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Title: Um club da Má-Lingua
Author: Dostoyevsky, Fyodor, 1821-1881
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Um club da Má-Lingua" ***

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    Notas de transcrição:

    O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em
    1908.

    Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a
    leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário
    assinalá-los. Os nomes das personagens apareciam impressos de
    múltiplas formas, e foi feito um esforço de uniformização da grafia
    dos mesmos, tomando como referencia uma tradução em inglês da mesma
    obra. Na versão htm deste texto estão assinaladas as correcções.


UM CLUB DA MÁ-LINGUA



FÉDOR (THEODORO) DOSTOIEVSKY

Um club da má-lingua

TRADUCÇÃO DE MANUEL DE MACEDO



1908

"A EDITORA"

_Largo do Conde Barão, 50_

LISBOA



Typographia "A Editora"--Largo do Conde Barão, 50--Lisboa



O SONHO DO PRINCIPE GAVRILA



I


Maria Alexandrovna Moskalev é com toda a certeza a dama de mais subida
importancia em Mordassov, nem haverá quem o conteste. Ao contemplál-a,
dirieis que não precisa seja de quem fôr, e que, antes pelo contrario,
toda a gente lhe deve obrigações. Goza de poucas sympathias, na verdade,
é cordialmente detestada, até: mas temida tambem universalmente, e é
isso que ella quer. E não representará isto um rasgo de finura politica?
Por que será que, por exemplo, apezar de nutrir paixão por mexericos e
de não poder dormir descansada no dia em que não soube nada de novo, por
que será, sim, que pela apparencia de Maria Alexandrovna, tal é a sua
majestade, não occorre á mente, seja de quem fôr, o facto de ella ser a
primeira coscovilheira d'este mundo, ou quando menos, de Mordassov?
Dir-se-ia antes que assim que apparece deveriam cessar, acto-continuo,
de todo os mexericos, as comadres tremerem como garotetes em presença do
prefeito, e as conversas guindarem-se desde logo aos assuntos mais
transcendentes. E todavia, ella, a respeito de uns certos Mordassovenses
está em dia com umas chronicas tão escandalosas que, se as dissesse a
proposito e provando-lhes--como ella o sabe fazer--a authenticidade,
Mordassov em pêso tremeria tal qual tremeu Lisboa em tempos. Mas se ella
quanto a segredos é o proprio tumulo; é necessario dar-se um concurso de
circumstancias extraordinarias para que ella consinta em falar n'umas
certas coisas,--e isto ainda entre amigos da maxima intimidade. Poderá
arriscar uma allusão, dar a entender que "está em dia"; mas pella-se por
manter a qualquer individuo--homem ou mulher--na sugestão de um temor
perpetuo, em vez de o esmagar de um golpe. Isto é que é intelligencia,
isto é que é tactica! Maria Alexandrovna sempre se distinguiu mercê do
seu irreprehensivel _comme il faut_. É citada como modêlo. Lá quanto ao
_comme il faut_ não tem rival em toda Mordassov.

Poderá, com uma palavrinha, matar, esfacelar, anniquilar uma pessoa que
lhe haja cahido no desagrado,--mas sem lhe tocar, sem suspeitar,
dir-se-hia, a importancia da dita palavrinha. Semelhante traço de
caracter assás trescala a alta sociedade.

Tem optimas relações. A Mordassov ainda não veiu pessoa que não ficasse
penhorada com as recepções de Maria Alexandrovna. O maximo numero até de
taes visitantes accidentaes ficaram-se carteando com ella. Houve até um
poeta que lhe dedicou versos: Maria Alexandrovna exhibe-os com
desvanecimento. Um litterato de arribação offereceu-lhe uma novélla da
qual fizera leitura em casa da nobre senhora, durante um sarau: produziu
optimo effeito. Um sabio allemão, vindo expressamente de Carlsruhe no
intuito de estudar uma especie singular de vermezinhos chavelhudos que
se encontram no nosso governo (o dito sabio escreveu ácerca do alludido
vermezinho quatro volumes _in-quarto_) tão encantado ficou com a
amabilidade de Maria Alexandrovna, que ainda hoje, lá de Carlsruhe, lhe
escreve cartas respeitosas e moraes. Chegaram até a estabelecer
parallelos entre Napoleão e Maria Alexandrovna. Foi brincadeira, facecia
de ciumentos, e comtudo, apontando a estranheza de semelhante
comparação, atrever-me-hei a fazer uma pergunta ingenua; por que seria
que a Napoleão, no acume da sua gloria, o tomaria uma vertigem? Os
legitimistas attribuem uma tal fraqueza á vilã extracção de Bonaparte,
que nem era de estirpe realenga nem sequer de nobreza limpa. Por
espirituosa que seja semelhante opinião,--pois tresanda á mais brilhante
épocha da antiga côrte franceza,--atrever-me-hei ainda a perguntar: mas
por que é que a Maria Alexandrovna não a tomaram nunca vertigens? Pois é
um facto; veiu a ser e depois ficou sendo sempre a dama de mais subida
importancia em Mordassov. Conheceu horas atribuladas, não ha duvida, e,
em certas circumstancias, houve até quem dissesse lá comsigo: «Mas que é
que ha de agora fazer Maria Alexandrovna?» E o obstaculo achava-se
transposto como que por encanto.

Toda a gente estará lembrada da maneira porque o marido, o Aphanassi
Matveich, perdeu a posição. Deu-se isso em seguida a uma inspecção aos
fiscaes a quem esta achou tolos em demasia. E a cuidarem que Maria
Alexandrovna não deixaria de perder o sizo, humilhar-se, supplicar,
n'uma palavra, "rebaixar a sua linguarice." Longe d'isso! Percebendo que
as supplicas nada adeantariam, houve-se de modo que a sua influencia não
soffreu a minima quebra, e que a sua casa continuou a ser a primeira
casa de Mordassov. Anna Nikolaievna Antipova, inimiga figadal de Maria
Alexandrovna, a despeito das exteriorizações de mundana amizade, já
cantava victoria. Mas não tardaram em perceber que era difficil
atrapalhar Maria Alexandrovna, e que esta era mais fina do que a
suppunham.

Aqui, vem ao pintar umas palavras a respeito de Aphanassi Matveich,
marido de Maria Alexandrovna. É um homem muito bem parecido, a correcção
em pessoa. Mas, nos casos criticos, assustava-se que nem um borrêgo que
percebesse que lhe mudaram o que quer que fosse ao cancêlo do redil.
Circumstancia que lhe não tolhia o ostentar ordinariamente uns ares de
summa importancia, sobretudo nos jantares de apparato, quando punha a
gravata branca. A majestade de taes sujeitos dura até ao momento de
abrirem a bôca: mas então é tratar de metter rolha nos ouvidos.
Semelhante homem, com toda a certeza, é indigno de pertencer a Maria
Alexandrovna. É esta a opinião geral.

E d'ahi, é unicamente devido á genialissima esposa o facto de elle se
conservar no seu posto. A meu ver, ha muito tempo que o deveriam ter
espetado na horta á laia de espantalho para os pardaes.

Alli, e só alli, poderia ter sido de alguma utilidade. Maria
Alexandrovna fez, pois, muito bem em exilar Aphanassi Matveich para a
aldeia de cento e vinte almas que ella possuia a tres verstas de
Mordassov. E de caminho, digamos que a dita propriedade representava a
totalidade dos bens facultando a Maria Alexandrovna o custear tão bem, e
com tamanho estadão, a sua casa. Facil foi pois o perceberem que havia
supportado Aphanassi Matveich unica e exclusivamente por causa do seu
cargo, dos respectivos ordenados e... e ainda de uns certos
emolumentosinhos. Agora, que, velho, já nem representava ordenados nem
emolumentos, não seria de justiça affastá-lo na qualidade de inutil
trambolho?

Aphanassi Matveich leva no campo uma vida agradabilissima. Fiz-lhe uma
visita e passei com elle uma hora encantadora. Ensaia ao espelho as
gravatas brancas, engraxa as proprias botas, não por necessidade, mas
sim por amor da arte, porque gosta de ver as botas a luzir muito. Toma
chá tres vezes ao dia, vae a miudo ao banho e não se rala com coisa
nenhuma...

Estão lembrados d'aquella nojenta historia, ha dezoito mêses, a
proposito da Zinaida Aphanassièvna, filha unica, de Maria Alexandrovna e
de Aphanassi Matveich? Zinaida é uma beldade, e uma menina muito bem
educada, de mais a mais; mas tem vinte e trez annos e ainda está
solteira. Uma das principaes causas a que atribuem o celibato da Zina, é
o boato vago da estrambotica ligação que dizem haver tido, ha
exactamente dezoito mêses, com um réles utchitel[1]--boato que ainda se
não desvaneceu.--Citam uma missiva amorosa escrita pela Zina e que dizem
ter corrido Mordassov de um extremo ao outro. Mas, por favor, não me
dirão, leram a tal epistola? Não houve em Mordassov pessoa que a não
visse. E então! onde pára ella actualmente? Toda a gente ouviu falar
nella, mas quem foi que a viu? Eu, da minha parte, ainda não encontrei
uma só pessoa que a tenha visto com seus proprios olhos.

Alluda alguem á tal epistola na presença de Maria Alexandrovna e aposto
desde já que ella não perceberá sequer esse alguem. Mas supponhamos que
tenha havido o que quer que fosse de verdade em semelhante atoarda, e
que a Zina haja escrito a decantada epistola, (effectivamente, estou
convencido de que a escreveu): admirem então a habilidade de Maria
Alexandrovna.

Como se havia de atabafar caso tão escandaloso?--Pois bem, procurem, nem
vestigios, prova, que é della? Maria Alexandrovna nem sequer se digna
tomar conhecimento de calumnia tão soez, e comtudo, Deus sabe o trabalho
que lhe custou conservar intacta a honra da filha unica! Que a Zina não
tenha ainda casado, isso percebe-se, de mais, até: onde iria ella por
aqui encontrar noivo? A Zina só pode casar com um principe reinante! Já
alguem viu mais peregrina formosura? É soberba, lá isso é... Dizem que
Mozgliakov a pedira em casamento, mas semelhante consorcio jámais se
effectuará. Quem vem a ser esse tal Mozgliakov? É môço, assás bem
parecido, elegante, peterburguense, proprietario de cento e cincoenta
almas livres de hypotheca. Mas não fura paredes! Leviano, tagarélla,
apaixonado pelas novas ideias... E que representarão cento e cincoenta
almas com ideias novas? O casamento nunca se realizará.

Quanto acaba de ler o amavel leitor foi escrito, ha cinco mêses,
unicamente por admiração. Devo convir em que nutro uma tal ou qual
sympathia por Maria Alexandrovna. Quizera escrever o panegyrico de tão
magnifica dama sob a forma de uma carta dirigida a um amigo, a exemplo
d'aquellas que outrora publicavam as revistas, n'esses bons tempos que
já lá vão, e que, louvôres a Deus! não voltam cá outra vez!

Mas se não tenho um unico amigo, e, graças á incuravel timidez que de
mim se apodera assim que se trata de litteratura, a minha obra ficou na
gaveta na qualidade de tentame sem seguimento.

Cinco mezes eram pois decorridos, quando em Mordassov se deu um
acontecimento extraordinario.

Um dia, de madrugada, eis que chega o principe K... e vae hospedar-se em
casa de Maria Alexandrovna.

As consequencias d'este acontecimento são incalculaveis. O principe
passou apenas trez dias em Mordassov. Mas esses trez dias deixaram
recordações fataes e inexpungiveis. Direi mais: o principe foi causa de
uma verdadeira revolução n'esta nossa cidade. A narrativa da alludida
revolução virá a ser, certamente, a pagina mais importante da historia
de Mordassov. E é essa pagina que eu, após innumeras hesitações, me
resolvi a offerecer, sob forma litteraria ao criterio do respeitavel
publico.

A minha narrativa poder-se-ia intitular: "Grandeza e Decadencia de Maria
Alexandrovna." Grande e seductor assumpto para um poeta.



II


Direi desde já que o principe K... não era um ancião centenario.

Á primeira vista, comtudo, ninguem podia deixar de pensar que ia
reverter outra vez aos elementos, a tal ponto se achava gasto! Corriam
em Mordassov as historias mais estranhas a respeito do dito principe.
Affirmavam que estava um tanto ou quanto tinôco.

Effectivamente, parecia exquisito que um _pomiestchik_[2] de uma das
mais notaveis familias, dono de quatro mil almas, em posição de obter
consideravel influencia na provincia, permanecesse enclausurado, tal
qual um eremitão, na sua magnifica propriedade. Muitos que o tinham
visto, seis ou sete annos atraz, por occasião da primeira vinda do
principe a Mordassov, affirmavam que nesse tempo nem podia supportar a
solidão nem tinha ainda aquelles seus costumes de eremita.

Eis os esclarecimentos que pude colher a seu respeito bebidos das mais
seguras fontes.

Outrora--e onde irá isso!--o principe havia effectuado na sociedade um
ingresso de aurora... Durante os annos todos da juventude levara vida
airada, requestando as damas, esbanjando por vezes repetidas o seu
dinheiro em viagens ao estrangeiro, cantando romanzas, fazendo
trocadilhos; mas não se distinguia mediante uma intelligencia acima da
marca. Em semelhante vida, não tardou em dar cabo do que tinha, e,
quando chegaram os dias da senéctude, ficou sem um kopek. Aconselhou-lhe
alguem que voltasse para a sua aldeia, que principiava já a ser vendida
em hasta publica.

Aproveitou o conselho, e foi nessa occasião que veiu passar seis mêses
em Mordassov. Agradou-lhe immenso a vida de provincia, e pelo espaço de
seis mêses acabou de se "alimpar" em amorios com as mundanas
provinciaes. Era aliás excellente pessoa, de um fausto principesco (em
Mordassov o fausto é o signal caracteristico da mais alta aristocracia.)

As damas sobretudo não cessavam de se alegrar com um hospede encantador
a tal ponto. Deixou entre nós curiosissimas recordações; entre outras
exquisitices, contavam que o principe gastava a maxima parte do dia ao
toucador. Parecia todo elle feito de pedacinhos enxertados. Scismavam
onde e como fôra que elle se haveria decomposto d'aquella maneira. Usava
chinó, bigode, suissas, e inclusivé uma pêra, tudo postiço até o minimo
pellinho, e tudo preto como o proprio azeviche--uma lindeza! Levava todo
o santo dia a pôr caio e carmim. Affirmavam que dispunha de um talento
especialissimo em disfarçar as rugas do rosto por meio de umas
mólazinhas escondidas com o chinó. Affirmavam ainda que trazia
espartilho, havendo ficado sem uma costella ao saltar desastradamente de
uma janella abaixo durante uma aventura amorosa, na Italia. Coxeava da
perna esquerda, uma perna postiça de cortiça, affirmavam, havendo
quebrado a verdadeira em Paris, em outra aventura. É possivel que
houvesse exaggêro, mas o que é certo, é que o olho direito era de vidro:
illudia completamente, aliás; ninguem diria que não era natural. Os
proprios dentes eram artificiaes. Passava dias inteiros a lavar-se com
aguas-garantidas, a perfumar-se, a encalamistrar-se. Ultimamente,
comtudo, principiava a fazer-se velho e a tresler. Parecia estar prestes
a terminar a sua carreira, e sabia toda a gente que se achava
arruinado,--e eis que de repente lhe morre uma sua parenta muito
chegada, senhora de muita edade, vivendo em Paris, e de quem não
esperava herdar, em seguida a haver enterrado um mez, exactamente, antes
de fallecer, o unico herdeiro. Eram quatro mil almas e uma soberba
propriedade a sessenta verstas de Mordassov a reverterem no principe sem
a minima partilha. Abalou desde logo para Petersburgo a fim de pôr em
ordem seus negocios. Por occasião da partida, offereceram-lhe as damas
um sumptuoso banquete por subscripção. Ha quem se lembre ainda de como,
n'aquelle dia, o principe foi seductor e espirituoso! Era um tiroteio de
calemburgos, de anecdótas extraordinarias. Prometeu voltar o mais breve
possivel para a sua nova propriedade e jurou que na volta daria meza
franca e uma festa--bailes e luminarias--que nunca havia de ter fim.
Depois da sua partida, ficaram as senhoras um anno a falar da tal
promettida festa e impacientes á espera do encantador velhinho.
Organizavam até excursões a Dukhanovo, a aldeóla do principe, onde se
admirava um antigo solar acastellado, um parque adornado de acacias a
imitar leões, colinas artificiaes, lagos em que navegavam barquinhos
tripulados por turcos de madeira, a tocar flauta, pavilhões de
_Mon-Plaisir_, e quejandos attractivos.

Até que por fim veiu o principe, com grande espanto e não menor decepção
de toda a gente, nem sequer passou por Mordassov e foi encerrar-se em
absoluto isolamento em Dukhanovo. Correram boatos singularissimos. A
datar d'esse momento, torna-se obscura e phantastica a historia do
principe. A principio constou que lá por Petersburgo lhe não tinham
corrido bem os negocios, que os herdeiros, em vista do seu estado senil,
queriam nomear-lhe um conselho judicial receando que voltasse a esbanjar
os seus bens. Ainda mais: accrescentavam que aquelles ávidos caçadores
de heranças tinham querido internál-o n'uma casa de saude!
Afortunadamente para o principe, um seu parente, personagem de summa
importancia, saiu em sua defêsa, provando á evidencia que o pobre homem,
semi-morto e todo elle artificial, não estava para muita dura,
certamente. E que n'essa conformidade os seus bens viriam a reverter nos
herdeiros sem que estes se vissem na necessidade de recorrer á casa de
saude. Eis o que se diz. São compridinhas as linguas lá em Mordassov.
Tudo isto havia assustado o principe, a tal ponto, que se lhe tinha
demudado o genio, descambando em eremitão. Por mera curiosidade, vieram
felicitál-o varios Mordassovenses: e ou não foram recebidos, ou se o
foram foi de modo um tanto exquisito. O principe nem mesmo reconheceu,
ou antes, não quiz reconhecer os seus amigos de outrora.

O proprio governador o foi visitar, mas voltou pelo mesmo caminho
dizendo que o principe estava tinôco. D'alli em deante notaram que o
governador punha uma cara de palmo, assim que lhe falavam na jornada a
Dukhanovo... Indignavam-se as senhoras. Até que por fim se veiu a saber
uma coisa capital; o principe vivia submettido á tutella de uma figurona
por nome Stepanida Matveiévna,--Deus sabe que casta de mulher!--que
tinha vindo lá de Petersburgo, velha, obêsa, usando constantemente o
mesmo vestido de cassa, e sempre com um mólho de chaves na mão. O
principe obedece-lhe em tudo e por tudo e não se atreve a dar um passo
sem a consultar. Ella, lava-o com suas proprias mãos, apaparica-o,
passeia-o e entretem-n'o, como se fôra um néné; em conclusão, é ella
quem bate com a porta na cara aos parentes que principiam a saber o
caminho de Dukhanovo... Foi muito discutida, sobretudo entre as
senhoras, tão incomprehensivel ligação. Accrescentavam que Stepanida
Matveiévna regia com plenos poderes, e sem ter quem lhe fosse á mão, a
totalidade dos bens do principe. Substitue feitores, creados, arrecada
os rendimentos; é aliás boa a sua administração, e os camponêzes não
vêem outra coisa. Com respeito ao principe, este nem já arreda um passo
do toucador, a ensaiar chinós, pêras postiças, casacos. Uma vez por
outra, joga ás cartas com Stepanida Matveiévna; de vez em quando, dá o
seu passeio n'uma egua inglêsa muito mansa: Stepanida Matveiévna
acompanha-o sempre em carruagem fechada, prompta á primeira voz, visto
como o principe só monta a cavallo por garridice e mal se pode ter em
cima do selim. Acontece-lhe tambem o sair a pé, embrulhado n'um
sobretudo, com um chapéu de palha enterrado na cabeça, um lenço de
mulher ao pescoço, um monoculo no olho e pendurado na mão esquerda um
açafate para recolher cogumelos e flôres campestres. Stepanida
Matveiévna, vae-lhe seguindo as pisadas, levando á tréla dois latagões
de dois lacaios; e um pouco mais atráz, uma carruagem. Se calha
encontrarem um mujik que pára e tira o bonné para lhe fazer a sua
contumélia dizendo: "Bom dia, paezinho principe. Nossa Excellencia,
nosso solzinho!" o principe assesta-lhe o monoculo, acêna-lhe com a
cabeça com bom modo e diz-lhe em francêz: "Bom dia, amigo, bom dia!"
Qual não foi porém o espanto de toda a gente quando, uma bella manhã, se
espalhou o boato de como o principe, aquelle eremitão, aquelle original,
tinha vindo em pessoa a Mordassov e se hospedara em casa de Maria
Alexandrovna! Foi um reboliço por ahi além! Estavam á espera de uma
explicação, e perguntavam uns aos outros: "Que quererá isto dizer?" Não
faltou quem se estivesse enfeitando para ir a casa de Maria
Alexandrovna. Carteavam-se as senhoras, visitavam-se, mandavam as
creadas e os maridos colher informações. O que maior espectação causava
era a circunstancia de se ter ido o principe hospedar em casa de Maria
Alexandrovna, e não em qualquer outra parte. Anna Nikolaievna Antipova
ficou mais escandalizada do que outra qualquer pessoa, visto o principe
ser ainda seu parente, parente muito arredado, é verdade.



III


São dez horas da manhã. Estamos em casa de Maria Alexandrovna, na Rua
Grande, no aposento que a dona da casa, nos dias duplices, enfeita com o
titulo de sala. (Maria Alexandrovna, dispõe tambem de um camarim.) O
papel das paredes é correctissimo. Os moveis, pouco commodos, arvoram
com verdadeira predilecção a côr vermelha. Ha um fogão, e em cima do
fogão um espelho; deante do espelho um relogio tendo por assunto um
Cupido do mais execrando gosto. Nas paredes, no intervallo das janéllas,
dois espelhos a que já tiraram as capas. Adeante dos espelhos, duas
banquinhas, e ainda dois relogios. Toma a metade de um apainelado um
piano de cauda. (Mandaram vir o dito piano para a Zina: cultiva a
musica.) Ao pé do fogão, no qual arde uma bôa fogueira, estão dispostas
umas poltronas em desalinho pinturesco a mais não poder ser. Ao meio
outra banquinha. No outro extremo da casa, ainda outra mesa, tapada com
uma toalha immaculada e em cima, um samovar de prata, a ferver, no meio
de um lindissimo serviço para chá. Uma senhora, residente em casa de
Maria Alexandrovna, a titulo de parenta affastada, Nastassia Petrovna
Ziablova, está especialmente incumbida do chá.

Duas palavras ácerca da alludida senhora. É viuva, frescalhona, com uns
olhos castanhos escuros muito vivos, assaz bem parecida; é alegre,
velhaca, até; linguareira, escusado será dizê-lo, e sabendo levar agua
ao seu moinho; tem dois filhos no collegio, para ahi, algures. Não se
lhe daria de tornar a casar; vive com bastante independencia; o marido
era official.

Maria Alexandrovna em pessoa está sentada ao pé do fogão: acha-se de boa
catadura. Traja um vestido verde claro, assentando-lhe a primor. Está
contentissima com a vinda do principe. N'este ensejo, o principe está lá
em cima, todo elle entregue á tarefa de se infunicar.

Maria Alexandrovna nem sequer pensa em esconder o seu contentamento.
Deante d'ella, um rapaz a fazer boquinhas e a cantar, muito animado,
seja o que fôr. Percebe-se que se desvéla por agradar a quem o está
escutando. Tem vinte e cinco annos. Se não fossem as suas exuberancias,
se não fossem tambem as suas pretensões a engraçado, seria toleravel.
Está bem vestido, é loiro e de agradavel presença. Já a elle nos
referimos, é o senhor Mozgliakov, môço sobre quem se fundaram esperanças
matrimoniaes. Maria Alexandrovna acha-lhe a cabeça um tanto ôca, mas nem
por isso deixa de o receber muito bem. Diz elle que está loucamente
apaixonado pela Zina. Dirige-se a esta continuamente, ancioso por
alcançar um ar de riso a poder de bons ditos e de azoamento. Ella,
comtudo, mantem-n'o a distancia, com extrema frialdade. A joven está de
pé junto ao piano, a folhear um almanaque. É uma dessas mulheres que
produzem effeito geral ao entrarem numa sala. É peregrinamente formosa:
alta, morena, com uns immensos olhos quasi pretos, esbelta, com um collo
magnifico, uns pésinhos encantadores, espaduas e mãos de molde classico,
e um pisar de rainha. Está hoje um tanto descoráda, a pallidez, comtudo,
torna-lhe mais conspicuo o rubido fulgor dos labios por entre os quaes
lhe luzem, tal qual perolas em fio, uns dentinhos miudinhos e regulares.
Era caso para qualquer de nós sonhar com elles, três dias a fio, só de
lhes ter posto a vista em cima. É séria a sua expressão.

O senhor Mozgliakov dir-se-hia arrecear-se do olhar fito da Zina, pelo
menos não ergue para esta os olhos sem um tal qual enleio.

É singelissimo o vestido da joven, de gaze branca: Está-lhe bem o
branco, está-lhe lindamente o branco... E d'ahi, que haverá que lhe não
fique bem? Traz enfiado n'um dedo um annel de cabello entrançado. A
julgar pela côr, aquelles cabellos não são os da mamã. Mozgliakov nunca
se afoitou a perguntar de quem seriam aquelles cabellos. Está taciturna,
esta manhã, triste, até, ou preoccupada, pelo menos. Em compensação,
Maria Alexandrovna acha-se em maré de dar á lingua. De vez em quando,
esguêlha uns olhos desconfiados para a Zina, e olhos furtivos quanto
possivel, como que não se arreceando menos da joven.

--Estou tão contente, Pavel Alexandrovitch, (dir-se-hia pipilar) que
estou capaz de gritar da janella abaixo o meu contentamento a quem passa
pela rua. Sem falarmos da agradabilissima surpreza que nos proporcionou,
a mim e á Zina, com vir quinze dias mais cedo do que o esperavamos. É
caso á parte. Mas o que mais me penhorou foi a attenção que teve
comnosco trazendo comsigo o principe. Se soubesse como eu adoro aquelle
encanto aquelle vélhinho! Não pode comprehender-me! As pessoas da sua
edade seriam incapazes de semelhante affeição. Não sabe as
circumstancias que entre mim e elle se deram, ha seis annos? Lembras-te,
Zina? E eu sem me lembrar de que n'esse tempo estavas em casa de tua
tia. Estou que me não acreditaria, Pavel Alexandrovitch, se eu lhe
dissesse, que servi de guia ao principe, que fui para elle, irmã, mãe?
Havia lhaneza, carinho, nobreza n'aquella nossa ligação. Era...
pastoril!... Nem eu sei como a hei de definir. Eis o motivo porque elle
se lembrou da minha casa com tamanha gratidão, o pobre do principe! E se
eu lhe disser, Pavel Alexandrovitch, que é possivel até que o salvasse
trazendo-o para minha casa? Não podia evitar o confranger-se-me o
coração, durante aquelles seis annos, sempre que me punha a pensar
n'elle!... Eu... quer acreditar?... até sonhava com elle! Dizem que
aquella creatura, a tal sua carcereira, o enfeitiçou, que o deitou a
perder... mas, emfim, o senhor arrancou-o das garras d'aquella harpia!
Urge aproveitar a occasião para o salvar completamente... Mas conte-me,
mais uma vez, como foi que o conseguiu? Descreva-me, muito por miudos, o
encontro de um e outro. Eu ainda agora fiquei tão sobresaltada! Não vi
senão os traços geraes, mas não ha pormenor que não seja precioso a meus
olhos. Se eu sou assim! Pello-me pelas minudencias, nos acontecimentos
de maior vulto, são os pormenores que primeiramente me chamam
attenção... e... emquanto elle se está arrebicando...

--Mas se eu já lhe contei tudo, apressa-se em responder Mozgliakov,
prompto a recapitular a narrativa pela décima vez. Tinha viajado toda a
noite... não tinha pregado olho; estava com tanta pressa de chegar ao
meu destino! (Esta ultima phrase ia sobrescritada para a Zina.) Tive que
aturar contendas, berreiros por occasião das mudas. Eu proprio,
confesso, não fiz tambem pouca algazarra. É um poema moderno, sem tirar
nem pôr. Mas vamos adeante. Ás seis horas da manhã, em ponto, eis que
chêgo á ultima muda, em Ignichévo. Tranzido, mas, isso sim! nem sequer
tiro uns minutos para me aquécer. Pégo a gritar: "Cavallos!" Estou em
dizer, até, que metti um susto á mulher do capataz das mudas: tinha ao
collo um néné, de peito, e estou com receio que se lhe talhasse o
leite.--Era admiravel o despontar do sol! Sabe, aquelle pó da geada
escarlate e prateada? E eu, sem attentar em coisa nenhuma, ia a vapor!

Empalmo uns cavallos a um tal conselheiro de collegio,--com quem por um
triz que não tenho um duéllo. Afiançam-me que um quarto de hora antes
tinha abalado da dita muda um certo principe que viaja com cavallos
proprios. Que pernoitara na muda. Quasi que nem lhes dou ouvidos, salto
para a carruagem, vôo por ali fóra tal qual um prisioneiro
escapulido.--Ha uma situação parecida em uma elegia de Fet[3].--Ora, a
nove verstas da cidade, justamente, em vista do retiro de
Svietozerskaia, avisto o que quer que seja de singular! Uma grande
carruagem de jornada caída na estrada. O cocheiro e dois latagões de
dois lacaios, de pé, junto da mesma, e muito atrapalhados. Lá do fundo
da carruagem vinham uns bérros que me confrangiam a alma!... Eu podia
seguir por deante, não tinha nada com isso, mas levou a melhor a
humanidade, pois, como diz Heine, mette o nariz em toda a parte. Paro,
pois. Eu, o meu yamstchik Semene, e uma outra alma russa, accudimos a
ajudar e entre nós seis pômos em pé a carruagem. Pômol-a de pé,--quero
dizer, sobre os patins.--Uns mujiks que levavam uma carga de lenha para
a cidade ajudaram-nos tambem, (apanharam bem boa gorgêta). E eu a dizer
commigo: É o tal principe que passou a noite na muda. Ólho: Santo Deus!
É o principe Gavrila! Que encontro este! "Principe! bradei: tiozinho!" Á
primeira vista, não me conheceu; nem sei se me reconheceria á segunda: e
agora mesmo não estou bem certo em que me reconhecesse. Creio que nem
sequer já se lembra do nosso parentesco. Vi-o pela primeira vez, em
Petersburgo. N'esse tempo era eu um garoto. Lembro-me muito bem, mas
elle, podia-se lá lembrar de mim? Apresento-me: fica encantado!
Beija-me, e depois pega a tremer de susto e, em conclusão, desata a
soluçar. Por Deus! Vi-o com meus proprios olhos: até chorou! Palavra
puxa palavra e, em conclusão, acabei por lhe propôr que viesse até
Mordassov tomar um dia de descanso. Consentiu sem hesitações.
Declarou-me que ia para o retiro de Svietozerskaia, para casa do
arcypreste Missail a quem tem em grande conta; que a Stepanida
Matvéina--qual de nós, parentes do Principe, não terá ouvido falar de
Stepanida Matveiévna? O anno passado, escorraçou-me de Dukhanovo com o
pau da vassoira!... Que a Stepanida Matveiévna recebera pois uma carta
exigindo a sua presença em Moscou pelo fallecimento de alguem, o pae ou
a filha, nem sei nem quero saber,--talvez que pae e filha ao mesmo
tempo, e ainda por cima para ahi qualquer segundo sobrinho empregado na
fiscalização dos vinhos. N'uma palavra, tivera que conformar-se,
desamparar o seu principe por uns dez dias e levantar vôo, a toda a
pressa, para a capital.

O principe demóra-se um dia; dois dias, sem se mexer, a experimentar
chinós, a encalamistrar-se, a pentear-se, a fazer paciencias: em
conclusão, a solidão acabou por lhe ser pesada. Foi então que mandou pôr
o trem e metteu a caminho do retiro de Svietozerskaia. Alguem do seu
séquito, com medo do phantasma da Stepanida Matveiévna, atrevera-se a
ir-lhe á mão. Mas o principe é cabeçudo e tinha abalado na vespera,
depois de jantar, pernoitando em Ignichevo, largara da muda de
madrugada, e, justamente na volta do caminho que vae ter á residencia do
arcypreste, por pouco se não despenha com a carruagem n'uma barroca.
Salvei-o e persuadi-o a vir para casa da nossa amiga commum, a
dignissima Maria Alexandrovna. Diz elle que a senhora é a dama mais
encantadora que tem encontrado em toda a sua vida, e cá estamos. O
principe está a pôr em ordem os arrebiques com o criado particular de
quem porfiou em não prescindir. Mais depressa se deixaria morrer do que
apresentar-se em casa de uma senhora sem a roupa toda da ordem... E aqui
tem a historia toda... é uma historia deliciosa!

--Que humorista, hein! Zina? exclama Maria Alexandrovna. Que captivante
narrador! Escute, Pavel, uma pergunta: explique-me bem o seu parentesco
com o principe. O senhor trata-o de tio.

--Por Deus! Maria Alexandrovna, se eu sou o proprio a não saber, como é
que sou seu parente. Estou em dizer, até, que talvez seja preciso para
ahi um cento de gravêtos para sermos do mesmo ramo. Mas eu cá trato-o de
tiozinho, e elle responde-me. E ahi tem, até hoje, todo o nosso
parentesco...

--Foi Deus em pessoa que o inspirou em m'o trazer para aqui. Arrepio-me
só de pensar que poderia ter ido hospedar-se para outra qualquer parte.
Devoravam-n'o! Atiravam-se a elle como quem se atira a um thesouro, a
uma mina!... Eram capazes de lhe tirar a camisa! Não põe na sua ideia o
que por ahi vae de almas sofregas, vis e arteiras n'esta nossa
Mordassov.

--Ah! meu Deus! mas para onde queria que o levassem a não ser para sua
casa? Sempre tem cada uma, Maria Alexandrovna, interveiu Nastassia
Petrovna, a incumbida do chá. Talvez quisesse que carregassem com elle
para casa da Anna Nikolaievna!

--Mas com tudo isso, por que se demorará elle tanto? É exquisito! disse
Maria Alexandrovna, erguendo-se, impaciente.

--O tio? Aquillo ainda é negocio para cinco horas! E d'ahi, bem sabe que
está perdido da memoria; é capaz de se ter esquecido de que é seu
hospede. É um homem extraordinario, Maria Alexandrovna. Se soubesse!

--Ora vamos! Que está a dizer?

--A verdade, Maria Alexandrovna. É um homem _mecanico_. Não o vê ha seis
annos, mas sei o que ha a esse respeito. É a recordação de um homem,
esquéceram-se de o enterrar. Tem olhos de vidro, pernas de cortiça; todo
elle de _engonços_, a propria voz é artificial.

--Valha-nos Deus, sempre é um tal esturdio! exclamou Maria Alexandrovna
com uns modos doridos. Não tem vergonha, o senhor, a falar assim de um
veneravel ancião, que é seu parente? (A voz de Maria Alexandrovna,
n'esta altura assume entonação tocante.) Sequer ao menos, lembre-se de
que é uma reliquia da nossa aristocracia! Meu amigo, essas leviandades
provêm-lhe das taes novas ideias em que está sempre a falar. Meu Deus!
tambem eu participo dessas ideias; comprehendo que o principio que rege
as suas opiniões é nobre, honrado. Presinto n'essas ideias novas o que
quer que é de elevado, de sublime. Mas tudo isso não me impede de ver os
lados praticos, por assim dizer--da questão. Tenho vivido na sociedade,
conheço melhor que o senhor os homens e as coisas, pois que o senhor é
apenas um rapaz. Este vélhinho afigura-se-lhe ridiculo lá por causa da
edade. O senhor, ha dias, affirmava que queria dar alforria aos seus
servos, que cada qual deve ir com o seu século. Tudo isso, sem duvida,
lá por que o leu para ahi algures no tal seu Shakespeare! Acredite,
Pavel Alexandrovitch, o seu Shakespeare já lá vae ha que tempos. Se elle
resuscitasse, apezar de ser um génio, não percebia uma palavra do viver
moderno. Se alguma coisa existe de majestoso, de cavalheiresco n'esta
nossa sociedade contemporanea, é com certeza a aristocracia. Um principe
é sempre um principe; faz um palacio ainda que seja de uma cabana. Ao
passo que o marido da Natalia Dmitrievna, que mandou construir um
palacio, fica sendo o marido da Natalia Dmitrievna, e mais nada,--e a
Natalia Dmitrievna pode pôr em cima de si meio cento de crinólines, que
nunca passará de ser a Natalia Dmitrievna como d'antes. Tambem o senhor,
meu caro Pavel, é um representante da aristocracia, de lá veiu. Aqui
onde me vê, ouso tambem ter-me na conta de não ser alheia á
aristocracia. Pois bem! Ai do filho que chasqueia dos proprios
antepassados! E d'ahi, não deixará de convir, d'aqui a nada, meu
amiguinho, que é preciso pôr de lado o seu Shakespeare, sou eu que lh'o
digo. Estou certa em que agora mesmo não é sincéro. Está armando ao
effeito!... Mas... eu para aqui a dar á lingua! Deixe-se estar, meu
querido Pavel; vou saber noticias do principe. Talvez precise de alguma
coisa, e com estes meus criados!... E saiu apressada Maria Alexandrovna.

--Maria Alexandrovna parece estar contentissima pelo facto de o principe
não se ter ido hospedar para casa da elegante Anna Nikolaievna; e
comtudo, a Anna Nikolaievna tem pretensões a ser parente do principe. É
capaz de estoirar de raiva!--observou Nastassia Petrovna.

Mas, notando que lhe não respondem, Madame Ziablova, depois de haver
esguelhado uma olhadéla para a Zina e para Pavel Alexandrovitch, percebe
que é alli de mais e sae, tambem, como quem vae procurar qualquer coisa.
E d'ahi, desforra-se da propria discreção deixando-se ficar atráz da
porta, de ouvido á escuta.

Pavel Alexandrovitch trata logo de se approximar da Zina; está
commovidissimo, com a voz a tremer:

--Zinaida Aphanassievna! Não está zangada commigo? diz timidamente e com
modo supplice.

--Com o senhor? Mas por quê? pergunta a Zina um tanto ruborizada,
erguendo sobre elle os esplendidos olhos.

--Pela minha vinda prematura, Zinaida Aphanassievna, já não podia
supportar mais longo apartamento. Ainda mais quinze dias! E eu a vêl-a
sempre em sonhos! Vim para saber a minha sorte... Mas por que franze as
sobrancelhas, está zangada? Com que então, ainda hoje não apanho
resposta decisiva?

Á Zinaida, effectivamente, carregou-se-lhe o parecer.

--E eu antevia que me havia de falar a esse respeito, encetou ella em
voz rispida com uns vislumbres de despeito. (Declina a vista.) E como
semelhante apprehensão me maguou em extremo, acho melhor cortar de vez
toda e qualquer indecisão... mais vale assim... O senhor exige, quero
dizer, pede uma resposta? Seja assim. A minha resposta será a mesma que
já lhe dei: espere. Repito-lhe, ainda não estou resolvida, não lhe posso
prometter o ser sua mulher... Não é coisa que se obtenha por exigencia,
Pavel Alexandrovitch; mas, para o tranquillizar accrescentarei que o não
rejeito definitivamente. E comtudo, note que, se o deixo esperar uma
decisão favoravel, é por dó da sua inquietação. Repito-lhe que quero
tomar em plena liberdade a minha decisão, e se eu em conclusão lhe
declarar que o rejeito, nem por isso depois me deve increpar por lhe ter
dado esperanças. E fique isto assente por uma vez!

--Mas então, então! exclamou Mozgliakov em voz de mais em mais supplice,
será isso uma esperança? Poderei fundar uma qualquer esperança n'essas
suas palavras, Zinaida Aphanassievna?

--Lembre-se de tudo que lhe tenho dito e funde tudo que quiser: é livre.
E nada mais acrescentarei. Não o rejeito, digo-lhe, tão somente: Espere!
Reservo-me o direito de o rejeitar se assim o julgar necessario...
Far-lhe-hei ainda notar o seguinte, Pavel Alexandrovitch: se veiu mais
cedo do que tinha dito com o sentido em operar por meios indirectos,
esperançado em fazer valer a sua influencia, a da mamã, por exemplo,
enganou-se nos seus calculos. Se assim fôra, rejeitál-o-hia de vez,
entendeu? E agora, basta, se me faz favor! Até que eu proprio lhe torne
a falar n'isso, nem palavra a semelhante respeito.

Foi proferido em tom firme, sêcco, o conjuncto d'este discurso, sem
hesitações, como se fôra decorado de antemão. E Pavel sente o nariz a
crescer-lhe. N'este comenos eis que entra Maria Alexandrovna. Logo atráz
d'esta entra madame Ziablova.

--Já ahi vem, Zina! Quer-me parecer que não tarda ahi! Nastassia
Petrovna, avie-se... o chá!

E Maria Alexandrovna n'uma azafama, toda ella.

--A Anna Nikolaievna já mandou saber noticias; a Aniutka, a creada, até
já veiu pedir informações á copa. Ha de estar como uma bicha! disse a
Nastassia Petrovna, investindo com o samovar.

--E a mim que me importa? responde Maria Alexandrovna, a desfechar as
palavras por cima do hombro a madame Ziablova. Como se me interessasse o
que poderá pensar Anna Nikolaievna! Tenho a certeza em como não serei eu
que mande seja quem fôr á sua copa. E demais, fique sabendo, muito me
admiro de que me façam passar por inimiga da Anna Nikolaievna, coitada!
Pois é opinião corrente em Mordassov. Ora seja juiz, Pavel
Alexandrovitch. Conhece-nos a ambas: por que é que eu havia de ser sua
inimiga? Para lhe disputar a supremacia? Sou indifferente a essas
coisas! Ella que seja a primeira, eu lhe irei dar os parabens! Emfim, é
injusto, e quero defendêl-a. É meu dever. Mas para que é que a
calumniam, para que hão de andar a malhar assim na pobre da creatura? É
nova, gosta de se enfeitar: será por isso? Quanto a mim, acho que vale
mais gostar dos trapos do que um certo numero de coisas de que tanto
gosta a Natalia Dmitrievna, das taes coisas que nem sequer se podem
nomear. Será ainda lá porque a Anna Nikolaievna gosta de visitas e não
pode parar em casa? Mas, santo Deus! Se ella não tem instrucção de
qualidade nenhuma, e com certeza que lhe havia de ser difficil o abrir
um livro e entreter-se dez minutos a fio fosse com o que fosse. É
garrida, dá de olho, da janella abaixo, a todo e qualquer que passa pela
rua. E d'ahi?... Mas para que será que andam para ahi a apontál-a como
uma beldade? É macilenta, que até mete medo! Dansa que é um riso vê-la,
chega a ser comica, convenho, mas por que será que dizem que a polkar é
um portento? Usa uns chapeus inconcebiveis! E d'ahi, ella terá culpa de
lhe faltar o gosto? Affirme-lhe que faz bem em pregar na cabeça um papel
de rebuçado, e verá que o faz. É linguareira, mas se por aqui não haverá
quem o não seja. O senhor Suchilov, com aquellas suas enormes suissas,
está pregado em casa della de manhã até á noite, e de noite até manhã,
tenho a certeza. E d'ahi, santo Deus! para que é que o marido joga as
cartas até ás cinco horas da madrugada? Se o que se vê por ahi são maus
exemplos! E demais, não deixará de ser _talvez_ mais outra calumnia.
N'uma palavra, hei de sair sempre, sempre, sempre, sempre a
defendêl-a... Mas! ai, Senhor! Ahi vem o principe! É elle! é elle!
conheci-lhe os passos! Era capaz de os distinguir entre mil. Até que o
vejo, afinal, meu principe!...



IV


Á primeira vista, ninguem confundiria o principe com um velho, mas
examinado de mais perto, ninguem deixaria de verificar que é um cadaver
movido por mólas; empregaram toda a casta de artificios para disfarçar
n'um adolescente semelhante mumia. Um chinó estupendo, suissas, bigodes
postiços, mais pretos que o proprio ébano, lhe tapam metade do rosto. As
faces estão pintadas com singular pericia; nem uma ruga: que é
d'ellas?... Vestido no rigor da moda, dir-se-hia saído de um figurino de
alfaiate. Traz assim a modos de uma _visite_, isto é, qualquer coisa
elegantissima feita expressamente para as visitas matutinas. Luvas,
gravata, collete, tudo isso de brancura deslumbrante e do mais
requintado gosto. O principe manqueja um tudo-nada, mas tão levemente!
Dir-se-hia mais um tempêrozinho exigido pela móda.

Um monoculo no olho,--n'aquelle, exactamente, que é de vidro,--vem
saturado de perfumes. Quando fala, arrasta umas certas palavras, talvez
por impotencia senil, ou por serem postiços os dentes, ou ainda por
elegancia. Pronuncia umas certas syllabas com doçura extraordinaria e
accentua a letra _e_. Tem uma pontinha de não se-me-dá que lhe ficou da
sua vida de homem feliz em amores. Se não perdeu de todo a transmontana,
pelo menos está sem memoria. Engana-se a cada instante, fica-se a mascar
e a metter os pés pelas mãos. É necessario ter um certo dom de
opportunismo para sustentar com elle uma conversa. Maria Alexandrovna,
todavia, tem a consciencia dos proprios recursos, e a presença do
principe léva-a ao auge do enthusiasmo.

--Mas não o acho nada mudado, nada, nada! exclama ella agarrando em
ambas as mãos ao hospede e amesendando-o n'uma commoda poltrona.
Sente-se! sente-se, principe! Seis annos! seis annos, inteirinhos e
integrados sem nos vermos, e nem uma carta, nem uma linha, durante todo
o tempo! Oh! quantas culpas não tem para commigo, principe! Se soubesse
o quanto eu estava zangada comsigo, meu caro principe! Mas, e esse chá!
esse chá! Ah! meu Deus! Nastassia Petrovna, o chá!

--Obrigado... ô--ôbrigado!... sou cul... cul... pado... gaguejou o
principe.

(Esqueceu-nos dizer que gaguejava um tanto; e d'ahi, é moda.)

--Cul... culpado! Ora imagine que, o anno passado, quiz abs...
absolutamente vir aqui, acrescentou a mirar a casa através da luneta.

Mas tinham-me mettido medo: disseram-me que por aqui andava a có...
cólera...

--Não, principe, não a tivemos por cá, affirmou Maria Alexandrovna.

--Tinhamos a morrinha, meu tiozinho, interrompeu Mozgliakov, que se quer
tornar conspicuo.

Maria Alexandrovna méde-o com olhar sevéro.

--Ha de ser isso... a mo... mo... rrinha ou coisa que o valha. E vae, eu
então deixei-me ficar. E seu marido, minha que... querida Maria
Nikolaievna, ainda está na ma... a... gistratura?

--Não, principe, diz Maria Alexandrovna, meu marido não está na ma...
a... gistratura.

--Iá apostar que o tiozinho a está confundido com a Anna Nikolaievna
Antipova! exclama o perspicaz Mozgliakov.

Acto continuo, porém, mordeu o beiço, percebendo que nem por isso está
muito á vontade Maria Alexandrovna:

--Pois é isso, é... A Anna Nikolaievna, e... e... e eu sempre a
esquecer-me... e então! Antipovna, exactamente, An... ti... povna,
confirma o principe.

--Não, principe, está equivocado! disse Maria Alexandrovna com um
rizinho azêdo. Eu não me chamo Anna Nikolaievna, e, confesso, nunca
suppuz que se esquecesse de mim. Estou espantada, principe, sou a sua
velha amiga, a Maria Alexandrovna Moskalieva. Não se recorda, principe,
da Maria Alexandrovna?

--Maria Ale... lexan... xandrovna! Ora vejam! E eu a confundi-la com a
Anna Vassiliévna... é delicioso!... Dizia eu, pois, que me não fui
hospedar em casa da... E eu, amigo, a cuidar que me levavas exactamente
para casa da tal Anna Matveina!

É impagavel! E dahi, acontece-me isto tanta vez! Quanta vez não vou eu
parar onde não quizéra!... Em geral, fico sempre contente, sempre
contente, aconteça o que acontecer. Com que então não é a Nastassia
Vassiliévna!

É interessante!

--Maria Alexandrovna, principe! Maria A--lex--androvna! Se é coisa que
se faça! Esquecer-se assim da sua melhor amiga!

--Melhor amiga, sim, é verdade! Perdão, pe... er... dão! silva o
principe fixando a attenção na Zina.

--A minha filha Zina! O principe ainda a não conhece! Não estava em
minha casa quando aqui veiu pela ultima vez; lembra-se?

--Sua filha! É um encanto! um encanto! murmura o principe assestando
ávido a luneta na Zina.--Mas que belleza; disse com visivel sobresalto.

--Serve-se de chá, principe? pergunta Maria Alexandrovna desviando a
attenção do jarreta para um _groom_, parado defronte d'elle com uma
bandeja.

O principe serve-se de uma chavena de chá e contempla o _groom_ de
bochechas rochonchudas e rosadas.

--Ah! ah! ah! É seu filho? Perfeito, muito perfeito! e... e... e... bem
comportado, já se vê?

--Perdão, principe... accode pressurosa Maria Alexandrovna. Ainda estou
toda a tremer... Com que, então, deu uma quéda? Não se magoaria? Não é
prudente arriscar a sua pessoa em semelhantes aventuras!...

--Virou-se! virou-se! O cocheiro virou a carruagem commigo dentro!
exclama o principe com extraordinaria animação. E eu, a pensar que era o
fim do mundo ou coisa parecida. Os santos me perdoem: apanhei um
susto... vi as estrellas ao meio dia, eu esperava lá!... eu es...
pera... va lá!... E tudo aquillo, por culpa do meu cocheiro, do
Pamphilio: entrego-te este negocio, meu amigo, has de tratar do
inquerito... Estou convencido de que attentou contra a minha vida!

--Muito bem! muito bem, tiosinho! responde Pavel Alexandrovitch, fica a
meu cuidado. Mas oiça lá; se lhe perdoasse por esta vez, hein, que lhe
parece?

--Por caso nenhum! Tenho a certeza de que quiz dar cabo de mim, elle e
mais o Lavrenty, que eu deixei lá em casa. Ora imaginem,
encasquetaram-se-lhe as taes ideias novas, uma negação... que eu sei
lá... e era um communista em toda a extensão da palavra. Quando me vejo
a sós com elle... fico logo em suores frios.

--Ah! que verdade, principe! Não pôe na sua ideia o que eu tambem tenho
aturado a esta sucia! Já despedi por duas vezes toda a creadagem. Que
gente tão estupida! Anda uma pessoa a ralhar com elles de manhã até á
noite.

--E... stá claro! Gosto de ver um lacaio que não fure paredes, observou
o principe, satisfeito, como aliás succede aos velhos, de que lhes
escutem com respeito a tagarelice,--é até a principal qualidade de
qualquer lacaio,... uma to... leima sincera... em certas occasiões.
Incute-lhes uma certa imponencia... solemnidade! N'uma palavra, é mais
distincto, e eu, a primeira qualidade que exijo a um serviçal é a
distincção. É por isso, que conservo o Tarenty, estás lembrado do
Tarenty, meu amigo? Assim que o vi, percebi-lhe a vocação: Has de ser
porteiro. É phe... e-nome-nalmente es... tupido. Com aquelles olhos de
carneiro mal morto: Mas que boa presença! que solemnidade! Em pondo a
gravata branca, faz um figurão! Gosto d'elle deveras! Eu, ás vezes,
ponho-me a olhar para elle, e não me canço de o ver: ali onde o vêem,
está escrevendo um livro... É um verdadeiro philosopho a... al... lemão, o
proprio Kant, ou antes, um, perú gordo e bem comido, um ser incompleto,
tal qual cumpre a todo e qualquer se... er... viçal.

Maria Alexandrovna ri ás gargalhadas e bate palmas; Pavel Alexandrovitch
faz côro: acha immensa graça ao tio. A Nastassia Petrovna ri tambem; e a
propria Zina dá um ar de riso.

--Mas que graça, principe! que alegria! exclama Maria Alexandrovna. Que
preciosa faculdade de observar ridiculos... E desappareceu o senhor da
sociedade! Privar assim de um talento o mundo durante cinco annos
inteiros!... Mas podia até escrever comedias, principe! Podia muito bem
restituir-nos Visine, Griboiedov, Gogol!

--É verdade, é verdade!... confirma encantado o principe... eu podia
restituir... Quer crêr? Eu d'antes tinha muita graça, até escrevi para o
theatro um vô... ô... deville. Com umas coplas que eram uma delicia! Por
signal que nunca foi representado.

--Que pena! Como havia de ser divertido? Sabes o que te digo, Zina, que
vinha mesmo a proposito. Nós, justamente, principe, andamos a combinar
umas récitas de amadores com um fim de beneficencia patriotica, em favor
dos feridos... Vinha mesmo ao pintar o seu vaudeville.

--E... stá claro, estou prompto a escrevêl-o. De mais a mais, já nem me
lembra uma palavra, mas tenho de memoria um ou dois trocadilhos que...
(O principe beija as pontas dos dedos.) Eu, em geral, quando estava no
estrangeiro... fazia um verda... deiro _furor_... Lembro-me de mylord
Byron... fomos muito intimos... Dansava á maravilha a krakoviak no
congresso de Vienna...

--Mylord Byron, meu tio? Ora vamos, que está para ahi a dizer!

--Está claro!... Byron. E d'ahi, talvez fosse outro. Exactamente, era um
polaco, lembro-me agora muito bem; um grande original, o tal polaco!
Intitulava-se conde, e porfim, veiu-se a saber que era cozinheiro.

Mas dansava lindamente a krakoviak. Quebrou uma perna. Foi n'essa
occasião, até, que lhe fiz estes versos:

    O nosso conde polaco
    Dansava a krakoviak

E d'ahi... já me esqueceu... ah!

    Desde que partiu a perna,
    Nunca mais pôde dansar.

--Sim, sim, deve de ser isso, rico tiozinho! exclama Mozgliakov, pôdre de
riso!

--Está c-claro! Quer-me parecer que seria isto ou coisa que o valha. E
d'ahi é possivel que não seja. O que lhes sei dizer é que os versos me
saíram muito bons. Escapam-me certas coisas, tenho tanto que fazer!

--Mas, não me dirá, principe, pergunta com muito interesse Maria
Alexandrovna, em que é que se occupa n'aquella sua solidão? Lembrava-me
tanta vez do principe! Estou a arder de impaciencia por saber tudo por
miudos...

--Em que é que me occupo! Ora essa... immensa coisa em que me occupar...
em geral. Umas vezes descanso, outras vezes dou o meu passeio... a
imaginar cá umas coisas...

--Deve de ter muita imaginação, rico tiozinho.

--Muita, meu caro. Ás vezes, acontece-me imaginar coisas de que eu
proprio fico pasmado. Quando eu estava em Kadnievo... A proposito, tu
não foste vice-governador em Kadnievo?

--Eu, tiozinho? Que está dizendo! Pelo amor de Deus! exclama Pavel
Alexandrovitch.

--E eu a confundir-te com elle...

E dizia eu commigo: Por que será que elle está tão mudado?... Porque o
outro tinha uma phisionomia imponente, espirituosa... um homem
extra-a-ordina... ria... mente intelligente. Compunha sempre versos... a
proposito... De perfil, era tal qual um rei de copas.

--Acredite, principe, interrompeu Maria Alexandrovna, essa vida ha de
deitál-o a perder, lhe juro eu! Encerrar-se durante cinco annos n'um
ermo! Não ver, não ouvir pessoa alguma!... Sabe o que lhe digo, o
principe é um homem perdido! Pergunte a algum dos seus amigos, que lhe
sejam fieis, e todos lhe dirão isto mesmo: é um homem perdido!

--De... de... vé-éras? arrasta o principe.

--Com certeza... Digo-lh'o como se fôra uma irmã, porque sou muito sua
amiga,--pois que as recordações do passado, para mim são sagradas. Que
interesse poderia eu ter em o enganar? Nada, nada, é preciso
absolutamente mudar de vida, aliás, não resiste?...

--Valha-me Deus! pois eu hei de morrer, assim, tão depressa? exclama o
principe, assustadissimo. E caso é que adivinhou: as minhas humorroides
dão cabo de mim, e ha uns tempos para cá, principalmente... e quando me
atacam as crises, tenho sin-tó-ó-mas es... espan... tosos... Eu já lhe
vou contar tudo... por miudos...

--Deixe lá, tiozinho, contará isso tudo, para outra vez. Agora, não será
tempo de irmos dar o nosso passeio?

--Pois, sim, vá lá, ficará para outra vez; e d'ahi talvez não
interésse... Mas com tudo isso... é uma doença... extrê-ê-mamente
interessante. Com uma tal variedade de episodios! Vê se me lembras, meu
caro, contar esta noite, com todos os pormenores, uma certa
particularidade das humorroides.

--Ora, escute, principe, atalhou ainda Maria Alexandrovna. Devia ir ao
estrangeiro, para ver se se curava.

--É isso, é! Ao estrangeiro, absolutamente. Lembro-me de que, ahi por
1820, a gente divertia-se im-men-sa-mente no estrangeiro. Estive para
casar com uma viscondessa, e era francêsa. Eu estava apaixonado por
ella, e queria consagrar-lhe toda a minha vida. Que ella, aliás, casou
com outro... Caso exquisito!... Tinha estado em casa della não havia
ainda duas horas, e foi n'este meio tempo que um barão allemão a
conquistou. Veiu a acabar n'um hospital de doidos.

--Mas, caro principe, estavamos falando na sua saúde, e dizia-lhe eu que
devia pensar n'isso muito a sério. Ha grandes medicos lá pelo
estrangeiro. De mais a mais a mudança de ar, já por si, é
importantissima. Terá que renunciar a Dukhanovo, por uns tempos, quando
menos.

--Abso-o-lu-tamente! Já me conformei, tenciono tratar-me pela
hy-dro... the... rapia.

--Pela hydrotherapia?

--Está claro! Foi isso mesmo que eu disse, pela hy... dro... the... rapia.
Já me tratei pela hy... drotherapia. Estava eu nas aguas. Tambem lá
estava uma senhora de Moscou, varreu-se-me o nome, uma mulher muito
poetica, com setenta annos, ou coisa assim; tinha uma filha com uns
cincoenta annos, e com uma belida n'um olho. Falavam ambas sempre em
verso. Aconteceu-lhe um desastre! N'um fogacho de genio, matou o criado.
Teve seus da-res e to... mares com a justiça. E como eu ia dizendo,
puzeram-me no regimen da agua; que eu, ainda assim, não estava doente:
mas se não faziam senão dizer-me "Trate de si! trate de si!" E eu, por
delicadeza, puz-me a beber a agua e, effectivamente, senti allivio.
Bebi, bebi, e tornei a beber! Acho que bebi um lago inteiro... É optima
coisa a tal hy-dro-the-rapia. Dou-me muito bem. Eu, se não tivesse caído
de cama, tinha passado lindamente.

--Lá isso é verdade, rico tio. Ora dize-me, rico tio, aprendeste
logica?

--Valha-o Deus! Que pergunta? observa Maria Alexandrovna, escandalizada.

--Está c-claro, meu amigo... ha muito tempo, aqui para nós. Estudei
philosophia, na Allemanha. Frequentei os cursos todos mas d'ali a pouco
esqueceu-me tudo... Mas... confesso, metteu-me um tal susto no corpo com
as taes do... enças que... fiquei atarantado... Eu volto já. Dêem-me
licença!

--Aonde vae, principe? exclama, pasmada, Maria Alexandrovna.

--Não tardo aqui. Não me demoro... Vou apenas... assentar um
pensamento... Até já...

--Que tal lhe pareceu? exclama Pavel Alexandrovitch, á gargalhada.

Maria Alexandrovna perde de todo a paciencia.

--Eu não o entendo, na verdade, não posso comprehender de que é que se
ri!--começa ella com animação. Rir de um ancião respeitavel, de um
parente! Rebentar a rir a cada palavra que elle solta da bôcca! Abusar
d'aquella bondade evangelica! Tenho até vergonha de o ouvir, Pavel
Alexandrovitch! Mas não me dirá o que é que lhe encontra de ridiculo?
Ainda não fui capaz de lhe notar o lado ridiculo.

--Mas se nunca conhece ninguem, se não faz senão metter os pés pelas
mãos!

--Ahi tem as consequencias do tal sequestro de cinco annos entregue á
guarda d'aquella megéra! Devemos antes ter dó d'elle, em vez de rirmos á
sua custa. Veja lá, nem a mim mesmo me conheceu, até! O senhor foi
testemunha. Pois não é terrivel! É preciso salvá-lo. Eu, se lhe propuz
ir ao estrangeiro, foi na esperança de que se resolva a largar de mão
aquella... regateira.

--Sabe o que lhe digo, é preciso casál-o, Maria Alexandrovna.

--E o senhor a dar-lhe! É incorrigivel, senhor Mozgliakov.

--Não sou, acredite, Maria Alexandrovna, eu, d'esta vez, estou falando
até muito a sério. Por que é que o não havemos de casar? É uma ideia
como outra qualquer. Em que é que isso o pode prejudicar? No estado a
que elle chegou, é um expediente que o pode salvar, creio eu. A lei
ainda lhe permitte casar. D'esse modo, vê-se livre d'aquella
desavergonhada, desculpe a expressão. Escolherá para ahi qualquer
menina, ou qualquer viuva honesta, intelligente, carinhosa e pobre,
sobretudo, que não deixará de o tratar como filha e que comprehenderá
que lhe deve ser grata. Que coisa melhor lhe poderia acontecer? Um
coração terno e fiel, em vez d'aquella... moita! Está claro que convem
que seja bonita, pois o tio professa ainda o culto da belleza. Não viu
os olhos que elle deitava á Zinaida Aphanassievna?

--E onde irá desencantar semelhante ideal? pergunta Nastassia Petrovna
toda ella ouvidos.

--Não está má pergunta? A senhora, por exemplo, sem irmos mais longe...
se me dá licença, perguntar-lhe-hei por que é que não ha de casar com o
principe? Primeiro e segundo, porque é bonita, e viuva, ainda por cima.
Terceiro, por que é fidalga. Quarto, por que é honestissima. Ha de
amá-lo, amimá-lo, pôr na rua a tal carcereira, carregar com o principe
para o estrangeiro, dar-lhe papinha e goloseimas... tudo isto até que
chegue o dia em que elle diga adeus a este mundo de amarguras, o que
tardará para ahi um anno, quando muito, ou um mez ou dois, quem sabe;
depois fica sendo princesa, viuva, rica e, para compensar o trabalho,
casa para ahi com um marquez qualquer, ou um general. É bonito, pois não
acha?

--Ai! Deus meu! Que amor eu lhe havia de ter, por gratidão, quando por
mais não fosse, se elle pedisse a minha mão! exclama Madame Ziablova.

Os olhos feriram-lhe lume, até.

--Mas, isso sim!... são sonhos!...

--Sonhos? Tem empenho em que se realisem? Experimente, peça-me que lhe
alcance essa pechincha. E corto desde já este dedo se hoje mesmo não fôr
noiva do principe. Não ha nada mais facil do que persuadir o meu tio.
Diz sempre a tudo, que sim. A senhora bem o ouviu, ha boccado. Casamol-o
sem elle dar por isso. Enganamol-o, é verdade, mas se é para seu bem,
pois não acha? Em todo o caso, a senhora do que devia tratar era de ir
arranjando uma _toilette_ á altura das circumstancias, Nastassia
Petrovna.

A animação de Mozgliakov transforma-se em enthusiasmo. A Madame
Ziablova, com o seu tino todo, está-lhe a crescer até agua na bôcca.

--Eu bem sei; nem é preciso que m'o lembre, que estou para aqui uma
trapalhona... Pareço até uma cozinheira, pois não pareço?

Maria Alexandrovna está com um cara de palmo. Afoito-me a affirmar que
ouviu a proposta de Pavel Alexandrovitch com uma pontinha de terror.
Quer sim quer não, teve mão em si.

--Tudo isso é muito bonito, mas é um chorrilho de futilidades sem pés
nem cabeça, e que não vem nada a proposito! disse, com sequidão,
dirigindo-se ao Mozgliakov.

--Então por quê, minha querida Maria Alexandrovna? Por que é que diz que
são futilidades fóra de proposito?

--O senhor está em minha casa, e o principe é meu hospede. Não consinto
que ninguem se esqueça do respeito que se deve á minha casa! Tomo as
suas palavras como mera brincadeira, Pavel Alexandrovitch; mas, ahi vem
o principe, graças a Deus!

--Eu... c... cá... es... tou, guincha o principe ao entrar. É espantoso,
querida amiga,... que fecundidade com que acordou hoje este m... meu
espirito! Ás vezes--talvez não acredites--mas acontece-me estar um dia
inteiro sem me accudir um pensamento a esta cabeça...

--Seria a tal queda d'inda agora que lhe abalou os nervos...

--Tambem me quer parecer, meu amigo, ach... acho util, até, o tal
accidente, tanto assim que estou resolvido a perdoar ao meu Pheophilo.
Queres que te diga?--Palpita-me que não premeditará attentar contra os
meus dias. E demais... já está bem castigado, cortaram-lhe as barbas.

--Cortaram-lhe as barbas!--Que me diz? Elle, que tinha umas barbas mais
compridas que um principado allemão.

--Es... tá c-claro!... sim... um principado. Em geral, meu amigo, são
muito acertadas as tuas conclusões. Mas as barbas d'elle são postiças.
Ora imaginem: Mandaram-me um catalogo: acabam de chegar do estrangeiro
umas optimas barbas quer para cocheiros quer para gentlemen: suissas,
barbas á hespanhola, pêras á império, etc.; tudo de primeira qualidade,
por preços muito mó-mó-di... cos. E eu, então, encommendei umas barbas
para cocheiro. Mandaram-m'as: Ma-a... gnificas! Mas a do Pheophilo era
duas vezes mais comprida. E eu muito atrapalhado: que hei de eu fazer?
Recambiar as barbas postiças, ou mandar rapar as do Pheophilo? Reflecti
maduramente e resolvi em favôr das barbas postiças.

--Prefere a arte á natureza, rico tiozinho?

--Pois está claro!... E que desgosto que elle teve quando se viu de cara
rapada. Cada pêllo que lhe cortavam era um dia de vida que lhe tiravam.
Mas não serão horas de sair, meu caro?

--Estou ás suas ordens, tio.

--Principe, ouso esperar que só irá a casa do governador! exclamou Maria
Alexandrovna, muito sobresaltada. O principe, _pertence-me_, faz parte
da minha familia, por todo o dia. Escusado é dizer, que não tenho nada
que ensinar-lhe, pelo que diz respeito a Mordassov. Talvez queira ir
fazer a sua visita á Anna Nikolaievna, e não tenho direito de o
dissuadir de dar semelhante passo. Tanto mais que estou persuadida de
que a sua propria experiencia lhe servirá de guia. Lembre-se de que,
hoje, sou sua irmã, sua mãe e sua aia por todo o dia... Ah! Estou toda a
tremer por sua causa, principe!... O principe não conhece esta gente,
não conhece, digo-lho eu... Não, que elle é preciso tempo para os
conhecer.

--Deixe o caso por minha conta, Maria Alexandrovna, disse Mozgliakov;
tudo se passará conforme lhe prometti.

--Entregar-me nas suas mãos, eu?... O senhor é um estouvado? Cá o espero
para jantar, principe. Costumamos jantar cedo. Que pena que eu tenho de
que, n'esta occasião, meu marido esteja no campo! Havia de gostar tanto
de o ver! Estima-o tanto! Dedica-lhe tão sincera amizade!

--Seu marido?--Com que então,... tem marido?--

--Valha-me Deus! Que pessima memoria é a sua, principe? Pois esqueceu o
passado a esse ponto? E meu marido, o Aphanassi Matveich, querem ver que
tambem se não lembra d'elle? Está no campo, mas o principe, em tempos,
viu-o, até, muita vez. Veja lá se se lembra; o Aphanassi Matveich?

--Aphanassi Matveich! No campo? Ora vejam lá! Mas é delicioso! Tem então
marido! Que ratice! Existe um vô... ô... de ville versando sobre o mesmo
assunto: _O marido á porta e a mulher na_... Conceda-me licença!... já
me não lembro lá muito bem... a mulher safa-se para Tula... ou para
Yoroslav!...

_O marido á porta e a mulher em Tver_, rico tio, sopra-lhe o Mozgliakov.

--Está c-claro, sim, é isso! Obrigado, caro amigo, exa... cta...
mente... em Tver... É um encanto... um en... can... to... É assim,...
é!... a mulher em Koxtroma... quero dizer... em conclusão... safou-se...
Um encanto! um encanto! Mas já não sei o que é que eu ia dizendo!... Ah!
sim! vamo-nos embora, hein? Até á vista! minha rica senhora! Adeus...
minha linda menina!

O principe beija as pontas dos dedos á Zinaida.

--O jantar! O jantar, principe!

--Demore-se o menos que puder! brada Maria Alexandrovna deitando a
correr atráz d'elle.



V


--Nastassia Petrovna, não seria mau ir deitar a sua rabisáca pela
cozinha, disse ella apóz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que
aquelle traste do Nikitka é capaz de se tomar da pinga e deita-nos a
perder o jantar.

Obedeceu Nastassia Petrovna. Á saída, olhou para Maria Alexandrovna e
percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o
tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua,
d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um
cubiculo de despejos, atulhado de bahús, de vestidos velhos e de roupa
suja de toda a familia. Nos bicos dos pés, acerca-se de uma porta
fechada, sustendo a respiração, e espreita pelo buraco da fechadura:
Aquella porta é uma das três que abrem para a sala (está condemnada).
Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna é velhaca, pouco
delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar ás portas.
N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva está tão preoccupada, que se
descuida de toda e qualquer cautélla.

Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela á Zina. E a
Zina a sentir o pêso d'aquelle olhar. Dá-lhe um pulo o coração!

--Zina!

A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles
olhos sonhadores.

--Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante
expressão fugaz de despeito e de ironia.

--Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal
Mozgliakov?

--Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo
constrangido.

--Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou
quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua
insistencia...

--Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.

--Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim,
tanto;... antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle,
sempre que eu a elle me referia.

--E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã,
d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.

--Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre,
tão triste.--Avaliava bem a tua tristeza,--pois sou capaz de a
comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito.--Chegou
até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança
radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o
casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo
estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda
solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas
poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida
cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á
altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um
peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel.
É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um
procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que
tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos
verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que
era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como
advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido
mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje
dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada
lhe terás dito de positivo.--Pois não é verdade?

--Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me
dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

--Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de
modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais
do que como mãe!

--Acabemos com isto, minha mãe. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a
fazer questão de palavras? Não estaremos fartas de nos conhecermos uma á
outra?

--Repara em que me estás offendendo, minha filha. Pois não vês que estou
resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?

A Zina põe-se a olhar para a mãe com aquella singularissima expressão de
despeito e ironia.

--Não estará morrendo por que eu case com o principe para complemento da
minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.

--Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que
isso veiu á teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para
ti a felicidade, effectivamente.

--Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril,
pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mamã é dotada de
excessiva imaginação: é uma mulher poetica; e tanto mais que é assim que
a classificam em Mordassov. Está sempre a fazer planos. Nem lhe mettem
medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento,
de como não deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o
Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casál-o,
li no semblante á mamã o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse
jarreta que a mamã principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses
seus sonhos aborrecem-me de morte, não sei se sabe? E peço-lhe que
fiquêmos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mamã? Nem mais uma
palavra! Peço-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha
bocca.

--És uma criança, Zina, uma criança doente, e com mau genio! responde
Maria Alexandrovna em voz meliflua; e estás-me faltando ao
respeito.--Offendes-me! Não ha mãe que aturasse o que eu te tenho
aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christã. Vou aturando, e
perdôo-te. Responde-me a uma pergunta, só e mais nada, Zina. Vamos que
eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante alliança, onde é que está
a puerilidade?--Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto
como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento é uma
necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella
fufia da Nastassia.

--Mamã, declare-me com franqueza, se me está dizendo isso por méra
curiosidade ou com um fim qualquer.

--Peço-te que me respondas: onde vês tu n'isto puerilidade?

--Que aborrecimento! Triste sorte é a minha! exclama a Zina a bater o
pé. Vou dizer-lh'o, se é que ainda o não percebeu: aproveitar o ensejo
d'esse velho se achar caído em demencia para o enganar, para o desposar,
assim, enfermo e caduco, para lhe extorquir o dinheiro e andar todo o
santo dia a desejar-lhe a morte, representa, a meu vêr, não só uma
puerilidade, mas uma vilania, e não serei eu quem lhe dê os parabens por
semelhante ideia, mamã.

Silencio.

--Zina, já te esqueceste d'aquillo que se passou ha dois annos? pergunta
de chofre Maria Alexandrovna.

Estremece a Zina.

--Mamã, profere com accentuada seriedade, lembre-se de que me prometteu
não me tornar a falar em semelhante coisa.

--Pois bem, minha filha--que eu até hoje ainda não tornei a dizer-te uma
palavra--peço-te que por uma vez tão somente me desligues da minha
promessa. Zina! Soou a hora de uma franca explicação. Foram mortaes
estes dois annos de silencio! Isto assim não pode continuar!... Estou
prompta a supplicar-te de joelhos que me permittas falar. Entendes,
Zina, é a tua propria mãe que cae de joelhos a teus pés! E
demais--dou-te a minha palavra solemne--a palavra de uma mãe desgraçada
que adora a propria filha--seja qual for o pretexto, em circumstancia
alguma d'este mundo, com risco até da propria vida, de nunca mais abrir
a bocca a tal respeito.

--Fale! diz Zina, muito enfiada.

Maria Alexandrovna calculou optimamente o lance.

--Obrigada, Zina. Ha dois annos, pois, que frequentava esta casa, por
causa do teu irmãozinho, do Mitra, que Deus tem, um _utchitel_.

--Mas para que foi que a mamã assumiu esses modos tão solemnes, para que
estará a desperdiçar toda essa eloquencia, esses pormenores tão
escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a
Zina com enfado.

--Porque a mim, que sou tua mãe, Zina, me assiste o dever de me
justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio,
todo elle, sob uma luz nova para ti e que é a unica verdadeira. Emfim,
sem estas promessas, não poderias comprehender a conclusão que d'ellas
pretendo deduzir. Não creias, minha filha, que intento fazer pouco dos
teus sentimentos. Não Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira mãe,
e quem sabe se não serás tu a propria a cair-me aos pés, lavada em
lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliação á qual o teu
orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas
desde o principio, ou calar-me.

--Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o coração a grandiloquencia
maternal.

--Continúo, Zina. Esse tal _utchitel_ da escóla communal, um fedêlho,
por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impressão. Contei sempre
com que o teu sizo, a elevação dos teus sentimentos e tambem a
indignidade do individuo, (visto que é preciso dizer tudo) evitariam
qualquer approximação entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e
declarar-me com firmeza que tens tenção de casar com elle. Foi uma
punhalada que me déste no coração, Zina! Soltei um grito e caí sem
sentidos, mas... não deixarás de te lembrar do incidente. É certo que
julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha
auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflécte, pois:
um garotête, filho d'um _diatchok_,[4] com um salario de doze rublos
mensaes, um escrevinhador de máus versos que lhe imprimem por dó na
_Bibliothéca de Leitura_, que não sabe falar em outra coisa a não ser
n'esse maldito Shakspeare,--aquelle fedêlho, teu marido! marido da
Zinaida Moskalieva! São coisas que só acontecem nas novéllas pastorís de
Florian. Perdão, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fóra de mim!
Neguei-me a consentir. Não houve influencia que conseguisse
convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz
de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer
outra coisa além de pestanejar. Mantens relações com esse garoto,
proporcionas-lhe até ensejo de te ver, e o que é ainda muito peor que
tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as más linguas desde logo a
trabalhar! Fazem allusões offensivas na minha presença. Estão a pular de
contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas
antecipações a semelhante respeito vão se realizando uma por uma. Dá-se
entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti.
Ameaça-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assômo de justa
indignação, dás-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheço tambem essa
circumstancia, estou inteirada de tudo--de tudo, sim! Esse traste,
n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas áquelle miseravel do
Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta está em poder da Natalia
Dmitrievna, minha inimiga figadal! Á noite, aquelle, doido, arrependido
já de semelhante acção inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se!
N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pécora da Nastassia accode
toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna
se acha de posse da tua carta: não se passarão duas horas, sem que a
cidade em pêso apregôe para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos
para não caír para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada,
aquella desavergonhada!

A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria,
deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, até, atravéz da neve,
para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordação
da minha virtuosa mãe! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder:
roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e está salva a tua honra. Nem
vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia,
encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,--os primeiros,
Zina! Tu foste a propria a avaliar até que ponto era indigno de ti
aquelle garoto, pois concordas agora, não sem amargura, talvez, que
teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo,
pégas a atormentar-te, a soffrer, não podes varrêl-o da lembrança,--não
a elle,--foi sempre coisa tão rasteira que a tua vista nem sequer podia
deter-se n'elle,--mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse
desgraçado está a expirar--nem sequer já se levanta.--Dizem que morre
tisico, e tu--anjo de bondade,--não queres casar emquanto elle fôr vivo;
para lhe poupar soffrimento, visto que é ciumento... e não obstante,
nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o não
impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de
tirar indagações...--Tens dó delle, minha filha, adivinhou-te o meu
coração, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o
travesseiro.

--Veja se acaba com tudo isso, mamã! atalhou Zina com enfado. O seu
travesseiro não vem cá fazer coisa nenhuma! Não poderá falar com
singeleza?

--Não me acreditas, Zina! Não me trates tão mal, minha filha! Já lá vão
dois annos, e não faço outra coisa senão chorar, mas tenho-te encoberto
as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito
tempo que conheço os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua.
Poderá alguem lançar-me em rosto, minha querida, o haver considerado
semelhante ligação como uma phantasia romanesca, nascida sob a
influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a mãe que condemnasse
os alvitres de que tenho lançado mão e achasse rigoroso em demasia o
modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu
longo padecer, comprehendo e apprecio a tua sensibilidade. Acredita:
comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria.
Estou certa de que o não amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas é
ao teu sonho, á tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illusões. Eu
tambem amei, não cuides que não, e com mais excesso de paixão do que tu;
tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illusões!... Não falo pois sem
experiencia, e se affirmo que uma alliança com o principe representaria
para mim a salvação, mereço talvez que me dêem ouvidos.

A Zina ouviu com espanto aquella estirada declaração, farta de saber que
a mamã nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E
comtudo, a conclusão deixa confundida a joven.

--É pois a sério, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a
considerar a mãe que assumiu attitude majestatica; não é então uma
hypothese, como se dissessemos? É tenção firme e assente, pelo que vejo?
Mas... como é que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que
relação terá tudo isso com o que acaba de expôr-me, com essa historia
toda?... Declaro que a não percebo, mamã.

--E a mim, meu anjo, espanta-me que o não percebas! exclama Maria
Alexandrovna, com subita animação. Primeiramente, o facto só por si de
teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente;
de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das
duzias, semeada para ti de tão temiveis recordações, á qual te não
prende a minima affeição, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia
de pêgas te detestam por causa da tua formosura, esse facto só por si,
repito, é já capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o
estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,--Zina--para
a Hespanha, onde irás ver a Alhambra, o Guadalquivir! Não estarás farta
d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?

--Mas se me dá licença, mamã! está falando como se eu já estivesse
casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse já pedido em
casamento...

--Lá quanto a isso não te dê cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo.
Deixa-me continuar. Eu disse _primeiramente_, e ahi vae o segundo ponto:
Comprehendo, minha filha, quanto te contraría o dares a mão de esposa a
este Mozgliakov...

--Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam--que nunca serei sua
mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.

--Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia! É terrivel
o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade áquelle a quem
se não pode ter amor! É terrivel o pertencer a um homem a quem se não
pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que
elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando
não olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha
filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta
comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, até, que
envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes não terás visto
correr as minhas lagrimas?

--O papá está no campo; não esteja a atacál-o, por quem é!

--Sim, tu saes sempre em sua defêsa, bem o sei... Ah! Zina!
Confrangia-se-me o coração quando a prudencia me obrigava a desejar o
teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse não
tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado é dizer
que lhe não poderás dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio
é _incapaz_ de exigir semelhante amor.

--Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a
meio: não tenciono sacrificar-me,--ignoro aliás o fim com que o faria.
Fique sabendo que não quero casar. Não casarei seja com quem fôr;
ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para cá,
por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas não
tem remedio senão conformar-se; não quero, já disse!

--Zinotchka, não te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu
amorzinho! Que cabeça tão esturrada! Consente em que eu te exponha o
caso em conformidade com o meu modo de ver, e verás que has de vir a
concordar commigo. O principe poderá ainda viver um anno, dois, talvez,
mas não vae além, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que
velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho
ficas sendo princêsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez
estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou mãe, e quem
haverá ahi que condemne a minha previdencia? Em conclusão, se tu, anjo
de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu
suspeito, não queres casar emquanto elle fôr vivo, considera que, se
casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se é que a
elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehenderá,
manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa
fora de proposito, ridiculo. Comprehenderá que não casas com este velho
a não ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra,
comprehenderá... quero dizer--depois de fallecido o principe, já se
vê,--que poderás casar segunda vez, se fôr da tua vontade...

--Casar com o principe, expoliá-lo, e estar á espera de que elle morra
para depois ir casar com o meu amante, não é assim? É muito habil; quer
seduzir-me propondo-me... Percebo-a á legua, minha mãe, percebo-a
optimamente. Só o lembrar-me eu de que não pode deixar de fazer alarde
de nobres sentimentos, até, n'um negocio tão pouco limpo? Seria muito
mais estimavel o dizer-me, singelamente: "É uma ignominia, Zina, mas é
lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.

--Mas que teimosia será essa tua em encarar o negocio no ponto de vista
da trapaça, da arteirice, da cobiça? Consideras os meus calculos como
uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venéras como mais sagrado,
onde estará a baixeza, onde a hypocrisia? Vê-te bem n'aquelle espelho:
és formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem
mais nada, um reino! E tu, tão formosa, sacrificas a um velho os teus
melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da
vida; tal qual a hera viçosa, florir na sua velhice! Está afeito á
companhia de uma feiticeira que o sequestra lá n'um canto do mundo, e
d'essa feiticeira, és tu, tu, Zina, quem vaes ser successora! O dinheiro
e o titulo d'elle podem lá equiparar-se ao teu valor? Onde vês pois
n'isto a baixeza, a hypocrisia?

Nem sabes o que estou dizendo, Zina!

--O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os
alcançar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dêmos ás coisas
os seus nomes: é uma ignobil hypocrisia, mamã!

--Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode até ser
encarado de um ponto de vista superior, christão. Declaraste-me, um dia,
em um assômo de enthusiasmo, que querias ser irmã da caridade: o teu
coração exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro
qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres
acreditar no amor, acredita na dedicação, com sinceridade, tal qual uma
creança, com candura. Dedica-te, e abençoar-te-ha Deus! Tem padecido
este velho; é desditoso, perseguem-n'o. Conheço-o ha muitos annos e
sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim
dizer: presentia o futuro. Sê sua amiga, minha filha, seu brinquedo,
até, se é forçoso dizêl-o, mas aquenta-lhe o coração e fál-o por amor de
Deus! Admittamos que é ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia.
Não chega a ser a metade de um homem. Tem dó d'elle, tu, que és christã.
Contrafaze-te; com força de vontade consegue-se domar a alma para
semelhantes façanhas. Quanto não custa o pensar as chagas nos hospitaes,
com que repugnancia se não respira o ar viciado dos lazaretos: mas não
ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas taréfas e que
ainda dão graças a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi está o
remedio de que tanto necessitava o teu magoado coração: uma tarefa
heroica! Onde vês tu n'isto egoismo? Baixeza? Não me acreditas, suppões
que estou representando uma comedia, não podes comprehender que uma
mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos
de tanta elevação? Pois bem, não me acredites, minha filha! Desconfia do
coração de tua mãe! mas sequer ao menos concorda em que as minhas
palavras são sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou
falando, fecha os olhos, volta-me as costas e põe na tua ideia que é uma
voz misteriosa que estás ouvindo... O que acima de tudo te prende, é a
questão de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem,
rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha aversão, acceita apenas o
necessario, e o resto, dá-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu braço
áquelle desgraçado que está ás portas da morte.

--Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera
falando comsigo.

--Dado o caso de que elle rejeite, lá está a mãe para o acceitar em nome
d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe
com a corda sensivel. Acceitará sem que elle proprio o saiba. Já
vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis
meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a mãe, a pobre da velha, anda
a lavar roupa para sustentar o filho.

--Dentro em pouco deixará de precisar seja do que fôr.

--Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe
uma inspiração, uma verdadeira inspiração.) Dizem que morre tisico:
mas quem é que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do
Kalist-Stanislavitch... Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre
rapaz, tambem tenho coração, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me
que a doença é grave, não ha duvida, mas que, até hoje, existe apenas
uma forte affecção dos bronchios,--tu mesmo lh'o podes perguntar. E
accrescentou que a mudança de clima, impressões fortes, podiam curar o
doente. Contou-me elle que, em Hespanha--e já não é a primeira vez que o
oiço... li-o, até--ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu...
emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho--onde não só os que
padecem do peito, mas até os proprios tisicos saram de todo, graças ao
clima. Vão ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle,
effectivamente, a Alhambra--esse palacio encantado--as murtas e os
limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, não será o sufficiente a
produzir impressão n'uma natureza de poeta? Suppões que rejeitaria o teu
dinheiro?... Enganas-te se tens dó d'elle! A mentira é perdoavel, quando
d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperança, promette-lhe o teu
amor, dize-lhe que casarás com elle quando enviuvares,--tudo se pode
dizer com nobreza: tua mãe não era capaz de te dar maus conselhos,
Zina!--Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te
justificares. Recuperará alento assim que souber que está esperando por
ti. Tratar-se-ha, seguirá rigorosamente as recommendações do medico, ha
de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando não
viesses a ser sua mulher, sequer ao menos têl-o-has salvo! e se a
desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casarás com
elle. Effectuada a cura, poderás alcançar-lhe uma situação na sociedade,
facultar-lhe uma carreira. O teu casamento, n'estas condições,
tornar-se-ha possivel. Hoje!... que é que os espera a ambos, se
porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda
a gente e a miseria.

Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de
compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov até que elle
morresse, o que não tardaria, aliás. Mas se está na tua mão o
incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!

Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso
apavóra-o! O teu perdão tudo irá ápagar e reconciliál-o-ha comsigo
mesmo.

Passa ao serviço activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos
morrerá feliz, nos teus braços (visto que poderás achar-te a seu lado),
seguro do teu amor, do teu perdão, á sombra das murtas e dos limoeiros,
debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha
nas tuas mãos; basta que consintas em casar com o principe.

Cala-se Maria Alexandrovna. Segue-se prolongado silencio. A Zina acha-se
no auge da afflicção.

Não nos abalançaremos a descrever os seus sentimentos: não os
conhecemos. Mas, a julgar pelas apparencias, Maria Alexandrovna
encontrou o verdadeiro caminho para o coração da filha. Não ha duvida de
que a excellente mãe andou um tanto ás apalpadélas, até que por fim
conseguiu pôr o dedo na ferida, principiou por maguar sem precaução os
pontos mais sensiveis das feridas ainda abertas, a despeito de um
desenvolvimento por ahi além de sentimentos.

Agora, comtudo, logrou introduzir na mente da Zina o pensamento que a si
lhe convinha: produzindo-se o effeito, alcançou-se o fim desejado. A
Zina escuta com soffreguidão, com as faces afogueadas, o seio a arfar.

--Ora escute, mamã,... diz por fim, resoluta, comquanto a subita
pallidez manifeste claramente quanto lhe custa semelhante resolução.

--Escute, mamã...

N'este ensejo, comtudo, resôa no vestibulo um ruido: uma voz aguda a
chamar por Maria Alexandrovna.

Maria Alexandrovna levanta-se com vivacidade.

--Ah! meu Deus! demonios levem aquella pêga! É a coronela! E eu que
quasi que a despedi, ha quinze dias! accrescenta, desesperada...

Mas é impossivel recebêl-a agora! De todo impossivel! E comtudo isso...
quem me diz que me não virá trazer noticias... aliás, nunca se
atreveria. É caso sério, Zina, é-me indispensavel sabêl-o, nada se póde
desprezar...

--Como lhe fico grata por esta sua visita... quanto estimo!... exclama
correndo ao encontro da coronela. A que feliz acaso serei eu devedora de
se ter lembrado de mim, minha preciosa Sofia Petrovna? Encantadora
surpreza!

A Zina deitou a fugir.



VI


A coronela Sofia Petrovna Farpukhina apenas suggere moralmente o tipo da
pêga. Quanto ao phisico, participa antes do pardal. É uma mulherita
cincoentona com sardas entre ruivas e amareladas pela cara e uns olhos
que nunca param. O corpo ético, implantado sobre umas sólidas pernas de
pardal, esconde-se por debaixo das amplas pregas d'um vestido escuro, de
seda, em continuo restralar, visto como a coronela nunca póde estar
quiéta. É uma linguareira ruim e vingativa, perde o tino com a seguinte
ideia: "Sou coronela." Ella e o marido, coronel reformado, jogavam a
unhada a toda a hora: elle ostentava no rosto os signaes das garras da
consorte. Ella, préga no bucho com quatro copinhos de vodka, todas as
manhãs, e outros tantos ao deitar. Vota um odio figadal a Anna
Nikolaievna Antipova e á Natalia Dmitrievna Padknvina, que a sacudiram
das suas salas, ha oito dias.

--Demoro-me apenas um instantinho, meu anjo, pia a dama; nem
sequer me quero sentar. Traz-me aqui unicamente o desejo de lhe
contar os singularissimos acontecimentos que se estão dando. O tal
principe faz andar n'uma roda viva esta nossa Mordassov. Os nossos
espertalhões--comprehende--não lhe largam o rastro, a farejál-o por
todos os cantos, a puxál-o para todos os lados, obrigam-n'o a beber
champanhe. Eu se o não visse não o acreditava. Como é que o deixou saír?
Não sei se sabe que, n'este instante, está em casa da Natalia
Dmitrievna?

--Em casa de Natalia Dmitrievna? exclama Maria Alexandrovna dando um
pulo na cadeira. Mas se elle ia apenas fazer a sua visita ao governador
e a casa de Anna Nikolaievna, e sem tenção de se demorar.

--Para se não demorar, isso sim! E agora, corra atrás d'elle!

Não encontrou em casa o governador, foi visitar a Anna Nikolaievna, e
prometteu-lhe jantar com ella, e a Natachka[5], bem sabe, que nunca sáe
de casa, lá estava pespegada; carregou com elle para almoçar. E ahi tem
o seu principe!

--Que me diz! E o Mozgliakov a prometter-me...

--Pois sim! O tal seu Mozgliakov a quem a senhora não se farta de pôr
nas nuvens!... Está em casa delles! Olho n'elle! Veja lá se o obrigam a
jogar as cartas e principia para ahi a perder como succedeu o anno
passado. E o principe é capaz de se deixar limpar que nem um prato. E
que calumnias que ella inventa, aquella Natachka! A atordoar os ouvidos
a toda a gente com a galga de como a senhora faz a côrte ao principe com
o sentido em... com um certo sentido, não sei se m'entende? E
pespega-lh'o a elle na cara, até; e elle sem perceber patavina, sentado
para ali como um gato encharcado e a responder, a cada palavra: "Ah!
Está claro, está claro!" E sabidas as contas é ella a propria que...
Mandou saír a Sonka[6]. Ora imagine! Com quinze annos e anda ainda de
vestido curto que mal lhe chega ao joelho; tambem mandou vir aquella
orfã, a Machka,[7] com um vestido ainda mais curto. Impingiram a ambas
uns casquêtesinhos encarnados cheios de plumas, não sei para quê, e ao
som do piano põem-se a dansar, aquelles dois espinafres, deante do
principe, a Kozatchok.[8] Ora a minha amiga está farta de conhecer o
fraco ao principe! A babar-se todo: "Que... e... fó... órmas!" diz elle
"... Que... e... fó... ó... órmas!" E a mirál-as pelo monóculo, e ellas com
uns módinhos, as duas perúas! Todas afogueadas á força de levantarem a
perna! E toda a gente a rir, faça ideia como e porquê!... Que nojo! E
chamam áquillo dansar! Aqui estou eu que dansei de chale, quando saí do
collegio aristocratico de Madame Jarmé: fiz sensação, acredite... pela
nobreza!

Fartaram-se até de dar palmas uns senadores. Estavam a educar nesse
mesmo collegio filhas de principes e de condes.--Mas a tal Kozatchok,
aqui para nós, é tal qual o Cancan! E eu com a cara a arder, de
envergonhada! Não me pude conter...

--Mas, então... tambem estava em casa da Natalia Dmitrievna? A senhora?
Cuidei que...

--Então que quer! Ella offendeu-me, a semana passada, e não me ensaiei
para o pespegar a toda a gente. Mas que quer, minha amiguinha, se eu
estava morta por ver o principe, ainda que fosse por uma greta da porta,
e ahi tem por que é que lá fui, apezar de tudo, a casa da Natalia
Dmitrievna; a não ser o principe, não era eu que lá tornava a pôr os
pés! Ora imagine; servem chocolate a toda a gente, e a mim, nem raça,
nem sequer abrem a bocca para me pedir desculpa! Ha de ter noticias
minhas! Mas adeus, meu anjo, vou-me embora, estou com muita pressa...
é-me indispensavel encontrar em casa a Apulina Panfilovna para lhe
contar o caso. Ah! Pode-se desde já considerar viuva da lindeza do tal
principe, não é elle que volta para sua casa. Está perdido da memoria,
bem sabe, e a Anna Nikolaievna terá cuidado em o não deixar saír.

Estão com medo de que a minha amiga... todas ellas... não sei se
percebe? a proposito da Zina...

--Que horror!

--É como lhe digo; já corre até por essa cidade. A Anna Nikolaievna não
o deixa saír sem jantar e depois não o larga. Os planos d'ella são todos
elles armados contra a senhora, meu anjo! Fui deitando o olho para o
pateo: que reboliço! Prepararam um jantar com trinta entradas, mandaram
vir champanhe. Quer um conselho? Veja se trata de lhe deitar a mão antes
de que elle vá a casa d'ella. Não, que elle, pertence-lhe, é seu
hospede! Não se deixe engazupar por aquella espertalhona, por aquella
ranhosa! Não vale a sola de um sapato, lá com ser mulher de um
procurador. E eu, aqui onde me vê, sou coronela, fui educada no collegio
aristocratico de Madame Jarmé... Forte nojo! Adeus, meu anjinho, tenho o
trenó á espera, se não fosse isso, fazia-lhe companhia.

E abalou a gazeta viva.

Maria Alexandrovna, desesperada, toda ella n'um tremor. Não padece
duvida que o conselho da coronela é seguro e pratico; não ha tempo para
perder, mas subsiste ainda a grande difficuldade.

Maria Alexandrovna investe para o quarto da Zina. A Zina andava ás
voltas pela casa, de mãos no peito, muito enfiada, cabisbaixa, no auge
da afflicção. Borbotavam-lhe nos olhos as lagrimas. Fulge-lhe porém no
semblante uma expressão de decisão, assim que põe os olhos na mãe.
Engole as lagrimas e refega-lhe os labios um risinho sarcastico.

--Mamã, diz ella, antecipando-se a Maria Alexandrovna, desperdiçou
thesouros de eloquencia em minha honra, de mais, até, visto que me não
conseguiu cegar a vista, e eu não ser nenhuma creança. Querer
persuadir-me de que, eu, casando com o principe, ia praticar um acto de
irmã de caridade,--profissão para que não sinto a minima
vocação,--justificar mediante um nobre fim baixezas egoistas, tudo isso
representa apenas o mais grosseiro egoismo, entendeu?

--Porém, meu anjo...

--Cale-se, mamã, tenha paciencia, e oiça-me até ao fim. Saiba, pois, que
tenho a consciencia da sua hypocrisia. Estou pois plenamente convencida
de que o verdadeiro fim de tudo isto é vil; e comtudo, acceito a sua
proposta, completamente, mas _completamente_, entendeu? Estou prompta a
casar com o tal principe, prompta a ajudar os seus esforços no sentido
de o convencer a casar commigo. O motivo d'esta minha resolução, não é
da conta da mamã, baste-lhe saber que me prontifico a tudo: ajudál-o-hei
a enfiar as botas, serei sua creada, hei de dansar para que elle se não
arrependa de ter casado commigo. Mas, em troca, peço-lhe que me diga, o
modo por que pretende alcançar semelhante resultado. Não ponho em
duvida, visto que se empenha n'este negocio, o facto da mamã ter já
urdido o seu plano. Transmita-m'o, seja franca uma vez na sua vida, eis
as minhas condições.

Maria Alexandrovna ficou tão embatucada, que emudeceu sem bulir com um
dedo, com os olhos espipados. Contara com a lucta contra as ideias
romanescas da filha, e ficou estupefacta ao vêl-a decidida a agir contra
as proprias convicções. O negocio toma verdadeira consistencia. Maria
Alexandrovna, lá por dentro, não cabe em si de contente.

--Zinotchka! exclama enthusiasmada, és a carne da minha carne e o osso
dos meus óssos!

Nem uma palavra mais pode accrescentar, lança-se nos braços da filha.

--Ah! meu Deus! Dispense-me dos seus abraços, mamã! respondeu, enfadada,
a Zina. É absolutamente deslocado esse seu enthusiasmo. Exijo uma
resposta á minha pergunta, e nada mais!

--Mas, Zina, eu amo-te, adoro-te, e tu a repelires-me! É para te ver
feliz que eu ando a trabalhar. E, dos olhos de Maria Alexandrovna
borbotavam lagrimas _sincéras_. Effectivamente, ama a seu modo a Zina, e
d'ahi, a commoção do triumpho torna-a tão sentimental como qualquer
_baba_,[9] áquelle general de saias. A Zina sente bem, a despeito de
tudo, que a mãe é sua amiga; mas pésa-lhe semelhante amor,
preferir-lhe-hia o odio.

--Pois bem! Não se zangue, mamã; sei muito bem o que vou fazer, se eu
estou tão afflicta!... disse para tranquillizál-a.

--Eu não me zango, não me zango, meu anjinho, cacarêja Maria
Alexandrovna recuperando animo. Não deixo de avaliar a tua agitação. Mas
não vês tu, querida amiguinha... tu pediste-me franqueza... Seja assim,
serei franca, mas acredita-me. Lá quanto a um plano inteiramente
definido, é coisa que ainda não tenho, nem o posso ter: tudo depende das
circumstancias. Antevejo até algumas difficuldades.

... Se aquella pêga, aindagora, esteve-me para ahi a grasnar um
chorrilho de pessimas noticias. (Ah! meu Deus! não tenho tempo para
perder!) Serei pois franca: juro-te que hei de conseguir o meu fim. Não
vás acreditar n'uma miragem qualquer, n'uma illusão; o meu plano assenta
todo elle na toleima do principe, e representa isso uma talagarça em que
se pode bordar tudo que se quiser. O mais importante é que nos deixem
operar. E demais, essas fufias nada podem contra mim! exclama Maria
Alexandrovna assentando um murro na mêsa. Tem confiança, mas cumpre
operar depressa! Hoje ainda façamos o principal, se for possivel.

--Está bem, mamã; escute ainda... uma franqueza. Sabe o motivo porque
tanto me interessa esse seu plano? É porque não estou segura de mim
propria. Disse-lhe que me achava decidida a praticar semelhante baixeza.
Mas se os pormenores d'esse seu plano forem repugnantes em demasia,
desde já lhe declaro que me verei obrigada a desistir. Sei que será mais
uma baixeza, o resignar-me a entrar no lodaçal e não ter animo de lá
ficar. Mas que se lhe ha de fazer? Se não pode deixar de ser assim!

--Mas, Zina, meu anjo, onde é que tu vês n'isto baixeza? replica,
timida, Maria Alexandrovna. Trata-se de um bom casamento, de uma coisa
normal; encara as coisas d'este ponto de vista e verás que te ha de
parecer muitissimo razoavel.

--Ah! mamã, pelo amor de Deus, nada de dissimulações para commigo! Estou
prompta para tudo, bem vê; que mais quer? Não se escandalize, peço-lh'o
eu, por eu dar ás coisas o nome que lhes compete: será, talvez,
actualmente, essa a minha unica consolação.

E sorriu com tristeza.

--Ora vamos! Vamos! Está bom, meu anjinho; pode haver estima reciproca sem
identidade de convicções. Quanto ao meu plano, tem a certeza em como te
não irá salpicar de lama, isso te juro eu! Quererás talvez
comprometter-me? Tudo ha de correr bem, com muita dignidade, até. Não ha
de haver escandalo. E ainda quando o houvesse, n'esse caso, d'este ou
d'aquelle modo... já nós estariamos d'aqui muito longe... diziamos adeus
a Mordassov. E depois, essas gralhas que piassem para ahi até rebentar,
já nos não fazia mossa. Merecem que façamos caso d'ellas, porventura? E
como é que tu, Zina, tão soberba, podes arrecear-te de semelhante gente?

--Ah! mamã, a mim não me mettem medo, acredite! Não me entende!
respondeu a Zina, irritadissima.

--Está bom, está bom, minha joia, não te zangues! Onde eu queria chegar
era a que essa gentalha praticam vilanias a cada instante, e que tu...
por uma só vez... Mas, que digo eu... sempre sou muita tola! Trata-se
até de uma nobre acção! Depende tudo do ponto de vista...

--Basta, mamã, basta! exclama a Zina.

E bate o pé.

Deixa lá! meu anjo, não torno mais!

Silencio. Maria Alexandrovna fica a olhar pelas costas para a Zina, que
seguiu por a casa fora com uma expressão de cachorro a olhar para a
chibata.

--Nem sequer chego a perceber como é que tenciona dar-lhe volta,
prosegue com enfado a Zina. Tenho a certeza de que o resultado que
tirará será uma affronta. Pela parte que me toca, tanto se me dá, mas
vae ter desgosto, creia.

--Ora! Se é só isso que te dá cuidado, vae descançada, meu anjo!

Comtanto que estejamos de accordo, quanto ao mais, pouco importa! Se tu
soubesses os transes de que eu tenho escapado, sã e a salvo! Em summa,
permitte-me fazer uma tentativa. É urgente que eu tenha quanto antes uma
conferencia com o principe. Já estou adivinhando o que d'aqui sairá. De
quem eu tenho medo é do tal Mozgliakov.

--Do Mozgliakov? perguntou a Zina com desdem.

--Do Mozgliakov, sim, pois que cuidas? Mas não te assustes, ainda assim,
Zina, hei-de induzil-o a auxiliar-me, até. Nem tu sabes ainda quem aqui
está, Zina! Ah! tão certa tenha eu a salvação, mas assim que ouvi falar
no principe, accudiu-me logo semelhante ideia! Foi uma revelação. Quem
havia de dizer que elle havia de vir parar a nossa casa! Bem podiamos
estar cem annos á espera d'uma occasião d'estas! Ah! és tão linda, minha
Zina! Que belleza! Olha, eu, se fosse homem, atirar-te-hia aos pés um
reino! Sucia de asnos! Quem não ha de estar morrendo por beijar esta
mãozinha? (Maria Alexandrovna, effusiva, beija a mão da filha.) É a
carne da minha carne!... É preciso casál-o dê por onde der, áquelle
imbecil! E que bem viveriamos depois, Zina! Pois nunca nos havemos de
apartar, não é verdade? Não pões na rua tua mãe, quando te vires feliz?
Tivemos os nossos desaguizados, mas aonde irás tu encontrar outra amiga
como eu? Eu, apezar de tudo...

--Mamã, se está resolvida, é tempo de fazer alguma coisa. Está perdendo
minutos preciosos! disse a Zina, com impaciencia.

--E já vae apertando. Vae, sim, effectivamente. E eu aqui a dar á
lingua! Querem açambarcar o principe! Vou já a correr. É já; mando
chamar o Mozgliakov e carrégo com o principe, á força, se fôr preciso.
Adeus, Zinotchka! Adeus, meu amor, minha pomba! Não te desconsoles, não
desanimes, não estejas triste. Então!... Tudo ha de correr com
dignidade, com muita, até. Tudo está no modo de encarar as coisas.
Emfim! adeus, adeus!

Maria Alexandrovna faz o signal da cruz á Zina e sae. Investe para o
quarto, detem-se um momento em frente do espelho e, d'alli a dez
minutos, lá vae rodando por essas ruas de Mordassov, na carruagem de
patins (já dissemos que Maria Alexandrovna vivia á larga.)

--Não, não são vocês que podem luctar de esperteza commigo! A Zina
annue, e já é meio caminho andado! Não ser bem succedida! Que asneira!
Ah! Zina, com que então, ha calculos que influem no teu animo? Commovi-a
fazendo-lhe luzir deante dos olhos um risonho porvir... Como ella estava
linda, hoje! Ora, tivera eu sido tão formosa, e haveria revolvido, até,
meia Europa. Em summa, paciencia, esperemos. O tal Shakspeare ha-de-lhe
passar assim que ella se vir princêsa... E que princêsa não ha de
ser!... Gosto de a ver assim; tão soberba, tão senhora de si!... Tem uns
olhos de rainha!... Como é que ella poderia deixar de conhecer que ia
n'isso o seu interesse?--Até que emfim percebeu-o! Ficarei vivendo em
sua companhia, e ha de consentir em tudo que eu quiser. É princêsa? pois
tambem eu! Hão-de falar de mim, em Petersburgo, até... E adeus...
cidadezinha da asneira! O principe e o garoto hão-de ir marchando d'esta
para melhor, e eu, caso-a com uma testa coroada! Ha só uma coisa que me
mette medo: não terei usado para com ella excesso de franqueza?
Assusta-me! Assusta-me deveras!

E engolfa-se em suas cogitações Maria Alexandrovna.

Assim que se viu entre quatro paredes, a Zina poz-se ás voltas no
quarto, de mãos atráz das costas, a pensar. E não lhe faltava em quê,
com certeza! E a revezes e quasi inconscia repetia: "é urgente, é
urgente, ha já muito tempo que devia estar feito!" Que quereria dizer
aquella exclamação? Por mais de uma vez as lagrimas lhe refulgiram
n'aquellas pestanas tão longas e sedeúdas. Nem pensava, sequer, em as
enxugar. A mãe fazia mal em estar-se inquietando! A Zina achava-se
disposta para tudo...

"Eu te direi, deixa estar! pensou a Nastassia Petrovna ao saír do seu
cadoz da farrapada depois de se haver retirado a coronela. E eu com
tenções de pôr uma gravata côr de rosa por causa do tal principe! Sempre
sou bem tola! A enfeitar-me para casar com elle! Ora, uma gravata
depressa se põe! Deixa tu estar, minha Maria Alexandrovna! Com que
então, eu, sou uma pécora, uma miseravel? Acceito duzentos rublos para
arrombar uma bocêta! Pois já se vê, não deixar escapar a occasião!... E
demais... eu se o fiz foi por ser generosa, pois ainda tive que fazer
despêsa... Eu te direi! Hei-de-lhes fazer ver a ambas se sou uma pécora
ou se o não sou! Hão de aprender a lidar com a Nastassia Petrovna!"



VII


Maria Alexandrovna, comtudo, deixava-se arrastar pelo proprio talento.
Concebeu um plano grandioso quanto audaz. Casar a filha com um ricaço,
com um principe e um moribundo; casál-a sem que ninguem o soubesse,
aproveitando a senilidade do seu hospede, era não só ousadia, mas
imprudencia, até. Não havia duvida, o projecto era seductor, porém, em
caso de malogro, poderia vir a reverter para o autor n'uma confusão sem
antecedentes. Maria Alexandrovna bem o sabia, mas não era mulher para
recuar.

--Tenho-me visto em peores lances, dissera ella á Zina, e era verdade. E
seria uma heroina, se assim não fôra?

Certamente, o projecto tinha seus visos de bandoleirismo á mão armada;
Maria Alexandrovna não era, porém, mulher para se prender com taes
ninharias. Resumia o caso n'um dito muito acertado: "uma pessoa não fica
para sempre casada." Era simplicissima semelhante ideia, mas apresentava
á imaginação tamanhas vantagens, que Maria Alexandrovna era a propria a
assustar-se.

Como mulher de recursos, dotada de legitima faculdade creadora, urdiu o
seu plano n'um revez de mão. É certo que apenas se lhe pintiparava na
mente a largos traços, um tanto vagos, até. Escasseavam pormenores e
havia que contar com circumstancias imprevistas. Maria Alexandrovna
tinha porém confiança em si mesmo. Não era o malogro que lhe mettia
medo, lá isso, não; o que a sobresaltava, era a impaciencia em encetar a
lucta. A impaciencia, a nobre impaciencia minava-a, ao pensar nos
possiveis obstaculos.

As mais sérias difficuldades, antecipava-as Maria Alexandrovna por parte
dos seus nobres concidadãos de Mordassov, e acima de tudo, da nobre
sociedade das damas Mordassovenses: Conhecia, por experiencia propria,
até onde ia o odio de semelhante gente. Nem sequer punha em duvida, já
se vê, que n'aquelle ensejo toda a gente lhe avaliava as intenções,
supposto que ninguem houvesse dito ainda uma palavra fosse a quem fosse.
Sabia, á força de triste experiencia, que não havia um unico
acontecimento, por mais secreto que fosse, referente á sua vida, que,
dando-se pela manhã, não andasse á noite na lingua de todas as
mexeriqueiras. Maria Alexandrovna, pois, antevia apenas o perigo, esta
casta de presentimentos, porém, que jamais a haviam enganado, não a
enganariam ainda d'esta vez.

Eis, effectivamente, o que succedera, e de que ella ainda não tinha
conhecimento. Pela volta do meio dia, isto é, tres horas, minuto por
minuto, depois de haver chegado o principe a Mordassov, corriam pela
cidade uns boatos algo singulares. Qual teria sido o ponto de partida?
Ninguem o sabia, mas caso é que se espalharam acto continuo.

Afiançava toda a gente que Maria Alexandrovna já tinha promettido a mão
da filha, da sua Zina, com vinte e tres annos e sem um kopek de dote, ao
principe: que o Mozgliakov tinha sido posto a andar e que estava tudo
resolvido e assignado.

Qual era a causa de semelhantes boatos? Tão bem conheciam Maria
Alexandrovna que lhe tivessem adivinhado, com tão perfeita unidade, os
mais intimos pensamentos? Nem a inverosemelhança de um tal boato, visto
como um projecto d'aquelle genero se não leva a effeito no espaço de uma
hora, nem a falta evidente de todo e qualquer fundamento, pois ninguem
sabia d'onde partira a noticia, puderam dissuadir os Mordassovenses. O
mais surprehendente, era o haver-se principiado a espalhar o boato no
proprio ensejo em que Maria Alexandrovna encetava aquella sua conversa
com a Zina a semelhante respeito. Tal é o faro dos provincianos! O
instincto dos novelleiros das cidadécas attinge por vezes as raias do
maravilhoso. E todavia, o caso explica-se. Baseia-se no estudo intimo e
perseverante do proximo. Todo o provinciano vive debaixo de uma redoma
de vidro, como se disséssemos. É-lhe absolutamente impossivel esconder
seja o que fôr aos seus honrados concidadãos. Sabem a seu respeito
aquillo que elle é o proprio a ignorar. O provinciano, de sua natureza,
devia de ser um psicologo profundissimo. E eis o motivo porque eu ás
vezes pasmava sincéramente d'encontrar na provincia tão poucos
psicólogos e tanto imbecil! Mas ponhamos isso de banda.

Estoirou a noticia tal qual o raio. O casamento com o principe
antolhava-se tão vantajoso a toda a gente, tão brilhante, que a face
extranha d'aquelle negocio a todos escapou. Dava-se ainda uma
circumstancia: A Zina era tão odiada ou mais ainda que a propria Maria
Alexandrovna; e por quê? Ninguem o sabia. Entraria talvez em linha de
conta a formosura da Zina, talvez pelo facto de Maria Alexandrovna,
apezar de todos os pezares, ser, muito mais do que a filha, da mesma
massa das outras Mordassovenses. Ausentasse-se ella da cidade, e quem
sabe, é possivel que deixasse saudades. Dava animação á sociedade
mediante incidentes variados. Sem ella aborrecer-se-hiam. Por outro
lado, a Zina, pela sua attitude, parecia pairar nas nuvens e não em
Mordassov. Não era da mesma raça, e talvez, inconsciamente, até, tivesse
uns modos demasiado altivos. E eis que esta mesma Zina, ácerca de quem
corria tanta historia escandalosa, aquella soberbona, apparecia
millionaria, princêsa e entrava no rol da aristocracia. Dentro de um ou
dois annos, talvez, vem a enviuvar e casa para ahi com algum duque, ou
algum general, e quem sabe, com o governador, e coincide exactamente o
estar viuvo e o ser grande admirador da formosura o governador de
Mordassov. Desde então virá a ser a primeira senhora da provincia, e um
tal pensamento, só por si, era intoleravel, nem haveria noticia capaz de
provocar tanta indignação em Mordassov.

Estrugiam por todos os lados clamores de raiva. Diziam que era indigno;
que o jarreta não tinha o juizo todo; que o tinham enganado, embaído;
que urgia livrál-o da soffreguidão d'aquellas garras; que, apuradas as
contas, era immoral,--uma ladroeira! Que não faltavam meninas valendo
tanto como a Zina e em condições de casar com o principe.

Todas estas exclamações e estas linguarices eram apenas supposições da
parte de Maria Alexandrovna, e já era demais. Estava farta de saber que
toda a gente se achava prompta a praticar o possivel e o impossivel,
até, para se oppôr a seus projectos. Pois não haviam confiscado o
principe e não tinha agora que o reconquistar a unhas e dentes? E d'ahi,
dado ainda o caso de que ella lograsse tornál-o a agarrar e trazêl-o
outra vez para sua casa, não poderá comtudo têl-o preso a toda a hora.
Em summa, quem é que lhe podia affiançar que hoje, ainda, dentro em duas
horas, o côro solemne em peso das damas de Mordassov se não terá
congregado na sua sala, e a pretexto de ordem tal que se torne
impossivel recebêl-as? Se ella lhes fechar a porta, entram-lhe pela
janella. Em conclusão, não se podia perder um instante, e todavia, nada
estava feito ainda.

De subito, eis que brota na mente de Maria Alexandrovna, e amadurece do
mesmo jacto, uma ideia genial. Referir-nos-hemos á dita ideia em logar
competente: n'este ensejo, a nossa heroina lá ia rodando a toda a pressa
através das ruas de Mordassov, tremenda e inspirada, decidida a dar
batalha para reconquistar o principe. Nem sequer sabia o alvitre que
esposaria nem onde o iria encontrar; mas sabia com certeza que mais
depressa devia afundar-se Mordassov do que falhar-lhe um unico de seus
projectos.

Do seu primeiro passo não podia saír-se melhor. Encontrou o principe na
rua e carregou com elle para jantar.

Se me perguntarem o modo porquê, cercada por tantas ciladas armadas
contra si, conseguiu pôr o nariz a uma banda á Anna Nikolaievna, declaro
que considero esta pergunta offensiva para Maria Alexandrovna. Deteve o
principe no acto d'este estar á porta da casa da sua rival, e a despeito
de tudo, a despeito até das objecções do proprio Mozgliakov, receoso de
um escandalo, atirou com o ginjinha para dentro do trem. Era n'isto
exactamente que Maria Alexandrovna levava as lampas ás suas rivaes. Nos
lances decisivos, não se detinha em presença de um escandalo, tendo como
axioma que o exito a tudo justifica. Escusado será dizer que o principe
não oppôz resistencia de maior, e como sempre esqueceu-se de tudo e
ficou muito contente da sua vida.

Ao jantar, não fez senão dar á lingua, muito alegre, a fazer
trocadilhos, a contar anecdótas que nunca concluia e passando de uma
para outra sem dar por isso. Tinha bebido tres copos de champanhe em
casa de Natalia Dmitrievna. Ao jantar, bebeu mais alguns e ficou
alegrinho. Maria Alexandrovna era a propria a lhe não deixar nunca o
copo vazio.

Eram irreprehensiveis as iguarias, aquelle ladrão do Nitichka
esquecera-se de as chamuscar. A dona da casa desvelava-se em electrizar
os seus hospedes com os enlevos da sua amabilidade. A Zina, comtudo,
mantinha gélido silencio, e o Mozgliakov nem por isso estava nos seus
dias. Comia pouco, estava muito preoccupado, a pensar; e, coisa que
raras vezes lhe succedia, Maria Alexandrovna estava inquieta. A Nastassia
Petrovna, mazomba, fazia ás escondidas signaes ao Mozgliakov e este sem
dar por tal. A não serem Maria Alexandrovna e o principe, haveria
descambado em jantar de enterro.

E comtudo, Maria Alexandrovna encobre intima afflicção: assusta-a a
Zina, com aquelles seus modos tristonhos, de olhos vermelhos. E demais,
o tempo não sobeja, e Mozgliakov, esse obstaculo material, está para
alli como um marco de pedra. Ergue-se da mêsa Maria Alexandrovna, minada
por funda inquietação. Mas qual não é o seu espanto, deixem-me assim
dizer, quando vem ter com ella o Mozgliakov e lhe declara, que sente
muito, mas que se vae retirar immediatamente!

--Aonde é que vae, então? indaga ella, com simpatia.

--Eu lhe digo, Maria Alexandrovna, enceta o Mozgliakov atrapalhado,
aconteceu-me um caso um tanto esquisito... Nem sei até como lh'o diga...
Mas, pelo amor de Deus, dê-me um conselho.

--Que é, diga lá?

--Meu padrinho, o Borodoniev... conhece, aquelle commerciante...
encontrei-o hoje... está irritadissimo, dirigiu-me exprobações, diz que
sou um soberbo. Com esta é a terceira vez que venho a Mordassov sem ir
para sua casa. "Vem hoje, me disse elle, tomar uma chavena de chá
commigo". São quatro horas em ponto, e elle toma o chá, á antiga, ahi
pelas cinco horas, depois da sésta. Que quer que lhe eu faça... Eu
avalio, Maria Alexandrovna... Mas colloque-se no meu logar! Foi elle que
teve mão em meu pae que se queria enforcar, quando perdeu aquelle
dinheiro do Estado!... Foi n'essa occasião, por signal, que elle
insistiu em ser meu padrinho. Se fôr a effeito o meu casamento com Zina
Aphanassievna, bem sabe que disponho apenas de cento e cincoenta almas,
ao passo que elle é millionario, e mais que isso, até, segundo affirmam.
Não tem filhos. Se eu estiver a bem com elle, pode deixar-me cem mil
rublos. Ora elle está com setenta annos, lembre-se d'isto!

--Ah! meu Deus! Mas então que é que o prende? Por que está para ahi a
marralhar? exclama Maria Alexandrovna, disfarçando a custo o
contentamento. Vá-se embora, vá! Com essas coisas não se brinca! E era
por isso então que estava tão absorto durante o jantar? Vá, meu amigo,
não se demore! Mas devia de ter ido vêl-o esta manhã para lhe provar que
aprecia a sua benevolencia. Ai! esta mocidade!

--Mas, se Maria Alexandrovna tem sido a propria a arguir-me de
semelhantes relações! Tudo era dizer-me que era um mujik, parente de
taberneiros e agentes de negocio!

--Ah! meu amigo, quanta coisa se diz sem pensar! Tambem sou sujeita a
enganar-me.--Não me tenho na conta de infallivel. E d'ahi... não me
recordo... mas... é possivel que eu me achasse numa tal disposição de
espirito... em summa, o senhor não tinha ainda formulado o seu pedido.
Certamente, que houve da minha parte egoismo maternal, mas agora devo
encarar as coisas de um ponto de vista novo. Qual seria a mãe que m'o
levasse a mal? Vá e não perca um instante. Passe a noite com elle... e
oiça lá! Fale-lhe a meu respeito, diga-lhe que o tenho em muita conta,
que sou muito sua amiga... Proceda com habilidade. Ah! meu Deus!
Tinha-se-me varrido de todo. E era eu que lh'o devia ter lembrado.

--Resuscitou-me, Maria Alexandrovna! exclama Mozgliakov encantado. E
agora obedecer-lhe-hei em tudo e por tudo. E eu sem me atrever a
falar-lhe n'isso! Pois bem, adeus! vou-me embora. Desculpe-me para com a
Zinaida Aphanassievna. E d'ahi, hei de voltar.

--Receba a minha benção, meu amigo. E não se esqueça de falar a meu
respeito. Effectivamente, é um velho estimabilissimo. Ha muito tempo que
mudei de opinião a seu respeito. E demais, eu sempre o estimei na
qualidade de Russo dos bons tempos, tão despido de artificios. Até mais
ver, meu amigo, até mais ver!

"Foi uma fortuna carregar com elle o demonio! Que estou dizendo, foi o
proprio Deus que veiu em meu auxilio."

Pavel Alexandrovitch estava já no vestibulo a enfiar a _chuba_, eis que
rompe por alli dentro, saída não se sabe d'onde, a Nastassia Petrovna.

--Aonde vae? diz, agarrando-o pela mão.

--A casa do Borodoniev, Nastassia Petrovna, a casa do meu padrinho.
Coube-lhe a honra de me baptizar. Um velho rico, um padrinho de quem se
herda, um homem que se deve amimar.

--A casa do Borodoniev! Pois diga adeus, desde já, á sua noiva, disse
com sequidão Nastassia Petrovna.

--Como assim?

--Assim mesmo. Suppõe que a tem segura? Isso sim! Vae, mas é casar com o
principe.

--Com o principe. Que me diz, Nastassia Petrovna?!

--Que me diz, quê?--Quer ver com os proprios olhos e ouvir com os
proprios ouvidos? Pendure para ahi a _chuba_, e venha commigo.

Pavel Alexandrovitch, aturdido, atira para o lado a _chuba_ e deixa-se
levar para o quarto escuro, cuja porta dá para a sala.

--Mas que quer isto dizer! Nastassia Petrovna, não percebo patavina.

--Perceberá assim que ouvir. A comedia não tarda a principiar.

--Qual comédia?

--Chiton! Não fale tão alto! Qual comédia? E é o senhor que paga as
despêsas; andam a enganál-o; esta manhã, assim que o senhor saíu com o
principe, a Maria Alexandrovna pôz-se a apoquentar de dôr d'ilharga a
Zina, mais de uma hora, com o sentido em persuadil-a a aceitar para
marido aquelle jarreta d'engonços. Dizia ella que não havia nada mais
facil do que era o enredál-o. Propunha uns taes alvitres que a mim
propria me causavam asco. Ouvi-os d'aqui, a Zina annuiu. E que cama lhe
não fizeram ao senhor, ambas de duas! Tem-n'o na conta de um imbecil, e
a Zina declarou formalmente que não casava com o senhor por coisa
nenhuma d'este mundo. E eu, tão tola, que já me estava até enfeitando
para pôr ao pescoço uma gravata côr de rosa!

Mas escute! escute!

--Se assim é,... é uma infamia! murmurou Pavel Alexandrovitch,
esparvoado, fitando olho a olho a Nastassia Petrovna...

--Mas escute! Vae ouvir o bom e o bonito!...

--Escutar onde?

--Debruce-se se ali n'aquella frincha da porta.

--Mas... Nastassia Petrovna, eu sou lá homem que me ponha a escutar ás
portas?!

--Emprega bem o seu tempo! Aqui, meu paezinho, é preciso metter a honra
na algibeira. Desde que cá veiu, escute...

--Comtudo...

--Se não quer, resigne-se a ficar a chuchar no dedo! E a mim que me
importa? Eu com dó do senhor, e o senhor com ceremonias! Será para mim
que eu ando a trabalhar? Eu, por mim, já nem cá fico esta noite.

Pavel Alexandrovitch, muito contra sua vontade, encosta o ouvido á fisga
da porta. Referve-lhe o sangue nas arterias. Não percebe uma palavra de
quanto em volta de si se está dando.



VIII


--Com que, então, divertiu-se muito, principe, em casa da Natalia
Dmitrievna? indaga Maria Alexandrovna, deitando olhar soffrego para a
futura prêsa.

(Enceta de proposito as hostilidades do modo mais innocente. De
commovida, tem o coração aos pulos.)

Depois de jantar, transferiram o principe para a sala onde este havia
entrado pela manhã. O ginjinha, com lastro de seis copos de champanhe,
já não conserva equilibrio. Em compensação, não cessa de badalar. Maria
Alexandrovna percebe que é apenas uma excitação de momento e que o
hospede, d'alli a nada, ferra comsigo a dormir. Cumpre pois aproveitar a
occasião. Nota com jubilo que o voluptuario ginjinha dispara á Zina uns
olhares de gula. Rejubilam os seus maternaes sentimentos.

--Ex-trê-ê-ma-mente! e, não sabe? é uma mulher incom-pa-ra-á-vel...
aquella Natalia Dmitrievna, uma incompa-ra-vel mulher!

A despeito dos muitos cuidados, aquelles louvores tributados á rival
fazem sangrar o ciume a Maria Alexandrovna.

--Ora vamos, principe! exclama com os olhos a ferir lume, se essa sua
Natalia Dmitrievna é uma mulher incomparavel, tapa-me a boca, mas é
preciso que o principe conheça muito mal esta nossa sociedade! Não passa
tudo de um alarde descarado de sentimentos ausentes, comédia, verniz,
oiro ao de cima.

Erga uma pontinha ás apparencias, e encontrará um verdadeiro inferno
escondido por baixo das flores, uma ninhada de viboras promptas a
tragál-o.

--De-vé-ras! Estou pa-a-asmado!

--Sou eu que lh'o digo! Ah! meu principe! Ora escute, é a Zina!
Assiste-me o dever--e a tanto me vejo obrigada--de contar ao principe
uma aventura ridicula que se deu a semana passada, com aquella Natalia
Dmitrievna--lembras-te?--Sim, principe, com aquella Natalia a quem tanto
admira.

Ah! meu caro principe, affirmo-lhe que não sou mexeriqueira, mas devo
contar-lhe isto unicamente para lhe dar uma amostra viva e irrisoria da
nossa sociedade.

Haverá quinze dias veiu visitar-me essa tal Natalia Dmitrievna. Estavam
servindo o café, e eu tinha que sair. Lembro-me muito exactamente das
pedras de açucar que ficaram no meu açucareiro de prata: estava cheio.
Volto, e que hei de eu ver? Restavam apenas tres pedrinhas. Ora, a
Natalia Dmitrievna tinha ficado sósinha! Que me diz a isto?

Tem casa, dinheiro, tudo que lhe apetece... É comico e pequenino, pois
não acha?--E por aqui já pode avaliar o que é esta nossa sociedade em
Mordassov.

--De-ve-ras?--É uma gulodice... sobre-natural! Mas como é que ella pôde
engulir um açucareiro?

--E ahi tem a sua mulher incomparavel, principe; se já se viu uma
vergonha assim? Eu por mim estou que antes queria morrer, do que
resolver-me a praticar um acto tão nojento!

--Está c... claro!... está... claro!--Mas ainda assim--sempre lhe digo,
que é uma linda mulher!

--Quem? A Natalia Dmitrievna! Ora vamos, principe, ella o que é é uma
pipa. Ah! principe, principe, que está dizendo? Sempre fiz outra opinião
do seu bom gosto!

--Está--c... claro--uma pipa!--Mas ainda assim--sempre lhe digo que é
bem feita; e depois, aquella pequer... rucha que dansava... essa tambem
é... bem feita.

--A Sónitchka? Ora! Uma pequena! Tem apenas quatorze annos.

--Está... claro!--mas ainda assim,... é tão leve... e com umas
formas..., tão... geitozinhas!... E a outra que dan... sou com ella?

--Ah! aquella serigaita d'aquella orphã, principe?

--Está claro--orphã! É porquinha,--devia ao menos ter lavado as
mãos,--mas é sedu-u-ú-ctora.

E o principe, emquanto vae falando, não despega, com crescente avidez, o
monóculo do semblante da Zina.

--Mas... que... linda... me... nina! tartamudéa... meio estarrecido...

--Zina, vê se tocas alguma coisa, ou antes... canta. Canta que é uma
delicia, principe; chega a ser uma virtuose, ouso affirmál-o, uma
verdadeira virtuose. E se soubesse, principe, prosegue a meia voz Maria
Alexandrovna emquanto Zina se approxima do piano, com aquelle seu andar,
lento e cadenciado, que põe num sobresalto o jarreta, e se soubesse a
que ponto é amoravel, como é carinhosa para commigo! Que coração! Que
sentimentos!

--Está claro! Sentimentos! E se quer que lhe diga... ainda não conheci
senão uma mulher que se lhe possa comparar como formosura, responde o
principe a engulir a saliva, é a condessa Naniskara; que Deus tem. Já lá
vae ha trinta annos. Que mulher! Que maravilhosa formosura! Casou com o
cozinheiro.

--Com o cozinheiro, principe!?

--Está claro--o cozinheiro, um francez, no estrangeiro.--E arranjou-lhe
lá no estrangeiro um titulo de conde. Um homem muito instruido, com uns
bigodinhos.

--E como é que viviam, e onde, principe?

--Está claro--viviam muito bem! E d'ahi, não tardou muito que se não
apartassem.--Elle roubou-a e safou-se. Quer-me parecer que jogaram as
cristas lá por causa de um môlho.

--Que queres que eu toque, mamã?

--Por que não cantas, antes? Se soubesse como ella canta, principe!
Gosta de musica?

--Está c... laro! Um encanto--um encanto! Gosto immenso de musica!
Co... onheci muito Beethoven, no estrangeiro.

--Beethoven! Ora imagina, filha, o principe conheceu Beethoven! clamou
Maria Alexandrovna, maravilhada. Ah! principe, pois devéras, conheceu
Beethoven?

--Está c... laro: Eramos intimos amigos. Tinha o nariz sempre atulhado de
rapé... Que sujeitinho tão ratão!

--Quem, Beethoven?

--Está c... laro,--Beethoven? E não seria talvez Beethoven... mas sim
outro qualquer. Ha muito allemão, por toda a parte... Que eu, afinal,
parece-me que estou equivocado.

--E que hei de eu cantar, mamã?

--Ah, Zina! Canta-me aquella romança, não te lembras? Aquella que tem um
accento tão cavalheiresco: a castellã e o seu trovador--Ah principe, sou
doida pelos assuntos cavalheirescos! Os castéllos! aquelle viver
mediéval! Trovadores, arautos! Festas e torneios!... Vou te fazer o
acompanhamento, Zina... Sente-se aqui, mais perto, principe! Ai! os
castéllos, os castéllos!

--Está c... laro! os castéllos... tambem gosto de cas... tellos, repete o
principe assestando na Zina o olho solitario: Mas... santo Deus! que
romança!... Estou a conhecêl-a... Ha que tempos... que tempos que a
ouvi... recorda-me... ah! meu Deus!...

Não me incumbo de dizer o que foi que succedeu ao principe, quando a
Zina entrou a cantar. Cantava uma romança francêsa, muito antiga e que
estivera em moda, nos seus tempos. A Zina cantou a primor. A voz pura de
contralto ia direita ao coração. O lindo rosto, os magnificos olhos, os
dedos fusiformes a voltarem as folhas, os bastos e negros cabellos, tão
lustrósos, o seio afflante, a sua pessoa féra e linda, toda ella,
concorria tudo a enfeitiçar o pobre do gêbo. Não despegou os olhos de
cima d'ella emquanto ella esteve a cantar. Suffocava de commovido.
Aquelle senil coração, esquentado pelo champanhe, pela musica e pelas
reminiscencias, palpitava cada vez com mais força, e como não havia
palpitado ha tanto tempo! Estava a ponto de chorar quando ella acabou.

--Oh! minha linda menina! exclamava, a beijar-lhe os dedos, estou
encantado!--E só agora é que me lembro... mas... mas... Oh! minha linda
menina!...

O principe nem foi senhor de concluir.

Maria Alexandrovna sentiu haver chegado o momento psicologico.

--Para que anda a dar cabo de si, principe?--encetou com solemnidade.
Quantos sentimentos, quantas forças vitaes, quanta riqueza moral lhe não
resta ainda? E com tudo isso, foi emparedar-se por toda a vida num
carcere! Fugir do mundo! Das amizades! É imperdoavel! Pense bem,
principe! Encare a vida, como se dissessemos, com uns olhos limpidos!
Lembre-se do passado, da sua aurea juventude, dos seus dias sem
cuidados. Resuscite esse passado, resuscite-se a si proprio! Volte a
viver entre a sociedade dos vivos: vá até ao estrangeiro... á Italia, á
Hespanha, principe, á Hespanha. Precisava de um guia, de um coração que
lhe tivesse amor, que o estimasse e que lhe fosse simpathico.

Pois bem! O principe tem amigos, appelle para elles e virão em monte. Cá
estou eu que seria a primeira a dar de mão a tudo, e a deitar a correr
para acudir ao seu chamado! Não me esqueço da nossa antiga amizade,
principe! Deixaria, até, meu marido, se estivesse mais nova, e fosse tão
formosa como minha filha, fazia-me sua companheira, sua amiga, sua
mulher, até, se o desejasse.

--Estou certo de que, nos seus tempos, deve de ter sido uma mulher
encantadora, disse o principe a assoar-se.

Tinha os olhos arrazados de lagrimas.

--A nós proprios sobrevivemos nos nossos filhos, principe, responde
effusiva Maria Alexandrovna. Tambem eu tenho o meu anjo da guarda, a
amiga dos meus pensamentos, do meu coração, principe! Rejeitou até agora
sete pedidos de casamento, por se não querer apartar de mim.

--E por conseguinte, vae comsigo quando me ac... com... ompanhar ao
estrangeiro? Sendo assim, irei para o estrangeiro... está resolvido...
exclama o animadissimo principe.--Absolutamente!... E se eu pudesse
lison... jear-me com a es... pe... rança... Mas é uma menina po...
rtentosa, portentosa! Ah! minha linda menina!

E o principe volta outra vez a beijar os dedos á Zina. Tentou até
ajoelhar-lhe aos pés, o pobre do homem.

--Então!... então, principe, ia dizendo que se pudesse lisonjeál-o a
esperança?... agarrou no ar Maria Alexandrovna, sentindo brotar-lhe novo
accesso de eloquencia. Que homem tão singular é o principe!... Não se
considera então digno da attenção das mulheres! A formosura não consiste
apenas na mocidade! Lembre-se de que é uma reliquia da aristocracia
russa! É o representante dos mais refinados, dos mais cavalheirescos
sentimentos, e das mais requintadas maneiras! E a Maria não amou o
Mazeppa[10] porventura? Li algures que Lauzun, um marquêz seductor da
côrte de Luis... não sei quantos... já velho, conquistou uma das mais
supinas beldades do seu tempo!... E demais, quem foi que lhe metteu em
cabeça que já era velho? Quem se atreveu a afirmál-o? Homens como o
senhor envelhecerão jámais, porventura? O principe, tão opulentamente
dotado de sentimento, de alegria, de espirito, de força vital, de tão
delicadas maneiras! Fosse o principe para ahi a qualquer estação balnear
com uma mulher joven, com uma beldade como a Zina, para não irmos mais
longe,--e eu lhe diria que effeito colossal não havia de produzir, o
senhor, reliquia da nossa aristocracia; ella, uma belleza de rainha!
Ella, com aquelle seu pisar majestatico, de braço dado com o principe, a
cantar n'uma sociedade aristocratica; o principe, pela sua parte, a
fuzilar ditos de espirito! Era caso para acudirem os banhistas em pêso a
fazer-lhe côrte! Dava brado por toda essa Europa! Pois teria a seu favor
os jornaes, todos elles folhetins, e surgia um grito unanime: "Principe!
Principe!"

E o senhor a dizer: "Pudesse eu lisonjear-me com a esperança?"

--Os jornaes... está claro, está claro!... Os folhetins... balbucia o
principe, que não percebeu nem metade do aranzel de Maria Alexandrovna e
cada vez está mais lamecha... Mas... minha rica menina... se se não
sen... te fa... tigada, repita outra vez aquella romança que cantou
inda'gora...

--Ah! principe, ella sabe outras ainda mais bonitas! Conhece a
_Andorinha_? Já a ouviu?

--Está claro... mas já não me lembra...

Não... não!... aquella que cantava ha pouco: não quero a _Andorinha_!
Quero aquella tal romança: disse o principe a pedinchar como um
pequerrucho.

A Zina recommeça a alludida romança. O principe não pode ter mão em si e
ajoelha-lhe aos pés a chorar...

--Oh! minha formosa castellã! (Treme-lhe a voz de senilidade e de
commoção).

Oh! minha en... can... tadora castellã! Oh! minha querida menina! Quanta
coisa me não veiu recordar do passado!... E eu, então, vivia esperançado
em outro porvir. N'esse tempo cantava eu com a viscondessa... uns
duêtos... essa mesma romança... e agora... ah! Sei muito bem o que me
espera!

O principe proferiu aquella discurso em voz entrecortada e offegante,
intoiriu-se-lhe a lingua... tornam-se inintelligiveis algumas palavras.
Apenas se vê que atingiu o acume da commoção. Maria Alexandrovna
apressa-se em lançar azeite no lume.

--Principe! quer me parecer que se vae apaixonando pela Zina.

A resposta do principe vae além de quanto ousaria esperar Maria
Alexandrovna.

--Estou apaixonado por ella a ponto d'enlouquecer! exclama o velhito
muito exaltado e sempre de joelhos.

Estou prompto a sacrificar-lhe a minha vida... pudesse eu ao menos ter
esperança... Mas levante-me, por quem é... sinto-me um tanto fraco... Se
eu... ao menos, pudesse nutrir a es... pe... perança offerecia-lhe o meu
coração... e então... eu... Havia de cantar-me todos os dias
ro--ro--man--manças, e eu a olhar para ella sempre... sempre...
sempre... ai, meu Deus!

--Principe, principe! Está offerecendo a minha filha a sua mão, quer-m'a
roubar, a mim, a minha Zina! O meu enlevo, o meu anjo, Zina! Não te
deixarei nem por quanto ha! Zina! Venha alguem arrancál-a dos braços,
dos braços de sua mãe; se é capaz!

Maria Alexandrovna atira-se á filha e estreita-a nos braços, comquanto
se sinta repellida com força. A mamã exaggera um tanto ou quanto a
comedia, e a Zina está em transes de asco. Mas não abre a bôca, é tudo
quanto deseja Maria Alexandrovna.

--Já rejeitou nove partidos só para se não apartar da mãe! clama. Agora,
comtudo, o meu coração antevê o apartamento. Não ha ainda um instante,
reparei que olhava para o principe de modo particularissimo... A sua
aristocracia, a sua finura seduziram-n'a, principe!.. Oh! O principe
apartar-nos-ha... estou-o a sentir.

--A... dó... óro-a! murmura o principe a tremelicar como uma folha.

--Com que então desamparas a tua mãe! exclama Maria Alexandrovna
atirando-se outra vez ao pescoço da filha.

A Zina, morrendo por pôr ponto a tão penosa scena, estende ao principe a
linda mão, e faz esforço para sorrir. O principe agarra respeitoso
n'aquella mão e por pouco a não come com beijos.

--Agora, sim, agora é que eu principío a viver!...

--Zina! diz com solemnidade Maria Alexandrovna: é o mais delicado, o
mais nobre dos homens! Um cavalleiro da edade média! Ella bem o sabe,
principe, e sabe-o até demais, por minha desgraça!... Ah!... Oxalá cá
não tivesse apparecido... Entrego nas suas mãos o meu thesouro...
Conserve-o, principe!... Escute os rógos de uma mãe! Qual será a mãe que
poderá levar-me a mal a minha magua?!

--Basta! mamã! murmura a Zina.

--Ha de defendêl-a, principe, a sua espada ha de fulgir se as calumnias
se atreverem a tocar-lhe!

--Basta mamã, aliás...

--Está c... claro... a minha espada!... murmura o principe. Quero que o
ca... casamento se realize, quanto antes... agora... é que eu devéras
prin... cipío a viver!... Tenciono mandar desde já a Dur-kha-khanovo...
Tenho lá uns brilhantes, quero pôl-os a seus pés.

--Que ardor, que arrebatamentos, que nobreza de alma! E lembrar-me eu,
principe, de que se estava a perder n'aquelle ermo!... Não me canço em
repetir... Eu, quando me lembro d'aquella... infernal... toda eu me
horrorizo!...

--Mas que queria que eu fizesse?

Tinha tanto... mê... mêdo! choraminga o principe. Queriam pregar commigo
numa casa de saude... e tive... mê... mêdo!

--N'uma casa de saude! Ah! que miseraveis! Que vileza, que crueldade!...
Já me constou isso mesmo, principe! Mas essa gente está doida! Mas por
quê... por quê?...

--Se quer que... lhe diga, nem eu o sei, responde o ginjinha caindo
derrengado de cansaço na poltrona. Foi assim--estava eu n'um ba... baile,
e contei-lhe uma anecdóta.--Desagradou-lhes e ahi está... e resultou
d'ahi uma historia... uma histo... ria.

--E foi esse apenas o motivo?

--Não foi, eu tambem tinha jogado as cartas com o principe Pedro
Dmirititch, e perdido immenso... tinha dois reis e três... da... damas...
quero dizer, três da... da... mas e dois r... reis... Não é isto... um
r... r... rei e só... da... damas!

--E foi só por isso!--por isso!--Infernalissima protervia! Não chore,
principe! Não lhe torna a acontecer! D'aqui em diante, encontra-me a seu
lado, meu principe!--Pois não me aparto da Zina, e veremos quem é que se
atreve a abrir bocca. Sabe o que lhe digo, principe? Que o seu casamento
vae deixál-os consternados; vae envergonhál-os! Hão de ver que ainda é
capaz... quero dizer... comprehenderão que tão peregrina beldade nunca
iria casar com um mentecapto!--E agora, pode olhar para elles rosto a
rosto, de cabeça erguida!

--Está--claro... rosto a rosto!--murmura o principe fechando os olhos.

--Está derreado de todo, diz comsigo Maria Alexandrovna; creio que
estarei a soltar palavras ao vento.

--Está commovido, meu principe, precisa de ir descançar, diz debruçada
sobre elle com maternal sollicitude.

--Está... c... claro... encostar-me um bocadinho.

--É tal qual... Estes abalos!--Espere ahi, vou acompanhál-o. Eu propria
irei deitál-o, se for necessario... Por que é que está a olhar tanto
para aquelle retrato, principe?

É o retrato de minha mãe, não era uma mulher, era um anjo! Oh! oxalá
ella ainda cá estivesse! Era uma santa, uma santa, sim, nem lhe posso
dar outro nome!

--Uma s... anta, é bonito!... Eu tambem tive mãe, uma senhora
extrê... ê... ma... mente nut... trida... E d'ahi, não é isso que eu queria
dizer... Estou um tanto fatigado... Adeus... minha linda menina...
amanhã... em sum... ma... não importa... Até mais ver... até mais ver!...

Tenta fazer um gesto gracioso, mas escorrega no pavimento encerado, e
por pouco se não desiquilibra.

--Cuidado, principe. Encoste-se ao meu braço! grita Maria Alexandrovna.

--Um encanto! um encanto! Agora sim, agora começo a viver!

Ficou a sós a Zina. Sentia uma oppressão, um desprezo para comsigo
mesmo. Com as faces a escaldar, as mãos contraídas, os dentes
enclavinhados. Inérte, e a vergonha a arrazar-lhe os olhos de
lagrimas...

N'este lance, eis se abre a porta e investe pela sala dentro o
Mozgliakov--fulvo de raiva!



IX


--Ouvi tudo, tudo!

A Zina a fitar-lhe uns olhos espantados.

--Ah! E são esses os seus sentimentos! exclama com a voz tomada. Até que
por fim aprendi a conhecêl-a!

--A conhecer-me? repete a Zina (fulgem-lhes os olhos, de colera).
Atreve-se a falar-me assim?

Dá um passo para o mancebo.

--Tudo ouvi! insiste solemne o Mozgliakov, recuando porém um passo, mau
grado seu.

--Ouviu?--Espionou, diga! emenda a Zina a mirál-o com desprezo.

--Espionei, seja? É verdade, decidi-me a praticar semelhante vilania!
Mas, graças a ella... fiquei afinal sabendo que é a mais... nem sei como
qualificar a sua... tartamudeava o mancêbo, de mais em mais atrapalhado
sob o olhar da Zina.

--E quando haja ouvido a tudo, que é que me poderá lançar em rosto? Quem
lhe deu o direito de me accusar, de me falar n'esse tom?

--Com que direito!... Eu!? E ainda m'o pergunta!? Intenta casar com o
principe... e a mim não me assiste o direito...!... Pois não me deu a
sua palavra?

--Quando?

--Quando, essa é melhor!

--Esta manhã, sem irmos mais longe, o senhor a apertar commigo e a minha
resposta formal foi que nada lhe podia afirmar de positivo.

--Mas não me rejeitou em absoluto, e por conseguinte, guardava-me para o
não chega--poupava-me!...

Contrahiu-se o semblante á Zina com dolorosa sensação, mas não se atenua
o desprezo que sente para comsigo.

--Se o não escorraçei, responde em voz grave e compassada, mas algo
trémula, foi unicamente por compaixão. Supplicava-me que esperasse, que
lhe não dissesse que não. "Vá aprendendo a conhecer-me"--disse o senhor
um dia, "e quando se houver convencido de que sou um homem de caracter
digno, é possivel que me não rejeite." Foram estas as suas palavras, no
principio das nossas relações, não as poderá renegar: E agora atreve-se
a dizer, que o guardo para o não chega! Pois não percebeu, esta manhã, o
meu aborrecimento por ver como antecipava de quinze dias o seu regresso?
E todavia, não lhe encobri esse meu enfado, e o senhor foi o proprio a
notál-o, visto que me perguntou se me não agastava este seu regresso
permaturo. Chama então poupar um homem o não lhe poder encobrir o fastio
que alguem experimenta em ver esse homem? Ah! Eu então guardava-o para o
não chega!? Não! eu dizia commigo, a seu respeito: "Se não é demasiado
intelligente, é bondoso, quando menos"... agora, comtudo, fiquei
sabendo--a tempo, felizmente--que tem tanto de mau como de tolo, e só o
que me resta é desejar-lhe boa jornada! Adeus!

A Zina volta-lhe as costas e caminha, de seu vagar, para a porta.
Mozgliakov comprehende que tudo está perdido; referve-lhe a raiva.

--Ah! com que, eu, então, sou tolo! vociféra; tolo!--Muito bem! Adeus!
Mas, antes de me ir embora, saiba que a toda a gente ha de constar a
infame comédia que aqui estão representando... tanto a senhora como sua
mãe. Vou contar tudo a toda a gente, que embebedam o principe, que o
subornam! Ha de ouvir falar de Mozgliakov!

Estremece a Zina, vae para reponder, mas, volvido um instante de
reflexão, encolhe os hombros, desdenhosa, e bate-lhe com a porta na
cara. N'este conflicto, assoma aos hombraes Maria Alexandrovna. Ouviu as
ultimas exclamações de Mozgliakov e adivinhou o restante. O Mozgliakov
sem, se ir ainda embora! O Mozgliakov á ilharga do principe! O caso
espalhado por toda a cidade pelo Mozgliakov! E todavia, é indispensável
guardar segredo... Maria Alexandrovna, n'um relance, tudo calculou, a
tudo preveniu, e urde um plano para aplacar o Mozgliakov.

--Que tem, meu amigo? diz estendendo-lhe a mão, cordial.

--Como _meu amigo_! exclama o outro furibundo. E depois de tudo isto;
meu amigo! _Morgen Früh_[11], minha senhora. Metteu-se-lhe então em
cabeça embaçar-me outra vez?

--Sinto, devéras, acredite, sinto immenso vêl-o em um estado de espirito
tão estranho, Pavel Alexandrovitch. Que linguagem! Nem sequer méde as
palavras em presença de uma senhora!

--Em presença de uma senhora!... Será quanto quiser... menos uma
senhora.

(Ignoro o que é que elle queria dizer, mas, com certeza, devia de ser um
qualquer ultrage, de esmagar.) Maria Alexandrovna com os olhos n'elle e
um risinho de commiseração:

--Sente-se, diz, com tristeza, apontando para a cadeira na qual, um
quarto de hora antes, estivéra sentado o principe.

--Mas no fim de contas, não me dirá, Maria Alexandrovna?... exclama
Mozgliakov, desnorteado. Está-me tratando como se a senhora estivesse
innocente e fosse eu o culpado! Não pode ser!... Vae muito além dos
limites! É abusar da paciencia... de todo... digo-lh'isto!

--Meu amigo... responde Maria Alexandrovna--e deixe-me dar-lhe ainda
este titulo, pois neste mundo não terá melhor amiga...--o senhor está
afflicto, excitado, ferido no coração, e devo pois relevar-lhe
semelhantes desmandos de linguagem. Pois bem, vou abrir-me com o senhor.
Tanto mais que eu, até certo ponto, não deixo de ter culpas para com o
senhor. Sente-se, pois, e conversemos. A voz de Maria Alexandrovna
assumiu o auge da meiguice, é compungida a sua expressão phisionomica.

Senta-se Mozgliakov.

--Esteve escutando á porta, diz ella com uns modos de exprobação e de
indulgencia, ao mesmo tempo.

--Escutei, sim! E por que não? Nem que eu fôra um asno!... Se quer ao
menos fiquei sabendo o que andava a maquinar contra mim, responde
Mozgliakov, haurindo valôr da propria colera.

--E resolver-se a senhora, com a sua educação, as suas maneiras, a
representar semelhante papel! Santo Deus! Mozgliakov está aos pulos na
cadeira.

--Maria Alexandrovna, não posso ouvir-lhe uma palavra mais! Melhor será
que se lembre do que está fazendo, a despeito da sua educação e das suas
maneiras, e diga-me se lhe assiste o direito de accusar a outrem!

--Ainda uma pergunta, prosegue ella sem responder. Quem foi que lhe
suggeriu a ideia de escutar á porta? Quem será que anda por aqui a
espiar-me os passos? É isso o que eu não se me dava de saber!

--Lá quanto a isso, tenha paciencia, não serei eu quem lh'o diga.

--Muito bem, eu tratarei de o saber... Dizia eu, pois, Pavel, que não
deixo de ter culpas para com o senhor, mas, se é que póde julgar-me com
conhecimento de causa, verá que se tenho alguma culpa é a de lhe querer
bem em demasia.

--Com que então, quer-me bem?--Esta a caçoar commigo, e certifico-lhe
que não torna a enganar-me; serei muito creança mas nunca até esse
ponto!

E elle, n'um sarilho na poltrona, e a poltrona a tremer.

--Por quem é, meu amigo, socegue se é possivel, escute com attenção, e
verá que ha de concordar commigo. Eu, a principio, tencionava contar-lhe
tudo, pôl-o em dia com tudo sem que se lhe tornasse necessario
aviltar-se ao ponto de escutar ás portas. Se o não fiz, foi unicamente
porque o negocio se achava ainda em estado de projecto e podia
mallograr-se. Bem vê a franqueza de que uso para com o senhor. E, acima
de tudo mais, não se volte contra minha filha, que de nada tem culpa. É
doida pelo senhor, e custou-me os olhos da cara arrancar-lh'a ao senhor
e persuadil-a a acceitar o offerecimento do principe.

--E eu, que com os meus proprios ouvidos, ouvi,--n'este instante, provas
d'esse tal louco affecto, replica ironico Mozgliakov.

--Muito bem! Mas em que termos se lhe dirigiria o senhor? É assim que se
expressa um namorado? Será essa a linguagem propria de um homem de fino
trato? Offendeu-a, irritou-a.

--Como se fosse questão de fino trato, Maria Alexandrovna! Esta manhã,
ambas me faziam boa cara, mas assim que eu saí e mais o principe,
puzéram-me pelas ruas da amargura.--Estou sciente de tudo... tudo.

--Bebido da mesma fonte ignobil, provavelmente, observou Maria
Alexandrovna com risinho de desdem. É verdade, Pavel Alexandrovitch,
púl-o pelas ruas da amargura e, confesso, Deus sabe quanto me custou.
Quanto não tive eu que luctar com os proprios sentimentos! Mas bastará o
facto de eu me ver na necessidade de o calumniar para lhe provar a
difficuldade que eu encontraria em obter d'ella que desistisse do
senhor! É possivel que não veja um palmo adeante do nariz? Se ella lhe
não tivesse amor, eu teria alguma necessidade de appellar para
calumnias? E ainda o senhor não sabe o melhor! Tive que valer-me da
minha maternal auctoridade para lh'o arrancar a ella do coração! Em
conclusão, depois de esforços inauditos, consegui alcançar uns arremedos
de consentimento... E visto que esteve á escuta, não deixaria de notar
que ella não me ajudou em presença do principe com uma palavra, sequer,
ou com um gesto. Cantou para alli como um automato; em visiveis
afflições toda ella, e foi por ter dó d'ella, que eu carreguei com o
principe. Tenho a certeza, até, de que se pôz a chorar, assim que se
apanhou sósinha. O senhor bem viu, quando entrou... Mozgliakov
recorda-se de que effectivamente a Zina estava a chorar quando elle
entrou.

--Mas a senhora, a senhora, por que é que está assim tão contra mim,
Maria Alexandrovna? Por que é que me foi calumniar segundo é a propria a
affirmál-o.

--Ora, isso agora é outro negocio; e se o senhor m'o tivesse perguntado
em termos logo ao principio, ha muito tempo que lhe teria dado resposta.
Sim, tem razão, fui eu que fiz tudo, eu, sósinha: não esteja a accusar a
Zina. Por que foi que o fiz? E eu respondo-lhe: primeiramente, por
interesse da Zina. O principe é rico, representante de nobilississima
casa, tem relações, e casando com elle a Zina faz um optimo casamento.
Emfim, se elle morrer, o que não poderá tardar muito, pois todos nós,
mais ou menos, somos mortaes,--n'esse caso, a Zina, nova e viuva,
pertencendo á alta sociedade, fica riquissima e casa com quem quizer.
Ora, está claro que irá casar com o homem a quem ama, e que foi o
primeiro a quem teve amor, e cujo coração terá martirizado casando com o
principe. E bastará o arrependimento... O acto que terá mais a peito
será o de remediar a propria falta.

--Hum! rosna Mozgliakov pensativo, a contemplar os bicos das botas.

--Em segundo logar... mas serei breve a semelhante respeito, é possivel
que me não comprehendesse. O senhor só o que sabe é ler o tal seu
Shakspeare, fonte aonde exclusivamente vae beber os seus nobres
sentimentos; e d'ahi, o senhor está tão moço! Eu, comtudo, sou mãe,
Pavel Alexandrovitch. Caso a Zina com o principe um tanto por causa
d'elle tambem, visto que para elle o casamento pode representar a
salvação! Ha tanto tempo que voto amizade áquelle honradissimo ancião,
tão bondoso, cavalheiresco! Quero arrancál-o ás garras d'aquella
infernal creatura que ha de pregar com elle na cova!... Invoco a Deus
por testemunha em como foi patenteando á Zina todo o alcance do heroismo
da sua dedicação que eu pude convencêl-a.

Arrastou-a o irresistivel prestigio da abnegação. Ella propria tem o que
quer que seja de cavalheiresco. Submetti-lhe o meu projecto sob colôr de
um acto christão. Vaes ser, lhe disse eu, o amparo, a consolação, a
amiga, a filha, a beldade, o idolo de um homem que talvez que nem um
anno tenha de vida. Mas sequer ao menos, extinguir-se-ha no dôce calôr
do amor. Estes seus ultimos dias parecer-lhe-hão um paraiso. Onde é que
vê n'isto egoismo, Pavel? Não! e não! É um acto de irmã de caridade.

--A senhora, então, procede desse modo, por amizade para com o
principe... á laia de irmã de caridade? commenta o ironico Mozgliakov.

--Comprehendo essa sua pergunta, Pavel Alexandrovitch, é clarissima.
Suppõe que estou fazendo uma confusão jesuitica dos interesses do
principe com os meus. Pois bem, é possivel que me tivesse atravessado
pela mente semelhante calculo, inconscientemente, porém, e sem
resquicios de jesuitismo. Espanta-o esta minha franqueza? Peço-lhe
apenas uma mercê, Pavel Alexandrovitch: não involva a Zina n'este
negocio! Está pura que nem uma pomba. Não calcula; sabe apenas amar,
pobre pequena! Se houve alguem que calculasse, esse alguem fui eu, e só
eu! Indague, porém, sinceramente da sua consciencia e diga-me quem seria
que no meu logar não haveria calculado? Calculamos os nossos interesses,
as nossas mais generosas acções, até, sem darmos por isso,
instinctivamente. Pois; se enganam, quantos alarmam que procedem movidos
por pura nobreza de alma. Eu, porém, não quero enganál-o. Confesso que
calculei. Mas, sempre quero que me diga, seria levando em vista o meu
interesse pessoal? A mim, Pavel Alexandrovitch, que mais me será
preciso? Vivi o meu seculo[12], calculei para bem d'ella, do meu anjo,
da minha filha: e qual será a mãe que m'o lance em rosto?

As lagrimas inundavam o rosto de Maria Alexandrovna.

Pavel Alexandrovitch tem escutado com pasmo semelhante confissão:
latejam-lhe as palpebras, esforça-se por comprehender.

--Qual seria a mãe, sim! diga lá!... pergunta elle, em conclusão.

Mas cae em si, acto continuo, e:

--Canta lindamente, Maria Alexandrovna, mas tinha-me dado a sua palavra,
tinha-me alentado a esperança... Como posso eu supportar semelhante
coisa? Terei que engulir a propria vergonha!

--E acredita talvez que não pensei no senhor, meu querido Pavel? Pelo
contrario, em todos os meus calculos, o senhor tinha a sua parte. Ouso
dizer, até, que foi por sua causa que eu emprehendi este negocio.

--Por minha causa! exclama Mozgliakov, desnorteado, d'esta vez. Como
assim?!

--Meu Deus! Como é que se pode ser tão simples, ter vistas tão
limitadas! exclama Maria Alexandrovna erguendo as mãos ao ceu. Esta
mocidade! O tal Shakspeare! E ahi tem o que elle lhe arranjou, aquelle
sonhador, aquelle phantasista! Viver da intelligencia e dos pensamentos
alheios! E o senhor a perguntar--_meu bom Pavel Alexandrovitch_, qual é
n'este caso o seu interesse. Para maior clareza, consinta-me uma leve
digressão. A Zina ama-o, é incontestavel Mas tenho notado que, a
despeito do seu manifesto amor, o caracter de Pavel Alexandrovitch, as
suas aspirações lhe tem incutido uma tal ou qual desconfiança. Por
vezes, e como que de caso pensado, contêm-se, é fria para com o senhor.
Eis o resultado das reflexões que a levaram a desconfiar. Pois não
reparou tambem n'isto que lhe estou dizendo, Pavel Alexandrovitch?

--Reparei, sim, hoje ainda. Mas que quer dizer com isso, Maria
Alexandrovna?

--Bem vê, o senhor foi o proprio a reparar n'isso: logo, não me enganei.
E acima de tudo, foi a estabilidade do seu caracter, a sua constancia o
que mais duvidas lhe incutiu. Sou mãe, e não havia de conhecer o coração
de minha filha! Ora imagine agora que, em vez de entrar aqui com
exprobações, e até com injurias, em vez de a irritar, de a offender, de
a melindrar, a ella tão bella, tão pura e soberba, e por esse facto, a
despeito ainda da sua vontade, ir tornar-lhe mais firme a desconfiança
com respeito ás suas inconstancias; supponha que acceitava com brandura
a noticia, com lagrimas de magua, com desespero, até, mas com
dignidade...

--Hum!

--Mau! Não me interrompa. Pavel Alexandrovitch. Quero expôr-lhe um
quadro que possa ferir-lhe a imaginação. Ora imagine que ia ter com ella
e lhe dizia: "Zina, amo-te mais que a propria vida, mas afastam-nos umas
razões de familia. Comprehendo essas razões: trata-se da tua ventura e
não me atrevo a insurgir-me contra ella. Perdôo-te, Zinaida; sê feliz se
puderes!" E dito isto, lhe lançava uns olhos, uns olhos de cordeiro nas
vascas da agonia, se me é licita a expressão. Ponha tudo isto na sua
ideia e calcule o effeito que haveria produzido uma scena assim no
coração della!

--Pois sim, Maria Alexandrovna, supponhamos tudo isso--É certo que eu
podia ter me expressado d'esse modo... mas nem por isso deixaria de
voltar pelo mesmo caminho com um não pelas ventas.

--Não, não, e não, meu amigo. Não me interrompa! Quero acabar de
pintar-lhe o quadro para que no animo lhe produza uma impressão nobre e
completa. Imagine, pois, que a vinha a encontrar; d'ahi a tempos, na
alta sociedade, num baile illuminado _à giorno_, ao som de uma musica
enebriante, no meio de um sem numero de beldades, e, no melhor da festa
tão deslumbrante, o senhor, para alli, sósinho e triste, a scismar,
pállido, encostado para alli, algures, a uma columna, mas de modo a dar
nas vistas; o senhor a seguil-a com os olhos na vertigem da dansa; ao pé
do senhor a vibrarem os divinos accordes de Strauss. Fuzila por todos os
lados nas conversas o espirito da alta sociedade; e o senhor sósinho,
enfiado, melancholico, immerso na propria paixão.

Considere--em que estado ficará a Zina quando o vir! E com que olhos o
não ha de ella contemplar! "E eu," pensará ella, "que duvidei d'aquelle
homem! Tudo me sacrificou! Despedaçou o proprio coração por minha
causa!" Certamente, o seu amor de outr'óra resuscitar-lhe-hia lá dentro
com força irresistivel.

Deteve-se Maria Alexandrovna para cobrar alento. Mozgliakov a barafustar
na cadeira, que por pouco não estoira de todo. Maria Alexandrovna
prosegue:

--A Zina, por causa da saude do principe, parte para o estrangeiro, para
Italia ou para Hespanha, o paiz das murtas, dos limoeiros, do azulino céu
do Guadalquivir, o país do amor, o país onde se não pode viver sem amar,
onde as rosas e os beijos adejam por assim dizer no ar. E o senhor vae
atrás d'ella, compromette a sua situação, as suas relações, tudo!... E
principia então o seu romance de amor: amor, mocidade, Hespanha... Deus
meu!... É certo que será platonico o seu amor, puro... mas o senhor... em
summa, enlanguescem a contemplarem-se um ao outro... Espero que me haverá
comprehendido, meu amigo?--Não faltarão, por lá, entes soêzes, vis,
miseraveis para affirmar que não foi a lembrança do seu parentesco com o
velho que o arrastou ao estrangeiro. Muito de proposito me referi ao
platonismo do seu amor; não ignoro que haverá quem lhe atribua differente
significação.

Mas sou mãe, Pavel Alexandrovitch e seria incapaz de o impellir para mau
caminho!... É claro que o principe os não poderá vigiar a ambos; isso
que importa, comtudo? Poder-se-ha fundar n'isso semelhante accusação?

Até que por fim, morre o principe abençoando o proprio destino. Ora
diga-me quem é que depois ha de casar com a Zina, a não ser o senhor? É
parente tão afastado do principe que o parentesco nunca poderia
representar um impedimento ao consorcio. Acceita-a, joven, rica,
princêsa, e em que ensejo? Quando os mais nobres senhores se poderiam
ufanar da sua alliança! Por causa d'ella, entra na mais alta sociedade;
obtêm um posto de summa importancia, promoções. Diz o senhor que dispõe
de cento e cincoenta almas? Mas depois será rico. O principe não deixará
de fazer um testamento nos termos, por isso lhe respondo eu. E em
conclusão, o principal, é o ella estar segura dos seus sentimentos e o
senhor vir a ser para ella um heroe pela virtude e pela abnegação. E
ainda me pergunta, onde vae n'isto o seu interesse? Tem-n'o deante dos
olhos, a contemplál-o, a rir-se para o senhor, e a dizer-lhe: "Aqui me
tens!" Ora vamos, Pavel Alexandrovitch!...

--Maria Alexandrovna! exclama Pavel Alexandrovitch, a tudo fiquei
percebendo, agora! Portei-me como homem grosseiro, vil, reles!...

Levanta-se com vivacidade e puxa pelos cabellos ás mancheias.

--E como homem inconsiderado, accrescenta Maria Alexandrovna,
inconsiderado, eis o que o senhor é!

--Sou um asno, Maria Alexandrovna! exclamou com desespero o môço. E
agora, está tudo perdido! E eu que a amava com loucura!

--É possivel que não esteja tudo perdido, declara Madame Moskalieva,
baixinho, como quem está reflectindo.

--Ah! se fosse possivel! Ajude-me! aconselhe-me! Valha-me! E pôs-se a
chorar o Mozgliakov.

--Meu amigo, diz em apiedada voz Maria Alexandrovna e estende-lhe a
mão,--praticou esse seu acto no ardor do seu affecto, estava exasperado,
nem sequer tinha consciencia do que fazia. E ella não deixará de o
avaliar.

--Amo-a com loucura e estou prompto a sacrificar-lhe seja o que for!
clama o Mozgliakov.

--Ora escute, justifica-lo-hei aos olhos d'ella.

--Maria Alexandrovna!

--Sim, fica tudo por minha conta: collocál-os-hei em presença um do
outro. E o senhor diz-lhe tudo tal qual eu acabo de lh'o dizer.

--Ah! meu Deus! Que bondade a sua, Maria Alexandrovna!... Mas... não
seria possivel procedermos a isso desde já?

--Deus nos defenda! Sempre é muito estouvado, meu amigo! Ella, então,
que é tão soberba! Ia tomar isso como uma nova insolencia, um ultraje,
até! Eu arranjarei tudo, e não ha de passar d'amanhã; agora, comtudo, vá
se embora, vá até casa do tal negociante, ou para onde lhe apetecer...
Ou, se, antes quer, volte esta noite, mas não serei eu que lh'o
aconselhe.

--Vou m'embora! vou m'embora!

Meu Deus! Resuscitou-me! Mas uma pergunta, ainda: e se o principe não
morre tão cedo?

--Valha-nos Deus! Sempre é muito ingenuo, meu caro Pavel! O senhor o que
deve é rogar a Deus que conserve os dias d'aquelle vélhito, todo elle
bondade, carinho, cavalheirismo! Devemos desejar-lhe longa vida, de todo
o coração! E eu serei a primeira; noite e dia, com lagrimas, a rezar
pela ventura de minha filha! Mas, ai de mim! A saude do principe,
coitado, quer me parecer que está muito abalada! E demais, elle não
deixará de fazer a sua visita á capital, de levar a Zina aos bailes, e
receio muito, muito, acredite, que isso concorra a dar cabo d'elle!
Orêmos, porém, meu caro Pavel, e quanto ao mais, entreguêmo-nos nas mãos
de Deus! Espére, arme-se de paciencia, seja viril, e viril, acima de
tudo! Nunca puz em duvida a nobreza dos seus sentimentos... Aperta-lhe
com força as mãos, e o Mozgliakov sáe do aposento em bicos de pés.

--Até que em fim! Vi-me livre de um imbecil! diz com ares de triumpho. E
agora vamos aos outros... Abre-se a porta e entra por ali dentro a Zina.
Vem mais pallida do usual; fulgem-lhe os olhos com febril clarão.

--Mamã, veja se acaba com isto, que eu estou, que já nem posso mais; é
tão nojento tudo isto que me vem tentações de fugir por ahi fora. Não me
faça padecer por muito mais tempo, não me irrite! Este lodaçal causa-me
engulho, entendeu?

--Zina, que tens tu, meu anjo?... Estiveste escutando á porta! exclama
Maria Alexandrovna olhando de fito para a filha.

--Escutei, é verdade.--Veja se m'o quer lançar em rosto, como o fez
aquelle imbecil? Juro-lhe que se porfiar em obrigar-me a representar
semelhante papel em tão vergonhosa comedia, renuncío a tudo, e acabo com
tudo, com uma só palavra. Não ha duvida que me resolvi a prestar-me á
principal vilania, mas foi por me não conhecer a mim mesma; atabáfo com
semelhante vergonha!

E sae atirando com a porta.

Maria Alexandrovna segue-a com a vista e fica a scismar.

"É andar ligeira, depressa! É de si que depende tudo, e em si que
consiste o maior perigo, e se esses miseraveis porfiarem em se colligar
contra nós, se principiam para ahi a dar á lingua, tudo está perdido! E
ella não poderá resistir contra tantas arrelias e acabará por
entregar-se mediante uma rejeição. Custe o que custar e sem demora, urge
carregar para o campo com o principe. Prego commigo lá, n'um pulo, e
carrégo com aquelle estafermo do senhor meu esposo para aqui. Sequer ao
menos sirva para alguma coisa! E assim que o outro accordar,
safamo-nos."

Toca a campainha.

--E então! a parêlha? pergunta ao creado que entra.

--Está prompta, ha que tempos, responde o criado.

(Maria Alexandrovna mandou pôr o trem no acto de acompanhar o principe
ao quarto d'este.)

Veste-se á pressa e corre ao quarto da Zina para lhe transmitir o seu
plano e dar-lhe as devidas instrucções. A Zina, comtudo, nem lhe quer
dar ouvidos, debruçada no leito com o rosto enterrado no travesseiro
ensopado de lagrimas; a arrancar com as niveas mãos os compridos
cabellos; tem os braços nus até ao cotovêlo. Saccóde-a, a revézes, um
estremeção. A mãe dirige-lhe a palavra, sem que a Zina consinta em
erguer a cabeça.

Maria Alexandrovna insiste por instantes, depois, sae, inquietissima.
Sobe para a carruagem e recommenda que espertem a parelha.

"O peor de tudo", vae ruminando comsigo, "é a Zina ter ouvido a conversa
que eu tive com o Mozgliakov. Empreguei com ella e com elle quasi que os
mesmos argumentos; ella é orgulhosa e offender-se-hia, talvez... Hum! o
que a tudo sobreleva, é a necessidade de por mãos á obra, antes de que
conste seja o que fôr! Que desgraça! E se eu, para mais ajuda, não fosse
encontrar em casa aquelle meu imbecil?!"

Ante esta hypothese, enraivece-se, toma-se de um rancor que nada
vaticina de bom para Aphanassi Matveich. E Maria Alexandrovna
impaciente, a esfervilhar!

Os cavallos despedem a galope.



X


A carruagem não corre, vôa.

Dissémos que, n'aquella mesma manhã, emquanto ella andava em procura do
principe, por todos os cantos da cidade, já havia accudido á mente de
Maria Alexandrovna um alvitre genial: era o confiscar por sua vez o
principe quanto antes, e pregar com elle no campo;--n'aquella aldeia
onde floria em paz o beatifico Aphanassi Matveich. Ia pois realizar
aquella sua inspiração. Mas não encubramos ao leitor que principiava a
sentir-se atribulada por uma inquietação inexplicavel. Aos proprios
heroes acontece outro tanto, e no ensejo, justamente, em que estão
prestes a atingir seus fins. Advertia-a um qualquer instincto de que
havia perigo na permanencia em Mordassov.

"Uma vez no campo, vire-se tudo isto pés, com cabeça, que a mim tanto se
me dá!"

É certo, que ainda no proprio campo, não ha tempo para perder: tudo
poderá acontecer, tudo... E n'essa conformidade, Maria Alexandrovna
acha-se resolvida a concluir immediatamente o consorcio. O cura da
aldeia procederá á ceremonia na propria residencia. D'alli a dois dias,
no outro dia, talvez, em caso de urgencia. Quantos casamentos se não tem
visto, aldravados para alli em duas horas! Quanto ao principe, é levál-o
a acceitar como necessidade de bom sizo uma tal precipitação, semelhante
ausencia de toda e qualquer festa. "Será mais decente e mais nobre"...
Poder-se-hia até seduzil-o pelo lado romanesco do negocio e fazer-lhe
vibrar assim a fibra sentimental do coração. Enebriál-o-ha, se tanto fôr
necessario, mantêl-o-ha n'aquelle estado de embriaguez, e a Zina ha de
ser princêsa.

Se houver algum escandalo lá por Petersburgo ou por Moscou entre a
parentéla do principe, consolações não hão de faltar. Em primeiro logar,
são coisas que ainda estão para vir; em segundo, Maria Alexandrovna está
convencida de que, na alta sociedade, nada se faz sem escandalo, e muito
mais tratando-se de casamento: que é estilo. Mas os escandalos da alta
sociedade, a seu ver, tem uma côr mui particular de grandiosidade, no
genero do _Monte-Christo_ e das _Memorias do Diabo_. Finalmente, a Zina
bastar-lhe-ha mostrar-se, e a mãe ajudál-a com seus conselhos, e toda a
gente ficará desarmada, acto-continuo, entre todas aquellas condessas e
princêsas, não havendo uma só que seja capaz de resistir á mordassoviana
habilidade de Maria Alexandrovna, sósinha contra todas ellas juntas ou
contra cada uma em particular.

E é animada por semelhante pensamento que Maria Alexandrovna vem ter com
Aphanassi Matveich o qual lhe é necessario, segundo seus planos.

Effectivamente, levar o principe para o campo é levál-o para casa de
Aphanassi Matveich com quem o principe é possivel não se dar lá muito de
travar conhecimento: mas se Aphanassi Matveich fôr o proprio a
convidál-o, o caso muda de figura. E demais, a apparição de um chefe de
familia, de edade veneranda, de gravata branca, casaca, chapeu na mão,
acorrendo expressamente das suas propriedades, á noticia de que se acha
em Mordassov o principe K... é caso para produzir optimo effeito no amor
proprio d'aquelle ginjinha.

Até que por fim, havendo tragádo três verstas a carruagem, o cocheiro
Safron pára junto ao patim de um comprido edificio com um unico andar,
casarão de madeira, com uma extensa fieira de janélas, e envolto n'umas
tilias venerandas. É a residencia estável de Maria Alexandrovna.

Já se acham illuminadas as janélas.

--Onde está o manequim? clama Maria Alexandrovna caíndo como uma
trovoada, no vestibulo. Que faz aqui esta toalha? Ah! estava aborrecido,
e ainda não saiu do banho! E sempre n'aquelle fadario do chá! E então!
Para que estarás tu para ahi a esbogalhar esses olhos, meu idiota
incuravel? Por que é que se não corta esse cabello?!

Grichka! Grichka! Por que é que não cortaste o cabello ao _barine_
conforme te dei ordem, a semana passada?

Maria Alexandrovna premeditára operar em casa de Aphanassi Matveich uma
entrada menos violenta. Mas ao vêl-o entretido a sorver o seu cházinho,
com toda a sua pachorra, não foi senhora de sopitar a indignação. Para
ella, tamanhos cuidados, e para elle, para aquelle ente inutil, aquella
paz podre! Semelhante contraste chóca de modo cruel Maria Alexandrovna.
E todavia, o manequim, ou para nos expressarmos com mais urbanidade,
aquelle a quem applicam o ápodo, está sentado em frente do samovár;
inerte, bôcca e olhos escancarados, petrificado, quasi, pela apparição
da consorte. O adormecido vulto do Grichka assoma ao vestibulo. O
Grichka tosqueneja os olhos durante toda esta scena.

--Se elle não deixa... E ahi esta porque é que o não fiz, profere em voz
encatarroada e socarrôna. Peguei na tesoira para ahi umas dez vezes, e a
dizer-lhe: A _barinia_ não tarda por ahi e apanhamos ambos a nossa
conta!--E vae elle e diz-me:--Não--espera ahi: quéro que me frizes no
domingo; e é preciso para isso que o cabello tenha comprimento.

--Muito me contas: Com que então elle, friza-se? Inventaste então essa
obra dos frizados, assim que eu virei costas?

Que termos são esses? Cuidas talvez que embellezas assim essa tua cabeça
de idiota? Santo Deus! Que desordem que por aqui vae! E que cheiro! Não
me dirás, miseravel, d'onde provém semelhante cheiro? vociféra a
consorte a crescer de mais em mais ameaçadora para o innocente e
assarapantado de todo Aphanassi Matveich.

--Ah... mi-minha mãezinha, balbucía o esposo sem se erguer e desfechando
sobre o seu generalissimo uns olhos assustados e suplices, mi... mi...
minha mãezi...

--Quantas vezes não tenho eu tentado encaixar-te n'essa cabeça de burro
que não sou tua mãezinha, pedaço de pygmeu? Como te atreves a tratar por
semelhante nome uma senhora nobre cujo logar é na alta sociedade, e não
ao pé de um aguadeiro da tua laia?

--Mas, Maria Alexandrovna, tu com tudo isso não deixas de ser minha
mulher em face das leis! e eu... estou-te falando... na qualidade de
marido! Objecta Aphanassi Matveich, levando a um tempo a mão aos
cabellos para os defender.

--Ah! Carranca! Cêpo! Se já se viu! Mulher d'elle em face das leis!...
Que quererá dizer uma mulher em face das leis? Haverá na alta sociedade
alguem que empregue semelhante termo de seminarista:--em face das
leis?--E quem te deu o atrevimento de me recordares que sou tua mulher,
a mim que faço quanto posso para o esquecer? E para que estavas tu a
tapar a cabeça com as mãos?

Olhem para este cabello! Todo encharcado! Não está enxuto estas tres
horas mais chegadas! Como hei de eu carregar com elle? Haverá meio de o
arrancar d'aqui?--Que hei de eu fazer? Maria Alexandrovna péga ás
carreiras pela casa fóra, a estorcegar as mãos. A desgraça é nulla e
facil de remediar, não ha duvida, mas se ella não pode ter mão n'aquelle
seu genio imperial, impaciente em presença do minimo impecilho! Sente
que precisa de desabafar a colera na pessoa de Aphanassi Matveich, visto
como a sua habitual tirannia desandou para si em necessidade. E depois,
toda a gente sabe o acervo de inopinadas grosserias de que são capazes,
longe das vistas dos mirones, uns certos entes delicados e pechósos da
sociedade mais graúda. Aphanassi Matveich, estupido e tremelica, cança a
vista a seguir com os olhos as evoluções todas da consorte.

--Grichka, exclama esta por fim, traze já, já, ao _barine_ tudo que é
preciso para se vestir de ceremonia, calça, casaca, gravata e colete,
brancos. Vá, despacha!

Onde iria parar a escova do cabello?

--Mas se eu acabo de sair do banho, minha mãezinha, vou apanhar algum
resfriamento...

--Qual historia!...

--Estou com a cabeça encharcada!...

--Ênxuga-se. Grichka, escova o cabello ao _barine_, até que enxugue. Com
mais força... mais... ainda mais... Assim!

O fiel e zeloso Grichka esfréga, com quanta força tem, o seu _barine_ a
quem, para mais commodidade, agarrou pelo cachaço, encostando-o para
trás no divan.

Aphanassi Matveich por pouco não desata a chorar.

--E agora, em pé!... Vê se o levantas, Grichka, dá cá a pomada...

--Vá, abaixas-te ou não, miseravel!

Abaixa-te, já te disse, meu papa jantares.

Maria Alexandrovna com as proprias mãos besunta a grenha ao marido,
puxando sem dó nem consciencia pelos cabellos, bastos e grisalhos que
elle, por sua desgraça, não deixou cortar. Aphanassi Matveich põe-se a
gemer, a suspirar e aguenta, Deus sabe como, semelhante provação.

--Miseravel! Foste tu que murchaste as flores da minha mocidade!...
Abaixa mais essa cabeça, não ouves! Abaixa-te!

--Mas como é que eu murchei as tuas flores, minha mãezinha? regouga o
esposo de bruços no divan.

--Manequim! Nem sequer percebeste a allegoria! Agora vê se te penteias.

--Grichka, veste-o depressa, anda!

A nossa heroina senta-se n'uma poltrona a vigiar com olhos de inquisidor
a ceremonia indumentaria.

Aphanassi Matveich lá conseguiu tomar folego, e, quando se chegou ao
laço da gravata, afoita-se a ponto de emittir opiniões ácêrca do feitio
e da perfeição da laçada. Em conclusão, assim que envergou a casaca, a
distincta personagem tem reconquistado de todo o aprumo e pega a
rever-se ao espelho com manifesto desvanecimento.

--Mas para onde é que tu me levas, Maria Alexandrovna? indága, a fazer
moquenquices á propria imagem.

Maria Alexandrovna hesita em acreditar n'aquillo que ouviu.

--Não ouvem isto? Ora o manequim! E como te atreves tu a perguntar-me
para onde é que eu te lévo?

--Mas já se vê que o devo de saber, minha mãezinha.

--Caluda! Torna-me tu a tratar de mãezinha, e muito mais no sitio aonde
vamos, e ficas sem chá um mês inteiro.

O marido, espavorido, nem bole sequer.

--Se já se viu? Nem sequer conseguiu apanhar a mais réles condecoração?

Colherão de marmita!--exclama ao contemplar com desprezo a casaca do
marido, casaca virgem de toda e qualquer insignia.

Até que por fim, Aphanassi Matveich sente-se melindrado.

--Eu não sou colherão de marmita, sou conselheiro, minha mãezinha,
pondéra com assômo de nobre indignação.

--Quê--quê--quê?--A raciocinar, por mais que me digam! Ora o mujik, o
ranhoso! Tenho pêna de me faltar tempo para te ensaboar esse bestunto,
quando não... Mas não as perdes, deixa estar!... Grichka, dá-lhe o
chapéu e a _chuba_[13]. Assim que eu saír, arruma estes três quartos e o
quarto aberto. Vá, pega n'essa vassoira! tira as capas aos espelhos, aos
relogios e quero tudo prompto em menos de uma hora! E tu, tambem, veste
a casaca, e dá luvas aos criados! Ouviste, Grichka? Ouviste?

Sobem para a carruagem. Aphanassi Matveich está com uma cara espantada.
Maria Alexandrovna dá voltas ao miolo para lhe encasquetar na cabeça e
na memoria as recommendações mais essenciaes, elle, porém,
interrompe-lhe as suas cogitações.

--Maria Alexandrovna, eu esta noite tive um sonho tão exquisito, diz,
após breve silencio.

--Ápre! Manequim de uma figa! E eu que estava a pensar!... Como te
atreves tu a vir-me para cá com esses teus sonhos de mujik? Escuta, e
olha que t'o digo pela ultima vez, se te atreveres, hoje, a fazer a
minima allusão aos taes sonhos ou ao quer que seja,... toma sentido...
nem sei o que ha de ser de ti! Escuta bem: o principe K... está
hospedado em nossa casa. Lembras-te do principe K...

--Se lembro! minha mãezinha, lembro-me muito bem! E por que é que elle
nos dispensou tamanha honra?

--Cala-te, não é da tua conta! Tu, com a maxima amabilidade, e como dono
de casa, vaes convidál-o a vir comnosco para o campo. Partimos ainda
hoje. Mas se lhe disseres uma palavra só que seja, em toda a noite, ou
amanhã... ou no outro dia... ou em toda a roda do anno, mando-te guardar
gansos! Nem palavra! São essas as tuas funcções--e mais nada!
Intendeste?

--Mas se me fizerem perguntas?

--Não importa! Cálas-te.

--Pois sim, mas uma pessoa nem sempre pode ficar calado, Maria
Alexandrovna!

--Responde com monosylabos, um _hum!_... ou coisa que o valha, para que
fiquem na persuasão de que és homem espirituoso e que reflectes antes de
responder.

--Hum!...

--E atenta bem n'isto que te estou dizendo. Carrégo comtigo: ouviste
falar do principe, e acto-continuo, doido de contente, deste-te pressa
em vir apresentar-lhe os teus respeitos e convidál-o a ir para o campo.
Percebeste?

--Hum!

--Para que estás tu já a dizer: _hum!_ meu parvalhôco! Responde.

--Está bom, minha mãezinha, tudo se fará á medida dos teus desejos. Mas,
não me dirás por que é que eu tenho que o convidar?

--Quê, quê? pois ainda te mettes a raciocinar?! Que tens tu com isso? E
ainda te atreves a fazer-me perguntas?

--Mas... é que eu, por mais que faça não posso perceber como é que eu o
hei de convidar sem dizer palavra!

--Eu falarei por ti, e tu, fazes-lhe a tua cortesia, e mais nada,
percebeste?--De chapeu na mão...

--Percebi..., minha mãe... Maria Alexandrovna.

--O principe é espirituosissimo: diga elle o que disser, ainda quando se
não dirija á tua pessoa, responde-lhe a tudo com um sorriso bonacheirão
e alegre, percebeste?

--Hum!

--E elle a dar-lhe com o _hum!_ Vê se acabas com o tal _hum!_--a mim,
responde-me ao que eu te perguntar. Percebeste?

--Percebi, Maria Alexandrovna, percebi muito bem. E como é que eu não
havia de perceber? Mas estou a dizer _hum!_ para me ir exercitando. O
que tu queres é que eu me ponha a olhar para o principe, com um ar de
riso... mas quando elle não me vir?

--Forte espantalho! Forte idiota! Cala-te, cala-te, e cala-te! Olha e
sorri.

--Mas se elle é capaz de suppor que sou surdo!

--Olhem a desgraça! Sequer ao menos não ficará sabendo que és um
imbecil.

--Hum! E se mais alguem me fizer perguntas?

--Ninguem t'as faz, deixa estar! E demais, não estará lá ninguem. E se
por infelicidade, do que Deus nos defenda, apparecer alguem e te
perguntarem alguma coisa, responde desde logo com um sorriso sarcastico.
Sabes o que vem a ser um sorriso sarcastico?

--Uma careta muito espirituosa, pois não é verdade, minha mãezinha?

--Eu te darei o espirituoso, deixa estar, manequim! E quem é que te iria
suppor capaz de ter espirito, meu asneirão? Um risinho de escarneo,
percebeste? De escarneo e de desdem.

--Hum!

--Ai! Estou toda eu em suores frios por causa d'este estafermo! murmura
Maria Alexandrovna. Não ha mais que ver, acho que fez uma jura em como
me havia de murchar de todas as minhas flores! Teria sido muito melhor o
prescindir delle.

A raciocinar por esta forma, Maria Alexandrovna tudo é olhar pela
vidraça do trem e atiçar o cocheiro. Voam os cavallos, e ella a achar
que se não mexem. Aphanassi Matveich, alapardado a um canto, a repetir
mentalmente a lição. Até que emfim a carruagem alcança a casa de Maria
Alexandrovna! Mas ainda bem a nossa heroina não tinha posto pé no patim,
eis que vê passar ao lado do seu proprio trem um trenél coberto, de dois
assentos, o trenél da Anna Nikolaievna Antipova.--Vinham n'elle duas
senhoras. Uma dellas é a propria Anna Nikolaievna Antipova, a outra a
Natalia Dmitrievna, duas amigas sinceras e recentes. Maria Alexandrovna
olha para ellas, e o coração dá-lhe um báque. Ainda bem não abrira a
bocca para exclamar, eis que chega outra carruagem, com outra visitante.
Ouvem-se alegres exclamações.

--Maria Alexandrovna com o Aphanassi Matveich... ambos no mesmo trem!
Feliz coincidencia! E nós que vinhamos passar a noite em sua casa!
Agradabilissima surpreza!

As visitantes galgam a escada a pipilarem que nem andorinhas, Maria
Alexandrovna contempla-as, estupefacta.

--E não vos tragar o chão! diz, lá comsigo; cheira-me isto a conluio...
Pois sim!... vocês o que não tem é unhas para luctar commigo, minhas
amiguinhas!... Esperem um nadinha!...



XI


Mozgliakov saíu de casa de Maria Alexandrovna, consoladissimo. Não foi a
casa do Borodoniev, pois necessitava de estar sósinho. Sentia a cabeça
atravancada de romanescos devaneios. Phantaziava a explicação solemne
com a Zina, o generoso perdão, scena melancolica no baile, lá em
Petersburgo; Hespanha, o Guadalquivir, o principe no leito da agonia a
juntar nas proprias mãos as mãos dos dois amantes, e em conclusão, o
amor d'uma mulher tão formosa, vencido por tanto heroismo; por aqui e
por acolá, um ou outro favor de alguma baronêsa, ou condessa de alto
cothurno, n'aquella sociedade onde semelhante casamento lhe daria
certamente ingresso, um logar de vice-governador, dinheiro; n'uma
palavra, toda a eloquente descripção de Maria Alexandrovna. Mas, emfim,
como explicál-o?--Através de todos aquelles arrebatamentos eis lhe surge
o seguinte pensamento, algo desagradavel, que, em todo o caso, tudo
aquillo estava ainda em vêl-o-hemos, e no momento actual, elle, com o
que ficara, fôra com um nariz de palmo! De subito, nota que se alargou
demais pelo arrabalde menos central de Mordassov. Vem caíndo a noite.
Pelas ruas, ladeadas de pardieiros, ladram, como aliás succede em
toda e qualquer cidade provincial, aquelles innumeros cães que
infestam de preferencia os bairros em que nada ha que guardar ou
que roubar. Derrete-se a neve. De vez em quando, topa-se com algum
_mestchanine_ retardado, ou com qualquer _baba_[14] enfunicada n'uma
tulupa e a arrastar umas botifarras. Tudo aquillo principiava a irritar
a Pavel Alexandrovitch: mau signal, visto como, quando uma pessoa está
contente, a tudo acha risonho. Pavel Alexandrovitch lembra-se com
despeito de que, até aquelle dia, era elle quem dava o tom em Mordassov.
Era recebido por toda a parte como um noivo, uma situação tão
interessante, e felicitavam-n'o, e elle todo desvanecido. E eis que, de
subito, vinha a constar que se achava reformado; rir-se-hiam á sua custa
por toda a parte. E com tudo isso não é exequivel estar a iniciar toda a
gente ao segredo do tal baile de Petersburgo, da columna melancolica e
do Guadalquivir!

Triste e pensativo, acaba por formular este pensamento que secretamente
lhe faz sangrar o coração desde alguns instantes: "Mas tudo isto será
verdade, realmente? Virá tudo a acontecer conforme m'o pintou Maria
Alexandrovna?" Occorre-lhe, n'aquelle ensejo, exactamente, que Maria
Alexandrovna é mulher arteira quanto possivel; que, apezar da estima
geral que disfructa, é uma enredadeira de respeito, que mente com o
maximo desplante, que é possivel que tivesse motivos particulares para o
afastar; que, emfim, o descrever um quadro seductor não compromete a
coisa nenhuma. Pensa na Zina, revóca aquelle seu olhar de despedida tão
pouco compativel com um desatinado amor. Lembra-se de que uma hora antes
foi tratado por ella na qualidade de asno--sem tirar nem pôr. Ante uma
tal recordação, Pavel Alexandrovitch estaca de vez, como que pregado ao
chão, e ruboriza-se a ponto de lhe virem as lagrimas aos olhos. E como
que de proposito, d'ali a instantes, acontece um desagradavel incidente:
escorrega e estatéla-se num montão de neve... Emquanto elle escabuja e
patinha, um bando de canzoada, que vinham atrás d'elle a ladrar, accodem
por todos os lados; um d'elles, o mais pequeno e mais atrevido,
aferra-se-lhe á aba da chuba. Pavel Alexandrovitch desenvencilha-se
dando ao diabo a cainçada e o destino e, com a aba do casacão
esfarrapada e uma indefinivel tristeza na alma, lá se vae arrastando até
á esquina da rua. Ali, percebe que vae perdido.

É sabido que um homem, quando se acha perdido em um bairro que lhe é
extranho, e muito mais de noite, nunca se resolve a meter a direito por
uma rua larga. Impelle-o, mau grado seu, um poder misterioso para toda a
casta de betesgas que topa a geito. Em harmonia com este sistema, Pavel
Alexandrovitch perde-se de todo. "Diabos levem tanta chiméra!" exclama e
cospe com engulho. "Leve o diabo os sentimentos elevados e o tal
Guadalquivir!"

Não me abalanço a afiançar, que Mozgliakov n'aquelle ensejo apresentasse
aspecto por demais seductor. Até que emfim, extenuado, fatigado, em
seguida a haver andado a êsmo para cima de duas horas, alcança a
escadaria de Maria Alexandrovna. Fica espantado ao dar com os olhos em
tanta carruagem: "Tem visitas? Alguma _soirée_? Com que intenção?"

Informado por um lacaio de que Maria Alexandrovna tinha carregado com
Aphanassi Matveich do campo, de gravata branca, que o principe já está
acordado, mas que ainda não desceu do quarto, Pavel Alexandrovitch, sem
dizer palavra, vae lá acima ter com o tio. Acha-se n'aquella disposição
de animo em que um homem de caracter fraco se decide pela ideia de maior
malignidade, em favor da vingança, sem se lembrar de que virá talvez a
arrepender-se, durante toda a sua vida.

Sobe. Dá com os olhos no principe, sentado n'uma poltrona em frente do
seu toucador de viagem, com a caréca á vela, mas com a cara já rebocada
e com as suissas e a pêra postiça já pegadas. O chinó está entre mãos do
edoso criado particular, Ivan Pakhomitch. Ivan Pakhomitch está a
penteál-o com modo absorto e respeitoso. O principe apresenta aspecto
lamentavel. Não se acha ainda restabelecido d'aquella sua temulencia.
Enterrado na poltrona, a tosquenejar as palpebras, todo elle engelhado,
amarrotado, e a olhar para o Mozgliakov como se o não conhecesse.

--Como vae de saude, rico tiozinho? indaga Mozgliakov.

--Como? Ah! És tu? acaba por dizer o tio. Pois eu, manozinho, dormi a
minha somnéca. Ai! meu Deus! exclama de subito, animadissimo. E eu que
estou sem o chi... chi... n... nó!

--Não se assuste, tiozinho! Eu ajudo-o a pôl-o se quiser.

--Ora esta! E ahi estás tu senhor do meu segredo! Eu bem dizia que era
pr... preciso fe... fe... char a po... rta! Pois então, meu amigo, vaes já,
já, dar-me a tua palavra de honra que... que, não has-de abu... sar do meu
segredo, e que não dizes, a nin... guem que é po... pos... tiça a minha
cab... be... leira!

--Ora vamos, tiozinho, pois suppõe-me capaz de semelhante vilêza?
exclama Mozgliakov que deseja agradar ao ancião.

--Está, claro... está... c... laro, e como eu sei que és cavalheiro...
vá... la... vaes fi... car espantado: vou te des... vendar de todo os meus
se... segredos--Que me dizes a estes bi... bigodes--m... meu caro?

--Um portento, rico tio, espantosos! Como é que os pode conservar do
mesmo comprimento, por tanto tempo?

--Socéga, meu amigo... s... são postiços, diz o principe a olhar muito
ufano para Pavel Alexandrovitch.

--Postiços!?--É inacreditavel! E as suissas, então? Confesse que as
pinta, tiozinho!

--Não só as pin... into, como são postiças e mais que... que pos... tiças!

--Postiças! Isso agora, tenha paciencia, o tio está a caçoar commigo!

--Pa... lavra de honra, amigo! exclama o principe desvanecido. Ora põe na
tua ideia, que toda a gente... sem excepção--anda ill... udida, como tu. A
propria Stepanida Matveina não quer acreditar que o sejam, e olha que é
ella quem m'as põe. Mas tenho a certeza, meu amigo, de que me has de
guardar segredo--Dá-me a tua pa... palavra de honra...

--Conte desde já com ella, querido tio! Mas, insisto, suppõe-me então
capaz de semelhante vilania?

--Ai! meu amigo! Que tombo que eu apanhei! Não fazes ideia! O Pamphili,
tornou-me a virar a car... a carruagem.

--Pois elle tornou a pregar-lhe outro tombo? Mas quando?

--Iamos nós quasi a chegar ao... mo... mos... teiro...

--Já sabia, tiozinho!

--Não, não é isso... se ainda não ha duas horas. Fui ao mo... mosteiro.
Foi elle que me levou... e pregou-me um tombo! Que susto que... que eu
apanhei! Ainda nem tenho o co... coração no seu logar.

--Mas o tio estava a dormir?

--Está... c... laro... estava a dormir... E vae... d'ahi fui...
vi... viajar... E d'ahi... d'ahi... talvez fosse... Ah! que coisa tão
exquisita!...

--Afirmo-lhe que estava a dormir, tiozinho... que sonhou... Depois de
jantar ferrou-se a dormir muito socegado.

--De... devéras?!

O principe pós-se a scismar.

--Sim... sim... effec... tivamente, talvez fôsse. E d'ahi, lembro-me
muito bem do sonho... todo. Primeiramente, sonhei com um toiro muito
bravo... com uns páus!... Depois com um pró... ó... curador... mas tambem
tinha p... páus!

--Havia de ser o Nikolai Vassiliévitch Antipov, tiozinho.

--Está... claro... era elle... era... E depois tambem sonhei com
Na... napoleão... Bo... bo... naparte. Não sabes, amigo, diz toda a gente
que n... nos parecêmos?... De perfil... pelos modos... faço lembrar um
papa... muito antigo: Tu, que dizes?... Achas que te... terei ares de
papa?

--Acho que se parece mais a Napoleão.

--Está... c... laro... é assim... mesmo... de... de... frente. E d'ahi,
tambem d'isso estou conven... cido, meu caro. Vi-o em sonho, sentado lá
na sua ilha... Não sabes? A fô... legar... muito contente... muito
lam... peiro!... Que graça que... eu lhe achei!

--Refére-se a Napoleão, tiozinho? indaga Pavel Alexandrovitch, todo elle
absorto, a observál-o.

Principiava a surgir-lhe na mente um estranho pensamento, sem que elle
pudesse formulál-o com clareza.

--Está claro... Na... na... po... leão. Tivémos uma pa... palestra
filosó... fica... Não sabes? tenho pena de que os Inglezes lhe fizessem
aquillo que... que lhe fizeram... É verdade que se elles o não tivessem
en... gaiolado... atirava-se para ahi a to... toda a gente... aquelle
damnado! Mas com... apezar d'isso... foi pena!... Eu cá... por mim não
era capaz de o fazer! Prega... va com elle n'uma ilha deserta...

--Deserta... então para quê? perguntou, distrahido, Mozgliakov.

--Está... claro... De... deserta, não, mas habitada por gente com juizo.
E depois arranjava-lhe distracções... theatro, mu... musica...
ba... bailados e tu... tudo isso por conta do Estado. Dáva-lhe licença
para passear... vi... vigiado... já se vê... qu... quando não...
pi... pisgava-se... Elle gostava de uns certos bôlos... Pois bem!
faziam-se-lhe todos os dias... Tratava-o com pa... pater... nal carinho:
Elle... commigo... arre... pen... dia-se... di... digo... t'o eu.

Mozgliakov escuta distrahido a garrulice do vegête, a roer as unhas,
impaciente. Elle a querer desviar a conversa para o assunto do
casamento, e nem sequer sabe o motivo, mas referve-lhe lá dentro uma
maldade, infame. De subito, eis que exclama o tio, muito espantado:

--Ai! meu amigo! E eu que me esquecia de t'o par... parti... cipar...
Saberás que fiz ho... je o meu pe... pedido!

--O seu pedido, tiozinho?... exclama Mozgliakov animando-se
acto-continuo.

--Está... c... claro... o meu pedido! Já te vaes embora, Pakhomitch? Está
bem. É uma menina encanta... dora!... Mas confesso... amigo, que andei
com leviandade, estou-o per... cebendo agora... Ai! meu Deus!

--Mas, se me dá licença, querido tio, quando é que fez esse tal pedido!

--Confesso, que... não... sei ao certo, qu... ando foi, amiguinho!...
Querem ver que... seria sonho, tam... tam... bem?... Que co... isa t... tão
ex... quisita!

Mozgliakov estremece de contentamento... Accode-lhe uma ideia luminosa.

--Mas a quem, e quando é que fez o tal pedido? repete impaciente, já.

--Á... á... fi... lha da casa, meu amigo... áquella... lin... da me...
nina! E d'ahi... esqué... ceu... me o nome. O peor, meu amiguinho... é
que não posso casar,... impos... sivel, meu amigo! Que hei de eu fazer?

--Pois decerto... semelhante casamento iria deitál-o a perder! Mas, uma
pergunta: Tem a certeza de haver feito o pedido?

--Está... claro... tenho a certeza... tenho...

--E se fosse sonho, como aquella sua quéda da carruagem?

--Valha-me Deus!... E o c... caso é que é possivel... no tal sonho... E
o... peor é que e... eu já nem tenho cara para lhe apparecer... E não...
achas que se poderia saber... indi... recta... mente, se eu faria ou não
o tal pedido?

--Sabe o que lhe digo, querido tio? Que acho até escusado ir tirar
informações.

--E... por-quê?

--Por que tenho a certeza de que tudo foi sonho, tambem.

--Tambem... me quer... parecer... m... meu ca... ro, e tanto... m...
mais que eu estou sempre a ter sonhos... assim.

--Então já vê, tiozinho... Faça de conta que beberia mais um copito ao
almoço... ou ao jantar... e ahi tem...

--Está... claro... amigo... foi isso foi,... é o que havia de ser.

--Tanto mais, que o tio, por mais influido que estivesse, nunca se iria
arriscar a fazer um pedido tão disparatado. O tiozinho, desde que o
conheço, tive-o sempre na conta de um homem de muitissimo tino.

--Está... c... laro. Está... c... laro.

--Ora considére: ponha na sua ideia que os seus parentes, tão mal
dispostos já, para com o tio, vinham a ter conhecimento do caso, que
acontecia?

--Ai! meu Deus! exclama o assustadissimo principe... que acontecia?... é
verdade!

--Então, já vê! Punham-se a berrar todos á uma que estava doido, que era
preciso nomear-lhe tutôres, que o tinham embaçado, e catrafilavam-n'o
para ahi em qualquer parte, guardado á vista.

O Mozgliakov estava farto de saber que o argumento éra de molde a deixar
espavorido o principe.

--Ai! meu Deus! exclamou o jarrêta, todo elle a tremer...
engaiolavam-me?!

--Ora considére, tiozinho, passar-lhe-ia nunca pela cabeça o ir fazer um
pedido tão disparatado? O tio avalia muito bem os seus interesses!
Affirmo-lhe que foi sonho.

--So... nho, sim, é o que foi! So... nho... e mais nada! Ah! tu... é
que... que acertaste... com a coisa! E fico... te grato, muito grato...
por me teres con... vencido.

--E eu, contentissimo, tiozinho, por termos vindo á fala. Se não fosse
eu, o tio ficava acreditando que estava noivo, e procederia n'esse
sentido. Veja lá do que se livrou!

--Está c... laro... me... livrei... dizes bem!

--Lembre-se de que está com vinte três annos essa menina! Não ha quem a
queira, e eis se não quando, apparece o tio, rico, nobre e vae pedil-a
em casamento! E ellas, já se vê, apanham a pélla no ar: affirmam a toda
a gente que o tio está noivo e impingem-lh'a em casamento. E em seguida,
põem-se á espera de que o tio se vá indo desta para melhor.

--Que... me dizes!

--E depois, tiozinho... é lá coisa que convenha a um homem da sua
jerarchia...

--Está c... claro! Jerarchia...

--Tão intelligente... tão amável...

--Está... c... claro... intelligente... é is... so... é!

--E em conclusão, é principe... Será partido que lhe convenha,
porventura? Se é que, por qualquer motivo insiste em querer casar.
Lembre-se do que diriam os seus parentes.

--Ai, meu amigo, comiam-me em vida! Elles que já me não têm feito poucas
terrafi... as... aquelles des... almados! Ora imagina! Desconfio até
que... qué-rem pregar commigo n'uma casa... de... sa... saúde! Ora,
dize-me, achas que se... ja razoavel? Que é que eu havia de fa... zer
numa casa de saúde?

--Pois certamente, rico tio, e ahi está o motivo porque eu já o não
largo quando o tio fôr lá para baixo. Estão lá visitas.

--Vi... sitas! Ai! valha-me Deus!

--Não se assuste, tiozinho, eu vou com o tio.

--Sou-te m... muito obrigado... muito! Fô... ste a minha redempção! Mas,
qu... éres que te diga, eu antes queria ir-me embora!

--Amanhã, tiozinho, amanhã, ás sete horas da manhã! Hoje, despede-se de
todos e declara que se vae embora.

--Ab... so... lu... tamente!... safo... me... ab... solu... tamente!...
vou para casa do padre Missail... Mas... meu amiguinho, e se ella casar
commigo contra minha vontade?...

--Não lhe dê cuidado, tiozinho, cá estou eu. E demais, digam o que
disserem, responda sempre que foi sonho... o que é verdade, aliás.

--Es... tá... c... claro, sonhei!... Mas sempre te direi... meu a...
mi... miguinho, que foi um sonho delicioso!... Que for... mosura! É um
por... tento! E se... soubesses!... Com umas... fórmas!

--Pois então, até logo, tiozinho, vou indo lá para baixo... E o tio...

--Ora... essa!... Então para aqui me deixas?... exclama o principe,
assustado.

--Não é isso, tiozinho, eu o que vou é indo adiante... não vamos juntos.
Primeiro eu, depois, o tio. É melhor assim.

--Está-c... laro... melhor. E eu, demais a mais, tenho que tomar nota
d'um pensamento... capital.

--Pois é o que deve fazer, tio, vá assentando o seu pensamento, e
depois, não se demore, appareça, e conte que, amanhã...

--Amanhã, de manhã, para casa do-arci-préste... sem fa-lta,... casa...
do ar... ci... ci... Magnifico! Mas olha que... ella é um por... tento de
formosura! Que... fórmas! Se não houvesse outro remedio senão casar com
ella... eu... então...

--Deus o livre de tal, querido tio!

--Está claro!... livre... Está dito! até já, meu amigo! Eu não tardo lá.
É só tomar no... ta... A proposito,... e... ago... ra me lembra que te
queria perguntar... se... j... já tinhas lido as _memorias_ de Cásanova?

--Já, tiozinho... Mas por quê?

--Está... c... claro--Por quê?--Mas... deixa lá... já me não lembro do
que é que te queria dizer.

--Depois se lembrará, tiozinho, até logo.

--Até logo, amiguinho, até logo...--Mas que foi uma... delicia... o tal
sonho... lá isso foi!



XII


--Viémos vêl-a todas, todas! A Prakovia Ilinicha não tarda por ahi! A
Luisa Karbovna tambem queria vir, pipila a Anna Nikolaievna dando
entrada na sala e a inspeccionar tudo em redor com uns olhos de
bisbilhoteira.

É uma mulherzinha, bonitinha, veste com riqueza, mas com umas côres
espalhafatosas, e com presunção na sua boniteza. Fareja-lhe que o
principe deve de estar alapardado n'um cantinho qualquer e mais a Zina.

--E a Katerina Petrovna tambem não deixa de apparecer, accrescenta
Natalia Omstrievna, mulherão com proporções de colosso á qual tem
reduzido o pêso os jejuns e dando ares de um granadeiro.

Traz um chapelinho, minusculo, côr de rosa, pespegado na nuca. Ella, vae
em três semanas, é a mais intima amiga da Anna Nikolaievna, de quem ella
anda atrás, ha muito tempo, e a quem se pudesse nem a pelle lhe deixava.

--O alegrão que ambas me deram em vir passar a noite commigo, nem ha
palavras que o possam exprimir, cantaróla Maria Alexandrovna, um tanto
refeita já da instantanea surpreza. Mas não me dirão a que feliz acaso
devo o prazer?... Nem contava, já, com semelhante honra!

--Valha-me Deus! Maria Alexandrovna, não seja má! diz muito açucarada a
Natalia Dmitrievna, com voz de pipía, e tregeitos, toda ella--o que
estabelecia curiosissimo contraste com o seu exterior.

--Mas minha querida, pipila Anna Nikolaievna, precisamos concluir os
arranjos do tal theatro. Ainda hoje o Petre Mikailovitch disse ao Kalist
Stanislavitch que está contrariadissimo por não terem corrido bem as
coisas, e porque andassemos a jogar as cristas. E como succedesse
ajuntarmo-nos todas quatro, dissémos comnosco: "E se nós fossemos ter
com a Maria Alexandrovna a ver se levamos a cabo este negocio?" A
Natalia Dmitrievna passa palavra ás outras, e cáem aqui todas. D'este
modo poderiamos chegar a um accordo e as coisas entravam no seu curso
regular. É para que não digam que apenas sabemos andar á unhada, pois
não é assim, meu anjo? accrescentou dando um beijo a Maria Alexandrovna.

Valha-me Deus! Zinaida Aphanassievna, está cada dia mais linda!

Anna Nikolaievna atira-se á Zina e prega-lhe um beijo.

--Mas se a menina não tem outra coisa que fazer a não ser o ir
embellezando dia a dia, affirma com affectada amabilidade Natalia
Dmitrievna a esfregar as mãos.

--Demonios as levem! E eu que nem sequer já me lembrava do tal theatro!
Sim, senhor, estas pêgas tem apurado a malicia! murmura Maria
Alexandrovna fula de raiva.

--E tanto mais, meu anjinho, accrescenta Maria Nikolaievna, que o nosso
querido principe se acha hospedado em sua casa. Bem sabe que não ha
_pomietok_ de Dukhanova, de paes a filhos, que não tenha tido um
theatro. Tomámos informações e viémos a apurar que existe algures um
armazem atulhado de scenario velho, e um panno, e fatos, até. O principe
esteve hoje em minha casa, mas se quer que lhe diga, fiquei tão
assarapantada com a visita, que de todo me esqueceu tocar-lhe em
semelhante coisa. Agora, comtudo, tencionamos conversar com elle a esse
respeito; ha de ajudar-nos, e o principe não deixará de dar as suas
ordens para que nos remetam toda essa cangalhada. Pois a quem haviamos
de encommendar por aqui coisa que se pareça com uma vista de theatro? E
d'ahi, queremos que o principe em pessoa participe da nossa empresa. É
necessario levál-o a subscrever: é para os pobres. Quem sabe se elle se
não encarregará, até, de qualquer papel; é tão condescendente, tão dado!
Correria tudo ás mil maravilhas.

--Pois já se vê, que acceita um papel! Tanto mais que nada ha mais facil
do que induzil-o a desempenhar seja que papel fôr, accrescenta
significativamente Natalia Dmitrievna.

Anna Nikolaievna não tinha enganado Maria Alexandrovna. Vão chegando de
instante para instante senhoras. Maria Alexandrovna quasi que nem tem
tempo de se levantar para recebêl-as e de proferir as exclamações da
praxe em semelhantes casos, exigidas pelas conveniencias.

Não me afoitarei a descrever uma por uma as visitantes. Direi apenas que
cada uma d'ellas desfecha insidiosa olhadella para a dona da casa. Todas
ellas denunciando na fisionomia ávida impaciencia. Entre as nobres
damas, mais de uma, até, concorria ali na espectativa de presencear a
qualquer escandalozinho extraordinario: ficariam desconsoladissimas se
se não désse o dito escandalo. Exteriormente, desfaziam-se em
amabilidades, Maria Alexandrovna porém estava armada para a lucta.
Choviam perguntas a respeito do principe, naturalissimas todas ellas, na
apparencia, mas por detrás de todas lá estava uma allusão.

Serve-se o chá. Sentam-se todas á mêsa. Apodera-se do piano um grupo,
Zina, ao convite de tocar ou de cantar, responde, muito sêca, que se
acha incommodada. A pallidez do rosto abona-lhe aliás a veracidade.
Segue-se um tiroteio de perguntas simpáticas, e isso mesmo dá motivo
para uma allusão.

Indagam noticias á cêrca de Mozgliakov, é á Zina que são dirigidas.
Maria Alexandrovna não tem mãos de medir: acha-se presente a um tempo em
cada canto da sala, ouve tudo que dizem as visitantes, supposto sejam
mais de dez. Responde a quanta pergunta lhe dirigem sem ter necessidade
de remexer as algibeiras á procura de palavras. Está toda ella a tremer
com o sentido na Zina, e muito admirada por esta não sair da sala,
conforme é seu costume em taes occasiões. Notam tambem a presença de
Aphanassi Matveich. Por via de regra fazem escarneo d'elle para
melindrarem Maria Alexandrovna na pessoa do marido. Hoje, porém, tudo é
quererem sacar as palavras do bucho ao tão singelo e franco Aphanassi
Matveich. Maria Alexandrovna, inquieta, não tira os olhos do marido,
collocado em estado de sitio.

Elle, responde a todas as perguntas: Hum! com uns modos tão entalados e
pouco naturaes que é de uma pessoa se derramar.

--Maria Alexandrovna, não ha quem saque uma palavra a Aphanassi
Matveich! exclama uma caçapa de uma dama com uns olhos vivos e uns ares
de intrepidez, como quem não tem medo seja de quem fôr, e se não
atrapalha com coisa nenhuma. Veja se lhe diz que seja mais delicado com
as senhoras.

--Ainda estou para saber o que é que elle terá hoje, responde Maria
Alexandrovna, toda ella sorrisos e interrompendo a sua palestra com a
Anna Nikolaievna e com a Natalia Dmitrievna. Não está nada expansivo;
aqui estou eu que ainda não fui capaz de lhe ouvir uma palavra. Por que
é que não respondes á Felissata Mikhailovna, Athanasio?--Que foi que lhe
perguntou, Felissata Mikhailovna?

--Mas... mas... minha mãezinha... tu não me recommend... encéta Aphanassi
Matveich assarapantado, desnorteado.

N'este ensejo, está espécado ao pé do fogão acêso, com o dedo pollegar
enfiado no bolso do collete, em atitude pinturesca e a chuchurrebiar o
seu cházinho.

Atrapalham-n'o as perguntas das senhoras, põe-se córado qual candida
donzella. Porém, ainda bem não encetara a propria justificação, eis que
topa com uns olhos tão irritados da consorte furibunda que fica
petreficado de terror. Sem saber o que ha-de fazer e desejoso de
remediar a asneira, e reconquistar a estima de Maria Alexandrovna,
engole um golo de chá, mas o chá está a ferver, Aphanassi Matveich
escalda-se, engasga-se, toma-se de um froixo de tosse, e pisga-se da
sala para o quarto, deixando banzada toda a assembleia. Perceberam tudo,
e Maria Alexandrovna nem põe em duvida o estarem cabalmente informadas
as suas visitas, e o haverem-se congregado em sua casa com intuito
malevolo.

É perigosa a situação. Podem muito bem obrigál-o a descoser-se,
enredál-o na propria presença da mulher. São capazes, até, de carregar
com o principe e de o malquistar com Maria Alexandrovna... Em summa,
cumpre contar com o peor.

A sorte reserva á nossa heroina ainda outra prova. Abre-se a porta, e dá
entrada o Mozgliakov, a quem ella suppunha em casa de Borodoniev. A
previdente senhora estremece como se o que quer que fosse lhe houvera
trespassado o coração. Mozgliakov pára nos umbraes da porta, um tanto
intimidado, e põe-se a examinar a assembleia. Não consegue dominar o
sobresalto a ler-se-lhe no semblante.

--Ai, meu Deus! Pavel Alexandrovitch! exclamam diversas vozes.

--Ai, meu Deus! Mas é o Pavel Alexandrovitch!

--E a senhora a dizer-nos, Maria Alexandrovna, que elle a estas horas
devia estar em casa do Borodoniev?

E a dizerem que estava escondido, Pavel Alexandrovitch, lá em casa do
Borodoniev, ladra Natalia Dmitrievna.

--Escondido? repete Mozgliakov com sorriso contrafeito. É um tanto
exquisita a expressão! Queira perdoar, Natalia Dmitrievna, eu não me
escondo nem tenho motivos para me esconder seja de quem fôr, accrescenta
vibrando significativo olhar a Maria Alexandrovna.

Estremece Maria Alexandrovna.

--"Ora esta! querem ver que se insurge tambem este bonifrate? diz
comsigo, a examinar Mozgliakov. Não faltava mais nada!"

--Será verdade. Pavel Alexandrovitch, que está reformado... das suas
funcções?--arrisca a atrevida da Felissata Mikhailovna, a olhar para
elle, ironica.

--Reformado? Reformado de quê?

Fui apenas transferido; tenho o meu logar lá em Petersburgo, responde
com secura Mozgliakov.

--Ainda bem! E desde já o felicito; continua a Felissata Mikhailovna.
Tivemos um susto por sua causa, quando nos disseram que andava a ver se
arranjava um logar em Mordassov. Que, logares, por aqui, são pouco
estaveis. Pavel Alexandrovitch, de um dia para o outro apanha-se uma
demissão.

--A não ser que se trate de um logar de _utchitel_, para ahi em qualquer
escola communal... Esses têm ferias... observa a Natalia Dmitrievna.

É tão transparente a allusão, tão grosseira, que á propria Anna
Nikolaievna assoma-lhe o rubor ás faces e pega ás cotoveladas á peste da
amiga.

--Persuadem-se então que Pavel Alexandrovitch seria homem para marchar
nas piugadas de um reles _utchitel_? insiste a Felissata Mikhailovna.

Pavel Alexandrovitch, sem saber o que ha de dizer, volta costas e dá de
rosto com Aphanassi Matveich de mão estendida para elle. Mozgliakov,
alvar, não acceita a mão do conselheiro e faz-lhe rasgada contumélia,
com pretenções a ironica. Acerca-se da Zina e, mirando-a a fito,
socina-lhe:

--É a culpada de tudo isto... mas espere, e ainda esta noite, verá se eu
sou, ou não sou um asno!

--Esperar, eu?--Como se já se não estivesse vendo o sufficiente! retruca
a Zina muito de rijo, a medir com uns olhos desdenhosos o
recem-rejeitado.

Mozgliakov precipita a retirada, espavorido pela expansão vocal da
donzella.

--Vem de casa do Borodoniev? resolve-se por fim a perguntar Maria
Alexandrovna.

--Não; venho de estar com meu tio.

--Com seu tio?--Esteve com o principe?

--Ai meu Deus! Com que então o principe já está acordado? E a dizer-nos
que estava ainda recolhido, acode Natalia Dmitrievna a enterrar pelo
chão abaixo Maria Alexandrovna com uns olhos em que transluz odio e
triunfo.

--Não lhe dê cuidado o principe, Natalia Dmitrievna, replica o
Mozgliakov; está acordado, e, graças a Deus, recuperou as suas
faculdades. Tinha bebido uns copitos a mais, hontem, em sua casa, e
acabaram aqui de o toldar de todo; de modo que se lhe tinha varrido
completamente o tino. Bem sabe, que está um tanto fraco de cabeça.
Agora, comtudo, eu e elle tivemos uma conversa, e está com o juizo no
seu logar. Não tarda por ahi, meia hora, Maria Alexandrovna, para lhe
dizer adeus, e lhe dar os agradecimentos pela sua franca hospitalidade.
Logo de madrugada vamos até á Charneca, tenciono acompanhál-o até
Dukhanovo, a vêr se lhe evito para ahi algum tombo, como aquelle que
hoje apanhou. Voltará a collocar-se ao abrigo do broquel da Stepanida
Matveiévna, que a estas horas já deve ter regressado de Moscou, e lhe
não tornará a consentir o expôr-se outra vez aos riscos de uma jornada,
isso lhe asseguro eu!

E o Mozgliakov, maligno, a examinar Maria Alexandrovna, embatucada e
estupefacta.

(Pêsa-me o ter de confessar que, pela primeira vez na sua vida, sente
medo a nossa heroina).

--Retira-se ámanhã! Mas então... como assim? indaga de Maria
Alexandrovna a Natalia Dmitrievna.

--Como assim? repete Anna Alexandrovna, pasmada.

--Como assim? effectivamente, écoam outras vozes. E nós a julgarmos
que... É extraordinario, na verdade.

A dona da casa nem atina sequer com o que ha de dizer. Eis que, de
subito, é attrahida a geral attenção por um episodio da mais
extraordinaria excentricidade. Ouve-se, na saleta contigua, um alarido
de vozes, de exclamações, e rompe por ali dentro a Sofia Petrovna
Karpukhina.

A Sofia Petrovna é sem discussão possivel a mulher mais original em toda
Mordassov; é original a ponto que tiveram que a excluir da sociedade. E
cumpre advertir que ella, regularmente, ás sete horas, despacha a sua
merenda, e que depois de a despachar fica sempre n'uma disposição de
espirito... mais que muito emancipada... para não irmos mais longe. E é
n'esse estado, exactamente, que ella effectua em casa de Maria
Alexandrovna tão inesperada apparição.

--E esta! Com a senhora é sempre assim, Maria Alexandrovna! berra ella
estrugindo a tudo: isto será modo de proceder para commigo?!... Não se
assuste, vim aqui de corrida, nem me sento, sequer. Vim de proposito
para saber se é verdade aquillo que me disseram. A senhora a dar bailes,
banquetes e n'este meio tempo, a Sofia Petrovna para ali a um canto, em
casa, a concertar as meias! A senhora a ajuntar em sua casa a cidade em
peso, menos a mim! Commigo, d'antes, tudo era: minha amiguinha, meu
anjo,--quando lhe conveio saber o enredo que a Natalia Dmitrievna a seu
respeito e do principe andava a tecer, e vae senão quando, a Natalia
Dmitrievna, de quem a senhora--hoje mesmo--como ella aliás diz da
senhora--disse cobras e lagartos--está para ahi amesendada na sua
_soirée_! Não se assuste, Natalia Dmitrievna, passo muito bem sem o tal
seu chocolate de dois kopeks cada pau. Eu, quando me appetece beber seja
o que fôr, lá em minha casa não falta, graças a Deus; tomára a senhora!

--Bem se vê! observa a Natalia Dmitrievna.

--Ora vamos, Sofia Petrovna, exclama Maria Alexandrovna, afogueada de
despeito, que é que tem? Socegue!

--Não lhe dê cuidado a minha pessoa, Maria Alexandrovna, estou sciente
de tudo, de tudo! guincha com a voz de pipia a Sofia Petrovna, á qual
fazem cêrco as visitantes, que não cabem em si de contentes com o
escandolozinho. Estou informada de tudo e foi lá a sua Nastassia quem
m'o pespegou, tim-tim por tim-tim! A senhora pregou uma camoéca ao tal
principe e tanto apertou com elle, até que lhe pediu em casamento a sua
filha--que já nem tem quem a queira! E a senhora a ver-se já toda
emproada, a julgar-se uma duquêsa, com manto e tudo.--Pfu-u! Não cuide
que me mete mêdo! Tenho visto muitas duquêsas e aqui onde me vê sou
coronela! Ah! A senhora então nem sequer me convidou para a bôda!--Cá
por mim, escarro-lhe em cima!--Tenho muito com quem me dar, tomára a
senhora. O ponto está que eu queira! Vá ouvindo: Hontem jantei eu com a
princesa Zalikhvatskaia, e por signal que até o commissario principal, o
Kuropchkine, me pediu em casamento. Estou-me ninando para o tal seu
_salsifrê_.

Pfu-u! Arreda!

--Escute, Sofia Petrovna, responde Maria Alexandrovna fora de si, fique
sabendo que assim ninguem se atreve a pôr pé numa casa decente;... e
n'esse seu estado, de mais a mais!... Se me não favorece desde já com a
sua ausencia... obriga-me a appellar para...

--Bem sei, chama os criados para me pôrem no olho da rua? Não lhe dê
cuidado, sei muito bem o caminho. Adeuzinho! Case lá a sua filha com
quem muito bem quiser. E a senhora, Natalia Dmitrievna, escusa de se rir
á minha custa: eu cá, ao tal seu chocolate, só se lhe cuspir dentro!
Ella convidava-me lá! Isso sim! Não, que lá em minha casa não ha quem
danse o _kazatchok_ diante de principes! E lá a senhora, tambem, Anna
Nikolaievna, de que é que se está a rir? O seu Suchilov partiu indagora
uma perna: e lá o levaram em charóla para casa--ha de-lhe fazer falta,
já se vê! Pfu-u! E a senhora, Felissata Mikhailovna, se não avisa
aquelle calcanhar rachado do seu Matvehka que, se torna a consentir que
a sua vacca esteja todo o santo dia aos bérros debaixo da minha janéla,
parto-lhe as pernas, ao tal seu Matevchka! Adeuzinho, Maria
Alexandrovna! A bom intendedor, o resto já se sabe! Saúde!

Pfu-u!

Some-se a Sofia Petrovna. Desata toda a gente á gargalhada. Maria
Alexandrovna ficou entupida de todo.

--Estou em dizer que beberia a sua pinga, diz a Natalia Dmitrievna,
muito de mansinho.

--Se já se viu semelhante desaforo;

--Abominavel criatura!

--Se quer ao menos fartámo-nos de rir!

--Que chorrilho d'inconveniencias!

--É ella abrir a bôca!--Passa fora!

--Mas que queria ella dizer com as taes bôdas? indaga em ar de mofa a
Felissata Mikhailovna.

--É temivel! exclama Maria Alexandrovna. E são uns monstros d'este
calibre que andam para ahi a desacreditar a toda a gente, com a estupida
linguarice! E sabe o que lhe digo, Felissata Mikhailovna, é que me não
admira, que umas fufias assim sejam recebidas na nossa sociedade,
quando, o que é ainda mais para admirar, ha gente que a ellas recorra,
que lhe dê ouvidos, e que lhes dê credito... cambada!...

--O principe! O principe! gritam á uma.

--Valha-me Deus! O principe!

--Graças a Deus! Até que emfim vamos ficar sabendo a verdade.



XIII


Entra o principe, dilatados, os labios por aquelle seu meigo sorriso. A
inquietação insuflada pelo Mozgliakov n'aquelle descuidado coração
desapparece de todo, ao dar com os olhos nas damas: derrete-se desde
logo que nem um rebuçado.--Elle, em geral, entretem muitissimo o bello
sexo. A Felissata Mikhailovna affirmava, até, esta manhã, por
brincadeira, já se vê, que estava pronta a sentar se-lhe nos joelhos, se
elle quisesse, pois era "um encanto de um ginjinha, um encanto nunca
visto, até." E Maria Alexandrovna sem tirar d'elle os olhos, a
estudál-o, tentando prever-lhe no semblante o desfecho de tão critica
situação. É evidente haver o Mozgliakov comprometido gravemente o
negocio e o estar um tanto vacilante a emprêsa. E não obstante nada se
pode ler no rosto do principe... está, como sempre, insipido e
encantador.

--Ai, meu Deus! Até que ahi vem o principe! E nós todos á sua espera!
exclamam diversas damas.

--Com impaciencia, principe, com impaciencia, pipilam as restantes.

--Li... son... son... jeia... me... sum... ma... mente, diz o principe
sentando-se á mêsa defronte do samovar a ferver.

As damas atrigam-se em fazer-lhe cerco. A Anna Nikolaievna e a Natalia
Dmitrievna são as unicas que se deixam ficar ao pé de Maria
Alexandrovna. Aphanassi Matveich sorri, respeitozissimo. Mozgliakov
sorri tambem a olhar com uns ares de provocação para a Zina a qual, sem
fazer caso delle, se acerca do pae e se senta ao lado d'este n'uma
poltrona.

Ah! principe--sempre é verdade que se retira? indaga a Felissata
Mikhailovna.

--Está c... claro... minhas senhoras, retiro-me; vou... im... me... diata..
mente para o estrangeiro.

--Para o estrangeiro, principe!

--Para o estrangeiro! clama toda a gente em côro. Que ideia!

--Pa... ra o est... est... rangeiro, affirma o principe, a tomar atitudes,
e n... não sabem?--eu se vou é... é... por causa das taes... ideias novas.

--Como assim? As ideias novas?

--De que é que se trata? perguntam as damas a olhar umas para as outras.

--Está... c... laro!... As ideias novas! insiste o principe com uns modos
de intima convicção; vae lá toda a gente, agora, por causa das ideias
novas, e eu se vou é... com... o sentido tambem de me sa... turar.

--É capaz de estar com o sentido em ir filiar-se por lá em alguma loja
maçonica? intervem o Mozgliakov desejoso de fazer brilhar o seu espirito
na presença das damas.

--Está... c... claro, meu amigo, não t'enganas. Eu, em tempos, pertenci,
effectivamente, a uma loja maçónica. Animavam-me, até, umas ideias,
muitissimo generosas... Propunha-me a fazer muita coisa... em... em
favor da... in... instrucção... mo... moderna. Queria dar carta...
de... al... fo... forria ao meu Si... do... dor, mas safou-se antes de
tempo, com grande es... panto da minha parte. Que lemb... rança tão
ra... tona! Depois, um dia, encontrei-o cara... a... cara... lá em Paris,
vestido como um dandy, com umas suissas,... a passear pelo
bou... levard... com uma "_menina_". Acenou-me com a cabeça... e mais
nada. E a tal _menina_, que levava p... pelo braço tinha uns ares tão
agai... atados... tão ape... titosa.

--O tiozinho, então, d'esta vez, em se apanhando em Paris, dá a
liberdade aos servos todos, sem excepção?

--Está..., c... claro... adivinháste-me o pensamento, meu c... caro. É
tal qual... quero dar liberdade a to... dos elles.

--Ora vamos, principe, safam-se-lhe todos de casa, e depois, quem é que
lhe paga o dizimo? exclama a Felissata Mikhailovna.

--Pois já se vê, que se safam, acode, inquieta, Anna Nikolaievna.

--Ai, meu Deus! Que me diz? Então parece-lhe que o façam?

--Safam-se, safam-se, pudera não... Tão certo! E o senhor, depois, vê-se
sósinho, confirma a Natalia Dmitrievna.

--Ai! meu Deus! Visto isso... então n... não lhes dou... al... for...
ria! E d'ahi, eu dizia isto... por dizer.

--Antes assim, tiozinho.

Maria Alexandrovna, até agora, tem estado caláda a observar. Parece-lhe
que o principe se esqueceu d'ella, totalmente, e não acha isso natural.

--Principe, enceta elevando a voz e com dignidade, peço-lhe licença para
lhe apresentar Aphanassi Matveich, meu marido. Veiu expressamente do
cantinho da sua aldeia, assim que soube que o principe se achava
hospedado em minha casa.

Aphanassi, todo elle sorrisos e a fazer papo. Afigura-se-lhe que acabam
de lhe endereçar um cumprimento.

--Ah! Fol... go im... menso... Apha-anassi Matveich. Dê me licença...
está-me a parecer que... me lembro... do que quer que seja...
Aphana-assi Matvei... tch? Ah! sim! sim! Aquelle que estava no campo?...
Encantado! encantado! Quanto esti... imo... Meu amigo, exclama o principe
dirigindo-se a Mozgliakov... mas foi elle que... que... como se intende,
então?... O marido lá por fóra... e a mulher... em... Sim, sim, lá n'uma
cidade... e a mulher...

--Ah! principe,... isso pelos modos ha de ser: o _Marido lá por fóra_, e
a mulher _em Tvor_, o tal vaudeville, que uma companhia ambulante
representou lá em casa o anno passado?

--Está c... claro, em _Tvor_, e... eu... sempre a esqué... quécer-me!
Encantado, encantado! Com que, então, é o senhor? Quanto estimo
conhecêl-o! diz o principe sem se erguer da cadeira, de mão estendida
para Aphanassi Matveich. E então, como vae?

--Hum!...

--Está optimo, optimo! acode Maria Alexandrovna.

--Está... c... claro... bem se vê... Com que, então, vive sempre no
campo? Pois, senhor, estimo muito.--Mas que bochêchas tão corádas que
elle tem! E não faz senão rir!...

Aphanassi Matveich sorri e faz-lhe a sua vénia, a arrastar o pé pelo
sobrado. E comtudo, assim que ouve a ultima observação do principe, não
se pode suster e desata uma gargalhada alvar. E imita-o toda a gente. As
damas soltam guinchos de alegria. A Zina, corrida, ruboriza-se e vibra
uns olhos coruscantes a Maria Alexandrovna, que se está comendo de
raiva. É tempo de desviar a conversação.

--Dormiu bem, meu principe? indaga com voz tranquilla, intimando ao
mesmo tempo, com uma olhadella vivaz, Aphanassi Matveich a que volte
quanto antes para o seu logar.

--Dormi op... ti... mamente... E, não sabem, tive um sô... ônho
deliciôso, deli... ciô... so!

--Um sônho! Gósto tanto de que me contem sônhos! exclama a Felissata
Mikhailovna.

--Tambem eu! accrescenta a Natalia Dmitrievna.

--Um sô... nho... deliciôso... repete o principe com meigo sorriso; mas
é segredo o tal sônho.

--Como assim, principe? Nem sequer se pode contar? observa Maria
Alexandrovna.

--Um grande segredo! repete o principe.

Recrudesce a curiosidade.

--Mas, então, deve de ser interessante, interessantissimo, exclamam de
todos os lados.

--Não se me dava de apostar que o principe, no tal seu sônho, estava de
joelhos aos pés de alguma beldade a fazer-lhe a sua declaração de amor!
exclama a Felissata Mikhailovna. Ora vamos, principe, confesse!
Confesse!... então, meu rico principezinho da minha alma!

--Confesse, principe, confesse! exclamam por todos os lados.

E o principe deliciado, a escutar aquella gralhada. Lisonjeia-o a
supposição, e lambe-se todo, até.

--Comquanto seja um grande segredo, não tenho remedio senão confessar
que ma... madame, com grande espanto da minha parte, por pouco o não
adivinha de todo.

--Adivinhei! exclama com arrebatamento Felissata Mikhailovna. E então,
principe, é preciso dizer-nos quem é essa tal belleza!

--Tem obrigação de o dizer!

--Achar-se-ha aqui?

--Diga, diga, meu rico principezinho!

--Principe... meu amorzinho! Diga! Morra depois, mas diga!

--Mi... nhas... senhoras! Minhas se... senho... ras, se insistem em
absoluto por que lh'o diga, apenas lhes po... derei desvendar uma coisa:
era a mais seductora, a mais virtuosa menina, de quantas... tenho
conhecido em minha vi... vida!

--A mais seductora... de quantas aqui estão? Quem será? indagam entre si
as damas a trocarem signaes de connivencia.

--Com toda a certeza que deve de ser aquella que disputa a fama de ser a
primeira beldade de Mordassov, prorompe a Natalia Petrovna a bater as
palmas com aquellas manápolas côr de lagosta e sem tirar os olhos de
cima da Zina.

E toda a gente com os olhos pregados na Zina.

--Mas como é, então, que o principe, com uns sonhos assim, não se casa
por uma vez? indaga a Felissata Mikhailovna.

--Soubessemol-o nós, e que noivazinha lhe não teriamos arranjado!
affirma, d'ali, outra dama.

--Case-se! case-se, principezinho da minha alma--pipíla uma terceira.

--Case! case-se!--guincham por todos os lados. Por que é que não ha de
casar?

--Está... c... claro... por que é que eu me... n... não hei-de casar?
acóde o principe, atrapalhado.

--Tiozinho! exclama o Mozgliakov.

--Está... c... claro, meu amigo, já te percebi. O que eu queria
dizer-lhes, minhas senhoras, é que me não posso casar. Concluida esta
deliciosa _soirée_, em casa da nossa amabilissima hospeda, amanhã
tenciono ir até a charnéca, e d'ali, para o es-trangeiro, quero ir
estudar a ins-tru-cção euro-ro-pêa.

A Zina está enfiada e vibra á mãe uns olhos rancorosos. Maria
Alexandrovna, comtudo, assentou n'uma resolução. Até agora, estava á
espera, a apalpar o terreno, supposto lhe parecesse achar-se
sufficientemente compromettido o negocio e haverem-se-lhe antecipado
seus inimigos. Percebe tudo, finalmente, e, de um golpe, quer acabar com
aquella hydra das cem cabeças. Ergue-se, majestatica, acerca-se da mêsa
a passo firme e com soberbo olhar enterra pelo chão abaixo aquelles
pygmeus que a rodeiam. Reluz-lhe nos olhos o fogo da inspiração. Vae
aniquilar aquella sucia de coscovilheiras peçonhentas, esmagar aquelle
sevandija do Mozgliakov como quem esmága uma barata, e com um golpe
decisivo, reconquistar de todo a influencia que perdeu sobre a pessoa
d'aquelle idiota d'aquelle principe. Claro está que para isso ha mister
de appellar para um atrevimento extraordinario, mas não será isso que
escasseie a Maria Alexandrovna.

--Minhas senhoras, enceta com modo solemne (Maria Alexandrovna nutre
paixão pela solemnidade), minhas senhoras, tenho estado a ouvir calada
as suas gracinhas e acho que já vae sendo tempo de que eu, pela minha
vez, lhes dirija algumas. Bem sabem que nos achamos aqui juntas,
unicamente por mero acaso. Estimo isso muito... Nunca me haveria
resolvido a tornar publico um tão importante negocio de familia antes de
o exigirem os dictames do mais estricto decoro. E acima de tudo, pedirei
perdão ao nosso distinctissimo hospede. Mas quer me parecer que é elle o
proprio quem, mediante remotissimas allusões a semelhante circunstancia,
me suggere o pensamento de que a formal declaração d'este segredo lhe
será grata, mas que ella lhe inspira apprehensões. Não é verdade, meu
principe, que me não enganei?

--Está claro... não se enganou... e estimo muito... muito... diz o
principe sem perceber palavra d'aquillo de que se está tratando.

Maria Alexandrovna, no intuito de melhor dispôr o seu lance, toma o
folego e põe-se a examinar todo o auditorio, todos á uma a escutál-a com
ávida e inquieta curiosidade. O Mozgliakov, todo elle a tremer, a Zina,
muito afogueada, levanta-se... Aphanassi Matveich, n'estes assados,
assôa-se.

--Sim, minhas senhoras, folgo immenso de as tornar participes d'este
segredo familial. Hoje, depois de jantar, o principe, seduzido pela
formosura de... pelas qualidades de minha filha... conferiu-lhe a honra
de lhe pedir a mão. Principe, conclue ella com um tremor na voz, querido
principe, não me deve querer mal por esta minha indiscreção. O auge do
contentamento, eis o que conseguiu arrancar-me do coração, um tanto
prematuramente, este segredo estremecido, e... qual será a mãe que m'o
leve a mal? Nem encontro sequer palavras que descrever possam o effeito
produzido pela inspirada saída de Maria Alexandrovna. Ficaram todos
varados de espanto. As visitantes, que suppunham assustar Maria
Alexandrovna, deixando-lhe antever o estarem senhoras do seu segredo,
matál-a com a divulgação do segredo, esfacelál-a com o poder unico das
allusões, ficam estupefactas perante uma tão denodada franqueza. Uma tal
valentia era um signal certo de bom exito.

--Por conseguinte, é por sua propria vontade que o principe vae casar
com minha filha Zina. Ninguem o enganou, ninguem o embriagou... E por
tanto, não foi com esconderijos, á laia de ladrão, que o obrigaram a
tomar estado! Maria Alexandrovna, n'essa conformidade, não se arreceia
seja de quem fôr, e não ha ninguem que possa malograr este casamento.

Paira um borborinho que desde logo se transforma em jubiloso alarido. A
Natalia Dmitrievna arremete de braços abertos para Maria Alexandrovna,
segue-lhe o exemplo a Anna Nikolaievna, e a Felissata Mikhailovna vem na
trazeira do rancho. Põem-se todos de pé, baralham-se. Das damas, algumas
ha que estão fulas de raiva. Pegam a dirigir parabens á Zina,
atrapalhada, e atiram-se, até, ao Aphanassi Matveich. Maria Alexandrovna
estende os braços com enfase, e á viva força, quasi, agarra-se á filha
aos abraços a ella. Tão sómente o principe, todo elle a rebulir, a
considerar esta scena, de olhos espantados. E d'ahi, agrada-lhe aquillo.
Ao ver a filha nos braços da mãe, saca, até, do lenço e limpa o canto do
olho onde bugalhou uma lagrima. Atiram-se a elle, tambem, para lhe dar
os parabens.

--Parabens, principe, parabens! guincham por todos os lados.

--Com que então é certo, sempre vae casar?

--Sempre se casa, effectivamente?

--Ora até que se casa, principezinho da minh'alma!

--Está... c... claro... está... c... claro! responde o principe, encantado
de semelhante enthusiasmo. Confesso-lhe que a sua simpatia me tocou o
coração... Nunca me ha... de esquecer! Encan... tado! Encan... tado!
Fizeram... me, até, vir as lagrimas aos olhos.

--Venha um beijo, principe! guincha mais que todas juntas a Felissata
Mikhailovna.

--E confesso-lhe... prosegue o principe, que fiquei pasmado por ver que
a nossa digni... ssima hos... peda, adivinhasse... com tanta
pers... picacia, um sonho tão extraordi... nario, como se fosse ella...
que o sonhou... tal qual--Es... panto... sa pers... pica... cia.

--Ora esta! E o principe ainda a insistir no tal sonho?

--Então, vamos, principe, confesse! clama o côro das damas a fazer-lhe
cerco.

--Deixe lá, principe, é escusado estar com esconderijos, é tempo de
patentear o seu coração, declara em tom categorico Maria Alexandrovna.
Não me escapou a fina alegoria, a delicadeza cavalheiresca, que se
revelam na forma discreta por que tornou publico o seu pedido. Sim,
minhas senhoras, é verdade, hoje ainda, o principe ajoelhou aos pés de
minha filha, e de modo real e verdadeiro, que não em sonho, formulou
solemnemente o seu pedido.

--Quan... to... ha de mais real... e nas mê... mêsmas circunstancias,
appoiou o principe. Minha me... nina, proseguiu com summa delicadeza
dirigindo-se á Zina cada vez mais atrapalhada, juro-lhe que jamais me
atreveria a proferir o seu n... ôme, se acaso o não tivessem outros...
mencion... ado antes. Foi um sonho de... licioso... uma... de... licia de
um... sonho! E folgo immenso... em ter ensejo... de o manifestar Um
encanto!... Um encanto!

--Mas, como se intende isto? Elle insiste em se referir ao tal sonho!
murmura a Anna Nikolaievna dirigindo-se a Maria Alexandrovna, inquieta e
um tanto enfiada.

Mas, ai! O coração de Maria Alexandrovna está alanceado por tristissimos
presentimentos.

--E então? murmuram as damas a olharem umas para as outras.

--Ora vamos, principe, profere Maria Alexandrovna com um sorriso
amarello, confesso-lhe que me deixou pasmada.--Admira-me que esteja a
insistir n'essa sorna do tal sonho! Eu até agora, estava na fé, de que
fosse méro gracejo da sua parte... mas... se o é, ha de convir, que se
vae prolongando um tanto fora de proposito... Não posso nem devo admitir
que seja outra coisa além de uma distracção...

--Deve de ser por distracção, efectivamente, assobia a Natalia
Dmitrievna.

--E... stá... c... claro!... Di... distracção! repete o principe sem
perceber o que é que d'elle pretendem... Ora... ima... ginem, vou
contar-lhes uma anecdó... ta. Fui convidado pa... ra assistir a um
enterro, em Petersburgo, n'uma casa burguêsa, mas decente, e... e fiz
confusão... suppús que era para festejar o nas... cimento de uma creança,
(o tal dia... nata... licio já lá... ia, havia mais de uma semana)... e fui
comprar um lindo rama... lhete de camelias para a pessoa... fes... tejada.
Entro... e que hei de eu ver? Um su... jeito mui... to digno, de uma certa
edade, estendido em cima da mesa... Fiquei passádo, sem saber onde me
havia de meter e mais o meu ramo.

--Pois sim, principe, não se trata agora de anecdótas! atalhou Maria
Alexandrovna despeitadissima. Minha filha, louvado Deus, não tem
necessidade de andar á pesca de noivos, mas inda agora, o senhor, em
pessoa, ali ao pé d'aquelle piano, a pediu em casamento. Ninguem o
obrigava... para mim propria foi uma surpreza... mas sou mãe, e ella, é
minha filha... Acaba de referir-se a um sonho; sempre estive na fé de
que fosse uma allusão aos seus esponsorios... Sei e mais que sei, que o
viraram de dentro para fora--desconfio quem fosse--tal qual uma luva,
mas...--queira explicar-se, principe, e queira fazêl-o quanto antes!
Semelhantes gracejos não tem cabimento n'uma casa respeitavel.

--E... stá.. c... claro! Não são brin... cadeiras para... uma casa
respeitavel, concorda o principe... inconsciente, mas um tanto inquieto.

--Então, não me responde, principe! Já lhe pedi que quisesse explicar-se
de modo peremptorio: confirme, confirme, desde já, diante de toda a
gente, o facto de haver pedido hoje minha filha em casamento.

--Es... tá... c... claro... estou pronto a confirmar... Tanto mais, que já
lhes contei tudo, e Felissata Yako... kolevna adivinhou ca... balmente o
meu sonho.

--Sonho! Qual sonho!? exclama rabiosa Maria Alexandrovna; não foi sonho.
Foi realidade, principe, intendeu? Realidade e mais que realidade!

--Rea... li... dade... repete o principe erguendo-se da cadeira... Está-se
dando... tudo aquillo de que... tu me preveniste, accrescenta
dirigindo-se a Mozgliakov. Afirmo-lhe, Maria Alexandrovna... que ha
equi... voco da sua parte. Tenho toda a certeza em como foi sonho!

--Meu Deus! geme Maria Alexandrovna.

--Não se afflija, Maria Alexandrovna, intervem a Natalia Dmitrievna; ao
principe, varreu-se-lhe da memoria... elle se lembrará.

--Isso nem parece seu, Natalia Dmitrievna! responde furibunda Maria
Alexandrovna. Isso são lá coisas que se esqueçam? Ora vamos, principe,
deixemo-nos de facecias! Dar-se-ha o caso de que esteja armando em
Lovelace? Mas, tenha a certeza, sem falarmos em que é pouco proprio da
sua edade, juro-lhe, que lhe não ha de valer! Minha filha não é para ahi
qualquer viscondessa francêsa! Não ha ainda muito tempo, lhe estava ella
a cantar uma romança e o senhor de joelhos a seus pés, a formular o seu
pedido de casamento.--Serei eu que estou a sonhar? Fale, principe...
Estarei a dormir, porventura?

--Es... tá c... claro!... e d'ahi, talvez que não, responde o principe,
desnorteado de todo... Quero dizer... não creio... que estou a sonhar...
pre... sente... mente. Mas... não vê a senhora... que eu, indagora,
estava a sonhar... e depois vi... em sonhos, que eu, a sonhar...

--É preciso paciencia, meu Deus!... Que quer dizer com isso? Em sonhos,
que eu, a sonhar! Nem o proprio demonio era capaz de o perceber!... O
principe estará a delirar?

--Está c... claro!... Nem o proprio demonio... E d'ahi... eu é que não
percebo uma pa... palavra, declara o principe a olhar para todos os
lados, inquieto.

--Mas como é que o principe póde ainda acreditar que é sonho, depois de
eu lhe ter contado os pormenores d'esse tal supposto sonho do qual o
senhor não tinha dado parte a ninguem?

--Mas quem nos affirma que o não tivesse já contado a alguem, insinua
n'este ensejo a Natalia Dmitrievna.

--Está... claro... a alguem, confirma o principe.

--Que comedia! murmura a Felissata Mikhailovna á vizinha.

--Ah! meu Deus! excede a humana paciencia! vocifera Maria Alexandrovna,
a estorcer as mãos, no auge do exaspero. Se ella até lhe estava a cantar
uma romança; uma romança! Tambem a veria no tal sonho?

--Está... claro... effectivamente, uma romança, murmura, absorto, o
principe.

De repente, vem ressuscitá-lo uma reminiscencia.

--Meu amigo, exclama dirigindo-se a Mozgliakov, tinha-me esquecido
dizer-te, indagora, que ella me tinha cantado uma romança... em que
havia uns cas... tellos... muitos... com um tro... vador... Está...
claro... recordo-me... e por signal... que até chorei... e agora nem sei
já, se seria realidade ou se foi sonho.

--Tiozinho, responde o Mozgliakov com a maxima tranquilidade que pôde
assumir (com quanto lhe trema a voz) não me parece lá muito grave a
dificuldade. Na realidade, não direi que não tenha ouvido uma romança,
canta tão bem a Zinaida Aphanassievna! Acordar-lhe-hia reminiscencia dos
seus bons tempos de outrora, dos instantes ditosos, talvez que da tal
viscondessa com quem o tio cantava tambem, algum dia, romanças e á qual
se referiu esta manhã. E depois, a dormir, sonharia talvez que estava
apaixonado e que tinha formulado o seu pedido de casamento.

Maria Alexandrovna fica atordoada com semelhante insolencia.

--Ai! meu amigo! effectivamente! Ha de ser isso! exclama o principe,
contentissimo. Sim, sim, a dor... dormir!... umas agrad... aveis
sensações... Lembro-me da romança, e eu a querer casar... Um sonho! E
tambem ali estava a viscondessa... Ah! como tu desen... vencilhaste bem
tu... do isso... meu caro! Muito bem! É eu agora estou convencido:--era
um sonho, Maria Vassilievna! Affirmo-lhe que está... equi... vocada: foi
sonho!... eu... nunca seria capaz de estar gracejando... com a sua...
respeita... bilidade.

--Ah! agora, agora estou vendo quem foi o autor de tudo isto! exclama
fora de si Maria Alexandrovna com os olhos fitos em Mozgliakov. Foi o
senhor, o senhor! homem sem dignidade! Foi o senhor! Enganou este pobre
idiota para se vingar de ter apanhado um não pelas ventas! Mas tu m'as
pagarás, miseravel! Tu m'as pagarás, deixa estar!

--Maria Alexandrovna, vociféra por sua vez Mozgliakov, vermelho que nem
uma lagosta cozida, são tão... as suas palavras... nem sei até que ponto
as suas palavras... uma senhora da sociedade jámais se permittiria...
Estou defendendo meu tio... e confesse que o querer seduzir de
semelhante modo...

--Es-tá... c-claro--seduzir... seduzir... de semelhante... modo--mia o
principe, que se ergueu da cadeira e tudo é querer esconder-se por
detrás de Mozgliakov.

--Aphanassi Matveich--despulmôa-se a berrar Maria Alexandrovna, não
ouves que estão para aqui a desacreditar-me? Perderias tu o sentimento
dos teus deveres, porventura? Não serás tu mais que um cêpo? Para que
estás tu para ahi a piscar os olhos? Outro qualquer no teu logar tinha
já lavado com sangue o ultraje que nos estão fazendo!

--Minha esposa! enceta com solemnidade Aphanassi Matveich, lisonjeado
por ver que se lembram delle, minha esposa! não seria sonho,
effectivamente? E depois, tu, ao acordar, ficares suppondo que era
verdadeiro...

Aphanassi Matveich, nem tempo tem de concluir a sua espirituosa
interpretação. As visitantes, até ali, contiveram-se mantendo uns módos
de cortês hypocrisia, mas d'esta vez a risota foi geral.

Maria Alexandrovna, esquecendo de todo as conveniencias, atira-se ao
marido, para lhe arrancar os olhos, provavelmente; vêem-se na
necessidade de a segurar á força.

A Natalia Dmitrievna aproveita a circunstancia para entornar uma doze
d'alcatrão no lume.

--Ah! Maria Alexandrovna, quem nos diz que não foi sonho,
effectivamente? emitte em voz represada.

--Um sonho? Um sonho o quê? clama Maria Alexandrovna sem perceber.

--Então! Maria Alexandrovna, são coisas que acontecem.

--Acontece? Mas que é que acontece?

--Talvez que a senhora tenha visto tudo isso a sonhar!

--A sonhar! Eu? A sonhar! E atreve-se a dizer-m'o na cara!

--E d'ahi, é possivel, insiste a Felissata Mikhailovna.

--Está... c-claro!... é po... pos-possivel, murmura por sua vez o
principe.

--Pois tambem elle! Elle! Santo Deus! Maria Alexandrovna enclavinha as
mãos.

--Não se desconsole, Maria Alexandrovna! Lembre-se de que os sonhos é
Deus que os manda! Não ha coisa nenhuma n'este mundo que possa ir ávante
contra a sua santa vontade... nem é motivo para que se altere.

--Está... c-claro... não ha motivo...

--Cuidam talvez que sou alguma doida? consegue apenas silvar Maria
Alexandrovna esganada de raiva.

Encheu-lhe a medida ás forças semelhante scena. Procura á pressa uma
cadeira e deixa-se cair, exanime.

Segue-se uma algazarra.

--Acudiu a tempo o chelique!

N'este conflicto, porém, eis que surge por entre a balburdia geral, a
intervir, uma personagem muda até então, e se transforma desde logo a
feição da scena.



XIV


Era sobremodo romanesco o caracter da Zinaida Aphanassievna. Não sabemos
se teria abusado da leitura daquelle "pateta do tal Shakspeare", lá, com
o tal seu _utchitelzinho_, mas até agora ainda não havia praticado um
tão heroico acto de loucura como o que praticou n'este conflicto.

Enfiada, com os olhos a relampejarem-lhe de resoluta, toda ella n'um
tremor, um portento de formosura e de colera, avança, varre com a
provocação nos olhos toda aquella gente em redor de si, e por entre o
silencio geral, dirige-se á mãe a qual, assim que a Zina se levantou,
tornou a abrir os olhos.

--Para que é estar com fingimentos, mamã? É já tão sujo, tudo isto a que
estamos assistindo! Basta de mentiras! Não vale a pêna estar a tapar
lama com a propria lama.

--Mas que é isto, Zina! Tu não estás em ti! exclama Maria Alexandrovna,
erguendo-se de repellão.

--Eu bem a tinha avisado, mamã, de que não podia supportar semelhante
vergonha! Não estejamos a sujar-nos mais do que o estamos já!...
Assumirei a responsabilidade de tudo. Fui, eu, visto que consenti, que
teci toda esta vilissima... intrigalha. A mamã estava na fé de que
trabalhava com o sentido em me tornar feliz, sequer ao menos tem
desculpa: eu, nenhuma!

--Que vaes tu dizer, Zina! Bem me dizia o coração que me estava ainda
guardado mais este desgosto!

--É assim mesmo, mamã! Vou declarar tudo! Nem sei como não morri de
vergonha... cobrimo-nos de opprobrio, tanto a mamã como eu...

--Estás exagerando, Zina! Nem sabes o que estás dizendo! Contar tudo,
para quê?... Não ha a minima necessidade... Quem se cobriu de opprobrio
não fômos nós, e vou provál-o!

--Deixe-me falar! Não quero estar calada por mais tempo na presença de
uma gente que desprézo e que vieram aqui unica e exclusivamente para se
rirem á nossa custa. Entre estas mulheres, sem excepção, não ha uma
unica a quem assista o direito de me condemnar! Todas ellas estão
prontas a fazer cem vezes peor do que fizemos, eu, e a mamã. Com que
direito poderiam ellas, com que direito se atreveriam a fazêl-o?

--Então! Já viram?

--Quem n'a ouve falar!...

--Mas está nos offendendo!...

--E ella, sim, que será?

--Ella sabe lá o que está dizendo? remata a Natalia Dmitrievna. Seja
dito, entre parenteses, que a Natalia Dmitrievna não deixava de ter
razão. Se a Zina considerava aquellas damas indignas de julgar á mãe e a
si, por que era então que se ia confessar na sua presença? Em summa, a
Zina tinha procedido com excessiva precipitação. E mais tarde, era esta,
até, a opinião das pessoas mais sensatas em Mordassov. Tudo se poderia
haver conciliado. É certo que Maria Alexandrovna, pela sua parte, se
havia prejudicado pela sua precipitação e sua altivez. Ter-lhe-hia
bastado meter a ridiculo o idiotazito do ginja e pôl-o a andar. A Zina,
comtudo, de caso pensado e como que para arrostar com o bom senso e a
sisudez mordassovense, dirigiu-se ao principe.

--Principe, diz a Zina ao velho que desde logo se põe de pé com
deferencia, a tal ponto o impressionou a fisionomia da Zina, queira
perdoar-nos, mas saiba que o enganámos!

--Não te calarás por uma vez! desgraçada! vocifera Maria Alexandrovna.

--Minha--menina,--minha... menina... minha... en... en... cantadora...
murmura o principe, pasmado.

O caracter soberbo, fogoso e mistico da Zina leva-a a transpôr quaesquer
limites. Esquece-se dos transes por que estará passando a mãe ante esta
publica confissão; só vê a salvação, a redempção na franqueza, e vae até
ao fim.

--Enganámol-o, sim, uma e outra, principe; a mamã resolvendo-me a
aceitar a sua mão, e eu em consentir. Embriagámo-nos, eu, puz-me a
cantar e a fazer tregeitos na sua presença com sentido em o saquear,
conforme se expressou ha pouco Pavel Alexandrovitch, para lhe roubar a
sua fortuna e o seu titulo. Era ignobil! E peço-lhe perdão! E comtudo,
juro-lhe, principe... que a minha intenção... O que eu queria era... mas
é duplicar a injuria o estar a procurar desculpas. E todavia,
declaro-lhe, principe, que se eu tivera casado com o senhor, se eu o
houvesse saqueado e roubado, em compensação, haver-me-hia tornado o seu
brinquedo, a sua criada, sua escrava... A mim propria m'o havia
prometido, e cumpriria o meu juramento...

Veiu interrompêl-a um deliquio, as visitantes estão de pé, todas ellas,
com os olhos esgazeados. A tão imprevista quanto incomprehensivel
expansão (para ellas) da Zina desorientou-as. O principe, tão sómente,
tem os olhos arrazados de lagrimas, de commovido, supposto não perceba
metade sequer do que ella tem dito.

--Mas... es... tá... claro... que hei de casar com a menina... com a
minha... l... linda menina, visto que tanto o... o deseja. E isso para
mim re... representa... até, subida hon... ra... Mas, não deixarei... de
insistir em que foi sonho!... Vejo tan... ta coisa, a so... sonhar! Por
que é que se hão-de estar a inquietar? Eu não percebi coisa nenhuma, meu
amigo, prosegue dirigindo-se a Mozgliakov; explica-m'o, se fazes favor!

--E o senhor, Pavel Alexandrovitch, que se vingou de mim de modo tão
cruel, como é que pôde combinar-se com semelhante gente para me
esfacelar desacreditando-me? Allegava amar-me!... Mas para que estarei
eu para aqui a prégar-lhe moral!... Sou mais culpada que o senhor,
offendi-o; tambem para com o senhor me vali de hyprocrisia, de mentira!
Nunca lhe tive amor, e se eu um dia me resolvesse a desposál-o, seria
unicamente para me ver livre d'esta maldita cidade... Mas declaro-lhe,
que se tal houvesse succedido, teria em mim uma esposa fiel e carinhosa.

--Zinaida Aphanassiévna!

--E se ainda me conserva rancor...

--Zinaida Aphanassiévna!!

--Se é que, algum dia, prosegue a Zina a rebalsar as lagrimas, se é que
algum dia me teve amor...

--Zinaida Aphanassievna!!!

--Zina! Zina! Minha filha!

--Sou um miseravel, Zinaida Aphanassievna, um miseravel, e nada mais!...

Produz-se um reboliço estupendo, uma vozearia de espanto, de indignação,
de atroar a tudo. Mozgliakov ficou que nem que fôra de pedra, incapaz de
pensar, de falar.

Sempre que um caracter fraco e ôco, afeito a constante submissão, se
decide a insurgir-se, pára sempre perante um certo limite. A principio,
a insurreição manifesta-se com summa energia, é a energia do desespero,
comtudo; arremete contra os obstaculos, de olhos vendados, e assumme
sempre fardos pesados demais para os seus hombros. Chega um momento em
que o desatinado se assusta de si mesmo, estaca, como que atordoado, e
diz comsigo: "Mas que estou eu fazendo?" E distende-se o arco, pede
perdão o insurrecto, supplíca, implora que as coisas "voltem a estar
como estavam", comtanto que isso se effectue quanto antes... Foi o que
se deu com o nosso Mozgliakov. Afflictissimo com o desastre de que fôra
autôr, a si proprio se abomina, despedaça-o o remorso, as ultimas
palavras da Zina anniquilaram-n'o de todo. O passar de um extremo a
outro extremo representa para si obra de momentos.

--Sou um jumento, Zinaida Aphanassievna! Um jumento, nem mais nem menos!
Ou ainda peor! Mas hei de provar-lhe, Zinaida Aphanassievna, que hei de
saber tornar-me um homem de bem!... Saiba que o enganei--tiozinho! Fui
eu, fui eu que o enganei!--O tio não estava a sonhar, e pediu
effectivamente a mão de Zinaida Aphanassievna! Quando lhe disse que fora
sonho, enganei-o de meio a meio...

--Mas que coisas tão espantosas que estão vindo a lume! assobia a
Natalia Dmitrievna.

--Es... tá... cclaro... um sonho... responde o principe... Mas socéga, por
favor! Assustaste-me... pa... pa... lavra de honra! E que bella voz que tu
tens! Estou pronto a ca... sar, se fô... fôr... necessario... Mas tu foste
o pro... prio a af... firmar-me que... que foi sonho!

--E como é que eu agora o hei de despersuadir? Que hei de eu fazer?
tiozinho, considére em que se trata de um negocio muito sério, de
familia!

--Está... cclaro... Pen... sarei. Espera ahi! Deixa ver se me vou
recordando... por p... partes... Pri... meiramente, o Phio... philo, o meu
cocheiro.

--Não se trata agora do Phiophilo, querido tio!

--Está... cclaro!.. Não se trata... já se vê... que era de Napoleão... E
depois, tomámos chá... Appareceu uma se... senhora... e comeu-nos o
açucar... todo...

--Não é nada d'isso, tiozinho, destampa para ali o Mozgliakov, fóra de
si, quem lhe contou essa historia foi a Maria Alexandrovna, a respeito
da Natalia Dmitrievna! Eu estava ali, escondido, atrás da porta; ouvi
tudo!

--Ora esta, Maria Alexandrovna! agarra no ar a Natalia Dmitrievna, com
que então foi pespegar ao principe que eu lhe tinha furtado o açucar?
Eu, então, venho a sua casa para furtar açucar!

--Passa fora! mal encontra forças para emitir Maria Alexandrovna.

--Não, lá isso, tenha paciencia, Maria Alexandrovna, não lhe assiste o
direito de se negar a responder. Eu, então, furtei-lhe o açucar? Estou
farta de saber que não faz senão cortar-me na pelle, ha muito tempo!...
Sou eu, então quem lhe furto o açucar!...

--Mas... mi... minha senhora... isso de açucar... era sonho... o tal
sonho...

--Dorna d'uma figa! resmunga entre dentes Maria Alexandrovna.

--Eu lhe direi quem é a dorna! ulula a Natalia Dmitrievna. E a senhora,
que será então? Ha muito tempo que me pôz essa linda alcunha! Mas,
sequer ao menos, tenho um marido, emquanto a senhora se contenta com um
cêpo.

... Es... tá... cclaro... Tam... bem me lembro da Dorna...

--Ah! elle é isso?... Tambem veiu meter a sua colherada?--Atreve-se a
injuriar uma senhora fidalga?! Com que, então, sou uma dorna; olha quem
fala, que nem sequer tem pernas!

--Es... tá... cclaro... Sem pernas...

... Como foi... que disse?

--Pois está sabido--nem pernas--nem dentes--Ora apanha!

--E um olho, só!... accrescenta Maria Alexandrovna.

--Um espartilho a suprir as costellas!

--Com a cara de mólas, toda ella!

--E nem um pello nessa careca!

--O proprio bigode, é postiço, pateta das duzias, agrava Maria
Alexandrovna.

--Res... peitem--o meu na... nariz... sequer ao menos! É verdadei... ro!
exclama, o principe banzado de todo.--Fôs... te... tu que me
de... nunciaste, meu amigo!

Para que fôste contar que o meu--cabêllo era--po... postiço?

--Tiozinho!

--Não, meu amigo, já aqui não posso ficar... leva-me para qu... alquer
parte... Que gente!

Para onde tu me trouxeste!... Valha-me Deus!

--Idiota! vocifera Maria Alexandrovna.

--Ai! meu Deus! suspira o coitado do principe. Já nem sei porque seria
que aqui vim parar--mas vou ver se me lembro.--Leva-me d'aqui para
fora--mano! Faziam-me em bo... bocadinhos!--E depois, é urgente que eu vá
anotar um... uma ideia... ca... capital.

--Venha d'ahi, querido tio, ainda estamos a tempo. Vem commigo ahi para
um hotel, qualquer, e não me aparto do tio...

--Mas... está... cclaro, com o senhor...

Adeus minha lin... da menina!

... A menina... e só a menina é a unica... que é virtuosa. É uma..
nobi... lis... sima donzella!

Vamos lá... meu caro...

Ai! meu Deus!

Não me abalançarei a descrever o epilogo da tão desagradavel scena, que
se seguiu á retirada do principe. Os visitantes foram-se safando n'um
berreiro de estrugir a tudo. Maria Alexandrovna ficou sósinha, em meio
d'aquelle seu desastre. Já é infelicidade! Poderío, riqueza, gloria,
foi-se tudo no espaço de um dia! Percebia e mais que percebia que nunca
mais levantaria cabeça! A tirannia por ella exercida durante tão longo
prazo sobre Mordassov estava aniquilada de todo. Que lhe restava? Não
era filosofa, Maria Alexandrovna. Passou uma noite pavorosa.
Desacreditada a Zina, um nunca acabar de linguarice! _Hórror, hórror,
hórror!_ Na minha qualidade de historiografo sincero, cumpre-me
mencionar que Aphanassi Matveich esteve a tiritar toda a santa noite no
cubiculo, ás escuras, onde se fôra alapardar para conservação dos seus
olhos.

O dia immediato não amanheceu fagueiro: isto de desgraças vem sempre aos
pares.



XV


Desde as oito horas da manhã que corria pela cidade um boato
inacreditavel. Repetia-o cada qual com maligno contentamento, conforme é
da praxe sempre que se trata d'algum escandalo do qual foi victima
qualquer pessoa d'amizade.

--Perder áquelle ponto a vergonha!

--Rebaixar-se daquella maneira!

--Arrostar assim com todas as conveniencias!

--Que costumes!

Eis o que succedera:

Logo de manhanzinha, ahi pelas sete horas, salvo erro, entrava em casa
de Maria Alexandrovna uma pobre vélhita, afflictissima, a supplicar da
aia que fosse quanto antes accordar a _barichina_[15], mas esta, tão
sómente, ás escondidas de Maria Alexandrovna. A Zina, assustada,
accudira desde logo. Cae-lhe de joelhos aos pés a velhota, aos beijos a
elles, a inundar-lh'os de lagrimas, a exorar-lhe que venha ver o Vassia.

--Passou tão mal a noite! Suppõe-se até que não chega ao outro dia!
Accrescenta a velha que foi o proprio Vassia quem manifestou desejos de
tornar a ver a sua amada, antes de morrer; e supplica-lhe em nome do
passado, e que, se ella se negar, morrerá no auge do desespero!

A Zina despede por ali fora, sem dizer nada á mãe. Vae de corrida até o
extremo de um dos arrabaldes mais pobres de Mordassov. Ali, n'uma baiuca
muito velha e escalavrada, á qual suprem as janelas umas como que ráchas
abertas nas paredes, n'um cochichólo muito baixo de tecto e fedorento,
meio atravancado com uma fornalha, jazia, em cima de uma camada de
taboas, cobertas com uma enxerga, delgada que nem uma folha de papel, um
môço, escondido debaixo de um capóte todo elle farrápos. Tinha livido e
refegado o semblante, os olhos, a luzir com o fôgo da fébre, as mãos,
seccas e transparentes. Quasi que nem respirar podia; era o estertor.
Comquanto o houvesse desfigurado a doença, conservava retraços de
formosura. Triste espectaculo, na verdade, aquelle rosto de tisico, do
moribundo. A edosa mãe que, ainda hontem, acreditava na cura percebe
finalmente que vae em breve ficar sósinha n'este mundo. Com os braços
cruzados, olhos sêcos, para ali está, sem comprehender, sem poder
desviar a vista de cima do enfermo, aniquilada, perseguida pela visão da
cova, na terra fria do velho cemiterio atascado de neve.

Não olha para ella o Vassia, irradia-lhe no semblante a ventura: até que
por fim vê aquella a quem, vae n'um anno, durante aquellas suas eternas
noites de doente apenas viu em sonhos. Percebe que ella lhe perdoou,
visto que veiu, visto que lhe aperta as mãos, visto que o contempla com
aquelles seus lindos olhos, a chorar e a rir ao mesmo tempo. Resuscita
de todo na alma do enfermo o passado: desperta-lhe dentro d'alma a vida
como se quiséra tornar-lhe sensivel a que ponto é triste o ter que a
deixar.

--Zina! Zinotchka! Não chores... não me estejas a lembrar que vou
morrer... deixa-me contemplar-te, pensar que me perdoáste. Vou morrer
sem pensar que morro, até, beijando-te as mãos... Estás tão magrinha,
Zinotchka! Anjo querido, a bondade com que tu estás a olhar para mim!
Lembras-te do gosto com que te rias, d'antes? Ai! Zina! Eu já nem sequer
te peço perdão!... Nem quero lembrar-me do que aconteceu... eu é que m'o
não perdôo, a mim proprio... E quanta noite sem poder dormir, Zina!
Quanta noite não levei eu a pensar, a recordar-me, a estalar, quasi, com
saudades!... É melhor que eu morra! Sou incapaz de viver, Zinotchka!

E a Zina, lavada em lagrimas, muda, a apertar nas suas as mãos do seu
amado, como se quiséra arrancál-o á morte.

--Então, não chores! insistia o enfermo. Eu morrerei hoje, porventura?
Se ha tanto tempo que está morta a felicidade! És mais intelligente e
vales mais do que eu... bem sabes que valho menos do que tu, por que
será que me tens amor? Bem sabes que te não mereço! Oh! quanto me não
tem feito padecer semelhante pensamento! Ah! querido amor, foi um sonho
a minha vida: não vivi, sonhei! E eu a desprezar a multidão: e que
razões tinha eu para ser tão soberbo? A purêza do meu coração? A nobreza
dos meus sentimentos? Mas se tudo isso tinha apenas a consistencia dos
meus sonhos, nada mais, Zina!

--Basta! basta! Matas-me!

--Não me interrompas, Zina!... Perdoáste-me, bem sei: e ha já muito
tempo, talvez, mas avaliáste-me e comprehendeste o que eu era, e é isso
que me atormenta. Sou indigno do teu amor, Zina! Fôste sempre leal e
generosa; fôste ter com tua mãe e declaraste-lhe o teu firme desejo de
casar commigo, ou com mais ninguem: e cumpriste a palavra dada, pois que
para ti, palavra e acção são uma e a mesma coisa! Ao passo que eu,...
eu! Não sabes, eu até hoje não tinha comprehendido, sequer, a extensão
toda do sacrificio que fazias em ser minha mulher. E lembrar-me eu de
que tu, commigo, te arriscavas a morrer de fome! Mas se a mim parecia-me
que nada ha n'este mundo que se compare á honra de ser esposa de um
grande poeta... sem nome,... é certo! Não quiz intender o motivo que
alegavas para retardar o nosso casamento. Tu a padeceres por minha
causa, eu a martirizar-te, a exprobar-te, a desprezar-te... até que por
fim te ameacei com aquella carta... Eu, n'esse instante, nem sequer
cheguei a ser um miseravel, mas sim um ente abjecto, e nada mais! Ah!
nem quero pensar até onde iria o teu desprezo! Não, não! É bom que eu
morra! Obrigado por não haveres querido pertencer-me! Iriam correndo os
annos, e quem sabe se eu afinal não viria a ver em ti um tropêço ao meu
porvir. Sim, antes assim! E agora, o amargor das minhas lagrimas, sequer
ao menos, purificou este meu coração. Ah! Zina! Concede-me um quinhão no
teu amor, tão sómente, no teu amor de algum dia!--N'esta hora
derradeira, sequer ao menos! Sou indigno do teu amor, bem o sei! mas...
mas... mas... ai meu anjo!

E a Zina, desfeita em pranto, a escutar. Tentava interrompêl-o, elle
porém, ia proseguindo... supplice, a gesticular, e aquella sua voz
debil... abafada e sibilante,... fazia mal á Zina...

--Não me tiveras tu encontrado, e não me terias amado, e não morrias...
disse a Zina. Ah! Oxalá nunca nos tivessemos encontrado!

--Não, meu amor, não! Não te estejas arguindo da minha morte! A culpa
foi minha, e só minha! O amor proprio... o romantismo!... Nunca te
contaram, Zina, a minha estupida historia? Existiu aqui, ha três annos,
um prisioneiro, um miseravel, um ladrão. Mas no dia em que chegou o
castigo, faltou-lhe o animo. Sabendo que não levam a justiçar um
enfermo, alcançou uma garrafa de vinho, deitou-lhe de infusão tabaco e
enguliu-o. Tomaram-n'o uns vomitos que duraram tanto que principiou a
escarrar sangue e deu cabo dos pulmões. Levaram-n'o para o hospital e,
d'ali a dias, morreu tisico. Pois bem! Occorreu-me á memoria esse
ladrão, no dia em que se deu aquelle caso da carta... E resolvi acabar
commigo da mesma maneira. E por que foi que eu, de proposito, escolhi a
tisica? Por que foi que me não enforquei ou me não deitei a afogar?
Seria porque me assustasse uma morte tão abrupta? Talvez; mas a mim
quer-me parecer que concorreriam, e não pouco, para isso, as minhas
ideias romanescas. Não me largava este pensamento: Que morte tão bella
não será a minha, estirado como agora o estou, n'uma cama, com o
estertor da tisica!... E tu, ao pé de mim, a lamentar-me, e a padecer
com a ideia de que eras talvez a causa da minha doença! E eu a ver-te
entrar por ali dentro, arrependida, ajoelhar á beira do meu leito... E
eu a perdoar-te e a expirar nos teus braços!... Toleima, Zina, pois não
era?

--Esquece-te de tudo isso, nem me tornes a falar das tuas culpas, que tu
estás a exaggerar; lembrêmo-nos dos momentos ditosos, dos dias de
ventura.

--Não m'o perdôo, meu amor, e é por isso que falo a semelhante respeito.
Ha já dezoito mêses que te não via. Queria alliviar este meu coração!
Durante esse tempo todo, eu para aqui, sósinho, e não houve um só
instante, em que eu não pensasse em ti, meu amor. O que não desejaria eu
fazer para reconquistar a tua estima? Até ao derradeiro instante não
acreditei que morria; não me entreguei á cama desde logo, andei a pé,
por muito tempo, com o peito escangalhado. E que sonhos tão ridiculos!
Ás vezes suppunha ser um grande poeta e em vesperas de publicar um poema
como ainda não tinha apparecido outro egual n'este mundo, que ninguem
tivera genio para o escrever. E eu a pensar que me iriam n'elle todos os
meus sentimentos, a minha alma, toda inteira, e que, d'este modo, me
acharia sempre a teu lado, e que qualquer que fosse o sitio em que te
encontrasses, os meus versos ir-te-hiam recordar a minha existencia, e o
meu sonho unico era acreditar que tu em conclusão poderias dizer: "Não,
elle a final não é tão mau como eu o suppunha". Toleima, Zina, toleima,
pois não é?

--Não, não, Vassia, exclamava a Zina.

E debruçada sobre o peito d'elle, pôz-se-lhe aos beijos ás mãos.

--E o ciume! Como me atormentava o ciume durante esse tempo, todo! Eu,
se tivesse ouvido falar no teu casamento, caía morto, redondamente!... E
eu a vigiar-te, a espreitar-te... Era ella quem lá ia (apontando para a
mãe). Tu nunca tiveste amor ao Mozgliakov, pois não é verdade? Ai! meu
anjo! Lembrar-te-has tu de mim quando eu já não fôr d'este mundo?
Lembras, sim, que eu bem sei! Mas os annos hão de ir passando,
arrefecer-te-ha esse teu coração, o inverno ir-te-ha tomando posse da
alma, e olvidar-me-has, Zina!...

--Não, não, nunca! E nunca me hei-de casar, tem a certeza!... Foste o
meu primeiro amor e serás o derradeiro.

--Tudo morre, Zinotchka, tudo, até a propria recordação, até os mais
nobres sentimentos. Dão logar a um certo raciocinio: frio, que acalma as
saudades. Insurgirmo-nos, para quê? Trata de aproveitar a vida, ama, sê
feliz. Ama um vivo! Para que serve o teu amor a um morto?--E comtudo,
não me esquéças de todo! Tivémos horas atribuladas, é certo, mas quantos
dias de tanta doçura? Ah!--Foram-se de uma vez para sempre!... Escuta,...
amei sempre o pôr do sol... Oh! não!... morrer, por quê?... Ah!
viver, viver! Lembra-te da primavera! Do sol! Tão lindo! Das flores!
Vivemos por uns tempos n'uma festa! E agora, olha! Olha!

E o pobre enfermo a apontar com a mão diáfana o vidro empanado pela
giada. Depois agarrou-se ás mãos da Zina e entrou a chorar com amargor.
E os soluços a esfacelarem-lhe o já dilacerado peito.

E assim se passou todo o dia: A Zina a dizer-lhe que jamais o olvidaria,
que a ninguem n'este mundo viria a dedicar amor egual áquelle que a elle
lhe dedicára. E elle a acreditál-a, a sorrir-lhe, a beijar-lhe as mãos.

N'este meio tempo, Maria Alexandrovna, inquiéta, havia já mandado por
mais de dez vezes indagar o que seria feito da Zina, a supplicar-lhe que
voltasse para casa, que não acabasse de se desacreditar na publica
opinião. Até que por fim, ao lusco fusco, resolveu-se, esparvoada de
receio, a ir, em pessôa, em procura da filha. Exorou-lhe de joelhos; a
Zina a ouvil-a sem a intender. Maria Alexandrovna saíu desesperada. A
Zina estava decidida a passar a noite junto do moribundo. Não lhe largou
da cabeceira. O estado do infermo ia peorando a olhos vistos: quando
rompeu a madrugada, quasi que nem conservava sopro de vida. E não
obstante, viveu ainda um dia inteiro. Porém, no momento em que o sol no
occaso abrasáva as vidraças, exalou-se a alma com os ultimos raios.

Deu-se então horrivel scena. A edosa mãe abraçou-se com o corpo do
filho, e, voltada para a Zina:

--Fôste tu que o deitaste a perder, maldita! clamou.

A Zina, porém, não ouvia coisa nenhuma; estava para ali, qual estatua
insensivel, como se, a ella, a alma a tivera deixado tambem. Até que por
fim, abaixou-se, fez sobre o defunto o signal da cruz, beijou-o na
testa, e saíu do quarto.

Tão tremendas sensações, e aquellas duas noites de véla, quasi que a
haviam enlouquecido de todo... e depois, sentia-se prestes a entrar em
um novo viver, triste, ameaçador.

Não teria ainda andado dois passos, eis lhe surge na frente o Mozgliakov
como se com elle se abrira o chão.

--Zinaida Aphanassievna, disse com timidez, rodando a vista para todos
os lados, Zinaida Aphanassievna, sou um jumento; isto é, não é isto
que... Se me dá licença, não serei um jumento, visto que procedi
briozamente, apezar de todos os pezares... Mas lá que fui um jumento,
fui... e estou mais que arrependido... Está-me a parecer que estou a
meter os pés pelas mãos, Zinaida Aphanassievna. Perdoe-me, atendendo a
este concurso de circunstancias...

E a Zinaida, inconsciente, a olhar para elle, e a seguir seu caminho,
sem tugir. Como no passeio não houvesse logar para dois, Mozgliakov
desceu para a calçada.

--Zinaida Aphanassievna--proseguiu o mancebo, se m'o consente, estou
pronto a renovar o meu pedido, pronto a esquecer tudo, a
perdoar-lhe--com uma condição:--Ficará tudo sendo segredo por emquanto.
Ausenta-se d'esta terra o mais breve possivel, eu sigo atras, ás
escondidas, casamos para ahi seja onde fôr, sem que ninguem dê por isso,
e vamos para Petersburgo. E então! Que me diz? Consente, Zinaida
Aphanassievna? Responda, depressa, por quem é! Não posso esperar;
poderiamos ser vistos.

A Zina não respondeu: olhou para o Mozgliakov, tão somente, mas fêl-o,
porém, de modo tal, que elle comprehendeu desde logo, cumprimentou-a e
sumiu-se por detrás da primeira esquina.

"Ora esta! matutava; ella, ainda não haverá dois dias, a lançar em rosto
a si propria as culpas todas, e agora!..."

N'este comenos, em Mordassov, precipitavam-se os acontecimentos.

O principe, acarretado pelo Mozgliakov para o hotel, n'aquella mesma
noite caíu perigosamente enfermo. Os Mordassovenses só vieram a ser
informados do caso ao romper do dia. Kalist Stanislavitch não largava a
cabeceira do doente. Ao anoitecer, effectuou-se uma conferencia dos
medicos todos de Mordassov. Os convites para comparencia eram redigidos
em latim. E não obstante, a despeito do latim, o principe achava-se em
estado de delirio, e tudo era pedir ao Kalist Stanislavitch que lhe
cantasse uma certa romança, a fallar a respeito de chinó e bigode
postiço e, de vez em vez, muito assustado, soltava uns berros.
Concluiram os medicos que era uma inflammação do estomago, resultante do
excesso de hospitalidade mordassovense, e que d'ali tinha passado á
cabeça. Alegaram, tambem, não sei com que fundamentos, um tal qual abalo
nervoso. E d'ahi, não se esqueceram de notar que o principe havia muito
que manifestava predisposições para a morte e que, por conseguinte...
está claro!--e que por conseguinte, morria. Esta ultima hypothese
pareceu ter certo fundamento: o pobre do ginjinha expirou ao terceiro
dia, ahi pelo anoitecer. Obito a tal ponto inesperado consternou
Mordassov. Acudiram em chusmas ao hotel, discutiam, abanavam a cabeça, e
concluiram acusando directamente "os assassinos do principe, coitado!"
(aludindo assim a Maria Alexandrovna e á filha).

Concordava toda a gente em que tão escandalosa historia não deixaria de
dar brado, e podia, até, "ir muito longe".

Mozgliakov nem sabia já que fazer á sua vida. A situação,
effectivamente, antolhava-se perigosa. Não fôra elle quem accarretara
com o principe para casa de Maria Alexandrovna? Não fôra elle tambem que
carregara com elle para o hotel? Não sabia o que havia de fazer com o
cadaver, onde o enterrar, a quem informar. E de mais a mais, como
passava por ser sobrinho do principe, o seu medo todo era não se
lembrassem de o accusar de ter morto o veneravel ancião.

Eis que de repente mudam as scenas. Uma bella manhã, chega á cidade um
viajante, desconhecido. E Mordassov, em peso, pespegado á janella, a
commentar o adventicio.

--O tal viajante era nem mais nem menos que o celebre principe
Chtchepilov, parente do defunto, sujeito de seus trinta e cinco annos,
usando dragonas de coronel e as agulhetas de ajudante de ordens. Aquella
gran-cruz compenetrava de um respeitoso pavor a todos os
_tchinovnicks_[16] do logar. O prefeito de policia por pouco não
indoidece.

Em breve se veiu a saber que o principe vinha de S. Petersburgo e já
havia passado por Dukhanovo. Não encontrando ali ninguem, viera
seguindo as piugadas do principe até Mordassov, onde o surprehendera a
fatal noticia. Tomou desde logo a tudo sobre si, e Mozgliakov retirou-se
muito encolhido em presença do lidimo sobrinho.

O illustre defunto foi trasladado para o mosteiro. Ao outro dia, a
cidade em peso congregou-se a ouvir a missa funeraria. Entre as
senhoras, corria que Maria Alexandrovna compareceria em pessoa na
egreja, para pedir perdão alto e bom som perante o caixão, em
conformidade com as exigencias da lei. Escusado será dizer que tal Maria
Alexandrovna não appareceu.

Fôra para o campo e levára a Zina, parecendo-lhe insustentavel a
situação na cidade. Lá da sua aldeia, ia recolhendo com inquietação as
atoardas e mandava tomar informações.

Do mosteiro a Dukhanovo, o caminho passava a uma versta das janellas de
Maria Alexandrovna. Teve pois occasião de ver desfilar o prestito
funebre. Atrás do féretro seguia uma longa cauda de trens. E por largo
espaço, n'aquelle campo branco de neve, foi perfilando aquelle seu vulto
negro, lento e majestoso, o carro melancólico.

D'ali a oito dias, Maria Alexandrovna, com a filha e Aphanassi Matveich,
transferiu-se para Moscou. A aldeia e a casa foram postas em leilão.

E assim perdeu para sempre Mordassov uma senhora, o _mais comme il faut_
possivel!

O caso não escapou a commentarios; nem faltou quem affirmasse que o
Aphanassi Matveich se achava tambem á venda juntamente com a aldeia...

Rodou um anno, outro ainda, e ninguem tornou a falar em Maria
Alexandrovna.

E comtudo, correu que havia adquirido outra aldeia em outro governo, e
que outra capital de districto não tardaria em tremer entre as suas
potentissimas mãos. A Zina estaria ainda á espera de noivo.

O Aphanassi Matveich...

Mas não nos tornemos éco de boatos sem fundamento. É falso tudo isso.

      *      *      *      *      *

Já lá vão três annos desde que eu escrevi as linhas que acabaes de ler.
Quem me diria que ainda havia de vir a folhear o manuscripto para lhe
accrescentar ainda mais uma lauda?

Mas vamos ao facto:

Principiarei por Pavel Alexandrovitch Mozgliakov.

Ao ausentar-se de Mordassov, foi direitinho a Petersburgo, onde alcançou
o logar que lhe andava prometido havia muito tempo. Não tardou em se lhe
franquearem as portas da sociedade, infronhou-se n'umas intrigalhas,
guindou-se ás alturas de espirito do século, tornou a apaixonar-se,
renovou o seu pedido, voltou a apanhar um não pelas ventas, enguliu-o, e
não podendo digeril-o, sollicitou o ser incorporado a uma expedição
enviada a um dos cantos mais remotos d'este nosso paiz sem limites.

O corpo expedicionario transpôz sem novidade de maior florestas e
desertos, alcançando a capital da longinqua região.

Foi acolhido pelo general-governador.

Era um homem magro e de semblante severo, um velho militar, ferido em
diversas campanhas, condecorado com dois cráchás e com uma cruz branca.
Convidou a todos os _tchinovniks_ para um baile effectuado aquella mesma
noite.

Pavel Alexandrovitch estava encantado. Envergara a sua casaca
petersburguense, com a qual contava para produzir immenso effeito, e deu
entrada nas salas nobres com modo desassombrado. Não tardou porém a
perder o aprumo em presença de tanta dragona de cachos e de tanta farda
enfeitada de commendas. Cumpria-lhe ir fazer a sua venia á esposa do
governador, nóva, diziam, e formosissima. Aproxima-se, muito senhor de
si,--mas--de subito,--escancara a bôca, e fica pregado ao chão, de
assombrado. Com um sumptuoso vestido de baile, surge-lhe na frente a
Zina, feraz, soberba, linda, e resplandecente de joias, toda ella. Nem
conheceu o Pavel Alexandrovitch, os seus olhos nem se detiveram sequer
no semblante de mancebo. Mozgliakov recuou e foi perder-se entre a
turba-multa, e soube da bôca de um juvenil _tchinovnick_ coisas
interessantissimas.

Soube que o governador era casado ia já em dois annos, desde uma viagem
que fizéra a Moscou. Desposara uma joven muito rica, de optima familia.
A generala era muito soberba e só dansava com generaes, (havia nove no
baile). A generala tem em sua companhia a mãe, senhora intelligentissima
da mais alta aristocracia, mas que se submete á vontade da filha. E
d'ahi, o general extasia-se tambem deante d'esta. Mozgliakov referia-se
ao Aphanassi Matveich, mas n'aquella região remota ninguem dava noticia
delle.

Um tanto restabelecido d'aquelle seu sobresalto, Mozgliakov deu uma
volta pelas salas e lobrigou Maria Alexandrovna, vestida com singeleza
e, muito animada, a falar com uma personagem graúda. Faziam-lhe cerco
varias senhoras que lhe sollicitavam a boa sombra. Maria Alexandrovna
era amavel com toda a gente.

Mozgliakov arriscou-se e foi-se-lhe apresentar. Maria Alexandrovna teve
assim a modos de um estremeção, mas sopitou-se, acto-continuo. Dignou-se
reconhecêl-o e pediu-lhe novas dos seus amigos de Petersburgo. A
respeito de Mordassov, nem palavra e foi como se tal coisa não
existisse, em conclusão, proferiu o nome de um qualquer principe
estranho ao Mozgliakov, voltou-lhe as costas sem affectação,
dirigindo-se a uma personagem graúda de cabello grisalho e aromatizado,
e d'ali a instantes, dir-se-hia haver-se esquecido de todo de Pavel
Alexandrovitch, que ficou para ali com cara de tolo, diante della.
Mozgliakov, engatilhando um sorriso sarcastico, e de chapeu na mão,
regressou para a sala nobre. Não sei dizer o motivo, mas considerava-se
offendido e não se prestou a dansar. Nunca mais lhe desampararam o
semblante quer uns ares tristes e de distracção quer um méfistofélico
sorriso! Recovado em pinturesca atitude a uma columna, (parecia que de
proposito, tinha columnas o salão), e toda a santa noite, horas a
seguir, para ali se deixou estar no mesmo posto, a seguir com os olhos a
Zina. Tempo perdido, infelizmente! Todas aquellas artimanhas, aquelles
tregeitos todos, aquelles ares romanticos e de nimia decepção... etc...
etc... nada lhe valeu... A Zina nem sequer deu fé da sua presença. Até
que por fim, estafado, exasperado, com os pés dormentes em resultado da
immobilidade, faminto, pois não tinha ceado a fim de melhor sustentar o
seu papel de amante dolorido, recolheu para sua casa, derreado, abatido.
E esteve a pé horas esquecidas, a matutar no passado... Logo no dia
immediato, pediu transferencia e alcançou uma missão que o reconduziu a
Petersburgo. Voltou a serenidade a entrar-lhe na alma assim que voltou
costas á cidade. Lá ao longe, o espaço, o infinito, o deserto, a
denegrida neve das florestas nos confins do horizonte. Ao som das patas
dos cavallos a chofrarem, e a acompanharem o retinir e o telintar das
campainhas. Pavel Alexandrovitch esteve pensativo, por instantes, mas
depois, adormeceu muito socegado da sua vida.

Acordou na terceira muda, fresco, bem disposto, e a pensar noutra coisa.


FIM



    [1] Mestre escola

    [2] Proprietario territorial.

    [3] Poeta russo.

    [4] Sacristão.

    [5] Diminuitivo offensivo de Natalia.

    [6] Diminuitivo offensivo de Sonia.

    [7] Diminuitivo offensivo de Maria.

    [8] Dansa nacional russa.

    [9] Mulher de mujik.

    [10] A filha do principe Kotchbey.

    [11] Até mais ver. (em allemão)

    [12] Modo de dizer russo--por: _a minha vida acabada_.

    [13] Pelissa.

    [14] (Camponêsa.)

    [15] A menina.

    [16] Funccionarios.



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