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Title: Morte de Yaginadatta - Episodio do poema epico - O Ramayana
Author: Figueiredo, Cândido de, 1846-1925
Language: Portuguese
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                           LITTERATURA DA INDIA

                                     I

                           MORTE DE YAGINADATTA



MORTE DE YAGINADATTA

EPISODIO

DO POEMA EPICO--O _RAMAYANA_

VERSOS PORTUGUEZES

DE

CANDIDO DE FIGUEIREDO

COIMBRA

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

1873



AO PROFUNDO ORIENTALISTA

AO ERUDITISSIMO FILOLOGO

AO APPLAUDIDO PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE OXFORD

MAX MULLER

CONSAGRA

ESTE MESQUINHO TESTIMUNHO DE REVERENCIA, SIMPATHIA E GRATIDÃO

C. DE F.



...... «Não conhecemos na litteratura indiana, nem talvez em litteratura
alguma, episodio mais sentido e mais sublime do que aquell'outro do
Râmâyana,--a «Morte de Yaginadatta». Priamo aos pés de Achilles, na
«Illiada» de Homero, é admiravel de dor e de sentimento; arrebata-nos a
lastimosa Dido nos cantos do cisne mantuano ; Ignez deante de Affonso,
no poema de Camões, abala-nos a alma e obriga-nos a lagrimas: não teme
porem confronto com Priamo, Dido e Ignez o cego sublime de Valmiki
deante do assassino de seu filho.

Asserções fundadas, mas que podem passar por temerarias, reclamam prova
efficaz. Não nos esquivamos a ella.....; tomâmo-nos até de ufania com
sermos o primeiro que apresenta em linguagem nossa um dos eternos
monumentos da verdadeira poesia indiana.

Não é o luxuriante e o garrido da fórma o que nos prende ao episodio de
«Yaginadatta»: difficilmente se aprecia a fórma em toda a sua pureza,
quando a lima dos commentarios e a crueldade, talvez, das traducções,
entibiou naturalmente o colorido que brotou espontaneo da paleta do
artista. Mas aquillo que é sempre bello, aquillo que a mão dos seculos
não consegue carcomer nem afeiar, aquillo que o genio deixa insculpido
em caracteres indeleveis--torna immortais e queridos os admiraveis
«çlokas» da «Morte de Yaginadatta.»

Reproduziremos o episodio em decasillabos portuguezes. Descorado embora
na traducção modesta, entrever-se-á nelle ao menos a majestosa
simplicidade da narração, e conjuntamente se descortinará o ponto mais
elevado a que podem sublimar-se os sentimentos do coração humano.»

CANDIDO DE FIGUEIREDO, no _Instituto_, vol. XVII, n.º 4.



ELUCIDAÇÕES E ADVERTENCIA


Os que se derem ao cuidado de confrontar a nossa tentativa com os
trabalhos de Gorresio acharão porventura divergencias. Advertiremos, por
isso, que a interpretação de Fauche, cujas versões discrepam a revêzes
das do filologo italiano, foi a que especialmente nos serviu de guia.

Aos leitores pouco familiarisados com a litteratura indiana offerecemos
um indice de algumas palavras do _episodio_, mais desconhecidas por
menos vulgares:

BRAHMANES--casta sacerdotal.

ÇUDRAS--casta servil.

DAÇARATHA--rei de Ayodhya, e pai de Ramá.

DJATA--cabelleira especial.

GURÚ--mestre, director espiritual.

INDRA--o rei dos deuses, o Jupiter indiano.

KCHATRYAS--casta militar e real.

RAGHÚ--rei dos da raça solar.

RAMÁ--o heróe do _Ramayana_.

YAMÁ--o juiz dos mortos, o Plutão indiano.



MORTE DE YAGINADATTA


    Quando Ramá, dos homens o mais bravo,
    partiu para as florestas, Daçaratha
    --aquelle rei outr'ora tão ditoso,--
    deixou-se possuir de mágua enorme.
    Exilados seus filhos, o monarca,
    tão alto como Indra, escureceu-se
    nas trevas do infortunio, como quando
    a sombra de um eclipse os céus invade,
    tapando ao sol a face.

                           Após seis dias
    de prantos e saudade, o rei egregio,
    acordando uma vez á meia noite,
    lembrou-se de uma falta commettida
    em afastado tempo, e dirigiu-se
    desta fórma a Kaoçálya, sua esposa:
    --Se és tambem acordada, ouve-me attenta,
    Kaoçálya. Quando um homem, dama illustre,
    faz uma acção, ou boa ou má, não póde
    evitar no porvir os fructos della.
    Qualquer que em suas coisas não distingue
    o bem e o mal, e ás cegas vai obrando,
    os sabios appellidam-no criança.

    Nos bons tempos da minha adolescencia,
    em que eu, moço imprudente, me ufanava
    de frechar toda a fera que avistasse,
    commetti uma falta... por acaso.
    A desgraça presente é fructo acerbo
    dessa culpa, Kaoçálya, como a morte
    é fructo de um veneno que se bebe.
    Mas filha de ignorancia foi a culpa,
    como a morte talvez de envenenado.
    Ainda tu não eras minha esposa,
    e eu era apenas da corôa herdeiro.
    Nesse tempo, a estação das manhans frescas
    entornava alegrias na minha alma;
    o sol, que havia esbraseado a terra
    e bebido a humidade das campinas,
    cançado já de procurar o norte,
    mudara de hemisferio. Graciosas
    as nuvens espalmavam-se nos ares,
    e os grous, e os cisnes, e os pavões folgavam
    repletos de alegria. Os aguaceiros
    obrigavam os rios a espalharem
    agua lodosa em cima das alpondras.
    Os campos, sorridentes sob a chuva,
    ostentavam seus virides relvados
    em que as aves, alegres, volitavam.

    No correr de estação tão prasenteira,
    tomei sobre meus hombros dois carcazes,
    empunhei o meu arco, e fui-me andando
    em direcção ás margens do Çarayo.
    Ao abeirar-me do formoso rio,
    levava em mira, consoante os habitos,
    ás feras atirar, que um rumor leve
    denunciasse, sem que eu mesmo as visse;
    e escondi-me na sombra, de arco armado,
    ao pé dos bebedoiros solitarios,
    que ali dessedentavam, alta noite,
    os animais que habitam as florestas.
    E era o caso, que ás vezes despedia
    alguma frecha para aquella banda
    donde rumor saíra, e assim matava,
    um bufalo da selva, um elefante,
    ou qualquer fera que buscasse as aguas.

    E nessa hora, quando os meus olhares
    nenhum objecto distinguir podiam,
    ouvi o som confuso de uma bilha
    que alguem enchia de agua; som que imita
    o múrmuro beber de um elefante.
    E prestes cavilhando no arco a frecha,
    frecha assás empennada e penetrante,
    cego pelo destino, despedi-a
    contra o logar donde o rumor saíra.
    Mal a frecha voara, uma voz de homem,
    lamentosa, chegou a meus ouvidos:

    --Morto! estou morto! Como despedir-se
    um dardo contra mim, contra um ermita?
    De quem será o braço deshumano
    que despediu a seta? Vim de noite
    a bilha encher no solitario rio:
    quem o assassino? a quem tenho offendido?
    Oh! esta frecha, tendo penetrado
    o coração exanime do filho,
    irá cravar-se no maguado seio
    de um velho anacoreta, pobre e cego,
    que aí vegeta á sombra da miseria,
    no meio destes bosques. Chóro menos
    o desastrado fim da minha vida,
    que a sorte de meus pais, dois velhos cegos.
    Avergados ao peso dos invernos,
    e por mim amparados tanto tempo,
    como viverão elles, sós e cegos,
    sem o amparo do filho? Quem seria
    o homem sem alma, cuja frecha aguda
    matou a todos tres, a mim e a elles,
    que de fructos, raízes e legumes
    numa paz innocente aqui vivíamos?--

    Disse. E, perante a minha extranha falta,
    eu, abalado, commovido e trémulo,
    deixei cair das mãos carcaz e arco.
    Corri, e achei, postrado na agua, um joven
    que trajava de pelles de antilobio
    e usava a illustre djata dos ascetas.
    Mortalmente ferido, ergueu os olhos,
    e, cravando-os em mim, num desgraçado,
    dirigiu-me, rainha, estas palavras,
    como querendo me abrasar nas chammas
    da sua radiante santidade:

    --Que offensa contra ti hei commettido,
    kchatrya, eu, habitante das florestas,
    para que recebesse a tua frecha,
    quando no rio eu mergulhava a bilha
    por que meu pai dessedentasse os labios?
    Os dois velhos, autores de meus dias,
    sem um apoio nas desertas matas,
    aguardam minha volta; pobres cegos!
    De uma só vez, com uma frecha apenas,
    tres seres victimaste: eu, a mãi terna,
    e o pai! Porquê? se nunca te offenderam?
    A virtude e a sciencia não produzem
    na terra fructo algum, segundo creio,
    pois que meu pai não sabe que me matas!
    E, dado que o soubesse, que faria,
    elle que nada póde, porque é cego?
    Assimilha-se a uma árvore sem força.
    para amparar outra árvore arrancada
    pela buída secure do lenheiro.
    Vai, filho de Raghú, vai, sem detença,
    ter com meu pai, e dá-lhe a fatal nova,
    antes que a sua maldição te abrase,
    bem como o fogo abrasa as seccas urzes.
    O atalho, que tu vês, leva ao retiro
    onde habita meu pai! fala-lhe, abranda-o,
    antes que te maldiga em sua colera!
    Mas... vem, arranca-me do seio a frecha:
    este dardo, cravado no meu seio,
    é, como um raio, ardente, e mal respiro.
    Arranca-me este dardo; que eu não morra
    com elle no meu peito. Eu não sou brahmane;
    não te possuas do terror que inspira
    o assassinio de um brahmane. É verdade
    que de um brahmane, que erma neste bosque,
    eu filho sou, mas minha mãi é çudra.--

    Eis o que disse o moço, a minha victima.
    Á vista deste pobre adolescente,
    que, entre queixumes tais, se rebolcava
    nas aguas do Çarayo, despenhei-me
    na mais extranha prostração de espirito;
    e, alheado de mim, tirei a frecha
    do extenuado seio do mancebo,
    com um cuidado egual ao meu desejo
    de conservar-lhe a vida. Mas apenas
    o dardo se extraiu, o moço ermita,
    exhalando um suspiro entrecortado
    por golfadas sangrentas, tremeu todo,
    e extranhamente os olhos revolvendo,
    exhalou o suspiro derradeiro.

    Quando o filho do santo anacoreta
    expirou, abatendo a minha gloria,
    e a mim mesmo, fiquei-me consternado
    á vista do incuravel infortunio.

    Extraída que foi a seta ardente,
    fatal como o veneno de uma serpe,
    tomei a bilha, e dirigi os passos
    para a mansão da asceta. Os pobres velhos,
    lá estavam sosinhos, tristes, cegos,
    sem ninguem que amparasse os desgraçados,
    como dois passaros que as asas perdem.

    Aguardavam seu filho, e eram sentados,
    falando delle afflictos, os dois velhos:
    aquelles que eu ferira em sua prole
    anciavam a dita que seu filho
    voltando lhes daria! Neste lance
    é que eu, na consciencia remordido,
    achei ermando os pallidos ascetas!
    O ermita, ouvindo passos junto delle,
    diz:--Filho meu, porque tardaste tanto?
    Traze-me a bilha já. Yaginadatta,
    meu bom amigo, há tanto que te andavas
    brincando na agua! dava-nos cuidado,
    á tua boa mãi e a mim, meu filho,
    tão longa ausencia. Se eu acaso ou ella
    num momento sequer te magoámos,
    perdôa, e nunca mais por tanto tempo
    te detenhas no ponto aonde fores.
    Não posso andar... tu és as minhas pernas;
    não posso ver... tu és a minha vista:
    esta minha existencia em ti descança!
    Porque não falas tu!--

                           A estas vozes,
    lentamente abeirando-me do velho,
    a quem o amor de pai tanto inspirava,
    e com as mãos o peito comprimindo,
    disse-lhe suffocado de soluços,
    e numa voz tremente, balbuciante,
    mas que a minha firmeza reanimava:
    --Eu... um kchatrya sou, não sou teu filho;
    meu nome é Daçaratha; e eis-me comtigo,
    depois de commetido infando crime,
    de que a virtude tem horror e espanto.
    Eu, santo asceta, havia demandado,
    com o arco em punho, as margens do Çarayo,
    por espreitar os animais bravios
    que, da sede obrigados, ali fossem,
    e que eu frechasse sem os ver. No emtanto,
    o estridor de uma bilha que se enchia
    tocou-me o ouvido, despedi a frecha
    e assassinei teu filho, imaginando
    matar um elefante. Aos gritos delle,
    tirados pela frecha que o varara,
    corri trémulo ao ponto donde vinham,
    e vi então um joven penitente.
    É certo que eu pensava, anacoreta,
    ter em frente de mim um elefante,
    e atirar a uma fera não a vendo,
    quando cravou teu filho o férreo dardo.
    Arranquei-lhe do seio a minha frecha,
    e elle expirou, subindo ao céu; mas antes
    havia lastimado longamente
    a sorte de seus pais. Involuntario
    foi o assassinio de teu filho amado...
    Curvado assim ao pêso desta culpa,
    mereço contra mim a tua colera.--

    Nisto, ficou petrificado o velho;
    mas logo após, recuperando alento,
    estas palavras proferiu, emquanto
    eu as mãos juntas conservava humilde:
    --Se, criminoso de uma falta enorme,
    tu m'a não confessasses espontaneo,
    mesmo sobre teu povo cairia,
    o castigo tremendo; e o meu anathema
    havia consumil-o como o fogo!
    Kchatrya, se soubesses que era ermita
    aquelle que matavas, esse crime
    faria despenhar Brahmá do throno,
    que elle no emtanto occupa inabalavel;
    a sete descendentes e a outros tantos
    dos teus maiores cerraria as portas,
    oh mais vil dos mortais, o paraiso,
    se consciencia houvesses do teu acto.
    Foi crime inconsciente; de outra sorte,
    não viverias já, e a raça inteira
    dos raghuidas havia de apagar-se,
    tanto valor se prende á vida tua!
    Vamos, cruel! conduze-me depressa
    aonde assassinaste o infeliz moço
    que era um bordão de cego, e que sabia
    guiar minha cegueira. Eu quero ainda
    tocar meu filho morto, se a existencia
    me não abandonar, antes que o abrace.
    Quero, com minha esposa, tocar inda
    o ensanguentado corpo de meu filho,
    solto o djata e os cabellos em desordem;
    corpo de que a alma resvalou agora
    sob o poder de Yamá.--

                           Guiei os cegos,
    do intimo abalados, a essa estancia
    e nella os dois esposos abraçaram
    o estirado cadaver de seu filho.
    Mal sustendo uma dor que os avergava,
    ao tocarem apenas no cadaver
    ergueram da alma doloroso grito,
    caindo sobre o corpo ensanguentado.
    O esmaiado semblante de seu filho
    a mãi beijou, e desatou-se em prantos,
    e em lamentos tão tristes, que lembravam
    os da mãi do novilho, a que furtassem
    a estremecida prole:--Yaginadatta,
    dizia ella, não me queres tanto
    como á propria existencia? filho augusto,
    porque não falas tu, quando te partes
    para essa viagem que é tão longa?
    Beija-me e partirás em me abraçando!
    Já me não queres bem? porque não falas?

    O pai afflicto, débil, alquebrado,
    falou tambem como se vivo fosse
    o filho a quem tocava os membros gélidos:
    --Meu filho, não conheces minhas vozes,
    nem as de tua mãi? ergue-te agora!
    vem! em teus braços nos aperta a ambos!
    De quem ouvirei eu nestes desertos
    uma voz grata que me leia os _Vêdas_,
    na noite proxima, co'o mesmo empenho
    que tinhas em saber os santos dogmas?
    E quem, meu filho, levará dos bosques
    á mansão nossa fructos e legumes,
    sempre que a fome dominar os cegos?
    E esta ceguinha, carregada de annos,
    tua mãi, esta boa penitente,
    como a sustentarei, eu que sou fraco,
    que sou cego como ella e sem amparo?
    Não queiras deixar hoje estas paragens;
    ámanhan, filho, partiremos todos.
    Depressa a dor obrigará os velhos
    a deixar esta vida pela morte:
    a sentença, meu filho, está lavrada.
    Apenas eu de Yamá entrar nos reinos,
    infeliz pai, mendigarei eu mesmo;
    para o filho do Sol levando os passos,
    eu lhe direi, por ti acompanhado:
    --dá esmola a meu filho, ó deus dos mortos.--
    Depois das santas orações da tarde,
    depois de feita a matutina prece,
    depois do banho e da oblação piedosa,
    quem tocará meus pés com as mãos suas,
    para enlevar-me em sensações tão gratas?
    Ao mundo dos heróes que não regressam
    sóbe, meu filho, que és um innocente
    victimado a imprudencia deshumana.
    Alcança o eterno mundo dos ascetas,
    dos sacrificadores e dos brahmanes
    que as funcções de guru preencheram dignos;
    o mundo destinado aos penitentes
    que leram, linha a linha, os santos livros,
    os _Vêdas_ e os _Vêdangas_; e onde habitam
    Yasti, Nahusha, e outros reis piedosos;
    mundo aberto aos bons chefes de familia
    que nunca o sensual prazer procuram
    longe dos braços da consorte amada;
    seres modestos e almas generosas,
    que a plenas mãos armentos distribuem,
    e alimentos e terra aos desherdados.
    Vai, meu filho, acompanho-te em espirito;
    sóbe ao eterno mundo aonde sóbem
    aquelles que firmaram entre os povos
    a paz e a segurança, e cujo verbo
    foi a voz da verdade. Almas eleitas,
    que nascem numa casta como a tua,
    a inferior condição não baixam nunca.
    Expulso ora d'aqui, vai a esses mundos,
    onde o mel em regatos serpenteia.--

    Tanto que o solitario estes lamentos,
    e outros inda, soltou com sua esposa,
    triste cumpriu a ceremonia da agua
    em honra de seu filho.

                          Após instantes,
    de uma celeste fórma revestido,
    e alçado num suberbo carro aereo,
    o filho appareceu do santo ermita,
    e assim falou aos pais:--Em recompensa
    do puro amor que vos sagrei, obtive
    condição valiosa: dentro em pouco
    sereis neste logar tão anhelado.
    Não lastimeis do vosso filho a sorte,
    nem crimineis o rei; era destino
    que eu succumbisse ao tiro do seu arco.--

    Disse; e transfigurado em corpo aereo,
    erguido, entre esplendores, sobre um carro
    de uma belleza extrema, sublimou-se
    o filho do richi ao céu. E emquanto,
    juntas as mãos, eu era ao pé do ermita,
    que havia terminado com a esposa
    a ceremonia da agua em honra ao filho,
    falou-me assim o santo penitente:
    --Eu pasmo de que, sendo vil e fátuo,
    tu contes por avós os ikshwakidas,
    reis santos, gloriosos e magnanimos.
    Entre nós jámais houve desavenças,
    nem pleiteámos campos ou mulheres.
    Sendo assim, porque a vida tu me roubas
    e da consorte minha com teu arco?
    Mas já que és innocente no teu erro,
    não te maldigo, mas attento escuta:
    --Assim como chegou para meus dias
    inesperado termo, pelas máguas
    que me instillou a perda de meu filho,
    assim, ao cabo da carreira tua,
    hás de deixar a vida pesaroso,
    e chamarás debalde por teu filho.--

    Debaixo deste anathema pesado,
    voltei para cidade. Dentro em pouco,
    á sua dor o asceta succumbia,
    áquella tão violenta dor paterna.
    A maldição do brahmane por certo
    se cumpre agora em mim: pois os pezares
    e as saudades que tenho de meu filho,
    a seu termo conduzem minha vida.
    Os meus olhos, rainha, não vêm nada,
    mesmo as ideias vão-se-me apagando:
    são estes, dama illustre, os mensageiros
    da fatal morte, que me apressa a marcha.
    Se viesse a mim Ramá, ou se eu apenas
    ouvisse a sua voz, eu rehaveria
    a minha força, como um moribundo
    que ambrosia bebesse. Esta saudade,
    filha da sua ausencia, estala os elos
    da minha vida, como a onda rasga
    a ramaria umbrosa que crescera
    de um rio sobre as margens. Venturosos
    os que, ao termo do exilio de meu filho,
    passado nas florestas, Ramá virem
    voltar para Ayodhya, como Indra
    descendo lá do céu. Não serão homens
    mas verdadeiros deuses os que um dia,
    quando á cidade elle voltar dos ermos,
    a sua face bella contemplarem,
    tão resplendente como a lua cheia.
    Oh venturosos vós, que assim poderdes
    ver a face a Ramá, a augusta face,
    similhante á rainha das estrellas,
    e graciosa e bella, de alvos dentes,
    e de olhos como as pétalas do lodam.
    Felizes os mortais, que de meu filho
    virem a face augusta, cujo halito
    é egual ao perfume que rescendem
    as pétalas do lodam, pelo outono.



OBRAS DE Candido de Figueiredo


    QUADROS CAMBIASTES--(_Lyrica_, 1.ª parte) ... 1 vol.

    TASSO--_poema dramatico em 7 cantos, baseado em factos do seculo
    XVI_ ... 1 vol.

    PARIETARIAS--(_Lyrica_, 2.ª parte. Edição esgotada) ... 1 vol.

    PIRILAMPOS--(_Prosas várias._ Edição esgotada) ... 1 vol.

    A LIBERDADE DE INDUSTRIA _nas suas relações com a Economia politica
    e com a historia da civilisação_ ... 1 vol.

    UM ANJO MARTYR--_poema lyrico_ ... brox.

    O MUNICIPIO E A DESCENTRALISAÇÃO--_estudo de direito
    administrativo_, 2.ª edição ... brox.

    GENERALISAÇÃO _da historia do direito romano_. (Edição esgotada) ...
    brox.

    MORTE DE YAGINADATTA, _episodio do Râmâyana_ ... brox.


    No prelo:

    A INDIA ANTIGA, _bosquejo historico da sua litteratura e das suas
    instituições religiosas, sociaes, civis e politicas_ ... 1 vol.

    INTRODUCÇÃO Á SCIENCIA DAS FINANÇAS, _1.ª serie de estudos
    financeiros, ordenados e redigidos segundo as prelecções do sr.
    Mendonça Cortez_ ... 1 vol.


    Em via de publicação:

    POEMAS DA MISERIA ... 1 vol.





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