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Title: Crates Mallotes ou Critica Dialogistica dos Grammaticos Defuntos contra a pedantaria do tempo
Author: Guliver, Robert
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Crates Mallotes ou Critica Dialogistica dos Grammaticos Defuntos contra a pedantaria do tempo" ***

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                         CRATES  MALLOTES

                                OU

                       CRITICA DIALOGISTICA

                     DOS GRAMMATICOS DEFUNCTOS
                   CONTRA A PEDANTARIA DO TEMPO,

                        ESCRITA E PUBLICADA

                            POR GULIVER

                _Que chegou ha pouco da outra vida._

          _Obra taõ divertida como interesante aos curiosos,
                      e amantes do bom gosto._



        _Praeterea, ne sic, ut qui jocularia, ridens
        Percurram: quamquam ridentem dicere veruim
        Quid vetat?_          Horat. Sat. I. do L. I.



                              LISBOA,
                           ANNO M. DCCC.
            Na offic. de Joaõ Procopio Correa da Silva,
               Impressor da Santa Igreja Patriarcal.

          _Com licença da Mesa do Desembargador do Paço._



        _Non semper ea sunt; quae videntur: decipit
        Frons prima multos: rara mens intelligit,
        Quod interiore condidit cura angulo._

                          Phaed. Prol. do L. IV.



AO SR. PANTALEAÕ GONÇALVES SALGADO

DAS BARROCAS

ROBERTO GULIVER OBSEQUIOSAMENTE SAUDA.


_Porque meu avô, que em paz descance, costumava gastar huma boa parte
das compridas noites do Inverno ao seu lume, elogiando muito a pessoa de
V. m. e fallando sempre no seu prestimo, e cançasso no serviço dos
amigos: e tambem pela justa paixaõ, a qual, como Portuguez velho, por
muitas vias sei, pela sua naçaõ naõ cessa de mostrar: tudo isto me
obriga a dar-lhe o incommodo de concorrer com todos os seus bons
officios, para que se imprima o mais breve este livrinho, parto dos
Grammaticos defunctos contra a_ pedantaria _do_ tempo: _em o qual livro
achará V. m. as verdades mais importantes, naõ forjadas neste, mas sim
no outro mundo, donde ha pouco cheguei a salvamento. Naõ quero todavia,
que a sua bolsa padeça detrimento; por isso que o portador entregará
50 libras estrellinas: e, se mais for preciso, mais irá: nem seria
necessário tanto, se eu naõ quizesse, que a Ediçaõ fosse em tudo
completa, e que se estampassem 6000 volumes. Receba pois esta obra, como
toda consagrada aos merecimentos da sua veneranda pessoa: e peça-lhe
encarecidamente, faça por aqui aprender a ler seus netos; porque assim,
naõ duvido, terá a satisfacçaõ de os ver em sua vida os melhores
doutores; por isso que naõ lhes falta esperteza, do que estou bem
inteirado. Deos guarde a V. m, muitos annos._


_Londres 25 de Fevereiro de 1800._



PROLOGO.


Qualquer que seja o estado, ó amicissimos Leitores, em que a sórte tenha
collocado o homem, nunca já mais o pode dispensar de Fazer bem aos da
sua raça: foi este devêr gravado no coraçaõ humano pelo dedo da propria
Natureza; nem taõ pouco o Author Supremo lhe permittio a feia liberdade
de derribar os alicerces mais seguros da ordem social. Estes motivos,
julgo, obrigáram a meu avô a fazer suas viagens a differentes ilhas,
donde vos trouxe bellos, e interessantes documentos, os quaes, a meu
ver, muito vos aproveitariam, se bem trabalhasseis pelos entender. Eu
pois naõ querendo deixar só em taõ louvavel projecto hum illustre
progenitor, que honrou ainda mais a sua naçaõ, que a sua familia, fui,
depois de alguns estudos sérios o unico patrimonio, que recebi de meu
pai, passear pelo mundo, a fim de recolher os fructos, que a minha
terra naõ houvera produzido. Agitado por isso destas boas intenções,
viajei por todas as partes do orbe; e lá virá tempo, se a Parca o
quizer, que eu deleite a vossa curiosidade com bocados bem gostosos.
Entre tanto desfructai estas bem adubadas lições dos Grammaticos
defunctos, que vos trago da ilha dos Mortos, á qual apportei naõ sei
como, depois de haver naufragado dois dias antes, junto da Arcadia. Naõ
me foge ser este presente bem digno da minha amada patria, e confio, que
ella naõ rejeite as provas mais sinceras do meu affectuoso coraçaõ;
ainda que por outra parte naõ desconheço mais quereria, que eu a
mettesse de posse da dita ilha; mas naõ podendo ser a sua conquista
senaõ depois da morte, só lhe dou o que cabe em a minha alçada: isto he,
lições mui precisas, que a benignidade de Crates Mallotes, e de outros
Grammaticos fallecidos muito me recommendou; e as quaes eu terei sem
algum rebuço, e com a mesma franqueza de vos manifestar; já por ter
lido isto expressamente mandado, como vereis, por gente da outra vida,
com quem naõ se deve brincar; já por ser contra o meu decóro naõ pizar a
feia, e çuja lisonja com os mesmos pés que correram pelas ingenuas
provincias da eternidade.



CRATES MALLOTES.


DIALOGO I.

_Acha-se Gúliver depois de seu naufragio deitado em huma cama de penas;
levanta-se, fica vestido com ellas: he levado ao palacio de Crates
Mallotes: falla-se em a decadencia das Letras: estabelece Teive tres
causas de pedantaria geral: nomeia Crates para cada huma seu relator, &c._


Tinha amanhecido o dia 27 de Dezembro de 1799, passados já quasi 23
annos, que havia sahido dos patrios lares, e para onde vinha navegando:
seriam tres da tarde, quando se levantou pelo Sul huma nuvem
pardacenta, que em breve espaço vestio o Ceo de negro, e logo o
vento entrou a dar horrendos berros, os quaes converteram os mares em
elevadissimas montanhas, cujas fraldas eram medonhas cavernas: ferviam
os alaridos; mas a fervura pouco durou; porque a tempestade correu
veloz, fez em migalhas toda a mastreaçaõ, o mar de Arcadia engolio o
casco do navio, e sepultou em suas malvadas entranhas os meus amados
companheiros. Eu andei abraçado com hum pedaço de mastro, dois dias,
segundo penso, feito boia; no fim dos quaes cheguei quasi defuncto
áquella parte da ilha dos Mortos, que os Grammaticos habitam. Naõ sei
dizer como ahi apportei; porque só me lembro de resuscitar no meio dos
Grammaticos, que já morreram, cuja caridade, e benevolencia vou apregoar
para confusaõ dos ingratos de que o mundo está cheio. He pois o caso:
mal hia eu abrindo os amortecidos olhos, senaõ quando vejo Sanches todo
arregaçado a applicar-me varios remedios, e ninguem dizia nada, eu
tambem fiquei callado; porém nada me escapou: porque reparei me
haviam deitado em hum leito de negro evano, enterrado em plumas de aves
desconhecidas, no meio de hum portico de soberbas columnas, o qual
servia de fachada a hum palacio taõ magnifico, que bem conheci naõ ser
feito por braço mortal, cujas obras pelos erros, e defeitos, logo se daõ
a conhecer.

Assim estava medindo com os meus botões o edificio dos mórtos, quando
Sanches observando hum e outro pulso, disse: _Desta estás çafo._ Eu
porém, que naõ estava acostumado a ouvir fallar defunctos, metti a viola
no sacco. Mas o Francez Despauterio, como quem quiz mostrar o pique da
sua naçaõ contra a Hespanhola, disse com hum rizo Sardonico, muito
gosto, Sanches, de vos vêr de Grammatico feito Medico. Já no mundo
(tornou o sabio Brocense em hum tom, que me regalou) fui o Medico, que
curou as doenças literarias do teu paiz: o meu nome lá anda na boca
dos eruditos; o teu na dos pedantes.

Entaõ Despauterio ficou de queixo cahido: todo o congresso bateu as
palmas, e carregou de vivas o Principe dos Grammaticos, e eu animado com
a galhofa agradeci-lhe muito a caridade com que me tratou: e fiquei
desde entaõ senhor de mim de tal feiçaõ, que me parecia, já naõ ser
homem de Inglaterra: de maneira que sem ceremonia nenhuma saltei pela
cama fóra; mas quanto naõ fiquei maravilhado, quando me vi vestido das
mesmas pennas, em que, pouco havia, estive deitado! Fiquei pois com huma
beca, como de Desembargador, e naõ cessava de me mirar, assim como fazem
os casquilhos no meio das ruas; porém he certo que eu naõ obrava assim
por asneira, como elles. Toda a minha admiraçaõ era ver hum vestido
feito por si mesmo sem tezoura, nem agulha de alfaiate. Antonio Nebrixa
conheceu o meu espanto, e disse: Aqui naõ admittimos homens, que fazem
officio de mulher, e subministram ao luxo mundano o ultimo
refinamento, ajudando os teares da tua naçaõ a esgotar quanto dinheiro
as outras tem. Fiquei envergonhado, e elle conhecendo o meu pejo,
virou-se para a turba, e disse: Aonde está Linacro, que naõ vem dar as
boas vindas ao seu compatriota? Logo appareceo o Grammatico Inglez, de
quem recebi aquelles generosos cortejos, que de homem taõ douto devia
esperar. Entaõ fez D. Maximo de Sousa certo signal, e fui levado em
procissaõ para o palacio.

Logo que ahi entrei, espetei os olhos em hum velho venerando, o qual
estava sentado em o segundo salaõ em huma cadeira toda cravejada de
brilhantes carbunculos; em cujo espaldar se viam as armas do Rei Attalo,
de quem havia sido Embaixador. Ajoelhei, e elle virou a cára para a
banda. Disse-me entaõ Estevam Cavalleiro: Aqui naõ se gosta de lisonjas,
faze o que vires fazer aos mais. André de Rezende, que estava ao pé,
disse-me: Todos aqui estamos assentados: aquelle he verdade está com
mais distinçaõ, por ter sido o primeiro Mestre, que Roma teve,
Crates Mallotes se chama.

Entaõ eu pedi licença para fallar: ao que todos os que estavam perto de
mim, responderam, que naõ só pelos merecimentos de meu avô, mas pelos
proprios, os quaes valiam seiscentas mil vezes mais que os alheios,
podia eu dizer o que bem quizesse. Abaixei a cabeça pelo obsequio, e
disse: Se bem me lembro, este homem foi Grego, e naõ sei, porque recebe
aqui as honras de primeiro contra outros da Grecia muito mais antigos
que elle? Assim he, disse Sanches, mas como os Romanos venceram os
Gregos, e ficaram senhores do terceiro periodo das Letras, tambem sempre
respeitaram o seu primeiro Mestre: e tendo o imperio Romano dado leis a
todo o mundo, ficou este com os seus discipulos nesta Ilha ainda
recebendo as honras do Magisterio: e nós todos respeitamos muito as suas
cãs.

Quando elle assim fallava, vi huma nuvem de Grammaticos Romanos, que
o Barbadinho nomeava por seus proprios nomes, que me naõ eram novos
pelos haver lido em Suetonio _de Illustribus Grammaticis_. Notei com
tudo tres turmas differentes, a saber, a primeira dos Grammaticos
antigos, isto he, desde o fim da segunda guerra Punica até o seculo X.
da era vulgar: outra dos velhos, isto he, desde o seculo X. até o XVI. a
ultima dos modernos, isto he, desde entaõ até hoje. Porém muitos dos
modernos estavam misturados com os velhos; e disse-me Porretti, que era
por terem seguido as mesmas opiniões. Tambem ouvi em outro salaõ hum
grande susurro, e disse Cataldi, serem os Grammaticos antiquíssimos, de
quem naõ havia memoria no mundo, e que por isso viviam solitarios.

Cuidei, disse eu, que a Grammatica naõ era taõ antiga: he mais
(respondeu Carlos Tobalduzio) do que os pedantes pensam: mas
sentemo-nos, que para isso já o Mestre fez signal. Logo que todos se
assentaram, e eu ao pé de Sanches, poz Crates Mallotes huns oculos
no nariz, e avistando-me, diz: Tambem por cá, meu Inglez? Eu me admirava
já de naõ apparecer por aqui algum marinheiro da Grã-Bretanha mas vamos
adiante, que vos parece a pedantaria deste chamado seculo das luzes? Ha
23 annos, respondi, que sahi da minha Patria, e Portugal foi a primeira
terra, que depois da minha conheci: E entaõ que viste por lá? Florecer
as letras com muita vantagem, o commercio; vi manufacturas, taõ boas, ou
melhores, que as do meu paiz.

Assim foi, disse Crates, mas para que saibais, quanto agora lá vaõ
decahindo as letras, para que eu naõ falle em outras nações que
finalmente estaõ prostradas na mais furiosa ignorancia, vos informará o
respeitavel Diogo de Teive, e outros Portuguezes, e estrangeiros, os
quaes comnosco vivem. Porque, naõ obstante as justas providencias, que
para remedio deste mal, ha dado o melhor e o mais pio de todos os
Monarcas do orbe, necessariamente havia de fazer alguma opposiçaõ á
piedade de seus desejos a furiosa torrente de desgraças, que ha onze
annos, tem alagado de sangue, e de maldades a infeliz Europa. Portugal,
talvez pela sanctidade de seu Augusto Soberano, tem padecido bem pouco;
ahi ha mais sabios, melhores soldados, mais gente honrada em todos os
estados, do que naçaõ alguma possue. Por isso, meu Inglez, applicai as
nossas justas censuras, ainda com mais razaõ, a todos os póvos da terra;
e confessai isto mesmo lá no mundo, para credito da nossa honra, e prova
da nossa verdade.

Eu desempenharei, diz Despauterio, a tua commissaõ, nem outro melhor
para isso acharás. Callai-vos, repondeu Mallotes, todos sabem que fostes
hum gritador contra todos os Grammaticos de teu tempo, quando a tua Arte
he hum _cahos_ muito similhante á massa informe, que existia _Ante mare
& terras_.... O Francez vaidoso ficou fazendo trejeitos; mas por
entaõ ficou callado.

Todos gostaram muito do sabonete do velho; porém Diogo de Teive com toda
a civilidade principiou dizendo: Ainda que Despauterio tenha milhares de
defeitos em a sua obra, naõ deixa todavia de ter algumas coisas
interessantes, de cujo numero he a definiçaõ de Grammatica: _Omnium
scientiarum sons uberrimus._ E certamente, se o dom da palavra he hum
dos maiores que do Ceo recebeu a humana geraçaõ, e porque se differença
dos brutos animaes, como poderiam sem este dom os homens viver em
sociedade? He por esta via que elles huns aos outros communicam os seus
desejos, e sentimentos, a fim das utilidades, e interesses da vida
social. He logo preciso que o homem saiba fallar; pois senaõ souber, de
que lhe valem todos os seus conhecimentos? E naõ será por conseguinte a
primeira de todas as disciplinas aquella de fallar, e escrever sem erro?

Quem o duvida? disse Vossio, por isso he que os Gregos, Mestres do
genero humano inventaram a Grammatica. A isto tornou Crates Mallotes,
abaixando a cabeça: Naõ ha duvida que de nós a receberam muitos póvos;
mas já antes de nós os Hebreos a conheceram.

He verdade, continuou Teive, que os sabios de todos os tempos muito bem
se persuadiram do interesse desta arte; e póde-se dizer que ao homem, o
qual sem ella quizer ser letrado, acontecerá o mesmo, que ao cégo sem
moço, nem bordaõ, correndo por montes, e rochedos.

Mas os homens deste tempo, diz Pedro Simaõ Abril, nenhum caso fazem
della: todo o que era tido por honrado em o meu, mandava seus filhos ao
Latim; e desta maneira ficavam pelo menos com alguma instrucçaõ de
Grammatica geral.

Sim, disse o Barbadinho, naõ ha muitos annos, que os rapazes hiam leguas
aprender Latim, hoje naõ faltam Mestres, sem terem a quem ensinem.
Por isso, disse Agostinho Saturni, ninguem vê senaõ casquilhos, mettidos
a espertos, sem que ao menos saibam ler.

Naõ se estudando Grammatica, proseguio Teive, tambem fica abandonada a
Logica, a Eloquencia, e os mais estudos, que allumiam o espirito do
homem: e daqui vereis quanto vaõ decahindo as letras, sendo taõ poucos
os que a ellas se applicam.

De França, disse Lopo Gallego, veio o exemplo desta pedantaria, deste
desprezo das letras. Aqui se levantou o P. Manoel Alvares, todo
inflammado, e disse: Depois que o grande Rei D. José reformou os
Estudos, e reprovou a minha arte, ficou a Grammatica Latina bem facil de
aprender; mas a pezar desta reforma vejo cada vez mais pedantes, e
estadistas de café.

He verdade, disse Fr. Theotonio de Lisboa, que as intenções do nosso Rei
foram todas as mais heroicas; Portugal no meio deste seculo poz-se
todo luminoso; e os sabios cresciam em tanto numero, quanto era o das
mercês, e premios, que de taõ alto Senhor recebiam. Estas luzes porém
vaõ-se diariamente apagando pelas borrascas tenebrosas, que ha dez annos
pegaram, e a ignorancia corre appressadamente a pôr no cachaço dos
humanos a sua canga de ferro.

Como póde ser, disse eu, que as letras tenham decahido tanto em
Portugal? Ha 23 annos, que lá estive, e parecia-me ter sabios para
ensinar todos os povos do mundo.

Ainda hoje, respondeo Martinho Crusio, tem em sua pequenez mais eruditos
que naçaõ alguma; porém a mocidade vai perdida: e esta praga he geral,
ainda naquelles povos, que se jactam de mais espertos.

E que vos parece, companheiros, disse Sevio Nicanor, a persuasaõ
ridicula de certas cabeças allucinadas, que attribuem á sciencia as
revoltas deste seculo? Á ignorancia, respondeo Aurelio Opilio, he
que deveram ser attribuidas.

Dizeis bem, continuou Teive, esse he hum sophisma _non caussae pro
caussa_. Porque pela falta de sabios perdeu-se Athenas: o imperio Romano
espirou em a noite da ignorancia: França nunca foi taõ florescente, como
em o tempo de Luiz XIV.: Hespanha em o dos Reis Catholicos. Estas provas
saõ de facto, e só por outras da mesma natureza podem ser contrastadas.

Joaõ Despauterio, que vio fazer a França aquelle elogio, poz-se todo
tezo, e disse, que ella havia sido a mãi dos sabios; Crates Mallotes
porém, que já o mandára callar, poz-se a dar cuadas, e parecia huma
vibora. Vendo Jerardo Joaõ Vossio o velho assanhado, disse: Aqui naõ he
lugar de enganos, bem sabeis que os Francezes nunca passaram de
Contrabandistas das letras. Todos sabem que elles tem vertido o trabalho
dos mais povos, e que muitos inventos alheios os tem vendido por seus.

He isso taõ certo, diz o grande Joaõ de Barros, que até a invençaõ da
maquina aerostatica fizeraõ sua, quando foi de hum clerigo Portuguez,
que sendo entaõ tido por Magico padeceu seus detrimentos.

De vagar, de vagar, disse Lancelot, senaõ temos inventores temos
aperfeiçoadores, o que he nada menos estimavel. Vede Maxilon, e
Bordalue, e reparai quanto he hum semelhante a Cicero, e o outro a
Demosthenes. Confesso, disse Barros, souberam bem aproveitar-se da
Eloquencia Grega, e Romana. He na verdade grande admiraçaõ hum imperio
taõ vasto produzir hum punhado de homens grandes! Mas dizei-me, que
vedes agora por lá, senaõ systemas imaginarios, que estando armados no
ar hoje se levantam, ámanhã se dissipam, bem como as nuvens, que tem os
mesmos alicerces?

Esta disputa hia sendo bem gostosa, e tratada com calor; mas Crates
Mallotes deixou cahir a vizeira, e tudo ficou em silencio: e olhando
para huma, e outra parte; a essas desputas, disse, saõ impertinentes; já
vos mandei, Diogo de Teive satisfazer a esse Inglez. Entaõ o Illustre
Humanista continuou, dizendo: A causa da decadencia das letras, ou para
o dizer melhor, as causas da pedantaria deste tempo saõ tres: a primeira
saõ sem duvida os pais de familia, que em vez de educarem filhos, que
honrem a lua patria, criam ou leões que a devoram, ou porcos, que a
çujam: a segunda saõ os Mestres idiotas, e charlatães, que vam formando
discipulos a si similhantes: a ultima saõ os máos livros didaticos por
onde muitos ensinam a mocidade.

Todos os Grammaticos applaudiram muito a proposta de Teive, e ao mesmo
tempo hiam cortando o discurso com as suas costumadas reflexões, e já
era o susurro tamanho, que nada se percebia: entaõ Crates deu duas
pancadas em a cadeira, e fallou com palavras meigas: Bem vedes,
amados companheiros, que esse Inglez he vosso discipulo, e que por isso
he necessario o bom methodo para se aproveitar das vossas interessantes
lições. Sou pois de parecer que a primeira das tres causas da
pedantaria, que tu, ó Teive, taõ eruditamente expozeste, seja tratada
por Marco Fabio Quintiliano; a segunda por Elio Antonio Nebrixa: a
ultima por Francisco Sanches Brocense; pois que foi, e será sempre a
honra dos escritores Grammaticos: com tudo qualquer dos outros poderá
fallar em tempo competente para deleite deste respeitavel congresso. E
tu, ó mortal ditoso, que tiveste a ventura de ouvir em tua vida as
lições dos mortos, naõ percas cousa alguma, para sahires daqui com as
forças precisas ao justo fim de bem coçares huma chusma de pedantes, os
quaes com seus erros, e com sua ignorancia tem çujado, e envilecido as
nossas provincias Grammaticaes.

Abaixei a cabeça, e beijei as palmas em signal de agradecimento: e os
outros ficaram com a boca aberta a olhar para Quintiliano, que se foi
sentar em hum escabello, o qual estava chegado á cadeira pela parte de
diante.



DIALOGO II.

_Expõem Marco Fabio a primeira causa da pedantaria: erros de educaçaõ:
bandalhices: desprezo da literatura: funestas consequencias, &c._


Quando todos os Grammaticos defunctos estavam com a maior attençaõ, fez
huma grande reverencia Fabio, e deu com o queixo no peito huma tamanha
pancada, que todo o edificio tremeu, e eu de medo cahi sem sentidos; nem
por certo o meu desmaio foi similhante aos fenicos das damas, que fingem
diabruras para terem occasiaõ de fallarem aos casquilhos: Sanches que
era bem versado em Medicina, logo me chegou ao nariz hum estimulante, o
qual me tornou taõ esperto, e huma memoria taõ feliz, como podereis ir
observando em todo o processo destas arengas.

Mas tornando ao proposito: Depois daquella ceremonial venia, que taõ
cáro me custou; voltou Quintiliano successivamente a cabeça para os
lados de toda a assembléa, do mesmo modo que fazem os Oradores em o
principio de seus discursos; e entaõ assim principiou: He sem duvida
serem os pais de familia a primeira causa da pedantaria. Apenas os
infelices meninos nascem, logo entram a puchar por elles para o curral
da ignorancia, e pelos caminhos do vicio he que vaõ arrastrando aquellas
innocentes victimas para os altares da charlatanaria, e da maldade.

O peor he, disse Francisco de Brito, que muitos pais ensinam aos filhos
as mais ridiculas extravagancias, e estaõ persuadidos, que só elles
sabem dar boa creaçaõ a seus filhos. A esses, disse Nicodemos
Frischilino, a sua tolice os desculpa; mas nenhuma tem os que praticam
todo o genero de maldades sem pejo da sua familia ser testemunha, e
quereram que ella seja virtuosa?

Taes, disse Lucio Joaõ Scopa, com suas amoestações, conseguem o mesmo,
que a mãi dos caranguejos, a qual mandando aos filhos, que naõ andassem
ás avessas, elles responderam: Andai vós ás direitas, e nós vos seguiremos.

Bem sabeis, disse Fabio, que eu fui o primeiro Mestre público que em
Roma ensinou, e nunca cessei de clamar contra a má educaçaõ, que os pais
daõ aos filhos; mas os homens de hoje saõ infinitamente mais culpados.

Que Romano, disse Samuel do Prat, naõ entranhou com o seu exemplo em o
coraçaõ dos filhos o amor da patria, e das letras?

Ora pois, continuou Fabio, os idiotas nunca em Roma figuraram, senaõ em
os seculos da escuridade; por isso os pais procuravam pela sciencia a
fortuna dos filhos, e a sua.

Mas em que pontos principalmente, diz Elias Maior, peccam hoje os
pais em a educaçaõ de seus filhos? Dois extremos viciosos, respondeu
Quintiliano, saõ as causas primitivas. Huns os tratam com excessivo
mimo, outros com excessivo rigor. Daqui nasce, serem estes clausurados
em casa, como Freiras, e serem aquelles largados sem freio para onde
querem. Todavia accresce a tudo o mau exemplo: porque, como a virtude,
anda fogindo destas guerras, e destes desaforos modernos, se o menino
naõ a encontra lá por fóra, muito menos a achará em casa, aonde nem se
falla em Doutrina, nem em Religiaõ, nem em temor de Deos, nem amor da
patria, do Soberano, das sciencias, &c. Ora vede agora que taes doutores
seraõ os filhos de taõ bons pais? Por isto, disse Buchnéro, o mundo está
cheio de paraltas, e estadistas, como nunca.

E que vos parecem, disse Barnabé de Busto, estas bandalhices da moda?
estes çapatos de bico mais comprido, que corno de boi? Estes
calções, que custam mais a saccar das pernas, do que a cobra a
largar a sua pelle? Estes dois relogios? Estes chapeos de zabumba? Por
ventura os Romanos senhores do universo praticaram no meio do seu luxo,
e das suas riquezas, similhantes extravagancias?

Naõ chameis, respondeo Fabio com muita brandura, naõ chameis a isso
extravagancias, chamai-lhe falta de bóla. Os Romanos foram muito sabios:
todas as ordens tinham seu modo de trajar; e o mesmo homem em as suas
differentes idades usava de vestido accommodado a cada huma dellas.

Os nossos antigos Reis, disse André de Resende, foram inimigos
declarados do luxo: e estavam taõ persuadidos serem estes os sentimentos
de todos os seus vassallos honrados, que D. Affonso o Bravo deu hum
grande golpe no luxo para adoçar a magoa publica, que nasceo das
desavenças, que elle tivera com seu irmaõ: e o que foram os Portuguezes
daquelle tempo, prova-se com a batalha do Salado, cuja memoria, faz
parecer, todas as que depois houveram, brincos de rapazes.

Mas ainda dado, replicou Barnabé de Busto, que entre os antigos,
apparecesse alguma vez o luxo, esse lobo faminto, que devora a honra, a
virtude, e o dinheiro, vio-se em alguma época taõ enfeitado de
redicularias como hoje? Os çapatos de espeto, naõ mostram quanto he
romba a cabeça de quem os traz? Os calções de talas fariam menos
deshonestos os antigos Faunos, quando dançavam nús em os theatros? Os...

Basta, disse Manoel Alvares, o peor he o custo do feitio, e da peça, que
dura tanto, como aquelle animalinho, que nasce pela manhã, e morre á
noite. Eis-ahi a causa, diz Taberio, de huma enxurrada de caloteiros, e
de meritrizes, que tudo varrem.

Naõ houve seculo, continuou Manoel Alvares, nem mais farto de
viveres, nem mais abundante de gente honrada que o meu; ensinei no
pateo de Santo Antaõ, e nesse tempo o ornato dos estudantes naõ passava
de huma sotaina, e capa de baeta, assim como todo o luxo dos Cidadaõs
consistia em huma casaca de saragoça de abas entrouxadas, e canhões de
barbas até aos joelhos.

Mas essas casacas, disse Quintiliano, nunca eu approvaria pelo muito
panno, que consumiam. Naõ tendes razaõ, tornou o velho Portuguez, essas
casacas ficavam dos avós aos netos, e vinham a ser hum respeitavel
morgado das familias: eram as melhores insignias de hum homem honrado;
nem havia precisaõ de outro distinctivo: hoje porém naõ sabereis
differençar nem hum ridiculo, nem hum homem de bem, senaõ com muito
trabalho.

Dizeis bem, disse Caspar Sciopio, os homens honrados algum dia naõ
andavam com penicos na cabeça, nem com brincos nas orelhas, salvo, se
por desgraça se faziam escravos da Rainha da Lidia; porque entaõ naõ
só seriaõ capazes de fiar na roca, mas tambem de levarem huma albarda ás
costas com muito gosto.

He certo, proseguio Quintiliano, que os pais erram muito em consentir
similhantes loucuras aos filhos, e ainda mais em praticalas; porque
estes erros abrem a porta a infinitos males, os quaes perturbam a
sociedade. Mas os procedimentos a respeito do espirito tem consequencias
tanto mais funestas, quanto he mais attendivel a parte do homem, a qual
só o póde fazer feliz, ou desgraçado.

Isso he, disse Curcio Nicia, ao que menos se attende: entrega-se o
menino commummente a huma mulher para o ensinar a ler, ou vai a escóla,
ou vem Mestre a casa. Porém como o ensinar a ler, sendo coisa bem
trivial, naõ he todavia para ignorantes, ahi se vai condemnar o
innocente ao trabalho inutil de seis, sete, e mais annos, e por fim he
tal a sua leitura, que faz vomitar a quem ouve. Perdido este tempo,
assim como havia de ser o resto da vida se em taes lições fosse gasto,
vem entaõ Mestre Francez, já o moço sabe fazer seus comprimentos
naquelle idioma, o pai, e a mãi se estaõ babando a ouvir o seu novo
Monsieur. Entaõ julgam terem em casa hum sabio da Grecia; mas naõ sabe o
_Padre nosso_!

Isso, disse Sciopio, he só para aquelles, cujos pais tem boas mezadas,
que dem aos emigrados, que se naõ contentam com bagatellas: que os
outros quasi todos vaõ para o Collegio aprender Mathematica sem fumos de
literatura.

Naõ fallemos nisso, proseguio Quintiliano, quando o Lente os manda á
pedra, entaõ conhece, que nem sabem fallar. Mas a pezar de tudo, disse
Sciopio, saõ os chefes dos estadistas da moda: elles pelas assembleas, e
pelos botiquins, de tudo fallam, de tudo decidem, para tudo tem bellos
planos; e com o seu luzidio compasso tudo sabem medir. Porém estes, e
muitos outros falladores similhantes, de que por desgraça abunda
toda a Europa, saõ huns fracos, e a deshonra dos racionaes, assim como o
jumento he a dos brutos.

O pai, disse Antonio Pereira, que manda seus filhos a essas sciencias,
sem bons principios de literatura, he similhante ao que obriga o
Architecto a fazer huma alta torre sem nenhum alicerce, a qual mais
hoje, mais amanhã ha de cahir. Ora vede quaes seraõ as consequencias da
sua quéda!

Esse era o justo motivo, disse Antonio Feliz Mendes, de tu fazeres
alardo das tuas artes de Grammatica Latina, quando nenhum fazias das
outras infinitas obras, de que tambem foste autor.

Era essa, continuou Fabio, huma vaidade digna do sabio Pereira, e teria
feito a Portugal hum eterno serviço, se em vez do trabalho de algumas
das suas obras, que o naõ honram, aperfeiçoasse o seu Novo Methodo, e o
seu Compendio, para o que tinha forças de sobejo. E certo, o homem
que, naõ sabe Grammatica, sejam quaes forem os seus estudos,
nenhumas Bullas o pódem dispensar de ser pedante. Como poderá perceber
os lugares da Historia, como entenderá os authores, quem ignora a
sciencia das palavras? Como dará o juiz a sua sentença? Como fará o
Theologo as suas analyses.

Mas as aulas publicas de Latim, diz mui agastado o respeitavel Pereira,
estaõ quasi vasias de estudantes, que dizeis? Digo, proseguio o Romano,
que toda a culpa he dos pais; e por isso vereis cada vez mais idiotas,
mais ociosos, mais presumidos, mais gárrulos.

He huma piedade, disse Antonio Félis, ouvir a muitos pais as causas
futeis de naõ mandarem os filhos ao Latim. Naõ pertendemos, dizem elles,
que sejam nem Frades, nem Clerigos: nem taõ pouco se necessita de Latim
para ser bom Cidadaõ.

Naõ se necessita de Latim, disse o grande Diogo de Teive todo fóra do
seu sério, naõ se necessita de Latim para qualquer ser bom homem,
mas necessita-se delle para naõ ser asno. Ainda que a lingua Latina naõ
fosse a lingua dos sabios, bastava para ser estimada o ter muitas filhas
na Europa, que herdaram muito cabedal da sua mãi, do qual nunca já mais
saberá dar conta quem ignorar as riquezas della. Assim he que estaõ
infinitos sujeitos em empregos publicos, ganhando salarios enormes, os
quaes nem escrevem coisa direita, nem sabem atar duas palavras juntas, e
o mais por modestia fique no silencio.

Tudo isso, disse Joaõ de Barros, he fructa deste tempo tenebroso. O
mundo em suas mudanças tambem vai variando os seus registos, e por força
alguma vez sahiraõ os desaffinados. Até agora tendes bem mostrado as
doenças literarias; naõ he porém da nossa caridade deixalas sem algum
remedio. Julgo pois, que se deve entregar o menino a hum Mestre erudito,
para o ensinar bem a ler, e a amar a sua Religiaõ, e os seus deveres:
depois disto deve aprender a Grammatica da sua, lingua materna;
porque, naõ embargante, que em a Latina se acham os principios geraes de
todos os idiomas, naõ devem todavia ignorar-se os particulares daquelle
que mais que nenhum ha de servir aos interesses, e ás utilidades da
vida. Entaõ vá aprender Latim, e por fim Filosofia Racional. E sem estes
subsidios escuza de avançar a outras sciencias; porque he melhor naõ
saber, que saber mal as coisas.

O conhecimento da Grammatica da lingua materna, continuou Fabio, tem
sido recommendado pelos sabios de todos os tempos: nós a ensinavamos em
Roma juntamente com a Grega, e veio assim a fazer-se a nossa linguagem
taõ bella, e taõ universal pelo mundo, que só entre póvos selvagens, se
acharia, e com muita dificuldade, quem naõ entendesse alguma coisa do
idioma Latino. O Imperador Carlos Magno julgou naõ ter ainda alcançado a
immortal gloria com a multidaõ dos seus triunfos; por isso em a sua
velhice compoz para as suas gentes huma Grammatica Tudesca.

Por mais que clamei, disse Barros, já em o feliz Reinado de D. Joaõ III.
por introduzir nas escolas a Grammatica Portugueza, nunca o pude
conseguir; nem depois sobre isto foram observados os Decretos do sempre
Augusto D. José I.

Amigos, proseguio Quintiliano, isso pertence aos Professores, e se os
pais nisto tem alguma culpa, he só em entregarem seus filhos a Mestres
pedantes. Elles os procurariam bons, se hoje houvesse a lei que
desobrigava os filhos de soccorrer aos pais, que tendo posses, naõ os
mandavam instruir nas letras. Em quanto esta lei durou foi a Grecia em
tudo respeitavel, e se ainda agora revivesse em os póvos civilisados,
naõ seria a substancia publica devorada por infinitos glutões, que tudo
engolem, e que de ordinario saõ os menos fiéis á sua patria.

Hum homem erudito, e Christaõ, disse Duarte Nunes, vendo o
ignorante, e inhabil a cevar a gula com o comer ao seu merecimento
devido, póde sim por alguns momentos queixar-se; he com tudo impossivel
moral esquecer-se da gratidaõ dos beneficios; mas o idiota presumido
cuida, que mais se lhe deve, e ingrato desdenha de quem o farta.

Tudo isso he verdade, disse Joaõ Rivio; mas reparei, que Barros naõ
fallou em aprender Francez, quando alguns autores mandam que o seu
estudo seja antes do Latim. Esse Portuguez, continuou Fabio, he mui
douto, e naõ devia favorecer a pedantaria: quer justamente que logo que
se saiba ler, se aprenda a Grammatica da lingua materna, e depois a
Latina, por ser mãi da Franceza, da Portugueza, da Italiana, da
Hespanhola, e de outras, que facilmente aprenderá quem souber a lingua
dos sabios. E digo-vos que o Francez tem estragado bellissimos idiomas.

No tempo em que ensinei letras humanas em a Universidade de Coimbra,
disse o honrado Teive, poucos, ou ninguem estudava Francez. Porém he
certo, que nunca Portugal teve nem mais sabios, nem melhor gente. Naõ
possuia entaõ a nossa lingua nem outra formosura, nem outras riquezas,
que as herdadas da sua respeitavel mãi: e hoje apparece de quando em
quando com a sua capa de remendos, mais ou menos despresivel, segundo os
retalhos, e os pontos do alfaiate, que a cozeu.

Mas tendo os Franceses, disse Mariángelo, vertido as obras dos outros,
como fica notado, naõ será inutil saber esta lingua. Sempre saõ versões,
respondeo Julio Cesar Escaligero, melhor he ler os originaes. Naõ sou
contra este idioma; confesso que nelle estaõ escriptos bons, e máos
livros. Com tudo estou pelo sentimento commum dos sabios, que o seu
estudo naõ deve ser o primeiro; e até julgo naõ ser presentemente grande
perda ignoralo, em quanto que naõ chegam das duas Anticeras navios, e
mais navios carregados de helleboro para curar a funesta loucura,
que se apoderou das cabeças daquelle povo infeliz.

Pais de familia; pais de familia exclamou Fabio, vós sois a primeira
causa da pedantaria geral, e oxalá o naõ fosseis tambem dos horrores
deste seculo de lagrimas.

Assim acabou Quintiliano, deixando ver em seu triste semblante a magoa
de seu peito.



DIALOGO III.

_Expõe Antonio Nebrixa a segunda causa da pedantaria: motivos de
haverem tantos Professores inhabeis: entre os de ler saõ raros os bons:
como se póde isto remediar: os de Latim ainda saõ bastantes: muitos
particulares enganam os pais de familia: os rapazes devem frequentar as
aulas públicas, &c._


Sahindo Marco Fabio todo consternado daquelle assento para o seu
primeiro, logo para alli se foi chegando Antonio Nebrixa: estava elle
embrulhado em hum pellote cor de fogo de feitio mui exotico, com hum
gorro pardo na cabeça, que lhe chegava ao meio das costas: e apenas se
assentou deixou cahir hum sobreolho taõ feio, que parecia huma carranca
de navio. Mas cuidando eu que elle ficaria eternamente severo, naõ
foi assim: por quanto, feitas as suas continencias, soltou taes
gargalhadas de riso, que Crates Mallotes lhe disse com muita brandura:
Eu vos escolhi para que ajudeis a fazer a caridade aos Professores
pedantes e isto he o ponto do maior melindre, e da mais alta
importancia: dizei a verdade, e deixai as risotas para occasiaõ competente.

Ainda bem naõ tinha o velho Mallotes concluído taõ judiciosa
admoestaçaõ, quando Nebrixa, compondo o seu comprido barrete assim
começou: Se os pais de familia saõ mui culpados na pedantaria dos fins
deste seculo, os mestres lhes ficam a perder de vista. De toda a Europa
vos referiria exemplos, se a minha commissaõ naõ fora muito mais
estreita. Naõ penseis todavia, que hum homem como eu, depois de deixar
sepultados os enganos, e as mentiras com os despojos da humanidade, que
a terra engolio, se atreva a satyrisar muitos Professores Portuguezes,
os quaes com as suas obras, e com as suas lições, que os eruditos
bem conhecem, ainda hoje servem de honra, e de lustre áquella naçaõ; a
qual desde o Reinado do grande D. Diniz, dignissimo neto do nosso D.
Affonso Sabio, até ao presente tanto da escola de Minerva, como da
escola de Marte, tem offerecido ao mundo heróes taõ prodigiosos, que a
fama, tendo cem bocas, apenas os póde contar. Dirige-se pois a justiça
de minhas queixas, contra milhares de Professores ignorantes; e desejára
fazelos conhecer, para que naõ deshonrem os benemeritos, sendo
confundidos com elles.

He justo, disse Filippe Melanchton, que sejam conhecidos os zangãos
pelos effeitos, e que se restitua o mel ás sabias abelhas.

Saõ mui verdadeiras as vossas expressões, disse Antonio Pereira: já
antes da minha passagem para a vossa companhia observei muitos
presumidos a enganarem os pais de família, com ditos apanhados aos
sabios, feitos Catões pelas assembléas, e pelos botiquins, a fim de
ajuntarem hum bom rebanho de rapazes, os quaes com prejuízo da bolsa
paternal vem a ser os semeadores da charlatanaria, e ignorancia de seus
Mestres.

Sim, disse Nebrixa, semelhantes Professores saõ primos co-irmaõs do
çapateiro, que naõ tendo geito para fazer çapatos vendia saccos de
antidoto, mas antídoto no nome; porque lhe custava menos a ser Medico
dos simplices, do que a fazer calçado a casquilhos, e a peraltas.

O Augustissimo Rei D. José, continuou Pereira, Nome, que proferido fará
vir aos labios de Portugal saudosas, e ternas lagrimas, sempre que se
lembrarem do que lhe devem, escolheu para educaçaõ da mocidade os homens
mais benemeritos, e naõ sei como tem graçado tanto o pedantismo.

Ninguem melhor que tu o sabe, respondeu Nebrixa; porque foste hum
respeitavel membro da Meza Censoria; por isso bem conheces a causa de
tantos Professores ignorantes: fugiram acaso do mundo as
_Instrucções_ appensas justissimo _Alvará_ de 1759? E naõ determina elle
que senaõ ensine nem publica, nem particularmente sem rigoroso exame?
Naõ dá bem a entender quaes devam ser os conhecimentos dos Professores?
O Augustissimo D. José para os animar naõ os incorporou em Direito
Commum, fazendo-os Nobres? Naõ vês estudantes de Latim, para que eu naõ
falle em os de outras faculdades, feitos Mestres sem outros principios
mais que os do teu Compendio, ou da Arte de Felis Mendes, e, se muito,
do teu Novo Methodo? Podem por ventura similhantes Mestres desempenhar
as suas obrigações?

Sempre clamei, disse o sabio Portuguez, em o Tribunal contra esta
tolerancia de Professores inhabeis, sendo aliás excluidos muitos
sujeitos de merecimento; porém a culpa....

Bem sabemos (disse Crates Mallotes, apressado para cortar o fio) bem
sabemos aonde se dirigem as tuas queixas: nós naõ queremos, que
nenhum vivo diga, que os mortos tiveram a deshumanidade de lhe pôr a par
de seu nome os seus defeitos. Os nossos discursos saõ sagrados tanto,
como os dos Prégadores; por isso devem só ser dirigidos contra o erro em
geral. Em todos os estados do mundo ha bom, e máu, e só algum idiota
quando nos vir fallar contra o máu, he que poderá cuidar, que nós
fallamos contra o bom. Pelo que, meu Nebrixa, ide discorrendo em
primeiro lugar sobre os Professores de ler: que he negocio de grande
ponderaçaõ.

Nebrixa, que estivera applicando o ouvido a taõ justas expressões,
continuou dizendo, de cem Professores de ler, se achardes hum capaz
tendes feito huma descuberta, digna de avultadas alviçaras. Ide pelas
escólas, e ouvireis desconcertados berros de rapazes: que naõ só vos
faraõ chagas nas orelhas, mas até vos encheraõ da mais profunda melancolia.

Todos esses incómmodos, disse o Barbadinho, se poderiam bem soffrer,
se os moços dahi naõ sahissem gagos toda a vida. Porque por certo quando
estaõ a ler, nada differem de quem nasceu com a lingua travada: só
alguma palavra deshonesta he que pronunciam expeditamente. He taõ raro
como mosca branca o que ensina os meninos a destinguir bem as syllabas,
a pronunciar naturalmente as palavras, a respeitar pontos, e virgulas.

Se similhantes homens naõ sabem que coisa seja nem syllaba, disse todo
agastado Marciano Capella, nem que coisa seja fallar, nem para que sirva
a pontoaçaõ, como haõ de ensinar o que ignoram?

Pode acontecer, respondeu Lancelot, que qualquer saiba para si, e naõ
para ensinar; porque saõ coisas bem differentes: e que acontecerá a quem
ensina, sem saber nem o que, nem o como deve ensinar? Que acontecerá?
respondeu Sciopio, encher o Publico de babosos, e pedantes; porque os
erros da escóla quasi sempre saõ incuraveis; e os melhores
Professores de Latim, pondo todas as suas forças para os remediar, raras
vezes o conseguem.

He huma dor de coraçaõ, proseguio Nebrixa, ver engenhos taõ raros, que
continuamente se vaõ perdendo por culpa de Professores de ler.

Ainda Antonio Nebrixa mal havia acabado a sua queixa, quando Remmio
Palemaõ se levantou com toda a arrogancia, e disse: Porque naõ mandam
similhantes homens guardar pórcos?

Ouvindo isto Terencio Varro, o qual havia sido insultado em Roma por
aquelle mordaz, assim lhe respondeu: Fazes mais favor a esses homens, do
que em outro tempo me fizeste, quando por toda a parte me andavas
chamando o Porco das Letras, e queres que similhantes pedantes sejam
porqueiros, em vez de os mandares comer farellos?

Todos gostaram muito daquella singeleza Romana, mas Antonio Nebrixa,
que foi hum Hespanhol honrado, disse com toda a inteireza: Ainda naõ he
taõ mau, que haja quem ensine a ler; e aquelle que sabe, e executa a sua
obrigaçaõ faz mais serviço ao Publico do que se pensa lá no mundo: e bem
vedes quanto estimamos estes poucos de quem nos prezamos muito de serem
nossos companheiros, e a pena he virem para cá taõ poucos deste calibre!

Entaõ abaixaram a cabeça os Professores elogiados, e Crates Mallotes
louvou muito o relator, que assim proseguio: Os Professores Regios de
ler apenas tem salarios para o aluguel de casas; e por isso ou haõ de
ser homens incapazes, ou haõ de procurar o sustento por outra via. Se se
dessem os mesmos ordenados, e as mesmas honras aos Professores de ler,
que se daõ aos de Rhetorica, haveriam muitos eruditos que servissem ao
Estado de boa mente, neste ramo: entaõ se ensinaria a Grammatica da
Lingua materna na escola, aprender-se-hia qualquer lingua com muita
facilidade, e naõ morreriam de trabalho os Professores de Latim em o
ensino de gente bruta.

Tivessem elles dinheiro, disse Dionisio de Syragoça, que honra lhes dei
eu, porque naõ me desprezei de ensinar meninos, depois de ter sido o que
sabeis. Mas já que tendes fallado tanto na pedantaria dos Professores de
ler de quem fui collega, dizei tambem alguma coisa dos de Latim para
consolaçaõ da minha tristeza.

Tem havido optimos Professores de Latim, continuou Nebrixa, e ainda hoje
os ha; porém para fallar com a sinceridade de defuncto, naõ me posso
dispensar de dizer, que saõ muitos mais os idiotas. Depois que se deram
Provisões de favor, isto he, sem se fazer rigoroso exame, ou depois que
muitos entraram a ensinar sem faculdade alguma do Estado, entaõ tambem
começáram apparecer nuvens de falladores, que sendo huns Professores
diminutivos, sem a mais leve tinctura nem de Logica, nem de Critica,
andam feitos censores dos melhores livros, por onde podiam aprender
(a terem os conhecimentos que a lei delles requer) e vaõ surrando o
entendimento da mocidade com os cartapacios defumados, que sem offensa
de seus autores, deviam ser condemnados a embrulhar adubos.

He forte cegueira, disse Gaspar Sciopio, ver ainda hoje homens mais
afferrados á opiniaõ dos livros por onde aprenderam, do que os
Pythagoricos a de seu Mestre!

Mas esses pedantes, disse o Barbadinho, neste tempo escuro, em que mui
poucos aprendem Latim, he que trazem mais algum estudante.

Esses Mestres, continuou Nebrixa, pela maior parte saõ particulares
(reparai, Guliver, que naõ digo, _Todos_) e como o estudante traz a
mezada em o fim do mez, he preciso fazer a boca doce aos pais; murmurar
dos estudos Regios, e persuadir-lhes ser coisa menos decente mandar os
filhos ás aulas dos pobres.

Pobres de juizo, disse Antonio Pereira todo agastado, pobres de
juizo saõ os que accreditam similhantes novelleiros. Como se os
estudos do Rei naõ fossem a honra de todos os vassallos? Ou como se
fosse desprezo acompanhar com seus irmãos aquelle que tendo melhor
fortuna, naõ tem outra natureza?

Ainda se servem, proseguio Nebrixa, de outro estratagema mais sagaz, que
he apregoarem, ou por si, ou por seus devotos, que as aulas Regias andam
cheias de moços mal procedidos.

Este seculo, disse o Barbadinho, está cheio de corrupçaõ, e como as
aulas particulares, trazem alguns estudantes mais que as outras, tambem
vos podeis persuadir, que trazem muito peior gente.

De casa, disse Quintiliano, já os moços trazem os máos costumes, nem he
preciso que os venham buscar ás aulas.

Mas ainda dado, e naõ concedido, proseguio Nebrixa, que de casa venham
innocentes; nem por isso he justo que a mocidade deixe de frequentar
as aulas Publicas. Os pais devem vigiar sobre a conducta, e companhias
de seus filhos; mas tambem devem fazer a vista grossa a certas coisas,
que naõ offendendo a virtude, he necessario que os rapazes em quanto saõ
rapazes as pratiquem: aliás em idade incompetente seraõ os peiores
homens, segundo a triste experiencia o tem mostrado.

Parece seria melhor, disse o Conde de Castel-Branco, ensinar em casa aos
meninos os Estudos menores, para lhes evitar os laços, que a seus tenros
annos o mundo costuma armar.

Nada, nada, respondeu Antonio Pereira, porque em idade maior he que se
conhece o erro; por isso que ficam estupidos: engolem todas as petas,
naõ prestam para a sociedade: a sua brutalidade os conduz para os vicios
mais grosseiros; e ficam em tudo huns perfeitos Sardanapálos.

Bem: concluio Nebrixa, hum tal encerramento, he mui bom para mulheres,
para homens naõ tem geito. Pouco vale clausurar os rapazes para
evitar más companhias, em casa mesmo acharaõ quem os estrague: e oxalá
fossem mentirolas estas nossas expressões! E deixai murmurar os
pedantes, esses que ensinam a conhecer as sylabas pelos fôlegos; e que
toda a sua sciencia consiste em affeiar, e corromper o verbo _arcabuzear_.

Acabando o Hespanhol de dizer isto, e entrando por algum tempo a engolir
em secco, exclamou: Professores pedantes, Professores idiotas, tratai de
outro officio; naõ augmenteis o charlatanismo com os desconcertos da
vossa ignorancia. E tu ó mortal (virou-se para mim) muito bem tens
ouvido os justos louvores, que aos benemeritos havemos dado.

Entaõ todos lhe abaixaram profundamente a cabeça em signal de parabens;
e elle se levantou, sahindo com a mesma cara com que principiára a sua
commissaõ.



DIALOGO IV.

_He tratado Sanches por Crates com toda a distinçaõ: expõem elle a
terceira causa da pedantaria: fica a beca de Guliver convertida em tres
artes de Grammatica Latina: faz-se grande estimaçaõ da primeira:
criticam-se as outras: vai-se Guliver successivamente convertendo em
passaro: manda Crates Mallotes mostrar-lhe a ilha, &c._


Ja Elio Antonio Nebrixa estava em o seu assento colhendo os bem
merecidos applausos dos que estavam junto delle, quando Francisco
Sanches Brocense hia com o seu passo grave, e magestoso, procurar o
banco; mas Crates Mallotes, logo se levantou, cujo exemplo seguio toda
aquella multidaõ dos illustres defunctos: e assim erguido, clamou: Nada,
nada: hoje has de ensinar de cadeira: nem he justo, que o Principe
dos Grammaticos deixe de ter a maior distinçaõ em a terra da verdade.
Logo que elle isto disse, sahio coxiando para fóra, e rindo dizia: A
Grammatica, que em Roma ensinei, era taõ coixa, como eu. Mas todavia se
os Romanos de mim naõ houvessem recebido o exemplo, tambem naõ opporiam
á Grecia tantos sabios.

Porém Sanches modesto recusava taõ distincta mercê, allegando para isso,
que naõ só por haver sido o respeitavel velho Embaixador do Rei Attalo,
que fartou Roma de pergaminho; mas tambem por ter alcançado a honra, e a
gloria de primeiro Mestre do povo senhor do mundo, por nenhum titulo
devia ser dispensado de sahir de seu devido aposento.

Nem ter sido Embaixador, replicou Crates, nem ter sido o primeiro Mestre
dos antigos Romanos, equivale a ter sido, como tu, o primeiro açoite da
pedantaria, e do ranço de todos os Grammaticos do universo. Eu aqui
ficarei.

Dizendo isto puxou do escabello, que estava diante da cadeira, e pólo
para o lado: e Sanches naõ teve remedio senaõ obedecer, subir,
assentar-se: e todos fizeram o mesmo.

Hum pouco esteve Sanches, como quem estava reflectindo, depois do que
voltando-se para Crates fez huma profunda venia; mas nem por isso deixou
de significar a todos a sua civilidade. Eu tenho grande pena de vos naõ
poder pintar ao vivo a delicadeza, graça, e energia da sua pronuncia,
por isso só vos escreverei o seu arrazoado, cujo comêço he o seguinte.

Se os pais ás mãos ambas semeam o pedantismo, e os Professores idiotas
nas campinas da mocidade saccos cheios vaõ deitando: saõ sem dúvida os
máos livros o celleiro infame, aonde taõ pestifera semente está
guardada. Os escritos impressos naõ tem numero; elles vaõ durando com as
épocas futuras: o bom e o máu nelles vai vivendo. Assim he que as
fallas humanas duram, depois do homem naõ viver. E como já naõ he
preciso o penoso trabalho de trasladar livros, como antigamente, eilos
vulgares: e sendo poucos os que possam ser juizes da bondade, ou
ruindade, que nelles houver, entaõ adquirem apaixonados os que naõ saõ
bons; e censores, os que o saõ. Por outra via ha homens ou taõ
ignorantes, ou taõ fatuos, que julgam verdades eternas tudo o que está
escripto em letra redonda. He por estas bem claras razões, que muitos
sabios ainda naõ poderam decidir, se a arte Typografica tenha
aproveitado mais ás Letras, ou se mais as tenha offendido.

He certo, disse Sciopio, que ella faz conservar escriptos, cuja memoria
naõ devia existir: e quando muitos outros saõ funestos, naõ se póde
dizer quanto seja huma multidaõ de livros didaticos, os quaes naõ só
corrompem o bom gosto, mas enchem os rapazes de mais ranço do que
que teria toucinho de cem annos ao fumeiro.

Em a Minerva, continuou Sanches, dei eu bem a conhecer os escriptores
pedantes: he este livro bem vulgar; e o Memoravel Rei D. José lhe deu a
devida estimaçaõ, mandou por hum Decreto, que nenhum Professor em
Portugal deixasse de o ter, e de por elle explicar: porém isso durou
pouco. Hoje ha lá muitos, que nem sabem, que ha similhante thesouro no
mundo, nem tam pouco tem principios para o entenderem, e para se
utilisarem.

Assim he, disse o P. Manoel Alvares, mui poucos fazem caso desse livro:
e ainda agora ha quem transcreva as peiores coisas da minha arte
reprovada por huma Lei, vendendo por seu o meu trabalho: julgando talvez
o pódem fazer a seu salvo, por ninguem já saber o que eu escrevi.

Bem sei, que fallas, proseguio Brocense, em a arte das linguagens, que
ha dias acabou de ser impressa: descança, que logo lhe faremos a
caridade; porque o seu autor naõ tem mais privilegios que muitos de vós
a quem censurei, e nem por isso somos inimigos; antes a nossa amizade
será taõ eterna, como nós havemos de ser.

A Critica, disse Jacob Peritonio, tem o caracter de hum juiz inteiro,
que sentenciando as obras segundo o seu merecimento, deve sempre deixar
illeso o seu autor.

Hoje enfastia muito, disse Antonio Felis, ver resuscitar os destemperos
das Grammaticas velhas; se isto se fizesse, quando eu fiz a minha
compilaçaõ, e Antonio Pereira as suas artes, seria digno de perdaõ;
porque nos expozemos ás maiores calúmnias, como todos sabem, e as quaes
muito nos vexariam, a naõ sermos protegidos pelo braço Real; e ainda
assim naõ padecemos pouco.

Eu honrei Hespanha com as minhas obras, continuou Brocense, e a paga que
recebi dos meus serviços, foi ver a Minerva condemnada ao pó de bem
poucas livrarias; a qual se fez taõ rara, que sendo achada por Sciopio,
a quiz reimprimir por sua, julgando haver-se inteiramente perdido a sua
lembrança; mas ainda houve entaõ quem restituisse ao meu nome a gloria,
que se lhe hia a roubar.

Apenas assim fallou, todos olháram para Sciopio como enfadados; elle
porém muito senhor de si, se desforrou, dizendo: Isso tudo he verdade;
mas depois em todas as minhas obras Grammaticaes, me intitulei teu
discipulo, nome que muito bem desempenhei, e ajudei a tua espada a dar
os mais profundos golpes no cachaço dos pedantes.

Tivemos pelo meio deste seculo, disse Sanches consternado, homens
grandes por amigos, pelos fins delle só conheço hum escriptor, que com
as suas, e nossas opiniões honrará as provincias da Grammatica, sempre
que por ellas corra, quem ahi naõ seja peregrino. Mas porque fallamos em
os ultimos escriptores desta idade; faça-se justiça: vinde cá, Inglez.

Assim que me chamou, fui chegando a cadeira, e como elle fallou em
Justiça, fiquei pouco satisfeito, cuidando já se sabe, que se me faria
alguma execuçaõ á móda de Inglaterra. Já estes cuidados me ruiam o
coraçaõ, quando veio da boca de Sanches hum repellaõ de vento, e me
levou a béca de plumas. Entaõ he que pensei, naõ tardaria, que a cabeça
me voasse. Mas estes sustos se converteram em galhofa logo que ví a béca
de pennas, tambem convertida em folhetos de papel; e a mim em trajes de
marujo, como d'antes.

Com esses vestidos, disse-me Crates Mallotes todo risonho, podeste tu
vir do mundo; mas com outros has de tornar.

Eu estava com olho de punho para os folhetos, a ver aonde fosse o caso
dar comsigo; entaõ chegou hum contino, que bem conheci ser hum
Grammatico mui pedante, o qual em Londres ficava, quando de lá sahi.
Pegou pois este criado em os cadernos, e pregou-os na parede. Veio
outro, e com toda a humildade (do que me admirei por ter sido Francez, e
deixar de ser arrogante) e metteu na maõ de Brocense hum ponteiro de
barba de balêa; mas o cabo era de oiro massiço, em que estavam
esculpidos tres escriptores Portuguezes: os quaes ficaram fechados em a
maõ do Hespanhol, cujos nomes naõ tive licença de declarar em esta
Historia; mas os escriptos, que saõ do direito publico, naõ tiveram a
mesma prohibiçaõ: e confesso-vos, que nesta parte escrevo constrangido,
e callo muitas coisas, que reporei, a quem me pedir contas, ajuntando
outros appensos, que Crates Mallotes, do outro mundo me promette.

Mas tornando ao proposito, estendeu Sanches o seu ponteiro para a
parede, e entaõ ví em correnteza tres artes de Grammatica: Lê esse
primeiro titulo, disse; entaõ li alto, e em voz clara _Novo Epitome de
Grammatica Latina Moderna, ou Verdadeiro Methodo de ensinar Latim a hum
Principiante.... Lisboa.... Anno de 1795_.

Naõ appareceu ainda, continuou, hum livro mais bello para ensino da
mocidade, nem que seja mais accommodado para ser explicado conforme as
determinações do grande D. José I.

Vê estes Nominativos, estes Generos como estaõ taõ bem ordenados. Estas
Linguagens, expostas em taboas synopticas: como debaixo de hum ponto de
vista obriga o menino a firmar a sua memoria? Estas _raizes_ de
formaçaõ! Estes _preteritos_! Quem até agora fez huma Syntaxe como esta?
Quem melhor Prosodia? Como he em tudo coherente! E estas _notas_ naõ
fazem por ventura hum systema completo?

Tem boa duvida, disse o Barbadinho, e o que mais admiro além das
novidades, que escaparam ao teu engenho, he a brevidade e clareza, com
que ensina o que outros naõ poderiam em bem gordos volumes.

Esse moço, disse Antonio Pereira, tem dedo para isso, e ainda o vereis
dar á sua patria signaes de bom filho.

Mas ha Professores, replicou Vocio, que dizem ser esse livro muito bom
para Mestres; mas que naõ presta para rapazes, pela ordem Filosofica com
que foi tecido. E que dizeis a esta? Digo, respondeu Sanches, que he
para rapazes, mas para rapazes, que naõ tenham a desfortuna de serem
discipulos de similhantes Mestres. Como se Filosofia naõ fosse a recta
razaõ, ou se sem ella possa haver bom escriptor, ou bom Mestre?

Eu pasmo, disse o Barbadinho de ver tanto charlataõ; cuidei, com as
minhas Cartas, ou com a Introducçaõ Historica, e Critica, tinha curado a
loucura dos Pythagoricos: agora vejo, naõ fiz nada. Acaso naõ he para
rapazes huma arte, que ensina sem confusaõ a hum principiante, a hum
adiantado, a hum Mestre? Huma obra que tem tudo em seu lugar? Em que
concorda o principio com o meio, e o meio com o fim?

Esses homens, disse Palemaõ, eram bons para Mestres de papagaios; e
fazia huma grande caridade quem os mandasse para o Certaõ, dirigir pretos.

Parece-me, disse Lithocómo, que o autor desta arte errou em lhe chamar
Epitome; porque sendo huma obra completa, devia-lhe chamar Flagello do
ranço Grammatical do fim do XVIII. seculo: e saõ homens de má cabeça os
que desdanham de livro taõ bello.

Acabava Ludolfo Lithocómo taõ douta reflexaõ, quando Joaõ Garcia
exclamou: Mil parabens á Naçaõ Hespanhola, que ainda tem filhos, que
deram próvas do seu bom gosto na versaõ desta arte, datada em Madrid em
1797.

O discipulo digno de Sanches (continuou elle mesmo) consola a tua
paciencia com estes elogios, até que a Ignorancia invejosa naõ morda o
teu serviço com seus dentes carunchosos. Quando para aqui vieres
serás carregado de louvores; porque a Inveja mordaz em os bons defunctos
naõ acha que roer.

Aqui se levantou Joaõ de Barros, exclamando: Quem naõ vê o serviço que
eu fiz aos Portuguezes? Eu escrevi os seus illustres feitos, que fizeram
pasmar a todos os povos do mundo, e o fructo que em meus dias entrou em
meus celeiros, foram taõ descomedidas, como escandalosas censuras; ha
muito porém, que depois da minha morte sou chamado o Livio Portuguez, o
Mestre do patrio idioma.

A melhor satisfacçaõ, disse o P. Buffier, que o bom escriptor possue em
sua vida he a consciencia do louvor, que naõ póde ser affogada nem pelo
mais basto oceano de calumnias.

Já tudo estava em o mais profundo silencio, e Sanches medindo com os
olhos inquietos todo aquelle livro: mostrando com o continuo movimento
da cabeça quanto delle gostava, até que depois de hum largo
intervallo, com os beiços alguma coisa sobrepostos, fez-lhe huma
profunda inclinaçaõ: e logo com o seu ponteiro, o qual em o tempo da sua
revisaõ estivera voltado para o hombro direito, bateu na dita arte, a
qual desappareceu.

Mas qual naõ foi a minha admiraçaõ quando me vi convertido em hum guapo
passaro, desde a cabeça até o embigo? Naõ ha nem oiro, nem pedras
preciosas no mundo, com que possa comparar a formosura das minhas
pennas. Entaõ me lembrou que o ponteiro de Sanches era mais milagroso
que a vara de Mercurio. Por certo, dizia eu comigo, que os mortos saõ
mais habilidosos, que os vivos.

Quando eu corria veloz por estas, e outras muitas cogitações, e me
estava namorando, qual outro Narciso, já o amigo Sanches estava a contas
com a segunda arte, cujo titulo era _Novo Compendio da Grammatica
Latina, &c. Coimbra.... Anno de 1796_. Como insulta, dizia, nesse
arrogante Prologo a todos os Grammaticos! Como se vale de
Despauterio! Mas quede a sua Grammatica Filosófica, que promette?
Aquella Grammatica Filosofica desconhecida até agora?

Ella ahi está em pouco mais de meia folha de papel, respondeu Condillac,
vê como desfigurou a minha doutrina! Quantas idéas intermedias naõ ficam
ahi cortadas?

Essa Grammatica Filosófica, disse Gaspar Sciopio, he bem similhante ás
escadas de hum edificio, apartadas sete braças humas das outras. Donde
nem as pernas de hum gigante as pódem alcancar; e muito menos as de hum
rapaz, que saõ mui curtas.

Toda a Etymologia Latina, e Prosodia, continuou Sanches, bem vedes,
serem quasi formaes de Antonio Fereira, com algumas coisas de outros
autores.

Sim, disse o Barbadinho, alguns exemplos tem seus; corta, e accrescenta
algumas poucas coisas, e outras as muda: porem de ordinario he infeliz,
como se vê no incremento em _A_.

Em a Syntaxe, proseguio Brocense, em que se conhece quanto vale hum
escriptor deste genero, nem vejo novidade, nem methodo algum. Ora quem
póde soffrer estas incoherencias?

Huma Grammatica em tudo perfeita, disse o Barbadinho, he coisa mais
difficultosa de encontrar, do que agulha em palheiro; os sabios ainda
hoje suspiram por ella.

Eu concedo, disse o P. Antonio Rodrigues Dantas, que até hoje ninguem
tem escripto sem defeito, e que he optimo o livro, que tem mui poucos
erros. Mas naõ posso tolerar, o ver gritar com Despauterio contra todas
as Grammaticas, e reprehender-se neste ponto naõ só a Portugal, mas
tambem a toda a Europa; e dizer-se claramente ser esse o motivo de Sahir
ao mundo aquelle grande parto.

Eu gritava, confessou lisamente Despauterio, porque naõ via a trava no
meu olho: esse moderno todavia faz bem justas as minhas queixas, com
a inutilidade de seus escriptos.

Quem tanto de si presume, disse Sanches agastado, devia satisfazer ás
suas promessas, e naõ imitar ao monte, que depois de tantos brados pario
o que eu tenho vergonha de dizer.

Hum rato sem pello, disse Palemaõ, foi o grande parto que se esperava, o
qual fez arrebentar de riso aos que deraõ attençaõ aos seus gritos, e
nelles se fiáraõ.

Ainda fallava este mordaz, senaõ quando Brocense, mostrando em seu
semblante huma indisivel desplicencia, bateu naquelles escriptos, que
logo fugiram. Entaõ fiquei desde o embigo até ao pé direito carregado de
pennas cor de papel pardo. Já pois para ser passaro completo, me naõ
faltava mais, que o lado esquerdo desde aquelle ponto, que já disse.

Entre tanto que eu observava a differença das minhas pennas, clamou
Sanches enfurecido. He possivel, que no fim do XVIII. seculo
apparecesse no mundo huma arte como esta?

Entaõ virei o bico para a parede, e lí o frontispicio da ultima arte, o
qual era _Novo Methodo de Grammatica Latina &c... Lisboa... Anno de
1799_. Mas ninguem repare de ver hum passaro a ler; porque eu era
passaro feito no outro mundo.

Mal acabei de ler o titulo, e o Hespanhol, trazendo o ponteiro em hum
redupio, clamava: Vê, vê as incoherencias dessa Etymologia. Vê aqui como
esta _Hic_, _haec_, _hoc_, feito particula, contra o que se diz alli em
o número das partes da oraçaõ. Forte miscilania! E que vos parecem essas
linguagens eternas? Por ventura poderá hum rapaz decoralas em dez annos?

Na verdade, continuou Sanches, estes Infinitos estam bem fartos de
embrulhos. E a pezar de terem o Portuguez do Indicativo, ainda lhes
falta o do Conjunctivo; e quem gosta de tanta selada, quanto naõ
gostaria de ter noticia de mais estas alfaces?

Assim como, disse o Barbadinho este escriptor saccou com a repetiçaõ
sómente de certas letras finaes as Raizes de formaçaõ do Novo Epitome, e
desfigurou outras coisas; porque naõ leu aquella interessante Nota de
Syntaxe, aonde absolve os rapazes destas sempiternas perlengas?

Tudo he huma palhada, disse Manoel Alvares; se essas linguagens tivessem
o _Já entaõ_, o _oxalá_, e o _cum_, nenhuma differença tinham das
minhas, senaõ o serem ainda mais extensas.

Essa arte, disse Sciopio, com mais justiça merecia ser queimada, do que
foi a tua; porque se foste máu Grammatico, ninguem te póde roubar a
gloria de teres sido optimo Latino. Os teus versos naõ invejam aos
melhores da idade de Augusto: mas de Grammatica foste hum verdugo, como
se próva claramente nas Instrucções de 1759. Tambem o teu Mercurio,
disse Alvares, naõ foi quem abrio os olhos aos mortaes.

Isto picou tanto a Sciopio, que entrou com a sua mordacidade a altercar
taõ descomedidamente, que já a favor de Manoel Alvares se vinha chegando
Prisciano, para rebater aquelles dicterios. Entaõ o sabio Presidente em
tom magistral, assim fallou: Nada de calúmnias; Manoel Alvares para o
tempo em que viveu merece desculpa, seguio aos que lhe precederam, como
as ovelhas ao carneiro do chocalho. Mas no fim do chamado seculo das
luzes apparecer huma arte como esta, depois de tantos livros
excellentes? porém naõ percamos mais o nosso trabalho.

Logo que assim acabou, sem querer ver mais nada olhou carrancudo para
aquelles folhetos, e elles como settas me ficaram cravados pelo lado
esquerdo, pennas, já se sabe, cor de mechas.

Assim he que me fui aos poucos convertendo em passaro na ilha dos
Mortos. Sanches desceu da Cadeira, praticou com os outros relatores.
E todos diziam: Viva Crates Mallotes, viva, que campou na escolha que
fez. Porém reparei, que Despauterio naõ gostára da galhófa.

Acabados estes comprimentos sahiram todos, e eu feito passaro entre
elles, com o meu rabo de rastros, taõ comprido como as linguagens do
Novo Methodo. Porém, como naõ perdi a falla, agradeci muito ao
Embaixador do Rei Attalo, o devertimento que me deu. E certamente nunca
vi opera taõ gostosa; porque sem duvida deixarei todos os gostos do
mundo de boa mente, quando se me offereça similhante fortuna: e ainda
espero de lá tornar.

Mas como hia dizendo: já estava desconfiado de tornar a Inglaterra;
Crates porém, que era mui esperto, e mui politico, conhecendo a minha
desconfiança, disse a Sanches: Mostrai a esse hospede as coisas mais
notaveis da nossa ilha, para ir o mais breve para sua casa. E tu, amigo
Gúliver, desculpa, naõ te poder acompanhar, bem vês, que hum coixo
naõ póde andar depressa; porém o respeitavel Teive iré em meu lugar.
Ide; eu naõ tardarei muito em ser comvosco; lá nos veremos no mirante de
Carlos Magno.



DIALOGO V.

_Necessidade da obediencia: elogios da naçaõ Portugueza: utilidades da
Agricultura: quanto foi apreciada pelos antigos Portuguezes: castigos
dos pedantes na ilha dos Mortos: chegada de Crates Mallotes, para me
persuadir a ser Grammatico, &c._


Logo que Crates Mallotes mandou os seus subditos, nada se demoráram, e
eu naõ pude tambem fazer outra despedida, que voltar o rabo para o ar, e
o bico para o chaõ, e fazer-me de volta com taõ respeitaveis
companheiros. Accusava-vos todavia de sahirem taõ apressados, que me naõ
deixaram fazer os devidos comprimentos, ao menos a todos os que haviam
fallado no Congresso, de quem tinha eu recebido taõ altas mercês;
porque a toda a multidaõ era impossivel.

Comprimentaste a todos, disse Sanches, sem nicas, nem fingimentos dos
Politicos mundanos. A obediencia he o eixo da carroça social, por falta
deste dever he que ninguem hoje póde viver no mundo. A nossa sociedade
compoem-se de sabios que sabem muito bem a sua obrigaçaõ, sem o conselho
dos quaes nenhuma póde ser bem dirigida. O nosso velho mandou, governa,
obedecemos.

Os sabios! disse Diogo de Teive com hum grande suspiro: A pedantaria!...
Mas foi Deos, Gúliver, o que te fez aqui arribar: para remedio de muitos
abusos literarios da minha naçaõ, que a pedantaria das outras naõ me
importa. Has de achar ahi, dizia elle, has de achar, quem te ajude em
este grande serviço. Já Portugal estava com seu rosto coberto de luzes,
quando outros póvos estavam sepultados em as mais escuras trevas da
ignorancia. Naõ ha no mundo quem tenha melhor legislaçaõ; os nossos
Monarcas saõ Senhores no nome, e na Magestade; pais no procedimento:
has de achar hum Principe Religioso, Pio, moderado, amigo de Deos, e dos
homens; hum Principe, como Tito, que chora o dia em que naõ póde fazer
mercê: que está immovel aos conselhos menos piedosos: e que naõ quer
tirar o paõ aos servos do Sanctuario, para sustentar o odio, que a
pedantaria do tempo tem aos altares.

Na verdade, disse Sanches, nenhuma naçaõ da Europa tem tido melhores
Reis, e por isso nunca outros tiveram iguaes vassallos.

Tem boa dúvida, disse Diogo de Teive, os Portuguezes pódem-se chamar
melhor filhos, que vassallos dos seus Soberanos, pela fedilidade, e amor
com que todo o povo os serve.

Para que estais com isso? replicou Sanches, toda a naçaõ Portugueza se
tem distinguido em tudo das mais. Quem tem tido melhores Reis? quem
melhores vassallos? Quem melhores letrados? Quem melhores soldados?

E quem, continuou Teive, hum Joaõ das Regras? hum Camões? hum Barros?
hum Heitor Pinto, gloria dos Frades de Belém, honra de Portugal?

Entaõ foi desenvolvendo a Historia de todos os Reis de Portugal, os
sabios de todas as épocas: acções que pareciam fabulas: guerreiros:
proezas até das proprias mulheres. O que tudo vos deixo de contar naõ
tanto por se naõ engrossar o volume, como para economia da bolsa de meus
apaixonados. Além de que tudo achareis em as Historias daquella naçaõ,
ainda que os mortos sabiam o que ellas vos naõ contam.

Já Teive entrava a elogiar muitos dos vivos, sem todavia proferir os
nomes de cada hum, até que todo inflammado disse: Será mais facil acabar
toda a geraçaõ Portugueza, do que apossar-se della o inimigo.

O que saõ os Portuguezes, disse Sanches, ainda neste tempo dos chás, e
dos caffés, em o Rossilhaõ, e em Napoles muito bem se conheceu.

Em quanto eu hia caminhando entre os dois amigos, ouvindo attentamente
os elogios dos Portuguezes, que muito me deleitáram os ouvidos: tambem
hia desfructando com os olhos a linda prespectiva naõ só de verdes
seáras, mas tambem de vistosas arvores, carregadas de bellas fructas,
assim como risonhos prados: muitas vinhas; olivaes &c. ví muitos
carreiros, almocreves: muitos homens a assar castanhas, outros a pôr
hortalica, outros em fim a semear batatas. Estava na verdade ancioso por
saber que gente fosse aquella: e ainda mais fiquei, quando vi outros a
esfolar mosquitos: e muitissimos á caça de moscas.

Já com difficuldade me podia ter; porem Teive que previo a minha
curiosidade, disse-me: Bem sei que estás admirado do que vês: por isso
deves saber, que naõ pódem aqui morar senaõ Grammaticos, e Professores
de ler, e á medida do seu pedantismo se lhes dá cá occupaçaõ competente:
Lavradores somos nós todos: os charlatães tem differentes
ministerios, ou almocreves, ou carreiros, &c. os delicados assam
castanhas: os negligentes caçam moscas: os que deixam de exprimir os
seus pensamentos, porque naõ acham em Cicero palavras para isso, estaõ
se cançando a tirar a pelle aos mosquitos. Mas como naõ gostamos de
gente ociosa todos nas occasiões vaõ trabalhar em Agricultura.

Se lá no mundo, disse Sanches, mandassem cultivar a terra a homens
inhabeis para as letras (naõ deixando em silencio aquelles infinitos
estudantes de Mathematica, que nem sabem ler) nem mortificariam a seus
Mestres, nem faltaria paõ.

Assim como em meu tempo, disse Teive, em que a Agricultura era taõ
estimada: entaõ naõ era preciso vir trigo de fóra, antes havia muito
para vender, e quando era cáro naõ passava o alqueire do preço de trinta
réis. Oh! Felizes tempos, em que haviam sabios, haviam soldados, havia
de comer!

E naõ haviam, disse Sanches, casquilhos sem religiaõ, a medirem as
verdades Positivas a compasso: feitos Juristas, e Theologos abstractos.

Estas, e outras coisas diziam, e tinhamos já bastante caminhado; porém
nunca me custou taõ pouco o andar. Eu bem podia voar; todavia por
decencia hia a pé. Cada vez mais campinas cultivadas hia descobrindo,
até que chegámos a hum oiteiro carregado de tójos, e de cardos, por onde
pastava huma grande manada de jumentos, guardados por infinitos homens.
Estes saõ os Professores de ler, disse Teive, que no mundo só ensináram
os meninos a gaguejar, e que foram a causa de nunca poderem avançar ao
estudo das sciencias. Naõ foram como os que viste em o congresso, os
quaes aproveitáram mais ás suas respectivas nações, do que muitos
Rhétoricos, e Filósofos.

A literatura, disse Sanches, he a base das sciencias, e quem poderá ser
sabio, sem que saiba ler?

Resolvi-me pois, a fazer minhas perguntas; mas sempre commedidas
para naõ me portar, como tolo. Abrí o bico, dizendo: Aonde estaõ
aquelles defunctos, que nem foram Grammaticos, nem Professores de ler?

Além daquelle rio caudaloso (respondeu Sanches, apontando com o dedo) ha
muitas ilhas, e cada qual tem a sua jerarquia; porém se algum foi
Mestre, ou escriptor de Grammatica, ou Professor de primeiras letras,
ainda que tambem fosse Rhétorico, Filósofo, Theólogo, ou General, &c.
faz-nos entaõ o favor de vir para aqui.

Em quanto Sanches me satisfazia, puxou Teive de huma luneta, e olhando
para além do rio, entrou a rir como hum perdido.

Aqui me obrigou a fazer segunda pergunta; porque em similhantes
occasiões tem muita desculpa a curiosidade.

Naõ ha coisa mais galante, respondeu, lá está Pythágoras, com a
escudélla de Diógenes entre pernas, comendo favas, como o lobo carne
de borrego.

No mundo, disse Sanches, naõ houve quem mais asco lhes tivesse, e agora
está capaz de engolir a mesma escudélla. Ora o certo he, que se entre os
Grammaticos ha pedantes, muitos mais achareis entre os Filósofos.

Já haviamos passado as fraldas de huma montanha de mais de tres legoas
de altura: quando ví os seus lados cobertos de bois, cabras, ovelhas: de
maneira que naõ avistava palmo de terra; e muito tempo estive
persuadido, que os pegureiros eraõ pedras cor de musgo. Mas a poucos
passos ví em o cume do monte hum mirante de tal grandeza, e magestade,
que a pobreza de minha penna naõ o póde debuxar. Basta dizer, que a sua
escadaria principiava desde seis milhas, e era de tal arquitectura, que
me parecia ir correndo por huma eira.

Ainda Sanches hia batendo nos Filósofos pedantes, dizendo raios
contra Voltaire, e contra outros impios: senaõ quando ahi chega Crates
Mallotes em huma cadeirinha, trazida aos hombros de dois mariólas,
vestidos com saiaes até o joelho de pelles de bóde côr de cinza. Tenho
vergonha de dizer a naçaõ a quem pertenciam: Portuguezes naõ eram, o que
digo por descargo de minha consciencia; pois que Sanches me disse, serem
taõ respeitados naquella ilha os Portuguezes, que até os mesmos pedantes
eram muito favorecidos.

Para que saibas, disse o meu Velho, para que saibas quanto te estimo; e
para que agradecido a esta boa hospedagem, venhas em outro tempo para a
nossa companhia, he que venho estar comtigo até que daqui te safes.

Dizendo isto sahio pela cadeirinha fóra, e fomo-nos sentar bem perto da
entrada do mirante.

Fez varias perguntas, entre outras, que me tinha parecido a sua ilha? E
tambem me disse a razaõ de naõ haver nella jardim, nem coitada: e
por fim levantou-se, e bateu a pórta do mirante, que logo se abrio; e o
que se passou, logo o vereis: e espero que muito vos divirta, e que nada
menos vos aproveite.



DIALOGO VI.

_Idéa da grandeza do mirante de Carlos Magno: este, e Cesar recebem com
muita alegria a Crates Mallotes: Gúliver he tratado muito humanamente:
ultimas desgraças da pedantaria: remedio para ellas: chegam muitos
Grammaticos para pedirem a Gúliver, que escreva Grammatica Filosófica da
lingua Portugueza: como este fica no ar sem ver coisa alguma &c._


Assim que se abrio aquella porta appareceu huma escadaria taõ alta, que
logo me lembrei da torre de Babel. Fui saltando por ahi a cima atraz de
todos; porque o velho se servio dos dois, como de moletas; naõ pela
razaõ da sua muita idade; mas por aquella, que vos naõ esquecerá, se me
lestes com a devida attençaõ. Naõ me custou tanto toda a comprida
jornada, como a subir (posto que hia de vagar) por as escadas a cima;
pois que as pernas por serem curtas me obrigavam a saltar violentamente.
Deste modo hia eu tirando forças da fraqueza; mas nem por isso quiz
voar: segundo o proposito, que havia formado. Com tudo muito estimaria
que Crates Mallotes sobre isto desfizesse a minha teima com preceito de
obediencia. Elle porém gemia como huma mulher na occasiaõ do parto. Em
fim, nestes apertos chegámos a todo cima a hum grande pateo; e parando
hum pouco para se moderar a respiraçaõ, virou-se Crates para mim com o
semblante cheio de alegria, e disse: Estás chegado a fallar com as
personagens que em os antigos seculos mais no mundo florecêram: ellas te
daráõ lições bem gostosas para a curiosidade portugueza.

Dito isto, fomos entrando por falas, e mais falas, até chegar a huma
espantosa, e soberba varanda. Sim, disse Crates, has de levar lições
de grandes e illustres heróes: aqui naõ ha nem aduladores, nem
tractantes, que sejam capazes de os enganar.

Ainda elle fallava, senaõ quando vejo Carlos Magno em o meio de Cesar; e
Cataõ, e Lelio á ilharga algum tanto apartado, e outros muitos em pé:
Mas avistando aquelles quatro insignes varões ao velho Crates, foraõ
tantos os festejos, os comprimentos, as alegrias, os abraços, as
galhófas, os ditos engraçados, que bem podia fazer divisaõ deste ultimo
_Dialogo_, se vos pertendesse chupar dinheiro com palavras sem proveito.

Em quanto pois se passavam estes sinceros, e innocentes festins,
perguntei a Sanches (que já me havia dito, quem fossem os quatro) se os
outros eram os Grammaticos antiquissimos, pertencentes aos do susurro,
que tinhamos ouvido, quando estiveramos em o congresso?

Que tu quizeres! respondeu, esses saõ bichos cor da noite, aos quaes
ninguem atégora vio: saõ os habitadores das trévas.

Os Senhores saõ Cortezãos (disse-me Diogo de Teive) e os unicos, que naõ
havendo sido lá no mundo nem Grammaticos, nem Professores de ler, por
previlegio, e merecimentos do Imperador, vieram para aqui. Tem sim bons
salarios; mas nunca diante delle se devem assentar; porque só nós o
podemos fazer.

Por isso, disse eu em segredo apontando com o bico para a orelha de
Teive, por isso lhes vejo as pernas bem inchadas; mas agrada-me muito o
seu sério.

Aqui estaõ callados, tornou o Portuguez, mas fóra da vista de Carlos
Magno ninguem os póde aturar: tudo pisariam, senaõ fossem bem conhecidos
por elle, que os sabe bem domar: e assim todos vivemos huma maravilha.

Já se haviam em fim acabado os comprimentos, e os Imperadores se foram
sentar, e depois os outros cinco. Eu, como por ser passaro estava
dispensado de fazer o mesmo, cheguei-me para aquelles, que tinham a
mesma dispensa, posto que por differentes motivos. Elles me trataram com
muito carinho: e para naõ ser ingrato, digo, disse, e sempre direi, que
em aquella ilha recebi obsequios até dos esfoladores de mosquitos, e dos
caçadores de moscas.

Estando eu feito Cortezaõ, como acabo de significar, sem merecimento
algum, e cuidando por isso, naõ se faria caso de mim, logo fiquei sem
estes escrupulos: porque vendo Carlos Magno a minha submissaõ, e o
quanto eu conhecia a mercê, que me tinham feito em me admittirem com
tanta benignidade ás suas lições, e á sua companhia, disse em tom sério,
brando, e affavel: Es passaro, naõ ha duvida; mas passaro feito pelo
nosso dedo. O que tens foi-te dado; porque o merecias. Naõ és como essas
infinitas gralhas, que se andam enfeitando descaradamente lá na terra
com plumas, que furtam ás aves mais formosas, e mais estimaveis.

Sim, disse Cesar, mas de ordinario, naõ se sabem armar com ellas, e
expoem-se ao risco de serem depennadas.

Como as pennas, disse Cataõ, saõ bens de raiz, tambem as aves roubadas
poucas vezes demandam as ladras, que pouco a pouco vaõ perdendo o furtado.

Senaõ demandam, disse Crates Mallotes, queixam-se pelo menos, como naõ
ha muito fez o nosso Condillac á vista desse Inglez.

Ora pois, disse-me Carlos Magno, vinde para aqui. Entaõ fui-me chegando
com a cauda de rojos feito viuva, despedindo-me dos Cortezãos á Ingleza,
isto he, sem comprimentos, nem ceremonias, por ser indecente, que eu em
semelhante occasiaõ, me dilatasse com elles.

Chegado que fui ao pé do illustre Heróe, já Cataõ se havia levantado, e
estava fazendo pontaria com hum telescopio, incomparavelmente mais
comprido, que o de Galilei de Galileos. Teria pelo menos trinta
covados de comprimento: estava em cima de huma especie de carreta,
que tinha suas escadas, para poder ver cada qual, segundo sua estatura.

Ajustada a mira do instrumento, veio-se Cataõ assentar. Entaõ Carlos
Magno arrancando de seu piedoso coraçaõ hum grande, e magoado suspiro:
Sóbe, disse, verás por alli (apontava para o telescopio) por alli,
pedantarias já dignas de riso; já dignas de lágrimas. E vós Sanches, ide
estar bem, ao pé deste estrangeiro.

Dito isto trepei pelas escadas até o ultimo degráu, pela razaõ da minha
estatura, que entaõ pouco maior seria, que a de perú: o rabo sim era
tamanho, e taõ monstruoso, como as _Linguagens_ que em elle foram
convertidas. Sanches porém, que naõ havia padecido, como eu nenhuma
metamorphose, ficou em pé sete escadas abaixo, e com a sua cabeça a par
da minha. Virei pois o olho esquerdo para a boca daquella grande
maquina, e o bico para a banda; mas dei a volta com elle voltado para o
ar, a fim de naõ molestar a cára do Hespanhol, companheiro, amigo,
&c. Os circunstantes gostáram do meu procedimento, riram he verde,
todavia com aquella moderaçaõ de gente bem educada. Eu confesso, que
estive hum pouco confuso. Ora eu já tinha reparado ser desmarcado o meu
bico; porém entaõ he que conheci ser sessenta vezes maior que o da
cegonha. Nascia a minha admiraçaõ de ter sido feito de huma arte taõ
breve, como o Novo Epitome. Já me naõ embaraçava olhar para outras
partes senaõ com ambos os olhos para o meu bico.

Assim me estava demorando com estas bagatellas, quando Sanches me disse:
Naõ te maravilhes, tudo isso he preciso para dares as mais valentes
picadas no charlatanismo deste seculo. Observa o que vai pela Europa.

Entaõ vi casas do tamanho de bocetas, ruas, chafarizes, proporcionados,
e logo infinitos ratos, devorando-se huns aos outros. As mortes ferviam:
tudo era huma confusaõ. Em quanto isto se passava, sahiam arrãs de
differentes lagos; entráram logo a formárem-se em esquadrões: os seus
escudos eram conchas de amejoas, as armas juncos mui agudos. Assim
invadiram os campos, pertencentes aos ratos, estes moderaram algum tanto
o odio intestino; muitos porém se misturáram com ellas; as quaes já hiam
ganhando castellos: e alvoravaõ suas bandeiras. Mas os ratos logo se
uniram quasi todos, levavam escudos de cascas de nozes, e as armas eram
folhas de trigo candial. Affugentáram as arrãs, e fizeram-se senhores de
muitas das suas ribeiras.

Assim acabou aquella invasaõ. Depois ví alguns ratos ás costas das
arrãs, que nadavam pelos lagos, e dahi a pouco vi muitos delles
affogados pelas margens. Vieram outros com forcados ás costas: entaõ
muitas arrãs fizeram paz com elles, segundo me pareceu, outras ficaram
sós em campo: padeceram muitas derrotas: perderam muito das suas
ribeiras. Tambem os ratos tractaram mal a muitas das que haviam deixado
a liga, roubando, e comendo os seus viveres, e occupando o seu
terreno. Em quanto isto observei, vieram infinitos cágados, ajudaram
tanto as arrãs, que já hiam recuperando muito do perdido. Muitos ratos
fugiam pelas montanhas, com juncos espetados pelos olhos. As arrãs
mortas eram sem numero; os ratos sem conto.

Muito tens visto, disse Carlos Magno, e queira Deos vejas estas revoltas
socegadas. Vê, como os ratos tudo querem roer; e depois querem que as
arrãs sejam animaes silvestres, como elles.

Eu estava pasmado, e ainda hoje trabalho por decifrar todo aquelle
enigma, e canço-me debalde. Tambem vi batalhas navaes, em que as arrãs
obraram maravilhas.

Se estas, disse Cataõ, naõ derem cabo destes ratos enfurecidos, a mim me
mellem.

Crates Mallotes, queria se me explicasse aquessa visaõ; porém Carlos
Magno disse: vamos ao que importa, venha Gúliver para aqui.

Entaõ fui logo pelas escadas abaixo para junto do Imperador, o qual
assim continuou. Nunca o mundo esteve taõ cheio de traidores, e de
malvados como hoje: Por aquelle telescopio sabemos tudo; o qual alli da
parte direita tem certo canudo por onde tudo ouvimos. Quizemos
divertir-te com esses ridiculos objectos: cuja explicaçaõ alguem acharás
entre os vivos, que bem a possa desenvolver. Só vos dizemos, que a falta
de Religiaõ, de temor de Deos, assim como o orgulho, e o egoismo deste
tempo, saõ as causas das desgraças, que com lagrimas nos olhos os bons
mortaes em a patria vos contaraõ.

Sim, disse Cataõ, este seculo tem produzido mais impios, e mais Atheos,
que gafanhotos o estio. Os pais de familia, e a falta de vigilancia
publica sobre a educaçaõ da mocidade, tem causado muitos prejuizos á
sociedade humana.

Cuidei, disse eu, que isso só serviria de augmentar o pedantismo, e
nada mais. A pedantaria, respondeu Cataõ, he prima mui chegada do
desatino. Todas as causas della, tambem o saõ dos males mais funestos.

Quando isto ouvi, lembrei-me logo da expressaõ de Aurelio Opilio, quando
disse, que as revoltas do mundo deviam ser attribuidas á ignorancia: o
que Teive havia provado com argumentos, que naõ tinham resposta.

Os pais de familia, disse Lelio, com a sua má educaçaõ, os Mestres
prevaricadores, os livros impios, tem feito em o mundo estragos mais
terriveis, do que peste em cem annos.

Tudo isto, disse Cataõ ainda tem remedio, os pais que naõ ensinam aos
filhos o temor de Deos, a doutrina da sua religiaõ, a obediencia aos
seus Soberanos, e superiores, sejam castigados: os Mestres que naõ
mostram interesse na conservaçaõ das leis da sua patria, sejam apartados
do ensino público, e particular: os livros impios sejam naõ só
prohibidos, mas até queimados; porque o seu pedantismo he mui prejudicial.

Eu com difficuldade podia ouvir estas coisas: todo o meu desejo se
encaminhava a que se me explicasse aquella célebre visaõ: por isso
perguntei: Que quer dizer aquella loucura dos ratos, e das arrãs?

Naõ sejais teimoso, respondeu Crates, surrindo-se; todas estas reflexões
dahi nascêram. Ouvi a Cataõ, que he bello para isto. A vossa curiosidade
he por certo innocente, mas de nenhuma maneira vos he util.

Como ouvi fallar em a inutilidade do meu appetite, deitei-o para fóra, e
inclinei o ouvido para Cataõ, que assim discorria: Hum homem sabio, que
tem lido as Historias do mundo, e de cujo coraçaõ o diabo ainda naõ
tomára posse, conhece muito bem, que tudo está perdido, huma vez, que se
quebrem os antigos eixos de qualquer governo: ou seja por meio de
planos, apparentemente bons: ou interesses imaginarios, ou titulos
de liberdade. E o peor he que o fogo desta funebre pedantaria passa de
ordinario muito além das barreiras, dentro das quaes se accendeu; pois
que he infinita a ignorancia, que lhe serve de lenha, e a si de ruina.

Sem sahir de Roma, disse Cesar, temos as mais concludentes provas dessa
verdade. Quando Bruto, o maior fanatico, que a antiguidade conheceu, com
o pretexto virtuoso de vingar huma adultra suicida, todo o rude povo
amotinára, naõ foi só o Imperio quem padeceu os funestos effeitos
daquella republicana, e pedantesca novidade.

Ouvindo isto o mordaz Cataõ, o qual havia sido o capataz dos
Republicanos, torceu o nariz, e fazendo uma carantonha, como de quem
sentio fedorentissimos vapores; assim retrucou a Cesar: Mas tu pouco
menos de cinco seculos, depois daquelle delirio pedantesco: já quando
todos amavam as leis, e os costumes de Republica taõ antiga, foste de
Roma regar os campos de Farsalia de Romano, e barbaro sangue.
Hespanha sentio tambem os malvados golpes da tua furiosa espada.

Toda a paga do meu delirio, disse Cesar, foram vinte e tres punhaladas,
que recebi de quem a vida muito devêra desejar-me. Mas tambem o
sedicioso Bruto em o mesmo anno de seu Consulado alcançou a recompensa
da sua perfidia. Eu perdoei aos Cidadãos, que foram meus inimigos:
mandei aos meus soldados metter a espada na bainha. Podéra muito bem naõ
dar vida a algum. Porém todo o meu fim era restituir á patria o antigo,
e bom governo da sua creaçaõ; porque sempre me pareceu pessimo o guizado
da panella por muitos mexida.

Mas naõ sendo tua a panella, replicou Cataõ, foras comendo esta tal, e
qual vianda com que todos nos haviamos sustentado. E que prazer recebias
de estar só a mexella, sendo a sua agua as lagrimas dos vivos, e o
seu adubo o sangue dos mortos?

Tambem o fogo aonde fervia, disse Carlos Magno, era o incendio da guerra
civil, a coisa mais lamentavel de todas as desgraças, que em o mundo
possam succeder.

He hum ingrato mui pedante, disse Crates Mallotes, todo o que deseja
mudada a Legislaçaõ, e os antigos costumes do seu paiz, em pontos
essenciaes; porque similhantes mudanças saõ a origem daquelle triste
fenomeno, que Gúliver ha pouco vio: e que tem produzido des donde o Sol
se poem até aonde elle nasce as miserias mais terriveis, do que a
memoria de todos os seculos nos tem mostrado. Mas para naõ mentirmos,
devemos confessar, que as traições tem sido a causa dos ratos terem
feito tanto damno pelas ribeiras: se isso naõ fora, já ha muito estariam
incurralados em seus buracos.

Melhor seria, disse Lelio, que as arrãs, naõ lhes houvessem dado pasto
para roer; porque entaõ elles se devorariam huns aos outros, como
fazem estes, que andam de cavallaria, pelos fórros destes tectos.
Todavia he muito certo terem sido as traições a causa de durarem ha
tantos annos essas carniçarias lamentaveis.

Se os traidores, disse Cataõ, naõ fossem pedantes, conheceriam, que em o
desempenho de suas obrigações, he que consiste a sua propria felicidade;
e que o ultimo fim da vil traiçaõ he todo o genero de trabalhos, ou,
quando pouco, huma infamia, que nem todo o mar em infinitos seculos
poderá lavar.

Sabemos muito bem, disse Crates, que o interesse do traidor costuma
commummente ser igual ao do que entregou Gibraltar; mas Gibraltar ficou
perdido. Pelo que mostrai, como se podem evitar os menos traidores, que
for possível, em pontos taõ delicados.

Huma boa educaçaõ publica, respondeu Cataõ he o primeiro remedio: depois
disto evitar-se o mais que poder ser tropa mercenaria. Assim he,
disse Cesar, porque, quando todos os Cidadãos em Roma eram soldados, nem
ao imperio faltava defeza, nem o povo morria de fome. Em tempo de guerra
corria toda a gente necessaria, no fim cada qual vinha para sua casa.
Desta maneira o ser soldado naõ se oppunha entaõ nem a ser estudante,
nem lavrador, nem General.

Tambem os soldados Portuguezes antigamente, disse Diogo de Teive, eram
lavradores, e homens, que tinham interesse na conservaçaõ de suas
familias, e de seus bens: homens capazes, que de suas lavoiras hiam para
a guerra, e da guerra para as suas lavoiras. Naquelle ditoso tempo naõ
se prendiam homens vadios, e facinorosos, senaõ para o supplicio; e
ainda que se admitisse algum destes por ser valoroso, elle se fazia
honrado, pelo desempenho dos seus deveres.

Por isso, continuou Cataõ, temos visto por aquelle telescopio, que
ninguem até agora entrou em Portugal com maõ armada, que mais hoje,
mais amanhã naõ sahisse com a aza a rastros.

Eu estava admirado do que ouvia, e já gostava de ser bom estadista (naõ
como os do caffé, aos quaes aborreço de morte, quero dizer as suas
loucuras) por isso, estando muito familiarisado com a presença de Carlos
Magno, que me tinha havia tanto tempo ao pé de si; com o mais profundo
respeito; porque naõ costumo abusar do favor, que se me faz, assim
perguntei: Como, Senhor, póde neste tempo, em que tanto se necessita de
trópa bem disciplinada, deixar de haver soldadesca paga?

Cataõ logo entrou a rosnar; mas em tom que nada percebi, com tudo, se
fordes bom Logico, podeis fazer huma boa conjectura.

Sua Magestade, o Illustre Imperador Carlos Magno respondeu-me com a
mesma affabilidade, com que costumam os Monarcas Portuguezes fallar ao
seu povo, e aos estrangeiros, o que tudo observei quando estive em
Lisboa; e Teive havia confirmado com milhares de provas; o qual era
testemunha sem suspeita. O plano, proseguio o heróe famoso, para haver
muitos soldados fiéis, e valorosos com bem moderada despeza, he o
seguinte: Tem por exemplo huma Potencia 60$000 homens pagos, tenha só
12$000: estes sejam bem escolhidos. Alistem-se agora 200$000:
repartam-se em Regimentos: venham da tropa paga officiaes sabios, e
honrados para cada regimento. Tenha-se muita attençaõ aos destrictos
para se ajuntarem os soldados em os dias desoccupados a fazerem
exercicio. Dê-se aos pobres fardamento de tres em tres annos: a todos
sem excepçaõ a sua arma. Fóra do exercicio naõ se vistam as fardas,
tirando aquellas, que cada qual quizer comprar, &c. Naõ se pague senaõ
em guerra, ou actual serviço. Naõ se falte com o premio aos benemeritos.
Entaõ siga cada hum o modo de vida que bem lhe parecer. Mas quando este
seja incompativel, naõ se deve vexar ninguem. Ora dizei-me deste
modo faltará quem defenda a sua Patria?

E seraõ, respondeu Cesar, menos as miserias publicas, e naõ ficaraõ as
terras a monte, e naõ haveraõ tantos ociosos, e...

Naõ será preciso, interrompeu Cataõ, prender homens, e assim
constrangelos a jurar bandeiras, as quaes por esse motivo lhes haõ de
ser sempre odiosas.

Fallando assim Cataõ, e estando Carlos Magno virado algum tanto para
elle: aproveitei-me da occasiaõ, e espetei o bico na orelha de Crates
Mallotes, que estava á ilharga de Cesar; perguntei-lhe muito baixinho:
Com que Bullas está aqui o açoite dos infiéis?

Já te esqueceste (respondeu-me em o mesmo tom) do que te disse
Quintiliano lá no congresso, quando se recommendou a Grammatica da
lingua materna? Entaõ lembrei-me da Grammatica Tudesca; e ao mesmo tempo
da brevidade, ou fraqueza da memoria humana. Mas debalde se fallou taõ
baixinho; porque o Imperador tudo ouvio, e disse mui expeditamente:
Sim, fui Grammatico, e naõ temos medo aos Filósofos da moda. Tu faze
pelo ser, para que algum dia tenhas lugar aqui comnosco.

Elle que acabava de fallar, chega Manucio, Braz Pico, Laurenti, Crinito,
Linacro, o Barbadinho, Antonio Pereira, e mais vinte Escritores
Portuguezes, e pediram, compozesse eu huma Grammatica Filosófica da
Lingua Portugueza; no que agora trabalho, mas espero de Lisboa humas
tres que me dizem, estaõ a sahir a publico, para dellas me aproveitar
sem crime de furto.

Parece-me escusado dizer, com quanto respeito estes Grammaticos, que me
vieram fazer a sua recommendaçaõ, tractaram aos Imperadores; porque já
vos disse muitas vezes, que alli naõ ha gente mal criada.

Em fim, promettendo eu áquelles amigos pôr todas as minhas forças por
satisfazer ao seu empenho, disse Crates Mallotes: Vai agora ver o
que vai; chega-te ao telescopio. Subi, inclinei o olho, e Sanches
chegou-me o canudo ao ouvido, e entaõ vi, e ouvi hum grande ajuntamento
de ratos a chiar: e logo entráram ás focinhadas huns aos outros, como
damnados. Nesse tempo veio-me aos olhos hum reflexo de luz de tal
qualidade, que me obrigou a fechalos; mas quando os tornei a abrir, já
nem vi mirante, nem nada: só me vi na regiaõ das aves sem saber que rumo
seguisse, nem para onde me voltasse.



FECHO DA OBRA.

_Conta Gúliver como chegou á patria: como foi poizar á quinta de hum
Lord: como foi tratado: como deixou de ser passaro pelo toque da Carta
de Crates: o seu Theor, &c._


Sahindo eu daquelle magestoso edificio sem saber de que maneira, assim
como naõ soubera o modo com que á ilha arribára; naõ tive entaõ remedio,
senaõ voltar o rabo para o Norte, e o bico para o Sul; porque naõ
avistava nem palmo de terra: agua, e ceo, eram os unicos objectos de
meus olhos. Estive hum pouco agitado dos mais tristes pensamentos,
lembrando-me a desgraça de Icaro; mas adoçava estes amargos com o
perfeito conhecimento de naõ terem sido as minhas azas feitas de cêra
pelos homens; sendo pelo contrario seus autores defunctos sabios, e
honrados, inimigos de traidores.

Assim animado desta esperança verdadeira, cujo fim naõ foi doloso, vim
voando á ventura, por cima de mares immensos, que ví em differentes
partes coalhados de navios, que me pareciam formigas d'aza. Porém
chegando á altura de Londres, que muito bem conheci, e que me creou hum
novo coraçaõ, entrei a descer por huma perpendicular, e cada vez se me
hiam fazendo maiores os edificios, os quaes ao principio me pareciam
conchas de mariscos, ou de caracois brancos.

Cheguei em fim á patria; mas _ad cautelam_ para evitar algum insulto da
plebe, fui poisar á quinta de hum Lord, que fora muito meu amigo em
outro tempo, e que ainda hoje o he. Porém eu chegado ahi, senaõ quando
todos os rapazes, e raparigas da fazenda, me vieram com páos dar as boas
vindas. Como pois eu era hum passaro taõ desusado, como manso, me
foram tangendo para casa de seu amo: nem eu queria outra coisa. Acudio
elle, e ficou satisfeito do presente. Eu tive minhas tentações de lhe
dizer quem fosse; mas contive-me; porque julgaria, que era algum diabo,
ou alguma bruxa pelo menos. Deste modo segui o systema de mudo, até que
algum defuncto me absolvesse de passaro, e me restituisse a figura de
homem.

Assim que ví o Lord entrei a fazer-lhe festa, como pude, isto he, com o
rabo, e dando minhas correrias; mas de sórte que elle conhecesse que eu
era animal domestico, por evitar alguma peia, &c. O amigo estava-se
babando: logo mandou vir huma escudélla de páu, cheia de legumes,
lembrei-me logo de Pythagoras, e do riso de Teive; e conheci-me
comprehendido em o mesmo crime; porque havia sido pouco devoto daquella
fructa (por má creaçaõ, eu o confesso) e entaõ senti huma tamanha rafa,
que até devoraria a propria gamella. Mas todavia fiz-me grave até ás
horas de jantar, que me pareceram mais compridas do que a noite em
que Alcmena dormio com Júpiter; cuidando ella ter em casa o seu Anfitriaõ.

Neste dilatado tempo recebi milhares de visitas, que me fizeram hum
grosso circulo, bem como a plebe de Lisboa costuma fazer a hum preto,
quando esfola algum cavallo; do que sou testemunha de vista. Tocou
finalmente a jantar, e eu que estava já aborrecido daquella gentalha, e
morto de fome, rompi por onde pude, fazendo caminho com o bico, o qual
fui logo espetar no prato do Lord, que naõ levou a mal o meu
desembaraço, antes mo encheu humas poucas de vezes de boas viandas.
Tambem repiquei em o copo; mas com muita moderaçaõ. Desta maneira tirei
o ventre de miseria: e regallei-me em quanto fui ave. Eu sahia pela
quinta, e tornava: e naõ havia mimo, que se me naõ fizesse.

Ora eu cheguei áquella boa hospedagem ás déz horas do dia 2 de Janeiro
de 1800, e seriam onze do dia 13 do dito, estava eu ao Sol (que
durou bem poucos minutos) estendendo a aza, e compondo a plumagem: senaõ
quando chega huma ave, que me parecia galinholla, com hum cartaz no
bico, e deixando-o cahir lá do alto sobre mim, fiquei Gúliver como
dantes, vestido em trajes de marujo, o que eu certamente nunca fui, mas
assim vestia em meus embarques. As pennas lá fugiram para o corpo do
Correio: e talvez tornem a ser convertidas em as artes de que já fallei.

Estando eu todo concho a abrir a carta, chega de repente o caseiro, e
diz: Quem deu a você licença de aqui entrar? Senhor, respondi, achei a
porta aberta. Naõ póde ser, replicou, vocês trepam pelas paredes como
gatos. E apostamos, que você vem com o cheiro em o passaro de meu amo?
Ah! Sim hum passaro mui esquipatico, disse eu, ahi anda em o cima da
estrada a querer saltar para dentro. Vamos fóra eu lho ajudarei a
enxotar para cá.

O pateta, que isto ouvio, sahio a correr; e eu apoz elle. Metti-o em
huma travessa, e safei-me por outra bem para longe a ler a recommendaçaõ
dos amigos defunctos, cujo theor he o seguinte, em pergaminho de boa
letra, que naõ dou nem por hum milhaõ de libras estrellinas.



CRATES MALLOTES

Exembaixador do Rei Attalo, Exprofessor de Letras Humanas em a
Cidade de Roma, Presidente Honorario dos Grammaticos defunctos


_Ao nosso amado Hospede Roberto Gúliver deseja muita Fortuna._


NAÕ te posso explicar, amigo Inglez, as saudades, que deixaste em a
nossa ilha, e quanto todos ficáram namorados do teu bom procedimento;
por isto, e tambem pelo bom affecto com que te tractámos, he necessario,
naõ te esqueceres das nossas recommendações, para que, depois do golpe
da Parca, te associes comnosco. Muito bem observaste quantos homens
grandes aqui habitam, Imperadores, Bispos, Condes, Generaes, &c. Depois
disto aviva lá no mundo a nossa memoria, para naõ esquecer de todo:
o que te será pouco custoso, patenteando os justos açoites, que nos
vistes descargar sobre o pedantismo deste seculo. Mas os Grammaticos
Portuguezes, de quem muito nos prezamos, e os Hespanhoes, querem, que tu
dívulgues as nossas lições em Portugal; naõ por necessitar mais dellas,
do que as outras nações, mas porque lá ainda ha muitos sabios, a quem
haõ de ser bem gostosas. Naõ temas nada: tudo o que disseres, he nosso,
que nos lastimamos muito dos destemperos da humanidade. Se em fim por
tamanha caridade houver quem te morda, de cá irá o medicamento, sem que
pagues porte ao Correio. O portador desta he Despauterio, e pódes dizer
áquelle amigo, que elle já naõ ralha dos outros, e que siga este
exemplo. Ilha dos Mórtos 12 de Janeiro de 1800.


Apenas lí este passaporte, corrí como huma lebre a casa do Lord, que naõ
sabia o que me fizesse. Logo me deu vestido, dinheiro, tudo.
Mandou-me sem perda de tempo pôr mãos á obra; e depois de a lêr
carregou-me de elogios: e vai-se a imprimir por sua conta. Eu estou mui
gostoso da sua approvaçaõ, por ser hum homem doutissimo, que naõ declaro
para naõ cahir em incoherencia, que he o peor defeito de quem escreve.


FIM.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Crates Mallotes ou Critica Dialogistica dos Grammaticos Defuntos contra a pedantaria do tempo" ***

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