ousou repellir de sua casa o
fidalgo, chamando-lhe «mulato» perdeu a orelha esquerda n'esta honrosa
lucta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da deshonra. Um irmão
d'uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com cadêa de tres
mezes, afóra as custas do processo, a audacia de quebrar a cabeça ao
amante de sua irmã, que lhe viera, em noite de luminarias, recitar
debaixo da janella umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licença
de cear com ella.

Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balança da opinião
publica. Algumas d'estas aventuras faziam rir as mulheres distinctas por
nascimento e por muitas outras qualidades que não lustravam muito o
nascimento...

Luiz da Cunha lá foi entre ellas receber os applausos, e achou que a
vereda nova, em que se lançára, levava mais depressa ao capitolio. O que
elle queria era a reputação de conquistador, que principiava a declinar
de seu pae, e justo era que não sahisse da familia.

O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar
o dia impreterivel de tal ou tal triumpho, e bebia com elles no _Isidro_
á saude da victima destinada.

Se acontecia acharem-se presentes os parentes da victima illustre, o
impudente não calava o nome, nem respeitava as conveniencias do pudor,
visto que os seus amigos o não respeitavam.

O «Ismael,» que as damas desdenhavam pela côr, se não fosse o terrivel
sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu
cathalogo com muitas illustrações do sexo, que já n'esse tempo era fraco.

Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas.
Pouco e pouco repellido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco annos, era
detestado, acolhido com desprêso em todas as casas, excepto na de José
Bento de Magalhães e Castro, que, em 1837, era já visconde de Bacellar.
Rosa Guilhermina foi a unica mulher que exerceu uma sombra de ascendente
fraternal sobre o filho de Ricarda. Os seus rogos afastaram-no
muitas vezes de abysmos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido
ella quem o salvára de casar-se com a mulher que mais séria impressão
lhe fizera, quando se viu arremessado com infamia d'entre tantas que
elle pozera no pelourinho da ignominia.

Esta mulher era uma infeliz encontrada n'um primeiro andar da rua do
Ouro: uma d'essas que vem, com os hombros nús e as tranças enfloradas,
pedir-vos da janella com um aceno e um sorriso o preço do espectaculo a
que se offerecem, por esse sorriso e aceno voluptuoso.

Luiz da Cunha sympathisára com a libertinagem da mulher que lhe ensinava
cousas novas para o coração, não combalido de todo ainda pela podridão
do vicio. As duas almas comprehenderam-se maravilhosamente, porque se
encontraram na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se d'esta
mulher. Pediu-lhe o exclusivo da sua alma, e foi feliz na súpplica.
Liberata, desde esse dia, foi d'elle, exclusivamente, como a filha que
foge apaixonada do seio materno. Encontrou uma bem mobilisada
aposentadoria, servida de criados, e da opulencia que os brilhantes de
Ricarda, prodigalisados em ultimo recurso por João da Cunha, lhe
permittiam. Aquelles brilhantes reservára-os elle, sem escrupulo, para
patrimonio do filho da sua esquecida amante.

Envergonhado d'esta união torpe, João da Cunha admoestou o filho; e,
quando esperava despertar-lhe o brio com os topicos d'uma sentimental
censura aos seus rasos instinctos, Luiz respondeu-lhe que tencionava
salvar Liberata da infamia, casando com ella.

O primeiro impeto de cólera paterna foi correr sobre o filho e soval-o a
ponta-pés. Luiz estranhou a lisonja, e pôde muito sobre si para não
receber o pae na ponta de um punhal.

Expulso de casa, recorreu á viscondessa de Bacellar, que lhe prometteu
reconcilial-o com o pae, com tanto que elle despresasse essa mulher, que
o arrastava com ella ao mesmo abysmo de perdição. Luiz prometteu não
casar; mas despresal-a nunca. Se seu pae lhe negasse recursos, disse
elle que seria ladrão para sustental-a, ou morreriam de fome, abraçados.

João da Cunha, sabendo este heroismo, reconheceu que seu filho era a
vibora, que elle trouxera no coração, para o morder com o remorso
expiador do seu crime, cujo saldo com a Providencia começava vinte e
seis annos depois.

E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada
grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu dominio sobre
o homem, que se não pejava de assentar-se, ao lado d'ella, na mesma sege
e no mesmo camarote.

Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moço. Amigos de João da
Cunha tentaram vencêl-a com promessas, para darem ao desgraçado uma
surpreza que o fizesse detestal-a.

Não o conseguiram. A necessidade não a forçava. O ouro servia-lhe
prodigamente os mais exquisitos caprichos. O coração afizera-se-lhe
áquelle caracter, e a pontualidade do amante não lhe deixava um instante
vago para meditar uma traição.

O leitor de certo adivinhou já quem era a mulher que apeou, com Luiz da
Cunha e Faro, da sege, á porta do theatro de S. Carlos. Agora, se a
imaginação lhe não é escassa, afigure-a no camarote 15 da 2.ª ordem, e
verá uma perfeita senhora, adestrada em salas, meneando garbosamente um
leque, fitando com requebro airoso o oculo branco nas faces que se
retrahem envergonhadas, e sorrindo com deslavada alegria ao amante, todo
carinho e attenção para ouvir-lhe alguma obscenidade allusiva a qualquer
das damas, que não ousam fixal-a de face. Liberata era o que devia ser.

Hoje é moda regenerar, em romances, estas mulheres. A imaginação,
cansada de reduzir a virtude ao crime, trata de fecundar a virtude no
alcouce.

Em quanto a mim, as Liberatas não se regeneram. A de Luiz da Cunha
dançava lubricamente a cachucha, quando lhe fallavam em virtude.



III.

ASSUCENA.


Consta da FILHA DO ARCEDIAGO que a filha do memoravel Leonardo Taveira,
arcediago de Barroso, houvera de legitimo consorcio com Augusto Leite,
uma filha, chamada Assucena.

Quando Rosa Guilhermina contrahiu segundas nupcias com José Bento de
Magalhães e Castro, tinha seis annos a creança.

O filho do retrozeiro não se affeiçoou á filha de sua mulher, com quanto
a meiga menina o acarinhasse com meiguices, e lhe chamasse pae. Em pouco
se conhecia a rude insensibilidade do padrasto. As menores travessuras
de Assucena eram para elle o resultado do mimo demasiado que sua mãe lhe
dava. A esperteza, que Rosa admirava em sua filha, dizia o senhor José
Bento que era malicia; e, por entre dentes, resmungava que não seria
ella quem levasse a agua ao seu moinho. Era uma das suas phrases
favoritas este annexim, que o filho da senhora Anna Canastreira retivera
na memoria, rebelde sempre para o imperativo do verbo _laudo_, como em
tempo competente se disse.

Rosa doía-se da indifferença, ou, melhor, da antipathia de José Bento
pela creança. Nunca lhe perguntou a causa d'esta ingratidão aos mimos de
Assucena: é que não contava com a delicadeza de seu marido n'uma
resposta. A coacção em que a tinha o caracter brusco do assassino do
mestre de latim, a reserva nada familiar com que um ao outro se
tratavam, collocava-os a distancia do que vulgarmente se
diz--confidencias domesticas.

José Bento não tinha a rusticidade nem a doçura de indole de Antonio
José da Silva, o desventurado esposo de Maria Elisa, tão desventurada
como elle. (Já lá estão ambos!) Se aos dezoito annos, o aprendiz de loio
annunciava uma bestialidade mythologica, a natureza, modificada pelo
dinheiro, enxertára n'aquella cabeça, hermeticamente fechada, uma finura
maliciosa. Á primeira vista, o senhor José Bento parecia um pensador, um
homem experimentado, e até um presidente d'uma companhia de viação, ou
orador gosmento de associações commerciaes, que, só muito depois,
tiveram Ciceros em _patois_.

O capitalista era amigo de Rosa Guilhermina: não podemos duvidar que o
era; mas o seu modo de ser amigo era excentrico. A approximação dos
extremos confundira o pequeno espirito de José Bento com o grande
espirito d'algum marido fatigado de caricias, anhelante de paixões
incisivas, e incapaz de se amoldar ás formulas burguezas da
tranquillidade domestica. O moço fidalgo, no primeiro anno de casado,
foi o que seria no quadragesimo, se Rosa Guilhermina não morresse em
1849. Nunca lhe deu mostras de aborrecido, porque tambem nunca se
mostrou enthusiasmado com a posse. Teve sempre a constancia
imperturbavel dos felizes alarves. Nenhuma mulher valia mais que a sua,
nem a sua valia mais que as outras.

Rosa Guilhermina não esperava que sua filha succedesse na herança do
marido, nem, quatro annos depois de casada, tivera ainda um filho, nem
depois o teve, que protegesse a sua irmã, habituando-se a consideral-a tal.

O seu pensamento foi ageital-a para tudo o que é trabalho, dotando-a com
a educação, cultivando-lhe o espirito para que a formosura não fosse a
unica prenda que podésse merecer-lhe um marido com patrimonio.

Em Lisboa, José Bento não se oppôz á entrada de Assucena n'um collegio.
O excellente coração da menina, arrancado ao de sua mãe, comprehendeu,
em tenra idade, que a sua posição no mundo dependia de si. Docil ás
mestras, que lhe adoravam a angelica humildade, o trabalho, a oração, e
o estudo fizeram-na um modelo entre todas as suas companheiras. A
melancolia scismadora que, aos quatorze annos, a estremava dos folguedos
da sua idade, era um vaticinio de muitas lagrimas que verteria sobre
as flôres da mocidade, queimando n'essas o germen que nunca mais lhe
desabrocharia outras.

Em 1838, Assucena tinha dezoito annos, e era ainda alumna do collegio
para onde entrára aos dez. A viscondessa de Bacellar conseguira de seu
marido a influencia e os meios para que ella entrasse nas
commendadeiras, ordem meio monastica, meio profana, em que a vida
retirada se suavisa com todas as magnificencias do luxo, e se approxima
da sociedade sem conhecêl-a pelo ponto de contacto em que o coração se
infecciona.

Antes de entrar nas commendadeiras, como secular, Assucena veio passar
com sua mãe dous mezes.

Aos dezoito annos, estranhava o mais vulgar da sociedade. Lêra muito, e,
só com sua mãe, dava ideia de não ter desaproveitado o tempo, nem
enganado os mestres. Na presença de estranhos o seu acanhamento dava-lhe
ares de idiota. Córava ás mais simples lisonjas á sua formosura, e
folgava todas as vezes que as portas da sala se não abrissem a visitas.
A presença dos hospedes privavam-na de expandir-se a sós com sua mãe que
a beijava, como se faz a uma creança.

Assucena era trigueira como seu pae, e não podia chamar-se formosa,
senão em verso. A formosura, que não é senão a harmonia rigorosa das
fórmas, é muito rara. O que não é raro é a graça, a sympathia, o
indisivel que vos encanta, sem vos dar tempo a estudar a irregularidade
de um nariz, ou o defeito d'uma testa.

Engraçada e sympathica era, como nenhuma, a neta do arcediago. O
sobr'olho cerrado castanho escuro, e o buço que lhe assombrava o labio
superior, não fino, mas graciosamente arqueado, eram as feições mais
distinctas depois dos olhos brandos e amortecidos, tão fóra do commum em
rosto trigueiro. Gentil de corpo, alta como sua mãe, mais flexivel que
ella, mais delicada de mão, ao longo da qual corria uma penugem que
denunciava o braço delicioso, Assucena era a mulher para os sentidos e
para o coração; para a voluptuosidade do amor animal, e para os
arrobamentos do amor do espirito.

Luiz da Cunha e Faro não se recordava já de Assucena, quando a viu,
surprendido, em casa da viscondessa.

--Quem é esta mulher?--perguntou elle ao ouvido da viscondessa.

--É minha filha.

--Sua filha! a menina que eu vi, ha bons nove annos?

--A mesma. Não o apresento, porque ella é muito acanhada, e dá de si uma
triste ideia, quando a forçam a fallar.

--É galante senhora! Que olhos, e que sobrancelha! Aquellas pestanas são
divinas! Tem um olhar de santa! E aquelle buço? Ha de perdoar-me,
senhora viscondessa; mas a filha de v. ex.ª é capaz de me fazer doudo!

--Não zombe, senhor Luiz da Cunha. A minha Assucena não é capaz de
endoudecer ninguem, e principalmente v. ex.ª, que não póde endoudecer,
porque a demencia dá ideia do juizo anterior a ella...

--Bem a entendo, senhora viscondessa. Quer dizer que ninguem perde o que
não tem... V. ex.ª não sabe o que eu sou capaz de sentir. Até hoje tenho
usado o mau coração; o bom ainda não entrou em serviço. Vinte e seis
annos não é tarde para que eu me regenere. Sonhei esta noite que era
virtuoso, e que dava lições de moral no largo do Rocio a quem me queria
ouvir. Depois, tornei a sonhar, e fazia milagres: puz uns dentes á
baroneza de Lemos, que está alli mascando com as gengivas quatro phrases
de açafetida a seu marido, e fui á beira do Tejo conversar com os
peixinhos que saltaram ao Terreiro do Paço, passeando em sêcco para me
darem honras de Santo Antonio.

--Comece com as suas impiedades, senhor Luiz da Cunha... Olhe que eu
retiro-me d'aqui... Quando ha de perder o vicio da maledicencia? Que lhe
importam os dentes da baroneza de Lemos?

--Tem v. ex.ª razão. Sou um grande malvado, mas permitta que eu corrija
a sua accusação. Eu não disse que me importava com os dentes da
baroneza, que é cousa que ella não tem. Eu sonhei que milagrosamente lhe
dava duas ordens de dentes, e lh'os déra quasi todos mollares, porque me
consta que ella gosta de tortas, em que os outros se dispensam. Se isto
é perversidade, minha amiga, não sei o que é virtude. Deixemos a velha,
e fallemos na juventude do nosso seculo. A senhora D. Assucena fica
na sua companhia?

--Não, senhor. Vai entrar nas commendadeiras.

--Isso é incrivel! Pois v. ex.ª quer inutilisar aquella creatura,
roubando-a á sociedade!! Isto é barbaro! Declaro que não consinto!

--É pena que v. ex.ª não consinta! Eis-ahi uma difficuldade que eu não
tinha prevenido! O seu consentimento é uma formula indispensavel!

--Quer que eu lhe diga uma verdade? Estou recebendo uma impressão
extraordinaria! Sinto por sua filha o que nunca senti! Será ella a
redemptora d'esta alma que anda em penas ha onze annos? Parece-me que o
amor é que me ha de salvar. Ora olhe, eu tenho imaginado que posso ainda
ser feliz. V. ex.ª acredite que tenho sido muito muito desgraçado...

--Não o parece.

--Diz bem... não o parece; mas creia que não tive ainda oito dias de
felicidade na minha vida. O mundo julga-me mal. Todas estas vertigens,
que apparentemente me dão o caracter d'um homem embriagado de
felicidade, são misturadas d'uma especie de nausea de mim proprio, d'um
vacuo de verdadeiros prazeres, e tal que, nestes ultimos mezes, tenho
desejado seguir um outro caminho por onde a verdadeira ventura me foge.
E quero perseguil-a. Realmente lhe digo que estou cansado d'este viver.
A sociedade despreza-me, e eu dou razão á sociedade. De certo lh'a não
dava, se eu me quizesse absolver dos meus desvarios. Aqui entre nós:
quem me perdeu foi meu pae. Se me tivesse negado os meios com que se
nutrem os vicios, eu não seria vicioso, ou, se o fosse, o trabalho, como
preço do vicio, ter-me-ia fatigado, ha muito. Olhe: se eu tivesse
nascido n'outro seculo, se é que todos os seculos não tem os mesmos
vicios, seria outro homem. V. ex.ª bem sabe que na sociedade não se
fazem santos. Eu vim por aqui dentro com os braços abertos para receber
todas as immoralidades, e vieram-me todas ao encontro, sem eu chamar
nenhuma.

--Naturalmente--atalhou a viscondessa, sorrindo--foi a filha do
merceeiro que o chamou...

--Isso não foi immoralidade, minha senhora; ou, se o foi, queixem-se
do peccado original, de que tanto me fallou aquelle pobre padre Joaquim,
que, em quanto a mim, foi o unico homem virtuoso que não recebeu a
herança da culpa de Adão, e morreu intacto como algumas virgens das que
se conhecem pelos necrologios. A filha do confeiteiro não soube o que
fez, e eu tambem não. A natureza exerceu sobre nós o seu immortal
despotismo, e foi preciso que os homens viessem desmanchar á pancada o
que ella fizera com beijos.

--Foi a natureza que lhe ensinou a botar a escada de corda ao segundo
andar?

--Nada, não, minha senhora. Foi meu pae.

--Como seu pae!?

--Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi
umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por
que já n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada
era o effeito d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a
importancia social da escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu
criado do quarto. Ora aqui tem com angelica sinceridade a historia da
escada de corda. Agora, pergunto eu: desarranjei eu a felicidade da
filha do merceeiro? Não a tem v. ex.ª visto no theatro, ao lado d'uma
especie de gallego com collarinhos em fórma de panno de falua? Esta
especie de gallego é marido d'ella, tem cem contos de reis em
inscripções, e não sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da
ordem de Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros
é responsavel a sociedade.

--Não diga a sociedade. V. ex.ª tem zombado de todos os deveres. Tem
reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz dó. Tem-se divorciado
de todas as pessoas de bem. Affronta a opinião publica apresentando-se
nos lugares mais frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina
que nem ao menos o salva de se degradar com ella em publico. Se me acha
ainda uma constante censora dos seus desatinos, é porque sei a historia
triste do seu nascimento, sympathisei com os infortunios de sua mãe, e
tomei sobre mim o inutil zêlo da honra de seu filho. Não tenho
conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas lagrimas me
tem custado este desvelo quasi maternal. Por vontade do visconde, já
v. ex.ª não entra n'esta casa. Reprehende-me todos os dias a
familiaridade com que o recebo, e é preciso que eu o traga illudido com
a esperança de que um dia será possivel a sua reforma de costumes.
Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Condôa-se de seu pae, que já não
tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu
amor. Veja que póde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa
mulher. Viva com seu pae. Convença pelo seu procedimento as pessoas, que
já não acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado
de que v. ex.ª deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de
envergonhar-se; outros de remorso, e outros de esperança. Não cerre os
ouvidos ao que a esperança lhe promette. Se o instincto do bem lhe
aconselha a virtude, obedeça-lhe, e verá como a vida lhe póde ainda ser
agradavel. Olhe que a virtude tem consolações incomparaveis com os
prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o que é o
mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e
recebo-os, quando elles são mais fortes, como desvios do errado caminho
em que entrei aos quinze annos. V. ex.ª não sabe que mulher lhe falla,
nem imagina o prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude não
fôra repellida d'esse coração que todo o mundo considera fechado para a
luz da honra.

--Fez-me impressão, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas
vezes, e nunca me feriu tanto. Eu não sei bem se o que me aconselha é
possivel... Creia que vou empregar os esforços. Se o não conseguir, é
porque não posso, é porque ha em mim um desgraçado condão de força
sobrenatural.

A conversação, n'este sentido, foi demorada.

..........................................................................

No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a
eximia dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispôr de tudo
que lhe fôra dado. O bilhete foi recebido de manhã, e á tarde o lugar de
Luiz da Cunha estava preenchido pelo primeiro oppositor á vacatura. Na
proxima noite de theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava,
requebrava-se do mesmo modo, com a notavel differença de que o seu
companheiro era um capitão de marinha ingleza, que accumulava ás
delicias de uma conquista de tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez
de vinho.

João da Cunha acreditou na regeneração do filho, quando o viu entrar
contrito em casa, tão diverso do que fôra, accusando-se por uma tristeza
silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras
brandas. Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu
triumpho, João da Cunha não lhe disse uma palavra de reprehensão. O
passado não veio nunca irritar o pae, nem envergonhar o filho.

Os incredulos riram da subita mudança do «mulato.» Os crentes no poder
maravilhoso da conversão explicavam o phenomeno por um toque
sobrenatural. Não faltou quem dissesse que a reforma do peccador fôra
obra d'um egresso varatojano que operára admiraveis conversões nas casas
onde almoçava e jantava. Não sabiam dizer ao certo se tambem convertêra
alguem nas casas onde dormia. Eu tambem não, supposto que acho muito
possivel o caso affirmativo.

O que sei de sciencia certa é que Luiz da Cunha não conhecia o dito
egresso melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu
latim, se tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces
fundados pela viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda não
tinha nada com a moral christã, pelo menos o atheo não sabia que a moral
de Jesus é o codigo por que se rege a honra sobre a terra, e se
conquista no ceo a eterna bem-aventurança, que não é exclusivo dos
pobres de espirito.

João da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde
de Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus
têl-a feito instrumento da sua vontade, para, com braços debeis,
arrancar do abysmo um filho, restituindo-o ao amor de seu pae.

Assucena não se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que não lhe
conhecêra o passado. Sabia, por meias revelações de sua mãe, que aquelle
homem desmerecêra no conceito do mundo, por causa do seu mau
procedimento. Os crimes, as infamias, as impudencias nem sua mãe lh'as
explicava, nem ella saberia comprehendêl-as. O que ella via era um
mancebo melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia,
fugindo d'ella se os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta
necessidade, e conversando com viveza, e muitas vezes, com sua mãe, como
se ella só lhe merecesse attenções. Andaria aqui um incentivo de vago
ciume? A manifestação inexprimivel d'um germen de sympathia? O
resentimento do desdem que Luiz da Cunha aparentava por ella?

Se vos digo que sim, não digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeço á
verdade.



IV.

CONTAGIO.


Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a
sciencia do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada
a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da
materia, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel
até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.

Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é
falsidade desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca
no raso estrado das propensões organicas.

Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de
visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo
tempo que ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem
e bebem á maneira dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.

Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo
amor como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno
eminentemente importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem
nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena,
porém, que eu não saiba o que é fluido para me dar aqui uns ares
pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, cousas que, de
certo, o não privavam de continuar a comer, e a dormir.

A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da
Cunha e Faro tinha uma cabeça incapaz de calcular as consequencias
d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, apodrecido
para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que o
amor lá insculpiu com maviosos traços.

Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e
familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe.
O sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a
ella mais sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua
mãe, com ella sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a
razão da grosseira indifferença com que Luiz era recebido.

Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho
de João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia
talvez, a sua filha a recepção de visitas.

Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de
sala, imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se
salva fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam
nunca descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.

Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do
seu acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de
Luiz da Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava
denunciando.

Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um
cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.

--Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras...--disse
Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais
facilmente, chegaria a um vasto assumpto.

--É verdade...--respondeu ella com mimo e tristeza--D'amanhã a quinze
dias...

--Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?

--Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...

--E ella não lhe faz a vontade?

--Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas meu padrasto, não
sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo
aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de incommodar minha boa mãe.

--O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio,
parece que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e
suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v.
ex.ª terá observado. Se encontro francas as portas d'esta casa, favor é
que devo á senhora viscondessa, minha amiga desde a infancia, mais que
minha mãe, porque uma mãe deixa muitas vezes perder um filho, e esta
nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste,
salvou-me.

--Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão,
de certo minha mãe lhe não daria mais estima...

--E porque me não faria Deus seu irmão?--atalhou Luiz com ar infantil, e
meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem
desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco
sobresahia á côr purpurina do pejo.

--Esta pergunta--proseguiu elle, com affectuosa tristeza--fez-lhe uma
impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta
não é das que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu
innocente desejo de ser seu irmão?

--Não me magoou...

--Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que
ainda lhe não disse uma só palavra indiscreta...

--Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu
senti... não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta,
por que...

--Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...

--Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito
bom que...

--Eu fosse seu irmão?

--É verdade...

--E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se
esconde...

--Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella
perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que
lhe disse com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas
mestras do collegio, por que não sei onde está o mal d'este desejo.

--Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de
manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?

--Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor
Luiz da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe
muito depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que
minha mãe tem razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.

--Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?

--Amigo... sim...--Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas
palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel
oscillação nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a
força expansiva do espirito com os estorvos compressores da educação.

--Pois então... sejamos--continuou elle--sejamos o mais que podêmos
ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não
responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a
responsabilise pela promessa? Tambem não serei capaz de mortifical-a, e,
se o fosse, não poderia chamar-me seu amigo. Quando aconteça que a minha
amizade lhe seja pezada...

--Pezada?!

--Sim; quando se dêem motivos fortes para que me esqueça...

--Que motivos?!

--Se lhe derem um marido...

Assucena levou instinctivamente o lenço aos labios, como para esconder o
rubor que lhe assomava.

N'este momento, entrou João da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate,
que destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu
o caso, que não tinha nada de mysterioso senão o facto de se acharem
sósinhos seu filho e a filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o
abalo prophetico d'alguma desgraça. A anciedade não lhe concedia
delongas. Como Assucena pediu licença para retirar-se, João da Cunha
perguntou ao filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para
o pae:

--Como venho encontrar-te sósinho com Assucena?

--Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha
encontral-a sósinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.

--Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um
namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem
sacrificado?

--Comprehendo, meu pae. E d'onde é que v. ex.ª deduz que eu namore
Assucena?

--Surprendi-a d'um modo que revelava emoções que não são as d'uma
singela conversação.

--Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como póde sêl-o
uma irmã.

--Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmãos
só os faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laços
fraternaes, é uma ficção. Os teus amores tem sido todos faceis,
d'aquelles que a seducção não precisa mascarar com um titulo impostor; e
por isso não sabes ainda prêver as consequencias d'esse improvisado
parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta que tu adoptas, e todas
ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando primeiro pela honra.

--Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo á
Providencia um novo coração.

--Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas é
preciso que meu filho saiba muitas cousas que não aprendeu na vertigem
da dissolução em que viveu onze annos. Quando o coração é nobre, tambem
ha paixões que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as
outras que começam pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o
amor que faz victimas, não é o infame privilegio dos homens pervertidos.
Os de nobre coração tambem deshonram, tambem pervertem, e fazem
victimas. O avarento póde viver uma longa existencia sem um remorso, sem
roubar o pão do seu semelhante, logo que elle alimente a sua sede de
ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de condecorações,
póde ter sido um barbaro nas batalhas, matando inermes, e incendiando
choupanas que encerram velhos e creanças. É um algôz condecorado, ao
qual Deus não pergunta o que fez de seu irmão; é uma consciencia
tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada está limpa de
sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por estrada
desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o trabalho;
o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura sanguinaria.
Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambições, que aspira tambem
ás glorias; mas glorias e ambições do coração, as que elle julga mais
innocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu principio, as que
por fim se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de coração,
e em tedio de si proprio, no declinar das forças physicas para a
sepultura das chimeras. Este homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos,
Luiz. O homem que se dá exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre
alcatifas de flôres, e resvala n'um abysmo. Principia, com o proposito
de ser honrado, um commercio de sensações brandas; e acaba enfastiado
d'ellas, ancioso d'outras que não depara. Depois, como indemnisação do
que perdeu, encontra o desprêso dos outros; como companhia das suas
horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do
charco, onde elle a lançou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como
refrigerio das sêdes que o calcinaram na mocidade, encontra na
velhice... um filho, que lhe encrava uma corôa de espinhos sobre o
stigma do crime com que a sociedade o manda á presença de Deus...

--Meu pae!--atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia.--Eu não sei
o que fiz para merecer-lhe admoestações tão sevéras!

--Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me
que o meu fim era uma cousa muito importante... Não dediques uma
affeição perigosa á filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que
possas fazer tua esposa, ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu
amor tem o contagio da morte...

Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal
fingida. Se quizesse ser verdadeira, diria que estivera no seu
quarto, saboreando, sósinha, uma felicidade que principiava por lagrimas.

..........................................................................

As confusas recriminações de João da Cunha não cahiram em coração
inerte. Luiz nunca respeitára tanto seu pae. Supposto lhe não
comprehendesse as comparações do ambicioso e do general com os affectos
do coração, achára uma dôr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso
n'essa condemnação a si proprio, n'essa tocante ideia d'uma corôa de
espinhos, cravada pelo filho, na fronte de seu pae, onde a sociedade
gravára o lema da deshonra.

Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da
ultima em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véo do coração de
Assucena.

A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o
incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de
sangue á cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas
repetidas sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites,
ao pé de seu pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as
doenças do pae eram indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um
cumprimento lhe era pezada.

--Que differença!--dizia D. Rosa a sua filha--Quem diria que Luiz da
Cunha passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração!
Á vista d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem
abandonado de todos! A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...

--Á miseria!--atalhou Assucena.

--Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que
não podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a
causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando
em malvadez. Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade.
Procura a unica que o recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra
irmãos mais perdidos que elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae,
minha filha, que o ultimo amigo do criminoso era o carrasco... Não
entendes esta linguagem, Assucena... Oxalá que nunca recordes
palavras de tua mãe, ditas como um desafogo a quem lh'as não entende...
Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem só para
desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente, és um anjo.

--Elle é ainda desgraçado?

--Póde ser feliz...

--Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?

--Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas
admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos
como quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi
queixar-se da sua má estrella, foi no dia em que te viu...

--Em que me viu!?...--atalhou Assucena, sem poder conter as palavras,
que vinham do coração sobresaltado.

--Porque me fazes esse reparo tão admirada?!

--Admirada... não!... É que...

--Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio
em todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu...
Amas Luiz da Cunha?

--Minha mãe!...--exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e
fazendo um aceno negativo.

--Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito
natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias.
Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa
fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe
apertar a mão em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem
affectos. Mas olha, Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais
deviam fallar a uma filha que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se
tivesses vivido cá fóra, não era necessario dizer-te que só ha uma
posição que te convém com Luiz da Cunha. Se não fôres sua esposa, que
poderás tu ser para elle?

--Sua irmã.

--Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?...
Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga.
Agora não sou tua mãe, visto que é de uma mãe que sua filha de
ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?

--Queria...

--Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda
de cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como
tu. Luiz da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de
seu pae, é pobre como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é
o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com
o trabalho ás suas precisões, é uma desgraça. Tu serias muito infeliz,
quando teu marido te dissesse «não temos pão.» Minha filha, eu já soube
o que é não ter pão. Já desfiz um meu vestido para que tu não andasses
nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu não tivesses fome. Já me
ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes
que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos
valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu privo-me
de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria Elisa...
porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das suas
paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...

--Não chore assim, minha mãe...

--Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença...
São mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma
confidente, e, se o não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir
sempre. Com meu marido, é necessario ser o que elle é... Comtigo posso
ser o que sou... Minha filha, tua mãe vai pedir-te um favor...

--Favor!... que quer, minha querida mãe?

--Esquece Luiz da Cunha.

--Esquecêl-o...

--Se não pódes esquecêl-o... resigna-te, não alimentes esperanças, não
lh'as dês a elle...

--Isso sim... isso posso fazêl-o... Quer minha mãe que eu me recolha já
hoje ao convento?

--Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...

--Mas eu não devo vêl-o mais...

--Porque não? Assim o amas?!

--Pensei que poderia vêl-o todos os dias. Não queria senão ser sua irmã.
Diz a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei
como hei de dizer-lhe que o não sou, porque elle ha de perguntar-me a
razão porque não sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de
responder-lhe.

--Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irmã?... Córas!... responde,
Assucena.

--Prometti...

--Quando?!

--Uma noite que a mãe sahiu, elle veio adiante do pae...

--Porque me não disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?

Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe
tremiam nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no
seio de sua mãe, que chorava com ella.

--Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?--disse a mãe com
a voz cortada, procurando vêr a face de Assucena.

--Não foram... Eu serei o que minha mãe quizer que eu seja; mas não sei
porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.

--Eu não te digo que o maltrates...

--Se elle me procurar, não lhe fallo.

--E porque não?

--Porque... seria peor... seria enganal-o, porque não posso esquecêl-o.

--Desde quando o amas, minha filha?

--Tinha eu dez annos, e elle dezesete...

--Oh filha!--interrompeu a mãe, sorrindo--isso não era amor!

--Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi,
depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de
minha mãe...

--E disseste-lh'o?

--Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razão não me
crimina d'este affecto de irmã...

--Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra razão, a da
experiencia, venha desmentir a que te falla hoje...

--Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei
tudo o que posso. Se é possivel esquecêl-o, empregarei todos os esforços
para isso. Diga-me a mãe quaes elles são.

--Terrivel pergunta!--disse a filha do arcediago, no fundo da sua
consciencia.

--Não me responde, minha mãe?

--Não o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto,
póde ser que Deus permitta um milagre.

--Esquecêl-o?

--Esquecêl-o, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da
Cunha?

--Não sei. Não temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle
me tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me
lembrar que é necessario um dote.

--E sem o consentimento de tua mãe?

--Minha mãe quer a minha felicidade...

--Confia-te a mim, Assucena... eu continúo a ser a tua amiga. Hei de
fallar hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.

O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta
aberta nas mãos.

--Rosa--disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos--lê essa
carta. É chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas.
Senão, eu t'as leio:


_«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está
uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa
mesada que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender
cincoenta mil reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula,
como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que
sua senhora lhe mandou ha um anno, dissipou-os em menos de tres mezes.
Não sei, ainda assim, como ella póde fazer tanto com cincoenta mil reis
mensaes. Disseram-me hoje que ella recebia outros cincoenta; não posso
colligir d'onde venham. Os meus respeitos &c. &c.»_


Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta
eram a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da
senhora Anna Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a,
soprando, limpando os oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da
mão esquerda.

--Que dizes tu a isto, Rosa?

--Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a
levar d'este mundo.

--Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a
maneira como?

--Diz, meu amigo.

--Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com
usura. Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o
diabo da asneira na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do
Porto. Sahiu da companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de
tudo, e uma mesada que sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e
andou de amante em amante, até que lhe déste cinco mil cruzados para
ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapuça!
Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta mil reis, e outros
cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te ralho Rosa: o
mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o desfalque da
nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma
libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a
entrar n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de
dizer-se que o meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e
vadias. Não estou por isso.

--Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não
suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.

--Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que
não tem nada de seu?

--Qual rapariga? minha filha?

--Pois quem?

--É a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de attenção.
Tenho pensado no futuro d'esta menina.

--Pois já não queres mettêl-a no convento?

--Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo:
tu dás um dote a minha filha?

--É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já
respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar
com grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote
não serve senão a algum amanuense de tabellião. Pediu-t'a alguem em
casamento?

--Não; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...

--Com quem?

--Com Luiz da Cunha.

--Estás tôla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle
valha hoje mais do que valia ha tres mezes?!

--Acredito: não tem nada do antigo homem.

--Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal
casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda
por casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo!
Já não tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos
cruzados que me deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo
de divida que o extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem
juizo, Rosa. Não te deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com
ares de convertido, tudo aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a
razão de tal mudança. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com
a tal dissoluta que levava ao theatro, ou com outra que tal; e a mulher,
qualquer dia vinha, com dous ponta-pés, pedir-te que lhe désses um
bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e cáes em cada alhada,
que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está namorada com o
senhor Luizinho?!

--Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta
muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos
entendidos. Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?

--Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis
moedas por mez, e uma creada de cozinha, e outra do quarto. Se é
necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está aberto o
cofre.

--Não é preciso mais nada, meu amigo.

--Poucos padrastos fazem outro tanto...

--Tens razão, José.

--E quando lhe appareça um digno marido, não terei duvida em lhe dar um
dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?

--Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem
de minha filha é uma esmola de caridade.

O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa
Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.

Antes de annunciar-lhe o que se passára, tinha dito com as lagrimas o
mais que poderia dizer-se.

Assucena, beijando-a meigamente, dizia:

--Adivinho tudo, minha querida mãe. Não se afflija, que eu para ser
feliz, não preciso do dinheiro de meu padrasto.

--Precisas... precisas...--respondia a mãe, abraçando-a com frenetica
ternura.



V.

UM ANJO CAHIDO.


Luiz da Cunha era estranho ás apressadas solicitudes da viscondessa de
Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedíra, nem mesmo
significára a alguem intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço
punha para vencer as difficuldades do casamento, quando se déssem.
Votado inteiramente a velar a convalescença de seu pae, as saudades de
Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e pouco; mas não tanto que elle não
esperasse com impaciencia, todos os dias, noticias indirectas de sua
«irmã.»

Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe
resuscitára nas ruinas do coração, era um sentimento de fantasia, um
impotente esforço da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada
de revezes na alma, de ignominias que entram como habito nas propensões
do homem, que se crê irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de
boamente a conversão religiosa como consequencia do remorso como temor
de Deus; mas negue-se a reforma do espirito em cousas do amor, em
nobreza de affectos, em dedicações fervorosas. É impossivel essa
reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais desabrocha no
tremedal a flôr dos perfumes ideaes, que, só no ar puro de um coração
juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.

O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena.
Um sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixões
impetuosas, entrava cansado no amor tranquillo para o qual é necessaria
muita alma. Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se,
mais céga do que se imaginava, á paixão impetuosa.

Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos,
não se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando.
Aprenderia, desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem
que se namora por entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de
lisonjas, qual d'ellas mais impostora, perderia depressa a memoria dos
differentes thuribularios, e, ao sentir no coração impressos os traços
de uma imagem, outra imagem viria desfazêl-os depois. O amor repartido é
o amor sem consequencias perigosas. A razão conserva sempre o seu
dominio. A luta com tres é-lhe menos difficil que a de um só; e a
donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe experimentada, leva
a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta annos não tem.
Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida êrma, no perfume
innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e
extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspiração sem condições.

Tal fôra Assucena.

As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressiona-la de passagem;
mas o amor, que vencêra o pejo, que se formára em si, e de tal força que
nem os desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os
mesquinhos estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das
algibeiras d'um padrasto.

Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou
regularmente as suas visitas á viscondessa. O trato grosseiro do
visconde era cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa
desmerecêra um pouco; e as maneiras de Assucena pareciam-lhe, em
compensação, mais ternas, mais meigas e insinuantes do que o tinham sido
antes da sua declaração.

E, certo, eram.

Assucena despediu-se de João da Cunha na vespera da sua entrada nas
commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi vã para
esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras
balbuciantes denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da
Cunha que a não imaginava tão fragil á tentação do filho.

A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o
desejo que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se
fizera depois da emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa
pergunta que o fazia procurar a resposta no amor de Assucena.

E sabem, leitores, quanto duram estas illusões em homem que deu da sua
alma tudo quanto podia ás puras ou ás impuras paixões? É devaneio d'um
dia: accesso febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso
rejuvenescer de algumas horas.

«Se eu podésse lutar com as difficuldades d'uma affeição despresada!...
Se houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois
de captivo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu
sentisse aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor proprio!»

Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o
encontram.

Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontanea e
descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella,
se a ultima scintilla de piedade generosa se apagou no coração do seu
verdugo amado. E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.

O amor angelico de Assucena fôra outra vez recebido por Luiz da Cunha,
esquecido já das primeiras emoções.

A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que
se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os
conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras,
illustres em nascimento, e até illustradas no espirito, olhavam as
cousas d'este mundo, pouco mais ou menos, como ellas são. Menina de
dezoito annos, melancolica, soffre de amor: entenderam as mais
penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infallivel a
pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do coração
applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca
deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.

O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse no lucutorio
quem quer que fosse, que se não deixasse possuir d'uma heroica
abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua mais presada
amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove na
sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de
seu primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.

Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima,
nem entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar
que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao
convento.

A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida
intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher
devia ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um
côro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de
realçal-a mais no baile, ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os
estatutos de todos os patriarchas, que apadroaram conventos.

Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi
diarias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava
era Assucena.

A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha,
despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo
procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima
prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina
sahiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os
melindres d'um amor contrariado, não fallava de proposito em Luiz da
Cunha, nem consentia que sua filha de proposito lhe fallasse n'elle.

O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos
_escandalosos_ amores da sua enteada, protegidos pela _escandalosa_
secular Leonor Machado.

José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que
recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro
de Assucena, impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha
intelligencias com Luiz da Cunha.

Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio, se
promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava. Era tarde para ella,
e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor,
e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por astucia, faria as
delicias da sua vida.

Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O
visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as
cartas que recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um
pouco parecido com o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de
costumes não consistia na renuncia completa dos mais innocentes prazeres
do espirito. Como não fallou em materia, o caso não era tão pavoroso
como o afiguravam os timidos informadores do padrasto.

Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua
das Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se,
portanto, as hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe
as mesadas. Luiz da Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu
estupido padrasto a desamparasse.

E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente
humilde, não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua
alma.

A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então,
exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.

Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia,
correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli,
a pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a
longos sôrvos o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia
preparado em estudadas palavras de esperança.

Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?

Muito communs, e muito infames.

Luiz da Cunha, invocando o seu _eu_ d'outros tempos, encontrou-o.
Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada
extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e
exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos
resultados.

O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do
vinculo viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe
cuidado. Os poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas
enormes, contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de
Ricarda foram desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da
Cunha, segundo o pensar dos medicos, não resistiria a um dos ataques
cerebraes que repetidas vezes o ameaçavam com a morte, annunciando-se
por uma sombria tristeza, e desordem de ideias, á maneira d'aquella em
que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso
de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. Precisava
enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso
esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.

Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde,
quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de
sua mulher. Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a,
forçar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.

O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se
maquinalmente á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe
fazer sentir que o visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do
Minho, em Bairão. Era necessario apressar o desfecho. Leonor Machado
abundava nas ideias do seu primo, e prometteu coadjuvar Assucena na
fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da cêrca, sobre
que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelão, que devia
abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a timida menina a descer uma
escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos braços murmurando o
vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe merecia, e
entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com Liberata.
Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?

Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda,
a precipitação d'um anjo em cada dia!?

Homem, que crês na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:

Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dará a
consciencia do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe
presta? A contrição? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...

Valha-nos Deus!...........................................................

..........................................................................



VI.

ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.


A fuga de Assucena não admittia conjecturas. As commendadeiras
explicaram-na com admiravel promptidão, menos Leonor Machado que, no
auge do seu pasmo, não atinava com a causa de semelhante resolução, nem
podia comprehender por onde ella fugira! Ingenua creatura!

A noticia foi depressa á viscondessa de Bacellar. A pobre mãe desmaiou
sem lêr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe
escrevêra. O visconde, encontrando-a desfallecida, lêra tambem a carta,
e passados os segundos da surpreza, déra-lhe para rir com estupida
imbecillidade.

Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para
contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo
de José Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na
esquerda, exclamando, entre frouxos de riso:

--Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a
innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora
innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és
esperta! Os espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga,
Rosa! Ora beija as mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do
olho! Isto havia de acontecer tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com
tua filha, e com o mulato; por alguma cousa era.

--Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas.
Tem piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de
gargalhadas, chorarias...

--Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente
ao diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse
pae--accrescentou o assassino do mestre de latim, morto a garfo--não
descançava em quanto os não arrebentasse a ambos. Como não sou, não
tenho nem quero ter direito algum sobre tal mulher. Lá se avenha.

--Lá se avenha!--exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços
supplicantes--Lá se avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha,
é filha de tua mulher... sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa
desgraçada!... Por compaixão, meu amigo, por compaixão não a abandonemos!

--Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?

--Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...

--Pois que queres?

--Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case
immediatamente com ella.

--E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com
o prior.

--Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José...
Finges que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois
sim.... eu te farei a vontade.

--Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?

--Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...

--Fallarei. Não queres mais nada?

--E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...

--Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...

--Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim;
mas são ambos pobres, bem sabes que João da Cunha deve tudo que
poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.

--Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o
filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das
senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a
minha fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu
recebêl-a em casa...

--Deshonrada, infamada, perdida...

--Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse
desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica
senhora que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem
sabes que os tenho desde que estudei latim na travessa do Laranjal...
Sei, ha muito, o que é ter nobreza d'alma. Assucena não é minha filha;
mas que me appareça esse vil seductor, e verá quantos dentes lhe ficam
na bôca.

O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflicção da parte da infeliz mãe,
e um immutavel proposito da parte do padrasto.

João da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do
visconde.

Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que
lhe subiu á cabeça em borbotões. O mal aggravou-se na presença de Rosa,
que lhe viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluçando palavras
inarticuladas. O visconde, impassivel, encarava João da Cunha com
sobrecenho.

--Tem um excellente filho, senhor Cunha!--disse José Bento, balançando
a cabeça com pungente ironia, e solfando no pavimento com o pé direito.

--Tenho um desgraçado filho, senhor visconde!--murmurou João da Cunha,
cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na
mão ardente como ella.

--Eis-ahi continuou o inexoravel credor--o que é um fraco pae, que
deixou crescer seu filho á lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!

--Não me despedace, visconde! Respeite a minha dôr!--murmurou o
atormentado pae, erguendo as mãos na indescriptivel ancia da sua
vergonha.

--E quem é que respeita a dôr d'essa mãe, que está ahi chorando ao pé
de si?

--Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos
chorando....

--Agora!... Remedeiam alguma cousa?

--Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.

--De que maneira?--exclamou a viscondessa.

--Esse desgraçado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia,
que eu não posso.

--Nem eu!--disse bruscamente o visconde--que me importa a mim a carta de
seu filho? Não tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.

--Eu leio...--disse Rosa tomando a carta com soffreguidão.

Lendo-a, fechou-a, e disse a João da Cunha:

--É impossivel.

--Impossivel!

--Meu marido não dota Assucena, e, portanto... minha filha... está perdida!

--Perdida? não!--atalhou João da Cunha--Em minha casa ha umas sôpas; e,
em quanto eu viver, meu filho aprenderá o officio de sapateiro para não
morrer de fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola
para o futuro de Assucena; não venho pedir o preço da reparação da sua
honra. É preciso que me entenda, senhor visconde. Meu filho é neto dos
Cunhas e Faros. Não mercadeja com a deshonra das suas amantes; não
calculava com as suas migalhas quando arrancou a filha d'esta senhora
aos braços da virtude...

João da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em
desalinhada precipitação, denunciava o ataque periodico de sangue, que
se lhe injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de
suor. Nem o visconde o entendia já, nem elle mesmo seguia com
consciencia o curso arrebatado dos pensamentos, quando de improviso
levou as mãos á cabeça, exclamando:

--Senhora viscondessa, se não sou sangrado já, morro, ou endoudeço!

O visconde condoêra-se. Deu ordens prestes, e o facultativo veio
rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco sensiveis as melhoras.
João da Cunha estava febril, e fallava em delirio. Sacudindo os braços
vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o espectro de Ricarda.

Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o
delirio. As afflicções agglomeravam-se no coração de Rosa, em quanto seu
marido curava serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado
de uma operação arithmetica, em seu prejuizo.

A crise de vida ou morte passára; mas os medicos disseram que João da
Cunha não recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez
por nunca mais. Era o decimo ataque que soffria.

Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local
do palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da
carruagem, nos braços de dous medicos o pae de seu amo. Approximára-se,
para ser reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os
lacaios afiançaram-lhe a demencia do fidalgo.

Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.

N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae.
Apertou-lhe a mão, chamou-o tres vezes inutilmente, e, á quarta, ouviu
as seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:

--Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa
menina. Que venha para esta casa, com sua mulher, que será minha filha.
Que aproveite os poucos annos da minha vida para se formar em
mathematica, e assentar praça depois, que foi essa a mais esplendida
carreira de seus avós, valentes generaes, quasi todos mortos no campo da
honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em quanto elle vai estudar, sua mulher
poderá mover á piedade o padrasto, e levantar do chão alguma esmola que
elle lhe atire como um osso a um cão importuno. Se lh'a não dér, nem por
isso será menos filha de João da Cunha; porque mais vale ser filha de
João da Cunha, que enteada do filho d'um retrozeiro do Porto. Que venham
ambos vêr-me.

--Eu estou aqui, meu pae.

--E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...--continuou elle,
surdo ás interrupções incessantes de Luiz--Foi lá que me atirei a este
fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição. Não se segue
do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de Ricarda, não
fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na presença de
Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse não...

Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta
do visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do
Principe. Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta
Assucena, que chorava e tremia.

--Porque choras?

--Estava sósinha, e muito triste, Luiz...

--A tua criada não te fez companhia?

--Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem
tremo... Que resposta deu minha mãe?

--Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do
que elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o
visconde não lhe respondeu do modo que suppúnhamos.

--E então?

--E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo
por calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.

--Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a
minha...--disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.

--De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo.
Rica ou pobre serás minha esposa.

O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha
diz-nos que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se,
manifestar um enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter
experimentado, a subita mudança que transforma o homem, quando a posse
absoluta da mulher, que se lhe dá, é logo misturada de desgostos
imprevistos. Um rapto, de que se espera um dote, é um pêso aborrecido
quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços do raptor uma
mulher sem illusão, nem prestigio. E, peor ainda, quando o amor é
debil, o coração extenuado não aceita os sacrificios grandes, que, raras
vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era aquelle de Luiz da Cunha.

Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de
convivencia com a filha de Rosa Guilhermina?

Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o
escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta
reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem
era um attributo bem facil n'uma mulher!

Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu
amante. A nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não
podia esconder, traduziu-os ella como inquietação pela perigosa
enfermidade de João da Cunha.

Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos
intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.

Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi
ter ás mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:

«_Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da
Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia
que me não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os
patifes. O que lhe vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha...
De hoje em diante, os seus portadores a esta casa serão corridos a
chicote._»


Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça
era feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado
no filho de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae.
N'essa noite não veio á rua do Principe, e mandou um bilhete
desculpando-se com a gravidade da doença de seu pae. Assucena viu a sua
desgraça a um raio de razão n'esse bilhete. Eram apenas decorridos vinte
dias, depois da sua fuga! Chorou uma noite inteira, e escreveu a sua mãe
uma longa carta, que rasgou.

Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de
Bacellar que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a
praça commercial.

Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e
o visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.

O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes
conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira
eram os braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do
visconde, Luiz recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia
sobre o vergão da primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo,
se não encontrassem de frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os
grupos de gladiadores; e o povo, sem ser romano, parecia, pela sua
inercia, gosar o espectaculo curioso entre os dous athletas.

O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de
policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força.
O capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre
bayonetas. Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi
ao Limoeiro, d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo
isto foi ridiculo a não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com
uma anecdota. A fuga de Assucena era acontecimento que não passára d'uma
roda muito restricta; e, portanto, era livre a invenção aos interpretes
do pugilato.

Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam
entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que
receios, que saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a
pobre menina! Fechada no seu quarto, rejeitára o alimento que a
indifferente criada lhe offerecia. A sua dôr tinha frenesis, que a
extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era baldado, quando a
esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam no
primeiro ou no segundo andar.

Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro
fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.

Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em rua o caminho do
Campo Grande. Á porta de João da Cunha estava um criado. Pediu-lhe que
chamasse o senhor Luiz da Cunha; responderam-lhe que não estava lá, e
que o mais certo lugar onde o encontraria era no Limoeiro.

--Prêso!--exclamou Assucena.

--Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas
patacoadas. Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir
brevemente.

--E porque o prenderam?--perguntou a criada.

--Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem
não quer a cousa.

Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em
calefrios á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe
que não perguntasse mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem
um queixume, parando exhausta de forças a cada instante, a grande
distancia que a separava da rua do Principe. Entrando no seu quarto,
cahira de face sobre o leito, não para repousar, mas para reprimir os
gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.

E ouviram-se.

Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama,
que lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras,
porque a vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite
de Janeiro era tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de
Bacellar tiritava de frio, de susto, e até de terror de si mesma.
Sentava-se sobre a cama, lançando sobre os hombros o cobertor. Fitava o
ouvido a cada tropel remoto de passos. Desenganada, ajoelhava com as
mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida até que a luz do dia lhe
deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um d'esses soffrimentos em
que se julga possivel a morte instantanea.

Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o
quarto illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a
fechar a janella, quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr
immensa só tinha expansão nos gemidos. Lançou-se sobre o leito sem
reflectir que a escutavam, invocando Maria Santissima, pedindo
compaixão a sua mãe, chamando Luiz com alarido de demente, e soluçando
de modo que, a distancia, simulava uma mulher que se contorce entre os
braços que a matam pela asphixia.

No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de
velas, e rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava
ao pé do de seu irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto,
cujo tecto era o pavimento do de Assucena.

Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da
janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.

Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou
o ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos
da mysteriosa menina que alli morava.

--Vamos nós lá, Bernabé?--disse ella quando seu irmão lhe pedia o
capote, e a mandava sahir do quarto para elle se vestir.

Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a
senhora D. Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.

Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo,
foi apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz
da Cunha. Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um
pouco funebre de Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre
a cabeça, franjada na testa por cabellos brancos. A figura magra,
macillenta e cadaverica do velho, não era menos assustadora, vista ao
clarão da vela que lhe betava de sombras as rugas profundas do rosto.

--Não se assuste, visinha--disse o conego, entrando--nós somos os
moradores do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos cá em cima,
viemos em soccorro, se é que podemos servir de algum bem á pessoa que
nos cortou o coração com os seus gemidos.

--Era talvez mêdo dos trovões...--accrescentou D. Perpetua, dando tambem
um passo para dentro da porta.

--A menina estava ás escuras?--tornou o conego.

--Sim, senhor.

--E não tem criada?--disse a irmã.

--A criada está a dormir.

--Quer a menina vir comnosco para a nossa casa até ser dia?--disse o
conego.

--Vou... se me concedem esse favor--respondeu sem titubear Assucena.

--Pois então, menina--atalhou Perpetua--cubra o meu chaile, ou vá buscar
o seu, que está muito frio na escada.

--Eu não posso ter mais frio...--disse a filha da viscondessa.

--Nem mais febre--tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular
carinho--Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua,
que eu fecho a porta.

Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e
deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu
irmão. Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar,
Bernabé veio, melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As
lagrimas de Assucena eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas
não conhecia a dôr. O conego, fixando alguns minutos em silencio o
semblante da pobre menina, fez a sua irmã um gesto significativo, tomou
com paternal ternura as mãos abrazadas de Assucena, e perguntou-lhe:

--Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos
ser uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua
respirando pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que
tem: falla com um padre, que é seu pae espiritual.



VII.

PERDIDO SEM REDEMPÇÃO


Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do
bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de
cabeça á rasgada cortezia que ella lhe fizera.

A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da
Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem
reparar na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a
um dos soldados, que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra
prêso aquelle sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que
podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno serviço do informador, e
pediu-lhe que subisse á sala da administração, e dissesse ao ouvido do
prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege, lhe mandava
offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se com
isso era possivel a sua immediata soltura.

O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de
diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com
fiança, e não estava presente ninguem que o afiançasse.

Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope,
correu algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior
d'uma secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A
protectora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do Paço, e
fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de
ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao
official-maior o seu _porte-monnaie_. O conselheiro veio rapidamente á
portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e
partiu para a administração do bairro.

Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz
criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o
Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz
aceitou respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais
depressa que se lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma
carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que
não aceitasse fiança, paliando quanto podésse a soltura
inconvenientissima de Luiz da Cunha, que ameaçava a existencia do
visconde de Bacellar.

Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia,
procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e
contou-lhe rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com
aviltante submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido
por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe,
sorrindo, se melhorára de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da
Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que
vivêra com ella. Liberata disse que tambem as tinha, e deu como prova
não ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois d'elle, porque não
encontrára rapaz tão perfeito, nem tão despreoccupado das asneiras
sociaes, como Luiz da Cunha.

Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a
ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse,
Liberata impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem
viesse, e elle quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a
procurasse na rua de S. Bento, n.º 46.

Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida
meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a
esquerda no chapéo de Luiz o _porte-monnaie_. Sahiu.

Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer
todos os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára
o juiz, e, taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da
Cunha foi solto, e o conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos
serviços, que ella pagou com um beijo.

Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma
sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?

Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação
de seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida
de parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do
Alecrim. Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a
casa n.º 46; cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava
um pequeno oculo de theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae
estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passára peor,
depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batêra no visconde de
Bacellar. Não apeou para lhe não irritar os padecimentos. Veio para o
theatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as
costas, se elle os encarava de frente. Achou-se sósinho no salão, e
sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia noite, despediu o
boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S. Bento até
á casa n.º 46.

Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira
existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e
mau gosto não invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um
brazileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de
porcellanas, de relogios, de cães e patos de vidro, de conchas
variegadas, de ricas encadernações em marroquim de livros nunca abertos,
de globos de luzente cobre, de coxins amarellos e vermelhos.

A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano,
antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza,
tinha sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que
despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua
amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul
despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou
a seu pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.

O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de
Liberata com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus
caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambição.

Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não
era nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como
era dever que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos
limites d'uma fiel amante.

--Achas que estou muito rica?--disse Liberata, puxando-lhe com meiguice
uma orelha.

--As apparencias são d'isso...

--Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?

--Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me
separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma época de demencia,
que me dura ha quatro mezes.

--Que tens tu feito ha quatro mezes?

--Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppôr á natureza, fazendo-me
pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz
quando a minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!

--Com que então _eu e os teus cavallos_! O diacho da mistura não é nada
amavel! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...

--Qual conselheiro?

--O actual... não sabes quem ficou por teu fiador?

--Pois o conselheiro é o teu amante?

--Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do
visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. Já
casaste?

--Não, nem caso.

--Nem casas? então, tenho mais uma companheira...

Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a
Assucena, que n'este momento se lhe afigurou de joelhos, pedindo a
Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio instantaneo de sol em
ceo revolto de nuvens escuras.

--Diz-me cá, Luizinho--continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito
sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello--queres
ser outra vez meu?

--É impossivel.

--Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...

--Não é por isso.

--Pois então?

--Não tenho dinheiro... Aquelle manancial das joias de minha mãe
esgotou-se; meu pae está doudo, e não me conhece...

--E é por isso que querias casar com a filha do visconde?

--Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe
dar como amante, e muito menos como mulher.

--Queres tu uma cousa? Não digas a ninguem que és meu amante, e não se
te dê que o conselheiro o seja. Queres?

--Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sahir já
já de Portugal.

--Porque?

--Quero vêr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na
Africa ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.

--És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que
nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe ha de recebêl-a, se a não
quizer vêr onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu
mettes-te em casa de teu pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para
a tua Liberata. Em quanto eu tiver um annel, tens tu um casaco, em se
acabando, fizemos trinta annos á justa. Has de crêr que sou tua amiga
apesar das tuas ingratidões? Deu-me para aqui! Sympathisei comtigo, e se
fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada de tristezas. Vamos cear,
que já ouvi a campainha tres vezes. Inda cá tenho os criados que me
déste, e não são capazes de dar um pio. Quando souberam que tu cá
vinhas hoje, até dançaram a gôta... Tu ficas sendo de hoje em diante o
dono d'esta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo, sim?

Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a
cintura, e entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes
variegados, pequena parte d'uma soberba copa. A cêa era servida por um
criado, de gravata e collête branco. Luiz respondeu com um abraço
familiar á cortezia affectuosa do seu antigo escudeiro de quarto.

O _et cetera_ é a palavra latina que eu conheço mais util nos usos
sociaes. Com um _et cetera_, ou dous, fica historiada esta noite; mas
ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte,
quando se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço,
recolheu-se ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:


                                                          «_Assucena._

«_Não te verei mais. Os obstaculos ao nosso casamento são invenciveis.
Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sahir de Portugal.
Escreve a tua mãe, e diz-lhe onde moras para que ella te procure, e te
receba em sua casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos
meus projectos, tornarei a Portugal, e serás então minha esposa, assim
como eu o serei teu, toda a vida, pelo coração. Demoro-me escondido em
Lisboa alguns dias; mas, por evitar mais amarguras, antes quero não
tornar a vêr-te. Lembra-te que eu sou muito infeliz para te resignares
na tua infelicidade._

                                                      «LUIZ DA CUNHA.»


O portador voltou, dizendo que a carta fôra recebida por um velho, que
tinha geitos de padre.

--Quem será este padre?!--dizia Luiz da Cunha a Liberata.



VIII.

PROVIDENCIA OU ACASO?


Assucena contára com pueril ingenuidade a sua vida ao conego Bernabé
Trigoso, e a sua irmã. Não lhe occultou o seu nascimento, nem as menores
circumstancias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o
conego, ao ouvir tal nome, exclamára de modo que não queria ser ouvido:

--Santo Deus!

A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia á sua
predilecta Senhora das Dôres que permittisse a reparação da falta de
Assucena. O conego, crente no remedio do ceo, mas intelligente bastante
para se não abandonar inerte ás operações invisiveis da Providencia,
prometteu á sua hospeda empregar todos os meios possiveis para destruir
os obstaculos ao seu casamento.

--Mas--accrescentou elle--eu não creio que o senhor Luiz da Cunha
recompense o amor que a menina lhe tem.

--Porque? Pelo amor de Deus diga-me porque...

--Porque não acho muito proprio de um amante o silencio de quarenta e
oito horas, sem lhe dar por escripto, ao menos, certeza de que vive.

--Se elle está prêso!

--Mas os prêsos não estão privados de escrever.

--Estará doente...

--Estará... não aventemos explicações, menina. O tempo nos dirá tudo.
Logo que seja dia, eu vou informar-me do que é feito do senhor Luiz
da Cunha. Agora vá descançar um bocadinho no quarto de minha irmã. São
quatro horas. Tenha esperanças em Deus, que é pae, e em mim que hei de
ser para a menina o que seria para uma filha.

Quando foram horas de se abrirem os tribunaes, Bernabé Trigoso colheu
informações de Luiz da Cunha. Soube que elle na vespera fôra solto,
afiançado pelo conselheiro Costa e Almeida. Nenhumas outras informações,
além das que lhe deu o carcereiro de uma visita, á cadêa, de certa
senhora ricamente vestida, que viera em sege sua.

Recolhendo a casa, sua irmã disse-lhe que Assucena adormecêra momentos
antes, e era peccado acordal-a d'aquelle dormir, que parecia sereno como
o de um anjo.

--Creio que a infeliz--disse elle--deve perder a esperança em tal homem.
Eu por mim, julguei-a perdida desde que ouvi pronunciar tal nome.

--Pois quem é elle?

--É um flagello da humanidade... É um homem que tem dado brado com os
seus escandalos. Não te recordas das historias que nos contava o padre
Joaquim?

--O capellão de João da Cunha?

--Que é pae de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras cahiu
a pobre pomba. Desgraçada menina! É preciso preparal-a para o desengano...

--Quem sabe o que Deus fará?

--Eu não sei o que Deus fará; mas sei o que os homens são capazes de
fazer. Não abandonemos esta victima do erro. Desculpemol-a, que tem o
seu perdão na innocencia com que nos contou a sua vida. Se esse homem a
procurar, achal-a-ha em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa
casa será o abrigo de Assucena.

A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um
portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O conego mandou
descer o portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu
que era do senhor Luiz da Cunha, e não tinha resposta. Redarguiu
Bernabé, inquirindo a residencia do senhor Luiz da Cunha: o moço
respondeu que não tinha ordem de a dizer.

As suspeitas do conego fortaleceram-se. Esta carta era uma despedida
na sua opinião. Reflectiu se devia entregar-lh'a, ou lêl-a. Perpetua
animou-o a abril-a, visto que a intenção era evitar algum desgosto
mortal á infeliz menina. O conego leu a carta; e ficou satisfeito da sua
temeridade.

--Não se lhe mostra esta infame carta--disse elle.

--Era capaz de morrer a desgraçadinha!--accrescentou a irmã.--Mas que
lhe dirás, se ella te pedir noticias d'esse mau homem?!

--Digo-lhe... eu sei cá o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se
resigne... e pedirei a Deus que lhe dê coragem para o desengano...
Veremos... Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras d'elle, que a
matariam, se ella as lêsse todas...

Assucena tossira. D. Perpetua foi pé ante pé escutar. Ouviu-a soluçar.
Abriu a porta, e uma fresta da janella. Encontrou-a de joelhos aos pés
do leito. Abraçou-se a ella com os olhos humidos das lagrimas, que lhe
arrancára seu irmão com as suas, lendo a carta.

--Sabe-se alguma cousa?--exclamou Assucena.

--Vamos lá dentro fallar com meu irmão, minha filha. Elle já veio, e
alguma cousa lhe dirá.

--Pois, sim, vamos...--disse, correndo impetuosamente meio vestida.

Entrando na salêta em que o conego almoçava, D. Perpetua fêl-a sentar ao
pé da cadeira de seu irmão, em quanto lhe apertava com os ganchos o
cabello em desalinho. Bernabé, risonho e com ares de quem vai dar uma
boa nova, deu-lhe a sua chavena de chá, escolheu-lhe a torrada mais
appetitosa, e os biscoutos mais torrados. Assucena queria rejeitar; mas
o conego teimou com brando afago, e conseguiu que ella sorrisse á
pertinacia d'um papagaio que, por força, queria participar das sôpas de
seu amo na mesma chicara.

Findo o almoço, o conego, por um gesto, fez sahir sua irmã. Assucena não
despregava os olhos dos labios d'elle, e achava insoffrivel a demora das
informações que lhe promettêra.

--Está anciosa pela resposta, minha menina?

--Estou... Fallou-lhe? Viu-o?

--Não o vi, nem lhe fallei.

--Meu Deus!... então?

--Vi uma carta d'elle, escripta a um seu amigo, que me procurou já hoje...

--Para que?

Bernabé Trigoso não pensára maduramente nas respostas, e luctava com as
difficuldades do improviso.

--Para que?... Não se apresse, minha filha. Quero primeiro convencêl-a
de que tem Deus a seu favor. Assucena não é tão infeliz como se imaginava.

--Pois diga, senhor, diga tudo o que sabe... Elle vem?

--Ha de vir, mas por em quanto não. Ora diga-me qual queria, vêl-o
perseguido por seu padrasto, ou salvo da perseguição longe de si?

--Antes longe de mim; mas eu irei viver com elle no fim do mundo.

--Isso é que é impossivel...

Assucena estava côr da cêra. As lagrimas estancaram-se-lhe; e as
palpebras penderam-lhe amortecidas. Já não ouvia as palavras do conego,
depois do _impossivel_. Quizera em vão suster a cabeça no braço tremulo.
Cada vez mais coada, até os labios se fizeram brancos. Um ai,
desentranhado do coração, foi seguido d'um vágado; o padre recebeu-a nos
braços, e chamou sua irmã, para ajudal-o a leval-a á cama.

--Este acontecimento não se evitava--disse o conego.

--Ella sabe tudo?

--O mais necessario. Agora resta imaginar a convalescença que é onde
está o maior perigo. Se eu podésse fallar á mãe d'esta menina...

--Querias entregar-lh'a?

--Não; hoje o meu maior prazer era restituir a felicidade a esta
senhora. Queria salval-a com a presença da mãe.

--Poderá ser peor...

--Não é. O remedio d'este mal são as torrentes de lagrimas, e essas só
ella as póde verter com fructo no seio de sua mãe... Perpetua, não te
separes d'ella; falla-lhe em sua mãe, e dize-lhe que sahi para bem seu.

Bernabé Trigoso, quando entrou no páteo do visconde de Bacellar,
perguntaram-lhe se era o padre que vinha confessar a senhora
viscondessa. Respondeu que não era o confessor da senhora viscondessa,
mas era um conego da patriarchal que precisava fallar com s. exc.ª

Conduziram-no ao quarto d'ella. Rosa Guilhermina estava de cama, com
dous medicos á cabeceira, que retiraram, quando o conego entrou. Um dos
medicos, quando se retirava, abraçára o conego, e disse á viscondessa:
«Eis-aqui o ultimo homem dos tempos de virtude. Estimo bem vêl-o á
cabeceira do seu leito, senhora viscondessa!» E ficaram sós.

--Não tenho o gosto de conhecêl-o...--murmurou ella com a voz enfraquecida.

--Não importava conhecer-me antes d'este momento. De certo, eu não
poderia evitar os desgostos por que v. exc.ª está passando...

--Terminarão brevemente... Estou quasi morta.

--Não morrerá. Deus não nos dá a vida como um instrumento, partido no
primeiro estorvo, que nos embaraça uma suave carreira. Viemos para
trabalhos, senhora viscondessa; e o mais soffredor é o mais benemerito
aos olhos do Altissimo. Venho fallar-lhe de sua filha.

--Sim?... Oh! foi Deus que o mandou!.. Onde está minha filha?

--Na companhia de uma senhora que é minha irmã, e na minha companhia,
que sou um padre.

--Pois esse homem...

--Quer-me fallar de Luiz da Cunha?

--Sim...

--Esse homem abandonou-a.

--Já!... sem a salvar da deshonra!

--O que nós queremos é salval-a da morte.

--É mais feliz se morrer! Levai-a meu Deus, levai-a para vós!

--Deus não se aconselha, senhora viscondessa. Ella vive, porque Deus o
quer. Confiou-m'a, e eu quero encaminhal-a de modo que Deus a chame,
quando a gloria do ceo lhe seja dada como um premio de virtudes na
terra, amaldiçoada para os anjos.

--Mas... é impossivel recebêl-a em minha casa...

--Eu não quero que a receba em sua casa, minha senhora. Sua filha é
como se fosse minha. Debaixo das minhas telhas mora a honra e a
abundancia. Assucena não precisa senão chorar, para renascer para a
felicidade, que eu prometto dar-lhe. Chorar... chora ella sempre; mas é
preciso que o seu coração se abra ás suas lagrimas, para lhe perdoar...

--Eu perdôo-lhe...

--Bem... mas o seu perdão ha de ser-lhe dado a ella, abraçando-a,
convencendo-a de que é possivel a sua rehabilitação. E, depois, seja um
segredo para todo o mundo a existencia de sua filha em casa do conego
Bernabé Trigoso.

--Se eu viver, dar-lhe-hei tudo o que podér para a sua subsistencia.

--Não precisa de nada sua filha. Se v. exc.ª consente que ella seja da
minha familia, deixe-me inteiro o cargo de pae. O seu mais precioso
sustento é o do espirito. Esse é que eu pedirei a Deus que m'o não
escassêe, e talvez o consiga.

--Quer que eu procure minha filha?

--Supplico-lh'o.

--Se eu tivesse forças...

--Experimente, senhora viscondessa; parece-me que posso prophetisar-lhe
que terá forças. Trata-se de salvar uma filha. V. exc.ª sentir-se-ha
melhorar quando se convencer de que o anjo cahido se levanta, com a dôr
da sua ignominia adormecida. Não lhe falle em Luiz da Cunha, bem nem
mal. Ha de abominal-o, sem que lhe lancemos em rosto a perfidia d'esse
miseravel, que, no fim de tudo, não é menos lastimavel, porque o seu fim
deve ser triste. Deixemos-lhe a elle o cargo de se fazer detestavel. Uma
mulher apaixonada só recebe bem as censuras da sua consciencia. Illuda
sua filha com uma piedosa mentira. Diga-lhe que ninguem falla da sua
desgraça, que as poucas pessoas que a sabem se empenham em desmentil-a,
fazendo crêr que Assucena vive na companhia d'uns parentes no Porto. É
preciso mesmo que v. exc.ª faça acreditar que a enviou para alguma
quinta longe de Lisboa.

«Posso dizer que ella está no Minho, onde meu marido comprou uma quinta
em meu nome para eu poder legar a quem quizesse por minha morte, e
talvez eu conseguisse que meu marido me concedesse dar-lh'a já; mas
elle, depois da desordem com Luiz da Cunha, enfureceu-se contra ella,
contra mim, contra todos...

--Já lhe disse, minha senhora, que sua filha não precisa de quintas, se
lhe não prohibe ser mais minha filha que sua.

A conversação prolongava-se, quando foi annunciado o confessor da
viscondessa. A enferma, pela subita animação que o conego lhe
emprestára, e pela desordem de ideias que lhe confundiam o exame de uma
confissão geral, mandou dizer ao padre que resolvêra adial-a.
Entretanto, Bernabé Trigoso retirava-se, porque a viscondessa lhe pedíra
que occultasse de seu marido, se elle entrasse no quarto, a causa da sua
vinda áquella casa.

As syncopes de Assucena repetiram-se na ausencia do conego. D. Perpetua,
receosa dos resultados, chamára medico para consultal-o se devia chamar
confessor. O medico nem receitou nem votou pela precipitação dos
sacramentos. Colligiu das timidas informações da virtuosa senhora que a
enfermidade de Assucena era uma forte affecção moral.

O conego, tambem assustado, não abandonava o leito de sua filha
adoptiva. As consequencias eram mais graves do que elle suppozera.
Assucena já não chorava, nem perguntava nada com referencia a Luiz da
Cunha. Tinha os olhos em extasis, e a boca meio-aberta respirava
acceleradamente. Sahiam-lhe do coração gemidos convulsivos, como o arfar
tremido da creança, quando cessa de chorar, mas, ainda animada pelos
beijos da mãe, parece queixar-se. Estes periodos duravam uma hora. Se
lhe perguntavam o que sentia, respondia com melancolico sorriso: «nada.»
Se lhe davam consolações, que não podiam deixar de ser fundadas em
frouxas palavras de esperança, a filha de Augusto Leite acenava com a
cabeça, como se dissesse: «não me salvam com a piedosa mentira.»

Bernabé fallava-lhe a linguagem que aconselhava á viscondessa,
dizendo-lhe que muita gente se persuadia que Assucena, por causa do
namoro de Luiz da Cunha, fôra tirada das commendadeiras, e conduzida a
uma quinta no Minho por ordem de sua mãe.

Este balsamo não prestava refrigerio algum á ferida. Bernabé Trigoso,
sabendo muito, não sabia tudo do coração. Estes remedios aproveitam
quando a mulher despresada esquece o amante para se lembrar da sua
reputação. Assucena não tinha ainda pensado no que o mundo diria d'ella.
Luiz da Cunha era a sua ideia unica, e a face torpe d'esse homem não se
voltára ainda para que a infeliz lh'a visse pelos olhos da reflexão. O
systema, pois, de Bernabé não era vantajoso como elle o suppunha. O
soffrimento silencioso augmentava: o pulso impetuoso recahia n'um
marasmo insensivel, para depois referver em borbotões de sangue. O
medico aconselhava uma qualquer impostura, se não havia consolações
verdadeiras que a salvassem. Era possivel a morte, dizia elle;--era
possivel uma loucura; era tudo possivel, menos cural-a d'aquella
desesperada situação com remedios da botica. Se é uma paixão por causa
d'algum amor infeliz,--accrescentava o doutor--mintam-lhe de modo que
possamos allivial-a d'esta crise, e reduzil-a a estado menos anormal
para que se colha algum resultado das palavras.

Aproveitou o conselho. O conego fingiu a recepção de uma carta d'um seu
amigo em que se lhe promettia o breve enlace de Luiz da Cunha com
Assucena. A innocencia tem credulidades sem critica nem senso. A pobre
menina, sem discernir quem poderia escrever tal carta a um homem
estranho a Luiz da Cunha, acreditou-a. Deu-se uma notavel alteração nos
symptomas. O medico nunca alcançára um triumpho tão barato, nem tão
util. Conhecer a alma é, em muitos casos pathologicos, a mais prestante
medicina.

No dia immediato, soube o conego que a viscondessa visitava de tarde sua
filha. Preparou-se, felicitando-a por ter merecido a Deus tão excellente
mãe. Dissipou-lhe os receios, a vergonha, e até o medo que se lhe
incutiu, temendo que sua mãe viesse dissuadil-a do seu casamento.

--Sua mãe--dizia o conego--naturalmente não lhe falla em Luiz da Cunha.
A menina não deve tambem fallar-lhe n'elle.

--Porque? não ha de elle ser meu marido?

--E que tem isso? O coração de sua mãe é bondoso; mas não se segue
que a bondade desvaneça o melindre natural. Calar tal nome é uma prova
de respeito com que deve retribuir a generosa amizade de sua mãe. É
provavel que ella pouco lhe diga. A sua primeira expansão será de
lagrimas. Receba-as que são, talvez, as que salvam a infeliz senhora da
morte.

Não se enganára o conego. Rosa Guilhermina fraqueou quando recebia nos
braços Assucena. Desmaiada, podéra reputar-se morta, se o coração não
batesse violento no seio da consternada filha.

Bernabé, amparando-a tambem, perguntava a Assucena quanto daria por
salvar sua mãe.

--Dou a minha vida!--exclamou ella.

--E, se sua mãe lhe pedisse o coração, e não a vida?

--Tudo, tudo, senhor!

--E, se ella lhe pedisse que renunciasse o amor de Luiz da Cunha?

--Para salval-a?

--Sim, para salval-a.

--Morreria, mas renunciava...

--Melhor lhe fôra então morrer!...--disse em voz soturna Bernabé,
afastando a viscondessa esvaida dos braços da filha, e fixando n'esta um
olhar de severa reprehensão. A neta do arcediago deixou cahir os braços,
e pregou os olhos no chão. Ora o rubor, ora a pallidez revesavam-lhe no
rosto afflicto. Dôr e vergonha, amor e arrependimento, esperança e
desespêro, eram por ventura as variadas sensações que lhe occorreram,
atropellando-se para lhe fazerem mais difficil a consciencia da sua
situação. A infeliz não podia combinar as palavras esperançosas do
conego com o repellão e olhar severo que acabava de soffrer.

--Venha comigo, menina...--disse D. Perpetua receiando algum accidente
dos que lhe davam depois do dia anterior.

--Eu não vou sem que minha mãe me falle.

--Deixe-a tornar a si; depois, ficará sósinha com ella.

Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernabé sahiu da sala em que ficava a
viscondessa, esperando a filha, deitada n'um canapé.

O conego disse quasi ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:

--Perante Deus é responsavel pela vida de sua mãe. Ella não lh'o dirá;
mas digo-lh'o eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um
infame, matou sua mãe.

Assucena entrou na sala atordoada por estas palavras.

Bernabé Trigoso esfregava as mãos em ar de jubilo.

--Porque estás assim contente?--perguntou D. Perpetua, alegrando-se
tambem de anticipação.

--Contentissimo! Salvei-as ambas! Aqui a grande difficuldade era salvar
a filha! Bemdito seja Deus, que nunca me abandonou n'estas difficuldades!

--Pois então? como é que salvaste a menina?

--Puz em luta dous sentimentos fortes. A mãe que morre por sua filha, e
o amado que despresa a sua amante. Ha de vencer o mais nobre, que é o
primeiro, e tem em seu auxilio um coração ainda puro. Verás, Perpetua; A
viscondessa não lhe falla em Luiz da Cunha. Este silencio só de per si é
uma pungente accusação á filha. A viscondessa dá indicios d'uma morte
proxima. Assucena começa desde já a sentir o remorso de a ter matado. A
ancia de salval-a ha de vencer a ancia da saudade. Por fim é a mãe que
triumpha, e não triumpharia se viesse lançar-lhe em rosto a deshonra. É
Deus que me manda. Creio que salvaria Assucena sem o conselho do medico.
Escusavamos, talvez, uma mentira...

--É verdade, Bernabé!--atalhou pungida a senhora D. Perpetua.

--Mas, emfim, Deus sabe as intenções com que a gente mente para tornar
menos hediondo o crime do seu semelhante... Não ouves soluçar na sala?

--Ouço... são ambas...

--Bem, bem!

--Escuta, Bernabé...

--Que ouves?

--Palavras... _perdão_... _não me mates_... _amaldiçoada_... É a mãe que
falla...

--Bem, bem!

Pouco depois, abriu-se a porta da sala. Bernabé Trigoso, com sua irmã,
entraram. Mãe e filha enxugavam as lagrimas. A viscondessa
abraçou-se a D. Perpetua, pedindo-lhe que fosse mãe de sua filha,
forçando-lhe a mão para aceitar uma bolsa. O conego reparava na luta
silenciosa em que sua irmã parecia afflicta e envergonhada. Cheio de
affabilidade, tomou da mão de Rosa Guilhermina a bolsa, dizendo:

--Muito obrigado a v. ex.ª

Depois, no patamar da escada entregou-lhe com dignidade a bolsa,
solemnisando o acto com estas palavras:

--Aceitei o dinheiro na presença de sua filha para que ella se persuada
que é sua mãe que a sustenta, e não se considere em obrigação a
estranhos. É a quarta vez, senhora viscondessa, que lhe digo que em
minha casa ha abundancia, e independencia, e honra. Espero da sua
bondade que me não forçará á repetição, porque me desgosta. Outro
assumpto: que vaticina?

--Penso que minha filha se condoeu de mim, e esquecerá o infame... É
preciso não a abandonar... Virei, todas as vezes que podér, observar o
bom resultado das suas diligencias, senhor conego. Se lhe parecer que é
util afastal-a de Lisboa...

--Não convém... A cura ha de operar-se aqui, se Deus me conceder vida,
que será breve, porque a velhice e os padecimentos trazem sempre a gente
em redor da sepultura...



IX.

HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.


Não era possivel tirar um sorriso dos labios de Assucena. Muito era já
evitar as occasiões das lagrimas, no primeiro mez da sua convalescença.

A recahida era possivel á menor tentação de Luiz da Cunha. E, por isso,
os cuidados do conego eram solicitos em prevenir um bilhete, ou qualquer
meio de que o perverso se servisse, em algum momento de caprichoso
desejo. Bem sabia Bernabé Trigoso que Luiz da Cunha existia, quasi
invisivel, em Lisboa. As informações eram-lhe dadas por um beneficiado
da Sé, seu discipulo em virtudes e em sciencia, unica pessoa, que
frequentava sua casa. Para corresponder ás recommendações do conego, o
padre Madureira entrara no segredo do viver de Luiz da Cunha. Não o vira
nunca no theatro, nem nos cafés, nem no Passeio Publico; mas soubera
casualmente d'um boleeiro que uma sege de praça o ia buscar todas as
noites, depois das onze e meia, a Campolide. O padre Madureira, que, em
pesquizas, teria sido um habil agente do santo-officio, indagou da casa
em Campolide, e pôde apenas vêr-lhe o portão. Era justamente aquella
onde, vinte e cinco annos antes, tinha sido assassinada Ricarda, e
enterrado seu marido.

O prescrutador alapou-se n'um casebre fronteiro, e viu que, ás onze
horas e meia, uma sege parava defronte do portão. O padre estava a pé:
era necessario seguil-a, e, para isso, desceu da sua dignidade
sacerdotal ás astucias de gaiato, e sentou-se na taboa. O impeto da
corrida não dava tempo á desconfiança do sota. A sege parou na rua do
Collegio. O padre apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na
travessa do Pombal. Depois, seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma
casa da rua de S. Bento, reparando na subtileza com que a porta fôra
aberta e fechada. O padre não era de meias informações. Queria, por
força, distinguir á luz azulada da lua o numero. N'esta difficultosa
empreza, demorára-se, sem attender a um vulto, que desembocara da
travessa de Santa Thereza, e caminhava para elle, deixando, alguns
passos atraz, dous outros vultos parecidos, pelo capote e chapéo
derrubado, com os importantes sicarios de qualquer drama em cinco actos.

O primeiro dos tres chegou, hombro com hombro, a par do irreflectido
Madureira.

--Que quer aqui o senhor?

--Não queria nada--respondeu, retirando-se o observador.

--Não quer nada, e está com os olhos espetados n'aquella janella!
Ólé--disse o encapotado para os da rectaguarda--Conhecem este homem?

Approximaram-se os dous, e responderam negativamente.

--Que está vossê aqui fazendo?--tornou carrancudo, com voz de tyranno,
sem descobrir a cara, o interruptor de uma analyse innocente.

--Responda!--recalcitrou um dos dous--quando não metto-lhe quatro
pollegadas de ferro na barriga.

O padre não era connivente na proposta, e evitou o melhor que pôde
aceital-a, explicando d'este modo a sua paragem n'aquelle sitio:

--Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa é esta.

--E conhece o sujeito?--perguntou o que tinha certa authoridade, e certa
polidez no metal de voz.

--Conheço, sim, senhor, mas só de vista.

--E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?

--Para satisfazer a minha curiosidade.

--Pois, se está satisfeita, retire-se.

Madureira estava satisfeitissimo até com o inesperado desenlace.

Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma
porta onde entrára Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa
Nova, e esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrára:
dous foram postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois,
vira sahir um vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre
elle os outros dous, ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo
cambaleando até cahir. Duas patrulhas correram ao local do grito.
Madureira confiou nas garantias da guarda civica, e aventurou-se a tirar
a ultima conclusão dos seus principios. Foi, e viu, nos braços dos
soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que lhe
transsudava do collête branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo
menos: uma no peito, e outra no pescoço.

--O senhor viu como isto foi?--perguntou um soldado ao padre.

--Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.

--Conhece este homem?

--Nada, não conheço.

--Quem é o senhor?--perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em
que o deixára o abalo.

--Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.

--Olha que firma!--murmurou um soldado para o seu companheiro de
patrulha--Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o
murro com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que
topou com a fôrma do seu pé...

Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por
cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa
de seu pae.

Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias,
correu á rua do Principe, onde expôz na melhor ordem as aventuras da
noite; só não soube dizer que o vulto, que o accommettêra, e desempalára
o furão da casa de Liberata, fôra o conselheiro Costa e Almeida, que
não era tão _excellente creatura_ como a sua amante o imaginava.

Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais
dentro o que elle não viu, nem saberá contar ao espantado conego, e á
espavorida Perpetua.

O conselheiro fôra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. Á
primeira não deu credito. Á segunda deu algum, porque lhe marcava a hora
da entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal,
e tamanha como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz
bater á porta; mas faltou-lhe o animo na conjectura de ter de
encontrar-se com o rival. Na segunda noite, sem inspirar desconfianças a
Liberata, entrou armado, fortalecido pelo ciume. Procurou-o em todos os
cantos, com finura e resolução, e não o viu. No dia seguinte, recebe a
terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia quando elle entrava.
Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instrucções, que elles
desempenharam d'um modo que não deixou nada a desejar, porque o julgaram
morto, e as instrucções eram assim pontualmente executadas.

Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia
querer distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno,
significou-lhe a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio á
janella, e perguntou a um grupo de soldados e cabos de policia o que
acontecêra. Responderam-lhe que fôra alli apunhalado um rapaz de boa
familia do Campo Grande. Liberata voltou para dentro, entrou no seu
quarto, correu desfigurada com um punhal á sala, onde passeava o
conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle amparou
no braço.

--Já fóra de minha casa--bradou ella--quando não grito aqui-d'el-rei
contra um ladrão, contra um assassino!

--Cale-se, que eu retiro-me.

--Já sû assassino! ámanhã hei de publicar o seu nome nos jornaes, como
matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fóra de minha casa, patife!

O official maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da lingua que do
punhal.

Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso para o
Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do conde das Galveas a
cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com frenesi; fêl-o
entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um medico;
deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa
com o filho de Ricarda desfallecido nos braços, pela perda de sangue,
que ella em vão quizera estancar com os lenços, e até com as meias de
sêda branca, servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.

O medico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortaes.
Luiz da Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um
passeio de sege, ao escurecer, a par da sua estremecida amiga.

As indagações da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro não
foi poupado á irrisão publica, e a dedicação de Liberata era celebrada
como um heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos
promettiam um drama em tres actos sobre bases tão dramaticas. Outros
escreviam poesias em versos grandes intercalados de pequeno, sem que se
promettia a rehabilitação de todas as Liberatas. E com isto, os pobres
rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles, porque, desde esse dia, até
no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do abysmo, e sahiram de lá
espancados por algum marujo, que entendia melhor de fado e vinho, que de
regeneração e amor, e ellas tambem, pelos modos.

..........................................................................

Bernabé Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante
á indifferença. Eram passados quatro mezes, depois da sua quéda. A
infeliz erguia-se sem sensibilidade: parece que perdêra, com a
esperança, a memoria do passado. Ainda assim, Bernabé não se atinha ás
apparencias. Era necessario sondal-a.

Fallou-lhe em Luiz da Cunha como incidente n'uma conversação sobre o seu
passado no collegio. Assucena pedira-lhe que não fallasse em tal homem.
Replicára o conego, perguntando-lhe se lhe seria então indifferente a
vida ou a morte de Luiz.

--Antes quero que viva.

--Porque o ama ainda?

--Porque me queria vingar...

--Vingar-se!...

--Sim... vingar-me pelo remorso... É impossivel que elle não venha a
sentil-o...

--Isso é do coração?

--Do coração, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje odio a esse homem,
porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por elle, depois
de me perder... Minha mãe que devera despresar-me, ama-me... V. s.ª, e
sua irmã adoram-me como se eu fosse d'esta casa... Só elle!... é elle o
que me esquece... o que me deixou, desamparada!...

--Desamparada?... E Deos não a acolheu?

--E sabe elle se eu a estas horas peço uma esmola!

--Não... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a ultima aventura
d'esse homem?

--Não... não me importa... Onde está elle?

--Em Lisboa.

--Em Lisboa?! Não me disseram que fôra para o Brazil?!

--Quando foi conveniente dizer-lh'o. Hoje póde saber que Luiz da Cunha
vive em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a unica mulher digna
d'elle...

--Cale-se, por piedade, meu amigo...--interrompeu ella.

--Pois que? Não me disse que lhe era indifferente...

--Basta-me o odio que tenho no coração... Não posso com mais...

--Odio é muitas vezes demasiada importancia ao que é sómente
despresivel. Eu quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para
perdoar-lhe no seu coração, conversando com Deos, se os infortunios
d'esse homem forem taes, que possam attribuir-se a expiação do crime em
que Assucena foi a primeira victima.

--Perdoar-lhe... eu!

--Não gosto d'essa exaltação de cólera, filha. Em quanto ella existir,
não está cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.

Bernabé Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras
colhidas de informações que eram já do dominio publico. Assucena
escutou-as com attenção. A arte valeu-lhe muito. Manteve silenciosa
impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoção. Mas, apenas
livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O
seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dôres: odio,
amor, ciume, saudade, desesperação, consciencia da sua quéda nos braços
de tal homem, a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!

O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de
Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o conego lhe dava
despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se
distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeição com que pagava
pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua,
pareciam tornal-a indifferente ás reminiscencias, se ellas existiam, das
suas passadas desventuras.

Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em
poucas linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperára, se não um
resto de contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um
ar de saude, que os medicos lhe não promettiam. O visconde, preoccupado
com a alta e baixa de fundos, esqueceu a affronta recebida nos
Paulistas, e nunca perguntou o destino de Assucena. Luiz da Cunha de
quem no proximo capitulo fallarei mais de vagar, vivia com Liberata.
João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao menos tres partes
do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas
inintelligiveis.

Ao cabo de dez mezes Bernabé Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte,
antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.

O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irmã,
fechando-se com ella em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves,
tranquillos, e auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A
viscondessa de Bacellar ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito.
Assucena, sempre ao lado do enfermo, não podia chorar na presença
d'elle, porque o venerando velho dava visiveis signaes de que lhe era
custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas faces da que elle chamava a
sua corôa de triumpho sobre os vicios da terra. A filha de Rosa
Guilhermina só acreditou na perda do seu bemfeitor, quando o moribundo
apertou entre as suas, quasi frias, as mãos de Perpetua e as d'ella,
dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos sobre tudo que lhe era
caro, fechando os labios com a palavra «Deos» e aceitando, já no limiar
da eternidade, convertidas em flôres, as lagrimas, que enxugára aos seus
irmãos de exilio.

..........................................................................

O conego Bernabé Trigoso passava por pobre, attendendo á sua velha
chimarra, ás suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado
tricorne. O seu espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança
de seu pae, de seus avós, thesouro até preciosissimo para a numismatica,
pela variedade de moedas de prata e ouro desde D. Affonso III.

D. Perpetua não tocou n'essa caixa quadrada, com dimensões bastantes
para conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ella. Mostrou-a,
sem abril-a, dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu
patrimonio está aqui, minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é
a dona. Meu bom irmão não teve animo para lhe dar os seus ultimos
conselhos. Já morreu, já lá está na presença de Deus; mas elle vê e ouve
o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem cedo vou ter com elle. Tenho
sonhado todas as noites, que meu irmão me chama para si... É tempo de
cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, Assucena será
tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui nascida e
creada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa
ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus
chamar a contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva
n'essa quinta, que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religião e o
temor dos juizos divinos. Tome como director da sua vida o padre
Madureira, que aprendeu a ser virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a
menina ha de entrar na casa de sua mãe, e então estará livre de todas as
perfidias do mundo; mas, em quanto o não fizer, viva recolhida com a sua
boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus desgostos, dando-se ao
prazer de dar esmolas sem ostentação, que foi sempre a constante
virtude do santo, que Deus nos levou para a côrte celestial. Ha quasi um
anno que vive n'esta casa: já agora ha de fechar os olhos ás duas
pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo a pedir ao
Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos, porque
meu irmão está no ceo pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo
nosso anjo.»

A singela prática acabou por lagrimas, que a interromperam.

Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicavel effeito de uma causa
superior ao entendimento.

Como o seu desejo era morrer onde nascêra, a irmã do conego mudou para o
Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas
senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.

D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de
caridade, como se devesse ser essa a ultima lição de Assucena.

Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a
rapida consumpção que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em
verdade seu irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas
ainda de vitalidade para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao
padre Madureira. E fechou o cyclo das suas virtudes, convidando a sua
attribulada amiga a presenciar a morte d'uma mulher sem a consciencia
d'uma injustiça. Só ella conheceu o seu fim, como se o anjo da
bemaventurança lh'o segredasse. Morreu, abençoando Assucena, e
passando-lhe ás mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto pela
aridez cadaverica.

..........................................................................

Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão
desvalida. Não sabia a significação encyclopedica da palavra «dinheiro.»



X.

COMO OS ANJOS SE VINGAM.


Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias,
comparadas entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando
para Deus um vôo; a outra afundando precipitadamente na região das
trevas, na infinita desesperação.

O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em
casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na
convalescença dos ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a
taes protestos de retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que
Liberata, tão incapaz de avalial-os como quem lh'os promettia, ria com
cynica desenvoltura da sua rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.

O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias,
entrára na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára
certas maximas de alta importancia para a sua futura felicidade.

A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito.
Primeira maxima.

O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque
assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio
douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.

Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é
feliz na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.

A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta,
muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.

A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas
propensões, quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente
de seios nús no estrado do alcouce. Quinta.

O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a
outra, é um tolo. Sexta.

_Et cetra._

E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era
esta a mulher, que mais servia as suas propensões, e mais credito
adquirira sobre o seu reconhecimento.

Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se allia
ao nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vêl-a saltar-lhe
ao pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta
a gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata
tambem tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas
entre as do seu amante não se encontravam algumas, que eram a base
fundamental de todas as outras no catecismo d'ella. Eram estas:

Toda a philosophia sem dinheiro é uma tolice.

Não ha nada que se pareça tanto com o mendigo como o philosopho pobre.

Bolsa vasia, intelligencia manca.

Sem dinheiro não se affrontam os desprêsos da sociedade.

Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te
despresa, mas dá-te com o tira-pé.

Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.

A deshonra, que se estorce n'uma esteira, é que nunca se rehabilita.

Rehabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.

Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria
proposta de Luiz da Cunha.

--Estás doudo!--accrescentou ella, batendo as palmas--Tragam-me uma
camiza de força para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar
comigo!... Tu fallas sério?!

--Fallo sério... fallo-te com o coração.

--Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de
creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...--dizia ella,
anediando-lhe as guias do bigode--Que será feito d'essa illustre menina?

--Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas
diz-me cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!

--É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda
asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria,
pouco mais ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico
para sustentar o meu marido pobre.

--Mas hoje não acontece assim.

--Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi
despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A
sege e os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão
depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario
adquirir outros. Ora agora, imagina tu que és meu marido, e vê lá se te
convém ficar atraz da porta, muito caladinho, para não assustar o amante.

--Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te
sacrificarias ao amor e á posse d'um só homem.

--Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os
credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este
vestido de sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita
de uma costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a
teu pae! Não te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo
extravagante para me phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas
que pareciam cahidas do ceo n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas
resolvido a pôr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balcão!

--É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.

--Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma divida. Sem ti,
meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em
espectaculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escandalo faz
perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, vendo-me comtigo. O
capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O
americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de
muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva.
Quando não podér, digo-te adeus por algum tempo.

--E despedes-me?

--Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se
não offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por
algumas horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de
mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres
aproveitadas...

Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra
ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma
permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um
curto passeio.

Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural,
fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu,
porque tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das
mesmas sensações, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os
cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de
fóra, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não
lhe dava canceira a restituição dos fundos.

Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se
congregavam em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis
vadios, poucos litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre
infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda,
e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da
consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se
infame. As maximas, que forjára na cama, durante o periodo da cura,
não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A
devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos
despertos da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em
baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com
Liberata esta importante prática:

--Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum
tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a
pedra philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais
quatro mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as
minhas pulseiras, e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais
d'um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai
ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. Já te disse
que não sympathiso nada com a honrada miseria, e a miseria a que nos
vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno da desesperação, embora
digam as novellas que uma tranquillidade de consciencia, mantida pelo
trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu deixo essa ventura á
mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...

--Isso quer dizer que...

--Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma
penetrante intelligencia. Não achas que tenho razão?

--Tens...

--Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz
seu herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu
tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto
é que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

--Vejo que és sempre a mesma mulher!

--Não te comprehendo bem.

--És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

--Justamente a mesma.

--Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na
mesma noite do dia em que a deixei.

--Tal e qual.

--A mesma dissoluta.

--Essa censura é mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma
garantia para a tua subsistencia?

--Não quero nada.

--Pois então, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me
compraste. As nossas contas estão saldadas.

--Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.

--Fóra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada;
quem perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me
queria indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu
não fosse dissoluta, o que seria de ti?

--És muito infame lançando-me em rosto taes favores...

--Tu não córas, meu bom amiguinho. A differença entre nós é toda a meu
favor, e, se não ha outra, a unica, que conheço, está entre o vestido e
as calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma
occasião de mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em
quanto pude. Tu, nem agora, sabes dizer-me do fundo da escada:
«obrigado, rapariga!»

--Hei de embolsar-te das tuas despezas...

--Como quizeres.

--Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.

--De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim,
vê se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que
feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica,
e de me prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...

A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem
deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da
Cunha sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na
cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.

O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o
mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante
oito mezes. Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de
vigia. Estava completamente doudo: não conheceu o filho, supposto se
deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.

Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho
bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os
bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo
estava sujeito á restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra
apenas o indispensavel para manter uma vida inutil.

Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer
limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria
expulso, logo que o doudo morresse.

O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde
elle se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um
conselho; nem um indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os
credores unicamente; e d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se
retiravam appellidando-o ladrão, ou fugindo á bôca de um bacamarte com
que o devedor insoluvel os ameaçava.

Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas
botas, e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso,
que o fazia correr sem destino.

Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de
Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia
comportar a reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se.
Era imputar-lhe a causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração
absoluta de todas as suas esperanças.

Viveu assim dous mezes.

João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão
cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O
enigma dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda
todos suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que
lhe pedia contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.

Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no vinculo, mandou
immediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de
homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pae, que
foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma entorpecida
para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a
sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada
n'aquelle coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para
animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os
meios infames, com tanto que podésse tornar ao mundo e convertêl-o em
fel, em escarneo, em vingança.

Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma
esperança absurda o lisongeava!

Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria
assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com
que se lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e
devassidão com os mais distinctos da sua fileira.

Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de
furriel, na primeira promoção.

Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou
incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia
travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O
mestre de esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz
da Cunha fugiu a cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.

Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa.
Ahi vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor.
Seguiu, Tejo acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir
jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de
prêso, á qual tentou fazer uma resistencia, que lhe custou algumas
cronhadas d'arma.

No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em
conselho de guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de
Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicidio, e emprasava para elle o
momento posterior á deliberação do conselho de guerra. Dizia-se que o
mais encarniçado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar,
que promettêra uma commenda da Conceição ao auditor, se conseguisse
que o conselho militar condemnasse o réo a degredo perpetuo.

O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o
essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz,
contou a Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da
Cunha, desde as punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa
alma, deixava transpirar a compaixão das palavras, e attribuia a
expiação á serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais
tarde o levariam á forca.

A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os
infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um
momento de dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez
mezes tinham decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns
mezes de apaixonado delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel
lhe fôra. A religião, sucessora de todas as affeições de Assucena,
operára em sua alma a maravilha do perdão para todas as injurias, d'onde
quer que ellas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e não podendo
explical-a, attribuiu-a ao destino, interpretando assim do peor modo o
livre arbitrio do homem remido pelos sacrificios de Jesus, e salvo pelas
suas obras meritorias de recompensa, ou condemnado pelas infracções da
lei divina. Esta anomalia intellectual é a enfermidade de muitas pessoas
dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e descahidas, quando mais
intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do fatalismo, do destino,
do «estava escripto» de Mafoma, e do _quó Deus impulerit_ de Cesar.

Assucena viera a convencer-se do _que tem de ser_ a respeito de Luiz da
Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau
para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça.
A Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira
que ella incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san
doutrina.

D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.--Perdoar-lhe para
amal-o--dizia ella na sua consciencia--isso nunca, em quanto a mão de
Deus me não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina
se aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu perdão,
que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...

Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego,
e de sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que
ella, em extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára
compungido as desventuras de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam;
mas, de todo o meu coração, creio que sim. Não se explicam certos actos
que divinisam a creatura, se a não considerarmos tocada d'um magnetismo
que mana de fonte sobrenatural. Não posso conceber o heroismo do perdão
de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade d'um impulso divino, d'um
condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não seja esta, que
imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz de
produzir o que outro homem não produz.

Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia;
mas a coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha,
visto que não tem pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja
solto, o dinheiro que quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por
sombras que é ella a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e
padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da caridade, não tem uma só
palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promette esgotar todos os
recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos poderosos de Luiz.



XI.

SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.


O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha,
seu aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico.
Difficultava-se, portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia
na reincidencia do delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e
entregue por isso á summaria jurisprudencia militar.

Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas
Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do
dinheiro, instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.

O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por
dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho
militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente
de Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por
suggestões do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro
de Buridan, entre o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo
escrivão do processo, absolveu o réo, dando assim um testemunho da sua
moralissima independencia de viscondes.

O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão,
e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á
vista da limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia,
aluindo os obstaculos com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal
protecção poderia vir, e julgou-se ainda debaixo da tutelar
influencia de Liberata, que não podia deixar de ser o seu anjo valedor,
em todas as crises.

Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua
sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato
de fivela.

--O senhor Luiz da Cunha--disse Madureira--deve ter conhecido que alguem
o protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da
sua soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.

--Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!

--A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser
conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o
protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua
caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para
que o senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum
interesse do capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este
beneficio?

--Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer
esse Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que
me dêem baixa.

--Ha de têl-a. O senhor tem dividas?

--Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são
ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que
podésse.

--Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire
honrado de Portugal, apparentemente ao menos.

--Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo;
mas, por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me
fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse
quatro, em cinco ou seis annos prometto que os faria chegar a cem.

--É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se
arruinasse até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...

--Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se
traçam os grandes planos.

--Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos
produzam cem em cinco ou seis annos, só se meditam quando o coração
está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...

--Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?

--Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa
de importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...

--Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor
tinha razão...

--Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua
presença d'espirito!

--Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que
nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de
me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo
dia e a certa hora...

--Que foi o que o conteve?

--Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me
promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de
meu pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao
caso... O facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então
entrei nos grandes calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria
fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra
fabulosa.

--Está, portanto, resolvido a sahir?

--Se fosse já, era uma fortuna.

--Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos
dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.

--Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...

--Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos,
será sufficiente...

--Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte
mil e tantos cruzados?!

--Serão pagos.

--Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a
bondade de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance
de novella! Já me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!

--Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?

--É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha
mãe, porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem
ella foi, nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e
teria mais dinheiro que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não
tenho amigos, não sei d'onde me possa vir esta restituição, não me
consta que seja o herdeiro presumptivo d'algum capitalista... emfim,
aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me em linguagem
portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr necessario
esconder a beneficencia como se esconde um crime.

--Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.

--_Seu_, ou _sua_?

--Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um
cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.

--Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.

--Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem
custado horas d'uma tormentosa reflexão?

--Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no
sorvedouro da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não
sou insensivel á sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me
espantado da logica maldita dos meus infortunios, tenho combinado a
minha ultima desgraça com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer;
mas, ao cabo de tudo, reconheço que as minhas desventuras são fataes,
não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou victima da minha
organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto arbitrio no
mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro
representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e
abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e
evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de
que se não sáe com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive
muitos d'esses exames de consciencia, e fugia d'elles, e de mim,
aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas
o que se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a
esmola d'umas botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel
n'um philosopho descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que
os bons instinctos renascem no coração do perverso, quando o terrivel
assedio das desventuras levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das
commodidades, e pervertido n'ellas, não se divorcia voluntariamente do
vicio, na indigencia. Se meu pae não está doudo n'essa occasião, e me
recebe com carinho, e me perdoa sem me repellir da sua amizade, e me não
nega o necessario para a decencia, parece-me que a minha vida passava
por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario: vi-me abandonado;
entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me de
respeital-a.

--E lucrou, desobrigando-se?

--Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em
que vou.

--Mas deve recuar...

--Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.

--Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.

--Os outros tem sido para mim algozes.

--Todos?

--Todos, sim.

--Então o senhor não tem feito victimas?

--D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os _honrados_ pelo
suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso
que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.

--E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar
será feliz?

--Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame
padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que
não lhe encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo,
que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se
ella fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria,
fazendo a completa ventura do marido. Como fugiu comigo, o padrasto
insultou-me, cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a
cabeça...

--E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas
antipathias do padrasto...

--São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder
explicar-se... Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a
essa mulher. Entendi que abandonal-a era restituil-a á mãe; e
conserval-a minha amante era obrigal-a a cahir comigo no abysmo da
miseria, fazendo-a testemunha dos esforços criminosos que eu faria para
não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje mais feliz sem mim...
Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor conheceu-a?

--Não a conheci.

--Conhece a viscondessa?

--Sim, senhor.

--Como está essa pobre mulher? Será ella a minha protectora?!

--Não, senhor.

--De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do
casal. É um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever
em verso chulo a biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do
Porto! O responsavel da desgraça de Assucena é elle, que a não quiz
remir da deshonra com o valor de duas duzias de pretos dos centenares
d'elles, que ainda hoje são empilhados por sua conta no porão dos seus
navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o escandaloso, o malvado!
Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que sou. Dêem-me uma
independencia, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os homens
hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com elles. Como tenho
contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido,
em vez d'um ai, receberei um escarro na cara.

--Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus
precedentes são pessimos para uma rehabilitação. Empregue o capital, que
lhe derem, n'um ramo de commercio licito; aspire á independencia sem
fausto; habitue-se a uma tranquilla mediocridade; agouro que
voltará um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e
enojado das tristes recordações do que foi.

--Póde ser................................................................

..........................................................................

Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os
seus creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.

Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e
folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.

Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em
que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta
coacção á sua vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um
camarote, nos cafés, nos passeios, e nas praças. O desconhecido padre,
porém, déra-lhe como preceito a reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia,
maniatado pela dependencia do capital promettido.

O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da
pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de
beijar as mãos ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade.
Era o simples desejo d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não
obedecia ao desejo, resistindo ao silencio do agente da mysteriosa
pessoa, é por que receava perder a beneficencia com a sua imprudente e
até inutil indagação.

Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e
ahi lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro
seis contos de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes
portuguezes, que deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.

A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de
Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de
Deus para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das
culpas na balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou
n'esse momento, a contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da
Cunha, pagando as suas dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde
poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de
seu marido a espantada narração do successo, e não podéra ser superior
ao pasmo de José Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade
de Assucena, quando o caso não era de se ouvir sem pasmo.

--Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!--perguntava a viscondessa.

--Qual mulher, minha mãe?

--Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...

--Não foi, minha mãe... Fui eu.

--Tu!

--Fui eu, minha mãe!

A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha,
exclamando:

--É uma lição de virtude que dás a tua mãe.

--Um segredo eterno, sim?--disse Assucena a tremer.

--Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal...
Ficaste pobre, minha filha?

--Eu nunca posso ser pobre.. O espirito do meu bemfeitor não me
desampara...

--E não... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da
Cunha sahisse de Portugal.

--Não aceito, minha mãe... Não é por odio que lhe tenha... é que preciso
viver sósinha para gosar os poucos bens do espirito que tenho... Quem me
tirar da solidão, mata-me...

--Mas viverás sósinha com tua mãe, no meu quarto...

--Não posso entrar n'essa casa... Quando me recordo d'ella, cerra-se-me
o coração... Não queira que eu soffra mais, minha boa mãe. Se seu marido
lhe não prohibe, venha vêr-me muitas vezes; mas considere-me sem
familia, sem apêgo a nenhuma cousa do mundo, triste e só, por prazer e
por necessidade...........................................................

..........................................................................



XII.

FASCINAÇÃO DO ABYSMO.


Raro será o peito de homem onde não bata apressado o coração, que deixa,
na patria, uma infancia com recordações suaves, ou uma adolescencia
alternada por prazeres e amarguras.

Deve ser-lhe tristissimo o ultimo adeus dos olhos ao ceo do seu berço!
Bem digno de compaixão será aquelle que lhe vira as costas, com as faces
enxutas! Esse irá mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do
delicto! Esse amaldiçoou-se a si, primeiro que a patria o amaldiçoasse;
e, espedaçando os vinculos, que o ligavam aos deveres de homem, não sabe
o que é familia, não sabe o que é sociedade, sente, com tedio de si
proprio, que não tem patria nenhuma!

Tal era o filho de Ricarda.

Em quanto o marinheiro, com o barrete na mão, e os olhos turvos de
lagrimas, dizia um mudo adeus ás montanhas de Portugal, e orava, com a
santa poesia da fé, a supplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir
a tempestade, Luiz da Cunha observava com risonha curiosidade as varias
physionomias dos seus companheiros. De tantas nem uma só deparou sem
signaes de mágoa. Parece que todos levavam da terra uma recordação
saudosa! O proprio capitão, de braços cruzados, á pôpa da galera,
absorvido nos longinquos cimos das montanhas cinzentas, não se
differençava, no ar melancolico, do tenro moço, arrancado pela ambição
aos braços da mãe, que o deixou ir sem resistencia, dando-se como certa
a prosperidade em que tornaria a vêl-o.

Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ancioso, era uma senhora vestida
em rigoroso luto, com véo preto descido, e com dous meninos, um de dous
annos, outro de peito ainda, sentados no collo d'uma preta, criada sua.

--Aquella dama chora por ella e por mim!--disse, com zombeteiro
sorriso, Luiz da Cunha ao capitão.

--E o senhor não leva saudades de ninguem?

--Não, senhor. Não levo, nem deixo. Não tenho patria, nem familia. Não
sei se fóra dos lagos da Allemanha tambem ha ondinas. Se n'este mar me
namorasse de uma, casava com ella, e viveriamos na mesma concha.

--Bem se vê que não deixa em Portugal ninguem que lhe seja caro. A
quatro milhas da patria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de tão
boa vontade!

--Pois alguma vez havia de encontrar o impio contra a religião do
amor-patrio. Não sei o que é isso, e dou-me os parabens de o não saber.
Aquella mulher por que chora? são saudades?

--Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.

--É o unico lugar seguro onde podia deixal-o. Se fôr ciumosa, póde ir e
tornar, na certeza de que o não surprenderá n'uma infidelidade...

--Não zombe de cousas tão sérias, senhor Cunha. Cá no mar respeita-se a
religião...

--E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libações de
canada!... Vejo que é um bom catholico, senhor capitão!

--E o senhor não é catholico?

--Eu não sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que vê.
Tanto sou em terra como no mar. Não me canso a pensar em cousas
superiores ao meu bom-senso, e vivo á discrição da fatalidade como este
navio á mercê das ondas... Então aquella senhora viuva é brazileira?

--Sim, senhor. Enviuvou ha dous mezes, e vai ao Brazil tomar conta da
administração da sua casa. É uma rica fazendeira de café e canna.

--Não leva com ella algum parente?

--Não, senhor. Leva duas criadas, e aquelles dous meninos. Coitada! como
não irá aquelle coração! Não ha ainda oito mezes que ella aqui passou
tão contente com o marido, que era doudo por ella! Mal diriam elles! A
vida é um engano! Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para
amparar dous dias de vida, dá-me vontade de viver em descanso com meus
filhos, comendo um bocado de pão estreme, e ensinando-os a despresarem a
enganadora ambição de riquezas, que por fim... alli tem o exemplo!...
Quanto daria aquella senhora por ter seu marido vivo! Dava de boamente
os trezentos contos que tem...

--Trezentos contos! parece-me muito conto!

--Admira-se? pois tomára eu o que ella tem d'ahi para cima...

As reflexões melancolicas do capitão, ácerca da rapidez da vida, não
impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria philosophica, os
_trezentos contos_, foi um valente encontrão á sua insensibilidade. Se
n'aquelle momento fosse possivel abrir-lhe o craneo, e analysar-lhe o
cerebro, ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes
d'aquella maquina! O capitão, sem o pensar, jogára um ariete á alma
petrificada do passageiro, e abrira larga brecha por onde iam sahir
planos de infame calculo.

A viuva retirára, quasi nos braços das criadas, á sala de ré. Luiz da
Cunha desceu tambem, dominado por um pensamento que não supportava
delongas. Tão radiosa lhe fulgira a esperança de angariar uma fortuna
colossal, e tão susceptivel de realisar-se lhe parecêra um casamento com
a fazendeira de café, que, desde esse momento, o experimentado
aventureiro julgou-se protegido pelo diabo côxo de Le-Sage, e prometteu
não perder occasião de captar a benevolencia da viuva.

Como ella tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos
indifferentes as incessantes lagrimas, Luiz meditou de vagar o seu
plano, estudando o papel adaptado ao caracter da viuva, e afivelando-se
uma mascara, visto que todas se ajustavam á perversa flexibilidade da
sua physionomia moral.

Convindo na conveniencia de representar mui sériamente, arrependeu-se
das imprudentes facecias com que respondêra ás graves perguntas do
capitão. Entendeu, porém, que a maneira de desvanecer o prejudicial
conceito, que merecêra ao maritimo, era explicar a sua sarcastica
jovialidade como um pretexto para illudir-se d'um profundo dissabor, uma
d'essas pungentes ironias com que o desgraçado imagina vingar-se do
verdugo destino, que o persegue.

Entrou em scena, e desempenhou magistralmente. O capitão, sincero e
rustico, mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se
topam nas tempestades da vida, condoeu-se da pathetica narração
inventada pelo passageiro, alludindo á perda de um coração, que lhe fôra
caro, á ingratidão d'uma aleivosa mulher, que injuriára com a perfidia a
sua generosa alma. Por causa d'ella--dizia o comico--abandonava o caro
berço natal, o ceo dos seus amores de moço, cheio de illusões, mortas,
calcadas, perdidas para sempre! E tão grande fôra essa dôr, tal
desespero involvêra de negro a sua alma--proseguia elle, enrugando a
fronte, e correndo por ella a mão com a mais velhaca naturalidade--que
protestara affrontar com o escarneo todos os sentimentos nobres, pois
que os seus tambem o tinham sido por uma traiçoeira mulher, colligada
com miseraveis inimigos.

E, dito isto, no mais rigoroso ademan do palco, retirou-se, deixando o
capitão contristado, e condoido da sorte do pobre moço, que tão cêdo
perdêra o gosto da vida.

Os passageiros da galera _Boa-Sorte_, informados pelo capitão, olhavam
para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O
silencio funebre de tal homem, sombrio sempre, movêra o natural
interesse dos sinceros companheiros, e não passára desapercebido a D.
Marianna, supposto que as suas penas fossem de sobra, para se dar
cuidado com as estranhas.

Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que déra. O que não parece
nada, era já muito para elle. Esse interesse, essa especie de curiosa
compaixão, o attencioso silencio com que duas palavras suas eram
escutadas, eram, com effeito, acquisições, que lhe valiam, na
opinião d'aquelle publico, uma consideração, que ninguem contrariava.

Havia um só motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos labios de
Luiz: era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dous
annos, que, attrahida pelos agrados do passageiro, lhe dava a
preferencia nos carinhos. A mãe lisongeava-se d'este acolhimento, e
chorava, porque mais vivas a assaltavam as recordações de seu marido, ao
qual tão caros eram os afagos do menino.

Luiz, amestrado pelo contínuo estudo, não tratava de mitigar com o
balsamo banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viuva. Pelo
contrario: dizia-lhe que chorasse, se perdêra um ente querido, um
extremoso marido, metade da sua alma, o melhor da sua existencia, um
homem digno d'ella. Como consolação, apenas lhe dizia que o encarasse a
elle, e veria alli enxutos os olhos, que derramaram lagrimas de sangue,
e por fim mirraram-se, como o coração exsangue, árido e resequido,
debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ella não era impossivel a
ventura, porque, cêdo ou tarde, encontraria em um segundo marido o
reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque ha
anjos privilegiados que o Altissimo não abandona, mesmo quando os deixa
sósinhos na terra, onde encontrarão um amparo, que lhes adoce as
saudades d'um outro partido, sob a lousa da sepultura.

Este estylo de cabeça não era mesquinho em figuras. Os periodos eram
artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os hombros d'uma
estatua. Os discursos, sempre decorados da vespera, não tinham falha que
os fizesse tinnir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e até nos
improvisos, havia uma razão de ordem connexa, um rigor lógico de
honradez, um espantoso triumpho da corrupção eloquente sobre o gaguejar
da ingenuidade sempre boçal e descozida nos seus discursos.

Luiz da Cunha não se escondia para estes ligeiros dialogos com Marianna.
Em occasião de almoço ou jantar, e não sempre, é que elle se interessava
na conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viuva, sempre
inconsolavel.

O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o não
levavam de manhã ao beliche do seu amigo. Marianna agradecia ao
carinhoso soffredor de seu filho tantos favores, e ficava contente se
Luiz lhe dizia que era devedor áquelle menino dos raros momentos de
prazer, que Deus ainda lhe concedia por intermedio d'um innocente.

Vejam que estudo!

E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham
transigido um pouco com a natureza, que parece não ter sido feita para
os soffrimentos duradouros, e desmente sempre os propositos d'um lucto
perpetuo, variando as sensações com magica destreza.

Menos lagrimosa, ou mais resignada, que é o que sempre se diz, a viuva
não fugia da mesa, apenas terminava a refeição. Demorava-se na palestra,
silenciosa sim como Luiz, mas respondia com um aceno affirmativo ás
attenções, que os brazileiros de torna-viagem lhe davam, nas suas
conversas dissaboridas. Luiz fazia-se estranho a ellas, fingindo-se
abstracto em scismadoras tristezas de que o compadecido capitão, ou D.
Marianna o acordavam com esta ou outra semelhante pergunta:

--Que tem, senhor Luiz da Cunha? Em que pensa!

--No _nada_, minha senhora.

--Sempre assim! Quando virá um dia de o vêrmos alegre?

--O dia final.

--Que ideia tão triste! Então não espera, com vinte e oito annos, tão
novo, encontrar n'esta vida a felicidade?

--Não, minha senhora.

--Não póde ella apparecer-lhe como um acaso?

--A morte.... e essa é certissima.... espero-a com a segurança de quem a
vê continuamente diante dos olhos.

--Não falle na morte.... Eu tenho esperanças de o vêr feliz.... Ha de
encontrar no Brazil uma menina, muito linda e innocente, que lhe encha o
coração d'um novo amor...

--Não tenho espaço para elle. Onde está o demonio não póde entrar um anjo.

--Mas Deus póde mais que Satanaz--replicou Marianna.

--Isso é verdade!--confirmaram tres brazileiros.

--Pois Deus realise a sua generosa vontade, minha senhora.

Luiz da Cunha, com esta resposta, lançou a sonda ao coração da viuva. O
que ella lá encontrou, não o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de
resentimento, isso foi um facto, que não escapava á fina observação de
Luiz da Cunha, nem á do leitor ou leitora, que são pessoas das muito
raras, que eu conheço, com vista dupla para lêr um coração na ruga
repentina da testa, ou no ligeiro morder do labio.

Seria indiscreta a versão feita por Luiz do repentino baixar d'olhos da
viuva? Não era, não. O desejo que ella affectava de o vêr feliz pelo
encontro d'uma linda e innocente menina, não era realmente o seu desejo,
se a menina linda e innocente não era ella.

Como essa pobre mulher, durante um mez de viagem, chorou todas as
lagrimas, que tinha perpetuado á memoria de seu marido, isso explica-se
pela inactividade das glandulas lacrimaes, quando a acção vital se
concentra no coração. A sua desesperada angustia, nos primeiros mezes de
viuva, não podia durar muito. Dôr, que se expande em soluços, que
rejeita consolações impotentes, e não espera nada dos recursos
ordinarios, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a dôr d'uma
viuva de vinte e cinco annos está, mais que nenhuma outra, sujeita
áquelle aphorismo, que não li em Hippocrates, mas nem por isso devem
deixar de o aceitar como regra de physiologia experimental.

E, depois, quando o aphorismo não frizasse com o facto, dou-vos uma
razão mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as
theorias incertas ácerca do coração.

Fôra necessario que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a
segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ella se não
deixasse illaquear na rêde habilmente lançada á sua fraqueza. O aspecto
grave, austero, e melancolico do cavalheiro, que não faltava á menor
cortezia d'uma refinada polidez; a veneração com que todos os
companheiros de viagem respeitavam a sua tristeza sombria; a bondade que
o seu sorriso respirava quando Antoninho, fugindo do collo da mãe, voava
com um beijo aos braços d'elle; a sensatez das suas reflexões a
respeito do justo pranto da viuva, que perdeu um bom marido, tão raro
entre os pervertidos filhos do seculo; os seus momentaneos extasis,
quando a palavra amor lhe roçava fugitivamente os labios; e, finalmente,
a certeza, dada pelo capitão, do illustre nascimento de Luiz, visto que
na sua carteira levava uma ordem de seis contos de reis, que lhe fôra
entregue por um padre, especie de mordomo ou cousa que o valha do
mysterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e outras
muitas que nem a propria viuva saberia explical-as, davam a Luiz da
Cunha um ar de grandeza, de distincção, de sympathia, que, em poucos
dias, causára em Marianna vergonha da sua propria fraqueza, e até pesar
de ter encontrado tal homem.

De mais a mais, os olhos de Luiz, tão expressivos e ardentes nas suas
queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos
d'ella, em que a curiosidade não era menos significativa que a ternura.
E porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao coração da mulher quando
esta curiosa pergunta a incommoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo
de entender esses olhos equivocos, essa modestia encantadora. Se elles
se esquivam em confessar-se, ou se a palavra timida os não denuncia, o
que era desejo, na mulher já ferida, torna-se em ancia de resolver o
problema. Chega a assustar-se d'essa apparente submissão, d'essa mudez
desamoravel. Quem sabe se aquelle olhar, fugindo aos olhos d'ella, quer
dizer que o coração foge tambem? E então entra na empreza o mais forte
inimigo da mulher: o amor-proprio, esse conselheiro intimo, que a salva
raras vezes da queda, e, demonio de soberba, impelle-a quasi sempre á
perdição, vendando-lhe os olhos do juizo, e dando-lhe aos do amor a
vista dupla, o vêr penetrante, que, em linguagem do tempo, se chama a
razão livre, a sanctificação do instincto. Era o amor-proprio o que
fizera na face de Marianna um signal de resentimento. Ainda que Luiz da
Cunha representasse o papel de atraiçoado amante, extenuado para novas
paixões, a viuva, como todas as mulheres nas circumstancias d'ella,
formosa e rica, tivera uma vez e outra a vangloriosa ideia de resuscitar
aquelle homem, que se julgava morto. Que nos perdôem as feiticeiras
florinhas com que o Senhor matisou as agruras da existencia; mas uma
fragilidade muito sensivel, e que muitas vezes as prejudica na sua
isempção, é o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos
desenfreada, ou insuflar uma existencia nova no homem, que adquiriu nota
de cansado. Arriscada empreza todos os dias commettida com mau successo!
A inexoravel serpente do éden está sempre assobiando aos ouvidos da
eterna Eva. A vaidade, creação contemporanea da primeira mulher,
continua a offerecer-lhe em taça de ouro o sumo do pomo, doce na
superficie, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus pés o
conquistador soberbo, para que a fascinação do seu engodo seja inveja ás
que não poderam tanto, é sempre victima, se o homem, que facilmente se
dá aos ferros, não tem ainda passado a linha da vida, além da qual está
o completo cansaço do corpo e da alma, tristes socios de um tardio
desengano. A que intenta restaurar no coração do homem as potencias,
atrophiadas pela perfidia, não sabe que será ella a offerenda expiatoria
do crime de outra mulher; não sabe que o trahido recupera as forças,
convertendo-as em vingança, porque tudo que n'essa alma existia nobre e
santo, bem póde ser que não sobrevivesse á morte d'um primeiro amor
galardoado com o desprêso.

Leitora, não se enfade v. ex.ª com o longo periodo que vem de lêr, se é
que o leu. Não seja ingrata á lhanesa com que se lhe mostra o homem tal
qual é, e com que se trazem do insondavel da sua alma á luz da analyse
cousas que v. ex.ª não vê em si, e muito raras vezes descobre n'elle.

Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma
outra Marianna em face d'um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia
resistir aos primeiros assaltos do amor, victoria que alcançou a habil
hypocrisia, adestrada em doze annos de infamias. Não quero, porém, com
isto dizer que D. Marianna succumbisse, como imbecil, ao prestigio do
excentrico companheiro de viagem.

O que ella tinha de peor era não ser imbecil. Foi cousa que seu defuncto
marido não apoiava a tendencia d'ella para o maravilhoso. A indole,
acalorada pelos romances, seu passatempo querido, manifestára-se de
um modo assustador para um marido, não convencido da sua superioridade a
todos os outros homens, perante sua mulher. O fallecido fazendeiro de
café era um homem excellente; mas, a respeito de intelligencia, não
fallemos n'isso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de
Marianna, que sinceramente o presava, desde que elle entrára como feitor
em casa de seu pae. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta
annos arrebatado por uma febre typhoide, era nosso patricio, nascêra nos
Arcos de Val-de-Vez, d'ahi sahira aos doze annos, e ahi voltára rico
para morrer nos braços de seus parentes, que tirou da miseria. Tantas
virtudes, mantidas pelo trabalho, são sobeja honra á memoria do marido
de D. Marianna. Não precisamos, mentindo, encarecer-lh'a com dotes que
elle não tinha, e, por isso mesmo, não approvava em sua mulher.

Mostrára-lhe, talvez, uma intuição clara que as tendencias romanescas de
sua mulher a precipitariam. Viu bem.

Não sei se Marianna tinha sonhado o typo de Luiz da Cunha, como se diz
em verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que é alguma
cousa peor. Os traços do astucioso caracter moral não discordavam do
physico. Para a sua physionomia triste e sympathica arranjára-se Luiz da
Cunha uma alma tão ao natural, que deixára a perder de vista as
imperfeições da natureza. A arte, em quanto a mim, póde mais que a sua
rival.

Sem arte não encaminhava Luiz da Cunha as cousas a ponto de Marianna ir
sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as
estrellas do ceo, entre as quaes dizia o impostor que procurava a fada
do seu destino.

--Se a vir--dizia Marianna--peça-lhe que lhe diga o meu.

--O seu destino posso eu dizer-lh'o, senhora D. Marianna.

--Qual?... diga, diga.

--Ha de ser venturosa, venturosa sempre.

--E sou eu venturosa? Sósinha no mundo...

--Quem tem o coração povoado d'anjos nunca está sósinha... Qual
será o homem que a não adore? Póde v. ex.ª rejeitar o culto, póde
julgar-se só em quanto não encontrar uma alma afinada pela sua; mas, em
quanto se é adorada, não se póde julgar sósinha...

--E que valho eu para ser adorada?

--Vale as mais santas esperanças d'um homem com o coração viçoso, ainda
rico de todas as illusões, puro ainda de toda a mancha; vale um preço
inestimavel; vale uma existencia. Tivesse eu esse coração, com
esperanças, com vigor, com pureza.... não me tivessem vasado n'elle
torrentes de fel que m'o queimam...

--Sem esperança?

--Nenhuma esperança... tenho-lh'o dito como uma confidencia que se faz a
uma irmã...

--E eu não posso crêl-o... Deus não quer que a sua vida acabe tão
cêdo... Ha de haver alguem, que lhe faça esquecer essa mulher, indigna
de si...

--Onde encontrarei eu outra?

--Onde a encontrará? Talvez no Rio de Janeiro, onde ha tantas... e tão
seductoras...

--Oh! que santa prophecia é essa!... V. ex.ª não me conhece... não se
conhece...

--Não me conheço!... Que quer dizer?

--Nada, minha senhora.

--Diga... não me deixe dar uma má significação ás suas palavras.

--Pois sim, digo; mas que a não vá eu ferir... promette perdoar-me?

--Pois que me dirá que eu não deva perdoar-lhe?!

--Não se conhece; porque, se alguma mulher podia dar-me a mão, afastando
de sobre mim a pedra sepulcral... Já me comprehendeu...

Marianna baixára os olhos, e estremecêra. Subira-lhe ás faces o calor do
coração. Sentira em si uma confusão de ideias, uma embriaguez de
felicidade e receio, uma tal perturbação que, n'aquelle momento, quizera
antes não estar alli, supposto que em parte alguma podésse estar melhor.

Luiz da Cunha, encostando a face á mão direita, pozera a mão de modo que
os olhos retorcidos não perdessem um movimento de Marianna.--É o que eu
tinha previsto--disse elle a si proprio, sorrindo mentalmente.
Passados alguns segundos dramaticamente taciturnos, Luiz, como de um
rapto, sahiu do seu extasis, e perguntou com a mais artistica commoção:

--Offendi-a? Lembre-se que prometteu perdoar-me.

--Perdôo-lhe todo o mal que me faz...

--Vê como sou infeliz?

--Infeliz!... qual de nós é mais?

--Tão infeliz que faço mal a quem eu quizera dar todas as felicidades da
terra, se tivesse a omnipotencia d'um Deus.

--O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quizesse, em
ventura de ambos...

--Poderia!... eu bem sei que podia... Snr.ª D. Marianna... eu devera
têl-a encontrado no principio da minha juventude.... Eramos hoje tudo
que o desejo póde imaginar de mais feliz, de mais invejavel... Segue-se
que é mentira aproximarem-se os entes que o destino talhou para se
unirem... Quando se encontram, já a desgraça os traz desfigurados;
vêem-se, e não se conhecem; fallam-se, e não se comprehendem; abraçam-se,
e sentem-se frios como a pedra de um tumulo, como dous cadaveres, que se
levantam, a par, da mesma campa...

--E é o que nós somos um para o outro? Julga-me tão mal, senhor Luiz da
Cunha!

O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, dá quatro passeios no
tombadilho, afastando os cabellos da testa, e pára defronte da viuva,
com attitude o mais ridiculamente sinistra que póde imaginar-se.

--Senhora D. Marianna!

Ella fixou-o, erguendo-se tambem assustada.

--Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me? É o
instrumento sobrenatural do meu anjo de redempção? Responda...

--Que posso eu responder-lhe?

--Obedeça ao seu coração... Este momento póde marcar uma nova época na
minha vida...

--Senhor Luiz da Cunha...

--Responda, Marianna... não receie ferir-me com uma palavra negativa...
Eu preciso mesmo do ultimo desengano...

--Que hei de eu dizer-lhe... sem que me tenha dito...

--Que a amo?... Não o adivinhou ainda, Marianna?!

A viuva encostou-se á amurada do navio, e pousou a barba na palma da mão
direita, cujo braço tremia em perceptivel convulsão. Um raio da lua
reflectiu-se nas lagrimas d'ella. Luiz da Cunha teve um d'esses raros
momentos de compaixão, que costumam assaltar o infame: devêra então
maravilhar-se do magico prestigio da impudencia.

O capitão subia ao convez, e olhou com indifferença para os dous
passageiros, que não eram suspeitos a ninguem. Marianna, dizendo-se
influxada pelo ar da noite, desceu á camara, pedindo a Luiz da Cunha que
se recolhesse tambem. Era do plano astucioso obedecer.

Desde o dia immediato, repararam alguns passageiros na frequente
conversação da viuva com o homem mysterioso. O capitão, prevenido por
elles, reparára tambem que os passeios na tolda eram certos todas as
noites. O que elles todos notavam era uma sensivel differença nos
estranhos costumes do companheiro. Já não era preciso instar com elle
para assistir ao almoço. Acontecia muitas vezes encontrarem-no já com
Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima quando entrava
alguem. Viam-os, depois de almoço, ao pé da agulha, fugindo da ré onde
se agrupavam os passageiros. Para admirarem o phenomeno magnetico do
iman com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se
que havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto
chorára, e tão depressa esquecêra o marido. Mas não passava d'isto a
murmuração.

Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da
galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por
ella a seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado
para sua casa, e aceitou com arteira difficuldade, que as instancias
convencionadas de Marianna venceram.

O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um
envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse
envolucro, junta á ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha.
Abriu-a, e leu:


_Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte
por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre,
sirva-lhe ao menos de vergonha perante a sua consciencia._


A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos.
D'aquella alma já não era possivel arrancar vergonha nem remorso. O
padre Madureira enganára-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu
que o segredo voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas
conjecturas ácerca da riqueza de Assucena: d'onde lhe viriam perto de
quarenta mil cruzados?

Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como
nenhuma era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia,
embolsal-a d'esse emprestimo.

Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que
inactiva, era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas
salas da boa roda, porque D. Marianna as não frequentava, como viuva.
Visitava-a todos os dias em familia. Escrevia-lhe todas as manhãs, e
recebia de tarde o menino, que era o pretexto para a entrega das cartas.

Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial,
declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com
Luiz da Cunha. Não se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo
era bemquisto: informações de Portugal era tarde para havel-as: o astuto
soubera dirigir o plano de modo que se não pedissem a tempo.

Casaram.

No dia immediato espalhára-se no Rio que D. Marianna casara com um
infame aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não
cabiam.

Esta terrivel nova fôra levada pelo capitão da galera, que se informára
em Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro
dia de viagem, ou nos outros.

Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna
era verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento
do marido.



XIII.

EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.


Eram passados tres mezes. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama,
confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecêra nada
nas esperanças de Marianna, e vivia á mercê da vontade d'ella, que era a
primeira a lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom
marido frequentava com ar de aborrecido.

Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com
elle em suspeitosa guarda, não querendo acceitar como possivel a sua
emenda. Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da
caprichosa lhe déra; o todo, porém, d'esses cabedaes, em terrenos e
predios urbanos, não podia considerar-se propriedade alienavel da viuva,
que era simples administradora de seus filhos. Ainda assim, a sua meação
avaliavam-na em cem contos de reis.

Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração
economica da casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente
seu por mutua escriptura.

O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das
suas intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era
a sua; mas tambem não sentia os imperiosos estimulos de procurar emoções
nas outras. A paz, as commodidades, o luxo, a consideração, bem-estar
que nunca experimentára, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações
idas de Portugal, e queria, até por capricho, desmentil-as. Signal
era de que a opinião publica alguma cousa valia já na sua. Este symptoma
enganaria o mais sisudo physiologista do coração, quando o proprio Luiz
da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.

Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com
soberba a sua boa escolha na presença dos que faziam côro com a
maledicencia, mordendo a reputação de seu marido.

Deliciosos tres mezes!

Mas ao quarto.... Porque não morreu aquella pobre senhora no terceiro?
Porque não se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de
ser tão brutal, tão despota a desgraça atirando abaixo das felizes
illusões a victima a que deu trégoas d'alguns mezes?

Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no theatro, e fixou-a
com tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente.
Quiz desviar-lhe a attenção da perigosa mulher, e não pôde. Quiz, no dia
seguinte, com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital,
mas seu marido, com pretextos ainda mais subtís, adiou a sahida.

A dançarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da
seducção. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais
maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de
uma costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão
expostas á avidez da analyse, não invejavam a correcção proverbial das
de Diana caçadora. Nos braços, d'um setim transparente, destacava-se a
rêde das veias azuladas, onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar
se eram aquelles os braços roubados á Venus de Milo. O pé, que nenhuma
sevilhana teve nem mais pequeno nem mais arqueado, obedecia ao frenesi
das evoluções, ou encontrava o dente da tarantula, cada vez que tocava o
invejado pavimento do palco. Era a Paquita que Asmodeu inventára para
Cleófas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as creaturas de Deus.

Luiz da Cunha não experimentára ainda as paixões tempestuosas do
theatro, a mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos
concorrentes, essa garganta que sorve com o ouro as illusões nobres
do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho
á custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.

Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.

Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das
suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a
sombra de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria
tranquilla que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas
accusarem o que os labios não accusam. Vem a pallida melancolia enturvar
os sorrisos descuidados da dôce paz.

Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a
essas timidas manifestações de ciume. Se os labios deixavam passar um
gemido, ninguem a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz
costumava enrugar a testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de
sua mulher.

Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para
satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro,
repellidas sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da
brandura hypocrita, outras da violencia natural. Nem de uma, nem da
outra maneira. Ao lado da franceza estava um amante, francez tambem,
caprichoso, ciumento, e espadachim. Luiz da Cunha fôra ameaçado por
elle, e conteve-se em quanto as esperanças lhe não falliram.

Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria vêr-se
sacrificada, no coração do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem
alma. Os seus amigos lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da
Cunha batiam as palmas. A infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo
mesma. Advertiu seu marido do que se dizia; pediu-lhe que não désse aos
seus inimigos o prazer de o apregoarem tal qual as informações de Lisboa
o pintavam.

Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus
inimigos podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de
presente ao diabo.

As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal do
capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de virtude.

Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno
espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, á qual
respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se
um duello, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um
dos mais nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um
troca-tintas da França. O francez, dias depois, abandonava o Rio para
evitar um assedio de traiçoeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.

A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto
centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela
prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da
escandalosa rival de Marianna.

Os amigos d'esta, finda a estação do theatro, expulsaram a dançarina,
com artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o
restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.

Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe
tocára o coração. Disfarçou a affronta em publico; mas, de portas a
dentro, desforçou-se do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era
sublime! Quiz convencer a sociedade de que era outra vez feliz, para
readquirir o bom nome de seu marido.

Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um
esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.

Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua
casa soffrêra, estava remido. As dissipações com a mulher do theatro,
posto que exorbitantes, não doiam no coração da nobre senhora. Esses
calculos deixava-os ella á curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus
haveres. O que ella queria era o coração de seu marido, e esse
capacitou-a elle de que fôra sempre seu, até mesmo na embriaguez
vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.

Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita
ás primeiras capitaes da Europa. Marianna desejava vêr Paris,
Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido
conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.

Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informações da
dançarina _Carlota Gauthier_. Fôra escripturada para Madrid. Em breves
dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A
impaciencia ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu
a Marianna voltar.

Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o
abandonado amante, phantasiando a violencia com que fôra arrastada a
bordo a uma embarcação.

Luiz propôz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis
annuaes. O seu desenlace devia ser immediato: nem uma só vez appareceria
no palco. Luiz da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina,
e explicasse a viagem á Europa, e a sahida precipitada de Paris.

Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnação.

Marianna não podia comprehender as sahidas frequentes de Luiz,
deixando-a só n'uma hospedaria! Não se queixava para não ser, talvez,
injusta com as abstracções de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro
com alguma madrilense d'entre tantas tão seductoras, e cujo garbo ella
não podia invejar. Por necessidade de conviver, relacionou-se com uma
familia portugueza, hospedada no mesmo hotel. Fugia de revelar os seus
pezares; mas uma das senhoras portuguezas adivinhou-lh'os. O marido
d'esta sabia quaes eram as distracções de Luiz da Cunha. O rompimento da
escriptura era sabido de todos. O amante de Carlota era apontado. Só
Marianna ignorava o que em Madrid era materia de ociosa analyse, até ao
momento em que a senhora portugueza lhe aclarou o segredo das frequentes
sahidas.

Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em
esconder de sua mulher o escandalo, que dava a todo o mundo,
galardoando-se d'elle, e guardando-se apenas d'ella.

Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua
viagem. A desgraçada, apegando-se ao derradeiro fio da esperança,
imaginou que a dançarina ficaria em Madrid.

A ancia de sahir restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o ultimo adeus
á dama portugueza, disse-lhe esta ao ouvido:

--Se vão para Paris, saiba minha amiga, que a dançarina já para lá
partiu ha dous dias.

..........................................................................

--Não vamos para Paris...--dizia, depois, Marianna a seu marido.

--Porque, minha filha?

--Porque receio a epidemia.

--Sou informado de que já não ha peste em Paris.

--Ha, ha...

--Como sabes que ha?!

--Não é só a peste, é tambem a morte para esta desgraçada mulher, que
trazes pelos cabellos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos
teus desprêsos...

--Isso é uma calumnia, Marianna.

--Não vamos para Paris, meu querido amigo... não vamos, não? Já vi
tudo.... não quero vêr mais nada de lá. Vamos para a Italia... sim?

--Iremos; mas é necessario fazer escala por Paris.

--Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...

--Que mulher?!

--Carlota...

--Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu não sei d'essa
mulher.

--Desde que te despediste d'ella em Madrid?

--Tem juizo minha creança... Tu já sabes que a parte que tens em minha
alma não póde ser substituida por ninguem, e muito menos por comicas...

--Desgraçadamente tenho a certeza do contrario... Queres dar-me uma
prova de estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?

--Que é, Marianna?

--Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu
esqueço-me de tudo; nunca te fallarei d'esta mulher; mas vamos já...

--Não tem geito nenhum esse contra-senso. É um disparate que faria rir
os nossos conhecidos!

--Pois que riam elles, e não chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me
a vontade?

--Não posso.

--Não pódes?! Que maneira é essa de responder-me?! Lançaste-me um olhar
que nunca te vi! Santo Deus, que coméço a ter mêdo do teu aspecto! Será
possivel que tu sejas o homem que se disse?

--Não sei o que sou: fica n'aquillo que te parecer.

--Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.

--Não irás, Marianna. Has de ir comigo.

--Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei
longe dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas não
sejas tão mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.

Esta afflictiva scena passava-se n'uma estação onde parára a diligencia
para os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixára sua mulher, quasi
de joelhos, e viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado
pelo imperioso _hei de ir já!_ voltou-se para dentro com arremesso,
crusou os braços, fez um gesto affirmativo de cabeça, e deu uma d'estas
risadas cortadas que significam desprêso e ameaça.

Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convicção de que seu
marido era um malvado. Vendo-se sósinha, tremeu da sua situação. Forte
em todos os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela
vida. Como a avesinha, escondendo a cabeça sob a aza para não vêr o
assassino que lhe mede com a pontaria o coração, Marianna escondeu a
face entre as mãos, cambaleou um momento, e recuou sobre um canapé, onde
cahiu desfallecida.

Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um
possivel divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se
da inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e
começou o seu novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços,
chamando-a com ternura, e cobrindo-a de beijos.

Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz, e por pouco
não cede ao impulso de abraçal-o. A que, momentos antes, tremêra de mêdo
diante do malvado, eil-a agora, quasi perdoando, arrependida do
criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! Quantas
transfigurações da martyr que pena, para o anjo que perdôa! Quantas
lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!

--Não me tenhas odio, Marianna...--dizia elle, inclinando-a sobre o
braço esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.

--Odio... não tenho; mas queres que eu não soffra?!

--Quero... farei o que tu quizeres... Não queres que vamos a Paris? Não
iremos. Vamos para a Italia, sim?

--E de lá para nossa casa?

--Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de lá
embarcaremos para a Italia... queres?

--Sim, sim, agradeço-te de todo o meu coração o sacrificio...

--Sacrificio! nenhum, Marianna! Tu não crês que és para mim a primeira
mulher, que não tens uma rival que possa mais que a tua vontade?

--Queria acreditar; mas tu...

--Eu que? Sou fraco... sou um miseravel ludibrio do destino; mas tu
vences esse destino, quando queres... És hoje para mim o que eras ha um
anno sobre o mar...

--Oh!... se eu fosse!...

--És, filha. Não me vês arrependido? Queres-me de joelhos a teus pés?

E o farcista fez menção de ajoelhar, quando Marianna se lhe lançou ao
pescoço, beijando-o, banhando-lhe de lagrimas a face, soluçando,
comprimindo-o com a vehemencia de toda a sua paixão acrisolada pelo
ciume, e expansiva pelo prazer do triumpho sobre a rival.

Em Madrid, Luiz da Cunha foi tão caricioso, que Marianna recordava os
primeiros dias do seu noivado, e não os achava mais gratos, mais
ligeiros nas suas rapidas horas do delicioso arrobamento.

Furtando-se poucos instantes á companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevêra
a Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com
um pseudonimo, porque assim convinha á tranquillidade de ambos.

Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a
dançarina, nomeando-se _Julia Lamotte_, chegava a Veneza, e isolava-se
n'um hotel, sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, á
prestação annual de sessenta mil francos, dos quaes apenas recebêra em
Madrid cinco mil.

Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou,
fixando-o com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios
escravos do amante de Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde
de Bacellar, e acutilára o mestre de esgrima, tinha tanta maldade como
bravura. Não se apavorou do gesto ameaçador do francez, rodeado de
francezes. Caminhou para elles, com duas pistolas engatilhadas, na
presença de sua mulher, que permanecêra estupefacta sem atinar com a
causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo dos
francezes, os homens mais delicados do mundo, respondêra com um sorriso
á arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o
chapéo na mão, e disse-lhe com affectuosa urbanidade:

--Sabemos respeital-a mais que seu marido. Não receie consequencias
tristes. Os aggredidos são cavalheiros.

Luiz da Cunha, depois da ridicula provocação, metteu as pistolas nas
algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os
esperava.

Marianna pedira inutilmente a explicação d'aquelle successo. O marido
evadia-se ás perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginára
que um d'aquelles o escarnecêra.

Deu-se um encontro que respondeu ás apprehensões da brazileira.

A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava
outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbação de Luiz não foi
visivel para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da
dama, que se approximava na direcção da sua gondola. Já perto, Marianna
fez-se livida, convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao braço do
gondoleiro, repellindo o de seu marido, e, ajudada a saltar ao caes,
sentou-se, murmurando:

--Como eu sou desgraçada, meu Deus!

Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por
sua mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra
ella, por não poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra.
Esse tal, em quanto uma ardilosa desculpa o póde justificar, transige
com as lagrimas da esposa, e finge serenamente a contrição; mas, se a
contumacia no crime, todas as vezes descoberto, lhe inutilisa as
invenções refalsadas, e o exautora de prometter emendar-se, o que até
alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio ás algemas, em
emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o cynismo que
se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da verdade.

Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna.
Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota
que não evitára tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua
mulher, que não proferira uma só palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.

--Vamos--disse elle com aspereza.

Marianna ergueu-se, quiz aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.

--Não posso.--E sentou-se.

--Se não pode, tornemos a entrar na gondola.

--Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a
minha presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...

Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as
não escutasse, não commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era
mais de crer que lhe exacerbassem a cólera. As contracções da testa, o
morder dos beiços, o arfar das azas do nariz, os impetos das mãos aos
cabellos e ao bigode, denunciavam a subita renascença de toda a
perversidade do coração que lhe atirava golphadas de sangue negro á face.

D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante
aspecto. Alguma cousa havia ahi que só póde vêr-se e imaginar na cara
assignalada pela predestinação do patibulo!

Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam
partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha seria escandaloso sem
justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os direitos da
infamia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus actos.

O programma d'esta nova phase vamos nós ouvir-lh'o no _Albergo di
Italia_. D. Marianna está encostada ao peitoril d'uma janella, com a
face apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos
na lua que se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que
bordam o horisonte das montanhas tyrobanas.

Está só. É meia noite, e seu marido não vem. Depois que a deixou no
hotel, sahiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Ha cinco horas que
chora, e sente-se menos opprimida: não sabe ella dizer se deve este bem
ás lagrimas, se ás orações. É que orou muito; e, depois, quando levantou
da taboa os joelhos, raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperança,
qualquer cousa divina que não era da terra.

E foi sentar-se, ás escuras, fitando o ceo, com a imaginação mais
tranquilla, com as palpitações mais serenas, com a face aljofrada de
lagrimas suavissimas. Mas a esperança qual seria? Não sabia ella dizêl-a.

Á uma hora entrou Luiz da Cunha.

--Ainda a pé?!--perguntou elle em tom suave.

--É um prazer contemplar este ceo--disse Marianna no mesmo tom.

--Que lindas noites se gozam em Veneza!

--Muito lindas.

--Gosto de te vêr assim, Marianna.

--Assim!... como?

--Sem as impaciencias terriveis do ciume.

--Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.

--O ciume é cousa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não
ha ciume.

--E amor?

--Um pouco, em quanto dura. A civilisação é a liberdade das pessoas e
das cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos
juizos da cabeça, e enraiza-se nas aspirações da alma.

--Não te entendo, Luiz...

--Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma
mulher de fina educação póde ser feliz, como esposa, se não estiver
possuida de certos sentimentos de tolerancia com as faltas do marido.

--Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora
diz, meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas
olha, Luiz... Esta noite não te recorda aquella primeira noite, no mar,
quando me dizias: _é mentira approximarem-se os entes que o destino
talhou para se unirem: quando se encontram já a desgraça os traz
desfigurados; vêem-se e não se conhecem; fallam-se e não se
comprehendem_... Era uma noite assim formosa como esta... Se então nos
não comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos melhor?...

--Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha
de necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação
das minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memoria...

--Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens
zombar comigo, Luiz.

--Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos
combinar bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos
os casamentos são felizes, quando entre marido e mulher se dá uma
perfeita harmonia de vontades. Negas isto?

--Não.

--Da desharmonia resultam a desordem domestica, as contrariedades
pequenas, as desavenças constantes, e tudo isto porque se não entendem,
nem se combinam. Entenderem-se e combinarem-se é fazer uma alliança de
se não importarem reciprocamente das suas acções.

--Não entendi, Luiz; ou entendi uma infamia de que te não considero capaz.

--Pois que entendeste, Marianna?

--Não ouso dizêl-o.

--Eu me explico, e bem vês que o faço com toda a serenidade. Serei muito
teu amigo, não teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu
quizeres ser indifferente ao meu procedimento com as outras mulheres.

--Serei, Luiz; mas com uma condição...

--Qual?

--Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quizeres.

--E qual é o teu fim?

--Educar os meus filhos.

--Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa não podia soccorrer
as minhas dissipações...

--Esse receio fica-te bem; mas é vileza que ainda me não lembrou.

--E porque não queres tu ser feliz como eu posso sêl-o? Eu pago
tolerancia com tolerancia....

--Isto não se crê, Luiz! Dar-se-ha caso que tu vens...

--Embriagado?

--Sim...

--Não venho embriagado, Marianna; e a prova de que o não estou, é que se
fosses um homem, n'este momento, tinhas a cabeça partida nas lages da rua.

--Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.

--Basta! não lhe soffro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu
quarto!

Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os
gritos brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante
d'elle com os olhos no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou
chorando a escrava que a creára, e lhe creára os filhos. Era uma amiga.
Lançou-se nos braços d'ella, suffocando os soluços.

Luiz da Cunha sahira.

--Não se deixe morrer, minha senhora--disse a escrava.

--Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para
elles e... é preciso fugirmos, Genoveva.

--Fugirmos!

--Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.

--Como ha de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguem...

--Pela manhã has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil
em Vienna. Vou escrevêl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...

A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino. D.
Marianna, se podésse rehavêl-a uma hora depois, sustaria o seu
desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O coração d'esta
mulher não deixára sahir o amor pelas feridas das incessantes
punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginára-o ella
sob a influencia de algum diabolico prestigio da dançarina. Não podia
conceber semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa
tolerancia que elle lhe offerecêra! Amava-o ainda.

Mas elle não a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um
proposito para desenganal-a. Indifferença, desprêso, e até abandono de
dias inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. Já não
rebuçava a affronta, nem pretextava sahidas. Á hora do dia, embalava-se
com Carlota nas gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba
impudencia, ao lado d'ella, ao fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.

Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga,
como taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem
lhe espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Cahira
extenuada de soffrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o
tempo necessario para calçar umas luvas, quando sahia de manhã para vir,
se vinha, jantar á noite. Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e
para isso lhe vestira um jokei que a acompanhasse, e lhe déra plena
liberdade de gosar, na sua ausencia, não só os prazeres do lympido ceo,
mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos amúos que a molestavam.

Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!

Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevêra ao ministro
brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e
procurou no hotel uma senhora brazileira.

Marianna ergueu-se para recebêl-o, e soube que era elle o encarregado de
dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhêra
ácerca de Luiz da Cunha as precisas informações: assim lh'o ordenára o
ministro para não annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora
casada. As informações eram muito peores do que a ultrajada esposa
fizera saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.

Um navio estava prestes a fazer-se á vela para o Rio de Janeiro.
Marianna apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situação, tres
horas seriam de sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o
navio tivesse sahido. Marianna não hesitou, nem pediu delongas.

Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira
estava chorando.

--Minha amiga--disse Luiz--tinha tenção de jantar comtigo; mas, se me
dás môlho de lagrimas, retiro-me.

--Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não
janto hoje.

--N'esse caso, não jantarei só... Como estás?

--Boa.

--Optimo. Mas essas lagrimas não se esgotam...

--São lagrimas de alegria.

--Ainda bem. Vê se te reanimas para irmos a Milão, na semana proxima.

--Estou reanimada.

--Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Napoles, _et cetera_.

--Iremos. Estas viagens regalam-me o coração.

--Estou gostando do teu joco-sério! Vaes-me sahindo uma _pretenciosa_
falladora.

--Estarei calada, Luiz!

--É melhor.

--Mas, se me não levas a mal, sempre te farei uma pergunta...

--Não ha pergunta sem resposta... Venha de lá isso.

--Como se póde ser homem tão cruel?

--Como se póde ser mulher tão impertinente?--respondo, perguntando.

--Não tenho mais que te diga.

--Falla, se tens lá mais alguma pergunta de algibeira.

--Não tenho nenhuma; comtudo... se tens paciencia, has-de ouvir-me. Eu
tenho filhos, de cujo patrimonio sou administradora.

--Já sei.

--Os meus filhos podem pedir-me contas d'esta administração.

--Não digas mais nada, que eu já te matei a charada no ar. Queres dizer
que eu gasto mais do que os rendimentos da tua meação. Dir-te-hei que
não consinto que me lances em rosto a minha dependencia da tua fortuna.
Isso é vil.

--Sou vil, é o que se segue; mas repara, Luiz, que te não lancei em
rosto a tua dependencia.

--A cousa bem traduzida lá vai dar. Queres despedir-me do commercio de
bens?

--Não: o peor é se te despedem...

--Quem?! Que quer isso dizer?...--replicou elle, colerico.

--Nada...

--Minha querida senhora, para não irmos adiante, fiquemos aqui... Até
ámanhã...

--Até ámanhã, Luiz.

No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier não veio a casa. A
escrava soube que o marido de sua ama sahira para Peschiera com a
franceza, que disse, no hotel, voltaria passados tres dias.

O immediato era o dia aprazado para a sahida do navio.

O addido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo.
Genoveva levou sempre sua ama desfallecida nos braços. Dizia-se a bordo
que a pobre passageira parecia morta, e não desmaiada.



XIV.

CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.


Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao pé
do pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas
creanças, embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como
a brisa tépida que os arremedava no bulicio da ramagem.

Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia,
os tinha já prevenido contra os perigos do local, ao vêr os vultos
teimou que entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com
saudade para as deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como
arrastado, na direcção do barco.

Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz
que fugisse.

--Fugir a que? São tres, e eu só fujo a trinta.

--Foge Luiz, que eu suspeito...

--Que suspeitas?

--Que algum d'elles é...

--O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecêl-o.

Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos
marchavam para elle tão serenos como se tivessem ouvido o tinnir do
gatilho..

--Parem, quando não mato-os!--exclamou Luiz.

--Pois atira, miseravel!--disse um dos tres.

Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou, aperrando-os
de novo. As pancadas produziram o mesmo som abafado.

--Estou desarmado, covardes!--gritou elle, quando as primeiras pauladas
de «cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.

--Chama os teus sicarios do Brazil!--dizia o antigo amante de Carlota,
sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de
sangue, perdêra o accôrdo.

A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera
ao largo, graças á prudencia do barqueiro.

Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla
pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de
descobrir nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.

Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os
vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil
que punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em
auxilio da consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na
prôa do barco, e lavaram-lhe a face arregoada de sangue.

Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o
consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o,
indemnisando-o com extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova,
por causa d'ella.

Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias
suas a Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que
era prudente procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no
Brazil a remessa d'uma importante quantia que elle exigira.

No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma
madrugada, havia treze dias, e não voltaram.

Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo,
menos os bahús d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o
esclarecesse! Chamou o criado, que ficára com as chaves, esperando que
lh'as recebessem:

--Com quem sahiu a senhora?

--Com um cavalheiro.

--Seria de Veneza?

--Não, senhor: vi-o aqui entrar uma só vez, antes d'ella sahir com elle.

--E os bahús, quem os transportou?

--Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.

Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um
navio com carregação de vidros para o Rio de Janeiro.

A sua situação pareceu-lhe embaraçosa! A primeira ideia foi seguir
quanto antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu
ternamente que o não acompanhava, porque não tornava ao Brazil. Ainda
assim, renunciando generosamente o amante á esposa, a bailarina
aconselhava-o que a seguisse, embora ella ficasse devorada de saudades.

Esta sublime abnegação impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos
gritos do presentimento, as consequencias da apparição de Marianna,
sósinha, aos seus parentes.

Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que
ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna,
forçada pela saudade, poderia de lá chamal-o, pedindo-lhe perdão.

Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade,
não azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente
como se uma nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a
ultima libra dos dez contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes
pagamentos á bailarina, de cinco mil francos cada mez. Contava-lhe com
ingenua candura a sua vida, os seus haveres, e até desceu á pueril
pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem economias, em quanto
lhe não chegava uma ordem para saccar em Londres um cabedal mais duradouro.

Carlota, á palavra «economias» sentiu que o coração lhe fazia no peito
uma pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.

Á maneira do coração, a dançarina resolveu fazer tambem uma pirueta na
primeira occasião.

A occasião veio-lhe ao encontro dos desejos. Um conde austriaco
hospedára-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes
discricionarios para convencer a moça. A proposta foi aceita,
estipuladas as condições, e Carlota desappareceu com o conde na estrada
que devia conduzil-a a Paris.

Luiz da Cunha--diga-se a verdade--não sentiu muito a ausencia da sua
companheira de quarto. A paixão diminuira na razão directa das libras. A
sensualidade ia-lhe arrefecendo á maneira que o espirito se lhe occupava
em meditações sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de
contacto entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde.
Teve a imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e
concordou, o mais racionalmente que pôde, que aquellas duas eram d'um
estofo muito superior ás outras.

O peor era a pobreza que o ameaçava!

Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham
cahido na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de João da
Cunha, dos quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario
com que sahira do Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e
nenhum amigo, nenhum credito, nenhuma esperança que lhe não deixasse
antever o futuro pela face da indigencia. Angustiado no dilemma,
resolveu abandonar a Europa, que tão cara lhe era, e vestir uma mascara
de bronze, como se precisasse de encobrir a vergonha, para lançar-se aos
pés de sua mulher, se é que ella lhe não correria aos braços, banhada em
lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execução immediata,
porque as ultimas libras urgiam.

Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a força diabolica que
o empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se á
prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia
n'um navio de escala para Buenos-Ayres.

N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na
biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de
viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que
a todos repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi
assustadores. Corria as cortinas do seu beliche durante o dia, e
passeava toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros
tambem subiam a respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se
na sua camara.

Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas
não era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo
colerico, o concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões
que o condemnam a morrer no desespêro da immobilidade.

Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez
nunca. O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma
alliança insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma
fabula, quando me vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso,
encarando o bem por que suspiro. A lucta entre as duas potencias existe
no coração humano, em quanto a consciencia sabe estremar o crime da
virtude. Mas, perdidas as noções do dever, raspada de sobre o coração a
palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom fugiu espavorido, o
remorso é impossivel.

E era-o para Luiz da Cunha.

Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre,
sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a
victima desprevenida.

Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára
todas as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a
vingança de Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para
diminuir os redditos, mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria
meação. Verificar esta horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se
de qualquer modo era a sua tenção, se uma bem estudada impostura o não
reconciliasse com Marianna.

Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no
mesmo hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de
passagem que Proença era um official do exercito portuguez, que seguira
as bandeiras de D. Miguel. Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho
d'um brigadeiro, visitava-se com João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.

O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a
adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de
amanuense d'um advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para
tentar o trafico da escravatura, pensamento dominante de Proença.

O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido.
Civil, bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça.
Fez-se bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de
honrado, apesar do seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não
deshonrava ninguem. Era como qualquer outro, um ramo de commercio, que
germinou illustres vergonteas, as quaes transplantadas depois em
Portugal, bracejaram copadas sombras onde se acoitam em torpel as
mercês, e os sacerdotes da apotheose.

Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu
protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua
mulher.

Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista
o nome _Francisco José de Proença_. Guiaram-no ao quarto d'elle.
Proença, com o coração alvoroçado da surpresa, abraçou Luiz.

--Tu aqui!...--exclamou elle.

--Não imaginei encontrar-te fóra do Rio!

--Vens de lá? Já vejo que não.

--Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?

--Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.

--Se ignoro tudo!... Sei que Marianna está lá...

--Sabes que ella está lá? E sabes como ella está?

--Doente, talvez...

--Doente, não... morta.

--Homem! isso é extraordinario! Tu não mentes?

--A brincadeira seria de mau gosto. Não minto, Cunha. Pensei até que o
saberias.

--Isso é incrivel! Pois Marianna está morta?!

--E sepultada ha cinco mezes.

--Que infernal vida a minha!

As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoção não se
differençava nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.

--Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...

--Matei...

--Tardio remorso!...

--Conta-me tudo.

--Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a
esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não
vieras, e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem
os medicos. Pedi aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um
d'elles contou-me os teus desatinos, e disse-me que a infeliz era tão
nobre que não pronunciava contra ti uma queixa. Precisava explicar a sua
fuga, e o pouco que disse foi mais amplamente contado por cartas do
ministro do Brazil na Austria. Levantou-se contra ti um brado de
indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de Lisboa. Á carga
cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada a
administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar
a dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto
que a sua morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna
tutella. Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi
mudál-a para uma quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens
bem simples a historia, e realmente te digo que é uma historia bem
fertil de lances desgraçados... Déste um pontapé na fortuna, Luiz, e com
esse pontapé arremeçaste tua mulher á sepultura...

--Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não
me soam bem.

--Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres
meu credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.

--Os meus crimes... não são meus.

--Pois de quem?!

--D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente
perdido!...

--Comparativamente ao que perdeste... estás.

--E pobre...

--Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis que te devo, e o
pouco que tenho acima d'esse capital á tua disposição.

--Minha mulher fez testamento?

--Não. Tudo que tinha pertence aos filhos.

--Mas uma escriptura _causa mortis_ que fizemos?

--É nulla: foi logo annullada. D. Marianna não podia dispôr do que era
dos filhos: podia apenas legar-te a terça; mas não testou. Aconselho-te
que não vás ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos
teus enteados. Não vás, que serás morto. O teu nome desperta odios
n'aquelles mesmos que recebeste nos teus jantares. Tens um só amigo, que
se condôa de ti. Sou eu.

--E qual será o meu futuro?

--O que podéres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, não.

--Em que negocias?

--Negociei em escravos.

--Tens sido feliz?

--Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.

--Queres tentar comigo uma empreza d'essas?

--Não. Hoje o meu commercio é menos rendoso, mais pacifico, supposto que
mais laborioso.

--Não sei o que são emprezas laboriosas...

--Tenta; póde ser que a fortuna te dê ainda outro abraço; mas as costas
d'Africa estão coalhadas de negreiros.

--Que dinheiro dispensas?

--Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te
empresto... como quizeres.

--Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?

--Pódes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido.
Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em
Guiné.....................................................................

..........................................................................

N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o
adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as
condições da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os
dedos scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro no
pescoço. Ouvira, silencioso, o contracto, e seguira-o até á porta do hotel.

Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia
uma entrevista, a sós, atraz da igreja das Mercês, ao escurecer.
Recommendava o bilhete um segredo inviolavel.

O temerario foi, sem consultar Proença, e encontrou o homem que vira em
casa do negreiro.

--O senhor quer ser rico?--perguntou o mulato.

--Quero.

--Ninguem responde com mais concisão, nem mais depressa. Se quer ser
rico, siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros
morrem no porão: os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por
cabeça.

--Pois que rumo devo seguir?

--Primeiro; o senhor é capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?

--Sou.

--Não o sendo, a sua existencia valerá menos que um preto asmatico.
Segundo: tem coragem?

--Tenho, penso eu.

--Quer entrar comigo n'um commercio que é um pouco menos infame que o da
escravatura? Quer ser pirata?

--Pirata! O senhor está a zombar comigo?

--Não tenho mais que fazer! Chamei-o mesmo de proposito para zombar com
o senhor! Ora vamos, quer ou não?

--E o senhor assegura-me que se enriquece em pouco tempo?

--Asseguro-lhe que nos fazemos n'um momento proprietarios da propriedade
que outros adquiriram em muitos annos.

--E os contratempos?

--Os do mar?

--Não digo isso: a defeza que póde ser mais poderosa que o ataque...

--Ah! o meu amigo raciocina assim? Já vejo que me não serve... Até á paz
geral, meu caro senhor. Segredo, ouviu?

--Mas ouça, que eu não me deliberei ainda. Não me julgue algum miseravel
poltrão. Quer o senhor entrar no meu quarto, e fallemos lá?

--Então, entre o senhor no meu, que é mais perto. Ceará comigo, e
dormirá, se quizer, com a melhor das minhas escravas.



XV.

LOGICA DO INFORTUNIO.


Luiz da Cunha aceitára a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande
espanto de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato,
explicando esta nascente amizade por certo mysterio, que elle não dizia,
porque não soubera inventál-o. Proença, suspeitando as intenções de
Cunha, porque lhe não eram estranhos os boatos que corriam muito
deshonrosos para o mulato, deu-se pressa em sahir de Buenos-Ayres com a
sua carregação de cortumes para a Bahia.

Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo.
Das praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro
dois navios com aspecto mercantil, içando a bandeira da republica
argentina. Costearam a provincia do Rio-da-Prata até ao Paraguay. Ahi
fizeram-se ao largo, e arrearam bandeiras.

Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola
em dois navios de alto bordo que lhe passavam á prôa. A manobra foi
rapida. As galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos
navios, que lhes fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou
uma ameaça de morte aos hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que
zumbiu nas gaveas.

Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria
viam-se d'um lado e d'outro, como visões phantasticas, as faces
enraivecidas de aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos
aggredidos resolutos á morte com bravura.

O mulato déra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava
da lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecêra. É que uma bala
lhe fizera á pôpa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a
calafetarem inutilmente a fenda.

Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da
victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.

--Á abordagem!

Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os
netos de Cortez não admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis
ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para
puxarem o carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não
tivera coragem de morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu
companheiro, e pedira de joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra
a covardia. Sem a força moral da honra, o musculo do infame ennerva-se,
e a existencia, que devia ser-lhe um pêso, é-lhe ainda cara! Segredos.

Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns
foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da
sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.

Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz
da Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de
educação distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o
seu processo.

Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau
da infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do
prêso, solicitava a sua liberdade.

Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram
descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se
d'elle, pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira,
sem primeiro ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a
eloquencia astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes
que mais deviam tocar-lhe o espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha
soubera dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.

Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres
annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para
esse homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um
ladrão, pela grade da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do
suicidio?!

Não tinha.

O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora
desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os
lençoes da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente
resignação do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma
candeia.

Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de
Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de
ferro umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos
por mez; é o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de
reis. E, comtudo, não tem ainda trinta annos! Que futuro!

Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o
governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe
vagarosamente a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e
crê na magica influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das
circumstancias que mais o pungem é o illustre nascimento de Luiz da
Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dôr collectiva da raça: o vexame e a
condolencia de uma sympathica compaixão. Vencido pelas instantes
lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do prêso, assim como
o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. Luiz da
Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade, é
senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro,
sem incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter
difficultosas emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A
que reservatorio do inferno irá elle invocar um outro genio?

Que lhe falta?

Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou
n'uma sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção
forte que um facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de
encontrar um homem que, de certo, não viera alli para o deixar sem
dinheiro.

O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de
Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da
ignominia.

--Vieste salvar-me?--disse serenamente o pirata infeliz.

--Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para
experimentares uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não
ha braço que te levante.

--Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra.
Philosophei o melhor que se póde com os meus principios experimentaes.
Conclui que sou uma machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr
onde chega isto! Desejava poder calcular approximadamente, pelos dados
da vida, que morte será a minha. Tenho trinta annos. Proença! como se
póde ser tudo o que eu tenho sido em quatorze annos!

--E que serás tu?!

--Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.

--E és capaz de pedil-a?

--Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais
indecente.

--E gracejas!

--Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me
reduziu a isto?! Zombemos com ella.

--Mas não ha outro recurso contra a fome senão pedir esmola?

--Ou roubar.

--E o trabalho?

--Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não
sirvo para nada, não tenho força nem vocação.

--Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria
alguem, ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e
mais tarde um negociante de cortumes? Eu tive fome, Luiz. Deitei-me
algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não pedi
esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas?
Estão calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre
como esmola. Trabalha, Luiz.

--Diz-me lá em que...

--Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupações, e recebes
uma parte grande dos meus interesses.

--Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola.
Emprestas-me algum dinheiro?

--Que farás com esse dinheiro?

--Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...

--Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?

--Uma mulher.

--Como Marianna?

--Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa
infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite
na cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via.
Era febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar...
Palavra de honra! não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...

--Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome
d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua
bôca... Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de
fazer feliz... Vejo que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria...
Vai. Dou-te o dinheiro necessario para a passagem, e para a subsistencia
de alguns mezes.

--És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que
me emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.

--Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes,
a inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma
esperança imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com
a sua riqueza? Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua
vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro. Quem te não
conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao
ministro portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de
immoralidades.

--Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.

--De Bacellar, justamente.

--Isso é um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.

--Não sei se é um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo não
é calumniador. Todas as informações confirmam as d'elle. O que será
feito d'uma menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no
primeiro mez, trocando-a pelos amores da celebre Liberata?

--Não fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a
mulher que me ha de fazer feliz é justamente a que fugiu das
Commendadeiras?

--Vejo que é grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por
ti... Estará ella anciosa da tua chegada como Marianna?

--Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?!
Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se podésse, dava-lh'a... Que
mais queres?

--Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua
felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.

--E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil
cruzados, depois que a abandonei?

--Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse
chão fulminado de vergonha!

--Vergonha... de que?

--Ha em ti um defeito de organisação, Luiz!... Tu não és o homem moral.
Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da
sociabilidade. Não te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre
tem a ferocidade nativa. Tu és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as
lagrimas nos olhos, que estás perdido, perdido para sempre... Receio
muito que encontres um cadafalso no teu caminho.

--Estás funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo é
desmentil-a... Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que
me combatam.



XVI.

TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!


Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sósinha entre os
renques de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e
fechava com apparente distracção um livro, e, se lia, poucas linhas a
fatigavam.

Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre
o lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um collar de
contas de azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de
lavores de madre-perola. Este adorno está em harmonia com o livro em que
lê, e profundamente medita: é o thesouro de Kempis, a Imitação de Christo.

Sentára-se, lendo mentalmente estas linhas:

«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas
tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a
sociedade. O bom não depara ahi senão incentivo para lagrimas. Ou pense
em si ou nos outros, reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E
tanto mais angustiado se vê, mais dos outros se compadece. As compunções
intimas, e a nutrição das dôres merecidas, são filhas dos nossos vicios
e peccados; deslumbrado por elles, não temos vista para contemplar o
ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na vida, fervorosa será a tua
emenda. Se scismares nas penas do inferno e do purgatorio, e do coração
as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e não tremerás de
susto.» Fechára o livro, erguêra para o ceo os olhos lacrimosos, e
murmurára:

--E serei eu grande peccadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa
santa lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?

Parára uma carruagem.

--É minha mãe!--disse alvoroçada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.

Rosa Guilhermina vinha triste.

--Estranho hoje a sua physionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum
desgosto com o padrasto?

--Não, filha... Como estás?

--Bem vê que estou boa.

--Com lagrimas nos olhos...

--Foi de lêr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.

--Que fizeste hontem, filha?

--O que faço todos os dias. Assisti ás tres missas na capella; dei ao
meio dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei
um bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá á noite; rezei a
corôa de Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha
mãe, e o padre...

--Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções.
Padre Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres
comprehender o incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua
saude.

--Não, mãe. Eu não acho nada incomprehensivel na religião de Jesus
Christo. Leio muitos livros mysticos, porque não tenho outro recreio,
nem o quero; rezo muito, porque não devo ser ingrata aos beneficios que
Deus me faz, e peço á sua divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto
não sou pesada a ninguem...

--Mas tudo que é de mais...

--Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.

--Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razão.

--Em mim?

--Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.

--E será isso fraqueza de razão?

--É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e
dois annos.

--Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...

--Mas... não fazes bem: póde-se servir a Deus com suavidade.

--Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.

--E que invenção é essa de trazer as contas por fóra do lenço?

--Pensei que não importava trazêl-as assim, ou de outro modo.

--De certo, não importa; mas poderá alguem chamar-te visioneira.

--Alguem! Eu não conheço ninguem. O padre Madureira não me diz nada; a
mãe de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me
envergonhavam com a sua zombaria... A mãe não acaba de crêr que me não
importa nada o mundo?

--Nem queres que te fallem em cousas do mundo?

--Se me affligem, não... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste,
e quer desabafar comigo... Diga o que tem...

--Uma afflicção que tu não imaginas... e não devo dizer-t'a...

--Se não deve dizer-m'a, terrivel cousa é! Então, não posso eu
consolál-a...

--Se eu soubesse que te não affligias...

--Isso não prometto, mãe; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.

--E se fôr cousa que tenha mais relação comtigo de que comigo?

--Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se não tiver,
paciencia. O Senhor ha de dar-me forças e resignação... Mas que póde
ser? Alguma calumnia?

--Ninguem ousa manchar a tua reputação, minha filha.

--A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me
faz quando pronuncia essa palavra...

--Pois porque não hei de pronunciál-a?

--Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...

--Tens animo, filha?

--Jesus que me aterra!

--Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?

--Se o sei?... quem m'o havia dizer!...

--Tu descóras, filha.

--Deus dá-me animo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria
dizer?... Deixál-o estar... Não tenho nada com elle... É feliz?...

--Muito infeliz... Vem pobre...

--Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?

--Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem.
Casou muito rico...

--Isso já eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.

--Mas abandonou a mulher...

--Coitadinha!...

--E morreu atormentada.

--Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela
alma, minha mãe.

Assucena ergueu as mãos, murmurando o _padre-nosso_. A viscondessa
reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das
suspeitas do padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum
grande desmancho intellectual.

Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas:
abraçava todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a
com fanaticos receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se
fosse possivel sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.

Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou
maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias
de Luiz da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.

Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma
palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes
rodeios, ia dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena
atalhou, dizendo:

--Já sei. Não fallemos em tal cousa.

--Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.

--Sei tudo. Vem desgraçado...

--E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.

--A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...

--Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas
o meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da
culpa lhe despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle
soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e
do degredo, rehabilitando-o para o futuro com os meios necessarios para
experimentar uma nova estrada.

--Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu
perdôo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos
meus peccados.

--Luiz da Cunha--proseguiu o padre--depois de mil revezes, apparece em
Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se
v. exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não
conheço tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que
Assucena vive; mas não para o mundo. «Quero vêl-a--exclama elle--quero
pedir-lhe perdão!» É impossivel--disse-lhe eu.

--Sim, sim, é impossivel!...--atalhou Assucena sobresaltada.

--Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão,
e exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me
uma esmola!»

--Oh meu Deus!--bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.

--Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!--continuou o
padre.--Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi,
deixando-o á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o
sustentassem, e mandei-o para lá... Que é isto?--interrompeu-se
impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braços--Minha filha...

Estava desmaiada.

Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar.
Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma
dos seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com
muito pouco.

Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto,
remira-se com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os
subterfugios para melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer
em bem de Luiz da Cunha?

Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como
beneficiado simples. Tambem não podia.

--Que faremos?--perguntou ella ao padre.

--Tenho pensado n'um meio; e não vejo outro.

--Qual? foi Deus que lh'o inspirou?

--Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o
pagamento a prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro
alcançarei um emprego para Luiz da Cunha, longe de Lisboa.

--Sim, sim, longe de Lisboa.

--Dir-lhe-hei que é o mais que posso fazer-lhe.

--Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...

--Farei a sua vontade. É conveniente que elle o ignore.

Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juizo
ordinario do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.

João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente
nunca subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos
mil reis da neta do arcediago.

Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que
era feito de Liberata.

Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou
defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de
senhoras, e deduziu que Liberata já não morava alli.

Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por
mera curiosidade perguntou quem morava defronte.

--É a familia d'um empregado.

--Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...

--Era boa rolha! chamava-se Liberata.

--Justamente... Que é feito d'essa mulher?

--Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha porta deram umas
facadas n'um tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe
comia a ella a mesada que certo figurão lhe dava, a mulher metteu-se com
um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a ter duas seges a
bebeda![1] Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal
jogador nunca mais ahi veio. Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo
quanto tinha, os trastes até fui eu que lh'os penhorei por cento e
cincoenta mil reis que me devia do grão para os cavallos, azeite, arroz,
&c. &c. &c.

    [1] Respeitemos a fidelidade.

--E morreu?

--Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. D'alli foi para
o hospital acabar de se tratar, e não ha muito que me disseram que a
viram no Bairro Alto; mas mora á porta da rua, para não ter o trabalho
de subir e descer as escadas. É no que veio parar a tal matrona das
carruagens.

--Sabe em que sitio ella mora?

--Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a
vira foi aquelle barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em
sabêl-o, isso é facil,

--Faz-me muito favor.

O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flôr.

Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa
Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas
humanas.

Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de
chale vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em
grande laço para as costas, sahindo d'uma taverna abraçada com um marujo.

Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo
arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo
um bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:

--Ponha-se á capa, quando não vai a pique, sû paralta!

Luiz da Cunha recuou.

--Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!--tornou o
marujo, perfilando-se com o grupo.

E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da
Flôr.

Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.--Vieram depois
outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando
ás costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis
pontapés.

O escrivão do juiz ordinario permaneceu encostado á esquina da rua da
Rosa, até ás dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se
sósinha.

Luiz bateu á porta.

--Quem nos honra?--perguntou ella.

--Abre.

--Quem és?

--Abre sem receio.

--Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina d'hontem,
vai-te com o diabo.

--Abre, Liberata.

--Eu conheço esta voz...--murmurou ella.

Abrindo a porta, recuou, exclamando:

--És tu, Luiz?!

--Em que estado te encontro!

--Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me
conhecestes, isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum signal da
mulher de ha tres annos?!

--Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara?
parece que te queimaram com vitriolo?

--Estas nódoas vermelhas?

--Sim.

--Eu sei cá o que isto é? Está bom... não fallemos em mais nada, senão
mêtto uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me
vem fallar na minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem
carruagens, nem formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem
estás acabado! Disseram-me que estavas rico, é verdade?

--Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.

--Não te faças pobre que eu não te peço nada.

--Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim
como a contrahi do muito que podias. Depois d'amanhã vou empregado
para a provincia, queres vir comigo?

--Pois tu querias-me lá assim?

--Quero... serei o teu enfermeiro.

--Olha lá o que dizes!

--Não me desdigo.

--Eu tenho este vestido que vês.

--Comprar-te-hei o que fôr da primeira necessidade.

--Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vês?!

--Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela
desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é
possivel para ambos nós.

--Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu.
Eu não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo
isto me parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os
dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não
esperava vêr-te mais; mas vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha
quatro horas que eu dizia:--«Que impressão faria eu n'este estado a Luiz
da Cunha!» O que são as cousas d'esta vida!... Até parece que recuperei
o som da palavra, fallando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem
me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me cá: esta machina não
terá concerto?

--Veremos.

--Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas.
Sinto ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da
alma... Vê se fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua
felicidade... Não me vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara
pela ultima vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do
infame que me reduziu a este estado...

--Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.

--Pois deixas-me?! Vou comtigo já.

--Não. Preciso illudir alguem.

Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho,
e sahiu.

Liberata não provou somno. As lagrimas incessantes eram-lhe d'um
sabor novo. Nunca ella fôra tão infeliz como n'essa noite. Havia no seu
soffrimento alguma cousa que disputaria á alma do cynico um momento de
compaixão. N'aquella degradação não diremos que as lagrimas regeneram;
mas por isso mesmo que são inuteis, como o orvalho sobre a flôr
arrancada e sêcca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos
d'ella, mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é
mostrada com escarneo!



XVII.

AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.


E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartorio
d'escrivão do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena. É escusado
dizer-vos que Liberata o acompanhára, e, ao decimo dia de convivencia
com Luiz da Cunha, eram visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia
macerada. Passado um mez, raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas
côr de açafrão, uns longes da descomposta formosura. Luiz tinha soberba
de poder tanto no espirito d'aquella mulher, unica no mundo para elle,
unica pessoa que o não repellira, que se confiára á sua vontade,
entregando-se-lhe sem condições.

O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociaes, revoca as
potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da unica pessoa
que o não abomina. Ha exemplos de affeições ferventes do salteador de
estrada para a mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia
o dia do patibulo, do assassino por officio para a mulher que a chorar
lhe dá esperanças de perdão. O instincto do sangue não adultera o da
sociabilidade. A ancia d'uma affeição recresce, quando o opprobrio vem
de todas as bôcas pedir o exilio do execrado de entre os homens.

Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não ha hypocrisia no
afan com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se
os dias sem um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno,
sem outra convivencia, encontral-os sentados ao fogão, contando-se
mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes são saudadas com
estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo atoleiro,
é necessario que ahi se amem, que ahi se reconheçam, ahi se centralisem
na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o outro,
de infamias passadas.

Reconheceram-se, e amaram-se.

Pois não seria amor a soffreguidão d'aquelles beijos? Não seria amor a
anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais,
nos paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha
fallava de sua esposa aos cavalheiros da terra?

Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos
dos processos judiciarios. Valêra-se d'um velho amanuense que tomára
sobre si a administração do cartorio. Entretanto, o proprietario não
curava de estudar, e cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos,
que eram poucos.

Luiz da Cunha conhecêra um contrabandista de Chaves, que lhe picára o
desejo de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se oppunha ao
arbitrio do seu amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso
contrabandista aventurára os seus capitaes, e outros contrahidos de
emprestimo em arrojadas emprezas.

--Se a fortuna não encravar a roda--dizia elle a Liberata--em dous
annos, iremos viver em Paris.

E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus
caprichos. O escrivão não curava do officio, e raras vezes pedia contas
ao regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no
concelho, ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia
das melhores sêdas os arredores por preços modicos, e enviava para o
Porto e Braga valiosas carregações. No fim de dous annos, o
contrabandista celebrava os annos de Liberata com um rico adereço
comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de Portugal por mais um anno,
visto que não achava doze contos dinheiro sufficiente para de Paris
metter, em grande, o contrabando em Portugal.

Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes,
logrados sempre, velavam as fronteiras desde Monção a Verim.
Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o
contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que
possuia. Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante.
Choraram, abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro
dizia a Luiz, sorrindo:

--Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui
buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que
nos dê a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito
amor para prato de meio.

As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario
publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes
de Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro
se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns
quatrocentos mil reis...

O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou
novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com
quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o
galhardamente nas emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um
bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a
perna em brunida bota d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote
para a nuca o chapéo sevilhano.

--Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!--dizia
o filho de Ricarda.

Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade
dois anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos
guardas. Eram doze cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar
seis mil cruzados ao seu peculio. Deviam entrar por Almeida.

Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas
pisaram algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a
cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram
os bacamartes, com o contrabandista à frente. Liberata não se afastára
de ao pé do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os
guardas. As cargas foram tomadas; dous almocreves morreram. Luiz da
Cunha fugiu, e a destemida cavalleira, com a clavina despejada,
esporeava ao lado d'elle.

--Estás salvo--disse ella--mas eu estou ferida.

--Ferida! aonde?

--No peito... e creio que morrerei!

--Não digas tal... Apeia-te.

--Não, que ouço ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu
cahir, não me levantes, que me não dás vida.

Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavallos
nas extensas veigas de Pinhel.

--Apeemos--disse Luiz.

--Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vês?

--Vejo sangue...

--É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remedio...

--Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.

--Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.

--Isto é atroz!... Não te posso salvar!...

--Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas
contas estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz
defender-te da morte do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres
virtuosas... raras são as que assim morrem... Se me não encontrasses
perdida de todo, não poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos,
Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu coração... Como é
bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a pessoa que se
deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te pobre...
e... só... no mundo.

Liberata expirou.

As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces
mortas d'essa mulher......

São quatro horas da madrugada.

Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e
vê um vulto disforme na escuridão.

--Quem é?

--Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder enterrar o
cadaver d'um seu companheiro de jornada, morto de repente.

--Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil.
Não conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime
debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e
depois fallaremos.

O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado
por uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que
se não constipasse, que estava suado.

Era saber muito!

Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram
jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa
paga. Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o
cadaver. Beijou-o na face. Assistiu ao attêrro. Pagou aos operarios, e
montou o cavallo de Liberata, que farejava o sangue de sua dona.

--Ainda me não venceste, demonio!--Hei de vingar-me da sociedade que me
quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!

Era um como rugido facinoroso esta exclamação.



XVIII.

A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.


Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa,
Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte
que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de
resignação, e abandono á vontade divina.

Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a
misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque,
muitas vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a
sua religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do
visconde condoido, a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e
rejeitava com enfado as opportunas instancias de sua mãe.

Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a
sua devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com
que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta
noite.

As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias
encontral-a douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a
julgassem, era alguma acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do
seu ascetismo.

Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que
fosse a protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna,
descontando-lhe os sofrimentos d'este mundo.

E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos.
Em 1848 morreu a filha do arcediago quasi repentinamente: mas desde
muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira d'uma
quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento podia legar.

Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve
passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe
trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não
resistiu o padre desconfiado.

Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em
quanto vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres
missas diarias: uma por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma
de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por
morte do padre, a quinta passaria á Santa Casa da Misericordia com as
mesmas condições para sempre.

Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava
para a sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou,
supplicou, mas não conseguiu demovêl-a do proposito.

--A minha sahida d'esta casa--dizia ella--é o maior sacrificio que eu
posso fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico.
Preciso ser grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para
os mortos, e a posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu
bemfeitor.

--E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D.
Assucena!

--Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que
martyriso o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da
convivencia com o meu bom amigo.

Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura
irremediavel.

Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no
Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a,
alargando-lhe o coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local,
convida a um scismar suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia,
que deve ter precedido a das dôres terrenas.

A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas do rio Homem
banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franças das acacias,
enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente do perfume das
flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um possuidor
creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais
lympida frescura, de mais poetico devaneio.

O edificio é antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escóla,
respigada em todos os modêlos, e acizelada pela phantasia do que ahi
quizera eternizar debaixo d'esse formoso céo os prazeres innocentes
d'outras eras, d'outros idilios que raros corações concebem hoje.

Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares,
outr'ora confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhára na
casca, perecedoura como tudo em que o homem quer perpetuar-se.

É essa a herança da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em
deliciosos instantes a padre Madureira.

Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericaes, e o quasi abandono em
que deixára a quinta do Lumiar. Fôra, promettendo á lacrimosa Assucena,
vir ahi passar todos os estios. Deixára-a acariciada pela velha serva
que já o fôra do conego Trigoso. Dispôz o arrendamento da quinta para
evitar á nova possuidora canceiras d'administração. Afflictivo fôra
aquelle adeus! Assucena dos braços d'elle corrêra a lançar-se aos pés da
cruz.

E, depois, o oratorio, a capella, as devoções eram a sua vida. Ninguem a
encontrava fóra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas
atravéz de um véo negro, no côro da capella em dias santificados.

Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais,
não para ella que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se
com os moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto,
lhe observava os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até
a imaginaria convicção de que o conego, em fórma de cherubim, a visitava
em sonhos.

E, se acontecia descer, á tarde, ás margens do rio, sentia refrigerar-se
no coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza,
punha a mão no seio que se agitava em estranhas commoções d'um
sentimento incognito, de uma saudade inexprimivel. E, de repente,
ao riso succediam as lagrimas; á instantanea frescura das rosas da
face a pallidez do susto. Assucena fugia, dizendo que offendêra o Senhor
com pensamentos mundanos. Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada
vergoada que se abria no corpo com as disciplinas.

Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia.
Empregou uma religiosa severidade para arrancál-a á mystica exaltação;
mas era tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não
queria entrar na capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que
vira erguer-se um homem amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno
de duzentos annos o fundador d'aquella casa.

Um habil confessor não podéra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa
senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixão desditosa,
franqueava-lhe as portas do mundo para que se não perdesse na região das
chimeras. Assucena respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela
explicação das lagrimas e do silencio, gritava pela misericordia divina.

Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que
não tornaria a vêl-a senão douda.

Previra bem.

Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena
estava vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque
em fitas cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos,
conservados ainda nos seus bahús de educanda. O padre respondeu com o
pasmo e com as lagrimas á gargalhada.

--Porque chora?--disse ella, com tristeza.

--Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...

--Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha
fome...

--Quem?

--Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me
mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o
infeliz! A deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... Não quero que
ninguem me vingue...

--Assucena!...

--Se eu fosse outra, procurava-o na cadêa... Fui eu que o abandonei
primeiro... quando o meu padrasto o pôz a ferros... Que me importava a
mim a sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado
este abandono!?...

--Isto parece incrivel, meu Deus!--exclamava o padre, voltando a face
dos olhos abrazados de Assucena.

--Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus
infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado,
e que lhe deu um bocado de pão, quando elle disse que tinha fome...
Ouça-me... Onde está Luiz?

--Não sei, senhora.

--Pois eu quero vêl-o para perdoar-lhe...

--O seu perdão não melhora os infortunios d'elle. Deus é que perdôa...

--Sim, sim, Deus...

Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira
seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados
no pavimento, diante do oratorio.

Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da
gôta coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz tremula de
compuncção:

--Minha filha... Venha comigo para Lisboa...

--Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.

--Luiz da Cunha?

--Sim.

--Viu-o alguma vez n'estes sitios?--perguntou o padre suspeitoso.

--Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte
de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.

--Fallou-lhe?

--Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma
jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?

--E se elle lhe pedisse de comer?

--Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta,
estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cêdo?! Que venha, e eu
dou-lhe tudo! Não quero que o persigam, já disse! Hei de accusar
diante de Deus quem o matar!

..........................................................................

Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se
retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por
escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber
facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se
deixasse visitar por um medico. Se fugia á vigilancia do egresso, ia ao
portão fitar o ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava;
desenganada da sua louca esperança, sentava-se na pedra, chorando com
mavioso mimo, com infantil resentimento, até que o seu guarda,
inventando promessas, a conduzia a casa.

E nunca a tão bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!

Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demencia!



XIX.

UM VEIO NOVO A EXPLORAR.


E Luiz da Cunha?

Deixára Liberata na sua ultima paragem, e fôra ao concelho de Ribeira de
Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando
perdêra-os na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a
coragem animadora de Liberata; cahiu n'um estupôr moral, em que o
pensamento do suicidio muitas vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal,
sem poder entrar com elle no coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.

Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista.
O ministro, que já não era o mesmo que o despachára, demittiu-o.
Demittido, desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho,
onde nunca praticara erro de officio, que não dirigia, nem extorsão, que
não precisava. Retirou-se para o Porto, onde chegou na memoravel noite
da resistencia á contra-revolução de 9 de Outubro de 1846. Associou-se
ao motim popular que prendêra o duque da Terceira. Deu morras ao
ministerio reaccionario, indicando-se victima dos Cabraes.

Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um
batalhão de artistas, alcançou o despacho de director d'uma alfandega da
raia, e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.

Quando os hespanhoes interventores entraram em Valença, o tenente
quartel mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se
debaixo das balas, e as balas, cruzando-se-lhe em redor,
respeitaram aquelle homem, que parecia ter o sêllo invulneravel do
primeiro assassino, a prerogativa de Caim.

Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de
pequenos emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de
pequenas esmolas que algum membro da junta patrioticamente lhe dava.
Assim viveu até 1850, na agua furtada de uma estalagem da rua de S.
Sebastião, d'onde foi expulso porque não pagava. Casualmente, deparou um
seu conhecido camarada que servira a junta, como sargento de cavallaria.
Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para os sitios do Marco de
Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro amigo era um
homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos primeiros
dias, teve a delicadeza de não catechisar o seu hospede aos principios
da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente á
sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha á sua
disposição uma rica egua de raça para passeios, e ensinava-o a matar
perdizes com finissima pontaria.

Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais
sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado
(era a graça do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propôz uma
ovação á memoria de Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente
recebida pela senhora Joaquina Vêsga, intima do proponente, e bem aceita
ao hospede enternecido.

--Meu caro Neves!--disse, depois, José do Taboado--acabemos com isto!
Queres ser dos meus?

--Se quero ser dos teus?

--Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?

--Sei que és um excellente amigo...

--Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe d'uma quadrilha
de salteadores. Tira o chapéo na minha presença!

--Cá estou descoberto...--disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.

--Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina... Á tua saude, Neves! Á
saude do meu chefe de estado maior! Aceitas?

--Aceito!

--Toca!--E deram-se as mãos com vertiginoso transporte.

--Serás rico em pouco tempo...--continuou o chefe--para que diabo queres
tu as excellentes forças que tens? Como é que cumpres o protesto de
vingança que fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a
fazenda nacional?

--Tens razão..............................................................

..........................................................................

Dias depois os jornaes do Porto pediam força para debellar uma poderosa
quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro.
Citaram a morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre
muito rico das circumvisinhanças de Villa Real; e varios assaltos em
fórma a casas inutilmente defendidas. Um destacamento de infanteria dera
caça aos salteadores, que resistiram com intrepidez admiravel.
Contava-se o heroismo do chefe, que saltava vallados com um ferido no
arção da sella. O ferido era Luiz da Cunha.

Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o terror.
Proprietarios isolados refugiavam-se nas povoações, e as povoações velavam
armadas com os olhos fixos nas fogueiras que os ladrões acendiam nas
quebradas das serras. Ninguem, porém, ousava desalojal-os das suas tendas.
As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e sobre-roldas velavam durante
a noite, e Luiz da Cunha, abraçado á sua clavina de dous cannos, dormia
tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua fiel.

José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro,
muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma
reputação honrada. O seu pensamento era passar á Africa em 1853, com o
louvavel intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. José
do Taboado promettêra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os
ultimos saldos com alguns proprietarios, incursos na condemnação de
Proudhon.

O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta;
mas os cabellos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu
fito era voltar a Lisboa, rico, alardeando a passada infamia, com
tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito publico.
Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ella lhe
emprestára. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso
monumento a Liberata, como insulto ás mulheres do «grande mundo.» Quatro
annos de fortuna, e o seu sonho seria visto á luz da realidade! A sua
fama teria alguma cousa de horrivel heroismo. O seu nome, partido o
braço vingativo, seria levado aos vindouros como a tradicção d'um
meteoro que abrira um rasto de fogo entre os homens.

José do Taboado, que não se alteava ás concepções arrojadas do camarada,
admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua
linguagem não parecia d'um simples escrivão do juizo ordinario. Levava-o
a casa de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador
(não importa explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do
estylo puritano do supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que
elle dava de paizes estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os
vira.

Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram
outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos
representantes de illustres governadores das possessões portuguezas,
todos os outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de
ciganos, afóra os eivados de sangue judeu, que eram muitos.

Um dos detractores citou, como em distracção, seu tio João da Cunha e
Faro. Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do
parentesco á conversação, dizendo que conhecêra João da Cunha e Faro, em
Lisboa, onde fôra caixeiro em 1838. Perguntou se morrêra.

--Morreu doudo--respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de
Castro e Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e
Faro &c. &c. &c.--Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.

--O bastardo?!--atalhou Luiz.

--Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...

--Sabes se já morreu esse homem?--perguntou um senhor com quinze
appellidos.

--Não sei; mas é de crêr que sim. Ainda vos não contei a passagem dos
ossos?

--Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romantica.

--Pois lá vai. Haverá sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em
casa de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio
João da Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias n'uma
bonita casa de campo que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o
primo Alvaro de Castro, o primo conde de Santa Justa, o primo D. Pedro
de Malafaia, o primo D. Antonio de Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c.
&c. &c. Estavamos sentados debaixo d'um caramanchão, e disse o primo
João da Cunha, apontando para a álea das amoreiras: «Alli foi que morreu
a amante de meu tio João.» Contou-nos que um velho criado, morto alguns
mezes antes, lhe contára tudo, e lhe dissera o sitio onde fôra enterrado
o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os criados deram cabo
d'elle.

Quando ouvimos isto, tivemos, todos á uma, desejos de procurar os ossos
do tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos
com os ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou
um riquissimo annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos
mais, e achamos a folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de
Janeiro.» Não topamos mais nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves,
é que o annel foi vendido por duzentas moedas, por signal que o primo
Ignacio da Cunha as perdeu todas contra um valete, em casa do primo D.
José de Castro e Alvim.

--É uma interessante historia!--disse Luiz da Cunha em abstracta
meditação--E a tal brazileira onde foi enterrada?

--Na igreja, é o que disse o tal criado.

--E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!

--Justamente.

--E não acha que o pae foi bem morto pelo filho?

--Homem! essa é de cabo de esquadra!

--Se o tio de v. exc.ª, o senhor João da Cunha, foi causa da morte da
mulher d'esse homem, não era justo que o filho de tamanho crime fosse o
verdugo do pae, a viva reminiscencia d'esses dous cadaveres, o aguilhão
constante de remorso que o enlouqueceu?

--O nosso amigo está muito rasoavel nos seus discursos... Essas
doutrinas são de bons tempos...

--E o caso é que elle diz bem!--atalhou um fidalgo depondo as cartas do
voltarete--o filho foi o instrumento com que a Providencia castigou o pae.

--Então, n'esse caso, muita gente pagou innocentemente--replicou o
senhor Bernardo de Malafaia &c.--O tal bastardo foi o açoute da
humanidade. Perdeu umas poucas de mulheres, matou outras, esteve prêso
nas Antilhas por pirata... fez o diabo.

--E, por fim, é natural que se suicidasse...--disse Luiz da Cunha.

--É o que elle devia ter feito ha muito--concluiu o expositor da scena
dos ossos.

O filho de Ricarda projectou ajuntar ás suas futuras obras um monumento
a sua mãe.



CONCLUSÃO.


São 24 de Setembro de 1853.

É meia noite.

Assucena pergunta ao egresso inseparavel:

--Que barulho é esse que fazem lá dentro?!

--Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de
ladrões apparecêra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que
esta casa seja atacada, porque dizem lá por fóra que vive aqui uma
senhora muito rica.

--Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...

--Pois sim; mas os ladrões não se persuadem d'isso, e quem sabe se virão
cá? Os caseiros, á cautella, chamaram gente, e tratam de se pôr em
defeza no caso que elles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha
medo.

--Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho
nada, e elles vão-se embora.

--As cousas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam
na palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo
que elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão prégar a outra
freguezia.

O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada
para ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.

--Que temos, rapazes?--perguntou elle.

--Os homens ahi estão.

--Quem os viu?

--Nós. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do portão, e
vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro.
Depois buliram na tranca e abriu-se a porta.... Quél-os vêr?...
Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias....
Elles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu
disser «fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os
vir... Olha... quatro já eu lobrigo... Alli!... alli não se perde um
quarto.... Deixa-os chegar mais.... É agora!... Fogo!

Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e á detonação succedêra
uma infernal algazarra dos defensores.

--Leva arriba, rapazes!--gritava o regedor aos seus--Cerca, tem mão,
por esse lado...

E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da
capella dava áquella infernal orchestra de berros e tiros um tiple
horroroso. Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com
denodo, um momento; mas a população que os cercava não cedia aos impetos
da cohorte, militarmente, organisada em batalha á voz do chefe.

A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A
quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos
retiraram: um tinha cahido, e não se erguêra mais. Em redor d'este
cadaver agglomerou-se a multidão. Approximaram-lhe da cara um archote de
palha, e viram-lhe uma fenda de bala sobre a orelha direita.

Não era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e
levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de
pedra. O egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...

--Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento
de contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã,
porque é necessario que o administrador o mande levantar...

Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de
catalepsia.

--Não tenha medo, minha senhora.

--Mataram alguem?

--Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.

--Rezemos por alma d'esse que morreu...

--Pois sim, rezemos--disse o egresso, ajoelhando ao pé d'ella.

--Poderá salvar-se?--disse ella, interrompendo a oração.

--Deus é pae de misericordia.

--Quem sabe se elle roubava por ter fome?...Vá vêr se elle não estará
morto... poderemos ainda cural-o.

--Aquelle está bem morto, minha senhora.

--Então rezemos: _Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o
vosso nome_... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito
afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu
vestido de seda preta de manga curta; os meus canhões de velludo preto;
o meu lenço de ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de
cazemira vermelho...

--Está com o accesso; não traga nada--murmurou o padre ao ouvido da criada.

--Não ouves, Anna? Então! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!

--Vá, vá dar-lhe essas cousas--tornou o egresso, e sahira para que ella
se vestisse.

Assucena collocou-se diante do espelho.

--Como são grandes estes cabellos!...--disse ella, puxando dois
graciosos pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla
inferior. Procurou anciosa uma tesoura, e aparou-os.

--Agora sim--disse ella com risonha satisfação--Assim estou mais bella
para o noivado.

A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho,
enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarellos, e
puxando para a garganta a grade preta do afogado no vestido.

--Agora, vamos.

--Onde, minha querida senhora?!

--Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.

--Esperal-o... a quem?

--És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?

--Oh minha Mãe Santissima, compadecei-vos d'ella!

--Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?

O egresso entrou, chamando por Anna.

--Que é?! Onde vai?!--perguntou elle a Assucena espavorida.

--Vou esperal-o.

--Não sahirá d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.

--Não quero! Vou sósinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...

--É melhor acompanhal-a....--murmurou o padre.

E sahiram pela porta do jardim.

--Que linda noite!--disse ella, saltando entre os buxos.

--Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.

--Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos annos tenho
eu? Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso
sim!... Quem conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece...
morre por elle... Sou sua mulher... Jurou-m'o nos braços d'elle quando
eu fugia.... Porque estou eu aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor
violentado vence ou mata. Eu me desforrarei em risos de esposa das
lagrimas que tenho chorado n'este desterro... Elle não tarda, e depois
fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o meu esposo é muito valente!

--Recolha-se, minha senhora.

--Recolher-me?! ás Commendadeiras?

--Ao seu quarto...

--Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperal-o.

O egresso seguiu-a.

Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do
costume ao lado, Assucena perguntou:

--Que é aquillo?!

--É o corpo do ladrão que morreu--disse o padre, querendo afastal-a.

--Quero vêl-o... coitadinho!

--Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradavel.

--Quero vêl-o... não tenho medo aos mortos...

E forçou a desprendêl-a o braço do padre. Levantou um tição da fogueira,
approximou o clarão azulado da face do cadaver,... soltou um grito que
se não descreve, nem se imagina, deixou cahir o lume, correu n'um
impeto vertiginoso, com as mãos agarradas á cabeça pela quinta abaixo,
na ladeira que conduzia ao rio Homem.

É ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso
para Luiz da Cunha principiava alli. Foi abençoada a bala que o salvou
do patibulo.

O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por
soccorro, por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a já perdido
de vista, quando ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.

No _Braz Tizana_ de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:


«_Um cadaver._--No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu o
cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido
de sêda preta, e parece ser pessoa de consideração.»

No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno lê-se o seguinte:


«_Signaes d'um cadaver._--A mulher que appareceu morta acima da ponte de
Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta
annos; cabello e sobre-olho castanho-escuro; bôca e nariz regular; rosto
redondo; labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns
cabellos que mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de
seda preta com pouco uso; manga curta; canhões de velludo preto; grade
preta no afogado do mesmo vestido, e o corpo forrado de panninho
entrançado, côr de flôr de alecrim e vermelho, com tres espartilhos no
peito; chale de cachemira vermelho em meio uso, com franja em volta,
barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande azul, com ramos
amarellos, de algodão, e barra da mesma côr; saia de morim branco em bom
uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda branca com
cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e
moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se não sabe quem
seja.»

Lê-se no _Portuense_ de 10 de Novembro de 1853:


«Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a apparição de um cadaver
de uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornaes
a fallar n'este cadaver dando as mais minuciosas informações de
vestidos, de physionomia, de idade, e até de conjecturas sobre o genero
de morte que soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo
silencio e nem ao menos respirou a noticia de menor acto administrativo
na investigação d'este acontecimento. Póde ser que se désse um drama
muito mysterioso, com peripecias muito horriveis, mas o publico tem
direito a perguntar se a senhora ou mulher foi assassinada ou se se
suicidou?»


A resposta ao _Portuense_ é um livro.

FIM



Indice

        I.--UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.
       II.--O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.
      III.--ASSUCENA.
       IV.--CONTAGIO.
        V.--UM ANJO CAHIDO.
       VI.--ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.
      VII.--PERDIDO SEM REDEMPÇÃO
     VIII.--PROVIDENCIA OU ACASO?
       IX.--HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.
        X.--COMO OS ANJOS SE VINGAM.
       XI.--SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.
      XII.--FASCINAÇÃO DO ABYSMO.
     XIII.--EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.
      XIV.--CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.
       XV.--LOGICA DO INFORTUNIO.
      XVI.--TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!
     XVII.--AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.
    XVIII.--A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.
      XIX.--UM VEIO NOVO A EXPLORAR.
            CONCLUSÃO.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Neta do Arcediago" ***

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