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Title: Mundanismos
Author: Diniz, Almachio, 1880-1937
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Mundanismos" ***

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                              ALMACHIO DINIZ

                                MUNDANISMOS

                                  (CONTOS)



                          F. França Amado, editor

                               Coimbra. 1911.



Composto e impresso na Typographia França Amado,
rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.



MUNDANISMOS

(CONTOS)



     Obras completas de ALMACHIO DINIZ

     Contos
          Um artista da moda, Lisbôa, José Bastos & C.ª, editores.
          Sombras de pudor.
          Mundanismos, Coimbra, F. França Amado, editor.
     Novellas
          A Carne de Jesus, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, 1910.
          O Diamante Verde, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1910.
          Sonhos de meduza, em preparo.
     Romances
          Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903.
          Crises, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906.
          Pavões, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 (Exgottado).
          Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910.
          Duvidas e remorso, em preparo.
     Theatro
          A Escarpa, Porto, Lello & Irmão, editores.
          Tropheus em cinzas.
          Sazão de luz (em preparo).
     Critica
          O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em
            lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado).
          Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmão, editores, 1908.
          Sociologia e critica, Porto, Magalhães & Moniz, editores.
          Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor.
          A questão das raças na literatura universal, em preparo.
     Symbolismo
          Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado).
          Sê bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado).
     Lingua portuguesa
          A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado).
          O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisbôa,
            Santos & Vieira, editores.
     Scientificos
          Genesis hereditária do direito, Bahia, 1903 (Exgottado).
          Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito,
            Bahia, 1906.
          A sciencia do direito e as producções espirituaes do
            homem, Bahia, 1907 (Exgottado).
          Questões actuaes de philosophia e direito, Rio, H.
            Garnier, editor, 1909.
          A objectividade do phenomeno juridico no direito
            brazileiro, em pub.
          As formações naturaes na philosophia biologica, em preparo.



ALMACHIO DINIZ

MUNDANISMOS

(CONTOS)



    Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.

                                          ANATOLE FRANCE.

COIMBRA

F. FRANÇA AMADO, EDITOR

1911



A

GUERRA JUNQUEIRO



    L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et
    les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel
    est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le
    peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent à faire dans la
    fiction, comme la vie dans la réalité. Au fond de chaque oeuvre
    d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation étroite ou
    libre évocation--une réalité reproduite de la vie.

                                                         CHARLES ALBERT.


    O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não
    agrada à _visão_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o
    espaço, por isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se
    livremente a acção que a descriptiva, por vezes, compromette.

                                                        COELHO NETTO.



  MUNDANISMOS


    Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.

                                          ANATOLE FRANCE.



NEDDA


NEDDA

    Manhansinha.

    A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada:
    era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se
    abrirem de par em par as gelosias.

    SAUL, de NEDDA esposo, ficàra a dormir na alcova.

    E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não
    dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
    DONA LOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...

    Num canapé, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias
    de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão
    branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizêta
    de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida
    do cansado movel...

.........................................................................

--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me
entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como
uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que
vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à
tarde...

--Exactamente.

--Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na
rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella
cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me
e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os
meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois
mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de
malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a
honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui
mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar
como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de
amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse
homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às
suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do
senhor meu marido...

--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que
me pasma...

--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter
o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um
tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em
caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto
mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando
a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de
rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra,
porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte
alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para
o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe
intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este
provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o
caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma
defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu
perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...

--Respeita o teu marido, minha filha!

--Pois não é, maman?

--Essas couzas não se devem dizer...

--Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um
temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos
quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito
sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês
velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque
ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso
acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura
de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não
intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua
doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se
de si mesmo e não me culpe a mim.

--Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.

--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje
dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu
toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe
aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou
coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha
repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos,
nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a
menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no
campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina
que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como
energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia,
todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de
mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?

--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te
esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral
esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te
surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser
suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal.

--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como
tudo se deu...

--E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não
dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem
calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que,
callejada a alma, o amuo será definitivo.

--Que teria isso?

--Um escandalo, minha filha!

--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me
pouparei a um grande escandalo.

--Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes
o teu marido como o teu senhor...

--Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como
entenderes... Não me darei por achada.

--Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu
marido.

--Jà estás julgando o feito?

--Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se
e sejam felizes.

--Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu
ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma
só...

--Interpretas muito mal o meu genio.

--Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr.
meu marido?

--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a
accusação, eu nunca seria contra ti.

--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não
julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu
o que se passou...

--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...

--Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi
passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle
que me falou pelo telephono, fui à Barra correr uma cazinha vaga e
que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao
depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a
gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas.
Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê
tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha,
arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi
quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer
essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o
primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da
rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta.
Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse,
porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois
resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por
um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do
sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo,
desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as
escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por
Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo,
maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente,
desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o
qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle
quiz, fechou sósinho a caza e veiu só...

--Devias ter evitado tudo isto, Nedda.

--Evitado, como?

--Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr.
Eduardo.

--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em
que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...

--Recusasses os favores offerecidos.

--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à
grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...

--Conforme o renome desse moço.

--Tem mà fama o dr. Eduardo?

--Não sei, não. Dizem.

--Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de
sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal
visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os _habitués_ de
nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto
qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do
nosso convivio...

--Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
referiu-me que estavas sem chapeu...

--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha
van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr.
meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e
asseiei-o prestamente...

--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...

--Saul é um mentiroso.

--Não te zangues, Nedda.

--Injuriou-me.

--Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...

--E elle o quer?

--Porque perguntas?

--Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da
esposa deshonesta.

--Não deves dizer assim, minha filha!

--Aceita-me elle?

--Que tolice, Nedda!

--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço
em attenção aos teus bons officios...

--Fazes muito bem.

--Là vem elle descendo...

--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...

--Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos
encontrarmos os tres...

.........................................................................

    Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e
    decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se
    escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de
    esculptura grega...



VOLUPTUOSAS


VOLUPTUOSAS

    No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
    _stores_ pallidos, HELENA fazia somno à hora da sesta, quando MARIA
    ANGELICA a surprehendeu adormecida.

    A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
    voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de
    HELENA...

    Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com
    um fremito de prazer...

.........................................................................

--De onde vens tu, Angelica?

--De encommendar flores...

--Flores?!

--Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?

--Sou uma esquecida.

--E ella é credora de nossas gentilezas...

--Das minhas, especialmente.

--Encommendei orchidéas e chrysanthemos.

--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.

--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.

--Não lhes acho graça.

--Ó exigente!

--Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e
roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres
melancolicas?

--Descobres coisas...

--Mas, não é?

--Realmente.

--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?

--É a moda, é o chic, é o _dernier-cri_...

--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas,
chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?

--Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os
olhos muito brilhantes...

--De verdade?

--Sim. Sonhavas?

--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...

--Apanhei muito sol.

--Os teus olhos estão pisados e languidos...

--É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor
que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...

--Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...

--E eu os concertei no espelho de Esther.

--Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther.
Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está
mal posto, a fita está retorcida...

--Nem reparei...

--Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão
mal-amanhada. É de causar vergonha.

--Foi a pressa, Helena.

--E no teu hombro a sêda está nodoada...

--Nodoada?!...

--Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei
mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...

--Quem o poderia fazer?

--Esther.

--És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as
flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás
satisfeita?

--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...

--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é
arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...

--Que venturas posso ter?

--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha
vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras
occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me
porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado...

--Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes
calor, Maria Angelica?

--Algum.

--Neste caso...

--Que fazes?

--Dispo-me. Não me imitas?

--Póde ser. Passarei a tarde comtigo...

--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla
assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...

--Tira os alfinetes.

--Usas um bom pó de arroz, Angelica.

--Ui! Helena!

--Que foi assim, ardilosa?

--Espetaste-me as carnes...

--Tambem é uma ruma de alfinetões...

--É para segurar bem.

--Tens uma pellugem de arminho...

--Ai!... Assim não... não...

--Que tens, rapariga?

--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste
vontade de...

--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos...

--É para vingar o teu beijo...

--Porque me olhas assim, Angelica?

--És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
perfume originalissimo que me entontece...

--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as
amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que
se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte.
Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras
marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos
desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não
só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as
faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por
fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de
Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...

--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...

--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na
essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para
contrastar com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as
minhas vestias...

--E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!

--Qual?

--Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És
avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...

--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...

--Teria graça!

--Porque assim?

--Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
carnes...

--Tens desejos masculinos, minha queridinha!

--E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis,
junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os
teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais
feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade,
ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição...

--Mofadora!

--Mofar eu de ti?!...

--Não te abraza o calor?...

--Sim... Intoleravelmente...

--Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções
na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os
homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante
do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na
mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não
conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora,
impiedosamente, o veu de tua nudez...

--Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
arrôcho de um collête dictatorial?

--Quantas vezes?!

--Tu brincas, mulher divertida...

--Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais
provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...

--Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos
oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser
morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é
um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto
mais calmo...

--Não te agrada a minha nueza?

--Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu
ventre...

--Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas
desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu
contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um
retrato...

--Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?

--E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?

--Que egoismo leviano!

--Acha-o?

--Sim... Photographemo-nos...

--Adoravel!... Como não irradiará no _cliché_ o contraste de nossas
pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa
de um pólo...

.........................................................................

    Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma
    solução de perolas e opalas.

    Os seus labios permutaram cariciosos beijos.

    E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia,
    desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...



O POETA MORIBUNDO


O POETA MORIBUNDO

    Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina
    pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de
    Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio
    das tapeçarias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter.

    HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro
    CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le poète mourant_--de Gotschalk.

    As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de
    admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos
    que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.

    Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente
    combalida pela dor de uma alma irman...

.........................................................................

--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas
e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do
passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não
despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre
personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o
desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão
inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado,
frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei,
pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou
pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se
lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a
longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui
minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a
alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim
inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença
illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão
para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua
confidencia ultima: amaste-me alguma vez?

--Que pergunta, Christovam.

--Indiscreta?

--Não; ao contrario. Amesquinhante...

--Extranho-te.

--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora?
Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa
irreductivel deante de minha vontade altiva?

--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas
de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz
com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um
homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino
de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura
lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das
fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em
sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava
rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me
deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe.
Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E
porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria
ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás
piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era
porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do
precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente...
Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção?
Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a
clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do
affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o
talento immensuravel com que sempre me amaste...

--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
possuir o maior tino dos homens.

--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem
pesada se antepõe á sua esphera...

--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do
regosijo delles...

--Dos teus paes?

--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em
tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque
admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a
marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher?
Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam
as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro,
algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a
nossa união se perpetraria ao teu sabôr?

--Desconheço-te já...

--Mas, porque...

--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos
outros...

--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a
existencia de mulher?

--Nem sei de mim mesmo que te responda...

--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio
não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar
a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para
tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te
livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente,
Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia...
De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não
terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é
porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a
causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...

--Mas...

--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas
perfeitas. Queres responder-me?

--Nada significará o que te responda.

--É preciso que sejas categorico.

--Pois sim: responder-te-ei.

--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?

--Por certo que não.

--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por
mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?

--Se quizesses, sim.

--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu
assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque
não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por
impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o
amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse
de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e
em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...

--É um dilemma sophistico.

--Por que principio, não sei.

--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor,
Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?

--Do modo mais franco.

--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
quizesse, matar a sêde que allegava...

--Dependia de mim. Dei-te.

--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão.
Negaste-m'o?

--Não poderia negar.

--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria
a intensidade do teu sentimento...

--Dependia de mim. Pratiquei.

--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...

--Como te respondi, Christovam?

--Com a primeira negaça.

--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman,
como o caminho propicio para vencer o papá.

--Realmente, Heloisa. Sou um vencido.

--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...

--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do
dever...

--Desistes, então, do teu amor?

--Razões me sobejam...

--Que te disse, afinal, a maman?

--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e
lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...

--Nada de mais, Christovam!

--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar
contra um homem...

.........................................................................

    E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER
    assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita
    criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
    despediu de HELOISA...



O VELHO MEDICO



O VELHO MEDICO

    O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.

    ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao
    esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como
    se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e
    perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige
    os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...

    MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em
    que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os
    olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de
    suas attenções...

.........................................................................

--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da
mocidade...

--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso
affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das
humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as
enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou
curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.

--E quem te curou, meu caro?

--A natureza...

--O novo deus pagão...

--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes
curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?

--Lembro-me, sim.

--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.

--O sr. era verdadeiramente um doente.

--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
invariaveis.

--Realmente.

--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o
ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na
inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu
estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos
symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade
de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em
illustrar-me em torturas ineditas.

--Afinal... quem te curou?

--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...

--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos:
salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela
intervenção do doutor...

--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos
casos communs.

--Desculpe-me.

--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a
minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu
estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei
assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada
fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci,
aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade
effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez
primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o
delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha
vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram
sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil
e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes
as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao
maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se
e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as
alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me
combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas
para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...

--De um crime delicioso...

--Talvez, doutor.

--E então?

--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar
della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na
garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de
minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre
num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia
quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de
tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes
balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...

--É curioso, de véras, o seu caso.

--Foi, doutor.

--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.

--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.

--Paranoico?

--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com
banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro
medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente
banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o
tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta
dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta
hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e
disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade
carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser
feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e
tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe,
desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um
simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios,
boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do
meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de
alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias,
tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos
e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a
minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus
soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve,
por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria
sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de
sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com
facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um
visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas
forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos
de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a
conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha,
encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na
cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...

--E nem rezado, sr. Estephanio?

--Para o doutor ver! Nem rezado!

--É unica a sua historia.

--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.

--Assim acaeceu.

--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?

--Se me não falha a memoria, effectivamente.

--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os
medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram
trazidos em conferencia.

--Que disseram elles?

--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles
mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.

--Sãos, ou curados?

--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico
de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro
hypertrophia.

--Mas, afinal, acertaram?

--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a
saude.

--É espantoso, meu caro senhor.

--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha
reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e...
estamos casados, não foi assim, Judith?

--Parece-me!

.........................................................................

    Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando
    o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de
    modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente
    a espaçosa fronte...



OS DOIS ESPELHOS


OS DOIS ESPELHOS

    Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé,
    fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu
    sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos
    profundamente geladas.

    SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto
    dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
    feições com um clarão colerico.

    Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a
    cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o...

.........................................................................

--Faze a tua scena.

--E não é sem tempo.

--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?

--Facilidades.

--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o
homem cazado não tem direito a facilidades.

--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma
existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união
infeliz!... Maldita hora!

--Ah!... ah!... ah!... ah!...

--Sorris...

--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?

--A minha vida depois que me senti enganado...

--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci
o teu adulterio...

--Insultas-me ainda em cima, Violante?

--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu
digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado
e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...

--Não dize, Violante, a indignidade!

--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a
tua ausencia do lar...

--E confessas o delicto?!...

--... só depois que conheci a tua amante...

--Mentes, mulher!

--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
sais...

--É horrivel, Violante!

--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de
ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...

--Tu viste?

--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...

--Poupa, Violante, essa phrase...

--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no
lar pelo marido libertino...

--É demais!

--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos
primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava
na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta.
Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te
perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz
saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu
procedimento...

--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.

--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e
consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te
devo satisfacções... São ellas por ellas...

--Abusas...

--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus
actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze
o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas
incontinencias e perversidades...

--E sabes quem é a minha amante?

--Se sei, Simeão?!...

--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não
conheces ninguem...

--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...

--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha
paciencia se exgottarà afinal...

--Ainda em cima me ameaças?

--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me
confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?

--Ninguem!

--Ninguem, como?

--Desconfiei e fui ao teu encalço...

--Não falas a verdade, Violante.

--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas.
Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem
lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio...
Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella
é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...

--Juro-te que não sei do que se trata.

--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia...
Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas
esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e
tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?

--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa
familia...

--E que é a tua amante...

--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As
minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e
começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a
dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem
jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma
supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os
dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria
relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O
mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia,
e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino
jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um
tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo
homem respeitador...

--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto,
sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em
lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu...
Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão
momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto
o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me
eu... Adquiriu uma amante...

--Retem-te, Violante!...

--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe
do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu
marido!...

--Intoleravel!

--Tambem tu o és!

--Adultera!

--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
devolver todos, um por um...

--Saber-me trahido...

--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando
nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher
digna do marido que lhe deram...

--Sinto faltar-me a luz da vista...

--Impressões, Simeão.

--Pois é justo que me consinta enganado?

--Não nos deshonramos...

--É um consôlo ridiculo.

--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?

--Diversa é a situação do homem, Violante.

--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente
nos submettemos a esse regimen de igualdade...

--Doloroso!

--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me
enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...

--E o teu amante?

--Dispensa sabel-o...

--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O
massagista...

--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não
vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te
fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de
ti?

--Então... Desabafa-me!... Sê completa!

--Insistes em conhecer tudo?

--Não duvides que o quero de coração.

--É Lourival...

--O marido de Idalia?...

--De certo.

--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
conjugadamente...

--Mas eu estou vingada...

.........................................................................

    Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão,
    perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...

    E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...



O PRIMEIRO FILHO


O PRIMEIRO FILHO

    Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo
    até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.

    O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido à assiduidade do
    moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.

    Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares
    recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se
    entregou ao trabalho sem explicações.

    Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o
    DIRECTOR entravam em confidencia...

.........................................................................

--Ah! Sr. Director!

--Estiveste doente?

--Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...

--Trocaste o dia?

--Como assim?

--Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?

--Tambem não!

--Viajaste a negocio?

--Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui
dentro...

--Não sei explicar a tua falta.

--E eu careço de coragem para dizer...

--Tão futil não ha de ter sido o motivo.

--Eu conto. Foi o meu primeiro filho...

--Felicito-o desde jà.

--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade.
Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando
se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o
acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me
deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia,
ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada
de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os
trabalhos...

--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.

--Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi
em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...

--Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o
primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber
corresponder ao valor dos meus funccionarios.

--Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas
porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como
a que o Sr. Director acaba de conceder-me.

--E a senhora ficou sem novidade?

--Pouco mais ou menos, Sr.

--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...

--Qual nada!... Faltar hoje?...

--Não digo isto.

--Então...

--Obter uma dispensa de serviço...

--Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria
o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...

--São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise
dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu
lar.

--Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz
no acontecido.

--E não o foi?

--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.

--Qual foi o medico?

--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.

--Bons medicos, sem duvida.

--E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como
um horror...

--Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os
extraordinarios desse acontecimento inquietador.

--Não aceitarei, Sr. Director.

--Porque assim?

--Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.

--Quereria ter as razões dessa sua desattenção...

--Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas
difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo
filho, nas mesmas condições difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e
eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu
procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois
não é?

--Eu daria do melhor grado.

--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao
depois, se a parturiente inspira cuidados...

--Não se ficou bem ella?

--Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...

--E o que recommendaram os medicos?

--Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é
uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que
Olivia padeceu.

--Pois penso que devias retirar-te.

--Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas
da secretaria.

--Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...

--Perdão, senhor, mas...

--Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te
consumires ainda mais...

--Por acaso commetti alguma outra falta?

--Gravissima... Sabes porque te chamei?

--Lealmente ignoro.

--Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço.
Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de
invejas. Conheço-os todos...

--Agradecido, Sr. Director.

--Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem
com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.

--Mas, que fiz assim?

--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua
informação.

--Oh!... Esta cabeça...

--A conta de Silva & C.ª...

--Sei!... sei!... Então... errei-a?

--Inconvenientemente.

--E sei porque perpetrei o engano...

--É o que tu pensas...

--Por ventura outro me corrigiu?

--Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...

--Porque não hoje?

--Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...

--Não me conformo, Sr. Director.

--Sou irrevogavel.

--No maximo me satisfarei com o dia de hoje.

--Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua
esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o
pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!

--Dá licença?

--Pois não.

--Ás ordens do Sr. Director.

--Ah!... Sr. Orlando?

--Sou todo ouvidos.

--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?

--Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a
atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim...

--Que respondes?

--Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem
verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...

.........................................................................

    Sorrira o DIRECTOR e dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja
    crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos
    factos...



Á VISTA DA DENUNCIA


Á VISTA DA DENUNCIA

    O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias,
    em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz
    pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente
    pelos vãos das grinaldas verdes.

    Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a
    indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem
    bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA.

    A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de
    ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos
    grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que,
    distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia,
    sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA...

.........................................................................

--Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio,
deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido
um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o
meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o
telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E
raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu
desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho
era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus
olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu
succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza,
emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à
indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà
buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são
os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il
n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra não devo, porem,
proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso
marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me
logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama
de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo,
elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei
à cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem
tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota
ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido
trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse
o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu
pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me
e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento,
eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos,
exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos,
assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma
ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser
recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se
envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim,
porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na
intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade
commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me
engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido
na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o
recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se
não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua
saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha
comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria
moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha,
desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia
de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se
convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres
criancinhas--mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros
lamacentos da podridão materna--elles dois se encaminhavam do leito,
quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o
ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao
lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o
meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal.
Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu
conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a
trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram
poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais
tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me
achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o
assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as
resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto,
naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam
os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais
depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é
essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr
apunhalante. O meu marido jantaria fóra, num banquete intimo, mas
numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de
suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de
Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por
dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas.
Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua
acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do
que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes,
que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois,
calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o
punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho
abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome
deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante
dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com
a sua abjecta convivencia...

--Nego, sim!

--Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do
publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de
Carlota.

--Juro-te.

--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir
as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella
devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta
nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira,
terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores
palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que
foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na
corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem
Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu
sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou
caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas.
Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão
facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!

--Nego, sim!

--Quero convencer-me. A pé firme?

--Com toda lealdade.

--Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle
pacote?

--Ignóro.

--São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero
devolvel-os.

--Mas, como?

--Não os guardarei mais commigo.

--Vais romper, então, com a familia do Aurelio?

--Forçosamente.

--É de mau alvitre.

--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar
com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento,
confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio
immundo...

--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais
grosseiro.

--Devolverei, sim, não ha que ver.

--Estàs no teu direito.

--E espero a tua sancção.

--Jà a tens.

--Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.

--Pois escreve-a!

--Não! Tambem não! Serás tu...

--Eu?!...

--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...

--Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos
nessas rusgas de mulheres.

--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores
apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser
quem escreverá a carta hoje mesmo, agora...

--Convencer-te-às de minha innocencia?

--De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.

--Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...

--E pensas que escreverás como quizeres?

--Não: como fôr conveniente.

--Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.

--Quê?

--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...

--Mas...

--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...

--Amaryllia?!...

--Virulenta e grosseira...

--Faça-se a tua vontade.

--Escreves?

--Como quizeres.

--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?

--A Carlota!

--Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em
todas as letras...

--É demais!

--Não retrocedas!

--Abusas de minha bondade...

--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...

--Absolutamente, não!

--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae
terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.

--Tua alma, tua...

--Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do
conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto,
tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a
queimadura do inferno mais verdadeiro...

.........................................................................

    Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da
    meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para
    o seu leito...



IRADO ATÉ À CURA...


IRADO ATÉ À CURA...

    Ampla alcôva: no _armoire-à-glace_ reflectida como outro vasto
    commodo...

    Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente...

    Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos,
    despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO,
    luctando com a morte...

    É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação
    despropositada.

    Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de
    um chronometro, desenvolta frascaria...

    Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na
    vigilia: o seu semblante merencoreo só consegue alguma graça
    quando ELOY visita o enfermo.

.........................................................................

--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente...
Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem
cessar...

--Tem fé em Deus, Ormindo.

--Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada
eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a
alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto
preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com
os creditos da medicina e da pharmacia...

--Tu pensas demais.

--Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida
e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova.
Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um
amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um
manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na
viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?

--A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com
honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...

--Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A
herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa,
ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes
assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir
com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve
pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais
homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da
pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das
transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente
transigir... Que dores!... Ui!...

--Estàs vendo: peioras quando falas!

--Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma
sorte grande...

--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o
silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando
forças para momentos mais graves...

--Durarei muito pouco.

--Não pódes saber mais do que os medicos.

--Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se
avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É
verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus
primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha
traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se,
rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um
globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar,
latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca
me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...

--Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel.

--A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração
senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar
mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz
para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a
chamma de uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um
instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade.
Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa
teimosa em torno de uma lampada.

--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são
outros tantos punhaes que me sangram o coração.

--Que horas serão?

--Jà é noite.

--E os medicos que não vieram?

--Vieram, sim. Tu estavas dormindo.

--Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a
minha existencia...

--Não pesas as tuas palavras, Ormindo.

--Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de
hoje. Estou condemnado a horas.

--Descansa um pouco.

--Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e
parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um
sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento
da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me
o ar...

--Assim queres! Falas tanto...

--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar.
Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas
consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te
lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico
com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh!
que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te
banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite
de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre
para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de
um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo
principiava?!...

--Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na
renascença da vida.

--A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões
fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz
arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos
os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só
recompôr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o
circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que
eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos
envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem!
esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o
supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria
mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o
segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o
adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um
agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais
no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro
mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?

--Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança
illuminar-me o rosto...

--Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os
affectos e vontades, a minha cura?

--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.

--É bem pouco um desejo!

--Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de
possuir-te novamente são?

--Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a
prolongação de minha tortura...

--Aborrecer-me eu!...

--E então?!...

--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna
desconfiança da amizade de tua esposa...

--Isto não!

--Pois parece, Ormindo!

--Neste caso, escutas-me com agrado?

--Sim.

--Posso falar?

--Não.

--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de
forças organicas...

--Diz o doutor...

--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro
conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar
num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções
animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa.
Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma
realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes
copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma
inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma
redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as
sensações...

--Não morreràs, Ormindo!

--São os teus votos?

--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda
no instante derradeiro?

--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.

--Pois então?!...

--Dà-me a tua mão...

--Estàs frio!

--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...

--Se o faço...

--É para depois de minha morte...

--Juro-te.

--Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma
duvida...

--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!

--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez,
vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o
coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um
despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases,
immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do
teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em
prol do teu defuncto...

--Intranquillisas-me, Ormindo.

--Não ha razão para isso.

--Se tu mandas...

--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?

--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?

--É isso...

--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...

.........................................................................

    A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um
    grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma
    desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...



A HUNGARA


A HUNGARA

    Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das
    paredes.

    Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos
    que nelle se afundaram.

    SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um
    estridente signal de contentamento...

.........................................................................

--Aqui estou. Nem sei como acertei.

--Estás apaixonado?

--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?

--Quem te disse o meu nome?

--Li-o nos programmas.

--Ah! sim. Gostaste do meu canto?

--Não te ouvi.

--Como te agradei?

--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante.
Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante
e dezenas surgirão...

--Como elle é experiente!

--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo
_manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o
canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as
malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus
sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_...
Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com
cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma
_ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo
prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae.
Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente
encontrei-me comtigo...

--Ladrãosinho! Como elle sabe contar!

--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de
amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um
cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que
o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho
de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem
trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho
para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo
de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro?
Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos
encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as
nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias.
Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só
nos não apaixonaremos se não quizermos...

--Como sabes a vida!

--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe
pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque,
alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar
longe, te darà muito tempo aos amores furtados.

--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não
se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o
trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um
dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso,
o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...

--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter,
ao passo que o Gustavo...

--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho
para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...

--Neste caso ficaràs com elle...

--Porque então?

--Conheceste-o primeiro.

--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no
mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me
do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios,
com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma
mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte
dispenso as galanterias...

--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua
bolsa...

--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...

--Là com isto combino eu.

--Assim, và que seja e comecemos...

--Que tenho eu para tanto me olhares?...

--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes
são dois vulcões. Como te chamas?

--Guanabarino, um nome difficil.

--Como?

--Gua-na-ba-ri-no!

--Gua-na...

--... barino.

--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?

--De corpo e alma. E tu?

--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva,
aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...

--Tens percorrido meio-mundo, hein?

--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...

--Dize outra vez esse termo...

--Reminiscencia.

--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...

--Como elle é ardente!

--De verdade?

--A tua alma està fugindo-te pelos olhos...

--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão
carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto
da mulher que o escalda?...

--Ih!... Que gêlo!

--Sabes explicar?

--Não. É difficil?

--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As
extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste
nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só
relance.

--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?

--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas
gentilezas.

--Tens gozado tanto?

--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos
tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um
desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda
hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a
minha amante...

--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!

--Não.

--Desmentes o que asseguras.

--Jà tiveste o teu quinhão.

--Como assim?

--Jà te possuiu o Gustavo...

--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja
revelada, ainda não desejou...

--De facto?

--Juro-te eu.

--Ao depois delle... nunca!

--Mas, porque? Mettes-me medo...

--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...

--E porque me inflúes para ser a sua amante?

--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi:
pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de
recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...

--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...

--Um collar?

--Sim.

--De libras esterlinas?

--Conheces?

--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...

--Foram presente.

--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
aqui...

--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
_chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...

--Adoravel!

--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber,
offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho
aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio,
outras...

--Muito em cheio, Sarah!

--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha
retribuição, deu-me estes correntões para atilios...

--Que lindas fórmas!

--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...

--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no
gêsso das tuas pelles...

--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me
cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse
coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia
preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de
muita paixão, só um beijo...

--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...

--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...

--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser
sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira
sensualidade de pagar uma caricia...

--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...

--Com todo o fervor...

--Não te enciumas?

--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de
ouro que elle te der.

--Queres ver o collar de hoje?

--Verei.

--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.

--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...

--Vês tu o bello collar?

--É lindo!... Elle t'o deu?

--Sim.

--Esta joia?

--Que significa o teu espanto?

--É que este collar é...

--Falso?

--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...

--Agora é minha!

--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...

--E só a ti amarei, Guanabarino!...

.........................................................................

    Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de
    GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o
    silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal
    conhecido visinho de quarto...



DEPOIS DO COMETA


DEPOIS DO COMETA

    De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA
    ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D.
    CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.

    Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre
    que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços
    a figura da amiga e beijaram-se fartamente.

    De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de
    brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e
    com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.

    Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes,
    confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas,
    onde se foram acastellar para a permuta de segredos...

.........................................................................

--A que horas despertaste?

--Nem sei mesmo...

--Não é possivel.

--Palavra!

--Então ferraste no somno, e...

--Ao contrario: não durmimos.

--É exquisito.

--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.

--O dia mais bello da mulher...

--Parece-te?

--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te
sentiste extraordinariamente feliz?

--Ah! sim... Casei-me por meu gosto...

--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...

--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É
preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia,
minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...

--Prohibiram-te de dizer-m'os..

--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher
que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida
conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no
craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan
seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as
duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...

--Mas eu te vejo a mesma boniteza...

--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem
e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo
seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração
palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As
tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso
que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no
cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como
dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria
impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.

--Tens razão!

--Não te parece?

--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das
alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o
cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as
minhas amigas...

--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as
velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na
vida de uma mulher inditosa.

--Pois pensei que me dirias tudo...

--Tudo... quê?

--Ora!

--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo
menos, não o foram para mim.

--Foste differente das outras!

--Offendes-me.

--Não te offendo, não. Desconheço-te.

--Que quererias tu que eu te falasse?

--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.

--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha
com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para
mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices...
e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...

--Não! Deixa...

--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação,
especialmente no dia de hoje.

--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...

--Amúas sem razão.

--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida?
Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do
sr. Arthur...

--Não exaggeres...

--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os
meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo,
porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os
delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...

--És incondescendente!

--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.

--Em parte, minha amiga.

--Não. Em tudo.

--Veremos.

--Pois experimenta!

--E se eu te provar?

--Pago-te com um beijo...

--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não
seja o seu esposo?

--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o
meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua
maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...

--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.

--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
quantas tem...

--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes
ou não ao teu marido?

--Conforme.

--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?

--Se fôr só do teu interesse, não.

--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te
disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria
de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento
que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te
fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de
parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...

--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o
modificará.

--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!

--Achaste?

--Encantadoramente bella!

--E tu me viste?

--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da
igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.

--Era a ultima nota do meu pudor de virgem!

--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua
elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os
olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.

--Lisonjeira!

--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se
dominavam com a curiosidade de ver-me...

--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem
saber que... mais tarde...

--Dize... dize...

--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
algozes...

--De véras?

--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...

--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que,
ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?

--Guardei-o já para offerenda a uma Santa.

--Quem t'o tirou?

--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos
retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da
madrugada. Duas ou tres, não sei.

--E o teu vestido? Era primoroso...

--Está no _armoire-à-glace_...

--Muito amarrotado?

--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão
bem uma vez na vida?!...

--Choraste, Alexandrina?

--Sim.

--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...

--Não sabia.

--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?

--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...

--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?

--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do
successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada,
desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do
sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal.
Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de
_buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa,
eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as
incorrecções dos outros...

--E o tempo se passava...

--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem,
como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o
tiro das cinco horas...

--E então?

--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?

--Ainda não!

--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada
do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...

.........................................................................

    Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as
    mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na
    conversação commum...



AMORES NO CLAUSTRO


AMORES NO CLAUSTRO

    Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos,
    instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o
    excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.

    Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de
    dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro
    e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam
    gostosamente de coisas alegres...

.........................................................................

--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução
improvisada...

--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não
venci: fui derrotado.

--Não posso crer facilmente.

--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no
sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem
parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella
animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava
triumphante...

--Tambem a mulher...

--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia
asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje,
tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre
hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os
pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem
cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos
nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos
venceu...

--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
olham por sobre nós para tempos bem distanciados...

--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci
contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia
ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E
tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella
tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A
vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me
disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito
brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e
esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente
irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens...

--Tanto poude o amor!

--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui
dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem
corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por
ventura não professaste como os outros?

--Sem tirar nem pôr na cauza.

--Sempre assim.

--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.

--Ah! por certo.

--Quem me déra!

--E que te faltou, Frei Thomasio?

--Justamente o amor.

--Intrigas-me de véras.

--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
mocinho?

--Se me lembro!...

--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era
menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do
desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes,
todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar
das tentações humanas...

--Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...

--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o
carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas
e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições
de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as
primeiras cousas de amor...

--E não lias o _Cantico dos Canticos_!

--Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o
primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os
arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com
olhos de escaldo...

--Que maganão!

--E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o
cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham
as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções
exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu
era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.

--Estou vendo que eras o preferido...

--Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e
daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa
espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem
triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós
dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes
dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa
caza, amorosamente illuminados pela lua...

--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?

--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a
minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição
de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais
fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em
maior do que o sentimento...

--O pecado!

--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes
ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os
inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas
pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia
sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer,
pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as
scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia.
Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia
uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais
tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em
caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre
as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos
conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens
seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas
syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia,
irmão Patricio, dir-t'o-ei jà...

--Faço mesmo questão de sabel-o...

--Jà que queres ouvir-me, continuarei...

--Continúa...

--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...

--Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...

--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios
dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos
collegas, soprou-me segredadamente: «_Tico é um convite... E quando
ouvires, responde taco..._» Corei deante da revelação e maldei de tudo.
O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me
furtar às seducções de Almira...

--Que bello nome, e lendario!

--Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel
andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti
da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello
dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu
lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!»
Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as
experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi,
confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente,
quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi
escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que
cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que
creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho
animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey
Patricio...

--Ah!... ah!... ah!... ah!

--Não rias, Irmão!

--Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é
alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...

--Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E
quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!

--Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...

--Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e
voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia:
«Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco...
nem là dentro do teu sacco...»

--É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...

--Em seguida...

--Sim...

--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos
conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente.
Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a
recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim
mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio...

--Mizericordia!

--Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o
passo que dei...

.........................................................................

    A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora,
    chamava a Ordem para a humilde refeição da noite.

    E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY
    THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da
    hora.



A CONSULÊZA


A CONSULÊZA

    De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
    NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro
    ardente.

    Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a
    grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia
    as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor.

    Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos
    appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava
    enfastiada com as iterações de extranhos.

    Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o
    velho francês, pelas suas funcções representativas, evitava
    aquelles encontros mais notorios...

.........................................................................

--Nina?

--Quem bate? Octavio?

--Elle, sim!

--Entra, meu rico amor!

--Fiz-me esperar, hein?

--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas
para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de
vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos
da que me logrou...

--Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou
longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a
hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam,
todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua
plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas...

--Não sabes? O Consul pediu-me a noite...

--E deste-lh'a?

--Nem sei...

--Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas
serão as minhas?

--Todas até. Aturo-o porque tu consentes.

--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se
satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso
em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra.
Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios.
Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço.
Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e
insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei
confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe
meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um
dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será
absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com
o Consul... Estou libertado...

--Oh! não! Que succede Octavio?

--Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu
lugar, mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada
delle no leito que deixo vasio...

--Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...

--Careces de mim?

--Não me aborrece, Octavio!

--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes.
Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos
nós reunidos...

--Vale a pena a descuberta.

--Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um
amante deante do qual te esqueces mesmo de mim?

--Dizes-me coisas extraordinarias...

--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva
teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu
camarim...

--Não és amavel.

--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa
delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão
categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante
unico...

--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena...
Que te pareço de _maillot_?

--Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.

--O Consul?

--Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante
do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados
do que nós outros...

--Amante?

--De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?

--Nego.

--Contestas que exista esse amante?

--Juro-te mesmo.

--Vê lá que não me enganas...

--Quem será, Octavio?

--O teu espelho...

--Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus
trajos em _maillot_?...

--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito
masculina...

--Tens espirito.

--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as
sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
os _soutaches_, applicações e _manteaux_ serão poucos; se ficamos
aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo
enroupamento, ou a extrema nudez...

--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso
vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e
lindo chapeu de plumas, que farias de mim?

--É essa a primeira hypothese?

--Sim!

--Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora
de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...

--És digno de um acto destes.

--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?

--Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma _écharpe_ me velasse as
pomas, que farias de mim?

--Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
operosa solução...

--Porque?

--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas
uma gravura...

--Venceste-me. Despacharei o Consul.

--Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na
companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados
olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como
um camapheu...

--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta
para a minha vez...

--Queres, saio a ver...

--Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...

--A pernóstica!

--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da
outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!

--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...

--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu
lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?

--Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles
logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem
mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve
dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do
que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que
fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus
vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem
confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das
flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o
deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do
fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os
teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te
na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque
sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo
isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque
participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha
as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua
belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio
do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela
primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as
almas que tocam à meta de uma ventura no mesmo instante... e as
nossas duas...

--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o
poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a
inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao
amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite,
Octavio, naquella primeira noite...

--Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de
teu corpo, o halito bafiento do outro amante.

--O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o
porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor,
protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na
delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os
jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em
uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e
esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos
rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos
labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os
seus desejos...

--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem
sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...

--Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente
procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre
o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas
esquisitices.

--Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias!
Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos
amores...

--Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do
que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que
os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles
são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão...
Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as
virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...

--Quero crer.

--É um libertino.

--Nada mais?

--É um extrangeiro...

--Que importa?

--É um devasso...

--E sómente isto?

--Ama como um cão, Octavio.

--E que é que faz?

--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me
arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te
bastará a expressão do pouco que te digo?

--Repugnante!...

--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua
como nas demais...

.........................................................................

    Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus
    cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de
    todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de
    todas as riquezas do mundo...



DE COMO O AVARENTO MORREU...


DE COMO O AVARENTO MORREU...

    Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma
    enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia
    blasphemias.

    Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e
    fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos
    cautelosos a agitação do moribundo angustiado.

    Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal
    percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima
    reacção da vida contra a morte.

    Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL
    CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que
    rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...

.........................................................................

--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um
pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra
que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a
reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como
uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem
descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim...
rim... rim... rim...

--Como elle range os dentes?!...

--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as
cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como
massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um
diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no
meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que
ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem,
dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da
Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse
dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me
trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu
nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso
ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?

--São os trabalhadores no terreiro.

--Sahiram hoje os vehiculos?

--Sahiram todos.

--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.

--Talvez os cãis...

--Não me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarrão o meu maior
amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos.
Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?

--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...

--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e
desconhece os extranhos.

--Ladra e assusta.

--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as
suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos.
E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de
longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em
meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em
fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim...
rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E
hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga.
Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se
encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara!
Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os
simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me
dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma
fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo
de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu
capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim...
rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...

--Pois quem seria?

--Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se
é alguem...

--Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá
signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que
montas...

--Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de
cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira...
Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a
mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um
devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo
semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros
crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos
o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim...
Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de
seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres
annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me
por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não
mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o
conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca
quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse
barulho é dentro de caza...

--Desta vez não ouvi nada.

--Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente
andava. Rim... rim... rim... rim...

--Não sei que especie de gente...

--Realmente posso enganar-me.

--Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah!
Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...

--Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados
deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um
prejuisão... Rim... rim... rim... rim...

--Fiz ver tudo isto a elles.

--E porque não trabalharam?

--Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...

--Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là
na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do
enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu
estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim...
rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida
inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça
e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim
meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei...
Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?

--Sim.

--E então?

--Não sabes o que foi?

--Não sei...

--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
aos outros mandei pôr as correntes...

--Vai soltar o _Tupy_. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso.
Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!

--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança
sobre elle...

--É uma prova de lealdade.

--Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?

--Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com
essas despesas... Ainda o compraste hoje?

--O doutor mandou...

--Rim... rim... rim... rim...

--Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...

--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica,
é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das
pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem
recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se
a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um
homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha
saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos
inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...

--Deixa o cachorro preso.

--Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim...
Que afflição sinto agora!

--Bebe o leite!

--Dà-me.

--Jà se devem trinta medidas...

--Como?

--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e
duas à tarde...

--Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a
botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à
mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde
hoje...

--E com que te alimentas?

--Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo
em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...

--Sem o leite não poderás passar...

--Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?

--O medico.

--Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se
combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim...
rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem
sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma
fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite,
pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim...
rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e
plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em
cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as
louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...

--Foi a mesma coisa...

--... não foi là dentro...

--Foi, sim!

--Pareceu-me na sala da frente...

--Não cuidarás de outra coisa?

--E que seria o que cahiu?

--Uma bacia de folhas...

--Não!... não!... não!...

--Que queres fazer?

--Levanta-me aqui...

--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do
que um menino...

--Aquelle barulho... Levanta-me aqui...

--Para que? não me dirás?

--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como
se pegasses num pedaço de pau...

--Assim?

--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...

--Queres muita coisa tambem...

--Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...

--Estás muito impaciente...

--Tira o travesseiro...

--Prompto. Queres mais alguma coisa?

--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem
sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...

.........................................................................

    E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer,
    minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu
    esconderijo, como verdadeiras inutilidades...



AO DESPIR UM PIERROT


AO DESPIR UM PIERROT

    A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em
    que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro
    lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em
    marmore rozado e humido.

    Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas
    soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da
    lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de
    não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.

.........................................................................

--Reconheceu-te, Stella?

--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?

--Não o viste?

--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de
desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente,
naquella tua phrase.

--Viste-o?

--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?

--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com
uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses
os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...

--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não
obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim?
Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções.
Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma
_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi
espionar-lhe os passos de homem livre...

--É o que te parece: livre?...

--Pois não é livre Narciso?

--Digo-te que não!

--O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
estado?

--Repito-te que não.

--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das
vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...

--Narciso differe dos outros...

--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as
carnes...

--O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado
semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos
assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos
os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito
de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...

--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda
ordinaria, esta!

--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias
das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais
cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua,
os seus labios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes
produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue
ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus
dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do
que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo
instinctivamente, os nossos labios se encontraram...

--Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...

--Desbotou nellas o setim?

--Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas,
estão para ser exprimidas... Que sudorifico!

--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de
um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo...
Avia-te, afim de que me contes o que viste...

--Dir-te-ei centos de coisas novas...

--Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um
pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse
que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo...
Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte
que cubiço...

--Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...

--Apressa-te, Stella!

--Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de
confidencias que inauguraste...

--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento
hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe
resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella,
intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos...
Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e,
quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o
prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo
deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na
medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora,
o que tu viste...

--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...

--E onde ficou Alberto?

--O meu primo?

--Sim.

--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_
da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu
primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos.
Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do
que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...

--Invejo-te, Stella!

--Bem poderias ter ido...

--Qual nada!

--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?

--Isto é fácil para ti...

--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...

--Não!

--Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que
vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do
baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle
numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres...

--Mulheres, tambem?

--E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de
sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho,
casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...

--Narciso tambem?

--Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não
tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...

--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei
logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...

--Ao seu lado estava uma _écuyère_ italiana: deves gabar-te do gosto de
teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...

--Era bonita a que o seguia?

--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decóte,
exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da
qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era
tido como mascotte...

--Jà agora me penso feliz por não ter ido là.

--Que teria se tu tivesses ido?

--Não me conteria.

--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe
acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse
fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...

--Nada mais natural.

--É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que
elle tomou a bebida de dentro da taça?

--Sim.

--Pois não! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus
nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...

--Confesso-te que não.

--Ahi está. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou
nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
sugou-lhe a entontecedora bebida...

--Como deve ser bom esse carinho!

--Ao depois, beijaram-se...

--Aos olhos do publico?

--Sim.

--Ah!... Se eu estivesse là...

--Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande
excesso, alli mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas
mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos...
Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um
conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto
luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto
final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se
entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e
cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um
corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem
igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos...

--E Narciso dansou?

--Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_,
os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco
retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles
escandalisariam...

--Todavia, vingar-me-ei...

--Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...

.........................................................................

    As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se,
    cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...

    A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos
    corpos de uma semi-nudez pagan...



A TAVERNA DE MME BERTHON


A TAVERNA DE MME BERTHON

    No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos
    _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos,
    essencialmente mundanos, conversavam surdamente...

    Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha
    de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares
    cupidos por todas as bancas.

    ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a
    passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...

.........................................................................

--Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta
«Menina Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da
infeliz Madame Berthon.

--E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade
desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações,
anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.

--Não conheceste tambem a Madame Berthon?

--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
ignorado...

--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.

--Alguma divindade incognita...

--Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem
a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e
na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora
absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais
inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que
povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de
tranquillidade agora é a sementeira de um incommensuravel estado de
attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as
mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua
subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de
seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria,
aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o
rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz
cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas
decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de
alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E,
se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava...
Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua
alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher,
Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido,
entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura.
Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um
suicidio...

--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.

--Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros
tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por
certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que
veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a
mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem,
Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar
o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque
nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as
tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea
tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de
compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o
bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a
Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio
espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher
gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico,
saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam,
com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na
manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas
furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos,
espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia
de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o
assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos
extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento
no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa
de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia,
meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado
em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem
feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um
crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os
botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...

--Revolto-me jà contra esse perverso.

--Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella
operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava
zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos
dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito,
arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes
desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita
avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os
ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas,
olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro
crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e
penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um
delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina
autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina...
Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada.
Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por
dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça affoita
enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente:
«Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e
penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon,
numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já
era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre
as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas
rubras, e as pequenas sapatinhas...

--Que miseria!

--Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A
perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros
perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas
proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que
esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e
senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão
da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo
esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros
Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
que um corpo morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo,
porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais
sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só
naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que
possuia um nevo sobre o quadril direito...

--Sensualizas tudo, Wenceslau!

--E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte,
como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas
fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela
força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à
instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a
mão na dosagem da condemnação do homem algoz.

--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no
senhorio dos homens.

--E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?

--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo
do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da
mulher, de tão distantes tempos vem ella.

--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que
Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua
obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não
poderia ser contraria à sua origem...

--És rigoroso demais...

--Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os
dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo
e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos
homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam
no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil,
de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que
é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto
senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao
demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?...

.........................................................................

    Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois
    policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta
    noite...



INDICE

    Dedicatoria                             VII
    Epigraphes                               IX
    Nedda                                     3
    Voluptuosas                              17
    O poeta moribundo                        29
    O velho medico                           41
    Os dois espelhos                         53
    O primeiro filho                         65
    Á vista da denuncia                      75
    Irado até à cura...                      89
    A hungara                               101
    Depois do cometa                        115
    Amores no claustro                      127
    A Consulêza                             139
    De como o avarento morreu...            153
    Ao despir um pierrot                    167
    A taverna de Madame Berthon             179





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