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Title: Notas d'arte
Author: Lemos, António de, 1864-1931
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

                                             Rita Farinha (Jan. 2010)



NOTAS d'ARTE



[Figura: NOTAS D'ARTE]



PORTO
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)

Travessa de Cedofeita, 54

1906



Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS

Á SOCIEDADE de BELLAS ARTES

pelo que podem fazer em bem da Arte.



[Figura: (Esboço para um retrato)

VASCO FERREIRA]



NO LIMIAR


_O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico
para a Escola de Bellas-Artes_:--A Arte é o reflexo dos costumes. _E, de
facto, assim é. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do
aperfeiçoamento e da illustração dos povos_.

_Assim, quanto mais illustrado fôr o publico, tanto mais perspicaz, mais
estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o
applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, é mesmo por
isso que entre nós, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia
fazem, na incessante lucta pela vida, os esforços mais lidimos e mais
honrados para resolverem esse enorme e sublime_ desideratum:--_ser
grande!_

[Figura: (1904) Caricatura do dr. M. Monterroso]

_Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, não o conseguem, porque
para isso não são precisas só a boa vontade e a persistencia no estudo.
Alguma coisa mais lhes é necessaria, e essa, primacial:--ter talento!_

_Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, vão
gloriosamente para diante e são verdadeiramente grandes_.

       *       *       *       *       *

_Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nós era uma especie de_
Arte mystica, _que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos_.

_Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e
acanhadas normas, sem pensarem sequer que o_ fluido ether _que nos cerca
e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisações
vibrantissimas de luz e de côr, precisa de ser estudado e quiçá
pintado_.

_Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o
publico tambem não exigia mais, e a critica não se preoccupava
absolutamente nada com isso_.

_Tanto_ elle _como_ ella _eram feitos por individuos, que ao visitar os
museus e as exposições de pintura não tinham a intuição nitida e
verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestação
psycologica da vista_.

_Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que
lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, não
para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para
gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o
seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada
frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface,
acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso
verde de Amarante_.

_E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuição artistica, porque, lá
fóra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que
lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferença, sem se
manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores
do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composições de convenção
e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspecção constante e
immediata dos motivos a pintar.._.

       *       *       *       *       *

_Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que
começavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados,
saltam por sobre as barreiras das convenções e correm pelos Campos da
Arte, fóra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que
possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica
mais independente que auctoritariamente se impõe, cheia de razão, para
que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficção_.

_E, é sob este refulgir de um novo sol, que orientado lá fóra, com as
mais modernas noções d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres
escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como
Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc.,
etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim é o maior
dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de
ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era
para a pintura portugueza_.

_Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma
larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento,
exuberantes de verdade, geniaes de execução. Era um grande! Era um
sublime artista!.._.

_Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido
tão sincera, tão verdadeira e tão lealmente_ roubar _á Natureza
verdadeiros e flagrantes pedaços do seu grandioso_ Ser, _para tão
maravilhosamente os transplantar á tela_.

_Ao morrer porém Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente,
a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores
portuguezes_.

_E, de facto, é sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal
brilha hoje mais fulgurante, podendo pôr-se sem vergonha ao lado da Arte
dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo_.

_Se não em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes
de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem
temerem confrontos_.

_E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas não queiram, vae
avançando intellectualmente um pouco na civilisação moderna_.

_E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos_:--A
Arte é o reflexo dos costumes.


                                            Antonio de Lemos (Alvaro).


[Figura: Cabeça de negra (Bronze)

DUQUEZA de PALMELLA]



NOTAS d'ARTE

1

Impressões d'uma Exposição


Ha muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bella impressão que me
causou a 1.^a Exposição organisada pelo _Instituto de Estudos e
Conferencias_, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus
leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde
melhor), a só hoje cumprir este dever.

Fui vêr a exposição sete vezes, e de cada vez que lá ia, novos encantos
encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o
resultado mais brilhante que podia desejar-se.

Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas até aos
mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram
dignamente, não obstante um _critico d'arte_ ter dito, em um semanario
d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras _chromolythographias_.
Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos
artisticos e criterio de tal critico. Saberá elle o que são
chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de
vêr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua está tão
alta?...

[Figura: José Malhoa]

Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os
dous bustos e o medalhão em marmore.

Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros são obra
de Fernandes de Sá, pensionista do Estado, que em Paris completa a
educação artistica do seu muito talento. A cabecita de creança, em
marmore, é um encanto, aquella boquita admiravel de bébé pedia milhares
de beijos...

[Figura: José de Brito]

O medalhão de Joaquim Gonçalves é uma bella copia de um primoroso
trabalho do grande mestre Soares dos Reis.

Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dôa a quem doer, os
dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da Côr. Eram
um assombro os seus quadros.

O _Gozando os rendimentos_, estudado com cuidado e traçado largamente,
empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem
estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um
amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta
impressão forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu
burguesismo.

[Figura: Que grande calamidade--JOSÉ MALHOA]

No _Que grande calamidade_, as figuras trabalhadas com um rigor de
verdadeiro mestre, são flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido
porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeças das figuras e o
rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes
ellas ficariam.

E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre tão primorosos
trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me
prenderam a attenção.

Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. É inegavelmente um
grande desenhista. As suas _Impressões de Espinho_, são bellas e tanto,
que uma foi adquirida pelo Instituto por indicação do jury competente.
_A Azenha_, um encanto, _Cabeça de estudo_, um primor.

[Figura: Chrysantemos--ANTONIO COSTA

Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Então os
_Pensamentos_? Esse, era uma delicia.

Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, não
desmereceu a sua grande fama e, os _Chrysantemos_ e _Na vindima_,
deram-me a prova evidente da sua muita aptidão para este genero de
pintura.

[Figura: Candido da Cunha]

Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu _Ultimos raios de
sol_, que já conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com
os seus--_Mar calmo_, _Martyr_ e _Barcos de pesca_, merecem hoje, como
sempre, os nossos elogios.

Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ás
suas paisagens um tom de verdade admiravel. O _Macieiras em flor_, em
especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.

José de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas;
todos os seus quadros são bons, mas para mim superior a todos é o
_Mulher do novello_, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta,
flagrantissima de verdade na expressão do rosto. Na _Infancia de Diana_,
bello estudo do nú, alguma coisa me desagradou á vista, especialmente um
cão que se via nos ultimos planos...

João Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros _Retalhos_, _Lar_.

[Figura: João Augusto Ribeiro]

D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de força
de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as
suas aptidões artisticas.

Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposição o seu logar definido e
assente ao lado dos bons artistas. _Um caminho encharcado_, _Manhã
d'Abril_, _Margens do Leça_, e todos os demais são feitos com alma de
verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execução, o _Retrato
de minha Mãe_, que é um trabalho notavel.

[Figura: Retrato de minha mãe--TORQUATO PINHEIRO]

D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores,
especialmente o _Pelargonios_, que senti não tivesse preço para ser
adquirido.

Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, não
me demorarei na enumeração dos seus trabalhos, porque isso iria ainda
muito longe e os meus leitores, decerto, se até aqui chegaram, já
bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa
prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.



II

PINTORES PORTUENSES

JULIO COSTA


Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa,
pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo
insignificantemente pequeno para fallar d'este artista. Mas, antepondo a
esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o
encargo, e, tal como posso, desempenhar esta missão.

[Figura: Julio Costa]

Será um artigo despretencioso, sem preoccupação do estylo ou requinte de
forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor
illustre de quem me vou occupar.

Não conheço escolas, não discuto artistas, não cito nomes estrangeiros,
nem rebusco particularidades de _metier_.

Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente,
indiscretamente, a impressão que os quadros me deixam. Nada mais. E
hoje, ao traçar estas linhas a respeito de Julio Costa, não venho,
acreditem, fazer a apreciação, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse
pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome já aureolado pela
critica consciente, o laurel amigo da minha admiração.

E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio
Costa.

       *       *       *       *       *

Portuguez de nascimento e condição, alma que se espande na mais suave de
todas as alegrias--a familia--Julio Costa vem, de ha tempos para cá,
vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus
discipulos e para os seus trabalhos.

É um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo á
primeira vista.

É lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito,
tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe
atire. Nunca deixa de chalacear, a não ser quando tem algum dos seus
doente. Então, sim, então abate-se todo na dôr d'aquelle que soffre e
deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.

É uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto é bom, e d'ahi a uncção
deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.

[Figura: Conselheiro João Franco--JULIO COSTA]

Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve
orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemorações aos
homens notaveis do nosso paiz.

O retrato é inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente
trata e que mais em evidencia o tem collocado.

O retrato de El-Rei pintado para o salão do Tribunal da Relação, os
retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, João Ramos, Dr. Eduardo
Pimenta, Conselheiro Campos Henques, Conselheiro João Franco, e muitos
outros, são affirmações publicas do que digo.

O primeiro, é largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas
côres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo
salão do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.

O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e
de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em
posição natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que
se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os
intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis
factos da nossa historia.

[Figura: Oliveira Martins--JULIO COSTA]

E todos os outros, todos, são verdadeiras obras primas.

Não esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro
João Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de
verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova
orientação, a marcha dos negocios publicos.

D'esse retrato já eu disse, quando tive occasião de o ver pela primeira
vez, o seguinte:

«É grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do
snr. Conselheiro João Franco.

«Absorve por completo a nossa attenção. Está executado n'um
correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de côres, n'um
flagrante de pose e de semelhança. Ao retrato do Conselheiro João Franco
só lhe falta fallar para ser o proprio.

«Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este
trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal é a perspectiva
que Julio Costa lhe deu; ás vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha
um não sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que
os labios se vão descerrar para fallar.

«E as roupas, que delicada feitura, que _nuances_ de verdade! Na facha
que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de _moiré_.

«O retrato em questão não é simplesmente um retrato; é mais do que
isso:--é um quadro».

       *       *       *       *       *


Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa
sabe apanhar tudo quanto vê em volta de si. Sabe ver, que é o essencial.
D'ahi o colher a expressão da Impressão. Mas a Impressão escolhida, não
da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.

Julio Costa é um civilizado! É um delicado! É um _raffiné_ (desculpem o
francez).

E é esse effeito de _raffinerie_ e essa predilecção pela impressão
escolhida que elle transporta aos seus retratos.

Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das
linhas d'um rosto.

Elle sabe que nada é tão impressionante, para nós que contemplamos os
quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que estão vivas!...

E os seus retratados vivem nos seus retratos.

Em uma palavra, Julio Costa não pinta _um retrato_ do seu modelo...
pinta _o retrato_.

Cada uma das nossas sensações, das nossas emoções, dos nossos
sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanças, dos
nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.

A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nós se transforma, e deixamos
de ser então semelhantes a nós mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir
n'essas fugitivas transformações aquelle _momento_, que é sempre da
nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma
physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a
multiplicidade das nossas attitudes.

E é por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande
preponderancia sobre outros artistas.

Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella
correcção no desenho.

Que o desenho não é só como muita gente pensa o esqueleto da pintura.

Não, o desenho é uma parte integral d'ella, o desenho é a propria
pintura.

Já um celebre pintor francez, cujo nome não recordo agora, dizia dos
seus desenhos--_A côr dos meus desenhos_... como se o desenho não fora
unicamente uma apresentação do claro escuro.

Mas é que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios
tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa
chata, sem vida, sem relevo.

O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte
avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me
fazia uma prelecção sobre as vantagens do desenho:--«Olhe, se você
quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias,
com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus
claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e
terá um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho é tudo».

E de facto assim é: para se poder pintar bem o que é preciso primeiro é
saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus
trabalhos uma corecção distincta.

Mas, Julio Costa não é só notavel no retrato. Julio Costa é-o tambem em
outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas
indiscutiveis das suas aptidões.

O _Calvario_, que elle pintou para a egreja do Bomfim, é o melhor
attestado do seu _savoir faire_. D'essa obra prima, que veiu abrir uma
polemica entre um critico da _Palavra_ e o conego Alves Mendes, dizia
este ultimo no seu opusculo--_A crucificação de Jesus:--Outros quadros
de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este não. É tal a
firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial
inspiração artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude
enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa_.

[Figura: O Calvario--JULIO COSTA]

Que melhor e mais auctorisada opinião que a d'este _pintor_ da oração,
este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel
os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagração a um
artista não as tenho visto melhores nem mais perfeitas.

Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem,
n'esses momentos, não deixa o seu nome em má posição. Ahi, como nos
outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o
quer que seja de suggestivo, de impressionante.

Não é cousa simples enumerar a sua obra, porque ella não é uma
insignificancia.

No entretanto, como é do meu desejo levar o mais longe possivel a
resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais
se notabilisaram nas exposições onde teem apparecido.

[Figura: A Ti Anna--JULIO COSTA]

Em primeiro logar colloco eu o _No Vago_, uma pastoral de côr, como lhe
chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado
poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma moçoila
trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedaço de
terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os
trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu
chapeu de palha; marcára ao namorado uma entrevista, na esperança d'um
doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado não vem, e ella, na
sobrexcitação do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres
que ora lhe dizem _sim_, ora lhe dizem _não_, e, por ultimo, como que
adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento
esvoaçando no _vago_... Eis o quadro, que figura lá fora, em Berlim,
para onde foi vendido.

Não esquecerei a _Romeira_, uma fresca rapariga que, em descantes
alegres, parte para a romaria.

E uma _Cabeça de estudo_, que appareceu na exposição de Arte de 1894,
uma linda cabeça de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu
lenço de xadrez multicor, que é um encanto!

O _retrato do Quinsinho Souto Mayor_, é um estudo de creança finamente
trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de
renda, tão bellamente pintada, que dava a perfeita illusão de que eram
rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.

O _Vencido_, que é um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que,
após uma refrega com outros, sae com um braço deslocado; que suavidade
de côr, que tristeza nos olhos humidos!

O _retrato da Ti Anna_, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu
casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo
lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas
esfolhadas e nas espadeladas, é soberbo. Hoje, a pobre velha canta as
tristes canções com que embala os netos, e fia o linho com que veste os
filhos, que outras, que são novas, vão espadelando a rir e a cantar. E
tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se vê alli
representado n'uma sentida impressão e n'uma ideal concepção.

O _Costume dos arredores do Porto_, é tambem um lindo quadro--uma
cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.

E a _Mimalha_ e a _Varanda dos Mangericos_ e mil outros trabalhos
d'elle?...

Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor não tem obrigação nenhuma
de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.

Julio Costa é para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam lá o
que disserem, e se, dentro da sua modestia, não gostar do que eu agora
digo d'elle que me perdoe porque eu só sei dizer o que penso, e isso
muito rudemente ainda.



III

PINTORES PORTUENSES

ANTONIO CARNEIRO JUNIOR


Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido já occasião de
apreciar os seus trabalhos em outras exposições, corri, apressadamente,
incumbido por a redacção da _Vida Moderna_, a vêr a nova exposição dos
seus ultimos trabalhos, com o grande interesse de conhecer o progresso e
o desenvolvimento artistico d'este bello cultor da arte da pintura.

[Figura: Antonio Carneiro Junior]

E, francamente o confesso, as minhas espectativas confirmaram-se.
Carneiro Junior, que era um dos novos que mais promettia, obteve, com o
seu estudo no estrangeiro, a verdadeira comprehensão da arte de pintar,
affirmando-o desde já com os magnificos trabalhos expostos no atrio da
Misericordia.

Pintando em todos os generos, como elle mais se avigora, e mais
demonstra o seu talento é, a meu vêr, como pintor de figuras.

A paisagem e a marinha não são o genero que mais o tentam, o que não
quer dizer que não tenha paisagens adoraveis e marinhas deliciosas.

É preciso porém notar-se que, quem escreve estas linhas, é um mero
amador que vem simples e unicamente dar a resenha dos quadros expostos e
a sua impressão pessoal, dizendo simplesmente gosto ou não gosto, sem me
prender nunca em considerações sabias sobre o modo de pintar de cada um.
Não citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios
de critico emerito.

E não o farei, porque entendo que para se escreverem artigos
substanciosos e chorudos sobre tal assumpto é necessario, antes de mais
nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas e d'essa pintura,
acompanhado isso da leitura de livros da especialidade.

E, vulgarmente, não succede assim. Muitos dos nossos criticos conhecem
esses quadros e essas escolas porque algum amigo, vindo lá de fóra, lhes
trouxe, como recordação, catalogos dos muzeus que viu por lá, e é por
ahi que elles fazem, a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como
nunca vi muzeus, nem tenho lido livros sobre pintura, não faço critica,
faço a minha reportagem, deixem-me assim dizer. E posto isto, lá vae a
impressão pessoal que me ficou d'alguns dos trabalhos de Carneiro
Junior. E elle que me perdôe se não gostar.

Em primeiro logar, se bem que não sejam estes os principaes trabalhos,
ponho eu os desenhos a sanguinea---que figuram no catalogo com os
n.^{os} 27 e 28, _Figuras para a fonte do Bem_; 10, _Estudo para o
quadro do Amor_; 6, _Estudo para a figura Esperança_; 25, _Estudo de
creança para a fonte do Bem_.

[Figura: Retrato--ANTONIO CARNEIRO]

Os retratos do _Marcos Guedes_, n.^o 43; do _dr. Alfredo de Magalhães_,
34; do _Antonio Patricio_ (filho), 32; de _J. Teixeira Lopes_, 36; do
_Claudio_, 40; e os dous retratos de _R. C_., 37 e 38, são magnificos.

Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente nos dois
ultimos, em que o artista põe todo o seu sentimento de amor.

O quadro _Tarde no mar_, n.^o 56, é delicioso; como que se sente, ao
olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande mar sabe cantar
quando suavemente beija a areia fina da praia.

_Campo de trigo_, n.^o 77; em _Auvay_, impressão de frente, 89;
impressão, (_Bretanha_), 71; em _Leça_, impressão, 68; o _Tamega_,
(Amarante), 67; o _Sena em Auteil_, 62; _Pinheiros ao cahir da tarde_,
57; ...são, para mim, sentidissimas paisagens onde a nossa vista se
perde e o nosso espirito se embrenha como em paginas brilhantes da
_Viagem da minha terra_, de Garrett.

Ha alli tambem um quadro, _Leitura_, de que muito gostei. N'um interior
de casa escura, á luz de um candieiro, tres mulheres, uma das quaes lê.
É admiravel não só de execução, como de composição.

O esboço do quadro _Fonte do Bem_ é apreciavel e bem desejariamos vêr o
quadro definitivo.

E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe que o seu
triptyco, é, para o meu fraco entender, um d'estes geniaes poemas que só
os grandes artistas sabem conceber. Emquanto á sua execução acho-a
primorosa. _A Esperança_, deliciosa virgem estudada e delineada com toda
a pujança d'um bello espirito;--_O Amor_--assombroso de execução; ha
n'aquelle cavalleiro todo em aço vestido, a virilidade d'um cavalleiro
andante; _A Chimera_, fundamente abstracta, na sua côr doentia e na sua
expressão de verdadeira Fatalidade olha o quer que seja de horrivel,
guiando o fogosissimo cavallo em que monta o cavalleiro;--_Saudade_--na
base d'uma sphinge sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta
doçura n'aquella expressão de tristeza! Como o pintor soube dar áquella
delicada mulher a nota melancolica do que é na realidade a saudade! Este
quadro seria bastante, para definir o grande talento do artista e o seu
temperamento subtil de poeta.

Que o artista me perdoe se não disse tanto quanto merecia a sua obra e
acceite o parabem sincero de quem só diz o que sente.


  Março 1901.



IV

Thadeu Maria d'Almeida Furtado

                PALAVRAS DITAS Á BEIRA DA CAMPA DO FALLECIDO PROFESSOR


Não é, o que vou dizer, uma biographia, nem um necrologio; representam
simplesmente estas despretenciosas palavras como que um punhado de
saudades espersas sobre a campa, ainda mal fechada, do illustre morto.

Conhecendo-o desde ha muito, tive sempre por elle uma d'essas venerações
respeitosas de consideração e amisade, que se tem por aquelles que vivem
sempre de cabeça levantada e aos quaes não podem attingir nunca as
settas envenenadas da má vontade e da calumnia. E é por isso que hoje
não posso deixar de vir dizer aqui algumas palavras a respeito de quem,
sempre se fez querido de todos quantos, uma vez só que fosse, d'elle se
aproximaram.

[Figura: Thadeu Maria d'Almeida Furtado]

Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de desenho do Porto e
dos de mais nomeada; cumpridor dos seus deveres, como poucos, recto nas
suas apreciações, como ninguem, quantas vezes fez elle rebentar essas
bolhas de balofa vaidade, com que muitos mediocres se julgavam
notabilidades, e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados
elogios; mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades por
mais duras que ellas fossem.

Trabalhador incançavel, até ao ultimo dia, em que um desastroso
acontecimento o impossibilitou, foi regularmente occupar o seu logar na
Academia, onde hoje era secretario e onde em outros tempos fôra
professor sapiente.

E inegavelmente é a este trabalhador indefeso, a este morto illustre,
que se devem os melhoramentos ultimamente feitos n'aquella casa de
ensino artistico.

Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos ao governo,
foram elles lançados no rol dos esquecimentos, rol lendario, onde são
archivadas todas as cousas uteis do nosso querido Portugal. Mas, Thadeu
Furtado, com a sua vontade de ferro, ao saber no Porto o conselheiro
Elvino de Brito, então Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da
Academia das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe mostrar,
provando de _visu_ a necessidade urgente d'aquelles melhoramentos,
conseguiu o que até ali ninguem tinha conseguido. E é portanto a este
querido morto que se deve o ser hoje a Academia de Bellas Artes, senão
um modelo de escolas para o seu genero, pelo menos um estabelecimento
que não nos envergonhará quando mostrado a estrangeiros profissionaes.

E, doa a quem doer esta minha affirmação, mas Thadeu Furtado vae fazer
muita falta á nossa Academia.

Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido no seu _métier_, e
a prova d'isso está, em que, todos os nossos grandes pintores de ha
sessenta annos para cá, foram todos seus discipulos e todos teem
manifestado esta mesma opinião.

Não fui seu discipulo, mas fui seu amigo e é unicamente como tal que
venho aqui depôr tambem a minha eterna saudade, que é tão grande, como
foi a minha consideração e a minha amisade.

E, para terminar esta minha sincera e triste despedida, consenti, meus
senhores, que vos manifeste tambem aqui um grande desejo:--Como todos
bem o deveis comprehender, uma divida tem a Academia a pagar ao seu
respeitavel professor e ao seu incançavel secretario; e essa divida só
poderá ser paga perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle.
Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia de Bellas
Artes, reunidos aos professores, lançaram mão da ideia de que seja
collocado o busto de Thadeu Furtado nos claustros da mesma Academia.

E, para realisar tal ideia, não terão mais do que fazer fundir em bronze
um busto, que a familia do fallecido possue, feito, salvo erro, pelo
brilhante estatuario Teixeira Lopes. E assim, como preito de homenagem
ao professor morto, ficará ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo
que é inegavelmente a primeira gloria da esculptura portugueza.--Disse.


  12 Março 1901.


[Figura: Lenço em rendas--D. MARIA AUGUSTA BORDALLO PINHEIRO]



V

PINTORES PORTUENSES

ARTHUR LOUREIRO


Arthur Loureiro, esse grande artista que durante tantos annos viveu
longe de nós, n'esse bello paiz, a Australia, e que uma vez cá, filho do
Porto, amando o seu ninho com um amor especial de artista, apoz a sua
primeira exposição onde nos mostrou que era um delicado pintor de
figura, com os seus retratos, e os seus typos admiravelmente executados,
vae para bem perto do Porto, para Villa do Conde e cheio de vontade e
repleto de _savoir faire_, lança á tela lindos quadros que são como
filigranas da arte pintural.

[Figura: Arthur Loureiro no seu atelier]

Antes porém de atacar o assumpto que nos obriga a tomar da penna e
rabiscar estas linhas permittam-se-nos algumas phrases ligeiras de
introito.

Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado com uma distincta
simplicidade, tem-se a suave impressão que o artista que ali trabalha é
um bom e um delicado. Confortavel e amigo, aquelle atelier sem pretenção
a luxo, todo elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos,
meros cobrejões de farrapos, em tons escuros, biombos simples de couro
lizo, moveis de linhas correctas desenhados por o proprio artista e
executados sob a sua direcção, é d'um effeito soberbo! O indifferente,
que ao acaso ali vá, tem com certeza a impressão de que entrou na casa
d'um amigo.

[Figura: Barra, Foz-Douro--ARTHUR LOUREIRO]

D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se um largo
divan-estante com as costas pintadas a sepia, que nos dá a impressão de
uma pirogravura.

Mas não vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e exclusivamente fazer
uma resenha despretenciosa e sincera dos quadros expostos e do effeito
que nos deu a visita á exposição aberta agora ao publico.

Arthur Loureiro não é somente um pintor. É mais do que isso, é um
esculptor consummado. O caixilho para espelho, o do quadro
_Convalescente_, e um outro onde se ostenta o seu retrato aguarellado
por Columbano, são bellos.

Mas, o que me encanta, o que me fascina, é o frontal para uma arca, onde
se guardará o enxoval d'um filho querido. Este frontal, desenhado e
executado por Arthur Loureiro, é como que uma symphonia d'amor, sob o
thema sublime do martyrio da maternidade.

[Figura: Frontal d'uma arca (esculptura)--ARTHUR LOUREIRO]

Sem minudencias de descripção, sempre diremos que a bordadura que cerca
a figura da mãe tendo no regaço o filhito querido, é feita com flores de
martyrios em todas as suas evoluções, desde o pequenino botão até á flor
completamente aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras
soberbamente executadas.

E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.

Não somos do _métier_, nem aspiramos a critico de arte; mero amador,
vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro da alma qualquer coisa de
meigo, por uma paisagem triste, e qualquer coisa de vibrante em frente
d'um retalho da natureza, que o sol banha luxuriantemente.

Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado pela impressão,
que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.

Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam d'um novo, quer
ellas sejam d'um mestre. E por isso a despreoccupação do meu modo de
escrever. Pondo em evidencia ás vezes quadros d'um valor mediocre e
deixando no escuro verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os
artistas essas faltas e vamos á exposição de Arthur Loureiro que foi o
que aqui nos trouxe.

Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde, antes porém deve
ter especial menção o largo quadro da nossa barra, pintado n'um pôr de
sol irisado, cheio de poesia, com tons d'ouro que se reflectem na agua
superiormente. É um quadro este, de si bastante notavel para definir o
artista.

E agora, que puz em evidencia o quadro que para mim se affigura mais
notavel, vou dizer da minha impressão dos outros quadros expostos.

Um grande ramo de lilaz, que parece espalhar no ambiente o seu perfume
doce e meigo, está feito com tanta frescura e tal graça, que nos tenta a
cortar um pequenino ramo para a nossa botoeira.

As bellas rosas escuras, d'um avelludado meigo e fino, como que tentam
na sua confecção a uma offerta gentil para a nossa namorada.

[Figura: O Passado--ARTHUR LOUREIRO]

São pedaços vivos de natureza, lançados á tela, com proficiencia e
carinho.

Um cãosito _mops_ com o seu focinho birrento e negro e o seu pello
amarellado dá-nos, a mim pelo menos (que eu sou doido por cães), vontade
de o ameigar, de o chamar carinhosamente e roubal-o ao artista.
Collocado á entrada, talvez por acaso, é como que um fiel guarda
d'aquelle encanto de atelier. Este quadro está feito com cuidado, o que
me dá a entender, que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre
que dizia:

--Quanto mais conheço os homens, mais amigo sou dos cães.

Andam os nossos pintores delineando paisagens, por esse paiz em fóra e
nenhum, que me lembre, tinha ido pintar para Villa do Conde. Talvez
porque julgassem não haver alli nada que pintar e Arthur Loureiro, que
ha vinte annos estava fóra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus
trabalhos escolares foi para essa linda praia descançar e que descanço o
seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas.
Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porém notarei como
primordial--_A Senhora da Guia_--depois, as _Azenhas_ e d'estas não sei
se o que resplende de sol, se o outro, feito por uma manhã triste de
chuva.

[Figura: Não voltará mais--ARTHUR LOUREIRO]

A _Igreja matriz_, tambem o noto pelo bello do effeito. Como uma mancha
retumbante, n'aquella suavidade de côr, os reposteiros da igreja fazem
resaltar o quadro (ora aqui está onde eu decerto dou raia, em ter
recebido uma bella impressão pelo vermelho que destaca do quadro, mas
sou assim e não ha nada que me atrapalhe).

A _Paisagem geral de Villa do Conde_, com o seu convento e a sua cazaria
branca é formosa.

_O Passado_, quadro cheio de poesia e de candura. Como um poema, de
amor, de dôr e de miseria aquella velha sentada á porta da igreja, onde
talvez ella se baptisara, casára e seria enterrado o seu companheiro de
muitos annos, talvez um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola,
na sua miseravel e angustiosa viuvez.

Mas vamos fechar este artigo que vae já longo de mais. Antes porém
notaremos dous quadros, um que se intitula--_Não voltará mais_, e que é
outro poema de dôr. Junto d'uma bella arvore em flor, um redondendro,
uma viuva e uma creança olham o mar.

Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem subjugou para
sempre o ente querido d'essas duas figuras insinuantemente bellas nas
suas _silhouetes_.

_O Convalescente_ é um retrato primoroso do nosso amigo dr. Francisco
Loureiro, irmão do distincto artista.

É um trabalho feito com muito amor e muito saber. Flagrante de verdade e
correctissimo de desenho. É um bello retrato.

Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar, mas, mais não
póde dar a minha pena. No entanto ha-de ver o publico que eu não quiz
fazer o réclame do pintor nem a apologia do homem, fiz unica e
exclusivamente a resenha rapida e sincera do trabalho correcto d'um
poeta lyrico da pintura que entre nós vem, se não, fazer uma revolução
na arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista
portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos de côr trazidos
dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com o seu ceu e os seus verdes
não póde ser pintado com as cores das paisagens bretãs.

E mais nada.


  Outubro 1902.


[Figura: Na Eira--LUCILIA ARANHA]



VI

ESCULPTORES PORTUENSES

FERNANDES DE SÁ


Uma das manifestações mais vivas da arte é a esculptura. Esculpir em
marmore ou em bronze a figura de um individuo, é, como que, deixal-o por
toda a vastidão dos seculos á admiração, ao respeito ou á saudade dos
seus concidadãos ou dos seus amigos. É a nota constantemente vibrante de
uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura, é ella que,
arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos
que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta
philantropia, ou a saudosa recordação d'um ente querido que a morte nos
roubou.

E não é só isso; empolgando o nosso espirito, dá a concepção perfeita
d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando á dura e informe
pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.

[Figura: Fernandes de Sá]

A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso
da patria, nos heroes que faz reviver, até aos santos, que a religião
faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas
manifestações, é uma das mais difficeis, se não a mais difficil de todas
as manifestações artisticas.

E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relação aos
pintores.

E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposição de
esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de Sá abriu no seu
gracioso _atelier_ da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.

Este moço esculptor, cujo nome não é já uma esperança, mas sim uma
affirmação segura, dá-nos, com a exposição dos seus trabalhos feitos
aqui e em Paris, a demonstração mais definida e assente, de que é um
d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.

[Figura: Desafio--FERNANDES de SÁ]

Não o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas
pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle é
novo e tem uma vontade de ferro; ora estes dois bellos elementos, a
mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber,
dão-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira
grandeza, na sublime arte de Milo.

Fernandes de Sá, a continuar assim, não ha-de ser notavel só entre nós,
ha-de sel-o tambem lá fóra, no estrangeiro. E bom será que assim
succeda, para que no mundo civilisado se faça a verdadeira justiça aos
nossos artistas e se não pense que isto aqui é uma terra de selvagens.

Mas, deixemos estas divagações e entremos no assumpto que me proponho
expôr: Notar as obras que Fernandes de Sá expõe, e isto ao de leve, como
quem quer e não póde, por falta de elementos, embrenhar-se em
philosophicos problemas d'arte.

Dezoito são os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual
o mais bem executado.

[Figura: Camões (estatua em marmore de Carrara)--FERNANDES de SÁ]

Desde o largo trabalho--_Camões_--até á pequenina cabecita da
galante--_Bébé_--todos elles são soberbos e dignos de especial menção.

_Camões_, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de
Artilheria de Lisboa. Após o naufragio, o grande epico portuguez salva,
n'um heroico esforço, a sua espada e o seu poema--eis o assumpto
representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada
ancia, o corpo fidalgo de Camões, sobre uma rocha, a mão direita
crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e
o poema sobre o coração, parece escorregar, resvalando na voragem da
onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro áquella molle
de marmore. Sublime de concepção. Na figura elegante e adelgaçada de
Camões ha linhas d'uma senhoril fidalguia.

Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro
portuguez, o esculptor não perdeu uma minudencia, por mais pequena que
fosse. Tudo estudado com perfeita segurança, com verdadeira mestria,
desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o
mar, até ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou
conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepções sobre este
thema, Fernandes de Sá realisou--segundo o nosso modo de vêr--uma obra
genial.

_Rapto de Ganimedes_, é um grupo em gesso, que vós já conheceis de
quando esteve ahi exposto na Exposição da Sociedade de Bellas-Artes,
onde mereceu a segunda medalha, tendo já adquirido a terceira medalha na
exposição de Paris de 1900.

_Beijo Materno_, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal.
Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso
_bébé_, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu
trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista
do Estado. É um encanto.

_Vaga_. Este gesso é d'uma bella idealisação. Uma formosa mulher,
completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas
revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao
marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o coração um baque e
confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembrámo-nos d'um,
que nos pareceu a reproducção em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e
no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal
intencionado, poderia dizer que José de Brito tinha ido alli beber a sua
inspiração e o modelo para o seu quadro _A Vaga_. Nós não nos
abalançamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque José de
Brito é um grande pintor...

[Figura: Beijo materno (grupo em gesso)--FERNANDES de SÁ]

_Dois bustos_, em marmore que são a reproducção exacta das pessoas que
representam.

O _retrato do dr. Correia de Barros_, é um trabalho bem feito, cheio de
verdade e de vida.

Ha tambem uma _Cabeça de velha_, que é primorosa.

No _Pobre_ (bronze dourado) e no _Desafio_ (bronze) ha flagrancias de
expressão, detalhes minuciosos de execução, que revelam o cinzel subtil,
consciencioso e correcto de quem os executou.

Ah! Mas, onde se revela o coração delicado e a alma poetica do moço
esculptor, é no grupo _Irmãs_. Que soberba obra! Com que carinho, com
que amisade não foi executado aquelle gesso!

Vê-se que o artista poz alli toda a sua alma de moço e de moço
apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o
estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no
com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irmãs. Alli poz elle
toda a sua alma lyrica, como no _Camões_, poz toda a alma patriotica.

Ha tambem uma _Cabeça de velha_ (bronze dourado), muito bem feita.

Notavel tambem um _Estudo em barro_, coberto com _patine_ verde que lhe
dá um tom de novidade. O assumpto é uma cabeça de mulher do povo, com o
seu lenço. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de
languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo
quê de pena ou de saudade.

E tudo isto é lindo e tudo isto é bello, não esquecendo fallar nas
cabecitas de creanças que lá vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo
eu uma predilecção especial por creanças, comprazia-me todo em ser
n'ellas que fallasse por ultimo.

São quatro estes trabalhos: _Cabeça de creança_, _Bébé_, _Beija-flor_,
_Estudo de creança_.

Que encantadores! Com que amor elle não esculpiu no frio marmore
aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanças, que são mesmo um
primor!

Uma vez, n'uma exposição que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia
lá um _bébé_, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli só, não
me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.

Pois quando visitei a exposição de Fernandes de Sá, se lá me visse só,
posso affirmal-o, beijava todas essas creanças n'uma infinita alegria,
porque as julgava vivas. São realmente uns delicados e subtis bustos,
que me deslumbraram.

E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda
manhã, ao atelier de Fernandes de Sá, onde a luz forte do sol, coada
atravez dos brancos transparentes, n'uma doçura meiga, fazia resaltar os
marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.

E permitta o moço esculptor, que tão gentilmente nos recebeu, e com
tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe
digamos que o seu talento lhe dá direito a mais um pouco de orgulho, e
não a querer deixar-se ficar na modestissima sombra dos que pouco valem.
O seu nome e a sua obra, repito, não são uma esperança, não; são uma
affirmação segura de que elle é um dos primeiros estatuarios
portuguezes.


  Outubro 1902.


[Figura: Busto (Antonio Cano)--FERNANDES de SÁ]



VII

Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa

CARTA A UM REDACTOR DO "CORREIO DA NOITE"


Não me conhece, nem isso é necessario, para o que eu lhe quero confiar.
Não é um segredo e, portanto, se achar interessante o que lhe vou dizer,
conte-o ao publico, a esse publico despreoccupado, que lê as gazetas,
não para se instruir, mas para ver se o seu nome figura no _Carnet
Mondain_, ou se alguma cousa má succedeu aos seus conhecidos para ter o
pretexto de os consolar nas suas amarguras e nas suas desditas.

Conte-lhe o que lhe vou dizer e estou convencido, que isso lhe será
agradavel, porque eu, com o meu genio desinteressado e independente, dou
abertamente, picadelas em quem as merece, levantando ao ar em apotheoses
de gloria, tambem, aquelles que a ella teem direito, segundo o meu modo
de ver.

[Figura: El-rei]

Sou sincero, apenas; nunca me embrenhei nos escaninhos da politica e,
por isso, não conheço a intriga; nunca calquei os tapetes dos palacios
dos nobres e da aristocracia e, por isso, não conheço a bajulação; não
me tenho accorrentado ao jornalismo militante e, por isso, não conheço
as conveniencias de redacção. Sou, ainda, mais independente do que o
chefe do partido novo, que não quer para seus soldados senão os que
estão isentos do peccado politico. Sou, emfim, como os homens do norte;
duro como um sobreiro, ingenuo como uma creança... de bigode, sincero
como um convicto e delicado como uma dama.

[Figura: Paisagem (pastel)--EL-REI]

E feita a minha apresentação, ahi vae o que eu lhe queria dizer.

Fui, levado por intensa curiosidade, visitar a exposição da sociedade
Nacional de Bellas-Artes e dei o meu tempo por muito bem empregado. E
dei por bem empregadas as tres horas que lá passei, porque morro por
coisas d'arte.

A Arte, a grande Arte, cuja definição perfeita, para mim, é um mytho,
atrae-me como uma feiticeira deslumbrante e maravilhosa. Mas a Arte
pinctural e esculptural, essa, extasia-me e não é para extranhar o
vêr-me parado em frente d'um bom quadro ou d'uma bella esculptura, tal
qual como em frente d'uma mulher formosa. Mas, deixemos estas divagações
e entremos no assumpto da minha carta. Demais, que lhe importa a si que
eu goste ou desgoste, se o meu caro nem sequer me conhece de nome.
Antes, porém, de continuar, ou por outra, de começar, desculpe esta
franqueza: as aguas de Lisboa são más e pozeram-me o figado n'um pessimo
estado, o que deu em resultado eu ter tido um ligeiro extravasamento de
bilis, que pode ser se manifeste, ainda que ao de leve, no decorrer
desta minha despretenciosa carta.

[Figura: Cabeça de estudo--ERNESTO CONDEIXA]

Uf!... que começo a massar, não acha? Mas que quer, eu sou assim, o mal
é dar-me corda, hão-de aturar-me depois. E posto isto, lá vae.

Fui vêr a exposição e fui sem a preoccupação de critico d'arte, unica e
exclusivamente como amador, como _dilletanti_, e como tal é que escrevo.
Que me perdôem os _artistas_, se nada fôr, a minha apreciação aos seus
trabalhos, que me tolerem os _criticos de arte_ se a minha incompetente
opinião brigar com as regras do _metier_, e que se ria o _publico_ se
não gostar da minha prosa e o meu caro redactor se entender que a
pimenta é forte, ou o guizado está mal condimentado, já sabe o que tem a
fazer, é, cesto dos papeis inuteis com elle.

[Figura: Barbeiro d'Aldeia--JOSÉ MALHOA]

Começarei tal qual como indica o catalogo, apreciando, sob a impressão
perfeitamente pessoal d'um provinciano, os trabalhos expostos, pela sua
ordem numerica.

Primeiro estão os de S. M. Este artista-amador está lá tão alto que nada
poderei dizer dos seus trabalhos. Unicamente o que me agradou mais foi o
_No Sado--processo Raffaelli_, se bem que já tive occasião de vêr
trabalhos de muito maior valor executados pelo mesmo monarcha, que é
inegavelmente um artista de temperamento definido.

E agora sem respeito nem consideração pelos artistas e quiçá amadores,
que eu não conheço, ahi vae a minha opinião sincera.


                                                        QUADROS A OLEO


D. Bertha Alcantara, n.^{os} 1 a 4--_Natureza morta e flores_--Natureza
morta e tão morta que dá vontade de... decorar uma cosinha com
ella.--Amores perfeitos, imperfeitos.--Um agrupamento de lyrios e
mimosas, os lyrios bastante densos, n'um demasiado ajuntamento, que
parece esmagarem-se uns aos outros.

D. Luisa Almedina, n.^o 5--Uns cravos sem cheiro, desconsolados...

Almeida e Silva, n.^{os} 6 a 15. Pinturas varias, assaz recortadas e
lambidas, com ar pretencioso de oleographias caras; este artista parece
andar para traz, quem pintou _O Viatico na aldeia_, _Um critico d'arte_,
_Cabeça de cabrito_, (que eu possuo) tinha obrigação de se apresentar
melhor.

Tem n'esta exposição um quadro--_O abat-jour japonez_, que é
verdadeiramente uma japonesice de caixa de chá.

No entanto recommenda-se o seu quadro--_Tarde calma de junho_, que está,
a meu vêr, bem, e é o unico que se salva de todo aquelle montão de arte
de recorte...

[Figura: Paisagem--MARQUES d'OLIVEIRA]

Condessa d'Alto Mearim, n.^{os} 17 a 19. Tem merecimento, e muito, esta
amadora--_A Nossa Senhora do Refugio_, bem lançada de linhas, largas
pinceladas dadas sem feminismo, talvez um pouco coquete, na expressão,
para Nossa Senhora, no entanto um bello quadro. O n.^o 17 parece-me
estar trocado, pois não é crivel que s. ex.^a pintasse um retrato de F.
V. n'um velho em traje de fantasia; mas se o pintou, diremos que o
trabalho é bom, a figura está bem estudada, boa carnação, boas
roupagens, mãos bem trabalhadas, um bom quadro, emfim.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^{os} 19 e 20, o _Five ó clock tea_ é um
bom quadro traçado amplamente, com boa luz e muita expressão da figura,
talvez um pouco de branco a mais na cara da dama, que deve ser da
primeira sociedade e que naturalmente usa muito pó de _veloutine_, e
d'ahi o tal branco!...

Viscondessa de Ameiro, n.^o 11. _Arvoredo_--eu
chamar-lhe-ia--_Alvoredo_. Está lá muito no alto, tão alto, que se perde
de vista. Lembra uma travessa de hortaliça picada para gallinhas.

[Figura: Mendiga--CARLOS REIS]

D. Virginia Avellar, n.^o 22. _Supplica_.--Uma deliciosa irmã da
Caridade, estudada com carinho e amor, tal quanto merecia aquelle lindo
rosto, que um bello sol banhava n'uma suavissima emoção de castidade
e... affecto.

Merecia, a meu ver, uma menção honrosa, mas... foi para outros...

D. Laura Bandeira, n.^o 23. _D. Ignez de Castro_, esguia e airosa, um
pouco theatral, regularmente pintada. O galgo que a acompanha, parece
feito de _grafite_, e se a D. Ignez continua, por muito tempo, com a mão
esquerda n'aquella posição, acaba por cegar o pobre cachorro, pois a
metter-lhe um dedo pelo olho dentro, aquillo dá pelo menos uma
conjunctivite...

Leopoldo Battistini, n.^{os} 24 a 27--dois estudos de velhos, um d'elles
passavel--o 25. _Avarento_, horrido de luz e de expressão, parece um
_paranoíco_ fugido ao tratamento do dr. Bombarda. O 27--_Barqueiros do
Mondego_. Extraordinario. Parece incrivel que se podesse metter uma
barcaça d'aquellas dentro d'um quadro de 1,26 por 1,87. Effeitos de luz,
detestaveis. A mulher ou tem o peito em fogo ou quer dar a comer
candeias de cebo ardendo, á pobre creança que parece ter ao collo.

D. Emilia A. S. Braga, n.^{os} 28 a 31--_A Maria de S. João_ (28) é uma
velhota com cara de boa pessoa, regularmente pintada; acho-lhe as mãos,
o rosto e o cabello bem estudados e com boa côr. _A oração_ (29)
_Estudo_ (30) são dois bons quadros, traçados com superior criterio,
pincelados largamente, com soberbas expressões, luz boa, côr magnifica;
no n.^o 30 notamos ainda o bem executado do collo d'uma linda mulher.

José de Brito, n.^o 32--_A Vaga_.--É já meu conhecido este quadro, d'um
pintor portuense, que tem o seu nome ligado a obras de muito
merecimento. _A Vaga_, na sua idéa symbolica não me agrada, mas na sua
execução, como estudo do nú é superior e irreprehensivelmente feito; no
bem trabalhado do desenho e no bem dado da côr, sente-se a curva
avelludada e macia d'uma mulher nova e de carnes duras. É um bom quadro.

Arthur A. Cardoso, n.^{os} 33 e 34--Dois retratos.--O n.^o 33 bem feito;
que para mim, desde que são retratos, o que eu quero é que elles se
pareçam, quanto ao mais não me importa.

[Figura: Marinha--JOÃO VAZ]

João Luiz Cardoso, n.^{os} 35 a 42--Especialidades em _Arredores_.
Arredores de Aveiro e de Thomar. Notarei como dignos de menção o n.^o
39, um bello poente, e os n.^{os} 40, 41, e 42, onde a luz é bella,
distribuida com methodo e muita uniformidade.

Antonio Carneiro Junior, n.^{os} 43 a 45.--Este artista é um
melancolico, um triste, e se nos quadros expostos o não mostra é que se
limitou a expôr retratos. O que dizer d'esses retratos, quando o jury já
disse tudo, dando ao seu quadro--n.^o 43, _Retrato de Teixeira
Lopes_--uma medalha. É innegavelmente um trabalho magnifico. O retrato
n.^o 45, de uma senhora, tambem é muito bom.

Bernardino Trindade Chagas, n.^{os} 46 e 47.--Uma paisagem e um
retrato.--Ataca dois generos differentes com a mesma galhardia e o mesmo
_savoir-faire_. O retrato teve uma menção honrosa.--A paisagem é boa:
Uma mulher sobre um burrico, vae, n'um chouto doce, atravez um caminho
de aldeia, para a capellinha, em Tavira. Boa luz, boa cor, destacando no
tom amarello saibroso da estrada as figuritas, que o artista estudou com
cuidado.

Jorge Collaço, n.^{os} 48 a 50.--Este artista é o collaborador artistico
do _Seculo Illustrado_, julgo eu, e por isso preciso ter cuidado com
elle para não ter o desgosto de succeder á minha despretenciosa critica
o que succedeu ao monumento de Sousa Martins, feito pelo Queiroz
Ribeiro. Por isso... fico calado... Mas não fico... ahi vae o que eu
penso.

Na _Partida interrompida_, que teve a 2.^a medalha, acho-lhe o pé
esquerdo, que está no plano anterior, um tanto mais delgado do que o pé
direito, que está n'um 2.^o plano, um pouco mais atraz e bastante cheio.

O _Nos campos de Arzilla_, é um largo quadro feito com todo o interesse
e correcção de quem sabe tratar com pinceis. Uma bella tela cheia de cor
e de um largo poder decorativo.

_Guarda negra_. Talvez não fosse peor ter adelgaçado um pouco as mãos ao
cavallo, que avulta no 1.^o plano do quadro. Os cavallos arabes são, por
via de regra, d'uma gracilidade especial de mãos, que caracterisa bem o
seu genio nervoso e a ligeireza do seu galopar.

Ernesto Condeixa, n.^{os} 51 a 56.--Este é tambem um artista cuja
reputação está feita. Pinta com muita consciencia, muita pratica e
bastante saber. Notarei, para mim como melhor, o 52, em que ha um bello
effeito de sol sobre a agua do mar. O 53, delicioso _Cantinho da praia
de Paço d'Arcos_, e o 56, um soberbo poente nostalgico e poetico na
_Ribeira de Algés_.

Candido da Cunha, n.^{os} 57 a 61.--Poeta sentimental da pintura, lança
nos seus quadros as suas impressões com um sentimento desusado; não é o
pintor do grande sol e da côr que retine como toques de clarim, não;
repassa-os de uma uncção suavemente triste, que encanta. É inegavelmente
um quadro de mestre o seu _Hora nostalgica_, 57. Os outros são pequenas
manchas, feitas com muita correcção.

[Figura: Vaga--JOSÉ de BRITO]

Mademoiselle Helene Eisembard, n.^{os} 62 e 63.--_Portrait à huile_, 62,
regular, sem espantar. _Fleurs_, 63. Chrisantemos, uma chinesice a oleo,
que se supporta... como chinesice.

Lizzie Escolme, n.^{os} 64 a 70.--Alguns quadros de flores e paisagens.
Sem interesse para mim, a não ser o n.^o 65, _Primeroses e violettes_, e
o n.^o 66, _Lilás_, que são regulares, com alguma frescura. O resto...
não vale nada.

Duarte Faria e Maia, n.^o 71.--Uma _miniatura_ lambidita... como
retrato...

C. Gomes Fernandes, n.^{os} 72 a 78.--Tem-se desenvolvido este amador,
desde que se lembrou de querer ser artista; progride innegavelmente,
demais para quem viu, como eu, os seus ultimos trabalhos no Porto; pasma
do modo como está pintado o seu quadro n.^o 72, _Margem do Tejo_. Bem
tocado de luz, regularmente pincelado, com uma certa largueza e um doce
tom, que nos encanta. É tambem interessante o seu _Caminho_ (_Granja_),
n.^o 78. Os outros são quadros de amador com pretensões...

José S. Moura Girão, n.^{os} 79 a 87.--Só podemos admittir com a rubrica
d'este bom artista os quadros n.^{os} 84 a 87, onde ha gallos e
gallinhas soberbamente pintados, porque, ainda até hoje não encontrámos
ninguem, que tenha na sua palleta cores tão brilhantes e tão
accentuadamente definidas, para pintar a plumagem retumbante dos gallos.
São estes trabalhos de molde a fazer impor á admiração do publico um
artista como Girão. Mas... pena foi que elle se não limitasse a isso e
tentasse pintar animaes de pello... Os seus gatos (n.^{os} 81 a 84), são
horrorosos; parecem, bem como os coelhos (n.^o 79), _biblots_ de algodão
em rama, para creanças; d'estes que se vendem no Benarde, no Cardoso da
rua Nova do Carmo... Fique-se com esta snr. Girão, que eu, infelizmente,
não conheço. Nunca pinte senão aves, se não quer perder o grande nome
que tem, como primoroso artista que é.

D. Isabel Laver, n.^{os} 88 a 93.--O quadro n.^o 88, _Cabeça de velho_,
fez-nos parar algum tempo na sua frente e, ao fixal-a, saltou-nos,
instinctivamente, da mente, aquelle pedaço de poesia de Caldeira, _A
Mosca_:


  .............................o maldito do velho,
  Da cor d'um rabanete, ou ainda mais vermelho...


Porque de facto o tal velhote parece esculpido n'um presunto de
Lamego... O n.^o 90, _Rosas_, duras e compactas como se fossem talhadas
em porcelana da Vista Alegre, pousadas n'uma jarra d'um detestavel
effeito e cor.

_O chá_, (91). Um bule de prata oxidado e sujo, doce de dezoito vintens
o _arratel_, para velhotas coscovilheiras, que vieram até nós dos tempos
dos francezes.

José Leite, n.^o 94.--Um bello retrato de mulher nova, feito com
mestria, e dando a conhecer que o auctor tem disposição e sabe do
_metier_. Foi-lhe conferida uma menção honrosa, uma das mais bem
applicadas do certamen.

Adriano Lopes, n.^o 95.--Um retrato do general Castel-Branco--muito bem
cuidado,--é o seu auctor um discipulo que dá honra aos seus professores.

José Malhôa. Eis-me chegado emfim ao Artista que mais me deslumbra, e
mais me fascina. Chegado aqui, o meu desejo é pousar a penna, curvar-me
reverentemente deante da sua obra genial, e limitar-me a gritar
enthusiasmadamente: Salvé, pintor da grande luz, do bello sol, da
soberba côr que retine nos teus quadros, como pedaços de crystal
finissimo que se parte.

Era este o meu desejo, mas, alguem, os mal intencionados, esses,
ficariam na sombra a rir-se de mim, e diriam: Porque não falla este
_critico_ do Malhôa?!...

Eu responderia, porque elle enche com os seus trabalhos tão por completo
o meu espirito, que me julgo muito pequeno para fallar d'elles.

Mas, como quero levar de seguida a minha carta, ahi vae a impressão que
tive com os quadros de José Malhôa, n.^{os} 96 a 108.

[Figura: Velloso Salgado]

Destaco como primordial o seu quadro, _Barbeiro da aldeia_, 98,
assombroso de execução, sublime de expressão nas figuras, mesmo nas que
se perdem nos ultimos planos. Luz soberba, e... desenho rigorosamente
estudado. A seguir _A Descamisada_, 97--magnifico--e o 98, _O Antigo
phosphoro_, em que se vê perfeitamente, muito definido, a impressão
asphyxiante do enxofre que arde morosamente, obrigando a pôr a distancia
o phosphoro. Que bello trabalho, que primor de expressão na figura, que
distender de braço tão naturalmente lançado! e o 99, _Cabeça de estudo_,
optimo de luz, e o 102, _Ao cair da tarde_, quanta melancholia doce não
nos imprime, aquelle quadro, e o 108, esse largo quadro decorativo para
a sala de musica do snr. Lambertini? Com que gracilidade não estão
lançadas todas aquellas figuras, n'umas posições naturaes e flacidas que
parecem cheias de mocidade e de vida.

E, deixei para o fim o n.^o 106, que, embora eu esteja em erro, é para
mim um dos trabalhos mais fulgurantes do grande artista.

Aquelle retrato de mulher, com uma elegancia finissima de palmeira,
desenhada com uma distincta correcção de linhas e colorida com um mimo
especial de carnação, que palpita, fez-me sentir o grande desejo de me
curvar n'uma postura palaciana e beijar respeitosamente as pontas
d'aquelles dedos, que tão despreoccupadamente pousam no teclado do
piano.

Este quadro é para mim d'um encanto inexcedivel. E que me perdôe o
artista se eu não soube dizer d'elle o que elle merecia.

Raul Maria, n.^{os} 109 a 112.--Quatro retratos, sendo regularmente bem
feito o 109, de Carlos Malheiro Dias, o 111, retrato de Eduardo Brazão,
foi feito decerto em occasião, em que o grande actor estava soffrendo de
_vertueja_, uma especie de erisypela. O retrato n.^o 112, só se admitte
como caricatura.

D. Branca Marques, n.^o 113.--_Uma velha aldeã_, que nos faz lembrar uma
_batata_ ingleza.

Adolpho Manon, n.^o 114.--_A Costa_. Perfeito quadro para as Messageries
Maritimes; eu chamar-lhe-ia o vapor _City of Lisbon_.

Thomaz de Mello Junior, n.^{os} 115 a 121.--É um paisagista interessante
e de merecimento. Destacaremos os seus quadros: 115, _Salgueiral
d'Azambuja_, paisagem cheia de luz, com uma fita d'agua muito bem
estudada; _O Gerez_, estudado com cuidado, na côr e na luz. O Gerez é
aquillo, conhece-o bem. O 121, _Torre de S. Julião_, que é muito
interessante, e, então, o 118, _Praia de Nazareth_! uma soberba marinha,
feita com muito criterio e muito saber. As vagas, que se levantam em
cachões espumantes, estão, na verdade, feitas magnificamente, e o barco,
que as tende galgar ao esforço dos remos, está estudado com precisão e
rigorosidade.

Thomaz de Moura, n.^{os} 122 a 128.--É um artista que vem lá de fóra,
com as suas impressões de Paris e da Bretanha; os seus quadros são
tocados de um certo _gris_, que nós não temos, uma côr acizentada que me
fere mal a retina, o que não quer dizer, que elle não tenha merecimento,
que o tem. Especialmente o seu 122, _Carinhos de mãe_, está muito bem
feito.

D. Fanny Munró, n.^{os} 129 a 133.--Muito gelo, muito gelo e muito gelo,
no entanto não me desagradou o 133, _Na Montanha_.

Isaias Newton, n.^{os} 135 a 149.--É um professor e bem me custa dizer
mal d'elle, mas que querem, a bilis cá está ás voltas commigo; o seu
134, _O Lago_, parece feito de vidro fiado e os seus, 137, _Entrada para
a quinta do Ex.^{mo} Snr. Novaes_, 139, _Campo do Bomfim_, lembram
oleographias, o unico aproveitavel, é a meu vêr, o 135, _Um trecho de
paisagem_.

D. Mariana Palma, n.^o 140.--_Depois do jantar_. Um melão phantastico
com pevides que parecem dentes, queijo cabeça de preto com manchas de
bolor. Um mau vinho, dentro de uns crystaes e d'uns vidros da fabrica da
Amora ou da Marinha Grande.

Torquato Pinheiro, n.^{os} 141 a 145.--_O retrato de seu filho_, 141.--É
sem discussão o seu melhor quadro n'esta exposição. Torquato Pinheiro é
um paisagista distincto, mas não é menos como retratista. Os seus
quadros são tocados sempre de uma certa ingenuidade, que nos encanta,
são para notar o 144, _Leça de Bailio_, profundamente melancholico, e o
145, _Fim da Tarde_, bem feito, com muita suavidade de luz.

[Figura: Busto de ingleza--TEIXEIRA LOPES]

Columbano Bordallo Pinheiro, n.^{os} 146 a 154.--Eis outro artista que
se impõe firmemente á nossa admiração, este não é um artista do sol, é,
deixem-me dizer, um artista psychologo. Faz talvez mais o retrato da
alma do que o retrato do corpo, mas, o que elle sabe é, dar umas
pinceladas tão originaes, tão suas, que os seus quadros conhecem-se ao
longe, sem precisarmos de lhe vêr a assignatura. O quadro 146--_A
Peliça_ é d'uma execução tão subtil, que apetece passar-lhe ao de leve a
mão sobre aquella pelle, para se sentir o aveludado da lontra, o
147--_Scena d'interior_, ha tal expressão na cara de mulher, que se está
a sentir e a vêr, o que ella está pensando lá dentro do seu cerebro de
velhota matreira.

Mas, superior a todos, a meu vêr, o 152, _Retrato do Conde de Arnoso_. É
extraordinariamente superior.

Manuel H. Pinto, n.^{os} 155 a 156.--Nunca tinha visto nada d'este
artista, e fiquei gostando de vêr os seus quadros; são ambos bons, mas o
155, _Dar de comer a quem tem fome!_ é muito bem estudado. Ha ali vida,
n'aquella mulher que cuida dos seus bacorinhos com boa _menagére_ e os
bacoritos, esses, na sua _suinissima_ figura de resmungões, estão tambem
muito bem estudados. E não fui só eu que gostei dos quadros, foi tambem
a commissão, que lhe deu uma medalha.

João Porfirio, n.^{os} 157 a 158.--O quadro 158 é um especimen
comprovativo das theorias de Darwin.

Carlos Reis, n.^{os} 159 a 164.--Este sim. Os seus quadros confirmam bem
o seu bom nome de mestre.

Na figura e na paisagem, em ambos é superior. O seu 159--_Retrato de Max
Van Ypersele de Strihon_, é magnifico, a carnação é flagrante de côr e a
mão? ah! a mão! é um primor de correcção. Os 160--_Velho
castanheiro_--161, _Mendiga_--162, _Souto de Castanheiro_--163, _Poente
de abril_, são quatro lindas joias da arte pinctural que apetece roubar
da exposição para revestir o _boudoir_ gentil da mulher que se ama.

Augusto Ribeiro, n.^{os} 165 a 170.--Verdadeiro pintor impressionista.
Unicamente nos dá impressões de paisagens do Norte, onde o azul é mais
forte e a vegetação mais luxuriante, verdes d'um matisado mais doce,
mais animado. As suas _pochades_ são regularmente tocadas. As que mais
me agradaram foram as n.^o 167, _Poente_ (Ancora); 169, _Poente_ (Ponte
do Lima); 170, _Poente_ (Paredes do Coura). Foi contemplado com uma
menção honrosa, bem merecida.

João Augusto Ribeiro, n.^o 171.--_Um septuagenario_, interessante e bem
feito.

João Nunes Ribeiro Junior, n.^{os} 172 a 181.--Pintor de paisagem,
retrato e quadros de genero; muita coisa para um artista só. Os retratos
passaveis, alguns mesmo bons. Paisagem com certo ar, especialmente o
177, que está bem tocado de luz e assumpto bem escolhido; o 178,
_Campolide_, que é interessante. _Os fructos e flores_, 180, esse
achei-o medonho, simplesmente medonho, muito proprio como reclame para a
casa Daupias. Pareceu-me um quadro annunciador. Não que, as flores e as
fructas têem que se lhe diga, é preciso muita frescura, para as fazer
resaltar com vida, dos quadros...

[Figura: Tomando o chá--COLUMBANO]

Adolpho de Sousa Rodrigues, n.^{os} 182 a 195.--O seu maior trabalho é o
182, _No trabalho do campo_. Não desgostei d'elle, apenas me fez má
impressão aquelle verde das lombardas ou tronchudas. Parece-me que as
figuras se recortam demais n'aquelle fundo verde. O 184, _Sabotier
breton_, achei-o com boa luz de officina e as figuras bem estudadas. A
côr... aquella côr bretã, que eu não conheço, é que me fez esmorecer um
pouco. Eu gosto mais da nossa luz. O retrato 195, esse acho-o muito bom,
bem executado, bem desenhado.

Fernando A. M. de Sá, n.^o 196.--_Arredores de Setubal_. Mau de execução
e de côr.

José Velloso Salgado, n.^{os} 197 a 199.--O grande pintor de retratos e
de tudo o mais, que é este artista, quasi que me dispensava de dizer
qualquer cousa d'elle. Os seus trabalhos veem de ha muito, pondo uma
verdadeira nota de arte no nosso pequeno meio. A sua fama está feita, o
seu nome, ao ser dito, retumba como um echo de gloria na arte da pintura
portugueza. Lá para o norte temos coisas tão lindas, e tão
primorosamente feitas, d'este artista, no Palacio da Bolsa, que eu
acanho-me de fazer opinião sobre os seus trabalhos expostos, que são
muito bons. Sobresaindo para mim a todos estes, o 199, retrato de
_Adolpho Másson_.

D. Luiza Stephania da Silva, n.^{os} 200 a 202.--Unicamente me fez
sensação o 201, em que ha uma certa frescura, nos lyrios pintados.

Candido da Silva Junior, n.^{os} 203 a 212.--Dois quadros, em que ha
retratos, paisagem e flores. Deram-me no goto os n.^{os} 205 a 209--o
primeiro uma especie de jardim de velha rabugenta; muita flor, muita
flor, e nenhuma disposição. Não só as flores d'este quadro, mas as de
todos os outros são duras, sem frescura, sem cambiantes de tom, quasi
homogeneos na côr. A _magnolia_, 209, até parece um limão... Acceitavel
o 210, _Alfeite_, que é uma manchasita que se suporta bem, para amador.

João Ribeiro Christino da Silva, n.^{os} 213 a 218.--Ai pai! que coisas
aquellas! O 213, a meu ver, simplesmente horrivel, os outros...
adeante... a não ser o 218 que é interessantinho na sua fórma
miniatural.

Viscondessa de Sistello, n.^{os} 219 a 224.--É uma amadora de certo, os
seus quadros são cheios d'um quer que seja de pretencioso... o n.^o 219,
_Retrato_--achei-o sem vida, muito chapado.--Fez-me saudades, porque me
pareceu uma imitação má, do bello quadro de Velloso Salgado--_Reflexos_.
O 220 passavel, a não ser o ar estudioso e pensador de mais, do menino,
e o 222 a abarrotar de coisas--um pedaço de queijo stilton, que faz
lembrar sabão rajado azul, fructas duras, vinhos maus, agrupamento
infeliz. O 221 regularmente tocado, como mancha.

[Figura: Retrato de El-Rei--CARLOS REIS]

João Vaz, n.^{os} 225 a 237.--Deliciosa toda a obra d'este _cantor_,
pelo pincel, da agua. Inexcedivel artista em marinhas; com que veneração
eu o admiro, e ao seu _savoir faire_. Ha tanta verdade em todos os seus
quadros, tanta e tanta luz nas suas telas, que ao contemplal-as como que
se sente o marulhar cadenciado das ondas. _A pesca da sardinha_, 225, é
um quadro primoroso. _O barco algarvio_, 229, navegando em pleno mar,
parece que se vae afastando pouco a pouco de nós e que ouvimos o bater,
compassado dos remos na agua. _O moinho do Barredo_, 230, airoso e
lindo, batido do sol--e _O Castello de Montemór_, 234, que parece sair
arrogantemente do fundo d'um azul primoroso, são obras que encantam.
Alli, ha o que se chama faisca artistica, alli ha a nota caracteristica
de quem muito bem conhece a arte de pintar.

Emily Wormsley, n.^o 238.--Um largo quadro de flores, louça da India e
metaes. Boa composição, bem estudado e bem tocado de côres. Foi-lhe
conferida uma menção honrosa, bem merecida.

Francisco Xara, n.^{os} 239 a 240.--As _Papoulas_ do 239, fizeram-me
lembrar flores de papel de seda feitas por alguma menina da baixa, em
horas d'ocio, entre o crochet e o chá com torradas, para enfeitar um
chapeu de campo ou algum oratorio de velhota amiga.


ESCULPTURA

José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.^o 241.--_Modelo para uma medalha_,
bem executado.

Pedro Cartoccio, n.^{os} 242 e 243.--Fez-me especial attenção o 242,
_Juiz de Phyné_. Um ar malicioso de juiz estecta, definidamente traçado,
nas suas bem marcadas linhas, é uma bella cabeça lançada com energia e
rigorosidade.

Antonio Teixeira Lopes, n.^{os} 244 a 258.--É sem discussão Teixeira
Lopes, ao momento, o maior esculptor portuguez. É talvez o unico que
póde affirmar ao paiz e ao estrangeiro, que só elle tem o poder de fazer
resaltar do marmore ou do bronze, as suas figuras, tão definidamente
perfeitas, que se nos afigura terem vida. Notar aqui os seus trabalhos
seria fazer a resenha das suas 15 obras, porque todas ellas se nos
impõem á admiração, do mesmo modo. No entanto, magestosamente solemne,
na serenidade do seu ar, sublime na grandeza do seu pensamento está a
figura, da _Historia_, 252, para o tumulo de Oliveira Martins. E o 244,
_Santo Izidoro_, n'uma serenidade de justo, esculpido com um carinho
doce; ao olhal-o sente-se como que, uma unção sublime e casta que nos
convida á oração. É um trabalho soberbo, as mãos, o pescoço, a face, as
roupagens, tudo emfim, é feito com um rigoroso saber. E os _Velhos_, 245
e a _Flora_, 246 e o _Bébé_, 247, e todos os outros trabalhos?
Simplesmente soberbos!... Teixeira Lopes é inegavelmente o primeiro
esculptor portuguez.

Antonio Augusto Costa Motta (Sobrinho), n.^o 259.--Uma _Cabeça de
estudo_, bem feita.

Jorge Pereira, n.^o 260.--_Um typo de marinheiro_, traçado largamente,
sem detalhes de meticulosidade; é na verdade uma bella cabeça, bem
estudada e melhor executada.


ARCHITECTURA

N'este genero nada entendo, sou leigo, perfeitamente leigo. No entanto
lá vae.

[Figura: Olaia em flor--CARLOS REIS]

Antonio Couto n.^o 261.--_Casino_, preferia vel-o construido, pois
n'esse caso melhor o gosaria.

Raul Lino, n.^{os} 262 e 263.--Gostei do 262, _Esboço para a casa em
Azeitão_. Talvez, pela idéa do conforto que se deve sentir n'aquella
casa portugueza, com bibelots caros e mobiliario de talha e bilros.

Tertuliano Marques, n.^{os} 264 e 265.--_Projecto do mausoleu a Almeida
Garrett_. Não desgostei, acho-o bem estudado.

José Alexandre Soares, n.^{os} 266 e 267.--Achei airosa e bem lançada a
fachada para o _Club militar_. Deveria depois de feito ficar uma obra
digna do ser admirada aquella _Praça Publica_.


AGUARELLAS

É uma das mais interessantes manifestações da arte pinctural, este
genero de pintura, difficil na execução, só se admitte quando o desenho
é muito correcto e a tinta é dada em pinceladas certas, frescas e
vivas... por isso, o terem-me agradado pouco os trabalhos expostos. A
ver:

Francisco A. Moreira de Almeida, n^{os} 268 a 271.--Francamente,
francamente, teem um ar ingenuo de chromo-lithographia.

Bartholomeu Sesinando Ribeiro Arthur, n.^{os} 272 a 278.--É a
especialidade d'este artista a pintura de costumes militares e com
franqueza, tem-nos, primorosos de execução, o que não quer dizer que
tambem os não tenha fracos. N'este certamen agradaram-me o 273,
_Official do regimento do Maranhão_, feito com muito ar e muito boa luz,
destacando soberbamente no seu arrogante _aplomb_, e o 274, _Official de
estado maior_, tambem bem trabalhado.

Mademoiselle Helena Eisembart, n.^o 279.--_Fructas_. Uns cachos de uvas
com a sua folhagem, boa aguarella, muito fresca, muito leve,
transparente.

José Souza Moura Girão, n.^{os} 280 a 285.--Cá temos outra vez o grande
artista das aves. N'esta secção brilha elle deliciosamente. As suas
aguarellas correspondem precisamente ás condições exigidas para a boa
aguarella, côres vivas, transparencia, e frescura; e tudo isso tem as
suas. Notaveis todas as dos n.^{os} 280, 281, 282, 284, 285 mas
sobretudo o _Fausto_ e _Margarida_, 280, _Entrando_, 282, e _Cantando_,
285, que a meu ver são magistralmente feitas.

Jorge Ianz, n.^{os} 286 a 295.--Outro aguarelista, que nos enche, com a
sua côr fulgurante. São bem manchadas as suas aguarellas, fazendo-me
lembrar, não sei porquê, as do fallecido Manuel San-Romão, o artista
mais mimoso, que eu tenho conhecido, como manchista, Ianz e
inegavelmente um artista de merecimento. São muito bons para mim, os
seus 286, em _Toscana_, 288, _Impressões de viagem_, 292, 293, 294, tres
bellas marinhas, muito bem tratadas, o 295, _Descarga no Tejo_, é
admiravel de execução; a arcada que se vê ao fundo do quadro poderia,
com honra, ser admittida n'um concurso de architectura.

Alfredo de Moraes, n.^{os} 296 e 297.--_Costumes da Judea_. Não quero
dizer que estejam maus, mas fizeram-me lembrar, Deus me perdôe, (Deus e
o artista) os homens das tamaras.

[Figura: Entre o almoço e o jantar--MARQUES d'OLIVEIRA]

Roque Gameiro, n.^o 298.--_Retrato d'El-rei_. Aguarella de difficil
execução, mas superiormente tratada, boa luz, bella côr, roupagem
magnifica, tom de rosto bom. As luvas são uma perfeita illusão. É um bom
trabalho.


DESENHO

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 299.--_Um estudo_, regularmente traçado.

Jorge Porphirio, n.^o 300.--_Jardim botanico_. Achei-o palmeirento de
mais. Regular.

Candido da Silva Junior, n.^o 301.--_Um quadrito com cinco cabeças_. Só
me agradaram as duas feitas a crayon azul.


PASTEL

Não imagine o leitor que eu vou discorrer sobre o effeito do pastel de
fructa, ou de créme, do Baltresqui, não, vou fallar do systema de pintar
a _pastel_--ou por outra, a crayon de côres, e que por signal não é lá
das coisas mais faceis, para ser bem feito. Para se trabalhar bem n'este
genero uma das coisas mais necessarias é saber desenho. Que afinal para
se pintar bem o que é preciso é desenhar muito e bem.

D. Luiza Almedina, n.^o 302.--_Retrato de sua irmã Ilda_. N'este
trabalho ha varios defeitos, saltando porém á vista a differença da côr
entre o rosto, e o pescoço e collo, que muito prejudica o effeito do
quadro.

D. Beatriz Alto Mearim, n.^o 303.--_Estudo_. Uma velhinha. Regularmente
empastado.

Condessa Alto Mearim, n.^o 304.--_Estudo_. Este quadro a meu vêr, devia
estar no catalogo na secção dos desenhos. É bem feito, vê-se que esta
senhora não descura a base principal de pintura.

D. Maria Luiza Alto Mearim, n.^o 305.--_Um estudo_. As mesmas
considerações expandidas para o n.^o 304.

Leopoldo Batistini, n.^o 306.--_Cabeça de estudo_. Magnifica de
empastamento doce e finura de traço, penna é que encha tão por completo
o quadro. Um pouco mais de margem e seria para mim muito mais agradavel
á vista.

D. Emilia Adelaide Santos Braga, n.^o 307.--_Retrato de Cupertino
Ribeiro_. Trabalho bem feito.

José de Brito, n.^{os} 308 e 309.--Superiormente executado o n.^o
309.--_O frade_.

Frederico Cezar Camara Leme, n.^{os} 310 a 312.--Recortado de mais o
312, _Ovelhas_. Dá-me a impressão d'estas ovelhas de cartão e algodão em
rama, tendo ao fundo um vulcão de theatro, irrompendo bravamente e pondo
uma luz forte em todo o ambiente.

[Figura: A chegada da diligencia aos Valles em Ferreira do
Zezere--ALFREDO KEIL]

Bemvindo Ceia, n.^o 313.--_Um velho operario_, regularmente tocado,
_comme ci, comme ça_.

João G. Mattoso da Fonseca, n.^{os} 314 a 320.--Destacarei d'este
artista o 314. _Retrato de D. M. E. F_., que tem o cabello e a pelliça
magnificamente tratado. _Ninete_, 315 regularmente feito--especialmente
o cabello, e pluma do chapeu. Não gostei do 316, _A Fé_, porque achei a
figura com muito pouca fé, e o 418, _Ao espelho_, em que noto um
determinado abuzo de branco, na cara.

Adriano de Sousa n.^o 321.--_Ave Maria_. A carnação d'esta figura é
muito bem tratada, aveludada e macia.

José Malhôa, n.^o 322.--_Retrato de mademoiselle C. R_. É simplesmente
delicioso este quadro. Como desenho, como technica de execução, como
posição de modelo, como tudo emfim, é sem discutir esse o primeiro
trabalho a pastel da exposição.

Tenho visto muitos trabalhos n'este genero, mas, nenhum me deslumbrou
como este.

D. Antonio Lobo da Silveira, n.^o 328.--_Um estudo_, mau.

Viscondessa de Sistelo, n.^{os} 324 a 325.--Não tive o gosto de
vislumbrar estes trabalhos na exposição ou não estavam lá, ou
passaram-me despercebidos, por isso nada direi d'elles.


GRAVURA

José Simões d'Almeida (Sobrinho), n.^o 236.--_Medalha_.--Gostei d'ella.


CARICATURA

Aqui é que é tremer e tremer como varas verdes, porque, se estes dois
pandegos me descobrem, ainda tenho a sorte dos caricaturados expostos.
Eu, se tivesse pretensões á popularidade, bem sei o que fazia: desatava
a dizer mal dos dois e elles, para se vingarem de mim, desenhavam-me ahi
em qualquer jornal burlesco e eu passava á gloria entre as gargalhadas
estridulas do publico e a arrelia das pessoas que me querem bem. Porque
eu, aqui para nós, dava uma boa caricatura... Mas não direi mal dos
homens, nem bem... direi só o que sinto... que o primeiro é filho de
peixe e sabe nadar e o segundo tambem nada menos mal.

Perfilar, que vae passar a patrulha da troça e do chiste.

Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, n.^o 387.--Soberbas caricaturas, que
pena é, não virem mais para o publico, n'esse _Album de Glorias_, que
tão estimado é pelos leitores. Aquelle _Chaby_ está fulgurantissimo de
graça.

Francisco Valenças, n.^o 328.--_Typos_, todos elles bons, mas superior o
_Ricardo Jorge_, fazendo-me saltar o riso, naturalmente, expontaneo.


ARTE APPLICADA

Aqui torce a porca o rabo, ou ainda: o rabo é o peor de esfolar, como
muito bem diz o nosso bom povo nos seus annexins. E de facto assim é...
eis um assumpto em que eu me vejo assaz embaraçado--arte applicada!...
eis uma coisa onde vejo um largo campo para entretenimento de damas, a
pintura dedicada de bibelots adoraveis para _boudoirs_ de luxo. N'esta
secção primam com a sua bagagem artistica todas as senhoras que expõem.

Umas mais brilhantemente que outras. Não vos massarei pois com citações
de numeros nem de nomes.

[Figura: O rapto de Ganimedes--FERNANDES de SÁ]

Fallarei no emtanto, do n.^o 336, _Goblin_, do Jorge Ianz, que na
verdade é uma das imitações mais perfeitas que temos visto. Bem estudado
nas côres, que dão a impressão nitida de estarmos em frente de um
verdadeiro tecido; só achamos um poucochinho puxado o preço...

Um conto de réis é dinheiro!

A _Moldura-Luiz XIV_, n.^o 337, de José Emygdio Maior, é bem esculpida,
correcta no estylo e no desenho.

Tambem gostamos do n.^o 338, _Modelo para uma floreira_, é muito
elegante de fórma e está feita com certo mimo. Como arte nova é
acceitavel.

Ah! mas o que eu achei subtil, e vaporoso, foi o leque exposto por D.
Maria Bordallo Pinheiro. Que delicia, que encanto. Aquella senhora vem
de ha muito afirmando o seu grande gosto artistico e o seu forte
temperamento creador.

Que isso não nos admira, mal fora que assim não succedesse, pois ella é
uma grande artista. Todos os seus, são verdadeiros artistas, cada qual
no seu genero. Bordallo, o incomparavel e inimitavel caricaturista;
Columbano, o soberbo pintor; Manuel Gustavo, correcto seguidor dos
passos de seu pae, vae largamente pondo-se a par d'elle, na firmeza e na
correcção de caricatura.

Mas não é d'elles que eu fallo, é da rendilheira sublime que consegue
que as operarias de Peniche, façam rendas tão finas e tão delicadas, que
abertamente se podem pôr ao pé d'essas custosas rendas de Bruxellas e de
Allençon.

Por isso, aqui lhe significa, este provinciano, que felizmente já
conhecia os seus bellos trabalhos, recordando ainda hoje ao escrever
isto, um lenço formosissimo executado por D. Maria Augusta, com peixes e
mariscos, a sua muita admiração pelo seu grande talento.

Notaveis tambem as _Fivellas_ n.^{os} 342 e 343, de João da Silva, que
achei bem executadas, não devendo envergonhar-se ao pé, das saidas de
cinzeladores, como Jerdelet.

Ia-me passando falar d'uma japonesice em trez actos, que é, como quem
diz, em _trez folhas_, d'um _paravent_, pintado por Pigasson Ricot, que,
na verdade, não está feio. Estão bem copiadas as figuras e os effeitos
tirados, não são maus. Acho-lhes o mesmo defeito do Goblin de Ianz: é
muito caro... para amadores.

Sobre o concurso para a capa do catalogo, nada tenho que dizer, pois
isso era unica e exclusivamente da competencia da commissão da
exposição, que deu o primeiro premio ao trabalho de Francisco dos Santos
e o segundo a Tertuliano Marques.

E até que em fim, acabou a massada para o benevolo leitor.

Desculpe-me, portanto, meu caro redactor, o eu ter estendido tanto a
_massa_, como se costuma dizer, mas desagravel me seria, ter promettido
falar de todos e deixar passar em claro algum d'elles.

É provavel que o publico e, muito especialmente, os artistas, não tenham
gostada minha prosa, por eu ter dito muitas barbaridades, mas eu sou
assim; o que tenho cá dentro é para se dizer, bem ou mal, segundo posso
e sei. Mas, se esta minha despretenciosa prosa lhe agradou, de vez em
quando, cá apparecerei com noticias d'arte, lá do norte, do Porto,
d'essa aldeia trabalhadora e honesta, para onde vou partir, pois já
tenho saudades d'ella...


  Março 1903.


P. S.--As gravuras d'este e d'outros artigos, nem todas são copias dos
quadros notados nos mesmos, mas, na impossibilidade de adquirir
photographias d'elles, usei de provas de quadros dos mesmos artistas,
dando assim a conhecer ao leitor trabalhos de artistas de merecimento e
valor.

[Figura: Guarda arabe--Pastel de S. M. EL-REI]



VIII

PINTORES PORTUENSES

[+] MANUEL SAN ROMÃO


É com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar
d'um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.

Quando elle se finou, sob a dolorosa impressão que me deixou a sua
morte, não me atrevi a vir a publico, depor na sua campa o meu ramilhete
de flores, fazendo a apologia do seu saber e das suas largas aptidões
para a pintura. Esperei esse grande acto de justiça dos outros, dos que
então eram os criticos d'arte da nossa terra.

[Figura: Manuel San Romão]

Mas, nenhum, nem um só, compriu com esse dever e Manuel San Romão desceu
á mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha
perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos
seus amantes.

Não me admirou que a critica artistica da nossa terra se esquecesse de
San Romão, por isso que, o querido morto, não era d'aquelles que se
expunham á admiração de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas,
dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos
_clubs_, exempto de _coteries_.

Era talvez um misantropo. Talvez. Mas, o que inquestionavelmente elle
sempre foi, era um grande sabedor de cousas d'arte.

Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um
verdadeiro _gentleman_; cavaqueador brilhante e fluente fallando d'Arte
com uma tal elevação e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um tão
grande saber que, n'essas occasiões, fazia-nos lembrar um douto
professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial
e authorisada competencia.

Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil problemas intrincados e
complexos da Arte na sua mais ampla acepção, convenciamo-nos de que quem
fallava não era um _dilettanti_ da pintura, mas um critico justo e
sabedor, um verdadeiro homem do _metier_.

[Figura: Na Espectativa--Aguarella de M. SAN ROMÃO]

Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier
do largo do Viriato, e foi d'alli, talvez, que me veio este prurido de
fallar em artistas e coisas d'arte...

Que saudades tenho d'esse tempo, das magnificas tardes que passei, em
aquelle atelier pequenino e confortavel como _gabinete_ d'uma delicada
dama, replecto d'uma suavidade de luz e n'uma tão artistica disposição e
tão cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa...

E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um
respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San
Romão era um aguarelista _hors ligne_.

Para mim, o querido extincto foi um dos primeiros aguarellistas
portuguezes; a sua maneira especial de manchar ainda não foi suplantada
por mais ninguem. Nem mesmo o grande pintor Casanova, que foi professor
de San Romão, e que é inegavelmente um mestre na aguarella, nunca
conseguiu dar aos seus trabalhos aquelle tom especial de mancha que era
uma das grandes superioridades de Manuel San Romão. E isto fazia-o elle
naturalmente, instintivamente... Aquelle modo era o seu, d'ahi talvez a
impossibilidade de ser igualado.

Depois, San Romão dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal
transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram
como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.

E como elle desenhava!... Attestavam bem o seu estudo do desenho as
pastas carregadas de trabalhos feitos por elle... Muitos d'esses
desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaços dum grande poema
d'Arte...

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROMÃO]

Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor
póde verificar que as affirmações que fazemos são, por todos os motivos
muito justas e muito verdadeiras.

O _fidalgo antigo_ é uma soberba aguarella d'um vigor de execução e
d'uma correcção inexcedivel de desenho, e o quadro _No directorio_, e a
_Paisagem de Santa Maria de Boure_, e esses pequenos trabalhos, essas
lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos
esses desenhos não serão manifestações seguras do seu talento e do seu
valor?!... São! ninguem o pode duvidar...

Mas, Manuel San Romão não era tão conhecido do publico como devera ser,
por isso que elle não vendia os seus quadros, dava-os. Foi ao menos
feliz em não necessitar de negociar com o seu trabalho... Vivendo na
abastança não fazia da Arte um negocio, fazia d'ella unicamente um culto
intenso e sincero.

D'ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas
espalhados por um meio restrito de amigos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de M. SAN ROMÃO]

Manuel San Romão não era exclusivamente um aguarellista, mas tambem um
terrivel _bric-à-braquista_. Collecionava tudo quanto fosse arte,
gravuras, quadros, mobiliario, faianças e, em especial, livros
artisticos.

Era uma delicia visitar a sua moradia... Que encantadoras cousas,
formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas
abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados
pelos mais distintos mestres de pintura. No seu atelier, alli, é que
elle reunia o que mais fundamente lhe fallava á sua alma de artista, as
faianças mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as
revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n'uma _pele mele_
deliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do
gabinete d'uma fina duqueza e o ar sereno d'uma capelinha em festa.

Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais
deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais
insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferença
publica para a expôr á veneração e respeito de todos aquelles que vêem
nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.


  1904.


[Figura: Uma sevilhana--Aguarella de M. SAN ROMÃO]



IX

A MULHER ARTISTA


Ha dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma conversa larga e em que
se debateram varios assumptos, um houve, que especialmente me prendeu a
attenção. Discutia-se Arte em geral, e um dos homens, cavaqueador
_enragé_ emerito e apologista da _não_ emancipação da mulher, desfechou
abruptamente esta phrase: «Não posso admittir que a mulher seja uma
esculptora ou uma pintora».

[Figura: S. M. a Rainha]

Escusado será dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um
_duche_ frio e forte. Após, porem o choque, houve, como era de esperar,
a reacção, e, como poderam, os _paladinos_ da sala, debateram e
rebateram a estranha declaração, com factos, n'uma larga demonstração de
erudição e talento.

Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasião para poder dizer
serenamente, sem precipitação, as considerações que tinha a fazer sobre
tal assumpto.

E hoje, perfeitamente á vontade, sem pressões de especie alguma nem
necessidades de galantear, vou dizer o que penso da mulher artista, e
como eu teria desarmado o gracioso se logo me tivesse permittido
dizer-lhe alguma coisa em resposta ao seu repto.

A mulher é um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o
lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual. É como nenhum
outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina
sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem,
deixa-se assenhorar das impressões, e o seu coração, muito mais
passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma
doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.

Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas
psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.

[Figura: D. Aurelia de Sousa]

Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve
facilmente adquirir elementos magnificos para execuções de vulto, e de
obras que venham tocadas d'uma suave poesia.

Depois, se a mulher tem o direito de dançar e de cantar, e se lhe
admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o
direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais
longe mesmo, escrever livros, cujo encanto será deliciosamente bom? Ora
ella canta e dança desde a origem do mundo e borda desde as eras mais
remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a nós, que
caminhamos para o maximo da perfeição, de evitar que ella nos dê as
manifestações mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento
singular? Impossivel.

[Figura: Estudo de creança--Aguarella de S. M. a RAINHA]

Isto seria verdadeiramente barbaro!...

Para que ella cante ou dance, só se lhe exige que tenha talento vocal ou
choreographico, tal qual o que se exige ao homem para os mesmos fins. E,
se tal succede e a logica existe, qual a razão porque durante tanto
tempo se puzeram entraves ao franco estudo da pintura, da esculptura e
da litteratura, ás mulheres?

Bem sei que o canto, a dança e a musica, eram considerados por todos,
como dotes necessarios e sem os quaes uma senhora não podia briosamente
frequentar a sociedade.

Menina que não dançasse, em noite de baile, era como flôr sem aroma, que
se ficava estiolando em canteiro, d'onde tinham sido colhidas todas as
olorosas rozas e violetas. Havia pois a necessidade de se aprender a
dançar, e todas tentavam ser eximias no _minuete_, na _gavota_, na
_pavana_, na _valsa_, na _polka_, e no _pas-de-quatre_.

[Figura: Tia Bertha--D. BRANCA ASSIS]

Depois começou a desenvolver-se o gosto pela musica; as audições de
operas nos theatros de S. Carlos e S. João, a organisação de escolas
particulares de canto, os concertos onde era chic apparecer, foram
creando os amadores distinctos que no Porto e Lisboa teem affirmado
exuberantemente que n'este nosso torrão, não ha só bom sol, ha tambem
boas gargantas e bastante talento, (porque para se cantar bem não basta
só ter uma boa voz é preciso tambem talento e arte). E assim appareceram
em Lisboa e Porto as Ex.^{mas} Snr.^{as} D. Maria Albergaria, D. Laura
Gasparinho, D. Maria Viterbo Ferreira, D. Carminda Guerra Andrade, D.
Laura Leite, D. Alice Freire Silva Braga, M.^{elle} Lidia Oliveira,
M.^{me} Sarah Mattos, M.^{me} Ilda Blanc, D. Stela Pinheiro, M.^{elle}
Castello Branco, Condessa d'Almeida Araujo, Condessa de Proença-a-Velha,
D. Maria Thereza Valdez Pinto da Cunha, D. Carolina Palhares, D.
Leopoldina Kopke de Carvalho, D. Beatriz Arroyo, D. Izabel Vallado, D.
Elisa Lear, D. Albertina Arnaud, D. Julia Villares, D. Thereza
Wandscheneider, D. Edwiges de Castro, D. Judith Marques, D. Bertha
Leaham Camello, D. Camilla Katzeintein, D. Margarida Motta, D. Maria
Luiza Mourão, D. Idalina Castro, D. Laura Leite, D. Anna Fins, D.
Conceição Castello Branco Albuquerque, D. Margarida Fernandes Braga, D.
Bertha Arroyo, D. Julia Pinto Moreira, D. Olinda Rocha Leão.

[Figura: Quem espera desespera--ZEÓ WAUTHELET BATALHA REIS]

Mas, tambem lá estava a necessidade de apparecer, de ser notado. Era
preciso cantar para não ficar atraz das outras que apareciam, e assim se
desenvolveu por completo o gosto pelo canto, essa arte sublime que, como
dizia um philosopho, faz um ente transportar-se ao _sol_ sem se lembrar
de _si_.

Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava, era como o
canto, um genero de sport artistico. Toda a gente tocava, mas, era
preciso ir mais longe, era preciso tocar bem para ser notado. Em
qualquer parte onde se estivesse, n'uma sala, havia sempre muitos que
podessem exhibir os seus dotes musicaes, mas, no meio deste mar de
tocadores-amadores só se foram distinguindo os que tinham verdadeiro
talento, e assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina
Pacifico, D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo, D. Maria
de Magalhães, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz Bravo, D. Esther Coelho
de Campos, D. Carolina Suggia, D. Leonilda Moreira de Sá, D. Julieta
Vieira Barbosa, D. Elvira Mattos, D. Maria Julia Brandão, D. Maria
Helena Carvalho, D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia
Paiva, D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. Constança Pinto
Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia Suggia.

Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques Pinto, D. Laura
Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia Maia, D. Ophelia
d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.

Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.

Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes de Mattos.

E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso apparecer com
vantagens sobre outros.

Com a pintura e esculptura porem não se dava isso. Os amadores de
pintura só tinham occasião de mostrar os seus trabalhos, quando algum
d'estes _cabrions_ que teem o nome de _possuidores de albuns_, vinha
pedir a esmola d'uma collaboraçãosinha, para esses repositorios exoticos
de coisas varias e quiçá exdruxulas, onde se afundaram muitos poetas e
se lapidaram muitos desenhadores.

E os amadores de esculptura? Esses, nem os havia. E se algum se dedicava
a esse genero da divina Arte, era tão escondidamente que ninguem dava
por elle.

[Figura: Condessa d'Alto Mearim]

Mas, sob o impulso grandioso do desventurado Silva Porto iniciava-se uma
nova era d'Arte. Começaram de fazer-se exposições na cidade de Lisboa e
na do Porto, exposições criteriosas que foram o inicio do renascimento
da vida artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do
aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades
nacionaes.

Promovidas na capital pelo grupo de Leão, esse brilhante gremio de que
fizeram parte Columbano, Ramalho, Malhôa, Gyrão, etc.; e aqui, por um
grupo de artistas e amadores de Bellas-Artes, sem designação especial de
nome, mas entre os quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa,
Marques Guimarães, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano
Ramos Pinto,--as exposições d'arte teem sido actualmente realisadas pelo
Instituto de Estudos e Conferencias.

D'ahi, do agrupamento desses artistas, e tentados pela gloria de se ver
aplaudidos pela opinião publica e instigados pela critica amiga dos
jornaes, fez-se uma como que revolta no meio da sociedade, que vive um
pouco do espiritualismo Artistico do Bello, e como que resaltou uma nova
pleiade de amadores, que tenta a pintura e a esculptura. No meio d'essa
pleiade resaltam como caracteres artisticos definidos e assentes,
individualidades cujos nomes temos que notar e descrever.

[Figura: D. Alice Grilo Lima]

Apparece no alto, como verdadeira fulguração na arte de esculpir, a
Duqueza de Palmella, a maior alma de artista que pode ter uma amadora.
Os seus trabalhos perfeitamente executados são confirmações
indiscutiveis do logar proeminente que ella deve occupar entre os que
são sacerdotes na sublime arte de Milo.

No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a Ex.^{ma} Sr.^a
D. Joanna Andressen Silva, de que mais adeante fallaremos em artigo
especial.

Na pintura, confirma-se o que a principio digo, só se exige que as
amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir o logar ao lado dos
homens na transplantação para a tela da natureza, em todas as suas
variadas manifestações. E assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os
dias se fazem novas revelações de senhoras que são verdadeiros
sportwomen artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D.
Sophia de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho, D. Lucilia
Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D. Maria Afflalo, D. Alice
Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim, D. Maria Luiza Alto Mearim, D.
Branca de Araujo Assis, D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro,
D. Margarida Costa Romão, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D.
Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias de Lima
Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira de Moura, D. Laura
Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto, Viscondessa de Cristello, Zeó
Wauthelet Batalha Reis, D. Margarida Ramalho, D. Albertina Falker.

E, tudo isto, pela simples razão de haver exposições, onde se pode
mostrar que se tem aptidões para a pintura ou para a esculptura, que se
tem talento artistico emfim.

Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural, que faz de nós um
poucochinho mais do que a vulgaridade, não acho razão nenhuma para que
se queira tirar á mulher o direito de publicamente mostrar que é um
pouco superiora ás outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber não
occupa logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um quadro,
do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso só pode mostrar que
a preoccupa o espirito com alguma coisa donde lhe pode vir honra o
louvor, no segundo caso... que não o preoccupa com nada...


  Setembro 1904.


[Figura: Orchideas--D. ALICE GRILO]



X

NOVAS EXPOSIÇÕES D'ARTE


Ao mesmo tempo duas exposições de pintura, uma organisada pelo Instituto
de Estudos e Conferencias, outra organisada pelo snr. Lagôa. Estamos em
maré d'Arte, não ha que vêr. Ora eu, que sou um bisbilhoteiro de mil
diabos, lá fui, n'um d'estes ultimos dias de bom sol, visitar as duas
exposições.

Boas e más impressões trouxe d'estes certamens e é o que muito
despretensiosamente direi para diante, conforme o meu modo de vêr.

Tem, já se sabe o primeiro logar, a exposição do Instituto, e tem-no por
muitos e variados motivos; entre esses porque é formada por trabalhos de
artistas, se bem que por lá andem anichados puros amadores... Mas, isso
fica para depois, para mais larga conversa quando não houver já que
dizer a respeito dos artistas.

Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em parte, a ameudação
de exposições d'esta natureza; pena é que nem todos os nossos artistas
comprehendam o quanto isto é util para elles.

Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores, e é pena.
Não sei, nem tentarei desvendar a razão porque os bons artistas não
querem concorrer, mas sinto profundamente que Salgado, Malhôa,
Columbano, Carlos Reis, Girão, e outros, se fiquem, lá de longe, sem nos
dar o gosto de lhes applaudir e admirar o talento nas suas varias telas,
que são quasi sempre admiraveis. Talvez porque não encontrem no nosso
meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba pagar, talvez!...

A exposição, no seu geral, é fraca, sem interesse (que barbaro eu sou).
A não ser uma meia duzia de telas, o resto é insignificante, sem
destaque, morrendo pelo... nem sei mesmo porque... mas fazendo-nos
sentir a saudade das exposições realisadas no Atheneu Commercial, ha
tantos annos já, e organisadas por um nucleo de pintores conhecidos.
Isso sim, isso é que foram exposições onde todos concorriam cheios
d'aquella boa vontade e d'aquelle enthusiasmo que é peculiar ás almas
novas; que isto não é dizer que as almas d'hoje sejam almas velhas, não,
são almas novas, mas formadas pelo systema arte-nova, tão cheia de
curvas e sinuosidades, que treslouca.

Como de costume, lá fui encontrar no catalogo nomes dos que nunca faltam
á chamada, honra lhes seja, Marques d'Oliveira, Torquato Pinheiro,
Candido da Cunha, José de Brito e Antonio Costa, e a par d'estes, muitos
outros e alguns que começam agora a apparecer.

[Figura: D. Sophia de Sousa]

D'entre os artistas, que expõem, a meu vêr, destacam-se Marques de
Oliveira e Candido da Cunha, que são inegavelmente os que dão a nota
pelo seu modo e pelos seus assumptos. José de Brito, soberbo no seu
pastel _Um frade_, no resto sempre um tom ingente de nevoa que faz os
seus quadros baços.

Torquato Pinheiro, muito bem no _Retrato de meu filho_, assim como,
gostamos d'elle, nos seus--_Fins da tarde de outomno_ e _Rua de Villa
Real_.

Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos encantos
cazeiros, veio á exposição com dois quadros que já lhe conheciamos, mas
que por isso não deixarei de os mencionar, especialisando para meu gosto
o--_Serviço feito_, que acho primoroso.

Prat, com os seus estudos não foi completamente feliz; destacam no
entanto a _Cabecita de burro_, que me não desagradou.

Victorino Ribeiro, com o seu--_Esperando um amigo_, está bem
apresentado.

D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos tenha mostrado em
outras exposições muito melhor.

D. Aurelia de Souza, com o seu estudo--_Um africano_, muito bem.
Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores ao seu muito
talento artistico.

Antonio José Costa, como sempre, o primoroso pintor de flores, dá-nos
umas _Camelias_ bem tocadas e muito frescas.

De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do que o já temos dito:
tem talento e sabe do _metier_. A sua _Marinha_ é para mim o seu melhor
trabalho n'esta exposição.

Almeida e Silva, esse, parece que desandou; as suas telas são
demasiadamente recortadas e esmiuçadas. Lembrei-me com saudade de outros
quadros seus, expostos em tempos idos, como por exemplo, um _Viatico na
aldeia_ e um _Cabeça de cabrito_.

Augusto Ribeiro, é um trabalhador incansavel, produz de mais. Desenha
bem e pinta com certo gosto, mas pinta muito. Tem na exposição alguns
quadros de valor e a _Marinha da Foz_, _O atalho ao sol_, são bons. Como
notas typicas do nosso meio são interessantes as manchasitas do
_Bolhão_, _Anjo_ e dos _Ferros Velhos_.

[Figura: Marques de Oliveira]

Francisco Gil, é um pintor da Figueira da Foz que tivemos o prazer de
vêr pela primeira vez; os seus trabalhos são (perdoem-me o francez)
_comme ci comme ça_.

Lago Pinto, é um novo que promette muito e que se apresenta com vontade
de fazer alguma cousa. São muito recommendaveis os seus quadros _Fim da
tarde_ e _Lavadeiras_, em que a agua está bem estudada.

Teixeira Bastos, é um pintor de Lisboa que veio ao Porto mostrar-nos que
tem talento artistico, dando-nos a impressão de que vê muito bem. O que
especialmente o torna notado é o magnifico tom de luz que dá aos
quadros. _Os castanheiros_, foi para mim o que mais me agradou; são
dignos de menção a _Cabeça da rapariga_ e _Canto do Rato_.

D. Leopoldina Pinto é uma amadora distincta.

Carlos Gomes Fernandes, é tambem um amador que começa. É provavel, que
de futuro nos dê quadros, que se tornem notaveis, por emquanto é, a
nosso vêr, um amador que tem vontade de fazer alguma coisa.

Fallei de todos mas deixei para o fim Marques de Oliveira e Candido da
Cunha, porque a meu vêr são os dous pintores que attestam profundamente
o seu temperamento artistico.

[Figura: Flores--D. Leopoldina Maia Pinto]

Marques de Oliveira é inegavelmente um mestre e não era preciso que eu o
dissesse, eu que sou um _zero_ no nosso meio critico. Os seus quadros
_Cercanias d'Agueda_, _O Combro_ e as _Lavadeiras_ são obras primas de
desenho, de côr e de luz.

Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a luz iriada dos
poentes, dá-nos quadros maravilhosos, destacando como florão da sua
corôa de artista a _Hora nostalgica_. Não devemos porém esquecer a sua
_Casa rustica_ e os seus _Moinhos em Leça_. Ha tambem na exposição um
trabalho d'este artista que me extasiou. É o retrato da esposa do
pintor, feito a carvão (claro escuro). Trabalho que por si só bastaria
para n'outro meio, que não o nosso, dar o nome a um artista. Correcto de
desenho, é superiormente primoroso.

Falta fallar d'um amador, tão distincto que não pude fugir ao desejo de
lhe reservar um logar mais para o fundo, para que fizesse alguma
impressão d'elle, ao leitor amigo, que tivesse a pachorra de me lêr até
ao fim. Refiro-me a Alberto Ayres de Gouveia, discipulo de Marques
d'Oliveira e que honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este
cavalheiro se dedicava á pintura, mas francamente, julgavamos que elle
fosse um _dellitanti_ como muitos outros, que tendo tempo livre, se
entretinha a fazer pequenas cousas sem valor, mas, ao comtemplarmos a
sua obra, ficamos confuzo. Era uma revelação... Trabalho agigantado o
seu, topando um assumpto sublime, tal como a _Vida de Jesus_. Pintor
mystico com tal pujança nunca o imaginaramos. Vemos que elle se sae
brilhantemente da empreza em que se metteu. Os seus quadros a _Palavra
do Mestre_ e o _Christo morto_ são verdadeiras obras d'arte. Figuras
estudadas com cuidado, pousadas naturalmente sem poses academicas, tendo
vida e verdade, luz e côr escolhidas com sciencia; pinceladas largas e
justas eis o que se encontra n'aquelles dois quadros.

[Figura: A Caridade--TEIXEIRA LOPES]

No seu _Lettre de Colombine_, ha um effeito de luz admiravelmente
estudado. Mas, Ayres de Gouveia não é só correcto nos seus quadros
biblicos e de phantasia, é-o tambem quando faz o retrato, assim podemos
dizer que é bom o seu oleo e retrato de mademoisselle M. F. A.

E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se nos revela um
verdadeiro artista; são para notar o seu _Apollo_ e _Retrato de
mademoiselle Allen_, (ambos a pastel) _e cabeça de estudo_, (a crayon).

Mas, não digamos mais nada d'esse amador, que podem julgar para ahi que
eu sou amigo d'elle e vim aqui só para o elogiar, e eu não quero isso.

Passemos agora rapidamente á esculptura, deixando em branco as
aguarellas, porque francamente não gostamos de nenhuma.

Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes de Sá com a sua
_Cabeça de Velho_ e o _retrato do medico Correia de Barros_, este ultimo
um trabalho flagrante de verdade.

D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta, pois em pouco
tempo fez progressos grandiosos.

D. Albertina Falker: não gostei do seu _Bébé_. Não sei que lhe achei de
mau, talvez a posição d'aquella cabecita... Não sei...

Com respeito a arte applicada, só direi, que tenho visto muito melhor do
que aquillo.

E acabou-se a resenha das minhas impressões.

Antes, porém, de fechar este despretencioso artigo uma, como que nota
final.

Eil-a:


Uma coisa urge fazer de futuro em exposições congéneres. Destacar em
grupos definidos os artistas e os amadores; a cada um o seu logar.

Poderão mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos, e não teremos
ao primeiro relance uma impressão tão má. Aproveitam todos mais, os
artistas, porque juntos, ver-se-hão obrigados a applicar todas as suas
aptidões para se destacarem uns dos outros: os amadores, no seu modo de
fazer um pouco _gauche_, não terão o confronto dos quadros dos mestres
que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n'um _Salon_ tanto o
critico d'arte, como o amador ou o indifferente, saberá, logo o desconto
que tem a dar aos trabalhos, dos que começam, ou fazem arte para
entreter e não fará injustas apreciações. Este, é o meu modo de vêr e
penso bem que os proprios artistas me acompanharão n'elle.

Quando porém um amador se impozer pelos seus trabalhos, como os de
Alberto Ayres de Gouveia, então que entre desassombradamente no gremio
dos artistas e que se sujeite á critica rigorosa dos que sabem do
assumpto.

Emquanto assim não acontecer, estas exposições não terão um caracter
definido, não terão o ar correcto d'um verdadeiro _Salon_. Dar-nos-hão
simplesmente a impressão da sala d'um burguez endinheirado, que finge
ter gosto pela Arte.

Ahi fica a impressão que me deixou a visita feita á Exposição de Pintura
do Pateo da Misericordia.


Dezembro de 1902.


[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto--VELLOSO SALGADO]



PINTORES PORTUENSES

[Figura: Eduardo Moura]

[Figura: José Teixeira Lopes]

[Figura: Julio Ramos]

[Figura: Candido da Cunha]



XI

Uma Exposição de Aguarellas

ORGANISADA por AMADORES


N'um dos salões do Palacio de Crystal, acaba de ser aberta uma Exposição
de Pintura, onde o professor portuense de desenho Joaquim Marinho e suas
discipulas, sujeitam á apreciação do publico os seus trabalhos.

Fui, como é meu costume, vêr a Exposição, sem a preoccupação de critico
d'Arte, como um bom _vivant_, um mero collecionador, affeito um pouco a
vêr com os olhos do espirito, além dos olhos da cara.

Não terei portanto aqui, n'este modesto _compte-rendu_, phrases
empulgantes, nem sentenças judiciosas sobre os trabalhos expostos.
Modesto será o meu artigo como modestos são os expositores. Deixo aos
outros, aos que sabem de tudo, aos que chamam a quadros a oleo
_cromolytographias_, essa extraordinaria tarefa de dizer muito e
retumbante, sem dizer nada.

[Figura: Joaquim Marinho]

Fui, como disse acima, vêr a Exposição e gostei; entre os quadros
expostos ha alguns que destacam, como manifestações de estudo e talento.

Não farei a resenha detalhada d'elles, nada d'isso, sómente indicarei os
que mais fundamente me impressionaram.

Estão n'este caso, como decorativos, os apreciaveis trabalhos a pastel
de Joaquim Marinho, _A Camponeza_, e os de D. Zulmira Almeida e D.
Izolina B. Sá, _Imitações de azulejos_. São de completa novidade, dando
uma nota fulgurante de boa concepção e execução. Estas duas senhoras,
entre varios outros trabalhos, teem mais, a primeira, duas paisagens em
pastel, magnificas; a segunda, uma marinha muito acceitavel.

Ha mais uma _Cabeça de creança_ (pastel) de D. Maria Leonor, que me
impressionou deliciosamente. Esta senhora expoz tambem dous outros
quadros, (paísagens), tambem a pastel, muito interessantes.

D. Guilhermina Marinho, com os seus estudos a aguarella, revela-se-nos
uma amadora distincta e conscienciosa; destacarei d'entre elles os
_Recuerdo del Paiz Vicino_, (interessante scena de bailado em Andaluzia)
e _Rapaz de Aveiro_. Primorosos.

[Figura: Paisagem--Aguarella de J. TEIXEIRA LOPES]

D. Maria Joaquina, dá-nos duas pequeninas impressões de Vizella, muito
interessantes.

Deixei para o fim propositadamente o fallar do professor. Este, expõe,
entre outros, um quadro que eu admiro pelo modo como está feito. É um
trabalho a carvão de grandes dimensões e chama-se a _Batalha de
Malmaison_. Todo aquelle céu está bem trabalhado e cuidadosamente
desenhado. É magnifico.

Tem tambem tres trabalhos a carvão, em madeira, que são interessantes e
apresentam muita novidade. Um d'elles especialmente _Um boi_, está
magnificamente bem feito.

Não me alargo mais n'este meu modesto artigo, mas ao terminar não posso
deixar de manifestar aqui o meu applauso ao iniciador d'este certamen
d'Arte, animando-o a que continue a mimosear-nos com exposições como
esta, que distrahem a vista e consolam a nossa alma, farta das
ignominiosas scenas, que vão por esta terra. Aquillo é como um banho
santo ao nosso espirito enervado e doentio.

Parabens, pois, pela sua exposição.


  Novembro de 1900


[Figura: Cabeça de estudo--Pastel de JOSÉ de BRITO]



XII

PINTORES PORTUENSES

THOMAZ DE MOURA


Eu sou d'estes sujeitos que gosto muito de vêr e de apreciar tudo quanto
de Arte apparece no nosso restricto meio, e por isso fui ha dous dias
até á Photographia Guedes, visitar a exposição de quadros de Thomaz de
Moura.

Conhecia já este artista d'uma exposição, que em Lisboa se realisara,
nas salas da Sociedade Nacional de Bellas Artes e onde elle concorrera
com sete quadros. N'essa occasião e em um jornal da capital tive
occasião de manifestar a impressão que então recebera dos seus
trabalhos. Hoje, porém, que elle no Porto se nos apresenta, não é muito,
que, mais uma vez, me occupe dos seus trabalhos, n'uma rapida noticia,
sem philosophia d'arte nem detalhes de apreciação, mas unicamente n'uma
resenha breve e simples do que vi.

[Figura: Thomaz de Moura]

Na sala do nosso amigo Guedes de Oliveira, esse bello rapaz, amigo
dedicado dos artistas e tão artista como elles, reune Thomaz de Moura 39
trabalhos, que dão a nota verdadeiramente accentuada do seu temperamento
artistico.

Talvez, porque a sua alma seja d'um contemplativo, ou d'um triste, ha
nos seus quadros um quer que seja de nostalgico e de sugestivo. Não é
d'aquelles pintores que distribuem, ás pinceladas, nos seus quadros, as
tintas fortes e vibrantes; os vermelhos carmins e ocres amarellos. Não,
enche as suas telas d'umas tintas doces e melancholicas. Depois ha ali
muita paisagem dos paizes brumosos, trabalhos que elle executou lá por
fóra nas suas viagens de estudo. E a paisagem da França e da Bretanha,
essa paisagem, é muito differente da nossa. Lá, não se encontra um céu
como o nosso, claro e limpido, onde as aves passam n'um vôo chilreante
de alegria, o sol de lá, como que apparece envolvido em gaze, não é
retumbante e claro como o nosso e as tonalidades da vegetação tem aqui
um forte destaque de frescura que falta n'esses paizes.

E, é talvez d'isso que se sente o nosso artista. Mas, quando elle
retratar a nossa paisagem, esse Minho encantador, então, vel-o-hemos
accentuar perfeitamente as nossas côres e nosso tom.

Algumas das telas apresentadas já são da nossa paisagem, mas, vistas um
pouco ainda com a vista habituada ao cinzento das paisagens bretãs,
d'ahi o não terem a nitidez accentuada da paisagem portugueza.

D'entre todas essas telas destacarei para mim como a mais subtilmente
inspirativa--_Christo lamentando Jerusalem_, de linhas definidas embora,
em esquicio, de uma concepção bella, d'um effeito sentimental e de uma
suave expressão.

_Os cuidados de mãe_, que eu já conhecia, são um estudo de interior que
revela muito saber e muita observação.

_O fim da tarde_, delicioso poente, onde o céu tingindo-se de vermelho,
dá ao quadro uma inspiração suave do quer que seja de poesia lyrica.

_No limiar da porta_, bella cabeça de rapariga, d'um olhar aveludado e
triste, de quem espera por alguem; talvez pelo seu namorado.

No _Cabeça de rapariga bretã_, ha a mesma serenidade que no _Limiar_.

_Um caminho_, é um bello retalho de aldeia, um caminhosito tortuoso
coberto por uma frondosa ramaria. Appetece descançar um pouco, ali, após
um largo passeio.

_Os casebres de Alfena_, _O lavadouro_ (Guisec), _Açudes_ (Vizella),
_Ribeira de Pont d'Abbé_, e mais outros ainda, são manchas tocadas com
primor e com muita proficiencia.

_Os pequenos marinheiros_, é um quadro onde se revela d'uma maneira
accentuadamente definida a disposição que Thomaz de Moura tem para a
figura. Os dous rapazes estão perfeitamente desenhados e sahem da tela
accentuadamente.

Ha um quadrosito tambem notavel, é o _Nos campos_, um pequeno sentado
sobre a relva parece desfolhar malmequeres emquanto ao fundo, sob um
traço de luz, pastam dous mansos bois, é inegavelmente um dos mais
apreciaveis trabalhos expostos.

Mais largo poderia e deveria ser este _compte-rendu_ da exposição, mas
eu prometti apenas uma ligeira noticia, e as minhas aptidões criticas
não dão para mais.

E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique n'estas
rapidas linhas a magnifica impressão que me deixou a visita que fiz á
sua exposição.


  1904.


[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto--VELLOSO SALGADO]



XIII

AMADORES PORTUENSES

D. JOANNA ANDRESSEN SILVA


Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas
as minhas impressões sobre o merito artistico d'esta illustre senhora,
amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia
do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de fé e de
bondade.

[Figura: D. Joanna Andressen Silva]

Eu sei que biographar um amador é trabalho de certo folego, muito
especialmente quando o amador é distincto, como esta illustre senhora;
mas eu não venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha
dos seus trabalhos, resenha esta que servirá ao mesmo tempo de ligeira
nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, só a
isso, me abalanço, convencido de que cumprindo um dever de cortezia
presto ao publico, ao que aprecia as manifestações d'Arte, um
interessante e util favor.

Não me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema--a _Arte_.
Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais
necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.

N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes
_pseudo-perfis_, uma larga tirada sobre _Escolas d'Arte_, _Evoluções da
Arte_, _Variedade de gostos artisticos_, _Papel moral da Arte_, etc. Não
enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com
mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.

Sou apenas uma especie de _reporter artistico_, que vem sempre que
d'isso tem occasião, trazer a noticia d'um amador que se torna notado,
d'um artista que está em fóco, d'um atelier que se recommenda pela sua
disposição e pelo _recheio_, e d'um _salon_ que se abre em exposição de
trabalhos _isolados_ ou _collectivos_.

[Figura: Salão do palacete de D. Joanna Andressen Silva]

Feitas as precisas explicações, vou dar principio á minha singela
narração, sem balofas adjectivações e sem assumir o ar solemne e grave
de _Pater Magister_. Serei simples e breve como convem aos que escrevem
para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados
problemas sociaes e artisticos e para aquelles que só sabem ler. Farei
portanto todo o possivel para que facilmente me faça compreender e
alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.

Foi n'uma manhã formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha
primeira visita ao atelier da Ex.^{ma} Snr.^a D. Joanna Leheman
Andressen Silva.

Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da
Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde
reside esta talentosa amadora. A vivenda só em si é um encanto. A bella
casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso
e rico que se impõe. Os jardins e o parque que a rodeiam são deliciosos
trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a
compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos
de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar á tela. Eu não
posso fallar d'essa paisagem adoravel que me não sinta enlevado pelos
seus encantos naturaes. Como é bello tudo quanto d'alli se avista! Como
é soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos
apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do
Douro, que serpeia lá em baixo, a agitação continua do mar, cujas ondas
se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida
aldeã, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do
outro lado, no Monte das Chãs!...

[Figura: Canto do Atelier]

Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde,
_bibelots_ caros e artisticos se juntam n'uma delicada confusão que
contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapeçarias. Apenas
alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de
attenções e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu
atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela
conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma
fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.

N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da
habitação, passagem que fiz com a religiosa uncção de quem visita um
museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis
trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa,
Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos
mais consagrados artistas estrangeiros.

[Figura: Busto de mademoiselle Eliza Andressen]

E tudo isto, todo este batalhão de Arte se espalha pela casa,
gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de
luz.

Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o salão de
baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louças e dos
crystaes, mas acima de tudo a confecção e o estylo do mobiliario.
Avancei uma pergunta:---«Quem fôra o auctor d'aquella maravilha? Quem a
desenhara?»

E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia,
dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execução fizera dous
desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de
flores, fôra posto de parte porque seu primeiro marido não gostara
d'elle.--«E eu tambem», concluiu a illustre amadora.

Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fôsse, aquelle
desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque é uma
verdadeira maravilha de Arte, quer em concepção, quer em execução.

Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D.
Joanna, e passamos ao atelier. É este construido sob a sombra protectora
e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga
janella que lá do alto se abre para a estrada.

Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que lá se achava, desde
o mais insignificante desenho até á mais bem lançada esculptura, desde a
mais pequena revista até ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto,
entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos,
conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos,
analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo
fallamos da educação artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei
que D. Joanna desde creança revelara uma grande disposição para a
esculptura.

Seu pae, um bom e honrado negociante allemão, que viera para o Porto
estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com
livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se
enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e
d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma
vocação especial para o desenho.

[Figura: Busto de mademoiselle Ramos Pinto]

Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi
no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.

Foi, portanto, sob a direcção d'esta desenhista correcta e sabedora que
ella começou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por
algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia
Katzenstein, teve occasião de acompanhar muito de perto e receber mesmo
indicações utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irmão do Consul
d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente
_pousou_ para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse
excellente artista, já por vezes devidamente apreciado no Porto, por
quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios
certamens a que tem concorrido.

Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna
volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa
mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama
para lhe completar a educação d'arte dous dos mais notaveis artistas e
mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e
poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome é uma verdadeira
gloria da Arte Nacional.

E, recebendo lições d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar,
D. Joanna revela-se não uma amadora distincta, mas uma distinctissima
artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores
pelo encanto com que são concebidos e executados.

[Figura: Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen]

D'alguns d'esses magnificos trabalhos vão aqui photogravuras, pelas
quaes facilmente se vê que aquillo que affirmo não é senão a sentida
expressão da verdade. Na photogravura _Recanto de atelier_, ha uma
figurita sobre a meza, _maquette_ de um trabalho em tamanho natural, e
que se intitula _Rapaz jogando a malha_, que é um assombro de bem
executado.

Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial mensão. É
um _Christo na Cruz_ original do grande e saudoso Soares dos Reis.

Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas _Cabeças de rapazes_,
bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes não pude
obter photographia.

Parecerá ao leitor que quem executa tão bellos trabalhos não necessita
mais de professor; não o entende assim D. Joanna e, n'essas condições,
como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e
recebe orientações e lições do velho Costa, o meu querido amigo Antonio
José da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em
Portugal.

É desnecessario proseguir. Já fica dito o bastante sobre as impressões
recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman
Andressen Silva, n'essa manhã deliciosa, de que conservo as mais gratas
recordações, não só pelo prazer de avaliar de perto os superiores
trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas
preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente
attencioso.

Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada,
dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre
os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me,
quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.

[Figura: Guarda fiel--ANTONIO JOSÉ da COSTA]



XIV

PINTORES PORTUENSES

ANTONIO JOSÉ DA COSTA


Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impõem á
consideração de todos nós.

O que encima este artigo é um d'elles.

Como homem e como pintor Antonio José da Costa deve ser respeitado e
admirado. Como homem porque é um cavalheiro em toda a acepção da
palavra; como pintor porque é um mestre.

[Figura: Antonio José da Costa]

É muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo,
uma figura culminante da pintura em Portugal; e não vos admireis,
leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o,
queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. Não. Se considero
Antonio José da Costa um grande artista, não quer isto dizer que o
julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle é um
dos grandes artistas da pintura em Portugal.

Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas, grandes como
este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.

Não quero, nem procuro saber quando e como é que Antonio Costa se fez
pintor: o que tento é provar que elle hoje é, em Portugal, um soberbo
paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me
que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais
demonstrativo seria dizer: vêde esses quadros de que vos dou a gravura;
vizitae as muitas casas de amadores onde elles estão espalhados: vizitae
as exposições onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis
convencidos d'esta verdade indiscutivel.

[Figura: Rosas e Peonias--ANTONIO JOSÉ da COSTA]

Mas isso é infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com
raras excepções, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo
ter medo que os outros, só de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o
artista mora lá para Bellos Ares, tão longe do centro da cidade, que,
chegados ao seu atelier, o cançaço seria tanto que não vos deixaria vêr
com a devida attenção, as lindas coisas que elle vos mostraria.
Descançai pois que eu,--dando-vos, a traços largos, um relato da obra do
artista--vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.

       *       *       *       *       *

Para a pintura como para todas as demais manifestações da Arte é
necessario, em logar primordial, a disposição natural do individuo. Não
basta só a boa vontade. Mas quando esta se alia áquella então tem-se
realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que «querer é poder»
n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheço eu de muito
boa vontade e que querem chegar a onde vão os mestres e nunca lá chegam.
E porque? Porque lhe falta a _bossa_ artistica, a disposição natural.

[Figura: Outros tempos. (Esboço)--ANTONIO JOSÉ da COSTA]

Ora com Antonio Costa dá-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa
vontade, a intuição, a disposição natural para a pintura.

É um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar
um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do
assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, nós
temos a impressão completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus
quadros. Dous esboços acompanham este trabalho, e ambos demonstram
sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos
quadros, se elles tivessem tido completa execução.

No primeiro, que chamarei _Outros tempos_ e que tem o duplo interesse de
ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto,
taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim
Vianna, o professor João Correia, o pintor Rezende, o Brown, etc., que,
na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a
vêr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de
porta-machados e seu tambor-mór que, descendo pela rua da Sovéla abaixo
viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma
cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a
intuição caracteristica do grosso do regimento.

[Figura: No Pinhal. (Esboço)--ANTONIO JOSÉ da COSTA]

No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras
por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno é
empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali é o
mar. Mas nada d'isto está definido, nada disto está executado e, no
entanto, nós vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria
assim.

Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos é que só é
peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa é-o e em alto
grau.

Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de
saber vêr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma
cancella, d'um casebre tosco, d'um portão de Quinta, d'um _nada_, faz um
quadro que é sempre um encanto. Muitos e muitos são os seus trabalhos
n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica não acha completamente
bons, ha sempre alguma cousa, muito até, que é excelente.

Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos
nossos criticos d'arte de mais cotação no Porto, diz o seguinte a
respeito d'um quadro de Antonio Costa, _Portaes do Marão_: «É um pedaço
de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensação e uma
franca acção de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo
esta como a que melhor denuncía o seu talento por vezes desigual, com
caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos
intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...»

Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado é a
confirmação do que venho dizendo, e como na arte não é vulgar andar-se
para traz, mas sim cada vez mais aperfeiçoar-se, cada vez mais estou na
minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje é um grande
artista.

[Figura: Camelias--ANTONIO JOSÉ da COSTA]

Mas, Antonio José da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de
floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos
e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as á tela, em
pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico,
começou de nos dar quadros tão admiravelmente lindos e frescos como as
flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que
agora é.

Ha no espirito de muita gente que pinta, a crença de que as flores são
de facil execução e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de
todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a França e a
Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores,
Santo Deus!!!!

Para pintar flores é necessario ter na paleta alem das tintas fortes e
vivas... um certo quê de orvalho, um pouco de sol e uma porção de ether,
esse fino fluido que nos cerca. Ora isto é que só elle tem, só elle
possue.

[Figura: Junquilhos e Camelias--ANTONIO JOSÉ da COSTA]

As suas camellias são tão frescas e tão carnosas que temos a impressão
de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os
seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas,
parecem sair da tela em contorneações exoticas, envolvidos no tal ether
em que fallei mais acima.

E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas
como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho,
são admiraveis; parece até exalarem, em delicias, o aroma que lhes é tão
caracteristico.

Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da
perfeição...

Ao olhal-as não nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um
jardim...

Mas não são só flores que elle pinta deliciosamente. As fructas, tambem
são tratadas por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.

Conheço alguns quadros n'este genero que são um verdadeiro assombro.

Melhor do que eu porém fallam as gravuras publicadas no _Portugal
Artistico_, reproducção de alguns quadros de Antonio José da Costa.

E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista
respeitado e querido.


  1904.


[Figura: Junto ao Cruzeiro--ANTONIO JOSÉ da COSTA]



XV

EM FRENTE D'UM CARTAZ!...

CHRONICA DO "MONITOR"


Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de
desculpa.

Não appareci na ultima semana porque estive com as _maleitas_, um diabo
d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos
do Cyrne, alli para os lados do Reymão.

Pois essas _maleitas_, vieram atacar-me traiçoeiramente, como costumam,
e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em _vale
de lençoes_ a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.

Unica razão porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a
semana passada. Hoje, porém, não escapam. Estou agora fino como um pêro
e muito _bravo_.

Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, não vos
afflijaes, porque ella é de _cortiça_, como era a da _Justiça_, para
matar a _Carriça_... Ora pois, como a espada é de cortiça, não corta, o
mais que pode fazer é arrolhar. Adiante.

No alto d'este arrazoado escrevi eu:--_Em frente d'um cartaz_!...--E
sabeis a que cartaz me refiro? Não sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz
executado por Julião Machado para reclame aos festejos carnavalescos no
Porto.

--Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntarão lá de
si para comsigo os leitores?

--Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está
muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente,
um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a
desejar.

Não quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal
colorido; não, o que quer dizer é que não era aquillo que se queria.

Que se queria, não digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.

Aquillo, é um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma
pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma,
para distribuir nos theatros, ou na rua.

Finura de traço, cuidado de desenho, doçura de cores... tudo alli ha;
mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz:
largueza de traço, côres fortes e retumbantes, côres, que collocadas
pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como
trovões, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.

[Figura: Cartaz--JULIÃO MACHADO]

Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente
portuguez, que infelizmente não tem. As figuras passam n'elle como se
fossem a reprodução d'uma festa em pleno Paris---o _Boi gordo_, por
exemplo.

Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de
_lavradeira_, e lá entre essa multidão apenas um _capote e lenço_, como
que querendo fugir para fóra do traço delimitador do caixilho, talvez
embaçado de se vêr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem é.

Os nossos mascaras caracteristicos, os _chechés_, os _lavradores_, os
_bebés_, os _gallegos_, etc., etc., que davam a nota definida do nosso
carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados
n'aquella _pele-mele_ de mulheres em _maillot_, e mascaras que nós não
conhecemos.

Mas a culpa não foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella
_cocote_ fina e delicada, que o _pierrot_ leva sobre o grande bombo, a
_Folia portugueza_, e enganou-se!... A _Folia portugueza_ não é assim
tão fina e quasi ingenua, é muito mais expressiva, mais valente, de
gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de
_bombons_ ou um _bouquet_ de violetas, com ar de quem não está a estudar
posições ao espelho, despreoccupadamente...

No meu entender, Julião Machado não realisou o verdadeiro programma.

Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece:
é vêr suspensas da mão da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as
mascaras da Russia e do Japão. Não acho de grande intuição artistica
aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes nações se
degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito é que se aproveite esse
caso para que, como n'um ridiculo de troça, a _Folia_ atira sobre a
multidão que se diverte com essas duas grandes figuras.

Mas... adeante; isso nem se discute.

O cartaz ahi está! É o que o publico póde vêr! Agora, o que o publico
não pode vêr, é o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e é pena,
porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem,
comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.

No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, côres
retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.

Depois, a concepção era genial, d'um bello artista.

No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se
mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu traço
caracteristico e definido.

As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de
genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse não apparece.

[Figura: Cartaz--MANUEL MONTERROSO]

É que a commissão entendeu que devia premiar os dois e mandar executar
só um. E porque seria isto? Que entendedores fôram os que determinaram
resolução tão exotica? Porque não se fará a exposição do outro cartaz?

Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer
afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso terá dado uma prova de
favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de
amesquinhar outro. E isso não é de pessoas que dirigem um Club cuja
divisa é--_Pelo Porto_!

Que appareça o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal
como elle merece, e para que se não fique julgando que o Carnaval será
palido e desenchabido como o cartaz de Julião Machado.

E que o artista me desculpe, que eu não lhe quero mal. Venho unicamente,
como um dos mais sinceros amigos do Club Fenianos Portuenses, pugnar
pelo bom nome do mesmo e pelo interesse do meu querido Porto, que se
prepara briosamente para receber os milhares de forasteiros que ahi
virão assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.


  Janeiro de 1905.


Nota--E o Club, depois do meu repto, deixou-se ficar muito calladinho
com o cartaz de Monterroso e não o afixou. _O Janeiro_, porém, na Terça
feira de Entrudo, em illustrações do dia, deu-o em traço ligeiro. Apesar
d'isso, eu, mais meticuloso e mais pratico, aproveito esta occasião para
fazer inserir n'este logar os dous cartazes. Assim, o leitor verá a
justiça de meus dizeres e a sinceridade com que eu tracei estas
ligeirissimas linhas. Elles ahi ficam expostos e o publico que os julgue
como entender.



XVI

NA CRUZ

Quadro de JULIO COSTA


Eis ahi duas singelas palavras que envolvem um grandioso poema de dôr,
porque exprimem o final d'esse drama de soffrimento que passou Christo.

E o pintor portuense Julio Costa, com o seu muito talento artistico,
conseguiu transportar á tela todo esse sentimento, realisando um quadro
que por si só bastaria para fazer um nome, se elle de ha muito não
estivesse feito.

Esse quadro, estudado com um carinho adoravel de pintor de raça, com
seus laivos de poeta lyrico, é admiravel de execução e representa
Christo no momento em que, erguendo ao ceu o olhar,
dizia:--«Perdoai-lhes, Senhor, que elles não sabem o que fazem».

N'uma bem lançada cruz, que se destaca, em todo aquelle fundo tenebroso
da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente desenhado, e
admiravelmente tratado, um Christo que nos chama o olhar, n'uma
contemplação muda de admiração e respeito.

Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua execução? Mas para
que fazel-o, se o publico conhece bem o merito artistico do nosso amigo?

E a Camara Municipal do Porto, que parece querer agora fazer qualquer
cousa de bom a bem da arte portugueza, acaba de adquirir este bello
trabalho, para o museu municipal.

Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo quadro de
Julio Costa, hão de reconhecer que a apreciação que d'elle faço nada tem
de exagerada.

[Figura: Na Cruz--Quadro de JULIO COSTA]


  1902.



XVII

AMADORES PORTUENSES

D. MARGARIDA RAMALHO

Discipula de JULIO COSTA


Tendo que traçar algumas ligeiras palavras, para as Notas d'Arte, a
respeito d'uma senhora, que, como amadora, se torna notavel na pintura,
devo pedir venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar
esta pagina. Depois, respeitosamente, com um certo ar á Antiga, pondo um
pé atraz, fazer uma reverencia o mais gentilmente que possa, e
estendendo a minha forte e grossa mão de trabalhador honesto, pegar
levemente nos dedos finos da delicada mão d'essa senhora, e levando-a
fidalgamente aos labios, beijar-lh'a, pedindo-lhe licença para lhe
dedicar duas phrases desataviadas, n'um pequenino artigo sobre o seu
valor como amadora de pintura.

Ella, sorrindo, naturalmente dirá que sim, e então eu começarei a
escrever, cheio d'aquelle doce encanto que nos vem d'esses olhos vivos e
d'um rosto lindo.

[Figura: D. Margarida Ramalho]

E que isto vá sem ar de madrigal, porque estou velho de mais já para
isso, e muito especialmente porque eu já não sou só... Adeante!...

Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos de estylo.

Dentre a multidão enorme de amadores de pintura, multidão cujo calculo é
impossivel fazer, ha alguns, não muitos que merecem especial menção, e
que devem passar n'estas simples Notas d'Arte ao lado dos verdadeiros
artistas, como affirmação de que o talento, acaba por não distinguir uns
dos outros.

Não pense o leitor que eu vou transplantar para aqui, todos os amadores
de talento que ha na cidade da Virgem. Isso seria impossivel.

Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos para os
outros.

E a aprezentação d'estes amadores, visa a dous fins:--animar os alumnos,
na esperança de se verem glorificados um dia publicamente, em lettra
redonda e excitar os professores para que desde que encontrem nos seus
discipulos aptidões para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os
obriguem a destacar-se no nosso meio artistico.

Não devem portanto, os que não apparecem n'este livro, vêr da minha
parte, n'esta falta, o desejo de os não notar. Não, não é assim; é que
nos limites d'este volume não cabem todos, e por isso só aqui aparecem
aquelles com quem mais em contacto estou e de quem mais de perto conheço
as obras.

Se algum dia porém eu voltar a publicar outro volume como este, então
dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e alli apparecerão todos os
amadores, que o mereçam, está bem de ver.

E, não me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes para os
amadores da pintura, sem me lembrar, quasi, que tinha que dedicar estas
paginas a uma senhora?

Queira V. Ex.^a desculpar, minha senhora, e entremos no nosso assumpto.


--Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora, que de ha muito
conhecia de nome?

Vou explical-o.

Ás noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo Julio Costa e
discutimos muitos e variados casos. Entre essas conversas muitas vezes
nos entretemos a fallar de Arte. N'uma d'essas occasiões, discutindo
aptidões de alumnos, Julio Costa fallou-me largamente d'esta sua
discipula, que mostrava uma disposição especial definida para a pintura.

Era, não uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples bibelotagem
d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar, queria ir para deante.

Julio Costa afeiçoou-se a esta discipula e dedica-lhe uma especial
estima.

Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares entre nós,
disse-me Julio Costa:--Você sabe, Lemos, fallei em si e na conversa
d'hontem á minha discipula de Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que
você tinha de visitar o seu pequenino atelier.

--E ella que disse?

--Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe dito que tinha
vontade que você visse os seus trabalhos, para immediatamente consentir;
que eu, como professor, não lhe teria fallado n'ella, se não visse que
ella tinha qualquer pequena coisa que merece apenas só vêr-se. E,
confessava-me o Julio Costa: dizia isto tão cheia de modestia tão
encantadoramente, que você deve lá ir e muito breve.

--Pois vou lá no domingo. E fui. Era meio dia, quando me apeei do
electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo á porta da caza onde mora D.
Margarida Ramalho.

A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada um pouco acima
do nivel da estrada, circundada por um jardimsito bem tractado e onde se
ostentam bellas flores.

Das janellas desfructa-se o rio Leça, que indolentemente se espreguiça,
n'um _dulce far niente_, até desaguar lá ao longe no mar, em Leixões. E,
quasi em frente das janellas, na alameda, entre a frondosa ramaria das
arvores, a figura de Passos Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de
resignado ante a aluvião de zangãos, que por este tempo de verão se
encarregam de zumbir de volta d'elle, como os _Passos_ d'hoje zumbem em
volta da sua _Memoria_.

Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico e ao olhar para
aquella figura, fiz estas mesmas considerações.

Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente á porta. Veio
abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro acastanhado.

Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu cartão de visita.

Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia passar á sala. Entrei.
D. Margarida não se fez esperar. É uma senhora nova, baixinha, magrinha
e muito loira, interessante como um lindo _biscuit_. Recebeu-me o mais
amavelmente possivel. Peço-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio
Costa tinha me fallado d'ella com tanto interesse, que tinha
immediatamente feito nascer no meu espirito de admirador do bello,
procurar ensejo de ir ver os seus deliciosos quadros.

Eram favores, do seu professor, dizia ella. Mas já que tinha vindo então
sempre ia mostrar-me os seus trabalhos.

Entrei no atelier, um recantosinho alegre onde ella estuda os seus
assumptos e onde os põe em execução, depois de ter em pleno ar livre,
feito os esquissos e os precizos estudos.

[Figura: Castanheira--D. MARGARIDA RAMALHO]

É no atelier que ella tem os seus melhores trabalhos, pousados
artisticamente pelas paredes, todos elles com magnificas qualidades de
côr.

Aqui, é um quadro representando uma rapariga á porta d'uma taverna, com
uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro, castanhas já assadas, e n'um
cesto ao lado maçãs. No fogareiro da assadeira ainda restos de lume. A
rapariga, d'uns doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer
dourado. Uma expressão dolente, um ar pensativo e triste, talvez, quem
sabe? com receio de que não appareçam freguezes e ella tenha que levar
tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem. Por detraz d'ella, vê-se
uma grande pipa já vazia, no fundo escuro. É um quadro bem tratado,
cheio de um intimo sentimento. Alli, uma _Cabeça de velho_, de barba
branca amarellada e chapeu largo, é verdadeiramente interessante, feito
com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se, que se a
aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia fluente e suave.
Mais alem, n'uma boa e sã frescura, de moça sadia, uma _Rapariga de
Villar d'Andorinho_, com o seu typico chapeu de maçanetas pretas,
irradia vida e côr.

Outros mais ainda, mas como nota final d'este recinto, um delicioso
quadro que intitularei _Volta da fonte_. Uma rapariga muito esguia e
muito fina desce uma rampa trazendo ao hombro um cantaro cheio de agua e
isto por um sentimental fim de tarde.

Em todos estes trabalhos se denota uma perfeita orientação, um serio
estudo. Vê-se que D. Margarida Ramalho não é uma amadora vulgar, que se
atira inconscientemente a executar a pintura, sem primeiro a ter
estudado conscienciosamente. Alli ha valores, tonalidades, tons e meios
tons, perspectiva, desenho, arte emfim.

[Figura: Cabeça de velho--D. MARGARIDA RAMALHO]

Saí do lindo atelier depois de demorada vizita, e de agradavel conversa
por onde pude concluir que havia já 7 annos que estudava. Subindo a
escada, no patamar encontram-se os seus primeiros estudos em dezenho,
dos quaes destacarei como mais notaveis um _Perfil de Mulher_ e uma
_Cabeça de expressão_, de guerreiro. A todos esses trabalhos liga esta
amadora uma especial predileção. A convite da illustre amadora entrei
depois no seu _boudoir_, cheio do mais profundo respeito. Este quarto,
mobilado com simplicidade, mas fino gosto, mereceu a minha attenção
porque as suas paredes são decoradas delicadamente pela sua habitante.

N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida Ramalho,
entendeu e muito bem, que no seu quarto de dormir ella devia reunir e
patentear aos seus olhos alguma coiza que saindo do seu esforço
artistico constantemente lhe desse um doce effluvio emotivo e agradavel,
e então traçou em largos _panneaux_, com os seus finos pinceis,
deliciosas artemizias e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro
encanto. Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como um
vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou uma linda
composição d'aquellas bellas flores--bons dias e boas noites, dentre as
quaes pende um formozo Christo de marfim.

Quando o quarto estava completamente pintado, D. Margarida pediu ao seu
professor que lhe pintasse alli qual couza que podesse, dizia ella, dar
um ar de grandeza áquellas pobres flores. E Julio Costa, querendo ser
agradavel á sua discipula porque vê n'ella uma verdadeira fanatica da
Arte, e muito e muito a estima, pintou então n'um vão escuro da janella,
um _Fim de tarde_. Numa larga planicie arida e muito extensa, lá ao
fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem
fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.

E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella é uma
timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma
indiscriptivel duvida sobre o seu poder executante d'obras de largo
folego.

Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores e ella, como que
se alterava, quando eu lhe dizia, que a achava com forças de tentar
obras assim, e só me respondia: Está enganado, eu sei lá fazer tanto!...
E apesar disso os seus trabalhos demonstram bem o contrario.

É vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe um assumpto
para tractar, ella dizer-lhe: Eu não faço isso, porque é muito difficil,
muito difficil. Depois, principia a desenhar cheia dum grande escrupulo,
sempre com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho e
depois a pintura em equilibrio muito estimavel e mesmo muito notavel.

E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte e é uma doce
adoradora do Bello.

Não se atreve ao mais difficil, sem consideração, sem respeito, treme
ante o mais modesto e o mais singelo trabalho, e por isso consegue ser
notavel entre os amadores de pintura.

Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me, quando ao passar
pela sala de visitas notei um bello piano. Atrevi mais uma
pergunta:--Era ella tambem a amadora?... Era, e executando com talento.
Rogada então para se fazer ouvir, descerrou o piano, passou suavemente
os dedos pelo teclado e soltou lá de dentro um primoroso _Nocturno de
Chopin_, que me deixou no espirito a nota viva do seu grande amor á
Musica. D. Margarida é uma _virtuose doublé_ de pianista e pintora.

Disse-lhe adeus, e ao saír para tomar o electrico que me trouxesse ao
Porto, abençoava o Julio Costa, que tinha conseguido que eu passasse
duas horas deliciosamente.

[Figura: Impressão de Paris--CANDIDO da CUNHA]



XVIII

Novos quadros de ARTUR LOUREIRO

I

NO SEU ATELIER do PALACIO de CRYSTAL


Os quadros que n'este momento se acham expostos no _atelier_ do delicado
artista Arthur Loureiro, devem ser vistos com attenção, porque esses
trabalhos fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. Não são
como certos quadros que precisam para serem comprehendidos uma intuição
especial e definida. Não, nas telas de Loureiro logo nos resalta clara e
ridente a verdade, tendo o grandioso merito de se incutirem no nosso
espirito pelo espectaculo de linhas e de côres harmoniosas, de leves
sensações, lembranças e sonhos que se misturam pouco a pouco com o
prazer da impressão visual.

[Figura: ARTHUR LOUREIRO]

Arthur Loureiro, inegavelmente, é um grande artista, e embora alguem não
goste d'isso, é d'aquelles que aferrado ao seu trabalho lucta lealmente,
sinceramente, na ideia firme e correcta de mostrar que sabe e que tem
fundos recursos para grandes e luminosos emprehendimentos.

Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico, não é d'aquelles
que preferem o aroma resinoso dos bosques e o perfume das flores, na
doçura d'um crepusculo, na hora em que a nossa alma sobe tristemente ás
regiões do ideal, e que os objectos se descoram e a paisagem toma uma
attitude recolhida e quieta!... Não, elle verdadeiro filho do norte,
onde as raparigas, vermelhas como romãs e os rapazes, valentes como
heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz, n'uma musica
altisonante e harmoniosamente alegre, elle, ama mais o grande sol de luz
intensa e forte e o sussuro que nos dá a nitida impressão da vida e do
trabalho.

E tudo isso se vê nos seus quadros, n'esses cincoenta trabalhos
expostos, que são, como já o disse um meu collega da imprensa, como que
provas definidas para um concurso de Arte. Com aquelles documentos,
Loureiro affirma que em todos os generos de pintura é um mestre. No
retrato, na paisagem, na marinha, no estudo d'animaes, no genero
decorativo, em todos elles o nosso artista se nos apresenta
verdadeiramente grande. E senão, á _vol d'oiseau_, rapidamente, vejamos:
_Os tigres_ que anatomia e que correcção; como se desenha tão nitida e
tão visivelmente o traço de todo aquelle animal n'uma postura molle de
traição e de força. Como vemos através d'aquelle olhar felino e do
aveludado da sua garra, a indole perversa que d'elle se acolhe. E com
que verdade estão tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um
outro, que por traz do que está no primeiro plano, parecem fitar o
espectador, na esperança de filal-o, n'um salto rapido e traiçoeiro. É
inegavelmente um d'estes trabalhos que só por si fazem o nome laureado a
um artista.

_Estudo decorativo_. Simplesmente soberbo e encantador. Entre flores,
envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e lucido, sae como uma
deslumbrante rosa, toda viço e frescura, uma linda creança, encantadora
e meiga como um anjo, tendo na mão uma haste de flores-_saudades_. N'um
fundo rutilante de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manhã de
Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e como foi
executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam as manhãs claras do
sol e os rostos lindos das raparigas, foi a que concebeu aquelle quadro
e que o executou. Nada mais...

_O retrato do Chico Anthero_.--Perdão, doutor, tratal-o assim, mas,
francamente, quando olhei para o seu retrato não pude respeital-o e
pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas historietas. Não contou, mas é
tal a semelhança, tal a expressão, tão seu aquelle modo e tão
psychologicamente estudado aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a
larachear e a rir. É um primor de execução, é um assombro de correcção.

[Figura: Retrato de Sá d'Albergaria--Pintado por ARTHUR LOUREIRO]

_Retrato do dr. Julio de Mattos_.--Bello trabalho feito na largueza
subtil d'um quadro d'arte, não com a preoccupação d'um retrato para
galeria de definidores da ordem terceira, mas um retrato intimo, que
temos no nosso gabinete de trabalho, ou no nosso quarto, retrato para
nós, para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal é o retrato do dr.
Julio de Mattos, que incompleto como está, já mostra que ha-de ser um
quadro tão bello, tão bem feito como o do _Chico Anthero_.

_O retrato do dr. Magalhães de Lemos_ tambem é um bello trabalho.

Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como Loureiro lhe
chamou, mas que são dous primores. Loureiro adoptou para os seus
retratos uma fórma e um tamanho especial o que lhe dá uma gracilidade
gentil e meiga, deixem-me assim dizer.

Em quanto á _Paisagem_ muito teria que dizer se podesse alargar este
artigo, mas como me não é possivel n'este momento, limito-me a fallar
dos seguintes quadros:

_Rua do Meio_.--Da vulgaridade d'uma rua, com casas de um lado e
d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro a habilidade de
fazer um dos seus para mim mais interessantes quadros.--E porque?
perguntará o leitor. Outro qualquer o faria...--Mas não fazia. Para isso
é preciso saber-se vêr e vêr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e
transplantal-as para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde se
conclue que aquella rua não é como não é uma coisa chata, sem relevo.
Aquella rua é um quadro e dos mais interessantes.

_Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla, Alto de Santo
Antonio, Barra de Caminha_. Tudo isto são retalhos sublimes da natureza,
que Loureiro transplantou á tela com uma verdade flagrante e uma
technica segura.

Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo apenas uma leve
consideração. Ha no nosso Muzeu quadros de quasi todos os pintores
portuenses, mas não vimos ainda lá nenhum de Arthur Loureiro. Agora,
como nunca ha occasião para que a Camara do Porto, que parece se
interessa um pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro
a Loureiro para o Muzeu Municipal.

E porque não ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois quadros que estão
a pedir transplantação para logar, onde todos os possam apreciar
condignamente e são: os _Tigres_ ou _Por montes e vales_.

Cumpre á camara do Porto este dever de gratidão para com o artista
distincto, que após 20 annos de ausencia, volta a Portugal cheio de Arte
a glorificar-nos com os seus trabalhos.


II

ARTHUR LOUREIRO e os seus discipulos


Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que saber que ainda ha,
quem, dentro da esphera da Arte, tenha iniciativas e emprehendimentos de
coisas uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos
lucros, unica e exclusivamente pela Arte.

Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia de artistas, homens
de lettras e amadores, tentaram crear no Porto uma sociedade de Arte,
que infelizmente, como todas as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se;
digo mais, morreu de morte affrontosa ao nascer.

Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e Conferencias, que
parecia vir dar a nota correcta de que as exposições d'Arte seriam
verdadeiros concursos de trabalhos definidos de artistas, tambem me
enthusiasmei, porque imaginei que, com os elementos de que elle dispunha
poderia fazer muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha
feito alguma coisa.

Apparece depois um sr. Magalhães, que não conheço, em communicados nas
gazetas, a dizer verdades amargas a respeito do Palacio de Crystal e a
reclamar para aquellas duas alas lateraes, que foram em tempo bazares,
escólas de pintura, de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o
aproveitamento d'aqnelles dois esplendidos _atelieres_ em alguma coisa
de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o sr. Magalhães
dizia, ficaram perdidas como perolas em chiqueiro de porcos, porque a
gerencia do Palacio de Crystal achou mais util tel-os assim vasios, do
que aproveitados em _qualquer coisa_... Assim, podia em noites de
_spleen_, passear n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropeçar em
qualquer coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do
que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa idéa, como era boa,
morreu, n'um significativo desprezo por parte dos interessados no
rejuvenescimento do Palacio de Crystal.

Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que todos nós
conhecemos, pelo seu talento, e lança a idéa de uma escóla d'Arte, tal
como ellas são no estrangeiro. Lucta com mil difficuldades ao principio
para poder realisar o seu plano, e eu ao saber do seu emprehendimento
todo me enthusiasmo um momento, para pensar logo em seguida que a sua
idéia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal não succede;
Arthur Loureiro se no fundo é um bom portuguez e um genuino portuense,
vem saturado d'essa convivencia de vinte annos com os inglezes, gente
que tem tanto de aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa
esplendida orientação Loureiro cria a sua escola de pintura para
senhoras e não desanima, confiado em que querer é poder. E hoje é elle o
unico artista que, no nosso meio, realisa este grande melhoramento, em
prol da Arte: ter uma escola onde vão os seus discipulos, n'uma
confraternisação artistica, tomar as sábias lições que elle lhes dá com
a sua proficiencia e saber.

E, com que arte, e com que cuidado, elle soube transformar uma sala fria
e desconfortavel n'um _atelier_, que se não é um _especimen,_ é no
entanto um delicado recinto onde o gosto decorativo do artista se casa
perfeitamente com a severidade das paredes, onde pousam como
scintilantes fulgurações de genio, trabalhos, estudos e composições do
professor, de mistura com gessos de estudo.

[Figura: Retrato do dr. Francisco Anthero--ARTHUR LOUREIRO]

Fui ha dias ao _atelier-escola_, precisamente no momento em que
terminavam as lições e as alumnas, fulgurantes de mocidade e alegria,
saiam n'um chilrear que encantava. Os cavalletes, espalhados pelo
_atelier_, eram como sentinellas que ficavam guardando os logares das
discipulas. Passei-os em revista, cheio de curiosidade e de interesse em
notar n'aquelles esboços as disposições de quem os tinha executado.
Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes como
garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto desenham, vão
tendo noções do que é a perspectiva pratica.

Mais além, estudos de fructas e flores, e entre esses os d'uma discipula
que compõe e applica aos tecidos as flores e os fructos que desenha e
que pinta do natural.

Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega, romana e
renascença... Mais além, cópias flagrantes a oleo, dos modelos vivos e
dos costumes populares portuguezes.

Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os alumnos não copiam
os seus trabalhos de modelos que veem de França ou da Allemanha ás
grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noções
de traços e linhas, até aos intrincados problemas da perspectiva, sós
por si, apenas com as indicações do professor.

São tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos
executam em casa, após as lições, e que são documentos irrefutaveis do
bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.

Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com
48 lições apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos.
D'este discipulo, já eu tive occasião de fallar, quando em tempo
dediquei duas linhas a uma exposição que Loureiro fez e em que
appareceram alguns estudos d'elle.

Ha tempos, porém, quando visitei o _atelier-escola_, tive uma boa
occasião de vêr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a
oleo do gesso, correcta de execução e de desenho e mais uns trabalhos
que elle fizera fóra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela
praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma paisagem delicadamente
pintada e superiormente estudada e desenhada, não fallando n'um
interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto
muito de flores, e aquellas estavam tão frescas, que me fizeram uma
magnifica impressão.

É elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais
brilhantemente poderá affirmar o que se tem dito de Loureiro: que se é
grande como artista, não o é menos como professor.

Mas, voltemos á escola. Tem ella sobre todos os outros _atelieres_ a
grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a
primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, cá para
fóra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas
as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se
disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e
bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, não sem largas e
complicadas difficuldades, que felizmente elle vê cobertas de bom
resultado, se bem que com pouco interesse.

Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao
professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do
Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util,
em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.

E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma
coisa do que umas _reles exposições de flores e aves_ e do que umas
_festarolas de arraial_ com _musica do Zé da Gaita_ e _fogo d'artificio
do Devezas_!...

[Figura: Tigres--ARTHUR LOUREIRO]


III

ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes


Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da _Voz Publica_, alguem, que eu
não sei quem é, veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria
ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.

Achei tão acceitavel e tão util para a Academia essa ideia, que n'este
momento em que me tenho de occupar da sua exposição de quadros, entendi
dever acompanhar na sua propaganda quem tão desinteressadamente a
apresentou. Não é que eu venha a campo combater afincadamente em favor
d'este artista, não, venho só como mero espectador do grande palco da
vida applaudir quem soube apresentar a ideia.

Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas
academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional,
resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.

Não foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no
estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor não é uma mera
galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma
coisa mais pratica e mais definida do que entre nós.

Voltou tarde á patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto
dizer, que elle vem mais senhor do _metier_ do que aquelles que
meramente se demoram lá por fóra uns tres ou quatro annos. É certo que
muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais
vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle não.

Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no
exuberantemente os cargos que por lá occupou distinctamente, taes
como:--examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e
director e professor de 1.^a classe dos cursos de Dezenho e Pintura do
Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.

[Figura: Só no mundo--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]

Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam
é o que o seu nome era ali conhecido e que estava á altura de occupar
esses logares com toda a hombridade e todo o saber.

Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado
para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem
d'arte.

Concorreu a muitas e variadas exposições, onde os seus quadros foram
sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como
primordiaes a Exposição Religiosa da Belgica onde o seu quadro, _A Visão
de Santo Stanislau de Kastka_, foi acolhido com enthusiasmo por toda a
critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico
religioso, l'Albé Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a
convite, á Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com
diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de
Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.

Vê-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e
muito, lá fóra, como um verdadeiro artista que é.

Estou d'aqui a vêr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas
minhas despretenciosas notas, mas não são ellas mais do que o desejo de
provar que o homem está á altura de occupar um logar de professor na
nossa Academia.

Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu
saber artistico, ellas serão convincentes.

Se elle é um grande artista, não é menos um grande trabalhador,
incansavel; trabalhando, quer em quadros para expôr e vender, quer dando
lições áquelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu
_atelier_, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo _atelier_ já
por varias vezes tive o prazer de visitar exposições organisadas por
elle.

Ali me mostrou elle que embora longe de nós por tanto tempo, não se
deshabituara das côres e da luz da nossa boa terra. Não veiu inebriado
com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da França, nem com o vermelho
violaceo da Italia.

Veiu isento de escolas, preoccupando-se só com o que via na natureza tal
qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava
rutilantemente no espaço, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a
atmosphera e a paisagem que pintava.

Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim,
um paisagista perfeito e definidamente portuguez.

Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposições, e que eu saiba,
ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos
foram á uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser
sincera e justa, não teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle senão
que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na
Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os
professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia não
seja para largas manifestações.

Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposição.


No _atelier_ de Arthur Loureiro, ha um não sei que de conforto que nos
prende. Sob a sua direcção tem-se transformado aquella fria sala n'um
bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente
bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial _cachet_ de
galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.

Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.

Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo é _De
aldeia em aldeia_ e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:


  Sob a cruz pesada e feia
  Da miseria que a consomme
  Corre _d'aldeia em aldeia_,
  Na Via-sacra da fome.


[Figura: De aldeia em aldeia--ARTHUR LOUREIRO]

É um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma
velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho
encharcado. Que correcção e que luz, verdadeira obra prima que um grande
mestre não se envergonhará de assignar.

_No pinhal_. É um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a
sua coma dum verde _foncé_, que parece sussurrar com a aragem que passa.

_Mar agitado_. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez
d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.

_Vaga quebrada_. É um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como
champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor está pintada essa
molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um
obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!

_Retrato de G. Nogueira_. Este retrato é um primor de parecença e de
trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo; é uma obra
prima.

_Nevogilde_. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito
nossa.

_Padeira de Avintes_. É um delicioso estudo dos nossos costumes
populares. Modelo gracil e airoso como são todas as nossas lavradeiras,
correctamente desenhado, primorosamente pintado.

_Barcos_. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece
boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul
transparente e bom.

Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria;
alguns estudos de desenho, cabeças rigorosamente estudadas nos seus
claros-escuros.

E esta exposição não está a abarrotar de exemplares, mas toda ella
comporta coisas lindas e boas.

Ao sahir d'ali, vem-se sob a impressão sincera de que tudo aquillo é
nosso, e muito nosso.

Vem-se tão bem disposto, que se fica com o desejo de lá voltar muitas
mais vezes.

[Figura: Paisagem--ARTHUR LOUREIRO]

[Figura: Flora--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]


IV

Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO


Eu já disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o
repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu
talento. Os seus quadros são _bucolicas_ de côr e de luz. Ha-os que são
como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que são verdadeiros poemas. As
pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua côr e a sua luz
d'aldeia, são como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho
campestre.

Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria,
ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio,
desforrar-se d'aqui não ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal
desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos,
até ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra é como que o grito
sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo á casa paterna.
E que foi elle senão um filho prodigo da Arte, que andou por terras
estranhas a expandir o seu talento em grandes manifestações, e que ao
voltar, um pouco abatido da grande lucta, nos mostrou que, se alguem o
julgava já um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime
enthusiasmo por tudo o que é nosso, por tudo o que era portuguez, desde
as suas paisagens até aos seus homens.

E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.

Antes porém de entrar na enumeração dos seus trabalhos ahi vae uma
opinião.

Na occasião em que eu visitava a exposição entravam ali um grande pintor
portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um
grande actor francez (Coquelin Ainé). Pois estes tres cavalheiros
insuspeitos para todos, depois de larga apreciação aos trabalhos
expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito está no atelier
_A Primavera_, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resôa no
estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse
que se admirava que aquelle quadro ainda não tivesse sido adquirido para
o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.

Tambem eu teria soltado o meu brado de admiração, se não soubesse que o
Estado e as Camaras não teem dinheiro para essas cousas, e só o teem
para _festejos balofos_, para _comesainas opiparas_ e para _bolos_
rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no
Porto é talvez mais parca do que a do mais pequeno amador. É uma
vergonha!!...

[Figura: Pinheiros--ARTHUR LOUREIRO]

Adeante, que vamos gastando muito tempo com considerações philosophicas.

Pois os quadros expostos de Loureiro, são 17 novos e uns 8 já vistos.

Dos antigos nada direi senão que são soberbos, dos modernos, d'esses
alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta
profundamente. É _O Pinhal_!... Um dia ouvi dizer a alguem que o
pinheiral era um motivo que não dava nada na pintura, pela sua fórma,
pela sua côr e pela sua uniformidade. N'essa occasião, não me quiz
manifestar, eu não sou pintor e não queria cahir em erro deante de quem
tinha obrigação de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, cá para
mim mantinha a minha opinião formada; o pinheiro presta-se á pintura, a
questão é sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro
_Pinhal_ veiu completamente preencher a minha modesta opinião. Alli,
n'aquella tela esguia, sob a correcção impeccavel de desenho, erguem-se
uns pinheiros, que parecem balançar sob a pressão do vento que passa
assobiando na sua ramaria.

A _Feira Nova_--É uma delicada _pochade_ verdadeiramente caracteristica
do que são as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que
se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de
lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros
a vêr o que ha alli para vender.

A _Carvalheira_--Uma larga arvore de folhas amarellecidas que começam a
cahir sob o ventinho frio do inverno; é deliciosamente estudada.

E a _Desfolhada_, e a _Estrada do Gerez_ (sob a chuva), as _Alminhas_ e
o _Caminho de Besteiros_--e todos elles, emfim, como são tão
verdadeiramente nossos, tão sentidamente portuguezes, verdadeiramente
minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.

Entre as tres _cabeças de estudo_, ha duas de uma velha, que são um
encanto. Traçadas na meticulosidade de pormenores, são feitas largamente
com pulso de quem é um verdadeiro artista.

Além dos trabalhos do mestre, que são como sempre magnificos, tomando
uma das paredes do atelier, estão os trabalhos do discipulo, do snr.
Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com
Loureiro, desenho e pintura.

Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o
trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu,
que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros,
sempre lhe quero dispensar duas linhas.

Manuel Lucio é um rapaz da nossa fina sociedade, que todos nós
conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.

Durante muito tempo julguei-o um _bon vivant_, dedicando unicamente o
seu espirito ao talho d'um _veston_ ou ao feitio de uma gravata. Um dia,
porém, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escóla encontrei lá
este cavalheiro dando lição de desenho. Acabada a aula, Loureiro
mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica
que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:--são
feitos pelo Lucio, é um rapaz de habilidade.--E de facto os desenhos que
elle apresentou, revelavam uma certa disposição para a Arte.

Passaram-se tempos, o mestre foi para fóra e ao voltar encontrou-se em
frente d'um discipulo que lhe dá honra, porque Manuel Lucio, dotado
d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem
trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas
indicações do professor o que muitos com idas ao estrangeiro não tem
conseguido.

Quatorze são os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de
Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a
lapis.

[Figura: D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro]

Entre os desenhos notarei _O Contador_, que é uma prova irrefutavel do
modo como elle interpretou as noções de perspectiva indicadas; na
pintura a oleo notarei os _Cravos_ e um retalho de paisagem, onde as
côres e os tons estão bem achados, resaltando os planos da chateza
vulgar, propria dos estudos de amadores.

Aonde porém eu admiro a disposição artistica de Manuel Lucio é nos
pasteis, especialisando uns _Effeitos d'agua_, um _Poente_ e um _Ceus
nublados_.

Innegavelmente o discipulo dá honra ao mestre e o mestre deve estar
orgulhoso por ter achado, quem tão bem tenha sabido comprehendel-o e tão
sabiamente aproveite as suas indicações. E recebam os dous, mestre e
discipulo a sincera expressão do meu applauso.


  1903 a 1904.



XIX

AMADORES PORTUENSES

MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR

Discipulo de ARTHUR LOUREIRO


O Arthur Loureiro é um velho rapaz, pintor d'alma e coração, trabalhador
infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima
de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.

[Figura: MANUEL LUCIO no Atelier de ARTHUR LOUREIRO]

Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e
especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de
cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier.
Appareço alli por volta da hora e meia. É quando elle acaba de dar lição
ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda lá está
dentro, com a sua _blouse_ vestida, paleta em punho, dando as ultimas
pinceladas no modelo que copia.

Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava já limpando os
seus pinceis e a paleta para se ir embora.

Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfação.

Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse tão
sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar
na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...

--Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de
conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fôr soará, pensei,
porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, não occulta por muito
tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...

Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a
porta por onde saira:--É um discipulo que me ha-de dar honra, podes
crer... Tem bastante disposição e é muito applicado... Ha-de dar muito
se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura não se aprende
em dous dias.

Queres vêr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca,
saccou de lá de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo,
dizendo: são d'elle.

Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe
das vistas do professor, mas sob a orientação e as lições que o Loureiro
lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.

Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos
que n'esse dia o discipulo trouxera á sua apreciação, a boa vontade, a
applicação e a disposição natural de que elle era dotado, que Loureiro
alegremente se sorria.

E elle tinha razão. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um
balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas
talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas,
onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e
muito lustrados, não era o que eu pensava.

Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de _enfant-gaté_, ou, como eu
costumo dizer portuguesissimamente, _menino bonito_, e sentia-se por
elle um quer que fosse, que obrigava a pôl-o, com uma certa reserva, na
devida distancia a que se põem sempre os infatuados, que não valem nada
e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle
que eu fazia; reconheço agora que não o conhecia, e nunca lhe tinha
encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de
sobre-aviso a seu respeito.

Hoje, porém, ponho de parte essa opinião errada que d'elle fazia e isso
porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse
discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola d'Arte, que o
bom Loureiro tem no seu interessante atelier dos jardins do Palacio de
Crystal, e como o reconheço digno de ser notado entre os amadores que
n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de
incitamento, para que não esmoreça na empreza da Arte em que o seu bom
gosto e as suas disposições artisticas o metteram. Não pense, porém,
Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; não, vou
rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de
elogio merecido e sincero.

[Figura: Marinha--MANUEL LUCIO]

Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e
fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas
visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposição de
trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o
discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias
lições. Comecemos pois.

Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de
pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava
desenvolvendo entre as _madames_ para esta manifestação de Arte, viu
entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle
quereria dar-lhe algumas lições de pintura. Loureiro immediatamente se
promptificou a isso, mas sob condição que elle deveria começar por onde
todos devem começar, pelos rudimentos de desenho. Só n'essas condições o
poderia acceitar como discipulo.

Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber
que o pouco que tinha estudado com um _soi disant_ de nada lhe valia e
logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.

Ao principiar estas lições, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel
boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa
mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente
de parte as noções que recebera de um insignificante professor, que
d'isso só tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade
completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instrucções que
Arthur Loureiro lhe ia dando.

E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos até á perspectiva,
e isto por longas lições, sem nunca dar mostras de cançaço ou
aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traçar
firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que
copiava.

E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo
a fóra dos esboços que fez para os seus quadros.

Depois de ter desenhado muito a lapis e a carvão, copiando gessos e
modelos, entrou então no desenho a côres, (pastel) e fez a paisagem e a
figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal
desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, não só do
seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns
entendidos.

Após isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a
conceituosa informação de Loureiro, lançou á tela flores que estudou em
todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos,
rendilhados e lambidos quadros.

Não, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois
nos tons e nos valores que ellas deviam ter.

E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, lá
por fora, sósinho, apenas com as sabias noções recebidas tentava a
paisagem a oleo.

Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou
umas gravuras.

Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita
consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente,
como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco
n'uma exposição de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle lá
estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram
verdadeiramente maravilhosos de côr, de luz e de verdade, e 9 desenhos,
provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.

Mas Manuel Lucio não é só um amador de pintura consciencioso, é tambem
um burilador de litteratura _hors ligne_ e um entendedor de coisas
d'Arte. Deve-se á sua pessoa o prefacio do Catalogo da 1.^a Exposição de
Alumnos no Atelier-Escola. N'esse prologo o nosso perfilado discorre
sabiamente sobre as vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar.
São uma serie de considerações bem feitas e profundamente estudadas, que
dão a verdadeira orientação do seu modo de pensar e proceder n'este
genero de _sport_ artistico em que se metteu.

Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um bello amador, um
cavaqueador agradavel e um conhecedor cheio de saber.

Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo de Arthur
Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao professor.


  1904.


[Figura: Barra, Foz do Douro--MANUEL LUCIO]



XX

UMA EXPOSIÇÃO DE QUADROS

do Instituto de Estudos e Conferencias


No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura entre nós, o
Instituto de Estudos e Conferencias, realisou no pateo da Misericordia
mais uma outra exposição. É pois d'este certamen artistico que me vou
occupar n'este rapido artigo.

Fui lá, quando a exposição era vedada ao publico. Unicamente ali tinham
entrada os socios do Instituto e os delegados da imprensa, e por isso
muito á vontade me demorei por lá umas duas horas a analysar.

Só o quadro de Sousa Pinto me reteve boa parte do tempo. Que aquillo é,
para mim, o que se chama o requinte da perfeição.

[Figura: Sousa Pinto]

Não abalançarei opinião sobre tal trabalho, porque me julgo
infinitamente pequeno para discutir obra tão magistral.

Sousa Pinto, tem o seu nome feito, nome glorioso que se impõe lá fóra,
nos grandes centros artisticos, como o _Salon_, onde os seus quadros são
recebidos com toda a consideração e premiados com as melhores
recompensas. E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da Arte,
essa critica que é indomavel como a justiça, tem dito que elle é um
grande, um superior pintor. Gloriosa coisa é por isso, para nós,
podermos admirar hoje na nossa despretenciosa exposição um trabalho de
tão requintada perfeição como o _Ferreiro_ de Sousa Pinto. Portanto,
antes de entrar na enumeração dos trabalhos expostos, consinta a
direcção do Instituto de Estudos e Conferencias que a felicite por ter,
como vulgarmente se diz, mettido esta lança em Africa; porque Sousa
Pinto não quer sujeitar-se á critica portugueza, e n'estas condições
foge de apparecer nas nossas exposições.

Mas não nos demoremos mais, sigamos para diante, que eu vim para lhe
fallar do conjuncto da Exposição, e não só de um artista.

[Figura: JOSÉ de BRITO no seu atelier]

Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.^o 1 o snr. Almeida e
Silva, que desta vez me convence de que é um artista. Eu estava mal
impressionado com elle, os seus trabalhos, talvez por muita
meticulosidade de acabamento e pelo recortado das figuras e dos
assumptos, tinham o quer que fosse de oleographico. Mas, n'esta
exposição, elle vem mais pujante de execução, mais artista. E em
qualquer dos generos em que se apresenta mostra aptidões definidas.
Entre esses trabalhos destacarei: _O Rio Pavia no Outomno_, _Manhã
d'Outubro_, _Veterano de Ormuz_, _Tranquillidade_, _Retrato do snr. D.
Diogo d'Almeida_ (Reriz). Ha mais alguns quadros, mas esses são
inferiores.

[Figura: Crepusculo Matutino--CANDIDO da CUNHA]

Segue-o José de Brito, com dous retratos a oleo de que não gosto nada.
No entanto noto o _Retrato de Antonio Ramos Pinto_, a pastel, que é
muito bem feito, e as aquarellas, que apresenta são todas bem tocadas,
especialmente umas tres que são um primor de execução. _As Margens do
Leça_, (2 quadros), _Caminho de Nevogilde_ e _Villarinha_,
especialmente.

Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei o _Tapada_. Ha
uma portinha vermelha a destacar na linha do muro da quinta, que dá uma
nota interessante. O retrato do militar esse, meu Deus, é phantastico.

Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que desde sempre conheci.
Tem tres quadros, qual d'elles o mais bem feito, sempre com um ar
nostalgico do pôr do sol, que elle tão distinctamente pinta. _O
Crepusculo Matutino_ é um delicioso encanto.

D. Alice Grillo, tem tres quadros, um de _Flores_, outro de _Rosas e
fructos_, e um _Estudo de velha_. Para mim os dous primeiros são
superiores. As laranjas são bem pintadas, de bella côr e as rosas e os
amores perfeitos, são lindamente tocados, d'uma grande frescura.

[Figura: Paisagem--MARQUES d'OLIVEIRA]

Marques d'Oliveira. Eis um nome que se impõe e que sempre que se
apresenta nos deixa convencidos de que é um talentosissimo artista. Nos
seus quadros, ha um certo quê que demonstra a technica superior d'este
mestre de pintura. E embora alguns criticos queiram abocanhar o nome
feito d'este artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa
não era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados de
uma fórma correcta e distincta, destacarei o _Rua de Agueda_, _Effeito
da tarde_ (Agueda), _Cães da Ribeira_, _Espinho_, _Effeito da tarde_
(Espinho), o que quer dizer que são todos.

[Figura: Guardando vaccas--EDUARDO MOURA]

D. Julia Molarinho. É pintora da nova ala que vae dando a nota do seu
merecimento. Os seus quadros _Cabeça de preto_, _Cabeça de rapaz_,
_Poente_ e _Pochade_, são bem feitos, especialmente os dous primeiros.
Tem mais quadros, que não me prenderam a attenção.

Eduardo Moura. Apresenta-se com um só quadro, se bem que pelas suas
aptidões deveria ter exposto mais. É um trabalho bem feito, digno de ser
admirado.

Thomaz de Moura. Com uma _Cabecita de rapariga_ regularmente executada.
Ha tambem muito de monotono no fundo, um azul indefinido.

D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de _Flores e fructos_. Tem um quadro
de _Geranios_ que está bem tocado, d'uma certa frescura. Esta senhora é
especialista n'esta qualidade de flores. Já n'outra exposição apresentou
um quadro de geranios que era um assombro de perfeição. Os crysanthemos
esses não são bons. No quadro _Fructos_, ha umas uvas bem tratadas, com
bastante transparencia.

Arthur Prat. É um pintor de côres retumbantes. Os seus quadros são como
fanfarras de luz. Gosto d'elles porque me dão muito bem a nota estridula
e alegre dos campos do sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles
regularmente feitos e regularmente estudados.

Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado com os seus
quadros, apresenta-se tambem d'esta vez com muita distincção, se bem que
me não prenda a attenção, como d'outras vezes que tem exposto.

Carlos Reis. Ora aqui está um pintor que é para mim um genial artista.
Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se n'esta exposição com
cinco quadros que são uma maravilha. _O Idilio_, é uma pintura
deslumbrante. _O retrato de minha mãe_, é tambem um superior trabalho,
feito com toda a correcção, d'um verdadeiro mestre.

[Figura: JULIO RAMOS no seu atelier]

Augusto Ribeiro, nos seus quadrinhos _mignons_ apresenta-se
admiravelmente--até nem parece o artista de outros tempos. Agora mais
socegado, mais accentuado, fez-nos a pintura do nosso Minho em paginas
d'album, mas muito bem feitas.

João Augusto Ribeiro. Com um quadro só, um _Estudo de velho_, primoroso
de desenho e de côr, flagrante de verdade.

D. Aurelia de Sousa. Dous trabalhos a oleo de que não gosto e um
pastel--_N'um jardim antigo_, que está muito bem executado.

D. Sophia de Sousa. Apresenta quatro quadros, dos quaes destacarei como
mais digno de menção a _Paisagem_. É uma verdadeira artista.

Julio Teixeira Bastos. Seis telas expostas. Destaco _O Melro_, como
sendo a que mais impressão me fez.

[Figura: Torquato Pinheiro]

Torquato Pinheiro. É com toda a correcção que se nos apresenta, n'este
certamen, este conceituado artista. Dos seis quadros expostos notarei
como melhores os seguintes:--_Tarde no Corgo_, correctissimo, _Rua da
Pedreira_ e _Crepusculo_.

João Vaz. O superior pintor de marinhas, vem á exposição com tres
quadros que são um encanto, especialisando a _Barra de Lisboa_ onde a
agua é tratada d'um modo irreprehensivel.--_Barracas de Pescadores_,
tambem muito bem feito. O outro--_Margens do Sado_, tem para mim uma
nota que o torna desagradavel: é uma serie de piteiras que dão ao quadro
um quê de bordado a missanga.

Eurico Ricardo Jorge. Apparece pela primeira vez em publico e
apresenta-se muito bem com o seu estudo a pastel--_Cabeça de velho_.

José David. Tem algumas aguarellas que estão bem manchadas.

E nada mais porque já vae muito longe este artigo.


[Figura: Retrato de Bernardino Reaes--TORQUATO PINHEIRO]



XXI

Uma Exposição de Carneiro Junior

No Pateo da Misericordia


A Exposição Carneiro Junior é mais uma confirmação do talento de quem a
organisa. Esse bello rapaz, desde a primeira vez que com elle fallei
logo conquistou em extremo a minha simpathia.

Alma de poeta epico, idealisando sempre, n'um desejo fremente de ser
grande, quadros que prendam e enthusiasmem quem os vê.

D'esta vez, no seu grande quadro, mais humano e mais terreno, deve ter
sido melhor comprehendido pelo publico que tem visitado a exposição.

Assumpto de molde a prender bem a alma de todos os que ainda tem um
pouco d'amor á sua patria, é o seu quadro uma pagina flagrante de
verdade e de movimento, arrancada á Historia de Portugal. Figuras
talhadas em moldes verdadeiramente portuguezes, agrupadas flagrantemente
em posturas naturaes, o seu quadro é, innegavelmente, uma bella obra.

A figura altiva, mas sem arrogancia, do hespanhol vencido que recebe uma
corôa de flores para collocar no punho da espada, como para dizer que
não a elle mas sim a ella se deve qualquer gloria obtida, é bem
estudada; e o portuguez, que respeitosamente offerece como galharda
dadiva de simpathia a mesma corôa, é de soberba concepção. Era primeira
intenção do artista dar outra orientação a estas duas figuras, mas fez
bem em ter resolvido assim o problema. A fidalguia da guerreira Hespanha
não podia tomar posição humilde deante d'um portuguez illustre e
valoroso que tinha a gentileza de offerecer-lhe uma capella de flores,
que mãos delicadas de mulher tinham composto.

[Figura: Entrega de Evora--Quadro de ANTONIO CARNEIRO JUNIOR]

Ha no quadro figuras flagrantes de verdade. Os frades dão-nos a
impressão serafica d'homens que, entre o latim e o repasto, não quizeram
tambem fugir á manifestação imponente que o povo fazia ao guerreiro
vencedor.

Os cavallos estão bem estudados especialmente o que tem a garupa virada
ao espectador, cujo tom de côr dá o verdadeiro avelulado sedozo de um
alazão fogoso e bem tratado.

A neblina que se percebe por entre a porta em arco da cidade, no seu tom
cinzento violaceo tem perfeitamente o tom do amanhecer dos dias lindos
do Alemtejo.

Este quadro, destina-se a ornamentar a escadaria do sumptuoso palacio do
snr. Barahona, d'Evora, um dos homens que mais tem acompanhado e
protegido a Arte nacional.

Destacam-se para mim depois, n'esta exposição, os retratos. Ha-os
flagrantissimos de verdade taes como o do _Dr. João Novaes_, e do
_Antonio Cruz_, esse velho rapaz que conheci tal qual desde os tempos
idos do _Jornal da Manhã_. O retrato do auctor n'uma postura scismadora
e triste, verdadeiro estudo psycologico da sua individualidade; é
soberbo. A figura distincta e airosa da esposa do seu amigo Alberto
d'Oliveira, executada á noute sob a luz viva d'um largo candieiro de
petroleo, é adoravel de côr e de execução.

No _Retrato da Ex.^{ma} Snr.^a D. Emilia de Carvalho_, executado com
primor e cuidado, ha um ar de ingenuidade deliciosa e amiga que nos
prende. A cabecita da pequenina Rachel, com os seus olhitos vivos e o
seu ar risonho, dá-nos a tentação de um beijo todo amor, todo candura.

Notei na facção de todos os retratos um quê do genio de Columbano, mas
um quê bom, sem aquella psychologia profunda e doentia que o mestre dá
ás suas composições. Carneiro Junior é a meu vêr mais humano, mais
positivo.

Da paisagem destacarei para aqui, como tendo-me dado mais viva impressão
as seguintes: _Rio Tamega_ (Amarante), _Crepusculo na montanha_, _Leça_
(estudo), _No bosque_ (impressão), _O mar_, _Um poente_ e _Rua do
Bomfim_ (tarde de chuva), os quaes são flagrantes de luz e de tom. _O
mar_, com o seu fundo em iris avermelhado é bello e a _Rua do Bomfim_,
em tarde de chuva, na sua meia nevoa, é deliciosa.

Os desenhos para o estudo do grande quadro são magnificos de correcção e
de justeza. Cabeças estudadas do natural, nas suas linhas definidas, são
primores de quem sabe e muito da, para mim difficilima, arte de
desenhar.

[Figura: Baixo relevo (Bronze)--ANTONIO TEIXEIRA LOPES]

Ha na exposição uma coisa que me encanta sobre todas as outras: são as
cabecitas dos filhos do pintor, desenhadas a sanguinea. Não sei se por
ser essa a minha côr predilecta, se pelo bem executado d'ellas.
Naturalmente por ambas as circumstancias. São retalhos da alma d'esse
poeta pintor que elle copia com um carinho desusado. Já na sua outra
exposição um dos quadros que mais me enthusiasmou pelo amor e cuidado
com que estava feito foi o retrato da esposa do artista, aquelle que
tinha uma grande abada de flores. Isto confirma o que eu penso do homem,
um _menager_ todo conforto e carinho. Ponto, porém, que eu não estou
aqui a fazer o retrato psychologico do artista, mas sómente a resenha
dos seus quadros; mais nada.

[Figura: A Procissão--CANDIDO da CUNHA]

Fechando, vou fallar do esquisso final para o seu quadro grande.

Elle chama-lhe um esquisso definitivo, eu chamo-lhe um quadro completo.
Gosto d'elle tanto ou mais do que do grande. Se me permitte,
chamar-lhe-hei a miniatura do trabalho que é o _clou_ da exposição.

Que Carneiro Junior desculpe este deslizar de cousas a respeito do seu
talento artistico e da sua exposição.

E, a proposito d'esta e outras exposições, não será mau repetir que o
meu fim não é outro senão vêr se se obriga o publico a interessar-se um
pouco mais por o nosso meio artistico. Conheci alguns homens cheios de
dinheiro e com pretenções a ter bom gosto, que nunca na sua vida
gastaram dez tostões, que fosse, em uma pintura, a não ser na pintura
obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. Têm, quando muito
oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de receber.

Pois é preciso que esses homens que podem, venham ás exposições, puchem
pelos cordões á bolsa, comprem quadros aos artistas que levam uma vida
de trabalho e de estudo para nos darem com palpitações flagrantes os
retratos que executam, e com vibrações de luz e de côr as paisagens que
retalham da grande Mãe Natureza para telas, que poderemos ter no nosso
quarto de trabalho, recordando-nos pedaços da nossa querida terra, tão
bella de paisagens, tão deslumbrante de sol.



XXII

Notas ligeiras d'uma Exposição


Maio é o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E a comprovar o meu
dizer lá se abriu n'este mez das graças e das bençãos, a 5.^a Exposição
de Bellas-Artes, que a prestante aggremiação Instituto de Estudos e
Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar entre nós o gosto
pela Arte, promoveu. Como simples informador d'um limitado publico lá
fui n'essa romagem artistica no primeiro dia, mas, porque me vi rodeado
por todos os pintores portuenses, não me atirei a tomar notas, nem a
esmiuçar detalhadamente tudo aquillo.

[Figura: D. Lucilia Aranha Grave]

Dois dedos de conversa a este, mais dous áquelle, ouvindo opiniões que
passavam no ar, n'um quasi sussurro de confidencias, não podia o meu
espirito socegadamente fazer a apreciação sentidamente minha, que eu
queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade de ter opinião, de pensar
só... e não fazer como muitos que se deixam ir na correnteza do que lhe
dizem os _espiritos santos de orelha_.

Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes ás exposições d'arte, e fico
burguezmente, como um bom mercieiro, estatico deante de todos os
quadros... em alguns como n'uma adoração pelo bem executado, n'outros
como n'um pasmo, do arrojo da concepção e n'outros então, assombrado,
fulminado, ante a imbecilidade com que elles são feitos. E depois,
serenamente, sem pretenções, nem vaidades, com a franqueza com que
fallaria a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a impressão
que tive.

Não levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez com os artistas que
conheço, nem a incensar bajuladoramente aquelles de quem sou amigo:
não... sou um _critico_ moderado... sem _coterie_, e honestamente
independente.

[Figura: Paisagem--AURELIA de SOUSA]

O _vernisage_ (eu estou muito visto em termos francezes, não acham?)
esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...

O _salon_ tinha um quer que era de superior. Os artistas tinham-se dado
ali _rendez-vous_...

Uma coisa faltava para dar a nota _chic_, e fina... eram os rostosinhos
galantes d'algumas das nossas damas. Se ellas tem apparecido, poderia
dizer n'este artigo com _aquelle meu gesto á Augusto Rosa_, que o outro
me encontrou, que a abertura da Exposição tinha estado muito curiosa,
muito _becarre_.

[Figura: Aos grillos--JULIO RAMOS]

Faltaram porém essas notas estridulas de garridice das senhoras, mas, em
compensação appareceram por lá magnificos tipos _caricaturaes_ e
_grotescos_!... Se até eu estive lá!!!...

Agradou-me á primeira vista o conjuncto do certamen, se bem que de
visita mais demorada, como a que em outra vez fiz, não trouxe de lá a
mesma impressão.

Ahi está, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo teria dito que a
exposição era geralmente boa, e agora não, não seria tão pessimista.
Recortarei pois do catalogo alguns nomes como os de mais destaque.

Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica de um
primoroso paisagista, Marques de Oliveira, com as suas trese telas de
paisagem e marinha, e ainda como affirmativa de que elle toca com o
mesmo saber a nota da figura, uma primorosa _Cabeça de velha_, tão
finamente tratada, tão cuidadosamente desenhada e collorida que me
maravilhou.

A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta nostalgico de
pintura, que me suggestiona com os seus quadros, poentes deliciosos,
onde parece que, atravez d'uma doce tonalidade de aldeia, se ouve o
religioso toque das Avè-Marias. É Candido da Cunha um d'estes pintores
que ao serem vistos uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa
retentiva o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer,
tal é o seu sentimento.

Torquato Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com uns nove quadros, que
a não ser aquelle seu tom _gris-violete_, tão seu, tão peculiar, me
fariam uma mais larga impressão. Destacarei porém as _Lavadeiras na
levada_, _Á vista do Marão_, _Sol de tarde_ e _Fim de tarde_ (Real,
Porto).

[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]

Julio Ramos, tambem nos dá quadros que demonstram o seu saber,
especialmente o _Fim da tarde_, que é, a meu vêr, um explendido
trabalho.

José de Brito vem á exposição com dous retratos a oleo, um pastel e
algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei como bem executado
especialmente o de _D. Margarida G. Oliveira_. O seu pastel--_Retrato do
conselheiro Avides_, é um bello trabalho. Este artista é para mim um dos
melhores desenhistas a pastel. As suas aguarellas são bem feitas, muito
bem feitas.

[Figura: Lavadeiras na levada--TORQUATO PINHEIRO]

João Augusto Ribeiro.--Esse bello artista que conheci como um dos bons,
vem á exposição com seis quadros. Destacarei _O Estudo_ (de troncos),
_Depois da chuva_, _A Madrugada_, que me parecem affirmar d'uma maneira
categorica que Ribeiro é um bello artista.

[Figura: D. Margarida Costa Romão]

Ha ainda Eduardo de Moura com um quadrinho muito interessante _Um
interior de um aido_, onde o assumpto é estudado com cuidado, e pintado
com saber, dando a confirmação de que este artista não é uma
vulgaridade.

Mais alguns artistas ha na exposição, mas, para não desviar o espirito
do leitor, nem lhe massar a paciencia, não me occuparei d'elles, nem dos
seus trabalhos. Não é porque alguns não mereçam a minha attenção
especial, mas, tenho que dedicar duas palavras a algumas senhoras
artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar muito tempo e espaço,
pouco poderia dizer d'estes ultimos.

Quando entrei pela primeira vez na exposição, logo me saltou á vista um
quadro de _Camelias_, que eu julguei ser do velho Costa o grande pintor
de flores. Aproximei-me e com surpreza vi que não era d'elle, mas, sim
de D. Margarida Costa Romão, uma nova que ao apparecer nos diz logo
quanto vale. Mas, não admira, lá diz o dictado:--filho de peixe sabe
nadar--e D. Margarida Costa é filha de um bello pintor, o Julio Costa.
Pois esta senhora com os seus tres quadros dá-nos a impressão sincera de
que se continuar, como principia, ha-de ser uma grande artista.

D. Alice Grillo Lima. Já muito nossa conhecida como uma verdadeira
artista, tambem d'esta vez se nos apresenta com muita correcção e saber.
São bons os seus dous quadros de camelias.

D. Sophia de Sousa, n'esta exposição vem desfazer uma desagradavel
impressão que me tinha ficado d'uma exposição anterior. Agora, com
pujança artistica, apresenta-me seis quadros, entre os quaes, com uma
garridice soberba digna de nota, o seu _Ao sol_, que é um trabalho
largo, definido, cheio de luz, de côr, de transparencia. _Uma paisagem_
e o _Margens do Ave_, são trabalhos dignos de menção.

Apparecem n'esta exposição alguns amadores entre elles, um com muitos
quadros, o sr. Hugemin, que já em tempos fez uma exposição só sua, onde
deu provas evidentes de que é um amador-artista de valor.

[Figura: Ao Sol--SOPHIA de SOUSA]

Entre as amadoras está a snr.^a D. Maria Afflalo, que pela primeira vez
expõe os seus trabalhos e que fazendo-o prova que tem muitas aptidões
artisticas e é uma discipula que honra sobremaneira o seu professor José
de Brito.

D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro _Flores e fructos_, apresenta mais
uma prova do seu saber pinturar.

D. Clotilde Rocha Peixoto, é uma discipula da Academia de Bellas Artes
que se apresenta com um largo quadro inspirado na deliciosa poesia de
Campoamor:


  Quién supiera escribir!


É um amplo trabalho executado visivelmente com muita e muita
proficiencia. Ha uma das figuras (o padre) que está traçado com
correcção e muita propridade.

Poderei affirmar que esta amadora é uma das novas que mais firmemente
demonstra que ha-de ser uma bella artista.

[Figura: D. Maria Afflalo]

Ainda figuram na exposição mais algumas senhoras, taes como: Viscondessa
de Sistello, Condessa de Alto Mearim, D. Maria Alto Mearim, D. Beatriz
Alto Mearim.

A condessa de Alto Mearim confirma de um modo justificado o seu talento
_hors ligne_ na confecção do bello quadro _Poveretta_.

D. Beatriz Alto Mearim, apparece com o seu estudo a pastel; tambem lhe
não fica a dever nada. É este seu trabalho uma prova incontestavel do
seu muito merito artistico.

D. Maria Luiza Alto Mearim apresenta duas cabecinhas interessantes e
regularmente bem feitas.

Viscondessa de Sistello, com tres paisagens feitas com conhecimento de
Arte, especialmente uma, que é bellamente feita.

[Figura: José Romão Junior]

Ha na exposição dois trabalhos de esculptura, um de Fernandes de Sá,
_Rapto de Ganymedes_, outro de José Romão Junior, _Cabeça de estudo_.

A respeito do primeiro artista já eu disse atraz n'um desenvolvido
artigo, o que pensava d'elle. Successor indiscutivel de Teixeira Lopes,
é um bellissimo talento.

Do segundo, Romão Junior, é a primeira vez que vejo trabalhos seus, e
confesso que a _Cabeça de velho_ que apresenta, me dá uma magnifica
impressão. A figura lançada com largueza tem magnificos requisitos. É
uma demonstração evidente de que Romão Junior maneja o cinzel e o
escopro com proficiencia. Um novo de talento que, de futuro, ha-de
continuar a affirmar que a raça dos esculptores portuenses é das de
primeira ordem.

Na secção aguarella só figuram os nomes de dois concorrentes José de
Brito, de quem atraz já fallei e D. Isabel Lauer.

Esta ultima com dois quadrinhos de figuras. Para mim não me desagrada o
operario, se bem que nenhum d'elles por completo me prenda muito a
attenção. Bastante amaneirados e muito exquisitos.

[Figura: Poveretta--Condessa de ALTO MEARIM]

Com desenho a pastel apparecem tambem só dois concorrentes: José de
Brito, artista consumado n'este genero, e D. Beatriz Alto Mearim.

Falta fallar de duas secções, ainda: desenho a claro-escuro e arte
applicada. Na primeira das secções ha um trabalho delicioso de Torquato
Pinheiro, um fino desenho do _Convento de Santa Clara_ de Villa do
Conde, trabalho impeccavel de correcção e firmeza.

Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a cidade dos
Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal, do Rio Mondego, de
Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns feitos com mestria.

Na arte applicada, Jorge Collaço, o distincto caricaturista do
_Supplemento de O Seculo_. Os seus azulejos são interessantes e dignos
de nota, especialisando o grande quadro _Reviravolta_, estudado com
interesse e executado com cuidado.

E eis, meu amigo publico, a impressão sincera de quem viu a exposição
com a independencia caracteristica do seu pensar e com a antecipada
disposição de não regatear merecimentos a quem os tivesse, nem adular
aquelles que, sendo mediocres, aspiram á enfatuada bazofia de serem
notaveis. Sinceridade e nada mais.

É provavel que os _verdadeiros_ entendedores não pensem como eu, mas lá
diz o dictado:--que seria, do amarello se não houvesse mau gosto.

Deveria fechar já aqui a minha informação mas vejo lá expostos uns
azulejos, _panneaux_, etc., que se desculpam por serem o reclame de uma
fabrica de Ceramica, porque, se tem sido apresentados como trabalhos
artisticos, então deveriam ser exautorados rigorosamente.

E adeus, que não tenho tempo para mais, nem sei mesmo se alguem terá
coragem de ler isto até ao fim.

[Figura: Barcos de pesca--JULIO RAMOS]



XXIII

AMADORES PORTUENSES

ALBERTO AYRES DE GOUVEIA

Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA


Este meu biographado não é precisamente um amador; poderia, sem receio
ele ser contraditado, e sem medo de errar, incluil-o francamente no
numero dos nossos mais distinctos pintores, e isso porque os seus
trabalhos artisticos são de molde a dar-lhe esse fôro.

Alegro-me ao escrever este artigo, e alegro-me porque é sempre com
consolo que me refiro áquelles que, possuidores de algum valor, se não
deixam adormecer á sombra ele alguns louros colhidos na paz doce da
mandria, antes tentam a mais e mais fixar as suas aptidões, n'um
trabalho serio e proveitoso.

E, Alberto Ayres tem feito isto. Desde que se emprehendeu a pintar tem
trabalhado com afinco e muitissimo proveito.

[Figura: Alberto Ayres de Gouveia]

Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada fortuna, pelas
relações de familia, e por viver na alta roda, onde se dava o prazer de
ser um dos eleitos, eu tinha na conta de um excellente cavalheiro, um
fino homem de sala, cavaqueador com espirito e mais nada!

Mas, enganei-me redondamente, o que não é para admirar, porque acontece
a muito boa gente.

O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma coisa:--um amador
_enragé_ da pintura.

Como soube eu isto e como tive emfim a confirmação do seu merecimento
artistico? Vou tentar dizel-o em poucas palavras.

Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos alguns amigos
em cavaqueira alegre e discutimos n'essas occasiões muitissimas coisas,
problemas d'Arte, mundanismo, casos alegres do dia, philosophando de vez
em quando sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc.,
etc. Não é um cenaculo, nem uma academia, é um _cercle_ algo espiritual,
onde a alegria tem especialmente o seu logar.

Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto pintores e
amadores, e entre outros nomes veiu á tela da discussão o nome de
Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes conhecia
perfeitamente.

Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e eu fiquei como se
costuma dizer com a _pedra no sapato_ e, como observador que sou, tratei
immediatamente de me informar do merecimento verdadeiro ou falso d'este
amador.

De divagação em divagação e de informe a informe, vim a concluir que o
meu amigo tinha muita razão e que Alberto Ayres era de facto um rapaz de
incontestavel merecimento artistico.

Mas, não só como pintor elle deveria ser apreciado, como auctor e amador
dramatico tambem. Eu me explico.

Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa e aristocratica
praia da Granja, alli deu as suas provas de amador, desempenhando, n'uma
festa de caridade, alguns papeis de umas deliciosas comedias, que elle
proprio tinha escripto, e que, segundo entendedores do genero, eram
verdadeiras joias litterarias finamente buriladas.

E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde, no atelier do
meu muito amigo e infeliz Manuel San Romão, fallando-lhe dos
divertimentos da Granja e a respeito do baile Luiz XV que alli se dera,
das finas recitas que a gentil colonia alli a banhos, costuma realisar,
o nome de Ayres de Gouveia foi citado e eu disse como me tinham
inspirado sobre o seu merito litterario e artistico.

Manuel San Romão, com aquelle seu modo correcto e fino e aquelle seu
espirito ousado e emprehendedor, n'um gesto todo de enthusiasmo
fallou-me d'elle dizendo, que no que elle era notavel era na pintura e
citava um formoso retrato do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, então
Bispo de Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais
rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que havia de futuro
marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.

[Figura: A palavra do Mestre--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

A opinião de Manuel San Romão, era para mim como uma pagina do
Evangelho; elle que lhe via merecimento era porque na verdade o tinha.

O retrato se não era uma maravilha, dizia San Romão, era no entanto uma
obra acceitavel e cheia de bellos predicados, um verdadeiro quadro
tocado com proficiencia, desenhado com saber, d'um colorido doce e d'uma
mais que regular semelhança.

Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia de que elle tinha
talento e me nasceu o desejo de ter de _vizu_ a confirmação d'isso, o
que só poderia conseguir visitando o seu atelier e a sua galeria, pois
que elle, nem expunha, nem vendia os seus trabalhos.

Como conseguir porém isto? Quasi impossivel, porque o amador fugia á
visita que eu tentava fazer-lhe, querendo assim deixar-se ficar no
encoberto mysterio d'uma modestia, que não tinha razão de existir.

Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o prazer de,
encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha de n'uma visita ao seu
atelier, vêr o que elle tinha realisado em Arte.

Em 1902, abre uma das exposições que o Instituto de Estudos e
Conferencias tão proveitosamente tem organisado e realisado no Pateo da
Misericordia. Era um magnifico dia de _vernisage_, e eu ao entrar sou
immediatamente attrahido d'um modo particular e suggestivo, por umas
poucas de telas que me saltam á vista impressionantemente. Tomo do
catalogo e folheando inquiri quem é o seu auctor. O nome de Alberto
Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros que eu procurava.
Eram, de facto, de molde a impressionar os trabalhos expostos. Á mente
me saltou, como uma doce recordação, a conversa que tivera com Manuel
San Romão e immediatamente me convenci de que quem pintava aquelles
quadros não podia ser apellidado de simples amador.

Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um verdadeiro artista
e com trabalhos taes, que alguns pintores, com nome feito, não
desdenhariam assignar.

Em artigo que n'outro logar publíco a elles me referi e alli disse
alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora porém que dedico ao
seu auctor duas paginas do meu livro, em especial, não será demais
tornar a fallar d'elles.

Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns defeitos tinham
eram elles por si tão insignificantes que apenas mereciam o reparo
ligeiro e unicamente indicativo, sem que viesse aggravado com a
investida descortez e brutal de certa critica imperduravel e muitas
vezes inconsciente. Porque os trabalhos expostos eram indicados no
catalogo simplesmente como d'amador, mas d'amador distincto e correcto
em verdade.

E bastava só isto, que elles fossem de amador, mas feitos firmemente com
largueza de traço, precisão de côr, correcção de desenho e de
perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro artista, para espantar a
critica de campanario e os entendedores _bon marché_.

E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores quando apparecem em
publico com trabalhos seus, são estes tão banaes e tão simples que
passam perfeitamente desapercebidos entre os trabalhos dos artistas, sem
lhe fazerem mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.

Com Alberto Ayres, porém, não se dava isso, apparecia pela primeira vez,
mas tão desassombradamente e com trabalhos de tal folego, que até houve
quem não quizesse acreditar que eram d'elle. Mas eram e tão bons que
poderiam entrar com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza
que ao seu auctor seria dada uma primeira classificação.

[Figura: Christo morto--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

Então é que mais e mais se me encasquetou na cabeça a ideia de observar
toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo, na sua maneira de vêr e de
pintar, e depois de um assedio em forma consegui que elle me desse a
honra de permittir-me uma visita d'Arte. E visitei então a sua
formosissima casa, onde se espalham artisticos _bibelots_ e bellos
trabalhos de muito valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave
uncção que se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella
casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me conservei.

Conversando durante algum tempo contou-me a sua iniciação na arte de
pintar, e como, sob a competente e abalisada inspecção do grande Marques
d'Oliveira, pôde conseguir o que fazia.

Desenhou muito, e quando lançava os seus vôos para mais alto, sob
indicações do professor, foi em viagem artistica pela Europa, aos paizes
onde mais afincadamente se rende culto á Arte e alli estudou nos museus
e nas escolas de pintura alguma coisa que lhe désse conhecimentos uteis.
E assim, analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e
acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas escolas,
percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia, não com a
despreoccupação de um _touriste_, mas com a observação religiosa d'um
crente, sob a indicação e a companhia de Marques de Oliveira, seu
professor e que é entre os que pontificam na Pintura, um dos que mais
sabiamente sabem vêr, porque é dotado d'um espirito critico especial e
finissimo.

Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou a mais grata
e a melhor das impressões.

D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me impressionaram foram
a _Leitura das prophecias_, _Retrato do Ex.^{mo} e Rev.^{mo} Snr.
Arcebispo de Calcedonia_, _A palavra do Mestre_, _Retrato do proprio
auctor_, _Retrato de A. Burnay_, _Estudo_, _Baixo imperio_, _Appolo_ e
_Cabeça d'estudo_ (carvão), que são admiraveis.

[Figura: S. João lendo as prophecias--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que pude conseguir,
quebrando quasi á força a modestia do meu biographado.

El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez á Exposição de Bellas-Artes em
Lisboa, fez menção especial dos seus quadros, chamando-lhe pintor
notavel e de pulso.

E de facto El-Rei não se enganou porque Alberto Ayres de Gouveia está na
galeria dos artistas de pintura portuguezes mais distinctos.

[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]

[Figura: Estudo--JOÃO AUGUSTO RIBEIRO]



XXIV

Uma Exposição de Estatuetas

FRANCISCO GOUVEIA


Já era tempo de dedicar algumas palavras de justiça, ao distincto
artista Francisco Gouveia, ácerca da visita que fiz á sua magnifica
exposição de esculptura, aberta aqui no Porto, no Salão da Photographia
Guedes, e cumprir o dever gratissimo de corresponder á galanteria e ao
modo penhorante como elle me acolheu.

E faço-o, porque nunca antepuz á manifestação de admiração pelos
trabalhos de qualquer artista de valor, outra qualquer manifestação.

[Figura: Francisco Gouveia]

A Arte, para mim a mais sublime das cousas, a mais insinuante das
manifestações, tem um logar tão alto, tão deslumbrante, tão culminante
que em frente d'ella eu julgo-me insignificantemente pequeno, e
curvando-me reverente, fico depois extatico, cheio d'uncção na mais
santa e na melhor das adorações.

Por isso, ao abalançar-me ao cumprimento d'um dever sagrado, eu
commetteria um crime de lesa-religião artistica se não dedicasse algumas
paginas á deliciosa exposição, que ha tempos tive o prazer de visitar.

Já o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre que tenho ensejo
de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura, musica, ou seja o que
fôr, nunca falto; sou dos que vou primeiro, e, quasi sempre, dos que
sahem no fim.

É facil ficar perfeitamente embasbacado em frente d'um quadro, ou d'uma
esculptura, durante horas, alheio a tudo quanto se passa em volta de
mim, tal me tem succedido ante as obras de Malhôa, Salgado, Carlos Reis,
Marques de Olivieira, etc., e como em nenhumas outras, ante as
extraordinarias creações do sublime Teixeira Lopes.

Por isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Salão da Photographia
Guedes a vêr os trabalhos, já para mim conhecidos de nome, do nosso
querido concidadão Francisco Gouveia.

Que este artista, como todos os bons esculptores portuguezes, tambem é
filho do Porto.

Francisco Gouveia, era um nome que se impunha já de ha muito á
consideração e á admiração de todos nós, porque lá fóra, no estrangeiro,
affirmava exhuberantemente, com os seus trabalhos, que nós os
portuguezes tambem somos capazes de dar provas evidentes e definidas de
intellectualidade e aptidão artisticas.

[Figura: Teixeira Lopes--F. GOUVEIA]

Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para fazer notar
aqui, o seu _Beatriz de Portugal_, que marcou d'uma fórma confirmativa e
energica o seu saber e o seu modo de esculpir.

Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada foi cercado, que
mereceu a honra de ser reproduzido em diversas illustrações
estrangeiras, onde se fizeram referencias honrosamente dignas ao nome do
nosso artista.

Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboço critico a respeito
de Francisco Gouveia: «quiz ser o artista naturalista no minucioso
detalhe, começando por nos dar um _Eça de Queiroz_ apanhado n'uma _pose_
verdadeiramente natural e sincera. Depois temos a serie das suas
esplendidas estatuetas, tão cheias de vida plastica, d'um correctissimo
desenho, mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional do seu
mestre querido Injabert á larga _ébauche_ de Rodin que mesmo chegou a
attingir na silhueta do grande artista rebelde».

E de facto assim é. Francisco Gouveia realisou este _desideratum_ e ao
abrir ao publico indifferente e á critica honrada e honesta d'uns,
venenosa e malsinada d'outros, a sua exposição, fel-o, sem aspirar as
louvaminhiches dos primeiros nem temer boas ou más apreciações dos
segundos. Fel-o como affirmação publica do seu talento artistico e da
sua persistencia do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.

Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino, qual d'elles o
mais correcto, qual o mais bem estudado, e mais bem executado.

Desde a estatueta séria á estatueta caricatural, desde os medalhões
graves ás mascarasitas patinados, nada ha alli que não seja correcto e
que não seja perfeito.

Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo em todo o seu ser,
em todo o seu aspecto, com todo o ar natural, parecendo mover-se regular
e compassadamente, vivificados, com movimentações naturaes, expressão
definida no rosto. E tudo isto em estatuetas que variam entre 40 e 60
centimetros d'alto.

Mas, ha para mim, entre todos os trabalhos expostos, um, que é dos mais
extraordinarios--a caricatura psychologica do grande morto _Eça de
Queiroz_!--Fulgurantissima de genio. Vemos n'ella, n'aquelle bronze,
atravez da esgrouviada figura do romancista que nos assesta o monoculo
n'uma persistente meticulosidade de observador a sua alma analysta, com
um quê de sarcastico, como sorrindo-se interiormente de toda esta nossa
sociedade, que elle olha atravez da sua impertinente lente. É
simplesmente assombroso.

[Figura: Eça de Queiroz--F. GOUVEIA]

A minha vontade era fazer notar uma a uma as estatuetas, as composições,
as caricaturas, as medalhas, mas isso é impossivel e portanto, em mais
duas palhetadas vou fechar este artigo.

Entre os trabalhos _estatueta-retratos_, muitos d'elles de pessoas
nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar um pouco. A do
_Marcos Guedes_, a do _Pae Ramos_, (ambos estes collegas do _Janeiro_),
a do _Snr. Caetano Pinho da Silva_, a do nosso querido _Teixeira Lopes_,
a de _Guedes d'Oliveira_ são magnificas. Ha tambem um retrato do grande
poeta _Guerra Junqueiro_ (phantasia), que é muito interessante. Guerra
Junqueiro é apresentado com uma tunica que lhe cae sumptuosamente como a
um propheta, tendo o braço direito levantado em menção de quem préga o
Evangelho, e no braço esquerdo as taboas da lei. É delicioso de
concepção e de execução.

Na _estatueta-composição_ destacarei: _A viajante_, _A primeira
esculptura_, _A parisiense_, _A tristeza_, _Meditações_, _Grupo de
leitoras_, _Saudades_ e _Ama parisiense_ (do jardim de Luxemburgo).

[Figura: Marcos Guedes--Guedes d'Oliveira--Guerra Junqueiro--_Pae
Ramos_--FRANCISCO GOUVEIA]

Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas são boas, se todas
ellas me encantaram?!...

As outras, terras-cotas, bronzes, etc., são, como estas, deliciosas
obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida e detalhadamente.

Não é esta exposição de molde a ser visitada como uma exposição de
quadros, onde as côres nos venham de longe em varias tonalidades, á
vista. Não, aqui precisamos de parar, analysar feições, expressões,
linhas, tudo, emfim. É preciso deixar a vista pousar durante um pouco,
para examinar toda aquella perfeição, toda aquella correcção, que não se
póde vêr á _vol d'oiseau_. É preciso fazer como eu fiz, estar lá horas e
voltar lá mais vezes, que de cada vez que se lá volta novas cousas se
descobrem nos trabalhos expostos. Quem vê só uma vez, quasi sempre não
vê nada.

Vou acabar por aqui, antes, porém, devo dizer que Francisco Gouveia é um
d'estes rapazes insinuantes, com quem se sympathisa logo que se falle
com elle uma vez.

Modesto em extremo, é um trabalhador de verdadeiro merito, e um espirito
lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo para as Notas d'Arte, aqui lhe
deixo significadas, ainda que muito pallidamente, a minha admiração ao
seu grande talento artistico e a convicção de que o seu nome tem o
direito indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas,
pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares, como sacerdote
magno, no templo da sublime Arte Portugueza.

[Figura: Paisagem--LUCILIA ARANHA GRAVE]

[Figura: Teixeira Lopes]

[Figura: Caim--TEIXEIRA LOPES]



XXV

MANUEL MONTERROSO


Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico, mas convicto, de que
a caricatura é um maravilhoso remedio para muitas doenças sociaes.

Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura é applicada sem
resultados praticos. Mas, muitas vezes, a maior parte d'ellas, a
applicação adquada, d'uma caricatura, no momento psychologico, produz
tal revolução no meio onde é lançada, que a doença social desapparece
como por encanto.

[Figura: Manuel Monterroso]

Com todos os remedios acontece a mesma coisa. Quantas vezes um illustre
clinico applica um caustico, cheio de confiança, convencido que dentro
de duas horas a pelle do doente estará levantada e suppurante, e apesar
do medicamento estar em pleno effeito, o caustico falha, ou porque o
doente já não dá reacção para que o resultado seja satisfatorio, e
n'esse caso está morto, ou então por que a pelle é de tal fórma grossa e
callejada que não ha nada que a possa atravessar e remover!

As doenças da sociedade são tal qual as doenças dos homens. E ella
propria tambem tem anomalias como qualquer doente.

Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro, póde ser
causticada com caricaturas, que não resurgirá. E o mesmo succederá se
ella pela desfarçatez dos seus caracteres fôr uma sociedade _estanhada_,
endurecida e callejada. Mas se entre essa sociedade alguma coisa houver
ainda que vitalmente sinta as picadas ardentes da caricatura, então ella
resaltará e viverá pondonorosamente espurgada do mal que a amortecia e
definhava.

[Figura: Dr Leopoldo Mourão--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada
na _Voz Publica_]

A mesma revolução se faz na vida social dos homens isoladamente.
Caricaturados por um lapis mordaz, mas fino, que os apresente á irrisão
publica, sob qualquer dos seus aspectos ridiculos, elles remorder-se-hão
na sua vaidade intima e, procurarão, embora disfarçadamente, curar-se
dos seus defeitos, se é que o mal da desfarçatez os não contaminou tão
intimamente, que os tenha posto por completo fóra da acção benefica,
embora torturante do medicamento.

Muitos, muitissimos factos poderiam ser apontados como provas
indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos d'um modo affirmativo e
terminante impôr a nossa opinião. Mas, não, não temos nem esse desejo,
nem essa vaidade. Ao delinear estas linhas, simplesmente o fazemos como
o _avant-propos_ á apresentação que tentamos fazer d'um dos mais
distinctos medicos portuenses, e no momento presente o primeiro
caricaturista portuguez.

Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os nossos
caricaturistas--o grande, o incomparavel mestre--Bordalo Pinheiro, posso
dizer abertamente que Manuel Monterroso é entre nós o unico capaz de
seguir tão gloriosamente como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e
seu genio fulgurante e radioso.

[Figura: Uma pagina da _Parodia_--MANUEL MONTERROSO]

E, não quero que Monterroso me agradeça estas verdades sinceras que me
saltam da penna, ditadas pelo pensamento, espontaneamente, lealmente,
taes como as sinto. Não, nem o meu fim é esse. Se lhe dedico algumas
palavras é porque na minha pequenez de insignificante amador de Arte,
tenho por elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento
artistico, uma profunda admiração.

Extasiava-me diante das caricaturas de Bordalo com a veneração adoravel
de verdadeiro admirador, do engraçado, do mordaz, do bello e do
correcto.

Hoje ante o traço fino, seguro, preciso e mordaz de Monterroso tambem me
permitto ficar extasiado. E tudo isto porque o considero um optimo
caricaturista, um perfeito desenhista.

Incapaz, como sou, de faltar á verdade, não escrevia que o achava
grande, nem o diria tão afoitamente, se não estivesse, como estou,
convencido de tal.

Não digo isto, é bom que se saiba, para me dar ares; digo-o porque
rebuscando e procurando na pequena galeria dos caricaturistas
portuguezes, não encontro nenhum que possa passar-lhe adiante. Nem mesmo
o Manuel Gustavo, que ainda assim, para, mim, é um dos melhores.

[Figura: João Oliveira Ramos--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada
na _Voz Publica_]

Pois, nem mesmo esse, que tão intimamente conviveu com o Mestre, que tão
de perto recebeu as suas lições, póde dizer ousadamente a Manuel
Monterroso:--eu valho mais do que tu... o primeiro logar pertence-me...

Por que de facto não vale. Manuel Monterroso tendo a intuição natural de
_fazer bonecos_, (como elle diz), conhecendo anatomicamente o homem (ou
elle não tivesse sido um dos bons discipulos do terrivel Lebre[1],
possuidor d'uma retentiva verdadeiramente photographica, elle, vendo uma
vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, não só as linhas geraes,
mas os mais pequenos detalhes caricaturaes: e, n'estas condições, com
estes predicados e alem de tudo isto uma boa dóse de talento, realisa
desenhando verdadeiras obras primas.

[Figura: Raphael Bordallo Pinheiro--Caricatura em barro de MANUEL
MONTERROSO]

Fulgurantissimas de graça são as varias paginas, que muitas vezes, de
collaboração com os litteratos Campos Monteiro e Guedes d'Oliveira,
viram a luz na _Parodia_.

Notavel como trabalho de verve fina e delicadissima a caricatura que foi
offerecida ao Dr. João Pereira Dias Lebre, professor de anatomia da
Escola Medica do Porto, no anno em que elle se jubilou.

Notaveis os seus trabalhos, que tem distribuidos por amigos, em
amistosas dadivas.

Caricaturas avulsas de typos conhecidos feitas em intimas camaradagens e
que o grande publico nunca teve o prazer de vêr, mas que eu conheço
perfeitamente bem. Não fallando nas caricaturas que a largos traços de
carvão elle lança rapidamente sobre o papel branco que friamente
apparece ao publico, quando em algum concerto de caridade elle vem
tambem coadjuvar o luzimento d'essa festa, com a irradiação do seu genio
repentista e correcto.

N'essas occasiões é que elle tem mostrado mais publicamente a facilidade
com que retem e executa o desenho caricatural dos typos apresentados.

A todos quantos tenho visto fazer este genero de trabalho, tenho notado
uma coisa: elles ao apresentarem-se em publico trazem já no seu cerebro
estudados e desenhados os typos a executar, e assim invariavelmente nos
atiram com o José Luciano, o Hintze Ribeiro, o Burnay, o Zé Povinho, o
Rei de Inglaterra, o Rei de Portugal e outros personagens, cujo perfil
está de ha muito conhecido e estudado, perfis que, a maior parte das
vezes, eu mesmo, leigo em desenho e em caricatura, ia desenhar depois de
uma leve recordação.

Manuel Monterroso, não faz assim. Uma vez no palco ou estrado, lança a
vista por sobre a plateia, e com aquelles olhinhos vivos e penetrantes
fóca um individuo. Olha-o duas vezes e em seguida, costas voltadas ao
publico elle ahi vae, carvão em punho, traçando, rapida e precisamente o
typo que escolheu. É assim que elle faz; nunca trouxe de casa, no seu
caderno de apontamento, as notas typicas dos individuos a desenhar.

Mas, não só como desenhista e caricaturista a lapis ou a aguarella, elle
é notavel. Ha alguma coisa mais a notar no meu artista.

Como ceramista tambem é para ser notado e muito.

--Ora? dirá o leitor! Como ceramista? Pois não lhe conhecia essa
prenda?!

--Nem eu! Mas ha tempos em conversa, a rirmos sobre mil coisas diversas
e muito especialmente sobre _bonecos_, Manuel Monterroso disse-me á
queima roupa: Sabe, vou fazer _bonecos_ em barro, caricaturas de outra
especie.

--Você está a brincar, disse-lhe eu.

--Não estou, não, verá. E a primeira ha-de ser a do Bordalo (ainda elle
era vivo). Dito isto, despediu-se de mim, e, bem contra minha vontade,
não o tornei a vêr durante uns poucos de dias.

Nem mais me tinha lembrado d'isso, quando uma bella manhã vejo entrar o
Monterroso pela porta dentro com um embrulhosito na mão, dizendo:--Cá
está a obra.

[Figura: O Rei da Peça--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada no
_Primeiro de Janeiro_]


[Figura: Os Donos da Casa--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada
no _Primeiro de Janeiro_]

Corri apressado ao seu encontro, obrigo-o a mostrar-me o embrulhito e...
ante a apparição que se fazia deante dos meus olhos eu ficava estasiado.

Uma delicada, uma fina maquete da figura em corpo inteiro do grande
mestre da Caricatura, apparecia diante de mim, admiravelmente lançada,
sabiamente estudada e medida, bellamente executada. Não parecia o
primeiro trabalho de um amador, não. Era o trabalho de quem sabe e
muito, como o barro se espalma e se contorna, como se modela e como se
vivifica.

Não penseis que faço o elogio balofo d'uma insignificancia. Faço
simplesmente a resenha verdadeiramente sincera de uma das mais notaveis
manifestações do talento do meu querido caricaturista.

[Figura: José Ribeiro--Caricatura em barro de MANUEL MONTERROSO]

Não resisti, abracei-o, felicitando-o e pedi-lhe que continuasse
n'aquelle novo systema de caricaturar os homens notaveis do nosso tempo,
e do nosso conhecimento. Prometteu-me continuar mas, a sua medicina e os
seus muitos afazeres, não tem consentido que os meus olhos possam vêr
mais d'aquellas deliciosas obras.

A reproducção em bronze da _maquete_, em que fallei foi elle, como
manifestação da sua muita admiração e amizade pelo grande mestre,
levar-lh'a a Lisboa, onde Bordalo, como eu, se extasiou ante a
disposição artistica de Monterroso e a execução d'aquelle trabalho.

E, posto isto, posso fechar o artigo porque já provei bem á evidencia
que Manuel Monterroso é innegavelmente um rapaz de indiscutivel talento.

Mas, perguntará o leitor: a que veiu aquelle prologo em que se fez jogar
a medicina e a caricatura como meios curativos da sociedade e das
gentes?!

Eu explico. É que se não tivesse gasto tanto tempo ainda vos havia de
dizer como é que o Manuel Monterroso póde ser ao mesmo tempo um grande
caricaturista e um bello medico. Isso porém fica para segundas leituras.



XXVI

A BAIXELLA BARAHONA


Venho cheio d'um sincero enthusiasmo fallar-vos agora exclusivamente
d'um dos maiores acontecimentos para a arte de ourivezaria portugueza, e
não só para ella como para a Arte, na verdadeira accepção da palavra; da
Baixella Barahona! É esta já bem conhecida em todo o Portugal, pelo que
d'ella tem dito os jornaes de Lisboa, mas um brado mais, d'um sincero
amador, nunca faz mal para engrossar o côro de hossanas, que em volta de
tão magnificente obra, se tem levantado por todos quantos a tem visto.

A casa Leitão & Irmão, innegavelmente os primeiros joelheiros e ourives
portuguezes, levaram a cabo a execução da obra mais monumental e mais
artistica no seu genero, que se tem feito em Portugal ha cem annos para
cá. E estou bem certo que será preciso passar um incalculavel numero de
annos para que se faça uma outra obra assim.

[Figura: Columbano Bordallo Pinheiro]

Dous são os motivos, que me levam a acreditar n'esta profecia: «A falta
de homens de gosto e de dinheiro, como o dr. Francisco Barahona; e a
falta de comprehensão da maior parte da gente, de que a Arte é a
manifestação mais bella e mais brilhante do desenvolvimento espiritual e
intellectual d'uma nação».

Mas, como não me julgo com competencia para divagações philosophicas
sobre _Arte_, _Dinheiro_ e _Gosto_, vou entrar no meu assumpto--A
Baixella Barahona--da qual estão em exposição o _Centro de meza_, e as
_Duas serpentinas_.

São estes tres monumentos, deixem-me assim chamar-lhe, uma coisa
phantastica. Delineados sobre motivos esculpturaes do tempo de D. João
V, harmonisou-se n'uma contextura brilhante, encantadora, fazendo-nos
passar, como que em revista as decorações architectonicas dos monumentos
da epocha, os escudos d'armas da casa real de D. João V, as talhas
douradas dos conventos, as conchas nacaradas dos mares, que nós
portuguezes dominamos nos nossos tempos de navegadores, e as aguas
espraindo-se nas nossas formosissimas praias onde o mar bate
altisonante, cantando ainda restos das nossas passadas glorias.

[Figura: Serpentina da Baixella Barahona]

É como que a orquestração muda d'uma epopeia de deslumbramento e de
luxo. Mereciam um poema, tal é o seu primor e a sua riqueza.

Por ambas as vezes, que fui vêr estas deslumbrantes obras de arte,
fiquei estasiado algumas horas, na contemplação d'ellas, e cada vez que
as olhava novos encantos lhe achava; aqui eram os festões de flores que
pareciam baloiçar ao sopro da aragem, pendentes das mãos torneadamente
papudas dos deliciosos amores; mais em baixo, os golphinhos com as suas
fauces escancaradas d'onde jorram torrentes d'agua que se espraiam pelo
enconchado da base; de todos os lados, as nacaradas conchas encurvadas
caprichosamente n'um anichamento sublime de preciosidades do fundo do
mar, e contornando tudo isto n'uma justeza de fórma, n'um carocolar de
serpente, d'um brunido admiravel, como que uma fita de seda que mãos
delicadas de fadas se entretivessem a dispôr alli, como cercando aquella
serie de deliciosas coisas.

Alguem que tenha visto a Baixella, dirá: e as figuras que alli existem
onde as deixará ficar o chronista?

As figuras essas são deslumbrantes de contextura, e se me deixei ficar
para o fim a fallar n'ellas, é, que tão fundo me feriram no espirito que
lhe reservo um logar mais ao fim do artigo para que quem me ler nunca se
esqueça d'ellas.

O centro, como muito bem diz o nosso amigo M. Oliveira Ramos, na memoria
escripta expressamente para ser distribuida pela casa Leitão aos seus
convidados, compõe-se d'uma taça oblonga de amplo bojo, enfunada para a
base e recordando talvez na sua fórma, o casco dos nossos galeões do
periodo aureo.

[Figura: Centro de meza da Baixella Barahona]

De cada lado d'esta taça e como sentados no rebordo, ha duas figuras; um
Fauno e uma Bachante.

O Fauno, tendo n'uma das mãos uma frauta de Pan, ri brejeiramente para
um amor que parece ter-se deitado na base a analysar aquelle typo tão
caracteristico e tão bem delineado. E a Bachante com um exhuberante
cacho d'uvas, tenta o outro amor que, deitado tambem, nos dá a impressão
suave d'um delicioso _bébé_ a quem uma nympha estivesse fazendo negaças
com em brinquedo.

Mas, é tal o deslumbrante das fórmas e o rigor da anatomia d'estas
figuras, tão primorosamente modeladas e tão assombrosamente executadas
que parece que aquella fria prata, de que são feitas, se anima e
palpita. Todo o conjuncto é bello, mas as figuras extasiaram-me.

Columbano Bordallo Pinheiro, ao modelar aquelles primores de arte,
(talvez isto seja uma heresia), fez, a meu vêr, um dos seus trabalhos
mais geniaes, a manifestação mais ampla do seu muito talento.

Porque é preciso ter-se muito talento para se realisarem obras
d'aquellas.

Ficarei por aqui, se bem que não era esse o meu desejo, mas a falta
d'espaço e de tempo, a isso me obrigam. Antes porém de fechar cumpre-me
fazer, por este meio, o que já fiz pessoalmente, dar um aperto de mão, a
quem se abalançou a uma empreza como esta e saudar enthusiasticamente
com o meu fraco appoiado os grandes collaboradores d'esta manifestação
de arte portugueza,--o dr. Francisco Barahona, o verdadeiro patriota que
sabe como ninguem comprehender para que serve o dinheiro,--Columbano
Bordallo Pinheiro, que para essa obra deu parte do seu _eu_
artistico--Augusto Luiz de Sousa e Francisco Ignacio Cardoso os dois
artistas ourives sob a direcção dos quaes se executou tal obra.

[Figura: Magdalena--Columbano Bordallo Pinheiro]

Aos snr. Leitão & Irmão um bravo! Um bravo enthusiastico d'um humilde
admirador.

E para fechar, folgarei immenso ouvindo dizer que esses tres monumentos
vão mostrar ao mundo inteiro, na Exposição de Paris, que em Portugal ha
verdadeiros artistas e homens de arte.


  Lisboa, 31-4-900.



XXVII

CONCLUSÃO


Fechando este volumesito despretencioso e vago, que fiz publicar, não
com a vaidade de escriptor ou critico d'Arte, mas simplesmente para
reunir n'um mólho, pequenos e insignificantes artigos, que escrevi em
dias socegados e alegres, e que appareceram em revistas e jornaes
diarios após visitas feitas a Ateliers, Escolas e Exposições d'Arte,
onde tive o superior prazer de passar algumas horas boas e distrahidas,
julgo ter prestado um pequenissimo serviço ao meu paiz e á sua Arte.

São estas paginas simples notas de um amador. Nem ellas desejaram nunca
ser mais do que isso. Escrevi-as sincera e desapaixonadamente sem
interesses ligados aos artistas, nem o desejo de ser amavel para com
elles.

[Figura: O Desterrado--SOARES dos REIS]

Fil-o como conversador inveterado que sou, e que, no desejo constante de
conversa, escolhi o grande publico para lhe expôr as minhas impressões
pessoaes e quem sabe, faltas de sciencia e talvez de criterio.

Tenho dito mil vezes, n'essas paginas atraz o digo, e não ficará mal ao
ir-me embora, repetil-o mais uma vez:--eu não sou um critico d'Arte, nem
tenho pretenções a isso.

E, n'essas condições, sob uma tal ordem de ideias, interessando-me pelas
exposições d'Arte, pelo desenvolvimento pintural dos discipulos e pelo
engrandecimento dos professores, excitando os que começam para que breve
se ponham ao lado dos que já vão na vanguarda, animando o publico e
creando-lhe aos poucos o gosto pela Arte, dando noticias resumidas
d'algumas exposições, destacando alguns artistas e amadores dos que mais
em fóco tenho encontrado, embora sem aquelle _tino especial_ de critica
_hors ligne_, como convinha para tal emprehendimento, julgo no entanto,
que contribuo dentro das minhas forças, para o desenvolvimento do gosto
pela pintura e pela esculptura entre os meus compatriotas, com estes
artigos.

N'um paiz como o nosso tão cheio de poesia, tão cheio de sol, tão cheio
de côr, com costumes tão typicos e figuras tão accentuadamente
caracteristicas, com pedaços de natureza (paisagem e marinha) tão cheia
d'um extraordinario encanto, d'um collorido tão nosso, tão genuinamente
bello, necessario se torna que elle seja sabiamente estudado e
proficientemente transplantado á tela e vá mundo em fóra, fazer esta
grande affirmação: que no nosso paiz, caracteristicamente pittoresco,
que como poucos é dotado de bellezas naturaes dignas de serem admiradas
por todo quanto em _tourismo_ dá a volta ao mundo, ha uma pleiade de
artistas, verdadeiramente grandes, e que valem tanto como os que ha bons
lá pelo estrangeiro.

Se eu, debaixo d'este ponto de vista, apontando, notando, frizando,
destacando e elevando, entre os que trabalham n'esta bella obra,
aquelles que a meu vêr mais dignos são de menção, conseguir excitar os
outros para que trabalhando honradamente, gloriosamente se possam
collocar ao lado d'elles, darei por bem empregado o meu tempo.

E como não quero que se diga que esqueci os que mais gloriosamente teem
batalhado n'esse combate da Arte, aquelles, que emquanto vivos
produziram genialissimas obras, e seriam assombrosamente grandes em
qualquer parte do mundo, aqui deixo ficar, nas ultimas paginas do meu
livro, tres copias de tres trabalhos sublimes dos sublimes mestres,
d'esse trio sagrado de sacerdotes magnos do templo da Arte--Soares dos
Reis, Silva Porto e Raphael Bordallo Pinheiro.

E nada vos direi de taes genios artisticos porque para isso seria
preciso escrever tres volumes, e acho que quem é tão pequeno como eu não
se deve abalançar a empreza tão ardua e tão difficil, pois que para
fazer o elogio d'estes sublimes mestres, exige-se pelo menos ser tão
grande como elles na litteratura e na critica.

[Figura: Conduzindo o rebanho--SILVA PORTO]

Por isso simplesmente, como significação de respeito e muita admiração
ao seu grande talento, aqui lhe deixo significado o sentimento da minha
muito grande veneração.

Havereis de ter notado n'este meu livro faltas extraordinariamente
grandes, bem sei. Mas, que quereis, quem dá o que tem não é obrigado a
mais.

Desejaria ainda fazer um catalogo, biographico e artistico dos nossos
melhores artistas e das suas obras com sabias notas descriptivas, mas
isso era trabalho largo de mais para quem tão fracamente maneja a penna
e tão leves conhecimentos tem em tal assumpto.

Se um dia, porem, lá para o futuro, me achar com coragem de emprehender
empreza de tal bojo e tanta responsabilidade prometto-vos que o farei o
mais larga e o mais desenvolvidamente possivel.

E os artistas que me perdoem então tal arrojo e tal atrevimento.

Por hoje apenas estas leves notas reportivas d'um insignificante amador
de Arte.

[Figura: Vinte annos depois--RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO]

       *       *       *       *       *

Como estou em maré de desabafos, não será de todo mau que antes de
terminar o mandato que a mim proprio impuz não deixe de dizer alguma
coisa a respeito d'alguns erros que apparecem nas Notas d'Arte. Por
isso, com a maior franqueza declaro que, não querendo seguir as pisadas
d'uma grande parte dos nossos litteratos, imputando aos pobres
typographos erros que só cabem aos auctores como maus revisores
d'aquillo que escrevem, dou o seu ao seu dono affirmando que todos os
erros que surgem pelo volume fóra só podem ser attribuidos á ligeireza
com que tracei todas essas rapidas Notas d'Arte que, a meu vêr, apesar
dos seus defeitos tem a grande vantagem de mostrar o grande amor que
tenho á arte sublime do Bello e o desejo ardente de vêr galardoados os
meritos dos artistas e dos amadores portuenses.

A illustração e a benevolencia do leitor, pesando bem a senceridade das
minhas palavras, supprirá todos os erros remediando assim o velho
costume de finalisar com _emendas_. É certo que ninguem vae ao céo sem
_emenda_, mas uma vez que se faz uma _confissão expontanea_ o
_penitente_ fica perdoado dos seus _peccados_.


  30 de Novembro de 1906.



INDICE


DOS ARTIGOS                                                         Pag.


No Limiar                                                              1
Impressões d'uma Exposição                                             5
Pintores Portuenses.--Julio Costa                                      9
Pintores Portuenses.--Antonio Carneiro Junior                         17
Thadeu Maria d'Almeida Furtado                                        21
Pintores Portuenses.--Arthur Loureiro                                 25
Esculptores Portuenses.--Fernandes de Sá                              31
Exposição da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa                      39
Pintores Portuenses.--Manuel San Romão                                67
A Mulher Artista                                                      73
Novas Exposições d'Arte                                               81
Uma Exposição de Aguarellas organisada por Amadores                   89
Pintores Portuenses.--Thomaz de Moura                                 93
Amadores Portuenses.--D. Joanna Andressen Silva                       97
Pintores Portuenses.--Antonio José da Costa                          105
Em frente d'um Cartaz!...                                            113
Na Cruz                                                              117
Amadores Portuenses.--D. Margarida Ramalho                           119
Novos quadros de Arthur Loureiro:
    I--No Atelier do Palacio de Crystal                              127
   II--Arthur Loureiro e os seus discipulos                          131
  III--Arthur Loureiro e a Academia de Bellas Artes                  135
   IV--Mais uma visita ao Atelier de Arthur Loureiro                 141
Amadores Portuenses.--Manuel Maria Lucio Junior                      145
Uma Exposição de quadros do Instituto de Estudos e Conferencias      151
Uma Exposição de Carneiro Junior                                     159
Notas ligeiras d'uma Exposição                                       163
Amadores Portuenses.--Alberto Ayres de Gouveia                       171
Uma Exposição de Estatuetas.--Francisco Gouveia                      179
Amadores Portuenses.--Manuel Monterroso                              185
A Baixella Barahona                                                  193
Conclusão                                                            197



INDICE


            Retratos         Pag.               Quadros               Pag.

S. M. a Rainha                 73--Estudo de creança (aguarella)        75

El-Rei                         39--Paisagem (pastel)                    40
                                   Guarda arabe (pastel)                66

Alberto Ayres de Gouveia,     171--A Palavra do Mestre                 173
                                   Christo Morto                       175
                                   S. João lendo as Profecias          176

Adelia Ramos (D.)             144--

Alfredo Keill                    --A chegada da deligencia aos Valles
                                    em Ferreira do Zezere               61

Alice Grillo Lima (D.)         79--Orchideas                            80

Antonio José da Costa         105--Chrysanthemos                         7
                                   Guarda Fiel                         103
                                   Rosas e Pionias                     106
                                   Outros tempos                       107
                                   No Pinhal                           108
                                   Camelias                            109
                                   Junquilhos e Camelias               110
                                   Junto do Cruzeiro                   111

Arthur Loureiro            25-127--Barra--Foz do Douro                  26
                                   Frontal d'uma arca                   27
                                   O Passado                            28
                                   Não voltará mais                     29
                                   Retrato de Sá de Albergaria         129
                                   Retrato do Dr. Francisco Anthero    132
                                   Tigres                              134
                                   Só no Mundo                         136
                                   De aldeia em aldeia                 138
                                   Paisagem                            139
                                   Flora                               140
                                   Pinheiros                           142

Aurelia de Sousa (D.)          74--Paisagem                            164

Branca Assis (D.)                --Tia Bertha                           76

Candido da Cunha             7-88--Impressão de Paris                  125
                                   Crepusculo Matutino                 153
                                   A Procissão                         162
                                   Paisagem                            165
                                   Paisagem                            177

Carlos Reis                      --Mendiga                              44
                                   Retrato de El-Rei                    55
                                   Olaia em flor                        57

Carneiro Junior                17--Retrato                              18
                                   Entrega de Evora                    160

Columbano Bordallo Pinheiro   193--Tomando chá                          53
                                   Candelabro                          194
                                   Centro de meza                      195
                                   Magdalena                           196

Condeixa                         --Cabeça d'estudo                      41

Condessa d'Alto Mearim         78--Poveretta                           169

Duqueza de Palmella              --Cabeça de negra                       4

Eduardo Moura                  88--Guardando vaccas                    155

Fernandes de Sá                31--Desafio                              32
                                   Camões                               33
                                   Beijo Materno                        35
                                   Busto de Antonio Cano                37
                                   Rapto de Ganymedes                   63

Francisco Gouveia             179--Teixeira Lopes                      180
                                   Eça de Queiroz                      181
                                   Marcos Guedes, Guedes d'Oliveira,
                                     Guerra Junqueiro, Pae Ramos       182

Joanna Andressen Silva (D.)    97--Salão do Palacete de D. Joanna       98
                                   Canto do Atelier                     99
                                   Busto de Mademoiselle Elisa
                                     Andressen                         100
                                   Busto de Mademoiselle Ramos Pinto   101
                                   Busto de Mademoiselle Joanna
                                     Andressen                         102

João Augusto Ribeiro            8--Estudo                              178

João Vaz                         --Marinha                              45

Joaquim Marinho                89--

José de Brito               6-152--Vaga                                 47
                                   Cabeça de estudo (pastel)            91

José Malhôa                     5--Que grande calamidade                 6
                                   Barbeiro d'aldeia                    42

José Romão Junior             168--

José Teixeira Lopes            88--Paisagem (aguarella)                 90

Julião Machado                   --Cartaz                              114

Julio Costa                     9--Retrato do Conselheiro João Franco   10
                                   Retrato de Oliveira Martins          11
                                   O Calvario                           14
                                   A Ti Anna                            15
                                   Na Cruz                             118

Julio Ramos                88-156--Aos Grillos                         164
                                   Barcos de Pesca                     170

Leopoldina Pinto (D.)            --Flores                               84

Lucilia Aranha Grave (D.)     163--Na Eira                              30
                                   Paisagem                            183

Manuel Maria Lucio Junior     145--Marinha                             147
                                   Barra--Foz do Douro                 149

Manuel Monterroso             185--Caricatura do auctor das Notas
                                     d'Arte                              1
                                   Cartaz                              115
                                   Dr. Leopoldo Mourão                 186
                                   Uma pagina da Parodia               187
                                   João Oliveira Ramos                 188
                                   Estatueta de Raphael Bordallo
                                     Pinheiro                          189
                                   O Rei da Peça                       190
                                   Os donos da Casa                    191
                                   Estatueta de José Ribeiro           192

Manuel San Romão               67--Na espectativa                       68
                                   Paisagem                             69
                                   Paisagem                             70
                                   Uma sevilhana                        71

Margarida Costa Romão (D.)    166--

Margarida Ramalho (D.)        119--Castanheira                         122
                                   Cabeça de velho                     123

Maria Afflalo (D.)            168--

Maria Augusta Bordallo
  Pinheiro (D.)                  --Um lenço de rendas                   23

Marques d'Oliveira             83--Paisagem                             43
                                   Entre o almoço e o jantar            59
                                   Paisagem                            154

Raphael Bordallo Pinheiro        --Vinte annos depois                  200

Silva Porto                      --Conduzindo o rebanho                199

Soares dos Reis                  --O Desterrado                        197

Sophia de Sousa (D.)           82--Ao Sol                              197

Sousa Pinto                   151--

Teixeira Lopes                184--Busto de inglesa                     51
                                   Santo Isidoro                        65
                                   A Caridade                           85
                                   Baixo relevo (Saudade)              161
                                   Caim                                184

Thadeu Maria de Almeida
  Furtado                      21--

Thomaz de Moura                93--

Torquato Pinheiro             156--Retrato de minha Mãe                  8
                                   Retrato de Bernardino Reaes         157
                                   Lavadeiras na levada                166

Velloso Salgado                49--Panneaux para o Palacio da Bolsa     87
                                   Panneaux para o Palacio da Bolsa     95

Zéo Wanthelet Batalha Reis       --Quem espera desespera                77


Notas:

[1] Um dos mais distinctos professores da Escola Medico-Cirurgica do
Porto, já fallecido.



Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pág.    6| o educação          | a educação           |
  |#pág.   37| fificar             | ficar                |
  |#pág.   45| destestaveis        | detestaveis          |
  |#pág.   47| 52                  | 62                   |
  |#pág.   54| 312                 | 212                  |
  |#pág.   82| fezendo-nos         | fazendo-nos          |
  |#pág.   90| medesto             | modesto              |
  |#pág.  106| devido              | devida               |
  |#pág.  111| tratados            | tratadas             |
  |#pág.  133| delicamente         | delicadamente        |
  |#pág.  134| professsor          | professor            |
  |#pág.  141| granda lucta        | grande lucta         |
  |#pág.  147| interressante       | interessante         |
  |#pág.  164| centamen            | certamen             |
  |#pág.  188| Eatasiava-me        | Extasiava-me         |
  |#pág.  190| carderno            | caderno              |
  |#pág.  192| modela o como       | modela e como        |
  |#pág.  192| elogie              | elogio               |
  |#pág.  194| ddivagações         | divagações           |
  |#pág.  202| Adelina Barros      | Adelia Ramos*        |
  |#pág.  202| Zerere              | Zezere               |
  |#pág.  203| Tomanho             | Tomando              |
  +----------+---------------------+----------------------+

* Índice alterado de acordo com legendas das imagens da obra.

As variações de nomes próprios foram mantidas de acordo com o original.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Notas d'arte" ***

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